ATAS

Organizadores Adrián Pablo Fanjul Ivan Rodrigues Martin Margareth Santos

VII Congresso Brasileiro de Hispanistas
Comitê Organizador
Coordenação Adrián Pablo Fanjul (ABH-USP) Carlos Bonfim (UFBA) Fernanda Castelano Rodrigues (ABH-UFSCar) Marcia Paraquett (UFBA) Antonio Marcos Pereira (UFBA) Claudia Blaszkowski de Jacobi Edleise Mendes (UFBA) Hernán Yerro (UFBA) Ivan Rodrigues Martin (ABH-UNIFESP) Juan Facundo Sarmiento (UFBA) Julia Morena Silva da Costa (UFBA) Luciana Mariano (UNEB – Campus V) Mailson dos Santos Lopes (UFBA) Margareth Santos (ABH-USP) Patrício Barreiros (UEFS / UNEB – Campus I) Rosa Yokota (ABH-UFSCar) Xoán Carlos Lagares Diez (ABH-UFF)

Comitê Científico
Alai Garcia Diniz (UFSC) Alfredo Cordiviola (UFPE) Ana Cecilia Olmos (USP) Antônio Esteves (UNESP – Assis) Del Carmen Daher (UFF) Ester Abreu Vieira de Oliveira (UFES) Graciela Ravetti (UFMG) Heloísa Pezza Cintrão (USP) Isabel Gretel Eres Fernandes (USP) Livia Reis (UFF) Luizette Guimarães de Barros (UFSC) Magnolia Brasil Barbosa do Nascimento (UFF) Maria Augusta Vieira (USP) María Aurora Consuelo Alfaro Lagorio (UFRJ) Maria Eugênia Olimpio (UFBA) María Teresa Celada (USP) María Zulma M. Kulikowski (USP) Mario González (USP) Miriam Gárate (UNICAMP) Neide T. Maia González (USP) Silvana Serrani (UNICAMP) Silvia Cárcamo (UFRJ) Vera Lucia de Albuquerque Sant’Anna (UERJ)

Apoio

ATAS
do VII Congresso Brasileiro de Hispanistas
Organizadores Adrián Pablo Fanjul Ivan Rodrigues Martin Margareth Santos

São Paulo, 2013

Copyright © 2013 dos autores

Catalogação na Publicação (CIP) Serviço de Biblioteca e Documentação Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo

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Congresso Brasileiro de Hispanistas (7. : 2012 : Salvador, BA). Atas do VII Congresso Brasileiro de Hispanistas [Salvador, BA, 3 a 6 de setembro de 2012] [recurso eletrônico] /organizadores: Adrián Pablo Fanjul, Ivan Rodrigues Martin, Margareth Santos. – São Paulo : ABH, 2013. 18.291 Kb ISBN 978-85-66188-01-1 1. Literatura hispano-americana (História e crítica). 2. Literatura espanhola. 3. Língua espanhola (Estudo e ensino). I. Fanjul, Adrián Pablo. II. Martin, Ivan Rodrigues. III. Santos, Margareth. IV. Associação Brasileira de Hispanistas. V. Título. CDD 868.909

SUMÁRIO

Erotismo y picardía en Vida y costumbres de la Madre Andrea(c. 1650) A. Robert Lauer ............................................................................................................................................................ 17 Topografías del artista y desestabilización enunciativa en el rock de Argentina ............................................................. Adrián Pablo Fanjul .................................................................................................................................................... 23 Memórias da Guerra Civil Espanhola na ficção: leituras de ¿Qué me quieres, amor?, de Manuel Rivas e La lengua de las mariposas, de José Luis Cuerda Adriana Aparecida de Figueiredo Fiuza ...................................................................................................................... 31 A variação na realização do objeto pronominal acusativo no espanhol: um estudo inicial Adriana Martins Simões .............................................................................................................................................. 36 El pensamiento neomoderno en las columnas de Rosa Montero y Rosa Regás Adriana Virginia Bonatto ............................................................................................................................................ 45 Formas de enunciar la violencia en la obra de Doris Salcedo Alexander Castillo Morales – Instituto Caro y Cuervo ............................................................................................... 38 Relación autor-personaje en La última escala del Tramp Steamer de Álvaro Mutis Aleyda Gutiérrez Mavesoy ........................................................................................................................................... 59 Ensino de e/le e inclusão: reflexões sobre formação e trabalho docente Alice Moraes Rego de Souza (PG-UERJ) ..................................................................................................................... 66 Diálogos de Historia Natural: o homem prototípico e o homem em construção Amanda Brandão Araújo ............................................................................................................................................ 73 A hispanidade disposta em paralelo: vozes literárias contemporâneas dos povos originários das américas Amarino Oliveira de Queiroz ...................................................................................................................................... 80 África, Ásia e Oceania: fronteiras fluidas do hispanismo Amarino Oliveira de Queiroz ...................................................................................................................................... 85 Natalia, Julia, Mercedes y Elvira – Retrato de la mujer española en la posguerra Ana Carolina da Silva Pinto ........................................................................................................................................ 91 O “ensaio criativo” de Julio Cortázar Ana Carolina Macena Francini ................................................................................................................................... 98 Discurso autobiográfico e a busca identitária em Mi nombre es Victoria de Victoria Donda Ana Cristina dos Santos ............................................................................................................................................. 104

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O currículo das Universidades Públicas do Estado do Rio de Janeiro e a formação de professores em língua estrangeira: uma reflexão crítica Ana Maria Mendes Larghi ....................................................................................................................................... 111 Las ratas de Miguel Delibes e a denúncia da crise camponesa em Castela nos anos 1950-1960 Ana Paula de Souza ................................................................................................................................................... 118 Quando o metatexto de Tomás Eloy Martìnez autentica as vidas de Perón André Luis Mitidieri .................................................................................................................................................. 124 Calle Mayor e Señorita de Trevélez sob a ditadura franquista Angela dos Santos ...................................................................................................................................................... 131 Distribuição da perífrase “ter” + particípio no espanhol do México Anne Katheryne Estebe Maggessy .............................................................................................................................. 136 Literatura e Espanhol/LE: a questão da comunidade Antonio Andrade ........................................................................................................................................................ 142 A formação de professores de espanhol no Instituto Federal de Roraima: reflexões sobre a prática docente Antonio Ferreira da Silva Júnior ............................................................................................................................... 149 Polifuncionalidad de los marcadores del discurso y enseñanza del ELE Antonio Messias Nogueira da Silva ........................................................................................................................... 156 En busca del Paraíso: la representación de los germánicos en la obra de María Rosa Lojo Antonio R. Esteves ...................................................................................................................................................... 163 Rompendo fronteiras da cidade e da nação: representações de sujeitos que se moven entre as “islas urbanas” de Sergio Olguín e Cristian Alarcón Ary Pimentel .............................................................................................................................................................. 169 As traduções de quadrinhos sob um olhar discursivo Bárbara Zocal da Silva .............................................................................................................................................. 176 Discursos oficiales del 12 de octubre: un día conmemorativo peculiar Beatriz Adriana Komavli de Sánchez ........................................................................................................................ 183 Subordinadas temporais e finais em português e espanhol: questões de contraste e efeitos para a tradução Bruna Macedo de Oliveira ......................................................................................................................................... 190 O tema transversal da Pluralidade Cultural e sua reconfiguração nos LDs de língua espanhola Bruna Maria Silva Silvério ........................................................................................................................................ 198 O policialesco na figura de Amalfitano Bruna Tella Guerra .................................................................................................................................................... 204 ¿Bacrim o paramilitarismo? Análisis de la concepción de paramilitarismo en Colombia en el período 2002-2006 a través de la prensa escrita Camilo Ramírez Rodríguez e Adriana Yamile Suárez Reina .................................................................................... 209

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Inicios de la santidad medieval en lengua castellana: traducción y protagonismo femenino en La Vida de Santa María Egipciaca Carina Zubillaga ....................................................................................................................................................... 215 Chungui: violencia y trazos de memoria, (2009), de Edilberto Jiménez: desenhando a memória coletiva Carla Dameane P. de Souza ...................................................................................................................................... 221 O preenchimento da posição pré-verbal por complementos verbais e a noção de operador na história do espanhol Carlos Felipe Pinto ..................................................................................................................................................... 230 Invasiones del tiempo en el espacio de la casa Carlos Garcia Rizzon ................................................................................................................................................. 239 Pedidos de informação e pedidos de ação em português e em espanhol: um estudo entonacional de produção e percepção Carolina Gomes da Silva, Maristela da Silva Pinto e Priscila Cristina Ferreira de Sá ............................................ 246 De Dulcinéia a Heliana: perspectivismo e metaficção Célia Navarro Flores .................................................................................................................................................. 252 Sierva María de Todos los Ángeles e Maria Mandinga Cinthia Belonia .......................................................................................................................................................... 257 Espacios, mitos y claves del imaginario andaluz en la poesía de Federico García Lorca. Clara Pajares Gil ........................................................................................................................................................ 263 Poesia e ficção na obra de Roberto Bolaño: interseções Clarisse Lyra Simões .................................................................................................................................................. 268 Representaçãoes da mulher e vozes femininas no contexto iberoamericano Cláudia Luna ............................................................................................................................................................. 273 A destreza oral e sua importancia para a formação dos falantes de espanhol como língua estrangeira Cristina do Sacramento Cardôso de Freitas .............................................................................................................. 278 A leitura de professores de espanhol, formadores de leitores, mediada por computador Cristina Vergnano-Junger .......................................................................................................................................... 286 História, memória e ficção em Yo el Supremo e em Hijo de Hombre de Roa Bastos Damaris Pereira Santana Lima ................................................................................................................................. 293 O tratamento dos conectores nas coleções de língua espanhola aprovadas no PNLD-2012: uma questão textual ou discursiva? Daniel Mazzaro Vilar de Almeida ............................................................................................................................. 300 Diccionario Panhispánico de Dudas: dúvidas, definições e comentários Daniela Ioná Brianezi ............................................................................................................................................... 307 Textos e testes: como se configuram as provas de língua espanhola no Enem? Daniela Sayuri Kawamoto Kanashiro e I. Gretel M. Eres Fernández ....................................................................... 312

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A necessidade de narrar vivênciada pelos personagens do romance La hora violeta de Montserrat Roig Daniele Cristina da Silva ........................................................................................................................................... 320 La re-invención de América en la poesía y las artes del siglo XX Diana Araujo Pereira ................................................................................................................................................. 327 O trabalho com o plano inferencial de leitura em livros didáticos de Espanhol-LE22 Diego da Silva Vargas ................................................................................................................................................ 335 História, memória e ficção em Juan Gabriel Vásquez Diogo de Hollanda Cavalcanti .................................................................................................................................. 342 Juan José Saer: realidade, representação e ficção na perspectiva de gênero Eduardo Fava Rubio .................................................................................................................................................. 348 O ver-se nas páginas do papel: um estudo da representação feminina nas novelas cervantinas Edwirgens A. Ribeiro Lopes de Almeida .................................................................................................................... 353 Literaturas hispânicas no Oriente? A dupla identidade cultural e linguística em Margalit Matitiahu, de Israel Eidson Miguel da Silva Marcos ................................................................................................................................. 359 Heterotopias de función compensatoria en la escritura hispano-canadiense contemporánea Elena Palmero González ............................................................................................................................................ 364 O discurso de Fama em El cerco de Numancia, de Cervantes, e nas adaptações de Rafael Alberti Eleni Nogueira dos Santos ......................................................................................................................................... 371 Dialogo con la novela El Baile de la Victoria de Skármeta Esther Myriam Rojas Osorio. .................................................................................................................................... 376 Un extranjero en el poema: notas sobre la poesía de Fabio Morábito Fabiola Fernández Adechedera .................................................................................................................................. 380 Santiago Sierra: performer?* Fabíola Silva Tasca ..................................................................................................................................................... 386 Traduzindo e reconstruindo uma representação.Reflexões teórico-metodológicas em torno à implantação de um (novo) curso de E/LE Fátima Aparecida Teves Cabral Bruno ..................................................................................................................... 392 Sintagmas nominais complexos nos gêneros jornalísticos: Uma abordagem comparada entre artigos de opinião e notícias Felipe Diogo de Oliveira ............................................................................................................................................ 398 La literatura argentina revisitada: el mito de La Cautiva en un cuento de María Rosa Lojo Fernanda Ap. Ribeiro ................................................................................................................................................. 404 “La casita de los viejos”, de Maurício Kartun: tempo do sujeito, tempo da história Flávia Almeida Vieira Resende .................................................................................................................................. 408

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As escritoras na literatura afro-colombiana Francineide Palmeira ................................................................................................................................................. 412 O legado de Mercedes Sosa: a arte como instrumento de luta pela cidadania Franklin Larrubia Valverde ....................................................................................................................................... 418 Néstor Perlongher e Haroldo de Campos – um diálogo antropofágico Gabriela Beatriz Moura Ferro Bandeira de Souza ................................................................................................... 423 Reforma e a compreensão de sentidos de Licenciatura: questão filosófica ou de carga horária? Giselle da Motta Gil ................................................................................................................................................... 430 Corpo e espaço: reescritas da história em Finisterre, de María Rosa Lojo e Desmundo, de Ana Miranda Gracielle Marques ...................................................................................................................................................... 437 Rodolfo Walsh. ‘Exotización’ y conflicto en sus ‘escritos cubanos’ Gustavo Walter Spandau ........................................................................................................................................... 444 A que não soube vingar-se: em torno de “A meu amigo, que eu sempr’ amei” (B846, V432), de Johan Garcia Henrique Marques Samyn ......................................................................................................................................... 448 El uso de los modos indicativo/subjuntivo con tres verbos del español: “creer, pensar y saber” Iandra Maria Weirich da Silva Coelho ..................................................................................................................... 453 O diário de Ana Ozores: a escrita como expressão da subjetividade feminina em La Regenta Isabela Roque Loureiro .............................................................................................................................................. 460 Un niño grande: a ficcionalização de Jorge Luis Borges em Las libres del Sur Isis Milreu .................................................................................................................................................................. 466 Angústia e distopia: a Guerra Civil Espanhola em Saga, de Érico Veríssimo Ivan Rodrigues Martin .............................................................................................................................................. 471 Los marcadores discusivos en español a partir de la Lingüística de la Enunciación: una perspectiva en los estudios de E.L.E. Ivani Cristina Silva Fernandes .................................................................................................................................. 477 Observações sobre a relação cortesania/rusticidade na cena ibérica Jamyle Rocha Ferreira Souza ..................................................................................................................................... 484 La Colmena, de Camilo José Cela: conceitos de grotesco Jany Alfaia .................................................................................................................................................................. 488 A loucura como estrutura narrativa: de Miguel de Cervantes a Machado de Assis Jean Pierre Chauvin ................................................................................................................................................... 494 Religión y alegoría en las narraciones intercaladas del Quijote de Avellaneda John Lionel O´Kuinghttons Rodríguez ...................................................................................................................... 500 A ficção argentina traduz a Guerra das Malvinas Jorge Hernán Yerro ..................................................................................................................................................... 507

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Histórias, estórias e histórias: representações ficcionais da matéria de extração histórica nas narrativas de Delibes e de Assis Brasil Jorge Paulo de Oliveira Neres ..................................................................................................................................... 517 Cuerpos indígenas em metamorfosis: Un estudio del cuerpo a parir de mitos y leyendas de indios de la Amazonía Brasileña y Boliviana y sus representaciones en la actualidad José Maria Lopes Júnior ............................................................................................................................................. 519 Quemar las naves: por uma análise do Diccionario de Americanismos da Asociación de academias de la lengua española José Mauricio da Conceição Rocha ............................................................................................................................ 526 El atajo y La trama celeste, de Bioy Casares: historias de mundos posibles José Ronaldo Batista de Luna .................................................................................................................................... 533 Aspectos urbanos y culturales en narrativas gráficas argentinas Jozefh Fernando Soares Queiroz ................................................................................................................................ 540 Livro didático de espanhol e uma aprendizagem intercultural: é possível? Joziane Ferraz de Assis ............................................................................................................................................... 548 Una identidad para los apátridas. Identidad y exilio en dos novelas históricas latinoamericanas Juan David González Betancur ................................................................................................................................. 554 El uso del cómic como instrumento para la formación intercultural del profesor de español Juan Facundo Sarmiento ........................................................................................................................................... 560 O discurso ficcional em Los ríos profundos, de José María Arguedas: as leituras críticas de Antonio Cornejo Polar e Mario Vargas Llosa Juliana Bevilacqua Maioli ......................................................................................................................................... 566 De tabúes y terrores: Costa Rica y Brasil o dos modalidades de la literatura gótico-fantástica en Latinoamérica Karen Alejandra Calvo Díaz...................................................................................................................................... 571 Falar com deus: Estrategias de legitimação da mística feminina na américa hispânica colonial Karine Rocha .............................................................................................................................................................. 578 Percorrendo a trajetória da formação inicial do professor de E/LE Kelly Cristiane Henschel Pobbe de Carvalhoe Rozana Aparecida Lopes Messias .................................................... 583 A autonomia na formação de professores-tutores de espanhol como LE Kélvya Freitas Abreu, Priscila Barros David e Raquel Santiago Freire .................................................................... 589 A caricata valentia e o enredo “casi como fue” – uma análise da releitura “Don Juan Tenorio”, de Chespirito Larissa Pujol ............................................................................................................................................................... 597 Uma análise discursiva da mulher na sociedade através das tirinhas da Mafalda Larissa Zanetti Antas ................................................................................................................................................. 600 Pedro Lemebel, recepción, lectura Laura Janina Hosiasson ............................................................................................................................................. 605

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O grotesco em Del sol naciente, de Griselda Gambaro Laureny A. Lourenço da Silva .................................................................................................................................... 610 O conceito da honra no Século de Ouro e seu uso como mola dramática em El pintor de su deshonra, de Calderón de la Barca Liège Rinaldi .............................................................................................................................................................. 617 Esta mujer es su padre: Almodóvar, desestabilizações de gênero e a aula de ELE Leandro da Silva Gomes Cristóvão ............................................................................................................................ 623 O corpo em confissão: um discurso sobre o universo feminino simbolizado na obra de arte de Frida Kahlo Leticia Gomes Montenegro ........................................................................................................................................ 628 La potencialidad de los materiales lúdicos como protocolo de observación para el reconocimiento de géneros textuales escritos en español Letícia Joaquina de Castro Rodrigues Souza e Souza Ana Célia Clementino Moura ................................................................................................................................... 634 La tarea/renuncia del traductor en José María Arguedas Ligia Karina Martins de Andrade ............................................................................................................................. 641 Exames de Proficiência em espanhol como língua estrangeira Lílian Reis dos Santos ................................................................................................................................................ 648 Identidades em diálogo: mulher, sexualidade e família no livro didático de espanhol Liliene Maria Novaes Pereira da Silva ...................................................................................................................... 653 Nação idealizada em Aves sin nido Lina Arao ................................................................................................................................................................... 660 La expresión de la contrafactualidad en español: ¿diferentes variantes, diferentes interpretaciones? Lorena Mariel Menón ................................................................................................................................................ 665 Relações entre o Magrebe e a Espanha: os dois mundos de Najat El Hachmi em El Último Patriarca Louise Áurea Oliva .................................................................................................................................................... 673 Considerações sobre a importância da carga cultural compartilhada de unidades fraseológicas no ensino/aprendizagem intercultural de espanhol como língua estrangeira Luana Ferreira Rodrigues .......................................................................................................................................... 671 A formação do professor de Espanhol da Bahia e as variantes culturais hispano-americanas Luciana Vieira Mariano ............................................................................................................................................ 683 Análise das representações sociais nos cinco livros didáticos selecionados pelo PNLD para o ensino de espanhol a brasileiros Lucielena Mendonça de Lima .................................................................................................................................... 689 Representações sociais de futuros professores de espanhol sobre o Mercosul* Lucielena Mendonça de Lima .................................................................................................................................... 695

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Um copypaste de si mesmo: Mario Bellatin Luciene Azevedo ......................................................................................................................................................... 702 Tiempo verbal y discurso indirecto: diferentes abordajes Luizete Guimarães Barros ......................................................................................................................................... 709 O uso do pronome relativo possessivo cuyo em língua espanhola: considerações descritivo-analíticas Mailson dos Santos Lopes .......................................................................................................................................... 716 A tradução da ironia na narrativa de Maria Rosa Lojo Maira Angélica Pandolfi ............................................................................................................................................ 723 Aire de las Colinas, Cartas a Clara. Cartas pessoais de Juan Rulfo Mara Gonzalez Bezerra ............................................................................................................................................. 727 María Rosa Lojo: Una escritora de los bordes Marcela Crespo Buiturón ........................................................................................................................................... 732 Versos e cores do Prado Marcelo Maciel Cerigioli ............................................................................................................................................ 736 Literatura e Direito: o entrecruzar de fronteiras em Abel Posse Márcia de Fátima Xavier........................................................................................................................................... 743 O papel da Universidade na implantação do Espanhol no Estado da Bahia Marcia Paraquett ....................................................................................................................................................... 748 La presencia del negro y sus representaciones en el teatro cubano de Gerardo Fulleda León y Eugenio Hernández Espinosa Marcos Antônio Alexandre ........................................................................................................................................ 756 A corrosão dos anos triunfais franquistas Margareth Santos ....................................................................................................................................................... 763 A escrita de si como uma tradução de si: o caso específico da pintora Frida Kahlo Maria Auxiliadora de Jesus Ferreira .......................................................................................................................... 771 El español de todo el mundo María Cecilia Manzione Patrón ................................................................................................................................ 776 Poéticas da memória nas narrativas de Alfons Cervera e Vázquez Montalbán Maria de Fátima Alves Oliveira Marcari .................................................................................................................. 783 Explicaciones de lo femenino en la narrativa de Marcela Serrano María Esther Blanco Iglesias ...................................................................................................................................... 789 Contexto de ocorrência do imperfectivo habitual no Espanhol Paraguaio Maria Mercedes Riveiro Quintans Sebold ................................................................................................................. 796 Variação sobre o mesmo tema: acerca da memória em Sangra por la herida Maria Mirtis Caser .................................................................................................................................................... 803

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Las animalias… como elementos constructores del discurso en el Libro de buen amor de Juan Ruiz, Arcipreste de Hita María Teresa Miaja de la Peña ................................................... ..............................................................................810 Avatares de la historia en Paralelos. La pintura y la poesía en Cuba (en los siglos XVIII y XIX) de José Lezama Lima Mariana Sierra Aponte .............................................................................................................................................. 817 Préstamos terminológicos para una memoria del franquismo. Los niños encontrados de la literatura: una lectura de Mala gente que camina, de Benjamín Prado Mariela Sánchez ........................................................................................................................................................ 822 La investigación académica como sustrato de la narrativa histórica de María Rosa Lojo Marina L. Guidotti .................................................................................................................................................... 829 La casa de Bernarda Alba, metáfora conventual Mario M. González .................................................................................................................................................... 836 O différend indígena na narrativa do subcomandante Marcos Mélanie Létocart Araujo ............................................................................................................................................ 841 Literatura y conflicto armado: cotejando una novela de Garro Mercedes Pessoa Cavalcanti ....................................................................................................................................... 847 La traducción cultural en la literatura latinoamericana: reflexiones a partir de la obra de Gamaliel Churata y José María Arguedas Meritxell Hernando Marsal ....................................................................................................................................... 855 La Guerra Civil Española bajo la mirada de dos escritores aragoneses en el exilio: lectura de El cura de Almuniaced, de José Ramón Arana y Réquiem por un campesino español, de Ramón J. Sender. Michele Fonseca de Arruda ........................................................................................................................................ 864 El tema que nos ocupa: oraciones relativas en español Mirta Groppi .............................................................................................................................................................. 868 Expresso, logo existo: linguagem e constituição do indivíduo nas obras Mañana en la batalla piensa en mí de Javier Marías e Budapeste de Chico Buarque Mônica Gomes da Silva ............................................................................................................................................. 875 Evidencialidad en textos periodísticos: un análisis funcionalista en español Nadja Paulino Pessoa Prata ....................................................................................................................................... 881 Voces daba el bárbaro Corsicurvo. Lenguas y mecanismos de comunicación en el Persiles Nieves Rodríguez Valle ............................................................................................................................................... 887 Cómo se cuenta o contamos nuestra historia: historiografía literaria latinoamericana y enseñanza de la literatura Pablo Gasparini ......................................................................................................................................................... 896

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La luz de Cristina Bajo que ha tocado la historia y la memoria cordobesa. Una lectura desde la obra Como vivido cien veces (1995) Phelipe de Lima Cerdeira .......................................................................................................................................... 903 A trajetória dos manuais do professor de ELE no Brasil Raabe Oliveira ........................................................................................................................................................... 910 Manuel Rivas y Miguel Hernández: poesía hacia el porvenir Rachel Coelho Coimbra ............................................................................................................................................. 917 O horizonte filosófico do espaço de La Grande de Juan José Saer Raquel Alves Mota ..................................................................................................................................................... 923 De la prensa periódica a la novela. Cara y ceca o del otro lado del espejo: Manuel Vicent y Benjamín Prado (Aguirre el magnífico y Mala gente que camina) Raquel Macciuci ........................................................................................................................................................ 930 A ficcionalização da teoria, da crítica e do processo de criação literárias em La saga\fuga de J.B, de Gonzalo Torrente Ballester Regina Kohlrausch ..................................................................................................................................................... 937 Ricardo Palma e Las tradiciones peruanas: literatura e formação dos imaginários Regina Simon da Silva ............................................................................................................................................... 944 O aguirre posseano: tirano ou libertador? Regina Simon da Silva ............................................................................................................................................... 953 Provocações de um direito latino-americano que inclua os povos vencidos: notas a partir da Antropofagia de Oswald de Andrade e o surrealismo jurídico de Warat Ricardo Baitz .............................................................................................................................................................. 960 Educación-m no ensino de E/LE: análise de curso via SMS Rita de Cássia Rodrigues Oliveira ............................................................................................................................. 967 Poesía en Voz Alta y la escena cultural mexicana: la experiencia dramática de Octavio Paz Robson Batista dos Santos Hasmann ........................................................................................................................ 975 Cortés, Guatemotzin e Atzimba: da Conquista à ópera nacional mexicana! Robson Leitão ............................................................................................................................................................. 980 Desencuentros con Guimarães Rosa: la polémica de Vargas Llosa y Crespo por la traducción de Gran Sertón: Veredas Rodrigo Labriola ........................................................................................................................................................ 987 El ensayo: prolegómenos para una nueva historiografía ensayística iberoamericana Rodrigo Vasconcelos Machado ................................................................................................................................... 994 Tradução de La ciudad y los perros: análise da domesticação dos termos militares Roosevelt Ferreira ..................................................................................................................................................... 1000

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O que dizem os (ex) estudantes de um curso de licenciatura em letras-espanhol? Rosa Yokota .............................................................................................................................................................. 1009 O pronome tônico na produção não nativa de brasileiros falando espanhol e de argentinos falando português Rosa Yokota .............................................................................................................................................................. 1016 Palabra y poder en El sueño del pongo, de José María Arguedas Roseli Barros Cunha ................................................................................................................................................ 1023 Linguística Aplicada: estudos interdisciplinares e multiculturais na formação docente Rosineide Guilherme da Silva .................................................................................................................................. 1029 Sobre Ernesto Sábato, el surrealismo y la entrevista a un desconocido muchacho Ruben Daniel Méndez Castiglioni........................................................................................................................... 1035 José de Anchieta: o Barroco na poesia española Samuel Anderson de Oliveira Lima ......................................................................................................................... 1040 Contribuições de Jorge Amado para a Literatura Hispânica no Brasil Sandra Mara Mendes da Silva Bassani ................................................................................................................... 1047 El cine brasileño y España: El caso de Carlota Joaquina, princesa do Brasil (1994) Santiago de Pablo ..................................................................................................................................................... 1053 Zonas de penumbra e vacíos: ficção e História em Manuel Rivas Sebastião Ferreira Leste ........................................................................................................................................... 1060 Conhecendo Urganda Silvia Cobelo e Giselle Cristina Gonçalves Migliari ................................................................................................ 1067 Para enegrecer os modos de saber: histórias da NegrAmérica contadas na literatura de afrolatinos(as) Simone de Jesus Santos ............................................................................................................................................ 1074 Mania de escrever poesia: a prosa poética nas cartas de Emilio Prados Solange Munhoz ...................................................................................................................................................... 1080 La corrección del error y el feedback en la clase de lengua extranjera. Un análisis desde las teorías de la afectividad Stella Maris Baygorria ............................................................................................................................................. 1086 A escolha de retórica em Andrés Bello (1847) Stela Maris Detregiacchi Gabriel Danna ................................................................................................................ 1092 A palavra em O Livro das mil e uma noites e em O lapis do carpinteiro, de Manuel Rivas Susana Álvarez Martínez ......................................................................................................................................... 1098 Tradição e memória: um diálogo possível entre contos de Borges e Cem anos de solidão Suziane Carla Fonseca ............................................................................................................................................. 1105

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(Re)Construção de Chico Buarque: analisando a tradução do português para o espanhol em canções de protesto Thais Marçal Passos Sarmento ................................................................................................................................ 1113 Educação intercultural e ensino de e/le Thaísa Alves Brandão .............................................................................................................................................. 1020 Quando as luzes se acendem: a cumbia sob os holofotes, em Noites vazias, de Washington Cucurto Thiago José Moraes Carvalhal ................................................................................................................................. 1124 A transitividade em narrativas escritas por alunos brasileiros aprendizes de espanhol Valdecy de Oliveira Pontes ....................................................................................................................................... 1131 O gênero textual digital blog: o diário virtual eletrônico na aquisição de e/le Valéria Jane Siqueira Loureiro................................................................................................................................. 1137 Os trabalhadores e o impasse do Mercosul social. Valter de Almeida Freitas ......................................................................................................................................... 1144 La dificultad del uso de la preposición en las oraciones relativas de E/LE Vanessa Nogueira ..................................................................................................................................................... 1149 “Das Unheimliche”, de Freud e Así que pasen cinco años, Leyenda del tiempo en tres actos y cinco cuadros, de Lorca Virginia de Sousa Bonfim ........................................................................................................................................ 1156 “La rosa de piedra”: el cuento de nunca acabar Virginia Videira Casco ............................................................................................................................................. 1162 Casos de reinterpretação dativa na área geoletal mexicana Viviane Conceição Antunes Lima ............................................................................................................................ 1168 La traducción como práctica social en el curso de Secretariado Ejecutivo Viviane Cristina Poletto Lugli ................................................................................................................................. 1174 Leitura na Internet: a leitura literária no espaço virtual Viviane da Silva Santos ........................................................................................................................................... 1181 El Brasil Intelectual, de García Mérou, una mirada argentina sobre la formación de la literatura brasileña Weslei R. Cândido .................................................................................................................................................... 1187 Sobre a escritura pictural de Alejandro Xul Solar Yara Augusto ............................................................................................................................................................ 1192

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EROTISMO Y PICARDÍA EN VIDA Y COSTUMBRES DE LA MADRE ANDREA (C. 1650)

Dedicado a Mario M. González
A. Robert Lauer The University of Oklahoma

Vida y costumbres de la Madre Andrea (c. 1650), obra desconocida hasta 1958, cuando el hispanista neerlandés Jonas Andries van Praag publicara el manuscrito que había encontrado en la casa Beijers de Utrecht en 1950 (PRAAG, 1958, p.111), ha sido clasificada, desde entonces, como una novela picaresca anónima. Así la designa Enriqueta Zafra en sus dos recientes libros (ZAFRA, 2009, p.136 y ZAFRA, 2011, p.1), así como Howard Mancing en un importante ensayo (MANCING, 1996, p.288). Si así fuera, Madre Andrea sería entonces la última novela europea escrita en español que versa sobre una pícara, de la misma forma que La lozana andaluza (1528), de Francisco Delicado, constituiría la primera narrativa de este género. Dentro de este marco (15281650) tendríamos otras obras como el Libro de entretenimiento de la pícara Justina (1605) de Francisco López de Úbeda, La hija de Celestina (1612) de Alonso Jerónimo de Salas Barbadillo, La niña de los embustes, Teresa de Manzanares (1632) y La garduña de Sevilla y anzuelo de bolsas (1642) de Alonso de Castillo Solórzano y, acaso, «El castigo de la miseria» (Novelas amorosas y ejemplares, 1637) de María de Zayas y Sotomayor. Se excluyen

antecedentes como la Celestina de Fernando de Rojas, así como obras posteriores a 1650 escritas en otras lenguas como Die Lebensbeschreibung der Erzbetrügerin und Landstörzerin Courasche (La pícara Coraje ) (1669) de Hans Jakob Christoph von Grimmelshausen o The Fortunes and Misfortunes of the Famous Moll Flanders (1722) de Daniel Defoe. Poco sabemos de Vida y costumbres de la Madre Andrea. Se piensa que el autor sería un judío converso de origen portugués establecido en Amsterdam (ZAFRA, 2011, p.15). El hecho de que escribiera la obra en español no sería extraño, ya que los judíos conversos portugueses, amén de otros, solían escribir literatura en español durante la Monarquía Dual (1580-1640). De hecho, el autor usa varias palabras de origen portugués como velhaco (bellaco), ajudé (del port. ajudar > ayudar), remasgando (del port. resmungar > quejarse, refunfuñar), holla abafada (cubierta), pedintón (del port. pedinte > pordiosero), copo (vaso), baxuras (esp. bajezas, del port. baixar > bajar), mágoas (tristezas), papar (conseguir, follar). A la vez, van Praag indica que la obra contiene algunos galicismos (PRAAG,

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1958, p.119), lo que haría pensar que nuestro autor habría sido acaso un converso sefardita que hubiera pasado por algunos de los centros franceses de judíos portugueses como Ruán, Bayona o Burdeos antes de emigrar a Amsterdam. Otrosí, resalta en la obra el hecho de que el autor tenga altos conocimientos de matemáticas y de que sus alusiones bíblicas sean al Antiguo Testamento (PRAAG, 1958, p.126). El manuscrito de nuestra obra contiene 146 páginas y mide 17 x 11 cm., encuadernado en pergamino. A la par, en la guarda del libro se menciona en francés el hecho de que la obra es un «Manuscrit espagnol, en prose et en vers, du 17e siècle?» (PRAAG, 1958, p.111). Van Praag anota el hecho de que la última página contiene una filigrana que presenta unas armas entre dos grifos, la cual indica una procedencia italiana (genovesa). No obstante, este tipo de filigrana se usó en Provenza, España y Portugal en los siglos XVII y XVIII (PRAAG, 1958, p.111-112). En ausencia de un facsímile, el cual nos daría información sobre la caligrafía, nos ajustamos a la posible fecha de redacción de 1650, sugerida por el crítico neerlandés (PRAAG, 1958, p.113), aunque es de suponer, como este estudioso indica, que el único manuscrito de esta obra fuera una «copia dieciochesca de otro anterior» (PRAAG, 1958, p.112). La narrativa de Madre Andrea mantiene una organización esencialmente cronológica (ab ovo) que empieza con el nacimiento del personaje homónimo y termina en un punto indeterminado de su madurez. De esta forma sigue inicialmente la estructura básica de todas las novelas picarescas, con excepción de La hija de Celestina, que comienza in medias res. A la vez, Madre Andrea usa una retrospección temporal para informarnos de sus antecedentes, los cuales siempre son determinantes en la narración picaresca. Andrea fue hija de una prostituta y un padre de mancebía, o sea, un dueño de un burdel. Asimismo, por haber tenido su madre múltiples amantes, cada

cliente defiende que Andrea tiene algo suyo. Su herencia biológica y moral, por lo tanto, determina su vida ulterior. Después de este punto inicial, la narrativa hace un salto temporal indeterminado en el cual la protagonista ha dejado en parte su vida prostibularia para fungir el cargo administrativo de madre de mancebía: «después de la pasión me valí de la agencia» (ZAFRA, 2011, p.36). En este oficio tuvo gran éxito y ganó buen dinero: «Era tanta la miel que no me dejaban dormir las moscas» (ZAFRA, 2011, p.36). A diferencia de otras obras picarescas como, v. gr., Lazarillo de Tormes, Andrea, desde el principio de su relato, ha llegado a su «prosperidad y […] cumbre de toda buena fortuna» (CARRASCO, 1997, p.88). Lo que sigue será una serie de encuentros entre clientes, trabajadores sexuales y la Madre Andrea. Los relatos prostibularios se dan, primero, en series de parejas sencillas, v. gr., un joven y una prostituta; después, en tríadas; finalmente, en series de parejas gemelas o cuaternarias. Esta sección es en efecto pornográfica, en su sentido etimológico, y de carácter, primero, erótico, en sus relaciones ordinarias; después, exótico, en sus relaciones singulares1. Enriqueta Zafra nos recuerda que antes de que se clausuraran los burdeles de España en 1623 (ZAFRA, 2011, p.5), los prostíbulos servían ciertas funciones públicas, tanto para mujeres como para hombres. Para las primeras, la casa de lenocinio proporcionaba un modo de vida para féminas pobres y solteras que hubieran perdido la virginidad y que no tuvieran familiares en la ciudad donde trabajaran. El administrador de un burdel, el así llamado padre de mancebía, proporcionaba por una cifra fija, comida, alojamiento, ropa, sábanas y velas (ZAFRA, 2011, p.8). A la vez, las prostitutas eran examinadas por un médico y, en caso de que adolecieran de un mal venéreo, eran consignadas a un hospital. Si se arrepentían y decidían cambiar de vida, todas sus deudas se cancelaban. En cuanto a los segundos, se

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suponía que los clientes fueran hombres solteros que por falta de dinero o trabajo no podrían casarse. El burdel, a diferencia de la prostitución clandestina, protegía, por lo tanto, a las trabajadoras, a sus clientes y a la comunidad de mujeres honorables y acomodadas, las cuales se reservaban para uniones matrimoniales (laicas o eclesiásticas). Esta forma social de «contener el deseo» en ámbitos destinados para su ejercicio se limitaba legalmente a la fornicación simple entre un hombre y una mujer solteros, solutus cum soluta, y evitaba tanto el incesto como la penetración no natural (ZAFRA, 2011, p.8). Sin embargo, el deseo en Vida y costumbres de la Madre Andrea no puede ser contenido o limitado socialmente. En efecto, cada incidente prostibulario prueba precisamente lo contrario de lo que se supondría que ocurriera en un burdel antes de su clausura en 1623. El primero, por ejemplo, muestra a un joven de familia adinerada que roba dinero de su padre para deleitarse en los brazos de la joven y bella ramera Philipa. El segundo expone a un fraile impetuoso que estupra simultánea y encarnizadamente a tres mujeres: la Madre Andrea; una criada que, asustada, grita «Aquí del Rey» (ZAFRA, 2011, p.84); y, finalmente a una pobre y deslucida ramera destinada para su remate. El tercero revela a un letrado y un médico que primero dialogan extensa y cínicamente sobre sus profesiones y después se valen de una pareja de jóvenes de diferente sexo, «dos piezas de serafinas y serafines», para actos descomunales: «vengan orinales no diáfanos sino maduros y encarnados» (ZAFRA, 2011, p.132). Como vemos, todos estos usuarios no son personas indigentes sino pudientes y, en el caso del fraile, desposados con la Iglesia. El hecho de que se use a jóvenes de ambos sexos para actos singulares también indica la práctica de un tipo de sexualidad prohibida o «no natural», precisamente lo que un burdel trataba de evitar. El prostíbulo de la Madre Andrea, por tanto, no circunscribe sino que provoca un exceso o

elemento sobrante (super plus): no limita sino que provoca el deseo: y todo por un apreciable precio: «Allá se las hubieron y a mí […] me pagaron altamente» (ZAFRA, 2011, p.132)2. Lo antedicho constituiría el elemento erótico y picaresco 3 de Vida y costumbres de la Madrea Andrea. Toda novela picaresca se vale de episodios y peripecias que, al llegar a un punto culminante, provocan un cambio o paro permanente en la vida, el carácter o el movimiento del personaje principal. La obra, aunque indique la posibilidad de una subsiguiente parte, en efecto termina en ese momento4. A veces el cambio es súbito, como en La lozana andaluza, cuyo personaje principal renueva repentinamente su vida después de soñar que Plutón y Marte asolan Sierra Morena: «pues he visto mi ventura y desgracia, […] haré como hace la Paz, que huye a las islas, […] Estarme he reposada, y veré mundo nuevo, y no esperar que él me deje a mí, sino yo a él» (DELICADO, 1972, p.245). En otras ocasiones el cambio se intuye: Elena, de la Hija de Celestina , antes de ser agarrotada y encubada, «causando en los pechos más duros lástima y sentimiento doloroso» (SALAS BARBADILLO, 2008, p.153), hace testamento y restituye el hurto hecho a un tal don Rodrigo de Villafañe. Finalmente el cambio se impone: La pícara Justina, a pesar de narrar una vida jocosa, aunque moralmente reprehensible, indica al final del primer tomo que su fin será paulatinamente infausto: en el «primer libro me llamo la alojada, en el segundo la viuda, en el tercero la mal casada y en el cuarto la pobre» (LÓPEZ DE ÚBEDA, 2010, p.874). Asimismo, Teresa de Manzanares, al concluir su escandalosa crónica, indica que tuvo un fin infeliz casada, por cuarta y última vez, con un mercader civil, cincuentón y miserable. La «segunda parte» de su vida se llamaría, pues, « La congregación de la miseria » (CASTILLO SOLÓRZANO, 2005, p.283).

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La Madre Andrea es semejante a las susodichas obras, aunque con algunas diferencias. Si bien hay un cambio o peripecia decisiva, la narrativa se vale a lo largo de su extensión de fisuras que en efecto alteran el discurso salaz dominante. Estas fisuras generalmente se manifiestan como elocuciones vocativas dirigidas al lector que en efecto interrumpen y suplantan el discurso previo. En términos arquitectónicos, las fisuras representarían atalayas colocadas en encrucijadas, las cuales advierten al lector de cómo debiera captar el relato. Tienen, por lo tanto, una función adverbial. La palabra «lector» aparece cuatro veces en el texto. La primera vez se menciona en forma neutral al inicio de la obra para advertir al leedor que no tome «el fin de la palabra», o sea, los «salados casos, ridículos sucesos, pasatiempos deleitables y dichos de discreción y agudeza», sino que discierna en el modo de leer: «antes saca desta obra la cándida flor de la harina con que hagas pan de los santos» (ZAFRA, 2011, p.38). La segunda vez invoca al «lector lascivo o continente» (ZAFRA, 2011, p.100), precisamente después de fuertes descripciones exóticas que acaso provocarían placer en el primero y desazón en el segundo. Las dos últimas invocaciones a un «tú» se hacen hacia el final y van dirigidas al «lector pío» y al «lector benévolo». En ambos casos, las descripciones eróticas han concluido y la Madre Andrea, después de haber narrado congeries de desorden y escándalo, declara que «me metí a devota» (ZAFRA, 2011, p.144). Su última advertencia es que uno debe apartarse de ruines compañías, juegos y negocios que provocan la deshonestidad: «Huye pues del demonio y sus tentaciones, y sigue el bien y la santa y verdadera doctrina […], porque sólo de este modo puedes estar, vivir y morir cierto y tendrás en este mundo paz y después gloria» (ZAFRA, 2011, p.146). Se remata esta obra con una décima penitencial y ocho redondillas donde el autor pide clemencia divina. Vida y costumbres de la Madre Andrea es por lo tanto una obra picaresca con rasgos pornográficos y un auténtico fin moral. En efecto, todas las obras

picarescas tienen aspectos pornográficos, aunque generalmente de tipo erótico. Piénsese en la pícara Justina, que siempre está en peligro de perder la flor; o en Teresa de Manzanares o Elena, la hija de Celestina, quienes expresan cándidamente sus deseos sexuales y mantienen ocasionalmente relaciones adúlteras. Aldonza, la lozana andaluza, es, por supuesto, una cornucopia (pornucopia) de sexualidad ilimitada. Las relaciones triangulares, evidentemente, son comunes en toda narrativa picaresca, como se ve en los padres de Guzmán de Alfarache o en la relación entre el arcipreste de San Salvador, Lázaro de Tormes y la criada-esposa de ambos. Los elementos exóticos también se intuyen, como se observa en el padre afeminado de Guzmán de Alfarache, cuyos afeites inducen al narrador a declarar que «son actos de afeminados maricas, [que] dan ocasión para que dellos murmuren y se sospeche toda vileza, viéndolos embarrados y compuestos con las cosas sólo a mujeres permitidas» (ALEMÁN, 1984, vol. 1, p.118). Recuérdese asimismo la posible inversión del hiperactivo fraile de la Merced del tratado cuarto de Lazarillo de Tormes. Sin embargo, a diferencia de estas obras, Madre Andrea minimiza lo erótico y enfatiza lo exótico y escatológico. El lector de estas narrativas acaso sonriera ante los leves embustes de Justina o Teresa de Manzanares, pero probablemente se turbara ante las alusiones de sodomía, felación, urolagnia y coprofilia de la Madre Andrea y sus clientes. Lo exótico en esta obra se usa no para despertar el interés sino para provocar el desasosiego en el lector. No atrae; repele. En este sentido, se asemeja al Guzmán de Alfarache, aunque también, acaso, a Los 120 días de Sodoma del Marqués de Sade. No obstante, a diferencia de estas dos últimas obras, la intención moral se explica clara y largamente al final de Vida y costumbres de la Madre Andrea. A la vez, este propósito se expone en las fisuras del texto a lo largo de la obra. De esta forma, lo moral irrumpe en los momentos culminantes ímprobos, precisamente para desplazar lo concupiscente y

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desviarlo hacia la probidad: «Deja pues mujercillas, porque quitan el sueño, estragan la salud, deslustran la honra, consumen la hacienda, y muchas veces hacen perder las vidas; sé casto» (ZAFRA, 2011, p.144). Por ende, si las narrativas picarescas tienden hacia una finalidad moral, Madre Andrea mantiene esmeradamente esta función. En esto difiere del final irónico de Lazarillo de Tormes o del desenlace ambiguo de Guzmán de Alfarache: «Aquí di punto y fin a estas desgracias. Rematé la cuenta con mi mala vida. La que después gasté, todo el restante della verás en la tercera y última parte» (ALEMÁN, 1984, vol. 2, p.480). No obstante, se ajusta estructuralmente a éstas, y otras, en, v. gr., las extensas digresiones morales de Guzmán de Alfarache; las descripciones aciagas de la Roma puttana de La lozana andaluza; los aprovechamientos finales del narrador subalterno de La pícara Justina ; la narrativa «objetiva» del narrador de La hija de Celestina; los rótulos, escritos en tercera persona, de los capítulos de La niña de los embustes, Teresa de Manzanares; el prefacio del autor de Moll Flanders, el cual corrobora, antes de iniciar la narrativa principal, el arrepentimiento ulterior de la protagonista homónima y su cónyuge: «we resolve to spend the remainder of our years in sincere penitence for the wicked lives we have lived» (DEFOE, 2005, p.308); y la nota final del autor de la pícara Coraje, donde advierte a los jóvenes sobre los peligros de una vida pecaminosa y un arrepentimiento tardío (GRIMMELSHAUSEN, 2001, p.175). En concreto, Vida y costumbres de la Madre Andrea reúne a la vez lo más pecaminoso y moral de la novela picaresca escrita en español. En efecto, el tema de la pícara española, iniciado en Italia con La lozana andaluza, culmina en Holanda con la Madre Andrea . Sus descendientes literarias se extenderán después por el Reino Unido y América (Moll Flanders) y el Sacro Imperio Romano Germánico (la pícara Coraje). Sus aventuras, sin embargo, requerirían un subsiguiente estudio. Muchas gracias.

Referencias bibliográficas
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ZAFRA, Enriqueta (2009): Prostituidas por el texto: discurso prostibulario en la picaresca femenina . West Lafayette: Purdue University Press. ________, ed. (2011): The Life and Times of Mother Andrea / Vida y costumbres de la Madre Andrea. Traducción al inglés de Anne J. Cruz. Woodbridge: Tamesis.

Notas
1 Según John Anthony Cuddon, la pornografía (del griego porn– [prostituta] y graphein [escribir] > escritura de rameras) es una obra de ficción que enfatiza la actividad sexual de una forma cómica, seria, bizarra o sobrecogedora para suscitar la emoción sexual. Se subdivide en dos clases: a) erótica, la cual describe una actividad heterosexual en gran detalle; y b) exótica, que enfatiza lo perverso u anormal, incluyéndose el sadismo, el masoquismo, la pederastia y otras parafilias (CUDDON, 1993, p.729). 2 Se eliminan de este análisis los relatos no sexuales: El primero entre un poeta, un ebrio y un soldado que se emborrachan, se pelean y después abandonan el burdel sin tener comercio sexual; el segundo entre un filósofo, un matemático y un jaque que arguyen, comen y se salen del prostíbulo; y el de los tres ciegos que se emborrachan, se duermen y después simplemente se retiran de la casa de mancebía. El burdel, por tanto, sirve en estos casos no como un espacio de contención sino de desorden público. 3 El término alemán para este tipo de narrativa es Räuberroman (novela de depredadores o saqueadores). En efecto, el pícaro o la pícara es similar a un ave de rapiña. La acción principal que define a este ente es la de raptar, ya sea pan o vino en el caso de Lazarillo de Tormes, o dinero u honra en el caso de las pícaras. En la novela que nos ocupa, Andrea se jacta de haber trocado «sin violentarme» su honra por dinero: «Porque yo espontánea y liberalmente la repartía [honra], quedándome sin ella; mas no fui tan necia que no pidiese en recompensa el metal que la fortuna a tantos niega, que esa fue la lección primera con que me educó mi madre» (ZAFRA, 2011, p.34). El intercambio nunca es ecuánime, por supuesto. Al final de la novela, Andrea indica que el Hospital de Nuestra Señora del Amor de Dios (de Antón Martín) ya no tiene cupo para los enfermos que les manda la Madre. Las «picarillas [que] tan negro encarnadas […] infectaban cuántos árboles de cinselas [sic] las comunicaban» (ZAFRA, 2011, p.132) se han tenido que trasladar a Suecia y Baviera a infectar nuevos clientes. Por ende, Andrea y sus proxenetas privan, a cambio de un sucinto encuentro, no sólo de tesoro sino de salud, amén de la vida, a sus confiados e incautos clientes. 4 El hecho de que la mayoría de las novelas picarescas aludan a una subsecuente parte se debe a que el personaje al final de la obra todavía vive (salvo Elena, de La hija de Celestina, novela que requiere una narración en tercera persona). Por ende, Moll Flanders afirma lo obvio: «We cannot say, indeed, that this history is carried on quite to the end of the life of this famous Moll Flanders, for nobody can write their own life to the full end of it, unless they can write it after they are dead» (DEFOE, 2005, p.7). Considérese también la respuesta del pícaro Ginés de Pasamonte a la pregunta redundante de don Quijote sobre si el libro de su vida está acabado: «–¿Cómo puede estar acabado –respondió él–, si aún no está acabada mi vida? Lo que está escrito es desde mi nacimiento hasta el punto que esta última vez me han echado en galeras» (CERVANTES, 2004, vol. 1, p.266).

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TOPOGRAFÍAS DEL ARTISTA Y DESESTABILIZACIÓN ENUNCIATIVA EN EL ROCK DE ARGENTINA

Adrián Pablo Fanjul Universidade de São Paulo

1. Un caso puntual de un proyecto más amplio
Desarrollamos actualmente un estudio sobre la discursividad en el rock argentino, recorriendo sus diferentes épocas, acompañando mecanismos de regulación discursiva, que abordamos principalmente como delimitación de la exterioridad del campo1. En función de un factor que nos ha aparecido como significativo en los procesos de regulación, específicamente en cuanto a una de las fronteras recortadas para lo decible en el campo, factor al que no nos referiremos aquí porque afecta una de las hipótesis centrales de un trabajo que todavía está en elaboración, hemos dado bastante atención a la composición “Toxi Taxi”, grabada en 1991 por la banda Patricio Rey y los Redonditos de Ricota, más conocida como Los Redondos, una de las más nodales en la historia del rock nacional. El tema fue lanzado en el disco La mosca y la sopa . Creemos que esa composición es un punto de especial densidad, en el corpus del rock argentino, en cuanto a las redes de memoria hacia dentro del funcionamiento del campo y en relación con su exterior. Aquí la abordaremos a

partir de que se trata de uno de los casos, dentro de ese corpus, en que se escenifica, en la enunciación, al artista en actividad creadora relacionada con un desplazamiento en el espacio representado, lo que no excluye, por supuesto, la concomitancia de otras lecturas. Ese abordaje nos llevará a la posibilidad de confrontarlo, en la memoria discursiva, con dos temas del período clásico del rock argentino: “El oso”, de Moris (Mauricio Biravent, 1970), y “La balsa”, atribuido a Lito Nebbia y a Tanguito2 (1967). Esa misma confrontación promueve la observación de otra problemática central en nuestra investigación en curso: la de las configuraciones enunciativas, como modos relativamente estables de articulación de los seres en la enunciación, cuya articulación con la problemática de la memoria explicamos en el ítem siguiente. Las tres composiciones están transcritas al final, como anexos.

esos conceptos reciben especificaciones. memoria y seres en escena Consideramos la regulación a partir de diversos lugares de la teorización foucaultiana y de su lectura por estudiosos de la enunciación y del discurso en función de la problematización de la memoria discursiva. en el título denominamos una “topografía del artista”.24 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 2. Las tendencias dominantes para esas configuraciones y para la delimitación entre los seres en las mismas son un factor que relacionamos con la regulacióndesregulación de la memoria. vemos la regulación como principio de una memoria discursiva: espacio de producción de implícitos (o preconstruidos). 2008: 53). Una bisagra entre el mundo creado. concepto ampliamente tratado a lo largo de La arqueología del saber como juego de reglas de formación de los enunciados. Así. un “reggae – acelerado” (GOBELLO. Nos referimos a la interpelación representada en la enunciación . temas y objetos. 3. Así lo sostenemos porque creemos que esa distribución de voces y seres. Y es importante recordar que fue un tema de “pogo”. Como anticipamos. vale recordar que. Escenas ricoteras3 Un biógrafo de Los Redondos ha definido “Toxi Taxi” como un tema de “urgencia rítmica”. En la primera parte y en el estribillo de “Toxi Taxi” es interpelado un ser representado en segunda composiciones entre las que estableceremos relaciones parafrásticas en este trabajo. La corriente de análisis del discurso en que actuaron estudiosos como Michel Pêcheux y Jean-Jacques Courtine adoptó varios aspectos de la teorización de Foucault. La topografía es. se revela como resultado de esa violencia reguladora del discurso a la que nos referimos a partir de Foucault. en Pêcheux (2007). una práctica que les es impuesta. y la configuración enunciativa. si es observada en una determinada serie de enunciados en un campo. que en el caso de la . entre ellos. es precisamente un juego de voces. Esa violencia. sino en el conjunto de nuestro trabajo sobre la memoria discursiva en el rock argentino. el espacio del cual la enunciación dice provenir. se concibe el discurso como una violencia ejercida sobre las cosas. y a la vez como matriz representacional del conflicto que todo discurso conlleva y que. lo que. a los modos como se articulan los participantes representados en la enunciación. 2002: 191). la dimensión espacial de la escenografía representada en la enunciación. por darse en una escena enunciativa. promueve la regularidad . en Maingueneau (2001). en determinados períodos de la reflexión de Pêcheux y seguidores. por ejemplo. o sea. No sólo para este caso. damos crucial importancia a las configuraciones enunciativas. Regulación. Como movimiento de choque de cuerpos. Al trasladarse a un abordaje del discurso como materialidad lingüística. que selecciona y recorta modalidades de enunciación. tanto los interlocutores como los personajes y las voces citadas. relacionamos el pogo con la interpelación como acción enunciativa. paráfrasis y diversas formas de retomada y remisión. no debiendo confundirse con el concepto –de raíz althusseriana– de interpelación ideológica como constitutiva de posiciones de sujeto. en El orden del discurso. tienen en común una representación de la actividad estética creadora relacionada con el desplazamiento en la escena representada. 1999:80). reglas que “los atraviesan y les constituyen un espacio de coexistencia” (FOUCAULT. al proponerse el “principio de especificidad” (FOUCAULT. el conjunto de letrística musical alcanza una figuración menos precisa que en la narrativa literaria. la percepción de la regulación como relaciones entre enunciados. Como punto de partida.

por percibir que es uno de los rasgos mediante los cuales la obra de Los Redondos. por parte de una voz que se identifica al comienzo en una primera persona del plural (“Te tenemos allí…”). sino que hace efectiva una interpelación. en las situaciones de opresión reiteradamente representadas en sus composiciones. en la poeticidad de géneros de lo popular en Argentina. por ejemplo. de modo general. un colectivo de “la juventud”). Varios factores favorecieron. como veremos. la percepción de ethé relativamente homogéneos y seres representados con un cierto cerramiento sobre sí. Esa tendencia se desestabiliza notablemente en los años 80. un cierto deseo de homogeneidad para su lado imaginario en el conflicto. marcó un desplazamiento en el rock argentino. Por un lado. Por otro. Los Redondos son una banda que no sólo corresponde al momento en que la estabilidad de identificaciones roqueras se ha derrumbado (ya no es pensable. como el disimulo del enemigo en “Nuestro amo juega al esclavo”. no íntima. debido al carácter “en público” que señalamos. 2010) mediante observaciones que podemos relacionar con las de investigadores que abordan la letrística de rock desde otros puntos de vista. más o menos velada. visibles en la figuración. debe tenerse en cuenta. en relación con el conflicto representado. en este caso. Sobre la primera. y. con el poder opresor y con la industria del espectáculo. había una tendencia ya verificable. Esa interlocución. el influjo de una racionalidad “humanocéntrica” dominante en el campo intelectual argentino de la época (TERÁN. una fuerte tendencia a ese tipo de escenificación caracterizó el debilitamiento de las figuras marginales en la evolución de la poética del tango argentino en los años 20/30. a la delimitación reforzada de los contornos de los seres en la enunciación. Y muy especialmente. para los años 60 y 70 del siglo XX. Como hemos defendido en varios trabajos anteriores (fundamentalmente en FANJUL. en su época de primer desarrollo y auge. instrumentador e instrumento de la violencia del poder. A veces. así como los posicionamientos subjetivos que la atraviesan requieren diferenciar dos órdenes de problemas que creemos que son clave para confrontar momentos y tendencias en la discursividad del rock argentino: a) La producción de una interpelación cuestionadora hacia un interlocutor. o en la forma lingüística. conviene referirnos brevemente a características del campo a respecto.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 25 persona. la interpelación se relaciona con el papel de los interlocutores en el campo roquero y en relación con los conflictos que lo delimitan. gozador y gozado. como el papel alternado de ejecutor y víctima (“te esnifo” / “me esnifan”) en “Rock para los dientes”. el rock nacional está marcado históricamente por una cierta rigidez en cuanto a la representación de los seres y voces. para la voz enunciadora. La representación de ese tipo de interpelación tiene una larga tradición en la música urbana argentina en períodos de desestabilización de modelos. b) La alternancia de ubicaciones. concomitantemente con una diversificación del campo del rock y con el aumento cualitativo de las desigualdades en la clase media urbana. Pero también el paso no marcado de la . juegos mostrados. la alternancia a la que nos referimos puede ser más o menos marcada. En cuanto a lo segundo. al conjunto del campo en ese sentido. que en el rock se expresó más en su versión hedonista que contestataria. Como ha mostrado el trabajo de Menezes (2012). con la peculiaridad de estar representada como interpelación realizada “en público”. están sometidas a diversos juegos enunciativos. diferencias entre agente y paciente. pero que no dejó de estar muy presente. 1991:22).

rescata metafóricamente la imagen de un círculo trazado en rituales satánicos 4 para llegar a una propuesta que resume muy felizmente ese aspecto de la poética ricotera: “es una invocación: no está dentro del círculo pero tampoco fuera porque su sitio no es el pretendido cielo de la pureza”. como “No te dejes desanimar”. propone el cuerpo roquero como “la epifanía misma del conflicto”. como Mutantes o Raul Seixas. sólo será recortada en signos tras aprender las piruetas en la jaula-ciudad de los hombres. que tuvo un carácter comparativo en relación con pioneros del rock brasileño. El oso se desplaza “sin cesar”. en un artículo centrado en Los Redondos. una deriva positiva y afirmada en su mismidad. En ese trabajo que acabamos de referir. en la que circula muy contento. Provoca a la comparación. en el caso de “Toxi Taxi”. pero va. abandonado allí. No diseñará su naufragio. va a seguir su “propia” dirección. sino directamente con las composiciones que consideraremos. en este mundo abandonado / Te tenemos allí. una intertextualidad deliberada con composiciones clásicas del rock argentino. Una delimitación espacial determinando una predicación de abandono: Estoy muy solo y triste acá. pero que es posible. El andar con un propósito. Quien se dispone a naufragar construirá su propia balsa para ir donde quiera. tres ámbitos: la naturaleza. de la época de la dictadura. Así vemos los andares de los seres construidos en esas composiciones. con una impronta propia. entran en escena. toque y toque. va detrás del toxi taxi. subyace un preconstruido sobre el desplazamiento como posibilidad creadora. desde el lugar de análisis. recogen esa imagen a la que. cierta resonancia en el inicio de “La Balsa” y de “Toxi Taxi”. entre período clásico. de Charly García. aunque sea la de naufragar. no se registra. El locutor / artista de “La balsa” seguirá estricta e indudablemente su impronta: su (propia) idea es la de ir al lugar que él mismo más quiera. con los preconstruidos que les dieron sustento. Desencuentros –de memorias– del andar Proponemos abordar las tres composiciones propuestas en la Introducción a partir de lo que en ellas podemos observar como representación de la actividad de creación estética. de ese modo. Una de los rasgos del tipo de locutor y de personaje puesto en escena por el rock primero y del ethos que su voz encarna es el de una hexis de propósito (Fanjul.26 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS voz de un posicionamiento a otro en relación con el sojuzgado: compartiendo su lugar o asumiendo una sorna que la acerca al beneficiario-verdugo. irá tras los que lo hacen negocio. 2009). Ambos se desplazarán desde ese lugar. El prefabricado de “Toxi Taxi” está “preso”. observamos que ese rasgo se presenta inclusive en la escenificación de seres identificados con la locura. Con ellas. la artesanía y la industria del espectáculo. Y aun composiciones con un tono de profunda desazón. por ese camino. creemos. y la naturaleza ilimitada. No en vano Monteleone (1992:30). encontrar un funcionamiento parafrástico que resulta polémico. como está. es una figura recurrente en la delimitación no sólo de la identidad del artista sino también de héroes en general en las escenografías creadas por el rock argentino del 4. Pero el artista-negocio pequeño y simple. NI siquiera vuelto sombra. Creemos que. Su naufragar es un propósito. como en otros temas de la banda. Pensamos que la desestabilización de identificaciones en el campo del rock nacional a partir . Indagando el frecuente recurso a la figuración infernal en las composiciones de la banda.

el héroe encuentra la posibilidad de resistencia en la autopercepción. En el viejo tema de Moris. una figuración como la del artista de la “no cultura”. el tipo de movimiento que Kozack (1992:25) caracteriza como “recorridos circulares y constantemente invertidos”. ¿Cómo no ver la ambigüedad de la declaración punteada. como serializada e imitativa. sólo después la voz gana volumen. tu abandono? Creemos que es el inicio de una oscilación que se desplazará por toda la primera parte y el estribillo. en lo que Authier-Revuz (2011:12) caracterizó como “movimientos bruscos de báscula del sentido en una palabra”: “Un toque por si las moscas van / Otro toque por si vas detrás”6. que está preso pero “va”. también la confrontación de “Toxi Taxi” con “El oso” da lugar a interesantes relaciones de acercamiento y desencuentro en una memoria relacionada con el género. en algo todos nos parecemos al pequeño artistanegocio . a la resistencia a ese poder.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 27 de los 80 fue dando lugar a representaciones del desplazamiento y de la creación no compatibles con ese preconstruido. se desliza hacia una problemática diferente y una escenificación más específica). Por otro lado. lo que más interesa aquí. y. de la “no cultura” a la “cultura propia”. al fin y al cabo. en un estribillo que. ni parece serlo el artista producido de “Toxi Taxi”. en su materialidad sonora y por el movimiento que sugiere a los cuerpos. en el hermanamiento que sigue al pogo. por medio de la imagen de las “piruetas”. a la palabra de la calle. al volver del encierro está “contento de verdad”. Ni el oso de Moris aparece como “un animal feroz”. Por ejemplo. caminando “sin cesar” inicialmente en la vastedad de la no cultura. el instinto como fundamento de la creatividad5. pero de este se dice que está preso como si lo fuera. con cierta sorna. Esa industria-circo. como explicaremos. Esa palabra de la calle juega torciendo el significante hacia su letra. el locutor gana cuerpo en una sonoridad ansiosa y trémula para la voz del intérprete. tiene su contrapartida en la voz enunciadora. Viendo primeramente esa prisión como control sobre el artista (la segunda parte del tema. en varias de las composiciones de la época se propone. se caracteriza. Así. de mis tardes y de mí” (destacado nuestro) al enumerar lo que no fue olvidado. “Toxi Taxi” es un claro caso de la alternancia de la voz entre diferentes lugares de decir en relación con el conflicto. la cultura establecida desde fuera del campo de identificaciones del rock. vemos escenificado un desplazamiento que puede percibirse. Su tono en los dos primeros versos es de quien habla casi en privado. todos podemos “darnos un toque”. de modo más explícito que en “El oso”. silabeada. Al inicio del canto. e incluso. Presos. finalmente. es el momento de fiesta colectiva. después de la “prisión” de la industria del espectáculo. de esos dos versos? Te te-ne-mo-s a-llí / A-ban-do-na-do a-llí ¿Allí te guardamos. la naturaleza como espacio de creación. Obsérvese el orden “de mis bosques. En efecto. La ambigüedad respecto del interpelado. La autora los relaciona con una ”estética del sobreviviente” de la cual Los Redondos marcarían un “límite crítico”. El yo/nosotros representado se desplaza entre voces y posicionamientos atribuibles al poder opresor -poder sobre la escena y sobre el espectáculo-. Aunque debe someterse a esa repetición por estar prisionero. que es uno de los extremos de la primera etapa del rock argentino. te mantenemos? Y ¿qué ubicaciones propone ese acusativo te. la pregunta desafiante “la fiera más fiera ¿dónde está?” parece evocar. si lo consideramos como recorrido del artista. con eco en la sílaba siguiente? ¿Estás allí para nosotros? ¿Sufrimos tu prisión. Así.

Y en el cierre. Había sido parte del rock platense en los primeros setenta. Estabilización del decir. _____ (2009) “Loucura. (2008) El orden del discurso. Pero ahora dice que cada día ve menos. Buenos Aires: Siglo XXI. São Paulo: Martins Fontes. Luis María Canosa. (2011): Detenerse ante las palabras. Elementos para una comparación con Brasil. Y las palabras que repite acentúan la diferenciación a respecto del creador representado en el período clásico del rock nacional. “Luis María” y porque la temporalidad pasa a ser episódica: un narrador cuenta un sueño. C. al. la figura evocada. el rock no está en el pretendido cielo de la pureza. FANJUL. Referencias bibliográficas AUTHIER-REVUZ. o que creo algo. Alfredo (1989): La ideología antiautoritaria del rock nacional. Y con él viene un colectivo que compartió la percepción del roquero como “visionario”8. Cuando ya no actuaba en música. futuro compositor y vocalista de Virus. murió preso “de verdad” en 1978. o que al menos no oscila hacia formulaciones o direcciones argumentativas identificables con el poder. No 10. si se la compara con el resto del tema. A diferencia de la figura representada en la primera parte. _____ (2002) La arqueología del saber. pág. 2008. Buenos Aires: Centro Editor de América Latina. 2009. (1992): “Estética del sobreviviente: una letra contemporánea. mientras el terror construía las nuevas topografías del rincón y la pared desierta9. Se configura más claramente un posicionamiento de resistencia. . Y la escena también cobra singularidad. M. C. (2010) “Enunciadores en el rock argentino. Belo Horizonte: Faculdade de Letras da UFMG. Y la distribución de las voces. O. no solo porque el “nosotros” pasó a ser un “yo”. Al fin y al cabo.” En: Espacios de crítica y producción. creer y crear es una concesión. 23-28.28 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 5. MAINGUENEAU (2001) O contexto da obra literária. (2005): Libro de viajes y extravíos: un recorrido por el rock argentino 1965-1985. nueva regulación. p. (org. fue preso acusado de tráfico minorista de drogas7. J. Montevideo: Fundación de Cultura Universitaria. Buenos Aires: Prego. A. BELTRÁN FUENTES. 1.” En: Letr@ Viv@. Era cercano a Los Redondos y llegó a integrar la banda Dulcemembrillo. un “común” preso político. Nº 11. Buenos aires: Tusquets. realidade e deslocamento em cenografias pioneiras do rock”. Córdoba: Narvaja Editor. y acabó muriendo en medio de un motín en el que todo indica que no tenía participación. de la gestión opresora sobre los cuerpos que es uno de los grandes asuntos de Los Redondos. está en el pasado y no va a ningún lugar. GOBELLO. Menos mal que todavía creo en algo. Apuntes sobre el mito de Los Redondos. DÍAZ. Un claro caso de prisionero del control social. Em: Anais do V Congresso Brasileiro de Hispanistas e I Congresso Internacional da Associação Brasileira de Hispanistas. vol. 2239-47. Sara Rojo et. para una nueva regulación de los presupuestos. Estudios sobre la enunciación. fundamentalmente porque se trae un nombre propio. como sólo puede hacerlo un muerto en un sueño. (1999): Banderas en tu corazón. 141-155. cada día creo menos mal. junto con Federico Moura. La segunda parte de “Toxi Taxi” recupera estabilidad en los posicionamientos de modo concomitante con una fijación de la escenografía enunciativa. cobra nitidez: está claro qué instancia o voz representada dice qué. KOZAK. pág. FOUCAULT. M. Luis María actualiza el pasado.). por qué no.

Pero nunca pude olvidarme del todo de mis bosques.T axi Taxi Solari / Bellinson. Campinas : Pontes. Otra vez el verde de la libertad. al. pandeiros e bandoneones . p. la fiera más fiera… ¿dónde está? Toxi-taxi viene y va y tu sombra va detrás de hordas notables con los secretos para hacer un negocio tan pequeño y simple como vos. (2012). Con el circo recorrí el mundo así. 1970 Yo vivía en el bosque muy contento. pero las tardes son mías. En el circo me enseñaron las piruetas. A. P. Papel da memória. así las cosas. J. 29-33. Sólo exigen que hagamos las piruetas. 49-56. y yo dejé la ciudad. “Nunca el techo y la comida han de faltar. Universidade de São Paulo. Vuelvo al bosque. y a la noche me tiraba a descansar.” Tesis de doctorado en Letras. estoy contento de verdad. “Papel da memória”. “Conformate”. caminaba sin cesar. et. PÊCHEUX. me decía un tigre viejo. 1991 Te tenemos allí. En: ACHARD. preso como un animal (como un animal feroz). M. Ahora piso yo el suelo de mi bosque. MONTELEONE. Ya no hay tiempos de lamentos ¡Ya no hay más! Un sueño con Luis María. abandonado allí. y a los chicos podamos alegrar. Violencia y poesía del rock. En un pueblito alejado alguien no cerró el candado.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 29 MENEZES. O embate entre vozes marginais e disciplinadoras em composições de samba e tango (19171945).” Han pasado cuatro años de esta vida. (1992): “El infierno encantador. Era una noche sin luna. “Entre pátrias. “Cada día veo menos cada día veo menos cada día veo menos creo menos mal”. Caminaba. p. (2007). Anexos Toxi . El oso Moris. Estoy viejo. . Nº 11. Un toque por si las moscas van y otro toque por si vas detrás. muerto cuando me decía: Y yo así perdí mi amada libertad. de mis tardes y de mí. me encerró y me llevó a la ciudad. Las mañanas y las tardes eran mías.” En: Espacios de crítica y producción. Pero un día vino el hombre con sus jaulas.

Pero nuestro abordaje no es contenidístico. en el rock argentino de los 60-70. no es nuestra preocupación lo que hayan tenido en mente o no los compositores. aproximadamente como “por si acaso” o “por las dudas”. A partir de ese relato. y “En el hospicio”. acá. ambas compuestas entre 1975 y 1976. hay un interesante recorrido en Díaz (2005: 154-167). Monteleone relata. La continuidad (“por si las moscas van”) restituye “las moscas” a un valor independiente de esa construcción. por ejemplo. Tengo una idea. A respecto. Tengo que conseguir mucha madera. como introductor explicativo que pone como causa la percepción de una posibilidad. . Por eso. para ello. Uno de los seudónimos de de José Alberto Iglesias (1945-1972). de donde sea. como quien ve lo que otros no ven. o como dirigida “al mismo” de la segunda estrofa. y por supuesto. Notas 1 2 El proyecto cuenta con apoyo del CNPq. comportamientos atribuidos al asesino serial Giles de Rais. Construiré una balsa y me iré a naufragar. 3 4 Adjetivo muy usado para referirse a lo relativo a Los Redondos. no podemos afirmar si era o no esa su idea. en lecturas de interpretación literal de la letra de “Toxi Taxi” que han circulado en los medios. 5 Así está claramente enunciado. también conocido como “Barba Azul”. Con mi balsa yo me iré a naufragar. redactado por Luis Alberto Spinetta: “El que recibe debe comprender definitivamente que los proyectos en materia de rock argentino nacen del instinto”. registrado por Beltrán Fuentes (1989:95). 7 Esa circunstancia ha dado lugar a que. 9 Aludimos a las composiciones “Mientras no tenga miedo de hablar”. nos parecería muy reductor ver esa interrogación como mera denuncia. en este mundo abandonado.30 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS La balsa Lito Nebbia – Tanguito. y aprovechando el tema de Los Redondos “Barba Azul y el amor letal” va produciendo una reflexión que vincula lo infernal con la figuración del espacio social como prisión. haya una cierta reiteración de “entender” la interrogación “¿la fiera más fiera dónde está?” como denuncia de que no se lleva a prisión a los jefes del tráfico sino a sus agentes menores. miembro de los primeros núcleos que fueron dando forma a la delimitación del rock nacional como campo. en un manifiesto circulante en 1973. Me falta algo para ir pues caminando yo no puedo. Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. tanto en el contexto de esta lectura interdiscursiva del tema a partir de la representación de la creación artística como en cualquier otro abordaje temático. no se propone un desciframiento alegórico de las composiciones parte a parte. la de irme al lugar que yo mas quiera. Y cuando mi balsa esté lista partiré hacia la locura. 1967 Estoy muy solo y triste. tengo que conseguir. de Alejandro de Michele y Miguel Ángel Erausquin. en español. de Nito Mestre. 8 Sobre la representación del artista. 6 “Por si las moscas” es una unidad relativamente fijada.

interpretado pelo ator Fernando Fernán Gómez. A princípio. Don Gregorio. juntamente com outros dois contos. relatada no filme. Na cena seguinte. o menino reluta em estabelecer uma relação amistosa com o professor e os outros alunos. As cenas iniciais do filme mostram imagens fotográficas da época. O medo de apanhar . AMOR?. São imagens de pessoas simples do interior. pela ameaça que significa a ideia de frequentar a escola. traduzindo-se em um grande êxito cinematográfico. DE JOSÉ LUIS CUERDA Adriana Aparecida de Figueiredo Fiuza UNIOESTE No livro de contos ¿Qué me quieres.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 31 MEMÓRIAS DA GUERRA CIVIL ESPANHOLA NA FICÇÃO: LEITURAS DE ¿QUÉ ME QUIERES. amor?. Estas imagens “reais” se mesclam estrategicamente com as cenas do filme. Manuel Lozano. é traumática. de mulheres e crianças. embora seja uma ficção. está presente um conjunto de dezesseis relatos que narram a trajetória de personagens que transitam pelo contexto espanhol. Tanto a narrativa literária quanto a fílmica relatam uma intensa relação entre um professor primário. criando com estas representações um suposto pacto de “verdade”. associada à pobreza e às dificuldades de sobrevivência da Espanha rural pré-franquista. Certamente este recurso é uma forma de dialogar com o espectador no sentido de mostrar como a narrativa fílmica. retratos do atraso social de uma Espanha tradicionalista com os olhos voltados para o passado. ansioso com seu primeiro dia na escola. Moncho. chegando a querer fugir para a América. Trata-se de uma maneira de iludir o espectador. em que se evidenciam a vida cotidiana. aproximando-o da narrativa ficcional. incomodando o irmão mais velho com perguntas sobre o ambiente escolar e a atuação do professor. do início ao fim do século XX. publicado em 1995 e escrito originalmente em galego. “ Un saxo en la niebla ” e “Carmiña”. por medo. “ La lengua de las mariposas” é uma dessas narrativas que. foi transposta para o cinema em 1999 por José Luis Cuerda. aparece acordado no quarto. pode ser tão verossimilhante quanto à realidade histórica. É neste momento em que o espectador dá um salto para a ficção sem se dar conta de tal fato. para escapar da guerra na África. de Manuel Rivas. principalmente. e seu aluno Moncho. A primeira experiência escolar de Moncho. como havia feito um tio. DE MANUEL RIVAS E LA LENGUA DE LAS MARIPOSAS.

Quiero decir que mi madre era de misa diaria y los republicanos Portanto. (RIVAS. “¡La República. perdida en el Sinaí. mas com o silêncio. la República!¡Ya veremos adónde va a parar la República! (RIVAS. o que revela uma pedagogia de Don Gregorio diferente daquela que se praticava nos anos de 1930 e que ficava expresso no discurso de outros personagens. castigando não com violência física. Al contrario. “parecéis carneros”. p. Este tirocínio está relatado pelo narrador tanto no filme quanto no conto e é um ponto crucial para entender a metáfora do autoritarismo que paira naquele momento em que a Guerra Civil ainda não havia sido deflagrada na Galicia. 2006. como no do próprio pai do menino ao comentar-lhe em tom de ameaça: “Ya verás cuando vayas a la escuela!. el maestro Don Gregorio no pegaba. no diálogo entre os pais de Moncho sobre a condição econômica de Don Gregorio: “ Estoy segura de que pasa necesidades”. “Los maestros no ganan lo que tendrían que ganar”. muito mais poderoso que a correção física. a natureza e as mulheres de maneira libertária. El maestro no pega” (RIVAS. casi siempre sonreía con su cara de sapo. Porque todo lo que él tocaba era un cuento fascinante. ao discorrer sobre a literatura. sentenciaba. 29) No discurso final da mãe percebe-se um tom de ameaça. no. frase que se repete na narrativa com o objetivo de enfatizar o tormento que era ir à escola. “Ellos son las luces de la República”. p. con sentida solemnidad. Mi madre. ele instrui seus alunos também sobre as lições da vida. divulgada pela Igreja. Esta questão dos ideais libertários pode ser vista ao longo da narrativa. sobretudo. atua de maneira diferente dos outros “maestros” da época. como se a vitória dos franquistas estivesse dada como certa. Com o transcorrer da narrativa. que comenta as posições ideológicas dos personagens: “Mi padre era republicano. percebe-se que o tema das duas Espanhas também está metaforizado no próprio discurso do casal. Esta dicotomia pode ser observada na voz do narrador do conto. Pronto me di cuenta de que el silencio del maestro era el peor castigo imaginable. Después los sentaba en el mismo pupitre. Moncho torna-se amigo íntimo de Don Gregorio. uma vez que o pai se identifica com a República (“Ellos son las luces de la República”) e a mãe adota uma postura conservadora. sua conduta libertária é o que propiciará sua perseguição em um ambiente político sufocante que já se anunciava. o respeito aos alunos que advém deste princípio pedagógico. Y se dirigía hacia el ventanal. y hacía que se estrecharan la mano. uma vez que o aluno percebe de maneira sensível os pressupostos libertários do professor e. 26) “Si vosotros no os calláis. já se sente de maneira velada uma ameaça política no pano de fundo social. como si nos hubiese dejado abandonados en un extraño país. urinando na frente de todos. Y no pega. a exemplo de quando a mãe de Moncho pergunta como havia sido na escola: “ Te ha gustado la escuela?” “Mucho. no conto e no filme. […] La forma que Don Gregorio tenía de mostrarse muy enfadado era el silencio (RIVAS. como assegura o narrador Moncho: . Entretanto. Esta ameaça pode ser visualizada em alguns episódios como. 26-27) Don Gregorio é o professor que ensina não apenas conhecimentos científicos. contrariando as convenções da sociedade espanhola daquele momento. tendré que callarme yo”. 26). Era un silencio prolongado. 2006. p. por exemplo. con la mirada ausente. p. Cuando dos se peleaban durante el recreo. decía mi madre por la noche. 2006. quando o professor se sente desrespeitado pelos alunos.32 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS e a exposição a que o menino é submetido frente aos outros alunos o fazem perder o controle de seu corpo. mi padre. descorazonador. él los llamaba. 2006. logo em seguida ao diálogo dos pais de Moncho. Entretanto. O diálogo entre Moncho e sua mãe é referendado pelo narrador. ao complementar o relato do menino: No. Portanto. que se via advertida pela proposta do Estado laico da República.

Ramón. 2006. 31) El alcalde. “Sí que se lo regalo”. Neste sentido. 2006. Moncho. como si lo sujetase con todas sus fuerzas para que no desfalleciera. 2006. em sua inocência de criança. 33). Moncho. afim de livrar o personagem Quijote de sua suposta loucura. o acovardamento dos que não foram encarcerados. Na verdade.” (RIVAS.. Poco a poco. “No. p. p. O término do relato é contundente. 29). Ramón. que vean que gritas!” (RIVAS. los libros. que. “¡Que vean que gritas. como revela o narrador: “Grita tú también. padre de Dombodán. por lo que más quieras. Los periódicos. inclusive o pai. argumenta: “ Hay que quemar las cosas que te comprometan. o menor da família. 2006. época em que se queimavam os livros considerados proibidos e da cena de Don Quijote de la Mancha (1605).. Papá no Le regalo un traje al maestro”. 32) Ao final da narrativa literária e fílmica. custa a entender a conjuntura daquele momento histórico: “Recuerda esto. que proibiria a liberdade de expressão. ¿Has entendido bien? ¡No se lo regaló!” “No. No ápice do conflito entre republicanos e franquistas no povoado a mãe impõe seu caráter religioso na tentativa de salvar sua família.. Charli. p.] “¡Criminales! ¡Rojos!” (. Moncho. p. É por esse motivo que ela faz todos negarem o passado republicano. Tal fato é observado na conduta imitativa dos que assistiram a atuação da guarda civil: Se escucharon algunas órdenes y gritos aislados que resonaron en la Alameda como petardos. de la multitud fue saliendo un murmullo que acabo imitando aquellos insultos. p. 32) Este pacto com o gesto criminoso da guarda civil é uma forma de proteger-se do mesmo crime. A mãe de Moncho é a primeira da família a tomar a iniciativa de compactuar com os crimes do franquismo. começa a gritar envergonhado e logo desesperado ofensas para dissimular sua profunda consternação e fraqueza: “¡Traidores!”. mas que compactuaram com a prisão dos inocentes como forma de eles próprios se livrarem do infortúnio dos vizinhos. A imposição da mãe se dirige também a Moncho. [. Todo. mamá. insulta aqueles que antes pertenceram ao mesmo grupo ideológico que ele. Moncho. Papá no era amigo del alcalde. p. No se lo regalo. ainda que possa ser considerado um gesto covarde. p. mas nem por isso menos aterrorizante. aflito. El maestro. 2006. a queima dos livros do pai se trata de um prenúncio do que viria a ser a ditadura franquista. 32) Em seguida. . 2006. pois demonstra os dois lados da Guerra. 2006. “¡Traidores! ¡Criminales! ¡Rojos!” (RIVAS. como ocorre com: O pai.. Papá no hablaba mal de los curas. o da Santa Inquisição. no se lo regaló”. juntamente com outros homens do povoado.) “¡Asesino! ¡Anarquista! ¡Comeniños!” (…) “¡Cabrón! ¡Hijo de mala madre!” (RIVAS. Y otra cosa muy importante. chepudo y feo como un sapo. sem haver cometido crime algum. 31).. convencido que o melhor seria gritar. por ser considerado um inimigo do regime ditatorial que se instaura. el bibliotecario del ateneo Resplandor Obrero. cujos livros são queimados. primeiro o povo sendo aprisionado de forma arbitrária. uma vez que todo o povoado representava uma maioria que poderia facilmente ter parado a guarda civil. el vocalista de la Orquesta Sol y Vida.. Y al final de la cordada. (RIVAS. ¡grita!” Mi madre llevaba a papá cogido del brazo. Papá no era republicano.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 33 aparecían como enemigos de la Iglesia. em minoria.” (RIVAS. instauraria a Censura e não somente a literária e junto com ela a repressão. Ramón. el cantero a que llamaban Hércules. (RIVAS. los de los sindicatos. O episódio nos traz à memória dois momentos emblemáticos da história da espanha. o professor é preso.

na febre e na angústia” (2003. Daniel Lvovich e Jaquelina Bisquert (2008.) ¿A que parece mentira eso de que las mariposas tengan lengua?” (RIVAS. agora já adulto. 26). grítale tú también!” (RIVAS. da falta de liberdade e do silêncio que a ditadura franquista impôs à sociedade espanhola. Le Goff assevera que “a memoria é um elemento essencial do que se costuma chamar identidade.. p. manipulou a memória da forma que pôde. como já é de conhecimento. Portanto. para permanecer no poder. É importante ressaltar que assim como seu pai. Buscaba con desesperación el rostro del maestro para llamarle traidor y criminal. una lengua finita y muy larga. Em tempos de ditadura. p. Tanto é assim. p.34 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS também participa do episódio incitado pela mãe: “¡Grítale tú también. O menino. relembra a efêmera alegria em companhia do professor Don Gregorio. Esta é a última lembrança do narrador daquele período turbulento que a história relataria. que sonhava em receber de Madrid um microscópio para mostrar aos alunos da escola a língua das boborletas: “Hoy el maestro ha dicho que las mariposas también tienen lengua. A borboleta. individual ou coletiva. que Moncho se surpreende pelo fato de as borboletas possuírem uma língua. Monchiño. com o objetivo de mascarar e eliminar a memória republicana e antifranquista. estando livre de suas . tirando piedras. que llevan enrollada como el muelle de un reloj. inevitavelmente. época em que tudo parece ser mais admirável. p. No relato. caberia questionar o motivo dessa necessidade de se abordar o tema da memória na literatura e no cinema contemporâneo. visto que a literatura pode ser considerada como um espaço público da expressão da sociedade. 2006. que é o narrador do conto. 469). 33). Por fim. passa muitas vezes despercebida pelas instâncias do poder. Portanto. o controle da memória coletiva pode ser entendido como um instrumento e um objeto de poder. 8) discorrem que a memória se transmite e se reforça por meio de práticas de rememoração e comemoração variadas. 33). já que nada consegue vê-la. cargados de presos. yo fui uno de los niños que corrieron detrás. 2006. um animal belo. p. o próprio narrador também parece se surpreender pela falta de língua. Moncho se consome ao ver o profesor sendo levado para alguma prisão franquista e seu grito de insulto nada mais é que um grito de desesperança pelo que estava ocorrendo e o que haveria ainda de ocorrer na Espanha de Franco. por sua linguagem altamente simbólica.. Esta cena é marcante no final do filme em que a câmera fica lenta. o tema da memória na literatura é um gesto de se rememorar de forma coletiva. cuja busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje. […] con los puños cerrados. para que se tome consciência dela. também alcança o poder. A memória da Guerra Civil advém justamente da memória desse narrador que. Outra resposta plausível é a que nos oferece o historiador Jacques Le Goff. precisa ser desenrolada como a língua da borboleta do relato. configurada na idéia da memória da história recente. a não ser por meio de um microscópio. sólo fui capaz de murmurar con rabia: “¡Sapo! ¡Tilonorrinco! ¡Iris!” (RIVAS. As possibilidades de respostas são variadas. colorido e delicado. relata como fora sua intervenção no acontecimento: Cuando los camiones arrancaron. a literatura. 2006. a imagem da língua da borboleta enrolada dentro de sua boca é a imagem da mordaça. (. que. ao refletir sobre a importância da memória no mundo contemporâneo. Quem possui o controle desta memória. parece ser no conto de Rivas a metáfora da própria infância. utilizadas para estabelecer a memória coletiva. Franco é um dos maiores exemplos desta teoria. entretanto. prenunciando os longos anos da ditadura que se iniciava.

Referências bibliográficas LA LENGUA DE LAS MARIPOSAS. DVD (95 minutos). movimientos sociales y legitimidad democrática. História e memória. Los Polvorines: Universidad Nacional de General Sarmiento.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 35 amarras. Em tempos de democracia. 1999. Entretanto. Daniel. nas fraturas de seu discurso. 2003. são fundamentais para a valorização dos códigos memorialísticos. LVOVICH. RIVAS. Local: Espanha: Sogecine. podendo revelar. não se pode esquecer que as reivindicações do presente e a intenção do Estado em dar voz e visibilidade ao passado. 2008. Manuel. ajudando a fixar sentidos para as reminiscências. Sonoro. por meio de políticas da memória. La cambiante memoria de la dictadura: discursos políticos. Campinas: UNICAMP. Jaquelina. Direção de José Luis Cuerda. BISQUERT. . LE GOFF. ¿Qué me quieres. color. Buenos Aires: Biblioteca Nacional. a literatura pode desempenhar a função de preservar uma memória que se perde no tempo e no espaço. 2006. a memória silenciada e esquecida. legenda. Jacques. amor? Madrid: Punto de Lectura. oferecendo novas perspectivas sobre a memória e o seu reconhecimento público.

-específico]. Partimos da hipótese de que essa variedade apresentaria objetos nulos restringidos a antecedente [-determinado. Conforme Groppi (1997). na qual objetivamos detectar diferenças sintáticas subjacentes entre o espanhol e o português brasileiro nessa área da gramática.Universidade de São Paulo 0. 1997. 1996. 2005. a fim de investigar a gramática não nativa do espanhol (GONZÁLEZ. 1999) e sociolinguística (LABOV. iniciamos uma análise sociolinguística a respeito da variação na realização do objeto pronominal acusativo de 3ª pessoa no espanhol. HERZOG. a variedade de espanhol de Montevidéu também apresentaria objetos nulos restringidos a antecedente [-definido. 1998. 2008. 1994. LICERAS. 1999). Essa análise integra nossa pesquisa de doutorado1. Entretanto. WEINREICH. o que contrariaria essa hipótese inicial. ao analisar os dados. A segunda parte será dedicada à metodologia. 2006). +/específico]. a partir das teorias gerativa (CHOMSKY. 2003. embora em outras variedades do espanhol essa categoria vazia seja possível em contextos mais amplos (FERNÁNDEZ ORDÓÑEZ. observamos categorias vazias em função de objeto acusativo com referente [+determinado. LABOV. tendo como variantes o clítico e o objeto nulo e como corpus entrevistas do PRESEEA. Neste trabalho apresentaremos alguns dados da análise da variedade de espanhol de Montevidéu. 2001. específico]. específico]. Considerando-se esses estudos. 1999. 1981. Introdução Os trabalhos de Campos (1986) e Fernández Soriano (1999) mostram que o espanhol seria uma língua em que a categoria vazia em função de objeto direto estaria restringida a antecedente [-definido. 2002. Na terceira parte apresentaremos alguns dados da análise e por fim algumas considerações a respeito.36 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS A VARIAÇÃO NA REALIZAÇÃO DO OBJETO PRONOMINAL ACUSATIVO NO ESPANHOL: UM ESTUDO INICIAL Adriana Martins Simões PG . 2003). . Este artigo se estrutura da seguinte forma: na primeira parte abordaremos aspectos da gramática do espanhol quanto à realização do objeto pronominal acusativo.

como pode ser observado pelo contraste de gramaticalidade nas sentenças em (1) e (2). Essa categoria vazia ocorre em estruturas de topicalização [exemplo (3)]. em algumas variedades do espanhol o objeto nulo poderia ocorrer em contextos mais amplos. -específico] ocorreria o objeto nulo. LEONETTI. Assim. no caso de um referente [-determinado. tr ¿Te Ø i permitirán entregar sin terminar Ø i ? [ e l t e lículai porque no Ø i vas a entender. conforme Fernández Ordóñez (1999). — No vas a encontrar las b botas — Sí voy a encontrar Ø i . +determinado] em construções de topicalização [exemplo (6)]. ele lec ciones r abajoi ]. Ø/*las compré. (9) — No tengo coche. 1997. 1999): (6) (7) (8) Las e le c cio nesi yo nunca Ø i entendí. FERNÁNDEZ ORDÓÑEZ. Vos sabés. em construções com objeto direto e indireto [exemplo (7)] e em orações adverbiais [exemplo (8)] (cf. (1) (2) res — ¿Compraste flo flor es? — Sí. que também apresenta objetos nulos com referente [-animado. las c cosas de muje ujer ugue t e i ]. Siempre Ø i encontré cuando Ø i busqué. Como na ausência de determinante os nomes comuns do espanhol não constituiriam expressões referenciais (LACA. 1999). No vayas a ver esa p pe Já na variedade de espanhol de Montevidéu os objetos nulos estariam restringidos a antecedente [-definido. FERNÁNDEZ SORIANO. -específico] (GROPPI. nas construções em que o verbo seleciona o objeto direto e o indireto [exemplo (4)] e nas orações que precedem a do antecedente [exemplo (5)]: (3) (4) (5) osas d em uje resi nadie Ø i entiende. seria incompatível que fossem retomados por clítico. A gramática do espanhol na realização do objeto pronominal acusativo Por ser um determinante definido (DI TULLIO. o clítico poderia ter como referente apenas um sintagma nominal [+específico] (FERNÁNDEZ SORIANO. +determinado] na fala de pessoas bilingues de nível sociocultural médio e baixo. 1999). que nas variedades em geral do espanhol se restringiria apenas a esse tipo de antecedente (CAMPOS. Entre essas variedades estaria o espanhol falado no Paraguai em contato com o guarani. no qual o objeto nulo ocorre em referência a antecedente [-animado. *Ø/las compré. res — ¿Compraste las flo flor es? — Sí.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 37 1. jugue uguet Me Ø i quitó otra vez [ e l j otasi en la chacra. 1999). — Yo tampoco *lo / Ø tengo. . 1997) 2. 1999). 1986. como pode ser observado pela diferença no julgamento de gramaticalidade das sentenças (9) e (10). Entretanto. Outra variedade em que o objeto nulo seria possível em contextos mais amplos seria a do espanhol falado na Serra do Equador.

3 ocorrência de clítico encontrados nas entrevistas. A variável de nossa pesquisa constitui a realização do objeto pronominal acusativo de 3ª pessoa e como variantes temos o clítico e o objeto nulo. Alguns dados da análise Iniciaremos apresentando alguns dados de 2. Nos enunciados em (11) e (12) os clíticos retomam um antecedente [+determinado. os traços semânticos 5 do antecedente e diferentes contextos estruturais como topicalização. analisamos diferentes faixas etárias6 e variedades do espanhol. Quanto aos fatores extralinguísticos. 3. partimos da hipótese de que na variedade de espanhol de Montevidéu os objetos nulos estariam restringidos a antecedente [-determinado.38 (10) — No tengo el coche. r io no lo sentí tan mío / (…) (11a) I: (…) porque después cuando volví allá / ya como que e l bar barr icic le ta tirada en la plaza de deportes ¡no sabía icicle leta (11b) I: no antes no / eeh como ser Roberto dejó ocho días la b bicic dónde estaba! // <risas = “I” /> después se la trajo el hombre que cuidaba / porque al ver que no la iba a buscar se la trajo el hombre que cuidaba! (11c) us ab ue los te acordás? E: ahá // decime ¿y a t tus abue uelos ue los no los conocí I: <tiempo=”02:43"/> no / porque a mis ab abue uelos (12a) r it o I: (…) <vacilación/> después tuvieron el tupé de entrar al dormitorio // que hay un alhaje alhajer ito que Valeria tenía las alhajitas más // mejores l <vacilación/> las trajeron para acá porque yo lo encontré acá / y se lo llevaron / (…) (12b) c e ne ro a un c o no cid on uest ro d e a cá I: (…) esa misma noche porque habían asaltado a un alma almac ner co nocid cido nuest uestr acá a la v ue lta / estee no no lo había asaltado lo había amenazado / de asalto vue uelta . encontramos dados que contrariaram essa hipótese como veremos na terceira parte do artigo. construções em que o verbo seleciona os objetos direto e indireto e em construções adverbiais. porém em (12) trata-se dos casos em que o sintagma nominal é encabeçado por um quantificador7. -específico]. ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Em relação aos fatores linguísticos. de modo que nos contextos em que tivéssemos referentes [+determinados] e [+/-específicos] esperaríamos encontrar a retomada pelo clítico. analisamos 20 entrevistas da variedade de espanhol de Montevidéu provenientes do PRESEEA (Proyecto para el Estudio Sociolingüístico del Español de España y de América). Tendo em vista esses estudos. construções em que o verbo seleciona objeto direto e indireto e orações subordinadas adverbiais. — Yo tampoco lo / *Ø tengo. A análise sociolinguística: corpus e metodologia Para a realização do estudo sociolinguístico. sendo elas a variedade de Montevidéu e a de Madri. entre eles analisamos a estrutura do sintagma determinante4. Na maior parte dos fragmentos selecionados os clíticos ocorrem em construções com topicalização. Contudo. +específico].

1997). FERNÁNDEZ SORIANO.) no es que le guste tanto e l d de a contracturar su espalda por ejemplo / (…) (13c) o ¿cuál es tu forma de tratamiento? E: perfecto / y cuando vas al médic médico I: bueno / ahí viste que bah bueno depende de la situaciones ¿no? un poco formales / también depende un poquito / voy y observo /si me tutea eeh yo lo tuteo / porque él me habilitó o nst r uc ción / podíamos hacerla la (14a) I: eh bueno ta la propuesta fue para para hacer algo una c co nstr ucción acá e r so na mm no sé de setenta años capaz (14b) I: sí / y ahí para mí es el tema de la edad // si es una p pe sona e r so na que la trato de usted / si es una p pe sona na<alargamiento/> hasta esa edad / eeh / de chico hasta esa edad más o menos yo ya la trataría de vos / en mi caso por lo menos Nos enunciados em (15) temos casos de objeto nulo com referente [-determinado.. (13a) E: pero claro // ¿y tenés pasaporte / el pasaporte? o r t e me lo saqué sí I: e l pasap pasapo e p o r t e pero lo considera una necesidad y tiene tendencia (13b) I: (.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 39 Os enunciados em (13) e (14) constituem ocorrências de clítico cujo referente é [+determinado. -específico]. (15a) I: (…) porque yo he comido piza en bares / Ø he comido en otras casas escuchado mil historias de gente que ma // he (15b) I: (…) yo por suerte nunca he tenido p ro b le lema Ø ha tenido pero / yo no no no Ø he tenido así (15c) E: y en el jardín ¿tenés plantas plantas? I: sí / en el fondo Ø tenemos sí / (…) cio nes o no? (15d) E: ¿y en navidad también tenés v a ca cacio ciones I: no / en navidad no / Ø tengo únicamente el veinticinco de diciembre no trabajo porque igualmente es un feriado <ininteligible/> (15e) amig os E: listo / y<alargamiento/> y bueno tenés ¿amig amigos os? me imagino I: Ø tengo <risas = “I”/> . -específico]. 1999) e na variedade de Montevidéu (GROPPI. sendo os antecedentes dos enunciados em (14) sintagmas nominais encabeçados por quantificador. 1986.. constituiriam o tipo de antecedente com o qual essa categoria vazia seria possível nas variedades de espanhol em geral (CAMPOS. que. como vimos.

40 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Entretanto. variedades estas que apresentam objetos (16a) nulos em contextos mais amplos (FERNÁNDEZ ORDÓÑEZ. Observamos que algumas das construções com objetos nulos ocorreram em estruturas de topicalização.. Esses dados contrariaram nossa hipótese inicial de que o objeto nulo na variedade de Montevidéu estaria restringido a antecedente [-determinado. o referente também é retomado por clítico. la d o en la heladería <cita> porque Miguel I: (. 1999). conforme vimos. -específico]. os em (17) sintagmas nominais encabeçados por determinantes e os em (18) sintagmas nominais encabeçados por quantificador e determinante.. além de objetos nulos em referência a antecedente [-determinado. que.. Nos enunciados (17a). assim como com referente [+determinado. construções com objeto direto e indireto e sentenças adverbiais. Os enunciados em (16)-(18) apresentam ocorrências de objeto nulo [+determinado..) (16c) I: (…) siempre le hubiera gustado tener una ne nena e int icinc o lo pasamos con la madre de mi marido acá (17a) I: (…) todo bien tranquilo y<alargamiento/> e l v ve inticinc icinco / en Montevideo / es viuda hace unos años / Ø pasamos con ella y la hija soltera vive con ella (…) (17b) I: (…) yo<alargamiento/> hace tres años atrás no sabía manejar una computadora / tenía miedo o mpu ta dor a y<alargamiento/> al empezar este curso<alargamiento/> me gustaba lo que era el diseño pero a la c co mputa tad la odiaba por el simple hecho de que no Ø conocía y me parecía más difícil de lo que era // y fui a hacer este curso medio a regañadientes y cuando me quise acordar estaba <vacilación/> ya estaba manejandoØ Ø y era mucho más fácil de lo que pensaba (…) (17c) nú E: ¿y tienen una comida típica para Navidad o van cambiando e l me menú nú? I: no Ø vamos cambiando de acuerdo al estado de ánimo de<alargamiento/>l que recibe / ulc es o los b udín ing lés / o a veces Ø preparaba mi (17d) I: (…) mi madre siempre preparando o los pan d dulc ulces budín inglés abuela y los mandaba para allá (.) mi madre así <vacilación/> no se compraba un he hela lad nos ayuda / y tú sabes que no / yo te Ø hago en casa de lo que tú quieras / de chocolate / de ma yo<alarg amie nt o/>r u ocupa may o<alargamie amient nto/>r no / porque / la do d e he la d e ría no te Ø puedo comprar </cita> (.. +específico]. sendo que os enunciados em (16) constituem sintagmas nominais encabeçados por quantificadores. -específico]. além da ocorrência do objeto nulo. em que o sintagma nominal antecedente é encabeçado por determinante. o que revela variabilidade na intuição dos falantes.) e nt e ma yo r / por costumbre Ø trato de usted (17e) I: ahí lo trato de usted / no tengo mucha onda con la g ge nte may (18a) / la piza (18b) I: (…) ahora me tocó esto yestee y bueno / y<alargamiento/> lo primeros días fueron muy osas más e le me ntales no Ø podía hacer (…) podía / las c cosas ele leme mentales sobrellevé lo mejor que pude / los vestirme bravos porque ni bañarme podía sola / estee no podía nada / ni I: hace tiempo que no lo hace más / desde que falleció mi padre hace / veintiún año no / ella o midas case r as // dejó de hacer t o das esas c co caser no Ø hace más // lo que hace los domingos / de tradición así . -específico]..) crema / pero un he hela lad de hela lad e r so na (16b) I: y<alargamiento/> suponete / si es una p pe sona determinado ca<alargamiento/>rgo en el en el área laboral te digo / por ejemplo / este Ø trato de usted na / y no Ø tuvieron y bueno (. encontramos essa categoria vazia com referente [+determinado.. -específico]. constituem contextos estruturais em que o objeto nulo ocorre nas variedades do Paraguai e da Serra do Equador. (17b) e (17d)..

como também com referente [+determinado. apesar das ocorrências de objeto nulo..) (19b) I: (…) entonces eeh <vacilación/> Belén ahora por ejemplo estudia en <vacilación/> en unos lib ros no donde si la tarea es sintetizar la información / eeh <vacilación/> nos ahogamos porque libr no hay lo que es sintetizar porque están previstos para que el niño <énfasis> ya </énfasis> Ø tenga resumido (19c) I: nunca he llegado al <risas = “todos”/> / este<alargamiento/> / cuando llegué a los / unos cub ie r t os creo que Ø tenía Devoto / ya habían aparecido los táper / así cubie ier los cubiertos (…) (19d) E: ¿ahí en el Parque Rodó? I: sí / una plazoleta chiquitita / estee / 21 de Setiembre / se engancha con Bulevar ee l las / Ø violaron / eran las seis de la mañana España por ahí / a una d de el (20a) I: (…) digo / acá tenemos un solo canal de televisión que pasa información sobre <siglas = [sída]/> SIDA </siglas> / o / no lo mira nadie sobre / sobre drogas / que es e l canal cinc cinco E: <tiempo = “30:35”/> ah no I: <ininteligible/> ¿quién Ø mira? muy pocas personas miran canal cinco // (. Em (20a). o que contrariou nossa hipótese inicial. Algumas considerações sobre os dados Os dados observados revelam que na variedade de espanhol de Montevidéu os objetos Esses dados parecem sugerir que haveria um processo de variação linguística nessa variedade de espanhol. observamos que a retomada do referente por clítico constitui a forma mais recorrente. Por outro lado. A seguir apresentamos algumas considerações e possibilidades de análise.) (20b) ea E: ¿y cómo afecta eso t u tar tarea ea? ¿afecta en algo? I: <tiempo = “6:00”/> a veces Ø afecta en la labor en el aspecto de que no tenemos totalmente una / una resolución (…) Os dados que apresentamos constituem algumas ocorrências de realização do objeto pronominal acusativo de 3ª pessoa por clítico e objeto nulo encontrados nas entrevistas analisadas. .ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 41 Nos enunciados em (19) e (20) os objetos nulos têm como referente um sintagma nominal [+determinado. nossa hipótese é de que haveria uma coexistência de gramáticas (CHOMSKY. ocorre variação entre o clítico e o objeto nulo.. em que o sintagma nominal antecedente é encabeçado por determinante. +específico]. sendo que em (19) o sintagma é encabeçado por quantificador... (19a) I: (. a que me quedé sin 4.) yo ya me quebré el año pasado un pie / no fue acá pero / pero quedé E: ¿dónde fue? / ¿qué te pasó? I: y yo me Ø quebré en la Intendencia / (.. +/-específico]. -específico]. contextos nos quais esperávamos encontrar apenas clíticos. nulos seriam possíveis não apenas com referente [determinado. A partir disso..

p. Angela (1997): Manual de gramática del español. n. A análise quantitativa revelará os contextos linguísticos que favorecem o clítico e o objeto nulo e a análise das diferentes faixas etárias poderá indicar se se trata de uma variação estável. Cultura y Deporte/ ABH. Referências bibliográficas _____. Carlos (SP): Claraluz. 17. 1317-1391. Lívia de Freitas (orgs. _____. p. Fátima Cabral (org. (1998): Pero ¿qué gramática es ésta? Los sujetos pronominales y los clíticos en la interlengua de brasileños adultos aprendices de Español/LE. Campinas (SP): UNICAMP. 1993. _____. 53-70. Trad. Charlotte (1993): O enfraquecimento da concordância no português brasileiro. CHOMSKY. GONZÁLEZ. (2005): Quantas caras tem a transferência? Os clíticos no processo de aquisição/aprendizagem do Espanhol/Língua Estrangeira. p. 387-408. LIGHTFOOT. Formas y distribuciones. FERNÁNDEZ SORIANO. Madrid: Espasa. Editora da Unicamp. Brasília: Ministerio de Educación. Ignacio & DEMONTE. Madrid: Espasa.): Português brasileiro: uma viagem diacrônica.): Gramática Descriptiva de la Lengua Española. GALVES. ao contrário do que ocorreu no português brasileiro (cf. (2001): La expresión de la persona en la producción CAMPOS. Campinas – SP.): Gramática Descriptiva de la Lengua Española. Editora da Unicamp. 243-263. Em: RILCE: 14. Por alguma razão essa variedade do espanhol teria passado a permitir objetos nulos com referentes [+determinados]. Tese de doutorado. DI TULLIO. Ian & KATO. Em: BOSQUE.2: Español como lengua extranjera: investigación y docencia. Os pronomes pessoais na aquisição/ aprendizagem do espanhol por brasileiros adultos. Em: BRUNO. 2001). André Luiz G. (1999): O Programa Minimalista. n. Noam (1981): Lectures on Governing and Binding. Entretanto.42 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 1999. Dordrecht: Foris. Buenos Aires: Edicial. E. DL/FFLCH/USP. p.): Ensino-Aprendizagem de Línguas Estrangeiras: reflexão e prática. 239256. as ocorrências de clíticos revelam que a ampliação na possibilidade de objetos nulos não estaria relacionada à perda do clítico. 163-176. GALVES. ________ (2001): Ensaios sobre as gramáticas do português. p. 354-359. Ignacio & DEMONTE. FERNÁNDEZ-ORDÓÑEZ. Pamplona: Universidad de Navarra. Olga (1999): El pronombre personal. Neide Therezinha Maia (1994): Cadê o pronome? O gato comeu. Inés (1999): Leísmo. Em: Estudos Lingüísticos XXXIII. v. _____. Nossa ideia seria considerar a gramática que permite objetos nulos em contextos mais amplos como uma pista sobre a possibilidade dessa categoria vazia nas línguas naturais e a gramática dos objetos nulos restringidos como base para a análise da gramática não nativa. publicado em forma de CD Rom. 1209-1273. Neste momento estamos investigando a natureza dessas categorias vazias. . inédita. 1999) nessa variedade da língua. (2003): Lugares de interpretação do fenômeno da aquisição de línguas estrangeiras. São Paulo. 36. Violeta (orgs. Campinas – SP. 1. (1999): Sobre a aquisição de clíticos do espanhol por falantes nativos do português. S. Em: ROBERTS. Em: BOSQUE. sendo uma gramática a que permite o clítico e a outra a que possibilita o objeto nulo em contextos mais amplos. Lisboa: Caminho. Mary (orgs.): Hispanismo 2000. Campinas: UNICAMP/IEL. p. Hector (1986): Indefinite object drop. Em: TROUCHE. _____. Violeta (orgs. Em: Linguistic Inquiry. laísmo y loísmo . Em: Cadernos de Estudos Lingüísticos. _____. Raposo. p. p. Pronombres átonos y tónicos. & REIS. de español lengua extranjera de estudiantes brasileños: perspectivas de análisis.

LACA. Brenda (1999): Presencia y ausencia de determinante. Acquisition. esses elementos determinariam a referência de um sintagma nominal por terem como característica semântica a definitude.): Gramática Descriptiva de la Lengua Española. que. Ignacio & DEMONTE. practice and acquisition. Dra. Cardoso. Violeta (org.uy/academiadeletras/MarcoPrincipal. p. Madrid: Espasa. Para o desenvolvimento dessa pesquisa contamos com uma bolsa do CNPq. Juana Muñoz (1996): La adquisición de las lenguas segundas y la gramática universal. _____. Malden. Tese de Doutorado. Papers from the 6th Hispanic Linguistics Symposium and the 5th Conference on the Acquisition of Spanish and Portuguese. (1997): The now and then of L2 growing pains. ________ (2003): Monosyllabic place-holders in early child language and the L1/L2 ‘Fundamental Difference Hypothesis’. Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Paula & PIÑEROS. 258-283. Mirta (1997): Pronomes pessoais no português do Brasil e no espanhol do Uruguai . Uriel. 4 Nos baseamos na classificação de Leonetti (1999) para distinguir determinantes e quantificadores. São Paulo. o que não implica que esse referente seja conhecido. change. Em: BOSQUE. São Paulo: Parábola Editorial. Mass: Blackwell. Carolina R. Conforme esse autor (LEONETTI. LABOV. Views on the acquisition and use of a second language. Madrid: Síntesis. Assim. Marwin (2006): Fundamentos empíricos para uma teoria da mudança lingüística. Mass. Em: EUROSLA ’97. esses seriam os numerais e os determinantes indefinidos.gub. Trad. por carecerem de definitude. Manuel (1990): El artículo y la referencia. Amsterdam: John Benjamins. Yves: Romance linguistics: Theory and acquisition. _____. de Marcos Bagno. Somerville. LICERAS. LIGHTFOOT. Proceedings. 317350.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 43 GROPPI. Quanto aos quantificadores. seriam determinantes o artigo definido. p. mas não identificam um referente.htm. LABOV. Barcelona: Universitat Pompeu Fabra. As entrevistas analisadas da variedade de espanhol de Montevidéu estão disponíveis em http:// www. Madrid: Taurus. os demonstrativos e os possessivos. 1999). William. _____. . LEONETTI. de Marcos Bagno. apenas quantificam. São Paulo: Parábola. processo n° 146998/ 2010-3. p. Neide Therezinha Maia González pelo Programa de Pós-Graduação em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-Americana da Faculdade de Filosofia. and e volution . Carlos Eduardo: Theory. HERZOG.mec. 65-85. WEINREICH. Notas 1 Nossa pesquisa de doutorado está sendo desenvolvida sob a orientação da Profa. (2002): Spanish L1/L2 crossroads: can we get there from here? Em: PÉREZ-LEROUX. 2002. Marta Pereira Scherre. FFLCH-USP. Isso significa que identificam um referente. Ana Teresa. (1999): Los determinantes. Em: KEMPCHINSKY. Trad. 2 3 Exemplos extraídos e adaptados de Groppi (1997:93). p. ROBERGE. William (2008): Padrões Sociolinguísticos. 891-928. Madrid: Arco Libros.: Cascadilla Press. David (1999): The development of language.

(4) Lucas quiere el coche más rápido del mercado. ainda que desconhecido pelo falante. 6 Os informantes das entrevistas foram divididos em quatro diferentes faixas etárias. um sintagma [+definido] não significa que seja [+referencial] e um [-definido] não seria necessariamente [referencial]. Assim. sendo elas. o sintagma nominal un yate em (3) seria considerado [+específico] por referir-se a um objeto determinado. a ausência de determinante implica que o sintagma seja [-referencial]. 7 Apesar de classificarmos un(os)/una(s) como quantificadores. de modo que o SN será [+específico] apenas se fizer referência a um objeto determinado. Contudo. que. (1) Óscar quiere ver una película. Assim. consideramos que um sintagma nominal encabeçado por esse quantificador pode ter um referente identificável e ser [+específico]. . Por outro lado. em (1) ‘una película’ será [+específico] se tiver o sentido de (2). 19 a 29 anos.44 5 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Consideramos especificidade com base em critérios lógicos (LEONETTI. (3) Ernesto quiere comprarse un yate. 46 a 59 anos e 60 a 89 anos. De acordo com Leonetti (1999). 1990). se a especificidade for vista a partir de critérios psicológicos. careceriam de definitude. embora não se possa identificar um referente. conforme Leonetti (1999). 30 a 45 anos. (2) Hay una película que Óscar quiere ver. um sintagma determinado como em (4) teria uma referencialidade enfraquecida.

a partir de la lectura de dos realidades epistémicas (el feminismo ilustrado y la literatura neomoderna) que en ellas convergen y que dan cuenta de la particular significancia del género en esta clase específica de comunicación. cultural y económica que protagonizara España desde la transición a la democracia en adelante debe una parte de su desarrollo a las intervenciones. pasando de un estado de carestía de los derechos de ciudadanía a la adquisición de un cúmulo de reivindicaciones que lograron sacarla de la “minoría de edad legal” (Romero Pérez. del movimiento feminista de la década del setenta. en los . en contraste con la considerablemnte mayor atención que reciben los autores que escriben en prensa y el género del articulismo literario como fenómeno de hibridez (análisis en los que no se toman en cuenta las significaciones que el género sexual comporta en ellos). se distinguen dos tendencias bien delimitadas. y que por por entonces era llamado “movimiento de liberación de la mujer” (León Hernández. La organización de grupos politizados de mujeres urgía en los setenta y principios de los ochenta y gracias a ellos la situación cívica de la mujer española se modificó de manera radical. p. La modernización social. y para quienes la igualdad de derechos entre el hombre y la mujer no constituía una urgencia en la agenda de cambios por lograr (Martínez Ten et al. privilegió el trabajo de los “grupos de autoconsciencia” .ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 45 EL PENSAMIENTO NEOMODERNO EN LAS COLUMNAS DE ROSA MONTERO Y ROSA REGÁS Adriana Virginia Bonatto Centro Interdisciplinario de Investigaciones en Género (CINIG) / Instituto de Investigaciones en Humanidades y Ciencias Sociales (UNLP . 2011. El primero de ellos. Universidad Nacional de La Plata (UNLP) Teniendo en cuenta el escaso número de estudios que se detienen en particular en el análisis de la columna de “autora”. 2006). 2009). visto además con ojos despectivos tanto por la derecha franquista como por la izquierda que retornaba a la escena política. proponemos aquí un acercamiento a las particularidades del discurso público dirigido de dos autoras españolas. con una presencia menos contundente en la península. en la teoría y en la praxis.340) y de la adquisición de una serie de derechos impensables unos años atrás. que reiteran la gran división del movimiento posterior a Simone de Beuvoir en Francia y en Estados Unidos: el feminismo de la diferencia y el feminismo de la igualdad.escasamente reconocido por la historiografía acerca del periodo mencionado..1 En el ámbito del feminismo teórico.CONICET) Facultad de Humanidades y Ciencias de la Educación (FaHCE).

especialmente fuerte en narrativa.43) y proponen que la única forma de lograr la emancipación es mediante una verdadera y transformadora crítica al androcentrismo. dentro y fuera de España. Las ramificaciones de este pensamiento se extienden al ecofeminismo de Alicia Puleo. La corriente de la diferencia. de autoinstituirse en representante de lo irreductiblemente humano (2006. la negatividad axiológica y la heterogeneidad formal (Navajas.17-19). 2011. p.346-347). en la novela . 1996).2 Desde un punto de partida teórico que considera que el único modo de superar la desigualdad dentro del patriarcado es buscando estrategias de homologación de las mujeres con el sexo-género que detenta el poder. aunque limitado a grupos restringidos de mujeres cultas y lectoras de las nuevas tendencias provenientes del posestructuralismo francés y del psicoanálisis lacaniano (Sendón de León. la autoestima y la solidaridad (Romero Pérez. Herederas del pensamiento filosófico de Simone de Beauvoir. y sus principales impulsoras son Amelia Valcárcel. que en España ha venido impulsando los cambios más contundentes en relación con las políticas de igualdad e inclusión durante las últimas décadas. se contraponen al programa emancipatorio desarrollado por la otra gran corriente. la literatura que se escribe a partir de la década del ochenta pauta el inicio de una nueva modalidad epistémica que se caracteriza por la aserción cognitiva y axiológica y que se aparta progresivamente de la configuración posmoderna. el feminismo de la igualdad cuenta en España con una trayectoria académica definitivamente asentada y reconocida. a la necesidad de las mujeres de participar en lo definido como lo “genéricamente humano” (Amorós. el feminismo de la igualdad. p. así como a la interpelación social y política en torno al cuidado del medioambiente y al uso racional de la tecnología. Desde este punto de vista. abriendo un espacio inédito de reflexión y de acción.344). 2011. 1996.20) y la invención de una metáfora aglutinante que preserve la visión ilusoria de unidad y de desarrollo progresivo es una empresa inconcebible. p. creadora del Feminismo de Estado3 y Celia Amorós. con una proyección teórico política destacada en todo el ámbito español (Romero Pérez. 2006. p. En la situación posmoderna el mundo se percibe como “confuso y declinante” (1996. se presenta como la expresión feminista del posestructuralismo teórico y del posmodernismo artístico: lectoras atentas y críticas del psicoanálisis lacaniano y seguidoras del pensamiento estetizante de Luce Irigaray. al multiculturalismo de Amorós y al islamismo de Rosa Rodríguez Magda. y sin delimitaciones valorativas específicas. retoman sus disquisiciones en torno a la vindicación. 2011. por no haber permitido la emancipación de las mujeres. p. que han producido obras fragmentarias y no conclusivas. p. aspectos en los que encuentran efectos perjudiciales para los grupos femeninos menos favorecidos (Romero Pérez. caracterizada esta última por la indeterminación epistemológica. al cual consideran partícipe de un proyecto inacabado. en cambio. Las feministas de la igualdad hunden sus raíces en el pensamiento ilustrado. movimientos con fuerte sustento filosófico que apuntan a la integración cultural y a la igualdad de los grupos étnicos oprimidos.341). 2011. 4 De acuerdo con Gonzalo Navajas. en sus planteos generales. quien creó en la década del ochenta el Seminario Permanente “Feminismo e Ilustración” en la Universidad Complutense de Madrid.46 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS que se abordaron temáticas como la sexualidad. caracterizado por Gonzalo Navajas como estética neomoderna (Navajas. p.2). p. en la que se revela la impostura masculina de apropiarse fraudulentamente de lo universal. de regreso parcial a los supuestos de una episteme moderna. La recuperación de premisas ilustradas en un contexto posmoderno es comparable al movimiento paralelo en el ámbito literario.45). es decir. se vuelve.

p. como los vencidos de la Guerra Civil. práctica definitivamente consolidada en España. y en que la saturación de la información.183) en la que se experimenta con la posibilidad efectiva de alcanzar modos de conocimiento que rehabilitan la significación del lenguaje y la investigación ética (1996. y ambas también se han mostrado comprometidas con las realidades de las identidades social y culturalmente marginadas.61). p. el cine. experimentación lingüística) y actitudinales (desde el compromiso abierto con causas sociales y políticas hasta el desenfado y la irrisión desconcertantes) con el fin de conectarse con el lector –aquél que fielmente acude a la columna como primer texto a ser leído del periódico (Castellani. En los modos de llevar a cabo el ejercicio persuasivo. 2009)5.151). algunos creen encontrar diferencias sustantivas en las columnas de las escritoras mujeres (Fernández Pérez. En relación con el género columna de autor. 2007. Un yo que se constituye en una suerte de guía de multitudes con resonancias morales fuertes. 1996. en la clase o en la raza y en su constante despegue de los procesos de canonización estandarizada (Huyssen. 2008. El cruce que proponemos entre pensamiento feminista ilustrado y literatura neomoderna nos sirve porque da cuenta del trasfondo cultural y epistémico que sostiene los procesos de construcción de un yo de enunciación femenino con características diferenciales en las columnas literarias Rosa Regás y de Rosa Montero.69). ironía. absurdo. la literatura y la crítica hechos por mujeres y por artistas pertenecientes a minorías.83). p. 2011. los inmigrantes pobres y los niños. la mitigación en las afirmaciones y los juicios de valor mediante el uso de fórmulas indirectas . 2004. p. la escritura periodística de estas autoras configura una voz femenina y un yo de enunciación que se reviste de dos tipos de autoridad: la de escritora y la de mujer. 2007. p. p. Sin haber estado inscriptas oficialmente en ningún movimiento feminista. 2008.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 47 contemporánea a una suerte de “potenciación del yo” (Navajas. p. dan lugar a lo que Huyssen describe como los fenómenos posmodernos de obsolescencia planificada (Huyssen. p. Esta vertiente es además visible especialmente en el arte. Estas características obligan a leer a estas autoras de modo diferencial dentro del vasto universo del articulismo literario. por sobreabundancia y por yuxtaposición acelerada de la oferta cultural y mediática. en su tarea de exploración de la subjetividad basada en el sexo. se ha señalado que el subjetivismo más radical es una de las características que comparten quienes se dedican a esta actividad (Castellani. y Angulo Egea. Entre las características que se enumeran como propias del género femenino en el discurso público dirigido encontramos como predominantes la utilización del discurso cooperativo. que en la mayoría de los casos puede describirse como una prolongación de la escritura literaria: las obras de ficción resultan enriquecidas por las reflexiones diarias o semanales de un yo que afirma en la columna su punto de vista más personal y que en ella se toma todas las libertades retóricas (persuasión. en las estrategias que se despliegan y en el tipo de diálogo que se establece con el lector. como recurso para atraer la atención del interlocutor y comprometerlo en el tema tratado (Fernández Pérez. Nos interesa demostrar cómo en un mundo en que los valores dominantes son los impuestos por el mercado y la competencia. 2008. de manera mucho más marcada que en la literatura de invención. ambas han reflejado en sus relatos y novelas aspectos relacionados con la realidad desigual de la mujer y con la problemática de los juegos de poder que subyacen a las relaciones entre los sexos.65). Angulo Egea y León Gross.68)– en un tipo de comunicación en la que la persuasión pareciera constituir el objetivo primero y último. 2007.244). sátira. situación que no deja de lado la visión que muchos autores aducen de sus textos como ejercicios literarios (Grohman.

la pormenorización descriptiva antes que la jerarquización (Fernández Pérez. directo y desencantado (Villar Hernández. pérdida de tono muscular. En las columnas de Regás y Montero se observa con fuerza el trasfondo de un tipo de pensamiento que superador de las premisas de la configuración posmoderna. 2011. dificultades de aprendizaje. enfermos terminales. como así tampoco ocurre con la opción a una voz dictatorial o de autoridad como exclusiva del perfil masculino: como intentaremos demostrar. en límites . mujeres golpeadas. p. 2011. 2009. Es el caso de José María Hernández. pueblos africanos.304). demencia y muerte. r e lat os histo de fro nte de vida. con un fuerte componente crítico. nunca está ausente. A veces sí que existen medicamentos nuevos. además. Desde nuestro punto de vista. p.48 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS o de la ironía (Fernández Pérez. re latos so brecogedores d e pa dr es c onmo vedores y ob de ad re co ov gue r r e r os q ue l uc han p or e l fu t ur od es us hi jos guer que luc uchan po el fut uro de sus hijos en e lb o r d e mismo d e la oscur ida d. p. 2007. q ue sólo enf nfe meda dad de Pr imer Mund undo que af e c tan al 10% d e la p obl a ción d e l plane ta. fe de po ación de planeta. la no conclusividad y la ausencia de valoraciones específicas. las apreciaciones afectivas con un uso considerable del diminutivo y de la hipérbole (Fernández Pérez. el uso del dialogismo o de la “retórica del consenso” como soporte para la cooperación en una estructura comunicativa igualitaria no es característica sólo de la columna femenina. con la terrible enfermedad de Niemann-Pick en su versión precoz y más brutal. e n los límit es el bo de oscurida idad. como etiqueta que. suele subrayarse la captatio benevolentiae y la mitigación de las mujeres opuestas a un “yo dictatorial” y “agresivo” (Castellani. En general. su estilo fue progresivamente adaptándose al ritmo de las ideas de compromiso y de conciencia social hasta transformarse su voz en las últimas décadas en una perfecta mediadora encargada de elevar a rango público las voces silenciadas de los colectivos marginados (inmigrantes pobres. la preferencia por el tono testimonial y confesional. p. declive intelectual. En contra de la fragmentación.2 y Angulo Egea y León Gross. 2007. la búsqueda de la identificación. p. 2011. pero las rutinas sanitarias impiden la distribución de los mismos a personas desesperadas que ya no tienen tiempo que perder. (…) S o n hist o r ias d e la fr o nt era d e la v ida. Abocada a una escritura que en un principio privilegiaba el componente lúdico y el comentario inesperado. no obstante.67).66). p. nt r as q ue e l 90% d e los e nf e r mos r estant es mie restant estantes mient ntr que el de enf nfe sólo disp o nían d e un 10% d e los r e cur sos. Anabel. La participación de Rosa Montero en la sección de columnas de El País se remonta a los inicios de este periódico en 1976. 2007.59) y la proyección de “un ethos empático y situado entre los ciudadanos de a pie” (Angulo Egea y León Gross. legitima un saber y un pensamiento específicos en los que la problemática de género. el 90% d e la fo de ig a ción sanitar ia m undial se c e nt r aba e n in v est inv estig iga sanitaria mundial ce ntr en las e nf e r me da d es d el P r ime r M und o. en las columnas de Rosa Montero y de Rosa Regás se combinan ambos estilos y en este sentido pueden leerse como textos abocados a una construcción de imagen que cruza la expresividad femenina. como veremos en los ejemplos citados a continuación: S e g ú n dec í a el i n f or m e . ubicada en un punto de mediación igualitaria con el otro . en el vasto espacio de la palabra pública. que tiene una hija. lo que implica convulsiones. con la autoridad de la voz de escritora. y que guarda al mismo tiempo una indiscutible orientación axiológica. 2008.35) que les permite lograr una identificación exitosa con el lector. entonces.69) en las columnas firmadas por voces masculinas. p. ambas escritoras apuntan de manera programática a la preser vación de una instancia narrativa o enunciadora que recupera su posición de autoridad y de saber ante el lector a partir de la transfiguración subjetiva de las experiencias o de los hechos argumentados.36). irónico y reivindicativo (Angulo Egea. (…) dispo de de re cursos. p. etcéctera). En las columnas es claramente visible la construcción de un proyecto individual asertivo que continúa y completa el desplegado en las obras de creación literaria y que formaría parte de la episteme neomoderna. El lenguaje es sencillo y coloquial.

razones distintas (discapacidad intelectual. de tal modo que se tiene la impresión de que la lucha contra la pobreza. (…). En contraposición a una narrativa que en sus cuentos y novelas privilegia el universo de la intimidad y la exploración de las complejidades internas de los personajes (Benson. De héroes y heroínas tenaces y discretos con los que convivimos sin apenas darnos cuenta de que están iosame nt e no a d v e r t imos q ue ahí. y que señala injusticias y olvidos históricos. Est o y hab land o d e la di v e r sida d te arnos. el subrayado es nuestro).ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 49 d e lo p osib le y d e lo r az o nab le. La hospitalizaron el miércoles por una cesárea de urgencia a causa de una complicación llamada preclampsia. ya fuera porque su amor se había acabado o incluso porque recibía constantes malos tratos. (…) (“Una vida que merezca ser llamada vida”. Hoy voy a hablar de un puñado de guerreros. D e he ch o . inició tardíamente su actividad columnista primero en El País. el subrayado es nuestro). (“Pobreza cero”. tenía que ir armada de la venia marital. (…). y luego con una columna dominical que aún continúa en El Correo de Bilbao. 2006). y Liliana tuvo que volver a ser operada el sábado. de aquellas personas que. La justicia no protegía nunca a la mujer y la religión le aconsejaba paciencia. vive en Madrid. libr ando en puer de enfr nfre nte. la prosa del articulismo de Regás se revela con un tipo de autoridad que no deja dudas acerca de la legitimidad del saber de quien enuncia: […]El mundo divide de un plumazo el comportamiento del ciudadano y el de sus gobiernos. para hacer denuncia política y social. (…) Me pregunto. por funcional. el subrayado es nuestro). se asemejaba mucho más a una situación de esclavitud. colombiana. Esto habland lando de div sidad funcio nal. desde la ciudadanía. por su parte. pero resulta que ayer una lectora. lo importante es mantener la familia unida». la única que puede forzar a que algún día lleguen a buen fin las decisiones que los gobiernos toman de vez en cuando para acabar con la pobreza en un plazo determinado (que hasta hoy nunca se ha cumplido). parálisis musculares o cerebrales. (…) . es decir. (“Guerreros en el posib osible de raz azo nable. si la ciega burocracia que defiende como perro cancerbero nuestros privilegios podría dejar de ser tan ciega. ha c e mos t o d o lo p osib le p o r no hec o. Esto ocurría en las clases sociales llamadas ‘elevadas’ porque la falta de libertad. […] p e r o cur curiosame iosament nte ad que ha y batal las m uc ho más g r andiosas y difíciles hay batallas muc ucho gr q ue se están lib r and o e n la pue r ta d e e nfr e nt e. en fin. hac to posib osible po en t e r ar nos. (…). filo de la oscuridad”. están de alguna manera limitadas en su funcionamiento. el subrayado es nuestro) Rosa Regás. El País 13/11/2011. (“Clamores”. como si la pobreza no tuviera nada que ver con sus Ef e c t i v ame nt e: la p o b r eza d el m und o decisiones. 2006). Cristina. Un país donde una mujer se quedaba sin hijos si osaba separarse de su marido. Madre y niño están en cuidados intensivos. pues. la historia pura y dura: Liliana. El País 30/10/2011. con el fin de llevar a cabo una suerte de misión pedagógica que instruye acerca de los deberes cívicos y humanos. El País 13/09/2011. y ha entrado en este espacio por derecho propio y sin florituras estilísticas. «aguanta hija mía aguanta. Pues yo hoy tenía preparado un artículo muy elaborado y algo sarcástico sobre el disparate de los recortes a los profesores. Y ese chillido se abrió paso y exigió su lugar. Regás utiliza la columna como medio Nací en un país y en una época en que para abrir una cuenta corriente donde ingresar el primer sueldo de mi primer trabajo.Ef Efe ament nte: po de mund undo es fr uto d e las p olít icas ne olib e r ales d e est os fru de polít olíticas neolib olibe de estos países y los ci uda danos r esp o nsab les q ue q uie ren ciuda udadanos resp espo nsables que quie uier a cabar c on e l la sab en q ue no disp o ne n d e más co el sabe que dispo nen de ar ma q ue una p ro t esta q ue ha d e mo vers e rm que pr te que de ov ne c esar iame nt ee n la ar e na p olít ica nec esariame iament nte en are polít olítica ica. que viven pendientes de otros asuntos. el trato despótico y sobre todo el olvido a que la justicia sometía a quienes vivían en condiciones infinitamente más precarias. Esta es. El Correo de Bilbao 28/10/ 2007. etcétera). en 1994. me contó una de esas historias modestas y urgentes que son como un chillido. Con una retórica que no echa mano ni de máscaras ni de ambigüedades identitarias (Benson. La madre de Liliana vive en Medellín y aún no ha podido ni siquiera escuchar la voz de su hija. es casi nada en comparación con las políticas que llevan a cabo los gobiernos de los países ricos.

por pon e r sólo d os ej e mplos. nser de Tie ier que hemos re cibid ido d e los ríos y d e los mar es de mares es. y tamb ién juzg uzga po el homb mbr cav nícola. re po eje jemplo a los inmig r ant es. La capacidad de introducir y de vindicar la voz del otro. los medios profesionales y materiales para incrementar la eficacia de los bre programas y el interés de los alumnos. Universidad de la Laguna / SLCS. (…). o aquello que Montero denomina “chillido” (“Clamores”. Estas columnas se articulan. s o b r e n u e s t r o p a p e l e n ex te or en c o nflic t os b r u tales c o mo e l Sáhar a o P alest ina. Madrid: Ediciones Cátedra. Id eas so sob p o l í ti c a e xt erio r. (…). p. asist imos a dest este ya dicta tad ura. c o mo dig na d soe el tr dicional. Referencias bibliográficas AMORÓS. Id eas so sob just usticia. Quisiéramos un debate de ideas sobre qué entienden por cultura. Celia. alabanzas de la propia gestión y hundimiento de la del contrario. y contraponiéndose a la vertiente del pensamiento y la literatura feminista en los que se pone el acento en las diferencias y en lo particular produciendo retóricamente el efecto de una diseminación y pulverización del sujeto constituyente (Femenías. sino sobre las ideas? (…). (…) (“Día de la mujer”. el fomento de la dignidad y autoridad de los maestros. no sobre lo que nos dan o nos van a dar. el subrayado es nuestro). 13/09/2011) de aquel que no puede hacerse escuchar porque no parece poder acceder a marcos institucionales que hagan su voz inteligible y traducible a demandas legislativas de primer orden.Pero ¿no echamos de menos un debate. Ideas sobre lo que ha de ser la educación. la defensa de los derechos del animal y el cuidado del ecosistema) puede cumplir con el proyecto ilustrado de emancipación humana. además de lucirse en los estrenos y las exposiciones y conseguir que los medios hablen durante dos días de tan grandes bre j ust icia. En: Actas del I Congreso Internacional Latina de Comunicación Social. nflict br co el Sáhara Palest alestina. sino el siglo XX por miseria pura y dura y anhelo de labrarnos una vida más digna. (2006): La gran diferencia y sus pequeñas consecuencias… para las luchas de las mujeres . r e f e r ida p or e je mplo éxitos. ANGULO EGEA. I d eas so b r e la dictat tato de su pr histo Id sob c o nse r v a ción d e la T ie rra q ue he mos r e cib id o. El Correo de Bilbao 17/02/2008).y lo único que oímos son promesas de cuantiosos regalos. En conclusión.50 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS n un país […]. co digna de críticas le v an p or d e lant e q ue o f e nd en s u dig nida d y se l de lante of nde su dignida nidad lle lev po la d e q uie n las e mit e . también e crít icas so e c es por e lt r a dicio nal. Po r q ue inc incl que vi en l uso los q ue v i v imos e q ue ha d est er r ado y a la dic ta d ur a. 2000. asistimos una c o nstant e discr imina ción d e la m uje r q ue co nstante discrimina iminación de muje ujer que es j uzg a da p or e l ho mb r e ca v e r níc ola. igualdad con el otro que padece pero de autoridad con el lector que lee el periódico. políticas y éticas que deben ser puntualizadas por la voz autorizada de la escritora que se ubica en relación de . en cambio. El País. con proyectos de leyes que impidan descalabrar más aún el paisaje de nuestras costas. t e nie nd oe n la me mo r ia y e n inmigr antes. El de quie uien emit mite Correo de Bilbao 06/03/2011. las columnas de opinión de estas autoras pueden leerse como un modo particular de mediar en el complejo mundo de la voz pública a partir de la convicción de que aquello de lo que se argumenta responde a urgencias sociales. (“Ideas”. con la vertiente del feminismo de la igualdad como referente teórico que entiende que sólo mediante el reconocimiento de una razón crítica la lucha por la igualdad de las mujeres (ampliada a la reivindicación de las minorías. revelando así una apropiación asertiva de la capacidad argumentativa racional del yo.110). te niend ndo en memo mor en la e xp e r ie ncia las v e c es q ue lo fuimos nosot r os exp xpe iencia ve que nosotr en e l sig lo X X y no sólo por razones políticas. supone la utilización de la cualidad tradicionalmente femenina de ‘mediadora’ pero desde un lugar lo suficientemente alejado del margen como para imponer ideas y generar la toma de conciencia. o id eas q ue er do em de qu j ust ifiq ue np or q ué d e f e nd e mos países carg a d os ustifiq ifique uen po qué de nde carga d e ult r ajes a los D e r e c hos H umanos y nos ultr De Humanos ale j amos d e ot r os q ue int e ntan camb iar e l cur so alej de otr que inte cambiar el curso dic tat o r ial d e s u p r o pia hist o r ia. en consonancia con la línea neomoderna. María (2009): Las mujeres en el periodismo literario: tres casos paradigmáticos. Está por comenzar la batalla electoral -de hecho este periodo preelectoral que vivimos ya es pura campaña.

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de la Democracia Paritaria. Carmen de Burgos. y de los planteamientos en torno a la creación de un espacio simbólico alternativo al patriarcado por medio del arte y de los medios de comunicación. Carmen Rigalt. Rosa Montero. la dispersión tentadora y cumulativa del posmodernismo” (Gracia.52 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS ANGULO EGEA. que asegura cupos para mujeres en los cargos políticos. por ejemplo. Josefina Carabias. María y LEÓN GROSS. Concha Espina. p. Carmen Martín Gaite. Si bien hay quienes incluyen este movimiento de la literatura hacia la narratividad y hacia la recuperación de un yo coherente y unitario en las filas de un posmodernismo estético menos experimental. p. entre otras. las representantes de esta corriente han interpelado el espacio político mediante propuestas concretas y guiadas de cambio. del aborto inducido en 1985. Teodoro (dirs. 2011. en general. al derecho al divorcio en 1981. . Elvira Lindo. y candidaturas a cargos políticos que modificaron el escenario de posibilidades durante la democracia. Notas 1 Nos referimos. 2000c. por parte de Victoria Sendón de León (Cf. 220). Carmen Rico Godoy. además. todos promulgados gracias a la Constitución de 1978. Diez mujeres esenciales en la historia del articulismo español . con restricciones. Romero Pérez. 2011 y Sendón de León. 5 Las escritoras analizadas por los estudios citados son Magda Donato. como fue el caso de la candidatura de Lidia Falcón al Parlamento europeo en 1999. Clara Sánchez.18) 3 4 Impulsora. Maruja Torres.): Artículo femenino singular. 2 Desde una perspectiva basada en la reivindicación de lo específicamente femenino y en la revalorización de las relaciones matrilineales. p. 299-327. Cádiz: Ediciones APM. el del uso de anticonceptivos en 1983 y la legalización. Jordi Gracia anota acertadamente que las variables terminológicas apuntan a un mismo fin: “identificar una defensa de valores que no han caído abatidos por la aguda conciencia relativista del desconstruccionsimo ni. Gabriela Wiener.

tal como lo indica Malagón (2010). En palabras de Merewether: violencia en cinco obras de Salcedo a partir de dos ejes: las condiciones de producción de la obra y su situación de enunciación. el proyecto estético de Salcedo se basa en el convencimiento de que. su modalización. mientras que en el caso de Salcedo se hace como realidad ausente. esto con el ánimo de develar los vestigios de las voces del individuo. la obra de la escultora colombiana Doris Salcedo. espacialización y focalización. una serie de meditaciones acerca del tema de la violencia. De acuerdo con lo anterior. párr. para articular una conciencia ética. sentidos que toman forma en una multiplicidad de discursos a partir de los cuales es posible determinar las relaciones de poder en un contexto social. el arte debe dirigirse a la representación como tema político. presentaban el cuerpo como escenario de agresión. la obra de Salcedo se Doris Salcedo ha producido. La no representación física hace que la focalización se aleje de cierto sensacionalismo que se produce cuando el primer plano presenta la atrocidad y el desgarro físico. el propósito de este trabajo es analizar el proceso enunciativo de la . sf.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 53 FORMAS DE ENUNCIAR LA VIOLENCIA EN LA OBRA DE DORIS SAL CEDO1 SALCEDO Alexander Castillo Morales Instituto Caro y Cuervo Adriana Yamile Suárez Reina Universidad Libre El fenómeno de la violencia hace parte de la cognición social por lo cual este se considera como un producto de interacciones personales que hacen posible toda una red de sentidos vinculados en la semiosis social. Uno de esos discursos es el artístico. es decir. esta última entendida desde la perspectiva teórica de Ramírez (2008) como el proceso de actualización del lenguaje artístico en la puesta en escena de la obra misma. a través de sus esculturas y montajes. así como también sus tácticas y estrategias. la sociedad y la cultura que se entretejen a través de una manifestación estética.1) articula a través de la idea de evocación la cual permite una manera diferente de tratamiento del cuerpo humano. particularmente en el caso que aquí nos ocupa. (MEREWETHER. puesto que en su decir estético se tematiza constantemente la violencia y se hace una aproximación a esta desde el arte político. Artistas anteriores. La evocación del cuerpo ausente En su decir artístico. En respuesta a la experiencia de vivir en un país sujeto a la violencia indiscriminada y al terrorismo.

De esa manera. desde la perspectiva de las víctimas. Quizá alrededor de lo que implica la cama de hospital se circunscriban muchos sentimientos y deseos de curación. La imagen presentada por Salcedo configura y clama por un lector inquisitivo que por lo menos deje la pasividad acostumbrada. sino desde la evocación y comporta la capacidad para sugerir múltiples lecturas. el material es metálico. La espacialización como presentación del dolor. No crea la idea de una presencia humana próxima. De ese modo. propio para la construcción. la desfuncionalización y la resemantización van más allá de la esfera formal y se convierten en idea sensible. según el ámbito del que proviene. es frialdad y en sí mismo genera distancia. fría y de paso. herida o arma. pasividad que ha permitido que en Colombia la violencia y sus diferentes formas se naturalicen y se acepten como parte del destino. el tiempo de los hechos violentos es evocado como cotidianidad doméstica cuyo ritual ha sido fracturado y puesto en suspenso. El espectador queda enfrentado a una construcción que ha de generarle extrañamiento y preguntas. la violencia no se aborda desde la figuración. Así. No es el modo invasivo del medio de comunicación que presenta e induce una idea. Para Malagón. clama por espectadores que no sean meros turistas culturales y que se involucren con los sentimientos y el sufrimiento de quienes viven en carne propia el conflicto. Allí el cuerpo humano no aparece de forma directa. pero también debe pensarse en la idea de muerte. Para el caso de la obra Sin título 1987. Las personas que interactúan con el ser cama o el ser andamio lo hacen desde una perspectiva funcional. atravesadas por varillas de . la evocación desde lo hospitalario o de salud hace pensar en la idea de curación. 1988-1989 (Camisas almidonadas) se presentan pilas de camisas muy bien dobladas y enyesadas. los trozos desechados (enfermos) de las camas de hospital se complementaban con las secciones de andamio. En Sin título . y que por efecto de la repetición y el desgaste termina volviéndose corriente y cotidiano. No se alude al espectador desde la presentación de una imagen que a primera vista le resulte “cotidiana”: gesto de dolor. indiferencia u olvido. pero por otra parte puede ser más en el sentido de enfermedad. Los andamios no generan más afecto que el necesario para ensamblarlos y ponerlos para trabajar. Algo así como una arqueología de la desmemoria e indiferencia sobre nuestra enferma y perversa realidad. La nueva estructura entremezcla de manera paradójica las nociones de enfermedad y construcción como referencia y como sentido profundo. En ambas estructuras originales. Así mismo. De ese modo. el dolor y el sufrimiento como centro de los procesos de construcción nacional. Así que más que la evocación de un cuerpo se evoca una actitud. Por eso se ha dicho que puede ser un objeto que evoca las nociones de construcción y enfermedad de manera simultánea. la conexión con los sucesos violentos o con la realidad nacional depende del lugar en donde se presente la obra. se conjugaban partes de camas de hospital desechadas con un andamio metálico para construcción. cadáver. tal como se ha dicho anteriormente.54 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Aquí se alude a la idea de sufrimiento. cuya referencia es la enfermedad. imaginario y opinión sobre algún hecho o evento. pues se evoca en su sentido de tránsito. más bien lo que hace es crear un objeto cuya constitución evoca un espíritu minimalista centrado en una idea que sustenta su significado en la evocación metonímica que tiene cada elemento. El escenario hospitalario funge como un lugar en el cual de acuerdo con la atención prestada se dará el paso a la recuperación o al deceso. Se acude al espectador como un individuo que debe construir alguna interpretación frente a la presencia de la obra que se deja hablar.

y hoy por hoy. De ese modo. de la herida que no sana. en vez de sellar un ciclo. la violencia con que son atravesadas parece invocar una respuesta. del dolor que no es superado y. La violencia amarillista que muchas veces es convocada con fotografías de primer plano y sangre es sustituida por formas sutiles. . Esa herida emocional. La pérdida de un ser querido implica una herida y un duelo para sus familiares. Además. grotescos y fuertes” (citada por GÓMEZ. habla de víctimas cuyo cuerpo aún no se encuentra. pero en este caso el único resto humano es un objeto: los zapatos de mujer. El material de algodón de color blanco de las camisas se presenta limpio y acentúa la referencia a la camisa misma. en donde la afirmación de la identidad se configura como una línea divisoria que se va modificando con los años: racismo. El yeso quita la función de las camisas. Es importante indicar que esta obra se desarrolla como instalación. un tiempo pasado y familiar en donde el quehacer doméstico ha sido roto. Las camisas y los catres como presencia hablan de lo pendiente. hace volver la mirada sobre el sentido de éstas y crea un interrogante ¿por qué? Luego. la focalización de la obra se centra en una construcción metafórica en el cuerpo que no vuelve a la vida doméstica. esto en razón a que uno de los principales elementos definitorios de un grupo busca responder a los interrogantes: ¿Qué lo hace diferente de otro? ¿Cuál es el espacio social que ocupa? Es decir que lo trasversal allí es la noción de división. Algo muy fuerte les ha hecho perder la posibilidad de ser usadas. Por su parte. la seguridad. economía. De acuerdo con esto. Perduran son reconocibles. Se crea un mundo posible en el cual se evocan cuerpos ausentes que no pueden usar la ropa y que se refuerzan en las mallas o “catres” los cuales sirven de personificación para representar el dolor y sufrimiento de los que no están. coloca a la mujer como quien ha hecho dicho oficio para que el esposo se coloque la ropa y vaya a trabajar. El nicho se constituye entonces en una representación del osario en tanto lugar en el cual se guardan los restos humanos a manera de entierro. Atrabiliarios remite a la desaparición violenta y a la ausencia de personas. Este uso de las camisas se ve paralizado por el hecho de que están enyesadas y atravesadas por las varillas de acero. que en un país de corte machista como Colombia. en Atrabiliarios (1993). Por otro lado. este entierro. es decir. el hogar cambia por un hecho violento que lo ha vulnerado.. Salcedo centra su mirada en las fronteras o límites que se le imponen a la alteridad. Entonces. por lo tanto. una herida que está presente. En ese sentido la obra propone una posición crítica y estética frente a las formas de comunicar la violencia. no está sellado con una lápida por lo cual deja ver el objeto en su interior. son fuente de información sobre sus dueños. incluso espiritual queda abierta y requiere ser sanada. párr. Este objeto al ser presentado blanco. planchado y en pilas evoca el estado de potencialidad de uso: la “ropa” está lista para que alguien la use. también el tiempo es invocado. eso significa que la idea de espacio es fundamental. donde la literalidad espectacular se coloca en primer plano. Allí se inserta la cotidianidad doméstica de una familia y en particular del rol femenino. son terriblemente personales. lo cual no implica olvidada. sobre todo desde los medios masivos. del duelo fallido. se es en tanto que diferente a otro. sf. Así. los objetos seleccionados son mínimos y sus posibilidades expresivas y sobre todo comunicativas son máximas. Cabe anotar que el nicho a su vez se cubre con una piel de animal estirada y cocida.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 55 acero. el espectador tiene la posibilidad de transitar por entre la ausencia y la espera de las víctimas de la violencia. es decir. En Shibboleth (2007-2008). 5). Salcedo elige cuidadosamente los nichos en los muros dentro de los cuales se aprecian zapatos de mujer usados. Al respecto Salcedo afirma que: “Cada vez que vemos un acto violento quedan los zapatos.

No se trata de la construcción de un ensamble de mesas. Es el momento en que se está junto al ser querido en el acto ritual de la despedida. Este índice conlleva la rememoración de la violencia como artificio que altera el rito de despedida de la vida. factores políticos e institucionales como la segregación espacial y simbólica. pero de trasfondo se encuentra la irrupción de la muerte pues no se puede acceder a la identificación del ser que allí yace. algo que inició hace mucho tiempo pero no se detiene. La violencia entonces es focalizada en términos de sus aristas dentro de las cuales se encuentran las condiciones de pobreza. Por eso. en Plegaria muda (2008 . sino que al presentarse como un gran conjunto donde la idea de instalación es el marco. duelo y dolor. la desigualdad. la noción de tiempo hace que la obra cobre fuerza en un “aquí y ahora”. de tal modo. No obstante. visibiliza la muerte y pone de manifiesto que la naturaleza -la tierra. Finalmente. Asimismo. la rompe. es gradual. La obra juega entonces con la ambivalencia vida/ muerte en razón a que en apariencia se visibiliza un ciclo natural por los materiales que Salcedo elige. La grieta de Shibboleth traza una línea que aunque perteneciente a la estructura social pocas veces se visibiliza. una obra que se compone por 120 parejas de mesas de color gris con unas dimensiones de aproximadamente 50 centímetros de ancho por dos metros de largo -las mismas dimensiones de un ataúd convencional. el marco que se instaura hace que el espectador establezca una conexión emocional debido a su carga simbólica.se convierte en muerte al combinarse con los cuerpos en tanto que la tierra termina consumiéndolos y. se propone que los espectadores sean “envueltos por su presencia”. esa es una de las características de las instalaciones. la obra atraviesa la galería. La obra es una grieta de 167 metros en el suelo del Tate Modern -situado en el centro de Londres y el cual alberga a los representantes más importantes del arte moderno-. propicia la vida en el nacimiento de nuevos brotes de pasto. al presentarse en dicha galería se evidencia la incursión de discursos de fractura. . el escenario implica lo lúgubre y doloroso. es decir.2010). La distribución de las mesas en el espacio hace que la espacialización sea un factor modal muy importante en el desarrollo de la obra. La enorme cicatriz de Shibboleth marca el discurso de la exclusión como elemento violento. parcelado y mercantilizado. adicionalmente. y esa sensación es a la que se expone el espectador para entrar en los zapatos de quienes han sufrido este tipo de situación. La experiencia como recorrido es muy importante en esta obra. tierra y hierba simplemente. Justamente. El tiempo que se invoca y la focalización misma conducen a la sensación de pérdida. Acciones que tienen una fuerte carga psicológica en los individuos que se enfrentan a esta experiencia. casi como artefacto de fuerte connotación ritual. la penetra.se genera gracias a sus características estructurales. La grieta trasgrede entonces la institución y subvierte los parámetros de un arte canonizado. En tanto grieta posee un potencial simbólico que indica no solamente un daño temporal sino su historia y continuidad. el registro fotográfico es impactante por cuanto cada objeto escultórico tiene bastante fuerza y la idea de muerte genera un choque.56 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS El sentido de la división en Shibboleth enunciado anteriormente.que se disponen una sobre otra de manera invertida y se encuentran unidas por una capa de tierra sobre la cual en algunos casos se perciben formas humanas y se deja ver el crecimiento de pasto. Puede afirmarse que sin que haya la menor información sobre la anécdota que motivó el desarrollo de la obra. protegido de otros a quienes no le pertenece.

483).ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 57 La voz de la violencia Las obras de Salcedo se inscriben en momentos históricos de la realidad nacional cuando “en Colombia. el cual data de 1986 hasta el presente.984 son directamente imputables al conflicto armado. A parte de la desestabilización estatal por cuenta de los factores mencionados. estos 34. Sin embargo. los entramados de narcotraficantes y políticos clientelistas. al tiempo. que se desarrollan los procesos de liberalización de mercado y la Constitución de 1991. masacres.000 muertos en combate y otros 23.978 homicidios totales (excluyendo para el año 2000 las muertes por accidentes de tráfico). se instauran procesos de negociación con las guerrillas. p. 2012. En suma. Al respecto Palacios y Safford dicen: “Los desarrollos legales de la Constitución quedaron en manos de la clase política preconstituyente. pobres en su mayoría. 57 por ciento mujeres y 70 por ciento menores de 18 años. ejecuciones extrajudiciales. aumentó considerablemente después de 1997. desaparición de personas) perpetrados por guerrillas. 2012. p. 478) A este periodo los autores lo denominan “Interregno”. pues la indiferencia y pérdida de memoria sobre la que tematiza salcedo no es sólo el conflicto armado. el exterminio de los miembros de la Unión Patriótica. paramilitares y en mucho menor grado por la fuerza pública. 514) Es así como la violencia ha tomado un papel cada vez más estelar. 2012. 2012. El 65 por ciento en forma familiar o individual y el 35 por ciento restante como éxodo colectivo. los poderes locales de los guerrilleros y de los paramilitares. Aquí no se menciona el narcotráfico.000 muertos representan un 10 por ciento de todos los homicidios cometidos en estos dos decenios. el conflicto armado habría producido unos 11. En el trienio de 1998 – 2000 se registraron en el país 73. el 6 por ciento a la fuerza pública y el 16 por ciento a otros agentes. El 66 por ciento de los refugiados son campesinos. En cuanto a los causantes de esta tragedia. el conflicto armado ha forzado el desplazamiento de un millón y medio de colombianos de sus hogares y vecindarios. el Estado y la política quedaron en vilo ante poderosas fuerzas centrífugas como la globalización.” (PALACIOS Y SAFFORD. p. más aún cuando se ha aumentado la estigmatización frente al disenso y se le formulan señalamientos. sino que se da en términos generales. Consideraciones finales En términos generales se encuentra que los elementos enunciativos de la obra de Salcedo permiten hablar de la violencia como hecho no . (PALACIOS Y SAFFORD. Tampoco se habla de una pérdida de confianza en la justicia y la creciente corrupción. El conflicto está cada vez menos ideologizado y la presencia de intereses económicos es cada vez más prominente. Todas estas son formas de violencia y de inequidad sobre las cuales el interés no es profundizar pero que se deben mencionar. El problema de fondo sigue siendo el mismo desde la fundación de la república: la distancia entre los sueños del constitucionalismo y las prácticas sociales” (PALACIOS Y SAFFORD. en el 43 por ciento de los casos son paramilitares de derecha. de los cuales 12. la guerra abierta con el narcotráfico. seguidos por guerrillas. poco a poco se da una escalada militarista y el desarrollo social nunca se convierte en una realidad. aunque los diferentes actores armados del conflicto tienen de una u otra forma conexiones con el mismo. 514) Resulta imposible evitar el tema pues es parte de la realidad colombiana que continúa ahondándose sin una solución. entendida como las muertes en combate y los homicidios políticos de población civil inerme (asesinatos. por el contrario los aspectos sociales se hacen más dramáticos: Desde 1995. p. Puede ponerse en perspectiva la realidad del conflicto con algunas cifras con las cuales se puede ilustrar la creciente violencia: Entre 1975 y 1995. (PALACIOS Y SAFFORD. a las que se atribuye el 35 por ciento. la incidencia de esta violencia política.000 en episodios de asesinatos y ejecuciones extrajudiciales. Más bien.

En tal caso. Estos deben acercarse al “escenario” que la artista construye y dejarse ir. Bogotá: Universidad de los Andes. el trabajo de Doris Salcedo es importante pues busca mantener fresca la memoria mediante la generación de objetos artísticos que involucren a los espectadores. Recuperado el 22 de julio de 2012. cotidiano y científico. pareciera que este tipo de obras tuviese más impacto en los escenarios especializados que en el público en general (colombiano). País fragmentado.edu. La artista produce obras con el fin de conmover a los espectadores a través de la experiencia que implica el recorrido de sus obras (todas se centran en apropiación espacial). RAMÍREZ. En esa línea. más que un impacto estético. María Margarita (2010) Arte como presencia indéxica. sociedad dividida.edu. Bogotá: Cooperativa editorial Magisterio. De algún modo.) “Testimonio y Violencia”.org. Departamento de arte. Pero también. Luís Alfonso (2008) Comunicación y discurso La perspectiva polifónica en los discursos literario. Facultad de Artes y humanidades. No obstante.co. Sobre esta última afirmación bien valdría la pena profundizar en un futuro. Patricia (sf. Referencias bibliográficas GÓMEZ JARAMILLO. La banalización y la indiferencia son dos frentes de anestesia y de algún modo de protección y acomodamiento. su éxito se registra por fuera de los contextos iniciales y aunque la obra continúa comunicando. de allí que la voz de la violencia sea bastante nítida en su producción. termina presentando a los demás (críticos y espectadores extranjeros) realidades que en buena medida le resultan exóticas y en dónde la fuerza de crítica política no tiene. Nota 1 Este texto es una síntesis de las disquisiciones presentadas en el XXVII Congreso Nacional y I Internacional de Lingüística.banrepcultural. el tipo de lenguaje que en el ámbito artístico tiene gran aceptación y dentro del cual resulta altamente novedoso. Recuperado el día 19 de julio de 2012. porque el acceso a la cultura artística no es una constante en Colombia y por otra. Comunicarse con atención y cuidado con los elementos meticulosamente seleccionados. porque las obras interpelan al espectador y esperan una actitud más dinámica. Ediciones Uniandes.co/mediateca/ artenaturaleza/espanol/arte_tierra/ artetierra_col_tv. no todas las veces resulta atractivo para el público en general.htm PALACIOS. Ediciones Uniandes.unalmed. donde el ritual y lo simbólico son fundamentales. En: banrepcultural. Por lo tanto. La obra de tres artistas colombianos en tiempos de violencia: Beatriz González. Marco & SAFFORD. Charles (sf. En: unalmed. Facultad de Administración.58 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS espectacular. de: http://www. MEREWETHER. Su obra entra en constante diálogo con los discursos de la violencia en Colombia. Literatura y Semiótica de la Universidad Pedagógica y Tecnológica de Colombia. de: http://www.htm#1 MALAGÓN-KURKA. Frank (2012) Historia de Colombia.org/blaavirtual/todaslasartes/ anam/anam27a. quizá.) “ Dor is Salcedo ”. porque para la mayoría se vuelve demasiado cifrado debido a que la artista siguiendo el norte minimalista y la expresividad de los materiales espera que el lector haga ese tipo de lectura. Tunja 2012. pues se connota el cuerpo vulnerado y se evoca el dolor que no acaba de quienes pierden a sus seres queridos. cuando la mayoría se adentra con mayor facilidad a formas claramente narrativas y directas. Bogotá: Universidad de los Andes. . Oscar Muñoz y Doris Salcedo en la década de los noventa.

Del amor y otros demonios. contada por Iturri al narrador-autor. y la última es el relato de la historia de amor propiamente dicha. sino en varias paradas por los distintos continentes. azar que lo lleva a encontrarse con ese viejo barco mercantil en varias ocasiones y no sólo en una escala. ¿Cuál es el juego que propone Mutis al disponer de esa manera la trama? ¿por qué se hace personaje de sus ficciones? ¿cómo lo hace? Hay en esta obra un juego de composición que oscila entre tres relatos. hasta verlo por última vez por el delta del Orinoco.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 59 RELACIÓN AUTOR-PERSONAJE EN LA ÚLTIMA ESCALA DEL TRAMP STEAMER DE ÁLVARO MUTIS Aleyda Gutiérrez Mavesoy PG . El Decamerón. “Como lo que voy a narrar es algo que supe por boca del . otro es el relato de cómo el narrador-autor conoce la historia en su encuentro con Jon Iturri en el Orinoco. no se pierda aquí el encanto. Ahondemos un poco en este concepto.Autor El primer relato funciona como marco de composición de los otros. El marco de composición narrativa es un recurso de la narración ya clásico. desde Las mil y una noches.Lector Narratario . Uno es el relato del narrador autor como testigo de los viajes del tramp steamer . con mi ninguna destreza.Lector Narratario . Álvaro Mutis finge la realidad de lo narrado a través de esta apertura que en sí misma tiene otra apertura dirigida al lector. “Ojala.Jon Iturri Encuentros con el tramp steamer Encuentro con Jon Iturri Historia de amor entre Jon Iturri y Warda Bashur Narratario . Los sufrimientos del joven Werther. la dolorosa y peregrina fascinación de estos amores”.Universidade de São Paulo En La última escala del tramp steamer hay un juego con el azar como presencia recurrente en la vida del narrador-autor. con claves que desde las primeras líneas “Hay muchas maneras de contar esta historia (…)”. Historia 1 Historia 2 Historia 3 Narrador Autor Narrador Autor Narrador . o El corazón de las tinieblas .

ficticia. sería aconsejable intentar. Existen distintas formas del marco de composición. la historia del tramp steamer “Entró de repente en el campo de mi vista. ni advertencias. frente a la experimentación exacerbada después del Nouve romance francés. La figura del autor como personaje. que buscan liberar al lector de las ataduras de la realidad primaria para llevarlo hacia la libertad de la ficción total. Podemos. crea la imagen del autor como elemento fundamental de la ficción que la obra construye. engañado. como en Las Mil y una noches el narrador pasa del relato al relato del relato. Álvaro Mutis no sólo actualiza el marco de composición sino también la importancia del autor como orquestador. en este caso. La simulación continúa a lo largo de todo el texto con los saltos entre una historia y otra. . imaginarlos como túneles por donde el autor lleva de la mano al lector y lo transporta. su vinculación laboral a una multinacional petrolera “Tuve que viajar a Helsinki para asistir a una reunión de expertos en publicaciones internas de las compañías petroleras. Mutis legitima el papel del autor como motor de la narración y señala la necesidad de la vuelta a la sencillez de la forma por la contundencia de la historia. al mismo tiempo. bien como su nombre lo dice -y siguiendo la metáfora de la pintura. a otra.60 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS protagonista” (Mutis. logra hacer figurar como “verdadero” lo que en adelante escribe. pronto se pasa a una historia apócrifa o ficticia. también. bien como el juego de las cajas chinas o de las muñecas rusas.” (314). 2001. sin que el lector tenga tiempo de distinguir entre la primera y la segunda. secundaria. con muy pocas ganas. o aperitivos que despiertan el apetito por la historia principal. le permite a Mutis ubicarse y ubicarnos en el borde del mundo ficcional y del mundo real. 3131). para ello. creador. A nosotros. le indican al lector que el narrador es el mismo autor. Vamos a detenernos un poco en esta idea. (Peña. o bien intercalando en el discurso las dos historias en una especie de espiral. los lectores nos va a contar una historia de amor relacionada con un barco mercantil. 2010. con esa máscara logra fijar la idea de que se basa en un hecho real.” (313). p. o inducciones hipnóticas para que el lector pase sedado al tema central de la obra.la primera historia rodea la historia central como el marco de un cuadro. en verdad. que la historia ocurrió y él la supo de boca del protagonista. atajos y meandros que ni domino ni. p. Esta estrategia narrativa además de crear la ilusión de “verismo”.” (316). Esos “marcos” operan como aperturas narrativas de carácter especial. ahora que la escribo para él –ya que contársela no me ha sido posible–. 292). Considero que. pasando por Tristán e Isolda. desde Príamo y Tisbe hasta Marcel y Albertine. o “prólogos” narrativos. hacerlo de la manera más sencilla y directa para no arriesgarme por caminos. siempre desde la voz del narrador-autor-personaje como deíctico que nos señala dónde hay salto y a cuál historia damos el salto. es así como recurre a un testimonio que simula ser verídico para enganchar definitivamente al lector en esta historia de amor que “algo tienen de las nunca agotadas leyendas que nos han hechizado durante tantos siglos. No podía dar crédito a mis ojos. sin temores. “Por eso he preferido. ya que parte de un hecho biográfico. La simulación empieza por el hecho de que el narrador se hace pasar por el autor. prevenciones. mejor. Todo este juego genera una forma de la verosimilitud y. Iba.” (313). con ello. de una primera realidad que se supone verdadera. ayuda a generar expectativa en el lector por la historia que ha de ser contada en adelante. con el papel de narrador como mediador. con lentitud de saurio malherido. del universo narrativo. pero nunca dice que es el mismo Álvaro Mutis -sólo a lo largo de la historia va enviando datos biográficos que a los conocedores de su vida lleva a asumir que es él mismo-. frente a la supuesta muerte del autor.

en síntesis las formas de actuar del narrador hipostático -autor y personaje al mismo tiempo-. Como en el siguiente esquema de las cajas chinas. han corrido por mi cuenta. porque en el interior de cada historia -a la que llamaremos macro. que acumula información y utiliza la información previa para configurar la trama.Warda Narratario (autor implícito) Narratario (lector implícito) En realidad. con valoraciones sobre lo dicho. Un modelo de esta forma de avanzar el relato en el plano del discurso podría plantearse de la siguiente manera: . Asistimos a la historia de la historia de la historia. reflexiones sobre las emociones y percepciones personales sobre lo narrado. De cierta manera. como se prefiera nombrar a esta forma particular de narrar donde un relato está contenido por otro relato y así sucesivamente. o las muñecas rusas. luego nos cuenta cómo conoció al capitán del barco y finalmente nos cuenta la historia de amor que a su vez le cuenta el capitán del barco. Primer nivel Narrador (autor impl íci to) Segundo Nivel Narrador Tercer nivel (Jon Iturri) Historia Jon . aclaraciones de términos.que hacen avanzar a la narración en una especie de espiral.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 61 primero nos cuenta cómo se encontró con el tramp steamer. nos damos cuenta de que cada historia es una caja china de relatos. la figura más cercana sería de este tipo: Sin embargo. sobre los otros.se desarrollan pequeñas historias -o micro historias. vuelven al lector a la conciencia de quién es el que escribe la historia: “Creo que no sobra advertir a mis lectores que ciertas alusiones museográficas hechas en esta descripción. Iturri mencionó algo como “esas estatuas de mujer que hay en Roma” o “los kouros que hay en Atenas” (344). las intromisiones frecuentes del Narrador-autor en el plano de la narración. si nos detenemos en el hilo del relato. el esquema sería el de cajas chinas.

de reflexionar. la prosa no lo ha liberado de la función de denunciar la otra orilla y. El autor implícito se introduce en el relato como narrador. etc). Entonces. ya que permite establecer nuevos vínculos entre la palabra y el sentido. Esto explica que las acciones que presenta sean mínimas en comparación al copioso discurrir de la conciencia incrédula que se esfuerza por anular la impotencia que resulta de la imposible acumulación del saber. transcriptor de información que le ha sido dada por fuentes orales. considerar al narrador hipostático como el narrador-autor-personaje que establece la narración en distintos niveles de diálogo: como diálogo con el lector. que algo faltó. Ahondemos un poco en estos dos aspectos. 188). por ello. su labor. como la de Sísifo consiste en volcar en palabras la apreciación ético-estética del mundo. diálogo con otros personajes y diálogo entre personajes. Esta propuesta de narrador puede relacionarse con el planteamiento de Michel Onfray (2000) sobre la necesidad de la acción performativa en el uso del lenguaje. por eso el preámbulo y las intromisiones constantes. entre el conjunto de signos posibles es el más tangible a pesar de sus vacilaciones y lagunas. es la característica fundamental de la propuesta de Mutis en La última escala del Tramp Steamer. considera que el lenguaje. pero para mantener su credibilidad se enmascara en: editor de papeles encontrados (cartas. “toda palabra utilizada por alguien.que ha caído en el vacío del significado -abuso de la técnica para lo literario. es un universo entero cuyo destino es un oído. pleno de ausencias y de signos súperalimenticios. por ello la necesidad de explicar. pretende también marcar dos puntos: la imposibilidad de la escritura de captar completamente lo que le ha sido relatado y. p. dar los acentos de retenida emoción que iban creciendo en el relato. saturado de agujeros y de luces. La producción novelística de Mutis en su calidad de poética constituye un discurso difuso. de aclarar y no sólo contar. apuntan a señalar esa misma pérdida. 2008. En las . diarios. de que no dimos en el blanco”. 2000. Al hacer presencia explícita como el escritor de lo narrado. p.62 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Ahora bien. conciencia del papel del escritor como mediador “Tal como aquí la resumo u ordeno. no sólo busca organizar el universo de la narración. justamente por su condición de modelo performativo. sin previsión y sin intención de permanencia. la imposibilidad de comunicar la experiencia como acontecimiento -hacer y padecer en el mundoes vista por Mutis como la carencia fundamental del escritor. no permite. o plantear un juego con el lector. el del otro” (Onfray. y está mediatizada por un mundo. (Laverde. estos juegos del narrador-autorpersonaje llevan al lector a la oscilación entre el relato y la historia con mediación del narrador hipostático. algo de salmodia o cantinela” (350). y sin embargo percibir que la obra se queda corta. manuscritos.a través de la palabra como fundadora del sentido -en su componente dialógico-. desafortunadamente. El autor en varias ocasiones ha declarado que. Cercano a la idea de la necesidad de resemantizar la palabra -en nuestro caso en el universo narrativo. contrario a lo que él pensaba. 212-213). En primer lugar. le sucede lo mismo que con la poesía: “la sensación de insuficiencia. o como testigo directo de los acontecimientos. al mismo tiempo. La manera como el capitán de navío insistía sobre la belleza de Warda Bashur tenía algo de reiterativo.

como . Cada época tiene su condottiere. de Conrad. lo fundamental de este cambio es que el narrador entra a formar parte de esos seres de excepción. simula no tener perspectiva. (…) Estaba en Costa Rica como asesor de prensa de una comisión de técnicos de Toronto que realizaba un estudio para la construcción de un oleoducto. se enmascara para no presentarse directamente. se construye tanto como organizador responsable del relato. Abdul Bashur. la búsqueda de lo selecto. “una auténtica teoría de las pasiones destinada a producir una bella individualidad” (Onfray.en el relato. así. Un par de amigos que había hecho en una accidentada sesión itinerante de alcohol y cabarets de nota más que dudosa. trocando lo inefable. Marlow y Axel Heyst. como los llama Mutis. Se hace personaje. es interesante comprobar la coincidencia en ambos -el condottiere y el narrador de Mutis-. la música. la pintura. alguien que sabe reconocer en los otros la presencia o ausencia de esa condición propuesta en la saga de Maqroll el Gaviero. se me hizo patente la ruinosa condición de este viejo servidor de los mares que.en el universo de su materia narrativa. 2000. la escultura. Construye una nueva mirada sobre la ética del individuo a partir del análisis del arte en sus diferentes manifestaciones. en momentos de incandescencia de una vida cotidiana transformada en vasto campo de experimentación para las agudezas y el momento propicio” (Onfray. (Laverde. por ejemplo. activa una moral del desprecio por los valores burgueses. aparece al principio como preámbulo y le da la voz a Maqroll para qué sea él quien narre y reflexione sobre lo narrado.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 63 primeras novelas: La nieve del Almirante. pues participan de las empresas del mundo sin creer en ellas. la energía como fuerza vital. me había invitado en San José a un paseo en yate por la bahía Nicoya en Punta Arenas. 54) Asimismo. un editor que no aparece como personaje de lo narrado. al comparar a Joseph Conrad con Álvaro Mutis. 189) Michel Onfray (2000) propone la figura del condottiere como una ética de la elegancia. la presencia en Lord Jim de del personaje narrador Marlow coincide con el papel de Maqroll en las novelas del colombiano. emprendía su amarga aventura con una resignación En La última escala del Tramp Steamer da el paso para mostrarse explícitamente como voz y como personaje de la narración. y Tríptico de mar y tierra. pero a la vez. 2008. de la actitud ética de crítica a la modernidad industrial: Con mayor elocuencia que las veces anteriores. es decir. dentro de ese sistema de seres fuera de lo común -en el sentido literal y metafórico. del dandy afirma “jugador desencantado y esteta melancólico. todo ello. el teatro y la literatura. unido a la tragedia. se permite el juego de nuevas “máscaras” con las cuales crea una sensación de mayor “veracidad” -recurrir al dato biográfico. 19). sin ninguna orientación a un fin determinado. como Abdul Bashur y Jon Iturri (protagonista y narrador de La última escala del Tramo Steamer ) forman parte de esa familia espiritual a la que pertenecen el Bolívar de “El último rostro” y Alar el Ilirio de “La muerte del estratega” e. 2000. entonces. caracterizada por la imposición del estilo. por el acto mismo de estar en el mundo. p. Como lo afirma Consuelo Hernández. soñador de navíos. no recuerdo ya desde qué puerto hacia el interior. Ilona llega con la lluvia y Un bel morir . Acepté. se presenta como un recopilador. del instante y el derroche. (317) parte del grupo de los desesperanzados. p. asunto que me suscita una náusea inmediata. a partir de La última escala del tramp steamer se introduce dentro del mundo novelado como autor-personaje. como par. no hay rastro de su manera particular de ver o evaluar el mundo. narrador hipostático. en última instancia. por enésima vez. la grandeza unida a la magnificencia y la prodigalidad. la importancia de lo sublime y la pulsión por el hedonismo. En las obras posteriores: Armirbar . cada época construye su ética de la elegancia. encantado de librarme de la insulsa conversación de mis compañeros de trabajo y de las interminables rememoraciones de sus hazañas en el golf. incluso. desesperanzados. p. Tanto Illona.

Los hombres sólo conseguimos ahora cumplir con la mezquina cuota de venganza que nos imponen otros hombres. la buena compañía. Como autor implícito y personaje testigo de los viajes del tramp steamer hace de sí mismo un escritor que pretende una salida espiritual -estética. Ahora que lo recuerdo. Es así como dentro de la obra se configura como un conocedor de arte. lo ajeno. de tan nuestros. su actitud frente a lo narrado como confirmación de la ética de la desesperanza. Me quedé contemplando cómo se perdía en el horizonte y sentí que una parte de mí mismo se internaba en un viaje sin regreso. Es así como trabaja el olvido. En la obra menciona que su poesía se nutre de los encuentros con seres. Nuestros asuntos. Obediente a las empresas del hombre.” (327). (330) En La última escala del Tramp Steamer el narrador se focaliza y se modaliza a sí mismo dentro de la obra. cuya mezquina desaprensión concedía aún mayor nobleza a ese esfuerzo sin otro premio que el desgaste y el olvido. Nuestro modesto infierno en vida no da para ser materia de la más alta poesía. que se dirigen a la confirmación de una individualidad basada en el viaje como aprendizaje que. (326) De este modo llegamos también al final del análisis. pero que definitivamente no pertenece a ese mundo. De ahí que su imagen se construya a partir de la erudición con evocaciones artísticas explícitas. Poca cosa.y ratifica su condición de artista. lo que sí fue evidente para mí era que de continuar los encuentros. en buena parte de la poesía que he ido dejando por ahí regada en revistas efímeras y en ediciones no menos olvidables. A tal punto me pareció vetusto. (325) el de las soberbias maldiciones con las que los dioses de la Hélade castigaban a los trasgresores de sus designios inmutables. como Jon Iturri. cosmopolita. obsequio de los dioses.64 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS de un buey del Latio sacado de las Geórgicas de Virgilio. están las huellas de esos días.a la degradación del mundo a través de la escritura. golpeado y sumiso. pasan a ser extraños por obra del poder mimético. modelos éticos. en estos tiempos de “mezquina necedad”. pero también conocedor del arte. la cosa hubiera adquirido los síntomas de una persecución mítica. permite ver lo otro. hemos visto cómo el juego de voces entre el narrador-autor y el relator personaje produce un efecto de “realidad” que se afianza en el hecho biográfico introducido en la narración y con lo cual el lector asume un pacto narrativo cuasi “veraz” de la historia que le es contada. la literatura y la filosofía. engañoso y constante del precario presente. con ironía se burla de esa gente y sus preocupaciones. además. Se presenta como un escritor que trabaja en una compañía petrolera. intelectual. como posible sin menoscabo de una actitud ética individual: la lucidez. Concluimos que el propósito de este juego del narrador-autor-personaje apunta a hacer presentes distintos sistemas axiológicos. la buena comida. Si seguimos la lógica de Onfray sería una especie de actualización del condottiere. esteta en la vida cotidiana. No es ese ya nuestro mundo. bohemio nostálgico y poeta por vocación. Experiencia que debe ser arrasadora o simplemente confirmarnos en ciertas certezas harto útiles para seguir viviendo. sucede lo que los doctos llaman una epifanía. También permite explicar porqué el personaje femenino es objeto y no sujeto de deseo. Cuando una de esas imágenes regresa con toda su voraz intención de persistir. referencias ilustradas constantes y. Consideramos que por esta misma razón. de una diabólica espiral cuyo final podía ser . amante de la buena vida. objetos y lugares especiales. si bien es cierto que. el juego de las cajas chinas permite ver el relato del relato de la historia como un recurso de la veracidad y no sólo retruécano narrativo. el tramp steamer y el Caribe “Algún día me propongo narrar lo que fueron aquellos paseos.

Empresas y tribulaciones de Maqroll el Gaviero. . Mondadori. ONFRAY. La construcción de uno mismo. Bogotá: Alfaguara. André (1999). Poesía y prosa . PEÑA Isaías (2011). MUTIS. Barcelona: Random House. dos tendencias. Instituto Colombiano de Cultura.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 65 Referencias bibliográficas LAVERDE. Medellín: Universidad de Antioquia. Tradición literaria colombiana. Álvaro (2001). la moral estética. SAID. Michel (2000). La condición humana. _____ (1981). el texto y el crítico . Bogotá. Buenos Aires: Sudamericana. El mundo. Edward (2004). só lo se indicará el número de la página. MALRAUX. Alfredo (2008). El universo de la creación Narrativa. cuando se mencione apartados de la obra estudiada. Buenos Aires: Libros Perfil. Nota 1 En adelante. Bogotá: El Huaco.

preferencialmente na rede regular de ensino” (artigo 208. promovendo um amplo processo de formação de gestores e educadores nos municípios brasileiros para a garantia do direito de acesso de todos à escolarização. na década de 1990. . O quadro recém-apresentado começa a mudar nos anos 1980. em 1981. sob a influência. seja por fatores socioeconômicos. o trabalho do professor tem sido apontado como condição essencial para a inclusão eficaz dos alunos com necessidades educacionais especiais nas classes regulares de ensino. cujo objetivo é apoiar a transformação dos sistemas de ensino em sistemas educacionais inclusivos. 2008. na Constituição Federal de 1988. item III). social. o atendimento a alunos com necessidades especiais seguiu sendo realizado sobre os pressupostos da Normalização e Integração. cultural e linguística foram. seja pela presença de padrões físicos considerados distintos dos de uma suposta homogeneização. é implantado. Assim. aqueles que “distoam” de uma “normalização” intelectual. posteriormente. No Brasil. o acesso à escola sempre foi marcado pelo paradoxo inclusão/exclusão. as discussões sobre a ampliação do acesso e a qualidade da educação das pessoas com necessidades educacionais especiais. Acompanhando a tendência mundial de luta contra a exclusão das minorias e a favor da igualdade de oportunidades. sob formas distintas. é proclamado o Ano Internacional dos Deficientes pelas Nações Unidas. p.9). excluídos do espaço escolar. principalmente. no âmbito internacional.66 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS ENSINO DE E/LE E INCLUSÃO: REFLEXÕES SOBRE FORMAÇÃO E TRABALHO DOCENTE Alice Moraes Rego de Souza PG-UERJ Roberta Fraga de Mello PG-UERJ Introdução Historicamente. à oferta do atendimento educacional especializado e à garantia da acessibilidade (BRASIL. durante muito tempo. Dentro dessa perspectiva. o Programa Educação Inclusiva. quando. Mesmo com o advento da Constituição de 1988. É quando começam. física. em 2003. o atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência. de acordo com a qual o aluno com necessidades educativas especiais deveria adequar-se à “hegemonia” presente em sala de aula. da Conferência de Jomtien (1990) e da Declaração de Salamanca (1994). o Brasil estabelece.

20) Uma vez conhecido o contexto de surgimento da reforma. p. 150). iniciada oficialmente no ano de 2001.25). no sentido de atender a uma política de integração dos alunos . de modo a observar a relevância dada à temática no decorrer do documento. a partir da análise de seus fluxogramas. se reflete em documentos oficiais (pareceres e resoluções) que se destinam a formalizar a última reforma dos cursos de licenciatura. Considerando a interseção entre as discussões sobre educação especial e sobre a reforma dos cursos de formação de professor. com a publicação das Resoluções CNE/CP nº1 e 2. A importância atribuída ao papel do professor. a reforma surge a partir da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) – Lei nº 9. buscando observar como se apresenta a questão da educação especial nesses documentos institucionais. problemas destacados é o que se designa como “desconsideração das especificidades próprias dos níveis e/ou modalidades de ensino em que são atendidos os alunos da educação básica” (BRASIL. cria-se ambiente propício para a discussão sobre a participação dos institutos básicos na formação de professores das diversas áreas de conhecimento. 2009. (DAHER & SANT’ANNA. Neste tópico. depara-se com problemas em termos institucionais e curriculares. no contexto da mencionada reforma. Diversas temáticas atravessam as reflexões acerca de um novo currículo para formar professores em nível superior. dentre outros temas. 2001. 2009.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 67 o que nos leva a refletir sobre a formação deste profissional visando atender às demandas da atualidade. culminando na reforma dos cursos de licenciatura.394/1996 – a qual define que cada instituição de ensino superior (IES) deverá fixar seus currículos a partir das diretrizes pertinentes. as licenciaturas não estão preparadas para desempenhar a função de formar professores que saibam lidar com a heterogeneidade posta pela inclusão” (PLETSCH. O parecer em questão explicita que ao revisar o processo de formação docente. De maneira geral. focaremos em algumas disposições do Parecer CNE/CP nº9 de 2001. sendo uma delas a questão da educação especial. resta ainda observar em que termos é tratada a questão da educação especial. A partir daí. os quais precisam ser refletidos e explicitados. buscamos apresentar alguns possíveis progressos relativos à formação de professores de Língua Espanhola que beneficiem a perspectiva inclusiva e de respeito à heterogeneidade no espaço escolar. formalizada pelo CNE. Especificamente no campo curricular. em geral. afirmando que: “A educação básica deve ser inclusiva. as universidades e outras instituições a contribuírem para a elaboração das diretrizes curriculares dos cursos de graduação. Ainda que possamos antecipar que “de maneira geral. o qual convoca a sociedade civil. visto que este é um dos eixos que orientam as diretrizes curriculares de formação de professor em nosso país. p. por meio do Parecer CNE/CP nº9 de 2001 e respectivas Resoluções CNE/CP nº1 e 2 de 2002. Ao mesmo tempo. Para tal. o MEC publica o Edital nº4 de 1997. no ano seguinte. particularmente no que diz respeito à educação especial. o presente trabalho fomenta uma reflexão sobre os novos currículos de licenciatura em Letras (habilitação PortuguêsEspanhol) das universidades públicas do Estado do Rio de Janeiro. falase sobre o ensino para alunos com necessidades especiais. A educação especial no âmbito da reforma das licenciaturas A reforma das licenciaturas é uma culminância de certa circulação de discursos sobre o papel do professor e suas responsabilidades na formação de cidadãos no contexto escolar. p. um dos 1. com a publicação do Parecer CNE/CP nº9 de 2001 e. como já apresentado.

ao mesmo tempo. 27) Outra proposta contida no documento. quais são os reflexos desses discursos oficiais. momento propício para o preparo do profissional para atuação com alunos com necessidades especiais. a saber: Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). p. Assim. já que esta é uma realidade indissociável da escola. a singularidade linguística dos alunos surdos. entre outras. dentre os quais está o “eixo que articula a formação comum e a formação específica”. dentre as possibilidades de formação específica que a IES pode ter. portanto. 2. o que faz de sua presença nos A partir do Parecer CNE/CP nº9 de 2001 e suas respectivas resoluções. temáticas a serem consideradas. p. o curso de Letras Português-Espanhol..27). são. Isso exige que a formação dos professores das diferentes etapas da educação básica inclua conhecimentos relativos à educação desses alunos “(BRASIL. a critério da instituição. A saída proposta para superar a “dicotomia” formação comum . A problemática desta seção se centra na dificuldade de. O documento reconhece que temáticas relativas à educação para alunos com necessidades especiais “raramente estão presentes nos cursos de formação de professores. especialmente no que concerne à educação especial. nas novas estruturas curriculares? Inicialmente. optou-se por focar a análise apenas nas IES do Estado do Rio de Janeiro que passaram pelo processo de reforma curricular iniciado em 2001. Mesmo diante da possibilidade da presença da temática sobre educação especial apenas em termos de formação específica. dá recorrente espaço para discussão sobre necessidade de incluir. Novos currículos de formação docente e educação especial . Constata-se. para atuação em modalidades ou campos específicos incluindo as respectivas práticas (. o Parecer esclarece que a construção espacial para alunos cegos. considerando suas demandas próprias. a existência de uma brecha no Parecer. Universidade Federal Fluminense (UFF) e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). 2001. 2001. Nesse sentido.. p. quais serão os reflexos deste aspecto nas atuais estruturas curriculares das IES que formam docentes na área de Língua Espanhola? Tal será a discussão que cabe ao próximo item deste artigo. 2001.formação específica é a proposta de inclusão de espaços e tempos adequados que garantam “opções. vê-se que o Parecer CNE/CP nº9 de 2001. diz respeito aos critérios de organização para desenho de uma matriz curricular que contemple os diversos aspectos envolvidos com a atividade docente. no que tange à atuação docente diante desse público. embora devessem fazer parte da formação comum a todos (.. p.68 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS com necessidades educacionais especiais nas classes comuns dos sistemas de ensino. Nesse caso. Por uma necessidade de recorte de corpus . oferecer uma formação comum a todos os docentes e o atendimento às especificidades do trabalho com as diferentes etapas ou modalidades com que o professor irá trabalhar. Assim sendo. Por uma questão de afinidade profissional das pesquisadoras.)” (BRASIL. as IES reformularam seus currículos de modo a atender às novas demandas. Nesse caso. são necessários alguns esclarecimentos sobre a escolha do corpus de análise. na formação do professor.. a escolha foi por analisar a formação do professor de Língua Espanhola. (BRASIL. de maneira geral. o Parecer menciona a educação especial. o Parecer apresenta alguns eixos. portanto.)” (BRASIL. inclusive à questão da educação especial. 55). as formas de comunicação dos paralisados cerebrais. 2001. 26) currículos uma escolha de cada IES. uma vez que a educação especial pode configurar apenas como formação específica.

A escolha deste material se deve ao entendimento de que o fluxograma. mas sim a outra legislação específica sobre a questão da inclusão da LIBRAS na formação superior em algumas áreas de conhecimento – Decreto nº 5. ainda que brevemente sobre esta questão.52). realizam-se algumas observações de análise sobre a presença do tema educação especial nos fluxogramas selecionados. metodológicos e mesmo em detalhes de análise. não há tipo algum de menção explícita a disciplinas que tratem especificamente da questão . do que se privilegia ou não como parte da trajetória a ser percorrida pelo profissional em formação. Quanto a esta última. o fluxograma pode ser compreendido como um discurso. não mais nos aprofundamos em aspectos teóricos. Já após a reforma. Por uma questão de limitação de espaço.626 de 2005. o fluxograma irá refletir questões colocadas ou não em destaque pela IES a que pertence. o ponto de par tida são os fluxogramas que materializam a estrutura curricular dos cursos de graduação. Nem mesmo como eletiva existia a opção de disciplinas sobre tal temática. A reformulação curricular na UFF Tanto na grade curricular (expressa em forma de fluxograma) anterior e posterior à reforma das licenciaturas. é um retrato de um curso de formação superior. tampouco apresentava qualquer indício de disciplina que se voltasse para esse tema. de um grupo de seis disciplinas. o aluno cursará apenas se quiser. nas subseções a seguir. o fluxograma. buscamos abrir caminho para reflexões que merecem atenção mais detida em trabalhos futuros. Entretanto. mostrando uma síntese do curso. Para refletir. de certo modo. Vale ressaltar que a primeira disciplina relacionada não vem como uma resposta à demanda da reforma de 2001. Partindo de uma perspectiva discursiva. o fluxograma mostra a inclusão de algumas oportunidades de discussão sobre educação especial. ou seja. ao enunciar sobre formação de professor é também uma forma de construir certa ideia de formação de professor. Sendo assim. Assim. seus marcos. 2.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 69 Em síntese.2. Em outras palavras. por meio da disciplina intitulada “Planejamento de Material para Ensino de Língua Portuguesa como L2 para a Comunidade Surda” (vinculada ao Departamento de Linguística) e a disciplina “Prática Pedagógica em Educação Inclusiva” (oferecida pela Faculdade de Educação). A reformulação curricular na UERJ Antes da reforma das licenciaturas iniciada em 2001. o aluno precisa escolher três para cursar. trabalhamos com a formação do professor de Língua Espanhola no Estado do Rio de Janeiro e seu preparo para atuar na educação especial. 2005. Maingueneau (2005) afirma que os discursos têm caráter de ação. na medida em que tem seu surgimento e sua circulação fundamentada em “regras de organização vigentes em um grupo social determinado” (MAINGUENEAU. p. Ainda nesse sentido. como. por sua vez. consequentemente. suas etapas constituintes. podendo esta ficar de fora. a grade curricular do curso de Letras com habilitação em Português-Espanhol não sinalizava nenhum tipo de disciplina específica quanto à educação especial ou educação inclusiva. 2. O fluxograma. trata-se de uma eletiva. assumir que os fluxogramas das IES são um discurso é sustentar a ideia de que seu surgimento e desenvolvimento são inseparáveis das relações sociais que o contextualizam. por exemplo.1. pois esta compõe o grupo de disciplinas designadas como eletivas práticas. Assim sendo.

uma redução do espaço aberto à reflexão e à produção de conhecimentos sobre ensino de língua espanhola como língua estrangeira para alunos com necessidades especiais. não se trata de uma alteração devido à reforma. a disciplina eletiva “Tópicos Especiais em Educação Especial”. o que mostra. podem ou não ser escolhidas pelo aluno. sejam LIBRAS ou disciplinas que abordem temas gerais sobre tal comunidade. mas do surgimento de tal demanda. visto que apenas há a inclusão da questão específica da surdez. Mesmo diante de um cenário . Sendo assim. passa a ser oferecida. o espaço para debate sobre questões relativas ao ensino de Língua Espanhola é reduzido. após a reforma.4. Na maioria dos casos. mais uma vez.626 de 2005 . 2. sendo que.626 de 2005 . o que torna indispensável a reflexão sobre tais assuntos durante o processo de formação. na verdade. Ainda assim. explicitamente. Já as disciplinas de educação especial costumam obter um caráter mais geral. consequentemente. essa disciplina compõe o grupo de optativas. ao Instituto ou à Faculdade de Letras. Após a reforma. tal como ocorre na UFF e na UERJ. visto que atuar com alunos especiais não depende da escolha. pois ele também tem a sua disposição outras optativas. ou seja. já mencionado. o fluxograma da UFRJ não indicava. as mudanças relativas Outros documentos que descrevem a estrutura curricular do curso de Letras PortuguêsEspanhol na UFF mostram que.3. mas de uma resposta a uma exigência legal de inclusão de LIBRAS nos cursos de Letras – Decreto nº 5. Em nenhum caso foi possível verificar a associação de uma disciplina que trate de educação especial ligada a algum departamento do Instituto ou da Faculdade de Letras. para alunos que ingressaram a partir de 2012. ficando a critério do aluno escolher cursar a disciplina. o fluxograma passou a apresentar a disciplina LIBRAS (vinculada ao departamento de Linguística e Filologia). No caso das IES que oferecem disciplinas relacionadas à comunidade surda. é comum que a mesma fique atrelada aos departamentos de linguística. A reformulação curricular na UFRJ Antes da reforma. Isso se choca com a realidade da atividade docente. pela Faculdade de Educação. por se tratar de uma questão de linguagem. muito embora esta seja obrigatória para os cursos de Letras – considerando o Decreto nº 5. visto que as poucas oportunidades oferecidas possibilitam uma abordagem desde uma perspectiva mais ampla. relativa aos departamentos a que estão vinculadas as disciplinas. o que é explicado no site da universidade. Sendo assim. a existência de disciplina alguma que fosse específica para tratar de questões de inclusão ou ensino para alunos especiais. O fluxograma tampouco sinaliza a disciplina LIBRAS.70 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS do ensino de espanhol para alunos com necessidades especiais. Comentários gerais No caso das três IES. tal disciplina compõe o currículo do referido curso. Entretanto. que abrange o ensino de maneira geral e não focado apenas em uma discussão específica. ao espaço ocupado pela educação especial não foram expressivas. sendo oferecidas pela Faculdade de Educação. complementando as disposições do fluxograma1. Ainda há mais uma questão. as disciplinas que passaram a ser oferecidas são em caráter de eletivo ou optativo. a inclusão de disciplinas que tematizem a questão da inclusão e da educação para alunos com necessidades especiais não sofre alterações. 2.

n. Diário Oficial da União. SCHWARTZ. nota-se a constituição de um espaço restrito de prescrições ao trabalho do professor relativo a essa modalidade de ensino na etapa de formação. In: Trajetórias em Enunciação e Discurso: práticas de formação docente. Yves (2002). p. In: Espanhol: Ensino médio. em nível superior. E. p. tal ausência não implica a não criação de normas. Seção 1. Rosana. de Cecília P. 18 de janeiro de 2002. 3. A formação de professores para a educação inclusiva: legislação. _______.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 71 que.A (2009). de modo a. Revista Educar . ainda. A formação. Dominique (2005). GLAT. 143-56. São Carlos: Editora Claraluz. Acessado em 10/08/2012. _______. 4 ed. em algum momento. SANT’ANNA. Entretanto. Nesse sentido. Da educação segregada à Educação Inclusiva: uma breve reflexão sobre os paradigmas educacionais no contexto da educação especial brasileira. Márcia Denise (2009). Editora Cortez: São Paulo. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. embora seja uma realidade com a qual o professor está sujeito a se deparar. 23 de dezembro de 1996.gov. Disponível em: <http://www. de 20 de dezembro de 1996. Do otium cum dignitate dos cursos de Letras à formação de línguas.626 de 22 de dezembro de 2005 . In: SOUZA-E-SILVA. A abordagem do trabalho reconfigura nossa relação com os saberes acadêmicos: as antecipações do trabalho. Assim. Brasília: MEC. diretrizes políticas e resultados de pesquisas. seja na formação. orientar o docente em sua trajetória futura. Análise de textos de comunicação. p. 27894. precisa proporcionar mais espaço para reflexão do assunto. portanto. na perspectiva de Schwartz (2002) podem ser articuladas. 31. 35-9. aos saberes acadêmicos.394. FERNANDES. elas constituem-se como optativas / eletivas. participando do processo de produção de normas e prescrições do trabalho realizado por este sujeito. Parecer CNE/CP nº9. Coleção Explorando o Ensino. mesmo que não tenha de dar conta de prescrever o trabalho docente. ________(2010). Referências bibliográficas BRASIL. DAHER. Brasília: Inclusão – Revista da Educação Especial – out/2005. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica. Del Carmen. Edicléa Mascarenhas (2005). ainda que o tratamento da educação especial pensada especificamente em termos de ensino de E/LE seja tarefa complexa. Lei nº 9. de algum modo. Brasília. Formação e exercício profissional de professor de língua espanhola: revendo conceitos e percursos.htm>. Curitiba: Editora UFPR. Decreto 5. Diário Oficial da União. o professor precisará refletir sobre tal questão. minimamente. seja na atividade docente. De Souza e Décio Rocha. Brasília. p. não foram identificadas marcas que explicitassem a relevância dada às discussões sobre ensino de Espanhol como Língua Estrangeira (E/LE) para alunos com necessidades especiais. Considerações finais No caso dos fluxos analisados. quando surgem disciplinas relacionadas à educação especial. Trad. 4. o presente trabalho mostra que. de 8 de maio de 2001.planalto. 33. as quais serão feitas na própria situação de trabalho e que. MAINGUENEAU. tal como visto na análise do Parecer CNE/CP nº 9 de 2001.br/ccivil_03/ _ato2004-2006/2005/decreto/d5626. Vera L. contribuindo para uma forma diferente de pensar as antecipações do trabalho. dá relevância ao assunto. curso de Licenciatura de graduação plena. PLETSCH. FAITA . no exercício da profissão.

pdf. dep. Acessado em 10/08/2012.).uerj. Acessado em 10/08/2012. Fluxograma do curso de Licenciatura em Letras Português – Espanhol. u f r j . UFF.br/arqs/fluxogamas_cur sos/ letras_portugues_espanhol_licenciatura.uff. Disponível em: http:// www. Acessado em 30/08/2012. b r / index.br/sites/default/files/ letras_portugues_espanhol_-_licenciado_novo.uff. Disponível em: http:// w w w . Fluxograma do curso de Licenciatura em Letras Português – Espanhol.pdf. Fluxograma do curso de Licenciatura em Letras Português – Espanhol. UFRJ.php?option=com_content&task=view&id=45&Item( ( Nota 1 A informação mencionada está disponível em <http://www. São Paulo: Cortez. UERJ.letras.72 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS (orgs. Linguagem e trabalho : construção de objetos de análise no Brasil e na França. l e t r a s .br/obrigatoriedade-da-disciplinalibras>. Disponível em: http:// www.letras. .

freqüentador do Colégio de Jesuítas e estudante de Direito. Segundo Antonello Gerbi (1996). na ideia de que o homem ocidental teria alcançado a aptidão de elevarse a uma chamada “maioridade intelectual”. Divulgadas as teorias e razões da inferioridade. Em vários textos produzidos por europeus que conheceram a América ou por americanos põe-se em questão a validade do caráter débil e frágil das espécies do Novo Mundo. o que o levou a trilhar um caminho em direção aos estudos científicos. o Abade Raynal e o historiador William Robertson. como Gonzalo Fernández Oviedo e os padres Acosta e Herrera. Foi o que fizeram europeus que de fato conheceram o cnotinente americano. Entre as conclusões buffonianas referentes às Américas coloniais destacam-se formulações intrigantes que merecem ser comentadas. ocuparam-se de descrever muitas das peculiaridades americanas sem. encontra-se o nativo americano.Universidade Federal de Pernambuco* A presença de dois discursos referentes à imagem simbólica do Novo Mundo representa a oposição entre Europa e América que seria determinante para a formação do pensamento moderno. natural de Paris. contudo. culminando. ou Georges-Louis Leclerc (17071788). manifesta-se a superioridade do homem civilizado. Cornelius De Pauw. no século XVIII. homens conhecedores e adeptos a outros pontos de vista se propuseram a divulgá-los. advindo da inferioridade daquele meio e da fraqueza de suas espécies animais. Entre suas principais obras encontra-se a volumosa História Natural . . mas excessivamente interessado em matemáticas e ciências. vegetais e humanas. alguns crioulos e uns quantos padres jesuítas. a “polêmica do Novo Mundo” passa a apresentar discussão contínua. fundamentada nos progressos realizados através do processo histórico europeu. Entretanto. Alguns autores que precederam o século XVIII. “a tese da ‘debilidade’ ou ‘imaturidade das Américas” nasce com o Conde de Buffon.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 73 DIÁLOGOS DE HISTORIA NATURAL: O HOMEM PROTOTÍPICO E O HOMEM EM CONSTRUÇÃO Amanda Brandão Araújo PG . como o Conde Buffon. na qual aparecem suas teorias sobre os temas americanos. a partir dos naturalistas ilustrados. postular uma teoria universal da inferioridade do novo continente. Do lado oposto. Em um pólo.

Para ele.. com exceção destinada aos insetos e répteis de menor porte. fundamentado. um mundo que ficou mais tempo sob as águas do mar. Grifo do autor). são também consideravelmente menores na América que na Europa. tais como os lobos. O homem é errante. (BUFFON apud GERBI. Diz Buffon: “os elefantes pertencem ao Antigo Continente. ao saber da época. os carneiros. insalubre portanto para gente civilizada e animais superiores.. portanto. 1996: p. as cabras. Os “selvagens” americanos são. deve aquilo que é à sociedade: o mais metafísico.. que mal acaba de emergir e ainda não secou direito. digo. “imberbes”. é apenas um bruto incapaz de progresso. os asnos. os As deduções de Buffon deturpam as descrições dos autores que o antecederam. em critérios científicos relacionados à Ilustração. A umidade do ambiente é tão elevada que pode fazer definhar qualquer espécie passível de evolução. a América é um continente ainda intocado. O homem não é. os alces. que apenas multiplicam-se e avolumam-se. impotente. os cervos. inimigos do progresso e da sociedade. em algum dia ainda indeterminado. todos esses animais. (GERBI. os porcos. 20. Mais que isso: a maioria dos nativos vive como os próprios animais. 1996. mas com o tempo e o exemplo dos europeus. incapaz de dominar a natureza em seu favor. mas no oposto a isso: o homem apenas se aperfeiçoa em sociedade. A natureza do hemisfério ocidental não mais é imatura e . um grau de desenvolvimento semelhante ao das mais incipientes civilizações européias. Sem ela. 27. Cornelius De Pauw. garantindo a superioridade das espécies do Velho em detrimento das do Novo Mundo. Os cavalos. ou pelo menos muito mais novo que o antigo. conseguiriam atingir. Humanamente.) Buffon entende que o continente – e o homem – americano está ainda em processo de evolução. Opondo-se ao concluído por Buffon. se tornaria embrutecido. portanto. Quaisquer semelhanças que pudessem existir entre as espécies de maior porte de ambos os continentes eram refutadas. de construir impérios e domar animais. em tom extremamente mais enfático e definitivo que o do Conde. A natureza americana seria hostil a qualquer desenvolvimento. à anta brasileira. e não existem no Novo (. 1996).] os que não foram transportados. ao contrário de Buffon e de Rousseau. as raposas.) nem se encontra ali nenhum animal que se compare a eles.. etc. (DE PAUW apud GERBI. Rejeitam as leis e a ordem. São imaturos. Fonte de elevado preconceito e ignorância gerados a partir das teorias buffonianas é o postulado da degenerescência dos animais na América. os cabritos monteses. defende e aprofunda a tese de que os americanos são degenerados. continua as “difamações” da América. numa palavra aqueles que são comuns aos dois mundos. As espécies trazidas da Europa tenderiam a definhar-se. ora para ridicularizar. os bois. inoperantes. tornaram-se menores. nada por si só. p. que nem de longe poderia comparar-se aos grandes mamíferos. 1996: p. filósofo e enciclopedista ilustrado de naturalidade discutível (provavelmente holandesa). divide espaço com eles. o maior filósofo. De Pauw não acredita na “bondade natural” do homem. Nas Recherches sur lês Américains.. ainda. os criadores do progresso. Os animais em geral são poucos em diversidade e em tamanho. ora para menosprezar os aspectos naturais e comportamentais da natureza e do homem. Recusaram-se a aceitar quaisquer formas de desenvolvimento e cultura “evoluída”. a América é um mundo novo. devido a sua “dimensão de um novilho de seis meses ou de uma pequeníssima mula” (GERBI. 19). (GERBI. 56). Fisicamente.” Alude. imbecil e nada conheceria em toda a natureza . 1996: p. abandonado durante seis anos na ilha de Fernandez. e [. mas lá chegaram por si mesmos. do qual o homem ainda não tomou posse.74 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS A primeira delas refere-se à inexistência de grandes animais selvagens. os cães. mudo. e isto sem exceção alguma.

De Pauw é tido como veemente antiamericanista. cuja inspiração é voltairiana e permeável às ideias de De Pauw. Haveria ocorrido. toltecas e incas.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 75 imperfeita (como o era para Buffon). A indiferença quanto ao sexo. ao qual a natureza confiou o depósito da reprodução. O clima americano explicaria também a propensão dos seus habitantes ao alcoolismo e à concubinagem. da grandeza e magnificência das cidades e monumentos. 1996). pois entende que “é sem dúvida um grande e terrível espetáculo ver a metade deste globo a tal ponto desgraçada pela natureza que tudo é ou degenerado ou monstruoso” (DE PAUW apud GERBI. já que estes foram atrasados e incapazes tanto quanto os demais seres daquele mundo. Ao inicio da “adolescência americana” também corresponderia a impotência dos nativos e a falta de atração por suas fêmeas. Sua História da América (1777) fala sobre o Novo Mundo num tom mais Deve-se relegar ao plano das fábulas esta quantidade prodigiosa de cidades construídas com tanto cuidado e dispêndio. retorna constantemente à “desventurada” natureza física americana. 1996). (RAYNAL apud GERBI. atribuindo ao clima as doenças contagiosas e as baixas taxas de natalidade entre os povos. Os dados de Las Casas sobre as numerosas populações do México e do Peru também são objeto de crítica. As teses sobre as influências do clima e outros fatores naturais são consideradas por De Pauw. “De Pauw repete até a saturação que a natureza é fraca e corrompida na América. mais determinadas ou mais indiretas. é degenerada. (RAYNAL apud VENTURA. e era impossível que fosse de outro modo. onde a imaturidade se revela por essa espécie de impotência. com sua Histoire Des Deux Indes. A imagem da Para concluir os “ataques” às Américas a que nos propomos. sem meios termos. descaracterizado) a fauna e flora locais. 1988) antigüidade das civilizações astecas. inferior porque degenerada ” (GERBI. Raynal adota a posição de Buffon e De Pauw sobre as zonas tórridas e úmidas como insalubres. 1996). . [. como nos indivíduos do nosso Continente que não chegaram à puberdade. rejeitando as descrições de Hernan Cortés e do inca Garcilaso de la Vega. 53) Buffon. traziam de volta as experiências vividas nas mesmas. 1996. nas Américas. A umidade do clima fez com que essa condição “infantil” do continente e dos homens que nele habitavam fosse agravando-se. como dilúvios e “medonhos tremores de terra”. Raynal e De Pauw contestam a As radicais teses depauwnianas suscitaram grande número de réplicas. supõe uma imperfeição nos órgãos. Mais um defensor da inferioridade americana foi o Abade Raynal. zonas glaciais e zonas temperadas. porém. A América não havia ainda se desenvolvido: era impúbere.. A ênfase do Abade. “A natureza se esqueceu de fazê-la crescer” (GERBI. embora deva apresentar idade semelhante à européia. América em Raynal resulta da projeção de uma teoria climática que divide o mapa-mundi em zonas tórridas. da bondade natural do homem e da natureza virgem. mais ou menos abrangentes. que teriam determinado o temperamento dos habitantes (animais não políticos) e caracterizado (ou. para ele. uma espécie de infância nos povos da América. É um vicio radical no outro hemisfério. porém é dada maior relevância ao posicionamento em favor de grandes catástrofes. fraca porque corrompida. Também insurgiram-se jesuítas que. p. como se “desevoluísse” o que sequer começou a se desenvolver. expulsos das colônias. várias tragédias naturais nunca observadas no antigo continente. Considera como inverídica toda a obra de Garcilaso de la Vega sobre os incas. trazendo assimetrias valorativas com implicações políticas.] Os povos se encontravam dispersos nos campos. Na Europa mesmo levantaram-se contra ele vários defensores do “bom selvagem”. finalizamos com as considerações de Robertson..

mientras otros. Diz Montaigne relatando o que os nativos haviam declarado: que habían visto que había hombres entre nosotros colmados de toda clase de comodidades. tentando inclusive justificar atos de violência que pudessem ser cometidos pelos nativos. em parte. nascido na Nova Espanha. 1954. filho de pai espanhol e mãe crioula.. diz: Creo que nada hay en esa nación que sea bárbaro o salvaje. 29-30). mas parece ao mesmo tempo ter sido menos vigorosa em suas produções. 1954.. inclusive.. cuando en verdad es a aquellos que nosotros mismos hemos alterado con nuestras artes y mudado de su orden común a los que con más propiedad debíamos designar salvajes. em dois ensaios famosos – um. Clavijero cita os antigos pioneiros nas descrições da América (Oviedo e Herrera.] as diferentes espécies de animais peculiares a ele são em muito menor número que as do outro hemisfério [.. que en éstos hemos bastardeado. A defesa de Montaigne beneficia não só as tribos pacíficas. Entende que o Século das Luzes teria publicado mais erros do que todos os séculos passados pois escreve-se com liberdade. disimulo. p. comerciantes e ainda com uns “selvagens” brasileiros levados a Rouen durante o reinado de Carlos IX. Explicavase a grandeza e a miséria da natureza americana. aplicándolas solamente al placer de nuestro gusto corrompido. nem tão robusta. marinheiros. Como em: O princípio da vida parece ter sido menos ativo e vigoroso do que no velho continente [. havia mantido contato com viajantes.. falsía. comenta que quando conversou com os “selvagens” brasileiros em Rouen. seja através da longa estadia em solo americano. embora o tom pessimista predominasse. p. (. por exemplo) e usa o que pode de suas obras em defesa de seus argumentos.) Las palabras mismas que significan mentira. entendeu. . No ensaio Sobre los caníbales. (MONTAIGNE apud HENRRÍQUEZ UREÑA. Do lado oposto da polêmica estão outros intelectuais. nem tão feroz quanto as do outro continente. En aquellos se hallan vivas y vigorosas las verdaderas y más Obra importantíssima sobre a defesa do Novo Mundo é a do padre jesuíta Francisco Javier Clavijero. envidia. 28-29).. sobre os canibais – levou a crítica da civilização européia.76 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS intermediário e repleto de meios termos. 2006. (MONTAIGNE apud HENRRÍQUEZ UREÑA. 9). (ROBERTSON apud GERBI. a consequências extremas. 1996. seja através da realização de viagens. tendo a maior parte deles se baseado em experiências próprias. pedían limosna a sus puertas: y encontraban extraño que esos otros hombres no cogieran a los otros por la garganta. patriota e ilustrada. p. mas mente-se desavergonhadamente: não é apreciado o que não é filosófico. por exemplo. Perseguindo o objetivo de criticar os filósofos iluministas. Montaigne (século XVI). a legitimidade dos rituais. no caso dos padres jesuítas e dos crioulos. nem tampouco se reputa como tal aquilo que não ataca a religião e adota a linguagem da impunidade (CLAVIJERO apud DOMINGUES. Leitor de crônicas de viagens e conquistas. o pusieran fuego a sus casas. procuraram conhecer a outra versão da história. maledicencia y perdón.134) provechosas virtudes y piedades naturales. A oposição filosófica entre natureza e cultura e a comparação entre o homem natural e o civilizado também ocuparam a mente desses intelectuais que. no entanto. como Humboldt. Em seu ensaio. através de uma visão ao mesmo tempo barroca. em comparação com o estado selvagem. desfallecidos de hambre y desnudos con pobreza y necesidad. mas também as canibais. Os animais que pertencem originalmente a esse quadrante do globo parecem ser de uma raça inferior. p.] A natureza não somente era menos vigorosa prolífica no Novo Mundo. traición. codicia. jamás se oyeron entre ellos. sino que cada cual suele llamar barbarie a aquello que no le es común…Son salvajes así como llamamos salvajes a aquellos frutos que la naturaleza por sí misma y por su natural progreso ha producido.

(2005. porém mescla conceitos religiosos aos racionais. uma contradição ainda maior: apesar de defender a América em sua unidade. A diferença entre mexicanos e europeus seria relativa somente à falta de instrução dos primeiros. seu estudo incrementou sobremaneira as discussões em torno da polêmica. De qualquer forma. porém. p. os estabelecimentos científicos do México e a biblioteca de Botânica eram de tão boa qualidade que nenhuma da Europa poderia ousar comparar-se. em solo americano. circunscrita a los límites que le impone su propia naturaleza. em muitos aspectos. o que confere a seus escritos. durante o século XVIII a produção artística das colônias excedeu a da Espanha e de Portugal. num jogo vazio de buscar contrastes entre os dois hemisférios. de crescente aridez e inércia da terra envelhecida só podem surgir naqueles que. em muitos tópicos. afirma e reafirma que não se pode. Segundo Méndez-Bonito. nem se deve. comenta: Essas idéias se propagaram com facilidade. viajando pela América do Sul e pelo Caribe de 1799 a 1804. resultando em uma mistura densa de história natural. que os nativos americanos têm valor equivalente aos europeus. p. 1988). o Jardim Botânico do . por considerá-la a mais ofensiva dentre todas as calúnias propagadas sobre a América. O jesuíta demonstra admirar a racionalidade ilustrada e a universalidade do ser humano. através de uma obra maestra de algum filósofo. lamentando que os mesmos não tivessem se dado a oportunidade de aprofundar-se em tão instrutivas culturas. 1996. muitos dos quais ele se propôs a analisar através da interação de todos os fatores naturais que teve a oportunidade de observar em sua viagem. Raynal e Robertson com relação aos astecas. (HUMBOLDT apud VENTURA. relata não haver outro sentimento senão encanto: as dificuldades de aclimatação tendiam a inexistentes. Humboldt critica ainda a falta de apreciação advinda dos naturalistas do porte de De Pauw. as primeiras bibliotecas públicas. A defesa suprema da América não foi feita. Refuta definitivamente a ideia de degeneração dos animais europeus na América e enaltece todos os aspectos culturais de sua terra natal e do Peru. história civil e cultural e filosofia iluminista. porém. porque. La obra de los jesuitas defensores de América constituye un ejemplo de cómo la razón ilustrada es una y la misma. lisonjeando a vaidade dos europeus. Os povos do novo continente superariam. sociais e culturais desenvolvidos no continente pelas mãos de seus administradores. se ligavam a hipóteses brilhantes sobre o antigo estado de nosso planeta. e reúne-as basicamente nas Disertaciones e na Historia Antigua de México. econômicos. 242) Alexander von Humboldt. Contradiz-se. Clavijero opõe-se às generalizações sobre o Novo Mundo e demonstra. contudo. política. 307) Humboldt rechaça ainda vários dos postulados de Buffon e De Pauw. comparar os povos da Nova Espanha e do Peru aos demais do continente. A respeito da degeneração dos animais domésticos. os do antigo.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 77 Centra suas críticas principalmente sobre a obra de De Pauw. Apresenta. partindo de vários exemplos baseados em sua vivência. havia leitores e havia estudiosos. não se esforçam por conceber com uma visão de conjunto a estrutura do globo terrestre. mas foi garantida pelos processos políticos. los segundos para mostrar la invalidez y relatividad de esos sistemas antiamericanos que arrojarían las mismas conclusiones si se aplicaran al estudio del Antiguo Continente. religião. 1954). Tanto los filósofos europeos como los jesuitas americanos utilizaron la misma lógica de razonamiento: los primeros para desarrollar teorías de principios antiamericanos. (HUMBOLDT apud GERBI. uma posição ambígua. Nos setecentos foram construídas. Segundo Pedro Henrriquéz Ureña (1979. Afirma que as Imagens fantásticas de juventude e inquietação. em estabelecer hierarquias. restringindo sua defesa às sociedades “civilizadas”.

sexualidade – que lhes permitem entrar em um relacionamento potencialmente universal uns com os outros. 2006. Voltaire. EAGLETON. puerto de Lima. porém existe algo essencial no homem que mantém mesmo as culturas mais fechadas com um potencial de ser inerentemente ilimitadas e abertas. se mantuvieron en circulación secreta todavía cuando se les consideró peligrosos y se prohibió su lectura (HENRIQUEZ UREÑA. México D. En el siglo XVIII circulaban muchos libros de orientación moderna: la Encyclopédie. o Observatório Astronômico de Bogotá e a Escola Náutica de Buenos Aires. catolicismo. 39. v. Beatriz Helena (2010).78 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS México. São Paulo: Cia das Letras. Leibniz. México: Fondo de Cultura Económica. Anphlac : Revista Eletrônica. a n p h l a c . Culturalmente é possível ser conduzido por um caminho etnocêntrico de rechaço a outras culturas diferentes da própria. Mas não diferem naquelas capacidades – linguagem. gênero. Pedro (1979): Historia de la cultura en la América Hispánica. Pensar sobre as discussões em torno da “polêmica do Novo Mundo” nos leva a delinear de forma mais clara como a ignorância funciona como um véu sobre os olhos. Houve um entrelaçamento dos temas ilustrados às formas tradicionais.. Pedro (1954): Las corrientes literarias en la América hispánica. Juan Ignacio de Molina y Juan Velasco. Disponível em: <http:// w w w. Lavoisier. Os ideais iluministas.] 221-250. en 1785. Terry Eagleton lembra que A sociabilidade se impõe a nós como indivíduos em um nível ainda mais profundo do que a cultura. obras de Bacon. las cantidades eran extraordinarias: así. quando alcançada. Silvia Navia (2005): Las historias naturales de Francisco Javier Clavijero. Gassendi. Luis Millones. São Paulo: Unesp. Laplace. LEDEZMA. MENDÉZ-BONITO. . 2010. Afirma que Entre las gentes educadas de la América hispánica hubo mucha afición a la lectura. em primeiro lugar. Rousseau. HENRIQUEZ URENA. deixa-se de ver com clareza e o que resta são impropérios. empresa que. 1979. através da penetração gradual e moderada do “espírito do século”. capacidades físicas etc.: Fondo de Cult. fundamentaram a justificativa teórica da emancipação das colônias. história natural e ilustração. fez com que os críticos do “Novo Mundo” pudessem repensar seus valores a partir da força dos fatos históricos. trabalho. Montesquieu. abrangendo as mais variadas manifestações artísticas. Referências bibliográficas DOMINGUES.) É claro que os corpos humanos diferem. Locke.pdf>.. [. em sua história. pp. manifestações das Luzes se fizeram sentir fortemente nos aspectos sociais. Anual. En el Brasil. Acesso em: 05 jun. O México na “Polêmica do Novo Mundo”: humanismo. História de uma polêmica (1750-1900). Antonello (1996): O Novo Mundo. Madrid: Iberoamericana. p. políticos e econômicos. Terry (2006): A ideia de cultura. denotando o uso inteligente e adaptado às necessidades locais. Goiania. o Museu de Historia Natural e o Jardim Botânico na Guatemala. Além da intensa atividade cultural. una sola remesa de libros recibida en El Callao. o r g / p e r i o d i c o s / r e v i s t a / r e v i s t a 5 / dossie2. Domingo. GERBI. por ejemplo. etnicidade. Buffon. HENRIQUEZ URENA. 5. In: FIGUEROA. inclusive. Ureña tece largo comentário sobre a vida cultural latinoamericana. El saber de los jesuitas. historias naturales u el Nuevo Mundo. Condillac. Copérnico. Boyle. Económica.F. sumaba 37 612 volúmenes. los libros suplían la falta de universidades (…) Las listas de obras remitidas de Europa a los libreros de las colonias abarcan la mayor variedad concebible de títulos y asuntos. Descartes.

br/ s c i e l o . Avançados da Universidade de São Paulo. Roberto (1988) L e i t tu ras Ra ilust r ação na A mér ica L at ina. p h p ? p i d = S 0 1 0 3 40141988000300003&script=sci_arttext>. set/ dez. Disponível em: <http://www. 1988. . São Paulo. 2010. Aluna do mestrado em Teoria da Literatura através do Programa de Pós-graduação em Letras da Universidade Federal de Pernambuco. Nota * Bolsista CNPQ. Acesso em: 08 mai. Instituto de Estudos ilustr mérica La tina.scielo.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 79 ur as de R a y nal e a VENTURA.

passaremos a referir como literaturas em espanhol dos povos originários das Américas. Em meio ao trabalho acabam sendo preteridas outras possibilidades de apreciação estética e crítica desse universo. manuais. O uso de idiomas europeus como língua de literatura em detrimento dos idiomas locais veio configurando questão bastante delicada por dividir a opinião de realizadores. em seu conjunto mais amplo. ausentes que estão na maioria dos livros. críticos e observadores da cultura em alguns espaços geopolíticos conformados pela experiência colonial. preocupados não apenas com o trabalho de afirmação de seus pertencimentos etnoculturais e suas identidades literárias. entre outras experiências equivalentes relacionadas aos povos maia. antologias ou coletâneas brasileiras de literaturas de língua espanhola. as quais via de regra contemplam regularmente a experiência peninsular e. Os argumentos favoráveis a esta utilização foram rechaçados por escritores como o queniano Ngugi Wa Thiong’o. buscaremos desenvolver ao longo deste estudo uma breve reflexão acerca do exercício de tradução cultural e linguística que permeia algumas dessas manifestações poéticas e narrativas. as manifestações do universo canônico hispano-americano. bem como as manifestações literárias bilíngües do povo zapoteca no México. investindo numa maior visibilidade internacional das chamadas literaturas menores ou periféricas. por exemplo. como é o caso das literaturas africanas de língua espanhola ou os registros literários hispano-filipinos em espanhol e em chabacano. Na tentativa de identificar criações que. Tal situação é agravada pela quase nenhuma circulação desses textos poéticos e narrativos entre nós. até certo ponto. por exemplo. mapuche ou guarani.80 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS A HISPANIDADE DISPOSTA EM PARALELO: VOZES LITERÁRIAS CONTEMPORÂNEAS DOS POVOS ORIGINÁRIOS DAS AMÉRICAS Amarino Oliveira de Queiroz Universidade Federal do Rio Grande do Norte As experiências literárias contemporâneas cultivadas em língua espanhola pelos chamados povos originários das Américas configura matéria de pouquíssima visibilidade no ambiente da pesquisa acadêmica brasileira. lado a lado com a língua do colonizador. quíchua. Na África e na América hispânica. que chegou mesmo a reivindicar no livro intitulado Decolonising the Mind – The . compêndios. na condição de veículos de comunicação interétnica e de elaboração estética. diversos autores e autoras se movimentaram e se movimentam no sentido de instrumentalizar as línguas locais.

Nas modernas literaturas da África. isto agravado pelo fato de que é supostamente na Europa e nos Estados Unidos que se encontra a maior parte do público das literaturas anglófonas e francófonas. instrumentos de comunicación. publicidade e difusão da obra literária. todas las lenguas. é pertinente a constatação do escritor e crítico literário guinéu-equatoriano Donato Ndongo Bidyogo: Dicen los expertos que el francés en que escribieron Amadou Kourouma o Sony Labou-Tansi no es el de París. como ya sucede en Hispanoamérica. 23). propriamente dito. revelando caminhos diversificados e abrindo espaço para interessantes soluções não só no fazer literário como na própria estrutura das línguas “tomadas de empréstimo”. p. Diante do exposto. atendo-se ao modo pelo qual a utilização das línguas tomadas de empréstimo legitima o exercício criativo desses autores. que o imperialismo cultural manifesta-se no domínio lingüístico. destaque-se o exemplo do poeta. 2006. Soynka empreende em seu exercício poético e ficcional uma combinação entre técnicas assimiladas do Ocidente e o expressivo universo cultural iorubano.de certa forma . Para trazer outro importante nome da literatura nigeriana escrita originalmente em inglês. Devil on the cross (romance) e I Will Marry when I want (drama. sino el de los obreros de Lagos. sino el de la gente iletrada de Luanda o Maputo. (VENÂNCIO. dentro do debate lingüístico. Os próprios livros de Ngugi. e também noutros. tais como The River Between ou Weep not. 61). sino el que se habla en los suburbios de Abidján o Brazzaville. son. sino el de Malabo y Bata. o prêmio Nobel de Literatura. child . entendendo que o vasto leque de possibilidades investigativas que se abre no espaço acadêmico brasileiro revela tanto a urgência quanto a necessidade de atualizar e incluir. do Caribe e da América Latina produzidas em línguas europeias é cada vez maior o registro de experiências estética e politicamente inovadoras. não é propriamente o uso do idioma herdado do colonizador como meio de expressão literár ia que torna as literatur as afr icanas cultur almente inautênticas ou mesmo as circunscreve aos domínios ur banos ou alfabetizados. (LEITE: 1998. em 1986. já que. p. Esta atitude foi contestada por vários autores e críticos literários como é o caso do angolano João Carlos Venâncio. disposição também compartilhada pela maioria dos escritores anglófonos. contudo. são exemplos perfeitos de como a ficção africana nada perde em autenticidade cultural por utilizar idiomas da colonização como meio de expressão literária. escritos ainda em inglês. cultural e literário de intenção hispanista as múltiplas realidades através das quais . y lo importante es cómo y para qué se usan? (NDONGO-BIDYOGO. Chinua Achebe o Ben Okry no es el de Oxford. 3) De acordo com grande par te da crítica literária africanista que adotou opiniões concordantes. 1992. Que nos diga por que razão as suas últimas obras. que el portugués de Luandino Vieira o de Pepetela no es el de Coimbra o Lisboa. para quem: Ngugi esquece-se. Neste sentido. romancista e crítico Woyle Soynka: primeiro escritor da África negra a conquistar. foram imediatamente traduzidas do gikuyu para o inglês? Na verdade. como o da publicação. recorrendo à memória e às tradições orais bem como a um profundo engajamento social e político. contrariando .ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 81 Politics of Language in African Literature. o recurso exclusivo das línguas africanas para a produção literária escrita do continente. Descrevendo as razões que o motivaram a substituir o inglês pela sua primeira língua. ¿Por qué no reconocer entonces que la lengua. o argumento defendido por Ngugi Wa Thiong’o não chegaria a estabelecer um consenso sequer entre seus pares. el español de María Nsue y de Maximiliano Nkogo no es el de Burgos o Madrid. y que. em linhas gerais. o gikuyu. p.o que defendeu no seu ensaio Decolonising the Mind . a posição dos escritores africanos francófonos admite a legitimidade e reivindica o uso dos dois procedimentos. de 1986. Ele que o diga. ante todo. co-autor). Thiong’o baseia seu argumento numa possível maior capacidade de apreensão das culturas africanas através das próprias línguas autóctones. que el inglés de Amos Tutuola.

e também em língua castelhana. Tal caráter parece pontuar grande parte dos discursos identitários formatados. Mas é principalmente durante todo o século posterior que várias destas literaturas escritas passaram a experimentar de efervescência criativa na busca de uma autonomia estética. cultura. fazendo com que esta auto-representação e essa autodeterminação literária dos povos originários das Américas configurem um modo de dotar-se de soberania intelectual. entendida como um projeto lingüístico. algumas vozes literárias contemporâneas emanadas dentre os povos originários das Américas. período que corresponde à independência política e à consolidação dos vários novos Estados americanos. estético. De modo assemelhado ao que ocorre com a escrita africana contemporânea em português e espanhol. La emergencia de dicha producción literaria se ha vuelto notable en países como Perú (quechua). pese as sucessivas tentativas de apagamento decorrentes da experiência colonial. é sabido que tanto através da tradição oral como por meio do exercício da escrita nas próprias línguas autóctones e em castelhano seu pensamento e expressão cultural tiveram continuidade e difusão. Luis Cárcamo-Huechante e Emilio del Valle Escalante (2012) argumentam que a emergência desse corpus autoral não apenas põe fim ao império dos indigenismos crioulos e mestiços. produzidas em contextos onde também a língua castelhana comparece como protagonista lado a lado com outros idiomas de literatura. artigo que intenta realizar um breve mapeamento das escritas contemporâneas de autores e autoras na América de língua oficial espanhola. epistêmico e político representa importante fenômeno ocorrido na produção simbólica do continente: En estas literaturas se reconfiguran las subjetividades indígenas y se cuestiona la hegemonía de “literaturas nacionales” circunscritas al imaginario de la población hegemónica criollomestiza de los Estados-naciones dominantes. sobretudo. a partir de experiências literárias à margem. Bem a propósito. Esta característica é flagrante já a partir de meados do século XIX. tanto como estratégia de visibilização dos discursos poéticos e narrativos subalternizados como na condição de espaço de resignificação cultural e re-apropriação lingüística como parecem descrever. ensino e literatura. o processo de re-apropriação da língua do colonizador constitui uma das tendências claramente identificáveis em grande parte da obra assinada por representativos nomes das literaturas latino-americanas escritas nestes dois idiomas ibéricos. la lucha por la restitución de soberanías y autonomías territoriales en el nivel político y social. gerando assim momentos de afirmação positiva e de reconhecimento internacional. No que diz respeito aos povos originários das Américas propriamente. em “Literaturas de Abya Yala” 1. que hoy articula las movilizaciones de los pueblos originarios. em muitos casos . no imaginário americano e na realidade sócio-cultural dos povos indígenas e seus descendentes. passando pelo peruano José María Arguedas até o guatemalteco Miguel Ángel Asturias. seja pela interferência dos idiomas autóctones e de outras línguas estrangeiras. seja por um particular procedimento de reinvenção lingüística e renovação estilística motivado pela interpenetração cultural cada vez mais ativa e diversificada. pretendemos chamar a atenção para o caráter inclusivo desta condição plural e polifônica. para ficar com apenas quatro desses nomes. se anticipa en el terreno de la literatura escrita. como também inscreve a literatura num território de agenciamento indígena dentro do atual contexto latino-americano. En efecto. .82 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS se movimenta o castelhano em sua condição de idioma de comunicação. Muitos de seus autores encontrariam forte substância na tradição pré-colombiana. Um extenso leque de exemplos caracteriza esta tendência. envolvendo incontáveis escritores que vão desde o boliviano Alcides Arguedas ao equatoriano Jorge Icaza. os pesquisadores Arturo Arias. uma vez que tal atividade.

zapoteca y náhuatl) y. Guatemala (maya). ya que es una creación pensada en alguno de los idiomas originarios de nuestro país. ejemplificándose en la poesía de Dourvalino Moura Fernández (pueblo desana) y Daniel Munduruku (pueblo mundurucu) en Brasil. Alimentando a proposta a partir de um lugar de enunciação que se aproxima ao de Marisol Ceh Moo. a autora preteriu a retomada de relatos sobre a criação do mundo e outros elementos da cultura e da cosmogonia maia para investir na ficcionalização da vida e do assassinato de uma liderança social ocorrido nos anos 70 do século passado. uma experiência estética inovadora e politicamente instigante como exercício de tradução cultural.) También resaltan en este proceso las producciones literarias escritas de autores nativos de la Amazonía. Traduzir e traduzir-se configuram. 2012. ESCALANTE. El estilo de la autora.. (Pineda. o primeiro romance bilíngüe espanhol-maia. Tal es el caso de la literatura indígena en Colombia (. para além do seu contexto específico de produção. as práticas literárias desenvolvidas por vários desses criadores e criadoras não estão delimitadas apenas pelo chamado universo letrado. pp. Tal es el caso de las “lecturas literarias” de los poetas Leonel Lienlaf y Víctor Cifuentes (cultores del ül o canto mapuche). 7-8) Não obstante. (.. u puksiikal koolel (Teya. han hecho de este texto un ejemplo significativo de la nueva producción literaria en las lenguas indígenas de México. o de Rosa Chávez (ritualidad colectiva maya). também ela própria poetisa bilíngue entende que esta produção literária contemporânea dos povos originários das Américas no puede concebirse sino de manera bilingüe. en línea. Los textos no se agotan en el espacio escrito. pero de permanecer sólo en éste. Lorenzo Aillapán (sonidos pajariles del entorno mapuche). CÁRCAMO-HUECHANTE. pero con una perspectiva interna a los grupos mayas. en lengua española. necesariamente tiene que ser traducida al español. Asimismo. de acordo com a investigadora Michela Craveri. la autora incursiona con su novela bilingüe en un género tradicionalmente escrito en español. en otras latitudes del continente.). contista.. las identidades urbanas de la contemporaneidad indígena comienzan a adquirir notoriedad en narraciones y poemarios. 2012). pp. su difusión estaría restringida al ámbito comunitario.. tematizando a mobilização das populações autóctones na península de Yucatán. tradutora e .) romancista yucateca Marisol Ceh Moo. como é o caso de XTeya. 2009. Se amplifican en el evento de la performance pública. (CRAVERI. Dichas prácticas indigeneizantes se suelen asimismo enriquecer con el uso de las técnicas contemporáneas de la performance. Así.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 83 Chile (mapuche). uma vez que Poetas y escritores indígenas contemporáneos mixturan además sus lecturas públicas con recursos sonoros.. uma tarefa problemática. que saca origen de la literatura hispanoamericana. por lo que para poder llegar a una diversidad de lectores y escuchas. De modo distinto ao de outras publicações realizadas anteriormente. musicales. 25-26) En este nuevo contexto. las temáticas sociales. visuales y corporales provenientes de sus tradiciones rituales nativas. comienzan a ganar visibilidad otras literaturas indígenas emergentes. (ARIAS. entretanto. 9) o que parece configurar. a obra de Marisol Ceh Moo se caracteriza por un equilibrio entre las fuentes prehispánicas y una experimentación formal. la capacidad de cruzar barreras lingüísticas y formales. expresión de una cultura que ya no se puede encasillar en un pasado prehispánico. paulatinamente. (ARIAS. a ensaísta e tradutora zapoteca Irma Pineda Santiago. incluyendo aquellos lenguajes del entorno animal y natural. p. ainda que tomando como veículo de expressão e divulgação a língua do antigo colonizador. especialmente en las últimas dos décadas. Assim vêm se multiplicando experiências assemelhadas nos vários quadrantes da antiga América de colonização ibérica. ni en la adhesión fiel a los modelos hispánicos. ESCALANTE. México (sobre todo maya.. Esto conlleva una desestabilización de nuestros marcos categoriales e invita a indigenizar “la ciudad letrada” (. 2012. CÁRCAMOHUECHANTE. un corazón de mujer). lançado em 2009 pela ensaísta. Não obstante.

PINEDA. El Caracol. LEITE. Amarino Oliveira de. Luis.culturaspopulareseindigenas. London: J. pp. THIONG’O. Curry.F. conforme já apontava Antonio Cornejo Polar (1999) na penúltima década do século passado. ayer y hoy. por conseguinte. Lisboa: Ministério da Educação .Instituto de Cultura e Língua Portuguesa. As inscrituras do verbo: dizibilidades performáticas da palavra poética africana. Portsmouth. tributárias das criações na oralidade e do letramento em língua espanhola se nos coloca. Programa de Pós-graduação em Letras. de Marisol Ceh Moo”. La autotraducción en la Literatura Indígena: ¿cuestión estética o soledad? Disponível em: www. pp. Irma. Conferencia en Hofstra University. 2do.hofstra. un corazón de mujer.: Consejo Nacional para la Cultura y las Artes (Letras Indígenas Contemporáneas). 1986. 2007. .: Heinemann. 25-26. Referências bibliográficas ARIAS. Decolonizing the mind: the politics of language on African Literature. “X-Teya. México: DGCP.mxcppdfla_auto traduccion_irma_pineda. Antonio Cornejo. México D. fazendo suas as palavras do professor mexicano e defendendo. Ngugi wa. Michela. Nota 1 No idioma cuna do Panamá.edu/ PDF/lacs_event_040306. CEH MOO. 1990. Emilio del Valle.gob. o estabelecimento de um diálogo permanente entre escritores de diferentes línguas e culturas no mundo. Disponível em: http://www. “Literaturas de Abya Yala”. A dinâmica ascendente dessas escritas bilingües. 2009.pdf Acessado em 12 ago 2012.H.pdf. Lima-Hanover. Literatura guineana: una realidad emergente. Ana Mafalda. Natalio. “Para una teoria literaria hispanoamericana”. mas também como uma riqueza a ser explorada no sentido de fazer valer.84 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Retomando as considerações do poeta e professor de literaturas indígenas Natalio Hernández (1990). Marisol. a expressão Abya Yala significa “tierra en plena madurez”. Rev ista de Crítica Literaria Latinoamericana. POLAR. Donato. 3 de abril. HERNÁNDEZ. 2008. un corazón de mujer. e onde o saber indígena seja um componente fundamental das novas sociedades.1998. Acesso em: 5 mai 2006. VENÂNCIO. é a própria Irma Pineda Santiago quem indaga sobre o papel que devem desempenhar os escritores indígenas no futuro. Semestre de 1999. 9-12 QUEIROZ. um dos iniciadores do movimento de escritores indígenas no México. Nº 50. Año XXV. mas também um exercício cada vez menos restritivo de literatura e do próprio fazer literário.1992. CÁRCAMO-HUECHANTE. n. Literatura e poder na África lusófona. Tese de Doutorado. Lisboa: Colibri. winter 2012 : volume xliii : issue 1. 2006. 13. Recife: UFPE. NDONGO-BIDYOGO. Lasaforum. como um desafio permanente. para que juntos possam contribuir para a conformação de um novo tecido social onde as novas gerações vivam e convivam num ambiente social pluricultural e plurilingüe. Arturo. CRAVERI. Literatura Indígena. Oralidades e escritas nas literaturas africanas. N. José Carlos. Teya. pois. e é através dela que os movimentos indígenas costumam identificar o continente americano em sua totalidade. não apenas um conceito. ESCALANTE.

Presente como língua co-oficial até o ano de 1987 ao lado do tagalo e do inglês. na África. no artesanato. a crescente utilização dessa língua como recurso literário por parte de vários autores e autoras oficialmente francófonos nos Camarões e na Costa do Marfim. a literatura hispano-negro-africana da Guiné Equatorial. as inserções hispânicas sobre a cultura rapanui da ilha de Páscoa. a questão identitária hispânica revela algumas complexidades do ponto de vista linguístico nas Filipinas. ao sul do Pacífico. uma grande área a descoberto no que tange aos estudos hispanistas desenvolvidos em território brasileiro até o presente. a resistente presença do idioma na comunicação e na expressão literária produzida no Saara Ocidental e nos acampamentos para refugiados saarauis em Tinduf. as leis do mercado editorial. Argélia. Vejamos. Se nos ocuparmos da Ásia e da Oceania teremos o judeu-espanhol ou ladino de Israel e sua presença na comunicação e na literatura. a chamada literatura filhispana.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 85 ÁFRICA. o jaquetía ou haquitía do Marrocos. ou literatura filipina escrita em . o chamorro de Guam e das ilhas Marianas: cada um destes exemplos aponta em maior ou menor grau para a emergência do tema proposto. as relações do guanche autóctone com o castelhano das Canárias e suas implicações culturais. inclusive. e a interferência do castelhano na formação do tagalo. do chabacano e de outros idiomas nacionais das Filipinas. por exemplo. na dança ou na manutenção de uma religiosidade católica que perpetua. o ritual católico da crucificação durante as festividades da Semana Santa. a colonização e a descolonização intelectual. Com destaque na expressão arquitetônica. ÁSIA E OCEANIA: FRONTEIRAS FLUIDAS DO HISPANISMO Amarino Oliveira de Queiroz Universidade Federal do Rio Grande do Norte Salvo raras exceções. as relações entre o cânone e as margens ou a eleição de prioridades na hora de propor e cumprir os atuais componentes curriculares dos cursos de Letras. atualmente o castelhano enfrenta um delicado processo político particularidades e implicações culturais do idioma espanhol e sua apreciação como língua de literatura a partir de outros contextos que não o peninsular ibérico e o hispano-americano parecem representar. ainda. com suas respectivas literaturas. sugerindo uma discussão que passa por questões diversas como o direito à informação. as diversas língua espanhola.

y ahora de nosotros frente a nosotros mismos. criadores bilíngües que. Federico Licsi Espino e Mariano Loyola. opinando sobre a polêmica instaurada a partir de uma possível “rehispanización” cultural e linguística do arquipélago das Filipinas. Não obstante. encontrando reverberação também. María Dolores Tapia del Río. com destaque para o nome de José Rizal. também se expressam literariamente em castelhano. realizada por missionários católicos. no campo cultural. o teatro. no século passado. na qual floresceram.los filipinos somos un nexo viviente entre Occidente y Oriente. Somente no século XVI. dramáticos. para a formação do idioma chabacano e de outras línguas locais. representada por nomes como os de Antonio Fernández Pasión. autor de importantes textos ficcionais. resistindo como língua de literatura. de artistas que defendem uma estética abertamente fil-hispana. la franca . caso do já referido cantor pop Josh Santana ou da artista plástica e escritora Paulina Constancia. uma simbiose cultural filipina perpassada historicamente por elementos autóctones e hispânicos. rápidamente sufrieron primero el trueque cultural y la supresión del pasado. y después. Marra Lanot ou Wystan de la Peña. Cuando Filipinas “siempre” ha sido hispanizada. tanto de los españoles y de los norteamericanos. é que foram aparecendo os primeiros criadores. dentro e fora do arquipélago. A essa lista de autores e autoras podemos acrescentar o próprio Guillermo Gómez Rivera. apesar de exemplos curiosos como o do cantor Josh Santana. Em sua Breve Historia de la Literatura Filipina en Español. a de crescimento. a da plenitude. Concepción Huerta. a quase totalidade destes registros escritos desapareceu. essa expressão contemporânea da literatura filipina em língua castelhana é alimentada pela publicação de revistas como “Guirnalda Polar” ou “Perro Berde”. Elisabeth Medina. por volta de 1593. Além dos trabalhos individuais em livro... La mirada naturalista y determinista. na sua literatura contemporânea. apesar da atual vigência e prestígio interno do idioma inglês. Somos de los dos mundos y los dos mundos son nuestros. como veremos a seguir. a escritora Elisabeth Medina (2000) afirmaria que: . ou seja. com a introdução da escrita em espanhol com caracteres latinos. causada pela supressão do castelhano e da crescente anglicização do país. Bem a propósito. e mais Edwin Agustín Lozada. O debate acerca do tema provoca opiniões diversificadas e nem sempre favoráveis nos mais diferentes setores da vida nacional. durante o século XIX. o escritor Guillermo Gómez Rivera (2001) propõe uma periodização dessa literatura em quatro principais etapas: a inicial. Esse caráter fil-hispânico é igualmente defendido por outros setores artísticos e culturais naquele arquipélago asiático. Gómez Rivera refere ainda a existência de uma literatura hispano-filipina contemporânea. em que se desenvolveram a poesia e o ensaio. o conto e o romance. além de contribuir. eliminada por iniciativa dos conquistadores da mesma maneira como ocorreu com a maioria dos códices pré-colombianos nas Américas. Sólo que los “filipinos” nacidos a partir de 1901. correspondendo ao período formativo e onde predominaram a poesia e a crônica. que também defende o conceito de fil-hispano em parte de sua obra gravada simultaneamente em inglês e espanhol. poéticos e da letra do hino nacional filipino. Edmundo Farolán Romero. De allí el debate actual y absurdo de si Filipinas debería hispanizarse de nuevo o no. o surgimento de uma expressão literária filipina é bastante anterior à chegada dos colonizadores espanhóis. Cultivada inicialmente em tagalo através de alfabeto silábico próprio. dijo que éramos indios o asiáticos y por lo tanto debemos atenernos a ser lo que somos y nada más. na atualidade. além da poesía e do ensaio. a da decadência. ou pela iniciativa. conforme mencionado.86 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS de restabelecimento desta condição.

1981. Sin embargo esta situación no ha decretado la muerte definitiva y permanente de esta literatura.) por filipinos. pp. Don Segundo Sombra.) Estamos delante de textos escritos y publicados (. 30-31) Autor de poesia. se expressa literariamente em inglés. Ya no soy cristiano. una sensibilidad.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 87 tergiversación y aniquilamiento de su conciencia histórica.. um curioso diálogo intercultural: Y llegó el español a esas islas indias Magallanes su nombre. A G. hombres y mujeres nacidos en Filipinas. el nombre Filipinas. la pregunta. este país mestizo. 2000 . Tras dos razas unidas. em países oficialmente francófonos da África diversos escritores e escritoras ak o mé (Robert Johlio. A ese archipiélago de numerosas islas Descubiertas el año mil quinientos veintiuno.. portanto. Lo mataron al león el león de Castilla. (MEDINA. entre outros). Joe y MacArthur. tagalo. La nobleza cristiana se esfuma en estas islas. ainda que escrevendo paralelamente em outros idiomas por motivações muitas vezes coincidentes. Situação similar vive a literatura produzida no Saara Ocidental. novela. Germain Metamno. Apostando. que a través de diferentes voces.] (FAROLÁN. (Y yo me desespero. Céline Cléménce Ndé e Mbol Nang. 152-153). Guy Merlin V i-M Tadoun. “pone de manifiesto el sincretismo original de la nación filipina” e estabelece. Nascido em Manila em 1943.. a este camino voy yo. francês e outros . Allí es donde me meto. textos que a menudo hablan de Filipinas o que de todas formas presentan un enfoque. ni en los países hispanos. Edmundo Farolán (1981) apresenta uma voz lírica ambígua que. Edmundo Farolán Romero revela através da voz lírica o duplo lugar cultural de um autor que. Em seu poema “Elogio a la Hispanidad”. O uso literário do castelhano em países asiáticos como as Filipinas é uma realidade compartilhada com a de alguns Estados africanos. (. Honrando al Rey Felipe.. p. disposto entre parênteses. ¿quién soy yo? Y busco en lo español al indio filipino. [. dividida entre os dois idiomas oficiais do pais: o árabe hassania e o espanhol. é novamente o hispanista italiano Andréa Gallo quem observa: el gran problema del escritor filipino que decide escribir en español es la falta de un público nacional y en consecuencia la falta de un público internacional. Margalit Matitiahu) e filipinos que escrevem em chabacano e espanhol o hispano resiste.. convertendo-se numa opção estético-literária. la espada en la mano. além do espanhol. Me gusta jazz y disco. o bien en el extranjero (fenómeno en cierta forma común a otras literaturas post-coloniales).. idiomas. bien en el suelo patrio. Inongo-V i-Mak ako mé. (En esta lucha del Yo. Se para israelenses que escrevem em judeu-espanhol (Avner Pérez. En su lugar el inglés y su música tonta. una interpretación del mundo peculiarmente filipina y curiosamente son textos que se dirigen a los filipinos. textos teatrais e ensaios críticos. contos. al dólar y al peso. transformaram o castelhano literário em sua verdadeira plataforma de expressão. para dizê-lo com palavras de Andreas Gallo (2007:160).) […] Pero pronto llegaron las aves de rapiña— El gringo o el yanqui su nombre no importa. política e identitária. un punto de vista sobre la realidad. Farolán desenvolve outras atividades lingüísticas como a tradução para o tagalo do conhecido romance de Ricardo Güiraldes. na permanência e atualidade dessa particular expressão literária. Me gusta el dinero. sigue manteniéndose viva y representando una tradición que para muchos filipinos es patrimonio de identidad. Soy “brown” americano. editor de literatura e professor de língua espanhola. I. de familias filipinas. (GALLO. 20062007. en línea). Encuentro el hispanismo de Aparri hasta Joló: Filipinas y España.

Divididos. a poesia em castelhano da Espanha e da América e a luta pela independência do Reino de Marrocos. três influências principais: a tradição oral fortemente apegada à natureza e às vivências de seu país. no sólo la lucha del pueblo saharaui y sus aspiraciones de libertad. 1 . passados três meses de sua autoproclamada e até hoje não reconhecida independência política comandada pela Frente Popular de Liberación de Saguía el Hamra y Río de Oro. já que grande parte de seus escritores e escritoras vive fora do país. Mesmo com uma produção mais reduzida. Um juízo descuidado poderá classificá-la como incipiente. la felicidad y la profunda pasión por hacer que la vida de los saharauis deje de ser rutinariamente triste y dolorosa. diversos criadores se dedicam também à prosa. preocupada por todo lo que acontecía en su entorno. que já vem se arrastando há mais de trinta anos. passando a ser objeto de uma disputa política que envolve confrontos armados e negociações diplomáticas sem solução até os dias atuais. entre os mundos arábico-africano e europeu-ibérico. além de desenvolverem intensa relação com o universo hispano-americano. No es hasta finales de los ochenta y principios de los noventa cuando parece que comienzan a aparecer atisbos claros de una poesía seria. no mundo árabe o saaraui é conhecido como um povo de poetas e sua atividade apresenta. acumula força nos acampamentos para refugiados saarauis montados em território argelino. Apesar de ter quase toda a superfície territorial inserida dentro da zona desértica homônima. Além de cultivar fundamentalmente a poesia. Conforme assegura o poeta Mohamed Salem Abdelfatah (2007). pois. De acordo com o estudioso Francisco Cenamor (2008). Larosi Haidar. também ao longo de suas obras uma multiplicidade de vivências culturais que por sua vez reivindicam. ganhando expressividade como língua de resistência cultural que se caracteriza pela influência de arcaísmos do castelhano ou a assimilação do idioma árabe. sobretudo através do conto e do ensaio: Mohamed Ali Ali Salem. Quanto à atividade literária. sobretudo a partir do exterior.88 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Território cedido por acordo em fins de 1975 pela monarquia espanhola ao Marrocos e à Mauritânia. Además de temas que reflejan la vida cotidiana de la sociedad saharaui no exenta de sentimientos tan universales como el amor. muitos dos autores e autoras saarauis refletem. Não obstante. na condição de língua co-oficial ao lado de uma modalidade local do idioma árabe. real e simbolicamente. A língua espanhola aparece ali. Bahia Mahmud Awah. Mohamidi Fakal-la. a produção saaraui em castelhano revela uma forte interferência da criação poética e narrativa na oralidade. como dissemos. embora venha perdendo espaço gradativamente nos territórios ocupados. recuperada da tradição para o formato impresso através de vários livros que vêm sendo publicados. o país é rico em jazidas de fosfato e em atividade pesqueira. profunda. de quem está fisicamente separado por enormes muros especialmente construídos para este fim. Fatma Ghalia ou Limam Boisha entre eles. porém torna-se necessário acrescentar que o seu surgimento é relativamente recente: as primeiras manifestações literárias registradas em espanhol por autores locais tiveram lugar nas últimas décadas do século XX. o Saara Ocidental também divide fronteiras com a Argélia e a Mauritânia. a República Árabe Democrática Saaraui foi invadida e ocupada militarmente pelo exército marroquino. em síntese. Zahra Hasnaui. sob condições muito particulares. a ampliação desses espaços. ou Frente Polisario. también una evidente preocupación por lo que pasaba en el mundo. esta recente literatura hispano-saaraui envereda ainda pelo romance. com escritores como Ahmed Mulay Ali. sino. também conhecido por Ebnu. o que teria motivado a sua invasão e ocupação militar quase que imediatamente após declarada a sua independência. Localizado ao sul do Marrocos. Mohamed Sidati ou Abderrahman Budda Hamadi.

Disponível em: http://letraclara.com/ Acesado em: 22 abr 2008. ao confessar a existência real e simbólica de “tres…/ tres amantes: Sáhara. ideias e sentimentos que ali encontram lugar. complementa seu raciocínio defendendo que a poesia local em espanhol. Imaginação. poeticamente. “Literatura hispanofilipina: pasado. parece-nos necessário e inadiável incluir. duas de suas vozes no feminino. a fim de que questões como a condição da hispanidade se coloque num patamar além das reinvidicações “nacionalistas”. “La poesía saharaui”. Cuba y Canarias. Conforme se pode observar através do sujeito poético de “Poligamia”. Ali Salem Iselmu. constituem o coletivo Limam Boisha. À guisa de ilustração. dispondo-as de forma mais abrangente e buscando assimilar a fluidez com que têm se movimentado. Los versos de la madera . insistem em brotar.wordpress. Disponível em: http://www. 2005. S alka outras representantes como F at atma hamed. Salka Embar ek ou Fatma Ghalia Abdesalam. Limam. embora a literatura saaraui em espanhol conte com ma A hame d. Além de Mohamed Salem Abdelfatah. 82 – Pluralidades. CORDIVIOLA. no debate brasileiro de intenção hispanista. 2004. Bahía Awah.ariadna-rc. tão interessantes quanto desconhecidas. In: Revista Ariadna 25. BOISHA. CENAMOR. sua emergente presença no cenário das letras contemporâneas assinala também que à literatura hispano-saaraui toca caminhar afirmativamente ao lado das outras tantas expressões literárias que a partir da África. a mescla das experiências. / y a las tres / las quiero por igual”. Perpectivando. os recortes aqui esboçados buscaram realizar o registro de alguns nomes presente y futuro”. Desafiando.com/numero25/ sahara/sahara. converte-se numa ponte que tende a promover um rico encontro entre a cultura autóctone do Saara Ocidental com as culturas espanhola e iberoamericana. pela projeção que está alcançando. Um mundo singular. interferências como as dos escritores filipinos Elisabeth Medina e Edmundo Farolán ou dos saarauis Mohamed Salem Abdelfatah e Limam Boisha. Las Palmas: Puentepalo. Sukeina Taleb e Zahra Hasnaui. Edmundo. as várias realidades linguísticas.htm Acessado em 3 abr 2007. FAROLÁN. Mohamed Salem.aquí particularizadas nos recortes canário e cubano se revela na forma de uma sensível metáfora para atestar. entendendo que esses espaços representam um contributo à parte na perspectiva do redimensionamento de conceitos como hispânico e hispanidade (CORDIVIOLA. as incertezas política do país. FUENTES. memória e conflito na literatura hispano-americana do século XVI. Francisco. especial: Cultura y literatura saharaui. pluralizando-os culturalmente e estendendo pela fluidez de suas fronteiras a transversalidade de manifestações como essas. 1998). Luali Lehsan. felizmente. portanto. In: La Guirnalda Polar Núm. poema de Limam Boisha publicado em Los versos de la madera (2004). hispanas e latino-americanas . pois. 2005. Referências bibliográficas ABDELFATAH.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 89 Mohamed Salem Abdelfatah Ebnu atuais das letras hispano-filipinas e saarauis. um dos mais ativos grupamentos de escritores reunidos em torno da causa saaraui no exílio. culturais e literárias relacionadas ao castelhano hoje. Chejdan Mahmud. agosto 2003. O escritor integra a chamada Generación de La Amistad. Recife: PGLetras/UFPE. Embarek O conjunto de elementos híbridos resultantes do progressivo contato entre realidades díspares como a afro-arábica e a hispana encontram na expressão cultural saaraui motivação criadora permanente. Saleh Abdalahi. “Poesía saharaui en castellano”. a relação com outras alteridades africanas. tantas vezes legitimadoras de uma pureza original tanto descabida como anacrônica. culturas. Alfredo. Mohamed Salem. .

2009. “Breve Historia de la Literatura Filipina en Español. In: II Congreso Nordestino de Español. “Filipinas Hispanizada: ¿Una Buena Opción?” In: Hispanismo . Carlos. Programação e Caderno de Resumos.90 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS FAROLÁN.com/numero25/sahara/sahara. Quezón City. QUEIROZ. Vol 3. El espejo enterrado. No 1 (2007). 1998. In: Humanities Diliman .html. Mohamed Salem. Elisabeth. “¿Literatura Hispano-Filipina Disponible en: http://hispanismo. pp. 53.geocities. p.html Acessado em: 4 abr 2009. In: Tercera primavera.htm Acceso en: 3 abr 2007 . 2009. 150-174. FUENTES. Andrea.com/kaibigankastil/rivera7. RIVERA.ariadna-rc. In: Revista Ariadna. “Elogio a la Hispanidad”. 28 de marzo de 2000. MEDINA. 1981. Disponible en: http:// www. A. No 2 (2006) & Vol 4. “De la invisible presencia: voces literarias en español desde África y Asia”. Org. Filipinas. O. Acessado em: 02 abr 2006. Disponible en http://www. Edmundo. especial: Cultura y literatura saharaui. Maceió. “La poesía saharaui”. Contemporánea? Un ejemplo en la poesía de Edmundo Farolán Romero”. Madrid: Taurus.org/hispanoasia/5218filipinas-hispanizada-una-buena-opcion. Bogotá: Editorial Cabrera. NOTA 1 ABDELFATAH. número 25. GALLO. Guillermo Gómez.

Estamos hablando. JULIA. generando odio. p. desaparece el ansia del testimonio objetivo y surge una visión dialéctica de la realidad española basada en la confrontación de los estratos ideológicos y sociales. y del régimen franquista. o sea. termina exactamente en el año de 1950 y tenía como característica estudiar la vida en las ciudades de los años 40 y la angustia existencial del individuo que en ellas vivía. Publicada en 1957. 1980. la tercera etapa. sigue con el tema de la de la vida en las ciudades y la angustia existencial del individuo.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 91 NATALIA. La segunda etapa. de forma que se observa que “la mirada apasionada del autor comienza a ser substituida por el frío contemplar de la cámara fotográfica.” (RICO. pero una necesidad de la autora para que pudiera expresarse. Según Sanz Villanueva. tras pasar por una sangrienta guerra que duró tres años y que dejó sus rastros destructivos en las décadas posteriores. tal forma nueva tenía como objetivos retratar el cotidiano de las ciudades y la crisis existencial por la que pasaba el individuo que en ellas vivía. establecido terminada la guerra con la victoria del bando nacionalista que duró treinta y seis años en el poder (1939 – 1975). la existencialista. MERCEDES Y ELVIRA – RETRATO DE LA MUJER ESPAÑOLA EN LA POSGUERRA Ana Carolina da Silva Pinto PG . pero obser vamos un cambio en la estructura de la novela. por lo tanto. Finalmente. según Gonzalo Sobejano. por Carmen Martín Gaite. La primera etapa. cuya lección sacamos de su Historia de la novela social española . se dividen en tres tipos: la existencialista y tremendista. de la Guerra Civil Española (1936 – 1939) que dividió el país en dos partes (la España Nacionalista y la España Republicana). la neorrealista y la dialéctica. pues el protagonista individual cede la vez a un protagonista colectivo. pobreza y varios muertos en ambas partes. hasta la muerte del dictador Francisco Franco. la neorrealista. la neorrealista. la cronología no es linear y las acciones son descritas de modo simultáneo. 411). Entre Visillos es una novela que forma parte de la segunda etapa. Las novelas de posguerra. la dialéctica. en la que las técnicas realistas no fueron una moda.Universidade Federal Fluminense A mediados del siglo XX una nueva forma de hacer novelas pasa a ser observada en España.

La novela tiene inicio con la llegada de Pablo Klein. que narran en primera persona sus vivencias e impresiones de la sociedad en la que están inseridos. profesor de alemán que vuelve a su ciudad natal para impartir clases en el Liceo de la ciudad. este personaje se configura como un hilo conductor. por lo menos sintieron sus efectos – Carmen Martín Gaite con Entre Visillos escribe una novela social que hace una crítica a los modelos de conducta femeninos preconizados por la sociedad patriarcal española y a la vez denuncia una sociedad en la cual la mujer no tenía vez. A través de las relaciones que establecen con los demás personajes de la trama. y dos narradores intradiegéticos. Entre Visillos tiene como tema principal la situación de las mujeres en los años de 1950 con todos los tabúes y privaciones que tenían que enfrentar. Mas nestes últimos impunha-se uma concepção utilitária da arte que por vezes se sobrepunha à salvaguarda da qualidade artística da sua ficção. São os representantes do chamado realismo social. Somos. esta figura inexiste en este tipo de novelas. entonces. 1994.92 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Sánchez Ferlosio. escrevem com técnicas de representação que aproximam os discursos narrativos da reportagem e privilegiam a expressão do castelhano coloquial. la cuestión de la hipocresía y del conservadurismo de una ciudad que todavía se encontraba cerrada en razón de los años de guerra vividos. principalmente. huérfanas de madre. presentados a Natalia y a sus hermanas Julia y Mercedes. la vida de un grupo de jóvenes de misma generación de una ciudad provinciana española (que no es explicitada . en estas novelas. p. El lector es presentado a los hábitos y costumbres de la burguesía de la pequeña ciudad española a partir de tres visiones. que viven con su padre y su tía. (SANZ VILLANUEVA apud ÁLVAREZ. además de tratar de otros temas como la diferencia entre las clases sociales – ricos despreciando pobres y viceversa –. por lo tanto. así que si no presenciaron el efectivo impacto que toda guerra engendra. escritor español que sigue produciendo y que también formó parte de la generación de los niños de la guerra. como una cámara que registra todo lo que pasa delante de ella. Natalia y Pablo Klein. pues la novela es narrada por tres focos narrativos: un narrador extradiegético que narra en tercera persona todo lo que ve. en el libro).1926). esa es la razón de la cantidad de diálogo que observamos en ellas y es a través de ellos que la trama es conducida. 301). LOURENÇO. Também defenderam essa função social. pues como ya vimos. Novela que le dio reconocimiento a su autora por ganar el Premio Nadal en el mismo año de su publicación. Ana Maria Matute (n. Jesús Fernández Santos (1926 – 1988) e Carmen Martín Gaite podem ser agrupados sob o rótulo de neo-realistas. A pesar de no ser el personaje principal. outros escritores que orientaram a sua produção no sentido da urgência da denúncia. Pablo Klein y el narrador omnisciente en tercera persona narran la sociedad como ven. retratando todo el conservadurismo y retraso de una sociedad patriarcal marcada por una dictadura que la devastó. y la religiosidad que no podría dejar de aparecer. reproduciendo. Ignacio Aldecoa (1925 – 1969). diciéndonos que Perteneciente a la llamada generación del medio del siglo o generación de los niños de la guerra – una vez que los escritores que produjeron alrededor de los años 50 eran niños en la época de la Guerra Civil. nos explica el motivo de la necesidad de que se hiciera en España novelas de este tipo. de un grupo de chicas adolescentes de clase media de los años 50. nos es posible visualizar un retrato de las sociedades provincianas españolas del medio del siglo XX y. pero. el espacio que les era reservado a las mujeres de la época. El narrador no interviene en la historia. pues es a través de él que la historia es delineada. pues estamos tratando de una sociedad conservadora. Entre Visillos narra. en especial. Natalia. Todos eles coincidem na defesa da função social da literatura. Juan Goytisolo. como se fuera una cámara lo que testimonia.

me puse a defenderle y a decir que era un chico extraordinario. p. Natalia no tenía madre. 229-231). por lo tanto a través de su diario que Natalia se refugiaba. (GOYTISOLO apud MARTÍNEZ CACHERO. es Pablo Klein quien la incentiva para que hable con su padre sobre sus pretensiones de seguir una carrera.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 93 los novelistas españoles – por el hecho de que su público no dispone de medios de información veraces respecto a los problemas con que se enfrenta el país – responden a esta carencia de sus lectores trazando un cuadro lo más justo y equitativo posible de la realidad que contemplan. dedicadas al trabajo doméstico hasta la obsesión y sin siquiera la compensación del reconocimiento por parte de unos hombres que. Natalia descubre un nuevo modelo masculino en su profesor de alemán Pablo Klein. es una chica independiente. no podía resultar atractiva a las niñas y adolescentes de posguerra En este fragmento podemos observar la inconformidad de Natalia con el medio en el que vivía. compensaban con actitudes prepotentes en la familia sus también difíciles condiciones de trabajo. (MARTÍN GAITE. Natalia no se preocupa en conseguir un novio y menos aún en casarse. que sólo quería convertirlas en unas estúpidas. que no sepamos nada ni nos alegremos con nada. por lo tanto. Me arrodillé en la alfombra y allí. que sólo nos educa para tener un novio rico y que seamos lo más retrasada posible en todo. p. lo permita. 2005. nos complementa Concha Alborg. sin embargo cuando toma coraje. […] De lo de mi carrera no le he dicho nada. De este modo la novela cumple en España una función testimonial que en Francia y los demás países de Europa corresponde a la prensa. María del Mar Jorge de Sande en sus Apuntes sobre la Novela Española Femenina de Posguerra nos explica el porqué de la orfandad de la mayoría de las chicas de las novelas sociales. sacándola de un local privado para uno público donde pudiera ejercer más control sobre la chica. soñadora y rebelde. por el contrario. donde la madre sigue las normas sociales. y la distancia entre padre e hija aumenta. “La sociedad patriarcal. Según ella esta imagen de sus madres. la más joven de las tres hermanas. habla sobre todo lo que le aprieta el corazón menos sobre sus intenciones de proseguir sus estudios en Madrid: Qué difícil era: era dificilísimo. 93-94). a analizar a Natalia. p. que estaba dominada por las tareas domésticas y por la obligación de encontrar un novio para casarse. sin embargo. y el futuro historiador de la sociedad española deberá apelar a ella si quiere reconstruir la vida cotidiana del país a través de la espesa cortina de humo y silencio de nuestros diarios. Saqué lo del novio de Julia. prefiero no vivir. con quien podría conversar abiertamente como hacía con su padre en la infancia. Otra acción de tía Concha que también le aburría muchísimo a Natalia. […] Le he dicho que si tengo que ser una mujer resignada y razonable. 1958. Era. 38). (…) he arrancado a hablar y le he dicho todo de un tirón. que. 185). era el hecho de no dejar que estudiara en su cuarto. Que nos volvemos mayores y él no lo quiere ver. lo que hacía con que ella depositara todas sus carencias afectivas en su padre que representaba un modelo de conducta para ella. obligándola a hacer sus tareas en la sala. 1997. sin verle la cara. A los dieciséis años. (SANDE. educándolas para que tuvieran un novio rico y nada más. pero no como cualquier adolescente de su edad y sí por cuestionar el ambiente opresivo en el que vivía la mujer de su época. Siendo así. cuando la niña empieza a crecer. que la tía Concha nos quiere convertir en unas estúpidas. Empezamos. Como ya vimos. caso su padre. lo que quiere es seguir sus estudios en una universidad. un hombre viudo. a su vez. p. el cine y los seriales radiofónicos hallaron fórmulas diversas para aspirar a finales más felices. encerradas como el buen paño que se vende en el arca y esas cosas que dice ella a cada momento. o sea. tuvieron que pensar en cómo modificar y mejorar esas condiciones de vida: en la publicidad. no provee modelos maternales positivos” (ALBORG. . 1993. primeramente por confesar a su padre el cuanto le aburría la educación que les daba su tía Concha a ella y a sus hermanas.

1958. ¿Dónde tienes los libros? – En el cuarto trastero. para que se uniera a un hombre que solamente buscaba una joven inocente y virtuosa para dominarla. Yo creo que si le viera mucho. y su familia. Allí juntas. 11). que es mentira cuando le digo que me enfado por las cosas que me dice él en las cartas …. no sé para qué se lo ha tenido que contar a él. p. finalmente. sabe Dios de donde venía – Natalia se tapó la cara contra el hombro de Gertru y se echó a llorar desconsoladamente. También percibimos el papel transgresor de Natalia. con él deseo de excitarle. vive dividida entre el deseo de entregarse a su amor yendo para Madrid concretizar su unión con el guionista. que desaprueba tal unión. A partir de este fragmento observamos el triunfo de Julia como persona y como mujer que toma sus decisiones y enfrenta su destino. p. 83).] Julia lloraba. Así le cuenta Natalia: “[…] He venido despedirme de mi hermana. independiente que. se cree que vuelve después de las Natividades. (MARTÍN GAITE. Julia. que por fin. ¿sabe? Se va a Madrid. p. que tuvo una formación tradicional y católica. volvería a pasar lo de aquel verano. 1958. ya hace mucho.” (MARTÍN GAITE. aquella chica de quinto que tuvo un hijo el año pasado. sirviéndole como ama de casa y en la educación de sus hijos. Yo le pregunté por qué. Natalia observa la reproducción de los dictámenes de la sociedad patriarcal. El novio le ha encontrado allí un trabajo. porque a Ángel no le gusta el ambiente del Instituto. (MARTÍN GAITE. puesto que son tratados como trastos lo que representa para uno la salida de la ignorancia y la apertura de puertas para la libertad. En este fragmento constatamos el malestar psicológico de Julia al descontrolarse por los deseos que le atormentaban y a la vez por lo que había sentido y hecho. ¿qué miras? – Que has quitado la repisa con los libros. asumiendo todas las responsabilidades que sus actitudes pueden causar. Anoche me desperté y estuve escribiéndole cosas como las que me escribe él. Siendo así. representa la virilidad y la fuerza física y psicológica que somete a la mujer. decide ir para Madrid quedarse con Miguel. puesto que Miguel se niega a someterse a la tradición de pedir la mano de su novia a su padre. . como ya hemos visto en la conversa de Natalia y su padre. En nuestras casas no lo habíamos dicho. 1958. como también podemos percibirla en la fiesta del noviazgo de ésta misma amiga. incluso. p. A partir de este fragmento percibimos la perplejidad de Natalia al ver que su amiga no proseguiría sus estudios a causa de su novio. Con su amiga Gertru. Miguel interpreta un hombre libre e Al final de la novela sabemos que Julia. oyendo la música de una emisora francesa – tan lejos. 243). pero mi padre no sabe nada todavía. como por ejemplo lo de su amiga Gertru que dice que este curso por fin no se matricula. al no encontrar los libros que tenía: – Sí... diciéndole que me acordaba mucho de todo lo de ese año cuando nos hicimos novios. Si te sirve alguno. (MARTÍN GAITE.94 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS registrando en él todo lo que le afligía. al apoyar la unión de su hermana Julia con Miguel. se siente culpada por el creciente deseo sexual que empieza a atormentarla. 255). un guionista de cine que vive en Madrid. tengo que hacer una selección de los libros antes de casarme. que son los libros. a través de Natalia que le cuenta la decisión de su hermana a Pablo Klein cuando lo encuentra en la estación de tren. lo más malo que se puede usted figurar. a ir a la iglesia para confesarse: – Pero la tentación la tengo siempre. la hermana del medio de Mercedes y Natalia. cogiendo un poco las cosas que había encima. llegando. Julia. 1958. […] Se sentaron en el sofá amarillo. [. y es que ella por lo visto le ha contado lo de Fonsi. en el día de la partida de su hermana. a la vez.

al contrario de Natalia. dividido entre sus convicciones y los dictámenes de las normas sociales bajo las cuales vive. ¡Pero yo no! Yo me ahogo. por el cual se enamora sin nunca confesarlo. p. con Elvira. y hasta puede llegar a creer que vive y que respira. representa una mujer llena de complejos. Elvira le escribe a Pablo Klein una carta pidiéndole disculpas por lo ocurrido.. puesto que la tensión erótica que surge entre ella y Pablo Klein le genera una lucha interior entre su deseo y la barrera que la sociedad patriarcal de la España posbélica le ofrecía a la mujer. como hace Natalia. para mostrarse una mujer independiente y segura de si. pasa del control de una figura masculina a otra. director del Instituto donde Pablo Klein vino a dar clases. hipócrita y conservadora. el modelo patriarcal del cual también era víctima. como la familia escocida. Mercedes estaba discutiendo con Natalia. (MARTÍN GAITE. pero no habrá entendido nada. Elvira. Elvira también se siente atraída por la experiencia y seguridad que Pablo Klein le transmitía. quiere aprovechar la vida con intensidad. Con su carácter difícil. Mercedes. a quien conocía desde niño. al contrariar su familia para vivir con su novio. es reservada. 1958. Elvira. va a visitar su familia. En este primer encuentro con el profesor. interfiriendo en la vida de ellas: desaprobaba la relación de Julia y Miguel y vivía criticando a Natalia por sus hábitos raros. en un tono casi histérico desfoga toda su frustración de vivir años reclusa en una misma ciudad. que eso no puede ser. por lo tanto. Don Rafael.Mentira.] En el pasillo. Creerá que lo ha entendido. ella se reconcilia con esta misma sociedad. Es un personaje que reproduce la típica solterona de la época que como no poseía un hogar propio para preocuparse. Es la responsable por reproducir. 1958. como lo confiesa a Pablo Klein: No puede entender nada. no has desayunado. p. sin embargo lo que quiere es salir a divertirse en las fiestas de sus amigos. la hermana mayor de Julia y Natalia. sin entrar. no que no sienta la muerte de su padre. La carta le suena a Pablo como una carta de amor. pero es joven. Nos es presentada a través del propio profesor que al llegar al Instituto y saber de la muerte del director. En la cocina no hay ninguna taza sucia. pues ya pasó de la edad de relacionarse y casarse. que así como la tía Concha. por Dios. Pasado este primer encuentro. exhibiendo abiertamente sus amistades con otros hombres. 20) Este personaje se encuentra. A pesar de mostrarse una mujer liberal.. vivía a las vueltas con sus hermanas. Te vienes al mirador con nosotras. dirá que qué disparate. sin embargo se encontraba dividida entre el nuevo amor por el profesor y su pacata relación con Emilio. Finalmente. yo me desespero. y como tal. haciendo con que en sus posteriores encuentros no esconda la atracción física que siente por la joven. 55). Solamente uno que vive aquí metido puede llegar a resignarse con las cosas que pasan aquí. es la heroína fracasada de la novela. Martín Gaite nos da otro ejemplo de mujer que cuestiona su papel en la sociedad. puesto su doble condición de hermana mayor de una familia sin madre y de mujer. .ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 95 sin embargo es interesante notar que al mismo tiempo en que transgrede los valores de la sociedad patriarcal en que vive. Elvira es una chica que vive el aburrimiento del luto por la muerte de su padre. qué manía de estar siempre en otro lado. yo no me resigno. A seguir podemos observar el papel de madre siendo cumplido por la hermana mayor. . al lado de su tía-madre Concha. que dicen que con el fallecimiento de su padre debe quedarse en casa de luto. El ambiente de la provinciana ciudad le aburre. puesto que. (MARTÍN GAITE. pelea con la chica para que se incluya al medio social: [. Si le explico por qué no fui a Suiza se reirá.

al paseo central. António Apolinário (1994): História da Literatura Espanhola. ÁLVAREZ. por aún cuestionar el papel de la mujer de esta misma sociedad. quien le proporcionaría el matrimonio.org. y también la pobreza moral. Literarias. porque hacia atrás era el horror. en su libro Desde la Ventana – al cuestionar el espacio que le era reservado a la mujer de la España posbélica. N° 35. sin despertar la atención de la censura. Acessado em: 12/08/2012. la corrupción. p. no tenían donde mirar. en segundo lugar. Con Natalia. Eugenio G. la soledad. y hacia delante.cotidianomujer. Em Revista Cotidiano Mujer . en que la Franco implantó su ley. Barcelona: Ed. LOURENÇO. Francisco (org. FONSECA. que sin decirlo. Concha (1993): Cinco figuras en torno a la novela de posguerra: Galvarriato. al cine y a la iglesia.96 pues al final. Formica. Lisboa: Ed. en pleno año de 1957. que veían la vida pasar entre los visillos de sus ventanas. constatamos que Martín Gaite transgrede dos veces con Entre Visillos : primeramente por publicar una novela del realismo social en una sociedad en que solamente les era permitido a la mujer escribir lo que se quedó conocido en las letras hispánicas como novela rosa. BUCKLEY. y. denunció. por las delaciones que ellas denunciaron y se las llamó la “generación del silencio”. la eclesiástica y la política. que Martín Gaite. el aislamiento cultural. escritora de la revista electrónica Cotidiano Mujer . Crítica. Madrid: Ed. el desarraigo. […] En ese clima surgió una generación de escritoras. la traición.: Historia y Crítica de la Literatura Española. la frustración. Ramón. Soriano. donde ocultaban. bajo la simplicidad de lo cotidiano.htm. Boixadós y Aldecoa. unas más jóvenes que otras. Después de analizar los personajes femeninos significativos de la novela. Gonzalo (1980): Caracteres de la Novela de los Cincuenta. Em: RICO. así. ahogándose en las tareas domésticas y en el ambiente opresivo de tener que encontrar un novio para casarse. 2001).uy/2001/35_p31. Asa.). un personaje que representa una metáfora de futuro. admite ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS su incapacidad e contribuye con la memoria de su país al criticar la vida de las chicas de clase media de las pequeñas ciudades españolas de los años 50. Eligieron un enfoque existencial. la particular represión del régimen franquista sobre las mujeres. Martín Gaite construye. Concluimos así que es a través de las entrelíneas de Entre Visillos que Martín Gaite . pero las unía el peso de la doble censura. CASADO. Sin embargo. Disponível em http:// www. NORA. un malestar muy grande. sin discursos. la mentira. Referencias bibliográficas ALBORG. la angustia. la mayoría de los “maestros” se había ido al exilio y la necesidad de dejar su testimonio en la memoria del país. Pertenecían al “realismo tremendista” y también al “cainismo”. Venían de diferentes regiones de España. la pobreza. lo que la censura no les permitía. de las mil maneras que elige la escritura para decir entre líneas. como es el caso de Julia. afirma que: Quienes vivieron la posguerra de esa guerra. indeterminación para superar sus frustraciones. en su artículo Las Escritoras del Silencio. hace su más fuerte denuncia al construir un personaje que representaba una chica rara – como la propia autora así lo definió. es a través de Natalia. al decidir quedarse con Emilio. el hambre. Elena Fonseca. asegurando la reproducción de los esquemas patriarcales. por eso iban a fiestas. al casino. (FONSECA. representa la esperanza en generaciones de mujeres que consiguieron romper con estereotipos para encontrar una posición en la sociedad. Mercedes y Elvira. Elena (2001): Las Escritoras del Silencio. la nada. 410-427. Eloísa. Pablo Gil y SOBEJANO. Contaron la realidad. de. junto a la decadencia generalizada.

. a c . (1958): Entre Visillos. Crítica. 523526.: Historia y Crítica de la Literatura Española. Madrid: Ed. j p / b i t s t r e a m / 1 0 1 0 8 / 2 4 4 6 6 / 1 / acs070005.pdf. SANDE. t u f s .). ________. Disponível em: http:// r e p o s i t o r y. Destino. Carmen (1999): Desde la ventana . Em: MARTÍNEZ CAHERO. SOBEJANO. Castalia. Em Area and RICO. Francisco (org. Vol 70. Gonzalo (1999): Carmen Martín Gaite. Barcelona: Ed. María del Mar Jorge de (2005): Apuntes sobre la Novela Española Femenina de Posguerra. Barcelona: Ed. Culture Studies .ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 97 MARTÍN GAITE. p. Madrid: Ed. José María (1997): La novela española entre 1936 y el fin del siglo – Historia de una aventura. 8/1 Época Contemporánea: 1939 – 1975. Espasa-Calpe. Acessado em 01/08/2012.

é interessante ressaltar que este livro foi publicado em um período de grande efervescência política e cultural impulsionada. original. subjetiva.dentro e fora de suas obras-. borrando os limites entre os vários gêneros concebidos tradicionalmente.” (OVIEDO.” (OVIEDO. o ensaio é o gênero que propõe a elaboração de uma reflexão profunda. p. poesia. refletindo sobre a realidade latinoamericana. o ensaio começa a ter papel importante. como José Martí (1853-1895) e Manuel González Prada (18441918). Ademais. . ficção e reflexão podem mesclar-se. porém dando-lhe novo ânimo. Neste nova forma do ensaio. tornando (novamente) a América Latina objeto central de reflexão e representação nos anos sessenta. em seu livro Breve historia del ensayo hispanoamericano. por meio do que Oviedo denominou “ensaio criativo”.23) narrativa e o próprio ensaio. os intelectuais reconheceram como uma obrigação social posicionar-se frente aos acontecimentos. 1991.98 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS O “ENSAIO CRIATIVO” DE JULIO CORTÁZAR Ana Carolina Macena Francini PG. frente a Europa primero y luego ante Estados Unidos. por sua vez. como os textos “Verano en las colinas” e “Con legítimo orgullo”. a partir do século XIX. os quais serão o foco da análise desse trabalho.Universidade de São Paulo Como se sabe. representado por grandes nomes. Na América Latina. p. Em uma época na qual política e arte pareciam estreitar ao máximo suas relações. “ensayo creador debe entenderse también en el sentido de que surgen abundantes ejemplos de creadores que sienten la necesidad de asumir la función crítica como un reconocimiento de la importancia que ésta tiene para su ejercicio artístico. sobre um tema que pode ser o mais variado possível. especialmente. contribuyo decisivamente al conocimiento de la realidad de sus respectivos países y así a definir la identidad hispanoamericana. 199. assinala José Miguel Oviedo. de modo distinto. Em princípio. pela Revolução Cubana (1959). Cada uno. Julio Cortázar (1914-1984) fez parte dessa tradição.94) Na obra La vuelta al día en ochenta mundos (1967). : “Estos son los grandes padres del género: con ellos comienza la historia de nuestro ensayo. é possível encontrar exemplos do “ensaio criativo” do escritor argentino. Sobre esses dois escritores. principalmente.

poemas.. são seres alheios e incomunicáveis e.). em seu livro Entre la pluma y el Fusil (2003). . que apesar da convivência. dispostas de maneira aleatória remetendo às ilógicas colagens surrealistas. também. em que o leitor poderá encontrar de tudo. ensaios. Esse tom informal também condiz com a temática desse ensaio. Catherine Bretillón faz um panorama interessante sobre esse tema em seu artigo “La animalidad como materia de lo fantástico en los cuentos de Julio Cortázar”: Los animales cortazarianos. Em “Verano en las colinas”. cujas fronteiras também se borram na narrativa. ( BETILLÓN. há alguns ensaios que mais parecem ‘ensaios fantásticos’. como veremos nos “ensaios criativos” de La vuelta al día en ochenta mundos. escritores experimentais. conforme explicou Claudia Gilman. em seus textos. fotografias etc. reales o imaginarios. considera o modo fantástico uma forma mais complexa e profunda de relacionar-se com a realidade latino-americana de seu momento. além de se confundirem os limites entre o ensaio e a ficção. visando desestabilizar a realidade preconcebida pelo leitor. novamente se problematiza a relação entre o humano e o animal. Como o próprio nome sugere. citações. Este livro à primeira vista chama a atenção por sua difícil ou impossível classificação. No entanto a própria organização do livro reforça uma das temáticas centrais da escritura de Cortázar: a concepção da realidade como absurda. na prática de alguns hábitos. y que el ser humano vive como una experiencia de horror (. Talvez por essa razão os animais aparecem nos textos de Cortázar da maneira mais variada possível. pois consideravam o ato criador em si uma forma legítima de compromisso com a realidade e um instrumento para a ruptura desta. podem assemelhar-se em vários aspectos. muita vezes.. es que estos nos acercan al “sentimiento de lo fantástico”: su manera de vivir y de percibir el mundo son materia fértil de lo fantástico. se manifiestan con singular intensidad dentro o fuera de la mente humana. que muitas vezes foge da nossa compreensão. Por isso. os textos de Cortázar buscam explorar. pois o escritor argentino retoma este modo de narrar dando-lhe uma nova dimensão mais comprometida. ilustrações. Sendo assim. a dualidade que há na relação entre o homem e o animal. nessa obra. as artes plásticas. Pero la particularidad de los animales en los cuentos. chamado Adorno. 1996.em que a conscientização dos leitores era prioridade em detrimento da criação artística-.384) Assim. Dessa forma. desde reflexões sobre o Jazz. os animais acabam por provocar o sentimento do fantástico. o papel do escritor latinoamericano até considerações sobre seu gato preto. Nos invitan a establecer pasajes hacia “lo otro” que no pueden expresar. o animal reforça a concepção de realidade absurda do escritor argentino. Um deles é seu aspecto comunicativo: Julio Cortázar interage com o leitor. por exemplo. como Cortázar. P. Nele há contos. Tema recorrente na obra de Cortázar. tal como ocorre em seu primeiro livro de contos Bestiario (1951).ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 99 Mas havia entre os escritores polêmicas discussões sobre a forma de apropriar-se da realidade latino-americana e intervir nela. y suelen presentarse como criaturas domesticadas. tratando-o com familiaridade. salvajes o monstruosas. acreditavam na equivalência entre política e prática simbólica. Enquanto alguns intelectuais defendiam a estética realista (os denominados anti-intelectualistas) . Em “Verano en las colinas” e “Con legítimo orgullo”. La vuelta al día en ochenta mundos pode ilustrar essa noção de arte defendida pelo escritor argentino. impossível de ser compreendida a partir da racionalidade. Com sua existência irracional. é possível identificar com maior facilidade traços peculiares do ensaio. a despeito das diferenças. é uma viagem aos vários mundos de Cortázar. humor e certa ironia.

numa relação que se torna cada vez mais angustiante ao longo do conto. Adorno. Já em “Verano en las Colinas”. pois o animal de “Cefalea” também não pertence a uma fauna conhecida. la sombra del obispo se proyecta en las paredes enjalbegadas. em seu livro Introdução à Literatura Fantástica . vão se incorporando novos dados que acabam retirando o leitor do aparentemente habitual e trazendo-lhe a sensação do estranho. o leitor se depara com a seguinte pergunta de sua esposa: “. Neste ensaio. incontroláveis que parecem perturbar a saúde mental e física de seus criadores. “Carta a una señorita en París” ou “Cefalea”.16)..¿Va a ser un libro de memorias? Entonces. jugué con el gato Teodoro W. que intencionalmente as torna familiar ao leitor. Daí a contradição que expõe Lukács sobre o ensaio: Refiro-me aqui à ironia que há no fato de que o crítico sempre fala das questões últimas da vida. em uma narrativa. do contato com o desconhecido. y descubrí sobre el cielo de Cazenueve una nube solitaria que me hizo pensar en un cuadro de René le d e l’A rg o nne bataille de l’Arg rgo nne.100 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS a qual não parece nada mais que cotidiana e trivial. como nos contos “Bestiario”. como afirma Lukács. ¿ya empezó la arterioesclerosis? ¿Y dónde vas a instalar la jaula del obispo?” (CORTÁZAR.1 podem explicar por meio de uma lógica racional: é a perturbação da dúvida. Adorno. por sua vez.16. A partir desse ponto. p.17) Da mesma forma ocorre em “Verano en las colinas”. criaturas pouco dóceis. grifo meu). se sobrepõem dois mundos de lógicas diferentes. além de conjecturar sobre o tema para um próximo livro. (CORTÁZAR.) me falta encarcelar al obispo que además es una mandrágora. que tem necessidade de indagá-la. chamado Obispo. Neste último relato. 1970. apenas de ornamentos belos e nãoessenciais da grande vida. os cuidados com seu outro animalprovavelmente um pássaro-. criando uma outra realidade de natureza misteriosa. 1970. W. que vai crescendo cada vez mais. 1970. La batail 1970. em que se parece estar vivenciando momentos íntimos e banais da vida de Cortázar. elaborá-lo é dar forma a uma situação vivida pelo crítico. “(. como nos definiu Todorov. p. Entretanto. ( CORTÀZAR. animal que não aparece totalmente identificado no texto. Cortázar parece relatar fatos corriqueiros de sua vida cotidiana: os momentos com seu gato T. são as indefiníveis ‘mancuspias’. em que o homem e o animal convivem no mesmo espaço. porém sempre no tom de quem falasse apenas de quadros e livros. típica do conto fantástico. Sabemos. e mesmo aqui do mais íntimo do íntimo. ao longo do ensaio. .” (CORTÁZAR.. dejándole apenas un punto de apoyo para el pie derecho. começamos a duvidar da existência do gato e do Obispo. a semelhança com o ensaio parece maior.) Cuando llega la hora de comer y enciendo el cabo de vela.15) O leitor então toma conhecimento dessas informações dadas pelo ensaísta. e sim tão-somente de uma bela e inútil superfície.. do livro Bestiario. Magritte. por sua vez. em outras palavras. a realidade e a experiência mais imediata da vida são matérias do ensaio. Uma experiência que estes não Tal recurso para causar o efeito perturbador recobra outros textos de Julio Cortázar. que este tipo de relato se configura quando. como aponta Cortázar mais à frente. Porém. La cadena que sostiene la jaula chirría cada vez que se abre la puerta de mi cuarto. enquanto passa o verão em um povoado francês: Anoche acabé de construir la jaula para el obispo de Evreux. p. Esse “además” reforça o sentimento do fantástico no texto. o mundo real e o mundo sobrenatural. y veo al obispo de frente (. que. p. pois não se sabe de que animal se trata o Obispo e se este será assunto de um livro de Cortázar ou se de fato existe: Ya he encerrado al obispo: con dos llaves inglesas apreté el dogal de hierro que ciñe el cuello. su lado mandrágora se acusa más en la sombra.. se torna uma experiência perturbadora tanto para os personagens como para o leitor.

Cortázar que não partilhava dessa ideia aponta que a consequência para os escritores latino-americanos é que acabavam ficando presos em suas próprias narrativas e no mundo real eram “señores aburridos”. como um escritor europeu. O ensaísta sugere que os escritores latino-americanos. Aludindo às questões de sua época. sarcasticamente. Cortázar declara que a ele não interessa escrever suas memórias. Cortázar volta à pergunta de sua mulher sobre escrever um livro autobiográfico e tece críticas sobre isso. porém as indistinções no “ensaio criativo” – tanto com relação ao animal quanto ao gênero – buscam. Se. mas que não deixa de conter reflexões e críticas sobre a realidade e talvez. as mangostas . como propõe o ensaio. ao longo da narrativa. para elaborar uma essência que será utilizada para pulverizar as folhas que. não se sentiam à vontade para escrever um livro de memórias. no dia de finados. em meio a esse estado de perturbação e dúvida. nesse texto a situação. Para tal.as mangostas. o próprio ensaio contrapõe tal afirmação e confirma seu modelo estético. dividindo as tarefas de cuidar das mangostas. diferentemente da quase mandrágora de “Verano en las colinas” ou das “mancuspias”. No ensaio em questão. pois borram-se as fronteiras entre ficção e realidade e inclui-se a subjetividade do autor. os túmulos estejam visíveis para serem homenageados. pois lhe parece mais divertido falar de gatos e mandrágoras. como comentado acima. em que ficção.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 101 ainda que de forma menos aterrorizante. realidade e reflexão parecem se mesclar. é uma tarefa que ninguém sabe a origem e simplesmente aceita como uma tradição que não pode ser contestada: . assim como no conto fantástico. o “ensaio criativo” vai avançando para o seu desfecho. muitas vezes por causa dessa vigilância e da autocensura. questão polêmica nesse período. ironicamente. Já o ensaio “Con legítimo orgullo” está ainda mais próximo ao conto e se não estivesse num livro que mescla os gêneros.que se alimentam de serpentes. a princípio. inclusive crianças e idosos. na sua visão. desde uma posição anti-intelectualista. essa é uma campanha de que toda a população participa. por outro. narra-se um antigo costume de um país (não especificado) de recolher as folhas secas que caem sobre os túmulos no cemitério. pois temiam ser tachados de vaidosos ou pedantes. primordialmente. A população desse país é obrigada pelo governo a recolher as folhas secas para que. No entanto.irão comer. Porém. poderia ser considerado um relato fantástico. assim eliminando as incômodas folhas secas. seja um dos ensaios mais políticos de La vuelta al día en ochenta mundos. é familiar ao leitor e aos poucos vai se tornando estranha. pôr o compromisso político em primeiro lugar. já que seriam considerados individualistas e alheios ao engajamento político defendido na época pelos escritores de visão anti-intelectualista. o governo organizou uma complexa campanha em que é necessário ir à selva caçar serpentes. o leitor vai se interando da lógica absurda que há num costume que aparenta ser tão inofensivo. novamente dando destaque para “Cefalea”. ele parece fazer críticas aos escritores que. por sua vez. pulverizar as folhas e apanhar as cobras nas expedições na selva. ao discutir o papel do escritor latino-americano nos anos 1960. fantástica. a angústia da dúvida seguirá até o fim do ensaio. Entretanto nele há uma estratégia de composição ficcional muito parecida com a do ensaio “Verano en las colinas” e nos contos de Bestiario. Por sua vez. Ainda que em “Con legítimo orgullo” o animal representado remeta ao real . sem deixar de lado o compromisso com o seu momento histórico. reafirmar a concepção do escritor sobre a realidade incompreensível e inclassificável. por um lado. exerciam uma vigilância perante aos demais escritores que deveriam. que força uma nova visão do leitor. Contudo.

o ensaio “Con legítimo orgullo”. pelo contrário. (CORTÁZAR.. os homens do conto não se diferenciam da serpente ou da mangosta . com o tom irônico do narrador em primeira pessoa do plural. p.38).)” (CORTÁZAR. pois sempre terão a mesma atitude: “En cierto modo nos alegra haber tropezado con tantas dificultades para encontrar las tumbas porque eso prueba la utilidad de la campaña que va a comenzar a la mañana Porém. 1970. nos inquieta “que los animales parecen cumplir destinos de complejidades extrañamente refinadas. a partir da apresentação dos dois textos de La vuelta al día en ochenta mundos . p. [que] tiende a adoptar la forma que le convenga. representa uma alegoria dos regimes políticos de opressão: “La generosidad de nuestras autoridades no tiene límites.” (CORTÁZAR. la municipalidad ha expropiado los terrenos adyacentes para ampliar el cementerio. tal como acreditava Julio Cortázar. 1970. p. es una de esas cosas que vienen desde muy atrás. con las primeras lecciones de la infancia (. lo que es otro modo de decir que no se ciñe a una forma establecida.102 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Ninguno de nosotros recuerda el texto de la ley que obliga a recoger las hojas secas. 1991..) (CORTÁZAR. deteniéndonos apenas para comer (hay trozos de pan en la mesa y sobre la repisa del living) o miramos en el espejo que duplica el dormitorio. Por eso nunca sabremos -ni queremos saber.. parecem viver num tempo a-histórico em que tudo se repetirá infinitamente. pois.) Como en los últimos años el número de bajas ha sido cada vez más grande. da criação de uma situação absurda.29) seguiente (.. o que também pode ser uma referência à sociedade daquele período e um questionamento da condição humana. crescendo a quantidade de túmulos e por conseguinte de folhas secas a serem retiradas: “(. p. incluso en aquellas cosas que podrían perturbar la tranquilidad pública. pero estamos convencidos de que a nadie se le ocurriría que puede dejar de recogerlas. como revela a ironia do trecho. . cumpliendo uno tras otro los actos que el hábito escalona. sin parecer preocuparse por redefinir ellos mismos sus gestos (..38) Ao viver essa rotina infinita e absurda. 1970. p. Em “Cefalea”. como nessa passagem: Andamos entonces sin reflexionar.” (CORTÁZAR. p. também parece haver momentos em que os criadores se confundem com os animais. o “ensaio criativo” parece ter sido a forma encontrada por Julio Cortázar para dar conta das necessidades políticas e estéticas de seu momento histórico. 2001.)” (BETILLÓN. foi possível analisar algumas características do “ensaio criativo”. o ensaio é um “género camaleónico. de Julio Cortázar. em seus hábitos. conviene subrayarloqué ocurre con nuestros gloriosos heridos. sin rebelarse contra ese enrevesado orden establecido (¿por quién?). diferentemente de “Cefalea”.385).11) Assim.72) Assim. Opressão esta.. assim como afirma Bretillón. Por fim.. p. Desse modo.39). como delata o final da narrativa. nota-se que por meio do modo fantástico. além de estimular a consciência crítica do leitor. os personagens do conto produzem no leitor o mesmo sentimento do fantástico que podem causar os animais. Apagando os limites entere o homem e o animal.. Como afirma José Miguel Oviedo. o texto alude a uma situação de leis autoritárias e população alienada e o decorrer da narrativa delata as consequências dramáticas dessa condição: a existência torna-se um ciclo vicioso. 1970. Isso vai ficando mais nítido e mais absurdo quanto mais detalhes o narrador apresenta da campanha. sem fim e sem razão de ser. é possível indagar a realidade e refletir sobre ela. 1996. já que a cada ano são necessários mais recrutas para a expedição da selva em que cada vez aumenta o número de mortos.” (OVIEDO. sustentada pela falta de consciência dos personagens.

Introdução à Literatura Fantástica . Tomo II. Tradução Mario Luiz Frungillo. Madrid: Siglo XXI de España Editores. Nota 1 Lukács. do mesmo livro. observou-se como as características do próprio ensaio e da ficção. Entre la pluna y el fusil. La vuelta al día en ochenta mundos.” ( CORTÁZAR. Claudia (2003). La vuelta al día en ochenta mundos. Febrero-mayo 96. São Paulo: Perspectiva. Julio (1970a). Madrid: Alianza Editorial. Por outro. os animais. contrapondo-se aos antiintelectualistas. Referências bibliográficas BRETILLÓN. Breve historia del ensayo hispanoamericano. pobre animalito. LUKÁCS. esse gênero híbrido representa seu posicionamento sobre o papel do escritor e da literatura. José Miguel (1991). Madrid: Siglo XXI de España Editores. Tradução Mario Luiz Frungillo. CORTÁZAR. Catherine (1996). reitera a sua noção de realidade que foge da explicação lógica e necessita de outras formas de narrar para estabelecer com ela um vínculo mais significativo. “La animalidad como materia de lo fantástico en los cuentos de Julio Cortázar. valorizando a prática simbólica como forma de engajamento. Georg. Teodoro ya no sería el único en quedarse tan quieto. p. 75) Dessa forma. Georg. 383-410.p. A temática animal vista nos dois ensaios também corrobora para essa ideia. representada pelo modo fantástico. http://pt. “Sobre a essência e a forma do ensaio: uma carta a Leo Popper”. como seu gato Teodoro Adorno. criando uma nova forma do gênero que buscava sondar níveis mais profundos da realidade latino americana.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 103 Por um lado. “Sobre a essência e a forma do ensaio: uma carta a Leo Popper”. entremearam-se. GILMAN. Tzvetan (2007) . Buenos Aires: Siglo XXI Editores Argentina.scribd.7. dando relevância assim tanto à criação artística quanto ao compromisso com as questões sociais e políticas dos anos sessenta. nos dois textos analisados nesse estudo.com/doc/56014858/essenciaFormaEnsaio .scribd. Tomo I. ________. P. Julio (1970b). Tradução Maria Clara Correa Castelo.” Em: Actual Investigación. Em: http://pt. ao lançar mão do modo fantástico na ficção de seus ensaios. mirando lo que todavía no sabemos ver. OVIEDO. TODOROV.com/doc/56014858/ essenciaFormaEnsaio. tem maior facilidade para captar o fantástico na realidade: “Si en cualquier orden de lo fantástico llegáramos a esa naturalidad. 1970. pois como assinala Cortázar no ensaio “Del sentimiento de lo fantástico”.

Durante os anos de transição e de recuperação democrática. autobiografias e confissões são formas de “escritas de si” que se multiplicaram nas diferentes literaturas. políticos e morais da sociedade atual.. postulam a identificação entre a experiência pessoal e a história da nação. discutem tanto as questões relacionadas à subjetividade quanto as relacionadas aos aspectos filosóficos. Desse modo. históricos ou ficcionais funcionou (e ainda funciona) como elementos de recuperação da memória individual e coletiva. como é o caso da América Latina. propagam-se da memória individual para a memória coletiva política. há uma ênfase nos gêneros discursivos que abordam as questões sobre identidade. Grande parte dos textos do final do século XX e início do XXI se relaciona a um dos temas da literatura da região: o viver durante e depois do golpe militar que instaurou uma ditadura de terror e repressão no país. Esse é o caso das narrativas em primeira pessoa na Argentina. os discursos sobre o “eu” proliferamse principalmente nas regiões em que houve a queda dos regimes totalitários. reconstrói tanto a sua identidade quanto o passado de seu país. Testemunhos. (MERCER. Tais relatos de experiências pessoais. Por isso.] solo tiene sentido . A narração dessas experiências individuais revelou a existência de histórias que traziam versões diferentes das apresentadas pela historiografia “oficial”.104 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS DISCURSO AUTOBIOGRÁFICO E A BUSCA IDENTITÁRIA EM MI NOMBRE ES VICTORIA DE VICTORIA DONDA Ana Cristina dos Santos UERJ / IL * A identidade somente se torna uma questão quando está em crise. o indivíduo necessitou contar a sua própria versão dos acontecimentos e a elaboração textual de fatos memorialistas. em diversos países da região.. A memória de sua própria experiência abarca também a experiência da coletividade. Os sujeitos presentes nesses escritos delineiam uma trajetória que parte do individual. o registro minucioso da vida do outro e da sua própria. memórias. durante os anos de 1976 a 1983. K.) Na época contemporânea. da argentina Victoria Donda: “Mi historia [. Nesses relatos. a autobiografia e os gêneros textuais correlatos. diários íntimos. coerente e estável é deslocado pela experiência da dúvida e da incerteza. sejam eles literários ou não. como círculos concêntricos. Desse modo. o sujeito ao narrar sua trajetória pessoal através da escrita. quando algo que se supõe como fixo. subjetividade. como ocorre no texto autobiográfico Mi nombre es Victoria: una lucha por la identidad (2009). mas alcançam também o coletivo.

14 ): “[. Esse processo de construção e desconstrução adequa-se à noção de identidade descentralizada difundida pelo teórico Stuart Hall (2005. quando focaliza sua história individual. A narrativa registra fatos verídicos ocorridos na história contemporânea da Argentina. abordam-se questões da identidade como parte de um processo de construção social e cultural. 13) na época contemporânea: uma identidade fragmentária. A característica que define a existência do pacto autobiográfico é a identificação do nome do autor que aparece na capa do livro com o nome que o narrador se dá como personagem principal. 243). a narradora busca desconstruir e reconstruir uma subjetividade particular que a reporta a um grupo específico: o das crianças raptadas pelos militares na época da ditadura e que recuperam sua identidade anos ou décadas mais tarde. A existência de um pacto diminui a ficcionalidade do texto e faz o leitor acreditar na “verdade” do que lê. pois sabe existir uma realidade anterior e exterior ao texto. p.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 105 rodeada de las otras treinta millones de historias que habitan la Argentina” (DONDA. ter o seu nome verdadeiro mudado na certidão de nascimento e como chegou a ser a deputada mais jovem do país. ter sido apropriada ilegalmente pela família do militar que a criou.. o enunciador deve permitir a sua identificação no interior do mesmo discurso. Logo. verificar como essa escrita reconfigura uma nova identidade para a narradora e suas implicações para a reconstrução identitária que aflora do sujeito feminino emergente dos ambientes sociopolíticos de poder e opressão. p. especialmente quando reconstrói discursivamente uma nova identidade para o sujeito feminino que nasceu sob o signo da opressão e foi privado de sua identidade. para que haja o pacto. de uma pessoa real .] narrativa retrospectiva em prosa que uma pessoa real faz de sua própria existência. o pacto com o leitor se torna mais forte porque a autobiografia retrata o processo de recuperação identitária de Victoria Donda. em par ticular a história de sua personalidade”. identidade e alteridade e a constituição de novos sujeitos discursivos. Através do relato de sua experiência pessoal. p. Dentro do texto analisado. no qual os filhos dos presos . ocorrida no ano de 2004 e noticiada em vários meios de comunicação na Argentina. o da memória coletiva. ocorre quando sua história pessoal se entremeia com a história do país e abrange o período sombrio da ditadura argentina. 1999. O texto analisado permite discutir essas questões. Seu objetivo é discutir questões vinculadas à escrita autobiográfica. A autobiografia Mi nombre es Victoria Donda (2009) inscreve-se na definição de gênero autobiográfico apresentada pelo teórico francês Philippe Lejeune (2008. na qual a narradora conta como descobriu ser filha de militantes políticos desaparecidos durante a ditadura militar. O primeiro da memória individual. A partir dos conceitos de escritas de si e autobiografia. O conhecimento desses dados extralinguísticos cria uma identidade entre a narradora. de modo que a sua indagação sobre a veracidade do narrado é quase inexistente. O segundo. a autora real e a personagem central.Victoria Donda – e de maneira retrospectiva. p. A narrativa abrange dois planos. estabelecendo o que Lejeune denominou como “pacto autobiográfico” 1 . 21) “a identidade muda de acordo com a forma como o sujeito é interpelado ou representado” e do termo “verdade” como construto discursivo.. pois segundo Hall (2005. Esse é o tema do trabalho ora apresentado: a autobiografia como forma de autoconhecimento e de recuperação identitária individual e coletiva. em constante transformação à medida que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam.

Assim. verifica-se que a escrita já aponta para uma marca de ambiguidade: o uso do verbo recordar. no fragmento destacado.e o relato de acontecimentos – o passado. Também por esse motivo. 2009. qual é a verdade? Para a narradora. Esses dois planos fazem com que sua narração ultrapasse as linhas limítrofes entre a história individual e a coletiva. de um fato modificador em sua vida que marca um antes e um depois em sua existência pessoal. é seletiva. Esse momento de transformação . O desejo da narradora de falar de si procede do episódio que funda o ato autobiográfico na narrativa: o reencontro com sua própria história antes de ser raptada. a descoberta da verdade. 1999.106 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS políticos nascidos na prisão eram dados para adoção às famílias de militares e notificava-se às verdadeiras famílias que a criança havia morrido. Mas. que a “memória perfeita” é capaz de reconstruir em seus detalhes: “En aquel momento recuerdo que lo único que quería era que los resultados dieran otra cosa que la que esperaba” (DONDA. e entregue a uma família de militar por seu próprio tio paterno. obrigatoriamente. se abría el juego para la aparición de Victoria” (DONDA. omissões e deformações na história da personagem. Porém. de não ser Analía. os fatos . p. O verbo delata a existência de uma distância temporal entre o momento da enunciação – o presente. Viveu durante vinte e sete anos com essa família. O núcleo do narrável na autobiografia – a experiência pessoal – equivale à transformação do indivíduo.é tão importante em sua vida que aflora no relato como uma lembrança vívida. na existência anterior do indivíduo. na época um importante comandante militar e que nos dias atuais está preso por delitos de lesa humanidade. por meio de uma denúncia anônima. filha de José María Laureano Donda (Laureano) y María Hilda Pérez (a Cori). A descoberta de uma “história pessoal” diferente da conhecida é o ponto de partida da autobiografia de Victoria. mas Victoria “[. Após se certificarem de que se tratava realmente de Victoria.. decide candidatar-se a uma vaga de deputada. 195. como transformação: “parece não haver motivo suficiente para uma autobiografia se não houver uma intervenção. erros. Essa distância faz com que a voz narrativa só se recorde daquilo que a sua memória deseje recordar e essa recordação. A partir dessa consideração. através da narradora-personagem. 31) uma das características mais importantes de todo relato autobiográfico é a ideia da vida como devir. questiona-se: como é possível falar de verdade no texto autobiográfico? A busca pela verdade dos fatos foi a luz que guiou a narradora pelo caminho de seu autorreconhecimento. ainda passa pelo filtro da subjetividade: a voz narrativa traz ao relato somente o que acredita ser importante para a compreensão da transformação sofrida. e é eleita. de uma mudança ou transformação radical que a impulsione ou justifique”. Para Wander Mello Miranda (1992.] si toda conclusión es el punto de partida de una nueva historia.o divisor de um antes e um depois no decurso pessoal da narradora . 170). as integrantes da associação revelaram-lhe seu verdadeiro nome e sua história. prevê e admite falhas.. foi descoberta pelas Abuelas de la Plaza de Mayo (associação da qual sua verdadeira avó materna foi uma das fundadoras). p. a história pessoal de Vitória narrada na autobiografia conta o que lhe aconteceu em outro tempo para transformá-la na pessoa que é agora. que Victoria foi separada de sua mãe ainda recémnascida. p. no ano de 2007. esquecimentos. en aquel momento comenzaba a inscribirse el final de Analía y. A recordação está submetida à memória e essa por sua vez. Sabe-se. no momento da enunciação. Grifo nosso). atendendo pelo nome de Analía quando. Sua busca pela identidade pessoal se desenha quase que obrigatoriamente no horizonte da construção da identidade coletiva argentina.

sua autobiografia vai além de si mesma. apenas sostenido por declaraciones cruzadas de testigos y gente que les conoció [. podem-se possuir tantas verdades quantos pontos de vista em seu relato. Logo. O momento da escrita autobiográfica faz convergir um “eu” que ao mesmo tempo é um “outro”. a percepção de verdade depende sempre da visão de quem reconta os fatos: “Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo ‘como ele de fato foi’. questionou-se o próprio conhecimento histórico. Se cada olhar traz um ponto de vista. o relato autobiográfico falha em sua premissa principal: rever a história de si mesmo para. Ela é o norte da narração porque. todo ló que sé de mis padres y el destino que corrieron se fragiliza. através da narração. então. no momento da escritura. 2009. mas eles realmente aconteceram como ela conta? Se o que ela lembra está relacionado à subjetividade ou aos fatos relatados por outrem. Com isso. Em uma realidade dúctil. 43). Nesse aspecto. as experiências pessoais que edificam o autorretrato de Victoria não advêm somente de suas lembranças.. por dolorosa que sea. Desse modo. “a impossibilidade da narração de si mesmo”. No texto analisado.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 107 contados constituem “a verdade”. porque os acontecimentos podem ser alterados segundo a visão de quem os conta. representa a si próprio através do retrato do “outro”. 17) também aborda essa contradição ao afirma que: Talvez a maneira mais apropriada de abordar o tema da autobiografia seja afirmando positivamente aquilo que ela não pode ser. Sua identidade pessoal é construída através de seu olhar e do olhar dos outros sobre si mesmo. 1985. afirmando a sua impossibilidade de cumprir a sua mais profunda promessa: apresentar a verdade de uma vida reunida numa trama narrativa. A contradição presente no texto autobiográfico de apresentar o vivido e a sua representação discursiva realça para inúmeros teóricos. Para tal. p. 136). entre o “eu” que se foi e cuja vida se narra e o “eu” que se é no momento da escrita presente no texto autobiográfico. Os diversos “olhares” inseridos no relato autobiográfico de Victoria colaboram para tornar tênue a noção de “verdade”. Sua história é narrada através de outros relatos fragmentários que tampouco dão conta da realidade tal como ela foi. Sua identidade é construída por meio de diversos “olhares” que se entrecruzam entre o seu presente e o seu passado. logo. . Esse fato ocorre na autobiografia analisada. A impossibilidade de contar o passado ocorre também da dificuldade de o individuo aceder aos momentos anteriores de sua vida. tal como ela relampeja num momento de perigo” (BENJAMIN. essa constatação não impede a voz narrativa de buscar a “verdade”. mas das pertencentes a outras pessoas: dos amigos de seus pais. p. reestruturá-la e contar os fatos como eles aconteceram. enredase com as das outras pessoas que conviveram com ela e com os seus verdadeiros pais: “A partir de este momento. entre eles Leonor Arfuch (2010. a narração autobiográfica só existe enquanto discurso e não pode ser conclusiva.]” (DONDA. p. Significa apropriar-se de uma reminiscência. logo. A estética pós-moderna mostrou a impossibilidade de o homem conhecer a realidade e representá-la através da linguagem. Duque-Estrada (2009. p. Se o acesso ao passado só pode ocorre pela textualidade. É a divergência entre a vida e a escrita. necessita de narrações alheias. não há como afirmar que as suas experiências pessoais ocorreram da maneira como se apresentam na narrativa. como a contemporânea. saber quem é: La verdad. esses relatos estão repletos de subjetividades. dos relatos das “abuelas de la Plaza de Mayo” e dos textos históricos da época. de sua verdadeira família.. 224). por más consecuencias que puede tener sobre una existencia. Como construções linguísticas. para a narradorapersonagem conhecer a “verdade” sobre quem foi lhe permite.

es la condición para ser uno mismo. y con ella. quien no pudo sino sucumbir y sacrificarse para que la verdad ocupase su lugar en la historia” (DONDA. Voltar ao seu passado é buscar uma nova versão para os acontecimentos.. sua identidade pessoal mesclase com a identidade coletiva. lo cierto es que así fue como las viví. 2009. 2009. (DONDA. Nessa busca de autorreconhecimento. 2009. acredita que sua enunciação retrate os fatos tais como os vivenciou: Contar aquel momento a través del filtro de una verdad revelada años después no sería ni justo ni honesto. p. Porém. a voz narrativa não pode abarcar o “eu” sem relacioná-lo com a realidade de seu país. Desse modo. mas não a de “experiência vivificada”. p. a narradora rejeita a opção de experiência “verdadeira”. quien se había ido formando durante todo aquel tiempo. 2010) do documentário e da autobiografia. em sua reconstrução discursiva. No se trata de una simple verdad de un nombre. la historia de un país que aún tiene problemas en reconocer y aceptar su pasado” (DONDA. Entende que a escrita de sua trajetória é incapaz de traçar um retrato “verdadeiro” de quem ela foi. a narradora-personagem se apropria do discurso autobiográfico para pôr em ordem a vivência caótica . foi fundamental a contribuição da identidade construída no passado: [.] demasiadas cosas habían sucedido desde que conocí la verdad sobre mi identidad. Victoria se conscientiza de que para construir a identidade atual. a narradora reconstrói o passado individual e o A afirmação presente ao longo da autobiografia de que os fatos relatados são como os vivenciou é importante para a narradora-personagem alcançar seu objetivo primordial com a escrita: sua recuperação identitária. de un origen o de una filiación. A questão identitária é um dos temas mais importantes nas escritas atuais e torna central no texto autobiográfico. La verdad afirma la existencia. com o objetivo de revelar como o discurso hegemônico da ditadura modificou a sua história e a de seus pais.] mi historia es puesta al desnudo. No texto analisado. 219).percebe a impossibilidade de exprimir toda a “verdade” dos fatos na escrita devido à distância temporal entre o momento da enunciação e o vivido. podía finalmente aceptar.. p. 2009.22). e fragmentária de sua identidade: reordena a sua experiência pessoal para conceber os limites e a interseção entre Analía e Victoria. 2009. Y esa persona era yo. a narradora – em um movimento de sinceridade próprio à autobiografia . pois a voz narrativa afirma que a confecção de um documentário cinematográfico também foi essencial em sua busca identitária.. y por más complejo que pueda parecer hacer referencias a aquellas cosas como integrando una verdad incuestionable. definirse. (DONDA. pois mostra a busca identitária a partir da cisão entre a identidade anterior e a atual. Entender a sua trajetória pessoal é entender também a de seu próprio país.236) Porém.. p. a qual chama de “eu”. essa cisão ocorre entre uma identidade que se autorreconhecia como Analía e que agora de autodenomina Victoria: “Se ló debo [a identidade] a Analía. 244). incorporar a Analía y avanzar. Ao contar sobre a sua própria vida. Mas. p. trazendo à tona o discurso controverso da autobiografia. não é somente através do discurso escrito que reordena a sua trajetória pessoal. Nesse “espaço biográfico” (ARFUCH. 54) Uma vez que a construção identitária no mundo contemporâneo se relaciona também com o seu lugar no mundo social e cultural. Com esse ponto de vista. Sua subjetividade se revela à medida que sua história pessoal completa as lacunas vazias sobre os anos de ditadura da Argentina: “[. y aquel documental representaba el comienzo de un nuevo periodo en mi vida: Victoria. a personagemnarradora assimila a pluralização de suas identidades. (DONDA. Victoria y Analía eran al fin la misma persona.108 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS es la condición esencial para ser.

En mi nombre está su último grito. a sua trajetória pessoal na História da Argentina. p. Cori hizo pasar un mensaje a sus asesinos dándome un nombre. a escrita autobiográfica analisada deve ser entendia como uma escrita cujo discurso é eminentemente político. Referências bibliográficas . ressignifica-o para poder abarcar tanto a história da personagem. de Paloma Vidal. como a de seus pais e da própria Argentina. 2005. a busca por uma identidade está estreitamente relacionada à questão do reconhecimento. dandolhe voz e poder para intervir tanto na reescritura de sua história quanto na História da Argentina e assim. O discurso autobiográfico é uma ferramenta para que Victoria. Para Beatriz Sarlo (2007. 21-2). Com a ressignificação. de seu passado e de sua atuação político-social no presente. O processo identitário de Victoria é instituído pela reivindicação do reconhecimento social de sua nova identidade: de quem é. enfrenta um movimento de revisão. A voz narrativa está consciente de que a realidade pode ser reordenada através da palavra. No momento de enunciação de sua história. Nessa luta. destruição e reconstrução identitária.. p. Es por eso que mi nombre es Victoria. Rio de Janeiro..] como uma coisa que ainda se precisa construir a partir do zero ou escolher entre as alternativas e então lutar por ela e protegê-la lutando ainda mais” (BAUMAN. p. seu texto é um ponto de resistência cultural. político e histórico de seu país. (DONDA.] a “identidade” só nos é revelada como algo a ser inventado. Trad. a pesar de imaginar que su esposo estaba muerto y que ella no sobreviviría mucho después del parto. Porque mi existencia prueba que finalmente Cori consiguió su objetivo. a escrita autobiográfica empreendida pela narradora não relata somente o caminho percorrido pela personagem para a incorporação de um novo nome – marca indelével da identidade – e a perda do nome antigo. mas também a luta pelo reconhecimento social da identidade incorporada. A compreensão desse fato aclara o subtítulo da autobiografia – “Una lucha por la identidad”. em uma relação de complementaridade. Victoria inscreve Desse modo.. identificándome. relaciona a acepção do termo vitória (ação ou efeito de vencer) ao nome de batismo que recebeu de sua mãe ainda na prisão. pois essa só é reivindicada por aqueles que não são reconhecidos por seus interlocutores. nascida sob o signo da opressão. a pesar de la certeza de que le robarían a su hija. recuperar a identidade que lhe foi tomada. Desse modo. A narração de suas experiências é o processo pelo qual Victoria tenta se redescobrir e redefinir a sua identidade. EDUERJ. a reconstrução do passado é um combate pela reconstrução histórica que “también llamamos ahora de combates por la identidad”. sabedora de que “[. e não descoberto [. 191). o regime de opressão da ditadura não foi mais forte que a vontade materna de que sobrevivera: Después de todo. apodere-se da palavra e adquira um papel fundamental no processo social.. a narradora faz com o seu nome adquira novos matizes. de que discurso é poder. Dessa forma. 27). Sua narrativa transita entre o espaço privado e o público. Su último obstinado rechazo al destino que le era impuesto. de quem são seus pais. 254) Ao ressignificar o seu nome. p. y en él se encuentra también mi legado. 2009. Leonor (2010): O espaço biográfico: dilemas da subjetividade contemporânea. En ese desafío simbólico vive Cori. que Cori les ganó la última partida.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 109 coletivo. filha de presos políticos. Segundo Figueiredo e Jovita (2005. para mostrar que ARFUCH. Não é uma intervenção feminina no espaço público dominado pelo sujeito masculino para publicar apenas suas intimidades.

SARLO. (2009): Im/ Possibilidades da autobiografia. Philippe (2008): O pacto autobiográfico. Entrevista a Benedetto Vechi. Buenos Aires: Editorial Sudamericana. Juiz de Fora: UFJF. I. Rio de Janeiro: Nau/ Ed Puc-Rio.). Jovita Maria (2005): Identidade nacional e identidade cultural. Stuart (2005): A identidade cultural na pósmodernidade. Notas * Professora Adjunta do Mestrado em Teoria da Literatura e Literatura Comparada e do Departamento de Letras Neolatinas (Português/Espanhol) do Instituto de Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Eurídice (org. Vol. Em: Magia e técnica. pois afirma que o relatado na autobiografia só existe enquanto discurso e. Elyzabeth Muylaert. 17-58. Em: Dev ires autobiográficos: a atualidade da escrita de si. Rio de Janeiro: Zahar. Em: FIGUEIREDO. DONDA.110 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS BAUMAN. Trad. Beatriz (2007): Tiempo pasado : cultura de la memoria y giro subjetivo. Belo Horizonte: Ed. Victoria (2009): Mi nombre es Victoria: una lucha por la identidad. LEJEUNE. Rio de Janeiro: DP&A. 10 ed. 7ª ed. p. de Carlos Alberto Medeiros. 222-32. como tal. Lejeune amplia o termo “pacto autobiográfico” para “pacto de verdade” ou “pacto referencial”. Buenos Aires: Siglo XXI Editores Argentina. . Conceitos de literatura e cultura. DUQUE-ESTRADA. 189 -205. FIGUEIREDO Eurídice e NORONHA. Una discusión. de Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. UFMG. p. é uma construção da memória. Obras escolhidas. Arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. BENJAMIN. 1 Em textos posteriores. Zygmunt (2005): Identidade . HALL. Trad. p. de Sergio Paulo Rouanet. Walter (1994): Sobre o conceito de história. São Paulo: Brasiliense. Trad.

a partir dela. Portanto. é interagir com o outro de modo a alterar e construir saberes de forma dialética. são unânimes em encaminhar o aprendizado para a formação integral do aluno/professor. quanto ao ensino de línguas. assim como seus currículos não é tarefa simples. funcionamento e manifestações culturais”.. 2009. p.7): “. E o compromisso da Universidade é levar o aluno/ professor de LE a aprender muito mais que ensinar a gramática e o léxico de uma língua. principalmente porque sabemos da excelência que cada uma delas busca. os profissionais do curso de Letras devem “ter domínio do uso da língua ou das línguas que sejam objetivo de seus estudos. a Universidade deve estar preparada para formar o profissional que possa atender as especificações legais. os currículos.enseñar y aprender lenguas extranjeras es una oportunidad increíble de promover la integración entre mi mundo y este mundo mágico que me llega y que me permite verme y sentirme parte de un todo complejo”. É importante lembrar que.. Foram analisadas quatro universidades públicas do Estado do Rio de Janeiro. Analisar criticamente o ensino de línguas nas universidades públicas do Estado do Rio de Janeiro. E. E. possa entender a si mesmo e a sua própria. embora apresentem variações estruturais e quantitativas nas disciplinas. Segundo (PARAQUETT. Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) . Ana Maria Mendes Larghi PG . de acordo com as diretrizes estabelecidas pelo PARECER 492/2001 do Ministério da Educação. desenvolver no aluno a consciência de que aprender uma língua estrangeira é muito mais que adquirir habilidades linguísticas.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 111 O CURRÍCULO DAS UNIVERSIDADES PÚBLICAS DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO E A FORMAÇÃO DE PROFESSORES EM LÍNGUA ESTRANGEIRA: UMA REFLEXÃO CRÍTICA.Universidade Federal Fluminense Introdução Esta comunicação é parte inicial de uma investigação que tem como objetivo apresentar alguns dados levantados acerca dos currículos das Universidades públicas do Estado do Rio de Janeiro nos cursos de Licenciatura em Português/Espanhol. . são elas: Universidade Federal Fluminense (UFF). Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). em termos de sua estrutura. ainda. é oportunizar o aprendizado de outra cultura para que.

A importância do currículo na formação do professor de língua estrangeira Tomando como tema central a importância do currículo para a formação do futuro professor. integrativa e contextualizada. a melhoria do nível cultural do professor situarse-ia em 25% como responsabilidade do poder público.112 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Dessa maneira.161/2005. Essa investigação. coletou dados a respeito da formação dos professores da rede pública. A pesquisa de campo (por amostragem) foi realizada com professores do ensino médio da rede pública estadual. A primeira delas é a importância do Currículo para a formação do professor de LE e sua consonância com os PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais) e as OCEM (Orientações Curriculares para o Ensino Médio). e o quanto as questões políticas são determinantes na elaboração da grade curricular. tornando-o mais próximo da realidade. ancora-se na Pedagogia Multicultural. 53. 2007. E os resultados nos levaram a questionar como estão sendo formados os futuros professores de LE? Por que encontramos professores tão inseguros diante das classes? Pretendese aclarar. ainda. inicia-se aqui uma das questões que permeia a nossa reflexão. sugerindo uma prática dinâmica. A publicação dos documentos oficiais promoveu uma maior reflexão sobre a organização curricular do ensino de LE. dá as Universidades. Com relação às propostas curriculares e a autonomia que a LDB . Enquanto que. pois a extinção do currículo mínimo proporcionou um avanço para o ensino. Em estudos anteriores. . a “integração entre os mundos”. O gráfico 1 apresenta o resultado da pesquisa: 1. na aventura do aprender uma LE. e se apoia nas concepções de cultura de CANCLINI (2006). 2009) e MOTA (2004) em definições sobre Inter/ multiculturalismo. observou-se como se deu a implantação da língua espanhola na rede pública do Estado do Rio de janeiro.LEI 9394 de 20 de dezembro de 1996. Perguntados sobre a formação de professores de LE a pesquisa aponta que 75% do total dos entrevistados responsabiliza o poder público por melhorias nas condições de formação do professor de LE. em seu Art. esses e outros questionamentos. HALL (2006) e MENDES (2004. seu conhecimento e utilização das sugestões dos documentos oficiais em sua prática. como forma de ampliar o espaço do conhecimento. Esta investigação adota como referência PARAQUETT (2007. 2008). no decorrer da investigação proposta para o Doutorado. II. vimos a importância de ações políticas direcionadas à melhoria da educação brasileira. baseados na Lei 11. Os dados coletados na pesquisa com professores apontaram ser de responsabilidade do Estado a elaboração de políticas públicas para melhorias na educação brasileira.

8).”. de cidadania e de inclusão social.. “. contextualiza o ensino com o “currículo real” (OCEM. deve promover a alteridade. poderia ser a adoção de disciplinas na grade curricular que levasse o professor/aluno. o valor do aprendizado de LE como forma de autoconhecimento. inclusive. ao reconhecimento da diversidade”. culturais e sociais”. à medida que se apoia em um contexto que circula à nossa volta todo o tempo. abrangente e flexível. falar. p. o que se observa. embora não haja nenhuma disciplina específica com esta nomenclatura (o que poderia ser uma sugestão). dedicamos a segunda parte às Orientações Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (OCEM). Dentre as Universidades que fazem parte da pesquisa. E por que tantos professores não fazem uso das sugestões dos documentos oficiais? Como esses professores foram formados? Essas foram algumas das interrogações que nos levaram a refletir sobre o papel do currículo na formação de professores. Os PCNs afirmam que “o estudo dos gêneros discursivos e dos modos como se ar ticulam proporciona uma visão ampla das possibilidades de usos da linguagem” (BRASIL. já que a utilização da língua está envolvida nos discursos históricos. criar novas disciplinas poderiam ser contribuições para habilitar professores que tornem as aulas de LE reais “ferramentas” de inclusão social. para o Currículo das Universidades. Refletindo sobre as contribuições dos PCNs (BRASIL. é que os professores encontram muitas dificuldades em entender a proposta de ensinar LE a partir dos gêneros. a UERJ é a única que apresenta a disciplina “Produção de material didático para o ensino de Espanhol”. No entanto. abarcando mais do que conteúdos tradicionais. Em consonância com os PCNs. ler. O currículo do curso de Letras. Vale lembrar que ambos os documentos foram criados para orientar a prática do professor em sala de aula. percebe-se que a proposta de trabalho com os gêneros discursivos.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 113 Não resta dúvida que os documentos trouxeram contribuições importantes. as OCEM entendem que o currículo para o ensino de E/LE deve abordar “temas relevantes para a vida do estudante”.interagir com outras disciplinas. a produzir material didático a partir dos gêneros. e fazem parte da comunicação humana. 2000.é preciso adotar uma visão ampliada dos conteúdos a serem incluídos nos programas de curso para além das tradicionais ( ouvir. portanto... ressaltando. na preparação do material didático.. Atitudes como revisar as ementas das disciplinas. . p. Os gêneros são criados e recriados.. que façam parte do “currículo real”. p. E este exercício poderia se iniciar durante os estágios de regência. ( OCEM. na prática. Continuando a reflexão sobre os documentos oficiais. à diferença. 150). 1998). Segundo Bakhtin. encaminho a discussão para a importância do ensino de LE estar voltado para “. entender) e das sequências lexicais e componentes gramaticais próprios da norma culta”. ser interdisciplinar. Reitera-se que o trabalho com os gêneros discursivos é proposta de disciplinas nas Universidades. p. 9). 2008. 133). promovendo o ensino que possa: “ levar o estudante a ver-se e constituir-se como sujeito a partir do contato e da exposição ao outro. é bastante enriquecedora. “todo enunciado ocorre em um gênero do discurso. a utilização dos gêneros na prática pedagógica.. convergências. para formar professores de LE. embasadas na teoria de Bakhtin. sugerindo que o Projeto Político Pedagógico e o Currículo possam aproximar-se sempre do “currículo real” dos alunos. consoante com OCEM (2008. O desafio de preparar os professores para ensinar E/LE através dos gêneros discursivos. encontrar interdependências. em sua grade regular. Dessa maneira.

as Universidades desenvolveram currículos que preconizam a formação docente. no exercício de sua autonomia. III . 400 (quatrocentas) horas de estágio curricular supervisionado.estabelecer planos. p. de 19 de fevereiro de 2002 estabelece que será de. entendo que a proposta de uma abordagem que seja social e Inter/Multicultural para o ensino de línguas. (Mota e Scheyerl. sem prejuízo de outras. de acordo com o Art. Das Universidades públicas do Estado do Rio de Janeiro Quanto ao currículo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional LDB .. 2004. do aperfeiçoamento da formação cultural. nos termos dos seus projetos pedagógicos. no mínimo. em contato com outra(s) língua(s). II.. como linguista aplicada. 1800 (mil e oitocentas) horas de aulas para os conteúdos curriculares de natureza científico-cultural. a pedagogia multicultural acredita na valorização da voz do sujeito/professor e do sujeito/estudante. De acordo com o artigo 53. II. na prática. é que quando assumem suas classes a simples transmissão de conhecimentos. promove a construção de conhecimentos em LE. II . produção artística e atividades de extensão. outra (s) cultura (s). técnica e científica do cidadão. 1º da Resolução do CNE/ CP 2. do respectivo sistema de ensino. organizar e extinguir. o “conteudismo”. divididas em: 400 (quatrocentas) horas de prática como componentes curricular. observadas as diretrizes gerais pertinentes.. e 200 (duzentas) horas para outras formas de atividades acadêmico-científico cultural. em um mundo onde as relações culturais estão cada vez mais próximas.149). são necessárias revisões curriculares que tenham como principal objetivo construir um ambiente de aprendizagem onde o aluno/professor possa interagir e participar democraticamente do aprendizado. Art. através do dialogismo.de 20 de dezembro de 1996.. Sobretudo entendendo cultura como prática social. assim como no desenvolvimento da sensibilidade de escuta às múltiplas outras vozes.”. “nas quais a articulação teoria-prática garanta. as seguintes atribuições: Na busca do desenvolvimento de competências e habilidades.”. 53. concede-se às Universidades autonomia para “fixar os currículos dos seus cursos e programas. Portanto.114 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS É importante e necessário que a universidade leve o aluno/professor a refletir sobre sua língua e sua cultura.fixar os currículos dos seus cursos e programas. uma perspectiva de construção do conhecimento de forma dialética e multidimensional. as dimensões dos componentes comuns:. Essa reflexão nos leva a pensar que são necessárias mudanças paradigmáticas no contexto . cursos e programas de educação superior previstos nesta Lei. mas o que se observa. A carga horária das licenciaturas de graduação plena. 2004. quando for o caso. ainda é a maneira mais usual de ensinar LE. 41) I .41).. . pg.criar. em um mundo pluriligue e multicultural. através do diálogo. pois deu condições às Universidades de ‘aproximar’ o currículo de sua realidade social. da LDB. são asseguradas às universidades. programas e projetos de pesquisa científica.Em outras palavras. Dessa forma. em sua sede. 2008. 53. No exercício de sua autonomia. assegura que as Universidades: Art. pensando o ensino do E/LE como “um conjunto de valores e de relações interculturais” (OCEM.. compar tilhada e importante modificadora de todo o processo ensinoaprendizagem. obedecendo às normas gerais da União e. 2800 (duas mil e oitocentas) horas. descobrindo a polarização dos saberes e assumindo.. esta medida caracterizou um avanço para o ensino no Brasil. p. 2. De acordo com ( MOTA e SCHEYERL.

para a segunda categoria são 29 disciplinas. estas foram levadas em conta. acrescida de 120 optativas. Quanto à carga horária.360 horas. Literaturas e a parte pedagógica. a fim de desenvolver a formação por meio de atividades de pesquisa que integrem as disciplinas e possam dar conta de um ensino humanizado e criativo. A segunda categoria envolve a formação em Língua materna. totalizando 3.0% da grade curricular.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 115 acadêmico. assim como as atividades complementares. É preciso lembrar que esta é uma pesquisa inicial. e disciplinas pedagógicas. 60 eletivas e 200 horas de atividades complementares. Gráfico 2 O gráfico 2 mostra que para a formação em E/LE são apontadas 18 disciplinas para a primeira categoria. Gráfico 3 . E/LE e Literaturas.9% do curso. Contando com uma carga horária de 2. o que corresponde a 37. portanto.980 horas. na cor vermelha. são elas: a primeira em azul envolve as disciplinas de E/ LE e literaturas. Na Universidade Federal Fluminense (UFF) o currículo encontra-se distribuído entre Língua materna e Literaturas. Não foram computadas nos gráficos as disciplinas optativas e eletivas. optou-se por apresentar abaixo. Na sequência. os dados classificados em apenas duas categorias. apresentaremos os gráficos elaborados a partir das grades curriculares das Universidades. o que corresponde a 62.

3%. e para a segunda categoria 34 disciplinas. Conta com uma carga horária de 3. e disciplinas pedagógicas.280 horas. e disciplinas pedagógicas. o que corresponde a 31. E/LE e Literaturas. e para a segunda categoria 44 disciplinas. o que corresponde a 75. Gráfico 5 O gráfico 5 mostra que para a Formação em E/LE são apontadas 11 disciplinas na primeira categoria. o que corresponde a 24. E/LE e Literaturas. e um total de 152 créditos. Buscar-se-á com a pesquisa. o que corresponde a 68.5% da grade curricular.5% do curso. Na Universidade Federal do Rio de Janeiro ( UFRJ) o currículo encontra-se distribuído entre Língua materna e Literaturas.200 horas. através de entrevista junto aos alunos do curso de letras. Conta com uma carga horária de 4.07% da grade curricular.116 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS O gráfico 3 mostra que para a formação em E/LE são apontadas 20 disciplinas para a primeira categoria.200 horas. Gráfico 4 O gráfico 4 mostra que para a formação em E/LE são apontadas 20 disciplinas na primeira categoria. e a parte pedagógica. avaliar .07% da grade curricular. e para a segunda categoria 44 disciplinas. e um total de 242 créditos. Conta com uma carga horária de 4. o que corresponde a 31. Na Universidade Federal do Rio de Janeiro ( UFRJ) o currículo encontra-se distribuído entre Língua materna e Literaturas.3%. e um total de 242 créditos. E/LE e Literaturas. Na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) o currículo encontra-se distribuído entre Língua materna e Literaturas. o que corresponde a 68.

Acessado em 11/06/ 2012. Acessado em 11/06/2012. Márcia (2007): Linguística Aplicada.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 117 o currículo de cada uma das Universidades.uerj. Acesso 13/05/ 2012.(1992): Estética da Criação Verbal. p. Referências bibliográficas BAKHTIN.gov.planalto.letras.dep.gov. no Brasil. de 20 dez.pdf. Mikhail. a fim de alcançar a excelência na educação. Disponível em http://portal. PARAQUETT. (2008): Linguagens.mec.br>.ufrrj. UFRJ:http://www.php?option=com_content&task=view&id=45 UFRRJ:http://r1.07 l e t r a s _ p o r t u g u e s _ e s p a n h o l _ _licenciado_novo. códigos e suas tecnologias/ Secretaria de Educação Básica: MEC.41Salvador. MEC . UERJ:http://www. Salvador. BH: Editora. CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO CONSELHO PLENO.br/ index.ufrj. São Paulo: Martins Fontes.pdf. Espanha. PCN – Parâmetros Curriculares Nacionais . Sabe-se que. Revista Nebrija de Lingüística Aplicada.Ensino Médio. Refletindo-se sobre a relação língua/cultura. Disponível em <http://www. RESOLUÇÃO CNE/CP 2.179. ainda são necessários maiores investimentos em pesquisas e financiamentos para o ensino de LE. sua relevância no processo ensino/ aprendizagem de língua estrangeira e na formação do professor de E/ LE. u f f . de 18 de Fevereiro de 2002. U F F : h t t p : / / w w w. Kátia e Denise (2004): Recortes Interculturais na sala de aula de Línguas Estrangeiras . 1996.UFBA. p. RESOLUÇÃO CNE/CP Nº 1. Acessado em 11/06/2012. Dispõe das Diretrizes e Bases da Educação Nacional. b r / s i te s / d e f a u l t / f i l e s / BRASIL.pdf. . (1998).br/seesp/arquivos/ pdf/res1_2.pdf. 9394/96. p. inclusión social y aprendizaje de español en contexto latinoamericano. Lei nº. DE 19 DE FEVEREIRO DE 2002.Ministério da Educação. ORIENTAÇÔES CURRICULARES NACIONAIS.br/graduacao/arquivos/docs_curso/ matriz/IM/76_lic_letras-portugues-espanholliteraturas_matriz_2009-1. MOTA e SCHEYERL.br/arqs/fluxogamas_cursos/ BRASIL. Acessado em 18/01/2010. Acessado em 07/06/2012. l e t r a s .Acessado em 12/06/ 2012. Brasília: Ministério da Educação. letras_portugues_espanhol_licenciatura.

” (DELIBES. denúncias relativas ao abandono sofrido pelos camponeses castelhanos por parte do governo franquista. Depois de publicar no jornal uma série de reportagens sobre a difícil situação do trabalhador rural nos campos castelhanos. p. Seu pai. que nunca fora à escola. Ratero e Marcela. Apesar dessa desestruturação familiar. Percebendo que os censores não eram tão atentos e ferrenhos com os conteúdos das obras literárias como com as publicações periódicas. 19).” (DELIBES. a matéria para o enredo surgiu da impossibilidade de publicar no El norte de Castilla 1 . havia adquirido junto aos avós polígamos Abundio. segundo o próprio autor. por ordem da censura. Ambientado na segunda metade da década de 1950 (provavelmente entre 1956-57). no comportamento dos animais e na constituição da vegetação. Delibes decidiu transformar em ficção a realidade social que conhecia com propriedade. Nini sobrevivia de . O protagonista Nini é um menino de 11 anos de idade. o El Norte estava impedido. Román e Iluminada e ao ancião local Centenario. nascido da relação incestuosa entre dois irmãos. p. e a Jesus. de fazer qualquer menção ao problema. fazendo com que de alguma maneira aquela história fosse contada.UFMT Las ratas (1962) é o quinto romance escrito por Miguel Delibes e. De maneira intuitiva. o romance relata as dificuldades vividas por moradores de um pequeno e miserável povoado castelhano. ao apresentar problemas psiquiátricos após a gravidez. 2010. no estado do solo. uma sabedoria popular inigualável entre os habitantes do vilarejo. o menino era capaz de analisar as mínimas nuanças nas alterações climáticas. Esse conhecimento lhe conferia status de sábio. comparado por alguns personagens a uma espécie de pequeno deus: “Digo que el Nini ese todo lo sabe. eram vendidas no povoado. Parece dios. Nini. um homem ignorante e embrutecido. numa intertextualidade bíblica: “¡Qué condenado crío! Cada vez que lo veo así me recuerda a Jesús entre los doctores. 54) Com a ingenuidade própria da idade e a sabedoria extraordinária. Sua mãe. vivia da caça de ratazanas que além de alimentar a ele e ao filho. foi levada a um manicômio de onde nunca mais retornaria. jornal no qual trabalhava. 2010. ao longo de um ciclo agrícola de pouco menos de um ano.118 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS LAS RATAS DE MIGUEL DELIBES E A DENÚNCIA DA CRISE CAMPONESA EM CASTELA NOS ANOS 1950-1960 Ana Paula de Souza PG .

o autor desnuda as consequências do abando no estabelecimento de relações humanas embrutecidas. o que desapareceria na vida do adulto que enfrentava as vicissitudes de um pós-guerra e de uma ditadura: Hoy más que nunca gusta el hombre de recuperar su consciencia de niño. a fome e a improdutividade. sobretudo o trigo. e surgiu o cacique. O presente estudo se dedica a desvendar o social por trás do literário. a presença da criança na obra literária representa a nostalgia de uma fase da vida genuinamente feliz e íntegra. Na organização social agrária do século XX. o clima austero e a total falta de investimentos. Desse modo. aquele que possuía a maior concentração de terra em uma determinada região (geralmente mais de 100 hectares). desapareceu a figura do señor. Por um lado.o solo pouco fértil. de evocar una etapa – tal vez la única que merece ser vivida – cuyo encanto. procurando entender a crise agrária dentro do contexto econômico do país e os problemas vividos pela população campesina 1. num relato existencialista e desolado. Esse modelo agrário denominado tradicional 3 foi reafirmado pelo estado franquista de forma autoritária. e as consequências concretas desse acontecimento histórico para as condições da sociedade anos após o desfecho do conflito. tendo como base a exploração do campesino. da qual depende sua existência. Ao revelar tais implicações sociais a partir da narrativa ficcional delibesiana. Delibes constrói uma visão autêntica e poética de uma realidade que seria insuportavelmente cruel. Segundo o próprio autor. Interessa também para este estudo verificar de que modo as cicatrizes da Guerra Civil permeiam o inconsciente coletivo dos personagens. animalizadas e na configuração de personagens primitivos e ignorantes que parecem não ter lugar em pleno século XX. ajudava os camponeses na luta contra as adversidades da região . portanto incapaz de reivindicar seus direitos políticos. este trabalho inscreve-se na perspectiva de Candido (2000) ao entender o social não como causa ou significado2. por exemplo. de acordo com as . para a qual se utilizava uma tecnologia produtiva tradicional voltada para o mercado interno. 115) castelhana tais como a apatia social. Las ratas apresenta a profunda relação do camponês espanhol com a terra. cuya fascinación sólo advertimos cuando ya nos ha escapado de entre los dedos… (DELIBES apud RODRÍGUEZ PUÉRTOLAS. Por outro lado. Nini se converteu em uma espécie de oráculo de sua comunidade á medida que com suas previsões meteorológicas e com sua percepção da natureza. O retrato da crise campesina castelhana em Las ratas Segundo Pérez-Díaz (1994). tratava-se de uma agricultura baseada centralmente na produção de cereais.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 119 pequenos trabalhos realizados para os agricultores e criadores de animais. mas como recurso estrutural que constitui o literário. Ou seja. A preocupação ambiental de Delibes. existente em Castela até a primeira metade do século XIX. Através da ótica do personagem. as principais características da agricultura castelhana até os anos 1960 eram as mesmas da primeira metade do século XIX. faz-se presente no respeito do homem do campo pelos ciclos da vida na natureza. 1990. p. Esses grandes latifundiários contratavam o serviço de trabalhadores sem terra que viviam no campo por jornadas. o protagonista cumpria em seu povoado um papel do qual o estado se ausentara. não fosse a candura do olhar infantil. além da denúncia do abandono político dos trabalhadores dos campos castelhanos. Problemas esses literariamente suavizados pela sabedoria carismática do protagonista infantil e pelas crenças supersticiosas de um povo inconsciente do seu papel social e. além de outros problemas menos evidenciados.

De acordo com Pérez-Díaz. o pastoreio. os campesinos médios e pequenos conseguiam. 36). mitad por mitad. las gentes maldecían de la soledad. que tinha em sua base aliada o apoio dos grandes proprietários de terra. el Poderoso. os agricultores médios que sobrevivem da agricultura. las tres cuartas partes de la cuarta parte restante. manifestar frívolamente en su tertulia de la ciudad que “por lo que hacía a su pueblo. Os camponeses que possuíam menos de 10 hectares eram considerados marginais . aos quais Nini se refere como vecinos del lugar. através do relato de Delibes. A própria ideia de divisão de terras estava ideologicamente relacionada . geadas e nevascas. detentor da maior proporção de terras. a total ausência de políticas públicas e investimentos para melhorar a condição de trabalho desses camponeses. El señor Rosalino. p. inclusive como jornaleiros. aos traidores da pátria. el Pruden y el puñado de vecinos del lugar. bien poco costaba hacerlo. doña Resu y la señora Clo sumaban. o projeto de reforma agrária surgido no período da Segunda República (1931-39) foi invalidado durante o governo Franco. a quien las adversidades afinaban la suspicacia. O agricultor castelhano tinha de lidar com invernos rigorosos. 2010. Em Las ratas . indicando ao leitor de forma direta o lugar social que o mesmo ocupa no povoado: o de cacique. Proprietários de 10 a 100 hectares. la tierra andaba muy repartida. (…) soltó una carcajada: ___ A voleo no siembran ya más que los mendigos y los tontos. como hacían ellos. verões quentes e secos. é a subordinação do agricultor às intempéries do clima. chegava apenas para os grandes latifundiários que tinham como financiá-la. p. como é o caso de Antoliano. outro problema enfrentado pelo campesinato castelhano e denunciado por Delibes em Las ratas. 42) Delibes atribui ao personagem Don Antero o epíteto el Poderoso. Numa região que tinha como principal atividade econômica a agricultura. Por isso o personagem Don Antero se sente confortável para afirmar que em seu povoado a terra está ainda muito dividida. oscilações térmicas e aridez do solo. blasfemaban y decían: ‘No se puede vivir en este desierto’. Pruden. y ante los nublados. 2010. p. Doña Resu. pois não conseguiam sobreviver apenas da terra e eram obrigados a realizar outras atividades. puesto que utilizando la máquina. 47) aos perdedores da guerra. a criação de animais ou a manufatura. el Poderoso. entre las dos. y la última cuarta parte se la distribuían. Esto no impedía a don Antero. 2010.” (DELIBES. o vilarejo castelhano fictício criado por Delibes reproduz essa organização social exatamente como o descrito no estudo de Pérez-Díaz: Don Antero. que além de agricultor é o marceneiro do lugar.120 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS necessidades do plantio e da colheita. inclusive com maior ênfase. poseía las tres cuartas partes del término. comunistas. Os demais campesinos. A mecanização agrícola. señora Clo e Pruden representam nessa pirâmide. la sequía o la helada negra. conforme resume o narrador: “En el pueblo. Além da má distribuição das terras. irregularidades das chuvas. republicanos. (DELIBES. por exemplo. são aqueles que para manter suas famílias tem de trabalhar como jornaleiros em outras terras ou se dedicam a outros trabalhos como a caça. aliado à austeridade da natureza na região redundam no isolamento destacado no trecho. não sem dificuldades. socialistas. para garantir o sustento da família. le contestó que el mal era para los pobres. sobreviver exclusivamente da agricultura.” (DELIBES. anarquistas e membros de outros grupos políticos que lutaram pela república durante a Guerra. ou seja. personagem da obra que sintetiza a figura do agricultor incansável na luta contra as adversidades. Esse esquecimento por parte do poder público. lamenta não ter acesso à tecnologia diante da possibilidade de ter de ressemear os campos por falta de chuvas: Y el Pruden. observa-se.

¡Arriba el campo!” Y todos los hombres de todos los pueblos de la cuenca se desparramaron ilusionados. Mesmo tendo sido negativos os resultados da primeira tentativa. Após um mapeamento. intelectuais que conheciam. y cuando la guerra. ao longo da década de 1950 esse plano de irrigação havia atingido menos de dois por cento das zonas mapeadas. porém secas que dependiam do projeto de irrigação para tornarem-se de fato produtivas. que plantar árboles. pues. Nini. Diante dessa otimista afirmação. Dijo impulsivamente al niño. os habitantes locais que conheciam os resultados da primeira tentativa de reflorestamento respondiam: “Sólo Dios hace milagros”. Hay. No había tarea más apremiante y los prohombres decían: “Los árboles regulan el clima. (DELIBES. al. 88-89) O projeto do reflorestamento já havia sido executado pelos republicanos durante a guerra civil através do trabalho de brigadistas voluntários. se organizaron brigadas de voluntarios con el fin de convertir la escueta aridez de Castilla en un bosque frondoso. o tierra vegetal. 45) Outro projeto desse ministério foi o de reflorestamento. Em Las ratas Delibes narra o processo de replantio florestal em Castela: Antes hicieron esto en Torrecillórigo. 2010. ¿Te das cuenta? Dejaremos de vivir aperreados mirando al cielo todo el día de Dios.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 121 Nesse trecho da narrativa. foram declaradas zonas de interesse nacional as áreas agricultáveis. A colheita também era feita manualmente. boa parte do cultivo era realizado com a ajuda de rudimentares arados como os utilizados no período romano. porque o que era promessa de resgate da produtividade do campo desfez-se no primeiro verão. “dispuestos a convertir Castilla en un jardín” (DELIBES. Tão logo. Cuando el Pruden quiera agua no tiene más que levantar la compuerta y ya está. p. Rafael Cavestany tinha como projeto para sanar a aridez castelhana. De fato. si llueve como si no. atraen las lluvias y forman el humus. 89). Em Las ratas esses trabalhadores vinham de Estremadura. para essa segunda etapa do trabalho. 2010. os benefícios da recomposição vegetal para o clima e para o solo. e o de Rosalino que assume a voz do cacique e impassível. ao assumir o Ministério da Agricultura entre os anos de 1951-57. personagem que dá voz ao camponês consciente da impossibilidade do trabalho naquelas condições. De acordo com Pérez-Díaz. contratavam-se jornaleiros. Somente a partir da década de 1960 foram introduzidos os arados modernos e o trator. talvez o autor quisesse lembrar que ideias como a do reflorestamento surgiram no bojo da Guerra Civil Espanhola e da mente de homens afinados com o ideal republicano. talvez esses homens não conhecessem de fato o rigor climático do ambiente castelhano. Sendo a seca no momento do plantio e do desenvolvimento da plantação uma das principais preocupações dos agricultores castelhanos da época. p. Pero llegó el sol de agosto y abrasó los tiernos brotes y los cerros siguieron mondos como calaveras.. um plano de irrigação. . según se sentaba en el banco del fondo: ___ Date cuenta. (DELIBES. com foices e trilhos tirados por mulas. zomba dos agricultores que ainda semeiam de forma primitiva. Delibes opõe dois discursos antagônicos – o de Pruden. No entanto. após meses de trabalho dos Segundo Barciela López et. p. (DELIBES. apenas a las veinticuatro horas de estallar. 2010. Hay que hacer la revolución. não restava aos agricultores como Pruden outra coisa que esperar dos céus o milagre da chuva. o personagem Pruden menciona esperançoso um plano de irrigação elaborado pelo governo: Tomó al Nini nerviosamente por el pescuezo y le explicó confusamente algo sobre un plan de regadío de que hablaba el diario y que alcanzaría hasta el pueblo. 2010. La repoblación forestal era la obsesión de los hombres nuevos. Entretanto. aunque ahora eran empleados del Estado dedicados a la ardua tarea de la repoblación forestal. la azada al hombro. até os anos 1950 em Castela. ao menos teoricamente. p. 89). Ao referir-se a hombres nuevos. o plano era agora retomado pelo novo ministro da agricultura e. por las inhóspitas laderas.

Nesse momento. esse trecho confronta não apenas saberes como também culturas. Com tudo. Em Las ratas Delibes aponta as principais dificuldades enfrentadas cotidianamente pelo campesino castelhano durante a crise agrária dos anos 1950. se a terra fosse dividida de maneira equitativa entre as famílias camponesas. permaneceria de forma velada no inconsciente Delibes constrói a imagem da perda da colheita por meio de personificações que humanizam os cereais. Terminada a forte chuva. não poderia ser ignorado por aqueles que detinham o saber científico. arracimados desordenadamente por la violencia cambiante del ciclón. Ainda que o saber camponês fosse empírico. poeticamente. a falta de investimento e crédito e os projetos políticos ineficazes. Segundo PérezDíaz. A narrativa que começa cronologicamente com o início do ciclo agrícola no outono. E assim. contratante dos serviços dos jornaleiros. 2010. Las ratas nos parece ser um romance ainda arraigado ao conceito de novela social espanhola dos anos 50. Como profundo conhecedor de Castela e de sua gente. desapareceria a figura do cacique. se acostaban mansamente sobre el lodo. p. rígidos sobre los granos de trigo y los cascabillos desparramados. o oráculo do clima castelhano. O castelhano não era amistoso à vinda dos trabalhadores estremenhos e no inconsciente coletivo se construíam todo tipo de estereótipos negativos em torno aos forasteiros: Pero en el pueblo no querían a los extremeños porque estimaban su labor inútil. Embora tenha sido publicada em 1962. As precipitações climáticas e as mudanças que elas provocam no meio ambiente são descritas com a poeticidade e a sensibilidade de quem conhece com propriedade a paisagem castelhana. comparando-os a seres humanos recostados ao solo. 91) popular e se repetiria como no fragmento do discurso dos personagens delibesianos.122 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS estremenhos. quando a ideia era a de que cada trabalhador tivesse uma pequena porção de terra na qual trabalharia apenas a sua família.”(DELIBES. o protagonista contempla a plantação destruída: Los trigos. 179) Talvez essa rejeição pelos trabalhadores jornaleiros vindos de outras regiões do país tivesse uma explicação social mais profunda. o desfecho conhecido dos agricultores castelhanos repetiu-se ao início do verão. p. o autor resgata a figura do homem do campo como aquele que melhor entende o seu habitat. A trechos. rebrillaban las charcas. Durante su estancia los nativos disfrutaban de una absoluta impunidad. Após dias de secura e calor intensos. Ora. nenhuma vicissitude impressiona mais o leitor que a impotência do trabalhador perante a natureza adversa. lê nos sinais da natureza e vinda de uma forte chuva de granizo que aniquila os campos ás vésperas da colheita do trigo. entre las espigas decapitadas. Nini. Delibes não só critica políticas públicas fracassadas como também confronta o saber científico com o saber popular. na figura do jornaleiro. entre a má distribuição da terra. desde antes da Guerra Civil Espanhola os camponeses começaram a reivindicar suas pautas econômicas e sociais. No entanto. 2010. Ante cualquier desaguisado la gente decía: ___ Habrán sido los extremeños. Esse enfrentamento entre jornaleiros e pequenos agricultores existente desde antes da guerra. termina com a chegada do verão e os riscos que a estação traz consigo. Por los caminos y junto a las linderas yacían los cadáveres de los trigueros y las alondras. decapitados e cadavéricos. impedían el acceso de las ovejas a las colinas y les atribuían toda clase de vicios. devido ao forte sentido de comprometimento crítico de Delibes ao revelar a difícil condição do camponês . Os pequenos camponeses viam. entre as quais a da reforma agrária. uma mão-de-obra barata a serviço do grande latifúndio. o autor vai deslindando a tênue margem que separa ou vincula a denúncia social e a literatura. (DELIBES.

Carlos. Julio e ZAVALA.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 123 castelhano. Referências bibliográficas BARCIELA LÓPEZ. Antonio (2000): Literatura e sociedade . Acessado em 07/08/2012. Disponível em http://www. nº 21. campesinos y agricultura en Castilla entre mediados del siglo XVI y mediados del sig lo XX. El Estado y la modernización económica. Segundo Pérez-Díaz (1994). Miguel (2010): Las ratas. Disponível em http://www. Carlos (Coor. Notas 1 Jornal publicado em Valladolid até os dias atuais. Queiroz. São Paulo: T.pdf. Iris (1974): Historia social de la literatura española III.asp-research. 51-96. Víctor (1994): Transformaciones de una tradición. PÉREZ-DÍAZ.ahistcon. Em Ayer. Miguel Delibes iniciou seu trabalho no periódico a partir de 1940 chegando a ser o diretor de 1958 a 1963. LÓPEZ ORTIZ. Joaquín (1996): La intervención del Estado en la agricultura durante el siglo XX. CANDIDO.pdf. DELIBES. pp. Nesse romance.). Acessado em 07/08/2012.com/pdf/ Asp5a. 2 3 Palavras tal qual empregadas por Antonio Candido em Literatura e sociedade. utiliza-se o termo tradicional para definir o sistema agrário espanhol de meados do século XIX a meados do século XX. María Inmaculada e MELGAREJO MORENO. BLANCO AGUINAGA. Barcelona: Destino. . o autor faz da literatura um instrumento de ação social capaz de fazer com que as autoridades políticas da época voltassem seu olhar para uma região do país esquecida e isolada. A.org/ docs/ayer/ayer21_03. Madri: Castalia. RODRÍGUEZ PUÉRTOLAS.

124 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS QUANDO O MET ATEXT O DE TOMÁS EL OY META TEXTO ELO MAR TÌNEZ AUTENTICA AS VID AS DE PERÓN VIDAS MARTÌNEZ André Luis Mitidieri UESC Centramos atenção nas coletâneas de artigos jornalísticos de Tomás Eloy Martínez intituladas Las memorias del General (1996) e Las vidas del General (2004). é por excelência a relação crítica. Esse artigo revela-se como indicativo das formas por intermédio das quais pode ocorrer a transtextualidade. GENETTE. a presença efetiva de um texto em outro. Publicadas na revista . notas à margem. subtítulos. epígrafes. e a identidade política de quem o invoca quanto como uma proposta de constituir a nação argentina. 1995). 5) hipertextualidade: responsável por unir um texto B (hipertexto) com um texto anterior A (hipotexto) no qual se enxerta de uma maneira distinta à do comentário. prólogos etc. triunfo. Dessa forma. Integrando a última coletânea. prefácios.). com outros textos e textualidades (Cf. as quais discorrem sobre o peronismo. notas de pé de páginas. advertências. 2) pelas relações com os paratextos: títulos. 1985) e Santa Evita (MARTÍNEZ. “El Brujo”. relação geralmente denominada comentário. 3) pela metatextualidade. fazendo com que se considere as relações. ou seja. e previamente ditadas pelo general Juan Domingo Perón a López Rega. sem nomeá-lo. cifradas ou expressas. a maneira pela qual se viabiliza a possibilidade de um texto escapar a uma singularidade que muitas vezes se torna insatisfatória a seu deciframento ou a sua compreensão. no limite. decadencia y derrota de José López Rega” (p. epílogos. unindo um texto a outro texto que fala dele sem citá-lo e inclusive. uma relação de copresença entre dois ou mais textos. os romances La novela de Perón (MARTÌNEZ. gravadas por Martínez durante quatro dias. 1989). assim como Las memorias del General e Las vidas del general constituem hipertextos de um hipotexto chamado “Las memorias del semanario Panorama”. finais. concebido tanto como o movimento político nascido depois do golpe de Estado de 1943. como em Poesias. ou seja. “Ascenso. 4) arquitextualidade: articula uma menção paratextual (subtítulos e títulos. intertítulos. 179-188) retrata histórias cotidianas do exílio de Perón e sua extravagante relação com o secretário e mordomo José López Rega.. A transtextualidade ocorre de diferentes modos: 1) pela intertextualidade. ilustrações etc. Ensaios etc.

aliadas às contracapas de ambas as edições. 13-122). o intelectual argentino afirma que prepara Las vidas del General esperando. A mesma coletânea passa a ser intitulada Las vidas del General: memorias del exilio y otros textos sobre Juan Domingo Perón (MARTÍNEZ 2004)1 em nova edição. 14). dentre outras considerações. insere dois outros capítulos: “Perón y sus novelas” (p. “Ascenso. Outra alteração. cit. o jornalista edita fragmentos relacionados àquele texto: sobre Evita. Mais adiante. loc. 135-170). constantes na edição anterior.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 125 argentina Panorama a 14 abr. reelaborando o que nomeia como “desmemorias” no capítulo “Las memorias de Puerta de Hierro” (p. diz suprimir o que considera um pleonasmo: o capítulo “Las memorias del semanario Panorama ” (MARTÍNEZ. acrescida de um prólogo (p. mas também os outros relatos dissidentes que completam ou contradizem tal imagem (p. refere-se à omissão de que o corpo completo das “Memórias” se originou daqueles diálogos (Cf. da forma crítica como o autor encaminha seus textos ao leitor. é republicado ao final do mesmo livro. 195-218). 11). acompanhado de respectivos documentos. se sublevar contra a vontade de Perón (Cf. Enquanto professor de literatura em universidades norte-americanas. comporta entre seus outros textos. No mesmo prólogo. quer dizer. O prefácio utilizado em Las memorias del General passa a servir de introdução ao capítulo “Las Memorias de Puerta de Hierro” de Las vidas del General (MARTÍNEZ 2004. importa mencionar o fragmento no qual o jornalista afirma que “este libro restaura los diálogos de Puerta de Hierro en el orden y del modo como sucedieron ” (p. como “Las memorias del semanario Panorama” (MARTÍNEZ 1996. 9-15) no qual o autor infere. integra a coletânea Las memorias del General (MARTÍNEZ. As relações arquitextual. mas aos dias 21 e 28 de abril. .). p. na edição precedente. além das (des)memórias de Perón. O subtítulo dessa publicação – “memorias del exilio y otros textos sobre Juan Domingo Perón”. o subtítulo do livro Las vidas del General (MARTÍNEZ. essas “memórias” englobam os 50 primeiros anos da vida do expresidente argentino. a morte do sindicalista Augusto Vandor e as ideias de Perón sobre o que denominava “a liberação dos povos”. intertextual e paratextual são elas mesmas indicativas da relação metatextual. 20) quando. A título de exemplo. 2004). Insatisfeito com as lacunas encontradas no discurso de Perón. que dialogue com todas as ficções que ele havia escrito sobre o peronismo e possam encerrá-las. Ainda informa que. hipertextual. Reiterando os vínculos entre Las memorias del General e o primeiro dos romances mencionados. o autor procede a investigações e à reconstrução de diálogos. 195-218). contudo. p. Martínez não ignora os desenvolvimentos teóricos acerca desse tema. MARTÍNEZ. a partir do momento em que o autor substitui a palavra “Memorias” (constante na edição de 1996) pelo termo “Vidas” no título da obra lançada a público em 2004. p. Dentre outras mudanças que ocorrem nesse paratexto. 13-122) que. ao mesmo tempo. No mesmo periódico. p. Todas essas relações intertextuais e paratextuais. figurando em sua página de rosto. agora voltam a ser republicados. instauram consideráveis mudanças que se reiteram na relação arquitextual. na nova versão. 1996). MARTÍNEZ 1996. 1970. fornece informações a respeito de quatro outros textos que. 123-134) e “La tumba sin sosiego” (p. configura-se simultaneamente como uma relação arquitextual e paratextual que parece fazer mais jus ao caráter plural das identidades no mundo contemporâneo. menos significativa. O texto fonte. dizia respeitar e. que o título recente lhe parece mais apropriado por refletir nem tão somente os relatos com os quais Perón desejou inserir-se na história. talvez inutilmente. 1996.

López Rega havia imprimido alguns panfletos do peronismo clandestino e conquistado a confiança do major Bernardo Alberte.5 López Rega é apresentado como um rosto anônimo entre aqueles que rodeavam Perón em 1966. decadencia y derrota de José López Rega” (p.2 alcançar uma compreensão global do universo. posso dizer que demorei nove anos para voltar [. fez explodir uma bomba lança-panfletos em frente ao edifício da editora Abril. uma organização parapolicial que era financiada com fundos do Ministério de Bem-Estar Social e que. que assim declara: No final de abril de 1975. e depois como um cabo disciplinado e ambicioso. Moisés e Maomé”. um dos herdeiros de Perón. a quem quisesse 3 Em 1963. escrito por “el Brujo”..126 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS triunfo.]. consideravelmente frequente. artigo escrito em Caracas e publicado no jornal La Opinión em 22 de julho de 1975. telefonemas e pedidos de audiência dirigidos ao General passam pela anuência do “Bruxo”. “Conjetura-se que foi então quando a convenceu de seu desinteresse patriótico e obteve consentimento para colaborar com ela. Ainda não associado “ao paroquiano das ciências ocultas que vivia em Madri por um ano à procura da aprovação do General para sua difusa doutrina espiritualista. em uma das vias de acesso à Costaneira Norte de Buenos Aires. no exílio em Madri”. Dez dias mais tarde. praticamente todas as mensagens. Executando o retrato biográfico daquele protagonista quase iletrado. 179-188).4 Por meio de seu narrador. Martínez informa que os escritos de dom José interpretavam o destino dos seres humanos “como um diálogo entre o poder dos perfumes e o poder das cores. Elias. fornece outros dados através de uma biografia reconstruída por membros do Clube de Correspondentes de Madrid. 18). como secretário ou assistente. ao começo do texto. com esperança de retornar em poucas semanas. Desobedeci à advertência e tomei somente algumas precauções. dois dias depois que o “Bruxo” viu-se obrigado a renunciar e par tiu ao Rio de Janeiro como embaixador extraordinário da presidenta Isabelita Perón. na qual o esotérico aparecia como integrante circunstancial da equipe de vigilância presidencial. referendando o indício paratextual que tem valor contratual (CF. o então cabo reformado pediu a Alberte para servir como custódia de Isabel. p. era conhecido como empregado para tarefas domésticas e editor de uma revista de tiragem limitada. o escritor insere a própria voz autobiográfica para dizer que ouviu pela primeira vez o nome de José López Rega quando tomou conhecimento do livro Astrologia esotérica.. submeter-se ao simultâneo ensino de Antúlio. O metatexto crítico de Martínez assim é praticado com uma parte. Alem. a Triple A. a quem a lentidão de suas ascensões no escalão policial induziu-o a pedir para ser reformado em 1962. 1989. a instância autoral inclui. de intertexto citacional de apoio. e que propunham. Os libelos me declararam inimigo da Argentina e me concediam quarenta e oito horas para partir ao estrangeiro. GENETTE. sem talento aparente para a política. Sua militância peronista parece iniciar aquele ano. Viajei à França. aparentemente. Pela memória de Tony Navarro. para apoiar o candidato a governador Ernesto Corvalán Nanclares. por volta de 1950. a voz autobiográfica do jornalista. Alguns . Quando esse mandou a esposa a Mendoza em 1965. na esquina de Paraguai e Leandro N. Na mesma direção. que teceria o iluminismo Rosacruz e alquimia de Paracelso com os rituais brasileiros de Umbanda”.6 Em 1971. estalou uma segunda bomba e recebi ameaças mais rotundas no apartamento onde morava e em um restaurante onde estava almoçando. Abel. quando se vinculou com alguns membros da loja maçônica Anael e instalou uma pequena imprensa próxima à ponte ferroviária da rua Salguero. da Associated Press. sustentada por avisos de militantes peronistas. Buenos Aires. respondia às ordens de José López Rega. Caso não conte com uma fugaz semana em agosto de 1975.

trata-se da “metalepse” que. Mais uma vez. ao ódio que lhe professavam ‘alguns inimigos bruxos’”. Devo dizer que a negou e atribuiu sua invenção. Também não sou o único que começou a levá-lo a sério quando já era muito tarde”. tomada biográfica na qual o testemunho de Martínez reitera o procedimento autobiográfico anteriormente indicado: A impressão que me causou. a crença de que o destino da humanidade seria decidido por claves musicais. seu único prazer.11 O cotidiano do “Bruxo” no escritório da Gran Vía em Madri. é informada por Martínez a partir de correspondentes estrangeiros que. ou inversamente. literalmente. que carecia de escrúpulos na relação social e de senso do ridículo. não duraria muito tempo. capaz de ir mais longe do que sonhava. A ambição por bens materiais. posteriormente. a fim de transferir o peso político e o carisma de Perón a si mesmo e. a metalepse autobiográfica de Martínez confere autenticidade à narração: “Perguntei a López Rega sobre a veracidade daquela história. sabendo de tal vigilância. O autor-narrador. quando mantivemos um diálogo fugaz junto à Quinta 17 de Outubro”. O escritor confirma essas pretensões místicas quando soma seu testemunho à história primeira que ele mesmo narra.8 A ocasião permite a Tomás Eloy Martínez levantar uma hipótese a respeito da tolerância de Perón para com o mordomo. o “milagreiro” deteve um poder que. Em vez do megalomaníaco e intrometido Rasputin anunciado por seus detratores. fundar uma religião para o Terceiro Mundo. publicada em Astrología estérica junto a conjeturas místicas sobre Perón.9 O narrador recorre a informes detidos em 1972 por um dos correspondentes de Madri para comunicar que o secretário do ex-presidente tinha um plano para transformar a Argentina num campo de cultivo mágico. o hábito da escrita. outra vez destacada na narrativa. consiste em toda intrusão do narrador ou do narratário extradiegético no universo diegético (ou de personagens diegéticas num universo metadiegético etc. a partir dessa fonte. deixam para entregar a correspondência quando se despedem do ex-mandatário. “com o pretexto de que ‘o General tem muitas coisas para atender e não convém abusar de sua saúde’”. da qual seria ele o profeta e o pontífice. provém uma possível resposta: “‘Eu sou o para-raios que detém todos os males enviados contra esta casa. assegura: “O certo é que o domínio dessa enorme . maciço como um touro. A gravidade estaria no fato de ele impor ao produto o nome de Perón e sugerir que esse recomendaria suas virtudes. contudo. descobri uma espécie de sossegado bodegueiro de subúrbio. mas significativa. em 1970. As lembranças do escritor alcançam o protagonista no mês de “junho de 1972.). não raro toma para si o envelope. mas o secretário (a quem o narrador oferece voz). todos esses dados são antecedidos no texto pela breve. capaz de ressuscitar os mortos e ler os pensamentos alheios. e na qual sua presençã é solicitada como narradorpersonagem: “Não sou o único a quem se definiu em Madri como um fazedor de milagres.10 Com uma ideologia esdrúxula. de cuja voz. cidade brasileira fronteiriça com a Argentina. segundo Gérard Genette (2004). seu ponto frágil. quando o vi pela primeira vez. foi de qualquer maneira inferior ao personagem delirante e descarado que haviam prometido as fábulas madrilenhas.12 A informação de que “el Brujo” teria utilizado o conhecimento adquirido nos arquivos e nas correspondências de Perón a fim de amedrontar peronistas que deixaram rastros escritos de sua deslealdade ou torpeza é atribuída a alguns de seus adversários. 7 A relação metatextual que se vai confirmando não prescinde de um elemento típico das narrativas ficcionais.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 127 peronistas. reuniram dados sobre uma empresa de engarrafar água em Uruguaiana. Cada vez sou menos López Rega e cada vez sou mais a saúde do General’”. segundo ele.

De acordo com a parte final do artigo que. ________ (2004): Las vidas del General . o povo desesperado. a perspectiva biográfica voltada ao secretário de Perón é compartilhada com as intrusões autobiográficas de Martínez. política ou religiosa. o fanatismo e a intolerância daqueles tempos alertam-nos sobre os riscos dos atuais fundamentalismos. o excesso de fé em seus poderes individuais: Antes de regressar à Argentina. Altea. de cuja existência. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica. Tomás Eloy (1996): Las memorias del General. Taurus. Gérard (2004): Metalepsis : de la figura a la ficción. a vida do general junto a outras vidas – tomando a forma de uma metalepse que “está no núcleo íntimo de tudo o quanto cremos poder dizer ou pensar a respeito de nós mesmos. No entanto. decadencia y derrota de José López Rega”. os partidos político. GENETTE. ________ (1985): La novela de Perón . os sindicatos. haverá possibilidade de saber se essa voz de mando não teria se pronunciado tarde demais. integrando a coletânea Las memorias del General.15 Referências bibliográficas GENETTE. Buenos Aires: Aguilar. a . 13 arrogância. de certo modo. Buenos Aires: Planeta. O metatexto crítico autentica as configurações que esse havia estabelecido para sua obra – as (des)memórias de Perón ao lado de outros textos. foi uma das chaves de seu poder político”. o secretário acreditava em um Espírito Supremo que outorgaria poderes a alguns seres humanos e a outros. Madrid: Altea. Ao contrário. consistindo em discurso secundário que confirma o artigo por ele protagonizado. Você com quem quer estar? Com a massa ou com o que amassa?”. se uniram e conciliaram para dizer-lhe basta. além da cobiça. Traducción por Luciano Padilla López. os empresários e. e que somente uma política de conciliação e unidade nacional poderia salvá-lo. o derrubou de maneira póstuma. ________ (1995): Santa Evita.16 Participante assíduo nas reuniões políticas da Puerta de Hierro aproximadamente desde 1969. Perón havia pronunciado que o país estava em ruínas. Alfaguara. MARTÍNEZ. Gérard (1989): Palimpsestos . A esses. Presentes não apenas no texto aqui estudado. pois há “homens que são escolhidos por Deus e outros. “Ascenso. que forma parte do amplo cenário psicossocial contemplado pelas referidas obras de cunho jornalístico e memorialístico. 14 É também considerado metaléptico esse enunciado que o mordomo havia proferido acerca de si mesmo. somada a sua infalível memória de policial bem adestrado. mas que integra uma coletânea na qual o papel de protagonista é ocupado por Perón. Foi o próprio Perón quem. Buenos Aires: Planeta. sobretudo. de ordem étnica. não. a derrota do “Bruxo” talvez encontrasse entre seus motivos. aos inimigos. somente quando se fizer o novo inventario das ruínas. Alfaguara.128 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS massa informativa. se for verdade – pois é verdade – que je sempre é também um outro”. de acordo com as convicções e as palavras de López Rega. porque a imprensa. Buenos Aires: Biblioteca del Sur. Planeta. triunfo. Taurus. López Rega acreditou no isolamento do poder e na necessidade de que o país se colocasse a serviço de suas convicções. Nesse artigo. caberia tratálos com rigor. é depois eliminada de sua reedição em Las vidas del General. como também em outros artigos que integram Las memorias del General e Las vidas del General. nem Deus nem sabe.

ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 129 Notas 1 O documento n. y luego como un cabo disciplinado y ambicioso.). p. 184). 182-183). Elías. En vez del Rasputín megalómano y entrometido que anunciaban sus detractores. 11 "Pregunté a López Rega sobre la veracidad de aquella historia. p. Ibid. cuando se vinculó con algunos miembros de la logia Anael e instaló una pequeña imprenta cerca del puente ferroviario de la calle Salguero. p. sin embargo. Los libelos me declararon enemigo de la Argentina y me concedían cuarenta y ocho horas para marcharme al extranjero. como secretario o asistente. 2004. Trata-se do informe sobre uma bomba que destruiu o carro de Perón em 1957. p. 12 "La impresión que me causó. 183). 20. 186). 182). 184). 2004. Ibid. la Triple A. que entretejía el iluminismo Rosacruz y la alquimia de Paracelso con los rituales brasileños de Umbanda” (Id. p. con la esperanza de regresar a las pocas semanas. 116-119). Desobedecí la advertencia y sólo tomé algunas precauciones. descubrí más bien a una especie de sosegado almacenero de suburbio. o explosivo não teria sido colocado no veículo pela embaixada da Argentina na Venezuela e sim pelo chefe do Serviço de Inteligência daquele país. una organización parapolicial que se financiaba con fondos del Ministerio de Bienestar Social y que. constante nessa seção de Las memorias del General (MARTÍNEZ. estalló una segunda bomba y recibí amenazas más rotundas en el departamento donde vivía y en un restaurante donde estaba almorzando. fue de todos modos inferior al personaje delirante y cachafaz que habían prometido las fábulas madrileñas. 2004. someterse al magisterio simultáneo de Antulio. é eliminado da coletânea Las vidas del general. 182). al odio que le profesaban ‘algunos brujos enemigos’” (MARTÍNEZ. 181). a quienes quisieran alcanzar una comprensión global del universo. 2004. Buenos Aires. cuando lo vi por primera vez. que carecía de escrúpulos en la relación social y de todo sentimiento del ridículo” (MARTÍNEZ. respondía a las órdenes de José López Rega. loc. cit. al parecer. 4 “como un diálogo entre el poder de los perfumes y el poder de los colores. quando de seu exílio em Caracas. Ibid.). p. literalmente. 10 “No soy el único ante quien se definió en Madrid como un hacedor de milagros. hacia 1950. en la esquina de Paraguay y Leandro N. Debo decir que la negó y que atribuyó su invención. macizo como un toro. 8 “junio de 1972. p. Alem. 5 "como circunstancial integrante del equipo de vigilancia presidencial. 2004. 1996. 2 “A fines de abril de 1975. p. p. Cada vez soy menos López Rega y cada vez soy más la salud del General” (MARTÍNEZ. con la salvedad de una fugaz semana en agosto de 1975 […]” (MARTÍNEZ. Tardé nueve años en volver. Moisés y Mahoma” (MARTÍNEZ. Tampoco soy el único que empezó a tomarlo en serio cuando ya era demasiado tarde” (MARTÍNEZ. hizo estallar una bomba lanzapanfletos frente al edificio de la editorial Abril. cit. Su militancia peronista parece arrancar aquel año. Ao contrário do que afirmava o general. 6 “Se conjetura que fue entonces cuando la convenció de su desinterés patriótico y obtuvo consentimiento para colaborar con ella. loc. capaz de resucitar a los muertos y leer los pensamientos ajenos. 9 "‘Yo soy el pararrayos que detiene todos los males enviados contra esta casa. 7 "con el pretexto de que ‘el General tiene demasiadas cosas que atender y no conviene abusar de su salud’” (Id. 3 “al feligrés de las ciencias ocultas que vivía en Madrid desde hacía un año buscando la aprobación del General para su difusa doctrina espiritualista. en una de las vías de acceso a la Costanera Norte de Buenos Aires” (Id. Ibid. . cuando mantuvimos un diálogo fugaz junto a la entrada de la quinta 17 de Octubre” (MARTÍNEZ. Abel. Diez días más tarde. Viajé a Francia. p. a quien la lentitud de sus ascensos en el escalón policial indujo a pedir retiro en 1962. y que proponían. en el exilio de Madrid” (Id. 185).

lo derrocó de manera póstuma. sobre todo. p. ¿Usted con quién quiere estar? ¿Con la masa o con el que amasa?” (MARTÍNEZ. cit.). 187). podrá saberse si esa voz de alto no se pronunció demasiado tarde” (MARTÍNEZ. Perón había predicado que el país estaba en ruinas. los sindicatos. loc. fue una de las llaves de su poder político” (MARTÍNEZ. en cierto modo. 144). los empresarios y. 14 "hombres que son elegidos por Dios y otros de los que Dios ni se entera que existen. Fue el propio Perón quien. sumada a su infalible memoria de policía bien adiestrado. y que sólo una política de conciliación y unidad nacional podía salvarlo. porque la prensa. 2004. . si es verdad – pues es verdad – que je siempre es también otro” (GENETTE. 2004. López Rega creyó en el aislamiento del poder y en la necesidad de que el país se pusiera al servicio de sus convicciones. p. A la inversa. 129). los partidos políticos. Pero sólo cuando se haga el nuevo inventario de las ruinas. 1996. p. 15 "Antes de regresar a la Argentina.130 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 13 “Lo cierto es que el dominio de esa enorme masa informativa. 16 “está en el núcleo íntimo de todo cuanto creemos que podemos decir o pensar respecto de nosotros mismos. se unieron y conciliaron para decirle basta. el pueblo desesperado.

foi crucial para que o cinema e a literatura espanhola fossem diretamente afetados em suas produções. com o apogeu da indústria cinematográfica. através das câmaras perspicazes de Antonio Bardem. Neste sentido. que os regimes totalitários exercessem sobre os filmes uma censura asfixiante. e produziu uma obra crítica à . poderiam promover a democratização no campo das artes. pretende-se apresentar aqui. posto o seu poder de fascínio e sua vertente influenciadora. A partir desta problemática. Assim.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 131 CALLE MAYOR E SEÑORITA DE TREVÉLEZ SOB A DITADURA FRANQUISTA Angela dos Santos FATEC – ZL e SCS O cinema e a técnica cinematográfica ganham corpo nas primeiras décadas do século XX. na medida do possível. a produção cinematográfica de transposições literárias tomou uma proporção ainda maior que nos anos anteriores. O objetivo é tentar vislumbrar. em vista de manter o status quo . A censura atuou de forma incisiva nas produções cinematográficas. Especialmente no pós-guerra. essas técnicas de reprodução da arte. Mas o inverso também ocorreu. tornandoo um instrumento de propaganda política. essa se torna uma mídia explorada com fins de mudança social. no início do século. Certamente isso não foi diferente no regime franquista. No plano das possibilidades. de que maneira o cineasta conseguiu subverter a ordem. mutilando obras e ditando regras tanto políticas quanto religiosas. Não era raro. e sob a vigilância da censura. o cinema também foi utilizado como meio de propaganda ideológica sobre as massas. o silêncio imposto nos longos anos de ditadura de Franco. ao mesmo tempo em que encomendavam obras para propagar seus ideais e impor sua forma e conteúdo. Neste período. a moral e os bons costumes. uma análise do filme Calle Mayor (1956). cujo enredo é baseado em uma adaptação livre da obra La Señorita de Trevélez (1916). do dramaturgo Carlos Arniches. segundo Walter Benjamin (1985). do cineasta Juan Antonio Bardem. devido ao fato de atingir um contingente enorme de pessoas. contribuiu de forma contundente para a difusão dos ideais franquistas. passando a ser caracterizado como uma técnica que permitia movimentos de massas.

soube recriar de maneira exemplar a riqueza da linguagem popular de Madri. ainda que residual ou mínima. O argumento desta tragédia grotesca apresenta um conflito dramático relacionado ao cotidiano e protagonizado por heróis igualmente grotescos que tramam brincadeiras de mau gosto. Carlos Arniches foi um mestre na arte de escrever obras deste gênero. Já não possui o tom jocoso e não se emprega o jogo de palavras que caracteriza a obra teatral. são próximas quanto ao argumento. As duas obras em análise. mas estaciona neste ponto. pintarrajada e sonriente” (ARNICHES. Sem dúvida. tecendo uma odiosa brincadeira sem precedentes. suprimindo sílabas. na qual se percebe que não há a pretensão de uma crítica severa à sociedade. Ele narra um drama causado por homens que. Nesse período. e D. e é considerado o criador da “tragédia grotesca”. que enchem as salas de teatro. São elas: Flora de Trevélez. vítimas de uma cruel brincadeira engendrada por jovens ociosos. Gonzalo de Trevélez. em sua maioria peças cômicas. Suas personagens são apresentadas com características singulares. com fins humorísticos. de fala peculiar. perpetuam as condições da mulher frente à sociedade patriarcal. Comediógrafo e excelente pintor de ambientes populares. preferência de certo tipo de público. membros de um cassino provinciano. . a transposição é feita somente através do argumento e converte o cômico em tragédia. para fugir do tédio de uma cidade. aplicando um léxico próprio. de Edgar Neville. na impossibilidade. . uma teatral e a outra fílmica. tem o mesmo título da obra teatral. jovem escolhido pelos amigos fanfarrões para ser o suposto pretendente de Flora. uma solteirona de idade avançada de classe burguesa “la cara ridícula. principalmente o conhecido género chico. p. Qualificada pelo autor de “farsa cómida en tres actos”. A obra de Arniches relaciona características regionalistas.132 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS sociedade de sua época. tendendo ao sentimentalismo e ao melodrama. foram realizadas duas versões cinematográficas. a possibilidade. A primeira. 1998. Vale destacar as principais personagens da peça. utilizando jogo de palavras. Trata-se de encontrar. Na obra fílmica. A obra em análise de Arniches foi escrita e levada à cena em plena Guerra Mundial. uma linguagem própria que logo é repassada ao povo. produzida às vésperas da guerra civil espanhola em 1936. Sua obra está a meio caminho entre a tragédia e a comédia.94). proliferam nos teatros apresentações de obras de todo tipo de gênero. irmão de Flora. simplesmente para evadir-se do tédio da vida quotidiana da pequena cidade. Criando assim. Ela sacrificou um possível matrimônio pela felicidade de sua irmã. pois o engano é perpetuado e Flora de Trevélez segue em completa ignorância dos fatos. É bastante próxima à obra de Arniches. já que o trabalho de Arniches é reconhecido como uma comédia grotesca. Ele revela um conflito dramático relacionado ao cotidiano de uma pequena cidade. que se aproximam do folclórico. com intenção evidente de caricaturar o madrileno. mas não quanto ao gênero. La Señorita de Trevélez é considerada a obra mais relevante de sua produção teatral. a esta comicidade própria da farsa está presente o drama que vivem os irmãos Trevélez. Dada a importância desta obra. associado ao costumbrismo e ao humor. tornando-o um verdadeiro “vício nacional”. que é sem dúvida a personagem de maior relevância. Também merece atenção Numeriano Galán.

sem espaço e tempo próprios de uma sociedade. Bardem evidentemente teve problemas com o roteiro. como já foi dito. Una ciudad cualquiera en cualquier provincia de cualquier país. a catedral. e a atriz. mas Bardem soube magistralmente revelar aspectos políticos e religiosos. tais como o cassino. ou melhor dizendo. Foi obrigado a retirar os letreiros de lojas e bares das filmagens. pois era obcessão da censura de que qualquer filme não revelasse a localização e a época das histórias contadas. em 1956. Outras cenas foram cortadas pela censura. Durante os longos anos de ditadura. principalmente as mulheres solteiras. tão comum à época. ele tomou o argumento da obra teatral e transformou-a em uma tragédia. para os padrões da época. Só assim ele conclui o filme. as personagens perdem as características grotescas e assumem um papel mais fidedigno da realidade. sendo possível vislumbrar diversos elementos. La historia que está a punto de comenzar no tiene unas coordenadas geográficas precisas. convidada pelo próprio diretor para protagonizar Isabel. A principal tarefa da Junta de Clasificación y Censura é a de exercer a censura dos filmes nacionais e estrangeiros. além de outros locais pontuais da cidade. los anuncios en las paredes o una determinada manera de sonreír y hablar no debe ser forzosamente una bandera concreta para envolver a estos hombres y mujeres que va a empezar a vivir delante de nosotros (BARDEM. 1956). Durante a rodagem do filme. Esta obra é uma coprodução hispano francesa. . a indústria cinematográfica enfrenta uma censura feroz e. a um sistema de classificações que tenta controlar a indústria por meio de subvenções que servem à ideologia do regime franquista. político e social. Na verdade. El color del pelo o la forma de las casas. em plena ditadura franquista. Nessa transposição. anunciando precisamente: Aquí abajo está la ciudad. na qual o diretor não se preocupou em seguir a história linear do gênero cômico. em cidades provincianas. como se o expediente pudesse ser uma fábula. daquela sociedade. O motivo principal é ver e serem vistos. onde os constantes passeios pela calle mayor reproduzem um ritual cotidiano. em condições pouco convencionais. Isabel é uma solteirona e. Vê seus sonhos de se casar prestes a se realizem quando percebe as investidas de Juan. Bardem é detido. que tem como intérprete a norte-americana Betsy Blair. É o que levantaremos nesta análise. a partir de 1943. o bairro velho e a calle Mayor de Palencia. Calle Mayor . Parte dessa ambientação de Juan consiste na aproximação a um grupo de jovens acostumados a zombar das pessoas. que são maioria e vão acompanhadas por outras amigas ou alguém da família. com argumento e roteiro do próprio diretor. um jovem de Madrid que reside na cidade havia apenas três meses e que já se ambientou ao estilo de vida provinciano. Possivelmente foi graças à intervenção da coprodutora francesa e a esta recusa de Betsy Blair que o diretor conseguiu ser liberado algumas semanas depois.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 133 Anos depois. Una pequeña ciudad de provincias. dos bons costumes. se recusa a continuar as filmagens sem Bardem. A cidade indefinida no filme é na realidade Logroño. é uma transposição livre de uma obra teatral. não é mais uma jovem na idade de “buen merecer”. evidenciando os costumes de uma pequena cidade. sob forte pressão do Estado para que o filme prossiga com outro diretor. Um fato que fornece a dimensão do momento político merece ser pontuado. A censura encarregou-se de que o diretor fizesse um prólogo. Juan Antonio Bardem realiza o filme Calle Mayor . quanto ao seu conteúdo moral. com brincadeiras nada honrosas. dando ênfase à visão de uma pequena burguesia local.

improdutiva e conformista. O papel de protagonista cabe agora à personagem feminina. já que Apesar de Bardem dar ênfase ao drama da mulher espanhola. no filme desaparece completamente. A respeito de sua obra. siguiendo paso a paso la línea que había escrito don Carlos. Um indicativo importante que se faz referência no filme é a revista Ideas. se vê obrigado a revelar tudo a Isabel. Yo no. No entanto. Sua atitude em tentar ajudar Isabel a fugir daquela cidade e dos olhares de escárnio de todos. Isabel revela-se uma personagem viva. nos anos 50. pois naquela Numeriano Galán é involuntariamente envolvido na trama. Além dos muitos cortes realizados. pois ela não é feia. No filme o aspecto religioso. Flora não é a protagonista. terna e patética. Y no de cualquier mujer. próxima da realidade. me dediqué a explicar y expandir una crítica general del mundo español de los 50 y. manifesta-se poucas vezes. Un tercer afluente venía del poema de Agustín de Foxá: las seis muchachas en el mirador. as eliminações se deram aos momentos de referências a manifestações amorosas apaixonadas. sino específicamente de una señorita de la pequeña burguesía de una ciudad de provincias. cabendo a seu irmão este papel. que está de passagem pela cidade. estabelece uma oposição ao franquismo e que a personagem Federico traz de forma que atualiza a ação e a situação política da época. Federico terá um papel importante como representante de uma postura comprometida. pois é escolhido para forjar uma relação com Isabel. Bardem diz: El texto nace de una fuente y más afluentes. uma revista que. ya en el borde de la soltería. Juan torna-se algoz e também vítima de seus amigos. religião e meros planos de passeios de seminaristas.134 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Fazendo parte desse grupo. mas de maneira contundente. un análisis de la condición de la mujer en España. As personagens masculinas perdem a característica grotesca e adquirem uma personalidade mais complexa. segue a procissão. roubando a cena da protagonista. onde Juan dá indicações a Isabel de seu interesse. Não se evidencia uma proposta para que as mulheres adotem um papel mais ativo na sociedade. La fuente: La señorita de Trevélez de Don Carlos Arniches. dos homens perante a vida inculta. y a partir de ahí... fica claro que ele critica as atitudes . nada se parecendo com Flora. às freiras e seminaristas. que aparece como o protagonista na peça teatral. cantando com mais entusiasmo. las seis mujeres de maridos ricos. não está de acordo com as constantes brincadeiras do grupo e condena suas atitudes. en particular. estarrecida e feliz pela audácia do suposto amante. Edgar Neville hizo una versión cinematográfica de La señorita de Trevélez con María Gámez como protagonista. Federico. Un afluente fue Doña Rosita la soltera de Federico García Lorca. já que Juan se acovarda e foge. Mas é manifesto que Bardem explora bem mais o aspecto social que em Arniches. na qual somente as mulheres participam e Isabel. Outra sequência é a declaração de amor feita por ele na metade de uma procissão. Don Gonzalo. Apesar de a censura ter impedido que a prática religiosa tivesse mais relevância no filme. no final. revela sua visão comprometida com o lado social. Yo tomé como elemento fundamental de mi texto la broma. amigo de Juan. e muito menos grotesca. Foram cortadas todas as outras sequências sobre caridade. Dentre os cortes. Otra vez la soledad de una mujer abandonada y asfixiada por las conveniencias sociales de su mundo. É um aspecto que difere da obra teatral. Dessa forma traça uma diferença entre o roteiro original e o resultado final do filme. Apesar do título da obra teatral. Bardem desenvolve uma sequência exemplar no interior de uma igreja. foram acrescentadas algumas sequências ao roteiro original. no filme. É ele que. o domínio das figuras masculinas prevalece.

Alicante: Publicaciones de la Universidad. mais reveladora e instigante. tampoco es cursi y. rezos y. en general. cai uma forte chuva. Referências bibliográficas ARNICHES. BARDEM. 135) explica a brincadeira ao personagem feminino: No es lo mismo burlarse de un personaje grotesco como Florita que de una mujer como Isabel. De certa forma. Bardem. BARDEM. Ríos Carratalá (2000. Rouanet. Madrid: Plot Ediciones. RÍOS CARRATALÁ. No hay ninguna razón objetiva porque la condene a la soltería. Ele utiliza-se de suas câmaras perspicazes para revelar o absurdo de tal sociedade e nos brinda com um filme de oposição à norma e à política vigente. W. São Paulo: Brasiliense. arte e política. O que torna esse filme uma obra singular. J. com personagens cotidianos e familiares. anualmente. trad. J. paseos. Dessa forma. já que a censura tinha o papel de mutilar e descaracterizar as produções em geral. o diretor subverte a obra teatral e escreve outra história. distanciando-se dos filmes produzidos até então. J. (2000): El teatro en el cine español.P. Suevia Films / Play Art / Iberia Films. I. en cualquier caso. C. o que ganha corpo na história é a pequena cidade provinciana. v. juegan con los sentimientos de los demás. faz uma crítica à sociedade patriarcal. elevada ao papel de protagonista. procesiones. na medida do possível. se limita a hacer lo mismo que las demás mujeres de la ciudad: novenas. com matizes próprios do diretor. não rompe com o modelo estabelecido. Aunque Carlos Arniches siempre critica a los burladores y a quienes. Um futuro sombrio e tormentoso a aguarda.A. graças a um grupo de cineastas que busca uma nova forma de representar e que partem de um universo mais realista. BENJAMIN. Bardem faz parte deste grupo e este filme diferencia- . Isabel es todo lo contrario. que se evidencia no texto fílmico. Fora. Ao mudar completamente o gênero da obra original. el retrato de la solterona casi invita a burla. de que é uma obra sobre a condição feminina. un baile en el Círculo. Nos anos 50. (1998): La señorita de Trevélez. mesmo sob a censura franquista. 95 min. Magia e técnica. O filme termina com Isabel vendo o mundo através da janela de seu quarto. Madrid: Cátedra.A. No es fea como Florita. mas na verdade são as convenções. se por seu corte neorrealista.(1993): Calle Mayor .ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 135 percebemos um deslocamento do que diz respeito ao próprio Bardem. inaugura-se uma produção voltada a uma aguda consciência social. a brincadeira.A. (1985): Obras Escolhidas . A brincadeira torna-se sem sentido e Isabel segue com sua atitude passiva e conformista. Coproducción España-Francia. (1956): Calle mayor. S. DVD.

como no exemplo do inglês abaixo em (6).3). p. haverá a leitura habitual iterativa. percebe-se que ambas as sentenças referem-se ao passado. Para este autor. Contudo. Além disso. A perífrase “tener” + particípio é considerada uma perífrase aspectual. há dois aspectos básicos na língua. Introdução O espanhol.19). Mas se essa situação não puder ser prolongada. tem traços comuns1 com a habitualidade e faz referência a uma pluralidade de ações. Ao observar os exemplos “João estava lendo um livro” e “João leu um livro”. se uma situação individual pode ser prolongada indefinidamente no tempo. está sendo substituída pela perífrase “estar” + gerúndio e. por isso. na proposta do autor. Essa oposição é gramaticalizada em diversas línguas. para abarcar outros tipos de distinções aspectuais que podem fazer parte de algumas línguas. aspectuais. então ela será apenas habitual. então para . o aspecto imperfectivo se refere essencialmente à estrutura interna de uma situação. Enquanto na primeira o aspecto é imperfectivo. como por exemplo no próprio português. no português. o aspecto imperfectivo é dividido em aspecto habitual e aspecto contínuo/durativo. ou seja. decidimos verificar a co-ocorrência desta perífrase com outras perífrases. Para este autor. há uma diferença no modo como a constituição interna da situação é vista. o aspecto perfectivo e o imperfectivo. O aspecto iterativo. Essa perífrase. Segundo COMRIE (1976. Enquanto o aspecto perfectivo trata a situação ou evento como um todo. Já em sentenças como em (7). modais e estilísticos. p. há uma diferença aspectual entre elas. segundo o autor. Para GÓMEZ TORREGO (1988. na segunda é perfectivo.136 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS DISTRIBUIÇÃO DA PERÍFRASE “TER” + PARTICÍPIO NO ESPANHOL DO MÉXICO Anne Katheryne Estebe Maggessy UFRJ 1. assim como o português. o aspecto se define em função dos diferentes modos de observar a constituição temporal interna de uma situação. vendo-a de dentro. completo. pois serve para mostrar a categoria verbal denominada aspecto. O aspecto contínuo/durativo ainda poderá ser dividido em progressivo e não progressivo. é uma língua que apresenta grande abundância de perífrases verbais. por exemplo. as perífrases podem ter quatro tipos de valores: temporais. no contexto do aspecto iterativo e na variante do espanhol da Cidade do México.

tanto do português quanto do espanhol. seu uso mais produtivo expressa o aspecto perfectivo. é pelo menos um dos fatores propiciadores da leitura aspectual iterativa. (7) “The policeman used to stand at the corner for two hours each day” (O policial costumava ficar no corredor duas horas por dia) (8) “The old professor used always to arrive late” (O velho professor costumava sempre chegar tarde). outras vezes.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 137 o autor a única interpretação razoável envolvida será a iterativa. (6) “The temple of Diana used to stand at Ephesus” (O templo de Diana costumava ficar em Efesus) dentro dos estudos linguísticos. Tengo empapeladas ya três habitaciones. um marcador adverbial como two hours each day (duas horas por dia) ou always (sempre). Além disso. Segundo o autor. 2010 e 2011). ao observar os exemplos do inglês acima. 2. A perífrase EG é canonicamente descrita. sólo me Em português. Com isso. considera-se nesse trabalho a iteratividade como aspecto por apresentar um evento escalonado. FERNÁNDEZ DE CASTRO (1999) e YLLERA (1999). Como nos exemplos abaixo: Tengo escrito ya cincuenta fólios. verificase que a perífrase “estar” + gerúndio (EG) está gradativamente substituindo a perífrase “ter” + particípio nas gerações mais jovens da população. mas em estudos como o de MENDES (2005). em estudos anteriores (2009. ou seja. sólo me quedan la cocina y el baño Tengo corregidos ya veinte exámenes. nos surgiu a curiosidade de investigar se a perífrase “tener” + particípio também estaria apresentando leitura aspectual iterativa no espanhol do México como a perífrase “estar” + gerúndio. o valor mais característico da perífrase “tener” + particípio é o valor perfectivo-acumulativo de um estado alcançado. O comportamento perifrástico de “tener” + particípio Segundo GÓMEZ TORREGO (1988. que apresenta repetição. de Buenos Aires e de Valparaíso. Dessa forma. “estar” + gerúndio e “ter” + par ticípio são construções perifrásticas que quedan veinte. como em (8). quanto no espanhol de Madri. sólo me quedan diez O autor também afirma que. um dos aspectos básicos da língua. desempenham papel principal na composição dos aspectos durativo e iterativo. já pudemos verificar a possibilidade da expressão aspectual iterativa em sentenças com a perífrase EG tanto no PB. o aspecto iterativo é normalmente expresso pela perífrase “ter” + particípio com o auxiliar no presente do indicativo. o aspecto iterativo é considerado como pertencente ao aspecto imperfectivo. pode-se dizer que para COMRIE. já que segundo GÓMEZ TORREGO (1988). Mas. p. E.192 ). marcadores adverbiais e argumentos plurais. na variante carioca. a iteratividade é uma categoria aspectual com marcas linguísticas específicas como tipo de verbo. como a que expressa o aspecto progressivo ou durativo. se indica um valor repetitivo ou de insistência como em: . segundo o próprio COMRIE. De acordo com os estudos de WACHOWICZ (2006).

temos acesso aos estudos de HARRE (1991: 52-78). como nos seguintes casos: Tengo pensado ir a tu casa (= pienso ir. se lo digo en serio. esse tipo de construção não se usa mais e um exemplo como o apresentado tende a ser interpretado com valor de imperfectivo. no sirve discutir. Eso es grande! Yo lo t e ng o af e itado la mar d e v e c es. aceitas por alguns falantes de . Tengo castigado al niño muchas veces. Sentenças essas. b. Fiéis. Especial si alcanzo a tempo de la primera embestida. p. no trabalho de YLLERA (1999). Mas. Quizás que no se lo tengo yo dicho eso un montón de veces. eso sí. Tienen vivido mucho tiempo en España y por eso hablan tan bien el español. observamos nos exemplos abaixo a presença da conjunção de ênfase e quantificações temporais extensivas que acompanham a perífrase “tener” + particípio: (133) No. parece ser que. Tenemos hablado mucho sobre este asunto. a. apud TRAVAGLIA 2006). quando perífrase. a perífrase “ter” + particípio já apresentou o valor de aspecto acabado como no exemplo “Tenho acabado. de ponerse hecho un toro colorado y salir arreando con todo lo que e ng ov istas unas p o cas pilla por delante. d.138 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Te tengo dicho que te calles Te lo tengo advertido. Tengo perdida la cartera varias veces. 950)”. em ocasiões. cursivo. Tengo despertado al niño un montón de veces.278). Lo menos cinco años que se lo vengo diciendo ya: “vamos a hacer un esfuerzo. Tiene viajado mucho por el extranjero. p. de ésas le t te ngo vistas po cas. mas também como estendido e relevantemente durativo.. I.. v e c es q ue s e lo t e ng or e p e t ido hasta la sa re sacie cieda dad.. o meu discurso (VIEIRA. é de uma gradação perfectiva na qual o processo não aparece. Com isso. o la mo ntaña d e montaña de unas economías. faenas de ésas. Me gusta el espectáculo. Enquanto isso. como dito anteriormente. como no caso anterior. estas construções distam muito de ser unanimemente aceitas e empregadas por todos os falantes do espanhol. Segundo DIAS (1970. espanhol. q ué sé y yo cie da d. interessa o estado no sujeito e não no objeto. pero grande. no te pongas a llorar E que. si es inútil. es inútil. Le tengo prestado el coche muchas veces. b. c.) Tengo entendido que te robaron este verano (=creo. segundo estudos do PB e do espanhol. Felipe. afirma que o valor de “tener” + particípio.. que cita exemplos de sentenças com “tener” + particípio expressando o aspecto iterativo. c. a nossa hipótese é a de que a produtividade dessas sentenças com “tener” + particípio em contexto iterativo estará relacionada com a presença de verbos intransitivos e de advérbios quantificadores.166). […]”. Si no lo vas a apear de su convencimiento. Por isso. a perífrase expressa uma ação iterativa sem implicar necessariamente um estado resultante: a. HARRE cita outros exemplos em que.[…] Ahora. ainda que rejeitadas por outros. FERNÁNDEZ DE CASTRO (1990. luego. Para TRAVAGLIA (2006. não só como meramente concluído.) Tengo decidido ir a tu casa (= estoy decidido ir. que te ngo . com verbos intransitivos e advérbios quantificadores. não-acabado e durativo. te robaron) Da mesma forma. y sabía ser te ngo afe de ve un tío cordial cuando quería.

segundo COMRIE (1976. De acordo com este autor. que são formadas por verbos do tipo estado. também expressa o aspecto iterativo. E por 6 sentenças alvo. Observando também o comportamento das sentenças distratoras.4 0 3/120 5/120 2. expressa o aspecto perfeito (perfect). com verbos intransitivos mais advérbio quantificador.8 DISTRATORAS ESTADO N/TOTAL 45/120 % 37.5 4. o aspecto perfeito também pode ser expresso no português pelo pretérito perfeito “ter” + particípio. p. 4. percebemos que a perífrase mais . Ele está composto por 8 sentenças distratoras formadas por verbos do tipo estado.5 24/90 26. é interessante notar que a perífrase mais selecionada nas sentenças alvo.8 4/90 0 4. Metodologia Elaboramos um teste de preenchimento. com 14 lacunas. para verificar se os nativos da Cidade do México selecionariam sentenças com “tener” + particípio ou com “estar” + gerúndio ou com “haber” + particípio em contexto iterativo. com nível superior. que estão relacionados abaixo: llegar tarde todos los días correr un chingo de veces bailar un chingo de veces salir varias veces despertarme muchas veces nadar todos los días Aplicamos o teste à 15 falantes de espanhol da cidade do México entre 20 e 24 anos.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 139 3. foi “haber” + particípio. que tem significação iterativa.1 Após a leitura da tabela. + QUANTITATIVO N/TOTAL HABER + PARTICÍPIO ESTAR + GERÚNDIO TENER + PARTICÍPIO TOTAIS 62/90 % 68. A variável sexo não pôde ser controlada. O teste se resume a uma carta de uma estudante mexicana que está no Chile e descreve tudo o que tem feito à sua família. como os seguintes verbos: gustar / tener / amar / permanecer / vivir en un piso/ odiar / querer / creer.6 67/120 55. segundo a classificação de VENDLER (1967).61). Esta perífrase chamada de pretérito perfeito composto. Resultados ALVO INTRANS. que segundo os estudiosos do PB. pois indica a relevância do presente contínuo de uma situação passada.

Essa combinação pode parecer inicialmente estranha. apresentamos as sentenças distratoras que não esperávamos que fossem selecionadas. (1) B) He nadado todos los días. Conclusão . pois encontramos ocorrências de “tener” + particípio em sentenças com advérbios quantificadores e verbos D) Permanezco firme en mi propósito. (9) ALVO (n° de sentenças selecionadas): A) Tengo corrido un chingo de veces2. (8) C) Estoy creyendo que ser gordita no es bueno. (3) Estes exemplos acima. (6) A) Tengo nadado todos los días. (6) D) Me gustan/ agradan todas las personas. DISTRATORA (n° de sentenças selecionadas): A) Tengo creído que ser gordita no es bueno.3 (1) B) He gustado de todas las personas. Diferente do esperado. mas não é considerada muito produtiva. (2) B) He corrido un chingo de veces. (10) C) Estoy permaneciendo firme en mi propósito. A hipótese não pôde ser refutada. se apresenta em forma de gerúndio que é. (1) B) Aquí he salido varias veces. nos mostram que a seleção das sentenças com a perífrase “tener” + particípio. (+) dinâmico. (8) C) Estoy gustando de todas las personas. juntamente com as escolhas feitas pelos informantes e com o número de vezes que foi selecionada entre parêntesis: Abaixo. pois um verbo de estado que é por sua natureza (-) dinâmico. que seriam com a presença de verbos intransitivos e advérbios quantificadores. (2) A) Tengo permanecido firme en mi propósito. (1) A) Aquí tengo salido varias veces. (1) 5. (5) C) Estoy corriendo un chingo de veces. Ainda assim. as sentenças selecionadas abaixo não possuem essas características e apresentam o verbo principal do tipo estado. ao contrário. (14) B) He permanecido firme en mi propósito. pois não possuíam as características descritas por HARRE como favorecedoras da iteratividade. (1) B) He creído que ser gordita no es bueno. (6) C) Estoy nadando todos los días.140 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS selecionada foi “estar” + gerúndio. “bailar un chingo de veces” e “despertarme muchas veces”. Abaixo apresentamos as sentenças que tiveram ocorrência da perífrase “tener” + particípio. Pois não há fatores que diferenciem essas sentenças de outras que não foram selecionadas como “llegar tarde todos los días”. (5) A) Tengo gustado de todas las personas de la Universidad. essa é uma construção possível na língua. parece ter sido aleatória por parte dos informantes.

Artigo publicado nos Anais do 6° Encontro Celsul – Círculo de Estudos Linguísticos do Sul. semántica y estilística. Oviedo. Seria o equivalente a “muchas veces”. VERKUYL. Zener (1967): Linguistics in Philosophy. e sem advérbios do tipo quantificador. 2 A expressão “un chingo de veces” é uma forma coloquial dos jovens da Cidade do México expressarem uma repetição. Além disso. FERNÁNDEZ DE CASTRO. Ithaca: Cornell. Uberlândia: EDUFU. é a descrição de uma situação que é característica de um período estendido de tempo. Bernard (1976): Aspect. ainda não é possível falar da substituição da perífrase “tener” + particípio por qualquer outra perífrase. MENDES. Cambridge University Press. F. 3391-3441. YLLERA.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 141 intransitivos. Universidade Estadual de Campinas. 6. Vol. WACHOWICZ. C. foi possível encontrar o uso da perífrase “tener” + particípio em contexto do aspecto iterativo. podendo ser combinado também com verbos do tipo estado. verificamos um uso dessa forma do verbo gustar. TRAVAGLIA. p. que também compartem os traços de imperfectividade e iteratividade. Arco/Libros. Ignacio Bosque y Violeta Demonte. (1993): A theory of aspectuality . 3 Em consulta informal. Tese de doutorado.ed. 4. Notas 1 Segundo Comrie (1976). Sintaxis. Madrid: Espasa. (1988): Perífrasis verbales.The interaction between temporal and atemporal structure . mas precisamente. T. a flutuação do uso dessa perífrase com as perífrases “haber” + particípio e “estar” + gerúndio. como um traço característico de todo o período. (1990): Las perífrasis verbales en español. o traço que é comum em todos os habituais. Alicia (1999): “Las perífrasis verbales de gerundio y participio. eds. entre outros. pudemos perceber que o uso de “tener” + particípio pode não ser tão restrito. como tratado por alguns estudiosos. (2006): Marcas linguísticas de iteratividade em PB. Contudo. Luiz Carlos (2006): O aspecto verbal no português: a categoria e sua expressão. Cambridge: Cambridge University Press. aspecto verbal e variação no português. Publicaciones del Departamento de Filología Española. VENDLER. Referências bibliográficas COMRIE. 2. L. Embora o número de ocorrências tenha sido baixo. Finalmente. Ronald Beline (2005): Estar + gerúndio e ter + particípio. Madrid. não só de perfectividade. verificamos que a perífrase “tener” + particípio também possui traços de imperfectividade e de iteratividade. É significativo observar também. segundo a classificação vendleriana . conforme é usado no PB.” Gramática descriptiva de la lengua española. estendido no fato de que a situação referida é para ser vista não como uma propriedade acidental do momento. H . GÓMEZ TORREGO. Comportamiento sintáctico e historia de su caracterización. Universidad de Oviedo. na variante investigada do espanhol do México. . sendo ou não também iterativos.

construir formas de identificação do leitor com o texto. una esencia –. 44-45) De acordo com Esposito. discurso e comunidade pela seguinte pergunta: escrever ou ler em uma língua estrangeira significa pertencer à comunidade? A própria pergunta já deixa intencionalmente aberto um campo de definição: comunidade a que pertence(m) o(s) autor(es) ou a que pertence(m) o(s) leitor(es)? A resposta a essa questão leva-nos a aceitar a ideia de duplicidade ao tratarmos do processo de interação verbal em língua estrangeira. embora seu lugar de enunciação seja quase sempre distinto ao lugar de enunciação do seu interlocutor. Isto se percebe ainda na própria polissemia que a noção de “comunidade” enceta. (ESPOSITO. tem de. necessariamente. De forma paralela. segundo a ótica de Roberto Esposito: Pese a todas las precauciones teóricas tendientes a garantizarlo. a lo particular de un sujeto común. 2008) que dão sustentação àquilo que se materializa no texto. possuir um grau de inserção no universo discursivo referente à língua em que se processa o ato de ler. p. e por outro. embora traga para a leitura as marcas ideológicas e inconscientes de sua constituição identitária.142 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS LITERATURA E ESPANHOL/LE: A QUESTÃO DA COMUNIDADE Antonio Andrade UFRJ É possível iniciar uma discussão a respeito da relação entre língua.1 Tal duplicidade está ligada ao movimento pendular de abertura e resistência que se verifica no contato entre diferentes culturas e comunidades discursivas2 e. una tierra. entre sujeito e alteridade. Una vez que se la identifica – con un pueblo. Aquele que escreve em uma língua não materna precisa. o problema da comunidade advém da tensão entre a ideia de communitas – termo que delineia a configuração do “espaço comum” como um vazio. por um lado. lugar de estabelecimento de relações múltiplas e imprevistas com a alteridade – e a noção de immunitas – ligada . ese vacío tiende irresistiblemente a proponerse como un lleno. buscar estratégias de compreensão das formações discursivas e das condições de produção do discurso (FOUCAULT. num esforço de previsão das expectativas discursivas de uma dada comunidade a que o texto se dirige. la comunidad queda amurallada dentro de sí misma y separada de su exterior. 2007. y la inversión mítica queda perfectamente cumplida. a reducir lo general del ‘en común’. num nível mais profundo. aquele que lê em uma língua estrangeira.

p. na interação verbal entre brasileiros e hispânicos mediado pelo texto escrito. 85). a partir da análise do texto de Cortázar. Santiago assinala.. ou a partir da história da leitura de um texto. muitas vezes. cit. suas condições de produção. com Silviano Santiago (2000). A modo de exemplificação. o leitor tende a seguir modelos de leitura já instaurados que funcionam como padrões de previsibilidade. (SERRANI. relacionar-se com ausência ou presença de polidez. para quem se diz. a possibilidade de o não compar tilhamento da memória discursiva e o não reconhecimento das marcas de regularidades enunciativas.. Mas. distintas formações discursivas que atravessam os contextos socioculturais brasileiro e argentino. não possui controle consciente do seu dizer. cabe pensar que os modos de enunciar denominados abruptos [contexto argentino] ou por transições [contexto brasileiro] podem.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 143 aos projetos de (auto)proteção. as possibilidades de nascimento da pluralidade de sentido. gerarem outros tipos de deslocamento significativo. a título de exemplo.) considerando o estudo sobre leitura em espanhol e português (. isto é. poderia. cultura e discursividade. ao situar-se na ordem do discurso. etc. ser lido como um produtivo mecanismo de desterritorialização/ descolonização do sentido. invertendo. Evidentemente. mas também devem ser vistos como marcas de regularidades enunciativas e de memórias discursivas. em boa parte. seja por vontade paródica – traduz a frase avistada no espelho de um restaurante parisiense. ao lugar social do qual se diz. do enunciado com o contexto sociodiscursivo. a partir dos modelos de leitura. ele a traduz . gregarismo e consequente isolamento de distintos grupos sociais. p. ou seja. são responsáveis pela produção de diferentes formas de leitura de um texto: (. o sujeito estará habilitado a produzir (ou deslocar) sentidos. em relação aos discursos. bem como aos discursos que. Essas marcas integram a constituição subjetiva. o analista do discurso que se debruça sobre o ato de ler precisa reconhecer que toda leitura tem sua história. por exemplo. Neste caso. seu contexto original: “je voudrais un château saignant. a partir de condições de produção do discurso divergentes? Como bem apontou Serrani (2010).” (ORLANDI. por um lado. O que poderia ser recebido como a formação de um mal-entendido capaz de vedar a comunicação. da mesma forma como Foucault (2002. é importante para o analista evidenciar. Desse modo. 36) demonstra que os princípios e regras de coerção do discurso são simultaneamente responsáveis por sua produtividade. compartilhando o conhecimento consciente ou inconsciente de suas regras de funcionamento ideológico. Consciente de que “aquilo que se diz significa em relação ao que não se diz. ainda que a possibilidade do “equívoco” não esteja excluída nesse caso. op. tentam justificar a prevalência ou a posição desses grupos no terreno de disputas pela hegemonia. No entanto. o que acontece na interação com textos em língua estrangeira escritos.” Mas em lugar de reproduzir a frase na língua original. a imprevisibilidade. a partir de textos escritos e lidos sob as mesmas condições. ao longo da história. que o personagem principal de 62 Modelo para armar – seja por desconhecimento das condições de produção do discurso na leitura em língua estrangeira. ideológica e cultural que o definem. pode-se vislumbrar. cit.. tais considerações estão perfeitamente conectadas ao estudo da interação entre coenunciadores pertencentes à mesma comunidade.. Essas regularidades condicionam a produção e a compreensão verbais do sujeito do discurso que. de outra forma..). Tal reflexão de ordem político-filosófica coaduna-se com a perspectiva da análise do discurso. op. de modo especular. 98) Aprofundando o exame das relações entre literatura. p.. Pode-se verificar. a reflexão proposta por Orlandi (2001) a propósito dos mecanismos de variação e regulação (polissemia e paráfrase) encetados pela relação do texto com a sua exterioridade.

de muitos professores de língua estrangeira em relação à abordagem de textos literários em suas salas de aula. cit. a casa onde mora o senhor. A dúvida sobre a (in)adequação do texto literário à didática de língua estrangeira tem demonstrado ser uma falsa questão. (SANTIAGO.144 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS imediatamente para o espanhol: “Quisiera un castillo sangriento.. nem sempre. esses poemas. o que reforça visões deterministas sobre os percursos de formação dos sentidos. conforme aponta Esposito. Curioso notar que essa mesma questão foi desenvolvida por Serrani (2010) em texto em que a autora examina dados de pesquisa a propósito dos mitos e preconceitos sobre o interesse de alunos no ensino médio pela poesia: (. seriam adequados para uso em sala. que dentro do impulso imunitário de agrupamento sociocultural subsiste conjuntamente Tal concepção do discurso literário como um “entre-lugar” prevê não só a inevitabilidade da conexão entre leitura e produção. na pena do escritor argentino.. Consequentemente. a maioria manifestou que não acharia esse tipo de material adequado e que a leitura não entusiasmava.. relatadas em diversos congressos da área. p.) perguntamos aos estudantes (e a alguns futuros professores) se poemas como esses seriam aptos para aulas de língua a adolescentes. a fogo e sangue. da perspectiva do interesse dos estudantes. Dessa forma. p. O não pertencimento à comunidade estrangeira e o não compartilhamento de determinados modelos literários da cultura letrada. nos ajudam a desmistificar certo receio ora velado. (SERRANI. portanto. visto que inúmeras experiências escolares. motivando e agravando seu afastamento em relação às práticas de letramento promovidas pela escola. os depoimentos mostraram. a interação entre coenunciadores pertencentes a distintas comunidades – ou. 93) a respeito da hegemonia das políticas de leitura da classe média.). de certo modo. ancorados em diferentes formações ideológicas e subjetivas – só poderá dar lugar a gestos de repúdio por par te dos leitores. que se tratava de pré-conceito. são fatores preponderantes para o afastamento do leitor em relação ao texto que lhe é apresentado. saignant. além de desconsiderar. mas também o deslizamento do sentido no interior deste processo. vêm comprovando a possibilidade de engajamento discursivo de jovens estudantes brasileiros com esse tipo de texto. op. Digo isso porque a própria autora sinaliza a possibilidade de tensão entre conhecimento dominante e dissidência no contexto das mesmas práticas sociodiscursivas. Tal compreensão do letramento em comunidades discursivas não hegemônicas liga-se a uma concepção muito engessada da relação entre discurso e classe social. de outro modo. na leitura. posteriormente. a produção dissidente da classe popular como sinal de “resistência cultural”. A propósito. que. colonialista.. embora sua perspectiva crítica só enxergue. de maneira engajada. “impediria” a classe popular de formar seus modelos de leitura. E o adjetivo. torna-se a marca evidente de um ataque. op. cit. pelo fato de não compartilharem os mesmos modelos discursivos do grupo social a que pertence o autor. já que o material interessou à maioria dos alunos. o castillo sacrificado. de derrubálo. el castillo .. ainda que relacionadas a um estudo de caso em contexto educacional de língua materna. por parte dos estudantes da educação básica. que significava apenas a preferência ou o gosto do cliente pelo bife malpassado. ora declarado. A tradução do significante avança um novo significado (. No entanto. p. sangriento . Os futuros professores responderam explicitamente de modo negativo e os jovens que iriam responder o questionário não foram explícitos. o desejo de ver o château. é preciso evitar a ideia de que..” Escrito no espelho e apropriado pelo campo visual do personagem latinoamericano. mas por meio de expressões faciais e outros gestos corporais. de uma rebelião. château sai do contexto gastronômico e se inscreve no contexto feudal. deve-se também evitar interpretar dessa maneira as considerações de Orlandi (2001. 51-52) . 22) Tais observações.

) é uma deriva.. 30). p. Com isso. chamo a atenção para a necessidade de se buscar um viés mais complexo de entendimento dos sinais de proximidade e distanciamento manifestados no ato da leitura. (. 484). que (. abandonar o grande divisor entre ‘letramento’ e ‘iletramento’ e. Para Barthes (2008. de modo muitas vezes imprevisto.) não é um elemento do texto. nos conflitos entre formas de compreensão textual e nos graus de consciência do leitor em relação a sua posição no processo de leitura. “O prazer (. 2003. bem como do possível deslocamento de sentidos produzido não só desde o âmbito da produção.) ha entrado en el escenario otra dimensión. procuro estender o critério de não coincidência entre os papéis enunciativos colocados em jogo no âmbito da produção escrita para a análise da compreensão leitora. Assumir uma posição menos simplificada em relação ao papel da ideologia na atividade leitora significa compreender. 2001. nenhuma mentalidade. nenhum idioleto”. personagens.) clarificar e refinar conceitos de letramento. p. Não à toa. em vez disso.) afecta ese proceso especial en el que inevitablemente identidad y alteridad se enfrentan” (GONZÁLEZ. ser reduzida ao estereótipo de que a literatura estrangeira serviria como uma estratégia de resolução de conflitos hipotéticos ou como forma de “substituir” experiências diretas com o estrangeiro (cf.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 145 um impulso comunitário de abertura à exterioridade. portanto. reivindica atenção às “demandas locais de letramentos diferentes”: “Antes de tudo. receptáculo de divergentes forças discursivas de acabamento e dispersão. Tais concepções. por isso é capaz de estabelecer e romper resistências quanto ao discurso do outro.. vista assim como espaço de tensão entre diferentes vozes: autor real.. quem em lugar de aceitar a existência de um processo único e autônomo de letramento. de modo algum. 239). junto com Barthes. Esta perspectiva coaduna-se à de Brian Street (2006.. isto é.. mas também desde o . que o prazer que se manifesta no processo de interação com o texto literário é atópico... sugerem a necessidade de se focalizar as distintas exotopias envolvidas na produção da leitura literária em E/LE por sujeitos situados em diversos contextos. quero chamar atenção ao fato de que a formação docente para o trabalho com textos literários em aulas de espanhol não pode. Seguindo a esteira dessa colocação. autor representado. qualquer coisa que é ao mesmo tempo revolucionária e associal e que não pode ser fixada por nenhuma coletividade. Tal consciência requer da pesquisa uma investigação mais densa quanto à produtividade da noção de exotopia3 (do autor e do leitor) no processo dialógico. a necessidade de se estar atento às diferenças institucionais e subjetivas envolvidas nas (re-)significações conduzidas pela ação pedagógica – desde a escolha do texto até sua mediação –. leitor virtual e leitor real. precisamos (. p. 29). Esse ponto de vista solicita ainda o entendimento do leitor como instância enunciativa ligada à natureza dúplice – (ir)repetível – da discursividade. CÁRCAMO. lançando mão da perspectiva bakhtiniana (BAKHTIN.. asociada al inconsciente psicoanalítico: aquel donde está instalado el deseo. ao mesmo tempo produzido pelo modo como é posicionado na trama do discurso literário e produtor de atos responsivos em face do enunciado: ator envolvido em tensos movimentos de adesão e deslocamento.. (. p. 2010a). Isto sinaliza. estudar as práticas de letramento em contextos culturais e ideológicos diversos” (Ibidem). admitindo o dialogismo de vozes não coincidentes na interação propiciada pelo ato de ler. portanto. Isso remete às considerações de Neide González sobre a dimensão afetiva (o investimento desejante) que permeia a relação das comunidades e dos sujeitos – entendidos como entidades não monolíticas – com a língua estrangeira: “En los últimos años.. É preciso se buscar uma compreensão mais aprofundada da heterogeneidade cultural e discursiva das comunidades. não ocupa lugares fixos na cadeia significante. 2007.

mesmo “o amor ao outro” não é capaz de suspender a diferença: traço constitutivo da própria discursividade. É preciso despertar. 104). 5º período). percebe-se nesses enunciados a força tipificadora que a simplificação do discurso em torno do literário. “Na minha opinião. em Bakhtin (2010b. do cultural e do histórico vem produzindo em nosso cenário acadêmico. no aluno-leitor universitário.4 Esses dizeres ignoram a plurivocidade de sentidos da linguagem nos gêneros literários.) e aceitar as diferenças ou lidar melhor com elas” (Daniele. vem tornando mais aguda a potência apassivadora (e apaziguadora) do discurso. O professor ensinará não só a gramática da língua. fazendo com que seus alunos conheçam e aprendam a respeitar outras culturas” (Rafaela.E pela oportunidade que oferece a literatura de um maior conhecimento cultural. 5º período). para muitos. apresento adiante alguns excertos de textos produzidos em 2011 por licenciandos de Letras Português-Espanhol de uma universidade pública do Estado do Rio de Janeiro ao serem interrogados a propósito da contribuição da literatura para sua formação inicial como docentes de língua estrangeira: “Os estudos literários são importantes para a formação do professor de L.. mas também ter acesso à cultura dos países que têm tal língua como oficial. pudesse ser abarcada na sua inteireza como um conteúdo didático. talvez isso seja um sinal de que. que cede lugar à má interpretação da produção teórico-crítica sobre o literário (note-se nos fragmentos acima certa tendência a se confundir a literatura com o domínio institucional dos “estudos literários”). futuro professor de línguas e literaturas. ou de maneira positiva. De certa maneira. silenciando dilemas da subjetividade e da comunidade. 4º período). p.. mas a história. como é de se esperar que ocorra em toda e qualquer atividade discursiva. uma outra cultura) e a tomar gosto por um outro tipo de leitura” (Frederico.146 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS da leitura do texto literário. a questão gramatical e estrutural também é importante. a experiência literária estrangeira que vem sendo vivenciada na universidade não é a do questionamento e da desconstrução do senso comum. 6º período). dentre outras coisas. para a formação do professor de língua estrangeira. para concluir. por exemplo. A vontade de enunciar dá lugar a um ser enunciado. no contexto de minha pesquisa sobre a relação entre letramento literário e formação docente. portanto. a se adaptar a algo diferente (no caso. a consideração do leitor nesse processo é fundamental para qualquer intento de se (re-)configurar as bases dessa formação. entretanto aqui talvez a falta de um contato mais íntimo com a literatura. ao mesmo tempo singular e comunitário. Como se vê. A título de exemplo. a sensibilidade para o efeito dialógico e tensivo. se a questão da estrangeiridade só consegue ser representada aí em termos de “adaptação”/”aceitação”. Tal opinião é baseada na defesa de que aprender uma língua é muito mais do que conhecer a estrutura da mesma. Além disso. cujo reflexo nesses casos é a busca de “soluções mágicas” para os problemas linguísticos e interculturais através do conhecimento literário. . certa cristalização de visões simplificadoras da ideia de outridade. bem como o fato de que sujeito e alteridade estão imbricados e se problematizam mutuamente. Tenho podido constatar. um conhecimento sobre o mundo. É importante lembrar. os estudos literários contribuem muito. representada por comunidades linguísticas e literárias estrangeiras. que o ato estético de enunciação pode provocar.E de formação” (Vanessa. que. principalmente se o futuro professor busca obras literárias da sua L. “[a literatura] nos faz quebrar (ou confirmar) paradigmas (. “o aluno de língua estrangeira aprende. como se a cultura do outro. Aliás.

S. GONZÁLEZ. (2006): Perspectivas interculturais sobre o letramento. embora não necessariamente precisem interagir de maneira direta ou estar próximos uns dos outros. ESPOSITO. 465-488. (2000): O entre-lugar do discurso latinoamericano. (2006): Linguística aplicada na ________ (2010a): Problemas da poética de Dostoiévski. (2007): La literatura en la formación y en la práctica del profesor.) Analisar texto ou discurso significa analisar formações discursivas essencialmente políticas e ideológicas por natureza” (KUMARAVADIVELU. focaliza os usos e análises da comunicação escrita realizados por indivíduos (membros da comunidade) que. R. 9-26. São Paulo: Martins Fontes. March 19-21. compartilham interesses e expectativas comuns e encontram-se engajados em práticas comunicativas propiciadas por determinados gêneros discursivos. CÁRCAMO. 239-255. 2 Segundo Borg (2003). M. São Paulo: Contexto. E. São Paulo: Contexto/Ed. (org. Unicamp. 8.) Por uma linguística aplicada indisciplinar . S. p. BARTHES. SWALES. Em: ELT Journal Volume. mas porque é gerado pelas formações discursivas.. São Paulo: Loyola. 1. p. era da globalização. J. 25-31. (2010): Discurso e cultura na aula de língua. (org. Notas 1 Trago à tona aqui uma consideração de Kumaravadivelu a propósito do vínculo inexorável – observado no pensamento de Foucault – entre discurso. p. p. p. Em: Annual Meeting of the Conference on College Composition and Communication (38 th. Em: Revista de Filologia e Linguística Portuguesa. São Paulo: Perspectiva. Rio de Janeiro: Forense Universitária. M. S. cada qual com suas ideologias particulares e modos particulares de controlar o poder. atribuído a Swales (1987). B. (2003): Discourse community. São Paulo: Parábola. (2007): Communitas: origen y destino de la comunidad. ________ (2010b): Para uma filosofia do ato responsável. FOUCAULT. p. n. E. M. (2001): La expresión de la persona en la producción de Español Lengua Extranjera de estudiantes brasileños: perspectivas de análisis. (2002): A ordem do discurso. Buenos Aires: Amorrortu. Em: Hispanismo 2000. GA). BAKHTIN. 95-114. (2008): O prazer do texto . 2006. P. 129-148. Em: BRAIT. v. Atlanta. (2003): Estética da criação verbal. SERRANI. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Suplemento Jubileo de Plata de la APEERJ. Em: Uma literatura nos trópicos. ________ (2008): A arqueologia do saber. Em: MOITA LOPES. ORLANDI. Campinas: Pontes. 57/4. L. BORG. 140). (. (2001): Discurso e leitura . B. SANTIAGO. p. Oxford University Press. (2008): Cronotopo e exotopia. fundamental para a análise dos procedimentos de construção do sentido acionados pela leitura: “Um texto significa o que significa não por causa de quaisquer traços linguísticos objetivos inerentes. . o conceito original de “comunidade discursiva”. Em: Anuario Brasileño de Estudios Hispánicos.) Bakhtin: outros conceitos-chave. KUMARAVADIVELU. (1987): Approaching the concept of discourse community. STREET. B. Rio de Janeiro: Rocco. São Paulo: Pedro & João Editores. 398-400. p. N. textualidade e significação. R.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 147 Referências bibliográficas AMORIM..

. “refere-se à atividade criadora em geral”. 4 Todos os nomes dos licenciandos que colaboraram com a pesquisa foram alterados a fim de preservar suas identidades. fundamental ao trabalho de criação e de objetivação”. segundo Amorim (2008. p. de onde provém sua singularidade dentro do processo discursivo-enunciativo e de onde se derivam os valores éticos de sua posição. à possibilidade de o enunciador situar-se em “um lugar exterior. 95-96).148 3 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS O conceito bakhtiniano de exotopia.

Durante muito tempo. portanto. instituições responsáveis por oferecer em todos os Estados brasileiros uma gama de cursos: ensino médio. Esperamos a partir da análise do Projeto Político Pedagógico do referido curso tecer considerações para as seguintes questões: formação docente em Institutos Tecnológicos. nasce uma ampla discussão interna e externa sobre o papel de atuação dessas instituições no cenário educacional brasileiro e sobre a identidade institucional de cada Centro de formação. No entanto. ensino técnico.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 149 A FORMAÇÃO DE PROFESSORES DE ESPANHOL NO INSTITUTO FEDERAL DE RORAIMA: REFLEXÕES SOBRE A PRÁTICA DOCENTE Antonio Ferreira da Silva Júnior CEFET/RJ. antes da mudança para Instituto Federal. a Rede Federal passou por uma constante mudança de sua identidade institucional. No que se refere à formação de professores na Rede. bacharelados e pós-graduação (lato e stricto sensu). implicando um interesse e debate entre os professores. PUCSP Introdução A Rede Federal de Educação Profissional e Tecnológica é formada por 38 Institutos Federais. servidores e teóricos da Educação pelo entendimento do seu verdadeiro papel perante a sociedade. alguns CEFET começam a oferecer cursos de licenciatura em Física. por determinação do MEC como alternativa para escassez de professores em algumas áreas do conhecimento. nos centramos no histórico dos Institutos Federais e sua proposta de formação de professores e no debate sobre o curso de Licenciatura em Espanhol do Instituto Federal de Roraima (IFRR). somente no ano de 2000 (decreto 3. licenciaturas. sinalizando que tal proposta não é decorrente do atendimento de uma exigência do MEC para preenchimento de vagas. no decorrer dos seus mais de cem anos de existência. Para este artigo. do setor de agronegócios e de serviços. ensino médio integrado ao técnico. pioneiro na oferta de cursos de Letras no cenário da Rede. Vale à pena destacar o curso inicia suas atividades no ano de 2006. Matemática e Ciências. 2 Centros Federais de Educação Tecnológica (CEFET) e 1 Universidade Tecnológica. concepções de ensino e a imagem do . as “escolas” da Rede preocuparam-se com a formação de mão de obra especializada de nível médio para atender as demandas profissionais da indústria.462/2000). A partir da publicação de tal decreto. cursos superiores de tecnologia.

no entanto. além do desenvolvimento de atividades de pesquisa e extensão. tais 1. alunos. permitindo uma maior expansão e diversidade das licenciaturas oferecidas no país. pluricurriculares e multicampi” (BRASIL. (e) presença de professores concursados sem formação pedagógica atuando nos cursos de licenciatura. Tal mudança acarretou novamente em uma mudança identitária das escolas e. Os Institutos Federais são equiparados às universidades federais. que foi reescrito e substituído pelo decreto número 3. cria 19 Escolas de Aprendizes e Artífices nas capitais dos estados da confederação e com essas o desenvolvimento do ensino profissional primário e gratuito.150 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS professor contemporâneo. A reestruturação interna dos CEFET estava sendo discutida no teor desse documento. Institutos Federais: seu percurso identitário No dia 23 de setembro de 1909. normalmente. no entanto. Esses são alguns pontos colocados em cena. através do decreto número 7. Técnico e Tecnológico. 1961). (c) atuação do professor em diferentes níveis de ensino. as escolas federais da Rede de educação profissional e tecnológica. (b) falta de esclarecimentos da atuação do docente na Carreira de Professor do Ensino Básico. técnicos administrativos. Essa expansão inesperada e pouco discutida entre os atores (professores. Nilo Peçanha. recorremos. os CEFET passaram a atuar na formação e na capacitação de professores para a Educação Básica e da Educação profissional atendendo a um chamado do Ministério da Educação com a aprovação do decreto número 2. principalmente. (d) oferta de cursos de licenciatura como mera formalidade para atendimento de demandas impostas pelo MEC ou vocação dos colegiados. A formação de professores nas “escolas” da Rede Federal No final dos anos 90. podemos dizer que foi quase unânime. Desde sua aprovação e expansão aos demais Estados da Federação. . aos estudos teóricos de GADOTTI (2001). inclusive. o então Presidente da República. principalmente. dirigentes e demais membros da comunidade escolar) da Rede Federal permitiu uma série de questões internas advindas dessa política de expansão do ensino técnico e superior do governo Lula. (g) necessidade de mudança do estigma de origem atribuído aos Institutos Federais/CEFET conhecidos até hoje como “escolas” técnicas. Isso implica um processo interno de compreensão de como articular num mesmo espaço e. não podem deixar de ministrar o ensino profissionalizante. De acordo com o decreto de criação. contando com o mesmo corpo docente cursos de diferentes níveis e modalidades de ensino. 2. Para alcançar tais objetivos. O objetivo inicial dessas escolas era formar operários e contramestres a partir de um ensino focado nas habilidades necessárias e práticas para desempenhar ofícios manuais (FONSECA. após a constituição dos Institutos Federais e a abertura de inúmeros cursos de licenciatura em diferentes áreas do conhecimento. passaram por diferentes nomenclaturas. A transformação dos CEFET em Institutos Federais não foi uma medida governamental obrigatória. como: (a) articulação entre cursos de diferentes níveis de ensino. básica e profissional. o fortalecimento e a padronização de uma identidade visual para a Rede Federal de ensino. 2008).566. CELANI (2001) e PAIVA (2005).406/97 1. tais “escolas” passam a ser vistas como “instituições de educação superior.462/00. (f) formação do licenciando vista como de um trabalhador técnico.

porém. que os saberes relacionados à área industrial. à tecnologia e às exatas são privilegiados. Aliado a isso. (g) o uso das tecnologias da informação e da comunicação e (h) de metodologias. a resolução número 1 de 19 de fevereiro de 2000. por outro lado. extinguiu-se a formação do professor da Educação Básica no chamado regime 3 + 1. (b) o acolhimento e o trato da diversidade. da oferta de cursos de Licenciatura em Letras/Espanhol em dois CEFET. : . englobando 400 horas de prática curricular. entendemos que a própria origem da Rede sustente essa demanda. num mesmo espaço institucional. o perfil dos cursos de Licenciatura é reformulado através da Resolução do Conselho Nacional de Educação (CNE). Histórico do Curso de Letras/Espanhol do IFRR Como professor da Rede Federal desde 2007. De acordo com essas diretrizes. de formação pedagógica e de formação geral.224/04. 2005). Após a publicação desses documentos muitos cursos de Licenciatura nos CEFET começaram a ser projetados em todo o país. (f ) a elaboração e a execução de projetos de desenvolvimento dos conteúdos curriculares. nem sempre adequada à realidade e ao contexto de cada curso de licenciatura (PAIVA. A inquietação para o desenvolvimento deste artigo surgiu ao tomar conhecimento. na superação do tradicional modelo hegemônico disciplinar dos cursos de formação de docentes e reforçando a verticalização do ensino. que dispõe no parágrafo único do capítulo II sobre a possibilidade de abertura de cursos em outros campos do saber. favorecendo. de licenciaturas na Rede. Com essa regulamentação. de certa maneira. a ofertar Bacharelados em Engenharia com inúmeras habilitações. 1800 horas de aulas para os conteúdos curriculares de natureza científicocultural e 200 horas para atividades acadêmicocientífico-culturais. carga horária e Diretrizes para os cursos de formação de professores do país. (d) o desenvolvimento de hábitos de elaboração e trabalho em equipe. Acreditamos que essa abertura para as Letras representou um importante movimento de quebra de paradigmas que culmina no ano de 2008. já que elas possuíam longa tradição no ensino de formação técnica e começaram. determinou carga mínima de 2800 horas. porém. estratégias e materiais de apoio inovadores. Alguns pontos centrais foram: (a) o ensino visando à aprendizagem do licenciando.224. cujo objetivo era rever aspectos da prática docente formalizando sua duração. conseguimos visualizar uma interdisciplinaridade entre os eixos de formação específica. percebemos. 400 horas de estágio curricular supervisionado. os primeiros cursos de licenciatura dos CEFET começaram a se configurar. Vale à pena ressaltar também que esses cursos abriram uma nova estrutura interna no ensino das escolas da Rede Federal. (e) o aprimoramento em práticas investigativas. (c) o exercício de atividades de enriquecimento cultural. por conta de uma nova identidade para a Rede. em pouco tempo de instituição.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 151 O decreto acima ainda é reforçado por outro de número 5. em 18 de fevereiro de 2002. no ano de 2006. Os cursos de Letras fogem do eixo tecnológico previsto inicialmente para oferta. convivem com modalidades e níveis de ensino diversificados. Em relação à carga horária das licenciaturas. de 1º de outubro de 2004. encontram amparo no decreto 5. três anos de conteúdos característicos de um curso de bacharelado somados a um ano de formação pedagógica. Com a nova roupagem desses cursos. Essa proposta de integração entre os saberes teóricos e práticos já é algo bastante comum na organização curricular das licenciaturas dos Institutos Federais. a partir também dos anos 90. já que os licenciandos. ainda em constante construção. 3.

Cada universidade precisa refletir sobre a necessidade constante de estudar o perfil de professor mais adequado à realidade escolar do país. que atribuem sentido ao teor de tais prescrições. e ainda conta com um Centro de Estudos de Línguas Estrangeiras (CELEM).. Cada vez mais. percebemos o caráter diferenciado desses cursos em comparação aos já oferecidos no mercado. 2001. Em seguida. Outro ponto de reforço do projeto é a falta no Estado de cursos de formação de professores.] o projeto do curso deveria ser o carro chefe para garantir a qualidade do ensino. Segundo Paiva (2005): [. acreditamos que tais orientações permitem avaliar como cada instituição entende e concebe a formação de professores. o projeto do IFRR apresenta estudos estatísticos como os da Agência Brasil/ Radiobrás. Além de a oferta acontecer num espaço até pouco tempo visto como de formação para Educação Básica e Profissional. com o intuito de funcionar como mais um espaço de formação. e a metodologia é ainda centrada no professor. coletados em agosto de 2005. condução e a manutenção desses cursos.152 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Por meio do decreto mencionado. Como justificativa. Ainda. revelando uma carência de 12 mil professores em todo o Brasil para aplicação da lei de oferta do espanhol. o texto sinaliza que a instituição oferece o espanhol desde o ano de 1995 na grade de todos os seus cursos. Na introdução do documento. No entanto. porque. A elaboração do mesmo deuse por uma comissão liderada por duas representantes da área de espanhol. 18) como um processo dinâmico: “[.1165/05. destaca a aproximação do Estado de Roraima a países hispanofalantes. de um curso. A lei 11.. p. a teoria não dialoga com a prática. em torno de disciplinas. a análise dos projetos revela o predomínio de currículos organizados de forma tradicional. O projeto pedagógico do IFRR nomeia o curso como sendo de Licenciatura Plena em Língua Espanhola e Literaturas. como pensar a formação do profissional de linguagens numa instituição onde algumas áreas do saber são vistas como mais tradicionais que outras? Tal pergunta constitui nosso interesse ao estabelecer uma reflexão sobre os cursos de Licenciatura em Espanhol da Rede mediante análise dos projetos e matrizes curriculares dos cursos. O único existente até aquele momento. cultural e social existente nessa área de fronteira. dentro do modelo de transmissão de conhecimento. através de análise de projetos e matrizes. além do mercado econômico. e elemento norteador da discussão do perfil desejado de profissional da área de atuação. sabemos que fatores decorrentes da motivação de um colegiado de professores são fundamentais para a apresentação. não conseguia suprir a demanda por profissionais da área. o da UFRR. No entanto. As ementas e programas se escoram em bibliografia desatualizada. o texto informa que o Estado O projeto pedagógico deve ser entendido como um gênero importante para a definição de uma concepção única de formação por parte dos docentes . nosso objetivo principal nas páginas a seguir está em averiguar como o IFRR idealizou seu curso de Licenciatura a partir das informações públicas disponíveis em seu projeto pedagógico. que torna obrigatória a oferta de espanhol no Ensino Médio. No desenvolvimento da justificativa. aparece citada como mais um argumento para a criação do curso. conforme assinala Gadotti (apud VEIGA. em nosso caso o de língua estrangeira.. Isso implica em reconhecer o projeto de curso. além de a maioria não apresentar coerência entre os objetivos e o perfil do egresso. o que implica numa demanda significativa de interessados pela aprendizagem da língua. o projeto apresenta a carência de profissionais de ensino de espanhol como língua estrangeira (E/LE) na cidade de Boa Vista e nos municípios do interior..] Todo projeto supõe ruptura com o presente e promessas para o futuro”. Nesse sentido. alguns CEFET conseguiram o embasamento para ofertar as primeiras licenciaturas em Humanas.

O projeto atenta para a adequação das orientações do Parecer CNE/CP número 1. entre eles a pesquisa. as redações de jornais. O projeto sinaliza uma ampla formação. O curso na íntegra soma 3. pedagógica e cultural. Literatura. desde os conhecimentos mais estruturais da língua de estudo. porque permite a inclusão do aluno na realidade digital. valorizando a formação do professor como profissional do ensino. prática curricular e de pesquisa). a tradução e como intérprete. humanística. do sujeito da aprendizagem. O curso está dividido em 8 períodos com duração mínima de 4 anos. O projeto.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 153 de Roraima necessita de um número emergencial de 128 docentes para atuação nas escolas do Estado.580 horas dos Conteúdos/ Conhecimentos/Competências Curriculares de natureza científica. O curso do IFRR apresenta diferentes linhas teóricas somente na apresentação do ciclo introdutório da aprendizagem da língua espanhola. ainda. Como ponto diferencial. mas também apresenta espaços possíveis de atuação do profissional concluinte do curso. O diferencial da proposta do programa curricular do IFRR é que distribui entre os vários períodos a carga horária da disciplina de “Prática profissional” (estágio supervisionado. mas pelo menos pode ser considerado um avanço comparado às demais grades.680 horas. o projeto destaca “formar profissionais competentes no processo de ensino e aprendizagem da Língua Espanhola como língua estrangeira e suas Literaturas”. documentos responsáveis por instituir as diretrizes curriculares nacionais para a formação de Professores da Educação Básica. desde os primeiros períodos. Cultura e Formação Docente. A matriz curricular subdivide-se em 2. Não podemos afirmar que tal desmembramento da carga seja positivo ou negativo. alicerçado numa sólida base científica. o programa organiza-se em quatro ciclos (Introdutório. passando por aspectos históricos. para traçar um mapa da Educação Básica do Estado.059 de 10 de dezembro de 2004. alerta que o modelo curricular está baseado em competências que contribuam para uma completa formação humanística e pedagógica. como já mencionado anteriormente neste estudo. A partir dessa divisão. o documento apresenta que a proposta de trabalho do curso se pauta “numa estrutura com identidade própria. técnica. ética e democrática”. 400 horas de estágio obrigatório e 100 horas de aprofundamento de estudos. O documento emprega os dados de 2002 do Sistema Estadual de Educação e dados da esfera educacional do município de Boa Vista. que não articulam. Formação Docente e Complementação Profissional) perpassando em quatro áreas do saber: Língua Espanhola e Linguística. consequentemente. Tendo em vista que o eixo central do programa é a área de Língua Espanhola. coletados em 2003. a teoria e a vivência em sala de aula por parte dos aprendizes. em nível superior e determinar a duração e a carga horária mínimas dos Cursos de Licenciatura. Básico. 600 horas de práticas a serem vivenciadas ao longo do curso. permitindo uma maior flexibilização curricular e. atividades de extensão e de natureza acadêmico-científico-cultural. conforme portaria número 4. O projeto de ambos possibilita que até 20% do conteúdo também possa ser ministrado à distância. de 18 de fevereiro de 2002 e da Resolução CNE/CP número 02/2002. os componentes curriculares dividem-se em dois campos do conhecimento: (1) Literatura e cultura e (2) Metodologia para aquisição e/ou aprendizagem de E/ LE. culturais e pedagógicos. O documento delimita o foco da formação como sendo a preparação do licenciado para atuar na docência. Como objetivo geral do curso do IFRR. conforme consta a seguir o texto do projeto: . A possibilidade de educação a distância é vista como um avanço. a consultoria.

por exemplo). técnico e tecnológico. projetos e experiências de ensino. Como vimos no decorrer do artigo. futuro professor. o curso de Letras/Espanhol do IFRR é uma proposta recente e inovadora. acreditamos que os projetos analisados imprimem uma formação vinculada a um futuro trabalhador da sala de aula. talvez seja mais coerente o colegiado primar por uma consonância teórica na elaboração das disciplinas iniciais de língua espanhola. As ementas das disciplinas permitem visualizar a preocupação da comissão elaboradora do projeto a todo o momento na transversalidade do saber. pragmática). já que o projeto não sinaliza a necessidade de conhecimento da língua para realizar o mesmo.] Constitui o eixo da carreira tendo como base o enfoque integral da língua espanhola (semântica. incluindo uma gramática descritiva e uma metodologia de análise dos discursos. seja por vontade política ou de interesse democrático. Por outro lado. no entanto. o projeto também inova em relação às outras grades curriculares de Letras em todo o Brasil. idealizada por docentes. em sua maioria. privilegiando o enfoque contrastivo na aprendizagem da Gramática Espanhola (IFET RORAIMA. a mudança de CEFET para Instituto. Ciência e Tecnologia são instituições de ensino superior diferenciadas. por anseios profissionais. que iniciaram.154 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS [. que num primeiro momento foram concursados para atuar no ensino médio. levanta o método comunicativo e finaliza mostrando a importância da análise contrastiva. e segundo. No trecho acima. No decorrer de sua existência. o projeto apresenta todos esses pontos no nível inicial de aprendizagem (correspondente ao segundo semestre). quanto comunicacional da língua espanhola. usa a “análise do discurso” sem a implicação teórica apropriada. vale à pena reforçar que em relação aos cursos de licenciatura da Rede. 2005) Considerações finais Os Institutos Federais de Educação. dotado de conhecimentos teóricos e de ampla formação cidadã. morfossintaxe. e está orientado tanto à operação funcional-instrumental. seu percurso acadêmico e sua identidade institucional em 1909 no ato de criação das primeiras escolas de Aprendizes e Artífices. de abordagens e de olhares para o ensino de línguas. estar focada na formação de trabalhadores para atuação no mundo produtivo.. desde sua origem. Apesar de a Rede Federal. . implicou no aumento de vagas e diversidade dos mesmos. cada “escola” constituinte da Rede Federal foi construindo uma história própria. o texto de apresentação das competências a serem desenvolvidas no primeiro ciclo expõe múltiplas correntes. Deverá atender à integração dos distintos componentes curriculares. Apresenta uma visão mais tradicional do ensino demonstrada pela menção à gramática descritiva e ao reduzir a língua em blocos fechados (semântica. mas que acabaram por levar a experiência desses níveis para a idealização de um curso de licenciatura. na relação entre a teoria e prática do futuro professor de E/LE. primeiro. O projeto fornece importante contribuição para a formação de profissionais diferenciados e reflexivos (CELANI. morfossintaxe. pela necessidade de formação de docentes de espanhol. o que pode representar uma dificuldade para o aluno iniciante no estudo da língua estrangeira. Não queremos dizer que discutir a língua sobre diferentes abordagens não seja importante para o aluno.. Além disso. 2001) para atuar em diferentes contextos educacionais brasileiros. Em relação às disciplinas de formação didático-pedagógica.

345363. Disponível em: <www.948. In: LEFFA. Expansão da Rede Federal.Institui a duração e a carga horária dos cursos de Licenciatura. IFET RORAIMA. Maria Antonieta Alba. Celso Suckow da. de formação de professores da Educação Básica em nível superior.L. ———.php/ component/content/article/46-cursos/68-licenciaturaplena-em-lingua-espanhola-e-suas-literaturas>. de graduação plena.406. Disponível em: < http://www. FONSECA. (Org. P. 1961. Brasília.mec. BRASIL. 8º do Decreto 2. ———. 2005.edu. de 18 de fevereiro de 2002 .dá nova redação ao art. Ciência e Tecnologia IFET. Último acesso em: 03 set 2009. Campinas: Papirus.ifrr.) Projeto político-pedagógico da escola: uma construção possível. 2000. 2005. CELANI.Estabelece diretrizes para o processo de integração de instituições federais de educação tecnológica. Último acesso em: 30 fev.br/setec/ index. PAIVA. Vilson (org. In: TOMICH.M. ———. A. Decreto 3. História do ensino industrial no Brasil. .br/campus_bv/index. de 27 de novembro de 1997. MEC.php?option=content&task=view&id=91&Itemid=207>. pp. Nota 1 A oferta inicial dos cursos de licenciatura nas escolas da Rede remete à oferta voltada para a área das Ciências da natureza. MEC. ET (orgs. que regulamenta a Lei nº 8. Rio de Janeiro: Composto e Impresso no Curso de Tipografia e Encadernação da Escola Técnica Nacional.O. Decreto 6. 23.) O professor de línguas estrangeiras – construindo a profissão.http://p or tal. A interculturalidade no ensino de inglês. 2001.). Florianópolis: UFSC. VEIGA. p.095 de 24/04/07 . V. 2011. “Ensino de Línguas Estrangeiras – ocupação ou profissão”. ed. I. de 19 de fevereiro de 2002. Plano de curso para formação do professor da Educação Básica em nível superior – Licenciatura plena em Língua Espanhola e Literaturas.462 de 17/05/2000 . para fins de constituição dos Institutos Federais de Educação.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 155 Referências bibliográficas BRASIL. de 8 de dezembro de 1994. Resolução CNE/CP 2/2002. no âmbito da Rede Federal de Educação Tecnológica. Pelotas: Educat.gov. 21-40. Resolução CNE/CP 1/2002. 2001. “O novo perfil dos cursos de Licenciatura em Letras”.

Introducción La polifuncionalidad de los marcadores del aspectos del estudio de Schiffrin y defiende que el marco de participación y el estado informacional no son independientes de las otras tres estructuras. Redeker (1991). estudios como los discurso (en adelante MD) es un tema que. al estudiar la coherencia que se construye por medio de relaciones entre unidades adyacentes en el discurso. la estructura ideacional. al parecer. en su precursor estudio “Pragmatic connectives”. asociados con los marcadores. como los que se basan en la coherencia discursiva. En el ámbito hispánico. pueden funcionar como marcadores. también han puesto de relieve la polifuncionalidad de los MD. observó que algunas unidades presentan un carácter polifuncional porque operan en distintos planos del discurso: el semántico y el pragmático . estructura retórica y estructura secuencial (las cuales corresponden. no asociados con una pieza léxica en concreto. respectivamente. no ha recibido bastante atención por parte de estudiosos que se han ocupado de desvelar el valor semántico-pragmático de estas unidades discursivas. 1987: 25). determinan el sentido de estas partículas discursivas. la duración silábica. según esta autora. por lo que deben ser incorporados a ellas. deslinda el aspecto polifuncional de los MD a partir de cinco dominios del discurso: la estructura del intercambio comunicativo. a la estructura de los actos de habla y a la estructura de intercambio comunicativo propuestas por Schiffrin). Van Dijk (1979). tal es el caso de los modelos de Shiffrin (1987) y de Redeker (1991). Otros estudios. Lo cierto es que muchos de los estudios que se han llevado a cabo en este ámbito suelen señalar la especificidad de los rasgos suprasegmentales (como la entonación .156 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS POLIFUNCIONALIDAD DE LOS MARCADORES DEL DISCURSO Y ENSEÑANZA DEL E/LE Antonio Messias Nogueira da Silva Universidade Federal do Pará 1. El modelo de Schiffrin. la estructura de los actos de habla. todavía hacen falta estudios que se ocupen de forma más detallada del tratamiento de la polifuncionalidad de los marcadores del discurso. a la estructura ideacional. o la delimitación por pausas) que. así como suelen indicar la existencia de algunos de esos rasgos que. el modelo ideal se debe basar en tres componentes: estructura ideacional. el marco de participación y el estado informacional (SCHIFFRIN. por su parte. Así. En este sentido. realiza una revisión de algunos .

como. puede indicar una ueno simple y clara aceptación (a ). por ejemplo. como c lar laro y b i e n . perspectivas. o más o menos connivencia con el interlocutor. en cambio. 2004). en una misma ocurrencia de un marcador sea posible identificar más de un valor (tanto en el plano semánticoargumentativo como en el enunciativo y en el interactivo. La polifuncionalidad (. Así pues.¿Te no apetecen gominolas? (. el marcador b ue no. se puede afirmar que: (…) una mayor o menor fuerza en el acento. los marcadores conversacionales presentan una mayor polifuncionalidad en el discurso. señala que la polifuncionalidad de los MD “está en relación con la aptitud de las par tículas extraoracionales para recibir rasgos suprasegmentales distintos (sobre todo. en mayor o menor medida.Bue Buen o. Briz (1996) e Hidalgo (1997) aportan nuevos datos sobre las propiedades prosódicas y las funciones de algunos marcadores del discurso del español. Martín Butragueño (2002). además. De esta manera. Con todo. o. y que. frecuentemente matizan el contenido instruccional de los MD (MARTÍN ZORRAQUINO. En contraste con los marcadores comunes en la escritura. intensificándola o atenuándola): a) . matizado por la entonación. b) -¿ Te apetecen no ! ¡Encantado!). 1974). las reacciones del interlocutor. podrían señalar también que afectan. creemos que resulta posible establecer las diferencias entre los diversos conectores pragmáticos contrastando el funcionamiento pragmático y discursivo de aquellos que realizan una misma función. c) -¿Te apetecen gominolas? (-¡Bue Bueno no o …). d) -Me ha dicho tu ex mujer gominolas? (-Buee Bueeno noo no o .ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 157 de Domínguez García y Dorta Luis (2002). Sirvan de ejemplo las siguientes palabras para comprender la dinámica de los conectores: Comenzar el análisis desde las funciones permite explicar la polifuncionalidad de un conector y. algunos rasgos suprasegmentales. aunque complementarias. la entonación. o una aceptación neta y entusiasmada (b ). pueden tener su sentido determinado por los rasgos suprasegmentales. Por otro lado. el marcador bueno puede aparecer con un alargamiento de las vocales y acompañado de una repetición del signo. ). etc. con lo que se contribuye a matizar el valor semántico-estilístico (el sentido) de dichas unidades”. Elordieta y Romera (2002).. el hecho. cuyo propósito es reforzar la réplica. 2000: 209). b uee no o … ¿Tú que siempre te ha sido fiel. Para Hidalgo Navarro (2010: 65). y en función de factores que no tienen incidencia en el texto escrito. según esta autora. la entonación). por ejemplo. no solo el marcador b ue ueno o (que ) también muchos otros marcadores. la cuestión es que en la mente de los especialistas ha acabado calando la importancia de lo prosódico como factor decisivo para explicar la polifuncionalidad de los marcadores.) determina que resulte extremadamente difícil proponer un significado constante para cada marcador. Martín Zorraquino (1998: 23). o un consentimiento resignado (c ). de que una misma función pueda ser desempeñada por más de una forma. la información directamente accesible a partir del contexto situacional. una mayor o menor cantidad en las sílabas y una mayor o menor duración en las pausas se corresponderían con sentidos o matices diversos en la expresión de los marcadores. de otro modo. -Buee Bueeno noo ueeno noo crees? no . puede expresar desacuerdo (d ) del interlocutor (también en este caso. por ejemplo. sino En definitiva. más o menos convicción por parte del hablante en relación con el “comentario” que reflejan. o. tales como la entonación. más importante aún. por ejemplo. a la palabra que les queda más cercana en el enunciado (ALLERTON Y CRUTTENDEN. el que una ocurrencia de un conector se pueda analizar desde distintas. en este caso bueno puede aparecer con un alargamiento de las vocales.. los cuales indicarían. una misma forma tiene asociada varias .) es una necesidad para entender el funcionamiento de estos elementos en la conversación coloquial (PONS BORDERÍA. una mayor o menor elevación de tono. precisamente. por su parte. Así.

. La polifuncionalidad de los MD es una realidad en la lengua y su enseñanza en las clases de ELE facilitaría al aprendiz la calidad de su aprendizaje. en primer lugar.4. ofrecen dificultades para su comprensión. se presentan. b) respuesta “Bue Bueno Bueno Sueña 3 (p. por ejemplo. a diferencia de los niveles anteriores (A1. p ues yo resulta que es que he tenido las dos “Bue Bueno condiciones…”. ya que. ueno no y p ues se usan Según este manual. o para darse tiempo a pensar en la no … P ues … o Bue no . pero. principalmente en los niveles avanzado y superior. ocupa una parte muy pequeña dentro de una unidad. los marcadores en el discurso oral sean mucho más difícilmente sistematizables. con frecuencia. lo que. combinados o no en la conversación. Así. además. a numerosos ejemplos de cada uno de ellos (de cada marcador). el profesor de ELE debe introducir una mayor diversidad de MD con vistas a que el aprendiz convierta “sus frases en un discurso claro y coherente” (MCER. de los 15 manuales investigados. Es decir. el profesor de ELE: (…) más aún que para la didáctica de otras clases de palabras. p ues …”. tomando como base un texto conversacional que el estudiante debe escuchar para resolver algunos ejercicios. A2 y B1). pragmática de estas unidades. además. “Las palabras b ue ueno también con otras muchas funciones”. al trabajar con los MD. en estos. 1999).). a nuestro modo de ver. § 3. Los man tratan de este aspecto son: a) A Fondo (p. cómo y qué formas usar en determinados contextos. apenas se ofrecen aclaraciones teóricas sobre el valor semánticopragmático de los MD y la poca información que se presenta respecto de este aspecto suele ser de forma muy superficial y.65) presenta una concluirla (b ue ueno nota en la que queda claro el valor polifuncional del conector es que .159) también se refiere a la no cuando. en palabras de Pons Bordería (2000). al principio de frase cuando se quiere marcar que pasamos de una etapa de la conversación a otra: no . conforme este manual. de textos diversos y situados en contextos diferentes. por polifuncionalidad del marcador b ue ueno medio de un ejercicio. con objeto de facilitar a sus alumnos el aprendizaje de su empleo” (MARTÍN ZORRAQUINO. puesto que en diversas unidades didácticas de los manuales analizados suelen aparecer algunos marcadores que. el cual. se lo presenta como una fórmula que los hablantes utilizan para cumplir dos no …) y funciones: iniciar una conversación ( b ue ueno no . presenta brevemente un comentario respecto al aspecto polifuncional de los marcadores b ue no y p ues . por su polifuncionalidad y carácter distribucional. según el MCER. por lo que tanto el docente como el discente se ven ante situaciones donde no saben muy bien cuándo.81) que. puede introducir “explicaciones y. un problema para el aprendizaje de estas unidades. c) Aula 4 (p. La relación entre formas y funciones es. suprayectiva. como. procedentes. constituye. pues solo en cuatro. lo que comporta que. a diferencia de lo observado en la lengua escrita.). según parece. (…) tiene que recurrir. el surgimiento de diferentes contextos en los que los MD se manifiestan con múltiples funciones. 2. aunque muy por encima.158 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS funciones y una misma función puede estar desempeñada por varias formas. a partir de estos niveles. por ejemplo. comentarios sobre la polifuncionalidad uales d e ni v e l B2 que manuales de niv de algunos MD 2. excusas o justificaciones”. Polifuncionalidad de los MD y su enseñanza en los manuales de E/LE1 Cabe destacar. que la mayoría de los manuales analizados sigue el enfoque comunicativo. Tal diversidad de marcadores implica también atención a la versatilidad semántico- La polifuncionalidad de los MD es un aspecto que muy raramente se advierte en los manuales de nivel B2 que analizamos. en la enseñanza de estos elementos.

como también a los propios estudiantes que podrían utilizar este conector. en general. si es deseo del profesor trabajar con casos de polifuncionalidad de determinados marcadores. 1998: 214). si bien lo más práctico sería no aplicar todos los casos de no en el nivel B2. en especial. sí . inclusive en los contextos que exigen su uso como conector aditivo. MARTIN ncima bie ien ZORRAQUINO Y PORTOLÉS. señalan las relaciones sociales que se establecen entre hablante y oyente (cfr. más b ie n . o el caso de los marcadores b ie ien s ea . semántico-pragmática de los marcadores c lar laro v e ng a . poseen un doble valor. De manera particular. ya que no tiene sentido desde un punto de vista metodológico y didáctico. como. ya que estas unidades desarrollan diferentes estrategias discursivas en la conversación. como ordenador del discurso. e ni ve l uales d prácticamente no se trata en los man manuales de niv C1 que hemos analizado (un total de 8 manuales de este nivel). o y e . por presentar matices de versatilidad semántica un poco más complicados. exigiría de los aprendices un mejor dominio de las competencias lingüística y pragmática para comprenderlos y ponerlos en práctica. e h . por ejemplo. 1999) que. introducir un cambio de tema en la conversación. resultaría más práctico empezar por el B2. en manuales acerca de ade además primer lugar. El único método que introduce algún tipo de información sobre este aspecto es el manual El Ventilador (p. pensamos que lo primero que se debería explicar es su significado de adición en tanto en cuanto resulte como un elemento conectivo y su función sea la de vincular dos miembros discursivos cuya orientación argumentativa tiene que ser la misma. etc. oig a y otros semejantes de los marcadores mir mira oiga resultaría profundamente interesante en las clases de ELE.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 159 La polifuncionalidad de los MD los casos más complejos de polifuncionalidad. el profesor dejaría b ueno3 . será más razonable que él realice una concienciada selección de marcadores de polifuncionalidad más sencilla para ir introduciéndolos a partir del B2. por lo que las explicaciones que se presentan en los más deberían contemplar. más propio del español oral coloquial) es el conector aditivo más frecuente. e nc ima . es que .etc. en el nivel C1 comentar todos los casos posibles. Ahora bien. explicativos es dec decir esto sabe sea según este manual. los cuales. Téngase en cuenta que el marcador a d e m á s (junto con el conector a p a r t e . p ues . a sab er y o s ea . Para los niveles C1 y C2. por ser marcadores explicativos. Tanto en los manuales de nivel B2 como en más los de nivel C1. sino elegir polifuncionalidad de b ue ueno dos o tres funciones más sencillas de este marcador y. su significado semántico-pragmático de conector aditivo. oy e . oig a . es decir. no trate de aplicar todos los casos en un nivel B2 o en un nivel C1 o C2. cumple funciones distintas en cada caso de su empleo (expresar conformidad con lo propuesto previamente por alguien. (cfr. la atención a la polifuncionalidad a . se deben aplicar de manera más detallada en los niveles C1 y C2. es decir. introducir una autocorrección. b ue nga mira oiga ueno no . este último. o bien “introducen un argumento que dice exactamente lo mismo de otro modo” o bien “introducen una consecuencia del argumento anterior”. luego. el inicio del diálogo o. Si bien es cierto que al profesor de ELE no deberían preocuparle excesivamente los casos de polifuncionalidad en un nivel B2. atenuar el contenido de una respuesta en relación con la pregunta del interlocutor. aplicando. etc. aun.. Así pues. casos de versatilidad o . v ale . est o es . siempre y cuando tome como referencia el manual donde figura esta información. por ejemplo: la toma del turno de palabra. 58) que presenta una notación en la que comenta la polifuncionalidad de los conectores ir . v amos . PONS BORDERÍA. únicamente. la clasificación del conector ade además exclusivamente como estructurador de la información que ordena el discurso con vistas a dar continuidad al mismo puede crear confusión tanto en las explicaciones pertinentes que el profesor pudiera dar a sus alumnos. y a . pues son casos complejos que normalmente y según el MCER. tal es n . mir a . Así pues.).

también deberá hacer frente a este otro problema que es la ausencia o la carencia de informaciones respecto de la polifuncionalidad de los MD en los manuales de ELE. en los manuales de ELE. Así. aunque de manera muy general. Sin embargo. puesto que no toma en consideración el hecho de que la polifuncionalidad de estas unidades constituye un rasgo característico de muchas de ellas. donde mucho más que en el nivel B2. convierte la tarea de aprendizaje de los MD aún más engorrosa. enseñar otras funciones que este conector puede ejercer en los textos. fluidos y bien estructurados. una vez entendido. sino que también requiere que él cambie la manera de enseñar dichas unidades. aspecto que. el problema surge porque los manuales no suelen explicar la polifuncionalidad de los MD que introducen en sus unidades didácticas. pero siempre después de que se explicase su significado semántico-pragmático más básico y frecuente en español. el aprendiz necesariamente deberá reconocer otros rasgos característicos de estas partículas discursivas que pasan desde el aprender los diversos efectos de sentido que subyacen al uso de varios marcadores. con vistas a que el discurso resulte más fácilmente comprensible. etc. Lo cierto es que el profesor de ELE. la sucesión temporal o la expresión de hipótesis. en este nivel. Para ello. est o es . se presentasen anotaciones a través de cuadros didácticos. este aspecto y. además. por ejemplo– debe aprender a escribir “(…) textos claros. Conclusiones En fin. que –no hace falta decir– ya se enfrenta a la compleja tarea de explicar en sus clases cuáles son los mecanismos de los que se valen los hablantes nativos para estructurar u ordenar su discurso así como expresar la causa. para aclarar el aspecto polifuncional de los MD. Pero esta es una tarea que no solo requiere del profesor un conocimiento más profundo del valor semántico-pragmático de los MD que explica. así. Este es un problema sabe sea (es dec decir esto que. hecho que refuerza la necesidad de los estudiantes del nivel C1 de aprender a usar un mayor número posible de MD.. aporta una mayor seguridad con respecto al uso de estas partículas. en listas que perpetúen la vieja idea . 3. se hace necesaria su atención. etc. una vez que el alumno aprenda más . también la distribuye y la divide en agrupaciones más pequeñas. Además. pues al tiempo que introduce una nueva información coorientada con la temática que se presenta en el miembro discursivo precedente (función de conector aditivo). restringiéndose a un pequeño grupo de marcadores ir . lo que indica la gran riqueza de sus matices expresivos. se le podrían. mostrando un uso controlado de estructuras organizativas. Según nuestra opinión. solo uno 4 de los ocho manuales publicados para el nivel C1 comenta. se ha de poner de manifiesto la notable carencia del tratamiento de la polifuncionalidad de los MD en los manuales de nivel C1. por lo que en el nivel C1 deberían recibir mayor atención.160 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Ahora bien. a nuestro modo de ver. Tomamos como más de que hemos ejemplo el caso del conector ade además venido hablando: este marcador también puede ordenar la materia discursiva. la condición. globos. queremos dejar constancia de que ninguno de los manuales de ELE de que nos ocupamos en este estudio contiene suficientes informaciones sobre la polifuncionalidad de los MD como para que un aprendiz de español pueda llegar a comprender perfectamente el funcionamiento de las unidades que introduce. Por otro lado. a sab er y o s ea ). conectores y otros mecanismos de cohesión” (MCER: p. la consecuencia. “(…) en su explicación debería huir de una presentación estática. es donde el aprendiz –en lo que se refiere a su expresión escrita. conforme hemos visto más arriba. la oposición y el contraste. resultaría conveniente que. 220). este significado básico de ade además entonces. funcionando. o en otros términos. hasta su polifuncionalidad. como ordenador del discurso.

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Sueña 3.AA. Español lengua viva 4. Gente 3 (Libro de Trabajo). VV. Madrid: Santillana. VV. VV.162 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Lista de manuales consultados VV. VV.AA. VV. Español sin fronteras 2. 2007. S.AA. 2008. VV. Barcelona: Difusión. Martín Zorraquino y Portolés (1999) y Martín Zorraquino (1994). VV. Español sin fronteras 3.AA. Nuevo Ven 3. Madrid: Edelsa. Abanico.AA. Analizamos 15 manuales del nivel B2 y 08 del nivel C1. Para el estudio de la polifuncionalidad de bueno.AA. 2006. VV. Madrid: Espasa-Calpe. A fondo 2. VV. VV. Notas 1 2 3 La completa información bibliográfica de estos manuales figura en el apartado Referencias. 2007.AA. 2007. Barcelona: Difusión.AA. Sueña 4. Madrid: SGEL. VV. Madrid: SGEL. Madrid: SGEL. 2010. VV. 2008. VV. Madrid: Edinumen. VV. VV. Chicos Chicas 4 (Libro del Alumno).A. Madrid: EDELSA. VV.AA.AA. Prisma consolida. Destino Erasmus 2. 2005. Barcelona: Difusión. 2006. A fondo.58). Madrid: Edinumen. Pasaporte 4.AA.AA. Dominio. . VV.AA. VV. Aula 4.A. Madrid: EDELSA. Madrid: SGEL. Madrid: Santillana. Eco 3 (Libro del Alumno). Prisma avanza. 2007. Español lengua viva 3. 2008. Barcelona: Difusión.AA. Madrid: EDELSA.AA. VV. Puesta a punto. 2007.AA. 4 Se trata del manual El Ventilador (p. S.AA. Edelsa.AA. 2006. 2006. 2005. Madrid. 2009.AA. Madrid: Grupo Anaya. véanse Bauhr (1994). 2005. 2007. EsEspañol 3. VV.AA. 2004. Madrid: EDELSA.AA. VV. El Ventilador.1998. Madrid: SGEL. 2006. Madrid: EDELSA. Madrid: Grupo Anaya. 2007. Punto final.AA.AA. 2008. VV.

viajeros y aventureros en general. usar el adjetivo “germánico”. El presente trabajo pretende trazar una breve cartografía de la presencia de los germánicos en narrativas de María Rosa Lojo. en un constante deambular. Rosa María Lojo. pasa por La pasión de los nómades (1994). migrantes. discutiendo como están dibujados discursivamente dichos personajes y cuál es la imagen del continente americano reflejada en su mirada. poemarios. colecciones de relatos y varias novelas. este último se asocia más directamente a Alemania como Estado moderno. que con excepción de los dos relatos de Amores insólitos de nuestra historia. sin embargo. imaginario o real. Exiliados. El autoconcepto de ésa cultura trasciende el territorio comprendido por Alemania como nación . para estas notas. en lugar de “alemán”. en esas novelas los personajes germánicos no son protagonistas ni tampoco su visión de América y de Argentina es el tema central. llegaron a la región del rio de la Plata. Hay que subrayar. por algún motivo. ya que. Preferimos. El mapa de dicha presencia arranca de su primera novela. en el ámbito literario.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 163 EN BUSCA DEL PARAÍSO: LA REPRESENTACIÓN DE LOS GERMÁNICOS EN LA OBRA DE MARÍA ROSA LOJO Antonio R. desde la publicación de su primer libro en 1984. Como los demás. En la larga lista de su obra ficcional merecen destaque las narrativas casi siempre urdidas en los borrosos límites entre historia y ficción. “Tatuajes en el cielo y en la tierra” y “Ojos de caballo zarco”. en especial por el vasto territorio argentino. Canción perdida en Buenos Aires al Oeste (1987). circulan por las fronteras de varios mundos. en donde encontrarla y/o encontrarse. originarios de tierras germánicas. Entre ellos se pueden constatar aquellos que. Esteves FCL-UNESP-Assis Autora de una obra variopinta que incluye. de uso más amplio. La vasta galería de sus personajes está poblada por seres excéntricos que tratan de encontrar una identidad posible o un lugar. viene ocupando un destacado lugar en las letras argentinas. que en general abordan cuestiones históricas e identitarias asociadas a tránsitos y fronteras. también tenían la cabeza poblada por fantasías sobre la tierra nueva y soñaban construir nuevas realidades. por el libro de relatos Amores insólitos de nuestra historia (2001) y concluye en Las libres del sur (2004). a pesar de la casi sinonimia.

La presencia de germánicos en América. 44). Hay que quedar claro. tratando de encontrar fortuna. 2001. que trata de trazar la cartografía del cuerpo de la mujer americana y no los mapas de los tesoros de las nuevas tierras. que ocupó y ocupa un espacio que va más allá de las fronteras geográficas de aquél. Solamente por cuestiones didácticas. 2006. otros son personajes puramente ficcionales. es su experiencia y el relato de Lojo. Tenemos entonces no un conquistador español sino su equivalente germánico. p. p. sin embargo. El grado de ficción e historia que hay en cada uno de ellos cambia según el personaje. usaré en este trabajo el orden cronológico de la acción de los relatos y no las fechas de su publicación. el relato que hace una especie de relectura a contrapelo del episodio de la conquista y se ubica en la base de la construcción discursiva de la Argentina. Algunos son personajes históricos ficcionalizados. hace una inversión de la épica tradicional de la conquista. viajeros e inmigrantes. una riqueza superior al deseo de volver a Europa cargado de oro y plata. Él abandona los anales de la historia de la conquista argentina para protagonizar. una vez que según el relato. relato incluido en el volumen Amores insólitos de nuestra historia (2001). de “Tatuajes en el cielo y en la tierra”. presentándolo como un hombre sensible. Además. p. Este lansquenete bávaro que participó de la expedición de la primera fundación de Buenos Aires dejó uno de los primeros relatos de la ocupación del rio de la Plata. Los germánicos que aparecen en los relatos de María Rosa Lojo. 2008. de los Un típico a v e n t tu re muchos que deambularon por el territorio americano en el siglo XIX.164 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS moderna. Como los relatos de María Rosa Lojo. los dividí en cuatro categorías que a veces se cruzan ente sí: conquistadores. 33). atraídos por la exuberante naturaleza local o . más que encontrar al reino del Dorado. la imagen y autoimagen que los germánicos construyeron de su cultura es muy compleja y su discusión ultrapasa los objetivos de esta ponencia y al espacio de que dispongo. abarcan un período que va del XVI al siglo XX y han nacido en varios puntos del ancho territorio ocupado por la lengua alemana y la cultura germánica. aventureros. viene desde los tiempos de la conquista. Esa versión alternativa de la historia se hace posible a partir de las fisuras del relato del cronista germánico y es a partir de dicho entrelugar que la narrativa de María Rosa Lojo teje su contrapunto a la historia hegemónica. partiendo de dicha mirada. una indígena de la tribu de los Xarayes. ur e r o germánico. capaz de ver al otro y dispuesto a descubrir en los cuerpos. La marca principal de ese aventurero de Straubing es la lectura particular que él hace del Nuevo Mundo. entendidos como narrativas de extracción histórica (TROUCHE. comprendiendo prácticamente toda la historia del continente después de la llegada de los conquistadores. de acuerdo con aquello que Beatriz Pastor llama de discurso narrativo del fracaso (PASTOR. que se trata de mera opción personal. juntamente con la imaginada Ximú. como se sabe. era gozar de los encantos de la mujer americana. sigue las estrategias usadas en las narrativas de extracción históricas. Lo que él ofrece al mundo. se tejen en los umbrales de la ficción y de la historia. centraliza el foco en la mirada que Ximú tiene del conquistador germánico. 219). El ejemplo de c onquistador está en Ulrich Schimidl. El relato de María Rosa Lojo. La construcción de los personajes germánicos en las obras en cuestión. “las Amazonas eran notoriamente inexistentes” (LOJO. partiendo de ello. Una de sus preocupaciones centrales. Ambos amantes. entretejida a través de la memoria de la mujer una vez que en el relato la nativa conquistada es quien se apodera del cuerpo del amado. sobreviven en el “territorio natural de su pasión” y proponen otra lectura posible para la conquista.

reta al caudillo Facundo Quiroga y por su audacia consigue un espacio en la nueva patria en construcción. En Chivilcoy él se dedica. p. 2001. también en Amores insólitos de nuestra historia (2001). protagonista de la narrativa. ese hombre “que se considera un espíritu libre pensador y libertario. protagonista de “Ojos de caballo zarco”. quien lo había invitado a Buenos Aires. Totalmente ficcional. Se trata de una nueva estrategia del discurso colonial. Debido a su piel blanca y principalmente por el color de sus ojos. transformándolo en una especie de ogro primitivo. ante la imposibilidad de la posesión de los metales (cobre y plata) de las minas de Famatina. lo representa negativamente en sus escritos. Ese ingeniero de minas. es el Conde Hermann von Keyserling. Reconstruyendo los desencuentros amorosos de la pareja y la posterior polémica del conde con Victoria. “de tanto hurgar en historias de alemanes y españoles que perseguían las Fuentes de Juvencia o los palacios de El Dorado” (LOJO. Se trata de un conocido filósofo de las primeras décadas del siglo XX que viajó a Argentina en fines de los años 20. La imagen que él construye de Argentina. Evidentemente él será expulsado de dicho paraíso. En ese sentido. Ese personaje.98). se fija. El conde está reconstruido como el modelo negativo del germánico. ocupando la segunda mitad de la novela. noble báltico de lengua alemana. Además repite un par amoroso presente en buena parte de la narrativa de Lojo: el germánico (o su descendiente) que se enamora de la gallega (o su descendiente) para formar un matrimonio que representa una especie de emblemática pareja fundadora argentina. En defensa de su amor por una criolla. en su discurso. a una huerta y a una “escuela especializada y a un Instituto de Idiomas”. no regresa a su tierra y decide fijarse en la Argentina después de casarse con la gallega Carmen Brey. usando lo ajeno para estabilizar lo propio. . también nacido en Straubing. mientras él se pierde en su estéril Europa. el filósofo alemán trataba de defender. Como en el caso anterior. construido a partir de los dos anteriores. su figura muestra como el viajero/aventurero se transforma en inmigrante al entrar en contacto con la nueva tierra y principalmente al encontrar en ella el amor de su vida. Representa en el relato una inversión del tópico de la superioridad europea que normalmente sostiene los discursos racistas. en sus relatos de viaje será desconstruída por la propia Victoria en sus memorias y sirven de base para lectura que hace María Rosa Lojo de la relación de ambos. la narradora dibuja su imagen en la novela. pero descendiente del hombre de “ojos de caballo zarco”. en tiempos de crisis. p. hundida en la crisis que producirá los desastres de la Segunda Guerra Mundial. por ejemplo. en el cual se quedan las mujeres. patrocinado por la mecenas de las artes argentinas que fue Victoria Ocampo. Utz von Phorner. llega a la Argentina como secretario del Conde Hermann von Keyserling. El personaje histórico se traslada a las páginas de Las libres de Sur (2004). su imagen es opuesta a la de Ulrich Schimidl. negación de lo que él considera cultura civilizada europea. violador del universo femenino y de la imagen edénica de las tierras americanas. casado con una nieta de Bismarck. una nueva visión del mundo. Sus relatos de viaje muestran una Argentina bárbara. Personaje de la misma novela y asociado a él. una especie de pantalla de proyección en la que. en La Rioja. en las páginas de la novela Las libres del Sur (2004). 1995). por amor. al lado de su amada. en Argentina como ganadero y adopta la nueva tierra como suya. una vez que además de ser incapaz de ver el “otro”. la salvación de la hegemonía europea (BLOSS. 2004. Victoria fue. ha sufrido la más inicua discriminación y la burla de los campesinos analfabetos” (LOJO.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 165 simplemente en búsqueda de aventuras es Karl von Phorner. 202). capaces de hacer nacer una nueva realidad. gracias a su relación con Victoria Ocampo. esa pantalla de proyección invertida.

antes de su periplo siguiendo los pasos de Lucio Victorio Mansilla. los protagonistas. Irene y Alberto. “Irene miraba al vacío. De ese modo. El origen extranjero común hermana a los personajes. los diversos viajeros que la visitaron y. sin embargo. en los últimos dos siglos. La familia Neira. que tiene el mismo nombre del padre. representada por sus sobrevivientes. Con los inmigrantes alemanes pasó lo mismo. Federico Reuter narra entonces la epopeya de sus antepasados que en el siglo XIX abandonan Alemania en busca de una nueva patria. Irene. y se casa con él para disgusto de su padre. Inicialmente se fijan en Brasil y después en la provincia argentina de Misiones. parece estar en la novela justamente para discutir la cuestión de la identidad argentina y lo hace a partir de la experiencia de la inmigración de la familia Reuter. […] Yo no diría ya que el país es mío sino . Discutiendo la costumbre de los argentinos en abandonar su tierra delante de las casi cíclicas crisis. María Rosa Lojo tiene entre sus temas la cuestión del desarraigo y la búsqueda de una patria posible. es educado por la madre y el abuelo. en donde el médico busca la reconciliación con su padre. Se puede decir que Federico Reuter y su esposa Ana sean una especie de dobles de Alberto Krieger e Irene Neira. Me quedo con el ámbito imperfecto que me ha tocado. protagonistas de su primera novela. una vez más.” (LOJO. Como en los antiguos “coloquios”. Ese discurso se reitera y se discute en las dos primeras novelas de María Rosa Lojo: Canción perdida en Buenos Aires al Oeste (1987) y La pasión de los nómades (1994). los protagonistas se reúnen en una cena en la casa de los Reuter en la que se discute el problema de la inmigración asociado al drama de la identidad argentina. Rosaura va a encontrar. el protagonista del viaje anterior. la historia: No voy a repetir la búsqueda del Paraíso en la tierra. sin saberlo pertenecía ya a esta tierra y a Alberto Krieger. interesa la presencia germana. al mismo Lucio Victorio. La hija de los Neira. Canción perdida en Buenos Aires al Oeste (1987). Alberto. Con ello. La casa de los Neira hospedará a Rosaura dos Carballos y Merlín. el capítulo IV de la segunda parte de La pasión de los nómades. Para la presente discusión. la segunda novela de la autora. asociada a esa familia gallega. Federico reitera que no pretende hacer repetir. de paso. 1987. Allí cerca. p. es decir. cuando los Reuter entran en escena. 36). se enamora del hijo de un inmigrante alemán. que. un ex pastor luterano que había abandonado la familia y el sacerdocio debido al alcohol. El hijo/nieto de inmigrantes alemanes ayuda a Irene en el encuentro con la identidad argentina. La joven pareja va a vivir en un pueblo de Misiones. vuelve a aparecer. que en la historia ya han regresado a Misiones. que decide rehacer su trayecto juntamente con los dos gallegos.29). también las r ant es que abandonaron el sucesivas olas de mig migr antes “Viejo continente” para fijarse en tierras americanas en búsqueda de ese El Dorado imaginario. en La pasión de los nómades (1994. p. 1987. el médico de origen misionero Alberto Krieger. hay cierta similitud entre su historia familiar y la historia de la familia Neira. con padre gallego y socialista. en las ramas de un gigantesco aguaribay. incluyendo los primitivos conquistadores. estudiosa de filosofía. paradójicamente ella siente más distante en su casa.166 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS La representación del universo americano como una especie de paraíso siempre estuvo presente en el imaginario europeo y es parte de los sucesivos discursos relativos a la región. que “había sido gaucho brasilero casi antes de ser alemán” (LOJO. Aquí hay una duplicación de la pareja compuesta por un descendiente de alemanes y una descendiente de gallegos. Hija de la diáspora republicana española.

tiene una significación especial ejerciendo la función de promover la comunicación. la tierra americana del deseo de los conquistadores/viajeros/aventureros/ migrantes. (2008): Andar por los bordes. la frontera. se establece el conflicto y el germánico. espacio de transición. Anja (1995): El drama de la comunicación transatlántica. como se sabe. en ríos y en migraciones” (LOJO. . Por ello. la identidad y la Referências bibliográficas BLOSS. Linda.” (LOJO. Entre la historia y la ficción: el exilio sin protagonistas de María Rosa Lojo. viajeros. aventureros e inmigrantes y aventureros.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 167 que nosotros. otredad. la traducción como mediación. y un hombre de origen germánico. Niterói: ABRALIC. CRESPO BUITURÓN. 2008. El capítulo concluye con la voz narrativa de Rosaura dos Carballos. La obra narrativa de María Rosa Lojo. ———— (2001): Amores insólitos de nuestra historia Buenos Aires: Alfaguara. aparece rotundamente negada en la voz de Merlín. 2010) permiten el tránsito entre lo uno y lo diverso. p. Cuando no ocurre el encuentro. Anais do 3° Congresso ABRALIC. 110). 2008. p. El lugar de realización de dicho amor son las tierras argentinas. Lo insólito del amor. 108-9). (Tesis de Doctorado). Ser argentino.ed. 109). G. Lleida: Facultad de Letras de la Universidad de Lleida. Los escritos de viaje del conde Hermann Keyserling como psicodrama de una relación amorosa? In Limites. Dichos temas siempre se plantean a partir de la experiencia femenina y la dificultad que tiene la mujer para hacer escuchar su voz en un mundo dominado por el discurso masculino. LOJO. las migraciones. no hace falta ir muy lejos. tan repetida en el discurso de conquistadores. en el cual la identidad se presenta como un discurso en movilización continua. Tales corredores (LOJO. irremediablemente. el exilio. Buenos Aires: Sudamericana. El primero es la construcción de la identidad argentina y todo lo que conlleva esa temática. sino los paraísos pasados y los futuros y que para buscar esas pobres verdades incluso raramente alcanzadas por los hombres llamados sabios. (LOJO. 125-131. Rio de Janeiro: Imago. p. USP. entonces. pp. ampliando el espacio de la discusión a la superación de los límites de la frontera: “Nos despedimos pensando en alas. reiterando la opinión de Federico Reuter: “Que no hay paraísos. R. Dicho personaje germánico es el hombre que sale de su tierra en busca de un paraíso y lo encuentra no solamente en la tierra plena de elementos telúricos pero principalmente en el amor de una mujer. en ese contexto. entonces. 2. Marcela. discute dos problemas básicos y centrales. es la capacidad de promover dicho tránsito. los personajes de María Rosa cruzan las fronteras tradicionales. La idea del Paraíso. La idea de argentinidad aparece asociada en nuestros relatos con la unión entre una mujer hispánica o americana. penetrando por las fisuras naturales del sistema. se trata de un constante ajuste en dichos espacios de frontera y de circulación. María Rosa (2010): Árbol de familia. le pertenecemos y mucho más de lo que nos damos cuenta. 1999. El segundo es la inserción de la mujer en el universo tradicionalmente dominado por el varón. 2001. A través de la metáfora del tránsito. criando un entrelugar (SANTIAGO. 1978). São Paulo: Ed. deja de ser el hombre sensible que descubre el cuerpo y la tierra de la amada y se transforma en el ogro violador. Poética do pós-moderninsmo (1991): Trad. El amor. a los cuales se asocian los demás. Cruz. HUTCHEON. los tránsitos en general son constantes en su obra. en dicho contexto.

) Poéticas de autor en la literatura argentina (desde 1950). II. Beatriz (2008): El segundo descubrimiento. Ensaios sobre dependência cultural. Buenos Aires: Sudamericana.. pp. Silviano (1978): O entre-lugar do discurso latino-americano. . Barcelona. Buenos Aires: Debolsillo. MOLINA. La novela histórica en Argentina. In ZONONA. (2010): La poética de la rosa: Modulaciones de la ficción histórica en María Rosa Lojo. São Paulo: Perspectiva. Buenos Aires: Edhasa. En busca de una identidad . In Uma literatura nos trópicos. SANTIAGO. PASTOR. ———— (2008): Una pasión de los nómades. TROUCHE. ———— (2004): Las libres del Sur . 109-127. 1128.168 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS ———— (1987): Canción perdida en Buenos Aires al Oeste Buenos Aires: Torres Agüero. La conquista de América narrada por sus coetáneos (14921589). M. Niterói: EdUFF: 2006. Buenos Aires: Ed. del Signo. Víctor C. Buenos Aires: Corregidor. Vol. In GIUFFRÉ. André (2006): América: história e ficção . Hebe B. Hebe B. ———— (2004): Diálogo con Mercedes Giuffré. pp. (ed. MOLINA.

no ‘além’: um movimento exploratório incessante. passado e presente. de todos os lados. Uma literatura que deriva do encontro de dois mundos. fazem com que surjam novas “zonas de contato” entre distintos territórios e culturas de uma megalópole como a capital argentina. que o termo francês au-delà capta tão bem – aqui e lá. Textos como estes conseguem gerar uma reflexão questionadora acerca do cruzamento de fronteiras que separam e. interior e exterior. uma literatura da ambivalência e do entrelugar: assim são os textos que nos últimos tempos . inclusão e exclusão. Isso porque há uma sensação de desorientação. A partir dos dois modelos de urbanização complementares (segregação e auto-segregação sócio-espacial) que traduzem as contradições e crises vividas “aqui” por uma América Latina que se enfrenta a radicais transformações no processo de modernização. agora como imensas manchas urbanas totalmente fragmentadas que dificultam ou impossibilitam as interações materiais entre seus habitantes. tais como os sujeitos diaspóricos de Si me querés quereme transa (Cristian Alarcón) ou o personagem que transita entre distintas ilhas ao longo de um só dia em Oscura monótona sangre (Sergio Olguín). este trabalho se propõe discutir alguns aspectos relacionados às estratégias de representação da cidade e da nação em histórias narradas desde as margens da cidade e da própria literatura. As “zonas sagradas” e os “espaços incivilizados” se interpenetram e se projetam em contraponto complementar nesta espécie de viagem ao outro lado dos muros da cidade.” Homi K. ao mesmo tempo. fort/da. Em diálogo aberto com os arquivos da antropologia. para frente e pra trás. para lá e para cá. Bhabha As cidades latino-americanas da narrativa contemporânea se apresentam como espaços fragmentários e territórios de enfrentamento nos quais circulam personagens que vivem entre a estranheza e a descoberta de si e do Outro.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 169 ROMPENDO FRONTEIRAS DA CIDADE E DA NAÇÃO: REPRESENTAÇÕES DE SUJEITOS QUE SE MOVEN ENTRE AS “ISLAS URBANAS” DE SERGIO OLGUÍN E CRISTIAN ALARCÓN Ary Pimentel UFRJ “Encontramo-nos no momento de trânsito em que espaço e tempo se cruzam para produzir figuras complexas de diferença e identidade. estes relatos dão visibilidade e um papel protagônico a grupos muito particulares da urbe contemporânea. tal como assinalou Roberto Echevarría em seu libro Mito y archivo (2000). um distúrbio em direção.

e a ação de grupos pequenos. permanecem em plena fronteira vivenciando os sentidos e sem-sentidos da cidade através das mediações das narrativas veiculadas pela literatura. García Márquez. p. Tal como concluiu Néstor García Canclini. sem jamais se decidir a abandonar integralmente o seu mundo. para usar uma expressão de Josefina Ludmer. em Diferentes e desiguais e desconectados. nessas novas “ilhas urbanas” (entidades que se constituem em torno de territórios reais ou simbólicos) que se passam as ações da maioria dos romances escritos nos últimos dez anos. Nos dois casos estamos diante de sujeitos que já não conseguem viver a nação ou a cidade como totalidades integradas.17). 22). derivando em subculturas e conflitos interculturais. “chegamos assim a necessidade de dar conta de um mundo no qual a diversidade não está só em terras longínquas. E é aí. Em uma. mas aqui mesmo” (GARCÍA CANCLINI . Viajam dentro da própria urbe a procura de uma cidade que não é sua.) fragmentos que elegemos para ancorar nossa subjetividade. (. 2019.. “vem depois” dos grandes clássicos latino-americanos. Embora muito diferentes na sua concepção. mas buscando fazer dela a sua cidade. “construímos. jornal e televisão. e constata o fim das ideologias em tempos nos quais ex-guerrilheiros maoístas tornam-se “capos” do tráfico de varejo. o mundo da cultura e os territórios em que se fragmentou a cidade. Si me querés quereme transa e Oscura monótona sangre nos permitem fazer uma reflexão sobre as relações entre o imaginário. Cristian Alarcón vai à procura do mundo de jovens criminosos.170 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS constituem nosso campo de interesse. pequenas comunidades onde as mediações entre indivíduo e a identidade grupal ainda se estabelecem face-to-face. Personagens e narradores mergulham na zona de contato e. ainda dentro das grandes urbes. segundo García Canclini. suas guerras. Na outra. Para contar a história de cinco clãs que disputam o controle da distribuição de cocaína em uma villa de Buenos Aires.. de alguma forma o deslocamento dos sujeitos é bastante semelhante nas duas obras. temos um repórter-escritor que mergulha na realidade de um enclave popular no coração urbe para tentar entender um mundo de violência. p. Cortázar. é o que permite estruturar este território de novas identificações apresentado por Cristian Alarcón: . nas “micropoles” que. Oscura monótona sangre .” (2008. 2005. O que está no centro dos dois textos é a passagem de fronteiras: do cotidiano familiar para o estranho que emerge no território do Outro ou na zona intersticial que se projeta entre os dois mundos. donde se habla tanto guaraní como argentino” (OLGUÍN. 113). o protagonista se desvia do caminho que faz todos os dias em direção a sua empresa para buscar os prazeres e a “adrenalina” de uma outra vida em regiões praticamente desconhecidas por ele. como Borges. os labirintos da Villa 21. seus códigos. A fragmentação tanto identitária como territorial resultante da pluralização e heterogeneização de culturas. chilenos e bolivianos. Trata-se de duas narrativas publicadas em 2010 que podem muito bem exemplificar certos aspectos da produção que. drogas e imigrantes peruanos. como rádio. “la villa de los paraguayos. O processo de construção de uma memória comum e a coesão comunitária antes tributárias de relatos totalizadores agora só é possível nas “novas tribos” ou “aldeias urbanas”. seu culto à coragem. É justamente nestes territórios que circulam os personagens de Si me querés quereme transa e Oscura monótona sangre. pelo cinema e pelos meios de comunicação. p.

o en un brazo. esta é também uma literatura que constrói “relatos de localização” (GARCÍA CANCLINI. Cristian Alarcón expressa sua atração por um mundo de disputas territoriais onde mais importante que o pertencimento à nação e o compartilhamento de seus grandes relatos é o respeito ou a traição aos códigos de fidelidade grupal.61) A cidade narrada em ambas narrativas é fruto de uma experiência de deslocamento. cabe lembrar que. p. ao mesmo tempo. narco-traficantes e grupos paramilitares. migrações e trânsitos de todo tipo. Esses movimentos redesenham as car tografias da nação. surge uma arte que se estrutura a partir dos novos deslocamentos humanos. impõe-se um novo marco legal. Diante de mobilidades. también. (ALARCÓN.” Assim o promove. p.25). em suas tramas assume um contorno estrutural o movimento da migração limítrofe motivado por razões econômicas ou pelos “desplazamentos” derivados das guerras entre guerrilheiros. tal como a define Beatriz Jaguaribe (Apud GARCÍA CANCLINI. na quarta capa da primeira edição. Bajo esas leyes inquebrantables funciona el ejército privado (…). Si el muchacho no entendió con la vergüenza de andar con la cara como un mutante. p. num processo em que a dinâmica cultural transcende as fronteiras nacionais: Me fascina cómo la historia de América latina vuelve a surgir a miles de kilómetros. cómo la migración de sujetos y culturas generan un fenómeno de transnacionalidad. chilenos. Constituído de um conjunto de clãs. o escritor argentino Mar tín Caparrós. da cidade e da própria narrativa. 2010.20). sus terrenos fueron ocupados por los inmigrantes que llegaron a Buenos Aires a partir de la década del cincuenta. se gana un tiro en una pierna. fundamento mais importante da vida social neste contexto. tanto dentro das fronteiras da cidade como para além das fronteiras nacionais. o mundo das “islas urbanas” reúne sujeitos em torno de um território e de um conjunto de códigos com base nos quais se constrói o sentimento de pertencimento a um lugar e a um grupo. más desconocidos: los que están aquí mismo. comunidades de migrantes convivem com o mundo “narco” e se tornam peças de um jogo complexo em cujo centro estão as frequentes guerras para definir o comando absoluto do tráfico de cocaína entre “transas” paraguaios. onde Josefina Ludmer se propõe a pensar os novos tempos a partir . 2008. nesta verdadeira experiência de “voyeurismo protegido”.1 Num bairro em que se instala a ausência do Estado e suas instituições. talvez já possamos começar a falar de uma literatura que está se gestando em diálogo com uma cultura “deslocalizada” ou “translocal” de que nos fala James Clifford em Dilemas de la cultura. De formas irregulares. atravesadas por arbitrarios pasillos angostos. En cada una de las treinta ciudades más importantes del mundo existe una procesión del Señor de los milagros que es idéntica a una en el centro de Lima. 2008. Si me querés. p. El ercer error es el fatal: muere acribillado.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 171 Villa del Señor se extiende a lo largo y ancho de treinta manzanas. Nesse mundo à parte. peruanos e bolivianos. quereme transa. No lugar onde antes imperava a anomia passam a reger os códigos da “isla urbana”: Entre todos ellos rige un código que permite el dominio piramidal sin titubeos: a la primera falta la sanción es rapar a cero y afeitar las cejas. entre nosotros. Em entrevista intitulada “El mundo narco habla de un mundo por venir”. un viaje a los mundos más lejanos. Oriundas que são de um processo de deterritorialização e reterritorialização da cultura.61) E os cógidos ganham enorme destaque nesta viagem mediada pelo texto narrativo aos “redutos da violência”. de Cristian Alarcón. Em Aquí. (ALARCÓN. 2010. “es. América Latina . A partir desta perspectiva. Mas.

Talvez seja justamente a partir da percepção do trabalho com a escala pequena e do processo de microlocalização identitária presente nas duas obras que se possa destacar um dos aspectos centrais para o estudo da literatura produzida neste momento de virada de século quando se observa uma tendência que aponta para a erosão das narrativas nacionais e para a importância crescente do território como um espaço de ancoragem da identidade que pode contribuir para a coesão de comunidades imaginadas. A cidade não se narra a partir de um todo sintético. o relato de reportagem e a pesquisa de campo da antropologia. as ilhas residenciais do condomínio ou as ilhas dos espaços de segregação nos quais residem “cartoneros”. pero con predominio de lo que sucede en interacciones locales y de escala pequeña. Por “pós-autônoma” Ludmer entende a literatura que “trata de ser outra coisa. Assim como o romance latino-americano moderno no qual se estabelecem mecanismos de narrativa derivados do “arquivo” da antropologia. Não faz mais sentido falar sobre cidade. mas sim a partir dos seus fragmentos. se destacaban las tradiciones o resistencias locales a lo innovador. “realidadeficção” e “literatura pós-autônoma”. narrativa de tempos e discursos fugazes. buscando o Outro distante no interior da própria cidade. y luego de los diferentes. está fragmentado. um testemunho” 2 . monolítico ou compreensível. só que agora em uma escala bem mais reduzida. como uma investigação histórica. quereme transa é um projeto essencialmente pautado em um trabalho de campo. Porto & Torres. Si me querés. O território. De manera que la antropología es una disciplina con largo entrenamiento para estudiar procesos de aculturación. Antes. territórios insulares que constituem um grande arquipélago no qual cada vez mais deslocam os sujeitos. mas sim sobre “ilhas urbanas” como sugere Josefina Ludmer em seu texto “La ciudad: en la isla urbana”. obra de um autor que opera na fronteira entre a invenção. escreve-se a partir de pedaços da realidade. E é justamente isto que encontramos em Si me querés quereme transa. uma biografia. Em meio a estas fronteiras de gênero cada vez mais voláteis. la antropología fue la primera ciencia social que se ocupó de los otros lejanos. Mas não só isso. cf. Cuando unos y otros fueron modernizándose o cambiando. identidades e nações vão por esse caminho. que ela chama de instrumentos conceituais para organizar certas reflexões. sejam estes os que integram as ilhas do trabalho. e a própria representação estava associada a lugares estabelecidos. 2010) está em disputa e em constantes deslocamentos estratégicos.172 de termos como ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS “imaginação pública”. este também circula entre a crônica familiar e o testemunho. uma crônica. como nos recorda Néstor García Canclini: Como se ha dicho a menudo. fornecendo as marcas de pertencimento a pequenos coletivos. havia uma certa cartografia mais sólida e clara. Agora a representação e seus sujeitos (como obser vamos nas “narrativas migrantes”. “paraguas” ou “bolitas”. Cinema e literatura. essa narrativa contemporânea. de um presente que não pode produzir clássicos. de transculturación y las zonas de contacto entre culturas.3 . minoritarios y subalternos en la propia sociedad. destaca-se o discurso antropológico como mediador na literatura. como tudo. entre o romance verdadeiro e o jornalismo investigativo. 2003). Tal como o primeiro livro de Alarcón ( Cuando me muera quiero que me toquen cumbia . Enquanto que os clássicos latino-americanos falavam de territórios muito maiores e buscavam as chaves da identidade em grandes narrativas nacionais.

chilenos. Não estão dentro.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 173 A literatura pós-autônoma. seu relato quer ser roteiro de cinema: filme de estrada sem sair do interior da grande metrópole.48) Numa literatura que recusa a fixidez das imagens geográficas. Como assinala Beatriz Sarlo em relação às ficções de Borges. a história de um lugar se torna história pessoal. bolivianos ou coreanos. sobre su lugar en la sociedad argentina. mas também a que me liga a um território. 198). quer ser ensaio de sociologia ou geografia urbana. observa que: La membresía. A partir daí. 2006. não estão fora: são o dentrofora. la lealtad y la pertenencia nacional son conceptos en transformación. más o menos compartida. Sus sentidos no son compartidos por todas las personas y grupos que residen dentro del territorio argentino. Michel Maffesoli nos recorda que: Devemos estar atentos ao componente relacional da vida social.141). os “entre lugares” ou o “aqui e lá” de que nos fala Bhabha (1998. ganha espaço protagônico a . Menos aún por la población migrante. ilhas urbanas. dos processos econômicos e das manifestações culturais. p. afirma Ludmer. “trata de ser outra coisa”. 2009. (JELIN. Elas são movediças. Para além da importância da nação. as que apresentam uma expressiva concentração de peruanos.19). p. As favelas e. por sua vez. Isto nos leva a pensar num aspecto muito específico envolvido em um fenômeno que acontece na história recente da cidade: o surgimento das novas favelas a partir da migração limítrofe. descarnado e objetivo. a um meio ambiente natural que partilho com outros. são versões da cidade (SARLO. p. O homem em relação. enclaves. bairros fechados. as narrativas construídas por Sergio Olguín e Cristian Alarcón.20). em um estudo sobre as migrações limítrofes na Argentina. é a partir da ancoragem no território da “ilha urbana” que se constituem as tramas identitárias da comunidade. p. no ato de definir a própria ideia de sociedade. mas da cidade que é ao mesmo tempo lida e imaginada: a Buenos Ares narrada através de seus fragmentos. Aqui percebemos mais uma vez a importância do território. elemento que começa a se tornar obsoleto neste contexto. Oscura monótona sangre quer ser cartografia. a uma cidade. Essas são as pequenas histórias do dia-a-dia : tempo que se cristaliza em espaço. A su vez. com fronteiras deslizantes que nos impedem uma cartografia segura. segundo o crítico indiano: Esses “entre-lugares” fornecem o terreno para a elaboração de estratégias de subjetivação – singular e coletiva – que dão início a novos signos de identidade e postos inovadores de colaboração e contestação. Não se pode traçar um mapa destas ilhas a partir do percurso trilhado no dia-a-dia. ilhas de prazer. 1998. p. É em torno do território compartilhado que se organizam as narrativas da memória e os mitos comuns. los diferentes grupos migratorios desarrollan distintas estrategias de inserción a partir de la idea. Elizabete Jelín. de residência dos que garantiram o direito instável de ocupar o que Noé Jitrik definiu como “zona sagrada”4. Existen y se generan distintos criterios de diferenciación y jerarquización que catalogan a algunos grupos como potenciales contribuyentes al desarrollo del país. Trata-se não da cidade real. são o longe perto de Buenos Aires. É nestes espaços intersticiais que o valor da cultura do agora está sendo negociado. (BHABHA. destacado o movimento dos grupos humanos. De tal forma que a história do território se confunde com a história da comunidade. e ilhas que são destinadas aos refugos ou às quais estes são destinados. paraguaios. em particular. Não apenas a relação interindividual. (2010. Deduz-se um mapa impreciso que apontaria para a existência de ilhas de trabalho. na medida em que a ênfase recai no que transcende o indivíduo e reforça a comunidade na qual ele se insere.

174 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS figura da migração limítrofe e os contextos de sociabilidade construídos por estes sujeitos em uma concentração territorial e identitária que assume a forma de pequenas tribos e parece demonstrar em cada uma de suas narrativas que ainda não sabemos lidar com a diferença interna. o protagonista de Oscura monótona sangre. p. Um empresário que se sente seguro em sua vida de cidadão modelo a percorrer todas as manhãs as mesmas avenidas que comunicam a sua ilha residencial à ilha industrial onde trabalha do outro lado da cidade. As cidades cindidas de modo cada vez mais radical apresentamse nas narrativas do século XXI como “ilhas urbanas”. Cristian (2010): Si me querés. pequena nação que requer um novo relato. líneas y límites. James (1995): Dilemas de la cultura : antropología. In: GARCÍA CANCLINI. pelo contrário. CLIFFORD. GARCÍA CANCLINI. org (2011): Conflictos interculturales. Aparece assim um quadro recorrente. Homi K. (1998): O local da cultura . 2ª ed. leyes y sujetos específicos” (LUDMER. org. A cultura pela cidade.130). A literatura do presente parece determinada por uma estrutura que frequenta diferentes narrativas: o cruzamento de uma fronteira cada vez mais porosa e deslizante que em vez de separar propicia contatos. quereme transa e Oscura monótona sangre. literatura y arte en la perspectiva posmoderna. desiguais e desconectados: mapas da intelectualidade. ______ (2005): Diferentes. Referências bibliográficas ALARCÓN. São Paulo: Iluminuras. Carlos Reynoso. mas que. Myriam Ávila. 15-31. Trad. Trad. p. Luiz Sérgio Henriques. como os personagens de Si me querés. despertam a curiosidade e propiciam o contato. . religando pedaços dispersos e propiciando interações simbólicas que permitem superar parcialmente a fragmentação da experiência. “las ciudades latinoamericanas de la literatura son territorios de extrañeza y vértigo con cartografías y trayectos que marcan zonas. Trad. ______ (2008): Imaginários culturais da cidade: conhecimento / espetáculo / desconhecimento. nos bairros humildes que margeiam essas avenidas. José Teixeira. Barcelona: Gedisa. Como diz Josefina Ludmer em seu ensaio “La ciudad: En la isla urbana”. Itaú Cultural. Néstor. Rio de Janeiro: Editora UFRJ. um cenário de realidade/ficção onde os sujeitos constroem constantemente estratégias para entrar e sair sem que saibam já muito bem se estão dentro ou fora. Belo Horizonte: Editora UFMG. Buenos Aires: Norma. da cidade e da sociedade: formando uma nova comunidade. 103-112. Néstor. Barcelona: Gedisa. Este é caso de Julio Andrada. os personagens experimentam as consequências de um efeito inesperado de deslocamento nos dois sentidos do termo: saem de um lugar cuja lógica dominavam para penetrar em outro território bastante instável e ao mesmo tempo se sentem eufóricos e desconfortáveis neste novo lugar. In: COELHO NETTO.” (2010. BHABHA. 2010. Parece que estão dentro e fora da nação.131). entre fragmentos y ruinas. p. p. Inicialmente caracterizado pelos contrários. de Aquí América Latina. demonstram que as fronteiras já não impedem a passagem de um lado para o outro. quereme transa. Eliana Lourenço de Lima Reis e Gláucia Renate Gonçalves. mas que só vivencia a verdadeira aventura ao mergulhar. movido pelo impulso. uma nova nação. A construção de pontes ou de caminhos de aproximação através de textos que narram e dão coerência à cidade. De la diversidad a la interculturalidad. Mas as ilhas que são ao mesmo tempo um território e um sujeito coletivo “es un mundo con reglas.

2 BERTOL Rachel. Alejandro.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 175 GONZÁLEZ ECHEVARRÍA. 4ª ed. org. Acessado em 01/09/2012. 2010. desigualdad y derechos. TIRRI. Conflictos interculturales. Disponível em http://publicidade-valordigital. JITRIK. OLGUÍN. Juan Manuel. La vuelta a Cortázar en nueve ensayos. SARLO. In: FIGUEIREDO. Buenos Aires. 2ª ed. Virginia Aguirre Muñoz. 225-260. Editora UFJF. Rio de Janeiro. 1968. Valor. p. orgs. A literatura não é mais sagrada: entrevista a Josefina Ludmer. 2011. Eurídice. Migraciones regionales hacia la Argentina: diferencia. Trad. Buenos Aires: Siglo XXI. Elizabeth (2006): Migraciones y derechos: instituciones y prácticas sociales en la construcción de la igualdad y la diferencia. Disponível em http://weblogs. 104-5. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Néstor. D. Revista Ñ. Noé. Niterói: EdUFF. 4 Cf. PORTO. de Clarín. In: TIRRI. Roberto (2000): Mito y archivo: una teoría de la narrativa latinoamericana. 47-68. JELIN. Beatriz (2009): La ciudad vista : mercancías y cultura urbana. In: GARCÍA CANCLINI. Elizabeth. org.: Fondo de Cultura Económica. TORRES (2010): Literaturas migrantes. 3 GARCÍA CANCLINI. Buenos Aires: Prometeo. 25 abr. 13 -39. org. 2ª ed. Sara Vinocur de. p. Michel (2010): O tempo das tribos: o declínio do individualismo nas sociedades de massa. In: GRIMSON. Néstor.valor.br/cultura/1130334 Acessado em 01/09/2012. Maria de Lourdes Menezes. Barcelona: Gedisa. MAFFESOLI. Sergio (2010): Oscura monótona sangre. .com. Buenos Aires: Tusquets. Néstor. Notas 1 BORDÓN.com/diariodelaferia/2010/04/25/ cristian_alarcon_el_mundo_narco_habla_de_un_mundo_por_venir/. México. Conceitos de literatura e cultura. JELIN. Trad. Maria Bernadette. Notas sobre la “zona sagrada” y el mundo de los “otros” en Bestiario de Julio Cortázar.F. Cristian Alarcón: “El mundo narco habla de un mundo por venir”. De la diversidad a la interculturalidad.clarin. pp. p.

Há uma valorização maior do texto sobre a imagem. animais e crianças aparentemente ingênuos. questionam a formação das relações familiares. indagam-se sobre os problemas sociais e políticos e valem-se de um humor sarcástico para fazerem chistes. intensificaram-se as criações intelectuais das Histórias em Quadrinhos. esse produto de massa. à ordem de narrativa. Schulz). e suas intensas publicações. assim.176 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS AS TRADUÇÕES DE QUADRINHOS SOB UM OLHAR DISCURSIVO Bárbara Zocal da Silva PG. com sua série The Yellow Kid . os quadrinhos aderem a um caráter mais ácido. principalmente no gênero da aventura. consagraram-se neste design que conhecemos por volta dos anos 1880. em especial na Argentina. as HQs se popularizaram nos Estados Unidos e tal pioneirismo deve-se ao americano Richard Fenton Outcalt. não há como especificarmos certamente quando surgiu e qual foi a primeira história em quadrinhos. permitiram à Argentina criar uma rica tradição em suas historietas densamente elaboradas. O período entre os anos 1929 e a Segunda Guerra Mundial é considerado como o que mais ousou em criatividade e propiciou a expansão e a exportação das HQs. na Itália e na Argentina. Esse movimento de exportação conquistou muitos fãs – grandes consumidores – e também estimulou um intenso desenvolvimento da criação de HQs em outros países como na França. A partir da década de 1950. para onde se mudou nos anos 1950. . No entanto. cultural e popular. em 1895. Suas produções artísticas influenciaram consideravelmente a qualidade de produção das historinhas em toda a América Latina. 2010). Personagens como Peanuts (de Charles M. Sabe-se. como também as publicações do grande roteirista Hector Oesterheld. meio e fim definidos. o que os torna expressivamente ricos. muito valorizado na Europa e na América Latina. inovou a estrutura dos quadrinhos ao colorir as histórias e ao delimitar as falas das personagens por meio do balão. Garfield (de Jim Davis). Calvin & Hobbes (de Bill Watterson) e Mafalda (de Quino). obedecendo. que. que no fim do século XIX. com começo.Universidade de São Paulo As Histórias em Quadrinhos. Um dos nomes mais expressivos do meio de produção das HQs é o do italiano Hugo Pratt. à ordem de sequência dos diálogos e à ordem de permanência das mesmas personagens (SANTOS. popularmente chamadas de HQs.

lançada em 1905 (VERGUEIRO. p. eles queriam falar de seus próprios problemas. nessa época.199) Henrique de Souza Filho. como. à condição apática da população diante da ditadura. criada por Ziraldo Alves Pinto. outros gêneros de quadrinhos invadiram o mundo das HQs brasileiras. que lutaram bravamente contra a censura para verem publicadas suas edições. p. Um exemplo de resistência da época é o semanário O Pasquim. popularmente conhecido como Henfil. o Versus . escritor. colunista. mas traços claros das expressões faciais –. .10). 2011. assim. percebeu-se o sucesso das HQs de humor que comentavam “de modo agudo os problemas do momento” (PATATI. Com o crescimento na produção de quadrinhos no Brasil. Os brasileiros não mais se satisfaziam em rir dos problemas político-sociais do mundo. Henfil. as tirinhas com tendências críticas fizeram. Fortuna. 2006. p. “considerada talvez como a mais importante e genuína contribuição brasileira à industria dos quadrinhos” (VERGUEIRO. de acordo com Patati.199). inovou quanto à criticidade a seu país. pensava-se que esse tipo de literatura era dirigido exclusivamente às crianças. a aventura. afinava com os propósitos de variados humoristas e quadrinhistas: ganhar dinheiro sem abrir mão de criticar e rir de nossas mazelas. Ziraldo. pois fizeram frente aos governos da época. fizeram sucesso como a Luluzinha ( Little Lulu . 2010. p. Braga (2006). Angeli. A evolução dos acontecimentos políticos tornou o espaço dos quadrinhos e do humor na imprensa do Brasil ainda menor do que já era. Tanto caíram no gosto do público que muitas outras histórias de humor e de aventura.14). Ivan Lessa. A comunhão de propósitos entre autores e editores destes jornais. e A Turma da Mônica . durante o período da ditadura militar no Brasil. o humor crítico e político. A persistência de um jornal como O Pasquim . entre tantos outros humoristas e jornalistas. além de inovar quanto à estética dos quadrinhos – criava não apenas faces. e que ainda obtém grande êxito. O jornal contou com a colaboração criativa de Jaguar. o Brasil era tomado pelas produções norte-americanas e caminhava vagarosamente em direção a uma produção própria de Histórias em Quadrinhos. De acordo com Patati. muito sucesso nas páginas dos periódicos. 2006. BRAGA. (PATATI. pois. Henfil foi reconhecido – internacionalmente – pela influência que seus trabalhos tiveram em sua vida militante e pelo seu brilhante trabalho como cartunista. Carlos Estevão e Millôr Fernandes. roteirista. que “abusava de uma linguagem polêmica de humor contra o milagre econômico e fazia críticas incansáveis à ditadura” (SANTOS. ou ainda. tornou-os as mais influentes publicações de seu tempo. o mundo dos super-heróis. com foco sempre para o lado infantil. de John Stanley) e o Pimentinha (Dennis the Menace. 2011. principalmente as historinhas de O Pato Donald . entre tantos outros projetos culturais idealizados. o gênero infantil foi o que prevaleceu na criação das HQs brasileiras. Destacam-se grandes nomes de cartunistas como os de Angelo Agostini. ao governo e. devido aos temas regionais abordados. p. inclusive. chamados “alternativos”. Os quadrinhos humorísticos foram ideologicamente significativos entre os anos 1964 e 1985. foram os responsáveis pela fundação da Editora Abril em 1950. criada por Maurício de Souza.14). a guerra. A primeira revista brasileira que publicou regularmente quadrinhos no Brasil foi a revista Ticotico. o terror. Entretanto. entre outros. pois. Os gibis da família Disney. Guidacci. Duas outras revistas que contribuíram para uma história das HQs no Brasil surgiram na década de 1960 e são a revista O Pererê. apresentador. de Hank Ketcham). Millôr. Braga (2006). por exemplo. foi um dos quadrinhistas mais representativos no Brasil. e ainda fazem. BRAGA.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 177 As HQs no Brasil Em contrapartida.

notamos que uma característica bem marcante da divergência entre as duas traduções das mesmas tirinhas de Mafalda é a relação de seus respectivos tradutores com suas próprias concepções de tradução. o quadrinhista. ou seja. com maneiras de significar. Ela e sua família gozam de regalias.] a primeira coisa a se observar é que a Análise de Discurso não trabalha com a língua enquanto um sistema abstrato. uma televisão e direito às férias em família. “funciona pelo inconsciente e pela ideologia”. e o mundo sofria com a Guerra Fria. que usa da expressividade da fala como uma tentativa de buscar seus direitos e de conscientizar a população para as questões políticas à sua volta. em plena crise econômica. comportando-se. para cumprir esse propósito. jornalista também engajado politicamente. são as imagens que constituem as diferentes posições na relação discursiva. como sujeito discursivo. considerando a produção de sentidos enquanto parte de suas vidas.20) Ao voltarmo-nos para a análise das traduções. pretendemos observar algumas questões linguísticas. 1999. a problemática familiar. historicamente posicionada. de uma forma geral. seria o tradutor ideal e Henfil revisaria tudo. politizado. seja enquanto membros de uma determinada forma de sociedade. a cultura geral. e. conhecido como Quino. Mafalda provém da classe média e percebemos. Dessa forma.. o editor-revisor. escritas entre as décadas de 1962 e 1973. porém. De acordo com Orlandi (1999). Uma dessas traduções foi realizada por Mônica Stahel. p. pois Quino queria muito que ele estivesse envolvido no projeto. Sob a luz da Análise do Discurso de linha francesa. a influência . uma representatividade do cotidiano dessa classe.. Henfil participou em 1982 de um projeto do grande cartunista argentino Joaquín Salvador Lavado. participariam conjuntamente Quino. as privações da infância. mas com a língua no mundo.178 O projeto ambivalente ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS norte-americana. eles têm condições financeiras de terem uma casa própria. p. O fato de Mônica Stahel (doravante MS MS) manter. pois a Argentina passava por um momento de repressão política sob o comando de militares peronistas. assim. [. (ORLANDI. os conflitos da guerra fria. seja enquanto sujeitos. um carro. Ao analisarmos o discurso de Mafalda. decidiram que Mouzar. como uma criança. como revelado em uma entrevista de Mouzar sobre Henfil na Rev ista Imprensa de junho de 2008. quando nos deparamos com Mafalda lançando seu olhar crítico à sua vida e ao mundo à sua volta. uma vez que ele não poderia realizar o trabalho na época. 1999. Mafalda. percebemos que essa é uma das características primordiais para que o humor seja compreendido. e editada pela Martins Fontes. (ORLANDI. de certa forma. o tradutor. a má educação. em 1982. Em princípio. retratam. em 1998.15) As tirinhas da Mafalda que pertencem ao corpus . sociais e políticas que podem estar contidas em duas traduções diferentes realizadas no Brasil das mesmas tirinhas escritas originalmente em espanhol hispano-americano. como mostram as tirinhas. ainda assim. Assim. em suas opções tradutórias. a idéia de Quino era que Henfil traduzisse as tirinhas. pois. e outra foi realizada por Mouzar Benedito. Por outro lado. por trás de seus debates. e Henfil. O projeto consistia numa tradução diferenciada de algumas histor ietas da personagem Mafalda . problemas incompreensíveis aos olhos de uma menina de seis anos de idade. definimos a garotinha de seis anos. e editada pela Global. vemos a forma histórica de um sujeito inserido numa conjuntura política de tensão. Mouzar Benedito. a constante luta pelo poder entre os Estados Unidos e a ex-URSS. com homens falando. Ela seria traduzida para o “portunhol” e. inclusive pela Argentina e pelo Brasil. estruturas frasais mais próximas da língua portuguesa indica uma tendência Como editor. problemas sofridos nessas décadas por grande parte dos países. como sujeito de tendência socialista.

inclusive entre as crianças. 1995). afinal. Mouzar Benedito (doravante MB MB) mantém as estruturas das traduções das tirinhas mais próximas da língua espanhola – ele mantém os pontos de interrogação e de exclamação. privilegiando. as interjeições e muitas palavras grafadas como em espanhol como. De acordo com Arrojo (1986). a ideologia e a construção de discurso mostra que a tradução. o estudo das relações entre o signo. as diferentes concepções de tradução nos levam à reflexão sobre o quão ideologicamente marcadas são as traduções de MS MS. trabalhando a relação línguadiscurso-ideologia discutida em Orlandi (1999). década de 80. a concepção pós-moderna de tradução. para ilustrar o fato de que até mesmo as palavras mais “simples do nosso cotidiano já chegam até nós carregadas de sentidos que não sabemos como se constituíram e que. 1999. a quem ele pretende dirigir determinada tradução. “como diz Pêcheux (1975). “¡Como!” e “Bueno” (tirinha 2) – privilegiando uma linguagem mais truncada e. o discurso e a ideologia presentes nas traduções de Mouzar Benedito e de Mônica Stahel. não há discurso sem sujeito e não há sujeito sem ideologia: o indivíduo é interpelado em sujeito pela ideologia e é assim que a língua faz sentido. às suas interpretações proporcionadas pela sua leitura. Entretanto. em último lugar. muitas vezes. quanto na época de sua tradução. fato que pode ser justificado pela sua participação militante tanto na época conflituosa. a que comunidade interpretativa. significam em nós e para nós. 1999. percebemos na tradução de Mouzar Benedito. assim como a leitura. Sendo assim. por exemplo. inclusive. “¿E daí?”.” (ORLANDI.17) A teoria na prática Analisemos agora. assim. à qual vinculamos MB MB.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 179 à invisibilidade do tradutor . de acordo com a concepção de Venuti (1995). por exemplo.” (ORLANDI. “¡AAAAAAI!” (tirinha 1). o que possibilitaria a compreensão de tais tirinhas em uma maior comunidade interpretativa (FISH. ao contrário da de Mônica Stahel. expõe que há três questões sobre as quais o tradutor Tirinha 1 deve refletir e ser fiel a elas. comunidades interpretativas (FISH. abrangendo. período de Diretas Já e de sindicalismo. retratada nas tirinhas. em segundo lugar. Ao compararmos as duas traduções das tirinhas. é condicionada por fatores ideológicos e contextuais. à sua concepção de tradução e. Primeiramente. às crianças leitoras. aos seus objetivos. 1992). período de intensa participação popular após os anos de silêncio. Diferentemente. restrita aos leitores que não têm conhecimento da língua espanhola e. p. dessa forma. a relação entre a língua. em relação ao original. no entanto. a presença de itens lexicais marcados ideologicamente pelos conflitos vivenciados na América Latina entre o período das ditaduras. uma leitura fluente e transparente. 1995) impostas pelas editoras que manipulam e difundem a idéia equivocada de que uma tradução deve ser “fiel à idéia do autor do texto original”. de forma prática. consumidores alvo das histórias em quadrinhos no Brasil. por seguir as exigências de domesticação (VENUTI. p.20) . 1992) distintas das abrangidas por MS e permanecendo como um tradutor mais visível (VENUTI.

ouve as notícias sobre o mundo e. reproduzidas)..a c he iq ue e ra o m und oq ue t inha g r ita d o” e h.160) Outras formas discursivas relevantes para exemplificarmos a relação do sujeito com a historicidade e com o interdiscurso.180 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Mafalda. é determinado pelas posições ideológicas que estão em jogo no processo sócio-histórico no qual as palavras. o sentido de uma palavra. ouve uma y!” e sai em busca do sofredor da ação interjeição “¡A “¡Ay!” que desencadeou. inserida no contexto de seu ambiente familiar. p.. No último quadrinho... mas grita como se clamasse por socorro.... ao contrário. de uma expressão. na tirinha 1. não existe “em si mesmo” (isto é. porém.. ao iq ue e ra o e nse compararmos a opção de MS “A h.ac hei que er mund undo que tinha gr itad o” e “g r ita d o” ... Ao se deparar com o globo terrestre na sala de sua casa. num impulso. vemos que a tradução de MB do primeiro quadrinho mantém uma semelhança maior em relação à forma e ao léxico da língua espanhola. por mudança. pela ideologia socialista da época. a garotinha fantasia com a possibilidade de o mundo ter sofrido a dor. 1988.pe nsei que er mu n do q ue esta va r eclamand o ” e a de M B qu av re do “A h.creí que lq ue se había q ue j a d o” . expressões e preposições são produzidas (isto é. em sua relação transparente com a literalidade do significante). a expressão da dor. dadas as condições de produção na qual se inserem. mas. em seguida. ao mesmo tempo que desliga seu rádio.cr h.. estão inhas 2 presentes nas Tir irinhas 2. simplesmente..p h. encontra eí q ue seu pai com um martelo na mão e diz: “A h.. Sendo assim. inconscientemente. . que não se queixa ou reclama da situação política e social do mundo. etc. nos determos nas palavras “re c lamand lamando itad percebemos que a opção tradutória de MB relacionase ao discurso de um sujeito afetado. er a e lm und oe el mund undo el que que uej (Tradução de Mônica Stahel) (Tradução de Mouzar Benedito) Ao observarmos as traduções.. de uma preposição. (PECHÊUX..

M B traduz os mesmos r t e-ame r icanos e os r ussos quadrinhos como “os no nor e-amer russos também estão b r avos e mesmo assim c o me rciam br co mer e nt re e les ” e “a h umanida d e não está far ta ne m da ntr eles les” humanida umanidad farta nem S usanita ne md ev o cê” nem de vo cê”. Enquanto MS traduz “os ame amer r ussos também estão d e mal no e ntant o ne g o ciam de entant ntanto neg e nt re si” e “a h umanida d e não está c he ia ne m da ntr humanida umanidad che heia nem Susanita ne md ev o cê” nem de vo cê”.. co me rciam com os russos. Não há espaço para uma mer negociação. Considerações finais Após um breve esboço da história das Histórias em Quadrinhos.. e MB aproxima-se mais das estruturas co va o mo!.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 181 (Tradução de Mônica Stahel) (Tradução de Mouzar Benedito) Na segunda tirinha. as crianças “Ué.. de como duas . por exemplo. o discurso e a ideologia.. desde o fim do século XIX até o fim do século XX. para um acordo. Essas formações discursivas dão maior ênfase ao conflito da Guerra Fria em si.. contudo. pudemos propor um ensaio de análise. respectivamente nos segundo e quarto quadrinhos. outra estrutura nos chama r icanos e os a atenção.¿Vo estav b r avo c om e la?” co ela?” la?”.¿V o cê não esta da língua espanhola. e não os países subdesenvolvidos da América do Sul. M S mantém uma linguagem mais clara e de fácil compreensão para seu o cê não esta va d e público alvo. destacamos a expressividade r te-ame r icanos ” e “co me rciam ” das das palavras “no nor e-amer icanos” mer ciam” traduções de MB MB. elas r t e-ame r icanos especificam que são os no nor e-amer icanos. “¡C “¡Co mo!.. v vo estav de mal c om e la?” ela?” la?”. que estão em confronto e. assim mesmo. mediante um olhar discursivo sobre a língua. eles somente o fazem para cumprir o protocolo. com um enfoque especial para o Brasil e a Argentina.

ORLANDI. Tradução de Monica Stahel. W (Orgs). somos. A invisibilidade do tradutor. PORTAL IMPRENSA. Cruz e João Wanderley Geraldi. SANTOS. (1982). (2006). FISH. n. jul. Buenos Aires: Ediciones de la Flor. (1990). seja na escolha das palavras que utilizamos. São Paulo: Editora Global. Campinas: Editora da UNICAMP. Rio de Janeiro.. p. Palavra. O Universo Feminino nas Histórias em Quadrinhos. In: Cadernos de estudos lingüísticos .br/revista/ edicao_mes. (2002). Heterogeneidade(s) enunciativa(s).uol. VERGUEIRO. RODRIGUES. (1988). Tradução de Carolina Alfaro.36.pdf >. Tradução de Eni Pulcinelli Orlandi. SANTOS. A. Tradução de Celene M. somos meros sujeitos assujeitados (AUTHIEZ-REVUZ. Campinas: Pontes. AUTHIER-REVUZ. (1995).3. Disponível em <http:// portalimprensa. Referências bibliográficas ARROJO./dez. em quadrinhos no Brasil: Análise. O discurso: estrutura e acontecimento. contudo. São Paulo: Martins Fontes. p. 43-68.189-206. E. QUINO. somos determinados por nossa relação com a língua e com a história e essa relação se faz no inconsciente. (2011). (1998). J. M. seja na exposição de nossas próprias idéias. (19): 25-42. Mafalda 2.). podem apresentar divergências quanto às concepções de tradução. São Paulo: Laços.br/edicao11outubro2010/ universo-femin-hq. VENUTI. Campinas: Pontes. Acesso em: 15 de março de 2011. Campinas: Pontes. QUINO. Oficina de Tradução: a teoria na prática. PECHÊUX. (1992). 10 años con Mafalda.182 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS traduções diferentes das mesmas tirinhas da personagem Mafalda. R. (Org.111-134.com.. M. Disponível em < http:// www. (1986). levados a pensar que mandamos em nossos pensamentos e temos controle de nossas formas de expressão. 3ª ed. PECHÊUX. (1990). Discurso e Textualidade. R. PATATI. Deste estudo é depreendemos inevitável e que a PADIAL. S. . (2011) A história contextualização constitui intrinsecamente a interpretação. à relação do tradutor com o léxico e à significação das palavras em sua relação com o mundo. K. E. Acesso em: 14 de março. Henfil não morreu. (2006). BRAGA. Almanaque dos quadrinhos: 100 anos de uma mídia popular. 10 anos com Mafalda. pois no ato da interpretação nos posicionamos ideologicamente. Lawrence. na verdade.historiaimagem. Alfa (São Paulo). Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. Tradução de Eni Pulcinelli Orlandi. M. 1990) às estruturas e governados pelas ações regidas ideologicamente e constituídas dadas as relações que estabelecemos com a língua e com a história em nossas experiências de mundo. p. (1999). QUINO. Campinas (SP). A língua não é transparente – não deveríamos tratá-la de forma ingênua –. Análise de discurso: princípios e procedimentos. P. evolução e mercado. Rio de Janeiro: Ediouro. Tradução de Mouzar Benedito. (2010). F.asp?idEdicao=11&idMateriaRevista=123>. São Paulo: Ática.com. C. v. p.144-185. S. Is there a text in this class? Tradução de Rafael Eugênio Hoyos-Andrade. do cartunista argentino Quino.

su descripción hoy. que lo domina y que lo indica en su alteridad. hace con que pertenezcan a un espacio privilegiado. vigoraron con fuerza entre fines del siglo XIX y la primera mitad del siglo XX y responden a circunstancias históricas y políticas muy particulares. una vez que el régimen de enunciabilidad ha cambiado: El análisis del archivo comporta. provoca un efecto de rareza que. nos delimita. la práctica de construcción de un archivo con estos pronunciamientos se nos presenta como instigante y desafiadora. Su lectura. “Día de la Hispanidad”.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 183 DISCURSOS OFICIALES DEL 12 DE OCTUBRE: UN DÍA CONMEMORATIVO PECULIAR Beatriz Adriana Komavli de Sánchez –UERJ PG . una región privilegiada: al mismo tiempo próxima a nosotros. Actualmente. La descripción del archivo desarrolla sus posibilidades (y el control de sus posibilidades) a partir de los discursos que comienzan a dejar de ser los nuestros. conmemorativo del 12 de octubre. en los posicionamientos políticos de las Academias de Lengua y Letras de América y en la política externa de aquella época. objeto de resignificaciones a lo largo del tiempo. 150-151) (Traducción de la autora) Escogimos para esta ocasión presentar algunos esbozos analíticos del discurso de 12 de octubre de 1947. según Foucault ([1969]1995). Ese vínculo exaltado con la ‘madre patria’ fue tan relevante que se plasmó en otros dominios asociados: en la educación. pronunciado por el entonces . pronunciados por presidentes o altos mandatarios de gobierno. siempre fragmentado. (p.UFF El objetivo de esta comunicación es presentar una serie de reflexiones en torno al día festivo. pero diferente de nuestra actualidad. es aquello que fuera de nosotros. parcial. vigente en el calendario oficial español y en muchos países hispanoamericanos. Presentaremos algunas aproximaciones iniciales de nuestra investigación de doctorado que pretende contribuir para discutir la noción de hispanidad de aquella época y construir un archivo. Los discursos conmemorativos del “Día de la Raza”. “entre la tradición y el olvido”. de estas prácticas discursivas de la memoria pública del 12 de octubre1. trataban de un ámbito no de objetos materiales sino de dependencias simbólicas y de parentesco. Esos discursos oficiales. pues. se trata de la orla del tiempo que cerca nuestro presente.

la reescritura es un mecanismo constitutivo del lenguaje que nos posibilita nominar algo o alguien de modos diferentes. diseña. por el otro. general Juan Domingo Perón2. (Traducción de la autora) Contextualización del discurso En su clásica obra de referencia para los estudiosos de las ciencias sociales. El género pronunciamiento es así En esta primera aproximación destacamos el proceso designativo que conforma. surge el sentido como efecto. al mismo tiempo. Ese proceso al mismo tiempo funciona describiendo. 86): En el género pronunciamiento político. Para la autora. objetos del discurso. de sinonimia. 37) en términos de ‘interdicto’ de un discurso. la estabilización del referente. Maingueneau (2008. etc. inaugura. 2001. en su arqueología. Se imagina y no se inventa. Del conflicto. guiado por una visión antropológica: “una comunidad política imag inada – e imaginada como siendo intrínsecamente limitada y. parafraseándolo. Estos direccionamientos pueden ser recuperados por medio de diferentes marcas lingüísticas. el enunciador acostumbra a anunciar de forma explícita a quien se dirige. 113). p.184 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS presidente de la República Argentina. p. aunque pueda dirigirse a muchos otros destinatarios que no sean los directamente anunciados. Ese proceso comprende estrategias de sustitución. en ninguna de las florecientes naciones la lengua constituyó un problema en aquel inicio (finales del siglo XVIII y comienzos del XIX) ya que los pueblos y líderes criollos tenían la misma lengua que los Foucault. no reactualice otros enunciados” ([1969]1995. sostiene que los límites del enunciado son los otros enunciados con los cuales se puede establecer un espacio de correlaciones. p. sino una multiplicidad de “oyentes” es otra marca importante de esos discursos. y aún más: “no hay enunciado que. creando. en la medida en que tratan del mismo dominio de objetos. valiéndose de otros recursos. de la tensión que subyace entre la paráfrasis (lo mismo) y la polisemia (lo diferente). p. sin conocerse. Esos vínculos conforman un juego enunciativo que es preciso examinar. Aquellos enunciados renegados son reformulados por . soberana”. El abordaje teórico La visión dialógica de Bajtín y el Análisis del Discurso de línea francesa que considera los estudios enunciativos nos ayudarán a destacar algunas marcas lingüísticas de la red de filiaciones identitarias que se tejían entre la madre patria y las excolonias materializadas en los discursos oficiales del 12 de octubre. Anderson afirma que en América. una especie de fraternidad horizontal que atraviesa a todos los integrantes que. calificando. Orlandi (apud KARIM. un abanico de relaciones posibles futuras. 32) así define el concepto de nación. La certeza de un auditorio en el cual se incluyen no solo los destinatarios explícitamente designados por él en su discurso. de lo ‘decible faltoso’. por un lado. 83-108) se refiere a dicho mecanismo en términos de reescritura. Otra particularidad de ese discurso político presidencial es la de que el enunciador tiene garantizado por el poder del cargo empírico que ocupa el derecho al pronunciamiento – ya que su papel social así lo autoriza y legitima. caracterizado por Daher (2000. Esa relación no solo es posible de ser establecida con otros enunciados pasados como también condiciona. la ilusión de una equivalencia entre las palabras y. Anderson (2011. conforman ese concepto moderno aglutinante que se materializa en prácticas. de paráfrasis. p. de una forma o de otra.

por más duras que hayan sido. y la que celebra la nación moderna a partir de la ruptura con el pasado”. en este caso los descendientes remanecientes de diversas comunidades indígenas. si es imposible para España. excolonias? En América la propuesta. ese proceso fue motivado por: la disgregación de la Unión Soviética. la fiesta de 12 de octubre en España no se encajaría en ninguno de los dos tipos señalados en el párrafo anterior. luego la pérdida en 1895 de Cuba y de Puerto Rico en 1898.. lengua vernácula. Sin embargo la festividad solo gana estatuto legal el 9 de enero de 1958. El castellano. en la medida en que eran guerras entre parientes. Heymann (2007.. lazos culturales. por el decreto 1584/2010 sobre feriados nacionales y días no laborables de la actual presidenta argentina. ¿cómo calificarla para las naciones de lengua española. la descolonización de África. Grupos enteros que habían permanecido en el olvido. entre otras. 2005. Para entender lo que ocurrió en ese período de tiempo es menester considerar que hasta mediados del siglo XX predominó una manera única. aun así eran tranquilizadoras. la fecha fue redesignada como Día del Respeto a la Diversidad Cultural3. el proceso de globalización y los movimientos migratorios. la madre patria recorre a su pasado exaltándolo. monolítica.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 185 excolonizadores. de nuestro espíritu imperial.. al multiculturalismo. después de un cierto período de resentimiento. fiesta imperial. p. que es la Cristiandad” (VALLS. fue impuesto a los indígenas americanos en los dominios de la corona española. Juliá (1990) que en su artículo Vieja nación. así califica a esta conmemoración “fiesta imposible de la nación española”. el 11/10/1917 publica un decreto declarando el 12 de octubre fiesta nacional dedicada a la raza. siguiendo a Tateishi (2005). Ese vínculo familiar garantizaba que. En ese sentido es coincidente con S. el intento fracasado en el norte de África y los regionalismos internos aceleraron la necesidad de reatar lazos con las excolonias americanas. ahora estimadas como ‘hijas’ bajo un nuevo prisma de política la externa. cuyo propósito era recuperar un prestigio perdido. Tateishi (2005. en escala mundial. p. de entender la unidad cultural de cada nación que da lugar. Recientemente. y a veces políticos y económicos. la constitución de nuevos bloques económicos (UE y Mercosur). apud TATEISHI. (Traducción de la autora) universalista. 262). Cristina Kirchner. s/d).. hecha por la Unión Ibero-Americana en 1912.Fue justamente el hecho de compartir con la metrópolis la misma lengua (y también la religión y la cultura) que había posibilitado las primeras creaciones de imágenes nacionales (p. entre las exmetrópolis y las nuevas naciones (p. En el caso específico de Argentina que nos interesa. Las guerras revolucionarias. s/d) apunta dos tipos de celebraciones de la memoria pública: “la que insiste en la continuidad de la nación desde el pasado histórico. de la Hispanidad.) defensora y misionera de la verdadera civilización. p. el creciente expansionismo de los Estados Unidos en América. 1999 e ABÓS. también. aliada a la ideología de esa hispanidad se mostró muy efectiva para consolidar la fecha conmemorativa: “Se trata así de poner de manifiesto la pureza moral de la nacionalidad española: la categoría superior. Según el mencionado autor. Para tal. 2003. 268). 16-17) apunta que. fuera posible reatar íntimos lazos culturales. La coincidencia de la fecha con el día festivo religioso de la Virgen del Pilar. . Si es imperial. A propósito de las fiestas nacionales. Una fiesta compartida puede cumplir esa función de afianzar. Conflictos internos en España postergaron la definición de una fecha conmemorativa nacional hasta que las celebraciones por el IV Centenario del Descubrimiento de América en 1892. de adoptar la fecha del 12 de octubre como Día de la Raza fue acogida rápidamente por muchos gobiernos. el presidente Hipólito Irigoyen. en la segunda mitad de ese siglo. (.

(15) Transformación del mundo y (16) Resurrección del Quijote . un deber moral de reconocer múltiples identidades. (9) Inteligencia y milicia. Renán. no exhaustiva. España – bajo el régimen del General Francisco Franco . su universalidad (6). le siguen dieciséis tópicos cuyos subtítulos. Argentina. genio auténticamente español. prototipo católico.186 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS lucharon por sus derechos y reivindicaron su lugar en la memoria ahora transformada en valor. (12) América y España: identidad pacifista. (11) Grandeza de España. la inmortal figura de Cervantes. aquí numerados son: (1) Espíritu contra utilitarismo. directa .(10). (6) Entraña popular cervantina. Crónica General de Alfonso el Aproximaciones al discurso del 12 de octubre de 1947 La sesión fue realizada en la Academia Argentina de Letras con el doble objetivo de rendir homenaje al cuarto centenario del nacimiento de Miguel de Cervantes. (5) Porvenir enraizado en el pasado. la sencillez de su estilo. (3) América: empresa de héroes. (4) España rediviva en el criollo Quijote. el prototipo del caballero católico. 6 Sabio. la hispanidad y la lengua. su prosa …fina. la perennidad del Quijote. su obra. Consideramos entonces que es ese nuevo régimen de enunciabilidad el que nos posibilitará la descripción del archivo en cuestión. (7) Conciencia social de Cervantes. de raíz hispana. o indirectamente. de las designaciones correspondientes a Cervantes. con genial previsión (7). Cervantes –el prototipo del español. la raza. un versículo de Job. (2) La raza: superación de nuestro destino. 10/7/44 y 24/11/44). Se hace preciso aclarar que en aquella época. la universalidad de Cervantes. A lo largo del pronunciamiento son hechos comentarios sobre la obra Don Quijote de La Mancha así como también hay réplicas a los detractores internos y a las potencias extranjeras enemigas (expansionismo de los Estados Unidos y el avance de la Unión Soviética en Eurasia). Discurso de las armas y de las letras de Cervantes. el glorioso manco de Lepanto. Persiles y Sigismunda. su vida triste. dolorosa. su vida. la más alta expresión de las virtudes. aprovechando la proximidad supuesta del nacimiento del homenajeado (entre el 29/9 y 9/10/1547) y conmemorar el Día de la Raza. (8) Cervantes. Weber. Ortega y Gasset. el genio máximo del idioma. su indómita inteligencia (8). Diario de Madrid (1788). su palpitación humana. de hecho. su honda vivencia espiritual y su suprema gracia hispánica (5). (13) Paz y justicia social. a tal punto que en 1946 las dos naciones firmaron el Convenio Comercial y de Pagos por el cual Argentina fornecería cereales a España5. para conformar su entramado. magistral. otras voces comparecen de manera más o menos explícita. merecedores de muchas críticas.… una riqueza tal de vocablos. el misterio y la magia de Cervantes (9). el título del discurso es Homenaje a Cervantes 4. La Galatea. A la introducción del extenso discurso de 13 páginas. el más grande de los escritores castellanos. un dicho.y Argentina mantuvieron vínculos políticos muy estrechos. Madariaga. el inmortal alcaíno. decreto del presidente Irigoyen de 1917. CERVANTES: el grande hombre. España. (14) Argentina es libertad. espejo y paradigma de su raza (1). Como en todo discurso. otros discursos pronunciados por Perón (8/6/44. Son ellas: la reina Isabel (Nueva Recopilación de las Leyes de Indias). Los números entre paréntesis indican los subtítulos en los que se encontraron tales designaciones. su propio dolor físico y espiritual. estrecha. Presentamos a seguir. Menéndez y Pelayo. pozo de sabiduría y. código del honor y breviario del caballero. el inmortal complutense. un escritor contemporáneo (s/d). un notable cervantista inglés (s/d). por los siglos de los siglos. (10) La revolución y las almas. una recolección. sus compañeros de esclavitud.

para (re)crear una historia. la magnitud de su empresa. sus más sublimes proporciones (la vertiente hispánica de la cultura occidental y latina) (4). su más calificado blasón. ‘la ventura de todo afán justiciero’ y ‘el sabor de “jugarse por entero”’. Una figura emblemática ha llamado nuestra atención. estas identidades. un rosario de heroísmos. nuestra . unidad de origen. este sentido primario de la justicia (11). un patrimonio cultural acumulado durante siglos (16). iguales a ella en su esencia y naturaleza (3). valores y creencias. el signo de una auténtica misión (2). Perón cierra el discurso haciendo una exhortación que no podíamos dejar de traer: Como miembros de la comunidad occidental no podemos sustraernos a un problema que. una empresa universal. acaso resignado. tan noble tronco (1). distintas a la madre en su forma y apariencia. el ascetismo y la espiritualidad. el éxito de nuestra política exterior (idealista. más que nunca. una comunidad de ideas e ideales. fecunda. interpretada como destino. la mejor ejecutora de la raza. marcados por el signo de una misión cristiana. empresa universal. la verdadera unidad espiritual de los pueblos hispanos. isla de paz (1). la patria. su obra civilizadora. de sacrificios y de ejemplares renunciamientos. nos referimos a la curiosa designación ‘quijotes de nuestras pampas’ (1) en la que se condensan la figura del Quijote y la del gaucho para predicar los rasgos en común valorizados: ‘el riesgo por el bien’. civilizadora. el ideal hispánico-ascético. ARGENTINA: coheredera de la espiritualidad hispánica. LA HISPANIDAD: el heroísmo y la nobleza.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 187 ESPAÑA: la Patria Madre. nuestro origen y nuestro destino. estoico. vínculos de idioma. su empresa. una herencia inmortal (4). debe resucitar don Quijote y abrirse el sepulcro del Cid Campeador. unidad de cultura y unidad de destino. una suma de imponderables. magnífico aporte a la cultura occidental. eterna. su maternal regazo.…el más puro y elevado. la más prodigiosa acumulación de incitaciones ideales (9). un afán pacifista. que bajo determinada coyuntura se proyecta para un presente y un futuro y así hacer frente a las grandes transformaciones sociales en el panorama mundial de aquella época. la flor de la caballería. nuestro sello personal indefinible e inconfundible. su gloriosa trayectoria histórica. por esta grandiosidad y por esta fuerza. de historia. quijotesca) (13). los valores espirituales. lo español. la riqueza espiritual. su sangre. la universalidad de lo español (9). nuevo Prometeo. un estilo de vida (2). el sentimiento patriótico español (11). de cultura. sus hijas (3). valor incorporado y absorbido por nuestra cultura. ya los oponentes son considerados utilitaristas. la armonía de su lengua (4). Hoy. la ascética grandeza ibérica y cristiana (5). Una vez más nos deparamos con un ámbito semántico difícil de delimitar. puede derrumbar un patrimonio espiritual acumulado durante siglos. el pensamiento inspirador de sus grandes estadistas (12). En varios momentos hay como una superposición entre los valores adjudicados a los diversos objetos de discurso. esta imposición del destino (5). la pasión patriótica. única en el mundo. la levadura de su sangre. de religión. ese orbe espiritual. la más prodigiosa acumulación de incitaciones ideales. LA LENGUA: el idioma más hermoso de la tierra (2). Esta hispanidad se alinea al espiritualismo. Se rescatan fragmentos del pasado de España. de no resolverlo con acierto. la madre España. los pueblos de la hispanidad. el sentido misional de la cultura hispánica. LA RAZA: algo puramente espiritual. los únicos valores eternos (10).… un desbordamiento de pasión. esta filiación (4).

htm (última consulta realizada el 25/06/2012). (2001): Significação –Da História ao nome Israel e Palestina na Folha de S. 15-43. En: GOMES. www. Taisir M. KARIM. En: anclajes XIII. Luciana Quillet (2007): O devoir de mémoire na França contemporânea: entre memória. Hirotaka (2005): Estado–nación y fiesta nacional. Salvador. São Paulo : Librería Española e Hispanoamericana . Actas del XI Congreso Brasileño de Profesores de Español. Disponible en: http://www7a. 2007. Maria C. Em: Sociedade e Discurso. . Denise Bottman. TATEISHI. DAHER. Consulta realizada el 26/01/2012.ne. PUC-SP. podríamos decir que desacraliza una visión de lengua monolítica que se ajustaba a esa formación ideológica. La fiesta del 12 de octubre parece haber servido de pasquín para una determinada coyuntura histórica y política.jp/~hirotate/ hiro-es/art-hiro/hiro-4. F. GONZÁLEZ. fiesta imperial. JULIÁ. que se aparta de la definición genérica dada por el diccionario7. Cagliari: Arxiu de Tradicions . 129-144. legislação e direitos. 59-71).com/diario/ 1990/07/19/internacional/648338411_850215.biglobe. Jornal El País. Tese de doutorado em Lingüística Aplicada ao ensino de línguas. En: XI Congreso Brasileño de Profesores de Español. a partir de la segunda mitad del siglo XX. Trad.pdf. a cura di Joan Armangué i Herrero. 19-7-1990. Tateishi (2005) especifica más aún y afirma que “(la hispanidad) era un concepto íntimamente ligado al nacional-catolicismo del régimen franquista”. São Paulo: Companhia das Letras.Casa del Lector. se observan marcas lingüísticas de un movimiento político-cultural que surge a fines del siglo XIX bajo el signo del conservadorismo (GLOZMAN. HEYMANN.): Direitos e cidadania –memória. FOUCAULT. SP: Parábola. Mario Miguel (2005): Hispanidad e Hispanismo para profesores brasileños de Español. MT: Unemat. En consonancia con González (2005). 4ta ed. 2-8. p. 2 da reimpressão.educacion. 2008) y que rescata valores vigentes en la Castilla del siglo XV. Benedict (2011): Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. GLOZMAN. noción que puede ser confundida con la de hispanismo y con la que mantiene parentescos. p. (2000): Discursos presidenciais de 1o de maio: a trajetória de uma prática discursiva. Michel ([1969]1995): A Arqueologia do Saber. En definitiva. El advenimiento del multiculturalismo. Disponible en: http://elpais. pp. Mara (2008). política e cultura. Campinas. Santos (1990): Vieja nación. história. discursos. Referencias bibliográficas MAINGUENEAU.es/exterior/br/ es/publicaciones/XI_congreso. G.188 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Consideraciones finales Estas primeras aproximaciones se mostraron muy productivas por revelar los valores adjudicados en aquella época a la noción de hispanidad. Cáceres. Paulo. Dominique (2008): Gênese dos ANDERSON. São Paulo: Pontes. Rio de Janeiro: FGV. Angela de Castro (coord. Rio de Janeiro: Forense Universitária. p. La Academia Argentina de Letras y el peronismo (1946-1956). .html (consulta realizada el 08/04/2012). En: Oralità e Memoria.

tau.htm Consultado el 6/4/2012. 2 Biblioteca del Congreso de la Nación. ministros. don Arturo Marasso. etc. carpeta No 11.gov.boletinoficial. aclarando que faltan los subtítulos (1) y (8). Conjunto y comunidad de los pueblos hispánicos.: 1. 3 4 www. 5 6 http://www. También alertamos que en otros sitios investigados el pronunciamiento figura incompleto y sin aclaraciones.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 189 Notas 1 Título provisorio de la tesis: Discursos oficiales del 12 de octubre: ¿Raza. Departamento Colecciones Especiales.ac. Además discursaron el señor presidente de la Academia Argentina de Letras. Perón. miembros del Cuerpo Diplomático y Consular. Carácter genérico de todos los pueblos de lengua y cultura hispánica. Daher –UFF. . G. http://cvc. 7 Diccionario de la Lengua Española (RAE).htm. Dada la extensión del discurso no lo presentamos en anexo.il/eial/I_1/rein. don Carlos Ibarguren y el Académico de Número. enviados especiales. 22da ed. Se encontraban también presentes el embajador de España. académicos.es/literatura/quijote_america/argentina/ ibarguren. Para su versión completa remitimos al lector al sitio del Centro Virtual Cervantes. Discursos Gral. 2. representantes de instituciones culturales y universitarias. Juan D. sin los contenidos de los subtítulos (6) al (15). 1947.cervantes. Consulta realizada el 28/1/2012.ar Consultado el 26/01/12. Hispanidad o Resistencia indígena? Orientadora: Dra Maria Del Carmen F.

190 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS SUBORDINADAS TEMPORAIS E FINAIS EM PORTUGUÊS E ESPANHOL: QUESTÕES DE CONTRASTE E EFEITOS PARA A TRADUÇÃO Bruna Macedo de Oliveira 1 PG . p. 1996). seria verificar como tais 1 Introdução A partir da observação de um corpus de traduções de receitas feitas por treze aprendizes brasileiros de espanhol como língua estrangeira (E/ LE). considerando a noção de “naturalidade” como aquelas “coisas que de fato são ditas numa dada área de uma dada língua ou variante linguística” (TAGNIN. 2 As subordinadas adverbiais temporais: comparações entre “quando/cuando” e “até/hasta” . buscamos sistematizar. mas não somente. na Gramática descriptiva de la lengua española (BOSQUE. principal. em ambas as línguas. e nas orações subordinadas adverbiais finais. as informações normativodescritivas levantadas para o português e para o espanhol. Isso fazia com que o produto das traduções desses sujeitos soasse. para o espanhol. O primeiro passo no sentido de comprovar essa intuição. 315). fundamentalmente nas chamadas orações subordinadas adverbiais temporais. com “quando/cuando” e “até/hasta”. na Gramática de usos do português (NEVES. DEMONTE. intuitivamente. pouco natural. com “para/ para”. de uma perspectiva gramatical. constatamos uma grande proximidade entre o texto meta e o texto fonte. 2000) e em Construcciones temporales (MARTÍNEZ GARCÍA. TEIXEIRA. 2004.Universidade de São Paulo estudo se desviavam do padrão de frequência normal de seleção de infinitivos ou subjuntivos dessas construções em português. para o português. par tindo de alguns casos que serão analisados em nossa pesquisa de mestrado e com base em gramáticas e trabalhos que abordam tais estruturas. de forma comparada. 2003) e na Gramática descritiva do português (PERINI. No presente estudo. no que se refere à seleção dos tempos e modos verbais que se seguiam a essas estruturas. 1998) e. que as construções utilizadas naquele orações são descritas.

(1) Quand o ferver. fornecendo-nos informações sobre o momento em que começa e/ou termina o evento verbal. de modo que. García Fernández (2000. aparecem com indicativo se designam eventos factuais (passados. segundo a qual não existiria um. (5b) Juan no llegó hasta las tres. As orações introduzidas por “ cuando ” em língua espanhola se comportam de maneira análoga ao restante das orações temporais. como em (5a)) e outro de lo localização p o nt ual (que situaria o momento em que o evento ntual ocorre. quando o referido na oração principal se orienta ao futuro. (4b) Sove bem a massa até dar o ponto. só será possível na subordinada o uso do imperfeito do subjuntivo (2a) ou do presente (2b): (2a) Junto con la patata cortada echamos el pimentón y cuando estuviera sofrito echamos el agua. mas dois tipos de “hasta”: at i v o (que apontaria o limite final de um um d ur urat ati calização intervalo. “a análise das construções temporais pode ser representada pela análise das orações iniciadas pela conjunção ‘quando’”. espa espaciais presente a ideia de um limite. um ponto final cujo início se pressupõe. suas condições de concordância são distintas das dos demais tempos e as intuições dos sujeitos sobre quando utilizá-lo são muito menos seguras do que para os outros tempos verbais. como em (5b)). ou seja. como indica Martínez García (1996. podendo ou não aparecer flexionados. desligue e deixe esfriar. (4a) É um caminho progressivo até chegar ao pódio olímpico. No caso da preposição “até”. A preposição “ hasta ” também se constitui como um nexo de tipo delimitativo. na subordinada em língua espanhola. Em língua portuguesa. se o que se pretende é uma expressão de eventualidade. segundo Perini (1998). pois. constituído por uma oração principal (nuclear ou matriz) e uma temporal que tem o papel de situar ou delimitar cronologicamente o evento da oração principal (PÉREZ SALDANYA.3198-3199) explica que há uma segunda hipótese relativa a esse conector em língua espanhola. “quando” será acompanhado de futuro do subjuntivo (1)2. 2000). (2b) Cuando enfríe. . Diferentemente do que acontece em língua portuguesa.38). ao contrário do infinitivo impessoal existente nas línguas românticas. Um fator importante. no que se refere ao infinitivo flexionado. de acordo com Neves (2003. Contudo. presentes ou habituais) e com subjuntivo quando se referem a contextos posteriores e não factuais. de acordo com Perini. Ilari et al (2008) explicam que se localiza entre as menos gramaticalizadas do português. é que. é um caso especial existente apenas em língua portuguesa. p. a presença de formas verbais futuras. (5a) Juan se quedó hasta las tres. por ser ela uma das mais produtivas em língua portuguesa. (3) Junte a cebola e o alho e cozinhe até estarem macios. p. extraer la rama de vainilla. O infinitivo flexionado. em que está ciais (4a)3 e t e mp mpo tipos. A preposição “até” estabelece relações de dois o r ais (4b). especialmente na correlação temporal do modo indicativo. Quando segundo a concordância estabelecida em cada caso. Esse conector admite verbos tanto no modo finito quanto na forma infinitiva. p. apresenta um sujeito e possui flexões de número e pessoa (3). o conector “ cuando ” não admite.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 191 A oração subordinada adverbial temporal compõe um período composto. em geral.787).

192 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS García Fernández destaca que tal proposta não estaria livre de problemas. (6a) Cantó la escena final de Salomé hasta perder totalmente su voz. a finalidade do pensamento contido na sentença matriz”. os animais foram a serem/ser colocados um a um em canoas par para levados até o cativeiro natural. (8) Leve(suj1) ao fogo par a que as batatas(suj2) fiquem para bem douradinhas. o infinitivo flexionado. Entretanto. (7b) No me habló hasta no haber llegado al teatro. ambos extraídos de Neves (2003: 886). as orações adverbiais constituem exemplos de orações construídas com indicativo e subjuntivo. Castilho (2010) explica que. a flexão para indicar o sujeito da final é desnecessária (NEVES. o que comprovaria a dupla natureza. caso em que é mais comum o infinitivo aparecer flexionado. (9) Na base em Maranguape. (11) Comprou oito hectares(obj. como se nota em (7a e 7b). subdividir a própria a melhor apreendermos a sua contabilidade.201). esse não seria o caso das orações finais.501). podem construir-se: i) com sujeito idêntico ao da (6b) *Cantó la escena final de Salomé hasta bajar al mercado. de uma forma geral. não existiria a mesma restrição. 2003. p. o objetivo. embora haja dois pontos a seu favor. par para finalidade e avaliarmos a sua extrema importância na administração.886-887). par para subordinada tiver o mesmo referente de qualquer outro membro da oração principal. (7a) No pararé hasta no haberlo conseguido. em que ambas as sentenças são gramaticais. e ii) com sujeito distinto do da oração principal. como dispõe o referido autor (ibidem. mas sim se houvesse dois. por outro lado. direto) em Arraial do a servir de base à criação de gigas. 3 As o r ações s ub o r dina das finais: o caso d e or sub ubo dinadas de “par a/p ar a” para/ ara (10) Convém. Segundo Neves (2003. No caso de “hasta ” pontual. Tal diferença. No entanto. que só se constroem com subjuntivo ou com a preposição “para” seguida de infinitivo. p.3. p.889): Como havíamos assinalado ao tratar da temporal com “até”. caso em que o infinitivo pode ou não. atualmente. Em casos como (6b). quando o sujeito da oração Da mesma forma que as temporais podem ser representadas por “quando”. “expressam a intenção. para fazer a concordância com o respectivo sujeito (10). p. por suas . Na presença de “ hasta ” durativo. O primeiro diria respeito ao fato de que alguns gramáticos observaram que essa preposição não se comporta da mesma forma em contextos afirmativos e negativos. as orações finais introduzidas pela preposição “para” seguida de “que” e um verbo no subjuntivo (modo finito) são aquelas que apresentam um sujeito distinto da oração principal (8). essa possibilidade se limita a alguns casos nos quais há uma relação de consequência entre a oração subordinada e a principal (6a). não encontra explicação natural se considerarmos a existência de um só “hasta”. tal relação não está prevista. As orações formadas pela preposição “para” seguidas de verbo em infinitivo. oração principal. para concordar com seu sujeito. aparecer flexionado (9). as finais encontram sua representante máxima na preposição “para”. O segundo baseia-se na possibilidade de que dito elemento seja seguido por uma oração de infinitivo. Cabo. segundo Bechara (1999. Essas orações são formadas por uma oração principal (nuclear ou matriz) e uma oração final que.

p. que a correferência se dê entre os sujeitos. adver biais cir c u n s t a n c i a s (13). cuja realização. se a opção se der em favor da primeira. como (17).3308). . aparecer em contextos sem agente. Para Cunha e Cintra (2001). Essa afirmação é corroborada por Galán Rodríguez (2000.209) nas orações finais.3629). ao explicar que é desnecessário. e subjuntivo quando os agentes não sejam os mesmos (16). p. mais optativa do que obrigatória. em tais orações. ara (16) Juana canta p ar a que nos alegremos.3621) assinala que os traços semânticos que exprimem a finalidade têm um claro reflexo sintático. seja porque não diz respeito a nenhum sujeito concreto. as orações finais podem ser de dois tipos. p. nos quais se referem à ideia de objetivo como utilidade. Galán Rodríguez (2000. se chegar a ser produzida. Galán Rodríguez (2000. em muitos casos. seja porque o sujeito da oração subordinada coincide com um argumento da principal. p.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 193 características bastante particulares. e as que têm r basicame nt ec o nse cu t i vo . o infinitivo flexionado. p. p. utilizar-se-á obrigatoriamente infinitivo quando os sujeitos têm o mesmo referente (15). mas um objetivo. ocupa um lugar marginalizado na sintaxe de nossa língua. Neves (ibidem) explica que.3625) expõe que as orações finais foram incluídas nas chamadas adverbiais circunstanciais em razão de que a finalidade expressa por elas enuncia uma circunstância. (14) Par a dizer a verdade. do ponto de vista do nível em que estão construídas. segundo Pérez Saldanya (2000. apesar de não contarem com advérbio. de acordo com Pérez Saldanya (2000. Existem. a oração subordinada geralmente aparece em infinitivo. ou p u r a s s. um evento virtual. e i i ) as que rc e modificam o próprio ato linguístico. dois tipos de orações finais: as propriamente ditas. a d v e r b iais d de e n unciação (14): ( 1 3 ) Esboçou um movimento p a r a seguíssemos em frente. Porto Dapena (1991. a rascar y cortar las (18) Este tipo de azada sirve p ar ara malas yerbas.3310). será necessariamente posterior ao designado pela oração principal. distinguidos de acordo com seu comportamento sintático: i ) as que ligam o conteúdo proposicional da oração principal. ambos os exemplos extraídos de García (1996. será utilizado o infinitivo não flexionado e se a opção se der em favor do segundo. como expõe Perini (1998). p. que indicam o propósito ou a intenção pela qual um agente realiza o evento expresso na oração principal. de forma que o (17) Esta cuerda servirá p ar a mantener sujeto el ara paquete. um v alo alor basicament nte co nsecu cut Com relação aos tempos e modos verbais que acompanham as finais.74). Embora as possibilidades de manifestação do fenômeno dependam de traços semânticos e sintáticos do verbo principal.209-210) acrescenta que há situações em que o infinitivo será utilizado mesmo quando os sujeitos das duas orações não forem os mesmos. mas a um sujeito genérico ou indeterminado. como (19). de maneira que. (15) Juana canta p ar a alegrarse. não sei o que se passa na ara cabeça do Rei. Nesses casos. Segundo Porto Dapena (1991. Para a língua espanhola. como em (18). exemplos como (11) mostram que a escolha pela forma flexionada ou não do infinitivo é. ara O uso do subjuntivo neste caso justifica-se pelo traço de intencionalidade que marca a oração subordinada final e porque esta não exprime nenhum fato. As orações finais podem ainda. que p. essa eleição depende da evidência dada à ação ou a seu agente.

utiliza-se um verbo na forma pessoal. a alternância entre infinitivo e um verbo na forma finita pode ser modificada. como em (21) 4 . 4 Orações subordinadas adverbiais temporais e finais estudadas: contrastes e efeitos para a tradução Tomaremos. Quando o verbo da oração principal está no imperativo. a mandarla hoy / p ar (25) Escribe la carta p ar a que ara ara la mandes hoy. . aquelas informações que dizem respeito. ( 2 0 ) Llama a la enfermera p a r a levantarte ra (enfermera-tú). (24) Haz los deberes p ar a que mañana no te riña el ara profesor. poderá ocorrer com agentes idênticos (22)5 . há duas possibilidades para o emprego de verbos nas construções temporais iniciadas por “cuando”: o de imperfeito do subjuntivo e o presente do subjuntivo. As estruturas com “até/hasta” encontradas em o r al e poderiam receitas exprimem uma relação t e mp mpo ser classificadas. No caso das finais com “para/ para ”. segundo tipologia trazida à luz por at i vo . em alguns casos. o complemento direto é suscetível de ser correferencial com o sujeito do infinitivo (23) (GARCÍA. pudemos observar que no uso moderno da língua espanhola. Nas receitas. no gênero receita. ‘“ ara yo) a la feria. Se os sujeitos não são correferenciais. Nas situações em que o verbo apresentar um complemento direto referido a pessoas. (21) Esto servirá p ar a que nos dejen en paz durante ara una temporada. e i v) a oração de <para que + subjuntivo> denota a atitude do falante (GALÁN RODRÍGUEZ. já que é García Fernández. essas construções poderiam ser identificadas como de tipo (22) Los corresponsales fueron convocados a una a que informasen correctamente rueda de prensa p ar ara a sus agencias y periódicos.75). enfatizamos principalmente as tipologias adotadas em cada uma das línguas. (19) Le presté (suj. O modo subjuntivo. Não obstante. para realizar a mesma relação de sentido. em especial quando: i) o verbo principal é passivo. iii) o verbo principal está modalizado. embora se entenda como uma ação que alguém realizará. em que a ação da oração dependente só se cumprirá se a ação contida na principal também realizar-se. estaria previsto com “quanto”.194 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS agente que executa a ação pode manifestar-se em um complemento direto ou indireto. principalmente. o futuro do subjuntivo. como de tipo d ur urat ati evidente nelas a ideia de consequência entre as duas orações. aos casos que serão objeto de estudo em nossa pesquisa.3634). p. p. a situação geral também sofre ligeira alteração. ii) os sujeitos designam entidades inanimadas e não aparece na oração principal um agente explícito. de maneira geral. com subjuntivo (24). aparecerá nas situações em que há dois agentes distintos. Isso ocorre porque. 2000. Em língua portuguesa. como (20). além do sujeito do verbo (no caso de este ser também o agente). neste item. = yo) mi coche p ar a ir (suj. 1996. (23) Los jefes lo enviaron a Madrid p ar a hacer unas ara gestiones. para indicar eventos orientados ao futuro. tanto o infinitivo quanto a forma pessoal (ambos em 25) são possíveis. A partir da comparação efetuada. se há correferência entre os sujeitos. diretamente. em que não se pode considerar a final como de tipo “pura” por não haver um sujeito pessoal (+humano) na oração principal.

Numa breve observação de um corpus de receitas coletadas da internet e escritas originalmente nas duas línguas. devido à possibilidade de não concordância (não flexão) com o sujeito. (27). Não se constatou o mesmo comportamento nessas estruturas em língua espanhola: encontramos. em língua portuguesa. apesar de o infinitivo ser possível nas duas línguas em caso de correferencialidade com outros (28b) Embrulhe as batatas em papel alumínio e le v e ao forno par a assar(em) por cerca de 1 hora. Parece existir. são seguidas de infinitivo. em língua portuguesa. (28a) Vá virando os cubinhos conforme vão a q ue fiquem com um dourado por dourando par para igual. (26) Par a conseguir una textura más delicada. (28c) Prepárala en un gran molde cuadrado y córtala a tener unos deliciosos pasteles. Observamos ainda que a grande maioria das construções finais com “para” (89% do total) e das temporais com “até” (80% do total). em língua portuguesa. o que pode corroborar a afirmação de Perini (1998) sobre a insegurança dos falantes com relação ao emprego dessa estrutura. parece ser mais provável quando o sujeito da primeira oração se mantém na oração dependente. 33% dos casos seguidos de infinitivo e com “hasta”. em que fica clara a característica semântica de agentividade e prospectividade. abordada por Pérez Saldanya. Esta última hipótese. com predomínio de correferencialidade com o objeto direto. correferencialidade com qualquer dos termos da principal. sem agente ou com um sujeito e de v alo alor co nsecu cut não humano. um leque um pouco mais abrangente que o verificado em língua espanhola. rc onse cu t i vo . podemos supor que vo cê leva o sujeito de “levar” é o mesmo de “assar” (v ao forno para v o cê assar). Em língua espanhola. A circunstancial as divisão entre finais pur puras as. (26). será eletiva. com “para”. as subordinadas finais com “para” parecem funcionar de maneira análoga às temporais com “até”. pode configurar-se como um importante parâmetro de análise na classificação das orações finais das receitas de nosso corpus. por exemplo. Embora esta pareça ser uma hipótese estranha. algumas mais e outras menos frequentes em seu uso. não resulta pouco incomum. com agente humano. em língua portuguesa. No gênero receita. ou que há dois sujeitos distintos e a correferência se dá entre o objeto direto da oração principal (as batatas) e o sujeito da final (as batatas). Com base no cotejo gramatical aqui realizado. en porciones. Embora seu uso esteja igualmente previsto quando haja . p ar ara 5 Considerações finais (27) El aceite sirve p ar a que no se peguen las láminas ara de lasaña. quanto com infinitivo. só 2% do total de orações eram seguidas de infinitivo flexionado. para o uso de infinitivo e subjuntivo nas estruturas subordinadas com um caráter prospectivo. lo ara podemos pasar por el pasapurés. lev para Em (28b). podemos dizer que parece haver.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 195 cir cunstancial (segundo classificação de Neves). quando for possível a correferência com qualquer um dos termos. verificamos que. já que ambas podem ser construídas tanto com presente de subjuntivo (28a). em geral. não parece ser possível utilizar infinitivo nas subordinadas finais em todos os casos indicados para a língua portuguesa. seja ele flexionado ou não (28b). Isso pode evidenciar a natureza flutuante do infinitivo em português. como em (28c). apenas 18%. Esses dados podem indicar que. especialmente nos casos de “até/hasta” e “para/para”. três possíveis escolhas na tradução para língua portuguesa.

E. nos textos finais por eles traduzidos.. comparar o que neles encontrarmos com as descrições gramaticais efetuadas e. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. BECHARA. Madrid: Espasa.. houve predominância de estruturas com subjuntivo. (2000): La Subordinación Causal y Final. agora. p. T. 884-893. 338-381. L. p. 3129-3207. H. tanto nas temporais com “até” como nas finais com “para”. no que se refere ao emprego de infinitivos. nem sempre parecem coincidir nas duas línguas e no gênero tratado e. e se haverá diferenças significativas no uso dessa forma nominal nas estruturas com “até/hasta” e “para/para”. Vol. V. Madrid: Arco/Libros. 787-801. I. II. Gramática Descriptiva de la Lengua Española. 3621-3642. 37. 2. Rio de Janeiro: Lucerna. São Paulo: Contexto. (1996): Las expresiones causales y finales. Resta-nos. R. (1996): Construcciones temporales. H. Assim. 760-763. M. (2010): Nova Gramática do Português Brasileiro. CASTILHO. p. V. Os dados das traduções dos aprendizes referidos na introdução parecem ir na contramão dos números iniciais obtidos nos corpora de receitas escritas em português. C. poderemos observar como (e se) nossos sujeitos farão uso de todas essas possibilidades que. Classes de palavras e processo de construção. e ampl. já que. DEMONTE. Vol. ILARI R. 2. F.196 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS termos da oração principal. 3253-3318. Em: BOSQUE. M. Madrid: Arco/Libros. a distribuição desses usos não ocorra numa mesma medida. CUNHA. GALÁN RODRÍGUEZ. por fim.) Gramática do português culto falado no Brasil. et al. (2000): Los complementos adverbiales temporales. Em: BOSQUE. A. realizar um tratamento mais acurado desses corpora de receitas. 3. CINTRA. p. DEMONTE. apesar de semelhantes em determinados casos. DEMONTE. Vol. Em: BOSQUE. rev. Campinas: Editora da UNICAMP. NEVES. p. NEVES. realizar um cotejo de ambas as análises com o produto das traduções que serão feitas por outros estudantes brasileiros de E/LE. L. I. Em: ILARI. (orgs.. V. mais detidamente. (2000): El modo en las subordinadas relativas y adverbiales. São Paulo: Editora UNESP. C. I. M. GARCÍA FERNÁNDEZ. (2008): A preposição. H. L. como se dá nesse gênero e na tradução a questão da correferencialidade nas duas línguas. (2001): Nova gramática do português contemporâneo. PÉREZ SALDANYA. Gramática Descriptiva de la Lengua Española. p. dos quais apresentamos aqui apenas uns poucos dados quantitativos.) Gramática Descriptiva de la Lengua Española. como ocorria no texto fonte. ed. La subordinación temporal. MARTÍNEZ GARCÍA.. M. (dir. M. S.. Madrid: Espasa. (1999): Moderna gramática portuguesa. V. Madrid: Espasa. Referências bibliográficas . (2003): Gramática de usos do português. GARCÍA.

J. foram extraídos de receitas culinárias obtidas em sites (brasileiros e espanhóis) da Internet. São Paulo. S.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 197 PERINI. A. . sempre que não especificada outra fonte.310). PORTO DAPENA. Notas 1 2 Bolsista Fapesp. 292-297. Os exemplos a seguir.unb. Exemplo extraído de Porto Dapena (1991.. p. Madrid: Arco/Libros. p. 10. M. v. TAGNIN. p. A. O.br/campusonline/esportes/item/2329-brasilienses-rumo-aop%C3%B3dio-ol%C3%ADmpico 4 5 Exemplo extraído de Pérez Saldanya (2000. E. p.3. TEIXEIRA. 3 Exemplo extraído de http://www. E. FFLCH/USP. 199-206.125-179. (2004): Linguística de Corpus e Tradução Técnica – Relato da montagem de um corpus multivarietal de culinária. (1991): Del indicativo al subjuntivo: valores y usos de los modos del verbo. (1998): Gramática descritiva do português. São Paulo: Ática.209). 313-358.fac. Em: TradTerm.

Essas questões devem ser inevitavelmente abordadas no ensino.UFF De uma forma geral. a identidade está intimamente relacionada a sistemas simbólicos e sempre assumimos uma posição. mas que há anos vem sedo estudado por diversas áreas do conhecimento. estabelecendo significados e nos posicionando na sociedade. ao reconhecer a sua identidade. etnográficos.” (Woorward. A autora afirma isso ao dizer: “É por meio dos significados produzidos pelas representações que damos sentido à nossa experiência e àquilo que somos. (Silva. no ensino de . a pesquisa propõe-se a analisar como é abordada a identidade nacional brasileira nos livros didáticos. Isso quer dizer que “ser brasileiro” entende-se não se enquadrar em outras identidades que apoiamse em nacionalidades. Baseando-se no discurso de Hall (2000). 2011. em que o “ser brasileiro” não tem nenhum referente natural ou fixo. mesmo sem darnos conta. […]. 80) Ao conceituar identidade. Ela só tem sentido em relação com uma cadeia de significação formada por outras identidades nacionais que. naturais ou predeterminadas. por exemplo. pois uma já pressupõe outra. segundo Silva (2011): A identidade “ser brasileiro” não pode. Para Woorward (2000). Isso quer dizer que a identidade está presente e qualquer tipo de relação (principalmente nas de poder). ser compreendida fora de um processo de produção simbólica e discursiva. Para isso é importante levar em conta que o termo identidade apresenta uma definição complexa. é importante ressaltar que a identidade nacional pode pautar-se sob diversos princípios: sociais. p. em diferentes épocas do ensino de Espanhol. o sujeito. Entendendo-se que a identidade está intimamente relacionada à diferença. A identidade “brasileiro”. não pode-se deixar de focalizar a importância que as relações de poder têm para no seu processo de formação. não é um absoluto que exista anteriormente à linguagem e fora dela. Além disso. reconhecerá também o outro. geográficos. Bruna Maria Silva Silvério PG . pressupõe um referente antagônico a ela. Ainda. políticos. onde há sempre a dicotomia entre o incluído e o excluído. 2000). para citar alguns.198 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS O TEMA TRANSVERSAL DA PLURALIDADE CULTURAL E SUA RECONFIGURAÇÃO NOS LDS DE LÍNGUA ESPANHOLA. como deixa bem claro Silva (2000). prioritariamente. todo processo que gera significados está envolvido com relações de poder. tampouco são fixas. por sua vez.

Com relação ao corpus do trabalho. uma vez que esta é parte constitutiva da cultura de um povo ou nação. A coleção mais atual. mas também representa uma esperança de que o Espanhol seja mais difundido entre as escolas. em suas próprias palavras.201) O presente trabalho propõe analisar três coleções de livros didáticos destinados ao Ensino Fundamental. que reflete um reconhecimento do papel que esse componente curricular tem na formação dos estudantes. o momento não é só de ingresso das disciplinas de língua estrangeira no Programa do FNDE para a escolha dos livros didádicos para o ensino público básico. pode-se dizer que o LD tem grande importância na aprendizagem da língua estrangeira. segunda ela. 2004) e Saludos (MARTIN. e sim pelo que os outros. de um momento importante na história do ensino de LEM nas escolas públicas brasileiras. “é possível afirmar que as representações que fazemos do estrangeiro e as representações que o estrangeiro faz de nós atravessam. No caso específico de Espanhol. Embora tenha sido lançada anteriormente. uma ampliação do número de escolas que oferecem essa língua. o sentimento de identidade subjetiva. Em suma. “fica definido para o componente curricular de Língua Estrangeira o atendimento a partir do PNLD 2011. Já que há pouco tempo que foi estabelecida a obrigatoriedade de oferta desta disciplina para o ensino fundamental e médio. ano em que foi inserido o componente curricular Língua Estrangeira Moderna. em seu ar tigo “A celebração do outro na constituição da identidade” (2003). os estrangeiros acham que somos. a universalização da distribuição dos livros de Espanhol e Inglês significa um avanço na qualidade do ensino público brasileiro. apenas no edital de 2011. a autora defende que o sujeito é formado pelas concepções e impressões do outro. através da Resolução nº 3 de 11 de janeiro de 2008. 2010).ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 199 língua. no que dispõe sobre a execução do PNLD. referentes a diferentes épocas de ensino de Língua Espanhola: Vamos a hablar (JIMÉNEZ e CÁCERES. Com base nessas questões da identidade brasileiro.” (Coracini. para os anos finais do ensino fundamental” (Diário Oficial da União. Língua Estrangeira (inglês e espanhol) passa a integrar a lista de disciplinas contempladas pelo PNLD. 2010) Isto é. a coleção foi reformulada para participar da seleção do Programa Nacional do Livro Didático –PNLD 2011 e será essa a edição analisada. 14 de janeiro de 2008). Depois de dez anos da criação do Programa. Segundo Coracini. Ou seja. com livros de inglês ou espanhol. portanto. de Língua Estrangeira Moderna. Ou seja. além de . (MEC/SEB. 1990). em uma sociedade essencialmente pluricultural1 é importante que haja uma uma educação também focada na interculturalidade. no sentido de que se assume a posição de existência de “culturas”. p. respeitando as diferenças sem estabelecer uma organização hierárquica entre elas. No Guia de Livros Didáticos – PNLD 2011. 2003. de modo constitutivo. já que esta também está subordinadas às relações de poder. 2010). social e nacional. o ser brasileiro não é consituído por como nos vemos. Saludos (MARTIN. foi um dos livros aprovados pelo PNLD de 2011. pois. ao assumir uma visão da psicanálise lacaniana. encontra-se a seguinte consideração: Trata-se. Dessa forma. Como afirma Paraquett. que é. a interrelação ativa de várias culturas que vivem em um mesmo espaço geográfico. Arriba (CALLEGARI e RINALDI. pode-se afirmar que o ensino de língua estrangeira deve vincular-se à noção de cultura. também. considerando que sua inclusão no ensino público é um fato recente. esse momento pode significar.

naturais ou predeterminadas. não é um absoluto que exista anteriormente à linguagem e fora dela. cuja manifestação mais evidente na aula de língua estrangeira seja a cultura diferente da sua. o aluno. compreende-se que os LDs têm a função de formar um cidadão crítico. estamos submetidos a sistemas simbólicos e assumimos uma posição na sociedade mesmo sem dar-nos conta. uma representação simbolica: “É por meio dos significados produzidos pelas representações que damos sentido à nossa experiência e àquilo que somos. como propõe os PCNs (BRASIL/SEF. isto é. por sua vez. não pode-se deixar de focalizar a importância que as relações de poder têm para no seu processo de formação. Isso quer dizer que “ser brasileiro” entende-se não se enquadrar em outras identidades que apoiam-se em nacionalidades. 2011. já que esta também está subordinadas às relações de poder.200 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS apresentar um suporte a conteúdos abordados em sala de aula. advêm de relações de poder e das vastas possibilidades de relações nos permeiam: […] a identidade marca o encontro de nosso passado com as relações sociais. nessa visão. . como deixa bem claro o autor. p. 1998). Levando isso em conta. Isso significa que a construção de uma determinada identidade depende de um símbolo. segundo Silva (2011): A identidade “ser brasileiro” não pode. pode ser considerado um dos principais formadores de opinião do aluno acerca dos aspectos sociais e culturais da língua. em que o “ser brasileiro” não tem nenhum referente natural ou fixo. (RUTHERFORD. 1990 apud Woodward. Sistemas simbólicos porque a identidade é marcada por meio de símbolos. para citar alguns. 19) De acordo com a visão de Silva (2011). políticos. Além disso. Ela só tem sentido em relação com uma cadeia de significação formada por outras identidades nacionais que. Baseando-se no discurso de Hall. 80) A relevância das questões identitárias no ensino de língua Cultura e identidade são assuntos que vêm sendo discutidos há muito tempo e abrangem os estudos de diversas áreas. Além disso. Enquanto sujeitos.” (Woorward. (Silva. Isso se dá a partir da visão socio-interacional da língua e da aprendizagem. A identidade “brasileiro”. Essas questões devem ser inevitavelmente abordadas no ensino. entende-se que ele deve também ter a preocupação de inserir o aluno na sociedade em que vive como cidadão crítico e que seja capaz de reconhecer-se como participante da diversidade cultural de sua nação. até porque está intimamente ligada a práticas de significaões que Ao conceituar identidade. no ensino de língua. de que tais conceitos são inerentes a qualquer pessoa e a qualquer relação. Dessa forma. todo processo que gera significados está envolvido com relações de poder. p. que se posicione e que saiba aceitar e respeitar o outro. essa construção identitária também tem uma base social. por exemplo. onde há sempre a dicotomia entre o incluído e o excluído. ser compreendida fora de um processo de produção simbólica e discursiva. é importante ressaltar que a identidade nacional pode pautar-se sob diversos princípios: sociais. deve posicionar-se de forma autônoma como uma função de sua cidadania plena. […]. 2011. a partir da aprendizagem de língua estrangeira. Isso se deve ao fato. geográficos. prioritariamente. como afirma ainda a autora. baseando-se em Woorward (2011). Ainda. culturais e econômicas nas quais vivemos agora […] a identidade é a interseção de nossas vidas cotidianas comas relações econômicas e políticas de subordinação e dominação. 2011) Além de depender do símbolo. tampouco são fixas. etnográficos. pressupõe um referente antagônico a ela. uma não se consolida sem a outra. identidade e diferença estão intimamente imbricadas em uma relação interdependente.

“devemos ter uma ideia partilhada sobre aquilo que a constitui. em seu livro Identidade e Diferença (2011). Assim. Aqui fica bem claro que o estabelecimento de uma identidade depende da diferença. a resposta a tal pergunta tem dependência também na ideia do que fazemos do que é ser brasileiro. sempre é considerado o “normal”. p. portanto. interessado na inserção do aluno como cidadão participante dos processos de constituição e significação da identidade e da diferença. 2006) desenvolvimento da pesquisa pode basear-se na pergunta o que é ser brasileiro?.83) Essa relação de desigualdade identitária também precisa tomar um lugar no ensino de língua: “A pedagogia e o currículo deveriam ser capazes de oferecer oportunidades para que as crianças e os/as jovens desenvolvessem capacidades de crítica e questionamento dos sistemas e das formas dominantes de representação da identidade e da diferença. normalmente o mais superior. p. já que não é possível ter contato com todas as pessoas que fazem parte da nossa identidade nacional. 2000. destacando-se o “anormal”. criticar e questioná-lo: Uma política pedagógica e curricular da identidade e da diferença tem a obrigação de ir além das benevolentes declarações de boa vontade para com a diferença. No espaço heterogêneo em que vive. p. questionador dos sistemas de representação de identidades existentes em seu entorno e. Woodward (2000). o aluno deve ser capaz não só de entender essa diversidade como um produto. o ser brasileiro não é consituído por como Dessa forma. deve .” (Silva. a atividade pedagógica se dá entre sujeitos. (Silva.24) Silva. Isso significa que um será sempre mais privilegiado que outro. Entendo.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 201 Uma questão importante para o comprometer-se com a proposta de formação de um sujeito crítico.” (Silva. o estranho: “A força homogeneizadora da identidade normal é diretamente proporcional à sua invisibilidade. afirma que a identidade e. pois são a partir delas que as pessoas assumem determinadas posições. também tem grande base no que acreditamos ser. Ainda. Essa posição diz respeito a uma intersubjetividade inconsciente.(Neves. 2000. faz com que ela se torne invisível. compreender o processo em que se dá o estabelecimento das identidades. consequentemente. já que o encontro com o outro (incluindo o espaço social da escola) é inevitável. por exemplo – pode-se afirmar que identidade. que embora também intermediada pelos métodos e pelos materiais adotados. 2000. relacionada a uma identidade. além de ser dependente do passado histórico e das relações sociais de poder. por não terem o mesmo papel perante a sociedade. principalmente quando se trata de um país plural como o Brasil. a diferença devem integrar o currículo pedagógico. assumindo uma visão dicotômica da identidade e diferença – onde sempre existe um “eu” ou “nós” e “o outro” ou “os outros” – os dois lados nunca terão o mesmo peso. até pensando na diversidade do nosso país – o “ser brasileiro’ pode mudar de acordo com cada região do país. um dos lados. bem como o material e o livro didático utilizados. entende-se que um currículo pedagógico. que põe em jogo as contradições da constituição histórica dos sujeitos. mas questionála. Mas sim. como afirma. a depender de um sistema de classifições onde diversos fatores estão envolvidos.” (Silva. como aquilo que existe e que devemos apenas entender e respeitar. Ela tem que colocar no seu centro uma teroria que permita não simplesmente reconhecer e celebrar a diferença e identidade. 100) A identidade de um povo e a sua cultura formam-se através de diferenças. Ou seja. 91 e 92) Segundo Coracini. p. A normalidade. essencialmente. Também. do país em que vive. Apesar de ser uma pergunta difícil de ser respondida. Entende-se que mais do que aprender o código e suas funções na outra língua. o falante toma outra posição subjetiva. em seu ar tigo “A celebração do outro na constituição da identidade” (2003). 2000. através de elos sociais.

R. Simone (2004): ¡Arriba!. para que exista uma identidade nacional. J. social e nacional. Impresso). CORACINI. a autora defende que o sujeito é formado pelas concepções e impressões do outro. Disponível em: www. LARAIA. Catarata. Campinas. o sentimento de identidade subjetiva.M (2009): Pluralidade Cultural nos Parâmetros Curriculares Nacionais: uma diversidade de vozes. de modo constitutivo. São Paulo: Moderna. FREITAS. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 201) É através desse dizer alheio que constroi-se o imaginário de pertencimento de uma nação. Ed. M. In: Políticas de integração curricular. é que sustenta a nossa identidade: “o que somos e o que pensamos ver está carregado do dizer alheio. ao entrar em contato com uma língua estrangeira. O sujeito por si só é heterogêneo e. (1992): Estética da criação verbal. 373-392. p. L.doc HALL. . 35. Ou seja. 17. dizer que nos precede ou que precede nossa consciência e que herdamos. Organização Liv Sovik. “é possível afirmar que as representações que fazemos do estrangeiro e as representações que o estrangeiro faz de nós atravessam. M. em suas próprias palavras. F. Carlos (2003): Pluralismo.] 1ª edição atualizada – Belo Horizonte: Editora UFMG. A. Revista Organon. Tradução Adelaine La Guardia Resende [et al. sem saber como nem porquê. e CÁCERES.” (Coracini.A.com/ revista/impresa/8estudios/texto_cgimenez. Referências bibliográficas BAKHTIN. LOPES. UERJ. memória e identidade. P. é preciso que o outro dê a sua existência. e sim pelo que os outros. p. n.br/organon/article/view/30024 COLECTIVO AMANI (1994): Educación Intercultural: Análisis y resolución de conflictos. VARGENS. _____ (2003): “A celebração do outro na constituição da identidade”.201) Ainda. (1990): Vamos a hablar: curso de lengua española. GIMÉNEZ ROMERO. CALLEGARI. In: Educación y futuro: revista de investigación aplicada y experiencias educativas. RJ: Ed.202 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS nos vemos. Roque de Barros (2009): Cultura: um conceito antropológico. BRASIL/SEF (1998): Parâmetros curriculares nacionais : terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental: língua estrangeira.cesdonbosco. In: Linguagem & Ensino (UCPel. Dessa forma. 2003. pois uma língua sempre traz com ela outras identidades. As característica que são atribuídas a nós brasileiros.8. São Paulo: Editora Ática.. Disponível em: http://seer. Stuart (2009): Da diáspora: identidades e mediações culturais. p. n. multiculturalismo e interculturalidad. Sempre que se aprende uma nova língua há um processo de formação da identidade. JIMÉNEZ. novas formas de organização do pensamento e novas imagens do outro. São Paulo: Martins Fontes.P. ao assumir uma visão da psicanálise lacaniana. 12. de nossos antepassados ou daqueles que parecem não deixar rastros. os estrangeiros acham que somos. por exemplo. D. E segundo Coracini (2007) essas novas vozes se entremeiam no incosciente do sujeito aprendiz.M.” (Coracini.ufrgs. v. M. SP: Mercado das Letras. Marília Vasques e RINALDI. e nos tornamos singulares diante do estrangeiro. essa heterogeidade se complexifica. V.C (2008): O livro didático na política de currículo para o ensino médio. 2003. Brasília: MEC/SEF. abrindo novas formas de ver o mundo. (2007): A celebração do outro: arquivo.

R (2004): Cultura.). S. Marcia (2010): Multiculturalismo.). São Paulo: Editora Ática. M. Nota 1 a autora entende esse conceito como a co-presença de várias culturas. Stuart Hall. SILVA. P. Tomaz Tadeu da (org. R (2010): Saludos – curso de lengua española. interculturalismo e ensino/aprendizagem de espanhol para brasileiros.(Biblioteca freiriana. Secretaria de Educação Básica. Brasília: Ministério da Educação. RJ: Vozes. multiculturalismo e currículo intercultural.9). G. v. PADILHA. (org. I. .) e COSTA. Petrópolis. Kathryn MARTIN.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 203 PARAQUET T. In: Currículo intertranscultural: novos itinerários para a educação / SP: Cortez: Intituto Paulo Freire . (org. ressaltando as diferenças. In: BARROS. E. Woordward (2000): Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. C.

essa sobreposição de textos. Nesses tempos. sem. Genette. alusões. Diante de tal grandiosidade (sem um livro sequer igual ao outro. epígrafes. surge a lenda del Hombre de Libro. transpassam e oferecem sentidos aos textos.204 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS O POLICIALESCO NA FIGURA DE AMALFITANO Bruna Tella Guerra PG . eram reutilizados. que conheceria um tomo com a súmula perfeita de todos os outros. contudo. de um livro B os resquícios de um A. enfim. e. dividido em partes geometricamente semelhantes. ad infinitum. até a possível obtenção do objetivo. uma empreitada ilimitada (assumindo a dimensão da própria Biblioteca). para isso. é a transtextualidade. intertítulos. esses “rastros”. que passam a almejar a justificativa de suas próprias existências através do entendimento da Biblioteca. comentários. sua compreensão tornase um desafio aos seres humanos. Mais que isso. Essa característica. estabelecer relações de sentido. imitações. Nele. nos links textuais estabelecidos entre um texto e outro(s). essa questão abrange muito mais do que a noção comum de intertextualidade. de Jorge Luis Borges. entre outros elementos que tangenciam.Unicamp Uma característica essencial da Literatura é a transcendência textual. e assim. é tido como infinito. da coletânea Ficciones. Definida por Gerard Genette (1997) como transtextualidade. . Não existe sequer um texto que não seja transtextual. o objeto da poética estaria justamente nessa transcendência. eliminar inteiramente o que havia sido escrito antes. é descrita uma biblioteca que é comparada ao Universo. pergaminhos utilizados antes da invenção do papel e que. Tal local. No sentido figurado. é abordada no conto “La Biblioteca de Babel” . Exemplos disso são os títulos. transformações. empresta a figura dos palimpsestos (antes usada por Philippe Lejeune). inclusive. A procura por tal bibliotecário anônimo e pelo resumo de todo o acervo geram uma ânsia de busca retrospectiva: em um livro C poderiam ser encontradas pistas de um livro B. seus limites. apesar dos limitados caracteres de uma língua). após terem suas inscrições apagadas. mas todas as maneiras pelas quais um texto pode ultrapassar suas “barreiras”.

podemos nos atentar a outro ponto importante da literatura bolañeana: geralmente sob forma de paratextos. hiperbólicos: há recorrência de personagens.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 205 Uma das tantas possíveis interpretações do conto que a procura pelo livro súmula traz à tona é a questão da transtextualidade.) e estruturas comuns (crime – investigações – desvendamento do crime). de James Joyce. Outros casos de transcendência textual interna são o deserto de Sonora. ganha um folhetim no qual é o protagonista. assumindo que esta. etc. Os links dentro de seus próprios textos são intensos. raciocínio lógico. É quase uma obviedade. “Los detectives perdidos”. sentidos e links dentro da obra de um mesmo autor. ainda. Roberto Bolaño nos dá pistas sobre um aspecto ao qual podemos considerar ao lermos seus textos. sejam eles poemas. investigações. O premiado e famigerado Los detectives salvajes é um dos exemplos. retoma a vida de um dos principais heterônimos de Fernando Pessoa. há também a transtextualidade “interna”. é um retorno moderno da Odisseia . teríamos um tipo de transtextualidade a qual poderíamos chamar de “externa”. Uma intenção interpretativa: as pistas de Bolaño Aliado ao projeto estético transtextual. Um exemplo é o personagem Arturo Belano. Mais . que é o detetivesco. então. contos ou narrativas longas. Tomemos como modelo o personagem Quincas Borba. de José Saramago. que após aparecer roubando o relógio de Brás Cubas em Memórias Póstumas. que ganhou o apreço bolañeano” nos leva a inferir que essa característica faz parte do próprio projeto estético do autor. Os textos de Roberto Bolaño não apresentam enredos que se enquadram na literatura policial tradicional. A construção desse linkado “mundo coerente e plausível torna-se essa ideia quando tomamos nota de que em entrevista a Dunia Gras Miravet para a revista Cuadernos Hispanoamericanos. uma representante rigorosa da transtextualidade interna é a obra de Roberto Bolaño. desaparecimentos. Apesar desses textos trazerem a mesma figura no nome. ou que O Ano da Morte de Ricardo Reis. Não são poucos seus títulos e intertítulos que contemplam a figura do detetive. pistas. apresenta elementos constantes (assassinatos. fronteira de México e Estados Unidos. Bolaño afirmou que sua poesia e sua prosa pertencem a um mesmo projeto estético. por exemplo. No que reside. A busca por um autor “desaparecido” também ocorre por mais de uma vez: em Los detectives salvajes e 2666. apresentando a imagem do detetive como intitulação do texto geral da narrativa e como intertítulo da segunda parte do livro. estabelecida por Edgar Allan Poe e Arthur Conan Doyle. ambos locais que aparecem constantemente nos textos de Bolaño. de Machado de Assis. Nos finais do século XX e início do XXI. Entretanto. que Ulysses. tornando claro que encontrar “rastros” e sentidos de um texto em outro é inerente à Literatura. bem como a cidade de Santa Teresa. aquela que apresenta referências. o detetivesco em Bolaño? Uma das soluções possíveis para essa questão reside no fato de que o gênero policial. os poemas “Los detectives”. da coletânea Putas asesinas. espaços e ações. porque estabelece sentidos com obras de outros autores. Há ainda outros exemplos pertencentes a coletâneas de textos e somente sob forma de intertítulos: o conto “Detectives” de Llamadas telefónicas. Nesses casos. têm estruturas distintas e não contêm casos policiais aos moldes Sherlock Holmes. Ignácio Echevarría. afirma em Nota Editorial que seria Belano o narrador de 2666. “Los detectives helados” de Los perros románticos. um dos protagonistas de Los detectives salvajes e também do conto “Fotos”.

por exemplo. chileno. acabando por adquirir um sentido enigmático: quem é o policial? Quais seus dissabores? A contracapa da edição da Editora Anagrama traz uma citação de Roberto Bolaño (sem referência). informações que obtemos em Los sinsabores del verdadero policía são. dividido em cinco partes supostamente que o torna o próprio detetive. passou. ainda que participe com maior ou menor frequência nas outras. Em El Túnel (1948). as pistas são inconclusas. apesar de o enredo também não mostrar nenhuma narrativa policial tradicional. que teria dito que el verdadero policía é o leitor tentando ordenar incansavelmente a trama. diferentes daquelas de 2666 . Devido a isso. podem haver outras tentativas de identificação do aspecto detetivesco. também com uma divisão de cinco partes. então. A pesquisa acadêmica independentes. Além de entendermos o leitor como detetive. muitas pistas “escapam por entre nossos dedos”. Amalfitano. buscas e mistérios. sendo ele. e. nomes e ações. conhecemos o assassino já no primeiro parágrafo. praticamente descartada. em meados do século XX a assumir um caráter diferente. nem mesmo . e seus leitores procuram encontrar sentidos e relações em vão. em séries televisivas e filmes). O movimento feito em La Biblioteca de Babel para buscar um sentido da vida ou da existência da Biblioteca. Isso nos mostra uma completa inversão da conhecida ordenação dos fatos e do foco narrativo da literatura policial. eles acabam assumindo um sentido figurado que encadeam alguns questionamentos: 1) Quem são os detetives dos textos bolañeanos? 2) Por que são referidos dessa maneira? 3) Qual o sentido decorrente dessa escolha? algum personagem literalmente detetive ou da polícia. Bolaño constrói um mundo ficcional. mas os títulos temáticos que trazem a questão policialesca. como assassinatos. sua estrutura. Nesse caso. que permeia mais de um texto de Roberto Bolaño. Esse tipo de leitura é perfeitamente possível para a obra bolañeana no geral. não conhecemos por completo nada que nos é apresentado. O fato de ser professor universitário é a primeira característica desse personagem que poderia assemelhar-se ao detetivesco. diante de tantas informações.206 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS do público (mostrando-se até hoje na literatura. A precisão lógica de Auguste Dupin é. apesar de estar longe de ser um Holmes. é um professor universitário. a transtextualidade se dá pela percepção de um leitor que utiliza o paradigma indiciário para encontrar possíveis relações e estabelecer sentidos. por exemplo. O outro livro chama-se Los sinsabores del verdadero policía. sem necessariamente um estar ligado ao outro. inclusive. então. Os textos de Bolaño são mais difusos ainda: apresentam elementos típicos desse tipo de narrativa. Este último apresenta o mesmo caso de intitulação que remete ao policialesco. sentimentos e características de Amalfitano. que em certo momento sofre demissão da Universidad de Barcelona e muda-se para o México. as histórias não se fecham. o narrador da história. onde começa a trabalhar na Universidad de Santa Teresa. O que nos leva a fazer relações da literatura de Bolaño com o aspecto detetivesco não é. na maioria das vezes. No caso de Amalfitano. o Amalfitano e detetivesco: relações Um dos personagens sobre o qual podemos pensar a respeito dessas questões é Amalfitano. de Ernesto Sabato. apontando para o próprio projeto estético transtextual. sendo que três delas abordam ações. sendo que Amalfitano tem uma só para si: “La parte de Amalfitano”. Ele aparece em dois livros póstumos: um deles é 2666. ocorre também em Bolaño na tentativa de encontrar significações e relações.

ocorrendo também em “ La parte de los críticos” (também do 2666 ). Por fim. por certos episódios de mistério impossíveis de serem resolvidos em sua objetividade. acabam refletindo sobre a vida. Amalfitano passa. a resolução de um problema descarta qualquer raciocínio lógico. que são citados diversas vezes em “La parte de Amalfitano”. Esse aspecto nos permite alastrar interpretações de um texto para outros. sobre questões da existência. um escritor “desaparecido” que não é encontrado por eles. através de uma visão eurocêntrica da exoticidade da América Latina. porém. que ganharão uma das parte de 2666: “La parte de los crímenes” e serão abordados também em Los sinsabores del verdadero policía. O intelectual latino-americano. A imagem detetivesca do professor universitário é recorrente em Bolaño. Nesse mesmo sentido de indefinição. de 2666. renderia um relato policial de primeira magnitude. muito menos de tê-lo colocado nas caixas de mudança. Para Amalfitano. região marginal do globo (como toda a América Latina). que nunca oferece soluções definitivas. Outro episódio é o de “la voz”. onde questões inexplicáveis estariam passíveis de ocorrer.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 207 segue pistas. faz inferências e estabelece conclusões a respeito de seus objetos de estudo. . não lembrando-se de ter comprado tal livro. ocorrendo das mais variadas formas. para que ele sofresse as intempéries e aprendesse. uma vez que todos parecem ser “retalhos de uma mesma colcha”. inconclusas. em que quatro professores universitários viajam em busca de Archimboldi. Não se sabe se tal voz é a consciência de Amalfitano. um elemento que representaria o ponto de partida de uma narrativa policial tradicional ocorre como “pano de fundo” das ações de Amalfitano: os assassinatos de mulheres de Santa Teresa. enfim. As buscas são frustradas e as pistas. Nesse momento. mas nada é concluído. Essa última interpretação estaria em consonância com a apatia de Bolaño por alguns autores que compuseramo boom da Literatura hispano-americana na década de 1960. Um deles acontece quando Amalfitano está desencaixotando os livros que havia selecionado durante a mudança de Barcelona para Santa Teresa. Amalfitano decide pendurar o livro de geometria no varal do quintal. nas ideias de Duchamp. local no qual. Conclusão É possível percebermos que a estética transtextual de Roberto Bolaño acaba por criar um “mundo bolañeano”. uma voz que Amalfitano escuta e com a qual conversa. é resvalado à margem através da figura de Amalfitano: mandado para o México. que seriam um oásis de horror em meio ao tédio de Amalfitano (caso quisermos oferecer uma interpretação à epígrafe baudelaireana de 2666). então. de Rafael Dieste e. no México. quatro coisas sobre a vida. porém. Juntos. no qual há uma “dança” entre textos. uma vez que parece apresentar conflitos com a questão sexual (Amalfitano assume-se homossexual depois de adulto) ou uma vivência mística que ironizaria o realismo mágico. segundo um personagem de “La parte de Fate”. distanciando-se do tipo de investigação feita pelos tradicionais detetives. esses casos não parecem ter significativa importância em sua vida. O professor depara-se com um chamado Testamento geometrico. acaba por ficar intrigado. Baseado. para uma cidade fronteiriça entre México e Estados Unidos. tal qual a pesquisa em Literatura. nem mesmo de ter estado na cidade da livraria na qual ele havia sido comercializado.

fragmentos. Referências bibliográficas BOLAÑO. parecem ser descritas. Entrevistador) Cuadernos Hispanoamericanos. 265).) Lincoln: University of Nebraska Press.. imágenes que contenían en sí toda la orfandad del mundo. G. Trad. utilizamos como exemplo a questão detetivesca. Madrid: Alianza Editorial. enfim. a busca incansável por pistas e a possibilidade de relacionar elementos que aparecem com frequência. Doubinsky. (D. então. Esta.) que todo lo que había visto en el extrarradio de Santa Teresa y em la misma ciudad. . que pensa “(. BOLAÑO. GENETTE. Barcelona: Editorial Anagrama. (oct de 2000): Entrevista con Roberto Bolaño. L. R. Reflexão esta que parece ser uma metonímia de sua própria obra.208 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Aqui. por uma reflexão de Amalfitano sobre Santa Teresa. (2011): Los sinsabores del verdadero policía. fragmentos. BORGES. (2009): Ficciones. A estética de Bolaño permite. imágenes sin asidero. contos ou poemas. MIRAVET. servindo também de respaldo para a interpretação do recidivante personagem Amalfitano. Barcelona: Editorial Anagrama.” (p. presente objetivamente em títulos de livros. (2011): 2666. (1997): Palimpsests: literature in second degree. N. (C. A incompletude dessas investigações e a infinita busca proporcionada pelo caráter de La Biblioteca de Babel. BOLAÑO. R. J. R. G..

Para ello se parte de los postulados de Theo Van Leeuwen los cuales se remiten a los diferentes sistemas de designación discursiva que hacen alusión a los actores sociales como medio de representación. p. Así. De esta manera. .no responde necesariamente a una perspectiva objetiva. se elige el periódico El Tiempo por su alto índice de lecturabilidad en Colombia y porque además está en sintonía directa con las políticas gubernamentales de turno. en primer lugar. by reference to their person or their utterance. en el segundo. y en segundo lugar. para el autor. and without thereby also privileging the context or contexts in which one or the other tends to occur as more normative than others (VAN LEEUWEEN. en palabras del autor: How can ´Sayers´ be represented –impersonally or personally. Para el primer mecanismo. en par ticular el periódico El Tiempo. la construcción de los actores se hace principalmente a través de los mecanismos de inclusión y exclusión. etc. la exclusión. que para el caso de este trabajo. 33). del interés por estudiar la capacidad de los medios masivos para erigirse como instancias sociales fundamentales en los procesos de construcción del consenso.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 209 ¿BACRIM O PARAMILITARISMO? ANÁLISIS DE LA CONCEPCIÓN DE PARAMILITARISMO EN COLOMBIA EN EL PERÍODO 2002-2006 A TRAVÉS DE LA PRENSA ESCRITA Camilo Ramírez Rodríguez Corporación Universitaria Minuto de Dios Adriana Yamile Suárez Reina Universidad Libre El abordaje que desde la prensa se hace a los paramilitares como actores sociales que influyen en la sociedad colombiana -pues detentan un poder y tienen un objetivo claro de acción. razón por la cual este trabajo pretende analizar cómo la prensa escrita. individually or collectivety. dicha representación se configura a partir de la omisión total o parcial de los sujetos. –without privileging any of these choices as more ´literal´ than others. aluden a la consolidación del “deber ser” del concepto de paramilitarismo en el escenario de la prensa escrita. Metodológicamente. 1996. El análisis de estos dos mecanismos permite rastrear formas conscientes e inconscientes de legitimar intereses ideológicos en el discurso. La motivación de este análisis parte. se selecciona un corpus en relación con los siguientes criterios: 1. se remite a modos explícitos de enunciar a los actores. representa el concepto de paramilitarismo en Colombia durante los años 2002 al 2006. porque se hace necesario reconocer las connotaciones de dicho consenso bajo el supuesto de que los medios responden a los intereses propios de determinadas estructuras de poder.

autónomo del Estado pero sin confrontarlo. 2. y se convierte en un problema: Sus más lúcidos dirigentes aspiraron a configurar un proyecto contrainsurgente civil. La necesidad de realizar una intervención militar. por una parte. se recurre a la estrategia de atenuar las características negativas del actor. Bajo esta situación. No obstante. se recrudecieron los ataques armados y. De este modo. presidente entrante era establecer un diálogo y buscar una posible desmovilización de dichos grupos. Lo que se busca a través de estas categorías textuales es analizar el porqué de dicha ausencia o presencia. el paramilitarismo se concibe entonces como un proyecto paralelo al Estado que comparte un objetivo en común: las guerrillas. el corpus resultante fue de cinco (5) editoriales de cada uno de los años que abarcan el periodo estudiado. De acuerdo con lo anterior. 3. De allí. por su parte. ya que la exclusión es un indicador de que algo debe ser controlado. este problema se da en términos 2002 – 2003: El fracaso de un “proyecto político” En los primeros meses del año 2002 se generó un clima de tensión pues. a apelar a la justicia privada y hasta a confabularse con el narcotráfico para defender su vida y sus intereses ante el acoso de la guerrilla. así como en la debilidad del Estado colombiano para Construcción. básicamente. situación concebida por Van Leeuwen como sobredeterminación por desviación. Ellos sencillamente se independizaron de sus progenitores y ahora esquilman a todo el mundo (I) No obstante. el diario . En primera instancia. de alcance nacional. Pertenecer a la tipología textual de editorial puesto que representa la línea de pensamiento del diario. Así. pues el Estado los dejó desamparados (II). Cabe destacar que este trabajo no se basa sencillamente en abordar la exclusión o la inclusión de los actores. algunos editoriales sugerían que el reto para el de la “ilegalidad” de su accionar pero se concibe como “un mal necesario” en relación con la guerrilla: Losparasi son la máxima expresión de la debilidad territorial del Estado: sectores de la sociedad civil han tenido que recurrir a apoyar la sedición. afrontar tales acciones. y la inclusión. gracias a la categoría de activación. el diario El Tiempo representa a los paramilitares como un actor con unas condiciones bastante particulares a través del mecanismo de inclusión.210 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Referenciar al paramilitarismo en tanto actor del conflicto armado colombiano. porque estaba comprometida con acabar el problema de los grupos al margen de la ley. Haber sido publicado entre los años 2002 al 2006. por otro. dicho proyecto se les sale de las manos tanto a sus líderes como al Estado. el diario caracteriza a los paramilitares como poseedores de un proyecto político que se basa en contrarrestar el avance y la acción de las guerrillas. se avecinaban unas elecciones presidenciales que se alimentaron de la idea de ahondar en la confrontación militar como única vía para resolver dicho conflicto. propició que la propuesta presidencial de Álvaro Uribe “Primero Colombia” tuviera éxito. señala que es necesario adherirse a las ideas presentadas. tras los primeros acercamientos entre el gobierno y los paramilitares. reduciendo el análisis a su aparición o a su ausencia. es decir. difusión y ocultamiento del concepto de paramilitarismo A continuación se presentarán los resultados fruto del estudio del corpus mencionado anteriormente. […] los paras se han vuelto un factor de inseguridad. incluso para quienes en un primer momento los promovieron con la ilusión de brindarse protección frente a la guerrilla.

la intervención de este país se restringe al provecho que pueda sacar de la situación. Esta situación conlleva ambigüedad pues se da una justificación o valoración benéfica de dicho grupo: “PDS. es mucho más complejo y exigente. el proceso no pinta bien (VI). De otro lado. en conjunto con la minimización del actor y sus acciones realizada por el diario. Por tanto. Adicionalmente. el “fracaso” del proyecto político paramilitar y su posible desmovilización fue el éxito político del gobierno Uribe: la idea de reelección. Como se puede apreciar. promotores de desarrollo social en los barrios”. que así sería más dura que nunca…” (VII). En este periodo. el Gobierno podría estar frente a un nuevo traspié: el fracaso de las conversaciones con los grupos paramilitares con vistas a su desmovilización. la situación del discurso combativo se utiliza como trampolín para la futura reelección ya que. “simples pandilleros”. es mejor tener siete milparasi en armas que tener diez mil. las negociaciones son calificadas desde el diario como “empantanadas” y la responsabilidad de este impase recae únicamente en el gobierno: Luego del fracaso del Referendo. El diario hace uso de la estrategia de activación para poner en el ojo del huracán al gobierno y su aparente poca voluntad de diálogo. como diría Maturana. dicha ley genera una fuerte polémica que divide la opinión pública ya que pasar del “dicho al hecho” no es tan fácil como inicialmente se creía. “Boy scouts que han aprendido a hacer la guerra en los últimos meses” (III). lo encuadran como un ente con el cual se puede dialogar. Tras los primeros diálogos y algunas “desmovilizaciones” se plantea una Ley de Alternatividad a través de la cual se negociará el . disminuye la responsabilidad correspondiente a los paramilitares con la estrategia de beneficialización. sino las características de sus acciones. situación expresa de los Estados Unidos: Lo de Estados Unidos. presenta el diario. una posible intervención externa no enfrenta el fenómeno paramilitar sino que lo toca 2004: Desmovilización: un problema “Porque. sin importarle los crímenes cometidos por los paramilitares en Colombia. En esa medida. desmonte total del paramilitarismo. entre otras.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 211 cambia no sólo la nominación del actor. para dar un golpe sustantivo al narcotráfico… (VII). asimismo. El éxito de dichos diálogos fortalece la credibilidad en el gobierno del presidente Uribe: “Sin duda. Las primeras desmovilizaciones de miembros de los paramilitares. se mantiene la ambigüedad en relación con la caracterización del actor paramilitar. la dejación de armas constituye un éxito político para el Gobierno en su política de Seguridad Democrática. Sin embargo. ya que a través de la categoría de la exclusión parcial se cataloga de “más dura” la tarea del gobierno frente a las guerrillas sin el “apoyo” que brindaban los grupos paramilitares: “pues la lucha contra las Farc. A pesar de la insistencia de algunos de estos grupos en realizar hechos demostrativos de su intención de desmovilizarse. Pero sin olvidar tampoco que para muchos es mejor tener alguna seguridad que no tener ninguna. que fortalecerá la confianza ciudadana en el Gobierno y el prestigio del presidente Álvaro Uribe Vélez” (V). en cuatro años no es posible realizar un proceso de desmovilización y lo que menos se quiere es incurrir en los errores de los gobiernos pasados: “Muy probablemente la promesa oficial de desarticularlos completamente antes de terminar la actual administración no se pueda cumplir” (IV).” (II) tangencialmente. por supuesto. pero muy pragmático. Su verdadero y único interés es aprovechar las expectativas de un desarme paramilitar y el poder intimidatorio de la extradición. se cuestionan las posibles solicitudes de extradición. “Grupo antigurrillero”.

y la poca efectividad del Estado frente a un conflicto en dos frentes: 2005 . el proceso de desmovilización de los paramilitares no se consagra a una deidad católica de manera directa. se insinúa en una sola editorial. […] Los paramilitares están hoy más fuertes que nunca y sus posibilidades de perduración y expansión hacia el futuro son prácticamente ilimitadas. Aquí se invocan nuevamente las voces de la cultura: “el . y no a través de la justicia. Esto podría coincidir con una reactivación del accionar armado de la guerrilla. sino que por el contrario se concibe dicho proceso desde una “justicia” confesional. La redención a la cual se hace alusión en las líneas anteriores se presenta en los editoriales a través del apoyo a la Ley 975 de 2005 o Ley de Justicia y Paz. Aquí. aun cuando también más bajo que el que anhelan los paramilitares” (VIII). Dicha consagración. Una intervención externa sería no solo la piedra en el zapato para el proceso. En épocas más recientes. Los argumentos esgrimidos son la capacidad de su poder militar. y entonces tendríamos un escenario catastrófico: un Estado precario atacado simultáneamente por dos ejércitos irregulares. sirvió para que finalizara este cruento episodio. como la referenciada en los editoriales de los años 2005 y 2006. En dicha falacia se apela a la minimización de la influencia de organismos internacionales que están interesados en que este proceso no quede en la impunidad. en medio de un proceso electoral decisivo.212 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS De otro lado. parece que se reviviera una parte de la historia.el hecho de que la guerrilla posiblemente retome el poder. La paz también es un acto de soberanía (VIII).2006: Colombia. En esa misma dirección. sino que también traería como consecuencia –implícita. tal como reza el adagio popular: “el que peca y reza empata”. según cuentan los ciudadanos de la época. para llegar a un acuerdo de paz tal vez el nivel de perdón tendría que ser más alto que el que finalmente otorgará la Ley. en efecto. Lo que es más real es la posibilidad de la perpetuación y el agravamiento de la guerra en Colombia si no se desmovilizan pronto los paramilitares con un acuerdo nacional inspirado en el principio de la paz como valor supremo. podrían actuar como una fuerza desestabilizadora y atacar violentamente instituciones y políticas del Gobierno. esto en razón a que a la paz se llega a través de la redención. en varios editoriales se reitera que es mejor aceptar dicha ley antes de una posible reacción violenta de los paramilitares. Este documento es calificado en el diario como “lo mejor” que se podría lograr en esta coyuntura a pesar de lo que sus opositores afirman: “Y. el recrudecimiento de los ataques por parte de la guerrilla. incluso por encima de la justicia. el país del Sagrado Corazón: ¿una “justicia” confesional? Colombia fue consagrada en época de la guerra de los mil días al cuidado del Sagrado Corazón. aun cuando Pero mañana. a través del uso de la exclusión parcial. para presionar una negociación en condiciones más favorables. cómo dicho proceso puede incurrir en la impunidad. (VIII) Otro de los argumentos que sustentan la “confesionalidad” de la justicia se basa en la falacia de la autonomía del Estado colombiano. Para justificar la viabilidad de la ley se hace uso del contraste: “ni las Farc ni el Eln aceptarán dicha ley por considerarla demasiado dura para ellos. Un ejemplo de ello es cuando se cuestiona el valor institucional de la Corte Penal Internacional como ente de justicia: La Corte Penal Internacional no es el irresistible y omnipotente ángel vengador que nos pintan. pero automáticamente subvierte esta apreciación a través de un cuestionamiento implícito en sus líneas: si se buscara una paz definitiva la disposición de “perdón” debe ser mayor ¿Qué estamos dispuestos a dar por una paz definitiva? ¿Cuál es su costo? simultáneamente la estimen demasiado blanda para los paramilitares” (IX).

pues se dice que estas nuevas “manifestaciones criminales” no comparten el mismo objetivo del gobierno. . Aquí la estrategia es utilizar la exclusión parcial en razón a que no se puede hablar de paramilitarismo ya que este concluyó en el proceso de desmovilización de sus miembros.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 213 enemigo de tu enemigo es tu amigo” y la ley debe tratarlo como tal. Adicionalmente. así como también hace eco del proceso que pretende sustentar su impunidad. En el periodo estudiado se evidencia cómo la representación del actor justifica las políticas del Estado y legitima la violencia que este órgano ejerce en defensa de la comunidad. se encuentran: la asignación del rol para mostrar a dicho actor como poseedor de una “estructura política” -aunque problemática-. atentan contra las instituciones estatales. se justifica disimuladamente la acción paramilitar bajo la idea del “mal necesario”. se resalta entonces la necesidad de un diálogo a cualquier precio a partir del miedo. aunque imperfecta. las instituciones estatales” (x) Consideraciones finales El anterior análisis relacionado con el concepto de paramilitarismo presentado por el diario El Tiempo permite establecer los mecanismos a través de los cuales la representación del fenómeno es de difícil identificación y atenúa la importancia de abordar dicha problemática. Por otra parte. el problema ahora es que es de difícil identificación. los editoriales del año 2006 se enfrentan a la diatriba de mencionar o no al paramilitarismo. En esa misma línea. se conceptualiza el fenómeno al afirmar que para concebir un grupo como paramilitar es porque dicho grupo tiene nexos con el Estado: La diferencia central entre estas nuevas manifestaciones criminales y los grupos paramilitares es que su enemigo ya no son solo los grupos guerrilleros o sus bases de apoyo social y político. este instrumento jamás contestó al interrogante del ¿Por qué no reconocer que hay conflicto armado? El simple hecho de analizarlo implicaría revisar la noción de justicia. basado en acciones hechas pero presentadas como hipotéticas en un futuro próximo. Asimismo. el paramilitarismo desde su forma nominal no existe. y por el contrar io. Al hacer un acercamiento para resolver la situación legal de esa “estructura social” se visualiza una posibilidad política para el Estado de sacarle partido al conflicto. Además. Así. que a su vez conforma una “estructura social” -descompuesta. Así. se da cuenta de dos ejes particulares: las estrategias empleadas para velar el fenómeno y la validación del proceso de impunidad. sino que ahora. se utiliza una disociación por contraste. la beneficialización se utiliza para destacar ese potencial bélico del que disponen los paramilitares. sino. Ahora bien. pero como fenómeno estructural endémico de la sociedad colombiana sí. igualmente. como lo afirma el mismo diario-. enquistada. No obstante. Respecto a las estrategias. funcionó como mecanismo para que miles de paramilitares se desmovilizaran. el uso recurrente de contrastes ambiguos normalmente entre los paramilitares y la guerrilla no deja una posición clar a. la Ley de Justicia y Paz. Sin embargo. se alude al fenómeno paramilitar con los términos “desmovilizados” o “no desmovilizados” de acuerdo con la favorabilidad o no respecto a la Ley de Justicia y Paz. verdad y reparación que hasta el momento no se han cumplido. se hace uso de la categorización al poner en el mismo racero a aquellos que pertenecieron a grupos paramilitares y no se desmovilizaron y al delincuente común. Posterior a la aplicación de dicha ley.

1989. la prensa al caracterizar al actor por su nombre determina su identidad. Fernández afirma: La retórica bélica tiene como finalidad explicar razones. El Tiempo. Es más. Al respecto. su impunidad. y se propicia. El Tiempo. oculta no solo un nombre sino un discurso que busca la impunidad. En esa medida. London: Routledge. ahora ya no existe el problema. El Tiempo emplea esta retórica bélica al evadir la responsabilidad de utilizar la nominación del fenómeno paramilitar como tal. 4 de octubre de 2004. 2 de agosto de 2002. pero cuando no hay actor – porque es elidido. 24 de noviembre de 2003. The representation of social actors. 4 de julio de 2003 III. T. No maduros para el perdón. Texts and practices. El Tiempo. Desmovilización de autodefensas. IV. El Tiempo. El pantano paramilitar. VI. In C. El Tiempo.es difícil identificar quién es el responsable de los hechos violentos. El Tiempo. al difundir el desvanecimiento de la categoría “paramilitar”. El Tiempo. VAN LEEUWEN. El Tiempo. VII.). La desmovilización de los paramilitares. El ralito y mi abuela. 189) Referencias bibliográficas FERNÁNDEZ. 8 de abril de 2005. Madrid: Editorial Cátedra. Caldas-Coulthard & M. & SIERRA.224 . 189 . F. Readings in Critical Discourse Analysis. 5 de junio de 2006. el proceso de significación de este discurso se configura a partir de unas condiciones de producción específicas que están determinadas por la filiación del medio con la ideología que proclama el gobierno de la época a través del uso de la retórica bélica. Así. VIII. De esta manera el “buen ciudadano” debe ser sobre todo un “buen patriota” o inscribirse en cualquier otro patrón de lo que es “correcto” en tiempo de guerra.214 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS De acuerdo con esto último. p. se excluyen de manera sistemática los aspectos ideológicos y estructurales de la violencia en Colombia. sin encontrar argumentos que hagan imposible el rechazo popular a las acciones armadas y a elaborar relatos dirigidos a crear una ilusión al mismo tiempo de victimismo y de orgullo patrio (…). El Pantano Paramilitar. Juan Carlos. El futuro de los paramilitares. Coulthard (Eds. Una desmovilización inédita. Este mecanismo conlleva la impunidad puesto que al no presentarse nominalmente al fenómeno. El Tiempo. 8 de julio de 2005. X. por ende. según haya dictaminado el discurso de autoridad dominante para la formación social en la que política y/o administrativamente se encuentre integrado el individuo (FERNÁNDEZ. En: CONTRERAS. 28 de noviembre de 2003. V. II. p. ¿Tercera generación?. 7 de noviembre de 2003. R. Culturas de guerra. IX. . Justicia y paz: 2005 y 2016. El Tiempo. F. Leyendo en los cómics más allá de la adolescencia. 7 de noviembre de 2003. (1996). (2004) El Capitán América nunca supo convencer a los malos. se limpia el nombre del gobierno sin perder ese brazo oscuro de acción. El Tiempo. ANEXOS: Noticias I. Gracias a la exclusión parcial de este actor se legitima la creación de un discurso sobre la defensa de las normas. La lógica entonces de difundir el éxito de la desmovilización paramilitar trae consigo no solamente la supresión del nombre sino el cambio en la concepción del fenómeno. Entonces.

En un viaje a Jerusalén. DELGADO se pregunta: “¿Se debió a un precoz individualismo el . La versión occidental de la leyenda. de la que es miembro.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 215 INICIOS DE LA SANTIDAD MEDIEVAL EN LENGUA CASTELLANA: TRADUCCIÓN Y PROTAGONISMO FEMENINO EN LA VIDA DE SANTA MARÍA EGIPCIACA Carina Zubillaga SECRIT (IIBICRIT-CONICET) . centrándola en María de Egipto y relegando a Gozimás a ser sólo el testigo de la santidad de la nueva protagonista. narra la vida de una joven nacida en Egipto. ya en su versión occidental. entonces. después de lo cual ella dirige una larga oración a la Virgen María.Universidad de Buenos Aires La leyenda de Santa María Egipciaca. Intentando encontrar una explicación para la transformación de la leyenda en el paso de la versión inicial oriental a la occidental. La narración de la vida de María se concreta en tercera persona y asume un estricto orden cronológico. donde sobrevive con sólo tres panes. una fuerza sobrenatural le impide la entrada al templo el día de la Ascensión. tiene como primer testimonio escrito un texto griego compuesto por Sofronio en el siglo VII que se traduce luego al latín en la segunda mitad del siglo VIII. una de las santas más populares y paradigmáticas durante la Edad Media. la vida de la santa se transforma. quien la entierra ayudado por un león y confirma la historia de la penitente en la abadía de San Juan. padece incontables sufrimientos y finalmente muere en una muerte santa que presencia el monje Gozimás. pasa cuarenta y siete años en el desierto. Por indicación divina y como penitencia por su vida anterior de pecado. María. María no es la protagonista del relato. sino sólo el ejemplo de santidad frente al cual resulta confrontado Gozimás. La historia. extendiéndose luego el relato de su vida y muerte santas desde allí a toda la cristiandad. cambia totalmente el eje de la historia. que a los doce años huye de su casa paterna a Alejandría para ejercer allí la prostitución y abandonarse a toda clase de pecados. un monje que la descubre como penitente en el desierto y que encuentra en ella el modelo de humildad necesario para variar su conducta y reorientar su vida espiritual1. que comienza a desarrollarse probablemente en Francia a partir del siglo XII. en el cual se embarca con unos romeros siete años después. Estas redacciones iniciales de la historia de la santa constituyen la versión oriental de la leyenda de María Egipciaca como prostituta arrepentida. en la biografía de la santa2. se convierte y cambia absolutamente de conducta. en ellas.

lo que la hace contrastar aún más con la producción hagiográfica castellana más relevante del período: la escrita por Gonzalo de Berceo en el marco del mester de clerecía como escuela poética y de la estilizada cuaderna vía de versos alejandrinos monorrimos4. cuyo eje en los sacramentos del arrepentimiento y la penitencia se piensa puede haber impulsado relatos e historias como ésta de la pecadora arrepentida. un cambio tanto social como devocional. A la popularidad de la Virgen como intercesora y como anti-tipo de Eva se suma. El fenómeno religioso innovador que se está produciendo en ese momento histórico es. La manera en que se transformó la leyenda de Santa María Egipciaca en su paso a las lenguas vernáculas revela sin dudas una adaptación cultural expresada primera y fundamentalmente en lo lingüístico. en los lineamientos del IV Concilio de Letrán de 1215. Es anónima y está compuesta en verso irregular. La Vida de Santa María Egipciaca (en adelante. p.216 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS que se amplificara el protagonismo de la pecadora penitente y se la caracterizara físicamente allí donde la versión original se presentaba en forma tan espartana?” (DELGADO. 1980. de manera paralela. sino que además cambian la prosa por el verso. a la difusión de las órdenes mendicantes. como sucede también con otros tantos estudiosos. el culto también creciente de las prostitutas arrepentidas. Un nuevo público. La traducción de las vidas de santos desde el latín a las lenguas vernáculas que se desarrolla en Europa occidental a partir del siglo XII testimonia. Frente al ideal imposible de feminidad que la Virgen María encarnó. mayoritariamente laico. Ante la santidad . 184-185). centrado primeramente en la lengua y en la apertura a la laicidad que supone el acceso de historias y leyendas –antes circunscritas especialmente al ámbito monástico– al conjunto de los fieles cristianos. p. 185). 2005. p. un verdadero proceso de adaptación cultural. 305). como en este caso de la leyenda de María Egipciaca. Vida) del siglo XIII traduce la francesa Vie de Sainte Marie l’Egyptienne con bastante fidelidad y constituye probablemente la hagiografía castellana más antigua de las conservadas por escrito (BAÑOS VALLEJO. sin embargo. Por tal motivo. como bien lo testimonian numerosas leyendas y devociones a santos que se intensifican ya a partir del siglo XII. Su respuesta se enfoca. Se trata de la necesidad de la Iglesia de orientar el proceso de conversión cristiana particularmente hacia los laicos. más amplio que un concilio singular –por más importante que éste sea– y además anterior3. 2004. la devoción paralela a las penitentes tal vez resultó la respuesta posible. se prefieren el verso a la prosa y las imágenes plásticas al convencionalismo retórico. 2004. O. Entre los fenómenos religiosos más relevantes del siglo XII se encuentra asimismo la extensión del culto mariano debido. preeminencia de la figura femenina y un lenguaje accesible para todos como parámetros determinantes. El poema francés del siglo XII y luego el poema hispánico del temprano siglo XIII –que a su vez lo traduce– trasladan la leyenda no sólo del latín. aunque igualmente difícil de alcanzar. y hacerlo a través de las lenguas vernáculas y de las historias de santos más accesibles y cercanos a los fieles como principales estrategias espirituales. p. en una doble orientación que se manifiesta tanto en el ritmo y estructura de los poemas como en su variación narrativa. 98). que contribuyó al desarrollo y avance de la espiritualidad femenina 5 . La evolución de las leyendas hagiográficas atraviesa un umbral literario crítico en su traslación a las lenguas vernáculas (ROBERTSON. fundamentalmente. será el receptor privilegiado de la reformulación de las viejas leyendas hagiográficas que contemplarán inversiones de protagonismo. también: “¿Fue deliberado el desdén del desconocido autor del siglo XIII hacia el protagonismo de Zósimas?” (DELGADO.

en el cual María se muestra arrepentida al oponer su pecado a la majestad de la Virgen. En este punto la oración alcanza su máximo lirismo. v. reconociéndose entonces en la Madre de Dios como el modelo de la santidad que finalmente alcanzará. ya que al desarrollar actos de conversión. en principio a partir de la yuxtaposición entre la primera persona de quien ruega y la segunda persona que es rogada en el nombre que comparten (“tú María e yo María”. lo central en la nueva versión de la leyenda de la santa es el protagonismo femenino. 533-534). arrepentimiento y penitencia las leyendas de prostitutas santas comunicaron la doctrina cristiana a los lectores u oyentes como experiencias concretas a ser compartidas antes que como conceptos abstractos6. contrastada como la representación gráfica de un antes y un después del . 483-484)8. / mas mucho eres tú luenye de mí” (v. Esta idea se reiterará en otros lugares de la misma plegaria. La dramatización de este proceso de conversión habría resultado un vehículo privilegiado en Europa para la exposición de la doctrina cristiana. la intercesora por excelencia entre su Hijo y todo pecador11. Esta relación innegable entre la Virgen y María de Egipto presente en los cultos compartidos está tematizada en el poema en el momento crucial de la conversión de la pecadora. En este sentido. sin dudas. en este sentido. la pecadora reconoce en su oración que las 7 diferencias las separan: “Un nonbre avemos yo e ti. por ejemplo en los v. La plegaria se revela a partir de estas paradojas y oposiciones que la construyen como un espacio de auto-confrontación. A la castidad de la Virgen se opone la lujuria como principal característica de la pecadora. reconociéndola como aquella que personifica en sí misma todo el misterio de la Encarnación : “… ¡Ay. del pecado a la santidad. dulçe madre. duenya. se expresa básicamente en su Vida a partir de su imagen física. lo que las prostitutas arrepentidas representaron fue justamente el proceso de transformación del pecado a la gracia visible en las figuras contrapuestas de Eva y de la Virgen. A la dinámica de la paradoja de la Virgen María como Madre de Cristo el poeta suma también a continuación la dinámica de la oposición entre ambas Marías. María como Madre del Redentor es también. El proceso de conversión de María Egipciaca. así como la humildad de la Madre de Dios es confrontada con el orgullo de María de Egipto. 535). / que en el tu vientre toviste al tu padre!” (v. Este encuentro entre María Egipciaca y la Virgen María en el espacio de la oración refleja con seguridad la práctica devocional de gran cantidad de los fieles del período. más allá de la gravedad de su pecado. que se vuelve entonces imagen en el poema de cómo rezarle a la Virgen. tanto María Magdalena –el prototipo básico de la penitente– como María Egipciaca dramatizan en sus respectivas leyendas a la santidad como un proceso arduo y complejo pero posible para cualquier pecador. cuando en Jerusalén le dirige una oración a María. sino también su cuerpo. conformando a través de la sucesión de estas paradojas9 la figura de la Virgen María como la única en la cual pueden reconciliarse todas las diferencias10. visible particularmente en el diseño biográfico de la vida de María y su transformación espiritual concebida como un proceso tan integral que abarca no sólo su espíritu. como expresión acabada de la posibilidad de cambio de todo cristiano. que elevarían sus súplicas tanto a la Madre de Dios como a la pecadora arrepentida. A pesar de compartir el mismo nombre. 517-518: “Grant maravilla fue del padre / que su fija fizo madre”.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 217 innegable de la Virgen María. pero extendiéndose luego a una oposición que parte de la correspondencia entre una y otra y por eso deviene finalmente en identificación gracias a las logradas simetrías formales del fragmento. Narrativamente.

/ como yo cuido eran secas” (v. asignándole en la primera descripción una luminosidad exterior –dada por el blanco de su cuerpo. En este sentido. 726-727). mientras como prostituta “de sus tetiellas bien es sana. tal como la flor del espina” (v. en su vejez posee “braços luengos e secos dedos. ya en el desierto “tan negra era su petrina / como la pez e la resina” (v. por el contrario. El eje legendario del modelo de la prostituta arrepentida está cifrado en estos dos retratos contrastantes de María Egipciaca. se oponen luego en el segundo retrato de la penitente a la resina. y el negro se emplea sólo para los ojos: “ojos negros e sobreçejas” (v. El poeta organiza estos retratos de María de modo valorativo. como María Egipciaca. El contraste de la descripción primero de la joven. 738-739).218 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS arrepentimiento presente en el centro del poema en la oración que ya hemos referido. connotando una materialidad viva y colorida. la Edad Media asume con interés creciente el culto de las prostitutas arrepentidas. con la leche de las ovejas. en el segundo retrato. que podría reconocerse fácilmente en el pecado inicial de lujuria de María de Egipto y eso le daría la posibilidad de no ver como tan lejana la promesa de santidad. dejándose el blanco sólo como término de comparación o para describir los cabellos envejecidos de la anciana: “e los sus cabellos. 724-725)12. en tanto en su juventud “braços e cuerpo e todo lo al / blanco es como cristal” (v. fealdad con santidad y vejez. por otro. 732-733). 217218). Las comparaciones que sobreabundan en la descripción de la joven y hermosa pecadora. Mientras en su juventud María Egipciaca “redondas avié las orejas. 221-222). / como la rosa quando es granada” (v. entre quienes se difundían . y lo testimonia en relatos hagiográficos como su Vida hispánica centrados en el arrepentimiento y en la dinámica de la penitencia como horizontes de todo cristiano. en tanto cuando era bella “la faz tenié colorada. la presencia e importancia de la santidad femenina en los siglos XII y XIII no es un fenómeno aislado en el marco de las nuevas prácticas devocionales y la expresión de la piedad del período. en el segundo se destaca el negro como imagen gráfica de la fealdad y de los atributos físicos perdidos. / tornaron blancos e suzios” (v. al arrepentirse de sus pecados “en sus pechos non avía tetas. que eran ruvios. Baste citar sólo los ejemplos más destacados de esa contraposición para imaginar cómo pudieron haber sido recibidos por los hombres y mujeres del Medioevo. en una pérdida de carnadura que se evidencia claramente en la casi tangible sequedad de su cuerpo sometido a las inclemencias del desierto. 225-226). 736-737). 215). mientras que en el primero sobreabunda el blanco como representación de la belleza juvenil. que eran alvas. sucio y seco de la penitente– remite valorativamente a su purificación interior. hermosa y pecadora María y luego de la vieja y espantosa penitente asume la forma de dos extremos tan irreconciliables como impactantes. / quando los tiende semejan espetos” (v. en su vejez se le vuelve “la faz muy negra e arrugada / de frío viento e elada” (v. Seguramente los laicos. Además de aquellas santas que manifiestan vocación de santidad desde la infancia. / mucho eran negras e pegadas” (v. la impureza física –dada por el cuerpo opaco. como penitente “las sus orejas. con la rosa o con las manzanas. / blanquas como leche d’ovejas” (v. / tales son como maçana” (v. si joven tenía “su cuello e su petrina. 223-224). 740-741). sólo que invertido. En ambos retratos el mismo esquema de color predomina. 213-214). que asocian por un lado belleza con juventud y corrupción interior y. que tiene entre sus principales manifestaciones el modelo de las penitentes. y el plateado y dorado de su vestimenta– y una vivacidad evidente –que aporta el colorado– que contrastan con la oscuridad interior que ese brillo externo necesariamente supone.

N° 18. Tamesis. Madrid: Ed. En: Medievalia et Humanistica. En: Medioevo Romanzo. Madrid: Ed. Exeter: Ed. Ernesto (2004): Mariales franceses. Referências bibliográficas ALVAR. y españoles en la creación de la vertiente occidental de la leyenda de Santa María Egipcíaca: hacia el nuevo modelo hagiográfico de los siglos XIII-XIV. New York: Ed. texto y vocabulario. DELGADO. un ejemplo cercano y posible de los alcances inconmensurables de la gracia cristiana de la salvación. Julian (2006): The “Mester de Clerecía”: Intellectuals and Ideologies. Duncan (1980): Poem and Spirit. Dayle (1992): The Poetics of (Non)Conversion: The Vida de Santa María Egipçiaca and La Celestina. el eje del cambio devocional que se produce a partir del siglo XII es la veneración a la figura de Cristo en consonancia con el descubrimiento de la intimidad individualizadora de la persona humana (FERNÁNDEZ CONDE. Joseph T. CRUZ-SÁENZ. CSIC. University of Exeter. p. En: Hispanic Journal. asimismo. RAE. Hispanic Seminary of Medieval Studies. versificación. María S. Madison: Ed. 41-45. Plena Edad Media (siglos XI-XIII). Jane E. Toulouse: Ed. Lynn Rice (1980): The Aesthetics of Morality: Two Portraits of Mary of Egypt in the Vida de Santa María Egipciaca. Barcelona: Ed. Manuel (1970-72): “Vida de Santa María Egipciaca”: estudios. En: CAZAL. presentada particularmente a través de las imágenes contrastantes de su cuerpo. p. encontraron en la transformación espiritual de María de Egipto. p. (1990): Notes on the Fourteenth-Century Spanish Translation of Paul the Deacon’s Vita Sanctae Mariae Aegyptiacae. Woodbridge: Ed. (1977): La vida de Santa María Egipcíaca: A Fourteenth-Century Translation of a Work by Paul the Deacon (Ms. Françoise: Pratiques hagiographiques dans l’Espagne du Moyen Âge et du Siècle d’Or. Puvill. FERNÁNDEZ CONDE. Schiavonne de (1979): The Life of Saint Mary of Egypt: An Edition and Study of the Medieval French and Spanish Verse Redactions. En: CONNOLLY. N° VII. Walsh. p. 2005. En: Revista de Estudios Hispánicos. p. SNOW. 183-208. M. Esa devoción. ROBERTSON. WEISS. 95128. Meretrics. . Asturias-Oviedo: Ed. The Twelfth-Century French Life of Saint Mary the Egyptian. SEIDENSPINNER-NÚÑEZ. E.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 219 de manera privilegiada estos nacientes textos en lengua vernácula. CORTINA. p. BAÑOS VALLEJO. N° 2. p. and BUSSELL THOMPSON. fuentes. La dudosa ejemplaridad de las santas en los poemas medievales. Marina (1976): Alone of All Her Sex: The Myth and the Cult of the Virgin Mary. Francisco Javier (2005): La religiosidad medieval en España. B. 305-327. Biblioteca Nacional BN 780).: Saints and their Authors: Studies in Medieval Hagiography in Honor of John K. ANDRÉS CASTELLANOS. Esa impronta humanizadora eleva. Ediciones Trea-Ediciones de la Universidad de Oviedo. N° XXXVIII. vocabulario. Université de Toulouse-Le Mirail. 452). Knopf. 97-111. Alfred A. ingleses Particularmente en España. de (1964): “La Vida de Santa María Egipciaca” traducida por un juglar anónimo hacia 1215: gramática. a santas como María Egipciaca como modelos con los cuales los fieles devotos pueden relacionarse e identificarse más directa y afectivamente. que se centra en Jesús Niño y en los episodios de su vida oculta. WALSH. 83-96. WARNER. se vincula con la creciente devoción a la Virgen María como Madre del Salvador y propicia una sensibilidad que define nuevas manifestaciones religiosas durante el período. John K. edición de los textos . Fernando (2005): Una “pecatriz” y una mística.

p. 519-520). quizá la que mayor influjo tuvo en los siglos posteriores fue la idea de la Virgen como intercesora entre el pecador devoto y Cristo. la reconciliación universal de los contrarios (ROBERTSON. 3 Aunque es un indicador crucial de los asuntos eclesiásticos contemporáneos. 9 La paradoja está incluso reforzada con el empleo de algunos dispositivos ornamentales. p. madre de todos los que viven en un sentido espiritual. como el uso de la siguiente metáfora: “E fue maravillosa cosa / que de la espina salió la rosa” (v. 11 “De todas las ideas difundidas desde los albores de la Alta Edad Media. la Vida se conserva en un manuscrito de fines del siglo XIV. el Libro de los tres reyes de Oriente. K-III-4. sino un principio formal encarnado. luego de más de cuarenta años de penitencia en el desierto (ROBERTSON. 41-45) ya señaló la importancia del empleo del color en las dos descripciones contrastantes de María Egipciaca. 1986. Esc. 12 CORTINA (1980. el Libro de Apolonio. ver SNOW (1990. 4 Llamativamente. en particular María Magdalena (WALSH y BUSSELL THOMPSON. orientando particularmente sus observaciones y su análisis al carácter figural que adquieren esos retratos. ver WARNER (1976). cuando la difusión del culto mariano se extiende de manera sistemática entre los laicos. sin embargo. 5 Sólo un secreto oculto en la psiquis medieval explicaría de manera acabada la fascinación de la leyenda de las prostitutas arrepentidas. 6). Para profundizar en los diversos aspectos del culto mariano. 2 La prinicpal implicancia del paso de la narración de la vida de la santa a su biografía es una secuencia ininterrumpida desde su infancia hasta su muerte. la influencia directa del IV Concilio de Letrán sobre la leyenda occidental de Santa María Egipciaca no debe ser exagerada (WEISS. p. 100). ALVAR (1970-72) y CRUZ-SÁENZ (1979). 318). junto con un poema escrito en cuaderna vía. 10 En esta oración la Virgen María no es meramente una persona a quien la pecadora ora. 2004. 187). el K-III-4 de la Biblioteca de San Lorenzo de El Escorial. Existen ediciones del poema hispánico de ANDRÉS CASTELLANOS (1964). 1992. 2006. 7 Desde comienzos del siglo XII. del cual estoy preparando una edición crítica conjunta. 8396). p. la santidad de la Virgen María se basó en su rol como theotokos (Madre de Dios). 8 Cito según mi propia transcripción del poema que integra el Ms. . 84). p. p. 1980. 313). p. mediadora entre Dios y la humanidad a causa de la Encarnación de la divinidad que la convirtió en una segunda Eva. p. que es el aspecto más pragmático de su culto…” (DELGADO.220 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Notas 1 Para ahondar en esta versión oriental de la leyenda de Santa María Egipciaca. 1980. 6 La función catequética de este tipo de leyendas prevalece sobre los sermones o la enseñanza abstracta (SEIDENSPINNER-NÚÑEZ. y otro que es una reescritura de los Evangelios Apócrifos.

ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 221 CHUNGUI: VIOLENCIA Y TRAZOS DE MEMORIA. em toda a Região das Fazendas (Oreja de Perro)3. Foi num contexto prévio aos trabalhos da CVR . em seu permanente exercício.Peru . como membro da equipe profissional do Centro de Desenvolvimento Agropecuário (CEDAP) e condutor do programa de rádio Rimaykusunchik4. O Relatório Final da Comissão da Verdade e Reconciliação 1 do Peru resulta da reunião de uma série de narrativas sobre a recente História dos conflitos políticos vividos pelo país. DE EDILBERTO JIMÉNEZ: DESENHANDO A MEMÓRIA COLETIVA Carla Dameane P. ou. nos anos entre 1980 e 2000 2 Essa comissão trabalhou com o objetivo de esclarecer a natureza do processo e dos fatos da guerra interna. filosofia. psicologia sociologia. estudos literários e outros). em 1996. de Souza PG . ele presenciava as dificuladades e . com a finalidade de reunir e escrever uma História respaldada pela heterogeneidade de versões e sujeitos envolvidos. Sendo recebido com festa e música. evitando e ao mesmo tempo promovendo o seu esquecimento. pois. com a finalidade de difundir informações sobre como vivia e se organizava aquela população. por exemplo. a Memória. O antropólogo visitou Chungui. porque atua de maneira revisionista sobre os eventos do passado selecionando-os. sua presença na comunidade passa a ser constante. à medida em que passa a ser captada pela História.UFMG Seja a memória uma configuração cultural. através de seu arquivamento. atua contra o amnésia e manifesta váriadas versões sobre os espisódios que pertencem. que Edilberto Jiménez tornou-se um interlocutor de testemunhas da violência. posteriormente. além de determinar as responsabilidades jurídicas sobre tais acontecimentos e apresentar as consequências dos abusos contra dos direitos humanos. (2009). vía construção de imagens possíveis de serem transmitidas oralmente. ou. em Chungui e. torna-se um recurso privilegiado de acesso ao passado. E se a História assume a função de um tribunal. a um evento histórico específico. em formatos de escritura diferenciados. capacidade investigada por diversas disciplinas (teologia. pela primeira vez. A necessidade de discurtir e apurar estes eventos aciona a comunidade nacional.

para lembranças-imagens visuais5 . indiretamente pelos sujeitos enunciativos. penso que. a essa comoção. horror sin lágrimas… una historia peruana de Luis Felipe Degregori6. desaparecimentos forçados. analfabetas. quanto da Comisedh (Comissão de Direitos Humanos do Peru). Envolvido nesse debate. correspondendo aos relatos. ou. encabeçada pelo prefeito.222 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS participava das discussões e atividades relativas ao cotidiano dos moradores. O material recolhido foi entregue a CVR . que possuem dificuldades para ler e escrever. Nesse contexto. eram muitas vezes supervisionados pelas testemunhas que lhe diziam “así como estás dibujando. no intuito de responder. aos 20 minutos Jiménez conta sobre como o esboço dos desenhos. muitas delas falantes do quéchua. em torno do reconhecimento dos eventos de violência ocorridos em Chungui. porém ele cumpriu uma função extensiva a de escrivão. Na medida em que “fazer história” relacionase com a necessidade de escrever e arquivar. p. tortura. realiza uma denúcia formal ao Congresso. 178) e a partir desse rastro “inaugura o ato de fazer história” (RICŒUR. 2007. ativamente. com o medo que havia nas pessoas de conversarem sobre os acontecimentos violentos. violência sexual contra mulheres. p. por que se referem a fatos reais testemunhados diretamente. ou. 178). sequestros. degradantes. por causa disso. o idioma quéchua para o castelhano. imaginar. traduzindo lembranças-imagens. Além disso. nesse processo. cada um dos testemunhos registrados no livro admite “a iniciativa de uma pessoa física ou jurídica que visa a preservar os rastros de sua própria atividade” (RICŒUR. No documentário Chungui. recordadas oralmente. A denúncia tornou pública a existência de 40 fossas comuns e o registro de mais de 200 desaparecidos. Jiménez atuou diretamente sobre as recordações das testemunhas. pouco a pouco. solicitou a ajuda dos comitês de auto defesa para que pudesse recorrer outras comunidades da região e registrar mais testemunhos. Além de traduzir a oralidade para a escrita. Jiménez devolve às testemunhas. Jiménez ouve de diversas pessoas relatos que o deixaram comovido e. O silencio sobre a violência em Chuingui chega definitivamente ao fim quando uma delegação desta cidade. Foi nesse ambiente em que se tornou uma figura familiar e rompeu. desenhar e mostrar Em Chungui: violencia y trazos de memoria aparecem os relatos orais recolhidos por Jiménez. Esses testemunhos formam parte de uma macro narrativa e adquirem um valor de fonte histórica e jurídica. dos quais elas haviam sido testemunhas. infanticídio. tratamentos Recordar. Por levar em conta a importância da imagem para os povos pré-hispânicos. as testemunhas voltavam aos locais onde haviam fossas comuns. así ocurrió”. a participação de Edilberto Jiménez foi decisiva. Foi nessa situação de vis memoriae7 que Jiménez registrou os relatos e os transpôs para outro código de escritura associando o trabalho de tradutor à criação dos desenhos e retábulos. ou lugares onde ocorreram tais delitos. 2007. Como se estivessem reconstituindo cada um dos crimes (massacres. durante o processo de produção desse livro. Jiménez passou a ser membro tanto dessa comissão. suas imagens como um formato de escritura legível. começou a anotar os testemunhos orais e a esboçar seus primeiros desenhos. que não o da letra. do continente latinoamericano. entre outros).8 Violência e transformação do espaço Ao considerar que um dos temas centrais de que se ocupa a problemática da representação da . amparada por outros códigos. execuções arbitrárias.Peru e.

2009. matrimônios. tem a colaboração de Jiménez que. o espaço celeste aparece comprimido por olhos. Através dos desenhos é possível perceber como a presença do autoritarismo em Chungui compromete as perspectivas espaciais e temporais e obstrui a normalidade que antes definia as relações que os campesinos mantinham entre si e com o território. por sua vez. Esse taqui9 acompanhou. diretamente. desde antigas gerações. Um dos últimos desenhos de Chungui: violencia y trazos de memoria faz referência ao Llaqta Maqta (jovem da cidade) um gênero musical tradicional da região. A ação de imaginar (no sentido de propor uma imagem à recordação). por parte dos sobreviventes. festas religiosas.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 223 Memória reside na relação estreita entre recordar e imaginar penso que. com o modo de convivênicia que agrega os moradores à comunidade. p. a elaboração das ilustrações em Chungui: violencia y trazos de memoria resulta de um processo que inclui previamente. aniversários) relacionando-se. e de que maneira esse espaço de confraternização seria afetado devido a presença e permanência dos grupos violentos (Partido Comunista do Peru-Sendero Luminoso (PCP-SL) e as Forças Armadas Oficiais do Estado Peruano (FFAA)). recorrendo aos seus talentos como retablista transpõe para os desenhos essa memória individual e coletiva. J. Em: JIMÉNEZ. 156-157). batizados. Ao fazer essa analogia o autor chama atenção aos muitos aspectos que caracterizavam o relacionamento dos chunguinos com o lugar. “Laqta Maqta” (Desenho de Edilberto Jiménez em: Chungui: violencia y trazos de memoria. p. os encontros sociais (festivais juvenis. Edilberto Jiménez refere-se a essa expressão de vida e alegria como algo que consegue ser preservado mesmo após os anos de violência. a ação de recordar. Naquela imagem onde se representa o relato sobre a chegada do PCP-SL em Chillihua. tornando visíveis os crimes e os detalhes que entornam os acontecimentos que lhes são relatados. retratando a presença do . 2009. “Dijeron: “Deben obedecer a los responsables” (H. 317).

J. A representação visual desse testemunho põe em cena. 2009. D. Os relatos são sempre de sobreviventes que foram direta. Q. que não presenciou os assassinatos. onde os corpos haviam sido abandonados. Em: JIMÉNEZ. há casos em que este sobrevivente tornou-se testemunha por acaso. Em: JIMÉNEZ. 2009. O jovem estudante caminhava despreocupado. 2009. p. por estarem envolvidos nas situações descritas. a crueldade desses assassinatos e a percepção daquele que foi tesmunha indireta do fato. . 2009. “Las cabezas estaban en distintos lugares”. Em: JIMÉNEZ.224 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS atoritarismo e da vigilância de um partido “que tenía muchísimos ojos y oídos y muy facilmente se enteraba de todo” (E. encontra os corpos das vítimas numa tal disposição que o faz supor o que de veras teria ocorrido. indiretamente testemunhas desses crimes. p. H. (Desenho de Edilberto Jiménez. 236-237). e C. 160-161). No caso dos testemunhos “Vi con mis propios ojos” (M. 236). Essa mesma elaboração de um espaço carregado de olhos e orelhas se repete fazendo alusão ao testemunho “Le dieron más de 20 Chicotazos” (G. O. E. p. 246-247).147). O. Em outro testemunho Jiménez utiliza essa linguagem oferecendo elementos visuais distribuídos pelo céu e que faz com o que o espaço funcione como um refletor cósmico.M. como no relato “Asustado agarraba la soga” (E. 2009. Mas. mas tiveram acesso ao cenário onde este ocorreu. e L. Em: JIMÉNEZ. p. 200-201). ou. também teremos sujeitos enunciativos que não presenciaram diretamente os crimes. O sobrevivente. Em: JIMÉNEZ. Em: JIMÉNEZ. ou. B. C. C. Em: Chungui: violencia y trazos de memoria. p. 298-269) e em “Lírio Qaqa Profundo Abismo” (T. Trata-se da respresentação que oferece ao relato “Las cabezas estaban en distintos lugares” (V. dirigindo-se a casa de sua família em Ninabamba. 2009. livre de qualquer metáfora. quando se depara frente a uma situação em que é convocado pelos soldados da FFAA a testemunhar um assassinato. p. 2009. p.

Em: Chungui: violencia y trazos de memoria. I. 239).ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 225 “Asustado agarraba la soga”(Desenho de Edilberto Jiménez. Em: JIMÉNEZ. as testemunhas presenciaram o assassinato dos detidos. . 2009. “Estuve calladito en el árbol y lloraba calladito” (M. D. 238-239) sobreviventes contam como se esconderam em meio a paisagem para nela se camuflar e poder acompanhar as diversas pessoas de sua familia que haviam sido apreendidas pelos soldados da FFAA. Nessa situação. e L. 2009. entre eles mulheres e crianças. Em outro testemunho. p. p. 2009. “Estuve calladito en el árbol y lloraba calladito”(Desenho de Edilberto Jiménez. p. 201). Em: Chungui: violencia y trazos de memoria. escondidos entre árvores.

e os zorros (raposas). fechada em si mesma. tornam-se testemunhas de sua busca. Os caminhos e abismos foram redefinidos. 320) impregnado de afetividade e que vincula. 296). Nos desenhos de Jiménez. não sugeria frestas para a liberdade. p. após terem os encontrado mortos. como em um sonho. contra as próprias pessoas que antes residiam ali. pelos soldados da FFAA. nos llevamos su cuerpito” (Desenho de Edilberto Jiménez. 296-297) uma viúva relata. 2009. p. sobreviventes e algozes. seu esposo lhe disse o local onde seu corpo se encontrava após ter sido assassinado. deixada pela alma do marido.226 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Grande parte desses sobreviventes tornaramse peças fundamentais para o posterior reconhecimento de fossas comuns e lugares onde eles mesmos haviam enterrado seus familiares. 2009. Esse enquadramento relativo ao espaço delineia. percebo como esse território. os grupos a um . os elementos utilizados impregnam o ambiente e fazem com que o espaço se pareça. 51). aludindo a Abilio Vergara 10 “territorio-paisaje-prisión” (VERGARA. No relato a mulher conta que estava acompanhada por seu cunhado. no contexto da guerra. na maioria das vezes. nos llevamos su cuerpito” (H. 2009. compar tilhada entre vítimas fatais. 297). que chora. para Jiménez. “Calladitos sin que nadie sepa. um “Local de Geração” (ASSMANN. p. p. mas no desenho apenas aparecem como companhias uma lua. Na representação visual elementos da natureza e ao mesmo tempo cósmicos. R. No testemunho “Calladitos sin que nadie sepa. Através desses relatos e suas versões visuais. Em: Chungui: violencia y trazos de memoria. à pedradas. com a finalidade de que facilitassem os mecanismos de assassinato e a paisagem. para o olhar do leitor. 2011. O território foi utilizado. 2009. R. desde muito tempo. Em: JIMÉNEZ. p. o sofrimento como uma experiência concreta. a viúva sai a procura do corpo. A mulher encerra seu testemunho contando que ela mesma realizou o funeral do esposo enterrando-o ao lado de sua casa desde onde “él simpre me cuida y cuida a sus hijos” (H. Com base na mensagem onírica. que a espreitam. Em: JIMÉNEZ.

uma ferida difícil de cicratizar na memória nacional e histórica. esse território é o lugar onde os moradores cultivam à terra como espaço sagrado e estabelecem o contato. finalmente. Editora da Unicamp. No que se refere à violência indiscriminada que caracteriza a guerra interna do Peru. vivos e mortos. Referências bibliográficas ASSMANN. p. Chungui destaca-se por ali terem-se cometido crimes exemplares contra os direitos humanos14. 2. Aleida. enquanto “Local de Geração” Chungui possui uma memória afetiva e costumes que fortalecem os vínculos que unem as pessoas ao lugar. e cuja lembrança de seus moradores. A memór ia. – Campinas. pois. Por outro lado. p. que a população revindica mudanças estruturais e sociais que podem dar fim à pobreza. em seus desenhos. cuja história não deve se repetir. por Jiménez. . Projeto de Tradução Coordenado por Paulo Soethe. ao analfabetismo. o esquecimento. torna-se também um “Local Traumático” (ASSMANN. SP: Editora da Unicamp. Fazer-se recordar na memória das autoridades e de outros povos é o que deseja o chunguino quando canta e dança este Llaqta Maqta. JIMÉNEZ. 2009.]. recopilado por Jiménez: Karu llaqtapin tiyani Chungui llaqtapin tiyani karu laqtalla kaptincha periodistapas chayanchu congresistapas qamunchu 11 Qanchi riupas waqansi Chungui mayuwan tupaspa chaynama llaqtallay waqan manaña pipas yuyaptin13. Formas e Transformações da Memória cultural. Espaços da Recordação. Por mais que se tente narrar as histórias relativas aos crimes cometidos nessa região. mesmo por aquelas pessoas que nunca estiveram lá. 349) sobre o qual não é possível formalizar um sentido .ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 227 familiares. (JIMÉNEZ. COMISEDH. Essa conexão constitui por um lado. Lima: IEP. SP. (2009). como seus mortos. Essa união permeabiliza os obstáculos que se colocam diante da possibilidade de se refazer as próprias vidas e superar os traumas sofridos. através dela. Mesmo assim. Paul. étnicos e sociais. é o motivo pelo qual esse lugar tornou-se inesquecível. RICŒUR. (2007). às doenças e ao atraso consequentes de anos de esquecimento. Edilberto. (2011). 2011. É para esse território. Tradução: Alain François [et al. ed. são os mesmos que abrem fissuras sugererindo a impossibilidade de se reproduzir a aura12 desse local e tudo que se refere a multidimensionalidade dos fatos que ocorreram aí. 129) No livro de Jiménez encontra-se vários motivos para que Chungui torne-se um lugar a ser recordado. Campinas. DED. a histór ia. aqueles elementos que ajudam a elaborar a representação dessas memórias. Chungui: violencia y trazos de memoria. devemos celebrar.

Coordenador da Tradução Paulo Soethe. SP: Editora da Unicamp. Por outro lado.iep. p. no caso de operações historiográficas do passado. Em: JIMÉNEZ. Contudo. Estaria mais relacionada com a recordação involuntária que.org. A memória como Ars e Vis. p. atuar contra o tempo e o esquecimento “cujos efeitos são superados com a ajuda de certas técnicas” (ASSMANN. La memoria de la barbarie en imágenes. uma imagem fabulada. Los Hechos. p. isto é. pois. 4 5 “Conversemos”.org. sobretudo. Aleida. 36-67. Formas e Transformações da Memória cultural. 11 Ver: ASSMANN. assemelha-se a um cachorro sentado. 34). Edilberto.” Em: Revista del Museo Nacional. Em: Galería Virtual Carlos Iván Degregori. a realidade se encontra em suspenso. (1943).228 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Notas 1 A Comissão da Verdade do Peru tem sua formação durante o governo de Valentin Paniagua (1936-2006) e no governo seguinte. Ver mais detalhes em ASSMANN. que tornem identificáveis estas conexões entre memória e imaginação. Peru. 61). em alusão ao mapa do estado de Ayacucho. Conferir: JIMÉNEZ BORJA. e afirma ser possível estabelecer uma linha que as una.pdf>. 87-129. cuja forma. p. Primera Parte: El Proceso. Arturo. Aleida. Espaços da Recordação. “La fiesta y la danza en el antiguo Perú. Chungui: Violencia y trazos de memória. DED. ars memoriae. Diferente dela a vis memoriae seria uma memória em “potência”. Lima: IEP. Lima Peru. Edilberto. (2011). Em: ASSMANN. (2003). cverdad. passa a se denominar Comissão da Verdade e Reconciliação. Retablos de Edilberto Jiménez sobre la Violencia Política” . 61). Coordenador da Tradução Paulo Soethe. 8 Conferir a exposição virtual “Universos de Memoria. Formas e Transformações da Memória cultural. o autor aponta ser um traço comum tanto na imaginação quanto na memória. . 6 Chungui. 3 “Orelha do Cachorro”. (2011). Introducción. Conferir: JIMÉNEZ. Locais. sem dispor de métodos de armazenamentos artificiais (como é o caso da mnemotécnica) sempre podem ser acessadas pela memória. p. DED. (2009). Lima: IEP. Tradução de Fernanda Boechat Em: Espaços da Recordação. 2011. COMISEDH. p. Campinas. Trata-se da “lembrançaimagem” (RICŒUR. 122-159. 10 VERGARA Abílio. Instituto de Estudios Peruanos.pe/ ifinal/pdf/TOMO%20I/INTRODUCCION.pe/cid/galeria-cid/>. 2007. para os moradores de Chungui não é usual a expressão Orelha do cachorro como nome que dá referência a região das Fazendas “Zona de Hacienda”. Ele explica que na imaginação é possível enxergar um “irreal”. La violencia. O nome Orelha do Cachorro foi dado à essa região. Acessado em 25 de julho de 2012. Violencia y Trazos de Memoria. p. p. 2 Consultar: Informe Final da Comisión de la Verdad y Reconciliación. Chungui. 7 Para Aleida Assmann (2011) a ideia da mnemotécnica romana. 62 minutos. (2009). Edilberto. Toda essa região próxima a Chungui corresponderia a orelha desse cachorro. na memória existe um “real” anterior à imagem. encontram-se as postulações que distinguem imaginação de memória. Diretor Luis Felipe Degregori. Disponível em: < http://www. 317-361. entendida como “arte”. Em: JIMÉNEZ. 122) no Peru antigo Taki/Taqui significava dançar e cantar como duas ações que se realizam simultaneamente. 9 Segundo Jiménez Borja (1946. “a presença do ausente” (RICŒUR. una introducción. 31-36. 2010. Versão digital disponível em: <http://www. Las Víctimas. 2007. Acessado em 23 de junho de 2012. SP: Editora da Unicamp. Campinas. com Alejandro Toledo (1946). p. Em Castelhano e Quéchua. COMISEDH. Tradução de Daniel Martineschen. pelos militares. Em Paul Ricœur (2007). horror sin lágrimas… una historia peruana. tomo XV. Segundo Edilberto Jiménez. possui relações com os processos de armazenamento e pretende. Aleida.

os conflitos alcançaram os maiores índices de violência.pe/ifi nal/pdf/TOMO%20V/ /2. / Dizem também que o rio Qanchi chora / ao se encontrar com o rio de Chungui / assim chora a o meu povoado / quando ninguém se lembra”. 7. Walter. Versão dig ital disponível em: < http://www. 14 De acordo com o Relatório Final da Comissão da Verdade. por mais perto que ela esteja”. Tradução de Sergio Paulo Rounet. a partir do conceito de aura proposto por Walter Benjamin (1994. como “uma figura singular.0% SECCION%20TERCERALos%20Escenarios%20de%20la%20v iolencia%continuacion)/ 2. arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura.org. São Paulo: Brasiliense. Em: Magia e técnica.165-196.170). p. Conferir: Informe Final da Comisión de la Verdad y Reconciliación. ed.%20HISTORIAS%20REPRESENTATIVAS%20DE%20LA%20VIOLENCIA 20Introduccion. Vol. (1994). Primera Parte: Capítulo 2. . Acessado em 26 de junho de 2012. p. Historias representativas de la violencia. 13 “Vivo num povoado distante / vivo na comunidade de Chungui / certamente por estar distante / os jornalistas não chegam. (2003). / nem os congressistas chegam.pdf>. composta de elementos espaciais e temporais: a aparição única de uma coisa distante.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 229 12 No sentido em que propõe Aleida Assmann.cverdad. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. em Chungui e nos territórios asháninka. I. BENJAMIN.

No referido trabalho. p. Um dos primeiros trabalhos sobre o espanhol nesse sentido é o de Hernanz e Brucart (1987). que não impõe restrições de fronteamento (exemplos (2) e (3): (2) Tematização: e. *De dos partes el examen co nsta nsta. En primavera Juan v isitó Leningrado. 95) Com respeito à flexibilidade de fronteamento. Introdução1 A relação entre ordem de palavras. (HERNANZ e BRUCART. Considerando as possíveis ordens de constituintes. com a focalização. a. b. ao estudar o posicionamento dos pronomes clíticos na história do espanhol. *esa aria c a n t ó Montserrat Caballé maravillosamente. . apresenta uma série de variações que estão relacionadas com efeitos informativos. a.230 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS O PREENCHIMENTO DA POSIÇÃO PRÉ-VERBAL POR COMPLEMENTOS VERBAIS E A NOÇÃO DE OPERADOR NA HISTÓRIA DO ESPANHOL Carlos Felipe Pinto Universidade Tiradentes 1. el problema resid eside b. os autores mostram que o espanhol atual. ao contrário da focalização. Hernanz e Brucart (1987) mostram que: a) com a tematização. b) não é todo elemento que pode ser tematizado. embora tenha a ordem básica S-VO. *En el paro. DE DOS PARTES co nsta el examen. Fontana (1993) mostra que: a) O espanhol antigo não impunha restrições ao constituinte fronteado. EN PRIMAVERA v isitó Juan Leningrado. como se ilustra no contraste entre (4) e (5): (4) (1) a. é possível a ordem Tópico-S-V. (3) Focalização: e el problema. EN EL PARO resid eside b. 1987.3 espanhol atual: a. a única ordem possível é Foco-V-S2 (exemplo (1)). estrutura informativa e prosódia tem sido um aspecto bastante estudado nos últimos anos dentro do quadro da gramática gerativa.

p. (7) a. dicen que Nuria tiene ___i. (FONTANA. p. o XP fronteado não tem correspondência dentro da oração. 64/55/56) Em (7a).ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 231 r í a n los invitados el otro b. esa aria la c a n t ó Montserrat Caballé maravillosamente.4 (FONTANA. Confessar =se d e ue uen pecados. *esa aria c a n t ó Montserrat Caballé maravillosamente. Grande duelo av ie ien espanhol atual: b. (6) espanhol antigo: n las yentes christianas. podem ser fronteados sem restrição em ambas as fases da língua6. 1993. *?desde Cornellá v ol olv porque no habían autobuses. 2. 107) mostra o seguinte contraste: . em (7c) o objeto fronteado deixa um vazio dentro da oração. b. p. O espanhol atual tem. o objeto é recuperado por um clítico dentro da oração. em (7d) o objeto fronteado é o elemento interrogado. A Nuriai lei dieron un libro anoche. tenho o objetivo de explicar o motivo desses contrastes entre as duas fases do espanhol. a. como se ilustra em (6). v ió Nuria andando e. a Alexandria de la Palla. ¿qué libros tienes? Wh-movement c. d. Cinque (1995. A noção de operador Como se observa pela rápida discussão acima. d. quatro tipos de construções A-Barra. diferentemente do que acontece no espanhol atual. Discutindo a noção de operador. n los xpistianos de sus c. Neste trabalho. rían esos c. *?con una horquilla para el pelo ab abrían chorizos las puertas de los coches. pelo menos. M. sólo tengo romances. A discussão se concentra nos complementos verbais já que os adjuntos. Uino & agua d e ue el clerigo mezclar en el caliz. 1993. por outro lado. dois aspectos que contrastam claramente o espanhol atual com o espanhol antigo são a maior flexibilidade para fronteamento de constituintes no espanhol antigo e a maior possibilidade de fronteamento de objetos sem a recuperação com o clítico5. Left dislocation (LD) Librosi. Deste lugar de Vigeva fue S. *?maravillosamente cantó Montserrat Caballé esa ária. Distintos tipos de fronteamento (5) espanhol antigo: a. conforme os exemplos em (7) a seguir: Clitic left dislocation (CLLD) b. Libros. 55/61/65/86) b) Os complementos verbais podiam ser fronteados sem a duplicação pelo clítico no espanhol antigo. c. *visitar q u e er pabellón. em (7b). Topicalization7 3.

como em (8). Quando o clítico é inserido. Os dados em (9) também mostram que somente a topicalização é gerada via movimento-WH8 tendo em vista o paralelismo entre (9) e (10). O efeito V2 no espanhol antigo Antes de explicar as diferenças entre as duas (CINQUE. a explicação vai no sentido contrário: como o DP no inicio da (10) *Chii loi inviterai? (CINQUE. mas porque o operador não pode vincular nenhuma variável (o operador vincularia o clítico. Se o clítico é introduzido. a oração se torna agramatical não A pergunta que Cinque (1995) procura é responder é por que o DP em TopP. ho visto ___j Gianni. a categoria vazia poderia se caracterizar como variável já que seria vinculada pelo operador11. não pode ser vestígio de DP porque é livre na sua categoria de regência. (11) *Giannij. na topicalização. que não é uma variável). a presença do clítico é requerida e. na CLLD. e não pode ser variável porque não é vinculado por um operador . loj invitero domani (non oggi) Gianni. “Línguas V2” tem sido uma etiqueta utilizada para classificar aquelas línguas nas quais o verbo finito aparece na segunda posição na oração e é precedido exclusivamente por um único constituinte seja qual for a sua função sintática13. As Na análise de Cinque (1995). 9 diferenças apresentadas nos exemplos de (4) a (6) acima levaram Fontana (1993) a analisar o espanhol antigo como uma língua V2. a categoria vazia é caracterizada como uma anáfora (vestígio de DP) e pode ser licenciada. p. é proibida. 1995. o convidarei amanhã (não hoje) Cinque (1995) comenta que a falta de movimento-WH nesse tipo de construção é um argumento crucial10 tendo em vista que. (9) GiANNIj (*loj) invitero (non Pietro) Gianni (*o) convidarei (não Pietro) Os dados em (8) e (9) mostram que. como mostra a agramaticalidade de (11): porque a categoria vazia fica sem ser caracterizada. p. 1995. 108) oração é caracterizado como operador já que é derivado via movimento-WH . o problema de (11) é que o DP “Gianni” não se caracteriza como um operador e o DP nulo dentro da oração não pode ser caracterizado como nenhum tipo de categoria vazia. este DP é capaz de vincular a categoria vazia dentro da oração caracterizando-a como variável.232 (8) ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Giannij. Não pode ser PRO porque é governado. 109) fases do espanhol. não pode ficar sem ser duplicado pelo clítico. se houvesse um movimento-WH . é preciso explicar que tais diferenças estão relacionadas com diferenças mais profundas entre as duas fases da língua 12 . Com relação ao exemplo em (10). Aux visto 4. não pode ser pro porque é não identificado. Os exemplos abaixo ilustram essa característica do espanhol antigo: . A inserção do clítico é uma estratégia de último recurso para licenciar a categoria vazia dentro do VP. como no caso da CLLD.

2011. atrai o verbo e o movimento do verbo para Finº permite que qualquer constituinte seja movido para SpecFinP15. b. aqui c o mie historias de oriente dados em (12) a (15) oferecem evidências de que o verbo. Assim. Como o objeto não pode ser movido para SpecFinP. os exemplos em (13) ilustram a ordem O-V sem retomada clítica em oração matriz e oração subordinada. como não há um traço EPP d e mi paciencia t ole r ar que haya pued c. assim como nas línguas V2. a Os exemplos em (12) ilustram a ordem V2 em oração matriz e oração subordinada. que exibe movimento do verbo exclusivamente para IP14. mas somente pode ser concatenado diretamente em SpecTopP através da operação de concatenação (15) a. Por essa razão. não se caracteriza como operador e a presença do clítico é necessária na CLLD e a presença de outro DP é necessária na LD. no espanhol antigo (e nas línguas V2 em geral). e la priora doña María Fortúnez e tod el convento. se movia para CP. p.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 233 e . (PINTO. matando a tu madre (12) a. em FinP. has. que é caracterizada como variável deixada dentro do VP. a dios d e b e hombre a d e lantar y p o ne primeramientre. No espanhol antigo. porque este cuerpo muchas lágrimas ha d e j a d o a sus parientes: y amargos dolores. si el deudor otros bienes t uv iese b. o que é um reflexo da mudança linguística16. o objeto fronteado se caracteriza como um operador e pode licenciar a categoria vazia. quando se tem a ordem O-V. os dados em (15) ilustram construções de object shif . os dados em (14) ilustram a ordem Aux-S-V. armas odiosas t o mast maste Clitemestra ro n el maestre don Pero b. o verbo não se move para Finº e não permite que qualquer constituinte ocupe esta posição. no espanhol antigo. O conjunto de ordem O-V com clítico aumenta. diferentemente do espanhol atual. E esta carta ot Garcíez. si corazon has nz o el espiritu por las medulas mienz nzo (14) a. 5. é possível ter uma explicação para o contraste entre as duas fases do espanhol. 255) externa. mais especificamente em FinP. o traço EPP em CP. se nota o interessante cruzamento de dados em Fontana (1993) e Pinto (2011): quando a ordem O-V sem clítico diminui. en todos los buenos hechos que quisiere comenzar. . No espanhol atual. como agora f ezie ezier Núnnez nza el libro de la flor de las mienza c. y así co mie d esc e nd er : esce nde r ner b. Explicando o contraste entre as duas fases do espanhol A partir da exposição de Cinque (1995). que no pue oler subido en corazón humano conmigo en el ilícito amor comunicar su deleite. o rg a la abatíssima Sancha oto rga (13) a.

5. Conclusão ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS indiretos. A conclusão que se obtém dessa discussão é que os objetos fronteados no espanhol antigo e no espanhol atual ocupam lugares diferentes na estrutura. (2002). FONTANA. The Cartography of Syntactic Structures. como o verbo se movia para Finº e qualquer constituinte podia ocupar a posição de SpecFinP. 52-75. devido ao traço EPP de FinP. Natural Language & Linguistic Theory. a categoria vazia deixada dentro do VP precisa ser caracterizada de alguma forma: a) como esses elementos não possuem clíticos. Cecilia (2004). Em consequência disso. como apontaram Hernanz e Brucart (1987) e Fontana (1993) nos exemplos ilustrados em (2) e (3). Luigi (org. Nova Iorque: Cambridge University Press. 2.234 6. Guglielmo (1995). p. L. Focus and V2: Defining the CP Sublayers. v. 104-120. The Structure of CP and IP. No caso da tematização. Por isso. quantified A contraparte gramatical das orações em (16) no espanhol atual exibe obrigatoriamente a ordem V-O18 . orações do espanhol antigo. esses elementos fronteados não se caracterizam como operadores e não podem caracterizar a categoria vazia como uma variável. In: ______. Paola. Madrid: Ediciones SM. Complementos circunstanciais são selecionados pelo verbo lexical. qualquer constituinte. University of California. (1993). p.] (16) a. No espanhol atual. ADAMS. Quando esses elementos são tematizados. Josep M. quyen esto q uisiese q BENINCÀ. assim como os objetos diretos e NPs. b r antar ueb antar. 1-32. p. Bare quantifiers. Ph. No espanhol antigo. From Old French to the Theory of Pro-Drop. por isso. ed. a periferia esquerda da oração é destinada para usos informativos. Phrase structure and the Syntax of clitics in the history of Spanish. POLETTO. como as ilustradas em (16) a seguir. no caso da focalização. n.). 1. University of Pennsylvania. o objeto é concatenado diretamente em SpecTopP. podia ocupar a primeira posição sem a duplicação pelo clítico. Marianne (1987b). No espanhol antigo. . GÓMEZ TORREGO.D. E tod aquel quj esta carta q ue (1223) ue b r antar (1225) que ueb b. In: RIZZI. principalmente de complementos circunstanciais. Esta análise explica também porque o espanhol atual apresenta restrições à tematização . independentemente de sua função informativa. Topic. [. esses complementos circunstanciais fronteados conseguiam caracterizar as categorias vazias deixadas no VP como variável porque se caracterizavam como operadores. Marianne (1987a). Tal movimento era desencadeado por questões meramente formais. o seu lugar de pouso é SpecFocP17. Oxford: Oxford University Press. 8. and the notion of operator at S-structure. a categoria vazia não pode ser caracterizada como uma anáfora. são agramaticais no espanhol atual: Referências bibliográficas ADAMS. CINQUE. a ordem O-V em contextos neutros é banida já que não há lugar de pouso disponível para o objeto (SpecFinP não é uma posição ativa no espanhol atual). Italian syntax and Universal Grammar . Old French. Ph. Quando um objeto é movido. v... Dissertation. Null Subjects and Verb Second Phenomena.D Dissertation. Gramática didáctica del español. b) como a tematização no espanhol atual é gerada via concatenação. o elemento em primeira posição ocupava SpecFinP.

é posto em matização destaque. KROCH. La sintaxis. Carlos Felipe (2011). . 2011). p. A noção de fronteamento que estou assumindo está relacionada exclusivamente com a ordem superficial. The C-Systen in brythonic celtic languages.). Nova Iorque/Oxford: Oxford University Press. movimento do verbo e efeito V2 na história do espanhol. Oxford: Oxford University Press. A estratégia discursiva de tematização pode ser realizada através da operação com ou sem movimento sintático. Oxford: Oxford University Press. María Lluisa. ROBERTS. v. 11-62. 11. ou seja. 2 Os termos tópico/topicalização são termos que cobrem vários fenômenos linguísticos e são usados por várias vertentes teóricas. Universidade de Geneva (citado do manuscrito). ou seja. Pr incípios teór icos. como informação conhecida. Sten (1996). p. Luigi (org.). In: HAEGEMAN. assumo a topicalização como uma operação sintática de movimento A-Barra independentemente de seus efeitos discursivos. Sten (1995). pressuposta ou como o tópico discursivo. The Cartography of Syntactic Structures. 281-337. tanto formais como funcionais. 2. Reflexes of Grammar in Patterns of Language Change. Barcelona: Crítica. In: BELLETTI. SCHWARTZ. 199-244. On Left Dislocation and Topicalization in Spanish. n. v. BRUCART. Tese de Doutorado. Linguistic Inquiry. Luigi (1991). Bonnie. La oración simple . RIZZI. VIKNER. v. Language Variation and Change. 297328. 363-393. Liliane (org. Kluwer: Dordrecht. p. 2. Maria Luisa (1980). Verb movement and expletive RIVERO. The fine structure of the left periphery. Ordem de palav ras. Elements of grammar. p. RIZZI. subjects in the Germanic languages . (citado do manuscrito) PINTO. p. 1.). V2 and the EPP. predominantemente na periferia esquerda. VIKNER. Adriana. Parametters and functional heads. dada. In: RIZZI. Te mat ização = ESTRATÉGIA DISCURSIVA na qual um constituinte é tematizado. RIZZI. Universidade Estadual de Campinas. sem considerar se há ou não movimento de constituinte. F r ont eame nt o = EFEITO SINTÁTICO LINEAR em que um constituinte aparece no início da oração onteame eament nto (periferia esquerda). Ian (2004). Anthony (1989).ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 235 HERNANZ. José María (1987). The Structure of CP and IP. Luigi (1997). Residual verb second and the Wh criterion. The Verb always leaves IP in V2 clauses. Adoto a seguinte distinção terminológica: To picalização = ESTRATÉGIA SINTÁTICA na qual um constituinte é movido de sua posição de base dentro da oração para a periferia esquerda. Notas 1 Este trabalho faz parte da discussão sobre o movimento do verbo na história do espanhol apresentada em minha Tese de Doutorado (PINTO. Luigi (orgs.

preguntan (que) quién tiene. GÓMEZ TORREGO. como apresentei acima. na frase “Juan puso el libro en la mesa”. como o catalão e o francês. 7 O que Cinque (1995) chama de topicalização é equivalente a focus movement. Observar que esta definição é diferente da apresenta em algumas gramáticas do espanhol (por exemplo. no lo vi. 4 Parece haver alguma relação entre definitude e presença do clítico nesse tipo de construção: objetos definidos são obrigatoriamente retomados. no lo vi. 5 Como o espanhol tem um sistema de clíticos defectivo. não necessariamente na periferia esquerda. 3 Nos exemplos. Os verbos são destacados em negrito. ou seja. Assumo. as maiúsculas indicam que o constituinte recebeu a proeminência prosódica.236 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Focalização = ESTRATÉGIA DISCURSIVA na qual um constituinte é focalizado. *¿Qué te pregunta (que) por qué no tiene? b. B’: No. que a topicalização é um movimento A-Barra que deixa uma posição vazia dentro da oração. 2004. o sintagma “en la mesa” é um complemento do verbo. que é essencialmente definido: (i) A: ¿Viste al chico? B: No. Nesta definição. (RIVERO. Se esse movimento é usado como recurso de tematização ou de focalização é algo que pode variar entre as línguas. as orações em (ii) não deveriam ser possíveis. *¿Qué preguntan (que) quién tiene? (ii) a. Contudo se são o mesmo tipo de movimento ou não é irrelevante para a discussão (ver BENINCÀ e POLETTO. b. (ii) A: ¿Viste algún chico? B: *No. para uma discussão detalhada da questão em modelos . 1980. Línguas que possuem um sistema de clíticos mais ricos. a retomada só pode ser observada com objetos diretos e indiretos. como a informação nova que completa a pressuposição ou o contraste que corrige a asserção anterior. p. 8 Rivero (1980) assume que a topicalização é diferente de movimento-WH a partir de dados como (i) e (ii) (i) a. 6 É importante ter em mente a diferença entre complemento e adjunto verbal: complemento verbal é o elemento que é selecionado semanticamente pelo verbo. já os adjuntos. 380) Se topicalização e movimento-WH fossem o mesmo tipo de movimento. 2002). Tal contraste pode ser explicado pelo caráter do clítico. Dinero. exibem os mesmos fatos com outras funções sintáticas. nas quais se diz que os complementos circunstanciais podem ser facultativos ou obrigatórios. te pregunta (que) por qué no tiene. Quando o constituinte focalizado se encontra fora da sua posição canônica na oração. no he visto ninguno. é posto em destaque. Dinero. não. objetos indefinidos têm retomada facultativa. sempre é derivado via movimento A-Barra (topicalização ).

an increase in the rate of use of the resumptive clitic pronouns required by left dislocation. 12 Tais diferenças reforçam a hipótese de que um parâmetro é uma série de características que se manifesta em conjunto. We have. que exibem somente o efeito V2 em orações principais. No caso das línguas simétricas. O que é relevante é que ambas as construções são derivadas via um tipo de movimento A-Barra. 10 Que este tipo de construção não é derivado através de movimento é evidenciado pelo fato de que podem aparecer em contextos de ilha. As línguas V2 são divididas principalmente em dois grupos: línguas simétricas. Ver também Rivero (1980). exceto o inglês. No Capítulo 01 de Pinto (2011) fiz uma discussão bastante densa da questão e apresento fortes evidências com base no modelo cartográfico de Rizzi (1997) e nos argumentos apresentados por Vikner (1995) e Schwartz e Vikner (1996) de que o efeito V2 acontece sempre no campo CP. No caso das línguas assimétricas. 1987. e línguas assimétricas. there will be an additional effect. Por exemplo. que exibem o efeito V2 tanto em orações principais como em orações subordinadas. since the rise in left dislocation corresponds to the loss of topicalization. we obtain the pattern in Figure 5 below. no Critério-WH por exemplo.. [. reversed the sign of the slope of the regression. como alguns DPs em CP. 1987b) sobre a história do francês: In sentences with preposed adverbs and prepositional phrases. ademais. que perdeu tal propriedade já há algum tempo. 86) Se houvesse movimento do DP de dentro da oração relativa para o inicio da oração matriz. ou estruturalmente. deixam o verbo na última posição da oração e há línguas que deixam o verbo na posição medial. o efeito V2 em oração subordinada pode ser generalizado ou restringido. of course. 15 Esta análise se baseia em Roberts (2004).. 1989. como os quantifcadores nus. nas orações subordinadas. 14 As análises propostas para o efeito V2 nas línguas humanas são muitas e diversas: há análises que propõem que o efeito V2 sempre implica em movimento do verbo para CP e há análises que propõem que há possibilidade de efeito V2 em IP (especialmente no caso das línguas simétricas). 13 O grupo mais representativo de línguas V2 na atualidade são as línguas germânicas.] If we fit a logistic curve to Priestley’s data via regression and compare the logistic transform of the fitted curve with Fontaine’s results. but in sentences with preposed noun phrase complements. passa obrigatoriamente pela questão do movimento. 16 Este aspecto também é trazido por Kroch (1989) a partir da proposta de Adams (1987a. 13-14) . inversão livre. efeito “that-trace” etc). a oração deveria ser agramatical já que orações relativas são caracterizadas como ilhas e não podem ter constituintes extraídos de dentro de si. (HERNANZ e BRUCART. observe-se o parâmetro do sujeito nulo: línguas de sujeito nulo exibem uma série de características que não são encontradas em línguas de sujeito preenchido (extração de sujeito de orações subordinadas. Se uma categoria não se move. como mostra o exemplo do espanhol: (i) El dinero Maria ignora quién lo tiene. p. Minha análise. 9 Cinque (1995) diz um operador pode ser definido inerentemente. há línguas que. 11 Lembrar que a definição de operador de Rizzi (1991). p.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 237 minimalistas). (KROCH. procura explicar a variação na manifestação no efeito V2 dentro do campo CP. the only effect of the change in accent on word order will be a decline in the rate of subject-verb inversion.. não se caracteriza como operador.

212) sintetizo a seguinte correlação: Contexto Focalização Tematização Neutro Espanhol antigo O-V O-V O-V Espanhol atual O-V O-cl-V V-O .238 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 17 O movimento de constituinte é obrigatório na focalização por uma questão de escopo: o elemento focalizado precisa ter escopo sobre o restante da oração. o foco sempre se caracteriza como operador e qualquer constituinte pode se mover para a periferia esquerda. p. Por isso. 18 Em Pinto (2011.

a su luz y de modo inverso.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 239 INVASIONES DEL TIEMPO EN EL ESPACIO DE LA CASA Carlos Garcia Rizzon UNIPAMPA Los acercamientos entre “Casa tomada”. lo que induce a una exaltación del alma en el lector. y “Chac Mool”. son muy perceptibles a los lectores de esos cuentos publicados en libro en la década de 1950. desde su primera frase. obra que marca el estreno del escritor mexicano en 1954. cuentista que principió la teoría sobre el género. . Sorprendiendo en sus finales. figura de la mitología mexicana que simbolizaba un mensajero entre los hombres y Tlaloc. también iniciando el libro. La lectura del tiempo como invasor de las casas es otra de las posibles interpretaciones: es el pasado. Para eso. personajes de vidas solitarias y hábitos rutineros abandonan sus casas – herencias y recordaciones de patrimonios familiares – porque ellas son invadidas. por la réplica de la estatua de un Chac Mool. el efecto deseado. hace parte de L os días e nmascar a d os enmascar nmascara os. dios de la lluvia que propiciaba la agricultura. la lectura del cuento en una sola asentada . todas las palabras de la composición deben estar direccionadas a provocar. podemos leer al tiempo presente como siendo el deflagrador de la expulsión de los hermanos – siempre restrictos al mundo del pasado – en el cuento del escritor argentino. por ruidos imprecisos. Una. Según Poe. de Carlos Fuentes. Las escritas de esos cuentos respetan la brevedad y la intensidad reconocidas por Edgar Allan Poe. el escritor estadounidense estableció principios en la estructuración del cuento que apuntan para una unidad de efecto. del año de 1951. quien toma la casa en “Chac Mool”. Algunos críticos ya apuntaron alegorías al peronismo (que se apodera de Argentina) o a las inmigraciones (que se apropian de Buenos Aires) o mismo del lector (que se adueña del texto) en el caso de “Casa tomada”. y el otro. caracterizado en la estatua. se torna necesaria. sin interrupciones. En los textos “Review of Twice-told tales” (1842) y “The philosophy of composition” (1846). y a la transferencia de identidades en relación a “Chac Mool”. esos cuentos crean efectos que abren diferentes posibilidades para interpretar los abandonos de las casas por sus moradores. que será alcanzado con la fuerza derivable de la totalidad del texto. El primero iar io es el cuento que abre B est estiar iario io. de Julio Cortázar. En ambas narrativas. la otra. como sonidos sofocados o murmullos de una conversación. en el final.

dice. también escritor argentino. nuestros escritores igualmente se dedicaron a pensar sobre el cuento como género literario. que el cuento deba tratar sus temas sin exageraciones. de Ricardo Piglia. donde la felicidad es imposible. vemos la sugestión de la complicidad del lector en la construcción del cuento. dará su sombra en nuestra memoria” (2004. en que los seres se entrelazan”. 1989. el autor ruso mantuvo correspondencias con jóvenes escritores iniciantes para quienes exponía sus consideraciones. el tiempo”. 516) y va más allá de lo que cuenta. con ironía. trascendiendo espiritualmente la imagen que muestra. que es llevado a dar continuidad a la narrativa. Antón Chejov. O sea. redijo textos como “Manual del perfecto cuentista”. actúa como una explosión que se abre a una realidad mucho más amplia. (2001. “Tesis sobre el cuento”. Otro texto teórico. que el cuento inicia por su final. para Cortázar “un cuento es significativo cuando quiebra sus propios límites” (2004. p. regidas por rutinas triviales. p. d e lo cur ayd em ue r te autor de Cue uent ntos de amor de locur cura de mue uer (1917). Siguiendo conceptos que venían desde Poe. De la misma forma. en el final de la década de 1960. donde un recorte. 521-522). por ejemplo. Es un mundo poroso. “todo cuento perdurable es como la semilla donde está durmiendo el árbol gigantesco. A pesar de no haber escrito artículos teóricos que tratasen de sus concepciones acerca del género. Sugiere. otro escritor. “Los trueques del perfecto cuentista” y “Decálogo del perfecto cuentista”. presentó cuestiones respecto al cuento como narrativa. “Chac Mool” y “Casa tomada” trabajan con la perspectiva de lo no acabamiento. 520). como este. partiendo de los principios sugeridos por Poe y Chejov. pues persiste retumbando en la mente del lector la continuidad de los acontecimientos. es decir. p. pues. p. En el mismo sentido y con sarcasmo. preserva la idea de unidad y depuración con el objetivo de alcanzar una intensidad narrativa que sea atractiva. 429) También Julio Cortázar. el relato de una historia bastante interesante y suficientemente breve para que absorba toda nuestra atención” (QUIROGA. En sintonía con las ideas de Chejov. el de explayar en quinientas páginas una idea cuya perfecta exposición oral cabe en pocos minutos. pues “el cuento literario consta de los mismos elementos que el cuento oral y es. De esa forma. siendo exigida su participación en la creación de la historia narrada. mas que pueden ser extendidos también al protagonista del cuento de Carlos Fuentes – deliberadamente triviales. en una conferencia proferida en Cuba.240 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Aún en el siglo XIX. Comparó esa escritura a una fotografía. el cotidiano se refleja en las acciones de los “personajes – caracterizados por Jorge Luis Borges en análisis a los textos de Julio Cortázar. aconsejándolos respecto a los textos. probablemente por su ceguera. p. Cortázar amplía la idea del efecto que el cuento provoca en el lector. aborda . Chejov observa también un carácter de apertura de la obra. En América Latina. un fragmento de la realidad. El uruguayo Horacio Quiroga. en palabras de Cortázar. Muy sutilmente el narrador nos atrae a su terrible mundo. Ese árbol crecerá en nosotros.” (BORGES. y publicada con el título de “Algunos aspectos del cuento” en la revista “Casa de las Américas”. Sin embargo. señaló algunas cuestiones más sobre la elaboración de los cuentos. 68). 1970. rechazar la subjetividad del autor y volcarse a extrañamientos percibidos en la observación de la propia realidad cotidiana. presentando normas para la producción de cuentos. Jorge Luis Borges comenta en el prólogo de Fic cio nes Ficcio ciones nes: “Desvarío laborioso y empobrecedor el de componer vastos libros. entonces. Y Borges continúa: “También se juega con la materia de que somos hechos. en 1970. Su pensamiento coincide con Poe cuanto a la brevedad y al efecto. nt os d e amo r. Pensando en la ruptura de lo cotidiano que los cuentos de Chejov ofrecen.

Para Piglia. También lo oí. Contrariando lo que podría ser natural. tiene la costumbre de comprar madejas Cortázar comparte. Los mismos acontecimientos entran simultáneamente en dos lógicas narrativas antagónicas. Tanto en uno como en otro cuento. Trabajar con dos historias quiere decir trabajar con dos sistemas diferentes de causalidad. y espaciosa y antigua la de los personajes de “Casa tomada”. . con lo subentendido y con la alusión de la historia que está aparente. Borges destaca. En los cuentos “Casa tomada” y “Chac Mool”. es decir. esos personajes presentan una falta de aspiración y una indiferencia con el mundo y la sociedad que los rodea. la cerré de golpe apoyando el cuerpo. a la cocina. Encerrados en la seguridad de sus hogares – protecciones de lo ya establecido –. Representan mundos autárquicos y aislados. o sea. Los elementos esenciales del cuento tienen doble función y son usados de manera distinta en cada una de las dos historias. 133) Cuando la invasión se hace completa. dice más adelante. Se dedican a la limpieza de la casa. la solución encontrada es el abandono de la casa. de Ernest Hemingway. de principios. de geografías bien cartografiadas. Los hermanos. Lo perturbador en “Casa tomada” está en la actitud de los hermanos. “un poco lúgubre en su arquitectura porfiriana” la casa de Filiberto. 509). de manera fantástica en el cuento de Cortázar y en el ámbito de lo maravilloso en el relato de Fuentes. cerrando puertas y abriendo espacio para lo irracional: Aún según Piglia. (p. El sonido venía impreciso y sordo. los sábados. comprendida por lo que está por detrás de ellas. Cada una de las dos historias se cuenta de un modo distinto. para quien el verdadero estudio de la realidad no residía en las leyes sino en las excepciones a esas leyes” (p. donde “podían vivir ocho personas sin estorbarse”. personajes de Cortázar. de psicologías definidas. Eso nos remete a la teoría del iceberg .] cuando escuché algo en el comedor o la biblioteca. oponiéndose. p. las casas son descriptas como sólidas construcciones de tiempos imponentes. una que se lee en la superficie de las líneas escritas. 73) de lana para las tricotas de Irene. la historia secreta se construye con lo no dicho. felizmente la llave estaba puesta de nuestro lado y además corrí el gran cerrojo para más seguridad. Irene y su anónimo hermano. apenas el hermano. como dijo en la conferencia a los cubanos. como un volcarse de silla sobre la alfombra o un ahogado susurro de conversación. en el fondo del pasillo que traía desde aquellas piezas hasta la puerta. siendo apenas la cara oculta de la realidad. 508-509) Fui por el pasillo hasta enfrentar la entornada puerta de roble [. De forma similar. (2004. al mismo tiempo o un segundo después. en su análisis de […] a ese falso realismo que consiste en creer que todas las cosas pueden describirse y explicarse como lo daba por sentado el optimismo filosófico y científico del siglo XVIII. p. las historias aparentes de las invasiones caracterizan formas literarias que subvierten padrones convencionales de la racionalidad. que se mueven en el terreno de lo fantástico sin distinguirlo de la realidad. son incapaces de reaccionar a la invasión de los ruidos. de relaciones de causa y efecto. pues no hay sobresaltos o protestas.. prácticamente no salen de casa. dentro de un mundo regido más o menos armoniosamente por un sistema de leyes. el cuento es una historia que esconde una historia secreta..ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 241 que el cuento presenta dos historias. el hermano a la lectura u ordenación de una colección de estampillas (“para matar el tiempo”) e Irene a los tejidos de lana (tal vez un “gran pretexto para no hacer nada”). con el “fecundo descubrimiento de Alfred Jarry. (PIGLIA. 2000. Para Cortázar. la noción de lo fantástico no difiere de lo real. Los puntos de cruce son el fundamento de la construcción. y otra aludida. apenas buscan refugiarse cada vez más en el interior de la casa. personaje de “Chac Mool”. Me tiré contra la puerta antes de que fuera demasiado tarde.

p. interliga el pasado con el presente. p. que “la magia es la coronación o pesadilla de lo casual.. él pasa a enfrentar una serie de perturbaciones. 335). y otras imaginarias”. sin embargo. entonces empezó a llover. Filiberto colocó la estatua del Chac Mool. Si en la historia fantástica de “Casa tomada” hay una naturalización de lo irreal. primeramente. un objeto decorativo sin ninguna significación histórica o religiosa.. Allí estaba Chac Mool. sin ningún carácter investigativo.. con esa seguridad espantosa de que hay dos respiraciones en la noche.. que lo obliga a buscar agua. 16). donde la réplica de un Chac Mool que él compra en una feria popular será nada más que un trofeo conquistado. revelan actitudes mecánicas y superficiales. dejé correr el agua de la cocina.. con su barriga encarnada. Pero ya está aquí. Sí. Incauto. de manera inequívoca. Aumentando sus problemas. y las lluvias se han colado. 1976. e irán interferir en su trabajo. Para Bella Josef. (p. 28). (CARPENTIER. la profundidad del sótano comienza a reavivar Chac Mool.. Filiberto es un funcionario público preso a una vida de rutinas y hábitos rígidos. todas en relación al agua. pues él se desequilibra mentalmente y llega a ofrecer “sus servicios al Secretario de Recursos Hidráulicos para hacer llover en el desierto” (p. 15). cuando surge de una inesperada alteración de la realidad (el milagro). entre ellos. inundando el sótano” (p. de una revelación privilegiada de la realidad. yuxtaponiendo los tiempos y alterando maravillosamente la realidad: […] lo real maravilloso comienza a serlo. antes de llevarla a su cuarto de trofeos: “El traslado a la casa me costó más que la adquisición. alimentos e inclusive a ceder sus aposentos. 20-21) Dominado por la estatua. huir y dejar la casa es la única alternativa para Filiberto. El cuarto olía a horror. Vuelta a dormir. Los tormentos de Filiberto seguirán en casa. ocre. “na literatura hispano-americana. Su interés por “ciertas formas del arte indígena mexicano” no pasa de un deseo coleccionista. Así como el interior de las pirámides de los antiguos pueblos mexicanos preservaba los elementos culturales del pasado. no su contradicción. Así. No sé cuánto tiempo pretendí dormir. [. [. por el momento en el sótano mientras reorganizo mi cuarto de trofeos a fin de darle cabida” (p. sonriente. 21). xvii) . de que en la oscuridad laten más pulsos que el propio. donde la presencia concreta de una estatua gana vida y los elementos de lo maravilloso se asocian a los mitos de las culturas indígenas. Pesadilla. Fue en el sótano que. elemento vinculado a Chac Mool en la mitología: “Amanecí con la tubería descompuesta. se escuchaban pasos en la escalera. por fin.] Chac Mool avanzó hacia la cama. creando una atmósfera en que la tensión mental es provocada por difusos e inexplicables ruidos de algo apenas mencionado. El Chac Mool. de una iluminación incomún o singularmente favorecedora de las escalas y categorías de la realidad.. Cuando volví a abrir los ojos. la estatua adquiere vida y lo hace prisionero y esclavo de sus deseos: Y ayer. o mito passou a ser considerado o próprio real compreendido na simultaneidade de suas perspectivas prováveis” (1993. Esas actividades. erguido. aún no amanecía. y se desbordó por el suelo y llegó hasta el sótano” (p. mensajero que es. una vez que “la tubería volvió a descomponerse. en “Chac Mool” el “algo más” se revela por una sobrenaturalización de lo real. (1989. en el cuento de Fuentes. A partir del momento en que Filiberto lleva la estatua a su casa. p. un despertar sobresaltado. 15). el mundo de los antiguos mexicanos actuará sin ningún extrañamiento a la comprensión racional de la realidad.] Todas las leyes naturales lo rigen. percibidas con particular intensidad en virtud de una exaltación del espíritu que lo conduce a un modo de “estado límite”.] Cuando sin aliento encendí la luz. a incienso y sangre. [.242 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS “Casa tomada”. visitar sitios arqueológicos y coleccionar piezas antiguas de la cultura mexicana..

Con el café que casi no reconocía. “ciertamente muy grande” y “única herencia y recuerdo” de sus . En fin. si un bromista pinta de rojo el agua. caracterizándose por la manutención de una disciplina que lo impidió de cualquier transformación o realización de un sueño. ausente de valor e interferencia en la realización de su vida. y a eso de las once yo le dejaba a Irene las últimas habitaciones por repasar y me iba a la cocina.]. Vivir “en aquel caserón antiguo. presentes y olvidados? [. Nos resultaba grato almorzar pensando en la casa profunda y silenciosa y cómo nos bastábamos para mantenerla limpia. Real bocanada de cigarro efímera. como relata el hermano: Hacíamos la limpieza por la mañana. que no constituyeron familias y permanecieron estériles: “A veces llegamos a creer que era ella [la casa] la que no nos dejó casarnos. la cabeza fue a dar allá. Es el mismo al que íbamos de jóvenes y al que ahora nunca concurro [. Las lecturas de los mismos libros que el hermano hace no añaden nada. se cree en lo real. los hermanos de “Casa tomada” preservan la casa “espaciosa y antigua” que “guardaba los recuerdos” de infancia por el hábito de “persistir en ella”.. No existe ningún avance y ninguna construcción.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 243 Cuando el Chac Mool se humaniza. la cola aquí. sin renovación. (p. ya no quedaba nada por hacer fuera de unos pocos platos sucios. a mí se me murió María Esther antes que llegáramos a comprometernos” (p.. el interés por un Chac Mool no demuestra ningún conocimiento por una cultura. 12). lo que le causaba algún sufrimiento: “Sentí la angustia de no poder meter los dedos en el pasado y pegar los trozos de algún rompecabezas abandonado” (p. apenas mantiene la evasiva función de evitar el Su esfuerzo en mantener la casa. 131). o estar. (p. sin criados ni vida familiar” (p. siempre puntuales. pues no pasan de simples rellenos del tiempo..]. Es incapaz de ambicionar un cambio.. con la mitad de los cuartos bajo llave y empolvados. probablemente la casa haya interferido en las vidas de él y de Irene. De igual manera. modernizadas – también. con la ciudad misma. como barricada de una invasión. Y las estampillas reordenadas en el álbum no alteran la preservada antigüedad. pues en toda su trayectoria de vida “había habido constancia”.. Almorzábamos a mediodía. Irene rechazó dos pretendientes sin mayor motivo. Sin embargo. pues no realiza relaciones con otras obras.. Filiberto no acompañó los cambios: […] decidí gastar cinco pesos en un café. porque nos damos mejor cuenta de su existencia. sólo real cuando se le aprisiona en un caracol. 11). Filiberto ya no distingue lo que es realidad o delirio. ¿no lo son todos los muertos. y más. Del mismo modo. más que lo creído por mí. (p. pero esto lo es. y lo que era una antigua representación divina se reduce a un objeto decorativo que se compra en una tienda de feria que vende recuerdos para turistas.. una vez que consideraba que “desde 1939 no llegaba nada valioso a la Argentina” (p. habían ido cincelándose a ritmo distinto del mío”. 19) padres. 11-12) La limpieza de la casa es una rutina que mantiene un pasado envejecido.. Como reconoce el hermano. es apenas un reflejo condicionado de su rutina. reales. Las ejecuciones mecánicas de sus tareas se tornan operaciones improductivas. quedamos a la mitad del camino” (p. 132). Si es real un garrafón. y nosotros no conocemos más que uno de los trozos desprendidos de su gran cuerpo. Sus actividades también son repetitivas. hoy volví a sentarme en las sillas. sin alteraciones en sus hábitos. 21) retrata su conformismo por no haber alcanzado los planes idealizados en la juventud: “parecíamos prometerlo todo.] Realidad: cierto día la quebraron en mil pedazos. real imagen monstruosa en un espejo de circo. percepciones que se funden en la mente del personaje: […] todo es tan natural. mientras el mundo se transformaba con el tiempo. levantándonos a las siete. mecánica y mediocre. acomodado a una existencia uniforme. Océano libre y ficticio. 131) Filiberto es un sujeto de “tentaciones burocráticas”.. y luego.. la fuente de sodas [.

Confortables en la mediocridad. p. La primera dimensión corresponde a la vida vegetal. não ao passado. correndo o risco de confundir o presente com aquilo que já não o é. Jorge Luis Borges presenta tres dimensiones de la vida: Tres dimensiones tiene la vida. seja pela constatação da ordem segundo a qual eles se organizam para formar um sistema. que cierran la casa y a sí propios con el intuito de impedir la novedad. lo diferente y la transformación. no se desenvuelven y no producen. sob pena de nos perder em um presente abstrato. cabría a los vegetales acumular energía. mas às categorias que ele nos legou. independentes de nós. deveríamos ver o passado como algo que encobre as raízes do presente. sua história. La permanencia y la conformación de lo establecido. Se quiséssemos apreender o “presente como história” de Lukács e Sweezy. apropiarse del espacio y. Ya Irene. el geógrafo Milton Santos observa: Para apreender o presente é indispensável um esforço no sentido de dar as costas. despertadores y. altoparlantes. Vivir sin pensar es no reconocer el pasar del tiempo. Já não estaremos. sin renovación o actualización. bocinas. 2002. Eso tornó la vida humana menos intensa y más extensa.244 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS contacto con los ruidos invasores. Os fatos estão todos aí. sendo histórico. Se puede vivir sin pensar” (p. 198) En esa clasificación. un acumulador de piezas de arte indígena que desfigura y anula sus representaciones del pasado. (1989. donde el ritmo de vida de viejos tiempos ya no encuentra lugar. el hombre materialista conquistó personas y territorios. todo conceito se esgota no tempo. son obligados a abandonar sus casas porque no ofrecen espacio al transcurso del tiempo. llevan a una inexistencia histórica. únicos seres previsores e históricos. vivir el tiempo. 10) En el ensayo “La penúltima versión de la realidad”. . alarmas de autos y llamadas de teléfonos celulares son marcas indisimuladas de nuevos tiempos. Si en “Chac Mool” es el pasado. 131-132). a los hombres. en “Casa tomada” los ruidos invasores pueden indicar el tiempo de la modernidad. Conservar categorias envelhecidas equivale a redigir um dogma. del movimiento. um novo sistema temporal. La tercera dimensión equivale a la vida humana. exigiendo el reconocimiento de su presencia. de la vida. um modo de produção novo ou a transição entre os dois. Abdicando del tiempo y dado a la adquisición de objetos y pertenencias. Presos en las recordaciones y en la manutención de lo mismo. 135). (SANTOS. ancho y profundidad. no interior de uma estrutura social. más recientemente. La segunda dimensión pertenece a la vida animal. Los sonidos de máquinas. representado por la estatua de una cultura antigua.. “aparte de su actividad matinal pasaba el resto del día tejiendo en el sofá de su dormitorio. um conceito.] a veces tejía un chaleco y después lo destejía en un momento porque algo no le agradaba (p. assim definida. p. La vida de los vegetales es una vida en longitud. Largo. Tanto los hermanos de “Casa tomada”. los hermanos no crecen. que se reconhecem as categorias da realidade e as categorias de análise. no demuestran necesidades y tampoco ambiciones: “Estábamos bien. aún según Borges. sin alteraciones que agreguen novedades. irreal e impotente. isto é. seja pela observação de suas relações de causa e efeito. este por no conocer y respetar el pasado. um novo momento do modo de produção antigo. citando diferentes pensadores. a los animales. Mas nos toca fazer que se convertam em fatos históricos mediante a identificação das relações que os define.. según Korzybski. y aquellos por la indiferencia con el presente. lo que hizo nacer el imperialismo. que se apodera de la casa. então. y poco a poco empezábamos a no pensar. En ese sentido. La vida de los hombres es una vida en profundidad. La expulsión o el abandono de sus casas son fantásticas o maravillosas cobranzas que el tiempo hace del aislamiento de Irene y su hermano y de Filiberto. La vida de los animales es una vida en latitud. como Filiberto. É por sua existência histórica. E. [. ou melhor. Sem relações não há “fatos”.

Obra crítica. _____ (2004): Algunos aspectos del cuento. Buenos Aires: Suma de Letras Argentina. 2ª ed. Milton (1986): O presente como espaço. 1. Buenos Aires: Emece. Pensando o espaço do homem. Buenos Aires: Nemont. Discusión. Vol. Buenos Aires: Emece. Vol. Obras completas. _____ (1992): Julio Cortázar: cuentos. Carlos (2001): Chac Mool.F. Bestiario. São Paulo: Paz e Terra. 7. Cuentos completos.: Ediciones Era. JOSEF. _____ (1989): Prólogo. Obras completas. PIGLIA. São Paulo: Ática. 17ª ed. . SANTOS. Prólogos. 17ª ed. 8ª ed. Bella (1993): O espaço reconquistado. GOTLIB. Los días enmascarados. 10ª ed. Formas breves. CORTÁZAR. Vol. El reino de este mundo. FUENTES. QUIROGA. Barcelona: Anagrama.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 245 Referencias bibliográficas BORGES. São Paulo: Hucitec. Buenos Aires: Punto de lectura. Horacio (1970): Sobre literatura: obras inéditas y desconocidas. Ricardo (2001): Tesis sobre el cuento. 11ª ed. Julio (2008): Casa tomada. CARPENTIER. Alejo (1976): Prólogo. 2. México D. Montevideo: Arca. Nádia Battella (2006): Teoria do conto. 2ª ed. Ficciones. Jorge Luis (1989): La penúltima versión de la realidad. Buenos Aires: Emecé.

inclusive em seu quadro de variações dialetais. a parte prosódica ainda precisa de mais estudo e descrição. ou seja. respectivamente (MORAES. contrastamos o estudo realizado por Moraes (2008) para o PBLM com o de Estevas Vilaplana & Prieto (2008) para o ELM. (b) que características prosódicas esses falantes transferem de sua LM para a LE?. mas julgam a entoação dos aprendizes como insuficiente. (c) a transferência prosódica da LM compromete a inteligibilidade e/ou gera um julgamento negativo da competência prosódica do falante de LE. No entanto. Considerando as diferenças prosódicas já descritas entre o PBLM e o ELM. por parte de falantes de LM? Nossas hipóteses são: (a) os aprendizes cariocas de ELE realizam os pedidos de informação e os pedidos de ação – em ELE como o fazem em PBLM. (b) os juízes reconhecem os pedidos.393). Em um segundo momento. 2008. Já para o estudo da percepção. a fim de verificar a produção desses atos ilocutórios por aprendizes de ELE e a percepção de ditos atos por parte de nativos de diferentes áreas dialetais. Como nosso objeto de estudo são os pedidos de informação e de ação. pretendemos com este trabalho realizar uma analise contrastiva de tais pedidos em português brasileiro como língua materna (PBLM) e em espanhol madrileno como língua materna (ELM). Nosso trabalho está organizado da seguinte forma: na sessão 1 definimos nosso objeto de estudo: . com o padrão entonacional L+<H*L% e L+>H*L%. morfológicos e sintáticos no ensinoaprendizagem de espanhol como língua estrangeira (ELE). Para realizar o estudo da produção. Do ponto de vista fonético e fonológico. a parte segmental está bastante descrita. nos perguntamos: (a) como os aprendizes cariocas de ELE produzem o acento tonal de tais pedidos?.246 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS PEDIDOS DE INFORMAÇÃO E PEDIDOS DE AÇÃO EM PORTUGUÊS E EM ESPANHOL: UM ESTUDO ENTONACIONAL DE PRODUÇÃO E PERCEPÇÃO Carolina Gomes da Silva PG/UFRJ Maristela da Silva Pinto UFRRJ Priscila Cristina Ferreira de Sá PG/UFRJ Introdução Dispomos de uma quantidade de informação relativamente importante para a sistematização dos níveis lexicais. descrevemos fonética e analisamos fonologicamente os pedidos de informação e os pedidos de ação em ELE. p. contamos com julgamento de nove juízes nativos de seis áreas dialetais distintas e de três aprendizes de ELE.

adultos. pedidos de ação. selecionamos 12 enunciados e os deslexicalizamos para que fossem julgados por nove juízes nativos de seis áreas dialetais distintas: 1 da Espanha. como em “Renata jogava?”. com idade entre 25 e 35 anos. 1 de Honduras. San Salvador. 2011. 2005. para o pedido de informação e L+>H*L%. 1999) marcando o tonema (ou núcleo) a partir de um tom alto (H) ou baixo (L). extraídos dos trabalhos de Moraes (2008) para o PBLM (fala carioca) e de Estevas Vilaplana & Prieto (2008) para o ELM (fala madrilena). correspondendo a tentativas do falante de levar o ouvinte a fazer algo (Searle. sendo seis de pedidos de informação e seis de Vilaplana & Prieto (2008). para o pedido de ação. como em “Destranca a janela?”. Com relação à descrição fonética. para o PBLM (fala carioca): L+<H*L%. com nível superior completo em Letras – Português/ Espanhol. sendo dois de pedido de informação e dois de pedido de ação. para o ELM (fala madrilena): L*HH%. Lima. 1984 apud Wilson. cidade da Guatemala. ELE com quatro enunciados modelo. e as de Estevas 2. p. esses pedidos apresentam diferenças entre si. gravamos a leitura em voz alta de 24 enunciados interrogativos totais em ELE. isto é. Tais enunciados foram produzidos por dois informantes. embora o enunciador faça uma pergunta. cariocas. Comparamos esses 24 enunciados em 1. professores de ELE e inseridos no mercado de trabalho. 3 do Chile. ambos do sexo feminino. o enunciador pergunta algo que desconhece ao ouvinte e supõe que este detém a informação (KERBRAT-ORECCHIONI. Andaluzia. espera-se o cumprimento de um ato qualquer. Para dar conta da análise fonológica seguimos o sistema de notação Métrico Autossegmental (AM). 1 de Porto Rio.102). Já para o estudo da percepção. 1 do Peru. Santiago de Chile. nos pedidos de ação. Diferentemente dos pedidos de informação. Os contornos entonacionais dos enunciados analisados foram obtidos a partir do programa PRAAT (BOERSMA & WEENINK. ou seja. Para o estudo da produção. marcada na frase pela formulação interrogativa. para o pedido de informação e H+L*L%. espera uma ação verbal por parte do receptor. Descrevemos esses 24 enunciados foneticamente e os analisamos fonologicamente. No entanto. Nos pedidos de informação. San Juan e por três falantes de . na sessão 2 apresentamos a metodologia adotada.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 247 pedidos de informação e pedidos de ação. Cabe ressaltar que o enunciador espera que o ouvinte lhe dê uma resposta com sim ou não. para o pedido de ação. na sessão 3 apresentamos os resultados e na sessão 4.Metodologia Nosso trabalho se divide em duas partes: a primeira se refere à análise da produção dos pedidos de informação e de ação por falantes brasileiros de ELE. Usamos as propostas de Moraes (2008). diz respeito à percepção de ditos enunciados por falantes nativos de espanhol. considerando o formato do contorno entonacional e seus movimentos. p. 2 da Guatemala. obser vamos o comportamento dos parâmetros acústicos de frequência fundamental (F0) e duração no tonema (último vocábulo tônico do enunciado) dos pedidos. nossas discussões e conclusões.94). 19932012). A segunda.Atos ilocutórios: Pedidos de informação e pedidos de ação Os pedidos de informação e os pedidos de ação equivalem a atos ilocutórios diretivos. ele espera uma ação não verbal por parte do ouvinte. proposto por Pierrehumbert (1980) e Ladd (1996.

após ouvirem cada enunciado. em média. em função da implementação da F0 e da duração. Já para o estudo da percepção.1. de 25 Hz da sílaba pretônica para tônica. seguida de uma queda de 73 Hz da tônica para a póstônica. sendo dois do sexo feminino e uma do sexo masculino. os pedidos de informação e os de ação em PBLM. falantes de espanhol nativos ou não. seguida de uma queda de 65 Hz da sílaba tônica para a pós-tônica. observamos que nos pedidos de informação os sujeitos implementam a F0 em ELE com uma subida. se o juiz julgasse a entoação dada ao enunciado pelo sujeito como média e C . Esses juízes/avaliadores.Produção Analisando os dados. 3. se o juiz julgasse a entoação dada ao enunciado pelo sujeito como b o a . tônicas e pós-tônicas do tonema dos pedidos de informação e ação em ELE. como ilustrado no gráfico 1. Cabe destacar que os três juízes cariocas são professores de ELE. de 40 Hz da sílaba pretônica para tônica. se o juiz julgasse a entoação dada ao enunciado pelo sujeito oa. em média. B. Já nos pedidos de ação. todos do Brasil. . ELM e ELE são os d e inf o r mação e d e ação o ne ma/núc le o (Hz): p e did Média d e F0 das v o g ais no t de leo pe didos de info de vo to nema/núc ma/núcle Gráfico 1: Variação de média de F0 nas vogais pretônicas. com idade entre 20 e 45 anos. tiveram de definir o tipo de pedido (de informação ou de ação) e atribuir um conceito à entoação dada por nossos sujeitos aprendizes a cada um desses 12 enunciados.Resultados Para o estudo da produção. assim como em função de sua configuração tonal. Rio de Janeiro.248 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS ELE. observamos que os sujeitos implementam a F0 em ELE com uma subida. a seguir. Esses conceitos poderiam ser: A . os pedidos de informação e os de ação são analisados segundo o reconhecimento dos atos ilocutórios e a avaliação da entoação dos aprendizes por parte dos juízes. 3. como não b bo analisados. todos com nível superior.

Tal atribuição se assemelha a atribuição tonal do PB. Por outro lado. p. observase um alinhamento antecipado na sílaba tônica. no segundo caso. p. 393) Espanhol Europeu (fala madrilena): H+L*L% ( Estevas Vilaplana & Prieto. . fala madrilena: um contorno melódico final ascendente (L*HH%) para o pedido de informação e um contorno melódico final descendente (H+L*L%) para o pedido de ação. constatamos em nossas análises que os sujeitos realizam os contornos dos pedidos de informação e de ação em ELE com o contorno melódico final circunflexo L+H*L%. fala carioca. Qua dr oc o mpar at i vo da média d o alinhame nt ot o nal e mr e lação à sílaba p ro e mine nt e no t o ne ma/ Quadr dro co mparat ati do alinhament nto to em re pr minent nte to nema/ núc le o (%): p e did os d e inf o r mação e d e ação núcle leo pe didos de info de Gráfico 2: Há um alinhamento tardio médio de 890ms (89%) do total da sílaba proeminente. 2008. ou seja. 393) Espanhol Europeu (fala madrilena): L*HH% (Estevas Vilaplana & Prieto. p. 2008. no primeiro caso e com alinhamento antecipado (L+>H*L%). como exemplificado no gráfico 2. sua língua materna e se diferencia do padrão descrito para o ELM. a distância em milissegundos correspondendo ao alinhamento tonal (pico. vale) em relação à sílaba proeminente é inferior a 40% da duração total desta sílaba. sendo com alinhamento tardio (L+<H*L%). 280) Espanhol/LE (falantes cariocas): L+>H*L% Tabela 1: Síntese das atribuições tonais para os pedidos de informação e os de ação. ou seja. 280) Espanhol/LE (falantes cariocas): L+<H*L% Pedido de Ação Português do Brasil (fala carioca): L+>H*L% (Moraes. a distância em milissegundos correspondendo ao alinhamento tonal (pico. p. 2008. Sintetizamos estes resultados na tabela abaixo. No que concerne à atribuição tonal. nota-se que nos pedidos de informação há um alinhamento tardio na sílaba tônica. 2008. Análise Fonológica de Pedidos de Informação e Pedidos de Ação: Atribuição Tonal Pedido de Informação Português do Brasil (fala carioca): L+<H*L% (Moraes. nos pedidos de ação. vale) em relação à sílaba proeminente é superior a 60% da duração total desta sílaba. nos pedidos de informação e um alinhamento antecipado médio de 390ms (39%) do total da sílaba proeminente.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 249 Com relação ao comportamento da duração.

nota-se que em 47% dos casos há reconhecimento dos pedidos de informação e 44% dos pedidos de ação.7/11 Tabela 3: Avaliação do julgamento dos juízes. o que está sendo confundido com o que foi reconhecido. nota-se que os juízes atribuem melhor nota para os pedidos de ação (7.0/1 7.250 3.3/5 5. Com os resultados obtidos através do teste de percepção. somente o prosódico. Andaluzia Chile. cidade da Guatemala Honduras. Como utilizamos neste teste de percepção enunciados deslexicalizados.2.6/6 5.0/4 7. É interessante observar que uma matriz de confusão Mat r iz d eC o nfusão: P e did os d e inf o r mação e d e ação atr de Co Pe didos de info de Percepção Produção Pedido de Informação Pedido de Ação Pedido de Informação 34 40 Tabela 2: Resultados na matriz de confusão.5/3 8. Notas at r ib uídas aos p e did os d e inf o r mação e d e ação atr ibuídas pe didos de info de Área dialetal dos juízes Espanha. Pedido de Ação 38 32 Confrontando os dados referentes ao quantitativo de casos em que a intenção do aprendiz em produzir seus enunciados foi identificada pelos juízes.6/6 3. ou seja.8/3 8. Confrontando os dados referentes ao reconhecimento dos pedidos de informação e de ação. acreditamos que possa ter dificultado o reconhecimento por parte dos juízes.3/5 7. San Salvador Peru. Santiago de Chile Guatemala. Cabe ressaltar que houve um maior número de reconhecimento do pedido de informação pelos juízes (vide tabela 3).7). Lima Porto Rico. Rio de Janeiro Pedido de Informação 10. San Juan Brasil. como ilustrado na tabela 2.Percepção ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS permite confrontar pares binários de confusão.0/2 5.6/7 5.0/1 6. sem o nível lexical.7/3 9.6) do que para os pedidos de informação (6.0/9 Pedido de Ação 10. confeccionamos uma matriz de confusão. . isto é.

Paul & WEENINK. Niterói: EdUFF. Em: Estudios de fonética experimental XVII. por parte de falantes de LM. & PRIETO. Plinio. WILSON. pois acreditamos que. Campinas: IEL. com a descrição dos contornos entonacionais dos enunciados na LM e na LE. mas são poucos os estudos que tratam especificamente da relação entre entoação e atos ilocutórios. Referências bibliográficas BOERSMA.pdf. MADUREIRA. CÉSAR (eds. João Antônio de (2008): The Pitch Accents in Brazilian Portuguese: analysis by synthesis.ub. Em suma. Eva. 87 – 110.nl/praat/ ESTEBAS VILAPLANA. com alinhamento tardio do pico na sílaba tônica. p. David (1993-2012): Praat.hum. Victoria (2011): Motivações pragmáticas. KERBRAT_ORECCHIONI. com alinhamento antecipado do pico na sílaba tônica. empregam o sistema de sua LM pelo qual filtram a fala da LE. Pilar (2008): La notación prosódica del español: una revisión del Sp_ToBI.fon. Esperamos. São Paulo: Contexto. . os aprendizes tendem a se basear no sistema prosódico da sua LM. quando não compromete a inteligibilidade. Já para o pedido de ação. Sandra & REIS. Em: BARBOSA. o acento tonal nuclear mais frequente apresenta subida da sílaba pretônica para tônica seguida de uma queda da sílaba tônica para pós-tônica. os aprendizes de LE têm elementos para contrastar marcas específicas da LM com as da LE e se tornam capazes de minimizar as transferências prosódicas de sua LM quando se expressam na LE. MORAES.) Manual de linguística. No ensino de espanhol como língua estrangeira são muitos os trabalhos que apresentam as dificuldades enfrentadas por um brasileiro aprendiz dessa língua.edu/labfon/sites/default/files/XVII-15. Disponível em: http://www. fato este que dificulta a inteligibilidade da produção oral do falante de LE e. Em: MARTELOTTA.uva.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 251 Conclusões Constatamos com este estudo que o acento tonal nuclear mais frequente produzido pelos falantes brasileiros aprendizes de ELE nos enunciados interrogativos totais que funcionam como pedido de informação apresenta subida da sílaba pretônica para tônica seguida de uma queda da sílaba tônica para pós-tônica.). com este trabalho contribuir no ensino da oralidade do Espanhol como língua estrangeira. Catherine (2005): Os atos de linguagem no discurso. Acessado em 05/02/2012. Disponível em: http://stel. portanto.: Proceedings of the Speech Prosody The Fourth International Conference in Speech Prosody. em outras palavras. Mário Eduardo (org. gera um julgamento negativo da competência prosódica do falante de LE.

Das 669 personagens que compõe a obra de Cervantes (RILEY. por um lado. Preliminares. Necio él. Já nos poemas introdutórios. Iniciemos por Dulcinéia. En tal desmán vueso conorte sea Que Sancho Panza fue mal alcagüete. as duas são descritas a par tir de modelos literários pré-existentes. 2000. sem dúvida. I. do escritor brasileiro Ariano Suassuna. dura ella y vos no amante. Neste trabalho pretendemos estabelecer algumas relações entre as personagens Dulcinéia del Toboso. na obra O Romance d’ A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta. I. sob diferentes perspectivas e. Nossa intenção é mostrar como. p. mas uma multiplicidade de pontos de vista 3 que incidem sobre ela e que propiciam inúmeras leituras de Dulcinéia. como ambas são construídas a partir de um processo metaficcional. ou seja. Não há na obra de Cervantes uma descrição precisa da personagem. tanto Dulcinéia como Heliana são apresentadas ao leitor de forma ambígua. que nos apresenta Aldonza Lorenzo. ora como uma feia prostituta. honesta y sabia” e em “De Solisdán a Don Quijote de la Mancha”. como “una moza labradora de muy . p. em uma perspectiva comparatista. Dulcinéia é descrita como “famosa. Dulcinéia é. mais especificamente o livro El ingenioso hidalgo Don Quijote de La Mancha. 27). Ni a vuesas cuitas muestra talante. por outro. Dulcinéia ora será descrita como uma linda princesa. o “eu lírico” atribui a castidade de Dom Quixote à incompetência de Sancho como alcoviteiro. (DQ. No poema “La señora Oriana a Dulcinea del Toboso” (DQ. 33) Essa dualidade da personagem será reforçada e reiterada ao longo da obra.252 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS DE DULCINÉIA A HELIANA: PERSPECTIVISMO E METAFICÇÃO Célia Navarro Flores Universidade Federal de Sergipe – UFS Em nossa pesquisa atual1. Desaguisado contra vos comete. da obra cervantina e Heliana. A única descrição mais confiável seria a do narrador. uma das mais misteriosas2. visamos observar. no primeiro capítulo. sugerindo-nos a possibilidade de uma união carnal entre Dom Quixote e Dulcinéia e colocando sua honestidade em dúvida: Y si la vuesa linda Dulcinea. p. 152). Preliminares. a influência da obra cervantina. podemos observar diferentes pontos de vista sobre a personagem. do livro de Suassuna.

. sua voz se assemelha ao som de um sino e é uma mulher de talhe robusto (“qué rejo tiene”). su blancura nieve (.). Enfatizamos. nessa descrição. puesto que se conceda que hay Dulcinea en el Toboso o fuera de él. 13. Como todo bom cavaleiro..) que su nombre es Dulcinea. da qual o protagonista é Sinésio. um cavaleiro que — após ser raptado e preso — volta . 141-142) Nesta descrição. Ao longo do livro de Cervantes. não é um cavaleiro. el Toboso. a expressão “todos los imposibles y quiméricos atributos de belleza que los poetas 6 dan a sus damas”. bochechas. p.. Vejamos rapidamente dois pontos de vista: o de Sancho e o de Dom Quixote. à diferença de Dom Quixote. su hermosura. 1. con las Alastrajareas. da segunda parte. mas um escritor. 44). O romance que está escrevendo é uma epopeia. o duque põe em dúvida a existência e a linhagem de Dulcinéia e novamente se alude à literatura ao comparar Dulcinéia com as damas dos livros de cavalarias: — Así es — dijo el duque. Dom Quixote conscientemente a descreve a imitação dos “poetas”. no capítulo 25 da primeira parte (p.. sus cejas arcos del cielo. Dom Quixote descreve Dulcinéia diversas vezes.). ao rebaixá-la a uma e prostituta. (. a intenção de Sancho é destruir o universo de Dom Quixote. 32) Vejamos agora como Ariano Suassuna se vale da mesma estratégia para criar a personagem Heliana. Na obra de Suassuna. corais. Sancho a rebaixa ainda mais ao compará-la a uma prostituta afirmando que ela “tiene mucho de cortesana: con todos se burla”: “cortesã” também significa. episódio em que Sancho engana Dom Quixote ao afirmar que três feias lavradoras seriam Dulcinéia acompanhada de duas damas. uma das melhores descrições é a do capítulo 13 da primeira parte. —(. su patria. Quando Sancho descobre que Dulcinéia é Aldonza Lorenzo. alabastro su cuello. A perspectiva de Dom Quixote sobre Dulcinéia é oposta a de Sancho. 283). de quien están llenas las historias que vuesa merced bien sabe. sobrehumana. sobrancelhas.) Solo sé decir. mármol su pecho. pescoço. “inventa” Dulcinéia del Toboso. sus mejillas rosas. pues en ella se vienen a hacer verdaderos todos los imposibles y quiméricos atributos de belleza que los poetas dan a sus damas: que sus cabellos son oro. II. testa. no capítulo 1 da primeira parte. un lugar de la Mancha. tomando como modelo uma vizinha por quem durante algum tempo andou apaixonado. Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna. a qual se personifica no capítulo X. ele diz que ela seria uma mulher de “pelo en pecho” — que tanto pode significar “valente” quanto referir-se ao caráter masculinizado de Dulcinéia —. ou seja. su frente campos elíseos. Sancho também sentiria um desejo reprimido por Dulcinéia e. ni con otras deste jaez. marfil sus manos.. “prostituta” e “burlar com alguém” pode significar “ter relações sexuais” — também a descrição das atividades realizadas por Aldonza (“rastrillando lino o trillando en las eras”) tem conotação sexual.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 253 buen parecer”4 (DQ. pero hame de dar licencia el señor don Quijote para que diga lo que me fuerza a decir la historia que de sus hazañas he leído. não é delicada como uma princesa. pérolas etc. ou seja. su calidad por lo menos ha de ser princesa. pues es reina y señora mía. I. Segundo González (2010). sol. en lo de la alteza del linaje no corre parejas con las Orianas. Alonso Quijano necessita uma dama por quem se enamorar e.. sus ojos soles. (DQ. perlas sus dientes. olhos. No capítulo 32 da segunda parte. Sancho cria o que González chamou de “la antidulcinea”. p. como em português. sus labios corales. estaria tornandoa uma mulher acessível a ele. y que sea hermosa en sumo grado que vuesa merced nos la pinta. con las Madasimas. dentes. peito e mãos) e a comparação com elementos nobres da natureza (ouro. o protagonistanarrador. I. Dom Quixote mobiliza todo um sistema de descrição do modelo feminino herdado da literatura renascentista 5: a descrição a partir da parte superior do corpo (cabelos. p. (DQ. lábios. de donde se infiere que.

Heliana é a perfeita dama de cavaleiro andante dos livros de ficção. a dama pintada em seu escudo aparece com as mãos cobertas. Dulcinéia é inventada por Dom Quixote a partir de um processo metaficcional. 47) o fato de que Heliana.).254 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS para vingar a morte de seu pai. Quaderna observa que em sua capa havia um escudo bordado com a figura de uma mulher de cabelos soltos e com as mãos cobertas. Heliana retirou o mel da colmeia. vivia com as mãos cobertas e não permita que nenhum homem as descobrisse.) É por causa de Heliana que ele (o pai delas) prefere viver isolado. Nessa conversa. Ao descrever as roupas do Donzel Sinésio. 2007. a história de Heliana passou de boca em boca até chegar aos ouvidos do corregedor e aos olhos do leitor. Clara conta que a família já está acostumada com as esquisitices de Heliana: — “La em casa. astrosa e fatídica” (SUASSUNA. como veremos. que vive isolada do mundo por seu pai e que tem seu rosto estampado no escudo de seu cavaleiro. todas constrangedoras. ao nos apresentar a personagem sob diferentes perspectivas. Como vimos. assim como Dulcinéia. Tais quais as damas dos livros de cavalaria. 499). a senhora idosa. Quaderna nos conta que costumava dar consultas astrológicas em seu gabinete. sempre são outros personagens que se referem a ela. personagem que estava enamorado por Clara. Ou seja. “Nós já temos passado por outras situações semelhantes. as irmãs Heliana e Clara vivem isoladas em uma fortaleza construída pelo pai e são acompanhadas por uma criada. Em uma delas. ou . p. Quaderna considera “uma coincidência epopeica. mesmo quando os outros acham que aquilo é mais do que esquisitice!” (SUASSUNA. Heliana é mostrada em diferentes facetas. Ariano Suassuna está criando uma antiheliana. Gustavo conta a Clara que. nós já estamos todos habituados com as estranhezas de Heliana! Não é que eu tenha vergonha nenhuma dela. Maria Elvira. irmã de Heliana.. coincidentemente. Assim como Dulcinéia. Quaderna nos conta que Sinésio havia se apaixonado por Heliana quando ainda crianças. porém o pai de Sinésio e o de Heliana tinham acordado que Sinésio se casaria com Clara. Sinésio7. da mesma forma que Cervantes criou a antidulcinéia. Entretanto. 207. por outro. Heliana sempre foi meio estranha e selvagem. 207. o narrador nos conta que a moça possuía hábitos estranhos e constrangedores. com um graveto. Com isso queremos evidenciar o fato de que Heliana é a típica dama dos romances de cavalaria. uma senhora idosa. Heliana é apresentada ao leitor por meios tortuosos: Quaderna conta ao Corregedor que uma informante sua. a qual é descrita como uma dama dos livros de cavalaria. parenta de Clara conta a Quaderna que ouviu uma conversa entre Clara e Gustavo.. A dama de Sinésio é Heliana. mostrando-nos uma faceta da personagem que se opõe à imagem de perfeita dama. Como vimos. ocultamente. que unta os seios com mel. desde menina! (. o amor da vida de Sinésio.. p.. é a mulher lasciva. logo o amor de Sinésio por Heliana era secreto e impossível. Até aqui. 498) (. naquela Fortaleza afastada (SUASSUNA. ela apresenta algumas ambiguidades. porém. Maria Elvira. não acho nada de censurável no que ela faz. o cavaleiro está enamorado por uma mulher que cobre as mãos e. Se por um lado é a dama dos livros de cavalaria. Assim como Dulcinéia. contou que Gustavo descreveu a Clara o ato obsceno de Heliana. fizera uma pequena fogueira para afugentar as abelhas de uma colmeia e. nunca ouvimos a voz de Heliana. presenciou um ato estranho de Heliana: a acompanhante da moça. desabotoou o vestido e começou a passar mel nos mamilos. “estranha e selvagem”. a não ser. Poderíamos dizer que. Encontramos aqui a dicotomia pureza/lascívia presente na personagem de Cervantes. que desempenha o papel das “dueñas” dos livros de cavalarias.

quando Dom Quixote descreve sua amada a partir dos retratos femininos da Literatura renascentista. O mel. O mesmo processo ocorre com Heliana. Enfim. temos dois protagonistas que aparentemente se opõem (Dom Quixote e Sancho). Essa unidade buscada a partir de oposições (a união dos contrastes) é constante na obra de Suassuna. segundo o narrador. assim era Heliana! E eu. o mel de abelhas. fino. neste breve trabalho vimos como a personagem do Romance d’A Pedra do Reino. a urtiga. torre etc). imagens relacionadas ao fogo: “ar ard nte ar d e nt den t es f o g o e o canto do sangue”. a urze. quando eu e Sinésio vimos pela primeira vez aquela que seria a Dama e princesa de sua vida. loura e angélica. Corregedor. presente em Dulcinéia. o Vinho. Quaderna compara Clara com Genoveva Moraes. é uma síntese das duas. irmã de Gustavo e noiva de Arésio. que era irmão de Sinésio. morena. Para Suassuna popular e erudito não se opõem. “f a d o ”. Para ele. e Quaderna. pois Heliana.. depois. como vimos anteriormente — também apresenta a cor do sol. mas se conjugam. unindo a Verbena. o fogo de Isabel e o angelical de Ceci. peão. o negro-escarlate da Paixão e a cassa da Pureza. Samuel branco e Quaderna. era espanto e unidade.). o calor e o sol são elementos recorrentes no Romance d’A Pedra do Reino. cavalo. as cartas. 2007. a mesma idade da irmã de Lucíola. isto é. porém. Posteriormente. O movimento armorial9 encabeçado por Suassuna nos anos 70 procura criar uma arte erudita a partir das raízes populares. “c c hamas embebida em mel”. tendo conhecido Heliana como menina-e-moça e.) (SUASSUNA. que significa “sol”. na obra de Suassuna temos três: Clemente. fogo e canto do sangue. Fogo presente também coxas”. personagem do livro de Cervantes por diversos vieses. deriva de Helios. “aveludada pela pubescência”. jogo mais simples e popular. fruto e chamas embebidas em mel”. Assim como Dulcinéia. pelo menos. rainha. Heliana apresenta facetas opostas: o “negro escarlate da paixão e a cassa da Pureza”. Vejamos. ardente e no cio. Mas Heliana juntava tudo isso. Genoveva como Isabel: uma. e sim em unidade. Sr. diferentemente de Dulcinéia. e era daí que se originava também a penugem macia e rara que lhe dourava as coxas “alvas mas amorenada pelo sol” (. “morenadas pelo sol em seu nome. poderia dizer dela tudo o que José de Alencar disse de tantas outras. Clemente preferia a dama (negros contra brancos).. duas diferentes perspectivas: a mulher casta Notamos no fragmento. Era um fruto verde. De fato. “d d our av a as oura “d oura d our sol”.) Clara era como Cecília8.. Essa ideia de síntese está na própria concepção da obra de Suassuna: o Romance d’A Pedra do Reino é um modelo do que Suassuna chama de “romance armorial”. como moça e mulher. Depois. ela estava com doze anos. pelo que pude ver e adivinhar de seu amor por Sinésio. com “H”. essas oposições estão em perfeita unidade. a outra. negro. macio. Heliana. Assim como Dulcinéia. mais sofisticado e reproduz os personagens da corte (rei. “ambas a r rd te s”. Quaderna compara Heliana às personagens de Alencar: (. como a Emília de Diva. Samuel preferia o jogo de xadrez. para dar um castanho-claro. dourado. em Heliana. É que. Inicialmente. O cabelo dela era como se tivesse sido formado somando-se o louro de Ceci e Clara com o escuro de Lucíola e Isabel. Enquanto na obra de Cervantes. nas quais há também reis e rainhas como no xadrez e há os naipes com duas cores. não em contradição e separadamente. Quaderna atribui a Heliana a faceta prostituta. as duas são opostas. Heliana é considerada a dama de um cavaleiro e é apresentada ao leitor por. que é descrita em comparação com as mulheres das obras de José de Alencar. Ao mencionar Lucíola. Heliana pode ser comparada com Dulcinéia del Toboso. entretanto. uma recorrência de e e no cio”. 504) fragmento “o mel de abelhas” e “embebidas em mel” — elemento relacionado à Heliana. o amor felino da Onça jovem e fêmea. (. O fogo. como o jogo de damas. sempre separando em muitas o que. que aparece duas vezes no . que é a síntese dos dois: moreno.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 255 seja.. a ficção se remete à própria ficção... p. despertava nela a mulher. na “atitude da corça arisca”. ambas ardentes. Seu amor era “vinho.

vive isolada em uma fortaleza) e. CLOSE. à imitação dos cavaleiros ficcionais. Para um estudo mais profundo sobre a construção da personagem Dulcinéia na obra de Cervantes. 8 9 Cecília e Isabel são personagens de O Guarani. de José de Alencar. defendida na Universidade de São Paulo. (2000). Don Quijote de La Mancha . 3 Sobre o perspectivismo no Quixote. é mentiroso. Em Lemir . remetemos o leitor ao texto de Close (2005. GONZÁLEZ. a partir da própria literatura. Dom Quixote pretende pintar um retrato de Dulcinéia em seu escudo. Edward. porém uma cortesã para Sancho. Rio de Janeiro: José Olympio.256 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS e a lasciva. Recife: Editora Universitária da UFPE. Mario M. DIDER. Grifo nosso. quando diz que por ser árabe. . Ariano Suassuna e o movimento armorial 1970/ 76. Cide Hamete Benengeli. Barcelona: Crítica. Da palavra ao traço: Dom Quixote. no qual ele apresenta os principais estudos sobre o tema. (2007) Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai e volta. Lembremos que. RILEY. Edward. em determinado momento. RILEY. Maria Thereza. em 2007. SUASSUNA. (2005) Perspectivismo y existencialismo. Barcelona: Crítica. ao mesmo tempo. Barcelona: Crítica. Ariano. assim como Dulcinéia é uma princesa para Dom Quixote. p. tese defendida na Universidade de São Paulo. (2010) Las transformaciones de Aldonza Lorenzo. Emblemas da sagração armorial. Heliana apresenta as características de uma dama (rosto pintado no escudo e amada secretamente pelo cavaleiro Sinésio. em um processo de metaficção. 4 Lembremos que Dom Quixote desautoriza o narrador/autor. Miguel de (1998). Notas 1 2 A pesquisa conta com o apoio do CNPq. Anthony. Sancho Pança e Dulcinéia del Toboso . ver nossa tese de doutoramente “Da palavra ao traço: Dom Quixote. que poderíamos considerar lascivos. 5 6 7 Lembremos do famoso poema de Góngora “Mientras por competir con tu cabello”. é descrita como “estranha” e pratica atos. Célia Navarro (2007). Sobre Suassuna e o movimento armorial. Dulcinéia é descrita por Dom Quixote a partir dos retratos femininos da poesia renascentista e Heliana é uma das personagens femininas de José de Alencar. 205-215. Tanto uma como outra é descrita. (2000) Modos de ser. ver DIDIER (2000). Barcelona: Crítica. Referências bibliográficas CERVANTES. 262-276). Sancho Pança e Dulcinéia del Toboso. pp. Em Introducción al Quijote. Em Introducción al Quijote. Dirigida por Francisco Rico. (2000) Ideales e ilusiones. Edición del Instituto Cervantes. FLORES. nº 14. Em La concepción romántica del Quijote.

Devido a essa criação. é quem a cria dentro de seus costumes. principalmente pela Igreja Católica. reproduzidas pela personagem. Tal personagem é uma menina branca que fora criada no pátio dos escravos de sua casa. apesar da pele branca. hija de noble y plebeya. dado por sua mãe. após ter sido mordida por um cachorro raivoso em companhia de negros. uma estratégia da Igreja Católica para a perpetuação do poder eclesiástico através da imposição do discurso religioso. por isso. À época (século XVIII na América espanhola). recebe também um nome com a marca da migração interlinguística crioula. a menina é vítima de uma manifestação demoníaca. quando. Seu comportamento rotulado como “negro” passa a ser mal interpretado pela sociedade local. Para a Igreja. do título de marquesa. Trata-se de uma menina que possui um comportamento identificado com o ethos negroafricano. que não ultrapassa os 13 anos de idade. La madre la odió desde que le dio de . que não aceita nenhuma explicação médica. Mesmo tendo um quarto na casa grande. além de possuir um nome de batismo visivelmente católico. no romance. da posição social considerável em sua cidade e de um nome de batismo católico. A demonologização das práticas culturais de origem negro-africana e ameríndia. escrava governanta da casa. Durante o vice-reinado da Colômbia.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 257 SIERVA MARÍA DE TODOS LOS ÁNGELES E MARIA MANDINGA Cinthia Belonia PG . esse discurso servia à legitimação da inquisição e do sistema escravocrata. pois após seu nascimento foi negligenciada por seus pais. Dominda de Adviento. aguça a suspeição já existente sobre seu comportamento identificado com o ethos dos escravos. E foi ali que cresceu: La niña. estigmatizavam-se as pessoas que contraiam a raiva (Rhabdoviridae). a personagem adquire um comportamento semelhante ao dos escravos e. ela dormia na rede do pátio dos escravos junto das outras escravas da casa. que caracteriza um ato de exclusão e discriminação: María Mandinga. tuvo una infancia de expósita. Sierva María de Todos los Angeles é uma personagem complexa.UFF Neste trabalho abordo o comportamento da personagem Sierva María de Todos los Angeles da obra Del amor y otros demonios de Gabriel García Márquez. constitui.

Sobre isso o pensador indo-britânico Homi Bhabha em O local da cultura nos diz que: A invisibilidade apaga a autopresença daquele “Eu” em termos do qual funcionam os conceitos tradicionais de agência política e domínio narrativo. É possível que o narrador tenha escolhido esses personagens para sublinhar. sin duda escamoteados por los suyos para tratar de hechizarlos. Graças a essa criação negra. O que ela de fato sugere é uma nova compreensão de ambas as formas de racismo. . p. como nos ensina Bhabha. por mais que se parecesse com eles devido aos costumes que mantinha. y se negó a tenerla con ella por temor de matarla. 2007. Sobre esse hibridismo. O que toma (o) lugar. y un tercero había muerto del mal de rabia en la segunda semana. Pois a menina tinha liberdade para transitar no mundo dos brancos por ser essa a sua Diferente das outras vítimas. mas. Por isso híbrida. ela não era uma deles. Meses depois: O pátio dos escravos constituía o local onde Sierva María se sentia livre para manifestar seu comportamento dúbio sem sofrer nenhum tipo de discriminação. era capaz de atravessar a fronteira que há entre senhores e escravos. Além dela. na qual nenhum colonizado poderia experimentar a mesma liberdade que ela. demarcada pela fronteira que separava o pátio da Casa Grande. Esse resultado híbrido não pode mais ser facilmente desagregado em seus elementos “autênticos” de origem (HALL. Stuart Hall afirma que: A distinção de nossa cultura é manifestadamente o resultado do maior entrelaçamento e fusão. asiáticos e europeus. Esta duplicação resiste ao tradicional elo causal que explica o racismo metropolitano contemporâneo como resultado dos preconceitos históricos das nações imperialistas. mas também não tão igual aos negros. A história de Sierva María inicia após ela ser mordida por um cachorro na rua quando passeava com uma das escravas fazendo compras para a festa de seus 12 anos. por não podermos classificar a personagem numa única identidade. Sierva María estava completamente sã. além de transitar também no mundo dos negros por se identificar com os mesmos. p. Caracterítica típica dos negros e dos colonizados para sobreviverem num mundo de repressão. 2007. culturais e de poder (BHABHA. conseguindo passar entre os cristãos sem ser vista. y siempre con una máscara. é o mau olho desencarnado. no sentido do suplemento derridiano.258 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS mamar por la única vez. p. na fornalha da sociedade colonial. Como uma hispano-americana que era.24). ele abre um espaço interalar entre os dois locais do poema. proporcionava a Sierva María um sentimento de proteção em relação à sociedade escravocrata. baseada em suas estruturas simbólica e espacial comuns – a estrutura maniqueísta de Fanon – articuladas dentro de diferentes relações temporais. cor. a beber sangre de gallo en ayunas y deslizarse por entre los cristianos sin ser vista ni sentida. como un ser inmaterial (MÁRQUEZ. o Hemisfério Sul da escravidão e o Hemisfério Norte da diáspora e da migração. cuyo rostro se presume tan temible que sólo se deja ver en sueños. la bautizó en Cristo y la consagró a Olokun. A exclusão geográfica. 91). Transpuesta en el patio de los esclavos. una deidad yoruba de sexo incierto. também foram mordidos três escravos negros.54). filha dessa colonização. Dominga de Adviento la amamantó. através da metáfora literária. Sierva María aprendió a bailar desde antes de hablar. 2011. de diferentes elementos culturais africanos. a marquesinha branca cresceu diferente dos seus. ao mostrar que em sociedades estratificadas até os cachorros são preconceituosos. A Dos habían desaparecido. podemos chamar de astúcia. 2007. Sobre esse aspecto da personagem. e essa livre transição não era permitida aos colonizados. que então se tornam estranhamente duplicados no centenário fantasmático do inconsciente político. Había un cuarto que no fue mordido sino apenas salpicado por la baba del mismo perro. y estaba agonizando en el hospital del Amor de Dios (MÁRQUEZ. p. o preconceito étnico-social. Afinal. aprendió tres lenguas africanas al mismo tiempo. ela possui características do pluriculturalismo que identifica muitos povos colonizados. Fazendo sua mãe acreditar que o cachorro contraíra raiva após mordê-la. a instância subalterna que executa a sua vingança circulando sem ser visto. Ele atravessa as fronteiras entre senhor e escravo. 31).

afroreligioso e africano (Mandinga). através de Burns. colonizador. Frantz Fanon fala em Pele negra Máscaras brancas que o negro tem duas dimensões. também. que quem cria o inferiorizado é o racista: O preconceito de cor nada mais é do que a raiva irracional de uma raça por outra. exemplifica. Ao falar a língua dos negros. por identificação cultural e afetiva. p. aqui. o status de humanidade. Possuía. Ela não assume os valores da metrópole. congo e iorubá. traduzindo o preconceito étnico-cultural característico do período colonial. 2008.56). E “ella le aumentaba el susto con una retahíla en lengua yoruba” (MÁRQUEZ. uma com seus semelhantes e outra com o branco. e depois o amargo ressentimento daqueles que foram oprimidos e frequentemente injuriados.116).25). con la condicíon de que la muerte de la niña fuera por una causa digna” (MÁRQUEZ. Desenvolveu. Mesmo assim “estaba dispuesta a hacer la farsa de las lágrimas y a guardar un luto de madre adolorida por preservar su honra. não poderiam sofrer a humilhação de ter uma filha com raiva. p. a forma como a mãe se referia à filha. ela suporta.90). do país colonizador. tão comum nas obras de García Márquez. o peso desse povo. além desse comportamento. como diz Fanon. é porque o negro e o índio adquirem status de humanidade e as suas culturas começam a ser repensadas dentro dos novos enfoques da História (CHIAMPI. nada mais é do que uma criação europeia. Sua mãe costumava dizer que a única coisa que a menina tinha de branco era a cor. Como a cor é sinal exterior mais visível da raça. no entanto. o desprezo dos povos fortes e ricos por aqueles que eles consideram inferiores. para poder dizer . sem se levar em conta as suas aquisições educativas e sociais. a menina aproveitava para assustar a mãe fazendo um barulho estranho. aos olhos do Fanon retoma Sartre. que diz que “é o antisemita que faz o judeu” (SARTRE apud FANON. por isso de uma posição social insegura. Um nome que combinava o branco. por isso o índio e o crioulo (nesse caso não se trata da cor da pele) não adquiriram. mas sim assume os valores negro do povo no qual se identificava. principalmente aos brancos. visto que: Toda a projeção eufórica do mestiço passa pela reabilitação dos seus componentes raciais: se a mistura de sangues se torna aceitável para o branco. ela tornou-se o critério através do qual os homens são julgados. Como se só confiasse nos negros. 2008. pois antes . 2007. Sabendo disso. Bernarda Cabrera marca a diferença entre as duas. que a menina conhecera antes mesmo do castelhano. se igualando sempre aos negros. Considerava a menina de uma presença fantasmagórica e muito assustadora. 110). Sierva María assume essa cultura. por ter sido colonizado e escravizado. Renomeando a filha. um paladar culinário exótico comparado com o europeu. E alternava seu nome com um nome africano que havia inventado: María Mandinga. Esse comportamento se apresentava nas danças africanas que a personagem aprendera desde muito nova. através dela. Pois. sua mãe já a considerava de um comportamento diferente. p. p. p. O negro. Mesmo antes da menina ser mordida pelo cachorro. Sierva María era branca. pois comia com as escravas o que era servido no pátio onde eles viviam. As raças de pele clara terminaram desprezando as raças de pele escura e estas se recusam a continuar aceitando a condição modesta que lhe pretendem impor (BURNS apud FANON. excluindo-a e exilando-a em um mundo (o dos escravos) onde a carga semântica do nome ganha. Tal nome era uma forma da mãe demonstrar seu preconceito com os negros e com o comportamento da filha que se assemelhava ao deles. sendo ela filha de índio e seu marido um crioulo1. católico e europeu (Maria) com o negro. E de fato a menina se comporta de forma diferente entre um e outro. possuía hábitos e valores negros. nas línguas mandinga. conotação pejorativa.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 259 ironia. o costume de mentir por vício. 2007.

em todo lugar há a différance. ela . o marquês de Casalduero se convence de que deve internar sua filha no convento de Santa Clara. do pecado. marquês de Casalduero. 160). 2011. sin orden ni concierto” (MÁRQUEZ. mas sim para o “camino do branco. p. p. Ao perguntarem o que aconteceu com seu tornozelo. segundo Hall. Fanon diz que a Igreja das colônias não chamavam os colonizados para a religão. numa época de Inquisição. do estrangeiro e colonizador.260 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS do contato com o branco ele não se sentia inferiorizado por nenhuma outra raça.. não é estranho o fato de Sierva María ser considerada uma possessa por apresentar um comportamento negro. fazendo isso no dia seguinte: “Fue en la última celda de ese rincón de olvido donde encerraron a Sierva María. 2011. como um selvagem. 2007. do amo. o contemporâneo pintor francês André Pierre “fazia uma prece a ambos os deuses. A menina é internada num convento porque. tanto na figura do carrasco quanto na figura de Satã. y practicaba ambas a la vez. Nos diria Hall. Stuart Hall fala sobre o hibridismo religioso que presenciou tanto no Haiti como na Jamaica. 2007. pois a diferença é essencial ao significado. além da escrava Dominga de Adviento. p32). 2008. Ao querer salvar a alma da personagem. agonístico uma vez que nunca se completa. considera junto a este que o corpo da menina não tem salvação. uma das escravas do local a vê no pátio e reconhece os colares de candomblé. Ao chegar no convento. 2007. que representa a razão na obra. O escândalo dos vexames e desvarios de Sierva María chega aos ouvidos do bispo da diocese. Pois a Igreja é de brancos. que se atém a duas religiões.. Mas o que incomodava a Igreja era a sabedoria do médico. p. e os dois dizem que Deus os deu meios para salvar sua alma. E assim. Em Os condenados da terra. o diabo. Fanon afirma que o negro é visto pelo branco como a figura do mal. por este ser judeu. dom Toribio de Cárceres y Virtudes. com isso. p. do opressor” (FANON. Este conversa com o pai da menina. Dessa forma. Ele alerta ainda que o termo “hibridismo não se refere a indivíduos híbridos. segundo Hall. cristão e vodu. 71). pôde sentir a “África” devido à forma como os deuses africanos foram combinados com os santos cristãos no vodu haitiano. Delaura. pois o baile na terça-feira de carnaval vem seguido da missa na quarta-feira de cinzas. Esse hibridismo. se é negro – tanto faz se isso se refira à sujeira física ou à sujeira moral” (FANON. animal e. [. antes de iniciar seu trabalho” (HALL. que a menina não deveria estar aos cuidados do médico Abrenúncio. e sabia que a personagem não estava possessa. O bispo diz ainda. o padre-bibliotecário e braço direito do bispo. leva-a até a cozinha. que vive na indecidibilidade da cultura negra a de sua etnia branca. E assim como Dominga de Adviento. p. e explica que o que há com ela é uma possessão.67). era uma boa propaganda para a Igreja Católica. p. mas que permanece em sua indecidibilidade” (HALL. até mesmo. a escrava governanta da casa e quem criara Sierva María: “Se había hecho católica sin renunciar a su fe yoruba. uma possessão demoníaca e o sucesso em seu exorcismo.] Trata-se de um processo de tradução cultural. onde. Quem fazia a ligação entre os dois mundos nos quais a menina vivia era Dominga de Adviento.76-77). E acrescenta: “fala-se de trevas quando se é sujo. como é o caso da personagem aqui trabalhada. E foi nesse hibridismo que Sierva María cresceu. Na Europa o mal é sempre representado pelo negro. 38). pois o que se dizia nas ruas era que a menina “rueda por los suelos presa de convulsiones obscenas y ladrando en jerga de idólatras” (MÁRQUEZ. está presente em toda a América Latina no “pecado-contriçãoabsolvição”. o que o bispo realmente pretende é colonizar e usá-la como exemplo e demonologizar as práticas culturais oriunda dos negros e ameríndios. 20). e este é crucial à cultura. a los noventa y tres días de ser mordida por el perro y sin ningún síntoma de la rabia” (MÁRQUEZ. 1961.

pois como tinha o costume de mentir por vício. pues a pesar de los aspavientos de la abadesa y de los pavores de cada quien. considerados por elas. E diz ainda que mesmo que não esteja possuída. mas todas as freiras do convento lhe atribuem todos os acontecimentos.84). p. que las manifestaciones ‘de caráter africano’ (precisamente las religiosas y las danzarias. Ao ser informada de que o canto era produzido pela “possessa” que ela aguardava. Sendo considerada pelas freiras dona de uma força de outro mundo. 1993.78). E assim. pareciam ter mais curiosidade que medo: Pero los terrores de las clarisas eran contradictorios. Ao conversar com a abadessa deixa . Segundo o filólogo cubano Rogelio Rodríguez Coronel: Queda explícito. blanca. mejor que ellos mismos entre si.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 261 responde que sua mãe fez isso com uma faca. Cantó en yoruba. foi para a cozinha erguendo o crucifixo que trazia pendente ao pescoço. que eran las partes que más lê gustaban. Jugó al diábolo con los adultos en la cocina y con los niños del patio. Sierva María recupera seu mundo: Ayudó a degollar un chivo que se resistia a morir. Não só a abadessa. p. Hacía gala de un don de lenguas que le permitía entenderse con los africanos de cualquier nación. usa desse estratagema para esconder a verdade sobre o tornozelo mordido pelo cão raivoso. Mas as clarissas. de certa forma. Sempre que alguém tenta tirar seus colares (Sierva María usava colares de candomblé.49). intimamente relacionadas y privilegiadas en ese mundo) eran contrarias a la ‘civilización’ y a las ‘buenas constumbres’. 2007. (.. no entanto não sabe ainda de quem se trata. o con las bestias de cualquier pelaje (MÁRQUEZ. E quando perguntaram seu nome. eurocidental y católica (CORONEL. Como haviam dito para ela que a menina estava possuída. E ao conhecer Sierva María. y les ganó a todos. naquele convento ela tem todas as condições possíveis para que isso aconteça. y se comió las criadillas y los ojos aliñados como fuego vivo. guisados en manteca de cerdo y sazonados con especias ardientes (MÁRQUEZ. en congo y en mandinga.107) A abadessa do convento ao ouvir o canto da menina fica deslumbrada com sua voz. Cayetano Delaura é o único na obra a perceber que a acusação de possessão feita pela Igreja à menina foi devido à intolerância e ignorância desta para com o comportamento negro e afro-religioso da personagem. outro motivo forte que levava a Igreja a condenar (através da Inquisição) as pessoas é o fato de se tratar de uma estratégia de controle e dominação políticosócio-cultural. Além da intolerância e ignorância. anormais. Sobre as atas: Decían que la niña se había complacido descuartizando un chivo que degolló con sus manos.. vê apenas uma menina pura e indefesa. Lê saco los ojos y le cortó las criadillas . la celda de Sierva María se convirtió en el centro de la curiosidad de todas. ameaçavam sua hegemonia religiosa e política. claro de que não há provas de que a menina esteja de fato possessa. p. E diz ao bispo que as atas onde as clarissas anotavam o comportamento da menina serviam mais para justificar a mentalidade da abadessa que o estado de Sierva María. representada por la clase dominante. E diz que o que parece demoníaco para eles (católicos) são os costumes negros que a menina aprendeu ao viver no pátio dos escravos após o abandono dos pais.) Una niña endemonia dentro del convento tenía la fascinación de una aventura novedosa (MÁRQUEZ. 2007. A Igreja condenava à fogueira ou a outros castigos todos aqueles que. movidas pelo tédio. Cayetano Delaura fora incumbido pelo bispo de cuidar do caso. p. en síntesis. tudo o que acontece daí em diante no convento será atribuído aos demônios presentes em Sierva María. 2007. além de uma escapulário) ela se altera com muita agressividade. noviças do convento de Santa Clara. disse Maria Mandinga. Al almuerzo se comió un plato con las criadillas y los ojos del chivo. y aun los que no entendían la escucharon absortos.

Gláucia Renate Gongalves..) O Novo dicionário de língua portuguesa de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira define crioulo como: o indivíduo de raça branca. no segundo caso. animais e plantas que se transportaram para o continente americano a partir de 1942. e. ULISSEIA. Gabriel García (2007): Del amor y otros demonios. Frantz (1961): Os condenados da terra. a indicar. católicos de ascendência européia. de classes subalternas. CHIAMPI. pela abadessa e pelo bispo. (. Irlemar (1980): O Realismo Maravilhoso. Sobre essa América Chiampi afirma: Os elementos que compõem a imagem da América bárbara são identificados com a herança espanhola (a Inquisição. Nota 1 O termo crioulo é “egresso do latim criare com o sentido de educar. entretanto. Rio de Janeiro. homens de todas as raças. a indolência e o primitivismo são construções estereotipadas que legitimavam a visão deturpada. A contraposição América e Europa no antagonismo entre a inocência do primitivo e a degeneração da razão é representada na obra por. dominando também de crioulo o dialeto falado por essas pessoas. por extensão. 103-5. a escravidão. MÁRQUEZ. Referências bibliográficas BHABHA. Magdala França Vianna. também.. que. sua família. HALL.Belo Horizonte: EdUFMG. o negro nascido nas Américas. Lisboa: Ed.262 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS García Márquez apresenta em Del amor y otros demonios uma América de brancos. particularmente as das Américas.) Na América hispânica.. em Conceitos de Literatura e Cultura. o dialeto português falado em Cabo Verde e em outras possessões portuguesas da África. _______ (2008): Pele negra máscaras brancas. como já havia dito Fanon. fanáticos em suas crenças. Brasília: Representação da UNESCO. Trad. Trad. Stuart (2011): Da diáspora: identidades e mediações culturais . A perfídia. respectivamente. CORONEL. 2005. Sierva María. muitas vezes carregadas de preconceito. Forma e Ideologia no Romance Hispano-Americano. o despotismo) e com o substrato indígena (a perfídia. refere-se à lógica sincrética do crioulo vernacular como modelo inclusivo com um majoritário aporte de construções sociais. Editora Perspectiva. Universidade Federal do Rio de Janeiro. FANON. Renato da Silveira. E o definiram como uma possessão. que por serem considerados inferiores pelos europeus e seus descendentes de cor branca. era facilmente visto como algo demoníaco. nascidos nas Américas. Serafim Ferreira. a ignorância) – inclusive nas zonas de culturas autóctones superiores (CHIAMPI. o primitivismo. passando.” (cf. p.. Ano 1. o termo identificava os que nasciam e eram educados nas Américas sem ser originários delas como os ameríndios. Centro de Letras e Artes. nascido nas colônias europeias de além-mar. Eliana Lourenço de Lima Reis. o termo crioulo não só indica os membros. Buenos Aires: Debolsillo. Crioulização e Crioulidade. afro-religiosos e primitivos. p. O que na verdade era um comportamento semelhante ao dos escravos. In: Terceira Margem: Revista de Pós-Graduação em Letras. Rogelio Rodríguez (1993): Marginalidad y literatura en textos afrocubanos de origen yorubá .110). Belo Horizonte: EdUFMG. nº1. 1980. mas. não percebiam que o que a menina tinha era um comportamento diferente do europeu. os escravos e a população nativa dessa Colômbia. a indolência. (. e de negros. Faculdade de Letras – PósGraduação. do europeu sobre os povos das Américas. Miryam Ávila. Homi K (2007): O local da cultura .) . Salvador: EDUFBA.

y foco de atracción de grandes civilizaciones. además de las experiencias y lecturas particulares. creencias.87). etc. p. las mismas que han dado lugar a una región cuyos orígenes. entre África y Europa. imágenes.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 263 ESPACIOS. en este trabajo se recorre la palabra del escritor granadino a la luz de los ingredientes de los que se ha nutrido la historia y el fértil imaginario de su tierra natal. así como del conocimiento adquirido gracias a una enorme curiosidad hacia la historia de su propio pueblo. Y entre las múltiples propiedades que hicieron de su obra un tesoro inmortal se encuentra ese ingenio único para mezclar en un cóctel singular la tradición milenaria y la vanguardia. entre el Atlántico y el Mediterráneo. Nos acercaremos a un poeta que es heredero de viejísimas culturas. de los paisajes. la leyenda y la historia. En los valles del Guadalquivir y del . Se ha considerado un lugar geoestratégico al hallarse en el extremo sur de la Península. La formación del complejo universo simbólico lorquiano se nutre. Andalucía. leyendas. que componen el entorno de su niñez y adolescencia. tan sólo catorce escasos kilómetros de agua separan ambos continentes. supersticiones. En ella se encuentra la Punta de Tarifa que es el lugar más al sur de la Europa continental y el más cercano al continente Africano. Ya desde inicios de la Edad de Piedra se encuentran muestras de culturas prehistóricas en Andalucía. Pocos escritores en lengua castellana han alcanzado una trayectoria semejante después de su muerte. 1989. MITOS Y CLAVES DEL IMAGINARIO ANDALUZ EN LA POESÍA DE FEDERICO GARCÍA LORCA Clara Pajares Gil Universidade Federal de Viçosa Desde su violento asesinato en 1936 a manos del bando fascista. la obra de Lorca no ha dejado de expandirse hasta alcanzar una posición universal en el mundo de la literatura. perdidos en la noche de los tiempos. se debaten a medio camino entre el mito. Con la pretensión de ser capaces de abrir ventanas inéditas desde las que poder asomarse a la obra lorquiana. universalizando Andalucía y convirtiéndola en un espacio mítico en el que confluyen todos los grandes temas y las grandes preguntas (GARCÍA-POSADA. La posición geográfica de Andalucía la convirtió en tierra de paso de diversos pueblos ya desde la prehistoria. Una región mucho más cercana a Marruecos que al propio norte de España.

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Guadalete se encontraron guijarros tallados como primer exponente del paso del homo hábilis y ya en el último estadio del Paleolítico superior, la etapa llamada magdaleniense aparecen las primeras manifestaciones artísticas del hombre de CroMagnon andaluz en diversas cuevas malagueñas y gaditanas. Algunas de éstas, tras el paso y la huella de sucesivas generaciones prehistóricas, acabarían convertidas en auténticos santuarios profusamente decorados con toda clase de motivos zoomórficos, cinegéticos, mágicos etc. Destacan también, repartidos por casi todo el territorio andaluz, los monumentos funerarios megalíticos (MAZARRASA, 1980, p.33-48). Varios de estos sepulcros fueron encontrados en la provincia de Federico García Lorca, Granada. Eran monumentos dedicados al culto de los antepasados, generalmente levantados en lugares altos (para ver y ser vistos), en sociedades que comenzaban tener una relación particular con la muerte y a conceder importancia a la memoria de sus antepasados. Hay quien, como Gómez-Moreno, considera que los monumentos megalíticos andaluces de la Edad del Hierro constituyen el único testimonio arqueológico capaz de sustentar racionalmente el mito de los Tartesios (MAZARRASA, 1980, p.48). Caro Baroja, sin llegar a mencionar ninguna civilización, afirma: “Es lícito pensar que acaso algunos de los grandes sepulcros megalíticos andaluces fueran hechos para grandes reyes de tipo faraónico” (MAZARRASA, 1980, p.52). No sería una aberración pensar que el poeta granadino pudo encontrarse cerca de alguno de estos mausoleos arcaicos, estudiarlos u oír hablar de ellos en algún momento de su infancia. El culto de la tradición andaluza a la muerte (cuyo origen, como vemos, nos remonta al Neolítico) es un tema recurrente en la literatura lorquiana. El poeta dice que España es un país de danzas milenarias (haciendo alusión a pueblos ancestrales) y también de muerte, donde la gente cobra verdadera importancia después de abandonar la vida. Un país que exhibe a sus difuntos, donde “un

muerto está más vivo como muerto que en ningún sitio del mundo” (LORCA, 2004, p.154). En los escritos lorquianos se manifiesta un especial interés por las primeras civilizaciones que pasaron por Andalucía, como la de los tartesios. Situada a medio camino entre la Prehistoria y la Historia, en la llamada Protohistoria, la tartesia fue considerada por los griegos como la primera civilización de Occidente. Esta cultura, según el arqueólogo e historiador Adolf Schulten, prosperaría gracias a la riqueza metalúrgica de la zona (enclave importante de comercio de cobre y estaño) (MAZARRASA, 1980, p.55) que atraería a fenicios, griegos e indoeuropeos. Y la imaginación de algunos antropólogos y estudiosos (entre los que se encuentra el propio Schulten) ha querido asociarla a la fabulosa Atlántida de Platón, que algunas teorías presuponen que fue levantada en el espacio correspondiente al actual Parque Nacional de Doñana. A manos de Lorca llegaría un artículo que Schulten publicó en la Revista de Occidente en 1923 y que se refiere a los tartesios como la civilización más antigua de occidente (JOSEPH Y CABALLERO, 2006, p.21). Numerosos autores de la Antigüedad cuentan historias sobre los tartesios. Estesícoro, en su poema Gerioneida , habla de un fundador de la dinastía tartésica, el rey Gerión, poseedor de rebaños de vacas y toros. García Lorca también lo menciona en su ensayo Juego y teoría del duende : “Allí estaban los Floridas, que la gente cree carniceros, pero que en realidad son sacerdotes milenarios que siguen sacrificando toros a Gerión”. Este sería quizá un modo literario de situar históricamente un primer precedente de la tauromaquia, a la que Lorca dedicará poemas como La cogida y la muerte o Llanto por la muerte de Ignacio Sánchez Mejías. Justino, escritor romano del s.II d.C., habla de los habitantes del bosque de los tartesios, cuyo rey fue Gargoris, padre de Habis. Habis había sido fruto de amores incestuosos (cosa frecuente en las dinastías divinas

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de la tradición mítica mediterránea) y sería considerado como un rey muy beneficioso para su pueblo, dictando las primeras leyes, enseñando a labrar la tierra y dividiendo la sociedad en castas. En su Ora Marítima, Avieno (poeta latino del siglo IV d.C.) alude a la tierra tartesia (identificándola con el territorio correspondiente a la actual Cádiz) como a una ciudad opulenta. En Juego y Teoría del duende Lorca menciona al que fue considerado el último rey tartesio: “Allí estaba Ignacio Espeleta, hermoso como una tortuga romana, a quien preguntaron una vez <¿Cómo no trabajas?>; y él, con una sonrisa digna de Argantonio, respondió: <¿Cómo voy a trabajar, si soy de Cádiz?>” (LORCA, 2004p. 152) Heródoto nos cuenta que el rey tartesio Argantonio gobernó durante ochenta años (entre 630 y 550 a.C aproximadamente). Pero a partir del año 500 a.C ya no se tienen más noticias sobre los tartesios. Su desaparición aún continúa siendo un misterio (MAZARRASA, 1980, p 51-63). Después de los tartesios las civilizaciones más destacadas (previas a la conquista católica de la Península completa en 1492) que pasaron por Andalucía fueron: Turdetanos, griegos, fenicios, cartagineses, romanos, vándalos, visigodos, musulmanes y judíos. Se calcula que los gitanos llegarían a la Península en el siglo XV y proliferarían (aunque despreciados y marginados) sobre todo en época de dominio católico. Este cúmulo de costumbres, tradiciones y religiones heredadas de todos estos pueblos aparece claramente reflejado en los versos lorquianos. Pero lo interesante es de qué modo se presentan estos elementos, originalmente amalgamados y manifestando asociaciones interculturales estilizadas por la subjetividad artística del genio granadino que revelaban el mestizaje que Lorca respiraba en su propio ambiente. Si nos deslizamos atentamente a través de sus versos, observaremos que Lorca era conocedor de la historia de Andalucía anterior al catolicismo y al

islamismo. Encontramos multitud de referencias a la Antigüedad Clásica. Alusiones a los dioses del panteón, como en el poema San Rafael: “Y mientras el puente sopla/ diez rumores de Neptuno, / vendedores de tabaco/ huyen por el roto muro” (LORCA, 2012, p.84) A la cultura latina en poemas como El emplazado: “Y la sábana impecable, / de duro acento romano, / daba equilibrio a la muerte/ con las rectas de sus paños” (LORCA, 2012, p.101) O a las guerras púnicas, recordemos el poema Reyerta en el que dice: “Han muerto cuatro romanos/ y cinco cartagineses” (LORCA, 2012, p.66). Para Lorca, Andalucía representaba, entre otras cosas, un pequeño oriente dentro de occidente, generado básicamente gracias a las aportaciones de dos culturas: la árabe y la gitana (esta última llegada desde la Península indostánica). Los musulmanes permanecerían más que ninguna otra civilización en el sur de la Península ibérica (casi ocho siglos), por eso su influencia en la literatura y en las diversas artes será capital. Hasta el punto de que con ellos nacen las primeras manifestaciones líricas (conservadas por escrito) en español, las jarchas (aquellos poemillas breves, en lengua romance que acompañaban a las extensas moaxajas árabes o hebreas). Lorca había nacido en un pueblo, Fuentevaqueros, de la provincia de Granada, la ciudad de la Alhambra, último baluarte del islam hispánico. En la poesía lorquiana aparecerán referencias al pasado musulmán, frecuentemente diluyendo el elemento árabe en otros de la tradición cristiana (al igual que ocurría en Al Ándalus). En el poema San Rafael encontramos: “El arcángel aljamiado/ de lentejuelas oscuras” (LORCA, 2012, p.85) O en el poema San Miguel dice: “San Miguel, rey de los globos/ y de los números nones/ en el primor berberisco/ de gritos y miradores” (LORCA, 2012, p.82). Algunos símbolos característicos de la escritura lorquiana, como la luna y el color verde, también guardan una estrecha relación con la cultura

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árabe. La luna es el símbolo del islam, cultura que también concederá importancia a la noche desde un punto de vista literario. Y el color verde, del que tanto se ha hablado, constituye dos de las franjas de la bandera de Andalucía (a este verde se le ha llamado verde omeya , haciendo alusión a la dinastía de Al Ándalus). También el verde es el color de los infinitos olivares del sur de España y remite a la piel morena “aceitunada” de los gitanos. Su poema Crótalo es otra muestra del gusto del poeta por remontarse a un pasado remoto cuyos objetos guardan un vínculo estrecho y casi secreto con otros de la actualidad. En dicho poema Lorca establece una evidente conexión entre el antiguo instrumento musical de la tradición oriental y las castañuelas. Llama al crótalo “escarabajo sonoro”, imagen que se corresponde bastante bien con la de una castañuela, si pensamos en el típico escarabajo negro que abunda en tierras andaluzas (cuyo aspecto ciertamente se asemeja al de una castañuela) y describe el movimiento como “araña de la mano”. Esa imagen, dotada de gran plasticidad, remite directamente al movimiento de las manos cuando se tocan las castañuelas (LORCA, 2006, p.201). Para Francisco Umbral, Lorca paganiza , esoteriza y regionaliza el cristianismo andaluz en sus romances. Señala Umbral que, en el Romance de la Guardia Civil española, desacraliza e identifica la condición de judíos de la Virgen y San José con la de gitanos. Estas dos minorías (los judíos y los gitanos) habían estado proscritas por el catolicismo, imperante en Andalucía desde 1492 (UMBRAL, 2012, p.123). Como es sabido, Lorca fue un gran admirador de la cultura gitana, cuyos ambientes frecuentó. Sus visitas a las casas-cueva, hogar de los gitanos del Sacromonte granadino y escenario de fiestas flamencas, quedarían plasmadas en poemas como Cueva, en el que dice que: “El gitano evoca/ países

remotos” (LORCA, 2006, p.161), dejando constancia de la raíz oriental y exótica de los gitanos. En sus voces encuentra Lorca los ecos de matusalénicas culturas ya profundamente mezcladas con la, también viejísima, alma andaluza, cuya condición híbrida había dado lugar a fenómenos muy apreciados por el poeta, como el Cante Jondo. Nos cuenta Ian Gibson en su biografía de Lorca que un Lorca jovencito acompañó durante varios días a Ramón Menéndez Pidal a las cuevas del Sacromonte granadino para recoger romances orales (GIBSON, 1985, vol. I, p.300). Tras aquel acercamiento filológico (en compañía de Menéndez Pidal) a los romances vivos del Sacromonte (con el que el poeta quedó encantado), no es casualidad que Lorca sienta predilección por esta combinación métrica para su Romancero Gitano, considerándola el molde idóneo. Lorca (al igual que habían hecho otros poetas del Barroco y del siglo XIX) revitaliza una forma primitiva y oral que se mantenía en el mundo hispánico desde los albores medievales de su literatura. La pasión de Lorca por todas aquellas viejas culturas que entretejieron la historia mestiza del sur de la Península Ibérica nos transporta en un viaje que comienzó en la Prehistoria. Todos estos pueblos están, de algún modo (más o menos explícito), evocados en la pluma del poeta granadino. Porque, más allá del localismo folclórico anecdótico, más allá del egocentrismo y del subjetivismo literario, Lorca ha sabido proyectarse hacia el exterior, captar la esencia de una tierra compleja y saltar de lo antropológico a lo poético y de lo poético a lo inmortal.

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POESIA E FICÇÃO NA OBRA DE ROBERTO BOLAÑO: INTERSEÇÕES

Clarisse Lyra Simões PG - USP

Parece haver se formado já entre a crítica e os leitores de Roberto Bolaño um consenso sobre a menor valia de sua poesia em relação à sua prosa. Exemplo disto pode ser observado neste congresso, em que temos duas mesas de comunicações dedicadas ao autor (Cervantes lidera com três mesas, Bolaño vem na sequência) e nenhum trabalho que trate especificamente de sua produção poética. O meu texto, como vocês irão notar, não foge à regra, tendo como objetivo principal especular o modo como a poesia pode se imiscuir em suas narrativas, e não o contrário. Não deixa também de ser emblemático o fato de o mercado editorial brasileiro vir ignorando a grande parcela da obra de Bolaño escrita em verso. O crítico Matías Ayala, por exemplo, defende que o trabalho poético do chileno se tornou parte da “pré-história do narrador”, um trabalho que pode ser tomado como um “ índice biográfico-literario para investigar retrospectivamente su proceso creativo ” (AYALA, 2008, p. 98), mas cujo valor literário é relativizado, não chegando a ser comparável com o de sua produção ficcional. Ayala afirma que “el hecho de […] dejar de escribir en la primera persona del

singular le permitió [a Bolaño] sobrepasar los escollos de una lírica en la que no parecía destacar” (ibidem, p. 99), concluindo que
[...] se puede afirmar que Bolaño deja de escribir poesía para escribir sobre poetas, para ficcionalizar su propia vida azarosa y su fracasada carrera poética en Los detectives salvajes. Bolaño se sabe un mal poeta, y publica para demostrar y atestiguar que ha fracasado (ibidem, p. 100).

Esta passagem da escritura de Bolaño, que nos anos 90 se afasta da poesia, passando a escrever principalmente ficção, aparece ficcionalizada em Los detectives salvajes e é aludida com frequência pela sua crítica. Andrea Cobas Carral e Verónica Garibotto vêm nisto um trânsito que se relaciona com a economia da escrita, que se desloca desde “la poesía como una práctica que se desarrolla mayormente por fuera del mercado a la narrativa como un ejercicio de supervivencia ” (COBAS CARRAL e GARIBOTTO, 2008, p. 178). Alan Pauls, por sua vez, reflete sobre como em Los detectives salvajes – “un gran tratado de etnografía poética” (PAULS, 2008, p. 328), segundo ele - Bolaño “hace brillar a la Obra por su ausencia” (ibidem, p. 328), substituindo o idealismo que

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geralmente cerca a figura do poeta pela colocação em cena do que ele chama, segundo a “gran tradición del melodrama de artista”, “sed de vivir” (ibidem, p. 328). Diz Pauls:
Operación extraña, la de Los detectives salvajes: la poesía – la “obra poética” – queda afuera, del lado de lo real, de lo real-histórico (Mario Santiago, el infrarrealismo, la historia de la poesía mexicana, etc.); y lo que entra, lo que se infiltra en la ficción y ocupa el sistema circulatorio de la literatura, es algo que sólo creíamos conocer (y despreciábamos) bajo la forma del peor de los estereotipos: la Vida misma, la Vida Poética (ibidem, p. 328).

e sus configuraciones literarias ” (ibidem, p. 3), e levantando nos textos estudados procedimentos como o apelo afetivo ao destinatário, a adesão ideológica e o ocasional predomínio da emotividade (em Amuleto ), a crítica chilena acredita que, por muitas vezes, o “eu” emerge na narrativa de Bolaño, elidindo a distância imposta pela referencialidade e fazendo-se notar no texto um “profundo deseo [do autor] de estar sin distancia presente en su obra ” (ibidem, p. 16). Tais disposições, que corroboram os estudos da autoficção na narrativa bolañiana, interessam aqui na medida em que Solotorevsky as introduz não apenas como expediente narrativo, mas como uma espécie de resquício ou substrato lírico. Sabemos, é verdade, e Julio Cortázar escreveu sobre isto, que não existe uma linguagem romanesca pura (CORTÁZAR, 1994, p. 143). Segundo o argentino, “toda narración comporta el empleo de un lenguaje científico, nominativo”, que se alterna e se imbrica com “un lenguaje poético, simbólico” (ibidem, p. 143, grifo do autor). Além disto, já fora de uma instância puramente verbal, diz Cortázar que o romance conta ainda com o que ele chama de “aura poética”, “atmósfera que se desprende de la situación en sí [...], de los movimientos anímicos e acciones físicas de los personajes, del ritmo narrativo, [de] las estructuras argumentales” (ibidem, p. 144). Acima de qualquer teorização, no entanto, Cortázar considera o romance um “imenso baú”, uma forma sem leis (CORTÁZAR apud GONZÁLEZ BERMEJO, 2002, p. 73), tendo chegado a afirmar: “Há romances que são poemas. Há poemas que são romances” (ibidem, p. 72). A hipótese que nós gostaríamos de aventar neste ar tigo, tendo em conta esta prévia de informações, se erige contra a seguinte ideia, sustentada por Matías Ayala (crítico já citado no início do texto):
Esta segunda sección de la obra poética de Roberto Bolaño [aqui ele se refere à obra poética adulta de

Não obstante estas opiniões que enfatizam a passagem de um gênero a outro, o poeta catalão Pere Gimferrer enxerga na narrativa em prosa de Bolaño “una forma, apenas mascarada, de poema”, e afirma que “sus ficciones son tan poéticas cuanto narrativos son sus poemas ” (GIMFERRER, 2006, p. 7). Tais asseverações, em grande medida contrárias à crítica que insiste em uma mudança substancial de gênero, nos levam a pensar em como poderia o poema subsistir na produção ficcional de Bolaño, resposta que Gimferrer não nos dá. Myrna Solotorevsky aponta uma perspectiva interessante para a consideração deste questionamento. Em ensaio sobre a “Anulación de la distancia en novelas de Roberto Bolaño”, ela defende que, apesar do trânsito executado por ele do gênero lírico (no qual predomina a função emotiva e a expressão da interioridade do falante) ao narrativo (ao qual corresponde a função referencial), restam em sua ficção marcas “de esa proximidad al ‘yo’ y de su necessidad de manifestación” (SOLOTOREVSKY, 2008, p. 3). Analisando variadas obras do autor, tais quais as novelas Amuleto, Estrella distante, Amberes e La pista de hielo , Solotorevsky estima que “ el Bolaño presente en sus textos remite a [...] un pseudo-referente real ” (ibidem, p. 3). Considerando, contudo, o “Bolaño real” e as “equivalencias entre este, su biografía

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Bolaño, os libros Tres , Los perros románticos y Fragmentos de la universidad desconoc ida , publicados durante os anos 90], variopinta, y poco concentrada, parece ser la compilación de textos escritos a lo largo de los años más que un razonado o persistente proyecto poético. Se puede conjeturar que para entonces estaba concentrado en su narrativa y la poesía la ejecutaba en honor a los viejos tiempos (AYALA, 2008, p. 91-92).

cantadas no por hombres, sino por fantasmas (ibidem, p. 109).

Entre as qualidades que se associam à poesia em sua obra crítica, e mesmo em seus poemas, aparecem sempre as palavras (tão repetidas por ele) “ valentía ”, “ voluntad ”, “ valor ”, e jamais qualquer menção a uma condição específica de linguagem.

Nossa hipótese, portanto, é a de que havia sim um projeto poético posto em marcha por Bolaño, e que este projeto incluía não somente a sua produção em verso, mas também a sua narrativa. Longe do esquematismo pretendido pelo crítico chileno, que chega quase a opor poesia e ficção na produção de seu compatriota, acreditamos que a relação entre ambos gêneros em Bolaño se dá por contaminação e fluidez, em uma relação ambígua difícil de ser equacionada. Para justificar a falta de limites precisos entre poesia e prosa que vemos na obra de Bolaño, seria necessário recorrer às suas possíveis concepções de poesia. A concepção expressada por ele em ensaios e textos críticos (cuja formulação nunca se aproxima do conceito) parece extrapolar qualquer ideia de forma ou estrutura. É uma concepção que tem por base preceitos outros que não o de verso ou o de “infinitos juegos de la Analogía” (CORTÁZAR, 1994, p. 144), mas que parece orientar-se por uma espécie de caráter da poesia, e que poderia tranquilamente ser contemplada pela narrativa. Sobre o escritor chileno Pedro Lemebel, por exemplo, Bolaño disse: “Lemebel no necesita escribir poesía para ser el mejor poeta de mi generación. Nadie llega más hondo que Lemebel” (BOLAÑO, 2006, p. 65). Sobre os poetas em geral, afirmou:
No hay nadie en el mundo más valiente que ellos. No hay nadie en el mundo que encare el desastre con mayor dignidad y lucidez. Son, en apariencia, débiles, […] y trabajan en el vacío de la palabra, como astronautas perdidos en planetas sin salida posible, en un desierto donde no hay lectores, ni editores, apenas construcciones verbales o canciones idiotas

Também em seus romances encontramos formulações significativas desta tensão. Em 2666 , lemos: “Ingeborg le preguntaba a Reiter por qué no escribía poesía y Reiter le contestaba que toda la poesía, en cualquiera de sus múltiples disciplinas, estaba contenida o podía estar contenida, en una novela ” (idem, 2004, p. 969). Em Amuleto, por sua vez, se enuncia a seguinte profecia: “ La poesía no desaparecerá. Su no-poder se hará visible de otra manera” (idem, 2009, p. 134). Não por acaso, Amuleto se encontra em alto grau contaminada pela poesia. Relato construído a partir de uma temporalidade múltipla e cambiante, nele Bolaño logra elidir o tempo uniforme tradicional da narrativa, através de uma enunciação extremamente lírica da narradora e protagonista Auxilio Lacouture. No capítulo 9 do livro, exemplar neste sentido, oscilam três tempos: os anos 1963 imaginado, o 1968 rememorado, e o tempo da enunciação, que não se sabe ao certo quando é. Nós percorremos o fluxo da consciência de Auxilio e nos perdemos nele como ela própria, já que nenhum dos tempos de seu relato é sólido, nenhum constitui o que se poderia chamar o “tempo da realidade”. Se o comum nas memórias é o tempo da enunciação funcionar como base, como ponto a partir do qual se organizam as experiências, neste relato a base encontra-se desestabilizada, pois é um espaço – o banheiro feminino do quarto piso da UNAM, onde a protagonista permaneceu enclausurada durante a invasão da universidade em 1968 – que funciona como mirante, já descolado no tempo, flutuante, a partir do qual Auxilio vê o seu passado e o seu futuro.

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Encontrar-se no banheiro, para esta uruguaia residente no México, não implica necessariamente um relembrar: este é um espaço que ela ainda habita (pelo menos imaginativamente). Ele não se restringe, portanto, à experiência do ano ‘68, ele se desloca no tempo e se transforma no teatro de suas visões: em determinada cena, por exemplo, Auxilio estende a mão no banheiro para apontar o quadro instalado na sala da casa de Remedios Varo, que ela visita em sonho; em outra sequência, a voz da Remedios do sonho de Auxilio se perde entre os ladrilhos do banheiro da UNAM. Tal disposição temporal nos remete ao texto de Octavio Paz que diz: “a crise da sociedade moderna manifestou-se no romance como um regresso ao poema” (PAZ, 1996, p. 72). E mais adiante: “desde os princípios deste século o romance tende a ser poema de novo” (ibidem, p. 73). Neste ensaio sobre a “Ambiguidade do romance”, Paz faz referência a autores como James Joyce, Marcel Proust e William Faulkner. Sabemos que eles, através do monólogo interior, aboliram a perspectiva, eliminaram o abismo entre o homem e o mundo instaurado pelo narrador em terceira pessoa. Mas, mais do que isso, o monólogo interior instaura um tempo na narrativa que não é o dos fatos, mas um tempo que se desdobra, no caso de Amuleto, em temporalidades múltiplas que, ainda que não prescindam da história (isto é, de “uma narrativa de eventos dispostas conforme a sequência do tempo” [FORSTER, 2004, p. 57]) – e, por isso, continuem inseridas no âmbito do romance –, flertam com a noção temporal do poema, que às vezes é inexistente e às vezes se desloca livremente de um instante a outro, sem a necessidade de constituir uma cronologia. Experiência mais extrema neste sentido é a que Bolaño proporciona com o livro Amberes. Datado de 1980, o volume foi publicado em 2002 na categoria romance, gênero que lhe foi atribuído pelo próprio autor no prólogo à edição, no qual ele diz:

“ Obviamente, nunca llevé esta novela a ninguna editorial” (BOLAÑO, 2009, p. 9). Em 2007, porém, sai publicado o volume intitulado La universidad desconocida , reunião de grande parte da poesia de Bolaño organizada por ele mesmo e datada de 1993. Neste livro, encontra-se publicado novamente Amberes, agora sob o título “Gente que se aleja”. O ato não é gratuito. Amberes oferece um texto fragmentado de alto poder desestabilizador, cuja leitura envolve um acentuado grau de angústia, ocasionado pela dificuldade (ou impossibilidade) de se encontrarem os elos que permitam remontar os fatos e a cronologia. Desta forma, com a dupla inserção do texto em volumes de catalogação diferente, Bolaño desloca a questão da determinação do gênero do autor para o leitor, transformando-a em um ato de leitura. Ler Amberes como romance certamente é mais desconcertante, já que as convenções de leitura deste gênero implicam a possibilidade de se obter uma linearidade final (que insiste em escapar do leitor neste caso), enquanto a operação de leitura da poesia obedece a normas outras, podendo ser uma leitura salteada ou corrida, não estando o leitor preocupado em obter um sentido final para o conjunto. Neste sentido, pode-se dizer que o que determina o caráter genérico ambíguo deste texto é, antes de tudo, o recurso ao fragmento, elemento constitutivo de grande parte da obra de Bolaño. No jogo da representação, no qual estão em pugna fragmentação e totalidade, caos e ordem, organicidade e arbitrariedade, e, em última instância, a própria possibilidade do narrar, Bolaño logra por em cena a tenuidade dos limites entre poesia e ficção, ao sinalizar que, nas bordas de um romance cujas peças não se encaixam (e que por isto não teria sido aceito inicialmente por nenhuma editora), pode muito bem desenhar-se um poema.

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Nota
1

Aluna do mestrado do Programa de Pós-Graduação em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-Americana da Universidade de São Paulo. Desenvolve com o apoio da Fapesp o projeto de pesquisa “Fragmentação e multiplicidade em Los detectives salvajes, de Roberto Bolaño”.

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REPRESENTAÇÃOES DA MULHER E VOZES FEMININAS NO CONTEXTO IBEROAMERICANO

Cláudia Luna UFRJ

El discurso sobre la mujer es también un discurso sobre identidad y ciudadanía. Más importante, tal vez menos obvio, el discurso masculino sobre la identidad y la ciudadanía es también un discurso sobre el género. Las dos formaciones discursivas se determinan mutuamente, aunque en relaciones de desigualdad radical. (Pratt, 1995, p. 273)

Vive-se hoje um processo de revisão histórica propiciado pelos bicentenários dos processos de independência e formação das nacionalidades e seus respectivos imaginários na América Latina. Nesse contexto, abre-se oportunidade ímpar de repensar a escrita da história como um processo de cunho marcadamente androcêntrico, sob recorte tradicional, que relegou ao esquecimento ou a papel secundário a participação de mulheres como a peruana Micaela Bastidas, a equatoriana Manuela Sáenz, ou a brasileira Bárbara de Alencar, embora tivessem papel relevante nos processos encabeçados respectivamente por Tupac Amaru, Simón Bolívar e Frei Caneca. O projeto de pesquisa que ora realizamos visa a confrontar representações e autorrepresentações destas entre outras personagens históricas, considerando os projetos de emancipação que enunciam e as repercussões de sua atuação, no contexto latino-americano. Inicialmente, trata-se de analisar o processo de autorrepresentação expresso nas cartas e documentos públicos e privados de protagonistas das Independências latino-americanas.

A primeira etapa de trabalho constitui-se no estabelecimento do corpus a partir da compilação das fontes, que podem contar com o auxílio de trabalhos recentes de recuperação, em curso, ou fazer-se diretamente nos arquivos. Em muitos casos, há lacunas importante a preencher, pois a documentação existente é escassa ou de autoria coletiva. Interessa-nos investigar como se representam as mulheres nas independências e se afirmam (ou não) nas esferas pública e privada? Que elementos interferem no processo de construção da subjetividade, afirmação ou negação do protagonismo? Nossa hipótese inicial é de que há diferentes condicionantes, como questões étnicas e de classe, estado civil e origem. Por um lado temos a afirmação vigorosa de Micaela Bastidas, esposa de Tupac Amaru e uma das líderes da insurreição andina contra a metrópole; temos o mascaramento dos ideais de Manuela Sáenz, ao colocar-se perante Bolivar como mera amante e cuidadora, apesar de arguta estrategista e lutadora aguerrida. Quanto a Bárbara Alencar, há o ápice do

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processo de apagamento: apesar de presa e perseguida, transfere o protagonismo para o filho Martiniano, e mascara ou dilui sua subjetividade na construção de documentos coletivos, como na Proclama de 1817.

Como já observava Ángel Rama, a América Latina se caracteriza pela existência de regiões culturais, marcadas por história comum e, nesse traçado, esfumam-se as fronteiras nacionais estabelecidas pelo História oficial. Recordemos a mais evidente, a gauchesca, unindo territórios pertencentes à tríplice fronteira – Uruguai, Argentina e Brasil. A

O Brasil em face das Independências – cruzamentos e peculiaridades
Considerando os projetos emancipadores e as rebeliões ocorridas no Brasil, a primeira diferença que se percebe em relação aos países vizinhos é a referente ao projeto vitorioso – o da monarquia bragantina, de recorte centralizador e unificador, em oposição à vitória das propostas republicanas. Por outro lado, há intenso intercâmbio de ideias entre os americanos de colonização espanhola e os de colonização inglesa. São diversos projetos de América, intentos utópicos e de construção de novas nações ou de repúblicas, de territórios livres, de fundação de espaços sociais marcados por contratos sociais mais ou menos inclusivos, mais ou menos heterogêneos. O Brasil pareceria estar distante deste intercâmbio, à primeira vista, impressão que se desfaz à medida que adentramos o exame do passado. Uma primeira hipótese seria a de que o projeto absolutista e monárquico, centralizador, enfatiza o recorte atlântico, voltando as costas aos processos que se sucedem na América Hispânica. No entanto, é marcante o recorte imperial brasileiro a respeito dos vizinhos, as longas lutas pelo estabelecimento do território nacional, marcando as guerras de fronteiras que atravessam todo o século XIX e os episódios da diplomacia continental a esse respeito – da Guerra do Paraguai, a República Cisplatina, a disputa pelo território do Acre, em suma, a definição do grande território emergindo unificado sobre a variedade regional.

cultura guarani, do Paraguai e Centro Oeste brasileiro, o elemento afro-americano, no Rio de Janeiro, Bahia e Antilhas, o vasto território cultural amazônico, congregando países como Brasil, Equador, Peru, Bolívia, Venezuela, Colômbia. São linhas que se cruzam e sobrepõem imaginariamente sobre as linhas demarcatórias oficiais de províncias e nações, compondo um segundo traçado, a respeito do qual Rama pondera:
En este segundo mapa el estado Rio Grande do Sul, brasileño, muestra vínculos mayores con el Uruguay o la región pampeana argentina que con Matto (sic) Grosso o el nordeste de su propio país; la zona occidental andina de Venezuela se emparenta con la similar colombiana, mucho más que con la región central antillana. (RAMA, 1985, p. 58).

No caso brasileiro, o século XIX será palco de um jogo de tensões entre o regional e o nacional, no qual se insere o movimento de 1817, do qual participará Bárbara de Alencar. Nas primeiras décadas do século XIX assiste-se, sucessiva ou simultaneamente, a intentos mais ou menos logrados de emancipação em relação a Portugal, movimentos internos separatistas, oposição entre os diversos projetos dos agentes sociais envolvidos, acionando liberais e conser vadores, monarquistas e republicanos, regionalistas e centralistas. Distintos projetos de construção da nacionalidade que se cruzarão até que vença o projeto unificador, sob o Império de Pedro II. No Nordeste brasileiro, em especial na província de Pernambuco, o espírito independentista era bastante acirrado. Ao mesmo tempo que se mantinha comércio diretamente com países europeus

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e africanos, a dimensão continental do país isolava o a região do centro de decisões. A esse respeito narra o viajante Robert Walsh:
Os pernambucanos foram os primeiros a reconhecer o direito do Imperador ao trono do Brasil, bem como a total separação deste país de Portugal. Contudo, ainda alimentavam a esperança de se tornarem um Estado independente. Existia uma grande rivalidade entre a província e o Rio de Janeiro, e pequenas causas de descontentamento eram motivo de constante atrito entre as duas províncias. Entre outras coisas, os pernambucanos se queixavam de que lhes era cobrado um imposto para a iluminação das ruas do Rio, enquanto as de própria cidade eram mantidas em total escuridão. (WALSH, 1985, p.184).

negros, mulatos e brancos, comuns na Argentina, no Peru e no Brasil – a tentativa de implantar no Brasil um modelo semelhante ao intentado nas Antilhas (vide Haiti); o intercâmbio e busca de apoio com os Estados Unidos, por parte de insurgentes, calcados num prenúncio de pan-americanismo, antecipando a doutrina Monroe. Finalmente, o intercâmbio entre o Velho e o Novo Mundo, ou seja, a atuação conjunta de intelectuais hispano-americanos na Europa, como Fray Servando Teresa de Mier ou Andrés Bello, principalmente em Londres, e a busca de aprovação pela opinião pública europeia; já no caso do Brasil, a presença de brasileiros como estudantes na Escola de Coimbra, trazendo para cá o pensamento liberal. Em contrapartida, a presença dos viajantes europeus e seus depoimentos sobre o cenário americano, como, por exemplo Maria Graham1, Robert Walsh ou Daniel P. Kidder, constituindo um corpus precioso de relatos de viagem que nos trazem informações minuciosas sobre nossa história e sobre as representações cruzadas que se fizeram, reconstituindo o olhar estrangeiro sobre a América, na esteira de Humboldt.

Como afirmou lucidamente Marcel Velásquez, em sua exposição no Seminario Escritoras del Siglo XIX, em Lima (2009), resgatar a produção feminina no século XIX importa também como forma de resgatar o contexto em que estão engastadas, muitas vezes trazendo à tona publicações esquecidas ou renovando o interesse por áreas pouco exploradas. Em suma, um efeito colateral positivo na revirada do passado histórico. Nesse sentido, refletir sobre a posição das mulheres neste processo, antes de tudo nos leva a repensar uma série de questões que nos desafiam nestes dois séculos. Como já apontei em trabalhos anteriores, há alguns elementos comuns a todo o continente, como o sentimento nativista e o rechaço do elemento ultramarino (os reinóis); o papel destacado das ordens religiosas no processo – confrontem-se, por exemplo, os jesuítas expulsos, que, da Itália, revalorizam o dado americano, como Rafael Landívar, e a atuação de Frei Caneca, um dos mentores da Confederação do Equador, de 1824. Especialmente no Nordeste brasileiro, não podemos esquecer a relação estreita que se mantinha entre os coronéis (e as coronelas), a Igreja e o Estado. Outros dados a considerar são a separação entre as etnias e raças, as corporações militares de

Rodolfo Walsh, por exemplo, capelão da comitiva de Lord Strangford, em suas Notícias do Brasil (1825-1829), retrata conflitos regionais, narrando uma tentativa de insurreição malograda que se deu em fevereiro de 1929, em Pernambuco, e uma outra no Maranhão. Ele as explica pela distância em relação à Corte, associada à proximidade com outras “províncias republicanas”. Diz ele, referindo-se ao Maranhão:
A situação dessa província era sabidamente alarmante. Ela fica tão distante da capital que as comunicações entre esta e suas cidades de fronteira nunca se completam em menos de um ano, e em Tabatinga as notícias do Rio são trazidas muitas vezes passando pelo Cabo Horn, vindo assim do litoral e atravessando os Andes. Isso torna a influência do governo relativamente fraca, ao passo que a vizinhança das províncias republicanas representa um forte estímulo para que o seu

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exemplo seja seguido. (WALSH, 1985, p. 85) (grifo nosso)

e de 1824. No seu caso, o destaque maior será para o filho Martiniano de Alencar. Bastidas tampouco terá melhor sorte.

Das heroínas – semelhanças e contrastes
No cotejo entre a trajetória das personagens históricas podemos observar, em primeiro lugar, a masculinização da figura feminina no processo das independências. No caso de Manuela Sáenz, isso se vincula ao papel destacado que tiveram as mulheres no campo de batalha, nos diversos países, como soldados; no caso de Bárbara Alencar, ao matriarcado, ou seja, ao fato de que era comum as viúvas assumirem o comando de suas fazendas e por atuarem no campo político. Quanto a Micaela Bastidas, a morte após torturas atrozes aponta para o necessário processo de escarmento, a exemplaridade no castigo como forma de coibir novas rebeliões. Em segundo lugar, o jogo curioso de revelação e encobrimento – em relação a Sáenz, o processo de apagamento de sua atuação, de sua importância no campo político como estrategista e militante, que no seu caso começa por suas próprias mãos, ao colocarse como coadjuvante de Bolívar, nas cartas; e pela posteridade, que a conhece a partir do batismo que este lhe confere de Libertadora do Libertador. No caso de Bárbara se associa à figura da mártir, da mãe extremada, da mulher aprisionada, que sofre vexames e punição inclemente, mas se mantém fiel a seus ideais. Quanto a Micaela Bastidas simplesmente sua atuação será relegada a segundo plano, e associada sempre ao marido, ou seja, como a companheira de resistência e luta.

Até onde pude pesquisar, por outro lado, a figura de Bolívar se prestará a uma representação culta e popular de amplíssimo espectro, em todos os níveis, o que, creio, não sucede com Manuela Sáenz. Já quanto a Bárbara de Alencar, alcançou um destaque muito grande no campo do imaginário popular brasileiro, nos cancioneiros, na música popular, no cordel, no maracatu, em suma, em diversas formas de representação oral. Em relação a Bastidas, ainda estamos no começo da investigação. De todas as formas, o que ressalta da pesquisa é o quanto ainda há para se buscar, de forma a reconstituir pelo menos minimamente o efetivo papel desempenhado pelas mulheres nos processos de independência na América Latina. Nosso projeto, em suma, visa a contribuir para o processo de revisão histórica e ampliação do cânone literário latino-americano, no âmbito do processo coletivo de reflexão e crítica acerca dos bicentenários das independências na América Latina. A discussão local, temos certeza, será relevante na construção de saberes globais mais inclusivos e libertadores.

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Em relação à escrita da história, todas praticamente desapareceram do panteão de heróis da historiografia oficial. Manuela Sáenz surge sempre atrelada à figura de Bolívar, como um capítulo à parte. Quanto a Bárbara de Alencar é mencionada em pouquíssimos textos referentes às revoluções de 1817

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Nota
1 Seu diário da viagem e permanência no Brasil, entre 1821 e 1823, foi publicado em Londres em 1824 (GRAHAM, 1990).

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A DESTREZA ORAL E SUA IMPORTÂNCIA PARA A FORMAÇÃO DOS FALANTES DE ESPANHOL COMO LÍNGUA ESTRANGEIRA

Cristina do Sacramento Cardôso de Freitas Universidade Estadual de Santa Cruz - UESC

Introdução
A partir das ideias geradas no projeto de iniciação à docência intitulado “Ensinoaprendizagem da Língua Espanhola: a proficiência oral em foco”, desenvolvido na Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC - Ilhéus – BA), definiu-se o objetivo desta proposta, que é o de realizar uma reflexão a respeito de alguns aspectos relacionados à destreza oral entre alunos de nível iniciante, entre os quais se encontram: a investigação criteriosa das causas que conduzem à deficiência de sua produção oral, em língua espanhola; a análise detalhada das consequências de tal problema; e, finalmente, a proposição de atividades variadas de incentivo à otimização da expressão oral entre os mesmos. Para melhor compreendermos os aspectos que se relacionam ao desenvolvimento da destreza oral em língua espanhola, como L2, entre alunos de nível iniciante, decidimos organizar este referencial teórico em tópicos, entre os quais se encontram: a análise da questão das interferências linguísticas entre o português e o espanhol; a observação do uso de

métodos pretensamente comunicativos que visam facilitar a aprendizagem desta destreza; o papel da afetividade na relação professor-aluno e como esta influencia na capacidade de expressão oral do mesmo; as dificuldades específicas de aprendizagem da destreza oral em língua espanhola; a questão da fossilização e da interlíngua; a elaboração de um quadro em que se visualizam estes e outros fatores que definiríamos como de caráter individual, institucional e intrainstitucional; e, finalmente, a proposição de atividades que desenvolvam de maneira criativa, natural e estimulante a capacidade de expressão oral de alunos de nível iniciante. Para tal, sabemos que o processo natural de aquisição de uma língua tem como primeiro elemento de contato a oralidade, considerado o mais constante instrumento de uso linguístico. Portanto, um dos primeiros pontos a se desenvolver nos aprendizes espera-se que seja a oralidade. Mas o que vem a ser esta capacidade, habilidade ou destreza de se expressar corretamente em outro idioma? Quais são suas características?

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1. Revisão da Literatura
1.1. Características da destreza oral Estudos e pesquisas se desenvolveram no Brasil com o objetivo de compreender o fenômeno da produção oral em língua estrangeira, por falantes não nativos. Para Martín Peris (1996, p.50), algumas das principais características desta destreza são: é a destreza mais importante para muitos aprendizes de uma L2; possui uma utilidade prática real; as oportunidades de praticá-la dependem de muitos fatores externos ao aprendiz; conseguir um bom domínio desta destreza não é fácil, já que implica em ser capaz de utilizar um número considerável de microdestrezas capacitadoras, de interação e atuação com o outro, em contexto real. No entanto, em função das similaridades em diversos níveis reconhecidamente existentes entre a língua espanhola e a portuguesa, é possível afirmar que ainda há uma carência significativa no que diz respeito à discussão sobre as dificuldades específicas de alunos brasileiros e a proposição de materiais ou atividades que busquem o aprimoramento da expressão oral dos mesmos. As interferências que se produzem na aprendizagem do espanhol por lusofalantes representam o cavalo de batalha de profissionais e alunos e afetam a ambos.

do espanhol, dois grandes mitos sobre a língua povoam o imaginário comum. O primeiro é o de que a língua é composta basicamente por uma grande lista de palavras. Essa concepção é refletida no senso comum pelo apego que muitos professores têm aos chamados ‘falsos amigos’, os famosos falsos cognatos que evidentemente podem levar o indivíduo que não domina o idioma a uma série de situações embaraçosas. O problema não está em ensinar os ‘falsos amigos’ aos aprendizes, já que, de fato, esses elementos fazem parte da competência gramatical e linguística ideal de um falante da língua. A questão se centra na ideologia que essa ênfase nas questões lexicais da língua acarreta. Ao apresentar a língua como um grande inventário de vocábulos, essa ideologia, difundida inclusive pelos próprios meios de comunicação, constrói uma imagem de que a diferença entre as línguas portuguesa e espanhola se resolve apenas através de uma simples substituição de itens lexicais, promovendo uma visão de que os processos de uma língua se repetem uniformemente na outra. Não é difícil imaginar o quanto essa visão reducionista pode comprometer o desempenho de um aprendiz.

1.3. Métodos pretensamente ‘comunicativos’ O segundo ponto discutido pelas autoras é a

1.2. Interferências entre o português e o espanhol Determinando os efeitos da proximidade entre estas línguas, Kulikowsky e González (1999) fazem uma importante reflexão com relação à prática docente de espanhol para brasileiros. As autoras discutem como a imagem que o aprendiz de uma língua estrangeira tem do seu objeto de estudo pode determinar seu sucesso ou fracasso em termos de domínio oral desse conhecimento específico. No caso

ideia, não tão velada quanto a anterior, de que a língua é um instrumento destinado fundamentalmente à comunicação. Se a ênfase nos itens lexicais promove uma ideologia reducionista que impede o aprendiz de entender a língua como um sistema autônomo e extremamente complexo, a ênfase no fator comunicativo pode ter efeitos ainda piores no processo de ensino-aprendizagem do espanhol. Isso se deve ao fato de que a troca dos chamados objetivos gramaticais pelas competências comunicativas, na prática, não se realiza da maneira mais adequada.

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O falso objetivo de dominar as quatro habilidades em cada vez menos tempo é o principal elemento motivador do aprendizado, uma vez que fornece uma sensação de domínio imediato logo nas primeiras aulas, ainda que essa sensação seja ilusória, como salientam Celada e González (2005), pois provém de um novo reducionismo, o que se refere à uniformidade das situações pragmáticas nas quais um indivíduo pode se encontrar. Ao entender a língua como um instrumento que ‘serve’ basicamente para se comunicar, o indivíduo se apossa de suas expressões de maneira imediatista e utilitária, o que o distrai da real tarefa de compreender a língua como um sistema autônomo, com seus processos particulares. Alguns teóricos opinam sobre a importância do desenvolvimento desta capacidade comunicativa oral, o que inclui, a nosso ver, uma questão mais ampla que envolve a fluência verbal no idioma estrangeiro. Faerch e Kasper (1983) alegam que quanto mais o aluno se engaja em situações comunicativas, maior variedade e mais possibilidades ele tem não só de praticar sua capacidade comunicativa oral na língua estrangeira, como também de construir hipóteses sobre a L2 e testá-las. Dubin e Olshtain (1977) acreditam que o papel do professor deve ser o de facilitar o aprendiz a desenvolver suas próprias capacidades e recursos interiores para realizar adequadamente as tarefas comunicativas. Para Canale e Swain (1980), proficiência linguística significa não somente saber fonologia, sintaxe, vocabulário e semântica, mas também ser capaz de fazer uso desse conhecimento apropriadamente em comunicação real.

começaram a apresentar maior interesse a partir dos anos 70. A este respeito, Krashen (1982) estabeleceu uma relação direta entre a primeira e o êxito do aluno no processo de aprendizagem de uma nova língua. Este psicolinguista levou em conta três variáveis que possuem uma influência direta sobre a aprendizagem de idiomas: a atitude, a motivação e a personalidade. Explicou que existe um filtro de percepção, o chamado filtro afetivo, que se refere a um conjunto de circunstâncias, angústias, falta de interesse, de motivação, que, em determinados casos, bloqueiam a aquisição satisfatória do código e a compreensão ou, no nosso caso, a produção em idioma estrangeiro. Por isso, o aluno deverá ter uma atitude positiva que lhe permita uma maior permeabilidade diante do processo de aprendizagem e evitar as barreiras afetivas, que geram por sua vez, bloqueios mentais que não permitem que os dados sejam processados de forma completa. Em consequência, para que haja uma melhor receptividade aos conteúdos, se requer empatia, disponibilidade e autoconfiança.

1.5. Dificuldades específicas de aprendizagem da destreza oral em língua espanhola Além destas dificuldades pessoais e interpessoais que o aluno pode apresentar com relação à aprendizagem da língua estrangeira, em nossa prática docente percebemos também que, muitas vezes, alunos brasileiros, aprendizes de espanhol como língua estrangeira, demonstram algumas dificuldades no que diz respeito à pronúncia da língua espanhola.

1.4. O papel da afetividade na aprendizagem da expressão oral Por sua vez, estudos sobre a relação entre a afetividade e a capacidade de aprendizagem do aluno

Podemos dizer que existem aspectos nas duas línguas que não criarão dificuldades na aprendizagem. Teríamos também outros aspectos na língua estrangeira, sem equivalência na língua

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materna, nos quais seria mais difícil para os alunos alcançarem um nível de produção oral mais próximo do ideal. E, por último, há aqueles aspectos que de tão similares nas duas línguas, se tornam os mais passíveis de interferência e que, possivelmente, são os que provocarão mais problemas na aprendizagem. O ensino da pronúncia, em língua espanhola, é uma das destrezas que todo aluno necessita dominar quando aprende uma língua estrangeira. Por isso, deveria fazer parte dos conteúdos de qualquer plano curricular e o professor teria que incorporar às suas atividades em aula. Com relação ao momento da correção da pronúncia do aluno, esta é necessária no momento em que na produção oral se detectam equívocos. No entanto, o professor deverá enfrentar este momento da correção da pronúncia com cautela. É necessário também que tenha consciência do grau de “precisão fonética”, ou seja, o grau que deseja alcançar na produção oral dos estudantes.

influência direta e que o aproxima cada vez mais da língua-alvo de aprendizagem. Trata-se ainda de um sistema variável e dinâmico, distinto tanto da língua materna como da estrangeira (ainda que nele se encontrem elementos das duas); e que contém regras que lhe são próprias, pois cada aprendiz possui seu sistema específico em determinado estágio de aprendizagem. Entre os vários aspectos que observamos com relação às dificuldades enfrentadas por alunos brasileiros de espanhol, como segunda língua, encontram-se: a realização de fonemas nasais na língua espanhola, a abertura e o fechamento dos fonemas vocálicos, os encontros vocálicos em ditongos crescentes, alguns fonemas e alófonos oclusivos e fricativos, a realização da vibrante múltipla, entre outros fenômenos.

1.7. Análise de alguns fatores Foi possível observar que muitos fatores podem intervir no processo de aquisição de uma Quando não ocorre a devida correção dos equívocos de pronúncia cometidos pelos alunos, desde os primeiros contatos com o idioma estrangeiro, a consequência poderá ser a formação de um processo denominado interlíngua, em que estes futuros professores parecerão se contentar com o estado de língua atingido, sem desejar evoluir a partir da problemática mescla criada entre a língua materna e a língua estrangeira a qual estão expostos. O sistema linguístico desenvolvido por um falante não nativo na língua estrangeira foi denominado de várias maneiras, no entanto, o termo mais aceitado é o de interlíngua, proposto por Larry Selinker (1972). Para ele, a interlíngua é um sistema linguístico interiorizado (com características de linguagem porque serve para comunicar-se e possui gramática interna), sobre o qual o aprendiz possui Fatores institucionais; Fatores intrainstitucionais A tabela abaixo busca apresentar estes três aspectos principais envolvidos nesta pesquisa, objetivando investigar criteriosamente as causas da deficiência oral, analisar sua consequência e propor, à luz da teoria da revisão da literatura realizada, soluções criativas, modernas e práticas para tal questão. segunda língua. A partir de uma série de observações, detectamos que, entre os fatores que mais dificultam a solidez da expressão oral para os alunos iniciantes do Curso de Graduação em Letras (PortuguêsEspanhol), da Universidade foco de estudo nesta investigação, encontram-se: Fatores pessoais ou individuais;

1.6. A questão da interlíngua e da fossilização

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CAUSAS DA DEFICIÊNCIA ORAL 1. FATORES INDIVIDUAIS (ALUNO) a) timidez excessiva, vergonha, medo de errar e ser ridicularizado em sala de aula. b) distância afetiva no relacionamento professor-aluno, o que afasta os alunos da possibilidade de desejar expressar-se oralmente em língua estrangeira, em sala de aula. c) falsa ideia de facilidade na aprendizagem da língua espanhola, por tratar-se de uma língua-irmã à portuguesa. d) interferências linguísticas da língua materna sobre a língua estrangeira, criando a chamada interlíngua. e) falta de hábito de expor-se em público, em ambiente acadêmico, em língua estrangeira. f) dificuldades naturais de aprendizagem de um novo idioma, no início do processo. g) ausência de conhecimentos prévios em língua espanhola, anteriores à entrada na universidade. h) falsa crença de que, ao se graduarem como professores, ministrarão aulas de língua espanhola, em instituições públicas e privadas de ensino fundamental ou médio, em língua portuguesa. 1. FATORES INDIVIDUAIS (professor) a) utilização de metodologias pretensamente comunicativas no ensino da língua estrangeira. b) ausência de projetos ou atitudes individuais que privilegiem a presença de professores, alunos e outros convidados, falantes de língua espanhola como L1, em atividades acadêmicas em sala de aula de língua espanhola nesta universidade. 2. FATORES INSTITUCIONAIS a) grande quantidade de alunos por turma. b) carga horária insuficiente de aulas. c) ausência de meios auxiliares à aprendizagem, em ambiente acadêmico: laboratórios de informática e de idiomas bem equipados e modernos. 3.FATORES INTRAINSTITUCIONAIS a) ausência de programas de intercâmbio entre professores e alunos de universidades na Espanha e na América e as universidades públicas no Brasil.

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2. Proposição de atividades variadas de incentivo à otimização da expressão oral entre alunos de Língua Espanhola de nível básico
2.1. Assistir a um filme, em espanhol, sem legenda, e interromper a projeção antes do final para que os alunos tenham a oportunidade de propor finais criativos para a história e para os personagens principais, em forma de redações curtas, individuais (atividade indicada para trabalhar produção escrita e oral criativa). Algumas sugestões de filmes seriam: El laberinto del fauno, Un cuento chino, Vicky, Cristina, Barcelona, La suerte está echada, La casa de los espírutus, Manolito Gafotas, Crónica de una muerte anunciada, Frida, Muerte en Granada e Mujeres al borde de un ataque de nervios.

oralmente (explicando por que escolheu esta notícia, relatando seus principais aspectos e dando sua opinião sobre o tema); num primeiro momento, os demais alunos escutam a notícia e, num segundo momento, emitem suas opiniões sobre o mesmo, criando-se naturalmente um ambiente de debate sobre temas atuais diversos.

2.4. Relato de fotos de viagens (atividade indicada para trabalhar produção oral e descrição) Sequência de atividades: na aula anterior, o professor deverá solicitar aos alunos que tragam 5 fotos de viagens pessoais ou familiares, em pen driver, que considerem interessantes; na aula seguinte, as fotos de cada aluno serão projetadas para que todos possam visualizá-las com clareza; os alunos deverão fazer perguntas do tipo quem está na foto, onde e

2.2. Criação de conto moderno, em língua espanhola. Sequência de atividades: tempestade de ideias sobre o tema contos de fadas; compreensão auditiva de conto de fadas curto; leitura em voz alta, pelos alunos, do mesmo conto; escritura, em grupos, de novo conto (com características modernas), de forma criativa; gravação em áudio do conto produzido; apresentação, de forma teatralizada, do conto criado pelo grupo.

quando foi tirada, por quem, por que escolheu aquela foto específica para apresentar, etc.

2.5. Produção, em duplas, de diálogo em estabelecimento comercial, baseado em material autêntico (folhetos recolhidos em viagens a países de fala hispânica). Sequência de atividades: na aula anterior, o professor deverá entregar folhetos de estabelecimentos comerciais, em língua espanhola, aos alunos, em duplas; os estabelecimentos selecionados vão depender dos folhetos que o professor possuir para a atividade (por exemplo, de restaurantes, hotéis, estações de metrô, casas de dança, far mácias, consultórios dentár ios ou médicos, livrarias, lojas de roupas, teatros, cinemas, museus, mercados, lojas de eletrodomésticos, bancos, bares, etc).

2.3. Pesquisa no laboratório de informática da universidade sobre jornais e revistas digitais, em língua espanhola (atividade indicada para trabalhar leitura, relato oral e capacidade de argumentação, além do uso das novas tecnologias de informação). Sequência de atividades: cada aluno deverá pesquisar na internet uma notícia interessante, em língua espanhola; em seguida, deverá apresentá-la

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2.6. Produção de um vídeo curto (em forma de comercial de tv), em grupos, em língua espanhola, divulgando o Curso de Letras (Português-Espanhol) da universidade (atividade indicada para trabalhar produção oral, escrita, criatividade, organização, trabalho em grupo, uso das novas tecnologias, etc).

análise contemplativa destes fatores que geram dificuldade de produção oral entre os alunos de nível iniciante nas instituições de ensino superior. No entanto, ao longo do processo, nos demos conta de que, sem detectá-los claramente e sem tentarmos solucioná-los em curto ou médio prazo, a consequência recairá diretamente sobre a capacidade de expressão oral dos alunos. Acreditamos também que, de nada adiantaria a mera proposição de inúmeras atividades comunicacionais, em sala de aula, de aprimoramento da destreza oral e aquisição de fluência em idioma estrangeiro, se tais fatores mencionados não forem observados “com novos olhos”, tanto pela instituição de ensino superior, quanto pelo professor e, principalmente, pelos próprios alunos em questão, que deverão encarar o problema da aquisição da destreza oral de frente e não fingir que ele não existe. Assim, para concluir, como podemos observar, as causas da deficiência de expressão oral em língua espanhola estão intimamente relacionadas à sua consequência, a falta de fluência no idioma estrangeiro, e todos devem estar cientes deste fato:

2.7. Atividade de produção oral a partir do vídeo humorístico ‘Qué hora es’ (visa desenvolvimento da produção oral, escrita, criatividade, organização, trabalho em grupo, uso das novas tecnologias, etc). Sequência de atividades: neste vídeo de humor produzido por um grupo de humoristas mexicanos, os personagens são americanos e usam frases soltas, completamente descontextualizadas, em espanhol, para demonstrar questões relativas às dificuldades de produção oral em língua estrangeira; após assistirem ao vídeo, o professor dividirá a turma em grupos e lhes solicitará que criem situações teatralizadas semelhantes às que aparecem no vídeo ‘Qué hora es’. Tais situações deverão ser gravadas em vídeo.

Considerações finais
Finalmente, se pode afirmar que o objetivo do professor de ELE não deve ser simplesmente a

alunos, professores e, em última instância, a própria instituição de ensino superior.

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Referências bibliográficas
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A LEITURA DE PROFESSORES DE ESPANHOL, FORMADORES DE LEITORES, MEDIADA POR COMPUTADOR

Cristina Vergnano-Junger UERJ

1. Introdução
Este trabalho traz à discussão parte dos resultados da pesquisa “ Interleituras : interação e compreensão leitora em língua estrangeira mediadas por computador”, que vimos desenvolvendo na UERJ, há cerca de três anos. Vem sendo crescentes os estudos sobre as interações mediadas por computador. Neles observamos exposições teóricas sobre as características dos textos virtuais (MARCUSCHI, 2004; 2005); em vários casos, formas de lidar com eles (RIBEIRO, 2005; MAGNABOSCO, 2009) e sobre impactos que as tecnologias da informação e comunicação (TICs) vêm gerando no modo de vida/ interação das/entre as pessoas nesta era da informação (LAVID, 2005; CASSANY, 2011). No entanto, sentimos falta de mais pesquisas, hoje mais frequentes, com um desenho empírico que oferecesse amostras desses novos comportamentos associados aos gêneros digitais. Essa foi nossa motivação para utilizar uma abordagem metodológica empírica no Interleituras , a fim de monitorar procedimentos

leitores e, assim, refletir sobre como vêm ocorrendo, suas diferenças e especificidades com relação à leitura em meio impresso. Nossa questão central volta-se, portanto, para como se lê em ambientes vir tuais. Ou seja, preocupam-nos estratégias, procedimentos e conhecimentos que são postos em marcha durante o processo leitor mediado por computadores, em especial quando se trata da Internet. Neste breve artigo, apresentamos uma sucinta revisão teórica sobre o tema, as bases gerais de nosso desenho metodológico e uma síntese dos resultados encontrados, especificamente no que foi observado junto a dois docentes de espanhol, sujeitos do estudo.

2. Revistando alguns aspectos teóricos
Um rápido olhar à nossa volta já nos dá um panorama de como as TICs passaram a fazer parte do cotidiano das pessoas, independentemente, muitas vezes, da faixa etária e de condições socioeconômicas. São caixas eletrônicos, smartphones, câmaras digitais,

entendida como uma atividade complexa. uma vez que buscamos identificar os comportamentos que vêm caracterizando as práticas leitoras mediadas por computador. diferentes outros textos que podem ser colocados em diálogo com o que se está lendo. avaliamos essa perspectiva multidirecional como produtiva. fragmentados. Deve-se assumir. MAGNABOSCO. tanto gêneros que se caracterizam como reestruturações daqueles já existentes em fontes impressas. Nosso foco está direcionado especificamente à leitura. que. 2010). histórico e cultural. 2010). VERGNANO-JUNGER. recursos e atividades estão em construção e estudo. tantas inovações estejam transformando nossa maneira de usar a linguagem e interagir. em tal perspectiva. que está presente em diferentes práticas sociais e demanda um sujeito ativo. em conjunto com todos os estudos do grupo de pesquisa LabEV. de diferentes partes do mundo. Propomos. com suas marcas linguísticas e tipográficas.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 287 cibercafés. redes sociais. como inovações próprias do ambiente virtual. de demandando. nem uma hierarquia fixa entre suas partes. assim. diferentes produtos finais (“textos”) para leitura (RIBEIRO. profusão de mensagens instantâneas (SMS). Uma proposta metodológica O Interleituras se define como uma pesquisa exploratória e descritiva. seja cedo para uma definição precisa de padrões. No que se refere às TICs e à leitura em meio virtual. 2005). habilidades e estratégias. sem a pretensão. Isso significa dizer que. 2004. o leitor com toda a sua bagagem de conhecimentos prévios. como e em que medida isso estaria ocorrendo. v ideogames . o texto. A forma de constituição dos gêneros virtuais é hipertextual. Os . Importam. em distintos idiomas. crítico e reconstrutor de sentidos (VERGNANO-JUNGER. já em sua natureza. nesse momento. viabilizados pelos recursos das TICs (MARCUSCH. 2005. por isso. como nos casos da inclusão de outras tecnologias no passado. a discussão. parte) deles em seu dia-a-dia. 2005. De modo que as teorias a respeito e a caracterização de gêneros. 2009). oferecer exemplos que favoreçam. linguagens. suportes e/ou gêneros não são acessíveis de forma universal ou democrática e várias pessoas conseguem prescindir de muitos (ou. blogs. a atividade caracteriza-se como um processo de construção de sentido que inclui insumos de diferentes direções e naturezas. interconectados por links. e-mails. pluralidade acessos se fazem tanto de forma assíncrona como síncrona. A questão passa a ser. sons imagens etc. tomando tal compreensão já como um tipo de produção de sentidos. Necessariamente. gêneros. implicam a existência de diferentes contextos. Nesse meio obser vamos. Isso porque entendemos que não se pode produzir sem ser capaz de compreender. Isso permite que cada leitor construa seu caminho próprio e componha. de apresentar generalizações sobre as novas práticas. como as próprias práticas sociais relacionadas às TICs. fomentando a interação e o acesso a uma realidade plurilinguística e pluricultural. Adotamos uma abordagem qualitativa dos dados. ao contrário. Talvez. Em resumo. 3. o que significa que não têm um centro. também. Essa revolução da era da informação é. reflexão e construção de um conhecimentos e atitude ativa de seus leitores. são efêmeros. no entanto. simultânea ou isoladamente. Isso porque os autores que vêm estudando os textos produzidos especificamente em e para ambiente digital os caracterizam como hipertextuais e multimodais (RIBEIRO. ao menos. ainda muito recente. portanto. o contexto espaço-temporal. multidirecional. tais recursos. trabalhando com amostras limitadas. contudo.

ao contrario das leituras guiadas que têm uma tarefa a cumprir. a serem resolvidas durante as sessões correspondentes de monitoramento. muito. limitando-nos às leituras livres: impressa e virtual. escolhidos pelo fato de que suas práticas leitoras podem influenciar seu trabalho como mediadores e formadores de leitores. cada qual em suportes impressos e virtuais. sempre/totalmente) com uma série de 116 assertivas divididas em seis blocos temáticos. apenas o uso do computador conectado à Internet e no caso da impressa. hipertextos. monitoramos apenas seis sujeitos docentes. procuramos contribuir para responder os nossos problemas: (a) como o processo leitor está sendo desenvolvido em meio virtual e. Também lhes pedimos que registrassem sua atividade no protocolo escrito e que comentassem oralmente (para a gravação) o que fizessem e pensassem durante a leitura (ações. Ao finalizar as análises. (c) quatro protocolos de acompanhamento do processo leitor – dois para leitura impressa e dois para leitura virtual. (b) em que medida se diferencia e/ou aproxima da leitura em meio impresso. enquanto d-018 o faz tanto em casa . por um lado. convidaremos os sujeitos a participar de entrevistas a fim de discutir com eles nossas observações. estratégias usadas). As únicas limitações que lhes impusemos nessas sessões de leitura foram: de tempo (entre 30 e 45 minutos para cada sessão) e de meio (no caso da virtual. leitura em espanhol língua estrangeira (ELE) e uso de bens informáticos. com informações sobre seus hábitos leitores e de atividades em meio virtual. mas se admitindo o uso de materiais impressos próprios). Como instrumentos para as diferentes coletas de dados. as sessões são gravadas em áudio.288 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS quadro mais amplo da questão. relativamente. de um texto impresso. No que se refere ao uso do computador e acesso à Internet. é que se caracterizam como um contato mais espontâneo com a leitura. cujo conjunto de coletas está completo. respectivamente livres e guiadas – preenchidos pelo sujeito durante cada uma das quatro sessões de leitura monitorada. com menor pressão e definições de objetivos e atividades por parte dos pesquisadores. dúvidas. além do aspecto prático da limitação de espaço. contendo propostas de compreensão. respectivamente. utilizamos: (a) uma ficha de caracterização de sujeito. Apresentando e discutindo alguns dados Neste artigo apresentamos dados apenas de dois docentes – d-018 e d-019 –. junto com o preenchimento dos protocolos. Também fazemos um recorte no que se refere às leituras selecionadas para comentário. O motivo. Ou seja. nas sessões de leitura virtual. d-018 (faixa de 31 a 40 anos) é mais velho que d-019 (faixa de 26 a 30 anos) e ambos são professores de espanhol nos ensinos fundamental e médio. e em arquivo de áudio e vídeo (voz do sujeito e imagens da tela do computador). qualquer material não digital/virtual/multimídia. por outro. que estivesse disponível na biblioteca de um projeto de extensão sob a responsabilidade do Setor de Espanhol da UERJ. Nossos sujeitos são professores de espanhol. faixa etária e atividade profissional. dificuldades. no qual se recolhem as crenças do sujeito sobre leitura. no caso das leituras em meio impresso. (d) duas atividades de leitura guiada. Como nossa abordagem de análise é qualitativa. a partir do grau de concordância (nunca/nada. pouco. No que se refere ao perfil da ficha de sujeito. segundo uma abordagem multidirecional de leitura. de um texto virtual e. 4. (b) um questionário. Além do material preenchido pelos sujeitos. D-018 gasta mais tempo (até 5 horas diárias) em atividades de leitura e no uso da Internet do que d-019 (entre 1 e 3 horas). em quatro sessões de leitura: duas livres e duas guiadas.

podendo ser avaliadas como pessoas que têm uma posição equilibrada (nem ufanista. ao concordar plenamente com “Compreender um texto significa formar uma estrutura mental que representa o significado e a mensagem atribuídos ao texto. representado pelas suas marcas linguísticas.”. D-018. nesse caso. navegação e participação em redes sociais. Pudemos constatar diferenças não apenas entre ambos os sujeitos. mas também entre as duas modalidades de leitura: impressa e virtual. como e por quê. conceitos e estruturas gramaticais é essencial à leitura. na qual “apreender” implica capturar/ receber o que está exposto no texto. mas. é que as assertivas tenham sido compreendidas de forma diferente da pretendida quando da elaboração do instrumento. Focalizam seu interesse em questões relacionadas a trabalho e estudo. centrada no leitor. Apesar disso. ao contrario do segundo. Uma vez que as leituras eram livres. ignorando a bagagem do leitor e outros elementos que possam ser conjugados para estabelecer a compreensão. embora d-018 abra mais o leque de possibilidades do computador e da rede. tendendo a uma perspectiva decodificadora. enquanto d-018 optou por ler para relaxar. podendo esta estar centrada no texto ou no leitor. para ter um momento de lazer. pois a assertiva indica uma supervalorização das imagens que o leitor projeta no texto para lhe dar sentido. Contraditoriamente. Em termos de crenças coletadas a partir do questionário. Uma das possibilidades. com ênfase no texto. selecionando textos que contribuíssem para a melhoria de sua prática e planejamentos. cada um poderia definir o que fazer. Quanto ao perfil de usuários de meio virtual. d-019 manteve-se ligado ao trabalho. O primeiro se avalia como um usuário muito hábil e autônomo. ambos o dominam para usos cotidianos de caráter instrumental. não descar tada pelos pesquisadores. numa perspectiva unidirecional. podemos tecer algumas reflexões sobre as possíveis tensões entre crenças e práticas. A primeira observação que fazemos se refere à definição de objetivos de leitura e às escolhas de gêneros e assuntos. d-019 só o faz em casa. b) d-018 concorda totalmente com a assertiva “O leitor entende um texto ao apreender seu significado. Também contradiz sua tendência multidirecional. No caso da leitura impressa.”. escolhendo histórias em quadrinhos e contos com temática de futebol. reconhecem tanto os aspectos positivos quanto as limitações do meio.” . já que a leitura pode variar de indivíduo para indivíduo e poderá ser verificado durante a entrevista. D-019 restringe seu uso ao e-mail. tanto d-018. desconsiderando que há outros elementos que entram em jogo na interação e contradizendo algumas avaliações feitas em outras assertivas.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 289 quanto no trabalho. tendeu para uma perspectiva unidirecional. os papéis se inverteram. afirmou concordar muito com o fato de que “O domínio de vocabulário. Exemplos disso são: a) d-019 concordou totalmente com a assertiva “O centro do processo de leitura é o leitor. incluindo a busca de informação e materiais. Quando efetivamente vão ler durante as sessões de monitoramento. nem tecnofóbica) a respeito das TICs e seu emprego. quanto d-019 oferecem dados que nos permitem incluí-los numa categoria de leitores prioritariamente multidirecionais. Isso seria admissível. houve avaliações de assertivas em que ora um. esta última não citada por d-018. que se considera apenas como relativamente hábil e autônomo. Já na leitura virtual. talvez pela menor frequência de uso do computador. ora outro. define .” .

embora de forma menos linear do que na leitura impressa. ambos consideraram ter alcançado seus objetivos. Selecionou notícias e críticas de arte (procurava textos verbais sobre Guernica) em fontes em língua espanhola. teria sido mais fácil. na leitura virtual. Ao contrário. Mesmo assim. D-019 considerou-se mais seguro na leitura impressa. ao qual sempre retornavam para novas pesquisas. dificulta a organização em texto corrido que temos em materiais impressos. Embora tenha demonstrado mais proficiência no trato com o computador. Apesar de ter mais idade. em vista da impossibilidade de encontrar o tema originalmente desejado. usaram como ponto de partida o buscador Google. guardou informação na área de trabalho para uso posterior. a não ser. sua insegurança concretizou-se pela fragmentação da leitura. uma vez que sua formatação vertical. ao contrario de d-019 que esperava ler textos que atendessem seu objetivo de aperfeiçoamento. salvou arquivos em pendrive. mesmo sendo seu conhecido. o pouco tempo para a atividade (informou que lê devagar). mudando seu foco. sem relatar nada que os tivesse atrapalhado.290 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS sua atividade em termos de busca de materiais para usar em sala de aula. Nesse aspecto observamos a contradição entre crenças e práticas com relação à postura unidirecional . pois conseguiu seguir do início ao fim e alcançar seus objetivos. Provavelmente foi motivado pelo costume que tem de utilizar a Internet como fonte de recursos para suas aulas. na leitura virtual. saltar de um texto para o outro. sempre silenciosa. seguiu a navegação de forma mais controlada/ordenada. não acessou links. ao contrário. enviou para si mesmo por email materiais. D-019. procurou textos sobre atualidade. ao contrário do que havia feito na leitura impressa. havia diferença entre ambos. se estivesse em papel. d-018. utilizando skimming e scanning. sem um fim preciso (nunca temos exata dimensão de sua totalidade espacial). Isso ocorria inclusive quando se tratava de uma fonte habitualmente consultada. mas também nos permite refletir sobre a necessidade de os textos veiculados em meio virtual serem mais curtos e apresentarem os links para enlaçarem conteúdos. não seguia palavra a palavra. não deu muito valor às imagens de maneira geral. já que d-018 mostrouse sempre menos linear. d-018 não definiu hipóteses sobre o que encontraria ao ler os textos impressos. dispostos em páginas numeradas e sequenciais. estratégias de copiar/recortar e colar. quase se perdendo. Ambos destacaram a importância do conhecimento de mundo e. em português. A observação do comportamento do mouse e da barra de rolagem da página pôde ajudar a confirmar que a leitura feita pelos dois docentes. no caso de d-019. Concluiu que. Ao se autoavaliar. com o skimming servindo como estratégia básica para uma panorâmica geral de cada material. Foi um pouco menos linear na leitura virtual. Os gêneros escolhidos foram notícias e vídeo. abandonando o que não lhe interessava e. Era feita em blocos. A observação chama atenção. não sabia o endereço eletrônico para acesso. Em termos estratégicos. na leitura livre impressa. consultou diferentes sites. Isso tornava a leitura desconfortável e mais difícil. como no caso de d-019 com o jornal cujas notícias leu e do qual. disse não ter sentido falta de apoio impresso ao ler na tela. educação e política brasileira. d-018 demonstrou mais facilidade com a internet e o computador de maneira geral: utilizou editor de texto. saltando de um a outro (o cursor serviu de apoio a essa movimentação). queixou-se que um dos materiais lidos tinha a imagem do quadro Guernica muito antes das suas explicações e comentários. por não conseguir encontrar o que procurava. integrando em sua leitura conteúdos ali encontrados. Já d-019. Apesar disso. aproveitando melhor os recursos que o meio virtual lhe oferecia. a fim de se atualizar e informar.

do texto ou de outros discursos/textos. o histórico de como aprendemos e daquilo que usamos. inclusive no que se refere à autopercepção da proficiência. As faixas etárias podem contribuir para a maior ou menor intimidade com o ambiente virtual. Isso. ter tendido igualmente a uma leitura seguida e completa dos contos escolhidos. um perfil leitor que oscila entre uni e multidirecional.. poucas foram as estratégias eminentemente virtuais observadas: copiar/colar. n. Referências bibliográficas CASSANY. de apoio de suporte impresso em alguns contextos de leitura. um aproveitamento heterogêneo e não sistemático dos recursos tipicamente virtuais dos textos de gêneros digitais. Destacamos: o uso de estratégias clássicas de leitura. Outro aspecto que nos chama atenção é o fato de que não necessariamente as crenças e percepções sobre nossas práticas leitoras se concretizam durante o ato de ler. mas nem sempre são fatores determinantes. gêneros e ferramentas das TICs. observamos uma melhor integração ao meio. mas para interagir com docentes e alunos. Cabe. conhecimentos. do contexto. não só para aprimorar a formação inicial e favorecer a formação continuada de professores. mas é rejeitada como falha de leitura pelo sujeito. nos textos literários. p. acessar links. a necessidade. sob uma perspectiva crítica e reflexiva. portanto. Da mesma forma. Textos de didáctica de la lengua y de la literatura. é factível assumir que professores que são exploradores das TICs. Algumas conclusões iniciais Embora não caiba generalizar comportamentos leitores em ambiente virtual com base neste estudo de amostra reduzida. Nos casos aqui exemplificados. Como normalmente transferimos para nossa atividade 5. 57. A par tir da descrição desses sujeitos. embora. continuar investigando para ampliar o campo teórico e para levar as novas teorias que estão sendo construídas ao terreno da prática. por parte do sujeito d-018. Daniel. sermos melhores professores. é viável apresentar alguns comportamentos que se caracterizam como possíveis tendências na leitura desses docentes. mais velho do que d-019. como já regitramos. abril. Em especial e em nossa avaliação. merece atenção o estabelecimento do diálogo entre academia e meio escolar. ainda. aproveitando todos os recursos. A fragmentação de atividade leitora em meio virtual atende a uma característica do suporte. sejam eles de sua bagagem pessoal. Aprender a ter consciência dessa tensão entre expectativa e realidade pode nos ajudar a aperfeiçoar a própria compreensão e. seus gêneros e recursos tenderão a levá-los à suas salas de aula. abrir diferentes aplicativos para resolver as questões de leitura. didático-pedagógica nossas crenças. . A atitude de d-018 foi. Na verdade..ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 291 marcada pela leitura linear (do início ao fim) realizada e valorizada por d-019. leitores multidirecionais poderão provocar em seus aprendizes um perfil de exploradores dos textos. adaptadas ao ambiente virtual. Después de internet. assim. apesar de ter apresentado posicionamentos favoráveis a uma perspectiva multidirecional em seu questionário. estratégias que possuam. menos linear. mesmo quando tende ao segundo caso em termos de crenças. 2011. 12-22. defendemos que é possível uma reflexão sobre seu papel na formação de seus alunos leitores e de como tais conhecimentos podem contribuir para otimizar o letramento em espanhol na era digital. somando sua experiência aos constructos acadêmicos.

MARCUSCHI./abr. Madrid: Cátedra. 2005. métodos y herramientas para el lingüista del siglo XXI. Hipertexto e gêneros digitais .1.8. ed. Calidoscópio. 2005. 125-150. A. R.A.). 1. C. COSCARELLI. v. M.l. XAVIER. V. Elaboração de materiais para o ensino de espanhol como língua estrangeira com apoio da internet. n.C. 90-101. 2010. suportes de leitura e escrita. Ana Elisa. _____. 2009. (Orgs. VERGNANO-JUNGER.292 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS LAVID. Gislaine Gracia.) Gêneros textuais e ensino. Lenguaje y nuevas tecnologías. 2005. Luiz Antonio. aspectos soc iais e possibilidades pedagógicas. Belo Horizonte: CEALE. RIBEIRO. In: Revista Prolíngua (UFPB) . 24-37. BEZERRA. Cristina.A./jun. RIBEIRO. L. A. p.P. A. nuevas herramientas. [S. Gêneros textuais emergentes no contexto da tecnologia digital. (Orgs. Ler na tela – letramento e novos MAGNABOSCO. 2004. Julia. MACHADO. A. p. n. p. 1. v. (org). MARCUSCHI. Gêneros textuais: definição e funcionalidade. E.]: Unisinos. jan.2. 3 ed. GÊNEROS DIGITAIS: modificação na e subsídio para a Leitura e a Escrita na Cibercultura. Rio de Janeiro: Lucerna. jan. Rio de Janeiro: Lucerna. Letramento dig ital. In: DIONISIO. .

p. o isolamento e militarização do Paraguai como . Mas o que há de unanimidade é que ele era um ferrenho defensor da independência e da soberania nacional. personagem para quem não foram unânimes os julgamentos da história.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 293 HISTÓRIA. que recuperam vários períodos da história do Paraguai no século XIX e XX. Francia. 57). No documento apócrifo o Supremo ordena que seu cadáver seja decapitado. os quais Roa Bastos mostra como podem ser reinterpretados pela ficção com a intenção de desvelar um fato histórico mascarado. soberana? Lo que es más importante ¿de haberle dado el sentimiento de Patria? (…) ¿De esto me acusan? (ROA BASTOS. Francia. o que Patiño jamais conseguirá. 2008. no Paraguai (1816-1840). Nos questionamentos do Supremo há a evidência dos temas históricos do século XIX. do período do governo do Dr. O romance Yo el Supremo começa quando um pasquim é encontrado cravado na porta da Catedral de Encarnación em forma de decreto com assinatura falsificada do Supremo Ditador. como as notas às margens com letra desconhecida que levam à reconstrução das circunstâncias históricas que viveu o Dr. O ditador começa a procurar quem seria o autor de tal documento exigindo que seu secretário Policarpo Patiño localizasse o dito autor. A partir destes fatos desencadeia-se toda a narrativa. Francia. Para isto o povo deveria ser convocado através do sino da igreja para ver esta barbaridade. MEMÓRIA E FICÇÃO EM YO EL SUPREMO E EM HIJO DE HOMBRE DE ROA BASTOS Damaris Pereira Santana Lima PG . O romance contém notas que complementam e outras que contradizem. outros como um prócer da nação paraguaia. Em seguida todos os funcionários da casa civil e militar também deveriam ser enforcados. o Dr. independiente. Francia. Francia: as revoluções e a independência do Paraguai. que a cabeça seja posta em um poste por três dias. Alguns o veem como um déspota sombrio.UNESP/ Assis Hijo de Hombre (1971) e Yo el Supremo (1974) são romances do escritor paraguaio Augusto Roa Bastos (1917-2005). como a ditadura do Dr. Em Yo el Supremo Roa Bastos trata de vários temas ligados ao Dr. Quando ele se defende das acusações sobre si no pasquim fixado na porta da catedral questiona retoricamente: “¿De qué me acusan estos anónimos papelarios? ¿De haber dado a este pueblo una Patria libre.

Também nestas memórias estão as contradições de seu regime paternalista.30). Hay que agregar a esto las versiones recogidas en las fuentes de la tradición oral. enquanto ele narra. Puedo rehacerla según mi voluntad. Para a referida autora “son hilos ficcionales de esbozos novelescos que los historiadores hacen y Roa Bastos reorienta” ( BOUVET. espigados. A história da Ditadura Perpétua é a matéria da ficção e consiste na cópia de escritos de e sobre o ditador. p. A cópia deste material dá voz à memória do Supremo. um plano de fundo o qual ele não pode exercer o seu poder de controlá-lo ou corrigi-lo. 119). Supremo. 2009. espiados. ajustando. 76). Francia. as arbitrárias detenções.66). Nora Esperanza Bouvet (2009). já que a narrativa é pós-morte. adversários e ex. “quemado el borde del folio” (p. Os grandes e pequenos defeitos de seu governo.” (BOUVET. É muito clara a denúncia contra o regime atual. personagem que não é onisciente. Na narrativa há muitas evidências de vários fragmentos que dão a impressão de rascunhos. em sua obra Estética del plágio y crítica política de la cultura em Yo el Supremo diz que em seu romance Roa Bastos realiza um trabalho de transformação dos materiais historiográficos em literários para construir uma obra de ficção colada aos referentes históricos que questiona os modos que se utilizaram para construílos.amigos. O conteúdo histórico utilizado pelo compilador foi produzido pelo próprio Dr. reforzando. 31-32).de unos veinte mil legajos. a colônia penal. éditos e inéditos. 2009. O Supremo pode fazer o que está declarando. p. (ROA BASTOS. (…) . Este conteúdo histórico é integrado ao simulacro romanesco. folletos. 274). per iódicos. correspondencias y toda suerte de testimonios ocultados. considerado pelo Supremo como Neste trabalho de investigação empreendido pelo Supremo e seu secretário Policarpo Patiño para descobrir quem se atreveu a parodiar os decretos do . 97). y unas quince mil horas de entrevistas grabadas(…) (ROA BASTOS. 2008. mas que não tem limitações quanto à história. os fuzilamentos. por fontes contemporâneas ao ditador e por historiadores. 585). conta e corrige esta imagem. en bibliotecas y archivos privados y oficiales. O romance reescreve a história com dados para a escritura de uma versão divergente da história oficial e hegemônica. Francia. “al margen escrito em tinta roja” (p. Todos os temas que fazem parte do romance tem matriz historiográfica. “Letra desconocida” (p. As fontes extratextuais são muitas. de maneira que a narrativa é a escrita da leitura de vários textos. p. La hago.294 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS estratégia do ditador para livrar seu país das intenções anexionistas de Buenos Aires e as imperialistas do Brasil. no pretende ser otra cosa (reflejar ni representar nada) sino escritura generada por esas otras escrituras contra las cuales se vuelve. pois fala do presente da enunciação do romance e se remete à história do Paraguai anterior à ditadura do Dr. incluindo o presente da narrativa e até transcendê-lo. as crueldades e castigos para com inimigos. ou seja. A história é apresentada através da visão do Supremo que se gaba afirmando: “Yo no escribo la historia. porque o autor outorgou-lhe um caráter fictício e ao mesmo tempo histórico. ou de papéis que teriam sido descartados: “hoja suelta”. de otros tantos volúmenes. enriqueciendo su sentido y verdad”. Esta maneira de construir a narrativa possibilita a Roa Bastos ir do passado ao futuro. Para a autora “el texto que escribe no olvida en ningún momento que lo es. p. à narrativa. O Supremo age de acordo com sua vontade nesta contra-história que é construída com personagens e acontecimentos que são históricos. seus caprichos e sua postura para com os estrangeiros. “faltan folios” (p. foi-se passando a limpo a história. 2008. O Supremo se debate contra uma imagem que lhe fora construída por seus sucessores e em particular por seus detratores. consultados. Há um passado.

“hijo de uno de los esclavos del dictador Francia” (ROA BASTOS. Yo el Supremo é uma narrativa que desestabiliza o que a história oficial registrou. o segundo momento é o presente. O personagem faz alusão às relações entre Paraguai e Brasil e à sua firme política de defesa da integridade territorial. conta a história do ditador e do país alterando a linearidade da história oficial. 115). observar-se-ia que os acontecimentos começam em 1910. de bandeirantes paulistas a los que contuve e impedí seguir bandereando bandidescamente en territorio patrio. o que não se sabe e o que se desejaria saber sobre Francia. texto do livro de Ezequiel. 1971. los saltos de nuestras aguas. Esta afirmação é evidenciada desde as epígrafes do romance. e termina com a morte de Miguel Vera e a conservação e compilação de seu manuscrito por Rosa Monzón. somente. No texto da Circular Perpétua o Supremo traz à memória as invasões brasileiras em território paraguaio. O narrador conta o que ele ouvia quando criança através do velho Macario. los altos de nuestras sierras aserradas con la sierra de los tratados de límites. 1971. pelo império do Brasil. sus hordas depredadoras de mamelucos. A descrição do povoado de Itapé. no entanto se fundem dando origem a uma nova visão de mundo. cria outra história acrescentando o não registrado. 12). período do governo do general Alfredo Stroessner (1954-1989). da fundação de Sapukai e do desaparecimento de Gaspar Mora. no período de aproximadamente vinte e cinco anos. lugar “perdido em el corazón de la tierra bermeja del Guairá” (ROA BASTOS. Sapukai e Itapé e do seu povo.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 295 entreguista. Onde a língua e a religião espanhola se modificam pelo contato com a língua e com a religião do índio. Além dos dados citados acima. a obra ainda evoca a história do período da ditadura de José Gaspar Rodríguez de Francia. Neste fragmento há a alusão a dois momentos: o primeiro à agressão do império português no passado. 2008. 115). as rebeliões dos camponeses e a guerra do Chaco. p. Se o tempo da obra fosse ordenado de maneira linear. a religião como veículo de transculturação. quando especifica o roubo de los saltos de nuestras aguas. quando lhes fora roubada grandes extensões de terra.” (ROA BASTOS. 2008. pouco tempo depois do final da guerra do Chaco em 1935. fundindo a cultura cristã com a cultura aborígene. data da chegada do cometa Halley. A cultura ocidental é mesclada com o substrato dos autóctones. las fuentes de nuestros ríos. Os fatos históricos que se referem ao século XIX são evocados pelas memórias do ancião Macario. assim a soberania nacional do Paraguai. criador do Cristo de Itapé. Na Circular Perpétua o Supremo declara: “Llámese Imperio de Portugal o del Brasil. p. a saber. P. p. espaço onde restavam poucas coisas do tempo . e a seguir trata de um tema presente naquele momento. Em Hijo de Hombre emerge a convivência dos rituais e ideias míticas aborígenes junto aos ritos do cristianismo. referindo-se à construção da usina de Itaipú. Francia (1814-1840) e da guerra contra a Tríplice Aliança (1864-1870). protegendo. no entanto há alusões a fatos que precedem a esse período. Hijo de Hombre conta a história de dois povoados. Hijo de Hombre (1960) é o romance de Augusto Roa Bastos que recupera a história do começo do século XX. 11). sendo uma da tradição judaico-cristã. personagem que era considerado a aparição do passado. A identidade paraguaia se constrói em um espaço onde as culturas lutam para se impor e. que foram trazidos pelo colonizador há mais de quinhentos anos. O principal da narrativa se dá nesse segmento temporal. onde o Supremo insiste em falar das más intenções do Brasil. Antigo Testamento e a outra é o Himno de los muertos de los guaraníes.” (ROA BASTOS. Dr. “Ya nos ha robado miles de leguas cuadradas de territorio.

Desfigurativa. individual ou coletiva. Os personagens. p. tem uma intertextualidade complexa. Para o Supremo a memoria dos “memoriosos” é uma má memória. Outro tema histórico evocado no romance é a tortura e a vigília que se estabeleceu nos ervais eram como menciona o texto. O romance é construído sobre um sistema de citações direta e indiretas.” (LE GOFF. bem como a história. 2010. citações intercaladas. 1971. os espaços e os relatos de Hijo de Hombre apresentam a imagem de agonia da história e da sociedade paraguaia do começo do século XX. 14) Ao contar sobre a Ditadura Perpétua. A narrativa apresenta um país destruído pelas guerras com seus vizinhos. Sobre o tema Jacques Le Goff ainda pontua: “A memória é um elemento essencial do que se costuma chamar identidade. que repete sem refletir e é demasiada porque exige esquecimento. Mancillativa. 218). Yo el Supremo é uma metanarrativa onde se percebem as considerações iniciais e as dúvidas a respeito do quê e como narrar na maior parte das modalidades da escrita que irá inserir os diálogos do ditador com seu secretário. um dos presos militares da prisão de Peña Hermosa. A guerra contra a Trílice Aliança. las artes de este Continente…” (ROA BASTOS. Francia defendia a nação das tentativas anexionistas do Brasil e da Argentina. Para o Supremo. ou a Guerra Grande é evocada no romance. p. pois: “Os indivíduos que compõem uma sociedade sentem quase sempre a necessidade de ter antepassados. países que segundo o Supremo. A memória tema recorrente nas narrativas de extração histórica tem papel de destaque na sociedade em termos de representação coletiva. ou seja. também através das memórias de Macario. queriam devorar a nação paraguaia. conforme a narrativa. Ninguém se atrevia a fugir deste reino de terror. intertextualidade que traduz o inconsciente coletivo do Paraguai no período histórico registrado pelo romance. na febre e na angústia . Profetizaron convertir a este país en la nueva Atenas. O início do romance apresenta as memórias do narrador sobre o que ouvia na sua infância. Areópago de las ciencias. A memória.296 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS da sua fundação há mais de três séculos. O Supremo ironiza utilizando a metáfora de Platão “Estómago del alma. anotações de uma letra desconhecida. p. o ditado de uma longa circular. a história anterior ao tempo da narrativa. Uma das poucas coisas que resta é o rancho do Cristo no alto do monte de Itapé. cuja busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje. ¡Vaya fineza! ¿Qué alma han de tener estos desalmados calumniadores? Estómagos cuadrúpedes de bestias cuatropeas. 218). pode ser compreendida como reconstrução do passado e como conservação das experiências humanas.” (LE GOFF. 2008.” Compara seus opositores a animais ruminantes e define suas memórias como “ Memoria de mascamasca. pois. mas muita dor. amparadas pela lei. Lembrar o passado é uma necessidade do ser humano. p. perseguido pelo avanço da modernidade que promete sucesso para alguns. a visão que Macario apresenta é o Dr. é meramente armazenadora. Relatos. Su padre el liberto Pilar era ayuda de cámara del Supremo .24). o esquecimento faz parte da estrutura da memória . reflexões em um caderno privado. No primeiro capítulo é evocada a história da Ditadura Perpétua quando se narra a vida de Macario que “ habría nacido algunos años después de haberse establecido la Dictadura Perpetua. Repetitiva. 2010. Memoria de ingiero-digiero. miséria e esquecimento para a maioria da população.” (ROA BASTOS. A Guerra del Chaco (1932-1935) é outro fato histórico evocado em Hijo de Hombre através dos registros do diário de Miguel Vera. las letras.

p. Para Le Goff “a outra forma de memória é o documento escrito num suporte especialmente destinado à escrita”. A narrativa é uma construção em leitura. (RICOEUR. O referido autor problematiza esta perspectiva paradoxal dizendo que o esquecimento constitui-se uma das condições da memória. anotarlo en alguna parte. a piedra-bezoar e o meteoro-azar estão associados às reflexões sobre a memória. 2007.40). . p. 2010. em princípio o esquecimento é considerado um dano à confiabilidade da memória. Es el único modo que tengo de comprobar que existo aún.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 297 porque para lembrar alguma coisa. pois é uma maneira de se renunciar al beneficio del olvido. pois o discurso da história não é confiável. faz-se necessário esquecê-la. (…) Se escribe cuando ya no se puede obrar (ROA BASTOS. pois faz-se necessário poder esquecer dos detalhes sem relevância para concentrarse no que é essencial. É necessário saber lembrar e saber esquecer. p. Después olvidaba lo que había dictado. Ahora debo dictar/ escribir. 428). p. a celebração através de um monumento e pontua sobre a pedra mármore como suporte a uma sobrecarga de memória. se lo ruego. O referido autor ainda salienta que “ todo documento tem em si um caráter de monumento e não existe memória coletiva bruta. Em Yo el Supremo. Pedras como fio condutor da reflexão sobre a memória e como um recurso literário. “Yo busque superar los estereotipos de la narrativa regional. nobles señores. que se encontram os fios condutores da narrativa. Rotundamente no. p. etc. pois é um discurso incapaz de escrever o que passa pelo imaginário coletivo. Olvídenlas. 2008. “Disculpen. nas circulares. A própria memória luta contra o esquecimento. 2008.. 424). ele fala das formas de memória que são a comemoração. Segundo Paul Ricoeur (2007. 2008. mas ao mesmo tempo o autor pontua que uma memória que nada esquecesse seria considerada monstruosa. memória e esquecimento exigem equilíbrio. únicamente dictaba. mas a qualidade do que se lembra ou se esquece. Os “arquivos de pedra em Yo el Supremo. Nisto se vê o objetivo de Roa Bastos em se escrever uma intra-história. os fatos revolucionários pela independência do seu país. 427) discorre sobre o desenvolvimento da memória: da oralidade à escrita. O esquecimento não significa amnésia. Como a memória é imortalizada pela escrita. Já em Hijo de Hombre o tratamento da memória é diferente do que se vê em Yo el Supremo. Em Yo el Supremo há a simbologia de duas pedras: a piedra-bezoar e o meteoro-azar. 75. p. Aunque estar enterrado en las letras ¿no es acaso la más completa manera de morir? ¿No? ¿Sí? ¿Y entonces? No. o “exceso de memória” carrega o discurso de detalhes desnecessários. pois é nos documentos históricos.” (LE GOFF. Lo que es necesario recordar es el bien de nuestras patrias. Lembrar somente o que convém. Em Yo el Supremo o leitor se depara com diversos monumentos escritos. escrita e correção do que se escreve.” (ROA BASTOS. Quando Le Goff (2010. pois há uma diferença substancial na produção literária de Roa Bastos. a história ou a imprensa oficial não conseguiriam penetrar nos pensamentos de uma sociedade. A escrita que possui as funções de armazenamento de informações e a possibilidade de reexame e de correção. 435) . No romance a tônica é a revisão e a correção dos arquivos que armazenam a história do Paraguai.) Esta passagem corrobora a importância da escrita na preservação da memória. não é a quantidade do que se lembra ou do que se esquece que faz construir uma boa memória.” (ROA BASTOS. conforme ele mesmo declara em entrevista a qual se refere Bouvet (2009). 315) . p. da Pré-história à Antiguidade. Al principio no escribía. no documento apócrifo. pois. De seguro estarán fatigadas sus mercedes con tantas bufonerías. “le hace ignorar el sentido de los hechos.

“(. ao tratar dos desenvolvimentos contemporâneos da memória. 2009. “Lo que quería entonces era trabajar el texto desde adentro. p. 467). 2009. p. Em Hijo de Hombre desde as primeiras linhas emergem as memórias da coletividade na voz do excêntrico. assim.” (BOUVET.) em Hijo de Hombre y otros textos. o bilinguismo e a oralidade geraram o “mandato ético” de denunciar esta situação e de dar voz ou ser de alguma maneira o intérprete de uma coletividade vitimada pela desventura de suas vicissitudes. 2009. E diz ainda que quando escreveu Yo el Supremo tinha deixado de ser o cruzado de uma literatura militante. de uma cultura ágrafa de uma literatura sem passado. p. O trabalho como coveiro era muito cobiçado em Sapukai. Jacques Le Goff (2010). etc. Emerge no relato sobre María Regalada a filha do coveiro. mientras escribo estos recuerdos. Me había librado de esa conciencia que parecía estar dictándome los infortunios de la colectividad.” (BOUVET. se mezclan mis traiciones y olvidos de hombre.14). y podía dejar que esos infortunios fueran irradiados por la vida misma del texto. Mi testimonio no sirve más que a medias.298 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS pero equivoqué el camino hacia fuera y hacia adentro. pontua que toda a evolução do mundo contemporâneo se dirige para as memórias coletivas.. No estoy reviviendo estos recuerdos. A memória também aparece na voz do narrador. (... Vale ressaltar que o ancião Macario sempre contava suas histórias em guarani. 52). el planteo estético había quedado condicionado por el mandato ético.. A observação de que as histórias eram sempre contadas em guarani mostra que Paraguai é uma sociedade que neste momento parece estar em transição entre a oralidade e a escrita. A história se esforça para criar uma história científica a partir da memória coletiva. Miguel Vera que apresenta suas lembranças de infância: Yo era muy chico entonces. evidenciadas pelas repetidas mortes provocadas por Miguel Vera.. Ahora mismo. Neste fragmento também é evidenciada a marca de tempo cíclico. aqui quem é detentor da memória coletiva detém uma memória essencialmente oral.)” (LE GOFF. pois diz que seu . 2010. mas com o objetivo de purgar os males cometidos consciente ou inconscientemente no passado. (ROA BASTOS. las repetidas muertes de mi vida. O fato de o país ser marcado por tantas mortes faz dos cemitérios lugares monumentais. 1971. testemunho não serve mais para nada. do filho do escravo. Em outro momento do romance há a alusão à Guerra Grande quando se trata da relação morte e vida no imaginário nacional.. p. As declarações acima podem ser consideradas resposta à diferença percebida na maneira de produção textual e de tratamento do tema memória. Sapukai não seria o único povoado fundado junto a um cemitério secular. com certo pesar. 27). 28). p. 27) e se auto justifica por sua situação como escritor exilado. As memórias de Miguel Vera contando de sua infância. do motorista. Em muitos povoados paraguaios o cemitério é o lugar mais antigo. ou seja. A passagem revela que conta-se para reviver o passado. do leproso. Ele declara ainda que não conta e escreve com a intenção de reviver o passado. a los asombros de mi infancia. “História que fermenta a partir do estudo dos ‘lugares’ da memória coletiva. pela fragmentação da cultura paraguaia. pela inexistência de uma tradição literária paraguaia na qual inserir-se. 1971. lugares simbólicos. “El puesto de sepulturero en Sapukai es casi una dignidad”( ROA BASTOS.” (ROA apud BOUVET. Escrever suas lembranças é também uma maneira de contar e reviver o passado.) lugares monumentais como os cemitérios (. Os dois romances de Roa Bastos aqui comentados são textos em que história e ficção se cruzam promovendo. uma intertextualidade. p. tal vez los estoy expiando. siento que a la inocencia.

ROA BASTOS. si ha sido cabal con el prójimo. o esquecimento. construindo. Alain François [et al. Augusto. Buenos Aires: Editorial Losada. desta maneira uma contra história. 38) Referências bibliográficas BOUVET. LE GOFF.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 299 O discurso ficcional ao dialogar com a história faz um questionamento à história oficial. Buenos Aires: Debolsillo. SP: Editora da Unicamp. Roa Bastos – Vida. História e Memória . .]. Augusto. RICOEUR. Asunción: Servilibro. Y si sabe olvidarse en vida de sí mismo. Campinas. 2008. a história. Nora Esperanza. la tierra come su cuerpo pero no su recuerdo…” (ROA BASTOS. 2012. Nos dois romances há também a presença de memória e esquecimento. 1971. “—Porque el hombre. 2010. como diz o próprio Roa. Asunción: Servilibro. mis hijos – decía repitiendo casi las mismas palabras de Gaspar–. Hijo de Hombre. Campinas. temas em debate na atual produção literária da América Latina. 2007. 2009. Antônio. 1971. otro al morir… Muere pero queda vivo en los otros. Jacques. A memória. Uno al nacer. SP: Editora da Unicamp. Paul. Yo el Supremo . tiene dos nacimientos. PECCI. obra y pensamiento. Estética del plagio y crítica política de la cultura en Yo el Supremo. ROA BASTOS. p. (trad.

aqui entendido como uma construção social. Após essas ponderações. às vezes. Em outras palavras. a nossa intenção é escolher. refletir sobre o posicionamento teórico que se segue. não são levados em conta como elementos que conectam mais que frases ou enunciados (embora este último conceito alcance a semântica e/ou a pragmática da língua) e alcançam o nível discursivo do texto. frequentemente. Isso acontece até mesmo com os objetos de estudo mais recorrentes nas teorias modernas. o que parece ser um senso comum para vários linguistas e teóricos da linguagem. partirei de uma breve discussão dos termos texto e discurso para mostrar a complexidade da separação entre ambos. mas sim.300 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS O TRATAMENTO DOS CONECTORES NAS COLEÇÕES DE LÍNGUA ESPANHOLA APROVADAS NO PNLD-2012: UMA QUESTÃO TEXTUAL OU DISCURSIVA? Daniel Mazzaro Vilar de Almeida PG-UFMG/UFV/UNIFAL Introdução Nos estudos linguísticos existem muitos conceitos e termos que. Texto e discurso: limites incertos Ao propor a diferenciação de texto e discurso neste trabalho. dentre as diversas possibilidades de . Neste trabalho refletirei sobre o tratamento dos conectores nos livros didáticos do Ensino Médio aprovados no PNLD 2012. já tomamos a perspectiva de que se tratam de elementos ou conceitos diferentes. são muito próximos e. observando o que se espera do aluno quando estudam os conectores. Sendo assim. Embora não apareçam sob esta nomenclatura. Ao desenvolver um estudo sobre qualquer elemento que se inclui ou que leva no nome algum desses termos. percebemos que não existe um trabalho efetivo desses elementos que ultrapassem o âmbito formal do texto. analisarei as três coleções de Língua Espanhola aprovadas no PNLD de 2012. parecem intercambiáveis. se não contraditórios. parece crucial. Em seguida. quando comparamos suas definições. No entanto. discurso e gênero (textual e discursivo). sob os nomes das classes gramaticais tradicionais a que pertencem. portanto. como texto. mostrarei como também são escorregadias as definições do termo conector e seu “quase” sinônimo marcador discursivo.

e a linguagem é considerada na sua relação com seus objetivos social. que filtra esses valores virtuais ou que pode suscitar novos valores (vê-se uma associação de discurso à dimensão social e mental). escrita ou oral. o que deixa margens a dúvidas se realmente existe uma diferença entre esse e discurso. As restrições podem ser um posicionamento em um campo discursivo (discurso feminista). na interação. Ao fazer um panorama sobre análise do discurso. em decorrência da ativação de processos e estratégias de ordem cognitiva. o compreende no seu próprio processo de planejamento. não apenas a depreensão de conteúdos semânticos. uma unidade linguística mais alta. discurso é um uso restrito desse sistema compartilhado. por um lado. as pesquisas da área discursiva podem se separar em dois polos: . estável e abstrato. a textualidade seria uma propriedade distintiva do texto. discurso deve ser visto de forma diferente de língua. No entanto. Maingueneau (2008) esclarece que. se desprendem conceitos como textualidade e contexto . Enquanto a primeira define o texto como uma sequência coerente e consistente de signos linguísticos delimitada por interrupções significativas na comunicação e possui status de maior unidade linguística. como vimos anteriormente. e sim parte de atividades mais globais de comunicação. a segunda fase o define não como uma estrutura acabada (um produto). mas também a interação (ou atuação) de acordo com práticas socioculturais. Bentes (2001) identifica três fases. desde o entorno sociocultural no qual a atividade comunicativa se desenvolve. já que esta é entendida como sistema de valores virtuais e/ou como idioma compartilhado pelos membros de uma comunidade linguística. de modo a permitir aos parceiros.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 301 definições. o texto passou a ser entendido como um sistema uniforme. Mas. Já a terceira fase considera que sempre teremos à nossa disposição mais de uma definição de texto ou daquilo que se postula ser o objeto da Linguística Textual (LT). o conceito de texto já incorporou o de contexto. objeto. ele pode englobar muitas ideias. dessa forma. Essa distinção permite distinguir a atividade discursiva nas suas múltiplas dimensões e sua única manifestação verbal. uma atividade verbal em contexto que se manifesta sob a forma de unidades transfrásticas. até seu cenário imediato de ocorrência ou o conhecimento prévio dos falantes e a própria linguagem . um tipo de discurso (discurso jornalístico). ou seja. por outro lado. o discurso é o uso da língua em um contexto particular. produções verbais específicas de uma categoria social (discurso das enfermeiras) ou uma categorização baseada num critério comunicacional (discurso polêmico). isto é. verbalização e construção. No primeiro caso. tem-se afirmado que o discurso é a relação de um texto com seu contexto (discurso = texto + contexto). Maingueneau (2008) explica que discurso pode ser. Ele passa a ser visto como uma manifestação verbal constituída de elementos linguísticos selecionados e ordenados pelos falantes durante a atividade verbal. uma diferenciação que possa nos servir para compreender o que acontece com o tratamento dos conectores. Segundo Maingueneau (2008). 1 É nesse mesmo caminho tortuoso que se tenta definir discurso. No segundo caso. expressivo e referencial. Quanto ao primeiro. Desse ponto de vista. superior à sentença e. Fazendo um breve histórico do conceito de texto. Discurso é também diferente de texto. uma vez que a análise do discurso é uma tentativa de articular estruturações textuais e situações de comunicação. Quanto ao contexto. em um momento dos estudos da LT. que foram passos expressivos para perceber que o texto não é apenas um combinado de frases.

. aqueles que visam primeiramente articular discursos e posicionamentos ideológicos. 2008. apoios do discurso .147-148). (PORTOLÉS. como descrever o valor dos elementos de conexão entre orações e outros elementos se tantos pesquisadores o tomam o tomaram como seu assunto de investigação? Conectores ou Marcadores Discursivos? Uma das maneiras de alcançar o sucesso de que um texto/discurso possa fazer sentido é por meio de conexões entre as palavras. a conceituação de MD e conectores apresentam diferenças. Fiala) ou o grupo de Montpellier “Praxiling” (J. Devemos ter a noção. como explica Escandell (2006). Bonnafous. operadores discursivos. Adam em Lausanne. especialmente na Suíça romanda. usa o termo marcadores del discurso e assim os define: son unidades lingüísticas invariables. ou E. partículas pragmáticas. ora se complementam. referindo-se. B. frases. optamos por não nos deter a apenas uma das teorias. P.De um lado. aos mesmos elementos estudados e. seja a carga semântica da expressão. elementos que.). os limites do texto estão em sua organização sistêmica. foi um dos problemas que mais preocupou. . Siblot. conectores pragmáticos ..23-24) O autor faz uma divisão interna da área discursiva para a qual utiliza termos específicos: na definição do primeiro polo aparece a expressão “organização textual”. quando ele explica que a finalidade dessas expressões é de guiar as inferências que se realizam na comunicação. muitas vezes. Por isso. enunciados ou segmentos discursivos. no ejercen función sintáctica en el marco de la predicación oracional y poseen un cometido coincidente en el discurso: el de guiar. orações. . ou seja. já que no tratamento dos marcadores discursivos elas se complementam devido aos âmbitos do objeto de estudo que cada teoria analisa: seja o contexto em que aparece um conector. no entanto. p. conectores discursivos . Détrie. e em seguida os pragmaticistas. P. (doravante MD). essa diferença costuma estar no imaginário comum quando se distingue texto de discurso . é possível encontrar termos como marcadores de relação textual . Bres. marcadores de estruturação textual. na próxima seção. de acuerdo con sus distintas propiedades morfosintácticas. não se chegou a um acordo em questões básicas como a denominação e definição de seu conceito. primeiramente os gramáticos e filósofos. enlaces extraoracionais . seja a intenção do falante em usá-lo. p. por exemplo. J. os conceitos atribuídos a esses termos ora se identificam. por isso. Podemos citar pessoas que trabalham na revista MOTS (S. Ou seja. Roulet em Genebra. Vejamos. A questão é que. Tournier. Em Almeida (2011). semánticas y pragmáticas. Curiosamente. partículas discursivas etc. que defendem uma concepção de linguagem na qual se misturam as influências do marxismo e da linguística da enunciação. devido à diversidade de critérios adotados e às diferentes proposições metodológicas a partir dos quais se tem abordado o estudo dos conectores e dos marcadores discursivos Vê-se claramente o eixo pragmático e semântico da definição de Portolés.De outro. parágrafos. 1998. Portolés (1998). além disso.302 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS . las inferencias que se realizan en la comunicación. de que nem todas as teorias (que não são poucas) coincidem entre si e.-M. Barbéris. M. como se definem os conectores. Várias foram (e são) as teorias que deram sua contribuição para elucidar a questão e o funcionamento dos conectores2. seja suas características sintáticas etc. e na do segundo polo ele usa “discursos” e “posicionamentos ideológicos”. J-M. (MAINGUENEAU. enquanto que os limites do discurso se encontram em seu alcance sócio-ideológico. os pesquisadores que têm como argumento o estudo da organização textual.

podemos ver que o conceito de linguagem está bem próximo ao que discutimos sobre discurso já que expressam ideologia(s). valores e ideologias inerentes aos grupos sociais. E essa definição.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 303 De forma parecida. Nossa pergunta é: por que o termo mais usado é marcador discursivo e não textual? Portolés (1998) entende por discurso la acción y el resultado de utilizar las distintas unidades que facilita la gramática de una lengua en un acto concreto de comunicación. p. Até este momento. p. intenções e argumentações podem se materializar no discurso por meio de conectores de modo a guiar o interlocutor desse texto/discurso no processo de interpretação. conforme dividimos de forma didática anteriormente. 2001. 1998. estreitamente relacionada à de enunciado 3. 2001. então. mas usa o termo conectores e explica que (…) tienen como valor básico esta función de señalar de manera explícita con qué sentido van encadenándose los diferentes fragmentos oracionales del texto para. como os conectores/MD são tratados nas três coleções didáticas de espanhol do Ensino Médio aprovados no PNLD 2012 que são as seguintes: El arte de leer en español (PICANÇO. já que é uma porta para inferências do tipo socioculturais. 2010). as coleções. (MONTOLÍO. Montolío (2001) propõe uma definição. Sua definição também possui uma estreita relação com a semántica e pragmática.10). temos as informações de que tanto as definições de marcadores discursivos como de conectores possuem uma raiz muito forte na pragmática e na semântica. ayudar al receptor de un texto guiándole en el proceso de interpretación. se sob o viés textual ou discursivo. expressa por meio de manifestação verbal e não verbal e que se concretiza em diferentes línguas e culturas. Enlaces (OSMAN et al. áreas de muita influência na Linguística Textual e na Análise do Discurso. de esa manera. Logo. em um texto. que envolve concepções. para serem aprovadas. a fin de que su lector siga sin esfuerzos ni dificultades el camino interpretativo trazado” (MONTOLÍO. 2010). por isso heterogênea e historicamente situada. Portolés e Montolío se preocupam pelos posicionamentos ideológicos dos sujeitos envolvidos no jogo discursivo ao estudar os conectores e MD? Até que ponto as questões socioculturais influenciam o uso e interpretação desses elementos nos discursos? . p. como vimos anteriormente.21) Estas perguntas dariam origem a outras pesquisas. por ello.27) Assim. intenção(ões) e argumentação(ões). voltemos à proposta deste texto e analisemos como os livros didáticos de espanhol aprovados no PNLD 2012 tratam os MD e os conectores. (PORTOLÉS. principalmente quando explica que os conectores funcionam. esto es. esse elemento é de extrema importância para a leitura crítica do texto. prática discursiva. VILLALBA. obtenida gracias al contexto. esses pontos de vista. 2010) e Síntesis (MARTIN. Vejamos. Dessa forma. devem entender e orientar em suas atividades a linguagem como atividade social e política. Essas ideologias. “como señales de balizamiento que un escritor eficaz va distribuyendo a lo largo de su discurso. Um olhar sobre os conectores nas coleções de Língua Espanhola do Ensino Médio aprovadas no PNLD 2012 Segundo o Guia de Livros Didáticos: PNLD 2012: Língua Estrangeira Moderna (2011. marca um limite com a definição de discurso proposta pelas correntes de Análise do Discurso. p. atividade em permanente construção. todo discurso se compone de una parte puramente gramatical y de otra pragmática.21). ponto(s) de vista.

A coleção Enlaces apresenta os conectores principalmente no volume 3.304 Vejamos apresentados nelas. tiempo. o sea. o volume 3 trata dos MD na seção Manos a la obra . no volume 1. porque. sin embargo. a unidade 3 apresenta na seção Para consultar (seção na qual consta um pequeno resumo dos temas linguísticos contemplados na seção gramatical ¡Ojo! ) de uma breve explicação das expressões en suma. Em uma delas. outras conjunções como aunque. Após alguns exercícios de escrita nessa mesma seção. dedicadas à leitura e compreensão de texto. quando se trabalha o subjuntivo e é proposto ao aluno fazer frases sobre os personagens de um texto lido usando as expressões ojalá. Assim. não vamos descrever cada uma das atividades. isto é. probablemente. o e pero por meio de exemplos tirados do áudio do capítulo e uma tirinha (apresenta-se o valor e um exemplo de cada conjunção). expressões condicionais (unidade 7). alguns advérbios de frequência (volume 1. Parte deles aparece em atividades de preencher lacuna e possui. uma atividade oral. Nos volumes anteriores citam. por exemplo.. Deixamos claro que nem todos os conectores citados apresentam o mesmo tratamento. afirmación. e no volume 3 também aparecem outros conectores. expressões temporais (unidade 6). com destaque nas expressões. sin embargo. quizás. unidade 5). e sistematizados nessas coleções. ya que. Novamente estas e outras expressões aparecem no capítulo 5 na seção Gramática básica sob o título Adverbios em um quadro-resumo dividido em lugar. por su parte e sino a partir de frases retiradas dos textos das seções ¡Mira! e ¡Acércate!. o tratamento dos conectores por eso. Já no volume 2. A divisão nas unidades é semântica: expressões concessivas (unidade 4). ó e u das duas primeiras conjunções e propõem atividades principalmente de preencher lacunas. porque. nem todos se explicam por meio de fragmentos dos textos para que o aluno entenda seu funcionamento. como. na primeira unidade. Os conectores parecem ser resgatados novamente apenas no volume 3. Assim como nesses livros. tratam das variações e. negación e duda. classe gramatical etc. marcadores temporais (unidade 3. así que. por eso. por eso. ante. por meio de um quadro-resumo com outros exemplos e. modo. como aunque (unidade 2) y si (unidade 3). em seguida. na seção Para consultar um sinônimo e/ou uma breve explicação do seu sentido. os conectores são trabalhados pela primeira vez no capítulo 1 do segundo volume na seção Gramática básica . Os autores propõem um trabalho com as conjunções de coordenação y. pues. temos. ora e luego aparecem ser ter nenhum estudo sistemático prévio. No caso da coleção Síntesis. ora. no segundo capítulo.. Como nossa intenção neste trabalho não é o de esgotar o assunto sobre o tratamento dos conectores nas coleções aprovadas no PNLD-2012. tampoco. exceto na unidade 8. por exemplo. o tema é resgatado em Como te decía. por lo tanto na unidade 1 do volume 2). Essas expressões são explicadas posteriormente na seção Para charlar y escribir . además.. cantidad. isto é. volume 2) e expressões de possibilidade e desejo (unidade 6.) e outros exemplos. no es seguro que e tal vez. uma breve explicação sobre . na qual encontramos fragmentos dos textos (frases). mas sim ao longo dos três. os MD não aparecem em apenas um volume como um tema a ser estudado. volume 2). así. ni. debidamente e si bien . algumas conjunções (y/e. o/ ó/u. na qual os autores os apresentam sob o título “conectores del discurso”.. como ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS os conectores são o segmento que segue o conector (tempo verbal. sin embargo. como eles são Na coleção El arte de leer en español.

devido ao recorte do trabalho. já que o objetivo do ensino médio é de formar leitores críticos e isso só pode acontecer por meio de leituras analíticas que englobem as questões extratextuais. a causa de um fato e o aluno encontra a expressão porque ou ya que no texto e responde à atividade. apresentação de sinônimos e ideias dos conectores. A. Isso talvez se deva ao fato de os materiais preferirem seguir uma sequência de temas que está próxima à das gramáticas tradicionais. Dessa constatação. Considerações finais Por meio das conclusões preliminares da análise do tratamento dos conectores e MD nas coleções de espanhol aprovadas pelo PNLD-2012. C. Não me refiro a questões que pedem. Inclusive as atividades refletem esse pensamento. isto é. mas sim que não contempla mais que o uso semântico das expressões. p. Referências bibliográficas 4) Os marcadores discursivos são um assunto gramatical. aparecem apenas nas seções destinadas a tal estudo. o seu tratamento entre parágrafos. Anna Christina (2001): Linguística Textual. Apresentar atividades que envolvam essa esfera da linguagem não é uma questão de dificuldade ou facilidade. Outras conclusões podem ser obtidas. BENTES. nosso objetivo é ver o alcance do tratamento dessas expressões. sistêmico. 2) As obras costumam restringir-se à importante fazer inferência de um conector. v. São Paulo: Cortez Editora.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 305 tampouco analisar as definições dadas às expressões. Não dizemos que isso seja equivocado. (Org). Em: MUSSALIM. 1. que desde o primeiro volume já apresenta um estudo de MD mais comuns. F. a refletir sobre a estratégia textual de apresentar determinados argumentos como contrapostos ou como causa-consequência. linguístico. ignora-se seu alcance social. ignorando. e. por exemplo. em alguns casos. dessa forma. no final das contas. Introdução à Linguística: domínios e fronteiras. 2ª Ed. nas quais o leitor é convidado. enumeraremos apenas essas. ou seja. chegamos a algumas conclusões preliminares: 1) O estudo dos conectores costuma aparecer a partir do volume 2. ou seja. pudemos perceber que esses elementos linguísticos são tratados no nível textual. Há exceções.. por exemplo. Refiro-me a leituras inferências sociais. as coleções tratam os conectores como assunto importante a ser estudado? Sob que viés: textual e/ou discursivo? Em uma análise geral. obviamente. como guia na interpretação discursiva. A exceção é da coleção El arte de leer en español. pudemos perceber também que não há atividades de compreensão de texto nas quais seja BENTES. Como já dito. Eles não são tratados. da 2ª série. 245-287. na qual os alunos devem relacionar ideias por meio de conectores e também conjugar os verbos. 3) O enfoque é dado aos conectores interfrásticos ou interoracionais. por exemplo. mas. já que a maioria é de preencher lacuna. começando pelo artigo e terminando nas conjunções. . mas sim de necessidade. como a coleção Enlaces que apresenta exercícios que conjugam a semântica e a sintaxe.

Estrella (2001): Conectores de la lengua escrita. São Paulo: Parábola Editorial. sugerimos uma leitura atenta de Portolés (1998a) e/ou Martín e Portolés (1999). Guia de livros didáticos: PNLD 2012: Língua Estrangeira Moderna (2011). VILLALBA. como conjunções. Para uma apresentação mais completa dos problemas de etiquetagem que se propõem das unidades suscetíveis de serem consideradas como marcadores do discurso. no qual se discute com relativa profundidade os conceitos de textualidade e contexto. Deise Cristina de Lima..306 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS ________. embora saibamos que existem diferenças teóricas entre eles. gênero e discurso. assim como da obscura fronteira entre a classe dos marcadores e outras categorias limítrofes. Victoria (2006): Introducción a la pragmática. MONTOLÍO. Notas 1 Devido ao recorte deste texto. M. interjeições. et al (2010): Enlaces . – Brasília: Ministério da Educação. . 2 Para esta pesquisa. Em: SIGNORINI. MAINGUENEAU. Barcelona: Ariel (nova edição atualizada). PORTOLÉS. Secretaria de Educação Básica. Soraia. 1946. PICANÇO. sugiro a leitura do capítulo de Bentes e Resende (2008). gênero e discurso. ESCANDELL VIDAL. 135-156. I. p. Dominique (2008): Discurso e análise do discurso. MARTIN. advérbios. São Paulo: Macmillan. Em: SIGNORINI. Renato Cabral (2008): Texto: conceitos. 3 Escandell (2006) explica que enunciado é uma unidade do discurso. e se define dentro de uma teoria pragmática. [Re]Discutir texto. consideraremos marcadores discursivos e conectores termos sinônimos. uma sequência linguística concreta realizada por um emissor em uma situação comunicativa. Barcelona: Ariel. REZENDE. Barcelona: Ariel. vocativos etc. São Paulo: Parábola Editorial. Sua interpretação depende de seu conteúdo semântico e de suas condições de emissão. Ivan (2010): Síntesis. I. de acordo com critérios discursivos. [Re]Discutir texto. questões e fronteiras [con]textuais. Curitiba: Base Editorial. São Paulo: Ática. OSMAN. Terumi Koto Bonnet (2010): El arte de leer español. José (1998): Marcadores del discurso . p.

As dúvidas tratadas no DPD podem ser de caráter fonológico. de 2005.. Conforme argumenta Pecheux. sob a ótica da análise do discurso e da História das Ideias Linguísticas.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 307 DICCIONARIO PANHISPÁNICO DE DUDAS: DÚVIDAS. analisando sua estrutura para ver como se dá resposta à dúvida. p XIII . o primeiro de dúvidas produzido pela RAE/ASALE. tomando como eixo da conceitualização o jogo de “antecipações imaginárias” descrito por Pecheux ([1969] 2010). é dar “respuesta a las dudas más habituales”. Martinez Amador (1953). DEFINIÇÕES E COMENTÁRIOS Daniela Ioná Brianezi PG . de 1981 e o Diccionario de Usos y Dudas del Español Actual de José Martínez de Sousa. ed. de 1996. Seu objetivo. tomamos algumas formulações das seções que precedem a nomenclatura (conjunto de verbetes) do DPD. 1992).Universidade de São Paulo Analisamos neste trabalho a imagem de dúvida no Diccionario Panhispánico de Dudas (DPD) da Real Academia Española ( RAE ) e Asociación de Academias de la Lengua Española (ASALE). ortográfico. se referindo especificamente ao caso do discurso politico mas que podemos transferir diretamente a nosso caso (ibid:76): “ [a relação de sentidos entre discursos] implica que o orador experimente de certa maneira . como pode ser visto em Qué es el Diccionario Panhipánico de Dudas. de 2011. cuja primeira edição data de 1961 e que está em sua 10a. como mostrado na seção Qué es el Diccionario Panhispánico de Dudas. de Emilio M. sintático e lexicossemântico. Esse trabalho faz parte dos estudos que desenvolvemos no mestrado em língua espanhola pela USP. Nessa linha. como o Diccionario Gramatical y de Dudas del idioma. morfológico. consideramos o dicionário como instrumento linguístico (Auroux. Em seguida recortamos alguns verbetes. o Diccionario Sopena de Dudas y Dificultades del Idioma. Além destes temos o Diccionario de Dudas y Dificultades del Español de Manuel Seco. Para mostrar como é construída a imagem de dúvida no DPD. p. Mostramos assim que existe um grande repertório de dicionários de dúvidas no campo da língua espanhola desde algumas décadas. Há outros dicionários de dúvidas na língua espanhola. visto que Manuel Seco ocupa desde 1980 a cadeira da letra A da RAE. O DPD é um dicionário recente. XIII. A relevância deste último dicionário é especial para nossas análises.

A instituição “RAE/ASALE” administra essa dúvidas começando por uma classificação das mesmas: seriam da ordem ortográfica. pXI. O ‘se’ impessoal produz um efeito de generalização. São também especificadas como “concretas”. […]” (destaques do autor). era uma obra que faltava e veio para preencher um vazio existente. produzindo o efeito de sentido de são reais e não hipotéticas (são os falantes os que expõem suas dúvidas). los miles de dudas concretas que asaltan a los hablantes en su manejo cotidiano del idioma y donde las Academias pudiesen. como já mostramos. para que todo ello ocurra dentro de los moldes propios de nuestra lengua y. decisiva se ele sabe prever. Notamos ainda em sd2 uma divisão no que se refere ao modo de projetar ou pensar a dúvida. A especificação que aí opera a favor de quantificar as consultas argumenta a favor da publicação e do funcionamento do dicionário. Trata-se aqui de uma dúvida “prevista” pela Academia. Opera aí um efeito de sentido pelo qual isso funciona como uma evidência. de sua necessidade. No fragmento ‘miles de dudas concretas que asaltan a los hablantes’. temos a seguinte formulação: sd1: Centenares de hispanohablantes de todo el mundo se dirigen a diario a la Real Academia Española. observamos novamente a especificação numérica. Iniciando nossas análise no item ‘presentación’ do DPD. segundo a qual a instituição se ocuparia de tratar o que vê como Percebemos que inicia-se apresentando a dúvida como algo que “parte de um sujeito falante da língua espanhola”. de preceder o ouvinte é. Temos aí um sintagma nominal marcado por uma especificação numérica. Já no fragmento seguinte aparece uma outra modalidade: “y donde las Academias pudiesen. con comodidad y prontitud. Uma primeira projeção tem a ver com aquela proveniente do falante. que antecipa a dúvida quanto ao consulente e constrói a imagem de dúvida nos paratextos a partir de um determinado jogo de antecipações.308 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS o lugar de ouvinte a partir de seu próprio lugar de orador: sua habilidade de imaginar. al mismo tiempo. (sublinhado nosso) sd2: Se echaba de menos una obra que permitiera resolver. um não especialista. en especial en lo que atañe a la adopción de neologismos y extranjerismos. Se produz aí o efeito de que a dúvida irrompe naturalmente (ela ‘asalta’ o falante) o que por sua vez opera a favor de abrir o lugar da academia. temos a seguinte formulação: . que ‘se echaba de menos’. o a cualquier otra de las que con ella integran la Asociación de Academias de la Lengua Espanõla. de forma unitaria en todo el ámbito hispano. No caso do DPD. apesar de todos os dicionarios que mostramos anteriormente de dúvidas. al mismo tiempo. ‘centenares’ e outra que remete ao espaço (“de todo el mundo”) que tem como referente o consulente. Esta antecipação do que o outro vai pensar parece constitutiva de qualquer discurso. exponiendo sus dudas sobre cuestiones ortográficas. o que funciona na direção de produzir a evidência da necessidade do próprio dicionário. que tem dúvidas quanto à língua e recorre à RAE ou às Academias da ASALE para pedir esclarecimentos. sobre todo. Continuando ainda na ‘presentación’. ou seja. léxicas o gramaticales y pidiendo aclaración sobre ellas. léxica ou gramatical. temos o sujeito lexicógrafo institucional. às vezes. de naturalizar seu papel de especialista que serve ao sujeito consulente. (destaque nosso) Em sd2 notamos primeiramente a antecipação feita sobre a obra. adelantarse a ofrecer recomendaciones”. onde este ouvinte o “espera”. em tempo hábil. A especificação especial “de todo el mundo” remete à própria denominação do dicionário: ‘Panhispánico’. adelantarse a ofrecer recomendaciones sobre los procesos que está experimentando el español en este mismo momento. e que chegaria “espontaneamente”.

voseo.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 309 importante de ser trabalhado para que a língua continue ‘unitaria en todo el ámbito hispano’. como a quienes desean conocer los argumentos que sostienen esas recomendaciones. no item. leísmo. verificamos que o enunciado definidor dos lexemas é retomado do DRAE. Percebemos algumas diferenças quanto à maneira de enunciação dos vocábulos no DPD em relação aos dicionários integrais ou diferenciais em língua espanhola. de restrição de uso (informal. ainda de acordo com sd2. 1982]). se referiria a neologismos e estrangeirismos. embora não se mencione este fato nas sessões iniciais e em nenhum outro local do DPD. no tienen párpados ni glándulas lacrimales» (Vattuone Biología [Arg. Esta dúvida prevista. uma formulação que já nos permite passar a tratar uma outra parte do dicionário: sd3: El DPD se dirige tanto a quienes buscan resolver con rapidez una duda concreta y. já que este se diferencia do que encontramos num dicionário de língua. ‘destinatarios’ (DPD:XIII). (destaque negrito e itálico do DPD. os não temáticos vão escritos em letras minúsculas. 1993]). Continuando nossa busca da imagem de dúvida construída no DPD. que restringe ou não o uso do vocábulo. De acordo com nossa pesquisa. a retomada da primeira acepção do Esta formulação nos faz compreeder a estrutura do verbete do DPD. Os temáticos se referem a temas gramaticais. Registra-se na enunciação da maioria dos verbetes exemplos de uso dos vocábulos. O DPD explicita que a maioria dos exemplos dos vocábulos foram retirados do CREA (Corpus de referencia del español actual) e em menor medida do CORDE (Corpus diacrónico del español). São de número menor e vão escritos em letras maiúsculas. Percebemos que esta é uma tendência também dos outros dicionários de dúvidas em língua española e. aquelas anticipadas. A estrutura dos verbetes pode conter ainda o enunciado definidor entre aspas simples. ‘de (las) lágrimas’: «El conducto nasolagrimal va del saco lagrimal a la nariz» (Rosales/Reyes Enfermería [Méx.) ou técnicas (medicina. Temos o primeiro vocábulo. previstas pela academia. retirado de nosso corpus de estudo para a dissertação do mestrado. havendo no final do DPD a lista de todas as obras citadas. formado pela letra ‘L’: sd6: lag r imal lagr imal. como laísmo.). Começamos a mostrar agora como são os enunciados encontrados nos verbetes Temos dois tipos: os temáticos e os não temáticos. 2. Par. Notamos a volta do uso de ‘dudas concretas’. silenciando o segundo tipo de ‘dudas’ tratadas pelo DPD. vulgar). por consiguiente. encontramos na seção: ‘qué es el diccionario panhispánico de dudas’.” (destaque nosso) lacrimal: «Los ojos.. el uso de lacrimal . Con este sentido se desaconseja. por minoritario. 1992]). ‘extremo del ojo por donde salen las lágrimas’: «Sacó un pañuelo del bolsillo del delantal y enjugó con él sus lagrimales» (Bain Dolor [Col. que englobam literatura. están solo interesados en obtener una recomendación de buen uso. sempre com referência de onde foram tirados e do país de procedência. As restrições de uso no caso do DPD são encontradas no corpo do verbete. A primeira delas é a falta de marcas no corpo do verbete. sejam elas gramaticais (adj. si los poseen. 1. Como sustantivo masculino. como explicitado na seção antecedente à nomenclatura ‘signos’ (DPD:XXXV). Levando em conta essas considerações. o DPD manteria a regularidade.). v. obervamos na parte ‘1’ da enunciação do vocábulo lagrimal. tipo de dúvida levantada pelo sujeito. neste caso. biol. jornais e portais eletrônicos. geográfico-políticas (Arg. Como adjetivo. temporais (desusado). Veremos aqui algumas ocorrências de verbetes não temáticos. Con este mismo sentido se usa también el adjetivo . sublinhado nosso).

que se baseia em Milner(1983) e Culioli (1990). Temos agora um topônimo de origem estrangeira. mostrando novamente a preferência pelo vocábulo em espanhol. (destaque negrito e itálico do DPD. uma outra posição sujeito que admitiria o uso do vocábulo em francês. mais contundente que em ‘lagrimal’. visto que há uma proibição explícita do termo em sua grafia originária em francês. Go ulett tte sd9: La Gole ta Goleta ta. las aceptadas. Na parte ‘2’. Cabe destacar que há um sintagma nominal com um adjetivo ‘nombre tradicional’. já que trata-se de um deôntico de obrigação ‘dever’. é remetido à palavra adaptada à grafia espanhola.2. que não dever ser usada. La Goleta. ‘lacrimal’. se está desaconselhado pelo DPD. O uso de ‘desaconsejar’ nos permite ver que. ’! La Goleta. Consultando os paratextos da versão online do . pero no preferidas.2. por certos falantes dessa língua. havendo a recusa do vocábulo em sua grafia originária. visto que Neste caso. em sua grafia original. em certas práticas. Nombre tradicional español de esta ciudad de Túnez: «Estuvieron cuatro días fondeados en La Goleta. 1986]). Reparamos na presença do verbo (desaconsejar). Em seguida temos um comentário que ‘desaconseja’ o uso do vocábulo ‘lacrimal’ no caso de seu uso como substantivo. criando uma circularidade com a palavraentrada em espanhol La Goleta . Como argumenta Indursky (1997:213-244).310 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS vocábulo no DRAE. Novamente vemos um enunciado com verbo negativo.§ 6. Irrompe aí uma forma de alteridade sobre a qual se regula.2) a aquella. igualando os sentidos deste aos do primeiro. sublinhado nosso). Pensamos que o DPD segue também esta preferência. O uso de ‘no se debe’ traz consigo o discurso-outro. que produz o efeito de longevidade de uso. La Goulette: sd8: La G o ule tt e . ou seja. quando o consulente busca a palavra La Goulette. que num movimento anafórico retoma a cidade. O fato da preferência pelo topônimo em espanhol poderia ser explicado pelo relacionamento da Espanha com La Goleta. Temos o uso do deítico ‘esta’. Na próxima formulação comenta-se que há um outro vocábulo possível de ser usado com o mesmo sentido. situando o consulente quanto à localização de tal cidade. se definen mediante remisión (v. sem nenhuma formulação. “a negação é um dos processos de internalização de enunciados oriundos de outros discursos”. Diccionario de la Lengua Española (DRAE). item Manejo del diccionario. é porque essa forma é “usada”. La Goulette com ‘no debe usarse’. temos em Advertencias para el uso de este diccionario . a remissão sugere que o vocábulo preferido é. ao contrário do que ocorreu em seu uso como adjetivo e tal fato é justificado por seu uso ser ‘minoritario’. que nesse caso tem informações enciclopédicas. subitem Variantes Preferidas: sd10: Cuando las variantes admitidas no pueden figurar en un mismo artículo por exigencias del orden alfabético. neste caso. Consultando então ‘La Goleta’ percebemos que não faz parte da nomenclatura do DRAE e carece de enunciado definidor no DPD. o que funciona a favor da direção do dizer que aí se instala: usar esta forma e não a otura.2 6. com um exemplo de uso. também é retomado o enunciado definidor deste (agora da segunda acepção) e novamente se apresenta um exemplo. No debe usarse en español la forma francesa La Goulette. Temos então um exemplo. marcado por un morfema de negação. mostrando uma forma de “lidar com a alteridade” no discurso do DPD. Esta é uma prática regular no dicionário. antepuerto de Túnez» (Faner Flor [Esp. la preferida por la Academia es la que lleva la definición directa.

esquivar sua pesada e temível materialidade”. Françoise. por tratar-se de um lexema estrangeiro. São Paulo : Ed Loyola. por tratar-se de uma vacilação na sua grafia e La Goulette como uma dúvida das previstas pela instituição. mas em 1574 ela foi tomada pelos otomanos. .ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 311 ela conquistada pelo rei Espanhol Carlos V em 1535. Referências bibliográficas AUROUX. lagrimal . traducao: Eni Puccinelli Orlandi. como uma das dúvidas concretas. SP: Editora da Unicamp. Tony (orgs. no jogo de ‘poderes’ do discurso. Campinas. e só tornou-se independente em 1956. SP: Editora da Unicamp. 2010. FREDA (1997): A Fala dos Quarteis e outras vozes.). Michel (2010): A ordem do discurso. mas o francês continua sendo usado como língua do comércio. FOUCAULT. Percebemos com a apresentação dos vocábulos. Como argumenta Foulcault ([1970]. tanto recomendando o uso de alguns vocábulo e beirando a proibição em outros. Campinas: Editora da Unicamp. PECHEUX. interpelando assim os sujeitos consulentes a se assujeitarem à FD na qual o DPD se inscreve. HAK. p. Campinas. Em 1881 ela foi anexada à França. p. Michel ([1969] 2010): Análise Automática do Discurso (AAD-69). Os comentários sugestivos e prescritivos do DPD poderiam deste modo encaixarse como um destes ‘procedimentos’ de tentativa de controle da língua. Com essas ocorrências gostaríamos de mostrar como o DPD ‘resolve’ os dois tipos de dúvidas encontrados. 61-161. Podemos classificar o primeiro. selecionada. dominar seu acontecimento aleatório. enunciados de caráter sugestivo e prescritivo que seviriam para esclarecer a dúvida tratada.8): “suponho que em toda sociedade a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada. Por uma análise automática do discurso: uma introdução à obra de Michel Pêcheux. organizada e redistribuída por certo número de procedimentos que têm por função conjurar seus poderes e perigos. Em: GADET. INDURSKY. Sylvain (1992): A revolucao tecnologica da gramatizacao . Sua língua oficial é o árabe.

houve aumento no número de questões e a aplicação do exame foi organizada em dois dias. Ciências Humanas e suas tecnologias (História. no segundo dia do Enem). E se até o presente momento nem todas as instituições de ensino médio. Física e Biologia). códigos e suas tecnologias e Matemática e suas tecnologias (no segundo dia do exame). o referido idioma no contexto educacional brasileiro. por meio de algumas mudanças. referente ao primeiro dia do exame). amarela. A partir de 2009 a prova. que antes visava à avaliação do perfil dos estudantes do ensino médio. Artes e Educação Física). Além da redação. A partir daquele ano a estrutura da prova sofreu alterações. branca e rosa (para o caderno 1. Matemática e suas tecnologias (Matemática). Linguagens. amarela. As questões são as mesmas e mantêm-se os enunciados. . passou a reforçar. Nas distintas versões observam-se somente alterações na ordem das perguntas ou das alternativas. azul e rosa (para caderno 2. códigos e suas tecnologias (Língua Portuguesa. inferimos que o fato de inserir o espanhol numa prova de nível nacional poderá levar a uma aceleração do processo de implantação da língua como um dos efeitos retroativos do Enem. públicas e privadas. Língua Estrangeira (LE) – Inglês ou Espanhol [somente a partir de 2010]. o objetivo de selecionar alunos concluintes da educação básica para acesso ao ensino superior de várias instituições. Eres Fernández USP O espanhol no Enem Sem dúvida a inclusão do espanhol no Enem a partir de 2010 colocou em destaque. inclusive as públicas. Cada caderno de questões é composto por duas áreas: Ciências Humanas e suas tecnologias e Ciências da Natureza e suas tecnologias (no primeiro dia do exame).161/ 2005 ). foram incluídas 45 questões para cada área de conhecimento: Linguagens.312 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS TEXTOS E TESTES: COMO SE CONFIGURAM AS PROVAS DE LÍNGUA ESPANHOLA NO ENEM? Daniela Sayuri Kawamoto Kanashiro UFMS I. Filosofia e Sociologia) e Ciências da Natureza e suas tecnologias (Química. mais uma vez. Gretel M. cinza. Geografia. garantem a oferta do espanhol (conforme prevê a Lei 11. algumas estaduais e federais. Assim como nas edições anteriores (19982008). há quatro versões diferentes da mesma prova identificadas pelas cores: azul.

recursos e textos tirados do discurso da . questões separadas por disciplinas.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 313 No novo Enem também permanece a elaboração do texto dissertativo argumentativo. resultando na unificação da seleção. utilizaram duas páginas (p. as perguntas figuraram sempre no caderno 2. 5). 36%. Um candidato que conhece a ordem de apresentação das aviso). e na de Labella-Sánchez (2007).. disciplinas na prova. por um processo apenas. Dessa forma. Nesse sentido. Sobre os textos em língua espanhola Verificamos que 86% dos textos incluídos nas edições do Enem de 2010 e 2011 são informativos (36% são reportagens. principalmente das instituições federais de ensino superior. 14% em blog e 21% em jornal digital). Além disso. Constatamos que as principais mudanças estabelecidas para o novo Enem objetivaram a aproximação ainda maior das características da organização dessa prova com a dos vestibulares tradicionais. códigos e suas tecnologias e mais 45 questões de Matemática e suas tecnologias.] Dentre os materiais. Sobre a presença de textos predominantemente informativos. 7% correspondem a um artigo e 7%. que analisou as provas de vestibular da região sudeste. em língua portuguesa. que refaz as questões das edições anteriores organizando o tempo disponível para resolvê-las. concursos e para o Enem. também foi observada a tendência em incluir em provas seletivas e/ou classificatórias textos da esfera jornalística. ou seja. para elaborar o texto dissertativo e preencher o gabarito. postagens digitais. no momento da inscrição. no segundo dia de prova. 4 e p. apresenta certa vantagem se comparado àquele que não tem conhecimento sobre a organização e estrutura do exame. a um Sobre a organização das questões referentes à língua espanhola Especificamente sobre a língua espanhola. conforme a referida pesquisadora: “[. O pouco tempo disponível para ler e resolver cada questão (cerca de 3 minutos) também contribui para conduzir a esse tipo de procedimento. 4 e 5). ou seja. no segundo dia de prova. 71% dos textos propostos não são autênticos 1 (50% são adaptações e 21% são fragmentos) e 86% dos textos foram veiculados na internet (51% em sites. mais de um dia para a realização do processo e a inserção de itens de língua estrangeira (inglês e espanhol). Também não é em vão que tenham surgido cursos específicos de preparação para determinados vestibulares. ou seja. junto com as 45 questões de Linguagens. Serrani (2005) argumenta que a tendência em adotar princípios gerais do enfoque comunicativo nas aulas de línguas fez com que o texto literário perdesse certo espaço para o uso funcional do idioma. Consideramos que o engessamento da estrutura da prova favorece o treinamento.. pelo inglês (perguntas presentes nas páginas 2 e 3) ou pelo espanhol (p. não é sem propósito que as escolas – sobretudo as particulares – investem nos programas preparatórios e realizam simulados. Isso aconteceu tendo em vista a intenção de substituir os diferentes vestibulares. que considerou as provas de seleção de três instituições públicas do estado do Paraná. a numeração também permaneceu a mesma: as questões de 91 a 95 foram de língua estrangeira e o candidato teve que optar. nas 3 provas analisadas observamos alguns dados recorrentes: são incluídas 5 questões dentre as 90 propostas no caderno. ao treino. 2007). Em nossa pesquisa de mestrado (KANASHIRO.

antecipa o tema que será tratado e mostra que o autor tem a intenção de . o México dos “Sombreros”. 2005. qual proposição identifica o tema central e poderia ser usado como título? . dança chilena.o sistema brasileiro de votação eletrônica. Além disso.Fumantes engordam mais que não fumantes. Tomando como base o fragmento. citado no texto. Questão 91 – O título da palestra. O título pode fazer referência ao texto proposto ou a uma obra. entre outros. identificar o tema. voto. por meio das palavras-chave urna. Machu Picchu. por exemplo. não paginado) relacionadas na habilidade 8 . Nenhum texto literário foi selecionado para abordar a importância da produção e/ou das manifestações culturais. p. Consideramos. é importante observar como são trabalhados. Avaliamos que essas habilidades poderiam ser consideradas nas questões de qualquer disciplina que apresentassem um texto. a Espanha das “Touradas” e do “Flamenco”. O povo representa muito mais que esses temas genéricos. ao mesmo . teclado. os aspectos culturais. estereótipos de um mundo hispânico longe de ser representação de todo o seu povo. que é preciso trabalhar a conotação da linguagem e que a formação do leitor não deve se restringir a um grupo pequeno de textos que figuram na esfera da informação e da argumentação. Quadro 1 – Habilidade 5. as touradas. 47). a Argentina do “Tango”. entretanto. Destacamos no Quadro 1 a repetição dos termos título e tema.314 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS mídia (jornais. Questão 92 – Pela observação da imagem e leitura do texto a respeito da votação eletrônica no Brasil. uma palestra. identificar a intenção do autor. com base na imagem e no conteúdo verbal. identifica-se como tema . ou seja. por exemplo. 2004. cantores. citada no corpo da mensagem. Acerca das habilidades e questões propostas Nesta parte analisamos como se apresentam os enunciados dos itens correspondentes a cada habilidade da competência da área 22 para verificar se são coerentes com o estipulado na Matriz de Referência e com os objetivos estabelecidos para o Ensino Médio. botones e elector. Brito (2004) atentou para o problema de visões estereotipadas quando se priorizam somente os grandes nomes da história. enunciados e respostas das questões Notamos que a habilidade 5 – Associar vocábulos e expressões de um texto em LEM ao seu tema – focaliza a associação entre título. Os textos inseridos nas provas do Enem de 2010 e 2011 versaram sobre o tango. literatura. pautando-se no título e no tema tratados.Reconhecer a importância da produção cultural em Língua Estrangeira Moderna – LEM – como representação da diversidade cultural e linguística.alertar sobre os riscos mortais de determinados softwares de uso médico para o ser humano. E verificamos exatamente o que foi revelado por Brito ao analisar os textos presentes nas questões Enem 2010 1ª aplicação Enem 2010 2ª aplicação Enem 2011 Questão 95 – O texto jornalístico caracteriza-se basicamente por apresentar informações a respeito dos mais variados assuntos. especificamente nas provas do Enem. têm sido vistos como um avanço frente ao encliclopedismo ou “literarismo” de outrora. revistas).” (SERRANI. e seu título1 antecipa o tema que será tratado. identificar o título do texto. Além disso. tema e conteúdo do texto (verbal e não verbal). As tarefas solicitadas foram: dentre as opções. (BRITO.

. seus conectores.vacinar o animal e depois solicitar o passaporte dele. solicitando a identificação de um determinado elemento do texto. Salientamos que o acesso à informação não se dá somente identificando-a. isto é. esperava-se que os concluintes da educação básica: identificassem como proceder no caso de uma viagem acompanhado de um animal. envolve também os aspectos . identificassem outros aspectos envolvidos num roteiro turístico proposto. ainda. Questão 92 – O Comitê do Patrimônio Mundial reúne-se regularmente para deliberar sobre ações que visem à conservação e à preservação do patrimônio mundial. da falta de entendimento das possibilidades para medir as habilidades propostas. conduz o viajante por um roteiro que. um percurso para turistas na Espanha.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 315 tempo em que não é possível trabalhar com os alunos o tema e o título de todos os textos disponíveis. Quadro 2 – Habilidade 6. concluir que sempre teremos um texto que verse sobre o tema turismo relacionado a essa habilidade. consideramos que a repetição do foco da pergunta (a identificação de informações) pode estar relacionada aos descritores (insuficientes ou pouco claros) ou à inexistência deles. Conforme os textos propostos. pode ser consequência da ausência de descritores ou.discussão sobre o estado de conservação dos bens já declarados patrimônios mundiais. Julgamos que esse tipo de repetição. Como na habilidade anterior. é provável que tenhamos novamente outro texto infor