ATAS

Organizadores Adrián Pablo Fanjul Ivan Rodrigues Martin Margareth Santos

VII Congresso Brasileiro de Hispanistas
Comitê Organizador
Coordenação Adrián Pablo Fanjul (ABH-USP) Carlos Bonfim (UFBA) Fernanda Castelano Rodrigues (ABH-UFSCar) Marcia Paraquett (UFBA) Antonio Marcos Pereira (UFBA) Claudia Blaszkowski de Jacobi Edleise Mendes (UFBA) Hernán Yerro (UFBA) Ivan Rodrigues Martin (ABH-UNIFESP) Juan Facundo Sarmiento (UFBA) Julia Morena Silva da Costa (UFBA) Luciana Mariano (UNEB – Campus V) Mailson dos Santos Lopes (UFBA) Margareth Santos (ABH-USP) Patrício Barreiros (UEFS / UNEB – Campus I) Rosa Yokota (ABH-UFSCar) Xoán Carlos Lagares Diez (ABH-UFF)

Comitê Científico
Alai Garcia Diniz (UFSC) Alfredo Cordiviola (UFPE) Ana Cecilia Olmos (USP) Antônio Esteves (UNESP – Assis) Del Carmen Daher (UFF) Ester Abreu Vieira de Oliveira (UFES) Graciela Ravetti (UFMG) Heloísa Pezza Cintrão (USP) Isabel Gretel Eres Fernandes (USP) Livia Reis (UFF) Luizette Guimarães de Barros (UFSC) Magnolia Brasil Barbosa do Nascimento (UFF) Maria Augusta Vieira (USP) María Aurora Consuelo Alfaro Lagorio (UFRJ) Maria Eugênia Olimpio (UFBA) María Teresa Celada (USP) María Zulma M. Kulikowski (USP) Mario González (USP) Miriam Gárate (UNICAMP) Neide T. Maia González (USP) Silvana Serrani (UNICAMP) Silvia Cárcamo (UFRJ) Vera Lucia de Albuquerque Sant’Anna (UERJ)

Apoio

ATAS
do VII Congresso Brasileiro de Hispanistas
Organizadores Adrián Pablo Fanjul Ivan Rodrigues Martin Margareth Santos

São Paulo, 2013

Copyright © 2013 dos autores

Catalogação na Publicação (CIP) Serviço de Biblioteca e Documentação Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo

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Congresso Brasileiro de Hispanistas (7. : 2012 : Salvador, BA). Atas do VII Congresso Brasileiro de Hispanistas [Salvador, BA, 3 a 6 de setembro de 2012] [recurso eletrônico] /organizadores: Adrián Pablo Fanjul, Ivan Rodrigues Martin, Margareth Santos. – São Paulo : ABH, 2013. 18.291 Kb ISBN 978-85-66188-01-1 1. Literatura hispano-americana (História e crítica). 2. Literatura espanhola. 3. Língua espanhola (Estudo e ensino). I. Fanjul, Adrián Pablo. II. Martin, Ivan Rodrigues. III. Santos, Margareth. IV. Associação Brasileira de Hispanistas. V. Título. CDD 868.909

SUMÁRIO

Erotismo y picardía en Vida y costumbres de la Madre Andrea(c. 1650) A. Robert Lauer ............................................................................................................................................................ 17 Topografías del artista y desestabilización enunciativa en el rock de Argentina ............................................................. Adrián Pablo Fanjul .................................................................................................................................................... 23 Memórias da Guerra Civil Espanhola na ficção: leituras de ¿Qué me quieres, amor?, de Manuel Rivas e La lengua de las mariposas, de José Luis Cuerda Adriana Aparecida de Figueiredo Fiuza ...................................................................................................................... 31 A variação na realização do objeto pronominal acusativo no espanhol: um estudo inicial Adriana Martins Simões .............................................................................................................................................. 36 El pensamiento neomoderno en las columnas de Rosa Montero y Rosa Regás Adriana Virginia Bonatto ............................................................................................................................................ 45 Formas de enunciar la violencia en la obra de Doris Salcedo Alexander Castillo Morales – Instituto Caro y Cuervo ............................................................................................... 38 Relación autor-personaje en La última escala del Tramp Steamer de Álvaro Mutis Aleyda Gutiérrez Mavesoy ........................................................................................................................................... 59 Ensino de e/le e inclusão: reflexões sobre formação e trabalho docente Alice Moraes Rego de Souza (PG-UERJ) ..................................................................................................................... 66 Diálogos de Historia Natural: o homem prototípico e o homem em construção Amanda Brandão Araújo ............................................................................................................................................ 73 A hispanidade disposta em paralelo: vozes literárias contemporâneas dos povos originários das américas Amarino Oliveira de Queiroz ...................................................................................................................................... 80 África, Ásia e Oceania: fronteiras fluidas do hispanismo Amarino Oliveira de Queiroz ...................................................................................................................................... 85 Natalia, Julia, Mercedes y Elvira – Retrato de la mujer española en la posguerra Ana Carolina da Silva Pinto ........................................................................................................................................ 91 O “ensaio criativo” de Julio Cortázar Ana Carolina Macena Francini ................................................................................................................................... 98 Discurso autobiográfico e a busca identitária em Mi nombre es Victoria de Victoria Donda Ana Cristina dos Santos ............................................................................................................................................. 104

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O currículo das Universidades Públicas do Estado do Rio de Janeiro e a formação de professores em língua estrangeira: uma reflexão crítica Ana Maria Mendes Larghi ....................................................................................................................................... 111 Las ratas de Miguel Delibes e a denúncia da crise camponesa em Castela nos anos 1950-1960 Ana Paula de Souza ................................................................................................................................................... 118 Quando o metatexto de Tomás Eloy Martìnez autentica as vidas de Perón André Luis Mitidieri .................................................................................................................................................. 124 Calle Mayor e Señorita de Trevélez sob a ditadura franquista Angela dos Santos ...................................................................................................................................................... 131 Distribuição da perífrase “ter” + particípio no espanhol do México Anne Katheryne Estebe Maggessy .............................................................................................................................. 136 Literatura e Espanhol/LE: a questão da comunidade Antonio Andrade ........................................................................................................................................................ 142 A formação de professores de espanhol no Instituto Federal de Roraima: reflexões sobre a prática docente Antonio Ferreira da Silva Júnior ............................................................................................................................... 149 Polifuncionalidad de los marcadores del discurso y enseñanza del ELE Antonio Messias Nogueira da Silva ........................................................................................................................... 156 En busca del Paraíso: la representación de los germánicos en la obra de María Rosa Lojo Antonio R. Esteves ...................................................................................................................................................... 163 Rompendo fronteiras da cidade e da nação: representações de sujeitos que se moven entre as “islas urbanas” de Sergio Olguín e Cristian Alarcón Ary Pimentel .............................................................................................................................................................. 169 As traduções de quadrinhos sob um olhar discursivo Bárbara Zocal da Silva .............................................................................................................................................. 176 Discursos oficiales del 12 de octubre: un día conmemorativo peculiar Beatriz Adriana Komavli de Sánchez ........................................................................................................................ 183 Subordinadas temporais e finais em português e espanhol: questões de contraste e efeitos para a tradução Bruna Macedo de Oliveira ......................................................................................................................................... 190 O tema transversal da Pluralidade Cultural e sua reconfiguração nos LDs de língua espanhola Bruna Maria Silva Silvério ........................................................................................................................................ 198 O policialesco na figura de Amalfitano Bruna Tella Guerra .................................................................................................................................................... 204 ¿Bacrim o paramilitarismo? Análisis de la concepción de paramilitarismo en Colombia en el período 2002-2006 a través de la prensa escrita Camilo Ramírez Rodríguez e Adriana Yamile Suárez Reina .................................................................................... 209

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Inicios de la santidad medieval en lengua castellana: traducción y protagonismo femenino en La Vida de Santa María Egipciaca Carina Zubillaga ....................................................................................................................................................... 215 Chungui: violencia y trazos de memoria, (2009), de Edilberto Jiménez: desenhando a memória coletiva Carla Dameane P. de Souza ...................................................................................................................................... 221 O preenchimento da posição pré-verbal por complementos verbais e a noção de operador na história do espanhol Carlos Felipe Pinto ..................................................................................................................................................... 230 Invasiones del tiempo en el espacio de la casa Carlos Garcia Rizzon ................................................................................................................................................. 239 Pedidos de informação e pedidos de ação em português e em espanhol: um estudo entonacional de produção e percepção Carolina Gomes da Silva, Maristela da Silva Pinto e Priscila Cristina Ferreira de Sá ............................................ 246 De Dulcinéia a Heliana: perspectivismo e metaficção Célia Navarro Flores .................................................................................................................................................. 252 Sierva María de Todos los Ángeles e Maria Mandinga Cinthia Belonia .......................................................................................................................................................... 257 Espacios, mitos y claves del imaginario andaluz en la poesía de Federico García Lorca. Clara Pajares Gil ........................................................................................................................................................ 263 Poesia e ficção na obra de Roberto Bolaño: interseções Clarisse Lyra Simões .................................................................................................................................................. 268 Representaçãoes da mulher e vozes femininas no contexto iberoamericano Cláudia Luna ............................................................................................................................................................. 273 A destreza oral e sua importancia para a formação dos falantes de espanhol como língua estrangeira Cristina do Sacramento Cardôso de Freitas .............................................................................................................. 278 A leitura de professores de espanhol, formadores de leitores, mediada por computador Cristina Vergnano-Junger .......................................................................................................................................... 286 História, memória e ficção em Yo el Supremo e em Hijo de Hombre de Roa Bastos Damaris Pereira Santana Lima ................................................................................................................................. 293 O tratamento dos conectores nas coleções de língua espanhola aprovadas no PNLD-2012: uma questão textual ou discursiva? Daniel Mazzaro Vilar de Almeida ............................................................................................................................. 300 Diccionario Panhispánico de Dudas: dúvidas, definições e comentários Daniela Ioná Brianezi ............................................................................................................................................... 307 Textos e testes: como se configuram as provas de língua espanhola no Enem? Daniela Sayuri Kawamoto Kanashiro e I. Gretel M. Eres Fernández ....................................................................... 312

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A necessidade de narrar vivênciada pelos personagens do romance La hora violeta de Montserrat Roig Daniele Cristina da Silva ........................................................................................................................................... 320 La re-invención de América en la poesía y las artes del siglo XX Diana Araujo Pereira ................................................................................................................................................. 327 O trabalho com o plano inferencial de leitura em livros didáticos de Espanhol-LE22 Diego da Silva Vargas ................................................................................................................................................ 335 História, memória e ficção em Juan Gabriel Vásquez Diogo de Hollanda Cavalcanti .................................................................................................................................. 342 Juan José Saer: realidade, representação e ficção na perspectiva de gênero Eduardo Fava Rubio .................................................................................................................................................. 348 O ver-se nas páginas do papel: um estudo da representação feminina nas novelas cervantinas Edwirgens A. Ribeiro Lopes de Almeida .................................................................................................................... 353 Literaturas hispânicas no Oriente? A dupla identidade cultural e linguística em Margalit Matitiahu, de Israel Eidson Miguel da Silva Marcos ................................................................................................................................. 359 Heterotopias de función compensatoria en la escritura hispano-canadiense contemporánea Elena Palmero González ............................................................................................................................................ 364 O discurso de Fama em El cerco de Numancia, de Cervantes, e nas adaptações de Rafael Alberti Eleni Nogueira dos Santos ......................................................................................................................................... 371 Dialogo con la novela El Baile de la Victoria de Skármeta Esther Myriam Rojas Osorio. .................................................................................................................................... 376 Un extranjero en el poema: notas sobre la poesía de Fabio Morábito Fabiola Fernández Adechedera .................................................................................................................................. 380 Santiago Sierra: performer?* Fabíola Silva Tasca ..................................................................................................................................................... 386 Traduzindo e reconstruindo uma representação.Reflexões teórico-metodológicas em torno à implantação de um (novo) curso de E/LE Fátima Aparecida Teves Cabral Bruno ..................................................................................................................... 392 Sintagmas nominais complexos nos gêneros jornalísticos: Uma abordagem comparada entre artigos de opinião e notícias Felipe Diogo de Oliveira ............................................................................................................................................ 398 La literatura argentina revisitada: el mito de La Cautiva en un cuento de María Rosa Lojo Fernanda Ap. Ribeiro ................................................................................................................................................. 404 “La casita de los viejos”, de Maurício Kartun: tempo do sujeito, tempo da história Flávia Almeida Vieira Resende .................................................................................................................................. 408

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As escritoras na literatura afro-colombiana Francineide Palmeira ................................................................................................................................................. 412 O legado de Mercedes Sosa: a arte como instrumento de luta pela cidadania Franklin Larrubia Valverde ....................................................................................................................................... 418 Néstor Perlongher e Haroldo de Campos – um diálogo antropofágico Gabriela Beatriz Moura Ferro Bandeira de Souza ................................................................................................... 423 Reforma e a compreensão de sentidos de Licenciatura: questão filosófica ou de carga horária? Giselle da Motta Gil ................................................................................................................................................... 430 Corpo e espaço: reescritas da história em Finisterre, de María Rosa Lojo e Desmundo, de Ana Miranda Gracielle Marques ...................................................................................................................................................... 437 Rodolfo Walsh. ‘Exotización’ y conflicto en sus ‘escritos cubanos’ Gustavo Walter Spandau ........................................................................................................................................... 444 A que não soube vingar-se: em torno de “A meu amigo, que eu sempr’ amei” (B846, V432), de Johan Garcia Henrique Marques Samyn ......................................................................................................................................... 448 El uso de los modos indicativo/subjuntivo con tres verbos del español: “creer, pensar y saber” Iandra Maria Weirich da Silva Coelho ..................................................................................................................... 453 O diário de Ana Ozores: a escrita como expressão da subjetividade feminina em La Regenta Isabela Roque Loureiro .............................................................................................................................................. 460 Un niño grande: a ficcionalização de Jorge Luis Borges em Las libres del Sur Isis Milreu .................................................................................................................................................................. 466 Angústia e distopia: a Guerra Civil Espanhola em Saga, de Érico Veríssimo Ivan Rodrigues Martin .............................................................................................................................................. 471 Los marcadores discusivos en español a partir de la Lingüística de la Enunciación: una perspectiva en los estudios de E.L.E. Ivani Cristina Silva Fernandes .................................................................................................................................. 477 Observações sobre a relação cortesania/rusticidade na cena ibérica Jamyle Rocha Ferreira Souza ..................................................................................................................................... 484 La Colmena, de Camilo José Cela: conceitos de grotesco Jany Alfaia .................................................................................................................................................................. 488 A loucura como estrutura narrativa: de Miguel de Cervantes a Machado de Assis Jean Pierre Chauvin ................................................................................................................................................... 494 Religión y alegoría en las narraciones intercaladas del Quijote de Avellaneda John Lionel O´Kuinghttons Rodríguez ...................................................................................................................... 500 A ficção argentina traduz a Guerra das Malvinas Jorge Hernán Yerro ..................................................................................................................................................... 507

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Histórias, estórias e histórias: representações ficcionais da matéria de extração histórica nas narrativas de Delibes e de Assis Brasil Jorge Paulo de Oliveira Neres ..................................................................................................................................... 517 Cuerpos indígenas em metamorfosis: Un estudio del cuerpo a parir de mitos y leyendas de indios de la Amazonía Brasileña y Boliviana y sus representaciones en la actualidad José Maria Lopes Júnior ............................................................................................................................................. 519 Quemar las naves: por uma análise do Diccionario de Americanismos da Asociación de academias de la lengua española José Mauricio da Conceição Rocha ............................................................................................................................ 526 El atajo y La trama celeste, de Bioy Casares: historias de mundos posibles José Ronaldo Batista de Luna .................................................................................................................................... 533 Aspectos urbanos y culturales en narrativas gráficas argentinas Jozefh Fernando Soares Queiroz ................................................................................................................................ 540 Livro didático de espanhol e uma aprendizagem intercultural: é possível? Joziane Ferraz de Assis ............................................................................................................................................... 548 Una identidad para los apátridas. Identidad y exilio en dos novelas históricas latinoamericanas Juan David González Betancur ................................................................................................................................. 554 El uso del cómic como instrumento para la formación intercultural del profesor de español Juan Facundo Sarmiento ........................................................................................................................................... 560 O discurso ficcional em Los ríos profundos, de José María Arguedas: as leituras críticas de Antonio Cornejo Polar e Mario Vargas Llosa Juliana Bevilacqua Maioli ......................................................................................................................................... 566 De tabúes y terrores: Costa Rica y Brasil o dos modalidades de la literatura gótico-fantástica en Latinoamérica Karen Alejandra Calvo Díaz...................................................................................................................................... 571 Falar com deus: Estrategias de legitimação da mística feminina na américa hispânica colonial Karine Rocha .............................................................................................................................................................. 578 Percorrendo a trajetória da formação inicial do professor de E/LE Kelly Cristiane Henschel Pobbe de Carvalhoe Rozana Aparecida Lopes Messias .................................................... 583 A autonomia na formação de professores-tutores de espanhol como LE Kélvya Freitas Abreu, Priscila Barros David e Raquel Santiago Freire .................................................................... 589 A caricata valentia e o enredo “casi como fue” – uma análise da releitura “Don Juan Tenorio”, de Chespirito Larissa Pujol ............................................................................................................................................................... 597 Uma análise discursiva da mulher na sociedade através das tirinhas da Mafalda Larissa Zanetti Antas ................................................................................................................................................. 600 Pedro Lemebel, recepción, lectura Laura Janina Hosiasson ............................................................................................................................................. 605

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O grotesco em Del sol naciente, de Griselda Gambaro Laureny A. Lourenço da Silva .................................................................................................................................... 610 O conceito da honra no Século de Ouro e seu uso como mola dramática em El pintor de su deshonra, de Calderón de la Barca Liège Rinaldi .............................................................................................................................................................. 617 Esta mujer es su padre: Almodóvar, desestabilizações de gênero e a aula de ELE Leandro da Silva Gomes Cristóvão ............................................................................................................................ 623 O corpo em confissão: um discurso sobre o universo feminino simbolizado na obra de arte de Frida Kahlo Leticia Gomes Montenegro ........................................................................................................................................ 628 La potencialidad de los materiales lúdicos como protocolo de observación para el reconocimiento de géneros textuales escritos en español Letícia Joaquina de Castro Rodrigues Souza e Souza Ana Célia Clementino Moura ................................................................................................................................... 634 La tarea/renuncia del traductor en José María Arguedas Ligia Karina Martins de Andrade ............................................................................................................................. 641 Exames de Proficiência em espanhol como língua estrangeira Lílian Reis dos Santos ................................................................................................................................................ 648 Identidades em diálogo: mulher, sexualidade e família no livro didático de espanhol Liliene Maria Novaes Pereira da Silva ...................................................................................................................... 653 Nação idealizada em Aves sin nido Lina Arao ................................................................................................................................................................... 660 La expresión de la contrafactualidad en español: ¿diferentes variantes, diferentes interpretaciones? Lorena Mariel Menón ................................................................................................................................................ 665 Relações entre o Magrebe e a Espanha: os dois mundos de Najat El Hachmi em El Último Patriarca Louise Áurea Oliva .................................................................................................................................................... 673 Considerações sobre a importância da carga cultural compartilhada de unidades fraseológicas no ensino/aprendizagem intercultural de espanhol como língua estrangeira Luana Ferreira Rodrigues .......................................................................................................................................... 671 A formação do professor de Espanhol da Bahia e as variantes culturais hispano-americanas Luciana Vieira Mariano ............................................................................................................................................ 683 Análise das representações sociais nos cinco livros didáticos selecionados pelo PNLD para o ensino de espanhol a brasileiros Lucielena Mendonça de Lima .................................................................................................................................... 689 Representações sociais de futuros professores de espanhol sobre o Mercosul* Lucielena Mendonça de Lima .................................................................................................................................... 695

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Um copypaste de si mesmo: Mario Bellatin Luciene Azevedo ......................................................................................................................................................... 702 Tiempo verbal y discurso indirecto: diferentes abordajes Luizete Guimarães Barros ......................................................................................................................................... 709 O uso do pronome relativo possessivo cuyo em língua espanhola: considerações descritivo-analíticas Mailson dos Santos Lopes .......................................................................................................................................... 716 A tradução da ironia na narrativa de Maria Rosa Lojo Maira Angélica Pandolfi ............................................................................................................................................ 723 Aire de las Colinas, Cartas a Clara. Cartas pessoais de Juan Rulfo Mara Gonzalez Bezerra ............................................................................................................................................. 727 María Rosa Lojo: Una escritora de los bordes Marcela Crespo Buiturón ........................................................................................................................................... 732 Versos e cores do Prado Marcelo Maciel Cerigioli ............................................................................................................................................ 736 Literatura e Direito: o entrecruzar de fronteiras em Abel Posse Márcia de Fátima Xavier........................................................................................................................................... 743 O papel da Universidade na implantação do Espanhol no Estado da Bahia Marcia Paraquett ....................................................................................................................................................... 748 La presencia del negro y sus representaciones en el teatro cubano de Gerardo Fulleda León y Eugenio Hernández Espinosa Marcos Antônio Alexandre ........................................................................................................................................ 756 A corrosão dos anos triunfais franquistas Margareth Santos ....................................................................................................................................................... 763 A escrita de si como uma tradução de si: o caso específico da pintora Frida Kahlo Maria Auxiliadora de Jesus Ferreira .......................................................................................................................... 771 El español de todo el mundo María Cecilia Manzione Patrón ................................................................................................................................ 776 Poéticas da memória nas narrativas de Alfons Cervera e Vázquez Montalbán Maria de Fátima Alves Oliveira Marcari .................................................................................................................. 783 Explicaciones de lo femenino en la narrativa de Marcela Serrano María Esther Blanco Iglesias ...................................................................................................................................... 789 Contexto de ocorrência do imperfectivo habitual no Espanhol Paraguaio Maria Mercedes Riveiro Quintans Sebold ................................................................................................................. 796 Variação sobre o mesmo tema: acerca da memória em Sangra por la herida Maria Mirtis Caser .................................................................................................................................................... 803

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Las animalias… como elementos constructores del discurso en el Libro de buen amor de Juan Ruiz, Arcipreste de Hita María Teresa Miaja de la Peña ................................................... ..............................................................................810 Avatares de la historia en Paralelos. La pintura y la poesía en Cuba (en los siglos XVIII y XIX) de José Lezama Lima Mariana Sierra Aponte .............................................................................................................................................. 817 Préstamos terminológicos para una memoria del franquismo. Los niños encontrados de la literatura: una lectura de Mala gente que camina, de Benjamín Prado Mariela Sánchez ........................................................................................................................................................ 822 La investigación académica como sustrato de la narrativa histórica de María Rosa Lojo Marina L. Guidotti .................................................................................................................................................... 829 La casa de Bernarda Alba, metáfora conventual Mario M. González .................................................................................................................................................... 836 O différend indígena na narrativa do subcomandante Marcos Mélanie Létocart Araujo ............................................................................................................................................ 841 Literatura y conflicto armado: cotejando una novela de Garro Mercedes Pessoa Cavalcanti ....................................................................................................................................... 847 La traducción cultural en la literatura latinoamericana: reflexiones a partir de la obra de Gamaliel Churata y José María Arguedas Meritxell Hernando Marsal ....................................................................................................................................... 855 La Guerra Civil Española bajo la mirada de dos escritores aragoneses en el exilio: lectura de El cura de Almuniaced, de José Ramón Arana y Réquiem por un campesino español, de Ramón J. Sender. Michele Fonseca de Arruda ........................................................................................................................................ 864 El tema que nos ocupa: oraciones relativas en español Mirta Groppi .............................................................................................................................................................. 868 Expresso, logo existo: linguagem e constituição do indivíduo nas obras Mañana en la batalla piensa en mí de Javier Marías e Budapeste de Chico Buarque Mônica Gomes da Silva ............................................................................................................................................. 875 Evidencialidad en textos periodísticos: un análisis funcionalista en español Nadja Paulino Pessoa Prata ....................................................................................................................................... 881 Voces daba el bárbaro Corsicurvo. Lenguas y mecanismos de comunicación en el Persiles Nieves Rodríguez Valle ............................................................................................................................................... 887 Cómo se cuenta o contamos nuestra historia: historiografía literaria latinoamericana y enseñanza de la literatura Pablo Gasparini ......................................................................................................................................................... 896

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La luz de Cristina Bajo que ha tocado la historia y la memoria cordobesa. Una lectura desde la obra Como vivido cien veces (1995) Phelipe de Lima Cerdeira .......................................................................................................................................... 903 A trajetória dos manuais do professor de ELE no Brasil Raabe Oliveira ........................................................................................................................................................... 910 Manuel Rivas y Miguel Hernández: poesía hacia el porvenir Rachel Coelho Coimbra ............................................................................................................................................. 917 O horizonte filosófico do espaço de La Grande de Juan José Saer Raquel Alves Mota ..................................................................................................................................................... 923 De la prensa periódica a la novela. Cara y ceca o del otro lado del espejo: Manuel Vicent y Benjamín Prado (Aguirre el magnífico y Mala gente que camina) Raquel Macciuci ........................................................................................................................................................ 930 A ficcionalização da teoria, da crítica e do processo de criação literárias em La saga\fuga de J.B, de Gonzalo Torrente Ballester Regina Kohlrausch ..................................................................................................................................................... 937 Ricardo Palma e Las tradiciones peruanas: literatura e formação dos imaginários Regina Simon da Silva ............................................................................................................................................... 944 O aguirre posseano: tirano ou libertador? Regina Simon da Silva ............................................................................................................................................... 953 Provocações de um direito latino-americano que inclua os povos vencidos: notas a partir da Antropofagia de Oswald de Andrade e o surrealismo jurídico de Warat Ricardo Baitz .............................................................................................................................................................. 960 Educación-m no ensino de E/LE: análise de curso via SMS Rita de Cássia Rodrigues Oliveira ............................................................................................................................. 967 Poesía en Voz Alta y la escena cultural mexicana: la experiencia dramática de Octavio Paz Robson Batista dos Santos Hasmann ........................................................................................................................ 975 Cortés, Guatemotzin e Atzimba: da Conquista à ópera nacional mexicana! Robson Leitão ............................................................................................................................................................. 980 Desencuentros con Guimarães Rosa: la polémica de Vargas Llosa y Crespo por la traducción de Gran Sertón: Veredas Rodrigo Labriola ........................................................................................................................................................ 987 El ensayo: prolegómenos para una nueva historiografía ensayística iberoamericana Rodrigo Vasconcelos Machado ................................................................................................................................... 994 Tradução de La ciudad y los perros: análise da domesticação dos termos militares Roosevelt Ferreira ..................................................................................................................................................... 1000

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O que dizem os (ex) estudantes de um curso de licenciatura em letras-espanhol? Rosa Yokota .............................................................................................................................................................. 1009 O pronome tônico na produção não nativa de brasileiros falando espanhol e de argentinos falando português Rosa Yokota .............................................................................................................................................................. 1016 Palabra y poder en El sueño del pongo, de José María Arguedas Roseli Barros Cunha ................................................................................................................................................ 1023 Linguística Aplicada: estudos interdisciplinares e multiculturais na formação docente Rosineide Guilherme da Silva .................................................................................................................................. 1029 Sobre Ernesto Sábato, el surrealismo y la entrevista a un desconocido muchacho Ruben Daniel Méndez Castiglioni........................................................................................................................... 1035 José de Anchieta: o Barroco na poesia española Samuel Anderson de Oliveira Lima ......................................................................................................................... 1040 Contribuições de Jorge Amado para a Literatura Hispânica no Brasil Sandra Mara Mendes da Silva Bassani ................................................................................................................... 1047 El cine brasileño y España: El caso de Carlota Joaquina, princesa do Brasil (1994) Santiago de Pablo ..................................................................................................................................................... 1053 Zonas de penumbra e vacíos: ficção e História em Manuel Rivas Sebastião Ferreira Leste ........................................................................................................................................... 1060 Conhecendo Urganda Silvia Cobelo e Giselle Cristina Gonçalves Migliari ................................................................................................ 1067 Para enegrecer os modos de saber: histórias da NegrAmérica contadas na literatura de afrolatinos(as) Simone de Jesus Santos ............................................................................................................................................ 1074 Mania de escrever poesia: a prosa poética nas cartas de Emilio Prados Solange Munhoz ...................................................................................................................................................... 1080 La corrección del error y el feedback en la clase de lengua extranjera. Un análisis desde las teorías de la afectividad Stella Maris Baygorria ............................................................................................................................................. 1086 A escolha de retórica em Andrés Bello (1847) Stela Maris Detregiacchi Gabriel Danna ................................................................................................................ 1092 A palavra em O Livro das mil e uma noites e em O lapis do carpinteiro, de Manuel Rivas Susana Álvarez Martínez ......................................................................................................................................... 1098 Tradição e memória: um diálogo possível entre contos de Borges e Cem anos de solidão Suziane Carla Fonseca ............................................................................................................................................. 1105

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(Re)Construção de Chico Buarque: analisando a tradução do português para o espanhol em canções de protesto Thais Marçal Passos Sarmento ................................................................................................................................ 1113 Educação intercultural e ensino de e/le Thaísa Alves Brandão .............................................................................................................................................. 1020 Quando as luzes se acendem: a cumbia sob os holofotes, em Noites vazias, de Washington Cucurto Thiago José Moraes Carvalhal ................................................................................................................................. 1124 A transitividade em narrativas escritas por alunos brasileiros aprendizes de espanhol Valdecy de Oliveira Pontes ....................................................................................................................................... 1131 O gênero textual digital blog: o diário virtual eletrônico na aquisição de e/le Valéria Jane Siqueira Loureiro................................................................................................................................. 1137 Os trabalhadores e o impasse do Mercosul social. Valter de Almeida Freitas ......................................................................................................................................... 1144 La dificultad del uso de la preposición en las oraciones relativas de E/LE Vanessa Nogueira ..................................................................................................................................................... 1149 “Das Unheimliche”, de Freud e Así que pasen cinco años, Leyenda del tiempo en tres actos y cinco cuadros, de Lorca Virginia de Sousa Bonfim ........................................................................................................................................ 1156 “La rosa de piedra”: el cuento de nunca acabar Virginia Videira Casco ............................................................................................................................................. 1162 Casos de reinterpretação dativa na área geoletal mexicana Viviane Conceição Antunes Lima ............................................................................................................................ 1168 La traducción como práctica social en el curso de Secretariado Ejecutivo Viviane Cristina Poletto Lugli ................................................................................................................................. 1174 Leitura na Internet: a leitura literária no espaço virtual Viviane da Silva Santos ........................................................................................................................................... 1181 El Brasil Intelectual, de García Mérou, una mirada argentina sobre la formación de la literatura brasileña Weslei R. Cândido .................................................................................................................................................... 1187 Sobre a escritura pictural de Alejandro Xul Solar Yara Augusto ............................................................................................................................................................ 1192

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EROTISMO Y PICARDÍA EN VIDA Y COSTUMBRES DE LA MADRE ANDREA (C. 1650)

Dedicado a Mario M. González
A. Robert Lauer The University of Oklahoma

Vida y costumbres de la Madre Andrea (c. 1650), obra desconocida hasta 1958, cuando el hispanista neerlandés Jonas Andries van Praag publicara el manuscrito que había encontrado en la casa Beijers de Utrecht en 1950 (PRAAG, 1958, p.111), ha sido clasificada, desde entonces, como una novela picaresca anónima. Así la designa Enriqueta Zafra en sus dos recientes libros (ZAFRA, 2009, p.136 y ZAFRA, 2011, p.1), así como Howard Mancing en un importante ensayo (MANCING, 1996, p.288). Si así fuera, Madre Andrea sería entonces la última novela europea escrita en español que versa sobre una pícara, de la misma forma que La lozana andaluza (1528), de Francisco Delicado, constituiría la primera narrativa de este género. Dentro de este marco (15281650) tendríamos otras obras como el Libro de entretenimiento de la pícara Justina (1605) de Francisco López de Úbeda, La hija de Celestina (1612) de Alonso Jerónimo de Salas Barbadillo, La niña de los embustes, Teresa de Manzanares (1632) y La garduña de Sevilla y anzuelo de bolsas (1642) de Alonso de Castillo Solórzano y, acaso, «El castigo de la miseria» (Novelas amorosas y ejemplares, 1637) de María de Zayas y Sotomayor. Se excluyen

antecedentes como la Celestina de Fernando de Rojas, así como obras posteriores a 1650 escritas en otras lenguas como Die Lebensbeschreibung der Erzbetrügerin und Landstörzerin Courasche (La pícara Coraje ) (1669) de Hans Jakob Christoph von Grimmelshausen o The Fortunes and Misfortunes of the Famous Moll Flanders (1722) de Daniel Defoe. Poco sabemos de Vida y costumbres de la Madre Andrea. Se piensa que el autor sería un judío converso de origen portugués establecido en Amsterdam (ZAFRA, 2011, p.15). El hecho de que escribiera la obra en español no sería extraño, ya que los judíos conversos portugueses, amén de otros, solían escribir literatura en español durante la Monarquía Dual (1580-1640). De hecho, el autor usa varias palabras de origen portugués como velhaco (bellaco), ajudé (del port. ajudar > ayudar), remasgando (del port. resmungar > quejarse, refunfuñar), holla abafada (cubierta), pedintón (del port. pedinte > pordiosero), copo (vaso), baxuras (esp. bajezas, del port. baixar > bajar), mágoas (tristezas), papar (conseguir, follar). A la vez, van Praag indica que la obra contiene algunos galicismos (PRAAG,

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1958, p.119), lo que haría pensar que nuestro autor habría sido acaso un converso sefardita que hubiera pasado por algunos de los centros franceses de judíos portugueses como Ruán, Bayona o Burdeos antes de emigrar a Amsterdam. Otrosí, resalta en la obra el hecho de que el autor tenga altos conocimientos de matemáticas y de que sus alusiones bíblicas sean al Antiguo Testamento (PRAAG, 1958, p.126). El manuscrito de nuestra obra contiene 146 páginas y mide 17 x 11 cm., encuadernado en pergamino. A la par, en la guarda del libro se menciona en francés el hecho de que la obra es un «Manuscrit espagnol, en prose et en vers, du 17e siècle?» (PRAAG, 1958, p.111). Van Praag anota el hecho de que la última página contiene una filigrana que presenta unas armas entre dos grifos, la cual indica una procedencia italiana (genovesa). No obstante, este tipo de filigrana se usó en Provenza, España y Portugal en los siglos XVII y XVIII (PRAAG, 1958, p.111-112). En ausencia de un facsímile, el cual nos daría información sobre la caligrafía, nos ajustamos a la posible fecha de redacción de 1650, sugerida por el crítico neerlandés (PRAAG, 1958, p.113), aunque es de suponer, como este estudioso indica, que el único manuscrito de esta obra fuera una «copia dieciochesca de otro anterior» (PRAAG, 1958, p.112). La narrativa de Madre Andrea mantiene una organización esencialmente cronológica (ab ovo) que empieza con el nacimiento del personaje homónimo y termina en un punto indeterminado de su madurez. De esta forma sigue inicialmente la estructura básica de todas las novelas picarescas, con excepción de La hija de Celestina, que comienza in medias res. A la vez, Madre Andrea usa una retrospección temporal para informarnos de sus antecedentes, los cuales siempre son determinantes en la narración picaresca. Andrea fue hija de una prostituta y un padre de mancebía, o sea, un dueño de un burdel. Asimismo, por haber tenido su madre múltiples amantes, cada

cliente defiende que Andrea tiene algo suyo. Su herencia biológica y moral, por lo tanto, determina su vida ulterior. Después de este punto inicial, la narrativa hace un salto temporal indeterminado en el cual la protagonista ha dejado en parte su vida prostibularia para fungir el cargo administrativo de madre de mancebía: «después de la pasión me valí de la agencia» (ZAFRA, 2011, p.36). En este oficio tuvo gran éxito y ganó buen dinero: «Era tanta la miel que no me dejaban dormir las moscas» (ZAFRA, 2011, p.36). A diferencia de otras obras picarescas como, v. gr., Lazarillo de Tormes, Andrea, desde el principio de su relato, ha llegado a su «prosperidad y […] cumbre de toda buena fortuna» (CARRASCO, 1997, p.88). Lo que sigue será una serie de encuentros entre clientes, trabajadores sexuales y la Madre Andrea. Los relatos prostibularios se dan, primero, en series de parejas sencillas, v. gr., un joven y una prostituta; después, en tríadas; finalmente, en series de parejas gemelas o cuaternarias. Esta sección es en efecto pornográfica, en su sentido etimológico, y de carácter, primero, erótico, en sus relaciones ordinarias; después, exótico, en sus relaciones singulares1. Enriqueta Zafra nos recuerda que antes de que se clausuraran los burdeles de España en 1623 (ZAFRA, 2011, p.5), los prostíbulos servían ciertas funciones públicas, tanto para mujeres como para hombres. Para las primeras, la casa de lenocinio proporcionaba un modo de vida para féminas pobres y solteras que hubieran perdido la virginidad y que no tuvieran familiares en la ciudad donde trabajaran. El administrador de un burdel, el así llamado padre de mancebía, proporcionaba por una cifra fija, comida, alojamiento, ropa, sábanas y velas (ZAFRA, 2011, p.8). A la vez, las prostitutas eran examinadas por un médico y, en caso de que adolecieran de un mal venéreo, eran consignadas a un hospital. Si se arrepentían y decidían cambiar de vida, todas sus deudas se cancelaban. En cuanto a los segundos, se

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suponía que los clientes fueran hombres solteros que por falta de dinero o trabajo no podrían casarse. El burdel, a diferencia de la prostitución clandestina, protegía, por lo tanto, a las trabajadoras, a sus clientes y a la comunidad de mujeres honorables y acomodadas, las cuales se reservaban para uniones matrimoniales (laicas o eclesiásticas). Esta forma social de «contener el deseo» en ámbitos destinados para su ejercicio se limitaba legalmente a la fornicación simple entre un hombre y una mujer solteros, solutus cum soluta, y evitaba tanto el incesto como la penetración no natural (ZAFRA, 2011, p.8). Sin embargo, el deseo en Vida y costumbres de la Madre Andrea no puede ser contenido o limitado socialmente. En efecto, cada incidente prostibulario prueba precisamente lo contrario de lo que se supondría que ocurriera en un burdel antes de su clausura en 1623. El primero, por ejemplo, muestra a un joven de familia adinerada que roba dinero de su padre para deleitarse en los brazos de la joven y bella ramera Philipa. El segundo expone a un fraile impetuoso que estupra simultánea y encarnizadamente a tres mujeres: la Madre Andrea; una criada que, asustada, grita «Aquí del Rey» (ZAFRA, 2011, p.84); y, finalmente a una pobre y deslucida ramera destinada para su remate. El tercero revela a un letrado y un médico que primero dialogan extensa y cínicamente sobre sus profesiones y después se valen de una pareja de jóvenes de diferente sexo, «dos piezas de serafinas y serafines», para actos descomunales: «vengan orinales no diáfanos sino maduros y encarnados» (ZAFRA, 2011, p.132). Como vemos, todos estos usuarios no son personas indigentes sino pudientes y, en el caso del fraile, desposados con la Iglesia. El hecho de que se use a jóvenes de ambos sexos para actos singulares también indica la práctica de un tipo de sexualidad prohibida o «no natural», precisamente lo que un burdel trataba de evitar. El prostíbulo de la Madre Andrea, por tanto, no circunscribe sino que provoca un exceso o

elemento sobrante (super plus): no limita sino que provoca el deseo: y todo por un apreciable precio: «Allá se las hubieron y a mí […] me pagaron altamente» (ZAFRA, 2011, p.132)2. Lo antedicho constituiría el elemento erótico y picaresco 3 de Vida y costumbres de la Madrea Andrea. Toda novela picaresca se vale de episodios y peripecias que, al llegar a un punto culminante, provocan un cambio o paro permanente en la vida, el carácter o el movimiento del personaje principal. La obra, aunque indique la posibilidad de una subsiguiente parte, en efecto termina en ese momento4. A veces el cambio es súbito, como en La lozana andaluza, cuyo personaje principal renueva repentinamente su vida después de soñar que Plutón y Marte asolan Sierra Morena: «pues he visto mi ventura y desgracia, […] haré como hace la Paz, que huye a las islas, […] Estarme he reposada, y veré mundo nuevo, y no esperar que él me deje a mí, sino yo a él» (DELICADO, 1972, p.245). En otras ocasiones el cambio se intuye: Elena, de la Hija de Celestina , antes de ser agarrotada y encubada, «causando en los pechos más duros lástima y sentimiento doloroso» (SALAS BARBADILLO, 2008, p.153), hace testamento y restituye el hurto hecho a un tal don Rodrigo de Villafañe. Finalmente el cambio se impone: La pícara Justina, a pesar de narrar una vida jocosa, aunque moralmente reprehensible, indica al final del primer tomo que su fin será paulatinamente infausto: en el «primer libro me llamo la alojada, en el segundo la viuda, en el tercero la mal casada y en el cuarto la pobre» (LÓPEZ DE ÚBEDA, 2010, p.874). Asimismo, Teresa de Manzanares, al concluir su escandalosa crónica, indica que tuvo un fin infeliz casada, por cuarta y última vez, con un mercader civil, cincuentón y miserable. La «segunda parte» de su vida se llamaría, pues, « La congregación de la miseria » (CASTILLO SOLÓRZANO, 2005, p.283).

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La Madre Andrea es semejante a las susodichas obras, aunque con algunas diferencias. Si bien hay un cambio o peripecia decisiva, la narrativa se vale a lo largo de su extensión de fisuras que en efecto alteran el discurso salaz dominante. Estas fisuras generalmente se manifiestan como elocuciones vocativas dirigidas al lector que en efecto interrumpen y suplantan el discurso previo. En términos arquitectónicos, las fisuras representarían atalayas colocadas en encrucijadas, las cuales advierten al lector de cómo debiera captar el relato. Tienen, por lo tanto, una función adverbial. La palabra «lector» aparece cuatro veces en el texto. La primera vez se menciona en forma neutral al inicio de la obra para advertir al leedor que no tome «el fin de la palabra», o sea, los «salados casos, ridículos sucesos, pasatiempos deleitables y dichos de discreción y agudeza», sino que discierna en el modo de leer: «antes saca desta obra la cándida flor de la harina con que hagas pan de los santos» (ZAFRA, 2011, p.38). La segunda vez invoca al «lector lascivo o continente» (ZAFRA, 2011, p.100), precisamente después de fuertes descripciones exóticas que acaso provocarían placer en el primero y desazón en el segundo. Las dos últimas invocaciones a un «tú» se hacen hacia el final y van dirigidas al «lector pío» y al «lector benévolo». En ambos casos, las descripciones eróticas han concluido y la Madre Andrea, después de haber narrado congeries de desorden y escándalo, declara que «me metí a devota» (ZAFRA, 2011, p.144). Su última advertencia es que uno debe apartarse de ruines compañías, juegos y negocios que provocan la deshonestidad: «Huye pues del demonio y sus tentaciones, y sigue el bien y la santa y verdadera doctrina […], porque sólo de este modo puedes estar, vivir y morir cierto y tendrás en este mundo paz y después gloria» (ZAFRA, 2011, p.146). Se remata esta obra con una décima penitencial y ocho redondillas donde el autor pide clemencia divina. Vida y costumbres de la Madre Andrea es por lo tanto una obra picaresca con rasgos pornográficos y un auténtico fin moral. En efecto, todas las obras

picarescas tienen aspectos pornográficos, aunque generalmente de tipo erótico. Piénsese en la pícara Justina, que siempre está en peligro de perder la flor; o en Teresa de Manzanares o Elena, la hija de Celestina, quienes expresan cándidamente sus deseos sexuales y mantienen ocasionalmente relaciones adúlteras. Aldonza, la lozana andaluza, es, por supuesto, una cornucopia (pornucopia) de sexualidad ilimitada. Las relaciones triangulares, evidentemente, son comunes en toda narrativa picaresca, como se ve en los padres de Guzmán de Alfarache o en la relación entre el arcipreste de San Salvador, Lázaro de Tormes y la criada-esposa de ambos. Los elementos exóticos también se intuyen, como se observa en el padre afeminado de Guzmán de Alfarache, cuyos afeites inducen al narrador a declarar que «son actos de afeminados maricas, [que] dan ocasión para que dellos murmuren y se sospeche toda vileza, viéndolos embarrados y compuestos con las cosas sólo a mujeres permitidas» (ALEMÁN, 1984, vol. 1, p.118). Recuérdese asimismo la posible inversión del hiperactivo fraile de la Merced del tratado cuarto de Lazarillo de Tormes. Sin embargo, a diferencia de estas obras, Madre Andrea minimiza lo erótico y enfatiza lo exótico y escatológico. El lector de estas narrativas acaso sonriera ante los leves embustes de Justina o Teresa de Manzanares, pero probablemente se turbara ante las alusiones de sodomía, felación, urolagnia y coprofilia de la Madre Andrea y sus clientes. Lo exótico en esta obra se usa no para despertar el interés sino para provocar el desasosiego en el lector. No atrae; repele. En este sentido, se asemeja al Guzmán de Alfarache, aunque también, acaso, a Los 120 días de Sodoma del Marqués de Sade. No obstante, a diferencia de estas dos últimas obras, la intención moral se explica clara y largamente al final de Vida y costumbres de la Madre Andrea. A la vez, este propósito se expone en las fisuras del texto a lo largo de la obra. De esta forma, lo moral irrumpe en los momentos culminantes ímprobos, precisamente para desplazar lo concupiscente y

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desviarlo hacia la probidad: «Deja pues mujercillas, porque quitan el sueño, estragan la salud, deslustran la honra, consumen la hacienda, y muchas veces hacen perder las vidas; sé casto» (ZAFRA, 2011, p.144). Por ende, si las narrativas picarescas tienden hacia una finalidad moral, Madre Andrea mantiene esmeradamente esta función. En esto difiere del final irónico de Lazarillo de Tormes o del desenlace ambiguo de Guzmán de Alfarache: «Aquí di punto y fin a estas desgracias. Rematé la cuenta con mi mala vida. La que después gasté, todo el restante della verás en la tercera y última parte» (ALEMÁN, 1984, vol. 2, p.480). No obstante, se ajusta estructuralmente a éstas, y otras, en, v. gr., las extensas digresiones morales de Guzmán de Alfarache; las descripciones aciagas de la Roma puttana de La lozana andaluza; los aprovechamientos finales del narrador subalterno de La pícara Justina ; la narrativa «objetiva» del narrador de La hija de Celestina; los rótulos, escritos en tercera persona, de los capítulos de La niña de los embustes, Teresa de Manzanares; el prefacio del autor de Moll Flanders, el cual corrobora, antes de iniciar la narrativa principal, el arrepentimiento ulterior de la protagonista homónima y su cónyuge: «we resolve to spend the remainder of our years in sincere penitence for the wicked lives we have lived» (DEFOE, 2005, p.308); y la nota final del autor de la pícara Coraje, donde advierte a los jóvenes sobre los peligros de una vida pecaminosa y un arrepentimiento tardío (GRIMMELSHAUSEN, 2001, p.175). En concreto, Vida y costumbres de la Madre Andrea reúne a la vez lo más pecaminoso y moral de la novela picaresca escrita en español. En efecto, el tema de la pícara española, iniciado en Italia con La lozana andaluza, culmina en Holanda con la Madre Andrea . Sus descendientes literarias se extenderán después por el Reino Unido y América (Moll Flanders) y el Sacro Imperio Romano Germánico (la pícara Coraje). Sus aventuras, sin embargo, requerirían un subsiguiente estudio. Muchas gracias.

Referencias bibliográficas
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ZAFRA, Enriqueta (2009): Prostituidas por el texto: discurso prostibulario en la picaresca femenina . West Lafayette: Purdue University Press. ________, ed. (2011): The Life and Times of Mother Andrea / Vida y costumbres de la Madre Andrea. Traducción al inglés de Anne J. Cruz. Woodbridge: Tamesis.

Notas
1 Según John Anthony Cuddon, la pornografía (del griego porn– [prostituta] y graphein [escribir] > escritura de rameras) es una obra de ficción que enfatiza la actividad sexual de una forma cómica, seria, bizarra o sobrecogedora para suscitar la emoción sexual. Se subdivide en dos clases: a) erótica, la cual describe una actividad heterosexual en gran detalle; y b) exótica, que enfatiza lo perverso u anormal, incluyéndose el sadismo, el masoquismo, la pederastia y otras parafilias (CUDDON, 1993, p.729). 2 Se eliminan de este análisis los relatos no sexuales: El primero entre un poeta, un ebrio y un soldado que se emborrachan, se pelean y después abandonan el burdel sin tener comercio sexual; el segundo entre un filósofo, un matemático y un jaque que arguyen, comen y se salen del prostíbulo; y el de los tres ciegos que se emborrachan, se duermen y después simplemente se retiran de la casa de mancebía. El burdel, por tanto, sirve en estos casos no como un espacio de contención sino de desorden público. 3 El término alemán para este tipo de narrativa es Räuberroman (novela de depredadores o saqueadores). En efecto, el pícaro o la pícara es similar a un ave de rapiña. La acción principal que define a este ente es la de raptar, ya sea pan o vino en el caso de Lazarillo de Tormes, o dinero u honra en el caso de las pícaras. En la novela que nos ocupa, Andrea se jacta de haber trocado «sin violentarme» su honra por dinero: «Porque yo espontánea y liberalmente la repartía [honra], quedándome sin ella; mas no fui tan necia que no pidiese en recompensa el metal que la fortuna a tantos niega, que esa fue la lección primera con que me educó mi madre» (ZAFRA, 2011, p.34). El intercambio nunca es ecuánime, por supuesto. Al final de la novela, Andrea indica que el Hospital de Nuestra Señora del Amor de Dios (de Antón Martín) ya no tiene cupo para los enfermos que les manda la Madre. Las «picarillas [que] tan negro encarnadas […] infectaban cuántos árboles de cinselas [sic] las comunicaban» (ZAFRA, 2011, p.132) se han tenido que trasladar a Suecia y Baviera a infectar nuevos clientes. Por ende, Andrea y sus proxenetas privan, a cambio de un sucinto encuentro, no sólo de tesoro sino de salud, amén de la vida, a sus confiados e incautos clientes. 4 El hecho de que la mayoría de las novelas picarescas aludan a una subsecuente parte se debe a que el personaje al final de la obra todavía vive (salvo Elena, de La hija de Celestina, novela que requiere una narración en tercera persona). Por ende, Moll Flanders afirma lo obvio: «We cannot say, indeed, that this history is carried on quite to the end of the life of this famous Moll Flanders, for nobody can write their own life to the full end of it, unless they can write it after they are dead» (DEFOE, 2005, p.7). Considérese también la respuesta del pícaro Ginés de Pasamonte a la pregunta redundante de don Quijote sobre si el libro de su vida está acabado: «–¿Cómo puede estar acabado –respondió él–, si aún no está acabada mi vida? Lo que está escrito es desde mi nacimiento hasta el punto que esta última vez me han echado en galeras» (CERVANTES, 2004, vol. 1, p.266).

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TOPOGRAFÍAS DEL ARTISTA Y DESESTABILIZACIÓN ENUNCIATIVA EN EL ROCK DE ARGENTINA

Adrián Pablo Fanjul Universidade de São Paulo

1. Un caso puntual de un proyecto más amplio
Desarrollamos actualmente un estudio sobre la discursividad en el rock argentino, recorriendo sus diferentes épocas, acompañando mecanismos de regulación discursiva, que abordamos principalmente como delimitación de la exterioridad del campo1. En función de un factor que nos ha aparecido como significativo en los procesos de regulación, específicamente en cuanto a una de las fronteras recortadas para lo decible en el campo, factor al que no nos referiremos aquí porque afecta una de las hipótesis centrales de un trabajo que todavía está en elaboración, hemos dado bastante atención a la composición “Toxi Taxi”, grabada en 1991 por la banda Patricio Rey y los Redonditos de Ricota, más conocida como Los Redondos, una de las más nodales en la historia del rock nacional. El tema fue lanzado en el disco La mosca y la sopa . Creemos que esa composición es un punto de especial densidad, en el corpus del rock argentino, en cuanto a las redes de memoria hacia dentro del funcionamiento del campo y en relación con su exterior. Aquí la abordaremos a

partir de que se trata de uno de los casos, dentro de ese corpus, en que se escenifica, en la enunciación, al artista en actividad creadora relacionada con un desplazamiento en el espacio representado, lo que no excluye, por supuesto, la concomitancia de otras lecturas. Ese abordaje nos llevará a la posibilidad de confrontarlo, en la memoria discursiva, con dos temas del período clásico del rock argentino: “El oso”, de Moris (Mauricio Biravent, 1970), y “La balsa”, atribuido a Lito Nebbia y a Tanguito2 (1967). Esa misma confrontación promueve la observación de otra problemática central en nuestra investigación en curso: la de las configuraciones enunciativas, como modos relativamente estables de articulación de los seres en la enunciación, cuya articulación con la problemática de la memoria explicamos en el ítem siguiente. Las tres composiciones están transcritas al final, como anexos.

La topografía es. un “reggae – acelerado” (GOBELLO. No sólo para este caso. si es observada en una determinada serie de enunciados en un campo. promueve la regularidad . en el título denominamos una “topografía del artista”. Como punto de partida. o sea. no debiendo confundirse con el concepto –de raíz althusseriana– de interpelación ideológica como constitutiva de posiciones de sujeto. relacionamos el pogo con la interpelación como acción enunciativa. paráfrasis y diversas formas de retomada y remisión. entre ellos. Como movimiento de choque de cuerpos. el conjunto de letrística musical alcanza una figuración menos precisa que en la narrativa literaria. lo que. que en el caso de la . En la primera parte y en el estribillo de “Toxi Taxi” es interpelado un ser representado en segunda composiciones entre las que estableceremos relaciones parafrásticas en este trabajo. tanto los interlocutores como los personajes y las voces citadas. memoria y seres en escena Consideramos la regulación a partir de diversos lugares de la teorización foucaultiana y de su lectura por estudiosos de la enunciación y del discurso en función de la problematización de la memoria discursiva. Así. Una bisagra entre el mundo creado. Nos referimos a la interpelación representada en la enunciación . una práctica que les es impuesta. vemos la regulación como principio de una memoria discursiva: espacio de producción de implícitos (o preconstruidos). Como anticipamos. esos conceptos reciben especificaciones. en determinados períodos de la reflexión de Pêcheux y seguidores. tienen en común una representación de la actividad estética creadora relacionada con el desplazamiento en la escena representada. es precisamente un juego de voces. se concibe el discurso como una violencia ejercida sobre las cosas.24 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 2. por darse en una escena enunciativa. Esa violencia. Escenas ricoteras3 Un biógrafo de Los Redondos ha definido “Toxi Taxi” como un tema de “urgencia rítmica”. Así lo sostenemos porque creemos que esa distribución de voces y seres. y la configuración enunciativa. en El orden del discurso. damos crucial importancia a las configuraciones enunciativas. 2002: 191). temas y objetos. al proponerse el “principio de especificidad” (FOUCAULT. por ejemplo. 2008: 53). el espacio del cual la enunciación dice provenir. en Maingueneau (2001). reglas que “los atraviesan y les constituyen un espacio de coexistencia” (FOUCAULT. se revela como resultado de esa violencia reguladora del discurso a la que nos referimos a partir de Foucault. Y es importante recordar que fue un tema de “pogo”. La corriente de análisis del discurso en que actuaron estudiosos como Michel Pêcheux y Jean-Jacques Courtine adoptó varios aspectos de la teorización de Foucault. Las tendencias dominantes para esas configuraciones y para la delimitación entre los seres en las mismas son un factor que relacionamos con la regulacióndesregulación de la memoria. Al trasladarse a un abordaje del discurso como materialidad lingüística. la percepción de la regulación como relaciones entre enunciados. y a la vez como matriz representacional del conflicto que todo discurso conlleva y que. vale recordar que. 1999:80). concepto ampliamente tratado a lo largo de La arqueología del saber como juego de reglas de formación de los enunciados. Regulación. la dimensión espacial de la escenografía representada en la enunciación. que selecciona y recorta modalidades de enunciación. en Pêcheux (2007). sino en el conjunto de nuestro trabajo sobre la memoria discursiva en el rock argentino. a los modos como se articulan los participantes representados en la enunciación. 3.

con la peculiaridad de estar representada como interpelación realizada “en público”. como veremos. juegos mostrados. Varios factores favorecieron. 1991:22). no íntima. la interpelación se relaciona con el papel de los interlocutores en el campo roquero y en relación con los conflictos que lo delimitan. debido al carácter “en público” que señalamos. a la delimitación reforzada de los contornos de los seres en la enunciación. pero que no dejó de estar muy presente. en la poeticidad de géneros de lo popular en Argentina. para la voz enunciadora. diferencias entre agente y paciente. Pero también el paso no marcado de la . marcó un desplazamiento en el rock argentino. en este caso. más o menos velada. Por otro. sino que hace efectiva una interpelación. 2010) mediante observaciones que podemos relacionar con las de investigadores que abordan la letrística de rock desde otros puntos de vista. instrumentador e instrumento de la violencia del poder. concomitantemente con una diversificación del campo del rock y con el aumento cualitativo de las desigualdades en la clase media urbana. un cierto deseo de homogeneidad para su lado imaginario en el conflicto. Sobre la primera. en las situaciones de opresión reiteradamente representadas en sus composiciones.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 25 persona. Esa tendencia se desestabiliza notablemente en los años 80. como el papel alternado de ejecutor y víctima (“te esnifo” / “me esnifan”) en “Rock para los dientes”. y. la percepción de ethé relativamente homogéneos y seres representados con un cierto cerramiento sobre sí. como el disimulo del enemigo en “Nuestro amo juega al esclavo”. por ejemplo. un colectivo de “la juventud”). debe tenerse en cuenta. que en el rock se expresó más en su versión hedonista que contestataria. Como ha mostrado el trabajo de Menezes (2012). el rock nacional está marcado históricamente por una cierta rigidez en cuanto a la representación de los seres y voces. la alternancia a la que nos referimos puede ser más o menos marcada. conviene referirnos brevemente a características del campo a respecto. Esa interlocución. había una tendencia ya verificable. o en la forma lingüística. por parte de una voz que se identifica al comienzo en una primera persona del plural (“Te tenemos allí…”). con el poder opresor y con la industria del espectáculo. así como los posicionamientos subjetivos que la atraviesan requieren diferenciar dos órdenes de problemas que creemos que son clave para confrontar momentos y tendencias en la discursividad del rock argentino: a) La producción de una interpelación cuestionadora hacia un interlocutor. en su época de primer desarrollo y auge. b) La alternancia de ubicaciones. Los Redondos son una banda que no sólo corresponde al momento en que la estabilidad de identificaciones roqueras se ha derrumbado (ya no es pensable. Como hemos defendido en varios trabajos anteriores (fundamentalmente en FANJUL. La representación de ese tipo de interpelación tiene una larga tradición en la música urbana argentina en períodos de desestabilización de modelos. En cuanto a lo segundo. gozador y gozado. el influjo de una racionalidad “humanocéntrica” dominante en el campo intelectual argentino de la época (TERÁN. al conjunto del campo en ese sentido. están sometidas a diversos juegos enunciativos. para los años 60 y 70 del siglo XX. Por un lado. Y muy especialmente. en relación con el conflicto representado. de modo general. visibles en la figuración. una fuerte tendencia a ese tipo de escenificación caracterizó el debilitamiento de las figuras marginales en la evolución de la poética del tango argentino en los años 20/30. A veces. por percibir que es uno de los rasgos mediante los cuales la obra de Los Redondos.

como está. Una de los rasgos del tipo de locutor y de personaje puesto en escena por el rock primero y del ethos que su voz encarna es el de una hexis de propósito (Fanjul. con una impronta propia. No diseñará su naufragio. Su naufragar es un propósito. El prefabricado de “Toxi Taxi” está “preso”. en este mundo abandonado / Te tenemos allí. de ese modo. Quien se dispone a naufragar construirá su propia balsa para ir donde quiera. propone el cuerpo roquero como “la epifanía misma del conflicto”. una deriva positiva y afirmada en su mismidad. como Mutantes o Raul Seixas. Creemos que. Con ellas. recogen esa imagen a la que. pero que es posible. Indagando el frecuente recurso a la figuración infernal en las composiciones de la banda. El andar con un propósito. va a seguir su “propia” dirección. con los preconstruidos que les dieron sustento. de Charly García. como en otros temas de la banda. y la naturaleza ilimitada. que tuvo un carácter comparativo en relación con pioneros del rock brasileño. entre período clásico. tres ámbitos: la naturaleza. El locutor / artista de “La balsa” seguirá estricta e indudablemente su impronta: su (propia) idea es la de ir al lugar que él mismo más quiera. en la que circula muy contento. una intertextualidad deliberada con composiciones clásicas del rock argentino. pero va. observamos que ese rasgo se presenta inclusive en la escenificación de seres identificados con la locura. 2009). Y aun composiciones con un tono de profunda desazón. toque y toque. es una figura recurrente en la delimitación no sólo de la identidad del artista sino también de héroes en general en las escenografías creadas por el rock argentino del 4. no se registra. Provoca a la comparación. Pero el artista-negocio pequeño y simple. sólo será recortada en signos tras aprender las piruetas en la jaula-ciudad de los hombres. creemos. va detrás del toxi taxi. abandonado allí. Así vemos los andares de los seres construidos en esas composiciones. NI siquiera vuelto sombra. Una delimitación espacial determinando una predicación de abandono: Estoy muy solo y triste acá. subyace un preconstruido sobre el desplazamiento como posibilidad creadora. En ese trabajo que acabamos de referir. Desencuentros –de memorias– del andar Proponemos abordar las tres composiciones propuestas en la Introducción a partir de lo que en ellas podemos observar como representación de la actividad de creación estética. No en vano Monteleone (1992:30). rescata metafóricamente la imagen de un círculo trazado en rituales satánicos 4 para llegar a una propuesta que resume muy felizmente ese aspecto de la poética ricotera: “es una invocación: no está dentro del círculo pero tampoco fuera porque su sitio no es el pretendido cielo de la pureza”. sino directamente con las composiciones que consideraremos. encontrar un funcionamiento parafrástico que resulta polémico. irá tras los que lo hacen negocio. desde el lugar de análisis. Pensamos que la desestabilización de identificaciones en el campo del rock nacional a partir .26 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS voz de un posicionamiento a otro en relación con el sojuzgado: compartiendo su lugar o asumiendo una sorna que la acerca al beneficiario-verdugo. en el caso de “Toxi Taxi”. de la época de la dictadura. cierta resonancia en el inicio de “La Balsa” y de “Toxi Taxi”. El oso se desplaza “sin cesar”. la artesanía y la industria del espectáculo. Ambos se desplazarán desde ese lugar. como “No te dejes desanimar”. aunque sea la de naufragar. por ese camino. entran en escena. en un artículo centrado en Los Redondos.

se desliza hacia una problemática diferente y una escenificación más específica). tiene su contrapartida en la voz enunciadora. es el momento de fiesta colectiva. el héroe encuentra la posibilidad de resistencia en la autopercepción. si lo consideramos como recorrido del artista. Así. al fin y al cabo. con cierta sorna. Su tono en los dos primeros versos es de quien habla casi en privado. al volver del encierro está “contento de verdad”. caminando “sin cesar” inicialmente en la vastedad de la no cultura. finalmente. de modo más explícito que en “El oso”. vemos escenificado un desplazamiento que puede percibirse. en algo todos nos parecemos al pequeño artistanegocio . Viendo primeramente esa prisión como control sobre el artista (la segunda parte del tema. pero de este se dice que está preso como si lo fuera. la cultura establecida desde fuera del campo de identificaciones del rock. como explicaremos. se caracteriza. Presos. en varias de las composiciones de la época se propone. sólo después la voz gana volumen. “Toxi Taxi” es un claro caso de la alternancia de la voz entre diferentes lugares de decir en relación con el conflicto. silabeada. Aunque debe someterse a esa repetición por estar prisionero. Por otro lado. tu abandono? Creemos que es el inicio de una oscilación que se desplazará por toda la primera parte y el estribillo. también la confrontación de “Toxi Taxi” con “El oso” da lugar a interesantes relaciones de acercamiento y desencuentro en una memoria relacionada con el género. la naturaleza como espacio de creación. ¿Cómo no ver la ambigüedad de la declaración punteada. Por ejemplo. el tipo de movimiento que Kozack (1992:25) caracteriza como “recorridos circulares y constantemente invertidos”. que está preso pero “va”. a la resistencia a ese poder. Obsérvese el orden “de mis bosques. de esos dos versos? Te te-ne-mo-s a-llí / A-ban-do-na-do a-llí ¿Allí te guardamos. te mantenemos? Y ¿qué ubicaciones propone ese acusativo te. La autora los relaciona con una ”estética del sobreviviente” de la cual Los Redondos marcarían un “límite crítico”. en un estribillo que. El yo/nosotros representado se desplaza entre voces y posicionamientos atribuibles al poder opresor -poder sobre la escena y sobre el espectáculo-. y. el instinto como fundamento de la creatividad5. de mis tardes y de mí” (destacado nuestro) al enumerar lo que no fue olvidado. en su materialidad sonora y por el movimiento que sugiere a los cuerpos.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 27 de los 80 fue dando lugar a representaciones del desplazamiento y de la creación no compatibles con ese preconstruido. después de la “prisión” de la industria del espectáculo. Al inicio del canto. el locutor gana cuerpo en una sonoridad ansiosa y trémula para la voz del intérprete. Ni el oso de Moris aparece como “un animal feroz”. todos podemos “darnos un toque”. Esa palabra de la calle juega torciendo el significante hacia su letra. Esa industria-circo. En efecto. lo que más interesa aquí. como serializada e imitativa. en el hermanamiento que sigue al pogo. a la palabra de la calle. Así. con eco en la sílaba siguiente? ¿Estás allí para nosotros? ¿Sufrimos tu prisión. una figuración como la del artista de la “no cultura”. que es uno de los extremos de la primera etapa del rock argentino. en lo que Authier-Revuz (2011:12) caracterizó como “movimientos bruscos de báscula del sentido en una palabra”: “Un toque por si las moscas van / Otro toque por si vas detrás”6. por medio de la imagen de las “piruetas”. En el viejo tema de Moris. La ambigüedad respecto del interpelado. de la “no cultura” a la “cultura propia”. e incluso. ni parece serlo el artista producido de “Toxi Taxi”. la pregunta desafiante “la fiera más fiera ¿dónde está?” parece evocar.

_____ (2002) La arqueología del saber. Nº 11. Y la escena también cobra singularidad. Belo Horizonte: Faculdade de Letras da UFMG. BELTRÁN FUENTES. vol. junto con Federico Moura. murió preso “de verdad” en 1978. Sara Rojo et. KOZAK. cobra nitidez: está claro qué instancia o voz representada dice qué. (org. Apuntes sobre el mito de Los Redondos. Y las palabras que repite acentúan la diferenciación a respecto del creador representado en el período clásico del rock nacional. La segunda parte de “Toxi Taxi” recupera estabilidad en los posicionamientos de modo concomitante con una fijación de la escenografía enunciativa. y acabó muriendo en medio de un motín en el que todo indica que no tenía participación. futuro compositor y vocalista de Virus. Estudios sobre la enunciación. si se la compara con el resto del tema. 1. Luis María actualiza el pasado. (2005): Libro de viajes y extravíos: un recorrido por el rock argentino 1965-1985. Elementos para una comparación con Brasil. como sólo puede hacerlo un muerto en un sueño. 2239-47. mientras el terror construía las nuevas topografías del rincón y la pared desierta9. São Paulo: Martins Fontes. Em: Anais do V Congresso Brasileiro de Hispanistas e I Congresso Internacional da Associação Brasileira de Hispanistas.” En: Espacios de crítica y producción. Y la distribución de las voces. Buenos Aires: Prego. o que creo algo. O. Había sido parte del rock platense en los primeros setenta. un “común” preso político. el rock no está en el pretendido cielo de la pureza. para una nueva regulación de los presupuestos. al. fue preso acusado de tráfico minorista de drogas7. C. J. 141-155. pág. 2008. fundamentalmente porque se trae un nombre propio. (2011): Detenerse ante las palabras. (1999): Banderas en tu corazón. por qué no. de la gestión opresora sobre los cuerpos que es uno de los grandes asuntos de Los Redondos. pág. nueva regulación. no solo porque el “nosotros” pasó a ser un “yo”. la figura evocada. A. A diferencia de la figura representada en la primera parte. Y en el cierre. MAINGUENEAU (2001) O contexto da obra literária. Un claro caso de prisionero del control social. M. creer y crear es una concesión. Se configura más claramente un posicionamiento de resistencia. GOBELLO. Luis María Canosa. Era cercano a Los Redondos y llegó a integrar la banda Dulcemembrillo. (1992): “Estética del sobreviviente: una letra contemporánea.). realidade e deslocamento em cenografias pioneiras do rock”. Montevideo: Fundación de Cultura Universitaria. cada día creo menos mal. DÍAZ. Al fin y al cabo. FANJUL. o que al menos no oscila hacia formulaciones o direcciones argumentativas identificables con el poder. Buenos Aires: Centro Editor de América Latina. Córdoba: Narvaja Editor. Estabilización del decir. Alfredo (1989): La ideología antiautoritaria del rock nacional. M. 2009. Cuando ya no actuaba en música. No 10. está en el pasado y no va a ningún lugar. _____ (2009) “Loucura. Buenos aires: Tusquets. C. p. Y con él viene un colectivo que compartió la percepción del roquero como “visionario”8. Menos mal que todavía creo en algo. 23-28. Referencias bibliográficas AUTHIER-REVUZ.28 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 5. (2008) El orden del discurso.” En: Letr@ Viv@. “Luis María” y porque la temporalidad pasa a ser episódica: un narrador cuenta un sueño. . Pero ahora dice que cada día ve menos. (2010) “Enunciadores en el rock argentino. FOUCAULT. Buenos Aires: Siglo XXI.

“Conformate”. Sólo exigen que hagamos las piruetas. Campinas : Pontes. la fiera más fiera… ¿dónde está? Toxi-taxi viene y va y tu sombra va detrás de hordas notables con los secretos para hacer un negocio tan pequeño y simple como vos. Universidade de São Paulo. muerto cuando me decía: Y yo así perdí mi amada libertad. “Papel da memória”. Con el circo recorrí el mundo así. En: ACHARD. “Nunca el techo y la comida han de faltar. En el circo me enseñaron las piruetas. al. (2012). “Entre pátrias. p. me encerró y me llevó a la ciudad. preso como un animal (como un animal feroz).” Han pasado cuatro años de esta vida. Las mañanas y las tardes eran mías. MONTELEONE. de mis tardes y de mí.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 29 MENEZES. Nº 11. p. 1991 Te tenemos allí. Pero un día vino el hombre con sus jaulas. Anexos Toxi . 49-56. En un pueblito alejado alguien no cerró el candado. 1970 Yo vivía en el bosque muy contento. Papel da memória. . et. (1992): “El infierno encantador. Ahora piso yo el suelo de mi bosque. Estoy viejo. Violencia y poesía del rock. caminaba sin cesar. O embate entre vozes marginais e disciplinadoras em composições de samba e tango (19171945). Caminaba. P. A. pandeiros e bandoneones . Vuelvo al bosque. PÊCHEUX. Ya no hay tiempos de lamentos ¡Ya no hay más! Un sueño con Luis María. El oso Moris. (2007). y a los chicos podamos alegrar. Era una noche sin luna. J. así las cosas. me decía un tigre viejo. “Cada día veo menos cada día veo menos cada día veo menos creo menos mal”. Otra vez el verde de la libertad. abandonado allí.” Tesis de doctorado en Letras.T axi Taxi Solari / Bellinson. y yo dejé la ciudad. pero las tardes son mías. Pero nunca pude olvidarme del todo de mis bosques. M. y a la noche me tiraba a descansar. 29-33.” En: Espacios de crítica y producción. estoy contento de verdad. Un toque por si las moscas van y otro toque por si vas detrás.

la de irme al lugar que yo mas quiera. Construiré una balsa y me iré a naufragar. de donde sea. . 5 Así está claramente enunciado. 8 Sobre la representación del artista. como quien ve lo que otros no ven. Y cuando mi balsa esté lista partiré hacia la locura. Tengo una idea. Tengo que conseguir mucha madera. La continuidad (“por si las moscas van”) restituye “las moscas” a un valor independiente de esa construcción. Pero nuestro abordaje no es contenidístico. en español. Me falta algo para ir pues caminando yo no puedo. en este mundo abandonado. no se propone un desciframiento alegórico de las composiciones parte a parte. miembro de los primeros núcleos que fueron dando forma a la delimitación del rock nacional como campo. 7 Esa circunstancia ha dado lugar a que. Por eso. tengo que conseguir. de Alejandro de Michele y Miguel Ángel Erausquin. en un manifiesto circulante en 1973. no podemos afirmar si era o no esa su idea. 3 4 Adjetivo muy usado para referirse a lo relativo a Los Redondos. en el rock argentino de los 60-70. ambas compuestas entre 1975 y 1976. como introductor explicativo que pone como causa la percepción de una posibilidad. no es nuestra preocupación lo que hayan tenido en mente o no los compositores. 9 Aludimos a las composiciones “Mientras no tenga miedo de hablar”. para ello. redactado por Luis Alberto Spinetta: “El que recibe debe comprender definitivamente que los proyectos en materia de rock argentino nacen del instinto”. Monteleone relata.30 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS La balsa Lito Nebbia – Tanguito. 1967 Estoy muy solo y triste. Uno de los seudónimos de de José Alberto Iglesias (1945-1972). registrado por Beltrán Fuentes (1989:95). haya una cierta reiteración de “entender” la interrogación “¿la fiera más fiera dónde está?” como denuncia de que no se lleva a prisión a los jefes del tráfico sino a sus agentes menores. comportamientos atribuidos al asesino serial Giles de Rais. A partir de ese relato. y “En el hospicio”. aproximadamente como “por si acaso” o “por las dudas”. y aprovechando el tema de Los Redondos “Barba Azul y el amor letal” va produciendo una reflexión que vincula lo infernal con la figuración del espacio social como prisión. nos parecería muy reductor ver esa interrogación como mera denuncia. también conocido como “Barba Azul”. 6 “Por si las moscas” es una unidad relativamente fijada. de Nito Mestre. Notas 1 2 El proyecto cuenta con apoyo del CNPq. por ejemplo. en lecturas de interpretación literal de la letra de “Toxi Taxi” que han circulado en los medios. Con mi balsa yo me iré a naufragar. tanto en el contexto de esta lectura interdiscursiva del tema a partir de la representación de la creación artística como en cualquier otro abordaje temático. A respecto. Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. o como dirigida “al mismo” de la segunda estrofa. hay un interesante recorrido en Díaz (2005: 154-167). y por supuesto. acá.

Tanto a narrativa literária quanto a fílmica relatam uma intensa relação entre um professor primário. aparece acordado no quarto. foi transposta para o cinema em 1999 por José Luis Cuerda. chegando a querer fugir para a América.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 31 MEMÓRIAS DA GUERRA CIVIL ESPANHOLA NA FICÇÃO: LEITURAS DE ¿QUÉ ME QUIERES. é traumática. O medo de apanhar . incomodando o irmão mais velho com perguntas sobre o ambiente escolar e a atuação do professor. publicado em 1995 e escrito originalmente em galego. São imagens de pessoas simples do interior. DE MANUEL RIVAS E LA LENGUA DE LAS MARIPOSAS. de mulheres e crianças. está presente um conjunto de dezesseis relatos que narram a trajetória de personagens que transitam pelo contexto espanhol. juntamente com outros dois contos. amor?. AMOR?. embora seja uma ficção. “ Un saxo en la niebla ” e “Carmiña”. retratos do atraso social de uma Espanha tradicionalista com os olhos voltados para o passado. interpretado pelo ator Fernando Fernán Gómez. É neste momento em que o espectador dá um salto para a ficção sem se dar conta de tal fato. As cenas iniciais do filme mostram imagens fotográficas da época. A primeira experiência escolar de Moncho. Don Gregorio. Trata-se de uma maneira de iludir o espectador. o menino reluta em estabelecer uma relação amistosa com o professor e os outros alunos. associada à pobreza e às dificuldades de sobrevivência da Espanha rural pré-franquista. para escapar da guerra na África. por medo. Certamente este recurso é uma forma de dialogar com o espectador no sentido de mostrar como a narrativa fílmica. ansioso com seu primeiro dia na escola. de Manuel Rivas. Estas imagens “reais” se mesclam estrategicamente com as cenas do filme. aproximando-o da narrativa ficcional. e seu aluno Moncho. pode ser tão verossimilhante quanto à realidade histórica. pela ameaça que significa a ideia de frequentar a escola. A princípio. como havia feito um tio. Moncho. relatada no filme. criando com estas representações um suposto pacto de “verdade”. “ La lengua de las mariposas” é uma dessas narrativas que. DE JOSÉ LUIS CUERDA Adriana Aparecida de Figueiredo Fiuza UNIOESTE No livro de contos ¿Qué me quieres. traduzindo-se em um grande êxito cinematográfico. principalmente. Na cena seguinte. Manuel Lozano. em que se evidenciam a vida cotidiana. do início ao fim do século XX.

El maestro no pega” (RIVAS. Porque todo lo que él tocaba era un cuento fascinante. “parecéis carneros”. no conto e no filme. Entretanto. 26). a exemplo de quando a mãe de Moncho pergunta como havia sido na escola: “ Te ha gustado la escuela?” “Mucho. 26-27) Don Gregorio é o professor que ensina não apenas conhecimentos científicos. já se sente de maneira velada uma ameaça política no pano de fundo social. 2006. como si nos hubiese dejado abandonados en un extraño país. mas com o silêncio. 2006. descorazonador. logo em seguida ao diálogo dos pais de Moncho. y hacía que se estrecharan la mano. como no do próprio pai do menino ao comentar-lhe em tom de ameaça: “Ya verás cuando vayas a la escuela!. uma vez que o aluno percebe de maneira sensível os pressupostos libertários do professor e. p. Y se dirigía hacia el ventanal. no diálogo entre os pais de Moncho sobre a condição econômica de Don Gregorio: “ Estoy segura de que pasa necesidades”. “Los maestros no ganan lo que tendrían que ganar”. Al contrario. contrariando as convenções da sociedade espanhola daquele momento. percebe-se que o tema das duas Espanhas também está metaforizado no próprio discurso do casal. Era un silencio prolongado. Quiero decir que mi madre era de misa diaria y los republicanos Portanto. 2006. mi padre. urinando na frente de todos. divulgada pela Igreja. “¡La República. que comenta as posições ideológicas dos personagens: “Mi padre era republicano. con sentida solemnidad. él los llamaba. Este tirocínio está relatado pelo narrador tanto no filme quanto no conto e é um ponto crucial para entender a metáfora do autoritarismo que paira naquele momento em que a Guerra Civil ainda não havia sido deflagrada na Galicia. frase que se repete na narrativa com o objetivo de enfatizar o tormento que era ir à escola. a natureza e as mulheres de maneira libertária. no. quando o professor se sente desrespeitado pelos alunos. ele instrui seus alunos também sobre as lições da vida. 2006. atua de maneira diferente dos outros “maestros” da época. Y no pega.32 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS e a exposição a que o menino é submetido frente aos outros alunos o fazem perder o controle de seu corpo. Entretanto. ao discorrer sobre a literatura. que se via advertida pela proposta do Estado laico da República. p. p. Com o transcorrer da narrativa. perdida en el Sinaí. 26) “Si vosotros no os calláis. sentenciaba. (RIVAS. muito mais poderoso que a correção física. Después los sentaba en el mismo pupitre. decía mi madre por la noche. Cuando dos se peleaban durante el recreo. Pronto me di cuenta de que el silencio del maestro era el peor castigo imaginable. p. […] La forma que Don Gregorio tenía de mostrarse muy enfadado era el silencio (RIVAS. castigando não com violência física. el maestro Don Gregorio no pegaba. Esta ameaça pode ser visualizada em alguns episódios como. como assegura o narrador Moncho: . Moncho torna-se amigo íntimo de Don Gregorio. casi siempre sonreía con su cara de sapo. Portanto. uma vez que o pai se identifica com a República (“Ellos son las luces de la República”) e a mãe adota uma postura conservadora. o que revela uma pedagogia de Don Gregorio diferente daquela que se praticava nos anos de 1930 e que ficava expresso no discurso de outros personagens. la República!¡Ya veremos adónde va a parar la República! (RIVAS. como se a vitória dos franquistas estivesse dada como certa. o respeito aos alunos que advém deste princípio pedagógico. Esta questão dos ideais libertários pode ser vista ao longo da narrativa. Esta dicotomia pode ser observada na voz do narrador do conto. tendré que callarme yo”. 29) No discurso final da mãe percebe-se um tom de ameaça. por exemplo. con la mirada ausente. O diálogo entre Moncho e sua mãe é referendado pelo narrador. sobretudo. “Ellos son las luces de la República”. sua conduta libertária é o que propiciará sua perseguição em um ambiente político sufocante que já se anunciava. ao complementar o relato do menino: No. Mi madre.

¿Has entendido bien? ¡No se lo regaló!” “No. O término do relato é contundente. 2006. instauraria a Censura e não somente a literária e junto com ela a repressão. (RIVAS. p. o acovardamento dos que não foram encarcerados. de la multitud fue saliendo un murmullo que acabo imitando aquellos insultos. Ramón. Na verdade. el cantero a que llamaban Hércules. juntamente com outros homens do povoado. el vocalista de la Orquesta Sol y Vida. p. ainda que possa ser considerado um gesto covarde. Moncho. p. o da Santa Inquisição.] “¡Criminales! ¡Rojos!” (. inclusive o pai. que vean que gritas!” (RIVAS. Todo. argumenta: “ Hay que quemar las cosas que te comprometan. 2006. A mãe de Moncho é a primeira da família a tomar a iniciativa de compactuar com os crimes do franquismo. .) “¡Asesino! ¡Anarquista! ¡Comeniños!” (…) “¡Cabrón! ¡Hijo de mala madre!” (RIVAS. mas que compactuaram com a prisão dos inocentes como forma de eles próprios se livrarem do infortúnio dos vizinhos. El maestro. “Sí que se lo regalo”. 2006. O episódio nos traz à memória dois momentos emblemáticos da história da espanha. época em que se queimavam os livros considerados proibidos e da cena de Don Quijote de la Mancha (1605). 2006. p. aflito. ¡grita!” Mi madre llevaba a papá cogido del brazo. uma vez que todo o povoado representava uma maioria que poderia facilmente ter parado a guarda civil.. Papá no era republicano. “¡Traidores! ¡Criminales! ¡Rojos!” (RIVAS. Moncho. Moncho. convencido que o melhor seria gritar. Papá no era amigo del alcalde. Charli. Moncho. 2006. 32) Em seguida. primeiro o povo sendo aprisionado de forma arbitrária. como revela o narrador: “Grita tú también. a queima dos livros do pai se trata de um prenúncio do que viria a ser a ditadura franquista. o professor é preso. “No.. “¡Que vean que gritas. los libros. Los periódicos. 33). p.. p. 29). Y al final de la cordada. Ramón. mamá. No ápice do conflito entre republicanos e franquistas no povoado a mãe impõe seu caráter religioso na tentativa de salvar sua família. por ser considerado um inimigo do regime ditatorial que se instaura. padre de Dombodán. Papá no Le regalo un traje al maestro”. em minoria. É por esse motivo que ela faz todos negarem o passado republicano. chepudo y feo como un sapo. [. no se lo regaló”. sem haver cometido crime algum. que proibiria a liberdade de expressão. como ocorre com: O pai. p.” (RIVAS. A imposição da mãe se dirige também a Moncho.. 2006. em sua inocência de criança. 32) Este pacto com o gesto criminoso da guarda civil é uma forma de proteger-se do mesmo crime. 32) Ao final da narrativa literária e fílmica. No se lo regalo.. pois demonstra os dois lados da Guerra.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 33 aparecían como enemigos de la Iglesia. Y otra cosa muy importante.. custa a entender a conjuntura daquele momento histórico: “Recuerda esto. 2006. Neste sentido. los de los sindicatos. 31). mas nem por isso menos aterrorizante.” (RIVAS. el bibliotecario del ateneo Resplandor Obrero. 31) El alcalde. Ramón. Tal fato é observado na conduta imitativa dos que assistiram a atuação da guarda civil: Se escucharon algunas órdenes y gritos aislados que resonaron en la Alameda como petardos. que. o menor da família. Poco a poco. (RIVAS. por lo que más quieras. como si lo sujetase con todas sus fuerzas para que no desfalleciera. Papá no hablaba mal de los curas. afim de livrar o personagem Quijote de sua suposta loucura. insulta aqueles que antes pertenceram ao mesmo grupo ideológico que ele. começa a gritar envergonhado e logo desesperado ofensas para dissimular sua profunda consternação e fraqueza: “¡Traidores!”. cujos livros são queimados.

Portanto.. com o objetivo de mascarar e eliminar a memória republicana e antifranquista. […] con los puños cerrados. época em que tudo parece ser mais admirável. ao refletir sobre a importância da memória no mundo contemporâneo. No relato. p. passa muitas vezes despercebida pelas instâncias do poder. um animal belo. que é o narrador do conto. 2006. que. como já é de conhecimento. grítale tú también!” (RIVAS. tirando piedras. Monchiño.. cuja busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje. individual ou coletiva. 33). na febre e na angústia” (2003. caberia questionar o motivo dessa necessidade de se abordar o tema da memória na literatura e no cinema contemporâneo. a não ser por meio de um microscópio. para permanecer no poder. a literatura. configurada na idéia da memória da história recente.34 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS também participa do episódio incitado pela mãe: “¡Grítale tú también. prenunciando os longos anos da ditadura que se iniciava. estando livre de suas . utilizadas para estabelecer a memória coletiva. 2006. yo fui uno de los niños que corrieron detrás. p. também alcança o poder. o tema da memória na literatura é um gesto de se rememorar de forma coletiva. É importante ressaltar que assim como seu pai. a imagem da língua da borboleta enrolada dentro de sua boca é a imagem da mordaça. p. já que nada consegue vê-la. entretanto. Esta cena é marcante no final do filme em que a câmera fica lenta. 26). 2006. (. da falta de liberdade e do silêncio que a ditadura franquista impôs à sociedade espanhola. manipulou a memória da forma que pôde. Moncho se consome ao ver o profesor sendo levado para alguma prisão franquista e seu grito de insulto nada mais é que um grito de desesperança pelo que estava ocorrendo e o que haveria ainda de ocorrer na Espanha de Franco. relembra a efêmera alegria em companhia do professor Don Gregorio. que llevan enrollada como el muelle de un reloj. cargados de presos. Quem possui o controle desta memória. visto que a literatura pode ser considerada como um espaço público da expressão da sociedade. parece ser no conto de Rivas a metáfora da própria infância. sólo fui capaz de murmurar con rabia: “¡Sapo! ¡Tilonorrinco! ¡Iris!” (RIVAS. agora já adulto. A memória da Guerra Civil advém justamente da memória desse narrador que. Em tempos de ditadura. Esta é a última lembrança do narrador daquele período turbulento que a história relataria. una lengua finita y muy larga. 8) discorrem que a memória se transmite e se reforça por meio de práticas de rememoração e comemoração variadas. Outra resposta plausível é a que nos oferece o historiador Jacques Le Goff. relata como fora sua intervenção no acontecimento: Cuando los camiones arrancaron. p. Franco é um dos maiores exemplos desta teoria. colorido e delicado. p. Tanto é assim. Portanto. Por fim. inevitavelmente. 33). que Moncho se surpreende pelo fato de as borboletas possuírem uma língua. para que se tome consciência dela. o próprio narrador também parece se surpreender pela falta de língua.) ¿A que parece mentira eso de que las mariposas tengan lengua?” (RIVAS. precisa ser desenrolada como a língua da borboleta do relato. por sua linguagem altamente simbólica. O menino. A borboleta. As possibilidades de respostas são variadas. 469). Le Goff assevera que “a memoria é um elemento essencial do que se costuma chamar identidade. que sonhava em receber de Madrid um microscópio para mostrar aos alunos da escola a língua das boborletas: “Hoy el maestro ha dicho que las mariposas también tienen lengua. Daniel Lvovich e Jaquelina Bisquert (2008. Buscaba con desesperación el rostro del maestro para llamarle traidor y criminal. o controle da memória coletiva pode ser entendido como um instrumento e um objeto de poder.

La cambiante memoria de la dictadura: discursos políticos. Sonoro. a memória silenciada e esquecida. Jaquelina. Campinas: UNICAMP. . são fundamentais para a valorização dos códigos memorialísticos. por meio de políticas da memória. Em tempos de democracia. História e memória. 2008. amor? Madrid: Punto de Lectura. movimientos sociales y legitimidad democrática. 2003. Jacques. Buenos Aires: Biblioteca Nacional. 1999. podendo revelar. BISQUERT. RIVAS. DVD (95 minutos). LVOVICH. Los Polvorines: Universidad Nacional de General Sarmiento. 2006.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 35 amarras. Direção de José Luis Cuerda. Entretanto. color. legenda. oferecendo novas perspectivas sobre a memória e o seu reconhecimento público. a literatura pode desempenhar a função de preservar uma memória que se perde no tempo e no espaço. ¿Qué me quieres. não se pode esquecer que as reivindicações do presente e a intenção do Estado em dar voz e visibilidade ao passado. Referências bibliográficas LA LENGUA DE LAS MARIPOSAS. ajudando a fixar sentidos para as reminiscências. nas fraturas de seu discurso. Manuel. Daniel. Local: Espanha: Sogecine. LE GOFF.

LICERAS. tendo como variantes o clítico e o objeto nulo e como corpus entrevistas do PRESEEA. ao analisar os dados. a fim de investigar a gramática não nativa do espanhol (GONZÁLEZ. 2002. específico]. +/específico].36 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS A VARIAÇÃO NA REALIZAÇÃO DO OBJETO PRONOMINAL ACUSATIVO NO ESPANHOL: UM ESTUDO INICIAL Adriana Martins Simões PG . a variedade de espanhol de Montevidéu também apresentaria objetos nulos restringidos a antecedente [-definido. Introdução Os trabalhos de Campos (1986) e Fernández Soriano (1999) mostram que o espanhol seria uma língua em que a categoria vazia em função de objeto direto estaria restringida a antecedente [-definido. 2003). 2001. 1997. Conforme Groppi (1997). 1998. Partimos da hipótese de que essa variedade apresentaria objetos nulos restringidos a antecedente [-determinado. iniciamos uma análise sociolinguística a respeito da variação na realização do objeto pronominal acusativo de 3ª pessoa no espanhol. o que contrariaria essa hipótese inicial. 1999). 1994. 1981. 1999. Essa análise integra nossa pesquisa de doutorado1. 1996. Considerando-se esses estudos. Este artigo se estrutura da seguinte forma: na primeira parte abordaremos aspectos da gramática do espanhol quanto à realização do objeto pronominal acusativo. 2008. embora em outras variedades do espanhol essa categoria vazia seja possível em contextos mais amplos (FERNÁNDEZ ORDÓÑEZ. Na terceira parte apresentaremos alguns dados da análise e por fim algumas considerações a respeito.Universidade de São Paulo 0. 1999) e sociolinguística (LABOV. -específico]. LABOV. 2005. WEINREICH. a partir das teorias gerativa (CHOMSKY. HERZOG. Neste trabalho apresentaremos alguns dados da análise da variedade de espanhol de Montevidéu. A segunda parte será dedicada à metodologia. 2006). observamos categorias vazias em função de objeto acusativo com referente [+determinado. Entretanto. específico]. 2003. na qual objetivamos detectar diferenças sintáticas subjacentes entre o espanhol e o português brasileiro nessa área da gramática. .

ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 37 1. ele lec ciones r abajoi ]. jugue uguet Me Ø i quitó otra vez [ e l j otasi en la chacra. em algumas variedades do espanhol o objeto nulo poderia ocorrer em contextos mais amplos. que nas variedades em geral do espanhol se restringiria apenas a esse tipo de antecedente (CAMPOS. como pode ser observado pela diferença no julgamento de gramaticalidade das sentenças (9) e (10). (1) (2) res — ¿Compraste flo flor es? — Sí. LEONETTI. Ø/*las compré. Vos sabés. -específico] ocorreria o objeto nulo. FERNÁNDEZ ORDÓÑEZ. (9) — No tengo coche. no caso de um referente [-determinado. *Ø/las compré. 1997) 2. 1999). -específico] (GROPPI. o clítico poderia ter como referente apenas um sintagma nominal [+específico] (FERNÁNDEZ SORIANO. 1999): (6) (7) (8) Las e le c cio nesi yo nunca Ø i entendí. +determinado] em construções de topicalização [exemplo (6)]. . tr ¿Te Ø i permitirán entregar sin terminar Ø i ? [ e l t e lículai porque no Ø i vas a entender. em construções com objeto direto e indireto [exemplo (7)] e em orações adverbiais [exemplo (8)] (cf. res — ¿Compraste las flo flor es? — Sí. No vayas a ver esa p pe Já na variedade de espanhol de Montevidéu os objetos nulos estariam restringidos a antecedente [-definido. Essa categoria vazia ocorre em estruturas de topicalização [exemplo (3)]. Entretanto. no qual o objeto nulo ocorre em referência a antecedente [-animado. nas construções em que o verbo seleciona o objeto direto e o indireto [exemplo (4)] e nas orações que precedem a do antecedente [exemplo (5)]: (3) (4) (5) osas d em uje resi nadie Ø i entiende. las c cosas de muje ujer ugue t e i ]. Como na ausência de determinante os nomes comuns do espanhol não constituiriam expressões referenciais (LACA. 1986. 1999). conforme Fernández Ordóñez (1999). 1997. seria incompatível que fossem retomados por clítico. 1999). como pode ser observado pelo contraste de gramaticalidade nas sentenças em (1) e (2). Siempre Ø i encontré cuando Ø i busqué. FERNÁNDEZ SORIANO. Assim. 1999). Entre essas variedades estaria o espanhol falado no Paraguai em contato com o guarani. A gramática do espanhol na realização do objeto pronominal acusativo Por ser um determinante definido (DI TULLIO. — Yo tampoco *lo / Ø tengo. Outra variedade em que o objeto nulo seria possível em contextos mais amplos seria a do espanhol falado na Serra do Equador. — No vas a encontrar las b botas — Sí voy a encontrar Ø i . que também apresenta objetos nulos com referente [-animado. +determinado] na fala de pessoas bilingues de nível sociocultural médio e baixo.

— Yo tampoco lo / *Ø tengo. A análise sociolinguística: corpus e metodologia Para a realização do estudo sociolinguístico. Na maior parte dos fragmentos selecionados os clíticos ocorrem em construções com topicalização. A variável de nossa pesquisa constitui a realização do objeto pronominal acusativo de 3ª pessoa e como variantes temos o clítico e o objeto nulo. Contudo. analisamos 20 entrevistas da variedade de espanhol de Montevidéu provenientes do PRESEEA (Proyecto para el Estudio Sociolingüístico del Español de España y de América). +específico]. -específico]. r io no lo sentí tan mío / (…) (11a) I: (…) porque después cuando volví allá / ya como que e l bar barr icic le ta tirada en la plaza de deportes ¡no sabía icicle leta (11b) I: no antes no / eeh como ser Roberto dejó ocho días la b bicic dónde estaba! // <risas = “I” /> después se la trajo el hombre que cuidaba / porque al ver que no la iba a buscar se la trajo el hombre que cuidaba! (11c) us ab ue los te acordás? E: ahá // decime ¿y a t tus abue uelos ue los no los conocí I: <tiempo=”02:43"/> no / porque a mis ab abue uelos (12a) r it o I: (…) <vacilación/> después tuvieron el tupé de entrar al dormitorio // que hay un alhaje alhajer ito que Valeria tenía las alhajitas más // mejores l <vacilación/> las trajeron para acá porque yo lo encontré acá / y se lo llevaron / (…) (12b) c e ne ro a un c o no cid on uest ro d e a cá I: (…) esa misma noche porque habían asaltado a un alma almac ner co nocid cido nuest uestr acá a la v ue lta / estee no no lo había asaltado lo había amenazado / de asalto vue uelta . 3. construções em que o verbo seleciona os objetos direto e indireto e em construções adverbiais. sendo elas a variedade de Montevidéu e a de Madri. analisamos diferentes faixas etárias6 e variedades do espanhol. encontramos dados que contrariaram essa hipótese como veremos na terceira parte do artigo. Quanto aos fatores extralinguísticos. Alguns dados da análise Iniciaremos apresentando alguns dados de 2. porém em (12) trata-se dos casos em que o sintagma nominal é encabeçado por um quantificador7. Nos enunciados em (11) e (12) os clíticos retomam um antecedente [+determinado.38 (10) — No tengo el coche. Tendo em vista esses estudos. partimos da hipótese de que na variedade de espanhol de Montevidéu os objetos nulos estariam restringidos a antecedente [-determinado. entre eles analisamos a estrutura do sintagma determinante4. os traços semânticos 5 do antecedente e diferentes contextos estruturais como topicalização. construções em que o verbo seleciona objeto direto e indireto e orações subordinadas adverbiais. ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Em relação aos fatores linguísticos. de modo que nos contextos em que tivéssemos referentes [+determinados] e [+/-específicos] esperaríamos encontrar a retomada pelo clítico. 3 ocorrência de clítico encontrados nas entrevistas.

como vimos..) no es que le guste tanto e l d de a contracturar su espalda por ejemplo / (…) (13c) o ¿cuál es tu forma de tratamiento? E: perfecto / y cuando vas al médic médico I: bueno / ahí viste que bah bueno depende de la situaciones ¿no? un poco formales / también depende un poquito / voy y observo /si me tutea eeh yo lo tuteo / porque él me habilitó o nst r uc ción / podíamos hacerla la (14a) I: eh bueno ta la propuesta fue para para hacer algo una c co nstr ucción acá e r so na mm no sé de setenta años capaz (14b) I: sí / y ahí para mí es el tema de la edad // si es una p pe sona e r so na que la trato de usted / si es una p pe sona na<alargamiento/> hasta esa edad / eeh / de chico hasta esa edad más o menos yo ya la trataría de vos / en mi caso por lo menos Nos enunciados em (15) temos casos de objeto nulo com referente [-determinado. constituiriam o tipo de antecedente com o qual essa categoria vazia seria possível nas variedades de espanhol em geral (CAMPOS. (13a) E: pero claro // ¿y tenés pasaporte / el pasaporte? o r t e me lo saqué sí I: e l pasap pasapo e p o r t e pero lo considera una necesidad y tiene tendencia (13b) I: (. 1997).ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 39 Os enunciados em (13) e (14) constituem ocorrências de clítico cujo referente é [+determinado. 1999) e na variedade de Montevidéu (GROPPI. -específico]. 1986. que. sendo os antecedentes dos enunciados em (14) sintagmas nominais encabeçados por quantificador. (15a) I: (…) porque yo he comido piza en bares / Ø he comido en otras casas escuchado mil historias de gente que ma // he (15b) I: (…) yo por suerte nunca he tenido p ro b le lema Ø ha tenido pero / yo no no no Ø he tenido así (15c) E: y en el jardín ¿tenés plantas plantas? I: sí / en el fondo Ø tenemos sí / (…) cio nes o no? (15d) E: ¿y en navidad también tenés v a ca cacio ciones I: no / en navidad no / Ø tengo únicamente el veinticinco de diciembre no trabajo porque igualmente es un feriado <ininteligible/> (15e) amig os E: listo / y<alargamiento/> y bueno tenés ¿amig amigos os? me imagino I: Ø tengo <risas = “I”/> .. FERNÁNDEZ SORIANO. -específico].

variedades estas que apresentam objetos (16a) nulos em contextos mais amplos (FERNÁNDEZ ORDÓÑEZ. conforme vimos.. além da ocorrência do objeto nulo.. encontramos essa categoria vazia com referente [+determinado. sendo que os enunciados em (16) constituem sintagmas nominais encabeçados por quantificadores.. Esses dados contrariaram nossa hipótese inicial de que o objeto nulo na variedade de Montevidéu estaria restringido a antecedente [-determinado.. -específico]. la d o en la heladería <cita> porque Miguel I: (. construções com objeto direto e indireto e sentenças adverbiais. além de objetos nulos em referência a antecedente [-determinado. o referente também é retomado por clítico. 1999). (17b) e (17d).) e nt e ma yo r / por costumbre Ø trato de usted (17e) I: ahí lo trato de usted / no tengo mucha onda con la g ge nte may (18a) / la piza (18b) I: (…) ahora me tocó esto yestee y bueno / y<alargamiento/> lo primeros días fueron muy osas más e le me ntales no Ø podía hacer (…) podía / las c cosas ele leme mentales sobrellevé lo mejor que pude / los vestirme bravos porque ni bañarme podía sola / estee no podía nada / ni I: hace tiempo que no lo hace más / desde que falleció mi padre hace / veintiún año no / ella o midas case r as // dejó de hacer t o das esas c co caser no Ø hace más // lo que hace los domingos / de tradición así . Observamos que algumas das construções com objetos nulos ocorreram em estruturas de topicalização. +específico]. -específico]. que.) mi madre así <vacilación/> no se compraba un he hela lad nos ayuda / y tú sabes que no / yo te Ø hago en casa de lo que tú quieras / de chocolate / de ma yo<alarg amie nt o/>r u ocupa may o<alargamie amient nto/>r no / porque / la do d e he la d e ría no te Ø puedo comprar </cita> (.40 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Entretanto. Os enunciados em (16)-(18) apresentam ocorrências de objeto nulo [+determinado.) (16c) I: (…) siempre le hubiera gustado tener una ne nena e int icinc o lo pasamos con la madre de mi marido acá (17a) I: (…) todo bien tranquilo y<alargamiento/> e l v ve inticinc icinco / en Montevideo / es viuda hace unos años / Ø pasamos con ella y la hija soltera vive con ella (…) (17b) I: (…) yo<alargamiento/> hace tres años atrás no sabía manejar una computadora / tenía miedo o mpu ta dor a y<alargamiento/> al empezar este curso<alargamiento/> me gustaba lo que era el diseño pero a la c co mputa tad la odiaba por el simple hecho de que no Ø conocía y me parecía más difícil de lo que era // y fui a hacer este curso medio a regañadientes y cuando me quise acordar estaba <vacilación/> ya estaba manejandoØ Ø y era mucho más fácil de lo que pensaba (…) (17c) nú E: ¿y tienen una comida típica para Navidad o van cambiando e l me menú nú? I: no Ø vamos cambiando de acuerdo al estado de ánimo de<alargamiento/>l que recibe / ulc es o los b udín ing lés / o a veces Ø preparaba mi (17d) I: (…) mi madre siempre preparando o los pan d dulc ulces budín inglés abuela y los mandaba para allá (. em que o sintagma nominal antecedente é encabeçado por determinante... assim como com referente [+determinado.) crema / pero un he hela lad de hela lad e r so na (16b) I: y<alargamiento/> suponete / si es una p pe sona determinado ca<alargamiento/>rgo en el en el área laboral te digo / por ejemplo / este Ø trato de usted na / y no Ø tuvieron y bueno (. o que revela variabilidade na intuição dos falantes. os em (17) sintagmas nominais encabeçados por determinantes e os em (18) sintagmas nominais encabeçados por quantificador e determinante. Nos enunciados (17a). constituem contextos estruturais em que o objeto nulo ocorre nas variedades do Paraguai e da Serra do Equador. -específico]. -específico]...

Em (20a).) yo ya me quebré el año pasado un pie / no fue acá pero / pero quedé E: ¿dónde fue? / ¿qué te pasó? I: y yo me Ø quebré en la Intendencia / (. nossa hipótese é de que haveria uma coexistência de gramáticas (CHOMSKY... como também com referente [+determinado. -específico].ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 41 Nos enunciados em (19) e (20) os objetos nulos têm como referente um sintagma nominal [+determinado. contextos nos quais esperávamos encontrar apenas clíticos. ocorre variação entre o clítico e o objeto nulo.. Por outro lado. Algumas considerações sobre os dados Os dados observados revelam que na variedade de espanhol de Montevidéu os objetos Esses dados parecem sugerir que haveria um processo de variação linguística nessa variedade de espanhol.. observamos que a retomada do referente por clítico constitui a forma mais recorrente. o que contrariou nossa hipótese inicial. +/-específico]. (19a) I: (. sendo que em (19) o sintagma é encabeçado por quantificador. A seguir apresentamos algumas considerações e possibilidades de análise. A partir disso... . em que o sintagma nominal antecedente é encabeçado por determinante.) (20b) ea E: ¿y cómo afecta eso t u tar tarea ea? ¿afecta en algo? I: <tiempo = “6:00”/> a veces Ø afecta en la labor en el aspecto de que no tenemos totalmente una / una resolución (…) Os dados que apresentamos constituem algumas ocorrências de realização do objeto pronominal acusativo de 3ª pessoa por clítico e objeto nulo encontrados nas entrevistas analisadas. +específico]. nulos seriam possíveis não apenas com referente [determinado. a que me quedé sin 4. apesar das ocorrências de objeto nulo.) (19b) I: (…) entonces eeh <vacilación/> Belén ahora por ejemplo estudia en <vacilación/> en unos lib ros no donde si la tarea es sintetizar la información / eeh <vacilación/> nos ahogamos porque libr no hay lo que es sintetizar porque están previstos para que el niño <énfasis> ya </énfasis> Ø tenga resumido (19c) I: nunca he llegado al <risas = “todos”/> / este<alargamiento/> / cuando llegué a los / unos cub ie r t os creo que Ø tenía Devoto / ya habían aparecido los táper / así cubie ier los cubiertos (…) (19d) E: ¿ahí en el Parque Rodó? I: sí / una plazoleta chiquitita / estee / 21 de Setiembre / se engancha con Bulevar ee l las / Ø violaron / eran las seis de la mañana España por ahí / a una d de el (20a) I: (…) digo / acá tenemos un solo canal de televisión que pasa información sobre <siglas = [sída]/> SIDA </siglas> / o / no lo mira nadie sobre / sobre drogas / que es e l canal cinc cinco E: <tiempo = “30:35”/> ah no I: <ininteligible/> ¿quién Ø mira? muy pocas personas miran canal cinco // (.

DI TULLIO. 36. (2001): La expresión de la persona en la producción CAMPOS.2: Español como lengua extranjera: investigación y docencia.42 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 1999. Campinas – SP. Editora da Unicamp. FERNÁNDEZ SORIANO. as ocorrências de clíticos revelam que a ampliação na possibilidade de objetos nulos não estaria relacionada à perda do clítico. Olga (1999): El pronombre personal. 1209-1273. p. Em: Cadernos de Estudos Lingüísticos. Mary (orgs.): Português brasileiro: uma viagem diacrônica. Noam (1981): Lectures on Governing and Binding. p. LIGHTFOOT. Neste momento estamos investigando a natureza dessas categorias vazias. Cultura y Deporte/ ABH.): Ensino-Aprendizagem de Línguas Estrangeiras: reflexão e prática. Brasília: Ministerio de Educación. (1999): Sobre a aquisição de clíticos do espanhol por falantes nativos do português. Campinas (SP): UNICAMP. (2003): Lugares de interpretação do fenômeno da aquisição de línguas estrangeiras. 243-263. Inés (1999): Leísmo. 239256. p. Lívia de Freitas (orgs. (1998): Pero ¿qué gramática es ésta? Los sujetos pronominales y los clíticos en la interlengua de brasileños adultos aprendices de Español/LE. Formas y distribuciones. Em: BRUNO. n. 387-408. & REIS. Tese de doutorado. (1999): O Programa Minimalista. laísmo y loísmo . Pamplona: Universidad de Navarra. Em: ROBERTS. Ian & KATO.): Gramática Descriptiva de la Lengua Española. . Em: TROUCHE. Violeta (orgs. Em: BOSQUE. Em: RILCE: 14. Entretanto. Referências bibliográficas _____. Nossa ideia seria considerar a gramática que permite objetos nulos em contextos mais amplos como uma pista sobre a possibilidade dessa categoria vazia nas línguas naturais e a gramática dos objetos nulos restringidos como base para a análise da gramática não nativa. A análise quantitativa revelará os contextos linguísticos que favorecem o clítico e o objeto nulo e a análise das diferentes faixas etárias poderá indicar se se trata de uma variação estável. Editora da Unicamp. Os pronomes pessoais na aquisição/ aprendizagem do espanhol por brasileiros adultos. Fátima Cabral (org. 17. _____. Dordrecht: Foris. v. publicado em forma de CD Rom. São Paulo. E. _____. p. 1999) nessa variedade da língua. Neide Therezinha Maia (1994): Cadê o pronome? O gato comeu. Hector (1986): Indefinite object drop. Campinas: UNICAMP/IEL. de español lengua extranjera de estudiantes brasileños: perspectivas de análisis. Madrid: Espasa. Raposo. 1. 1317-1391. André Luiz G. ________ (2001): Ensaios sobre as gramáticas do português. Carlos (SP): Claraluz. p. Campinas – SP. Violeta (orgs. 53-70. FERNÁNDEZ-ORDÓÑEZ. 1993. Buenos Aires: Edicial. Lisboa: Caminho. Pronombres átonos y tónicos. Charlotte (1993): O enfraquecimento da concordância no português brasileiro. Ignacio & DEMONTE. 2001). n. sendo uma gramática a que permite o clítico e a outra a que possibilita o objeto nulo em contextos mais amplos. GALVES. _____. ao contrário do que ocorreu no português brasileiro (cf. 163-176. _____. Ignacio & DEMONTE. p. GONZÁLEZ. GALVES. Em: BOSQUE. (2005): Quantas caras tem a transferência? Os clíticos no processo de aquisição/aprendizagem do Espanhol/Língua Estrangeira. p. DL/FFLCH/USP. S. Em: Estudos Lingüísticos XXXIII. _____. inédita.): Gramática Descriptiva de la Lengua Española. Trad. Angela (1997): Manual de gramática del español. CHOMSKY.): Hispanismo 2000. Em: Linguistic Inquiry. Por alguma razão essa variedade do espanhol teria passado a permitir objetos nulos com referentes [+determinados]. p. Madrid: Espasa. 354-359.

65-85. Mirta (1997): Pronomes pessoais no português do Brasil e no espanhol do Uruguai . Madrid: Taurus.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 43 GROPPI. change. WEINREICH. Madrid: Arco Libros. Madrid: Espasa. _____. os demonstrativos e os possessivos. LABOV. Somerville. William.mec. (2002): Spanish L1/L2 crossroads: can we get there from here? Em: PÉREZ-LEROUX. mas não identificam um referente. de Marcos Bagno. Para o desenvolvimento dessa pesquisa contamos com uma bolsa do CNPq.htm. Malden. esses elementos determinariam a referência de um sintagma nominal por terem como característica semântica a definitude. William (2008): Padrões Sociolinguísticos. São Paulo: Parábola Editorial. LACA. . Ignacio & DEMONTE. Paula & PIÑEROS. Em: EUROSLA ’97. São Paulo. LEONETTI. Dra. Conforme esse autor (LEONETTI. 2 3 Exemplos extraídos e adaptados de Groppi (1997:93). LICERAS. Barcelona: Universitat Pompeu Fabra. HERZOG. Marwin (2006): Fundamentos empíricos para uma teoria da mudança lingüística. Mass. David (1999): The development of language. Violeta (org. Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Em: BOSQUE. apenas quantificam. Views on the acquisition and use of a second language. 891-928. Madrid: Síntesis. por carecerem de definitude. Carlos Eduardo: Theory. o que não implica que esse referente seja conhecido. Carolina R. que. p. Marta Pereira Scherre. processo n° 146998/ 2010-3. FFLCH-USP. Trad. Trad. ________ (2003): Monosyllabic place-holders in early child language and the L1/L2 ‘Fundamental Difference Hypothesis’. _____. Tese de Doutorado. LABOV.): Gramática Descriptiva de la Lengua Española. 317350. Brenda (1999): Presencia y ausencia de determinante. Notas 1 Nossa pesquisa de doutorado está sendo desenvolvida sob a orientação da Profa. p. As entrevistas analisadas da variedade de espanhol de Montevidéu estão disponíveis em http:// www. p. de Marcos Bagno.: Cascadilla Press. 1999). Papers from the 6th Hispanic Linguistics Symposium and the 5th Conference on the Acquisition of Spanish and Portuguese. (1997): The now and then of L2 growing pains.gub. 258-283. Ana Teresa. seriam determinantes o artigo definido. Acquisition. Isso significa que identificam um referente. Uriel. ROBERGE. Assim. (1999): Los determinantes. Manuel (1990): El artículo y la referencia. Proceedings. esses seriam os numerais e os determinantes indefinidos. Mass: Blackwell. LIGHTFOOT. São Paulo: Parábola. _____. Juana Muñoz (1996): La adquisición de las lenguas segundas y la gramática universal. Em: KEMPCHINSKY. Quanto aos quantificadores. practice and acquisition. Neide Therezinha Maia González pelo Programa de Pós-Graduação em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-Americana da Faculdade de Filosofia. 2002. p. Cardoso. 4 Nos baseamos na classificação de Leonetti (1999) para distinguir determinantes e quantificadores. and e volution . Yves: Romance linguistics: Theory and acquisition. Amsterdam: John Benjamins.uy/academiadeletras/MarcoPrincipal.

um sintagma determinado como em (4) teria uma referencialidade enfraquecida. (2) Hay una película que Óscar quiere ver. que. sendo elas. em (1) ‘una película’ será [+específico] se tiver o sentido de (2). De acordo com Leonetti (1999). 46 a 59 anos e 60 a 89 anos. (3) Ernesto quiere comprarse un yate. Contudo. careceriam de definitude. (1) Óscar quiere ver una película. Assim. embora não se possa identificar um referente. um sintagma [+definido] não significa que seja [+referencial] e um [-definido] não seria necessariamente [referencial]. consideramos que um sintagma nominal encabeçado por esse quantificador pode ter um referente identificável e ser [+específico]. Assim. (4) Lucas quiere el coche más rápido del mercado.44 5 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Consideramos especificidade com base em critérios lógicos (LEONETTI. 30 a 45 anos. 7 Apesar de classificarmos un(os)/una(s) como quantificadores. ainda que desconhecido pelo falante. a ausência de determinante implica que o sintagma seja [-referencial]. Por outro lado. o sintagma nominal un yate em (3) seria considerado [+específico] por referir-se a um objeto determinado. 1990). . 19 a 29 anos. conforme Leonetti (1999). 6 Os informantes das entrevistas foram divididos em quatro diferentes faixas etárias. de modo que o SN será [+específico] apenas se fizer referência a um objeto determinado. se a especificidade for vista a partir de critérios psicológicos.

con una presencia menos contundente en la península. se distinguen dos tendencias bien delimitadas. La organización de grupos politizados de mujeres urgía en los setenta y principios de los ochenta y gracias a ellos la situación cívica de la mujer española se modificó de manera radical. en contraste con la considerablemnte mayor atención que reciben los autores que escriben en prensa y el género del articulismo literario como fenómeno de hibridez (análisis en los que no se toman en cuenta las significaciones que el género sexual comporta en ellos).1 En el ámbito del feminismo teórico. del movimiento feminista de la década del setenta.. a partir de la lectura de dos realidades epistémicas (el feminismo ilustrado y la literatura neomoderna) que en ellas convergen y que dan cuenta de la particular significancia del género en esta clase específica de comunicación. en los .escasamente reconocido por la historiografía acerca del periodo mencionado. y para quienes la igualdad de derechos entre el hombre y la mujer no constituía una urgencia en la agenda de cambios por lograr (Martínez Ten et al.CONICET) Facultad de Humanidades y Ciencias de la Educación (FaHCE). El primero de ellos. privilegió el trabajo de los “grupos de autoconsciencia” . p. Universidad Nacional de La Plata (UNLP) Teniendo en cuenta el escaso número de estudios que se detienen en particular en el análisis de la columna de “autora”. y que por por entonces era llamado “movimiento de liberación de la mujer” (León Hernández. 2011. proponemos aquí un acercamiento a las particularidades del discurso público dirigido de dos autoras españolas. en la teoría y en la praxis. La modernización social. 2009). visto además con ojos despectivos tanto por la derecha franquista como por la izquierda que retornaba a la escena política. pasando de un estado de carestía de los derechos de ciudadanía a la adquisición de un cúmulo de reivindicaciones que lograron sacarla de la “minoría de edad legal” (Romero Pérez. cultural y económica que protagonizara España desde la transición a la democracia en adelante debe una parte de su desarrollo a las intervenciones. que reiteran la gran división del movimiento posterior a Simone de Beuvoir en Francia y en Estados Unidos: el feminismo de la diferencia y el feminismo de la igualdad.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 45 EL PENSAMIENTO NEOMODERNO EN LAS COLUMNAS DE ROSA MONTERO Y ROSA REGÁS Adriana Virginia Bonatto Centro Interdisciplinario de Investigaciones en Género (CINIG) / Instituto de Investigaciones en Humanidades y Ciencias Sociales (UNLP . 2006).340) y de la adquisición de una serie de derechos impensables unos años atrás.

17-19). movimientos con fuerte sustento filosófico que apuntan a la integración cultural y a la igualdad de los grupos étnicos oprimidos. que en España ha venido impulsando los cambios más contundentes en relación con las políticas de igualdad e inclusión durante las últimas décadas. caracterizada esta última por la indeterminación epistemológica.2 Desde un punto de partida teórico que considera que el único modo de superar la desigualdad dentro del patriarcado es buscando estrategias de homologación de las mujeres con el sexo-género que detenta el poder. se presenta como la expresión feminista del posestructuralismo teórico y del posmodernismo artístico: lectoras atentas y críticas del psicoanálisis lacaniano y seguidoras del pensamiento estetizante de Luce Irigaray. p. Las ramificaciones de este pensamiento se extienden al ecofeminismo de Alicia Puleo.46 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS que se abordaron temáticas como la sexualidad. aspectos en los que encuentran efectos perjudiciales para los grupos femeninos menos favorecidos (Romero Pérez. a la necesidad de las mujeres de participar en lo definido como lo “genéricamente humano” (Amorós. en la que se revela la impostura masculina de apropiarse fraudulentamente de lo universal. p. al cual consideran partícipe de un proyecto inacabado. 1996). la negatividad axiológica y la heterogeneidad formal (Navajas. 2011. el feminismo de la igualdad. abriendo un espacio inédito de reflexión y de acción. p. Desde este punto de vista. el feminismo de la igualdad cuenta en España con una trayectoria académica definitivamente asentada y reconocida. de regreso parcial a los supuestos de una episteme moderna.341). la autoestima y la solidaridad (Romero Pérez. retoman sus disquisiciones en torno a la vindicación. es decir. en sus planteos generales.344). de autoinstituirse en representante de lo irreductiblemente humano (2006.43) y proponen que la única forma de lograr la emancipación es mediante una verdadera y transformadora crítica al androcentrismo. quien creó en la década del ochenta el Seminario Permanente “Feminismo e Ilustración” en la Universidad Complutense de Madrid. 2011. La recuperación de premisas ilustradas en un contexto posmoderno es comparable al movimiento paralelo en el ámbito literario. 2011. se contraponen al programa emancipatorio desarrollado por la otra gran corriente. p. 4 De acuerdo con Gonzalo Navajas. 1996.346-347). con una proyección teórico política destacada en todo el ámbito español (Romero Pérez. p. Las feministas de la igualdad hunden sus raíces en el pensamiento ilustrado. creadora del Feminismo de Estado3 y Celia Amorós. la literatura que se escribe a partir de la década del ochenta pauta el inicio de una nueva modalidad epistémica que se caracteriza por la aserción cognitiva y axiológica y que se aparta progresivamente de la configuración posmoderna. especialmente fuerte en narrativa. 2006. p.20) y la invención de una metáfora aglutinante que preserve la visión ilusoria de unidad y de desarrollo progresivo es una empresa inconcebible. Herederas del pensamiento filosófico de Simone de Beauvoir. en la novela . La corriente de la diferencia. así como a la interpelación social y política en torno al cuidado del medioambiente y al uso racional de la tecnología. en cambio. p.2). al multiculturalismo de Amorós y al islamismo de Rosa Rodríguez Magda. caracterizado por Gonzalo Navajas como estética neomoderna (Navajas. En la situación posmoderna el mundo se percibe como “confuso y declinante” (1996. aunque limitado a grupos restringidos de mujeres cultas y lectoras de las nuevas tendencias provenientes del posestructuralismo francés y del psicoanálisis lacaniano (Sendón de León. p. 2011. y sus principales impulsoras son Amelia Valcárcel. se vuelve.45). y sin delimitaciones valorativas específicas. dentro y fuera de España. por no haber permitido la emancipación de las mujeres. que han producido obras fragmentarias y no conclusivas.

2004. se ha señalado que el subjetivismo más radical es una de las características que comparten quienes se dedican a esta actividad (Castellani. El cruce que proponemos entre pensamiento feminista ilustrado y literatura neomoderna nos sirve porque da cuenta del trasfondo cultural y epistémico que sostiene los procesos de construcción de un yo de enunciación femenino con características diferenciales en las columnas literarias Rosa Regás y de Rosa Montero. absurdo.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 47 contemporánea a una suerte de “potenciación del yo” (Navajas. Nos interesa demostrar cómo en un mundo en que los valores dominantes son los impuestos por el mercado y la competencia. 2009)5. 2008.83). en su tarea de exploración de la subjetividad basada en el sexo. dan lugar a lo que Huyssen describe como los fenómenos posmodernos de obsolescencia planificada (Huyssen. p. p. 2008. como recurso para atraer la atención del interlocutor y comprometerlo en el tema tratado (Fernández Pérez. En los modos de llevar a cabo el ejercicio persuasivo. 1996. como los vencidos de la Guerra Civil. p. la escritura periodística de estas autoras configura una voz femenina y un yo de enunciación que se reviste de dos tipos de autoridad: la de escritora y la de mujer.61). 2007. ambas han reflejado en sus relatos y novelas aspectos relacionados con la realidad desigual de la mujer y con la problemática de los juegos de poder que subyacen a las relaciones entre los sexos. p. Entre las características que se enumeran como propias del género femenino en el discurso público dirigido encontramos como predominantes la utilización del discurso cooperativo. y ambas también se han mostrado comprometidas con las realidades de las identidades social y culturalmente marginadas.244). p. algunos creen encontrar diferencias sustantivas en las columnas de las escritoras mujeres (Fernández Pérez. por sobreabundancia y por yuxtaposición acelerada de la oferta cultural y mediática. la mitigación en las afirmaciones y los juicios de valor mediante el uso de fórmulas indirectas . Angulo Egea y León Gross. 2008.151). que en la mayoría de los casos puede describirse como una prolongación de la escritura literaria: las obras de ficción resultan enriquecidas por las reflexiones diarias o semanales de un yo que afirma en la columna su punto de vista más personal y que en ella se toma todas las libertades retóricas (persuasión. de manera mucho más marcada que en la literatura de invención. la literatura y la crítica hechos por mujeres y por artistas pertenecientes a minorías. Sin haber estado inscriptas oficialmente en ningún movimiento feminista. el cine. Un yo que se constituye en una suerte de guía de multitudes con resonancias morales fuertes. 2007. y Angulo Egea. 2007.68)– en un tipo de comunicación en la que la persuasión pareciera constituir el objetivo primero y último. Esta vertiente es además visible especialmente en el arte.183) en la que se experimenta con la posibilidad efectiva de alcanzar modos de conocimiento que rehabilitan la significación del lenguaje y la investigación ética (1996. p. Estas características obligan a leer a estas autoras de modo diferencial dentro del vasto universo del articulismo literario. situación que no deja de lado la visión que muchos autores aducen de sus textos como ejercicios literarios (Grohman. p.65). ironía. y en que la saturación de la información. p. en las estrategias que se despliegan y en el tipo de diálogo que se establece con el lector. experimentación lingüística) y actitudinales (desde el compromiso abierto con causas sociales y políticas hasta el desenfado y la irrisión desconcertantes) con el fin de conectarse con el lector –aquél que fielmente acude a la columna como primer texto a ser leído del periódico (Castellani. práctica definitivamente consolidada en España. En relación con el género columna de autor.69). sátira. en la clase o en la raza y en su constante despegue de los procesos de canonización estandarizada (Huyssen. 2011. los inmigrantes pobres y los niños.

irónico y reivindicativo (Angulo Egea. En contra de la fragmentación.36). con un fuerte componente crítico. pueblos africanos. fe de po ación de planeta. en límites . e n los límit es el bo de oscurida idad. lo que implica convulsiones. entonces. Desde nuestro punto de vista. Es el caso de José María Hernández. p. Anabel. 2011. como así tampoco ocurre con la opción a una voz dictatorial o de autoridad como exclusiva del perfil masculino: como intentaremos demostrar. su estilo fue progresivamente adaptándose al ritmo de las ideas de compromiso y de conciencia social hasta transformarse su voz en las últimas décadas en una perfecta mediadora encargada de elevar a rango público las voces silenciadas de los colectivos marginados (inmigrantes pobres. r e lat os histo de fro nte de vida. p. dificultades de aprendizaje. en el vasto espacio de la palabra pública. p. En las columnas es claramente visible la construcción de un proyecto individual asertivo que continúa y completa el desplegado en las obras de creación literaria y que formaría parte de la episteme neomoderna. 2007. como veremos en los ejemplos citados a continuación: S e g ú n dec í a el i n f or m e . directo y desencantado (Villar Hernández. enfermos terminales. como etiqueta que. demencia y muerte. legitima un saber y un pensamiento específicos en los que la problemática de género.2 y Angulo Egea y León Gross. la no conclusividad y la ausencia de valoraciones específicas. El lenguaje es sencillo y coloquial. (…) S o n hist o r ias d e la fr o nt era d e la v ida. p. además. 2007.66).48 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS o de la ironía (Fernández Pérez. las apreciaciones afectivas con un uso considerable del diminutivo y de la hipérbole (Fernández Pérez. La participación de Rosa Montero en la sección de columnas de El País se remonta a los inicios de este periódico en 1976. suele subrayarse la captatio benevolentiae y la mitigación de las mujeres opuestas a un “yo dictatorial” y “agresivo” (Castellani. con la autoridad de la voz de escritora. 2008.35) que les permite lograr una identificación exitosa con el lector. q ue sólo enf nfe meda dad de Pr imer Mund undo que af e c tan al 10% d e la p obl a ción d e l plane ta.304). nt r as q ue e l 90% d e los e nf e r mos r estant es mie restant estantes mient ntr que el de enf nfe sólo disp o nían d e un 10% d e los r e cur sos. no obstante. 2009. re latos so brecogedores d e pa dr es c onmo vedores y ob de ad re co ov gue r r e r os q ue l uc han p or e l fu t ur od es us hi jos guer que luc uchan po el fut uro de sus hijos en e lb o r d e mismo d e la oscur ida d. 2007. p.67). que tiene una hija.69) en las columnas firmadas por voces masculinas. el uso del dialogismo o de la “retórica del consenso” como soporte para la cooperación en una estructura comunicativa igualitaria no es característica sólo de la columna femenina. (…) dispo de de re cursos. p. la pormenorización descriptiva antes que la jerarquización (Fernández Pérez. y que guarda al mismo tiempo una indiscutible orientación axiológica. p. mujeres golpeadas. ambas escritoras apuntan de manera programática a la preser vación de una instancia narrativa o enunciadora que recupera su posición de autoridad y de saber ante el lector a partir de la transfiguración subjetiva de las experiencias o de los hechos argumentados. ubicada en un punto de mediación igualitaria con el otro . Abocada a una escritura que en un principio privilegiaba el componente lúdico y el comentario inesperado. En las columnas de Regás y Montero se observa con fuerza el trasfondo de un tipo de pensamiento que superador de las premisas de la configuración posmoderna. declive intelectual. la búsqueda de la identificación. 2011. p. pérdida de tono muscular. pero las rutinas sanitarias impiden la distribución de los mismos a personas desesperadas que ya no tienen tiempo que perder. la preferencia por el tono testimonial y confesional. A veces sí que existen medicamentos nuevos. el 90% d e la fo de ig a ción sanitar ia m undial se c e nt r aba e n in v est inv estig iga sanitaria mundial ce ntr en las e nf e r me da d es d el P r ime r M und o. con la terrible enfermedad de Niemann-Pick en su versión precoz y más brutal. En general. en las columnas de Rosa Montero y de Rosa Regás se combinan ambos estilos y en este sentido pueden leerse como textos abocados a una construcción de imagen que cruza la expresividad femenina. nunca está ausente.59) y la proyección de “un ethos empático y situado entre los ciudadanos de a pie” (Angulo Egea y León Gross. 2011. etcéctera).

«aguanta hija mía aguanta. […] p e r o cur curiosame iosament nte ad que ha y batal las m uc ho más g r andiosas y difíciles hay batallas muc ucho gr q ue se están lib r and o e n la pue r ta d e e nfr e nt e. El País 13/11/2011. Hoy voy a hablar de un puñado de guerreros. pero resulta que ayer una lectora. en 1994. ha c e mos t o d o lo p osib le p o r no hec o. de tal modo que se tiene la impresión de que la lucha contra la pobreza. La justicia no protegía nunca a la mujer y la religión le aconsejaba paciencia. Con una retórica que no echa mano ni de máscaras ni de ambigüedades identitarias (Benson. se asemejaba mucho más a una situación de esclavitud. 2006).Ef Efe ament nte: po de mund undo es fr uto d e las p olít icas ne olib e r ales d e est os fru de polít olíticas neolib olibe de estos países y los ci uda danos r esp o nsab les q ue q uie ren ciuda udadanos resp espo nsables que quie uier a cabar c on e l la sab en q ue no disp o ne n d e más co el sabe que dispo nen de ar ma q ue una p ro t esta q ue ha d e mo vers e rm que pr te que de ov ne c esar iame nt ee n la ar e na p olít ica nec esariame iament nte en are polít olítica ica. (…). pues. (…). tenía que ir armada de la venia marital. que viven pendientes de otros asuntos. Un país donde una mujer se quedaba sin hijos si osaba separarse de su marido. Pues yo hoy tenía preparado un artículo muy elaborado y algo sarcástico sobre el disparate de los recortes a los profesores. por su parte. (“Pobreza cero”. y ha entrado en este espacio por derecho propio y sin florituras estilísticas. filo de la oscuridad”. el subrayado es nuestro) Rosa Regás. hac to posib osible po en t e r ar nos. es decir. El País 30/10/2011. Esto habland lando de div sidad funcio nal. con el fin de llevar a cabo una suerte de misión pedagógica que instruye acerca de los deberes cívicos y humanos. lo importante es mantener la familia unida». Cristina. la historia pura y dura: Liliana. me contó una de esas historias modestas y urgentes que son como un chillido. Regás utiliza la columna como medio Nací en un país y en una época en que para abrir una cuenta corriente donde ingresar el primer sueldo de mi primer trabajo. vive en Madrid. (“Guerreros en el posib osible de raz azo nable. Est o y hab land o d e la di v e r sida d te arnos. (…) . están de alguna manera limitadas en su funcionamiento. razones distintas (discapacidad intelectual. de aquellas personas que. De héroes y heroínas tenaces y discretos con los que convivimos sin apenas darnos cuenta de que están iosame nt e no a d v e r t imos q ue ahí. La madre de Liliana vive en Medellín y aún no ha podido ni siquiera escuchar la voz de su hija. parálisis musculares o cerebrales. ya fuera porque su amor se había acabado o incluso porque recibía constantes malos tratos. En contraposición a una narrativa que en sus cuentos y novelas privilegia el universo de la intimidad y la exploración de las complejidades internas de los personajes (Benson. (“Clamores”. como si la pobreza no tuviera nada que ver con sus Ef e c t i v ame nt e: la p o b r eza d el m und o decisiones. Y ese chillido se abrió paso y exigió su lugar. Madre y niño están en cuidados intensivos. el subrayado es nuestro). El Correo de Bilbao 28/10/ 2007.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 49 d e lo p osib le y d e lo r az o nab le. desde la ciudadanía. es casi nada en comparación con las políticas que llevan a cabo los gobiernos de los países ricos. (…) (“Una vida que merezca ser llamada vida”. la prosa del articulismo de Regás se revela con un tipo de autoridad que no deja dudas acerca de la legitimidad del saber de quien enuncia: […]El mundo divide de un plumazo el comportamiento del ciudadano y el de sus gobiernos. y que señala injusticias y olvidos históricos. D e he ch o . el trato despótico y sobre todo el olvido a que la justicia sometía a quienes vivían en condiciones infinitamente más precarias. 2006). y Liliana tuvo que volver a ser operada el sábado. el subrayado es nuestro). la única que puede forzar a que algún día lleguen a buen fin las decisiones que los gobiernos toman de vez en cuando para acabar con la pobreza en un plazo determinado (que hasta hoy nunca se ha cumplido). inició tardíamente su actividad columnista primero en El País. (…). (…) Me pregunto. el subrayado es nuestro). si la ciega burocracia que defiende como perro cancerbero nuestros privilegios podría dejar de ser tan ciega. Esto ocurría en las clases sociales llamadas ‘elevadas’ porque la falta de libertad. La hospitalizaron el miércoles por una cesárea de urgencia a causa de una complicación llamada preclampsia. en fin. libr ando en puer de enfr nfre nte. para hacer denuncia política y social. Esta es. etcétera). colombiana. por funcional. El País 13/09/2011. y luego con una columna dominical que aún continúa en El Correo de Bilbao.

(…). alabanzas de la propia gestión y hundimiento de la del contrario. (2006): La gran diferencia y sus pequeñas consecuencias… para las luchas de las mujeres .110). en cambio. Universidad de la Laguna / SLCS. El Correo de Bilbao 17/02/2008). Id eas so sob p o l í ti c a e xt erio r. c o mo dig na d soe el tr dicional. las columnas de opinión de estas autoras pueden leerse como un modo particular de mediar en el complejo mundo de la voz pública a partir de la convicción de que aquello de lo que se argumenta responde a urgencias sociales. Po r q ue inc incl que vi en l uso los q ue v i v imos e q ue ha d est er r ado y a la dic ta d ur a. s o b r e n u e s t r o p a p e l e n ex te or en c o nflic t os b r u tales c o mo e l Sáhar a o P alest ina. (“Ideas”.50 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS n un país […]. supone la utilización de la cualidad tradicionalmente femenina de ‘mediadora’ pero desde un lugar lo suficientemente alejado del margen como para imponer ideas y generar la toma de conciencia. políticas y éticas que deben ser puntualizadas por la voz autorizada de la escritora que se ubica en relación de . o id eas q ue er do em de qu j ust ifiq ue np or q ué d e f e nd e mos países carg a d os ustifiq ifique uen po qué de nde carga d e ult r ajes a los D e r e c hos H umanos y nos ultr De Humanos ale j amos d e ot r os q ue int e ntan camb iar e l cur so alej de otr que inte cambiar el curso dic tat o r ial d e s u p r o pia hist o r ia. con la vertiente del feminismo de la igualdad como referente teórico que entiende que sólo mediante el reconocimiento de una razón crítica la lucha por la igualdad de las mujeres (ampliada a la reivindicación de las minorías. Quisiéramos un debate de ideas sobre qué entienden por cultura. 13/09/2011) de aquel que no puede hacerse escuchar porque no parece poder acceder a marcos institucionales que hagan su voz inteligible y traducible a demandas legislativas de primer orden. Estas columnas se articulan. Está por comenzar la batalla electoral -de hecho este periodo preelectoral que vivimos ya es pura campaña. no sobre lo que nos dan o nos van a dar. y contraponiéndose a la vertiente del pensamiento y la literatura feminista en los que se pone el acento en las diferencias y en lo particular produciendo retóricamente el efecto de una diseminación y pulverización del sujeto constituyente (Femenías. En: Actas del I Congreso Internacional Latina de Comunicación Social. co digna de críticas le v an p or d e lant e q ue o f e nd en s u dig nida d y se l de lante of nde su dignida nidad lle lev po la d e q uie n las e mit e . revelando así una apropiación asertiva de la capacidad argumentativa racional del yo. por pon e r sólo d os ej e mplos. Madrid: Ediciones Cátedra. El País. p. Ideas sobre lo que ha de ser la educación. los medios profesionales y materiales para incrementar la eficacia de los bre programas y el interés de los alumnos. La capacidad de introducir y de vindicar la voz del otro. asistimos una c o nstant e discr imina ción d e la m uje r q ue co nstante discrimina iminación de muje ujer que es j uzg a da p or e l ho mb r e ca v e r níc ola. el subrayado es nuestro). 2000. asist imos a dest este ya dicta tad ura. además de lucirse en los estrenos y las exposiciones y conseguir que los medios hablen durante dos días de tan grandes bre j ust icia. En conclusión. sino el siglo XX por miseria pura y dura y anhelo de labrarnos una vida más digna. nser de Tie ier que hemos re cibid ido d e los ríos y d e los mar es de mares es. en consonancia con la línea neomoderna. y tamb ién juzg uzga po el homb mbr cav nícola. (…). Id eas so sob just usticia.Pero ¿no echamos de menos un debate. María (2009): Las mujeres en el periodismo literario: tres casos paradigmáticos. el fomento de la dignidad y autoridad de los maestros. o aquello que Montero denomina “chillido” (“Clamores”. t e nie nd oe n la me mo r ia y e n inmigr antes. re po eje jemplo a los inmig r ant es. nflict br co el Sáhara Palest alestina. ANGULO EGEA. sino sobre las ideas? (…). r e f e r ida p or e je mplo éxitos.y lo único que oímos son promesas de cuantiosos regalos. Celia. I d eas so b r e la dictat tato de su pr histo Id sob c o nse r v a ción d e la T ie rra q ue he mos r e cib id o. también e crít icas so e c es por e lt r a dicio nal. Referencias bibliográficas AMORÓS. igualdad con el otro que padece pero de autoridad con el lector que lee el periódico. la defensa de los derechos del animal y el cuidado del ecosistema) puede cumplir con el proyecto ilustrado de emancipación humana. te niend ndo en memo mor en la e xp e r ie ncia las v e c es q ue lo fuimos nosot r os exp xpe iencia ve que nosotr en e l sig lo X X y no sólo por razones políticas. (…) (“Día de la mujer”. El de quie uien emit mite Correo de Bilbao 06/03/2011. con proyectos de leyes que impidan descalabrar más aún el paisaje de nuestras costas.

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por parte de Victoria Sendón de León (Cf. como fue el caso de la candidatura de Lidia Falcón al Parlamento europeo en 1999. p.18) 3 4 Impulsora. todos promulgados gracias a la Constitución de 1978. Cádiz: Ediciones APM. Clara Sánchez. 220). Josefina Carabias. . Notas 1 Nos referimos. que asegura cupos para mujeres en los cargos políticos.): Artículo femenino singular. Concha Espina. 5 Las escritoras analizadas por los estudios citados son Magda Donato. del aborto inducido en 1985. p. Rosa Montero. 2000c. Jordi Gracia anota acertadamente que las variables terminológicas apuntan a un mismo fin: “identificar una defensa de valores que no han caído abatidos por la aguda conciencia relativista del desconstruccionsimo ni. y de los planteamientos en torno a la creación de un espacio simbólico alternativo al patriarcado por medio del arte y de los medios de comunicación. Carmen Martín Gaite. Gabriela Wiener. de la Democracia Paritaria. 2011. por ejemplo. Carmen Rigalt. la dispersión tentadora y cumulativa del posmodernismo” (Gracia. Romero Pérez. 2011 y Sendón de León. Maruja Torres. p. y candidaturas a cargos políticos que modificaron el escenario de posibilidades durante la democracia. las representantes de esta corriente han interpelado el espacio político mediante propuestas concretas y guiadas de cambio. Elvira Lindo. en general. María y LEÓN GROSS.52 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS ANGULO EGEA. Teodoro (dirs. Si bien hay quienes incluyen este movimiento de la literatura hacia la narratividad y hacia la recuperación de un yo coherente y unitario en las filas de un posmodernismo estético menos experimental. el del uso de anticonceptivos en 1983 y la legalización. al derecho al divorcio en 1981. Carmen de Burgos. entre otras. 299-327. con restricciones. Diez mujeres esenciales en la historia del articulismo español . Carmen Rico Godoy. además. 2 Desde una perspectiva basada en la reivindicación de lo específicamente femenino y en la revalorización de las relaciones matrilineales.

la sociedad y la cultura que se entretejen a través de una manifestación estética. el propósito de este trabajo es analizar el proceso enunciativo de la .1) articula a través de la idea de evocación la cual permite una manera diferente de tratamiento del cuerpo humano. Uno de esos discursos es el artístico. es decir. De acuerdo con lo anterior. En palabras de Merewether: violencia en cinco obras de Salcedo a partir de dos ejes: las condiciones de producción de la obra y su situación de enunciación.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 53 FORMAS DE ENUNCIAR LA VIOLENCIA EN LA OBRA DE DORIS SAL CEDO1 SALCEDO Alexander Castillo Morales Instituto Caro y Cuervo Adriana Yamile Suárez Reina Universidad Libre El fenómeno de la violencia hace parte de la cognición social por lo cual este se considera como un producto de interacciones personales que hacen posible toda una red de sentidos vinculados en la semiosis social. la obra de la escultora colombiana Doris Salcedo. En respuesta a la experiencia de vivir en un país sujeto a la violencia indiscriminada y al terrorismo. Artistas anteriores. La no representación física hace que la focalización se aleje de cierto sensacionalismo que se produce cuando el primer plano presenta la atrocidad y el desgarro físico. el proyecto estético de Salcedo se basa en el convencimiento de que. una serie de meditaciones acerca del tema de la violencia. a través de sus esculturas y montajes. mientras que en el caso de Salcedo se hace como realidad ausente. La evocación del cuerpo ausente En su decir artístico. (MEREWETHER. sentidos que toman forma en una multiplicidad de discursos a partir de los cuales es posible determinar las relaciones de poder en un contexto social. así como también sus tácticas y estrategias. esto con el ánimo de develar los vestigios de las voces del individuo. el arte debe dirigirse a la representación como tema político. párr. esta última entendida desde la perspectiva teórica de Ramírez (2008) como el proceso de actualización del lenguaje artístico en la puesta en escena de la obra misma. puesto que en su decir estético se tematiza constantemente la violencia y se hace una aproximación a esta desde el arte político. espacialización y focalización. para articular una conciencia ética. la obra de Salcedo se Doris Salcedo ha producido. sf. particularmente en el caso que aquí nos ocupa. tal como lo indica Malagón (2010). presentaban el cuerpo como escenario de agresión. su modalización.

Quizá alrededor de lo que implica la cama de hospital se circunscriban muchos sentimientos y deseos de curación. y que por efecto de la repetición y el desgaste termina volviéndose corriente y cotidiano. De esa manera. Así. No crea la idea de una presencia humana próxima. la desfuncionalización y la resemantización van más allá de la esfera formal y se convierten en idea sensible. cadáver. pero también debe pensarse en la idea de muerte. La imagen presentada por Salcedo configura y clama por un lector inquisitivo que por lo menos deje la pasividad acostumbrada. clama por espectadores que no sean meros turistas culturales y que se involucren con los sentimientos y el sufrimiento de quienes viven en carne propia el conflicto. Para el caso de la obra Sin título 1987. La espacialización como presentación del dolor. la conexión con los sucesos violentos o con la realidad nacional depende del lugar en donde se presente la obra. sino desde la evocación y comporta la capacidad para sugerir múltiples lecturas. pues se evoca en su sentido de tránsito. De ese modo. Se acude al espectador como un individuo que debe construir alguna interpretación frente a la presencia de la obra que se deja hablar. Así que más que la evocación de un cuerpo se evoca una actitud. el dolor y el sufrimiento como centro de los procesos de construcción nacional. fría y de paso. cuya referencia es la enfermedad. es frialdad y en sí mismo genera distancia. Algo así como una arqueología de la desmemoria e indiferencia sobre nuestra enferma y perversa realidad. pero por otra parte puede ser más en el sentido de enfermedad. La nueva estructura entremezcla de manera paradójica las nociones de enfermedad y construcción como referencia y como sentido profundo. En Sin título . la evocación desde lo hospitalario o de salud hace pensar en la idea de curación. desde la perspectiva de las víctimas. atravesadas por varillas de . tal como se ha dicho anteriormente. No se alude al espectador desde la presentación de una imagen que a primera vista le resulte “cotidiana”: gesto de dolor. el tiempo de los hechos violentos es evocado como cotidianidad doméstica cuyo ritual ha sido fracturado y puesto en suspenso. Las personas que interactúan con el ser cama o el ser andamio lo hacen desde una perspectiva funcional. imaginario y opinión sobre algún hecho o evento. herida o arma.54 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Aquí se alude a la idea de sufrimiento. No es el modo invasivo del medio de comunicación que presenta e induce una idea. indiferencia u olvido. De ese modo. Allí el cuerpo humano no aparece de forma directa. pasividad que ha permitido que en Colombia la violencia y sus diferentes formas se naturalicen y se acepten como parte del destino. Por eso se ha dicho que puede ser un objeto que evoca las nociones de construcción y enfermedad de manera simultánea. 1988-1989 (Camisas almidonadas) se presentan pilas de camisas muy bien dobladas y enyesadas. la violencia no se aborda desde la figuración. Así mismo. El espectador queda enfrentado a una construcción que ha de generarle extrañamiento y preguntas. se conjugaban partes de camas de hospital desechadas con un andamio metálico para construcción. Los andamios no generan más afecto que el necesario para ensamblarlos y ponerlos para trabajar. según el ámbito del que proviene. El escenario hospitalario funge como un lugar en el cual de acuerdo con la atención prestada se dará el paso a la recuperación o al deceso. más bien lo que hace es crear un objeto cuya constitución evoca un espíritu minimalista centrado en una idea que sustenta su significado en la evocación metonímica que tiene cada elemento. En ambas estructuras originales. los trozos desechados (enfermos) de las camas de hospital se complementaban con las secciones de andamio. propio para la construcción. el material es metálico. Para Malagón.

es decir. planchado y en pilas evoca el estado de potencialidad de uso: la “ropa” está lista para que alguien la use. Este objeto al ser presentado blanco. Atrabiliarios remite a la desaparición violenta y a la ausencia de personas. La pérdida de un ser querido implica una herida y un duelo para sus familiares. un tiempo pasado y familiar en donde el quehacer doméstico ha sido roto. Por su parte. economía. y hoy por hoy.. una herida que está presente. son fuente de información sobre sus dueños. coloca a la mujer como quien ha hecho dicho oficio para que el esposo se coloque la ropa y vaya a trabajar. Al respecto Salcedo afirma que: “Cada vez que vemos un acto violento quedan los zapatos. La violencia amarillista que muchas veces es convocada con fotografías de primer plano y sangre es sustituida por formas sutiles. Perduran son reconocibles. es decir. pero en este caso el único resto humano es un objeto: los zapatos de mujer.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 55 acero. Es importante indicar que esta obra se desarrolla como instalación. Por otro lado. habla de víctimas cuyo cuerpo aún no se encuentra. Se crea un mundo posible en el cual se evocan cuerpos ausentes que no pueden usar la ropa y que se refuerzan en las mallas o “catres” los cuales sirven de personificación para representar el dolor y sufrimiento de los que no están. Allí se inserta la cotidianidad doméstica de una familia y en particular del rol femenino. también el tiempo es invocado. En ese sentido la obra propone una posición crítica y estética frente a las formas de comunicar la violencia. que en un país de corte machista como Colombia. Salcedo elige cuidadosamente los nichos en los muros dentro de los cuales se aprecian zapatos de mujer usados. lo cual no implica olvidada. De ese modo. . Así. incluso espiritual queda abierta y requiere ser sanada. este entierro. Además. la violencia con que son atravesadas parece invocar una respuesta. donde la literalidad espectacular se coloca en primer plano. los objetos seleccionados son mínimos y sus posibilidades expresivas y sobre todo comunicativas son máximas. el hogar cambia por un hecho violento que lo ha vulnerado. Las camisas y los catres como presencia hablan de lo pendiente. la focalización de la obra se centra en una construcción metafórica en el cuerpo que no vuelve a la vida doméstica. esto en razón a que uno de los principales elementos definitorios de un grupo busca responder a los interrogantes: ¿Qué lo hace diferente de otro? ¿Cuál es el espacio social que ocupa? Es decir que lo trasversal allí es la noción de división. En Shibboleth (2007-2008). en donde la afirmación de la identidad se configura como una línea divisoria que se va modificando con los años: racismo. Cabe anotar que el nicho a su vez se cubre con una piel de animal estirada y cocida. grotescos y fuertes” (citada por GÓMEZ. El yeso quita la función de las camisas. sobre todo desde los medios masivos. 5). se es en tanto que diferente a otro. de la herida que no sana. del dolor que no es superado y. no está sellado con una lápida por lo cual deja ver el objeto en su interior. El nicho se constituye entonces en una representación del osario en tanto lugar en el cual se guardan los restos humanos a manera de entierro. Este uso de las camisas se ve paralizado por el hecho de que están enyesadas y atravesadas por las varillas de acero. Esa herida emocional. por lo tanto. la seguridad. en Atrabiliarios (1993). sf. el espectador tiene la posibilidad de transitar por entre la ausencia y la espera de las víctimas de la violencia. De acuerdo con esto. son terriblemente personales. hace volver la mirada sobre el sentido de éstas y crea un interrogante ¿por qué? Luego. del duelo fallido. Algo muy fuerte les ha hecho perder la posibilidad de ser usadas. en vez de sellar un ciclo. El material de algodón de color blanco de las camisas se presenta limpio y acentúa la referencia a la camisa misma. eso significa que la idea de espacio es fundamental. Salcedo centra su mirada en las fronteras o límites que se le imponen a la alteridad. Entonces. párr.

sino que al presentarse como un gran conjunto donde la idea de instalación es el marco. visibiliza la muerte y pone de manifiesto que la naturaleza -la tierra. La grieta trasgrede entonces la institución y subvierte los parámetros de un arte canonizado. La obra es una grieta de 167 metros en el suelo del Tate Modern -situado en el centro de Londres y el cual alberga a los representantes más importantes del arte moderno-. es decir. La obra juega entonces con la ambivalencia vida/ muerte en razón a que en apariencia se visibiliza un ciclo natural por los materiales que Salcedo elige. Este índice conlleva la rememoración de la violencia como artificio que altera el rito de despedida de la vida. algo que inició hace mucho tiempo pero no se detiene. No se trata de la construcción de un ensamble de mesas. propicia la vida en el nacimiento de nuevos brotes de pasto.56 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS El sentido de la división en Shibboleth enunciado anteriormente. duelo y dolor. es gradual. la obra atraviesa la galería. La grieta de Shibboleth traza una línea que aunque perteneciente a la estructura social pocas veces se visibiliza. Por eso. esa es una de las características de las instalaciones. El tiempo que se invoca y la focalización misma conducen a la sensación de pérdida. el marco que se instaura hace que el espectador establezca una conexión emocional debido a su carga simbólica. La experiencia como recorrido es muy importante en esta obra. Es el momento en que se está junto al ser querido en el acto ritual de la despedida. la desigualdad. pero de trasfondo se encuentra la irrupción de la muerte pues no se puede acceder a la identificación del ser que allí yace. No obstante. La distribución de las mesas en el espacio hace que la espacialización sea un factor modal muy importante en el desarrollo de la obra.se convierte en muerte al combinarse con los cuerpos en tanto que la tierra termina consumiéndolos y. de tal modo. La violencia entonces es focalizada en términos de sus aristas dentro de las cuales se encuentran las condiciones de pobreza. Finalmente. adicionalmente. parcelado y mercantilizado. al presentarse en dicha galería se evidencia la incursión de discursos de fractura. En tanto grieta posee un potencial simbólico que indica no solamente un daño temporal sino su historia y continuidad.2010). se propone que los espectadores sean “envueltos por su presencia”. una obra que se compone por 120 parejas de mesas de color gris con unas dimensiones de aproximadamente 50 centímetros de ancho por dos metros de largo -las mismas dimensiones de un ataúd convencional. Puede afirmarse que sin que haya la menor información sobre la anécdota que motivó el desarrollo de la obra. la noción de tiempo hace que la obra cobre fuerza en un “aquí y ahora”. la rompe. Asimismo. Justamente. tierra y hierba simplemente. el escenario implica lo lúgubre y doloroso. en Plegaria muda (2008 . el registro fotográfico es impactante por cuanto cada objeto escultórico tiene bastante fuerza y la idea de muerte genera un choque.que se disponen una sobre otra de manera invertida y se encuentran unidas por una capa de tierra sobre la cual en algunos casos se perciben formas humanas y se deja ver el crecimiento de pasto. protegido de otros a quienes no le pertenece. la penetra. . factores políticos e institucionales como la segregación espacial y simbólica. casi como artefacto de fuerte connotación ritual. y esa sensación es a la que se expone el espectador para entrar en los zapatos de quienes han sufrido este tipo de situación. Acciones que tienen una fuerte carga psicológica en los individuos que se enfrentan a esta experiencia. La enorme cicatriz de Shibboleth marca el discurso de la exclusión como elemento violento.se genera gracias a sus características estructurales.

en el 43 por ciento de los casos son paramilitares de derecha.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 57 La voz de la violencia Las obras de Salcedo se inscriben en momentos históricos de la realidad nacional cuando “en Colombia. 478) A este periodo los autores lo denominan “Interregno”. el conflicto armado ha forzado el desplazamiento de un millón y medio de colombianos de sus hogares y vecindarios. 2012. más aún cuando se ha aumentado la estigmatización frente al disenso y se le formulan señalamientos. (PALACIOS Y SAFFORD. estos 34. Consideraciones finales En términos generales se encuentra que los elementos enunciativos de la obra de Salcedo permiten hablar de la violencia como hecho no . la guerra abierta con el narcotráfico. Puede ponerse en perspectiva la realidad del conflicto con algunas cifras con las cuales se puede ilustrar la creciente violencia: Entre 1975 y 1995. los entramados de narcotraficantes y políticos clientelistas. El 65 por ciento en forma familiar o individual y el 35 por ciento restante como éxodo colectivo. aumentó considerablemente después de 1997. el cual data de 1986 hasta el presente. Sin embargo. pobres en su mayoría. En cuanto a los causantes de esta tragedia. p.” (PALACIOS Y SAFFORD. 2012. al tiempo.984 son directamente imputables al conflicto armado. los poderes locales de los guerrilleros y de los paramilitares. (PALACIOS Y SAFFORD. desaparición de personas) perpetrados por guerrillas.978 homicidios totales (excluyendo para el año 2000 las muertes por accidentes de tráfico). 57 por ciento mujeres y 70 por ciento menores de 18 años. sino que se da en términos generales. Todas estas son formas de violencia y de inequidad sobre las cuales el interés no es profundizar pero que se deben mencionar. el 6 por ciento a la fuerza pública y el 16 por ciento a otros agentes. Tampoco se habla de una pérdida de confianza en la justicia y la creciente corrupción. Más bien.483). El conflicto está cada vez menos ideologizado y la presencia de intereses económicos es cada vez más prominente. que se desarrollan los procesos de liberalización de mercado y la Constitución de 1991.000 muertos en combate y otros 23. Aquí no se menciona el narcotráfico. paramilitares y en mucho menor grado por la fuerza pública. se instauran procesos de negociación con las guerrillas. p. 514) Es así como la violencia ha tomado un papel cada vez más estelar. el Estado y la política quedaron en vilo ante poderosas fuerzas centrífugas como la globalización. por el contrario los aspectos sociales se hacen más dramáticos: Desde 1995. 2012. En el trienio de 1998 – 2000 se registraron en el país 73.000 muertos representan un 10 por ciento de todos los homicidios cometidos en estos dos decenios. p.000 en episodios de asesinatos y ejecuciones extrajudiciales. de los cuales 12. A parte de la desestabilización estatal por cuenta de los factores mencionados. aunque los diferentes actores armados del conflicto tienen de una u otra forma conexiones con el mismo. la incidencia de esta violencia política. el exterminio de los miembros de la Unión Patriótica. ejecuciones extrajudiciales. 514) Resulta imposible evitar el tema pues es parte de la realidad colombiana que continúa ahondándose sin una solución. el conflicto armado habría producido unos 11. Al respecto Palacios y Safford dicen: “Los desarrollos legales de la Constitución quedaron en manos de la clase política preconstituyente. 2012. p. El problema de fondo sigue siendo el mismo desde la fundación de la república: la distancia entre los sueños del constitucionalismo y las prácticas sociales” (PALACIOS Y SAFFORD. seguidos por guerrillas. pues la indiferencia y pérdida de memoria sobre la que tematiza salcedo no es sólo el conflicto armado. En suma. entendida como las muertes en combate y los homicidios políticos de población civil inerme (asesinatos. El 66 por ciento de los refugiados son campesinos. a las que se atribuye el 35 por ciento. poco a poco se da una escalada militarista y el desarrollo social nunca se convierte en una realidad. masacres.

. su éxito se registra por fuera de los contextos iniciales y aunque la obra continúa comunicando. de allí que la voz de la violencia sea bastante nítida en su producción. Literatura y Semiótica de la Universidad Pedagógica y Tecnológica de Colombia. Bogotá: Universidad de los Andes. En: unalmed.) “ Dor is Salcedo ”. RAMÍREZ. porque para la mayoría se vuelve demasiado cifrado debido a que la artista siguiendo el norte minimalista y la expresividad de los materiales espera que el lector haga ese tipo de lectura. el trabajo de Doris Salcedo es importante pues busca mantener fresca la memoria mediante la generación de objetos artísticos que involucren a los espectadores. termina presentando a los demás (críticos y espectadores extranjeros) realidades que en buena medida le resultan exóticas y en dónde la fuerza de crítica política no tiene. En tal caso. de: http://www. no todas las veces resulta atractivo para el público en general.co. Por lo tanto. Recuperado el 22 de julio de 2012. quizá. De algún modo.banrepcultural. el tipo de lenguaje que en el ámbito artístico tiene gran aceptación y dentro del cual resulta altamente novedoso.org. pues se connota el cuerpo vulnerado y se evoca el dolor que no acaba de quienes pierden a sus seres queridos.edu. No obstante. cuando la mayoría se adentra con mayor facilidad a formas claramente narrativas y directas.edu. Recuperado el día 19 de julio de 2012. donde el ritual y lo simbólico son fundamentales. Bogotá: Universidad de los Andes. Frank (2012) Historia de Colombia. porque el acceso a la cultura artística no es una constante en Colombia y por otra. Oscar Muñoz y Doris Salcedo en la década de los noventa. de: http://www. Charles (sf. La artista produce obras con el fin de conmover a los espectadores a través de la experiencia que implica el recorrido de sus obras (todas se centran en apropiación espacial). La obra de tres artistas colombianos en tiempos de violencia: Beatriz González. En: banrepcultural. porque las obras interpelan al espectador y esperan una actitud más dinámica. Patricia (sf. Comunicarse con atención y cuidado con los elementos meticulosamente seleccionados. Estos deben acercarse al “escenario” que la artista construye y dejarse ir. Facultad de Administración. Facultad de Artes y humanidades. Ediciones Uniandes. Tunja 2012. pareciera que este tipo de obras tuviese más impacto en los escenarios especializados que en el público en general (colombiano).unalmed.org/blaavirtual/todaslasartes/ anam/anam27a. Su obra entra en constante diálogo con los discursos de la violencia en Colombia. Sobre esta última afirmación bien valdría la pena profundizar en un futuro. cotidiano y científico.) “Testimonio y Violencia”. MEREWETHER. Bogotá: Cooperativa editorial Magisterio. María Margarita (2010) Arte como presencia indéxica. En esa línea. Nota 1 Este texto es una síntesis de las disquisiciones presentadas en el XXVII Congreso Nacional y I Internacional de Lingüística. Marco & SAFFORD.co/mediateca/ artenaturaleza/espanol/arte_tierra/ artetierra_col_tv. País fragmentado. Pero también.58 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS espectacular. Luís Alfonso (2008) Comunicación y discurso La perspectiva polifónica en los discursos literario.htm PALACIOS. La banalización y la indiferencia son dos frentes de anestesia y de algún modo de protección y acomodamiento. Ediciones Uniandes. Departamento de arte. Referencias bibliográficas GÓMEZ JARAMILLO. más que un impacto estético. sociedad dividida.htm#1 MALAGÓN-KURKA.

o El corazón de las tinieblas . con claves que desde las primeras líneas “Hay muchas maneras de contar esta historia (…)”. y la última es el relato de la historia de amor propiamente dicha. sino en varias paradas por los distintos continentes. Álvaro Mutis finge la realidad de lo narrado a través de esta apertura que en sí misma tiene otra apertura dirigida al lector. “Como lo que voy a narrar es algo que supe por boca del . no se pierda aquí el encanto.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 59 RELACIÓN AUTOR-PERSONAJE EN LA ÚLTIMA ESCALA DEL TRAMP STEAMER DE ÁLVARO MUTIS Aleyda Gutiérrez Mavesoy PG . otro es el relato de cómo el narrador-autor conoce la historia en su encuentro con Jon Iturri en el Orinoco. Del amor y otros demonios.Universidade de São Paulo En La última escala del tramp steamer hay un juego con el azar como presencia recurrente en la vida del narrador-autor. hasta verlo por última vez por el delta del Orinoco. con mi ninguna destreza. Los sufrimientos del joven Werther. “Ojala. azar que lo lleva a encontrarse con ese viejo barco mercantil en varias ocasiones y no sólo en una escala.Autor El primer relato funciona como marco de composición de los otros. Ahondemos un poco en este concepto. ¿Cuál es el juego que propone Mutis al disponer de esa manera la trama? ¿por qué se hace personaje de sus ficciones? ¿cómo lo hace? Hay en esta obra un juego de composición que oscila entre tres relatos. Uno es el relato del narrador autor como testigo de los viajes del tramp steamer .Jon Iturri Encuentros con el tramp steamer Encuentro con Jon Iturri Historia de amor entre Jon Iturri y Warda Bashur Narratario . Historia 1 Historia 2 Historia 3 Narrador Autor Narrador Autor Narrador . desde Las mil y una noches.Lector Narratario . El Decamerón. la dolorosa y peregrina fascinación de estos amores”.Lector Narratario . El marco de composición narrativa es un recurso de la narración ya clásico. contada por Iturri al narrador-autor.

pero nunca dice que es el mismo Álvaro Mutis -sólo a lo largo de la historia va enviando datos biográficos que a los conocedores de su vida lleva a asumir que es él mismo-. la historia del tramp steamer “Entró de repente en el campo de mi vista. “Por eso he preferido. que la historia ocurrió y él la supo de boca del protagonista. con ello. que buscan liberar al lector de las ataduras de la realidad primaria para llevarlo hacia la libertad de la ficción total. imaginarlos como túneles por donde el autor lleva de la mano al lector y lo transporta. su vinculación laboral a una multinacional petrolera “Tuve que viajar a Helsinki para asistir a una reunión de expertos en publicaciones internas de las compañías petroleras. Álvaro Mutis no sólo actualiza el marco de composición sino también la importancia del autor como orquestador. frente a la supuesta muerte del autor. p.60 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS protagonista” (Mutis. Considero que. bien como su nombre lo dice -y siguiendo la metáfora de la pintura. sería aconsejable intentar. Iba. ayuda a generar expectativa en el lector por la historia que ha de ser contada en adelante. desde Príamo y Tisbe hasta Marcel y Albertine.la primera historia rodea la historia central como el marco de un cuadro. o inducciones hipnóticas para que el lector pase sedado al tema central de la obra. prevenciones. . los lectores nos va a contar una historia de amor relacionada con un barco mercantil. hacerlo de la manera más sencilla y directa para no arriesgarme por caminos. a otra. sin que el lector tenga tiempo de distinguir entre la primera y la segunda. La simulación empieza por el hecho de que el narrador se hace pasar por el autor. le permite a Mutis ubicarse y ubicarnos en el borde del mundo ficcional y del mundo real. ahora que la escribo para él –ya que contársela no me ha sido posible–. creador. A nosotros. p. en verdad. ya que parte de un hecho biográfico. La figura del autor como personaje. secundaria.” (314). La simulación continúa a lo largo de todo el texto con los saltos entre una historia y otra. frente a la experimentación exacerbada después del Nouve romance francés. con esa máscara logra fijar la idea de que se basa en un hecho real. ficticia. para ello. crea la imagen del autor como elemento fundamental de la ficción que la obra construye. 292). como en Las Mil y una noches el narrador pasa del relato al relato del relato.” (313). ni advertencias. o bien intercalando en el discurso las dos historias en una especie de espiral. mejor. le indican al lector que el narrador es el mismo autor. sin temores. del universo narrativo. de una primera realidad que se supone verdadera. bien como el juego de las cajas chinas o de las muñecas rusas. logra hacer figurar como “verdadero” lo que en adelante escribe. 2010.” (316). pronto se pasa a una historia apócrifa o ficticia. al mismo tiempo. con lentitud de saurio malherido. (Peña. o “prólogos” narrativos. con muy pocas ganas. con el papel de narrador como mediador. Existen distintas formas del marco de composición. 3131). Vamos a detenernos un poco en esta idea. engañado. Todo este juego genera una forma de la verosimilitud y. es así como recurre a un testimonio que simula ser verídico para enganchar definitivamente al lector en esta historia de amor que “algo tienen de las nunca agotadas leyendas que nos han hechizado durante tantos siglos. Mutis legitima el papel del autor como motor de la narración y señala la necesidad de la vuelta a la sencillez de la forma por la contundencia de la historia. Esta estrategia narrativa además de crear la ilusión de “verismo”. también. atajos y meandros que ni domino ni.” (313). siempre desde la voz del narrador-autor-personaje como deíctico que nos señala dónde hay salto y a cuál historia damos el salto. 2001. No podía dar crédito a mis ojos. Podemos. o aperitivos que despiertan el apetito por la historia principal. en este caso. pasando por Tristán e Isolda. Esos “marcos” operan como aperturas narrativas de carácter especial.

vuelven al lector a la conciencia de quién es el que escribe la historia: “Creo que no sobra advertir a mis lectores que ciertas alusiones museográficas hechas en esta descripción.Warda Narratario (autor implícito) Narratario (lector implícito) En realidad. con valoraciones sobre lo dicho. han corrido por mi cuenta. De cierta manera. las intromisiones frecuentes del Narrador-autor en el plano de la narración. reflexiones sobre las emociones y percepciones personales sobre lo narrado. Primer nivel Narrador (autor impl íci to) Segundo Nivel Narrador Tercer nivel (Jon Iturri) Historia Jon . si nos detenemos en el hilo del relato. Iturri mencionó algo como “esas estatuas de mujer que hay en Roma” o “los kouros que hay en Atenas” (344). la figura más cercana sería de este tipo: Sin embargo. en síntesis las formas de actuar del narrador hipostático -autor y personaje al mismo tiempo-. nos damos cuenta de que cada historia es una caja china de relatos. sobre los otros. como se prefiera nombrar a esta forma particular de narrar donde un relato está contenido por otro relato y así sucesivamente. Como en el siguiente esquema de las cajas chinas.que hacen avanzar a la narración en una especie de espiral. Asistimos a la historia de la historia de la historia. que acumula información y utiliza la información previa para configurar la trama. o las muñecas rusas. luego nos cuenta cómo conoció al capitán del barco y finalmente nos cuenta la historia de amor que a su vez le cuenta el capitán del barco.se desarrollan pequeñas historias -o micro historias. porque en el interior de cada historia -a la que llamaremos macro. el esquema sería el de cajas chinas.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 61 primero nos cuenta cómo se encontró con el tramp steamer. Un modelo de esta forma de avanzar el relato en el plano del discurso podría plantearse de la siguiente manera: . aclaraciones de términos.

pretende también marcar dos puntos: la imposibilidad de la escritura de captar completamente lo que le ha sido relatado y. que algo faltó. desafortunadamente. La producción novelística de Mutis en su calidad de poética constituye un discurso difuso. “toda palabra utilizada por alguien. En las . algo de salmodia o cantinela” (350). conciencia del papel del escritor como mediador “Tal como aquí la resumo u ordeno. 2000. pero para mantener su credibilidad se enmascara en: editor de papeles encontrados (cartas. En primer lugar.a través de la palabra como fundadora del sentido -en su componente dialógico-. 212-213).62 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Ahora bien. p. Cercano a la idea de la necesidad de resemantizar la palabra -en nuestro caso en el universo narrativo. Ahondemos un poco en estos dos aspectos. Esta propuesta de narrador puede relacionarse con el planteamiento de Michel Onfray (2000) sobre la necesidad de la acción performativa en el uso del lenguaje. sin previsión y sin intención de permanencia. no permite. la imposibilidad de comunicar la experiencia como acontecimiento -hacer y padecer en el mundoes vista por Mutis como la carencia fundamental del escritor. contrario a lo que él pensaba. 2008. considera que el lenguaje. o plantear un juego con el lector. o como testigo directo de los acontecimientos. por eso el preámbulo y las intromisiones constantes. considerar al narrador hipostático como el narrador-autor-personaje que establece la narración en distintos niveles de diálogo: como diálogo con el lector.que ha caído en el vacío del significado -abuso de la técnica para lo literario. transcriptor de información que le ha sido dada por fuentes orales. le sucede lo mismo que con la poesía: “la sensación de insuficiencia. Entonces. etc). y sin embargo percibir que la obra se queda corta. entre el conjunto de signos posibles es el más tangible a pesar de sus vacilaciones y lagunas. de que no dimos en el blanco”. El autor en varias ocasiones ha declarado que. estos juegos del narrador-autorpersonaje llevan al lector a la oscilación entre el relato y la historia con mediación del narrador hipostático. de aclarar y no sólo contar. no sólo busca organizar el universo de la narración. El autor implícito se introduce en el relato como narrador. p. manuscritos. por ello la necesidad de explicar. apuntan a señalar esa misma pérdida. Esto explica que las acciones que presenta sean mínimas en comparación al copioso discurrir de la conciencia incrédula que se esfuerza por anular la impotencia que resulta de la imposible acumulación del saber. justamente por su condición de modelo performativo. diarios. La manera como el capitán de navío insistía sobre la belleza de Warda Bashur tenía algo de reiterativo. es un universo entero cuyo destino es un oído. es la característica fundamental de la propuesta de Mutis en La última escala del Tramp Steamer. pleno de ausencias y de signos súperalimenticios. 188). diálogo con otros personajes y diálogo entre personajes. ya que permite establecer nuevos vínculos entre la palabra y el sentido. su labor. y está mediatizada por un mundo. al mismo tiempo. como la de Sísifo consiste en volcar en palabras la apreciación ético-estética del mundo. por ello. (Laverde. saturado de agujeros y de luces. dar los acentos de retenida emoción que iban creciendo en el relato. la prosa no lo ha liberado de la función de denunciar la otra orilla y. el del otro” (Onfray. de reflexionar. Al hacer presencia explícita como el escritor de lo narrado.

es decir. el teatro y la literatura. la pintura. la energía como fuerza vital. en momentos de incandescencia de una vida cotidiana transformada en vasto campo de experimentación para las agudezas y el momento propicio” (Onfray. encantado de librarme de la insulsa conversación de mis compañeros de trabajo y de las interminables rememoraciones de sus hazañas en el golf. alguien que sabe reconocer en los otros la presencia o ausencia de esa condición propuesta en la saga de Maqroll el Gaviero. entonces. de la actitud ética de crítica a la modernidad industrial: Con mayor elocuencia que las veces anteriores. un editor que no aparece como personaje de lo narrado.en el relato. la presencia en Lord Jim de del personaje narrador Marlow coincide con el papel de Maqroll en las novelas del colombiano. p. emprendía su amarga aventura con una resignación En La última escala del Tramp Steamer da el paso para mostrarse explícitamente como voz y como personaje de la narración. se permite el juego de nuevas “máscaras” con las cuales crea una sensación de mayor “veracidad” -recurrir al dato biográfico. lo fundamental de este cambio es que el narrador entra a formar parte de esos seres de excepción. la escultura. como par. dentro de ese sistema de seres fuera de lo común -en el sentido literal y metafórico. unido a la tragedia. la grandeza unida a la magnificencia y la prodigalidad. se me hizo patente la ruinosa condición de este viejo servidor de los mares que. así. se presenta como un recopilador. (Laverde. me había invitado en San José a un paseo en yate por la bahía Nicoya en Punta Arenas. se construye tanto como organizador responsable del relato. todo ello. es interesante comprobar la coincidencia en ambos -el condottiere y el narrador de Mutis-. 19). desesperanzados. como . Marlow y Axel Heyst. 2000. al comparar a Joseph Conrad con Álvaro Mutis. Un par de amigos que había hecho en una accidentada sesión itinerante de alcohol y cabarets de nota más que dudosa. la búsqueda de lo selecto. y Tríptico de mar y tierra. pero a la vez. como Abdul Bashur y Jon Iturri (protagonista y narrador de La última escala del Tramo Steamer ) forman parte de esa familia espiritual a la que pertenecen el Bolívar de “El último rostro” y Alar el Ilirio de “La muerte del estratega” e. del dandy afirma “jugador desencantado y esteta melancólico. no recuerdo ya desde qué puerto hacia el interior. 2000. aparece al principio como preámbulo y le da la voz a Maqroll para qué sea él quien narre y reflexione sobre lo narrado. asunto que me suscita una náusea inmediata. de Conrad. 54) Asimismo. no hay rastro de su manera particular de ver o evaluar el mundo. Tanto Illona. Abdul Bashur. simula no tener perspectiva. incluso. Como lo afirma Consuelo Hernández. del instante y el derroche. activa una moral del desprecio por los valores burgueses. 189) Michel Onfray (2000) propone la figura del condottiere como una ética de la elegancia. narrador hipostático. (…) Estaba en Costa Rica como asesor de prensa de una comisión de técnicos de Toronto que realizaba un estudio para la construcción de un oleoducto. pues participan de las empresas del mundo sin creer en ellas. p. 2008.en el universo de su materia narrativa. “una auténtica teoría de las pasiones destinada a producir una bella individualidad” (Onfray. la importancia de lo sublime y la pulsión por el hedonismo. Cada época tiene su condottiere. a partir de La última escala del tramp steamer se introduce dentro del mundo novelado como autor-personaje. trocando lo inefable. (317) parte del grupo de los desesperanzados. por el acto mismo de estar en el mundo. por ejemplo. cada época construye su ética de la elegancia. en última instancia. soñador de navíos. se enmascara para no presentarse directamente. Acepté.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 63 primeras novelas: La nieve del Almirante. como los llama Mutis. Se hace personaje. Construye una nueva mirada sobre la ética del individuo a partir del análisis del arte en sus diferentes manifestaciones. la música. caracterizada por la imposición del estilo. En las obras posteriores: Armirbar . p. sin ninguna orientación a un fin determinado. por enésima vez. Ilona llega con la lluvia y Un bel morir .

el tramp steamer y el Caribe “Algún día me propongo narrar lo que fueron aquellos paseos. Es así como trabaja el olvido. como Jon Iturri. en estos tiempos de “mezquina necedad”. Consideramos que por esta misma razón. En la obra menciona que su poesía se nutre de los encuentros con seres. A tal punto me pareció vetusto.y ratifica su condición de artista. de tan nuestros. la literatura y la filosofía. pero que definitivamente no pertenece a ese mundo. lo que sí fue evidente para mí era que de continuar los encuentros. De ahí que su imagen se construya a partir de la erudición con evocaciones artísticas explícitas. modelos éticos. (326) De este modo llegamos también al final del análisis. permite ver lo otro. si bien es cierto que. cosmopolita. sucede lo que los doctos llaman una epifanía. Se presenta como un escritor que trabaja en una compañía petrolera. amante de la buena vida. con ironía se burla de esa gente y sus preocupaciones. objetos y lugares especiales. Es así como dentro de la obra se configura como un conocedor de arte. Nuestro modesto infierno en vida no da para ser materia de la más alta poesía. Me quedé contemplando cómo se perdía en el horizonte y sentí que una parte de mí mismo se internaba en un viaje sin regreso. Poca cosa. Nuestros asuntos. lo ajeno. No es ese ya nuestro mundo. pasan a ser extraños por obra del poder mimético. que se dirigen a la confirmación de una individualidad basada en el viaje como aprendizaje que. están las huellas de esos días. esteta en la vida cotidiana. Obediente a las empresas del hombre. su actitud frente a lo narrado como confirmación de la ética de la desesperanza. la cosa hubiera adquirido los síntomas de una persecución mítica.a la degradación del mundo a través de la escritura. cuya mezquina desaprensión concedía aún mayor nobleza a ese esfuerzo sin otro premio que el desgaste y el olvido. referencias ilustradas constantes y. (330) En La última escala del Tramp Steamer el narrador se focaliza y se modaliza a sí mismo dentro de la obra. Concluimos que el propósito de este juego del narrador-autor-personaje apunta a hacer presentes distintos sistemas axiológicos. También permite explicar porqué el personaje femenino es objeto y no sujeto de deseo. la buena comida. en buena parte de la poesía que he ido dejando por ahí regada en revistas efímeras y en ediciones no menos olvidables. el juego de las cajas chinas permite ver el relato del relato de la historia como un recurso de la veracidad y no sólo retruécano narrativo. Los hombres sólo conseguimos ahora cumplir con la mezquina cuota de venganza que nos imponen otros hombres. (325) el de las soberbias maldiciones con las que los dioses de la Hélade castigaban a los trasgresores de sus designios inmutables. Experiencia que debe ser arrasadora o simplemente confirmarnos en ciertas certezas harto útiles para seguir viviendo. de una diabólica espiral cuyo final podía ser . engañoso y constante del precario presente. obsequio de los dioses.64 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS de un buey del Latio sacado de las Geórgicas de Virgilio. pero también conocedor del arte. Como autor implícito y personaje testigo de los viajes del tramp steamer hace de sí mismo un escritor que pretende una salida espiritual -estética. hemos visto cómo el juego de voces entre el narrador-autor y el relator personaje produce un efecto de “realidad” que se afianza en el hecho biográfico introducido en la narración y con lo cual el lector asume un pacto narrativo cuasi “veraz” de la historia que le es contada. Ahora que lo recuerdo. Cuando una de esas imágenes regresa con toda su voraz intención de persistir.” (327). golpeado y sumiso. Si seguimos la lógica de Onfray sería una especie de actualización del condottiere. como posible sin menoscabo de una actitud ética individual: la lucidez. además. bohemio nostálgico y poeta por vocación. intelectual. la buena compañía.

Edward (2004). Instituto Colombiano de Cultura. El universo de la creación Narrativa. Barcelona: Random House. Empresas y tribulaciones de Maqroll el Gaviero. Buenos Aires: Sudamericana. Medellín: Universidad de Antioquia. Álvaro (2001). dos tendencias. PEÑA Isaías (2011). Alfredo (2008).ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 65 Referencias bibliográficas LAVERDE. el texto y el crítico . Michel (2000). SAID. Buenos Aires: Libros Perfil. MALRAUX. Tradición literaria colombiana. só lo se indicará el número de la página. la moral estética. La condición humana. Nota 1 En adelante. Bogotá. ONFRAY. La construcción de uno mismo. Poesía y prosa . MUTIS. Bogotá: Alfaguara. . cuando se mencione apartados de la obra estudiada. El mundo. André (1999). _____ (1981). Mondadori. Bogotá: El Huaco.

sob a influência. em 2003. no âmbito internacional. p. o Brasil estabelece. Acompanhando a tendência mundial de luta contra a exclusão das minorias e a favor da igualdade de oportunidades. o Programa Educação Inclusiva. item III). o atendimento a alunos com necessidades especiais seguiu sendo realizado sobre os pressupostos da Normalização e Integração. o trabalho do professor tem sido apontado como condição essencial para a inclusão eficaz dos alunos com necessidades educacionais especiais nas classes regulares de ensino. posteriormente. é implantado. à oferta do atendimento educacional especializado e à garantia da acessibilidade (BRASIL. É quando começam. física. preferencialmente na rede regular de ensino” (artigo 208. No Brasil. O quadro recém-apresentado começa a mudar nos anos 1980. excluídos do espaço escolar. social. quando. em 1981. na década de 1990. seja pela presença de padrões físicos considerados distintos dos de uma suposta homogeneização. cujo objetivo é apoiar a transformação dos sistemas de ensino em sistemas educacionais inclusivos.66 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS ENSINO DE E/LE E INCLUSÃO: REFLEXÕES SOBRE FORMAÇÃO E TRABALHO DOCENTE Alice Moraes Rego de Souza PG-UERJ Roberta Fraga de Mello PG-UERJ Introdução Historicamente. o atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência. 2008.9). aqueles que “distoam” de uma “normalização” intelectual. de acordo com a qual o aluno com necessidades educativas especiais deveria adequar-se à “hegemonia” presente em sala de aula. Dentro dessa perspectiva. Mesmo com o advento da Constituição de 1988. Assim. sob formas distintas. seja por fatores socioeconômicos. da Conferência de Jomtien (1990) e da Declaração de Salamanca (1994). promovendo um amplo processo de formação de gestores e educadores nos municípios brasileiros para a garantia do direito de acesso de todos à escolarização. cultural e linguística foram. é proclamado o Ano Internacional dos Deficientes pelas Nações Unidas. as discussões sobre a ampliação do acesso e a qualidade da educação das pessoas com necessidades educacionais especiais. principalmente. . durante muito tempo. o acesso à escola sempre foi marcado pelo paradoxo inclusão/exclusão. na Constituição Federal de 1988.

formalizada pelo CNE. A importância atribuída ao papel do professor. o qual convoca a sociedade civil. com a publicação das Resoluções CNE/CP nº1 e 2. com a publicação do Parecer CNE/CP nº9 de 2001 e. a reforma surge a partir da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) – Lei nº 9. (DAHER & SANT’ANNA. Ainda que possamos antecipar que “de maneira geral. A educação especial no âmbito da reforma das licenciaturas A reforma das licenciaturas é uma culminância de certa circulação de discursos sobre o papel do professor e suas responsabilidades na formação de cidadãos no contexto escolar. 2009. p. particularmente no que diz respeito à educação especial. Considerando a interseção entre as discussões sobre educação especial e sobre a reforma dos cursos de formação de professor. 2001.394/1996 – a qual define que cada instituição de ensino superior (IES) deverá fixar seus currículos a partir das diretrizes pertinentes. os quais precisam ser refletidos e explicitados. A partir daí.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 67 o que nos leva a refletir sobre a formação deste profissional visando atender às demandas da atualidade. culminando na reforma dos cursos de licenciatura. a partir da análise de seus fluxogramas. um dos 1. no sentido de atender a uma política de integração dos alunos .25). dentre outros temas. afirmando que: “A educação básica deve ser inclusiva. Diversas temáticas atravessam as reflexões acerca de um novo currículo para formar professores em nível superior. 2009. iniciada oficialmente no ano de 2001.20) Uma vez conhecido o contexto de surgimento da reforma. as universidades e outras instituições a contribuírem para a elaboração das diretrizes curriculares dos cursos de graduação. focaremos em algumas disposições do Parecer CNE/CP nº9 de 2001. falase sobre o ensino para alunos com necessidades especiais. no ano seguinte. 150). em geral. como já apresentado. visto que este é um dos eixos que orientam as diretrizes curriculares de formação de professor em nosso país. de modo a observar a relevância dada à temática no decorrer do documento. no contexto da mencionada reforma. sendo uma delas a questão da educação especial. De maneira geral. o presente trabalho fomenta uma reflexão sobre os novos currículos de licenciatura em Letras (habilitação PortuguêsEspanhol) das universidades públicas do Estado do Rio de Janeiro. buscando observar como se apresenta a questão da educação especial nesses documentos institucionais. Neste tópico. por meio do Parecer CNE/CP nº9 de 2001 e respectivas Resoluções CNE/CP nº1 e 2 de 2002. Ao mesmo tempo. p. cria-se ambiente propício para a discussão sobre a participação dos institutos básicos na formação de professores das diversas áreas de conhecimento. O parecer em questão explicita que ao revisar o processo de formação docente. as licenciaturas não estão preparadas para desempenhar a função de formar professores que saibam lidar com a heterogeneidade posta pela inclusão” (PLETSCH. o MEC publica o Edital nº4 de 1997. buscamos apresentar alguns possíveis progressos relativos à formação de professores de Língua Espanhola que beneficiem a perspectiva inclusiva e de respeito à heterogeneidade no espaço escolar. p. Para tal. se reflete em documentos oficiais (pareceres e resoluções) que se destinam a formalizar a última reforma dos cursos de licenciatura. resta ainda observar em que termos é tratada a questão da educação especial. problemas destacados é o que se designa como “desconsideração das especificidades próprias dos níveis e/ou modalidades de ensino em que são atendidos os alunos da educação básica” (BRASIL. Especificamente no campo curricular. depara-se com problemas em termos institucionais e curriculares.

formação específica é a proposta de inclusão de espaços e tempos adequados que garantam “opções. 27) Outra proposta contida no documento. p. Mesmo diante da possibilidade da presença da temática sobre educação especial apenas em termos de formação específica. Constata-se. Universidade Federal Fluminense (UFF) e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). 2001. dá recorrente espaço para discussão sobre necessidade de incluir. entre outras. o Parecer menciona a educação especial.. para atuação em modalidades ou campos específicos incluindo as respectivas práticas (. 2001.)” (BRASIL. Nesse caso. Novos currículos de formação docente e educação especial . especialmente no que concerne à educação especial... o que faz de sua presença nos A partir do Parecer CNE/CP nº9 de 2001 e suas respectivas resoluções. Isso exige que a formação dos professores das diferentes etapas da educação básica inclua conhecimentos relativos à educação desses alunos “(BRASIL. a existência de uma brecha no Parecer. temáticas a serem consideradas. A problemática desta seção se centra na dificuldade de. já que esta é uma realidade indissociável da escola. o Parecer apresenta alguns eixos. 2001. a saber: Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). são necessários alguns esclarecimentos sobre a escolha do corpus de análise.)” (BRASIL.. 2001. embora devessem fazer parte da formação comum a todos (.27). Nesse caso. 2. as IES reformularam seus currículos de modo a atender às novas demandas. a critério da instituição. ao mesmo tempo. Por uma questão de afinidade profissional das pesquisadoras. portanto.68 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS com necessidades educacionais especiais nas classes comuns dos sistemas de ensino. O documento reconhece que temáticas relativas à educação para alunos com necessidades especiais “raramente estão presentes nos cursos de formação de professores. dentre as possibilidades de formação específica que a IES pode ter. na formação do professor. p. no que tange à atuação docente diante desse público. p. a singularidade linguística dos alunos surdos. inclusive à questão da educação especial. Assim. nas novas estruturas curriculares? Inicialmente. portanto. as formas de comunicação dos paralisados cerebrais. a escolha foi por analisar a formação do professor de Língua Espanhola. de maneira geral. vê-se que o Parecer CNE/CP nº9 de 2001. A saída proposta para superar a “dicotomia” formação comum . uma vez que a educação especial pode configurar apenas como formação específica. optou-se por focar a análise apenas nas IES do Estado do Rio de Janeiro que passaram pelo processo de reforma curricular iniciado em 2001. Assim sendo. quais são os reflexos desses discursos oficiais. 55). o Parecer esclarece que a construção espacial para alunos cegos. p. considerando suas demandas próprias. (BRASIL. oferecer uma formação comum a todos os docentes e o atendimento às especificidades do trabalho com as diferentes etapas ou modalidades com que o professor irá trabalhar. dentre os quais está o “eixo que articula a formação comum e a formação específica”. momento propício para o preparo do profissional para atuação com alunos com necessidades especiais. o curso de Letras Português-Espanhol. são. 26) currículos uma escolha de cada IES. diz respeito aos critérios de organização para desenho de uma matriz curricular que contemple os diversos aspectos envolvidos com a atividade docente. Nesse sentido. Por uma necessidade de recorte de corpus . quais serão os reflexos deste aspecto nas atuais estruturas curriculares das IES que formam docentes na área de Língua Espanhola? Tal será a discussão que cabe ao próximo item deste artigo.

2. mostrando uma síntese do curso. mas sim a outra legislação específica sobre a questão da inclusão da LIBRAS na formação superior em algumas áreas de conhecimento – Decreto nº 5. consequentemente. o aluno precisa escolher três para cursar. 2005. o fluxograma irá refletir questões colocadas ou não em destaque pela IES a que pertence. o ponto de par tida são os fluxogramas que materializam a estrutura curricular dos cursos de graduação.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 69 Em síntese. Partindo de uma perspectiva discursiva. ou seja. como. realizam-se algumas observações de análise sobre a presença do tema educação especial nos fluxogramas selecionados.626 de 2005. de um grupo de seis disciplinas. A reformulação curricular na UFF Tanto na grade curricular (expressa em forma de fluxograma) anterior e posterior à reforma das licenciaturas. Sendo assim. 2. na medida em que tem seu surgimento e sua circulação fundamentada em “regras de organização vigentes em um grupo social determinado” (MAINGUENEAU. Por uma questão de limitação de espaço. trata-se de uma eletiva. metodológicos e mesmo em detalhes de análise. pois esta compõe o grupo de disciplinas designadas como eletivas práticas. tampouco apresentava qualquer indício de disciplina que se voltasse para esse tema. de certo modo.2. trabalhamos com a formação do professor de Língua Espanhola no Estado do Rio de Janeiro e seu preparo para atuar na educação especial. o fluxograma. é um retrato de um curso de formação superior. o fluxograma pode ser compreendido como um discurso. Assim. podendo esta ficar de fora.52). não há tipo algum de menção explícita a disciplinas que tratem especificamente da questão . Para refletir. Nem mesmo como eletiva existia a opção de disciplinas sobre tal temática. p. buscamos abrir caminho para reflexões que merecem atenção mais detida em trabalhos futuros. Quanto a esta última. Em outras palavras. por meio da disciplina intitulada “Planejamento de Material para Ensino de Língua Portuguesa como L2 para a Comunidade Surda” (vinculada ao Departamento de Linguística) e a disciplina “Prática Pedagógica em Educação Inclusiva” (oferecida pela Faculdade de Educação). assumir que os fluxogramas das IES são um discurso é sustentar a ideia de que seu surgimento e desenvolvimento são inseparáveis das relações sociais que o contextualizam. A escolha deste material se deve ao entendimento de que o fluxograma. por exemplo. o aluno cursará apenas se quiser. Vale ressaltar que a primeira disciplina relacionada não vem como uma resposta à demanda da reforma de 2001. Ainda nesse sentido. por sua vez. a grade curricular do curso de Letras com habilitação em Português-Espanhol não sinalizava nenhum tipo de disciplina específica quanto à educação especial ou educação inclusiva. A reformulação curricular na UERJ Antes da reforma das licenciaturas iniciada em 2001. Entretanto. Maingueneau (2005) afirma que os discursos têm caráter de ação. o fluxograma mostra a inclusão de algumas oportunidades de discussão sobre educação especial. ao enunciar sobre formação de professor é também uma forma de construir certa ideia de formação de professor. O fluxograma. do que se privilegia ou não como parte da trajetória a ser percorrida pelo profissional em formação. não mais nos aprofundamos em aspectos teóricos. Já após a reforma.1. ainda que brevemente sobre esta questão. suas etapas constituintes. nas subseções a seguir. Assim sendo. seus marcos.

Já as disciplinas de educação especial costumam obter um caráter mais geral. consequentemente. que abrange o ensino de maneira geral e não focado apenas em uma discussão específica. tal como ocorre na UFF e na UERJ. Após a reforma.626 de 2005 . mais uma vez. na verdade. é comum que a mesma fique atrelada aos departamentos de linguística. o fluxograma da UFRJ não indicava. podem ou não ser escolhidas pelo aluno. uma redução do espaço aberto à reflexão e à produção de conhecimentos sobre ensino de língua espanhola como língua estrangeira para alunos com necessidades especiais. complementando as disposições do fluxograma1. após a reforma. a disciplina eletiva “Tópicos Especiais em Educação Especial”. relativa aos departamentos a que estão vinculadas as disciplinas. sejam LIBRAS ou disciplinas que abordem temas gerais sobre tal comunidade. mas do surgimento de tal demanda. passa a ser oferecida. visto que atuar com alunos especiais não depende da escolha. A reformulação curricular na UFRJ Antes da reforma. a existência de disciplina alguma que fosse específica para tratar de questões de inclusão ou ensino para alunos especiais. por se tratar de uma questão de linguagem. já mencionado. Mesmo diante de um cenário . visto que apenas há a inclusão da questão específica da surdez.70 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS do ensino de espanhol para alunos com necessidades especiais. O fluxograma tampouco sinaliza a disciplina LIBRAS. muito embora esta seja obrigatória para os cursos de Letras – considerando o Decreto nº 5.4. as mudanças relativas Outros documentos que descrevem a estrutura curricular do curso de Letras PortuguêsEspanhol na UFF mostram que. Sendo assim. mas de uma resposta a uma exigência legal de inclusão de LIBRAS nos cursos de Letras – Decreto nº 5.3. ao Instituto ou à Faculdade de Letras. essa disciplina compõe o grupo de optativas. pois ele também tem a sua disposição outras optativas. Ainda assim. para alunos que ingressaram a partir de 2012.626 de 2005 . Sendo assim. ficando a critério do aluno escolher cursar a disciplina. pela Faculdade de Educação. Entretanto. a inclusão de disciplinas que tematizem a questão da inclusão e da educação para alunos com necessidades especiais não sofre alterações. explicitamente. Isso se choca com a realidade da atividade docente. sendo oferecidas pela Faculdade de Educação. o fluxograma passou a apresentar a disciplina LIBRAS (vinculada ao departamento de Linguística e Filologia). Na maioria dos casos. as disciplinas que passaram a ser oferecidas são em caráter de eletivo ou optativo. o que mostra. 2. Em nenhum caso foi possível verificar a associação de uma disciplina que trate de educação especial ligada a algum departamento do Instituto ou da Faculdade de Letras. não se trata de uma alteração devido à reforma. ao espaço ocupado pela educação especial não foram expressivas. o que é explicado no site da universidade. sendo que. ou seja. o espaço para debate sobre questões relativas ao ensino de Língua Espanhola é reduzido. tal disciplina compõe o currículo do referido curso. o que torna indispensável a reflexão sobre tais assuntos durante o processo de formação. No caso das IES que oferecem disciplinas relacionadas à comunidade surda. Comentários gerais No caso das três IES. Ainda há mais uma questão. visto que as poucas oportunidades oferecidas possibilitam uma abordagem desde uma perspectiva mais ampla. 2.

31. Entretanto. p. na perspectiva de Schwartz (2002) podem ser articuladas. ________(2010). Coleção Explorando o Ensino. Rosana. embora seja uma realidade com a qual o professor está sujeito a se deparar. 143-56. In: Trajetórias em Enunciação e Discurso: práticas de formação docente. Acessado em 10/08/2012. tal ausência não implica a não criação de normas. em algum momento. de Cecília P. p. quando surgem disciplinas relacionadas à educação especial.br/ccivil_03/ _ato2004-2006/2005/decreto/d5626. Vera L. Formação e exercício profissional de professor de língua espanhola: revendo conceitos e percursos. o professor precisará refletir sobre tal questão. Edicléa Mascarenhas (2005). diretrizes políticas e resultados de pesquisas. In: SOUZA-E-SILVA. Referências bibliográficas BRASIL. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica. A formação de professores para a educação inclusiva: legislação.A (2009). 18 de janeiro de 2002. seja na atividade docente. Nesse sentido. Dominique (2005). São Carlos: Editora Claraluz. ainda. De Souza e Décio Rocha. Decreto 5. 3. de modo a. Brasília. A abordagem do trabalho reconfigura nossa relação com os saberes acadêmicos: as antecipações do trabalho. em nível superior. de 8 de maio de 2001. Editora Cortez: São Paulo. Trad. de algum modo.planalto. Diário Oficial da União. nota-se a constituição de um espaço restrito de prescrições ao trabalho do professor relativo a essa modalidade de ensino na etapa de formação. as quais serão feitas na própria situação de trabalho e que. tal como visto na análise do Parecer CNE/CP nº 9 de 2001. Márcia Denise (2009). FERNANDES. seja na formação. portanto. aos saberes acadêmicos. 23 de dezembro de 1996. dá relevância ao assunto. 27894. SANT’ANNA. p. Do otium cum dignitate dos cursos de Letras à formação de línguas.htm>. de 20 de dezembro de 1996. Curitiba: Editora UFPR. A formação. GLAT. Parecer CNE/CP nº9. _______.626 de 22 de dezembro de 2005 .gov. DAHER. ainda que o tratamento da educação especial pensada especificamente em termos de ensino de E/LE seja tarefa complexa. Seção 1. Del Carmen. orientar o docente em sua trajetória futura. Brasília: Inclusão – Revista da Educação Especial – out/2005. FAITA . Lei nº 9. Revista Educar .ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 71 que. mesmo que não tenha de dar conta de prescrever o trabalho docente. curso de Licenciatura de graduação plena. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. MAINGUENEAU. Considerações finais No caso dos fluxos analisados. no exercício da profissão. PLETSCH. Brasília. 4 ed. participando do processo de produção de normas e prescrições do trabalho realizado por este sujeito. contribuindo para uma forma diferente de pensar as antecipações do trabalho. Análise de textos de comunicação. elas constituem-se como optativas / eletivas. Diário Oficial da União. Da educação segregada à Educação Inclusiva: uma breve reflexão sobre os paradigmas educacionais no contexto da educação especial brasileira. minimamente.394. o presente trabalho mostra que. In: Espanhol: Ensino médio. 33. 35-9. precisa proporcionar mais espaço para reflexão do assunto. p. não foram identificadas marcas que explicitassem a relevância dada às discussões sobre ensino de Espanhol como Língua Estrangeira (E/LE) para alunos com necessidades especiais. n. Yves (2002). E. 4. _______. Assim. Brasília: MEC. Disponível em: <http://www. SCHWARTZ.

br/obrigatoriedade-da-disciplinalibras>. São Paulo: Cortez. Disponível em: http:// www.uerj. b r / index.). UFRJ.br/sites/default/files/ letras_portugues_espanhol_-_licenciado_novo. Acessado em 30/08/2012. Acessado em 10/08/2012. l e t r a s .pdf.letras.pdf.uff.uff. Fluxograma do curso de Licenciatura em Letras Português – Espanhol. u f r j . Fluxograma do curso de Licenciatura em Letras Português – Espanhol. UFF.72 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS (orgs. Fluxograma do curso de Licenciatura em Letras Português – Espanhol. . Linguagem e trabalho : construção de objetos de análise no Brasil e na França. UERJ. Disponível em: http:// w w w .letras. Disponível em: http:// www.php?option=com_content&task=view&id=45&Item( ( Nota 1 A informação mencionada está disponível em <http://www. dep. Acessado em 10/08/2012.br/arqs/fluxogamas_cur sos/ letras_portugues_espanhol_licenciatura.

Universidade Federal de Pernambuco* A presença de dois discursos referentes à imagem simbólica do Novo Mundo representa a oposição entre Europa e América que seria determinante para a formação do pensamento moderno. Entretanto. como Gonzalo Fernández Oviedo e os padres Acosta e Herrera. Em um pólo. Segundo Antonello Gerbi (1996). “a tese da ‘debilidade’ ou ‘imaturidade das Américas” nasce com o Conde de Buffon. vegetais e humanas. o que o levou a trilhar um caminho em direção aos estudos científicos. Do lado oposto. na ideia de que o homem ocidental teria alcançado a aptidão de elevarse a uma chamada “maioridade intelectual”. a “polêmica do Novo Mundo” passa a apresentar discussão contínua. postular uma teoria universal da inferioridade do novo continente. Foi o que fizeram europeus que de fato conheceram o cnotinente americano. no século XVIII. Em vários textos produzidos por europeus que conheceram a América ou por americanos põe-se em questão a validade do caráter débil e frágil das espécies do Novo Mundo. homens conhecedores e adeptos a outros pontos de vista se propuseram a divulgá-los. manifesta-se a superioridade do homem civilizado.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 73 DIÁLOGOS DE HISTORIA NATURAL: O HOMEM PROTOTÍPICO E O HOMEM EM CONSTRUÇÃO Amanda Brandão Araújo PG . ou Georges-Louis Leclerc (17071788). Entre as conclusões buffonianas referentes às Américas coloniais destacam-se formulações intrigantes que merecem ser comentadas. alguns crioulos e uns quantos padres jesuítas. o Abade Raynal e o historiador William Robertson. Alguns autores que precederam o século XVIII. Entre suas principais obras encontra-se a volumosa História Natural . mas excessivamente interessado em matemáticas e ciências. Cornelius De Pauw. Divulgadas as teorias e razões da inferioridade. advindo da inferioridade daquele meio e da fraqueza de suas espécies animais. como o Conde Buffon. encontra-se o nativo americano. . a partir dos naturalistas ilustrados. freqüentador do Colégio de Jesuítas e estudante de Direito. contudo. culminando. na qual aparecem suas teorias sobre os temas americanos. natural de Paris. ocuparam-se de descrever muitas das peculiaridades americanas sem. fundamentada nos progressos realizados através do processo histórico europeu.

imbecil e nada conheceria em toda a natureza . A natureza do hemisfério ocidental não mais é imatura e . tornaram-se menores. impotente. a América é um continente ainda intocado. defende e aprofunda a tese de que os americanos são degenerados.” Alude. Os “selvagens” americanos são. os cães. etc. um mundo que ficou mais tempo sob as águas do mar.) Buffon entende que o continente – e o homem – americano está ainda em processo de evolução. 56)... os cervos. mas no oposto a isso: o homem apenas se aperfeiçoa em sociedade.. à anta brasileira. os bois. Humanamente. do qual o homem ainda não tomou posse. Opondo-se ao concluído por Buffon. os asnos. Nas Recherches sur lês Américains. ainda. incapaz de dominar a natureza em seu favor. portanto. em tom extremamente mais enfático e definitivo que o do Conde. um grau de desenvolvimento semelhante ao das mais incipientes civilizações européias.. Sem ela. (GERBI.] os que não foram transportados. 1996: p. os carneiros. os As deduções de Buffon deturpam as descrições dos autores que o antecederam. filósofo e enciclopedista ilustrado de naturalidade discutível (provavelmente holandesa). 20. tais como os lobos.) nem se encontra ali nenhum animal que se compare a eles. conseguiriam atingir. Os animais em geral são poucos em diversidade e em tamanho. De Pauw não acredita na “bondade natural” do homem. 1996: p. deve aquilo que é à sociedade: o mais metafísico. todos esses animais. Diz Buffon: “os elefantes pertencem ao Antigo Continente. em algum dia ainda indeterminado. são também consideravelmente menores na América que na Europa. em critérios científicos relacionados à Ilustração. devido a sua “dimensão de um novilho de seis meses ou de uma pequeníssima mula” (GERBI. Grifo do autor). inimigos do progresso e da sociedade. Rejeitam as leis e a ordem. Cornelius De Pauw. e não existem no Novo (. ou pelo menos muito mais novo que o antigo.74 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS A primeira delas refere-se à inexistência de grandes animais selvagens. garantindo a superioridade das espécies do Velho em detrimento das do Novo Mundo. Quaisquer semelhanças que pudessem existir entre as espécies de maior porte de ambos os continentes eram refutadas. 19). continua as “difamações” da América. A umidade do ambiente é tão elevada que pode fazer definhar qualquer espécie passível de evolução. Para ele. Mais que isso: a maioria dos nativos vive como os próprios animais. (GERBI. nada por si só. São imaturos. Recusaram-se a aceitar quaisquer formas de desenvolvimento e cultura “evoluída”. a América é um mundo novo. portanto. os criadores do progresso. inoperantes. mudo. (DE PAUW apud GERBI. as raposas. “imberbes”. se tornaria embrutecido. ao saber da época. A natureza americana seria hostil a qualquer desenvolvimento. ora para ridicularizar. que mal acaba de emergir e ainda não secou direito. As espécies trazidas da Europa tenderiam a definhar-se. ao contrário de Buffon e de Rousseau. Os cavalos. os porcos. com exceção destinada aos insetos e répteis de menor porte. e isto sem exceção alguma. os alces. 1996. de construir impérios e domar animais. p. os cabritos monteses. as cabras. 1996). numa palavra aqueles que são comuns aos dois mundos. que apenas multiplicam-se e avolumam-se. O homem é errante. Fisicamente. digo. insalubre portanto para gente civilizada e animais superiores. Fonte de elevado preconceito e ignorância gerados a partir das teorias buffonianas é o postulado da degenerescência dos animais na América. fundamentado. divide espaço com eles. é apenas um bruto incapaz de progresso. e [. abandonado durante seis anos na ilha de Fernandez. que nem de longe poderia comparar-se aos grandes mamíferos.. mas com o tempo e o exemplo dos europeus. 1996: p. mas lá chegaram por si mesmos. (BUFFON apud GERBI. ora para menosprezar os aspectos naturais e comportamentais da natureza e do homem. 27. o maior filósofo. O homem não é.

A ênfase do Abade. trazendo assimetrias valorativas com implicações políticas. cuja inspiração é voltairiana e permeável às ideias de De Pauw. 1996). De Pauw é tido como veemente antiamericanista. As teses sobre as influências do clima e outros fatores naturais são consideradas por De Pauw. inferior porque degenerada ” (GERBI. nas Américas. [. mais ou menos abrangentes.] Os povos se encontravam dispersos nos campos. finalizamos com as considerações de Robertson. zonas glaciais e zonas temperadas. como se “desevoluísse” o que sequer começou a se desenvolver. 1988) antigüidade das civilizações astecas. Na Europa mesmo levantaram-se contra ele vários defensores do “bom selvagem”. 1996). Raynal adota a posição de Buffon e De Pauw sobre as zonas tórridas e úmidas como insalubres. . (RAYNAL apud VENTURA.. porém é dada maior relevância ao posicionamento em favor de grandes catástrofes. como nos indivíduos do nosso Continente que não chegaram à puberdade. embora deva apresentar idade semelhante à européia. é degenerada. expulsos das colônias. pois entende que “é sem dúvida um grande e terrível espetáculo ver a metade deste globo a tal ponto desgraçada pela natureza que tudo é ou degenerado ou monstruoso” (DE PAUW apud GERBI. Raynal e De Pauw contestam a As radicais teses depauwnianas suscitaram grande número de réplicas. retorna constantemente à “desventurada” natureza física americana. rejeitando as descrições de Hernan Cortés e do inca Garcilaso de la Vega. porém. da bondade natural do homem e da natureza virgem. 1996. da grandeza e magnificência das cidades e monumentos. Também insurgiram-se jesuítas que. uma espécie de infância nos povos da América. atribuindo ao clima as doenças contagiosas e as baixas taxas de natalidade entre os povos. É um vicio radical no outro hemisfério. A imagem da Para concluir os “ataques” às Américas a que nos propomos. Mais um defensor da inferioridade americana foi o Abade Raynal. “De Pauw repete até a saturação que a natureza é fraca e corrompida na América. com sua Histoire Des Deux Indes. para ele. O clima americano explicaria também a propensão dos seus habitantes ao alcoolismo e à concubinagem. A América não havia ainda se desenvolvido: era impúbere. (RAYNAL apud GERBI. 1996). supõe uma imperfeição nos órgãos. Os dados de Las Casas sobre as numerosas populações do México e do Peru também são objeto de crítica. toltecas e incas. várias tragédias naturais nunca observadas no antigo continente. Haveria ocorrido. Sua História da América (1777) fala sobre o Novo Mundo num tom mais Deve-se relegar ao plano das fábulas esta quantidade prodigiosa de cidades construídas com tanto cuidado e dispêndio.. como dilúvios e “medonhos tremores de terra”. sem meios termos. que teriam determinado o temperamento dos habitantes (animais não políticos) e caracterizado (ou. já que estes foram atrasados e incapazes tanto quanto os demais seres daquele mundo. traziam de volta as experiências vividas nas mesmas. A umidade do clima fez com que essa condição “infantil” do continente e dos homens que nele habitavam fosse agravando-se. descaracterizado) a fauna e flora locais. ao qual a natureza confiou o depósito da reprodução. “A natureza se esqueceu de fazê-la crescer” (GERBI. Considera como inverídica toda a obra de Garcilaso de la Vega sobre os incas. fraca porque corrompida. Ao inicio da “adolescência americana” também corresponderia a impotência dos nativos e a falta de atração por suas fêmeas.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 75 imperfeita (como o era para Buffon). 53) Buffon. e era impossível que fosse de outro modo. mais determinadas ou mais indiretas. A indiferença quanto ao sexo. p. onde a imaturidade se revela por essa espécie de impotência. América em Raynal resulta da projeção de uma teoria climática que divide o mapa-mundi em zonas tórridas.

] as diferentes espécies de animais peculiares a ele são em muito menor número que as do outro hemisfério [.. mas também as canibais.. traición. falsía. maledicencia y perdón. 28-29). desfallecidos de hambre y desnudos con pobreza y necesidad. Como em: O princípio da vida parece ter sido menos ativo e vigoroso do que no velho continente [.134) provechosas virtudes y piedades naturales. mas mente-se desavergonhadamente: não é apreciado o que não é filosófico. procuraram conhecer a outra versão da história. 1954. havia mantido contato com viajantes. que en éstos hemos bastardeado. Explicavase a grandeza e a miséria da natureza americana. Os animais que pertencem originalmente a esse quadrante do globo parecem ser de uma raça inferior. nem tampouco se reputa como tal aquilo que não ataca a religião e adota a linguagem da impunidade (CLAVIJERO apud DOMINGUES. embora o tom pessimista predominasse. cuando en verdad es a aquellos que nosotros mismos hemos alterado con nuestras artes y mudado de su orden común a los que con más propiedad debíamos designar salvajes. a consequências extremas. patriota e ilustrada. (. entendeu. 29-30). envidia. A defesa de Montaigne beneficia não só as tribos pacíficas. Entende que o Século das Luzes teria publicado mais erros do que todos os séculos passados pois escreve-se com liberdade. (ROBERTSON apud GERBI. mientras otros. nem tão robusta. marinheiros. Clavijero cita os antigos pioneiros nas descrições da América (Oviedo e Herrera. aplicándolas solamente al placer de nuestro gusto corrompido. como Humboldt. no entanto. o pusieran fuego a sus casas. seja através da longa estadia em solo americano. p. diz: Creo que nada hay en esa nación que sea bárbaro o salvaje. p. Leitor de crônicas de viagens e conquistas. 1996. em parte. A oposição filosófica entre natureza e cultura e a comparação entre o homem natural e o civilizado também ocuparam a mente desses intelectuais que. 2006. (MONTAIGNE apud HENRRÍQUEZ UREÑA. por exemplo) e usa o que pode de suas obras em defesa de seus argumentos. No ensaio Sobre los caníbales. em dois ensaios famosos – um. sino que cada cual suele llamar barbarie a aquello que no le es común…Son salvajes así como llamamos salvajes a aquellos frutos que la naturaleza por sí misma y por su natural progreso ha producido. tentando inclusive justificar atos de violência que pudessem ser cometidos pelos nativos. 1954.. . Perseguindo o objetivo de criticar os filósofos iluministas. Em seu ensaio. Montaigne (século XVI).) Las palabras mismas que significan mentira. seja através da realização de viagens.. nascido na Nova Espanha.. comenta que quando conversou com os “selvagens” brasileiros em Rouen. Diz Montaigne relatando o que os nativos haviam declarado: que habían visto que había hombres entre nosotros colmados de toda clase de comodidades. a legitimidade dos rituais. em comparação com o estado selvagem. (MONTAIGNE apud HENRRÍQUEZ UREÑA.76 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS intermediário e repleto de meios termos. por exemplo. inclusive. En aquellos se hallan vivas y vigorosas las verdaderas y más Obra importantíssima sobre a defesa do Novo Mundo é a do padre jesuíta Francisco Javier Clavijero. pedían limosna a sus puertas: y encontraban extraño que esos otros hombres no cogieran a los otros por la garganta. p. 9). sobre os canibais – levou a crítica da civilização européia. no caso dos padres jesuítas e dos crioulos. mas parece ao mesmo tempo ter sido menos vigorosa em suas produções. disimulo.. p. jamás se oyeron entre ellos. tendo a maior parte deles se baseado em experiências próprias. filho de pai espanhol e mãe crioula. nem tão feroz quanto as do outro continente. através de uma visão ao mesmo tempo barroca. Do lado oposto da polêmica estão outros intelectuais.] A natureza não somente era menos vigorosa prolífica no Novo Mundo. comerciantes e ainda com uns “selvagens” brasileiros levados a Rouen durante o reinado de Carlos IX. codicia.

durante o século XVIII a produção artística das colônias excedeu a da Espanha e de Portugal. o Jardim Botânico do . porém. em estabelecer hierarquias. nem se deve. (2005. relata não haver outro sentimento senão encanto: as dificuldades de aclimatação tendiam a inexistentes. Contradiz-se. Refuta definitivamente a ideia de degeneração dos animais europeus na América e enaltece todos os aspectos culturais de sua terra natal e do Peru. restringindo sua defesa às sociedades “civilizadas”. (HUMBOLDT apud VENTURA. De qualquer forma. uma contradição ainda maior: apesar de defender a América em sua unidade. muitos dos quais ele se propôs a analisar através da interação de todos os fatores naturais que teve a oportunidade de observar em sua viagem. os estabelecimentos científicos do México e a biblioteca de Botânica eram de tão boa qualidade que nenhuma da Europa poderia ousar comparar-se. porque. afirma e reafirma que não se pode. Nos setecentos foram construídas. Apresenta. resultando em uma mistura densa de história natural. Segundo Méndez-Bonito. los segundos para mostrar la invalidez y relatividad de esos sistemas antiamericanos que arrojarían las mismas conclusiones si se aplicaran al estudio del Antiguo Continente. não se esforçam por conceber com uma visão de conjunto a estrutura do globo terrestre. viajando pela América do Sul e pelo Caribe de 1799 a 1804. comenta: Essas idéias se propagaram com facilidade. em solo americano. uma posição ambígua. porém mescla conceitos religiosos aos racionais. La obra de los jesuitas defensores de América constituye un ejemplo de cómo la razón ilustrada es una y la misma. A respeito da degeneração dos animais domésticos.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 77 Centra suas críticas principalmente sobre a obra de De Pauw. havia leitores e havia estudiosos. 1996. os do antigo. econômicos. (HUMBOLDT apud GERBI. Clavijero opõe-se às generalizações sobre o Novo Mundo e demonstra. de crescente aridez e inércia da terra envelhecida só podem surgir naqueles que. Raynal e Robertson com relação aos astecas. religião. Humboldt critica ainda a falta de apreciação advinda dos naturalistas do porte de De Pauw. Afirma que as Imagens fantásticas de juventude e inquietação. num jogo vazio de buscar contrastes entre os dois hemisférios. se ligavam a hipóteses brilhantes sobre o antigo estado de nosso planeta. Tanto los filósofos europeos como los jesuitas americanos utilizaron la misma lógica de razonamiento: los primeros para desarrollar teorías de principios antiamericanos. p. Os povos do novo continente superariam. O jesuíta demonstra admirar a racionalidade ilustrada e a universalidade do ser humano. 242) Alexander von Humboldt. por considerá-la a mais ofensiva dentre todas as calúnias propagadas sobre a América. através de uma obra maestra de algum filósofo. contudo. partindo de vários exemplos baseados em sua vivência. comparar os povos da Nova Espanha e do Peru aos demais do continente. as primeiras bibliotecas públicas. em muitos tópicos. sociais e culturais desenvolvidos no continente pelas mãos de seus administradores. A diferença entre mexicanos e europeus seria relativa somente à falta de instrução dos primeiros. 1954). história civil e cultural e filosofia iluminista. Segundo Pedro Henrriquéz Ureña (1979. e reúne-as basicamente nas Disertaciones e na Historia Antigua de México. em muitos aspectos. que os nativos americanos têm valor equivalente aos europeus. o que confere a seus escritos. seu estudo incrementou sobremaneira as discussões em torno da polêmica. circunscrita a los límites que le impone su propia naturaleza. 307) Humboldt rechaça ainda vários dos postulados de Buffon e De Pauw. A defesa suprema da América não foi feita. lisonjeando a vaidade dos europeus. mas foi garantida pelos processos políticos. p. porém. lamentando que os mesmos não tivessem se dado a oportunidade de aprofundar-se em tão instrutivas culturas. 1988). política.

v. Juan Ignacio de Molina y Juan Velasco. O México na “Polêmica do Novo Mundo”: humanismo. São Paulo: Cia das Letras. história natural e ilustração. Buffon. En el Brasil. las cantidades eran extraordinarias: así. Referências bibliográficas DOMINGUES. Afirma que Entre las gentes educadas de la América hispánica hubo mucha afición a la lectura. Pedro (1979): Historia de la cultura en la América Hispánica. 1979.F. em primeiro lugar. empresa que. Boyle. 39. fundamentaram a justificativa teórica da emancipação das colônias. puerto de Lima. Pensar sobre as discussões em torno da “polêmica do Novo Mundo” nos leva a delinear de forma mais clara como a ignorância funciona como um véu sobre os olhos. Os ideais iluministas. Culturalmente é possível ser conduzido por um caminho etnocêntrico de rechaço a outras culturas diferentes da própria. História de uma polêmica (1750-1900). Económica.. Locke. a n p h l a c . Terry (2006): A ideia de cultura. inclusive. Laplace. por ejemplo. En el siglo XVIII circulaban muchos libros de orientación moderna: la Encyclopédie. [. HENRIQUEZ URENA. o Observatório Astronômico de Bogotá e a Escola Náutica de Buenos Aires. capacidades físicas etc. Disponível em: <http:// w w w. HENRIQUEZ URENA. gênero. Gassendi. políticos e econômicos. em sua história. Goiania.78 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS México. Madrid: Iberoamericana. Condillac. LEDEZMA. Além da intensa atividade cultural. GERBI. Pedro (1954): Las corrientes literarias en la América hispánica. Leibniz.] 221-250. Anphlac : Revista Eletrônica. México D. o r g / p e r i o d i c o s / r e v i s t a / r e v i s t a 5 / dossie2. São Paulo: Unesp. México: Fondo de Cultura Económica. Ureña tece largo comentário sobre a vida cultural latinoamericana. Luis Millones. en 1785. Descartes.. 5. EAGLETON. Anual. Domingo.) É claro que os corpos humanos diferem. manifestações das Luzes se fizeram sentir fortemente nos aspectos sociais. Houve um entrelaçamento dos temas ilustrados às formas tradicionais. pp. . Lavoisier. fez com que os críticos do “Novo Mundo” pudessem repensar seus valores a partir da força dos fatos históricos. Antonello (1996): O Novo Mundo. historias naturales u el Nuevo Mundo. 2006. porém existe algo essencial no homem que mantém mesmo as culturas mais fechadas com um potencial de ser inerentemente ilimitadas e abertas. etnicidade. sumaba 37 612 volúmenes. 2010. Silvia Navia (2005): Las historias naturales de Francisco Javier Clavijero.pdf>. Montesquieu. Mas não diferem naquelas capacidades – linguagem. In: FIGUEROA. una sola remesa de libros recibida en El Callao. através da penetração gradual e moderada do “espírito do século”. Voltaire. Rousseau. los libros suplían la falta de universidades (…) Las listas de obras remitidas de Europa a los libreros de las colonias abarcan la mayor variedad concebible de títulos y asuntos. sexualidade – que lhes permitem entrar em um relacionamento potencialmente universal uns com os outros.: Fondo de Cult. MENDÉZ-BONITO. abrangendo as mais variadas manifestações artísticas. quando alcançada. deixa-se de ver com clareza e o que resta são impropérios. p. Beatriz Helena (2010). se mantuvieron en circulación secreta todavía cuando se les consideró peligrosos y se prohibió su lectura (HENRIQUEZ UREÑA. El saber de los jesuitas. catolicismo. o Museu de Historia Natural e o Jardim Botânico na Guatemala. Copérnico. Acesso em: 05 jun. denotando o uso inteligente e adaptado às necessidades locais. obras de Bacon. trabalho. Terry Eagleton lembra que A sociabilidade se impõe a nós como indivíduos em um nível ainda mais profundo do que a cultura.

. Roberto (1988) L e i t tu ras Ra ilust r ação na A mér ica L at ina. set/ dez. Instituto de Estudos ilustr mérica La tina. p h p ? p i d = S 0 1 0 3 40141988000300003&script=sci_arttext>. Disponível em: <http://www. 1988. 2010. Acesso em: 08 mai.scielo. Nota * Bolsista CNPQ. Aluna do mestrado em Teoria da Literatura através do Programa de Pós-graduação em Letras da Universidade Federal de Pernambuco. Avançados da Universidade de São Paulo. São Paulo.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 79 ur as de R a y nal e a VENTURA.br/ s c i e l o .

buscaremos desenvolver ao longo deste estudo uma breve reflexão acerca do exercício de tradução cultural e linguística que permeia algumas dessas manifestações poéticas e narrativas. as manifestações do universo canônico hispano-americano.80 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS A HISPANIDADE DISPOSTA EM PARALELO: VOZES LITERÁRIAS CONTEMPORÂNEAS DOS POVOS ORIGINÁRIOS DAS AMÉRICAS Amarino Oliveira de Queiroz Universidade Federal do Rio Grande do Norte As experiências literárias contemporâneas cultivadas em língua espanhola pelos chamados povos originários das Américas configura matéria de pouquíssima visibilidade no ambiente da pesquisa acadêmica brasileira. compêndios. por exemplo. que chegou mesmo a reivindicar no livro intitulado Decolonising the Mind – The . Na tentativa de identificar criações que. até certo ponto. O uso de idiomas europeus como língua de literatura em detrimento dos idiomas locais veio configurando questão bastante delicada por dividir a opinião de realizadores. as quais via de regra contemplam regularmente a experiência peninsular e. Na África e na América hispânica. ausentes que estão na maioria dos livros. Tal situação é agravada pela quase nenhuma circulação desses textos poéticos e narrativos entre nós. críticos e observadores da cultura em alguns espaços geopolíticos conformados pela experiência colonial. na condição de veículos de comunicação interétnica e de elaboração estética. preocupados não apenas com o trabalho de afirmação de seus pertencimentos etnoculturais e suas identidades literárias. diversos autores e autoras se movimentaram e se movimentam no sentido de instrumentalizar as línguas locais. Os argumentos favoráveis a esta utilização foram rechaçados por escritores como o queniano Ngugi Wa Thiong’o. por exemplo. Em meio ao trabalho acabam sendo preteridas outras possibilidades de apreciação estética e crítica desse universo. investindo numa maior visibilidade internacional das chamadas literaturas menores ou periféricas. passaremos a referir como literaturas em espanhol dos povos originários das Américas. bem como as manifestações literárias bilíngües do povo zapoteca no México. quíchua. mapuche ou guarani. em seu conjunto mais amplo. entre outras experiências equivalentes relacionadas aos povos maia. manuais. como é o caso das literaturas africanas de língua espanhola ou os registros literários hispano-filipinos em espanhol e em chabacano. lado a lado com a língua do colonizador. antologias ou coletâneas brasileiras de literaturas de língua espanhola.

son. 61). que el portugués de Luandino Vieira o de Pepetela no es el de Coimbra o Lisboa. dentro do debate lingüístico. destaque-se o exemplo do poeta. e também noutros. sino el que se habla en los suburbios de Abidján o Brazzaville. tais como The River Between ou Weep not. y que. Soynka empreende em seu exercício poético e ficcional uma combinação entre técnicas assimiladas do Ocidente e o expressivo universo cultural iorubano. Ele que o diga. o recurso exclusivo das línguas africanas para a produção literária escrita do continente. contudo. ¿Por qué no reconocer entonces que la lengua. em 1986. p. sino el de la gente iletrada de Luanda o Maputo. isto agravado pelo fato de que é supostamente na Europa e nos Estados Unidos que se encontra a maior parte do público das literaturas anglófonas e francófonas. Chinua Achebe o Ben Okry no es el de Oxford. publicidade e difusão da obra literária. ante todo. contrariando . 3) De acordo com grande par te da crítica literária africanista que adotou opiniões concordantes. romancista e crítico Woyle Soynka: primeiro escritor da África negra a conquistar. que o imperialismo cultural manifesta-se no domínio lingüístico. sino el de los obreros de Lagos. o argumento defendido por Ngugi Wa Thiong’o não chegaria a estabelecer um consenso sequer entre seus pares. para quem: Ngugi esquece-se. que el inglés de Amos Tutuola. sino el de Malabo y Bata. Neste sentido. Que nos diga por que razão as suas últimas obras. 1992. recorrendo à memória e às tradições orais bem como a um profundo engajamento social e político. Esta atitude foi contestada por vários autores e críticos literários como é o caso do angolano João Carlos Venâncio. escritos ainda em inglês. a posição dos escritores africanos francófonos admite a legitimidade e reivindica o uso dos dois procedimentos. todas las lenguas. Thiong’o baseia seu argumento numa possível maior capacidade de apreensão das culturas africanas através das próprias línguas autóctones. Nas modernas literaturas da África. o gikuyu.o que defendeu no seu ensaio Decolonising the Mind . co-autor). o prêmio Nobel de Literatura. atendo-se ao modo pelo qual a utilização das línguas tomadas de empréstimo legitima o exercício criativo desses autores. como ya sucede en Hispanoamérica.de certa forma . disposição também compartilhada pela maioria dos escritores anglófonos. 23). propriamente dito. Para trazer outro importante nome da literatura nigeriana escrita originalmente em inglês. como o da publicação.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 81 Politics of Language in African Literature. de 1986. do Caribe e da América Latina produzidas em línguas europeias é cada vez maior o registro de experiências estética e politicamente inovadoras. p. em linhas gerais. el español de María Nsue y de Maximiliano Nkogo no es el de Burgos o Madrid. child . instrumentos de comunicación. entendendo que o vasto leque de possibilidades investigativas que se abre no espaço acadêmico brasileiro revela tanto a urgência quanto a necessidade de atualizar e incluir. Diante do exposto. y lo importante es cómo y para qué se usan? (NDONGO-BIDYOGO. cultural e literário de intenção hispanista as múltiplas realidades através das quais . são exemplos perfeitos de como a ficção africana nada perde em autenticidade cultural por utilizar idiomas da colonização como meio de expressão literária. Os próprios livros de Ngugi. já que. é pertinente a constatação do escritor e crítico literário guinéu-equatoriano Donato Ndongo Bidyogo: Dicen los expertos que el francés en que escribieron Amadou Kourouma o Sony Labou-Tansi no es el de París. foram imediatamente traduzidas do gikuyu para o inglês? Na verdade. Descrevendo as razões que o motivaram a substituir o inglês pela sua primeira língua. revelando caminhos diversificados e abrindo espaço para interessantes soluções não só no fazer literário como na própria estrutura das línguas “tomadas de empréstimo”. 2006. p. não é propriamente o uso do idioma herdado do colonizador como meio de expressão literár ia que torna as literatur as afr icanas cultur almente inautênticas ou mesmo as circunscreve aos domínios ur banos ou alfabetizados. (LEITE: 1998. (VENÂNCIO. Devil on the cross (romance) e I Will Marry when I want (drama.

la lucha por la restitución de soberanías y autonomías territoriales en el nivel político y social. estético. Mas é principalmente durante todo o século posterior que várias destas literaturas escritas passaram a experimentar de efervescência criativa na busca de uma autonomia estética. La emergencia de dicha producción literaria se ha vuelto notable en países como Perú (quechua). uma vez que tal atividade. cultura. artigo que intenta realizar um breve mapeamento das escritas contemporâneas de autores e autoras na América de língua oficial espanhola. Tal caráter parece pontuar grande parte dos discursos identitários formatados. em muitos casos . é sabido que tanto através da tradição oral como por meio do exercício da escrita nas próprias línguas autóctones e em castelhano seu pensamento e expressão cultural tiveram continuidade e difusão. algumas vozes literárias contemporâneas emanadas dentre os povos originários das Américas. entendida como um projeto lingüístico. passando pelo peruano José María Arguedas até o guatemalteco Miguel Ángel Asturias. em “Literaturas de Abya Yala” 1. Bem a propósito. os pesquisadores Arturo Arias. En efecto. ensino e literatura. Esta característica é flagrante já a partir de meados do século XIX. envolvendo incontáveis escritores que vão desde o boliviano Alcides Arguedas ao equatoriano Jorge Icaza. epistêmico e político representa importante fenômeno ocorrido na produção simbólica do continente: En estas literaturas se reconfiguran las subjetividades indígenas y se cuestiona la hegemonía de “literaturas nacionales” circunscritas al imaginario de la población hegemónica criollomestiza de los Estados-naciones dominantes.82 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS se movimenta o castelhano em sua condição de idioma de comunicação. De modo assemelhado ao que ocorre com a escrita africana contemporânea em português e espanhol. produzidas em contextos onde também a língua castelhana comparece como protagonista lado a lado com outros idiomas de literatura. gerando assim momentos de afirmação positiva e de reconhecimento internacional. Luis Cárcamo-Huechante e Emilio del Valle Escalante (2012) argumentam que a emergência desse corpus autoral não apenas põe fim ao império dos indigenismos crioulos e mestiços. no imaginário americano e na realidade sócio-cultural dos povos indígenas e seus descendentes. . Muitos de seus autores encontrariam forte substância na tradição pré-colombiana. como também inscreve a literatura num território de agenciamento indígena dentro do atual contexto latino-americano. para ficar com apenas quatro desses nomes. Um extenso leque de exemplos caracteriza esta tendência. fazendo com que esta auto-representação e essa autodeterminação literária dos povos originários das Américas configurem um modo de dotar-se de soberania intelectual. a partir de experiências literárias à margem. que hoy articula las movilizaciones de los pueblos originarios. seja por um particular procedimento de reinvenção lingüística e renovação estilística motivado pela interpenetração cultural cada vez mais ativa e diversificada. se anticipa en el terreno de la literatura escrita. o processo de re-apropriação da língua do colonizador constitui uma das tendências claramente identificáveis em grande parte da obra assinada por representativos nomes das literaturas latino-americanas escritas nestes dois idiomas ibéricos.e também em língua castelhana. pretendemos chamar a atenção para o caráter inclusivo desta condição plural e polifônica. tanto como estratégia de visibilização dos discursos poéticos e narrativos subalternizados como na condição de espaço de resignificação cultural e re-apropriação lingüística como parecem descrever. seja pela interferência dos idiomas autóctones e de outras línguas estrangeiras. sobretudo. No que diz respeito aos povos originários das Américas propriamente. pese as sucessivas tentativas de apagamento decorrentes da experiência colonial. período que corresponde à independência política e à consolidação dos vários novos Estados americanos.

Tal es el caso de las “lecturas literarias” de los poetas Leonel Lienlaf y Víctor Cifuentes (cultores del ül o canto mapuche). tradutora e . especialmente en las últimas dos décadas. ejemplificándose en la poesía de Dourvalino Moura Fernández (pueblo desana) y Daniel Munduruku (pueblo mundurucu) en Brasil. uma vez que Poetas y escritores indígenas contemporáneos mixturan además sus lecturas públicas con recursos sonoros. ni en la adhesión fiel a los modelos hispánicos. Não obstante. expresión de una cultura que ya no se puede encasillar en un pasado prehispánico. para além do seu contexto específico de produção. de acordo com a investigadora Michela Craveri.. (Pineda. en línea. a ensaísta e tradutora zapoteca Irma Pineda Santiago. o primeiro romance bilíngüe espanhol-maia. 2012). El estilo de la autora. 2012. comienzan a ganar visibilidad otras literaturas indígenas emergentes.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 83 Chile (mapuche). Guatemala (maya). ESCALANTE. 25-26) En este nuevo contexto. 2009. su difusión estaría restringida al ámbito comunitario. Esto conlleva una desestabilización de nuestros marcos categoriales e invita a indigenizar “la ciudad letrada” (. (. la capacidad de cruzar barreras lingüísticas y formales.. as práticas literárias desenvolvidas por vários desses criadores e criadoras não estão delimitadas apenas pelo chamado universo letrado. o de Rosa Chávez (ritualidad colectiva maya). Lorenzo Aillapán (sonidos pajariles del entorno mapuche).) romancista yucateca Marisol Ceh Moo. necesariamente tiene que ser traducida al español.). a autora preteriu a retomada de relatos sobre a criação do mundo e outros elementos da cultura e da cosmogonia maia para investir na ficcionalização da vida e do assassinato de uma liderança social ocorrido nos anos 70 do século passado. CÁRCAMOHUECHANTE. paulatinamente. las identidades urbanas de la contemporaneidad indígena comienzan a adquirir notoriedad en narraciones y poemarios. lançado em 2009 pela ensaísta. que saca origen de la literatura hispanoamericana. Los textos no se agotan en el espacio escrito. uma tarefa problemática. uma experiência estética inovadora e politicamente instigante como exercício de tradução cultural. (ARIAS. zapoteca y náhuatl) y. CÁRCAMO-HUECHANTE. incluyendo aquellos lenguajes del entorno animal y natural. Dichas prácticas indigeneizantes se suelen asimismo enriquecer con el uso de las técnicas contemporáneas de la performance. Assim vêm se multiplicando experiências assemelhadas nos vários quadrantes da antiga América de colonização ibérica.. também ela própria poetisa bilíngue entende que esta produção literária contemporânea dos povos originários das Américas no puede concebirse sino de manera bilingüe. han hecho de este texto un ejemplo significativo de la nueva producción literaria en las lenguas indígenas de México. a obra de Marisol Ceh Moo se caracteriza por un equilibrio entre las fuentes prehispánicas y una experimentación formal. Alimentando a proposta a partir de um lugar de enunciação que se aproxima ao de Marisol Ceh Moo. 9) o que parece configurar. Tal es el caso de la literatura indígena en Colombia (. musicales. De modo distinto ao de outras publicações realizadas anteriormente.. p. las temáticas sociales. pp. ya que es una creación pensada en alguno de los idiomas originarios de nuestro país. México (sobre todo maya. en otras latitudes del continente. (ARIAS. ESCALANTE. Se amplifican en el evento de la performance pública. Así. Asimismo. tematizando a mobilização das populações autóctones na península de Yucatán. ainda que tomando como veículo de expressão e divulgação a língua do antigo colonizador. Traduzir e traduzir-se configuram. pero con una perspectiva interna a los grupos mayas. entretanto. 7-8) Não obstante. como é o caso de XTeya. u puksiikal koolel (Teya. la autora incursiona con su novela bilingüe en un género tradicionalmente escrito en español. por lo que para poder llegar a una diversidad de lectores y escuchas. un corazón de mujer). (CRAVERI. pero de permanecer sólo en éste..) También resaltan en este proceso las producciones literarias escritas de autores nativos de la Amazonía. pp. visuales y corporales provenientes de sus tradiciones rituales nativas. contista. 2012.. en lengua española.

Portsmouth.: Heinemann. de Marisol Ceh Moo”. Nº 50. Año XXV. El Caracol. e onde o saber indígena seja um componente fundamental das novas sociedades. 13.culturaspopulareseindigenas. pois. Rev ista de Crítica Literaria Latinoamericana.F. Teya. Literatura guineana: una realidad emergente. Decolonizing the mind: the politics of language on African Literature.: Consejo Nacional para la Cultura y las Artes (Letras Indígenas Contemporáneas). NDONGO-BIDYOGO. 9-12 QUEIROZ. o estabelecimento de um diálogo permanente entre escritores de diferentes línguas e culturas no mundo. 2do. N. CRAVERI. Irma. . Referências bibliográficas ARIAS. e é através dela que os movimentos indígenas costumam identificar o continente americano em sua totalidade. pp. mas também como uma riqueza a ser explorada no sentido de fazer valer. conforme já apontava Antonio Cornejo Polar (1999) na penúltima década do século passado. VENÂNCIO. Semestre de 1999.H. La autotraducción en la Literatura Indígena: ¿cuestión estética o soledad? Disponível em: www. como um desafio permanente. Natalio. Literatura Indígena. um dos iniciadores do movimento de escritores indígenas no México.hofstra. 2008. Disponível em: http://www.1998. 1990. México D. José Carlos. Michela. n. 2007. Recife: UFPE. Lasaforum. Ngugi wa. As inscrituras do verbo: dizibilidades performáticas da palavra poética africana.pdf Acessado em 12 ago 2012. winter 2012 : volume xliii : issue 1. Lisboa: Ministério da Educação . mas também um exercício cada vez menos restritivo de literatura e do próprio fazer literário. HERNÁNDEZ. Luis. “Literaturas de Abya Yala”. é a própria Irma Pineda Santiago quem indaga sobre o papel que devem desempenhar os escritores indígenas no futuro. ESCALANTE.edu/ PDF/lacs_event_040306. Programa de Pós-graduação em Letras. “X-Teya. Donato. 2009. Acesso em: 5 mai 2006. A dinâmica ascendente dessas escritas bilingües. Literatura e poder na África lusófona. Nota 1 No idioma cuna do Panamá. para que juntos possam contribuir para a conformação de um novo tecido social onde as novas gerações vivam e convivam num ambiente social pluricultural e plurilingüe. Conferencia en Hofstra University. tributárias das criações na oralidade e do letramento em língua espanhola se nos coloca. THIONG’O. ayer y hoy. “Para una teoria literaria hispanoamericana”. a expressão Abya Yala significa “tierra en plena madurez”. PINEDA.84 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Retomando as considerações do poeta e professor de literaturas indígenas Natalio Hernández (1990). fazendo suas as palavras do professor mexicano e defendendo. não apenas um conceito. CEH MOO. pp. Marisol. Arturo. Curry. Emilio del Valle. CÁRCAMO-HUECHANTE. POLAR. LEITE.pdf. un corazón de mujer. 2006. Amarino Oliveira de. 25-26. Oralidades e escritas nas literaturas africanas. Ana Mafalda. Tese de Doutorado. por conseguinte.1992. un corazón de mujer. Lisboa: Colibri. Lima-Hanover. 1986. 3 de abril. México: DGCP.mxcppdfla_auto traduccion_irma_pineda.Instituto de Cultura e Língua Portuguesa. Antonio Cornejo.gob. London: J.

o jaquetía ou haquitía do Marrocos. na dança ou na manutenção de uma religiosidade católica que perpetua. com suas respectivas literaturas. ainda. do chabacano e de outros idiomas nacionais das Filipinas. o ritual católico da crucificação durante as festividades da Semana Santa. Com destaque na expressão arquitetônica. uma grande área a descoberto no que tange aos estudos hispanistas desenvolvidos em território brasileiro até o presente.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 85 ÁFRICA. atualmente o castelhano enfrenta um delicado processo político particularidades e implicações culturais do idioma espanhol e sua apreciação como língua de literatura a partir de outros contextos que não o peninsular ibérico e o hispano-americano parecem representar. ÁSIA E OCEANIA: FRONTEIRAS FLUIDAS DO HISPANISMO Amarino Oliveira de Queiroz Universidade Federal do Rio Grande do Norte Salvo raras exceções. a resistente presença do idioma na comunicação e na expressão literária produzida no Saara Ocidental e nos acampamentos para refugiados saarauis em Tinduf. a chamada literatura filhispana. o chamorro de Guam e das ilhas Marianas: cada um destes exemplos aponta em maior ou menor grau para a emergência do tema proposto. e a interferência do castelhano na formação do tagalo. sugerindo uma discussão que passa por questões diversas como o direito à informação. a questão identitária hispânica revela algumas complexidades do ponto de vista linguístico nas Filipinas. as diversas língua espanhola. as inserções hispânicas sobre a cultura rapanui da ilha de Páscoa. as relações entre o cânone e as margens ou a eleição de prioridades na hora de propor e cumprir os atuais componentes curriculares dos cursos de Letras. as leis do mercado editorial. a crescente utilização dessa língua como recurso literário por parte de vários autores e autoras oficialmente francófonos nos Camarões e na Costa do Marfim. na África. por exemplo. Argélia. as relações do guanche autóctone com o castelhano das Canárias e suas implicações culturais. a colonização e a descolonização intelectual. ou literatura filipina escrita em . no artesanato. inclusive. Presente como língua co-oficial até o ano de 1987 ao lado do tagalo e do inglês. Vejamos. Se nos ocuparmos da Ásia e da Oceania teremos o judeu-espanhol ou ladino de Israel e sua presença na comunicação e na literatura. ao sul do Pacífico. a literatura hispano-negro-africana da Guiné Equatorial.

no campo cultural. o conto e o romance. a de crescimento. De allí el debate actual y absurdo de si Filipinas debería hispanizarse de nuevo o no. com destaque para o nome de José Rizal. dramáticos. para a formação do idioma chabacano e de outras línguas locais. Além dos trabalhos individuais em livro. em que se desenvolveram a poesia e o ensaio.86 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS de restabelecimento desta condição. Elisabeth Medina. apesar de exemplos curiosos como o do cantor Josh Santana. encontrando reverberação também.. de artistas que defendem uma estética abertamente fil-hispana. como veremos a seguir. y ahora de nosotros frente a nosotros mismos. Concepción Huerta. na qual floresceram. causada pela supressão do castelhano e da crescente anglicização do país. opinando sobre a polêmica instaurada a partir de uma possível “rehispanización” cultural e linguística do arquipélago das Filipinas. correspondendo ao período formativo e onde predominaram a poesia e a crônica.los filipinos somos un nexo viviente entre Occidente y Oriente.. além da poesía e do ensaio. apesar da atual vigência e prestígio interno do idioma inglês. Somos de los dos mundos y los dos mundos son nuestros. A essa lista de autores e autoras podemos acrescentar o próprio Guillermo Gómez Rivera. também se expressam literariamente em castelhano. autor de importantes textos ficcionais. essa expressão contemporânea da literatura filipina em língua castelhana é alimentada pela publicação de revistas como “Guirnalda Polar” ou “Perro Berde”. por volta de 1593. Somente no século XVI. realizada por missionários católicos. Marra Lanot ou Wystan de la Peña. caso do já referido cantor pop Josh Santana ou da artista plástica e escritora Paulina Constancia. La mirada naturalista y determinista. representada por nomes como os de Antonio Fernández Pasión. Cuando Filipinas “siempre” ha sido hispanizada. a da decadência. Não obstante. durante o século XIX. Cultivada inicialmente em tagalo através de alfabeto silábico próprio. y después. o escritor Guillermo Gómez Rivera (2001) propõe uma periodização dessa literatura em quatro principais etapas: a inicial. Gómez Rivera refere ainda a existência de uma literatura hispano-filipina contemporânea. é que foram aparecendo os primeiros criadores. a quase totalidade destes registros escritos desapareceu. na atualidade. a da plenitude. ou seja. a escritora Elisabeth Medina (2000) afirmaria que: . dentro e fora do arquipélago. além de contribuir. dijo que éramos indios o asiáticos y por lo tanto debemos atenernos a ser lo que somos y nada más. eliminada por iniciativa dos conquistadores da mesma maneira como ocorreu com a maioria dos códices pré-colombianos nas Américas. rápidamente sufrieron primero el trueque cultural y la supresión del pasado. poéticos e da letra do hino nacional filipino. Sólo que los “filipinos” nacidos a partir de 1901. Em sua Breve Historia de la Literatura Filipina en Español. e mais Edwin Agustín Lozada. uma simbiose cultural filipina perpassada historicamente por elementos autóctones e hispânicos. criadores bilíngües que. Edmundo Farolán Romero. Esse caráter fil-hispânico é igualmente defendido por outros setores artísticos e culturais naquele arquipélago asiático. conforme mencionado. o teatro. Federico Licsi Espino e Mariano Loyola. María Dolores Tapia del Río. ou pela iniciativa. resistindo como língua de literatura. O debate acerca do tema provoca opiniões diversificadas e nem sempre favoráveis nos mais diferentes setores da vida nacional. na sua literatura contemporânea. que também defende o conceito de fil-hispano em parte de sua obra gravada simultaneamente em inglês e espanhol. o surgimento de uma expressão literária filipina é bastante anterior à chegada dos colonizadores espanhóis. no século passado. tanto de los españoles y de los norteamericanos. Bem a propósito. com a introdução da escrita em espanhol com caracteres latinos. la franca .

Em seu poema “Elogio a la Hispanidad”. pp. p. Encuentro el hispanismo de Aparri hasta Joló: Filipinas y España. O uso literário do castelhano em países asiáticos como as Filipinas é uma realidade compartilhada com a de alguns Estados africanos. Situação similar vive a literatura produzida no Saara Ocidental.. Nascido em Manila em 1943. textos teatrais e ensaios críticos. ni en los países hispanos. Me gusta jazz y disco. el nombre Filipinas. tagalo. portanto.. o bien en el extranjero (fenómeno en cierta forma común a otras literaturas post-coloniales). Edmundo Farolán Romero revela através da voz lírica o duplo lugar cultural de um autor que.) […] Pero pronto llegaron las aves de rapiña— El gringo o el yanqui su nombre no importa. A G. bien en el suelo patrio. textos que a menudo hablan de Filipinas o que de todas formas presentan un enfoque. Inongo-V i-Mak ako mé. (MEDINA. en línea).. além do espanhol. (. Me gusta el dinero. entre outros).) Estamos delante de textos escritos y publicados (. se expressa literariamente em inglés. novela. convertendo-se numa opção estético-literária. de familias filipinas. una sensibilidad. contos. hombres y mujeres nacidos en Filipinas. editor de literatura e professor de língua espanhola. ¿quién soy yo? Y busco en lo español al indio filipino. la pregunta. disposto entre parênteses. que a través de diferentes voces. 1981. para dizê-lo com palavras de Andreas Gallo (2007:160). (En esta lucha del Yo. francês e outros . un punto de vista sobre la realidad. Se para israelenses que escrevem em judeu-espanhol (Avner Pérez. I.. sigue manteniéndose viva y representando una tradición que para muchos filipinos es patrimonio de identidad. Guy Merlin V i-M Tadoun. na permanência e atualidade dessa particular expressão literária. é novamente o hispanista italiano Andréa Gallo quem observa: el gran problema del escritor filipino que decide escribir en español es la falta de un público nacional y en consecuencia la falta de un público internacional. 20062007.. Don Segundo Sombra. La nobleza cristiana se esfuma en estas islas. una interpretación del mundo peculiarmente filipina y curiosamente son textos que se dirigen a los filipinos. transformaram o castelhano literário em sua verdadeira plataforma de expressão. “pone de manifiesto el sincretismo original de la nación filipina” e estabelece. al dólar y al peso. Honrando al Rey Felipe. Ya no soy cristiano. Sin embargo esta situación no ha decretado la muerte definitiva y permanente de esta literatura. [. Edmundo Farolán (1981) apresenta uma voz lírica ambígua que. em países oficialmente francófonos da África diversos escritores e escritoras ak o mé (Robert Johlio. 30-31) Autor de poesia. En su lugar el inglés y su música tonta.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 87 tergiversación y aniquilamiento de su conciencia histórica. Farolán desenvolve outras atividades lingüísticas como a tradução para o tagalo do conhecido romance de Ricardo Güiraldes. política e identitária. Céline Cléménce Ndé e Mbol Nang. este país mestizo. Allí es donde me meto. Joe y MacArthur. (Y yo me desespero. A ese archipiélago de numerosas islas Descubiertas el año mil quinientos veintiuno. ainda que escrevendo paralelamente em outros idiomas por motivações muitas vezes coincidentes. dividida entre os dois idiomas oficiais do pais: o árabe hassania e o espanhol. um curioso diálogo intercultural: Y llegó el español a esas islas indias Magallanes su nombre. Apostando.) por filipinos. idiomas.. Soy “brown” americano. (GALLO. Germain Metamno. 152-153). 2000 .] (FAROLÁN. la espada en la mano. Lo mataron al león el león de Castilla. Tras dos razas unidas. a este camino voy yo. Margalit Matitiahu) e filipinos que escrevem em chabacano e espanhol o hispano resiste.

Mohamed Sidati ou Abderrahman Budda Hamadi. Localizado ao sul do Marrocos. também conhecido por Ebnu. também ao longo de suas obras uma multiplicidade de vivências culturais que por sua vez reivindicam. Apesar de ter quase toda a superfície territorial inserida dentro da zona desértica homônima. Não obstante. real e simbolicamente. esta recente literatura hispano-saaraui envereda ainda pelo romance. como dissemos. em síntese. muitos dos autores e autoras saarauis refletem. 1 . Fatma Ghalia ou Limam Boisha entre eles. a República Árabe Democrática Saaraui foi invadida e ocupada militarmente pelo exército marroquino. ganhando expressividade como língua de resistência cultural que se caracteriza pela influência de arcaísmos do castelhano ou a assimilação do idioma árabe. Mohamidi Fakal-la. entre os mundos arábico-africano e europeu-ibérico. A língua espanhola aparece ali. Além de cultivar fundamentalmente a poesia. o Saara Ocidental também divide fronteiras com a Argélia e a Mauritânia. com escritores como Ahmed Mulay Ali. profunda. sobretudo a partir do exterior. la felicidad y la profunda pasión por hacer que la vida de los saharauis deje de ser rutinariamente triste y dolorosa. sino. sobretudo através do conto e do ensaio: Mohamed Ali Ali Salem. a ampliação desses espaços. Bahia Mahmud Awah. três influências principais: a tradição oral fortemente apegada à natureza e às vivências de seu país. o que teria motivado a sua invasão e ocupação militar quase que imediatamente após declarada a sua independência.88 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Território cedido por acordo em fins de 1975 pela monarquia espanhola ao Marrocos e à Mauritânia. passando a ser objeto de uma disputa política que envolve confrontos armados e negociações diplomáticas sem solução até os dias atuais. que já vem se arrastando há mais de trinta anos. Larosi Haidar. también una evidente preocupación por lo que pasaba en el mundo. pois. De acordo com o estudioso Francisco Cenamor (2008). No es hasta finales de los ochenta y principios de los noventa cuando parece que comienzan a aparecer atisbos claros de una poesía seria. Quanto à atividade literária. na condição de língua co-oficial ao lado de uma modalidade local do idioma árabe. Mesmo com uma produção mais reduzida. porém torna-se necessário acrescentar que o seu surgimento é relativamente recente: as primeiras manifestações literárias registradas em espanhol por autores locais tiveram lugar nas últimas décadas do século XX. preocupada por todo lo que acontecía en su entorno. Divididos. Conforme assegura o poeta Mohamed Salem Abdelfatah (2007). já que grande parte de seus escritores e escritoras vive fora do país. diversos criadores se dedicam também à prosa. Um juízo descuidado poderá classificá-la como incipiente. de quem está fisicamente separado por enormes muros especialmente construídos para este fim. a produção saaraui em castelhano revela uma forte interferência da criação poética e narrativa na oralidade. acumula força nos acampamentos para refugiados saarauis montados em território argelino. embora venha perdendo espaço gradativamente nos territórios ocupados. ou Frente Polisario. além de desenvolverem intensa relação com o universo hispano-americano. Además de temas que reflejan la vida cotidiana de la sociedad saharaui no exenta de sentimientos tan universales como el amor. no sólo la lucha del pueblo saharaui y sus aspiraciones de libertad. no mundo árabe o saaraui é conhecido como um povo de poetas e sua atividade apresenta. recuperada da tradição para o formato impresso através de vários livros que vêm sendo publicados. passados três meses de sua autoproclamada e até hoje não reconhecida independência política comandada pela Frente Popular de Liberación de Saguía el Hamra y Río de Oro. sob condições muito particulares. o país é rico em jazidas de fosfato e em atividade pesqueira. a poesia em castelhano da Espanha e da América e a luta pela independência do Reino de Marrocos. Zahra Hasnaui.

aquí particularizadas nos recortes canário e cubano se revela na forma de uma sensível metáfora para atestar. 2005. / y a las tres / las quiero por igual”. Disponível em: http://www. In: La Guirnalda Polar Núm. Mohamed Salem. Salka Embar ek ou Fatma Ghalia Abdesalam. pluralizando-os culturalmente e estendendo pela fluidez de suas fronteiras a transversalidade de manifestações como essas. Luali Lehsan. In: Revista Ariadna 25. felizmente.com/numero25/ sahara/sahara. insistem em brotar. memória e conflito na literatura hispano-americana do século XVI. 1998). Disponível em: http://letraclara. 2004. Cuba y Canarias. complementa seu raciocínio defendendo que a poesia local em espanhol. especial: Cultura y literatura saharaui. pela projeção que está alcançando. culturais e literárias relacionadas ao castelhano hoje. Referências bibliográficas ABDELFATAH. as incertezas política do país. Um mundo singular. hispanas e latino-americanas . Edmundo. portanto. interferências como as dos escritores filipinos Elisabeth Medina e Edmundo Farolán ou dos saarauis Mohamed Salem Abdelfatah e Limam Boisha. Conforme se pode observar através do sujeito poético de “Poligamia”. S alka outras representantes como F at atma hamed. um dos mais ativos grupamentos de escritores reunidos em torno da causa saaraui no exílio. pois. Limam. CENAMOR. O escritor integra a chamada Generación de La Amistad.ariadna-rc. Imaginação. a fim de que questões como a condição da hispanidade se coloque num patamar além das reinvidicações “nacionalistas”. dispondo-as de forma mais abrangente e buscando assimilar a fluidez com que têm se movimentado. Los versos de la madera . Ali Salem Iselmu.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 89 Mohamed Salem Abdelfatah Ebnu atuais das letras hispano-filipinas e saarauis. À guisa de ilustração. FAROLÁN. CORDIVIOLA. Além de Mohamed Salem Abdelfatah. “La poesía saharaui”. Mohamed Salem. 2005. poeticamente.com/ Acesado em: 22 abr 2008. poema de Limam Boisha publicado em Los versos de la madera (2004). Francisco. “Literatura hispanofilipina: pasado. culturas. Chejdan Mahmud. 82 – Pluralidades. ao confessar a existência real e simbólica de “tres…/ tres amantes: Sáhara. converte-se numa ponte que tende a promover um rico encontro entre a cultura autóctone do Saara Ocidental com as culturas espanhola e iberoamericana.wordpress. BOISHA. Saleh Abdalahi. tão interessantes quanto desconhecidas. Alfredo. parece-nos necessário e inadiável incluir. agosto 2003. Sukeina Taleb e Zahra Hasnaui. ideias e sentimentos que ali encontram lugar. Desafiando. no debate brasileiro de intenção hispanista. as várias realidades linguísticas. a relação com outras alteridades africanas. constituem o coletivo Limam Boisha. a mescla das experiências. FUENTES. duas de suas vozes no feminino.htm Acessado em 3 abr 2007. Las Palmas: Puentepalo. tantas vezes legitimadoras de uma pureza original tanto descabida como anacrônica. os recortes aqui esboçados buscaram realizar o registro de alguns nomes presente y futuro”. Embarek O conjunto de elementos híbridos resultantes do progressivo contato entre realidades díspares como a afro-arábica e a hispana encontram na expressão cultural saaraui motivação criadora permanente. . “Poesía saharaui en castellano”. entendendo que esses espaços representam um contributo à parte na perspectiva do redimensionamento de conceitos como hispânico e hispanidade (CORDIVIOLA. Perpectivando. embora a literatura saaraui em espanhol conte com ma A hame d. Recife: PGLetras/UFPE. Bahía Awah. sua emergente presença no cenário das letras contemporâneas assinala também que à literatura hispano-saaraui toca caminhar afirmativamente ao lado das outras tantas expressões literárias que a partir da África.

1981.com/numero25/sahara/sahara. “La poesía saharaui”. In: II Congreso Nordestino de Español. “De la invisible presencia: voces literarias en español desde África y Asia”. GALLO.90 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS FAROLÁN. Quezón City. Contemporánea? Un ejemplo en la poesía de Edmundo Farolán Romero”.html Acessado em: 4 abr 2009. número 25. QUEIROZ. “¿Literatura Hispano-Filipina Disponible en: http://hispanismo. No 1 (2007). 28 de marzo de 2000.ariadna-rc. O. Disponible en: http:// www. “Breve Historia de la Literatura Filipina en Español. FUENTES. 150-174.org/hispanoasia/5218filipinas-hispanizada-una-buena-opcion. Andrea. Org. 2009. Edmundo. Programação e Caderno de Resumos. Carlos. p. In: Tercera primavera. NOTA 1 ABDELFATAH. Disponible en http://www. especial: Cultura y literatura saharaui. 53. 1998. “Filipinas Hispanizada: ¿Una Buena Opción?” In: Hispanismo . RIVERA. Madrid: Taurus. Bogotá: Editorial Cabrera. 2009. In: Revista Ariadna. Filipinas. In: Humanities Diliman . Acessado em: 02 abr 2006. Elisabeth. Vol 3. Mohamed Salem.html. El espejo enterrado. pp. MEDINA.com/kaibigankastil/rivera7. Maceió.htm Acceso en: 3 abr 2007 . Guillermo Gómez. No 2 (2006) & Vol 4. A. “Elogio a la Hispanidad”.geocities.

” (RICO. la neorrealista y la dialéctica. MERCEDES Y ELVIRA – RETRATO DE LA MUJER ESPAÑOLA EN LA POSGUERRA Ana Carolina da Silva Pinto PG . Publicada en 1957. tras pasar por una sangrienta guerra que duró tres años y que dejó sus rastros destructivos en las décadas posteriores. pero obser vamos un cambio en la estructura de la novela. la cronología no es linear y las acciones son descritas de modo simultáneo. de la Guerra Civil Española (1936 – 1939) que dividió el país en dos partes (la España Nacionalista y la España Republicana). la existencialista. 1980. Entre Visillos es una novela que forma parte de la segunda etapa. Según Sanz Villanueva. sigue con el tema de la de la vida en las ciudades y la angustia existencial del individuo. pobreza y varios muertos en ambas partes. y del régimen franquista. JULIA.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 91 NATALIA. de forma que se observa que “la mirada apasionada del autor comienza a ser substituida por el frío contemplar de la cámara fotográfica. la dialéctica. la tercera etapa. hasta la muerte del dictador Francisco Franco. la neorrealista. pues el protagonista individual cede la vez a un protagonista colectivo. en la que las técnicas realistas no fueron una moda. termina exactamente en el año de 1950 y tenía como característica estudiar la vida en las ciudades de los años 40 y la angustia existencial del individuo que en ellas vivía. establecido terminada la guerra con la victoria del bando nacionalista que duró treinta y seis años en el poder (1939 – 1975). Las novelas de posguerra. la neorrealista. Estamos hablando. cuya lección sacamos de su Historia de la novela social española . se dividen en tres tipos: la existencialista y tremendista. según Gonzalo Sobejano. p. La segunda etapa. por Carmen Martín Gaite. desaparece el ansia del testimonio objetivo y surge una visión dialéctica de la realidad española basada en la confrontación de los estratos ideológicos y sociales.Universidade Federal Fluminense A mediados del siglo XX una nueva forma de hacer novelas pasa a ser observada en España. 411). o sea. pero una necesidad de la autora para que pudiera expresarse. Finalmente. por lo tanto. La primera etapa. generando odio. tal forma nueva tenía como objetivos retratar el cotidiano de las ciudades y la crisis existencial por la que pasaba el individuo que en ellas vivía.

así que si no presenciaron el efectivo impacto que toda guerra engendra. escrevem com técnicas de representação que aproximam os discursos narrativos da reportagem e privilegiam a expressão do castelhano coloquial. y dos narradores intradiegéticos. Jesús Fernández Santos (1926 – 1988) e Carmen Martín Gaite podem ser agrupados sob o rótulo de neo-realistas. pues la novela es narrada por tres focos narrativos: un narrador extradiegético que narra en tercera persona todo lo que ve. pues es a través de él que la historia es delineada. A pesar de no ser el personaje principal. Ignacio Aldecoa (1925 – 1969). como se fuera una cámara lo que testimonia. el espacio que les era reservado a las mujeres de la época. Todos eles coincidem na defesa da função social da literatura. esta figura inexiste en este tipo de novelas. presentados a Natalia y a sus hermanas Julia y Mercedes. 1994. Entre Visillos narra. Natalia. Mas nestes últimos impunha-se uma concepção utilitária da arte que por vezes se sobrepunha à salvaguarda da qualidade artística da sua ficção. y la religiosidad que no podría dejar de aparecer. p. Ana Maria Matute (n. Natalia y Pablo Klein. reproduciendo. Pablo Klein y el narrador omnisciente en tercera persona narran la sociedad como ven. outros escritores que orientaram a sua produção no sentido da urgência da denúncia. esa es la razón de la cantidad de diálogo que observamos en ellas y es a través de ellos que la trama es conducida. nos explica el motivo de la necesidad de que se hiciera en España novelas de este tipo. pero. A través de las relaciones que establecen con los demás personajes de la trama. (SANZ VILLANUEVA apud ÁLVAREZ. LOURENÇO. Novela que le dio reconocimiento a su autora por ganar el Premio Nadal en el mismo año de su publicación. por lo tanto. en especial. en estas novelas. São os representantes do chamado realismo social. Juan Goytisolo. que narran en primera persona sus vivencias e impresiones de la sociedad en la que están inseridos. que viven con su padre y su tía. pues como ya vimos. pues estamos tratando de una sociedad conservadora. Entre Visillos tiene como tema principal la situación de las mujeres en los años de 1950 con todos los tabúes y privaciones que tenían que enfrentar. entonces. huérfanas de madre. este personaje se configura como un hilo conductor. El lector es presentado a los hábitos y costumbres de la burguesía de la pequeña ciudad española a partir de tres visiones. por lo menos sintieron sus efectos – Carmen Martín Gaite con Entre Visillos escribe una novela social que hace una crítica a los modelos de conducta femeninos preconizados por la sociedad patriarcal española y a la vez denuncia una sociedad en la cual la mujer no tenía vez. La novela tiene inicio con la llegada de Pablo Klein. principalmente. de un grupo de chicas adolescentes de clase media de los años 50.92 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Sánchez Ferlosio. la cuestión de la hipocresía y del conservadurismo de una ciudad que todavía se encontraba cerrada en razón de los años de guerra vividos. El narrador no interviene en la historia. 301). la vida de un grupo de jóvenes de misma generación de una ciudad provinciana española (que no es explicitada . nos es posible visualizar un retrato de las sociedades provincianas españolas del medio del siglo XX y.1926). Também defenderam essa função social. en el libro). como una cámara que registra todo lo que pasa delante de ella. diciéndonos que Perteneciente a la llamada generación del medio del siglo o generación de los niños de la guerra – una vez que los escritores que produjeron alrededor de los años 50 eran niños en la época de la Guerra Civil. además de tratar de otros temas como la diferencia entre las clases sociales – ricos despreciando pobres y viceversa –. retratando todo el conservadurismo y retraso de una sociedad patriarcal marcada por una dictadura que la devastó. Somos. profesor de alemán que vuelve a su ciudad natal para impartir clases en el Liceo de la ciudad. escritor español que sigue produciendo y que también formó parte de la generación de los niños de la guerra.

era el hecho de no dejar que estudiara en su cuarto. Otra acción de tía Concha que también le aburría muchísimo a Natalia. no provee modelos maternales positivos” (ALBORG. lo que quiere es seguir sus estudios en una universidad. que sólo nos educa para tener un novio rico y que seamos lo más retrasada posible en todo. 2005. no podía resultar atractiva a las niñas y adolescentes de posguerra En este fragmento podemos observar la inconformidad de Natalia con el medio en el que vivía. a su vez. p. (MARTÍN GAITE. 93-94). prefiero no vivir. obligándola a hacer sus tareas en la sala. María del Mar Jorge de Sande en sus Apuntes sobre la Novela Española Femenina de Posguerra nos explica el porqué de la orfandad de la mayoría de las chicas de las novelas sociales. que sólo quería convertirlas en unas estúpidas. p. […] Le he dicho que si tengo que ser una mujer resignada y razonable. que no sepamos nada ni nos alegremos con nada. caso su padre. De este modo la novela cumple en España una función testimonial que en Francia y los demás países de Europa corresponde a la prensa. Como ya vimos. que la tía Concha nos quiere convertir en unas estúpidas. y la distancia entre padre e hija aumenta. nos complementa Concha Alborg. 1958. Siendo así. (SANDE. (…) he arrancado a hablar y le he dicho todo de un tirón. que estaba dominada por las tareas domésticas y por la obligación de encontrar un novio para casarse. lo que hacía con que ella depositara todas sus carencias afectivas en su padre que representaba un modelo de conducta para ella. donde la madre sigue las normas sociales. Natalia no tenía madre. Natalia descubre un nuevo modelo masculino en su profesor de alemán Pablo Klein. me puse a defenderle y a decir que era un chico extraordinario. 185). y el futuro historiador de la sociedad española deberá apelar a ella si quiere reconstruir la vida cotidiana del país a través de la espesa cortina de humo y silencio de nuestros diarios. sacándola de un local privado para uno público donde pudiera ejercer más control sobre la chica. por lo tanto a través de su diario que Natalia se refugiaba. Saqué lo del novio de Julia. (GOYTISOLO apud MARTÍNEZ CACHERO. 1993. un hombre viudo. 1997. es una chica independiente. Empezamos. el cine y los seriales radiofónicos hallaron fórmulas diversas para aspirar a finales más felices. la más joven de las tres hermanas. Según ella esta imagen de sus madres. p. 229-231). por lo tanto. sin embargo cuando toma coraje. “La sociedad patriarcal. tuvieron que pensar en cómo modificar y mejorar esas condiciones de vida: en la publicidad. encerradas como el buen paño que se vende en el arca y esas cosas que dice ella a cada momento. o sea. Que nos volvemos mayores y él no lo quiere ver. Natalia no se preocupa en conseguir un novio y menos aún en casarse.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 93 los novelistas españoles – por el hecho de que su público no dispone de medios de información veraces respecto a los problemas con que se enfrenta el país – responden a esta carencia de sus lectores trazando un cuadro lo más justo y equitativo posible de la realidad que contemplan. 38). a analizar a Natalia. […] De lo de mi carrera no le he dicho nada. soñadora y rebelde. habla sobre todo lo que le aprieta el corazón menos sobre sus intenciones de proseguir sus estudios en Madrid: Qué difícil era: era dificilísimo. por el contrario. p. Me arrodillé en la alfombra y allí. pero no como cualquier adolescente de su edad y sí por cuestionar el ambiente opresivo en el que vivía la mujer de su época. educándolas para que tuvieran un novio rico y nada más. lo permita. compensaban con actitudes prepotentes en la familia sus también difíciles condiciones de trabajo. A los dieciséis años. Era. es Pablo Klein quien la incentiva para que hable con su padre sobre sus pretensiones de seguir una carrera. dedicadas al trabajo doméstico hasta la obsesión y sin siquiera la compensación del reconocimiento por parte de unos hombres que. sin verle la cara. con quien podría conversar abiertamente como hacía con su padre en la infancia. primeramente por confesar a su padre el cuanto le aburría la educación que les daba su tía Concha a ella y a sus hermanas. que. sin embargo. cuando la niña empieza a crecer. .

En este fragmento constatamos el malestar psicológico de Julia al descontrolarse por los deseos que le atormentaban y a la vez por lo que había sentido y hecho. en el día de la partida de su hermana. Con su amiga Gertru. a la vez. 1958. A partir de este fragmento observamos el triunfo de Julia como persona y como mujer que toma sus decisiones y enfrenta su destino. oyendo la música de una emisora francesa – tan lejos. con él deseo de excitarle. 255). representa la virilidad y la fuerza física y psicológica que somete a la mujer. volvería a pasar lo de aquel verano. ¿sabe? Se va a Madrid. independiente que. para que se uniera a un hombre que solamente buscaba una joven inocente y virtuosa para dominarla. la hermana del medio de Mercedes y Natalia. […] Se sentaron en el sofá amarillo.94 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS registrando en él todo lo que le afligía. no sé para qué se lo ha tenido que contar a él. puesto que Miguel se niega a someterse a la tradición de pedir la mano de su novia a su padre. que desaprueba tal unión. ¿qué miras? – Que has quitado la repisa con los libros. al apoyar la unión de su hermana Julia con Miguel. Natalia observa la reproducción de los dictámenes de la sociedad patriarcal. se siente culpada por el creciente deseo sexual que empieza a atormentarla. Yo le pregunté por qué. incluso. Julia. 1958. sabe Dios de donde venía – Natalia se tapó la cara contra el hombro de Gertru y se echó a llorar desconsoladamente. 243). que por fin. decide ir para Madrid quedarse con Miguel. ya hace mucho. Anoche me desperté y estuve escribiéndole cosas como las que me escribe él. También percibimos el papel transgresor de Natalia.” (MARTÍN GAITE. a través de Natalia que le cuenta la decisión de su hermana a Pablo Klein cuando lo encuentra en la estación de tren. y su familia. cogiendo un poco las cosas que había encima. . Si te sirve alguno.] Julia lloraba. Julia. lo más malo que se puede usted figurar. aquella chica de quinto que tuvo un hijo el año pasado. sirviéndole como ama de casa y en la educación de sus hijos. como también podemos percibirla en la fiesta del noviazgo de ésta misma amiga. al no encontrar los libros que tenía: – Sí. como por ejemplo lo de su amiga Gertru que dice que este curso por fin no se matricula. diciéndole que me acordaba mucho de todo lo de ese año cuando nos hicimos novios. p. 1958. 1958. A partir de este fragmento percibimos la perplejidad de Natalia al ver que su amiga no proseguiría sus estudios a causa de su novio. que tuvo una formación tradicional y católica.. ¿Dónde tienes los libros? – En el cuarto trastero. p. (MARTÍN GAITE. finalmente. p. (MARTÍN GAITE. un guionista de cine que vive en Madrid. puesto que son tratados como trastos lo que representa para uno la salida de la ignorancia y la apertura de puertas para la libertad. a ir a la iglesia para confesarse: – Pero la tentación la tengo siempre. asumiendo todas las responsabilidades que sus actitudes pueden causar. [. llegando. vive dividida entre el deseo de entregarse a su amor yendo para Madrid concretizar su unión con el guionista. que es mentira cuando le digo que me enfado por las cosas que me dice él en las cartas …. porque a Ángel no le gusta el ambiente del Instituto. p. pero mi padre no sabe nada todavía. El novio le ha encontrado allí un trabajo. Allí juntas. (MARTÍN GAITE. que son los libros. tengo que hacer una selección de los libros antes de casarme. 11). se cree que vuelve después de las Natividades.. Yo creo que si le viera mucho. 83). y es que ella por lo visto le ha contado lo de Fonsi. Siendo así. como ya hemos visto en la conversa de Natalia y su padre. En nuestras casas no lo habíamos dicho. Así le cuenta Natalia: “[…] He venido despedirme de mi hermana. Miguel interpreta un hombre libre e Al final de la novela sabemos que Julia.

. El ambiente de la provinciana ciudad le aburre. Te vienes al mirador con nosotras. Creerá que lo ha entendido. A pesar de mostrarse una mujer liberal. Mercedes estaba discutiendo con Natalia. Solamente uno que vive aquí metido puede llegar a resignarse con las cosas que pasan aquí. 55). p. puesto que la tensión erótica que surge entre ella y Pablo Klein le genera una lucha interior entre su deseo y la barrera que la sociedad patriarcal de la España posbélica le ofrecía a la mujer. Elvira es una chica que vive el aburrimiento del luto por la muerte de su padre. a quien conocía desde niño. que eso no puede ser. (MARTÍN GAITE. al contrario de Natalia. Elvira. Martín Gaite nos da otro ejemplo de mujer que cuestiona su papel en la sociedad. representa una mujer llena de complejos. al contrariar su familia para vivir con su novio. no has desayunado. para mostrarse una mujer independiente y segura de si. pasa del control de una figura masculina a otra. Es la responsable por reproducir. y como tal. no que no sienta la muerte de su padre. Nos es presentada a través del propio profesor que al llegar al Instituto y saber de la muerte del director.] En el pasillo. Pasado este primer encuentro. quiere aprovechar la vida con intensidad. el modelo patriarcal del cual también era víctima. por el cual se enamora sin nunca confesarlo. La carta le suena a Pablo como una carta de amor. pelea con la chica para que se incluya al medio social: [. Finalmente. Elvira también se siente atraída por la experiencia y seguridad que Pablo Klein le transmitía. 1958. Elvira le escribe a Pablo Klein una carta pidiéndole disculpas por lo ocurrido. Si le explico por qué no fui a Suiza se reirá. que así como la tía Concha. En la cocina no hay ninguna taza sucia. haciendo con que en sus posteriores encuentros no esconda la atracción física que siente por la joven. ¡Pero yo no! Yo me ahogo. sin embargo lo que quiere es salir a divertirse en las fiestas de sus amigos. 20) Este personaje se encuentra.Mentira. y hasta puede llegar a creer que vive y que respira. es reservada. la hermana mayor de Julia y Natalia. es la heroína fracasada de la novela. Don Rafael. qué manía de estar siempre en otro lado. pues ya pasó de la edad de relacionarse y casarse. En este primer encuentro con el profesor. exhibiendo abiertamente sus amistades con otros hombres.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 95 sin embargo es interesante notar que al mismo tiempo en que transgrede los valores de la sociedad patriarcal en que vive. que dicen que con el fallecimiento de su padre debe quedarse en casa de luto. puesto que. (MARTÍN GAITE. sin embargo se encontraba dividida entre el nuevo amor por el profesor y su pacata relación con Emilio. hipócrita y conservadora. puesto su doble condición de hermana mayor de una familia sin madre y de mujer. por Dios. pero no habrá entendido nada. dividido entre sus convicciones y los dictámenes de las normas sociales bajo las cuales vive. A seguir podemos observar el papel de madre siendo cumplido por la hermana mayor. Mercedes. yo no me resigno. vivía a las vueltas con sus hermanas. en un tono casi histérico desfoga toda su frustración de vivir años reclusa en una misma ciudad.. Elvira. . director del Instituto donde Pablo Klein vino a dar clases. como la familia escocida. 1958. dirá que qué disparate. con Elvira. al lado de su tía-madre Concha. pero es joven. como lo confiesa a Pablo Klein: No puede entender nada. por lo tanto. Es un personaje que reproduce la típica solterona de la época que como no poseía un hogar propio para preocuparse. ella se reconcilia con esta misma sociedad. interfiriendo en la vida de ellas: desaprobaba la relación de Julia y Miguel y vivía criticando a Natalia por sus hábitos raros. va a visitar su familia. sin entrar.. Con su carácter difícil. p. yo me desespero. como hace Natalia.

sin despertar la atención de la censura. Concluimos así que es a través de las entrelíneas de Entre Visillos que Martín Gaite . la traición. BUCKLEY. un malestar muy grande. […] En ese clima surgió una generación de escritoras.). Concha (1993): Cinco figuras en torno a la novela de posguerra: Galvarriato. la corrupción. denunció. Martín Gaite construye. Eloísa. en segundo lugar. Barcelona: Ed. Formica. Pablo Gil y SOBEJANO. sin discursos. Disponível em http:// www. en su artículo Las Escritoras del Silencio. Acessado em: 12/08/2012. (FONSECA. de las mil maneras que elige la escritura para decir entre líneas. el hambre. y hacia delante. no tenían donde mirar. y también la pobreza moral.htm. admite ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS su incapacidad e contribuye con la memoria de su país al criticar la vida de las chicas de clase media de las pequeñas ciudades españolas de los años 50. unas más jóvenes que otras. LOURENÇO. la soledad. como es el caso de Julia. la nada. Elena Fonseca. es a través de Natalia. FONSECA. Em Revista Cotidiano Mujer . la pobreza. Soriano. y. el desarraigo. por aún cuestionar el papel de la mujer de esta misma sociedad. 410-427. Francisco (org. escritora de la revista electrónica Cotidiano Mujer . la mentira. representa la esperanza en generaciones de mujeres que consiguieron romper con estereotipos para encontrar una posición en la sociedad. Asa. Pertenecían al “realismo tremendista” y también al “cainismo”. por eso iban a fiestas. bajo la simplicidad de lo cotidiano. la angustia.uy/2001/35_p31. Después de analizar los personajes femeninos significativos de la novela. Gonzalo (1980): Caracteres de la Novela de los Cincuenta. ÁLVAREZ. donde ocultaban. Eugenio G. lo que la censura no les permitía. que sin decirlo. al cine y a la iglesia. ahogándose en las tareas domésticas y en el ambiente opresivo de tener que encontrar un novio para casarse. Con Natalia. Elena (2001): Las Escritoras del Silencio. Venían de diferentes regiones de España. Eligieron un enfoque existencial. CASADO. Ramón. Referencias bibliográficas ALBORG. Lisboa: Ed.org. indeterminación para superar sus frustraciones. junto a la decadencia generalizada. así. un personaje que representa una metáfora de futuro. António Apolinário (1994): História da Literatura Espanhola. de.: Historia y Crítica de la Literatura Española.96 pues al final. afirma que: Quienes vivieron la posguerra de esa guerra. N° 35. quien le proporcionaría el matrimonio. Boixadós y Aldecoa. la eclesiástica y la política. Madrid: Ed. que Martín Gaite. Crítica. la particular represión del régimen franquista sobre las mujeres. al paseo central. al casino. al decidir quedarse con Emilio. Em: RICO. p. asegurando la reproducción de los esquemas patriarcales. Sin embargo. en que la Franco implantó su ley. NORA. en su libro Desde la Ventana – al cuestionar el espacio que le era reservado a la mujer de la España posbélica. la frustración. Contaron la realidad. Mercedes y Elvira. Literarias. en pleno año de 1957. 2001). que veían la vida pasar entre los visillos de sus ventanas. pero las unía el peso de la doble censura. constatamos que Martín Gaite transgrede dos veces con Entre Visillos : primeramente por publicar una novela del realismo social en una sociedad en que solamente les era permitido a la mujer escribir lo que se quedó conocido en las letras hispánicas como novela rosa. el aislamiento cultural. hace su más fuerte denuncia al construir un personaje que representaba una chica rara – como la propia autora así lo definió. porque hacia atrás era el horror.cotidianomujer. por las delaciones que ellas denunciaron y se las llamó la “generación del silencio”. la mayoría de los “maestros” se había ido al exilio y la necesidad de dejar su testimonio en la memoria del país.

a c . Francisco (org. Castalia. p. Espasa-Calpe. SOBEJANO. Culture Studies . Acessado em 01/08/2012. 8/1 Época Contemporánea: 1939 – 1975. Vol 70. Madrid: Ed. Em Area and RICO. 523526. j p / b i t s t r e a m / 1 0 1 0 8 / 2 4 4 6 6 / 1 / acs070005. SANDE. Disponível em: http:// r e p o s i t o r y.). María del Mar Jorge de (2005): Apuntes sobre la Novela Española Femenina de Posguerra. Madrid: Ed. Gonzalo (1999): Carmen Martín Gaite.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 97 MARTÍN GAITE. José María (1997): La novela española entre 1936 y el fin del siglo – Historia de una aventura. Em: MARTÍNEZ CAHERO. t u f s . Destino. Carmen (1999): Desde la ventana . (1958): Entre Visillos.: Historia y Crítica de la Literatura Española. Barcelona: Ed.pdf. ________. Barcelona: Ed. . Crítica.

Em princípio. original.” (OVIEDO. poesia. frente a Europa primero y luego ante Estados Unidos. é interessante ressaltar que este livro foi publicado em um período de grande efervescência política e cultural impulsionada. em seu livro Breve historia del ensayo hispanoamericano. Ademais. assinala José Miguel Oviedo. por sua vez. Em uma época na qual política e arte pareciam estreitar ao máximo suas relações.” (OVIEDO.94) Na obra La vuelta al día en ochenta mundos (1967). representado por grandes nomes. especialmente. a partir do século XIX. Julio Cortázar (1914-1984) fez parte dessa tradição. sobre um tema que pode ser o mais variado possível. principalmente. refletindo sobre a realidade latinoamericana. 1991. os quais serão o foco da análise desse trabalho. por meio do que Oviedo denominou “ensaio criativo”. : “Estos son los grandes padres del género: con ellos comienza la historia de nuestro ensayo. contribuyo decisivamente al conocimiento de la realidad de sus respectivos países y así a definir la identidad hispanoamericana.Universidade de São Paulo Como se sabe. como José Martí (1853-1895) e Manuel González Prada (18441918). porém dando-lhe novo ânimo. é possível encontrar exemplos do “ensaio criativo” do escritor argentino. borrando os limites entre os vários gêneros concebidos tradicionalmente. p. o ensaio é o gênero que propõe a elaboração de uma reflexão profunda. tornando (novamente) a América Latina objeto central de reflexão e representação nos anos sessenta. Sobre esses dois escritores. de modo distinto. pela Revolução Cubana (1959). subjetiva.98 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS O “ENSAIO CRIATIVO” DE JULIO CORTÁZAR Ana Carolina Macena Francini PG. os intelectuais reconheceram como uma obrigação social posicionar-se frente aos acontecimentos. . Cada uno. como os textos “Verano en las colinas” e “Con legítimo orgullo”.dentro e fora de suas obras-. Neste nova forma do ensaio. 199. ficção e reflexão podem mesclar-se. Na América Latina. p. “ensayo creador debe entenderse también en el sentido de que surgen abundantes ejemplos de creadores que sienten la necesidad de asumir la función crítica como un reconocimiento de la importancia que ésta tiene para su ejercicio artístico. o ensaio começa a ter papel importante.23) narrativa e o próprio ensaio.

Em “Verano en las colinas” e “Con legítimo orgullo”. Por isso. humor e certa ironia. ilustrações. os textos de Cortázar buscam explorar. em que o leitor poderá encontrar de tudo. são seres alheios e incomunicáveis e. Este livro à primeira vista chama a atenção por sua difícil ou impossível classificação. desde reflexões sobre o Jazz. pois consideravam o ato criador em si uma forma legítima de compromisso com a realidade e um instrumento para a ruptura desta. considera o modo fantástico uma forma mais complexa e profunda de relacionar-se com a realidade latino-americana de seu momento. as artes plásticas.384) Assim. os animais acabam por provocar o sentimento do fantástico. impossível de ser compreendida a partir da racionalidade. ensaios. Nos invitan a establecer pasajes hacia “lo otro” que no pueden expresar. que muitas vezes foge da nossa compreensão. novamente se problematiza a relação entre o humano e o animal. Tema recorrente na obra de Cortázar. o animal reforça a concepção de realidade absurda do escritor argentino.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 99 Mas havia entre os escritores polêmicas discussões sobre a forma de apropriar-se da realidade latino-americana e intervir nela. a dualidade que há na relação entre o homem e o animal. Enquanto alguns intelectuais defendiam a estética realista (os denominados anti-intelectualistas) . La vuelta al día en ochenta mundos pode ilustrar essa noção de arte defendida pelo escritor argentino. es que estos nos acercan al “sentimiento de lo fantástico”: su manera de vivir y de percibir el mundo son materia fértil de lo fantástico. escritores experimentais. y que el ser humano vive como una experiencia de horror (. visando desestabilizar a realidade preconcebida pelo leitor. também.). nessa obra. Dessa forma. podem assemelhar-se em vários aspectos. como veremos nos “ensaios criativos” de La vuelta al día en ochenta mundos. a despeito das diferenças. por exemplo. ( BETILLÓN. se manifiestan con singular intensidad dentro o fuera de la mente humana. y suelen presentarse como criaturas domesticadas. Como o próprio nome sugere. que apesar da convivência. poemas. tal como ocorre em seu primeiro livro de contos Bestiario (1951). No entanto a própria organização do livro reforça uma das temáticas centrais da escritura de Cortázar: a concepção da realidade como absurda.. há alguns ensaios que mais parecem ‘ensaios fantásticos’. como Cortázar. é possível identificar com maior facilidade traços peculiares do ensaio.em que a conscientização dos leitores era prioridade em detrimento da criação artística-. Nele há contos. o papel do escritor latinoamericano até considerações sobre seu gato preto. acreditavam na equivalência entre política e prática simbólica. . Um deles é seu aspecto comunicativo: Julio Cortázar interage com o leitor. Pero la particularidad de los animales en los cuentos. reales o imaginarios. em seu livro Entre la pluma y el Fusil (2003). além de se confundirem os limites entre o ensaio e a ficção. fotografias etc. tratando-o com familiaridade. P. dispostas de maneira aleatória remetendo às ilógicas colagens surrealistas. Com sua existência irracional. é uma viagem aos vários mundos de Cortázar. pois o escritor argentino retoma este modo de narrar dando-lhe uma nova dimensão mais comprometida. citações. Talvez por essa razão os animais aparecem nos textos de Cortázar da maneira mais variada possível. Sendo assim. chamado Adorno. Esse tom informal também condiz com a temática desse ensaio. salvajes o monstruosas. 1996. muita vezes. na prática de alguns hábitos. Em “Verano en las colinas”. conforme explicou Claudia Gilman. cujas fronteiras também se borram na narrativa. Catherine Bretillón faz um panorama interessante sobre esse tema em seu artigo “La animalidad como materia de lo fantástico en los cuentos de Julio Cortázar”: Los animales cortazarianos. em seus textos..

W.16). são as indefiníveis ‘mancuspias’. chamado Obispo. se torna uma experiência perturbadora tanto para os personagens como para o leitor.. Esse “además” reforça o sentimento do fantástico no texto. A partir desse ponto. Adorno. como aponta Cortázar mais à frente. “(. su lado mandrágora se acusa más en la sombra. os cuidados com seu outro animalprovavelmente um pássaro-. do livro Bestiario. p. vão se incorporando novos dados que acabam retirando o leitor do aparentemente habitual e trazendo-lhe a sensação do estranho. criando uma outra realidade de natureza misteriosa.15) O leitor então toma conhecimento dessas informações dadas pelo ensaísta. animal que não aparece totalmente identificado no texto. em seu livro Introdução à Literatura Fantástica . do contato com o desconhecido. p. grifo meu). Cortázar parece relatar fatos corriqueiros de sua vida cotidiana: os momentos com seu gato T. . começamos a duvidar da existência do gato e do Obispo. além de conjecturar sobre o tema para um próximo livro. por sua vez. e mesmo aqui do mais íntimo do íntimo. Magritte. “Carta a una señorita en París” ou “Cefalea”. La batail 1970. Adorno. elaborá-lo é dar forma a uma situação vivida pelo crítico. Sabemos..) Cuando llega la hora de comer y enciendo el cabo de vela. Uma experiência que estes não Tal recurso para causar o efeito perturbador recobra outros textos de Julio Cortázar. Entretanto. p. 1970. ( CORTÀZAR. o mundo real e o mundo sobrenatural. Porém.100 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS a qual não parece nada mais que cotidiana e trivial. e sim tão-somente de uma bela e inútil superfície. que tem necessidade de indagá-la. que vai crescendo cada vez mais. criaturas pouco dóceis. em uma narrativa.16. y descubrí sobre el cielo de Cazenueve una nube solitaria que me hizo pensar en un cuadro de René le d e l’A rg o nne bataille de l’Arg rgo nne. apenas de ornamentos belos e nãoessenciais da grande vida. em outras palavras. La cadena que sostiene la jaula chirría cada vez que se abre la puerta de mi cuarto. como nos definiu Todorov. o leitor se depara com a seguinte pergunta de sua esposa: “. porém sempre no tom de quem falasse apenas de quadros e livros. enquanto passa o verão em um povoado francês: Anoche acabé de construir la jaula para el obispo de Evreux.. a semelhança com o ensaio parece maior. a realidade e a experiência mais imediata da vida são matérias do ensaio. ao longo do ensaio. Já em “Verano en las Colinas”. que intencionalmente as torna familiar ao leitor. 1970.. Neste ensaio. y veo al obispo de frente (.) me falta encarcelar al obispo que además es una mandrágora.1 podem explicar por meio de uma lógica racional: é a perturbação da dúvida. (CORTÁZAR. que este tipo de relato se configura quando. la sombra del obispo se proyecta en las paredes enjalbegadas. 1970. por sua vez. incontroláveis que parecem perturbar a saúde mental e física de seus criadores.” (CORTÁZAR. p. em que o homem e o animal convivem no mesmo espaço. dejándole apenas un punto de apoyo para el pie derecho. jugué con el gato Teodoro W. como nos contos “Bestiario”. como afirma Lukács. em que se parece estar vivenciando momentos íntimos e banais da vida de Cortázar. Daí a contradição que expõe Lukács sobre o ensaio: Refiro-me aqui à ironia que há no fato de que o crítico sempre fala das questões últimas da vida. típica do conto fantástico. pois o animal de “Cefalea” também não pertence a uma fauna conhecida.¿Va a ser un libro de memorias? Entonces.17) Da mesma forma ocorre em “Verano en las colinas”. Neste último relato. se sobrepõem dois mundos de lógicas diferentes. que. numa relação que se torna cada vez mais angustiante ao longo do conto. ¿ya empezó la arterioesclerosis? ¿Y dónde vas a instalar la jaula del obispo?” (CORTÁZAR. pois não se sabe de que animal se trata o Obispo e se este será assunto de um livro de Cortázar ou se de fato existe: Ya he encerrado al obispo: con dos llaves inglesas apreté el dogal de hierro que ciñe el cuello.

em meio a esse estado de perturbação e dúvida. inclusive crianças e idosos. Para tal. O ensaísta sugere que os escritores latino-americanos.irão comer. nesse texto a situação. como comentado acima. Entretanto nele há uma estratégia de composição ficcional muito parecida com a do ensaio “Verano en las colinas” e nos contos de Bestiario.as mangostas. porém as indistinções no “ensaio criativo” – tanto com relação ao animal quanto ao gênero – buscam. assim como no conto fantástico. novamente dando destaque para “Cefalea”. por outro. questão polêmica nesse período. Porém. pulverizar as folhas e apanhar as cobras nas expedições na selva. ele parece fazer críticas aos escritores que. é uma tarefa que ninguém sabe a origem e simplesmente aceita como uma tradição que não pode ser contestada: . pois temiam ser tachados de vaidosos ou pedantes. A população desse país é obrigada pelo governo a recolher as folhas secas para que. pôr o compromisso político em primeiro lugar. que força uma nova visão do leitor.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 101 ainda que de forma menos aterrorizante. os túmulos estejam visíveis para serem homenageados. em que ficção. o leitor vai se interando da lógica absurda que há num costume que aparenta ser tão inofensivo. como propõe o ensaio. como um escritor europeu. essa é uma campanha de que toda a população participa. no dia de finados. Aludindo às questões de sua época. exerciam uma vigilância perante aos demais escritores que deveriam. pois borram-se as fronteiras entre ficção e realidade e inclui-se a subjetividade do autor. ao longo da narrativa. Cortázar volta à pergunta de sua mulher sobre escrever um livro autobiográfico e tece críticas sobre isso. diferentemente da quase mandrágora de “Verano en las colinas” ou das “mancuspias”. No ensaio em questão. o “ensaio criativo” vai avançando para o seu desfecho. a angústia da dúvida seguirá até o fim do ensaio. Cortázar declara que a ele não interessa escrever suas memórias. por sua vez. Se. o governo organizou uma complexa campanha em que é necessário ir à selva caçar serpentes. para elaborar uma essência que será utilizada para pulverizar as folhas que. por um lado. pois lhe parece mais divertido falar de gatos e mandrágoras. mas que não deixa de conter reflexões e críticas sobre a realidade e talvez. as mangostas . reafirmar a concepção do escritor sobre a realidade incompreensível e inclassificável. realidade e reflexão parecem se mesclar. ironicamente. Cortázar que não partilhava dessa ideia aponta que a consequência para os escritores latino-americanos é que acabavam ficando presos em suas próprias narrativas e no mundo real eram “señores aburridos”. Já o ensaio “Con legítimo orgullo” está ainda mais próximo ao conto e se não estivesse num livro que mescla os gêneros. sarcasticamente. poderia ser considerado um relato fantástico. No entanto. não se sentiam à vontade para escrever um livro de memórias. o próprio ensaio contrapõe tal afirmação e confirma seu modelo estético. fantástica. na sua visão. Ainda que em “Con legítimo orgullo” o animal representado remeta ao real . seja um dos ensaios mais políticos de La vuelta al día en ochenta mundos. é familiar ao leitor e aos poucos vai se tornando estranha. dividindo as tarefas de cuidar das mangostas. sem deixar de lado o compromisso com o seu momento histórico. narra-se um antigo costume de um país (não especificado) de recolher as folhas secas que caem sobre os túmulos no cemitério. Contudo. muitas vezes por causa dessa vigilância e da autocensura. desde uma posição anti-intelectualista.que se alimentam de serpentes. a princípio. primordialmente. ao discutir o papel do escritor latino-americano nos anos 1960. já que seriam considerados individualistas e alheios ao engajamento político defendido na época pelos escritores de visão anti-intelectualista. assim eliminando as incômodas folhas secas. Por sua vez.

.. como nessa passagem: Andamos entonces sin reflexionar. Em “Cefalea”. os homens do conto não se diferenciam da serpente ou da mangosta . Por eso nunca sabremos -ni queremos saber. p. o que também pode ser uma referência à sociedade daquele período e um questionamento da condição humana. em seus hábitos. Apagando os limites entere o homem e o animal. pois. o texto alude a uma situação de leis autoritárias e população alienada e o decorrer da narrativa delata as consequências dramáticas dessa condição: a existência torna-se um ciclo vicioso. tal como acreditava Julio Cortázar. 1991.” (CORTÁZAR. sin parecer preocuparse por redefinir ellos mismos sus gestos (.11) Assim. diferentemente de “Cefalea”. com o tom irônico do narrador em primeira pessoa do plural. representa uma alegoria dos regimes políticos de opressão: “La generosidad de nuestras autoridades no tiene límites. Como afirma José Miguel Oviedo. sustentada pela falta de consciência dos personagens. é possível indagar a realidade e refletir sobre ela. con las primeras lecciones de la infancia (. p. a partir da apresentação dos dois textos de La vuelta al día en ochenta mundos . lo que es otro modo de decir que no se ciñe a una forma establecida. nos inquieta “que los animales parecen cumplir destinos de complejidades extrañamente refinadas. sem fim e sem razão de ser. parecem viver num tempo a-histórico em que tudo se repetirá infinitamente. assim como afirma Bretillón.72) Assim. 1970.)” (BETILLÓN. já que a cada ano são necessários mais recrutas para a expedição da selva em que cada vez aumenta o número de mortos. crescendo a quantidade de túmulos e por conseguinte de folhas secas a serem retiradas: “(. incluso en aquellas cosas que podrían perturbar la tranquilidad pública. Isso vai ficando mais nítido e mais absurdo quanto mais detalhes o narrador apresenta da campanha. deteniéndonos apenas para comer (hay trozos de pan en la mesa y sobre la repisa del living) o miramos en el espejo que duplica el dormitorio.. Desse modo.)” (CORTÁZAR. os personagens do conto produzem no leitor o mesmo sentimento do fantástico que podem causar os animais.. p. como revela a ironia do trecho.38).” (OVIEDO. o ensaio “Con legítimo orgullo”. de Julio Cortázar.. Por fim. da criação de uma situação absurda.102 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Ninguno de nosotros recuerda el texto de la ley que obliga a recoger las hojas secas. es una de esas cosas que vienen desde muy atrás. além de estimular a consciência crítica do leitor.. pois sempre terão a mesma atitude: “En cierto modo nos alegra haber tropezado con tantas dificultades para encontrar las tumbas porque eso prueba la utilidad de la campaña que va a comenzar a la mañana Porém. 1970..38) Ao viver essa rotina infinita e absurda.39). 2001. cumpliendo uno tras otro los actos que el hábito escalona. pero estamos convencidos de que a nadie se le ocurriría que puede dejar de recogerlas. foi possível analisar algumas características do “ensaio criativo”..” (CORTÁZAR. p. nota-se que por meio do modo fantástico. conviene subrayarloqué ocurre con nuestros gloriosos heridos. pelo contrário. como delata o final da narrativa. p. o “ensaio criativo” parece ter sido a forma encontrada por Julio Cortázar para dar conta das necessidades políticas e estéticas de seu momento histórico. 1996. p.29) seguiente (.385). sin rebelarse contra ese enrevesado orden establecido (¿por quién?).) Como en los últimos años el número de bajas ha sido cada vez más grande. 1970. Opressão esta. p. o ensaio é um “género camaleónico. (CORTÁZAR.) (CORTÁZAR. 1970. la municipalidad ha expropiado los terrenos adyacentes para ampliar el cementerio. também parece haver momentos em que os criadores se confundem com os animais. . [que] tiende a adoptar la forma que le convenga.

Claudia (2003). Madrid: Alianza Editorial. Tzvetan (2007) . valorizando a prática simbólica como forma de engajamento. Febrero-mayo 96. Tomo II. GILMAN. A temática animal vista nos dois ensaios também corrobora para essa ideia. Julio (1970b). como seu gato Teodoro Adorno.” Em: Actual Investigación. criando uma nova forma do gênero que buscava sondar níveis mais profundos da realidade latino americana. entremearam-se. Madrid: Siglo XXI de España Editores.p. Tomo I. Georg. 383-410. Referências bibliográficas BRETILLÓN. OVIEDO. pois como assinala Cortázar no ensaio “Del sentimiento de lo fantástico”. representada pelo modo fantástico. Teodoro ya no sería el único en quedarse tan quieto. Tradução Mario Luiz Frungillo.com/doc/56014858/essenciaFormaEnsaio . TODOROV.scribd. Nota 1 Lukács. Buenos Aires: Siglo XXI Editores Argentina. Julio (1970a). 1970. Entre la pluna y el fusil. Georg. Por outro. La vuelta al día en ochenta mundos. Breve historia del ensayo hispanoamericano. esse gênero híbrido representa seu posicionamento sobre o papel do escritor e da literatura. Tradução Mario Luiz Frungillo. Tradução Maria Clara Correa Castelo. do mesmo livro.” ( CORTÁZAR. observou-se como as características do próprio ensaio e da ficção. São Paulo: Perspectiva. 75) Dessa forma. os animais.scribd. P. “La animalidad como materia de lo fantástico en los cuentos de Julio Cortázar. reitera a sua noção de realidade que foge da explicação lógica e necessita de outras formas de narrar para estabelecer com ela um vínculo mais significativo. tem maior facilidade para captar o fantástico na realidade: “Si en cualquier orden de lo fantástico llegáramos a esa naturalidad.com/doc/56014858/ essenciaFormaEnsaio. Introdução à Literatura Fantástica . contrapondo-se aos antiintelectualistas. La vuelta al día en ochenta mundos. p. Em: http://pt. CORTÁZAR. “Sobre a essência e a forma do ensaio: uma carta a Leo Popper”. http://pt. nos dois textos analisados nesse estudo. “Sobre a essência e a forma do ensaio: uma carta a Leo Popper”.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 103 Por um lado. José Miguel (1991). Catherine (1996). ao lançar mão do modo fantástico na ficção de seus ensaios.7. dando relevância assim tanto à criação artística quanto ao compromisso com as questões sociais e políticas dos anos sessenta. Madrid: Siglo XXI de España Editores. pobre animalito. LUKÁCS. ________. mirando lo que todavía no sabemos ver.

Tais relatos de experiências pessoais. autobiografias e confissões são formas de “escritas de si” que se multiplicaram nas diferentes literaturas. quando algo que se supõe como fixo. Esse é o caso das narrativas em primeira pessoa na Argentina. Nesses relatos. Desse modo. A memória de sua própria experiência abarca também a experiência da coletividade. políticos e morais da sociedade atual. propagam-se da memória individual para a memória coletiva política. Testemunhos. durante os anos de 1976 a 1983. há uma ênfase nos gêneros discursivos que abordam as questões sobre identidade. A narração dessas experiências individuais revelou a existência de histórias que traziam versões diferentes das apresentadas pela historiografia “oficial”. a autobiografia e os gêneros textuais correlatos. diários íntimos. como ocorre no texto autobiográfico Mi nombre es Victoria: una lucha por la identidad (2009). Desse modo. reconstrói tanto a sua identidade quanto o passado de seu país. memórias. sejam eles literários ou não.. os discursos sobre o “eu” proliferamse principalmente nas regiões em que houve a queda dos regimes totalitários. Grande parte dos textos do final do século XX e início do XXI se relaciona a um dos temas da literatura da região: o viver durante e depois do golpe militar que instaurou uma ditadura de terror e repressão no país. Por isso. como círculos concêntricos. o registro minucioso da vida do outro e da sua própria.. coerente e estável é deslocado pela experiência da dúvida e da incerteza. Durante os anos de transição e de recuperação democrática.] solo tiene sentido . como é o caso da América Latina. (MERCER. K. históricos ou ficcionais funcionou (e ainda funciona) como elementos de recuperação da memória individual e coletiva.) Na época contemporânea. mas alcançam também o coletivo. da argentina Victoria Donda: “Mi historia [. postulam a identificação entre a experiência pessoal e a história da nação.104 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS DISCURSO AUTOBIOGRÁFICO E A BUSCA IDENTITÁRIA EM MI NOMBRE ES VICTORIA DE VICTORIA DONDA Ana Cristina dos Santos UERJ / IL * A identidade somente se torna uma questão quando está em crise. Os sujeitos presentes nesses escritos delineiam uma trajetória que parte do individual. subjetividade. discutem tanto as questões relacionadas à subjetividade quanto as relacionadas aos aspectos filosóficos. em diversos países da região. o indivíduo necessitou contar a sua própria versão dos acontecimentos e a elaboração textual de fatos memorialistas. o sujeito ao narrar sua trajetória pessoal através da escrita.

de modo que a sua indagação sobre a veracidade do narrado é quase inexistente. ocorrida no ano de 2004 e noticiada em vários meios de comunicação na Argentina. pois sabe existir uma realidade anterior e exterior ao texto. A existência de um pacto diminui a ficcionalidade do texto e faz o leitor acreditar na “verdade” do que lê. A autobiografia Mi nombre es Victoria Donda (2009) inscreve-se na definição de gênero autobiográfico apresentada pelo teórico francês Philippe Lejeune (2008. identidade e alteridade e a constituição de novos sujeitos discursivos. p.] narrativa retrospectiva em prosa que uma pessoa real faz de sua própria existência. Esse processo de construção e desconstrução adequa-se à noção de identidade descentralizada difundida pelo teórico Stuart Hall (2005. verificar como essa escrita reconfigura uma nova identidade para a narradora e suas implicações para a reconstrução identitária que aflora do sujeito feminino emergente dos ambientes sociopolíticos de poder e opressão.Victoria Donda – e de maneira retrospectiva. abordam-se questões da identidade como parte de um processo de construção social e cultural. Esse é o tema do trabalho ora apresentado: a autobiografia como forma de autoconhecimento e de recuperação identitária individual e coletiva. O texto analisado permite discutir essas questões. especialmente quando reconstrói discursivamente uma nova identidade para o sujeito feminino que nasceu sob o signo da opressão e foi privado de sua identidade.. em constante transformação à medida que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam. A característica que define a existência do pacto autobiográfico é a identificação do nome do autor que aparece na capa do livro com o nome que o narrador se dá como personagem principal. a autora real e a personagem central. A narrativa registra fatos verídicos ocorridos na história contemporânea da Argentina. pois segundo Hall (2005. O conhecimento desses dados extralinguísticos cria uma identidade entre a narradora. de uma pessoa real . Dentro do texto analisado. Através do relato de sua experiência pessoal. O segundo. 21) “a identidade muda de acordo com a forma como o sujeito é interpelado ou representado” e do termo “verdade” como construto discursivo. estabelecendo o que Lejeune denominou como “pacto autobiográfico” 1 . Seu objetivo é discutir questões vinculadas à escrita autobiográfica. A partir dos conceitos de escritas de si e autobiografia. p. 243). ocorre quando sua história pessoal se entremeia com a história do país e abrange o período sombrio da ditadura argentina.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 105 rodeada de las otras treinta millones de historias que habitan la Argentina” (DONDA. p. no qual os filhos dos presos . O primeiro da memória individual. 14 ): “[. quando focaliza sua história individual. em par ticular a história de sua personalidade”. a narradora busca desconstruir e reconstruir uma subjetividade particular que a reporta a um grupo específico: o das crianças raptadas pelos militares na época da ditadura e que recuperam sua identidade anos ou décadas mais tarde. A narrativa abrange dois planos. 1999. ter sido apropriada ilegalmente pela família do militar que a criou. ter o seu nome verdadeiro mudado na certidão de nascimento e como chegou a ser a deputada mais jovem do país. na qual a narradora conta como descobriu ser filha de militantes políticos desaparecidos durante a ditadura militar. Logo. p.. o pacto com o leitor se torna mais forte porque a autobiografia retrata o processo de recuperação identitária de Victoria Donda. para que haja o pacto. o enunciador deve permitir a sua identificação no interior do mesmo discurso. 13) na época contemporânea: uma identidade fragmentária. o da memória coletiva.

195. Sua busca pela identidade pessoal se desenha quase que obrigatoriamente no horizonte da construção da identidade coletiva argentina. qual é a verdade? Para a narradora. esquecimentos. as integrantes da associação revelaram-lhe seu verdadeiro nome e sua história.é tão importante em sua vida que aflora no relato como uma lembrança vívida. Após se certificarem de que se tratava realmente de Victoria. no fragmento destacado. Viveu durante vinte e sete anos com essa família. Também por esse motivo.o divisor de um antes e um depois no decurso pessoal da narradora . prevê e admite falhas. 170). no momento da enunciação. Para Wander Mello Miranda (1992. que Victoria foi separada de sua mãe ainda recémnascida. os fatos .. a história pessoal de Vitória narrada na autobiografia conta o que lhe aconteceu em outro tempo para transformá-la na pessoa que é agora. como transformação: “parece não haver motivo suficiente para uma autobiografia se não houver uma intervenção. e entregue a uma família de militar por seu próprio tio paterno. Porém. questiona-se: como é possível falar de verdade no texto autobiográfico? A busca pela verdade dos fatos foi a luz que guiou a narradora pelo caminho de seu autorreconhecimento.] si toda conclusión es el punto de partida de una nueva historia. na época um importante comandante militar e que nos dias atuais está preso por delitos de lesa humanidade. p. Sabe-se. erros. omissões e deformações na história da personagem. Essa distância faz com que a voz narrativa só se recorde daquilo que a sua memória deseje recordar e essa recordação. 2009.106 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS políticos nascidos na prisão eram dados para adoção às famílias de militares e notificava-se às verdadeiras famílias que a criança havia morrido. Mas. p. de não ser Analía. foi descoberta pelas Abuelas de la Plaza de Mayo (associação da qual sua verdadeira avó materna foi uma das fundadoras). de um fato modificador em sua vida que marca um antes e um depois em sua existência pessoal. A recordação está submetida à memória e essa por sua vez. no ano de 2007.e o relato de acontecimentos – o passado. atendendo pelo nome de Analía quando. e é eleita. O verbo delata a existência de uma distância temporal entre o momento da enunciação – o presente.. Esses dois planos fazem com que sua narração ultrapasse as linhas limítrofes entre a história individual e a coletiva. 1999. a descoberta da verdade. verifica-se que a escrita já aponta para uma marca de ambiguidade: o uso do verbo recordar. Grifo nosso). O desejo da narradora de falar de si procede do episódio que funda o ato autobiográfico na narrativa: o reencontro com sua própria história antes de ser raptada. na existência anterior do indivíduo. Esse momento de transformação . en aquel momento comenzaba a inscribirse el final de Analía y. por meio de uma denúncia anônima. através da narradora-personagem. p. decide candidatar-se a uma vaga de deputada. que a “memória perfeita” é capaz de reconstruir em seus detalhes: “En aquel momento recuerdo que lo único que quería era que los resultados dieran otra cosa que la que esperaba” (DONDA. ainda passa pelo filtro da subjetividade: a voz narrativa traz ao relato somente o que acredita ser importante para a compreensão da transformação sofrida. O núcleo do narrável na autobiografia – a experiência pessoal – equivale à transformação do indivíduo. mas Victoria “[. A descoberta de uma “história pessoal” diferente da conhecida é o ponto de partida da autobiografia de Victoria. obrigatoriamente. Assim. é seletiva. A partir dessa consideração. filha de José María Laureano Donda (Laureano) y María Hilda Pérez (a Cori). se abría el juego para la aparición de Victoria” (DONDA. 31) uma das características mais importantes de todo relato autobiográfico é a ideia da vida como devir. de uma mudança ou transformação radical que a impulsione ou justifique”.

não há como afirmar que as suas experiências pessoais ocorreram da maneira como se apresentam na narrativa. logo. a narração autobiográfica só existe enquanto discurso e não pode ser conclusiva. saber quem é: La verdad. necessita de narrações alheias. apenas sostenido por declaraciones cruzadas de testigos y gente que les conoció [.. A estética pós-moderna mostrou a impossibilidade de o homem conhecer a realidade e representá-la através da linguagem.. Como construções linguísticas. Os diversos “olhares” inseridos no relato autobiográfico de Victoria colaboram para tornar tênue a noção de “verdade”. por más consecuencias que puede tener sobre una existencia. através da narração. Ela é o norte da narração porque. as experiências pessoais que edificam o autorretrato de Victoria não advêm somente de suas lembranças.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 107 contados constituem “a verdade”. Logo.]” (DONDA. afirmando a sua impossibilidade de cumprir a sua mais profunda promessa: apresentar a verdade de uma vida reunida numa trama narrativa. p. tal como ela relampeja num momento de perigo” (BENJAMIN. 136). p. o relato autobiográfico falha em sua premissa principal: rever a história de si mesmo para. 43). no momento da escritura. entre eles Leonor Arfuch (2010. Sua história é narrada através de outros relatos fragmentários que tampouco dão conta da realidade tal como ela foi. podem-se possuir tantas verdades quantos pontos de vista em seu relato. O momento da escrita autobiográfica faz convergir um “eu” que ao mesmo tempo é um “outro”. por dolorosa que sea. 2009. entre o “eu” que se foi e cuja vida se narra e o “eu” que se é no momento da escrita presente no texto autobiográfico. p. No texto analisado. todo ló que sé de mis padres y el destino que corrieron se fragiliza. Sua identidade é construída por meio de diversos “olhares” que se entrecruzam entre o seu presente e o seu passado. É a divergência entre a vida e a escrita. . Significa apropriar-se de uma reminiscência. para a narradorapersonagem conhecer a “verdade” sobre quem foi lhe permite. Desse modo. reestruturá-la e contar os fatos como eles aconteceram. 1985. esses relatos estão repletos de subjetividades. essa constatação não impede a voz narrativa de buscar a “verdade”. Esse fato ocorre na autobiografia analisada. questionou-se o próprio conhecimento histórico. Com isso. mas eles realmente aconteceram como ela conta? Se o que ela lembra está relacionado à subjetividade ou aos fatos relatados por outrem. “a impossibilidade da narração de si mesmo”. Se cada olhar traz um ponto de vista. 224). logo. Se o acesso ao passado só pode ocorre pela textualidade. como a contemporânea. a percepção de verdade depende sempre da visão de quem reconta os fatos: “Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo ‘como ele de fato foi’. p. 17) também aborda essa contradição ao afirma que: Talvez a maneira mais apropriada de abordar o tema da autobiografia seja afirmando positivamente aquilo que ela não pode ser. dos relatos das “abuelas de la Plaza de Mayo” e dos textos históricos da época. porque os acontecimentos podem ser alterados segundo a visão de quem os conta. Sua identidade pessoal é construída através de seu olhar e do olhar dos outros sobre si mesmo. Duque-Estrada (2009. de sua verdadeira família. Para tal. A impossibilidade de contar o passado ocorre também da dificuldade de o individuo aceder aos momentos anteriores de sua vida. Em uma realidade dúctil. então. A contradição presente no texto autobiográfico de apresentar o vivido e a sua representação discursiva realça para inúmeros teóricos. sua autobiografia vai além de si mesma. mas das pertencentes a outras pessoas: dos amigos de seus pais. Nesse aspecto. enredase com as das outras pessoas que conviveram com ela e com os seus verdadeiros pais: “A partir de este momento. representa a si próprio através do retrato do “outro”.

2009. Entender a sua trajetória pessoal é entender também a de seu próprio país.22). No se trata de una simple verdad de un nombre. A questão identitária é um dos temas mais importantes nas escritas atuais e torna central no texto autobiográfico.] demasiadas cosas habían sucedido desde que conocí la verdad sobre mi identidad. essa cisão ocorre entre uma identidade que se autorreconhecia como Analía e que agora de autodenomina Victoria: “Se ló debo [a identidade] a Analía. não é somente através do discurso escrito que reordena a sua trajetória pessoal. Nessa busca de autorreconhecimento. y aquel documental representaba el comienzo de un nuevo periodo en mi vida: Victoria. a narradora reconstrói o passado individual e o A afirmação presente ao longo da autobiografia de que os fatos relatados são como os vivenciou é importante para a narradora-personagem alcançar seu objetivo primordial com a escrita: sua recuperação identitária.. a narradora – em um movimento de sinceridade próprio à autobiografia . sua identidade pessoal mesclase com a identidade coletiva. La verdad afirma la existencia. 54) Uma vez que a construção identitária no mundo contemporâneo se relaciona também com o seu lugar no mundo social e cultural. de un origen o de una filiación.236) Porém. p. (DONDA. p. No texto analisado. 219). Ao contar sobre a sua própria vida. 2009. y con ella.percebe a impossibilidade de exprimir toda a “verdade” dos fatos na escrita devido à distância temporal entre o momento da enunciação e o vivido. a narradora rejeita a opção de experiência “verdadeira”. quien no pudo sino sucumbir y sacrificarse para que la verdad ocupase su lugar en la historia” (DONDA. acredita que sua enunciação retrate os fatos tais como os vivenciou: Contar aquel momento a través del filtro de una verdad revelada años después no sería ni justo ni honesto. Mas. Nesse “espaço biográfico” (ARFUCH. Entende que a escrita de sua trajetória é incapaz de traçar um retrato “verdadeiro” de quem ela foi. a personagemnarradora assimila a pluralização de suas identidades. incorporar a Analía y avanzar. Y esa persona era yo. Com esse ponto de vista. a voz narrativa não pode abarcar o “eu” sem relacioná-lo com a realidade de seu país. definirse. la historia de un país que aún tiene problemas en reconocer y aceptar su pasado” (DONDA.. lo cierto es que así fue como las viví. Victoria y Analía eran al fin la misma persona.. em sua reconstrução discursiva. pois a voz narrativa afirma que a confecção de um documentário cinematográfico também foi essencial em sua busca identitária. e fragmentária de sua identidade: reordena a sua experiência pessoal para conceber os limites e a interseção entre Analía e Victoria. trazendo à tona o discurso controverso da autobiografia. (DONDA. Desse modo. Porém. (DONDA. p. es la condición para ser uno mismo.108 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS es la condición esencial para ser. 2009. Sua subjetividade se revela à medida que sua história pessoal completa as lacunas vazias sobre os anos de ditadura da Argentina: “[. p. podía finalmente aceptar.. Voltar ao seu passado é buscar uma nova versão para os acontecimentos. pois mostra a busca identitária a partir da cisão entre a identidade anterior e a atual. quien se había ido formando durante todo aquel tiempo. a qual chama de “eu”. com o objetivo de revelar como o discurso hegemônico da ditadura modificou a sua história e a de seus pais. 2009. y por más complejo que pueda parecer hacer referencias a aquellas cosas como integrando una verdad incuestionable.] mi historia es puesta al desnudo. mas não a de “experiência vivificada”. 2010) do documentário e da autobiografia. 2009. p. a narradora-personagem se apropria do discurso autobiográfico para pôr em ordem a vivência caótica . 244). Victoria se conscientiza de que para construir a identidade atual. foi fundamental a contribuição da identidade construída no passado: [.

Cori hizo pasar un mensaje a sus asesinos dándome un nombre. Desse modo. filha de presos políticos. Dessa forma. Trad. Nessa luta. a sua trajetória pessoal na História da Argentina. No momento de enunciação de sua história. a escrita autobiográfica analisada deve ser entendia como uma escrita cujo discurso é eminentemente político. Porque mi existencia prueba que finalmente Cori consiguió su objetivo. relaciona a acepção do termo vitória (ação ou efeito de vencer) ao nome de batismo que recebeu de sua mãe ainda na prisão. sabedora de que “[. seu texto é um ponto de resistência cultural. dandolhe voz e poder para intervir tanto na reescritura de sua história quanto na História da Argentina e assim. a narradora faz com o seu nome adquira novos matizes. Não é uma intervenção feminina no espaço público dominado pelo sujeito masculino para publicar apenas suas intimidades. Para Beatriz Sarlo (2007. identificándome.. O processo identitário de Victoria é instituído pela reivindicação do reconhecimento social de sua nova identidade: de quem é. Su último obstinado rechazo al destino que le era impuesto. A compreensão desse fato aclara o subtítulo da autobiografia – “Una lucha por la identidad”. 2009. ressignifica-o para poder abarcar tanto a história da personagem. de quem são seus pais. a escrita autobiográfica empreendida pela narradora não relata somente o caminho percorrido pela personagem para a incorporação de um novo nome – marca indelével da identidade – e a perda do nome antigo. que Cori les ganó la última partida. político e histórico de seu país... O discurso autobiográfico é uma ferramenta para que Victoria. Victoria inscreve Desse modo. para mostrar que ARFUCH. A narração de suas experiências é o processo pelo qual Victoria tenta se redescobrir e redefinir a sua identidade. Es por eso que mi nombre es Victoria. A voz narrativa está consciente de que a realidade pode ser reordenada através da palavra. pois essa só é reivindicada por aqueles que não são reconhecidos por seus interlocutores. como a de seus pais e da própria Argentina. Rio de Janeiro.] a “identidade” só nos é revelada como algo a ser inventado. enfrenta um movimento de revisão. de que discurso é poder. de Paloma Vidal. p. nascida sob o signo da opressão. y en él se encuentra también mi legado. de seu passado e de sua atuação político-social no presente.. EDUERJ. e não descoberto [. recuperar a identidade que lhe foi tomada. apodere-se da palavra e adquira um papel fundamental no processo social. En mi nombre está su último grito. (DONDA. em uma relação de complementaridade. a pesar de imaginar que su esposo estaba muerto y que ella no sobreviviría mucho después del parto. 254) Ao ressignificar o seu nome. a busca por uma identidade está estreitamente relacionada à questão do reconhecimento. p. o regime de opressão da ditadura não foi mais forte que a vontade materna de que sobrevivera: Después de todo. 27). 21-2). a reconstrução do passado é um combate pela reconstrução histórica que “también llamamos ahora de combates por la identidad”. a pesar de la certeza de que le robarían a su hija. Segundo Figueiredo e Jovita (2005. 2005. Sua narrativa transita entre o espaço privado e o público. Com a ressignificação. mas também a luta pelo reconhecimento social da identidade incorporada. En ese desafío simbólico vive Cori. Leonor (2010): O espaço biográfico: dilemas da subjetividade contemporânea. p.] como uma coisa que ainda se precisa construir a partir do zero ou escolher entre as alternativas e então lutar por ela e protegê-la lutando ainda mais” (BAUMAN.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 109 coletivo. destruição e reconstrução identitária. 191). p. Referências bibliográficas .

Trad. Trad. 17-58. Jovita Maria (2005): Identidade nacional e identidade cultural. Conceitos de literatura e cultura. SARLO. de Carlos Alberto Medeiros. de Sergio Paulo Rouanet. 1 Em textos posteriores. Buenos Aires: Siglo XXI Editores Argentina. 7ª ed. Zygmunt (2005): Identidade . Em: Dev ires autobiográficos: a atualidade da escrita de si. 10 ed. Juiz de Fora: UFJF. Philippe (2008): O pacto autobiográfico. como tal. p. de Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. Walter (1994): Sobre o conceito de história. Trad. Em: FIGUEIREDO. Belo Horizonte: Ed. 189 -205. I. é uma construção da memória. Stuart (2005): A identidade cultural na pósmodernidade. Em: Magia e técnica. Beatriz (2007): Tiempo pasado : cultura de la memoria y giro subjetivo. .110 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS BAUMAN. DUQUE-ESTRADA. Buenos Aires: Editorial Sudamericana. Rio de Janeiro: Nau/ Ed Puc-Rio. Rio de Janeiro: DP&A. Vol. LEJEUNE. Elyzabeth Muylaert. 222-32. (2009): Im/ Possibilidades da autobiografia. Eurídice (org. FIGUEIREDO Eurídice e NORONHA. p. Entrevista a Benedetto Vechi. São Paulo: Brasiliense. Lejeune amplia o termo “pacto autobiográfico” para “pacto de verdade” ou “pacto referencial”. p. Victoria (2009): Mi nombre es Victoria: una lucha por la identidad. Arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Rio de Janeiro: Zahar. Notas * Professora Adjunta do Mestrado em Teoria da Literatura e Literatura Comparada e do Departamento de Letras Neolatinas (Português/Espanhol) do Instituto de Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. BENJAMIN. pois afirma que o relatado na autobiografia só existe enquanto discurso e.). Una discusión. HALL. UFMG. Obras escolhidas. DONDA.

E. embora apresentem variações estruturais e quantitativas nas disciplinas.enseñar y aprender lenguas extranjeras es una oportunidad increíble de promover la integración entre mi mundo y este mundo mágico que me llega y que me permite verme y sentirme parte de un todo complejo”. 2009. Analisar criticamente o ensino de línguas nas universidades públicas do Estado do Rio de Janeiro. a partir dela. assim como seus currículos não é tarefa simples. a Universidade deve estar preparada para formar o profissional que possa atender as especificações legais. principalmente porque sabemos da excelência que cada uma delas busca. Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) .. é oportunizar o aprendizado de outra cultura para que.Universidade Federal Fluminense Introdução Esta comunicação é parte inicial de uma investigação que tem como objetivo apresentar alguns dados levantados acerca dos currículos das Universidades públicas do Estado do Rio de Janeiro nos cursos de Licenciatura em Português/Espanhol. em termos de sua estrutura. os currículos. Ana Maria Mendes Larghi PG .. Portanto. . são unânimes em encaminhar o aprendizado para a formação integral do aluno/professor. p. ainda. Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). os profissionais do curso de Letras devem “ter domínio do uso da língua ou das línguas que sejam objetivo de seus estudos. desenvolver no aluno a consciência de que aprender uma língua estrangeira é muito mais que adquirir habilidades linguísticas. E. possa entender a si mesmo e a sua própria. É importante lembrar que.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 111 O CURRÍCULO DAS UNIVERSIDADES PÚBLICAS DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO E A FORMAÇÃO DE PROFESSORES EM LÍNGUA ESTRANGEIRA: UMA REFLEXÃO CRÍTICA. funcionamento e manifestações culturais”. é interagir com o outro de modo a alterar e construir saberes de forma dialética. de acordo com as diretrizes estabelecidas pelo PARECER 492/2001 do Ministério da Educação. Segundo (PARAQUETT. quanto ao ensino de línguas.7): “. Foram analisadas quatro universidades públicas do Estado do Rio de Janeiro. são elas: Universidade Federal Fluminense (UFF). E o compromisso da Universidade é levar o aluno/ professor de LE a aprender muito mais que ensinar a gramática e o léxico de uma língua.

seu conhecimento e utilização das sugestões dos documentos oficiais em sua prática. Perguntados sobre a formação de professores de LE a pesquisa aponta que 75% do total dos entrevistados responsabiliza o poder público por melhorias nas condições de formação do professor de LE.161/2005. Enquanto que. integrativa e contextualizada. dá as Universidades. Os dados coletados na pesquisa com professores apontaram ser de responsabilidade do Estado a elaboração de políticas públicas para melhorias na educação brasileira. Com relação às propostas curriculares e a autonomia que a LDB . A publicação dos documentos oficiais promoveu uma maior reflexão sobre a organização curricular do ensino de LE. como forma de ampliar o espaço do conhecimento. O gráfico 1 apresenta o resultado da pesquisa: 1. coletou dados a respeito da formação dos professores da rede pública. sugerindo uma prática dinâmica. ainda. na aventura do aprender uma LE. . HALL (2006) e MENDES (2004. 53. inicia-se aqui uma das questões que permeia a nossa reflexão. esses e outros questionamentos. Em estudos anteriores. A importância do currículo na formação do professor de língua estrangeira Tomando como tema central a importância do currículo para a formação do futuro professor. A pesquisa de campo (por amostragem) foi realizada com professores do ensino médio da rede pública estadual. e se apoia nas concepções de cultura de CANCLINI (2006). 2007.LEI 9394 de 20 de dezembro de 1996. tornando-o mais próximo da realidade. no decorrer da investigação proposta para o Doutorado. ancora-se na Pedagogia Multicultural. a melhoria do nível cultural do professor situarse-ia em 25% como responsabilidade do poder público. Esta investigação adota como referência PARAQUETT (2007. A primeira delas é a importância do Currículo para a formação do professor de LE e sua consonância com os PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais) e as OCEM (Orientações Curriculares para o Ensino Médio). 2009) e MOTA (2004) em definições sobre Inter/ multiculturalismo. Essa investigação. a “integração entre os mundos”. em seu Art. II. e o quanto as questões políticas são determinantes na elaboração da grade curricular. observou-se como se deu a implantação da língua espanhola na rede pública do Estado do Rio de janeiro. vimos a importância de ações políticas direcionadas à melhoria da educação brasileira. baseados na Lei 11. E os resultados nos levaram a questionar como estão sendo formados os futuros professores de LE? Por que encontramos professores tão inseguros diante das classes? Pretendese aclarar. 2008). pois a extinção do currículo mínimo proporcionou um avanço para o ensino.112 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Dessa maneira.

No entanto. portanto. poderia ser a adoção de disciplinas na grade curricular que levasse o professor/aluno. . p.. criar novas disciplinas poderiam ser contribuições para habilitar professores que tornem as aulas de LE reais “ferramentas” de inclusão social. Os gêneros são criados e recriados. 9). de cidadania e de inclusão social. Vale lembrar que ambos os documentos foram criados para orientar a prática do professor em sala de aula. na prática. o valor do aprendizado de LE como forma de autoconhecimento. O currículo do curso de Letras. é que os professores encontram muitas dificuldades em entender a proposta de ensinar LE a partir dos gêneros. ler. já que a utilização da língua está envolvida nos discursos históricos.”. encaminho a discussão para a importância do ensino de LE estar voltado para “.. ( OCEM. embasadas na teoria de Bakhtin. as OCEM entendem que o currículo para o ensino de E/LE deve abordar “temas relevantes para a vida do estudante”.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 113 Não resta dúvida que os documentos trouxeram contribuições importantes. é bastante enriquecedora. Atitudes como revisar as ementas das disciplinas. falar. p. abrangente e flexível. ressaltando. 8). a produzir material didático a partir dos gêneros. Em consonância com os PCNs. E por que tantos professores não fazem uso das sugestões dos documentos oficiais? Como esses professores foram formados? Essas foram algumas das interrogações que nos levaram a refletir sobre o papel do currículo na formação de professores. promovendo o ensino que possa: “ levar o estudante a ver-se e constituir-se como sujeito a partir do contato e da exposição ao outro. 1998). para o Currículo das Universidades. 2000. convergências. abarcando mais do que conteúdos tradicionais. culturais e sociais”. p. consoante com OCEM (2008. à medida que se apoia em um contexto que circula à nossa volta todo o tempo.. 150). deve promover a alteridade... E este exercício poderia se iniciar durante os estágios de regência. contextualiza o ensino com o “currículo real” (OCEM. entender) e das sequências lexicais e componentes gramaticais próprios da norma culta”. na preparação do material didático. p. ser interdisciplinar. 133). Continuando a reflexão sobre os documentos oficiais. 2008. para formar professores de LE. Os PCNs afirmam que “o estudo dos gêneros discursivos e dos modos como se ar ticulam proporciona uma visão ampla das possibilidades de usos da linguagem” (BRASIL. percebe-se que a proposta de trabalho com os gêneros discursivos. ao reconhecimento da diversidade”. a utilização dos gêneros na prática pedagógica. encontrar interdependências. Refletindo sobre as contribuições dos PCNs (BRASIL. “todo enunciado ocorre em um gênero do discurso. que façam parte do “currículo real”. Segundo Bakhtin.. embora não haja nenhuma disciplina específica com esta nomenclatura (o que poderia ser uma sugestão). a UERJ é a única que apresenta a disciplina “Produção de material didático para o ensino de Espanhol”. em sua grade regular. Dessa maneira. Reitera-se que o trabalho com os gêneros discursivos é proposta de disciplinas nas Universidades. “. à diferença. inclusive. dedicamos a segunda parte às Orientações Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (OCEM). e fazem parte da comunicação humana. Dentre as Universidades que fazem parte da pesquisa.é preciso adotar uma visão ampliada dos conteúdos a serem incluídos nos programas de curso para além das tradicionais ( ouvir. o que se observa. O desafio de preparar os professores para ensinar E/LE através dos gêneros discursivos. sugerindo que o Projeto Político Pedagógico e o Currículo possam aproximar-se sempre do “currículo real” dos alunos.interagir com outras disciplinas.

1800 (mil e oitocentas) horas de aulas para os conteúdos curriculares de natureza científico-cultural. programas e projetos de pesquisa científica. e 200 (duzentas) horas para outras formas de atividades acadêmico-científico cultural. 2008. em sua sede. o “conteudismo”. obedecendo às normas gerais da União e. concede-se às Universidades autonomia para “fixar os currículos dos seus cursos e programas. assim como no desenvolvimento da sensibilidade de escuta às múltiplas outras vozes. como linguista aplicada.. assegura que as Universidades: Art. III . da LDB. divididas em: 400 (quatrocentas) horas de prática como componentes curricular. A carga horária das licenciaturas de graduação plena. através do dialogismo. 53. do respectivo sistema de ensino. pois deu condições às Universidades de ‘aproximar’ o currículo de sua realidade social. são necessárias revisões curriculares que tenham como principal objetivo construir um ambiente de aprendizagem onde o aluno/professor possa interagir e participar democraticamente do aprendizado.”.149). (Mota e Scheyerl. nos termos dos seus projetos pedagógicos. 2004. é que quando assumem suas classes a simples transmissão de conhecimentos. pg. as seguintes atribuições: Na busca do desenvolvimento de competências e habilidades. Dessa forma. em um mundo pluriligue e multicultural. através do diálogo. 41) I . 2004. de acordo com o Art. outra (s) cultura (s). 2800 (duas mil e oitocentas) horas.. observadas as diretrizes gerais pertinentes. de 19 de fevereiro de 2002 estabelece que será de.. . 53.de 20 de dezembro de 1996. cursos e programas de educação superior previstos nesta Lei.. uma perspectiva de construção do conhecimento de forma dialética e multidimensional. sem prejuízo de outras.114 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS É importante e necessário que a universidade leve o aluno/professor a refletir sobre sua língua e sua cultura. promove a construção de conhecimentos em LE. ainda é a maneira mais usual de ensinar LE. são asseguradas às universidades. descobrindo a polarização dos saberes e assumindo. II .. p. pensando o ensino do E/LE como “um conjunto de valores e de relações interculturais” (OCEM. em contato com outra(s) língua(s). organizar e extinguir. em um mundo onde as relações culturais estão cada vez mais próximas. Sobretudo entendendo cultura como prática social. II. entendo que a proposta de uma abordagem que seja social e Inter/Multicultural para o ensino de línguas. no mínimo. do aperfeiçoamento da formação cultural. Art. quando for o caso.fixar os currículos dos seus cursos e programas.criar. Portanto. 1º da Resolução do CNE/ CP 2.estabelecer planos. mas o que se observa.”.. p. as Universidades desenvolveram currículos que preconizam a formação docente. No exercício de sua autonomia. De acordo com o artigo 53.Em outras palavras. as dimensões dos componentes comuns:. produção artística e atividades de extensão.41). na prática. II. “nas quais a articulação teoria-prática garanta. Das Universidades públicas do Estado do Rio de Janeiro Quanto ao currículo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional LDB . a pedagogia multicultural acredita na valorização da voz do sujeito/professor e do sujeito/estudante. compar tilhada e importante modificadora de todo o processo ensinoaprendizagem. Essa reflexão nos leva a pensar que são necessárias mudanças paradigmáticas no contexto . técnica e científica do cidadão. esta medida caracterizou um avanço para o ensino no Brasil. 2.. De acordo com ( MOTA e SCHEYERL. 400 (quatrocentas) horas de estágio curricular supervisionado. no exercício de sua autonomia.

o que corresponde a 37. Literaturas e a parte pedagógica. e disciplinas pedagógicas.9% do curso. assim como as atividades complementares. Gráfico 2 O gráfico 2 mostra que para a formação em E/LE são apontadas 18 disciplinas para a primeira categoria. Gráfico 3 . os dados classificados em apenas duas categorias.0% da grade curricular. o que corresponde a 62.980 horas.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 115 acadêmico. optou-se por apresentar abaixo. apresentaremos os gráficos elaborados a partir das grades curriculares das Universidades. Não foram computadas nos gráficos as disciplinas optativas e eletivas. estas foram levadas em conta. para a segunda categoria são 29 disciplinas. 60 eletivas e 200 horas de atividades complementares.360 horas. Quanto à carga horária. acrescida de 120 optativas. portanto. Contando com uma carga horária de 2. E/LE e Literaturas. são elas: a primeira em azul envolve as disciplinas de E/ LE e literaturas. Na Universidade Federal Fluminense (UFF) o currículo encontra-se distribuído entre Língua materna e Literaturas. A segunda categoria envolve a formação em Língua materna. É preciso lembrar que esta é uma pesquisa inicial. Na sequência. na cor vermelha. totalizando 3. a fim de desenvolver a formação por meio de atividades de pesquisa que integrem as disciplinas e possam dar conta de um ensino humanizado e criativo.

E/LE e Literaturas. Gráfico 4 O gráfico 4 mostra que para a formação em E/LE são apontadas 20 disciplinas na primeira categoria. Conta com uma carga horária de 4.200 horas.5% da grade curricular.280 horas. E/LE e Literaturas. Na Universidade Federal do Rio de Janeiro ( UFRJ) o currículo encontra-se distribuído entre Língua materna e Literaturas. e um total de 242 créditos.200 horas.3%. o que corresponde a 31. o que corresponde a 68.07% da grade curricular. Buscar-se-á com a pesquisa.07% da grade curricular. o que corresponde a 68. e para a segunda categoria 34 disciplinas. e a parte pedagógica. e um total de 242 créditos. Na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) o currículo encontra-se distribuído entre Língua materna e Literaturas. Na Universidade Federal do Rio de Janeiro ( UFRJ) o currículo encontra-se distribuído entre Língua materna e Literaturas.3%. E/LE e Literaturas. e para a segunda categoria 44 disciplinas. avaliar . Conta com uma carga horária de 4. e para a segunda categoria 44 disciplinas. e disciplinas pedagógicas. o que corresponde a 31.116 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS O gráfico 3 mostra que para a formação em E/LE são apontadas 20 disciplinas para a primeira categoria. o que corresponde a 75. o que corresponde a 24. Gráfico 5 O gráfico 5 mostra que para a Formação em E/LE são apontadas 11 disciplinas na primeira categoria. e um total de 152 créditos. e disciplinas pedagógicas.5% do curso. Conta com uma carga horária de 3. através de entrevista junto aos alunos do curso de letras.

DE 19 DE FEVEREIRO DE 2002.gov. l e t r a s . sua relevância no processo ensino/ aprendizagem de língua estrangeira e na formação do professor de E/ LE. Disponível em http://portal. São Paulo: Martins Fontes. no Brasil. MEC .Acessado em 12/06/ 2012. Acessado em 11/06/ 2012. Disponível em <http://www. U F F : h t t p : / / w w w.php?option=com_content&task=view&id=45 UFRRJ:http://r1. Dispõe das Diretrizes e Bases da Educação Nacional.letras. RESOLUÇÃO CNE/CP 2. Salvador. Acessado em 11/06/2012.UFBA.dep. p.gov. Refletindo-se sobre a relação língua/cultura.br>. RESOLUÇÃO CNE/CP Nº 1. b r / s i te s / d e f a u l t / f i l e s / BRASIL.Ministério da Educação.pdf.07 l e t r a s _ p o r t u g u e s _ e s p a n h o l _ _licenciado_novo.br/ index. Lei nº.ufrrj. (2008): Linguagens. códigos e suas tecnologias/ Secretaria de Educação Básica: MEC. 1996. Márcia (2007): Linguística Aplicada. UFRJ:http://www. 9394/96. inclusión social y aprendizaje de español en contexto latinoamericano. Acessado em 07/06/2012.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 117 o currículo de cada uma das Universidades.mec. Revista Nebrija de Lingüística Aplicada. UERJ:http://www. de 20 dez. PCN – Parâmetros Curriculares Nacionais . de 18 de Fevereiro de 2002.(1992): Estética da Criação Verbal. letras_portugues_espanhol_licenciatura.br/arqs/fluxogamas_cursos/ BRASIL. Acesso 13/05/ 2012.Ensino Médio. ORIENTAÇÔES CURRICULARES NACIONAIS.179. Acessado em 11/06/2012.ufrj.pdf. MOTA e SCHEYERL. Brasília: Ministério da Educação. . a fim de alcançar a excelência na educação.br/graduacao/arquivos/docs_curso/ matriz/IM/76_lic_letras-portugues-espanholliteraturas_matriz_2009-1. PARAQUETT. ainda são necessários maiores investimentos em pesquisas e financiamentos para o ensino de LE. Acessado em 18/01/2010. BH: Editora.pdf. Referências bibliográficas BAKHTIN. CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO CONSELHO PLENO. Mikhail. (1998).pdf. Sabe-se que. u f f .br/seesp/arquivos/ pdf/res1_2. Espanha.41Salvador.uerj. Kátia e Denise (2004): Recortes Interculturais na sala de aula de Línguas Estrangeiras . p.planalto. p.

Apesar dessa desestruturação familiar.UFMT Las ratas (1962) é o quinto romance escrito por Miguel Delibes e. ao apresentar problemas psiquiátricos após a gravidez. Román e Iluminada e ao ancião local Centenario. Seu pai. nascido da relação incestuosa entre dois irmãos. Ratero e Marcela. fazendo com que de alguma maneira aquela história fosse contada.118 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS LAS RATAS DE MIGUEL DELIBES E A DENÚNCIA DA CRISE CAMPONESA EM CASTELA NOS ANOS 1950-1960 Ana Paula de Souza PG . Ambientado na segunda metade da década de 1950 (provavelmente entre 1956-57). de fazer qualquer menção ao problema. o romance relata as dificuldades vividas por moradores de um pequeno e miserável povoado castelhano. Nini. Nini sobrevivia de .” (DELIBES. um homem ignorante e embrutecido. 19). o menino era capaz de analisar as mínimas nuanças nas alterações climáticas. ao longo de um ciclo agrícola de pouco menos de um ano. o El Norte estava impedido. De maneira intuitiva.” (DELIBES. no comportamento dos animais e na constituição da vegetação. no estado do solo. comparado por alguns personagens a uma espécie de pequeno deus: “Digo que el Nini ese todo lo sabe. O protagonista Nini é um menino de 11 anos de idade. foi levada a um manicômio de onde nunca mais retornaria. p. vivia da caça de ratazanas que além de alimentar a ele e ao filho. segundo o próprio autor. por ordem da censura. Percebendo que os censores não eram tão atentos e ferrenhos com os conteúdos das obras literárias como com as publicações periódicas. Depois de publicar no jornal uma série de reportagens sobre a difícil situação do trabalhador rural nos campos castelhanos. Delibes decidiu transformar em ficção a realidade social que conhecia com propriedade. Parece dios. 2010. 2010. que nunca fora à escola. eram vendidas no povoado. denúncias relativas ao abandono sofrido pelos camponeses castelhanos por parte do governo franquista. numa intertextualidade bíblica: “¡Qué condenado crío! Cada vez que lo veo así me recuerda a Jesús entre los doctores. 54) Com a ingenuidade própria da idade e a sabedoria extraordinária. a matéria para o enredo surgiu da impossibilidade de publicar no El norte de Castilla 1 . e a Jesus. jornal no qual trabalhava. havia adquirido junto aos avós polígamos Abundio. Esse conhecimento lhe conferia status de sábio. uma sabedoria popular inigualável entre os habitantes do vilarejo. p. Sua mãe.

Ao revelar tais implicações sociais a partir da narrativa ficcional delibesiana. Na organização social agrária do século XX. Esse modelo agrário denominado tradicional 3 foi reafirmado pelo estado franquista de forma autoritária. faz-se presente no respeito do homem do campo pelos ciclos da vida na natureza. O presente estudo se dedica a desvendar o social por trás do literário. as principais características da agricultura castelhana até os anos 1960 eram as mesmas da primeira metade do século XIX. de acordo com as .ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 119 pequenos trabalhos realizados para os agricultores e criadores de animais. e as consequências concretas desse acontecimento histórico para as condições da sociedade anos após o desfecho do conflito. O retrato da crise campesina castelhana em Las ratas Segundo Pérez-Díaz (1994). num relato existencialista e desolado. Através da ótica do personagem. desapareceu a figura do señor. procurando entender a crise agrária dentro do contexto econômico do país e os problemas vividos pela população campesina 1. Desse modo. o que desapareceria na vida do adulto que enfrentava as vicissitudes de um pós-guerra e de uma ditadura: Hoy más que nunca gusta el hombre de recuperar su consciencia de niño. mas como recurso estrutural que constitui o literário. cuya fascinación sólo advertimos cuando ya nos ha escapado de entre los dedos… (DELIBES apud RODRÍGUEZ PUÉRTOLAS. tratava-se de uma agricultura baseada centralmente na produção de cereais. além de outros problemas menos evidenciados. aquele que possuía a maior concentração de terra em uma determinada região (geralmente mais de 100 hectares). Esses grandes latifundiários contratavam o serviço de trabalhadores sem terra que viviam no campo por jornadas. Ou seja. este trabalho inscreve-se na perspectiva de Candido (2000) ao entender o social não como causa ou significado2. Delibes constrói uma visão autêntica e poética de uma realidade que seria insuportavelmente cruel. Por outro lado. para a qual se utilizava uma tecnologia produtiva tradicional voltada para o mercado interno. A preocupação ambiental de Delibes. e surgiu o cacique. Interessa também para este estudo verificar de que modo as cicatrizes da Guerra Civil permeiam o inconsciente coletivo dos personagens. sobretudo o trigo. além da denúncia do abandono político dos trabalhadores dos campos castelhanos. Por um lado. ajudava os camponeses na luta contra as adversidades da região . 115) castelhana tais como a apatia social. portanto incapaz de reivindicar seus direitos políticos. de evocar una etapa – tal vez la única que merece ser vivida – cuyo encanto. o clima austero e a total falta de investimentos. da qual depende sua existência.o solo pouco fértil. 1990. p. o autor desnuda as consequências do abando no estabelecimento de relações humanas embrutecidas. tendo como base a exploração do campesino. Nini se converteu em uma espécie de oráculo de sua comunidade á medida que com suas previsões meteorológicas e com sua percepção da natureza. Problemas esses literariamente suavizados pela sabedoria carismática do protagonista infantil e pelas crenças supersticiosas de um povo inconsciente do seu papel social e. o protagonista cumpria em seu povoado um papel do qual o estado se ausentara. Las ratas apresenta a profunda relação do camponês espanhol com a terra. Segundo o próprio autor. existente em Castela até a primeira metade do século XIX. a presença da criança na obra literária representa a nostalgia de uma fase da vida genuinamente feliz e íntegra. a fome e a improdutividade. não fosse a candura do olhar infantil. animalizadas e na configuração de personagens primitivos e ignorantes que parecem não ter lugar em pleno século XX. por exemplo.

la tierra andaba muy repartida. Numa região que tinha como principal atividade econômica a agricultura. personagem da obra que sintetiza a figura do agricultor incansável na luta contra as adversidades. mitad por mitad. doña Resu y la señora Clo sumaban. las gentes maldecían de la soledad. Em Las ratas . lamenta não ter acesso à tecnologia diante da possibilidade de ter de ressemear os campos por falta de chuvas: Y el Pruden. chegava apenas para os grandes latifundiários que tinham como financiá-la. le contestó que el mal era para los pobres. bien poco costaba hacerlo. el Poderoso. 47) aos perdedores da guerra. por exemplo. la sequía o la helada negra. aliado à austeridade da natureza na região redundam no isolamento destacado no trecho. 2010. A própria ideia de divisão de terras estava ideologicamente relacionada . aos traidores da pátria. republicanos. O agricultor castelhano tinha de lidar com invernos rigorosos. (…) soltó una carcajada: ___ A voleo no siembran ya más que los mendigos y los tontos. puesto que utilizando la máquina. a quien las adversidades afinaban la suspicacia. o projeto de reforma agrária surgido no período da Segunda República (1931-39) foi invalidado durante o governo Franco. las tres cuartas partes de la cuarta parte restante. El señor Rosalino. os campesinos médios e pequenos conseguiam. irregularidades das chuvas. os agricultores médios que sobrevivem da agricultura. é a subordinação do agricultor às intempéries do clima. são aqueles que para manter suas famílias tem de trabalhar como jornaleiros em outras terras ou se dedicam a outros trabalhos como a caça. que além de agricultor é o marceneiro do lugar. através do relato de Delibes. sobreviver exclusivamente da agricultura. y la última cuarta parte se la distribuían. el Poderoso. Esse esquecimento por parte do poder público. a total ausência de políticas públicas e investimentos para melhorar a condição de trabalho desses camponeses. A mecanização agrícola. (DELIBES. socialistas. verões quentes e secos. conforme resume o narrador: “En el pueblo. Esto no impedía a don Antero. p. Proprietários de 10 a 100 hectares. aos quais Nini se refere como vecinos del lugar.120 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS necessidades do plantio e da colheita. blasfemaban y decían: ‘No se puede vivir en este desierto’. Pruden. 2010. para garantir o sustento da família. o vilarejo castelhano fictício criado por Delibes reproduz essa organização social exatamente como o descrito no estudo de Pérez-Díaz: Don Antero. De acordo com Pérez-Díaz. inclusive como jornaleiros. que tinha em sua base aliada o apoio dos grandes proprietários de terra. indicando ao leitor de forma direta o lugar social que o mesmo ocupa no povoado: o de cacique. el Pruden y el puñado de vecinos del lugar. como é o caso de Antoliano. como hacían ellos. oscilações térmicas e aridez do solo. detentor da maior proporção de terras. y ante los nublados. a criação de animais ou a manufatura. 42) Delibes atribui ao personagem Don Antero o epíteto el Poderoso. 36). geadas e nevascas. o pastoreio. manifestar frívolamente en su tertulia de la ciudad que “por lo que hacía a su pueblo. Doña Resu.” (DELIBES. não sem dificuldades. p. observa-se. Além da má distribuição das terras. 2010. entre las dos. p. pois não conseguiam sobreviver apenas da terra e eram obrigados a realizar outras atividades. comunistas. outro problema enfrentado pelo campesinato castelhano e denunciado por Delibes em Las ratas. señora Clo e Pruden representam nessa pirâmide.” (DELIBES. anarquistas e membros de outros grupos políticos que lutaram pela república durante a Guerra. Por isso o personagem Don Antero se sente confortável para afirmar que em seu povoado a terra está ainda muito dividida. inclusive com maior ênfase. poseía las tres cuartas partes del término. Os camponeses que possuíam menos de 10 hectares eram considerados marginais . Os demais campesinos. ou seja.

. ao menos teoricamente. por las inhóspitas laderas. boa parte do cultivo era realizado com a ajuda de rudimentares arados como os utilizados no período romano. Diante dessa otimista afirmação. Mesmo tendo sido negativos os resultados da primeira tentativa. A colheita também era feita manualmente. aunque ahora eran empleados del Estado dedicados a la ardua tarea de la repoblación forestal. 89). o personagem Pruden menciona esperançoso um plano de irrigação elaborado pelo governo: Tomó al Nini nerviosamente por el pescuezo y le explicó confusamente algo sobre un plan de regadío de que hablaba el diario y que alcanzaría hasta el pueblo. No había tarea más apremiante y los prohombres decían: “Los árboles regulan el clima. La repoblación forestal era la obsesión de los hombres nuevos. según se sentaba en el banco del fondo: ___ Date cuenta. (DELIBES. zomba dos agricultores que ainda semeiam de forma primitiva. Delibes opõe dois discursos antagônicos – o de Pruden. Somente a partir da década de 1960 foram introduzidos os arados modernos e o trator. (DELIBES. p. intelectuais que conheciam. 2010. Tão logo. Dijo impulsivamente al niño. Após um mapeamento. 88-89) O projeto do reflorestamento já havia sido executado pelos republicanos durante a guerra civil através do trabalho de brigadistas voluntários. os habitantes locais que conheciam os resultados da primeira tentativa de reflorestamento respondiam: “Sólo Dios hace milagros”. e o de Rosalino que assume a voz do cacique e impassível. Nini. Hay que hacer la revolución. De fato. talvez o autor quisesse lembrar que ideias como a do reflorestamento surgiram no bojo da Guerra Civil Espanhola e da mente de homens afinados com o ideal republicano. Hay. Pero llegó el sol de agosto y abrasó los tiernos brotes y los cerros siguieron mondos como calaveras. 45) Outro projeto desse ministério foi o de reflorestamento.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 121 Nesse trecho da narrativa. p. si llueve como si no. (DELIBES. . após meses de trabalho dos Segundo Barciela López et. não restava aos agricultores como Pruden outra coisa que esperar dos céus o milagre da chuva. y cuando la guerra. De acordo com Pérez-Díaz. pues. até os anos 1950 em Castela. al. para essa segunda etapa do trabalho. 2010. Em Las ratas esses trabalhadores vinham de Estremadura. 89). Ao referir-se a hombres nuevos. talvez esses homens não conhecessem de fato o rigor climático do ambiente castelhano. Sendo a seca no momento do plantio e do desenvolvimento da plantação uma das principais preocupações dos agricultores castelhanos da época. “dispuestos a convertir Castilla en un jardín” (DELIBES. 2010. ao assumir o Ministério da Agricultura entre os anos de 1951-57. apenas a las veinticuatro horas de estallar. Em Las ratas Delibes narra o processo de replantio florestal em Castela: Antes hicieron esto en Torrecillórigo. contratavam-se jornaleiros. personagem que dá voz ao camponês consciente da impossibilidade do trabalho naquelas condições. porque o que era promessa de resgate da produtividade do campo desfez-se no primeiro verão. que plantar árboles. p. o plano era agora retomado pelo novo ministro da agricultura e. Rafael Cavestany tinha como projeto para sanar a aridez castelhana. os benefícios da recomposição vegetal para o clima e para o solo. ao longo da década de 1950 esse plano de irrigação havia atingido menos de dois por cento das zonas mapeadas. 2010. se organizaron brigadas de voluntarios con el fin de convertir la escueta aridez de Castilla en un bosque frondoso. Cuando el Pruden quiera agua no tiene más que levantar la compuerta y ya está. com foices e trilhos tirados por mulas. la azada al hombro. um plano de irrigação. ¿Te das cuenta? Dejaremos de vivir aperreados mirando al cielo todo el día de Dios. p. o tierra vegetal. Entretanto. ¡Arriba el campo!” Y todos los hombres de todos los pueblos de la cuenca se desparramaron ilusionados. No entanto. atraen las lluvias y forman el humus. foram declaradas zonas de interesse nacional as áreas agricultáveis. porém secas que dependiam do projeto de irrigação para tornarem-se de fato produtivas.

contratante dos serviços dos jornaleiros. Em Las ratas Delibes aponta as principais dificuldades enfrentadas cotidianamente pelo campesino castelhano durante a crise agrária dos anos 1950. Terminada a forte chuva. A trechos. entre las espigas decapitadas. uma mão-de-obra barata a serviço do grande latifúndio. Esse enfrentamento entre jornaleiros e pequenos agricultores existente desde antes da guerra. permaneceria de forma velada no inconsciente Delibes constrói a imagem da perda da colheita por meio de personificações que humanizam os cereais. a falta de investimento e crédito e os projetos políticos ineficazes. o desfecho conhecido dos agricultores castelhanos repetiu-se ao início do verão. se acostaban mansamente sobre el lodo. entre as quais a da reforma agrária. Delibes não só critica políticas públicas fracassadas como também confronta o saber científico com o saber popular. (DELIBES. Las ratas nos parece ser um romance ainda arraigado ao conceito de novela social espanhola dos anos 50. Os pequenos camponeses viam. termina com a chegada do verão e os riscos que a estação traz consigo. impedían el acceso de las ovejas a las colinas y les atribuían toda clase de vicios. o autor vai deslindando a tênue margem que separa ou vincula a denúncia social e a literatura. 2010. A narrativa que começa cronologicamente com o início do ciclo agrícola no outono. O castelhano não era amistoso à vinda dos trabalhadores estremenhos e no inconsciente coletivo se construíam todo tipo de estereótipos negativos em torno aos forasteiros: Pero en el pueblo no querían a los extremeños porque estimaban su labor inútil. lê nos sinais da natureza e vinda de uma forte chuva de granizo que aniquila os campos ás vésperas da colheita do trigo. rebrillaban las charcas.”(DELIBES. se a terra fosse dividida de maneira equitativa entre as famílias camponesas. Por los caminos y junto a las linderas yacían los cadáveres de los trigueros y las alondras. Ainda que o saber camponês fosse empírico. Durante su estancia los nativos disfrutaban de una absoluta impunidad. quando a ideia era a de que cada trabalhador tivesse uma pequena porção de terra na qual trabalharia apenas a sua família. Embora tenha sido publicada em 1962. decapitados e cadavéricos. o autor resgata a figura do homem do campo como aquele que melhor entende o seu habitat. 2010. Após dias de secura e calor intensos. No entanto. entre a má distribuição da terra. o protagonista contempla a plantação destruída: Los trigos. Segundo PérezDíaz. desde antes da Guerra Civil Espanhola os camponeses começaram a reivindicar suas pautas econômicas e sociais. Nini. Nesse momento. arracimados desordenadamente por la violencia cambiante del ciclón. Como profundo conhecedor de Castela e de sua gente. E assim. 179) Talvez essa rejeição pelos trabalhadores jornaleiros vindos de outras regiões do país tivesse uma explicação social mais profunda. rígidos sobre los granos de trigo y los cascabillos desparramados. p. devido ao forte sentido de comprometimento crítico de Delibes ao revelar a difícil condição do camponês . desapareceria a figura do cacique. As precipitações climáticas e as mudanças que elas provocam no meio ambiente são descritas com a poeticidade e a sensibilidade de quem conhece com propriedade a paisagem castelhana. 91) popular e se repetiria como no fragmento do discurso dos personagens delibesianos. o oráculo do clima castelhano. Ante cualquier desaguisado la gente decía: ___ Habrán sido los extremeños. comparando-os a seres humanos recostados ao solo. não poderia ser ignorado por aqueles que detinham o saber científico. na figura do jornaleiro. Ora. esse trecho confronta não apenas saberes como também culturas.122 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS estremenhos. nenhuma vicissitude impressiona mais o leitor que a impotência do trabalhador perante a natureza adversa. p. Com tudo. poeticamente.

campesinos y agricultura en Castilla entre mediados del siglo XVI y mediados del sig lo XX.pdf. Em Ayer. Disponível em http://www. . Disponível em http://www. Nesse romance. Madri: Castalia. CANDIDO. Acessado em 07/08/2012. BLANCO AGUINAGA. Queiroz. Barcelona: Destino. Julio e ZAVALA. Carlos.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 123 castelhano. nº 21. Notas 1 Jornal publicado em Valladolid até os dias atuais. María Inmaculada e MELGAREJO MORENO. Miguel Delibes iniciou seu trabalho no periódico a partir de 1940 chegando a ser o diretor de 1958 a 1963. A.). Referências bibliográficas BARCIELA LÓPEZ. El Estado y la modernización económica. DELIBES. Miguel (2010): Las ratas. pp. Carlos (Coor.com/pdf/ Asp5a.ahistcon. Antonio (2000): Literatura e sociedade . PÉREZ-DÍAZ. Acessado em 07/08/2012. utiliza-se o termo tradicional para definir o sistema agrário espanhol de meados do século XIX a meados do século XX. Víctor (1994): Transformaciones de una tradición. Iris (1974): Historia social de la literatura española III. RODRÍGUEZ PUÉRTOLAS. Segundo Pérez-Díaz (1994). 2 3 Palavras tal qual empregadas por Antonio Candido em Literatura e sociedade.pdf. São Paulo: T. Joaquín (1996): La intervención del Estado en la agricultura durante el siglo XX. 51-96.asp-research. o autor faz da literatura um instrumento de ação social capaz de fazer com que as autoridades políticas da época voltassem seu olhar para uma região do país esquecida e isolada.org/ docs/ayer/ayer21_03. LÓPEZ ORTIZ.

e previamente ditadas pelo general Juan Domingo Perón a López Rega. Dessa forma. GENETTE. como em Poesias. epílogos. cifradas ou expressas. prólogos etc. uma relação de copresença entre dois ou mais textos. decadencia y derrota de José López Rega” (p. 5) hipertextualidade: responsável por unir um texto B (hipertexto) com um texto anterior A (hipotexto) no qual se enxerta de uma maneira distinta à do comentário. com outros textos e textualidades (Cf. advertências. os romances La novela de Perón (MARTÌNEZ. no limite. triunfo. 4) arquitextualidade: articula uma menção paratextual (subtítulos e títulos. 2) pelas relações com os paratextos: títulos.124 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS QUANDO O MET ATEXT O DE TOMÁS EL OY META TEXTO ELO MAR TÌNEZ AUTENTICA AS VID AS DE PERÓN VIDAS MARTÌNEZ André Luis Mitidieri UESC Centramos atenção nas coletâneas de artigos jornalísticos de Tomás Eloy Martínez intituladas Las memorias del General (1996) e Las vidas del General (2004). fazendo com que se considere as relações. 1995). subtítulos. notas à margem. relação geralmente denominada comentário. ou seja. unindo um texto a outro texto que fala dele sem citá-lo e inclusive. concebido tanto como o movimento político nascido depois do golpe de Estado de 1943. Esse artigo revela-se como indicativo das formas por intermédio das quais pode ocorrer a transtextualidade. epígrafes. 1985) e Santa Evita (MARTÍNEZ. “Ascenso. A transtextualidade ocorre de diferentes modos: 1) pela intertextualidade. ilustrações etc. prefácios. as quais discorrem sobre o peronismo. é por excelência a relação crítica. a presença efetiva de um texto em outro. intertítulos.). 179-188) retrata histórias cotidianas do exílio de Perón e sua extravagante relação com o secretário e mordomo José López Rega. ou seja. a maneira pela qual se viabiliza a possibilidade de um texto escapar a uma singularidade que muitas vezes se torna insatisfatória a seu deciframento ou a sua compreensão. Ensaios etc. 3) pela metatextualidade. “El Brujo”. Publicadas na revista . 1989). sem nomeá-lo. assim como Las memorias del General e Las vidas del general constituem hipertextos de um hipotexto chamado “Las memorias del semanario Panorama”.. notas de pé de páginas. e a identidade política de quem o invoca quanto como uma proposta de constituir a nação argentina. Integrando a última coletânea. finais. gravadas por Martínez durante quatro dias.

o intelectual argentino afirma que prepara Las vidas del General esperando. intertextual e paratextual são elas mesmas indicativas da relação metatextual. Dentre outras mudanças que ocorrem nesse paratexto. Martínez não ignora os desenvolvimentos teóricos acerca desse tema. fornece informações a respeito de quatro outros textos que. acompanhado de respectivos documentos. se sublevar contra a vontade de Perón (Cf. 14). . instauram consideráveis mudanças que se reiteram na relação arquitextual. configura-se simultaneamente como uma relação arquitextual e paratextual que parece fazer mais jus ao caráter plural das identidades no mundo contemporâneo. A título de exemplo. talvez inutilmente. da forma crítica como o autor encaminha seus textos ao leitor. figurando em sua página de rosto. menos significativa. constantes na edição anterior. 13-122). 2004). integra a coletânea Las memorias del General (MARTÍNEZ. ao mesmo tempo. hipertextual. mas aos dias 21 e 28 de abril. loc. O texto fonte. agora voltam a ser republicados. 195-218). que dialogue com todas as ficções que ele havia escrito sobre o peronismo e possam encerrá-las. diz suprimir o que considera um pleonasmo: o capítulo “Las memorias del semanario Panorama ” (MARTÍNEZ. Enquanto professor de literatura em universidades norte-americanas. refere-se à omissão de que o corpo completo das “Memórias” se originou daqueles diálogos (Cf. p. importa mencionar o fragmento no qual o jornalista afirma que “este libro restaura los diálogos de Puerta de Hierro en el orden y del modo como sucedieron ” (p. dentre outras considerações. mas também os outros relatos dissidentes que completam ou contradizem tal imagem (p. 123-134) e “La tumba sin sosiego” (p. 20) quando. Insatisfeito com as lacunas encontradas no discurso de Perón. No mesmo prólogo. p. essas “memórias” englobam os 50 primeiros anos da vida do expresidente argentino. As relações arquitextual. o autor procede a investigações e à reconstrução de diálogos.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 125 argentina Panorama a 14 abr. na nova versão. a partir do momento em que o autor substitui a palavra “Memorias” (constante na edição de 1996) pelo termo “Vidas” no título da obra lançada a público em 2004. acrescida de um prólogo (p. A mesma coletânea passa a ser intitulada Las vidas del General: memorias del exilio y otros textos sobre Juan Domingo Perón (MARTÍNEZ 2004)1 em nova edição. a morte do sindicalista Augusto Vandor e as ideias de Perón sobre o que denominava “a liberação dos povos”. 1996). reelaborando o que nomeia como “desmemorias” no capítulo “Las memorias de Puerta de Hierro” (p. Mais adiante. cit. o jornalista edita fragmentos relacionados àquele texto: sobre Evita. além das (des)memórias de Perón. Ainda informa que. o subtítulo do livro Las vidas del General (MARTÍNEZ. é republicado ao final do mesmo livro. No mesmo periódico. Outra alteração. 195-218). 9-15) no qual o autor infere. Todas essas relações intertextuais e paratextuais. como “Las memorias del semanario Panorama” (MARTÍNEZ 1996. p. na edição precedente. 1996. 11). 135-170). O prefácio utilizado em Las memorias del General passa a servir de introdução ao capítulo “Las Memorias de Puerta de Hierro” de Las vidas del General (MARTÍNEZ 2004. 1970. “Ascenso. contudo. O subtítulo dessa publicação – “memorias del exilio y otros textos sobre Juan Domingo Perón”. insere dois outros capítulos: “Perón y sus novelas” (p.). Reiterando os vínculos entre Las memorias del General e o primeiro dos romances mencionados. que o título recente lhe parece mais apropriado por refletir nem tão somente os relatos com os quais Perón desejou inserir-se na história. MARTÍNEZ. 13-122) que. comporta entre seus outros textos. p. MARTÍNEZ 1996. quer dizer. dizia respeitar e. aliadas às contracapas de ambas as edições.

que assim declara: No final de abril de 1975. Buenos Aires.2 alcançar uma compreensão global do universo. como secretário ou assistente. praticamente todas as mensagens. de intertexto citacional de apoio. por volta de 1950. uma organização parapolicial que era financiada com fundos do Ministério de Bem-Estar Social e que. fornece outros dados através de uma biografia reconstruída por membros do Clube de Correspondentes de Madrid. ao começo do texto. p. 18). e que propunham. sustentada por avisos de militantes peronistas. no exílio em Madri”. consideravelmente frequente. Desobedeci à advertência e tomei somente algumas precauções. decadencia y derrota de José López Rega” (p. Martínez informa que os escritos de dom José interpretavam o destino dos seres humanos “como um diálogo entre o poder dos perfumes e o poder das cores. Elias. em uma das vias de acesso à Costaneira Norte de Buenos Aires.. da Associated Press. López Rega havia imprimido alguns panfletos do peronismo clandestino e conquistado a confiança do major Bernardo Alberte. 179-188).]. com esperança de retornar em poucas semanas. Alguns .4 Por meio de seu narrador. escrito por “el Brujo”. respondia às ordens de José López Rega. referendando o indício paratextual que tem valor contratual (CF. a quem quisesse 3 Em 1963. aparentemente.126 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS triunfo. artigo escrito em Caracas e publicado no jornal La Opinión em 22 de julho de 1975. Na mesma direção. Dez dias mais tarde. Executando o retrato biográfico daquele protagonista quase iletrado. Ainda não associado “ao paroquiano das ciências ocultas que vivia em Madri por um ano à procura da aprovação do General para sua difusa doutrina espiritualista. estalou uma segunda bomba e recebi ameaças mais rotundas no apartamento onde morava e em um restaurante onde estava almoçando. a quem a lentidão de suas ascensões no escalão policial induziu-o a pedir para ser reformado em 1962. Viajei à França.6 Em 1971. Os libelos me declararam inimigo da Argentina e me concediam quarenta e oito horas para partir ao estrangeiro. quando se vinculou com alguns membros da loja maçônica Anael e instalou uma pequena imprensa próxima à ponte ferroviária da rua Salguero. Moisés e Maomé”. Abel. era conhecido como empregado para tarefas domésticas e editor de uma revista de tiragem limitada. que teceria o iluminismo Rosacruz e alquimia de Paracelso com os rituais brasileiros de Umbanda”. o então cabo reformado pediu a Alberte para servir como custódia de Isabel. a voz autobiográfica do jornalista. submeter-se ao simultâneo ensino de Antúlio. Caso não conte com uma fugaz semana em agosto de 1975. 1989. na esquina de Paraguai e Leandro N. GENETTE. sem talento aparente para a política. O metatexto crítico de Martínez assim é praticado com uma parte. telefonemas e pedidos de audiência dirigidos ao General passam pela anuência do “Bruxo”.. um dos herdeiros de Perón. na qual o esotérico aparecia como integrante circunstancial da equipe de vigilância presidencial. posso dizer que demorei nove anos para voltar [. Alem. a instância autoral inclui. o escritor insere a própria voz autobiográfica para dizer que ouviu pela primeira vez o nome de José López Rega quando tomou conhecimento do livro Astrologia esotérica. Sua militância peronista parece iniciar aquele ano. Quando esse mandou a esposa a Mendoza em 1965.5 López Rega é apresentado como um rosto anônimo entre aqueles que rodeavam Perón em 1966. a Triple A. dois dias depois que o “Bruxo” viu-se obrigado a renunciar e par tiu ao Rio de Janeiro como embaixador extraordinário da presidenta Isabelita Perón. e depois como um cabo disciplinado e ambicioso. para apoiar o candidato a governador Ernesto Corvalán Nanclares. fez explodir uma bomba lança-panfletos em frente ao edifício da editora Abril. “Conjetura-se que foi então quando a convenceu de seu desinteresse patriótico e obteve consentimento para colaborar com ela. Pela memória de Tony Navarro.

assegura: “O certo é que o domínio dessa enorme . trata-se da “metalepse” que. capaz de ir mais longe do que sonhava. descobri uma espécie de sossegado bodegueiro de subúrbio. Também não sou o único que começou a levá-lo a sério quando já era muito tarde”. Mais uma vez. O escritor confirma essas pretensões místicas quando soma seu testemunho à história primeira que ele mesmo narra. As lembranças do escritor alcançam o protagonista no mês de “junho de 1972. capaz de ressuscitar os mortos e ler os pensamentos alheios. outra vez destacada na narrativa. o “milagreiro” deteve um poder que. publicada em Astrología estérica junto a conjeturas místicas sobre Perón. posteriormente. maciço como um touro. provém uma possível resposta: “‘Eu sou o para-raios que detém todos os males enviados contra esta casa. não duraria muito tempo. Devo dizer que a negou e atribuiu sua invenção. deixam para entregar a correspondência quando se despedem do ex-mandatário. mas o secretário (a quem o narrador oferece voz). mas significativa. quando o vi pela primeira vez. cidade brasileira fronteiriça com a Argentina. A ambição por bens materiais. a metalepse autobiográfica de Martínez confere autenticidade à narração: “Perguntei a López Rega sobre a veracidade daquela história. Em vez do megalomaníaco e intrometido Rasputin anunciado por seus detratores. seu único prazer. segundo ele. O autor-narrador. ou inversamente. a fim de transferir o peso político e o carisma de Perón a si mesmo e. foi de qualquer maneira inferior ao personagem delirante e descarado que haviam prometido as fábulas madrilenhas. Cada vez sou menos López Rega e cada vez sou mais a saúde do General’”. de cuja voz.12 A informação de que “el Brujo” teria utilizado o conhecimento adquirido nos arquivos e nas correspondências de Perón a fim de amedrontar peronistas que deixaram rastros escritos de sua deslealdade ou torpeza é atribuída a alguns de seus adversários. sabendo de tal vigilância. reuniram dados sobre uma empresa de engarrafar água em Uruguaiana.).11 O cotidiano do “Bruxo” no escritório da Gran Vía em Madri. quando mantivemos um diálogo fugaz junto à Quinta 17 de Outubro”. A gravidade estaria no fato de ele impor ao produto o nome de Perón e sugerir que esse recomendaria suas virtudes. segundo Gérard Genette (2004).ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 127 peronistas. “com o pretexto de que ‘o General tem muitas coisas para atender e não convém abusar de sua saúde’”. ao ódio que lhe professavam ‘alguns inimigos bruxos’”. da qual seria ele o profeta e o pontífice. a partir dessa fonte. todos esses dados são antecedidos no texto pela breve. 7 A relação metatextual que se vai confirmando não prescinde de um elemento típico das narrativas ficcionais. e na qual sua presençã é solicitada como narradorpersonagem: “Não sou o único a quem se definiu em Madri como um fazedor de milagres. o hábito da escrita. que carecia de escrúpulos na relação social e de senso do ridículo. contudo.10 Com uma ideologia esdrúxula. a crença de que o destino da humanidade seria decidido por claves musicais. consiste em toda intrusão do narrador ou do narratário extradiegético no universo diegético (ou de personagens diegéticas num universo metadiegético etc.8 A ocasião permite a Tomás Eloy Martínez levantar uma hipótese a respeito da tolerância de Perón para com o mordomo. é informada por Martínez a partir de correspondentes estrangeiros que. tomada biográfica na qual o testemunho de Martínez reitera o procedimento autobiográfico anteriormente indicado: A impressão que me causou. seu ponto frágil.9 O narrador recorre a informes detidos em 1972 por um dos correspondentes de Madri para comunicar que o secretário do ex-presidente tinha um plano para transformar a Argentina num campo de cultivo mágico. em 1970. não raro toma para si o envelope. fundar uma religião para o Terceiro Mundo. literalmente.

O metatexto crítico autentica as configurações que esse havia estabelecido para sua obra – as (des)memórias de Perón ao lado de outros textos. somente quando se fizer o novo inventario das ruínas. os partidos político. triunfo. o secretário acreditava em um Espírito Supremo que outorgaria poderes a alguns seres humanos e a outros. GENETTE. Perón havia pronunciado que o país estava em ruínas. nem Deus nem sabe. MARTÍNEZ. se for verdade – pois é verdade – que je sempre é também um outro”. a perspectiva biográfica voltada ao secretário de Perón é compartilhada com as intrusões autobiográficas de Martínez. Traducción por Luciano Padilla López. Buenos Aires: Biblioteca del Sur. sobretudo. Foi o próprio Perón quem. No entanto. Nesse artigo. mas que integra uma coletânea na qual o papel de protagonista é ocupado por Perón. o derrubou de maneira póstuma. de certo modo. de cuja existência. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica. Madrid: Altea. ________ (2004): Las vidas del General . não.128 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS massa informativa.15 Referências bibliográficas GENETTE. Buenos Aires: Planeta. ________ (1995): Santa Evita. Altea. De acordo com a parte final do artigo que. o fanatismo e a intolerância daqueles tempos alertam-nos sobre os riscos dos atuais fundamentalismos. e que somente uma política de conciliação e unidade nacional poderia salvá-lo. consistindo em discurso secundário que confirma o artigo por ele protagonizado. Ao contrário. Buenos Aires: Planeta. política ou religiosa. Você com quem quer estar? Com a massa ou com o que amassa?”. Tomás Eloy (1996): Las memorias del General. a derrota do “Bruxo” talvez encontrasse entre seus motivos. porque a imprensa. os sindicatos. aos inimigos. decadencia y derrota de José López Rega”. integrando a coletânea Las memorias del General. haverá possibilidade de saber se essa voz de mando não teria se pronunciado tarde demais. que forma parte do amplo cenário psicossocial contemplado pelas referidas obras de cunho jornalístico e memorialístico. López Rega acreditou no isolamento do poder e na necessidade de que o país se colocasse a serviço de suas convicções.16 Participante assíduo nas reuniões políticas da Puerta de Hierro aproximadamente desde 1969. se uniram e conciliaram para dizer-lhe basta. foi uma das chaves de seu poder político”. 13 arrogância. Alfaguara. como também em outros artigos que integram Las memorias del General e Las vidas del General. além da cobiça. Taurus. ________ (1985): La novela de Perón . A esses. somada a sua infalível memória de policial bem adestrado. pois há “homens que são escolhidos por Deus e outros. Presentes não apenas no texto aqui estudado. de acordo com as convicções e as palavras de López Rega. a vida do general junto a outras vidas – tomando a forma de uma metalepse que “está no núcleo íntimo de tudo o quanto cremos poder dizer ou pensar a respeito de nós mesmos. Gérard (2004): Metalepsis : de la figura a la ficción. “Ascenso. Buenos Aires: Aguilar. caberia tratálos com rigor. 14 É também considerado metaléptico esse enunciado que o mordomo havia proferido acerca de si mesmo. a . o excesso de fé em seus poderes individuais: Antes de regressar à Argentina. Gérard (1989): Palimpsestos . de ordem étnica. Planeta. o povo desesperado. Taurus. Alfaguara. os empresários e. é depois eliminada de sua reedição em Las vidas del General.

182). p. fue de todos modos inferior al personaje delirante y cachafaz que habían prometido las fábulas madrileñas. 2 “A fines de abril de 1975. 2004. Debo decir que la negó y que atribuyó su invención. 12 "La impresión que me causó. 1996. en una de las vías de acceso a la Costanera Norte de Buenos Aires” (Id. a quien la lentitud de sus ascensos en el escalón policial indujo a pedir retiro en 1962. Su militancia peronista parece arrancar aquel año. 181). literalmente. descubrí más bien a una especie de sosegado almacenero de suburbio. Buenos Aires. Ibid. p. Trata-se do informe sobre uma bomba que destruiu o carro de Perón em 1957. y luego como un cabo disciplinado y ambicioso. 183). p. que entretejía el iluminismo Rosacruz y la alquimia de Paracelso con los rituales brasileños de Umbanda” (Id. Ibid. 2004. Los libelos me declararon enemigo de la Argentina y me concedían cuarenta y ocho horas para marcharme al extranjero. 11 "Pregunté a López Rega sobre la veracidad de aquella historia. al odio que le profesaban ‘algunos brujos enemigos’” (MARTÍNEZ. en el exilio de Madrid” (Id. Alem. loc. hacia 1950. p. o explosivo não teria sido colocado no veículo pela embaixada da Argentina na Venezuela e sim pelo chefe do Serviço de Inteligência daquele país. 2004. estalló una segunda bomba y recibí amenazas más rotundas en el departamento donde vivía y en un restaurante donde estaba almorzando. sin embargo. p. al parecer. 2004. Ao contrário do que afirmava o general. p. 10 “No soy el único ante quien se definió en Madrid como un hacedor de milagros. que carecía de escrúpulos en la relación social y de todo sentimiento del ridículo” (MARTÍNEZ. En vez del Rasputín megalómano y entrometido que anunciaban sus detractores. 5 "como circunstancial integrante del equipo de vigilancia presidencial. 7 "con el pretexto de que ‘el General tiene demasiadas cosas que atender y no conviene abusar de su salud’” (Id. Ibid. p.). p. cit. capaz de resucitar a los muertos y leer los pensamientos ajenos. 184). cuando mantuvimos un diálogo fugaz junto a la entrada de la quinta 17 de Octubre” (MARTÍNEZ. la Triple A. p. 8 “junio de 1972. 3 “al feligrés de las ciencias ocultas que vivía en Madrid desde hacía un año buscando la aprobación del General para su difusa doctrina espiritualista. cuando se vinculó con algunos miembros de la logia Anael e instaló una pequeña imprenta cerca del puente ferroviario de la calle Salguero. Tampoco soy el único que empezó a tomarlo en serio cuando ya era demasiado tarde” (MARTÍNEZ. en la esquina de Paraguay y Leandro N. 2004. 9 "‘Yo soy el pararrayos que detiene todos los males enviados contra esta casa. 186). p. someterse al magisterio simultáneo de Antulio. Tardé nueve años en volver. é eliminado da coletânea Las vidas del general. 116-119). Elías. 4 “como un diálogo entre el poder de los perfumes y el poder de los colores. Desobedecí la advertencia y sólo tomé algunas precauciones. loc.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 129 Notas 1 O documento n. Abel. a quienes quisieran alcanzar una comprensión global del universo. 182). . con la esperanza de regresar a las pocas semanas. una organización parapolicial que se financiaba con fondos del Ministerio de Bienestar Social y que. Ibid. 6 “Se conjetura que fue entonces cuando la convenció de su desinterés patriótico y obtuvo consentimiento para colaborar con ella.). y que proponían. quando de seu exílio em Caracas. cit. 184). cuando lo vi por primera vez. 185). 20. hizo estallar una bomba lanzapanfletos frente al edificio de la editorial Abril. como secretario o asistente. constante nessa seção de Las memorias del General (MARTÍNEZ. respondía a las órdenes de José López Rega. Diez días más tarde. Cada vez soy menos López Rega y cada vez soy más la salud del General” (MARTÍNEZ. macizo como un toro. Moisés y Mahoma” (MARTÍNEZ. 182-183). Viajé a Francia. con la salvedad de una fugaz semana en agosto de 1975 […]” (MARTÍNEZ.

p. Fue el propio Perón quien.130 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 13 “Lo cierto es que el dominio de esa enorme masa informativa. 14 "hombres que son elegidos por Dios y otros de los que Dios ni se entera que existen. 2004. López Rega creyó en el aislamiento del poder y en la necesidad de que el país se pusiera al servicio de sus convicciones. 144). el pueblo desesperado. se unieron y conciliaron para decirle basta. p. sobre todo. 2004. si es verdad – pues es verdad – que je siempre es también otro” (GENETTE. sumada a su infalible memoria de policía bien adiestrado. A la inversa. en cierto modo. p. podrá saberse si esa voz de alto no se pronunció demasiado tarde” (MARTÍNEZ. ¿Usted con quién quiere estar? ¿Con la masa o con el que amasa?” (MARTÍNEZ. . los sindicatos. Perón había predicado que el país estaba en ruinas. 187). fue una de las llaves de su poder político” (MARTÍNEZ. los empresarios y. lo derrocó de manera póstuma. 15 "Antes de regresar a la Argentina. loc. 129). y que sólo una política de conciliación y unidad nacional podía salvarlo. 16 “está en el núcleo íntimo de todo cuanto creemos que podemos decir o pensar respecto de nosotros mismos. cit. porque la prensa. los partidos políticos. 1996.). Pero sólo cuando se haga el nuevo inventario de las ruinas.

Especialmente no pós-guerra. A censura atuou de forma incisiva nas produções cinematográficas. Mas o inverso também ocorreu. uma análise do filme Calle Mayor (1956). através das câmaras perspicazes de Antonio Bardem.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 131 CALLE MAYOR E SEÑORITA DE TREVÉLEZ SOB A DITADURA FRANQUISTA Angela dos Santos FATEC – ZL e SCS O cinema e a técnica cinematográfica ganham corpo nas primeiras décadas do século XX. tornandoo um instrumento de propaganda política. no início do século. Não era raro. contribuiu de forma contundente para a difusão dos ideais franquistas. de que maneira o cineasta conseguiu subverter a ordem. O objetivo é tentar vislumbrar. passando a ser caracterizado como uma técnica que permitia movimentos de massas. A partir desta problemática. Neste período. posto o seu poder de fascínio e sua vertente influenciadora. do cineasta Juan Antonio Bardem. cujo enredo é baseado em uma adaptação livre da obra La Señorita de Trevélez (1916). essa se torna uma mídia explorada com fins de mudança social. Certamente isso não foi diferente no regime franquista. devido ao fato de atingir um contingente enorme de pessoas. que os regimes totalitários exercessem sobre os filmes uma censura asfixiante. pretende-se apresentar aqui. e produziu uma obra crítica à . com o apogeu da indústria cinematográfica. o silêncio imposto nos longos anos de ditadura de Franco. mutilando obras e ditando regras tanto políticas quanto religiosas. na medida do possível. do dramaturgo Carlos Arniches. No plano das possibilidades. a moral e os bons costumes. foi crucial para que o cinema e a literatura espanhola fossem diretamente afetados em suas produções. segundo Walter Benjamin (1985). e sob a vigilância da censura. ao mesmo tempo em que encomendavam obras para propagar seus ideais e impor sua forma e conteúdo. em vista de manter o status quo . essas técnicas de reprodução da arte. poderiam promover a democratização no campo das artes. Neste sentido. o cinema também foi utilizado como meio de propaganda ideológica sobre as massas. a produção cinematográfica de transposições literárias tomou uma proporção ainda maior que nos anos anteriores. Assim.

de fala peculiar. Também merece atenção Numeriano Galán. preferência de certo tipo de público. pois o engano é perpetuado e Flora de Trevélez segue em completa ignorância dos fatos.132 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS sociedade de sua época. tem o mesmo título da obra teatral. utilizando jogo de palavras. La Señorita de Trevélez é considerada a obra mais relevante de sua produção teatral. que enchem as salas de teatro. Ele narra um drama causado por homens que. na qual se percebe que não há a pretensão de uma crítica severa à sociedade. Sem dúvida. perpetuam as condições da mulher frente à sociedade patriarcal. tecendo uma odiosa brincadeira sem precedentes. na impossibilidade. tornando-o um verdadeiro “vício nacional”. suprimindo sílabas. Dada a importância desta obra. Trata-se de encontrar. para fugir do tédio de uma cidade. mas não quanto ao gênero. e D. Nesse período. pintarrajada e sonriente” (ARNICHES. p. Ele revela um conflito dramático relacionado ao cotidiano de uma pequena cidade. foram realizadas duas versões cinematográficas. de Edgar Neville. são próximas quanto ao argumento. membros de um cassino provinciano. A obra de Arniches relaciona características regionalistas. As duas obras em análise. . jovem escolhido pelos amigos fanfarrões para ser o suposto pretendente de Flora. mas estaciona neste ponto. A primeira. uma solteirona de idade avançada de classe burguesa “la cara ridícula. que se aproximam do folclórico. A obra em análise de Arniches foi escrita e levada à cena em plena Guerra Mundial. já que o trabalho de Arniches é reconhecido como uma comédia grotesca. aplicando um léxico próprio. em sua maioria peças cômicas. Gonzalo de Trevélez. uma linguagem própria que logo é repassada ao povo. Carlos Arniches foi um mestre na arte de escrever obras deste gênero. Comediógrafo e excelente pintor de ambientes populares. e é considerado o criador da “tragédia grotesca”. proliferam nos teatros apresentações de obras de todo tipo de gênero. Ela sacrificou um possível matrimônio pela felicidade de sua irmã. produzida às vésperas da guerra civil espanhola em 1936. São elas: Flora de Trevélez. simplesmente para evadir-se do tédio da vida quotidiana da pequena cidade. a possibilidade. vítimas de uma cruel brincadeira engendrada por jovens ociosos. Qualificada pelo autor de “farsa cómida en tres actos”. uma teatral e a outra fílmica. associado ao costumbrismo e ao humor. a transposição é feita somente através do argumento e converte o cômico em tragédia. Criando assim. soube recriar de maneira exemplar a riqueza da linguagem popular de Madri. O argumento desta tragédia grotesca apresenta um conflito dramático relacionado ao cotidiano e protagonizado por heróis igualmente grotescos que tramam brincadeiras de mau gosto. Suas personagens são apresentadas com características singulares. É bastante próxima à obra de Arniches. com fins humorísticos. Já não possui o tom jocoso e não se emprega o jogo de palavras que caracteriza a obra teatral. Vale destacar as principais personagens da peça. ainda que residual ou mínima. irmão de Flora. 1998. . Na obra fílmica. Sua obra está a meio caminho entre a tragédia e a comédia. principalmente o conhecido género chico.94). com intenção evidente de caricaturar o madrileno. tendendo ao sentimentalismo e ao melodrama. que é sem dúvida a personagem de maior relevância. a esta comicidade própria da farsa está presente o drama que vivem os irmãos Trevélez.

A cidade indefinida no filme é na realidade Logroño. Só assim ele conclui o filme. as personagens perdem as características grotescas e assumem um papel mais fidedigno da realidade. los anuncios en las paredes o una determinada manera de sonreír y hablar no debe ser forzosamente una bandera concreta para envolver a estos hombres y mujeres que va a empezar a vivir delante de nosotros (BARDEM. a partir de 1943. Calle Mayor . se recusa a continuar as filmagens sem Bardem. que são maioria e vão acompanhadas por outras amigas ou alguém da família. principalmente as mulheres solteiras. dando ênfase à visão de uma pequena burguesia local. tais como o cassino. que tem como intérprete a norte-americana Betsy Blair. El color del pelo o la forma de las casas. Durante a rodagem do filme. além de outros locais pontuais da cidade. Na verdade. 1956). como já foi dito. dos bons costumes. pois era obcessão da censura de que qualquer filme não revelasse a localização e a época das histórias contadas. Juan Antonio Bardem realiza o filme Calle Mayor . quanto ao seu conteúdo moral. a catedral. mas Bardem soube magistralmente revelar aspectos políticos e religiosos. Outras cenas foram cortadas pela censura. a um sistema de classificações que tenta controlar a indústria por meio de subvenções que servem à ideologia do regime franquista. Possivelmente foi graças à intervenção da coprodutora francesa e a esta recusa de Betsy Blair que o diretor conseguiu ser liberado algumas semanas depois. Bardem é detido. Bardem evidentemente teve problemas com o roteiro. como se o expediente pudesse ser uma fábula. . com brincadeiras nada honrosas. com argumento e roteiro do próprio diretor. Nessa transposição. na qual o diretor não se preocupou em seguir a história linear do gênero cômico. É o que levantaremos nesta análise. Esta obra é uma coprodução hispano francesa. em 1956. daquela sociedade. para os padrões da época. Durante os longos anos de ditadura. A principal tarefa da Junta de Clasificación y Censura é a de exercer a censura dos filmes nacionais e estrangeiros. sem espaço e tempo próprios de uma sociedade. Una ciudad cualquiera en cualquier provincia de cualquier país. em condições pouco convencionais. tão comum à época. um jovem de Madrid que reside na cidade havia apenas três meses e que já se ambientou ao estilo de vida provinciano. Vê seus sonhos de se casar prestes a se realizem quando percebe as investidas de Juan. sendo possível vislumbrar diversos elementos. convidada pelo próprio diretor para protagonizar Isabel. evidenciando os costumes de uma pequena cidade. em cidades provincianas. Foi obrigado a retirar os letreiros de lojas e bares das filmagens. é uma transposição livre de uma obra teatral. não é mais uma jovem na idade de “buen merecer”. em plena ditadura franquista. ou melhor dizendo. e a atriz. Parte dessa ambientação de Juan consiste na aproximação a um grupo de jovens acostumados a zombar das pessoas. La historia que está a punto de comenzar no tiene unas coordenadas geográficas precisas. a indústria cinematográfica enfrenta uma censura feroz e. Una pequeña ciudad de provincias. O motivo principal é ver e serem vistos. político e social.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 133 Anos depois. Um fato que fornece a dimensão do momento político merece ser pontuado. o bairro velho e a calle Mayor de Palencia. onde os constantes passeios pela calle mayor reproduzem um ritual cotidiano. Isabel é uma solteirona e. sob forte pressão do Estado para que o filme prossiga com outro diretor. ele tomou o argumento da obra teatral e transformou-a em uma tragédia. anunciando precisamente: Aquí abajo está la ciudad. A censura encarregou-se de que o diretor fizesse um prólogo.

às freiras e seminaristas. onde Juan dá indicações a Isabel de seu interesse. manifesta-se poucas vezes. dos homens perante a vida inculta. Yo tomé como elemento fundamental de mi texto la broma. Un afluente fue Doña Rosita la soltera de Federico García Lorca. Un tercer afluente venía del poema de Agustín de Foxá: las seis muchachas en el mirador. cantando com mais entusiasmo. religião e meros planos de passeios de seminaristas. já que Juan se acovarda e foge. estabelece uma oposição ao franquismo e que a personagem Federico traz de forma que atualiza a ação e a situação política da época. cabendo a seu irmão este papel. que aparece como o protagonista na peça teatral. No filme o aspecto religioso. Flora não é a protagonista. não está de acordo com as constantes brincadeiras do grupo e condena suas atitudes. y a partir de ahí. sino específicamente de una señorita de la pequeña burguesía de una ciudad de provincias. As personagens masculinas perdem a característica grotesca e adquirem uma personalidade mais complexa.. Bardem desenvolve uma sequência exemplar no interior de uma igreja. Otra vez la soledad de una mujer abandonada y asfixiada por las conveniencias sociales de su mundo. A respeito de sua obra. no final. pois é escolhido para forjar uma relação com Isabel. na qual somente as mulheres participam e Isabel. Apesar de a censura ter impedido que a prática religiosa tivesse mais relevância no filme. no filme desaparece completamente. Federico terá um papel importante como representante de uma postura comprometida. en particular. improdutiva e conformista. revela sua visão comprometida com o lado social. Isabel revela-se uma personagem viva. O papel de protagonista cabe agora à personagem feminina. no filme. No entanto. nos anos 50. Mas é manifesto que Bardem explora bem mais o aspecto social que em Arniches. próxima da realidade.. Dentre os cortes. roubando a cena da protagonista. É um aspecto que difere da obra teatral. un análisis de la condición de la mujer en España. La fuente: La señorita de Trevélez de Don Carlos Arniches. Outra sequência é a declaração de amor feita por ele na metade de uma procissão. me dediqué a explicar y expandir una crítica general del mundo español de los 50 y. Apesar do título da obra teatral. siguiendo paso a paso la línea que había escrito don Carlos. já que Apesar de Bardem dar ênfase ao drama da mulher espanhola. Y no de cualquier mujer. as eliminações se deram aos momentos de referências a manifestações amorosas apaixonadas. Bardem diz: El texto nace de una fuente y más afluentes. Dessa forma traça uma diferença entre o roteiro original e o resultado final do filme. las seis mujeres de maridos ricos. Foram cortadas todas as outras sequências sobre caridade. se vê obrigado a revelar tudo a Isabel. Don Gonzalo. o domínio das figuras masculinas prevalece. Edgar Neville hizo una versión cinematográfica de La señorita de Trevélez con María Gámez como protagonista. uma revista que. Sua atitude em tentar ajudar Isabel a fugir daquela cidade e dos olhares de escárnio de todos. foram acrescentadas algumas sequências ao roteiro original. Um indicativo importante que se faz referência no filme é a revista Ideas. que está de passagem pela cidade. É ele que. Juan torna-se algoz e também vítima de seus amigos. ya en el borde de la soltería. fica claro que ele critica as atitudes . Federico. amigo de Juan.134 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Fazendo parte desse grupo. nada se parecendo com Flora. e muito menos grotesca. Não se evidencia uma proposta para que as mulheres adotem um papel mais ativo na sociedade. pois naquela Numeriano Galán é involuntariamente envolvido na trama. estarrecida e feliz pela audácia do suposto amante. mas de maneira contundente. Yo no. Além dos muitos cortes realizados. terna e patética. segue a procissão. pois ela não é feia.

Ao mudar completamente o gênero da obra original. No es fea como Florita. Dessa forma. cai uma forte chuva. que se evidencia no texto fílmico. já que a censura tinha o papel de mutilar e descaracterizar as produções em geral. v. BARDEM.A. de que é uma obra sobre a condição feminina. J. mas na verdade são as convenções. rezos y. Referências bibliográficas ARNICHES. se por seu corte neorrealista. Madrid: Cátedra. J.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 135 percebemos um deslocamento do que diz respeito ao próprio Bardem. (1985): Obras Escolhidas . O que torna esse filme uma obra singular. 135) explica a brincadeira ao personagem feminino: No es lo mismo burlarse de un personaje grotesco como Florita que de una mujer como Isabel. (1998): La señorita de Trevélez. procesiones. Aunque Carlos Arniches siempre critica a los burladores y a quienes. Madrid: Plot Ediciones. el retrato de la solterona casi invita a burla. De certa forma. No hay ninguna razón objetiva porque la condene a la soltería. W. Um futuro sombrio e tormentoso a aguarda. Nos anos 50. trad. (2000): El teatro en el cine español. com matizes próprios do diretor. inaugura-se uma produção voltada a uma aguda consciência social.A. arte e política. anualmente. Ríos Carratalá (2000. faz uma crítica à sociedade patriarcal. C. Ele utiliza-se de suas câmaras perspicazes para revelar o absurdo de tal sociedade e nos brinda com um filme de oposição à norma e à política vigente. São Paulo: Brasiliense. Fora. Suevia Films / Play Art / Iberia Films. (1956): Calle mayor.(1993): Calle Mayor . 95 min. a brincadeira. na medida do possível. elevada ao papel de protagonista. DVD. S. RÍOS CARRATALÁ. tampoco es cursi y. o diretor subverte a obra teatral e escreve outra história. O filme termina com Isabel vendo o mundo através da janela de seu quarto. BARDEM. Isabel es todo lo contrario. distanciando-se dos filmes produzidos até então. BENJAMIN. Bardem faz parte deste grupo e este filme diferencia- . o que ganha corpo na história é a pequena cidade provinciana. un baile en el Círculo. com personagens cotidianos e familiares. juegan con los sentimientos de los demás. Magia e técnica. Bardem. J. A brincadeira torna-se sem sentido e Isabel segue com sua atitude passiva e conformista. paseos.P. mesmo sob a censura franquista. graças a um grupo de cineastas que busca uma nova forma de representar e que partem de um universo mais realista.A. se limita a hacer lo mismo que las demás mujeres de la ciudad: novenas. mais reveladora e instigante. en cualquier caso. não rompe com o modelo estabelecido. I. en general. Rouanet. Coproducción España-Francia. Alicante: Publicaciones de la Universidad.

Segundo COMRIE (1976. o aspecto imperfectivo se refere essencialmente à estrutura interna de uma situação. completo. Mas se essa situação não puder ser prolongada. aspectuais. percebe-se que ambas as sentenças referem-se ao passado. Além disso. O aspecto contínuo/durativo ainda poderá ser dividido em progressivo e não progressivo. o aspecto imperfectivo é dividido em aspecto habitual e aspecto contínuo/durativo. A perífrase “tener” + particípio é considerada uma perífrase aspectual. Já em sentenças como em (7). na proposta do autor. p. Enquanto na primeira o aspecto é imperfectivo. Introdução O espanhol. segundo o autor. assim como o português. é uma língua que apresenta grande abundância de perífrases verbais. Essa perífrase. então para . há uma diferença aspectual entre elas. por exemplo. como por exemplo no próprio português. pois serve para mostrar a categoria verbal denominada aspecto. Essa oposição é gramaticalizada em diversas línguas. há dois aspectos básicos na língua. como no exemplo do inglês abaixo em (6).136 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS DISTRIBUIÇÃO DA PERÍFRASE “TER” + PARTICÍPIO NO ESPANHOL DO MÉXICO Anne Katheryne Estebe Maggessy UFRJ 1. Para este autor. Para este autor. então ela será apenas habitual. no português. as perífrases podem ter quatro tipos de valores: temporais. decidimos verificar a co-ocorrência desta perífrase com outras perífrases. para abarcar outros tipos de distinções aspectuais que podem fazer parte de algumas línguas. Enquanto o aspecto perfectivo trata a situação ou evento como um todo. p. Para GÓMEZ TORREGO (1988. há uma diferença no modo como a constituição interna da situação é vista. modais e estilísticos. o aspecto perfectivo e o imperfectivo. ou seja. se uma situação individual pode ser prolongada indefinidamente no tempo. Contudo. haverá a leitura habitual iterativa. o aspecto se define em função dos diferentes modos de observar a constituição temporal interna de uma situação. vendo-a de dentro. por isso. no contexto do aspecto iterativo e na variante do espanhol da Cidade do México. está sendo substituída pela perífrase “estar” + gerúndio e.3). tem traços comuns1 com a habitualidade e faz referência a uma pluralidade de ações.19). Ao observar os exemplos “João estava lendo um livro” e “João leu um livro”. O aspecto iterativo. na segunda é perfectivo.

Como nos exemplos abaixo: Tengo escrito ya cincuenta fólios. verificase que a perífrase “estar” + gerúndio (EG) está gradativamente substituindo a perífrase “ter” + particípio nas gerações mais jovens da população. tanto do português quanto do espanhol. desempenham papel principal na composição dos aspectos durativo e iterativo. em estudos anteriores (2009. De acordo com os estudos de WACHOWICZ (2006). na variante carioca. FERNÁNDEZ DE CASTRO (1999) e YLLERA (1999). o aspecto iterativo é considerado como pertencente ao aspecto imperfectivo. outras vezes. pode-se dizer que para COMRIE. como a que expressa o aspecto progressivo ou durativo. já pudemos verificar a possibilidade da expressão aspectual iterativa em sentenças com a perífrase EG tanto no PB. o valor mais característico da perífrase “tener” + particípio é o valor perfectivo-acumulativo de um estado alcançado. p. Dessa forma. nos surgiu a curiosidade de investigar se a perífrase “tener” + particípio também estaria apresentando leitura aspectual iterativa no espanhol do México como a perífrase “estar” + gerúndio. E. de Buenos Aires e de Valparaíso. seu uso mais produtivo expressa o aspecto perfectivo. um marcador adverbial como two hours each day (duas horas por dia) ou always (sempre). marcadores adverbiais e argumentos plurais. se indica um valor repetitivo ou de insistência como em: . mas em estudos como o de MENDES (2005). o aspecto iterativo é normalmente expresso pela perífrase “ter” + particípio com o auxiliar no presente do indicativo. Segundo o autor. ao observar os exemplos do inglês acima. como em (8). 2010 e 2011). (6) “The temple of Diana used to stand at Ephesus” (O templo de Diana costumava ficar em Efesus) dentro dos estudos linguísticos. sólo me Em português. A perífrase EG é canonicamente descrita. sólo me quedan la cocina y el baño Tengo corregidos ya veinte exámenes. 2. que apresenta repetição. a iteratividade é uma categoria aspectual com marcas linguísticas específicas como tipo de verbo.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 137 o autor a única interpretação razoável envolvida será a iterativa. Tengo empapeladas ya três habitaciones. “estar” + gerúndio e “ter” + par ticípio são construções perifrásticas que quedan veinte. já que segundo GÓMEZ TORREGO (1988). considera-se nesse trabalho a iteratividade como aspecto por apresentar um evento escalonado. sólo me quedan diez O autor também afirma que. é pelo menos um dos fatores propiciadores da leitura aspectual iterativa. (7) “The policeman used to stand at the corner for two hours each day” (O policial costumava ficar no corredor duas horas por dia) (8) “The old professor used always to arrive late” (O velho professor costumava sempre chegar tarde).192 ). Além disso. ou seja. Com isso. quanto no espanhol de Madri. Mas. segundo o próprio COMRIE. um dos aspectos básicos da língua. O comportamento perifrástico de “tener” + particípio Segundo GÓMEZ TORREGO (1988.

interessa o estado no sujeito e não no objeto. que cita exemplos de sentenças com “tener” + particípio expressando o aspecto iterativo. Enquanto isso. no sirve discutir. faenas de ésas. te robaron) Da mesma forma. a perífrase “ter” + particípio já apresentou o valor de aspecto acabado como no exemplo “Tenho acabado. não-acabado e durativo. eso sí. apud TRAVAGLIA 2006). espanhol. […]”. v e c es q ue s e lo t e ng or e p e t ido hasta la sa re sacie cieda dad. b. FERNÁNDEZ DE CASTRO (1990. ainda que rejeitadas por outros. Le tengo prestado el coche muchas veces.. quando perífrase.. o la mo ntaña d e montaña de unas economías. cursivo. 950)”. a perífrase expressa uma ação iterativa sem implicar necessariamente um estado resultante: a. Tiene viajado mucho por el extranjero. Tengo perdida la cartera varias veces. si es inútil. se lo digo en serio. es inútil. Especial si alcanzo a tempo de la primera embestida. Eso es grande! Yo lo t e ng o af e itado la mar d e v e c es. Por isso. c. q ué sé y yo cie da d. Tenemos hablado mucho sobre este asunto. afirma que o valor de “tener” + particípio. mas também como estendido e relevantemente durativo. a nossa hipótese é a de que a produtividade dessas sentenças com “tener” + particípio em contexto iterativo estará relacionada com a presença de verbos intransitivos e de advérbios quantificadores. esse tipo de construção não se usa mais e um exemplo como o apresentado tende a ser interpretado com valor de imperfectivo. que te ngo .278). estas construções distam muito de ser unanimemente aceitas e empregadas por todos os falantes do espanhol. Quizás que no se lo tengo yo dicho eso un montón de veces. no te pongas a llorar E que. temos acesso aos estudos de HARRE (1991: 52-78). observamos nos exemplos abaixo a presença da conjunção de ênfase e quantificações temporais extensivas que acompanham a perífrase “tener” + particípio: (133) No. Felipe.. Com isso. b. Si no lo vas a apear de su convencimiento. é de uma gradação perfectiva na qual o processo não aparece. Segundo DIAS (1970.166). d. como no caso anterior. Mas. em ocasiões. pero grande. p.[…] Ahora. como nos seguintes casos: Tengo pensado ir a tu casa (= pienso ir.138 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Te tengo dicho que te calles Te lo tengo advertido. p. c. a. Para TRAVAGLIA (2006. Tengo castigado al niño muchas veces. o meu discurso (VIEIRA. Sentenças essas. y sabía ser te ngo afe de ve un tío cordial cuando quería. Tienen vivido mucho tiempo en España y por eso hablan tan bien el español. como dito anteriormente. com verbos intransitivos e advérbios quantificadores. Me gusta el espectáculo. luego. parece ser que. Lo menos cinco años que se lo vengo diciendo ya: “vamos a hacer un esfuerzo. de ponerse hecho un toro colorado y salir arreando con todo lo que e ng ov istas unas p o cas pilla por delante. não só como meramente concluído. HARRE cita outros exemplos em que.) Tengo decidido ir a tu casa (= estoy decidido ir. aceitas por alguns falantes de . Tengo despertado al niño un montón de veces. I.. segundo estudos do PB e do espanhol. no trabalho de YLLERA (1999). Fiéis.) Tengo entendido que te robaron este verano (=creo. de ésas le t te ngo vistas po cas.

8 4/90 0 4. com verbos intransitivos mais advérbio quantificador. expressa o aspecto perfeito (perfect). O teste se resume a uma carta de uma estudante mexicana que está no Chile e descreve tudo o que tem feito à sua família. para verificar se os nativos da Cidade do México selecionariam sentenças com “tener” + particípio ou com “estar” + gerúndio ou com “haber” + particípio em contexto iterativo.5 24/90 26. com nível superior. como os seguintes verbos: gustar / tener / amar / permanecer / vivir en un piso/ odiar / querer / creer. + QUANTITATIVO N/TOTAL HABER + PARTICÍPIO ESTAR + GERÚNDIO TENER + PARTICÍPIO TOTAIS 62/90 % 68. que são formadas por verbos do tipo estado.61).1 Após a leitura da tabela. que estão relacionados abaixo: llegar tarde todos los días correr un chingo de veces bailar un chingo de veces salir varias veces despertarme muchas veces nadar todos los días Aplicamos o teste à 15 falantes de espanhol da cidade do México entre 20 e 24 anos. E por 6 sentenças alvo. Resultados ALVO INTRANS. A variável sexo não pôde ser controlada. Esta perífrase chamada de pretérito perfeito composto.5 4. Observando também o comportamento das sentenças distratoras. De acordo com este autor. Ele está composto por 8 sentenças distratoras formadas por verbos do tipo estado. percebemos que a perífrase mais . também expressa o aspecto iterativo.8 DISTRATORAS ESTADO N/TOTAL 45/120 % 37.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 139 3. pois indica a relevância do presente contínuo de uma situação passada. é interessante notar que a perífrase mais selecionada nas sentenças alvo.6 67/120 55. com 14 lacunas. que segundo os estudiosos do PB. o aspecto perfeito também pode ser expresso no português pelo pretérito perfeito “ter” + particípio. segundo a classificação de VENDLER (1967). que tem significação iterativa. foi “haber” + particípio. Metodologia Elaboramos um teste de preenchimento. segundo COMRIE (1976. p.4 0 3/120 5/120 2. 4.

(10) C) Estoy permaneciendo firme en mi propósito. (5) A) Tengo gustado de todas las personas de la Universidad. Ainda assim. pois encontramos ocorrências de “tener” + particípio em sentenças com advérbios quantificadores e verbos D) Permanezco firme en mi propósito. Diferente do esperado. (6) D) Me gustan/ agradan todas las personas. (6) A) Tengo nadado todos los días. (2) B) He corrido un chingo de veces. (1) A) Aquí tengo salido varias veces. essa é uma construção possível na língua. ao contrário. pois não possuíam as características descritas por HARRE como favorecedoras da iteratividade. parece ter sido aleatória por parte dos informantes. juntamente com as escolhas feitas pelos informantes e com o número de vezes que foi selecionada entre parêntesis: Abaixo. (8) C) Estoy creyendo que ser gordita no es bueno. apresentamos as sentenças distratoras que não esperávamos que fossem selecionadas. A hipótese não pôde ser refutada. Abaixo apresentamos as sentenças que tiveram ocorrência da perífrase “tener” + particípio. se apresenta em forma de gerúndio que é. “bailar un chingo de veces” e “despertarme muchas veces”. (9) ALVO (n° de sentenças selecionadas): A) Tengo corrido un chingo de veces2. (8) C) Estoy gustando de todas las personas. (+) dinâmico. (14) B) He permanecido firme en mi propósito. Essa combinação pode parecer inicialmente estranha. (1) B) He creído que ser gordita no es bueno. as sentenças selecionadas abaixo não possuem essas características e apresentam o verbo principal do tipo estado. pois um verbo de estado que é por sua natureza (-) dinâmico. nos mostram que a seleção das sentenças com a perífrase “tener” + particípio. mas não é considerada muito produtiva. (5) C) Estoy corriendo un chingo de veces. Pois não há fatores que diferenciem essas sentenças de outras que não foram selecionadas como “llegar tarde todos los días”. (1) B) He nadado todos los días. (3) Estes exemplos acima. que seriam com a presença de verbos intransitivos e advérbios quantificadores. (6) C) Estoy nadando todos los días.140 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS selecionada foi “estar” + gerúndio. (2) A) Tengo permanecido firme en mi propósito. (1) 5. (1) B) Aquí he salido varias veces. Conclusão .3 (1) B) He gustado de todas las personas. DISTRATORA (n° de sentenças selecionadas): A) Tengo creído que ser gordita no es bueno.

entre outros. Cambridge University Press. é a descrição de uma situação que é característica de um período estendido de tempo. Universidade Estadual de Campinas. Uberlândia: EDUFU. na variante investigada do espanhol do México. Notas 1 Segundo Comrie (1976). VERKUYL.The interaction between temporal and atemporal structure . Publicaciones del Departamento de Filología Española.ed. Arco/Libros. (1993): A theory of aspectuality . 2 A expressão “un chingo de veces” é uma forma coloquial dos jovens da Cidade do México expressarem uma repetição. Referências bibliográficas COMRIE. Ignacio Bosque y Violeta Demonte. Madrid. ainda não é possível falar da substituição da perífrase “tener” + particípio por qualquer outra perífrase. C. Embora o número de ocorrências tenha sido baixo. Ronald Beline (2005): Estar + gerúndio e ter + particípio. p. eds. Finalmente. Zener (1967): Linguistics in Philosophy. Vol. Universidad de Oviedo. Sintaxis. YLLERA. É significativo observar também. pudemos perceber que o uso de “tener” + particípio pode não ser tão restrito. 3391-3441. semántica y estilística. Seria o equivalente a “muchas veces”. Alicia (1999): “Las perífrasis verbales de gerundio y participio. verificamos um uso dessa forma do verbo gustar. Tese de doutorado. o traço que é comum em todos os habituais. H .ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 141 intransitivos. foi possível encontrar o uso da perífrase “tener” + particípio em contexto do aspecto iterativo. WACHOWICZ. estendido no fato de que a situação referida é para ser vista não como uma propriedade acidental do momento.” Gramática descriptiva de la lengua española. Ithaca: Cornell. Luiz Carlos (2006): O aspecto verbal no português: a categoria e sua expressão. GÓMEZ TORREGO. 6. aspecto verbal e variação no português. Além disso. mas precisamente. podendo ser combinado também com verbos do tipo estado. TRAVAGLIA. Comportamiento sintáctico e historia de su caracterización. 4. Madrid: Espasa. Oviedo. FERNÁNDEZ DE CASTRO. (1988): Perífrasis verbales. 3 Em consulta informal. Cambridge: Cambridge University Press. MENDES. Artigo publicado nos Anais do 6° Encontro Celsul – Círculo de Estudos Linguísticos do Sul. como um traço característico de todo o período. não só de perfectividade. Contudo. VENDLER. e sem advérbios do tipo quantificador. Bernard (1976): Aspect. verificamos que a perífrase “tener” + particípio também possui traços de imperfectividade e de iteratividade. segundo a classificação vendleriana . (2006): Marcas linguísticas de iteratividade em PB. conforme é usado no PB. sendo ou não também iterativos. que também compartem os traços de imperfectividade e iteratividade. (1990): Las perífrasis verbales en español. T. como tratado por alguns estudiosos. 2. . L. F. a flutuação do uso dessa perífrase com as perífrases “haber” + particípio e “estar” + gerúndio.

por um lado. Isto se percebe ainda na própria polissemia que a noção de “comunidade” enceta. segundo a ótica de Roberto Esposito: Pese a todas las precauciones teóricas tendientes a garantizarlo. p. discurso e comunidade pela seguinte pergunta: escrever ou ler em uma língua estrangeira significa pertencer à comunidade? A própria pergunta já deixa intencionalmente aberto um campo de definição: comunidade a que pertence(m) o(s) autor(es) ou a que pertence(m) o(s) leitor(es)? A resposta a essa questão leva-nos a aceitar a ideia de duplicidade ao tratarmos do processo de interação verbal em língua estrangeira. necessariamente. possuir um grau de inserção no universo discursivo referente à língua em que se processa o ato de ler. buscar estratégias de compreensão das formações discursivas e das condições de produção do discurso (FOUCAULT. Una vez que se la identifica – con un pueblo. o problema da comunidade advém da tensão entre a ideia de communitas – termo que delineia a configuração do “espaço comum” como um vazio. De forma paralela. lugar de estabelecimento de relações múltiplas e imprevistas com a alteridade – e a noção de immunitas – ligada .142 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS LITERATURA E ESPANHOL/LE: A QUESTÃO DA COMUNIDADE Antonio Andrade UFRJ É possível iniciar uma discussão a respeito da relação entre língua. ese vacío tiende irresistiblemente a proponerse como un lleno. embora seu lugar de enunciação seja quase sempre distinto ao lugar de enunciação do seu interlocutor. (ESPOSITO. construir formas de identificação do leitor com o texto. entre sujeito e alteridade. embora traga para a leitura as marcas ideológicas e inconscientes de sua constituição identitária. tem de. una tierra. y la inversión mítica queda perfectamente cumplida. num nível mais profundo. aquele que lê em uma língua estrangeira. 2007. num esforço de previsão das expectativas discursivas de uma dada comunidade a que o texto se dirige. una esencia –.1 Tal duplicidade está ligada ao movimento pendular de abertura e resistência que se verifica no contato entre diferentes culturas e comunidades discursivas2 e. Aquele que escreve em uma língua não materna precisa. la comunidad queda amurallada dentro de sí misma y separada de su exterior. 2008) que dão sustentação àquilo que se materializa no texto. e por outro. 44-45) De acordo com Esposito. a lo particular de un sujeto común. a reducir lo general del ‘en común’.

Pode-se verificar. ou a partir da história da leitura de um texto. que o personagem principal de 62 Modelo para armar – seja por desconhecimento das condições de produção do discurso na leitura em língua estrangeira. cit. p. 85). em relação aos discursos. da mesma forma como Foucault (2002. cabe pensar que os modos de enunciar denominados abruptos [contexto argentino] ou por transições [contexto brasileiro] podem. distintas formações discursivas que atravessam os contextos socioculturais brasileiro e argentino. suas condições de produção. em boa parte.” Mas em lugar de reproduzir a frase na língua original. Essas regularidades condicionam a produção e a compreensão verbais do sujeito do discurso que. do enunciado com o contexto sociodiscursivo. a partir de condições de produção do discurso divergentes? Como bem apontou Serrani (2010). não possui controle consciente do seu dizer. invertendo. a partir de textos escritos e lidos sob as mesmas condições. a título de exemplo.” (ORLANDI. o analista do discurso que se debruça sobre o ato de ler precisa reconhecer que toda leitura tem sua história.). de outra forma. ser lido como um produtivo mecanismo de desterritorialização/ descolonização do sentido. p. O que poderia ser recebido como a formação de um mal-entendido capaz de vedar a comunicação. Evidentemente. A modo de exemplificação. a partir dos modelos de leitura. cit. bem como aos discursos que. Essas marcas integram a constituição subjetiva. ou seja. tais considerações estão perfeitamente conectadas ao estudo da interação entre coenunciadores pertencentes à mesma comunidade..ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 143 aos projetos de (auto)proteção. é importante para o analista evidenciar. a partir da análise do texto de Cortázar. tentam justificar a prevalência ou a posição desses grupos no terreno de disputas pela hegemonia. são responsáveis pela produção de diferentes formas de leitura de um texto: (. compartilhando o conhecimento consciente ou inconsciente de suas regras de funcionamento ideológico. Neste caso.. o sujeito estará habilitado a produzir (ou deslocar) sentidos. a reflexão proposta por Orlandi (2001) a propósito dos mecanismos de variação e regulação (polissemia e paráfrase) encetados pela relação do texto com a sua exterioridade.. Tal reflexão de ordem político-filosófica coaduna-se com a perspectiva da análise do discurso. poderia. 36) demonstra que os princípios e regras de coerção do discurso são simultaneamente responsáveis por sua produtividade.. cultura e discursividade. Mas. op. Consciente de que “aquilo que se diz significa em relação ao que não se diz. com Silviano Santiago (2000). a possibilidade de o não compar tilhamento da memória discursiva e o não reconhecimento das marcas de regularidades enunciativas. na interação verbal entre brasileiros e hispânicos mediado pelo texto escrito.) considerando o estudo sobre leitura em espanhol e português (. seu contexto original: “je voudrais un château saignant. ao situar-se na ordem do discurso. 98) Aprofundando o exame das relações entre literatura. mas também devem ser vistos como marcas de regularidades enunciativas e de memórias discursivas. gregarismo e consequente isolamento de distintos grupos sociais. o leitor tende a seguir modelos de leitura já instaurados que funcionam como padrões de previsibilidade. ao lugar social do qual se diz. (SERRANI. seja por vontade paródica – traduz a frase avistada no espelho de um restaurante parisiense. Desse modo.. No entanto. de modo especular. gerarem outros tipos de deslocamento significativo. etc. ainda que a possibilidade do “equívoco” não esteja excluída nesse caso. por um lado. muitas vezes. ideológica e cultural que o definem. Santiago assinala. pode-se vislumbrar. o que acontece na interação com textos em língua estrangeira escritos. p. ele a traduz .. a imprevisibilidade. as possibilidades de nascimento da pluralidade de sentido. op. ao longo da história. isto é. relacionar-se com ausência ou presença de polidez. para quem se diz. por exemplo.

são fatores preponderantes para o afastamento do leitor em relação ao texto que lhe é apresentado. torna-se a marca evidente de um ataque. p. seriam adequados para uso em sala. sangriento . pelo fato de não compartilharem os mesmos modelos discursivos do grupo social a que pertence o autor..).144 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS imediatamente para o espanhol: “Quisiera un castillo sangriento. por parte dos estudantes da educação básica. de muitos professores de língua estrangeira em relação à abordagem de textos literários em suas salas de aula. p. de certo modo. que significava apenas a preferência ou o gosto do cliente pelo bife malpassado. o castillo sacrificado. 22) Tais observações. é preciso evitar a ideia de que. A dúvida sobre a (in)adequação do texto literário à didática de língua estrangeira tem demonstrado ser uma falsa questão. ainda que relacionadas a um estudo de caso em contexto educacional de língua materna. conforme aponta Esposito. No entanto. Dessa forma. a produção dissidente da classe popular como sinal de “resistência cultural”. “impediria” a classe popular de formar seus modelos de leitura. de uma rebelião. esses poemas. relatadas em diversos congressos da área. deve-se também evitar interpretar dessa maneira as considerações de Orlandi (2001.. o desejo de ver o château. portanto. além de desconsiderar. op. já que o material interessou à maioria dos alunos. que. op. el castillo . embora sua perspectiva crítica só enxergue. mas também o deslizamento do sentido no interior deste processo. E o adjetivo. na leitura. nem sempre. (SERRANI. (SANTIAGO. 93) a respeito da hegemonia das políticas de leitura da classe média. na pena do escritor argentino. château sai do contexto gastronômico e se inscreve no contexto feudal. da perspectiva do interesse dos estudantes.) perguntamos aos estudantes (e a alguns futuros professores) se poemas como esses seriam aptos para aulas de língua a adolescentes.. de outro modo.. a fogo e sangue. ancorados em diferentes formações ideológicas e subjetivas – só poderá dar lugar a gestos de repúdio por par te dos leitores. ora declarado. saignant. motivando e agravando seu afastamento em relação às práticas de letramento promovidas pela escola. A propósito. vêm comprovando a possibilidade de engajamento discursivo de jovens estudantes brasileiros com esse tipo de texto. Tal compreensão do letramento em comunidades discursivas não hegemônicas liga-se a uma concepção muito engessada da relação entre discurso e classe social. nos ajudam a desmistificar certo receio ora velado. cit. a interação entre coenunciadores pertencentes a distintas comunidades – ou. de maneira engajada. mas por meio de expressões faciais e outros gestos corporais. Os futuros professores responderam explicitamente de modo negativo e os jovens que iriam responder o questionário não foram explícitos.. posteriormente. A tradução do significante avança um novo significado (. que se tratava de pré-conceito. 51-52) . O não pertencimento à comunidade estrangeira e o não compartilhamento de determinados modelos literários da cultura letrada. Consequentemente.” Escrito no espelho e apropriado pelo campo visual do personagem latinoamericano. os depoimentos mostraram. que dentro do impulso imunitário de agrupamento sociocultural subsiste conjuntamente Tal concepção do discurso literário como um “entre-lugar” prevê não só a inevitabilidade da conexão entre leitura e produção. colonialista. a maioria manifestou que não acharia esse tipo de material adequado e que a leitura não entusiasmava. cit. visto que inúmeras experiências escolares. Digo isso porque a própria autora sinaliza a possibilidade de tensão entre conhecimento dominante e dissidência no contexto das mesmas práticas sociodiscursivas. o que reforça visões deterministas sobre os percursos de formação dos sentidos. p.. a casa onde mora o senhor. Curioso notar que essa mesma questão foi desenvolvida por Serrani (2010) em texto em que a autora examina dados de pesquisa a propósito dos mitos e preconceitos sobre o interesse de alunos no ensino médio pela poesia: (. de derrubálo.

p. qualquer coisa que é ao mesmo tempo revolucionária e associal e que não pode ser fixada por nenhuma coletividade. junto com Barthes. Tal consciência requer da pesquisa uma investigação mais densa quanto à produtividade da noção de exotopia3 (do autor e do leitor) no processo dialógico. lançando mão da perspectiva bakhtiniana (BAKHTIN. nenhuma mentalidade. mas também desde o .) ha entrado en el escenario otra dimensión. nenhum idioleto”. 2001.. que (. p. Para Barthes (2008. personagens. portanto. Com isso..) é uma deriva. isto é. nos conflitos entre formas de compreensão textual e nos graus de consciência do leitor em relação a sua posição no processo de leitura. 2010a).. bem como do possível deslocamento de sentidos produzido não só desde o âmbito da produção.. CÁRCAMO. autor representado. portanto. estudar as práticas de letramento em contextos culturais e ideológicos diversos” (Ibidem). quero chamar atenção ao fato de que a formação docente para o trabalho com textos literários em aulas de espanhol não pode. reivindica atenção às “demandas locais de letramentos diferentes”: “Antes de tudo. admitindo o dialogismo de vozes não coincidentes na interação propiciada pelo ato de ler. leitor virtual e leitor real. 2007. É preciso se buscar uma compreensão mais aprofundada da heterogeneidade cultural e discursiva das comunidades. sugerem a necessidade de se focalizar as distintas exotopias envolvidas na produção da leitura literária em E/LE por sujeitos situados em diversos contextos. Esta perspectiva coaduna-se à de Brian Street (2006. ser reduzida ao estereótipo de que a literatura estrangeira serviria como uma estratégia de resolução de conflitos hipotéticos ou como forma de “substituir” experiências diretas com o estrangeiro (cf.) clarificar e refinar conceitos de letramento. (. precisamos (. 29). não ocupa lugares fixos na cadeia significante. Não à toa. Isto sinaliza. a necessidade de se estar atento às diferenças institucionais e subjetivas envolvidas nas (re-)significações conduzidas pela ação pedagógica – desde a escolha do texto até sua mediação –. “O prazer (.. 239). 2003.) não é um elemento do texto. Esse ponto de vista solicita ainda o entendimento do leitor como instância enunciativa ligada à natureza dúplice – (ir)repetível – da discursividade. Isso remete às considerações de Neide González sobre a dimensão afetiva (o investimento desejante) que permeia a relação das comunidades e dos sujeitos – entendidos como entidades não monolíticas – com a língua estrangeira: “En los últimos años. chamo a atenção para a necessidade de se buscar um viés mais complexo de entendimento dos sinais de proximidade e distanciamento manifestados no ato da leitura. de modo algum. Tais concepções. abandonar o grande divisor entre ‘letramento’ e ‘iletramento’ e.. procuro estender o critério de não coincidência entre os papéis enunciativos colocados em jogo no âmbito da produção escrita para a análise da compreensão leitora. p. 30). receptáculo de divergentes forças discursivas de acabamento e dispersão. vista assim como espaço de tensão entre diferentes vozes: autor real....) afecta ese proceso especial en el que inevitablemente identidad y alteridad se enfrentan” (GONZÁLEZ. quem em lugar de aceitar a existência de um processo único e autônomo de letramento. p. por isso é capaz de estabelecer e romper resistências quanto ao discurso do outro. de modo muitas vezes imprevisto. 484).. que o prazer que se manifesta no processo de interação com o texto literário é atópico. ao mesmo tempo produzido pelo modo como é posicionado na trama do discurso literário e produtor de atos responsivos em face do enunciado: ator envolvido em tensos movimentos de adesão e deslocamento. Seguindo a esteira dessa colocação. em vez disso.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 145 um impulso comunitário de abertura à exterioridade. asociada al inconsciente psicoanalítico: aquel donde está instalado el deseo. Assumir uma posição menos simplificada em relação ao papel da ideologia na atividade leitora significa compreender. (.

5º período). Tal opinião é baseada na defesa de que aprender uma língua é muito mais do que conhecer a estrutura da mesma. como é de se esperar que ocorra em toda e qualquer atividade discursiva.. bem como o fato de que sujeito e alteridade estão imbricados e se problematizam mutuamente. como se a cultura do outro. Como se vê. para a formação do professor de língua estrangeira. mas também ter acesso à cultura dos países que têm tal língua como oficial. 4º período).4 Esses dizeres ignoram a plurivocidade de sentidos da linguagem nos gêneros literários. vem tornando mais aguda a potência apassivadora (e apaziguadora) do discurso. silenciando dilemas da subjetividade e da comunidade. 5º período).146 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS da leitura do texto literário. De certa maneira.E pela oportunidade que oferece a literatura de um maior conhecimento cultural. cujo reflexo nesses casos é a busca de “soluções mágicas” para os problemas linguísticos e interculturais através do conhecimento literário. um conhecimento sobre o mundo. em Bakhtin (2010b. É preciso despertar. 104). no aluno-leitor universitário. percebe-se nesses enunciados a força tipificadora que a simplificação do discurso em torno do literário. É importante lembrar. que. “Na minha opinião. uma outra cultura) e a tomar gosto por um outro tipo de leitura” (Frederico. “o aluno de língua estrangeira aprende.) e aceitar as diferenças ou lidar melhor com elas” (Daniele. a consideração do leitor nesse processo é fundamental para qualquer intento de se (re-)configurar as bases dessa formação. portanto. para concluir. mas a história. pudesse ser abarcada na sua inteireza como um conteúdo didático. apresento adiante alguns excertos de textos produzidos em 2011 por licenciandos de Letras Português-Espanhol de uma universidade pública do Estado do Rio de Janeiro ao serem interrogados a propósito da contribuição da literatura para sua formação inicial como docentes de língua estrangeira: “Os estudos literários são importantes para a formação do professor de L. fazendo com que seus alunos conheçam e aprendam a respeitar outras culturas” (Rafaela. . Além disso. 6º período). a questão gramatical e estrutural também é importante. a experiência literária estrangeira que vem sendo vivenciada na universidade não é a do questionamento e da desconstrução do senso comum. principalmente se o futuro professor busca obras literárias da sua L. ou de maneira positiva. ao mesmo tempo singular e comunitário.E de formação” (Vanessa. a sensibilidade para o efeito dialógico e tensivo. “[a literatura] nos faz quebrar (ou confirmar) paradigmas (. certa cristalização de visões simplificadoras da ideia de outridade. do cultural e do histórico vem produzindo em nosso cenário acadêmico. a se adaptar a algo diferente (no caso. A vontade de enunciar dá lugar a um ser enunciado.. entretanto aqui talvez a falta de um contato mais íntimo com a literatura. os estudos literários contribuem muito. Aliás. O professor ensinará não só a gramática da língua. talvez isso seja um sinal de que. no contexto de minha pesquisa sobre a relação entre letramento literário e formação docente. p. por exemplo. futuro professor de línguas e literaturas. mesmo “o amor ao outro” não é capaz de suspender a diferença: traço constitutivo da própria discursividade. para muitos. Tenho podido constatar. dentre outras coisas. que cede lugar à má interpretação da produção teórico-crítica sobre o literário (note-se nos fragmentos acima certa tendência a se confundir a literatura com o domínio institucional dos “estudos literários”). que o ato estético de enunciação pode provocar. A título de exemplo. se a questão da estrangeiridade só consegue ser representada aí em termos de “adaptação”/”aceitação”. representada por comunidades linguísticas e literárias estrangeiras.

São Paulo: Loyola. 465-488. 57/4. Em: Revista de Filologia e Linguística Portuguesa. (2001): Discurso e leitura . L. S. cada qual com suas ideologias particulares e modos particulares de controlar o poder. São Paulo: Pedro & João Editores. mas porque é gerado pelas formações discursivas. São Paulo: Contexto/Ed. n. SWALES. R. SANTIAGO. p. (2000): O entre-lugar do discurso latinoamericano. Em: Anuario Brasileño de Estudios Hispánicos. (2008): Cronotopo e exotopia. p. p. p. São Paulo: Perspectiva. São Paulo: Martins Fontes. Unicamp. Buenos Aires: Amorrortu. fundamental para a análise dos procedimentos de construção do sentido acionados pela leitura: “Um texto significa o que significa não por causa de quaisquer traços linguísticos objetivos inerentes. E. (org.) Analisar texto ou discurso significa analisar formações discursivas essencialmente políticas e ideológicas por natureza” (KUMARAVADIVELU. KUMARAVADIVELU.. (2002): A ordem do discurso. 239-255. STREET. São Paulo: Contexto. SERRANI. B. 140). B. ORLANDI. CÁRCAMO. 1. (2007): La literatura en la formación y en la práctica del profesor. 95-114. era da globalização. (1987): Approaching the concept of discourse community. embora não necessariamente precisem interagir de maneira direta ou estar próximos uns dos outros. (2006): Linguística aplicada na ________ (2010a): Problemas da poética de Dostoiévski. N. ESPOSITO. o conceito original de “comunidade discursiva”. BAKHTIN. GONZÁLEZ. Em: MOITA LOPES. Campinas: Pontes. B. (2003): Estética da criação verbal. ________ (2010b): Para uma filosofia do ato responsável. P. textualidade e significação. (2003): Discourse community. p. Em: Hispanismo 2000. R. (2010): Discurso e cultura na aula de língua. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Em: BRAIT. FOUCAULT. (org. p. v.. GA). 2006. Atlanta. Notas 1 Trago à tona aqui uma consideração de Kumaravadivelu a propósito do vínculo inexorável – observado no pensamento de Foucault – entre discurso.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 147 Referências bibliográficas AMORIM. S. M. Em: Annual Meeting of the Conference on College Composition and Communication (38 th. (2007): Communitas: origen y destino de la comunidad. BARTHES. 25-31. BORG. p. 9-26. ________ (2008): A arqueologia do saber.) Por uma linguística aplicada indisciplinar . Suplemento Jubileo de Plata de la APEERJ. (2008): O prazer do texto . March 19-21. (2006): Perspectivas interculturais sobre o letramento. E. J. Em: Uma literatura nos trópicos. Em: ELT Journal Volume. p.) Bakhtin: outros conceitos-chave. M. 129-148. (2001): La expresión de la persona en la producción de Español Lengua Extranjera de estudiantes brasileños: perspectivas de análisis. Oxford University Press. 8. São Paulo: Parábola. atribuído a Swales (1987). focaliza os usos e análises da comunicação escrita realizados por indivíduos (membros da comunidade) que. S. . 398-400. (. 2 Segundo Borg (2003). Rio de Janeiro: Rocco. Rio de Janeiro: Forense Universitária. compartilham interesses e expectativas comuns e encontram-se engajados em práticas comunicativas propiciadas por determinados gêneros discursivos. M.

de onde provém sua singularidade dentro do processo discursivo-enunciativo e de onde se derivam os valores éticos de sua posição. . p. 95-96).148 3 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS O conceito bakhtiniano de exotopia. fundamental ao trabalho de criação e de objetivação”. “refere-se à atividade criadora em geral”. segundo Amorim (2008. à possibilidade de o enunciador situar-se em “um lugar exterior. 4 Todos os nomes dos licenciandos que colaboraram com a pesquisa foram alterados a fim de preservar suas identidades.

Para este artigo. sinalizando que tal proposta não é decorrente do atendimento de uma exigência do MEC para preenchimento de vagas. nos centramos no histórico dos Institutos Federais e sua proposta de formação de professores e no debate sobre o curso de Licenciatura em Espanhol do Instituto Federal de Roraima (IFRR). somente no ano de 2000 (decreto 3.462/2000). ensino técnico. por determinação do MEC como alternativa para escassez de professores em algumas áreas do conhecimento. No entanto. ensino médio integrado ao técnico. PUCSP Introdução A Rede Federal de Educação Profissional e Tecnológica é formada por 38 Institutos Federais. Vale à pena destacar o curso inicia suas atividades no ano de 2006. bacharelados e pós-graduação (lato e stricto sensu). do setor de agronegócios e de serviços. no decorrer dos seus mais de cem anos de existência. nasce uma ampla discussão interna e externa sobre o papel de atuação dessas instituições no cenário educacional brasileiro e sobre a identidade institucional de cada Centro de formação. A partir da publicação de tal decreto. licenciaturas. instituições responsáveis por oferecer em todos os Estados brasileiros uma gama de cursos: ensino médio. portanto. cursos superiores de tecnologia. as “escolas” da Rede preocuparam-se com a formação de mão de obra especializada de nível médio para atender as demandas profissionais da indústria. servidores e teóricos da Educação pelo entendimento do seu verdadeiro papel perante a sociedade. implicando um interesse e debate entre os professores. pioneiro na oferta de cursos de Letras no cenário da Rede. antes da mudança para Instituto Federal. Matemática e Ciências. 2 Centros Federais de Educação Tecnológica (CEFET) e 1 Universidade Tecnológica. concepções de ensino e a imagem do . No que se refere à formação de professores na Rede.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 149 A FORMAÇÃO DE PROFESSORES DE ESPANHOL NO INSTITUTO FEDERAL DE RORAIMA: REFLEXÕES SOBRE A PRÁTICA DOCENTE Antonio Ferreira da Silva Júnior CEFET/RJ. Esperamos a partir da análise do Projeto Político Pedagógico do referido curso tecer considerações para as seguintes questões: formação docente em Institutos Tecnológicos. alguns CEFET começam a oferecer cursos de licenciatura em Física. a Rede Federal passou por uma constante mudança de sua identidade institucional. Durante muito tempo.

técnicos administrativos. Esses são alguns pontos colocados em cena. Técnico e Tecnológico. De acordo com o decreto de criação. Essa expansão inesperada e pouco discutida entre os atores (professores.566. (d) oferta de cursos de licenciatura como mera formalidade para atendimento de demandas impostas pelo MEC ou vocação dos colegiados. além do desenvolvimento de atividades de pesquisa e extensão.406/97 1. cria 19 Escolas de Aprendizes e Artífices nas capitais dos estados da confederação e com essas o desenvolvimento do ensino profissional primário e gratuito. A formação de professores nas “escolas” da Rede Federal No final dos anos 90. tais 1. inclusive. alunos. O objetivo inicial dessas escolas era formar operários e contramestres a partir de um ensino focado nas habilidades necessárias e práticas para desempenhar ofícios manuais (FONSECA. normalmente. CELANI (2001) e PAIVA (2005). Desde sua aprovação e expansão aos demais Estados da Federação. pluricurriculares e multicampi” (BRASIL. as escolas federais da Rede de educação profissional e tecnológica. (c) atuação do professor em diferentes níveis de ensino. principalmente. 2. aos estudos teóricos de GADOTTI (2001). através do decreto número 7. A reestruturação interna dos CEFET estava sendo discutida no teor desse documento. 2008). Institutos Federais: seu percurso identitário No dia 23 de setembro de 1909. o então Presidente da República. Isso implica um processo interno de compreensão de como articular num mesmo espaço e. 1961).150 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS professor contemporâneo. tais “escolas” passam a ser vistas como “instituições de educação superior. (b) falta de esclarecimentos da atuação do docente na Carreira de Professor do Ensino Básico. no entanto. contando com o mesmo corpo docente cursos de diferentes níveis e modalidades de ensino. (f) formação do licenciando vista como de um trabalhador técnico. os CEFET passaram a atuar na formação e na capacitação de professores para a Educação Básica e da Educação profissional atendendo a um chamado do Ministério da Educação com a aprovação do decreto número 2. no entanto. o fortalecimento e a padronização de uma identidade visual para a Rede Federal de ensino. A transformação dos CEFET em Institutos Federais não foi uma medida governamental obrigatória. básica e profissional. dirigentes e demais membros da comunidade escolar) da Rede Federal permitiu uma série de questões internas advindas dessa política de expansão do ensino técnico e superior do governo Lula.462/00. (e) presença de professores concursados sem formação pedagógica atuando nos cursos de licenciatura. Nilo Peçanha. passaram por diferentes nomenclaturas. recorremos. principalmente. Para alcançar tais objetivos. permitindo uma maior expansão e diversidade das licenciaturas oferecidas no país. Tal mudança acarretou novamente em uma mudança identitária das escolas e. Os Institutos Federais são equiparados às universidades federais. (g) necessidade de mudança do estigma de origem atribuído aos Institutos Federais/CEFET conhecidos até hoje como “escolas” técnicas. que foi reescrito e substituído pelo decreto número 3. não podem deixar de ministrar o ensino profissionalizante. como: (a) articulação entre cursos de diferentes níveis de ensino. . após a constituição dos Institutos Federais e a abertura de inúmeros cursos de licenciatura em diferentes áreas do conhecimento. podemos dizer que foi quase unânime.

de certa maneira. A inquietação para o desenvolvimento deste artigo surgiu ao tomar conhecimento. porém. extinguiu-se a formação do professor da Educação Básica no chamado regime 3 + 1. de 1º de outubro de 2004. Alguns pontos centrais foram: (a) o ensino visando à aprendizagem do licenciando. ainda em constante construção. Essa proposta de integração entre os saberes teóricos e práticos já é algo bastante comum na organização curricular das licenciaturas dos Institutos Federais. entendemos que a própria origem da Rede sustente essa demanda. a resolução número 1 de 19 de fevereiro de 2000. por conta de uma nova identidade para a Rede. nem sempre adequada à realidade e ao contexto de cada curso de licenciatura (PAIVA. a partir também dos anos 90. (b) o acolhimento e o trato da diversidade. convivem com modalidades e níveis de ensino diversificados. porém. por outro lado. (c) o exercício de atividades de enriquecimento cultural. englobando 400 horas de prática curricular. 400 horas de estágio curricular supervisionado. cujo objetivo era rever aspectos da prática docente formalizando sua duração. já que os licenciandos. carga horária e Diretrizes para os cursos de formação de professores do país. os primeiros cursos de licenciatura dos CEFET começaram a se configurar. Com a nova roupagem desses cursos. Vale à pena ressaltar também que esses cursos abriram uma nova estrutura interna no ensino das escolas da Rede Federal. De acordo com essas diretrizes. determinou carga mínima de 2800 horas. favorecendo. (g) o uso das tecnologias da informação e da comunicação e (h) de metodologias. Aliado a isso. de formação pedagógica e de formação geral. Acreditamos que essa abertura para as Letras representou um importante movimento de quebra de paradigmas que culmina no ano de 2008. em 18 de fevereiro de 2002. da oferta de cursos de Licenciatura em Letras/Espanhol em dois CEFET. : . no ano de 2006. 1800 horas de aulas para os conteúdos curriculares de natureza científicocultural e 200 horas para atividades acadêmicocientífico-culturais. Em relação à carga horária das licenciaturas. 2005). a ofertar Bacharelados em Engenharia com inúmeras habilitações. que os saberes relacionados à área industrial. na superação do tradicional modelo hegemônico disciplinar dos cursos de formação de docentes e reforçando a verticalização do ensino. 3.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 151 O decreto acima ainda é reforçado por outro de número 5. (f ) a elaboração e a execução de projetos de desenvolvimento dos conteúdos curriculares. Com essa regulamentação. Os cursos de Letras fogem do eixo tecnológico previsto inicialmente para oferta. (d) o desenvolvimento de hábitos de elaboração e trabalho em equipe. três anos de conteúdos característicos de um curso de bacharelado somados a um ano de formação pedagógica. (e) o aprimoramento em práticas investigativas. de licenciaturas na Rede. encontram amparo no decreto 5. num mesmo espaço institucional. à tecnologia e às exatas são privilegiados.224/04. percebemos. conseguimos visualizar uma interdisciplinaridade entre os eixos de formação específica. estratégias e materiais de apoio inovadores. Histórico do Curso de Letras/Espanhol do IFRR Como professor da Rede Federal desde 2007. em pouco tempo de instituição.224. o perfil dos cursos de Licenciatura é reformulado através da Resolução do Conselho Nacional de Educação (CNE). Após a publicação desses documentos muitos cursos de Licenciatura nos CEFET começaram a ser projetados em todo o país. que dispõe no parágrafo único do capítulo II sobre a possibilidade de abertura de cursos em outros campos do saber. já que elas possuíam longa tradição no ensino de formação técnica e começaram.

revelando uma carência de 12 mil professores em todo o Brasil para aplicação da lei de oferta do espanhol. No desenvolvimento da justificativa. em torno de disciplinas. Isso implica em reconhecer o projeto de curso. de um curso. As ementas e programas se escoram em bibliografia desatualizada.] o projeto do curso deveria ser o carro chefe para garantir a qualidade do ensino. a teoria não dialoga com a prática. dentro do modelo de transmissão de conhecimento. Em seguida. percebemos o caráter diferenciado desses cursos em comparação aos já oferecidos no mercado. com o intuito de funcionar como mais um espaço de formação. e elemento norteador da discussão do perfil desejado de profissional da área de atuação. não conseguia suprir a demanda por profissionais da área. Segundo Paiva (2005): [. Como justificativa. além do mercado econômico. No entanto. o da UFRR. o texto sinaliza que a instituição oferece o espanhol desde o ano de 1995 na grade de todos os seus cursos. através de análise de projetos e matrizes. Outro ponto de reforço do projeto é a falta no Estado de cursos de formação de professores.. sabemos que fatores decorrentes da motivação de um colegiado de professores são fundamentais para a apresentação. destaca a aproximação do Estado de Roraima a países hispanofalantes. O projeto pedagógico do IFRR nomeia o curso como sendo de Licenciatura Plena em Língua Espanhola e Literaturas.. em nosso caso o de língua estrangeira. A lei 11. Cada vez mais. e a metodologia é ainda centrada no professor. No entanto. como pensar a formação do profissional de linguagens numa instituição onde algumas áreas do saber são vistas como mais tradicionais que outras? Tal pergunta constitui nosso interesse ao estabelecer uma reflexão sobre os cursos de Licenciatura em Espanhol da Rede mediante análise dos projetos e matrizes curriculares dos cursos. que torna obrigatória a oferta de espanhol no Ensino Médio. conforme assinala Gadotti (apud VEIGA.. além de a maioria não apresentar coerência entre os objetivos e o perfil do egresso. o projeto do IFRR apresenta estudos estatísticos como os da Agência Brasil/ Radiobrás. Além de a oferta acontecer num espaço até pouco tempo visto como de formação para Educação Básica e Profissional. nosso objetivo principal nas páginas a seguir está em averiguar como o IFRR idealizou seu curso de Licenciatura a partir das informações públicas disponíveis em seu projeto pedagógico. Nesse sentido. que atribuem sentido ao teor de tais prescrições. o que implica numa demanda significativa de interessados pela aprendizagem da língua. a análise dos projetos revela o predomínio de currículos organizados de forma tradicional. acreditamos que tais orientações permitem avaliar como cada instituição entende e concebe a formação de professores. o texto informa que o Estado O projeto pedagógico deve ser entendido como um gênero importante para a definição de uma concepção única de formação por parte dos docentes . coletados em agosto de 2005. O único existente até aquele momento.] Todo projeto supõe ruptura com o presente e promessas para o futuro”. Cada universidade precisa refletir sobre a necessidade constante de estudar o perfil de professor mais adequado à realidade escolar do país. 2001. e ainda conta com um Centro de Estudos de Línguas Estrangeiras (CELEM). porque.152 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Por meio do decreto mencionado.. cultural e social existente nessa área de fronteira. p. condução e a manutenção desses cursos.1165/05. alguns CEFET conseguiram o embasamento para ofertar as primeiras licenciaturas em Humanas. Ainda. 18) como um processo dinâmico: “[. Na introdução do documento. aparece citada como mais um argumento para a criação do curso. A elaboração do mesmo deuse por uma comissão liderada por duas representantes da área de espanhol. o projeto apresenta a carência de profissionais de ensino de espanhol como língua estrangeira (E/LE) na cidade de Boa Vista e nos municípios do interior.

em nível superior e determinar a duração e a carga horária mínimas dos Cursos de Licenciatura. os componentes curriculares dividem-se em dois campos do conhecimento: (1) Literatura e cultura e (2) Metodologia para aquisição e/ou aprendizagem de E/ LE. Tendo em vista que o eixo central do programa é a área de Língua Espanhola. Como ponto diferencial. Básico. O documento delimita o foco da formação como sendo a preparação do licenciado para atuar na docência. passando por aspectos históricos. Formação Docente e Complementação Profissional) perpassando em quatro áreas do saber: Língua Espanhola e Linguística. A partir dessa divisão. alerta que o modelo curricular está baseado em competências que contribuam para uma completa formação humanística e pedagógica. consequentemente.580 horas dos Conteúdos/ Conhecimentos/Competências Curriculares de natureza científica. o programa organiza-se em quatro ciclos (Introdutório. A possibilidade de educação a distância é vista como um avanço. que não articulam. 400 horas de estágio obrigatório e 100 horas de aprofundamento de estudos. a consultoria. as redações de jornais. O documento emprega os dados de 2002 do Sistema Estadual de Educação e dados da esfera educacional do município de Boa Vista. a teoria e a vivência em sala de aula por parte dos aprendizes. alicerçado numa sólida base científica.680 horas. coletados em 2003. O projeto de ambos possibilita que até 20% do conteúdo também possa ser ministrado à distância. de 18 de fevereiro de 2002 e da Resolução CNE/CP número 02/2002. Não podemos afirmar que tal desmembramento da carga seja positivo ou negativo. ética e democrática”. permitindo uma maior flexibilização curricular e. conforme portaria número 4. 600 horas de práticas a serem vivenciadas ao longo do curso. o projeto destaca “formar profissionais competentes no processo de ensino e aprendizagem da Língua Espanhola como língua estrangeira e suas Literaturas”. porque permite a inclusão do aluno na realidade digital. O projeto atenta para a adequação das orientações do Parecer CNE/CP número 1. O curso do IFRR apresenta diferentes linhas teóricas somente na apresentação do ciclo introdutório da aprendizagem da língua espanhola. culturais e pedagógicos. O projeto.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 153 de Roraima necessita de um número emergencial de 128 docentes para atuação nas escolas do Estado. O curso na íntegra soma 3. valorizando a formação do professor como profissional do ensino. desde os primeiros períodos. técnica. atividades de extensão e de natureza acadêmico-científico-cultural. O diferencial da proposta do programa curricular do IFRR é que distribui entre os vários períodos a carga horária da disciplina de “Prática profissional” (estágio supervisionado. O projeto sinaliza uma ampla formação. A matriz curricular subdivide-se em 2. humanística. entre eles a pesquisa. Cultura e Formação Docente. do sujeito da aprendizagem. mas pelo menos pode ser considerado um avanço comparado às demais grades. para traçar um mapa da Educação Básica do Estado. O curso está dividido em 8 períodos com duração mínima de 4 anos. como já mencionado anteriormente neste estudo.059 de 10 de dezembro de 2004. Literatura. conforme consta a seguir o texto do projeto: . a tradução e como intérprete. documentos responsáveis por instituir as diretrizes curriculares nacionais para a formação de Professores da Educação Básica. o documento apresenta que a proposta de trabalho do curso se pauta “numa estrutura com identidade própria. prática curricular e de pesquisa). ainda. mas também apresenta espaços possíveis de atuação do profissional concluinte do curso. desde os conhecimentos mais estruturais da língua de estudo. pedagógica e cultural. Como objetivo geral do curso do IFRR.

O projeto fornece importante contribuição para a formação de profissionais diferenciados e reflexivos (CELANI. implicou no aumento de vagas e diversidade dos mesmos. Como vimos no decorrer do artigo. usa a “análise do discurso” sem a implicação teórica apropriada. mas que acabaram por levar a experiência desses níveis para a idealização de um curso de licenciatura. 2001) para atuar em diferentes contextos educacionais brasileiros. privilegiando o enfoque contrastivo na aprendizagem da Gramática Espanhola (IFET RORAIMA. . o curso de Letras/Espanhol do IFRR é uma proposta recente e inovadora. Apresenta uma visão mais tradicional do ensino demonstrada pela menção à gramática descritiva e ao reduzir a língua em blocos fechados (semântica. a mudança de CEFET para Instituto. levanta o método comunicativo e finaliza mostrando a importância da análise contrastiva. Ciência e Tecnologia são instituições de ensino superior diferenciadas. já que o projeto não sinaliza a necessidade de conhecimento da língua para realizar o mesmo. o que pode representar uma dificuldade para o aluno iniciante no estudo da língua estrangeira. o projeto também inova em relação às outras grades curriculares de Letras em todo o Brasil. e segundo. dotado de conhecimentos teóricos e de ampla formação cidadã. o projeto apresenta todos esses pontos no nível inicial de aprendizagem (correspondente ao segundo semestre). e está orientado tanto à operação funcional-instrumental.. projetos e experiências de ensino. Não queremos dizer que discutir a língua sobre diferentes abordagens não seja importante para o aluno. idealizada por docentes. Apesar de a Rede Federal. Deverá atender à integração dos distintos componentes curriculares. o texto de apresentação das competências a serem desenvolvidas no primeiro ciclo expõe múltiplas correntes. morfossintaxe.154 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS [. pela necessidade de formação de docentes de espanhol. As ementas das disciplinas permitem visualizar a preocupação da comissão elaboradora do projeto a todo o momento na transversalidade do saber. por exemplo). por anseios profissionais. acreditamos que os projetos analisados imprimem uma formação vinculada a um futuro trabalhador da sala de aula. de abordagens e de olhares para o ensino de línguas. que iniciaram. na relação entre a teoria e prática do futuro professor de E/LE.. No trecho acima. vale à pena reforçar que em relação aos cursos de licenciatura da Rede. desde sua origem. morfossintaxe. Além disso. quanto comunicacional da língua espanhola. estar focada na formação de trabalhadores para atuação no mundo produtivo. no entanto. 2005) Considerações finais Os Institutos Federais de Educação. pragmática). seja por vontade política ou de interesse democrático. que num primeiro momento foram concursados para atuar no ensino médio. talvez seja mais coerente o colegiado primar por uma consonância teórica na elaboração das disciplinas iniciais de língua espanhola. em sua maioria. cada “escola” constituinte da Rede Federal foi construindo uma história própria. incluindo uma gramática descritiva e uma metodologia de análise dos discursos. Em relação às disciplinas de formação didático-pedagógica. técnico e tecnológico. seu percurso acadêmico e sua identidade institucional em 1909 no ato de criação das primeiras escolas de Aprendizes e Artífices. No decorrer de sua existência.] Constitui o eixo da carreira tendo como base o enfoque integral da língua espanhola (semântica. Por outro lado. primeiro. futuro professor.

de 19 de fevereiro de 2002. Disponível em: <www. Vilson (org. Florianópolis: UFSC.Institui a duração e a carga horária dos cursos de Licenciatura. MEC.br/setec/ index. 2000.dá nova redação ao art.L.php?option=content&task=view&id=91&Itemid=207>. Resolução CNE/CP 2/2002. 23. pp. In: TOMICH.462 de 17/05/2000 .) O professor de línguas estrangeiras – construindo a profissão. V. Decreto 6. Último acesso em: 03 set 2009. 345363. no âmbito da Rede Federal de Educação Tecnológica. 2001. A. Brasília. p. 1961. 2011. Último acesso em: 30 fev. que regulamenta a Lei nº 8. ———. 2005. para fins de constituição dos Institutos Federais de Educação. Resolução CNE/CP 1/2002. Campinas: Papirus. Expansão da Rede Federal. ed. I.edu. de 18 de fevereiro de 2002 . IFET RORAIMA. 8º do Decreto 2. “O novo perfil dos cursos de Licenciatura em Letras”. Pelotas: Educat. PAIVA. Celso Suckow da. MEC. In: LEFFA. CELANI.M. Decreto 3.095 de 24/04/07 .O. .ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 155 Referências bibliográficas BRASIL. A interculturalidade no ensino de inglês.406. ———. de 8 de dezembro de 1994. 2005. ET (orgs. de graduação plena. História do ensino industrial no Brasil. Ciência e Tecnologia IFET.). Disponível em: < http://www. BRASIL.Estabelece diretrizes para o processo de integração de instituições federais de educação tecnológica. Nota 1 A oferta inicial dos cursos de licenciatura nas escolas da Rede remete à oferta voltada para a área das Ciências da natureza.http://p or tal. (Org.) Projeto político-pedagógico da escola: uma construção possível. Rio de Janeiro: Composto e Impresso no Curso de Tipografia e Encadernação da Escola Técnica Nacional.mec.gov. ———. 2001. de formação de professores da Educação Básica em nível superior. P.php/ component/content/article/46-cursos/68-licenciaturaplena-em-lingua-espanhola-e-suas-literaturas>.ifrr. “Ensino de Línguas Estrangeiras – ocupação ou profissão”. FONSECA. de 27 de novembro de 1997. VEIGA.948. Maria Antonieta Alba.br/campus_bv/index. Plano de curso para formação do professor da Educação Básica em nível superior – Licenciatura plena em Língua Espanhola e Literaturas. 21-40.

por lo que deben ser incorporados a ellas. tal es el caso de los modelos de Shiffrin (1987) y de Redeker (1991). Redeker (1991). por su parte. el modelo ideal se debe basar en tres componentes: estructura ideacional. al estudiar la coherencia que se construye por medio de relaciones entre unidades adyacentes en el discurso. la duración silábica. Introducción La polifuncionalidad de los marcadores del aspectos del estudio de Schiffrin y defiende que el marco de participación y el estado informacional no son independientes de las otras tres estructuras. estructura retórica y estructura secuencial (las cuales corresponden. la estructura de los actos de habla. Lo cierto es que muchos de los estudios que se han llevado a cabo en este ámbito suelen señalar la especificidad de los rasgos suprasegmentales (como la entonación . Van Dijk (1979). estudios como los discurso (en adelante MD) es un tema que. observó que algunas unidades presentan un carácter polifuncional porque operan en distintos planos del discurso: el semántico y el pragmático . Otros estudios. a la estructura ideacional. asociados con los marcadores. El modelo de Schiffrin. todavía hacen falta estudios que se ocupen de forma más detallada del tratamiento de la polifuncionalidad de los marcadores del discurso. no ha recibido bastante atención por parte de estudiosos que se han ocupado de desvelar el valor semántico-pragmático de estas unidades discursivas. como los que se basan en la coherencia discursiva. según esta autora.156 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS POLIFUNCIONALIDAD DE LOS MARCADORES DEL DISCURSO Y ENSEÑANZA DEL E/LE Antonio Messias Nogueira da Silva Universidade Federal do Pará 1. Así. determinan el sentido de estas partículas discursivas. el marco de participación y el estado informacional (SCHIFFRIN. En el ámbito hispánico. o la delimitación por pausas) que. en su precursor estudio “Pragmatic connectives”. 1987: 25). así como suelen indicar la existencia de algunos de esos rasgos que. respectivamente. a la estructura de los actos de habla y a la estructura de intercambio comunicativo propuestas por Schiffrin). no asociados con una pieza léxica en concreto. deslinda el aspecto polifuncional de los MD a partir de cinco dominios del discurso: la estructura del intercambio comunicativo. también han puesto de relieve la polifuncionalidad de los MD. pueden funcionar como marcadores. realiza una revisión de algunos . En este sentido. la estructura ideacional. al parecer.

etc.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 157 de Domínguez García y Dorta Luis (2002). c) -¿Te apetecen gominolas? (-¡Bue Bueno no o …). o. una misma forma tiene asociada varias . La polifuncionalidad (. el marcador bueno puede aparecer con un alargamiento de las vocales y acompañado de una repetición del signo.Bue Buen o. Por otro lado. a la palabra que les queda más cercana en el enunciado (ALLERTON Y CRUTTENDEN. podrían señalar también que afectan. 2000: 209). Así. matizado por la entonación. Martín Butragueño (2002). sino En definitiva. b uee no o … ¿Tú que siempre te ha sido fiel. una mayor o menor cantidad en las sílabas y una mayor o menor duración en las pausas se corresponderían con sentidos o matices diversos en la expresión de los marcadores. tales como la entonación. d) -Me ha dicho tu ex mujer gominolas? (-Buee Bueeno noo no o . de que una misma función pueda ser desempeñada por más de una forma. en cambio. por ejemplo. con lo que se contribuye a matizar el valor semántico-estilístico (el sentido) de dichas unidades”. la entonación. en este caso bueno puede aparecer con un alargamiento de las vocales. en una misma ocurrencia de un marcador sea posible identificar más de un valor (tanto en el plano semánticoargumentativo como en el enunciativo y en el interactivo. la información directamente accesible a partir del contexto situacional. como. las reacciones del interlocutor. creemos que resulta posible establecer las diferencias entre los diversos conectores pragmáticos contrastando el funcionamiento pragmático y discursivo de aquellos que realizan una misma función. no solo el marcador b ue ueno o (que ) también muchos otros marcadores. -Buee Bueeno noo ueeno noo crees? no . más importante aún. una mayor o menor elevación de tono. de otro modo.) es una necesidad para entender el funcionamiento de estos elementos en la conversación coloquial (PONS BORDERÍA. ). o un consentimiento resignado (c ). además. como c lar laro y b i e n . frecuentemente matizan el contenido instruccional de los MD (MARTÍN ZORRAQUINO. algunos rasgos suprasegmentales. 1974). el hecho. o más o menos connivencia con el interlocutor. pueden tener su sentido determinado por los rasgos suprasegmentales. por ejemplo.) determina que resulte extremadamente difícil proponer un significado constante para cada marcador. Sirvan de ejemplo las siguientes palabras para comprender la dinámica de los conectores: Comenzar el análisis desde las funciones permite explicar la polifuncionalidad de un conector y. señala que la polifuncionalidad de los MD “está en relación con la aptitud de las par tículas extraoracionales para recibir rasgos suprasegmentales distintos (sobre todo. intensificándola o atenuándola): a) . Para Hidalgo Navarro (2010: 65). 2004). los cuales indicarían. perspectivas. en mayor o menor medida. y en función de factores que no tienen incidencia en el texto escrito. la entonación). o una aceptación neta y entusiasmada (b ). precisamente. los marcadores conversacionales presentan una mayor polifuncionalidad en el discurso. o. puede expresar desacuerdo (d ) del interlocutor (también en este caso. Así pues. el que una ocurrencia de un conector se pueda analizar desde distintas. por su parte. cuyo propósito es reforzar la réplica.. la cuestión es que en la mente de los especialistas ha acabado calando la importancia de lo prosódico como factor decisivo para explicar la polifuncionalidad de los marcadores. b) -¿ Te apetecen no ! ¡Encantado!). por ejemplo. por ejemplo. Martín Zorraquino (1998: 23). más o menos convicción por parte del hablante en relación con el “comentario” que reflejan. aunque complementarias. según esta autora.. se puede afirmar que: (…) una mayor o menor fuerza en el acento. Con todo. puede indicar una ueno simple y clara aceptación (a ). y que. Elordieta y Romera (2002). En contraste con los marcadores comunes en la escritura. De esta manera. Briz (1996) e Hidalgo (1997) aportan nuevos datos sobre las propiedades prosódicas y las funciones de algunos marcadores del discurso del español.¿Te no apetecen gominolas? (. el marcador b ue no.

a nuestro modo de ver. ofrecen dificultades para su comprensión. lo que comporta que. los marcadores en el discurso oral sean mucho más difícilmente sistematizables. “Las palabras b ue ueno también con otras muchas funciones”. por ejemplo. además. Así. según el MCER. La polifuncionalidad de los MD es una realidad en la lengua y su enseñanza en las clases de ELE facilitaría al aprendiz la calidad de su aprendizaje.). aunque muy por encima. ocupa una parte muy pequeña dentro de una unidad. de textos diversos y situados en contextos diferentes. cómo y qué formas usar en determinados contextos. por ejemplo. combinados o no en la conversación. a numerosos ejemplos de cada uno de ellos (de cada marcador). pero. en la enseñanza de estos elementos. que la mayoría de los manuales analizados sigue el enfoque comunicativo. excusas o justificaciones”. pragmática de estas unidades. Los man tratan de este aspecto son: a) A Fondo (p. un problema para el aprendizaje de estas unidades. en estos. tomando como base un texto conversacional que el estudiante debe escuchar para resolver algunos ejercicios. se lo presenta como una fórmula que los hablantes utilizan para cumplir dos no …) y funciones: iniciar una conversación ( b ue ueno no . p ues yo resulta que es que he tenido las dos “Bue Bueno condiciones…”. por lo que tanto el docente como el discente se ven ante situaciones donde no saben muy bien cuándo. A2 y B1). procedentes. al principio de frase cuando se quiere marcar que pasamos de una etapa de la conversación a otra: no . por polifuncionalidad del marcador b ue ueno medio de un ejercicio. puesto que en diversas unidades didácticas de los manuales analizados suelen aparecer algunos marcadores que. por su polifuncionalidad y carácter distribucional. a diferencia de los niveles anteriores (A1.65) presenta una concluirla (b ue ueno nota en la que queda claro el valor polifuncional del conector es que . Es decir. La relación entre formas y funciones es.159) también se refiere a la no cuando. 2. (…) tiene que recurrir. de los 15 manuales investigados.81) que. 1999). . presenta brevemente un comentario respecto al aspecto polifuncional de los marcadores b ue no y p ues . o para darse tiempo a pensar en la no … P ues … o Bue no .4. puede introducir “explicaciones y. se presentan.). el profesor de ELE: (…) más aún que para la didáctica de otras clases de palabras. suprayectiva. como. además. ueno no y p ues se usan Según este manual. pues solo en cuatro. constituye. Tal diversidad de marcadores implica también atención a la versatilidad semántico- La polifuncionalidad de los MD es un aspecto que muy raramente se advierte en los manuales de nivel B2 que analizamos. principalmente en los niveles avanzado y superior.158 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS funciones y una misma función puede estar desempeñada por varias formas. al trabajar con los MD. según parece. en primer lugar. apenas se ofrecen aclaraciones teóricas sobre el valor semánticopragmático de los MD y la poca información que se presenta respecto de este aspecto suele ser de forma muy superficial y. ya que. a diferencia de lo observado en la lengua escrita. Polifuncionalidad de los MD y su enseñanza en los manuales de E/LE1 Cabe destacar. a partir de estos niveles. con objeto de facilitar a sus alumnos el aprendizaje de su empleo” (MARTÍN ZORRAQUINO. b) respuesta “Bue Bueno Bueno Sueña 3 (p. el profesor de ELE debe introducir una mayor diversidad de MD con vistas a que el aprendiz convierta “sus frases en un discurso claro y coherente” (MCER. lo que. el surgimiento de diferentes contextos en los que los MD se manifiestan con múltiples funciones. en palabras de Pons Bordería (2000). p ues …”. § 3. con frecuencia. conforme este manual. el cual. comentarios sobre la polifuncionalidad uales d e ni v e l B2 que manuales de niv de algunos MD 2. c) Aula 4 (p.

est o es . su significado semántico-pragmático de conector aditivo. e nc ima . es decir.). si bien lo más práctico sería no aplicar todos los casos de no en el nivel B2. MARTIN ncima bie ien ZORRAQUINO Y PORTOLÉS. etc. a sab er y o s ea . en general. aun. sí . luego. Téngase en cuenta que el marcador a d e m á s (junto con el conector a p a r t e . PONS BORDERÍA. 1999) que. la atención a la polifuncionalidad a . es que . pensamos que lo primero que se debería explicar es su significado de adición en tanto en cuanto resulte como un elemento conectivo y su función sea la de vincular dos miembros discursivos cuya orientación argumentativa tiene que ser la misma. pues son casos complejos que normalmente y según el MCER. o el caso de los marcadores b ie ien s ea . El único método que introduce algún tipo de información sobre este aspecto es el manual El Ventilador (p. sino elegir polifuncionalidad de b ue ueno dos o tres funciones más sencillas de este marcador y. únicamente. introducir una autocorrección.. por lo que las explicaciones que se presentan en los más deberían contemplar. exigiría de los aprendices un mejor dominio de las competencias lingüística y pragmática para comprenderlos y ponerlos en práctica. Así pues. oy e . más propio del español oral coloquial) es el conector aditivo más frecuente. inclusive en los contextos que exigen su uso como conector aditivo. resultaría más práctico empezar por el B2. por ejemplo: la toma del turno de palabra. Así pues. b ue nga mira oiga ueno no . el profesor dejaría b ueno3 . oig a . señalan las relaciones sociales que se establecen entre hablante y oyente (cfr. De manera particular. los cuales. 58) que presenta una notación en la que comenta la polifuncionalidad de los conectores ir . introducir un cambio de tema en la conversación. más b ie n . etc. p ues . será más razonable que él realice una concienciada selección de marcadores de polifuncionalidad más sencilla para ir introduciéndolos a partir del B2.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 159 La polifuncionalidad de los MD los casos más complejos de polifuncionalidad. no trate de aplicar todos los casos en un nivel B2 o en un nivel C1 o C2. casos de versatilidad o . v ale . siempre y cuando tome como referencia el manual donde figura esta información. en especial. o bien “introducen un argumento que dice exactamente lo mismo de otro modo” o bien “introducen una consecuencia del argumento anterior”. Para los niveles C1 y C2. es decir. por ser marcadores explicativos. este último. tal es n . cumple funciones distintas en cada caso de su empleo (expresar conformidad con lo propuesto previamente por alguien. aplicando. en manuales acerca de ade además primer lugar. semántico-pragmática de los marcadores c lar laro v e ng a . v amos . ya que no tiene sentido desde un punto de vista metodológico y didáctico. por ejemplo. 1998: 214). como. en el nivel C1 comentar todos los casos posibles. e h . (cfr. y a . Si bien es cierto que al profesor de ELE no deberían preocuparle excesivamente los casos de polifuncionalidad en un nivel B2. ya que estas unidades desarrollan diferentes estrategias discursivas en la conversación. como ordenador del discurso. explicativos es dec decir esto sabe sea según este manual. o y e . poseen un doble valor. e ni ve l uales d prácticamente no se trata en los man manuales de niv C1 que hemos analizado (un total de 8 manuales de este nivel). oig a y otros semejantes de los marcadores mir mira oiga resultaría profundamente interesante en las clases de ELE. la clasificación del conector ade además exclusivamente como estructurador de la información que ordena el discurso con vistas a dar continuidad al mismo puede crear confusión tanto en las explicaciones pertinentes que el profesor pudiera dar a sus alumnos. por presentar matices de versatilidad semántica un poco más complicados. Tanto en los manuales de nivel B2 como en más los de nivel C1. se deben aplicar de manera más detallada en los niveles C1 y C2. si es deseo del profesor trabajar con casos de polifuncionalidad de determinados marcadores. como también a los propios estudiantes que podrían utilizar este conector. Ahora bien. el inicio del diálogo o.etc. mir a . atenuar el contenido de una respuesta en relación con la pregunta del interlocutor.

por lo que en el nivel C1 deberían recibir mayor atención. con vistas a que el discurso resulte más fácilmente comprensible. hasta su polifuncionalidad. globos. etc. solo uno 4 de los ocho manuales publicados para el nivel C1 comenta. Según nuestra opinión. la sucesión temporal o la expresión de hipótesis. queremos dejar constancia de que ninguno de los manuales de ELE de que nos ocupamos en este estudio contiene suficientes informaciones sobre la polifuncionalidad de los MD como para que un aprendiz de español pueda llegar a comprender perfectamente el funcionamiento de las unidades que introduce. pues al tiempo que introduce una nueva información coorientada con la temática que se presenta en el miembro discursivo precedente (función de conector aditivo). este significado básico de ade además entonces. como ordenador del discurso. también la distribuye y la divide en agrupaciones más pequeñas. Tomamos como más de que hemos ejemplo el caso del conector ade además venido hablando: este marcador también puede ordenar la materia discursiva. por ejemplo– debe aprender a escribir “(…) textos claros. conforme hemos visto más arriba. aunque de manera muy general. Así. mostrando un uso controlado de estructuras organizativas. funcionando. en este nivel. lo que indica la gran riqueza de sus matices expresivos. donde mucho más que en el nivel B2. también deberá hacer frente a este otro problema que es la ausencia o la carencia de informaciones respecto de la polifuncionalidad de los MD en los manuales de ELE. 220). Pero esta es una tarea que no solo requiere del profesor un conocimiento más profundo del valor semántico-pragmático de los MD que explica. Sin embargo. restringiéndose a un pequeño grupo de marcadores ir . la condición. se hace necesaria su atención. Por otro lado. Además. est o es . en listas que perpetúen la vieja idea . este aspecto y. se presentasen anotaciones a través de cuadros didácticos. la consecuencia.160 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Ahora bien. a sab er y o s ea ). se ha de poner de manifiesto la notable carencia del tratamiento de la polifuncionalidad de los MD en los manuales de nivel C1. se le podrían. sino que también requiere que él cambie la manera de enseñar dichas unidades. hecho que refuerza la necesidad de los estudiantes del nivel C1 de aprender a usar un mayor número posible de MD. convierte la tarea de aprendizaje de los MD aún más engorrosa. Para ello. conectores y otros mecanismos de cohesión” (MCER: p. una vez entendido. una vez que el alumno aprenda más .. aporta una mayor seguridad con respecto al uso de estas partículas. 3. a nuestro modo de ver. es donde el aprendiz –en lo que se refiere a su expresión escrita. además. “(…) en su explicación debería huir de una presentación estática. el problema surge porque los manuales no suelen explicar la polifuncionalidad de los MD que introducen en sus unidades didácticas. puesto que no toma en consideración el hecho de que la polifuncionalidad de estas unidades constituye un rasgo característico de muchas de ellas. en los manuales de ELE. Este es un problema sabe sea (es dec decir esto que. Conclusiones En fin. aspecto que. fluidos y bien estructurados. así. etc. enseñar otras funciones que este conector puede ejercer en los textos. Lo cierto es que el profesor de ELE. o en otros términos. que –no hace falta decir– ya se enfrenta a la compleja tarea de explicar en sus clases cuáles son los mecanismos de los que se valen los hablantes nativos para estructurar u ordenar su discurso así como expresar la causa. el aprendiz necesariamente deberá reconocer otros rasgos característicos de estas partículas discursivas que pasan desde el aprender los diversos efectos de sentido que subyacen al uso de varios marcadores. resultaría conveniente que. para aclarar el aspecto polifuncional de los MD. pero siempre después de que se explicase su significado semántico-pragmático más básico y frecuente en español. la oposición y el contraste.

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Para el estudio de la polifuncionalidad de bueno. 2006. 2006. Madrid: Grupo Anaya. VV. Sueña 3. Chicos Chicas 4 (Libro del Alumno).AA. VV. 2007.58). Madrid: EDELSA. VV. EsEspañol 3. Español sin fronteras 3. Abanico. Notas 1 2 3 La completa información bibliográfica de estos manuales figura en el apartado Referencias. 2007.AA. Madrid: SGEL. Madrid: Grupo Anaya.AA. 2005. Madrid: Santillana. 2007. VV.AA. Puesta a punto. Madrid: EDELSA. Madrid: EDELSA. VV. 2006. Barcelona: Difusión.AA. 2008. A fondo 2. Nuevo Ven 3.AA. Madrid. 2007.AA. Madrid: SGEL. VV. véanse Bauhr (1994). Madrid: EDELSA. Dominio.AA.AA. VV. VV.1998.AA. 2006. Eco 3 (Libro del Alumno). Aula 4. S. Español lengua viva 4. Edelsa. Prisma consolida.162 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Lista de manuales consultados VV. Madrid: Edinumen. Punto final. VV. VV. Sueña 4. El Ventilador. VV. VV. Barcelona: Difusión. Madrid: SGEL. 2008. A fondo. Barcelona: Difusión.AA. 2007. 2006.AA. Prisma avanza. Madrid: EDELSA. 2008. S. Madrid: Santillana. 2009.A.AA. Analizamos 15 manuales del nivel B2 y 08 del nivel C1. Barcelona: Difusión. 2008. VV. 4 Se trata del manual El Ventilador (p.AA. Español lengua viva 3.AA.AA. 2007.AA. Destino Erasmus 2. 2004. VV. 2005. VV. VV. VV. VV. 2010.AA. VV.AA. VV.AA. VV. Madrid: Espasa-Calpe. Madrid: SGEL. VV.AA.A. Martín Zorraquino y Portolés (1999) y Martín Zorraquino (1994). Español sin fronteras 2.AA. 2007. Madrid: SGEL. .AA. Gente 3 (Libro de Trabajo). Madrid: Edinumen. Madrid: Edelsa. 2005. Pasaporte 4.

imaginario o real. llegaron a la región del rio de la Plata. en el ámbito literario. ya que. circulan por las fronteras de varios mundos. en donde encontrarla y/o encontrarse. El autoconcepto de ésa cultura trasciende el territorio comprendido por Alemania como nación . que en general abordan cuestiones históricas e identitarias asociadas a tránsitos y fronteras. Exiliados. “Tatuajes en el cielo y en la tierra” y “Ojos de caballo zarco”. La vasta galería de sus personajes está poblada por seres excéntricos que tratan de encontrar una identidad posible o un lugar. Como los demás. En la larga lista de su obra ficcional merecen destaque las narrativas casi siempre urdidas en los borrosos límites entre historia y ficción. migrantes. poemarios. originarios de tierras germánicas. El presente trabajo pretende trazar una breve cartografía de la presencia de los germánicos en narrativas de María Rosa Lojo. este último se asocia más directamente a Alemania como Estado moderno. a pesar de la casi sinonimia. discutiendo como están dibujados discursivamente dichos personajes y cuál es la imagen del continente americano reflejada en su mirada. viajeros y aventureros en general. colecciones de relatos y varias novelas. por algún motivo. también tenían la cabeza poblada por fantasías sobre la tierra nueva y soñaban construir nuevas realidades. desde la publicación de su primer libro en 1984. Preferimos. en esas novelas los personajes germánicos no son protagonistas ni tampoco su visión de América y de Argentina es el tema central. en un constante deambular. sin embargo. Entre ellos se pueden constatar aquellos que. El mapa de dicha presencia arranca de su primera novela.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 163 EN BUSCA DEL PARAÍSO: LA REPRESENTACIÓN DE LOS GERMÁNICOS EN LA OBRA DE MARÍA ROSA LOJO Antonio R. para estas notas. en especial por el vasto territorio argentino. Esteves FCL-UNESP-Assis Autora de una obra variopinta que incluye. viene ocupando un destacado lugar en las letras argentinas. pasa por La pasión de los nómades (1994). por el libro de relatos Amores insólitos de nuestra historia (2001) y concluye en Las libres del sur (2004). Canción perdida en Buenos Aires al Oeste (1987). Rosa María Lojo. en lugar de “alemán”. usar el adjetivo “germánico”. que con excepción de los dos relatos de Amores insólitos de nuestra historia. de uso más amplio. Hay que subrayar.

La presencia de germánicos en América. hace una inversión de la épica tradicional de la conquista. una indígena de la tribu de los Xarayes. aventureros. de “Tatuajes en el cielo y en la tierra”. centraliza el foco en la mirada que Ximú tiene del conquistador germánico. era gozar de los encantos de la mujer americana. 2008. viene desde los tiempos de la conquista. los dividí en cuatro categorías que a veces se cruzan ente sí: conquistadores. Ambos amantes. capaz de ver al otro y dispuesto a descubrir en los cuerpos. abarcan un período que va del XVI al siglo XX y han nacido en varios puntos del ancho territorio ocupado por la lengua alemana y la cultura germánica. Una de sus preocupaciones centrales. más que encontrar al reino del Dorado. juntamente con la imaginada Ximú. Tenemos entonces no un conquistador español sino su equivalente germánico. Este lansquenete bávaro que participó de la expedición de la primera fundación de Buenos Aires dejó uno de los primeros relatos de la ocupación del rio de la Plata. ur e r o germánico. usaré en este trabajo el orden cronológico de la acción de los relatos y no las fechas de su publicación. es su experiencia y el relato de Lojo. sobreviven en el “territorio natural de su pasión” y proponen otra lectura posible para la conquista. 33). 44). partiendo de dicha mirada. Algunos son personajes históricos ficcionalizados. partiendo de ello. el relato que hace una especie de relectura a contrapelo del episodio de la conquista y se ubica en la base de la construcción discursiva de la Argentina. relato incluido en el volumen Amores insólitos de nuestra historia (2001). p. Como los relatos de María Rosa Lojo. que ocupó y ocupa un espacio que va más allá de las fronteras geográficas de aquél. como se sabe. “las Amazonas eran notoriamente inexistentes” (LOJO. El relato de María Rosa Lojo. La marca principal de ese aventurero de Straubing es la lectura particular que él hace del Nuevo Mundo. Hay que quedar claro. entretejida a través de la memoria de la mujer una vez que en el relato la nativa conquistada es quien se apodera del cuerpo del amado. El grado de ficción e historia que hay en cada uno de ellos cambia según el personaje. presentándolo como un hombre sensible. 2001. Lo que él ofrece al mundo. Además. sin embargo. p. se tejen en los umbrales de la ficción y de la historia. que se trata de mera opción personal. entendidos como narrativas de extracción histórica (TROUCHE. otros son personajes puramente ficcionales. de los Un típico a v e n t tu re muchos que deambularon por el territorio americano en el siglo XIX. 2006. tratando de encontrar fortuna. la imagen y autoimagen que los germánicos construyeron de su cultura es muy compleja y su discusión ultrapasa los objetivos de esta ponencia y al espacio de que dispongo. Solamente por cuestiones didácticas. viajeros e inmigrantes. p. El ejemplo de c onquistador está en Ulrich Schimidl. de acuerdo con aquello que Beatriz Pastor llama de discurso narrativo del fracaso (PASTOR. Él abandona los anales de la historia de la conquista argentina para protagonizar. que trata de trazar la cartografía del cuerpo de la mujer americana y no los mapas de los tesoros de las nuevas tierras. una vez que según el relato. 219). sigue las estrategias usadas en las narrativas de extracción históricas. una riqueza superior al deseo de volver a Europa cargado de oro y plata.164 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS moderna. comprendiendo prácticamente toda la historia del continente después de la llegada de los conquistadores. Los germánicos que aparecen en los relatos de María Rosa Lojo. Esa versión alternativa de la historia se hace posible a partir de las fisuras del relato del cronista germánico y es a partir de dicho entrelugar que la narrativa de María Rosa Lojo teje su contrapunto a la historia hegemónica. La construcción de los personajes germánicos en las obras en cuestión. atraídos por la exuberante naturaleza local o .

su figura muestra como el viajero/aventurero se transforma en inmigrante al entrar en contacto con la nueva tierra y principalmente al encontrar en ella el amor de su vida. Reconstruyendo los desencuentros amorosos de la pareja y la posterior polémica del conde con Victoria. capaces de hacer nacer una nueva realidad. en su discurso. 2001. hundida en la crisis que producirá los desastres de la Segunda Guerra Mundial. ha sufrido la más inicua discriminación y la burla de los campesinos analfabetos” (LOJO. mientras él se pierde en su estéril Europa. una especie de pantalla de proyección en la que. El personaje histórico se traslada a las páginas de Las libres de Sur (2004). Totalmente ficcional. 1995). gracias a su relación con Victoria Ocampo. esa pantalla de proyección invertida. 202). quien lo había invitado a Buenos Aires. en tiempos de crisis. negación de lo que él considera cultura civilizada europea. en Argentina como ganadero y adopta la nueva tierra como suya. se fija. lo representa negativamente en sus escritos. en las páginas de la novela Las libres del Sur (2004). p. usando lo ajeno para estabilizar lo propio. Debido a su piel blanca y principalmente por el color de sus ojos. protagonista de la narrativa. es el Conde Hermann von Keyserling. La imagen que él construye de Argentina.98). ocupando la segunda mitad de la novela. reta al caudillo Facundo Quiroga y por su audacia consigue un espacio en la nueva patria en construcción. violador del universo femenino y de la imagen edénica de las tierras americanas. protagonista de “Ojos de caballo zarco”. . En Chivilcoy él se dedica. El conde está reconstruido como el modelo negativo del germánico. Además repite un par amoroso presente en buena parte de la narrativa de Lojo: el germánico (o su descendiente) que se enamora de la gallega (o su descendiente) para formar un matrimonio que representa una especie de emblemática pareja fundadora argentina. a una huerta y a una “escuela especializada y a un Instituto de Idiomas”. En ese sentido. también nacido en Straubing. la narradora dibuja su imagen en la novela. por ejemplo. patrocinado por la mecenas de las artes argentinas que fue Victoria Ocampo. una vez que además de ser incapaz de ver el “otro”. también en Amores insólitos de nuestra historia (2001). por amor. en el cual se quedan las mujeres. una nueva visión del mundo. Se trata de un conocido filósofo de las primeras décadas del siglo XX que viajó a Argentina en fines de los años 20. ante la imposibilidad de la posesión de los metales (cobre y plata) de las minas de Famatina. Evidentemente él será expulsado de dicho paraíso. casado con una nieta de Bismarck. transformándolo en una especie de ogro primitivo. Se trata de una nueva estrategia del discurso colonial. Representa en el relato una inversión del tópico de la superioridad europea que normalmente sostiene los discursos racistas. Como en el caso anterior. su imagen es opuesta a la de Ulrich Schimidl. noble báltico de lengua alemana. la salvación de la hegemonía europea (BLOSS. Victoria fue. en sus relatos de viaje será desconstruída por la propia Victoria en sus memorias y sirven de base para lectura que hace María Rosa Lojo de la relación de ambos. ese hombre “que se considera un espíritu libre pensador y libertario. p. 2004. Ese ingeniero de minas. Ese personaje. llega a la Argentina como secretario del Conde Hermann von Keyserling. Personaje de la misma novela y asociado a él. Utz von Phorner. el filósofo alemán trataba de defender. En defensa de su amor por una criolla. pero descendiente del hombre de “ojos de caballo zarco”. en La Rioja. “de tanto hurgar en historias de alemanes y españoles que perseguían las Fuentes de Juvencia o los palacios de El Dorado” (LOJO.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 165 simplemente en búsqueda de aventuras es Karl von Phorner. Sus relatos de viaje muestran una Argentina bárbara. al lado de su amada. construido a partir de los dos anteriores. no regresa a su tierra y decide fijarse en la Argentina después de casarse con la gallega Carmen Brey.

Irene y Alberto.29). Irene.166 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS La representación del universo americano como una especie de paraíso siempre estuvo presente en el imaginario europeo y es parte de los sucesivos discursos relativos a la región. El hijo/nieto de inmigrantes alemanes ayuda a Irene en el encuentro con la identidad argentina. 36). asociada a esa familia gallega. que en la historia ya han regresado a Misiones. vuelve a aparecer. Rosaura va a encontrar. Discutiendo la costumbre de los argentinos en abandonar su tierra delante de las casi cíclicas crisis. también las r ant es que abandonaron el sucesivas olas de mig migr antes “Viejo continente” para fijarse en tierras americanas en búsqueda de ese El Dorado imaginario. cuando los Reuter entran en escena. estudiosa de filosofía. Aquí hay una duplicación de la pareja compuesta por un descendiente de alemanes y una descendiente de gallegos. sin saberlo pertenecía ya a esta tierra y a Alberto Krieger. sin embargo. interesa la presencia germana. en donde el médico busca la reconciliación con su padre. el protagonista del viaje anterior. Hija de la diáspora republicana española. Federico Reuter narra entonces la epopeya de sus antepasados que en el siglo XIX abandonan Alemania en busca de una nueva patria.” (LOJO. hay cierta similitud entre su historia familiar y la historia de la familia Neira. Ese discurso se reitera y se discute en las dos primeras novelas de María Rosa Lojo: Canción perdida en Buenos Aires al Oeste (1987) y La pasión de los nómades (1994). p. […] Yo no diría ya que el país es mío sino . se enamora del hijo de un inmigrante alemán. que decide rehacer su trayecto juntamente con los dos gallegos. Alberto. La casa de los Neira hospedará a Rosaura dos Carballos y Merlín. de paso. parece estar en la novela justamente para discutir la cuestión de la identidad argentina y lo hace a partir de la experiencia de la inmigración de la familia Reuter. los protagonistas se reúnen en una cena en la casa de los Reuter en la que se discute el problema de la inmigración asociado al drama de la identidad argentina. los diversos viajeros que la visitaron y. Canción perdida en Buenos Aires al Oeste (1987). que “había sido gaucho brasilero casi antes de ser alemán” (LOJO. La familia Neira. que tiene el mismo nombre del padre. 1987. La hija de los Neira. antes de su periplo siguiendo los pasos de Lucio Victorio Mansilla. “Irene miraba al vacío. p. el médico de origen misionero Alberto Krieger. el capítulo IV de la segunda parte de La pasión de los nómades. La joven pareja va a vivir en un pueblo de Misiones. Para la presente discusión. en los últimos dos siglos. Se puede decir que Federico Reuter y su esposa Ana sean una especie de dobles de Alberto Krieger e Irene Neira. Como en los antiguos “coloquios”. El origen extranjero común hermana a los personajes. es decir. incluyendo los primitivos conquistadores. Con los inmigrantes alemanes pasó lo mismo. en las ramas de un gigantesco aguaribay. es educado por la madre y el abuelo. al mismo Lucio Victorio. Con ello. con padre gallego y socialista. 1987. María Rosa Lojo tiene entre sus temas la cuestión del desarraigo y la búsqueda de una patria posible. Allí cerca. en La pasión de los nómades (1994. representada por sus sobrevivientes. un ex pastor luterano que había abandonado la familia y el sacerdocio debido al alcohol. Federico reitera que no pretende hacer repetir. Inicialmente se fijan en Brasil y después en la provincia argentina de Misiones. una vez más. la segunda novela de la autora. De ese modo. los protagonistas. y se casa con él para disgusto de su padre. Me quedo con el ámbito imperfecto que me ha tocado. paradójicamente ella siente más distante en su casa. la historia: No voy a repetir la búsqueda del Paraíso en la tierra. protagonistas de su primera novela. que.

El amor. 2001. aventureros e inmigrantes y aventureros. 2. viajeros. Niterói: ABRALIC. Dicho personaje germánico es el hombre que sale de su tierra en busca de un paraíso y lo encuentra no solamente en la tierra plena de elementos telúricos pero principalmente en el amor de una mujer. Poética do pós-moderninsmo (1991): Trad. El capítulo concluye con la voz narrativa de Rosaura dos Carballos. (LOJO. El primero es la construcción de la identidad argentina y todo lo que conlleva esa temática. Lo insólito del amor. 108-9). USP. Entre la historia y la ficción: el exilio sin protagonistas de María Rosa Lojo. en ese contexto. no hace falta ir muy lejos. Linda. los personajes de María Rosa cruzan las fronteras tradicionales. El segundo es la inserción de la mujer en el universo tradicionalmente dominado por el varón. p. Ser argentino. Marcela. p.” (LOJO. G. y un hombre de origen germánico. ———— (2001): Amores insólitos de nuestra historia Buenos Aires: Alfaguara. sino los paraísos pasados y los futuros y que para buscar esas pobres verdades incluso raramente alcanzadas por los hombres llamados sabios. criando un entrelugar (SANTIAGO. a los cuales se asocian los demás. CRESPO BUITURÓN. ampliando el espacio de la discusión a la superación de los límites de la frontera: “Nos despedimos pensando en alas. se establece el conflicto y el germánico. . La obra narrativa de María Rosa Lojo. Buenos Aires: Sudamericana. le pertenecemos y mucho más de lo que nos damos cuenta. reiterando la opinión de Federico Reuter: “Que no hay paraísos. los tránsitos en general son constantes en su obra. Cuando no ocurre el encuentro.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 167 que nosotros. Dichos temas siempre se plantean a partir de la experiencia femenina y la dificultad que tiene la mujer para hacer escuchar su voz en un mundo dominado por el discurso masculino. en el cual la identidad se presenta como un discurso en movilización continua. Los escritos de viaje del conde Hermann Keyserling como psicodrama de una relación amorosa? In Limites. 109). el exilio. tan repetida en el discurso de conquistadores. espacio de transición.ed. 110). São Paulo: Ed. R. HUTCHEON. tiene una significación especial ejerciendo la función de promover la comunicación. se trata de un constante ajuste en dichos espacios de frontera y de circulación. Cruz. El lugar de realización de dicho amor son las tierras argentinas. Rio de Janeiro: Imago. la identidad y la Referências bibliográficas BLOSS. Por ello. aparece rotundamente negada en la voz de Merlín. 1999. las migraciones. Lleida: Facultad de Letras de la Universidad de Lleida. 125-131. María Rosa (2010): Árbol de familia. la tierra americana del deseo de los conquistadores/viajeros/aventureros/ migrantes. discute dos problemas básicos y centrales. la traducción como mediación. pp. LOJO. Tales corredores (LOJO. (2008): Andar por los bordes. como se sabe. entonces. A través de la metáfora del tránsito. entonces. la frontera. p. en ríos y en migraciones” (LOJO. (Tesis de Doctorado). penetrando por las fisuras naturales del sistema. 2008. Anais do 3° Congresso ABRALIC. irremediablemente. en dicho contexto. es la capacidad de promover dicho tránsito. deja de ser el hombre sensible que descubre el cuerpo y la tierra de la amada y se transforma en el ogro violador. 2010) permiten el tránsito entre lo uno y lo diverso. Anja (1995): El drama de la comunicación transatlántica. La idea del Paraíso. 1978). otredad. La idea de argentinidad aparece asociada en nuestros relatos con la unión entre una mujer hispánica o americana. 2008.

pp. M. PASTOR. Hebe B. En busca de una identidad . La conquista de América narrada por sus coetáneos (14921589). André (2006): América: história e ficção . Beatriz (2008): El segundo descubrimiento. Buenos Aires: Sudamericana. MOLINA. SANTIAGO. Silviano (1978): O entre-lugar do discurso latino-americano. La novela histórica en Argentina. MOLINA. 109-127. Buenos Aires: Debolsillo. del Signo. In GIUFFRÉ. In ZONONA. (2010): La poética de la rosa: Modulaciones de la ficción histórica en María Rosa Lojo. ———— (2008): Una pasión de los nómades.. ———— (2004): Diálogo con Mercedes Giuffré. Vol. Buenos Aires: Edhasa. Niterói: EdUFF: 2006. Buenos Aires: Ed.) Poéticas de autor en la literatura argentina (desde 1950). Víctor C. In Uma literatura nos trópicos. Barcelona. . 1128. TROUCHE.168 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS ———— (1987): Canción perdida en Buenos Aires al Oeste Buenos Aires: Torres Agüero. Buenos Aires: Corregidor. ———— (2004): Las libres del Sur . São Paulo: Perspectiva. II. pp. (ed. Ensaios sobre dependência cultural. Hebe B.

fazem com que surjam novas “zonas de contato” entre distintos territórios e culturas de uma megalópole como a capital argentina. Isso porque há uma sensação de desorientação. este trabalho se propõe discutir alguns aspectos relacionados às estratégias de representação da cidade e da nação em histórias narradas desde as margens da cidade e da própria literatura. que o termo francês au-delà capta tão bem – aqui e lá. agora como imensas manchas urbanas totalmente fragmentadas que dificultam ou impossibilitam as interações materiais entre seus habitantes. para lá e para cá. As “zonas sagradas” e os “espaços incivilizados” se interpenetram e se projetam em contraponto complementar nesta espécie de viagem ao outro lado dos muros da cidade. A partir dos dois modelos de urbanização complementares (segregação e auto-segregação sócio-espacial) que traduzem as contradições e crises vividas “aqui” por uma América Latina que se enfrenta a radicais transformações no processo de modernização. passado e presente. Textos como estes conseguem gerar uma reflexão questionadora acerca do cruzamento de fronteiras que separam e. interior e exterior. fort/da. Em diálogo aberto com os arquivos da antropologia. ao mesmo tempo. Bhabha As cidades latino-americanas da narrativa contemporânea se apresentam como espaços fragmentários e territórios de enfrentamento nos quais circulam personagens que vivem entre a estranheza e a descoberta de si e do Outro. tal como assinalou Roberto Echevarría em seu libro Mito y archivo (2000). para frente e pra trás. um distúrbio em direção.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 169 ROMPENDO FRONTEIRAS DA CIDADE E DA NAÇÃO: REPRESENTAÇÕES DE SUJEITOS QUE SE MOVEN ENTRE AS “ISLAS URBANAS” DE SERGIO OLGUÍN E CRISTIAN ALARCÓN Ary Pimentel UFRJ “Encontramo-nos no momento de trânsito em que espaço e tempo se cruzam para produzir figuras complexas de diferença e identidade. Uma literatura que deriva do encontro de dois mundos. tais como os sujeitos diaspóricos de Si me querés quereme transa (Cristian Alarcón) ou o personagem que transita entre distintas ilhas ao longo de um só dia em Oscura monótona sangre (Sergio Olguín). no ‘além’: um movimento exploratório incessante.” Homi K. uma literatura da ambivalência e do entrelugar: assim são os textos que nos últimos tempos . estes relatos dão visibilidade e um papel protagônico a grupos muito particulares da urbe contemporânea. inclusão e exclusão. de todos os lados.

jornal e televisão.) fragmentos que elegemos para ancorar nossa subjetividade. como rádio. suas guerras. O processo de construção de uma memória comum e a coesão comunitária antes tributárias de relatos totalizadores agora só é possível nas “novas tribos” ou “aldeias urbanas”. p. “construímos. Tal como concluiu Néstor García Canclini. Cortázar. permanecem em plena fronteira vivenciando os sentidos e sem-sentidos da cidade através das mediações das narrativas veiculadas pela literatura. sem jamais se decidir a abandonar integralmente o seu mundo. ainda dentro das grandes urbes. os labirintos da Villa 21. pelo cinema e pelos meios de comunicação. É justamente nestes territórios que circulam os personagens de Si me querés quereme transa e Oscura monótona sangre. chilenos e bolivianos. e a ação de grupos pequenos. Personagens e narradores mergulham na zona de contato e. 22). “la villa de los paraguayos. Embora muito diferentes na sua concepção. Oscura monótona sangre . Em uma. é o que permite estruturar este território de novas identificações apresentado por Cristian Alarcón: . nessas novas “ilhas urbanas” (entidades que se constituem em torno de territórios reais ou simbólicos) que se passam as ações da maioria dos romances escritos nos últimos dez anos. Para contar a história de cinco clãs que disputam o controle da distribuição de cocaína em uma villa de Buenos Aires. Viajam dentro da própria urbe a procura de uma cidade que não é sua. Si me querés quereme transa e Oscura monótona sangre nos permitem fazer uma reflexão sobre as relações entre o imaginário. García Márquez. derivando em subculturas e conflitos interculturais.170 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS constituem nosso campo de interesse. segundo García Canclini. “vem depois” dos grandes clássicos latino-americanos. drogas e imigrantes peruanos. p. pequenas comunidades onde as mediações entre indivíduo e a identidade grupal ainda se estabelecem face-to-face. 2005.17).. 113). (.” (2008. “chegamos assim a necessidade de dar conta de um mundo no qual a diversidade não está só em terras longínquas. 2019. o protagonista se desvia do caminho que faz todos os dias em direção a sua empresa para buscar os prazeres e a “adrenalina” de uma outra vida em regiões praticamente desconhecidas por ele. de alguma forma o deslocamento dos sujeitos é bastante semelhante nas duas obras. A fragmentação tanto identitária como territorial resultante da pluralização e heterogeneização de culturas. temos um repórter-escritor que mergulha na realidade de um enclave popular no coração urbe para tentar entender um mundo de violência. seus códigos. p. e constata o fim das ideologias em tempos nos quais ex-guerrilheiros maoístas tornam-se “capos” do tráfico de varejo. nas “micropoles” que. Trata-se de duas narrativas publicadas em 2010 que podem muito bem exemplificar certos aspectos da produção que. Nos dois casos estamos diante de sujeitos que já não conseguem viver a nação ou a cidade como totalidades integradas. Cristian Alarcón vai à procura do mundo de jovens criminosos. O que está no centro dos dois textos é a passagem de fronteiras: do cotidiano familiar para o estranho que emerge no território do Outro ou na zona intersticial que se projeta entre os dois mundos. seu culto à coragem. donde se habla tanto guaraní como argentino” (OLGUÍN.. em Diferentes e desiguais e desconectados. Na outra. mas aqui mesmo” (GARCÍA CANCLINI . mas buscando fazer dela a sua cidade. como Borges. o mundo da cultura e os territórios em que se fragmentou a cidade. para usar uma expressão de Josefina Ludmer. E é aí.

migrações e trânsitos de todo tipo.20). p. na quarta capa da primeira edição. también. quereme transa. (ALARCÓN. Bajo esas leyes inquebrantables funciona el ejército privado (…). Mas. Si el muchacho no entendió con la vergüenza de andar con la cara como un mutante. talvez já possamos começar a falar de uma literatura que está se gestando em diálogo com uma cultura “deslocalizada” ou “translocal” de que nos fala James Clifford em Dilemas de la cultura. ao mesmo tempo. chilenos. p. 2010. De formas irregulares.1 Num bairro em que se instala a ausência do Estado e suas instituições.” Assim o promove. onde Josefina Ludmer se propõe a pensar os novos tempos a partir . No lugar onde antes imperava a anomia passam a reger os códigos da “isla urbana”: Entre todos ellos rige un código que permite el dominio piramidal sin titubeos: a la primera falta la sanción es rapar a cero y afeitar las cejas. cómo la migración de sujetos y culturas generan un fenómeno de transnacionalidad. Cristian Alarcón expressa sua atração por um mundo de disputas territoriais onde mais importante que o pertencimento à nação e o compartilhamento de seus grandes relatos é o respeito ou a traição aos códigos de fidelidade grupal.25). atravesadas por arbitrarios pasillos angostos. 2008. Diante de mobilidades.61) E os cógidos ganham enorme destaque nesta viagem mediada pelo texto narrativo aos “redutos da violência”. cabe lembrar que. num processo em que a dinâmica cultural transcende as fronteiras nacionais: Me fascina cómo la historia de América latina vuelve a surgir a miles de kilómetros. de Cristian Alarcón. comunidades de migrantes convivem com o mundo “narco” e se tornam peças de um jogo complexo em cujo centro estão as frequentes guerras para definir o comando absoluto do tráfico de cocaína entre “transas” paraguaios. Si me querés. “es. em suas tramas assume um contorno estrutural o movimento da migração limítrofe motivado por razões econômicas ou pelos “desplazamentos” derivados das guerras entre guerrilheiros. América Latina . da cidade e da própria narrativa. o escritor argentino Mar tín Caparrós. o mundo das “islas urbanas” reúne sujeitos em torno de um território e de um conjunto de códigos com base nos quais se constrói o sentimento de pertencimento a um lugar e a um grupo. surge uma arte que se estrutura a partir dos novos deslocamentos humanos. En cada una de las treinta ciudades más importantes del mundo existe una procesión del Señor de los milagros que es idéntica a una en el centro de Lima. A partir desta perspectiva. (ALARCÓN.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 171 Villa del Señor se extiende a lo largo y ancho de treinta manzanas. tal como a define Beatriz Jaguaribe (Apud GARCÍA CANCLINI. El ercer error es el fatal: muere acribillado. tanto dentro das fronteiras da cidade como para além das fronteiras nacionais. 2010. entre nosotros. Esses movimentos redesenham as car tografias da nação. narco-traficantes e grupos paramilitares. Oriundas que são de um processo de deterritorialização e reterritorialização da cultura. Nesse mundo à parte.61) A cidade narrada em ambas narrativas é fruto de uma experiência de deslocamento. Constituído de um conjunto de clãs. Em Aquí. fundamento mais importante da vida social neste contexto. p. p. 2008. o en un brazo. nesta verdadeira experiência de “voyeurismo protegido”. peruanos e bolivianos. Em entrevista intitulada “El mundo narco habla de un mundo por venir”. esta é também uma literatura que constrói “relatos de localização” (GARCÍA CANCLINI. más desconocidos: los que están aquí mismo. se gana un tiro en una pierna. un viaje a los mundos más lejanos. impõe-se um novo marco legal. sus terrenos fueron ocupados por los inmigrantes que llegaron a Buenos Aires a partir de la década del cincuenta.

Cinema e literatura. o relato de reportagem e a pesquisa de campo da antropologia. 2003). Talvez seja justamente a partir da percepção do trabalho com a escala pequena e do processo de microlocalização identitária presente nas duas obras que se possa destacar um dos aspectos centrais para o estudo da literatura produzida neste momento de virada de século quando se observa uma tendência que aponta para a erosão das narrativas nacionais e para a importância crescente do território como um espaço de ancoragem da identidade que pode contribuir para a coesão de comunidades imaginadas. de transculturación y las zonas de contacto entre culturas. la antropología fue la primera ciencia social que se ocupó de los otros lejanos.3 . Cuando unos y otros fueron modernizándose o cambiando. obra de um autor que opera na fronteira entre a invenção. identidades e nações vão por esse caminho. mas sim a partir dos seus fragmentos. Mas não só isso. entre o romance verdadeiro e o jornalismo investigativo. este também circula entre a crônica familiar e o testemunho. como nos recorda Néstor García Canclini: Como se ha dicho a menudo. se destacaban las tradiciones o resistencias locales a lo innovador. Antes. de um presente que não pode produzir clássicos. De manera que la antropología es una disciplina con largo entrenamiento para estudiar procesos de aculturación. “paraguas” ou “bolitas”. e a própria representação estava associada a lugares estabelecidos. que ela chama de instrumentos conceituais para organizar certas reflexões. Por “pós-autônoma” Ludmer entende a literatura que “trata de ser outra coisa. destaca-se o discurso antropológico como mediador na literatura. Si me querés. y luego de los diferentes. A cidade não se narra a partir de um todo sintético. territórios insulares que constituem um grande arquipélago no qual cada vez mais deslocam os sujeitos. como tudo. Assim como o romance latino-americano moderno no qual se estabelecem mecanismos de narrativa derivados do “arquivo” da antropologia. O território. só que agora em uma escala bem mais reduzida. fornecendo as marcas de pertencimento a pequenos coletivos. como uma investigação histórica.172 de termos como ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS “imaginação pública”. narrativa de tempos e discursos fugazes. mas sim sobre “ilhas urbanas” como sugere Josefina Ludmer em seu texto “La ciudad: en la isla urbana”. Não faz mais sentido falar sobre cidade. havia uma certa cartografia mais sólida e clara. escreve-se a partir de pedaços da realidade. quereme transa é um projeto essencialmente pautado em um trabalho de campo. as ilhas residenciais do condomínio ou as ilhas dos espaços de segregação nos quais residem “cartoneros”. cf. Tal como o primeiro livro de Alarcón ( Cuando me muera quiero que me toquen cumbia . E é justamente isto que encontramos em Si me querés quereme transa. 2010) está em disputa e em constantes deslocamentos estratégicos. um testemunho” 2 . minoritarios y subalternos en la propia sociedad. essa narrativa contemporânea. Enquanto que os clássicos latino-americanos falavam de territórios muito maiores e buscavam as chaves da identidade em grandes narrativas nacionais. Agora a representação e seus sujeitos (como obser vamos nas “narrativas migrantes”. sejam estes os que integram as ilhas do trabalho. uma crônica. uma biografia. “realidadeficção” e “literatura pós-autônoma”. Porto & Torres. Em meio a estas fronteiras de gênero cada vez mais voláteis. buscando o Outro distante no interior da própria cidade. pero con predominio de lo que sucede en interacciones locales y de escala pequeña. está fragmentado. monolítico ou compreensível.

destacado o movimento dos grupos humanos. e ilhas que são destinadas aos refugos ou às quais estes são destinados. más o menos compartida. descarnado e objetivo. 2009. a história de um lugar se torna história pessoal. a uma cidade. p. É nestes espaços intersticiais que o valor da cultura do agora está sendo negociado. Oscura monótona sangre quer ser cartografia. (BHABHA. os “entre lugares” ou o “aqui e lá” de que nos fala Bhabha (1998. Michel Maffesoli nos recorda que: Devemos estar atentos ao componente relacional da vida social. p.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 173 A literatura pós-autônoma. quer ser ensaio de sociologia ou geografia urbana. segundo o crítico indiano: Esses “entre-lugares” fornecem o terreno para a elaboração de estratégias de subjetivação – singular e coletiva – que dão início a novos signos de identidade e postos inovadores de colaboração e contestação. sobre su lugar en la sociedad argentina. ilhas de prazer. a um meio ambiente natural que partilho com outros. Elizabete Jelín. p. la lealtad y la pertenencia nacional son conceptos en transformación. é a partir da ancoragem no território da “ilha urbana” que se constituem as tramas identitárias da comunidade. ganha espaço protagônico a . Elas são movediças. Não estão dentro. De tal forma que a história do território se confunde com a história da comunidade. As favelas e. Essas são as pequenas histórias do dia-a-dia : tempo que se cristaliza em espaço. de residência dos que garantiram o direito instável de ocupar o que Noé Jitrik definiu como “zona sagrada”4. Não apenas a relação interindividual.20). 198). chilenos. É em torno do território compartilhado que se organizam as narrativas da memória e os mitos comuns. elemento que começa a se tornar obsoleto neste contexto. afirma Ludmer. com fronteiras deslizantes que nos impedem uma cartografia segura. los diferentes grupos migratorios desarrollan distintas estrategias de inserción a partir de la idea. mas da cidade que é ao mesmo tempo lida e imaginada: a Buenos Ares narrada através de seus fragmentos.19). p. enclaves. seu relato quer ser roteiro de cinema: filme de estrada sem sair do interior da grande metrópole. ilhas urbanas. mas também a que me liga a um território. Para além da importância da nação. 1998. são versões da cidade (SARLO.141). Como assinala Beatriz Sarlo em relação às ficções de Borges. “trata de ser outra coisa”.48) Numa literatura que recusa a fixidez das imagens geográficas. Aqui percebemos mais uma vez a importância do território. em particular. A su vez. as que apresentam uma expressiva concentração de peruanos. Isto nos leva a pensar num aspecto muito específico envolvido em um fenômeno que acontece na história recente da cidade: o surgimento das novas favelas a partir da migração limítrofe. Trata-se não da cidade real. Não se pode traçar um mapa destas ilhas a partir do percurso trilhado no dia-a-dia. bolivianos ou coreanos. na medida em que a ênfase recai no que transcende o indivíduo e reforça a comunidade na qual ele se insere. (JELIN. Menos aún por la población migrante. não estão fora: são o dentrofora. Existen y se generan distintos criterios de diferenciación y jerarquización que catalogan a algunos grupos como potenciales contribuyentes al desarrollo del país. (2010. 2006. Deduz-se um mapa impreciso que apontaria para a existência de ilhas de trabalho. as narrativas construídas por Sergio Olguín e Cristian Alarcón. paraguaios. O homem em relação. por sua vez. A partir daí. dos processos econômicos e das manifestações culturais. observa que: La membresía. bairros fechados. Sus sentidos no son compartidos por todas las personas y grupos que residen dentro del territorio argentino. em um estudo sobre as migrações limítrofes na Argentina. p. são o longe perto de Buenos Aires. no ato de definir a própria ideia de sociedade.

Barcelona: Gedisa. 2010. A cultura pela cidade. A construção de pontes ou de caminhos de aproximação através de textos que narram e dão coerência à cidade. como os personagens de Si me querés. nos bairros humildes que margeiam essas avenidas. 2ª ed. Néstor. .130). A literatura do presente parece determinada por uma estrutura que frequenta diferentes narrativas: o cruzamento de uma fronteira cada vez mais porosa e deslizante que em vez de separar propicia contatos. os personagens experimentam as consequências de um efeito inesperado de deslocamento nos dois sentidos do termo: saem de um lugar cuja lógica dominavam para penetrar em outro território bastante instável e ao mesmo tempo se sentem eufóricos e desconfortáveis neste novo lugar. Como diz Josefina Ludmer em seu ensaio “La ciudad: En la isla urbana”. Parece que estão dentro e fora da nação. Myriam Ávila. Cristian (2010): Si me querés. pelo contrário. mas que só vivencia a verdadeira aventura ao mergulhar. movido pelo impulso. Homi K. líneas y límites. De la diversidad a la interculturalidad. Inicialmente caracterizado pelos contrários.131). Carlos Reynoso. Referências bibliográficas ALARCÓN. de Aquí América Latina. “las ciudades latinoamericanas de la literatura son territorios de extrañeza y vértigo con cartografías y trayectos que marcan zonas. CLIFFORD. José Teixeira. p. 15-31. Luiz Sérgio Henriques. org. Trad. Itaú Cultural. demonstram que as fronteiras já não impedem a passagem de um lado para o outro. Mas as ilhas que são ao mesmo tempo um território e um sujeito coletivo “es un mundo con reglas. pequena nação que requer um novo relato. Barcelona: Gedisa. ______ (2005): Diferentes. p. mas que. o protagonista de Oscura monótona sangre. GARCÍA CANCLINI. Buenos Aires: Norma. Um empresário que se sente seguro em sua vida de cidadão modelo a percorrer todas as manhãs as mesmas avenidas que comunicam a sua ilha residencial à ilha industrial onde trabalha do outro lado da cidade. (1998): O local da cultura . Aparece assim um quadro recorrente. um cenário de realidade/ficção onde os sujeitos constroem constantemente estratégias para entrar e sair sem que saibam já muito bem se estão dentro ou fora. uma nova nação. quereme transa e Oscura monótona sangre. Este é caso de Julio Andrada. entre fragmentos y ruinas. da cidade e da sociedade: formando uma nova comunidade.” (2010. Trad. p. São Paulo: Iluminuras. Belo Horizonte: Editora UFMG. Néstor. literatura y arte en la perspectiva posmoderna. org (2011): Conflictos interculturales. Trad. p. quereme transa. In: COELHO NETTO. As cidades cindidas de modo cada vez mais radical apresentamse nas narrativas do século XXI como “ilhas urbanas”. despertam a curiosidade e propiciam o contato.174 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS figura da migração limítrofe e os contextos de sociabilidade construídos por estes sujeitos em uma concentração territorial e identitária que assume a forma de pequenas tribos e parece demonstrar em cada uma de suas narrativas que ainda não sabemos lidar com a diferença interna. religando pedaços dispersos e propiciando interações simbólicas que permitem superar parcialmente a fragmentação da experiência. Eliana Lourenço de Lima Reis e Gláucia Renate Gonçalves. desiguais e desconectados: mapas da intelectualidade. In: GARCÍA CANCLINI. Rio de Janeiro: Editora UFRJ. 103-112. James (1995): Dilemas de la cultura : antropología. ______ (2008): Imaginários culturais da cidade: conhecimento / espetáculo / desconhecimento. leyes y sujetos específicos” (LUDMER. BHABHA.

Michel (2010): O tempo das tribos: o declínio do individualismo nas sociedades de massa. Beatriz (2009): La ciudad vista : mercancías y cultura urbana. Barcelona: Gedisa. Eurídice. 4 Cf. La vuelta a Cortázar en nueve ensayos. 25 abr. Notas sobre la “zona sagrada” y el mundo de los “otros” en Bestiario de Julio Cortázar. Rio de Janeiro: Forense Universitária. OLGUÍN. Buenos Aires: Tusquets. Notas 1 BORDÓN. 2010. Disponível em http://weblogs. Revista Ñ. 225-260. Rio de Janeiro. Cristian Alarcón: “El mundo narco habla de un mundo por venir”. PORTO. . In: GRIMSON. JELIN. org. MAFFESOLI. Néstor.: Fondo de Cultura Económica. JITRIK.com. Roberto (2000): Mito y archivo: una teoría de la narrativa latinoamericana. Niterói: EdUFF. p. 1968. Editora UFJF. p. Buenos Aires: Siglo XXI. 13 -39.F. 4ª ed. org. In: GARCÍA CANCLINI. p. Buenos Aires: Prometeo. Trad. 3 GARCÍA CANCLINI. Disponível em http://publicidade-valordigital. Elizabeth (2006): Migraciones y derechos: instituciones y prácticas sociales en la construcción de la igualdad y la diferencia. 2 BERTOL Rachel. 2ª ed. Acessado em 01/09/2012. Migraciones regionales hacia la Argentina: diferencia. Valor. Virginia Aguirre Muñoz. SARLO. 47-68. Noé. Maria de Lourdes Menezes.com/diariodelaferia/2010/04/25/ cristian_alarcon_el_mundo_narco_habla_de_un_mundo_por_venir/. México. JELIN. TORRES (2010): Literaturas migrantes. De la diversidad a la interculturalidad.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 175 GONZÁLEZ ECHEVARRÍA. Maria Bernadette. 2ª ed. Sergio (2010): Oscura monótona sangre. 104-5. 2011. Conflictos interculturales. pp. Trad. A literatura não é mais sagrada: entrevista a Josefina Ludmer. Sara Vinocur de. Néstor.valor. Juan Manuel. Conceitos de literatura e cultura. Elizabeth. de Clarín. desigualdad y derechos.br/cultura/1130334 Acessado em 01/09/2012. D. org. Alejandro. Néstor. TIRRI. In: FIGUEIREDO.clarin. In: TIRRI. orgs. Buenos Aires.

à ordem de narrativa. o que os torna expressivamente ricos. as HQs se popularizaram nos Estados Unidos e tal pioneirismo deve-se ao americano Richard Fenton Outcalt. Personagens como Peanuts (de Charles M. . Suas produções artísticas influenciaram consideravelmente a qualidade de produção das historinhas em toda a América Latina. cultural e popular. meio e fim definidos. os quadrinhos aderem a um caráter mais ácido. à ordem de sequência dos diálogos e à ordem de permanência das mesmas personagens (SANTOS. assim. como também as publicações do grande roteirista Hector Oesterheld. com sua série The Yellow Kid . que no fim do século XIX. intensificaram-se as criações intelectuais das Histórias em Quadrinhos. indagam-se sobre os problemas sociais e políticos e valem-se de um humor sarcástico para fazerem chistes. que. Um dos nomes mais expressivos do meio de produção das HQs é o do italiano Hugo Pratt. Esse movimento de exportação conquistou muitos fãs – grandes consumidores – e também estimulou um intenso desenvolvimento da criação de HQs em outros países como na França. inovou a estrutura dos quadrinhos ao colorir as histórias e ao delimitar as falas das personagens por meio do balão. consagraram-se neste design que conhecemos por volta dos anos 1880. Garfield (de Jim Davis). O período entre os anos 1929 e a Segunda Guerra Mundial é considerado como o que mais ousou em criatividade e propiciou a expansão e a exportação das HQs. animais e crianças aparentemente ingênuos. No entanto. e suas intensas publicações. não há como especificarmos certamente quando surgiu e qual foi a primeira história em quadrinhos.176 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS AS TRADUÇÕES DE QUADRINHOS SOB UM OLHAR DISCURSIVO Bárbara Zocal da Silva PG. principalmente no gênero da aventura. permitiram à Argentina criar uma rica tradição em suas historietas densamente elaboradas. para onde se mudou nos anos 1950.Universidade de São Paulo As Histórias em Quadrinhos. A partir da década de 1950. esse produto de massa. muito valorizado na Europa e na América Latina. na Itália e na Argentina. Há uma valorização maior do texto sobre a imagem. Sabe-se. com começo. questionam a formação das relações familiares. obedecendo. Calvin & Hobbes (de Bill Watterson) e Mafalda (de Quino). 2010). em 1895. popularmente chamadas de HQs. Schulz). em especial na Argentina.

(PATATI. 2006. p. .199) Henrique de Souza Filho. outros gêneros de quadrinhos invadiram o mundo das HQs brasileiras. de John Stanley) e o Pimentinha (Dennis the Menace. entre outros. pois. entre tantos outros humoristas e jornalistas. e A Turma da Mônica . O jornal contou com a colaboração criativa de Jaguar. Entretanto. pensava-se que esse tipo de literatura era dirigido exclusivamente às crianças.199).14). entre tantos outros projetos culturais idealizados. e que ainda obtém grande êxito. Os quadrinhos humorísticos foram ideologicamente significativos entre os anos 1964 e 1985. foram os responsáveis pela fundação da Editora Abril em 1950. o gênero infantil foi o que prevaleceu na criação das HQs brasileiras. chamados “alternativos”. popularmente conhecido como Henfil. Angeli. 2006. Braga (2006). apresentador. afinava com os propósitos de variados humoristas e quadrinhistas: ganhar dinheiro sem abrir mão de criticar e rir de nossas mazelas. p. o humor crítico e político. BRAGA. ao governo e. Ivan Lessa. o mundo dos super-heróis. Com o crescimento na produção de quadrinhos no Brasil. criada por Ziraldo Alves Pinto. colunista. Um exemplo de resistência da época é o semanário O Pasquim. p. A persistência de um jornal como O Pasquim . criada por Maurício de Souza. com foco sempre para o lado infantil. 2011. mas traços claros das expressões faciais –. p. ou ainda. Carlos Estevão e Millôr Fernandes. 2011. o Versus . lançada em 1905 (VERGUEIRO. Destacam-se grandes nomes de cartunistas como os de Angelo Agostini. foi um dos quadrinhistas mais representativos no Brasil. que lutaram bravamente contra a censura para verem publicadas suas edições. eles queriam falar de seus próprios problemas. as tirinhas com tendências críticas fizeram.10). “considerada talvez como a mais importante e genuína contribuição brasileira à industria dos quadrinhos” (VERGUEIRO. por exemplo. durante o período da ditadura militar no Brasil. muito sucesso nas páginas dos periódicos. A primeira revista brasileira que publicou regularmente quadrinhos no Brasil foi a revista Ticotico. Os brasileiros não mais se satisfaziam em rir dos problemas político-sociais do mundo. inclusive. de Hank Ketcham). percebeu-se o sucesso das HQs de humor que comentavam “de modo agudo os problemas do momento” (PATATI. tornou-os as mais influentes publicações de seu tempo. escritor. 2010. assim. a aventura. Duas outras revistas que contribuíram para uma história das HQs no Brasil surgiram na década de 1960 e são a revista O Pererê. que “abusava de uma linguagem polêmica de humor contra o milagre econômico e fazia críticas incansáveis à ditadura” (SANTOS. a guerra. Os gibis da família Disney. Henfil foi reconhecido – internacionalmente – pela influência que seus trabalhos tiveram em sua vida militante e pelo seu brilhante trabalho como cartunista. como. Henfil. p. A evolução dos acontecimentos políticos tornou o espaço dos quadrinhos e do humor na imprensa do Brasil ainda menor do que já era. Fortuna. BRAGA. Tanto caíram no gosto do público que muitas outras histórias de humor e de aventura. Millôr. fizeram sucesso como a Luluzinha ( Little Lulu . de acordo com Patati. Guidacci. o terror. pois fizeram frente aos governos da época. Ziraldo. o Brasil era tomado pelas produções norte-americanas e caminhava vagarosamente em direção a uma produção própria de Histórias em Quadrinhos. roteirista. principalmente as historinhas de O Pato Donald .ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 177 As HQs no Brasil Em contrapartida. inovou quanto à criticidade a seu país. à condição apática da população diante da ditadura. pois. nessa época. devido aos temas regionais abordados. De acordo com Patati. além de inovar quanto à estética dos quadrinhos – criava não apenas faces. Braga (2006). A comunhão de propósitos entre autores e editores destes jornais.14). e ainda fazem.

definimos a garotinha de seis anos. Dessa forma. Ao analisarmos o discurso de Mafalda. e Henfil.. jornalista também engajado politicamente. uma representatividade do cotidiano dessa classe. e outra foi realizada por Mouzar Benedito. o quadrinhista. ou seja. historicamente posicionada. seja enquanto sujeitos. pois Quino queria muito que ele estivesse envolvido no projeto. politizado. Ela seria traduzida para o “portunhol” e. uma vez que ele não poderia realizar o trabalho na época. e o mundo sofria com a Guerra Fria. comportando-se. Henfil participou em 1982 de um projeto do grande cartunista argentino Joaquín Salvador Lavado. as privações da infância.178 O projeto ambivalente ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS norte-americana. pois a Argentina passava por um momento de repressão política sob o comando de militares peronistas. (ORLANDI. e editada pela Global. mas com a língua no mundo. em 1982. (ORLANDI. Sob a luz da Análise do Discurso de linha francesa. ainda assim. sociais e políticas que podem estar contidas em duas traduções diferentes realizadas no Brasil das mesmas tirinhas escritas originalmente em espanhol hispano-americano. que usa da expressividade da fala como uma tentativa de buscar seus direitos e de conscientizar a população para as questões políticas à sua volta. O fato de Mônica Stahel (doravante MS MS) manter. [. e. porém. Uma dessas traduções foi realizada por Mônica Stahel. por trás de seus debates. como uma criança. estruturas frasais mais próximas da língua portuguesa indica uma tendência Como editor. o editor-revisor. p.15) As tirinhas da Mafalda que pertencem ao corpus . o tradutor. para cumprir esse propósito. de certa forma. Por outro lado. eles têm condições financeiras de terem uma casa própria. assim. como sujeito discursivo. Assim. retratam.. seja enquanto membros de uma determinada forma de sociedade. com homens falando. problemas incompreensíveis aos olhos de uma menina de seis anos de idade. como sujeito de tendência socialista. em plena crise econômica. a má educação. os conflitos da guerra fria. quando nos deparamos com Mafalda lançando seu olhar crítico à sua vida e ao mundo à sua volta.] a primeira coisa a se observar é que a Análise de Discurso não trabalha com a língua enquanto um sistema abstrato. seria o tradutor ideal e Henfil revisaria tudo. pois. problemas sofridos nessas décadas por grande parte dos países. como revelado em uma entrevista de Mouzar sobre Henfil na Rev ista Imprensa de junho de 2008. Mafalda provém da classe média e percebemos. Em princípio. conhecido como Quino. como mostram as tirinhas. com maneiras de significar. “funciona pelo inconsciente e pela ideologia”. a influência . uma televisão e direito às férias em família. notamos que uma característica bem marcante da divergência entre as duas traduções das mesmas tirinhas de Mafalda é a relação de seus respectivos tradutores com suas próprias concepções de tradução.20) Ao voltarmo-nos para a análise das traduções. são as imagens que constituem as diferentes posições na relação discursiva. a constante luta pelo poder entre os Estados Unidos e a ex-URSS. em 1998. O projeto consistia numa tradução diferenciada de algumas histor ietas da personagem Mafalda . a cultura geral. e editada pela Martins Fontes. pretendemos observar algumas questões linguísticas. a idéia de Quino era que Henfil traduzisse as tirinhas. p. escritas entre as décadas de 1962 e 1973. 1999. a problemática familiar. 1999. considerando a produção de sentidos enquanto parte de suas vidas. Mouzar Benedito. decidiram que Mouzar. Mafalda. participariam conjuntamente Quino. vemos a forma histórica de um sujeito inserido numa conjuntura política de tensão. percebemos que essa é uma das características primordiais para que o humor seja compreendido. em suas opções tradutórias. de uma forma geral. Ela e sua família gozam de regalias. De acordo com Orlandi (1999). um carro. inclusive pela Argentina e pelo Brasil.

a relação entre a língua. aos seus objetivos. em relação ao original. por exemplo. trabalhando a relação línguadiscurso-ideologia discutida em Orlandi (1999). Primeiramente. a concepção pós-moderna de tradução.” (ORLANDI. não há discurso sem sujeito e não há sujeito sem ideologia: o indivíduo é interpelado em sujeito pela ideologia e é assim que a língua faz sentido. período de intensa participação popular após os anos de silêncio. expõe que há três questões sobre as quais o tradutor Tirinha 1 deve refletir e ser fiel a elas.” (ORLANDI.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 179 à invisibilidade do tradutor . consumidores alvo das histórias em quadrinhos no Brasil. dessa forma. p. abrangendo. às crianças leitoras. quanto na época de sua tradução. afinal. Diferentemente. ao contrário da de Mônica Stahel. a que comunidade interpretativa. 1999. “¿E daí?”. significam em nós e para nós. à qual vinculamos MB MB. o que possibilitaria a compreensão de tais tirinhas em uma maior comunidade interpretativa (FISH. para ilustrar o fato de que até mesmo as palavras mais “simples do nosso cotidiano já chegam até nós carregadas de sentidos que não sabemos como se constituíram e que. 1995). período de Diretas Já e de sindicalismo. de forma prática. “¡AAAAAAI!” (tirinha 1). inclusive. comunidades interpretativas (FISH. De acordo com Arrojo (1986). a quem ele pretende dirigir determinada tradução. é condicionada por fatores ideológicos e contextuais.17) A teoria na prática Analisemos agora. a ideologia e a construção de discurso mostra que a tradução.20) . inclusive entre as crianças. no entanto. em último lugar. em segundo lugar. uma leitura fluente e transparente. a presença de itens lexicais marcados ideologicamente pelos conflitos vivenciados na América Latina entre o período das ditaduras. Sendo assim. restrita aos leitores que não têm conhecimento da língua espanhola e. muitas vezes. 1992). p. o discurso e a ideologia presentes nas traduções de Mouzar Benedito e de Mônica Stahel. 1992) distintas das abrangidas por MS e permanecendo como um tradutor mais visível (VENUTI. o estudo das relações entre o signo. as interjeições e muitas palavras grafadas como em espanhol como. “como diz Pêcheux (1975). fato que pode ser justificado pela sua participação militante tanto na época conflituosa. as diferentes concepções de tradução nos levam à reflexão sobre o quão ideologicamente marcadas são as traduções de MS MS. às suas interpretações proporcionadas pela sua leitura. década de 80. assim. privilegiando. Ao compararmos as duas traduções das tirinhas. “¡Como!” e “Bueno” (tirinha 2) – privilegiando uma linguagem mais truncada e. Entretanto. Mouzar Benedito (doravante MB MB) mantém as estruturas das traduções das tirinhas mais próximas da língua espanhola – ele mantém os pontos de interrogação e de exclamação. 1999. assim como a leitura. de acordo com a concepção de Venuti (1995). retratada nas tirinhas. por exemplo. percebemos na tradução de Mouzar Benedito. à sua concepção de tradução e. por seguir as exigências de domesticação (VENUTI. 1995) impostas pelas editoras que manipulam e difundem a idéia equivocada de que uma tradução deve ser “fiel à idéia do autor do texto original”.

ouve as notícias sobre o mundo e.. pela ideologia socialista da época. dadas as condições de produção na qual se inserem. .. a expressão da dor....ac hei que er mund undo que tinha gr itad o” e “g r ita d o” . No último quadrinho. num impulso.. que não se queixa ou reclama da situação política e social do mundo. (PECHÊUX. mas grita como se clamasse por socorro.pe nsei que er mu n do q ue esta va r eclamand o ” e a de M B qu av re do “A h. inconscientemente... p. em seguida. ao contrário.cr h. simplesmente. ao mesmo tempo que desliga seu rádio. de uma expressão. porém. estão inhas 2 presentes nas Tir irinhas 2. é determinado pelas posições ideológicas que estão em jogo no processo sócio-histórico no qual as palavras. ao iq ue e ra o e nse compararmos a opção de MS “A h. inserida no contexto de seu ambiente familiar... não existe “em si mesmo” (isto é. vemos que a tradução de MB do primeiro quadrinho mantém uma semelhança maior em relação à forma e ao léxico da língua espanhola..160) Outras formas discursivas relevantes para exemplificarmos a relação do sujeito com a historicidade e com o interdiscurso. encontra eí q ue seu pai com um martelo na mão e diz: “A h. por mudança. em sua relação transparente com a literalidade do significante)...180 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Mafalda. a garotinha fantasia com a possibilidade de o mundo ter sofrido a dor. 1988. nos determos nas palavras “re c lamand lamando itad percebemos que a opção tradutória de MB relacionase ao discurso de um sujeito afetado. expressões e preposições são produzidas (isto é. Ao se deparar com o globo terrestre na sala de sua casa. mas. er a e lm und oe el mund undo el que que uej (Tradução de Mônica Stahel) (Tradução de Mouzar Benedito) Ao observarmos as traduções. de uma preposição.a c he iq ue e ra o m und oq ue t inha g r ita d o” e h.creí que lq ue se había q ue j a d o” . na tirinha 1.p h. etc. ouve uma y!” e sai em busca do sofredor da ação interjeição “¡A “¡Ay!” que desencadeou... o sentido de uma palavra. reproduzidas). Sendo assim.

. respectivamente nos segundo e quarto quadrinhos. por exemplo. de como duas . “¡C “¡Co mo!. elas r t e-ame r icanos especificam que são os no nor e-amer icanos. assim mesmo. v vo estav de mal c om e la?” ela?” la?”.. Enquanto MS traduz “os ame amer r ussos também estão d e mal no e ntant o ne g o ciam de entant ntanto neg e nt re si” e “a h umanida d e não está c he ia ne m da ntr humanida umanidad che heia nem Susanita ne md ev o cê” nem de vo cê”. outra estrutura nos chama r icanos e os a atenção.. para um acordo. M B traduz os mesmos r t e-ame r icanos e os r ussos quadrinhos como “os no nor e-amer russos também estão b r avos e mesmo assim c o me rciam br co mer e nt re e les ” e “a h umanida d e não está far ta ne m da ntr eles les” humanida umanidad farta nem S usanita ne md ev o cê” nem de vo cê”. Considerações finais Após um breve esboço da história das Histórias em Quadrinhos. o discurso e a ideologia. as crianças “Ué. Essas formações discursivas dão maior ênfase ao conflito da Guerra Fria em si. contudo. com um enfoque especial para o Brasil e a Argentina.. desde o fim do século XIX até o fim do século XX.. e MB aproxima-se mais das estruturas co va o mo!. pudemos propor um ensaio de análise. mediante um olhar discursivo sobre a língua. eles somente o fazem para cumprir o protocolo. M S mantém uma linguagem mais clara e de fácil compreensão para seu o cê não esta va d e público alvo.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 181 (Tradução de Mônica Stahel) (Tradução de Mouzar Benedito) Na segunda tirinha. e não os países subdesenvolvidos da América do Sul.¿V o cê não esta da língua espanhola..¿Vo estav b r avo c om e la?” co ela?” la?”. co me rciam com os russos. que estão em confronto e. Não há espaço para uma mer negociação. destacamos a expressividade r te-ame r icanos ” e “co me rciam ” das das palavras “no nor e-amer icanos” mer ciam” traduções de MB MB.

Rio de Janeiro: Ediouro. p. (1986). à relação do tradutor com o léxico e à significação das palavras em sua relação com o mundo. R. 10 años con Mafalda. p. Almanaque dos quadrinhos: 100 anos de uma mídia popular. (2011) A história contextualização constitui intrinsecamente a interpretação. Tradução de Monica Stahel. (19): 25-42. v. PECHÊUX. SANTOS. SANTOS. pois no ato da interpretação nos posicionamos ideologicamente. Disponível em <http:// portalimprensa. Rio de Janeiro. BRAGA. na verdade. p. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. somos determinados por nossa relação com a língua e com a história e essa relação se faz no inconsciente. Referências bibliográficas ARROJO. Henfil não morreu. QUINO. K. (2006). Discurso e Textualidade. seja na exposição de nossas próprias idéias. S.historiaimagem.. 1990) às estruturas e governados pelas ações regidas ideologicamente e constituídas dadas as relações que estabelecemos com a língua e com a história em nossas experiências de mundo. (1995). Lawrence. podem apresentar divergências quanto às concepções de tradução. A língua não é transparente – não deveríamos tratá-la de forma ingênua –.). PECHÊUX. Deste estudo é depreendemos inevitável e que a PADIAL. E. Tradução de Eni Pulcinelli Orlandi. Buenos Aires: Ediciones de la Flor. AUTHIER-REVUZ.pdf >. Heterogeneidade(s) enunciativa(s).br/revista/ edicao_mes. PATATI. In: Cadernos de estudos lingüísticos .asp?idEdicao=11&idMateriaRevista=123>. Tradução de Mouzar Benedito. ORLANDI. .com. Campinas: Pontes. Campinas: Pontes.182 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS traduções diferentes das mesmas tirinhas da personagem Mafalda. (1990). 10 anos com Mafalda. n. contudo. (1988). Cruz e João Wanderley Geraldi. R. (2011).uol.com. C. M. M. jul. Tradução de Eni Pulcinelli Orlandi. M. em quadrinhos no Brasil: Análise. (Org. VERGUEIRO. do cartunista argentino Quino. (1990). E. Campinas: Pontes. Tradução de Carolina Alfaro. São Paulo: Martins Fontes. Campinas: Editora da UNICAMP. (1998). Is there a text in this class? Tradução de Rafael Eugênio Hoyos-Andrade.144-185.189-206. 3ª ed. (1999). São Paulo: Editora Global. VENUTI. somos meros sujeitos assujeitados (AUTHIEZ-REVUZ. QUINO.3. Palavra. RODRIGUES.111-134. W (Orgs). Tradução de Celene M. evolução e mercado. Acesso em: 14 de março. (1992). São Paulo: Ática. FISH. (2006). Análise de discurso: princípios e procedimentos. Alfa (São Paulo). A.. (2002)./dez. J. seja na escolha das palavras que utilizamos. Mafalda 2. P. Campinas (SP). p. somos. S.36. PORTAL IMPRENSA. O Universo Feminino nas Histórias em Quadrinhos. QUINO. Acesso em: 15 de março de 2011. Disponível em < http:// www. O discurso: estrutura e acontecimento. São Paulo: Laços. (2010). (1982). Oficina de Tradução: a teoria na prática. levados a pensar que mandamos em nossos pensamentos e temos controle de nossas formas de expressão.br/edicao11outubro2010/ universo-femin-hq. 43-68. A invisibilidade do tradutor. F.

vigoraron con fuerza entre fines del siglo XIX y la primera mitad del siglo XX y responden a circunstancias históricas y políticas muy particulares. su descripción hoy. una región privilegiada: al mismo tiempo próxima a nosotros. Su lectura. Presentaremos algunas aproximaciones iniciales de nuestra investigación de doctorado que pretende contribuir para discutir la noción de hispanidad de aquella época y construir un archivo. provoca un efecto de rareza que. una vez que el régimen de enunciabilidad ha cambiado: El análisis del archivo comporta. Los discursos conmemorativos del “Día de la Raza”. (p. en los posicionamientos políticos de las Academias de Lengua y Letras de América y en la política externa de aquella época. “entre la tradición y el olvido”. La descripción del archivo desarrolla sus posibilidades (y el control de sus posibilidades) a partir de los discursos que comienzan a dejar de ser los nuestros. conmemorativo del 12 de octubre. vigente en el calendario oficial español y en muchos países hispanoamericanos. según Foucault ([1969]1995). “Día de la Hispanidad”. que lo domina y que lo indica en su alteridad. parcial.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 183 DISCURSOS OFICIALES DEL 12 DE OCTUBRE: UN DÍA CONMEMORATIVO PECULIAR Beatriz Adriana Komavli de Sánchez –UERJ PG . pronunciado por el entonces . se trata de la orla del tiempo que cerca nuestro presente. Ese vínculo exaltado con la ‘madre patria’ fue tan relevante que se plasmó en otros dominios asociados: en la educación. nos delimita. pues. hace con que pertenezcan a un espacio privilegiado. pronunciados por presidentes o altos mandatarios de gobierno. de estas prácticas discursivas de la memoria pública del 12 de octubre1. 150-151) (Traducción de la autora) Escogimos para esta ocasión presentar algunos esbozos analíticos del discurso de 12 de octubre de 1947. pero diferente de nuestra actualidad. siempre fragmentado. es aquello que fuera de nosotros. Esos discursos oficiales. trataban de un ámbito no de objetos materiales sino de dependencias simbólicas y de parentesco. la práctica de construcción de un archivo con estos pronunciamientos se nos presenta como instigante y desafiadora. Actualmente.UFF El objetivo de esta comunicación es presentar una serie de reflexiones en torno al día festivo. objeto de resignificaciones a lo largo del tiempo.

2001. por el otro. etc. Del conflicto. Para la autora. de lo ‘decible faltoso’. sostiene que los límites del enunciado son los otros enunciados con los cuales se puede establecer un espacio de correlaciones. al mismo tiempo. aunque pueda dirigirse a muchos otros destinatarios que no sean los directamente anunciados. de una forma o de otra. Orlandi (apud KARIM. calificando. p. inaugura. El abordaje teórico La visión dialógica de Bajtín y el Análisis del Discurso de línea francesa que considera los estudios enunciativos nos ayudarán a destacar algunas marcas lingüísticas de la red de filiaciones identitarias que se tejían entre la madre patria y las excolonias materializadas en los discursos oficiales del 12 de octubre. 86): En el género pronunciamiento político. caracterizado por Daher (2000. sin conocerse. Se imagina y no se inventa. en su arqueología. la reescritura es un mecanismo constitutivo del lenguaje que nos posibilita nominar algo o alguien de modos diferentes. el enunciador acostumbra a anunciar de forma explícita a quien se dirige. conforman ese concepto moderno aglutinante que se materializa en prácticas. Ese proceso al mismo tiempo funciona describiendo. de la tensión que subyace entre la paráfrasis (lo mismo) y la polisemia (lo diferente). p. Estos direccionamientos pueden ser recuperados por medio de diferentes marcas lingüísticas. Anderson afirma que en América. Esos vínculos conforman un juego enunciativo que es preciso examinar. un abanico de relaciones posibles futuras. Otra particularidad de ese discurso político presidencial es la de que el enunciador tiene garantizado por el poder del cargo empírico que ocupa el derecho al pronunciamiento – ya que su papel social así lo autoriza y legitima. El género pronunciamiento es así En esta primera aproximación destacamos el proceso designativo que conforma.184 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS presidente de la República Argentina. creando. p. objetos del discurso. Aquellos enunciados renegados son reformulados por . p. surge el sentido como efecto. general Juan Domingo Perón2. de paráfrasis. por un lado. p. Anderson (2011. diseña. 32) así define el concepto de nación. La certeza de un auditorio en el cual se incluyen no solo los destinatarios explícitamente designados por él en su discurso. Maingueneau (2008. guiado por una visión antropológica: “una comunidad política imag inada – e imaginada como siendo intrínsecamente limitada y. la estabilización del referente. parafraseándolo. Ese proceso comprende estrategias de sustitución. Esa relación no solo es posible de ser establecida con otros enunciados pasados como también condiciona. 113). y aún más: “no hay enunciado que. soberana”. en ninguna de las florecientes naciones la lengua constituyó un problema en aquel inicio (finales del siglo XVIII y comienzos del XIX) ya que los pueblos y líderes criollos tenían la misma lengua que los Foucault. (Traducción de la autora) Contextualización del discurso En su clásica obra de referencia para los estudiosos de las ciencias sociales. no reactualice otros enunciados” ([1969]1995. la ilusión de una equivalencia entre las palabras y. sino una multiplicidad de “oyentes” es otra marca importante de esos discursos. 83-108) se refiere a dicho mecanismo en términos de reescritura. de sinonimia. 37) en términos de ‘interdicto’ de un discurso. en la medida en que tratan del mismo dominio de objetos. una especie de fraternidad horizontal que atraviesa a todos los integrantes que. valiéndose de otros recursos.

Para entender lo que ocurrió en ese período de tiempo es menester considerar que hasta mediados del siglo XX predominó una manera única. el proceso de globalización y los movimientos migratorios. El castellano. 1999 e ABÓS. 268). La coincidencia de la fecha con el día festivo religioso de la Virgen del Pilar. si es imposible para España. de la Hispanidad. Grupos enteros que habían permanecido en el olvido. Sin embargo la festividad solo gana estatuto legal el 9 de enero de 1958. apud TATEISHI.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 185 excolonizadores. . luego la pérdida en 1895 de Cuba y de Puerto Rico en 1898. por el decreto 1584/2010 sobre feriados nacionales y días no laborables de la actual presidenta argentina. el 11/10/1917 publica un decreto declarando el 12 de octubre fiesta nacional dedicada a la raza. 16-17) apunta que. en la medida en que eran guerras entre parientes. ese proceso fue motivado por: la disgregación de la Unión Soviética. el presidente Hipólito Irigoyen. Recientemente. En ese sentido es coincidente con S. después de un cierto período de resentimiento. y la que celebra la nación moderna a partir de la ruptura con el pasado”. la fecha fue redesignada como Día del Respeto a la Diversidad Cultural3. la constitución de nuevos bloques económicos (UE y Mercosur). Si es imperial. la descolonización de África. siguiendo a Tateishi (2005). y a veces políticos y económicos. el intento fracasado en el norte de África y los regionalismos internos aceleraron la necesidad de reatar lazos con las excolonias americanas. Tateishi (2005. Cristina Kirchner. de entender la unidad cultural de cada nación que da lugar. 2005. A propósito de las fiestas nacionales. Las guerras revolucionarias. monolítica. en este caso los descendientes remanecientes de diversas comunidades indígenas. de nuestro espíritu imperial. Según el mencionado autor. 262). en escala mundial.. (. la fiesta de 12 de octubre en España no se encajaría en ninguno de los dos tipos señalados en el párrafo anterior. p. entre las exmetrópolis y las nuevas naciones (p. que es la Cristiandad” (VALLS.Fue justamente el hecho de compartir con la metrópolis la misma lengua (y también la religión y la cultura) que había posibilitado las primeras creaciones de imágenes nacionales (p. lazos culturales. aun así eran tranquilizadoras. s/d) apunta dos tipos de celebraciones de la memoria pública: “la que insiste en la continuidad de la nación desde el pasado histórico. (Traducción de la autora) universalista. fiesta imperial. ¿cómo calificarla para las naciones de lengua española. así califica a esta conmemoración “fiesta imposible de la nación española”. 2003. p. cuyo propósito era recuperar un prestigio perdido. por más duras que hayan sido. Ese vínculo familiar garantizaba que. también.. entre otras. Conflictos internos en España postergaron la definición de una fecha conmemorativa nacional hasta que las celebraciones por el IV Centenario del Descubrimiento de América en 1892. Juliá (1990) que en su artículo Vieja nación. Una fiesta compartida puede cumplir esa función de afianzar. p. al multiculturalismo. ahora estimadas como ‘hijas’ bajo un nuevo prisma de política la externa. la madre patria recorre a su pasado exaltándolo. En el caso específico de Argentina que nos interesa. hecha por la Unión Ibero-Americana en 1912. fue impuesto a los indígenas americanos en los dominios de la corona española. el creciente expansionismo de los Estados Unidos en América. excolonias? En América la propuesta. fuera posible reatar íntimos lazos culturales. Para tal.. aliada a la ideología de esa hispanidad se mostró muy efectiva para consolidar la fecha conmemorativa: “Se trata así de poner de manifiesto la pureza moral de la nacionalidad española: la categoría superior.) defensora y misionera de la verdadera civilización. s/d). lengua vernácula. en la segunda mitad de ese siglo. Heymann (2007. de adoptar la fecha del 12 de octubre como Día de la Raza fue acogida rápidamente por muchos gobiernos..

la más alta expresión de las virtudes. aprovechando la proximidad supuesta del nacimiento del homenajeado (entre el 29/9 y 9/10/1547) y conmemorar el Día de la Raza. estrecha. Se hace preciso aclarar que en aquella época. Cervantes –el prototipo del español. el glorioso manco de Lepanto. con genial previsión (7). Menéndez y Pelayo. Como en todo discurso. aquí numerados son: (1) Espíritu contra utilitarismo. La Galatea. (2) La raza: superación de nuestro destino. el más grande de los escritores castellanos. (9) Inteligencia y milicia. su prosa …fina. dolorosa. el inmortal alcaíno. (6) Entraña popular cervantina. a tal punto que en 1946 las dos naciones firmaron el Convenio Comercial y de Pagos por el cual Argentina fornecería cereales a España5. su indómita inteligencia (8). (13) Paz y justicia social. Argentina. (5) Porvenir enraizado en el pasado. de las designaciones correspondientes a Cervantes. decreto del presidente Irigoyen de 1917.(10). su obra. sus compañeros de esclavitud. un versículo de Job. (8) Cervantes. un deber moral de reconocer múltiples identidades. su vida triste. el inmortal complutense. de raíz hispana. (11) Grandeza de España. 10/7/44 y 24/11/44). el título del discurso es Homenaje a Cervantes 4. para conformar su entramado. un escritor contemporáneo (s/d). el genio máximo del idioma. A lo largo del pronunciamiento son hechos comentarios sobre la obra Don Quijote de La Mancha así como también hay réplicas a los detractores internos y a las potencias extranjeras enemigas (expansionismo de los Estados Unidos y el avance de la Unión Soviética en Eurasia). genio auténticamente español. (15) Transformación del mundo y (16) Resurrección del Quijote . espejo y paradigma de su raza (1). (7) Conciencia social de Cervantes. (4) España rediviva en el criollo Quijote. CERVANTES: el grande hombre. 6 Sabio. directa .… una riqueza tal de vocablos. Ortega y Gasset. le siguen dieciséis tópicos cuyos subtítulos. Diario de Madrid (1788). no exhaustiva. la sencillez de su estilo. su propio dolor físico y espiritual. un notable cervantista inglés (s/d). otras voces comparecen de manera más o menos explícita. de hecho. España. (3) América: empresa de héroes. su honda vivencia espiritual y su suprema gracia hispánica (5). la perennidad del Quijote. la raza. Consideramos entonces que es ese nuevo régimen de enunciabilidad el que nos posibilitará la descripción del archivo en cuestión. Weber. su vida.y Argentina mantuvieron vínculos políticos muy estrechos. prototipo católico. el prototipo del caballero católico. una recolección. Los números entre paréntesis indican los subtítulos en los que se encontraron tales designaciones. A la introducción del extenso discurso de 13 páginas. otros discursos pronunciados por Perón (8/6/44.186 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS lucharon por sus derechos y reivindicaron su lugar en la memoria ahora transformada en valor. merecedores de muchas críticas. su universalidad (6). la inmortal figura de Cervantes. (12) América y España: identidad pacifista. o indirectamente. código del honor y breviario del caballero. Madariaga. Presentamos a seguir. Crónica General de Alfonso el Aproximaciones al discurso del 12 de octubre de 1947 La sesión fue realizada en la Academia Argentina de Letras con el doble objetivo de rendir homenaje al cuarto centenario del nacimiento de Miguel de Cervantes. España – bajo el régimen del General Francisco Franco . por los siglos de los siglos. el misterio y la magia de Cervantes (9). su palpitación humana. magistral. (14) Argentina es libertad. (10) La revolución y las almas. Son ellas: la reina Isabel (Nueva Recopilación de las Leyes de Indias). un dicho. Persiles y Sigismunda. la universalidad de Cervantes. Renán. Discurso de las armas y de las letras de Cervantes. pozo de sabiduría y. la hispanidad y la lengua.

una herencia inmortal (4). Una vez más nos deparamos con un ámbito semántico difícil de delimitar. Se rescatan fragmentos del pasado de España. LA RAZA: algo puramente espiritual. debe resucitar don Quijote y abrirse el sepulcro del Cid Campeador. por esta grandiosidad y por esta fuerza. la flor de la caballería. su maternal regazo. tan noble tronco (1). nuevo Prometeo. un afán pacifista. sus hijas (3). la armonía de su lengua (4). distintas a la madre en su forma y apariencia. nuestro origen y nuestro destino. ARGENTINA: coheredera de la espiritualidad hispánica. unidad de origen. ya los oponentes son considerados utilitaristas. acaso resignado. quijotesca) (13). de religión. la riqueza espiritual. su obra civilizadora. nuestra . puede derrumbar un patrimonio espiritual acumulado durante siglos. un rosario de heroísmos. fecunda. la mejor ejecutora de la raza. interpretada como destino. el éxito de nuestra política exterior (idealista. LA LENGUA: el idioma más hermoso de la tierra (2). de cultura. su gloriosa trayectoria histórica. los pueblos de la hispanidad. magnífico aporte a la cultura occidental.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 187 ESPAÑA: la Patria Madre. nos referimos a la curiosa designación ‘quijotes de nuestras pampas’ (1) en la que se condensan la figura del Quijote y la del gaucho para predicar los rasgos en común valorizados: ‘el riesgo por el bien’. la pasión patriótica. nuestro sello personal indefinible e inconfundible. la levadura de su sangre. el ideal hispánico-ascético. este sentido primario de la justicia (11).… un desbordamiento de pasión. valor incorporado y absorbido por nuestra cultura. la patria. esta filiación (4). Perón cierra el discurso haciendo una exhortación que no podíamos dejar de traer: Como miembros de la comunidad occidental no podemos sustraernos a un problema que. marcados por el signo de una misión cristiana. valores y creencias. que bajo determinada coyuntura se proyecta para un presente y un futuro y así hacer frente a las grandes transformaciones sociales en el panorama mundial de aquella época. Hoy. un estilo de vida (2).…el más puro y elevado. la madre España. la más prodigiosa acumulación de incitaciones ideales (9). la más prodigiosa acumulación de incitaciones ideales. vínculos de idioma. el sentido misional de la cultura hispánica. el signo de una auténtica misión (2). su sangre. empresa universal. el ascetismo y la espiritualidad. ese orbe espiritual. isla de paz (1). sus más sublimes proporciones (la vertiente hispánica de la cultura occidental y latina) (4). la ascética grandeza ibérica y cristiana (5). estas identidades. más que nunca. el sentimiento patriótico español (11). la universalidad de lo español (9). En varios momentos hay como una superposición entre los valores adjudicados a los diversos objetos de discurso. una suma de imponderables. iguales a ella en su esencia y naturaleza (3). su más calificado blasón. lo español. para (re)crear una historia. LA HISPANIDAD: el heroísmo y la nobleza. una empresa universal. Una figura emblemática ha llamado nuestra atención. una comunidad de ideas e ideales. ‘la ventura de todo afán justiciero’ y ‘el sabor de “jugarse por entero”’. esta imposición del destino (5). estoico. única en el mundo. la verdadera unidad espiritual de los pueblos hispanos. civilizadora. los valores espirituales. de no resolverlo con acierto. eterna. el pensamiento inspirador de sus grandes estadistas (12). de historia. Esta hispanidad se alinea al espiritualismo. un patrimonio cultural acumulado durante siglos (16). de sacrificios y de ejemplares renunciamientos. su empresa. unidad de cultura y unidad de destino. los únicos valores eternos (10). la magnitud de su empresa.

podríamos decir que desacraliza una visión de lengua monolítica que se ajustaba a esa formación ideológica. KARIM. p. Dominique (2008): Gênese dos ANDERSON. MT: Unemat. Rio de Janeiro: FGV. Em: Sociedade e Discurso. La fiesta del 12 de octubre parece haber servido de pasquín para una determinada coyuntura histórica y política. política e cultura. se observan marcas lingüísticas de un movimiento político-cultural que surge a fines del siglo XIX bajo el signo del conservadorismo (GLOZMAN.htm (última consulta realizada el 25/06/2012). (2001): Significação –Da História ao nome Israel e Palestina na Folha de S. 15-43.educacion. Taisir M. SP: Parábola. Hirotaka (2005): Estado–nación y fiesta nacional. p. Denise Bottman. história. Maria C. discursos. legislação e direitos.pdf. En: Oralità e Memoria. Actas del XI Congreso Brasileño de Profesores de Español. El advenimiento del multiculturalismo.jp/~hirotate/ hiro-es/art-hiro/hiro-4. Consulta realizada el 26/01/2012. Disponible en: http://elpais.biglobe.Casa del Lector. En definitiva. Campinas. que se aparta de la definición genérica dada por el diccionario7. 4ta ed. Benedict (2011): Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. Michel ([1969]1995): A Arqueologia do Saber. Santos (1990): Vieja nación. JULIÁ. . Mara (2008). Cagliari: Arxiu de Tradicions . Jornal El País. São Paulo: Pontes. Referencias bibliográficas MAINGUENEAU. . La Academia Argentina de Letras y el peronismo (1946-1956). PUC-SP. En: GOMES. F. Tateishi (2005) especifica más aún y afirma que “(la hispanidad) era un concepto íntimamente ligado al nacional-catolicismo del régimen franquista”. pp. Tese de doutorado em Lingüística Aplicada ao ensino de línguas. Salvador. 2 da reimpressão. fiesta imperial. DAHER. Trad. En: XI Congreso Brasileño de Profesores de Español. p. noción que puede ser confundida con la de hispanismo y con la que mantiene parentescos. Mario Miguel (2005): Hispanidad e Hispanismo para profesores brasileños de Español. En: anclajes XIII. 19-7-1990. GLOZMAN. 59-71). São Paulo : Librería Española e Hispanoamericana . a partir de la segunda mitad del siglo XX. (2000): Discursos presidenciais de 1o de maio: a trajetória de uma prática discursiva. GONZÁLEZ. Cáceres.html (consulta realizada el 08/04/2012). G. a cura di Joan Armangué i Herrero. FOUCAULT. En consonancia con González (2005). 2007.es/exterior/br/ es/publicaciones/XI_congreso. TATEISHI.ne. Paulo. 2008) y que rescata valores vigentes en la Castilla del siglo XV.com/diario/ 1990/07/19/internacional/648338411_850215. Angela de Castro (coord. HEYMANN. São Paulo: Companhia das Letras. Disponible en: http://www7a. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Luciana Quillet (2007): O devoir de mémoire na França contemporânea: entre memória. 2-8. www.188 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Consideraciones finales Estas primeras aproximaciones se mostraron muy productivas por revelar los valores adjudicados en aquella época a la noción de hispanidad.): Direitos e cidadania –memória. 129-144.

2 Biblioteca del Congreso de la Nación. Departamento Colecciones Especiales. Consulta realizada el 28/1/2012. sin los contenidos de los subtítulos (6) al (15).boletinoficial.tau. don Arturo Marasso. don Carlos Ibarguren y el Académico de Número.htm Consultado el 6/4/2012. Conjunto y comunidad de los pueblos hispánicos. Para su versión completa remitimos al lector al sitio del Centro Virtual Cervantes. 22da ed. . Además discursaron el señor presidente de la Academia Argentina de Letras. ministros. Se encontraban también presentes el embajador de España. Perón.: 1.es/literatura/quijote_america/argentina/ ibarguren.htm.ac.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 189 Notas 1 Título provisorio de la tesis: Discursos oficiales del 12 de octubre: ¿Raza.il/eial/I_1/rein. G. También alertamos que en otros sitios investigados el pronunciamiento figura incompleto y sin aclaraciones. representantes de instituciones culturales y universitarias. Hispanidad o Resistencia indígena? Orientadora: Dra Maria Del Carmen F. miembros del Cuerpo Diplomático y Consular. etc. 1947. aclarando que faltan los subtítulos (1) y (8). Juan D. 3 4 www.cervantes. 5 6 http://www. enviados especiales. Daher –UFF. Discursos Gral. Carácter genérico de todos los pueblos de lengua y cultura hispánica.ar Consultado el 26/01/12.gov. Dada la extensión del discurso no lo presentamos en anexo. 7 Diccionario de la Lengua Española (RAE). académicos. 2. http://cvc. carpeta No 11.

1996). com “quando/cuando” e “até/hasta”. Isso fazia com que o produto das traduções desses sujeitos soasse. considerando a noção de “naturalidade” como aquelas “coisas que de fato são ditas numa dada área de uma dada língua ou variante linguística” (TAGNIN. e nas orações subordinadas adverbiais finais. buscamos sistematizar. p. na Gramática descriptiva de la lengua española (BOSQUE. que as construções utilizadas naquele orações são descritas. as informações normativodescritivas levantadas para o português e para o espanhol. principal. no que se refere à seleção dos tempos e modos verbais que se seguiam a essas estruturas. de forma comparada. na Gramática de usos do português (NEVES. 2 As subordinadas adverbiais temporais: comparações entre “quando/cuando” e “até/hasta” . com “para/ para”. O primeiro passo no sentido de comprovar essa intuição. constatamos uma grande proximidade entre o texto meta e o texto fonte. seria verificar como tais 1 Introdução A partir da observação de um corpus de traduções de receitas feitas por treze aprendizes brasileiros de espanhol como língua estrangeira (E/ LE). para o espanhol. pouco natural. 2004. 2003) e na Gramática descritiva do português (PERINI. No presente estudo. de uma perspectiva gramatical. TEIXEIRA. para o português. 315). intuitivamente. mas não somente. DEMONTE. 1998) e. fundamentalmente nas chamadas orações subordinadas adverbiais temporais.Universidade de São Paulo estudo se desviavam do padrão de frequência normal de seleção de infinitivos ou subjuntivos dessas construções em português. par tindo de alguns casos que serão analisados em nossa pesquisa de mestrado e com base em gramáticas e trabalhos que abordam tais estruturas. 2000) e em Construcciones temporales (MARTÍNEZ GARCÍA.190 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS SUBORDINADAS TEMPORAIS E FINAIS EM PORTUGUÊS E ESPANHOL: QUESTÕES DE CONTRASTE E EFEITOS PARA A TRADUÇÃO Bruna Macedo de Oliveira 1 PG . em ambas as línguas.

especialmente na correlação temporal do modo indicativo. Contudo. um ponto final cujo início se pressupõe.3198-3199) explica que há uma segunda hipótese relativa a esse conector em língua espanhola. como em (5b)). (3) Junte a cebola e o alho e cozinhe até estarem macios. em geral. A preposição “até” estabelece relações de dois o r ais (4b). podendo ou não aparecer flexionados. de acordo com Perini. em que está ciais (4a)3 e t e mp mpo tipos. desligue e deixe esfriar. o conector “ cuando ” não admite. extraer la rama de vainilla.787). 2000). de modo que. fornecendo-nos informações sobre o momento em que começa e/ou termina o evento verbal. Em língua portuguesa. segundo a qual não existiria um. na subordinada em língua espanhola. Quando segundo a concordância estabelecida em cada caso. Ilari et al (2008) explicam que se localiza entre as menos gramaticalizadas do português. pois. ao contrário do infinitivo impessoal existente nas línguas românticas. de acordo com Neves (2003. como em (5a)) e outro de lo localização p o nt ual (que situaria o momento em que o evento ntual ocorre. p. constituído por uma oração principal (nuclear ou matriz) e uma temporal que tem o papel de situar ou delimitar cronologicamente o evento da oração principal (PÉREZ SALDANYA. espa espaciais presente a ideia de um limite. mas dois tipos de “hasta”: at i v o (que apontaria o limite final de um um d ur urat ati calização intervalo.38). a presença de formas verbais futuras. Um fator importante. suas condições de concordância são distintas das dos demais tempos e as intuições dos sujeitos sobre quando utilizá-lo são muito menos seguras do que para os outros tempos verbais. presentes ou habituais) e com subjuntivo quando se referem a contextos posteriores e não factuais. Diferentemente do que acontece em língua portuguesa. A preposição “ hasta ” também se constitui como um nexo de tipo delimitativo. García Fernández (2000. No caso da preposição “até”. se o que se pretende é uma expressão de eventualidade. (4b) Sove bem a massa até dar o ponto. . “quando” será acompanhado de futuro do subjuntivo (1)2. no que se refere ao infinitivo flexionado. p. é um caso especial existente apenas em língua portuguesa. segundo Perini (1998). (1) Quand o ferver. (4a) É um caminho progressivo até chegar ao pódio olímpico. quando o referido na oração principal se orienta ao futuro. O infinitivo flexionado. (2b) Cuando enfríe. Esse conector admite verbos tanto no modo finito quanto na forma infinitiva. As orações introduzidas por “ cuando ” em língua espanhola se comportam de maneira análoga ao restante das orações temporais. como indica Martínez García (1996. é que. (5b) Juan no llegó hasta las tres. “a análise das construções temporais pode ser representada pela análise das orações iniciadas pela conjunção ‘quando’”. por ser ela uma das mais produtivas em língua portuguesa. só será possível na subordinada o uso do imperfeito do subjuntivo (2a) ou do presente (2b): (2a) Junto con la patata cortada echamos el pimentón y cuando estuviera sofrito echamos el agua. (5a) Juan se quedó hasta las tres. p. apresenta um sujeito e possui flexões de número e pessoa (3). ou seja.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 191 A oração subordinada adverbial temporal compõe um período composto. aparecem com indicativo se designam eventos factuais (passados.

podem construir-se: i) com sujeito idêntico ao da (6b) *Cantó la escena final de Salomé hasta bajar al mercado. os animais foram a serem/ser colocados um a um em canoas par para levados até o cativeiro natural. por outro lado. atualmente. em que ambas as sentenças são gramaticais. aparecer flexionado (9). as finais encontram sua representante máxima na preposição “para”. que só se constroem com subjuntivo ou com a preposição “para” seguida de infinitivo. O primeiro diria respeito ao fato de que alguns gramáticos observaram que essa preposição não se comporta da mesma forma em contextos afirmativos e negativos. Em casos como (6b). Entretanto. No caso de “hasta ” pontual. segundo Bechara (1999. como se nota em (7a e 7b). o que comprovaria a dupla natureza. (8) Leve(suj1) ao fogo par a que as batatas(suj2) fiquem para bem douradinhas. No entanto. não encontra explicação natural se considerarmos a existência de um só “hasta”. a flexão para indicar o sujeito da final é desnecessária (NEVES. a finalidade do pensamento contido na sentença matriz”. por suas . Tal diferença. direto) em Arraial do a servir de base à criação de gigas. não existiria a mesma restrição.889): Como havíamos assinalado ao tratar da temporal com “até”. (7b) No me habló hasta no haber llegado al teatro. oração principal. p. o infinitivo flexionado. Segundo Neves (2003. caso em que é mais comum o infinitivo aparecer flexionado. as orações adverbiais constituem exemplos de orações construídas com indicativo e subjuntivo. 3 As o r ações s ub o r dina das finais: o caso d e or sub ubo dinadas de “par a/p ar a” para/ ara (10) Convém. e ii) com sujeito distinto do da oração principal. caso em que o infinitivo pode ou não.192 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS García Fernández destaca que tal proposta não estaria livre de problemas. (6a) Cantó la escena final de Salomé hasta perder totalmente su voz. par para finalidade e avaliarmos a sua extrema importância na administração. embora haja dois pontos a seu favor. subdividir a própria a melhor apreendermos a sua contabilidade.886-887). mas sim se houvesse dois.3. p. “expressam a intenção. Na presença de “ hasta ” durativo. tal relação não está prevista.501). (9) Na base em Maranguape. para fazer a concordância com o respectivo sujeito (10). esse não seria o caso das orações finais. quando o sujeito da oração Da mesma forma que as temporais podem ser representadas por “quando”. par para subordinada tiver o mesmo referente de qualquer outro membro da oração principal. para concordar com seu sujeito. as orações finais introduzidas pela preposição “para” seguida de “que” e um verbo no subjuntivo (modo finito) são aquelas que apresentam um sujeito distinto da oração principal (8). Cabo. essa possibilidade se limita a alguns casos nos quais há uma relação de consequência entre a oração subordinada e a principal (6a). As orações formadas pela preposição “para” seguidas de verbo em infinitivo. O segundo baseia-se na possibilidade de que dito elemento seja seguido por uma oração de infinitivo. como dispõe o referido autor (ibidem. Castilho (2010) explica que. p. Essas orações são formadas por uma oração principal (nuclear ou matriz) e uma oração final que.201). o objetivo. (11) Comprou oito hectares(obj. de uma forma geral. ambos extraídos de Neves (2003: 886). p. (7a) No pararé hasta no haberlo conseguido. 2003.

seja porque o sujeito da oração subordinada coincide com um argumento da principal. segundo Pérez Saldanya (2000.3629). mas um objetivo. Galán Rodríguez (2000. ara O uso do subjuntivo neste caso justifica-se pelo traço de intencionalidade que marca a oração subordinada final e porque esta não exprime nenhum fato. nos quais se referem à ideia de objetivo como utilidade. Segundo Porto Dapena (1991. como (19). mas a um sujeito genérico ou indeterminado.209-210) acrescenta que há situações em que o infinitivo será utilizado mesmo quando os sujeitos das duas orações não forem os mesmos. p. será utilizado o infinitivo não flexionado e se a opção se der em favor do segundo. Essa afirmação é corroborada por Galán Rodríguez (2000. e as que têm r basicame nt ec o nse cu t i vo .3310). p.3625) expõe que as orações finais foram incluídas nas chamadas adverbiais circunstanciais em razão de que a finalidade expressa por elas enuncia uma circunstância. As orações finais podem ainda. p.3621) assinala que os traços semânticos que exprimem a finalidade têm um claro reflexo sintático. p.3308). Neves (ibidem) explica que. que p. exemplos como (11) mostram que a escolha pela forma flexionada ou não do infinitivo é. ambos os exemplos extraídos de García (1996. como em (18). apesar de não contarem com advérbio. que a correferência se dê entre os sujeitos. e subjuntivo quando os agentes não sejam os mesmos (16). mais optativa do que obrigatória. (15) Juana canta p ar a alegrarse. um evento virtual. p. . como (17). em tais orações. de acordo com Pérez Saldanya (2000. se chegar a ser produzida. Galán Rodríguez (2000. ou p u r a s s.74). se a opção se der em favor da primeira. essa eleição depende da evidência dada à ação ou a seu agente. Porto Dapena (1991. do ponto de vista do nível em que estão construídas. adver biais cir c u n s t a n c i a s (13). Nesses casos. dois tipos de orações finais: as propriamente ditas. (14) Par a dizer a verdade. ara (16) Juana canta p ar a que nos alegremos. Para Cunha e Cintra (2001). será necessariamente posterior ao designado pela oração principal. Existem. de maneira que. a d v e r b iais d de e n unciação (14): ( 1 3 ) Esboçou um movimento p a r a seguíssemos em frente. a rascar y cortar las (18) Este tipo de azada sirve p ar ara malas yerbas. distinguidos de acordo com seu comportamento sintático: i ) as que ligam o conteúdo proposicional da oração principal. um v alo alor basicament nte co nsecu cut Com relação aos tempos e modos verbais que acompanham as finais. Embora as possibilidades de manifestação do fenômeno dependam de traços semânticos e sintáticos do verbo principal. aparecer em contextos sem agente. a oração subordinada geralmente aparece em infinitivo. de forma que o (17) Esta cuerda servirá p ar a mantener sujeto el ara paquete. e i i ) as que rc e modificam o próprio ato linguístico. em muitos casos. não sei o que se passa na ara cabeça do Rei.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 193 características bastante particulares. as orações finais podem ser de dois tipos. ao explicar que é desnecessário. ocupa um lugar marginalizado na sintaxe de nossa língua. seja porque não diz respeito a nenhum sujeito concreto.209) nas orações finais. que indicam o propósito ou a intenção pela qual um agente realiza o evento expresso na oração principal. p. o infinitivo flexionado. cuja realização. p. Para a língua espanhola. utilizar-se-á obrigatoriamente infinitivo quando os sujeitos têm o mesmo referente (15). como expõe Perini (1998).

estaria previsto com “quanto”. para indicar eventos orientados ao futuro. p. 4 Orações subordinadas adverbiais temporais e finais estudadas: contrastes e efeitos para a tradução Tomaremos. há duas possibilidades para o emprego de verbos nas construções temporais iniciadas por “cuando”: o de imperfeito do subjuntivo e o presente do subjuntivo. . em especial quando: i) o verbo principal é passivo. Não obstante. segundo tipologia trazida à luz por at i vo . Quando o verbo da oração principal está no imperativo. diretamente. (19) Le presté (suj. para realizar a mesma relação de sentido. A partir da comparação efetuada. o complemento direto é suscetível de ser correferencial com o sujeito do infinitivo (23) (GARCÍA. tanto o infinitivo quanto a forma pessoal (ambos em 25) são possíveis. ( 2 0 ) Llama a la enfermera p a r a levantarte ra (enfermera-tú). em alguns casos. utiliza-se um verbo na forma pessoal. e i v) a oração de <para que + subjuntivo> denota a atitude do falante (GALÁN RODRÍGUEZ. 1996. iii) o verbo principal está modalizado. Em língua portuguesa. Se os sujeitos não são correferenciais. O modo subjuntivo. em que não se pode considerar a final como de tipo “pura” por não haver um sujeito pessoal (+humano) na oração principal.75). principalmente. enfatizamos principalmente as tipologias adotadas em cada uma das línguas. no gênero receita. com subjuntivo (24). As estruturas com “até/hasta” encontradas em o r al e poderiam receitas exprimem uma relação t e mp mpo ser classificadas. = yo) mi coche p ar a ir (suj. além do sujeito do verbo (no caso de este ser também o agente).194 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS agente que executa a ação pode manifestar-se em um complemento direto ou indireto. essas construções poderiam ser identificadas como de tipo (22) Los corresponsales fueron convocados a una a que informasen correctamente rueda de prensa p ar ara a sus agencias y periódicos. se há correferência entre os sujeitos. a mandarla hoy / p ar (25) Escribe la carta p ar a que ara ara la mandes hoy. como (20). de maneira geral.3634). (24) Haz los deberes p ar a que mañana no te riña el ara profesor. p. a situação geral também sofre ligeira alteração. ‘“ ara yo) a la feria. neste item. Isso ocorre porque. aquelas informações que dizem respeito. aos casos que serão objeto de estudo em nossa pesquisa. ii) os sujeitos designam entidades inanimadas e não aparece na oração principal um agente explícito. Nas situações em que o verbo apresentar um complemento direto referido a pessoas. já que é García Fernández. (23) Los jefes lo enviaron a Madrid p ar a hacer unas ara gestiones. como de tipo d ur urat ati evidente nelas a ideia de consequência entre as duas orações. 2000. o futuro do subjuntivo. pudemos observar que no uso moderno da língua espanhola. em que a ação da oração dependente só se cumprirá se a ação contida na principal também realizar-se. poderá ocorrer com agentes idênticos (22)5 . (21) Esto servirá p ar a que nos dejen en paz durante ara una temporada. Nas receitas. No caso das finais com “para/ para ”. a alternância entre infinitivo e um verbo na forma finita pode ser modificada. como em (21) 4 . embora se entenda como uma ação que alguém realizará. aparecerá nas situações em que há dois agentes distintos.

podemos supor que vo cê leva o sujeito de “levar” é o mesmo de “assar” (v ao forno para v o cê assar). para o uso de infinitivo e subjuntivo nas estruturas subordinadas com um caráter prospectivo. apenas 18%. verificamos que. por exemplo. como em (28c). Com base no cotejo gramatical aqui realizado. com predomínio de correferencialidade com o objeto direto. rc onse cu t i vo . quanto com infinitivo. A circunstancial as divisão entre finais pur puras as. abordada por Pérez Saldanya. Isso pode evidenciar a natureza flutuante do infinitivo em português. em língua portuguesa. em língua portuguesa. não resulta pouco incomum. Embora esta pareça ser uma hipótese estranha. pode configurar-se como um importante parâmetro de análise na classificação das orações finais das receitas de nosso corpus. (26). só 2% do total de orações eram seguidas de infinitivo flexionado. ou que há dois sujeitos distintos e a correferência se dá entre o objeto direto da oração principal (as batatas) e o sujeito da final (as batatas). Em língua espanhola. não parece ser possível utilizar infinitivo nas subordinadas finais em todos os casos indicados para a língua portuguesa. três possíveis escolhas na tradução para língua portuguesa. Esses dados podem indicar que. p ar ara 5 Considerações finais (27) El aceite sirve p ar a que no se peguen las láminas ara de lasaña. (26) Par a conseguir una textura más delicada. (27). lev para Em (28b). o que pode corroborar a afirmação de Perini (1998) sobre a insegurança dos falantes com relação ao emprego dessa estrutura.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 195 cir cunstancial (segundo classificação de Neves). Parece existir. será eletiva. sem agente ou com um sujeito e de v alo alor co nsecu cut não humano. en porciones. algumas mais e outras menos frequentes em seu uso. em língua portuguesa. parece ser mais provável quando o sujeito da primeira oração se mantém na oração dependente. (28a) Vá virando os cubinhos conforme vão a q ue fiquem com um dourado por dourando par para igual. em geral. especialmente nos casos de “até/hasta” e “para/para”. devido à possibilidade de não concordância (não flexão) com o sujeito. com “para”. Numa breve observação de um corpus de receitas coletadas da internet e escritas originalmente nas duas línguas. No gênero receita. em que fica clara a característica semântica de agentividade e prospectividade. Não se constatou o mesmo comportamento nessas estruturas em língua espanhola: encontramos. Observamos ainda que a grande maioria das construções finais com “para” (89% do total) e das temporais com “até” (80% do total). as subordinadas finais com “para” parecem funcionar de maneira análoga às temporais com “até”. Esta última hipótese. podemos dizer que parece haver. quando for possível a correferência com qualquer um dos termos. lo ara podemos pasar por el pasapurés. apesar de o infinitivo ser possível nas duas línguas em caso de correferencialidade com outros (28b) Embrulhe as batatas em papel alumínio e le v e ao forno par a assar(em) por cerca de 1 hora. são seguidas de infinitivo. correferencialidade com qualquer dos termos da principal. seja ele flexionado ou não (28b). Embora seu uso esteja igualmente previsto quando haja . em língua portuguesa. um leque um pouco mais abrangente que o verificado em língua espanhola. já que ambas podem ser construídas tanto com presente de subjuntivo (28a). com agente humano. 33% dos casos seguidos de infinitivo e com “hasta”. (28c) Prepárala en un gran molde cuadrado y córtala a tener unos deliciosos pasteles.

GARCÍA. Os dados das traduções dos aprendizes referidos na introdução parecem ir na contramão dos números iniciais obtidos nos corpora de receitas escritas em português. 37. DEMONTE. mais detidamente. M. F. p. GARCÍA FERNÁNDEZ. como se dá nesse gênero e na tradução a questão da correferencialidade nas duas línguas. 2. et al. (2000): Los complementos adverbiales temporales. Vol. como ocorria no texto fonte. Assim. T. (2010): Nova Gramática do Português Brasileiro. 884-893. São Paulo: Editora UNESP. apesar de semelhantes em determinados casos. agora. Em: BOSQUE. Madrid: Espasa. M. A. V. já que. dos quais apresentamos aqui apenas uns poucos dados quantitativos. p. L.196 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS termos da oração principal. tanto nas temporais com “até” como nas finais com “para”. 2.) Gramática do português culto falado no Brasil. ILARI R. 3621-3642. Em: ILARI. Gramática Descriptiva de la Lengua Española. C. 3253-3318. (2000): La Subordinación Causal y Final. 3129-3207. CUNHA. Em: BOSQUE. (1999): Moderna gramática portuguesa. p. I.. Madrid: Espasa. I. e se haverá diferenças significativas no uso dessa forma nominal nas estruturas com “até/hasta” e “para/para”. V. Vol. Resta-nos. 3. 787-801. rev. Madrid: Espasa. La subordinación temporal. e ampl. p. nem sempre parecem coincidir nas duas línguas e no gênero tratado e. V. Em: BOSQUE. NEVES. Referências bibliográficas . no que se refere ao emprego de infinitivos. Gramática Descriptiva de la Lengua Española. Vol. DEMONTE. CINTRA.. E. MARTÍNEZ GARCÍA. M. M. Classes de palavras e processo de construção. realizar um cotejo de ambas as análises com o produto das traduções que serão feitas por outros estudantes brasileiros de E/LE. nos textos finais por eles traduzidos. realizar um tratamento mais acurado desses corpora de receitas. (dir. (2003): Gramática de usos do português. (2001): Nova gramática do português contemporâneo. 338-381. II. CASTILHO. I.. Madrid: Arco/Libros. L. H. GALÁN RODRÍGUEZ. R. p. ed. BECHARA. V. houve predominância de estruturas com subjuntivo. Madrid: Arco/Libros. Campinas: Editora da UNICAMP. (2000): El modo en las subordinadas relativas y adverbiales.. (orgs. a distribuição desses usos não ocorra numa mesma medida. (1996): Construcciones temporales. NEVES. 760-763. São Paulo: Contexto. C. H. Rio de Janeiro: Lucerna. (2008): A preposição. S. PÉREZ SALDANYA.. por fim. H. poderemos observar como (e se) nossos sujeitos farão uso de todas essas possibilidades que. M. DEMONTE. (1996): Las expresiones causales y finales. p.) Gramática Descriptiva de la Lengua Española. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. comparar o que neles encontrarmos com as descrições gramaticais efetuadas e. L.

292-297. E. Exemplo extraído de Porto Dapena (1991.310). (1991): Del indicativo al subjuntivo: valores y usos de los modos del verbo. Em: TradTerm. v. PORTO DAPENA.3.unb. São Paulo: Ática. São Paulo. p. 3 Exemplo extraído de http://www.br/campusonline/esportes/item/2329-brasilienses-rumo-aop%C3%B3dio-ol%C3%ADmpico 4 5 Exemplo extraído de Pérez Saldanya (2000. (2004): Linguística de Corpus e Tradução Técnica – Relato da montagem de um corpus multivarietal de culinária. Madrid: Arco/Libros. sempre que não especificada outra fonte.. TAGNIN. 313-358. p.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 197 PERINI. J. S. Os exemplos a seguir. 10. O. TEIXEIRA. 199-206. p.209). A. foram extraídos de receitas culinárias obtidas em sites (brasileiros e espanhóis) da Internet.125-179. M.fac. FFLCH/USP. (1998): Gramática descritiva do português. . p. A. Notas 1 2 Bolsista Fapesp. E.

2000). como deixa bem claro Silva (2000).UFF De uma forma geral. é importante ressaltar que a identidade nacional pode pautar-se sob diversos princípios: sociais. em diferentes épocas do ensino de Espanhol. mesmo sem darnos conta. 2011. reconhecerá também o outro. Ainda. A identidade “brasileiro”. Para isso é importante levar em conta que o termo identidade apresenta uma definição complexa. a pesquisa propõe-se a analisar como é abordada a identidade nacional brasileira nos livros didáticos.” (Woorward. p. para citar alguns. onde há sempre a dicotomia entre o incluído e o excluído. tampouco são fixas. a identidade está intimamente relacionada a sistemas simbólicos e sempre assumimos uma posição. mas que há anos vem sedo estudado por diversas áreas do conhecimento. políticos. Bruna Maria Silva Silvério PG . todo processo que gera significados está envolvido com relações de poder. (Silva. Ela só tem sentido em relação com uma cadeia de significação formada por outras identidades nacionais que. naturais ou predeterminadas. ao reconhecer a sua identidade. o sujeito. A autora afirma isso ao dizer: “É por meio dos significados produzidos pelas representações que damos sentido à nossa experiência e àquilo que somos. por exemplo. estabelecendo significados e nos posicionando na sociedade. no ensino de . por sua vez. não pode-se deixar de focalizar a importância que as relações de poder têm para no seu processo de formação. […]. pressupõe um referente antagônico a ela. Isso quer dizer que a identidade está presente e qualquer tipo de relação (principalmente nas de poder). Baseando-se no discurso de Hall (2000). Para Woorward (2000). prioritariamente. segundo Silva (2011): A identidade “ser brasileiro” não pode. ser compreendida fora de um processo de produção simbólica e discursiva. 80) Ao conceituar identidade. Essas questões devem ser inevitavelmente abordadas no ensino. pois uma já pressupõe outra. não é um absoluto que exista anteriormente à linguagem e fora dela. geográficos. etnográficos. Entendendo-se que a identidade está intimamente relacionada à diferença. Além disso.198 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS O TEMA TRANSVERSAL DA PLURALIDADE CULTURAL E SUA RECONFIGURAÇÃO NOS LDS DE LÍNGUA ESPANHOLA. em que o “ser brasileiro” não tem nenhum referente natural ou fixo. Isso quer dizer que “ser brasileiro” entende-se não se enquadrar em outras identidades que apoiamse em nacionalidades.

Segundo Coracini. Ou seja. segunda ela.” (Coracini. “fica definido para o componente curricular de Língua Estrangeira o atendimento a partir do PNLD 2011. 14 de janeiro de 2008). Dessa forma. o ser brasileiro não é consituído por como nos vemos. que é. no que dispõe sobre a execução do PNLD. ano em que foi inserido o componente curricular Língua Estrangeira Moderna.201) O presente trabalho propõe analisar três coleções de livros didáticos destinados ao Ensino Fundamental. Com base nessas questões da identidade brasileiro. de um momento importante na história do ensino de LEM nas escolas públicas brasileiras. considerando que sua inclusão no ensino público é um fato recente. 2010). a coleção foi reformulada para participar da seleção do Programa Nacional do Livro Didático –PNLD 2011 e será essa a edição analisada. pode-se dizer que o LD tem grande importância na aprendizagem da língua estrangeira. pode-se afirmar que o ensino de língua estrangeira deve vincular-se à noção de cultura.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 199 língua. ao assumir uma visão da psicanálise lacaniana. de modo constitutivo. além de . também. o sentimento de identidade subjetiva. Como afirma Paraquett. em seu ar tigo “A celebração do outro na constituição da identidade” (2003). Com relação ao corpus do trabalho. com livros de inglês ou espanhol. 2003. para os anos finais do ensino fundamental” (Diário Oficial da União. já que esta também está subordinadas às relações de poder. foi um dos livros aprovados pelo PNLD de 2011. que reflete um reconhecimento do papel que esse componente curricular tem na formação dos estudantes. a interrelação ativa de várias culturas que vivem em um mesmo espaço geográfico. de Língua Estrangeira Moderna. a universalização da distribuição dos livros de Espanhol e Inglês significa um avanço na qualidade do ensino público brasileiro. “é possível afirmar que as representações que fazemos do estrangeiro e as representações que o estrangeiro faz de nós atravessam. Ou seja. social e nacional. Saludos (MARTIN. A coleção mais atual. em uma sociedade essencialmente pluricultural1 é importante que haja uma uma educação também focada na interculturalidade. no sentido de que se assume a posição de existência de “culturas”. (MEC/SEB. p. encontra-se a seguinte consideração: Trata-se. Arriba (CALLEGARI e RINALDI. em suas próprias palavras. Língua Estrangeira (inglês e espanhol) passa a integrar a lista de disciplinas contempladas pelo PNLD. referentes a diferentes épocas de ensino de Língua Espanhola: Vamos a hablar (JIMÉNEZ e CÁCERES. Em suma. e sim pelo que os outros. os estrangeiros acham que somos. através da Resolução nº 3 de 11 de janeiro de 2008. pois. Depois de dez anos da criação do Programa. 1990). uma vez que esta é parte constitutiva da cultura de um povo ou nação. esse momento pode significar. portanto. respeitando as diferenças sem estabelecer uma organização hierárquica entre elas. 2010) Isto é. Já que há pouco tempo que foi estabelecida a obrigatoriedade de oferta desta disciplina para o ensino fundamental e médio. Embora tenha sido lançada anteriormente. No caso específico de Espanhol. uma ampliação do número de escolas que oferecem essa língua. o momento não é só de ingresso das disciplinas de língua estrangeira no Programa do FNDE para a escolha dos livros didádicos para o ensino público básico. 2004) e Saludos (MARTIN. apenas no edital de 2011. a autora defende que o sujeito é formado pelas concepções e impressões do outro. mas também representa uma esperança de que o Espanhol seja mais difundido entre as escolas. No Guia de Livros Didáticos – PNLD 2011. 2010).

pode ser considerado um dos principais formadores de opinião do aluno acerca dos aspectos sociais e culturais da língua. pressupõe um referente antagônico a ela. culturais e econômicas nas quais vivemos agora […] a identidade é a interseção de nossas vidas cotidianas comas relações econômicas e políticas de subordinação e dominação. deve posicionar-se de forma autônoma como uma função de sua cidadania plena. como deixa bem claro o autor. etnográficos. 80) A relevância das questões identitárias no ensino de língua Cultura e identidade são assuntos que vêm sendo discutidos há muito tempo e abrangem os estudos de diversas áreas. todo processo que gera significados está envolvido com relações de poder. […]. Isso quer dizer que “ser brasileiro” entende-se não se enquadrar em outras identidades que apoiam-se em nacionalidades. 2011) Além de depender do símbolo. cuja manifestação mais evidente na aula de língua estrangeira seja a cultura diferente da sua. de que tais conceitos são inerentes a qualquer pessoa e a qualquer relação. Essas questões devem ser inevitavelmente abordadas no ensino. por sua vez. Além disso. tampouco são fixas. geográficos. (RUTHERFORD.200 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS apresentar um suporte a conteúdos abordados em sala de aula. 2011. uma não se consolida sem a outra. não é um absoluto que exista anteriormente à linguagem e fora dela. A identidade “brasileiro”. no ensino de língua. por exemplo. até porque está intimamente ligada a práticas de significaões que Ao conceituar identidade. como afirma ainda a autora. 1990 apud Woodward. segundo Silva (2011): A identidade “ser brasileiro” não pode. Dessa forma. Enquanto sujeitos. Ainda. prioritariamente. nessa visão. essa construção identitária também tem uma base social. a partir da aprendizagem de língua estrangeira.” (Woorward. 1998). Além disso. naturais ou predeterminadas. o aluno. ser compreendida fora de um processo de produção simbólica e discursiva. 19) De acordo com a visão de Silva (2011). p. estamos submetidos a sistemas simbólicos e assumimos uma posição na sociedade mesmo sem dar-nos conta. advêm de relações de poder e das vastas possibilidades de relações nos permeiam: […] a identidade marca o encontro de nosso passado com as relações sociais. identidade e diferença estão intimamente imbricadas em uma relação interdependente. Isso significa que a construção de uma determinada identidade depende de um símbolo. para citar alguns. Ela só tem sentido em relação com uma cadeia de significação formada por outras identidades nacionais que. Isso se deve ao fato. baseando-se em Woorward (2011). que se posicione e que saiba aceitar e respeitar o outro. Baseando-se no discurso de Hall. Levando isso em conta. como propõe os PCNs (BRASIL/SEF. isto é. Sistemas simbólicos porque a identidade é marcada por meio de símbolos. entende-se que ele deve também ter a preocupação de inserir o aluno na sociedade em que vive como cidadão crítico e que seja capaz de reconhecer-se como participante da diversidade cultural de sua nação. compreende-se que os LDs têm a função de formar um cidadão crítico. Isso se dá a partir da visão socio-interacional da língua e da aprendizagem. uma representação simbolica: “É por meio dos significados produzidos pelas representações que damos sentido à nossa experiência e àquilo que somos. é importante ressaltar que a identidade nacional pode pautar-se sob diversos princípios: sociais. políticos. (Silva. em que o “ser brasileiro” não tem nenhum referente natural ou fixo. p. não pode-se deixar de focalizar a importância que as relações de poder têm para no seu processo de formação. já que esta também está subordinadas às relações de poder. . 2011. onde há sempre a dicotomia entre o incluído e o excluído.

por exemplo – pode-se afirmar que identidade. Ainda. Essa posição diz respeito a uma intersubjetividade inconsciente. p. 91 e 92) Segundo Coracini. Mas sim.83) Essa relação de desigualdade identitária também precisa tomar um lugar no ensino de língua: “A pedagogia e o currículo deveriam ser capazes de oferecer oportunidades para que as crianças e os/as jovens desenvolvessem capacidades de crítica e questionamento dos sistemas e das formas dominantes de representação da identidade e da diferença. 2000. pois são a partir delas que as pessoas assumem determinadas posições. principalmente quando se trata de um país plural como o Brasil. Entendo. um dos lados. mas questionála. 2000. em seu ar tigo “A celebração do outro na constituição da identidade” (2003). o estranho: “A força homogeneizadora da identidade normal é diretamente proporcional à sua invisibilidade. que põe em jogo as contradições da constituição histórica dos sujeitos. que embora também intermediada pelos métodos e pelos materiais adotados. A normalidade. através de elos sociais. normalmente o mais superior. compreender o processo em que se dá o estabelecimento das identidades. criticar e questioná-lo: Uma política pedagógica e curricular da identidade e da diferença tem a obrigação de ir além das benevolentes declarações de boa vontade para com a diferença. Ela tem que colocar no seu centro uma teroria que permita não simplesmente reconhecer e celebrar a diferença e identidade. a depender de um sistema de classifições onde diversos fatores estão envolvidos. deve . Também.24) Silva. 2006) desenvolvimento da pesquisa pode basear-se na pergunta o que é ser brasileiro?. também tem grande base no que acreditamos ser. portanto. até pensando na diversidade do nosso país – o “ser brasileiro’ pode mudar de acordo com cada região do país. 2000. o aluno deve ser capaz não só de entender essa diversidade como um produto. p. Entende-se que mais do que aprender o código e suas funções na outra língua. já que o encontro com o outro (incluindo o espaço social da escola) é inevitável. o falante toma outra posição subjetiva. “devemos ter uma ideia partilhada sobre aquilo que a constitui. em seu livro Identidade e Diferença (2011). faz com que ela se torne invisível. p.(Neves. Isso significa que um será sempre mais privilegiado que outro. bem como o material e o livro didático utilizados. consequentemente. sempre é considerado o “normal”. relacionada a uma identidade. entende-se que um currículo pedagógico. 100) A identidade de um povo e a sua cultura formam-se através de diferenças. 2000. essencialmente. já que não é possível ter contato com todas as pessoas que fazem parte da nossa identidade nacional.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 201 Uma questão importante para o comprometer-se com a proposta de formação de um sujeito crítico. a resposta a tal pergunta tem dependência também na ideia do que fazemos do que é ser brasileiro. como aquilo que existe e que devemos apenas entender e respeitar. do país em que vive.” (Silva. (Silva.” (Silva. a atividade pedagógica se dá entre sujeitos. assumindo uma visão dicotômica da identidade e diferença – onde sempre existe um “eu” ou “nós” e “o outro” ou “os outros” – os dois lados nunca terão o mesmo peso. questionador dos sistemas de representação de identidades existentes em seu entorno e. o ser brasileiro não é consituído por como Dessa forma. como afirma. além de ser dependente do passado histórico e das relações sociais de poder. p. interessado na inserção do aluno como cidadão participante dos processos de constituição e significação da identidade e da diferença. Woodward (2000). Apesar de ser uma pergunta difícil de ser respondida. afirma que a identidade e. a diferença devem integrar o currículo pedagógico. por não terem o mesmo papel perante a sociedade.” (Silva. Ou seja. destacando-se o “anormal”. Assim. No espaço heterogêneo em que vive. Aqui fica bem claro que o estabelecimento de uma identidade depende da diferença.

v. 201) É através desse dizer alheio que constroi-se o imaginário de pertencimento de uma nação. Simone (2004): ¡Arriba!. p.cesdonbosco. (2007): A celebração do outro: arquivo. M. e nos tornamos singulares diante do estrangeiro.C (2008): O livro didático na política de currículo para o ensino médio. essa heterogeidade se complexifica. os estrangeiros acham que somos. . Ed. SP: Mercado das Letras. pois uma língua sempre traz com ela outras identidades. 12. (1990): Vamos a hablar: curso de lengua española.M. memória e identidade. Catarata. de nossos antepassados ou daqueles que parecem não deixar rastros..br/organon/article/view/30024 COLECTIVO AMANI (1994): Educación Intercultural: Análisis y resolución de conflictos. Impresso). ao assumir uma visão da psicanálise lacaniana. Tradução Adelaine La Guardia Resende [et al.M (2009): Pluralidade Cultural nos Parâmetros Curriculares Nacionais: uma diversidade de vozes. social e nacional. JIMÉNEZ.ufrgs.8. 373-392. n. F. por exemplo. (1992): Estética da criação verbal. abrindo novas formas de ver o mundo. a autora defende que o sujeito é formado pelas concepções e impressões do outro. 2003. n. sem saber como nem porquê.202 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS nos vemos.] 1ª edição atualizada – Belo Horizonte: Editora UFMG. GIMÉNEZ ROMERO. é preciso que o outro dê a sua existência. São Paulo: Editora Ática. Disponível em: http://seer. 17. D. M.com/ revista/impresa/8estudios/texto_cgimenez. Revista Organon. Dessa forma. Referências bibliográficas BAKHTIN. O sujeito por si só é heterogêneo e. In: Educación y futuro: revista de investigación aplicada y experiencias educativas. para que exista uma identidade nacional. dizer que nos precede ou que precede nossa consciência e que herdamos. o sentimento de identidade subjetiva. 2003. VARGENS. J. Organização Liv Sovik. CORACINI. Carlos (2003): Pluralismo.P. São Paulo: Martins Fontes. RJ: Ed.201) Ainda. V. e CÁCERES. Marília Vasques e RINALDI. E segundo Coracini (2007) essas novas vozes se entremeiam no incosciente do sujeito aprendiz. In: Linguagem & Ensino (UCPel. Brasília: MEC/SEF. A. Roque de Barros (2009): Cultura: um conceito antropológico. multiculturalismo e interculturalidad. é que sustenta a nossa identidade: “o que somos e o que pensamos ver está carregado do dizer alheio. Ou seja. P. Sempre que se aprende uma nova língua há um processo de formação da identidade. R. ao entrar em contato com uma língua estrangeira. São Paulo: Moderna.” (Coracini. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. novas formas de organização do pensamento e novas imagens do outro. CALLEGARI.A. Stuart (2009): Da diáspora: identidades e mediações culturais. Campinas. _____ (2003): “A celebração do outro na constituição da identidade”. UERJ. FREITAS. 35. M. Disponível em: www. BRASIL/SEF (1998): Parâmetros curriculares nacionais : terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental: língua estrangeira.doc HALL. p. In: Políticas de integração curricular. L. de modo constitutivo. LOPES. “é possível afirmar que as representações que fazemos do estrangeiro e as representações que o estrangeiro faz de nós atravessam. p. As característica que são atribuídas a nós brasileiros. em suas próprias palavras. e sim pelo que os outros.” (Coracini. LARAIA.

Tomaz Tadeu da (org. In: BARROS. Petrópolis.). ressaltando as diferenças. Nota 1 a autora entende esse conceito como a co-presença de várias culturas. Brasília: Ministério da Educação. E. M.(Biblioteca freiriana. S. C. multiculturalismo e currículo intercultural. PADILHA. I. In: Currículo intertranscultural: novos itinerários para a educação / SP: Cortez: Intituto Paulo Freire . Marcia (2010): Multiculturalismo. RJ: Vozes. .9). Stuart Hall. P. (org. R (2010): Saludos – curso de lengua española.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 203 PARAQUET T. Secretaria de Educação Básica. R (2004): Cultura. G. SILVA.). São Paulo: Editora Ática. interculturalismo e ensino/aprendizagem de espanhol para brasileiros.) e COSTA. (org. v. Kathryn MARTIN. Woordward (2000): Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais.

uma empreitada ilimitada (assumindo a dimensão da própria Biblioteca). sem. é descrita uma biblioteca que é comparada ao Universo. é tido como infinito. Tal local. após terem suas inscrições apagadas. de Jorge Luis Borges. intertítulos. enfim. apesar dos limitados caracteres de uma língua). e assim. que passam a almejar a justificativa de suas próprias existências através do entendimento da Biblioteca. mas todas as maneiras pelas quais um texto pode ultrapassar suas “barreiras”. transpassam e oferecem sentidos aos textos. até a possível obtenção do objetivo. Nele. alusões. da coletânea Ficciones. Diante de tal grandiosidade (sem um livro sequer igual ao outro. Não existe sequer um texto que não seja transtextual. nos links textuais estabelecidos entre um texto e outro(s). Essa característica. para isso. de um livro B os resquícios de um A. essa sobreposição de textos. surge a lenda del Hombre de Libro. e. sua compreensão tornase um desafio aos seres humanos. seus limites. pergaminhos utilizados antes da invenção do papel e que. No sentido figurado. que conheceria um tomo com a súmula perfeita de todos os outros. A procura por tal bibliotecário anônimo e pelo resumo de todo o acervo geram uma ânsia de busca retrospectiva: em um livro C poderiam ser encontradas pistas de um livro B. entre outros elementos que tangenciam. Mais que isso. eram reutilizados. inclusive. . epígrafes. estabelecer relações de sentido. Definida por Gerard Genette (1997) como transtextualidade. Genette. o objeto da poética estaria justamente nessa transcendência. transformações.204 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS O POLICIALESCO NA FIGURA DE AMALFITANO Bruna Tella Guerra PG . esses “rastros”. contudo. empresta a figura dos palimpsestos (antes usada por Philippe Lejeune). imitações. dividido em partes geometricamente semelhantes. essa questão abrange muito mais do que a noção comum de intertextualidade. ad infinitum.Unicamp Uma característica essencial da Literatura é a transcendência textual. é a transtextualidade. Nesses tempos. é abordada no conto “La Biblioteca de Babel” . eliminar inteiramente o que havia sido escrito antes. Exemplos disso são os títulos. comentários.

o detetivesco em Bolaño? Uma das soluções possíveis para essa questão reside no fato de que o gênero policial. há também a transtextualidade “interna”. etc. podemos nos atentar a outro ponto importante da literatura bolañeana: geralmente sob forma de paratextos. espaços e ações. é um retorno moderno da Odisseia . O premiado e famigerado Los detectives salvajes é um dos exemplos. de Machado de Assis. que ganhou o apreço bolañeano” nos leva a inferir que essa característica faz parte do próprio projeto estético do autor. que é o detetivesco. A busca por um autor “desaparecido” também ocorre por mais de uma vez: em Los detectives salvajes e 2666. No que reside. porque estabelece sentidos com obras de outros autores. de José Saramago. sejam eles poemas. ambos locais que aparecem constantemente nos textos de Bolaño. apresentando a imagem do detetive como intitulação do texto geral da narrativa e como intertítulo da segunda parte do livro. bem como a cidade de Santa Teresa. estabelecida por Edgar Allan Poe e Arthur Conan Doyle. Apesar desses textos trazerem a mesma figura no nome. ainda. Há ainda outros exemplos pertencentes a coletâneas de textos e somente sob forma de intertítulos: o conto “Detectives” de Llamadas telefónicas. por exemplo. têm estruturas distintas e não contêm casos policiais aos moldes Sherlock Holmes. Tomemos como modelo o personagem Quincas Borba. ou que O Ano da Morte de Ricardo Reis. que Ulysses. retoma a vida de um dos principais heterônimos de Fernando Pessoa. Os links dentro de seus próprios textos são intensos. fronteira de México e Estados Unidos. uma representante rigorosa da transtextualidade interna é a obra de Roberto Bolaño. Uma intenção interpretativa: as pistas de Bolaño Aliado ao projeto estético transtextual. É quase uma obviedade. Não são poucos seus títulos e intertítulos que contemplam a figura do detetive. desaparecimentos. Roberto Bolaño nos dá pistas sobre um aspecto ao qual podemos considerar ao lermos seus textos. A construção desse linkado “mundo coerente e plausível torna-se essa ideia quando tomamos nota de que em entrevista a Dunia Gras Miravet para a revista Cuadernos Hispanoamericanos. assumindo que esta. Nos finais do século XX e início do XXI. Entretanto. da coletânea Putas asesinas. aquela que apresenta referências. Um exemplo é o personagem Arturo Belano. “Los detectives helados” de Los perros románticos. teríamos um tipo de transtextualidade a qual poderíamos chamar de “externa”. hiperbólicos: há recorrência de personagens. Outros casos de transcendência textual interna são o deserto de Sonora. investigações. afirma em Nota Editorial que seria Belano o narrador de 2666. Bolaño afirmou que sua poesia e sua prosa pertencem a um mesmo projeto estético. que após aparecer roubando o relógio de Brás Cubas em Memórias Póstumas. de James Joyce. raciocínio lógico. Ignácio Echevarría. tornando claro que encontrar “rastros” e sentidos de um texto em outro é inerente à Literatura. ganha um folhetim no qual é o protagonista. sentidos e links dentro da obra de um mesmo autor. Mais . contos ou narrativas longas. então.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 205 Uma das tantas possíveis interpretações do conto que a procura pelo livro súmula traz à tona é a questão da transtextualidade. apresenta elementos constantes (assassinatos. “Los detectives perdidos”. Os textos de Roberto Bolaño não apresentam enredos que se enquadram na literatura policial tradicional. Nesses casos. pistas. os poemas “Los detectives”.) e estruturas comuns (crime – investigações – desvendamento do crime). um dos protagonistas de Los detectives salvajes e também do conto “Fotos”.

diante de tantas informações. nomes e ações. sendo ele. não conhecemos por completo nada que nos é apresentado. Em El Túnel (1948). as pistas são inconclusas. A pesquisa acadêmica independentes. que teria dito que el verdadero policía é o leitor tentando ordenar incansavelmente a trama. apontando para o próprio projeto estético transtextual. No caso de Amalfitano. por exemplo. sua estrutura. Este último apresenta o mesmo caso de intitulação que remete ao policialesco. o Amalfitano e detetivesco: relações Um dos personagens sobre o qual podemos pensar a respeito dessas questões é Amalfitano. por exemplo. O outro livro chama-se Los sinsabores del verdadero policía. Nesse caso. em séries televisivas e filmes). inclusive. mas os títulos temáticos que trazem a questão policialesca. O que nos leva a fazer relações da literatura de Bolaño com o aspecto detetivesco não é. informações que obtemos em Los sinsabores del verdadero policía são. sentimentos e características de Amalfitano. eles acabam assumindo um sentido figurado que encadeam alguns questionamentos: 1) Quem são os detetives dos textos bolañeanos? 2) Por que são referidos dessa maneira? 3) Qual o sentido decorrente dessa escolha? algum personagem literalmente detetive ou da polícia. apesar de estar longe de ser um Holmes. em meados do século XX a assumir um caráter diferente. ocorre também em Bolaño na tentativa de encontrar significações e relações. na maioria das vezes. chileno. Ele aparece em dois livros póstumos: um deles é 2666. a transtextualidade se dá pela percepção de um leitor que utiliza o paradigma indiciário para encontrar possíveis relações e estabelecer sentidos. sem necessariamente um estar ligado ao outro. ainda que participe com maior ou menor frequência nas outras. nem mesmo . praticamente descartada. de Ernesto Sabato. que permeia mais de um texto de Roberto Bolaño. conhecemos o assassino já no primeiro parágrafo. dividido em cinco partes supostamente que o torna o próprio detetive. apesar de o enredo também não mostrar nenhuma narrativa policial tradicional. e seus leitores procuram encontrar sentidos e relações em vão. podem haver outras tentativas de identificação do aspecto detetivesco. A precisão lógica de Auguste Dupin é. muitas pistas “escapam por entre nossos dedos”. Os textos de Bolaño são mais difusos ainda: apresentam elementos típicos desse tipo de narrativa. então. é um professor universitário. O fato de ser professor universitário é a primeira característica desse personagem que poderia assemelhar-se ao detetivesco. e.206 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS do público (mostrando-se até hoje na literatura. acabando por adquirir um sentido enigmático: quem é o policial? Quais seus dissabores? A contracapa da edição da Editora Anagrama traz uma citação de Roberto Bolaño (sem referência). o narrador da história. como assassinatos. passou. O movimento feito em La Biblioteca de Babel para buscar um sentido da vida ou da existência da Biblioteca. as histórias não se fecham. então. sendo que Amalfitano tem uma só para si: “La parte de Amalfitano”. também com uma divisão de cinco partes. buscas e mistérios. Isso nos mostra uma completa inversão da conhecida ordenação dos fatos e do foco narrativo da literatura policial. onde começa a trabalhar na Universidad de Santa Teresa. sendo que três delas abordam ações. Bolaño constrói um mundo ficcional. Amalfitano. Devido a isso. Esse tipo de leitura é perfeitamente possível para a obra bolañeana no geral. diferentes daquelas de 2666 . Além de entendermos o leitor como detetive. que em certo momento sofre demissão da Universidad de Barcelona e muda-se para o México.

Amalfitano decide pendurar o livro de geometria no varal do quintal. porém. que são citados diversas vezes em “La parte de Amalfitano”. de Rafael Dieste e. A imagem detetivesca do professor universitário é recorrente em Bolaño. a resolução de um problema descarta qualquer raciocínio lógico. Não se sabe se tal voz é a consciência de Amalfitano. para uma cidade fronteiriça entre México e Estados Unidos. . no qual há uma “dança” entre textos. um elemento que representaria o ponto de partida de uma narrativa policial tradicional ocorre como “pano de fundo” das ações de Amalfitano: os assassinatos de mulheres de Santa Teresa. acabam refletindo sobre a vida. que ganharão uma das parte de 2666: “La parte de los crímenes” e serão abordados também em Los sinsabores del verdadero policía. Conclusão É possível percebermos que a estética transtextual de Roberto Bolaño acaba por criar um “mundo bolañeano”. no México. segundo um personagem de “La parte de Fate”. Essa última interpretação estaria em consonância com a apatia de Bolaño por alguns autores que compuseramo boom da Literatura hispano-americana na década de 1960. onde questões inexplicáveis estariam passíveis de ocorrer. uma voz que Amalfitano escuta e com a qual conversa. ocorrendo também em “ La parte de los críticos” (também do 2666 ).ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 207 segue pistas. Baseado. região marginal do globo (como toda a América Latina). enfim. Outro episódio é o de “la voz”. muito menos de tê-lo colocado nas caixas de mudança. não lembrando-se de ter comprado tal livro. Amalfitano passa. através de uma visão eurocêntrica da exoticidade da América Latina. que seriam um oásis de horror em meio ao tédio de Amalfitano (caso quisermos oferecer uma interpretação à epígrafe baudelaireana de 2666). Esse aspecto nos permite alastrar interpretações de um texto para outros. As buscas são frustradas e as pistas. inconclusas. nem mesmo de ter estado na cidade da livraria na qual ele havia sido comercializado. Um deles acontece quando Amalfitano está desencaixotando os livros que havia selecionado durante a mudança de Barcelona para Santa Teresa. Por fim. Para Amalfitano. que nunca oferece soluções definitivas. nas ideias de Duchamp. então. sobre questões da existência. porém. para que ele sofresse as intempéries e aprendesse. faz inferências e estabelece conclusões a respeito de seus objetos de estudo. Juntos. O intelectual latino-americano. O professor depara-se com um chamado Testamento geometrico. tal qual a pesquisa em Literatura. um escritor “desaparecido” que não é encontrado por eles. por certos episódios de mistério impossíveis de serem resolvidos em sua objetividade. local no qual. é resvalado à margem através da figura de Amalfitano: mandado para o México. Nesse mesmo sentido de indefinição. de 2666. Nesse momento. renderia um relato policial de primeira magnitude. uma vez que parece apresentar conflitos com a questão sexual (Amalfitano assume-se homossexual depois de adulto) ou uma vivência mística que ironizaria o realismo mágico. esses casos não parecem ter significativa importância em sua vida. quatro coisas sobre a vida. ocorrendo das mais variadas formas. em que quatro professores universitários viajam em busca de Archimboldi. distanciando-se do tipo de investigação feita pelos tradicionais detetives. acaba por ficar intrigado. uma vez que todos parecem ser “retalhos de uma mesma colcha”. mas nada é concluído.

BORGES.. Barcelona: Editorial Anagrama. parecem ser descritas.) Lincoln: University of Nebraska Press. A incompletude dessas investigações e a infinita busca proporcionada pelo caráter de La Biblioteca de Babel. G. . Trad.” (p. BOLAÑO. fragmentos. por uma reflexão de Amalfitano sobre Santa Teresa. (2011): 2666. (2011): Los sinsabores del verdadero policía. R. R. N. utilizamos como exemplo a questão detetivesca.. Madrid: Alianza Editorial. G. Barcelona: Editorial Anagrama. J. então. GENETTE. (oct de 2000): Entrevista con Roberto Bolaño.) que todo lo que había visto en el extrarradio de Santa Teresa y em la misma ciudad. R. (2009): Ficciones. Doubinsky. (1997): Palimpsests: literature in second degree. imágenes sin asidero. servindo também de respaldo para a interpretação do recidivante personagem Amalfitano. fragmentos. a busca incansável por pistas e a possibilidade de relacionar elementos que aparecem com frequência. presente objetivamente em títulos de livros. enfim.208 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Aqui. BOLAÑO. Esta. A estética de Bolaño permite. que pensa “(. (C. Entrevistador) Cuadernos Hispanoamericanos. MIRAVET. L. contos ou poemas. Reflexão esta que parece ser uma metonímia de sua própria obra. 265). imágenes que contenían en sí toda la orfandad del mundo. (D. Referências bibliográficas BOLAÑO.

se remite a modos explícitos de enunciar a los actores. aluden a la consolidación del “deber ser” del concepto de paramilitarismo en el escenario de la prensa escrita. Así. De esta manera. representa el concepto de paramilitarismo en Colombia durante los años 2002 al 2006. individually or collectivety. Para el primer mecanismo. El análisis de estos dos mecanismos permite rastrear formas conscientes e inconscientes de legitimar intereses ideológicos en el discurso. se selecciona un corpus en relación con los siguientes criterios: 1. en el segundo.no responde necesariamente a una perspectiva objetiva. que para el caso de este trabajo. . –without privileging any of these choices as more ´literal´ than others. and without thereby also privileging the context or contexts in which one or the other tends to occur as more normative than others (VAN LEEUWEEN. dicha representación se configura a partir de la omisión total o parcial de los sujetos. by reference to their person or their utterance. Para ello se parte de los postulados de Theo Van Leeuwen los cuales se remiten a los diferentes sistemas de designación discursiva que hacen alusión a los actores sociales como medio de representación. la construcción de los actores se hace principalmente a través de los mecanismos de inclusión y exclusión. del interés por estudiar la capacidad de los medios masivos para erigirse como instancias sociales fundamentales en los procesos de construcción del consenso. se elige el periódico El Tiempo por su alto índice de lecturabilidad en Colombia y porque además está en sintonía directa con las políticas gubernamentales de turno. para el autor. La motivación de este análisis parte. razón por la cual este trabajo pretende analizar cómo la prensa escrita. y en segundo lugar. etc. en par ticular el periódico El Tiempo. p. la exclusión. porque se hace necesario reconocer las connotaciones de dicho consenso bajo el supuesto de que los medios responden a los intereses propios de determinadas estructuras de poder. en palabras del autor: How can ´Sayers´ be represented –impersonally or personally. Metodológicamente. 33).ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 209 ¿BACRIM O PARAMILITARISMO? ANÁLISIS DE LA CONCEPCIÓN DE PARAMILITARISMO EN COLOMBIA EN EL PERÍODO 2002-2006 A TRAVÉS DE LA PRENSA ESCRITA Camilo Ramírez Rodríguez Corporación Universitaria Minuto de Dios Adriana Yamile Suárez Reina Universidad Libre El abordaje que desde la prensa se hace a los paramilitares como actores sociales que influyen en la sociedad colombiana -pues detentan un poder y tienen un objetivo claro de acción. 1996. en primer lugar.

el diario . La necesidad de realizar una intervención militar. Pertenecer a la tipología textual de editorial puesto que representa la línea de pensamiento del diario. incluso para quienes en un primer momento los promovieron con la ilusión de brindarse protección frente a la guerrilla. dicho proyecto se les sale de las manos tanto a sus líderes como al Estado. es decir. De allí. 2. situación concebida por Van Leeuwen como sobredeterminación por desviación. señala que es necesario adherirse a las ideas presentadas. reduciendo el análisis a su aparición o a su ausencia. De este modo. Cabe destacar que este trabajo no se basa sencillamente en abordar la exclusión o la inclusión de los actores. el diario caracteriza a los paramilitares como poseedores de un proyecto político que se basa en contrarrestar el avance y la acción de las guerrillas. y se convierte en un problema: Sus más lúcidos dirigentes aspiraron a configurar un proyecto contrainsurgente civil. el diario El Tiempo representa a los paramilitares como un actor con unas condiciones bastante particulares a través del mecanismo de inclusión. así como en la debilidad del Estado colombiano para Construcción. […] los paras se han vuelto un factor de inseguridad. afrontar tales acciones. y la inclusión. el corpus resultante fue de cinco (5) editoriales de cada uno de los años que abarcan el periodo estudiado. tras los primeros acercamientos entre el gobierno y los paramilitares. básicamente. se avecinaban unas elecciones presidenciales que se alimentaron de la idea de ahondar en la confrontación militar como única vía para resolver dicho conflicto. porque estaba comprometida con acabar el problema de los grupos al margen de la ley. por una parte. ya que la exclusión es un indicador de que algo debe ser controlado. el paramilitarismo se concibe entonces como un proyecto paralelo al Estado que comparte un objetivo en común: las guerrillas. propició que la propuesta presidencial de Álvaro Uribe “Primero Colombia” tuviera éxito. pues el Estado los dejó desamparados (II). difusión y ocultamiento del concepto de paramilitarismo A continuación se presentarán los resultados fruto del estudio del corpus mencionado anteriormente. Así. gracias a la categoría de activación. Haber sido publicado entre los años 2002 al 2006. se recrudecieron los ataques armados y. algunos editoriales sugerían que el reto para el de la “ilegalidad” de su accionar pero se concibe como “un mal necesario” en relación con la guerrilla: Losparasi son la máxima expresión de la debilidad territorial del Estado: sectores de la sociedad civil han tenido que recurrir a apoyar la sedición. de alcance nacional. se recurre a la estrategia de atenuar las características negativas del actor. autónomo del Estado pero sin confrontarlo. a apelar a la justicia privada y hasta a confabularse con el narcotráfico para defender su vida y sus intereses ante el acoso de la guerrilla. Lo que se busca a través de estas categorías textuales es analizar el porqué de dicha ausencia o presencia. presidente entrante era establecer un diálogo y buscar una posible desmovilización de dichos grupos. por su parte. Ellos sencillamente se independizaron de sus progenitores y ahora esquilman a todo el mundo (I) No obstante. De acuerdo con lo anterior. En primera instancia. este problema se da en términos 2002 – 2003: El fracaso de un “proyecto político” En los primeros meses del año 2002 se generó un clima de tensión pues. por otro.210 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Referenciar al paramilitarismo en tanto actor del conflicto armado colombiano. No obstante. 3. Bajo esta situación.

En este periodo. Su verdadero y único interés es aprovechar las expectativas de un desarme paramilitar y el poder intimidatorio de la extradición. Pero sin olvidar tampoco que para muchos es mejor tener alguna seguridad que no tener ninguna. disminuye la responsabilidad correspondiente a los paramilitares con la estrategia de beneficialización. una posible intervención externa no enfrenta el fenómeno paramilitar sino que lo toca 2004: Desmovilización: un problema “Porque. el proceso no pinta bien (VI). promotores de desarrollo social en los barrios”.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 211 cambia no sólo la nominación del actor. “Boy scouts que han aprendido a hacer la guerra en los últimos meses” (III). es mejor tener siete milparasi en armas que tener diez mil. pero muy pragmático. que fortalecerá la confianza ciudadana en el Gobierno y el prestigio del presidente Álvaro Uribe Vélez” (V). las negociaciones son calificadas desde el diario como “empantanadas” y la responsabilidad de este impase recae únicamente en el gobierno: Luego del fracaso del Referendo. como diría Maturana. Tras los primeros diálogos y algunas “desmovilizaciones” se plantea una Ley de Alternatividad a través de la cual se negociará el . sin importarle los crímenes cometidos por los paramilitares en Colombia. el Gobierno podría estar frente a un nuevo traspié: el fracaso de las conversaciones con los grupos paramilitares con vistas a su desmovilización. “simples pandilleros”. entre otras. ya que a través de la categoría de la exclusión parcial se cataloga de “más dura” la tarea del gobierno frente a las guerrillas sin el “apoyo” que brindaban los grupos paramilitares: “pues la lucha contra las Farc. la situación del discurso combativo se utiliza como trampolín para la futura reelección ya que. Esta situación conlleva ambigüedad pues se da una justificación o valoración benéfica de dicho grupo: “PDS. En esa medida. se cuestionan las posibles solicitudes de extradición. el “fracaso” del proyecto político paramilitar y su posible desmovilización fue el éxito político del gobierno Uribe: la idea de reelección. desmonte total del paramilitarismo. El diario hace uso de la estrategia de activación para poner en el ojo del huracán al gobierno y su aparente poca voluntad de diálogo. A pesar de la insistencia de algunos de estos grupos en realizar hechos demostrativos de su intención de desmovilizarse. Las primeras desmovilizaciones de miembros de los paramilitares. El éxito de dichos diálogos fortalece la credibilidad en el gobierno del presidente Uribe: “Sin duda. se mantiene la ambigüedad en relación con la caracterización del actor paramilitar. la dejación de armas constituye un éxito político para el Gobierno en su política de Seguridad Democrática. es mucho más complejo y exigente. en cuatro años no es posible realizar un proceso de desmovilización y lo que menos se quiere es incurrir en los errores de los gobiernos pasados: “Muy probablemente la promesa oficial de desarticularlos completamente antes de terminar la actual administración no se pueda cumplir” (IV). la intervención de este país se restringe al provecho que pueda sacar de la situación. De otro lado. para dar un golpe sustantivo al narcotráfico… (VII). por supuesto. dicha ley genera una fuerte polémica que divide la opinión pública ya que pasar del “dicho al hecho” no es tan fácil como inicialmente se creía. situación expresa de los Estados Unidos: Lo de Estados Unidos. en conjunto con la minimización del actor y sus acciones realizada por el diario. Sin embargo. Por tanto. Adicionalmente. asimismo. sino las características de sus acciones. Como se puede apreciar. “Grupo antigurrillero”. presenta el diario.” (II) tangencialmente. lo encuadran como un ente con el cual se puede dialogar. que así sería más dura que nunca…” (VII).

y la poca efectividad del Estado frente a un conflicto en dos frentes: 2005 . el proceso de desmovilización de los paramilitares no se consagra a una deidad católica de manera directa. Un ejemplo de ello es cuando se cuestiona el valor institucional de la Corte Penal Internacional como ente de justicia: La Corte Penal Internacional no es el irresistible y omnipotente ángel vengador que nos pintan. Los argumentos esgrimidos son la capacidad de su poder militar. sirvió para que finalizara este cruento episodio. La redención a la cual se hace alusión en las líneas anteriores se presenta en los editoriales a través del apoyo a la Ley 975 de 2005 o Ley de Justicia y Paz. esto en razón a que a la paz se llega a través de la redención. según cuentan los ciudadanos de la época. el recrudecimiento de los ataques por parte de la guerrilla. En esa misma dirección. en varios editoriales se reitera que es mejor aceptar dicha ley antes de una posible reacción violenta de los paramilitares. Una intervención externa sería no solo la piedra en el zapato para el proceso. Este documento es calificado en el diario como “lo mejor” que se podría lograr en esta coyuntura a pesar de lo que sus opositores afirman: “Y. el país del Sagrado Corazón: ¿una “justicia” confesional? Colombia fue consagrada en época de la guerra de los mil días al cuidado del Sagrado Corazón. en efecto. tal como reza el adagio popular: “el que peca y reza empata”. En dicha falacia se apela a la minimización de la influencia de organismos internacionales que están interesados en que este proceso no quede en la impunidad. cómo dicho proceso puede incurrir en la impunidad. En épocas más recientes. incluso por encima de la justicia. se insinúa en una sola editorial. podrían actuar como una fuerza desestabilizadora y atacar violentamente instituciones y políticas del Gobierno.el hecho de que la guerrilla posiblemente retome el poder. aun cuando también más bajo que el que anhelan los paramilitares” (VIII). […] Los paramilitares están hoy más fuertes que nunca y sus posibilidades de perduración y expansión hacia el futuro son prácticamente ilimitadas.2006: Colombia. Para justificar la viabilidad de la ley se hace uso del contraste: “ni las Farc ni el Eln aceptarán dicha ley por considerarla demasiado dura para ellos. La paz también es un acto de soberanía (VIII). sino que también traería como consecuencia –implícita. como la referenciada en los editoriales de los años 2005 y 2006.212 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS De otro lado. sino que por el contrario se concibe dicho proceso desde una “justicia” confesional. Esto podría coincidir con una reactivación del accionar armado de la guerrilla. Lo que es más real es la posibilidad de la perpetuación y el agravamiento de la guerra en Colombia si no se desmovilizan pronto los paramilitares con un acuerdo nacional inspirado en el principio de la paz como valor supremo. aun cuando Pero mañana. parece que se reviviera una parte de la historia. para llegar a un acuerdo de paz tal vez el nivel de perdón tendría que ser más alto que el que finalmente otorgará la Ley. Dicha consagración. Aquí se invocan nuevamente las voces de la cultura: “el . a través del uso de la exclusión parcial. y entonces tendríamos un escenario catastrófico: un Estado precario atacado simultáneamente por dos ejércitos irregulares. Aquí. y no a través de la justicia. en medio de un proceso electoral decisivo. (VIII) Otro de los argumentos que sustentan la “confesionalidad” de la justicia se basa en la falacia de la autonomía del Estado colombiano. pero automáticamente subvierte esta apreciación a través de un cuestionamiento implícito en sus líneas: si se buscara una paz definitiva la disposición de “perdón” debe ser mayor ¿Qué estamos dispuestos a dar por una paz definitiva? ¿Cuál es su costo? simultáneamente la estimen demasiado blanda para los paramilitares” (IX). para presionar una negociación en condiciones más favorables.

Ahora bien. Asimismo. Adicionalmente. el paramilitarismo desde su forma nominal no existe. el uso recurrente de contrastes ambiguos normalmente entre los paramilitares y la guerrilla no deja una posición clar a. verdad y reparación que hasta el momento no se han cumplido. y por el contrar io. se hace uso de la categorización al poner en el mismo racero a aquellos que pertenecieron a grupos paramilitares y no se desmovilizaron y al delincuente común. atentan contra las instituciones estatales. Al hacer un acercamiento para resolver la situación legal de esa “estructura social” se visualiza una posibilidad política para el Estado de sacarle partido al conflicto. así como también hace eco del proceso que pretende sustentar su impunidad. sino. se alude al fenómeno paramilitar con los términos “desmovilizados” o “no desmovilizados” de acuerdo con la favorabilidad o no respecto a la Ley de Justicia y Paz. se utiliza una disociación por contraste. se resalta entonces la necesidad de un diálogo a cualquier precio a partir del miedo.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 213 enemigo de tu enemigo es tu amigo” y la ley debe tratarlo como tal. que a su vez conforma una “estructura social” -descompuesta. Aquí la estrategia es utilizar la exclusión parcial en razón a que no se puede hablar de paramilitarismo ya que este concluyó en el proceso de desmovilización de sus miembros. los editoriales del año 2006 se enfrentan a la diatriba de mencionar o no al paramilitarismo. En esa misma línea. Respecto a las estrategias. se justifica disimuladamente la acción paramilitar bajo la idea del “mal necesario”. pues se dice que estas nuevas “manifestaciones criminales” no comparten el mismo objetivo del gobierno. Así. Además. Sin embargo. sino que ahora. . este instrumento jamás contestó al interrogante del ¿Por qué no reconocer que hay conflicto armado? El simple hecho de analizarlo implicaría revisar la noción de justicia. como lo afirma el mismo diario-. funcionó como mecanismo para que miles de paramilitares se desmovilizaran. Por otra parte. Posterior a la aplicación de dicha ley. la Ley de Justicia y Paz. En el periodo estudiado se evidencia cómo la representación del actor justifica las políticas del Estado y legitima la violencia que este órgano ejerce en defensa de la comunidad. se da cuenta de dos ejes particulares: las estrategias empleadas para velar el fenómeno y la validación del proceso de impunidad. se encuentran: la asignación del rol para mostrar a dicho actor como poseedor de una “estructura política” -aunque problemática-. Así. enquistada. No obstante. el problema ahora es que es de difícil identificación. la beneficialización se utiliza para destacar ese potencial bélico del que disponen los paramilitares. se conceptualiza el fenómeno al afirmar que para concebir un grupo como paramilitar es porque dicho grupo tiene nexos con el Estado: La diferencia central entre estas nuevas manifestaciones criminales y los grupos paramilitares es que su enemigo ya no son solo los grupos guerrilleros o sus bases de apoyo social y político. las instituciones estatales” (x) Consideraciones finales El anterior análisis relacionado con el concepto de paramilitarismo presentado por el diario El Tiempo permite establecer los mecanismos a través de los cuales la representación del fenómeno es de difícil identificación y atenúa la importancia de abordar dicha problemática. igualmente. basado en acciones hechas pero presentadas como hipotéticas en un futuro próximo. aunque imperfecta. pero como fenómeno estructural endémico de la sociedad colombiana sí.

oculta no solo un nombre sino un discurso que busca la impunidad. En: CONTRERAS. 24 de noviembre de 2003. Entonces. Madrid: Editorial Cátedra. 28 de noviembre de 2003. El Tiempo. La lógica entonces de difundir el éxito de la desmovilización paramilitar trae consigo no solamente la supresión del nombre sino el cambio en la concepción del fenómeno. 8 de abril de 2005. 189 . Al respecto. 4 de julio de 2003 III. según haya dictaminado el discurso de autoridad dominante para la formación social en la que política y/o administrativamente se encuentre integrado el individuo (FERNÁNDEZ. VIII. Juan Carlos. (1996). El Pantano Paramilitar. El Tiempo emplea esta retórica bélica al evadir la responsabilidad de utilizar la nominación del fenómeno paramilitar como tal. . p. El Tiempo. In C. El Tiempo. Readings in Critical Discourse Analysis. Texts and practices. La desmovilización de los paramilitares. X. el proceso de significación de este discurso se configura a partir de unas condiciones de producción específicas que están determinadas por la filiación del medio con la ideología que proclama el gobierno de la época a través del uso de la retórica bélica. 189) Referencias bibliográficas FERNÁNDEZ. 4 de octubre de 2004. 8 de julio de 2005. IX. ¿Tercera generación?. Así. Una desmovilización inédita. (2004) El Capitán América nunca supo convencer a los malos. 1989. Caldas-Coulthard & M. IV. Gracias a la exclusión parcial de este actor se legitima la creación de un discurso sobre la defensa de las normas. Desmovilización de autodefensas. No maduros para el perdón. ahora ya no existe el problema. V. su impunidad. 7 de noviembre de 2003. El Tiempo. VI. F. El Tiempo. El futuro de los paramilitares.224 . El Tiempo. Culturas de guerra. Coulthard (Eds. ANEXOS: Noticias I. De esta manera el “buen ciudadano” debe ser sobre todo un “buen patriota” o inscribirse en cualquier otro patrón de lo que es “correcto” en tiempo de guerra. y se propicia. Leyendo en los cómics más allá de la adolescencia. Fernández afirma: La retórica bélica tiene como finalidad explicar razones. & SIERRA. se excluyen de manera sistemática los aspectos ideológicos y estructurales de la violencia en Colombia. T. Este mecanismo conlleva la impunidad puesto que al no presentarse nominalmente al fenómeno. El Tiempo. El Tiempo. The representation of social actors. la prensa al caracterizar al actor por su nombre determina su identidad. 5 de junio de 2006. El Tiempo. En esa medida. Justicia y paz: 2005 y 2016. El Tiempo. F. 7 de noviembre de 2003. II. pero cuando no hay actor – porque es elidido. por ende. El Tiempo. VAN LEEUWEN. London: Routledge. 2 de agosto de 2002. p. sin encontrar argumentos que hagan imposible el rechazo popular a las acciones armadas y a elaborar relatos dirigidos a crear una ilusión al mismo tiempo de victimismo y de orgullo patrio (…). R.214 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS De acuerdo con esto último.). El ralito y mi abuela. al difundir el desvanecimiento de la categoría “paramilitar”. Es más. se limpia el nombre del gobierno sin perder ese brazo oscuro de acción. VII.es difícil identificar quién es el responsable de los hechos violentos. El pantano paramilitar.

DELGADO se pregunta: “¿Se debió a un precoz individualismo el . en el cual se embarca con unos romeros siete años después. que a los doce años huye de su casa paterna a Alejandría para ejercer allí la prostitución y abandonarse a toda clase de pecados. quien la entierra ayudado por un león y confirma la historia de la penitente en la abadía de San Juan. sino sólo el ejemplo de santidad frente al cual resulta confrontado Gozimás. Intentando encontrar una explicación para la transformación de la leyenda en el paso de la versión inicial oriental a la occidental.Universidad de Buenos Aires La leyenda de Santa María Egipciaca. en la biografía de la santa2. ya en su versión occidental. La versión occidental de la leyenda. Estas redacciones iniciales de la historia de la santa constituyen la versión oriental de la leyenda de María Egipciaca como prostituta arrepentida. una fuerza sobrenatural le impide la entrada al templo el día de la Ascensión. En un viaje a Jerusalén. se convierte y cambia absolutamente de conducta. una de las santas más populares y paradigmáticas durante la Edad Media. pasa cuarenta y siete años en el desierto. Por indicación divina y como penitencia por su vida anterior de pecado. tiene como primer testimonio escrito un texto griego compuesto por Sofronio en el siglo VII que se traduce luego al latín en la segunda mitad del siglo VIII. narra la vida de una joven nacida en Egipto. María. un monje que la descubre como penitente en el desierto y que encuentra en ella el modelo de humildad necesario para variar su conducta y reorientar su vida espiritual1. centrándola en María de Egipto y relegando a Gozimás a ser sólo el testigo de la santidad de la nueva protagonista. después de lo cual ella dirige una larga oración a la Virgen María. la vida de la santa se transforma. de la que es miembro. que comienza a desarrollarse probablemente en Francia a partir del siglo XII. cambia totalmente el eje de la historia. María no es la protagonista del relato. entonces. La historia. extendiéndose luego el relato de su vida y muerte santas desde allí a toda la cristiandad. La narración de la vida de María se concreta en tercera persona y asume un estricto orden cronológico. padece incontables sufrimientos y finalmente muere en una muerte santa que presencia el monje Gozimás.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 215 INICIOS DE LA SANTIDAD MEDIEVAL EN LENGUA CASTELLANA: TRADUCCIÓN Y PROTAGONISMO FEMENINO EN LA VIDA DE SANTA MARÍA EGIPCIACA Carina Zubillaga SECRIT (IIBICRIT-CONICET) . en ellas. donde sobrevive con sólo tres panes.

en los lineamientos del IV Concilio de Letrán de 1215. Vida) del siglo XIII traduce la francesa Vie de Sainte Marie l’Egyptienne con bastante fidelidad y constituye probablemente la hagiografía castellana más antigua de las conservadas por escrito (BAÑOS VALLEJO. como en este caso de la leyenda de María Egipciaca. lo que la hace contrastar aún más con la producción hagiográfica castellana más relevante del período: la escrita por Gonzalo de Berceo en el marco del mester de clerecía como escuela poética y de la estilizada cuaderna vía de versos alejandrinos monorrimos4. Por tal motivo. a la difusión de las órdenes mendicantes. 98). 1980. La evolución de las leyendas hagiográficas atraviesa un umbral literario crítico en su traslación a las lenguas vernáculas (ROBERTSON. Es anónima y está compuesta en verso irregular. sino que además cambian la prosa por el verso. p. El poema francés del siglo XII y luego el poema hispánico del temprano siglo XIII –que a su vez lo traduce– trasladan la leyenda no sólo del latín. más amplio que un concilio singular –por más importante que éste sea– y además anterior3. 305). La Vida de Santa María Egipciaca (en adelante. un verdadero proceso de adaptación cultural. en una doble orientación que se manifiesta tanto en el ritmo y estructura de los poemas como en su variación narrativa. p. Ante la santidad . 2005. un cambio tanto social como devocional. Frente al ideal imposible de feminidad que la Virgen María encarnó. será el receptor privilegiado de la reformulación de las viejas leyendas hagiográficas que contemplarán inversiones de protagonismo. Se trata de la necesidad de la Iglesia de orientar el proceso de conversión cristiana particularmente hacia los laicos. p. La traducción de las vidas de santos desde el latín a las lenguas vernáculas que se desarrolla en Europa occidental a partir del siglo XII testimonia. 2004. sin embargo. Un nuevo público. preeminencia de la figura femenina y un lenguaje accesible para todos como parámetros determinantes. p. A la popularidad de la Virgen como intercesora y como anti-tipo de Eva se suma. Su respuesta se enfoca. 185). centrado primeramente en la lengua y en la apertura a la laicidad que supone el acceso de historias y leyendas –antes circunscritas especialmente al ámbito monástico– al conjunto de los fieles cristianos. O. como bien lo testimonian numerosas leyendas y devociones a santos que se intensifican ya a partir del siglo XII. de manera paralela. La manera en que se transformó la leyenda de Santa María Egipciaca en su paso a las lenguas vernáculas revela sin dudas una adaptación cultural expresada primera y fundamentalmente en lo lingüístico. cuyo eje en los sacramentos del arrepentimiento y la penitencia se piensa puede haber impulsado relatos e historias como ésta de la pecadora arrepentida. como sucede también con otros tantos estudiosos. también: “¿Fue deliberado el desdén del desconocido autor del siglo XIII hacia el protagonismo de Zósimas?” (DELGADO. fundamentalmente. que contribuyó al desarrollo y avance de la espiritualidad femenina 5 . aunque igualmente difícil de alcanzar. el culto también creciente de las prostitutas arrepentidas. 184-185). 2004. la devoción paralela a las penitentes tal vez resultó la respuesta posible.216 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS que se amplificara el protagonismo de la pecadora penitente y se la caracterizara físicamente allí donde la versión original se presentaba en forma tan espartana?” (DELGADO. El fenómeno religioso innovador que se está produciendo en ese momento histórico es. y hacerlo a través de las lenguas vernáculas y de las historias de santos más accesibles y cercanos a los fieles como principales estrategias espirituales. se prefieren el verso a la prosa y las imágenes plásticas al convencionalismo retórico. mayoritariamente laico. Entre los fenómenos religiosos más relevantes del siglo XII se encuentra asimismo la extensión del culto mariano debido.

Esta idea se reiterará en otros lugares de la misma plegaria. por ejemplo en los v. en este sentido. Esta relación innegable entre la Virgen y María de Egipto presente en los cultos compartidos está tematizada en el poema en el momento crucial de la conversión de la pecadora. Este encuentro entre María Egipciaca y la Virgen María en el espacio de la oración refleja con seguridad la práctica devocional de gran cantidad de los fieles del período. que se vuelve entonces imagen en el poema de cómo rezarle a la Virgen. tanto María Magdalena –el prototipo básico de la penitente– como María Egipciaca dramatizan en sus respectivas leyendas a la santidad como un proceso arduo y complejo pero posible para cualquier pecador. La dramatización de este proceso de conversión habría resultado un vehículo privilegiado en Europa para la exposición de la doctrina cristiana. en principio a partir de la yuxtaposición entre la primera persona de quien ruega y la segunda persona que es rogada en el nombre que comparten (“tú María e yo María”. visible particularmente en el diseño biográfico de la vida de María y su transformación espiritual concebida como un proceso tan integral que abarca no sólo su espíritu. El proceso de conversión de María Egipciaca. 483-484)8. A pesar de compartir el mismo nombre.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 217 innegable de la Virgen María. que elevarían sus súplicas tanto a la Madre de Dios como a la pecadora arrepentida. se expresa básicamente en su Vida a partir de su imagen física. pero extendiéndose luego a una oposición que parte de la correspondencia entre una y otra y por eso deviene finalmente en identificación gracias a las logradas simetrías formales del fragmento. duenya. 533-534). cuando en Jerusalén le dirige una oración a María. conformando a través de la sucesión de estas paradojas9 la figura de la Virgen María como la única en la cual pueden reconciliarse todas las diferencias10. sin dudas. sino también su cuerpo. lo que las prostitutas arrepentidas representaron fue justamente el proceso de transformación del pecado a la gracia visible en las figuras contrapuestas de Eva y de la Virgen. En este punto la oración alcanza su máximo lirismo. la intercesora por excelencia entre su Hijo y todo pecador11. 517-518: “Grant maravilla fue del padre / que su fija fizo madre”. como expresión acabada de la posibilidad de cambio de todo cristiano. contrastada como la representación gráfica de un antes y un después del . / mas mucho eres tú luenye de mí” (v. reconociéndola como aquella que personifica en sí misma todo el misterio de la Encarnación : “… ¡Ay. arrepentimiento y penitencia las leyendas de prostitutas santas comunicaron la doctrina cristiana a los lectores u oyentes como experiencias concretas a ser compartidas antes que como conceptos abstractos6. la pecadora reconoce en su oración que las 7 diferencias las separan: “Un nonbre avemos yo e ti. Narrativamente. en el cual María se muestra arrepentida al oponer su pecado a la majestad de la Virgen. dulçe madre. María como Madre del Redentor es también. La plegaria se revela a partir de estas paradojas y oposiciones que la construyen como un espacio de auto-confrontación. así como la humildad de la Madre de Dios es confrontada con el orgullo de María de Egipto. v. del pecado a la santidad. reconociéndose entonces en la Madre de Dios como el modelo de la santidad que finalmente alcanzará. ya que al desarrollar actos de conversión. / que en el tu vientre toviste al tu padre!” (v. En este sentido. A la castidad de la Virgen se opone la lujuria como principal característica de la pecadora. lo central en la nueva versión de la leyenda de la santa es el protagonismo femenino. 535). más allá de la gravedad de su pecado. A la dinámica de la paradoja de la Virgen María como Madre de Cristo el poeta suma también a continuación la dinámica de la oposición entre ambas Marías.

/ tornaron blancos e suzios” (v. / como la rosa quando es granada” (v. 213-214). 738-739). y lo testimonia en relatos hagiográficos como su Vida hispánica centrados en el arrepentimiento y en la dinámica de la penitencia como horizontes de todo cristiano. / mucho eran negras e pegadas” (v. 740-741). en el segundo se destaca el negro como imagen gráfica de la fealdad y de los atributos físicos perdidos. en una pérdida de carnadura que se evidencia claramente en la casi tangible sequedad de su cuerpo sometido a las inclemencias del desierto. como María Egipciaca. la Edad Media asume con interés creciente el culto de las prostitutas arrepentidas. El eje legendario del modelo de la prostituta arrepentida está cifrado en estos dos retratos contrastantes de María Egipciaca. entre quienes se difundían . 736-737).218 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS arrepentimiento presente en el centro del poema en la oración que ya hemos referido. al arrepentirse de sus pecados “en sus pechos non avía tetas. por otro. en el segundo retrato. que eran ruvios. El poeta organiza estos retratos de María de modo valorativo. 221-222). y el plateado y dorado de su vestimenta– y una vivacidad evidente –que aporta el colorado– que contrastan con la oscuridad interior que ese brillo externo necesariamente supone. con la leche de las ovejas. en tanto cuando era bella “la faz tenié colorada. mientras como prostituta “de sus tetiellas bien es sana. que eran alvas. sucio y seco de la penitente– remite valorativamente a su purificación interior. / blanquas como leche d’ovejas” (v. Las comparaciones que sobreabundan en la descripción de la joven y hermosa pecadora. ya en el desierto “tan negra era su petrina / como la pez e la resina” (v. en su vejez se le vuelve “la faz muy negra e arrugada / de frío viento e elada” (v. que tiene entre sus principales manifestaciones el modelo de las penitentes. 724-725)12. Baste citar sólo los ejemplos más destacados de esa contraposición para imaginar cómo pudieron haber sido recibidos por los hombres y mujeres del Medioevo. 217218). si joven tenía “su cuello e su petrina. El contraste de la descripción primero de la joven. como penitente “las sus orejas. Mientras en su juventud María Egipciaca “redondas avié las orejas. / como yo cuido eran secas” (v. Además de aquellas santas que manifiestan vocación de santidad desde la infancia. con la rosa o con las manzanas. 732-733). mientras que en el primero sobreabunda el blanco como representación de la belleza juvenil. 215). la impureza física –dada por el cuerpo opaco. dejándose el blanco sólo como término de comparación o para describir los cabellos envejecidos de la anciana: “e los sus cabellos. tal como la flor del espina” (v. 225-226). connotando una materialidad viva y colorida. sólo que invertido. se oponen luego en el segundo retrato de la penitente a la resina. En ambos retratos el mismo esquema de color predomina. por el contrario. en su vejez posee “braços luengos e secos dedos. que podría reconocerse fácilmente en el pecado inicial de lujuria de María de Egipto y eso le daría la posibilidad de no ver como tan lejana la promesa de santidad. Seguramente los laicos. en tanto en su juventud “braços e cuerpo e todo lo al / blanco es como cristal” (v. que asocian por un lado belleza con juventud y corrupción interior y. la presencia e importancia de la santidad femenina en los siglos XII y XIII no es un fenómeno aislado en el marco de las nuevas prácticas devocionales y la expresión de la piedad del período. 726-727). / quando los tiende semejan espetos” (v. 223-224). hermosa y pecadora María y luego de la vieja y espantosa penitente asume la forma de dos extremos tan irreconciliables como impactantes. y el negro se emplea sólo para los ojos: “ojos negros e sobreçejas” (v. / tales son como maçana” (v. asignándole en la primera descripción una luminosidad exterior –dada por el blanco de su cuerpo. En este sentido. fealdad con santidad y vejez.

Plena Edad Media (siglos XI-XIII). ingleses Particularmente en España. el eje del cambio devocional que se produce a partir del siglo XII es la veneración a la figura de Cristo en consonancia con el descubrimiento de la intimidad individualizadora de la persona humana (FERNÁNDEZ CONDE. Madison: Ed.: Saints and their Authors: Studies in Medieval Hagiography in Honor of John K. En: CAZAL. CRUZ-SÁENZ. 2005. se vincula con la creciente devoción a la Virgen María como Madre del Salvador y propicia una sensibilidad que define nuevas manifestaciones religiosas durante el período. Barcelona: Ed. presentada particularmente a través de las imágenes contrastantes de su cuerpo. M. (1990): Notes on the Fourteenth-Century Spanish Translation of Paul the Deacon’s Vita Sanctae Mariae Aegyptiacae. BAÑOS VALLEJO. Puvill. Exeter: Ed. Knopf.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 219 de manera privilegiada estos nacientes textos en lengua vernácula. texto y vocabulario. Francisco Javier (2005): La religiosidad medieval en España. Esa impronta humanizadora eleva. SEIDENSPINNER-NÚÑEZ. Joseph T. un ejemplo cercano y posible de los alcances inconmensurables de la gracia cristiana de la salvación. 452). Manuel (1970-72): “Vida de Santa María Egipciaca”: estudios. a santas como María Egipciaca como modelos con los cuales los fieles devotos pueden relacionarse e identificarse más directa y afectivamente. 97-111. Biblioteca Nacional BN 780). p. (1977): La vida de Santa María Egipcíaca: A Fourteenth-Century Translation of a Work by Paul the Deacon (Ms. WARNER. Lynn Rice (1980): The Aesthetics of Morality: Two Portraits of Mary of Egypt in the Vida de Santa María Egipciaca. p. 41-45. N° 2. Françoise: Pratiques hagiographiques dans l’Espagne du Moyen Âge et du Siècle d’Or. CSIC. La dudosa ejemplaridad de las santas en los poemas medievales. E. Dayle (1992): The Poetics of (Non)Conversion: The Vida de Santa María Egipçiaca and La Celestina. Jane E. Alfred A. vocabulario. En: Revista de Estudios Hispánicos. N° XXXVIII. Schiavonne de (1979): The Life of Saint Mary of Egypt: An Edition and Study of the Medieval French and Spanish Verse Redactions. Woodbridge: Ed. . En: Medievalia et Humanistica. p. Referências bibliográficas ALVAR. SNOW. p. En: Medioevo Romanzo. Toulouse: Ed. 305-327. B. Ernesto (2004): Mariales franceses. versificación. N° 18. RAE. Marina (1976): Alone of All Her Sex: The Myth and the Cult of the Virgin Mary. Julian (2006): The “Mester de Clerecía”: Intellectuals and Ideologies. WALSH. 83-96. 95128. p. edición de los textos . Meretrics. Fernando (2005): Una “pecatriz” y una mística. Asturias-Oviedo: Ed. Esa devoción. de (1964): “La Vida de Santa María Egipciaca” traducida por un juglar anónimo hacia 1215: gramática. Université de Toulouse-Le Mirail. ANDRÉS CASTELLANOS. Madrid: Ed. 183-208. DELGADO. John K. ROBERTSON. encontraron en la transformación espiritual de María de Egipto. The Twelfth-Century French Life of Saint Mary the Egyptian. N° VII. CORTINA. y españoles en la creación de la vertiente occidental de la leyenda de Santa María Egipcíaca: hacia el nuevo modelo hagiográfico de los siglos XIII-XIV. and BUSSELL THOMPSON. New York: Ed. Walsh. p. Madrid: Ed. Duncan (1980): Poem and Spirit. FERNÁNDEZ CONDE. WEISS. p. fuentes. En: Hispanic Journal. asimismo. Hispanic Seminary of Medieval Studies. María S. Tamesis. University of Exeter. que se centra en Jesús Niño y en los episodios de su vida oculta. Ediciones Trea-Ediciones de la Universidad de Oviedo. En: CONNOLLY.

en particular María Magdalena (WALSH y BUSSELL THOMPSON. 2004. p. 10 En esta oración la Virgen María no es meramente una persona a quien la pecadora ora. p. la Vida se conserva en un manuscrito de fines del siglo XIV. ver SNOW (1990. 9 La paradoja está incluso reforzada con el empleo de algunos dispositivos ornamentales. Existen ediciones del poema hispánico de ANDRÉS CASTELLANOS (1964). 6). 8396). cuando la difusión del culto mariano se extiende de manera sistemática entre los laicos. 6 La función catequética de este tipo de leyendas prevalece sobre los sermones o la enseñanza abstracta (SEIDENSPINNER-NÚÑEZ. sin embargo. 1986. 187). el Libro de Apolonio. Para profundizar en los diversos aspectos del culto mariano. 3 Aunque es un indicador crucial de los asuntos eclesiásticos contemporáneos. 1980. 11 “De todas las ideas difundidas desde los albores de la Alta Edad Media. 8 Cito según mi propia transcripción del poema que integra el Ms. como el uso de la siguiente metáfora: “E fue maravillosa cosa / que de la espina salió la rosa” (v. 41-45) ya señaló la importancia del empleo del color en las dos descripciones contrastantes de María Egipciaca. 7 Desde comienzos del siglo XII. quizá la que mayor influjo tuvo en los siglos posteriores fue la idea de la Virgen como intercesora entre el pecador devoto y Cristo. 1980. y otro que es una reescritura de los Evangelios Apócrifos. luego de más de cuarenta años de penitencia en el desierto (ROBERTSON. la reconciliación universal de los contrarios (ROBERTSON. ver WARNER (1976). que es el aspecto más pragmático de su culto…” (DELGADO. 12 CORTINA (1980. del cual estoy preparando una edición crítica conjunta. p. . 1992. ALVAR (1970-72) y CRUZ-SÁENZ (1979). 4 Llamativamente.220 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Notas 1 Para ahondar en esta versión oriental de la leyenda de Santa María Egipciaca. mediadora entre Dios y la humanidad a causa de la Encarnación de la divinidad que la convirtió en una segunda Eva. 100). orientando particularmente sus observaciones y su análisis al carácter figural que adquieren esos retratos. 313). sino un principio formal encarnado. p. junto con un poema escrito en cuaderna vía. la influencia directa del IV Concilio de Letrán sobre la leyenda occidental de Santa María Egipciaca no debe ser exagerada (WEISS. K-III-4. madre de todos los que viven en un sentido espiritual. el Libro de los tres reyes de Oriente. 318). p. p. p. la santidad de la Virgen María se basó en su rol como theotokos (Madre de Dios). el K-III-4 de la Biblioteca de San Lorenzo de El Escorial. 519-520). p. 84). Esc. 5 Sólo un secreto oculto en la psiquis medieval explicaría de manera acabada la fascinación de la leyenda de las prostitutas arrepentidas. 2 La prinicpal implicancia del paso de la narración de la vida de la santa a su biografía es una secuencia ininterrumpida desde su infancia hasta su muerte. 2006.

ele presenciava as dificuladades e . posteriormente. à medida em que passa a ser captada pela História. Sendo recebido com festa e música. ou. através de seu arquivamento. O antropólogo visitou Chungui. em 1996. porque atua de maneira revisionista sobre os eventos do passado selecionando-os. pela primeira vez.UFMG Seja a memória uma configuração cultural. (2009). filosofia. atua contra o amnésia e manifesta váriadas versões sobre os espisódios que pertencem. com a finalidade de difundir informações sobre como vivia e se organizava aquela população. a Memória. DE EDILBERTO JIMÉNEZ: DESENHANDO A MEMÓRIA COLETIVA Carla Dameane P. ou. capacidade investigada por diversas disciplinas (teologia. de Souza PG . pois.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 221 CHUNGUI: VIOLENCIA Y TRAZOS DE MEMORIA.Peru . em seu permanente exercício. por exemplo. em toda a Região das Fazendas (Oreja de Perro)3. sua presença na comunidade passa a ser constante. como membro da equipe profissional do Centro de Desenvolvimento Agropecuário (CEDAP) e condutor do programa de rádio Rimaykusunchik4. evitando e ao mesmo tempo promovendo o seu esquecimento. estudos literários e outros). que Edilberto Jiménez tornou-se um interlocutor de testemunhas da violência. Foi num contexto prévio aos trabalhos da CVR . além de determinar as responsabilidades jurídicas sobre tais acontecimentos e apresentar as consequências dos abusos contra dos direitos humanos. E se a História assume a função de um tribunal. a um evento histórico específico. em Chungui e. em formatos de escritura diferenciados. psicologia sociologia. com a finalidade de reunir e escrever uma História respaldada pela heterogeneidade de versões e sujeitos envolvidos. A necessidade de discurtir e apurar estes eventos aciona a comunidade nacional. torna-se um recurso privilegiado de acesso ao passado. O Relatório Final da Comissão da Verdade e Reconciliação 1 do Peru resulta da reunião de uma série de narrativas sobre a recente História dos conflitos políticos vividos pelo país. vía construção de imagens possíveis de serem transmitidas oralmente. nos anos entre 1980 e 2000 2 Essa comissão trabalhou com o objetivo de esclarecer a natureza do processo e dos fatos da guerra interna.

muitas delas falantes do quéchua. amparada por outros códigos. Jiménez passou a ser membro tanto dessa comissão. ou. tortura. 2007. Como se estivessem reconstituindo cada um dos crimes (massacres. correspondendo aos relatos. ativamente. que possuem dificuldades para ler e escrever. degradantes. infanticídio. 2007. eram muitas vezes supervisionados pelas testemunhas que lhe diziam “así como estás dibujando. desenhar e mostrar Em Chungui: violencia y trazos de memoria aparecem os relatos orais recolhidos por Jiménez. Foi nesse ambiente em que se tornou uma figura familiar e rompeu. A denúncia tornou pública a existência de 40 fossas comuns e o registro de mais de 200 desaparecidos. pouco a pouco. así ocurrió”. p.Peru e. por que se referem a fatos reais testemunhados diretamente. quanto da Comisedh (Comissão de Direitos Humanos do Peru). cada um dos testemunhos registrados no livro admite “a iniciativa de uma pessoa física ou jurídica que visa a preservar os rastros de sua própria atividade” (RICŒUR. Envolvido nesse debate. Esses testemunhos formam parte de uma macro narrativa e adquirem um valor de fonte histórica e jurídica. Foi nessa situação de vis memoriae7 que Jiménez registrou os relatos e os transpôs para outro código de escritura associando o trabalho de tradutor à criação dos desenhos e retábulos. Jiménez ouve de diversas pessoas relatos que o deixaram comovido e. dos quais elas haviam sido testemunhas. Por levar em conta a importância da imagem para os povos pré-hispânicos. que não o da letra. a participação de Edilberto Jiménez foi decisiva. desaparecimentos forçados. ou lugares onde ocorreram tais delitos. durante o processo de produção desse livro. analfabetas. horror sin lágrimas… una historia peruana de Luis Felipe Degregori6. penso que. No documentário Chungui. as testemunhas voltavam aos locais onde haviam fossas comuns. traduzindo lembranças-imagens. sequestros. O material recolhido foi entregue a CVR . a essa comoção. indiretamente pelos sujeitos enunciativos. violência sexual contra mulheres. no intuito de responder. recordadas oralmente. porém ele cumpriu uma função extensiva a de escrivão. execuções arbitrárias. por causa disso. aos 20 minutos Jiménez conta sobre como o esboço dos desenhos. Além disso. 178). tratamentos Recordar. do continente latinoamericano.222 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS participava das discussões e atividades relativas ao cotidiano dos moradores. Na medida em que “fazer história” relacionase com a necessidade de escrever e arquivar. para lembranças-imagens visuais5 . Além de traduzir a oralidade para a escrita. entre outros). Jiménez atuou diretamente sobre as recordações das testemunhas. o idioma quéchua para o castelhano. começou a anotar os testemunhos orais e a esboçar seus primeiros desenhos. Nesse contexto. O silencio sobre a violência em Chuingui chega definitivamente ao fim quando uma delegação desta cidade. realiza uma denúcia formal ao Congresso. com o medo que havia nas pessoas de conversarem sobre os acontecimentos violentos. imaginar. Jiménez devolve às testemunhas. 178) e a partir desse rastro “inaugura o ato de fazer história” (RICŒUR. ou. p. suas imagens como um formato de escritura legível.8 Violência e transformação do espaço Ao considerar que um dos temas centrais de que se ocupa a problemática da representação da . em torno do reconhecimento dos eventos de violência ocorridos em Chungui. solicitou a ajuda dos comitês de auto defesa para que pudesse recorrer outras comunidades da região e registrar mais testemunhos. nesse processo. encabeçada pelo prefeito.

p. 2009. desde antigas gerações. Através dos desenhos é possível perceber como a presença do autoritarismo em Chungui compromete as perspectivas espaciais e temporais e obstrui a normalidade que antes definia as relações que os campesinos mantinham entre si e com o território. por sua vez. com o modo de convivênicia que agrega os moradores à comunidade. 2009. 317). matrimônios. Ao fazer essa analogia o autor chama atenção aos muitos aspectos que caracterizavam o relacionamento dos chunguinos com o lugar. recorrendo aos seus talentos como retablista transpõe para os desenhos essa memória individual e coletiva. festas religiosas. Em: JIMÉNEZ. A ação de imaginar (no sentido de propor uma imagem à recordação). e de que maneira esse espaço de confraternização seria afetado devido a presença e permanência dos grupos violentos (Partido Comunista do Peru-Sendero Luminoso (PCP-SL) e as Forças Armadas Oficiais do Estado Peruano (FFAA)). aniversários) relacionando-se. Naquela imagem onde se representa o relato sobre a chegada do PCP-SL em Chillihua. 156-157). batizados.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 223 Memória reside na relação estreita entre recordar e imaginar penso que. J. Um dos últimos desenhos de Chungui: violencia y trazos de memoria faz referência ao Llaqta Maqta (jovem da cidade) um gênero musical tradicional da região. retratando a presença do . os encontros sociais (festivais juvenis. o espaço celeste aparece comprimido por olhos. por parte dos sobreviventes. a ação de recordar. Edilberto Jiménez refere-se a essa expressão de vida e alegria como algo que consegue ser preservado mesmo após os anos de violência. “Dijeron: “Deben obedecer a los responsables” (H. a elaboração das ilustrações em Chungui: violencia y trazos de memoria resulta de um processo que inclui previamente. tornando visíveis os crimes e os detalhes que entornam os acontecimentos que lhes são relatados. “Laqta Maqta” (Desenho de Edilberto Jiménez em: Chungui: violencia y trazos de memoria. Esse taqui9 acompanhou. diretamente. tem a colaboração de Jiménez que. p.

encontra os corpos das vítimas numa tal disposição que o faz supor o que de veras teria ocorrido. p. 2009. ou. (Desenho de Edilberto Jiménez. p. indiretamente testemunhas desses crimes. Em: JIMÉNEZ. Em: Chungui: violencia y trazos de memoria. Em outro testemunho Jiménez utiliza essa linguagem oferecendo elementos visuais distribuídos pelo céu e que faz com o que o espaço funcione como um refletor cósmico. dirigindo-se a casa de sua família em Ninabamba. Em: JIMÉNEZ. C. Q. Os relatos são sempre de sobreviventes que foram direta. 2009. 2009. Essa mesma elaboração de um espaço carregado de olhos e orelhas se repete fazendo alusão ao testemunho “Le dieron más de 20 Chicotazos” (G.M. Em: JIMÉNEZ. a crueldade desses assassinatos e a percepção daquele que foi tesmunha indireta do fato. Mas. 160-161). como no relato “Asustado agarraba la soga” (E. No caso dos testemunhos “Vi con mis propios ojos” (M. Em: JIMÉNEZ. J. por estarem envolvidos nas situações descritas. D. 298-269) e em “Lírio Qaqa Profundo Abismo” (T. também teremos sujeitos enunciativos que não presenciaram diretamente os crimes. e L.147). . A representação visual desse testemunho põe em cena. 2009. O jovem estudante caminhava despreocupado. p. Em: JIMÉNEZ. p. 246-247). O. B. 200-201). Trata-se da respresentação que oferece ao relato “Las cabezas estaban en distintos lugares” (V. e C. O sobrevivente. ou. que não presenciou os assassinatos. 2009. onde os corpos haviam sido abandonados.224 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS atoritarismo e da vigilância de um partido “que tenía muchísimos ojos y oídos y muy facilmente se enteraba de todo” (E. O. H. quando se depara frente a uma situação em que é convocado pelos soldados da FFAA a testemunhar um assassinato. mas tiveram acesso ao cenário onde este ocorreu. “Las cabezas estaban en distintos lugares”. p. p. 2009. Em: JIMÉNEZ. livre de qualquer metáfora. 2009. há casos em que este sobrevivente tornou-se testemunha por acaso. 236). 236-237). E. C. p.

2009. p. Em: JIMÉNEZ. escondidos entre árvores. D. as testemunhas presenciaram o assassinato dos detidos. 2009. “Estuve calladito en el árbol y lloraba calladito”(Desenho de Edilberto Jiménez. Em: Chungui: violencia y trazos de memoria. Em outro testemunho. Em: Chungui: violencia y trazos de memoria. p. entre eles mulheres e crianças. 2009. .ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 225 “Asustado agarraba la soga”(Desenho de Edilberto Jiménez. “Estuve calladito en el árbol y lloraba calladito” (M. p. e L. I. Nessa situação. 239). 238-239) sobreviventes contam como se esconderam em meio a paisagem para nela se camuflar e poder acompanhar as diversas pessoas de sua familia que haviam sido apreendidas pelos soldados da FFAA. 201).

o sofrimento como uma experiência concreta. p. 51). Na representação visual elementos da natureza e ao mesmo tempo cósmicos. e os zorros (raposas). após terem os encontrado mortos. 296). que a espreitam. compar tilhada entre vítimas fatais. Com base na mensagem onírica. fechada em si mesma. 320) impregnado de afetividade e que vincula. os grupos a um . nos llevamos su cuerpito” (H. Através desses relatos e suas versões visuais. no contexto da guerra. pelos soldados da FFAA. que chora. para o olhar do leitor.226 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Grande parte desses sobreviventes tornaramse peças fundamentais para o posterior reconhecimento de fossas comuns e lugares onde eles mesmos haviam enterrado seus familiares. 2011. 2009. não sugeria frestas para a liberdade. No relato a mulher conta que estava acompanhada por seu cunhado. aludindo a Abilio Vergara 10 “territorio-paisaje-prisión” (VERGARA. 297). um “Local de Geração” (ASSMANN. 2009. seu esposo lhe disse o local onde seu corpo se encontrava após ter sido assassinado. Em: Chungui: violencia y trazos de memoria. a viúva sai a procura do corpo. nos llevamos su cuerpito” (Desenho de Edilberto Jiménez. Esse enquadramento relativo ao espaço delineia. p. sobreviventes e algozes. Em: JIMÉNEZ. à pedradas. tornam-se testemunhas de sua busca. para Jiménez. p. deixada pela alma do marido. Os caminhos e abismos foram redefinidos. A mulher encerra seu testemunho contando que ela mesma realizou o funeral do esposo enterrando-o ao lado de sua casa desde onde “él simpre me cuida y cuida a sus hijos” (H. Em: JIMÉNEZ. percebo como esse território. os elementos utilizados impregnam o ambiente e fazem com que o espaço se pareça. como em um sonho. p. O território foi utilizado. R. mas no desenho apenas aparecem como companhias uma lua. p. No testemunho “Calladitos sin que nadie sepa. 296-297) uma viúva relata. R. “Calladitos sin que nadie sepa. na maioria das vezes. Nos desenhos de Jiménez. 2009. contra as próprias pessoas que antes residiam ali. 2009. com a finalidade de que facilitassem os mecanismos de assassinato e a paisagem. desde muito tempo.

Por outro lado. A memór ia. são os mesmos que abrem fissuras sugererindo a impossibilidade de se reproduzir a aura12 desse local e tudo que se refere a multidimensionalidade dos fatos que ocorreram aí. enquanto “Local de Geração” Chungui possui uma memória afetiva e costumes que fortalecem os vínculos que unem as pessoas ao lugar. como seus mortos. através dela. Fazer-se recordar na memória das autoridades e de outros povos é o que deseja o chunguino quando canta e dança este Llaqta Maqta. a histór ia. Editora da Unicamp. o esquecimento. uma ferida difícil de cicratizar na memória nacional e histórica. É para esse território. Essa conexão constitui por um lado. Espaços da Recordação. recopilado por Jiménez: Karu llaqtapin tiyani Chungui llaqtapin tiyani karu laqtalla kaptincha periodistapas chayanchu congresistapas qamunchu 11 Qanchi riupas waqansi Chungui mayuwan tupaspa chaynama llaqtallay waqan manaña pipas yuyaptin13. que a população revindica mudanças estruturais e sociais que podem dar fim à pobreza. 129) No livro de Jiménez encontra-se vários motivos para que Chungui torne-se um lugar a ser recordado. finalmente. Campinas.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 227 familiares. Aleida. 349) sobre o qual não é possível formalizar um sentido . Referências bibliográficas ASSMANN. JIMÉNEZ. 2009. Chungui: violencia y trazos de memoria. às doenças e ao atraso consequentes de anos de esquecimento. 2. Tradução: Alain François [et al. 2011. ao analfabetismo. (JIMÉNEZ. p. Mesmo assim. esse território é o lugar onde os moradores cultivam à terra como espaço sagrado e estabelecem o contato. é o motivo pelo qual esse lugar tornou-se inesquecível. torna-se também um “Local Traumático” (ASSMANN. vivos e mortos. RICŒUR. Paul. pois. No que se refere à violência indiscriminada que caracteriza a guerra interna do Peru. Essa união permeabiliza os obstáculos que se colocam diante da possibilidade de se refazer as próprias vidas e superar os traumas sofridos. Lima: IEP. aqueles elementos que ajudam a elaborar a representação dessas memórias. em seus desenhos. p. Formas e Transformações da Memória cultural. . e cuja lembrança de seus moradores. DED. ed. (2011). Projeto de Tradução Coordenado por Paulo Soethe. mesmo por aquelas pessoas que nunca estiveram lá.]. (2007). por Jiménez. SP: Editora da Unicamp. – Campinas. (2009). cuja história não deve se repetir. SP. COMISEDH. étnicos e sociais. Edilberto. devemos celebrar. Por mais que se tente narrar as histórias relativas aos crimes cometidos nessa região. Chungui destaca-se por ali terem-se cometido crimes exemplares contra os direitos humanos14.

encontram-se as postulações que distinguem imaginação de memória. cverdad. Aleida. 2007. 61). Violencia y Trazos de Memoria.pdf>. 8 Conferir a exposição virtual “Universos de Memoria. 122-159. 2007. para os moradores de Chungui não é usual a expressão Orelha do cachorro como nome que dá referência a região das Fazendas “Zona de Hacienda”. 7 Para Aleida Assmann (2011) a ideia da mnemotécnica romana. Trata-se da “lembrançaimagem” (RICŒUR. Lima: IEP. Estaria mais relacionada com a recordação involuntária que. (2009). (2011). Versão digital disponível em: <http://www.” Em: Revista del Museo Nacional. assemelha-se a um cachorro sentado. 87-129. Conferir: JIMÉNEZ. 2010. 6 Chungui. Acessado em 23 de junho de 2012. uma imagem fabulada. 2 Consultar: Informe Final da Comisión de la Verdad y Reconciliación. p. (2009). p. Em Castelhano e Quéchua. Peru.pe/ ifinal/pdf/TOMO%20I/INTRODUCCION. “a presença do ausente” (RICŒUR. Edilberto.iep. 11 Ver: ASSMANN. una introducción. “La fiesta y la danza en el antiguo Perú. atuar contra o tempo e o esquecimento “cujos efeitos são superados com a ajuda de certas técnicas” (ASSMANN.org. 36-67. La memoria de la barbarie en imágenes. a realidade se encontra em suspenso. Espaços da Recordação. Ver mais detalhes em ASSMANN. 317-361. Edilberto. Instituto de Estudios Peruanos. Aleida. Diferente dela a vis memoriae seria uma memória em “potência”. 31-36. Arturo. Diretor Luis Felipe Degregori. 62 minutos. Em Paul Ricœur (2007). p. p. Conferir: JIMÉNEZ BORJA. 4 5 “Conversemos”. o autor aponta ser um traço comum tanto na imaginação quanto na memória. DED. p. Em: Galería Virtual Carlos Iván Degregori. COMISEDH. Formas e Transformações da Memória cultural. O nome Orelha do Cachorro foi dado à essa região. que tornem identificáveis estas conexões entre memória e imaginação. tomo XV. Campinas. Contudo. Coordenador da Tradução Paulo Soethe. Em: JIMÉNEZ. Lima: IEP. Em: JIMÉNEZ. pois. SP: Editora da Unicamp. p. e afirma ser possível estabelecer uma linha que as una. 9 Segundo Jiménez Borja (1946. Coordenador da Tradução Paulo Soethe. Toda essa região próxima a Chungui corresponderia a orelha desse cachorro. 61). 3 “Orelha do Cachorro”. Primera Parte: El Proceso. Introducción. La violencia. cuja forma.228 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Notas 1 A Comissão da Verdade do Peru tem sua formação durante o governo de Valentin Paniagua (1936-2006) e no governo seguinte. SP: Editora da Unicamp. Retablos de Edilberto Jiménez sobre la Violencia Política” . DED.org. 122) no Peru antigo Taki/Taqui significava dançar e cantar como duas ações que se realizam simultaneamente. sem dispor de métodos de armazenamentos artificiais (como é o caso da mnemotécnica) sempre podem ser acessadas pela memória. Los Hechos. no caso de operações historiográficas do passado. (2003). isto é. na memória existe um “real” anterior à imagem.pe/cid/galeria-cid/>. 10 VERGARA Abílio. Acessado em 25 de julho de 2012. Segundo Edilberto Jiménez. p. Por outro lado. Ele explica que na imaginação é possível enxergar um “irreal”. Campinas. (1943). possui relações com os processos de armazenamento e pretende. (2011). Em: ASSMANN. 2011. Lima Peru. Chungui: Violencia y trazos de memória. p. Chungui. Aleida. Edilberto. COMISEDH. Tradução de Daniel Martineschen. p. ars memoriae. entendida como “arte”. Tradução de Fernanda Boechat Em: Espaços da Recordação. sobretudo. Formas e Transformações da Memória cultural. A memória como Ars e Vis. com Alejandro Toledo (1946). Locais. Las Víctimas. Disponível em: < http://www. horror sin lágrimas… una historia peruana. em alusão ao mapa do estado de Ayacucho. 34). passa a se denominar Comissão da Verdade e Reconciliação. . pelos militares.

os conflitos alcançaram os maiores índices de violência. Conferir: Informe Final da Comisión de la Verdad y Reconciliación.cverdad. por mais perto que ela esteja”. São Paulo: Brasiliense.170). (1994). Vol. BENJAMIN. 14 De acordo com o Relatório Final da Comissão da Verdade. 7. a partir do conceito de aura proposto por Walter Benjamin (1994.org. . A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. Primera Parte: Capítulo 2. em Chungui e nos territórios asháninka.pdf>. (2003).%20HISTORIAS%20REPRESENTATIVAS%20DE%20LA%20VIOLENCIA 20Introduccion. I. Tradução de Sergio Paulo Rounet.pe/ifi nal/pdf/TOMO%20V/ /2.0% SECCION%20TERCERALos%20Escenarios%20de%20la%20v iolencia%continuacion)/ 2. arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Acessado em 26 de junho de 2012. p. / nem os congressistas chegam. ed. / Dizem também que o rio Qanchi chora / ao se encontrar com o rio de Chungui / assim chora a o meu povoado / quando ninguém se lembra”. Walter. composta de elementos espaciais e temporais: a aparição única de uma coisa distante. como “uma figura singular. Em: Magia e técnica. Historias representativas de la violencia.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 229 12 No sentido em que propõe Aleida Assmann. Versão dig ital disponível em: < http://www. 13 “Vivo num povoado distante / vivo na comunidade de Chungui / certamente por estar distante / os jornalistas não chegam.165-196. p.

Fontana (1993) mostra que: a) O espanhol antigo não impunha restrições ao constituinte fronteado. Considerando as possíveis ordens de constituintes. b) não é todo elemento que pode ser tematizado. Um dos primeiros trabalhos sobre o espanhol nesse sentido é o de Hernanz e Brucart (1987). como se ilustra no contraste entre (4) e (5): (4) (1) a. DE DOS PARTES co nsta el examen. *esa aria c a n t ó Montserrat Caballé maravillosamente. estrutura informativa e prosódia tem sido um aspecto bastante estudado nos últimos anos dentro do quadro da gramática gerativa. os autores mostram que o espanhol atual. . 1987. EN PRIMAVERA v isitó Juan Leningrado. (HERNANZ e BRUCART. ao estudar o posicionamento dos pronomes clíticos na história do espanhol. ao contrário da focalização. que não impõe restrições de fronteamento (exemplos (2) e (3): (2) Tematização: e. é possível a ordem Tópico-S-V. En primavera Juan v isitó Leningrado. b.3 espanhol atual: a. (3) Focalização: e el problema. a única ordem possível é Foco-V-S2 (exemplo (1)). EN EL PARO resid eside b. a. p.230 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS O PREENCHIMENTO DA POSIÇÃO PRÉ-VERBAL POR COMPLEMENTOS VERBAIS E A NOÇÃO DE OPERADOR NA HISTÓRIA DO ESPANHOL Carlos Felipe Pinto Universidade Tiradentes 1. Hernanz e Brucart (1987) mostram que: a) com a tematização. com a focalização. el problema resid eside b. *De dos partes el examen co nsta nsta. *En el paro. embora tenha a ordem básica S-VO. No referido trabalho. 95) Com respeito à flexibilidade de fronteamento. a. Introdução1 A relação entre ordem de palavras. apresenta uma série de variações que estão relacionadas com efeitos informativos.

rían esos c. por outro lado. conforme os exemplos em (7) a seguir: Clitic left dislocation (CLLD) b. p. esa aria la c a n t ó Montserrat Caballé maravillosamente. Topicalization7 3. sólo tengo romances. a Alexandria de la Palla. M. dois aspectos que contrastam claramente o espanhol atual com o espanhol antigo são a maior flexibilidade para fronteamento de constituintes no espanhol antigo e a maior possibilidade de fronteamento de objetos sem a recuperação com o clítico5. d. O espanhol atual tem. 55/61/65/86) b) Os complementos verbais podiam ser fronteados sem a duplicação pelo clítico no espanhol antigo. Grande duelo av ie ien espanhol atual: b. (7) a. 1993. Discutindo a noção de operador. 2. o objeto é recuperado por um clítico dentro da oração. Libros. (FONTANA. *visitar q u e er pabellón. b. diferentemente do que acontece no espanhol atual. n los xpistianos de sus c. a. *?con una horquilla para el pelo ab abrían chorizos las puertas de los coches. em (7d) o objeto fronteado é o elemento interrogado. o XP fronteado não tem correspondência dentro da oração. Cinque (1995. 107) mostra o seguinte contraste: . Confessar =se d e ue uen pecados.4 (FONTANA. *?maravillosamente cantó Montserrat Caballé esa ária.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 231 r í a n los invitados el otro b. A discussão se concentra nos complementos verbais já que os adjuntos. dicen que Nuria tiene ___i. Left dislocation (LD) Librosi. d. Uino & agua d e ue el clerigo mezclar en el caliz. tenho o objetivo de explicar o motivo desses contrastes entre as duas fases do espanhol. c. 1993. como se ilustra em (6). Deste lugar de Vigeva fue S. A Nuriai lei dieron un libro anoche. em (7c) o objeto fronteado deixa um vazio dentro da oração. quatro tipos de construções A-Barra. Neste trabalho. p. em (7b). 64/55/56) Em (7a). Distintos tipos de fronteamento (5) espanhol antigo: a. ¿qué libros tienes? Wh-movement c. podem ser fronteados sem restrição em ambas as fases da língua6. pelo menos. *?desde Cornellá v ol olv porque no habían autobuses. v ió Nuria andando e. p. (6) espanhol antigo: n las yentes christianas. *esa aria c a n t ó Montserrat Caballé maravillosamente. A noção de operador Como se observa pela rápida discussão acima.

não pode ser vestígio de DP porque é livre na sua categoria de regência. 108) oração é caracterizado como operador já que é derivado via movimento-WH . p. é preciso explicar que tais diferenças estão relacionadas com diferenças mais profundas entre as duas fases da língua 12 . Com relação ao exemplo em (10). na topicalização. que não é uma variável). (11) *Giannij. O efeito V2 no espanhol antigo Antes de explicar as diferenças entre as duas (CINQUE. a categoria vazia poderia se caracterizar como variável já que seria vinculada pelo operador11. a oração se torna agramatical não A pergunta que Cinque (1995) procura é responder é por que o DP em TopP. Quando o clítico é inserido. como em (8). loj invitero domani (non oggi) Gianni. não pode ser pro porque é não identificado. a explicação vai no sentido contrário: como o DP no inicio da (10) *Chii loi inviterai? (CINQUE. o convidarei amanhã (não hoje) Cinque (1995) comenta que a falta de movimento-WH nesse tipo de construção é um argumento crucial10 tendo em vista que. este DP é capaz de vincular a categoria vazia dentro da oração caracterizando-a como variável. 109) fases do espanhol. Aux visto 4. ho visto ___j Gianni. (9) GiANNIj (*loj) invitero (non Pietro) Gianni (*o) convidarei (não Pietro) Os dados em (8) e (9) mostram que. As Na análise de Cinque (1995). como mostra a agramaticalidade de (11): porque a categoria vazia fica sem ser caracterizada. não pode ficar sem ser duplicado pelo clítico. mas porque o operador não pode vincular nenhuma variável (o operador vincularia o clítico. “Línguas V2” tem sido uma etiqueta utilizada para classificar aquelas línguas nas quais o verbo finito aparece na segunda posição na oração e é precedido exclusivamente por um único constituinte seja qual for a sua função sintática13.232 (8) ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Giannij. Não pode ser PRO porque é governado. Se o clítico é introduzido. 9 diferenças apresentadas nos exemplos de (4) a (6) acima levaram Fontana (1993) a analisar o espanhol antigo como uma língua V2. é proibida. a categoria vazia é caracterizada como uma anáfora (vestígio de DP) e pode ser licenciada. A inserção do clítico é uma estratégia de último recurso para licenciar a categoria vazia dentro do VP. e não pode ser variável porque não é vinculado por um operador . 1995. a presença do clítico é requerida e. Os exemplos abaixo ilustram essa característica do espanhol antigo: . se houvesse um movimento-WH . Os dados em (9) também mostram que somente a topicalização é gerada via movimento-WH8 tendo em vista o paralelismo entre (9) e (10). como no caso da CLLD. o problema de (11) é que o DP “Gianni” não se caracteriza como um operador e o DP nulo dentro da oração não pode ser caracterizado como nenhum tipo de categoria vazia. p. na CLLD. 1995.

si el deudor otros bienes t uv iese b. si corazon has nz o el espiritu por las medulas mienz nzo (14) a. o verbo não se move para Finº e não permite que qualquer constituinte ocupe esta posição. 2011. mas somente pode ser concatenado diretamente em SpecTopP através da operação de concatenação (15) a. que exibe movimento do verbo exclusivamente para IP14. o traço EPP em CP. o objeto fronteado se caracteriza como um operador e pode licenciar a categoria vazia.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 233 e . se nota o interessante cruzamento de dados em Fontana (1993) e Pinto (2011): quando a ordem O-V sem clítico diminui. matando a tu madre (12) a. os dados em (14) ilustram a ordem Aux-S-V. se movia para CP. o rg a la abatíssima Sancha oto rga (13) a. Explicando o contraste entre as duas fases do espanhol A partir da exposição de Cinque (1995). assim como nas línguas V2. o que é um reflexo da mudança linguística16. aqui c o mie historias de oriente dados em (12) a (15) oferecem evidências de que o verbo. como não há um traço EPP d e mi paciencia t ole r ar que haya pued c. armas odiosas t o mast maste Clitemestra ro n el maestre don Pero b. porque este cuerpo muchas lágrimas ha d e j a d o a sus parientes: y amargos dolores. que é caracterizada como variável deixada dentro do VP. No espanhol antigo. Assim. em FinP. os dados em (15) ilustram construções de object shif . mais especificamente em FinP. Por essa razão. (PINTO. que no pue oler subido en corazón humano conmigo en el ilícito amor comunicar su deleite. O conjunto de ordem O-V com clítico aumenta. . diferentemente do espanhol atual. atrai o verbo e o movimento do verbo para Finº permite que qualquer constituinte seja movido para SpecFinP15. No espanhol atual. a dios d e b e hombre a d e lantar y p o ne primeramientre. é possível ter uma explicação para o contraste entre as duas fases do espanhol. a Os exemplos em (12) ilustram a ordem V2 em oração matriz e oração subordinada. e la priora doña María Fortúnez e tod el convento. en todos los buenos hechos que quisiere comenzar. no espanhol antigo. has. Como o objeto não pode ser movido para SpecFinP. não se caracteriza como operador e a presença do clítico é necessária na CLLD e a presença de outro DP é necessária na LD. E esta carta ot Garcíez. 5. y así co mie d esc e nd er : esce nde r ner b. os exemplos em (13) ilustram a ordem O-V sem retomada clítica em oração matriz e oração subordinada. como agora f ezie ezier Núnnez nza el libro de la flor de las mienza c. p. quando se tem a ordem O-V. b. 255) externa. no espanhol antigo (e nas línguas V2 em geral).

podia ocupar a primeira posição sem a duplicação pelo clítico. Ph. Guglielmo (1995). and the notion of operator at S-structure. Tal movimento era desencadeado por questões meramente formais. University of California. 52-75. p. No espanhol antigo. POLETTO. por isso. FONTANA. principalmente de complementos circunstanciais. Paola. Quando um objeto é movido.. Luigi (org.). Em consequência disso. a categoria vazia deixada dentro do VP precisa ser caracterizada de alguma forma: a) como esses elementos não possuem clíticos. Complementos circunstanciais são selecionados pelo verbo lexical. . Por isso. [. Old French. Focus and V2: Defining the CP Sublayers.234 6. ed. From Old French to the Theory of Pro-Drop. Marianne (1987b). v. Italian syntax and Universal Grammar . Cecilia (2004). (2002). orações do espanhol antigo. esses elementos fronteados não se caracterizam como operadores e não podem caracterizar a categoria vazia como uma variável. GÓMEZ TORREGO. no caso da focalização. b r antar ueb antar. são agramaticais no espanhol atual: Referências bibliográficas ADAMS. assim como os objetos diretos e NPs. como as ilustradas em (16) a seguir. Dissertation. 5. quantified A contraparte gramatical das orações em (16) no espanhol atual exibe obrigatoriamente a ordem V-O18 . esses complementos circunstanciais fronteados conseguiam caracterizar as categorias vazias deixadas no VP como variável porque se caracterizavam como operadores. 1-32. o elemento em primeira posição ocupava SpecFinP. University of Pennsylvania. p. 1. Bare quantifiers. Null Subjects and Verb Second Phenomena. A conclusão que se obtém dessa discussão é que os objetos fronteados no espanhol antigo e no espanhol atual ocupam lugares diferentes na estrutura. Marianne (1987a). The Structure of CP and IP. (1993). Natural Language & Linguistic Theory. independentemente de sua função informativa. Phrase structure and the Syntax of clitics in the history of Spanish. quyen esto q uisiese q BENINCÀ. CINQUE. In: ______.D. Esta análise explica também porque o espanhol atual apresenta restrições à tematização . Conclusão ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS indiretos. Oxford: Oxford University Press. a periferia esquerda da oração é destinada para usos informativos. 104-120. Gramática didáctica del español. Madrid: Ediciones SM.] (16) a. p. n. qualquer constituinte. In: RIZZI. No caso da tematização. The Cartography of Syntactic Structures. Josep M. a categoria vazia não pode ser caracterizada como uma anáfora. 2. Topic. No espanhol antigo. o seu lugar de pouso é SpecFocP17. Quando esses elementos são tematizados.. E tod aquel quj esta carta q ue (1223) ue b r antar (1225) que ueb b. 8.D Dissertation. o objeto é concatenado diretamente em SpecTopP. No espanhol atual. como apontaram Hernanz e Brucart (1987) e Fontana (1993) nos exemplos ilustrados em (2) e (3). como o verbo se movia para Finº e qualquer constituinte podia ocupar a posição de SpecFinP. L. ADAMS. b) como a tematização no espanhol atual é gerada via concatenação. Nova Iorque: Cambridge University Press. devido ao traço EPP de FinP. Ph. a ordem O-V em contextos neutros é banida já que não há lugar de pouso disponível para o objeto (SpecFinP não é uma posição ativa no espanhol atual). v.

Ian (2004). Residual verb second and the Wh criterion. v. F r ont eame nt o = EFEITO SINTÁTICO LINEAR em que um constituinte aparece no início da oração onteame eament nto (periferia esquerda). v. Ordem de palav ras. Te mat ização = ESTRATÉGIA DISCURSIVA na qual um constituinte é tematizado. Luigi (org. The C-Systen in brythonic celtic languages. Adriana. assumo a topicalização como uma operação sintática de movimento A-Barra independentemente de seus efeitos discursivos.). p. predominantemente na periferia esquerda. Universidade de Geneva (citado do manuscrito). Reflexes of Grammar in Patterns of Language Change. Notas 1 Este trabalho faz parte da discussão sobre o movimento do verbo na história do espanhol apresentada em minha Tese de Doutorado (PINTO. pressuposta ou como o tópico discursivo.). VIKNER. The fine structure of the left periphery. In: BELLETTI. ROBERTS. Liliane (org. Kluwer: Dordrecht. 2 Os termos tópico/topicalização são termos que cobrem vários fenômenos linguísticos e são usados por várias vertentes teóricas. n. Sten (1995). The Verb always leaves IP in V2 clauses. .ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 235 HERNANZ. ou seja. A noção de fronteamento que estou assumindo está relacionada exclusivamente com a ordem superficial. p. Bonnie. VIKNER. La sintaxis. Linguistic Inquiry. Parametters and functional heads. RIZZI. SCHWARTZ. p. Luigi (1991). 11-62. 297328. Carlos Felipe (2011). Sten (1996). Language Variation and Change. Barcelona: Crítica. é posto em matização destaque. Luigi (orgs. movimento do verbo e efeito V2 na história do espanhol. Pr incípios teór icos. 1. Anthony (1989). subjects in the Germanic languages . Tese de Doutorado. Oxford: Oxford University Press. Verb movement and expletive RIVERO. RIZZI. KROCH. A estratégia discursiva de tematização pode ser realizada através da operação com ou sem movimento sintático. Nova Iorque/Oxford: Oxford University Press. p. The Cartography of Syntactic Structures. 281-337. Oxford: Oxford University Press. 199-244. Elements of grammar. Maria Luisa (1980). Universidade Estadual de Campinas. como informação conhecida. dada. sem considerar se há ou não movimento de constituinte. José María (1987). In: RIZZI. BRUCART. V2 and the EPP. 2. 11. 2. La oración simple .). Adoto a seguinte distinção terminológica: To picalização = ESTRATÉGIA SINTÁTICA na qual um constituinte é movido de sua posição de base dentro da oração para a periferia esquerda. On Left Dislocation and Topicalization in Spanish. ou seja. tanto formais como funcionais. RIZZI. 2011). The Structure of CP and IP. p. v. (citado do manuscrito) PINTO. Luigi (1997). In: HAEGEMAN. María Lluisa. 363-393.

sempre é derivado via movimento A-Barra (topicalização ). 6 É importante ter em mente a diferença entre complemento e adjunto verbal: complemento verbal é o elemento que é selecionado semanticamente pelo verbo. ou seja. Se esse movimento é usado como recurso de tematização ou de focalização é algo que pode variar entre as línguas. na frase “Juan puso el libro en la mesa”. 2004. Assumo. no lo vi. como o catalão e o francês.236 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Focalização = ESTRATÉGIA DISCURSIVA na qual um constituinte é focalizado. 3 Nos exemplos. já os adjuntos. no lo vi. Tal contraste pode ser explicado pelo caráter do clítico. é posto em destaque. preguntan (que) quién tiene. 8 Rivero (1980) assume que a topicalização é diferente de movimento-WH a partir de dados como (i) e (ii) (i) a. (RIVERO. que é essencialmente definido: (i) A: ¿Viste al chico? B: No. as orações em (ii) não deveriam ser possíveis. o sintagma “en la mesa” é um complemento do verbo. 380) Se topicalização e movimento-WH fossem o mesmo tipo de movimento. que a topicalização é um movimento A-Barra que deixa uma posição vazia dentro da oração. b. Dinero. B’: No. não necessariamente na periferia esquerda. 5 Como o espanhol tem um sistema de clíticos defectivo. *¿Qué te pregunta (que) por qué no tiene? b. objetos indefinidos têm retomada facultativa. Línguas que possuem um sistema de clíticos mais ricos. 1980. as maiúsculas indicam que o constituinte recebeu a proeminência prosódica. Quando o constituinte focalizado se encontra fora da sua posição canônica na oração. (ii) A: ¿Viste algún chico? B: *No. como apresentei acima. te pregunta (que) por qué no tiene. no he visto ninguno. para uma discussão detalhada da questão em modelos . exibem os mesmos fatos com outras funções sintáticas. Observar que esta definição é diferente da apresenta em algumas gramáticas do espanhol (por exemplo. Os verbos são destacados em negrito. Dinero. como a informação nova que completa a pressuposição ou o contraste que corrige a asserção anterior. a retomada só pode ser observada com objetos diretos e indiretos. 4 Parece haver alguma relação entre definitude e presença do clítico nesse tipo de construção: objetos definidos são obrigatoriamente retomados. 2002). Nesta definição. Contudo se são o mesmo tipo de movimento ou não é irrelevante para a discussão (ver BENINCÀ e POLETTO. *¿Qué preguntan (que) quién tiene? (ii) a. GÓMEZ TORREGO. não. p. nas quais se diz que os complementos circunstanciais podem ser facultativos ou obrigatórios. 7 O que Cinque (1995) chama de topicalização é equivalente a focus movement.

15 Esta análise se baseia em Roberts (2004). [.. the only effect of the change in accent on word order will be a decline in the rate of subject-verb inversion. Minha análise. 1989. ou estruturalmente. there will be an additional effect. Ver também Rivero (1980).] If we fit a logistic curve to Priestley’s data via regression and compare the logistic transform of the fitted curve with Fontaine’s results. 12 Tais diferenças reforçam a hipótese de que um parâmetro é uma série de características que se manifesta em conjunto. como alguns DPs em CP. No caso das línguas assimétricas. 16 Este aspecto também é trazido por Kroch (1989) a partir da proposta de Adams (1987a. observe-se o parâmetro do sujeito nulo: línguas de sujeito nulo exibem uma série de características que não são encontradas em línguas de sujeito preenchido (extração de sujeito de orações subordinadas. No Capítulo 01 de Pinto (2011) fiz uma discussão bastante densa da questão e apresento fortes evidências com base no modelo cartográfico de Rizzi (1997) e nos argumentos apresentados por Vikner (1995) e Schwartz e Vikner (1996) de que o efeito V2 acontece sempre no campo CP. No caso das línguas simétricas. 14 As análises propostas para o efeito V2 nas línguas humanas são muitas e diversas: há análises que propõem que o efeito V2 sempre implica em movimento do verbo para CP e há análises que propõem que há possibilidade de efeito V2 em IP (especialmente no caso das línguas simétricas). 1987. passa obrigatoriamente pela questão do movimento. ademais. que exibem o efeito V2 tanto em orações principais como em orações subordinadas. but in sentences with preposed noun phrase complements. inversão livre. 13 O grupo mais representativo de línguas V2 na atualidade são as línguas germânicas. a oração deveria ser agramatical já que orações relativas são caracterizadas como ilhas e não podem ter constituintes extraídos de dentro de si. As línguas V2 são divididas principalmente em dois grupos: línguas simétricas. nas orações subordinadas. since the rise in left dislocation corresponds to the loss of topicalization. reversed the sign of the slope of the regression. que exibem somente o efeito V2 em orações principais. efeito “that-trace” etc). como mostra o exemplo do espanhol: (i) El dinero Maria ignora quién lo tiene. (HERNANZ e BRUCART. há línguas que. Se uma categoria não se move. o efeito V2 em oração subordinada pode ser generalizado ou restringido. e línguas assimétricas. como os quantifcadores nus. no Critério-WH por exemplo.. 13-14) . an increase in the rate of use of the resumptive clitic pronouns required by left dislocation. não se caracteriza como operador. procura explicar a variação na manifestação no efeito V2 dentro do campo CP. we obtain the pattern in Figure 5 below. O que é relevante é que ambas as construções são derivadas via um tipo de movimento A-Barra. 86) Se houvesse movimento do DP de dentro da oração relativa para o inicio da oração matriz. 9 Cinque (1995) diz um operador pode ser definido inerentemente.. We have.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 237 minimalistas). deixam o verbo na última posição da oração e há línguas que deixam o verbo na posição medial. exceto o inglês. of course. p. 10 Que este tipo de construção não é derivado através de movimento é evidenciado pelo fato de que podem aparecer em contextos de ilha. 11 Lembrar que a definição de operador de Rizzi (1991). que perdeu tal propriedade já há algum tempo. 1987b) sobre a história do francês: In sentences with preposed adverbs and prepositional phrases. p. (KROCH. Por exemplo.

18 Em Pinto (2011. o foco sempre se caracteriza como operador e qualquer constituinte pode se mover para a periferia esquerda.212) sintetizo a seguinte correlação: Contexto Focalização Tematização Neutro Espanhol antigo O-V O-V O-V Espanhol atual O-V O-cl-V V-O . p. Por isso.238 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 17 O movimento de constituinte é obrigatório na focalização por uma questão de escopo: o elemento focalizado precisa ter escopo sobre o restante da oração.

son muy perceptibles a los lectores de esos cuentos publicados en libro en la década de 1950. podemos leer al tiempo presente como siendo el deflagrador de la expulsión de los hermanos – siempre restrictos al mundo del pasado – en el cuento del escritor argentino. obra que marca el estreno del escritor mexicano en 1954. el escritor estadounidense estableció principios en la estructuración del cuento que apuntan para una unidad de efecto. En ambas narrativas. dios de la lluvia que propiciaba la agricultura. Las escritas de esos cuentos respetan la brevedad y la intensidad reconocidas por Edgar Allan Poe. personajes de vidas solitarias y hábitos rutineros abandonan sus casas – herencias y recordaciones de patrimonios familiares – porque ellas son invadidas. En los textos “Review of Twice-told tales” (1842) y “The philosophy of composition” (1846). lo que induce a una exaltación del alma en el lector. desde su primera frase. la otra.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 239 INVASIONES DEL TIEMPO EN EL ESPACIO DE LA CASA Carlos Garcia Rizzon UNIPAMPA Los acercamientos entre “Casa tomada”. y a la transferencia de identidades en relación a “Chac Mool”. Una. y el otro. Según Poe. por ruidos imprecisos. también iniciando el libro. figura de la mitología mexicana que simbolizaba un mensajero entre los hombres y Tlaloc. de Julio Cortázar. Para eso. por la réplica de la estatua de un Chac Mool. . sin interrupciones. en el final. caracterizado en la estatua. cuentista que principió la teoría sobre el género. se torna necesaria. Algunos críticos ya apuntaron alegorías al peronismo (que se apodera de Argentina) o a las inmigraciones (que se apropian de Buenos Aires) o mismo del lector (que se adueña del texto) en el caso de “Casa tomada”. esos cuentos crean efectos que abren diferentes posibilidades para interpretar los abandonos de las casas por sus moradores. como sonidos sofocados o murmullos de una conversación. La lectura del tiempo como invasor de las casas es otra de las posibles interpretaciones: es el pasado. todas las palabras de la composición deben estar direccionadas a provocar. el efecto deseado. y “Chac Mool”. del año de 1951. de Carlos Fuentes. quien toma la casa en “Chac Mool”. hace parte de L os días e nmascar a d os enmascar nmascara os. a su luz y de modo inverso. Sorprendiendo en sus finales. El primero iar io es el cuento que abre B est estiar iario io. que será alcanzado con la fuerza derivable de la totalidad del texto. la lectura del cuento en una sola asentada .

(2001. siendo exigida su participación en la creación de la historia narrada. como este. en el final de la década de 1960. El uruguayo Horacio Quiroga. entonces. Es un mundo poroso. p. O sea. Ese árbol crecerá en nosotros. Y Borges continúa: “También se juega con la materia de que somos hechos. el de explayar en quinientas páginas una idea cuya perfecta exposición oral cabe en pocos minutos. pues. p. el cotidiano se refleja en las acciones de los “personajes – caracterizados por Jorge Luis Borges en análisis a los textos de Julio Cortázar. Pensando en la ruptura de lo cotidiano que los cuentos de Chejov ofrecen. 68). En América Latina.” (BORGES. mas que pueden ser extendidos también al protagonista del cuento de Carlos Fuentes – deliberadamente triviales. d e lo cur ayd em ue r te autor de Cue uent ntos de amor de locur cura de mue uer (1917). otro escritor. presentó cuestiones respecto al cuento como narrativa. partiendo de los principios sugeridos por Poe y Chejov. Muy sutilmente el narrador nos atrae a su terrible mundo. que el cuento deba tratar sus temas sin exageraciones. 429) También Julio Cortázar. 521-522). 516) y va más allá de lo que cuenta. es decir. Siguiendo conceptos que venían desde Poe. Antón Chejov. en palabras de Cortázar. 1989. pues “el cuento literario consta de los mismos elementos que el cuento oral y es. que el cuento inicia por su final. probablemente por su ceguera. nt os d e amo r. presentando normas para la producción de cuentos. redijo textos como “Manual del perfecto cuentista”. Comparó esa escritura a una fotografía. actúa como una explosión que se abre a una realidad mucho más amplia. dice. en que los seres se entrelazan”. En el mismo sentido y con sarcasmo. donde la felicidad es imposible. “Los trueques del perfecto cuentista” y “Decálogo del perfecto cuentista”. De la misma forma. donde un recorte. en una conferencia proferida en Cuba. 1970. aconsejándolos respecto a los textos. en 1970. pues persiste retumbando en la mente del lector la continuidad de los acontecimientos. De esa forma. “todo cuento perdurable es como la semilla donde está durmiendo el árbol gigantesco. vemos la sugestión de la complicidad del lector en la construcción del cuento. p. de Ricardo Piglia. Sin embargo. p. dará su sombra en nuestra memoria” (2004. Chejov observa también un carácter de apertura de la obra.240 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Aún en el siglo XIX. preserva la idea de unidad y depuración con el objetivo de alcanzar una intensidad narrativa que sea atractiva. también escritor argentino. para Cortázar “un cuento es significativo cuando quiebra sus propios límites” (2004. Sugiere. señaló algunas cuestiones más sobre la elaboración de los cuentos. Cortázar amplía la idea del efecto que el cuento provoca en el lector. En sintonía con las ideas de Chejov. “Chac Mool” y “Casa tomada” trabajan con la perspectiva de lo no acabamiento. nuestros escritores igualmente se dedicaron a pensar sobre el cuento como género literario. 520). rechazar la subjetividad del autor y volcarse a extrañamientos percibidos en la observación de la propia realidad cotidiana. aborda . el autor ruso mantuvo correspondencias con jóvenes escritores iniciantes para quienes exponía sus consideraciones. y publicada con el título de “Algunos aspectos del cuento” en la revista “Casa de las Américas”. el tiempo”. Su pensamiento coincide con Poe cuanto a la brevedad y al efecto. “Tesis sobre el cuento”. Otro texto teórico. A pesar de no haber escrito artículos teóricos que tratasen de sus concepciones acerca del género. que es llevado a dar continuidad a la narrativa. regidas por rutinas triviales. Jorge Luis Borges comenta en el prólogo de Fic cio nes Ficcio ciones nes: “Desvarío laborioso y empobrecedor el de componer vastos libros. trascendiendo espiritualmente la imagen que muestra. un fragmento de la realidad. el relato de una historia bastante interesante y suficientemente breve para que absorba toda nuestra atención” (QUIROGA. con ironía. p. por ejemplo.

las casas son descriptas como sólidas construcciones de tiempos imponentes. 508-509) Fui por el pasillo hasta enfrentar la entornada puerta de roble [. los sábados. (2004. una que se lee en la superficie de las líneas escritas. (p. Me tiré contra la puerta antes de que fuera demasiado tarde. pues no hay sobresaltos o protestas. Para Cortázar. con el “fecundo descubrimiento de Alfred Jarry. personajes de Cortázar. de manera fantástica en el cuento de Cortázar y en el ámbito de lo maravilloso en el relato de Fuentes. en el fondo del pasillo que traía desde aquellas piezas hasta la puerta. el hermano a la lectura u ordenación de una colección de estampillas (“para matar el tiempo”) e Irene a los tejidos de lana (tal vez un “gran pretexto para no hacer nada”). cerrando puertas y abriendo espacio para lo irracional: Aún según Piglia. la noción de lo fantástico no difiere de lo real. y espaciosa y antigua la de los personajes de “Casa tomada”. “un poco lúgubre en su arquitectura porfiriana” la casa de Filiberto. Se dedican a la limpieza de la casa. Representan mundos autárquicos y aislados. la solución encontrada es el abandono de la casa. Encerrados en la seguridad de sus hogares – protecciones de lo ya establecido –. Lo perturbador en “Casa tomada” está en la actitud de los hermanos. de psicologías definidas. Los elementos esenciales del cuento tienen doble función y son usados de manera distinta en cada una de las dos historias. apenas el hermano. dentro de un mundo regido más o menos armoniosamente por un sistema de leyes. de relaciones de causa y efecto. Trabajar con dos historias quiere decir trabajar con dos sistemas diferentes de causalidad. que se mueven en el terreno de lo fantástico sin distinguirlo de la realidad. en su análisis de […] a ese falso realismo que consiste en creer que todas las cosas pueden describirse y explicarse como lo daba por sentado el optimismo filosófico y científico del siglo XVIII. felizmente la llave estaba puesta de nuestro lado y además corrí el gran cerrojo para más seguridad. 133) Cuando la invasión se hace completa. como un volcarse de silla sobre la alfombra o un ahogado susurro de conversación. donde “podían vivir ocho personas sin estorbarse”.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 241 que el cuento presenta dos historias. Los mismos acontecimientos entran simultáneamente en dos lógicas narrativas antagónicas. para quien el verdadero estudio de la realidad no residía en las leyes sino en las excepciones a esas leyes” (p. Cada una de las dos historias se cuenta de un modo distinto. tiene la costumbre de comprar madejas Cortázar comparte. o sea. y otra aludida. siendo apenas la cara oculta de la realidad. Los hermanos. de geografías bien cartografiadas.] cuando escuché algo en el comedor o la biblioteca. 2000. esos personajes presentan una falta de aspiración y una indiferencia con el mundo y la sociedad que los rodea. son incapaces de reaccionar a la invasión de los ruidos. Irene y su anónimo hermano. (PIGLIA. Borges destaca. En los cuentos “Casa tomada” y “Chac Mool”. de principios. p. 509). Para Piglia. al mismo tiempo o un segundo después. . Eso nos remete a la teoría del iceberg . Contrariando lo que podría ser natural. dice más adelante. Tanto en uno como en otro cuento. es decir. prácticamente no salen de casa. a la cocina. El sonido venía impreciso y sordo. como dijo en la conferencia a los cubanos. las historias aparentes de las invasiones caracterizan formas literarias que subvierten padrones convencionales de la racionalidad. de Ernest Hemingway. con lo subentendido y con la alusión de la historia que está aparente. la cerré de golpe apoyando el cuerpo.. Los puntos de cruce son el fundamento de la construcción. comprendida por lo que está por detrás de ellas. p. apenas buscan refugiarse cada vez más en el interior de la casa. También lo oí. 73) de lana para las tricotas de Irene. oponiéndose. la historia secreta se construye con lo no dicho. De forma similar. personaje de “Chac Mool”. el cuento es una historia que esconde una historia secreta..

de una revelación privilegiada de la realidad. 28). Esas actividades.. de manera inequívoca. por el momento en el sótano mientras reorganizo mi cuarto de trofeos a fin de darle cabida” (p. aún no amanecía. 21). en “Chac Mool” el “algo más” se revela por una sobrenaturalización de lo real. donde la presencia concreta de una estatua gana vida y los elementos de lo maravilloso se asocian a los mitos de las culturas indígenas. inundando el sótano” (p. cuando surge de una inesperada alteración de la realidad (el milagro). mensajero que es. 15). visitar sitios arqueológicos y coleccionar piezas antiguas de la cultura mexicana. con esa seguridad espantosa de que hay dos respiraciones en la noche. Los tormentos de Filiberto seguirán en casa. y se desbordó por el suelo y llegó hasta el sótano” (p. [. revelan actitudes mecánicas y superficiales. Pesadilla. [. de que en la oscuridad laten más pulsos que el propio.. Vuelta a dormir. creando una atmósfera en que la tensión mental es provocada por difusos e inexplicables ruidos de algo apenas mencionado. p. p. todas en relación al agua.] Cuando sin aliento encendí la luz. alimentos e inclusive a ceder sus aposentos. Aumentando sus problemas.242 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS “Casa tomada”. Filiberto es un funcionario público preso a una vida de rutinas y hábitos rígidos. él pasa a enfrentar una serie de perturbaciones. 15).] Todas las leyes naturales lo rigen. antes de llevarla a su cuarto de trofeos: “El traslado a la casa me costó más que la adquisición. y las lluvias se han colado. yuxtaponiendo los tiempos y alterando maravillosamente la realidad: […] lo real maravilloso comienza a serlo. un despertar sobresaltado. p. y otras imaginarias”. Sí. se escuchaban pasos en la escalera. sin ningún carácter investigativo. no su contradicción. entonces empezó a llover. (1989. una vez que “la tubería volvió a descomponerse. Allí estaba Chac Mool. Fue en el sótano que. que “la magia es la coronación o pesadilla de lo casual. primeramente. percibidas con particular intensidad en virtud de una exaltación del espíritu que lo conduce a un modo de “estado límite”. entre ellos. Incauto. sin embargo. Filiberto colocó la estatua del Chac Mool. Si en la historia fantástica de “Casa tomada” hay una naturalización de lo irreal. elemento vinculado a Chac Mool en la mitología: “Amanecí con la tubería descompuesta. Para Bella Josef. Así. (CARPENTIER. dejé correr el agua de la cocina. 20-21) Dominado por la estatua. 1976. Su interés por “ciertas formas del arte indígena mexicano” no pasa de un deseo coleccionista. 335).. xvii) . huir y dejar la casa es la única alternativa para Filiberto. o mito passou a ser considerado o próprio real compreendido na simultaneidade de suas perspectivas prováveis” (1993. No sé cuánto tiempo pretendí dormir.. la profundidad del sótano comienza a reavivar Chac Mool.. que lo obliga a buscar agua. de una iluminación incomún o singularmente favorecedora de las escalas y categorías de la realidad. (p. donde la réplica de un Chac Mool que él compra en una feria popular será nada más que un trofeo conquistado. e irán interferir en su trabajo. la estatua adquiere vida y lo hace prisionero y esclavo de sus deseos: Y ayer. Así como el interior de las pirámides de los antiguos pueblos mexicanos preservaba los elementos culturales del pasado. El Chac Mool. el mundo de los antiguos mexicanos actuará sin ningún extrañamiento a la comprensión racional de la realidad. erguido.] Chac Mool avanzó hacia la cama. pues él se desequilibra mentalmente y llega a ofrecer “sus servicios al Secretario de Recursos Hidráulicos para hacer llover en el desierto” (p. interliga el pasado con el presente. Pero ya está aquí. con su barriga encarnada. El cuarto olía a horror. en el cuento de Fuentes.. sonriente. ocre. Cuando volví a abrir los ojos. 16). “na literatura hispano-americana. un objeto decorativo sin ninguna significación histórica o religiosa. a incienso y sangre. [.. A partir del momento en que Filiberto lleva la estatua a su casa.. por fin.

ausente de valor e interferencia en la realización de su vida. Es el mismo al que íbamos de jóvenes y al que ahora nunca concurro [.. que no constituyeron familias y permanecieron estériles: “A veces llegamos a creer que era ella [la casa] la que no nos dejó casarnos. (p. 131) Filiberto es un sujeto de “tentaciones burocráticas”. lo que le causaba algún sufrimiento: “Sentí la angustia de no poder meter los dedos en el pasado y pegar los trozos de algún rompecabezas abandonado” (p. (p. sin renovación. Almorzábamos a mediodía. con la ciudad misma.. 11).. apenas mantiene la evasiva función de evitar el Su esfuerzo en mantener la casa. quedamos a la mitad del camino” (p. Y las estampillas reordenadas en el álbum no alteran la preservada antigüedad.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 243 Cuando el Chac Mool se humaniza. los hermanos de “Casa tomada” preservan la casa “espaciosa y antigua” que “guardaba los recuerdos” de infancia por el hábito de “persistir en ella”. como barricada de una invasión. 21) retrata su conformismo por no haber alcanzado los planes idealizados en la juventud: “parecíamos prometerlo todo.] Realidad: cierto día la quebraron en mil pedazos. presentes y olvidados? [. sin alteraciones en sus hábitos. En fin. pero esto lo es. la cola aquí. probablemente la casa haya interferido en las vidas de él y de Irene. pues no realiza relaciones con otras obras. real imagen monstruosa en un espejo de circo. sin criados ni vida familiar” (p.. De igual manera. habían ido cincelándose a ritmo distinto del mío”.]. Real bocanada de cigarro efímera. Vivir “en aquel caserón antiguo. sólo real cuando se le aprisiona en un caracol. mientras el mundo se transformaba con el tiempo. modernizadas – también. Con el café que casi no reconocía. reales. Como reconoce el hermano. “ciertamente muy grande” y “única herencia y recuerdo” de sus .. Océano libre y ficticio. percepciones que se funden en la mente del personaje: […] todo es tan natural. a mí se me murió María Esther antes que llegáramos a comprometernos” (p. Las ejecuciones mecánicas de sus tareas se tornan operaciones improductivas. es apenas un reflejo condicionado de su rutina. una vez que consideraba que “desde 1939 no llegaba nada valioso a la Argentina” (p. porque nos damos mejor cuenta de su existencia. Del mismo modo. (p. ya no quedaba nada por hacer fuera de unos pocos platos sucios. con la mitad de los cuartos bajo llave y empolvados. acomodado a una existencia uniforme. Las lecturas de los mismos libros que el hermano hace no añaden nada.. la fuente de sodas [. mecánica y mediocre. 131). 132). y a eso de las once yo le dejaba a Irene las últimas habitaciones por repasar y me iba a la cocina. Sin embargo. hoy volví a sentarme en las sillas. 12). Es incapaz de ambicionar un cambio. Nos resultaba grato almorzar pensando en la casa profunda y silenciosa y cómo nos bastábamos para mantenerla limpia.. Irene rechazó dos pretendientes sin mayor motivo. y luego. No existe ningún avance y ninguna construcción. Sus actividades también son repetitivas. siempre puntuales. Filiberto no acompañó los cambios: […] decidí gastar cinco pesos en un café.. levantándonos a las siete. caracterizándose por la manutención de una disciplina que lo impidió de cualquier transformación o realización de un sueño. se cree en lo real. 11-12) La limpieza de la casa es una rutina que mantiene un pasado envejecido. pues en toda su trayectoria de vida “había habido constancia”. o estar. y lo que era una antigua representación divina se reduce a un objeto decorativo que se compra en una tienda de feria que vende recuerdos para turistas. pues no pasan de simples rellenos del tiempo. si un bromista pinta de rojo el agua. la cabeza fue a dar allá. y nosotros no conocemos más que uno de los trozos desprendidos de su gran cuerpo. el interés por un Chac Mool no demuestra ningún conocimiento por una cultura. como relata el hermano: Hacíamos la limpieza por la mañana. Filiberto ya no distingue lo que es realidad o delirio.. y más. ¿no lo son todos los muertos.. 19) padres. más que lo creído por mí. Si es real un garrafón.].

sin renovación o actualización. Sem relações não há “fatos”. citando diferentes pensadores. 135). 198) En esa clasificación. lo que hizo nacer el imperialismo. La segunda dimensión pertenece a la vida animal. aún según Borges.244 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS contacto con los ruidos invasores. En ese sentido.. Conservar categorias envelhecidas equivale a redigir um dogma. correndo o risco de confundir o presente com aquilo que já não o é. independentes de nós. donde el ritmo de vida de viejos tiempos ya no encuentra lugar. a los hombres. vivir el tiempo. lo diferente y la transformación. Presos en las recordaciones y en la manutención de lo mismo. este por no conocer y respetar el pasado. La vida de los hombres es una vida en profundidad. seja pela constatação da ordem segundo a qual eles se organizam para formar um sistema. los hermanos no crecen. (1989. Se puede vivir sin pensar” (p. isto é. en “Casa tomada” los ruidos invasores pueden indicar el tiempo de la modernidad. seja pela observação de suas relações de causa e efeito. um conceito. sin alteraciones que agreguen novedades. [. irreal e impotente. Se quiséssemos apreender o “presente como história” de Lukács e Sweezy. La vida de los vegetales es una vida en longitud. E. deveríamos ver o passado como algo que encobre as raízes do presente. 2002. um modo de produção novo ou a transição entre os dois. mas às categorias que ele nos legou. que cierran la casa y a sí propios con el intuito de impedir la novedad. p. Vivir sin pensar es no reconocer el pasar del tiempo. según Korzybski. no interior de uma estrutura social. La permanencia y la conformación de lo establecido. 131-132). Mas nos toca fazer que se convertam em fatos históricos mediante a identificação das relações que os define.. y poco a poco empezábamos a no pensar. sua história. “aparte de su actividad matinal pasaba el resto del día tejiendo en el sofá de su dormitorio. p. um novo sistema temporal. Já não estaremos. de la vida. sob pena de nos perder em um presente abstrato. apropiarse del espacio y. el hombre materialista conquistó personas y territorios. cabría a los vegetales acumular energía.] a veces tejía un chaleco y después lo destejía en un momento porque algo no le agradaba (p. Tanto los hermanos de “Casa tomada”. el geógrafo Milton Santos observa: Para apreender o presente é indispensável um esforço no sentido de dar as costas. despertadores y. a los animales. É por sua existência histórica. Abdicando del tiempo y dado a la adquisición de objetos y pertenencias. Los sonidos de máquinas. não ao passado. altoparlantes. Os fatos estão todos aí. então. sendo histórico. no se desenvuelven y no producen. Confortables en la mediocridad. no demuestran necesidades y tampoco ambiciones: “Estábamos bien. (SANTOS. La primera dimensión corresponde a la vida vegetal. La expulsión o el abandono de sus casas son fantásticas o maravillosas cobranzas que el tiempo hace del aislamiento de Irene y su hermano y de Filiberto. todo conceito se esgota no tempo. y aquellos por la indiferencia con el presente. que se reconhecem as categorias da realidade e as categorias de análise. únicos seres previsores e históricos. exigiendo el reconocimiento de su presencia. Ya Irene. Jorge Luis Borges presenta tres dimensiones de la vida: Tres dimensiones tiene la vida. Largo. que se apodera de la casa. ancho y profundidad. representado por la estatua de una cultura antigua. Eso tornó la vida humana menos intensa y más extensa. La vida de los animales es una vida en latitud. 10) En el ensayo “La penúltima versión de la realidad”. bocinas. La tercera dimensión equivale a la vida humana. Si en “Chac Mool” es el pasado. assim definida. llevan a una inexistencia histórica. um novo momento do modo de produção antigo. alarmas de autos y llamadas de teléfonos celulares son marcas indisimuladas de nuevos tiempos. ou melhor. son obligados a abandonar sus casas porque no ofrecen espacio al transcurso del tiempo. como Filiberto. . del movimiento. un acumulador de piezas de arte indígena que desfigura y anula sus representaciones del pasado. más recientemente.

Bella (1993): O espaço reconquistado. Buenos Aires: Emece. _____ (1989): Prólogo. .: Ediciones Era. Alejo (1976): Prólogo. 8ª ed. Obras completas. Barcelona: Anagrama. Vol. 7. 2ª ed. Obra crítica. CORTÁZAR. Buenos Aires: Punto de lectura. _____ (2004): Algunos aspectos del cuento. Pensando o espaço do homem. Cuentos completos. Buenos Aires: Suma de Letras Argentina. Bestiario. 1. GOTLIB. Vol. 17ª ed. SANTOS. FUENTES. Buenos Aires: Emecé. PIGLIA. QUIROGA. Los días enmascarados. El reino de este mundo. 11ª ed. 10ª ed. São Paulo: Paz e Terra. Jorge Luis (1989): La penúltima versión de la realidad. México D. Montevideo: Arca. Buenos Aires: Emece. CARPENTIER. JOSEF. Horacio (1970): Sobre literatura: obras inéditas y desconocidas. _____ (1992): Julio Cortázar: cuentos.F. 2. São Paulo: Hucitec.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 245 Referencias bibliográficas BORGES. Vol. Buenos Aires: Nemont. 2ª ed. Julio (2008): Casa tomada. Ricardo (2001): Tesis sobre el cuento. Discusión. Obras completas. 17ª ed. Ficciones. Milton (1986): O presente como espaço. Prólogos. São Paulo: Ática. Nádia Battella (2006): Teoria do conto. Formas breves. Carlos (2001): Chac Mool.

mas julgam a entoação dos aprendizes como insuficiente. a fim de verificar a produção desses atos ilocutórios por aprendizes de ELE e a percepção de ditos atos por parte de nativos de diferentes áreas dialetais. (b) os juízes reconhecem os pedidos. No entanto. por parte de falantes de LM? Nossas hipóteses são: (a) os aprendizes cariocas de ELE realizam os pedidos de informação e os pedidos de ação – em ELE como o fazem em PBLM. contamos com julgamento de nove juízes nativos de seis áreas dialetais distintas e de três aprendizes de ELE. morfológicos e sintáticos no ensinoaprendizagem de espanhol como língua estrangeira (ELE). respectivamente (MORAES. descrevemos fonética e analisamos fonologicamente os pedidos de informação e os pedidos de ação em ELE. (b) que características prosódicas esses falantes transferem de sua LM para a LE?. Considerando as diferenças prosódicas já descritas entre o PBLM e o ELM. Do ponto de vista fonético e fonológico. pretendemos com este trabalho realizar uma analise contrastiva de tais pedidos em português brasileiro como língua materna (PBLM) e em espanhol madrileno como língua materna (ELM). nos perguntamos: (a) como os aprendizes cariocas de ELE produzem o acento tonal de tais pedidos?. a parte prosódica ainda precisa de mais estudo e descrição. Já para o estudo da percepção. Para realizar o estudo da produção.393). 2008. a parte segmental está bastante descrita. inclusive em seu quadro de variações dialetais. p. contrastamos o estudo realizado por Moraes (2008) para o PBLM com o de Estevas Vilaplana & Prieto (2008) para o ELM.246 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS PEDIDOS DE INFORMAÇÃO E PEDIDOS DE AÇÃO EM PORTUGUÊS E EM ESPANHOL: UM ESTUDO ENTONACIONAL DE PRODUÇÃO E PERCEPÇÃO Carolina Gomes da Silva PG/UFRJ Maristela da Silva Pinto UFRRJ Priscila Cristina Ferreira de Sá PG/UFRJ Introdução Dispomos de uma quantidade de informação relativamente importante para a sistematização dos níveis lexicais. (c) a transferência prosódica da LM compromete a inteligibilidade e/ou gera um julgamento negativo da competência prosódica do falante de LE. com o padrão entonacional L+<H*L% e L+>H*L%. Em um segundo momento. ou seja. Nosso trabalho está organizado da seguinte forma: na sessão 1 definimos nosso objeto de estudo: . Como nosso objeto de estudo são os pedidos de informação e de ação.

considerando o formato do contorno entonacional e seus movimentos. marcada na frase pela formulação interrogativa. como em “Destranca a janela?”. Tais enunciados foram produzidos por dois informantes. sendo dois de pedido de informação e dois de pedido de ação. proposto por Pierrehumbert (1980) e Ladd (1996. e as de Estevas 2. nos pedidos de ação. para o PBLM (fala carioca): L+<H*L%. 2011. Comparamos esses 24 enunciados em 1. o enunciador pergunta algo que desconhece ao ouvinte e supõe que este detém a informação (KERBRAT-ORECCHIONI.102). 2005.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 247 pedidos de informação e pedidos de ação. 3 do Chile. Andaluzia.Atos ilocutórios: Pedidos de informação e pedidos de ação Os pedidos de informação e os pedidos de ação equivalem a atos ilocutórios diretivos. San Salvador. diz respeito à percepção de ditos enunciados por falantes nativos de espanhol. na sessão 3 apresentamos os resultados e na sessão 4. gravamos a leitura em voz alta de 24 enunciados interrogativos totais em ELE. 1 do Peru. isto é. esses pedidos apresentam diferenças entre si. ou seja. para o pedido de ação. nossas discussões e conclusões. pedidos de ação.94). embora o enunciador faça uma pergunta. 19932012). Nos pedidos de informação. Santiago de Chile. extraídos dos trabalhos de Moraes (2008) para o PBLM (fala carioca) e de Estevas Vilaplana & Prieto (2008) para o ELM (fala madrilena). 2 da Guatemala. ambos do sexo feminino. Os contornos entonacionais dos enunciados analisados foram obtidos a partir do programa PRAAT (BOERSMA & WEENINK. 1 de Porto Rio.Metodologia Nosso trabalho se divide em duas partes: a primeira se refere à análise da produção dos pedidos de informação e de ação por falantes brasileiros de ELE. para o ELM (fala madrilena): L*HH%. Descrevemos esses 24 enunciados foneticamente e os analisamos fonologicamente. sendo seis de pedidos de informação e seis de Vilaplana & Prieto (2008). para o pedido de informação e H+L*L%. 1984 apud Wilson. 1999) marcando o tonema (ou núcleo) a partir de um tom alto (H) ou baixo (L). Já para o estudo da percepção. p. Para dar conta da análise fonológica seguimos o sistema de notação Métrico Autossegmental (AM). ELE com quatro enunciados modelo. Usamos as propostas de Moraes (2008). para o pedido de informação e L+>H*L%. Diferentemente dos pedidos de informação. No entanto. na sessão 2 apresentamos a metodologia adotada. correspondendo a tentativas do falante de levar o ouvinte a fazer algo (Searle. Lima. ele espera uma ação não verbal por parte do ouvinte. obser vamos o comportamento dos parâmetros acústicos de frequência fundamental (F0) e duração no tonema (último vocábulo tônico do enunciado) dos pedidos. espera-se o cumprimento de um ato qualquer. professores de ELE e inseridos no mercado de trabalho. selecionamos 12 enunciados e os deslexicalizamos para que fossem julgados por nove juízes nativos de seis áreas dialetais distintas: 1 da Espanha. Com relação à descrição fonética. Para o estudo da produção. 1 de Honduras. para o pedido de ação. espera uma ação verbal por parte do receptor. cariocas. cidade da Guatemala. Cabe ressaltar que o enunciador espera que o ouvinte lhe dê uma resposta com sim ou não. com idade entre 25 e 35 anos. como em “Renata jogava?”. adultos. p. A segunda. com nível superior completo em Letras – Português/ Espanhol. San Juan e por três falantes de .

tônicas e pós-tônicas do tonema dos pedidos de informação e ação em ELE. Já nos pedidos de ação. observamos que nos pedidos de informação os sujeitos implementam a F0 em ELE com uma subida. 3. falantes de espanhol nativos ou não. .1. em média. a seguir. todos do Brasil. como ilustrado no gráfico 1. os pedidos de informação e os de ação em PBLM. de 40 Hz da sílaba pretônica para tônica. Rio de Janeiro. se o juiz julgasse a entoação dada ao enunciado pelo sujeito como b o a . em função da implementação da F0 e da duração. se o juiz julgasse a entoação dada ao enunciado pelo sujeito oa.Produção Analisando os dados. seguida de uma queda de 73 Hz da tônica para a póstônica. assim como em função de sua configuração tonal. 3.248 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS ELE. os pedidos de informação e os de ação são analisados segundo o reconhecimento dos atos ilocutórios e a avaliação da entoação dos aprendizes por parte dos juízes. B. como não b bo analisados. seguida de uma queda de 65 Hz da sílaba tônica para a pós-tônica. todos com nível superior. de 25 Hz da sílaba pretônica para tônica. após ouvirem cada enunciado. tiveram de definir o tipo de pedido (de informação ou de ação) e atribuir um conceito à entoação dada por nossos sujeitos aprendizes a cada um desses 12 enunciados. com idade entre 20 e 45 anos. Esses conceitos poderiam ser: A . em média. observamos que os sujeitos implementam a F0 em ELE com uma subida. ELM e ELE são os d e inf o r mação e d e ação o ne ma/núc le o (Hz): p e did Média d e F0 das v o g ais no t de leo pe didos de info de vo to nema/núc ma/núcle Gráfico 1: Variação de média de F0 nas vogais pretônicas. Cabe destacar que os três juízes cariocas são professores de ELE.Resultados Para o estudo da produção. se o juiz julgasse a entoação dada ao enunciado pelo sujeito como média e C . Esses juízes/avaliadores. Já para o estudo da percepção. sendo dois do sexo feminino e uma do sexo masculino.

ou seja. no segundo caso. Análise Fonológica de Pedidos de Informação e Pedidos de Ação: Atribuição Tonal Pedido de Informação Português do Brasil (fala carioca): L+<H*L% (Moraes. a distância em milissegundos correspondendo ao alinhamento tonal (pico. fala carioca. 393) Espanhol Europeu (fala madrilena): H+L*L% ( Estevas Vilaplana & Prieto. p. observase um alinhamento antecipado na sílaba tônica. vale) em relação à sílaba proeminente é superior a 60% da duração total desta sílaba. nos pedidos de informação e um alinhamento antecipado médio de 390ms (39%) do total da sílaba proeminente. sendo com alinhamento tardio (L+<H*L%). No que concerne à atribuição tonal. a distância em milissegundos correspondendo ao alinhamento tonal (pico. Sintetizamos estes resultados na tabela abaixo. sua língua materna e se diferencia do padrão descrito para o ELM. como exemplificado no gráfico 2. Qua dr oc o mpar at i vo da média d o alinhame nt ot o nal e mr e lação à sílaba p ro e mine nt e no t o ne ma/ Quadr dro co mparat ati do alinhament nto to em re pr minent nte to nema/ núc le o (%): p e did os d e inf o r mação e d e ação núcle leo pe didos de info de Gráfico 2: Há um alinhamento tardio médio de 890ms (89%) do total da sílaba proeminente. p. Por outro lado. vale) em relação à sílaba proeminente é inferior a 40% da duração total desta sílaba. p. ou seja. nota-se que nos pedidos de informação há um alinhamento tardio na sílaba tônica. 2008. 393) Espanhol Europeu (fala madrilena): L*HH% (Estevas Vilaplana & Prieto. 2008. 280) Espanhol/LE (falantes cariocas): L+>H*L% Tabela 1: Síntese das atribuições tonais para os pedidos de informação e os de ação. 280) Espanhol/LE (falantes cariocas): L+<H*L% Pedido de Ação Português do Brasil (fala carioca): L+>H*L% (Moraes. constatamos em nossas análises que os sujeitos realizam os contornos dos pedidos de informação e de ação em ELE com o contorno melódico final circunflexo L+H*L%. Tal atribuição se assemelha a atribuição tonal do PB. nos pedidos de ação. 2008. . p. 2008. fala madrilena: um contorno melódico final ascendente (L*HH%) para o pedido de informação e um contorno melódico final descendente (H+L*L%) para o pedido de ação. no primeiro caso e com alinhamento antecipado (L+>H*L%).ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 249 Com relação ao comportamento da duração.

nota-se que os juízes atribuem melhor nota para os pedidos de ação (7. Cabe ressaltar que houve um maior número de reconhecimento do pedido de informação pelos juízes (vide tabela 3). Santiago de Chile Guatemala. Notas at r ib uídas aos p e did os d e inf o r mação e d e ação atr ibuídas pe didos de info de Área dialetal dos juízes Espanha.7/3 9. .3/5 5.6/6 5.6/7 5.0/1 7.7/11 Tabela 3: Avaliação do julgamento dos juízes.5/3 8. confeccionamos uma matriz de confusão.Percepção ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS permite confrontar pares binários de confusão.0/1 6. o que está sendo confundido com o que foi reconhecido.8/3 8. Andaluzia Chile. como ilustrado na tabela 2.2. cidade da Guatemala Honduras.0/4 7. É interessante observar que uma matriz de confusão Mat r iz d eC o nfusão: P e did os d e inf o r mação e d e ação atr de Co Pe didos de info de Percepção Produção Pedido de Informação Pedido de Ação Pedido de Informação 34 40 Tabela 2: Resultados na matriz de confusão. Como utilizamos neste teste de percepção enunciados deslexicalizados. somente o prosódico.7). nota-se que em 47% dos casos há reconhecimento dos pedidos de informação e 44% dos pedidos de ação.250 3. ou seja. Com os resultados obtidos através do teste de percepção. acreditamos que possa ter dificultado o reconhecimento por parte dos juízes.3/5 7.6) do que para os pedidos de informação (6. Pedido de Ação 38 32 Confrontando os dados referentes ao quantitativo de casos em que a intenção do aprendiz em produzir seus enunciados foi identificada pelos juízes. San Juan Brasil. sem o nível lexical. Confrontando os dados referentes ao reconhecimento dos pedidos de informação e de ação. San Salvador Peru. Lima Porto Rico.6/6 3. isto é. Rio de Janeiro Pedido de Informação 10.0/2 5.0/9 Pedido de Ação 10.

os aprendizes tendem a se basear no sistema prosódico da sua LM. em outras palavras. Disponível em: http://www. Já para o pedido de ação. Paul & WEENINK. João Antônio de (2008): The Pitch Accents in Brazilian Portuguese: analysis by synthesis.: Proceedings of the Speech Prosody The Fourth International Conference in Speech Prosody.hum. p.). Acessado em 05/02/2012. . No ensino de espanhol como língua estrangeira são muitos os trabalhos que apresentam as dificuldades enfrentadas por um brasileiro aprendiz dessa língua. Plinio.fon.edu/labfon/sites/default/files/XVII-15. KERBRAT_ORECCHIONI. com alinhamento antecipado do pico na sílaba tônica.ub. com a descrição dos contornos entonacionais dos enunciados na LM e na LE. Esperamos. Campinas: IEL. Em: BARBOSA. 87 – 110. fato este que dificulta a inteligibilidade da produção oral do falante de LE e. Disponível em: http://stel. CÉSAR (eds. Eva. Sandra & REIS.pdf. o acento tonal nuclear mais frequente apresenta subida da sílaba pretônica para tônica seguida de uma queda da sílaba tônica para pós-tônica.) Manual de linguística. pois acreditamos que. & PRIETO. Catherine (2005): Os atos de linguagem no discurso. mas são poucos os estudos que tratam especificamente da relação entre entoação e atos ilocutórios. Niterói: EdUFF. Em: MARTELOTTA.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 251 Conclusões Constatamos com este estudo que o acento tonal nuclear mais frequente produzido pelos falantes brasileiros aprendizes de ELE nos enunciados interrogativos totais que funcionam como pedido de informação apresenta subida da sílaba pretônica para tônica seguida de uma queda da sílaba tônica para pós-tônica. Mário Eduardo (org. Referências bibliográficas BOERSMA. Em: Estudios de fonética experimental XVII. Pilar (2008): La notación prosódica del español: una revisión del Sp_ToBI. com este trabalho contribuir no ensino da oralidade do Espanhol como língua estrangeira. WILSON.nl/praat/ ESTEBAS VILAPLANA. os aprendizes de LE têm elementos para contrastar marcas específicas da LM com as da LE e se tornam capazes de minimizar as transferências prosódicas de sua LM quando se expressam na LE. portanto. MORAES. Victoria (2011): Motivações pragmáticas. gera um julgamento negativo da competência prosódica do falante de LE. empregam o sistema de sua LM pelo qual filtram a fala da LE.uva. MADUREIRA. quando não compromete a inteligibilidade. David (1993-2012): Praat. com alinhamento tardio do pico na sílaba tônica. por parte de falantes de LM. Em suma. São Paulo: Contexto.

p. podemos observar diferentes pontos de vista sobre a personagem. sem dúvida. sugerindo-nos a possibilidade de uma união carnal entre Dom Quixote e Dulcinéia e colocando sua honestidade em dúvida: Y si la vuesa linda Dulcinea. uma das mais misteriosas2. mas uma multiplicidade de pontos de vista 3 que incidem sobre ela e que propiciam inúmeras leituras de Dulcinéia. dura ella y vos no amante. como ambas são construídas a partir de um processo metaficcional. a influência da obra cervantina. Ni a vuesas cuitas muestra talante. ora como uma feia prostituta. Preliminares. do escritor brasileiro Ariano Suassuna. (DQ. visamos observar. tanto Dulcinéia como Heliana são apresentadas ao leitor de forma ambígua. honesta y sabia” e em “De Solisdán a Don Quijote de la Mancha”. Iniciemos por Dulcinéia. sob diferentes perspectivas e. Nossa intenção é mostrar como. mais especificamente o livro El ingenioso hidalgo Don Quijote de La Mancha. En tal desmán vueso conorte sea Que Sancho Panza fue mal alcagüete. que nos apresenta Aldonza Lorenzo.252 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS DE DULCINÉIA A HELIANA: PERSPECTIVISMO E METAFICÇÃO Célia Navarro Flores Universidade Federal de Sergipe – UFS Em nossa pesquisa atual1. como “una moza labradora de muy . Necio él. por um lado. I. da obra cervantina e Heliana. p. Dulcinéia ora será descrita como uma linda princesa. A única descrição mais confiável seria a do narrador. 152). Preliminares. do livro de Suassuna. por outro. no primeiro capítulo. Dulcinéia é. Das 669 personagens que compõe a obra de Cervantes (RILEY. 33) Essa dualidade da personagem será reforçada e reiterada ao longo da obra. Dulcinéia é descrita como “famosa. 2000. p. ou seja. Neste trabalho pretendemos estabelecer algumas relações entre as personagens Dulcinéia del Toboso. em uma perspectiva comparatista. 27). as duas são descritas a par tir de modelos literários pré-existentes. o “eu lírico” atribui a castidade de Dom Quixote à incompetência de Sancho como alcoviteiro. I. Não há na obra de Cervantes uma descrição precisa da personagem. na obra O Romance d’ A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta. Já nos poemas introdutórios. Desaguisado contra vos comete. No poema “La señora Oriana a Dulcinea del Toboso” (DQ.

“prostituta” e “burlar com alguém” pode significar “ter relações sexuais” — também a descrição das atividades realizadas por Aldonza (“rastrillando lino o trillando en las eras”) tem conotação sexual. Sancho cria o que González chamou de “la antidulcinea”. tomando como modelo uma vizinha por quem durante algum tempo andou apaixonado. 283). não é um cavaleiro. um cavaleiro que — após ser raptado e preso — volta . sobrancelhas. ao rebaixá-la a uma e prostituta. Sancho a rebaixa ainda mais ao compará-la a uma prostituta afirmando que ela “tiene mucho de cortesana: con todos se burla”: “cortesã” também significa. 1. A perspectiva de Dom Quixote sobre Dulcinéia é oposta a de Sancho. da segunda parte. Enfatizamos. pescoço. O romance que está escrevendo é uma epopeia. su blancura nieve (.. Quando Sancho descobre que Dulcinéia é Aldonza Lorenzo. marfil sus manos. Dom Quixote conscientemente a descreve a imitação dos “poetas”. —(. No capítulo 32 da segunda parte. su hermosura. perlas sus dientes.. pérolas etc. ele diz que ela seria uma mulher de “pelo en pecho” — que tanto pode significar “valente” quanto referir-se ao caráter masculinizado de Dulcinéia —. no capítulo 1 da primeira parte. sobrehumana. alabastro su cuello. Dom Quixote mobiliza todo um sistema de descrição do modelo feminino herdado da literatura renascentista 5: a descrição a partir da parte superior do corpo (cabelos. su calidad por lo menos ha de ser princesa. Sancho também sentiria um desejo reprimido por Dulcinéia e. su frente campos elíseos. estaria tornandoa uma mulher acessível a ele. con las Alastrajareas. ou seja. bochechas. Ao longo do livro de Cervantes. p. el Toboso. Dom Quixote descreve Dulcinéia diversas vezes. sus ojos soles. (DQ. como em português. Na obra de Suassuna. y que sea hermosa en sumo grado que vuesa merced nos la pinta. mas um escritor. a intenção de Sancho é destruir o universo de Dom Quixote. a expressão “todos los imposibles y quiméricos atributos de belleza que los poetas 6 dan a sus damas”. pues es reina y señora mía.). sus labios corales. sol.. corais. pero hame de dar licencia el señor don Quijote para que diga lo que me fuerza a decir la historia que de sus hazañas he leído. “inventa” Dulcinéia del Toboso. p. II. o protagonistanarrador. sus cejas arcos del cielo. a qual se personifica no capítulo X. pues en ella se vienen a hacer verdaderos todos los imposibles y quiméricos atributos de belleza que los poetas dan a sus damas: que sus cabellos son oro. olhos.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 253 buen parecer”4 (DQ.. testa. não é delicada como uma princesa. Alonso Quijano necessita uma dama por quem se enamorar e. p. en lo de la alteza del linaje no corre parejas con las Orianas. con las Madasimas. sus mejillas rosas. dentes. un lugar de la Mancha. puesto que se conceda que hay Dulcinea en el Toboso o fuera de él. ni con otras deste jaez. (DQ. episódio em que Sancho engana Dom Quixote ao afirmar que três feias lavradoras seriam Dulcinéia acompanhada de duas damas. de donde se infiere que.) que su nombre es Dulcinea. Segundo González (2010). peito e mãos) e a comparação com elementos nobres da natureza (ouro.. I. su patria. de quien están llenas las historias que vuesa merced bien sabe. Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna. (. uma das melhores descrições é a do capítulo 13 da primeira parte. 13.) Solo sé decir. sua voz se assemelha ao som de um sino e é uma mulher de talhe robusto (“qué rejo tiene”). o duque põe em dúvida a existência e a linhagem de Dulcinéia e novamente se alude à literatura ao comparar Dulcinéia com as damas dos livros de cavalarias: — Así es — dijo el duque. nessa descrição. Como todo bom cavaleiro. 32) Vejamos agora como Ariano Suassuna se vale da mesma estratégia para criar a personagem Heliana. à diferença de Dom Quixote. mármol su pecho. no capítulo 25 da primeira parte (p.. da qual o protagonista é Sinésio. ou seja. lábios. I. Vejamos rapidamente dois pontos de vista: o de Sancho e o de Dom Quixote. 141-142) Nesta descrição. 44).).

Entretanto. A dama de Sinésio é Heliana. Tais quais as damas dos livros de cavalaria. Poderíamos dizer que. astrosa e fatídica” (SUASSUNA. “Nós já temos passado por outras situações semelhantes. desabotoou o vestido e começou a passar mel nos mamilos. Sinésio7. Clara conta que a família já está acostumada com as esquisitices de Heliana: — “La em casa. coincidentemente. ao nos apresentar a personagem sob diferentes perspectivas.254 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS para vingar a morte de seu pai. a senhora idosa. fizera uma pequena fogueira para afugentar as abelhas de uma colmeia e. Dulcinéia é inventada por Dom Quixote a partir de um processo metaficcional. irmã de Heliana. Assim como Dulcinéia. “estranha e selvagem”. Até aqui. Ariano Suassuna está criando uma antiheliana. Quaderna considera “uma coincidência epopeica. Heliana sempre foi meio estranha e selvagem. personagem que estava enamorado por Clara. Assim como Dulcinéia. Heliana retirou o mel da colmeia. como veremos. por outro. 207. Ao descrever as roupas do Donzel Sinésio. todas constrangedoras. parenta de Clara conta a Quaderna que ouviu uma conversa entre Clara e Gustavo. uma senhora idosa. naquela Fortaleza afastada (SUASSUNA. presenciou um ato estranho de Heliana: a acompanhante da moça. Nessa conversa. Maria Elvira. Com isso queremos evidenciar o fato de que Heliana é a típica dama dos romances de cavalaria. Como vimos. p. o narrador nos conta que a moça possuía hábitos estranhos e constrangedores. ou . Quaderna nos conta que costumava dar consultas astrológicas em seu gabinete. a qual é descrita como uma dama dos livros de cavalaria. Heliana é apresentada ao leitor por meios tortuosos: Quaderna conta ao Corregedor que uma informante sua.) É por causa de Heliana que ele (o pai delas) prefere viver isolado. é a mulher lasciva. 2007. 498) (. vivia com as mãos cobertas e não permita que nenhum homem as descobrisse. que desempenha o papel das “dueñas” dos livros de cavalarias. Maria Elvira. logo o amor de Sinésio por Heliana era secreto e impossível.). Em uma delas. as irmãs Heliana e Clara vivem isoladas em uma fortaleza construída pelo pai e são acompanhadas por uma criada. que unta os seios com mel. contou que Gustavo descreveu a Clara o ato obsceno de Heliana. nunca ouvimos a voz de Heliana. porém o pai de Sinésio e o de Heliana tinham acordado que Sinésio se casaria com Clara. o cavaleiro está enamorado por uma mulher que cobre as mãos e. p. mostrando-nos uma faceta da personagem que se opõe à imagem de perfeita dama.. a história de Heliana passou de boca em boca até chegar aos ouvidos do corregedor e aos olhos do leitor. Ou seja. Quaderna observa que em sua capa havia um escudo bordado com a figura de uma mulher de cabelos soltos e com as mãos cobertas. Heliana é mostrada em diferentes facetas. ocultamente. a dama pintada em seu escudo aparece com as mãos cobertas. ela apresenta algumas ambiguidades. não acho nada de censurável no que ela faz. Quaderna nos conta que Sinésio havia se apaixonado por Heliana quando ainda crianças. 47) o fato de que Heliana. sempre são outros personagens que se referem a ela. a não ser.. mesmo quando os outros acham que aquilo é mais do que esquisitice!” (SUASSUNA. desde menina! (. porém. Heliana é a perfeita dama de cavaleiro andante dos livros de ficção. nós já estamos todos habituados com as estranhezas de Heliana! Não é que eu tenha vergonha nenhuma dela. Se por um lado é a dama dos livros de cavalaria. da mesma forma que Cervantes criou a antidulcinéia. Encontramos aqui a dicotomia pureza/lascívia presente na personagem de Cervantes.. assim como Dulcinéia. que vive isolada do mundo por seu pai e que tem seu rosto estampado no escudo de seu cavaleiro. com um graveto. Como vimos. Gustavo conta a Clara que.. o amor da vida de Sinésio. 207. 499).

O mesmo processo ocorre com Heliana. O mel. fruto e chamas embebidas em mel”. (. macio. “f a d o ”. é uma síntese das duas. a mesma idade da irmã de Lucíola. Essa ideia de síntese está na própria concepção da obra de Suassuna: o Romance d’A Pedra do Reino é um modelo do que Suassuna chama de “romance armorial”. ela estava com doze anos. O fogo. com “H”. pois Heliana. não em contradição e separadamente. É que. Quaderna compara Heliana às personagens de Alencar: (. torre etc). negro. tendo conhecido Heliana como menina-e-moça e. a urtiga. assim era Heliana! E eu. “ambas a r rd te s”. Para Suassuna popular e erudito não se opõem.. uma recorrência de e e no cio”. pelo menos. a ficção se remete à própria ficção. neste breve trabalho vimos como a personagem do Romance d’A Pedra do Reino. 2007.. o calor e o sol são elementos recorrentes no Romance d’A Pedra do Reino. poderia dizer dela tudo o que José de Alencar disse de tantas outras. “c c hamas embebida em mel”. dourado. Essa unidade buscada a partir de oposições (a união dos contrastes) é constante na obra de Suassuna. fino. como vimos anteriormente — também apresenta a cor do sol.). cavalo. essas oposições estão em perfeita unidade.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 255 seja. depois. rainha.. Heliana pode ser comparada com Dulcinéia del Toboso. Genoveva como Isabel: uma. Para ele. ambas ardentes. Assim como Dulcinéia. sempre separando em muitas o que. como o jogo de damas. Heliana. Ao mencionar Lucíola. Heliana é considerada a dama de um cavaleiro e é apresentada ao leitor por. presente em Dulcinéia. fogo e canto do sangue.. Posteriormente. como moça e mulher. duas diferentes perspectivas: a mulher casta Notamos no fragmento. Era um fruto verde. o mel de abelhas. Clemente preferia a dama (negros contra brancos). O cabelo dela era como se tivesse sido formado somando-se o louro de Ceci e Clara com o escuro de Lucíola e Isabel. pelo que pude ver e adivinhar de seu amor por Sinésio. loura e angélica. Depois. “aveludada pela pubescência”. Seu amor era “vinho. na “atitude da corça arisca”. 504) fragmento “o mel de abelhas” e “embebidas em mel” — elemento relacionado à Heliana. que é a síntese dos dois: moreno. Quaderna atribui a Heliana a faceta prostituta. na obra de Suassuna temos três: Clemente. irmã de Gustavo e noiva de Arésio. Fogo presente também coxas”. Samuel branco e Quaderna. segundo o narrador. em Heliana. p. mas se conjugam. como a Emília de Diva. isto é. unindo a Verbena. Samuel preferia o jogo de xadrez. Heliana apresenta facetas opostas: o “negro escarlate da paixão e a cassa da Pureza”. “d d our av a as oura “d oura d our sol”.) Clara era como Cecília8. Quaderna compara Clara com Genoveva Moraes.. que era irmão de Sinésio. entretanto. De fato. e sim em unidade. personagem do livro de Cervantes por diversos vieses. quando eu e Sinésio vimos pela primeira vez aquela que seria a Dama e princesa de sua vida. despertava nela a mulher. Enfim. quando Dom Quixote descreve sua amada a partir dos retratos femininos da Literatura renascentista. o amor felino da Onça jovem e fêmea. a outra. que significa “sol”. Assim como Dulcinéia. mais sofisticado e reproduz os personagens da corte (rei. e Quaderna. que aparece duas vezes no . morena. para dar um castanho-claro.. o fogo de Isabel e o angelical de Ceci. nas quais há também reis e rainhas como no xadrez e há os naipes com duas cores. Corregedor. e era daí que se originava também a penugem macia e rara que lhe dourava as coxas “alvas mas amorenada pelo sol” (. Mas Heliana juntava tudo isso.) (SUASSUNA. deriva de Helios. jogo mais simples e popular. Vejamos. que é descrita em comparação com as mulheres das obras de José de Alencar. o Vinho. porém. ardente e no cio. Inicialmente. Sr. as duas são opostas. imagens relacionadas ao fogo: “ar ard nte ar d e nt den t es f o g o e o canto do sangue”. O movimento armorial9 encabeçado por Suassuna nos anos 70 procura criar uma arte erudita a partir das raízes populares. a urze. era espanto e unidade. o negro-escarlate da Paixão e a cassa da Pureza. peão. temos dois protagonistas que aparentemente se opõem (Dom Quixote e Sancho). Enquanto na obra de Cervantes. diferentemente de Dulcinéia. “morenadas pelo sol em seu nome. as cartas.

Ariano Suassuna e o movimento armorial 1970/ 76. Célia Navarro (2007). GONZÁLEZ. Barcelona: Crítica. Recife: Editora Universitária da UFPE. Sancho Pança e Dulcinéia del Toboso . (2007) Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai e volta. DIDER. Dulcinéia é descrita por Dom Quixote a partir dos retratos femininos da poesia renascentista e Heliana é uma das personagens femininas de José de Alencar. Em La concepción romántica del Quijote. Barcelona: Crítica. Dirigida por Francisco Rico. Mario M. . Edición del Instituto Cervantes. quando diz que por ser árabe. FLORES. assim como Dulcinéia é uma princesa para Dom Quixote. Em Introducción al Quijote. 4 Lembremos que Dom Quixote desautoriza o narrador/autor. Grifo nosso. pp. 205-215. é descrita como “estranha” e pratica atos. Maria Thereza. Sobre Suassuna e o movimento armorial. Para um estudo mais profundo sobre a construção da personagem Dulcinéia na obra de Cervantes. que poderíamos considerar lascivos. (2000) Modos de ser.256 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS e a lasciva. CLOSE. 5 6 7 Lembremos do famoso poema de Góngora “Mientras por competir con tu cabello”. Don Quijote de La Mancha . Anthony. (2000) Ideales e ilusiones. Barcelona: Crítica. ao mesmo tempo. Da palavra ao traço: Dom Quixote. Barcelona: Crítica. ver DIDIER (2000). Dom Quixote pretende pintar um retrato de Dulcinéia em seu escudo. Ariano. Emblemas da sagração armorial. Heliana apresenta as características de uma dama (rosto pintado no escudo e amada secretamente pelo cavaleiro Sinésio. p. Miguel de (1998). em um processo de metaficção. Referências bibliográficas CERVANTES. (2005) Perspectivismo y existencialismo. é mentiroso. Cide Hamete Benengeli. SUASSUNA. 8 9 Cecília e Isabel são personagens de O Guarani. RILEY. à imitação dos cavaleiros ficcionais. Sancho Pança e Dulcinéia del Toboso. defendida na Universidade de São Paulo. de José de Alencar. (2010) Las transformaciones de Aldonza Lorenzo. em 2007. em determinado momento. RILEY. tese defendida na Universidade de São Paulo. Edward. 262-276). Em Introducción al Quijote. a partir da própria literatura. 3 Sobre o perspectivismo no Quixote. porém uma cortesã para Sancho. remetemos o leitor ao texto de Close (2005. Rio de Janeiro: José Olympio. Tanto uma como outra é descrita. nº 14. Notas 1 2 A pesquisa conta com o apoio do CNPq. ver nossa tese de doutoramente “Da palavra ao traço: Dom Quixote. Lembremos que. vive isolada em uma fortaleza) e. no qual ele apresenta os principais estudos sobre o tema. (2000). Em Lemir . Edward.

ela dormia na rede do pátio dos escravos junto das outras escravas da casa. escrava governanta da casa. recebe também um nome com a marca da migração interlinguística crioula. esse discurso servia à legitimação da inquisição e do sistema escravocrata. que não ultrapassa os 13 anos de idade. apesar da pele branca.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 257 SIERVA MARÍA DE TODOS LOS ÁNGELES E MARIA MANDINGA Cinthia Belonia PG . Devido a essa criação. pois após seu nascimento foi negligenciada por seus pais. Seu comportamento rotulado como “negro” passa a ser mal interpretado pela sociedade local. quando. reproduzidas pela personagem. a personagem adquire um comportamento semelhante ao dos escravos e. que não aceita nenhuma explicação médica. tuvo una infancia de expósita. do título de marquesa. a menina é vítima de uma manifestação demoníaca. A demonologização das práticas culturais de origem negro-africana e ameríndia. dado por sua mãe. da posição social considerável em sua cidade e de um nome de batismo católico. Trata-se de uma menina que possui um comportamento identificado com o ethos negroafricano. Para a Igreja. que caracteriza um ato de exclusão e discriminação: María Mandinga. La madre la odió desde que le dio de .UFF Neste trabalho abordo o comportamento da personagem Sierva María de Todos los Angeles da obra Del amor y otros demonios de Gabriel García Márquez. além de possuir um nome de batismo visivelmente católico. aguça a suspeição já existente sobre seu comportamento identificado com o ethos dos escravos. após ter sido mordida por um cachorro raivoso em companhia de negros. Durante o vice-reinado da Colômbia. por isso. E foi ali que cresceu: La niña. hija de noble y plebeya. Sierva María de Todos los Angeles é uma personagem complexa. no romance. uma estratégia da Igreja Católica para a perpetuação do poder eclesiástico através da imposição do discurso religioso. Dominda de Adviento. constitui. À época (século XVIII na América espanhola). estigmatizavam-se as pessoas que contraiam a raiva (Rhabdoviridae). principalmente pela Igreja Católica. Mesmo tendo um quarto na casa grande. Tal personagem é uma menina branca que fora criada no pátio dos escravos de sua casa. é quem a cria dentro de seus costumes.

y se negó a tenerla con ella por temor de matarla. filha dessa colonização. ele abre um espaço interalar entre os dois locais do poema. sin duda escamoteados por los suyos para tratar de hechizarlos. era capaz de atravessar a fronteira que há entre senhores e escravos. Meses depois: O pátio dos escravos constituía o local onde Sierva María se sentia livre para manifestar seu comportamento dúbio sem sofrer nenhum tipo de discriminação. Sierva María estava completamente sã. Afinal. aprendió tres lenguas africanas al mismo tiempo. 2007. Stuart Hall afirma que: A distinção de nossa cultura é manifestadamente o resultado do maior entrelaçamento e fusão. ela possui características do pluriculturalismo que identifica muitos povos colonizados. a beber sangre de gallo en ayunas y deslizarse por entre los cristianos sin ser vista ni sentida. p. Sobre esse hibridismo. a instância subalterna que executa a sua vingança circulando sem ser visto. Sobre isso o pensador indo-britânico Homi Bhabha em O local da cultura nos diz que: A invisibilidade apaga a autopresença daquele “Eu” em termos do qual funcionam os conceitos tradicionais de agência política e domínio narrativo. Ele atravessa as fronteiras entre senhor e escravo. . por não podermos classificar a personagem numa única identidade. Por isso híbrida. através da metáfora literária. cor. A exclusão geográfica. Sobre esse aspecto da personagem. A Dos habían desaparecido. mas. É possível que o narrador tenha escolhido esses personagens para sublinhar. la bautizó en Cristo y la consagró a Olokun. é o mau olho desencarnado. ao mostrar que em sociedades estratificadas até os cachorros são preconceituosos. asiáticos e europeus. o Hemisfério Sul da escravidão e o Hemisfério Norte da diáspora e da migração.258 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS mamar por la única vez. podemos chamar de astúcia. também foram mordidos três escravos negros. na qual nenhum colonizado poderia experimentar a mesma liberdade que ela. baseada em suas estruturas simbólica e espacial comuns – a estrutura maniqueísta de Fanon – articuladas dentro de diferentes relações temporais. por mais que se parecesse com eles devido aos costumes que mantinha. 2007. que então se tornam estranhamente duplicados no centenário fantasmático do inconsciente político.24). de diferentes elementos culturais africanos. como nos ensina Bhabha. Graças a essa criação negra. Esta duplicação resiste ao tradicional elo causal que explica o racismo metropolitano contemporâneo como resultado dos preconceitos históricos das nações imperialistas.54). Había un cuarto que no fue mordido sino apenas salpicado por la baba del mismo perro. Como uma hispano-americana que era. Além dela. Transpuesta en el patio de los esclavos. 2011. Fazendo sua mãe acreditar que o cachorro contraíra raiva após mordê-la. p. mas também não tão igual aos negros. e essa livre transição não era permitida aos colonizados. demarcada pela fronteira que separava o pátio da Casa Grande. A história de Sierva María inicia após ela ser mordida por um cachorro na rua quando passeava com uma das escravas fazendo compras para a festa de seus 12 anos. Esse resultado híbrido não pode mais ser facilmente desagregado em seus elementos “autênticos” de origem (HALL. y un tercero había muerto del mal de rabia en la segunda semana. conseguindo passar entre os cristãos sem ser vista. y siempre con una máscara. Dominga de Adviento la amamantó. cuyo rostro se presume tan temible que sólo se deja ver en sueños. O que toma (o) lugar. 91). Sierva María aprendió a bailar desde antes de hablar. no sentido do suplemento derridiano. p. O que ela de fato sugere é uma nova compreensão de ambas as formas de racismo. p. a marquesinha branca cresceu diferente dos seus. y estaba agonizando en el hospital del Amor de Dios (MÁRQUEZ. o preconceito étnico-social. na fornalha da sociedade colonial. 2007. culturais e de poder (BHABHA. além de transitar também no mundo dos negros por se identificar com os mesmos. ela não era uma deles. 31). Caracterítica típica dos negros e dos colonizados para sobreviverem num mundo de repressão. una deidad yoruba de sexo incierto. proporcionava a Sierva María um sentimento de proteção em relação à sociedade escravocrata. Pois a menina tinha liberdade para transitar no mundo dos brancos por ser essa a sua Diferente das outras vítimas. como un ser inmaterial (MÁRQUEZ.

católico e europeu (Maria) com o negro. Possuía. Sierva María assume essa cultura. Sua mãe costumava dizer que a única coisa que a menina tinha de branco era a cor. Como a cor é sinal exterior mais visível da raça. o costume de mentir por vício. por ter sido colonizado e escravizado. nas línguas mandinga. também. Bernarda Cabrera marca a diferença entre as duas. é porque o negro e o índio adquirem status de humanidade e as suas culturas começam a ser repensadas dentro dos novos enfoques da História (CHIAMPI.56). Mesmo assim “estaba dispuesta a hacer la farsa de las lágrimas y a guardar un luto de madre adolorida por preservar su honra. pois comia com as escravas o que era servido no pátio onde eles viviam. p. afroreligioso e africano (Mandinga). o desprezo dos povos fortes e ricos por aqueles que eles consideram inferiores. se igualando sempre aos negros. por isso de uma posição social insegura. uma com seus semelhantes e outra com o branco. E “ella le aumentaba el susto con una retahíla en lengua yoruba” (MÁRQUEZ. Esse comportamento se apresentava nas danças africanas que a personagem aprendera desde muito nova. traduzindo o preconceito étnico-cultural característico do período colonial. conotação pejorativa. aos olhos do Fanon retoma Sartre. sem se levar em conta as suas aquisições educativas e sociais. do país colonizador. As raças de pele clara terminaram desprezando as raças de pele escura e estas se recusam a continuar aceitando a condição modesta que lhe pretendem impor (BURNS apud FANON. 2008. E alternava seu nome com um nome africano que havia inventado: María Mandinga. a menina aproveitava para assustar a mãe fazendo um barulho estranho. sendo ela filha de índio e seu marido um crioulo1. um paladar culinário exótico comparado com o europeu.116). 110).ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 259 ironia. 2007.90). aqui. E de fato a menina se comporta de forma diferente entre um e outro. o status de humanidade. além desse comportamento. o peso desse povo. que a menina conhecera antes mesmo do castelhano. p. con la condicíon de que la muerte de la niña fuera por una causa digna” (MÁRQUEZ. exemplifica. Desenvolveu. que diz que “é o antisemita que faz o judeu” (SARTRE apud FANON. congo e iorubá. Sierva María era branca. nada mais é do que uma criação europeia. Frantz Fanon fala em Pele negra Máscaras brancas que o negro tem duas dimensões. sua mãe já a considerava de um comportamento diferente. Sabendo disso. através dela. ela suporta. através de Burns. ela tornou-se o critério através do qual os homens são julgados. Um nome que combinava o branco. 2008. Mesmo antes da menina ser mordida pelo cachorro. p. e depois o amargo ressentimento daqueles que foram oprimidos e frequentemente injuriados. p. principalmente aos brancos. para poder dizer . Renomeando a filha. Ela não assume os valores da metrópole. p. possuía hábitos e valores negros. que quem cria o inferiorizado é o racista: O preconceito de cor nada mais é do que a raiva irracional de uma raça por outra. tão comum nas obras de García Márquez. não poderiam sofrer a humilhação de ter uma filha com raiva. Como se só confiasse nos negros. Ao falar a língua dos negros. como diz Fanon. pois antes . visto que: Toda a projeção eufórica do mestiço passa pela reabilitação dos seus componentes raciais: se a mistura de sangues se torna aceitável para o branco. colonizador. Pois. mas sim assume os valores negro do povo no qual se identificava. por identificação cultural e afetiva.25). Tal nome era uma forma da mãe demonstrar seu preconceito com os negros e com o comportamento da filha que se assemelhava ao deles. por isso o índio e o crioulo (nesse caso não se trata da cor da pele) não adquiriram. excluindo-a e exilando-a em um mundo (o dos escravos) onde a carga semântica do nome ganha. no entanto. O negro. a forma como a mãe se referia à filha. Considerava a menina de uma presença fantasmagórica e muito assustadora. 2007.

p. Quem fazia a ligação entre os dois mundos nos quais a menina vivia era Dominga de Adviento. mas que permanece em sua indecidibilidade” (HALL.. por este ser judeu. p. a los noventa y tres días de ser mordida por el perro y sin ningún síntoma de la rabia” (MÁRQUEZ. dom Toribio de Cárceres y Virtudes. Ao querer salvar a alma da personagem. O bispo diz ainda. 20). não é estranho o fato de Sierva María ser considerada uma possessa por apresentar um comportamento negro. p. até mesmo. o diabo. uma das escravas do local a vê no pátio e reconhece os colares de candomblé. como é o caso da personagem aqui trabalhada. do opressor” (FANON. e este é crucial à cultura. 2008. era uma boa propaganda para a Igreja Católica. E foi nesse hibridismo que Sierva María cresceu. 1961. em todo lugar há a différance. 71). Esse hibridismo. p. que a menina não deveria estar aos cuidados do médico Abrenúncio. e os dois dizem que Deus os deu meios para salvar sua alma. marquês de Casalduero. onde. 38). p32). y practicaba ambas a la vez. sin orden ni concierto” (MÁRQUEZ. pois o que se dizia nas ruas era que a menina “rueda por los suelos presa de convulsiones obscenas y ladrando en jerga de idólatras” (MÁRQUEZ. tanto na figura do carrasco quanto na figura de Satã. cristão e vodu. animal e. está presente em toda a América Latina no “pecado-contriçãoabsolvição”. pôde sentir a “África” devido à forma como os deuses africanos foram combinados com os santos cristãos no vodu haitiano. Fanon afirma que o negro é visto pelo branco como a figura do mal. segundo Hall. o padre-bibliotecário e braço direito do bispo. Dessa forma. como um selvagem. Fanon diz que a Igreja das colônias não chamavam os colonizados para a religão. segundo Hall. antes de iniciar seu trabalho” (HALL. Mas o que incomodava a Igreja era a sabedoria do médico. que se atém a duas religiões.76-77). do estrangeiro e colonizador.67). 2007.. Stuart Hall fala sobre o hibridismo religioso que presenciou tanto no Haiti como na Jamaica. que representa a razão na obra. 2007.] Trata-se de um processo de tradução cultural. 160). Na Europa o mal é sempre representado pelo negro. Delaura. Ao perguntarem o que aconteceu com seu tornozelo. a escrava governanta da casa e quem criara Sierva María: “Se había hecho católica sin renunciar a su fe yoruba. E assim. o que o bispo realmente pretende é colonizar e usá-la como exemplo e demonologizar as práticas culturais oriunda dos negros e ameríndios. 2011. numa época de Inquisição. e explica que o que há com ela é uma possessão. Ele alerta ainda que o termo “hibridismo não se refere a indivíduos híbridos. O escândalo dos vexames e desvarios de Sierva María chega aos ouvidos do bispo da diocese.260 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS do contato com o branco ele não se sentia inferiorizado por nenhuma outra raça. Em Os condenados da terra. pois o baile na terça-feira de carnaval vem seguido da missa na quarta-feira de cinzas. Ao chegar no convento. leva-a até a cozinha. E acrescenta: “fala-se de trevas quando se é sujo. uma possessão demoníaca e o sucesso em seu exorcismo. do pecado. do amo. ela . E assim como Dominga de Adviento. o marquês de Casalduero se convence de que deve internar sua filha no convento de Santa Clara. se é negro – tanto faz se isso se refira à sujeira física ou à sujeira moral” (FANON. mas sim para o “camino do branco. A menina é internada num convento porque. p. e sabia que a personagem não estava possessa. considera junto a este que o corpo da menina não tem salvação. p. agonístico uma vez que nunca se completa. com isso. [. 2011. Nos diria Hall. 2007. fazendo isso no dia seguinte: “Fue en la última celda de ese rincón de olvido donde encerraron a Sierva María. o contemporâneo pintor francês André Pierre “fazia uma prece a ambos os deuses. além da escrava Dominga de Adviento. Este conversa com o pai da menina. pois a diferença é essencial ao significado. que vive na indecidibilidade da cultura negra a de sua etnia branca. Pois a Igreja é de brancos.

E diz ao bispo que as atas onde as clarissas anotavam o comportamento da menina serviam mais para justificar a mentalidade da abadessa que o estado de Sierva María. E quando perguntaram seu nome. y les ganó a todos. Cayetano Delaura é o único na obra a perceber que a acusação de possessão feita pela Igreja à menina foi devido à intolerância e ignorância desta para com o comportamento negro e afro-religioso da personagem. Lê saco los ojos y le cortó las criadillas . mejor que ellos mismos entre si. E diz ainda que mesmo que não esteja possuída. movidas pelo tédio. 1993. o con las bestias de cualquier pelaje (MÁRQUEZ. (. eurocidental y católica (CORONEL. pareciam ter mais curiosidade que medo: Pero los terrores de las clarisas eran contradictorios. Jugó al diábolo con los adultos en la cocina y con los niños del patio. pois como tinha o costume de mentir por vício. disse Maria Mandinga. Sempre que alguém tenta tirar seus colares (Sierva María usava colares de candomblé.49). ameaçavam sua hegemonia religiosa e política. Mas as clarissas. p. Sierva María recupera seu mundo: Ayudó a degollar un chivo que se resistia a morir. anormais. considerados por elas. Ao conversar com a abadessa deixa . en congo y en mandinga. E diz que o que parece demoníaco para eles (católicos) são os costumes negros que a menina aprendeu ao viver no pátio dos escravos após o abandono dos pais. pues a pesar de los aspavientos de la abadesa y de los pavores de cada quien. Sendo considerada pelas freiras dona de uma força de outro mundo. no entanto não sabe ainda de quem se trata. blanca.84).ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 261 responde que sua mãe fez isso com uma faca. E assim. Cantó en yoruba.) Una niña endemonia dentro del convento tenía la fascinación de una aventura novedosa (MÁRQUEZ. Não só a abadessa. naquele convento ela tem todas as condições possíveis para que isso aconteça. E ao conhecer Sierva María. vê apenas uma menina pura e indefesa. intimamente relacionadas y privilegiadas en ese mundo) eran contrarias a la ‘civilización’ y a las ‘buenas constumbres’. tudo o que acontece daí em diante no convento será atribuído aos demônios presentes em Sierva María. que eran las partes que más lê gustaban. y se comió las criadillas y los ojos aliñados como fuego vivo.78). que las manifestaciones ‘de caráter africano’ (precisamente las religiosas y las danzarias. p. claro de que não há provas de que a menina esteja de fato possessa. além de uma escapulário) ela se altera com muita agressividade.107) A abadessa do convento ao ouvir o canto da menina fica deslumbrada com sua voz. 2007. Sobre as atas: Decían que la niña se había complacido descuartizando un chivo que degolló con sus manos. A Igreja condenava à fogueira ou a outros castigos todos aqueles que. p. y aun los que no entendían la escucharon absortos. Cayetano Delaura fora incumbido pelo bispo de cuidar do caso. noviças do convento de Santa Clara. Al almuerzo se comió un plato con las criadillas y los ojos del chivo. de certa forma. guisados en manteca de cerdo y sazonados con especias ardientes (MÁRQUEZ.. Como haviam dito para ela que a menina estava possuída. usa desse estratagema para esconder a verdade sobre o tornozelo mordido pelo cão raivoso. foi para a cozinha erguendo o crucifixo que trazia pendente ao pescoço. la celda de Sierva María se convirtió en el centro de la curiosidad de todas. 2007. Além da intolerância e ignorância. en síntesis. mas todas as freiras do convento lhe atribuem todos os acontecimentos. representada por la clase dominante.. Hacía gala de un don de lenguas que le permitía entenderse con los africanos de cualquier nación. Ao ser informada de que o canto era produzido pela “possessa” que ela aguardava. Segundo o filólogo cubano Rogelio Rodríguez Coronel: Queda explícito. p. 2007. outro motivo forte que levava a Igreja a condenar (através da Inquisição) as pessoas é o fato de se tratar de uma estratégia de controle e dominação políticosócio-cultural.

Stuart (2011): Da diáspora: identidades e mediações culturais . 2005. afro-religiosos e primitivos. de classes subalternas. O que na verdade era um comportamento semelhante ao dos escravos. Serafim Ferreira. CHIAMPI. Irlemar (1980): O Realismo Maravilhoso. nascidos nas Américas. Eliana Lourenço de Lima Reis. A perfídia. Rio de Janeiro. nascido nas colônias europeias de além-mar. Salvador: EDUFBA. católicos de ascendência européia. Faculdade de Letras – PósGraduação. entretanto.. mas. que. Magdala França Vianna. Sierva María. o despotismo) e com o substrato indígena (a perfídia. o dialeto português falado em Cabo Verde e em outras possessões portuguesas da África. Miryam Ávila. refere-se à lógica sincrética do crioulo vernacular como modelo inclusivo com um majoritário aporte de construções sociais. Homi K (2007): O local da cultura . Referências bibliográficas BHABHA. sua família. Renato da Silveira. a indicar. HALL. Brasília: Representação da UNESCO. animais e plantas que se transportaram para o continente americano a partir de 1942. p. nº1. 103-5.. como já havia dito Fanon. no segundo caso.262 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS García Márquez apresenta em Del amor y otros demonios uma América de brancos. (. Centro de Letras e Artes. Ano 1. do europeu sobre os povos das Américas. Forma e Ideologia no Romance Hispano-Americano. a escravidão. o termo identificava os que nasciam e eram educados nas Américas sem ser originários delas como os ameríndios. fanáticos em suas crenças. os escravos e a população nativa dessa Colômbia. Crioulização e Crioulidade. Rogelio Rodríguez (1993): Marginalidad y literatura en textos afrocubanos de origen yorubá .. dominando também de crioulo o dialeto falado por essas pessoas. In: Terceira Margem: Revista de Pós-Graduação em Letras.” (cf. o primitivismo. por extensão. Nota 1 O termo crioulo é “egresso do latim criare com o sentido de educar. MÁRQUEZ. a ignorância) – inclusive nas zonas de culturas autóctones superiores (CHIAMPI. Lisboa: Ed. também. CORONEL. ULISSEIA. e de negros. Trad. e. homens de todas as raças. p. FANON. Belo Horizonte: EdUFMG.) Na América hispânica. Trad. que por serem considerados inferiores pelos europeus e seus descendentes de cor branca. particularmente as das Américas. E o definiram como uma possessão.Belo Horizonte: EdUFMG. o negro nascido nas Américas. a indolência e o primitivismo são construções estereotipadas que legitimavam a visão deturpada. Frantz (1961): Os condenados da terra.110). em Conceitos de Literatura e Cultura. respectivamente. A contraposição América e Europa no antagonismo entre a inocência do primitivo e a degeneração da razão é representada na obra por. Sobre essa América Chiampi afirma: Os elementos que compõem a imagem da América bárbara são identificados com a herança espanhola (a Inquisição. o termo crioulo não só indica os membros. Buenos Aires: Debolsillo. pela abadessa e pelo bispo. a indolência.) O Novo dicionário de língua portuguesa de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira define crioulo como: o indivíduo de raça branca. (..) . Gláucia Renate Gongalves. passando. Universidade Federal do Rio de Janeiro. Editora Perspectiva. 1980. _______ (2008): Pele negra máscaras brancas. era facilmente visto como algo demoníaco. não percebiam que o que a menina tinha era um comportamento diferente do europeu. muitas vezes carregadas de preconceito. Gabriel García (2007): Del amor y otros demonios.

Andalucía. p. Se ha considerado un lugar geoestratégico al hallarse en el extremo sur de la Península.87). Nos acercaremos a un poeta que es heredero de viejísimas culturas. entre África y Europa. Pocos escritores en lengua castellana han alcanzado una trayectoria semejante después de su muerte. las mismas que han dado lugar a una región cuyos orígenes. y foco de atracción de grandes civilizaciones. la obra de Lorca no ha dejado de expandirse hasta alcanzar una posición universal en el mundo de la literatura. Ya desde inicios de la Edad de Piedra se encuentran muestras de culturas prehistóricas en Andalucía. que componen el entorno de su niñez y adolescencia. La posición geográfica de Andalucía la convirtió en tierra de paso de diversos pueblos ya desde la prehistoria. creencias. tan sólo catorce escasos kilómetros de agua separan ambos continentes. leyendas. etc.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 263 ESPACIOS. imágenes. la leyenda y la historia. Una región mucho más cercana a Marruecos que al propio norte de España. en este trabajo se recorre la palabra del escritor granadino a la luz de los ingredientes de los que se ha nutrido la historia y el fértil imaginario de su tierra natal. de los paisajes. supersticiones. además de las experiencias y lecturas particulares. En los valles del Guadalquivir y del . universalizando Andalucía y convirtiéndola en un espacio mítico en el que confluyen todos los grandes temas y las grandes preguntas (GARCÍA-POSADA. se debaten a medio camino entre el mito. Con la pretensión de ser capaces de abrir ventanas inéditas desde las que poder asomarse a la obra lorquiana. La formación del complejo universo simbólico lorquiano se nutre. perdidos en la noche de los tiempos. así como del conocimiento adquirido gracias a una enorme curiosidad hacia la historia de su propio pueblo. En ella se encuentra la Punta de Tarifa que es el lugar más al sur de la Europa continental y el más cercano al continente Africano. MITOS Y CLAVES DEL IMAGINARIO ANDALUZ EN LA POESÍA DE FEDERICO GARCÍA LORCA Clara Pajares Gil Universidade Federal de Viçosa Desde su violento asesinato en 1936 a manos del bando fascista. 1989. Y entre las múltiples propiedades que hicieron de su obra un tesoro inmortal se encuentra ese ingenio único para mezclar en un cóctel singular la tradición milenaria y la vanguardia. entre el Atlántico y el Mediterráneo.

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Guadalete se encontraron guijarros tallados como primer exponente del paso del homo hábilis y ya en el último estadio del Paleolítico superior, la etapa llamada magdaleniense aparecen las primeras manifestaciones artísticas del hombre de CroMagnon andaluz en diversas cuevas malagueñas y gaditanas. Algunas de éstas, tras el paso y la huella de sucesivas generaciones prehistóricas, acabarían convertidas en auténticos santuarios profusamente decorados con toda clase de motivos zoomórficos, cinegéticos, mágicos etc. Destacan también, repartidos por casi todo el territorio andaluz, los monumentos funerarios megalíticos (MAZARRASA, 1980, p.33-48). Varios de estos sepulcros fueron encontrados en la provincia de Federico García Lorca, Granada. Eran monumentos dedicados al culto de los antepasados, generalmente levantados en lugares altos (para ver y ser vistos), en sociedades que comenzaban tener una relación particular con la muerte y a conceder importancia a la memoria de sus antepasados. Hay quien, como Gómez-Moreno, considera que los monumentos megalíticos andaluces de la Edad del Hierro constituyen el único testimonio arqueológico capaz de sustentar racionalmente el mito de los Tartesios (MAZARRASA, 1980, p.48). Caro Baroja, sin llegar a mencionar ninguna civilización, afirma: “Es lícito pensar que acaso algunos de los grandes sepulcros megalíticos andaluces fueran hechos para grandes reyes de tipo faraónico” (MAZARRASA, 1980, p.52). No sería una aberración pensar que el poeta granadino pudo encontrarse cerca de alguno de estos mausoleos arcaicos, estudiarlos u oír hablar de ellos en algún momento de su infancia. El culto de la tradición andaluza a la muerte (cuyo origen, como vemos, nos remonta al Neolítico) es un tema recurrente en la literatura lorquiana. El poeta dice que España es un país de danzas milenarias (haciendo alusión a pueblos ancestrales) y también de muerte, donde la gente cobra verdadera importancia después de abandonar la vida. Un país que exhibe a sus difuntos, donde “un

muerto está más vivo como muerto que en ningún sitio del mundo” (LORCA, 2004, p.154). En los escritos lorquianos se manifiesta un especial interés por las primeras civilizaciones que pasaron por Andalucía, como la de los tartesios. Situada a medio camino entre la Prehistoria y la Historia, en la llamada Protohistoria, la tartesia fue considerada por los griegos como la primera civilización de Occidente. Esta cultura, según el arqueólogo e historiador Adolf Schulten, prosperaría gracias a la riqueza metalúrgica de la zona (enclave importante de comercio de cobre y estaño) (MAZARRASA, 1980, p.55) que atraería a fenicios, griegos e indoeuropeos. Y la imaginación de algunos antropólogos y estudiosos (entre los que se encuentra el propio Schulten) ha querido asociarla a la fabulosa Atlántida de Platón, que algunas teorías presuponen que fue levantada en el espacio correspondiente al actual Parque Nacional de Doñana. A manos de Lorca llegaría un artículo que Schulten publicó en la Revista de Occidente en 1923 y que se refiere a los tartesios como la civilización más antigua de occidente (JOSEPH Y CABALLERO, 2006, p.21). Numerosos autores de la Antigüedad cuentan historias sobre los tartesios. Estesícoro, en su poema Gerioneida , habla de un fundador de la dinastía tartésica, el rey Gerión, poseedor de rebaños de vacas y toros. García Lorca también lo menciona en su ensayo Juego y teoría del duende : “Allí estaban los Floridas, que la gente cree carniceros, pero que en realidad son sacerdotes milenarios que siguen sacrificando toros a Gerión”. Este sería quizá un modo literario de situar históricamente un primer precedente de la tauromaquia, a la que Lorca dedicará poemas como La cogida y la muerte o Llanto por la muerte de Ignacio Sánchez Mejías. Justino, escritor romano del s.II d.C., habla de los habitantes del bosque de los tartesios, cuyo rey fue Gargoris, padre de Habis. Habis había sido fruto de amores incestuosos (cosa frecuente en las dinastías divinas

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de la tradición mítica mediterránea) y sería considerado como un rey muy beneficioso para su pueblo, dictando las primeras leyes, enseñando a labrar la tierra y dividiendo la sociedad en castas. En su Ora Marítima, Avieno (poeta latino del siglo IV d.C.) alude a la tierra tartesia (identificándola con el territorio correspondiente a la actual Cádiz) como a una ciudad opulenta. En Juego y Teoría del duende Lorca menciona al que fue considerado el último rey tartesio: “Allí estaba Ignacio Espeleta, hermoso como una tortuga romana, a quien preguntaron una vez <¿Cómo no trabajas?>; y él, con una sonrisa digna de Argantonio, respondió: <¿Cómo voy a trabajar, si soy de Cádiz?>” (LORCA, 2004p. 152) Heródoto nos cuenta que el rey tartesio Argantonio gobernó durante ochenta años (entre 630 y 550 a.C aproximadamente). Pero a partir del año 500 a.C ya no se tienen más noticias sobre los tartesios. Su desaparición aún continúa siendo un misterio (MAZARRASA, 1980, p 51-63). Después de los tartesios las civilizaciones más destacadas (previas a la conquista católica de la Península completa en 1492) que pasaron por Andalucía fueron: Turdetanos, griegos, fenicios, cartagineses, romanos, vándalos, visigodos, musulmanes y judíos. Se calcula que los gitanos llegarían a la Península en el siglo XV y proliferarían (aunque despreciados y marginados) sobre todo en época de dominio católico. Este cúmulo de costumbres, tradiciones y religiones heredadas de todos estos pueblos aparece claramente reflejado en los versos lorquianos. Pero lo interesante es de qué modo se presentan estos elementos, originalmente amalgamados y manifestando asociaciones interculturales estilizadas por la subjetividad artística del genio granadino que revelaban el mestizaje que Lorca respiraba en su propio ambiente. Si nos deslizamos atentamente a través de sus versos, observaremos que Lorca era conocedor de la historia de Andalucía anterior al catolicismo y al

islamismo. Encontramos multitud de referencias a la Antigüedad Clásica. Alusiones a los dioses del panteón, como en el poema San Rafael: “Y mientras el puente sopla/ diez rumores de Neptuno, / vendedores de tabaco/ huyen por el roto muro” (LORCA, 2012, p.84) A la cultura latina en poemas como El emplazado: “Y la sábana impecable, / de duro acento romano, / daba equilibrio a la muerte/ con las rectas de sus paños” (LORCA, 2012, p.101) O a las guerras púnicas, recordemos el poema Reyerta en el que dice: “Han muerto cuatro romanos/ y cinco cartagineses” (LORCA, 2012, p.66). Para Lorca, Andalucía representaba, entre otras cosas, un pequeño oriente dentro de occidente, generado básicamente gracias a las aportaciones de dos culturas: la árabe y la gitana (esta última llegada desde la Península indostánica). Los musulmanes permanecerían más que ninguna otra civilización en el sur de la Península ibérica (casi ocho siglos), por eso su influencia en la literatura y en las diversas artes será capital. Hasta el punto de que con ellos nacen las primeras manifestaciones líricas (conservadas por escrito) en español, las jarchas (aquellos poemillas breves, en lengua romance que acompañaban a las extensas moaxajas árabes o hebreas). Lorca había nacido en un pueblo, Fuentevaqueros, de la provincia de Granada, la ciudad de la Alhambra, último baluarte del islam hispánico. En la poesía lorquiana aparecerán referencias al pasado musulmán, frecuentemente diluyendo el elemento árabe en otros de la tradición cristiana (al igual que ocurría en Al Ándalus). En el poema San Rafael encontramos: “El arcángel aljamiado/ de lentejuelas oscuras” (LORCA, 2012, p.85) O en el poema San Miguel dice: “San Miguel, rey de los globos/ y de los números nones/ en el primor berberisco/ de gritos y miradores” (LORCA, 2012, p.82). Algunos símbolos característicos de la escritura lorquiana, como la luna y el color verde, también guardan una estrecha relación con la cultura

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árabe. La luna es el símbolo del islam, cultura que también concederá importancia a la noche desde un punto de vista literario. Y el color verde, del que tanto se ha hablado, constituye dos de las franjas de la bandera de Andalucía (a este verde se le ha llamado verde omeya , haciendo alusión a la dinastía de Al Ándalus). También el verde es el color de los infinitos olivares del sur de España y remite a la piel morena “aceitunada” de los gitanos. Su poema Crótalo es otra muestra del gusto del poeta por remontarse a un pasado remoto cuyos objetos guardan un vínculo estrecho y casi secreto con otros de la actualidad. En dicho poema Lorca establece una evidente conexión entre el antiguo instrumento musical de la tradición oriental y las castañuelas. Llama al crótalo “escarabajo sonoro”, imagen que se corresponde bastante bien con la de una castañuela, si pensamos en el típico escarabajo negro que abunda en tierras andaluzas (cuyo aspecto ciertamente se asemeja al de una castañuela) y describe el movimiento como “araña de la mano”. Esa imagen, dotada de gran plasticidad, remite directamente al movimiento de las manos cuando se tocan las castañuelas (LORCA, 2006, p.201). Para Francisco Umbral, Lorca paganiza , esoteriza y regionaliza el cristianismo andaluz en sus romances. Señala Umbral que, en el Romance de la Guardia Civil española, desacraliza e identifica la condición de judíos de la Virgen y San José con la de gitanos. Estas dos minorías (los judíos y los gitanos) habían estado proscritas por el catolicismo, imperante en Andalucía desde 1492 (UMBRAL, 2012, p.123). Como es sabido, Lorca fue un gran admirador de la cultura gitana, cuyos ambientes frecuentó. Sus visitas a las casas-cueva, hogar de los gitanos del Sacromonte granadino y escenario de fiestas flamencas, quedarían plasmadas en poemas como Cueva, en el que dice que: “El gitano evoca/ países

remotos” (LORCA, 2006, p.161), dejando constancia de la raíz oriental y exótica de los gitanos. En sus voces encuentra Lorca los ecos de matusalénicas culturas ya profundamente mezcladas con la, también viejísima, alma andaluza, cuya condición híbrida había dado lugar a fenómenos muy apreciados por el poeta, como el Cante Jondo. Nos cuenta Ian Gibson en su biografía de Lorca que un Lorca jovencito acompañó durante varios días a Ramón Menéndez Pidal a las cuevas del Sacromonte granadino para recoger romances orales (GIBSON, 1985, vol. I, p.300). Tras aquel acercamiento filológico (en compañía de Menéndez Pidal) a los romances vivos del Sacromonte (con el que el poeta quedó encantado), no es casualidad que Lorca sienta predilección por esta combinación métrica para su Romancero Gitano, considerándola el molde idóneo. Lorca (al igual que habían hecho otros poetas del Barroco y del siglo XIX) revitaliza una forma primitiva y oral que se mantenía en el mundo hispánico desde los albores medievales de su literatura. La pasión de Lorca por todas aquellas viejas culturas que entretejieron la historia mestiza del sur de la Península Ibérica nos transporta en un viaje que comienzó en la Prehistoria. Todos estos pueblos están, de algún modo (más o menos explícito), evocados en la pluma del poeta granadino. Porque, más allá del localismo folclórico anecdótico, más allá del egocentrismo y del subjetivismo literario, Lorca ha sabido proyectarse hacia el exterior, captar la esencia de una tierra compleja y saltar de lo antropológico a lo poético y de lo poético a lo inmortal.

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POESIA E FICÇÃO NA OBRA DE ROBERTO BOLAÑO: INTERSEÇÕES

Clarisse Lyra Simões PG - USP

Parece haver se formado já entre a crítica e os leitores de Roberto Bolaño um consenso sobre a menor valia de sua poesia em relação à sua prosa. Exemplo disto pode ser observado neste congresso, em que temos duas mesas de comunicações dedicadas ao autor (Cervantes lidera com três mesas, Bolaño vem na sequência) e nenhum trabalho que trate especificamente de sua produção poética. O meu texto, como vocês irão notar, não foge à regra, tendo como objetivo principal especular o modo como a poesia pode se imiscuir em suas narrativas, e não o contrário. Não deixa também de ser emblemático o fato de o mercado editorial brasileiro vir ignorando a grande parcela da obra de Bolaño escrita em verso. O crítico Matías Ayala, por exemplo, defende que o trabalho poético do chileno se tornou parte da “pré-história do narrador”, um trabalho que pode ser tomado como um “ índice biográfico-literario para investigar retrospectivamente su proceso creativo ” (AYALA, 2008, p. 98), mas cujo valor literário é relativizado, não chegando a ser comparável com o de sua produção ficcional. Ayala afirma que “el hecho de […] dejar de escribir en la primera persona del

singular le permitió [a Bolaño] sobrepasar los escollos de una lírica en la que no parecía destacar” (ibidem, p. 99), concluindo que
[...] se puede afirmar que Bolaño deja de escribir poesía para escribir sobre poetas, para ficcionalizar su propia vida azarosa y su fracasada carrera poética en Los detectives salvajes. Bolaño se sabe un mal poeta, y publica para demostrar y atestiguar que ha fracasado (ibidem, p. 100).

Esta passagem da escritura de Bolaño, que nos anos 90 se afasta da poesia, passando a escrever principalmente ficção, aparece ficcionalizada em Los detectives salvajes e é aludida com frequência pela sua crítica. Andrea Cobas Carral e Verónica Garibotto vêm nisto um trânsito que se relaciona com a economia da escrita, que se desloca desde “la poesía como una práctica que se desarrolla mayormente por fuera del mercado a la narrativa como un ejercicio de supervivencia ” (COBAS CARRAL e GARIBOTTO, 2008, p. 178). Alan Pauls, por sua vez, reflete sobre como em Los detectives salvajes – “un gran tratado de etnografía poética” (PAULS, 2008, p. 328), segundo ele - Bolaño “hace brillar a la Obra por su ausencia” (ibidem, p. 328), substituindo o idealismo que

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geralmente cerca a figura do poeta pela colocação em cena do que ele chama, segundo a “gran tradición del melodrama de artista”, “sed de vivir” (ibidem, p. 328). Diz Pauls:
Operación extraña, la de Los detectives salvajes: la poesía – la “obra poética” – queda afuera, del lado de lo real, de lo real-histórico (Mario Santiago, el infrarrealismo, la historia de la poesía mexicana, etc.); y lo que entra, lo que se infiltra en la ficción y ocupa el sistema circulatorio de la literatura, es algo que sólo creíamos conocer (y despreciábamos) bajo la forma del peor de los estereotipos: la Vida misma, la Vida Poética (ibidem, p. 328).

e sus configuraciones literarias ” (ibidem, p. 3), e levantando nos textos estudados procedimentos como o apelo afetivo ao destinatário, a adesão ideológica e o ocasional predomínio da emotividade (em Amuleto ), a crítica chilena acredita que, por muitas vezes, o “eu” emerge na narrativa de Bolaño, elidindo a distância imposta pela referencialidade e fazendo-se notar no texto um “profundo deseo [do autor] de estar sin distancia presente en su obra ” (ibidem, p. 16). Tais disposições, que corroboram os estudos da autoficção na narrativa bolañiana, interessam aqui na medida em que Solotorevsky as introduz não apenas como expediente narrativo, mas como uma espécie de resquício ou substrato lírico. Sabemos, é verdade, e Julio Cortázar escreveu sobre isto, que não existe uma linguagem romanesca pura (CORTÁZAR, 1994, p. 143). Segundo o argentino, “toda narración comporta el empleo de un lenguaje científico, nominativo”, que se alterna e se imbrica com “un lenguaje poético, simbólico” (ibidem, p. 143, grifo do autor). Além disto, já fora de uma instância puramente verbal, diz Cortázar que o romance conta ainda com o que ele chama de “aura poética”, “atmósfera que se desprende de la situación en sí [...], de los movimientos anímicos e acciones físicas de los personajes, del ritmo narrativo, [de] las estructuras argumentales” (ibidem, p. 144). Acima de qualquer teorização, no entanto, Cortázar considera o romance um “imenso baú”, uma forma sem leis (CORTÁZAR apud GONZÁLEZ BERMEJO, 2002, p. 73), tendo chegado a afirmar: “Há romances que são poemas. Há poemas que são romances” (ibidem, p. 72). A hipótese que nós gostaríamos de aventar neste ar tigo, tendo em conta esta prévia de informações, se erige contra a seguinte ideia, sustentada por Matías Ayala (crítico já citado no início do texto):
Esta segunda sección de la obra poética de Roberto Bolaño [aqui ele se refere à obra poética adulta de

Não obstante estas opiniões que enfatizam a passagem de um gênero a outro, o poeta catalão Pere Gimferrer enxerga na narrativa em prosa de Bolaño “una forma, apenas mascarada, de poema”, e afirma que “sus ficciones son tan poéticas cuanto narrativos son sus poemas ” (GIMFERRER, 2006, p. 7). Tais asseverações, em grande medida contrárias à crítica que insiste em uma mudança substancial de gênero, nos levam a pensar em como poderia o poema subsistir na produção ficcional de Bolaño, resposta que Gimferrer não nos dá. Myrna Solotorevsky aponta uma perspectiva interessante para a consideração deste questionamento. Em ensaio sobre a “Anulación de la distancia en novelas de Roberto Bolaño”, ela defende que, apesar do trânsito executado por ele do gênero lírico (no qual predomina a função emotiva e a expressão da interioridade do falante) ao narrativo (ao qual corresponde a função referencial), restam em sua ficção marcas “de esa proximidad al ‘yo’ y de su necessidad de manifestación” (SOLOTOREVSKY, 2008, p. 3). Analisando variadas obras do autor, tais quais as novelas Amuleto, Estrella distante, Amberes e La pista de hielo , Solotorevsky estima que “ el Bolaño presente en sus textos remite a [...] un pseudo-referente real ” (ibidem, p. 3). Considerando, contudo, o “Bolaño real” e as “equivalencias entre este, su biografía

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Bolaño, os libros Tres , Los perros románticos y Fragmentos de la universidad desconoc ida , publicados durante os anos 90], variopinta, y poco concentrada, parece ser la compilación de textos escritos a lo largo de los años más que un razonado o persistente proyecto poético. Se puede conjeturar que para entonces estaba concentrado en su narrativa y la poesía la ejecutaba en honor a los viejos tiempos (AYALA, 2008, p. 91-92).

cantadas no por hombres, sino por fantasmas (ibidem, p. 109).

Entre as qualidades que se associam à poesia em sua obra crítica, e mesmo em seus poemas, aparecem sempre as palavras (tão repetidas por ele) “ valentía ”, “ voluntad ”, “ valor ”, e jamais qualquer menção a uma condição específica de linguagem.

Nossa hipótese, portanto, é a de que havia sim um projeto poético posto em marcha por Bolaño, e que este projeto incluía não somente a sua produção em verso, mas também a sua narrativa. Longe do esquematismo pretendido pelo crítico chileno, que chega quase a opor poesia e ficção na produção de seu compatriota, acreditamos que a relação entre ambos gêneros em Bolaño se dá por contaminação e fluidez, em uma relação ambígua difícil de ser equacionada. Para justificar a falta de limites precisos entre poesia e prosa que vemos na obra de Bolaño, seria necessário recorrer às suas possíveis concepções de poesia. A concepção expressada por ele em ensaios e textos críticos (cuja formulação nunca se aproxima do conceito) parece extrapolar qualquer ideia de forma ou estrutura. É uma concepção que tem por base preceitos outros que não o de verso ou o de “infinitos juegos de la Analogía” (CORTÁZAR, 1994, p. 144), mas que parece orientar-se por uma espécie de caráter da poesia, e que poderia tranquilamente ser contemplada pela narrativa. Sobre o escritor chileno Pedro Lemebel, por exemplo, Bolaño disse: “Lemebel no necesita escribir poesía para ser el mejor poeta de mi generación. Nadie llega más hondo que Lemebel” (BOLAÑO, 2006, p. 65). Sobre os poetas em geral, afirmou:
No hay nadie en el mundo más valiente que ellos. No hay nadie en el mundo que encare el desastre con mayor dignidad y lucidez. Son, en apariencia, débiles, […] y trabajan en el vacío de la palabra, como astronautas perdidos en planetas sin salida posible, en un desierto donde no hay lectores, ni editores, apenas construcciones verbales o canciones idiotas

Também em seus romances encontramos formulações significativas desta tensão. Em 2666 , lemos: “Ingeborg le preguntaba a Reiter por qué no escribía poesía y Reiter le contestaba que toda la poesía, en cualquiera de sus múltiples disciplinas, estaba contenida o podía estar contenida, en una novela ” (idem, 2004, p. 969). Em Amuleto, por sua vez, se enuncia a seguinte profecia: “ La poesía no desaparecerá. Su no-poder se hará visible de otra manera” (idem, 2009, p. 134). Não por acaso, Amuleto se encontra em alto grau contaminada pela poesia. Relato construído a partir de uma temporalidade múltipla e cambiante, nele Bolaño logra elidir o tempo uniforme tradicional da narrativa, através de uma enunciação extremamente lírica da narradora e protagonista Auxilio Lacouture. No capítulo 9 do livro, exemplar neste sentido, oscilam três tempos: os anos 1963 imaginado, o 1968 rememorado, e o tempo da enunciação, que não se sabe ao certo quando é. Nós percorremos o fluxo da consciência de Auxilio e nos perdemos nele como ela própria, já que nenhum dos tempos de seu relato é sólido, nenhum constitui o que se poderia chamar o “tempo da realidade”. Se o comum nas memórias é o tempo da enunciação funcionar como base, como ponto a partir do qual se organizam as experiências, neste relato a base encontra-se desestabilizada, pois é um espaço – o banheiro feminino do quarto piso da UNAM, onde a protagonista permaneceu enclausurada durante a invasão da universidade em 1968 – que funciona como mirante, já descolado no tempo, flutuante, a partir do qual Auxilio vê o seu passado e o seu futuro.

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Encontrar-se no banheiro, para esta uruguaia residente no México, não implica necessariamente um relembrar: este é um espaço que ela ainda habita (pelo menos imaginativamente). Ele não se restringe, portanto, à experiência do ano ‘68, ele se desloca no tempo e se transforma no teatro de suas visões: em determinada cena, por exemplo, Auxilio estende a mão no banheiro para apontar o quadro instalado na sala da casa de Remedios Varo, que ela visita em sonho; em outra sequência, a voz da Remedios do sonho de Auxilio se perde entre os ladrilhos do banheiro da UNAM. Tal disposição temporal nos remete ao texto de Octavio Paz que diz: “a crise da sociedade moderna manifestou-se no romance como um regresso ao poema” (PAZ, 1996, p. 72). E mais adiante: “desde os princípios deste século o romance tende a ser poema de novo” (ibidem, p. 73). Neste ensaio sobre a “Ambiguidade do romance”, Paz faz referência a autores como James Joyce, Marcel Proust e William Faulkner. Sabemos que eles, através do monólogo interior, aboliram a perspectiva, eliminaram o abismo entre o homem e o mundo instaurado pelo narrador em terceira pessoa. Mas, mais do que isso, o monólogo interior instaura um tempo na narrativa que não é o dos fatos, mas um tempo que se desdobra, no caso de Amuleto, em temporalidades múltiplas que, ainda que não prescindam da história (isto é, de “uma narrativa de eventos dispostas conforme a sequência do tempo” [FORSTER, 2004, p. 57]) – e, por isso, continuem inseridas no âmbito do romance –, flertam com a noção temporal do poema, que às vezes é inexistente e às vezes se desloca livremente de um instante a outro, sem a necessidade de constituir uma cronologia. Experiência mais extrema neste sentido é a que Bolaño proporciona com o livro Amberes. Datado de 1980, o volume foi publicado em 2002 na categoria romance, gênero que lhe foi atribuído pelo próprio autor no prólogo à edição, no qual ele diz:

“ Obviamente, nunca llevé esta novela a ninguna editorial” (BOLAÑO, 2009, p. 9). Em 2007, porém, sai publicado o volume intitulado La universidad desconocida , reunião de grande parte da poesia de Bolaño organizada por ele mesmo e datada de 1993. Neste livro, encontra-se publicado novamente Amberes, agora sob o título “Gente que se aleja”. O ato não é gratuito. Amberes oferece um texto fragmentado de alto poder desestabilizador, cuja leitura envolve um acentuado grau de angústia, ocasionado pela dificuldade (ou impossibilidade) de se encontrarem os elos que permitam remontar os fatos e a cronologia. Desta forma, com a dupla inserção do texto em volumes de catalogação diferente, Bolaño desloca a questão da determinação do gênero do autor para o leitor, transformando-a em um ato de leitura. Ler Amberes como romance certamente é mais desconcertante, já que as convenções de leitura deste gênero implicam a possibilidade de se obter uma linearidade final (que insiste em escapar do leitor neste caso), enquanto a operação de leitura da poesia obedece a normas outras, podendo ser uma leitura salteada ou corrida, não estando o leitor preocupado em obter um sentido final para o conjunto. Neste sentido, pode-se dizer que o que determina o caráter genérico ambíguo deste texto é, antes de tudo, o recurso ao fragmento, elemento constitutivo de grande parte da obra de Bolaño. No jogo da representação, no qual estão em pugna fragmentação e totalidade, caos e ordem, organicidade e arbitrariedade, e, em última instância, a própria possibilidade do narrar, Bolaño logra por em cena a tenuidade dos limites entre poesia e ficção, ao sinalizar que, nas bordas de um romance cujas peças não se encaixam (e que por isto não teria sido aceito inicialmente por nenhuma editora), pode muito bem desenhar-se um poema.

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Nota
1

Aluna do mestrado do Programa de Pós-Graduação em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-Americana da Universidade de São Paulo. Desenvolve com o apoio da Fapesp o projeto de pesquisa “Fragmentação e multiplicidade em Los detectives salvajes, de Roberto Bolaño”.

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REPRESENTAÇÃOES DA MULHER E VOZES FEMININAS NO CONTEXTO IBEROAMERICANO

Cláudia Luna UFRJ

El discurso sobre la mujer es también un discurso sobre identidad y ciudadanía. Más importante, tal vez menos obvio, el discurso masculino sobre la identidad y la ciudadanía es también un discurso sobre el género. Las dos formaciones discursivas se determinan mutuamente, aunque en relaciones de desigualdad radical. (Pratt, 1995, p. 273)

Vive-se hoje um processo de revisão histórica propiciado pelos bicentenários dos processos de independência e formação das nacionalidades e seus respectivos imaginários na América Latina. Nesse contexto, abre-se oportunidade ímpar de repensar a escrita da história como um processo de cunho marcadamente androcêntrico, sob recorte tradicional, que relegou ao esquecimento ou a papel secundário a participação de mulheres como a peruana Micaela Bastidas, a equatoriana Manuela Sáenz, ou a brasileira Bárbara de Alencar, embora tivessem papel relevante nos processos encabeçados respectivamente por Tupac Amaru, Simón Bolívar e Frei Caneca. O projeto de pesquisa que ora realizamos visa a confrontar representações e autorrepresentações destas entre outras personagens históricas, considerando os projetos de emancipação que enunciam e as repercussões de sua atuação, no contexto latino-americano. Inicialmente, trata-se de analisar o processo de autorrepresentação expresso nas cartas e documentos públicos e privados de protagonistas das Independências latino-americanas.

A primeira etapa de trabalho constitui-se no estabelecimento do corpus a partir da compilação das fontes, que podem contar com o auxílio de trabalhos recentes de recuperação, em curso, ou fazer-se diretamente nos arquivos. Em muitos casos, há lacunas importante a preencher, pois a documentação existente é escassa ou de autoria coletiva. Interessa-nos investigar como se representam as mulheres nas independências e se afirmam (ou não) nas esferas pública e privada? Que elementos interferem no processo de construção da subjetividade, afirmação ou negação do protagonismo? Nossa hipótese inicial é de que há diferentes condicionantes, como questões étnicas e de classe, estado civil e origem. Por um lado temos a afirmação vigorosa de Micaela Bastidas, esposa de Tupac Amaru e uma das líderes da insurreição andina contra a metrópole; temos o mascaramento dos ideais de Manuela Sáenz, ao colocar-se perante Bolivar como mera amante e cuidadora, apesar de arguta estrategista e lutadora aguerrida. Quanto a Bárbara Alencar, há o ápice do

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processo de apagamento: apesar de presa e perseguida, transfere o protagonismo para o filho Martiniano, e mascara ou dilui sua subjetividade na construção de documentos coletivos, como na Proclama de 1817.

Como já observava Ángel Rama, a América Latina se caracteriza pela existência de regiões culturais, marcadas por história comum e, nesse traçado, esfumam-se as fronteiras nacionais estabelecidas pelo História oficial. Recordemos a mais evidente, a gauchesca, unindo territórios pertencentes à tríplice fronteira – Uruguai, Argentina e Brasil. A

O Brasil em face das Independências – cruzamentos e peculiaridades
Considerando os projetos emancipadores e as rebeliões ocorridas no Brasil, a primeira diferença que se percebe em relação aos países vizinhos é a referente ao projeto vitorioso – o da monarquia bragantina, de recorte centralizador e unificador, em oposição à vitória das propostas republicanas. Por outro lado, há intenso intercâmbio de ideias entre os americanos de colonização espanhola e os de colonização inglesa. São diversos projetos de América, intentos utópicos e de construção de novas nações ou de repúblicas, de territórios livres, de fundação de espaços sociais marcados por contratos sociais mais ou menos inclusivos, mais ou menos heterogêneos. O Brasil pareceria estar distante deste intercâmbio, à primeira vista, impressão que se desfaz à medida que adentramos o exame do passado. Uma primeira hipótese seria a de que o projeto absolutista e monárquico, centralizador, enfatiza o recorte atlântico, voltando as costas aos processos que se sucedem na América Hispânica. No entanto, é marcante o recorte imperial brasileiro a respeito dos vizinhos, as longas lutas pelo estabelecimento do território nacional, marcando as guerras de fronteiras que atravessam todo o século XIX e os episódios da diplomacia continental a esse respeito – da Guerra do Paraguai, a República Cisplatina, a disputa pelo território do Acre, em suma, a definição do grande território emergindo unificado sobre a variedade regional.

cultura guarani, do Paraguai e Centro Oeste brasileiro, o elemento afro-americano, no Rio de Janeiro, Bahia e Antilhas, o vasto território cultural amazônico, congregando países como Brasil, Equador, Peru, Bolívia, Venezuela, Colômbia. São linhas que se cruzam e sobrepõem imaginariamente sobre as linhas demarcatórias oficiais de províncias e nações, compondo um segundo traçado, a respeito do qual Rama pondera:
En este segundo mapa el estado Rio Grande do Sul, brasileño, muestra vínculos mayores con el Uruguay o la región pampeana argentina que con Matto (sic) Grosso o el nordeste de su propio país; la zona occidental andina de Venezuela se emparenta con la similar colombiana, mucho más que con la región central antillana. (RAMA, 1985, p. 58).

No caso brasileiro, o século XIX será palco de um jogo de tensões entre o regional e o nacional, no qual se insere o movimento de 1817, do qual participará Bárbara de Alencar. Nas primeiras décadas do século XIX assiste-se, sucessiva ou simultaneamente, a intentos mais ou menos logrados de emancipação em relação a Portugal, movimentos internos separatistas, oposição entre os diversos projetos dos agentes sociais envolvidos, acionando liberais e conser vadores, monarquistas e republicanos, regionalistas e centralistas. Distintos projetos de construção da nacionalidade que se cruzarão até que vença o projeto unificador, sob o Império de Pedro II. No Nordeste brasileiro, em especial na província de Pernambuco, o espírito independentista era bastante acirrado. Ao mesmo tempo que se mantinha comércio diretamente com países europeus

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e africanos, a dimensão continental do país isolava o a região do centro de decisões. A esse respeito narra o viajante Robert Walsh:
Os pernambucanos foram os primeiros a reconhecer o direito do Imperador ao trono do Brasil, bem como a total separação deste país de Portugal. Contudo, ainda alimentavam a esperança de se tornarem um Estado independente. Existia uma grande rivalidade entre a província e o Rio de Janeiro, e pequenas causas de descontentamento eram motivo de constante atrito entre as duas províncias. Entre outras coisas, os pernambucanos se queixavam de que lhes era cobrado um imposto para a iluminação das ruas do Rio, enquanto as de própria cidade eram mantidas em total escuridão. (WALSH, 1985, p.184).

negros, mulatos e brancos, comuns na Argentina, no Peru e no Brasil – a tentativa de implantar no Brasil um modelo semelhante ao intentado nas Antilhas (vide Haiti); o intercâmbio e busca de apoio com os Estados Unidos, por parte de insurgentes, calcados num prenúncio de pan-americanismo, antecipando a doutrina Monroe. Finalmente, o intercâmbio entre o Velho e o Novo Mundo, ou seja, a atuação conjunta de intelectuais hispano-americanos na Europa, como Fray Servando Teresa de Mier ou Andrés Bello, principalmente em Londres, e a busca de aprovação pela opinião pública europeia; já no caso do Brasil, a presença de brasileiros como estudantes na Escola de Coimbra, trazendo para cá o pensamento liberal. Em contrapartida, a presença dos viajantes europeus e seus depoimentos sobre o cenário americano, como, por exemplo Maria Graham1, Robert Walsh ou Daniel P. Kidder, constituindo um corpus precioso de relatos de viagem que nos trazem informações minuciosas sobre nossa história e sobre as representações cruzadas que se fizeram, reconstituindo o olhar estrangeiro sobre a América, na esteira de Humboldt.

Como afirmou lucidamente Marcel Velásquez, em sua exposição no Seminario Escritoras del Siglo XIX, em Lima (2009), resgatar a produção feminina no século XIX importa também como forma de resgatar o contexto em que estão engastadas, muitas vezes trazendo à tona publicações esquecidas ou renovando o interesse por áreas pouco exploradas. Em suma, um efeito colateral positivo na revirada do passado histórico. Nesse sentido, refletir sobre a posição das mulheres neste processo, antes de tudo nos leva a repensar uma série de questões que nos desafiam nestes dois séculos. Como já apontei em trabalhos anteriores, há alguns elementos comuns a todo o continente, como o sentimento nativista e o rechaço do elemento ultramarino (os reinóis); o papel destacado das ordens religiosas no processo – confrontem-se, por exemplo, os jesuítas expulsos, que, da Itália, revalorizam o dado americano, como Rafael Landívar, e a atuação de Frei Caneca, um dos mentores da Confederação do Equador, de 1824. Especialmente no Nordeste brasileiro, não podemos esquecer a relação estreita que se mantinha entre os coronéis (e as coronelas), a Igreja e o Estado. Outros dados a considerar são a separação entre as etnias e raças, as corporações militares de

Rodolfo Walsh, por exemplo, capelão da comitiva de Lord Strangford, em suas Notícias do Brasil (1825-1829), retrata conflitos regionais, narrando uma tentativa de insurreição malograda que se deu em fevereiro de 1929, em Pernambuco, e uma outra no Maranhão. Ele as explica pela distância em relação à Corte, associada à proximidade com outras “províncias republicanas”. Diz ele, referindo-se ao Maranhão:
A situação dessa província era sabidamente alarmante. Ela fica tão distante da capital que as comunicações entre esta e suas cidades de fronteira nunca se completam em menos de um ano, e em Tabatinga as notícias do Rio são trazidas muitas vezes passando pelo Cabo Horn, vindo assim do litoral e atravessando os Andes. Isso torna a influência do governo relativamente fraca, ao passo que a vizinhança das províncias republicanas representa um forte estímulo para que o seu

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exemplo seja seguido. (WALSH, 1985, p. 85) (grifo nosso)

e de 1824. No seu caso, o destaque maior será para o filho Martiniano de Alencar. Bastidas tampouco terá melhor sorte.

Das heroínas – semelhanças e contrastes
No cotejo entre a trajetória das personagens históricas podemos observar, em primeiro lugar, a masculinização da figura feminina no processo das independências. No caso de Manuela Sáenz, isso se vincula ao papel destacado que tiveram as mulheres no campo de batalha, nos diversos países, como soldados; no caso de Bárbara Alencar, ao matriarcado, ou seja, ao fato de que era comum as viúvas assumirem o comando de suas fazendas e por atuarem no campo político. Quanto a Micaela Bastidas, a morte após torturas atrozes aponta para o necessário processo de escarmento, a exemplaridade no castigo como forma de coibir novas rebeliões. Em segundo lugar, o jogo curioso de revelação e encobrimento – em relação a Sáenz, o processo de apagamento de sua atuação, de sua importância no campo político como estrategista e militante, que no seu caso começa por suas próprias mãos, ao colocarse como coadjuvante de Bolívar, nas cartas; e pela posteridade, que a conhece a partir do batismo que este lhe confere de Libertadora do Libertador. No caso de Bárbara se associa à figura da mártir, da mãe extremada, da mulher aprisionada, que sofre vexames e punição inclemente, mas se mantém fiel a seus ideais. Quanto a Micaela Bastidas simplesmente sua atuação será relegada a segundo plano, e associada sempre ao marido, ou seja, como a companheira de resistência e luta.

Até onde pude pesquisar, por outro lado, a figura de Bolívar se prestará a uma representação culta e popular de amplíssimo espectro, em todos os níveis, o que, creio, não sucede com Manuela Sáenz. Já quanto a Bárbara de Alencar, alcançou um destaque muito grande no campo do imaginário popular brasileiro, nos cancioneiros, na música popular, no cordel, no maracatu, em suma, em diversas formas de representação oral. Em relação a Bastidas, ainda estamos no começo da investigação. De todas as formas, o que ressalta da pesquisa é o quanto ainda há para se buscar, de forma a reconstituir pelo menos minimamente o efetivo papel desempenhado pelas mulheres nos processos de independência na América Latina. Nosso projeto, em suma, visa a contribuir para o processo de revisão histórica e ampliação do cânone literário latino-americano, no âmbito do processo coletivo de reflexão e crítica acerca dos bicentenários das independências na América Latina. A discussão local, temos certeza, será relevante na construção de saberes globais mais inclusivos e libertadores.

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Em relação à escrita da história, todas praticamente desapareceram do panteão de heróis da historiografia oficial. Manuela Sáenz surge sempre atrelada à figura de Bolívar, como um capítulo à parte. Quanto a Bárbara de Alencar é mencionada em pouquíssimos textos referentes às revoluções de 1817

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Nota
1 Seu diário da viagem e permanência no Brasil, entre 1821 e 1823, foi publicado em Londres em 1824 (GRAHAM, 1990).

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A DESTREZA ORAL E SUA IMPORTÂNCIA PARA A FORMAÇÃO DOS FALANTES DE ESPANHOL COMO LÍNGUA ESTRANGEIRA

Cristina do Sacramento Cardôso de Freitas Universidade Estadual de Santa Cruz - UESC

Introdução
A partir das ideias geradas no projeto de iniciação à docência intitulado “Ensinoaprendizagem da Língua Espanhola: a proficiência oral em foco”, desenvolvido na Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC - Ilhéus – BA), definiu-se o objetivo desta proposta, que é o de realizar uma reflexão a respeito de alguns aspectos relacionados à destreza oral entre alunos de nível iniciante, entre os quais se encontram: a investigação criteriosa das causas que conduzem à deficiência de sua produção oral, em língua espanhola; a análise detalhada das consequências de tal problema; e, finalmente, a proposição de atividades variadas de incentivo à otimização da expressão oral entre os mesmos. Para melhor compreendermos os aspectos que se relacionam ao desenvolvimento da destreza oral em língua espanhola, como L2, entre alunos de nível iniciante, decidimos organizar este referencial teórico em tópicos, entre os quais se encontram: a análise da questão das interferências linguísticas entre o português e o espanhol; a observação do uso de

métodos pretensamente comunicativos que visam facilitar a aprendizagem desta destreza; o papel da afetividade na relação professor-aluno e como esta influencia na capacidade de expressão oral do mesmo; as dificuldades específicas de aprendizagem da destreza oral em língua espanhola; a questão da fossilização e da interlíngua; a elaboração de um quadro em que se visualizam estes e outros fatores que definiríamos como de caráter individual, institucional e intrainstitucional; e, finalmente, a proposição de atividades que desenvolvam de maneira criativa, natural e estimulante a capacidade de expressão oral de alunos de nível iniciante. Para tal, sabemos que o processo natural de aquisição de uma língua tem como primeiro elemento de contato a oralidade, considerado o mais constante instrumento de uso linguístico. Portanto, um dos primeiros pontos a se desenvolver nos aprendizes espera-se que seja a oralidade. Mas o que vem a ser esta capacidade, habilidade ou destreza de se expressar corretamente em outro idioma? Quais são suas características?

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1. Revisão da Literatura
1.1. Características da destreza oral Estudos e pesquisas se desenvolveram no Brasil com o objetivo de compreender o fenômeno da produção oral em língua estrangeira, por falantes não nativos. Para Martín Peris (1996, p.50), algumas das principais características desta destreza são: é a destreza mais importante para muitos aprendizes de uma L2; possui uma utilidade prática real; as oportunidades de praticá-la dependem de muitos fatores externos ao aprendiz; conseguir um bom domínio desta destreza não é fácil, já que implica em ser capaz de utilizar um número considerável de microdestrezas capacitadoras, de interação e atuação com o outro, em contexto real. No entanto, em função das similaridades em diversos níveis reconhecidamente existentes entre a língua espanhola e a portuguesa, é possível afirmar que ainda há uma carência significativa no que diz respeito à discussão sobre as dificuldades específicas de alunos brasileiros e a proposição de materiais ou atividades que busquem o aprimoramento da expressão oral dos mesmos. As interferências que se produzem na aprendizagem do espanhol por lusofalantes representam o cavalo de batalha de profissionais e alunos e afetam a ambos.

do espanhol, dois grandes mitos sobre a língua povoam o imaginário comum. O primeiro é o de que a língua é composta basicamente por uma grande lista de palavras. Essa concepção é refletida no senso comum pelo apego que muitos professores têm aos chamados ‘falsos amigos’, os famosos falsos cognatos que evidentemente podem levar o indivíduo que não domina o idioma a uma série de situações embaraçosas. O problema não está em ensinar os ‘falsos amigos’ aos aprendizes, já que, de fato, esses elementos fazem parte da competência gramatical e linguística ideal de um falante da língua. A questão se centra na ideologia que essa ênfase nas questões lexicais da língua acarreta. Ao apresentar a língua como um grande inventário de vocábulos, essa ideologia, difundida inclusive pelos próprios meios de comunicação, constrói uma imagem de que a diferença entre as línguas portuguesa e espanhola se resolve apenas através de uma simples substituição de itens lexicais, promovendo uma visão de que os processos de uma língua se repetem uniformemente na outra. Não é difícil imaginar o quanto essa visão reducionista pode comprometer o desempenho de um aprendiz.

1.3. Métodos pretensamente ‘comunicativos’ O segundo ponto discutido pelas autoras é a

1.2. Interferências entre o português e o espanhol Determinando os efeitos da proximidade entre estas línguas, Kulikowsky e González (1999) fazem uma importante reflexão com relação à prática docente de espanhol para brasileiros. As autoras discutem como a imagem que o aprendiz de uma língua estrangeira tem do seu objeto de estudo pode determinar seu sucesso ou fracasso em termos de domínio oral desse conhecimento específico. No caso

ideia, não tão velada quanto a anterior, de que a língua é um instrumento destinado fundamentalmente à comunicação. Se a ênfase nos itens lexicais promove uma ideologia reducionista que impede o aprendiz de entender a língua como um sistema autônomo e extremamente complexo, a ênfase no fator comunicativo pode ter efeitos ainda piores no processo de ensino-aprendizagem do espanhol. Isso se deve ao fato de que a troca dos chamados objetivos gramaticais pelas competências comunicativas, na prática, não se realiza da maneira mais adequada.

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O falso objetivo de dominar as quatro habilidades em cada vez menos tempo é o principal elemento motivador do aprendizado, uma vez que fornece uma sensação de domínio imediato logo nas primeiras aulas, ainda que essa sensação seja ilusória, como salientam Celada e González (2005), pois provém de um novo reducionismo, o que se refere à uniformidade das situações pragmáticas nas quais um indivíduo pode se encontrar. Ao entender a língua como um instrumento que ‘serve’ basicamente para se comunicar, o indivíduo se apossa de suas expressões de maneira imediatista e utilitária, o que o distrai da real tarefa de compreender a língua como um sistema autônomo, com seus processos particulares. Alguns teóricos opinam sobre a importância do desenvolvimento desta capacidade comunicativa oral, o que inclui, a nosso ver, uma questão mais ampla que envolve a fluência verbal no idioma estrangeiro. Faerch e Kasper (1983) alegam que quanto mais o aluno se engaja em situações comunicativas, maior variedade e mais possibilidades ele tem não só de praticar sua capacidade comunicativa oral na língua estrangeira, como também de construir hipóteses sobre a L2 e testá-las. Dubin e Olshtain (1977) acreditam que o papel do professor deve ser o de facilitar o aprendiz a desenvolver suas próprias capacidades e recursos interiores para realizar adequadamente as tarefas comunicativas. Para Canale e Swain (1980), proficiência linguística significa não somente saber fonologia, sintaxe, vocabulário e semântica, mas também ser capaz de fazer uso desse conhecimento apropriadamente em comunicação real.

começaram a apresentar maior interesse a partir dos anos 70. A este respeito, Krashen (1982) estabeleceu uma relação direta entre a primeira e o êxito do aluno no processo de aprendizagem de uma nova língua. Este psicolinguista levou em conta três variáveis que possuem uma influência direta sobre a aprendizagem de idiomas: a atitude, a motivação e a personalidade. Explicou que existe um filtro de percepção, o chamado filtro afetivo, que se refere a um conjunto de circunstâncias, angústias, falta de interesse, de motivação, que, em determinados casos, bloqueiam a aquisição satisfatória do código e a compreensão ou, no nosso caso, a produção em idioma estrangeiro. Por isso, o aluno deverá ter uma atitude positiva que lhe permita uma maior permeabilidade diante do processo de aprendizagem e evitar as barreiras afetivas, que geram por sua vez, bloqueios mentais que não permitem que os dados sejam processados de forma completa. Em consequência, para que haja uma melhor receptividade aos conteúdos, se requer empatia, disponibilidade e autoconfiança.

1.5. Dificuldades específicas de aprendizagem da destreza oral em língua espanhola Além destas dificuldades pessoais e interpessoais que o aluno pode apresentar com relação à aprendizagem da língua estrangeira, em nossa prática docente percebemos também que, muitas vezes, alunos brasileiros, aprendizes de espanhol como língua estrangeira, demonstram algumas dificuldades no que diz respeito à pronúncia da língua espanhola.

1.4. O papel da afetividade na aprendizagem da expressão oral Por sua vez, estudos sobre a relação entre a afetividade e a capacidade de aprendizagem do aluno

Podemos dizer que existem aspectos nas duas línguas que não criarão dificuldades na aprendizagem. Teríamos também outros aspectos na língua estrangeira, sem equivalência na língua

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materna, nos quais seria mais difícil para os alunos alcançarem um nível de produção oral mais próximo do ideal. E, por último, há aqueles aspectos que de tão similares nas duas línguas, se tornam os mais passíveis de interferência e que, possivelmente, são os que provocarão mais problemas na aprendizagem. O ensino da pronúncia, em língua espanhola, é uma das destrezas que todo aluno necessita dominar quando aprende uma língua estrangeira. Por isso, deveria fazer parte dos conteúdos de qualquer plano curricular e o professor teria que incorporar às suas atividades em aula. Com relação ao momento da correção da pronúncia do aluno, esta é necessária no momento em que na produção oral se detectam equívocos. No entanto, o professor deverá enfrentar este momento da correção da pronúncia com cautela. É necessário também que tenha consciência do grau de “precisão fonética”, ou seja, o grau que deseja alcançar na produção oral dos estudantes.

influência direta e que o aproxima cada vez mais da língua-alvo de aprendizagem. Trata-se ainda de um sistema variável e dinâmico, distinto tanto da língua materna como da estrangeira (ainda que nele se encontrem elementos das duas); e que contém regras que lhe são próprias, pois cada aprendiz possui seu sistema específico em determinado estágio de aprendizagem. Entre os vários aspectos que observamos com relação às dificuldades enfrentadas por alunos brasileiros de espanhol, como segunda língua, encontram-se: a realização de fonemas nasais na língua espanhola, a abertura e o fechamento dos fonemas vocálicos, os encontros vocálicos em ditongos crescentes, alguns fonemas e alófonos oclusivos e fricativos, a realização da vibrante múltipla, entre outros fenômenos.

1.7. Análise de alguns fatores Foi possível observar que muitos fatores podem intervir no processo de aquisição de uma Quando não ocorre a devida correção dos equívocos de pronúncia cometidos pelos alunos, desde os primeiros contatos com o idioma estrangeiro, a consequência poderá ser a formação de um processo denominado interlíngua, em que estes futuros professores parecerão se contentar com o estado de língua atingido, sem desejar evoluir a partir da problemática mescla criada entre a língua materna e a língua estrangeira a qual estão expostos. O sistema linguístico desenvolvido por um falante não nativo na língua estrangeira foi denominado de várias maneiras, no entanto, o termo mais aceitado é o de interlíngua, proposto por Larry Selinker (1972). Para ele, a interlíngua é um sistema linguístico interiorizado (com características de linguagem porque serve para comunicar-se e possui gramática interna), sobre o qual o aprendiz possui Fatores institucionais; Fatores intrainstitucionais A tabela abaixo busca apresentar estes três aspectos principais envolvidos nesta pesquisa, objetivando investigar criteriosamente as causas da deficiência oral, analisar sua consequência e propor, à luz da teoria da revisão da literatura realizada, soluções criativas, modernas e práticas para tal questão. segunda língua. A partir de uma série de observações, detectamos que, entre os fatores que mais dificultam a solidez da expressão oral para os alunos iniciantes do Curso de Graduação em Letras (PortuguêsEspanhol), da Universidade foco de estudo nesta investigação, encontram-se: Fatores pessoais ou individuais;

1.6. A questão da interlíngua e da fossilização

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CAUSAS DA DEFICIÊNCIA ORAL 1. FATORES INDIVIDUAIS (ALUNO) a) timidez excessiva, vergonha, medo de errar e ser ridicularizado em sala de aula. b) distância afetiva no relacionamento professor-aluno, o que afasta os alunos da possibilidade de desejar expressar-se oralmente em língua estrangeira, em sala de aula. c) falsa ideia de facilidade na aprendizagem da língua espanhola, por tratar-se de uma língua-irmã à portuguesa. d) interferências linguísticas da língua materna sobre a língua estrangeira, criando a chamada interlíngua. e) falta de hábito de expor-se em público, em ambiente acadêmico, em língua estrangeira. f) dificuldades naturais de aprendizagem de um novo idioma, no início do processo. g) ausência de conhecimentos prévios em língua espanhola, anteriores à entrada na universidade. h) falsa crença de que, ao se graduarem como professores, ministrarão aulas de língua espanhola, em instituições públicas e privadas de ensino fundamental ou médio, em língua portuguesa. 1. FATORES INDIVIDUAIS (professor) a) utilização de metodologias pretensamente comunicativas no ensino da língua estrangeira. b) ausência de projetos ou atitudes individuais que privilegiem a presença de professores, alunos e outros convidados, falantes de língua espanhola como L1, em atividades acadêmicas em sala de aula de língua espanhola nesta universidade. 2. FATORES INSTITUCIONAIS a) grande quantidade de alunos por turma. b) carga horária insuficiente de aulas. c) ausência de meios auxiliares à aprendizagem, em ambiente acadêmico: laboratórios de informática e de idiomas bem equipados e modernos. 3.FATORES INTRAINSTITUCIONAIS a) ausência de programas de intercâmbio entre professores e alunos de universidades na Espanha e na América e as universidades públicas no Brasil.

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2. Proposição de atividades variadas de incentivo à otimização da expressão oral entre alunos de Língua Espanhola de nível básico
2.1. Assistir a um filme, em espanhol, sem legenda, e interromper a projeção antes do final para que os alunos tenham a oportunidade de propor finais criativos para a história e para os personagens principais, em forma de redações curtas, individuais (atividade indicada para trabalhar produção escrita e oral criativa). Algumas sugestões de filmes seriam: El laberinto del fauno, Un cuento chino, Vicky, Cristina, Barcelona, La suerte está echada, La casa de los espírutus, Manolito Gafotas, Crónica de una muerte anunciada, Frida, Muerte en Granada e Mujeres al borde de un ataque de nervios.

oralmente (explicando por que escolheu esta notícia, relatando seus principais aspectos e dando sua opinião sobre o tema); num primeiro momento, os demais alunos escutam a notícia e, num segundo momento, emitem suas opiniões sobre o mesmo, criando-se naturalmente um ambiente de debate sobre temas atuais diversos.

2.4. Relato de fotos de viagens (atividade indicada para trabalhar produção oral e descrição) Sequência de atividades: na aula anterior, o professor deverá solicitar aos alunos que tragam 5 fotos de viagens pessoais ou familiares, em pen driver, que considerem interessantes; na aula seguinte, as fotos de cada aluno serão projetadas para que todos possam visualizá-las com clareza; os alunos deverão fazer perguntas do tipo quem está na foto, onde e

2.2. Criação de conto moderno, em língua espanhola. Sequência de atividades: tempestade de ideias sobre o tema contos de fadas; compreensão auditiva de conto de fadas curto; leitura em voz alta, pelos alunos, do mesmo conto; escritura, em grupos, de novo conto (com características modernas), de forma criativa; gravação em áudio do conto produzido; apresentação, de forma teatralizada, do conto criado pelo grupo.

quando foi tirada, por quem, por que escolheu aquela foto específica para apresentar, etc.

2.5. Produção, em duplas, de diálogo em estabelecimento comercial, baseado em material autêntico (folhetos recolhidos em viagens a países de fala hispânica). Sequência de atividades: na aula anterior, o professor deverá entregar folhetos de estabelecimentos comerciais, em língua espanhola, aos alunos, em duplas; os estabelecimentos selecionados vão depender dos folhetos que o professor possuir para a atividade (por exemplo, de restaurantes, hotéis, estações de metrô, casas de dança, far mácias, consultórios dentár ios ou médicos, livrarias, lojas de roupas, teatros, cinemas, museus, mercados, lojas de eletrodomésticos, bancos, bares, etc).

2.3. Pesquisa no laboratório de informática da universidade sobre jornais e revistas digitais, em língua espanhola (atividade indicada para trabalhar leitura, relato oral e capacidade de argumentação, além do uso das novas tecnologias de informação). Sequência de atividades: cada aluno deverá pesquisar na internet uma notícia interessante, em língua espanhola; em seguida, deverá apresentá-la

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2.6. Produção de um vídeo curto (em forma de comercial de tv), em grupos, em língua espanhola, divulgando o Curso de Letras (Português-Espanhol) da universidade (atividade indicada para trabalhar produção oral, escrita, criatividade, organização, trabalho em grupo, uso das novas tecnologias, etc).

análise contemplativa destes fatores que geram dificuldade de produção oral entre os alunos de nível iniciante nas instituições de ensino superior. No entanto, ao longo do processo, nos demos conta de que, sem detectá-los claramente e sem tentarmos solucioná-los em curto ou médio prazo, a consequência recairá diretamente sobre a capacidade de expressão oral dos alunos. Acreditamos também que, de nada adiantaria a mera proposição de inúmeras atividades comunicacionais, em sala de aula, de aprimoramento da destreza oral e aquisição de fluência em idioma estrangeiro, se tais fatores mencionados não forem observados “com novos olhos”, tanto pela instituição de ensino superior, quanto pelo professor e, principalmente, pelos próprios alunos em questão, que deverão encarar o problema da aquisição da destreza oral de frente e não fingir que ele não existe. Assim, para concluir, como podemos observar, as causas da deficiência de expressão oral em língua espanhola estão intimamente relacionadas à sua consequência, a falta de fluência no idioma estrangeiro, e todos devem estar cientes deste fato:

2.7. Atividade de produção oral a partir do vídeo humorístico ‘Qué hora es’ (visa desenvolvimento da produção oral, escrita, criatividade, organização, trabalho em grupo, uso das novas tecnologias, etc). Sequência de atividades: neste vídeo de humor produzido por um grupo de humoristas mexicanos, os personagens são americanos e usam frases soltas, completamente descontextualizadas, em espanhol, para demonstrar questões relativas às dificuldades de produção oral em língua estrangeira; após assistirem ao vídeo, o professor dividirá a turma em grupos e lhes solicitará que criem situações teatralizadas semelhantes às que aparecem no vídeo ‘Qué hora es’. Tais situações deverão ser gravadas em vídeo.

Considerações finais
Finalmente, se pode afirmar que o objetivo do professor de ELE não deve ser simplesmente a

alunos, professores e, em última instância, a própria instituição de ensino superior.

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Referências bibliográficas
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A LEITURA DE PROFESSORES DE ESPANHOL, FORMADORES DE LEITORES, MEDIADA POR COMPUTADOR

Cristina Vergnano-Junger UERJ

1. Introdução
Este trabalho traz à discussão parte dos resultados da pesquisa “ Interleituras : interação e compreensão leitora em língua estrangeira mediadas por computador”, que vimos desenvolvendo na UERJ, há cerca de três anos. Vem sendo crescentes os estudos sobre as interações mediadas por computador. Neles observamos exposições teóricas sobre as características dos textos virtuais (MARCUSCHI, 2004; 2005); em vários casos, formas de lidar com eles (RIBEIRO, 2005; MAGNABOSCO, 2009) e sobre impactos que as tecnologias da informação e comunicação (TICs) vêm gerando no modo de vida/ interação das/entre as pessoas nesta era da informação (LAVID, 2005; CASSANY, 2011). No entanto, sentimos falta de mais pesquisas, hoje mais frequentes, com um desenho empírico que oferecesse amostras desses novos comportamentos associados aos gêneros digitais. Essa foi nossa motivação para utilizar uma abordagem metodológica empírica no Interleituras , a fim de monitorar procedimentos

leitores e, assim, refletir sobre como vêm ocorrendo, suas diferenças e especificidades com relação à leitura em meio impresso. Nossa questão central volta-se, portanto, para como se lê em ambientes vir tuais. Ou seja, preocupam-nos estratégias, procedimentos e conhecimentos que são postos em marcha durante o processo leitor mediado por computadores, em especial quando se trata da Internet. Neste breve artigo, apresentamos uma sucinta revisão teórica sobre o tema, as bases gerais de nosso desenho metodológico e uma síntese dos resultados encontrados, especificamente no que foi observado junto a dois docentes de espanhol, sujeitos do estudo.

2. Revistando alguns aspectos teóricos
Um rápido olhar à nossa volta já nos dá um panorama de como as TICs passaram a fazer parte do cotidiano das pessoas, independentemente, muitas vezes, da faixa etária e de condições socioeconômicas. São caixas eletrônicos, smartphones, câmaras digitais,

fragmentados. Importam. Adotamos uma abordagem qualitativa dos dados. parte) deles em seu dia-a-dia. que. Deve-se assumir. Nosso foco está direcionado especificamente à leitura. Isso porque entendemos que não se pode produzir sem ser capaz de compreender. como nos casos da inclusão de outras tecnologias no passado. nesse momento. Essa revolução da era da informação é. uma vez que buscamos identificar os comportamentos que vêm caracterizando as práticas leitoras mediadas por computador. com suas marcas linguísticas e tipográficas. A questão passa a ser. histórico e cultural. sons imagens etc. profusão de mensagens instantâneas (SMS). Isso significa dizer que. blogs. entendida como uma atividade complexa. recursos e atividades estão em construção e estudo. VERGNANO-JUNGER. MAGNABOSCO. crítico e reconstrutor de sentidos (VERGNANO-JUNGER. como inovações próprias do ambiente virtual. pluralidade acessos se fazem tanto de forma assíncrona como síncrona. são efêmeros. A forma de constituição dos gêneros virtuais é hipertextual. em conjunto com todos os estudos do grupo de pesquisa LabEV. como e em que medida isso estaria ocorrendo. diferentes outros textos que podem ser colocados em diálogo com o que se está lendo. avaliamos essa perspectiva multidirecional como produtiva. portanto. em tal perspectiva. ainda muito recente. interconectados por links. multidirecional. como as próprias práticas sociais relacionadas às TICs. redes sociais. fomentando a interação e o acesso a uma realidade plurilinguística e pluricultural. no entanto. de diferentes partes do mundo. suportes e/ou gêneros não são acessíveis de forma universal ou democrática e várias pessoas conseguem prescindir de muitos (ou. o que significa que não têm um centro. 2009). Nesse meio obser vamos. 2004. o leitor com toda a sua bagagem de conhecimentos prévios. a atividade caracteriza-se como um processo de construção de sentido que inclui insumos de diferentes direções e naturezas. que está presente em diferentes práticas sociais e demanda um sujeito ativo. seja cedo para uma definição precisa de padrões. 3. 2010). gêneros. a discussão.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 287 cibercafés. implicam a existência de diferentes contextos. tais recursos. de apresentar generalizações sobre as novas práticas. linguagens. ao menos. Em resumo. nem uma hierarquia fixa entre suas partes. já em sua natureza. diferentes produtos finais (“textos”) para leitura (RIBEIRO. No que se refere às TICs e à leitura em meio virtual. e-mails. oferecer exemplos que favoreçam. reflexão e construção de um conhecimentos e atitude ativa de seus leitores. por isso. tantas inovações estejam transformando nossa maneira de usar a linguagem e interagir. tomando tal compreensão já como um tipo de produção de sentidos. de demandando. tanto gêneros que se caracterizam como reestruturações daqueles já existentes em fontes impressas. Necessariamente. também. o contexto espaço-temporal. viabilizados pelos recursos das TICs (MARCUSCH. contudo. sem a pretensão. Propomos. habilidades e estratégias. v ideogames . 2005. o texto. 2005. Isso permite que cada leitor construa seu caminho próprio e componha. Talvez. 2010). 2005). trabalhando com amostras limitadas. De modo que as teorias a respeito e a caracterização de gêneros. Isso porque os autores que vêm estudando os textos produzidos especificamente em e para ambiente digital os caracterizam como hipertextuais e multimodais (RIBEIRO. simultânea ou isoladamente. ao contrário. Uma proposta metodológica O Interleituras se define como uma pesquisa exploratória e descritiva. assim. em distintos idiomas. Os .

O motivo. limitando-nos às leituras livres: impressa e virtual. mas se admitindo o uso de materiais impressos próprios). cada qual em suportes impressos e virtuais. Ao finalizar as análises. as sessões são gravadas em áudio. procuramos contribuir para responder os nossos problemas: (a) como o processo leitor está sendo desenvolvido em meio virtual e. por outro. monitoramos apenas seis sujeitos docentes. muito. a partir do grau de concordância (nunca/nada. (d) duas atividades de leitura guiada. de um texto impresso. que estivesse disponível na biblioteca de um projeto de extensão sob a responsabilidade do Setor de Espanhol da UERJ. 4. além do aspecto prático da limitação de espaço. junto com o preenchimento dos protocolos. D-018 gasta mais tempo (até 5 horas diárias) em atividades de leitura e no uso da Internet do que d-019 (entre 1 e 3 horas). e em arquivo de áudio e vídeo (voz do sujeito e imagens da tela do computador). sempre/totalmente) com uma série de 116 assertivas divididas em seis blocos temáticos. dificuldades. Apresentando e discutindo alguns dados Neste artigo apresentamos dados apenas de dois docentes – d-018 e d-019 –. relativamente. de um texto virtual e. Também lhes pedimos que registrassem sua atividade no protocolo escrito e que comentassem oralmente (para a gravação) o que fizessem e pensassem durante a leitura (ações. As únicas limitações que lhes impusemos nessas sessões de leitura foram: de tempo (entre 30 e 45 minutos para cada sessão) e de meio (no caso da virtual. hipertextos. segundo uma abordagem multidirecional de leitura. com informações sobre seus hábitos leitores e de atividades em meio virtual.288 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS quadro mais amplo da questão. respectivamente. qualquer material não digital/virtual/multimídia. nas sessões de leitura virtual. (c) quatro protocolos de acompanhamento do processo leitor – dois para leitura impressa e dois para leitura virtual. leitura em espanhol língua estrangeira (ELE) e uso de bens informáticos. dúvidas. pouco. d-018 (faixa de 31 a 40 anos) é mais velho que d-019 (faixa de 26 a 30 anos) e ambos são professores de espanhol nos ensinos fundamental e médio. utilizamos: (a) uma ficha de caracterização de sujeito. com menor pressão e definições de objetivos e atividades por parte dos pesquisadores. por um lado. faixa etária e atividade profissional. ao contrario das leituras guiadas que têm uma tarefa a cumprir. a serem resolvidas durante as sessões correspondentes de monitoramento. No que se refere ao uso do computador e acesso à Internet. Como nossa abordagem de análise é qualitativa. Ou seja. Também fazemos um recorte no que se refere às leituras selecionadas para comentário. respectivamente livres e guiadas – preenchidos pelo sujeito durante cada uma das quatro sessões de leitura monitorada. Além do material preenchido pelos sujeitos. cujo conjunto de coletas está completo. Nossos sujeitos são professores de espanhol. no qual se recolhem as crenças do sujeito sobre leitura. enquanto d-018 o faz tanto em casa . é que se caracterizam como um contato mais espontâneo com a leitura. (b) um questionário. escolhidos pelo fato de que suas práticas leitoras podem influenciar seu trabalho como mediadores e formadores de leitores. estratégias usadas). (b) em que medida se diferencia e/ou aproxima da leitura em meio impresso. no caso das leituras em meio impresso. convidaremos os sujeitos a participar de entrevistas a fim de discutir com eles nossas observações. em quatro sessões de leitura: duas livres e duas guiadas. No que se refere ao perfil da ficha de sujeito. apenas o uso do computador conectado à Internet e no caso da impressa. contendo propostas de compreensão. Como instrumentos para as diferentes coletas de dados.

define . incluindo a busca de informação e materiais. que se considera apenas como relativamente hábil e autônomo. selecionando textos que contribuíssem para a melhoria de sua prática e planejamentos. já que a leitura pode variar de indivíduo para indivíduo e poderá ser verificado durante a entrevista. tanto d-018. Exemplos disso são: a) d-019 concordou totalmente com a assertiva “O centro do processo de leitura é o leitor. ao concordar plenamente com “Compreender um texto significa formar uma estrutura mental que representa o significado e a mensagem atribuídos ao texto. ao contrario do segundo. esta última não citada por d-018.”. podemos tecer algumas reflexões sobre as possíveis tensões entre crenças e práticas. centrada no leitor. os papéis se inverteram. Focalizam seu interesse em questões relacionadas a trabalho e estudo. Contraditoriamente. para ter um momento de lazer. Também contradiz sua tendência multidirecional. podendo ser avaliadas como pessoas que têm uma posição equilibrada (nem ufanista. d-019 manteve-se ligado ao trabalho. O primeiro se avalia como um usuário muito hábil e autônomo. navegação e participação em redes sociais. D-018. ambos o dominam para usos cotidianos de caráter instrumental. Quanto ao perfil de usuários de meio virtual.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 289 quanto no trabalho. talvez pela menor frequência de uso do computador. é que as assertivas tenham sido compreendidas de forma diferente da pretendida quando da elaboração do instrumento. mas também entre as duas modalidades de leitura: impressa e virtual. embora d-018 abra mais o leque de possibilidades do computador e da rede. mas. b) d-018 concorda totalmente com a assertiva “O leitor entende um texto ao apreender seu significado. podendo esta estar centrada no texto ou no leitor. Pudemos constatar diferenças não apenas entre ambos os sujeitos. cada um poderia definir o que fazer. d-019 só o faz em casa. tendendo a uma perspectiva decodificadora. como e por quê. Quando efetivamente vão ler durante as sessões de monitoramento. No caso da leitura impressa. na qual “apreender” implica capturar/ receber o que está exposto no texto. reconhecem tanto os aspectos positivos quanto as limitações do meio. desconsiderando que há outros elementos que entram em jogo na interação e contradizendo algumas avaliações feitas em outras assertivas. não descar tada pelos pesquisadores. enquanto d-018 optou por ler para relaxar.” . D-019 restringe seu uso ao e-mail. A primeira observação que fazemos se refere à definição de objetivos de leitura e às escolhas de gêneros e assuntos. com ênfase no texto. tendeu para uma perspectiva unidirecional. afirmou concordar muito com o fato de que “O domínio de vocabulário. Uma vez que as leituras eram livres. quanto d-019 oferecem dados que nos permitem incluí-los numa categoria de leitores prioritariamente multidirecionais. ignorando a bagagem do leitor e outros elementos que possam ser conjugados para estabelecer a compreensão. conceitos e estruturas gramaticais é essencial à leitura. ora outro. Uma das possibilidades. pois a assertiva indica uma supervalorização das imagens que o leitor projeta no texto para lhe dar sentido.” . numa perspectiva unidirecional. Isso seria admissível. Apesar disso.”. escolhendo histórias em quadrinhos e contos com temática de futebol. Já na leitura virtual. houve avaliações de assertivas em que ora um. nesse caso. representado pelas suas marcas linguísticas. Em termos de crenças coletadas a partir do questionário. nem tecnofóbica) a respeito das TICs e seu emprego.

consultou diferentes sites. o pouco tempo para a atividade (informou que lê devagar). a não ser. Foi um pouco menos linear na leitura virtual. mudando seu foco. no caso de d-019. ao contrario de d-019 que esperava ler textos que atendessem seu objetivo de aperfeiçoamento. não acessou links. na leitura virtual. não sabia o endereço eletrônico para acesso. salvou arquivos em pendrive. sem relatar nada que os tivesse atrapalhado. com o skimming servindo como estratégia básica para uma panorâmica geral de cada material. D-019 considerou-se mais seguro na leitura impressa. d-018 não definiu hipóteses sobre o que encontraria ao ler os textos impressos. seguiu a navegação de forma mais controlada/ordenada. Mesmo assim. Apesar de ter mais idade. ao contrário do que havia feito na leitura impressa. a fim de se atualizar e informar. usaram como ponto de partida o buscador Google. Nesse aspecto observamos a contradição entre crenças e práticas com relação à postura unidirecional . pois conseguiu seguir do início ao fim e alcançar seus objetivos. ao qual sempre retornavam para novas pesquisas. como no caso de d-019 com o jornal cujas notícias leu e do qual. Apesar disso. A observação do comportamento do mouse e da barra de rolagem da página pôde ajudar a confirmar que a leitura feita pelos dois docentes. estratégias de copiar/recortar e colar. mesmo sendo seu conhecido. em português. dificulta a organização em texto corrido que temos em materiais impressos. na leitura livre impressa. Isso tornava a leitura desconfortável e mais difícil. embora de forma menos linear do que na leitura impressa. enviou para si mesmo por email materiais. abandonando o que não lhe interessava e. mas também nos permite refletir sobre a necessidade de os textos veiculados em meio virtual serem mais curtos e apresentarem os links para enlaçarem conteúdos. utilizando skimming e scanning. Concluiu que. ao contrário. guardou informação na área de trabalho para uso posterior. educação e política brasileira. saltar de um texto para o outro. procurou textos sobre atualidade. por não conseguir encontrar o que procurava. sem um fim preciso (nunca temos exata dimensão de sua totalidade espacial). Provavelmente foi motivado pelo costume que tem de utilizar a Internet como fonte de recursos para suas aulas. d-018. uma vez que sua formatação vertical. não seguia palavra a palavra. Os gêneros escolhidos foram notícias e vídeo. d-018 demonstrou mais facilidade com a internet e o computador de maneira geral: utilizou editor de texto. aproveitando melhor os recursos que o meio virtual lhe oferecia. Isso ocorria inclusive quando se tratava de uma fonte habitualmente consultada. ambos consideraram ter alcançado seus objetivos. queixou-se que um dos materiais lidos tinha a imagem do quadro Guernica muito antes das suas explicações e comentários. Ambos destacaram a importância do conhecimento de mundo e. Ao se autoavaliar. Ao contrário. dispostos em páginas numeradas e sequenciais. já que d-018 mostrouse sempre menos linear. Selecionou notícias e críticas de arte (procurava textos verbais sobre Guernica) em fontes em língua espanhola. teria sido mais fácil. em vista da impossibilidade de encontrar o tema originalmente desejado. D-019. integrando em sua leitura conteúdos ali encontrados. disse não ter sentido falta de apoio impresso ao ler na tela. A observação chama atenção. na leitura virtual. não deu muito valor às imagens de maneira geral. Em termos estratégicos. havia diferença entre ambos. sua insegurança concretizou-se pela fragmentação da leitura. Já d-019. se estivesse em papel. Embora tenha demonstrado mais proficiência no trato com o computador. saltando de um a outro (o cursor serviu de apoio a essa movimentação).290 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS sua atividade em termos de busca de materiais para usar em sala de aula. Era feita em blocos. quase se perdendo. sempre silenciosa.

um perfil leitor que oscila entre uni e multidirecional. abril. 57. assim.. Nos casos aqui exemplificados. Cabe. ter tendido igualmente a uma leitura seguida e completa dos contos escolhidos. como já regitramos. sermos melhores professores. é factível assumir que professores que são exploradores das TICs. é viável apresentar alguns comportamentos que se caracterizam como possíveis tendências na leitura desses docentes. observamos uma melhor integração ao meio. do contexto. Referências bibliográficas CASSANY. Después de internet. continuar investigando para ampliar o campo teórico e para levar as novas teorias que estão sendo construídas ao terreno da prática. embora. Algumas conclusões iniciais Embora não caiba generalizar comportamentos leitores em ambiente virtual com base neste estudo de amostra reduzida. Na verdade. n. defendemos que é possível uma reflexão sobre seu papel na formação de seus alunos leitores e de como tais conhecimentos podem contribuir para otimizar o letramento em espanhol na era digital. acessar links. aproveitando todos os recursos. Em especial e em nossa avaliação. mesmo quando tende ao segundo caso em termos de crenças. inclusive no que se refere à autopercepção da proficiência. somando sua experiência aos constructos acadêmicos. apesar de ter apresentado posicionamentos favoráveis a uma perspectiva multidirecional em seu questionário. mais velho do que d-019. 2011. p. menos linear. mas nem sempre são fatores determinantes. As faixas etárias podem contribuir para a maior ou menor intimidade com o ambiente virtual. leitores multidirecionais poderão provocar em seus aprendizes um perfil de exploradores dos textos. de apoio de suporte impresso em alguns contextos de leitura. conhecimentos. gêneros e ferramentas das TICs. A fragmentação de atividade leitora em meio virtual atende a uma característica do suporte. seus gêneros e recursos tenderão a levá-los à suas salas de aula. poucas foram as estratégias eminentemente virtuais observadas: copiar/colar. didático-pedagógica nossas crenças. a necessidade. do texto ou de outros discursos/textos. Daniel.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 291 marcada pela leitura linear (do início ao fim) realizada e valorizada por d-019.. mas para interagir com docentes e alunos. estratégias que possuam. Aprender a ter consciência dessa tensão entre expectativa e realidade pode nos ajudar a aperfeiçoar a própria compreensão e. adaptadas ao ambiente virtual. Textos de didáctica de la lengua y de la literatura. A atitude de d-018 foi. Destacamos: o uso de estratégias clássicas de leitura. sejam eles de sua bagagem pessoal. mas é rejeitada como falha de leitura pelo sujeito. Da mesma forma. A par tir da descrição desses sujeitos. 12-22. por parte do sujeito d-018. Outro aspecto que nos chama atenção é o fato de que não necessariamente as crenças e percepções sobre nossas práticas leitoras se concretizam durante o ato de ler. portanto. Como normalmente transferimos para nossa atividade 5. . abrir diferentes aplicativos para resolver as questões de leitura. um aproveitamento heterogêneo e não sistemático dos recursos tipicamente virtuais dos textos de gêneros digitais. sob uma perspectiva crítica e reflexiva. o histórico de como aprendemos e daquilo que usamos. ainda. nos textos literários. Isso. merece atenção o estabelecimento do diálogo entre academia e meio escolar. não só para aprimorar a formação inicial e favorecer a formação continuada de professores.

(org)./jun./abr. . A. Cristina.2. (Orgs. VERGNANO-JUNGER. 2005. 2005. _____. Belo Horizonte: CEALE. Lenguaje y nuevas tecnologías. Luiz Antonio. Gêneros textuais emergentes no contexto da tecnologia digital. MACHADO. métodos y herramientas para el lingüista del siglo XXI. n.). 2009. Hipertexto e gêneros digitais . 2010.1. 1. v. aspectos soc iais e possibilidades pedagógicas. p. Letramento dig ital.) Gêneros textuais e ensino.P. suportes de leitura e escrita. Ana Elisa. Madrid: Cátedra. In: DIONISIO. Rio de Janeiro: Lucerna. Elaboração de materiais para o ensino de espanhol como língua estrangeira com apoio da internet.8. R. Ler na tela – letramento e novos MAGNABOSCO. Rio de Janeiro: Lucerna. 125-150.l. Calidoscópio. nuevas herramientas. 1. jan. L.]: Unisinos. BEZERRA. M. 90-101. E. GÊNEROS DIGITAIS: modificação na e subsídio para a Leitura e a Escrita na Cibercultura.A. Julia. jan. In: Revista Prolíngua (UFPB) . [S. ed. Gêneros textuais: definição e funcionalidade. A. MARCUSCHI. 24-37. C. A. 2004. MARCUSCHI. n. COSCARELLI. RIBEIRO. v. A.A.292 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS LAVID. 3 ed. Gislaine Gracia. p. RIBEIRO. p. 2005. (Orgs. XAVIER.C. V.

o Dr. como a ditadura do Dr. independiente. Mas o que há de unanimidade é que ele era um ferrenho defensor da independência e da soberania nacional. p. Nos questionamentos do Supremo há a evidência dos temas históricos do século XIX. Francia: as revoluções e a independência do Paraguai. Em seguida todos os funcionários da casa civil e militar também deveriam ser enforcados.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 293 HISTÓRIA. os quais Roa Bastos mostra como podem ser reinterpretados pela ficção com a intenção de desvelar um fato histórico mascarado. Alguns o veem como um déspota sombrio. que recuperam vários períodos da história do Paraguai no século XIX e XX.UNESP/ Assis Hijo de Hombre (1971) e Yo el Supremo (1974) são romances do escritor paraguaio Augusto Roa Bastos (1917-2005). 2008. MEMÓRIA E FICÇÃO EM YO EL SUPREMO E EM HIJO DE HOMBRE DE ROA BASTOS Damaris Pereira Santana Lima PG . soberana? Lo que es más importante ¿de haberle dado el sentimiento de Patria? (…) ¿De esto me acusan? (ROA BASTOS. que a cabeça seja posta em um poste por três dias. O romance Yo el Supremo começa quando um pasquim é encontrado cravado na porta da Catedral de Encarnación em forma de decreto com assinatura falsificada do Supremo Ditador. personagem para quem não foram unânimes os julgamentos da história. A partir destes fatos desencadeia-se toda a narrativa. no Paraguai (1816-1840). Francia. o que Patiño jamais conseguirá. como as notas às margens com letra desconhecida que levam à reconstrução das circunstâncias históricas que viveu o Dr. Francia. outros como um prócer da nação paraguaia. Quando ele se defende das acusações sobre si no pasquim fixado na porta da catedral questiona retoricamente: “¿De qué me acusan estos anónimos papelarios? ¿De haber dado a este pueblo una Patria libre. Para isto o povo deveria ser convocado através do sino da igreja para ver esta barbaridade. O ditador começa a procurar quem seria o autor de tal documento exigindo que seu secretário Policarpo Patiño localizasse o dito autor. Em Yo el Supremo Roa Bastos trata de vários temas ligados ao Dr. 57). No documento apócrifo o Supremo ordena que seu cadáver seja decapitado. o isolamento e militarização do Paraguai como . Francia. do período do governo do Dr. O romance contém notas que complementam e outras que contradizem. Francia.

amigos. espigados. Hay que agregar a esto las versiones recogidas en las fuentes de la tradición oral. (…) . Nora Esperanza Bouvet (2009). Para a autora “el texto que escribe no olvida en ningún momento que lo es. ajustando. Há um passado. “Letra desconocida” (p. p. Os grandes e pequenos defeitos de seu governo. A história da Ditadura Perpétua é a matéria da ficção e consiste na cópia de escritos de e sobre o ditador. foi-se passando a limpo a história. em sua obra Estética del plágio y crítica política de la cultura em Yo el Supremo diz que em seu romance Roa Bastos realiza um trabalho de transformação dos materiais historiográficos em literários para construir uma obra de ficção colada aos referentes históricos que questiona os modos que se utilizaram para construílos. as arbitrárias detenções. adversários e ex.294 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS estratégia do ditador para livrar seu país das intenções anexionistas de Buenos Aires e as imperialistas do Brasil. pois fala do presente da enunciação do romance e se remete à história do Paraguai anterior à ditadura do Dr. à narrativa. Este conteúdo histórico é integrado ao simulacro romanesco. Também nestas memórias estão as contradições de seu regime paternalista. “faltan folios” (p. por fontes contemporâneas ao ditador e por historiadores. mas que não tem limitações quanto à história. 274). A história é apresentada através da visão do Supremo que se gaba afirmando: “Yo no escribo la historia. 2008. de maneira que a narrativa é a escrita da leitura de vários textos. Na narrativa há muitas evidências de vários fragmentos que dão a impressão de rascunhos. 2008. Francia. 97). Para a referida autora “son hilos ficcionales de esbozos novelescos que los historiadores hacen y Roa Bastos reorienta” ( BOUVET. O Supremo se debate contra uma imagem que lhe fora construída por seus sucessores e em particular por seus detratores. en bibliotecas y archivos privados y oficiales. p. Francia. p. “al margen escrito em tinta roja” (p. As fontes extratextuais são muitas. Puedo rehacerla según mi voluntad. per iódicos. 31-32). enquanto ele narra.de unos veinte mil legajos. 2009. O romance reescreve a história com dados para a escritura de uma versão divergente da história oficial e hegemônica.30). incluindo o presente da narrativa e até transcendê-lo. já que a narrativa é pós-morte. um plano de fundo o qual ele não pode exercer o seu poder de controlá-lo ou corrigi-lo.” (BOUVET. Todos os temas que fazem parte do romance tem matriz historiográfica. 2009. Supremo. considerado pelo Supremo como Neste trabalho de investigação empreendido pelo Supremo e seu secretário Policarpo Patiño para descobrir quem se atreveu a parodiar os decretos do .66). A cópia deste material dá voz à memória do Supremo. conta e corrige esta imagem. O conteúdo histórico utilizado pelo compilador foi produzido pelo próprio Dr. O Supremo age de acordo com sua vontade nesta contra-história que é construída com personagens e acontecimentos que são históricos. reforzando. (ROA BASTOS. consultados. os fuzilamentos. La hago. 76). O Supremo pode fazer o que está declarando. as crueldades e castigos para com inimigos. 119). y unas quince mil horas de entrevistas grabadas(…) (ROA BASTOS. no pretende ser otra cosa (reflejar ni representar nada) sino escritura generada por esas otras escrituras contra las cuales se vuelve. éditos e inéditos. ou seja. seus caprichos e sua postura para com os estrangeiros. de otros tantos volúmenes. p. correspondencias y toda suerte de testimonios ocultados. a colônia penal. folletos. enriqueciendo su sentido y verdad”. porque o autor outorgou-lhe um caráter fictício e ao mesmo tempo histórico. Esta maneira de construir a narrativa possibilita a Roa Bastos ir do passado ao futuro. 585). espiados. “quemado el borde del folio” (p. ou de papéis que teriam sido descartados: “hoja suelta”. É muito clara a denúncia contra o regime atual. personagem que não é onisciente.

lugar “perdido em el corazón de la tierra bermeja del Guairá” (ROA BASTOS. data da chegada do cometa Halley. pouco tempo depois do final da guerra do Chaco em 1935. criador do Cristo de Itapé. p. fundindo a cultura cristã com a cultura aborígene. 12). que foram trazidos pelo colonizador há mais de quinhentos anos.” (ROA BASTOS. quando especifica o roubo de los saltos de nuestras aguas. los altos de nuestras sierras aserradas con la sierra de los tratados de límites. los saltos de nuestras aguas. “hijo de uno de los esclavos del dictador Francia” (ROA BASTOS. no entanto se fundem dando origem a uma nova visão de mundo. Se o tempo da obra fosse ordenado de maneira linear. referindo-se à construção da usina de Itaipú. e termina com a morte de Miguel Vera e a conservação e compilação de seu manuscrito por Rosa Monzón. O personagem faz alusão às relações entre Paraguai e Brasil e à sua firme política de defesa da integridade territorial. período do governo do general Alfredo Stroessner (1954-1989). personagem que era considerado a aparição do passado. A cultura ocidental é mesclada com o substrato dos autóctones. Onde a língua e a religião espanhola se modificam pelo contato com a língua e com a religião do índio. Os fatos históricos que se referem ao século XIX são evocados pelas memórias do ancião Macario. as rebeliões dos camponeses e a guerra do Chaco. texto do livro de Ezequiel. somente. “Ya nos ha robado miles de leguas cuadradas de territorio. No texto da Circular Perpétua o Supremo traz à memória as invasões brasileiras em território paraguaio. de bandeirantes paulistas a los que contuve e impedí seguir bandereando bandidescamente en territorio patrio. 2008. Antigo Testamento e a outra é o Himno de los muertos de los guaraníes. no entanto há alusões a fatos que precedem a esse período. Yo el Supremo é uma narrativa que desestabiliza o que a história oficial registrou. cria outra história acrescentando o não registrado. Dr.” (ROA BASTOS. a religião como veículo de transculturação. sendo uma da tradição judaico-cristã. assim a soberania nacional do Paraguai. o que não se sabe e o que se desejaria saber sobre Francia. Na Circular Perpétua o Supremo declara: “Llámese Imperio de Portugal o del Brasil. a obra ainda evoca a história do período da ditadura de José Gaspar Rodríguez de Francia. quando lhes fora roubada grandes extensões de terra. P. no período de aproximadamente vinte e cinco anos. Em Hijo de Hombre emerge a convivência dos rituais e ideias míticas aborígenes junto aos ritos do cristianismo. da fundação de Sapukai e do desaparecimento de Gaspar Mora. observar-se-ia que os acontecimentos começam em 1910. Além dos dados citados acima. 115). las fuentes de nuestros ríos. p. A identidade paraguaia se constrói em um espaço onde as culturas lutam para se impor e. p.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 295 entreguista. Hijo de Hombre (1960) é o romance de Augusto Roa Bastos que recupera a história do começo do século XX. Francia (1814-1840) e da guerra contra a Tríplice Aliança (1864-1870). conta a história do ditador e do país alterando a linearidade da história oficial. Sapukai e Itapé e do seu povo. A descrição do povoado de Itapé. 115). e a seguir trata de um tema presente naquele momento. 11). 2008. 1971. sus hordas depredadoras de mamelucos. o segundo momento é o presente. a saber. onde o Supremo insiste em falar das más intenções do Brasil. espaço onde restavam poucas coisas do tempo . Esta afirmação é evidenciada desde as epígrafes do romance. O principal da narrativa se dá nesse segmento temporal. Hijo de Hombre conta a história de dois povoados. 1971. Neste fragmento há a alusão a dois momentos: o primeiro à agressão do império português no passado. O narrador conta o que ele ouvia quando criança através do velho Macario. protegendo. pelo império do Brasil.

citações intercaladas.” (LE GOFF. O início do romance apresenta as memórias do narrador sobre o que ouvia na sua infância.” (ROA BASTOS. Ninguém se atrevia a fugir deste reino de terror. pois. O romance é construído sobre um sistema de citações direta e indiretas. Memoria de ingiero-digiero. las artes de este Continente…” (ROA BASTOS. Francia defendia a nação das tentativas anexionistas do Brasil e da Argentina.” (LE GOFF. reflexões em um caderno privado. p.24). que repete sem refletir e é demasiada porque exige esquecimento. Os personagens. A Guerra del Chaco (1932-1935) é outro fato histórico evocado em Hijo de Hombre através dos registros do diário de Miguel Vera. Profetizaron convertir a este país en la nueva Atenas. a história anterior ao tempo da narrativa.296 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS da sua fundação há mais de três séculos. Para o Supremo. No primeiro capítulo é evocada a história da Ditadura Perpétua quando se narra a vida de Macario que “ habría nacido algunos años después de haberse establecido la Dictadura Perpetua. é meramente armazenadora. 2010. O Supremo ironiza utilizando a metáfora de Platão “Estómago del alma. 2010. ou seja. A guerra contra a Trílice Aliança. queriam devorar a nação paraguaia. o ditado de uma longa circular. tem uma intertextualidade complexa. ¡Vaya fineza! ¿Qué alma han de tener estos desalmados calumniadores? Estómagos cuadrúpedes de bestias cuatropeas. p. Desfigurativa. cuja busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje. A narrativa apresenta um país destruído pelas guerras com seus vizinhos. amparadas pela lei. 218). Areópago de las ciencias. perseguido pelo avanço da modernidade que promete sucesso para alguns. Yo el Supremo é uma metanarrativa onde se percebem as considerações iniciais e as dúvidas a respeito do quê e como narrar na maior parte das modalidades da escrita que irá inserir os diálogos do ditador com seu secretário. Lembrar o passado é uma necessidade do ser humano. o esquecimento faz parte da estrutura da memória . p. miséria e esquecimento para a maioria da população. 1971. na febre e na angústia . Sobre o tema Jacques Le Goff ainda pontua: “A memória é um elemento essencial do que se costuma chamar identidade. intertextualidade que traduz o inconsciente coletivo do Paraguai no período histórico registrado pelo romance. Repetitiva. p. pois: “Os indivíduos que compõem uma sociedade sentem quase sempre a necessidade de ter antepassados. A memória. países que segundo o Supremo. também através das memórias de Macario. bem como a história. individual ou coletiva. os espaços e os relatos de Hijo de Hombre apresentam a imagem de agonia da história e da sociedade paraguaia do começo do século XX. 14) Ao contar sobre a Ditadura Perpétua. ou a Guerra Grande é evocada no romance. Mancillativa. pode ser compreendida como reconstrução do passado e como conservação das experiências humanas. conforme a narrativa. Outro tema histórico evocado no romance é a tortura e a vigília que se estabeleceu nos ervais eram como menciona o texto. um dos presos militares da prisão de Peña Hermosa. A memória tema recorrente nas narrativas de extração histórica tem papel de destaque na sociedade em termos de representação coletiva. 218). 2008. las letras. Su padre el liberto Pilar era ayuda de cámara del Supremo . mas muita dor.” Compara seus opositores a animais ruminantes e define suas memórias como “ Memoria de mascamasca. Uma das poucas coisas que resta é o rancho do Cristo no alto do monte de Itapé. a visão que Macario apresenta é o Dr. Para o Supremo a memoria dos “memoriosos” é uma má memória. anotações de uma letra desconhecida. Relatos.

O referido autor ainda salienta que “ todo documento tem em si um caráter de monumento e não existe memória coletiva bruta.” (ROA BASTOS. Os “arquivos de pedra em Yo el Supremo.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 297 porque para lembrar alguma coisa.) Esta passagem corrobora a importância da escrita na preservação da memória. Em Yo el Supremo o leitor se depara com diversos monumentos escritos. 2010. p. Em Yo el Supremo há a simbologia de duas pedras: a piedra-bezoar e o meteoro-azar. Como a memória é imortalizada pela escrita. Rotundamente no. a piedra-bezoar e o meteoro-azar estão associados às reflexões sobre a memória. p. Pedras como fio condutor da reflexão sobre a memória e como um recurso literário. Lembrar somente o que convém. no documento apócrifo. 427) discorre sobre o desenvolvimento da memória: da oralidade à escrita.” (ROA BASTOS. 315) . 435) . Em Yo el Supremo.40). pois há uma diferença substancial na produção literária de Roa Bastos. “le hace ignorar el sentido de los hechos. pois o discurso da história não é confiável. Al principio no escribía. É necessário saber lembrar e saber esquecer. Nisto se vê o objetivo de Roa Bastos em se escrever uma intra-história. p. p. No romance a tônica é a revisão e a correção dos arquivos que armazenam a história do Paraguai. Aunque estar enterrado en las letras ¿no es acaso la más completa manera de morir? ¿No? ¿Sí? ¿Y entonces? No. pois. Quando Le Goff (2010. escrita e correção do que se escreve. Para Le Goff “a outra forma de memória é o documento escrito num suporte especialmente destinado à escrita”. pois é nos documentos históricos. p. 2007. “Disculpen. “Yo busque superar los estereotipos de la narrativa regional. conforme ele mesmo declara em entrevista a qual se refere Bouvet (2009).. Já em Hijo de Hombre o tratamento da memória é diferente do que se vê em Yo el Supremo. (RICOEUR. . faz-se necessário esquecê-la. nas circulares. O referido autor problematiza esta perspectiva paradoxal dizendo que o esquecimento constitui-se uma das condições da memória. memória e esquecimento exigem equilíbrio. 424). ele fala das formas de memória que são a comemoração. Es el único modo que tengo de comprobar que existo aún. o “exceso de memória” carrega o discurso de detalhes desnecessários. etc. O esquecimento não significa amnésia. De seguro estarán fatigadas sus mercedes con tantas bufonerías. em princípio o esquecimento é considerado um dano à confiabilidade da memória. Lo que es necesario recordar es el bien de nuestras patrias. nobles señores. pois faz-se necessário poder esquecer dos detalhes sem relevância para concentrarse no que é essencial. os fatos revolucionários pela independência do seu país. Ahora debo dictar/ escribir. que se encontram os fios condutores da narrativa. anotarlo en alguna parte. pois é uma maneira de se renunciar al beneficio del olvido. 2008. 2008. mas a qualidade do que se lembra ou se esquece. p.” (LE GOFF. não é a quantidade do que se lembra ou do que se esquece que faz construir uma boa memória. Segundo Paul Ricoeur (2007. a celebração através de um monumento e pontua sobre a pedra mármore como suporte a uma sobrecarga de memória. da Pré-história à Antiguidade. mas ao mesmo tempo o autor pontua que uma memória que nada esquecesse seria considerada monstruosa. a história ou a imprensa oficial não conseguiriam penetrar nos pensamentos de uma sociedade. Después olvidaba lo que había dictado. únicamente dictaba. pois é um discurso incapaz de escrever o que passa pelo imaginário coletivo. p. Olvídenlas. (…) Se escribe cuando ya no se puede obrar (ROA BASTOS. A narrativa é uma construção em leitura. 428). se lo ruego. 75. 2008. A própria memória luta contra o esquecimento. A escrita que possui as funções de armazenamento de informações e a possibilidade de reexame e de correção.

a los asombros de mi infancia. do leproso. pontua que toda a evolução do mundo contemporâneo se dirige para as memórias coletivas.. Os dois romances de Roa Bastos aqui comentados são textos em que história e ficção se cruzam promovendo.” (BOUVET. A memória também aparece na voz do narrador. 467). assim. o bilinguismo e a oralidade geraram o “mandato ético” de denunciar esta situação e de dar voz ou ser de alguma maneira o intérprete de uma coletividade vitimada pela desventura de suas vicissitudes. 1971. 28). Mi testimonio no sirve más que a medias. p. p. aqui quem é detentor da memória coletiva detém uma memória essencialmente oral. As declarações acima podem ser consideradas resposta à diferença percebida na maneira de produção textual e de tratamento do tema memória. Ele declara ainda que não conta e escreve com a intenção de reviver o passado. 2009. 2009. mas com o objetivo de purgar os males cometidos consciente ou inconscientemente no passado. A história se esforça para criar uma história científica a partir da memória coletiva. p. siento que a la inocencia. com certo pesar. Em Hijo de Hombre desde as primeiras linhas emergem as memórias da coletividade na voz do excêntrico. E diz ainda que quando escreveu Yo el Supremo tinha deixado de ser o cruzado de uma literatura militante. ao tratar dos desenvolvimentos contemporâneos da memória. el planteo estético había quedado condicionado por el mandato ético. 2010. Me había librado de esa conciencia que parecía estar dictándome los infortunios de la colectividad. ou seja. mientras escribo estos recuerdos. No estoy reviviendo estos recuerdos.14). “História que fermenta a partir do estudo dos ‘lugares’ da memória coletiva. las repetidas muertes de mi vida. Em muitos povoados paraguaios o cemitério é o lugar mais antigo..298 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS pero equivoqué el camino hacia fuera y hacia adentro. de uma cultura ágrafa de uma literatura sem passado. O fato de o país ser marcado por tantas mortes faz dos cemitérios lugares monumentais. pois diz que seu .)” (LE GOFF. etc. 27) e se auto justifica por sua situação como escritor exilado. p. A passagem revela que conta-se para reviver o passado. 52)..) em Hijo de Hombre y otros textos. Em outro momento do romance há a alusão à Guerra Grande quando se trata da relação morte e vida no imaginário nacional.. do filho do escravo..” (ROA apud BOUVET.” (BOUVET. lugares simbólicos. Escrever suas lembranças é também uma maneira de contar e reviver o passado. p. O trabalho como coveiro era muito cobiçado em Sapukai. evidenciadas pelas repetidas mortes provocadas por Miguel Vera. 2009. Jacques Le Goff (2010). p. tal vez los estoy expiando. se mezclan mis traiciones y olvidos de hombre. testemunho não serve mais para nada. pela inexistência de uma tradição literária paraguaia na qual inserir-se. Neste fragmento também é evidenciada a marca de tempo cíclico. As memórias de Miguel Vera contando de sua infância. Ahora mismo. Emerge no relato sobre María Regalada a filha do coveiro.. do motorista. pela fragmentação da cultura paraguaia. uma intertextualidade. “El puesto de sepulturero en Sapukai es casi una dignidad”( ROA BASTOS. “Lo que quería entonces era trabajar el texto desde adentro.) lugares monumentais como os cemitérios (. Vale ressaltar que o ancião Macario sempre contava suas histórias em guarani. 1971. (. Sapukai não seria o único povoado fundado junto a um cemitério secular. y podía dejar que esos infortunios fueran irradiados por la vida misma del texto. 27). Miguel Vera que apresenta suas lembranças de infância: Yo era muy chico entonces. A observação de que as histórias eram sempre contadas em guarani mostra que Paraguai é uma sociedade que neste momento parece estar em transição entre a oralidade e a escrita. (ROA BASTOS. “(.

38) Referências bibliográficas BOUVET. Jacques. ROA BASTOS. 2010. 2007. temas em debate na atual produção literária da América Latina. ROA BASTOS. Alain François [et al. SP: Editora da Unicamp. Y si sabe olvidarse en vida de sí mismo.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 299 O discurso ficcional ao dialogar com a história faz um questionamento à história oficial. la tierra come su cuerpo pero no su recuerdo…” (ROA BASTOS. 1971. Campinas. RICOEUR. Uno al nacer. 2012. Campinas. “—Porque el hombre. LE GOFF. Asunción: Servilibro. obra y pensamiento. Asunción: Servilibro. construindo. desta maneira uma contra história. 2009. Yo el Supremo . Paul. mis hijos – decía repitiendo casi las mismas palabras de Gaspar–. Nos dois romances há também a presença de memória e esquecimento.]. o esquecimento. Hijo de Hombre. Augusto. Augusto. otro al morir… Muere pero queda vivo en los otros. a história. . Buenos Aires: Editorial Losada. (trad. PECCI. si ha sido cabal con el prójimo. Estética del plagio y crítica política de la cultura en Yo el Supremo. Nora Esperanza. Antônio. p. tiene dos nacimientos. como diz o próprio Roa. Roa Bastos – Vida. História e Memória . SP: Editora da Unicamp. A memória. 2008. Buenos Aires: Debolsillo. 1971.

às vezes. dentre as diversas possibilidades de . se não contraditórios. sob os nomes das classes gramaticais tradicionais a que pertencem. refletir sobre o posicionamento teórico que se segue.300 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS O TRATAMENTO DOS CONECTORES NAS COLEÇÕES DE LÍNGUA ESPANHOLA APROVADAS NO PNLD-2012: UMA QUESTÃO TEXTUAL OU DISCURSIVA? Daniel Mazzaro Vilar de Almeida PG-UFMG/UFV/UNIFAL Introdução Nos estudos linguísticos existem muitos conceitos e termos que. parecem intercambiáveis. No entanto. a nossa intenção é escolher. Neste trabalho refletirei sobre o tratamento dos conectores nos livros didáticos do Ensino Médio aprovados no PNLD 2012. analisarei as três coleções de Língua Espanhola aprovadas no PNLD de 2012. quando comparamos suas definições. portanto. frequentemente. Texto e discurso: limites incertos Ao propor a diferenciação de texto e discurso neste trabalho. mostrarei como também são escorregadias as definições do termo conector e seu “quase” sinônimo marcador discursivo. não são levados em conta como elementos que conectam mais que frases ou enunciados (embora este último conceito alcance a semântica e/ou a pragmática da língua) e alcançam o nível discursivo do texto. Em outras palavras. Sendo assim. aqui entendido como uma construção social. Em seguida. já tomamos a perspectiva de que se tratam de elementos ou conceitos diferentes. partirei de uma breve discussão dos termos texto e discurso para mostrar a complexidade da separação entre ambos. o que parece ser um senso comum para vários linguistas e teóricos da linguagem. mas sim. são muito próximos e. Isso acontece até mesmo com os objetos de estudo mais recorrentes nas teorias modernas. parece crucial. Ao desenvolver um estudo sobre qualquer elemento que se inclui ou que leva no nome algum desses termos. observando o que se espera do aluno quando estudam os conectores. percebemos que não existe um trabalho efetivo desses elementos que ultrapassem o âmbito formal do texto. discurso e gênero (textual e discursivo). como texto. Após essas ponderações. Embora não apareçam sob esta nomenclatura.

dessa forma. As restrições podem ser um posicionamento em um campo discursivo (discurso feminista). desde o entorno sociocultural no qual a atividade comunicativa se desenvolve. Ao fazer um panorama sobre análise do discurso. tem-se afirmado que o discurso é a relação de um texto com seu contexto (discurso = texto + contexto). escrita ou oral. ou seja. Fazendo um breve histórico do conceito de texto. e sim parte de atividades mais globais de comunicação. como vimos anteriormente. expressivo e referencial. produções verbais específicas de uma categoria social (discurso das enfermeiras) ou uma categorização baseada num critério comunicacional (discurso polêmico). estável e abstrato. que filtra esses valores virtuais ou que pode suscitar novos valores (vê-se uma associação de discurso à dimensão social e mental). No primeiro caso. objeto. Desse ponto de vista. mas também a interação (ou atuação) de acordo com práticas socioculturais. uma atividade verbal em contexto que se manifesta sob a forma de unidades transfrásticas. discurso é um uso restrito desse sistema compartilhado. Maingueneau (2008) explica que discurso pode ser. superior à sentença e. que foram passos expressivos para perceber que o texto não é apenas um combinado de frases. Mas. o texto passou a ser entendido como um sistema uniforme. não apenas a depreensão de conteúdos semânticos. No segundo caso. o conceito de texto já incorporou o de contexto. as pesquisas da área discursiva podem se separar em dois polos: . por um lado. Já a terceira fase considera que sempre teremos à nossa disposição mais de uma definição de texto ou daquilo que se postula ser o objeto da Linguística Textual (LT).ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 301 definições. em decorrência da ativação de processos e estratégias de ordem cognitiva. a textualidade seria uma propriedade distintiva do texto. de modo a permitir aos parceiros. Quanto ao contexto. o discurso é o uso da língua em um contexto particular. se desprendem conceitos como textualidade e contexto . ele pode englobar muitas ideias. verbalização e construção. Discurso é também diferente de texto. até seu cenário imediato de ocorrência ou o conhecimento prévio dos falantes e a própria linguagem . uma vez que a análise do discurso é uma tentativa de articular estruturações textuais e situações de comunicação. e a linguagem é considerada na sua relação com seus objetivos social. o compreende no seu próprio processo de planejamento. uma unidade linguística mais alta. em um momento dos estudos da LT. já que esta é entendida como sistema de valores virtuais e/ou como idioma compartilhado pelos membros de uma comunidade linguística. discurso deve ser visto de forma diferente de língua. No entanto. isto é. a segunda fase o define não como uma estrutura acabada (um produto). o que deixa margens a dúvidas se realmente existe uma diferença entre esse e discurso. Segundo Maingueneau (2008). um tipo de discurso (discurso jornalístico). Bentes (2001) identifica três fases. uma diferenciação que possa nos servir para compreender o que acontece com o tratamento dos conectores. por outro lado. Maingueneau (2008) esclarece que. 1 É nesse mesmo caminho tortuoso que se tenta definir discurso. Quanto ao primeiro. Ele passa a ser visto como uma manifestação verbal constituída de elementos linguísticos selecionados e ordenados pelos falantes durante a atividade verbal. Enquanto a primeira define o texto como uma sequência coerente e consistente de signos linguísticos delimitada por interrupções significativas na comunicação e possui status de maior unidade linguística. na interação. Essa distinção permite distinguir a atividade discursiva nas suas múltiplas dimensões e sua única manifestação verbal.

conectores pragmáticos . Podemos citar pessoas que trabalham na revista MOTS (S. como descrever o valor dos elementos de conexão entre orações e outros elementos se tantos pesquisadores o tomam o tomaram como seu assunto de investigação? Conectores ou Marcadores Discursivos? Uma das maneiras de alcançar o sucesso de que um texto/discurso possa fazer sentido é por meio de conexões entre as palavras. já que no tratamento dos marcadores discursivos elas se complementam devido aos âmbitos do objeto de estudo que cada teoria analisa: seja o contexto em que aparece um conector. orações.. seja a intenção do falante em usá-lo. por exemplo. enquanto que os limites do discurso se encontram em seu alcance sócio-ideológico. A questão é que. como explica Escandell (2006). . 1998. (doravante MD). enlaces extraoracionais . enunciados ou segmentos discursivos. (MAINGUENEAU. é possível encontrar termos como marcadores de relação textual . Vejamos. ou E. a conceituação de MD e conectores apresentam diferenças. Siblot. especialmente na Suíça romanda. os limites do texto estão em sua organização sistêmica. p. devido à diversidade de critérios adotados e às diferentes proposições metodológicas a partir dos quais se tem abordado o estudo dos conectores e dos marcadores discursivos Vê-se claramente o eixo pragmático e semântico da definição de Portolés. no entanto. os conceitos atribuídos a esses termos ora se identificam. Em Almeida (2011). Por isso. (PORTOLÉS. muitas vezes. seja a carga semântica da expressão. Devemos ter a noção. Bonnafous.23-24) O autor faz uma divisão interna da área discursiva para a qual utiliza termos específicos: na definição do primeiro polo aparece a expressão “organização textual”. Várias foram (e são) as teorias que deram sua contribuição para elucidar a questão e o funcionamento dos conectores2. 2008. Curiosamente. além disso. os pesquisadores que têm como argumento o estudo da organização textual.De outro.147-148). Bres. las inferencias que se realizan en la comunicación. e em seguida os pragmaticistas. parágrafos. de que nem todas as teorias (que não são poucas) coincidem entre si e. J-M. p. semánticas y pragmáticas. operadores discursivos. seja suas características sintáticas etc. optamos por não nos deter a apenas uma das teorias. Portolés (1998). ou seja.302 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS .-M. . P. ora se complementam. não se chegou a um acordo em questões básicas como a denominação e definição de seu conceito. de acuerdo con sus distintas propiedades morfosintácticas. B. marcadores de estruturação textual. partículas discursivas etc. primeiramente os gramáticos e filósofos. P. Ou seja. conectores discursivos . quando ele explica que a finalidade dessas expressões é de guiar as inferências que se realizam na comunicação. na próxima seção. e na do segundo polo ele usa “discursos” e “posicionamentos ideológicos”. usa o termo marcadores del discurso e assim os define: son unidades lingüísticas invariables. essa diferença costuma estar no imaginário comum quando se distingue texto de discurso . que defendem uma concepção de linguagem na qual se misturam as influências do marxismo e da linguística da enunciação. Roulet em Genebra. foi um dos problemas que mais preocupou. no ejercen función sintáctica en el marco de la predicación oracional y poseen un cometido coincidente en el discurso: el de guiar. referindo-se. elementos que. partículas pragmáticas. Adam em Lausanne.. Barbéris. frases. Détrie. por isso. M. Fiala) ou o grupo de Montpellier “Praxiling” (J. apoios do discurso . aos mesmos elementos estudados e. Tournier. aqueles que visam primeiramente articular discursos e posicionamentos ideológicos.). como se definem os conectores.De um lado. J.

Portolés e Montolío se preocupam pelos posicionamentos ideológicos dos sujeitos envolvidos no jogo discursivo ao estudar os conectores e MD? Até que ponto as questões socioculturais influenciam o uso e interpretação desses elementos nos discursos? . (MONTOLÍO. p. esse elemento é de extrema importância para a leitura crítica do texto. as coleções. temos as informações de que tanto as definições de marcadores discursivos como de conectores possuem uma raiz muito forte na pragmática e na semântica. 1998. expressa por meio de manifestação verbal e não verbal e que se concretiza em diferentes línguas e culturas. Sua definição também possui uma estreita relação com a semántica e pragmática. todo discurso se compone de una parte puramente gramatical y de otra pragmática. E essa definição. valores e ideologias inerentes aos grupos sociais. Logo.21) Estas perguntas dariam origem a outras pesquisas. VILLALBA. 2001. estreitamente relacionada à de enunciado 3. ayudar al receptor de un texto guiándole en el proceso de interpretación. ponto(s) de vista. Enlaces (OSMAN et al. em um texto. p.27) Assim. Essas ideologias. (PORTOLÉS. mas usa o termo conectores e explica que (…) tienen como valor básico esta función de señalar de manera explícita con qué sentido van encadenándose los diferentes fragmentos oracionales del texto para. por isso heterogênea e historicamente situada. que envolve concepções. atividade em permanente construção. podemos ver que o conceito de linguagem está bem próximo ao que discutimos sobre discurso já que expressam ideologia(s). prática discursiva. Nossa pergunta é: por que o termo mais usado é marcador discursivo e não textual? Portolés (1998) entende por discurso la acción y el resultado de utilizar las distintas unidades que facilita la gramática de una lengua en un acto concreto de comunicación. por ello.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 303 De forma parecida. para serem aprovadas. se sob o viés textual ou discursivo. como vimos anteriormente.21). intenção(ões) e argumentação(ões).10). Até este momento. p. 2010). 2010) e Síntesis (MARTIN. áreas de muita influência na Linguística Textual e na Análise do Discurso. esses pontos de vista. então. Um olhar sobre os conectores nas coleções de Língua Espanhola do Ensino Médio aprovadas no PNLD 2012 Segundo o Guia de Livros Didáticos: PNLD 2012: Língua Estrangeira Moderna (2011. a fin de que su lector siga sin esfuerzos ni dificultades el camino interpretativo trazado” (MONTOLÍO. obtenida gracias al contexto. já que é uma porta para inferências do tipo socioculturais. intenções e argumentações podem se materializar no discurso por meio de conectores de modo a guiar o interlocutor desse texto/discurso no processo de interpretação. marca um limite com a definição de discurso proposta pelas correntes de Análise do Discurso. “como señales de balizamiento que un escritor eficaz va distribuyendo a lo largo de su discurso. voltemos à proposta deste texto e analisemos como os livros didáticos de espanhol aprovados no PNLD 2012 tratam os MD e os conectores. devem entender e orientar em suas atividades a linguagem como atividade social e política. 2010). p. principalmente quando explica que os conectores funcionam. como os conectores/MD são tratados nas três coleções didáticas de espanhol do Ensino Médio aprovados no PNLD 2012 que são as seguintes: El arte de leer en español (PICANÇO. de esa manera. Vejamos. Dessa forma. conforme dividimos de forma didática anteriormente. Montolío (2001) propõe uma definição. 2001. esto es.

expressões condicionais (unidade 7). os MD não aparecem em apenas um volume como um tema a ser estudado. modo. Novamente estas e outras expressões aparecem no capítulo 5 na seção Gramática básica sob o título Adverbios em um quadro-resumo dividido em lugar. outras conjunções como aunque. o e pero por meio de exemplos tirados do áudio do capítulo e uma tirinha (apresenta-se o valor e um exemplo de cada conjunção). A coleção Enlaces apresenta os conectores principalmente no volume 3. así. dedicadas à leitura e compreensão de texto. Assim como nesses livros. A divisão nas unidades é semântica: expressões concessivas (unidade 4). por su parte e sino a partir de frases retiradas dos textos das seções ¡Mira! e ¡Acércate!. o volume 3 trata dos MD na seção Manos a la obra .) e outros exemplos. probablemente.. así que. no segundo capítulo. tratam das variações e. sin embargo. ora e luego aparecem ser ter nenhum estudo sistemático prévio. Os conectores parecem ser resgatados novamente apenas no volume 3. ante. pues. unidade 5). por exemplo. por lo tanto na unidade 1 do volume 2). e no volume 3 também aparecem outros conectores. em seguida. ni. tiempo. nem todos se explicam por meio de fragmentos dos textos para que o aluno entenda seu funcionamento. com destaque nas expressões. cantidad. negación e duda. como aunque (unidade 2) y si (unidade 3). na qual os autores os apresentam sob o título “conectores del discurso”. na seção Para consultar um sinônimo e/ou uma breve explicação do seu sentido. isto é. porque. algumas conjunções (y/e. a unidade 3 apresenta na seção Para consultar (seção na qual consta um pequeno resumo dos temas linguísticos contemplados na seção gramatical ¡Ojo! ) de uma breve explicação das expressões en suma. o sea.. como eles são Na coleção El arte de leer en español.. No caso da coleção Síntesis. Já no volume 2. os conectores são trabalhados pela primeira vez no capítulo 1 do segundo volume na seção Gramática básica . temos. ó e u das duas primeiras conjunções e propõem atividades principalmente de preencher lacunas. uma breve explicação sobre . alguns advérbios de frequência (volume 1.304 Vejamos apresentados nelas. volume 2). expressões temporais (unidade 6). quizás. Nos volumes anteriores citam. no volume 1. por eso. classe gramatical etc. volume 2) e expressões de possibilidade e desejo (unidade 6. sin embargo. marcadores temporais (unidade 3. não vamos descrever cada uma das atividades. uma atividade oral. por meio de um quadro-resumo com outros exemplos e. como. porque. afirmación. na primeira unidade. por exemplo. exceto na unidade 8. Parte deles aparece em atividades de preencher lacuna e possui. sin embargo. Assim. además. debidamente e si bien . por eso. Os autores propõem um trabalho com as conjunções de coordenação y. Após alguns exercícios de escrita nessa mesma seção. Em uma delas. mas sim ao longo dos três. no es seguro que e tal vez. o tratamento dos conectores por eso. Como nossa intenção neste trabalho não é o de esgotar o assunto sobre o tratamento dos conectores nas coleções aprovadas no PNLD-2012. Deixamos claro que nem todos os conectores citados apresentam o mesmo tratamento. e sistematizados nessas coleções. tampoco. como ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS os conectores são o segmento que segue o conector (tempo verbal. quando se trabalha o subjuntivo e é proposto ao aluno fazer frases sobre os personagens de um texto lido usando as expressões ojalá. ya que. o tema é resgatado em Como te decía. isto é.. o/ ó/u. Essas expressões são explicadas posteriormente na seção Para charlar y escribir . na qual encontramos fragmentos dos textos (frases). ora.

da 2ª série.. Isso talvez se deva ao fato de os materiais preferirem seguir uma sequência de temas que está próxima à das gramáticas tradicionais. Dessa constatação. obviamente.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 305 tampouco analisar as definições dadas às expressões. pudemos perceber também que não há atividades de compreensão de texto nas quais seja BENTES. já que a maioria é de preencher lacuna. enumeraremos apenas essas. em alguns casos. apresentação de sinônimos e ideias dos conectores. Como já dito. na qual os alunos devem relacionar ideias por meio de conectores e também conjugar os verbos. ignorando. nas quais o leitor é convidado. a refletir sobre a estratégia textual de apresentar determinados argumentos como contrapostos ou como causa-consequência. mas. p. ou seja. São Paulo: Cortez Editora. devido ao recorte do trabalho. . no final das contas. dessa forma. já que o objetivo do ensino médio é de formar leitores críticos e isso só pode acontecer por meio de leituras analíticas que englobem as questões extratextuais. A. pudemos perceber que esses elementos linguísticos são tratados no nível textual. Há exceções. por exemplo. 3) O enfoque é dado aos conectores interfrásticos ou interoracionais. ou seja. chegamos a algumas conclusões preliminares: 1) O estudo dos conectores costuma aparecer a partir do volume 2. BENTES. Refiro-me a leituras inferências sociais. 1. C. por exemplo. 2ª Ed. Introdução à Linguística: domínios e fronteiras. 2) As obras costumam restringir-se à importante fazer inferência de um conector. mas sim de necessidade. Não dizemos que isso seja equivocado. Anna Christina (2001): Linguística Textual. F. mas sim que não contempla mais que o uso semântico das expressões. (Org). que desde o primeiro volume já apresenta um estudo de MD mais comuns. Considerações finais Por meio das conclusões preliminares da análise do tratamento dos conectores e MD nas coleções de espanhol aprovadas pelo PNLD-2012. aparecem apenas nas seções destinadas a tal estudo. a causa de um fato e o aluno encontra a expressão porque ou ya que no texto e responde à atividade. Inclusive as atividades refletem esse pensamento. nosso objetivo é ver o alcance do tratamento dessas expressões. Outras conclusões podem ser obtidas. começando pelo artigo e terminando nas conjunções. linguístico. Eles não são tratados. sistêmico. as coleções tratam os conectores como assunto importante a ser estudado? Sob que viés: textual e/ou discursivo? Em uma análise geral. Referências bibliográficas 4) Os marcadores discursivos são um assunto gramatical. e. como a coleção Enlaces que apresenta exercícios que conjugam a semântica e a sintaxe. Em: MUSSALIM. por exemplo. como guia na interpretação discursiva. o seu tratamento entre parágrafos. Apresentar atividades que envolvam essa esfera da linguagem não é uma questão de dificuldade ou facilidade. Não me refiro a questões que pedem. v. ignora-se seu alcance social. isto é. A exceção é da coleção El arte de leer en español. 245-287.

vocativos etc.. I. OSMAN. Soraia. I. sugiro a leitura do capítulo de Bentes e Resende (2008). MAINGUENEAU. 1946. e se define dentro de uma teoria pragmática. MONTOLÍO. José (1998): Marcadores del discurso . gênero e discurso. ESCANDELL VIDAL. PORTOLÉS. Guia de livros didáticos: PNLD 2012: Língua Estrangeira Moderna (2011). questões e fronteiras [con]textuais. Secretaria de Educação Básica. [Re]Discutir texto. interjeições. como conjunções. Em: SIGNORINI. consideraremos marcadores discursivos e conectores termos sinônimos. M. advérbios. 2 Para esta pesquisa. Em: SIGNORINI. Victoria (2006): Introducción a la pragmática. Barcelona: Ariel (nova edição atualizada). – Brasília: Ministério da Educação. 3 Escandell (2006) explica que enunciado é uma unidade do discurso. no qual se discute com relativa profundidade os conceitos de textualidade e contexto.306 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS ________. uma sequência linguística concreta realizada por um emissor em uma situação comunicativa. gênero e discurso. 135-156. Sua interpretação depende de seu conteúdo semântico e de suas condições de emissão. PICANÇO. Renato Cabral (2008): Texto: conceitos. REZENDE. Curitiba: Base Editorial. São Paulo: Parábola Editorial. São Paulo: Macmillan. assim como da obscura fronteira entre a classe dos marcadores e outras categorias limítrofes. p. embora saibamos que existem diferenças teóricas entre eles. Barcelona: Ariel. . Notas 1 Devido ao recorte deste texto. Ivan (2010): Síntesis. MARTIN. de acordo com critérios discursivos. p. Para uma apresentação mais completa dos problemas de etiquetagem que se propõem das unidades suscetíveis de serem consideradas como marcadores do discurso. São Paulo: Parábola Editorial. Estrella (2001): Conectores de la lengua escrita. Deise Cristina de Lima. VILLALBA. Barcelona: Ariel. Dominique (2008): Discurso e análise do discurso. São Paulo: Ática. et al (2010): Enlaces . [Re]Discutir texto. sugerimos uma leitura atenta de Portolés (1998a) e/ou Martín e Portolés (1999). Terumi Koto Bonnet (2010): El arte de leer español.

ed. de 1996. como pode ser visto em Qué es el Diccionario Panhipánico de Dudas. de 2011. sintático e lexicossemântico. morfológico. p XIII .ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 307 DICCIONARIO PANHISPÁNICO DE DUDAS: DÚVIDAS. Além destes temos o Diccionario de Dudas y Dificultades del Español de Manuel Seco. é dar “respuesta a las dudas más habituales”. Em seguida recortamos alguns verbetes. como o Diccionario Gramatical y de Dudas del idioma. Nessa linha. como mostrado na seção Qué es el Diccionario Panhispánico de Dudas. o primeiro de dúvidas produzido pela RAE/ASALE. Conforme argumenta Pecheux. Para mostrar como é construída a imagem de dúvida no DPD. ortográfico. Mostramos assim que existe um grande repertório de dicionários de dúvidas no campo da língua espanhola desde algumas décadas. Seu objetivo. Martinez Amador (1953). de Emilio M. tomando como eixo da conceitualização o jogo de “antecipações imaginárias” descrito por Pecheux ([1969] 2010). DEFINIÇÕES E COMENTÁRIOS Daniela Ioná Brianezi PG . Esse trabalho faz parte dos estudos que desenvolvemos no mestrado em língua espanhola pela USP. o Diccionario Sopena de Dudas y Dificultades del Idioma. cuja primeira edição data de 1961 e que está em sua 10a.. A relevância deste último dicionário é especial para nossas análises. visto que Manuel Seco ocupa desde 1980 a cadeira da letra A da RAE. de 1981 e o Diccionario de Usos y Dudas del Español Actual de José Martínez de Sousa. Há outros dicionários de dúvidas na língua espanhola. sob a ótica da análise do discurso e da História das Ideias Linguísticas. As dúvidas tratadas no DPD podem ser de caráter fonológico.Universidade de São Paulo Analisamos neste trabalho a imagem de dúvida no Diccionario Panhispánico de Dudas (DPD) da Real Academia Española ( RAE ) e Asociación de Academias de la Lengua Española (ASALE). de 2005. tomamos algumas formulações das seções que precedem a nomenclatura (conjunto de verbetes) do DPD. se referindo especificamente ao caso do discurso politico mas que podemos transferir diretamente a nosso caso (ibid:76): “ [a relação de sentidos entre discursos] implica que o orador experimente de certa maneira . p. 1992). analisando sua estrutura para ver como se dá resposta à dúvida. O DPD é um dicionário recente. XIII. consideramos o dicionário como instrumento linguístico (Auroux.

308 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS o lugar de ouvinte a partir de seu próprio lugar de orador: sua habilidade de imaginar. exponiendo sus dudas sobre cuestiones ortográficas. léxica ou gramatical. A especificação que aí opera a favor de quantificar as consultas argumenta a favor da publicação e do funcionamento do dicionário. No fragmento ‘miles de dudas concretas que asaltan a los hablantes’. ‘centenares’ e outra que remete ao espaço (“de todo el mundo”) que tem como referente o consulente. às vezes. al mismo tiempo. Opera aí um efeito de sentido pelo qual isso funciona como uma evidência. Uma primeira projeção tem a ver com aquela proveniente do falante. sobre todo. No caso do DPD. o a cualquier otra de las que con ella integran la Asociación de Academias de la Lengua Espanõla. São também especificadas como “concretas”. con comodidad y prontitud. de forma unitaria en todo el ámbito hispano. um não especialista. […]” (destaques do autor). de sua necessidade. pXI. temos o sujeito lexicógrafo institucional. de naturalizar seu papel de especialista que serve ao sujeito consulente. O ‘se’ impessoal produz um efeito de generalização. para que todo ello ocurra dentro de los moldes propios de nuestra lengua y. ou seja. era uma obra que faltava e veio para preencher um vazio existente. que tem dúvidas quanto à língua e recorre à RAE ou às Academias da ASALE para pedir esclarecimentos. A instituição “RAE/ASALE” administra essa dúvidas começando por uma classificação das mesmas: seriam da ordem ortográfica. de preceder o ouvinte é. (sublinhado nosso) sd2: Se echaba de menos una obra que permitiera resolver. em tempo hábil. léxicas o gramaticales y pidiendo aclaración sobre ellas. adelantarse a ofrecer recomendaciones”. observamos novamente a especificação numérica. Se produz aí o efeito de que a dúvida irrompe naturalmente (ela ‘asalta’ o falante) o que por sua vez opera a favor de abrir o lugar da academia. que ‘se echaba de menos’. o que funciona na direção de produzir a evidência da necessidade do próprio dicionário. decisiva se ele sabe prever. que antecipa a dúvida quanto ao consulente e constrói a imagem de dúvida nos paratextos a partir de um determinado jogo de antecipações. Trata-se aqui de uma dúvida “prevista” pela Academia. en especial en lo que atañe a la adopción de neologismos y extranjerismos. Temos aí um sintagma nominal marcado por uma especificação numérica. Notamos ainda em sd2 uma divisão no que se refere ao modo de projetar ou pensar a dúvida. temos a seguinte formulação: sd1: Centenares de hispanohablantes de todo el mundo se dirigen a diario a la Real Academia Española. e que chegaria “espontaneamente”. Esta antecipação do que o outro vai pensar parece constitutiva de qualquer discurso. A especificação especial “de todo el mundo” remete à própria denominação do dicionário: ‘Panhispánico’. (destaque nosso) Em sd2 notamos primeiramente a antecipação feita sobre a obra. onde este ouvinte o “espera”. como já mostramos. temos a seguinte formulação: . al mismo tiempo. los miles de dudas concretas que asaltan a los hablantes en su manejo cotidiano del idioma y donde las Academias pudiesen. Já no fragmento seguinte aparece uma outra modalidade: “y donde las Academias pudiesen. adelantarse a ofrecer recomendaciones sobre los procesos que está experimentando el español en este mismo momento. Iniciando nossas análise no item ‘presentación’ do DPD. segundo a qual a instituição se ocuparia de tratar o que vê como Percebemos que inicia-se apresentando a dúvida como algo que “parte de um sujeito falante da língua espanhola”. produzindo o efeito de sentido de são reais e não hipotéticas (são os falantes os que expõem suas dúvidas). apesar de todos os dicionarios que mostramos anteriormente de dúvidas. Continuando ainda na ‘presentación’.

Como sustantivo masculino. Registra-se na enunciação da maioria dos verbetes exemplos de uso dos vocábulos. obervamos na parte ‘1’ da enunciação do vocábulo lagrimal. por minoritario. que englobam literatura. Con este mismo sentido se usa también el adjetivo . silenciando o segundo tipo de ‘dudas’ tratadas pelo DPD. previstas pela academia. São de número menor e vão escritos em letras maiúsculas. Os temáticos se referem a temas gramaticais. voseo. ‘de (las) lágrimas’: «El conducto nasolagrimal va del saco lagrimal a la nariz» (Rosales/Reyes Enfermería [Méx.” (destaque nosso) lacrimal: «Los ojos. tipo de dúvida levantada pelo sujeito. jornais e portais eletrônicos. no tienen párpados ni glándulas lacrimales» (Vattuone Biología [Arg. geográfico-políticas (Arg. aquelas anticipadas. encontramos na seção: ‘qué es el diccionario panhispánico de dudas’. Temos o primeiro vocábulo. si los poseen. de restrição de uso (informal. Esta dúvida prevista. As restrições de uso no caso do DPD são encontradas no corpo do verbete. se referiria a neologismos e estrangeirismos. v. uma formulação que já nos permite passar a tratar uma outra parte do dicionário: sd3: El DPD se dirige tanto a quienes buscan resolver con rapidez una duda concreta y. Percebemos que esta é uma tendência também dos outros dicionários de dúvidas em língua española e. Percebemos algumas diferenças quanto à maneira de enunciação dos vocábulos no DPD em relação aos dicionários integrais ou diferenciais em língua espanhola. os não temáticos vão escritos em letras minúsculas. como explicitado na seção antecedente à nomenclatura ‘signos’ (DPD:XXXV). 1993]). neste caso. sempre com referência de onde foram tirados e do país de procedência. sejam elas gramaticais (adj. O DPD explicita que a maioria dos exemplos dos vocábulos foram retirados do CREA (Corpus de referencia del español actual) e em menor medida do CORDE (Corpus diacrónico del español). biol. formado pela letra ‘L’: sd6: lag r imal lagr imal. retirado de nosso corpus de estudo para a dissertação do mestrado. ainda de acordo com sd2. 1982]). A primeira delas é a falta de marcas no corpo do verbete. (destaque negrito e itálico do DPD. De acordo com nossa pesquisa. Continuando nossa busca da imagem de dúvida construída no DPD. por consiguiente. Levando em conta essas considerações. Par.. leísmo. no item. havendo no final do DPD a lista de todas as obras citadas.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 309 importante de ser trabalhado para que a língua continue ‘unitaria en todo el ámbito hispano’. Como adjetivo. 1. a retomada da primeira acepção do Esta formulação nos faz compreeder a estrutura do verbete do DPD.). temporais (desusado). Começamos a mostrar agora como são os enunciados encontrados nos verbetes Temos dois tipos: os temáticos e os não temáticos. A estrutura dos verbetes pode conter ainda o enunciado definidor entre aspas simples. embora não se mencione este fato nas sessões iniciais e em nenhum outro local do DPD. que restringe ou não o uso do vocábulo. 1992]). o DPD manteria a regularidade. verificamos que o enunciado definidor dos lexemas é retomado do DRAE. ‘destinatarios’ (DPD:XIII). Veremos aqui algumas ocorrências de verbetes não temáticos. 2. como laísmo. están solo interesados en obtener una recomendación de buen uso. el uso de lacrimal .).) ou técnicas (medicina. Notamos a volta do uso de ‘dudas concretas’. Con este sentido se desaconseja. sublinhado nosso). vulgar). como a quienes desean conocer los argumentos que sostienen esas recomendaciones. ‘extremo del ojo por donde salen las lágrimas’: «Sacó un pañuelo del bolsillo del delantal y enjugó con él sus lagrimales» (Bain Dolor [Col. já que este se diferencia do que encontramos num dicionário de língua.

O uso de ‘desaconsejar’ nos permite ver que. a remissão sugere que o vocábulo preferido é.310 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS vocábulo no DRAE. Esta é uma prática regular no dicionário. temos em Advertencias para el uso de este diccionario . Na parte ‘2’. ’! La Goleta. se está desaconselhado pelo DPD. 1986]). pero no preferidas.§ 6. Temos o uso do deítico ‘esta’. mostrando novamente a preferência pelo vocábulo em espanhol. igualando os sentidos deste aos do primeiro. havendo a recusa do vocábulo em sua grafia originária. mais contundente que em ‘lagrimal’. neste caso. Temos agora um topônimo de origem estrangeira. Irrompe aí uma forma de alteridade sobre a qual se regula. é porque essa forma é “usada”. situando o consulente quanto à localização de tal cidade. Diccionario de la Lengua Española (DRAE). item Manejo del diccionario. que não dever ser usada. ‘lacrimal’. Cabe destacar que há um sintagma nominal com um adjetivo ‘nombre tradicional’. antepuerto de Túnez» (Faner Flor [Esp. Pensamos que o DPD segue também esta preferência. por certos falantes dessa língua. subitem Variantes Preferidas: sd10: Cuando las variantes admitidas no pueden figurar en un mismo artículo por exigencias del orden alfabético. O fato da preferência pelo topônimo em espanhol poderia ser explicado pelo relacionamento da Espanha com La Goleta. que num movimento anafórico retoma a cidade. o que funciona a favor da direção do dizer que aí se instala: usar esta forma e não a otura. (destaque negrito e itálico do DPD.2. que nesse caso tem informações enciclopédicas. La Goulette: sd8: La G o ule tt e . se definen mediante remisión (v. com um exemplo de uso. Consultando os paratextos da versão online do . em certas práticas.2 6. que se baseia em Milner(1983) e Culioli (1990). mostrando uma forma de “lidar com a alteridade” no discurso do DPD. O uso de ‘no se debe’ traz consigo o discurso-outro. Go ulett tte sd9: La Gole ta Goleta ta. La Goulette com ‘no debe usarse’.2) a aquella. sem nenhuma formulação. la preferida por la Academia es la que lleva la definición directa. sublinhado nosso). Temos então um exemplo. marcado por un morfema de negação. que produz o efeito de longevidade de uso. também é retomado o enunciado definidor deste (agora da segunda acepção) e novamente se apresenta um exemplo. já que trata-se de um deôntico de obrigação ‘dever’. Novamente vemos um enunciado com verbo negativo. Como argumenta Indursky (1997:213-244). Nombre tradicional español de esta ciudad de Túnez: «Estuvieron cuatro días fondeados en La Goleta. visto que há uma proibição explícita do termo em sua grafia originária em francês. La Goleta. “a negação é um dos processos de internalização de enunciados oriundos de outros discursos”. Em seguida temos um comentário que ‘desaconseja’ o uso do vocábulo ‘lacrimal’ no caso de seu uso como substantivo. criando uma circularidade com a palavraentrada em espanhol La Goleta . é remetido à palavra adaptada à grafia espanhola. No debe usarse en español la forma francesa La Goulette. uma outra posição sujeito que admitiria o uso do vocábulo em francês.2. quando o consulente busca a palavra La Goulette. Consultando então ‘La Goleta’ percebemos que não faz parte da nomenclatura do DRAE e carece de enunciado definidor no DPD. Na próxima formulação comenta-se que há um outro vocábulo possível de ser usado com o mesmo sentido. Reparamos na presença do verbo (desaconsejar). ao contrário do que ocorreu em seu uso como adjetivo e tal fato é justificado por seu uso ser ‘minoritario’. em sua grafia original. visto que Neste caso. las aceptadas. ou seja.

Referências bibliográficas AUROUX. Percebemos com a apresentação dos vocábulos. Como argumenta Foulcault ([1970]. 61-161. . Em 1881 ela foi anexada à França.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 311 ela conquistada pelo rei Espanhol Carlos V em 1535. Tony (orgs. Campinas. São Paulo : Ed Loyola. Por uma análise automática do discurso: uma introdução à obra de Michel Pêcheux.8): “suponho que em toda sociedade a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada. esquivar sua pesada e temível materialidade”. por tratar-se de uma vacilação na sua grafia e La Goulette como uma dúvida das previstas pela instituição. Podemos classificar o primeiro. Françoise. organizada e redistribuída por certo número de procedimentos que têm por função conjurar seus poderes e perigos. selecionada. traducao: Eni Puccinelli Orlandi. mas em 1574 ela foi tomada pelos otomanos. HAK. lagrimal .). SP: Editora da Unicamp. interpelando assim os sujeitos consulentes a se assujeitarem à FD na qual o DPD se inscreve. no jogo de ‘poderes’ do discurso. por tratar-se de um lexema estrangeiro. tanto recomendando o uso de alguns vocábulo e beirando a proibição em outros. Sylvain (1992): A revolucao tecnologica da gramatizacao . p. FOUCAULT. Campinas: Editora da Unicamp. SP: Editora da Unicamp. Em: GADET. Com essas ocorrências gostaríamos de mostrar como o DPD ‘resolve’ os dois tipos de dúvidas encontrados. Campinas. Os comentários sugestivos e prescritivos do DPD poderiam deste modo encaixarse como um destes ‘procedimentos’ de tentativa de controle da língua. e só tornou-se independente em 1956. INDURSKY. p. dominar seu acontecimento aleatório. PECHEUX. Michel (2010): A ordem do discurso. FREDA (1997): A Fala dos Quarteis e outras vozes. como uma das dúvidas concretas. Michel ([1969] 2010): Análise Automática do Discurso (AAD-69). mas o francês continua sendo usado como língua do comércio. 2010. Sua língua oficial é o árabe. enunciados de caráter sugestivo e prescritivo que seviriam para esclarecer a dúvida tratada.

Linguagens. Filosofia e Sociologia) e Ciências da Natureza e suas tecnologias (Química. foram incluídas 45 questões para cada área de conhecimento: Linguagens. Eres Fernández USP O espanhol no Enem Sem dúvida a inclusão do espanhol no Enem a partir de 2010 colocou em destaque. branca e rosa (para o caderno 1. . garantem a oferta do espanhol (conforme prevê a Lei 11. Cada caderno de questões é composto por duas áreas: Ciências Humanas e suas tecnologias e Ciências da Natureza e suas tecnologias (no primeiro dia do exame). Além da redação. no segundo dia do Enem).161/ 2005 ). inferimos que o fato de inserir o espanhol numa prova de nível nacional poderá levar a uma aceleração do processo de implantação da língua como um dos efeitos retroativos do Enem. por meio de algumas mudanças. azul e rosa (para caderno 2. códigos e suas tecnologias e Matemática e suas tecnologias (no segundo dia do exame). o referido idioma no contexto educacional brasileiro. Física e Biologia). o objetivo de selecionar alunos concluintes da educação básica para acesso ao ensino superior de várias instituições. Matemática e suas tecnologias (Matemática). As questões são as mesmas e mantêm-se os enunciados.312 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS TEXTOS E TESTES: COMO SE CONFIGURAM AS PROVAS DE LÍNGUA ESPANHOLA NO ENEM? Daniela Sayuri Kawamoto Kanashiro UFMS I. referente ao primeiro dia do exame). há quatro versões diferentes da mesma prova identificadas pelas cores: azul. A partir de 2009 a prova. Ciências Humanas e suas tecnologias (História. mais uma vez. houve aumento no número de questões e a aplicação do exame foi organizada em dois dias. algumas estaduais e federais. códigos e suas tecnologias (Língua Portuguesa. Gretel M. cinza. inclusive as públicas. passou a reforçar. Geografia. Nas distintas versões observam-se somente alterações na ordem das perguntas ou das alternativas. públicas e privadas. que antes visava à avaliação do perfil dos estudantes do ensino médio. Língua Estrangeira (LE) – Inglês ou Espanhol [somente a partir de 2010]. A partir daquele ano a estrutura da prova sofreu alterações. Artes e Educação Física). Assim como nas edições anteriores (19982008). E se até o presente momento nem todas as instituições de ensino médio. amarela. amarela.

. 4 e p. disciplinas na prova. Sobre os textos em língua espanhola Verificamos que 86% dos textos incluídos nas edições do Enem de 2010 e 2011 são informativos (36% são reportagens. ao treino.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 313 No novo Enem também permanece a elaboração do texto dissertativo argumentativo. a numeração também permaneceu a mesma: as questões de 91 a 95 foram de língua estrangeira e o candidato teve que optar. recursos e textos tirados do discurso da . Constatamos que as principais mudanças estabelecidas para o novo Enem objetivaram a aproximação ainda maior das características da organização dessa prova com a dos vestibulares tradicionais. Nesse sentido. Em nossa pesquisa de mestrado (KANASHIRO. O pouco tempo disponível para ler e resolver cada questão (cerca de 3 minutos) também contribui para conduzir a esse tipo de procedimento. principalmente das instituições federais de ensino superior. postagens digitais. 5). em língua portuguesa. Um candidato que conhece a ordem de apresentação das aviso). por um processo apenas. ou seja. e na de Labella-Sánchez (2007). questões separadas por disciplinas. ou seja. ou seja. a um Sobre a organização das questões referentes à língua espanhola Especificamente sobre a língua espanhola. no segundo dia de prova. Serrani (2005) argumenta que a tendência em adotar princípios gerais do enfoque comunicativo nas aulas de línguas fez com que o texto literário perdesse certo espaço para o uso funcional do idioma. pelo inglês (perguntas presentes nas páginas 2 e 3) ou pelo espanhol (p. 7% correspondem a um artigo e 7%. as perguntas figuraram sempre no caderno 2. Isso aconteceu tendo em vista a intenção de substituir os diferentes vestibulares. nas 3 provas analisadas observamos alguns dados recorrentes: são incluídas 5 questões dentre as 90 propostas no caderno. para elaborar o texto dissertativo e preencher o gabarito.] Dentre os materiais. junto com as 45 questões de Linguagens. resultando na unificação da seleção. concursos e para o Enem. 2007). que analisou as provas de vestibular da região sudeste. não é sem propósito que as escolas – sobretudo as particulares – investem nos programas preparatórios e realizam simulados. Também não é em vão que tenham surgido cursos específicos de preparação para determinados vestibulares. 4 e 5). 14% em blog e 21% em jornal digital). utilizaram duas páginas (p. no segundo dia de prova.. Além disso. apresenta certa vantagem se comparado àquele que não tem conhecimento sobre a organização e estrutura do exame. Dessa forma. 36%. que refaz as questões das edições anteriores organizando o tempo disponível para resolvê-las. conforme a referida pesquisadora: “[. mais de um dia para a realização do processo e a inserção de itens de língua estrangeira (inglês e espanhol). códigos e suas tecnologias e mais 45 questões de Matemática e suas tecnologias. que considerou as provas de seleção de três instituições públicas do estado do Paraná. Sobre a presença de textos predominantemente informativos. também foi observada a tendência em incluir em provas seletivas e/ou classificatórias textos da esfera jornalística. 71% dos textos propostos não são autênticos 1 (50% são adaptações e 21% são fragmentos) e 86% dos textos foram veiculados na internet (51% em sites. no momento da inscrição. Consideramos que o engessamento da estrutura da prova favorece o treinamento.

têm sido vistos como um avanço frente ao encliclopedismo ou “literarismo” de outrora. com base na imagem e no conteúdo verbal. e seu título1 antecipa o tema que será tratado. entretanto. identificar o título do texto. voto. as touradas. uma palestra. que é preciso trabalhar a conotação da linguagem e que a formação do leitor não deve se restringir a um grupo pequeno de textos que figuram na esfera da informação e da argumentação. é importante observar como são trabalhados. citada no corpo da mensagem. por exemplo. Acerca das habilidades e questões propostas Nesta parte analisamos como se apresentam os enunciados dos itens correspondentes a cada habilidade da competência da área 22 para verificar se são coerentes com o estipulado na Matriz de Referência e com os objetivos estabelecidos para o Ensino Médio.314 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS mídia (jornais. tema e conteúdo do texto (verbal e não verbal). teclado. Os textos inseridos nas provas do Enem de 2010 e 2011 versaram sobre o tango. por exemplo. 47). enunciados e respostas das questões Notamos que a habilidade 5 – Associar vocábulos e expressões de um texto em LEM ao seu tema – focaliza a associação entre título.alertar sobre os riscos mortais de determinados softwares de uso médico para o ser humano. Tomando como base o fragmento. especificamente nas provas do Enem. As tarefas solicitadas foram: dentre as opções. E verificamos exatamente o que foi revelado por Brito ao analisar os textos presentes nas questões Enem 2010 1ª aplicação Enem 2010 2ª aplicação Enem 2011 Questão 95 – O texto jornalístico caracteriza-se basicamente por apresentar informações a respeito dos mais variados assuntos.Fumantes engordam mais que não fumantes. cantores. identificar o tema. não paginado) relacionadas na habilidade 8 . revistas). ou seja. p. Nenhum texto literário foi selecionado para abordar a importância da produção e/ou das manifestações culturais. Machu Picchu. 2005. ao mesmo . pautando-se no título e no tema tratados. Além disso. dança chilena. Questão 92 – Pela observação da imagem e leitura do texto a respeito da votação eletrônica no Brasil.Reconhecer a importância da produção cultural em Língua Estrangeira Moderna – LEM – como representação da diversidade cultural e linguística. qual proposição identifica o tema central e poderia ser usado como título? . a Espanha das “Touradas” e do “Flamenco”. por meio das palavras-chave urna. Quadro 1 – Habilidade 5. Consideramos.o sistema brasileiro de votação eletrônica. estereótipos de um mundo hispânico longe de ser representação de todo o seu povo. Questão 91 – O título da palestra. Avaliamos que essas habilidades poderiam ser consideradas nas questões de qualquer disciplina que apresentassem um texto. O povo representa muito mais que esses temas genéricos.” (SERRANI. os aspectos culturais. Brito (2004) atentou para o problema de visões estereotipadas quando se priorizam somente os grandes nomes da história. O título pode fazer referência ao texto proposto ou a uma obra. botones e elector. literatura. Além disso. antecipa o tema que será tratado e mostra que o autor tem a intenção de . a Argentina do “Tango”. (BRITO. o México dos “Sombreros”. identifica-se como tema . entre outros. identificar a intenção do autor. citado no texto. 2004. Destacamos no Quadro 1 a repetição dos termos título e tema.

consideramos que a repetição do foco da pergunta (a identificação de informações) pode estar relacionada aos descritores (insuficientes ou pouco claros) ou à inexistência deles. enunciados e respostas das questões Com relação à habilidade 6 – Utilizar os conhecimentos da LEM e de seus mecanismos como meio de ampliar as possibilidades de acesso a informações. da falta de entendimento das possibilidades para medir as habilidades propostas. identificassem outros aspectos envolvidos num roteiro turístico proposto. uma pessoa que more na Espanha e queira viajar para a Alemanha com seu cachorro deve . Ainda que não seja possível prever o assunto do texto da próxima edição do Enem com base nos itens que figuraram nas provas de 2010 e de 2011. identificassem uma das tarefas atribuídas às delegações.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 315 tempo em que não é possível trabalhar com os alunos o tema e o título de todos os textos disponíveis. Questão 92 – O Comitê do Patrimônio Mundial reúne-se regularmente para deliberar sobre ações que visem à conservação e à preservação do patrimônio mundial. Salientamos que o acesso à informação não se dá somente identificando-a. pode ser consequência da ausência de descritores ou. solicitando a identificação de um determinado elemento do texto. isto é. esperava-se que os concluintes da educação básica: identificassem como proceder no caso de uma viagem acompanhado de um animal. Questão 95 – O “Camino de la lengua”. Quadro 2 – Habilidade 6. Entre as tarefas atribuídas às delegações nacionais que participaram da 34ª Sessão do Comitê do Patrimônio Mundial. além da temática original sobre a língua e a leitura espanholas.vacinar o animal e depois solicitar o passaporte dele. conduz o viajante por um roteiro que. Julgamos que esse tipo de repetição. destaca-se . Como na habilidade anterior. de