ATAS

Organizadores Adrián Pablo Fanjul Ivan Rodrigues Martin Margareth Santos

VII Congresso Brasileiro de Hispanistas
Comitê Organizador
Coordenação Adrián Pablo Fanjul (ABH-USP) Carlos Bonfim (UFBA) Fernanda Castelano Rodrigues (ABH-UFSCar) Marcia Paraquett (UFBA) Antonio Marcos Pereira (UFBA) Claudia Blaszkowski de Jacobi Edleise Mendes (UFBA) Hernán Yerro (UFBA) Ivan Rodrigues Martin (ABH-UNIFESP) Juan Facundo Sarmiento (UFBA) Julia Morena Silva da Costa (UFBA) Luciana Mariano (UNEB – Campus V) Mailson dos Santos Lopes (UFBA) Margareth Santos (ABH-USP) Patrício Barreiros (UEFS / UNEB – Campus I) Rosa Yokota (ABH-UFSCar) Xoán Carlos Lagares Diez (ABH-UFF)

Comitê Científico
Alai Garcia Diniz (UFSC) Alfredo Cordiviola (UFPE) Ana Cecilia Olmos (USP) Antônio Esteves (UNESP – Assis) Del Carmen Daher (UFF) Ester Abreu Vieira de Oliveira (UFES) Graciela Ravetti (UFMG) Heloísa Pezza Cintrão (USP) Isabel Gretel Eres Fernandes (USP) Livia Reis (UFF) Luizette Guimarães de Barros (UFSC) Magnolia Brasil Barbosa do Nascimento (UFF) Maria Augusta Vieira (USP) María Aurora Consuelo Alfaro Lagorio (UFRJ) Maria Eugênia Olimpio (UFBA) María Teresa Celada (USP) María Zulma M. Kulikowski (USP) Mario González (USP) Miriam Gárate (UNICAMP) Neide T. Maia González (USP) Silvana Serrani (UNICAMP) Silvia Cárcamo (UFRJ) Vera Lucia de Albuquerque Sant’Anna (UERJ)

Apoio

ATAS
do VII Congresso Brasileiro de Hispanistas
Organizadores Adrián Pablo Fanjul Ivan Rodrigues Martin Margareth Santos

São Paulo, 2013

Copyright © 2013 dos autores

Catalogação na Publicação (CIP) Serviço de Biblioteca e Documentação Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo

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Congresso Brasileiro de Hispanistas (7. : 2012 : Salvador, BA). Atas do VII Congresso Brasileiro de Hispanistas [Salvador, BA, 3 a 6 de setembro de 2012] [recurso eletrônico] /organizadores: Adrián Pablo Fanjul, Ivan Rodrigues Martin, Margareth Santos. – São Paulo : ABH, 2013. 18.291 Kb ISBN 978-85-66188-01-1 1. Literatura hispano-americana (História e crítica). 2. Literatura espanhola. 3. Língua espanhola (Estudo e ensino). I. Fanjul, Adrián Pablo. II. Martin, Ivan Rodrigues. III. Santos, Margareth. IV. Associação Brasileira de Hispanistas. V. Título. CDD 868.909

SUMÁRIO

Erotismo y picardía en Vida y costumbres de la Madre Andrea(c. 1650) A. Robert Lauer ............................................................................................................................................................ 17 Topografías del artista y desestabilización enunciativa en el rock de Argentina ............................................................. Adrián Pablo Fanjul .................................................................................................................................................... 23 Memórias da Guerra Civil Espanhola na ficção: leituras de ¿Qué me quieres, amor?, de Manuel Rivas e La lengua de las mariposas, de José Luis Cuerda Adriana Aparecida de Figueiredo Fiuza ...................................................................................................................... 31 A variação na realização do objeto pronominal acusativo no espanhol: um estudo inicial Adriana Martins Simões .............................................................................................................................................. 36 El pensamiento neomoderno en las columnas de Rosa Montero y Rosa Regás Adriana Virginia Bonatto ............................................................................................................................................ 45 Formas de enunciar la violencia en la obra de Doris Salcedo Alexander Castillo Morales – Instituto Caro y Cuervo ............................................................................................... 38 Relación autor-personaje en La última escala del Tramp Steamer de Álvaro Mutis Aleyda Gutiérrez Mavesoy ........................................................................................................................................... 59 Ensino de e/le e inclusão: reflexões sobre formação e trabalho docente Alice Moraes Rego de Souza (PG-UERJ) ..................................................................................................................... 66 Diálogos de Historia Natural: o homem prototípico e o homem em construção Amanda Brandão Araújo ............................................................................................................................................ 73 A hispanidade disposta em paralelo: vozes literárias contemporâneas dos povos originários das américas Amarino Oliveira de Queiroz ...................................................................................................................................... 80 África, Ásia e Oceania: fronteiras fluidas do hispanismo Amarino Oliveira de Queiroz ...................................................................................................................................... 85 Natalia, Julia, Mercedes y Elvira – Retrato de la mujer española en la posguerra Ana Carolina da Silva Pinto ........................................................................................................................................ 91 O “ensaio criativo” de Julio Cortázar Ana Carolina Macena Francini ................................................................................................................................... 98 Discurso autobiográfico e a busca identitária em Mi nombre es Victoria de Victoria Donda Ana Cristina dos Santos ............................................................................................................................................. 104

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O currículo das Universidades Públicas do Estado do Rio de Janeiro e a formação de professores em língua estrangeira: uma reflexão crítica Ana Maria Mendes Larghi ....................................................................................................................................... 111 Las ratas de Miguel Delibes e a denúncia da crise camponesa em Castela nos anos 1950-1960 Ana Paula de Souza ................................................................................................................................................... 118 Quando o metatexto de Tomás Eloy Martìnez autentica as vidas de Perón André Luis Mitidieri .................................................................................................................................................. 124 Calle Mayor e Señorita de Trevélez sob a ditadura franquista Angela dos Santos ...................................................................................................................................................... 131 Distribuição da perífrase “ter” + particípio no espanhol do México Anne Katheryne Estebe Maggessy .............................................................................................................................. 136 Literatura e Espanhol/LE: a questão da comunidade Antonio Andrade ........................................................................................................................................................ 142 A formação de professores de espanhol no Instituto Federal de Roraima: reflexões sobre a prática docente Antonio Ferreira da Silva Júnior ............................................................................................................................... 149 Polifuncionalidad de los marcadores del discurso y enseñanza del ELE Antonio Messias Nogueira da Silva ........................................................................................................................... 156 En busca del Paraíso: la representación de los germánicos en la obra de María Rosa Lojo Antonio R. Esteves ...................................................................................................................................................... 163 Rompendo fronteiras da cidade e da nação: representações de sujeitos que se moven entre as “islas urbanas” de Sergio Olguín e Cristian Alarcón Ary Pimentel .............................................................................................................................................................. 169 As traduções de quadrinhos sob um olhar discursivo Bárbara Zocal da Silva .............................................................................................................................................. 176 Discursos oficiales del 12 de octubre: un día conmemorativo peculiar Beatriz Adriana Komavli de Sánchez ........................................................................................................................ 183 Subordinadas temporais e finais em português e espanhol: questões de contraste e efeitos para a tradução Bruna Macedo de Oliveira ......................................................................................................................................... 190 O tema transversal da Pluralidade Cultural e sua reconfiguração nos LDs de língua espanhola Bruna Maria Silva Silvério ........................................................................................................................................ 198 O policialesco na figura de Amalfitano Bruna Tella Guerra .................................................................................................................................................... 204 ¿Bacrim o paramilitarismo? Análisis de la concepción de paramilitarismo en Colombia en el período 2002-2006 a través de la prensa escrita Camilo Ramírez Rodríguez e Adriana Yamile Suárez Reina .................................................................................... 209

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Inicios de la santidad medieval en lengua castellana: traducción y protagonismo femenino en La Vida de Santa María Egipciaca Carina Zubillaga ....................................................................................................................................................... 215 Chungui: violencia y trazos de memoria, (2009), de Edilberto Jiménez: desenhando a memória coletiva Carla Dameane P. de Souza ...................................................................................................................................... 221 O preenchimento da posição pré-verbal por complementos verbais e a noção de operador na história do espanhol Carlos Felipe Pinto ..................................................................................................................................................... 230 Invasiones del tiempo en el espacio de la casa Carlos Garcia Rizzon ................................................................................................................................................. 239 Pedidos de informação e pedidos de ação em português e em espanhol: um estudo entonacional de produção e percepção Carolina Gomes da Silva, Maristela da Silva Pinto e Priscila Cristina Ferreira de Sá ............................................ 246 De Dulcinéia a Heliana: perspectivismo e metaficção Célia Navarro Flores .................................................................................................................................................. 252 Sierva María de Todos los Ángeles e Maria Mandinga Cinthia Belonia .......................................................................................................................................................... 257 Espacios, mitos y claves del imaginario andaluz en la poesía de Federico García Lorca. Clara Pajares Gil ........................................................................................................................................................ 263 Poesia e ficção na obra de Roberto Bolaño: interseções Clarisse Lyra Simões .................................................................................................................................................. 268 Representaçãoes da mulher e vozes femininas no contexto iberoamericano Cláudia Luna ............................................................................................................................................................. 273 A destreza oral e sua importancia para a formação dos falantes de espanhol como língua estrangeira Cristina do Sacramento Cardôso de Freitas .............................................................................................................. 278 A leitura de professores de espanhol, formadores de leitores, mediada por computador Cristina Vergnano-Junger .......................................................................................................................................... 286 História, memória e ficção em Yo el Supremo e em Hijo de Hombre de Roa Bastos Damaris Pereira Santana Lima ................................................................................................................................. 293 O tratamento dos conectores nas coleções de língua espanhola aprovadas no PNLD-2012: uma questão textual ou discursiva? Daniel Mazzaro Vilar de Almeida ............................................................................................................................. 300 Diccionario Panhispánico de Dudas: dúvidas, definições e comentários Daniela Ioná Brianezi ............................................................................................................................................... 307 Textos e testes: como se configuram as provas de língua espanhola no Enem? Daniela Sayuri Kawamoto Kanashiro e I. Gretel M. Eres Fernández ....................................................................... 312

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A necessidade de narrar vivênciada pelos personagens do romance La hora violeta de Montserrat Roig Daniele Cristina da Silva ........................................................................................................................................... 320 La re-invención de América en la poesía y las artes del siglo XX Diana Araujo Pereira ................................................................................................................................................. 327 O trabalho com o plano inferencial de leitura em livros didáticos de Espanhol-LE22 Diego da Silva Vargas ................................................................................................................................................ 335 História, memória e ficção em Juan Gabriel Vásquez Diogo de Hollanda Cavalcanti .................................................................................................................................. 342 Juan José Saer: realidade, representação e ficção na perspectiva de gênero Eduardo Fava Rubio .................................................................................................................................................. 348 O ver-se nas páginas do papel: um estudo da representação feminina nas novelas cervantinas Edwirgens A. Ribeiro Lopes de Almeida .................................................................................................................... 353 Literaturas hispânicas no Oriente? A dupla identidade cultural e linguística em Margalit Matitiahu, de Israel Eidson Miguel da Silva Marcos ................................................................................................................................. 359 Heterotopias de función compensatoria en la escritura hispano-canadiense contemporánea Elena Palmero González ............................................................................................................................................ 364 O discurso de Fama em El cerco de Numancia, de Cervantes, e nas adaptações de Rafael Alberti Eleni Nogueira dos Santos ......................................................................................................................................... 371 Dialogo con la novela El Baile de la Victoria de Skármeta Esther Myriam Rojas Osorio. .................................................................................................................................... 376 Un extranjero en el poema: notas sobre la poesía de Fabio Morábito Fabiola Fernández Adechedera .................................................................................................................................. 380 Santiago Sierra: performer?* Fabíola Silva Tasca ..................................................................................................................................................... 386 Traduzindo e reconstruindo uma representação.Reflexões teórico-metodológicas em torno à implantação de um (novo) curso de E/LE Fátima Aparecida Teves Cabral Bruno ..................................................................................................................... 392 Sintagmas nominais complexos nos gêneros jornalísticos: Uma abordagem comparada entre artigos de opinião e notícias Felipe Diogo de Oliveira ............................................................................................................................................ 398 La literatura argentina revisitada: el mito de La Cautiva en un cuento de María Rosa Lojo Fernanda Ap. Ribeiro ................................................................................................................................................. 404 “La casita de los viejos”, de Maurício Kartun: tempo do sujeito, tempo da história Flávia Almeida Vieira Resende .................................................................................................................................. 408

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As escritoras na literatura afro-colombiana Francineide Palmeira ................................................................................................................................................. 412 O legado de Mercedes Sosa: a arte como instrumento de luta pela cidadania Franklin Larrubia Valverde ....................................................................................................................................... 418 Néstor Perlongher e Haroldo de Campos – um diálogo antropofágico Gabriela Beatriz Moura Ferro Bandeira de Souza ................................................................................................... 423 Reforma e a compreensão de sentidos de Licenciatura: questão filosófica ou de carga horária? Giselle da Motta Gil ................................................................................................................................................... 430 Corpo e espaço: reescritas da história em Finisterre, de María Rosa Lojo e Desmundo, de Ana Miranda Gracielle Marques ...................................................................................................................................................... 437 Rodolfo Walsh. ‘Exotización’ y conflicto en sus ‘escritos cubanos’ Gustavo Walter Spandau ........................................................................................................................................... 444 A que não soube vingar-se: em torno de “A meu amigo, que eu sempr’ amei” (B846, V432), de Johan Garcia Henrique Marques Samyn ......................................................................................................................................... 448 El uso de los modos indicativo/subjuntivo con tres verbos del español: “creer, pensar y saber” Iandra Maria Weirich da Silva Coelho ..................................................................................................................... 453 O diário de Ana Ozores: a escrita como expressão da subjetividade feminina em La Regenta Isabela Roque Loureiro .............................................................................................................................................. 460 Un niño grande: a ficcionalização de Jorge Luis Borges em Las libres del Sur Isis Milreu .................................................................................................................................................................. 466 Angústia e distopia: a Guerra Civil Espanhola em Saga, de Érico Veríssimo Ivan Rodrigues Martin .............................................................................................................................................. 471 Los marcadores discusivos en español a partir de la Lingüística de la Enunciación: una perspectiva en los estudios de E.L.E. Ivani Cristina Silva Fernandes .................................................................................................................................. 477 Observações sobre a relação cortesania/rusticidade na cena ibérica Jamyle Rocha Ferreira Souza ..................................................................................................................................... 484 La Colmena, de Camilo José Cela: conceitos de grotesco Jany Alfaia .................................................................................................................................................................. 488 A loucura como estrutura narrativa: de Miguel de Cervantes a Machado de Assis Jean Pierre Chauvin ................................................................................................................................................... 494 Religión y alegoría en las narraciones intercaladas del Quijote de Avellaneda John Lionel O´Kuinghttons Rodríguez ...................................................................................................................... 500 A ficção argentina traduz a Guerra das Malvinas Jorge Hernán Yerro ..................................................................................................................................................... 507

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Histórias, estórias e histórias: representações ficcionais da matéria de extração histórica nas narrativas de Delibes e de Assis Brasil Jorge Paulo de Oliveira Neres ..................................................................................................................................... 517 Cuerpos indígenas em metamorfosis: Un estudio del cuerpo a parir de mitos y leyendas de indios de la Amazonía Brasileña y Boliviana y sus representaciones en la actualidad José Maria Lopes Júnior ............................................................................................................................................. 519 Quemar las naves: por uma análise do Diccionario de Americanismos da Asociación de academias de la lengua española José Mauricio da Conceição Rocha ............................................................................................................................ 526 El atajo y La trama celeste, de Bioy Casares: historias de mundos posibles José Ronaldo Batista de Luna .................................................................................................................................... 533 Aspectos urbanos y culturales en narrativas gráficas argentinas Jozefh Fernando Soares Queiroz ................................................................................................................................ 540 Livro didático de espanhol e uma aprendizagem intercultural: é possível? Joziane Ferraz de Assis ............................................................................................................................................... 548 Una identidad para los apátridas. Identidad y exilio en dos novelas históricas latinoamericanas Juan David González Betancur ................................................................................................................................. 554 El uso del cómic como instrumento para la formación intercultural del profesor de español Juan Facundo Sarmiento ........................................................................................................................................... 560 O discurso ficcional em Los ríos profundos, de José María Arguedas: as leituras críticas de Antonio Cornejo Polar e Mario Vargas Llosa Juliana Bevilacqua Maioli ......................................................................................................................................... 566 De tabúes y terrores: Costa Rica y Brasil o dos modalidades de la literatura gótico-fantástica en Latinoamérica Karen Alejandra Calvo Díaz...................................................................................................................................... 571 Falar com deus: Estrategias de legitimação da mística feminina na américa hispânica colonial Karine Rocha .............................................................................................................................................................. 578 Percorrendo a trajetória da formação inicial do professor de E/LE Kelly Cristiane Henschel Pobbe de Carvalhoe Rozana Aparecida Lopes Messias .................................................... 583 A autonomia na formação de professores-tutores de espanhol como LE Kélvya Freitas Abreu, Priscila Barros David e Raquel Santiago Freire .................................................................... 589 A caricata valentia e o enredo “casi como fue” – uma análise da releitura “Don Juan Tenorio”, de Chespirito Larissa Pujol ............................................................................................................................................................... 597 Uma análise discursiva da mulher na sociedade através das tirinhas da Mafalda Larissa Zanetti Antas ................................................................................................................................................. 600 Pedro Lemebel, recepción, lectura Laura Janina Hosiasson ............................................................................................................................................. 605

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O grotesco em Del sol naciente, de Griselda Gambaro Laureny A. Lourenço da Silva .................................................................................................................................... 610 O conceito da honra no Século de Ouro e seu uso como mola dramática em El pintor de su deshonra, de Calderón de la Barca Liège Rinaldi .............................................................................................................................................................. 617 Esta mujer es su padre: Almodóvar, desestabilizações de gênero e a aula de ELE Leandro da Silva Gomes Cristóvão ............................................................................................................................ 623 O corpo em confissão: um discurso sobre o universo feminino simbolizado na obra de arte de Frida Kahlo Leticia Gomes Montenegro ........................................................................................................................................ 628 La potencialidad de los materiales lúdicos como protocolo de observación para el reconocimiento de géneros textuales escritos en español Letícia Joaquina de Castro Rodrigues Souza e Souza Ana Célia Clementino Moura ................................................................................................................................... 634 La tarea/renuncia del traductor en José María Arguedas Ligia Karina Martins de Andrade ............................................................................................................................. 641 Exames de Proficiência em espanhol como língua estrangeira Lílian Reis dos Santos ................................................................................................................................................ 648 Identidades em diálogo: mulher, sexualidade e família no livro didático de espanhol Liliene Maria Novaes Pereira da Silva ...................................................................................................................... 653 Nação idealizada em Aves sin nido Lina Arao ................................................................................................................................................................... 660 La expresión de la contrafactualidad en español: ¿diferentes variantes, diferentes interpretaciones? Lorena Mariel Menón ................................................................................................................................................ 665 Relações entre o Magrebe e a Espanha: os dois mundos de Najat El Hachmi em El Último Patriarca Louise Áurea Oliva .................................................................................................................................................... 673 Considerações sobre a importância da carga cultural compartilhada de unidades fraseológicas no ensino/aprendizagem intercultural de espanhol como língua estrangeira Luana Ferreira Rodrigues .......................................................................................................................................... 671 A formação do professor de Espanhol da Bahia e as variantes culturais hispano-americanas Luciana Vieira Mariano ............................................................................................................................................ 683 Análise das representações sociais nos cinco livros didáticos selecionados pelo PNLD para o ensino de espanhol a brasileiros Lucielena Mendonça de Lima .................................................................................................................................... 689 Representações sociais de futuros professores de espanhol sobre o Mercosul* Lucielena Mendonça de Lima .................................................................................................................................... 695

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Um copypaste de si mesmo: Mario Bellatin Luciene Azevedo ......................................................................................................................................................... 702 Tiempo verbal y discurso indirecto: diferentes abordajes Luizete Guimarães Barros ......................................................................................................................................... 709 O uso do pronome relativo possessivo cuyo em língua espanhola: considerações descritivo-analíticas Mailson dos Santos Lopes .......................................................................................................................................... 716 A tradução da ironia na narrativa de Maria Rosa Lojo Maira Angélica Pandolfi ............................................................................................................................................ 723 Aire de las Colinas, Cartas a Clara. Cartas pessoais de Juan Rulfo Mara Gonzalez Bezerra ............................................................................................................................................. 727 María Rosa Lojo: Una escritora de los bordes Marcela Crespo Buiturón ........................................................................................................................................... 732 Versos e cores do Prado Marcelo Maciel Cerigioli ............................................................................................................................................ 736 Literatura e Direito: o entrecruzar de fronteiras em Abel Posse Márcia de Fátima Xavier........................................................................................................................................... 743 O papel da Universidade na implantação do Espanhol no Estado da Bahia Marcia Paraquett ....................................................................................................................................................... 748 La presencia del negro y sus representaciones en el teatro cubano de Gerardo Fulleda León y Eugenio Hernández Espinosa Marcos Antônio Alexandre ........................................................................................................................................ 756 A corrosão dos anos triunfais franquistas Margareth Santos ....................................................................................................................................................... 763 A escrita de si como uma tradução de si: o caso específico da pintora Frida Kahlo Maria Auxiliadora de Jesus Ferreira .......................................................................................................................... 771 El español de todo el mundo María Cecilia Manzione Patrón ................................................................................................................................ 776 Poéticas da memória nas narrativas de Alfons Cervera e Vázquez Montalbán Maria de Fátima Alves Oliveira Marcari .................................................................................................................. 783 Explicaciones de lo femenino en la narrativa de Marcela Serrano María Esther Blanco Iglesias ...................................................................................................................................... 789 Contexto de ocorrência do imperfectivo habitual no Espanhol Paraguaio Maria Mercedes Riveiro Quintans Sebold ................................................................................................................. 796 Variação sobre o mesmo tema: acerca da memória em Sangra por la herida Maria Mirtis Caser .................................................................................................................................................... 803

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Las animalias… como elementos constructores del discurso en el Libro de buen amor de Juan Ruiz, Arcipreste de Hita María Teresa Miaja de la Peña ................................................... ..............................................................................810 Avatares de la historia en Paralelos. La pintura y la poesía en Cuba (en los siglos XVIII y XIX) de José Lezama Lima Mariana Sierra Aponte .............................................................................................................................................. 817 Préstamos terminológicos para una memoria del franquismo. Los niños encontrados de la literatura: una lectura de Mala gente que camina, de Benjamín Prado Mariela Sánchez ........................................................................................................................................................ 822 La investigación académica como sustrato de la narrativa histórica de María Rosa Lojo Marina L. Guidotti .................................................................................................................................................... 829 La casa de Bernarda Alba, metáfora conventual Mario M. González .................................................................................................................................................... 836 O différend indígena na narrativa do subcomandante Marcos Mélanie Létocart Araujo ............................................................................................................................................ 841 Literatura y conflicto armado: cotejando una novela de Garro Mercedes Pessoa Cavalcanti ....................................................................................................................................... 847 La traducción cultural en la literatura latinoamericana: reflexiones a partir de la obra de Gamaliel Churata y José María Arguedas Meritxell Hernando Marsal ....................................................................................................................................... 855 La Guerra Civil Española bajo la mirada de dos escritores aragoneses en el exilio: lectura de El cura de Almuniaced, de José Ramón Arana y Réquiem por un campesino español, de Ramón J. Sender. Michele Fonseca de Arruda ........................................................................................................................................ 864 El tema que nos ocupa: oraciones relativas en español Mirta Groppi .............................................................................................................................................................. 868 Expresso, logo existo: linguagem e constituição do indivíduo nas obras Mañana en la batalla piensa en mí de Javier Marías e Budapeste de Chico Buarque Mônica Gomes da Silva ............................................................................................................................................. 875 Evidencialidad en textos periodísticos: un análisis funcionalista en español Nadja Paulino Pessoa Prata ....................................................................................................................................... 881 Voces daba el bárbaro Corsicurvo. Lenguas y mecanismos de comunicación en el Persiles Nieves Rodríguez Valle ............................................................................................................................................... 887 Cómo se cuenta o contamos nuestra historia: historiografía literaria latinoamericana y enseñanza de la literatura Pablo Gasparini ......................................................................................................................................................... 896

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La luz de Cristina Bajo que ha tocado la historia y la memoria cordobesa. Una lectura desde la obra Como vivido cien veces (1995) Phelipe de Lima Cerdeira .......................................................................................................................................... 903 A trajetória dos manuais do professor de ELE no Brasil Raabe Oliveira ........................................................................................................................................................... 910 Manuel Rivas y Miguel Hernández: poesía hacia el porvenir Rachel Coelho Coimbra ............................................................................................................................................. 917 O horizonte filosófico do espaço de La Grande de Juan José Saer Raquel Alves Mota ..................................................................................................................................................... 923 De la prensa periódica a la novela. Cara y ceca o del otro lado del espejo: Manuel Vicent y Benjamín Prado (Aguirre el magnífico y Mala gente que camina) Raquel Macciuci ........................................................................................................................................................ 930 A ficcionalização da teoria, da crítica e do processo de criação literárias em La saga\fuga de J.B, de Gonzalo Torrente Ballester Regina Kohlrausch ..................................................................................................................................................... 937 Ricardo Palma e Las tradiciones peruanas: literatura e formação dos imaginários Regina Simon da Silva ............................................................................................................................................... 944 O aguirre posseano: tirano ou libertador? Regina Simon da Silva ............................................................................................................................................... 953 Provocações de um direito latino-americano que inclua os povos vencidos: notas a partir da Antropofagia de Oswald de Andrade e o surrealismo jurídico de Warat Ricardo Baitz .............................................................................................................................................................. 960 Educación-m no ensino de E/LE: análise de curso via SMS Rita de Cássia Rodrigues Oliveira ............................................................................................................................. 967 Poesía en Voz Alta y la escena cultural mexicana: la experiencia dramática de Octavio Paz Robson Batista dos Santos Hasmann ........................................................................................................................ 975 Cortés, Guatemotzin e Atzimba: da Conquista à ópera nacional mexicana! Robson Leitão ............................................................................................................................................................. 980 Desencuentros con Guimarães Rosa: la polémica de Vargas Llosa y Crespo por la traducción de Gran Sertón: Veredas Rodrigo Labriola ........................................................................................................................................................ 987 El ensayo: prolegómenos para una nueva historiografía ensayística iberoamericana Rodrigo Vasconcelos Machado ................................................................................................................................... 994 Tradução de La ciudad y los perros: análise da domesticação dos termos militares Roosevelt Ferreira ..................................................................................................................................................... 1000

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O que dizem os (ex) estudantes de um curso de licenciatura em letras-espanhol? Rosa Yokota .............................................................................................................................................................. 1009 O pronome tônico na produção não nativa de brasileiros falando espanhol e de argentinos falando português Rosa Yokota .............................................................................................................................................................. 1016 Palabra y poder en El sueño del pongo, de José María Arguedas Roseli Barros Cunha ................................................................................................................................................ 1023 Linguística Aplicada: estudos interdisciplinares e multiculturais na formação docente Rosineide Guilherme da Silva .................................................................................................................................. 1029 Sobre Ernesto Sábato, el surrealismo y la entrevista a un desconocido muchacho Ruben Daniel Méndez Castiglioni........................................................................................................................... 1035 José de Anchieta: o Barroco na poesia española Samuel Anderson de Oliveira Lima ......................................................................................................................... 1040 Contribuições de Jorge Amado para a Literatura Hispânica no Brasil Sandra Mara Mendes da Silva Bassani ................................................................................................................... 1047 El cine brasileño y España: El caso de Carlota Joaquina, princesa do Brasil (1994) Santiago de Pablo ..................................................................................................................................................... 1053 Zonas de penumbra e vacíos: ficção e História em Manuel Rivas Sebastião Ferreira Leste ........................................................................................................................................... 1060 Conhecendo Urganda Silvia Cobelo e Giselle Cristina Gonçalves Migliari ................................................................................................ 1067 Para enegrecer os modos de saber: histórias da NegrAmérica contadas na literatura de afrolatinos(as) Simone de Jesus Santos ............................................................................................................................................ 1074 Mania de escrever poesia: a prosa poética nas cartas de Emilio Prados Solange Munhoz ...................................................................................................................................................... 1080 La corrección del error y el feedback en la clase de lengua extranjera. Un análisis desde las teorías de la afectividad Stella Maris Baygorria ............................................................................................................................................. 1086 A escolha de retórica em Andrés Bello (1847) Stela Maris Detregiacchi Gabriel Danna ................................................................................................................ 1092 A palavra em O Livro das mil e uma noites e em O lapis do carpinteiro, de Manuel Rivas Susana Álvarez Martínez ......................................................................................................................................... 1098 Tradição e memória: um diálogo possível entre contos de Borges e Cem anos de solidão Suziane Carla Fonseca ............................................................................................................................................. 1105

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(Re)Construção de Chico Buarque: analisando a tradução do português para o espanhol em canções de protesto Thais Marçal Passos Sarmento ................................................................................................................................ 1113 Educação intercultural e ensino de e/le Thaísa Alves Brandão .............................................................................................................................................. 1020 Quando as luzes se acendem: a cumbia sob os holofotes, em Noites vazias, de Washington Cucurto Thiago José Moraes Carvalhal ................................................................................................................................. 1124 A transitividade em narrativas escritas por alunos brasileiros aprendizes de espanhol Valdecy de Oliveira Pontes ....................................................................................................................................... 1131 O gênero textual digital blog: o diário virtual eletrônico na aquisição de e/le Valéria Jane Siqueira Loureiro................................................................................................................................. 1137 Os trabalhadores e o impasse do Mercosul social. Valter de Almeida Freitas ......................................................................................................................................... 1144 La dificultad del uso de la preposición en las oraciones relativas de E/LE Vanessa Nogueira ..................................................................................................................................................... 1149 “Das Unheimliche”, de Freud e Así que pasen cinco años, Leyenda del tiempo en tres actos y cinco cuadros, de Lorca Virginia de Sousa Bonfim ........................................................................................................................................ 1156 “La rosa de piedra”: el cuento de nunca acabar Virginia Videira Casco ............................................................................................................................................. 1162 Casos de reinterpretação dativa na área geoletal mexicana Viviane Conceição Antunes Lima ............................................................................................................................ 1168 La traducción como práctica social en el curso de Secretariado Ejecutivo Viviane Cristina Poletto Lugli ................................................................................................................................. 1174 Leitura na Internet: a leitura literária no espaço virtual Viviane da Silva Santos ........................................................................................................................................... 1181 El Brasil Intelectual, de García Mérou, una mirada argentina sobre la formación de la literatura brasileña Weslei R. Cândido .................................................................................................................................................... 1187 Sobre a escritura pictural de Alejandro Xul Solar Yara Augusto ............................................................................................................................................................ 1192

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EROTISMO Y PICARDÍA EN VIDA Y COSTUMBRES DE LA MADRE ANDREA (C. 1650)

Dedicado a Mario M. González
A. Robert Lauer The University of Oklahoma

Vida y costumbres de la Madre Andrea (c. 1650), obra desconocida hasta 1958, cuando el hispanista neerlandés Jonas Andries van Praag publicara el manuscrito que había encontrado en la casa Beijers de Utrecht en 1950 (PRAAG, 1958, p.111), ha sido clasificada, desde entonces, como una novela picaresca anónima. Así la designa Enriqueta Zafra en sus dos recientes libros (ZAFRA, 2009, p.136 y ZAFRA, 2011, p.1), así como Howard Mancing en un importante ensayo (MANCING, 1996, p.288). Si así fuera, Madre Andrea sería entonces la última novela europea escrita en español que versa sobre una pícara, de la misma forma que La lozana andaluza (1528), de Francisco Delicado, constituiría la primera narrativa de este género. Dentro de este marco (15281650) tendríamos otras obras como el Libro de entretenimiento de la pícara Justina (1605) de Francisco López de Úbeda, La hija de Celestina (1612) de Alonso Jerónimo de Salas Barbadillo, La niña de los embustes, Teresa de Manzanares (1632) y La garduña de Sevilla y anzuelo de bolsas (1642) de Alonso de Castillo Solórzano y, acaso, «El castigo de la miseria» (Novelas amorosas y ejemplares, 1637) de María de Zayas y Sotomayor. Se excluyen

antecedentes como la Celestina de Fernando de Rojas, así como obras posteriores a 1650 escritas en otras lenguas como Die Lebensbeschreibung der Erzbetrügerin und Landstörzerin Courasche (La pícara Coraje ) (1669) de Hans Jakob Christoph von Grimmelshausen o The Fortunes and Misfortunes of the Famous Moll Flanders (1722) de Daniel Defoe. Poco sabemos de Vida y costumbres de la Madre Andrea. Se piensa que el autor sería un judío converso de origen portugués establecido en Amsterdam (ZAFRA, 2011, p.15). El hecho de que escribiera la obra en español no sería extraño, ya que los judíos conversos portugueses, amén de otros, solían escribir literatura en español durante la Monarquía Dual (1580-1640). De hecho, el autor usa varias palabras de origen portugués como velhaco (bellaco), ajudé (del port. ajudar > ayudar), remasgando (del port. resmungar > quejarse, refunfuñar), holla abafada (cubierta), pedintón (del port. pedinte > pordiosero), copo (vaso), baxuras (esp. bajezas, del port. baixar > bajar), mágoas (tristezas), papar (conseguir, follar). A la vez, van Praag indica que la obra contiene algunos galicismos (PRAAG,

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1958, p.119), lo que haría pensar que nuestro autor habría sido acaso un converso sefardita que hubiera pasado por algunos de los centros franceses de judíos portugueses como Ruán, Bayona o Burdeos antes de emigrar a Amsterdam. Otrosí, resalta en la obra el hecho de que el autor tenga altos conocimientos de matemáticas y de que sus alusiones bíblicas sean al Antiguo Testamento (PRAAG, 1958, p.126). El manuscrito de nuestra obra contiene 146 páginas y mide 17 x 11 cm., encuadernado en pergamino. A la par, en la guarda del libro se menciona en francés el hecho de que la obra es un «Manuscrit espagnol, en prose et en vers, du 17e siècle?» (PRAAG, 1958, p.111). Van Praag anota el hecho de que la última página contiene una filigrana que presenta unas armas entre dos grifos, la cual indica una procedencia italiana (genovesa). No obstante, este tipo de filigrana se usó en Provenza, España y Portugal en los siglos XVII y XVIII (PRAAG, 1958, p.111-112). En ausencia de un facsímile, el cual nos daría información sobre la caligrafía, nos ajustamos a la posible fecha de redacción de 1650, sugerida por el crítico neerlandés (PRAAG, 1958, p.113), aunque es de suponer, como este estudioso indica, que el único manuscrito de esta obra fuera una «copia dieciochesca de otro anterior» (PRAAG, 1958, p.112). La narrativa de Madre Andrea mantiene una organización esencialmente cronológica (ab ovo) que empieza con el nacimiento del personaje homónimo y termina en un punto indeterminado de su madurez. De esta forma sigue inicialmente la estructura básica de todas las novelas picarescas, con excepción de La hija de Celestina, que comienza in medias res. A la vez, Madre Andrea usa una retrospección temporal para informarnos de sus antecedentes, los cuales siempre son determinantes en la narración picaresca. Andrea fue hija de una prostituta y un padre de mancebía, o sea, un dueño de un burdel. Asimismo, por haber tenido su madre múltiples amantes, cada

cliente defiende que Andrea tiene algo suyo. Su herencia biológica y moral, por lo tanto, determina su vida ulterior. Después de este punto inicial, la narrativa hace un salto temporal indeterminado en el cual la protagonista ha dejado en parte su vida prostibularia para fungir el cargo administrativo de madre de mancebía: «después de la pasión me valí de la agencia» (ZAFRA, 2011, p.36). En este oficio tuvo gran éxito y ganó buen dinero: «Era tanta la miel que no me dejaban dormir las moscas» (ZAFRA, 2011, p.36). A diferencia de otras obras picarescas como, v. gr., Lazarillo de Tormes, Andrea, desde el principio de su relato, ha llegado a su «prosperidad y […] cumbre de toda buena fortuna» (CARRASCO, 1997, p.88). Lo que sigue será una serie de encuentros entre clientes, trabajadores sexuales y la Madre Andrea. Los relatos prostibularios se dan, primero, en series de parejas sencillas, v. gr., un joven y una prostituta; después, en tríadas; finalmente, en series de parejas gemelas o cuaternarias. Esta sección es en efecto pornográfica, en su sentido etimológico, y de carácter, primero, erótico, en sus relaciones ordinarias; después, exótico, en sus relaciones singulares1. Enriqueta Zafra nos recuerda que antes de que se clausuraran los burdeles de España en 1623 (ZAFRA, 2011, p.5), los prostíbulos servían ciertas funciones públicas, tanto para mujeres como para hombres. Para las primeras, la casa de lenocinio proporcionaba un modo de vida para féminas pobres y solteras que hubieran perdido la virginidad y que no tuvieran familiares en la ciudad donde trabajaran. El administrador de un burdel, el así llamado padre de mancebía, proporcionaba por una cifra fija, comida, alojamiento, ropa, sábanas y velas (ZAFRA, 2011, p.8). A la vez, las prostitutas eran examinadas por un médico y, en caso de que adolecieran de un mal venéreo, eran consignadas a un hospital. Si se arrepentían y decidían cambiar de vida, todas sus deudas se cancelaban. En cuanto a los segundos, se

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suponía que los clientes fueran hombres solteros que por falta de dinero o trabajo no podrían casarse. El burdel, a diferencia de la prostitución clandestina, protegía, por lo tanto, a las trabajadoras, a sus clientes y a la comunidad de mujeres honorables y acomodadas, las cuales se reservaban para uniones matrimoniales (laicas o eclesiásticas). Esta forma social de «contener el deseo» en ámbitos destinados para su ejercicio se limitaba legalmente a la fornicación simple entre un hombre y una mujer solteros, solutus cum soluta, y evitaba tanto el incesto como la penetración no natural (ZAFRA, 2011, p.8). Sin embargo, el deseo en Vida y costumbres de la Madre Andrea no puede ser contenido o limitado socialmente. En efecto, cada incidente prostibulario prueba precisamente lo contrario de lo que se supondría que ocurriera en un burdel antes de su clausura en 1623. El primero, por ejemplo, muestra a un joven de familia adinerada que roba dinero de su padre para deleitarse en los brazos de la joven y bella ramera Philipa. El segundo expone a un fraile impetuoso que estupra simultánea y encarnizadamente a tres mujeres: la Madre Andrea; una criada que, asustada, grita «Aquí del Rey» (ZAFRA, 2011, p.84); y, finalmente a una pobre y deslucida ramera destinada para su remate. El tercero revela a un letrado y un médico que primero dialogan extensa y cínicamente sobre sus profesiones y después se valen de una pareja de jóvenes de diferente sexo, «dos piezas de serafinas y serafines», para actos descomunales: «vengan orinales no diáfanos sino maduros y encarnados» (ZAFRA, 2011, p.132). Como vemos, todos estos usuarios no son personas indigentes sino pudientes y, en el caso del fraile, desposados con la Iglesia. El hecho de que se use a jóvenes de ambos sexos para actos singulares también indica la práctica de un tipo de sexualidad prohibida o «no natural», precisamente lo que un burdel trataba de evitar. El prostíbulo de la Madre Andrea, por tanto, no circunscribe sino que provoca un exceso o

elemento sobrante (super plus): no limita sino que provoca el deseo: y todo por un apreciable precio: «Allá se las hubieron y a mí […] me pagaron altamente» (ZAFRA, 2011, p.132)2. Lo antedicho constituiría el elemento erótico y picaresco 3 de Vida y costumbres de la Madrea Andrea. Toda novela picaresca se vale de episodios y peripecias que, al llegar a un punto culminante, provocan un cambio o paro permanente en la vida, el carácter o el movimiento del personaje principal. La obra, aunque indique la posibilidad de una subsiguiente parte, en efecto termina en ese momento4. A veces el cambio es súbito, como en La lozana andaluza, cuyo personaje principal renueva repentinamente su vida después de soñar que Plutón y Marte asolan Sierra Morena: «pues he visto mi ventura y desgracia, […] haré como hace la Paz, que huye a las islas, […] Estarme he reposada, y veré mundo nuevo, y no esperar que él me deje a mí, sino yo a él» (DELICADO, 1972, p.245). En otras ocasiones el cambio se intuye: Elena, de la Hija de Celestina , antes de ser agarrotada y encubada, «causando en los pechos más duros lástima y sentimiento doloroso» (SALAS BARBADILLO, 2008, p.153), hace testamento y restituye el hurto hecho a un tal don Rodrigo de Villafañe. Finalmente el cambio se impone: La pícara Justina, a pesar de narrar una vida jocosa, aunque moralmente reprehensible, indica al final del primer tomo que su fin será paulatinamente infausto: en el «primer libro me llamo la alojada, en el segundo la viuda, en el tercero la mal casada y en el cuarto la pobre» (LÓPEZ DE ÚBEDA, 2010, p.874). Asimismo, Teresa de Manzanares, al concluir su escandalosa crónica, indica que tuvo un fin infeliz casada, por cuarta y última vez, con un mercader civil, cincuentón y miserable. La «segunda parte» de su vida se llamaría, pues, « La congregación de la miseria » (CASTILLO SOLÓRZANO, 2005, p.283).

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La Madre Andrea es semejante a las susodichas obras, aunque con algunas diferencias. Si bien hay un cambio o peripecia decisiva, la narrativa se vale a lo largo de su extensión de fisuras que en efecto alteran el discurso salaz dominante. Estas fisuras generalmente se manifiestan como elocuciones vocativas dirigidas al lector que en efecto interrumpen y suplantan el discurso previo. En términos arquitectónicos, las fisuras representarían atalayas colocadas en encrucijadas, las cuales advierten al lector de cómo debiera captar el relato. Tienen, por lo tanto, una función adverbial. La palabra «lector» aparece cuatro veces en el texto. La primera vez se menciona en forma neutral al inicio de la obra para advertir al leedor que no tome «el fin de la palabra», o sea, los «salados casos, ridículos sucesos, pasatiempos deleitables y dichos de discreción y agudeza», sino que discierna en el modo de leer: «antes saca desta obra la cándida flor de la harina con que hagas pan de los santos» (ZAFRA, 2011, p.38). La segunda vez invoca al «lector lascivo o continente» (ZAFRA, 2011, p.100), precisamente después de fuertes descripciones exóticas que acaso provocarían placer en el primero y desazón en el segundo. Las dos últimas invocaciones a un «tú» se hacen hacia el final y van dirigidas al «lector pío» y al «lector benévolo». En ambos casos, las descripciones eróticas han concluido y la Madre Andrea, después de haber narrado congeries de desorden y escándalo, declara que «me metí a devota» (ZAFRA, 2011, p.144). Su última advertencia es que uno debe apartarse de ruines compañías, juegos y negocios que provocan la deshonestidad: «Huye pues del demonio y sus tentaciones, y sigue el bien y la santa y verdadera doctrina […], porque sólo de este modo puedes estar, vivir y morir cierto y tendrás en este mundo paz y después gloria» (ZAFRA, 2011, p.146). Se remata esta obra con una décima penitencial y ocho redondillas donde el autor pide clemencia divina. Vida y costumbres de la Madre Andrea es por lo tanto una obra picaresca con rasgos pornográficos y un auténtico fin moral. En efecto, todas las obras

picarescas tienen aspectos pornográficos, aunque generalmente de tipo erótico. Piénsese en la pícara Justina, que siempre está en peligro de perder la flor; o en Teresa de Manzanares o Elena, la hija de Celestina, quienes expresan cándidamente sus deseos sexuales y mantienen ocasionalmente relaciones adúlteras. Aldonza, la lozana andaluza, es, por supuesto, una cornucopia (pornucopia) de sexualidad ilimitada. Las relaciones triangulares, evidentemente, son comunes en toda narrativa picaresca, como se ve en los padres de Guzmán de Alfarache o en la relación entre el arcipreste de San Salvador, Lázaro de Tormes y la criada-esposa de ambos. Los elementos exóticos también se intuyen, como se observa en el padre afeminado de Guzmán de Alfarache, cuyos afeites inducen al narrador a declarar que «son actos de afeminados maricas, [que] dan ocasión para que dellos murmuren y se sospeche toda vileza, viéndolos embarrados y compuestos con las cosas sólo a mujeres permitidas» (ALEMÁN, 1984, vol. 1, p.118). Recuérdese asimismo la posible inversión del hiperactivo fraile de la Merced del tratado cuarto de Lazarillo de Tormes. Sin embargo, a diferencia de estas obras, Madre Andrea minimiza lo erótico y enfatiza lo exótico y escatológico. El lector de estas narrativas acaso sonriera ante los leves embustes de Justina o Teresa de Manzanares, pero probablemente se turbara ante las alusiones de sodomía, felación, urolagnia y coprofilia de la Madre Andrea y sus clientes. Lo exótico en esta obra se usa no para despertar el interés sino para provocar el desasosiego en el lector. No atrae; repele. En este sentido, se asemeja al Guzmán de Alfarache, aunque también, acaso, a Los 120 días de Sodoma del Marqués de Sade. No obstante, a diferencia de estas dos últimas obras, la intención moral se explica clara y largamente al final de Vida y costumbres de la Madre Andrea. A la vez, este propósito se expone en las fisuras del texto a lo largo de la obra. De esta forma, lo moral irrumpe en los momentos culminantes ímprobos, precisamente para desplazar lo concupiscente y

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desviarlo hacia la probidad: «Deja pues mujercillas, porque quitan el sueño, estragan la salud, deslustran la honra, consumen la hacienda, y muchas veces hacen perder las vidas; sé casto» (ZAFRA, 2011, p.144). Por ende, si las narrativas picarescas tienden hacia una finalidad moral, Madre Andrea mantiene esmeradamente esta función. En esto difiere del final irónico de Lazarillo de Tormes o del desenlace ambiguo de Guzmán de Alfarache: «Aquí di punto y fin a estas desgracias. Rematé la cuenta con mi mala vida. La que después gasté, todo el restante della verás en la tercera y última parte» (ALEMÁN, 1984, vol. 2, p.480). No obstante, se ajusta estructuralmente a éstas, y otras, en, v. gr., las extensas digresiones morales de Guzmán de Alfarache; las descripciones aciagas de la Roma puttana de La lozana andaluza; los aprovechamientos finales del narrador subalterno de La pícara Justina ; la narrativa «objetiva» del narrador de La hija de Celestina; los rótulos, escritos en tercera persona, de los capítulos de La niña de los embustes, Teresa de Manzanares; el prefacio del autor de Moll Flanders, el cual corrobora, antes de iniciar la narrativa principal, el arrepentimiento ulterior de la protagonista homónima y su cónyuge: «we resolve to spend the remainder of our years in sincere penitence for the wicked lives we have lived» (DEFOE, 2005, p.308); y la nota final del autor de la pícara Coraje, donde advierte a los jóvenes sobre los peligros de una vida pecaminosa y un arrepentimiento tardío (GRIMMELSHAUSEN, 2001, p.175). En concreto, Vida y costumbres de la Madre Andrea reúne a la vez lo más pecaminoso y moral de la novela picaresca escrita en español. En efecto, el tema de la pícara española, iniciado en Italia con La lozana andaluza, culmina en Holanda con la Madre Andrea . Sus descendientes literarias se extenderán después por el Reino Unido y América (Moll Flanders) y el Sacro Imperio Romano Germánico (la pícara Coraje). Sus aventuras, sin embargo, requerirían un subsiguiente estudio. Muchas gracias.

Referencias bibliográficas
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ZAFRA, Enriqueta (2009): Prostituidas por el texto: discurso prostibulario en la picaresca femenina . West Lafayette: Purdue University Press. ________, ed. (2011): The Life and Times of Mother Andrea / Vida y costumbres de la Madre Andrea. Traducción al inglés de Anne J. Cruz. Woodbridge: Tamesis.

Notas
1 Según John Anthony Cuddon, la pornografía (del griego porn– [prostituta] y graphein [escribir] > escritura de rameras) es una obra de ficción que enfatiza la actividad sexual de una forma cómica, seria, bizarra o sobrecogedora para suscitar la emoción sexual. Se subdivide en dos clases: a) erótica, la cual describe una actividad heterosexual en gran detalle; y b) exótica, que enfatiza lo perverso u anormal, incluyéndose el sadismo, el masoquismo, la pederastia y otras parafilias (CUDDON, 1993, p.729). 2 Se eliminan de este análisis los relatos no sexuales: El primero entre un poeta, un ebrio y un soldado que se emborrachan, se pelean y después abandonan el burdel sin tener comercio sexual; el segundo entre un filósofo, un matemático y un jaque que arguyen, comen y se salen del prostíbulo; y el de los tres ciegos que se emborrachan, se duermen y después simplemente se retiran de la casa de mancebía. El burdel, por tanto, sirve en estos casos no como un espacio de contención sino de desorden público. 3 El término alemán para este tipo de narrativa es Räuberroman (novela de depredadores o saqueadores). En efecto, el pícaro o la pícara es similar a un ave de rapiña. La acción principal que define a este ente es la de raptar, ya sea pan o vino en el caso de Lazarillo de Tormes, o dinero u honra en el caso de las pícaras. En la novela que nos ocupa, Andrea se jacta de haber trocado «sin violentarme» su honra por dinero: «Porque yo espontánea y liberalmente la repartía [honra], quedándome sin ella; mas no fui tan necia que no pidiese en recompensa el metal que la fortuna a tantos niega, que esa fue la lección primera con que me educó mi madre» (ZAFRA, 2011, p.34). El intercambio nunca es ecuánime, por supuesto. Al final de la novela, Andrea indica que el Hospital de Nuestra Señora del Amor de Dios (de Antón Martín) ya no tiene cupo para los enfermos que les manda la Madre. Las «picarillas [que] tan negro encarnadas […] infectaban cuántos árboles de cinselas [sic] las comunicaban» (ZAFRA, 2011, p.132) se han tenido que trasladar a Suecia y Baviera a infectar nuevos clientes. Por ende, Andrea y sus proxenetas privan, a cambio de un sucinto encuentro, no sólo de tesoro sino de salud, amén de la vida, a sus confiados e incautos clientes. 4 El hecho de que la mayoría de las novelas picarescas aludan a una subsecuente parte se debe a que el personaje al final de la obra todavía vive (salvo Elena, de La hija de Celestina, novela que requiere una narración en tercera persona). Por ende, Moll Flanders afirma lo obvio: «We cannot say, indeed, that this history is carried on quite to the end of the life of this famous Moll Flanders, for nobody can write their own life to the full end of it, unless they can write it after they are dead» (DEFOE, 2005, p.7). Considérese también la respuesta del pícaro Ginés de Pasamonte a la pregunta redundante de don Quijote sobre si el libro de su vida está acabado: «–¿Cómo puede estar acabado –respondió él–, si aún no está acabada mi vida? Lo que está escrito es desde mi nacimiento hasta el punto que esta última vez me han echado en galeras» (CERVANTES, 2004, vol. 1, p.266).

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TOPOGRAFÍAS DEL ARTISTA Y DESESTABILIZACIÓN ENUNCIATIVA EN EL ROCK DE ARGENTINA

Adrián Pablo Fanjul Universidade de São Paulo

1. Un caso puntual de un proyecto más amplio
Desarrollamos actualmente un estudio sobre la discursividad en el rock argentino, recorriendo sus diferentes épocas, acompañando mecanismos de regulación discursiva, que abordamos principalmente como delimitación de la exterioridad del campo1. En función de un factor que nos ha aparecido como significativo en los procesos de regulación, específicamente en cuanto a una de las fronteras recortadas para lo decible en el campo, factor al que no nos referiremos aquí porque afecta una de las hipótesis centrales de un trabajo que todavía está en elaboración, hemos dado bastante atención a la composición “Toxi Taxi”, grabada en 1991 por la banda Patricio Rey y los Redonditos de Ricota, más conocida como Los Redondos, una de las más nodales en la historia del rock nacional. El tema fue lanzado en el disco La mosca y la sopa . Creemos que esa composición es un punto de especial densidad, en el corpus del rock argentino, en cuanto a las redes de memoria hacia dentro del funcionamiento del campo y en relación con su exterior. Aquí la abordaremos a

partir de que se trata de uno de los casos, dentro de ese corpus, en que se escenifica, en la enunciación, al artista en actividad creadora relacionada con un desplazamiento en el espacio representado, lo que no excluye, por supuesto, la concomitancia de otras lecturas. Ese abordaje nos llevará a la posibilidad de confrontarlo, en la memoria discursiva, con dos temas del período clásico del rock argentino: “El oso”, de Moris (Mauricio Biravent, 1970), y “La balsa”, atribuido a Lito Nebbia y a Tanguito2 (1967). Esa misma confrontación promueve la observación de otra problemática central en nuestra investigación en curso: la de las configuraciones enunciativas, como modos relativamente estables de articulación de los seres en la enunciación, cuya articulación con la problemática de la memoria explicamos en el ítem siguiente. Las tres composiciones están transcritas al final, como anexos.

damos crucial importancia a las configuraciones enunciativas. Así lo sostenemos porque creemos que esa distribución de voces y seres. En la primera parte y en el estribillo de “Toxi Taxi” es interpelado un ser representado en segunda composiciones entre las que estableceremos relaciones parafrásticas en este trabajo. en el título denominamos una “topografía del artista”. la percepción de la regulación como relaciones entre enunciados. Como movimiento de choque de cuerpos. 2002: 191). lo que. Como anticipamos. concepto ampliamente tratado a lo largo de La arqueología del saber como juego de reglas de formación de los enunciados. se revela como resultado de esa violencia reguladora del discurso a la que nos referimos a partir de Foucault. en Maingueneau (2001). un “reggae – acelerado” (GOBELLO. La corriente de análisis del discurso en que actuaron estudiosos como Michel Pêcheux y Jean-Jacques Courtine adoptó varios aspectos de la teorización de Foucault. No sólo para este caso. reglas que “los atraviesan y les constituyen un espacio de coexistencia” (FOUCAULT. una práctica que les es impuesta. Las tendencias dominantes para esas configuraciones y para la delimitación entre los seres en las mismas son un factor que relacionamos con la regulacióndesregulación de la memoria. en El orden del discurso. al proponerse el “principio de especificidad” (FOUCAULT. Una bisagra entre el mundo creado. esos conceptos reciben especificaciones. en determinados períodos de la reflexión de Pêcheux y seguidores. relacionamos el pogo con la interpelación como acción enunciativa. el conjunto de letrística musical alcanza una figuración menos precisa que en la narrativa literaria. paráfrasis y diversas formas de retomada y remisión. 3. sino en el conjunto de nuestro trabajo sobre la memoria discursiva en el rock argentino. la dimensión espacial de la escenografía representada en la enunciación. si es observada en una determinada serie de enunciados en un campo. tanto los interlocutores como los personajes y las voces citadas. vale recordar que. Y es importante recordar que fue un tema de “pogo”. Regulación. a los modos como se articulan los participantes representados en la enunciación. temas y objetos. se concibe el discurso como una violencia ejercida sobre las cosas. por ejemplo.24 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 2. no debiendo confundirse con el concepto –de raíz althusseriana– de interpelación ideológica como constitutiva de posiciones de sujeto. entre ellos. 2008: 53). en Pêcheux (2007). y a la vez como matriz representacional del conflicto que todo discurso conlleva y que. o sea. 1999:80). Esa violencia. Al trasladarse a un abordaje del discurso como materialidad lingüística. tienen en común una representación de la actividad estética creadora relacionada con el desplazamiento en la escena representada. La topografía es. memoria y seres en escena Consideramos la regulación a partir de diversos lugares de la teorización foucaultiana y de su lectura por estudiosos de la enunciación y del discurso en función de la problematización de la memoria discursiva. que selecciona y recorta modalidades de enunciación. vemos la regulación como principio de una memoria discursiva: espacio de producción de implícitos (o preconstruidos). Así. el espacio del cual la enunciación dice provenir. y la configuración enunciativa. por darse en una escena enunciativa. Nos referimos a la interpelación representada en la enunciación . Escenas ricoteras3 Un biógrafo de Los Redondos ha definido “Toxi Taxi” como un tema de “urgencia rítmica”. que en el caso de la . promueve la regularidad . es precisamente un juego de voces. Como punto de partida.

o en la forma lingüística. para la voz enunciadora. Varios factores favorecieron. por percibir que es uno de los rasgos mediante los cuales la obra de Los Redondos. la interpelación se relaciona con el papel de los interlocutores en el campo roquero y en relación con los conflictos que lo delimitan. b) La alternancia de ubicaciones. La representación de ese tipo de interpelación tiene una larga tradición en la música urbana argentina en períodos de desestabilización de modelos. por ejemplo. como veremos. en su época de primer desarrollo y auge. están sometidas a diversos juegos enunciativos. conviene referirnos brevemente a características del campo a respecto. marcó un desplazamiento en el rock argentino. Esa interlocución. como el papel alternado de ejecutor y víctima (“te esnifo” / “me esnifan”) en “Rock para los dientes”. concomitantemente con una diversificación del campo del rock y con el aumento cualitativo de las desigualdades en la clase media urbana. una fuerte tendencia a ese tipo de escenificación caracterizó el debilitamiento de las figuras marginales en la evolución de la poética del tango argentino en los años 20/30. 2010) mediante observaciones que podemos relacionar con las de investigadores que abordan la letrística de rock desde otros puntos de vista. a la delimitación reforzada de los contornos de los seres en la enunciación. sino que hace efectiva una interpelación. de modo general. más o menos velada. como el disimulo del enemigo en “Nuestro amo juega al esclavo”. un colectivo de “la juventud”). A veces. el rock nacional está marcado históricamente por una cierta rigidez en cuanto a la representación de los seres y voces. Esa tendencia se desestabiliza notablemente en los años 80. visibles en la figuración. había una tendencia ya verificable. que en el rock se expresó más en su versión hedonista que contestataria. la alternancia a la que nos referimos puede ser más o menos marcada. un cierto deseo de homogeneidad para su lado imaginario en el conflicto. con la peculiaridad de estar representada como interpelación realizada “en público”. debido al carácter “en público” que señalamos. al conjunto del campo en ese sentido. juegos mostrados. Pero también el paso no marcado de la . en relación con el conflicto representado. Los Redondos son una banda que no sólo corresponde al momento en que la estabilidad de identificaciones roqueras se ha derrumbado (ya no es pensable.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 25 persona. En cuanto a lo segundo. no íntima. 1991:22). Por otro. con el poder opresor y con la industria del espectáculo. gozador y gozado. para los años 60 y 70 del siglo XX. Sobre la primera. en la poeticidad de géneros de lo popular en Argentina. en las situaciones de opresión reiteradamente representadas en sus composiciones. debe tenerse en cuenta. Como hemos defendido en varios trabajos anteriores (fundamentalmente en FANJUL. así como los posicionamientos subjetivos que la atraviesan requieren diferenciar dos órdenes de problemas que creemos que son clave para confrontar momentos y tendencias en la discursividad del rock argentino: a) La producción de una interpelación cuestionadora hacia un interlocutor. el influjo de una racionalidad “humanocéntrica” dominante en el campo intelectual argentino de la época (TERÁN. instrumentador e instrumento de la violencia del poder. diferencias entre agente y paciente. y. Por un lado. en este caso. pero que no dejó de estar muy presente. la percepción de ethé relativamente homogéneos y seres representados con un cierto cerramiento sobre sí. Como ha mostrado el trabajo de Menezes (2012). Y muy especialmente. por parte de una voz que se identifica al comienzo en una primera persona del plural (“Te tenemos allí…”).

Y aun composiciones con un tono de profunda desazón. una intertextualidad deliberada con composiciones clásicas del rock argentino. una deriva positiva y afirmada en su mismidad. observamos que ese rasgo se presenta inclusive en la escenificación de seres identificados con la locura. entre período clásico. en este mundo abandonado / Te tenemos allí. aunque sea la de naufragar. Creemos que. como está. pero va. En ese trabajo que acabamos de referir. irá tras los que lo hacen negocio. El oso se desplaza “sin cesar”. Provoca a la comparación. toque y toque. en la que circula muy contento. que tuvo un carácter comparativo en relación con pioneros del rock brasileño. Desencuentros –de memorias– del andar Proponemos abordar las tres composiciones propuestas en la Introducción a partir de lo que en ellas podemos observar como representación de la actividad de creación estética. con una impronta propia. recogen esa imagen a la que. abandonado allí. va a seguir su “propia” dirección. de ese modo. Una de los rasgos del tipo de locutor y de personaje puesto en escena por el rock primero y del ethos que su voz encarna es el de una hexis de propósito (Fanjul. NI siquiera vuelto sombra. la artesanía y la industria del espectáculo. pero que es posible. rescata metafóricamente la imagen de un círculo trazado en rituales satánicos 4 para llegar a una propuesta que resume muy felizmente ese aspecto de la poética ricotera: “es una invocación: no está dentro del círculo pero tampoco fuera porque su sitio no es el pretendido cielo de la pureza”. con los preconstruidos que les dieron sustento. va detrás del toxi taxi. propone el cuerpo roquero como “la epifanía misma del conflicto”. como “No te dejes desanimar”. El andar con un propósito. Una delimitación espacial determinando una predicación de abandono: Estoy muy solo y triste acá. de la época de la dictadura. 2009). cierta resonancia en el inicio de “La Balsa” y de “Toxi Taxi”. encontrar un funcionamiento parafrástico que resulta polémico. tres ámbitos: la naturaleza. Pensamos que la desestabilización de identificaciones en el campo del rock nacional a partir . El locutor / artista de “La balsa” seguirá estricta e indudablemente su impronta: su (propia) idea es la de ir al lugar que él mismo más quiera. Quien se dispone a naufragar construirá su propia balsa para ir donde quiera. como Mutantes o Raul Seixas. desde el lugar de análisis. Ambos se desplazarán desde ese lugar. sino directamente con las composiciones que consideraremos. No diseñará su naufragio. entran en escena.26 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS voz de un posicionamiento a otro en relación con el sojuzgado: compartiendo su lugar o asumiendo una sorna que la acerca al beneficiario-verdugo. y la naturaleza ilimitada. No en vano Monteleone (1992:30). Indagando el frecuente recurso a la figuración infernal en las composiciones de la banda. es una figura recurrente en la delimitación no sólo de la identidad del artista sino también de héroes en general en las escenografías creadas por el rock argentino del 4. no se registra. Su naufragar es un propósito. de Charly García. subyace un preconstruido sobre el desplazamiento como posibilidad creadora. como en otros temas de la banda. en el caso de “Toxi Taxi”. en un artículo centrado en Los Redondos. creemos. por ese camino. Pero el artista-negocio pequeño y simple. El prefabricado de “Toxi Taxi” está “preso”. sólo será recortada en signos tras aprender las piruetas en la jaula-ciudad de los hombres. Así vemos los andares de los seres construidos en esas composiciones. Con ellas.

Por ejemplo. ni parece serlo el artista producido de “Toxi Taxi”. Así. silabeada. por medio de la imagen de las “piruetas”. el héroe encuentra la posibilidad de resistencia en la autopercepción. Ni el oso de Moris aparece como “un animal feroz”. el locutor gana cuerpo en una sonoridad ansiosa y trémula para la voz del intérprete. La autora los relaciona con una ”estética del sobreviviente” de la cual Los Redondos marcarían un “límite crítico”. la pregunta desafiante “la fiera más fiera ¿dónde está?” parece evocar. Al inicio del canto. Obsérvese el orden “de mis bosques. te mantenemos? Y ¿qué ubicaciones propone ese acusativo te. finalmente. En el viejo tema de Moris. vemos escenificado un desplazamiento que puede percibirse. sólo después la voz gana volumen. Por otro lado. que es uno de los extremos de la primera etapa del rock argentino. La ambigüedad respecto del interpelado. también la confrontación de “Toxi Taxi” con “El oso” da lugar a interesantes relaciones de acercamiento y desencuentro en una memoria relacionada con el género. como serializada e imitativa. es el momento de fiesta colectiva. que está preso pero “va”. todos podemos “darnos un toque”. tu abandono? Creemos que es el inicio de una oscilación que se desplazará por toda la primera parte y el estribillo.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 27 de los 80 fue dando lugar a representaciones del desplazamiento y de la creación no compatibles con ese preconstruido. después de la “prisión” de la industria del espectáculo. se caracteriza. Esa palabra de la calle juega torciendo el significante hacia su letra. al volver del encierro está “contento de verdad”. de mis tardes y de mí” (destacado nuestro) al enumerar lo que no fue olvidado. en algo todos nos parecemos al pequeño artistanegocio . e incluso. en un estribillo que. Esa industria-circo. el instinto como fundamento de la creatividad5. Así. caminando “sin cesar” inicialmente en la vastedad de la no cultura. tiene su contrapartida en la voz enunciadora. Viendo primeramente esa prisión como control sobre el artista (la segunda parte del tema. una figuración como la del artista de la “no cultura”. se desliza hacia una problemática diferente y una escenificación más específica). y. el tipo de movimiento que Kozack (1992:25) caracteriza como “recorridos circulares y constantemente invertidos”. ¿Cómo no ver la ambigüedad de la declaración punteada. de la “no cultura” a la “cultura propia”. de esos dos versos? Te te-ne-mo-s a-llí / A-ban-do-na-do a-llí ¿Allí te guardamos. Presos. pero de este se dice que está preso como si lo fuera. en lo que Authier-Revuz (2011:12) caracterizó como “movimientos bruscos de báscula del sentido en una palabra”: “Un toque por si las moscas van / Otro toque por si vas detrás”6. al fin y al cabo. con cierta sorna. con eco en la sílaba siguiente? ¿Estás allí para nosotros? ¿Sufrimos tu prisión. la naturaleza como espacio de creación. a la palabra de la calle. En efecto. “Toxi Taxi” es un claro caso de la alternancia de la voz entre diferentes lugares de decir en relación con el conflicto. si lo consideramos como recorrido del artista. a la resistencia a ese poder. El yo/nosotros representado se desplaza entre voces y posicionamientos atribuibles al poder opresor -poder sobre la escena y sobre el espectáculo-. como explicaremos. en el hermanamiento que sigue al pogo. Su tono en los dos primeros versos es de quien habla casi en privado. de modo más explícito que en “El oso”. Aunque debe someterse a esa repetición por estar prisionero. en varias de las composiciones de la época se propone. en su materialidad sonora y por el movimiento que sugiere a los cuerpos. lo que más interesa aquí. la cultura establecida desde fuera del campo de identificaciones del rock.

A diferencia de la figura representada en la primera parte. BELTRÁN FUENTES. J. Buenos aires: Tusquets. O. si se la compara con el resto del tema. Luis María Canosa. _____ (2002) La arqueología del saber. realidade e deslocamento em cenografias pioneiras do rock”. junto con Federico Moura. como sólo puede hacerlo un muerto en un sueño. (1992): “Estética del sobreviviente: una letra contemporánea. Estabilización del decir. cada día creo menos mal. pág. 2008. de la gestión opresora sobre los cuerpos que es uno de los grandes asuntos de Los Redondos.28 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 5. Era cercano a Los Redondos y llegó a integrar la banda Dulcemembrillo. p. Luis María actualiza el pasado. M. (org. (2008) El orden del discurso. 23-28. Sara Rojo et. Había sido parte del rock platense en los primeros setenta. C. Referencias bibliográficas AUTHIER-REVUZ. C. Nº 11. vol. Buenos Aires: Siglo XXI. está en el pasado y no va a ningún lugar. y acabó muriendo en medio de un motín en el que todo indica que no tenía participación. A. futuro compositor y vocalista de Virus. no solo porque el “nosotros” pasó a ser un “yo”. La segunda parte de “Toxi Taxi” recupera estabilidad en los posicionamientos de modo concomitante con una fijación de la escenografía enunciativa. São Paulo: Martins Fontes. Y con él viene un colectivo que compartió la percepción del roquero como “visionario”8. (2010) “Enunciadores en el rock argentino. _____ (2009) “Loucura. “Luis María” y porque la temporalidad pasa a ser episódica: un narrador cuenta un sueño. DÍAZ. KOZAK. Menos mal que todavía creo en algo. 2009. Pero ahora dice que cada día ve menos. Alfredo (1989): La ideología antiautoritaria del rock nacional. Y las palabras que repite acentúan la diferenciación a respecto del creador representado en el período clásico del rock nacional. Estudios sobre la enunciación. MAINGUENEAU (2001) O contexto da obra literária. Córdoba: Narvaja Editor.” En: Letr@ Viv@. Belo Horizonte: Faculdade de Letras da UFMG. FOUCAULT. Em: Anais do V Congresso Brasileiro de Hispanistas e I Congresso Internacional da Associação Brasileira de Hispanistas. Buenos Aires: Prego. Y la escena también cobra singularidad. cobra nitidez: está claro qué instancia o voz representada dice qué. murió preso “de verdad” en 1978. FANJUL. para una nueva regulación de los presupuestos. pág. Y la distribución de las voces. . Montevideo: Fundación de Cultura Universitaria. nueva regulación. Buenos Aires: Centro Editor de América Latina. 2239-47. Y en el cierre.” En: Espacios de crítica y producción. Cuando ya no actuaba en música. creer y crear es una concesión. Un claro caso de prisionero del control social. o que creo algo. No 10. M. GOBELLO. por qué no. la figura evocada. Elementos para una comparación con Brasil. el rock no está en el pretendido cielo de la pureza. Se configura más claramente un posicionamiento de resistencia. (2011): Detenerse ante las palabras.). 1. al. (1999): Banderas en tu corazón. 141-155. Al fin y al cabo. (2005): Libro de viajes y extravíos: un recorrido por el rock argentino 1965-1985. fundamentalmente porque se trae un nombre propio. un “común” preso político. o que al menos no oscila hacia formulaciones o direcciones argumentativas identificables con el poder. mientras el terror construía las nuevas topografías del rincón y la pared desierta9. fue preso acusado de tráfico minorista de drogas7. Apuntes sobre el mito de Los Redondos.

J. Ya no hay tiempos de lamentos ¡Ya no hay más! Un sueño con Luis María.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 29 MENEZES. “Papel da memória”. muerto cuando me decía: Y yo así perdí mi amada libertad. MONTELEONE. al. 1991 Te tenemos allí. así las cosas. Anexos Toxi . me decía un tigre viejo. En: ACHARD. “Entre pátrias. Ahora piso yo el suelo de mi bosque. . de mis tardes y de mí. Sólo exigen que hagamos las piruetas. Un toque por si las moscas van y otro toque por si vas detrás. (2012). pandeiros e bandoneones . Pero nunca pude olvidarme del todo de mis bosques. Pero un día vino el hombre con sus jaulas. abandonado allí. 49-56. Caminaba. (2007). preso como un animal (como un animal feroz). y yo dejé la ciudad. y a los chicos podamos alegrar. p. estoy contento de verdad. P.” Tesis de doctorado en Letras. (1992): “El infierno encantador. 1970 Yo vivía en el bosque muy contento. O embate entre vozes marginais e disciplinadoras em composições de samba e tango (19171945). pero las tardes son mías. Universidade de São Paulo. En el circo me enseñaron las piruetas. “Conformate”. M. Vuelvo al bosque. PÊCHEUX. A. Papel da memória. Nº 11. Era una noche sin luna. Campinas : Pontes. Otra vez el verde de la libertad. En un pueblito alejado alguien no cerró el candado. p. 29-33. Violencia y poesía del rock. Con el circo recorrí el mundo así. El oso Moris. la fiera más fiera… ¿dónde está? Toxi-taxi viene y va y tu sombra va detrás de hordas notables con los secretos para hacer un negocio tan pequeño y simple como vos. “Cada día veo menos cada día veo menos cada día veo menos creo menos mal”. “Nunca el techo y la comida han de faltar.” En: Espacios de crítica y producción. et. Las mañanas y las tardes eran mías. caminaba sin cesar. me encerró y me llevó a la ciudad.” Han pasado cuatro años de esta vida. Estoy viejo. y a la noche me tiraba a descansar.T axi Taxi Solari / Bellinson.

Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Con mi balsa yo me iré a naufragar. nos parecería muy reductor ver esa interrogación como mera denuncia. 9 Aludimos a las composiciones “Mientras no tenga miedo de hablar”. Tengo una idea. la de irme al lugar que yo mas quiera. en un manifiesto circulante en 1973. acá. Me falta algo para ir pues caminando yo no puedo. 6 “Por si las moscas” es una unidad relativamente fijada. 1967 Estoy muy solo y triste. en español. no se propone un desciframiento alegórico de las composiciones parte a parte. tanto en el contexto de esta lectura interdiscursiva del tema a partir de la representación de la creación artística como en cualquier otro abordaje temático. por ejemplo. redactado por Luis Alberto Spinetta: “El que recibe debe comprender definitivamente que los proyectos en materia de rock argentino nacen del instinto”. 8 Sobre la representación del artista. 3 4 Adjetivo muy usado para referirse a lo relativo a Los Redondos. también conocido como “Barba Azul”. aproximadamente como “por si acaso” o “por las dudas”. 5 Así está claramente enunciado. y por supuesto. para ello. Monteleone relata. A partir de ese relato. como introductor explicativo que pone como causa la percepción de una posibilidad. Notas 1 2 El proyecto cuenta con apoyo del CNPq. comportamientos atribuidos al asesino serial Giles de Rais. Por eso. . como quien ve lo que otros no ven. La continuidad (“por si las moscas van”) restituye “las moscas” a un valor independiente de esa construcción. de Alejandro de Michele y Miguel Ángel Erausquin. no podemos afirmar si era o no esa su idea. Construiré una balsa y me iré a naufragar. o como dirigida “al mismo” de la segunda estrofa. en este mundo abandonado. de donde sea. y aprovechando el tema de Los Redondos “Barba Azul y el amor letal” va produciendo una reflexión que vincula lo infernal con la figuración del espacio social como prisión.30 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS La balsa Lito Nebbia – Tanguito. Y cuando mi balsa esté lista partiré hacia la locura. Uno de los seudónimos de de José Alberto Iglesias (1945-1972). Tengo que conseguir mucha madera. A respecto. y “En el hospicio”. 7 Esa circunstancia ha dado lugar a que. Pero nuestro abordaje no es contenidístico. en lecturas de interpretación literal de la letra de “Toxi Taxi” que han circulado en los medios. ambas compuestas entre 1975 y 1976. en el rock argentino de los 60-70. de Nito Mestre. no es nuestra preocupación lo que hayan tenido en mente o no los compositores. registrado por Beltrán Fuentes (1989:95). haya una cierta reiteración de “entender” la interrogación “¿la fiera más fiera dónde está?” como denuncia de que no se lleva a prisión a los jefes del tráfico sino a sus agentes menores. hay un interesante recorrido en Díaz (2005: 154-167). tengo que conseguir. miembro de los primeros núcleos que fueron dando forma a la delimitación del rock nacional como campo.

ansioso com seu primeiro dia na escola. amor?. Moncho. publicado em 1995 e escrito originalmente em galego. Manuel Lozano. traduzindo-se em um grande êxito cinematográfico. foi transposta para o cinema em 1999 por José Luis Cuerda. principalmente. aparece acordado no quarto. o menino reluta em estabelecer uma relação amistosa com o professor e os outros alunos. é traumática. chegando a querer fugir para a América. para escapar da guerra na África.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 31 MEMÓRIAS DA GUERRA CIVIL ESPANHOLA NA FICÇÃO: LEITURAS DE ¿QUÉ ME QUIERES. São imagens de pessoas simples do interior. AMOR?. Na cena seguinte. e seu aluno Moncho. Trata-se de uma maneira de iludir o espectador. de Manuel Rivas. Tanto a narrativa literária quanto a fílmica relatam uma intensa relação entre um professor primário. incomodando o irmão mais velho com perguntas sobre o ambiente escolar e a atuação do professor. do início ao fim do século XX. como havia feito um tio. de mulheres e crianças. em que se evidenciam a vida cotidiana. A princípio. pode ser tão verossimilhante quanto à realidade histórica. por medo. A primeira experiência escolar de Moncho. criando com estas representações um suposto pacto de “verdade”. As cenas iniciais do filme mostram imagens fotográficas da época. O medo de apanhar . “ La lengua de las mariposas” é uma dessas narrativas que. relatada no filme. Certamente este recurso é uma forma de dialogar com o espectador no sentido de mostrar como a narrativa fílmica. associada à pobreza e às dificuldades de sobrevivência da Espanha rural pré-franquista. pela ameaça que significa a ideia de frequentar a escola. DE MANUEL RIVAS E LA LENGUA DE LAS MARIPOSAS. É neste momento em que o espectador dá um salto para a ficção sem se dar conta de tal fato. Don Gregorio. retratos do atraso social de uma Espanha tradicionalista com os olhos voltados para o passado. Estas imagens “reais” se mesclam estrategicamente com as cenas do filme. embora seja uma ficção. juntamente com outros dois contos. DE JOSÉ LUIS CUERDA Adriana Aparecida de Figueiredo Fiuza UNIOESTE No livro de contos ¿Qué me quieres. interpretado pelo ator Fernando Fernán Gómez. está presente um conjunto de dezesseis relatos que narram a trajetória de personagens que transitam pelo contexto espanhol. “ Un saxo en la niebla ” e “Carmiña”. aproximando-o da narrativa ficcional.

Portanto. uma vez que o aluno percebe de maneira sensível os pressupostos libertários do professor e. perdida en el Sinaí. já se sente de maneira velada uma ameaça política no pano de fundo social. “¡La República. casi siempre sonreía con su cara de sapo. p. Después los sentaba en el mismo pupitre. Com o transcorrer da narrativa. logo em seguida ao diálogo dos pais de Moncho. 29) No discurso final da mãe percebe-se um tom de ameaça. tendré que callarme yo”. el maestro Don Gregorio no pegaba. ao discorrer sobre a literatura. O diálogo entre Moncho e sua mãe é referendado pelo narrador. Cuando dos se peleaban durante el recreo. Quiero decir que mi madre era de misa diaria y los republicanos Portanto. sobretudo. “parecéis carneros”. no diálogo entre os pais de Moncho sobre a condição econômica de Don Gregorio: “ Estoy segura de que pasa necesidades”. o respeito aos alunos que advém deste princípio pedagógico. […] La forma que Don Gregorio tenía de mostrarse muy enfadado era el silencio (RIVAS. no conto e no filme. contrariando as convenções da sociedade espanhola daquele momento. sentenciaba. ao complementar o relato do menino: No. Este tirocínio está relatado pelo narrador tanto no filme quanto no conto e é um ponto crucial para entender a metáfora do autoritarismo que paira naquele momento em que a Guerra Civil ainda não havia sido deflagrada na Galicia. o que revela uma pedagogia de Don Gregorio diferente daquela que se praticava nos anos de 1930 e que ficava expresso no discurso de outros personagens. El maestro no pega” (RIVAS. con la mirada ausente. Esta questão dos ideais libertários pode ser vista ao longo da narrativa. Entretanto. ele instrui seus alunos também sobre as lições da vida. la República!¡Ya veremos adónde va a parar la República! (RIVAS. Al contrario. Pronto me di cuenta de que el silencio del maestro era el peor castigo imaginable. descorazonador. a natureza e as mulheres de maneira libertária. a exemplo de quando a mãe de Moncho pergunta como havia sido na escola: “ Te ha gustado la escuela?” “Mucho. con sentida solemnidad. Porque todo lo que él tocaba era un cuento fascinante. que comenta as posições ideológicas dos personagens: “Mi padre era republicano. como se a vitória dos franquistas estivesse dada como certa. 2006. divulgada pela Igreja. como si nos hubiese dejado abandonados en un extraño país. (RIVAS. Esta dicotomia pode ser observada na voz do narrador do conto. p. Esta ameaça pode ser visualizada em alguns episódios como. “Ellos son las luces de la República”. por exemplo. “Los maestros no ganan lo que tendrían que ganar”. urinando na frente de todos. 26) “Si vosotros no os calláis. Y se dirigía hacia el ventanal. Moncho torna-se amigo íntimo de Don Gregorio. mas com o silêncio.32 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS e a exposição a que o menino é submetido frente aos outros alunos o fazem perder o controle de seu corpo. 2006. Y no pega. frase que se repete na narrativa com o objetivo de enfatizar o tormento que era ir à escola. 2006. 2006. decía mi madre por la noche. no. él los llamaba. p. castigando não com violência física. como assegura o narrador Moncho: . 26). que se via advertida pela proposta do Estado laico da República. 26-27) Don Gregorio é o professor que ensina não apenas conhecimentos científicos. percebe-se que o tema das duas Espanhas também está metaforizado no próprio discurso do casal. quando o professor se sente desrespeitado pelos alunos. sua conduta libertária é o que propiciará sua perseguição em um ambiente político sufocante que já se anunciava. y hacía que se estrecharan la mano. p. Entretanto. atua de maneira diferente dos outros “maestros” da época. uma vez que o pai se identifica com a República (“Ellos son las luces de la República”) e a mãe adota uma postura conservadora. Era un silencio prolongado. como no do próprio pai do menino ao comentar-lhe em tom de ameaça: “Ya verás cuando vayas a la escuela!. Mi madre. mi padre. muito mais poderoso que a correção física.

o menor da família. Los periódicos. Ramón. É por esse motivo que ela faz todos negarem o passado republicano. ainda que possa ser considerado um gesto covarde. 32) Em seguida.” (RIVAS. em sua inocência de criança. . em minoria. Moncho. 2006. p.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 33 aparecían como enemigos de la Iglesia. No se lo regalo. “Sí que se lo regalo”. ¡grita!” Mi madre llevaba a papá cogido del brazo. 32) Este pacto com o gesto criminoso da guarda civil é uma forma de proteger-se do mesmo crime. [.. Moncho. Neste sentido.. Poco a poco. o da Santa Inquisição.. Na verdade. “¡Que vean que gritas. inclusive o pai. época em que se queimavam os livros considerados proibidos e da cena de Don Quijote de la Mancha (1605). juntamente com outros homens do povoado. cujos livros são queimados. el bibliotecario del ateneo Resplandor Obrero.” (RIVAS. 2006. 2006. por ser considerado um inimigo do regime ditatorial que se instaura. por lo que más quieras. El maestro. Y otra cosa muy importante. Charli. pois demonstra os dois lados da Guerra. aflito. que vean que gritas!” (RIVAS. los de los sindicatos. Papá no era republicano. a queima dos livros do pai se trata de um prenúncio do que viria a ser a ditadura franquista.. 2006. custa a entender a conjuntura daquele momento histórico: “Recuerda esto. 2006. o acovardamento dos que não foram encarcerados. primeiro o povo sendo aprisionado de forma arbitrária. convencido que o melhor seria gritar. Tal fato é observado na conduta imitativa dos que assistiram a atuação da guarda civil: Se escucharon algunas órdenes y gritos aislados que resonaron en la Alameda como petardos. mamá. “¡Traidores! ¡Criminales! ¡Rojos!” (RIVAS. p. el vocalista de la Orquesta Sol y Vida. insulta aqueles que antes pertenceram ao mesmo grupo ideológico que ele. No ápice do conflito entre republicanos e franquistas no povoado a mãe impõe seu caráter religioso na tentativa de salvar sua família. 2006. 32) Ao final da narrativa literária e fílmica. chepudo y feo como un sapo. no se lo regaló”. 31) El alcalde. Moncho. Ramón. como ocorre com: O pai. de la multitud fue saliendo un murmullo que acabo imitando aquellos insultos.. Ramón. p. p. uma vez que todo o povoado representava uma maioria que poderia facilmente ter parado a guarda civil.) “¡Asesino! ¡Anarquista! ¡Comeniños!” (…) “¡Cabrón! ¡Hijo de mala madre!” (RIVAS. instauraria a Censura e não somente a literária e junto com ela a repressão.] “¡Criminales! ¡Rojos!” (. Papá no hablaba mal de los curas. como si lo sujetase con todas sus fuerzas para que no desfalleciera. Todo. o professor é preso. que proibiria a liberdade de expressão. 2006. Papá no era amigo del alcalde. A imposição da mãe se dirige também a Moncho. O episódio nos traz à memória dois momentos emblemáticos da história da espanha. como revela o narrador: “Grita tú también. p. A mãe de Moncho é a primeira da família a tomar a iniciativa de compactuar com os crimes do franquismo. Y al final de la cordada. O término do relato é contundente. que. el cantero a que llamaban Hércules. argumenta: “ Hay que quemar las cosas que te comprometan. ¿Has entendido bien? ¡No se lo regaló!” “No. 29).. 33). Papá no Le regalo un traje al maestro”. los libros. (RIVAS. sem haver cometido crime algum. afim de livrar o personagem Quijote de sua suposta loucura. p. começa a gritar envergonhado e logo desesperado ofensas para dissimular sua profunda consternação e fraqueza: “¡Traidores!”. p. Moncho. (RIVAS. 31). padre de Dombodán. mas nem por isso menos aterrorizante. mas que compactuaram com a prisão dos inocentes como forma de eles próprios se livrarem do infortúnio dos vizinhos. “No.

Em tempos de ditadura. precisa ser desenrolada como a língua da borboleta do relato. relembra a efêmera alegria em companhia do professor Don Gregorio. Franco é um dos maiores exemplos desta teoria. Moncho se consome ao ver o profesor sendo levado para alguma prisão franquista e seu grito de insulto nada mais é que um grito de desesperança pelo que estava ocorrendo e o que haveria ainda de ocorrer na Espanha de Franco. entretanto. a não ser por meio de um microscópio. 33). Daniel Lvovich e Jaquelina Bisquert (2008. relata como fora sua intervenção no acontecimento: Cuando los camiones arrancaron. estando livre de suas . A borboleta. Por fim. um animal belo. para permanecer no poder. Monchiño.) ¿A que parece mentira eso de que las mariposas tengan lengua?” (RIVAS. yo fui uno de los niños que corrieron detrás. Outra resposta plausível é a que nos oferece o historiador Jacques Le Goff. como já é de conhecimento. também alcança o poder. o controle da memória coletiva pode ser entendido como um instrumento e um objeto de poder. p. passa muitas vezes despercebida pelas instâncias do poder.. parece ser no conto de Rivas a metáfora da própria infância. já que nada consegue vê-la. caberia questionar o motivo dessa necessidade de se abordar o tema da memória na literatura e no cinema contemporâneo. 2006. Portanto. Quem possui o controle desta memória. p. que llevan enrollada como el muelle de un reloj. Buscaba con desesperación el rostro del maestro para llamarle traidor y criminal. para que se tome consciência dela. 469). tirando piedras. época em que tudo parece ser mais admirável. (. p. grítale tú también!” (RIVAS. 26). que sonhava em receber de Madrid um microscópio para mostrar aos alunos da escola a língua das boborletas: “Hoy el maestro ha dicho que las mariposas también tienen lengua. prenunciando os longos anos da ditadura que se iniciava. Esta é a última lembrança do narrador daquele período turbulento que a história relataria. p. A memória da Guerra Civil advém justamente da memória desse narrador que. una lengua finita y muy larga. Esta cena é marcante no final do filme em que a câmera fica lenta. com o objetivo de mascarar e eliminar a memória republicana e antifranquista. ao refletir sobre a importância da memória no mundo contemporâneo. No relato. p. sólo fui capaz de murmurar con rabia: “¡Sapo! ¡Tilonorrinco! ¡Iris!” (RIVAS. É importante ressaltar que assim como seu pai. que é o narrador do conto. inevitavelmente. Portanto. o tema da memória na literatura é um gesto de se rememorar de forma coletiva. visto que a literatura pode ser considerada como um espaço público da expressão da sociedade. Tanto é assim. cargados de presos. utilizadas para estabelecer a memória coletiva. manipulou a memória da forma que pôde. As possibilidades de respostas são variadas. por sua linguagem altamente simbólica. a literatura. 2006. 8) discorrem que a memória se transmite e se reforça por meio de práticas de rememoração e comemoração variadas. colorido e delicado. agora já adulto. configurada na idéia da memória da história recente. 33). 2006.34 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS também participa do episódio incitado pela mãe: “¡Grítale tú también. O menino. cuja busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje. […] con los puños cerrados. a imagem da língua da borboleta enrolada dentro de sua boca é a imagem da mordaça.. na febre e na angústia” (2003. o próprio narrador também parece se surpreender pela falta de língua. que Moncho se surpreende pelo fato de as borboletas possuírem uma língua. Le Goff assevera que “a memoria é um elemento essencial do que se costuma chamar identidade. que. individual ou coletiva. da falta de liberdade e do silêncio que a ditadura franquista impôs à sociedade espanhola.

Los Polvorines: Universidad Nacional de General Sarmiento. Campinas: UNICAMP. Buenos Aires: Biblioteca Nacional. RIVAS. a literatura pode desempenhar a função de preservar uma memória que se perde no tempo e no espaço. Jaquelina. a memória silenciada e esquecida. 2003. color. não se pode esquecer que as reivindicações do presente e a intenção do Estado em dar voz e visibilidade ao passado. DVD (95 minutos). são fundamentais para a valorização dos códigos memorialísticos.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 35 amarras. ¿Qué me quieres. Sonoro. 1999. Local: Espanha: Sogecine. Direção de José Luis Cuerda. Daniel. legenda. . podendo revelar. Em tempos de democracia. LVOVICH. LE GOFF. BISQUERT. movimientos sociales y legitimidad democrática. 2006. por meio de políticas da memória. amor? Madrid: Punto de Lectura. 2008. Referências bibliográficas LA LENGUA DE LAS MARIPOSAS. Manuel. La cambiante memoria de la dictadura: discursos políticos. ajudando a fixar sentidos para as reminiscências. oferecendo novas perspectivas sobre a memória e o seu reconhecimento público. Entretanto. nas fraturas de seu discurso. História e memória. Jacques.

Entretanto. específico]. 2005. 2006). específico]. 2003. a variedade de espanhol de Montevidéu também apresentaria objetos nulos restringidos a antecedente [-definido. Considerando-se esses estudos. 1994. iniciamos uma análise sociolinguística a respeito da variação na realização do objeto pronominal acusativo de 3ª pessoa no espanhol.Universidade de São Paulo 0. embora em outras variedades do espanhol essa categoria vazia seja possível em contextos mais amplos (FERNÁNDEZ ORDÓÑEZ. 1999). na qual objetivamos detectar diferenças sintáticas subjacentes entre o espanhol e o português brasileiro nessa área da gramática. 1999. 2001. 1981. o que contrariaria essa hipótese inicial. observamos categorias vazias em função de objeto acusativo com referente [+determinado. WEINREICH. Partimos da hipótese de que essa variedade apresentaria objetos nulos restringidos a antecedente [-determinado. . Neste trabalho apresentaremos alguns dados da análise da variedade de espanhol de Montevidéu. Conforme Groppi (1997). 1996. Este artigo se estrutura da seguinte forma: na primeira parte abordaremos aspectos da gramática do espanhol quanto à realização do objeto pronominal acusativo. 2008. Introdução Os trabalhos de Campos (1986) e Fernández Soriano (1999) mostram que o espanhol seria uma língua em que a categoria vazia em função de objeto direto estaria restringida a antecedente [-definido. LABOV. +/específico]. ao analisar os dados. a partir das teorias gerativa (CHOMSKY. Na terceira parte apresentaremos alguns dados da análise e por fim algumas considerações a respeito. LICERAS. 1997. A segunda parte será dedicada à metodologia. a fim de investigar a gramática não nativa do espanhol (GONZÁLEZ. 1999) e sociolinguística (LABOV. -específico]. HERZOG. 2002. tendo como variantes o clítico e o objeto nulo e como corpus entrevistas do PRESEEA.36 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS A VARIAÇÃO NA REALIZAÇÃO DO OBJETO PRONOMINAL ACUSATIVO NO ESPANHOL: UM ESTUDO INICIAL Adriana Martins Simões PG . 1998. 2003). Essa análise integra nossa pesquisa de doutorado1.

como pode ser observado pela diferença no julgamento de gramaticalidade das sentenças (9) e (10). jugue uguet Me Ø i quitó otra vez [ e l j otasi en la chacra. 1999): (6) (7) (8) Las e le c cio nesi yo nunca Ø i entendí. Entretanto. Ø/*las compré. 1999). . FERNÁNDEZ ORDÓÑEZ. no caso de um referente [-determinado. *Ø/las compré. que nas variedades em geral do espanhol se restringiria apenas a esse tipo de antecedente (CAMPOS. em algumas variedades do espanhol o objeto nulo poderia ocorrer em contextos mais amplos. seria incompatível que fossem retomados por clítico. Entre essas variedades estaria o espanhol falado no Paraguai em contato com o guarani.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 37 1. las c cosas de muje ujer ugue t e i ]. nas construções em que o verbo seleciona o objeto direto e o indireto [exemplo (4)] e nas orações que precedem a do antecedente [exemplo (5)]: (3) (4) (5) osas d em uje resi nadie Ø i entiende. -específico] (GROPPI. No vayas a ver esa p pe Já na variedade de espanhol de Montevidéu os objetos nulos estariam restringidos a antecedente [-definido. em construções com objeto direto e indireto [exemplo (7)] e em orações adverbiais [exemplo (8)] (cf. Outra variedade em que o objeto nulo seria possível em contextos mais amplos seria a do espanhol falado na Serra do Equador. 1999). 1997) 2. 1997. LEONETTI. — No vas a encontrar las b botas — Sí voy a encontrar Ø i . +determinado] na fala de pessoas bilingues de nível sociocultural médio e baixo. Siempre Ø i encontré cuando Ø i busqué. como pode ser observado pelo contraste de gramaticalidade nas sentenças em (1) e (2). 1999). tr ¿Te Ø i permitirán entregar sin terminar Ø i ? [ e l t e lículai porque no Ø i vas a entender. 1999). (9) — No tengo coche. ele lec ciones r abajoi ]. Assim. FERNÁNDEZ SORIANO. no qual o objeto nulo ocorre em referência a antecedente [-animado. Essa categoria vazia ocorre em estruturas de topicalização [exemplo (3)]. (1) (2) res — ¿Compraste flo flor es? — Sí. o clítico poderia ter como referente apenas um sintagma nominal [+específico] (FERNÁNDEZ SORIANO. — Yo tampoco *lo / Ø tengo. 1986. Vos sabés. conforme Fernández Ordóñez (1999). Como na ausência de determinante os nomes comuns do espanhol não constituiriam expressões referenciais (LACA. que também apresenta objetos nulos com referente [-animado. +determinado] em construções de topicalização [exemplo (6)]. -específico] ocorreria o objeto nulo. A gramática do espanhol na realização do objeto pronominal acusativo Por ser um determinante definido (DI TULLIO. res — ¿Compraste las flo flor es? — Sí.

3 ocorrência de clítico encontrados nas entrevistas. Nos enunciados em (11) e (12) os clíticos retomam um antecedente [+determinado. entre eles analisamos a estrutura do sintagma determinante4. porém em (12) trata-se dos casos em que o sintagma nominal é encabeçado por um quantificador7. Tendo em vista esses estudos. A variável de nossa pesquisa constitui a realização do objeto pronominal acusativo de 3ª pessoa e como variantes temos o clítico e o objeto nulo. de modo que nos contextos em que tivéssemos referentes [+determinados] e [+/-específicos] esperaríamos encontrar a retomada pelo clítico. Quanto aos fatores extralinguísticos. A análise sociolinguística: corpus e metodologia Para a realização do estudo sociolinguístico. analisamos 20 entrevistas da variedade de espanhol de Montevidéu provenientes do PRESEEA (Proyecto para el Estudio Sociolingüístico del Español de España y de América). encontramos dados que contrariaram essa hipótese como veremos na terceira parte do artigo. Alguns dados da análise Iniciaremos apresentando alguns dados de 2. Contudo. Na maior parte dos fragmentos selecionados os clíticos ocorrem em construções com topicalização. -específico]. construções em que o verbo seleciona os objetos direto e indireto e em construções adverbiais. — Yo tampoco lo / *Ø tengo. +específico]. r io no lo sentí tan mío / (…) (11a) I: (…) porque después cuando volví allá / ya como que e l bar barr icic le ta tirada en la plaza de deportes ¡no sabía icicle leta (11b) I: no antes no / eeh como ser Roberto dejó ocho días la b bicic dónde estaba! // <risas = “I” /> después se la trajo el hombre que cuidaba / porque al ver que no la iba a buscar se la trajo el hombre que cuidaba! (11c) us ab ue los te acordás? E: ahá // decime ¿y a t tus abue uelos ue los no los conocí I: <tiempo=”02:43"/> no / porque a mis ab abue uelos (12a) r it o I: (…) <vacilación/> después tuvieron el tupé de entrar al dormitorio // que hay un alhaje alhajer ito que Valeria tenía las alhajitas más // mejores l <vacilación/> las trajeron para acá porque yo lo encontré acá / y se lo llevaron / (…) (12b) c e ne ro a un c o no cid on uest ro d e a cá I: (…) esa misma noche porque habían asaltado a un alma almac ner co nocid cido nuest uestr acá a la v ue lta / estee no no lo había asaltado lo había amenazado / de asalto vue uelta .38 (10) — No tengo el coche. analisamos diferentes faixas etárias6 e variedades do espanhol. os traços semânticos 5 do antecedente e diferentes contextos estruturais como topicalização. partimos da hipótese de que na variedade de espanhol de Montevidéu os objetos nulos estariam restringidos a antecedente [-determinado. ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Em relação aos fatores linguísticos. sendo elas a variedade de Montevidéu e a de Madri. 3. construções em que o verbo seleciona objeto direto e indireto e orações subordinadas adverbiais.

.) no es que le guste tanto e l d de a contracturar su espalda por ejemplo / (…) (13c) o ¿cuál es tu forma de tratamiento? E: perfecto / y cuando vas al médic médico I: bueno / ahí viste que bah bueno depende de la situaciones ¿no? un poco formales / también depende un poquito / voy y observo /si me tutea eeh yo lo tuteo / porque él me habilitó o nst r uc ción / podíamos hacerla la (14a) I: eh bueno ta la propuesta fue para para hacer algo una c co nstr ucción acá e r so na mm no sé de setenta años capaz (14b) I: sí / y ahí para mí es el tema de la edad // si es una p pe sona e r so na que la trato de usted / si es una p pe sona na<alargamiento/> hasta esa edad / eeh / de chico hasta esa edad más o menos yo ya la trataría de vos / en mi caso por lo menos Nos enunciados em (15) temos casos de objeto nulo com referente [-determinado. que. FERNÁNDEZ SORIANO. 1999) e na variedade de Montevidéu (GROPPI. 1986. constituiriam o tipo de antecedente com o qual essa categoria vazia seria possível nas variedades de espanhol em geral (CAMPOS. (13a) E: pero claro // ¿y tenés pasaporte / el pasaporte? o r t e me lo saqué sí I: e l pasap pasapo e p o r t e pero lo considera una necesidad y tiene tendencia (13b) I: (. -específico].. como vimos.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 39 Os enunciados em (13) e (14) constituem ocorrências de clítico cujo referente é [+determinado. 1997). (15a) I: (…) porque yo he comido piza en bares / Ø he comido en otras casas escuchado mil historias de gente que ma // he (15b) I: (…) yo por suerte nunca he tenido p ro b le lema Ø ha tenido pero / yo no no no Ø he tenido así (15c) E: y en el jardín ¿tenés plantas plantas? I: sí / en el fondo Ø tenemos sí / (…) cio nes o no? (15d) E: ¿y en navidad también tenés v a ca cacio ciones I: no / en navidad no / Ø tengo únicamente el veinticinco de diciembre no trabajo porque igualmente es un feriado <ininteligible/> (15e) amig os E: listo / y<alargamiento/> y bueno tenés ¿amig amigos os? me imagino I: Ø tengo <risas = “I”/> . -específico]. sendo os antecedentes dos enunciados em (14) sintagmas nominais encabeçados por quantificador.

) (16c) I: (…) siempre le hubiera gustado tener una ne nena e int icinc o lo pasamos con la madre de mi marido acá (17a) I: (…) todo bien tranquilo y<alargamiento/> e l v ve inticinc icinco / en Montevideo / es viuda hace unos años / Ø pasamos con ella y la hija soltera vive con ella (…) (17b) I: (…) yo<alargamiento/> hace tres años atrás no sabía manejar una computadora / tenía miedo o mpu ta dor a y<alargamiento/> al empezar este curso<alargamiento/> me gustaba lo que era el diseño pero a la c co mputa tad la odiaba por el simple hecho de que no Ø conocía y me parecía más difícil de lo que era // y fui a hacer este curso medio a regañadientes y cuando me quise acordar estaba <vacilación/> ya estaba manejandoØ Ø y era mucho más fácil de lo que pensaba (…) (17c) nú E: ¿y tienen una comida típica para Navidad o van cambiando e l me menú nú? I: no Ø vamos cambiando de acuerdo al estado de ánimo de<alargamiento/>l que recibe / ulc es o los b udín ing lés / o a veces Ø preparaba mi (17d) I: (…) mi madre siempre preparando o los pan d dulc ulces budín inglés abuela y los mandaba para allá (.40 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Entretanto. Os enunciados em (16)-(18) apresentam ocorrências de objeto nulo [+determinado. sendo que os enunciados em (16) constituem sintagmas nominais encabeçados por quantificadores.. -específico]. Nos enunciados (17a). 1999). constituem contextos estruturais em que o objeto nulo ocorre nas variedades do Paraguai e da Serra do Equador. além da ocorrência do objeto nulo. os em (17) sintagmas nominais encabeçados por determinantes e os em (18) sintagmas nominais encabeçados por quantificador e determinante.. variedades estas que apresentam objetos (16a) nulos em contextos mais amplos (FERNÁNDEZ ORDÓÑEZ. conforme vimos..) crema / pero un he hela lad de hela lad e r so na (16b) I: y<alargamiento/> suponete / si es una p pe sona determinado ca<alargamiento/>rgo en el en el área laboral te digo / por ejemplo / este Ø trato de usted na / y no Ø tuvieron y bueno (. que.. construções com objeto direto e indireto e sentenças adverbiais..) mi madre así <vacilación/> no se compraba un he hela lad nos ayuda / y tú sabes que no / yo te Ø hago en casa de lo que tú quieras / de chocolate / de ma yo<alarg amie nt o/>r u ocupa may o<alargamie amient nto/>r no / porque / la do d e he la d e ría no te Ø puedo comprar </cita> (.) e nt e ma yo r / por costumbre Ø trato de usted (17e) I: ahí lo trato de usted / no tengo mucha onda con la g ge nte may (18a) / la piza (18b) I: (…) ahora me tocó esto yestee y bueno / y<alargamiento/> lo primeros días fueron muy osas más e le me ntales no Ø podía hacer (…) podía / las c cosas ele leme mentales sobrellevé lo mejor que pude / los vestirme bravos porque ni bañarme podía sola / estee no podía nada / ni I: hace tiempo que no lo hace más / desde que falleció mi padre hace / veintiún año no / ella o midas case r as // dejó de hacer t o das esas c co caser no Ø hace más // lo que hace los domingos / de tradición así . -específico]. la d o en la heladería <cita> porque Miguel I: (. além de objetos nulos em referência a antecedente [-determinado. encontramos essa categoria vazia com referente [+determinado. (17b) e (17d). em que o sintagma nominal antecedente é encabeçado por determinante. -específico]. o referente também é retomado por clítico. o que revela variabilidade na intuição dos falantes. assim como com referente [+determinado. Esses dados contrariaram nossa hipótese inicial de que o objeto nulo na variedade de Montevidéu estaria restringido a antecedente [-determinado.. +específico].. Observamos que algumas das construções com objetos nulos ocorreram em estruturas de topicalização. -específico]..

em que o sintagma nominal antecedente é encabeçado por determinante. Em (20a). observamos que a retomada do referente por clítico constitui a forma mais recorrente.. (19a) I: (.. Algumas considerações sobre os dados Os dados observados revelam que na variedade de espanhol de Montevidéu os objetos Esses dados parecem sugerir que haveria um processo de variação linguística nessa variedade de espanhol. . nossa hipótese é de que haveria uma coexistência de gramáticas (CHOMSKY. sendo que em (19) o sintagma é encabeçado por quantificador.) (19b) I: (…) entonces eeh <vacilación/> Belén ahora por ejemplo estudia en <vacilación/> en unos lib ros no donde si la tarea es sintetizar la información / eeh <vacilación/> nos ahogamos porque libr no hay lo que es sintetizar porque están previstos para que el niño <énfasis> ya </énfasis> Ø tenga resumido (19c) I: nunca he llegado al <risas = “todos”/> / este<alargamiento/> / cuando llegué a los / unos cub ie r t os creo que Ø tenía Devoto / ya habían aparecido los táper / así cubie ier los cubiertos (…) (19d) E: ¿ahí en el Parque Rodó? I: sí / una plazoleta chiquitita / estee / 21 de Setiembre / se engancha con Bulevar ee l las / Ø violaron / eran las seis de la mañana España por ahí / a una d de el (20a) I: (…) digo / acá tenemos un solo canal de televisión que pasa información sobre <siglas = [sída]/> SIDA </siglas> / o / no lo mira nadie sobre / sobre drogas / que es e l canal cinc cinco E: <tiempo = “30:35”/> ah no I: <ininteligible/> ¿quién Ø mira? muy pocas personas miran canal cinco // (. a que me quedé sin 4. apesar das ocorrências de objeto nulo.) yo ya me quebré el año pasado un pie / no fue acá pero / pero quedé E: ¿dónde fue? / ¿qué te pasó? I: y yo me Ø quebré en la Intendencia / (. Por outro lado. contextos nos quais esperávamos encontrar apenas clíticos.. A partir disso.. +específico]. +/-específico]. -específico]. ocorre variação entre o clítico e o objeto nulo. como também com referente [+determinado. o que contrariou nossa hipótese inicial.. nulos seriam possíveis não apenas com referente [determinado..ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 41 Nos enunciados em (19) e (20) os objetos nulos têm como referente um sintagma nominal [+determinado. A seguir apresentamos algumas considerações e possibilidades de análise.) (20b) ea E: ¿y cómo afecta eso t u tar tarea ea? ¿afecta en algo? I: <tiempo = “6:00”/> a veces Ø afecta en la labor en el aspecto de que no tenemos totalmente una / una resolución (…) Os dados que apresentamos constituem algumas ocorrências de realização do objeto pronominal acusativo de 3ª pessoa por clítico e objeto nulo encontrados nas entrevistas analisadas.

Hector (1986): Indefinite object drop. inédita. . LIGHTFOOT. p. Ian & KATO. & REIS. 354-359. Nossa ideia seria considerar a gramática que permite objetos nulos em contextos mais amplos como uma pista sobre a possibilidade dessa categoria vazia nas línguas naturais e a gramática dos objetos nulos restringidos como base para a análise da gramática não nativa. Em: BOSQUE. (2003): Lugares de interpretação do fenômeno da aquisição de línguas estrangeiras. p. 53-70. 163-176. Angela (1997): Manual de gramática del español. FERNÁNDEZ SORIANO. Violeta (orgs. Campinas – SP. Noam (1981): Lectures on Governing and Binding. Violeta (orgs. Referências bibliográficas _____. A análise quantitativa revelará os contextos linguísticos que favorecem o clítico e o objeto nulo e a análise das diferentes faixas etárias poderá indicar se se trata de uma variação estável. CHOMSKY.): Hispanismo 2000. Campinas – SP. 2001). Em: ROBERTS. Editora da Unicamp.42 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 1999. _____. GONZÁLEZ. S. (1999): O Programa Minimalista. Ignacio & DEMONTE. Em: TROUCHE. v. Em: BOSQUE. ao contrário do que ocorreu no português brasileiro (cf. FERNÁNDEZ-ORDÓÑEZ. p. São Paulo. n. 36. Pronombres átonos y tónicos. 387-408.2: Español como lengua extranjera: investigación y docencia. DL/FFLCH/USP. Cultura y Deporte/ ABH. Charlotte (1993): O enfraquecimento da concordância no português brasileiro. Editora da Unicamp. Carlos (SP): Claraluz. laísmo y loísmo . as ocorrências de clíticos revelam que a ampliação na possibilidade de objetos nulos não estaria relacionada à perda do clítico. p. _____.): Gramática Descriptiva de la Lengua Española. p. Olga (1999): El pronombre personal. 17. Em: BRUNO. publicado em forma de CD Rom. Raposo. Entretanto.): Ensino-Aprendizagem de Línguas Estrangeiras: reflexão e prática. Neide Therezinha Maia (1994): Cadê o pronome? O gato comeu. Campinas (SP): UNICAMP. Os pronomes pessoais na aquisição/ aprendizagem do espanhol por brasileiros adultos. Em: Linguistic Inquiry. n. Por alguma razão essa variedade do espanhol teria passado a permitir objetos nulos com referentes [+determinados]. (1999): Sobre a aquisição de clíticos do espanhol por falantes nativos do português. _____. 1. André Luiz G. Neste momento estamos investigando a natureza dessas categorias vazias. Brasília: Ministerio de Educación. (2001): La expresión de la persona en la producción CAMPOS. Em: RILCE: 14. Tese de doutorado. Pamplona: Universidad de Navarra. GALVES. 1317-1391. 1209-1273.): Gramática Descriptiva de la Lengua Española. E. Madrid: Espasa. Ignacio & DEMONTE. ________ (2001): Ensaios sobre as gramáticas do português. 239256. Inés (1999): Leísmo. Campinas: UNICAMP/IEL. Mary (orgs. _____. 243-263. DI TULLIO. (2005): Quantas caras tem a transferência? Os clíticos no processo de aquisição/aprendizagem do Espanhol/Língua Estrangeira. _____.): Português brasileiro: uma viagem diacrônica. sendo uma gramática a que permite o clítico e a outra a que possibilita o objeto nulo em contextos mais amplos. p. 1999) nessa variedade da língua. Buenos Aires: Edicial. Em: Cadernos de Estudos Lingüísticos. Lisboa: Caminho. Lívia de Freitas (orgs. (1998): Pero ¿qué gramática es ésta? Los sujetos pronominales y los clíticos en la interlengua de brasileños adultos aprendices de Español/LE. Trad. Madrid: Espasa. 1993. p. p. Em: Estudos Lingüísticos XXXIII. GALVES. Formas y distribuciones. de español lengua extranjera de estudiantes brasileños: perspectivas de análisis. Fátima Cabral (org. Dordrecht: Foris.

Madrid: Arco Libros.htm. Marwin (2006): Fundamentos empíricos para uma teoria da mudança lingüística. (1997): The now and then of L2 growing pains. Malden. LABOV. ________ (2003): Monosyllabic place-holders in early child language and the L1/L2 ‘Fundamental Difference Hypothesis’. Cardoso. 65-85. As entrevistas analisadas da variedade de espanhol de Montevidéu estão disponíveis em http:// www.): Gramática Descriptiva de la Lengua Española. Uriel. LACA. and e volution . de Marcos Bagno. Juana Muñoz (1996): La adquisición de las lenguas segundas y la gramática universal. Tese de Doutorado. de Marcos Bagno. LICERAS. Trad. Papers from the 6th Hispanic Linguistics Symposium and the 5th Conference on the Acquisition of Spanish and Portuguese. apenas quantificam. Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. change. 891-928. esses elementos determinariam a referência de um sintagma nominal por terem como característica semântica a definitude. Somerville. LIGHTFOOT. Em: BOSQUE. os demonstrativos e os possessivos. Em: KEMPCHINSKY. seriam determinantes o artigo definido. Violeta (org. Brenda (1999): Presencia y ausencia de determinante.: Cascadilla Press. 1999). mas não identificam um referente. WEINREICH. Amsterdam: John Benjamins. 4 Nos baseamos na classificação de Leonetti (1999) para distinguir determinantes e quantificadores. 2 3 Exemplos extraídos e adaptados de Groppi (1997:93).uy/academiadeletras/MarcoPrincipal. Conforme esse autor (LEONETTI. FFLCH-USP. 258-283. practice and acquisition. Paula & PIÑEROS. David (1999): The development of language. . Carolina R. Em: EUROSLA ’97. LEONETTI. p. LABOV. 317350. Ignacio & DEMONTE. Assim. Proceedings. Neide Therezinha Maia González pelo Programa de Pós-Graduação em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-Americana da Faculdade de Filosofia. Quanto aos quantificadores. Manuel (1990): El artículo y la referencia. HERZOG. _____. São Paulo. Yves: Romance linguistics: Theory and acquisition. Views on the acquisition and use of a second language. São Paulo: Parábola Editorial. _____. processo n° 146998/ 2010-3. p. (2002): Spanish L1/L2 crossroads: can we get there from here? Em: PÉREZ-LEROUX. p. 2002. William (2008): Padrões Sociolinguísticos. que. Isso significa que identificam um referente. Mass: Blackwell.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 43 GROPPI. Trad. Carlos Eduardo: Theory. p. o que não implica que esse referente seja conhecido. Mirta (1997): Pronomes pessoais no português do Brasil e no espanhol do Uruguai . esses seriam os numerais e os determinantes indefinidos.gub. (1999): Los determinantes. Barcelona: Universitat Pompeu Fabra. Madrid: Espasa. Dra. Para o desenvolvimento dessa pesquisa contamos com uma bolsa do CNPq. Marta Pereira Scherre. São Paulo: Parábola. Madrid: Síntesis. Ana Teresa. Mass. por carecerem de definitude.mec. William. _____. ROBERGE. Madrid: Taurus. Notas 1 Nossa pesquisa de doutorado está sendo desenvolvida sob a orientação da Profa. Acquisition.

(2) Hay una película que Óscar quiere ver. um sintagma determinado como em (4) teria uma referencialidade enfraquecida. de modo que o SN será [+específico] apenas se fizer referência a um objeto determinado. consideramos que um sintagma nominal encabeçado por esse quantificador pode ter um referente identificável e ser [+específico]. De acordo com Leonetti (1999). embora não se possa identificar um referente. em (1) ‘una película’ será [+específico] se tiver o sentido de (2). careceriam de definitude. Por outro lado. um sintagma [+definido] não significa que seja [+referencial] e um [-definido] não seria necessariamente [referencial]. Assim. se a especificidade for vista a partir de critérios psicológicos. (1) Óscar quiere ver una película. a ausência de determinante implica que o sintagma seja [-referencial]. 30 a 45 anos. (4) Lucas quiere el coche más rápido del mercado. 19 a 29 anos. Assim. sendo elas. 6 Os informantes das entrevistas foram divididos em quatro diferentes faixas etárias. . 46 a 59 anos e 60 a 89 anos. 7 Apesar de classificarmos un(os)/una(s) como quantificadores. que. Contudo. ainda que desconhecido pelo falante. conforme Leonetti (1999). o sintagma nominal un yate em (3) seria considerado [+específico] por referir-se a um objeto determinado. (3) Ernesto quiere comprarse un yate. 1990).44 5 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Consideramos especificidade com base em critérios lógicos (LEONETTI.

. en contraste con la considerablemnte mayor atención que reciben los autores que escriben en prensa y el género del articulismo literario como fenómeno de hibridez (análisis en los que no se toman en cuenta las significaciones que el género sexual comporta en ellos). privilegió el trabajo de los “grupos de autoconsciencia” . a partir de la lectura de dos realidades epistémicas (el feminismo ilustrado y la literatura neomoderna) que en ellas convergen y que dan cuenta de la particular significancia del género en esta clase específica de comunicación. Universidad Nacional de La Plata (UNLP) Teniendo en cuenta el escaso número de estudios que se detienen en particular en el análisis de la columna de “autora”. en la teoría y en la praxis. que reiteran la gran división del movimiento posterior a Simone de Beuvoir en Francia y en Estados Unidos: el feminismo de la diferencia y el feminismo de la igualdad. del movimiento feminista de la década del setenta. y para quienes la igualdad de derechos entre el hombre y la mujer no constituía una urgencia en la agenda de cambios por lograr (Martínez Ten et al. cultural y económica que protagonizara España desde la transición a la democracia en adelante debe una parte de su desarrollo a las intervenciones. con una presencia menos contundente en la península. pasando de un estado de carestía de los derechos de ciudadanía a la adquisición de un cúmulo de reivindicaciones que lograron sacarla de la “minoría de edad legal” (Romero Pérez. 2011. La organización de grupos politizados de mujeres urgía en los setenta y principios de los ochenta y gracias a ellos la situación cívica de la mujer española se modificó de manera radical.340) y de la adquisición de una serie de derechos impensables unos años atrás. El primero de ellos.1 En el ámbito del feminismo teórico. visto además con ojos despectivos tanto por la derecha franquista como por la izquierda que retornaba a la escena política. p. 2009).ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 45 EL PENSAMIENTO NEOMODERNO EN LAS COLUMNAS DE ROSA MONTERO Y ROSA REGÁS Adriana Virginia Bonatto Centro Interdisciplinario de Investigaciones en Género (CINIG) / Instituto de Investigaciones en Humanidades y Ciencias Sociales (UNLP .CONICET) Facultad de Humanidades y Ciencias de la Educación (FaHCE). en los . La modernización social. se distinguen dos tendencias bien delimitadas. 2006). proponemos aquí un acercamiento a las particularidades del discurso público dirigido de dos autoras españolas.escasamente reconocido por la historiografía acerca del periodo mencionado. y que por por entonces era llamado “movimiento de liberación de la mujer” (León Hernández.

se contraponen al programa emancipatorio desarrollado por la otra gran corriente. se presenta como la expresión feminista del posestructuralismo teórico y del posmodernismo artístico: lectoras atentas y críticas del psicoanálisis lacaniano y seguidoras del pensamiento estetizante de Luce Irigaray. al cual consideran partícipe de un proyecto inacabado. En la situación posmoderna el mundo se percibe como “confuso y declinante” (1996. 2011. se vuelve. 4 De acuerdo con Gonzalo Navajas.43) y proponen que la única forma de lograr la emancipación es mediante una verdadera y transformadora crítica al androcentrismo. movimientos con fuerte sustento filosófico que apuntan a la integración cultural y a la igualdad de los grupos étnicos oprimidos. La recuperación de premisas ilustradas en un contexto posmoderno es comparable al movimiento paralelo en el ámbito literario. quien creó en la década del ochenta el Seminario Permanente “Feminismo e Ilustración” en la Universidad Complutense de Madrid. al multiculturalismo de Amorós y al islamismo de Rosa Rodríguez Magda. La corriente de la diferencia. el feminismo de la igualdad cuenta en España con una trayectoria académica definitivamente asentada y reconocida.20) y la invención de una metáfora aglutinante que preserve la visión ilusoria de unidad y de desarrollo progresivo es una empresa inconcebible.2 Desde un punto de partida teórico que considera que el único modo de superar la desigualdad dentro del patriarcado es buscando estrategias de homologación de las mujeres con el sexo-género que detenta el poder. aspectos en los que encuentran efectos perjudiciales para los grupos femeninos menos favorecidos (Romero Pérez. dentro y fuera de España. Las feministas de la igualdad hunden sus raíces en el pensamiento ilustrado. la literatura que se escribe a partir de la década del ochenta pauta el inicio de una nueva modalidad epistémica que se caracteriza por la aserción cognitiva y axiológica y que se aparta progresivamente de la configuración posmoderna.45). que en España ha venido impulsando los cambios más contundentes en relación con las políticas de igualdad e inclusión durante las últimas décadas. en la que se revela la impostura masculina de apropiarse fraudulentamente de lo universal. retoman sus disquisiciones en torno a la vindicación. caracterizada esta última por la indeterminación epistemológica. Las ramificaciones de este pensamiento se extienden al ecofeminismo de Alicia Puleo. de regreso parcial a los supuestos de una episteme moderna. p. p. 2011. y sus principales impulsoras son Amelia Valcárcel. 2011. en la novela . 2006. por no haber permitido la emancipación de las mujeres. p. especialmente fuerte en narrativa. creadora del Feminismo de Estado3 y Celia Amorós. Desde este punto de vista. y sin delimitaciones valorativas específicas. la negatividad axiológica y la heterogeneidad formal (Navajas. de autoinstituirse en representante de lo irreductiblemente humano (2006. el feminismo de la igualdad. p. 1996). en cambio. así como a la interpelación social y política en torno al cuidado del medioambiente y al uso racional de la tecnología. p.346-347). que han producido obras fragmentarias y no conclusivas. Herederas del pensamiento filosófico de Simone de Beauvoir. con una proyección teórico política destacada en todo el ámbito español (Romero Pérez. en sus planteos generales. p. 2011.2).341). p. p.17-19). 1996. es decir.46 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS que se abordaron temáticas como la sexualidad. caracterizado por Gonzalo Navajas como estética neomoderna (Navajas. a la necesidad de las mujeres de participar en lo definido como lo “genéricamente humano” (Amorós. la autoestima y la solidaridad (Romero Pérez.344). aunque limitado a grupos restringidos de mujeres cultas y lectoras de las nuevas tendencias provenientes del posestructuralismo francés y del psicoanálisis lacaniano (Sendón de León. abriendo un espacio inédito de reflexión y de acción.

p. la mitigación en las afirmaciones y los juicios de valor mediante el uso de fórmulas indirectas . 1996. Un yo que se constituye en una suerte de guía de multitudes con resonancias morales fuertes.69). absurdo. la literatura y la crítica hechos por mujeres y por artistas pertenecientes a minorías. ironía. los inmigrantes pobres y los niños. el cine. como los vencidos de la Guerra Civil. ambas han reflejado en sus relatos y novelas aspectos relacionados con la realidad desigual de la mujer y con la problemática de los juegos de poder que subyacen a las relaciones entre los sexos. en la clase o en la raza y en su constante despegue de los procesos de canonización estandarizada (Huyssen. 2004. Entre las características que se enumeran como propias del género femenino en el discurso público dirigido encontramos como predominantes la utilización del discurso cooperativo. la escritura periodística de estas autoras configura una voz femenina y un yo de enunciación que se reviste de dos tipos de autoridad: la de escritora y la de mujer. y ambas también se han mostrado comprometidas con las realidades de las identidades social y culturalmente marginadas. sátira. Estas características obligan a leer a estas autoras de modo diferencial dentro del vasto universo del articulismo literario. práctica definitivamente consolidada en España. en su tarea de exploración de la subjetividad basada en el sexo. p.61).183) en la que se experimenta con la posibilidad efectiva de alcanzar modos de conocimiento que rehabilitan la significación del lenguaje y la investigación ética (1996. 2009)5. Esta vertiente es además visible especialmente en el arte. p. como recurso para atraer la atención del interlocutor y comprometerlo en el tema tratado (Fernández Pérez. 2007. Nos interesa demostrar cómo en un mundo en que los valores dominantes son los impuestos por el mercado y la competencia. 2008. En los modos de llevar a cabo el ejercicio persuasivo. algunos creen encontrar diferencias sustantivas en las columnas de las escritoras mujeres (Fernández Pérez. p. En relación con el género columna de autor. 2011.83).244). 2007. se ha señalado que el subjetivismo más radical es una de las características que comparten quienes se dedican a esta actividad (Castellani. y Angulo Egea. 2008. Sin haber estado inscriptas oficialmente en ningún movimiento feminista. 2007. en las estrategias que se despliegan y en el tipo de diálogo que se establece con el lector. experimentación lingüística) y actitudinales (desde el compromiso abierto con causas sociales y políticas hasta el desenfado y la irrisión desconcertantes) con el fin de conectarse con el lector –aquél que fielmente acude a la columna como primer texto a ser leído del periódico (Castellani. p.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 47 contemporánea a una suerte de “potenciación del yo” (Navajas. que en la mayoría de los casos puede describirse como una prolongación de la escritura literaria: las obras de ficción resultan enriquecidas por las reflexiones diarias o semanales de un yo que afirma en la columna su punto de vista más personal y que en ella se toma todas las libertades retóricas (persuasión.65). de manera mucho más marcada que en la literatura de invención. y en que la saturación de la información. p.68)– en un tipo de comunicación en la que la persuasión pareciera constituir el objetivo primero y último. por sobreabundancia y por yuxtaposición acelerada de la oferta cultural y mediática. p. 2008.151). El cruce que proponemos entre pensamiento feminista ilustrado y literatura neomoderna nos sirve porque da cuenta del trasfondo cultural y epistémico que sostiene los procesos de construcción de un yo de enunciación femenino con características diferenciales en las columnas literarias Rosa Regás y de Rosa Montero. situación que no deja de lado la visión que muchos autores aducen de sus textos como ejercicios literarios (Grohman. Angulo Egea y León Gross. p. dan lugar a lo que Huyssen describe como los fenómenos posmodernos de obsolescencia planificada (Huyssen.

2 y Angulo Egea y León Gross. como etiqueta que. y que guarda al mismo tiempo una indiscutible orientación axiológica. dificultades de aprendizaje. El lenguaje es sencillo y coloquial. 2009. p. con la autoridad de la voz de escritora. nunca está ausente. demencia y muerte. en las columnas de Rosa Montero y de Rosa Regás se combinan ambos estilos y en este sentido pueden leerse como textos abocados a una construcción de imagen que cruza la expresividad femenina. p. suele subrayarse la captatio benevolentiae y la mitigación de las mujeres opuestas a un “yo dictatorial” y “agresivo” (Castellani. 2008. r e lat os histo de fro nte de vida. las apreciaciones afectivas con un uso considerable del diminutivo y de la hipérbole (Fernández Pérez.48 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS o de la ironía (Fernández Pérez. como así tampoco ocurre con la opción a una voz dictatorial o de autoridad como exclusiva del perfil masculino: como intentaremos demostrar. 2007. Anabel. En las columnas de Regás y Montero se observa con fuerza el trasfondo de un tipo de pensamiento que superador de las premisas de la configuración posmoderna. no obstante. 2007. 2011. p.59) y la proyección de “un ethos empático y situado entre los ciudadanos de a pie” (Angulo Egea y León Gross. Desde nuestro punto de vista. etcéctera).304). 2011. con un fuerte componente crítico. como veremos en los ejemplos citados a continuación: S e g ú n dec í a el i n f or m e . la búsqueda de la identificación. p. que tiene una hija. p. lo que implica convulsiones. p. ambas escritoras apuntan de manera programática a la preser vación de una instancia narrativa o enunciadora que recupera su posición de autoridad y de saber ante el lector a partir de la transfiguración subjetiva de las experiencias o de los hechos argumentados. su estilo fue progresivamente adaptándose al ritmo de las ideas de compromiso y de conciencia social hasta transformarse su voz en las últimas décadas en una perfecta mediadora encargada de elevar a rango público las voces silenciadas de los colectivos marginados (inmigrantes pobres. ubicada en un punto de mediación igualitaria con el otro . entonces. 2007.35) que les permite lograr una identificación exitosa con el lector. 2011. la no conclusividad y la ausencia de valoraciones específicas. (…) S o n hist o r ias d e la fr o nt era d e la v ida. p. e n los límit es el bo de oscurida idad. pueblos africanos. la pormenorización descriptiva antes que la jerarquización (Fernández Pérez. q ue sólo enf nfe meda dad de Pr imer Mund undo que af e c tan al 10% d e la p obl a ción d e l plane ta.69) en las columnas firmadas por voces masculinas. con la terrible enfermedad de Niemann-Pick en su versión precoz y más brutal. nt r as q ue e l 90% d e los e nf e r mos r estant es mie restant estantes mient ntr que el de enf nfe sólo disp o nían d e un 10% d e los r e cur sos. enfermos terminales. en límites . p.67). Es el caso de José María Hernández. legitima un saber y un pensamiento específicos en los que la problemática de género. pero las rutinas sanitarias impiden la distribución de los mismos a personas desesperadas que ya no tienen tiempo que perder. (…) dispo de de re cursos. el uso del dialogismo o de la “retórica del consenso” como soporte para la cooperación en una estructura comunicativa igualitaria no es característica sólo de la columna femenina. Abocada a una escritura que en un principio privilegiaba el componente lúdico y el comentario inesperado. En contra de la fragmentación. En general. mujeres golpeadas. irónico y reivindicativo (Angulo Egea. además. la preferencia por el tono testimonial y confesional. declive intelectual. en el vasto espacio de la palabra pública. En las columnas es claramente visible la construcción de un proyecto individual asertivo que continúa y completa el desplegado en las obras de creación literaria y que formaría parte de la episteme neomoderna. directo y desencantado (Villar Hernández.66). A veces sí que existen medicamentos nuevos. el 90% d e la fo de ig a ción sanitar ia m undial se c e nt r aba e n in v est inv estig iga sanitaria mundial ce ntr en las e nf e r me da d es d el P r ime r M und o. pérdida de tono muscular.36). fe de po ación de planeta. La participación de Rosa Montero en la sección de columnas de El País se remonta a los inicios de este periódico en 1976. re latos so brecogedores d e pa dr es c onmo vedores y ob de ad re co ov gue r r e r os q ue l uc han p or e l fu t ur od es us hi jos guer que luc uchan po el fut uro de sus hijos en e lb o r d e mismo d e la oscur ida d.

(…). (…) (“Una vida que merezca ser llamada vida”. ha c e mos t o d o lo p osib le p o r no hec o. En contraposición a una narrativa que en sus cuentos y novelas privilegia el universo de la intimidad y la exploración de las complejidades internas de los personajes (Benson. en fin. como si la pobreza no tuviera nada que ver con sus Ef e c t i v ame nt e: la p o b r eza d el m und o decisiones. por su parte.Ef Efe ament nte: po de mund undo es fr uto d e las p olít icas ne olib e r ales d e est os fru de polít olíticas neolib olibe de estos países y los ci uda danos r esp o nsab les q ue q uie ren ciuda udadanos resp espo nsables que quie uier a cabar c on e l la sab en q ue no disp o ne n d e más co el sabe que dispo nen de ar ma q ue una p ro t esta q ue ha d e mo vers e rm que pr te que de ov ne c esar iame nt ee n la ar e na p olít ica nec esariame iament nte en are polít olítica ica. para hacer denuncia política y social. el subrayado es nuestro). el subrayado es nuestro). en 1994. inició tardíamente su actividad columnista primero en El País. el subrayado es nuestro). El País 13/09/2011. y luego con una columna dominical que aún continúa en El Correo de Bilbao. de aquellas personas que. filo de la oscuridad”. Y ese chillido se abrió paso y exigió su lugar. y ha entrado en este espacio por derecho propio y sin florituras estilísticas. lo importante es mantener la familia unida». El Correo de Bilbao 28/10/ 2007. De héroes y heroínas tenaces y discretos con los que convivimos sin apenas darnos cuenta de que están iosame nt e no a d v e r t imos q ue ahí. (…). (…) . Madre y niño están en cuidados intensivos. de tal modo que se tiene la impresión de que la lucha contra la pobreza. el subrayado es nuestro) Rosa Regás. Esta es. (“Guerreros en el posib osible de raz azo nable. 2006). La madre de Liliana vive en Medellín y aún no ha podido ni siquiera escuchar la voz de su hija. «aguanta hija mía aguanta. por funcional. Pues yo hoy tenía preparado un artículo muy elaborado y algo sarcástico sobre el disparate de los recortes a los profesores. me contó una de esas historias modestas y urgentes que son como un chillido. (…) Me pregunto. […] p e r o cur curiosame iosament nte ad que ha y batal las m uc ho más g r andiosas y difíciles hay batallas muc ucho gr q ue se están lib r and o e n la pue r ta d e e nfr e nt e. el trato despótico y sobre todo el olvido a que la justicia sometía a quienes vivían en condiciones infinitamente más precarias. están de alguna manera limitadas en su funcionamiento. Un país donde una mujer se quedaba sin hijos si osaba separarse de su marido. desde la ciudadanía. es casi nada en comparación con las políticas que llevan a cabo los gobiernos de los países ricos. pero resulta que ayer una lectora. La hospitalizaron el miércoles por una cesárea de urgencia a causa de una complicación llamada preclampsia. El País 13/11/2011. El País 30/10/2011. D e he ch o . hac to posib osible po en t e r ar nos. (“Clamores”. Con una retórica que no echa mano ni de máscaras ni de ambigüedades identitarias (Benson. Esto habland lando de div sidad funcio nal.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 49 d e lo p osib le y d e lo r az o nab le. (“Pobreza cero”. Est o y hab land o d e la di v e r sida d te arnos. La justicia no protegía nunca a la mujer y la religión le aconsejaba paciencia. la única que puede forzar a que algún día lleguen a buen fin las decisiones que los gobiernos toman de vez en cuando para acabar con la pobreza en un plazo determinado (que hasta hoy nunca se ha cumplido). Cristina. que viven pendientes de otros asuntos. y Liliana tuvo que volver a ser operada el sábado. es decir. Esto ocurría en las clases sociales llamadas ‘elevadas’ porque la falta de libertad. y que señala injusticias y olvidos históricos. Hoy voy a hablar de un puñado de guerreros. se asemejaba mucho más a una situación de esclavitud. etcétera). ya fuera porque su amor se había acabado o incluso porque recibía constantes malos tratos. pues. colombiana. vive en Madrid. libr ando en puer de enfr nfre nte. con el fin de llevar a cabo una suerte de misión pedagógica que instruye acerca de los deberes cívicos y humanos. si la ciega burocracia que defiende como perro cancerbero nuestros privilegios podría dejar de ser tan ciega. 2006). Regás utiliza la columna como medio Nací en un país y en una época en que para abrir una cuenta corriente donde ingresar el primer sueldo de mi primer trabajo. la prosa del articulismo de Regás se revela con un tipo de autoridad que no deja dudas acerca de la legitimidad del saber de quien enuncia: […]El mundo divide de un plumazo el comportamiento del ciudadano y el de sus gobiernos. la historia pura y dura: Liliana. parálisis musculares o cerebrales. razones distintas (discapacidad intelectual. (…). tenía que ir armada de la venia marital.

s o b r e n u e s t r o p a p e l e n ex te or en c o nflic t os b r u tales c o mo e l Sáhar a o P alest ina. Universidad de la Laguna / SLCS. Está por comenzar la batalla electoral -de hecho este periodo preelectoral que vivimos ya es pura campaña. te niend ndo en memo mor en la e xp e r ie ncia las v e c es q ue lo fuimos nosot r os exp xpe iencia ve que nosotr en e l sig lo X X y no sólo por razones políticas. también e crít icas so e c es por e lt r a dicio nal. 2000. con proyectos de leyes que impidan descalabrar más aún el paisaje de nuestras costas. en cambio. sino sobre las ideas? (…). Estas columnas se articulan.110). Ideas sobre lo que ha de ser la educación. María (2009): Las mujeres en el periodismo literario: tres casos paradigmáticos. Id eas so sob just usticia. asist imos a dest este ya dicta tad ura. 13/09/2011) de aquel que no puede hacerse escuchar porque no parece poder acceder a marcos institucionales que hagan su voz inteligible y traducible a demandas legislativas de primer orden. Madrid: Ediciones Cátedra. sino el siglo XX por miseria pura y dura y anhelo de labrarnos una vida más digna. el subrayado es nuestro). nser de Tie ier que hemos re cibid ido d e los ríos y d e los mar es de mares es. igualdad con el otro que padece pero de autoridad con el lector que lee el periódico. o aquello que Montero denomina “chillido” (“Clamores”. (“Ideas”. La capacidad de introducir y de vindicar la voz del otro. nflict br co el Sáhara Palest alestina. en consonancia con la línea neomoderna. con la vertiente del feminismo de la igualdad como referente teórico que entiende que sólo mediante el reconocimiento de una razón crítica la lucha por la igualdad de las mujeres (ampliada a la reivindicación de las minorías. (…) (“Día de la mujer”. los medios profesionales y materiales para incrementar la eficacia de los bre programas y el interés de los alumnos. o id eas q ue er do em de qu j ust ifiq ue np or q ué d e f e nd e mos países carg a d os ustifiq ifique uen po qué de nde carga d e ult r ajes a los D e r e c hos H umanos y nos ultr De Humanos ale j amos d e ot r os q ue int e ntan camb iar e l cur so alej de otr que inte cambiar el curso dic tat o r ial d e s u p r o pia hist o r ia. y contraponiéndose a la vertiente del pensamiento y la literatura feminista en los que se pone el acento en las diferencias y en lo particular produciendo retóricamente el efecto de una diseminación y pulverización del sujeto constituyente (Femenías.y lo único que oímos son promesas de cuantiosos regalos. y tamb ién juzg uzga po el homb mbr cav nícola. políticas y éticas que deben ser puntualizadas por la voz autorizada de la escritora que se ubica en relación de . asistimos una c o nstant e discr imina ción d e la m uje r q ue co nstante discrimina iminación de muje ujer que es j uzg a da p or e l ho mb r e ca v e r níc ola. c o mo dig na d soe el tr dicional. alabanzas de la propia gestión y hundimiento de la del contrario. el fomento de la dignidad y autoridad de los maestros. Quisiéramos un debate de ideas sobre qué entienden por cultura. t e nie nd oe n la me mo r ia y e n inmigr antes. Referencias bibliográficas AMORÓS. Celia. co digna de críticas le v an p or d e lant e q ue o f e nd en s u dig nida d y se l de lante of nde su dignida nidad lle lev po la d e q uie n las e mit e . (2006): La gran diferencia y sus pequeñas consecuencias… para las luchas de las mujeres . El de quie uien emit mite Correo de Bilbao 06/03/2011. las columnas de opinión de estas autoras pueden leerse como un modo particular de mediar en el complejo mundo de la voz pública a partir de la convicción de que aquello de lo que se argumenta responde a urgencias sociales. En conclusión. p.50 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS n un país […]. Id eas so sob p o l í ti c a e xt erio r. Po r q ue inc incl que vi en l uso los q ue v i v imos e q ue ha d est er r ado y a la dic ta d ur a. (…). I d eas so b r e la dictat tato de su pr histo Id sob c o nse r v a ción d e la T ie rra q ue he mos r e cib id o. r e f e r ida p or e je mplo éxitos. re po eje jemplo a los inmig r ant es. El País. la defensa de los derechos del animal y el cuidado del ecosistema) puede cumplir con el proyecto ilustrado de emancipación humana. supone la utilización de la cualidad tradicionalmente femenina de ‘mediadora’ pero desde un lugar lo suficientemente alejado del margen como para imponer ideas y generar la toma de conciencia. por pon e r sólo d os ej e mplos. (…). revelando así una apropiación asertiva de la capacidad argumentativa racional del yo.Pero ¿no echamos de menos un debate. El Correo de Bilbao 17/02/2008). además de lucirse en los estrenos y las exposiciones y conseguir que los medios hablen durante dos días de tan grandes bre j ust icia. ANGULO EGEA. En: Actas del I Congreso Internacional Latina de Comunicación Social. no sobre lo que nos dan o nos van a dar.

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p. 5 Las escritoras analizadas por los estudios citados son Magda Donato. 2011. Elvira Lindo. p. además. la dispersión tentadora y cumulativa del posmodernismo” (Gracia. del aborto inducido en 1985. por ejemplo. en general. Maruja Torres. 299-327. Teodoro (dirs.52 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS ANGULO EGEA. María y LEÓN GROSS. Carmen de Burgos. Cádiz: Ediciones APM. Jordi Gracia anota acertadamente que las variables terminológicas apuntan a un mismo fin: “identificar una defensa de valores que no han caído abatidos por la aguda conciencia relativista del desconstruccionsimo ni. 2011 y Sendón de León. las representantes de esta corriente han interpelado el espacio político mediante propuestas concretas y guiadas de cambio. . todos promulgados gracias a la Constitución de 1978. Si bien hay quienes incluyen este movimiento de la literatura hacia la narratividad y hacia la recuperación de un yo coherente y unitario en las filas de un posmodernismo estético menos experimental. Notas 1 Nos referimos. que asegura cupos para mujeres en los cargos políticos. Josefina Carabias. entre otras. por parte de Victoria Sendón de León (Cf. Carmen Martín Gaite. y de los planteamientos en torno a la creación de un espacio simbólico alternativo al patriarcado por medio del arte y de los medios de comunicación. Concha Espina. el del uso de anticonceptivos en 1983 y la legalización. Carmen Rigalt. Rosa Montero. al derecho al divorcio en 1981. Carmen Rico Godoy. Diez mujeres esenciales en la historia del articulismo español . 220). Gabriela Wiener. 2 Desde una perspectiva basada en la reivindicación de lo específicamente femenino y en la revalorización de las relaciones matrilineales. y candidaturas a cargos políticos que modificaron el escenario de posibilidades durante la democracia.): Artículo femenino singular. Clara Sánchez. con restricciones. p. Romero Pérez.18) 3 4 Impulsora. 2000c. como fue el caso de la candidatura de Lidia Falcón al Parlamento europeo en 1999. de la Democracia Paritaria.

1) articula a través de la idea de evocación la cual permite una manera diferente de tratamiento del cuerpo humano. espacialización y focalización. el propósito de este trabajo es analizar el proceso enunciativo de la . su modalización. para articular una conciencia ética. presentaban el cuerpo como escenario de agresión. es decir. esto con el ánimo de develar los vestigios de las voces del individuo. esta última entendida desde la perspectiva teórica de Ramírez (2008) como el proceso de actualización del lenguaje artístico en la puesta en escena de la obra misma. a través de sus esculturas y montajes. La evocación del cuerpo ausente En su decir artístico. la sociedad y la cultura que se entretejen a través de una manifestación estética. el proyecto estético de Salcedo se basa en el convencimiento de que. el arte debe dirigirse a la representación como tema político. tal como lo indica Malagón (2010).ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 53 FORMAS DE ENUNCIAR LA VIOLENCIA EN LA OBRA DE DORIS SAL CEDO1 SALCEDO Alexander Castillo Morales Instituto Caro y Cuervo Adriana Yamile Suárez Reina Universidad Libre El fenómeno de la violencia hace parte de la cognición social por lo cual este se considera como un producto de interacciones personales que hacen posible toda una red de sentidos vinculados en la semiosis social. Uno de esos discursos es el artístico. sf. párr. una serie de meditaciones acerca del tema de la violencia. En respuesta a la experiencia de vivir en un país sujeto a la violencia indiscriminada y al terrorismo. (MEREWETHER. la obra de la escultora colombiana Doris Salcedo. mientras que en el caso de Salcedo se hace como realidad ausente. así como también sus tácticas y estrategias. La no representación física hace que la focalización se aleje de cierto sensacionalismo que se produce cuando el primer plano presenta la atrocidad y el desgarro físico. En palabras de Merewether: violencia en cinco obras de Salcedo a partir de dos ejes: las condiciones de producción de la obra y su situación de enunciación. sentidos que toman forma en una multiplicidad de discursos a partir de los cuales es posible determinar las relaciones de poder en un contexto social. Artistas anteriores. la obra de Salcedo se Doris Salcedo ha producido. particularmente en el caso que aquí nos ocupa. De acuerdo con lo anterior. puesto que en su decir estético se tematiza constantemente la violencia y se hace una aproximación a esta desde el arte político.

pasividad que ha permitido que en Colombia la violencia y sus diferentes formas se naturalicen y se acepten como parte del destino. clama por espectadores que no sean meros turistas culturales y que se involucren con los sentimientos y el sufrimiento de quienes viven en carne propia el conflicto. cadáver. Así. Quizá alrededor de lo que implica la cama de hospital se circunscriban muchos sentimientos y deseos de curación. la evocación desde lo hospitalario o de salud hace pensar en la idea de curación. el dolor y el sufrimiento como centro de los procesos de construcción nacional. La nueva estructura entremezcla de manera paradójica las nociones de enfermedad y construcción como referencia y como sentido profundo. No se alude al espectador desde la presentación de una imagen que a primera vista le resulte “cotidiana”: gesto de dolor. No es el modo invasivo del medio de comunicación que presenta e induce una idea. La imagen presentada por Salcedo configura y clama por un lector inquisitivo que por lo menos deje la pasividad acostumbrada. los trozos desechados (enfermos) de las camas de hospital se complementaban con las secciones de andamio. De ese modo. El espectador queda enfrentado a una construcción que ha de generarle extrañamiento y preguntas. más bien lo que hace es crear un objeto cuya constitución evoca un espíritu minimalista centrado en una idea que sustenta su significado en la evocación metonímica que tiene cada elemento. Los andamios no generan más afecto que el necesario para ensamblarlos y ponerlos para trabajar. El escenario hospitalario funge como un lugar en el cual de acuerdo con la atención prestada se dará el paso a la recuperación o al deceso. la desfuncionalización y la resemantización van más allá de la esfera formal y se convierten en idea sensible. Algo así como una arqueología de la desmemoria e indiferencia sobre nuestra enferma y perversa realidad. Por eso se ha dicho que puede ser un objeto que evoca las nociones de construcción y enfermedad de manera simultánea. En Sin título . indiferencia u olvido. De ese modo. se conjugaban partes de camas de hospital desechadas con un andamio metálico para construcción. imaginario y opinión sobre algún hecho o evento. La espacialización como presentación del dolor. Allí el cuerpo humano no aparece de forma directa. Las personas que interactúan con el ser cama o el ser andamio lo hacen desde una perspectiva funcional. sino desde la evocación y comporta la capacidad para sugerir múltiples lecturas. Se acude al espectador como un individuo que debe construir alguna interpretación frente a la presencia de la obra que se deja hablar. desde la perspectiva de las víctimas. según el ámbito del que proviene. pero por otra parte puede ser más en el sentido de enfermedad. herida o arma. Para el caso de la obra Sin título 1987. la conexión con los sucesos violentos o con la realidad nacional depende del lugar en donde se presente la obra. el tiempo de los hechos violentos es evocado como cotidianidad doméstica cuyo ritual ha sido fracturado y puesto en suspenso. Para Malagón. No crea la idea de una presencia humana próxima. En ambas estructuras originales. fría y de paso. el material es metálico. cuya referencia es la enfermedad. pues se evoca en su sentido de tránsito. Así mismo. pero también debe pensarse en la idea de muerte. la violencia no se aborda desde la figuración. atravesadas por varillas de . propio para la construcción. tal como se ha dicho anteriormente. es frialdad y en sí mismo genera distancia.54 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Aquí se alude a la idea de sufrimiento. 1988-1989 (Camisas almidonadas) se presentan pilas de camisas muy bien dobladas y enyesadas. y que por efecto de la repetición y el desgaste termina volviéndose corriente y cotidiano. De esa manera. Así que más que la evocación de un cuerpo se evoca una actitud.

La violencia amarillista que muchas veces es convocada con fotografías de primer plano y sangre es sustituida por formas sutiles. lo cual no implica olvidada. un tiempo pasado y familiar en donde el quehacer doméstico ha sido roto. De ese modo. el hogar cambia por un hecho violento que lo ha vulnerado. por lo tanto. la focalización de la obra se centra en una construcción metafórica en el cuerpo que no vuelve a la vida doméstica. son fuente de información sobre sus dueños. Perduran son reconocibles. se es en tanto que diferente a otro. en donde la afirmación de la identidad se configura como una línea divisoria que se va modificando con los años: racismo. planchado y en pilas evoca el estado de potencialidad de uso: la “ropa” está lista para que alguien la use. 5). los objetos seleccionados son mínimos y sus posibilidades expresivas y sobre todo comunicativas son máximas. son terriblemente personales. Entonces. esto en razón a que uno de los principales elementos definitorios de un grupo busca responder a los interrogantes: ¿Qué lo hace diferente de otro? ¿Cuál es el espacio social que ocupa? Es decir que lo trasversal allí es la noción de división. del dolor que no es superado y. Este uso de las camisas se ve paralizado por el hecho de que están enyesadas y atravesadas por las varillas de acero. Además. Las camisas y los catres como presencia hablan de lo pendiente. Salcedo centra su mirada en las fronteras o límites que se le imponen a la alteridad. En ese sentido la obra propone una posición crítica y estética frente a las formas de comunicar la violencia. Cabe anotar que el nicho a su vez se cubre con una piel de animal estirada y cocida. El nicho se constituye entonces en una representación del osario en tanto lugar en el cual se guardan los restos humanos a manera de entierro. Se crea un mundo posible en el cual se evocan cuerpos ausentes que no pueden usar la ropa y que se refuerzan en las mallas o “catres” los cuales sirven de personificación para representar el dolor y sufrimiento de los que no están. y hoy por hoy. El material de algodón de color blanco de las camisas se presenta limpio y acentúa la referencia a la camisa misma. La pérdida de un ser querido implica una herida y un duelo para sus familiares. Esa herida emocional. economía. también el tiempo es invocado. la seguridad. pero en este caso el único resto humano es un objeto: los zapatos de mujer. donde la literalidad espectacular se coloca en primer plano. Atrabiliarios remite a la desaparición violenta y a la ausencia de personas. Algo muy fuerte les ha hecho perder la posibilidad de ser usadas. Al respecto Salcedo afirma que: “Cada vez que vemos un acto violento quedan los zapatos. coloca a la mujer como quien ha hecho dicho oficio para que el esposo se coloque la ropa y vaya a trabajar. párr. Por otro lado. Este objeto al ser presentado blanco. que en un país de corte machista como Colombia. del duelo fallido. es decir. de la herida que no sana. En Shibboleth (2007-2008). el espectador tiene la posibilidad de transitar por entre la ausencia y la espera de las víctimas de la violencia. El yeso quita la función de las camisas. sf. Salcedo elige cuidadosamente los nichos en los muros dentro de los cuales se aprecian zapatos de mujer usados. es decir. Así. hace volver la mirada sobre el sentido de éstas y crea un interrogante ¿por qué? Luego. Es importante indicar que esta obra se desarrolla como instalación. . Por su parte. una herida que está presente. sobre todo desde los medios masivos. no está sellado con una lápida por lo cual deja ver el objeto en su interior. incluso espiritual queda abierta y requiere ser sanada.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 55 acero. este entierro. eso significa que la idea de espacio es fundamental.. habla de víctimas cuyo cuerpo aún no se encuentra. en Atrabiliarios (1993). De acuerdo con esto. en vez de sellar un ciclo. la violencia con que son atravesadas parece invocar una respuesta. grotescos y fuertes” (citada por GÓMEZ. Allí se inserta la cotidianidad doméstica de una familia y en particular del rol femenino.

Por eso. de tal modo. . duelo y dolor. Puede afirmarse que sin que haya la menor información sobre la anécdota que motivó el desarrollo de la obra. parcelado y mercantilizado. tierra y hierba simplemente. Finalmente. Asimismo.se convierte en muerte al combinarse con los cuerpos en tanto que la tierra termina consumiéndolos y. visibiliza la muerte y pone de manifiesto que la naturaleza -la tierra. el escenario implica lo lúgubre y doloroso. La enorme cicatriz de Shibboleth marca el discurso de la exclusión como elemento violento. La violencia entonces es focalizada en términos de sus aristas dentro de las cuales se encuentran las condiciones de pobreza. pero de trasfondo se encuentra la irrupción de la muerte pues no se puede acceder a la identificación del ser que allí yace. El tiempo que se invoca y la focalización misma conducen a la sensación de pérdida. sino que al presentarse como un gran conjunto donde la idea de instalación es el marco. se propone que los espectadores sean “envueltos por su presencia”. La obra es una grieta de 167 metros en el suelo del Tate Modern -situado en el centro de Londres y el cual alberga a los representantes más importantes del arte moderno-. propicia la vida en el nacimiento de nuevos brotes de pasto. es gradual. algo que inició hace mucho tiempo pero no se detiene. es decir. protegido de otros a quienes no le pertenece. una obra que se compone por 120 parejas de mesas de color gris con unas dimensiones de aproximadamente 50 centímetros de ancho por dos metros de largo -las mismas dimensiones de un ataúd convencional. en Plegaria muda (2008 . adicionalmente. La experiencia como recorrido es muy importante en esta obra. Justamente. La distribución de las mesas en el espacio hace que la espacialización sea un factor modal muy importante en el desarrollo de la obra.que se disponen una sobre otra de manera invertida y se encuentran unidas por una capa de tierra sobre la cual en algunos casos se perciben formas humanas y se deja ver el crecimiento de pasto. la penetra.56 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS El sentido de la división en Shibboleth enunciado anteriormente. No se trata de la construcción de un ensamble de mesas. factores políticos e institucionales como la segregación espacial y simbólica. La grieta de Shibboleth traza una línea que aunque perteneciente a la estructura social pocas veces se visibiliza. al presentarse en dicha galería se evidencia la incursión de discursos de fractura. Es el momento en que se está junto al ser querido en el acto ritual de la despedida. En tanto grieta posee un potencial simbólico que indica no solamente un daño temporal sino su historia y continuidad. La grieta trasgrede entonces la institución y subvierte los parámetros de un arte canonizado.se genera gracias a sus características estructurales. La obra juega entonces con la ambivalencia vida/ muerte en razón a que en apariencia se visibiliza un ciclo natural por los materiales que Salcedo elige. el marco que se instaura hace que el espectador establezca una conexión emocional debido a su carga simbólica. la rompe. No obstante. la obra atraviesa la galería. la desigualdad. y esa sensación es a la que se expone el espectador para entrar en los zapatos de quienes han sufrido este tipo de situación. la noción de tiempo hace que la obra cobre fuerza en un “aquí y ahora”. casi como artefacto de fuerte connotación ritual. el registro fotográfico es impactante por cuanto cada objeto escultórico tiene bastante fuerza y la idea de muerte genera un choque. Acciones que tienen una fuerte carga psicológica en los individuos que se enfrentan a esta experiencia. esa es una de las características de las instalaciones. Este índice conlleva la rememoración de la violencia como artificio que altera el rito de despedida de la vida.2010).

la guerra abierta con el narcotráfico. Sin embargo. p. El 65 por ciento en forma familiar o individual y el 35 por ciento restante como éxodo colectivo. (PALACIOS Y SAFFORD. Todas estas son formas de violencia y de inequidad sobre las cuales el interés no es profundizar pero que se deben mencionar. (PALACIOS Y SAFFORD. En cuanto a los causantes de esta tragedia. sino que se da en términos generales. aunque los diferentes actores armados del conflicto tienen de una u otra forma conexiones con el mismo. se instauran procesos de negociación con las guerrillas. p. masacres. Aquí no se menciona el narcotráfico.” (PALACIOS Y SAFFORD. a las que se atribuye el 35 por ciento. 2012. p. Al respecto Palacios y Safford dicen: “Los desarrollos legales de la Constitución quedaron en manos de la clase política preconstituyente. ejecuciones extrajudiciales. En el trienio de 1998 – 2000 se registraron en el país 73. por el contrario los aspectos sociales se hacen más dramáticos: Desde 1995. 514) Resulta imposible evitar el tema pues es parte de la realidad colombiana que continúa ahondándose sin una solución. Puede ponerse en perspectiva la realidad del conflicto con algunas cifras con las cuales se puede ilustrar la creciente violencia: Entre 1975 y 1995. paramilitares y en mucho menor grado por la fuerza pública.000 muertos representan un 10 por ciento de todos los homicidios cometidos en estos dos decenios. estos 34. 2012. Más bien.000 en episodios de asesinatos y ejecuciones extrajudiciales. 57 por ciento mujeres y 70 por ciento menores de 18 años. más aún cuando se ha aumentado la estigmatización frente al disenso y se le formulan señalamientos. Tampoco se habla de una pérdida de confianza en la justicia y la creciente corrupción. que se desarrollan los procesos de liberalización de mercado y la Constitución de 1991. En suma.483). de los cuales 12. el cual data de 1986 hasta el presente. la incidencia de esta violencia política. los entramados de narcotraficantes y políticos clientelistas.000 muertos en combate y otros 23. poco a poco se da una escalada militarista y el desarrollo social nunca se convierte en una realidad. Consideraciones finales En términos generales se encuentra que los elementos enunciativos de la obra de Salcedo permiten hablar de la violencia como hecho no . el Estado y la política quedaron en vilo ante poderosas fuerzas centrífugas como la globalización. pues la indiferencia y pérdida de memoria sobre la que tematiza salcedo no es sólo el conflicto armado. El problema de fondo sigue siendo el mismo desde la fundación de la república: la distancia entre los sueños del constitucionalismo y las prácticas sociales” (PALACIOS Y SAFFORD. desaparición de personas) perpetrados por guerrillas.984 son directamente imputables al conflicto armado. en el 43 por ciento de los casos son paramilitares de derecha. 478) A este periodo los autores lo denominan “Interregno”. el conflicto armado habría producido unos 11. el conflicto armado ha forzado el desplazamiento de un millón y medio de colombianos de sus hogares y vecindarios. el 6 por ciento a la fuerza pública y el 16 por ciento a otros agentes. entendida como las muertes en combate y los homicidios políticos de población civil inerme (asesinatos. al tiempo. pobres en su mayoría.978 homicidios totales (excluyendo para el año 2000 las muertes por accidentes de tráfico). A parte de la desestabilización estatal por cuenta de los factores mencionados. El conflicto está cada vez menos ideologizado y la presencia de intereses económicos es cada vez más prominente. 514) Es así como la violencia ha tomado un papel cada vez más estelar.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 57 La voz de la violencia Las obras de Salcedo se inscriben en momentos históricos de la realidad nacional cuando “en Colombia. los poderes locales de los guerrilleros y de los paramilitares. 2012. aumentó considerablemente después de 1997. seguidos por guerrillas. El 66 por ciento de los refugiados son campesinos. p. 2012. el exterminio de los miembros de la Unión Patriótica.

La artista produce obras con el fin de conmover a los espectadores a través de la experiencia que implica el recorrido de sus obras (todas se centran en apropiación espacial). Sobre esta última afirmación bien valdría la pena profundizar en un futuro. donde el ritual y lo simbólico son fundamentales. Literatura y Semiótica de la Universidad Pedagógica y Tecnológica de Colombia. Ediciones Uniandes. Charles (sf. Marco & SAFFORD. Oscar Muñoz y Doris Salcedo en la década de los noventa. MEREWETHER. La banalización y la indiferencia son dos frentes de anestesia y de algún modo de protección y acomodamiento. María Margarita (2010) Arte como presencia indéxica. . Nota 1 Este texto es una síntesis de las disquisiciones presentadas en el XXVII Congreso Nacional y I Internacional de Lingüística. De algún modo. de allí que la voz de la violencia sea bastante nítida en su producción. cotidiano y científico.) “Testimonio y Violencia”.org. No obstante. Recuperado el 22 de julio de 2012. cuando la mayoría se adentra con mayor facilidad a formas claramente narrativas y directas. En esa línea. Referencias bibliográficas GÓMEZ JARAMILLO. porque el acceso a la cultura artística no es una constante en Colombia y por otra.co/mediateca/ artenaturaleza/espanol/arte_tierra/ artetierra_col_tv. Recuperado el día 19 de julio de 2012. porque las obras interpelan al espectador y esperan una actitud más dinámica. no todas las veces resulta atractivo para el público en general. Tunja 2012. pues se connota el cuerpo vulnerado y se evoca el dolor que no acaba de quienes pierden a sus seres queridos. su éxito se registra por fuera de los contextos iniciales y aunque la obra continúa comunicando. porque para la mayoría se vuelve demasiado cifrado debido a que la artista siguiendo el norte minimalista y la expresividad de los materiales espera que el lector haga ese tipo de lectura. termina presentando a los demás (críticos y espectadores extranjeros) realidades que en buena medida le resultan exóticas y en dónde la fuerza de crítica política no tiene.htm#1 MALAGÓN-KURKA. Patricia (sf. Departamento de arte.) “ Dor is Salcedo ”.edu. Frank (2012) Historia de Colombia. Estos deben acercarse al “escenario” que la artista construye y dejarse ir.org/blaavirtual/todaslasartes/ anam/anam27a. Facultad de Administración. Por lo tanto. Pero también. el trabajo de Doris Salcedo es importante pues busca mantener fresca la memoria mediante la generación de objetos artísticos que involucren a los espectadores.edu. RAMÍREZ. En: unalmed.unalmed. Bogotá: Cooperativa editorial Magisterio. Facultad de Artes y humanidades. La obra de tres artistas colombianos en tiempos de violencia: Beatriz González. Bogotá: Universidad de los Andes. pareciera que este tipo de obras tuviese más impacto en los escenarios especializados que en el público en general (colombiano). Comunicarse con atención y cuidado con los elementos meticulosamente seleccionados. de: http://www.58 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS espectacular. el tipo de lenguaje que en el ámbito artístico tiene gran aceptación y dentro del cual resulta altamente novedoso. quizá. Bogotá: Universidad de los Andes.banrepcultural.htm PALACIOS. País fragmentado.co. sociedad dividida. En tal caso. de: http://www. Su obra entra en constante diálogo con los discursos de la violencia en Colombia. Ediciones Uniandes. Luís Alfonso (2008) Comunicación y discurso La perspectiva polifónica en los discursos literario. En: banrepcultural. más que un impacto estético.

azar que lo lleva a encontrarse con ese viejo barco mercantil en varias ocasiones y no sólo en una escala. Álvaro Mutis finge la realidad de lo narrado a través de esta apertura que en sí misma tiene otra apertura dirigida al lector. con mi ninguna destreza. hasta verlo por última vez por el delta del Orinoco. otro es el relato de cómo el narrador-autor conoce la historia en su encuentro con Jon Iturri en el Orinoco. Historia 1 Historia 2 Historia 3 Narrador Autor Narrador Autor Narrador . Uno es el relato del narrador autor como testigo de los viajes del tramp steamer . Del amor y otros demonios. “Ojala. desde Las mil y una noches.Lector Narratario .Autor El primer relato funciona como marco de composición de los otros. El marco de composición narrativa es un recurso de la narración ya clásico. sino en varias paradas por los distintos continentes.Jon Iturri Encuentros con el tramp steamer Encuentro con Jon Iturri Historia de amor entre Jon Iturri y Warda Bashur Narratario . Los sufrimientos del joven Werther. “Como lo que voy a narrar es algo que supe por boca del . Ahondemos un poco en este concepto. con claves que desde las primeras líneas “Hay muchas maneras de contar esta historia (…)”. El Decamerón.Universidade de São Paulo En La última escala del tramp steamer hay un juego con el azar como presencia recurrente en la vida del narrador-autor.Lector Narratario . o El corazón de las tinieblas . y la última es el relato de la historia de amor propiamente dicha. no se pierda aquí el encanto. ¿Cuál es el juego que propone Mutis al disponer de esa manera la trama? ¿por qué se hace personaje de sus ficciones? ¿cómo lo hace? Hay en esta obra un juego de composición que oscila entre tres relatos.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 59 RELACIÓN AUTOR-PERSONAJE EN LA ÚLTIMA ESCALA DEL TRAMP STEAMER DE ÁLVARO MUTIS Aleyda Gutiérrez Mavesoy PG . contada por Iturri al narrador-autor. la dolorosa y peregrina fascinación de estos amores”.

con muy pocas ganas. pero nunca dice que es el mismo Álvaro Mutis -sólo a lo largo de la historia va enviando datos biográficos que a los conocedores de su vida lleva a asumir que es él mismo-. La simulación continúa a lo largo de todo el texto con los saltos entre una historia y otra. . o aperitivos que despiertan el apetito por la historia principal.” (313). desde Príamo y Tisbe hasta Marcel y Albertine. que la historia ocurrió y él la supo de boca del protagonista. crea la imagen del autor como elemento fundamental de la ficción que la obra construye. bien como su nombre lo dice -y siguiendo la metáfora de la pintura. engañado. o bien intercalando en el discurso las dos historias en una especie de espiral. Álvaro Mutis no sólo actualiza el marco de composición sino también la importancia del autor como orquestador. p. los lectores nos va a contar una historia de amor relacionada con un barco mercantil. pasando por Tristán e Isolda. A nosotros. La figura del autor como personaje. sin temores. No podía dar crédito a mis ojos. en este caso. ya que parte de un hecho biográfico. que buscan liberar al lector de las ataduras de la realidad primaria para llevarlo hacia la libertad de la ficción total. del universo narrativo. Mutis legitima el papel del autor como motor de la narración y señala la necesidad de la vuelta a la sencillez de la forma por la contundencia de la historia. bien como el juego de las cajas chinas o de las muñecas rusas. la historia del tramp steamer “Entró de repente en el campo de mi vista. a otra. con el papel de narrador como mediador. Podemos. es así como recurre a un testimonio que simula ser verídico para enganchar definitivamente al lector en esta historia de amor que “algo tienen de las nunca agotadas leyendas que nos han hechizado durante tantos siglos. su vinculación laboral a una multinacional petrolera “Tuve que viajar a Helsinki para asistir a una reunión de expertos en publicaciones internas de las compañías petroleras. 292).la primera historia rodea la historia central como el marco de un cuadro. 2010. también. secundaria.” (314). frente a la experimentación exacerbada después del Nouve romance francés. Iba. con lentitud de saurio malherido. frente a la supuesta muerte del autor. con ello. prevenciones. para ello. o “prólogos” narrativos. en verdad. ahora que la escribo para él –ya que contársela no me ha sido posible–. pronto se pasa a una historia apócrifa o ficticia. Considero que. atajos y meandros que ni domino ni. siempre desde la voz del narrador-autor-personaje como deíctico que nos señala dónde hay salto y a cuál historia damos el salto. sin que el lector tenga tiempo de distinguir entre la primera y la segunda. Existen distintas formas del marco de composición. con esa máscara logra fijar la idea de que se basa en un hecho real.” (316). de una primera realidad que se supone verdadera. p. Vamos a detenernos un poco en esta idea. ayuda a generar expectativa en el lector por la historia que ha de ser contada en adelante. 3131). Esta estrategia narrativa además de crear la ilusión de “verismo”. creador. hacerlo de la manera más sencilla y directa para no arriesgarme por caminos. ni advertencias. o inducciones hipnóticas para que el lector pase sedado al tema central de la obra. imaginarlos como túneles por donde el autor lleva de la mano al lector y lo transporta. le indican al lector que el narrador es el mismo autor. al mismo tiempo. ficticia.60 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS protagonista” (Mutis. como en Las Mil y una noches el narrador pasa del relato al relato del relato. mejor. le permite a Mutis ubicarse y ubicarnos en el borde del mundo ficcional y del mundo real. “Por eso he preferido. logra hacer figurar como “verdadero” lo que en adelante escribe. La simulación empieza por el hecho de que el narrador se hace pasar por el autor. sería aconsejable intentar. Todo este juego genera una forma de la verosimilitud y. (Peña. 2001.” (313). Esos “marcos” operan como aperturas narrativas de carácter especial.

Warda Narratario (autor implícito) Narratario (lector implícito) En realidad. vuelven al lector a la conciencia de quién es el que escribe la historia: “Creo que no sobra advertir a mis lectores que ciertas alusiones museográficas hechas en esta descripción.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 61 primero nos cuenta cómo se encontró con el tramp steamer. nos damos cuenta de que cada historia es una caja china de relatos. el esquema sería el de cajas chinas. si nos detenemos en el hilo del relato. Primer nivel Narrador (autor impl íci to) Segundo Nivel Narrador Tercer nivel (Jon Iturri) Historia Jon . Asistimos a la historia de la historia de la historia. Iturri mencionó algo como “esas estatuas de mujer que hay en Roma” o “los kouros que hay en Atenas” (344). con valoraciones sobre lo dicho. sobre los otros. como se prefiera nombrar a esta forma particular de narrar donde un relato está contenido por otro relato y así sucesivamente. han corrido por mi cuenta. aclaraciones de términos. que acumula información y utiliza la información previa para configurar la trama. las intromisiones frecuentes del Narrador-autor en el plano de la narración. Como en el siguiente esquema de las cajas chinas.se desarrollan pequeñas historias -o micro historias. reflexiones sobre las emociones y percepciones personales sobre lo narrado. luego nos cuenta cómo conoció al capitán del barco y finalmente nos cuenta la historia de amor que a su vez le cuenta el capitán del barco.que hacen avanzar a la narración en una especie de espiral. De cierta manera. Un modelo de esta forma de avanzar el relato en el plano del discurso podría plantearse de la siguiente manera: . porque en el interior de cada historia -a la que llamaremos macro. o las muñecas rusas. en síntesis las formas de actuar del narrador hipostático -autor y personaje al mismo tiempo-. la figura más cercana sería de este tipo: Sin embargo.

2008. estos juegos del narrador-autorpersonaje llevan al lector a la oscilación entre el relato y la historia con mediación del narrador hipostático. contrario a lo que él pensaba. sin previsión y sin intención de permanencia. considera que el lenguaje. p.a través de la palabra como fundadora del sentido -en su componente dialógico-. pretende también marcar dos puntos: la imposibilidad de la escritura de captar completamente lo que le ha sido relatado y. como la de Sísifo consiste en volcar en palabras la apreciación ético-estética del mundo. saturado de agujeros y de luces. o como testigo directo de los acontecimientos. diarios. y está mediatizada por un mundo. “toda palabra utilizada por alguien. apuntan a señalar esa misma pérdida. la prosa no lo ha liberado de la función de denunciar la otra orilla y. conciencia del papel del escritor como mediador “Tal como aquí la resumo u ordeno. o plantear un juego con el lector. 212-213). Entonces. al mismo tiempo. ya que permite establecer nuevos vínculos entre la palabra y el sentido. le sucede lo mismo que con la poesía: “la sensación de insuficiencia. p. la imposibilidad de comunicar la experiencia como acontecimiento -hacer y padecer en el mundoes vista por Mutis como la carencia fundamental del escritor. La manera como el capitán de navío insistía sobre la belleza de Warda Bashur tenía algo de reiterativo. 2000. es la característica fundamental de la propuesta de Mutis en La última escala del Tramp Steamer. de aclarar y no sólo contar. considerar al narrador hipostático como el narrador-autor-personaje que establece la narración en distintos niveles de diálogo: como diálogo con el lector. su labor. Ahondemos un poco en estos dos aspectos.62 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Ahora bien. Al hacer presencia explícita como el escritor de lo narrado. manuscritos. transcriptor de información que le ha sido dada por fuentes orales. desafortunadamente. En las . La producción novelística de Mutis en su calidad de poética constituye un discurso difuso. de reflexionar.que ha caído en el vacío del significado -abuso de la técnica para lo literario. justamente por su condición de modelo performativo. entre el conjunto de signos posibles es el más tangible a pesar de sus vacilaciones y lagunas. Cercano a la idea de la necesidad de resemantizar la palabra -en nuestro caso en el universo narrativo. no permite. etc). pleno de ausencias y de signos súperalimenticios. dar los acentos de retenida emoción que iban creciendo en el relato. por ello. de que no dimos en el blanco”. diálogo con otros personajes y diálogo entre personajes. Esta propuesta de narrador puede relacionarse con el planteamiento de Michel Onfray (2000) sobre la necesidad de la acción performativa en el uso del lenguaje. En primer lugar. no sólo busca organizar el universo de la narración. El autor en varias ocasiones ha declarado que. El autor implícito se introduce en el relato como narrador. por eso el preámbulo y las intromisiones constantes. es un universo entero cuyo destino es un oído. algo de salmodia o cantinela” (350). y sin embargo percibir que la obra se queda corta. que algo faltó. Esto explica que las acciones que presenta sean mínimas en comparación al copioso discurrir de la conciencia incrédula que se esfuerza por anular la impotencia que resulta de la imposible acumulación del saber. pero para mantener su credibilidad se enmascara en: editor de papeles encontrados (cartas. (Laverde. por ello la necesidad de explicar. el del otro” (Onfray. 188).

la pintura. 2000. se permite el juego de nuevas “máscaras” con las cuales crea una sensación de mayor “veracidad” -recurrir al dato biográfico. me había invitado en San José a un paseo en yate por la bahía Nicoya en Punta Arenas. Tanto Illona. es interesante comprobar la coincidencia en ambos -el condottiere y el narrador de Mutis-. lo fundamental de este cambio es que el narrador entra a formar parte de esos seres de excepción. se construye tanto como organizador responsable del relato. emprendía su amarga aventura con una resignación En La última escala del Tramp Steamer da el paso para mostrarse explícitamente como voz y como personaje de la narración.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 63 primeras novelas: La nieve del Almirante. (Laverde. a partir de La última escala del tramp steamer se introduce dentro del mundo novelado como autor-personaje. en última instancia. trocando lo inefable. la energía como fuerza vital. se me hizo patente la ruinosa condición de este viejo servidor de los mares que. soñador de navíos. por ejemplo. la grandeza unida a la magnificencia y la prodigalidad. 2000. Construye una nueva mirada sobre la ética del individuo a partir del análisis del arte en sus diferentes manifestaciones. como Abdul Bashur y Jon Iturri (protagonista y narrador de La última escala del Tramo Steamer ) forman parte de esa familia espiritual a la que pertenecen el Bolívar de “El último rostro” y Alar el Ilirio de “La muerte del estratega” e. como . 189) Michel Onfray (2000) propone la figura del condottiere como una ética de la elegancia. simula no tener perspectiva. la escultura. (…) Estaba en Costa Rica como asesor de prensa de una comisión de técnicos de Toronto que realizaba un estudio para la construcción de un oleoducto. asunto que me suscita una náusea inmediata. alguien que sabe reconocer en los otros la presencia o ausencia de esa condición propuesta en la saga de Maqroll el Gaviero. 2008. el teatro y la literatura. Cada época tiene su condottiere.en el universo de su materia narrativa. En las obras posteriores: Armirbar . Como lo afirma Consuelo Hernández. como los llama Mutis. no recuerdo ya desde qué puerto hacia el interior. desesperanzados. entonces.en el relato. se presenta como un recopilador. pues participan de las empresas del mundo sin creer en ellas. de la actitud ética de crítica a la modernidad industrial: Con mayor elocuencia que las veces anteriores. es decir. la presencia en Lord Jim de del personaje narrador Marlow coincide con el papel de Maqroll en las novelas del colombiano. encantado de librarme de la insulsa conversación de mis compañeros de trabajo y de las interminables rememoraciones de sus hazañas en el golf. y Tríptico de mar y tierra. incluso. 54) Asimismo. Marlow y Axel Heyst. un editor que no aparece como personaje de lo narrado. por enésima vez. Acepté. Ilona llega con la lluvia y Un bel morir . todo ello. p. Se hace personaje. “una auténtica teoría de las pasiones destinada a producir una bella individualidad” (Onfray. se enmascara para no presentarse directamente. la importancia de lo sublime y la pulsión por el hedonismo. la música. del dandy afirma “jugador desencantado y esteta melancólico. pero a la vez. por el acto mismo de estar en el mundo. cada época construye su ética de la elegancia. del instante y el derroche. sin ninguna orientación a un fin determinado. dentro de ese sistema de seres fuera de lo común -en el sentido literal y metafórico. así. narrador hipostático. de Conrad. p. no hay rastro de su manera particular de ver o evaluar el mundo. Un par de amigos que había hecho en una accidentada sesión itinerante de alcohol y cabarets de nota más que dudosa. como par. Abdul Bashur. p. 19). en momentos de incandescencia de una vida cotidiana transformada en vasto campo de experimentación para las agudezas y el momento propicio” (Onfray. al comparar a Joseph Conrad con Álvaro Mutis. activa una moral del desprecio por los valores burgueses. aparece al principio como preámbulo y le da la voz a Maqroll para qué sea él quien narre y reflexione sobre lo narrado. la búsqueda de lo selecto. caracterizada por la imposición del estilo. (317) parte del grupo de los desesperanzados. unido a la tragedia.

” (327). de tan nuestros. pasan a ser extraños por obra del poder mimético. Experiencia que debe ser arrasadora o simplemente confirmarnos en ciertas certezas harto útiles para seguir viviendo. No es ese ya nuestro mundo. obsequio de los dioses. Como autor implícito y personaje testigo de los viajes del tramp steamer hace de sí mismo un escritor que pretende una salida espiritual -estética. intelectual. con ironía se burla de esa gente y sus preocupaciones.a la degradación del mundo a través de la escritura. Cuando una de esas imágenes regresa con toda su voraz intención de persistir. su actitud frente a lo narrado como confirmación de la ética de la desesperanza. objetos y lugares especiales. bohemio nostálgico y poeta por vocación. Poca cosa. Me quedé contemplando cómo se perdía en el horizonte y sentí que una parte de mí mismo se internaba en un viaje sin regreso. pero que definitivamente no pertenece a ese mundo. la cosa hubiera adquirido los síntomas de una persecución mítica. como Jon Iturri. De ahí que su imagen se construya a partir de la erudición con evocaciones artísticas explícitas. Ahora que lo recuerdo. en buena parte de la poesía que he ido dejando por ahí regada en revistas efímeras y en ediciones no menos olvidables. el juego de las cajas chinas permite ver el relato del relato de la historia como un recurso de la veracidad y no sólo retruécano narrativo. Concluimos que el propósito de este juego del narrador-autor-personaje apunta a hacer presentes distintos sistemas axiológicos. golpeado y sumiso. También permite explicar porqué el personaje femenino es objeto y no sujeto de deseo. referencias ilustradas constantes y. esteta en la vida cotidiana. pero también conocedor del arte. cuya mezquina desaprensión concedía aún mayor nobleza a ese esfuerzo sin otro premio que el desgaste y el olvido. engañoso y constante del precario presente. Los hombres sólo conseguimos ahora cumplir con la mezquina cuota de venganza que nos imponen otros hombres. Nuestros asuntos. Si seguimos la lógica de Onfray sería una especie de actualización del condottiere. Nuestro modesto infierno en vida no da para ser materia de la más alta poesía. la buena comida. Consideramos que por esta misma razón. (326) De este modo llegamos también al final del análisis. cosmopolita.y ratifica su condición de artista. A tal punto me pareció vetusto. (330) En La última escala del Tramp Steamer el narrador se focaliza y se modaliza a sí mismo dentro de la obra. Obediente a las empresas del hombre. de una diabólica espiral cuyo final podía ser . en estos tiempos de “mezquina necedad”. En la obra menciona que su poesía se nutre de los encuentros con seres. que se dirigen a la confirmación de una individualidad basada en el viaje como aprendizaje que. la literatura y la filosofía. Se presenta como un escritor que trabaja en una compañía petrolera. hemos visto cómo el juego de voces entre el narrador-autor y el relator personaje produce un efecto de “realidad” que se afianza en el hecho biográfico introducido en la narración y con lo cual el lector asume un pacto narrativo cuasi “veraz” de la historia que le es contada. Es así como trabaja el olvido. lo ajeno. amante de la buena vida. como posible sin menoscabo de una actitud ética individual: la lucidez. modelos éticos. además. (325) el de las soberbias maldiciones con las que los dioses de la Hélade castigaban a los trasgresores de sus designios inmutables. permite ver lo otro. lo que sí fue evidente para mí era que de continuar los encuentros. la buena compañía. el tramp steamer y el Caribe “Algún día me propongo narrar lo que fueron aquellos paseos. sucede lo que los doctos llaman una epifanía. Es así como dentro de la obra se configura como un conocedor de arte.64 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS de un buey del Latio sacado de las Geórgicas de Virgilio. si bien es cierto que. están las huellas de esos días.

Bogotá: Alfaguara. Nota 1 En adelante. Medellín: Universidad de Antioquia. _____ (1981). PEÑA Isaías (2011). Instituto Colombiano de Cultura. Empresas y tribulaciones de Maqroll el Gaviero. La construcción de uno mismo. Barcelona: Random House. Bogotá: El Huaco. SAID. Michel (2000). Bogotá. Edward (2004). el texto y el crítico . MALRAUX. André (1999). cuando se mencione apartados de la obra estudiada. . Mondadori. ONFRAY. Poesía y prosa . só lo se indicará el número de la página. Alfredo (2008). Buenos Aires: Sudamericana. MUTIS. dos tendencias. El mundo. El universo de la creación Narrativa. Álvaro (2001). Buenos Aires: Libros Perfil. la moral estética. Tradición literaria colombiana. La condición humana.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 65 Referencias bibliográficas LAVERDE.

sob a influência. principalmente. p. Dentro dessa perspectiva. o acesso à escola sempre foi marcado pelo paradoxo inclusão/exclusão. em 1981. aqueles que “distoam” de uma “normalização” intelectual. à oferta do atendimento educacional especializado e à garantia da acessibilidade (BRASIL. em 2003. excluídos do espaço escolar. o Programa Educação Inclusiva. durante muito tempo. posteriormente. cultural e linguística foram. preferencialmente na rede regular de ensino” (artigo 208. item III). no âmbito internacional. de acordo com a qual o aluno com necessidades educativas especiais deveria adequar-se à “hegemonia” presente em sala de aula. física. O quadro recém-apresentado começa a mudar nos anos 1980. No Brasil. na Constituição Federal de 1988. o atendimento a alunos com necessidades especiais seguiu sendo realizado sobre os pressupostos da Normalização e Integração. o Brasil estabelece. as discussões sobre a ampliação do acesso e a qualidade da educação das pessoas com necessidades educacionais especiais. o atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência. seja por fatores socioeconômicos. Assim. cujo objetivo é apoiar a transformação dos sistemas de ensino em sistemas educacionais inclusivos.9). promovendo um amplo processo de formação de gestores e educadores nos municípios brasileiros para a garantia do direito de acesso de todos à escolarização. Mesmo com o advento da Constituição de 1988. É quando começam. é proclamado o Ano Internacional dos Deficientes pelas Nações Unidas. na década de 1990. 2008. Acompanhando a tendência mundial de luta contra a exclusão das minorias e a favor da igualdade de oportunidades.66 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS ENSINO DE E/LE E INCLUSÃO: REFLEXÕES SOBRE FORMAÇÃO E TRABALHO DOCENTE Alice Moraes Rego de Souza PG-UERJ Roberta Fraga de Mello PG-UERJ Introdução Historicamente. social. quando. é implantado. sob formas distintas. . da Conferência de Jomtien (1990) e da Declaração de Salamanca (1994). seja pela presença de padrões físicos considerados distintos dos de uma suposta homogeneização. o trabalho do professor tem sido apontado como condição essencial para a inclusão eficaz dos alunos com necessidades educacionais especiais nas classes regulares de ensino.

2009. formalizada pelo CNE. A importância atribuída ao papel do professor. culminando na reforma dos cursos de licenciatura. iniciada oficialmente no ano de 2001. se reflete em documentos oficiais (pareceres e resoluções) que se destinam a formalizar a última reforma dos cursos de licenciatura. um dos 1. resta ainda observar em que termos é tratada a questão da educação especial. Considerando a interseção entre as discussões sobre educação especial e sobre a reforma dos cursos de formação de professor. dentre outros temas.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 67 o que nos leva a refletir sobre a formação deste profissional visando atender às demandas da atualidade. de modo a observar a relevância dada à temática no decorrer do documento. O parecer em questão explicita que ao revisar o processo de formação docente. 2009. p.25). A partir daí. o presente trabalho fomenta uma reflexão sobre os novos currículos de licenciatura em Letras (habilitação PortuguêsEspanhol) das universidades públicas do Estado do Rio de Janeiro. falase sobre o ensino para alunos com necessidades especiais. buscamos apresentar alguns possíveis progressos relativos à formação de professores de Língua Espanhola que beneficiem a perspectiva inclusiva e de respeito à heterogeneidade no espaço escolar. De maneira geral. problemas destacados é o que se designa como “desconsideração das especificidades próprias dos níveis e/ou modalidades de ensino em que são atendidos os alunos da educação básica” (BRASIL. afirmando que: “A educação básica deve ser inclusiva. as universidades e outras instituições a contribuírem para a elaboração das diretrizes curriculares dos cursos de graduação. cria-se ambiente propício para a discussão sobre a participação dos institutos básicos na formação de professores das diversas áreas de conhecimento. 2001. a reforma surge a partir da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) – Lei nº 9. Para tal. o MEC publica o Edital nº4 de 1997. como já apresentado. as licenciaturas não estão preparadas para desempenhar a função de formar professores que saibam lidar com a heterogeneidade posta pela inclusão” (PLETSCH. a partir da análise de seus fluxogramas. no sentido de atender a uma política de integração dos alunos . por meio do Parecer CNE/CP nº9 de 2001 e respectivas Resoluções CNE/CP nº1 e 2 de 2002. A educação especial no âmbito da reforma das licenciaturas A reforma das licenciaturas é uma culminância de certa circulação de discursos sobre o papel do professor e suas responsabilidades na formação de cidadãos no contexto escolar.394/1996 – a qual define que cada instituição de ensino superior (IES) deverá fixar seus currículos a partir das diretrizes pertinentes. p. p. focaremos em algumas disposições do Parecer CNE/CP nº9 de 2001. sendo uma delas a questão da educação especial. no contexto da mencionada reforma. visto que este é um dos eixos que orientam as diretrizes curriculares de formação de professor em nosso país. Diversas temáticas atravessam as reflexões acerca de um novo currículo para formar professores em nível superior. Ainda que possamos antecipar que “de maneira geral. depara-se com problemas em termos institucionais e curriculares. Neste tópico. particularmente no que diz respeito à educação especial. os quais precisam ser refletidos e explicitados. em geral. o qual convoca a sociedade civil. com a publicação das Resoluções CNE/CP nº1 e 2. 150). no ano seguinte. buscando observar como se apresenta a questão da educação especial nesses documentos institucionais. com a publicação do Parecer CNE/CP nº9 de 2001 e. Ao mesmo tempo. (DAHER & SANT’ANNA. Especificamente no campo curricular.20) Uma vez conhecido o contexto de surgimento da reforma.

Novos currículos de formação docente e educação especial . considerando suas demandas próprias. (BRASIL.)” (BRASIL.68 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS com necessidades educacionais especiais nas classes comuns dos sistemas de ensino. portanto. 2001. temáticas a serem consideradas. a singularidade linguística dos alunos surdos. Isso exige que a formação dos professores das diferentes etapas da educação básica inclua conhecimentos relativos à educação desses alunos “(BRASIL. 27) Outra proposta contida no documento.. Nesse caso. dá recorrente espaço para discussão sobre necessidade de incluir. a existência de uma brecha no Parecer. entre outras. de maneira geral.27). as IES reformularam seus currículos de modo a atender às novas demandas. Nesse sentido.)” (BRASIL. o Parecer menciona a educação especial. Universidade Federal Fluminense (UFF) e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). 2. p. optou-se por focar a análise apenas nas IES do Estado do Rio de Janeiro que passaram pelo processo de reforma curricular iniciado em 2001. inclusive à questão da educação especial.. as formas de comunicação dos paralisados cerebrais. especialmente no que concerne à educação especial. Constata-se. Nesse caso. vê-se que o Parecer CNE/CP nº9 de 2001. quais são os reflexos desses discursos oficiais. a escolha foi por analisar a formação do professor de Língua Espanhola. momento propício para o preparo do profissional para atuação com alunos com necessidades especiais. são. p. quais serão os reflexos deste aspecto nas atuais estruturas curriculares das IES que formam docentes na área de Língua Espanhola? Tal será a discussão que cabe ao próximo item deste artigo. Assim. ao mesmo tempo. O documento reconhece que temáticas relativas à educação para alunos com necessidades especiais “raramente estão presentes nos cursos de formação de professores. no que tange à atuação docente diante desse público. embora devessem fazer parte da formação comum a todos (. p. o curso de Letras Português-Espanhol. 55). Mesmo diante da possibilidade da presença da temática sobre educação especial apenas em termos de formação específica. Por uma necessidade de recorte de corpus . para atuação em modalidades ou campos específicos incluindo as respectivas práticas (. oferecer uma formação comum a todos os docentes e o atendimento às especificidades do trabalho com as diferentes etapas ou modalidades com que o professor irá trabalhar. dentre as possibilidades de formação específica que a IES pode ter. portanto. a critério da instituição. dentre os quais está o “eixo que articula a formação comum e a formação específica”. o que faz de sua presença nos A partir do Parecer CNE/CP nº9 de 2001 e suas respectivas resoluções. 2001. 2001. A problemática desta seção se centra na dificuldade de. Assim sendo. Por uma questão de afinidade profissional das pesquisadoras. a saber: Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). uma vez que a educação especial pode configurar apenas como formação específica. o Parecer esclarece que a construção espacial para alunos cegos. p.. diz respeito aos critérios de organização para desenho de uma matriz curricular que contemple os diversos aspectos envolvidos com a atividade docente. 2001. já que esta é uma realidade indissociável da escola. nas novas estruturas curriculares? Inicialmente. A saída proposta para superar a “dicotomia” formação comum . 26) currículos uma escolha de cada IES. na formação do professor. o Parecer apresenta alguns eixos.formação específica é a proposta de inclusão de espaços e tempos adequados que garantam “opções. são necessários alguns esclarecimentos sobre a escolha do corpus de análise..

o fluxograma pode ser compreendido como um discurso. Assim sendo. o aluno cursará apenas se quiser. mostrando uma síntese do curso. 2. A escolha deste material se deve ao entendimento de que o fluxograma. por sua vez. 2005. Quanto a esta última. do que se privilegia ou não como parte da trajetória a ser percorrida pelo profissional em formação. Para refletir. ou seja. Nem mesmo como eletiva existia a opção de disciplinas sobre tal temática. Partindo de uma perspectiva discursiva.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 69 Em síntese. Já após a reforma. A reformulação curricular na UERJ Antes da reforma das licenciaturas iniciada em 2001. buscamos abrir caminho para reflexões que merecem atenção mais detida em trabalhos futuros. pois esta compõe o grupo de disciplinas designadas como eletivas práticas. podendo esta ficar de fora. consequentemente. tampouco apresentava qualquer indício de disciplina que se voltasse para esse tema. realizam-se algumas observações de análise sobre a presença do tema educação especial nos fluxogramas selecionados. o fluxograma mostra a inclusão de algumas oportunidades de discussão sobre educação especial. de certo modo. o ponto de par tida são os fluxogramas que materializam a estrutura curricular dos cursos de graduação. por exemplo. trata-se de uma eletiva. o fluxograma irá refletir questões colocadas ou não em destaque pela IES a que pertence. não há tipo algum de menção explícita a disciplinas que tratem especificamente da questão . o fluxograma. nas subseções a seguir. como. trabalhamos com a formação do professor de Língua Espanhola no Estado do Rio de Janeiro e seu preparo para atuar na educação especial. Maingueneau (2005) afirma que os discursos têm caráter de ação. A reformulação curricular na UFF Tanto na grade curricular (expressa em forma de fluxograma) anterior e posterior à reforma das licenciaturas. p. O fluxograma.2.626 de 2005. ainda que brevemente sobre esta questão. Por uma questão de limitação de espaço. seus marcos. mas sim a outra legislação específica sobre a questão da inclusão da LIBRAS na formação superior em algumas áreas de conhecimento – Decreto nº 5. Assim. é um retrato de um curso de formação superior. o aluno precisa escolher três para cursar. assumir que os fluxogramas das IES são um discurso é sustentar a ideia de que seu surgimento e desenvolvimento são inseparáveis das relações sociais que o contextualizam. na medida em que tem seu surgimento e sua circulação fundamentada em “regras de organização vigentes em um grupo social determinado” (MAINGUENEAU. por meio da disciplina intitulada “Planejamento de Material para Ensino de Língua Portuguesa como L2 para a Comunidade Surda” (vinculada ao Departamento de Linguística) e a disciplina “Prática Pedagógica em Educação Inclusiva” (oferecida pela Faculdade de Educação). não mais nos aprofundamos em aspectos teóricos. a grade curricular do curso de Letras com habilitação em Português-Espanhol não sinalizava nenhum tipo de disciplina específica quanto à educação especial ou educação inclusiva. de um grupo de seis disciplinas. metodológicos e mesmo em detalhes de análise. Ainda nesse sentido.1.52). ao enunciar sobre formação de professor é também uma forma de construir certa ideia de formação de professor. Entretanto. Em outras palavras. 2. Vale ressaltar que a primeira disciplina relacionada não vem como uma resposta à demanda da reforma de 2001. suas etapas constituintes. Sendo assim.

Entretanto. O fluxograma tampouco sinaliza a disciplina LIBRAS. sendo oferecidas pela Faculdade de Educação. 2. visto que atuar com alunos especiais não depende da escolha. explicitamente. já mencionado.626 de 2005 . ao Instituto ou à Faculdade de Letras. No caso das IES que oferecem disciplinas relacionadas à comunidade surda. não se trata de uma alteração devido à reforma. sejam LIBRAS ou disciplinas que abordem temas gerais sobre tal comunidade. Comentários gerais No caso das três IES. para alunos que ingressaram a partir de 2012. na verdade. é comum que a mesma fique atrelada aos departamentos de linguística. mas do surgimento de tal demanda. passa a ser oferecida. 2. consequentemente. visto que as poucas oportunidades oferecidas possibilitam uma abordagem desde uma perspectiva mais ampla. pela Faculdade de Educação. a existência de disciplina alguma que fosse específica para tratar de questões de inclusão ou ensino para alunos especiais. o fluxograma da UFRJ não indicava. Isso se choca com a realidade da atividade docente. a inclusão de disciplinas que tematizem a questão da inclusão e da educação para alunos com necessidades especiais não sofre alterações. Sendo assim. o fluxograma passou a apresentar a disciplina LIBRAS (vinculada ao departamento de Linguística e Filologia). que abrange o ensino de maneira geral e não focado apenas em uma discussão específica. o que é explicado no site da universidade. Na maioria dos casos. Ainda há mais uma questão.3. o que mostra. relativa aos departamentos a que estão vinculadas as disciplinas. muito embora esta seja obrigatória para os cursos de Letras – considerando o Decreto nº 5. complementando as disposições do fluxograma1. Em nenhum caso foi possível verificar a associação de uma disciplina que trate de educação especial ligada a algum departamento do Instituto ou da Faculdade de Letras. o espaço para debate sobre questões relativas ao ensino de Língua Espanhola é reduzido. por se tratar de uma questão de linguagem. pois ele também tem a sua disposição outras optativas.70 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS do ensino de espanhol para alunos com necessidades especiais. tal como ocorre na UFF e na UERJ. visto que apenas há a inclusão da questão específica da surdez. tal disciplina compõe o currículo do referido curso. uma redução do espaço aberto à reflexão e à produção de conhecimentos sobre ensino de língua espanhola como língua estrangeira para alunos com necessidades especiais. podem ou não ser escolhidas pelo aluno. mais uma vez. essa disciplina compõe o grupo de optativas. ficando a critério do aluno escolher cursar a disciplina.626 de 2005 . Mesmo diante de um cenário . ao espaço ocupado pela educação especial não foram expressivas. mas de uma resposta a uma exigência legal de inclusão de LIBRAS nos cursos de Letras – Decreto nº 5. Após a reforma. sendo que. após a reforma. Ainda assim. as disciplinas que passaram a ser oferecidas são em caráter de eletivo ou optativo. as mudanças relativas Outros documentos que descrevem a estrutura curricular do curso de Letras PortuguêsEspanhol na UFF mostram que. o que torna indispensável a reflexão sobre tais assuntos durante o processo de formação. Já as disciplinas de educação especial costumam obter um caráter mais geral. a disciplina eletiva “Tópicos Especiais em Educação Especial”.4. ou seja. Sendo assim. A reformulação curricular na UFRJ Antes da reforma.

Diário Oficial da União. Revista Educar . 33. Disponível em: <http://www. Brasília: MEC. o presente trabalho mostra que. SCHWARTZ. minimamente. De Souza e Décio Rocha. não foram identificadas marcas que explicitassem a relevância dada às discussões sobre ensino de Espanhol como Língua Estrangeira (E/LE) para alunos com necessidades especiais. curso de Licenciatura de graduação plena. 23 de dezembro de 1996. de 8 de maio de 2001. Brasília. Curitiba: Editora UFPR. seja na atividade docente. SANT’ANNA. Diário Oficial da União. o professor precisará refletir sobre tal questão. Referências bibliográficas BRASIL. Seção 1. In: Espanhol: Ensino médio. Da educação segregada à Educação Inclusiva: uma breve reflexão sobre os paradigmas educacionais no contexto da educação especial brasileira. Brasília. aos saberes acadêmicos. Lei nº 9.br/ccivil_03/ _ato2004-2006/2005/decreto/d5626. A abordagem do trabalho reconfigura nossa relação com os saberes acadêmicos: as antecipações do trabalho. A formação de professores para a educação inclusiva: legislação. 3. ________(2010). nota-se a constituição de um espaço restrito de prescrições ao trabalho do professor relativo a essa modalidade de ensino na etapa de formação. ainda que o tratamento da educação especial pensada especificamente em termos de ensino de E/LE seja tarefa complexa. no exercício da profissão. Assim. Del Carmen. GLAT. Formação e exercício profissional de professor de língua espanhola: revendo conceitos e percursos. Editora Cortez: São Paulo. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. de 20 de dezembro de 1996. na perspectiva de Schwartz (2002) podem ser articuladas. 18 de janeiro de 2002.A (2009). 35-9. tal como visto na análise do Parecer CNE/CP nº 9 de 2001. de algum modo. de modo a. p. Márcia Denise (2009). embora seja uma realidade com a qual o professor está sujeito a se deparar. Considerações finais No caso dos fluxos analisados. _______. Trad. orientar o docente em sua trajetória futura. ainda. Do otium cum dignitate dos cursos de Letras à formação de línguas. São Carlos: Editora Claraluz. elas constituem-se como optativas / eletivas.626 de 22 de dezembro de 2005 . Nesse sentido. _______.planalto. MAINGUENEAU. mesmo que não tenha de dar conta de prescrever o trabalho docente. as quais serão feitas na própria situação de trabalho e que. dá relevância ao assunto. p. diretrizes políticas e resultados de pesquisas. Rosana. em nível superior. Entretanto. FERNANDES.htm>. p. E. Vera L. 4 ed. Análise de textos de comunicação. Yves (2002). Parecer CNE/CP nº9. Coleção Explorando o Ensino. In: Trajetórias em Enunciação e Discurso: práticas de formação docente. em algum momento. PLETSCH. portanto. FAITA . 31. de Cecília P. Decreto 5. Acessado em 10/08/2012.394. precisa proporcionar mais espaço para reflexão do assunto.gov. DAHER. In: SOUZA-E-SILVA. Dominique (2005).ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 71 que. 4. A formação. p. tal ausência não implica a não criação de normas. participando do processo de produção de normas e prescrições do trabalho realizado por este sujeito. 27894. seja na formação. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica. contribuindo para uma forma diferente de pensar as antecipações do trabalho. Brasília: Inclusão – Revista da Educação Especial – out/2005. Edicléa Mascarenhas (2005). quando surgem disciplinas relacionadas à educação especial. 143-56. n.

l e t r a s .72 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS (orgs.uerj. Acessado em 30/08/2012. Fluxograma do curso de Licenciatura em Letras Português – Espanhol. b r / index. UERJ. Disponível em: http:// www. Disponível em: http:// www.br/arqs/fluxogamas_cur sos/ letras_portugues_espanhol_licenciatura.uff. dep. UFF. Acessado em 10/08/2012. u f r j .pdf.letras.). Fluxograma do curso de Licenciatura em Letras Português – Espanhol. Fluxograma do curso de Licenciatura em Letras Português – Espanhol. Acessado em 10/08/2012.uff.php?option=com_content&task=view&id=45&Item( ( Nota 1 A informação mencionada está disponível em <http://www.letras. Linguagem e trabalho : construção de objetos de análise no Brasil e na França.pdf. . UFRJ. Disponível em: http:// w w w . São Paulo: Cortez.br/obrigatoriedade-da-disciplinalibras>.br/sites/default/files/ letras_portugues_espanhol_-_licenciado_novo.

encontra-se o nativo americano. na qual aparecem suas teorias sobre os temas americanos. como o Conde Buffon. ocuparam-se de descrever muitas das peculiaridades americanas sem. a partir dos naturalistas ilustrados. mas excessivamente interessado em matemáticas e ciências. manifesta-se a superioridade do homem civilizado. na ideia de que o homem ocidental teria alcançado a aptidão de elevarse a uma chamada “maioridade intelectual”. . Entre as conclusões buffonianas referentes às Américas coloniais destacam-se formulações intrigantes que merecem ser comentadas. Segundo Antonello Gerbi (1996). homens conhecedores e adeptos a outros pontos de vista se propuseram a divulgá-los. “a tese da ‘debilidade’ ou ‘imaturidade das Américas” nasce com o Conde de Buffon. o Abade Raynal e o historiador William Robertson. alguns crioulos e uns quantos padres jesuítas. o que o levou a trilhar um caminho em direção aos estudos científicos. Foi o que fizeram europeus que de fato conheceram o cnotinente americano. Do lado oposto. vegetais e humanas. fundamentada nos progressos realizados através do processo histórico europeu. advindo da inferioridade daquele meio e da fraqueza de suas espécies animais. no século XVIII. culminando. Alguns autores que precederam o século XVIII. natural de Paris. Entre suas principais obras encontra-se a volumosa História Natural . Em vários textos produzidos por europeus que conheceram a América ou por americanos põe-se em questão a validade do caráter débil e frágil das espécies do Novo Mundo. como Gonzalo Fernández Oviedo e os padres Acosta e Herrera. a “polêmica do Novo Mundo” passa a apresentar discussão contínua. postular uma teoria universal da inferioridade do novo continente. Entretanto. Cornelius De Pauw. Em um pólo.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 73 DIÁLOGOS DE HISTORIA NATURAL: O HOMEM PROTOTÍPICO E O HOMEM EM CONSTRUÇÃO Amanda Brandão Araújo PG . Divulgadas as teorias e razões da inferioridade. freqüentador do Colégio de Jesuítas e estudante de Direito.Universidade Federal de Pernambuco* A presença de dois discursos referentes à imagem simbólica do Novo Mundo representa a oposição entre Europa e América que seria determinante para a formação do pensamento moderno. ou Georges-Louis Leclerc (17071788). contudo.

a América é um continente ainda intocado.) Buffon entende que o continente – e o homem – americano está ainda em processo de evolução. Os cavalos. em critérios científicos relacionados à Ilustração. insalubre portanto para gente civilizada e animais superiores. incapaz de dominar a natureza em seu favor. fundamentado. A natureza americana seria hostil a qualquer desenvolvimento. Mais que isso: a maioria dos nativos vive como os próprios animais.) nem se encontra ali nenhum animal que se compare a eles... mas com o tempo e o exemplo dos europeus. portanto. Os animais em geral são poucos em diversidade e em tamanho. p. digo. todos esses animais. (DE PAUW apud GERBI. Cornelius De Pauw. deve aquilo que é à sociedade: o mais metafísico. e não existem no Novo (. se tornaria embrutecido. são também consideravelmente menores na América que na Europa. De Pauw não acredita na “bondade natural” do homem. com exceção destinada aos insetos e répteis de menor porte. tornaram-se menores. 19).. um mundo que ficou mais tempo sob as águas do mar.] os que não foram transportados. ora para ridicularizar. defende e aprofunda a tese de que os americanos são degenerados. Grifo do autor).. os cães. (BUFFON apud GERBI. 1996: p. que apenas multiplicam-se e avolumam-se. 56). as cabras. O homem é errante. ao saber da época. As espécies trazidas da Europa tenderiam a definhar-se. 1996: p. imbecil e nada conheceria em toda a natureza . Quaisquer semelhanças que pudessem existir entre as espécies de maior porte de ambos os continentes eram refutadas. O homem não é. os alces.. 1996). mudo. Para ele. (GERBI. ao contrário de Buffon e de Rousseau. em algum dia ainda indeterminado. Opondo-se ao concluído por Buffon. Os “selvagens” americanos são. Nas Recherches sur lês Américains. 1996. à anta brasileira. é apenas um bruto incapaz de progresso. e [. abandonado durante seis anos na ilha de Fernandez. 27. Fonte de elevado preconceito e ignorância gerados a partir das teorias buffonianas é o postulado da degenerescência dos animais na América. Sem ela. garantindo a superioridade das espécies do Velho em detrimento das do Novo Mundo. “imberbes”. A umidade do ambiente é tão elevada que pode fazer definhar qualquer espécie passível de evolução. que nem de longe poderia comparar-se aos grandes mamíferos. filósofo e enciclopedista ilustrado de naturalidade discutível (provavelmente holandesa). o maior filósofo. as raposas. nada por si só. ora para menosprezar os aspectos naturais e comportamentais da natureza e do homem. a América é um mundo novo. os As deduções de Buffon deturpam as descrições dos autores que o antecederam.74 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS A primeira delas refere-se à inexistência de grandes animais selvagens. São imaturos. 20. portanto. os cervos.” Alude. os bois. que mal acaba de emergir e ainda não secou direito. mas lá chegaram por si mesmos. Diz Buffon: “os elefantes pertencem ao Antigo Continente. ainda. continua as “difamações” da América. etc. 1996: p. e isto sem exceção alguma. Rejeitam as leis e a ordem. de construir impérios e domar animais. os criadores do progresso. os porcos. tais como os lobos. os carneiros. em tom extremamente mais enfático e definitivo que o do Conde. do qual o homem ainda não tomou posse. mas no oposto a isso: o homem apenas se aperfeiçoa em sociedade. Recusaram-se a aceitar quaisquer formas de desenvolvimento e cultura “evoluída”. A natureza do hemisfério ocidental não mais é imatura e . Humanamente. conseguiriam atingir. um grau de desenvolvimento semelhante ao das mais incipientes civilizações européias. inimigos do progresso e da sociedade. inoperantes. ou pelo menos muito mais novo que o antigo. impotente. (GERBI. os cabritos monteses. Fisicamente. numa palavra aqueles que são comuns aos dois mundos. devido a sua “dimensão de um novilho de seis meses ou de uma pequeníssima mula” (GERBI. os asnos. divide espaço com eles.

com sua Histoire Des Deux Indes. que teriam determinado o temperamento dos habitantes (animais não políticos) e caracterizado (ou. nas Américas. Também insurgiram-se jesuítas que. “A natureza se esqueceu de fazê-la crescer” (GERBI. A América não havia ainda se desenvolvido: era impúbere. porém. Raynal e De Pauw contestam a As radicais teses depauwnianas suscitaram grande número de réplicas. Sua História da América (1777) fala sobre o Novo Mundo num tom mais Deve-se relegar ao plano das fábulas esta quantidade prodigiosa de cidades construídas com tanto cuidado e dispêndio. zonas glaciais e zonas temperadas. Raynal adota a posição de Buffon e De Pauw sobre as zonas tórridas e úmidas como insalubres. As teses sobre as influências do clima e outros fatores naturais são consideradas por De Pauw. como nos indivíduos do nosso Continente que não chegaram à puberdade. trazendo assimetrias valorativas com implicações políticas. [.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 75 imperfeita (como o era para Buffon). como dilúvios e “medonhos tremores de terra”. para ele. uma espécie de infância nos povos da América. porém é dada maior relevância ao posicionamento em favor de grandes catástrofes. descaracterizado) a fauna e flora locais. É um vicio radical no outro hemisfério. finalizamos com as considerações de Robertson. e era impossível que fosse de outro modo. supõe uma imperfeição nos órgãos. Mais um defensor da inferioridade americana foi o Abade Raynal. Considera como inverídica toda a obra de Garcilaso de la Vega sobre os incas. mais determinadas ou mais indiretas. como se “desevoluísse” o que sequer começou a se desenvolver. . cuja inspiração é voltairiana e permeável às ideias de De Pauw. 1996). América em Raynal resulta da projeção de uma teoria climática que divide o mapa-mundi em zonas tórridas. pois entende que “é sem dúvida um grande e terrível espetáculo ver a metade deste globo a tal ponto desgraçada pela natureza que tudo é ou degenerado ou monstruoso” (DE PAUW apud GERBI. O clima americano explicaria também a propensão dos seus habitantes ao alcoolismo e à concubinagem. atribuindo ao clima as doenças contagiosas e as baixas taxas de natalidade entre os povos. (RAYNAL apud GERBI. 1988) antigüidade das civilizações astecas. mais ou menos abrangentes. Na Europa mesmo levantaram-se contra ele vários defensores do “bom selvagem”. “De Pauw repete até a saturação que a natureza é fraca e corrompida na América. 1996). 53) Buffon. expulsos das colônias. embora deva apresentar idade semelhante à européia. (RAYNAL apud VENTURA. Haveria ocorrido. da grandeza e magnificência das cidades e monumentos. Ao inicio da “adolescência americana” também corresponderia a impotência dos nativos e a falta de atração por suas fêmeas. rejeitando as descrições de Hernan Cortés e do inca Garcilaso de la Vega. A imagem da Para concluir os “ataques” às Américas a que nos propomos. da bondade natural do homem e da natureza virgem. retorna constantemente à “desventurada” natureza física americana. Os dados de Las Casas sobre as numerosas populações do México e do Peru também são objeto de crítica. A umidade do clima fez com que essa condição “infantil” do continente e dos homens que nele habitavam fosse agravando-se.. onde a imaturidade se revela por essa espécie de impotência. fraca porque corrompida. ao qual a natureza confiou o depósito da reprodução. 1996). 1996. é degenerada. várias tragédias naturais nunca observadas no antigo continente. A ênfase do Abade. traziam de volta as experiências vividas nas mesmas. sem meios termos. De Pauw é tido como veemente antiamericanista. já que estes foram atrasados e incapazes tanto quanto os demais seres daquele mundo.] Os povos se encontravam dispersos nos campos.. p. inferior porque degenerada ” (GERBI. toltecas e incas. A indiferença quanto ao sexo.

] A natureza não somente era menos vigorosa prolífica no Novo Mundo. p. A oposição filosófica entre natureza e cultura e a comparação entre o homem natural e o civilizado também ocuparam a mente desses intelectuais que.. procuraram conhecer a outra versão da história. A defesa de Montaigne beneficia não só as tribos pacíficas. a consequências extremas. Em seu ensaio. Os animais que pertencem originalmente a esse quadrante do globo parecem ser de uma raça inferior. no entanto. Do lado oposto da polêmica estão outros intelectuais. embora o tom pessimista predominasse. Diz Montaigne relatando o que os nativos haviam declarado: que habían visto que había hombres entre nosotros colmados de toda clase de comodidades. jamás se oyeron entre ellos. En aquellos se hallan vivas y vigorosas las verdaderas y más Obra importantíssima sobre a defesa do Novo Mundo é a do padre jesuíta Francisco Javier Clavijero. nascido na Nova Espanha. Entende que o Século das Luzes teria publicado mais erros do que todos os séculos passados pois escreve-se com liberdade. desfallecidos de hambre y desnudos con pobreza y necesidad. Leitor de crônicas de viagens e conquistas. Perseguindo o objetivo de criticar os filósofos iluministas. maledicencia y perdón.134) provechosas virtudes y piedades naturales. mas parece ao mesmo tempo ter sido menos vigorosa em suas produções. pedían limosna a sus puertas: y encontraban extraño que esos otros hombres no cogieran a los otros por la garganta. tendo a maior parte deles se baseado em experiências próprias. nem tampouco se reputa como tal aquilo que não ataca a religião e adota a linguagem da impunidade (CLAVIJERO apud DOMINGUES. envidia. aplicándolas solamente al placer de nuestro gusto corrompido.. filho de pai espanhol e mãe crioula. em dois ensaios famosos – um. codicia. diz: Creo que nada hay en esa nación que sea bárbaro o salvaje.. cuando en verdad es a aquellos que nosotros mismos hemos alterado con nuestras artes y mudado de su orden común a los que con más propiedad debíamos designar salvajes. no caso dos padres jesuítas e dos crioulos.. sobre os canibais – levou a crítica da civilização européia. (MONTAIGNE apud HENRRÍQUEZ UREÑA. p. Clavijero cita os antigos pioneiros nas descrições da América (Oviedo e Herrera. 2006. mas mente-se desavergonhadamente: não é apreciado o que não é filosófico. nem tão robusta. nem tão feroz quanto as do outro continente. através de uma visão ao mesmo tempo barroca. Montaigne (século XVI). havia mantido contato com viajantes. marinheiros. (. inclusive. comerciantes e ainda com uns “selvagens” brasileiros levados a Rouen durante o reinado de Carlos IX. . 1954. o pusieran fuego a sus casas.. 28-29). a legitimidade dos rituais. seja através da longa estadia em solo americano. tentando inclusive justificar atos de violência que pudessem ser cometidos pelos nativos. sino que cada cual suele llamar barbarie a aquello que no le es común…Son salvajes así como llamamos salvajes a aquellos frutos que la naturaleza por sí misma y por su natural progreso ha producido. Explicavase a grandeza e a miséria da natureza americana.) Las palabras mismas que significan mentira. 1954. por exemplo. mientras otros. em comparação com o estado selvagem. em parte.. seja através da realização de viagens. (ROBERTSON apud GERBI. 1996. mas também as canibais.] as diferentes espécies de animais peculiares a ele são em muito menor número que as do outro hemisfério [. disimulo. 9). como Humboldt. falsía. No ensaio Sobre los caníbales. p. (MONTAIGNE apud HENRRÍQUEZ UREÑA. comenta que quando conversou com os “selvagens” brasileiros em Rouen. entendeu. patriota e ilustrada.76 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS intermediário e repleto de meios termos. que en éstos hemos bastardeado. por exemplo) e usa o que pode de suas obras em defesa de seus argumentos. 29-30). Como em: O princípio da vida parece ter sido menos ativo e vigoroso do que no velho continente [. traición. p.

os estabelecimentos científicos do México e a biblioteca de Botânica eram de tão boa qualidade que nenhuma da Europa poderia ousar comparar-se. porque. circunscrita a los límites que le impone su propia naturaleza. A respeito da degeneração dos animais domésticos. p. 1954). em estabelecer hierarquias. por considerá-la a mais ofensiva dentre todas as calúnias propagadas sobre a América. num jogo vazio de buscar contrastes entre os dois hemisférios. mas foi garantida pelos processos políticos. 307) Humboldt rechaça ainda vários dos postulados de Buffon e De Pauw. 242) Alexander von Humboldt. nem se deve. los segundos para mostrar la invalidez y relatividad de esos sistemas antiamericanos que arrojarían las mismas conclusiones si se aplicaran al estudio del Antiguo Continente. (HUMBOLDT apud GERBI. comparar os povos da Nova Espanha e do Peru aos demais do continente. porém. A diferença entre mexicanos e europeus seria relativa somente à falta de instrução dos primeiros. Apresenta. religião. em muitos aspectos. Segundo Pedro Henrriquéz Ureña (1979. não se esforçam por conceber com uma visão de conjunto a estrutura do globo terrestre. Afirma que as Imagens fantásticas de juventude e inquietação. O jesuíta demonstra admirar a racionalidade ilustrada e a universalidade do ser humano. seu estudo incrementou sobremaneira as discussões em torno da polêmica. porém mescla conceitos religiosos aos racionais. o que confere a seus escritos. de crescente aridez e inércia da terra envelhecida só podem surgir naqueles que. e reúne-as basicamente nas Disertaciones e na Historia Antigua de México. porém. as primeiras bibliotecas públicas. econômicos. partindo de vários exemplos baseados em sua vivência. uma posição ambígua. Os povos do novo continente superariam. resultando em uma mistura densa de história natural. (2005. em muitos tópicos. havia leitores e havia estudiosos. Tanto los filósofos europeos como los jesuitas americanos utilizaron la misma lógica de razonamiento: los primeros para desarrollar teorías de principios antiamericanos. Humboldt critica ainda a falta de apreciação advinda dos naturalistas do porte de De Pauw. se ligavam a hipóteses brilhantes sobre o antigo estado de nosso planeta. restringindo sua defesa às sociedades “civilizadas”. política. 1996. os do antigo. uma contradição ainda maior: apesar de defender a América em sua unidade. contudo. Contradiz-se. viajando pela América do Sul e pelo Caribe de 1799 a 1804. afirma e reafirma que não se pode. através de uma obra maestra de algum filósofo. lisonjeando a vaidade dos europeus. Nos setecentos foram construídas. durante o século XVIII a produção artística das colônias excedeu a da Espanha e de Portugal. que os nativos americanos têm valor equivalente aos europeus. em solo americano. Refuta definitivamente a ideia de degeneração dos animais europeus na América e enaltece todos os aspectos culturais de sua terra natal e do Peru. o Jardim Botânico do . lamentando que os mesmos não tivessem se dado a oportunidade de aprofundar-se em tão instrutivas culturas. Raynal e Robertson com relação aos astecas. Clavijero opõe-se às generalizações sobre o Novo Mundo e demonstra. comenta: Essas idéias se propagaram com facilidade.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 77 Centra suas críticas principalmente sobre a obra de De Pauw. muitos dos quais ele se propôs a analisar através da interação de todos os fatores naturais que teve a oportunidade de observar em sua viagem. sociais e culturais desenvolvidos no continente pelas mãos de seus administradores. La obra de los jesuitas defensores de América constituye un ejemplo de cómo la razón ilustrada es una y la misma. relata não haver outro sentimento senão encanto: as dificuldades de aclimatação tendiam a inexistentes. A defesa suprema da América não foi feita. história civil e cultural e filosofia iluminista. p. 1988). (HUMBOLDT apud VENTURA. Segundo Méndez-Bonito. De qualquer forma.

En el siglo XVIII circulaban muchos libros de orientación moderna: la Encyclopédie.. Luis Millones. Locke. historias naturales u el Nuevo Mundo. LEDEZMA. Acesso em: 05 jun. Terry Eagleton lembra que A sociabilidade se impõe a nós como indivíduos em um nível ainda mais profundo do que a cultura. México D. Referências bibliográficas DOMINGUES. Pensar sobre as discussões em torno da “polêmica do Novo Mundo” nos leva a delinear de forma mais clara como a ignorância funciona como um véu sobre os olhos. quando alcançada. em primeiro lugar. Anual. 39. 2010. o Museu de Historia Natural e o Jardim Botânico na Guatemala. en 1785.pdf>. 2006. Económica. 5. In: FIGUEROA. fez com que os críticos do “Novo Mundo” pudessem repensar seus valores a partir da força dos fatos históricos.) É claro que os corpos humanos diferem. Copérnico. o r g / p e r i o d i c o s / r e v i s t a / r e v i s t a 5 / dossie2. En el Brasil. Culturalmente é possível ser conduzido por um caminho etnocêntrico de rechaço a outras culturas diferentes da própria. políticos e econômicos. Ureña tece largo comentário sobre a vida cultural latinoamericana. Montesquieu. EAGLETON. Afirma que Entre las gentes educadas de la América hispánica hubo mucha afición a la lectura. Rousseau. etnicidade.: Fondo de Cult. Laplace. México: Fondo de Cultura Económica. porém existe algo essencial no homem que mantém mesmo as culturas mais fechadas com um potencial de ser inerentemente ilimitadas e abertas. se mantuvieron en circulación secreta todavía cuando se les consideró peligrosos y se prohibió su lectura (HENRIQUEZ UREÑA. Disponível em: <http:// w w w. Pedro (1954): Las corrientes literarias en la América hispánica. Mas não diferem naquelas capacidades – linguagem. O México na “Polêmica do Novo Mundo”: humanismo. Leibniz.. Houve um entrelaçamento dos temas ilustrados às formas tradicionais. através da penetração gradual e moderada do “espírito do século”. gênero. o Observatório Astronômico de Bogotá e a Escola Náutica de Buenos Aires. em sua história. Madrid: Iberoamericana. Descartes.F. capacidades físicas etc. Os ideais iluministas. Goiania. manifestações das Luzes se fizeram sentir fortemente nos aspectos sociais. obras de Bacon. por ejemplo. catolicismo. Boyle. puerto de Lima. Pedro (1979): Historia de la cultura en la América Hispánica. história natural e ilustração. Buffon. las cantidades eran extraordinarias: así.78 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS México. HENRIQUEZ URENA. 1979. El saber de los jesuitas. GERBI. denotando o uso inteligente e adaptado às necessidades locais. v. a n p h l a c . empresa que. São Paulo: Cia das Letras. deixa-se de ver com clareza e o que resta são impropérios. . HENRIQUEZ URENA. Anphlac : Revista Eletrônica. [. fundamentaram a justificativa teórica da emancipação das colônias. sexualidade – que lhes permitem entrar em um relacionamento potencialmente universal uns com os outros. Silvia Navia (2005): Las historias naturales de Francisco Javier Clavijero. Antonello (1996): O Novo Mundo. Condillac. Juan Ignacio de Molina y Juan Velasco. abrangendo as mais variadas manifestações artísticas. p. MENDÉZ-BONITO. los libros suplían la falta de universidades (…) Las listas de obras remitidas de Europa a los libreros de las colonias abarcan la mayor variedad concebible de títulos y asuntos. trabalho. Beatriz Helena (2010). Gassendi. sumaba 37 612 volúmenes. una sola remesa de libros recibida en El Callao. Domingo. Lavoisier. inclusive. Terry (2006): A ideia de cultura. História de uma polêmica (1750-1900). pp.] 221-250. São Paulo: Unesp. Além da intensa atividade cultural. Voltaire.

scielo. Aluna do mestrado em Teoria da Literatura através do Programa de Pós-graduação em Letras da Universidade Federal de Pernambuco. set/ dez. Nota * Bolsista CNPQ. São Paulo. Roberto (1988) L e i t tu ras Ra ilust r ação na A mér ica L at ina. Disponível em: <http://www. 2010. Acesso em: 08 mai.br/ s c i e l o . 1988.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 79 ur as de R a y nal e a VENTURA. . p h p ? p i d = S 0 1 0 3 40141988000300003&script=sci_arttext>. Instituto de Estudos ilustr mérica La tina. Avançados da Universidade de São Paulo.

mapuche ou guarani. até certo ponto. por exemplo. como é o caso das literaturas africanas de língua espanhola ou os registros literários hispano-filipinos em espanhol e em chabacano. buscaremos desenvolver ao longo deste estudo uma breve reflexão acerca do exercício de tradução cultural e linguística que permeia algumas dessas manifestações poéticas e narrativas.80 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS A HISPANIDADE DISPOSTA EM PARALELO: VOZES LITERÁRIAS CONTEMPORÂNEAS DOS POVOS ORIGINÁRIOS DAS AMÉRICAS Amarino Oliveira de Queiroz Universidade Federal do Rio Grande do Norte As experiências literárias contemporâneas cultivadas em língua espanhola pelos chamados povos originários das Américas configura matéria de pouquíssima visibilidade no ambiente da pesquisa acadêmica brasileira. em seu conjunto mais amplo. Tal situação é agravada pela quase nenhuma circulação desses textos poéticos e narrativos entre nós. bem como as manifestações literárias bilíngües do povo zapoteca no México. investindo numa maior visibilidade internacional das chamadas literaturas menores ou periféricas. O uso de idiomas europeus como língua de literatura em detrimento dos idiomas locais veio configurando questão bastante delicada por dividir a opinião de realizadores. Em meio ao trabalho acabam sendo preteridas outras possibilidades de apreciação estética e crítica desse universo. Na tentativa de identificar criações que. Na África e na América hispânica. na condição de veículos de comunicação interétnica e de elaboração estética. que chegou mesmo a reivindicar no livro intitulado Decolonising the Mind – The . antologias ou coletâneas brasileiras de literaturas de língua espanhola. as manifestações do universo canônico hispano-americano. por exemplo. as quais via de regra contemplam regularmente a experiência peninsular e. manuais. preocupados não apenas com o trabalho de afirmação de seus pertencimentos etnoculturais e suas identidades literárias. Os argumentos favoráveis a esta utilização foram rechaçados por escritores como o queniano Ngugi Wa Thiong’o. lado a lado com a língua do colonizador. críticos e observadores da cultura em alguns espaços geopolíticos conformados pela experiência colonial. entre outras experiências equivalentes relacionadas aos povos maia. quíchua. compêndios. ausentes que estão na maioria dos livros. passaremos a referir como literaturas em espanhol dos povos originários das Américas. diversos autores e autoras se movimentaram e se movimentam no sentido de instrumentalizar as línguas locais.

destaque-se o exemplo do poeta. não é propriamente o uso do idioma herdado do colonizador como meio de expressão literár ia que torna as literatur as afr icanas cultur almente inautênticas ou mesmo as circunscreve aos domínios ur banos ou alfabetizados. foram imediatamente traduzidas do gikuyu para o inglês? Na verdade. que el portugués de Luandino Vieira o de Pepetela no es el de Coimbra o Lisboa. e também noutros. romancista e crítico Woyle Soynka: primeiro escritor da África negra a conquistar. ¿Por qué no reconocer entonces que la lengua. Descrevendo as razões que o motivaram a substituir o inglês pela sua primeira língua. Thiong’o baseia seu argumento numa possível maior capacidade de apreensão das culturas africanas através das próprias línguas autóctones. sino el que se habla en los suburbios de Abidján o Brazzaville. do Caribe e da América Latina produzidas em línguas europeias é cada vez maior o registro de experiências estética e politicamente inovadoras. instrumentos de comunicación. son. ante todo. p.o que defendeu no seu ensaio Decolonising the Mind . isto agravado pelo fato de que é supostamente na Europa e nos Estados Unidos que se encontra a maior parte do público das literaturas anglófonas e francófonas. co-autor). (VENÂNCIO. dentro do debate lingüístico. cultural e literário de intenção hispanista as múltiplas realidades através das quais .ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 81 Politics of Language in African Literature. p. como o da publicação. publicidade e difusão da obra literária. p.de certa forma . 1992. recorrendo à memória e às tradições orais bem como a um profundo engajamento social e político. contrariando . Neste sentido. Os próprios livros de Ngugi. Devil on the cross (romance) e I Will Marry when I want (drama. 23). que el inglés de Amos Tutuola. disposição também compartilhada pela maioria dos escritores anglófonos. todas las lenguas. y lo importante es cómo y para qué se usan? (NDONGO-BIDYOGO. Que nos diga por que razão as suas últimas obras. como ya sucede en Hispanoamérica. Diante do exposto. já que. o argumento defendido por Ngugi Wa Thiong’o não chegaria a estabelecer um consenso sequer entre seus pares. o prêmio Nobel de Literatura. sino el de la gente iletrada de Luanda o Maputo. el español de María Nsue y de Maximiliano Nkogo no es el de Burgos o Madrid. 3) De acordo com grande par te da crítica literária africanista que adotou opiniões concordantes. propriamente dito. 2006. tais como The River Between ou Weep not. revelando caminhos diversificados e abrindo espaço para interessantes soluções não só no fazer literário como na própria estrutura das línguas “tomadas de empréstimo”. child . Soynka empreende em seu exercício poético e ficcional uma combinação entre técnicas assimiladas do Ocidente e o expressivo universo cultural iorubano. é pertinente a constatação do escritor e crítico literário guinéu-equatoriano Donato Ndongo Bidyogo: Dicen los expertos que el francés en que escribieron Amadou Kourouma o Sony Labou-Tansi no es el de París. Esta atitude foi contestada por vários autores e críticos literários como é o caso do angolano João Carlos Venâncio. sino el de Malabo y Bata. escritos ainda em inglês. Nas modernas literaturas da África. entendendo que o vasto leque de possibilidades investigativas que se abre no espaço acadêmico brasileiro revela tanto a urgência quanto a necessidade de atualizar e incluir. Para trazer outro importante nome da literatura nigeriana escrita originalmente em inglês. contudo. a posição dos escritores africanos francófonos admite a legitimidade e reivindica o uso dos dois procedimentos. 61). (LEITE: 1998. Chinua Achebe o Ben Okry no es el de Oxford. que o imperialismo cultural manifesta-se no domínio lingüístico. de 1986. sino el de los obreros de Lagos. y que. atendo-se ao modo pelo qual a utilização das línguas tomadas de empréstimo legitima o exercício criativo desses autores. em 1986. o recurso exclusivo das línguas africanas para a produção literária escrita do continente. em linhas gerais. o gikuyu. são exemplos perfeitos de como a ficção africana nada perde em autenticidade cultural por utilizar idiomas da colonização como meio de expressão literária. Ele que o diga. para quem: Ngugi esquece-se.

e também em língua castelhana. ensino e literatura. Esta característica é flagrante já a partir de meados do século XIX. em muitos casos . tanto como estratégia de visibilização dos discursos poéticos e narrativos subalternizados como na condição de espaço de resignificação cultural e re-apropriação lingüística como parecem descrever. em “Literaturas de Abya Yala” 1. Um extenso leque de exemplos caracteriza esta tendência. epistêmico e político representa importante fenômeno ocorrido na produção simbólica do continente: En estas literaturas se reconfiguran las subjetividades indígenas y se cuestiona la hegemonía de “literaturas nacionales” circunscritas al imaginario de la población hegemónica criollomestiza de los Estados-naciones dominantes. que hoy articula las movilizaciones de los pueblos originarios. envolvendo incontáveis escritores que vão desde o boliviano Alcides Arguedas ao equatoriano Jorge Icaza. seja por um particular procedimento de reinvenção lingüística e renovação estilística motivado pela interpenetração cultural cada vez mais ativa e diversificada. cultura. artigo que intenta realizar um breve mapeamento das escritas contemporâneas de autores e autoras na América de língua oficial espanhola. a partir de experiências literárias à margem. entendida como um projeto lingüístico.82 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS se movimenta o castelhano em sua condição de idioma de comunicação. o processo de re-apropriação da língua do colonizador constitui uma das tendências claramente identificáveis em grande parte da obra assinada por representativos nomes das literaturas latino-americanas escritas nestes dois idiomas ibéricos. os pesquisadores Arturo Arias. Mas é principalmente durante todo o século posterior que várias destas literaturas escritas passaram a experimentar de efervescência criativa na busca de uma autonomia estética. La emergencia de dicha producción literaria se ha vuelto notable en países como Perú (quechua). pretendemos chamar a atenção para o caráter inclusivo desta condição plural e polifônica. Tal caráter parece pontuar grande parte dos discursos identitários formatados. . no imaginário americano e na realidade sócio-cultural dos povos indígenas e seus descendentes. produzidas em contextos onde também a língua castelhana comparece como protagonista lado a lado com outros idiomas de literatura. De modo assemelhado ao que ocorre com a escrita africana contemporânea em português e espanhol. sobretudo. período que corresponde à independência política e à consolidação dos vários novos Estados americanos. seja pela interferência dos idiomas autóctones e de outras línguas estrangeiras. No que diz respeito aos povos originários das Américas propriamente. se anticipa en el terreno de la literatura escrita. estético. gerando assim momentos de afirmação positiva e de reconhecimento internacional. passando pelo peruano José María Arguedas até o guatemalteco Miguel Ángel Asturias. Bem a propósito. la lucha por la restitución de soberanías y autonomías territoriales en el nivel político y social. como também inscreve a literatura num território de agenciamento indígena dentro do atual contexto latino-americano. uma vez que tal atividade. pese as sucessivas tentativas de apagamento decorrentes da experiência colonial. algumas vozes literárias contemporâneas emanadas dentre os povos originários das Américas. para ficar com apenas quatro desses nomes. En efecto. fazendo com que esta auto-representação e essa autodeterminação literária dos povos originários das Américas configurem um modo de dotar-se de soberania intelectual. é sabido que tanto através da tradição oral como por meio do exercício da escrita nas próprias línguas autóctones e em castelhano seu pensamento e expressão cultural tiveram continuidade e difusão. Muitos de seus autores encontrariam forte substância na tradição pré-colombiana. Luis Cárcamo-Huechante e Emilio del Valle Escalante (2012) argumentam que a emergência desse corpus autoral não apenas põe fim ao império dos indigenismos crioulos e mestiços.

en otras latitudes del continente..) romancista yucateca Marisol Ceh Moo. para além do seu contexto específico de produção. Alimentando a proposta a partir de um lugar de enunciação que se aproxima ao de Marisol Ceh Moo. 2012. ESCALANTE. ni en la adhesión fiel a los modelos hispánicos. las temáticas sociales. o de Rosa Chávez (ritualidad colectiva maya). Esto conlleva una desestabilización de nuestros marcos categoriales e invita a indigenizar “la ciudad letrada” (. Tal es el caso de la literatura indígena en Colombia (. 2012. Não obstante. as práticas literárias desenvolvidas por vários desses criadores e criadoras não estão delimitadas apenas pelo chamado universo letrado. De modo distinto ao de outras publicações realizadas anteriormente.). a autora preteriu a retomada de relatos sobre a criação do mundo e outros elementos da cultura e da cosmogonia maia para investir na ficcionalização da vida e do assassinato de uma liderança social ocorrido nos anos 70 do século passado. paulatinamente. Dichas prácticas indigeneizantes se suelen asimismo enriquecer con el uso de las técnicas contemporáneas de la performance. ESCALANTE. (CRAVERI. de acordo com a investigadora Michela Craveri. u puksiikal koolel (Teya. las identidades urbanas de la contemporaneidad indígena comienzan a adquirir notoriedad en narraciones y poemarios. p. lançado em 2009 pela ensaísta.. El estilo de la autora. expresión de una cultura que ya no se puede encasillar en un pasado prehispánico. Así.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 83 Chile (mapuche).. tradutora e . especialmente en las últimas dos décadas. como é o caso de XTeya. Los textos no se agotan en el espacio escrito. 25-26) En este nuevo contexto.. pero de permanecer sólo en éste. uma experiência estética inovadora e politicamente instigante como exercício de tradução cultural. ya que es una creación pensada en alguno de los idiomas originarios de nuestro país. CÁRCAMO-HUECHANTE. 9) o que parece configurar. ainda que tomando como veículo de expressão e divulgação a língua do antigo colonizador.. 7-8) Não obstante. la capacidad de cruzar barreras lingüísticas y formales. pero con una perspectiva interna a los grupos mayas. também ela própria poetisa bilíngue entende que esta produção literária contemporânea dos povos originários das Américas no puede concebirse sino de manera bilingüe. incluyendo aquellos lenguajes del entorno animal y natural. uma tarefa problemática. musicales. en lengua española. ejemplificándose en la poesía de Dourvalino Moura Fernández (pueblo desana) y Daniel Munduruku (pueblo mundurucu) en Brasil. pp. a ensaísta e tradutora zapoteca Irma Pineda Santiago. Guatemala (maya). Lorenzo Aillapán (sonidos pajariles del entorno mapuche). que saca origen de la literatura hispanoamericana. (.. Asimismo. (ARIAS. CÁRCAMOHUECHANTE. han hecho de este texto un ejemplo significativo de la nueva producción literaria en las lenguas indígenas de México. Traduzir e traduzir-se configuram. zapoteca y náhuatl) y. Tal es el caso de las “lecturas literarias” de los poetas Leonel Lienlaf y Víctor Cifuentes (cultores del ül o canto mapuche). tematizando a mobilização das populações autóctones na península de Yucatán. Assim vêm se multiplicando experiências assemelhadas nos vários quadrantes da antiga América de colonização ibérica. contista. necesariamente tiene que ser traducida al español. 2012). (ARIAS. o primeiro romance bilíngüe espanhol-maia. la autora incursiona con su novela bilingüe en un género tradicionalmente escrito en español. en línea. visuales y corporales provenientes de sus tradiciones rituales nativas. un corazón de mujer). por lo que para poder llegar a una diversidad de lectores y escuchas. uma vez que Poetas y escritores indígenas contemporáneos mixturan además sus lecturas públicas con recursos sonoros. 2009. (Pineda. México (sobre todo maya. a obra de Marisol Ceh Moo se caracteriza por un equilibrio entre las fuentes prehispánicas y una experimentación formal. su difusión estaría restringida al ámbito comunitario. comienzan a ganar visibilidad otras literaturas indígenas emergentes. Se amplifican en el evento de la performance pública. pp. entretanto.) También resaltan en este proceso las producciones literarias escritas de autores nativos de la Amazonía.

edu/ PDF/lacs_event_040306. e é através dela que os movimentos indígenas costumam identificar o continente americano em sua totalidade. CRAVERI. Acesso em: 5 mai 2006. 3 de abril. 1986. CEH MOO. tributárias das criações na oralidade e do letramento em língua espanhola se nos coloca. HERNÁNDEZ. mas também um exercício cada vez menos restritivo de literatura e do próprio fazer literário. Tese de Doutorado. As inscrituras do verbo: dizibilidades performáticas da palavra poética africana. “X-Teya. como um desafio permanente. Literatura guineana: una realidad emergente. CÁRCAMO-HUECHANTE. 2do. Teya. pois. Portsmouth.F. Decolonizing the mind: the politics of language on African Literature. Literatura e poder na África lusófona.hofstra. 2007.gob. para que juntos possam contribuir para a conformação de um novo tecido social onde as novas gerações vivam e convivam num ambiente social pluricultural e plurilingüe. não apenas um conceito. Ngugi wa. “Para una teoria literaria hispanoamericana”.pdf.: Heinemann. é a própria Irma Pineda Santiago quem indaga sobre o papel que devem desempenhar os escritores indígenas no futuro. Michela. winter 2012 : volume xliii : issue 1. ayer y hoy.1992. Natalio.pdf Acessado em 12 ago 2012. e onde o saber indígena seja um componente fundamental das novas sociedades. mas também como uma riqueza a ser explorada no sentido de fazer valer. 25-26. Disponível em: http://www. Lima-Hanover. LEITE. México D. 2008. La autotraducción en la Literatura Indígena: ¿cuestión estética o soledad? Disponível em: www. Literatura Indígena. 2006. Programa de Pós-graduação em Letras. Ana Mafalda.mxcppdfla_auto traduccion_irma_pineda. Donato. Amarino Oliveira de. Nota 1 No idioma cuna do Panamá. Conferencia en Hofstra University. “Literaturas de Abya Yala”. n. 1990. Luis. ESCALANTE. un corazón de mujer. Lisboa: Colibri. 2009.84 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Retomando as considerações do poeta e professor de literaturas indígenas Natalio Hernández (1990). POLAR.Instituto de Cultura e Língua Portuguesa. Curry. PINEDA. de Marisol Ceh Moo”. un corazón de mujer. El Caracol. . 13. 9-12 QUEIROZ. Referências bibliográficas ARIAS. pp. N. Antonio Cornejo.culturaspopulareseindigenas. VENÂNCIO.1998. Lasaforum. Emilio del Valle. NDONGO-BIDYOGO. A dinâmica ascendente dessas escritas bilingües. conforme já apontava Antonio Cornejo Polar (1999) na penúltima década do século passado. THIONG’O. o estabelecimento de um diálogo permanente entre escritores de diferentes línguas e culturas no mundo. por conseguinte. Semestre de 1999. fazendo suas as palavras do professor mexicano e defendendo. Nº 50. Oralidades e escritas nas literaturas africanas. Recife: UFPE. México: DGCP. José Carlos. um dos iniciadores do movimento de escritores indígenas no México.: Consejo Nacional para la Cultura y las Artes (Letras Indígenas Contemporáneas). Irma. pp. Arturo. a expressão Abya Yala significa “tierra en plena madurez”. Marisol. Rev ista de Crítica Literaria Latinoamericana. Año XXV.H. London: J. Lisboa: Ministério da Educação .

as leis do mercado editorial. as inserções hispânicas sobre a cultura rapanui da ilha de Páscoa. a questão identitária hispânica revela algumas complexidades do ponto de vista linguístico nas Filipinas. na África. na dança ou na manutenção de uma religiosidade católica que perpetua. por exemplo. Presente como língua co-oficial até o ano de 1987 ao lado do tagalo e do inglês. o jaquetía ou haquitía do Marrocos. o chamorro de Guam e das ilhas Marianas: cada um destes exemplos aponta em maior ou menor grau para a emergência do tema proposto.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 85 ÁFRICA. com suas respectivas literaturas. as relações do guanche autóctone com o castelhano das Canárias e suas implicações culturais. ou literatura filipina escrita em . Com destaque na expressão arquitetônica. a literatura hispano-negro-africana da Guiné Equatorial. uma grande área a descoberto no que tange aos estudos hispanistas desenvolvidos em território brasileiro até o presente. ainda. inclusive. sugerindo uma discussão que passa por questões diversas como o direito à informação. Se nos ocuparmos da Ásia e da Oceania teremos o judeu-espanhol ou ladino de Israel e sua presença na comunicação e na literatura. o ritual católico da crucificação durante as festividades da Semana Santa. a resistente presença do idioma na comunicação e na expressão literária produzida no Saara Ocidental e nos acampamentos para refugiados saarauis em Tinduf. as relações entre o cânone e as margens ou a eleição de prioridades na hora de propor e cumprir os atuais componentes curriculares dos cursos de Letras. ao sul do Pacífico. as diversas língua espanhola. a crescente utilização dessa língua como recurso literário por parte de vários autores e autoras oficialmente francófonos nos Camarões e na Costa do Marfim. ÁSIA E OCEANIA: FRONTEIRAS FLUIDAS DO HISPANISMO Amarino Oliveira de Queiroz Universidade Federal do Rio Grande do Norte Salvo raras exceções. a colonização e a descolonização intelectual. Argélia. a chamada literatura filhispana. atualmente o castelhano enfrenta um delicado processo político particularidades e implicações culturais do idioma espanhol e sua apreciação como língua de literatura a partir de outros contextos que não o peninsular ibérico e o hispano-americano parecem representar. e a interferência do castelhano na formação do tagalo. do chabacano e de outros idiomas nacionais das Filipinas. no artesanato. Vejamos.

Gómez Rivera refere ainda a existência de uma literatura hispano-filipina contemporânea. dramáticos. correspondendo ao período formativo e onde predominaram a poesia e a crônica. no século passado. o teatro. de artistas que defendem uma estética abertamente fil-hispana. La mirada naturalista y determinista. opinando sobre a polêmica instaurada a partir de uma possível “rehispanización” cultural e linguística do arquipélago das Filipinas. a quase totalidade destes registros escritos desapareceu. representada por nomes como os de Antonio Fernández Pasión. poéticos e da letra do hino nacional filipino. Somos de los dos mundos y los dos mundos son nuestros. a da plenitude. e mais Edwin Agustín Lozada. Além dos trabalhos individuais em livro. o conto e o romance. a de crescimento. resistindo como língua de literatura.los filipinos somos un nexo viviente entre Occidente y Oriente. na atualidade.86 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS de restabelecimento desta condição. Cultivada inicialmente em tagalo através de alfabeto silábico próprio. realizada por missionários católicos. A essa lista de autores e autoras podemos acrescentar o próprio Guillermo Gómez Rivera. com destaque para o nome de José Rizal. Sólo que los “filipinos” nacidos a partir de 1901. o escritor Guillermo Gómez Rivera (2001) propõe uma periodização dessa literatura em quatro principais etapas: a inicial. María Dolores Tapia del Río. que também defende o conceito de fil-hispano em parte de sua obra gravada simultaneamente em inglês e espanhol. eliminada por iniciativa dos conquistadores da mesma maneira como ocorreu com a maioria dos códices pré-colombianos nas Américas. durante o século XIX. conforme mencionado. é que foram aparecendo os primeiros criadores. por volta de 1593. além da poesía e do ensaio. também se expressam literariamente em castelhano. além de contribuir. criadores bilíngües que. com a introdução da escrita em espanhol com caracteres latinos. ou seja. como veremos a seguir. Concepción Huerta. Em sua Breve Historia de la Literatura Filipina en Español. uma simbiose cultural filipina perpassada historicamente por elementos autóctones e hispânicos. para a formação do idioma chabacano e de outras línguas locais. Bem a propósito. caso do já referido cantor pop Josh Santana ou da artista plástica e escritora Paulina Constancia. O debate acerca do tema provoca opiniões diversificadas e nem sempre favoráveis nos mais diferentes setores da vida nacional. o surgimento de uma expressão literária filipina é bastante anterior à chegada dos colonizadores espanhóis. Edmundo Farolán Romero.. Marra Lanot ou Wystan de la Peña. ou pela iniciativa. dijo que éramos indios o asiáticos y por lo tanto debemos atenernos a ser lo que somos y nada más. la franca . na qual floresceram. Elisabeth Medina. a da decadência. Esse caráter fil-hispânico é igualmente defendido por outros setores artísticos e culturais naquele arquipélago asiático. em que se desenvolveram a poesia e o ensaio.. a escritora Elisabeth Medina (2000) afirmaria que: . Somente no século XVI. Federico Licsi Espino e Mariano Loyola. apesar de exemplos curiosos como o do cantor Josh Santana. rápidamente sufrieron primero el trueque cultural y la supresión del pasado. apesar da atual vigência e prestígio interno do idioma inglês. y después. encontrando reverberação também. na sua literatura contemporânea. essa expressão contemporânea da literatura filipina em língua castelhana é alimentada pela publicação de revistas como “Guirnalda Polar” ou “Perro Berde”. Não obstante. dentro e fora do arquipélago. tanto de los españoles y de los norteamericanos. causada pela supressão do castelhano e da crescente anglicização do país. De allí el debate actual y absurdo de si Filipinas debería hispanizarse de nuevo o no. no campo cultural. Cuando Filipinas “siempre” ha sido hispanizada. y ahora de nosotros frente a nosotros mismos. autor de importantes textos ficcionais.

. (Y yo me desespero. “pone de manifiesto el sincretismo original de la nación filipina” e estabelece. idiomas. Margalit Matitiahu) e filipinos que escrevem em chabacano e espanhol o hispano resiste. convertendo-se numa opção estético-literária. disposto entre parênteses. novela. um curioso diálogo intercultural: Y llegó el español a esas islas indias Magallanes su nombre. textos que a menudo hablan de Filipinas o que de todas formas presentan un enfoque. En su lugar el inglés y su música tonta. este país mestizo. Em seu poema “Elogio a la Hispanidad”. [. (. para dizê-lo com palavras de Andreas Gallo (2007:160). Joe y MacArthur. francês e outros . el nombre Filipinas. una sensibilidad. A G.) por filipinos. Guy Merlin V i-M Tadoun. tagalo. 30-31) Autor de poesia. editor de literatura e professor de língua espanhola. é novamente o hispanista italiano Andréa Gallo quem observa: el gran problema del escritor filipino que decide escribir en español es la falta de un público nacional y en consecuencia la falta de un público internacional.] (FAROLÁN. política e identitária. hombres y mujeres nacidos en Filipinas.. na permanência e atualidade dessa particular expressão literária. Me gusta el dinero. entre outros). Encuentro el hispanismo de Aparri hasta Joló: Filipinas y España. Allí es donde me meto. en línea). O uso literário do castelhano em países asiáticos como as Filipinas é uma realidade compartilhada com a de alguns Estados africanos. (GALLO. A ese archipiélago de numerosas islas Descubiertas el año mil quinientos veintiuno. 2000 . pp. 20062007. Tras dos razas unidas. sigue manteniéndose viva y representando una tradición que para muchos filipinos es patrimonio de identidad. ainda que escrevendo paralelamente em outros idiomas por motivações muitas vezes coincidentes. Céline Cléménce Ndé e Mbol Nang. la espada en la mano. dividida entre os dois idiomas oficiais do pais: o árabe hassania e o espanhol. Se para israelenses que escrevem em judeu-espanhol (Avner Pérez. Ya no soy cristiano. una interpretación del mundo peculiarmente filipina y curiosamente son textos que se dirigen a los filipinos. se expressa literariamente em inglés. 1981. Soy “brown” americano.) […] Pero pronto llegaron las aves de rapiña— El gringo o el yanqui su nombre no importa. Edmundo Farolán Romero revela através da voz lírica o duplo lugar cultural de um autor que.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 87 tergiversación y aniquilamiento de su conciencia histórica. al dólar y al peso.) Estamos delante de textos escritos y publicados (. (MEDINA. Don Segundo Sombra.. que a través de diferentes voces. ¿quién soy yo? Y busco en lo español al indio filipino. Me gusta jazz y disco. Situação similar vive a literatura produzida no Saara Ocidental. La nobleza cristiana se esfuma en estas islas. em países oficialmente francófonos da África diversos escritores e escritoras ak o mé (Robert Johlio. la pregunta. além do espanhol. Lo mataron al león el león de Castilla. de familias filipinas. transformaram o castelhano literário em sua verdadeira plataforma de expressão. I. textos teatrais e ensaios críticos. Sin embargo esta situación no ha decretado la muerte definitiva y permanente de esta literatura. Apostando.. Honrando al Rey Felipe. Edmundo Farolán (1981) apresenta uma voz lírica ambígua que. o bien en el extranjero (fenómeno en cierta forma común a otras literaturas post-coloniales). Farolán desenvolve outras atividades lingüísticas como a tradução para o tagalo do conhecido romance de Ricardo Güiraldes. un punto de vista sobre la realidad. ni en los países hispanos. a este camino voy yo. portanto. bien en el suelo patrio. (En esta lucha del Yo... Germain Metamno. Nascido em Manila em 1943. Inongo-V i-Mak ako mé. p. contos. 152-153).

Además de temas que reflejan la vida cotidiana de la sociedad saharaui no exenta de sentimientos tan universales como el amor. la felicidad y la profunda pasión por hacer que la vida de los saharauis deje de ser rutinariamente triste y dolorosa. Mohamidi Fakal-la. De acordo com o estudioso Francisco Cenamor (2008). com escritores como Ahmed Mulay Ali. No es hasta finales de los ochenta y principios de los noventa cuando parece que comienzan a aparecer atisbos claros de una poesía seria. real e simbolicamente. a poesia em castelhano da Espanha e da América e a luta pela independência do Reino de Marrocos. no mundo árabe o saaraui é conhecido como um povo de poetas e sua atividade apresenta. Zahra Hasnaui. Mesmo com uma produção mais reduzida. além de desenvolverem intensa relação com o universo hispano-americano. ganhando expressividade como língua de resistência cultural que se caracteriza pela influência de arcaísmos do castelhano ou a assimilação do idioma árabe. passando a ser objeto de uma disputa política que envolve confrontos armados e negociações diplomáticas sem solução até os dias atuais. Larosi Haidar. em síntese. Além de cultivar fundamentalmente a poesia. sino. a República Árabe Democrática Saaraui foi invadida e ocupada militarmente pelo exército marroquino. o país é rico em jazidas de fosfato e em atividade pesqueira. Bahia Mahmud Awah. sobretudo a partir do exterior. entre os mundos arábico-africano e europeu-ibérico. diversos criadores se dedicam também à prosa. recuperada da tradição para o formato impresso através de vários livros que vêm sendo publicados. 1 . o que teria motivado a sua invasão e ocupação militar quase que imediatamente após declarada a sua independência. de quem está fisicamente separado por enormes muros especialmente construídos para este fim. também ao longo de suas obras uma multiplicidade de vivências culturais que por sua vez reivindicam. no sólo la lucha del pueblo saharaui y sus aspiraciones de libertad.88 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Território cedido por acordo em fins de 1975 pela monarquia espanhola ao Marrocos e à Mauritânia. A língua espanhola aparece ali. acumula força nos acampamentos para refugiados saarauis montados em território argelino. esta recente literatura hispano-saaraui envereda ainda pelo romance. pois. ou Frente Polisario. a ampliação desses espaços. sob condições muito particulares. passados três meses de sua autoproclamada e até hoje não reconhecida independência política comandada pela Frente Popular de Liberación de Saguía el Hamra y Río de Oro. Quanto à atividade literária. na condição de língua co-oficial ao lado de uma modalidade local do idioma árabe. Apesar de ter quase toda a superfície territorial inserida dentro da zona desértica homônima. o Saara Ocidental também divide fronteiras com a Argélia e a Mauritânia. Conforme assegura o poeta Mohamed Salem Abdelfatah (2007). profunda. que já vem se arrastando há mais de trinta anos. Um juízo descuidado poderá classificá-la como incipiente. Divididos. preocupada por todo lo que acontecía en su entorno. como dissemos. Fatma Ghalia ou Limam Boisha entre eles. também conhecido por Ebnu. Localizado ao sul do Marrocos. já que grande parte de seus escritores e escritoras vive fora do país. porém torna-se necessário acrescentar que o seu surgimento é relativamente recente: as primeiras manifestações literárias registradas em espanhol por autores locais tiveram lugar nas últimas décadas do século XX. muitos dos autores e autoras saarauis refletem. Não obstante. sobretudo através do conto e do ensaio: Mohamed Ali Ali Salem. três influências principais: a tradição oral fortemente apegada à natureza e às vivências de seu país. también una evidente preocupación por lo que pasaba en el mundo. Mohamed Sidati ou Abderrahman Budda Hamadi. embora venha perdendo espaço gradativamente nos territórios ocupados. a produção saaraui em castelhano revela uma forte interferência da criação poética e narrativa na oralidade.

S alka outras representantes como F at atma hamed. Mohamed Salem. a mescla das experiências. Chejdan Mahmud. FUENTES. CENAMOR. ao confessar a existência real e simbólica de “tres…/ tres amantes: Sáhara. dispondo-as de forma mais abrangente e buscando assimilar a fluidez com que têm se movimentado. 2004. pluralizando-os culturalmente e estendendo pela fluidez de suas fronteiras a transversalidade de manifestações como essas. tantas vezes legitimadoras de uma pureza original tanto descabida como anacrônica. poeticamente. Além de Mohamed Salem Abdelfatah. felizmente. sua emergente presença no cenário das letras contemporâneas assinala também que à literatura hispano-saaraui toca caminhar afirmativamente ao lado das outras tantas expressões literárias que a partir da África. parece-nos necessário e inadiável incluir. Los versos de la madera . a relação com outras alteridades africanas. duas de suas vozes no feminino. “La poesía saharaui”. À guisa de ilustração.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 89 Mohamed Salem Abdelfatah Ebnu atuais das letras hispano-filipinas e saarauis. pois. constituem o coletivo Limam Boisha. Sukeina Taleb e Zahra Hasnaui. CORDIVIOLA. Desafiando. Saleh Abdalahi. hispanas e latino-americanas . Francisco. In: Revista Ariadna 25.com/numero25/ sahara/sahara. 82 – Pluralidades. BOISHA. FAROLÁN. / y a las tres / las quiero por igual”. interferências como as dos escritores filipinos Elisabeth Medina e Edmundo Farolán ou dos saarauis Mohamed Salem Abdelfatah e Limam Boisha. 2005.htm Acessado em 3 abr 2007.aquí particularizadas nos recortes canário e cubano se revela na forma de uma sensível metáfora para atestar. Embarek O conjunto de elementos híbridos resultantes do progressivo contato entre realidades díspares como a afro-arábica e a hispana encontram na expressão cultural saaraui motivação criadora permanente. . poema de Limam Boisha publicado em Los versos de la madera (2004). 1998). pela projeção que está alcançando. Alfredo. portanto. insistem em brotar. Bahía Awah. Luali Lehsan. 2005. converte-se numa ponte que tende a promover um rico encontro entre a cultura autóctone do Saara Ocidental com as culturas espanhola e iberoamericana. Ali Salem Iselmu. as incertezas política do país. a fim de que questões como a condição da hispanidade se coloque num patamar além das reinvidicações “nacionalistas”. Cuba y Canarias. Disponível em: http://letraclara. Las Palmas: Puentepalo. Disponível em: http://www. Conforme se pode observar através do sujeito poético de “Poligamia”. “Poesía saharaui en castellano”. no debate brasileiro de intenção hispanista. tão interessantes quanto desconhecidas. Referências bibliográficas ABDELFATAH. Limam. embora a literatura saaraui em espanhol conte com ma A hame d. os recortes aqui esboçados buscaram realizar o registro de alguns nomes presente y futuro”. Perpectivando. entendendo que esses espaços representam um contributo à parte na perspectiva do redimensionamento de conceitos como hispânico e hispanidade (CORDIVIOLA. Mohamed Salem. Um mundo singular. Salka Embar ek ou Fatma Ghalia Abdesalam. “Literatura hispanofilipina: pasado. especial: Cultura y literatura saharaui. as várias realidades linguísticas. memória e conflito na literatura hispano-americana do século XVI. O escritor integra a chamada Generación de La Amistad.ariadna-rc. culturais e literárias relacionadas ao castelhano hoje. complementa seu raciocínio defendendo que a poesia local em espanhol. ideias e sentimentos que ali encontram lugar. culturas.com/ Acesado em: 22 abr 2008.wordpress. um dos mais ativos grupamentos de escritores reunidos em torno da causa saaraui no exílio. agosto 2003. Edmundo. Imaginação. Recife: PGLetras/UFPE. In: La Guirnalda Polar Núm.

In: Humanities Diliman . número 25.ariadna-rc. MEDINA. In: Revista Ariadna. especial: Cultura y literatura saharaui. 2009. Madrid: Taurus. Maceió. NOTA 1 ABDELFATAH. Guillermo Gómez.htm Acceso en: 3 abr 2007 . No 1 (2007). 28 de marzo de 2000. 2009. GALLO. Org. “De la invisible presencia: voces literarias en español desde África y Asia”. Edmundo. “La poesía saharaui”. 53. Disponible en: http:// www. “Breve Historia de la Literatura Filipina en Español.com/numero25/sahara/sahara. Quezón City. El espejo enterrado. No 2 (2006) & Vol 4.com/kaibigankastil/rivera7. Carlos. Mohamed Salem. p. In: II Congreso Nordestino de Español.html. A. QUEIROZ. Acessado em: 02 abr 2006. 150-174. In: Tercera primavera. pp. O.90 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS FAROLÁN. Vol 3. Contemporánea? Un ejemplo en la poesía de Edmundo Farolán Romero”. 1981.geocities. “Filipinas Hispanizada: ¿Una Buena Opción?” In: Hispanismo . 1998.org/hispanoasia/5218filipinas-hispanizada-una-buena-opcion. “¿Literatura Hispano-Filipina Disponible en: http://hispanismo. Filipinas. Disponible en http://www. Andrea. RIVERA. “Elogio a la Hispanidad”. Elisabeth. FUENTES. Bogotá: Editorial Cabrera. Programação e Caderno de Resumos.html Acessado em: 4 abr 2009.

o sea. la neorrealista y la dialéctica. MERCEDES Y ELVIRA – RETRATO DE LA MUJER ESPAÑOLA EN LA POSGUERRA Ana Carolina da Silva Pinto PG . pero obser vamos un cambio en la estructura de la novela. Estamos hablando. termina exactamente en el año de 1950 y tenía como característica estudiar la vida en las ciudades de los años 40 y la angustia existencial del individuo que en ellas vivía. la dialéctica. por lo tanto. Finalmente. desaparece el ansia del testimonio objetivo y surge una visión dialéctica de la realidad española basada en la confrontación de los estratos ideológicos y sociales.Universidade Federal Fluminense A mediados del siglo XX una nueva forma de hacer novelas pasa a ser observada en España. se dividen en tres tipos: la existencialista y tremendista. la existencialista. Según Sanz Villanueva. La primera etapa. tras pasar por una sangrienta guerra que duró tres años y que dejó sus rastros destructivos en las décadas posteriores. Publicada en 1957. la neorrealista. Entre Visillos es una novela que forma parte de la segunda etapa. sigue con el tema de la de la vida en las ciudades y la angustia existencial del individuo. p. la tercera etapa. tal forma nueva tenía como objetivos retratar el cotidiano de las ciudades y la crisis existencial por la que pasaba el individuo que en ellas vivía. según Gonzalo Sobejano. la cronología no es linear y las acciones son descritas de modo simultáneo. JULIA. hasta la muerte del dictador Francisco Franco. la neorrealista. cuya lección sacamos de su Historia de la novela social española . por Carmen Martín Gaite. de la Guerra Civil Española (1936 – 1939) que dividió el país en dos partes (la España Nacionalista y la España Republicana). La segunda etapa. y del régimen franquista.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 91 NATALIA. pues el protagonista individual cede la vez a un protagonista colectivo. generando odio. 411). pobreza y varios muertos en ambas partes. de forma que se observa que “la mirada apasionada del autor comienza a ser substituida por el frío contemplar de la cámara fotográfica.” (RICO. pero una necesidad de la autora para que pudiera expresarse. 1980. Las novelas de posguerra. establecido terminada la guerra con la victoria del bando nacionalista que duró treinta y seis años en el poder (1939 – 1975). en la que las técnicas realistas no fueron una moda.

presentados a Natalia y a sus hermanas Julia y Mercedes. Também defenderam essa função social. nos es posible visualizar un retrato de las sociedades provincianas españolas del medio del siglo XX y. esa es la razón de la cantidad de diálogo que observamos en ellas y es a través de ellos que la trama es conducida. en el libro). retratando todo el conservadurismo y retraso de una sociedad patriarcal marcada por una dictadura que la devastó. Entre Visillos tiene como tema principal la situación de las mujeres en los años de 1950 con todos los tabúes y privaciones que tenían que enfrentar. La novela tiene inicio con la llegada de Pablo Klein. Pablo Klein y el narrador omnisciente en tercera persona narran la sociedad como ven. que narran en primera persona sus vivencias e impresiones de la sociedad en la que están inseridos. (SANZ VILLANUEVA apud ÁLVAREZ. São os representantes do chamado realismo social. p. así que si no presenciaron el efectivo impacto que toda guerra engendra. El lector es presentado a los hábitos y costumbres de la burguesía de la pequeña ciudad española a partir de tres visiones. Jesús Fernández Santos (1926 – 1988) e Carmen Martín Gaite podem ser agrupados sob o rótulo de neo-realistas. pues como ya vimos. principalmente. el espacio que les era reservado a las mujeres de la época. pues la novela es narrada por tres focos narrativos: un narrador extradiegético que narra en tercera persona todo lo que ve. A través de las relaciones que establecen con los demás personajes de la trama. Ignacio Aldecoa (1925 – 1969).92 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Sánchez Ferlosio. 1994. en especial. pero. como una cámara que registra todo lo que pasa delante de ella. reproduciendo. que viven con su padre y su tía. este personaje se configura como un hilo conductor. Todos eles coincidem na defesa da função social da literatura. Ana Maria Matute (n. A pesar de no ser el personaje principal. entonces. esta figura inexiste en este tipo de novelas. además de tratar de otros temas como la diferencia entre las clases sociales – ricos despreciando pobres y viceversa –. Mas nestes últimos impunha-se uma concepção utilitária da arte que por vezes se sobrepunha à salvaguarda da qualidade artística da sua ficção. pues estamos tratando de una sociedad conservadora. la cuestión de la hipocresía y del conservadurismo de una ciudad que todavía se encontraba cerrada en razón de los años de guerra vividos. y dos narradores intradiegéticos. profesor de alemán que vuelve a su ciudad natal para impartir clases en el Liceo de la ciudad. outros escritores que orientaram a sua produção no sentido da urgência da denúncia. escrevem com técnicas de representação que aproximam os discursos narrativos da reportagem e privilegiam a expressão do castelhano coloquial. de un grupo de chicas adolescentes de clase media de los años 50. Natalia. por lo menos sintieron sus efectos – Carmen Martín Gaite con Entre Visillos escribe una novela social que hace una crítica a los modelos de conducta femeninos preconizados por la sociedad patriarcal española y a la vez denuncia una sociedad en la cual la mujer no tenía vez. huérfanas de madre. LOURENÇO. Novela que le dio reconocimiento a su autora por ganar el Premio Nadal en el mismo año de su publicación. Entre Visillos narra. 301).1926). por lo tanto. la vida de un grupo de jóvenes de misma generación de una ciudad provinciana española (que no es explicitada . en estas novelas. escritor español que sigue produciendo y que también formó parte de la generación de los niños de la guerra. Juan Goytisolo. y la religiosidad que no podría dejar de aparecer. como se fuera una cámara lo que testimonia. Somos. pues es a través de él que la historia es delineada. diciéndonos que Perteneciente a la llamada generación del medio del siglo o generación de los niños de la guerra – una vez que los escritores que produjeron alrededor de los años 50 eran niños en la época de la Guerra Civil. nos explica el motivo de la necesidad de que se hiciera en España novelas de este tipo. El narrador no interviene en la historia. Natalia y Pablo Klein.

“La sociedad patriarcal. 38). un hombre viudo. que sólo quería convertirlas en unas estúpidas. p. la más joven de las tres hermanas. sacándola de un local privado para uno público donde pudiera ejercer más control sobre la chica. obligándola a hacer sus tareas en la sala. lo que hacía con que ella depositara todas sus carencias afectivas en su padre que representaba un modelo de conducta para ella. que. y el futuro historiador de la sociedad española deberá apelar a ella si quiere reconstruir la vida cotidiana del país a través de la espesa cortina de humo y silencio de nuestros diarios. p. soñadora y rebelde. A los dieciséis años. Saqué lo del novio de Julia. era el hecho de no dejar que estudiara en su cuarto. nos complementa Concha Alborg. habla sobre todo lo que le aprieta el corazón menos sobre sus intenciones de proseguir sus estudios en Madrid: Qué difícil era: era dificilísimo. […] De lo de mi carrera no le he dicho nada. p. que la tía Concha nos quiere convertir en unas estúpidas. prefiero no vivir. caso su padre. primeramente por confesar a su padre el cuanto le aburría la educación que les daba su tía Concha a ella y a sus hermanas. (MARTÍN GAITE. 185). cuando la niña empieza a crecer. Otra acción de tía Concha que también le aburría muchísimo a Natalia. me puse a defenderle y a decir que era un chico extraordinario. 1993. dedicadas al trabajo doméstico hasta la obsesión y sin siquiera la compensación del reconocimiento por parte de unos hombres que. educándolas para que tuvieran un novio rico y nada más. Siendo así. lo que quiere es seguir sus estudios en una universidad. que estaba dominada por las tareas domésticas y por la obligación de encontrar un novio para casarse. compensaban con actitudes prepotentes en la familia sus también difíciles condiciones de trabajo. Era. a analizar a Natalia. Según ella esta imagen de sus madres. es una chica independiente. o sea. Me arrodillé en la alfombra y allí. (…) he arrancado a hablar y le he dicho todo de un tirón. p. 93-94). Natalia no se preocupa en conseguir un novio y menos aún en casarse. no provee modelos maternales positivos” (ALBORG. (GOYTISOLO apud MARTÍNEZ CACHERO. Como ya vimos.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 93 los novelistas españoles – por el hecho de que su público no dispone de medios de información veraces respecto a los problemas con que se enfrenta el país – responden a esta carencia de sus lectores trazando un cuadro lo más justo y equitativo posible de la realidad que contemplan. encerradas como el buen paño que se vende en el arca y esas cosas que dice ella a cada momento. (SANDE. por el contrario. Que nos volvemos mayores y él no lo quiere ver. no podía resultar atractiva a las niñas y adolescentes de posguerra En este fragmento podemos observar la inconformidad de Natalia con el medio en el que vivía. 1997. que no sepamos nada ni nos alegremos con nada. con quien podría conversar abiertamente como hacía con su padre en la infancia. y la distancia entre padre e hija aumenta. Natalia descubre un nuevo modelo masculino en su profesor de alemán Pablo Klein. 2005. por lo tanto. por lo tanto a través de su diario que Natalia se refugiaba. es Pablo Klein quien la incentiva para que hable con su padre sobre sus pretensiones de seguir una carrera. sin embargo cuando toma coraje. […] Le he dicho que si tengo que ser una mujer resignada y razonable. sin verle la cara. que sólo nos educa para tener un novio rico y que seamos lo más retrasada posible en todo. 1958. el cine y los seriales radiofónicos hallaron fórmulas diversas para aspirar a finales más felices. tuvieron que pensar en cómo modificar y mejorar esas condiciones de vida: en la publicidad. . Empezamos. a su vez. Natalia no tenía madre. donde la madre sigue las normas sociales. lo permita. pero no como cualquier adolescente de su edad y sí por cuestionar el ambiente opresivo en el que vivía la mujer de su época. De este modo la novela cumple en España una función testimonial que en Francia y los demás países de Europa corresponde a la prensa. 229-231). sin embargo. María del Mar Jorge de Sande en sus Apuntes sobre la Novela Española Femenina de Posguerra nos explica el porqué de la orfandad de la mayoría de las chicas de las novelas sociales.

independiente que. 11). que por fin. la hermana del medio de Mercedes y Natalia. con él deseo de excitarle. tengo que hacer una selección de los libros antes de casarme. se siente culpada por el creciente deseo sexual que empieza a atormentarla. . en el día de la partida de su hermana. Así le cuenta Natalia: “[…] He venido despedirme de mi hermana. decide ir para Madrid quedarse con Miguel. A partir de este fragmento observamos el triunfo de Julia como persona y como mujer que toma sus decisiones y enfrenta su destino. Julia. cogiendo un poco las cosas que había encima. al apoyar la unión de su hermana Julia con Miguel. […] Se sentaron en el sofá amarillo. ya hace mucho.. a la vez. (MARTÍN GAITE. lo más malo que se puede usted figurar. 1958. porque a Ángel no le gusta el ambiente del Instituto. llegando. diciéndole que me acordaba mucho de todo lo de ese año cuando nos hicimos novios. Anoche me desperté y estuve escribiéndole cosas como las que me escribe él. p. sabe Dios de donde venía – Natalia se tapó la cara contra el hombro de Gertru y se echó a llorar desconsoladamente. al no encontrar los libros que tenía: – Sí. Yo le pregunté por qué. Yo creo que si le viera mucho. (MARTÍN GAITE. representa la virilidad y la fuerza física y psicológica que somete a la mujer. Natalia observa la reproducción de los dictámenes de la sociedad patriarcal. que tuvo una formación tradicional y católica. p. Si te sirve alguno. 1958. Con su amiga Gertru. (MARTÍN GAITE.. p.” (MARTÍN GAITE.94 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS registrando en él todo lo que le afligía. 1958. a través de Natalia que le cuenta la decisión de su hermana a Pablo Klein cuando lo encuentra en la estación de tren. asumiendo todas las responsabilidades que sus actitudes pueden causar. ¿sabe? Se va a Madrid. Julia. aquella chica de quinto que tuvo un hijo el año pasado. puesto que son tratados como trastos lo que representa para uno la salida de la ignorancia y la apertura de puertas para la libertad. Allí juntas. que desaprueba tal unión. incluso. A partir de este fragmento percibimos la perplejidad de Natalia al ver que su amiga no proseguiría sus estudios a causa de su novio. puesto que Miguel se niega a someterse a la tradición de pedir la mano de su novia a su padre. ¿qué miras? – Que has quitado la repisa con los libros. Siendo así. p. sirviéndole como ama de casa y en la educación de sus hijos. En nuestras casas no lo habíamos dicho. Miguel interpreta un hombre libre e Al final de la novela sabemos que Julia. como por ejemplo lo de su amiga Gertru que dice que este curso por fin no se matricula. volvería a pasar lo de aquel verano.] Julia lloraba. 243). [. como también podemos percibirla en la fiesta del noviazgo de ésta misma amiga. ¿Dónde tienes los libros? – En el cuarto trastero. vive dividida entre el deseo de entregarse a su amor yendo para Madrid concretizar su unión con el guionista. y es que ella por lo visto le ha contado lo de Fonsi. que es mentira cuando le digo que me enfado por las cosas que me dice él en las cartas …. 83). finalmente. como ya hemos visto en la conversa de Natalia y su padre. También percibimos el papel transgresor de Natalia. oyendo la música de una emisora francesa – tan lejos. a ir a la iglesia para confesarse: – Pero la tentación la tengo siempre. para que se uniera a un hombre que solamente buscaba una joven inocente y virtuosa para dominarla. 255). pero mi padre no sabe nada todavía. que son los libros. 1958. se cree que vuelve después de las Natividades. un guionista de cine que vive en Madrid. y su familia. El novio le ha encontrado allí un trabajo. no sé para qué se lo ha tenido que contar a él. En este fragmento constatamos el malestar psicológico de Julia al descontrolarse por los deseos que le atormentaban y a la vez por lo que había sentido y hecho.

es la heroína fracasada de la novela. para mostrarse una mujer independiente y segura de si. a quien conocía desde niño.Mentira. vivía a las vueltas con sus hermanas. Te vienes al mirador con nosotras. haciendo con que en sus posteriores encuentros no esconda la atracción física que siente por la joven. Martín Gaite nos da otro ejemplo de mujer que cuestiona su papel en la sociedad. ella se reconcilia con esta misma sociedad. . Elvira también se siente atraída por la experiencia y seguridad que Pablo Klein le transmitía. Creerá que lo ha entendido. Mercedes. 1958. Es un personaje que reproduce la típica solterona de la época que como no poseía un hogar propio para preocuparse. Elvira le escribe a Pablo Klein una carta pidiéndole disculpas por lo ocurrido. director del Instituto donde Pablo Klein vino a dar clases. sin entrar. El ambiente de la provinciana ciudad le aburre. 1958. quiere aprovechar la vida con intensidad. Don Rafael. por el cual se enamora sin nunca confesarlo. con Elvira. representa una mujer llena de complejos. que así como la tía Concha. dirá que qué disparate. como lo confiesa a Pablo Klein: No puede entender nada. puesto que la tensión erótica que surge entre ella y Pablo Klein le genera una lucha interior entre su deseo y la barrera que la sociedad patriarcal de la España posbélica le ofrecía a la mujer. yo no me resigno. pasa del control de una figura masculina a otra. hipócrita y conservadora. como hace Natalia. como la familia escocida. el modelo patriarcal del cual también era víctima. La carta le suena a Pablo como una carta de amor.. Mercedes estaba discutiendo con Natalia. es reservada. pelea con la chica para que se incluya al medio social: [. al contrariar su familia para vivir con su novio. A seguir podemos observar el papel de madre siendo cumplido por la hermana mayor. dividido entre sus convicciones y los dictámenes de las normas sociales bajo las cuales vive. Finalmente. y hasta puede llegar a creer que vive y que respira. por lo tanto. al lado de su tía-madre Concha. p. pero es joven. que eso no puede ser. puesto que. Es la responsable por reproducir. (MARTÍN GAITE. no que no sienta la muerte de su padre. la hermana mayor de Julia y Natalia. . por Dios. va a visitar su familia. Nos es presentada a través del propio profesor que al llegar al Instituto y saber de la muerte del director. Con su carácter difícil. en un tono casi histérico desfoga toda su frustración de vivir años reclusa en una misma ciudad. Si le explico por qué no fui a Suiza se reirá. Pasado este primer encuentro. En la cocina no hay ninguna taza sucia. yo me desespero. En este primer encuentro con el profesor. y como tal.. Elvira es una chica que vive el aburrimiento del luto por la muerte de su padre. pero no habrá entendido nada. ¡Pero yo no! Yo me ahogo. Solamente uno que vive aquí metido puede llegar a resignarse con las cosas que pasan aquí. Elvira. sin embargo lo que quiere es salir a divertirse en las fiestas de sus amigos. no has desayunado.] En el pasillo.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 95 sin embargo es interesante notar que al mismo tiempo en que transgrede los valores de la sociedad patriarcal en que vive. interfiriendo en la vida de ellas: desaprobaba la relación de Julia y Miguel y vivía criticando a Natalia por sus hábitos raros. Elvira. que dicen que con el fallecimiento de su padre debe quedarse en casa de luto. pues ya pasó de la edad de relacionarse y casarse. sin embargo se encontraba dividida entre el nuevo amor por el profesor y su pacata relación con Emilio. qué manía de estar siempre en otro lado. A pesar de mostrarse una mujer liberal. 20) Este personaje se encuentra. (MARTÍN GAITE. exhibiendo abiertamente sus amistades con otros hombres. al contrario de Natalia. 55). p. puesto su doble condición de hermana mayor de una familia sin madre y de mujer.

uy/2001/35_p31. Francisco (org. por aún cuestionar el papel de la mujer de esta misma sociedad. porque hacia atrás era el horror. Disponível em http:// www. pero las unía el peso de la doble censura. de las mil maneras que elige la escritura para decir entre líneas. Elena Fonseca.cotidianomujer. en su libro Desde la Ventana – al cuestionar el espacio que le era reservado a la mujer de la España posbélica. […] En ese clima surgió una generación de escritoras. ÁLVAREZ. Referencias bibliográficas ALBORG. lo que la censura no les permitía. y también la pobreza moral. (FONSECA. Soriano. hace su más fuerte denuncia al construir un personaje que representaba una chica rara – como la propia autora así lo definió. bajo la simplicidad de lo cotidiano. la angustia. junto a la decadencia generalizada. la traición. 2001). la particular represión del régimen franquista sobre las mujeres. es a través de Natalia. Boixadós y Aldecoa. Concha (1993): Cinco figuras en torno a la novela de posguerra: Galvarriato. Barcelona: Ed. p. por eso iban a fiestas. Pablo Gil y SOBEJANO. Sin embargo. indeterminación para superar sus frustraciones. donde ocultaban. el desarraigo. Formica. la mentira. LOURENÇO. de. Eligieron un enfoque existencial. Em Revista Cotidiano Mujer . Concluimos así que es a través de las entrelíneas de Entre Visillos que Martín Gaite . NORA. Con Natalia. el aislamiento cultural. la mayoría de los “maestros” se había ido al exilio y la necesidad de dejar su testimonio en la memoria del país. Gonzalo (1980): Caracteres de la Novela de los Cincuenta. Venían de diferentes regiones de España. Eloísa. un personaje que representa una metáfora de futuro. constatamos que Martín Gaite transgrede dos veces con Entre Visillos : primeramente por publicar una novela del realismo social en una sociedad en que solamente les era permitido a la mujer escribir lo que se quedó conocido en las letras hispánicas como novela rosa. Crítica. afirma que: Quienes vivieron la posguerra de esa guerra. Mercedes y Elvira. António Apolinário (1994): História da Literatura Espanhola. sin despertar la atención de la censura. escritora de la revista electrónica Cotidiano Mujer . la soledad. admite ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS su incapacidad e contribuye con la memoria de su país al criticar la vida de las chicas de clase media de las pequeñas ciudades españolas de los años 50. unas más jóvenes que otras. la eclesiástica y la política. la frustración.htm. así. en que la Franco implantó su ley. que sin decirlo. Madrid: Ed. al paseo central. CASADO. un malestar muy grande. en su artículo Las Escritoras del Silencio. no tenían donde mirar.org.). Em: RICO. Contaron la realidad. la nada. que Martín Gaite. denunció. sin discursos. quien le proporcionaría el matrimonio. que veían la vida pasar entre los visillos de sus ventanas. al casino. Martín Gaite construye. ahogándose en las tareas domésticas y en el ambiente opresivo de tener que encontrar un novio para casarse. BUCKLEY. Eugenio G. Acessado em: 12/08/2012. Lisboa: Ed. N° 35. la pobreza.: Historia y Crítica de la Literatura Española.96 pues al final. y hacia delante. asegurando la reproducción de los esquemas patriarcales. Asa. en pleno año de 1957. Ramón. Pertenecían al “realismo tremendista” y también al “cainismo”. representa la esperanza en generaciones de mujeres que consiguieron romper con estereotipos para encontrar una posición en la sociedad. FONSECA. Literarias. Después de analizar los personajes femeninos significativos de la novela. el hambre. la corrupción. Elena (2001): Las Escritoras del Silencio. y. como es el caso de Julia. en segundo lugar. 410-427. al cine y a la iglesia. al decidir quedarse con Emilio. por las delaciones que ellas denunciaron y se las llamó la “generación del silencio”.

SOBEJANO. Em Area and RICO. Crítica. José María (1997): La novela española entre 1936 y el fin del siglo – Historia de una aventura. Barcelona: Ed. María del Mar Jorge de (2005): Apuntes sobre la Novela Española Femenina de Posguerra. t u f s .: Historia y Crítica de la Literatura Española. Gonzalo (1999): Carmen Martín Gaite. . Espasa-Calpe. Madrid: Ed. Disponível em: http:// r e p o s i t o r y. Madrid: Ed. (1958): Entre Visillos. 523526. SANDE. Vol 70.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 97 MARTÍN GAITE. Francisco (org. Em: MARTÍNEZ CAHERO. 8/1 Época Contemporánea: 1939 – 1975. p. Destino. j p / b i t s t r e a m / 1 0 1 0 8 / 2 4 4 6 6 / 1 / acs070005. a c .pdf.). Barcelona: Ed. Acessado em 01/08/2012. Culture Studies . Castalia. Carmen (1999): Desde la ventana . ________.

23) narrativa e o próprio ensaio. representado por grandes nomes.98 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS O “ENSAIO CRIATIVO” DE JULIO CORTÁZAR Ana Carolina Macena Francini PG. . é interessante ressaltar que este livro foi publicado em um período de grande efervescência política e cultural impulsionada. 199.94) Na obra La vuelta al día en ochenta mundos (1967). como José Martí (1853-1895) e Manuel González Prada (18441918). contribuyo decisivamente al conocimiento de la realidad de sus respectivos países y así a definir la identidad hispanoamericana. original. é possível encontrar exemplos do “ensaio criativo” do escritor argentino.” (OVIEDO. sobre um tema que pode ser o mais variado possível. frente a Europa primero y luego ante Estados Unidos.” (OVIEDO. subjetiva. “ensayo creador debe entenderse también en el sentido de que surgen abundantes ejemplos de creadores que sienten la necesidad de asumir la función crítica como un reconocimiento de la importancia que ésta tiene para su ejercicio artístico. Na América Latina. 1991. Em uma época na qual política e arte pareciam estreitar ao máximo suas relações. porém dando-lhe novo ânimo. os quais serão o foco da análise desse trabalho. de modo distinto. em seu livro Breve historia del ensayo hispanoamericano. Julio Cortázar (1914-1984) fez parte dessa tradição. Neste nova forma do ensaio. p. pela Revolução Cubana (1959). Cada uno. Sobre esses dois escritores. assinala José Miguel Oviedo. : “Estos son los grandes padres del género: con ellos comienza la historia de nuestro ensayo. Em princípio. tornando (novamente) a América Latina objeto central de reflexão e representação nos anos sessenta. ficção e reflexão podem mesclar-se. a partir do século XIX. por sua vez. especialmente. poesia. o ensaio começa a ter papel importante. os intelectuais reconheceram como uma obrigação social posicionar-se frente aos acontecimentos. refletindo sobre a realidade latinoamericana. borrando os limites entre os vários gêneros concebidos tradicionalmente.dentro e fora de suas obras-.Universidade de São Paulo Como se sabe. Ademais. p. por meio do que Oviedo denominou “ensaio criativo”. principalmente. como os textos “Verano en las colinas” e “Con legítimo orgullo”. o ensaio é o gênero que propõe a elaboração de uma reflexão profunda.

visando desestabilizar a realidade preconcebida pelo leitor. Um deles é seu aspecto comunicativo: Julio Cortázar interage com o leitor. podem assemelhar-se em vários aspectos. a dualidade que há na relação entre o homem e o animal. em seus textos. o papel do escritor latinoamericano até considerações sobre seu gato preto. Em “Verano en las colinas”. Por isso. Esse tom informal também condiz com a temática desse ensaio. escritores experimentais. as artes plásticas. y suelen presentarse como criaturas domesticadas. tratando-o com familiaridade. Pero la particularidad de los animales en los cuentos. nessa obra. são seres alheios e incomunicáveis e.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 99 Mas havia entre os escritores polêmicas discussões sobre a forma de apropriar-se da realidade latino-americana e intervir nela. se manifiestan con singular intensidad dentro o fuera de la mente humana. tal como ocorre em seu primeiro livro de contos Bestiario (1951).. ( BETILLÓN. 1996. salvajes o monstruosas. Nos invitan a establecer pasajes hacia “lo otro” que no pueden expresar. chamado Adorno. Enquanto alguns intelectuais defendiam a estética realista (os denominados anti-intelectualistas) . como Cortázar. poemas. a despeito das diferenças. dispostas de maneira aleatória remetendo às ilógicas colagens surrealistas. os textos de Cortázar buscam explorar. Dessa forma. citações. que apesar da convivência. Sendo assim. reales o imaginarios. considera o modo fantástico uma forma mais complexa e profunda de relacionar-se com a realidade latino-americana de seu momento. humor e certa ironia.. que muitas vezes foge da nossa compreensão. pois o escritor argentino retoma este modo de narrar dando-lhe uma nova dimensão mais comprometida. ilustrações. Nele há contos. y que el ser humano vive como una experiencia de horror (. pois consideravam o ato criador em si uma forma legítima de compromisso com a realidade e um instrumento para a ruptura desta. Este livro à primeira vista chama a atenção por sua difícil ou impossível classificação. conforme explicou Claudia Gilman. em que o leitor poderá encontrar de tudo. Tema recorrente na obra de Cortázar. No entanto a própria organização do livro reforça uma das temáticas centrais da escritura de Cortázar: a concepção da realidade como absurda. La vuelta al día en ochenta mundos pode ilustrar essa noção de arte defendida pelo escritor argentino. na prática de alguns hábitos. desde reflexões sobre o Jazz. Catherine Bretillón faz um panorama interessante sobre esse tema em seu artigo “La animalidad como materia de lo fantástico en los cuentos de Julio Cortázar”: Los animales cortazarianos.em que a conscientização dos leitores era prioridade em detrimento da criação artística-. novamente se problematiza a relação entre o humano e o animal. o animal reforça a concepção de realidade absurda do escritor argentino. cujas fronteiras também se borram na narrativa. como veremos nos “ensaios criativos” de La vuelta al día en ochenta mundos. é possível identificar com maior facilidade traços peculiares do ensaio. acreditavam na equivalência entre política e prática simbólica.). fotografias etc.384) Assim. Com sua existência irracional. em seu livro Entre la pluma y el Fusil (2003). além de se confundirem os limites entre o ensaio e a ficção. é uma viagem aos vários mundos de Cortázar. por exemplo. muita vezes. Em “Verano en las colinas” e “Con legítimo orgullo”. Como o próprio nome sugere. es que estos nos acercan al “sentimiento de lo fantástico”: su manera de vivir y de percibir el mundo son materia fértil de lo fantástico. também. impossível de ser compreendida a partir da racionalidade. P. há alguns ensaios que mais parecem ‘ensaios fantásticos’. Talvez por essa razão os animais aparecem nos textos de Cortázar da maneira mais variada possível. os animais acabam por provocar o sentimento do fantástico. . ensaios.

além de conjecturar sobre o tema para um próximo livro. Uma experiência que estes não Tal recurso para causar o efeito perturbador recobra outros textos de Julio Cortázar.) me falta encarcelar al obispo que además es una mandrágora. 1970. os cuidados com seu outro animalprovavelmente um pássaro-. o mundo real e o mundo sobrenatural. Cortázar parece relatar fatos corriqueiros de sua vida cotidiana: os momentos com seu gato T. elaborá-lo é dar forma a uma situação vivida pelo crítico. animal que não aparece totalmente identificado no texto. em uma narrativa. vão se incorporando novos dados que acabam retirando o leitor do aparentemente habitual e trazendo-lhe a sensação do estranho. criaturas pouco dóceis. Magritte. numa relação que se torna cada vez mais angustiante ao longo do conto. Já em “Verano en las Colinas”. e mesmo aqui do mais íntimo do íntimo. W. em outras palavras.16). 1970. se sobrepõem dois mundos de lógicas diferentes. y descubrí sobre el cielo de Cazenueve una nube solitaria que me hizo pensar en un cuadro de René le d e l’A rg o nne bataille de l’Arg rgo nne. grifo meu). 1970. Esse “además” reforça o sentimento do fantástico no texto. A partir desse ponto. em seu livro Introdução à Literatura Fantástica .100 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS a qual não parece nada mais que cotidiana e trivial.15) O leitor então toma conhecimento dessas informações dadas pelo ensaísta. porém sempre no tom de quem falasse apenas de quadros e livros. criando uma outra realidade de natureza misteriosa. começamos a duvidar da existência do gato e do Obispo. ¿ya empezó la arterioesclerosis? ¿Y dónde vas a instalar la jaula del obispo?” (CORTÁZAR. dejándole apenas un punto de apoyo para el pie derecho. como afirma Lukács. Sabemos.. Neste ensaio.” (CORTÁZAR. y veo al obispo de frente (. . su lado mandrágora se acusa más en la sombra. Porém.1 podem explicar por meio de uma lógica racional: é a perturbação da dúvida. “Carta a una señorita en París” ou “Cefalea”. enquanto passa o verão em um povoado francês: Anoche acabé de construir la jaula para el obispo de Evreux. como aponta Cortázar mais à frente. que. “(. do livro Bestiario. jugué con el gato Teodoro W. por sua vez. como nos definiu Todorov.¿Va a ser un libro de memorias? Entonces.. chamado Obispo. se torna uma experiência perturbadora tanto para os personagens como para o leitor. La cadena que sostiene la jaula chirría cada vez que se abre la puerta de mi cuarto.17) Da mesma forma ocorre em “Verano en las colinas”. (CORTÁZAR. ( CORTÀZAR. pois o animal de “Cefalea” também não pertence a uma fauna conhecida. la sombra del obispo se proyecta en las paredes enjalbegadas. incontroláveis que parecem perturbar a saúde mental e física de seus criadores. que este tipo de relato se configura quando. do contato com o desconhecido.16. Adorno.. p. a realidade e a experiência mais imediata da vida são matérias do ensaio. La batail 1970. em que o homem e o animal convivem no mesmo espaço. são as indefiníveis ‘mancuspias’. Adorno. e sim tão-somente de uma bela e inútil superfície. em que se parece estar vivenciando momentos íntimos e banais da vida de Cortázar. apenas de ornamentos belos e nãoessenciais da grande vida. p. ao longo do ensaio. pois não se sabe de que animal se trata o Obispo e se este será assunto de um livro de Cortázar ou se de fato existe: Ya he encerrado al obispo: con dos llaves inglesas apreté el dogal de hierro que ciñe el cuello. como nos contos “Bestiario”. que tem necessidade de indagá-la.) Cuando llega la hora de comer y enciendo el cabo de vela. p. Daí a contradição que expõe Lukács sobre o ensaio: Refiro-me aqui à ironia que há no fato de que o crítico sempre fala das questões últimas da vida. que intencionalmente as torna familiar ao leitor. p.. o leitor se depara com a seguinte pergunta de sua esposa: “. que vai crescendo cada vez mais. típica do conto fantástico. a semelhança com o ensaio parece maior. Entretanto. Neste último relato. por sua vez.

Entretanto nele há uma estratégia de composição ficcional muito parecida com a do ensaio “Verano en las colinas” e nos contos de Bestiario. inclusive crianças e idosos. o próprio ensaio contrapõe tal afirmação e confirma seu modelo estético. No entanto. No ensaio em questão. Cortázar declara que a ele não interessa escrever suas memórias.que se alimentam de serpentes. como um escritor europeu. na sua visão. diferentemente da quase mandrágora de “Verano en las colinas” ou das “mancuspias”. dividindo as tarefas de cuidar das mangostas. exerciam uma vigilância perante aos demais escritores que deveriam. pôr o compromisso político em primeiro lugar. pulverizar as folhas e apanhar as cobras nas expedições na selva. o “ensaio criativo” vai avançando para o seu desfecho. assim como no conto fantástico. primordialmente. em que ficção. já que seriam considerados individualistas e alheios ao engajamento político defendido na época pelos escritores de visão anti-intelectualista. ele parece fazer críticas aos escritores que. ironicamente. ao longo da narrativa. sem deixar de lado o compromisso com o seu momento histórico. realidade e reflexão parecem se mesclar. as mangostas . Ainda que em “Con legítimo orgullo” o animal representado remeta ao real . Porém. Por sua vez. no dia de finados. por um lado. por outro. ao discutir o papel do escritor latino-americano nos anos 1960. Já o ensaio “Con legítimo orgullo” está ainda mais próximo ao conto e se não estivesse num livro que mescla os gêneros. porém as indistinções no “ensaio criativo” – tanto com relação ao animal quanto ao gênero – buscam. o governo organizou uma complexa campanha em que é necessário ir à selva caçar serpentes. nesse texto a situação. a angústia da dúvida seguirá até o fim do ensaio. os túmulos estejam visíveis para serem homenageados. poderia ser considerado um relato fantástico. Para tal. reafirmar a concepção do escritor sobre a realidade incompreensível e inclassificável. pois temiam ser tachados de vaidosos ou pedantes. A população desse país é obrigada pelo governo a recolher as folhas secas para que. Contudo. não se sentiam à vontade para escrever um livro de memórias. desde uma posição anti-intelectualista.irão comer. essa é uma campanha de que toda a população participa. por sua vez.as mangostas. pois lhe parece mais divertido falar de gatos e mandrágoras. é uma tarefa que ninguém sabe a origem e simplesmente aceita como uma tradição que não pode ser contestada: . O ensaísta sugere que os escritores latino-americanos. pois borram-se as fronteiras entre ficção e realidade e inclui-se a subjetividade do autor. que força uma nova visão do leitor. assim eliminando as incômodas folhas secas. questão polêmica nesse período. como comentado acima. para elaborar uma essência que será utilizada para pulverizar as folhas que. Cortázar que não partilhava dessa ideia aponta que a consequência para os escritores latino-americanos é que acabavam ficando presos em suas próprias narrativas e no mundo real eram “señores aburridos”.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 101 ainda que de forma menos aterrorizante. sarcasticamente. mas que não deixa de conter reflexões e críticas sobre a realidade e talvez. fantástica. o leitor vai se interando da lógica absurda que há num costume que aparenta ser tão inofensivo. Aludindo às questões de sua época. a princípio. Cortázar volta à pergunta de sua mulher sobre escrever um livro autobiográfico e tece críticas sobre isso. é familiar ao leitor e aos poucos vai se tornando estranha. seja um dos ensaios mais políticos de La vuelta al día en ochenta mundos. em meio a esse estado de perturbação e dúvida. muitas vezes por causa dessa vigilância e da autocensura. Se. como propõe o ensaio. novamente dando destaque para “Cefalea”. narra-se um antigo costume de um país (não especificado) de recolher as folhas secas que caem sobre os túmulos no cemitério.

o ensaio é um “género camaleónico. sin parecer preocuparse por redefinir ellos mismos sus gestos (. crescendo a quantidade de túmulos e por conseguinte de folhas secas a serem retiradas: “(. a partir da apresentação dos dois textos de La vuelta al día en ochenta mundos . representa uma alegoria dos regimes políticos de opressão: “La generosidad de nuestras autoridades no tiene límites. p.) (CORTÁZAR. deteniéndonos apenas para comer (hay trozos de pan en la mesa y sobre la repisa del living) o miramos en el espejo que duplica el dormitorio. 1996. pelo contrário. como nessa passagem: Andamos entonces sin reflexionar.. 1970. la municipalidad ha expropiado los terrenos adyacentes para ampliar el cementerio. o que também pode ser uma referência à sociedade daquele período e um questionamento da condição humana. (CORTÁZAR.29) seguiente (. p. pero estamos convencidos de que a nadie se le ocurriría que puede dejar de recogerlas.. 1970.. sin rebelarse contra ese enrevesado orden establecido (¿por quién?). Apagando os limites entere o homem e o animal. p.. diferentemente de “Cefalea”.72) Assim.38). 1991. como revela a ironia do trecho. incluso en aquellas cosas que podrían perturbar la tranquilidad pública. nota-se que por meio do modo fantástico. é possível indagar a realidade e refletir sobre ela. p. Por fim. nos inquieta “que los animales parecen cumplir destinos de complejidades extrañamente refinadas. o “ensaio criativo” parece ter sido a forma encontrada por Julio Cortázar para dar conta das necessidades políticas e estéticas de seu momento histórico. sem fim e sem razão de ser. Em “Cefalea”. de Julio Cortázar.” (OVIEDO.. 2001.38) Ao viver essa rotina infinita e absurda.39).. além de estimular a consciência crítica do leitor. parecem viver num tempo a-histórico em que tudo se repetirá infinitamente. os personagens do conto produzem no leitor o mesmo sentimento do fantástico que podem causar os animais. es una de esas cosas que vienen desde muy atrás.102 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Ninguno de nosotros recuerda el texto de la ley que obliga a recoger las hojas secas.. Por eso nunca sabremos -ni queremos saber. da criação de uma situação absurda. . p. assim como afirma Bretillón.11) Assim. sustentada pela falta de consciência dos personagens. o texto alude a uma situação de leis autoritárias e população alienada e o decorrer da narrativa delata as consequências dramáticas dessa condição: a existência torna-se um ciclo vicioso.) Como en los últimos años el número de bajas ha sido cada vez más grande.)” (BETILLÓN. os homens do conto não se diferenciam da serpente ou da mangosta . já que a cada ano são necessários mais recrutas para a expedição da selva em que cada vez aumenta o número de mortos. Isso vai ficando mais nítido e mais absurdo quanto mais detalhes o narrador apresenta da campanha. como delata o final da narrativa. foi possível analisar algumas características do “ensaio criativo”. pois. pois sempre terão a mesma atitude: “En cierto modo nos alegra haber tropezado con tantas dificultades para encontrar las tumbas porque eso prueba la utilidad de la campaña que va a comenzar a la mañana Porém. o ensaio “Con legítimo orgullo”. cumpliendo uno tras otro los actos que el hábito escalona. [que] tiende a adoptar la forma que le convenga. lo que es otro modo de decir que no se ciñe a una forma establecida.. tal como acreditava Julio Cortázar. conviene subrayarloqué ocurre con nuestros gloriosos heridos.” (CORTÁZAR. também parece haver momentos em que os criadores se confundem com os animais. em seus hábitos. Desse modo. con las primeras lecciones de la infancia (. Opressão esta. p. 1970. com o tom irônico do narrador em primeira pessoa do plural.” (CORTÁZAR. 1970. p.385). Como afirma José Miguel Oviedo.)” (CORTÁZAR.

valorizando a prática simbólica como forma de engajamento. Georg. os animais. Tradução Maria Clara Correa Castelo. Madrid: Siglo XXI de España Editores. Madrid: Alianza Editorial. Madrid: Siglo XXI de España Editores. Claudia (2003). pois como assinala Cortázar no ensaio “Del sentimiento de lo fantástico”. Febrero-mayo 96. Nota 1 Lukács. representada pelo modo fantástico. La vuelta al día en ochenta mundos. Buenos Aires: Siglo XXI Editores Argentina. CORTÁZAR. “Sobre a essência e a forma do ensaio: uma carta a Leo Popper”.7.p. São Paulo: Perspectiva. Por outro. 1970. do mesmo livro. Teodoro ya no sería el único en quedarse tan quieto. José Miguel (1991). criando uma nova forma do gênero que buscava sondar níveis mais profundos da realidade latino americana. Tzvetan (2007) . Introdução à Literatura Fantástica . Catherine (1996). http://pt. Julio (1970a). Julio (1970b). ________. pobre animalito. observou-se como as características do próprio ensaio e da ficção. Tomo I. 383-410.scribd.scribd.” ( CORTÁZAR. Referências bibliográficas BRETILLÓN. mirando lo que todavía no sabemos ver. OVIEDO. Tradução Mario Luiz Frungillo. Em: http://pt. GILMAN. tem maior facilidade para captar o fantástico na realidade: “Si en cualquier orden de lo fantástico llegáramos a esa naturalidad. contrapondo-se aos antiintelectualistas. La vuelta al día en ochenta mundos. ao lançar mão do modo fantástico na ficção de seus ensaios. esse gênero híbrido representa seu posicionamento sobre o papel do escritor e da literatura. reitera a sua noção de realidade que foge da explicação lógica e necessita de outras formas de narrar para estabelecer com ela um vínculo mais significativo. LUKÁCS.com/doc/56014858/essenciaFormaEnsaio . A temática animal vista nos dois ensaios também corrobora para essa ideia. Tomo II. “Sobre a essência e a forma do ensaio: uma carta a Leo Popper”. dando relevância assim tanto à criação artística quanto ao compromisso com as questões sociais e políticas dos anos sessenta.” Em: Actual Investigación. como seu gato Teodoro Adorno. Tradução Mario Luiz Frungillo. p.com/doc/56014858/ essenciaFormaEnsaio.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 103 Por um lado. Entre la pluna y el fusil. “La animalidad como materia de lo fantástico en los cuentos de Julio Cortázar. nos dois textos analisados nesse estudo. entremearam-se. Breve historia del ensayo hispanoamericano. P. TODOROV. 75) Dessa forma. Georg.

Nesses relatos. subjetividade. sejam eles literários ou não. Por isso. em diversos países da região. durante os anos de 1976 a 1983. propagam-se da memória individual para a memória coletiva política. como é o caso da América Latina. A narração dessas experiências individuais revelou a existência de histórias que traziam versões diferentes das apresentadas pela historiografia “oficial”. a autobiografia e os gêneros textuais correlatos. Desse modo. Durante os anos de transição e de recuperação democrática.) Na época contemporânea. Testemunhos. o sujeito ao narrar sua trajetória pessoal através da escrita. há uma ênfase nos gêneros discursivos que abordam as questões sobre identidade.104 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS DISCURSO AUTOBIOGRÁFICO E A BUSCA IDENTITÁRIA EM MI NOMBRE ES VICTORIA DE VICTORIA DONDA Ana Cristina dos Santos UERJ / IL * A identidade somente se torna uma questão quando está em crise. reconstrói tanto a sua identidade quanto o passado de seu país. Desse modo. K. A memória de sua própria experiência abarca também a experiência da coletividade. quando algo que se supõe como fixo. memórias. postulam a identificação entre a experiência pessoal e a história da nação. discutem tanto as questões relacionadas à subjetividade quanto as relacionadas aos aspectos filosóficos. o indivíduo necessitou contar a sua própria versão dos acontecimentos e a elaboração textual de fatos memorialistas. coerente e estável é deslocado pela experiência da dúvida e da incerteza. Os sujeitos presentes nesses escritos delineiam uma trajetória que parte do individual.. os discursos sobre o “eu” proliferamse principalmente nas regiões em que houve a queda dos regimes totalitários. o registro minucioso da vida do outro e da sua própria.. Esse é o caso das narrativas em primeira pessoa na Argentina. diários íntimos. como ocorre no texto autobiográfico Mi nombre es Victoria: una lucha por la identidad (2009). como círculos concêntricos. políticos e morais da sociedade atual. autobiografias e confissões são formas de “escritas de si” que se multiplicaram nas diferentes literaturas. Tais relatos de experiências pessoais. (MERCER. históricos ou ficcionais funcionou (e ainda funciona) como elementos de recuperação da memória individual e coletiva.] solo tiene sentido . mas alcançam também o coletivo. da argentina Victoria Donda: “Mi historia [. Grande parte dos textos do final do século XX e início do XXI se relaciona a um dos temas da literatura da região: o viver durante e depois do golpe militar que instaurou uma ditadura de terror e repressão no país.

21) “a identidade muda de acordo com a forma como o sujeito é interpelado ou representado” e do termo “verdade” como construto discursivo. Dentro do texto analisado. Esse processo de construção e desconstrução adequa-se à noção de identidade descentralizada difundida pelo teórico Stuart Hall (2005. o enunciador deve permitir a sua identificação no interior do mesmo discurso. ter o seu nome verdadeiro mudado na certidão de nascimento e como chegou a ser a deputada mais jovem do país. p. ocorre quando sua história pessoal se entremeia com a história do país e abrange o período sombrio da ditadura argentina. pois segundo Hall (2005. O primeiro da memória individual. p. Através do relato de sua experiência pessoal. Seu objetivo é discutir questões vinculadas à escrita autobiográfica. em constante transformação à medida que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam. a autora real e a personagem central.Victoria Donda – e de maneira retrospectiva. A narrativa registra fatos verídicos ocorridos na história contemporânea da Argentina. O segundo. A narrativa abrange dois planos. 14 ): “[.] narrativa retrospectiva em prosa que uma pessoa real faz de sua própria existência. no qual os filhos dos presos . quando focaliza sua história individual. A autobiografia Mi nombre es Victoria Donda (2009) inscreve-se na definição de gênero autobiográfico apresentada pelo teórico francês Philippe Lejeune (2008. O conhecimento desses dados extralinguísticos cria uma identidade entre a narradora. 13) na época contemporânea: uma identidade fragmentária. ocorrida no ano de 2004 e noticiada em vários meios de comunicação na Argentina. verificar como essa escrita reconfigura uma nova identidade para a narradora e suas implicações para a reconstrução identitária que aflora do sujeito feminino emergente dos ambientes sociopolíticos de poder e opressão. para que haja o pacto.. o pacto com o leitor se torna mais forte porque a autobiografia retrata o processo de recuperação identitária de Victoria Donda. na qual a narradora conta como descobriu ser filha de militantes políticos desaparecidos durante a ditadura militar. a narradora busca desconstruir e reconstruir uma subjetividade particular que a reporta a um grupo específico: o das crianças raptadas pelos militares na época da ditadura e que recuperam sua identidade anos ou décadas mais tarde. 1999. estabelecendo o que Lejeune denominou como “pacto autobiográfico” 1 . especialmente quando reconstrói discursivamente uma nova identidade para o sujeito feminino que nasceu sob o signo da opressão e foi privado de sua identidade.. p. abordam-se questões da identidade como parte de um processo de construção social e cultural. Esse é o tema do trabalho ora apresentado: a autobiografia como forma de autoconhecimento e de recuperação identitária individual e coletiva. ter sido apropriada ilegalmente pela família do militar que a criou.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 105 rodeada de las otras treinta millones de historias que habitan la Argentina” (DONDA. A característica que define a existência do pacto autobiográfico é a identificação do nome do autor que aparece na capa do livro com o nome que o narrador se dá como personagem principal. de modo que a sua indagação sobre a veracidade do narrado é quase inexistente. p. A existência de um pacto diminui a ficcionalidade do texto e faz o leitor acreditar na “verdade” do que lê. de uma pessoa real . Logo. 243). identidade e alteridade e a constituição de novos sujeitos discursivos. em par ticular a história de sua personalidade”. O texto analisado permite discutir essas questões. A partir dos conceitos de escritas de si e autobiografia. o da memória coletiva. pois sabe existir uma realidade anterior e exterior ao texto.

Esses dois planos fazem com que sua narração ultrapasse as linhas limítrofes entre a história individual e a coletiva. 1999. filha de José María Laureano Donda (Laureano) y María Hilda Pérez (a Cori). verifica-se que a escrita já aponta para uma marca de ambiguidade: o uso do verbo recordar. esquecimentos. A descoberta de uma “história pessoal” diferente da conhecida é o ponto de partida da autobiografia de Victoria. as integrantes da associação revelaram-lhe seu verdadeiro nome e sua história. A recordação está submetida à memória e essa por sua vez. como transformação: “parece não haver motivo suficiente para uma autobiografia se não houver uma intervenção. de uma mudança ou transformação radical que a impulsione ou justifique”. Assim. Para Wander Mello Miranda (1992. Também por esse motivo. se abría el juego para la aparición de Victoria” (DONDA. de não ser Analía. na época um importante comandante militar e que nos dias atuais está preso por delitos de lesa humanidade. prevê e admite falhas. en aquel momento comenzaba a inscribirse el final de Analía y. Esse momento de transformação . p. decide candidatar-se a uma vaga de deputada. qual é a verdade? Para a narradora. os fatos . Sua busca pela identidade pessoal se desenha quase que obrigatoriamente no horizonte da construção da identidade coletiva argentina. O desejo da narradora de falar de si procede do episódio que funda o ato autobiográfico na narrativa: o reencontro com sua própria história antes de ser raptada. O núcleo do narrável na autobiografia – a experiência pessoal – equivale à transformação do indivíduo. Porém.. omissões e deformações na história da personagem. Viveu durante vinte e sete anos com essa família. Grifo nosso). foi descoberta pelas Abuelas de la Plaza de Mayo (associação da qual sua verdadeira avó materna foi uma das fundadoras). 2009. no ano de 2007. Mas. ainda passa pelo filtro da subjetividade: a voz narrativa traz ao relato somente o que acredita ser importante para a compreensão da transformação sofrida. e entregue a uma família de militar por seu próprio tio paterno. mas Victoria “[. que a “memória perfeita” é capaz de reconstruir em seus detalhes: “En aquel momento recuerdo que lo único que quería era que los resultados dieran otra cosa que la que esperaba” (DONDA. de um fato modificador em sua vida que marca um antes e um depois em sua existência pessoal. através da narradora-personagem. Após se certificarem de que se tratava realmente de Victoria. no fragmento destacado. e é eleita.106 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS políticos nascidos na prisão eram dados para adoção às famílias de militares e notificava-se às verdadeiras famílias que a criança havia morrido. é seletiva. no momento da enunciação.e o relato de acontecimentos – o passado. a história pessoal de Vitória narrada na autobiografia conta o que lhe aconteceu em outro tempo para transformá-la na pessoa que é agora.o divisor de um antes e um depois no decurso pessoal da narradora . erros. por meio de uma denúncia anônima. a descoberta da verdade. Sabe-se. O verbo delata a existência de uma distância temporal entre o momento da enunciação – o presente.] si toda conclusión es el punto de partida de una nueva historia. A partir dessa consideração. 195. na existência anterior do indivíduo.é tão importante em sua vida que aflora no relato como uma lembrança vívida. atendendo pelo nome de Analía quando. que Victoria foi separada de sua mãe ainda recémnascida. p. 170).. obrigatoriamente. p. Essa distância faz com que a voz narrativa só se recorde daquilo que a sua memória deseje recordar e essa recordação. questiona-se: como é possível falar de verdade no texto autobiográfico? A busca pela verdade dos fatos foi a luz que guiou a narradora pelo caminho de seu autorreconhecimento. 31) uma das características mais importantes de todo relato autobiográfico é a ideia da vida como devir.

para a narradorapersonagem conhecer a “verdade” sobre quem foi lhe permite. Nesse aspecto. afirmando a sua impossibilidade de cumprir a sua mais profunda promessa: apresentar a verdade de uma vida reunida numa trama narrativa. Desse modo. Sua identidade é construída por meio de diversos “olhares” que se entrecruzam entre o seu presente e o seu passado. p. questionou-se o próprio conhecimento histórico. Sua identidade pessoal é construída através de seu olhar e do olhar dos outros sobre si mesmo. logo. entre o “eu” que se foi e cuja vida se narra e o “eu” que se é no momento da escrita presente no texto autobiográfico. podem-se possuir tantas verdades quantos pontos de vista em seu relato. 1985. Em uma realidade dúctil. reestruturá-la e contar os fatos como eles aconteceram.. então. 17) também aborda essa contradição ao afirma que: Talvez a maneira mais apropriada de abordar o tema da autobiografia seja afirmando positivamente aquilo que ela não pode ser. por dolorosa que sea. Se cada olhar traz um ponto de vista. a narração autobiográfica só existe enquanto discurso e não pode ser conclusiva. O momento da escrita autobiográfica faz convergir um “eu” que ao mesmo tempo é um “outro”. tal como ela relampeja num momento de perigo” (BENJAMIN. Significa apropriar-se de uma reminiscência. 2009. mas das pertencentes a outras pessoas: dos amigos de seus pais. por más consecuencias que puede tener sobre una existencia. É a divergência entre a vida e a escrita. Com isso. Ela é o norte da narração porque. essa constatação não impede a voz narrativa de buscar a “verdade”. Logo. todo ló que sé de mis padres y el destino que corrieron se fragiliza. Se o acesso ao passado só pode ocorre pela textualidade. não há como afirmar que as suas experiências pessoais ocorreram da maneira como se apresentam na narrativa. A contradição presente no texto autobiográfico de apresentar o vivido e a sua representação discursiva realça para inúmeros teóricos.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 107 contados constituem “a verdade”. necessita de narrações alheias. através da narração. p. No texto analisado. enredase com as das outras pessoas que conviveram com ela e com os seus verdadeiros pais: “A partir de este momento.. representa a si próprio através do retrato do “outro”. as experiências pessoais que edificam o autorretrato de Victoria não advêm somente de suas lembranças. 224). apenas sostenido por declaraciones cruzadas de testigos y gente que les conoció [. Sua história é narrada através de outros relatos fragmentários que tampouco dão conta da realidade tal como ela foi. no momento da escritura. Duque-Estrada (2009. p. A estética pós-moderna mostrou a impossibilidade de o homem conhecer a realidade e representá-la através da linguagem. p. a percepção de verdade depende sempre da visão de quem reconta os fatos: “Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo ‘como ele de fato foi’. “a impossibilidade da narração de si mesmo”. . Esse fato ocorre na autobiografia analisada. Para tal. A impossibilidade de contar o passado ocorre também da dificuldade de o individuo aceder aos momentos anteriores de sua vida. o relato autobiográfico falha em sua premissa principal: rever a história de si mesmo para. dos relatos das “abuelas de la Plaza de Mayo” e dos textos históricos da época. logo. 136).]” (DONDA. esses relatos estão repletos de subjetividades. mas eles realmente aconteceram como ela conta? Se o que ela lembra está relacionado à subjetividade ou aos fatos relatados por outrem. de sua verdadeira família. saber quem é: La verdad. Os diversos “olhares” inseridos no relato autobiográfico de Victoria colaboram para tornar tênue a noção de “verdade”. porque os acontecimentos podem ser alterados segundo a visão de quem os conta. sua autobiografia vai além de si mesma. 43). entre eles Leonor Arfuch (2010. como a contemporânea. Como construções linguísticas.

Entende que a escrita de sua trajetória é incapaz de traçar um retrato “verdadeiro” de quem ela foi. la historia de un país que aún tiene problemas en reconocer y aceptar su pasado” (DONDA.percebe a impossibilidade de exprimir toda a “verdade” dos fatos na escrita devido à distância temporal entre o momento da enunciação e o vivido. e fragmentária de sua identidade: reordena a sua experiência pessoal para conceber os limites e a interseção entre Analía e Victoria. Sua subjetividade se revela à medida que sua história pessoal completa as lacunas vazias sobre os anos de ditadura da Argentina: “[.. foi fundamental a contribuição da identidade construída no passado: [. p. a narradora-personagem se apropria do discurso autobiográfico para pôr em ordem a vivência caótica . Victoria se conscientiza de que para construir a identidade atual. p. Nesse “espaço biográfico” (ARFUCH. quien no pudo sino sucumbir y sacrificarse para que la verdad ocupase su lugar en la historia” (DONDA. Com esse ponto de vista. quien se había ido formando durante todo aquel tiempo. 2010) do documentário e da autobiografia.. pois mostra a busca identitária a partir da cisão entre a identidade anterior e a atual. Mas. em sua reconstrução discursiva. Y esa persona era yo. Porém. não é somente através do discurso escrito que reordena a sua trajetória pessoal. No se trata de una simple verdad de un nombre. essa cisão ocorre entre uma identidade que se autorreconhecia como Analía e que agora de autodenomina Victoria: “Se ló debo [a identidade] a Analía. La verdad afirma la existencia. 219). 2009. p. 2009. es la condición para ser uno mismo. com o objetivo de revelar como o discurso hegemônico da ditadura modificou a sua história e a de seus pais. trazendo à tona o discurso controverso da autobiografia. pois a voz narrativa afirma que a confecção de um documentário cinematográfico também foi essencial em sua busca identitária. a qual chama de “eu”.. p. (DONDA. A questão identitária é um dos temas mais importantes nas escritas atuais e torna central no texto autobiográfico. Nessa busca de autorreconhecimento. incorporar a Analía y avanzar. 54) Uma vez que a construção identitária no mundo contemporâneo se relaciona também com o seu lugar no mundo social e cultural. a personagemnarradora assimila a pluralização de suas identidades. 2009.108 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS es la condición esencial para ser. Victoria y Analía eran al fin la misma persona. a narradora – em um movimento de sinceridade próprio à autobiografia . y por más complejo que pueda parecer hacer referencias a aquellas cosas como integrando una verdad incuestionable. 2009. de un origen o de una filiación. acredita que sua enunciação retrate os fatos tais como os vivenciou: Contar aquel momento a través del filtro de una verdad revelada años después no sería ni justo ni honesto. sua identidade pessoal mesclase com a identidade coletiva. p. podía finalmente aceptar.236) Porém. 244). Desse modo. definirse. Ao contar sobre a sua própria vida. Entender a sua trajetória pessoal é entender também a de seu próprio país. y aquel documental representaba el comienzo de un nuevo periodo en mi vida: Victoria. Voltar ao seu passado é buscar uma nova versão para os acontecimentos. a narradora rejeita a opção de experiência “verdadeira”.] mi historia es puesta al desnudo. a voz narrativa não pode abarcar o “eu” sem relacioná-lo com a realidade de seu país.. 2009.22). mas não a de “experiência vivificada”. a narradora reconstrói o passado individual e o A afirmação presente ao longo da autobiografia de que os fatos relatados são como os vivenciou é importante para a narradora-personagem alcançar seu objetivo primordial com a escrita: sua recuperação identitária. (DONDA. lo cierto es que así fue como las viví. No texto analisado. y con ella.] demasiadas cosas habían sucedido desde que conocí la verdad sobre mi identidad. (DONDA.

a escrita autobiográfica analisada deve ser entendia como uma escrita cujo discurso é eminentemente político. enfrenta um movimento de revisão. En mi nombre está su último grito. de quem são seus pais. Referências bibliográficas . Não é uma intervenção feminina no espaço público dominado pelo sujeito masculino para publicar apenas suas intimidades. O processo identitário de Victoria é instituído pela reivindicação do reconhecimento social de sua nova identidade: de quem é. a reconstrução do passado é um combate pela reconstrução histórica que “también llamamos ahora de combates por la identidad”.] como uma coisa que ainda se precisa construir a partir do zero ou escolher entre as alternativas e então lutar por ela e protegê-la lutando ainda mais” (BAUMAN. a escrita autobiográfica empreendida pela narradora não relata somente o caminho percorrido pela personagem para a incorporação de um novo nome – marca indelével da identidade – e a perda do nome antigo. A voz narrativa está consciente de que a realidade pode ser reordenada através da palavra. Com a ressignificação. dandolhe voz e poder para intervir tanto na reescritura de sua história quanto na História da Argentina e assim. 21-2). A compreensão desse fato aclara o subtítulo da autobiografia – “Una lucha por la identidad”. 27). No momento de enunciação de sua história. de Paloma Vidal. Cori hizo pasar un mensaje a sus asesinos dándome un nombre. Para Beatriz Sarlo (2007. En ese desafío simbólico vive Cori. identificándome. apodere-se da palavra e adquira um papel fundamental no processo social. p. de que discurso é poder. a pesar de la certeza de que le robarían a su hija... 2009. A narração de suas experiências é o processo pelo qual Victoria tenta se redescobrir e redefinir a sua identidade. 191). Leonor (2010): O espaço biográfico: dilemas da subjetividade contemporânea.. e não descoberto [. p. a busca por uma identidade está estreitamente relacionada à questão do reconhecimento. Trad. 2005. y en él se encuentra también mi legado. O discurso autobiográfico é uma ferramenta para que Victoria. filha de presos políticos. Sua narrativa transita entre o espaço privado e o público. a pesar de imaginar que su esposo estaba muerto y que ella no sobreviviría mucho después del parto. Su último obstinado rechazo al destino que le era impuesto. Es por eso que mi nombre es Victoria. de seu passado e de sua atuação político-social no presente. Porque mi existencia prueba que finalmente Cori consiguió su objetivo. EDUERJ. destruição e reconstrução identitária. para mostrar que ARFUCH. seu texto é um ponto de resistência cultural. Rio de Janeiro. como a de seus pais e da própria Argentina. p. a narradora faz com o seu nome adquira novos matizes. Segundo Figueiredo e Jovita (2005. recuperar a identidade que lhe foi tomada. pois essa só é reivindicada por aqueles que não são reconhecidos por seus interlocutores. em uma relação de complementaridade. sabedora de que “[. relaciona a acepção do termo vitória (ação ou efeito de vencer) ao nome de batismo que recebeu de sua mãe ainda na prisão. a sua trajetória pessoal na História da Argentina. 254) Ao ressignificar o seu nome. Dessa forma. nascida sob o signo da opressão. o regime de opressão da ditadura não foi mais forte que a vontade materna de que sobrevivera: Después de todo. ressignifica-o para poder abarcar tanto a história da personagem. p. mas também a luta pelo reconhecimento social da identidade incorporada. (DONDA. político e histórico de seu país. Nessa luta. Desse modo.] a “identidade” só nos é revelada como algo a ser inventado. Victoria inscreve Desse modo.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 109 coletivo. que Cori les ganó la última partida..

Eurídice (org. BENJAMIN. p. São Paulo: Brasiliense. LEJEUNE. Buenos Aires: Siglo XXI Editores Argentina. de Carlos Alberto Medeiros. Trad. DONDA. Buenos Aires: Editorial Sudamericana. Lejeune amplia o termo “pacto autobiográfico” para “pacto de verdade” ou “pacto referencial”. 189 -205. 1 Em textos posteriores. Trad. Jovita Maria (2005): Identidade nacional e identidade cultural. Notas * Professora Adjunta do Mestrado em Teoria da Literatura e Literatura Comparada e do Departamento de Letras Neolatinas (Português/Espanhol) do Instituto de Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. 17-58. Una discusión. Rio de Janeiro: DP&A.). Beatriz (2007): Tiempo pasado : cultura de la memoria y giro subjetivo. UFMG. pois afirma que o relatado na autobiografia só existe enquanto discurso e. Obras escolhidas. Rio de Janeiro: Nau/ Ed Puc-Rio. Stuart (2005): A identidade cultural na pósmodernidade. é uma construção da memória. Zygmunt (2005): Identidade . (2009): Im/ Possibilidades da autobiografia. DUQUE-ESTRADA. Em: FIGUEIREDO. de Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. Philippe (2008): O pacto autobiográfico. FIGUEIREDO Eurídice e NORONHA. como tal. Arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Vol. . 7ª ed.110 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS BAUMAN. Conceitos de literatura e cultura. Rio de Janeiro: Zahar. HALL. Trad. I. Em: Dev ires autobiográficos: a atualidade da escrita de si. 222-32. Juiz de Fora: UFJF. Victoria (2009): Mi nombre es Victoria: una lucha por la identidad. Elyzabeth Muylaert. Em: Magia e técnica. Walter (1994): Sobre o conceito de história. SARLO. 10 ed. Belo Horizonte: Ed. de Sergio Paulo Rouanet. p. Entrevista a Benedetto Vechi. p.

os profissionais do curso de Letras devem “ter domínio do uso da língua ou das línguas que sejam objetivo de seus estudos.Universidade Federal Fluminense Introdução Esta comunicação é parte inicial de uma investigação que tem como objetivo apresentar alguns dados levantados acerca dos currículos das Universidades públicas do Estado do Rio de Janeiro nos cursos de Licenciatura em Português/Espanhol. E. Portanto. de acordo com as diretrizes estabelecidas pelo PARECER 492/2001 do Ministério da Educação. Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Analisar criticamente o ensino de línguas nas universidades públicas do Estado do Rio de Janeiro. os currículos.7): “. Segundo (PARAQUETT. desenvolver no aluno a consciência de que aprender uma língua estrangeira é muito mais que adquirir habilidades linguísticas. E o compromisso da Universidade é levar o aluno/ professor de LE a aprender muito mais que ensinar a gramática e o léxico de uma língua. quanto ao ensino de línguas. são elas: Universidade Federal Fluminense (UFF)..ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 111 O CURRÍCULO DAS UNIVERSIDADES PÚBLICAS DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO E A FORMAÇÃO DE PROFESSORES EM LÍNGUA ESTRANGEIRA: UMA REFLEXÃO CRÍTICA. embora apresentem variações estruturais e quantitativas nas disciplinas. funcionamento e manifestações culturais”. a Universidade deve estar preparada para formar o profissional que possa atender as especificações legais. 2009.. principalmente porque sabemos da excelência que cada uma delas busca. Ana Maria Mendes Larghi PG . Foram analisadas quatro universidades públicas do Estado do Rio de Janeiro. são unânimes em encaminhar o aprendizado para a formação integral do aluno/professor. E.enseñar y aprender lenguas extranjeras es una oportunidad increíble de promover la integración entre mi mundo y este mundo mágico que me llega y que me permite verme y sentirme parte de un todo complejo”. é interagir com o outro de modo a alterar e construir saberes de forma dialética. ainda. em termos de sua estrutura. a partir dela. possa entender a si mesmo e a sua própria. p. É importante lembrar que. . assim como seus currículos não é tarefa simples. é oportunizar o aprendizado de outra cultura para que. Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) .

2008). pois a extinção do currículo mínimo proporcionou um avanço para o ensino. e se apoia nas concepções de cultura de CANCLINI (2006). A pesquisa de campo (por amostragem) foi realizada com professores do ensino médio da rede pública estadual. Esta investigação adota como referência PARAQUETT (2007. a “integração entre os mundos”. Enquanto que. A importância do currículo na formação do professor de língua estrangeira Tomando como tema central a importância do currículo para a formação do futuro professor. II. na aventura do aprender uma LE.LEI 9394 de 20 de dezembro de 1996. em seu Art. ainda.112 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Dessa maneira. integrativa e contextualizada. no decorrer da investigação proposta para o Doutorado.161/2005. Essa investigação. Com relação às propostas curriculares e a autonomia que a LDB . observou-se como se deu a implantação da língua espanhola na rede pública do Estado do Rio de janeiro. dá as Universidades. a melhoria do nível cultural do professor situarse-ia em 25% como responsabilidade do poder público. inicia-se aqui uma das questões que permeia a nossa reflexão. e o quanto as questões políticas são determinantes na elaboração da grade curricular. sugerindo uma prática dinâmica. E os resultados nos levaram a questionar como estão sendo formados os futuros professores de LE? Por que encontramos professores tão inseguros diante das classes? Pretendese aclarar. A publicação dos documentos oficiais promoveu uma maior reflexão sobre a organização curricular do ensino de LE. tornando-o mais próximo da realidade. Os dados coletados na pesquisa com professores apontaram ser de responsabilidade do Estado a elaboração de políticas públicas para melhorias na educação brasileira. Em estudos anteriores. A primeira delas é a importância do Currículo para a formação do professor de LE e sua consonância com os PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais) e as OCEM (Orientações Curriculares para o Ensino Médio). vimos a importância de ações políticas direcionadas à melhoria da educação brasileira. 53. como forma de ampliar o espaço do conhecimento. seu conhecimento e utilização das sugestões dos documentos oficiais em sua prática. coletou dados a respeito da formação dos professores da rede pública. O gráfico 1 apresenta o resultado da pesquisa: 1. Perguntados sobre a formação de professores de LE a pesquisa aponta que 75% do total dos entrevistados responsabiliza o poder público por melhorias nas condições de formação do professor de LE. baseados na Lei 11. HALL (2006) e MENDES (2004. 2009) e MOTA (2004) em definições sobre Inter/ multiculturalismo. ancora-se na Pedagogia Multicultural. esses e outros questionamentos. 2007. .

contextualiza o ensino com o “currículo real” (OCEM. e fazem parte da comunicação humana. é bastante enriquecedora. abarcando mais do que conteúdos tradicionais. O currículo do curso de Letras.”. embasadas na teoria de Bakhtin. na prática.. que façam parte do “currículo real”. a utilização dos gêneros na prática pedagógica. encontrar interdependências. p. o valor do aprendizado de LE como forma de autoconhecimento. Segundo Bakhtin. 1998). para o Currículo das Universidades. Dessa maneira. Em consonância com os PCNs. 9).é preciso adotar uma visão ampliada dos conteúdos a serem incluídos nos programas de curso para além das tradicionais ( ouvir.. embora não haja nenhuma disciplina específica com esta nomenclatura (o que poderia ser uma sugestão).ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 113 Não resta dúvida que os documentos trouxeram contribuições importantes. 8). p. Dentre as Universidades que fazem parte da pesquisa. ao reconhecimento da diversidade”. 2008. ler. consoante com OCEM (2008. p. é que os professores encontram muitas dificuldades em entender a proposta de ensinar LE a partir dos gêneros. dedicamos a segunda parte às Orientações Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (OCEM). Continuando a reflexão sobre os documentos oficiais. Reitera-se que o trabalho com os gêneros discursivos é proposta de disciplinas nas Universidades. para formar professores de LE. ressaltando.. E este exercício poderia se iniciar durante os estágios de regência. culturais e sociais”. de cidadania e de inclusão social. deve promover a alteridade. as OCEM entendem que o currículo para o ensino de E/LE deve abordar “temas relevantes para a vida do estudante”. p. falar. 2000. . Os PCNs afirmam que “o estudo dos gêneros discursivos e dos modos como se ar ticulam proporciona uma visão ampla das possibilidades de usos da linguagem” (BRASIL.interagir com outras disciplinas. em sua grade regular. “. abrangente e flexível. promovendo o ensino que possa: “ levar o estudante a ver-se e constituir-se como sujeito a partir do contato e da exposição ao outro. 150). E por que tantos professores não fazem uso das sugestões dos documentos oficiais? Como esses professores foram formados? Essas foram algumas das interrogações que nos levaram a refletir sobre o papel do currículo na formação de professores. convergências. criar novas disciplinas poderiam ser contribuições para habilitar professores que tornem as aulas de LE reais “ferramentas” de inclusão social. Refletindo sobre as contribuições dos PCNs (BRASIL. inclusive... poderia ser a adoção de disciplinas na grade curricular que levasse o professor/aluno. ( OCEM. “todo enunciado ocorre em um gênero do discurso. o que se observa. encaminho a discussão para a importância do ensino de LE estar voltado para “. a produzir material didático a partir dos gêneros. a UERJ é a única que apresenta a disciplina “Produção de material didático para o ensino de Espanhol”. na preparação do material didático.. O desafio de preparar os professores para ensinar E/LE através dos gêneros discursivos. à medida que se apoia em um contexto que circula à nossa volta todo o tempo. sugerindo que o Projeto Político Pedagógico e o Currículo possam aproximar-se sempre do “currículo real” dos alunos. Os gêneros são criados e recriados. à diferença. percebe-se que a proposta de trabalho com os gêneros discursivos. Vale lembrar que ambos os documentos foram criados para orientar a prática do professor em sala de aula. portanto. Atitudes como revisar as ementas das disciplinas. já que a utilização da língua está envolvida nos discursos históricos. ser interdisciplinar. entender) e das sequências lexicais e componentes gramaticais próprios da norma culta”. 133). No entanto.

2. programas e projetos de pesquisa científica. produção artística e atividades de extensão. 1800 (mil e oitocentas) horas de aulas para os conteúdos curriculares de natureza científico-cultural. técnica e científica do cidadão. De acordo com ( MOTA e SCHEYERL. cursos e programas de educação superior previstos nesta Lei. uma perspectiva de construção do conhecimento de forma dialética e multidimensional. o “conteudismo”. através do dialogismo. na prática. a pedagogia multicultural acredita na valorização da voz do sujeito/professor e do sujeito/estudante. “nas quais a articulação teoria-prática garanta. De acordo com o artigo 53.. através do diálogo.Em outras palavras. é que quando assumem suas classes a simples transmissão de conhecimentos. do respectivo sistema de ensino. III . no exercício de sua autonomia.fixar os currículos dos seus cursos e programas. as Universidades desenvolveram currículos que preconizam a formação docente. em um mundo onde as relações culturais estão cada vez mais próximas.. 53. II. nos termos dos seus projetos pedagógicos. 2800 (duas mil e oitocentas) horas. Das Universidades públicas do Estado do Rio de Janeiro Quanto ao currículo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional LDB . são asseguradas às universidades. observadas as diretrizes gerais pertinentes. assegura que as Universidades: Art. como linguista aplicada. as seguintes atribuições: Na busca do desenvolvimento de competências e habilidades. Art. Portanto. 400 (quatrocentas) horas de estágio curricular supervisionado. pensando o ensino do E/LE como “um conjunto de valores e de relações interculturais” (OCEM. de acordo com o Art. em um mundo pluriligue e multicultural. da LDB. divididas em: 400 (quatrocentas) horas de prática como componentes curricular. 2004. 1º da Resolução do CNE/ CP 2.”. descobrindo a polarização dos saberes e assumindo. esta medida caracterizou um avanço para o ensino no Brasil.estabelecer planos. 53. organizar e extinguir. compar tilhada e importante modificadora de todo o processo ensinoaprendizagem. II . pg. em sua sede. e 200 (duzentas) horas para outras formas de atividades acadêmico-científico cultural.. mas o que se observa. 2004. concede-se às Universidades autonomia para “fixar os currículos dos seus cursos e programas.. No exercício de sua autonomia. outra (s) cultura (s). Dessa forma. . no mínimo. obedecendo às normas gerais da União e.de 20 de dezembro de 1996.criar. promove a construção de conhecimentos em LE. as dimensões dos componentes comuns:. Sobretudo entendendo cultura como prática social. assim como no desenvolvimento da sensibilidade de escuta às múltiplas outras vozes. são necessárias revisões curriculares que tenham como principal objetivo construir um ambiente de aprendizagem onde o aluno/professor possa interagir e participar democraticamente do aprendizado. ainda é a maneira mais usual de ensinar LE.. p.114 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS É importante e necessário que a universidade leve o aluno/professor a refletir sobre sua língua e sua cultura. p.149). 41) I . quando for o caso.. em contato com outra(s) língua(s).41). de 19 de fevereiro de 2002 estabelece que será de. Essa reflexão nos leva a pensar que são necessárias mudanças paradigmáticas no contexto . do aperfeiçoamento da formação cultural. II. A carga horária das licenciaturas de graduação plena.”. entendo que a proposta de uma abordagem que seja social e Inter/Multicultural para o ensino de línguas. (Mota e Scheyerl.. pois deu condições às Universidades de ‘aproximar’ o currículo de sua realidade social. 2008. sem prejuízo de outras.

A segunda categoria envolve a formação em Língua materna.360 horas. estas foram levadas em conta. É preciso lembrar que esta é uma pesquisa inicial. os dados classificados em apenas duas categorias. assim como as atividades complementares. totalizando 3. Não foram computadas nos gráficos as disciplinas optativas e eletivas. Gráfico 3 . Literaturas e a parte pedagógica. são elas: a primeira em azul envolve as disciplinas de E/ LE e literaturas. e disciplinas pedagógicas. E/LE e Literaturas. Contando com uma carga horária de 2. Quanto à carga horária.980 horas. na cor vermelha.0% da grade curricular. optou-se por apresentar abaixo. apresentaremos os gráficos elaborados a partir das grades curriculares das Universidades. portanto. o que corresponde a 37. 60 eletivas e 200 horas de atividades complementares.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 115 acadêmico.9% do curso. Na Universidade Federal Fluminense (UFF) o currículo encontra-se distribuído entre Língua materna e Literaturas. acrescida de 120 optativas. Gráfico 2 O gráfico 2 mostra que para a formação em E/LE são apontadas 18 disciplinas para a primeira categoria. para a segunda categoria são 29 disciplinas. a fim de desenvolver a formação por meio de atividades de pesquisa que integrem as disciplinas e possam dar conta de um ensino humanizado e criativo. Na sequência. o que corresponde a 62.

e disciplinas pedagógicas. e um total de 242 créditos. o que corresponde a 68.5% do curso. Na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) o currículo encontra-se distribuído entre Língua materna e Literaturas. o que corresponde a 68. o que corresponde a 31.5% da grade curricular. através de entrevista junto aos alunos do curso de letras. Na Universidade Federal do Rio de Janeiro ( UFRJ) o currículo encontra-se distribuído entre Língua materna e Literaturas. Conta com uma carga horária de 4.200 horas. o que corresponde a 24. Buscar-se-á com a pesquisa.3%.116 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS O gráfico 3 mostra que para a formação em E/LE são apontadas 20 disciplinas para a primeira categoria. o que corresponde a 31. Conta com uma carga horária de 4. avaliar . e para a segunda categoria 44 disciplinas. E/LE e Literaturas.200 horas. e para a segunda categoria 34 disciplinas. e para a segunda categoria 44 disciplinas.07% da grade curricular. e um total de 152 créditos. E/LE e Literaturas.3%. E/LE e Literaturas. Gráfico 4 O gráfico 4 mostra que para a formação em E/LE são apontadas 20 disciplinas na primeira categoria. Na Universidade Federal do Rio de Janeiro ( UFRJ) o currículo encontra-se distribuído entre Língua materna e Literaturas.07% da grade curricular.280 horas. e a parte pedagógica. e disciplinas pedagógicas. Gráfico 5 O gráfico 5 mostra que para a Formação em E/LE são apontadas 11 disciplinas na primeira categoria. Conta com uma carga horária de 3. e um total de 242 créditos. o que corresponde a 75.

pdf. Sabe-se que. p. sua relevância no processo ensino/ aprendizagem de língua estrangeira e na formação do professor de E/ LE.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 117 o currículo de cada uma das Universidades.br/seesp/arquivos/ pdf/res1_2. Acesso 13/05/ 2012.ufrrj. ainda são necessários maiores investimentos em pesquisas e financiamentos para o ensino de LE.41Salvador. Brasília: Ministério da Educação.Ensino Médio. RESOLUÇÃO CNE/CP 2. (2008): Linguagens. Lei nº. MOTA e SCHEYERL. Disponível em <http://www.letras.Ministério da Educação. no Brasil. Dispõe das Diretrizes e Bases da Educação Nacional.uerj. Acessado em 18/01/2010. Disponível em http://portal. p. u f f . PARAQUETT. Kátia e Denise (2004): Recortes Interculturais na sala de aula de Línguas Estrangeiras . DE 19 DE FEVEREIRO DE 2002.br/graduacao/arquivos/docs_curso/ matriz/IM/76_lic_letras-portugues-espanholliteraturas_matriz_2009-1. Acessado em 11/06/2012. Acessado em 07/06/2012. BH: Editora. Acessado em 11/06/ 2012. b r / s i te s / d e f a u l t / f i l e s / BRASIL.ufrj.(1992): Estética da Criação Verbal. a fim de alcançar a excelência na educação. UERJ:http://www.07 l e t r a s _ p o r t u g u e s _ e s p a n h o l _ _licenciado_novo.pdf. 9394/96. Espanha. p. U F F : h t t p : / / w w w.179.mec. Revista Nebrija de Lingüística Aplicada.gov.pdf. UFRJ:http://www. 1996.dep. letras_portugues_espanhol_licenciatura. São Paulo: Martins Fontes. de 20 dez. .planalto.Acessado em 12/06/ 2012. MEC .gov. de 18 de Fevereiro de 2002. Márcia (2007): Linguística Aplicada.br>. inclusión social y aprendizaje de español en contexto latinoamericano. ORIENTAÇÔES CURRICULARES NACIONAIS. RESOLUÇÃO CNE/CP Nº 1. Salvador. Refletindo-se sobre a relação língua/cultura.UFBA. Mikhail. CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO CONSELHO PLENO.br/ index. l e t r a s .php?option=com_content&task=view&id=45 UFRRJ:http://r1. (1998). Referências bibliográficas BAKHTIN.pdf. PCN – Parâmetros Curriculares Nacionais . códigos e suas tecnologias/ Secretaria de Educação Básica: MEC. Acessado em 11/06/2012.br/arqs/fluxogamas_cursos/ BRASIL.

no comportamento dos animais e na constituição da vegetação. Depois de publicar no jornal uma série de reportagens sobre a difícil situação do trabalhador rural nos campos castelhanos. 2010. Apesar dessa desestruturação familiar. vivia da caça de ratazanas que além de alimentar a ele e ao filho. numa intertextualidade bíblica: “¡Qué condenado crío! Cada vez que lo veo así me recuerda a Jesús entre los doctores. e a Jesus. Sua mãe. p. segundo o próprio autor. Delibes decidiu transformar em ficção a realidade social que conhecia com propriedade. o romance relata as dificuldades vividas por moradores de um pequeno e miserável povoado castelhano. havia adquirido junto aos avós polígamos Abundio. por ordem da censura. um homem ignorante e embrutecido. nascido da relação incestuosa entre dois irmãos. Percebendo que os censores não eram tão atentos e ferrenhos com os conteúdos das obras literárias como com as publicações periódicas. foi levada a um manicômio de onde nunca mais retornaria. o El Norte estava impedido. Ratero e Marcela.UFMT Las ratas (1962) é o quinto romance escrito por Miguel Delibes e. o menino era capaz de analisar as mínimas nuanças nas alterações climáticas. p. fazendo com que de alguma maneira aquela história fosse contada. O protagonista Nini é um menino de 11 anos de idade. no estado do solo. a matéria para o enredo surgiu da impossibilidade de publicar no El norte de Castilla 1 . Román e Iluminada e ao ancião local Centenario. Nini sobrevivia de . Ambientado na segunda metade da década de 1950 (provavelmente entre 1956-57). De maneira intuitiva. Seu pai. Nini. ao longo de um ciclo agrícola de pouco menos de um ano. jornal no qual trabalhava. eram vendidas no povoado. 19). denúncias relativas ao abandono sofrido pelos camponeses castelhanos por parte do governo franquista. comparado por alguns personagens a uma espécie de pequeno deus: “Digo que el Nini ese todo lo sabe. Parece dios.” (DELIBES. Esse conhecimento lhe conferia status de sábio. 54) Com a ingenuidade própria da idade e a sabedoria extraordinária. ao apresentar problemas psiquiátricos após a gravidez. de fazer qualquer menção ao problema. 2010.118 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS LAS RATAS DE MIGUEL DELIBES E A DENÚNCIA DA CRISE CAMPONESA EM CASTELA NOS ANOS 1950-1960 Ana Paula de Souza PG . que nunca fora à escola. uma sabedoria popular inigualável entre os habitantes do vilarejo.” (DELIBES.

Por um lado. A preocupação ambiental de Delibes. o que desapareceria na vida do adulto que enfrentava as vicissitudes de um pós-guerra e de uma ditadura: Hoy más que nunca gusta el hombre de recuperar su consciencia de niño. Problemas esses literariamente suavizados pela sabedoria carismática do protagonista infantil e pelas crenças supersticiosas de um povo inconsciente do seu papel social e. não fosse a candura do olhar infantil. Las ratas apresenta a profunda relação do camponês espanhol com a terra. sobretudo o trigo. a presença da criança na obra literária representa a nostalgia de uma fase da vida genuinamente feliz e íntegra. Ou seja. p. da qual depende sua existência. mas como recurso estrutural que constitui o literário. de evocar una etapa – tal vez la única que merece ser vivida – cuyo encanto. tratava-se de uma agricultura baseada centralmente na produção de cereais. existente em Castela até a primeira metade do século XIX. e as consequências concretas desse acontecimento histórico para as condições da sociedade anos após o desfecho do conflito. Ao revelar tais implicações sociais a partir da narrativa ficcional delibesiana. Na organização social agrária do século XX. além de outros problemas menos evidenciados. O presente estudo se dedica a desvendar o social por trás do literário. Esses grandes latifundiários contratavam o serviço de trabalhadores sem terra que viviam no campo por jornadas. de acordo com as . por exemplo. Por outro lado. as principais características da agricultura castelhana até os anos 1960 eram as mesmas da primeira metade do século XIX. Através da ótica do personagem. cuya fascinación sólo advertimos cuando ya nos ha escapado de entre los dedos… (DELIBES apud RODRÍGUEZ PUÉRTOLAS. Esse modelo agrário denominado tradicional 3 foi reafirmado pelo estado franquista de forma autoritária. para a qual se utilizava uma tecnologia produtiva tradicional voltada para o mercado interno. além da denúncia do abandono político dos trabalhadores dos campos castelhanos. Interessa também para este estudo verificar de que modo as cicatrizes da Guerra Civil permeiam o inconsciente coletivo dos personagens. a fome e a improdutividade. e surgiu o cacique. o autor desnuda as consequências do abando no estabelecimento de relações humanas embrutecidas. este trabalho inscreve-se na perspectiva de Candido (2000) ao entender o social não como causa ou significado2. o clima austero e a total falta de investimentos. aquele que possuía a maior concentração de terra em uma determinada região (geralmente mais de 100 hectares). Segundo o próprio autor. o protagonista cumpria em seu povoado um papel do qual o estado se ausentara. 115) castelhana tais como a apatia social. tendo como base a exploração do campesino. portanto incapaz de reivindicar seus direitos políticos. desapareceu a figura do señor. procurando entender a crise agrária dentro do contexto econômico do país e os problemas vividos pela população campesina 1. O retrato da crise campesina castelhana em Las ratas Segundo Pérez-Díaz (1994).ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 119 pequenos trabalhos realizados para os agricultores e criadores de animais. num relato existencialista e desolado. animalizadas e na configuração de personagens primitivos e ignorantes que parecem não ter lugar em pleno século XX. Nini se converteu em uma espécie de oráculo de sua comunidade á medida que com suas previsões meteorológicas e com sua percepção da natureza. Desse modo. 1990.o solo pouco fértil. Delibes constrói uma visão autêntica e poética de uma realidade que seria insuportavelmente cruel. ajudava os camponeses na luta contra as adversidades da região . faz-se presente no respeito do homem do campo pelos ciclos da vida na natureza.

sobreviver exclusivamente da agricultura. la tierra andaba muy repartida. 42) Delibes atribui ao personagem Don Antero o epíteto el Poderoso. oscilações térmicas e aridez do solo. (…) soltó una carcajada: ___ A voleo no siembran ya más que los mendigos y los tontos. pois não conseguiam sobreviver apenas da terra e eram obrigados a realizar outras atividades. De acordo com Pérez-Díaz. 2010. os agricultores médios que sobrevivem da agricultura. p. las tres cuartas partes de la cuarta parte restante. conforme resume o narrador: “En el pueblo. Em Las ratas . doña Resu y la señora Clo sumaban. observa-se. que tinha em sua base aliada o apoio dos grandes proprietários de terra. Esse esquecimento por parte do poder público. la sequía o la helada negra. verões quentes e secos. socialistas. o pastoreio. é a subordinação do agricultor às intempéries do clima. el Pruden y el puñado de vecinos del lugar. A própria ideia de divisão de terras estava ideologicamente relacionada . a quien las adversidades afinaban la suspicacia. le contestó que el mal era para los pobres. geadas e nevascas. chegava apenas para os grandes latifundiários que tinham como financiá-la. aos quais Nini se refere como vecinos del lugar. 2010. Proprietários de 10 a 100 hectares. 36). ou seja. Os camponeses que possuíam menos de 10 hectares eram considerados marginais . el Poderoso. señora Clo e Pruden representam nessa pirâmide. 2010. p. por exemplo. como hacían ellos. outro problema enfrentado pelo campesinato castelhano e denunciado por Delibes em Las ratas. El señor Rosalino. manifestar frívolamente en su tertulia de la ciudad que “por lo que hacía a su pueblo. Além da má distribuição das terras. entre las dos. O agricultor castelhano tinha de lidar com invernos rigorosos. Doña Resu. mitad por mitad.” (DELIBES. Por isso o personagem Don Antero se sente confortável para afirmar que em seu povoado a terra está ainda muito dividida. irregularidades das chuvas. las gentes maldecían de la soledad. 47) aos perdedores da guerra. y ante los nublados.120 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS necessidades do plantio e da colheita. anarquistas e membros de outros grupos políticos que lutaram pela república durante a Guerra. republicanos. o projeto de reforma agrária surgido no período da Segunda República (1931-39) foi invalidado durante o governo Franco. A mecanização agrícola. aos traidores da pátria. Os demais campesinos. aliado à austeridade da natureza na região redundam no isolamento destacado no trecho. Esto no impedía a don Antero. que além de agricultor é o marceneiro do lugar. Pruden.” (DELIBES. são aqueles que para manter suas famílias tem de trabalhar como jornaleiros em outras terras ou se dedicam a outros trabalhos como a caça. puesto que utilizando la máquina. como é o caso de Antoliano. poseía las tres cuartas partes del término. y la última cuarta parte se la distribuían. (DELIBES. bien poco costaba hacerlo. o vilarejo castelhano fictício criado por Delibes reproduz essa organização social exatamente como o descrito no estudo de Pérez-Díaz: Don Antero. comunistas. personagem da obra que sintetiza a figura do agricultor incansável na luta contra as adversidades. inclusive com maior ênfase. lamenta não ter acesso à tecnologia diante da possibilidade de ter de ressemear os campos por falta de chuvas: Y el Pruden. inclusive como jornaleiros. a total ausência de políticas públicas e investimentos para melhorar a condição de trabalho desses camponeses. el Poderoso. a criação de animais ou a manufatura. os campesinos médios e pequenos conseguiam. não sem dificuldades. indicando ao leitor de forma direta o lugar social que o mesmo ocupa no povoado: o de cacique. através do relato de Delibes. Numa região que tinha como principal atividade econômica a agricultura. p. para garantir o sustento da família. detentor da maior proporção de terras. blasfemaban y decían: ‘No se puede vivir en este desierto’.

ao longo da década de 1950 esse plano de irrigação havia atingido menos de dois por cento das zonas mapeadas. para essa segunda etapa do trabalho. No había tarea más apremiante y los prohombres decían: “Los árboles regulan el clima. foram declaradas zonas de interesse nacional as áreas agricultáveis. De fato. intelectuais que conheciam. según se sentaba en el banco del fondo: ___ Date cuenta. por las inhóspitas laderas. um plano de irrigação. o plano era agora retomado pelo novo ministro da agricultura e. até os anos 1950 em Castela. Delibes opõe dois discursos antagônicos – o de Pruden. la azada al hombro. Pero llegó el sol de agosto y abrasó los tiernos brotes y los cerros siguieron mondos como calaveras. 88-89) O projeto do reflorestamento já havia sido executado pelos republicanos durante a guerra civil através do trabalho de brigadistas voluntários.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 121 Nesse trecho da narrativa. apenas a las veinticuatro horas de estallar. ¿Te das cuenta? Dejaremos de vivir aperreados mirando al cielo todo el día de Dios.. Cuando el Pruden quiera agua no tiene más que levantar la compuerta y ya está. que plantar árboles. (DELIBES. p. Em Las ratas esses trabalhadores vinham de Estremadura. De acordo com Pérez-Díaz. 89). 2010. y cuando la guerra. Hay que hacer la revolución. não restava aos agricultores como Pruden outra coisa que esperar dos céus o milagre da chuva. boa parte do cultivo era realizado com a ajuda de rudimentares arados como os utilizados no período romano. zomba dos agricultores que ainda semeiam de forma primitiva. Tão logo. No entanto. 2010. 2010. si llueve como si no. Ao referir-se a hombres nuevos. talvez esses homens não conhecessem de fato o rigor climático do ambiente castelhano. Somente a partir da década de 1960 foram introduzidos os arados modernos e o trator. “dispuestos a convertir Castilla en un jardín” (DELIBES. os habitantes locais que conheciam os resultados da primeira tentativa de reflorestamento respondiam: “Sólo Dios hace milagros”. porém secas que dependiam do projeto de irrigação para tornarem-se de fato produtivas. ao menos teoricamente. aunque ahora eran empleados del Estado dedicados a la ardua tarea de la repoblación forestal. A colheita também era feita manualmente. o tierra vegetal. 2010. talvez o autor quisesse lembrar que ideias como a do reflorestamento surgiram no bojo da Guerra Civil Espanhola e da mente de homens afinados com o ideal republicano. Nini. Diante dessa otimista afirmação. após meses de trabalho dos Segundo Barciela López et. Mesmo tendo sido negativos os resultados da primeira tentativa. o personagem Pruden menciona esperançoso um plano de irrigação elaborado pelo governo: Tomó al Nini nerviosamente por el pescuezo y le explicó confusamente algo sobre un plan de regadío de que hablaba el diario y que alcanzaría hasta el pueblo. personagem que dá voz ao camponês consciente da impossibilidade do trabalho naquelas condições. contratavam-se jornaleiros. al. porque o que era promessa de resgate da produtividade do campo desfez-se no primeiro verão. La repoblación forestal era la obsesión de los hombres nuevos. os benefícios da recomposição vegetal para o clima e para o solo. Sendo a seca no momento do plantio e do desenvolvimento da plantação uma das principais preocupações dos agricultores castelhanos da época. p. Após um mapeamento. Hay. 45) Outro projeto desse ministério foi o de reflorestamento. e o de Rosalino que assume a voz do cacique e impassível. Em Las ratas Delibes narra o processo de replantio florestal em Castela: Antes hicieron esto en Torrecillórigo. (DELIBES. atraen las lluvias y forman el humus. com foices e trilhos tirados por mulas. Dijo impulsivamente al niño. se organizaron brigadas de voluntarios con el fin de convertir la escueta aridez de Castilla en un bosque frondoso. ¡Arriba el campo!” Y todos los hombres de todos los pueblos de la cuenca se desparramaron ilusionados. (DELIBES. p. pues. ao assumir o Ministério da Agricultura entre os anos de 1951-57. Entretanto. . 89). Rafael Cavestany tinha como projeto para sanar a aridez castelhana. p.

devido ao forte sentido de comprometimento crítico de Delibes ao revelar a difícil condição do camponês . comparando-os a seres humanos recostados ao solo. Nesse momento. impedían el acceso de las ovejas a las colinas y les atribuían toda clase de vicios. se acostaban mansamente sobre el lodo. se a terra fosse dividida de maneira equitativa entre as famílias camponesas. o protagonista contempla a plantação destruída: Los trigos. uma mão-de-obra barata a serviço do grande latifúndio. Nini. não poderia ser ignorado por aqueles que detinham o saber científico. No entanto. poeticamente. Segundo PérezDíaz. arracimados desordenadamente por la violencia cambiante del ciclón. permaneceria de forma velada no inconsciente Delibes constrói a imagem da perda da colheita por meio de personificações que humanizam os cereais. quando a ideia era a de que cada trabalhador tivesse uma pequena porção de terra na qual trabalharia apenas a sua família. o autor resgata a figura do homem do campo como aquele que melhor entende o seu habitat. Ora. Durante su estancia los nativos disfrutaban de una absoluta impunidad. A narrativa que começa cronologicamente com o início do ciclo agrícola no outono. desapareceria a figura do cacique. As precipitações climáticas e as mudanças que elas provocam no meio ambiente são descritas com a poeticidade e a sensibilidade de quem conhece com propriedade a paisagem castelhana. Delibes não só critica políticas públicas fracassadas como também confronta o saber científico com o saber popular. Por los caminos y junto a las linderas yacían los cadáveres de los trigueros y las alondras. Ainda que o saber camponês fosse empírico. na figura do jornaleiro. Ante cualquier desaguisado la gente decía: ___ Habrán sido los extremeños.”(DELIBES. Terminada a forte chuva. desde antes da Guerra Civil Espanhola os camponeses começaram a reivindicar suas pautas econômicas e sociais. Os pequenos camponeses viam.122 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS estremenhos. entre as quais a da reforma agrária. 2010. Embora tenha sido publicada em 1962. esse trecho confronta não apenas saberes como também culturas. entre las espigas decapitadas. 179) Talvez essa rejeição pelos trabalhadores jornaleiros vindos de outras regiões do país tivesse uma explicação social mais profunda. O castelhano não era amistoso à vinda dos trabalhadores estremenhos e no inconsciente coletivo se construíam todo tipo de estereótipos negativos em torno aos forasteiros: Pero en el pueblo no querían a los extremeños porque estimaban su labor inútil. p. Esse enfrentamento entre jornaleiros e pequenos agricultores existente desde antes da guerra. o oráculo do clima castelhano. Como profundo conhecedor de Castela e de sua gente. Em Las ratas Delibes aponta as principais dificuldades enfrentadas cotidianamente pelo campesino castelhano durante a crise agrária dos anos 1950. p. Após dias de secura e calor intensos. termina com a chegada do verão e os riscos que a estação traz consigo. o autor vai deslindando a tênue margem que separa ou vincula a denúncia social e a literatura. E assim. rígidos sobre los granos de trigo y los cascabillos desparramados. decapitados e cadavéricos. contratante dos serviços dos jornaleiros. Com tudo. o desfecho conhecido dos agricultores castelhanos repetiu-se ao início do verão. A trechos. entre a má distribuição da terra. nenhuma vicissitude impressiona mais o leitor que a impotência do trabalhador perante a natureza adversa. (DELIBES. Las ratas nos parece ser um romance ainda arraigado ao conceito de novela social espanhola dos anos 50. 2010. lê nos sinais da natureza e vinda de uma forte chuva de granizo que aniquila os campos ás vésperas da colheita do trigo. 91) popular e se repetiria como no fragmento do discurso dos personagens delibesianos. rebrillaban las charcas. a falta de investimento e crédito e os projetos políticos ineficazes.

Notas 1 Jornal publicado em Valladolid até os dias atuais. RODRÍGUEZ PUÉRTOLAS. Madri: Castalia.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 123 castelhano.com/pdf/ Asp5a. Disponível em http://www. Em Ayer.org/ docs/ayer/ayer21_03. Víctor (1994): Transformaciones de una tradición. Julio e ZAVALA. São Paulo: T. Barcelona: Destino. BLANCO AGUINAGA. Antonio (2000): Literatura e sociedade . campesinos y agricultura en Castilla entre mediados del siglo XVI y mediados del sig lo XX. Iris (1974): Historia social de la literatura española III. o autor faz da literatura um instrumento de ação social capaz de fazer com que as autoridades políticas da época voltassem seu olhar para uma região do país esquecida e isolada. Carlos. Miguel Delibes iniciou seu trabalho no periódico a partir de 1940 chegando a ser o diretor de 1958 a 1963. Acessado em 07/08/2012. CANDIDO. Carlos (Coor. Nesse romance. DELIBES. Miguel (2010): Las ratas. 2 3 Palavras tal qual empregadas por Antonio Candido em Literatura e sociedade.asp-research.ahistcon. PÉREZ-DÍAZ. LÓPEZ ORTIZ. Joaquín (1996): La intervención del Estado en la agricultura durante el siglo XX. utiliza-se o termo tradicional para definir o sistema agrário espanhol de meados do século XIX a meados do século XX. Referências bibliográficas BARCIELA LÓPEZ. . Disponível em http://www. María Inmaculada e MELGAREJO MORENO.pdf. 51-96.). Acessado em 07/08/2012. El Estado y la modernización económica. A. nº 21. Queiroz. Segundo Pérez-Díaz (1994).pdf. pp.

2) pelas relações com os paratextos: títulos. com outros textos e textualidades (Cf. subtítulos. prólogos etc. “El Brujo”. epílogos. ou seja. ilustrações etc. gravadas por Martínez durante quatro dias.. cifradas ou expressas. relação geralmente denominada comentário. intertítulos. os romances La novela de Perón (MARTÌNEZ. ou seja. e a identidade política de quem o invoca quanto como uma proposta de constituir a nação argentina. triunfo. a presença efetiva de um texto em outro. advertências. concebido tanto como o movimento político nascido depois do golpe de Estado de 1943. as quais discorrem sobre o peronismo. Dessa forma. 3) pela metatextualidade. 5) hipertextualidade: responsável por unir um texto B (hipertexto) com um texto anterior A (hipotexto) no qual se enxerta de uma maneira distinta à do comentário. notas de pé de páginas. 4) arquitextualidade: articula uma menção paratextual (subtítulos e títulos. no limite. e previamente ditadas pelo general Juan Domingo Perón a López Rega. fazendo com que se considere as relações. GENETTE. 1995). notas à margem.124 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS QUANDO O MET ATEXT O DE TOMÁS EL OY META TEXTO ELO MAR TÌNEZ AUTENTICA AS VID AS DE PERÓN VIDAS MARTÌNEZ André Luis Mitidieri UESC Centramos atenção nas coletâneas de artigos jornalísticos de Tomás Eloy Martínez intituladas Las memorias del General (1996) e Las vidas del General (2004). Publicadas na revista . Esse artigo revela-se como indicativo das formas por intermédio das quais pode ocorrer a transtextualidade. 179-188) retrata histórias cotidianas do exílio de Perón e sua extravagante relação com o secretário e mordomo José López Rega. unindo um texto a outro texto que fala dele sem citá-lo e inclusive. Integrando a última coletânea. como em Poesias.). assim como Las memorias del General e Las vidas del general constituem hipertextos de um hipotexto chamado “Las memorias del semanario Panorama”. é por excelência a relação crítica. Ensaios etc. sem nomeá-lo. “Ascenso. a maneira pela qual se viabiliza a possibilidade de um texto escapar a uma singularidade que muitas vezes se torna insatisfatória a seu deciframento ou a sua compreensão. decadencia y derrota de José López Rega” (p. 1989). A transtextualidade ocorre de diferentes modos: 1) pela intertextualidade. finais. uma relação de copresença entre dois ou mais textos. epígrafes. prefácios. 1985) e Santa Evita (MARTÍNEZ.

hipertextual.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 125 argentina Panorama a 14 abr. ao mesmo tempo. mas aos dias 21 e 28 de abril. é republicado ao final do mesmo livro. Martínez não ignora os desenvolvimentos teóricos acerca desse tema. dentre outras considerações. Todas essas relações intertextuais e paratextuais. 1996). quer dizer. Enquanto professor de literatura em universidades norte-americanas. constantes na edição anterior. comporta entre seus outros textos. contudo. reelaborando o que nomeia como “desmemorias” no capítulo “Las memorias de Puerta de Hierro” (p. dizia respeitar e. O subtítulo dessa publicação – “memorias del exilio y otros textos sobre Juan Domingo Perón”. na nova versão. a morte do sindicalista Augusto Vandor e as ideias de Perón sobre o que denominava “a liberação dos povos”. 1970.). figurando em sua página de rosto. MARTÍNEZ 1996. cit. No mesmo prólogo. Ainda informa que. Insatisfeito com as lacunas encontradas no discurso de Perón. As relações arquitextual. Mais adiante. o autor procede a investigações e à reconstrução de diálogos. 2004). o intelectual argentino afirma que prepara Las vidas del General esperando. No mesmo periódico. 20) quando. além das (des)memórias de Perón. 1996. Dentre outras mudanças que ocorrem nesse paratexto. configura-se simultaneamente como uma relação arquitextual e paratextual que parece fazer mais jus ao caráter plural das identidades no mundo contemporâneo. p. p. 13-122). integra a coletânea Las memorias del General (MARTÍNEZ. Reiterando os vínculos entre Las memorias del General e o primeiro dos romances mencionados. como “Las memorias del semanario Panorama” (MARTÍNEZ 1996. p. 14). 123-134) e “La tumba sin sosiego” (p. loc. acompanhado de respectivos documentos. A mesma coletânea passa a ser intitulada Las vidas del General: memorias del exilio y otros textos sobre Juan Domingo Perón (MARTÍNEZ 2004)1 em nova edição. a partir do momento em que o autor substitui a palavra “Memorias” (constante na edição de 1996) pelo termo “Vidas” no título da obra lançada a público em 2004. da forma crítica como o autor encaminha seus textos ao leitor. 13-122) que. o jornalista edita fragmentos relacionados àquele texto: sobre Evita. intertextual e paratextual são elas mesmas indicativas da relação metatextual. MARTÍNEZ. mas também os outros relatos dissidentes que completam ou contradizem tal imagem (p. que o título recente lhe parece mais apropriado por refletir nem tão somente os relatos com os quais Perón desejou inserir-se na história. O texto fonte. “Ascenso. 135-170). A título de exemplo. 9-15) no qual o autor infere. 195-218). diz suprimir o que considera um pleonasmo: o capítulo “Las memorias del semanario Panorama ” (MARTÍNEZ. instauram consideráveis mudanças que se reiteram na relação arquitextual. 195-218). fornece informações a respeito de quatro outros textos que. Outra alteração. talvez inutilmente. acrescida de um prólogo (p. p. O prefácio utilizado em Las memorias del General passa a servir de introdução ao capítulo “Las Memorias de Puerta de Hierro” de Las vidas del General (MARTÍNEZ 2004. refere-se à omissão de que o corpo completo das “Memórias” se originou daqueles diálogos (Cf. insere dois outros capítulos: “Perón y sus novelas” (p. 11). na edição precedente. se sublevar contra a vontade de Perón (Cf. menos significativa. o subtítulo do livro Las vidas del General (MARTÍNEZ. que dialogue com todas as ficções que ele havia escrito sobre o peronismo e possam encerrá-las. . importa mencionar o fragmento no qual o jornalista afirma que “este libro restaura los diálogos de Puerta de Hierro en el orden y del modo como sucedieron ” (p. agora voltam a ser republicados. essas “memórias” englobam os 50 primeiros anos da vida do expresidente argentino. aliadas às contracapas de ambas as edições.

Moisés e Maomé”. referendando o indício paratextual que tem valor contratual (CF. Martínez informa que os escritos de dom José interpretavam o destino dos seres humanos “como um diálogo entre o poder dos perfumes e o poder das cores. artigo escrito em Caracas e publicado no jornal La Opinión em 22 de julho de 1975.4 Por meio de seu narrador. respondia às ordens de José López Rega. no exílio em Madri”. uma organização parapolicial que era financiada com fundos do Ministério de Bem-Estar Social e que. p. de intertexto citacional de apoio. sustentada por avisos de militantes peronistas. Ainda não associado “ao paroquiano das ciências ocultas que vivia em Madri por um ano à procura da aprovação do General para sua difusa doutrina espiritualista. Elias.]. que assim declara: No final de abril de 1975. e depois como um cabo disciplinado e ambicioso. posso dizer que demorei nove anos para voltar [. sem talento aparente para a política. que teceria o iluminismo Rosacruz e alquimia de Paracelso com os rituais brasileiros de Umbanda”. Sua militância peronista parece iniciar aquele ano. 179-188). a quem a lentidão de suas ascensões no escalão policial induziu-o a pedir para ser reformado em 1962. 1989. O metatexto crítico de Martínez assim é praticado com uma parte. ao começo do texto. a voz autobiográfica do jornalista. praticamente todas as mensagens. na esquina de Paraguai e Leandro N. telefonemas e pedidos de audiência dirigidos ao General passam pela anuência do “Bruxo”. Os libelos me declararam inimigo da Argentina e me concediam quarenta e oito horas para partir ao estrangeiro.2 alcançar uma compreensão global do universo. o escritor insere a própria voz autobiográfica para dizer que ouviu pela primeira vez o nome de José López Rega quando tomou conhecimento do livro Astrologia esotérica. da Associated Press. submeter-se ao simultâneo ensino de Antúlio. e que propunham. “Conjetura-se que foi então quando a convenceu de seu desinteresse patriótico e obteve consentimento para colaborar com ela. Caso não conte com uma fugaz semana em agosto de 1975. escrito por “el Brujo”.. 18). a instância autoral inclui. um dos herdeiros de Perón. Buenos Aires. era conhecido como empregado para tarefas domésticas e editor de uma revista de tiragem limitada. na qual o esotérico aparecia como integrante circunstancial da equipe de vigilância presidencial. Na mesma direção. o então cabo reformado pediu a Alberte para servir como custódia de Isabel. estalou uma segunda bomba e recebi ameaças mais rotundas no apartamento onde morava e em um restaurante onde estava almoçando. consideravelmente frequente. quando se vinculou com alguns membros da loja maçônica Anael e instalou uma pequena imprensa próxima à ponte ferroviária da rua Salguero. decadencia y derrota de José López Rega” (p. López Rega havia imprimido alguns panfletos do peronismo clandestino e conquistado a confiança do major Bernardo Alberte. Abel. fez explodir uma bomba lança-panfletos em frente ao edifício da editora Abril. a quem quisesse 3 Em 1963. dois dias depois que o “Bruxo” viu-se obrigado a renunciar e par tiu ao Rio de Janeiro como embaixador extraordinário da presidenta Isabelita Perón.5 López Rega é apresentado como um rosto anônimo entre aqueles que rodeavam Perón em 1966. com esperança de retornar em poucas semanas. como secretário ou assistente. por volta de 1950. fornece outros dados através de uma biografia reconstruída por membros do Clube de Correspondentes de Madrid.126 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS triunfo. Alguns .. GENETTE. Quando esse mandou a esposa a Mendoza em 1965. em uma das vias de acesso à Costaneira Norte de Buenos Aires. Viajei à França. para apoiar o candidato a governador Ernesto Corvalán Nanclares. Alem. Desobedeci à advertência e tomei somente algumas precauções.6 Em 1971. Executando o retrato biográfico daquele protagonista quase iletrado. aparentemente. a Triple A. Dez dias mais tarde. Pela memória de Tony Navarro.

). a metalepse autobiográfica de Martínez confere autenticidade à narração: “Perguntei a López Rega sobre a veracidade daquela história. capaz de ressuscitar os mortos e ler os pensamentos alheios. e na qual sua presençã é solicitada como narradorpersonagem: “Não sou o único a quem se definiu em Madri como um fazedor de milagres. seu único prazer. quando mantivemos um diálogo fugaz junto à Quinta 17 de Outubro”. segundo ele. a partir dessa fonte.8 A ocasião permite a Tomás Eloy Martínez levantar uma hipótese a respeito da tolerância de Perón para com o mordomo. mas o secretário (a quem o narrador oferece voz). reuniram dados sobre uma empresa de engarrafar água em Uruguaiana. Devo dizer que a negou e atribuiu sua invenção. fundar uma religião para o Terceiro Mundo. o hábito da escrita. A gravidade estaria no fato de ele impor ao produto o nome de Perón e sugerir que esse recomendaria suas virtudes. consiste em toda intrusão do narrador ou do narratário extradiegético no universo diegético (ou de personagens diegéticas num universo metadiegético etc. O escritor confirma essas pretensões místicas quando soma seu testemunho à história primeira que ele mesmo narra. “com o pretexto de que ‘o General tem muitas coisas para atender e não convém abusar de sua saúde’”. Também não sou o único que começou a levá-lo a sério quando já era muito tarde”. não raro toma para si o envelope. Cada vez sou menos López Rega e cada vez sou mais a saúde do General’”. deixam para entregar a correspondência quando se despedem do ex-mandatário. A ambição por bens materiais. descobri uma espécie de sossegado bodegueiro de subúrbio. trata-se da “metalepse” que. quando o vi pela primeira vez. literalmente. ou inversamente. Em vez do megalomaníaco e intrometido Rasputin anunciado por seus detratores.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 127 peronistas. que carecia de escrúpulos na relação social e de senso do ridículo. contudo. não duraria muito tempo. assegura: “O certo é que o domínio dessa enorme . seu ponto frágil. As lembranças do escritor alcançam o protagonista no mês de “junho de 1972.9 O narrador recorre a informes detidos em 1972 por um dos correspondentes de Madri para comunicar que o secretário do ex-presidente tinha um plano para transformar a Argentina num campo de cultivo mágico.11 O cotidiano do “Bruxo” no escritório da Gran Vía em Madri. Mais uma vez. sabendo de tal vigilância. foi de qualquer maneira inferior ao personagem delirante e descarado que haviam prometido as fábulas madrilenhas. todos esses dados são antecedidos no texto pela breve. O autor-narrador. da qual seria ele o profeta e o pontífice. capaz de ir mais longe do que sonhava.10 Com uma ideologia esdrúxula. é informada por Martínez a partir de correspondentes estrangeiros que. ao ódio que lhe professavam ‘alguns inimigos bruxos’”. o “milagreiro” deteve um poder que. posteriormente. mas significativa. outra vez destacada na narrativa. 7 A relação metatextual que se vai confirmando não prescinde de um elemento típico das narrativas ficcionais. segundo Gérard Genette (2004). cidade brasileira fronteiriça com a Argentina. tomada biográfica na qual o testemunho de Martínez reitera o procedimento autobiográfico anteriormente indicado: A impressão que me causou. a fim de transferir o peso político e o carisma de Perón a si mesmo e. em 1970. provém uma possível resposta: “‘Eu sou o para-raios que detém todos os males enviados contra esta casa. maciço como um touro. publicada em Astrología estérica junto a conjeturas místicas sobre Perón.12 A informação de que “el Brujo” teria utilizado o conhecimento adquirido nos arquivos e nas correspondências de Perón a fim de amedrontar peronistas que deixaram rastros escritos de sua deslealdade ou torpeza é atribuída a alguns de seus adversários. a crença de que o destino da humanidade seria decidido por claves musicais. de cuja voz.

o excesso de fé em seus poderes individuais: Antes de regressar à Argentina. Gérard (2004): Metalepsis : de la figura a la ficción. pois há “homens que são escolhidos por Deus e outros. decadencia y derrota de José López Rega”. e que somente uma política de conciliação e unidade nacional poderia salvá-lo. de acordo com as convicções e as palavras de López Rega. O metatexto crítico autentica as configurações que esse havia estabelecido para sua obra – as (des)memórias de Perón ao lado de outros textos. ________ (1985): La novela de Perón . Gérard (1989): Palimpsestos . sobretudo. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica. Alfaguara. a vida do general junto a outras vidas – tomando a forma de uma metalepse que “está no núcleo íntimo de tudo o quanto cremos poder dizer ou pensar a respeito de nós mesmos. os partidos político. se uniram e conciliaram para dizer-lhe basta. Buenos Aires: Biblioteca del Sur. integrando a coletânea Las memorias del General. Ao contrário. o derrubou de maneira póstuma. os empresários e. “Ascenso. Taurus. política ou religiosa. Taurus. haverá possibilidade de saber se essa voz de mando não teria se pronunciado tarde demais. além da cobiça. de cuja existência. No entanto. Planeta. somente quando se fizer o novo inventario das ruínas. nem Deus nem sabe. mas que integra uma coletânea na qual o papel de protagonista é ocupado por Perón. triunfo. Buenos Aires: Planeta. consistindo em discurso secundário que confirma o artigo por ele protagonizado. os sindicatos.128 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS massa informativa. Perón havia pronunciado que o país estava em ruínas.16 Participante assíduo nas reuniões políticas da Puerta de Hierro aproximadamente desde 1969. 13 arrogância. como também em outros artigos que integram Las memorias del General e Las vidas del General. Nesse artigo.15 Referências bibliográficas GENETTE. somada a sua infalível memória de policial bem adestrado. Tomás Eloy (1996): Las memorias del General. ________ (2004): Las vidas del General . se for verdade – pois é verdade – que je sempre é também um outro”. López Rega acreditou no isolamento do poder e na necessidade de que o país se colocasse a serviço de suas convicções. caberia tratálos com rigor. Foi o próprio Perón quem. foi uma das chaves de seu poder político”. o fanatismo e a intolerância daqueles tempos alertam-nos sobre os riscos dos atuais fundamentalismos. de certo modo. Alfaguara. A esses. porque a imprensa. Presentes não apenas no texto aqui estudado. não. Altea. a derrota do “Bruxo” talvez encontrasse entre seus motivos. Traducción por Luciano Padilla López. Você com quem quer estar? Com a massa ou com o que amassa?”. 14 É também considerado metaléptico esse enunciado que o mordomo havia proferido acerca de si mesmo. a . é depois eliminada de sua reedição em Las vidas del General. Buenos Aires: Aguilar. de ordem étnica. o secretário acreditava em um Espírito Supremo que outorgaria poderes a alguns seres humanos e a outros. MARTÍNEZ. ________ (1995): Santa Evita. GENETTE. o povo desesperado. Buenos Aires: Planeta. Madrid: Altea. que forma parte do amplo cenário psicossocial contemplado pelas referidas obras de cunho jornalístico e memorialístico. aos inimigos. a perspectiva biográfica voltada ao secretário de Perón é compartilhada com as intrusões autobiográficas de Martínez. De acordo com a parte final do artigo que.

a quien la lentitud de sus ascensos en el escalón policial indujo a pedir retiro en 1962. Buenos Aires. literalmente. 183). 20. hizo estallar una bomba lanzapanfletos frente al edificio de la editorial Abril. macizo como un toro. 7 "con el pretexto de que ‘el General tiene demasiadas cosas que atender y no conviene abusar de su salud’” (Id. 4 “como un diálogo entre el poder de los perfumes y el poder de los colores.). 9 "‘Yo soy el pararrayos que detiene todos los males enviados contra esta casa. 185). descubrí más bien a una especie de sosegado almacenero de suburbio. cit. Elías. p. la Triple A. al odio que le profesaban ‘algunos brujos enemigos’” (MARTÍNEZ. p. 1996. Ibid. con la salvedad de una fugaz semana en agosto de 1975 […]” (MARTÍNEZ. cuando se vinculó con algunos miembros de la logia Anael e instaló una pequeña imprenta cerca del puente ferroviario de la calle Salguero. fue de todos modos inferior al personaje delirante y cachafaz que habían prometido las fábulas madrileñas. 2004. 6 “Se conjetura que fue entonces cuando la convenció de su desinterés patriótico y obtuvo consentimiento para colaborar con ella. 2004. loc. o explosivo não teria sido colocado no veículo pela embaixada da Argentina na Venezuela e sim pelo chefe do Serviço de Inteligência daquele país. 8 “junio de 1972. Desobedecí la advertencia y sólo tomé algunas precauciones. Ibid. p. constante nessa seção de Las memorias del General (MARTÍNEZ. con la esperanza de regresar a las pocas semanas. como secretario o asistente. Debo decir que la negó y que atribuyó su invención. que carecía de escrúpulos en la relación social y de todo sentimiento del ridículo” (MARTÍNEZ. respondía a las órdenes de José López Rega. é eliminado da coletânea Las vidas del general. quando de seu exílio em Caracas. estalló una segunda bomba y recibí amenazas más rotundas en el departamento donde vivía y en un restaurante donde estaba almorzando. Cada vez soy menos López Rega y cada vez soy más la salud del General” (MARTÍNEZ. p. Tardé nueve años en volver. en la esquina de Paraguay y Leandro N. Alem. 2 “A fines de abril de 1975. a quienes quisieran alcanzar una comprensión global del universo. al parecer. p. hacia 1950. una organización parapolicial que se financiaba con fondos del Ministerio de Bienestar Social y que. Trata-se do informe sobre uma bomba que destruiu o carro de Perón em 1957. loc. cuando lo vi por primera vez. en una de las vías de acceso a la Costanera Norte de Buenos Aires” (Id. 116-119). Viajé a Francia. 3 “al feligrés de las ciencias ocultas que vivía en Madrid desde hacía un año buscando la aprobación del General para su difusa doctrina espiritualista. p. p. 182). capaz de resucitar a los muertos y leer los pensamientos ajenos. en el exilio de Madrid” (Id. Ao contrário do que afirmava o general. 2004. 12 "La impresión que me causó. 2004. 2004. Abel. 10 “No soy el único ante quien se definió en Madrid como un hacedor de milagros. cuando mantuvimos un diálogo fugaz junto a la entrada de la quinta 17 de Octubre” (MARTÍNEZ. 182-183). .). 5 "como circunstancial integrante del equipo de vigilancia presidencial. Diez días más tarde. someterse al magisterio simultáneo de Antulio. En vez del Rasputín megalómano y entrometido que anunciaban sus detractores. Moisés y Mahoma” (MARTÍNEZ. 184). Tampoco soy el único que empezó a tomarlo en serio cuando ya era demasiado tarde” (MARTÍNEZ. Ibid. 184). p. 186). que entretejía el iluminismo Rosacruz y la alquimia de Paracelso con los rituales brasileños de Umbanda” (Id. Su militancia peronista parece arrancar aquel año. Los libelos me declararon enemigo de la Argentina y me concedían cuarenta y ocho horas para marcharme al extranjero. sin embargo. 181). y luego como un cabo disciplinado y ambicioso. 11 "Pregunté a López Rega sobre la veracidad de aquella historia. y que proponían. p. Ibid. 182). cit.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 129 Notas 1 O documento n. p.

cit. y que sólo una política de conciliación y unidad nacional podía salvarlo.). se unieron y conciliaron para decirle basta. A la inversa. Perón había predicado que el país estaba en ruinas. 14 "hombres que son elegidos por Dios y otros de los que Dios ni se entera que existen. 2004. 144).130 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 13 “Lo cierto es que el dominio de esa enorme masa informativa. 15 "Antes de regresar a la Argentina. 16 “está en el núcleo íntimo de todo cuanto creemos que podemos decir o pensar respecto de nosotros mismos. en cierto modo. fue una de las llaves de su poder político” (MARTÍNEZ. p. . loc. sumada a su infalible memoria de policía bien adiestrado. los empresarios y. lo derrocó de manera póstuma. p. si es verdad – pues es verdad – que je siempre es también otro” (GENETTE. 187). 2004. 129). Fue el propio Perón quien. Pero sólo cuando se haga el nuevo inventario de las ruinas. 1996. podrá saberse si esa voz de alto no se pronunció demasiado tarde” (MARTÍNEZ. sobre todo. ¿Usted con quién quiere estar? ¿Con la masa o con el que amasa?” (MARTÍNEZ. los partidos políticos. López Rega creyó en el aislamiento del poder y en la necesidad de que el país se pusiera al servicio de sus convicciones. el pueblo desesperado. porque la prensa. p. los sindicatos.

A partir desta problemática. poderiam promover a democratização no campo das artes. o cinema também foi utilizado como meio de propaganda ideológica sobre as massas. No plano das possibilidades. de que maneira o cineasta conseguiu subverter a ordem. posto o seu poder de fascínio e sua vertente influenciadora.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 131 CALLE MAYOR E SEÑORITA DE TREVÉLEZ SOB A DITADURA FRANQUISTA Angela dos Santos FATEC – ZL e SCS O cinema e a técnica cinematográfica ganham corpo nas primeiras décadas do século XX. e sob a vigilância da censura. cujo enredo é baseado em uma adaptação livre da obra La Señorita de Trevélez (1916). contribuiu de forma contundente para a difusão dos ideais franquistas. Assim. foi crucial para que o cinema e a literatura espanhola fossem diretamente afetados em suas produções. ao mesmo tempo em que encomendavam obras para propagar seus ideais e impor sua forma e conteúdo. Não era raro. a produção cinematográfica de transposições literárias tomou uma proporção ainda maior que nos anos anteriores. e produziu uma obra crítica à . essa se torna uma mídia explorada com fins de mudança social. mutilando obras e ditando regras tanto políticas quanto religiosas. com o apogeu da indústria cinematográfica. segundo Walter Benjamin (1985). que os regimes totalitários exercessem sobre os filmes uma censura asfixiante. uma análise do filme Calle Mayor (1956). devido ao fato de atingir um contingente enorme de pessoas. passando a ser caracterizado como uma técnica que permitia movimentos de massas. no início do século. Certamente isso não foi diferente no regime franquista. A censura atuou de forma incisiva nas produções cinematográficas. a moral e os bons costumes. na medida do possível. Neste sentido. o silêncio imposto nos longos anos de ditadura de Franco. essas técnicas de reprodução da arte. em vista de manter o status quo . O objetivo é tentar vislumbrar. Mas o inverso também ocorreu. do dramaturgo Carlos Arniches. através das câmaras perspicazes de Antonio Bardem. Especialmente no pós-guerra. pretende-se apresentar aqui. tornandoo um instrumento de propaganda política. Neste período. do cineasta Juan Antonio Bardem.

Ele narra um drama causado por homens que. perpetuam as condições da mulher frente à sociedade patriarcal. preferência de certo tipo de público. uma teatral e a outra fílmica. com intenção evidente de caricaturar o madrileno. Ela sacrificou um possível matrimônio pela felicidade de sua irmã. Nesse período. A obra de Arniches relaciona características regionalistas.132 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS sociedade de sua época. de fala peculiar. e é considerado o criador da “tragédia grotesca”. uma solteirona de idade avançada de classe burguesa “la cara ridícula. A obra em análise de Arniches foi escrita e levada à cena em plena Guerra Mundial. produzida às vésperas da guerra civil espanhola em 1936. Gonzalo de Trevélez. com fins humorísticos. mas estaciona neste ponto. Qualificada pelo autor de “farsa cómida en tres actos”. Trata-se de encontrar. a possibilidade. tendendo ao sentimentalismo e ao melodrama. pintarrajada e sonriente” (ARNICHES. na qual se percebe que não há a pretensão de uma crítica severa à sociedade.94). A primeira. É bastante próxima à obra de Arniches. . a esta comicidade própria da farsa está presente o drama que vivem os irmãos Trevélez. Comediógrafo e excelente pintor de ambientes populares. simplesmente para evadir-se do tédio da vida quotidiana da pequena cidade. tecendo uma odiosa brincadeira sem precedentes. foram realizadas duas versões cinematográficas. irmão de Flora. uma linguagem própria que logo é repassada ao povo. que enchem as salas de teatro. Também merece atenção Numeriano Galán. p. tornando-o um verdadeiro “vício nacional”. principalmente o conhecido género chico. jovem escolhido pelos amigos fanfarrões para ser o suposto pretendente de Flora. Sua obra está a meio caminho entre a tragédia e a comédia. associado ao costumbrismo e ao humor. Criando assim. proliferam nos teatros apresentações de obras de todo tipo de gênero. a transposição é feita somente através do argumento e converte o cômico em tragédia. na impossibilidade. que é sem dúvida a personagem de maior relevância. Dada a importância desta obra. que se aproximam do folclórico. São elas: Flora de Trevélez. membros de um cassino provinciano. Ele revela um conflito dramático relacionado ao cotidiano de uma pequena cidade. 1998. vítimas de uma cruel brincadeira engendrada por jovens ociosos. As duas obras em análise. de Edgar Neville. tem o mesmo título da obra teatral. para fugir do tédio de uma cidade. pois o engano é perpetuado e Flora de Trevélez segue em completa ignorância dos fatos. Já não possui o tom jocoso e não se emprega o jogo de palavras que caracteriza a obra teatral. Carlos Arniches foi um mestre na arte de escrever obras deste gênero. mas não quanto ao gênero. utilizando jogo de palavras. Sem dúvida. soube recriar de maneira exemplar a riqueza da linguagem popular de Madri. aplicando um léxico próprio. Vale destacar as principais personagens da peça. Na obra fílmica. ainda que residual ou mínima. já que o trabalho de Arniches é reconhecido como uma comédia grotesca. e D. O argumento desta tragédia grotesca apresenta um conflito dramático relacionado ao cotidiano e protagonizado por heróis igualmente grotescos que tramam brincadeiras de mau gosto. são próximas quanto ao argumento. Suas personagens são apresentadas com características singulares. em sua maioria peças cômicas. suprimindo sílabas. La Señorita de Trevélez é considerada a obra mais relevante de sua produção teatral. .

A censura encarregou-se de que o diretor fizesse um prólogo. daquela sociedade. na qual o diretor não se preocupou em seguir a história linear do gênero cômico.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 133 Anos depois. quanto ao seu conteúdo moral. tão comum à época. dos bons costumes. Calle Mayor . sem espaço e tempo próprios de uma sociedade. se recusa a continuar as filmagens sem Bardem. em 1956. Vê seus sonhos de se casar prestes a se realizem quando percebe as investidas de Juan. Durante os longos anos de ditadura. sob forte pressão do Estado para que o filme prossiga com outro diretor. Possivelmente foi graças à intervenção da coprodutora francesa e a esta recusa de Betsy Blair que o diretor conseguiu ser liberado algumas semanas depois. a um sistema de classificações que tenta controlar a indústria por meio de subvenções que servem à ideologia do regime franquista. que tem como intérprete a norte-americana Betsy Blair. em plena ditadura franquista. a catedral. 1956). Una ciudad cualquiera en cualquier provincia de cualquier país. Bardem evidentemente teve problemas com o roteiro. Na verdade. com brincadeiras nada honrosas. Bardem é detido. Parte dessa ambientação de Juan consiste na aproximação a um grupo de jovens acostumados a zombar das pessoas. onde os constantes passeios pela calle mayor reproduzem um ritual cotidiano. Juan Antonio Bardem realiza o filme Calle Mayor . Um fato que fornece a dimensão do momento político merece ser pontuado. o bairro velho e a calle Mayor de Palencia. A principal tarefa da Junta de Clasificación y Censura é a de exercer a censura dos filmes nacionais e estrangeiros. ou melhor dizendo. A cidade indefinida no filme é na realidade Logroño. como se o expediente pudesse ser uma fábula. com argumento e roteiro do próprio diretor. dando ênfase à visão de uma pequena burguesia local. mas Bardem soube magistralmente revelar aspectos políticos e religiosos. principalmente as mulheres solteiras. Esta obra é uma coprodução hispano francesa. e a atriz. tais como o cassino. em condições pouco convencionais. Foi obrigado a retirar os letreiros de lojas e bares das filmagens. . em cidades provincianas. pois era obcessão da censura de que qualquer filme não revelasse a localização e a época das histórias contadas. político e social. anunciando precisamente: Aquí abajo está la ciudad. Nessa transposição. É o que levantaremos nesta análise. Outras cenas foram cortadas pela censura. Isabel é uma solteirona e. Una pequeña ciudad de provincias. para os padrões da época. La historia que está a punto de comenzar no tiene unas coordenadas geográficas precisas. convidada pelo próprio diretor para protagonizar Isabel. é uma transposição livre de uma obra teatral. sendo possível vislumbrar diversos elementos. a partir de 1943. los anuncios en las paredes o una determinada manera de sonreír y hablar no debe ser forzosamente una bandera concreta para envolver a estos hombres y mujeres que va a empezar a vivir delante de nosotros (BARDEM. O motivo principal é ver e serem vistos. como já foi dito. não é mais uma jovem na idade de “buen merecer”. Durante a rodagem do filme. um jovem de Madrid que reside na cidade havia apenas três meses e que já se ambientou ao estilo de vida provinciano. Só assim ele conclui o filme. ele tomou o argumento da obra teatral e transformou-a em uma tragédia. a indústria cinematográfica enfrenta uma censura feroz e. as personagens perdem as características grotescas e assumem um papel mais fidedigno da realidade. que são maioria e vão acompanhadas por outras amigas ou alguém da família. além de outros locais pontuais da cidade. evidenciando os costumes de uma pequena cidade. El color del pelo o la forma de las casas.

Otra vez la soledad de una mujer abandonada y asfixiada por las conveniencias sociales de su mundo. improdutiva e conformista. terna e patética. Dentre os cortes. revela sua visão comprometida com o lado social. Mas é manifesto que Bardem explora bem mais o aspecto social que em Arniches. A respeito de sua obra. É ele que. Bardem diz: El texto nace de una fuente y más afluentes. É um aspecto que difere da obra teatral. As personagens masculinas perdem a característica grotesca e adquirem uma personalidade mais complexa. se vê obrigado a revelar tudo a Isabel. Federico terá um papel importante como representante de uma postura comprometida. pois ela não é feia. uma revista que. ya en el borde de la soltería. segue a procissão. e muito menos grotesca. no filme. Edgar Neville hizo una versión cinematográfica de La señorita de Trevélez con María Gámez como protagonista. Bardem desenvolve uma sequência exemplar no interior de uma igreja. Federico. Apesar de a censura ter impedido que a prática religiosa tivesse mais relevância no filme. Não se evidencia uma proposta para que as mulheres adotem um papel mais ativo na sociedade. Yo no. Sua atitude em tentar ajudar Isabel a fugir daquela cidade e dos olhares de escárnio de todos. Outra sequência é a declaração de amor feita por ele na metade de uma procissão. Yo tomé como elemento fundamental de mi texto la broma. na qual somente as mulheres participam e Isabel. Apesar do título da obra teatral. No entanto. cantando com mais entusiasmo. La fuente: La señorita de Trevélez de Don Carlos Arniches. não está de acordo com as constantes brincadeiras do grupo e condena suas atitudes. Um indicativo importante que se faz referência no filme é a revista Ideas. Além dos muitos cortes realizados. cabendo a seu irmão este papel. fica claro que ele critica as atitudes . Juan torna-se algoz e também vítima de seus amigos.. nada se parecendo com Flora. en particular. que está de passagem pela cidade. Flora não é a protagonista. próxima da realidade. las seis mujeres de maridos ricos. já que Apesar de Bardem dar ênfase ao drama da mulher espanhola. pois naquela Numeriano Galán é involuntariamente envolvido na trama. Y no de cualquier mujer. as eliminações se deram aos momentos de referências a manifestações amorosas apaixonadas. foram acrescentadas algumas sequências ao roteiro original. onde Juan dá indicações a Isabel de seu interesse. estabelece uma oposição ao franquismo e que a personagem Federico traz de forma que atualiza a ação e a situação política da época. manifesta-se poucas vezes.134 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Fazendo parte desse grupo. que aparece como o protagonista na peça teatral. no filme desaparece completamente. Foram cortadas todas as outras sequências sobre caridade. já que Juan se acovarda e foge. O papel de protagonista cabe agora à personagem feminina. mas de maneira contundente. sino específicamente de una señorita de la pequeña burguesía de una ciudad de provincias. pois é escolhido para forjar uma relação com Isabel.. o domínio das figuras masculinas prevalece. Don Gonzalo. estarrecida e feliz pela audácia do suposto amante. Dessa forma traça uma diferença entre o roteiro original e o resultado final do filme. amigo de Juan. religião e meros planos de passeios de seminaristas. Isabel revela-se uma personagem viva. y a partir de ahí. me dediqué a explicar y expandir una crítica general del mundo español de los 50 y. dos homens perante a vida inculta. un análisis de la condición de la mujer en España. roubando a cena da protagonista. no final. No filme o aspecto religioso. às freiras e seminaristas. nos anos 50. Un afluente fue Doña Rosita la soltera de Federico García Lorca. siguiendo paso a paso la línea que había escrito don Carlos. Un tercer afluente venía del poema de Agustín de Foxá: las seis muchachas en el mirador.

en general. Madrid: Plot Ediciones. Ele utiliza-se de suas câmaras perspicazes para revelar o absurdo de tal sociedade e nos brinda com um filme de oposição à norma e à política vigente. un baile en el Círculo. com personagens cotidianos e familiares. na medida do possível. en cualquier caso. DVD. (1985): Obras Escolhidas .A. inaugura-se uma produção voltada a uma aguda consciência social. Isabel es todo lo contrario. Dessa forma. mesmo sob a censura franquista. o que ganha corpo na história é a pequena cidade provinciana. J. distanciando-se dos filmes produzidos até então. de que é uma obra sobre a condição feminina. graças a um grupo de cineastas que busca uma nova forma de representar e que partem de um universo mais realista. (1998): La señorita de Trevélez. BENJAMIN. o diretor subverte a obra teatral e escreve outra história. procesiones. mais reveladora e instigante. elevada ao papel de protagonista.(1993): Calle Mayor . BARDEM. (1956): Calle mayor. S. Ao mudar completamente o gênero da obra original. faz uma crítica à sociedade patriarcal. São Paulo: Brasiliense. se limita a hacer lo mismo que las demás mujeres de la ciudad: novenas. RÍOS CARRATALÁ. No es fea como Florita. el retrato de la solterona casi invita a burla. a brincadeira. De certa forma. Bardem. 95 min. paseos. Rouanet. trad. arte e política. Alicante: Publicaciones de la Universidad. W. se por seu corte neorrealista. Coproducción España-Francia. não rompe com o modelo estabelecido. cai uma forte chuva. O que torna esse filme uma obra singular. O filme termina com Isabel vendo o mundo através da janela de seu quarto. Nos anos 50. Bardem faz parte deste grupo e este filme diferencia- . Suevia Films / Play Art / Iberia Films.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 135 percebemos um deslocamento do que diz respeito ao próprio Bardem. A brincadeira torna-se sem sentido e Isabel segue com sua atitude passiva e conformista. Ríos Carratalá (2000. Um futuro sombrio e tormentoso a aguarda. já que a censura tinha o papel de mutilar e descaracterizar as produções em geral. Referências bibliográficas ARNICHES. Magia e técnica. mas na verdade são as convenções. que se evidencia no texto fílmico. com matizes próprios do diretor. rezos y.A.P. I. J. (2000): El teatro en el cine español. anualmente. Fora.A. Aunque Carlos Arniches siempre critica a los burladores y a quienes. tampoco es cursi y. v. J. juegan con los sentimientos de los demás. BARDEM. 135) explica a brincadeira ao personagem feminino: No es lo mismo burlarse de un personaje grotesco como Florita que de una mujer como Isabel. No hay ninguna razón objetiva porque la condene a la soltería. C. Madrid: Cátedra.

como por exemplo no próprio português. Para este autor. p. Segundo COMRIE (1976. então ela será apenas habitual. se uma situação individual pode ser prolongada indefinidamente no tempo. tem traços comuns1 com a habitualidade e faz referência a uma pluralidade de ações. Mas se essa situação não puder ser prolongada. decidimos verificar a co-ocorrência desta perífrase com outras perífrases. Para GÓMEZ TORREGO (1988. Já em sentenças como em (7). Introdução O espanhol. então para . A perífrase “tener” + particípio é considerada uma perífrase aspectual. o aspecto imperfectivo se refere essencialmente à estrutura interna de uma situação. há uma diferença no modo como a constituição interna da situação é vista. ou seja.136 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS DISTRIBUIÇÃO DA PERÍFRASE “TER” + PARTICÍPIO NO ESPANHOL DO MÉXICO Anne Katheryne Estebe Maggessy UFRJ 1. O aspecto iterativo. pois serve para mostrar a categoria verbal denominada aspecto. as perífrases podem ter quatro tipos de valores: temporais. Além disso. na proposta do autor. na segunda é perfectivo.19). por exemplo. o aspecto imperfectivo é dividido em aspecto habitual e aspecto contínuo/durativo. O aspecto contínuo/durativo ainda poderá ser dividido em progressivo e não progressivo. por isso. percebe-se que ambas as sentenças referem-se ao passado. há uma diferença aspectual entre elas. completo. Essa perífrase. o aspecto se define em função dos diferentes modos de observar a constituição temporal interna de uma situação. haverá a leitura habitual iterativa. Enquanto o aspecto perfectivo trata a situação ou evento como um todo. segundo o autor. p. está sendo substituída pela perífrase “estar” + gerúndio e. o aspecto perfectivo e o imperfectivo. assim como o português. Essa oposição é gramaticalizada em diversas línguas. para abarcar outros tipos de distinções aspectuais que podem fazer parte de algumas línguas. é uma língua que apresenta grande abundância de perífrases verbais. há dois aspectos básicos na língua. vendo-a de dentro. modais e estilísticos. Para este autor. aspectuais. como no exemplo do inglês abaixo em (6).3). Enquanto na primeira o aspecto é imperfectivo. no contexto do aspecto iterativo e na variante do espanhol da Cidade do México. Contudo. Ao observar os exemplos “João estava lendo um livro” e “João leu um livro”. no português.

nos surgiu a curiosidade de investigar se a perífrase “tener” + particípio também estaria apresentando leitura aspectual iterativa no espanhol do México como a perífrase “estar” + gerúndio. marcadores adverbiais e argumentos plurais. E. De acordo com os estudos de WACHOWICZ (2006). ou seja. Segundo o autor. um dos aspectos básicos da língua. A perífrase EG é canonicamente descrita. Tengo empapeladas ya três habitaciones. O comportamento perifrástico de “tener” + particípio Segundo GÓMEZ TORREGO (1988. que apresenta repetição. seu uso mais produtivo expressa o aspecto perfectivo.192 ). como em (8). pode-se dizer que para COMRIE. já que segundo GÓMEZ TORREGO (1988). segundo o próprio COMRIE. na variante carioca. o aspecto iterativo é normalmente expresso pela perífrase “ter” + particípio com o auxiliar no presente do indicativo. tanto do português quanto do espanhol. Além disso. (6) “The temple of Diana used to stand at Ephesus” (O templo de Diana costumava ficar em Efesus) dentro dos estudos linguísticos. considera-se nesse trabalho a iteratividade como aspecto por apresentar um evento escalonado. como a que expressa o aspecto progressivo ou durativo. Com isso. mas em estudos como o de MENDES (2005). sólo me quedan la cocina y el baño Tengo corregidos ya veinte exámenes. Como nos exemplos abaixo: Tengo escrito ya cincuenta fólios. o valor mais característico da perífrase “tener” + particípio é o valor perfectivo-acumulativo de um estado alcançado. outras vezes. FERNÁNDEZ DE CASTRO (1999) e YLLERA (1999). um marcador adverbial como two hours each day (duas horas por dia) ou always (sempre). é pelo menos um dos fatores propiciadores da leitura aspectual iterativa. sólo me quedan diez O autor também afirma que. a iteratividade é uma categoria aspectual com marcas linguísticas específicas como tipo de verbo. desempenham papel principal na composição dos aspectos durativo e iterativo. Dessa forma. verificase que a perífrase “estar” + gerúndio (EG) está gradativamente substituindo a perífrase “ter” + particípio nas gerações mais jovens da população. de Buenos Aires e de Valparaíso. sólo me Em português. (7) “The policeman used to stand at the corner for two hours each day” (O policial costumava ficar no corredor duas horas por dia) (8) “The old professor used always to arrive late” (O velho professor costumava sempre chegar tarde). o aspecto iterativo é considerado como pertencente ao aspecto imperfectivo.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 137 o autor a única interpretação razoável envolvida será a iterativa. “estar” + gerúndio e “ter” + par ticípio são construções perifrásticas que quedan veinte. se indica um valor repetitivo ou de insistência como em: . ao observar os exemplos do inglês acima. em estudos anteriores (2009. 2010 e 2011). Mas. p. já pudemos verificar a possibilidade da expressão aspectual iterativa em sentenças com a perífrase EG tanto no PB. quanto no espanhol de Madri. 2.

como dito anteriormente. de ésas le t te ngo vistas po cas. 950)”. afirma que o valor de “tener” + particípio. Mas. d.[…] Ahora. pero grande. HARRE cita outros exemplos em que.. Tenemos hablado mucho sobre este asunto. p. Sentenças essas. Segundo DIAS (1970. es inútil. o la mo ntaña d e montaña de unas economías. Com isso. cursivo. Fiéis. a nossa hipótese é a de que a produtividade dessas sentenças com “tener” + particípio em contexto iterativo estará relacionada com a presença de verbos intransitivos e de advérbios quantificadores. si es inútil.. c. com verbos intransitivos e advérbios quantificadores.166).138 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Te tengo dicho que te calles Te lo tengo advertido. como nos seguintes casos: Tengo pensado ir a tu casa (= pienso ir. Lo menos cinco años que se lo vengo diciendo ya: “vamos a hacer un esfuerzo. a perífrase expressa uma ação iterativa sem implicar necessariamente um estado resultante: a. no trabalho de YLLERA (1999). eso sí. luego. não-acabado e durativo. se lo digo en serio. no sirve discutir. Si no lo vas a apear de su convencimiento. temos acesso aos estudos de HARRE (1991: 52-78).. Enquanto isso. de ponerse hecho un toro colorado y salir arreando con todo lo que e ng ov istas unas p o cas pilla por delante. observamos nos exemplos abaixo a presença da conjunção de ênfase e quantificações temporais extensivas que acompanham a perífrase “tener” + particípio: (133) No. Quizás que no se lo tengo yo dicho eso un montón de veces. b.) Tengo entendido que te robaron este verano (=creo. Especial si alcanzo a tempo de la primera embestida.) Tengo decidido ir a tu casa (= estoy decidido ir. aceitas por alguns falantes de . I. Me gusta el espectáculo. não só como meramente concluído. […]”. em ocasiões. a perífrase “ter” + particípio já apresentou o valor de aspecto acabado como no exemplo “Tenho acabado. FERNÁNDEZ DE CASTRO (1990. v e c es q ue s e lo t e ng or e p e t ido hasta la sa re sacie cieda dad. é de uma gradação perfectiva na qual o processo não aparece. te robaron) Da mesma forma. mas também como estendido e relevantemente durativo. faenas de ésas. Tengo castigado al niño muchas veces. Tienen vivido mucho tiempo en España y por eso hablan tan bien el español. Tengo perdida la cartera varias veces. quando perífrase. y sabía ser te ngo afe de ve un tío cordial cuando quería. a. Tengo despertado al niño un montón de veces. parece ser que. p. que cita exemplos de sentenças com “tener” + particípio expressando o aspecto iterativo. Eso es grande! Yo lo t e ng o af e itado la mar d e v e c es.278). segundo estudos do PB e do espanhol.. Felipe. o meu discurso (VIEIRA. que te ngo . estas construções distam muito de ser unanimemente aceitas e empregadas por todos os falantes do espanhol. ainda que rejeitadas por outros. c. Le tengo prestado el coche muchas veces. Tiene viajado mucho por el extranjero. esse tipo de construção não se usa mais e um exemplo como o apresentado tende a ser interpretado com valor de imperfectivo. b. q ué sé y yo cie da d. como no caso anterior. espanhol. interessa o estado no sujeito e não no objeto. apud TRAVAGLIA 2006). Para TRAVAGLIA (2006. no te pongas a llorar E que. Por isso.

Ele está composto por 8 sentenças distratoras formadas por verbos do tipo estado. é interessante notar que a perífrase mais selecionada nas sentenças alvo.8 DISTRATORAS ESTADO N/TOTAL 45/120 % 37. o aspecto perfeito também pode ser expresso no português pelo pretérito perfeito “ter” + particípio. segundo a classificação de VENDLER (1967). que tem significação iterativa. que estão relacionados abaixo: llegar tarde todos los días correr un chingo de veces bailar un chingo de veces salir varias veces despertarme muchas veces nadar todos los días Aplicamos o teste à 15 falantes de espanhol da cidade do México entre 20 e 24 anos. também expressa o aspecto iterativo. que segundo os estudiosos do PB. expressa o aspecto perfeito (perfect). pois indica a relevância do presente contínuo de uma situação passada. para verificar se os nativos da Cidade do México selecionariam sentenças com “tener” + particípio ou com “estar” + gerúndio ou com “haber” + particípio em contexto iterativo.8 4/90 0 4. Observando também o comportamento das sentenças distratoras. percebemos que a perífrase mais . Metodologia Elaboramos um teste de preenchimento.61). O teste se resume a uma carta de uma estudante mexicana que está no Chile e descreve tudo o que tem feito à sua família.1 Após a leitura da tabela.4 0 3/120 5/120 2. com 14 lacunas. Resultados ALVO INTRANS. que são formadas por verbos do tipo estado. segundo COMRIE (1976.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 139 3. foi “haber” + particípio.5 24/90 26. E por 6 sentenças alvo. 4. como os seguintes verbos: gustar / tener / amar / permanecer / vivir en un piso/ odiar / querer / creer. Esta perífrase chamada de pretérito perfeito composto.5 4. com nível superior. com verbos intransitivos mais advérbio quantificador. A variável sexo não pôde ser controlada. p. De acordo com este autor. + QUANTITATIVO N/TOTAL HABER + PARTICÍPIO ESTAR + GERÚNDIO TENER + PARTICÍPIO TOTAIS 62/90 % 68.6 67/120 55.

(14) B) He permanecido firme en mi propósito. Essa combinação pode parecer inicialmente estranha. DISTRATORA (n° de sentenças selecionadas): A) Tengo creído que ser gordita no es bueno. Conclusão . “bailar un chingo de veces” e “despertarme muchas veces”. juntamente com as escolhas feitas pelos informantes e com o número de vezes que foi selecionada entre parêntesis: Abaixo. (1) B) Aquí he salido varias veces. as sentenças selecionadas abaixo não possuem essas características e apresentam o verbo principal do tipo estado. Pois não há fatores que diferenciem essas sentenças de outras que não foram selecionadas como “llegar tarde todos los días”. pois não possuíam as características descritas por HARRE como favorecedoras da iteratividade. (6) A) Tengo nadado todos los días. mas não é considerada muito produtiva. (2) A) Tengo permanecido firme en mi propósito. (2) B) He corrido un chingo de veces.3 (1) B) He gustado de todas las personas. se apresenta em forma de gerúndio que é. (5) A) Tengo gustado de todas las personas de la Universidad. Diferente do esperado. parece ter sido aleatória por parte dos informantes. (+) dinâmico. pois encontramos ocorrências de “tener” + particípio em sentenças com advérbios quantificadores e verbos D) Permanezco firme en mi propósito.140 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS selecionada foi “estar” + gerúndio. (3) Estes exemplos acima. Ainda assim. (1) B) He creído que ser gordita no es bueno. pois um verbo de estado que é por sua natureza (-) dinâmico. que seriam com a presença de verbos intransitivos e advérbios quantificadores. nos mostram que a seleção das sentenças com a perífrase “tener” + particípio. (5) C) Estoy corriendo un chingo de veces. (8) C) Estoy gustando de todas las personas. apresentamos as sentenças distratoras que não esperávamos que fossem selecionadas. (10) C) Estoy permaneciendo firme en mi propósito. (1) A) Aquí tengo salido varias veces. (1) B) He nadado todos los días. (6) D) Me gustan/ agradan todas las personas. Abaixo apresentamos as sentenças que tiveram ocorrência da perífrase “tener” + particípio. (1) 5. (6) C) Estoy nadando todos los días. (9) ALVO (n° de sentenças selecionadas): A) Tengo corrido un chingo de veces2. A hipótese não pôde ser refutada. essa é uma construção possível na língua. (8) C) Estoy creyendo que ser gordita no es bueno. ao contrário.

Uberlândia: EDUFU. podendo ser combinado também com verbos do tipo estado. Embora o número de ocorrências tenha sido baixo. Contudo. 4. não só de perfectividade. MENDES. Ronald Beline (2005): Estar + gerúndio e ter + particípio. que também compartem os traços de imperfectividade e iteratividade.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 141 intransitivos. Além disso. Sintaxis. Referências bibliográficas COMRIE. verificamos que a perífrase “tener” + particípio também possui traços de imperfectividade e de iteratividade. Ithaca: Cornell. FERNÁNDEZ DE CASTRO. Publicaciones del Departamento de Filología Española. sendo ou não também iterativos. o traço que é comum em todos os habituais. TRAVAGLIA. pudemos perceber que o uso de “tener” + particípio pode não ser tão restrito. foi possível encontrar o uso da perífrase “tener” + particípio em contexto do aspecto iterativo. (1988): Perífrasis verbales. semántica y estilística. na variante investigada do espanhol do México. Tese de doutorado. e sem advérbios do tipo quantificador. Universidad de Oviedo. Oviedo. Cambridge: Cambridge University Press. GÓMEZ TORREGO. YLLERA. a flutuação do uso dessa perífrase com as perífrases “haber” + particípio e “estar” + gerúndio. Universidade Estadual de Campinas. Alicia (1999): “Las perífrasis verbales de gerundio y participio. . conforme é usado no PB.” Gramática descriptiva de la lengua española. (1990): Las perífrasis verbales en español. Arco/Libros. Madrid: Espasa. C. WACHOWICZ. 3391-3441. Zener (1967): Linguistics in Philosophy. Madrid. estendido no fato de que a situação referida é para ser vista não como uma propriedade acidental do momento. VENDLER. Artigo publicado nos Anais do 6° Encontro Celsul – Círculo de Estudos Linguísticos do Sul. 2 A expressão “un chingo de veces” é uma forma coloquial dos jovens da Cidade do México expressarem uma repetição. Ignacio Bosque y Violeta Demonte. aspecto verbal e variação no português. como tratado por alguns estudiosos. Comportamiento sintáctico e historia de su caracterización. L. (2006): Marcas linguísticas de iteratividade em PB. 2. segundo a classificação vendleriana . Cambridge University Press. eds. Finalmente. verificamos um uso dessa forma do verbo gustar. T. Bernard (1976): Aspect. Luiz Carlos (2006): O aspecto verbal no português: a categoria e sua expressão.ed. ainda não é possível falar da substituição da perífrase “tener” + particípio por qualquer outra perífrase.The interaction between temporal and atemporal structure . VERKUYL. Seria o equivalente a “muchas veces”. É significativo observar também. F. p. 3 Em consulta informal. entre outros. Notas 1 Segundo Comrie (1976). mas precisamente. como um traço característico de todo o período. H . é a descrição de uma situação que é característica de um período estendido de tempo. 6. Vol. (1993): A theory of aspectuality .

2007. Isto se percebe ainda na própria polissemia que a noção de “comunidade” enceta. por um lado. lugar de estabelecimento de relações múltiplas e imprevistas com a alteridade – e a noção de immunitas – ligada . p. tem de. construir formas de identificação do leitor com o texto. entre sujeito e alteridade. aquele que lê em uma língua estrangeira. possuir um grau de inserção no universo discursivo referente à língua em que se processa o ato de ler. y la inversión mítica queda perfectamente cumplida. ese vacío tiende irresistiblemente a proponerse como un lleno.142 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS LITERATURA E ESPANHOL/LE: A QUESTÃO DA COMUNIDADE Antonio Andrade UFRJ É possível iniciar uma discussão a respeito da relação entre língua. a lo particular de un sujeto común. segundo a ótica de Roberto Esposito: Pese a todas las precauciones teóricas tendientes a garantizarlo. a reducir lo general del ‘en común’. num nível mais profundo. 44-45) De acordo com Esposito. o problema da comunidade advém da tensão entre a ideia de communitas – termo que delineia a configuração do “espaço comum” como um vazio. De forma paralela. buscar estratégias de compreensão das formações discursivas e das condições de produção do discurso (FOUCAULT.1 Tal duplicidade está ligada ao movimento pendular de abertura e resistência que se verifica no contato entre diferentes culturas e comunidades discursivas2 e. Aquele que escreve em uma língua não materna precisa. embora traga para a leitura as marcas ideológicas e inconscientes de sua constituição identitária. num esforço de previsão das expectativas discursivas de uma dada comunidade a que o texto se dirige. 2008) que dão sustentação àquilo que se materializa no texto. embora seu lugar de enunciação seja quase sempre distinto ao lugar de enunciação do seu interlocutor. necessariamente. (ESPOSITO. Una vez que se la identifica – con un pueblo. e por outro. una esencia –. una tierra. la comunidad queda amurallada dentro de sí misma y separada de su exterior. discurso e comunidade pela seguinte pergunta: escrever ou ler em uma língua estrangeira significa pertencer à comunidade? A própria pergunta já deixa intencionalmente aberto um campo de definição: comunidade a que pertence(m) o(s) autor(es) ou a que pertence(m) o(s) leitor(es)? A resposta a essa questão leva-nos a aceitar a ideia de duplicidade ao tratarmos do processo de interação verbal em língua estrangeira.

a partir dos modelos de leitura. seu contexto original: “je voudrais un château saignant. ele a traduz . Pode-se verificar. Mas. o analista do discurso que se debruça sobre o ato de ler precisa reconhecer que toda leitura tem sua história.. compartilhando o conhecimento consciente ou inconsciente de suas regras de funcionamento ideológico. p. op.) considerando o estudo sobre leitura em espanhol e português (.” Mas em lugar de reproduzir a frase na língua original. ao situar-se na ordem do discurso. a imprevisibilidade. Essas marcas integram a constituição subjetiva. p. No entanto. 98) Aprofundando o exame das relações entre literatura. pode-se vislumbrar. ainda que a possibilidade do “equívoco” não esteja excluída nesse caso.. para quem se diz. bem como aos discursos que. cultura e discursividade. a partir de condições de produção do discurso divergentes? Como bem apontou Serrani (2010). tentam justificar a prevalência ou a posição desses grupos no terreno de disputas pela hegemonia. isto é. Neste caso. são responsáveis pela produção de diferentes formas de leitura de um texto: (.. cit. cit. não possui controle consciente do seu dizer. na interação verbal entre brasileiros e hispânicos mediado pelo texto escrito. do enunciado com o contexto sociodiscursivo. O que poderia ser recebido como a formação de um mal-entendido capaz de vedar a comunicação. 36) demonstra que os princípios e regras de coerção do discurso são simultaneamente responsáveis por sua produtividade. que o personagem principal de 62 Modelo para armar – seja por desconhecimento das condições de produção do discurso na leitura em língua estrangeira. op. A modo de exemplificação.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 143 aos projetos de (auto)proteção. em relação aos discursos. o que acontece na interação com textos em língua estrangeira escritos. gerarem outros tipos de deslocamento significativo.” (ORLANDI. Santiago assinala. ou a partir da história da leitura de um texto.. de outra forma. etc. as possibilidades de nascimento da pluralidade de sentido. por exemplo. a partir de textos escritos e lidos sob as mesmas condições. p. Consciente de que “aquilo que se diz significa em relação ao que não se diz. cabe pensar que os modos de enunciar denominados abruptos [contexto argentino] ou por transições [contexto brasileiro] podem. (SERRANI. ao lugar social do qual se diz. Tal reflexão de ordem político-filosófica coaduna-se com a perspectiva da análise do discurso. é importante para o analista evidenciar. muitas vezes. Essas regularidades condicionam a produção e a compreensão verbais do sujeito do discurso que. ser lido como um produtivo mecanismo de desterritorialização/ descolonização do sentido. 85). de modo especular. ao longo da história. a partir da análise do texto de Cortázar. a título de exemplo. gregarismo e consequente isolamento de distintos grupos sociais. da mesma forma como Foucault (2002. a reflexão proposta por Orlandi (2001) a propósito dos mecanismos de variação e regulação (polissemia e paráfrase) encetados pela relação do texto com a sua exterioridade.). relacionar-se com ausência ou presença de polidez. mas também devem ser vistos como marcas de regularidades enunciativas e de memórias discursivas. o sujeito estará habilitado a produzir (ou deslocar) sentidos. ou seja. o leitor tende a seguir modelos de leitura já instaurados que funcionam como padrões de previsibilidade. tais considerações estão perfeitamente conectadas ao estudo da interação entre coenunciadores pertencentes à mesma comunidade.. por um lado. seja por vontade paródica – traduz a frase avistada no espelho de um restaurante parisiense. Evidentemente.. Desse modo. com Silviano Santiago (2000). a possibilidade de o não compar tilhamento da memória discursiva e o não reconhecimento das marcas de regularidades enunciativas. invertendo. em boa parte. suas condições de produção. distintas formações discursivas que atravessam os contextos socioculturais brasileiro e argentino. poderia. ideológica e cultural que o definem.

a fogo e sangue. château sai do contexto gastronômico e se inscreve no contexto feudal. Consequentemente. cit. el castillo . de certo modo. visto que inúmeras experiências escolares.. Digo isso porque a própria autora sinaliza a possibilidade de tensão entre conhecimento dominante e dissidência no contexto das mesmas práticas sociodiscursivas. o que reforça visões deterministas sobre os percursos de formação dos sentidos. p. cit. é preciso evitar a ideia de que. conforme aponta Esposito. A dúvida sobre a (in)adequação do texto literário à didática de língua estrangeira tem demonstrado ser uma falsa questão. seriam adequados para uso em sala. que se tratava de pré-conceito. além de desconsiderar.. mas por meio de expressões faciais e outros gestos corporais. nos ajudam a desmistificar certo receio ora velado. que dentro do impulso imunitário de agrupamento sociocultural subsiste conjuntamente Tal concepção do discurso literário como um “entre-lugar” prevê não só a inevitabilidade da conexão entre leitura e produção. na leitura. a maioria manifestou que não acharia esse tipo de material adequado e que a leitura não entusiasmava. de maneira engajada. 93) a respeito da hegemonia das políticas de leitura da classe média. esses poemas. de uma rebelião.). são fatores preponderantes para o afastamento do leitor em relação ao texto que lhe é apresentado. Os futuros professores responderam explicitamente de modo negativo e os jovens que iriam responder o questionário não foram explícitos. relatadas em diversos congressos da área. pelo fato de não compartilharem os mesmos modelos discursivos do grupo social a que pertence o autor. 51-52) . p. saignant. p. ainda que relacionadas a um estudo de caso em contexto educacional de língua materna. motivando e agravando seu afastamento em relação às práticas de letramento promovidas pela escola. mas também o deslizamento do sentido no interior deste processo. o desejo de ver o château. a interação entre coenunciadores pertencentes a distintas comunidades – ou.) perguntamos aos estudantes (e a alguns futuros professores) se poemas como esses seriam aptos para aulas de língua a adolescentes. A propósito. nem sempre. (SERRANI. A tradução do significante avança um novo significado (. de derrubálo. vêm comprovando a possibilidade de engajamento discursivo de jovens estudantes brasileiros com esse tipo de texto. (SANTIAGO. a casa onde mora o senhor. op. de outro modo.144 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS imediatamente para o espanhol: “Quisiera un castillo sangriento. que. op. torna-se a marca evidente de um ataque. colonialista. sangriento . posteriormente. 22) Tais observações. na pena do escritor argentino. deve-se também evitar interpretar dessa maneira as considerações de Orlandi (2001. por parte dos estudantes da educação básica. E o adjetivo. portanto. que significava apenas a preferência ou o gosto do cliente pelo bife malpassado. ora declarado. embora sua perspectiva crítica só enxergue.. a produção dissidente da classe popular como sinal de “resistência cultural”... ancorados em diferentes formações ideológicas e subjetivas – só poderá dar lugar a gestos de repúdio por par te dos leitores.” Escrito no espelho e apropriado pelo campo visual do personagem latinoamericano. de muitos professores de língua estrangeira em relação à abordagem de textos literários em suas salas de aula. “impediria” a classe popular de formar seus modelos de leitura. já que o material interessou à maioria dos alunos. o castillo sacrificado. da perspectiva do interesse dos estudantes. No entanto. O não pertencimento à comunidade estrangeira e o não compartilhamento de determinados modelos literários da cultura letrada. Tal compreensão do letramento em comunidades discursivas não hegemônicas liga-se a uma concepção muito engessada da relação entre discurso e classe social. Curioso notar que essa mesma questão foi desenvolvida por Serrani (2010) em texto em que a autora examina dados de pesquisa a propósito dos mitos e preconceitos sobre o interesse de alunos no ensino médio pela poesia: (.. Dessa forma. os depoimentos mostraram.

não ocupa lugares fixos na cadeia significante. (. 2003. ao mesmo tempo produzido pelo modo como é posicionado na trama do discurso literário e produtor de atos responsivos em face do enunciado: ator envolvido em tensos movimentos de adesão e deslocamento. p. que (.. CÁRCAMO.. nenhum idioleto”. mas também desde o . chamo a atenção para a necessidade de se buscar um viés mais complexo de entendimento dos sinais de proximidade e distanciamento manifestados no ato da leitura. É preciso se buscar uma compreensão mais aprofundada da heterogeneidade cultural e discursiva das comunidades. Seguindo a esteira dessa colocação. reivindica atenção às “demandas locais de letramentos diferentes”: “Antes de tudo.) afecta ese proceso especial en el que inevitablemente identidad y alteridad se enfrentan” (GONZÁLEZ. quero chamar atenção ao fato de que a formação docente para o trabalho com textos literários em aulas de espanhol não pode.) ha entrado en el escenario otra dimensión. (. 2010a). Com isso. por isso é capaz de estabelecer e romper resistências quanto ao discurso do outro.... nos conflitos entre formas de compreensão textual e nos graus de consciência do leitor em relação a sua posição no processo de leitura. precisamos (.. vista assim como espaço de tensão entre diferentes vozes: autor real. 2007. 239).) é uma deriva. autor representado. Isso remete às considerações de Neide González sobre a dimensão afetiva (o investimento desejante) que permeia a relação das comunidades e dos sujeitos – entendidos como entidades não monolíticas – com a língua estrangeira: “En los últimos años. ser reduzida ao estereótipo de que a literatura estrangeira serviria como uma estratégia de resolução de conflitos hipotéticos ou como forma de “substituir” experiências diretas com o estrangeiro (cf. sugerem a necessidade de se focalizar as distintas exotopias envolvidas na produção da leitura literária em E/LE por sujeitos situados em diversos contextos. 484). Para Barthes (2008. estudar as práticas de letramento em contextos culturais e ideológicos diversos” (Ibidem). bem como do possível deslocamento de sentidos produzido não só desde o âmbito da produção. nenhuma mentalidade. receptáculo de divergentes forças discursivas de acabamento e dispersão. de modo algum. em vez disso. 29).. Não à toa. admitindo o dialogismo de vozes não coincidentes na interação propiciada pelo ato de ler. Tal consciência requer da pesquisa uma investigação mais densa quanto à produtividade da noção de exotopia3 (do autor e do leitor) no processo dialógico. personagens.. Esta perspectiva coaduna-se à de Brian Street (2006. portanto. de modo muitas vezes imprevisto.) clarificar e refinar conceitos de letramento. quem em lugar de aceitar a existência de um processo único e autônomo de letramento. Assumir uma posição menos simplificada em relação ao papel da ideologia na atividade leitora significa compreender. abandonar o grande divisor entre ‘letramento’ e ‘iletramento’ e. p. lançando mão da perspectiva bakhtiniana (BAKHTIN. a necessidade de se estar atento às diferenças institucionais e subjetivas envolvidas nas (re-)significações conduzidas pela ação pedagógica – desde a escolha do texto até sua mediação –. 30). 2001. Tais concepções. isto é. p. p. Isto sinaliza. que o prazer que se manifesta no processo de interação com o texto literário é atópico. junto com Barthes.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 145 um impulso comunitário de abertura à exterioridade. asociada al inconsciente psicoanalítico: aquel donde está instalado el deseo.. procuro estender o critério de não coincidência entre os papéis enunciativos colocados em jogo no âmbito da produção escrita para a análise da compreensão leitora. qualquer coisa que é ao mesmo tempo revolucionária e associal e que não pode ser fixada por nenhuma coletividade. Esse ponto de vista solicita ainda o entendimento do leitor como instância enunciativa ligada à natureza dúplice – (ir)repetível – da discursividade. portanto. leitor virtual e leitor real.. “O prazer (.) não é um elemento do texto.

A título de exemplo. Aliás. a experiência literária estrangeira que vem sendo vivenciada na universidade não é a do questionamento e da desconstrução do senso comum. Além disso. silenciando dilemas da subjetividade e da comunidade. O professor ensinará não só a gramática da língua. De certa maneira. como é de se esperar que ocorra em toda e qualquer atividade discursiva. apresento adiante alguns excertos de textos produzidos em 2011 por licenciandos de Letras Português-Espanhol de uma universidade pública do Estado do Rio de Janeiro ao serem interrogados a propósito da contribuição da literatura para sua formação inicial como docentes de língua estrangeira: “Os estudos literários são importantes para a formação do professor de L. Como se vê. vem tornando mais aguda a potência apassivadora (e apaziguadora) do discurso. ou de maneira positiva. no aluno-leitor universitário. representada por comunidades linguísticas e literárias estrangeiras. 4º período). p. mas a história. ao mesmo tempo singular e comunitário. do cultural e do histórico vem produzindo em nosso cenário acadêmico. A vontade de enunciar dá lugar a um ser enunciado. a sensibilidade para o efeito dialógico e tensivo. se a questão da estrangeiridade só consegue ser representada aí em termos de “adaptação”/”aceitação”. bem como o fato de que sujeito e alteridade estão imbricados e se problematizam mutuamente. É importante lembrar. no contexto de minha pesquisa sobre a relação entre letramento literário e formação docente.E pela oportunidade que oferece a literatura de um maior conhecimento cultural. a questão gramatical e estrutural também é importante. que. dentre outras coisas. para concluir. a se adaptar a algo diferente (no caso. É preciso despertar. certa cristalização de visões simplificadoras da ideia de outridade..E de formação” (Vanessa. “Na minha opinião. em Bakhtin (2010b. 6º período). pudesse ser abarcada na sua inteireza como um conteúdo didático. “[a literatura] nos faz quebrar (ou confirmar) paradigmas (. Tal opinião é baseada na defesa de que aprender uma língua é muito mais do que conhecer a estrutura da mesma. mesmo “o amor ao outro” não é capaz de suspender a diferença: traço constitutivo da própria discursividade. para a formação do professor de língua estrangeira. mas também ter acesso à cultura dos países que têm tal língua como oficial.) e aceitar as diferenças ou lidar melhor com elas” (Daniele. Tenho podido constatar. como se a cultura do outro. a consideração do leitor nesse processo é fundamental para qualquer intento de se (re-)configurar as bases dessa formação. portanto. os estudos literários contribuem muito. “o aluno de língua estrangeira aprende. 104). futuro professor de línguas e literaturas. principalmente se o futuro professor busca obras literárias da sua L. que o ato estético de enunciação pode provocar. entretanto aqui talvez a falta de um contato mais íntimo com a literatura. uma outra cultura) e a tomar gosto por um outro tipo de leitura” (Frederico. 5º período). cujo reflexo nesses casos é a busca de “soluções mágicas” para os problemas linguísticos e interculturais através do conhecimento literário. 5º período). talvez isso seja um sinal de que. por exemplo. um conhecimento sobre o mundo. que cede lugar à má interpretação da produção teórico-crítica sobre o literário (note-se nos fragmentos acima certa tendência a se confundir a literatura com o domínio institucional dos “estudos literários”). fazendo com que seus alunos conheçam e aprendam a respeitar outras culturas” (Rafaela.4 Esses dizeres ignoram a plurivocidade de sentidos da linguagem nos gêneros literários. . para muitos.146 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS da leitura do texto literário.. percebe-se nesses enunciados a força tipificadora que a simplificação do discurso em torno do literário.

57/4. 9-26. Notas 1 Trago à tona aqui uma consideração de Kumaravadivelu a propósito do vínculo inexorável – observado no pensamento de Foucault – entre discurso. L. (2010): Discurso e cultura na aula de língua. M. São Paulo: Loyola. B. E. GONZÁLEZ. (2006): Perspectivas interculturais sobre o letramento. S. (2008): Cronotopo e exotopia. 465-488.) Por uma linguística aplicada indisciplinar .) Analisar texto ou discurso significa analisar formações discursivas essencialmente políticas e ideológicas por natureza” (KUMARAVADIVELU. o conceito original de “comunidade discursiva”. (2003): Estética da criação verbal. p. atribuído a Swales (1987). 2 Segundo Borg (2003). (2000): O entre-lugar do discurso latinoamericano. 140). São Paulo: Parábola. São Paulo: Pedro & João Editores.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 147 Referências bibliográficas AMORIM. (2003): Discourse community. Em: Annual Meeting of the Conference on College Composition and Communication (38 th. (2006): Linguística aplicada na ________ (2010a): Problemas da poética de Dostoiévski. era da globalização. 8. (2001): La expresión de la persona en la producción de Español Lengua Extranjera de estudiantes brasileños: perspectivas de análisis. S. ________ (2010b): Para uma filosofia do ato responsável. Suplemento Jubileo de Plata de la APEERJ. FOUCAULT. Unicamp. ESPOSITO. n. embora não necessariamente precisem interagir de maneira direta ou estar próximos uns dos outros. Em: MOITA LOPES. compartilham interesses e expectativas comuns e encontram-se engajados em práticas comunicativas propiciadas por determinados gêneros discursivos. p. GA). B. 1. fundamental para a análise dos procedimentos de construção do sentido acionados pela leitura: “Um texto significa o que significa não por causa de quaisquer traços linguísticos objetivos inerentes. M. p. cada qual com suas ideologias particulares e modos particulares de controlar o poder. (org. p. B. São Paulo: Martins Fontes. March 19-21. P. p.) Bakhtin: outros conceitos-chave. Em: ELT Journal Volume. R. p. (1987): Approaching the concept of discourse community. focaliza os usos e análises da comunicação escrita realizados por indivíduos (membros da comunidade) que. (2002): A ordem do discurso. SWALES. (2008): O prazer do texto . mas porque é gerado pelas formações discursivas. . 95-114. ORLANDI. SANTIAGO. 239-255. 398-400. p. Rio de Janeiro: Rocco. (2001): Discurso e leitura . J. Oxford University Press. S. Em: Anuario Brasileño de Estudios Hispánicos. Em: BRAIT. p. BORG. Buenos Aires: Amorrortu. (2007): Communitas: origen y destino de la comunidad. M. 2006. Em: Revista de Filologia e Linguística Portuguesa. textualidade e significação. 129-148. Atlanta. (org. SERRANI. v. 25-31. Em: Uma literatura nos trópicos.. São Paulo: Contexto. (. KUMARAVADIVELU. E. São Paulo: Perspectiva. Em: Hispanismo 2000. ________ (2008): A arqueologia do saber. N. Rio de Janeiro: Forense Universitária. BAKHTIN. São Paulo: Contexto/Ed.. STREET. R. CÁRCAMO. Rio de Janeiro: Forense Universitária. (2007): La literatura en la formación y en la práctica del profesor. Campinas: Pontes. BARTHES.

à possibilidade de o enunciador situar-se em “um lugar exterior. “refere-se à atividade criadora em geral”. 95-96). p. de onde provém sua singularidade dentro do processo discursivo-enunciativo e de onde se derivam os valores éticos de sua posição. fundamental ao trabalho de criação e de objetivação”. segundo Amorim (2008. 4 Todos os nomes dos licenciandos que colaboraram com a pesquisa foram alterados a fim de preservar suas identidades.148 3 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS O conceito bakhtiniano de exotopia. .

portanto.462/2000). licenciaturas. Para este artigo. somente no ano de 2000 (decreto 3.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 149 A FORMAÇÃO DE PROFESSORES DE ESPANHOL NO INSTITUTO FEDERAL DE RORAIMA: REFLEXÕES SOBRE A PRÁTICA DOCENTE Antonio Ferreira da Silva Júnior CEFET/RJ. Vale à pena destacar o curso inicia suas atividades no ano de 2006. as “escolas” da Rede preocuparam-se com a formação de mão de obra especializada de nível médio para atender as demandas profissionais da indústria. instituições responsáveis por oferecer em todos os Estados brasileiros uma gama de cursos: ensino médio. concepções de ensino e a imagem do . antes da mudança para Instituto Federal. cursos superiores de tecnologia. sinalizando que tal proposta não é decorrente do atendimento de uma exigência do MEC para preenchimento de vagas. No que se refere à formação de professores na Rede. Matemática e Ciências. alguns CEFET começam a oferecer cursos de licenciatura em Física. A partir da publicação de tal decreto. a Rede Federal passou por uma constante mudança de sua identidade institucional. nos centramos no histórico dos Institutos Federais e sua proposta de formação de professores e no debate sobre o curso de Licenciatura em Espanhol do Instituto Federal de Roraima (IFRR). implicando um interesse e debate entre os professores. ensino médio integrado ao técnico. por determinação do MEC como alternativa para escassez de professores em algumas áreas do conhecimento. 2 Centros Federais de Educação Tecnológica (CEFET) e 1 Universidade Tecnológica. Durante muito tempo. bacharelados e pós-graduação (lato e stricto sensu). nasce uma ampla discussão interna e externa sobre o papel de atuação dessas instituições no cenário educacional brasileiro e sobre a identidade institucional de cada Centro de formação. PUCSP Introdução A Rede Federal de Educação Profissional e Tecnológica é formada por 38 Institutos Federais. Esperamos a partir da análise do Projeto Político Pedagógico do referido curso tecer considerações para as seguintes questões: formação docente em Institutos Tecnológicos. pioneiro na oferta de cursos de Letras no cenário da Rede. no decorrer dos seus mais de cem anos de existência. servidores e teóricos da Educação pelo entendimento do seu verdadeiro papel perante a sociedade. do setor de agronegócios e de serviços. ensino técnico. No entanto.

no entanto. Para alcançar tais objetivos. (e) presença de professores concursados sem formação pedagógica atuando nos cursos de licenciatura. Técnico e Tecnológico. De acordo com o decreto de criação. pluricurriculares e multicampi” (BRASIL. Institutos Federais: seu percurso identitário No dia 23 de setembro de 1909. tais 1. que foi reescrito e substituído pelo decreto número 3. após a constituição dos Institutos Federais e a abertura de inúmeros cursos de licenciatura em diferentes áreas do conhecimento. além do desenvolvimento de atividades de pesquisa e extensão. tais “escolas” passam a ser vistas como “instituições de educação superior. A formação de professores nas “escolas” da Rede Federal No final dos anos 90. através do decreto número 7. inclusive. o então Presidente da República. Desde sua aprovação e expansão aos demais Estados da Federação. (c) atuação do professor em diferentes níveis de ensino. contando com o mesmo corpo docente cursos de diferentes níveis e modalidades de ensino. básica e profissional. A transformação dos CEFET em Institutos Federais não foi uma medida governamental obrigatória. principalmente. alunos. Tal mudança acarretou novamente em uma mudança identitária das escolas e.406/97 1. Essa expansão inesperada e pouco discutida entre os atores (professores. não podem deixar de ministrar o ensino profissionalizante.462/00.566. as escolas federais da Rede de educação profissional e tecnológica. principalmente. O objetivo inicial dessas escolas era formar operários e contramestres a partir de um ensino focado nas habilidades necessárias e práticas para desempenhar ofícios manuais (FONSECA. como: (a) articulação entre cursos de diferentes níveis de ensino. Nilo Peçanha. . no entanto. Os Institutos Federais são equiparados às universidades federais. A reestruturação interna dos CEFET estava sendo discutida no teor desse documento. dirigentes e demais membros da comunidade escolar) da Rede Federal permitiu uma série de questões internas advindas dessa política de expansão do ensino técnico e superior do governo Lula. técnicos administrativos. 2. recorremos. (f) formação do licenciando vista como de um trabalhador técnico. Esses são alguns pontos colocados em cena. aos estudos teóricos de GADOTTI (2001). cria 19 Escolas de Aprendizes e Artífices nas capitais dos estados da confederação e com essas o desenvolvimento do ensino profissional primário e gratuito. permitindo uma maior expansão e diversidade das licenciaturas oferecidas no país. 2008). normalmente. CELANI (2001) e PAIVA (2005). (g) necessidade de mudança do estigma de origem atribuído aos Institutos Federais/CEFET conhecidos até hoje como “escolas” técnicas. 1961). podemos dizer que foi quase unânime. (d) oferta de cursos de licenciatura como mera formalidade para atendimento de demandas impostas pelo MEC ou vocação dos colegiados. (b) falta de esclarecimentos da atuação do docente na Carreira de Professor do Ensino Básico. passaram por diferentes nomenclaturas. Isso implica um processo interno de compreensão de como articular num mesmo espaço e.150 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS professor contemporâneo. os CEFET passaram a atuar na formação e na capacitação de professores para a Educação Básica e da Educação profissional atendendo a um chamado do Ministério da Educação com a aprovação do decreto número 2. o fortalecimento e a padronização de uma identidade visual para a Rede Federal de ensino.

400 horas de estágio curricular supervisionado. cujo objetivo era rever aspectos da prática docente formalizando sua duração. que os saberes relacionados à área industrial. carga horária e Diretrizes para os cursos de formação de professores do país. por outro lado. de certa maneira. entendemos que a própria origem da Rede sustente essa demanda. de 1º de outubro de 2004. os primeiros cursos de licenciatura dos CEFET começaram a se configurar. de formação pedagógica e de formação geral. na superação do tradicional modelo hegemônico disciplinar dos cursos de formação de docentes e reforçando a verticalização do ensino. em 18 de fevereiro de 2002. 2005). (b) o acolhimento e o trato da diversidade. Alguns pontos centrais foram: (a) o ensino visando à aprendizagem do licenciando. Vale à pena ressaltar também que esses cursos abriram uma nova estrutura interna no ensino das escolas da Rede Federal. encontram amparo no decreto 5.224/04. no ano de 2006. : . determinou carga mínima de 2800 horas. a ofertar Bacharelados em Engenharia com inúmeras habilitações.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 151 O decreto acima ainda é reforçado por outro de número 5. extinguiu-se a formação do professor da Educação Básica no chamado regime 3 + 1. (c) o exercício de atividades de enriquecimento cultural. (d) o desenvolvimento de hábitos de elaboração e trabalho em equipe. porém. (f ) a elaboração e a execução de projetos de desenvolvimento dos conteúdos curriculares. 3. Histórico do Curso de Letras/Espanhol do IFRR Como professor da Rede Federal desde 2007. num mesmo espaço institucional. percebemos. Essa proposta de integração entre os saberes teóricos e práticos já é algo bastante comum na organização curricular das licenciaturas dos Institutos Federais. Com essa regulamentação. Acreditamos que essa abertura para as Letras representou um importante movimento de quebra de paradigmas que culmina no ano de 2008. a partir também dos anos 90. em pouco tempo de instituição. que dispõe no parágrafo único do capítulo II sobre a possibilidade de abertura de cursos em outros campos do saber. conseguimos visualizar uma interdisciplinaridade entre os eixos de formação específica.224. o perfil dos cursos de Licenciatura é reformulado através da Resolução do Conselho Nacional de Educação (CNE). ainda em constante construção. Em relação à carga horária das licenciaturas. já que os licenciandos. à tecnologia e às exatas são privilegiados. da oferta de cursos de Licenciatura em Letras/Espanhol em dois CEFET. Com a nova roupagem desses cursos. favorecendo. A inquietação para o desenvolvimento deste artigo surgiu ao tomar conhecimento. (e) o aprimoramento em práticas investigativas. convivem com modalidades e níveis de ensino diversificados. porém. Após a publicação desses documentos muitos cursos de Licenciatura nos CEFET começaram a ser projetados em todo o país. 1800 horas de aulas para os conteúdos curriculares de natureza científicocultural e 200 horas para atividades acadêmicocientífico-culturais. estratégias e materiais de apoio inovadores. nem sempre adequada à realidade e ao contexto de cada curso de licenciatura (PAIVA. (g) o uso das tecnologias da informação e da comunicação e (h) de metodologias. de licenciaturas na Rede. a resolução número 1 de 19 de fevereiro de 2000. já que elas possuíam longa tradição no ensino de formação técnica e começaram. De acordo com essas diretrizes. Aliado a isso. englobando 400 horas de prática curricular. por conta de uma nova identidade para a Rede. três anos de conteúdos característicos de um curso de bacharelado somados a um ano de formação pedagógica. Os cursos de Letras fogem do eixo tecnológico previsto inicialmente para oferta.

O único existente até aquele momento. que torna obrigatória a oferta de espanhol no Ensino Médio.152 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Por meio do decreto mencionado. além do mercado econômico. p. não conseguia suprir a demanda por profissionais da área. aparece citada como mais um argumento para a criação do curso. alguns CEFET conseguiram o embasamento para ofertar as primeiras licenciaturas em Humanas. Cada vez mais. e a metodologia é ainda centrada no professor. Em seguida. dentro do modelo de transmissão de conhecimento. Como justificativa. o que implica numa demanda significativa de interessados pela aprendizagem da língua. a análise dos projetos revela o predomínio de currículos organizados de forma tradicional. como pensar a formação do profissional de linguagens numa instituição onde algumas áreas do saber são vistas como mais tradicionais que outras? Tal pergunta constitui nosso interesse ao estabelecer uma reflexão sobre os cursos de Licenciatura em Espanhol da Rede mediante análise dos projetos e matrizes curriculares dos cursos. 18) como um processo dinâmico: “[.. Segundo Paiva (2005): [. além de a maioria não apresentar coerência entre os objetivos e o perfil do egresso. em nosso caso o de língua estrangeira. sabemos que fatores decorrentes da motivação de um colegiado de professores são fundamentais para a apresentação. de um curso. No entanto. através de análise de projetos e matrizes. que atribuem sentido ao teor de tais prescrições. Além de a oferta acontecer num espaço até pouco tempo visto como de formação para Educação Básica e Profissional. Na introdução do documento. 2001... condução e a manutenção desses cursos. e ainda conta com um Centro de Estudos de Línguas Estrangeiras (CELEM). A lei 11. coletados em agosto de 2005. percebemos o caráter diferenciado desses cursos em comparação aos já oferecidos no mercado. Isso implica em reconhecer o projeto de curso. revelando uma carência de 12 mil professores em todo o Brasil para aplicação da lei de oferta do espanhol. e elemento norteador da discussão do perfil desejado de profissional da área de atuação. destaca a aproximação do Estado de Roraima a países hispanofalantes. porque. No entanto.] o projeto do curso deveria ser o carro chefe para garantir a qualidade do ensino. o da UFRR. Cada universidade precisa refletir sobre a necessidade constante de estudar o perfil de professor mais adequado à realidade escolar do país. o texto informa que o Estado O projeto pedagógico deve ser entendido como um gênero importante para a definição de uma concepção única de formação por parte dos docentes . o projeto apresenta a carência de profissionais de ensino de espanhol como língua estrangeira (E/LE) na cidade de Boa Vista e nos municípios do interior.1165/05. Ainda.] Todo projeto supõe ruptura com o presente e promessas para o futuro”. conforme assinala Gadotti (apud VEIGA. Nesse sentido. com o intuito de funcionar como mais um espaço de formação. O projeto pedagógico do IFRR nomeia o curso como sendo de Licenciatura Plena em Língua Espanhola e Literaturas. A elaboração do mesmo deuse por uma comissão liderada por duas representantes da área de espanhol. o projeto do IFRR apresenta estudos estatísticos como os da Agência Brasil/ Radiobrás. a teoria não dialoga com a prática. As ementas e programas se escoram em bibliografia desatualizada. cultural e social existente nessa área de fronteira.. o texto sinaliza que a instituição oferece o espanhol desde o ano de 1995 na grade de todos os seus cursos. Outro ponto de reforço do projeto é a falta no Estado de cursos de formação de professores. nosso objetivo principal nas páginas a seguir está em averiguar como o IFRR idealizou seu curso de Licenciatura a partir das informações públicas disponíveis em seu projeto pedagógico. acreditamos que tais orientações permitem avaliar como cada instituição entende e concebe a formação de professores. em torno de disciplinas. No desenvolvimento da justificativa.

059 de 10 de dezembro de 2004.580 horas dos Conteúdos/ Conhecimentos/Competências Curriculares de natureza científica. o programa organiza-se em quatro ciclos (Introdutório.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 153 de Roraima necessita de um número emergencial de 128 docentes para atuação nas escolas do Estado. 600 horas de práticas a serem vivenciadas ao longo do curso. Tendo em vista que o eixo central do programa é a área de Língua Espanhola. Básico. desde os primeiros períodos. A matriz curricular subdivide-se em 2. O documento delimita o foco da formação como sendo a preparação do licenciado para atuar na docência. Formação Docente e Complementação Profissional) perpassando em quatro áreas do saber: Língua Espanhola e Linguística. as redações de jornais. ainda. A partir dessa divisão. Não podemos afirmar que tal desmembramento da carga seja positivo ou negativo. conforme portaria número 4. documentos responsáveis por instituir as diretrizes curriculares nacionais para a formação de Professores da Educação Básica.680 horas. Como ponto diferencial. do sujeito da aprendizagem. O projeto. a consultoria. culturais e pedagógicos. atividades de extensão e de natureza acadêmico-científico-cultural. conforme consta a seguir o texto do projeto: . a teoria e a vivência em sala de aula por parte dos aprendizes. humanística. O projeto de ambos possibilita que até 20% do conteúdo também possa ser ministrado à distância. A possibilidade de educação a distância é vista como um avanço. desde os conhecimentos mais estruturais da língua de estudo. O documento emprega os dados de 2002 do Sistema Estadual de Educação e dados da esfera educacional do município de Boa Vista. O curso na íntegra soma 3. pedagógica e cultural. técnica. O projeto sinaliza uma ampla formação. passando por aspectos históricos. alerta que o modelo curricular está baseado em competências que contribuam para uma completa formação humanística e pedagógica. ética e democrática”. O curso está dividido em 8 períodos com duração mínima de 4 anos. o projeto destaca “formar profissionais competentes no processo de ensino e aprendizagem da Língua Espanhola como língua estrangeira e suas Literaturas”. O projeto atenta para a adequação das orientações do Parecer CNE/CP número 1. o documento apresenta que a proposta de trabalho do curso se pauta “numa estrutura com identidade própria. de 18 de fevereiro de 2002 e da Resolução CNE/CP número 02/2002. entre eles a pesquisa. permitindo uma maior flexibilização curricular e. Como objetivo geral do curso do IFRR. a tradução e como intérprete. que não articulam. prática curricular e de pesquisa). Cultura e Formação Docente. mas também apresenta espaços possíveis de atuação do profissional concluinte do curso. O curso do IFRR apresenta diferentes linhas teóricas somente na apresentação do ciclo introdutório da aprendizagem da língua espanhola. mas pelo menos pode ser considerado um avanço comparado às demais grades. em nível superior e determinar a duração e a carga horária mínimas dos Cursos de Licenciatura. Literatura. consequentemente. coletados em 2003. para traçar um mapa da Educação Básica do Estado. alicerçado numa sólida base científica. como já mencionado anteriormente neste estudo. 400 horas de estágio obrigatório e 100 horas de aprofundamento de estudos. os componentes curriculares dividem-se em dois campos do conhecimento: (1) Literatura e cultura e (2) Metodologia para aquisição e/ou aprendizagem de E/ LE. valorizando a formação do professor como profissional do ensino. O diferencial da proposta do programa curricular do IFRR é que distribui entre os vários períodos a carga horária da disciplina de “Prática profissional” (estágio supervisionado. porque permite a inclusão do aluno na realidade digital.

projetos e experiências de ensino. e está orientado tanto à operação funcional-instrumental. idealizada por docentes. . Deverá atender à integração dos distintos componentes curriculares. No trecho acima. Apresenta uma visão mais tradicional do ensino demonstrada pela menção à gramática descritiva e ao reduzir a língua em blocos fechados (semântica. o curso de Letras/Espanhol do IFRR é uma proposta recente e inovadora. talvez seja mais coerente o colegiado primar por uma consonância teórica na elaboração das disciplinas iniciais de língua espanhola. levanta o método comunicativo e finaliza mostrando a importância da análise contrastiva. No decorrer de sua existência. 2001) para atuar em diferentes contextos educacionais brasileiros. na relação entre a teoria e prática do futuro professor de E/LE. seu percurso acadêmico e sua identidade institucional em 1909 no ato de criação das primeiras escolas de Aprendizes e Artífices. Apesar de a Rede Federal.154 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS [. implicou no aumento de vagas e diversidade dos mesmos. de abordagens e de olhares para o ensino de línguas. pragmática). por anseios profissionais. em sua maioria. morfossintaxe. estar focada na formação de trabalhadores para atuação no mundo produtivo. morfossintaxe. acreditamos que os projetos analisados imprimem uma formação vinculada a um futuro trabalhador da sala de aula. dotado de conhecimentos teóricos e de ampla formação cidadã. futuro professor. pela necessidade de formação de docentes de espanhol. quanto comunicacional da língua espanhola. Por outro lado. desde sua origem. 2005) Considerações finais Os Institutos Federais de Educação. mas que acabaram por levar a experiência desses níveis para a idealização de um curso de licenciatura.. que num primeiro momento foram concursados para atuar no ensino médio. cada “escola” constituinte da Rede Federal foi construindo uma história própria.. o projeto apresenta todos esses pontos no nível inicial de aprendizagem (correspondente ao segundo semestre). privilegiando o enfoque contrastivo na aprendizagem da Gramática Espanhola (IFET RORAIMA. por exemplo). técnico e tecnológico. que iniciaram. Ciência e Tecnologia são instituições de ensino superior diferenciadas. primeiro. a mudança de CEFET para Instituto. o projeto também inova em relação às outras grades curriculares de Letras em todo o Brasil. vale à pena reforçar que em relação aos cursos de licenciatura da Rede. Como vimos no decorrer do artigo. e segundo. Não queremos dizer que discutir a língua sobre diferentes abordagens não seja importante para o aluno. seja por vontade política ou de interesse democrático.] Constitui o eixo da carreira tendo como base o enfoque integral da língua espanhola (semântica. no entanto. O projeto fornece importante contribuição para a formação de profissionais diferenciados e reflexivos (CELANI. já que o projeto não sinaliza a necessidade de conhecimento da língua para realizar o mesmo. usa a “análise do discurso” sem a implicação teórica apropriada. o texto de apresentação das competências a serem desenvolvidas no primeiro ciclo expõe múltiplas correntes. incluindo uma gramática descritiva e uma metodologia de análise dos discursos. Em relação às disciplinas de formação didático-pedagógica. Além disso. o que pode representar uma dificuldade para o aluno iniciante no estudo da língua estrangeira. As ementas das disciplinas permitem visualizar a preocupação da comissão elaboradora do projeto a todo o momento na transversalidade do saber.

br/campus_bv/index. 21-40. de 27 de novembro de 1997. “Ensino de Línguas Estrangeiras – ocupação ou profissão”. Disponível em: <www.948.) O professor de línguas estrangeiras – construindo a profissão. (Org.php?option=content&task=view&id=91&Itemid=207>. Pelotas: Educat. de 18 de fevereiro de 2002 . ET (orgs. Último acesso em: 03 set 2009. 1961. Decreto 3. A interculturalidade no ensino de inglês. Vilson (org. no âmbito da Rede Federal de Educação Tecnológica.php/ component/content/article/46-cursos/68-licenciaturaplena-em-lingua-espanhola-e-suas-literaturas>. MEC.Institui a duração e a carga horária dos cursos de Licenciatura. Brasília.edu. In: LEFFA. V. para fins de constituição dos Institutos Federais de Educação. História do ensino industrial no Brasil. Maria Antonieta Alba. ———. CELANI. 2001. Resolução CNE/CP 1/2002. Celso Suckow da. de formação de professores da Educação Básica em nível superior. FONSECA.L. P.462 de 17/05/2000 .M.095 de 24/04/07 . IFET RORAIMA. VEIGA.mec. I. de 8 de dezembro de 1994. Rio de Janeiro: Composto e Impresso no Curso de Tipografia e Encadernação da Escola Técnica Nacional. 2001.). Decreto 6.dá nova redação ao art.gov. Disponível em: < http://www. 2005. 345363. PAIVA. 2000. que regulamenta a Lei nº 8. pp.ifrr. Expansão da Rede Federal.) Projeto político-pedagógico da escola: uma construção possível.Estabelece diretrizes para o processo de integração de instituições federais de educação tecnológica. MEC. “O novo perfil dos cursos de Licenciatura em Letras”. Campinas: Papirus. Ciência e Tecnologia IFET.http://p or tal.406. A. Florianópolis: UFSC. Nota 1 A oferta inicial dos cursos de licenciatura nas escolas da Rede remete à oferta voltada para a área das Ciências da natureza. Resolução CNE/CP 2/2002. 2011. . Último acesso em: 30 fev. de graduação plena. de 19 de fevereiro de 2002. Plano de curso para formação do professor da Educação Básica em nível superior – Licenciatura plena em Língua Espanhola e Literaturas.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 155 Referências bibliográficas BRASIL.O. p. ed. 23.br/setec/ index. ———. ———. BRASIL. 8º do Decreto 2. In: TOMICH. 2005.

pueden funcionar como marcadores. estudios como los discurso (en adelante MD) es un tema que. a la estructura ideacional. observó que algunas unidades presentan un carácter polifuncional porque operan en distintos planos del discurso: el semántico y el pragmático . En el ámbito hispánico. según esta autora. la duración silábica. el marco de participación y el estado informacional (SCHIFFRIN. la estructura de los actos de habla. por su parte. Otros estudios. tal es el caso de los modelos de Shiffrin (1987) y de Redeker (1991). todavía hacen falta estudios que se ocupen de forma más detallada del tratamiento de la polifuncionalidad de los marcadores del discurso. respectivamente. también han puesto de relieve la polifuncionalidad de los MD. realiza una revisión de algunos . así como suelen indicar la existencia de algunos de esos rasgos que. estructura retórica y estructura secuencial (las cuales corresponden. Lo cierto es que muchos de los estudios que se han llevado a cabo en este ámbito suelen señalar la especificidad de los rasgos suprasegmentales (como la entonación . no asociados con una pieza léxica en concreto. en su precursor estudio “Pragmatic connectives”. el modelo ideal se debe basar en tres componentes: estructura ideacional. no ha recibido bastante atención por parte de estudiosos que se han ocupado de desvelar el valor semántico-pragmático de estas unidades discursivas. al parecer. Así. determinan el sentido de estas partículas discursivas. Introducción La polifuncionalidad de los marcadores del aspectos del estudio de Schiffrin y defiende que el marco de participación y el estado informacional no son independientes de las otras tres estructuras. o la delimitación por pausas) que. 1987: 25). por lo que deben ser incorporados a ellas. asociados con los marcadores. Redeker (1991). El modelo de Schiffrin. En este sentido.156 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS POLIFUNCIONALIDAD DE LOS MARCADORES DEL DISCURSO Y ENSEÑANZA DEL E/LE Antonio Messias Nogueira da Silva Universidade Federal do Pará 1. Van Dijk (1979). al estudiar la coherencia que se construye por medio de relaciones entre unidades adyacentes en el discurso. la estructura ideacional. como los que se basan en la coherencia discursiva. deslinda el aspecto polifuncional de los MD a partir de cinco dominios del discurso: la estructura del intercambio comunicativo. a la estructura de los actos de habla y a la estructura de intercambio comunicativo propuestas por Schiffrin).

más importante aún. por ejemplo. por su parte.) es una necesidad para entender el funcionamiento de estos elementos en la conversación coloquial (PONS BORDERÍA. podrían señalar también que afectan. puede expresar desacuerdo (d ) del interlocutor (también en este caso. según esta autora.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 157 de Domínguez García y Dorta Luis (2002). la cuestión es que en la mente de los especialistas ha acabado calando la importancia de lo prosódico como factor decisivo para explicar la polifuncionalidad de los marcadores.¿Te no apetecen gominolas? (. en este caso bueno puede aparecer con un alargamiento de las vocales. perspectivas.. como. c) -¿Te apetecen gominolas? (-¡Bue Bueno no o …). Así. De esta manera. Con todo. 2004). una mayor o menor cantidad en las sílabas y una mayor o menor duración en las pausas se corresponderían con sentidos o matices diversos en la expresión de los marcadores. se puede afirmar que: (…) una mayor o menor fuerza en el acento. en cambio. Por otro lado. Elordieta y Romera (2002). y en función de factores que no tienen incidencia en el texto escrito. la entonación.Bue Buen o. pueden tener su sentido determinado por los rasgos suprasegmentales. matizado por la entonación.. o más o menos connivencia con el interlocutor. Así pues. d) -Me ha dicho tu ex mujer gominolas? (-Buee Bueeno noo no o . señala que la polifuncionalidad de los MD “está en relación con la aptitud de las par tículas extraoracionales para recibir rasgos suprasegmentales distintos (sobre todo. las reacciones del interlocutor. los cuales indicarían. En contraste con los marcadores comunes en la escritura. Martín Zorraquino (1998: 23). Sirvan de ejemplo las siguientes palabras para comprender la dinámica de los conectores: Comenzar el análisis desde las funciones permite explicar la polifuncionalidad de un conector y. el hecho. creemos que resulta posible establecer las diferencias entre los diversos conectores pragmáticos contrastando el funcionamiento pragmático y discursivo de aquellos que realizan una misma función. de que una misma función pueda ser desempeñada por más de una forma. los marcadores conversacionales presentan una mayor polifuncionalidad en el discurso. tales como la entonación. además. una misma forma tiene asociada varias . la información directamente accesible a partir del contexto situacional. como c lar laro y b i e n . a la palabra que les queda más cercana en el enunciado (ALLERTON Y CRUTTENDEN. Briz (1996) e Hidalgo (1997) aportan nuevos datos sobre las propiedades prosódicas y las funciones de algunos marcadores del discurso del español. precisamente. 2000: 209). 1974). frecuentemente matizan el contenido instruccional de los MD (MARTÍN ZORRAQUINO. el que una ocurrencia de un conector se pueda analizar desde distintas. o. en mayor o menor medida. aunque complementarias. b uee no o … ¿Tú que siempre te ha sido fiel.) determina que resulte extremadamente difícil proponer un significado constante para cada marcador. cuyo propósito es reforzar la réplica. intensificándola o atenuándola): a) . o una aceptación neta y entusiasmada (b ). de otro modo. por ejemplo. o un consentimiento resignado (c ). algunos rasgos suprasegmentales. por ejemplo. y que. una mayor o menor elevación de tono. en una misma ocurrencia de un marcador sea posible identificar más de un valor (tanto en el plano semánticoargumentativo como en el enunciativo y en el interactivo. más o menos convicción por parte del hablante en relación con el “comentario” que reflejan. por ejemplo. Martín Butragueño (2002). el marcador bueno puede aparecer con un alargamiento de las vocales y acompañado de una repetición del signo. La polifuncionalidad (. b) -¿ Te apetecen no ! ¡Encantado!). sino En definitiva. puede indicar una ueno simple y clara aceptación (a ). o. no solo el marcador b ue ueno o (que ) también muchos otros marcadores. ). Para Hidalgo Navarro (2010: 65). la entonación). con lo que se contribuye a matizar el valor semántico-estilístico (el sentido) de dichas unidades”. el marcador b ue no. -Buee Bueeno noo ueeno noo crees? no . etc.

tomando como base un texto conversacional que el estudiante debe escuchar para resolver algunos ejercicios.81) que. p ues yo resulta que es que he tenido las dos “Bue Bueno condiciones…”. además. aunque muy por encima. Es decir. ueno no y p ues se usan Según este manual. comentarios sobre la polifuncionalidad uales d e ni v e l B2 que manuales de niv de algunos MD 2. en estos. Polifuncionalidad de los MD y su enseñanza en los manuales de E/LE1 Cabe destacar. a nuestro modo de ver. lo que comporta que. los marcadores en el discurso oral sean mucho más difícilmente sistematizables. puede introducir “explicaciones y. además. pues solo en cuatro. presenta brevemente un comentario respecto al aspecto polifuncional de los marcadores b ue no y p ues . lo que. en palabras de Pons Bordería (2000). un problema para el aprendizaje de estas unidades. por lo que tanto el docente como el discente se ven ante situaciones donde no saben muy bien cuándo. se presentan. como. a diferencia de lo observado en la lengua escrita. apenas se ofrecen aclaraciones teóricas sobre el valor semánticopragmático de los MD y la poca información que se presenta respecto de este aspecto suele ser de forma muy superficial y. excusas o justificaciones”. con objeto de facilitar a sus alumnos el aprendizaje de su empleo” (MARTÍN ZORRAQUINO. 1999). a diferencia de los niveles anteriores (A1. a partir de estos niveles. procedentes. se lo presenta como una fórmula que los hablantes utilizan para cumplir dos no …) y funciones: iniciar una conversación ( b ue ueno no . pragmática de estas unidades. combinados o no en la conversación. pero. el surgimiento de diferentes contextos en los que los MD se manifiestan con múltiples funciones. según el MCER. puesto que en diversas unidades didácticas de los manuales analizados suelen aparecer algunos marcadores que.4. el profesor de ELE debe introducir una mayor diversidad de MD con vistas a que el aprendiz convierta “sus frases en un discurso claro y coherente” (MCER. de textos diversos y situados en contextos diferentes. Los man tratan de este aspecto son: a) A Fondo (p. conforme este manual. 2. b) respuesta “Bue Bueno Bueno Sueña 3 (p. ya que. Tal diversidad de marcadores implica también atención a la versatilidad semántico- La polifuncionalidad de los MD es un aspecto que muy raramente se advierte en los manuales de nivel B2 que analizamos. cómo y qué formas usar en determinados contextos.158 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS funciones y una misma función puede estar desempeñada por varias formas. ofrecen dificultades para su comprensión. constituye. por ejemplo. el cual. en la enseñanza de estos elementos. o para darse tiempo a pensar en la no … P ues … o Bue no . por su polifuncionalidad y carácter distribucional. que la mayoría de los manuales analizados sigue el enfoque comunicativo. p ues …”. (…) tiene que recurrir. por polifuncionalidad del marcador b ue ueno medio de un ejercicio. . ocupa una parte muy pequeña dentro de una unidad. el profesor de ELE: (…) más aún que para la didáctica de otras clases de palabras.). § 3. “Las palabras b ue ueno también con otras muchas funciones”. según parece. por ejemplo.65) presenta una concluirla (b ue ueno nota en la que queda claro el valor polifuncional del conector es que . Así. La polifuncionalidad de los MD es una realidad en la lengua y su enseñanza en las clases de ELE facilitaría al aprendiz la calidad de su aprendizaje. suprayectiva.). al principio de frase cuando se quiere marcar que pasamos de una etapa de la conversación a otra: no . a numerosos ejemplos de cada uno de ellos (de cada marcador). A2 y B1). en primer lugar. al trabajar con los MD. principalmente en los niveles avanzado y superior. con frecuencia. c) Aula 4 (p. de los 15 manuales investigados. La relación entre formas y funciones es.159) también se refiere a la no cuando.

por ser marcadores explicativos. De manera particular. a sab er y o s ea . pensamos que lo primero que se debería explicar es su significado de adición en tanto en cuanto resulte como un elemento conectivo y su función sea la de vincular dos miembros discursivos cuya orientación argumentativa tiene que ser la misma. v amos . el profesor dejaría b ueno3 . 1998: 214). p ues . etc.). Si bien es cierto que al profesor de ELE no deberían preocuparle excesivamente los casos de polifuncionalidad en un nivel B2. o bien “introducen un argumento que dice exactamente lo mismo de otro modo” o bien “introducen una consecuencia del argumento anterior”. PONS BORDERÍA. etc. en el nivel C1 comentar todos los casos posibles. oig a . es que . como también a los propios estudiantes que podrían utilizar este conector. exigiría de los aprendices un mejor dominio de las competencias lingüística y pragmática para comprenderlos y ponerlos en práctica. si bien lo más práctico sería no aplicar todos los casos de no en el nivel B2.etc. señalan las relaciones sociales que se establecen entre hablante y oyente (cfr. oig a y otros semejantes de los marcadores mir mira oiga resultaría profundamente interesante en las clases de ELE. e nc ima . Tanto en los manuales de nivel B2 como en más los de nivel C1. Ahora bien. se deben aplicar de manera más detallada en los niveles C1 y C2. 1999) que. e ni ve l uales d prácticamente no se trata en los man manuales de niv C1 que hemos analizado (un total de 8 manuales de este nivel). El único método que introduce algún tipo de información sobre este aspecto es el manual El Ventilador (p. explicativos es dec decir esto sabe sea según este manual. Téngase en cuenta que el marcador a d e m á s (junto con el conector a p a r t e . MARTIN ncima bie ien ZORRAQUINO Y PORTOLÉS. más b ie n . sí . y a . 58) que presenta una notación en la que comenta la polifuncionalidad de los conectores ir . por lo que las explicaciones que se presentan en los más deberían contemplar. luego. si es deseo del profesor trabajar con casos de polifuncionalidad de determinados marcadores. casos de versatilidad o . en general. o el caso de los marcadores b ie ien s ea . aplicando. e h . ya que estas unidades desarrollan diferentes estrategias discursivas en la conversación. est o es . (cfr. siempre y cuando tome como referencia el manual donde figura esta información. introducir una autocorrección. semántico-pragmática de los marcadores c lar laro v e ng a . la atención a la polifuncionalidad a . Así pues. por presentar matices de versatilidad semántica un poco más complicados.. v ale . la clasificación del conector ade además exclusivamente como estructurador de la información que ordena el discurso con vistas a dar continuidad al mismo puede crear confusión tanto en las explicaciones pertinentes que el profesor pudiera dar a sus alumnos. atenuar el contenido de una respuesta en relación con la pregunta del interlocutor. pues son casos complejos que normalmente y según el MCER. como. b ue nga mira oiga ueno no . poseen un doble valor. los cuales. en manuales acerca de ade además primer lugar. introducir un cambio de tema en la conversación. resultaría más práctico empezar por el B2. como ordenador del discurso. por ejemplo. no trate de aplicar todos los casos en un nivel B2 o en un nivel C1 o C2. es decir. cumple funciones distintas en cada caso de su empleo (expresar conformidad con lo propuesto previamente por alguien. únicamente. es decir. aun. ya que no tiene sentido desde un punto de vista metodológico y didáctico. Para los niveles C1 y C2. en especial. oy e . su significado semántico-pragmático de conector aditivo. mir a .ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 159 La polifuncionalidad de los MD los casos más complejos de polifuncionalidad. será más razonable que él realice una concienciada selección de marcadores de polifuncionalidad más sencilla para ir introduciéndolos a partir del B2. tal es n . este último. o y e . sino elegir polifuncionalidad de b ue ueno dos o tres funciones más sencillas de este marcador y. Así pues. más propio del español oral coloquial) es el conector aditivo más frecuente. por ejemplo: la toma del turno de palabra. el inicio del diálogo o. inclusive en los contextos que exigen su uso como conector aditivo.

también deberá hacer frente a este otro problema que es la ausencia o la carencia de informaciones respecto de la polifuncionalidad de los MD en los manuales de ELE. como ordenador del discurso. etc. Lo cierto es que el profesor de ELE. mostrando un uso controlado de estructuras organizativas. la sucesión temporal o la expresión de hipótesis. donde mucho más que en el nivel B2. así. etc. la consecuencia. resultaría conveniente que. globos. convierte la tarea de aprendizaje de los MD aún más engorrosa. Para ello. sino que también requiere que él cambie la manera de enseñar dichas unidades. a sab er y o s ea ). enseñar otras funciones que este conector puede ejercer en los textos. o en otros términos. Así. este significado básico de ade además entonces. con vistas a que el discurso resulte más fácilmente comprensible. restringiéndose a un pequeño grupo de marcadores ir . una vez que el alumno aprenda más . el problema surge porque los manuales no suelen explicar la polifuncionalidad de los MD que introducen en sus unidades didácticas. la oposición y el contraste. en este nivel. aspecto que. por ejemplo– debe aprender a escribir “(…) textos claros.160 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Ahora bien. queremos dejar constancia de que ninguno de los manuales de ELE de que nos ocupamos en este estudio contiene suficientes informaciones sobre la polifuncionalidad de los MD como para que un aprendiz de español pueda llegar a comprender perfectamente el funcionamiento de las unidades que introduce. Sin embargo. este aspecto y. además. lo que indica la gran riqueza de sus matices expresivos. Tomamos como más de que hemos ejemplo el caso del conector ade además venido hablando: este marcador también puede ordenar la materia discursiva. “(…) en su explicación debería huir de una presentación estática. una vez entendido. la condición. hasta su polifuncionalidad. est o es . es donde el aprendiz –en lo que se refiere a su expresión escrita. por lo que en el nivel C1 deberían recibir mayor atención. puesto que no toma en consideración el hecho de que la polifuncionalidad de estas unidades constituye un rasgo característico de muchas de ellas. a nuestro modo de ver. aporta una mayor seguridad con respecto al uso de estas partículas. Conclusiones En fin. aunque de manera muy general. que –no hace falta decir– ya se enfrenta a la compleja tarea de explicar en sus clases cuáles son los mecanismos de los que se valen los hablantes nativos para estructurar u ordenar su discurso así como expresar la causa. solo uno 4 de los ocho manuales publicados para el nivel C1 comenta. funcionando. Pero esta es una tarea que no solo requiere del profesor un conocimiento más profundo del valor semántico-pragmático de los MD que explica. 3. pero siempre después de que se explicase su significado semántico-pragmático más básico y frecuente en español. para aclarar el aspecto polifuncional de los MD. fluidos y bien estructurados. hecho que refuerza la necesidad de los estudiantes del nivel C1 de aprender a usar un mayor número posible de MD.. Según nuestra opinión. el aprendiz necesariamente deberá reconocer otros rasgos característicos de estas partículas discursivas que pasan desde el aprender los diversos efectos de sentido que subyacen al uso de varios marcadores. conforme hemos visto más arriba. conectores y otros mecanismos de cohesión” (MCER: p. se hace necesaria su atención. Por otro lado. se ha de poner de manifiesto la notable carencia del tratamiento de la polifuncionalidad de los MD en los manuales de nivel C1. pues al tiempo que introduce una nueva información coorientada con la temática que se presenta en el miembro discursivo precedente (función de conector aditivo). se presentasen anotaciones a través de cuadros didácticos. también la distribuye y la divide en agrupaciones más pequeñas. 220). Además. se le podrían. Este es un problema sabe sea (es dec decir esto que. en listas que perpetúen la vieja idea . en los manuales de ELE.

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Entre ellos se pueden constatar aquellos que. a pesar de la casi sinonimia. en lugar de “alemán”. Preferimos. para estas notas. imaginario o real. viene ocupando un destacado lugar en las letras argentinas. también tenían la cabeza poblada por fantasías sobre la tierra nueva y soñaban construir nuevas realidades. El presente trabajo pretende trazar una breve cartografía de la presencia de los germánicos en narrativas de María Rosa Lojo. sin embargo. circulan por las fronteras de varios mundos. Como los demás. de uso más amplio. El autoconcepto de ésa cultura trasciende el territorio comprendido por Alemania como nación . migrantes. “Tatuajes en el cielo y en la tierra” y “Ojos de caballo zarco”. viajeros y aventureros en general. Hay que subrayar. que con excepción de los dos relatos de Amores insólitos de nuestra historia. ya que. Esteves FCL-UNESP-Assis Autora de una obra variopinta que incluye. en el ámbito literario. Rosa María Lojo. llegaron a la región del rio de la Plata. en especial por el vasto territorio argentino. por el libro de relatos Amores insólitos de nuestra historia (2001) y concluye en Las libres del sur (2004). por algún motivo. en un constante deambular. La vasta galería de sus personajes está poblada por seres excéntricos que tratan de encontrar una identidad posible o un lugar. en esas novelas los personajes germánicos no son protagonistas ni tampoco su visión de América y de Argentina es el tema central. discutiendo como están dibujados discursivamente dichos personajes y cuál es la imagen del continente americano reflejada en su mirada. pasa por La pasión de los nómades (1994). Canción perdida en Buenos Aires al Oeste (1987).ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 163 EN BUSCA DEL PARAÍSO: LA REPRESENTACIÓN DE LOS GERMÁNICOS EN LA OBRA DE MARÍA ROSA LOJO Antonio R. en donde encontrarla y/o encontrarse. este último se asocia más directamente a Alemania como Estado moderno. El mapa de dicha presencia arranca de su primera novela. originarios de tierras germánicas. En la larga lista de su obra ficcional merecen destaque las narrativas casi siempre urdidas en los borrosos límites entre historia y ficción. colecciones de relatos y varias novelas. usar el adjetivo “germánico”. que en general abordan cuestiones históricas e identitarias asociadas a tránsitos y fronteras. poemarios. Exiliados. desde la publicación de su primer libro en 1984.

El grado de ficción e historia que hay en cada uno de ellos cambia según el personaje. de acuerdo con aquello que Beatriz Pastor llama de discurso narrativo del fracaso (PASTOR. Esa versión alternativa de la historia se hace posible a partir de las fisuras del relato del cronista germánico y es a partir de dicho entrelugar que la narrativa de María Rosa Lojo teje su contrapunto a la historia hegemónica.164 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS moderna. “las Amazonas eran notoriamente inexistentes” (LOJO. era gozar de los encantos de la mujer americana. otros son personajes puramente ficcionales. viene desde los tiempos de la conquista. sobreviven en el “territorio natural de su pasión” y proponen otra lectura posible para la conquista. 2006. Algunos son personajes históricos ficcionalizados. de “Tatuajes en el cielo y en la tierra”. centraliza el foco en la mirada que Ximú tiene del conquistador germánico. Como los relatos de María Rosa Lojo. Ambos amantes. Lo que él ofrece al mundo. partiendo de ello. más que encontrar al reino del Dorado. La marca principal de ese aventurero de Straubing es la lectura particular que él hace del Nuevo Mundo. una vez que según el relato. sigue las estrategias usadas en las narrativas de extracción históricas. El relato de María Rosa Lojo. abarcan un período que va del XVI al siglo XX y han nacido en varios puntos del ancho territorio ocupado por la lengua alemana y la cultura germánica. partiendo de dicha mirada. es su experiencia y el relato de Lojo. Una de sus preocupaciones centrales. la imagen y autoimagen que los germánicos construyeron de su cultura es muy compleja y su discusión ultrapasa los objetivos de esta ponencia y al espacio de que dispongo. 44). Este lansquenete bávaro que participó de la expedición de la primera fundación de Buenos Aires dejó uno de los primeros relatos de la ocupación del rio de la Plata. capaz de ver al otro y dispuesto a descubrir en los cuerpos. Él abandona los anales de la historia de la conquista argentina para protagonizar. El ejemplo de c onquistador está en Ulrich Schimidl. viajeros e inmigrantes. que se trata de mera opción personal. p. entretejida a través de la memoria de la mujer una vez que en el relato la nativa conquistada es quien se apodera del cuerpo del amado. atraídos por la exuberante naturaleza local o . juntamente con la imaginada Ximú. 219). Hay que quedar claro. de los Un típico a v e n t tu re muchos que deambularon por el territorio americano en el siglo XIX. La construcción de los personajes germánicos en las obras en cuestión. sin embargo. Los germánicos que aparecen en los relatos de María Rosa Lojo. p. entendidos como narrativas de extracción histórica (TROUCHE. comprendiendo prácticamente toda la historia del continente después de la llegada de los conquistadores. una indígena de la tribu de los Xarayes. ur e r o germánico. el relato que hace una especie de relectura a contrapelo del episodio de la conquista y se ubica en la base de la construcción discursiva de la Argentina. que trata de trazar la cartografía del cuerpo de la mujer americana y no los mapas de los tesoros de las nuevas tierras. Además. 2001. p. se tejen en los umbrales de la ficción y de la historia. Solamente por cuestiones didácticas. 2008. hace una inversión de la épica tradicional de la conquista. presentándolo como un hombre sensible. 33). los dividí en cuatro categorías que a veces se cruzan ente sí: conquistadores. como se sabe. aventureros. Tenemos entonces no un conquistador español sino su equivalente germánico. tratando de encontrar fortuna. usaré en este trabajo el orden cronológico de la acción de los relatos y no las fechas de su publicación. una riqueza superior al deseo de volver a Europa cargado de oro y plata. La presencia de germánicos en América. relato incluido en el volumen Amores insólitos de nuestra historia (2001). que ocupó y ocupa un espacio que va más allá de las fronteras geográficas de aquél.

también nacido en Straubing. violador del universo femenino y de la imagen edénica de las tierras americanas. no regresa a su tierra y decide fijarse en la Argentina después de casarse con la gallega Carmen Brey. su imagen es opuesta a la de Ulrich Schimidl. ocupando la segunda mitad de la novela. transformándolo en una especie de ogro primitivo. una especie de pantalla de proyección en la que. El personaje histórico se traslada a las páginas de Las libres de Sur (2004). Totalmente ficcional. en tiempos de crisis. quien lo había invitado a Buenos Aires. lo representa negativamente en sus escritos. reta al caudillo Facundo Quiroga y por su audacia consigue un espacio en la nueva patria en construcción. se fija. casado con una nieta de Bismarck. la salvación de la hegemonía europea (BLOSS. Evidentemente él será expulsado de dicho paraíso. construido a partir de los dos anteriores. 202). 2001. Utz von Phorner. Sus relatos de viaje muestran una Argentina bárbara. 2004. usando lo ajeno para estabilizar lo propio. En Chivilcoy él se dedica. . Personaje de la misma novela y asociado a él. Victoria fue. negación de lo que él considera cultura civilizada europea. también en Amores insólitos de nuestra historia (2001). en Argentina como ganadero y adopta la nueva tierra como suya. mientras él se pierde en su estéril Europa. esa pantalla de proyección invertida. capaces de hacer nacer una nueva realidad. por amor. una nueva visión del mundo. a una huerta y a una “escuela especializada y a un Instituto de Idiomas”. El conde está reconstruido como el modelo negativo del germánico. pero descendiente del hombre de “ojos de caballo zarco”. protagonista de “Ojos de caballo zarco”. Se trata de una nueva estrategia del discurso colonial. por ejemplo. En defensa de su amor por una criolla. Debido a su piel blanca y principalmente por el color de sus ojos. en su discurso. Además repite un par amoroso presente en buena parte de la narrativa de Lojo: el germánico (o su descendiente) que se enamora de la gallega (o su descendiente) para formar un matrimonio que representa una especie de emblemática pareja fundadora argentina. al lado de su amada.98). es el Conde Hermann von Keyserling. ese hombre “que se considera un espíritu libre pensador y libertario. p. Ese personaje. protagonista de la narrativa. en La Rioja. 1995). ha sufrido la más inicua discriminación y la burla de los campesinos analfabetos” (LOJO. Se trata de un conocido filósofo de las primeras décadas del siglo XX que viajó a Argentina en fines de los años 20. ante la imposibilidad de la posesión de los metales (cobre y plata) de las minas de Famatina. Representa en el relato una inversión del tópico de la superioridad europea que normalmente sostiene los discursos racistas. en el cual se quedan las mujeres.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 165 simplemente en búsqueda de aventuras es Karl von Phorner. Ese ingeniero de minas. hundida en la crisis que producirá los desastres de la Segunda Guerra Mundial. en las páginas de la novela Las libres del Sur (2004). Como en el caso anterior. noble báltico de lengua alemana. patrocinado por la mecenas de las artes argentinas que fue Victoria Ocampo. “de tanto hurgar en historias de alemanes y españoles que perseguían las Fuentes de Juvencia o los palacios de El Dorado” (LOJO. En ese sentido. su figura muestra como el viajero/aventurero se transforma en inmigrante al entrar en contacto con la nueva tierra y principalmente al encontrar en ella el amor de su vida. La imagen que él construye de Argentina. la narradora dibuja su imagen en la novela. Reconstruyendo los desencuentros amorosos de la pareja y la posterior polémica del conde con Victoria. el filósofo alemán trataba de defender. una vez que además de ser incapaz de ver el “otro”. llega a la Argentina como secretario del Conde Hermann von Keyserling. gracias a su relación con Victoria Ocampo. p. en sus relatos de viaje será desconstruída por la propia Victoria en sus memorias y sirven de base para lectura que hace María Rosa Lojo de la relación de ambos.

los protagonistas. sin embargo. parece estar en la novela justamente para discutir la cuestión de la identidad argentina y lo hace a partir de la experiencia de la inmigración de la familia Reuter. es educado por la madre y el abuelo. p. un ex pastor luterano que había abandonado la familia y el sacerdocio debido al alcohol. el capítulo IV de la segunda parte de La pasión de los nómades. Con los inmigrantes alemanes pasó lo mismo. Me quedo con el ámbito imperfecto que me ha tocado. Con ello. Como en los antiguos “coloquios”. Discutiendo la costumbre de los argentinos en abandonar su tierra delante de las casi cíclicas crisis. Ese discurso se reitera y se discute en las dos primeras novelas de María Rosa Lojo: Canción perdida en Buenos Aires al Oeste (1987) y La pasión de los nómades (1994). interesa la presencia germana. en La pasión de los nómades (1994. que tiene el mismo nombre del padre. antes de su periplo siguiendo los pasos de Lucio Victorio Mansilla. representada por sus sobrevivientes. 1987. en los últimos dos siglos. Federico Reuter narra entonces la epopeya de sus antepasados que en el siglo XIX abandonan Alemania en busca de una nueva patria. vuelve a aparecer. María Rosa Lojo tiene entre sus temas la cuestión del desarraigo y la búsqueda de una patria posible. Irene y Alberto. Aquí hay una duplicación de la pareja compuesta por un descendiente de alemanes y una descendiente de gallegos. Irene. que.29). la segunda novela de la autora. La hija de los Neira. la historia: No voy a repetir la búsqueda del Paraíso en la tierra. es decir. Federico reitera que no pretende hacer repetir.166 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS La representación del universo americano como una especie de paraíso siempre estuvo presente en el imaginario europeo y es parte de los sucesivos discursos relativos a la región. cuando los Reuter entran en escena. que “había sido gaucho brasilero casi antes de ser alemán” (LOJO. incluyendo los primitivos conquistadores. estudiosa de filosofía. Hija de la diáspora republicana española. de paso. también las r ant es que abandonaron el sucesivas olas de mig migr antes “Viejo continente” para fijarse en tierras americanas en búsqueda de ese El Dorado imaginario. hay cierta similitud entre su historia familiar y la historia de la familia Neira. p. Se puede decir que Federico Reuter y su esposa Ana sean una especie de dobles de Alberto Krieger e Irene Neira. una vez más. Para la presente discusión. con padre gallego y socialista. […] Yo no diría ya que el país es mío sino . los protagonistas se reúnen en una cena en la casa de los Reuter en la que se discute el problema de la inmigración asociado al drama de la identidad argentina. Alberto. 36). que en la historia ya han regresado a Misiones. se enamora del hijo de un inmigrante alemán. Rosaura va a encontrar. El hijo/nieto de inmigrantes alemanes ayuda a Irene en el encuentro con la identidad argentina. “Irene miraba al vacío. paradójicamente ella siente más distante en su casa. en donde el médico busca la reconciliación con su padre. El origen extranjero común hermana a los personajes. sin saberlo pertenecía ya a esta tierra y a Alberto Krieger. Allí cerca. Inicialmente se fijan en Brasil y después en la provincia argentina de Misiones. el médico de origen misionero Alberto Krieger.” (LOJO. y se casa con él para disgusto de su padre. 1987. que decide rehacer su trayecto juntamente con los dos gallegos. La joven pareja va a vivir en un pueblo de Misiones. al mismo Lucio Victorio. La familia Neira. De ese modo. La casa de los Neira hospedará a Rosaura dos Carballos y Merlín. Canción perdida en Buenos Aires al Oeste (1987). el protagonista del viaje anterior. asociada a esa familia gallega. los diversos viajeros que la visitaron y. protagonistas de su primera novela. en las ramas de un gigantesco aguaribay.

Linda. La idea del Paraíso. deja de ser el hombre sensible que descubre el cuerpo y la tierra de la amada y se transforma en el ogro violador. espacio de transición. los personajes de María Rosa cruzan las fronteras tradicionales. como se sabe. otredad. reiterando la opinión de Federico Reuter: “Que no hay paraísos. . las migraciones. (2008): Andar por los bordes. Anja (1995): El drama de la comunicación transatlántica. y un hombre de origen germánico. la frontera. 1978). aventureros e inmigrantes y aventureros. 2008. se establece el conflicto y el germánico. 108-9). CRESPO BUITURÓN. tan repetida en el discurso de conquistadores. La idea de argentinidad aparece asociada en nuestros relatos con la unión entre una mujer hispánica o americana. la traducción como mediación. Poética do pós-moderninsmo (1991): Trad.ed. Los escritos de viaje del conde Hermann Keyserling como psicodrama de una relación amorosa? In Limites. la tierra americana del deseo de los conquistadores/viajeros/aventureros/ migrantes. en dicho contexto. Dichos temas siempre se plantean a partir de la experiencia femenina y la dificultad que tiene la mujer para hacer escuchar su voz en un mundo dominado por el discurso masculino. G. ———— (2001): Amores insólitos de nuestra historia Buenos Aires: Alfaguara. A través de la metáfora del tránsito. Cuando no ocurre el encuentro. Buenos Aires: Sudamericana. 2001. entonces. El capítulo concluye con la voz narrativa de Rosaura dos Carballos. 125-131. ampliando el espacio de la discusión a la superación de los límites de la frontera: “Nos despedimos pensando en alas. Lo insólito del amor. HUTCHEON.” (LOJO. p. aparece rotundamente negada en la voz de Merlín. USP. penetrando por las fisuras naturales del sistema. 2010) permiten el tránsito entre lo uno y lo diverso. (LOJO. Tales corredores (LOJO. El lugar de realización de dicho amor son las tierras argentinas. a los cuales se asocian los demás. p. entonces. criando un entrelugar (SANTIAGO. es la capacidad de promover dicho tránsito. 2008. sino los paraísos pasados y los futuros y que para buscar esas pobres verdades incluso raramente alcanzadas por los hombres llamados sabios. le pertenecemos y mucho más de lo que nos damos cuenta. p.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 167 que nosotros. irremediablemente. discute dos problemas básicos y centrales. R. se trata de un constante ajuste en dichos espacios de frontera y de circulación. la identidad y la Referências bibliográficas BLOSS. 110). en ese contexto. 1999. LOJO. El primero es la construcción de la identidad argentina y todo lo que conlleva esa temática. La obra narrativa de María Rosa Lojo. Anais do 3° Congresso ABRALIC. Niterói: ABRALIC. viajeros. Rio de Janeiro: Imago. 109). el exilio. 2. en ríos y en migraciones” (LOJO. pp. los tránsitos en general son constantes en su obra. no hace falta ir muy lejos. Por ello. María Rosa (2010): Árbol de familia. Cruz. São Paulo: Ed. (Tesis de Doctorado). Entre la historia y la ficción: el exilio sin protagonistas de María Rosa Lojo. Ser argentino. en el cual la identidad se presenta como un discurso en movilización continua. tiene una significación especial ejerciendo la función de promover la comunicación. Marcela. El amor. Dicho personaje germánico es el hombre que sale de su tierra en busca de un paraíso y lo encuentra no solamente en la tierra plena de elementos telúricos pero principalmente en el amor de una mujer. El segundo es la inserción de la mujer en el universo tradicionalmente dominado por el varón. Lleida: Facultad de Letras de la Universidad de Lleida.

Víctor C. (ed. In GIUFFRÉ. ———— (2004): Diálogo con Mercedes Giuffré. Hebe B. Silviano (1978): O entre-lugar do discurso latino-americano. Ensaios sobre dependência cultural. La novela histórica en Argentina. In ZONONA. Buenos Aires: Edhasa. 1128.168 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS ———— (1987): Canción perdida en Buenos Aires al Oeste Buenos Aires: Torres Agüero. In Uma literatura nos trópicos. ———— (2004): Las libres del Sur . Buenos Aires: Debolsillo. André (2006): América: história e ficção . Niterói: EdUFF: 2006. Beatriz (2008): El segundo descubrimiento. pp. SANTIAGO. TROUCHE. del Signo. MOLINA. ———— (2008): Una pasión de los nómades. pp.) Poéticas de autor en la literatura argentina (desde 1950). La conquista de América narrada por sus coetáneos (14921589). MOLINA. II. Vol. Barcelona. En busca de una identidad . Buenos Aires: Sudamericana. Buenos Aires: Ed. M.. 109-127. . PASTOR. (2010): La poética de la rosa: Modulaciones de la ficción histórica en María Rosa Lojo. Buenos Aires: Corregidor. São Paulo: Perspectiva. Hebe B.

tal como assinalou Roberto Echevarría em seu libro Mito y archivo (2000). um distúrbio em direção. no ‘além’: um movimento exploratório incessante. passado e presente. para frente e pra trás. Uma literatura que deriva do encontro de dois mundos. interior e exterior. tais como os sujeitos diaspóricos de Si me querés quereme transa (Cristian Alarcón) ou o personagem que transita entre distintas ilhas ao longo de um só dia em Oscura monótona sangre (Sergio Olguín).” Homi K.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 169 ROMPENDO FRONTEIRAS DA CIDADE E DA NAÇÃO: REPRESENTAÇÕES DE SUJEITOS QUE SE MOVEN ENTRE AS “ISLAS URBANAS” DE SERGIO OLGUÍN E CRISTIAN ALARCÓN Ary Pimentel UFRJ “Encontramo-nos no momento de trânsito em que espaço e tempo se cruzam para produzir figuras complexas de diferença e identidade. Em diálogo aberto com os arquivos da antropologia. para lá e para cá. que o termo francês au-delà capta tão bem – aqui e lá. este trabalho se propõe discutir alguns aspectos relacionados às estratégias de representação da cidade e da nação em histórias narradas desde as margens da cidade e da própria literatura. Textos como estes conseguem gerar uma reflexão questionadora acerca do cruzamento de fronteiras que separam e. Isso porque há uma sensação de desorientação. uma literatura da ambivalência e do entrelugar: assim são os textos que nos últimos tempos . de todos os lados. ao mesmo tempo. Bhabha As cidades latino-americanas da narrativa contemporânea se apresentam como espaços fragmentários e territórios de enfrentamento nos quais circulam personagens que vivem entre a estranheza e a descoberta de si e do Outro. fort/da. agora como imensas manchas urbanas totalmente fragmentadas que dificultam ou impossibilitam as interações materiais entre seus habitantes. estes relatos dão visibilidade e um papel protagônico a grupos muito particulares da urbe contemporânea. As “zonas sagradas” e os “espaços incivilizados” se interpenetram e se projetam em contraponto complementar nesta espécie de viagem ao outro lado dos muros da cidade. fazem com que surjam novas “zonas de contato” entre distintos territórios e culturas de uma megalópole como a capital argentina. inclusão e exclusão. A partir dos dois modelos de urbanização complementares (segregação e auto-segregação sócio-espacial) que traduzem as contradições e crises vividas “aqui” por uma América Latina que se enfrenta a radicais transformações no processo de modernização.

Si me querés quereme transa e Oscura monótona sangre nos permitem fazer uma reflexão sobre as relações entre o imaginário. derivando em subculturas e conflitos interculturais. “la villa de los paraguayos. O que está no centro dos dois textos é a passagem de fronteiras: do cotidiano familiar para o estranho que emerge no território do Outro ou na zona intersticial que se projeta entre os dois mundos. 2005. “construímos. mas buscando fazer dela a sua cidade. e constata o fim das ideologias em tempos nos quais ex-guerrilheiros maoístas tornam-se “capos” do tráfico de varejo. como Borges. O processo de construção de uma memória comum e a coesão comunitária antes tributárias de relatos totalizadores agora só é possível nas “novas tribos” ou “aldeias urbanas”.” (2008. ainda dentro das grandes urbes. p. Cristian Alarcón vai à procura do mundo de jovens criminosos. sem jamais se decidir a abandonar integralmente o seu mundo. Viajam dentro da própria urbe a procura de uma cidade que não é sua. o mundo da cultura e os territórios em que se fragmentou a cidade.. Em uma.170 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS constituem nosso campo de interesse. 2019. García Márquez. mas aqui mesmo” (GARCÍA CANCLINI . (. “vem depois” dos grandes clássicos latino-americanos. nessas novas “ilhas urbanas” (entidades que se constituem em torno de territórios reais ou simbólicos) que se passam as ações da maioria dos romances escritos nos últimos dez anos. seus códigos. É justamente nestes territórios que circulam os personagens de Si me querés quereme transa e Oscura monótona sangre. A fragmentação tanto identitária como territorial resultante da pluralização e heterogeneização de culturas. drogas e imigrantes peruanos. é o que permite estruturar este território de novas identificações apresentado por Cristian Alarcón: . E é aí. permanecem em plena fronteira vivenciando os sentidos e sem-sentidos da cidade através das mediações das narrativas veiculadas pela literatura.17). pequenas comunidades onde as mediações entre indivíduo e a identidade grupal ainda se estabelecem face-to-face. temos um repórter-escritor que mergulha na realidade de um enclave popular no coração urbe para tentar entender um mundo de violência. nas “micropoles” que. Cortázar..) fragmentos que elegemos para ancorar nossa subjetividade. Na outra. para usar uma expressão de Josefina Ludmer. Embora muito diferentes na sua concepção. o protagonista se desvia do caminho que faz todos os dias em direção a sua empresa para buscar os prazeres e a “adrenalina” de uma outra vida em regiões praticamente desconhecidas por ele. Nos dois casos estamos diante de sujeitos que já não conseguem viver a nação ou a cidade como totalidades integradas. donde se habla tanto guaraní como argentino” (OLGUÍN. “chegamos assim a necessidade de dar conta de um mundo no qual a diversidade não está só em terras longínquas. em Diferentes e desiguais e desconectados. seu culto à coragem. Tal como concluiu Néstor García Canclini. p. 113). como rádio. suas guerras. Para contar a história de cinco clãs que disputam o controle da distribuição de cocaína em uma villa de Buenos Aires. segundo García Canclini. jornal e televisão. chilenos e bolivianos. Personagens e narradores mergulham na zona de contato e. Trata-se de duas narrativas publicadas em 2010 que podem muito bem exemplificar certos aspectos da produção que. de alguma forma o deslocamento dos sujeitos é bastante semelhante nas duas obras. os labirintos da Villa 21. 22). e a ação de grupos pequenos. pelo cinema e pelos meios de comunicação. Oscura monótona sangre . p.

20). entre nosotros.1 Num bairro em que se instala a ausência do Estado e suas instituições. Esses movimentos redesenham as car tografias da nação. se gana un tiro en una pierna. A partir desta perspectiva. Bajo esas leyes inquebrantables funciona el ejército privado (…). Si me querés. onde Josefina Ludmer se propõe a pensar os novos tempos a partir . un viaje a los mundos más lejanos. ao mesmo tempo. Constituído de um conjunto de clãs. de Cristian Alarcón. cómo la migración de sujetos y culturas generan un fenómeno de transnacionalidad. p. talvez já possamos começar a falar de uma literatura que está se gestando em diálogo com uma cultura “deslocalizada” ou “translocal” de que nos fala James Clifford em Dilemas de la cultura. Oriundas que são de um processo de deterritorialização e reterritorialização da cultura. da cidade e da própria narrativa. tal como a define Beatriz Jaguaribe (Apud GARCÍA CANCLINI. p. impõe-se um novo marco legal. o escritor argentino Mar tín Caparrós. o mundo das “islas urbanas” reúne sujeitos em torno de um território e de um conjunto de códigos com base nos quais se constrói o sentimento de pertencimento a um lugar e a um grupo.” Assim o promove.61) A cidade narrada em ambas narrativas é fruto de uma experiência de deslocamento. (ALARCÓN. 2010. p. Mas. 2008. Em Aquí. na quarta capa da primeira edição.61) E os cógidos ganham enorme destaque nesta viagem mediada pelo texto narrativo aos “redutos da violência”. 2008. o en un brazo. cabe lembrar que. tanto dentro das fronteiras da cidade como para além das fronteiras nacionais. peruanos e bolivianos. Cristian Alarcón expressa sua atração por um mundo de disputas territoriais onde mais importante que o pertencimento à nação e o compartilhamento de seus grandes relatos é o respeito ou a traição aos códigos de fidelidade grupal. sus terrenos fueron ocupados por los inmigrantes que llegaron a Buenos Aires a partir de la década del cincuenta. migrações e trânsitos de todo tipo. esta é também uma literatura que constrói “relatos de localização” (GARCÍA CANCLINI. surge uma arte que se estrutura a partir dos novos deslocamentos humanos. comunidades de migrantes convivem com o mundo “narco” e se tornam peças de um jogo complexo em cujo centro estão as frequentes guerras para definir o comando absoluto do tráfico de cocaína entre “transas” paraguaios. nesta verdadeira experiência de “voyeurismo protegido”. Em entrevista intitulada “El mundo narco habla de un mundo por venir”. atravesadas por arbitrarios pasillos angostos.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 171 Villa del Señor se extiende a lo largo y ancho de treinta manzanas. América Latina . Diante de mobilidades. fundamento mais importante da vida social neste contexto. num processo em que a dinâmica cultural transcende as fronteiras nacionais: Me fascina cómo la historia de América latina vuelve a surgir a miles de kilómetros. No lugar onde antes imperava a anomia passam a reger os códigos da “isla urbana”: Entre todos ellos rige un código que permite el dominio piramidal sin titubeos: a la primera falta la sanción es rapar a cero y afeitar las cejas. también. p. narco-traficantes e grupos paramilitares.25). 2010. quereme transa. “es. más desconocidos: los que están aquí mismo. (ALARCÓN. El ercer error es el fatal: muere acribillado. Si el muchacho no entendió con la vergüenza de andar con la cara como un mutante. En cada una de las treinta ciudades más importantes del mundo existe una procesión del Señor de los milagros que es idéntica a una en el centro de Lima. De formas irregulares. em suas tramas assume um contorno estrutural o movimento da migração limítrofe motivado por razões econômicas ou pelos “desplazamentos” derivados das guerras entre guerrilheiros. Nesse mundo à parte. chilenos.

Cuando unos y otros fueron modernizándose o cambiando. y luego de los diferentes. 2010) está em disputa e em constantes deslocamentos estratégicos. como uma investigação histórica. escreve-se a partir de pedaços da realidade. Tal como o primeiro livro de Alarcón ( Cuando me muera quiero que me toquen cumbia . que ela chama de instrumentos conceituais para organizar certas reflexões. monolítico ou compreensível. Mas não só isso. “paraguas” ou “bolitas”. Porto & Torres. como tudo. fornecendo as marcas de pertencimento a pequenos coletivos. o relato de reportagem e a pesquisa de campo da antropologia. minoritarios y subalternos en la propia sociedad. la antropología fue la primera ciencia social que se ocupó de los otros lejanos. entre o romance verdadeiro e o jornalismo investigativo. Assim como o romance latino-americano moderno no qual se estabelecem mecanismos de narrativa derivados do “arquivo” da antropologia. narrativa de tempos e discursos fugazes.172 de termos como ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS “imaginação pública”. Cinema e literatura. este também circula entre a crônica familiar e o testemunho. de um presente que não pode produzir clássicos. territórios insulares que constituem um grande arquipélago no qual cada vez mais deslocam os sujeitos.3 . destaca-se o discurso antropológico como mediador na literatura. Talvez seja justamente a partir da percepção do trabalho com a escala pequena e do processo de microlocalização identitária presente nas duas obras que se possa destacar um dos aspectos centrais para o estudo da literatura produzida neste momento de virada de século quando se observa uma tendência que aponta para a erosão das narrativas nacionais e para a importância crescente do território como um espaço de ancoragem da identidade que pode contribuir para a coesão de comunidades imaginadas. Enquanto que os clássicos latino-americanos falavam de territórios muito maiores e buscavam as chaves da identidade em grandes narrativas nacionais. quereme transa é um projeto essencialmente pautado em um trabalho de campo. está fragmentado. se destacaban las tradiciones o resistencias locales a lo innovador. obra de um autor que opera na fronteira entre a invenção. havia uma certa cartografia mais sólida e clara. uma crônica. Agora a representação e seus sujeitos (como obser vamos nas “narrativas migrantes”. A cidade não se narra a partir de um todo sintético. Em meio a estas fronteiras de gênero cada vez mais voláteis. 2003). Por “pós-autônoma” Ludmer entende a literatura que “trata de ser outra coisa. Antes. Si me querés. como nos recorda Néstor García Canclini: Como se ha dicho a menudo. De manera que la antropología es una disciplina con largo entrenamiento para estudiar procesos de aculturación. O território. cf. mas sim sobre “ilhas urbanas” como sugere Josefina Ludmer em seu texto “La ciudad: en la isla urbana”. essa narrativa contemporânea. pero con predominio de lo que sucede en interacciones locales y de escala pequeña. E é justamente isto que encontramos em Si me querés quereme transa. buscando o Outro distante no interior da própria cidade. Não faz mais sentido falar sobre cidade. um testemunho” 2 . mas sim a partir dos seus fragmentos. uma biografia. de transculturación y las zonas de contacto entre culturas. as ilhas residenciais do condomínio ou as ilhas dos espaços de segregação nos quais residem “cartoneros”. sejam estes os que integram as ilhas do trabalho. “realidadeficção” e “literatura pós-autônoma”. e a própria representação estava associada a lugares estabelecidos. identidades e nações vão por esse caminho. só que agora em uma escala bem mais reduzida.

Não se pode traçar um mapa destas ilhas a partir do percurso trilhado no dia-a-dia. em particular. Elas são movediças.141). Isto nos leva a pensar num aspecto muito específico envolvido em um fenômeno que acontece na história recente da cidade: o surgimento das novas favelas a partir da migração limítrofe. Aqui percebemos mais uma vez a importância do território. destacado o movimento dos grupos humanos. segundo o crítico indiano: Esses “entre-lugares” fornecem o terreno para a elaboração de estratégias de subjetivação – singular e coletiva – que dão início a novos signos de identidade e postos inovadores de colaboração e contestação. ilhas urbanas. 198). (JELIN. mas também a que me liga a um território. Deduz-se um mapa impreciso que apontaria para a existência de ilhas de trabalho. enclaves. p. paraguaios.20). Menos aún por la población migrante. chilenos. de residência dos que garantiram o direito instável de ocupar o que Noé Jitrik definiu como “zona sagrada”4. descarnado e objetivo. Sus sentidos no son compartidos por todas las personas y grupos que residen dentro del territorio argentino. É em torno do território compartilhado que se organizam as narrativas da memória e os mitos comuns.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 173 A literatura pós-autônoma. “trata de ser outra coisa”. bairros fechados. sobre su lugar en la sociedad argentina. O homem em relação. Trata-se não da cidade real. seu relato quer ser roteiro de cinema: filme de estrada sem sair do interior da grande metrópole. são versões da cidade (SARLO. quer ser ensaio de sociologia ou geografia urbana. p. p. 2006. Como assinala Beatriz Sarlo em relação às ficções de Borges. na medida em que a ênfase recai no que transcende o indivíduo e reforça a comunidade na qual ele se insere. Não apenas a relação interindividual. no ato de definir a própria ideia de sociedade.19). bolivianos ou coreanos. Michel Maffesoli nos recorda que: Devemos estar atentos ao componente relacional da vida social. com fronteiras deslizantes que nos impedem uma cartografia segura. los diferentes grupos migratorios desarrollan distintas estrategias de inserción a partir de la idea. em um estudo sobre as migrações limítrofes na Argentina. elemento que começa a se tornar obsoleto neste contexto. as que apresentam uma expressiva concentração de peruanos. más o menos compartida. é a partir da ancoragem no território da “ilha urbana” que se constituem as tramas identitárias da comunidade. Para além da importância da nação. as narrativas construídas por Sergio Olguín e Cristian Alarcón. 1998. os “entre lugares” ou o “aqui e lá” de que nos fala Bhabha (1998. são o longe perto de Buenos Aires. e ilhas que são destinadas aos refugos ou às quais estes são destinados. a um meio ambiente natural que partilho com outros. Essas são as pequenas histórias do dia-a-dia : tempo que se cristaliza em espaço. 2009. ganha espaço protagônico a . não estão fora: são o dentrofora. p.48) Numa literatura que recusa a fixidez das imagens geográficas. p. A partir daí. Existen y se generan distintos criterios de diferenciación y jerarquización que catalogan a algunos grupos como potenciales contribuyentes al desarrollo del país. afirma Ludmer. a história de um lugar se torna história pessoal. mas da cidade que é ao mesmo tempo lida e imaginada: a Buenos Ares narrada através de seus fragmentos. Elizabete Jelín. As favelas e. la lealtad y la pertenencia nacional son conceptos en transformación. por sua vez. Não estão dentro. A su vez. (BHABHA. observa que: La membresía. É nestes espaços intersticiais que o valor da cultura do agora está sendo negociado. dos processos econômicos e das manifestações culturais. a uma cidade. Oscura monótona sangre quer ser cartografia. (2010. ilhas de prazer. De tal forma que a história do território se confunde com a história da comunidade.

Inicialmente caracterizado pelos contrários. da cidade e da sociedade: formando uma nova comunidade. pequena nação que requer um novo relato. GARCÍA CANCLINI. Aparece assim um quadro recorrente. 2010. Barcelona: Gedisa. De la diversidad a la interculturalidad. Rio de Janeiro: Editora UFRJ. Buenos Aires: Norma. Carlos Reynoso. org (2011): Conflictos interculturales. As cidades cindidas de modo cada vez mais radical apresentamse nas narrativas do século XXI como “ilhas urbanas”. p. A cultura pela cidade. 103-112.174 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS figura da migração limítrofe e os contextos de sociabilidade construídos por estes sujeitos em uma concentração territorial e identitária que assume a forma de pequenas tribos e parece demonstrar em cada uma de suas narrativas que ainda não sabemos lidar com a diferença interna. literatura y arte en la perspectiva posmoderna. os personagens experimentam as consequências de um efeito inesperado de deslocamento nos dois sentidos do termo: saem de um lugar cuja lógica dominavam para penetrar em outro território bastante instável e ao mesmo tempo se sentem eufóricos e desconfortáveis neste novo lugar. p. ______ (2008): Imaginários culturais da cidade: conhecimento / espetáculo / desconhecimento. movido pelo impulso. p. despertam a curiosidade e propiciam o contato. A literatura do presente parece determinada por uma estrutura que frequenta diferentes narrativas: o cruzamento de uma fronteira cada vez mais porosa e deslizante que em vez de separar propicia contatos. Trad. desiguais e desconectados: mapas da intelectualidade. nos bairros humildes que margeiam essas avenidas.” (2010. mas que só vivencia a verdadeira aventura ao mergulhar. demonstram que as fronteiras já não impedem a passagem de um lado para o outro. entre fragmentos y ruinas. A construção de pontes ou de caminhos de aproximação através de textos que narram e dão coerência à cidade. líneas y límites. p. Um empresário que se sente seguro em sua vida de cidadão modelo a percorrer todas as manhãs as mesmas avenidas que comunicam a sua ilha residencial à ilha industrial onde trabalha do outro lado da cidade. BHABHA. In: COELHO NETTO. o protagonista de Oscura monótona sangre. Este é caso de Julio Andrada. 15-31. Myriam Ávila. ______ (2005): Diferentes. Cristian (2010): Si me querés. um cenário de realidade/ficção onde os sujeitos constroem constantemente estratégias para entrar e sair sem que saibam já muito bem se estão dentro ou fora.130). Belo Horizonte: Editora UFMG. “las ciudades latinoamericanas de la literatura son territorios de extrañeza y vértigo con cartografías y trayectos que marcan zonas. James (1995): Dilemas de la cultura : antropología. Néstor. 2ª ed. Mas as ilhas que são ao mesmo tempo um território e um sujeito coletivo “es un mundo con reglas. José Teixeira. Itaú Cultural. Eliana Lourenço de Lima Reis e Gláucia Renate Gonçalves. uma nova nação. quereme transa e Oscura monótona sangre. leyes y sujetos específicos” (LUDMER. pelo contrário. Trad. Como diz Josefina Ludmer em seu ensaio “La ciudad: En la isla urbana”. . Referências bibliográficas ALARCÓN. Barcelona: Gedisa. In: GARCÍA CANCLINI. Homi K. Néstor. São Paulo: Iluminuras.131). de Aquí América Latina. Luiz Sérgio Henriques. CLIFFORD. Trad. org. (1998): O local da cultura . mas que. quereme transa. religando pedaços dispersos e propiciando interações simbólicas que permitem superar parcialmente a fragmentação da experiência. como os personagens de Si me querés. Parece que estão dentro e fora da nação.

Buenos Aires: Prometeo. 3 GARCÍA CANCLINI. Noé. 104-5. 25 abr. Alejandro. JELIN. Néstor. Néstor. 2 BERTOL Rachel. SARLO. D. México. Néstor. org.clarin. Buenos Aires. Notas 1 BORDÓN. 47-68. TIRRI. p. Acessado em 01/09/2012. Michel (2010): O tempo das tribos: o declínio do individualismo nas sociedades de massa. MAFFESOLI. Conceitos de literatura e cultura. p. Notas sobre la “zona sagrada” y el mundo de los “otros” en Bestiario de Julio Cortázar. JITRIK. Buenos Aires: Tusquets. Buenos Aires: Siglo XXI. orgs. Revista Ñ. In: GARCÍA CANCLINI.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 175 GONZÁLEZ ECHEVARRÍA. 2011. Migraciones regionales hacia la Argentina: diferencia. In: GRIMSON.F. Niterói: EdUFF. In: FIGUEIREDO. desigualdad y derechos.com. Barcelona: Gedisa. 1968. OLGUÍN. 13 -39. de Clarín. De la diversidad a la interculturalidad. Elizabeth. Editora UFJF. pp. Roberto (2000): Mito y archivo: una teoría de la narrativa latinoamericana. TORRES (2010): Literaturas migrantes. Juan Manuel. Trad. Maria de Lourdes Menezes. Disponível em http://publicidade-valordigital.com/diariodelaferia/2010/04/25/ cristian_alarcon_el_mundo_narco_habla_de_un_mundo_por_venir/. JELIN. Maria Bernadette. Eurídice. Rio de Janeiro: Forense Universitária.: Fondo de Cultura Económica. La vuelta a Cortázar en nueve ensayos. . org. Elizabeth (2006): Migraciones y derechos: instituciones y prácticas sociales en la construcción de la igualdad y la diferencia. 4 Cf. Virginia Aguirre Muñoz. Conflictos interculturales. Sara Vinocur de. Trad. org. 4ª ed. p. 225-260. PORTO. 2ª ed. In: TIRRI. 2010.br/cultura/1130334 Acessado em 01/09/2012. 2ª ed. Beatriz (2009): La ciudad vista : mercancías y cultura urbana.valor. Sergio (2010): Oscura monótona sangre. A literatura não é mais sagrada: entrevista a Josefina Ludmer. Cristian Alarcón: “El mundo narco habla de un mundo por venir”. Rio de Janeiro. Disponível em http://weblogs. Valor.

No entanto. não há como especificarmos certamente quando surgiu e qual foi a primeira história em quadrinhos. intensificaram-se as criações intelectuais das Histórias em Quadrinhos. Esse movimento de exportação conquistou muitos fãs – grandes consumidores – e também estimulou um intenso desenvolvimento da criação de HQs em outros países como na França.176 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS AS TRADUÇÕES DE QUADRINHOS SOB UM OLHAR DISCURSIVO Bárbara Zocal da Silva PG. à ordem de narrativa. e suas intensas publicações. Suas produções artísticas influenciaram consideravelmente a qualidade de produção das historinhas em toda a América Latina. Calvin & Hobbes (de Bill Watterson) e Mafalda (de Quino). obedecendo. Há uma valorização maior do texto sobre a imagem. como também as publicações do grande roteirista Hector Oesterheld. à ordem de sequência dos diálogos e à ordem de permanência das mesmas personagens (SANTOS. O período entre os anos 1929 e a Segunda Guerra Mundial é considerado como o que mais ousou em criatividade e propiciou a expansão e a exportação das HQs. em 1895. em especial na Argentina. inovou a estrutura dos quadrinhos ao colorir as histórias e ao delimitar as falas das personagens por meio do balão. questionam a formação das relações familiares. muito valorizado na Europa e na América Latina. assim. esse produto de massa. os quadrinhos aderem a um caráter mais ácido. 2010). Sabe-se. Schulz). indagam-se sobre os problemas sociais e políticos e valem-se de um humor sarcástico para fazerem chistes. para onde se mudou nos anos 1950. o que os torna expressivamente ricos. Garfield (de Jim Davis). meio e fim definidos. com sua série The Yellow Kid . Um dos nomes mais expressivos do meio de produção das HQs é o do italiano Hugo Pratt. com começo. A partir da década de 1950. que no fim do século XIX. principalmente no gênero da aventura. na Itália e na Argentina. permitiram à Argentina criar uma rica tradição em suas historietas densamente elaboradas. que. as HQs se popularizaram nos Estados Unidos e tal pioneirismo deve-se ao americano Richard Fenton Outcalt. consagraram-se neste design que conhecemos por volta dos anos 1880. popularmente chamadas de HQs. animais e crianças aparentemente ingênuos. . cultural e popular.Universidade de São Paulo As Histórias em Quadrinhos. Personagens como Peanuts (de Charles M.

“considerada talvez como a mais importante e genuína contribuição brasileira à industria dos quadrinhos” (VERGUEIRO. nessa época. inclusive. mas traços claros das expressões faciais –. BRAGA. que “abusava de uma linguagem polêmica de humor contra o milagre econômico e fazia críticas incansáveis à ditadura” (SANTOS. Ivan Lessa. Entretanto. colunista. escritor. à condição apática da população diante da ditadura. assim. pois. o Versus . e A Turma da Mônica . principalmente as historinhas de O Pato Donald . Um exemplo de resistência da época é o semanário O Pasquim. Guidacci. 2011. p. de Hank Ketcham). de John Stanley) e o Pimentinha (Dennis the Menace. entre tantos outros projetos culturais idealizados.199). o Brasil era tomado pelas produções norte-americanas e caminhava vagarosamente em direção a uma produção própria de Histórias em Quadrinhos. criada por Ziraldo Alves Pinto. Millôr. as tirinhas com tendências críticas fizeram. A primeira revista brasileira que publicou regularmente quadrinhos no Brasil foi a revista Ticotico. afinava com os propósitos de variados humoristas e quadrinhistas: ganhar dinheiro sem abrir mão de criticar e rir de nossas mazelas. Ziraldo.10). p. e ainda fazem. Destacam-se grandes nomes de cartunistas como os de Angelo Agostini. tornou-os as mais influentes publicações de seu tempo. A comunhão de propósitos entre autores e editores destes jornais. . de acordo com Patati. a aventura.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 177 As HQs no Brasil Em contrapartida. foi um dos quadrinhistas mais representativos no Brasil.14). p. pois fizeram frente aos governos da época. BRAGA. pois. o mundo dos super-heróis. que lutaram bravamente contra a censura para verem publicadas suas edições. percebeu-se o sucesso das HQs de humor que comentavam “de modo agudo os problemas do momento” (PATATI. Tanto caíram no gosto do público que muitas outras histórias de humor e de aventura. Com o crescimento na produção de quadrinhos no Brasil. outros gêneros de quadrinhos invadiram o mundo das HQs brasileiras. eles queriam falar de seus próprios problemas. chamados “alternativos”. criada por Maurício de Souza. devido aos temas regionais abordados. 2010. De acordo com Patati. fizeram sucesso como a Luluzinha ( Little Lulu . durante o período da ditadura militar no Brasil. inovou quanto à criticidade a seu país. p. por exemplo. lançada em 1905 (VERGUEIRO. Henfil. (PATATI. como. Os brasileiros não mais se satisfaziam em rir dos problemas político-sociais do mundo. e que ainda obtém grande êxito. além de inovar quanto à estética dos quadrinhos – criava não apenas faces. Os quadrinhos humorísticos foram ideologicamente significativos entre os anos 1964 e 1985. O jornal contou com a colaboração criativa de Jaguar. Os gibis da família Disney. o gênero infantil foi o que prevaleceu na criação das HQs brasileiras. 2006. p. muito sucesso nas páginas dos periódicos. Angeli. Braga (2006). Duas outras revistas que contribuíram para uma história das HQs no Brasil surgiram na década de 1960 e são a revista O Pererê. 2006. Braga (2006). Fortuna. A persistência de um jornal como O Pasquim . A evolução dos acontecimentos políticos tornou o espaço dos quadrinhos e do humor na imprensa do Brasil ainda menor do que já era. ao governo e. roteirista. ou ainda. foram os responsáveis pela fundação da Editora Abril em 1950. popularmente conhecido como Henfil. entre tantos outros humoristas e jornalistas. Henfil foi reconhecido – internacionalmente – pela influência que seus trabalhos tiveram em sua vida militante e pelo seu brilhante trabalho como cartunista. a guerra. o terror. pensava-se que esse tipo de literatura era dirigido exclusivamente às crianças. Carlos Estevão e Millôr Fernandes.199) Henrique de Souza Filho. entre outros. o humor crítico e político.14). 2011. apresentador. com foco sempre para o lado infantil.

o editor-revisor. participariam conjuntamente Quino. que usa da expressividade da fala como uma tentativa de buscar seus direitos e de conscientizar a população para as questões políticas à sua volta. O projeto consistia numa tradução diferenciada de algumas histor ietas da personagem Mafalda . Mouzar Benedito. 1999. porém. Por outro lado. Sob a luz da Análise do Discurso de linha francesa. De acordo com Orlandi (1999). ainda assim. sociais e políticas que podem estar contidas em duas traduções diferentes realizadas no Brasil das mesmas tirinhas escritas originalmente em espanhol hispano-americano. eles têm condições financeiras de terem uma casa própria. pois. assim. notamos que uma característica bem marcante da divergência entre as duas traduções das mesmas tirinhas de Mafalda é a relação de seus respectivos tradutores com suas próprias concepções de tradução.15) As tirinhas da Mafalda que pertencem ao corpus . jornalista também engajado politicamente. politizado. e Henfil. retratam. comportando-se. com homens falando. pois Quino queria muito que ele estivesse envolvido no projeto.178 O projeto ambivalente ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS norte-americana. Mafalda. uma vez que ele não poderia realizar o trabalho na época. 1999. como uma criança. de uma forma geral. estruturas frasais mais próximas da língua portuguesa indica uma tendência Como editor. seria o tradutor ideal e Henfil revisaria tudo. uma televisão e direito às férias em família. percebemos que essa é uma das características primordiais para que o humor seja compreendido.. como mostram as tirinhas. a má educação. em suas opções tradutórias. mas com a língua no mundo. uma representatividade do cotidiano dessa classe. as privações da infância. Assim.20) Ao voltarmo-nos para a análise das traduções. Dessa forma. a influência . como revelado em uma entrevista de Mouzar sobre Henfil na Rev ista Imprensa de junho de 2008. vemos a forma histórica de um sujeito inserido numa conjuntura política de tensão. em 1998. a constante luta pelo poder entre os Estados Unidos e a ex-URSS. a cultura geral. como sujeito discursivo. [. p. problemas sofridos nessas décadas por grande parte dos países. e editada pela Martins Fontes. O fato de Mônica Stahel (doravante MS MS) manter. p. conhecido como Quino. decidiram que Mouzar. (ORLANDI. escritas entre as décadas de 1962 e 1973.] a primeira coisa a se observar é que a Análise de Discurso não trabalha com a língua enquanto um sistema abstrato. e outra foi realizada por Mouzar Benedito. seja enquanto membros de uma determinada forma de sociedade. Mafalda provém da classe média e percebemos. um carro. considerando a produção de sentidos enquanto parte de suas vidas. os conflitos da guerra fria. o tradutor. a idéia de Quino era que Henfil traduzisse as tirinhas. o quadrinhista. para cumprir esse propósito. Henfil participou em 1982 de um projeto do grande cartunista argentino Joaquín Salvador Lavado. por trás de seus debates. pois a Argentina passava por um momento de repressão política sob o comando de militares peronistas. com maneiras de significar. e editada pela Global. e o mundo sofria com a Guerra Fria. Ao analisarmos o discurso de Mafalda. Uma dessas traduções foi realizada por Mônica Stahel. Ela e sua família gozam de regalias. “funciona pelo inconsciente e pela ideologia”. de certa forma. em plena crise econômica. seja enquanto sujeitos. quando nos deparamos com Mafalda lançando seu olhar crítico à sua vida e ao mundo à sua volta. e. como sujeito de tendência socialista. em 1982. a problemática familiar. ou seja. problemas incompreensíveis aos olhos de uma menina de seis anos de idade. inclusive pela Argentina e pelo Brasil. Ela seria traduzida para o “portunhol” e. (ORLANDI. pretendemos observar algumas questões linguísticas. Em princípio. definimos a garotinha de seis anos. historicamente posicionada. são as imagens que constituem as diferentes posições na relação discursiva..

Diferentemente. fato que pode ser justificado pela sua participação militante tanto na época conflituosa. inclusive entre as crianças. a relação entre a língua. em último lugar. o discurso e a ideologia presentes nas traduções de Mouzar Benedito e de Mônica Stahel. Mouzar Benedito (doravante MB MB) mantém as estruturas das traduções das tirinhas mais próximas da língua espanhola – ele mantém os pontos de interrogação e de exclamação. no entanto. assim. comunidades interpretativas (FISH. “¡AAAAAAI!” (tirinha 1). percebemos na tradução de Mouzar Benedito. expõe que há três questões sobre as quais o tradutor Tirinha 1 deve refletir e ser fiel a elas. privilegiando. afinal. significam em nós e para nós. ao contrário da de Mônica Stahel. Entretanto. a concepção pós-moderna de tradução. “¡Como!” e “Bueno” (tirinha 2) – privilegiando uma linguagem mais truncada e. por seguir as exigências de domesticação (VENUTI. para ilustrar o fato de que até mesmo as palavras mais “simples do nosso cotidiano já chegam até nós carregadas de sentidos que não sabemos como se constituíram e que. década de 80. restrita aos leitores que não têm conhecimento da língua espanhola e. 1992). Primeiramente. o que possibilitaria a compreensão de tais tirinhas em uma maior comunidade interpretativa (FISH. a que comunidade interpretativa. inclusive. 1999.” (ORLANDI. uma leitura fluente e transparente. 1992) distintas das abrangidas por MS e permanecendo como um tradutor mais visível (VENUTI. muitas vezes. é condicionada por fatores ideológicos e contextuais. de acordo com a concepção de Venuti (1995). por exemplo. “¿E daí?”.20) .ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 179 à invisibilidade do tradutor . a quem ele pretende dirigir determinada tradução. a presença de itens lexicais marcados ideologicamente pelos conflitos vivenciados na América Latina entre o período das ditaduras. retratada nas tirinhas. 1995) impostas pelas editoras que manipulam e difundem a idéia equivocada de que uma tradução deve ser “fiel à idéia do autor do texto original”. consumidores alvo das histórias em quadrinhos no Brasil. período de intensa participação popular após os anos de silêncio. “como diz Pêcheux (1975).” (ORLANDI. à qual vinculamos MB MB. dessa forma. por exemplo. p. aos seus objetivos. em relação ao original.17) A teoria na prática Analisemos agora. De acordo com Arrojo (1986). 1999. período de Diretas Já e de sindicalismo. quanto na época de sua tradução. Sendo assim. as interjeições e muitas palavras grafadas como em espanhol como. não há discurso sem sujeito e não há sujeito sem ideologia: o indivíduo é interpelado em sujeito pela ideologia e é assim que a língua faz sentido. Ao compararmos as duas traduções das tirinhas. de forma prática. em segundo lugar. à sua concepção de tradução e. p. o estudo das relações entre o signo. a ideologia e a construção de discurso mostra que a tradução. assim como a leitura. as diferentes concepções de tradução nos levam à reflexão sobre o quão ideologicamente marcadas são as traduções de MS MS. trabalhando a relação línguadiscurso-ideologia discutida em Orlandi (1999). às crianças leitoras. 1995). abrangendo. às suas interpretações proporcionadas pela sua leitura.

mas.. ouve as notícias sobre o mundo e.180 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Mafalda. (PECHÊUX.ac hei que er mund undo que tinha gr itad o” e “g r ita d o” .160) Outras formas discursivas relevantes para exemplificarmos a relação do sujeito com a historicidade e com o interdiscurso. ao mesmo tempo que desliga seu rádio. er a e lm und oe el mund undo el que que uej (Tradução de Mônica Stahel) (Tradução de Mouzar Benedito) Ao observarmos as traduções.cr h. a expressão da dor.p h. inserida no contexto de seu ambiente familiar.. etc.. No último quadrinho. na tirinha 1. que não se queixa ou reclama da situação política e social do mundo.. em seguida. de uma preposição. reproduzidas).. de uma expressão. . 1988. por mudança. ao contrário.. p.... num impulso.creí que lq ue se había q ue j a d o” . Sendo assim.. ouve uma y!” e sai em busca do sofredor da ação interjeição “¡A “¡Ay!” que desencadeou.. expressões e preposições são produzidas (isto é. é determinado pelas posições ideológicas que estão em jogo no processo sócio-histórico no qual as palavras. o sentido de uma palavra. pela ideologia socialista da época. nos determos nas palavras “re c lamand lamando itad percebemos que a opção tradutória de MB relacionase ao discurso de um sujeito afetado. encontra eí q ue seu pai com um martelo na mão e diz: “A h.. inconscientemente. simplesmente. Ao se deparar com o globo terrestre na sala de sua casa... estão inhas 2 presentes nas Tir irinhas 2. dadas as condições de produção na qual se inserem. em sua relação transparente com a literalidade do significante). vemos que a tradução de MB do primeiro quadrinho mantém uma semelhança maior em relação à forma e ao léxico da língua espanhola. mas grita como se clamasse por socorro. porém.pe nsei que er mu n do q ue esta va r eclamand o ” e a de M B qu av re do “A h.. a garotinha fantasia com a possibilidade de o mundo ter sofrido a dor. ao iq ue e ra o e nse compararmos a opção de MS “A h.a c he iq ue e ra o m und oq ue t inha g r ita d o” e h. não existe “em si mesmo” (isto é.

M B traduz os mesmos r t e-ame r icanos e os r ussos quadrinhos como “os no nor e-amer russos também estão b r avos e mesmo assim c o me rciam br co mer e nt re e les ” e “a h umanida d e não está far ta ne m da ntr eles les” humanida umanidad farta nem S usanita ne md ev o cê” nem de vo cê”. desde o fim do século XIX até o fim do século XX. que estão em confronto e. mediante um olhar discursivo sobre a língua.. eles somente o fazem para cumprir o protocolo. contudo.. Essas formações discursivas dão maior ênfase ao conflito da Guerra Fria em si. v vo estav de mal c om e la?” ela?” la?”. com um enfoque especial para o Brasil e a Argentina. para um acordo. respectivamente nos segundo e quarto quadrinhos.. e não os países subdesenvolvidos da América do Sul. o discurso e a ideologia.¿Vo estav b r avo c om e la?” co ela?” la?”. co me rciam com os russos.¿V o cê não esta da língua espanhola. “¡C “¡Co mo!.. outra estrutura nos chama r icanos e os a atenção. M S mantém uma linguagem mais clara e de fácil compreensão para seu o cê não esta va d e público alvo. pudemos propor um ensaio de análise. Considerações finais Após um breve esboço da história das Histórias em Quadrinhos. assim mesmo. Não há espaço para uma mer negociação.. por exemplo. elas r t e-ame r icanos especificam que são os no nor e-amer icanos. Enquanto MS traduz “os ame amer r ussos também estão d e mal no e ntant o ne g o ciam de entant ntanto neg e nt re si” e “a h umanida d e não está c he ia ne m da ntr humanida umanidad che heia nem Susanita ne md ev o cê” nem de vo cê”.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 181 (Tradução de Mônica Stahel) (Tradução de Mouzar Benedito) Na segunda tirinha. e MB aproxima-se mais das estruturas co va o mo!. destacamos a expressividade r te-ame r icanos ” e “co me rciam ” das das palavras “no nor e-amer icanos” mer ciam” traduções de MB MB.. de como duas . as crianças “Ué.

São Paulo: Martins Fontes.br/edicao11outubro2010/ universo-femin-hq.uol. (2002).).36.. (1992). Rio de Janeiro: Ediouro. Deste estudo é depreendemos inevitável e que a PADIAL. Mafalda 2. Discurso e Textualidade. (2011) A história contextualização constitui intrinsecamente a interpretação. em quadrinhos no Brasil: Análise. VENUTI. São Paulo: Ática. p. Heterogeneidade(s) enunciativa(s). (2006). F. BRAGA. S. Disponível em < http:// www. São Paulo: Laços. Campinas: Pontes. 43-68. (1995).br/revista/ edicao_mes. Análise de discurso: princípios e procedimentos. M. K. .com. Oficina de Tradução: a teoria na prática. (2006). evolução e mercado. QUINO./dez. Tradução de Eni Pulcinelli Orlandi. v. seja na exposição de nossas próprias idéias. 3ª ed.182 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS traduções diferentes das mesmas tirinhas da personagem Mafalda. do cartunista argentino Quino. jul. Acesso em: 14 de março. C. somos. P. p. Referências bibliográficas ARROJO. A. VERGUEIRO. pois no ato da interpretação nos posicionamos ideologicamente. PATATI. A invisibilidade do tradutor. O discurso: estrutura e acontecimento. Campinas: Pontes. Almanaque dos quadrinhos: 100 anos de uma mídia popular. QUINO. E. Tradução de Mouzar Benedito. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. (1990). (1988). W (Orgs).144-185. AUTHIER-REVUZ. Campinas (SP). Palavra. (2011). seja na escolha das palavras que utilizamos.asp?idEdicao=11&idMateriaRevista=123>. Tradução de Celene M. p. (2010). M. à relação do tradutor com o léxico e à significação das palavras em sua relação com o mundo. R. Henfil não morreu.com. E. p. Is there a text in this class? Tradução de Rafael Eugênio Hoyos-Andrade. Tradução de Carolina Alfaro. O Universo Feminino nas Histórias em Quadrinhos.111-134. A língua não é transparente – não deveríamos tratá-la de forma ingênua –. contudo. Rio de Janeiro. levados a pensar que mandamos em nossos pensamentos e temos controle de nossas formas de expressão. (1999). Tradução de Monica Stahel. R. 10 anos com Mafalda. RODRIGUES. Campinas: Editora da UNICAMP. PECHÊUX. Buenos Aires: Ediciones de la Flor. n. (Org. PECHÊUX. Tradução de Eni Pulcinelli Orlandi. somos meros sujeitos assujeitados (AUTHIEZ-REVUZ. PORTAL IMPRENSA. FISH. (1990).3. Campinas: Pontes. podem apresentar divergências quanto às concepções de tradução. (1982). S. na verdade.historiaimagem. M. (1998). QUINO. 1990) às estruturas e governados pelas ações regidas ideologicamente e constituídas dadas as relações que estabelecemos com a língua e com a história em nossas experiências de mundo. SANTOS. São Paulo: Editora Global. SANTOS.pdf >. Lawrence.. somos determinados por nossa relação com a língua e com a história e essa relação se faz no inconsciente. (1986). 10 años con Mafalda. Cruz e João Wanderley Geraldi. J. Disponível em <http:// portalimprensa. In: Cadernos de estudos lingüísticos . Acesso em: 15 de março de 2011. (19): 25-42.189-206. Alfa (São Paulo). ORLANDI.

pues. según Foucault ([1969]1995). parcial. Presentaremos algunas aproximaciones iniciales de nuestra investigación de doctorado que pretende contribuir para discutir la noción de hispanidad de aquella época y construir un archivo. vigente en el calendario oficial español y en muchos países hispanoamericanos. “entre la tradición y el olvido”.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 183 DISCURSOS OFICIALES DEL 12 DE OCTUBRE: UN DÍA CONMEMORATIVO PECULIAR Beatriz Adriana Komavli de Sánchez –UERJ PG . Los discursos conmemorativos del “Día de la Raza”. La descripción del archivo desarrolla sus posibilidades (y el control de sus posibilidades) a partir de los discursos que comienzan a dejar de ser los nuestros. vigoraron con fuerza entre fines del siglo XIX y la primera mitad del siglo XX y responden a circunstancias históricas y políticas muy particulares. nos delimita. conmemorativo del 12 de octubre. Ese vínculo exaltado con la ‘madre patria’ fue tan relevante que se plasmó en otros dominios asociados: en la educación. una vez que el régimen de enunciabilidad ha cambiado: El análisis del archivo comporta. hace con que pertenezcan a un espacio privilegiado. la práctica de construcción de un archivo con estos pronunciamientos se nos presenta como instigante y desafiadora. “Día de la Hispanidad”. (p.UFF El objetivo de esta comunicación es presentar una serie de reflexiones en torno al día festivo. Su lectura. pero diferente de nuestra actualidad. pronunciado por el entonces . una región privilegiada: al mismo tiempo próxima a nosotros. siempre fragmentado. en los posicionamientos políticos de las Academias de Lengua y Letras de América y en la política externa de aquella época. que lo domina y que lo indica en su alteridad. 150-151) (Traducción de la autora) Escogimos para esta ocasión presentar algunos esbozos analíticos del discurso de 12 de octubre de 1947. objeto de resignificaciones a lo largo del tiempo. pronunciados por presidentes o altos mandatarios de gobierno. Actualmente. de estas prácticas discursivas de la memoria pública del 12 de octubre1. se trata de la orla del tiempo que cerca nuestro presente. Esos discursos oficiales. provoca un efecto de rareza que. es aquello que fuera de nosotros. trataban de un ámbito no de objetos materiales sino de dependencias simbólicas y de parentesco. su descripción hoy.

caracterizado por Daher (2000. un abanico de relaciones posibles futuras. Se imagina y no se inventa. Para la autora. p. una especie de fraternidad horizontal que atraviesa a todos los integrantes que. p. inaugura. 86): En el género pronunciamiento político. Otra particularidad de ese discurso político presidencial es la de que el enunciador tiene garantizado por el poder del cargo empírico que ocupa el derecho al pronunciamiento – ya que su papel social así lo autoriza y legitima. Anderson (2011. Esos vínculos conforman un juego enunciativo que es preciso examinar. Orlandi (apud KARIM. 83-108) se refiere a dicho mecanismo en términos de reescritura. la estabilización del referente. sostiene que los límites del enunciado son los otros enunciados con los cuales se puede establecer un espacio de correlaciones. por el otro. 2001. Ese proceso al mismo tiempo funciona describiendo. La certeza de un auditorio en el cual se incluyen no solo los destinatarios explícitamente designados por él en su discurso. p. valiéndose de otros recursos. de sinonimia. Aquellos enunciados renegados son reformulados por . en su arqueología. diseña. Estos direccionamientos pueden ser recuperados por medio de diferentes marcas lingüísticas. Anderson afirma que en América. no reactualice otros enunciados” ([1969]1995. de lo ‘decible faltoso’. calificando. p.184 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS presidente de la República Argentina. por un lado. Esa relación no solo es posible de ser establecida con otros enunciados pasados como también condiciona. etc. Maingueneau (2008. 37) en términos de ‘interdicto’ de un discurso. aunque pueda dirigirse a muchos otros destinatarios que no sean los directamente anunciados. el enunciador acostumbra a anunciar de forma explícita a quien se dirige. en ninguna de las florecientes naciones la lengua constituyó un problema en aquel inicio (finales del siglo XVIII y comienzos del XIX) ya que los pueblos y líderes criollos tenían la misma lengua que los Foucault. de la tensión que subyace entre la paráfrasis (lo mismo) y la polisemia (lo diferente). conforman ese concepto moderno aglutinante que se materializa en prácticas. Del conflicto. y aún más: “no hay enunciado que. de paráfrasis. al mismo tiempo. la ilusión de una equivalencia entre las palabras y. surge el sentido como efecto. El abordaje teórico La visión dialógica de Bajtín y el Análisis del Discurso de línea francesa que considera los estudios enunciativos nos ayudarán a destacar algunas marcas lingüísticas de la red de filiaciones identitarias que se tejían entre la madre patria y las excolonias materializadas en los discursos oficiales del 12 de octubre. la reescritura es un mecanismo constitutivo del lenguaje que nos posibilita nominar algo o alguien de modos diferentes. creando. general Juan Domingo Perón2. 32) así define el concepto de nación. guiado por una visión antropológica: “una comunidad política imag inada – e imaginada como siendo intrínsecamente limitada y. en la medida en que tratan del mismo dominio de objetos. de una forma o de otra. p. objetos del discurso. 113). (Traducción de la autora) Contextualización del discurso En su clásica obra de referencia para los estudiosos de las ciencias sociales. sino una multiplicidad de “oyentes” es otra marca importante de esos discursos. soberana”. El género pronunciamiento es así En esta primera aproximación destacamos el proceso designativo que conforma. Ese proceso comprende estrategias de sustitución. parafraseándolo. sin conocerse.

el creciente expansionismo de los Estados Unidos en América. de entender la unidad cultural de cada nación que da lugar. que es la Cristiandad” (VALLS. la descolonización de África. aliada a la ideología de esa hispanidad se mostró muy efectiva para consolidar la fecha conmemorativa: “Se trata así de poner de manifiesto la pureza moral de la nacionalidad española: la categoría superior. p. Las guerras revolucionarias. en este caso los descendientes remanecientes de diversas comunidades indígenas. (Traducción de la autora) universalista. 268). En ese sentido es coincidente con S. también. 16-17) apunta que. Para tal. El castellano.. En el caso específico de Argentina que nos interesa. Conflictos internos en España postergaron la definición de una fecha conmemorativa nacional hasta que las celebraciones por el IV Centenario del Descubrimiento de América en 1892. apud TATEISHI. Ese vínculo familiar garantizaba que. la constitución de nuevos bloques económicos (UE y Mercosur). así califica a esta conmemoración “fiesta imposible de la nación española”. cuyo propósito era recuperar un prestigio perdido. el presidente Hipólito Irigoyen.Fue justamente el hecho de compartir con la metrópolis la misma lengua (y también la religión y la cultura) que había posibilitado las primeras creaciones de imágenes nacionales (p. Grupos enteros que habían permanecido en el olvido. aun así eran tranquilizadoras. fiesta imperial. entre las exmetrópolis y las nuevas naciones (p. lazos culturales. p. la fiesta de 12 de octubre en España no se encajaría en ninguno de los dos tipos señalados en el párrafo anterior. Una fiesta compartida puede cumplir esa función de afianzar. ahora estimadas como ‘hijas’ bajo un nuevo prisma de política la externa. Cristina Kirchner. fuera posible reatar íntimos lazos culturales. hecha por la Unión Ibero-Americana en 1912. en la segunda mitad de ese siglo. la fecha fue redesignada como Día del Respeto a la Diversidad Cultural3. el proceso de globalización y los movimientos migratorios. s/d). entre otras. siguiendo a Tateishi (2005). p. de nuestro espíritu imperial. Recientemente. monolítica. luego la pérdida en 1895 de Cuba y de Puerto Rico en 1898. de la Hispanidad. si es imposible para España. Tateishi (2005. 2005. de adoptar la fecha del 12 de octubre como Día de la Raza fue acogida rápidamente por muchos gobiernos. y a veces políticos y económicos.) defensora y misionera de la verdadera civilización. en la medida en que eran guerras entre parientes. lengua vernácula. 2003. Juliá (1990) que en su artículo Vieja nación. fue impuesto a los indígenas americanos en los dominios de la corona española. (. Si es imperial. excolonias? En América la propuesta. la madre patria recorre a su pasado exaltándolo. el intento fracasado en el norte de África y los regionalismos internos aceleraron la necesidad de reatar lazos con las excolonias americanas. ese proceso fue motivado por: la disgregación de la Unión Soviética. .... 1999 e ABÓS. A propósito de las fiestas nacionales. Para entender lo que ocurrió en ese período de tiempo es menester considerar que hasta mediados del siglo XX predominó una manera única. al multiculturalismo.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 185 excolonizadores. por más duras que hayan sido. y la que celebra la nación moderna a partir de la ruptura con el pasado”. 262). Heymann (2007. Sin embargo la festividad solo gana estatuto legal el 9 de enero de 1958. después de un cierto período de resentimiento. La coincidencia de la fecha con el día festivo religioso de la Virgen del Pilar. Según el mencionado autor. por el decreto 1584/2010 sobre feriados nacionales y días no laborables de la actual presidenta argentina. ¿cómo calificarla para las naciones de lengua española. en escala mundial. el 11/10/1917 publica un decreto declarando el 12 de octubre fiesta nacional dedicada a la raza. s/d) apunta dos tipos de celebraciones de la memoria pública: “la que insiste en la continuidad de la nación desde el pasado histórico.

su vida triste. por los siglos de los siglos. prototipo católico. para conformar su entramado. merecedores de muchas críticas. la raza. (8) Cervantes. Cervantes –el prototipo del español. (10) La revolución y las almas. un dicho.(10). de las designaciones correspondientes a Cervantes. el más grande de los escritores castellanos. Discurso de las armas y de las letras de Cervantes. Los números entre paréntesis indican los subtítulos en los que se encontraron tales designaciones. le siguen dieciséis tópicos cuyos subtítulos. (5) Porvenir enraizado en el pasado. aprovechando la proximidad supuesta del nacimiento del homenajeado (entre el 29/9 y 9/10/1547) y conmemorar el Día de la Raza. su universalidad (6). su propio dolor físico y espiritual. (4) España rediviva en el criollo Quijote. Consideramos entonces que es ese nuevo régimen de enunciabilidad el que nos posibilitará la descripción del archivo en cuestión. la inmortal figura de Cervantes. Persiles y Sigismunda. Menéndez y Pelayo. Weber. sus compañeros de esclavitud. (6) Entraña popular cervantina. (9) Inteligencia y milicia. la universalidad de Cervantes. (12) América y España: identidad pacifista. o indirectamente. una recolección. el glorioso manco de Lepanto. otras voces comparecen de manera más o menos explícita. Como en todo discurso. aquí numerados son: (1) Espíritu contra utilitarismo. Ortega y Gasset. A lo largo del pronunciamiento son hechos comentarios sobre la obra Don Quijote de La Mancha así como también hay réplicas a los detractores internos y a las potencias extranjeras enemigas (expansionismo de los Estados Unidos y el avance de la Unión Soviética en Eurasia). Son ellas: la reina Isabel (Nueva Recopilación de las Leyes de Indias). Presentamos a seguir. su prosa …fina. CERVANTES: el grande hombre. dolorosa.… una riqueza tal de vocablos. su vida. de hecho. (15) Transformación del mundo y (16) Resurrección del Quijote .y Argentina mantuvieron vínculos políticos muy estrechos. A la introducción del extenso discurso de 13 páginas. La Galatea. (11) Grandeza de España. 10/7/44 y 24/11/44). (14) Argentina es libertad. código del honor y breviario del caballero. (3) América: empresa de héroes. el título del discurso es Homenaje a Cervantes 4. España. magistral. Se hace preciso aclarar que en aquella época. un deber moral de reconocer múltiples identidades. (2) La raza: superación de nuestro destino. el prototipo del caballero católico. Argentina. directa . su palpitación humana. el misterio y la magia de Cervantes (9). España – bajo el régimen del General Francisco Franco . decreto del presidente Irigoyen de 1917. su indómita inteligencia (8). espejo y paradigma de su raza (1). Crónica General de Alfonso el Aproximaciones al discurso del 12 de octubre de 1947 La sesión fue realizada en la Academia Argentina de Letras con el doble objetivo de rendir homenaje al cuarto centenario del nacimiento de Miguel de Cervantes. el inmortal complutense. un notable cervantista inglés (s/d). el genio máximo del idioma. (7) Conciencia social de Cervantes. genio auténticamente español. otros discursos pronunciados por Perón (8/6/44. pozo de sabiduría y. Renán. 6 Sabio. un versículo de Job. su obra. el inmortal alcaíno. Diario de Madrid (1788). la más alta expresión de las virtudes.186 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS lucharon por sus derechos y reivindicaron su lugar en la memoria ahora transformada en valor. Madariaga. su honda vivencia espiritual y su suprema gracia hispánica (5). un escritor contemporáneo (s/d). (13) Paz y justicia social. la sencillez de su estilo. a tal punto que en 1946 las dos naciones firmaron el Convenio Comercial y de Pagos por el cual Argentina fornecería cereales a España5. de raíz hispana. la hispanidad y la lengua. no exhaustiva. con genial previsión (7). estrecha. la perennidad del Quijote.

el pensamiento inspirador de sus grandes estadistas (12). civilizadora.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 187 ESPAÑA: la Patria Madre. la mejor ejecutora de la raza. debe resucitar don Quijote y abrirse el sepulcro del Cid Campeador. unidad de cultura y unidad de destino. los valores espirituales. quijotesca) (13). valores y creencias. Una vez más nos deparamos con un ámbito semántico difícil de delimitar. la levadura de su sangre. el ideal hispánico-ascético. vínculos de idioma. la flor de la caballería. eterna. para (re)crear una historia. estas identidades. Perón cierra el discurso haciendo una exhortación que no podíamos dejar de traer: Como miembros de la comunidad occidental no podemos sustraernos a un problema que. que bajo determinada coyuntura se proyecta para un presente y un futuro y así hacer frente a las grandes transformaciones sociales en el panorama mundial de aquella época. su empresa. fecunda. su maternal regazo. Se rescatan fragmentos del pasado de España. la ascética grandeza ibérica y cristiana (5). acaso resignado. la universalidad de lo español (9). la más prodigiosa acumulación de incitaciones ideales. este sentido primario de la justicia (11). la patria. más que nunca. iguales a ella en su esencia y naturaleza (3). la pasión patriótica. Una figura emblemática ha llamado nuestra atención.… un desbordamiento de pasión. de historia. distintas a la madre en su forma y apariencia. un afán pacifista. la madre España. esta imposición del destino (5). sus hijas (3). ya los oponentes son considerados utilitaristas. un rosario de heroísmos. su gloriosa trayectoria histórica. unidad de origen. de no resolverlo con acierto. el éxito de nuestra política exterior (idealista. LA LENGUA: el idioma más hermoso de la tierra (2). Esta hispanidad se alinea al espiritualismo. un patrimonio cultural acumulado durante siglos (16). la riqueza espiritual. su sangre. única en el mundo. interpretada como destino. ‘la ventura de todo afán justiciero’ y ‘el sabor de “jugarse por entero”’. el signo de una auténtica misión (2). sus más sublimes proporciones (la vertiente hispánica de la cultura occidental y latina) (4). isla de paz (1). la más prodigiosa acumulación de incitaciones ideales (9). una empresa universal. nuestro origen y nuestro destino. tan noble tronco (1). valor incorporado y absorbido por nuestra cultura. esta filiación (4). una herencia inmortal (4). la magnitud de su empresa. por esta grandiosidad y por esta fuerza. marcados por el signo de una misión cristiana. un estilo de vida (2). el sentido misional de la cultura hispánica. los únicos valores eternos (10). de religión.…el más puro y elevado. una comunidad de ideas e ideales. la armonía de su lengua (4). empresa universal. LA RAZA: algo puramente espiritual. Hoy. de cultura. el ascetismo y la espiritualidad. LA HISPANIDAD: el heroísmo y la nobleza. nuestra . En varios momentos hay como una superposición entre los valores adjudicados a los diversos objetos de discurso. los pueblos de la hispanidad. una suma de imponderables. de sacrificios y de ejemplares renunciamientos. ARGENTINA: coheredera de la espiritualidad hispánica. su más calificado blasón. estoico. nuestro sello personal indefinible e inconfundible. el sentimiento patriótico español (11). ese orbe espiritual. magnífico aporte a la cultura occidental. su obra civilizadora. nos referimos a la curiosa designación ‘quijotes de nuestras pampas’ (1) en la que se condensan la figura del Quijote y la del gaucho para predicar los rasgos en común valorizados: ‘el riesgo por el bien’. nuevo Prometeo. la verdadera unidad espiritual de los pueblos hispanos. puede derrumbar un patrimonio espiritual acumulado durante siglos. lo español.

En: Oralità e Memoria. 2-8. La Academia Argentina de Letras y el peronismo (1946-1956). www. (2000): Discursos presidenciais de 1o de maio: a trajetória de uma prática discursiva.com/diario/ 1990/07/19/internacional/648338411_850215. Luciana Quillet (2007): O devoir de mémoire na França contemporânea: entre memória. 2 da reimpressão. política e cultura. FOUCAULT. . Denise Bottman. G.html (consulta realizada el 08/04/2012). DAHER. São Paulo : Librería Española e Hispanoamericana . que se aparta de la definición genérica dada por el diccionario7. Mario Miguel (2005): Hispanidad e Hispanismo para profesores brasileños de Español. Mara (2008).es/exterior/br/ es/publicaciones/XI_congreso.biglobe. HEYMANN.188 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Consideraciones finales Estas primeras aproximaciones se mostraron muy productivas por revelar los valores adjudicados en aquella época a la noción de hispanidad. Hirotaka (2005): Estado–nación y fiesta nacional. a partir de la segunda mitad del siglo XX. p.pdf. (2001): Significação –Da História ao nome Israel e Palestina na Folha de S. SP: Parábola. 59-71). Campinas. En definitiva. Actas del XI Congreso Brasileño de Profesores de Español. 15-43. En: XI Congreso Brasileño de Profesores de Español. Tese de doutorado em Lingüística Aplicada ao ensino de línguas. MT: Unemat. El advenimiento del multiculturalismo.): Direitos e cidadania –memória. Consulta realizada el 26/01/2012. 2008) y que rescata valores vigentes en la Castilla del siglo XV. GLOZMAN. Taisir M. Rio de Janeiro: Forense Universitária.ne. se observan marcas lingüísticas de un movimiento político-cultural que surge a fines del siglo XIX bajo el signo del conservadorismo (GLOZMAN.jp/~hirotate/ hiro-es/art-hiro/hiro-4. . Cagliari: Arxiu de Tradicions . Santos (1990): Vieja nación. Referencias bibliográficas MAINGUENEAU. legislação e direitos.Casa del Lector. podríamos decir que desacraliza una visión de lengua monolítica que se ajustaba a esa formación ideológica. 129-144. En consonancia con González (2005). fiesta imperial. TATEISHI. 2007. São Paulo: Pontes. Disponible en: http://elpais. 19-7-1990. Maria C. Cáceres. Disponible en: http://www7a. pp. Em: Sociedade e Discurso. KARIM. En: GOMES. Tateishi (2005) especifica más aún y afirma que “(la hispanidad) era un concepto íntimamente ligado al nacional-catolicismo del régimen franquista”. p.htm (última consulta realizada el 25/06/2012). Trad. F. JULIÁ. história. Paulo. Dominique (2008): Gênese dos ANDERSON. São Paulo: Companhia das Letras. noción que puede ser confundida con la de hispanismo y con la que mantiene parentescos. En: anclajes XIII. p. Angela de Castro (coord. 4ta ed. Benedict (2011): Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. Salvador. La fiesta del 12 de octubre parece haber servido de pasquín para una determinada coyuntura histórica y política. Jornal El País. discursos.educacion. a cura di Joan Armangué i Herrero. PUC-SP. Michel ([1969]1995): A Arqueologia do Saber. Rio de Janeiro: FGV. GONZÁLEZ.

Se encontraban también presentes el embajador de España. sin los contenidos de los subtítulos (6) al (15). Departamento Colecciones Especiales. Dada la extensión del discurso no lo presentamos en anexo.gov. Conjunto y comunidad de los pueblos hispánicos. don Arturo Marasso. académicos. .cervantes. Juan D.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 189 Notas 1 Título provisorio de la tesis: Discursos oficiales del 12 de octubre: ¿Raza. 3 4 www. Discursos Gral. carpeta No 11.ac. etc. representantes de instituciones culturales y universitarias. 5 6 http://www.il/eial/I_1/rein. 22da ed. miembros del Cuerpo Diplomático y Consular. http://cvc.ar Consultado el 26/01/12. 7 Diccionario de la Lengua Española (RAE). ministros. Carácter genérico de todos los pueblos de lengua y cultura hispánica. Daher –UFF. Consulta realizada el 28/1/2012. Además discursaron el señor presidente de la Academia Argentina de Letras. aclarando que faltan los subtítulos (1) y (8).htm Consultado el 6/4/2012. 2. don Carlos Ibarguren y el Académico de Número. enviados especiales. Perón.boletinoficial. G. También alertamos que en otros sitios investigados el pronunciamiento figura incompleto y sin aclaraciones. 1947.: 1.tau.htm. 2 Biblioteca del Congreso de la Nación. Para su versión completa remitimos al lector al sitio del Centro Virtual Cervantes.es/literatura/quijote_america/argentina/ ibarguren. Hispanidad o Resistencia indígena? Orientadora: Dra Maria Del Carmen F.

DEMONTE. No presente estudo. p. para o português. na Gramática descriptiva de la lengua española (BOSQUE. considerando a noção de “naturalidade” como aquelas “coisas que de fato são ditas numa dada área de uma dada língua ou variante linguística” (TAGNIN. Isso fazia com que o produto das traduções desses sujeitos soasse. na Gramática de usos do português (NEVES. fundamentalmente nas chamadas orações subordinadas adverbiais temporais. intuitivamente. O primeiro passo no sentido de comprovar essa intuição. 2003) e na Gramática descritiva do português (PERINI. 1996). TEIXEIRA.Universidade de São Paulo estudo se desviavam do padrão de frequência normal de seleção de infinitivos ou subjuntivos dessas construções em português. principal. e nas orações subordinadas adverbiais finais. mas não somente. buscamos sistematizar. constatamos uma grande proximidade entre o texto meta e o texto fonte. de uma perspectiva gramatical. de forma comparada. 2004. que as construções utilizadas naquele orações são descritas. com “quando/cuando” e “até/hasta”. pouco natural. par tindo de alguns casos que serão analisados em nossa pesquisa de mestrado e com base em gramáticas e trabalhos que abordam tais estruturas. 315).190 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS SUBORDINADAS TEMPORAIS E FINAIS EM PORTUGUÊS E ESPANHOL: QUESTÕES DE CONTRASTE E EFEITOS PARA A TRADUÇÃO Bruna Macedo de Oliveira 1 PG . 2 As subordinadas adverbiais temporais: comparações entre “quando/cuando” e “até/hasta” . seria verificar como tais 1 Introdução A partir da observação de um corpus de traduções de receitas feitas por treze aprendizes brasileiros de espanhol como língua estrangeira (E/ LE). para o espanhol. com “para/ para”. as informações normativodescritivas levantadas para o português e para o espanhol. 2000) e em Construcciones temporales (MARTÍNEZ GARCÍA. no que se refere à seleção dos tempos e modos verbais que se seguiam a essas estruturas. em ambas as línguas. 1998) e.

fornecendo-nos informações sobre o momento em que começa e/ou termina o evento verbal. Em língua portuguesa. o conector “ cuando ” não admite. apresenta um sujeito e possui flexões de número e pessoa (3). de acordo com Perini. “a análise das construções temporais pode ser representada pela análise das orações iniciadas pela conjunção ‘quando’”. (5a) Juan se quedó hasta las tres. se o que se pretende é uma expressão de eventualidade. como indica Martínez García (1996. presentes ou habituais) e com subjuntivo quando se referem a contextos posteriores e não factuais. p. espa espaciais presente a ideia de um limite. (3) Junte a cebola e o alho e cozinhe até estarem macios.3198-3199) explica que há uma segunda hipótese relativa a esse conector em língua espanhola. No caso da preposição “até”. ou seja. (5b) Juan no llegó hasta las tres. Um fator importante. O infinitivo flexionado. especialmente na correlação temporal do modo indicativo. .ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 191 A oração subordinada adverbial temporal compõe um período composto. em geral.38). só será possível na subordinada o uso do imperfeito do subjuntivo (2a) ou do presente (2b): (2a) Junto con la patata cortada echamos el pimentón y cuando estuviera sofrito echamos el agua. na subordinada em língua espanhola. A preposição “ hasta ” também se constitui como um nexo de tipo delimitativo. quando o referido na oração principal se orienta ao futuro. suas condições de concordância são distintas das dos demais tempos e as intuições dos sujeitos sobre quando utilizá-lo são muito menos seguras do que para os outros tempos verbais. (4b) Sove bem a massa até dar o ponto. p. ao contrário do infinitivo impessoal existente nas línguas românticas. As orações introduzidas por “ cuando ” em língua espanhola se comportam de maneira análoga ao restante das orações temporais. a presença de formas verbais futuras. Esse conector admite verbos tanto no modo finito quanto na forma infinitiva. podendo ou não aparecer flexionados. no que se refere ao infinitivo flexionado. (4a) É um caminho progressivo até chegar ao pódio olímpico. “quando” será acompanhado de futuro do subjuntivo (1)2. segundo a qual não existiria um. por ser ela uma das mais produtivas em língua portuguesa. García Fernández (2000. é que. (2b) Cuando enfríe. é um caso especial existente apenas em língua portuguesa. pois. de acordo com Neves (2003. 2000). Ilari et al (2008) explicam que se localiza entre as menos gramaticalizadas do português. constituído por uma oração principal (nuclear ou matriz) e uma temporal que tem o papel de situar ou delimitar cronologicamente o evento da oração principal (PÉREZ SALDANYA. (1) Quand o ferver. A preposição “até” estabelece relações de dois o r ais (4b). p. como em (5b)). um ponto final cujo início se pressupõe. Contudo. Diferentemente do que acontece em língua portuguesa. desligue e deixe esfriar. Quando segundo a concordância estabelecida em cada caso. aparecem com indicativo se designam eventos factuais (passados. segundo Perini (1998). em que está ciais (4a)3 e t e mp mpo tipos. como em (5a)) e outro de lo localização p o nt ual (que situaria o momento em que o evento ntual ocorre. de modo que. extraer la rama de vainilla. mas dois tipos de “hasta”: at i v o (que apontaria o limite final de um um d ur urat ati calização intervalo.787).

o que comprovaria a dupla natureza. não encontra explicação natural se considerarmos a existência de um só “hasta”.501). e ii) com sujeito distinto do da oração principal.889): Como havíamos assinalado ao tratar da temporal com “até”. par para subordinada tiver o mesmo referente de qualquer outro membro da oração principal. 2003. p. como dispõe o referido autor (ibidem. as orações finais introduzidas pela preposição “para” seguida de “que” e um verbo no subjuntivo (modo finito) são aquelas que apresentam um sujeito distinto da oração principal (8). p. (7a) No pararé hasta no haberlo conseguido. segundo Bechara (1999. as finais encontram sua representante máxima na preposição “para”. No caso de “hasta ” pontual. oração principal. p. caso em que o infinitivo pode ou não. (6a) Cantó la escena final de Salomé hasta perder totalmente su voz. o objetivo. (8) Leve(suj1) ao fogo par a que as batatas(suj2) fiquem para bem douradinhas. O primeiro diria respeito ao fato de que alguns gramáticos observaram que essa preposição não se comporta da mesma forma em contextos afirmativos e negativos. (7b) No me habló hasta no haber llegado al teatro. em que ambas as sentenças são gramaticais. esse não seria o caso das orações finais. ambos extraídos de Neves (2003: 886). (11) Comprou oito hectares(obj. Segundo Neves (2003. essa possibilidade se limita a alguns casos nos quais há uma relação de consequência entre a oração subordinada e a principal (6a). caso em que é mais comum o infinitivo aparecer flexionado.886-887). Na presença de “ hasta ” durativo. para fazer a concordância com o respectivo sujeito (10). de uma forma geral. que só se constroem com subjuntivo ou com a preposição “para” seguida de infinitivo. não existiria a mesma restrição. Tal diferença. aparecer flexionado (9).192 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS García Fernández destaca que tal proposta não estaria livre de problemas. “expressam a intenção. o infinitivo flexionado. por suas . As orações formadas pela preposição “para” seguidas de verbo em infinitivo. 3 As o r ações s ub o r dina das finais: o caso d e or sub ubo dinadas de “par a/p ar a” para/ ara (10) Convém. a finalidade do pensamento contido na sentença matriz”. a flexão para indicar o sujeito da final é desnecessária (NEVES. Entretanto. as orações adverbiais constituem exemplos de orações construídas com indicativo e subjuntivo. direto) em Arraial do a servir de base à criação de gigas. embora haja dois pontos a seu favor. mas sim se houvesse dois. para concordar com seu sujeito. subdividir a própria a melhor apreendermos a sua contabilidade. podem construir-se: i) com sujeito idêntico ao da (6b) *Cantó la escena final de Salomé hasta bajar al mercado. os animais foram a serem/ser colocados um a um em canoas par para levados até o cativeiro natural. tal relação não está prevista. por outro lado. atualmente. par para finalidade e avaliarmos a sua extrema importância na administração. quando o sujeito da oração Da mesma forma que as temporais podem ser representadas por “quando”.3. Essas orações são formadas por uma oração principal (nuclear ou matriz) e uma oração final que. Castilho (2010) explica que. Cabo. como se nota em (7a e 7b). (9) Na base em Maranguape. p. Em casos como (6b). No entanto. O segundo baseia-se na possibilidade de que dito elemento seja seguido por uma oração de infinitivo.201).

do ponto de vista do nível em que estão construídas. apesar de não contarem com advérbio. p. como (17). .3308). de maneira que. se a opção se der em favor da primeira. mas um objetivo. que p. que a correferência se dê entre os sujeitos. (14) Par a dizer a verdade. e subjuntivo quando os agentes não sejam os mesmos (16). ao explicar que é desnecessário.3629). exemplos como (11) mostram que a escolha pela forma flexionada ou não do infinitivo é. As orações finais podem ainda. a oração subordinada geralmente aparece em infinitivo. Embora as possibilidades de manifestação do fenômeno dependam de traços semânticos e sintáticos do verbo principal. e i i ) as que rc e modificam o próprio ato linguístico. p. não sei o que se passa na ara cabeça do Rei. em muitos casos. ara O uso do subjuntivo neste caso justifica-se pelo traço de intencionalidade que marca a oração subordinada final e porque esta não exprime nenhum fato. Neves (ibidem) explica que. Porto Dapena (1991. p. a rascar y cortar las (18) Este tipo de azada sirve p ar ara malas yerbas. de acordo com Pérez Saldanya (2000. como expõe Perini (1998). Essa afirmação é corroborada por Galán Rodríguez (2000. p. Nesses casos. um evento virtual. o infinitivo flexionado.3310). que indicam o propósito ou a intenção pela qual um agente realiza o evento expresso na oração principal. Para Cunha e Cintra (2001). as orações finais podem ser de dois tipos. segundo Pérez Saldanya (2000. como (19). Segundo Porto Dapena (1991. Galán Rodríguez (2000. ambos os exemplos extraídos de García (1996. será necessariamente posterior ao designado pela oração principal. mas a um sujeito genérico ou indeterminado. Galán Rodríguez (2000. a d v e r b iais d de e n unciação (14): ( 1 3 ) Esboçou um movimento p a r a seguíssemos em frente. utilizar-se-á obrigatoriamente infinitivo quando os sujeitos têm o mesmo referente (15). se chegar a ser produzida. p. Para a língua espanhola. p.3621) assinala que os traços semânticos que exprimem a finalidade têm um claro reflexo sintático. essa eleição depende da evidência dada à ação ou a seu agente.209-210) acrescenta que há situações em que o infinitivo será utilizado mesmo quando os sujeitos das duas orações não forem os mesmos. cuja realização. Existem. ocupa um lugar marginalizado na sintaxe de nossa língua. adver biais cir c u n s t a n c i a s (13).ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 193 características bastante particulares. mais optativa do que obrigatória. p. nos quais se referem à ideia de objetivo como utilidade. de forma que o (17) Esta cuerda servirá p ar a mantener sujeto el ara paquete. será utilizado o infinitivo não flexionado e se a opção se der em favor do segundo. dois tipos de orações finais: as propriamente ditas. seja porque não diz respeito a nenhum sujeito concreto. como em (18).209) nas orações finais. aparecer em contextos sem agente.3625) expõe que as orações finais foram incluídas nas chamadas adverbiais circunstanciais em razão de que a finalidade expressa por elas enuncia uma circunstância. distinguidos de acordo com seu comportamento sintático: i ) as que ligam o conteúdo proposicional da oração principal. ara (16) Juana canta p ar a que nos alegremos. e as que têm r basicame nt ec o nse cu t i vo . (15) Juana canta p ar a alegrarse. seja porque o sujeito da oração subordinada coincide com um argumento da principal. em tais orações. ou p u r a s s. um v alo alor basicament nte co nsecu cut Com relação aos tempos e modos verbais que acompanham as finais.74).

Não obstante. diretamente. utiliza-se um verbo na forma pessoal. enfatizamos principalmente as tipologias adotadas em cada uma das línguas. . Isso ocorre porque. ‘“ ara yo) a la feria.75). Se os sujeitos não são correferenciais. segundo tipologia trazida à luz por at i vo . como de tipo d ur urat ati evidente nelas a ideia de consequência entre as duas orações. O modo subjuntivo. no gênero receita. = yo) mi coche p ar a ir (suj. em que não se pode considerar a final como de tipo “pura” por não haver um sujeito pessoal (+humano) na oração principal. 2000. além do sujeito do verbo (no caso de este ser também o agente). essas construções poderiam ser identificadas como de tipo (22) Los corresponsales fueron convocados a una a que informasen correctamente rueda de prensa p ar ara a sus agencias y periódicos. (24) Haz los deberes p ar a que mañana no te riña el ara profesor.3634). No caso das finais com “para/ para ”. 4 Orações subordinadas adverbiais temporais e finais estudadas: contrastes e efeitos para a tradução Tomaremos. A partir da comparação efetuada. o futuro do subjuntivo. a situação geral também sofre ligeira alteração. em que a ação da oração dependente só se cumprirá se a ação contida na principal também realizar-se. neste item. de maneira geral. p. em especial quando: i) o verbo principal é passivo. e i v) a oração de <para que + subjuntivo> denota a atitude do falante (GALÁN RODRÍGUEZ. para indicar eventos orientados ao futuro. embora se entenda como uma ação que alguém realizará. como em (21) 4 . há duas possibilidades para o emprego de verbos nas construções temporais iniciadas por “cuando”: o de imperfeito do subjuntivo e o presente do subjuntivo. ii) os sujeitos designam entidades inanimadas e não aparece na oração principal um agente explícito. se há correferência entre os sujeitos. estaria previsto com “quanto”. As estruturas com “até/hasta” encontradas em o r al e poderiam receitas exprimem uma relação t e mp mpo ser classificadas. tanto o infinitivo quanto a forma pessoal (ambos em 25) são possíveis. já que é García Fernández. aparecerá nas situações em que há dois agentes distintos. p. a alternância entre infinitivo e um verbo na forma finita pode ser modificada. em alguns casos. o complemento direto é suscetível de ser correferencial com o sujeito do infinitivo (23) (GARCÍA. Quando o verbo da oração principal está no imperativo. para realizar a mesma relação de sentido. 1996. poderá ocorrer com agentes idênticos (22)5 . principalmente. (21) Esto servirá p ar a que nos dejen en paz durante ara una temporada. pudemos observar que no uso moderno da língua espanhola. iii) o verbo principal está modalizado. (23) Los jefes lo enviaron a Madrid p ar a hacer unas ara gestiones. aos casos que serão objeto de estudo em nossa pesquisa.194 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS agente que executa a ação pode manifestar-se em um complemento direto ou indireto. (19) Le presté (suj. Nas situações em que o verbo apresentar um complemento direto referido a pessoas. Em língua portuguesa. a mandarla hoy / p ar (25) Escribe la carta p ar a que ara ara la mandes hoy. como (20). ( 2 0 ) Llama a la enfermera p a r a levantarte ra (enfermera-tú). Nas receitas. aquelas informações que dizem respeito. com subjuntivo (24).

pode configurar-se como um importante parâmetro de análise na classificação das orações finais das receitas de nosso corpus. Em língua espanhola. 33% dos casos seguidos de infinitivo e com “hasta”. Parece existir. p ar ara 5 Considerações finais (27) El aceite sirve p ar a que no se peguen las láminas ara de lasaña.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 195 cir cunstancial (segundo classificação de Neves). en porciones. (28c) Prepárala en un gran molde cuadrado y córtala a tener unos deliciosos pasteles. No gênero receita. devido à possibilidade de não concordância (não flexão) com o sujeito. em língua portuguesa. em que fica clara a característica semântica de agentividade e prospectividade. rc onse cu t i vo . abordada por Pérez Saldanya. (26). por exemplo. em língua portuguesa. quanto com infinitivo. algumas mais e outras menos frequentes em seu uso. em língua portuguesa. o que pode corroborar a afirmação de Perini (1998) sobre a insegurança dos falantes com relação ao emprego dessa estrutura. para o uso de infinitivo e subjuntivo nas estruturas subordinadas com um caráter prospectivo. (26) Par a conseguir una textura más delicada. Observamos ainda que a grande maioria das construções finais com “para” (89% do total) e das temporais com “até” (80% do total). ou que há dois sujeitos distintos e a correferência se dá entre o objeto direto da oração principal (as batatas) e o sujeito da final (as batatas). como em (28c). não resulta pouco incomum. verificamos que. são seguidas de infinitivo. só 2% do total de orações eram seguidas de infinitivo flexionado. sem agente ou com um sujeito e de v alo alor co nsecu cut não humano. Isso pode evidenciar a natureza flutuante do infinitivo em português. parece ser mais provável quando o sujeito da primeira oração se mantém na oração dependente. quando for possível a correferência com qualquer um dos termos. podemos supor que vo cê leva o sujeito de “levar” é o mesmo de “assar” (v ao forno para v o cê assar). podemos dizer que parece haver. Não se constatou o mesmo comportamento nessas estruturas em língua espanhola: encontramos. três possíveis escolhas na tradução para língua portuguesa. com “para”. com predomínio de correferencialidade com o objeto direto. com agente humano. especialmente nos casos de “até/hasta” e “para/para”. já que ambas podem ser construídas tanto com presente de subjuntivo (28a). (28a) Vá virando os cubinhos conforme vão a q ue fiquem com um dourado por dourando par para igual. será eletiva. lev para Em (28b). apesar de o infinitivo ser possível nas duas línguas em caso de correferencialidade com outros (28b) Embrulhe as batatas em papel alumínio e le v e ao forno par a assar(em) por cerca de 1 hora. lo ara podemos pasar por el pasapurés. as subordinadas finais com “para” parecem funcionar de maneira análoga às temporais com “até”. Numa breve observação de um corpus de receitas coletadas da internet e escritas originalmente nas duas línguas. em língua portuguesa. apenas 18%. A circunstancial as divisão entre finais pur puras as. Esta última hipótese. em geral. Com base no cotejo gramatical aqui realizado. (27). Embora esta pareça ser uma hipótese estranha. um leque um pouco mais abrangente que o verificado em língua espanhola. Embora seu uso esteja igualmente previsto quando haja . Esses dados podem indicar que. seja ele flexionado ou não (28b). correferencialidade com qualquer dos termos da principal. não parece ser possível utilizar infinitivo nas subordinadas finais em todos os casos indicados para a língua portuguesa.

por fim. Madrid: Espasa. V. GARCÍA FERNÁNDEZ. H. houve predominância de estruturas com subjuntivo.. 2. p. DEMONTE. S. São Paulo: Contexto. NEVES. V. C. (2003): Gramática de usos do português.196 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS termos da oração principal. Em: ILARI. L. I. (2000): Los complementos adverbiales temporales. (2000): La Subordinación Causal y Final. 787-801. M. F. (dir. Em: BOSQUE. Vol. comparar o que neles encontrarmos com as descrições gramaticais efetuadas e. Os dados das traduções dos aprendizes referidos na introdução parecem ir na contramão dos números iniciais obtidos nos corpora de receitas escritas em português. GARCÍA. T.. ed. CINTRA. realizar um cotejo de ambas as análises com o produto das traduções que serão feitas por outros estudantes brasileiros de E/LE. p. dos quais apresentamos aqui apenas uns poucos dados quantitativos. I. Madrid: Espasa. (2010): Nova Gramática do Português Brasileiro. realizar um tratamento mais acurado desses corpora de receitas. nos textos finais por eles traduzidos. São Paulo: Editora UNESP. CASTILHO. MARTÍNEZ GARCÍA. V. tanto nas temporais com “até” como nas finais com “para”. M. como ocorria no texto fonte. GALÁN RODRÍGUEZ. e ampl. rev. La subordinación temporal. Vol. Classes de palavras e processo de construção.) Gramática do português culto falado no Brasil. Madrid: Arco/Libros. (2001): Nova gramática do português contemporâneo. Gramática Descriptiva de la Lengua Española. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 3129-3207. (1996): Construcciones temporales. (1996): Las expresiones causales y finales. p. L. II. 2. Vol. DEMONTE. et al. I. Madrid: Espasa. (2000): El modo en las subordinadas relativas y adverbiales. apesar de semelhantes em determinados casos. E. 3253-3318. Gramática Descriptiva de la Lengua Española. 3621-3642. Em: BOSQUE. no que se refere ao emprego de infinitivos. 3. a distribuição desses usos não ocorra numa mesma medida. M. H. 760-763. Campinas: Editora da UNICAMP. agora. nem sempre parecem coincidir nas duas línguas e no gênero tratado e. Madrid: Arco/Libros. mais detidamente. H. PÉREZ SALDANYA. BECHARA. p.. p.) Gramática Descriptiva de la Lengua Española. (2008): A preposição. (orgs. CUNHA. ILARI R.. (1999): Moderna gramática portuguesa. DEMONTE. Referências bibliográficas . A. Em: BOSQUE. Rio de Janeiro: Lucerna. C. poderemos observar como (e se) nossos sujeitos farão uso de todas essas possibilidades que. NEVES. como se dá nesse gênero e na tradução a questão da correferencialidade nas duas línguas. Assim. V. R. 37. p. M. 884-893. já que. 338-381. Resta-nos.. e se haverá diferenças significativas no uso dessa forma nominal nas estruturas com “até/hasta” e “para/para”. M. L.

(1991): Del indicativo al subjuntivo: valores y usos de los modos del verbo. A. Os exemplos a seguir.125-179. 199-206. PORTO DAPENA. Em: TradTerm.3. Madrid: Arco/Libros. sempre que não especificada outra fonte. p. 10. São Paulo: Ática. S. Notas 1 2 Bolsista Fapesp. O. TAGNIN. 292-297. A. (2004): Linguística de Corpus e Tradução Técnica – Relato da montagem de um corpus multivarietal de culinária.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 197 PERINI.209). v. . FFLCH/USP. São Paulo. M. p. TEIXEIRA.unb. foram extraídos de receitas culinárias obtidas em sites (brasileiros e espanhóis) da Internet. E.310). 313-358. J.br/campusonline/esportes/item/2329-brasilienses-rumo-aop%C3%B3dio-ol%C3%ADmpico 4 5 Exemplo extraído de Pérez Saldanya (2000.. p. (1998): Gramática descritiva do português. E.fac. 3 Exemplo extraído de http://www. Exemplo extraído de Porto Dapena (1991. p.

como deixa bem claro Silva (2000). ao reconhecer a sua identidade.198 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS O TEMA TRANSVERSAL DA PLURALIDADE CULTURAL E SUA RECONFIGURAÇÃO NOS LDS DE LÍNGUA ESPANHOLA. por exemplo. […]. Para isso é importante levar em conta que o termo identidade apresenta uma definição complexa. etnográficos. 80) Ao conceituar identidade. A identidade “brasileiro”. Para Woorward (2000). Isso quer dizer que a identidade está presente e qualquer tipo de relação (principalmente nas de poder). Entendendo-se que a identidade está intimamente relacionada à diferença. Isso quer dizer que “ser brasileiro” entende-se não se enquadrar em outras identidades que apoiamse em nacionalidades.UFF De uma forma geral. para citar alguns. pois uma já pressupõe outra. a identidade está intimamente relacionada a sistemas simbólicos e sempre assumimos uma posição. 2011. reconhecerá também o outro. políticos. não pode-se deixar de focalizar a importância que as relações de poder têm para no seu processo de formação. A autora afirma isso ao dizer: “É por meio dos significados produzidos pelas representações que damos sentido à nossa experiência e àquilo que somos. em diferentes épocas do ensino de Espanhol. prioritariamente. ser compreendida fora de um processo de produção simbólica e discursiva. estabelecendo significados e nos posicionando na sociedade. pressupõe um referente antagônico a ela. Baseando-se no discurso de Hall (2000). p. todo processo que gera significados está envolvido com relações de poder. 2000). (Silva. tampouco são fixas. é importante ressaltar que a identidade nacional pode pautar-se sob diversos princípios: sociais.” (Woorward. geográficos. Bruna Maria Silva Silvério PG . a pesquisa propõe-se a analisar como é abordada a identidade nacional brasileira nos livros didáticos. não é um absoluto que exista anteriormente à linguagem e fora dela. onde há sempre a dicotomia entre o incluído e o excluído. o sujeito. segundo Silva (2011): A identidade “ser brasileiro” não pode. Essas questões devem ser inevitavelmente abordadas no ensino. em que o “ser brasileiro” não tem nenhum referente natural ou fixo. Ainda. mesmo sem darnos conta. mas que há anos vem sedo estudado por diversas áreas do conhecimento. Além disso. por sua vez. Ela só tem sentido em relação com uma cadeia de significação formada por outras identidades nacionais que. naturais ou predeterminadas. no ensino de .

2010) Isto é. 2010). 14 de janeiro de 2008). através da Resolução nº 3 de 11 de janeiro de 2008.201) O presente trabalho propõe analisar três coleções de livros didáticos destinados ao Ensino Fundamental. de um momento importante na história do ensino de LEM nas escolas públicas brasileiras. e sim pelo que os outros. pode-se dizer que o LD tem grande importância na aprendizagem da língua estrangeira. Com base nessas questões da identidade brasileiro. com livros de inglês ou espanhol. em suas próprias palavras. já que esta também está subordinadas às relações de poder. No Guia de Livros Didáticos – PNLD 2011. o ser brasileiro não é consituído por como nos vemos. uma ampliação do número de escolas que oferecem essa língua. Ou seja. Em suma. Ou seja. No caso específico de Espanhol. pois. “é possível afirmar que as representações que fazemos do estrangeiro e as representações que o estrangeiro faz de nós atravessam.” (Coracini. uma vez que esta é parte constitutiva da cultura de um povo ou nação. no sentido de que se assume a posição de existência de “culturas”. pode-se afirmar que o ensino de língua estrangeira deve vincular-se à noção de cultura. Como afirma Paraquett. Saludos (MARTIN. encontra-se a seguinte consideração: Trata-se. respeitando as diferenças sem estabelecer uma organização hierárquica entre elas. a autora defende que o sujeito é formado pelas concepções e impressões do outro. para os anos finais do ensino fundamental” (Diário Oficial da União. de Língua Estrangeira Moderna. Já que há pouco tempo que foi estabelecida a obrigatoriedade de oferta desta disciplina para o ensino fundamental e médio. Dessa forma. no que dispõe sobre a execução do PNLD. além de . a universalização da distribuição dos livros de Espanhol e Inglês significa um avanço na qualidade do ensino público brasileiro. os estrangeiros acham que somos. o sentimento de identidade subjetiva. Depois de dez anos da criação do Programa. em uma sociedade essencialmente pluricultural1 é importante que haja uma uma educação também focada na interculturalidade. A coleção mais atual. apenas no edital de 2011. Arriba (CALLEGARI e RINALDI. Com relação ao corpus do trabalho. de modo constitutivo. segunda ela. “fica definido para o componente curricular de Língua Estrangeira o atendimento a partir do PNLD 2011. Segundo Coracini. em seu ar tigo “A celebração do outro na constituição da identidade” (2003). 2010). ao assumir uma visão da psicanálise lacaniana. foi um dos livros aprovados pelo PNLD de 2011.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 199 língua. 2004) e Saludos (MARTIN. que é. também. considerando que sua inclusão no ensino público é um fato recente. referentes a diferentes épocas de ensino de Língua Espanhola: Vamos a hablar (JIMÉNEZ e CÁCERES. a coleção foi reformulada para participar da seleção do Programa Nacional do Livro Didático –PNLD 2011 e será essa a edição analisada. que reflete um reconhecimento do papel que esse componente curricular tem na formação dos estudantes. 2003. p. ano em que foi inserido o componente curricular Língua Estrangeira Moderna. social e nacional. esse momento pode significar. (MEC/SEB. a interrelação ativa de várias culturas que vivem em um mesmo espaço geográfico. mas também representa uma esperança de que o Espanhol seja mais difundido entre as escolas. 1990). Língua Estrangeira (inglês e espanhol) passa a integrar a lista de disciplinas contempladas pelo PNLD. Embora tenha sido lançada anteriormente. o momento não é só de ingresso das disciplinas de língua estrangeira no Programa do FNDE para a escolha dos livros didádicos para o ensino público básico. portanto.

cuja manifestação mais evidente na aula de língua estrangeira seja a cultura diferente da sua. […]. p. baseando-se em Woorward (2011). por sua vez. nessa visão. segundo Silva (2011): A identidade “ser brasileiro” não pode. Essas questões devem ser inevitavelmente abordadas no ensino. geográficos. como propõe os PCNs (BRASIL/SEF. políticos. uma representação simbolica: “É por meio dos significados produzidos pelas representações que damos sentido à nossa experiência e àquilo que somos. deve posicionar-se de forma autônoma como uma função de sua cidadania plena. o aluno. Levando isso em conta. não pode-se deixar de focalizar a importância que as relações de poder têm para no seu processo de formação. de que tais conceitos são inerentes a qualquer pessoa e a qualquer relação. é importante ressaltar que a identidade nacional pode pautar-se sob diversos princípios: sociais. essa construção identitária também tem uma base social. (RUTHERFORD. isto é. como afirma ainda a autora. a partir da aprendizagem de língua estrangeira. prioritariamente. 2011. Isso quer dizer que “ser brasileiro” entende-se não se enquadrar em outras identidades que apoiam-se em nacionalidades. ser compreendida fora de um processo de produção simbólica e discursiva. não é um absoluto que exista anteriormente à linguagem e fora dela. etnográficos. Isso significa que a construção de uma determinada identidade depende de um símbolo. Sistemas simbólicos porque a identidade é marcada por meio de símbolos. Dessa forma.” (Woorward. até porque está intimamente ligada a práticas de significaões que Ao conceituar identidade. pode ser considerado um dos principais formadores de opinião do aluno acerca dos aspectos sociais e culturais da língua. Ainda. Além disso. como deixa bem claro o autor. culturais e econômicas nas quais vivemos agora […] a identidade é a interseção de nossas vidas cotidianas comas relações econômicas e políticas de subordinação e dominação. 1990 apud Woodward. tampouco são fixas. Isso se dá a partir da visão socio-interacional da língua e da aprendizagem. já que esta também está subordinadas às relações de poder. 2011. identidade e diferença estão intimamente imbricadas em uma relação interdependente. 19) De acordo com a visão de Silva (2011). compreende-se que os LDs têm a função de formar um cidadão crítico. que se posicione e que saiba aceitar e respeitar o outro. A identidade “brasileiro”. Baseando-se no discurso de Hall.200 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS apresentar um suporte a conteúdos abordados em sala de aula. Isso se deve ao fato. em que o “ser brasileiro” não tem nenhum referente natural ou fixo. por exemplo. Ela só tem sentido em relação com uma cadeia de significação formada por outras identidades nacionais que. p. no ensino de língua. entende-se que ele deve também ter a preocupação de inserir o aluno na sociedade em que vive como cidadão crítico e que seja capaz de reconhecer-se como participante da diversidade cultural de sua nação. pressupõe um referente antagônico a ela. Além disso. Enquanto sujeitos. uma não se consolida sem a outra. (Silva. estamos submetidos a sistemas simbólicos e assumimos uma posição na sociedade mesmo sem dar-nos conta. para citar alguns. advêm de relações de poder e das vastas possibilidades de relações nos permeiam: […] a identidade marca o encontro de nosso passado com as relações sociais. 2011) Além de depender do símbolo. onde há sempre a dicotomia entre o incluído e o excluído. 80) A relevância das questões identitárias no ensino de língua Cultura e identidade são assuntos que vêm sendo discutidos há muito tempo e abrangem os estudos de diversas áreas. . naturais ou predeterminadas. todo processo que gera significados está envolvido com relações de poder. 1998).

a atividade pedagógica se dá entre sujeitos. (Silva. como afirma. p. faz com que ela se torne invisível. Apesar de ser uma pergunta difícil de ser respondida. além de ser dependente do passado histórico e das relações sociais de poder. 2000. o falante toma outra posição subjetiva. em seu ar tigo “A celebração do outro na constituição da identidade” (2003). destacando-se o “anormal”. 2000. Woodward (2000). um dos lados. Ainda. a resposta a tal pergunta tem dependência também na ideia do que fazemos do que é ser brasileiro. Assim. Essa posição diz respeito a uma intersubjetividade inconsciente. No espaço heterogêneo em que vive. Isso significa que um será sempre mais privilegiado que outro. já que não é possível ter contato com todas as pessoas que fazem parte da nossa identidade nacional. o estranho: “A força homogeneizadora da identidade normal é diretamente proporcional à sua invisibilidade. 2000. do país em que vive. 2000. consequentemente. afirma que a identidade e. A normalidade.(Neves. 100) A identidade de um povo e a sua cultura formam-se através de diferenças.” (Silva.” (Silva. por não terem o mesmo papel perante a sociedade. relacionada a uma identidade. principalmente quando se trata de um país plural como o Brasil. Ou seja. Entende-se que mais do que aprender o código e suas funções na outra língua. 2006) desenvolvimento da pesquisa pode basear-se na pergunta o que é ser brasileiro?. Mas sim.83) Essa relação de desigualdade identitária também precisa tomar um lugar no ensino de língua: “A pedagogia e o currículo deveriam ser capazes de oferecer oportunidades para que as crianças e os/as jovens desenvolvessem capacidades de crítica e questionamento dos sistemas e das formas dominantes de representação da identidade e da diferença. p. como aquilo que existe e que devemos apenas entender e respeitar. sempre é considerado o “normal”. Também. pois são a partir delas que as pessoas assumem determinadas posições. o aluno deve ser capaz não só de entender essa diversidade como um produto. o ser brasileiro não é consituído por como Dessa forma. a depender de um sistema de classifições onde diversos fatores estão envolvidos. compreender o processo em que se dá o estabelecimento das identidades.24) Silva. entende-se que um currículo pedagógico. Entendo. Ela tem que colocar no seu centro uma teroria que permita não simplesmente reconhecer e celebrar a diferença e identidade. questionador dos sistemas de representação de identidades existentes em seu entorno e. 91 e 92) Segundo Coracini. bem como o material e o livro didático utilizados. criticar e questioná-lo: Uma política pedagógica e curricular da identidade e da diferença tem a obrigação de ir além das benevolentes declarações de boa vontade para com a diferença. “devemos ter uma ideia partilhada sobre aquilo que a constitui. também tem grande base no que acreditamos ser. a diferença devem integrar o currículo pedagógico. até pensando na diversidade do nosso país – o “ser brasileiro’ pode mudar de acordo com cada região do país. interessado na inserção do aluno como cidadão participante dos processos de constituição e significação da identidade e da diferença. p. essencialmente.” (Silva. p. assumindo uma visão dicotômica da identidade e diferença – onde sempre existe um “eu” ou “nós” e “o outro” ou “os outros” – os dois lados nunca terão o mesmo peso.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 201 Uma questão importante para o comprometer-se com a proposta de formação de um sujeito crítico. portanto. mas questionála. que põe em jogo as contradições da constituição histórica dos sujeitos. Aqui fica bem claro que o estabelecimento de uma identidade depende da diferença. através de elos sociais. normalmente o mais superior. que embora também intermediada pelos métodos e pelos materiais adotados. por exemplo – pode-se afirmar que identidade. já que o encontro com o outro (incluindo o espaço social da escola) é inevitável. deve . em seu livro Identidade e Diferença (2011).

Organização Liv Sovik. M. As característica que são atribuídas a nós brasileiros. e sim pelo que os outros. 17. CORACINI. p. em suas próprias palavras. de modo constitutivo. a autora defende que o sujeito é formado pelas concepções e impressões do outro. o sentimento de identidade subjetiva. é que sustenta a nossa identidade: “o que somos e o que pensamos ver está carregado do dizer alheio. n. In: Políticas de integração curricular.” (Coracini. BRASIL/SEF (1998): Parâmetros curriculares nacionais : terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental: língua estrangeira. Stuart (2009): Da diáspora: identidades e mediações culturais. memória e identidade. Marília Vasques e RINALDI. Tradução Adelaine La Guardia Resende [et al. . SP: Mercado das Letras. Brasília: MEC/SEF.doc HALL. 2003. A. VARGENS. São Paulo: Martins Fontes. O sujeito por si só é heterogêneo e. (2007): A celebração do outro: arquivo. e nos tornamos singulares diante do estrangeiro. J. LOPES. LARAIA. M.. UERJ. dizer que nos precede ou que precede nossa consciência e que herdamos.com/ revista/impresa/8estudios/texto_cgimenez. M.cesdonbosco. R. In: Educación y futuro: revista de investigación aplicada y experiencias educativas. Disponível em: http://seer. pois uma língua sempre traz com ela outras identidades. (1990): Vamos a hablar: curso de lengua española. V. 2003.” (Coracini. Sempre que se aprende uma nova língua há um processo de formação da identidade. abrindo novas formas de ver o mundo. Carlos (2003): Pluralismo. novas formas de organização do pensamento e novas imagens do outro. Impresso). (1992): Estética da criação verbal. v. 12. Referências bibliográficas BAKHTIN.ufrgs. ao entrar em contato com uma língua estrangeira. RJ: Ed. multiculturalismo e interculturalidad. 373-392.] 1ª edição atualizada – Belo Horizonte: Editora UFMG.M. para que exista uma identidade nacional. FREITAS. São Paulo: Editora Ática. Ed. GIMÉNEZ ROMERO. L. In: Linguagem & Ensino (UCPel. social e nacional. P. São Paulo: Moderna.202 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS nos vemos. Simone (2004): ¡Arriba!.A. Campinas. p. de nossos antepassados ou daqueles que parecem não deixar rastros. Roque de Barros (2009): Cultura: um conceito antropológico. CALLEGARI. por exemplo. F.P. 201) É através desse dizer alheio que constroi-se o imaginário de pertencimento de uma nação. os estrangeiros acham que somos. sem saber como nem porquê. D. ao assumir uma visão da psicanálise lacaniana. Disponível em: www. p. n. é preciso que o outro dê a sua existência.8. JIMÉNEZ. Revista Organon. “é possível afirmar que as representações que fazemos do estrangeiro e as representações que o estrangeiro faz de nós atravessam. 35. essa heterogeidade se complexifica. e CÁCERES.br/organon/article/view/30024 COLECTIVO AMANI (1994): Educación Intercultural: Análisis y resolución de conflictos. Catarata. E segundo Coracini (2007) essas novas vozes se entremeiam no incosciente do sujeito aprendiz. Ou seja.M (2009): Pluralidade Cultural nos Parâmetros Curriculares Nacionais: uma diversidade de vozes. Dessa forma.201) Ainda.C (2008): O livro didático na política de currículo para o ensino médio. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. _____ (2003): “A celebração do outro na constituição da identidade”.

Secretaria de Educação Básica. Petrópolis. Stuart Hall. multiculturalismo e currículo intercultural. P. E. Nota 1 a autora entende esse conceito como a co-presença de várias culturas. (org.) e COSTA. PADILHA. G. S. v. ressaltando as diferenças. Kathryn MARTIN. São Paulo: Editora Ática. R (2010): Saludos – curso de lengua española. C.). interculturalismo e ensino/aprendizagem de espanhol para brasileiros.).ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 203 PARAQUET T. Marcia (2010): Multiculturalismo. In: BARROS. R (2004): Cultura. Brasília: Ministério da Educação. In: Currículo intertranscultural: novos itinerários para a educação / SP: Cortez: Intituto Paulo Freire . M.(Biblioteca freiriana. I. (org. RJ: Vozes. Woordward (2000): Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Tomaz Tadeu da (org. .9). SILVA.

essa sobreposição de textos. transformações. . estabelecer relações de sentido. entre outros elementos que tangenciam. para isso. o objeto da poética estaria justamente nessa transcendência. essa questão abrange muito mais do que a noção comum de intertextualidade. ad infinitum. é a transtextualidade. alusões. inclusive. e assim. Essa característica. nos links textuais estabelecidos entre um texto e outro(s). mas todas as maneiras pelas quais um texto pode ultrapassar suas “barreiras”. epígrafes. e. que conheceria um tomo com a súmula perfeita de todos os outros. No sentido figurado. Mais que isso. pergaminhos utilizados antes da invenção do papel e que. Genette. Exemplos disso são os títulos. enfim. até a possível obtenção do objetivo. uma empreitada ilimitada (assumindo a dimensão da própria Biblioteca). Nesses tempos. apesar dos limitados caracteres de uma língua). sem. de um livro B os resquícios de um A. imitações. de Jorge Luis Borges. A procura por tal bibliotecário anônimo e pelo resumo de todo o acervo geram uma ânsia de busca retrospectiva: em um livro C poderiam ser encontradas pistas de um livro B. sua compreensão tornase um desafio aos seres humanos. é abordada no conto “La Biblioteca de Babel” . Não existe sequer um texto que não seja transtextual.Unicamp Uma característica essencial da Literatura é a transcendência textual. Diante de tal grandiosidade (sem um livro sequer igual ao outro. contudo. seus limites. Nele. que passam a almejar a justificativa de suas próprias existências através do entendimento da Biblioteca. esses “rastros”. surge a lenda del Hombre de Libro. é tido como infinito.204 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS O POLICIALESCO NA FIGURA DE AMALFITANO Bruna Tella Guerra PG . comentários. da coletânea Ficciones. é descrita uma biblioteca que é comparada ao Universo. transpassam e oferecem sentidos aos textos. empresta a figura dos palimpsestos (antes usada por Philippe Lejeune). eram reutilizados. intertítulos. Definida por Gerard Genette (1997) como transtextualidade. Tal local. eliminar inteiramente o que havia sido escrito antes. dividido em partes geometricamente semelhantes. após terem suas inscrições apagadas.

sentidos e links dentro da obra de um mesmo autor. estabelecida por Edgar Allan Poe e Arthur Conan Doyle. é um retorno moderno da Odisseia . aquela que apresenta referências. “Los detectives perdidos”. um dos protagonistas de Los detectives salvajes e também do conto “Fotos”. porque estabelece sentidos com obras de outros autores. A construção desse linkado “mundo coerente e plausível torna-se essa ideia quando tomamos nota de que em entrevista a Dunia Gras Miravet para a revista Cuadernos Hispanoamericanos. há também a transtextualidade “interna”. Há ainda outros exemplos pertencentes a coletâneas de textos e somente sob forma de intertítulos: o conto “Detectives” de Llamadas telefónicas. sejam eles poemas. O premiado e famigerado Los detectives salvajes é um dos exemplos. Tomemos como modelo o personagem Quincas Borba. que ganhou o apreço bolañeano” nos leva a inferir que essa característica faz parte do próprio projeto estético do autor. investigações. espaços e ações. Nos finais do século XX e início do XXI. apresentando a imagem do detetive como intitulação do texto geral da narrativa e como intertítulo da segunda parte do livro. o detetivesco em Bolaño? Uma das soluções possíveis para essa questão reside no fato de que o gênero policial. ambos locais que aparecem constantemente nos textos de Bolaño. teríamos um tipo de transtextualidade a qual poderíamos chamar de “externa”. que Ulysses. apresenta elementos constantes (assassinatos. os poemas “Los detectives”. afirma em Nota Editorial que seria Belano o narrador de 2666. podemos nos atentar a outro ponto importante da literatura bolañeana: geralmente sob forma de paratextos. então. Bolaño afirmou que sua poesia e sua prosa pertencem a um mesmo projeto estético.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 205 Uma das tantas possíveis interpretações do conto que a procura pelo livro súmula traz à tona é a questão da transtextualidade. por exemplo. Ignácio Echevarría. raciocínio lógico. Apesar desses textos trazerem a mesma figura no nome. pistas. retoma a vida de um dos principais heterônimos de Fernando Pessoa. Os textos de Roberto Bolaño não apresentam enredos que se enquadram na literatura policial tradicional. Um exemplo é o personagem Arturo Belano. Uma intenção interpretativa: as pistas de Bolaño Aliado ao projeto estético transtextual. da coletânea Putas asesinas. fronteira de México e Estados Unidos. A busca por um autor “desaparecido” também ocorre por mais de uma vez: em Los detectives salvajes e 2666. Entretanto. É quase uma obviedade. ou que O Ano da Morte de Ricardo Reis. ainda. que após aparecer roubando o relógio de Brás Cubas em Memórias Póstumas. etc. hiperbólicos: há recorrência de personagens. desaparecimentos. Roberto Bolaño nos dá pistas sobre um aspecto ao qual podemos considerar ao lermos seus textos. que é o detetivesco. de José Saramago. uma representante rigorosa da transtextualidade interna é a obra de Roberto Bolaño. contos ou narrativas longas. Mais . “Los detectives helados” de Los perros románticos. ganha um folhetim no qual é o protagonista. têm estruturas distintas e não contêm casos policiais aos moldes Sherlock Holmes. de James Joyce. de Machado de Assis. tornando claro que encontrar “rastros” e sentidos de um texto em outro é inerente à Literatura. Os links dentro de seus próprios textos são intensos. assumindo que esta. Não são poucos seus títulos e intertítulos que contemplam a figura do detetive. No que reside.) e estruturas comuns (crime – investigações – desvendamento do crime). Outros casos de transcendência textual interna são o deserto de Sonora. Nesses casos. bem como a cidade de Santa Teresa.

206 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS do público (mostrando-se até hoje na literatura. buscas e mistérios. Devido a isso. que em certo momento sofre demissão da Universidad de Barcelona e muda-se para o México. inclusive. Bolaño constrói um mundo ficcional. diferentes daquelas de 2666 . apesar de o enredo também não mostrar nenhuma narrativa policial tradicional. não conhecemos por completo nada que nos é apresentado. sendo que três delas abordam ações. ocorre também em Bolaño na tentativa de encontrar significações e relações. ainda que participe com maior ou menor frequência nas outras. conhecemos o assassino já no primeiro parágrafo. que teria dito que el verdadero policía é o leitor tentando ordenar incansavelmente a trama. O fato de ser professor universitário é a primeira característica desse personagem que poderia assemelhar-se ao detetivesco. a transtextualidade se dá pela percepção de um leitor que utiliza o paradigma indiciário para encontrar possíveis relações e estabelecer sentidos. O que nos leva a fazer relações da literatura de Bolaño com o aspecto detetivesco não é. Ele aparece em dois livros póstumos: um deles é 2666. acabando por adquirir um sentido enigmático: quem é o policial? Quais seus dissabores? A contracapa da edição da Editora Anagrama traz uma citação de Roberto Bolaño (sem referência). onde começa a trabalhar na Universidad de Santa Teresa. é um professor universitário. e seus leitores procuram encontrar sentidos e relações em vão. praticamente descartada. No caso de Amalfitano. Amalfitano. Isso nos mostra uma completa inversão da conhecida ordenação dos fatos e do foco narrativo da literatura policial. Os textos de Bolaño são mais difusos ainda: apresentam elementos típicos desse tipo de narrativa. e. A pesquisa acadêmica independentes. dividido em cinco partes supostamente que o torna o próprio detetive. informações que obtemos em Los sinsabores del verdadero policía são. o narrador da história. sem necessariamente um estar ligado ao outro. na maioria das vezes. A precisão lógica de Auguste Dupin é. sentimentos e características de Amalfitano. eles acabam assumindo um sentido figurado que encadeam alguns questionamentos: 1) Quem são os detetives dos textos bolañeanos? 2) Por que são referidos dessa maneira? 3) Qual o sentido decorrente dessa escolha? algum personagem literalmente detetive ou da polícia. muitas pistas “escapam por entre nossos dedos”. nomes e ações. então. por exemplo. mas os títulos temáticos que trazem a questão policialesca. o Amalfitano e detetivesco: relações Um dos personagens sobre o qual podemos pensar a respeito dessas questões é Amalfitano. em meados do século XX a assumir um caráter diferente. sua estrutura. por exemplo. O movimento feito em La Biblioteca de Babel para buscar um sentido da vida ou da existência da Biblioteca. passou. sendo que Amalfitano tem uma só para si: “La parte de Amalfitano”. podem haver outras tentativas de identificação do aspecto detetivesco. as histórias não se fecham. apontando para o próprio projeto estético transtextual. O outro livro chama-se Los sinsabores del verdadero policía. sendo ele. Além de entendermos o leitor como detetive. também com uma divisão de cinco partes. Esse tipo de leitura é perfeitamente possível para a obra bolañeana no geral. as pistas são inconclusas. Este último apresenta o mesmo caso de intitulação que remete ao policialesco. como assassinatos. Em El Túnel (1948). Nesse caso. que permeia mais de um texto de Roberto Bolaño. chileno. nem mesmo . diante de tantas informações. de Ernesto Sabato. apesar de estar longe de ser um Holmes. então. em séries televisivas e filmes).

As buscas são frustradas e as pistas. um escritor “desaparecido” que não é encontrado por eles. um elemento que representaria o ponto de partida de uma narrativa policial tradicional ocorre como “pano de fundo” das ações de Amalfitano: os assassinatos de mulheres de Santa Teresa. porém. que seriam um oásis de horror em meio ao tédio de Amalfitano (caso quisermos oferecer uma interpretação à epígrafe baudelaireana de 2666). Essa última interpretação estaria em consonância com a apatia de Bolaño por alguns autores que compuseramo boom da Literatura hispano-americana na década de 1960. sobre questões da existência. região marginal do globo (como toda a América Latina). nem mesmo de ter estado na cidade da livraria na qual ele havia sido comercializado. que são citados diversas vezes em “La parte de Amalfitano”. para uma cidade fronteiriça entre México e Estados Unidos. enfim. acaba por ficar intrigado. distanciando-se do tipo de investigação feita pelos tradicionais detetives. então. onde questões inexplicáveis estariam passíveis de ocorrer. A imagem detetivesca do professor universitário é recorrente em Bolaño. O professor depara-se com um chamado Testamento geometrico. uma vez que parece apresentar conflitos com a questão sexual (Amalfitano assume-se homossexual depois de adulto) ou uma vivência mística que ironizaria o realismo mágico.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 207 segue pistas. Por fim. mas nada é concluído. no México. tal qual a pesquisa em Literatura. em que quatro professores universitários viajam em busca de Archimboldi. que ganharão uma das parte de 2666: “La parte de los crímenes” e serão abordados também em Los sinsabores del verdadero policía. Não se sabe se tal voz é a consciência de Amalfitano. segundo um personagem de “La parte de Fate”. Juntos. Baseado. de Rafael Dieste e. para que ele sofresse as intempéries e aprendesse. uma vez que todos parecem ser “retalhos de uma mesma colcha”. a resolução de um problema descarta qualquer raciocínio lógico. ocorrendo das mais variadas formas. Outro episódio é o de “la voz”. através de uma visão eurocêntrica da exoticidade da América Latina. local no qual. faz inferências e estabelece conclusões a respeito de seus objetos de estudo. ocorrendo também em “ La parte de los críticos” (também do 2666 ). por certos episódios de mistério impossíveis de serem resolvidos em sua objetividade. Para Amalfitano. Nesse momento. O intelectual latino-americano. porém. nas ideias de Duchamp. inconclusas. Amalfitano passa. não lembrando-se de ter comprado tal livro. no qual há uma “dança” entre textos. . Amalfitano decide pendurar o livro de geometria no varal do quintal. Conclusão É possível percebermos que a estética transtextual de Roberto Bolaño acaba por criar um “mundo bolañeano”. é resvalado à margem através da figura de Amalfitano: mandado para o México. quatro coisas sobre a vida. Nesse mesmo sentido de indefinição. Esse aspecto nos permite alastrar interpretações de um texto para outros. renderia um relato policial de primeira magnitude. uma voz que Amalfitano escuta e com a qual conversa. muito menos de tê-lo colocado nas caixas de mudança. Um deles acontece quando Amalfitano está desencaixotando os livros que havia selecionado durante a mudança de Barcelona para Santa Teresa. esses casos não parecem ter significativa importância em sua vida. acabam refletindo sobre a vida. de 2666. que nunca oferece soluções definitivas.

(D. R.) que todo lo que había visto en el extrarradio de Santa Teresa y em la misma ciudad. por uma reflexão de Amalfitano sobre Santa Teresa.208 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Aqui. N. Barcelona: Editorial Anagrama. R. (2009): Ficciones. (2011): Los sinsabores del verdadero policía. BOLAÑO. Barcelona: Editorial Anagrama. (oct de 2000): Entrevista con Roberto Bolaño.. Madrid: Alianza Editorial. J. a busca incansável por pistas e a possibilidade de relacionar elementos que aparecem com frequência. fragmentos. Esta. . (C. (2011): 2666. imágenes sin asidero. MIRAVET.) Lincoln: University of Nebraska Press.. Reflexão esta que parece ser uma metonímia de sua própria obra. A estética de Bolaño permite. BOLAÑO. BORGES. 265). GENETTE. servindo também de respaldo para a interpretação do recidivante personagem Amalfitano. Referências bibliográficas BOLAÑO. então. (1997): Palimpsests: literature in second degree. parecem ser descritas. imágenes que contenían en sí toda la orfandad del mundo. que pensa “(.” (p. G. A incompletude dessas investigações e a infinita busca proporcionada pelo caráter de La Biblioteca de Babel. L. Entrevistador) Cuadernos Hispanoamericanos. presente objetivamente em títulos de livros. G. contos ou poemas. R. utilizamos como exemplo a questão detetivesca. Trad. enfim. Doubinsky. fragmentos.

Metodológicamente. que para el caso de este trabajo. se remite a modos explícitos de enunciar a los actores. dicha representación se configura a partir de la omisión total o parcial de los sujetos. se selecciona un corpus en relación con los siguientes criterios: 1. p. representa el concepto de paramilitarismo en Colombia durante los años 2002 al 2006. y en segundo lugar. la exclusión. Para ello se parte de los postulados de Theo Van Leeuwen los cuales se remiten a los diferentes sistemas de designación discursiva que hacen alusión a los actores sociales como medio de representación. –without privileging any of these choices as more ´literal´ than others. De esta manera. El análisis de estos dos mecanismos permite rastrear formas conscientes e inconscientes de legitimar intereses ideológicos en el discurso. 33). en palabras del autor: How can ´Sayers´ be represented –impersonally or personally. porque se hace necesario reconocer las connotaciones de dicho consenso bajo el supuesto de que los medios responden a los intereses propios de determinadas estructuras de poder. en el segundo. individually or collectivety.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 209 ¿BACRIM O PARAMILITARISMO? ANÁLISIS DE LA CONCEPCIÓN DE PARAMILITARISMO EN COLOMBIA EN EL PERÍODO 2002-2006 A TRAVÉS DE LA PRENSA ESCRITA Camilo Ramírez Rodríguez Corporación Universitaria Minuto de Dios Adriana Yamile Suárez Reina Universidad Libre El abordaje que desde la prensa se hace a los paramilitares como actores sociales que influyen en la sociedad colombiana -pues detentan un poder y tienen un objetivo claro de acción. Para el primer mecanismo. para el autor. Así. aluden a la consolidación del “deber ser” del concepto de paramilitarismo en el escenario de la prensa escrita. en par ticular el periódico El Tiempo. La motivación de este análisis parte. . and without thereby also privileging the context or contexts in which one or the other tends to occur as more normative than others (VAN LEEUWEEN. del interés por estudiar la capacidad de los medios masivos para erigirse como instancias sociales fundamentales en los procesos de construcción del consenso. la construcción de los actores se hace principalmente a través de los mecanismos de inclusión y exclusión. 1996. by reference to their person or their utterance.no responde necesariamente a una perspectiva objetiva. razón por la cual este trabajo pretende analizar cómo la prensa escrita. en primer lugar. etc. se elige el periódico El Tiempo por su alto índice de lecturabilidad en Colombia y porque además está en sintonía directa con las políticas gubernamentales de turno.

Bajo esta situación. el diario El Tiempo representa a los paramilitares como un actor con unas condiciones bastante particulares a través del mecanismo de inclusión. tras los primeros acercamientos entre el gobierno y los paramilitares. De este modo.210 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Referenciar al paramilitarismo en tanto actor del conflicto armado colombiano. […] los paras se han vuelto un factor de inseguridad. presidente entrante era establecer un diálogo y buscar una posible desmovilización de dichos grupos. En primera instancia. se recurre a la estrategia de atenuar las características negativas del actor. por su parte. señala que es necesario adherirse a las ideas presentadas. De allí. se avecinaban unas elecciones presidenciales que se alimentaron de la idea de ahondar en la confrontación militar como única vía para resolver dicho conflicto. es decir. el diario caracteriza a los paramilitares como poseedores de un proyecto político que se basa en contrarrestar el avance y la acción de las guerrillas. propició que la propuesta presidencial de Álvaro Uribe “Primero Colombia” tuviera éxito. Ellos sencillamente se independizaron de sus progenitores y ahora esquilman a todo el mundo (I) No obstante. 2. Así. 3. por una parte. el paramilitarismo se concibe entonces como un proyecto paralelo al Estado que comparte un objetivo en común: las guerrillas. y la inclusión. incluso para quienes en un primer momento los promovieron con la ilusión de brindarse protección frente a la guerrilla. dicho proyecto se les sale de las manos tanto a sus líderes como al Estado. básicamente. autónomo del Estado pero sin confrontarlo. De acuerdo con lo anterior. algunos editoriales sugerían que el reto para el de la “ilegalidad” de su accionar pero se concibe como “un mal necesario” en relación con la guerrilla: Losparasi son la máxima expresión de la debilidad territorial del Estado: sectores de la sociedad civil han tenido que recurrir a apoyar la sedición. de alcance nacional. Lo que se busca a través de estas categorías textuales es analizar el porqué de dicha ausencia o presencia. Cabe destacar que este trabajo no se basa sencillamente en abordar la exclusión o la inclusión de los actores. el corpus resultante fue de cinco (5) editoriales de cada uno de los años que abarcan el periodo estudiado. difusión y ocultamiento del concepto de paramilitarismo A continuación se presentarán los resultados fruto del estudio del corpus mencionado anteriormente. Haber sido publicado entre los años 2002 al 2006. gracias a la categoría de activación. el diario . porque estaba comprometida con acabar el problema de los grupos al margen de la ley. afrontar tales acciones. se recrudecieron los ataques armados y. ya que la exclusión es un indicador de que algo debe ser controlado. La necesidad de realizar una intervención militar. No obstante. pues el Estado los dejó desamparados (II). este problema se da en términos 2002 – 2003: El fracaso de un “proyecto político” En los primeros meses del año 2002 se generó un clima de tensión pues. así como en la debilidad del Estado colombiano para Construcción. situación concebida por Van Leeuwen como sobredeterminación por desviación. Pertenecer a la tipología textual de editorial puesto que representa la línea de pensamiento del diario. a apelar a la justicia privada y hasta a confabularse con el narcotráfico para defender su vida y sus intereses ante el acoso de la guerrilla. por otro. reduciendo el análisis a su aparición o a su ausencia. y se convierte en un problema: Sus más lúcidos dirigentes aspiraron a configurar un proyecto contrainsurgente civil.

Pero sin olvidar tampoco que para muchos es mejor tener alguna seguridad que no tener ninguna. la situación del discurso combativo se utiliza como trampolín para la futura reelección ya que. Esta situación conlleva ambigüedad pues se da una justificación o valoración benéfica de dicho grupo: “PDS. como diría Maturana. “Boy scouts que han aprendido a hacer la guerra en los últimos meses” (III). asimismo. pero muy pragmático. En esa medida. Por tanto. Como se puede apreciar. “simples pandilleros”. por supuesto. En este periodo. El diario hace uso de la estrategia de activación para poner en el ojo del huracán al gobierno y su aparente poca voluntad de diálogo. De otro lado. disminuye la responsabilidad correspondiente a los paramilitares con la estrategia de beneficialización. “Grupo antigurrillero”. Adicionalmente. se cuestionan las posibles solicitudes de extradición. una posible intervención externa no enfrenta el fenómeno paramilitar sino que lo toca 2004: Desmovilización: un problema “Porque. sino las características de sus acciones. presenta el diario. es mejor tener siete milparasi en armas que tener diez mil. en cuatro años no es posible realizar un proceso de desmovilización y lo que menos se quiere es incurrir en los errores de los gobiernos pasados: “Muy probablemente la promesa oficial de desarticularlos completamente antes de terminar la actual administración no se pueda cumplir” (IV). lo encuadran como un ente con el cual se puede dialogar. que fortalecerá la confianza ciudadana en el Gobierno y el prestigio del presidente Álvaro Uribe Vélez” (V). el proceso no pinta bien (VI). la dejación de armas constituye un éxito político para el Gobierno en su política de Seguridad Democrática. situación expresa de los Estados Unidos: Lo de Estados Unidos. El éxito de dichos diálogos fortalece la credibilidad en el gobierno del presidente Uribe: “Sin duda. la intervención de este país se restringe al provecho que pueda sacar de la situación. Sin embargo.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 211 cambia no sólo la nominación del actor. A pesar de la insistencia de algunos de estos grupos en realizar hechos demostrativos de su intención de desmovilizarse. dicha ley genera una fuerte polémica que divide la opinión pública ya que pasar del “dicho al hecho” no es tan fácil como inicialmente se creía. el Gobierno podría estar frente a un nuevo traspié: el fracaso de las conversaciones con los grupos paramilitares con vistas a su desmovilización. sin importarle los crímenes cometidos por los paramilitares en Colombia. que así sería más dura que nunca…” (VII). Las primeras desmovilizaciones de miembros de los paramilitares. se mantiene la ambigüedad en relación con la caracterización del actor paramilitar. Tras los primeros diálogos y algunas “desmovilizaciones” se plantea una Ley de Alternatividad a través de la cual se negociará el . para dar un golpe sustantivo al narcotráfico… (VII). en conjunto con la minimización del actor y sus acciones realizada por el diario. Su verdadero y único interés es aprovechar las expectativas de un desarme paramilitar y el poder intimidatorio de la extradición. ya que a través de la categoría de la exclusión parcial se cataloga de “más dura” la tarea del gobierno frente a las guerrillas sin el “apoyo” que brindaban los grupos paramilitares: “pues la lucha contra las Farc.” (II) tangencialmente. es mucho más complejo y exigente. el “fracaso” del proyecto político paramilitar y su posible desmovilización fue el éxito político del gobierno Uribe: la idea de reelección. entre otras. promotores de desarrollo social en los barrios”. las negociaciones son calificadas desde el diario como “empantanadas” y la responsabilidad de este impase recae únicamente en el gobierno: Luego del fracaso del Referendo. desmonte total del paramilitarismo.

para presionar una negociación en condiciones más favorables.el hecho de que la guerrilla posiblemente retome el poder. (VIII) Otro de los argumentos que sustentan la “confesionalidad” de la justicia se basa en la falacia de la autonomía del Estado colombiano. esto en razón a que a la paz se llega a través de la redención. para llegar a un acuerdo de paz tal vez el nivel de perdón tendría que ser más alto que el que finalmente otorgará la Ley. Un ejemplo de ello es cuando se cuestiona el valor institucional de la Corte Penal Internacional como ente de justicia: La Corte Penal Internacional no es el irresistible y omnipotente ángel vengador que nos pintan. y la poca efectividad del Estado frente a un conflicto en dos frentes: 2005 . sino que por el contrario se concibe dicho proceso desde una “justicia” confesional. podrían actuar como una fuerza desestabilizadora y atacar violentamente instituciones y políticas del Gobierno. tal como reza el adagio popular: “el que peca y reza empata”. y no a través de la justicia. el recrudecimiento de los ataques por parte de la guerrilla. pero automáticamente subvierte esta apreciación a través de un cuestionamiento implícito en sus líneas: si se buscara una paz definitiva la disposición de “perdón” debe ser mayor ¿Qué estamos dispuestos a dar por una paz definitiva? ¿Cuál es su costo? simultáneamente la estimen demasiado blanda para los paramilitares” (IX). Los argumentos esgrimidos son la capacidad de su poder militar. el proceso de desmovilización de los paramilitares no se consagra a una deidad católica de manera directa. y entonces tendríamos un escenario catastrófico: un Estado precario atacado simultáneamente por dos ejércitos irregulares. Este documento es calificado en el diario como “lo mejor” que se podría lograr en esta coyuntura a pesar de lo que sus opositores afirman: “Y.2006: Colombia. parece que se reviviera una parte de la historia. Dicha consagración. Lo que es más real es la posibilidad de la perpetuación y el agravamiento de la guerra en Colombia si no se desmovilizan pronto los paramilitares con un acuerdo nacional inspirado en el principio de la paz como valor supremo. Una intervención externa sería no solo la piedra en el zapato para el proceso. cómo dicho proceso puede incurrir en la impunidad. el país del Sagrado Corazón: ¿una “justicia” confesional? Colombia fue consagrada en época de la guerra de los mil días al cuidado del Sagrado Corazón. Para justificar la viabilidad de la ley se hace uso del contraste: “ni las Farc ni el Eln aceptarán dicha ley por considerarla demasiado dura para ellos. a través del uso de la exclusión parcial. La redención a la cual se hace alusión en las líneas anteriores se presenta en los editoriales a través del apoyo a la Ley 975 de 2005 o Ley de Justicia y Paz. según cuentan los ciudadanos de la época. sino que también traería como consecuencia –implícita. Aquí se invocan nuevamente las voces de la cultura: “el . incluso por encima de la justicia. […] Los paramilitares están hoy más fuertes que nunca y sus posibilidades de perduración y expansión hacia el futuro son prácticamente ilimitadas.212 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS De otro lado. aun cuando también más bajo que el que anhelan los paramilitares” (VIII). La paz también es un acto de soberanía (VIII). en efecto. Esto podría coincidir con una reactivación del accionar armado de la guerrilla. En esa misma dirección. Aquí. aun cuando Pero mañana. sirvió para que finalizara este cruento episodio. en varios editoriales se reitera que es mejor aceptar dicha ley antes de una posible reacción violenta de los paramilitares. en medio de un proceso electoral decisivo. En épocas más recientes. como la referenciada en los editoriales de los años 2005 y 2006. se insinúa en una sola editorial. En dicha falacia se apela a la minimización de la influencia de organismos internacionales que están interesados en que este proceso no quede en la impunidad.

sino que ahora.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 213 enemigo de tu enemigo es tu amigo” y la ley debe tratarlo como tal. Aquí la estrategia es utilizar la exclusión parcial en razón a que no se puede hablar de paramilitarismo ya que este concluyó en el proceso de desmovilización de sus miembros. atentan contra las instituciones estatales. los editoriales del año 2006 se enfrentan a la diatriba de mencionar o no al paramilitarismo. la beneficialización se utiliza para destacar ese potencial bélico del que disponen los paramilitares. Así. y por el contrar io. Adicionalmente. Así. verdad y reparación que hasta el momento no se han cumplido. basado en acciones hechas pero presentadas como hipotéticas en un futuro próximo. Al hacer un acercamiento para resolver la situación legal de esa “estructura social” se visualiza una posibilidad política para el Estado de sacarle partido al conflicto. se utiliza una disociación por contraste. pues se dice que estas nuevas “manifestaciones criminales” no comparten el mismo objetivo del gobierno. En el periodo estudiado se evidencia cómo la representación del actor justifica las políticas del Estado y legitima la violencia que este órgano ejerce en defensa de la comunidad. se resalta entonces la necesidad de un diálogo a cualquier precio a partir del miedo. se encuentran: la asignación del rol para mostrar a dicho actor como poseedor de una “estructura política” -aunque problemática-. Sin embargo. Respecto a las estrategias. sino. Ahora bien. No obstante. En esa misma línea. se conceptualiza el fenómeno al afirmar que para concebir un grupo como paramilitar es porque dicho grupo tiene nexos con el Estado: La diferencia central entre estas nuevas manifestaciones criminales y los grupos paramilitares es que su enemigo ya no son solo los grupos guerrilleros o sus bases de apoyo social y político. aunque imperfecta. como lo afirma el mismo diario-. Además. así como también hace eco del proceso que pretende sustentar su impunidad. Asimismo. el problema ahora es que es de difícil identificación. las instituciones estatales” (x) Consideraciones finales El anterior análisis relacionado con el concepto de paramilitarismo presentado por el diario El Tiempo permite establecer los mecanismos a través de los cuales la representación del fenómeno es de difícil identificación y atenúa la importancia de abordar dicha problemática. se hace uso de la categorización al poner en el mismo racero a aquellos que pertenecieron a grupos paramilitares y no se desmovilizaron y al delincuente común. . el paramilitarismo desde su forma nominal no existe. igualmente. el uso recurrente de contrastes ambiguos normalmente entre los paramilitares y la guerrilla no deja una posición clar a. se alude al fenómeno paramilitar con los términos “desmovilizados” o “no desmovilizados” de acuerdo con la favorabilidad o no respecto a la Ley de Justicia y Paz. Por otra parte. pero como fenómeno estructural endémico de la sociedad colombiana sí. Posterior a la aplicación de dicha ley. que a su vez conforma una “estructura social” -descompuesta. se da cuenta de dos ejes particulares: las estrategias empleadas para velar el fenómeno y la validación del proceso de impunidad. este instrumento jamás contestó al interrogante del ¿Por qué no reconocer que hay conflicto armado? El simple hecho de analizarlo implicaría revisar la noción de justicia. se justifica disimuladamente la acción paramilitar bajo la idea del “mal necesario”. la Ley de Justicia y Paz. enquistada. funcionó como mecanismo para que miles de paramilitares se desmovilizaran.

p. 8 de abril de 2005. 5 de junio de 2006. y se propicia. El futuro de los paramilitares. 189) Referencias bibliográficas FERNÁNDEZ. London: Routledge.es difícil identificar quién es el responsable de los hechos violentos. se excluyen de manera sistemática los aspectos ideológicos y estructurales de la violencia en Colombia. p. 7 de noviembre de 2003. (1996). El ralito y mi abuela. Al respecto. II. El pantano paramilitar. 24 de noviembre de 2003. El Tiempo. La desmovilización de los paramilitares. El Tiempo. The representation of social actors. según haya dictaminado el discurso de autoridad dominante para la formación social en la que política y/o administrativamente se encuentre integrado el individuo (FERNÁNDEZ. Es más. sin encontrar argumentos que hagan imposible el rechazo popular a las acciones armadas y a elaborar relatos dirigidos a crear una ilusión al mismo tiempo de victimismo y de orgullo patrio (…). El Tiempo. Desmovilización de autodefensas. El Tiempo. Juan Carlos.224 . ¿Tercera generación?. por ende. 8 de julio de 2005. la prensa al caracterizar al actor por su nombre determina su identidad. La lógica entonces de difundir el éxito de la desmovilización paramilitar trae consigo no solamente la supresión del nombre sino el cambio en la concepción del fenómeno. Coulthard (Eds. F. VI. El Tiempo. El Tiempo. R. 7 de noviembre de 2003. Readings in Critical Discourse Analysis.214 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS De acuerdo con esto último. 4 de julio de 2003 III. El Tiempo. Una desmovilización inédita. oculta no solo un nombre sino un discurso que busca la impunidad. Caldas-Coulthard & M. ANEXOS: Noticias I. El Tiempo. IV. Entonces. Texts and practices. En: CONTRERAS. 2 de agosto de 2002. Justicia y paz: 2005 y 2016. El Tiempo. (2004) El Capitán América nunca supo convencer a los malos. In C. VII. el proceso de significación de este discurso se configura a partir de unas condiciones de producción específicas que están determinadas por la filiación del medio con la ideología que proclama el gobierno de la época a través del uso de la retórica bélica. Fernández afirma: La retórica bélica tiene como finalidad explicar razones. Culturas de guerra. De esta manera el “buen ciudadano” debe ser sobre todo un “buen patriota” o inscribirse en cualquier otro patrón de lo que es “correcto” en tiempo de guerra. VAN LEEUWEN. su impunidad. IX. F. El Pantano Paramilitar. . se limpia el nombre del gobierno sin perder ese brazo oscuro de acción. Este mecanismo conlleva la impunidad puesto que al no presentarse nominalmente al fenómeno. Gracias a la exclusión parcial de este actor se legitima la creación de un discurso sobre la defensa de las normas. pero cuando no hay actor – porque es elidido. 28 de noviembre de 2003. El Tiempo emplea esta retórica bélica al evadir la responsabilidad de utilizar la nominación del fenómeno paramilitar como tal. & SIERRA. X. El Tiempo. Así. V. El Tiempo. T. Leyendo en los cómics más allá de la adolescencia. En esa medida. 189 . 4 de octubre de 2004. 1989. VIII.). ahora ya no existe el problema. al difundir el desvanecimiento de la categoría “paramilitar”. Madrid: Editorial Cátedra. No maduros para el perdón.

Por indicación divina y como penitencia por su vida anterior de pecado. cambia totalmente el eje de la historia. quien la entierra ayudado por un león y confirma la historia de la penitente en la abadía de San Juan. Estas redacciones iniciales de la historia de la santa constituyen la versión oriental de la leyenda de María Egipciaca como prostituta arrepentida. una fuerza sobrenatural le impide la entrada al templo el día de la Ascensión. Intentando encontrar una explicación para la transformación de la leyenda en el paso de la versión inicial oriental a la occidental. centrándola en María de Egipto y relegando a Gozimás a ser sólo el testigo de la santidad de la nueva protagonista. que a los doce años huye de su casa paterna a Alejandría para ejercer allí la prostitución y abandonarse a toda clase de pecados.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 215 INICIOS DE LA SANTIDAD MEDIEVAL EN LENGUA CASTELLANA: TRADUCCIÓN Y PROTAGONISMO FEMENINO EN LA VIDA DE SANTA MARÍA EGIPCIACA Carina Zubillaga SECRIT (IIBICRIT-CONICET) . un monje que la descubre como penitente en el desierto y que encuentra en ella el modelo de humildad necesario para variar su conducta y reorientar su vida espiritual1. en ellas. una de las santas más populares y paradigmáticas durante la Edad Media. que comienza a desarrollarse probablemente en Francia a partir del siglo XII. de la que es miembro. en la biografía de la santa2. DELGADO se pregunta: “¿Se debió a un precoz individualismo el . después de lo cual ella dirige una larga oración a la Virgen María. La historia.Universidad de Buenos Aires La leyenda de Santa María Egipciaca. María no es la protagonista del relato. María. ya en su versión occidental. padece incontables sufrimientos y finalmente muere en una muerte santa que presencia el monje Gozimás. la vida de la santa se transforma. entonces. donde sobrevive con sólo tres panes. La versión occidental de la leyenda. en el cual se embarca con unos romeros siete años después. La narración de la vida de María se concreta en tercera persona y asume un estricto orden cronológico. tiene como primer testimonio escrito un texto griego compuesto por Sofronio en el siglo VII que se traduce luego al latín en la segunda mitad del siglo VIII. se convierte y cambia absolutamente de conducta. En un viaje a Jerusalén. sino sólo el ejemplo de santidad frente al cual resulta confrontado Gozimás. extendiéndose luego el relato de su vida y muerte santas desde allí a toda la cristiandad. narra la vida de una joven nacida en Egipto. pasa cuarenta y siete años en el desierto.

A la popularidad de la Virgen como intercesora y como anti-tipo de Eva se suma. mayoritariamente laico. Vida) del siglo XIII traduce la francesa Vie de Sainte Marie l’Egyptienne con bastante fidelidad y constituye probablemente la hagiografía castellana más antigua de las conservadas por escrito (BAÑOS VALLEJO. 2004. también: “¿Fue deliberado el desdén del desconocido autor del siglo XIII hacia el protagonismo de Zósimas?” (DELGADO. p. Ante la santidad . La traducción de las vidas de santos desde el latín a las lenguas vernáculas que se desarrolla en Europa occidental a partir del siglo XII testimonia. O. fundamentalmente. cuyo eje en los sacramentos del arrepentimiento y la penitencia se piensa puede haber impulsado relatos e historias como ésta de la pecadora arrepentida. en una doble orientación que se manifiesta tanto en el ritmo y estructura de los poemas como en su variación narrativa. Frente al ideal imposible de feminidad que la Virgen María encarnó. un verdadero proceso de adaptación cultural. como en este caso de la leyenda de María Egipciaca. 2004. un cambio tanto social como devocional. Un nuevo público. 1980. el culto también creciente de las prostitutas arrepentidas. Entre los fenómenos religiosos más relevantes del siglo XII se encuentra asimismo la extensión del culto mariano debido. La evolución de las leyendas hagiográficas atraviesa un umbral literario crítico en su traslación a las lenguas vernáculas (ROBERTSON. p. sino que además cambian la prosa por el verso. de manera paralela. La manera en que se transformó la leyenda de Santa María Egipciaca en su paso a las lenguas vernáculas revela sin dudas una adaptación cultural expresada primera y fundamentalmente en lo lingüístico. aunque igualmente difícil de alcanzar. preeminencia de la figura femenina y un lenguaje accesible para todos como parámetros determinantes. lo que la hace contrastar aún más con la producción hagiográfica castellana más relevante del período: la escrita por Gonzalo de Berceo en el marco del mester de clerecía como escuela poética y de la estilizada cuaderna vía de versos alejandrinos monorrimos4. y hacerlo a través de las lenguas vernáculas y de las historias de santos más accesibles y cercanos a los fieles como principales estrategias espirituales. a la difusión de las órdenes mendicantes. Se trata de la necesidad de la Iglesia de orientar el proceso de conversión cristiana particularmente hacia los laicos. se prefieren el verso a la prosa y las imágenes plásticas al convencionalismo retórico. será el receptor privilegiado de la reformulación de las viejas leyendas hagiográficas que contemplarán inversiones de protagonismo. p. Su respuesta se enfoca. más amplio que un concilio singular –por más importante que éste sea– y además anterior3. en los lineamientos del IV Concilio de Letrán de 1215. Por tal motivo. 185).216 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS que se amplificara el protagonismo de la pecadora penitente y se la caracterizara físicamente allí donde la versión original se presentaba en forma tan espartana?” (DELGADO. que contribuyó al desarrollo y avance de la espiritualidad femenina 5 . Es anónima y está compuesta en verso irregular. 98). 184-185). como bien lo testimonian numerosas leyendas y devociones a santos que se intensifican ya a partir del siglo XII. 2005. p. como sucede también con otros tantos estudiosos. 305). La Vida de Santa María Egipciaca (en adelante. centrado primeramente en la lengua y en la apertura a la laicidad que supone el acceso de historias y leyendas –antes circunscritas especialmente al ámbito monástico– al conjunto de los fieles cristianos. El fenómeno religioso innovador que se está produciendo en ese momento histórico es. la devoción paralela a las penitentes tal vez resultó la respuesta posible. sin embargo. El poema francés del siglo XII y luego el poema hispánico del temprano siglo XIII –que a su vez lo traduce– trasladan la leyenda no sólo del latín.

en este sentido. la pecadora reconoce en su oración que las 7 diferencias las separan: “Un nonbre avemos yo e ti. / que en el tu vientre toviste al tu padre!” (v. contrastada como la representación gráfica de un antes y un después del . 533-534). lo que las prostitutas arrepentidas representaron fue justamente el proceso de transformación del pecado a la gracia visible en las figuras contrapuestas de Eva y de la Virgen. Esta idea se reiterará en otros lugares de la misma plegaria. ya que al desarrollar actos de conversión. En este sentido. más allá de la gravedad de su pecado. sin dudas. v. María como Madre del Redentor es también. como expresión acabada de la posibilidad de cambio de todo cristiano. La dramatización de este proceso de conversión habría resultado un vehículo privilegiado en Europa para la exposición de la doctrina cristiana. arrepentimiento y penitencia las leyendas de prostitutas santas comunicaron la doctrina cristiana a los lectores u oyentes como experiencias concretas a ser compartidas antes que como conceptos abstractos6. tanto María Magdalena –el prototipo básico de la penitente– como María Egipciaca dramatizan en sus respectivas leyendas a la santidad como un proceso arduo y complejo pero posible para cualquier pecador. A la castidad de la Virgen se opone la lujuria como principal característica de la pecadora. en el cual María se muestra arrepentida al oponer su pecado a la majestad de la Virgen. cuando en Jerusalén le dirige una oración a María. por ejemplo en los v. Esta relación innegable entre la Virgen y María de Egipto presente en los cultos compartidos está tematizada en el poema en el momento crucial de la conversión de la pecadora. 517-518: “Grant maravilla fue del padre / que su fija fizo madre”. lo central en la nueva versión de la leyenda de la santa es el protagonismo femenino. así como la humildad de la Madre de Dios es confrontada con el orgullo de María de Egipto. se expresa básicamente en su Vida a partir de su imagen física. duenya. la intercesora por excelencia entre su Hijo y todo pecador11.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 217 innegable de la Virgen María. A la dinámica de la paradoja de la Virgen María como Madre de Cristo el poeta suma también a continuación la dinámica de la oposición entre ambas Marías. / mas mucho eres tú luenye de mí” (v. pero extendiéndose luego a una oposición que parte de la correspondencia entre una y otra y por eso deviene finalmente en identificación gracias a las logradas simetrías formales del fragmento. visible particularmente en el diseño biográfico de la vida de María y su transformación espiritual concebida como un proceso tan integral que abarca no sólo su espíritu. Narrativamente. que se vuelve entonces imagen en el poema de cómo rezarle a la Virgen. en principio a partir de la yuxtaposición entre la primera persona de quien ruega y la segunda persona que es rogada en el nombre que comparten (“tú María e yo María”. dulçe madre. del pecado a la santidad. Este encuentro entre María Egipciaca y la Virgen María en el espacio de la oración refleja con seguridad la práctica devocional de gran cantidad de los fieles del período. En este punto la oración alcanza su máximo lirismo. La plegaria se revela a partir de estas paradojas y oposiciones que la construyen como un espacio de auto-confrontación. que elevarían sus súplicas tanto a la Madre de Dios como a la pecadora arrepentida. 535). El proceso de conversión de María Egipciaca. A pesar de compartir el mismo nombre. reconociéndola como aquella que personifica en sí misma todo el misterio de la Encarnación : “… ¡Ay. reconociéndose entonces en la Madre de Dios como el modelo de la santidad que finalmente alcanzará. sino también su cuerpo. conformando a través de la sucesión de estas paradojas9 la figura de la Virgen María como la única en la cual pueden reconciliarse todas las diferencias10. 483-484)8.

732-733). que eran ruvios. y lo testimonia en relatos hagiográficos como su Vida hispánica centrados en el arrepentimiento y en la dinámica de la penitencia como horizontes de todo cristiano. / como la rosa quando es granada” (v. en su vejez se le vuelve “la faz muy negra e arrugada / de frío viento e elada” (v. sólo que invertido. tal como la flor del espina” (v. 724-725)12. hermosa y pecadora María y luego de la vieja y espantosa penitente asume la forma de dos extremos tan irreconciliables como impactantes. En ambos retratos el mismo esquema de color predomina.218 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS arrepentimiento presente en el centro del poema en la oración que ya hemos referido. en el segundo retrato. como penitente “las sus orejas. 736-737). la Edad Media asume con interés creciente el culto de las prostitutas arrepentidas. entre quienes se difundían . se oponen luego en el segundo retrato de la penitente a la resina. sucio y seco de la penitente– remite valorativamente a su purificación interior. 223-224). Seguramente los laicos. con la rosa o con las manzanas. Las comparaciones que sobreabundan en la descripción de la joven y hermosa pecadora. en una pérdida de carnadura que se evidencia claramente en la casi tangible sequedad de su cuerpo sometido a las inclemencias del desierto. El poeta organiza estos retratos de María de modo valorativo. asignándole en la primera descripción una luminosidad exterior –dada por el blanco de su cuerpo. en tanto en su juventud “braços e cuerpo e todo lo al / blanco es como cristal” (v. / blanquas como leche d’ovejas” (v. 225-226). 213-214). / tales son como maçana” (v. mientras que en el primero sobreabunda el blanco como representación de la belleza juvenil. Además de aquellas santas que manifiestan vocación de santidad desde la infancia. El contraste de la descripción primero de la joven. 215). al arrepentirse de sus pecados “en sus pechos non avía tetas. 740-741). en el segundo se destaca el negro como imagen gráfica de la fealdad y de los atributos físicos perdidos. / tornaron blancos e suzios” (v. 217218). como María Egipciaca. mientras como prostituta “de sus tetiellas bien es sana. 738-739). que eran alvas. y el plateado y dorado de su vestimenta– y una vivacidad evidente –que aporta el colorado– que contrastan con la oscuridad interior que ese brillo externo necesariamente supone. en su vejez posee “braços luengos e secos dedos. Baste citar sólo los ejemplos más destacados de esa contraposición para imaginar cómo pudieron haber sido recibidos por los hombres y mujeres del Medioevo. en tanto cuando era bella “la faz tenié colorada. Mientras en su juventud María Egipciaca “redondas avié las orejas. dejándose el blanco sólo como término de comparación o para describir los cabellos envejecidos de la anciana: “e los sus cabellos. En este sentido. si joven tenía “su cuello e su petrina. por otro. y el negro se emplea sólo para los ojos: “ojos negros e sobreçejas” (v. que tiene entre sus principales manifestaciones el modelo de las penitentes. que podría reconocerse fácilmente en el pecado inicial de lujuria de María de Egipto y eso le daría la posibilidad de no ver como tan lejana la promesa de santidad. / mucho eran negras e pegadas” (v. / como yo cuido eran secas” (v. que asocian por un lado belleza con juventud y corrupción interior y. la impureza física –dada por el cuerpo opaco. la presencia e importancia de la santidad femenina en los siglos XII y XIII no es un fenómeno aislado en el marco de las nuevas prácticas devocionales y la expresión de la piedad del período. / quando los tiende semejan espetos” (v. El eje legendario del modelo de la prostituta arrepentida está cifrado en estos dos retratos contrastantes de María Egipciaca. ya en el desierto “tan negra era su petrina / como la pez e la resina” (v. 221-222). por el contrario. 726-727). connotando una materialidad viva y colorida. fealdad con santidad y vejez. con la leche de las ovejas.

que se centra en Jesús Niño y en los episodios de su vida oculta. SNOW. Joseph T. p. versificación. DELGADO. and BUSSELL THOMPSON. se vincula con la creciente devoción a la Virgen María como Madre del Salvador y propicia una sensibilidad que define nuevas manifestaciones religiosas durante el período. Plena Edad Media (siglos XI-XIII). texto y vocabulario. (1990): Notes on the Fourteenth-Century Spanish Translation of Paul the Deacon’s Vita Sanctae Mariae Aegyptiacae. p. Exeter: Ed. 95128. CORTINA. 41-45. La dudosa ejemplaridad de las santas en los poemas medievales. 2005. Ediciones Trea-Ediciones de la Universidad de Oviedo. Schiavonne de (1979): The Life of Saint Mary of Egypt: An Edition and Study of the Medieval French and Spanish Verse Redactions. En: Medioevo Romanzo. N° XXXVIII. En: Medievalia et Humanistica. Asturias-Oviedo: Ed. En: Hispanic Journal. En: Revista de Estudios Hispánicos. de (1964): “La Vida de Santa María Egipciaca” traducida por un juglar anónimo hacia 1215: gramática. Walsh. En: CONNOLLY. Hispanic Seminary of Medieval Studies. E. el eje del cambio devocional que se produce a partir del siglo XII es la veneración a la figura de Cristo en consonancia con el descubrimiento de la intimidad individualizadora de la persona humana (FERNÁNDEZ CONDE. a santas como María Egipciaca como modelos con los cuales los fieles devotos pueden relacionarse e identificarse más directa y afectivamente. p. Julian (2006): The “Mester de Clerecía”: Intellectuals and Ideologies. Toulouse: Ed. y españoles en la creación de la vertiente occidental de la leyenda de Santa María Egipcíaca: hacia el nuevo modelo hagiográfico de los siglos XIII-XIV. Madrid: Ed. Tamesis. Marina (1976): Alone of All Her Sex: The Myth and the Cult of the Virgin Mary. Referências bibliográficas ALVAR. asimismo. Alfred A. vocabulario. edición de los textos . Lynn Rice (1980): The Aesthetics of Morality: Two Portraits of Mary of Egypt in the Vida de Santa María Egipciaca. p. p. RAE. Puvill.: Saints and their Authors: Studies in Medieval Hagiography in Honor of John K. New York: Ed. M. Francisco Javier (2005): La religiosidad medieval en España. Madrid: Ed. presentada particularmente a través de las imágenes contrastantes de su cuerpo. 183-208. . Barcelona: Ed. Duncan (1980): Poem and Spirit. Madison: Ed. N° VII. 452). encontraron en la transformación espiritual de María de Egipto. Manuel (1970-72): “Vida de Santa María Egipciaca”: estudios. CSIC. Dayle (1992): The Poetics of (Non)Conversion: The Vida de Santa María Egipçiaca and La Celestina. BAÑOS VALLEJO. CRUZ-SÁENZ. ROBERTSON. The Twelfth-Century French Life of Saint Mary the Egyptian. ingleses Particularmente en España. (1977): La vida de Santa María Egipcíaca: A Fourteenth-Century Translation of a Work by Paul the Deacon (Ms. WARNER. 305-327. University of Exeter. fuentes. Esa impronta humanizadora eleva. Biblioteca Nacional BN 780). SEIDENSPINNER-NÚÑEZ. 97-111. un ejemplo cercano y posible de los alcances inconmensurables de la gracia cristiana de la salvación. Woodbridge: Ed. p. WALSH. B. Fernando (2005): Una “pecatriz” y una mística. ANDRÉS CASTELLANOS. N° 2. Jane E. En: CAZAL. John K. Esa devoción. Université de Toulouse-Le Mirail. Françoise: Pratiques hagiographiques dans l’Espagne du Moyen Âge et du Siècle d’Or. FERNÁNDEZ CONDE. 83-96. Ernesto (2004): Mariales franceses. N° 18. María S.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 219 de manera privilegiada estos nacientes textos en lengua vernácula. p. WEISS. Knopf. Meretrics.

313). p. 3 Aunque es un indicador crucial de los asuntos eclesiásticos contemporáneos. sino un principio formal encarnado. junto con un poema escrito en cuaderna vía. 2004. 1992. 2 La prinicpal implicancia del paso de la narración de la vida de la santa a su biografía es una secuencia ininterrumpida desde su infancia hasta su muerte. p. . 8 Cito según mi propia transcripción del poema que integra el Ms. p. ALVAR (1970-72) y CRUZ-SÁENZ (1979). la reconciliación universal de los contrarios (ROBERTSON. 8396). del cual estoy preparando una edición crítica conjunta. Existen ediciones del poema hispánico de ANDRÉS CASTELLANOS (1964). madre de todos los que viven en un sentido espiritual. 4 Llamativamente. 519-520). mediadora entre Dios y la humanidad a causa de la Encarnación de la divinidad que la convirtió en una segunda Eva. Esc. como el uso de la siguiente metáfora: “E fue maravillosa cosa / que de la espina salió la rosa” (v. p. K-III-4. en particular María Magdalena (WALSH y BUSSELL THOMPSON. quizá la que mayor influjo tuvo en los siglos posteriores fue la idea de la Virgen como intercesora entre el pecador devoto y Cristo.220 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Notas 1 Para ahondar en esta versión oriental de la leyenda de Santa María Egipciaca. 1980. sin embargo. 1980. p. 9 La paradoja está incluso reforzada con el empleo de algunos dispositivos ornamentales. orientando particularmente sus observaciones y su análisis al carácter figural que adquieren esos retratos. 1986. el Libro de los tres reyes de Oriente. 41-45) ya señaló la importancia del empleo del color en las dos descripciones contrastantes de María Egipciaca. 5 Sólo un secreto oculto en la psiquis medieval explicaría de manera acabada la fascinación de la leyenda de las prostitutas arrepentidas. 187). la santidad de la Virgen María se basó en su rol como theotokos (Madre de Dios). luego de más de cuarenta años de penitencia en el desierto (ROBERTSON. 84). que es el aspecto más pragmático de su culto…” (DELGADO. 11 “De todas las ideas difundidas desde los albores de la Alta Edad Media. p. el K-III-4 de la Biblioteca de San Lorenzo de El Escorial. la Vida se conserva en un manuscrito de fines del siglo XIV. 2006. el Libro de Apolonio. p. cuando la difusión del culto mariano se extiende de manera sistemática entre los laicos. 318). 7 Desde comienzos del siglo XII. 12 CORTINA (1980. 6). Para profundizar en los diversos aspectos del culto mariano. ver WARNER (1976). 6 La función catequética de este tipo de leyendas prevalece sobre los sermones o la enseñanza abstracta (SEIDENSPINNER-NÚÑEZ. 100). ver SNOW (1990. 10 En esta oración la Virgen María no es meramente una persona a quien la pecadora ora. la influencia directa del IV Concilio de Letrán sobre la leyenda occidental de Santa María Egipciaca no debe ser exagerada (WEISS. y otro que es una reescritura de los Evangelios Apócrifos. p.

através de seu arquivamento. ele presenciava as dificuladades e . evitando e ao mesmo tempo promovendo o seu esquecimento. com a finalidade de reunir e escrever uma História respaldada pela heterogeneidade de versões e sujeitos envolvidos. filosofia. ou. sua presença na comunidade passa a ser constante. ou. A necessidade de discurtir e apurar estes eventos aciona a comunidade nacional. O antropólogo visitou Chungui. DE EDILBERTO JIMÉNEZ: DESENHANDO A MEMÓRIA COLETIVA Carla Dameane P. O Relatório Final da Comissão da Verdade e Reconciliação 1 do Peru resulta da reunião de uma série de narrativas sobre a recente História dos conflitos políticos vividos pelo país. que Edilberto Jiménez tornou-se um interlocutor de testemunhas da violência. a Memória. pois. como membro da equipe profissional do Centro de Desenvolvimento Agropecuário (CEDAP) e condutor do programa de rádio Rimaykusunchik4.UFMG Seja a memória uma configuração cultural. por exemplo. em seu permanente exercício. além de determinar as responsabilidades jurídicas sobre tais acontecimentos e apresentar as consequências dos abusos contra dos direitos humanos. posteriormente. psicologia sociologia. torna-se um recurso privilegiado de acesso ao passado. com a finalidade de difundir informações sobre como vivia e se organizava aquela população. nos anos entre 1980 e 2000 2 Essa comissão trabalhou com o objetivo de esclarecer a natureza do processo e dos fatos da guerra interna. em formatos de escritura diferenciados.Peru .ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 221 CHUNGUI: VIOLENCIA Y TRAZOS DE MEMORIA. vía construção de imagens possíveis de serem transmitidas oralmente. em toda a Região das Fazendas (Oreja de Perro)3. à medida em que passa a ser captada pela História. (2009). porque atua de maneira revisionista sobre os eventos do passado selecionando-os. E se a História assume a função de um tribunal. capacidade investigada por diversas disciplinas (teologia. a um evento histórico específico. atua contra o amnésia e manifesta váriadas versões sobre os espisódios que pertencem. Sendo recebido com festa e música. Foi num contexto prévio aos trabalhos da CVR . de Souza PG . em Chungui e. pela primeira vez. estudos literários e outros). em 1996.

durante o processo de produção desse livro. así ocurrió”. Jiménez passou a ser membro tanto dessa comissão. nesse processo. entre outros). realiza uma denúcia formal ao Congresso. No documentário Chungui. execuções arbitrárias. Como se estivessem reconstituindo cada um dos crimes (massacres. O silencio sobre a violência em Chuingui chega definitivamente ao fim quando uma delegação desta cidade. Além disso. porém ele cumpriu uma função extensiva a de escrivão. tratamentos Recordar. O material recolhido foi entregue a CVR . Além de traduzir a oralidade para a escrita. solicitou a ajuda dos comitês de auto defesa para que pudesse recorrer outras comunidades da região e registrar mais testemunhos. correspondendo aos relatos. penso que. do continente latinoamericano. horror sin lágrimas… una historia peruana de Luis Felipe Degregori6. Jiménez atuou diretamente sobre as recordações das testemunhas. 178). eram muitas vezes supervisionados pelas testemunhas que lhe diziam “así como estás dibujando. Esses testemunhos formam parte de uma macro narrativa e adquirem um valor de fonte histórica e jurídica. que não o da letra. 2007. ou lugares onde ocorreram tais delitos. 2007. imaginar. pouco a pouco. muitas delas falantes do quéchua. recordadas oralmente. Por levar em conta a importância da imagem para os povos pré-hispânicos. no intuito de responder. para lembranças-imagens visuais5 . as testemunhas voltavam aos locais onde haviam fossas comuns. com o medo que havia nas pessoas de conversarem sobre os acontecimentos violentos. em torno do reconhecimento dos eventos de violência ocorridos em Chungui. infanticídio. a essa comoção. Nesse contexto. analfabetas. começou a anotar os testemunhos orais e a esboçar seus primeiros desenhos. Na medida em que “fazer história” relacionase com a necessidade de escrever e arquivar. ou. desaparecimentos forçados. p. traduzindo lembranças-imagens. Foi nessa situação de vis memoriae7 que Jiménez registrou os relatos e os transpôs para outro código de escritura associando o trabalho de tradutor à criação dos desenhos e retábulos. por causa disso. Jiménez ouve de diversas pessoas relatos que o deixaram comovido e. desenhar e mostrar Em Chungui: violencia y trazos de memoria aparecem os relatos orais recolhidos por Jiménez. dos quais elas haviam sido testemunhas. tortura. a participação de Edilberto Jiménez foi decisiva. sequestros. ou. quanto da Comisedh (Comissão de Direitos Humanos do Peru). indiretamente pelos sujeitos enunciativos.Peru e.222 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS participava das discussões e atividades relativas ao cotidiano dos moradores. ativamente. o idioma quéchua para o castelhano. por que se referem a fatos reais testemunhados diretamente. p.8 Violência e transformação do espaço Ao considerar que um dos temas centrais de que se ocupa a problemática da representação da . 178) e a partir desse rastro “inaugura o ato de fazer história” (RICŒUR. degradantes. encabeçada pelo prefeito. Envolvido nesse debate. Jiménez devolve às testemunhas. aos 20 minutos Jiménez conta sobre como o esboço dos desenhos. violência sexual contra mulheres. amparada por outros códigos. A denúncia tornou pública a existência de 40 fossas comuns e o registro de mais de 200 desaparecidos. Foi nesse ambiente em que se tornou uma figura familiar e rompeu. que possuem dificuldades para ler e escrever. suas imagens como um formato de escritura legível. cada um dos testemunhos registrados no livro admite “a iniciativa de uma pessoa física ou jurídica que visa a preservar os rastros de sua própria atividade” (RICŒUR.

Ao fazer essa analogia o autor chama atenção aos muitos aspectos que caracterizavam o relacionamento dos chunguinos com o lugar. Naquela imagem onde se representa o relato sobre a chegada do PCP-SL em Chillihua. “Dijeron: “Deben obedecer a los responsables” (H. J.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 223 Memória reside na relação estreita entre recordar e imaginar penso que. 156-157). o espaço celeste aparece comprimido por olhos. 317). por parte dos sobreviventes. Um dos últimos desenhos de Chungui: violencia y trazos de memoria faz referência ao Llaqta Maqta (jovem da cidade) um gênero musical tradicional da região. retratando a presença do . tem a colaboração de Jiménez que. a ação de recordar. matrimônios. com o modo de convivênicia que agrega os moradores à comunidade. Através dos desenhos é possível perceber como a presença do autoritarismo em Chungui compromete as perspectivas espaciais e temporais e obstrui a normalidade que antes definia as relações que os campesinos mantinham entre si e com o território. e de que maneira esse espaço de confraternização seria afetado devido a presença e permanência dos grupos violentos (Partido Comunista do Peru-Sendero Luminoso (PCP-SL) e as Forças Armadas Oficiais do Estado Peruano (FFAA)). aniversários) relacionando-se. tornando visíveis os crimes e os detalhes que entornam os acontecimentos que lhes são relatados. recorrendo aos seus talentos como retablista transpõe para os desenhos essa memória individual e coletiva. “Laqta Maqta” (Desenho de Edilberto Jiménez em: Chungui: violencia y trazos de memoria. Edilberto Jiménez refere-se a essa expressão de vida e alegria como algo que consegue ser preservado mesmo após os anos de violência. desde antigas gerações. p. 2009. os encontros sociais (festivais juvenis. Esse taqui9 acompanhou. a elaboração das ilustrações em Chungui: violencia y trazos de memoria resulta de um processo que inclui previamente. Em: JIMÉNEZ. festas religiosas. p. A ação de imaginar (no sentido de propor uma imagem à recordação). 2009. por sua vez. batizados. diretamente.

mas tiveram acesso ao cenário onde este ocorreu. 2009. p. Em: JIMÉNEZ. A representação visual desse testemunho põe em cena. O. ou. também teremos sujeitos enunciativos que não presenciaram diretamente os crimes. p. Em: JIMÉNEZ. por estarem envolvidos nas situações descritas. H. 2009. . 2009. p. D. C. C. Trata-se da respresentação que oferece ao relato “Las cabezas estaban en distintos lugares” (V. e L. encontra os corpos das vítimas numa tal disposição que o faz supor o que de veras teria ocorrido. 246-247). Essa mesma elaboração de um espaço carregado de olhos e orelhas se repete fazendo alusão ao testemunho “Le dieron más de 20 Chicotazos” (G. Em: JIMÉNEZ. 2009. Q. quando se depara frente a uma situação em que é convocado pelos soldados da FFAA a testemunhar um assassinato. Em: Chungui: violencia y trazos de memoria. E. p. Em: JIMÉNEZ. 236). O sobrevivente. que não presenciou os assassinatos. 200-201). p. e C. como no relato “Asustado agarraba la soga” (E. indiretamente testemunhas desses crimes. p. p. Em outro testemunho Jiménez utiliza essa linguagem oferecendo elementos visuais distribuídos pelo céu e que faz com o que o espaço funcione como um refletor cósmico. há casos em que este sobrevivente tornou-se testemunha por acaso. 2009. Mas. 236-237). J. 2009. (Desenho de Edilberto Jiménez. O. 2009. onde os corpos haviam sido abandonados. dirigindo-se a casa de sua família em Ninabamba.M. 160-161). ou.147). Em: JIMÉNEZ. B. No caso dos testemunhos “Vi con mis propios ojos” (M.224 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS atoritarismo e da vigilância de um partido “que tenía muchísimos ojos y oídos y muy facilmente se enteraba de todo” (E. Os relatos são sempre de sobreviventes que foram direta. Em: JIMÉNEZ. 298-269) e em “Lírio Qaqa Profundo Abismo” (T. O jovem estudante caminhava despreocupado. livre de qualquer metáfora. “Las cabezas estaban en distintos lugares”. a crueldade desses assassinatos e a percepção daquele que foi tesmunha indireta do fato.

Em: Chungui: violencia y trazos de memoria. p. 2009. 201). 239). Nessa situação. Em: Chungui: violencia y trazos de memoria. “Estuve calladito en el árbol y lloraba calladito”(Desenho de Edilberto Jiménez. . 2009. as testemunhas presenciaram o assassinato dos detidos. entre eles mulheres e crianças. 238-239) sobreviventes contam como se esconderam em meio a paisagem para nela se camuflar e poder acompanhar as diversas pessoas de sua familia que haviam sido apreendidas pelos soldados da FFAA.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 225 “Asustado agarraba la soga”(Desenho de Edilberto Jiménez. Em: JIMÉNEZ. Em outro testemunho. “Estuve calladito en el árbol y lloraba calladito” (M. p. escondidos entre árvores. I. D. 2009. e L. p.

um “Local de Geração” (ASSMANN. Os caminhos e abismos foram redefinidos. compar tilhada entre vítimas fatais. na maioria das vezes. 296). 2011. Em: JIMÉNEZ. Com base na mensagem onírica. o sofrimento como uma experiência concreta. tornam-se testemunhas de sua busca. como em um sonho. nos llevamos su cuerpito” (Desenho de Edilberto Jiménez. pelos soldados da FFAA. que chora. p. Em: Chungui: violencia y trazos de memoria. após terem os encontrado mortos. Em: JIMÉNEZ. deixada pela alma do marido. fechada em si mesma. O território foi utilizado. nos llevamos su cuerpito” (H. aludindo a Abilio Vergara 10 “territorio-paisaje-prisión” (VERGARA. p. para o olhar do leitor. Nos desenhos de Jiménez. que a espreitam. não sugeria frestas para a liberdade. 2009. contra as próprias pessoas que antes residiam ali. “Calladitos sin que nadie sepa.226 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Grande parte desses sobreviventes tornaramse peças fundamentais para o posterior reconhecimento de fossas comuns e lugares onde eles mesmos haviam enterrado seus familiares. R. os elementos utilizados impregnam o ambiente e fazem com que o espaço se pareça. para Jiménez. A mulher encerra seu testemunho contando que ela mesma realizou o funeral do esposo enterrando-o ao lado de sua casa desde onde “él simpre me cuida y cuida a sus hijos” (H. p. com a finalidade de que facilitassem os mecanismos de assassinato e a paisagem. à pedradas. No relato a mulher conta que estava acompanhada por seu cunhado. os grupos a um . p. 296-297) uma viúva relata. seu esposo lhe disse o local onde seu corpo se encontrava após ter sido assassinado. p. desde muito tempo. Na representação visual elementos da natureza e ao mesmo tempo cósmicos. 297). Através desses relatos e suas versões visuais. a viúva sai a procura do corpo. 2009. sobreviventes e algozes. no contexto da guerra. e os zorros (raposas). mas no desenho apenas aparecem como companhias uma lua. percebo como esse território. Esse enquadramento relativo ao espaço delineia. R. 51). 320) impregnado de afetividade e que vincula. 2009. 2009. No testemunho “Calladitos sin que nadie sepa.

e cuja lembrança de seus moradores. em seus desenhos. 2009. Por mais que se tente narrar as histórias relativas aos crimes cometidos nessa região. (JIMÉNEZ. cuja história não deve se repetir. uma ferida difícil de cicratizar na memória nacional e histórica. Formas e Transformações da Memória cultural. torna-se também um “Local Traumático” (ASSMANN. JIMÉNEZ. p. Essa união permeabiliza os obstáculos que se colocam diante da possibilidade de se refazer as próprias vidas e superar os traumas sofridos.]. Paul. finalmente. Por outro lado. Chungui: violencia y trazos de memoria. Projeto de Tradução Coordenado por Paulo Soethe. aqueles elementos que ajudam a elaborar a representação dessas memórias. Chungui destaca-se por ali terem-se cometido crimes exemplares contra os direitos humanos14. Essa conexão constitui por um lado. esse território é o lugar onde os moradores cultivam à terra como espaço sagrado e estabelecem o contato. enquanto “Local de Geração” Chungui possui uma memória afetiva e costumes que fortalecem os vínculos que unem as pessoas ao lugar. p. mesmo por aquelas pessoas que nunca estiveram lá. através dela. – Campinas. étnicos e sociais. Espaços da Recordação. vivos e mortos. (2007). Edilberto. No que se refere à violência indiscriminada que caracteriza a guerra interna do Peru. 349) sobre o qual não é possível formalizar um sentido . .ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 227 familiares. Lima: IEP. pois. recopilado por Jiménez: Karu llaqtapin tiyani Chungui llaqtapin tiyani karu laqtalla kaptincha periodistapas chayanchu congresistapas qamunchu 11 Qanchi riupas waqansi Chungui mayuwan tupaspa chaynama llaqtallay waqan manaña pipas yuyaptin13. às doenças e ao atraso consequentes de anos de esquecimento. SP: Editora da Unicamp. que a população revindica mudanças estruturais e sociais que podem dar fim à pobreza. ao analfabetismo. Campinas. por Jiménez. Aleida. (2009). SP. são os mesmos que abrem fissuras sugererindo a impossibilidade de se reproduzir a aura12 desse local e tudo que se refere a multidimensionalidade dos fatos que ocorreram aí. é o motivo pelo qual esse lugar tornou-se inesquecível. Referências bibliográficas ASSMANN. É para esse território. 2011. Tradução: Alain François [et al. o esquecimento. A memór ia. Mesmo assim. devemos celebrar. a histór ia. 129) No livro de Jiménez encontra-se vários motivos para que Chungui torne-se um lugar a ser recordado. Editora da Unicamp. como seus mortos. 2. DED. Fazer-se recordar na memória das autoridades e de outros povos é o que deseja o chunguino quando canta e dança este Llaqta Maqta. (2011). COMISEDH. ed. RICŒUR.

Tradução de Fernanda Boechat Em: Espaços da Recordação.pe/ ifinal/pdf/TOMO%20I/INTRODUCCION. Contudo. Chungui. o autor aponta ser um traço comum tanto na imaginação quanto na memória. p.228 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Notas 1 A Comissão da Verdade do Peru tem sua formação durante o governo de Valentin Paniagua (1936-2006) e no governo seguinte. Lima Peru. (2011). SP: Editora da Unicamp. 10 VERGARA Abílio. 3 “Orelha do Cachorro”. Campinas. (2003).iep. Em Paul Ricœur (2007). sobretudo. p. 9 Segundo Jiménez Borja (1946. cverdad. encontram-se as postulações que distinguem imaginação de memória. 6 Chungui. Aleida. “La fiesta y la danza en el antiguo Perú. 2007. Formas e Transformações da Memória cultural. SP: Editora da Unicamp. Em: ASSMANN.org. p. Estaria mais relacionada com a recordação involuntária que. Ver mais detalhes em ASSMANN. 87-129. Acessado em 23 de junho de 2012. uma imagem fabulada. que tornem identificáveis estas conexões entre memória e imaginação. Em: JIMÉNEZ. Edilberto. isto é. 31-36. horror sin lágrimas… una historia peruana. p. La memoria de la barbarie en imágenes. Primera Parte: El Proceso. e afirma ser possível estabelecer uma linha que as una. una introducción. . Violencia y Trazos de Memoria. ars memoriae. Trata-se da “lembrançaimagem” (RICŒUR. com Alejandro Toledo (1946). Edilberto. COMISEDH. Em: JIMÉNEZ. 2010. Los Hechos. possui relações com os processos de armazenamento e pretende. p. Arturo. 4 5 “Conversemos”. tomo XV. Diretor Luis Felipe Degregori. Espaços da Recordação. cuja forma. 34). a realidade se encontra em suspenso. 61). em alusão ao mapa do estado de Ayacucho. Por outro lado. p. Retablos de Edilberto Jiménez sobre la Violencia Política” . p. Versão digital disponível em: <http://www. na memória existe um “real” anterior à imagem. assemelha-se a um cachorro sentado. (2009). Chungui: Violencia y trazos de memória. Formas e Transformações da Memória cultural. 11 Ver: ASSMANN. Coordenador da Tradução Paulo Soethe. Disponível em: < http://www. 122) no Peru antigo Taki/Taqui significava dançar e cantar como duas ações que se realizam simultaneamente. (1943). (2009). Segundo Edilberto Jiménez. (2011). sem dispor de métodos de armazenamentos artificiais (como é o caso da mnemotécnica) sempre podem ser acessadas pela memória. Campinas.org.pe/cid/galeria-cid/>. Introducción. no caso de operações historiográficas do passado. 2007. Tradução de Daniel Martineschen. pois. pelos militares. 2011. Lima: IEP. atuar contra o tempo e o esquecimento “cujos efeitos são superados com a ajuda de certas técnicas” (ASSMANN. 317-361. O nome Orelha do Cachorro foi dado à essa região.” Em: Revista del Museo Nacional. entendida como “arte”. 61). Toda essa região próxima a Chungui corresponderia a orelha desse cachorro. DED. Peru. Edilberto. 62 minutos. DED. A memória como Ars e Vis. 7 Para Aleida Assmann (2011) a ideia da mnemotécnica romana. Las Víctimas. Aleida. 122-159.pdf>. para os moradores de Chungui não é usual a expressão Orelha do cachorro como nome que dá referência a região das Fazendas “Zona de Hacienda”. 2 Consultar: Informe Final da Comisión de la Verdad y Reconciliación. Diferente dela a vis memoriae seria uma memória em “potência”. 36-67. La violencia. Instituto de Estudios Peruanos. 8 Conferir a exposição virtual “Universos de Memoria. Ele explica que na imaginação é possível enxergar um “irreal”. Conferir: JIMÉNEZ. Lima: IEP. Coordenador da Tradução Paulo Soethe. p. Locais. p. “a presença do ausente” (RICŒUR. Aleida. COMISEDH. Acessado em 25 de julho de 2012. passa a se denominar Comissão da Verdade e Reconciliação. Em Castelhano e Quéchua. Em: Galería Virtual Carlos Iván Degregori. Conferir: JIMÉNEZ BORJA.

por mais perto que ela esteja”. Vol. Historias representativas de la violencia.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 229 12 No sentido em que propõe Aleida Assmann. os conflitos alcançaram os maiores índices de violência. Primera Parte: Capítulo 2.pdf>. BENJAMIN. Conferir: Informe Final da Comisión de la Verdad y Reconciliación. Acessado em 26 de junho de 2012.0% SECCION%20TERCERALos%20Escenarios%20de%20la%20v iolencia%continuacion)/ 2. . ed. São Paulo: Brasiliense.165-196. / Dizem também que o rio Qanchi chora / ao se encontrar com o rio de Chungui / assim chora a o meu povoado / quando ninguém se lembra”. p. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. I. em Chungui e nos territórios asháninka.%20HISTORIAS%20REPRESENTATIVAS%20DE%20LA%20VIOLENCIA 20Introduccion. composta de elementos espaciais e temporais: a aparição única de uma coisa distante. 13 “Vivo num povoado distante / vivo na comunidade de Chungui / certamente por estar distante / os jornalistas não chegam.cverdad. (1994). a partir do conceito de aura proposto por Walter Benjamin (1994.170). Versão dig ital disponível em: < http://www.org. / nem os congressistas chegam. Tradução de Sergio Paulo Rounet. como “uma figura singular. (2003). Walter. p. arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 7.pe/ifi nal/pdf/TOMO%20V/ /2. Em: Magia e técnica. 14 De acordo com o Relatório Final da Comissão da Verdade.

é possível a ordem Tópico-S-V. (HERNANZ e BRUCART. que não impõe restrições de fronteamento (exemplos (2) e (3): (2) Tematização: e. No referido trabalho. ao estudar o posicionamento dos pronomes clíticos na história do espanhol. Fontana (1993) mostra que: a) O espanhol antigo não impunha restrições ao constituinte fronteado. 95) Com respeito à flexibilidade de fronteamento. b. apresenta uma série de variações que estão relacionadas com efeitos informativos.3 espanhol atual: a. *De dos partes el examen co nsta nsta. . *esa aria c a n t ó Montserrat Caballé maravillosamente. Considerando as possíveis ordens de constituintes. os autores mostram que o espanhol atual. En primavera Juan v isitó Leningrado. a única ordem possível é Foco-V-S2 (exemplo (1)). Um dos primeiros trabalhos sobre o espanhol nesse sentido é o de Hernanz e Brucart (1987). Hernanz e Brucart (1987) mostram que: a) com a tematização. 1987. DE DOS PARTES co nsta el examen. el problema resid eside b. Introdução1 A relação entre ordem de palavras. EN PRIMAVERA v isitó Juan Leningrado. como se ilustra no contraste entre (4) e (5): (4) (1) a. p. *En el paro. com a focalização. ao contrário da focalização. estrutura informativa e prosódia tem sido um aspecto bastante estudado nos últimos anos dentro do quadro da gramática gerativa.230 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS O PREENCHIMENTO DA POSIÇÃO PRÉ-VERBAL POR COMPLEMENTOS VERBAIS E A NOÇÃO DE OPERADOR NA HISTÓRIA DO ESPANHOL Carlos Felipe Pinto Universidade Tiradentes 1. a. (3) Focalização: e el problema. a. EN EL PARO resid eside b. embora tenha a ordem básica S-VO. b) não é todo elemento que pode ser tematizado.

Uino & agua d e ue el clerigo mezclar en el caliz. Libros. *esa aria c a n t ó Montserrat Caballé maravillosamente. Grande duelo av ie ien espanhol atual: b. em (7d) o objeto fronteado é o elemento interrogado. O espanhol atual tem. Topicalization7 3. tenho o objetivo de explicar o motivo desses contrastes entre as duas fases do espanhol. rían esos c. p. dois aspectos que contrastam claramente o espanhol atual com o espanhol antigo são a maior flexibilidade para fronteamento de constituintes no espanhol antigo e a maior possibilidade de fronteamento de objetos sem a recuperação com o clítico5. esa aria la c a n t ó Montserrat Caballé maravillosamente. Confessar =se d e ue uen pecados. *?desde Cornellá v ol olv porque no habían autobuses. a Alexandria de la Palla. ¿qué libros tienes? Wh-movement c. 1993. Cinque (1995. 64/55/56) Em (7a). em (7b). n los xpistianos de sus c. d. *?maravillosamente cantó Montserrat Caballé esa ária. M. 107) mostra o seguinte contraste: . dicen que Nuria tiene ___i. Neste trabalho. d. 1993. a. podem ser fronteados sem restrição em ambas as fases da língua6. como se ilustra em (6). conforme os exemplos em (7) a seguir: Clitic left dislocation (CLLD) b. A noção de operador Como se observa pela rápida discussão acima. *visitar q u e er pabellón. em (7c) o objeto fronteado deixa um vazio dentro da oração. Discutindo a noção de operador. Left dislocation (LD) Librosi. A Nuriai lei dieron un libro anoche. (7) a.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 231 r í a n los invitados el otro b. Distintos tipos de fronteamento (5) espanhol antigo: a. quatro tipos de construções A-Barra. (FONTANA. v ió Nuria andando e. b. (6) espanhol antigo: n las yentes christianas.4 (FONTANA. sólo tengo romances. Deste lugar de Vigeva fue S. A discussão se concentra nos complementos verbais já que os adjuntos. p. *?con una horquilla para el pelo ab abrían chorizos las puertas de los coches. c. 55/61/65/86) b) Os complementos verbais podiam ser fronteados sem a duplicação pelo clítico no espanhol antigo. 2. diferentemente do que acontece no espanhol atual. p. por outro lado. pelo menos. o XP fronteado não tem correspondência dentro da oração. o objeto é recuperado por um clítico dentro da oração.

o convidarei amanhã (não hoje) Cinque (1995) comenta que a falta de movimento-WH nesse tipo de construção é um argumento crucial10 tendo em vista que. ho visto ___j Gianni. 108) oração é caracterizado como operador já que é derivado via movimento-WH . Com relação ao exemplo em (10). e não pode ser variável porque não é vinculado por um operador . A inserção do clítico é uma estratégia de último recurso para licenciar a categoria vazia dentro do VP. 1995. a categoria vazia poderia se caracterizar como variável já que seria vinculada pelo operador11. é preciso explicar que tais diferenças estão relacionadas com diferenças mais profundas entre as duas fases da língua 12 . (11) *Giannij. não pode ser pro porque é não identificado. Não pode ser PRO porque é governado. se houvesse um movimento-WH . (9) GiANNIj (*loj) invitero (non Pietro) Gianni (*o) convidarei (não Pietro) Os dados em (8) e (9) mostram que. não pode ser vestígio de DP porque é livre na sua categoria de regência. este DP é capaz de vincular a categoria vazia dentro da oração caracterizando-a como variável. a explicação vai no sentido contrário: como o DP no inicio da (10) *Chii loi inviterai? (CINQUE. “Línguas V2” tem sido uma etiqueta utilizada para classificar aquelas línguas nas quais o verbo finito aparece na segunda posição na oração e é precedido exclusivamente por um único constituinte seja qual for a sua função sintática13. mas porque o operador não pode vincular nenhuma variável (o operador vincularia o clítico. As Na análise de Cinque (1995). p. é proibida. O efeito V2 no espanhol antigo Antes de explicar as diferenças entre as duas (CINQUE. Quando o clítico é inserido. a presença do clítico é requerida e. Se o clítico é introduzido. na topicalização. a oração se torna agramatical não A pergunta que Cinque (1995) procura é responder é por que o DP em TopP. a categoria vazia é caracterizada como uma anáfora (vestígio de DP) e pode ser licenciada. o problema de (11) é que o DP “Gianni” não se caracteriza como um operador e o DP nulo dentro da oração não pode ser caracterizado como nenhum tipo de categoria vazia. que não é uma variável). como em (8).232 (8) ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Giannij. Aux visto 4. p. Os dados em (9) também mostram que somente a topicalização é gerada via movimento-WH8 tendo em vista o paralelismo entre (9) e (10). na CLLD. 109) fases do espanhol. loj invitero domani (non oggi) Gianni. não pode ficar sem ser duplicado pelo clítico. 9 diferenças apresentadas nos exemplos de (4) a (6) acima levaram Fontana (1993) a analisar o espanhol antigo como uma língua V2. Os exemplos abaixo ilustram essa característica do espanhol antigo: . como no caso da CLLD. como mostra a agramaticalidade de (11): porque a categoria vazia fica sem ser caracterizada. 1995.

o rg a la abatíssima Sancha oto rga (13) a. e la priora doña María Fortúnez e tod el convento. y así co mie d esc e nd er : esce nde r ner b. si el deudor otros bienes t uv iese b. aqui c o mie historias de oriente dados em (12) a (15) oferecem evidências de que o verbo. No espanhol atual. Como o objeto não pode ser movido para SpecFinP. os dados em (15) ilustram construções de object shif . o verbo não se move para Finº e não permite que qualquer constituinte ocupe esta posição. a dios d e b e hombre a d e lantar y p o ne primeramientre. O conjunto de ordem O-V com clítico aumenta. em FinP. 2011. no espanhol antigo (e nas línguas V2 em geral). 5. no espanhol antigo. se nota o interessante cruzamento de dados em Fontana (1993) e Pinto (2011): quando a ordem O-V sem clítico diminui. en todos los buenos hechos que quisiere comenzar. si corazon has nz o el espiritu por las medulas mienz nzo (14) a. se movia para CP. não se caracteriza como operador e a presença do clítico é necessária na CLLD e a presença de outro DP é necessária na LD. que no pue oler subido en corazón humano conmigo en el ilícito amor comunicar su deleite. porque este cuerpo muchas lágrimas ha d e j a d o a sus parientes: y amargos dolores. Explicando o contraste entre as duas fases do espanhol A partir da exposição de Cinque (1995). mais especificamente em FinP. que é caracterizada como variável deixada dentro do VP. No espanhol antigo. como agora f ezie ezier Núnnez nza el libro de la flor de las mienza c. armas odiosas t o mast maste Clitemestra ro n el maestre don Pero b. os exemplos em (13) ilustram a ordem O-V sem retomada clítica em oração matriz e oração subordinada. o traço EPP em CP. atrai o verbo e o movimento do verbo para Finº permite que qualquer constituinte seja movido para SpecFinP15.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 233 e . . mas somente pode ser concatenado diretamente em SpecTopP através da operação de concatenação (15) a. Assim. assim como nas línguas V2. b. que exibe movimento do verbo exclusivamente para IP14. Por essa razão. o que é um reflexo da mudança linguística16. como não há um traço EPP d e mi paciencia t ole r ar que haya pued c. os dados em (14) ilustram a ordem Aux-S-V. quando se tem a ordem O-V. diferentemente do espanhol atual. 255) externa. matando a tu madre (12) a. p. E esta carta ot Garcíez. o objeto fronteado se caracteriza como um operador e pode licenciar a categoria vazia. has. é possível ter uma explicação para o contraste entre as duas fases do espanhol. (PINTO. a Os exemplos em (12) ilustram a ordem V2 em oração matriz e oração subordinada.

o objeto é concatenado diretamente em SpecTopP. Null Subjects and Verb Second Phenomena. 52-75. 1-32. o elemento em primeira posição ocupava SpecFinP.234 6. Oxford: Oxford University Press. qualquer constituinte. CINQUE. Quando esses elementos são tematizados. Marianne (1987a). Dissertation. No espanhol atual. a periferia esquerda da oração é destinada para usos informativos. p. FONTANA. Bare quantifiers. a ordem O-V em contextos neutros é banida já que não há lugar de pouso disponível para o objeto (SpecFinP não é uma posição ativa no espanhol atual). Conclusão ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS indiretos. p. No espanhol antigo. v. L. GÓMEZ TORREGO. como o verbo se movia para Finº e qualquer constituinte podia ocupar a posição de SpecFinP. Por isso. quyen esto q uisiese q BENINCÀ. The Structure of CP and IP. In: ______. ADAMS. independentemente de sua função informativa. o seu lugar de pouso é SpecFocP17. 104-120. como as ilustradas em (16) a seguir. (1993). orações do espanhol antigo. Luigi (org..D Dissertation. [. Em consequência disso. esses elementos fronteados não se caracterizam como operadores e não podem caracterizar a categoria vazia como uma variável. b r antar ueb antar. The Cartography of Syntactic Structures. No caso da tematização. Guglielmo (1995). and the notion of operator at S-structure. Phrase structure and the Syntax of clitics in the history of Spanish. quantified A contraparte gramatical das orações em (16) no espanhol atual exibe obrigatoriamente a ordem V-O18 . 1. Josep M.D. Ph. b) como a tematização no espanhol atual é gerada via concatenação. no caso da focalização. University of California. POLETTO. 2. 5. Marianne (1987b). No espanhol antigo. From Old French to the Theory of Pro-Drop. Madrid: Ediciones SM. Paola. Quando um objeto é movido.). esses complementos circunstanciais fronteados conseguiam caracterizar as categorias vazias deixadas no VP como variável porque se caracterizavam como operadores.] (16) a. a categoria vazia deixada dentro do VP precisa ser caracterizada de alguma forma: a) como esses elementos não possuem clíticos. podia ocupar a primeira posição sem a duplicação pelo clítico. Esta análise explica também porque o espanhol atual apresenta restrições à tematização . como apontaram Hernanz e Brucart (1987) e Fontana (1993) nos exemplos ilustrados em (2) e (3). devido ao traço EPP de FinP. A conclusão que se obtém dessa discussão é que os objetos fronteados no espanhol antigo e no espanhol atual ocupam lugares diferentes na estrutura. v. Natural Language & Linguistic Theory. Nova Iorque: Cambridge University Press. p. principalmente de complementos circunstanciais. Cecilia (2004). . ed. Gramática didáctica del español.. (2002). são agramaticais no espanhol atual: Referências bibliográficas ADAMS. Ph. Italian syntax and Universal Grammar . In: RIZZI. Topic. 8. n. Old French. University of Pennsylvania. Tal movimento era desencadeado por questões meramente formais. assim como os objetos diretos e NPs. E tod aquel quj esta carta q ue (1223) ue b r antar (1225) que ueb b. Complementos circunstanciais são selecionados pelo verbo lexical. por isso. a categoria vazia não pode ser caracterizada como uma anáfora. Focus and V2: Defining the CP Sublayers.

). 2 Os termos tópico/topicalização são termos que cobrem vários fenômenos linguísticos e são usados por várias vertentes teóricas. RIZZI. Parametters and functional heads. The fine structure of the left periphery. 11. KROCH. . pressuposta ou como o tópico discursivo.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 235 HERNANZ. Verb movement and expletive RIVERO. p. como informação conhecida. V2 and the EPP. p. Luigi (orgs. ou seja. Luigi (1991). Pr incípios teór icos. 2. In: BELLETTI. 297328. 11-62. Language Variation and Change. Elements of grammar. v. predominantemente na periferia esquerda. p. BRUCART. Adriana. Linguistic Inquiry. p.). Te mat ização = ESTRATÉGIA DISCURSIVA na qual um constituinte é tematizado. Barcelona: Crítica. F r ont eame nt o = EFEITO SINTÁTICO LINEAR em que um constituinte aparece no início da oração onteame eament nto (periferia esquerda). 363-393. 199-244. Adoto a seguinte distinção terminológica: To picalização = ESTRATÉGIA SINTÁTICA na qual um constituinte é movido de sua posição de base dentro da oração para a periferia esquerda. La sintaxis. Universidade de Geneva (citado do manuscrito). In: RIZZI. The Cartography of Syntactic Structures. VIKNER. SCHWARTZ. The Verb always leaves IP in V2 clauses. Notas 1 Este trabalho faz parte da discussão sobre o movimento do verbo na história do espanhol apresentada em minha Tese de Doutorado (PINTO. Residual verb second and the Wh criterion. Luigi (org. Nova Iorque/Oxford: Oxford University Press. La oración simple . 1. Bonnie. Carlos Felipe (2011). A noção de fronteamento que estou assumindo está relacionada exclusivamente com a ordem superficial. sem considerar se há ou não movimento de constituinte. é posto em matização destaque. movimento do verbo e efeito V2 na história do espanhol. Kluwer: Dordrecht. The C-Systen in brythonic celtic languages. 2011). tanto formais como funcionais. (citado do manuscrito) PINTO. Ordem de palav ras. Sten (1995). VIKNER. 281-337.). Liliane (org. Tese de Doutorado. v. José María (1987). Sten (1996). Luigi (1997). Oxford: Oxford University Press. A estratégia discursiva de tematização pode ser realizada através da operação com ou sem movimento sintático. Anthony (1989). RIZZI. v. n. The Structure of CP and IP. Oxford: Oxford University Press. On Left Dislocation and Topicalization in Spanish. Reflexes of Grammar in Patterns of Language Change. RIZZI. Universidade Estadual de Campinas. 2. assumo a topicalização como uma operação sintática de movimento A-Barra independentemente de seus efeitos discursivos. In: HAEGEMAN. ou seja. María Lluisa. Maria Luisa (1980). subjects in the Germanic languages . dada. ROBERTS. p. Ian (2004).

objetos indefinidos têm retomada facultativa. 1980. 8 Rivero (1980) assume que a topicalização é diferente de movimento-WH a partir de dados como (i) e (ii) (i) a. (ii) A: ¿Viste algún chico? B: *No. Línguas que possuem um sistema de clíticos mais ricos. b. Nesta definição. p. 4 Parece haver alguma relação entre definitude e presença do clítico nesse tipo de construção: objetos definidos são obrigatoriamente retomados. te pregunta (que) por qué no tiene. 2004. já os adjuntos. não necessariamente na periferia esquerda. as orações em (ii) não deveriam ser possíveis. Tal contraste pode ser explicado pelo caráter do clítico. não. Os verbos são destacados em negrito. nas quais se diz que os complementos circunstanciais podem ser facultativos ou obrigatórios. no he visto ninguno. 6 É importante ter em mente a diferença entre complemento e adjunto verbal: complemento verbal é o elemento que é selecionado semanticamente pelo verbo. 2002). 380) Se topicalização e movimento-WH fossem o mesmo tipo de movimento. Assumo. no lo vi. exibem os mesmos fatos com outras funções sintáticas. como o catalão e o francês. Quando o constituinte focalizado se encontra fora da sua posição canônica na oração. (RIVERO. Dinero. Dinero. 7 O que Cinque (1995) chama de topicalização é equivalente a focus movement. ou seja. a retomada só pode ser observada com objetos diretos e indiretos. como apresentei acima. *¿Qué te pregunta (que) por qué no tiene? b. como a informação nova que completa a pressuposição ou o contraste que corrige a asserção anterior. *¿Qué preguntan (que) quién tiene? (ii) a. é posto em destaque.236 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Focalização = ESTRATÉGIA DISCURSIVA na qual um constituinte é focalizado. B’: No. Se esse movimento é usado como recurso de tematização ou de focalização é algo que pode variar entre as línguas. que é essencialmente definido: (i) A: ¿Viste al chico? B: No. GÓMEZ TORREGO. para uma discussão detalhada da questão em modelos . preguntan (que) quién tiene. que a topicalização é um movimento A-Barra que deixa uma posição vazia dentro da oração. na frase “Juan puso el libro en la mesa”. 5 Como o espanhol tem um sistema de clíticos defectivo. o sintagma “en la mesa” é um complemento do verbo. 3 Nos exemplos. sempre é derivado via movimento A-Barra (topicalização ). as maiúsculas indicam que o constituinte recebeu a proeminência prosódica. Contudo se são o mesmo tipo de movimento ou não é irrelevante para a discussão (ver BENINCÀ e POLETTO. no lo vi. Observar que esta definição é diferente da apresenta em algumas gramáticas do espanhol (por exemplo.

há línguas que. No caso das línguas assimétricas. 16 Este aspecto também é trazido por Kroch (1989) a partir da proposta de Adams (1987a. e línguas assimétricas. que exibem somente o efeito V2 em orações principais. we obtain the pattern in Figure 5 below. efeito “that-trace” etc). ademais. there will be an additional effect. 13 O grupo mais representativo de línguas V2 na atualidade são as línguas germânicas. inversão livre.. 9 Cinque (1995) diz um operador pode ser definido inerentemente. 1987b) sobre a história do francês: In sentences with preposed adverbs and prepositional phrases. 86) Se houvesse movimento do DP de dentro da oração relativa para o inicio da oração matriz. não se caracteriza como operador.. 13-14) . an increase in the rate of use of the resumptive clitic pronouns required by left dislocation. but in sentences with preposed noun phrase complements. We have. O que é relevante é que ambas as construções são derivadas via um tipo de movimento A-Barra. Ver também Rivero (1980). deixam o verbo na última posição da oração e há línguas que deixam o verbo na posição medial. 1989. p. (HERNANZ e BRUCART. reversed the sign of the slope of the regression. 15 Esta análise se baseia em Roberts (2004). 12 Tais diferenças reforçam a hipótese de que um parâmetro é uma série de características que se manifesta em conjunto. the only effect of the change in accent on word order will be a decline in the rate of subject-verb inversion. [. exceto o inglês. 14 As análises propostas para o efeito V2 nas línguas humanas são muitas e diversas: há análises que propõem que o efeito V2 sempre implica em movimento do verbo para CP e há análises que propõem que há possibilidade de efeito V2 em IP (especialmente no caso das línguas simétricas). como alguns DPs em CP. procura explicar a variação na manifestação no efeito V2 dentro do campo CP. a oração deveria ser agramatical já que orações relativas são caracterizadas como ilhas e não podem ter constituintes extraídos de dentro de si. 10 Que este tipo de construção não é derivado através de movimento é evidenciado pelo fato de que podem aparecer em contextos de ilha. passa obrigatoriamente pela questão do movimento. Por exemplo. como os quantifcadores nus. nas orações subordinadas. since the rise in left dislocation corresponds to the loss of topicalization. (KROCH. que perdeu tal propriedade já há algum tempo. o efeito V2 em oração subordinada pode ser generalizado ou restringido. No caso das línguas simétricas. observe-se o parâmetro do sujeito nulo: línguas de sujeito nulo exibem uma série de características que não são encontradas em línguas de sujeito preenchido (extração de sujeito de orações subordinadas.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 237 minimalistas). Se uma categoria não se move. 11 Lembrar que a definição de operador de Rizzi (1991). 1987. Minha análise. of course. como mostra o exemplo do espanhol: (i) El dinero Maria ignora quién lo tiene. p. As línguas V2 são divididas principalmente em dois grupos: línguas simétricas.. ou estruturalmente. que exibem o efeito V2 tanto em orações principais como em orações subordinadas. No Capítulo 01 de Pinto (2011) fiz uma discussão bastante densa da questão e apresento fortes evidências com base no modelo cartográfico de Rizzi (1997) e nos argumentos apresentados por Vikner (1995) e Schwartz e Vikner (1996) de que o efeito V2 acontece sempre no campo CP. no Critério-WH por exemplo.] If we fit a logistic curve to Priestley’s data via regression and compare the logistic transform of the fitted curve with Fontaine’s results.

212) sintetizo a seguinte correlação: Contexto Focalização Tematização Neutro Espanhol antigo O-V O-V O-V Espanhol atual O-V O-cl-V V-O . Por isso. o foco sempre se caracteriza como operador e qualquer constituinte pode se mover para a periferia esquerda. 18 Em Pinto (2011.238 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 17 O movimento de constituinte é obrigatório na focalização por uma questão de escopo: o elemento focalizado precisa ter escopo sobre o restante da oração. p.

Según Poe. En ambas narrativas. del año de 1951. lo que induce a una exaltación del alma en el lector. y a la transferencia de identidades en relación a “Chac Mool”. personajes de vidas solitarias y hábitos rutineros abandonan sus casas – herencias y recordaciones de patrimonios familiares – porque ellas son invadidas. el efecto deseado. de Carlos Fuentes. cuentista que principió la teoría sobre el género. que será alcanzado con la fuerza derivable de la totalidad del texto. y “Chac Mool”. como sonidos sofocados o murmullos de una conversación. En los textos “Review of Twice-told tales” (1842) y “The philosophy of composition” (1846). la lectura del cuento en una sola asentada . y el otro. de Julio Cortázar. el escritor estadounidense estableció principios en la estructuración del cuento que apuntan para una unidad de efecto. quien toma la casa en “Chac Mool”. son muy perceptibles a los lectores de esos cuentos publicados en libro en la década de 1950. . Una. en el final. La lectura del tiempo como invasor de las casas es otra de las posibles interpretaciones: es el pasado. sin interrupciones. por la réplica de la estatua de un Chac Mool. Para eso. esos cuentos crean efectos que abren diferentes posibilidades para interpretar los abandonos de las casas por sus moradores. Sorprendiendo en sus finales. Algunos críticos ya apuntaron alegorías al peronismo (que se apodera de Argentina) o a las inmigraciones (que se apropian de Buenos Aires) o mismo del lector (que se adueña del texto) en el caso de “Casa tomada”. caracterizado en la estatua. desde su primera frase. a su luz y de modo inverso. Las escritas de esos cuentos respetan la brevedad y la intensidad reconocidas por Edgar Allan Poe. se torna necesaria. podemos leer al tiempo presente como siendo el deflagrador de la expulsión de los hermanos – siempre restrictos al mundo del pasado – en el cuento del escritor argentino. por ruidos imprecisos. todas las palabras de la composición deben estar direccionadas a provocar. hace parte de L os días e nmascar a d os enmascar nmascara os. también iniciando el libro. figura de la mitología mexicana que simbolizaba un mensajero entre los hombres y Tlaloc. obra que marca el estreno del escritor mexicano en 1954. El primero iar io es el cuento que abre B est estiar iario io. la otra. dios de la lluvia que propiciaba la agricultura.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 239 INVASIONES DEL TIEMPO EN EL ESPACIO DE LA CASA Carlos Garcia Rizzon UNIPAMPA Los acercamientos entre “Casa tomada”.

nuestros escritores igualmente se dedicaron a pensar sobre el cuento como género literario. Jorge Luis Borges comenta en el prólogo de Fic cio nes Ficcio ciones nes: “Desvarío laborioso y empobrecedor el de componer vastos libros. En el mismo sentido y con sarcasmo. Muy sutilmente el narrador nos atrae a su terrible mundo. p. dice. El uruguayo Horacio Quiroga. en una conferencia proferida en Cuba. un fragmento de la realidad. De la misma forma. p. en 1970. que el cuento inicia por su final. como este. aconsejándolos respecto a los textos. y publicada con el título de “Algunos aspectos del cuento” en la revista “Casa de las Américas”. señaló algunas cuestiones más sobre la elaboración de los cuentos. Ese árbol crecerá en nosotros. para Cortázar “un cuento es significativo cuando quiebra sus propios límites” (2004. aborda . presentó cuestiones respecto al cuento como narrativa. mas que pueden ser extendidos también al protagonista del cuento de Carlos Fuentes – deliberadamente triviales. Chejov observa también un carácter de apertura de la obra. actúa como una explosión que se abre a una realidad mucho más amplia. pues “el cuento literario consta de los mismos elementos que el cuento oral y es. Comparó esa escritura a una fotografía. es decir. “Tesis sobre el cuento”. nt os d e amo r. d e lo cur ayd em ue r te autor de Cue uent ntos de amor de locur cura de mue uer (1917). otro escritor. de Ricardo Piglia. siendo exigida su participación en la creación de la historia narrada. en palabras de Cortázar. p. 521-522). pues persiste retumbando en la mente del lector la continuidad de los acontecimientos. partiendo de los principios sugeridos por Poe y Chejov. el autor ruso mantuvo correspondencias con jóvenes escritores iniciantes para quienes exponía sus consideraciones. De esa forma.” (BORGES. 516) y va más allá de lo que cuenta. donde la felicidad es imposible. p. trascendiendo espiritualmente la imagen que muestra. redijo textos como “Manual del perfecto cuentista”. entonces. 68). Otro texto teórico. en el final de la década de 1960. que es llevado a dar continuidad a la narrativa. 429) También Julio Cortázar. Sugiere. también escritor argentino. Sin embargo. Pensando en la ruptura de lo cotidiano que los cuentos de Chejov ofrecen. probablemente por su ceguera. (2001. 1989. En América Latina. A pesar de no haber escrito artículos teóricos que tratasen de sus concepciones acerca del género. preserva la idea de unidad y depuración con el objetivo de alcanzar una intensidad narrativa que sea atractiva. por ejemplo. En sintonía con las ideas de Chejov. en que los seres se entrelazan”. rechazar la subjetividad del autor y volcarse a extrañamientos percibidos en la observación de la propia realidad cotidiana. p. donde un recorte. 1970. Antón Chejov. que el cuento deba tratar sus temas sin exageraciones. “todo cuento perdurable es como la semilla donde está durmiendo el árbol gigantesco. el relato de una historia bastante interesante y suficientemente breve para que absorba toda nuestra atención” (QUIROGA. vemos la sugestión de la complicidad del lector en la construcción del cuento. regidas por rutinas triviales. presentando normas para la producción de cuentos. Su pensamiento coincide con Poe cuanto a la brevedad y al efecto. Es un mundo poroso. pues. “Los trueques del perfecto cuentista” y “Decálogo del perfecto cuentista”. dará su sombra en nuestra memoria” (2004. el cotidiano se refleja en las acciones de los “personajes – caracterizados por Jorge Luis Borges en análisis a los textos de Julio Cortázar. O sea. 520). con ironía. “Chac Mool” y “Casa tomada” trabajan con la perspectiva de lo no acabamiento. Siguiendo conceptos que venían desde Poe. Y Borges continúa: “También se juega con la materia de que somos hechos.240 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Aún en el siglo XIX. Cortázar amplía la idea del efecto que el cuento provoca en el lector. el tiempo”. el de explayar en quinientas páginas una idea cuya perfecta exposición oral cabe en pocos minutos.

] cuando escuché algo en el comedor o la biblioteca. Los mismos acontecimientos entran simultáneamente en dos lógicas narrativas antagónicas. al mismo tiempo o un segundo después.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 241 que el cuento presenta dos historias. 2000. Eso nos remete a la teoría del iceberg . 508-509) Fui por el pasillo hasta enfrentar la entornada puerta de roble [. Se dedican a la limpieza de la casa. de Ernest Hemingway. “un poco lúgubre en su arquitectura porfiriana” la casa de Filiberto. de relaciones de causa y efecto. como un volcarse de silla sobre la alfombra o un ahogado susurro de conversación. con lo subentendido y con la alusión de la historia que está aparente. a la cocina. de geografías bien cartografiadas. personaje de “Chac Mool”. personajes de Cortázar. p. para quien el verdadero estudio de la realidad no residía en las leyes sino en las excepciones a esas leyes” (p. pues no hay sobresaltos o protestas. la solución encontrada es el abandono de la casa. dice más adelante. la historia secreta se construye con lo no dicho. apenas el hermano. comprendida por lo que está por detrás de ellas. Representan mundos autárquicos y aislados. dentro de un mundo regido más o menos armoniosamente por un sistema de leyes. es decir. oponiéndose. o sea. (2004. Los puntos de cruce son el fundamento de la construcción. Lo perturbador en “Casa tomada” está en la actitud de los hermanos. como dijo en la conferencia a los cubanos. en el fondo del pasillo que traía desde aquellas piezas hasta la puerta. . Para Piglia. el cuento es una historia que esconde una historia secreta. tiene la costumbre de comprar madejas Cortázar comparte. de principios. son incapaces de reaccionar a la invasión de los ruidos. Trabajar con dos historias quiere decir trabajar con dos sistemas diferentes de causalidad. Tanto en uno como en otro cuento.. También lo oí. Los elementos esenciales del cuento tienen doble función y son usados de manera distinta en cada una de las dos historias. con el “fecundo descubrimiento de Alfred Jarry. p. donde “podían vivir ocho personas sin estorbarse”. la noción de lo fantástico no difiere de lo real. los sábados. cerrando puertas y abriendo espacio para lo irracional: Aún según Piglia. las historias aparentes de las invasiones caracterizan formas literarias que subvierten padrones convencionales de la racionalidad. de psicologías definidas. (p. una que se lee en la superficie de las líneas escritas. Encerrados en la seguridad de sus hogares – protecciones de lo ya establecido –. Me tiré contra la puerta antes de que fuera demasiado tarde. en su análisis de […] a ese falso realismo que consiste en creer que todas las cosas pueden describirse y explicarse como lo daba por sentado el optimismo filosófico y científico del siglo XVIII. 509). Borges destaca. y espaciosa y antigua la de los personajes de “Casa tomada”. Irene y su anónimo hermano. las casas son descriptas como sólidas construcciones de tiempos imponentes. que se mueven en el terreno de lo fantástico sin distinguirlo de la realidad. apenas buscan refugiarse cada vez más en el interior de la casa. (PIGLIA. En los cuentos “Casa tomada” y “Chac Mool”. 73) de lana para las tricotas de Irene. siendo apenas la cara oculta de la realidad.. Cada una de las dos historias se cuenta de un modo distinto. y otra aludida. De forma similar. Contrariando lo que podría ser natural. de manera fantástica en el cuento de Cortázar y en el ámbito de lo maravilloso en el relato de Fuentes. Para Cortázar. el hermano a la lectura u ordenación de una colección de estampillas (“para matar el tiempo”) e Irene a los tejidos de lana (tal vez un “gran pretexto para no hacer nada”). 133) Cuando la invasión se hace completa. Los hermanos. la cerré de golpe apoyando el cuerpo. El sonido venía impreciso y sordo. prácticamente no salen de casa. esos personajes presentan una falta de aspiración y una indiferencia con el mundo y la sociedad que los rodea. felizmente la llave estaba puesta de nuestro lado y además corrí el gran cerrojo para más seguridad.

la estatua adquiere vida y lo hace prisionero y esclavo de sus deseos: Y ayer. 1976.. 28). revelan actitudes mecánicas y superficiales. (p. Vuelta a dormir. 16). o mito passou a ser considerado o próprio real compreendido na simultaneidade de suas perspectivas prováveis” (1993. primeramente. visitar sitios arqueológicos y coleccionar piezas antiguas de la cultura mexicana. (CARPENTIER. entonces empezó a llover. xvii) . donde la réplica de un Chac Mool que él compra en una feria popular será nada más que un trofeo conquistado. sonriente. un despertar sobresaltado. No sé cuánto tiempo pretendí dormir. sin ningún carácter investigativo. 20-21) Dominado por la estatua. 15). [. erguido. Sí. que lo obliga a buscar agua. antes de llevarla a su cuarto de trofeos: “El traslado a la casa me costó más que la adquisición. pues él se desequilibra mentalmente y llega a ofrecer “sus servicios al Secretario de Recursos Hidráulicos para hacer llover en el desierto” (p. él pasa a enfrentar una serie de perturbaciones. (1989. una vez que “la tubería volvió a descomponerse.] Todas las leyes naturales lo rigen. interliga el pasado con el presente. dejé correr el agua de la cocina. [. de que en la oscuridad laten más pulsos que el propio. un objeto decorativo sin ninguna significación histórica o religiosa. de manera inequívoca. cuando surge de una inesperada alteración de la realidad (el milagro). “na literatura hispano-americana.. Filiberto colocó la estatua del Chac Mool. Aumentando sus problemas. El cuarto olía a horror. alimentos e inclusive a ceder sus aposentos. 15). huir y dejar la casa es la única alternativa para Filiberto. aún no amanecía. [.. se escuchaban pasos en la escalera. a incienso y sangre. el mundo de los antiguos mexicanos actuará sin ningún extrañamiento a la comprensión racional de la realidad. Pesadilla. la profundidad del sótano comienza a reavivar Chac Mool. Así como el interior de las pirámides de los antiguos pueblos mexicanos preservaba los elementos culturales del pasado.. que “la magia es la coronación o pesadilla de lo casual. e irán interferir en su trabajo. Su interés por “ciertas formas del arte indígena mexicano” no pasa de un deseo coleccionista. p. El Chac Mool. Así. percibidas con particular intensidad en virtud de una exaltación del espíritu que lo conduce a un modo de “estado límite”. p. Fue en el sótano que. inundando el sótano” (p.. p.] Chac Mool avanzó hacia la cama.] Cuando sin aliento encendí la luz. en “Chac Mool” el “algo más” se revela por una sobrenaturalización de lo real. Cuando volví a abrir los ojos. de una revelación privilegiada de la realidad. 335). yuxtaponiendo los tiempos y alterando maravillosamente la realidad: […] lo real maravilloso comienza a serlo. y se desbordó por el suelo y llegó hasta el sótano” (p... ocre. elemento vinculado a Chac Mool en la mitología: “Amanecí con la tubería descompuesta. Si en la historia fantástica de “Casa tomada” hay una naturalización de lo irreal. A partir del momento en que Filiberto lleva la estatua a su casa. en el cuento de Fuentes. mensajero que es. Filiberto es un funcionario público preso a una vida de rutinas y hábitos rígidos. con su barriga encarnada. creando una atmósfera en que la tensión mental es provocada por difusos e inexplicables ruidos de algo apenas mencionado.. con esa seguridad espantosa de que hay dos respiraciones en la noche. y las lluvias se han colado. Allí estaba Chac Mool.242 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS “Casa tomada”. de una iluminación incomún o singularmente favorecedora de las escalas y categorías de la realidad. sin embargo. Pero ya está aquí. por el momento en el sótano mientras reorganizo mi cuarto de trofeos a fin de darle cabida” (p. no su contradicción. Para Bella Josef. y otras imaginarias”. por fin. donde la presencia concreta de una estatua gana vida y los elementos de lo maravilloso se asocian a los mitos de las culturas indígenas. Los tormentos de Filiberto seguirán en casa. Esas actividades. entre ellos. 21). Incauto. todas en relación al agua.

a mí se me murió María Esther antes que llegáramos a comprometernos” (p. Filiberto ya no distingue lo que es realidad o delirio. pues no pasan de simples rellenos del tiempo. Irene rechazó dos pretendientes sin mayor motivo. 131). Sin embargo.. 11-12) La limpieza de la casa es una rutina que mantiene un pasado envejecido. Vivir “en aquel caserón antiguo. Nos resultaba grato almorzar pensando en la casa profunda y silenciosa y cómo nos bastábamos para mantenerla limpia. Océano libre y ficticio. Las ejecuciones mecánicas de sus tareas se tornan operaciones improductivas. sin criados ni vida familiar” (p. 19) padres. 21) retrata su conformismo por no haber alcanzado los planes idealizados en la juventud: “parecíamos prometerlo todo.. que no constituyeron familias y permanecieron estériles: “A veces llegamos a creer que era ella [la casa] la que no nos dejó casarnos.] Realidad: cierto día la quebraron en mil pedazos. una vez que consideraba que “desde 1939 no llegaba nada valioso a la Argentina” (p.]. sin renovación. Si es real un garrafón. lo que le causaba algún sufrimiento: “Sentí la angustia de no poder meter los dedos en el pasado y pegar los trozos de algún rompecabezas abandonado” (p. pues en toda su trayectoria de vida “había habido constancia”. y nosotros no conocemos más que uno de los trozos desprendidos de su gran cuerpo. ya no quedaba nada por hacer fuera de unos pocos platos sucios. sin alteraciones en sus hábitos. Del mismo modo. real imagen monstruosa en un espejo de circo. la cola aquí.. acomodado a una existencia uniforme. Sus actividades también son repetitivas. y lo que era una antigua representación divina se reduce a un objeto decorativo que se compra en una tienda de feria que vende recuerdos para turistas.. 131) Filiberto es un sujeto de “tentaciones burocráticas”. con la mitad de los cuartos bajo llave y empolvados. apenas mantiene la evasiva función de evitar el Su esfuerzo en mantener la casa. No existe ningún avance y ninguna construcción. Es incapaz de ambicionar un cambio. hoy volví a sentarme en las sillas. ausente de valor e interferencia en la realización de su vida. se cree en lo real..ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 243 Cuando el Chac Mool se humaniza. siempre puntuales. 132). y más. reales. 11). De igual manera. “ciertamente muy grande” y “única herencia y recuerdo” de sus . habían ido cincelándose a ritmo distinto del mío”. la cabeza fue a dar allá. como barricada de una invasión. En fin. Como reconoce el hermano. levantándonos a las siete. modernizadas – también. y luego. caracterizándose por la manutención de una disciplina que lo impidió de cualquier transformación o realización de un sueño. (p. con la ciudad misma. Las lecturas de los mismos libros que el hermano hace no añaden nada. (p. la fuente de sodas [. ¿no lo son todos los muertos. sólo real cuando se le aprisiona en un caracol.. Almorzábamos a mediodía. probablemente la casa haya interferido en las vidas de él y de Irene.]. presentes y olvidados? [. quedamos a la mitad del camino” (p. los hermanos de “Casa tomada” preservan la casa “espaciosa y antigua” que “guardaba los recuerdos” de infancia por el hábito de “persistir en ella”. porque nos damos mejor cuenta de su existencia. o estar. mecánica y mediocre. Filiberto no acompañó los cambios: […] decidí gastar cinco pesos en un café. si un bromista pinta de rojo el agua. percepciones que se funden en la mente del personaje: […] todo es tan natural. es apenas un reflejo condicionado de su rutina. más que lo creído por mí. 12). Es el mismo al que íbamos de jóvenes y al que ahora nunca concurro [. y a eso de las once yo le dejaba a Irene las últimas habitaciones por repasar y me iba a la cocina... (p. mientras el mundo se transformaba con el tiempo. pero esto lo es. Real bocanada de cigarro efímera.. como relata el hermano: Hacíamos la limpieza por la mañana.. Con el café que casi no reconocía. Y las estampillas reordenadas en el álbum no alteran la preservada antigüedad. el interés por un Chac Mool no demuestra ningún conocimiento por una cultura. pues no realiza relaciones con otras obras.

La primera dimensión corresponde a la vida vegetal. representado por la estatua de una cultura antigua.. donde el ritmo de vida de viejos tiempos ya no encuentra lugar. Vivir sin pensar es no reconocer el pasar del tiempo. La tercera dimensión equivale a la vida humana. Abdicando del tiempo y dado a la adquisición de objetos y pertenencias. vivir el tiempo. Eso tornó la vida humana menos intensa y más extensa.] a veces tejía un chaleco y después lo destejía en un momento porque algo no le agradaba (p. Si en “Chac Mool” es el pasado. É por sua existência histórica. más recientemente. Confortables en la mediocridad. (SANTOS. no se desenvuelven y no producen. Los sonidos de máquinas. exigiendo el reconocimiento de su presencia. . La vida de los hombres es una vida en profundidad. ancho y profundidad. Se puede vivir sin pensar” (p. La segunda dimensión pertenece a la vida animal. sendo histórico.244 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS contacto con los ruidos invasores. 198) En esa clasificación. el geógrafo Milton Santos observa: Para apreender o presente é indispensável um esforço no sentido de dar as costas. despertadores y. Mas nos toca fazer que se convertam em fatos históricos mediante a identificação das relações que os define.. sua história. seja pela constatação da ordem segundo a qual eles se organizam para formar um sistema. que se reconhecem as categorias da realidade e as categorias de análise. p. irreal e impotente. Conservar categorias envelhecidas equivale a redigir um dogma. y aquellos por la indiferencia con el presente. um novo momento do modo de produção antigo. correndo o risco de confundir o presente com aquilo que já não o é. los hermanos no crecen. Jorge Luis Borges presenta tres dimensiones de la vida: Tres dimensiones tiene la vida. não ao passado. p. sob pena de nos perder em um presente abstrato. deveríamos ver o passado como algo que encobre as raízes do presente. “aparte de su actividad matinal pasaba el resto del día tejiendo en el sofá de su dormitorio. La expulsión o el abandono de sus casas son fantásticas o maravillosas cobranzas que el tiempo hace del aislamiento de Irene y su hermano y de Filiberto. citando diferentes pensadores. no interior de uma estrutura social. 2002. a los animales. um modo de produção novo ou a transição entre os dois. son obligados a abandonar sus casas porque no ofrecen espacio al transcurso del tiempo. según Korzybski. um novo sistema temporal. como Filiberto. Largo. Ya Irene. Já não estaremos. que se apodera de la casa. Se quiséssemos apreender o “presente como história” de Lukács e Sweezy. mas às categorias que ele nos legou. altoparlantes. isto é. 131-132). de la vida. cabría a los vegetales acumular energía. 135). seja pela observação de suas relações de causa e efeito. assim definida. únicos seres previsores e históricos. sin alteraciones que agreguen novedades. La permanencia y la conformación de lo establecido. Os fatos estão todos aí. um conceito. [. Sem relações não há “fatos”. sin renovación o actualización. Tanto los hermanos de “Casa tomada”. este por no conocer y respetar el pasado. ou melhor. (1989. lo diferente y la transformación. aún según Borges. a los hombres. llevan a una inexistencia histórica. no demuestran necesidades y tampoco ambiciones: “Estábamos bien. un acumulador de piezas de arte indígena que desfigura y anula sus representaciones del pasado. La vida de los vegetales es una vida en longitud. bocinas. apropiarse del espacio y. independentes de nós. que cierran la casa y a sí propios con el intuito de impedir la novedad. en “Casa tomada” los ruidos invasores pueden indicar el tiempo de la modernidad. La vida de los animales es una vida en latitud. En ese sentido. então. 10) En el ensayo “La penúltima versión de la realidad”. del movimiento. alarmas de autos y llamadas de teléfonos celulares son marcas indisimuladas de nuevos tiempos. E. lo que hizo nacer el imperialismo. y poco a poco empezábamos a no pensar. todo conceito se esgota no tempo. el hombre materialista conquistó personas y territorios. Presos en las recordaciones y en la manutención de lo mismo.

Ricardo (2001): Tesis sobre el cuento. São Paulo: Hucitec. São Paulo: Paz e Terra. _____ (1992): Julio Cortázar: cuentos. Buenos Aires: Suma de Letras Argentina. Montevideo: Arca. . Obras completas. Discusión. Buenos Aires: Punto de lectura. El reino de este mundo. Ficciones. SANTOS.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 245 Referencias bibliográficas BORGES.: Ediciones Era. Prólogos. 2. 10ª ed. 17ª ed. Vol. Jorge Luis (1989): La penúltima versión de la realidad. Vol. CARPENTIER. Vol. México D. FUENTES. Buenos Aires: Emece. QUIROGA. Milton (1986): O presente como espaço. Bestiario. Buenos Aires: Emece. Cuentos completos. Formas breves. 2ª ed. Julio (2008): Casa tomada. 11ª ed. PIGLIA. GOTLIB. JOSEF. Horacio (1970): Sobre literatura: obras inéditas y desconocidas. _____ (1989): Prólogo. Barcelona: Anagrama. Obras completas. 1. CORTÁZAR. Pensando o espaço do homem. 2ª ed. Nádia Battella (2006): Teoria do conto. Buenos Aires: Emecé.F. Carlos (2001): Chac Mool. Bella (1993): O espaço reconquistado. Obra crítica. São Paulo: Ática. Los días enmascarados. 8ª ed. 7. _____ (2004): Algunos aspectos del cuento. 17ª ed. Alejo (1976): Prólogo. Buenos Aires: Nemont.

ou seja. a parte prosódica ainda precisa de mais estudo e descrição. Nosso trabalho está organizado da seguinte forma: na sessão 1 definimos nosso objeto de estudo: . por parte de falantes de LM? Nossas hipóteses são: (a) os aprendizes cariocas de ELE realizam os pedidos de informação e os pedidos de ação – em ELE como o fazem em PBLM. inclusive em seu quadro de variações dialetais. contamos com julgamento de nove juízes nativos de seis áreas dialetais distintas e de três aprendizes de ELE. (c) a transferência prosódica da LM compromete a inteligibilidade e/ou gera um julgamento negativo da competência prosódica do falante de LE. Para realizar o estudo da produção. Já para o estudo da percepção. a parte segmental está bastante descrita. pretendemos com este trabalho realizar uma analise contrastiva de tais pedidos em português brasileiro como língua materna (PBLM) e em espanhol madrileno como língua materna (ELM).246 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS PEDIDOS DE INFORMAÇÃO E PEDIDOS DE AÇÃO EM PORTUGUÊS E EM ESPANHOL: UM ESTUDO ENTONACIONAL DE PRODUÇÃO E PERCEPÇÃO Carolina Gomes da Silva PG/UFRJ Maristela da Silva Pinto UFRRJ Priscila Cristina Ferreira de Sá PG/UFRJ Introdução Dispomos de uma quantidade de informação relativamente importante para a sistematização dos níveis lexicais. (b) que características prosódicas esses falantes transferem de sua LM para a LE?. a fim de verificar a produção desses atos ilocutórios por aprendizes de ELE e a percepção de ditos atos por parte de nativos de diferentes áreas dialetais. respectivamente (MORAES. (b) os juízes reconhecem os pedidos. mas julgam a entoação dos aprendizes como insuficiente. 2008. nos perguntamos: (a) como os aprendizes cariocas de ELE produzem o acento tonal de tais pedidos?. morfológicos e sintáticos no ensinoaprendizagem de espanhol como língua estrangeira (ELE). com o padrão entonacional L+<H*L% e L+>H*L%. No entanto. contrastamos o estudo realizado por Moraes (2008) para o PBLM com o de Estevas Vilaplana & Prieto (2008) para o ELM. Em um segundo momento. Do ponto de vista fonético e fonológico. Considerando as diferenças prosódicas já descritas entre o PBLM e o ELM. p. descrevemos fonética e analisamos fonologicamente os pedidos de informação e os pedidos de ação em ELE. Como nosso objeto de estudo são os pedidos de informação e de ação.393).

como em “Destranca a janela?”. p. marcada na frase pela formulação interrogativa.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 247 pedidos de informação e pedidos de ação. 1 de Honduras. No entanto. o enunciador pergunta algo que desconhece ao ouvinte e supõe que este detém a informação (KERBRAT-ORECCHIONI. San Salvador. para o pedido de informação e L+>H*L%.Metodologia Nosso trabalho se divide em duas partes: a primeira se refere à análise da produção dos pedidos de informação e de ação por falantes brasileiros de ELE. Com relação à descrição fonética. sendo dois de pedido de informação e dois de pedido de ação. correspondendo a tentativas do falante de levar o ouvinte a fazer algo (Searle. Usamos as propostas de Moraes (2008). isto é. 1 de Porto Rio. esses pedidos apresentam diferenças entre si. com nível superior completo em Letras – Português/ Espanhol. Os contornos entonacionais dos enunciados analisados foram obtidos a partir do programa PRAAT (BOERSMA & WEENINK.102). na sessão 3 apresentamos os resultados e na sessão 4. professores de ELE e inseridos no mercado de trabalho. nossas discussões e conclusões. Nos pedidos de informação. Para dar conta da análise fonológica seguimos o sistema de notação Métrico Autossegmental (AM). Comparamos esses 24 enunciados em 1. Diferentemente dos pedidos de informação. para o ELM (fala madrilena): L*HH%. Santiago de Chile. ambos do sexo feminino. e as de Estevas 2. espera-se o cumprimento de um ato qualquer. ELE com quatro enunciados modelo. cariocas. para o pedido de ação. 1999) marcando o tonema (ou núcleo) a partir de um tom alto (H) ou baixo (L). Lima. com idade entre 25 e 35 anos. gravamos a leitura em voz alta de 24 enunciados interrogativos totais em ELE. Já para o estudo da percepção. sendo seis de pedidos de informação e seis de Vilaplana & Prieto (2008). ou seja. nos pedidos de ação. 2 da Guatemala. 1984 apud Wilson. San Juan e por três falantes de . pedidos de ação. considerando o formato do contorno entonacional e seus movimentos. Tais enunciados foram produzidos por dois informantes. Para o estudo da produção. diz respeito à percepção de ditos enunciados por falantes nativos de espanhol.94). na sessão 2 apresentamos a metodologia adotada. A segunda. cidade da Guatemala. para o pedido de informação e H+L*L%. 2011. p. Cabe ressaltar que o enunciador espera que o ouvinte lhe dê uma resposta com sim ou não. para o pedido de ação. espera uma ação verbal por parte do receptor. extraídos dos trabalhos de Moraes (2008) para o PBLM (fala carioca) e de Estevas Vilaplana & Prieto (2008) para o ELM (fala madrilena). 2005. como em “Renata jogava?”. 1 do Peru. obser vamos o comportamento dos parâmetros acústicos de frequência fundamental (F0) e duração no tonema (último vocábulo tônico do enunciado) dos pedidos. Descrevemos esses 24 enunciados foneticamente e os analisamos fonologicamente. selecionamos 12 enunciados e os deslexicalizamos para que fossem julgados por nove juízes nativos de seis áreas dialetais distintas: 1 da Espanha. adultos. ele espera uma ação não verbal por parte do ouvinte. 19932012). para o PBLM (fala carioca): L+<H*L%. proposto por Pierrehumbert (1980) e Ladd (1996.Atos ilocutórios: Pedidos de informação e pedidos de ação Os pedidos de informação e os pedidos de ação equivalem a atos ilocutórios diretivos. 3 do Chile. Andaluzia. embora o enunciador faça uma pergunta.

com idade entre 20 e 45 anos. tiveram de definir o tipo de pedido (de informação ou de ação) e atribuir um conceito à entoação dada por nossos sujeitos aprendizes a cada um desses 12 enunciados.Resultados Para o estudo da produção. B. seguida de uma queda de 65 Hz da sílaba tônica para a pós-tônica. de 40 Hz da sílaba pretônica para tônica.248 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS ELE. 3. em média.Produção Analisando os dados. os pedidos de informação e os de ação em PBLM. Já nos pedidos de ação. em função da implementação da F0 e da duração. sendo dois do sexo feminino e uma do sexo masculino. todos do Brasil. 3. seguida de uma queda de 73 Hz da tônica para a póstônica. Já para o estudo da percepção. se o juiz julgasse a entoação dada ao enunciado pelo sujeito como média e C . como ilustrado no gráfico 1. de 25 Hz da sílaba pretônica para tônica. . se o juiz julgasse a entoação dada ao enunciado pelo sujeito oa. ELM e ELE são os d e inf o r mação e d e ação o ne ma/núc le o (Hz): p e did Média d e F0 das v o g ais no t de leo pe didos de info de vo to nema/núc ma/núcle Gráfico 1: Variação de média de F0 nas vogais pretônicas. a seguir. Cabe destacar que os três juízes cariocas são professores de ELE. todos com nível superior. observamos que nos pedidos de informação os sujeitos implementam a F0 em ELE com uma subida. se o juiz julgasse a entoação dada ao enunciado pelo sujeito como b o a . como não b bo analisados. Rio de Janeiro.1. Esses conceitos poderiam ser: A . em média. após ouvirem cada enunciado. observamos que os sujeitos implementam a F0 em ELE com uma subida. Esses juízes/avaliadores. assim como em função de sua configuração tonal. tônicas e pós-tônicas do tonema dos pedidos de informação e ação em ELE. falantes de espanhol nativos ou não. os pedidos de informação e os de ação são analisados segundo o reconhecimento dos atos ilocutórios e a avaliação da entoação dos aprendizes por parte dos juízes.

vale) em relação à sílaba proeminente é superior a 60% da duração total desta sílaba. p. 280) Espanhol/LE (falantes cariocas): L+>H*L% Tabela 1: Síntese das atribuições tonais para os pedidos de informação e os de ação. No que concerne à atribuição tonal. 2008. p. 393) Espanhol Europeu (fala madrilena): L*HH% (Estevas Vilaplana & Prieto. Qua dr oc o mpar at i vo da média d o alinhame nt ot o nal e mr e lação à sílaba p ro e mine nt e no t o ne ma/ Quadr dro co mparat ati do alinhament nto to em re pr minent nte to nema/ núc le o (%): p e did os d e inf o r mação e d e ação núcle leo pe didos de info de Gráfico 2: Há um alinhamento tardio médio de 890ms (89%) do total da sílaba proeminente. constatamos em nossas análises que os sujeitos realizam os contornos dos pedidos de informação e de ação em ELE com o contorno melódico final circunflexo L+H*L%. nota-se que nos pedidos de informação há um alinhamento tardio na sílaba tônica. vale) em relação à sílaba proeminente é inferior a 40% da duração total desta sílaba.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 249 Com relação ao comportamento da duração. Tal atribuição se assemelha a atribuição tonal do PB. 2008. fala carioca. 2008. Por outro lado. ou seja. 2008. sendo com alinhamento tardio (L+<H*L%). ou seja. nos pedidos de informação e um alinhamento antecipado médio de 390ms (39%) do total da sílaba proeminente. no primeiro caso e com alinhamento antecipado (L+>H*L%). fala madrilena: um contorno melódico final ascendente (L*HH%) para o pedido de informação e um contorno melódico final descendente (H+L*L%) para o pedido de ação. Análise Fonológica de Pedidos de Informação e Pedidos de Ação: Atribuição Tonal Pedido de Informação Português do Brasil (fala carioca): L+<H*L% (Moraes. nos pedidos de ação. no segundo caso. 280) Espanhol/LE (falantes cariocas): L+<H*L% Pedido de Ação Português do Brasil (fala carioca): L+>H*L% (Moraes. p. observase um alinhamento antecipado na sílaba tônica. 393) Espanhol Europeu (fala madrilena): H+L*L% ( Estevas Vilaplana & Prieto. a distância em milissegundos correspondendo ao alinhamento tonal (pico. Sintetizamos estes resultados na tabela abaixo. como exemplificado no gráfico 2. sua língua materna e se diferencia do padrão descrito para o ELM. p. a distância em milissegundos correspondendo ao alinhamento tonal (pico. .

6/7 5. confeccionamos uma matriz de confusão. É interessante observar que uma matriz de confusão Mat r iz d eC o nfusão: P e did os d e inf o r mação e d e ação atr de Co Pe didos de info de Percepção Produção Pedido de Informação Pedido de Ação Pedido de Informação 34 40 Tabela 2: Resultados na matriz de confusão. .3/5 7. como ilustrado na tabela 2. Andaluzia Chile.8/3 8.0/9 Pedido de Ação 10.3/5 5. San Salvador Peru.250 3. San Juan Brasil.0/1 6.6/6 5.6) do que para os pedidos de informação (6.6/6 3. ou seja. cidade da Guatemala Honduras. Notas at r ib uídas aos p e did os d e inf o r mação e d e ação atr ibuídas pe didos de info de Área dialetal dos juízes Espanha.7/11 Tabela 3: Avaliação do julgamento dos juízes.Percepção ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS permite confrontar pares binários de confusão. Pedido de Ação 38 32 Confrontando os dados referentes ao quantitativo de casos em que a intenção do aprendiz em produzir seus enunciados foi identificada pelos juízes. Rio de Janeiro Pedido de Informação 10.7).5/3 8. Como utilizamos neste teste de percepção enunciados deslexicalizados. Lima Porto Rico. Cabe ressaltar que houve um maior número de reconhecimento do pedido de informação pelos juízes (vide tabela 3). Santiago de Chile Guatemala. somente o prosódico.0/1 7.7/3 9. o que está sendo confundido com o que foi reconhecido.0/4 7. sem o nível lexical. nota-se que os juízes atribuem melhor nota para os pedidos de ação (7.0/2 5. acreditamos que possa ter dificultado o reconhecimento por parte dos juízes. Confrontando os dados referentes ao reconhecimento dos pedidos de informação e de ação. Com os resultados obtidos através do teste de percepção. nota-se que em 47% dos casos há reconhecimento dos pedidos de informação e 44% dos pedidos de ação.2. isto é.

KERBRAT_ORECCHIONI. David (1993-2012): Praat. São Paulo: Contexto. Acessado em 05/02/2012. 87 – 110. pois acreditamos que. com alinhamento antecipado do pico na sílaba tônica. Em: Estudios de fonética experimental XVII. . Esperamos. com este trabalho contribuir no ensino da oralidade do Espanhol como língua estrangeira. portanto.pdf.hum. Disponível em: http://www.) Manual de linguística. Em: MARTELOTTA. João Antônio de (2008): The Pitch Accents in Brazilian Portuguese: analysis by synthesis.ub. Niterói: EdUFF. Pilar (2008): La notación prosódica del español: una revisión del Sp_ToBI. com alinhamento tardio do pico na sílaba tônica.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 251 Conclusões Constatamos com este estudo que o acento tonal nuclear mais frequente produzido pelos falantes brasileiros aprendizes de ELE nos enunciados interrogativos totais que funcionam como pedido de informação apresenta subida da sílaba pretônica para tônica seguida de uma queda da sílaba tônica para pós-tônica. Paul & WEENINK. fato este que dificulta a inteligibilidade da produção oral do falante de LE e.nl/praat/ ESTEBAS VILAPLANA.uva. No ensino de espanhol como língua estrangeira são muitos os trabalhos que apresentam as dificuldades enfrentadas por um brasileiro aprendiz dessa língua. MADUREIRA. Plinio. p.edu/labfon/sites/default/files/XVII-15. WILSON. os aprendizes tendem a se basear no sistema prosódico da sua LM. com a descrição dos contornos entonacionais dos enunciados na LM e na LE. Catherine (2005): Os atos de linguagem no discurso. Eva. & PRIETO.). mas são poucos os estudos que tratam especificamente da relação entre entoação e atos ilocutórios.: Proceedings of the Speech Prosody The Fourth International Conference in Speech Prosody.fon. o acento tonal nuclear mais frequente apresenta subida da sílaba pretônica para tônica seguida de uma queda da sílaba tônica para pós-tônica. por parte de falantes de LM. Em: BARBOSA. MORAES. Mário Eduardo (org. CÉSAR (eds. Campinas: IEL. Já para o pedido de ação. Disponível em: http://stel. Sandra & REIS. em outras palavras. Victoria (2011): Motivações pragmáticas. empregam o sistema de sua LM pelo qual filtram a fala da LE. Referências bibliográficas BOERSMA. gera um julgamento negativo da competência prosódica do falante de LE. Em suma. os aprendizes de LE têm elementos para contrastar marcas específicas da LM com as da LE e se tornam capazes de minimizar as transferências prosódicas de sua LM quando se expressam na LE. quando não compromete a inteligibilidade.

En tal desmán vueso conorte sea Que Sancho Panza fue mal alcagüete. Iniciemos por Dulcinéia. tanto Dulcinéia como Heliana são apresentadas ao leitor de forma ambígua. honesta y sabia” e em “De Solisdán a Don Quijote de la Mancha”. Desaguisado contra vos comete. (DQ. visamos observar. Dulcinéia é. ou seja. Já nos poemas introdutórios. como “una moza labradora de muy . no primeiro capítulo. mas uma multiplicidade de pontos de vista 3 que incidem sobre ela e que propiciam inúmeras leituras de Dulcinéia. ora como uma feia prostituta. sugerindo-nos a possibilidade de uma união carnal entre Dom Quixote e Dulcinéia e colocando sua honestidade em dúvida: Y si la vuesa linda Dulcinea. 27). Neste trabalho pretendemos estabelecer algumas relações entre as personagens Dulcinéia del Toboso. por outro. p. sem dúvida. 33) Essa dualidade da personagem será reforçada e reiterada ao longo da obra. Ni a vuesas cuitas muestra talante. a influência da obra cervantina. Necio él. Preliminares. Dulcinéia ora será descrita como uma linda princesa. No poema “La señora Oriana a Dulcinea del Toboso” (DQ. p. Nossa intenção é mostrar como. uma das mais misteriosas2.252 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS DE DULCINÉIA A HELIANA: PERSPECTIVISMO E METAFICÇÃO Célia Navarro Flores Universidade Federal de Sergipe – UFS Em nossa pesquisa atual1. do livro de Suassuna. em uma perspectiva comparatista. Dulcinéia é descrita como “famosa. na obra O Romance d’ A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta. 152). I. 2000. podemos observar diferentes pontos de vista sobre a personagem. Não há na obra de Cervantes uma descrição precisa da personagem. as duas são descritas a par tir de modelos literários pré-existentes. p. sob diferentes perspectivas e. Preliminares. dura ella y vos no amante. A única descrição mais confiável seria a do narrador. mais especificamente o livro El ingenioso hidalgo Don Quijote de La Mancha. Das 669 personagens que compõe a obra de Cervantes (RILEY. do escritor brasileiro Ariano Suassuna. que nos apresenta Aldonza Lorenzo. I. da obra cervantina e Heliana. como ambas são construídas a partir de um processo metaficcional. o “eu lírico” atribui a castidade de Dom Quixote à incompetência de Sancho como alcoviteiro. por um lado.

à diferença de Dom Quixote. sua voz se assemelha ao som de um sino e é uma mulher de talhe robusto (“qué rejo tiene”). 13. ou seja. da segunda parte. (. perlas sus dientes.. nessa descrição. estaria tornandoa uma mulher acessível a ele.). marfil sus manos. não é delicada como uma princesa. Na obra de Suassuna. Enfatizamos. el Toboso. Alonso Quijano necessita uma dama por quem se enamorar e.). en lo de la alteza del linaje no corre parejas con las Orianas. 44).. mármol su pecho.) Solo sé decir. su frente campos elíseos. su blancura nieve (. Dom Quixote descreve Dulcinéia diversas vezes. sus labios corales. Como todo bom cavaleiro. no capítulo 25 da primeira parte (p. Ao longo do livro de Cervantes. Segundo González (2010). o protagonistanarrador. su calidad por lo menos ha de ser princesa. alabastro su cuello. lábios.. pérolas etc. p. y que sea hermosa en sumo grado que vuesa merced nos la pinta. p. Sancho também sentiria um desejo reprimido por Dulcinéia e. O romance que está escrevendo é uma epopeia. su hermosura. “prostituta” e “burlar com alguém” pode significar “ter relações sexuais” — também a descrição das atividades realizadas por Aldonza (“rastrillando lino o trillando en las eras”) tem conotação sexual. olhos. corais. episódio em que Sancho engana Dom Quixote ao afirmar que três feias lavradoras seriam Dulcinéia acompanhada de duas damas. da qual o protagonista é Sinésio. con las Alastrajareas. sus cejas arcos del cielo. su patria. I. dentes. pues es reina y señora mía. de quien están llenas las historias que vuesa merced bien sabe. sobrehumana. um cavaleiro que — após ser raptado e preso — volta . pues en ella se vienen a hacer verdaderos todos los imposibles y quiméricos atributos de belleza que los poetas dan a sus damas: que sus cabellos son oro. tomando como modelo uma vizinha por quem durante algum tempo andou apaixonado. no capítulo 1 da primeira parte.. testa. a qual se personifica no capítulo X. Sancho cria o que González chamou de “la antidulcinea”. ao rebaixá-la a uma e prostituta. (DQ. Vejamos rapidamente dois pontos de vista: o de Sancho e o de Dom Quixote.) que su nombre es Dulcinea. sus mejillas rosas. a intenção de Sancho é destruir o universo de Dom Quixote. pescoço. (DQ. a expressão “todos los imposibles y quiméricos atributos de belleza que los poetas 6 dan a sus damas”. pero hame de dar licencia el señor don Quijote para que diga lo que me fuerza a decir la historia que de sus hazañas he leído. 32) Vejamos agora como Ariano Suassuna se vale da mesma estratégia para criar a personagem Heliana. A perspectiva de Dom Quixote sobre Dulcinéia é oposta a de Sancho. II. o duque põe em dúvida a existência e a linhagem de Dulcinéia e novamente se alude à literatura ao comparar Dulcinéia com as damas dos livros de cavalarias: — Así es — dijo el duque. ni con otras deste jaez. p. 141-142) Nesta descrição..ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 253 buen parecer”4 (DQ. puesto que se conceda que hay Dulcinea en el Toboso o fuera de él. sobrancelhas. não é um cavaleiro. un lugar de la Mancha. Dom Quixote mobiliza todo um sistema de descrição do modelo feminino herdado da literatura renascentista 5: a descrição a partir da parte superior do corpo (cabelos. Quando Sancho descobre que Dulcinéia é Aldonza Lorenzo. uma das melhores descrições é a do capítulo 13 da primeira parte. peito e mãos) e a comparação com elementos nobres da natureza (ouro. Dom Quixote conscientemente a descreve a imitação dos “poetas”. No capítulo 32 da segunda parte.. —(. ou seja. como em português. “inventa” Dulcinéia del Toboso. 1. 283). bochechas. Sancho a rebaixa ainda mais ao compará-la a uma prostituta afirmando que ela “tiene mucho de cortesana: con todos se burla”: “cortesã” também significa. sol. sus ojos soles. Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna. con las Madasimas. I. ele diz que ela seria uma mulher de “pelo en pecho” — que tanto pode significar “valente” quanto referir-se ao caráter masculinizado de Dulcinéia —. mas um escritor. de donde se infiere que.

ou . presenciou um ato estranho de Heliana: a acompanhante da moça. Sinésio7. o cavaleiro está enamorado por uma mulher que cobre as mãos e.. Ao descrever as roupas do Donzel Sinésio. o narrador nos conta que a moça possuía hábitos estranhos e constrangedores. Encontramos aqui a dicotomia pureza/lascívia presente na personagem de Cervantes. as irmãs Heliana e Clara vivem isoladas em uma fortaleza construída pelo pai e são acompanhadas por uma criada. Se por um lado é a dama dos livros de cavalaria. Nessa conversa. Poderíamos dizer que. 207. Quaderna nos conta que Sinésio havia se apaixonado por Heliana quando ainda crianças. Assim como Dulcinéia. p. porém o pai de Sinésio e o de Heliana tinham acordado que Sinésio se casaria com Clara.254 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS para vingar a morte de seu pai. irmã de Heliana. como veremos.. nunca ouvimos a voz de Heliana. logo o amor de Sinésio por Heliana era secreto e impossível. é a mulher lasciva. Heliana retirou o mel da colmeia. Entretanto. o amor da vida de Sinésio. a história de Heliana passou de boca em boca até chegar aos ouvidos do corregedor e aos olhos do leitor. naquela Fortaleza afastada (SUASSUNA. uma senhora idosa. desde menina! (. Assim como Dulcinéia. 207. que vive isolada do mundo por seu pai e que tem seu rosto estampado no escudo de seu cavaleiro. Heliana é mostrada em diferentes facetas. fizera uma pequena fogueira para afugentar as abelhas de uma colmeia e. Heliana é a perfeita dama de cavaleiro andante dos livros de ficção. “Nós já temos passado por outras situações semelhantes. que desempenha o papel das “dueñas” dos livros de cavalarias. 498) (. Quaderna observa que em sua capa havia um escudo bordado com a figura de uma mulher de cabelos soltos e com as mãos cobertas. mesmo quando os outros acham que aquilo é mais do que esquisitice!” (SUASSUNA. 499). ao nos apresentar a personagem sob diferentes perspectivas. sempre são outros personagens que se referem a ela. ocultamente. Clara conta que a família já está acostumada com as esquisitices de Heliana: — “La em casa. a dama pintada em seu escudo aparece com as mãos cobertas.). coincidentemente. ela apresenta algumas ambiguidades. desabotoou o vestido e começou a passar mel nos mamilos. por outro.) É por causa de Heliana que ele (o pai delas) prefere viver isolado. a senhora idosa. vivia com as mãos cobertas e não permita que nenhum homem as descobrisse. com um graveto. a qual é descrita como uma dama dos livros de cavalaria. Maria Elvira. Com isso queremos evidenciar o fato de que Heliana é a típica dama dos romances de cavalaria. personagem que estava enamorado por Clara. contou que Gustavo descreveu a Clara o ato obsceno de Heliana. Heliana é apresentada ao leitor por meios tortuosos: Quaderna conta ao Corregedor que uma informante sua. Tais quais as damas dos livros de cavalaria. p. não acho nada de censurável no que ela faz. Gustavo conta a Clara que. Heliana sempre foi meio estranha e selvagem. parenta de Clara conta a Quaderna que ouviu uma conversa entre Clara e Gustavo. Quaderna nos conta que costumava dar consultas astrológicas em seu gabinete. da mesma forma que Cervantes criou a antidulcinéia. “estranha e selvagem”. Em uma delas. assim como Dulcinéia. Ariano Suassuna está criando uma antiheliana. porém. Como vimos.. Como vimos. a não ser. A dama de Sinésio é Heliana. Até aqui. Ou seja.. 47) o fato de que Heliana. astrosa e fatídica” (SUASSUNA. Quaderna considera “uma coincidência epopeica. que unta os seios com mel. todas constrangedoras. mostrando-nos uma faceta da personagem que se opõe à imagem de perfeita dama. Dulcinéia é inventada por Dom Quixote a partir de um processo metaficcional. nós já estamos todos habituados com as estranhezas de Heliana! Não é que eu tenha vergonha nenhuma dela. 2007. Maria Elvira.

a urtiga. como a Emília de Diva. Para Suassuna popular e erudito não se opõem.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 255 seja. Clemente preferia a dama (negros contra brancos). Quaderna compara Clara com Genoveva Moraes. jogo mais simples e popular. Essa ideia de síntese está na própria concepção da obra de Suassuna: o Romance d’A Pedra do Reino é um modelo do que Suassuna chama de “romance armorial”... “ambas a r rd te s”. quando Dom Quixote descreve sua amada a partir dos retratos femininos da Literatura renascentista.. Heliana pode ser comparada com Dulcinéia del Toboso. fino. “d d our av a as oura “d oura d our sol”. assim era Heliana! E eu. Depois. para dar um castanho-claro. mais sofisticado e reproduz os personagens da corte (rei. nas quais há também reis e rainhas como no xadrez e há os naipes com duas cores. “f a d o ”... que aparece duas vezes no . sempre separando em muitas o que. o amor felino da Onça jovem e fêmea. (. O mel. Samuel branco e Quaderna. que é descrita em comparação com as mulheres das obras de José de Alencar. é uma síntese das duas. uma recorrência de e e no cio”. Mas Heliana juntava tudo isso.) Clara era como Cecília8. presente em Dulcinéia. 2007. Heliana. na obra de Suassuna temos três: Clemente. Para ele. “c c hamas embebida em mel”.. depois. fogo e canto do sangue. Fogo presente também coxas”. Sr. as cartas. ambas ardentes. morena. p. O movimento armorial9 encabeçado por Suassuna nos anos 70 procura criar uma arte erudita a partir das raízes populares. Vejamos. que é a síntese dos dois: moreno.) (SUASSUNA. Corregedor. De fato. Ao mencionar Lucíola. o Vinho. Posteriormente. pelo menos. deriva de Helios. negro. em Heliana. Genoveva como Isabel: uma. pois Heliana. a urze. segundo o narrador. quando eu e Sinésio vimos pela primeira vez aquela que seria a Dama e princesa de sua vida. O cabelo dela era como se tivesse sido formado somando-se o louro de Ceci e Clara com o escuro de Lucíola e Isabel. Samuel preferia o jogo de xadrez. o fogo de Isabel e o angelical de Ceci. o calor e o sol são elementos recorrentes no Romance d’A Pedra do Reino. personagem do livro de Cervantes por diversos vieses. a mesma idade da irmã de Lucíola. dourado. e era daí que se originava também a penugem macia e rara que lhe dourava as coxas “alvas mas amorenada pelo sol” (. Heliana é considerada a dama de um cavaleiro e é apresentada ao leitor por. Inicialmente. despertava nela a mulher. rainha. “morenadas pelo sol em seu nome. É que. peão. e Quaderna. mas se conjugam. temos dois protagonistas que aparentemente se opõem (Dom Quixote e Sancho). O fogo. e sim em unidade. O mesmo processo ocorre com Heliana. porém. a ficção se remete à própria ficção. com “H”. como vimos anteriormente — também apresenta a cor do sol. Seu amor era “vinho. loura e angélica. torre etc). Heliana apresenta facetas opostas: o “negro escarlate da paixão e a cassa da Pureza”. diferentemente de Dulcinéia. Enfim. o mel de abelhas. Quaderna atribui a Heliana a faceta prostituta. pelo que pude ver e adivinhar de seu amor por Sinésio. a outra. unindo a Verbena. Enquanto na obra de Cervantes. Quaderna compara Heliana às personagens de Alencar: (. 504) fragmento “o mel de abelhas” e “embebidas em mel” — elemento relacionado à Heliana. duas diferentes perspectivas: a mulher casta Notamos no fragmento. o negro-escarlate da Paixão e a cassa da Pureza. imagens relacionadas ao fogo: “ar ard nte ar d e nt den t es f o g o e o canto do sangue”. isto é. cavalo. as duas são opostas. Assim como Dulcinéia.). macio. que significa “sol”. neste breve trabalho vimos como a personagem do Romance d’A Pedra do Reino. na “atitude da corça arisca”. “aveludada pela pubescência”. Era um fruto verde. como o jogo de damas. ardente e no cio. tendo conhecido Heliana como menina-e-moça e. que era irmão de Sinésio. como moça e mulher. Essa unidade buscada a partir de oposições (a união dos contrastes) é constante na obra de Suassuna. irmã de Gustavo e noiva de Arésio. não em contradição e separadamente. ela estava com doze anos. era espanto e unidade. essas oposições estão em perfeita unidade. poderia dizer dela tudo o que José de Alencar disse de tantas outras. fruto e chamas embebidas em mel”. Assim como Dulcinéia. entretanto.

quando diz que por ser árabe. Ariano Suassuna e o movimento armorial 1970/ 76. Sancho Pança e Dulcinéia del Toboso. Em La concepción romántica del Quijote. Barcelona: Crítica. Emblemas da sagração armorial. Barcelona: Crítica. (2000). Don Quijote de La Mancha . que poderíamos considerar lascivos. assim como Dulcinéia é uma princesa para Dom Quixote. FLORES. remetemos o leitor ao texto de Close (2005. Recife: Editora Universitária da UFPE. à imitação dos cavaleiros ficcionais. SUASSUNA. Edward. (2007) Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai e volta. Sobre Suassuna e o movimento armorial. de José de Alencar. Da palavra ao traço: Dom Quixote. Em Lemir . 262-276).256 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS e a lasciva. p. Barcelona: Crítica. CLOSE. Célia Navarro (2007). Dom Quixote pretende pintar um retrato de Dulcinéia em seu escudo. Dirigida por Francisco Rico. DIDER. ver nossa tese de doutoramente “Da palavra ao traço: Dom Quixote. Grifo nosso. Tanto uma como outra é descrita. RILEY. no qual ele apresenta os principais estudos sobre o tema. 4 Lembremos que Dom Quixote desautoriza o narrador/autor. GONZÁLEZ. em determinado momento. nº 14. 8 9 Cecília e Isabel são personagens de O Guarani. Ariano. vive isolada em uma fortaleza) e. em 2007. defendida na Universidade de São Paulo. Em Introducción al Quijote. Para um estudo mais profundo sobre a construção da personagem Dulcinéia na obra de Cervantes. tese defendida na Universidade de São Paulo. ao mesmo tempo. Mario M. porém uma cortesã para Sancho. (2005) Perspectivismo y existencialismo. Edward. (2000) Ideales e ilusiones. RILEY. é descrita como “estranha” e pratica atos. Sancho Pança e Dulcinéia del Toboso . em um processo de metaficção. a partir da própria literatura. é mentiroso. 3 Sobre o perspectivismo no Quixote. ver DIDIER (2000). (2010) Las transformaciones de Aldonza Lorenzo. pp. Notas 1 2 A pesquisa conta com o apoio do CNPq. Referências bibliográficas CERVANTES. Edición del Instituto Cervantes. Lembremos que. Rio de Janeiro: José Olympio. Em Introducción al Quijote. Miguel de (1998). Barcelona: Crítica. 205-215. Heliana apresenta as características de uma dama (rosto pintado no escudo e amada secretamente pelo cavaleiro Sinésio. Cide Hamete Benengeli. (2000) Modos de ser. . 5 6 7 Lembremos do famoso poema de Góngora “Mientras por competir con tu cabello”. Maria Thereza. Anthony. Dulcinéia é descrita por Dom Quixote a partir dos retratos femininos da poesia renascentista e Heliana é uma das personagens femininas de José de Alencar.

À época (século XVIII na América espanhola). estigmatizavam-se as pessoas que contraiam a raiva (Rhabdoviridae). pois após seu nascimento foi negligenciada por seus pais. quando. por isso. é quem a cria dentro de seus costumes. apesar da pele branca. reproduzidas pela personagem. principalmente pela Igreja Católica. após ter sido mordida por um cachorro raivoso em companhia de negros. uma estratégia da Igreja Católica para a perpetuação do poder eclesiástico através da imposição do discurso religioso. Dominda de Adviento. constitui. Trata-se de uma menina que possui um comportamento identificado com o ethos negroafricano. a menina é vítima de uma manifestação demoníaca. Para a Igreja. que não ultrapassa os 13 anos de idade. Sierva María de Todos los Angeles é uma personagem complexa. Mesmo tendo um quarto na casa grande. ela dormia na rede do pátio dos escravos junto das outras escravas da casa.UFF Neste trabalho abordo o comportamento da personagem Sierva María de Todos los Angeles da obra Del amor y otros demonios de Gabriel García Márquez. da posição social considerável em sua cidade e de um nome de batismo católico. Devido a essa criação. A demonologização das práticas culturais de origem negro-africana e ameríndia. Tal personagem é uma menina branca que fora criada no pátio dos escravos de sua casa. tuvo una infancia de expósita. escrava governanta da casa. a personagem adquire um comportamento semelhante ao dos escravos e.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 257 SIERVA MARÍA DE TODOS LOS ÁNGELES E MARIA MANDINGA Cinthia Belonia PG . La madre la odió desde que le dio de . recebe também um nome com a marca da migração interlinguística crioula. do título de marquesa. esse discurso servia à legitimação da inquisição e do sistema escravocrata. hija de noble y plebeya. Durante o vice-reinado da Colômbia. Seu comportamento rotulado como “negro” passa a ser mal interpretado pela sociedade local. dado por sua mãe. além de possuir um nome de batismo visivelmente católico. que caracteriza um ato de exclusão e discriminação: María Mandinga. que não aceita nenhuma explicação médica. E foi ali que cresceu: La niña. no romance. aguça a suspeição já existente sobre seu comportamento identificado com o ethos dos escravos.

na fornalha da sociedade colonial. através da metáfora literária. p. A história de Sierva María inicia após ela ser mordida por um cachorro na rua quando passeava com uma das escravas fazendo compras para a festa de seus 12 anos. Fazendo sua mãe acreditar que o cachorro contraíra raiva após mordê-la. a instância subalterna que executa a sua vingança circulando sem ser visto. a beber sangre de gallo en ayunas y deslizarse por entre los cristianos sin ser vista ni sentida. mas também não tão igual aos negros. cuyo rostro se presume tan temible que sólo se deja ver en sueños. o preconceito étnico-social. Dominga de Adviento la amamantó.258 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS mamar por la única vez. O que toma (o) lugar. ela possui características do pluriculturalismo que identifica muitos povos colonizados. a marquesinha branca cresceu diferente dos seus. 2007. 31). Ele atravessa as fronteiras entre senhor e escravo. 2007. é o mau olho desencarnado. era capaz de atravessar a fronteira que há entre senhores e escravos. na qual nenhum colonizado poderia experimentar a mesma liberdade que ela. filha dessa colonização. cor. p. O que ela de fato sugere é uma nova compreensão de ambas as formas de racismo. la bautizó en Cristo y la consagró a Olokun. É possível que o narrador tenha escolhido esses personagens para sublinhar. y un tercero había muerto del mal de rabia en la segunda semana. Stuart Hall afirma que: A distinção de nossa cultura é manifestadamente o resultado do maior entrelaçamento e fusão. una deidad yoruba de sexo incierto. . por mais que se parecesse com eles devido aos costumes que mantinha. baseada em suas estruturas simbólica e espacial comuns – a estrutura maniqueísta de Fanon – articuladas dentro de diferentes relações temporais. Pois a menina tinha liberdade para transitar no mundo dos brancos por ser essa a sua Diferente das outras vítimas. y se negó a tenerla con ella por temor de matarla. sin duda escamoteados por los suyos para tratar de hechizarlos. conseguindo passar entre os cristãos sem ser vista. Transpuesta en el patio de los esclavos. além de transitar também no mundo dos negros por se identificar com os mesmos. ao mostrar que em sociedades estratificadas até os cachorros são preconceituosos. Caracterítica típica dos negros e dos colonizados para sobreviverem num mundo de repressão. Sierva María aprendió a bailar desde antes de hablar. Além dela. e essa livre transição não era permitida aos colonizados. de diferentes elementos culturais africanos. Había un cuarto que no fue mordido sino apenas salpicado por la baba del mismo perro. Sobre isso o pensador indo-britânico Homi Bhabha em O local da cultura nos diz que: A invisibilidade apaga a autopresença daquele “Eu” em termos do qual funcionam os conceitos tradicionais de agência política e domínio narrativo. ela não era uma deles. que então se tornam estranhamente duplicados no centenário fantasmático do inconsciente político. culturais e de poder (BHABHA. Esse resultado híbrido não pode mais ser facilmente desagregado em seus elementos “autênticos” de origem (HALL. p. demarcada pela fronteira que separava o pátio da Casa Grande. Sierva María estava completamente sã. também foram mordidos três escravos negros. podemos chamar de astúcia. y estaba agonizando en el hospital del Amor de Dios (MÁRQUEZ. Meses depois: O pátio dos escravos constituía o local onde Sierva María se sentia livre para manifestar seu comportamento dúbio sem sofrer nenhum tipo de discriminação. asiáticos e europeus. mas. 91). 2011. Por isso híbrida. Afinal. p. proporcionava a Sierva María um sentimento de proteção em relação à sociedade escravocrata. no sentido do suplemento derridiano. Como uma hispano-americana que era. Esta duplicação resiste ao tradicional elo causal que explica o racismo metropolitano contemporâneo como resultado dos preconceitos históricos das nações imperialistas. A exclusão geográfica. 2007. o Hemisfério Sul da escravidão e o Hemisfério Norte da diáspora e da migração. por não podermos classificar a personagem numa única identidade. Sobre esse hibridismo. Graças a essa criação negra. como nos ensina Bhabha. A Dos habían desaparecido. ele abre um espaço interalar entre os dois locais do poema. Sobre esse aspecto da personagem. y siempre con una máscara.24).54). aprendió tres lenguas africanas al mismo tiempo. como un ser inmaterial (MÁRQUEZ.

por isso o índio e o crioulo (nesse caso não se trata da cor da pele) não adquiriram. pois antes . Tal nome era uma forma da mãe demonstrar seu preconceito com os negros e com o comportamento da filha que se assemelhava ao deles. Mesmo assim “estaba dispuesta a hacer la farsa de las lágrimas y a guardar un luto de madre adolorida por preservar su honra. nas línguas mandinga. p. 2008. As raças de pele clara terminaram desprezando as raças de pele escura e estas se recusam a continuar aceitando a condição modesta que lhe pretendem impor (BURNS apud FANON. Sua mãe costumava dizer que a única coisa que a menina tinha de branco era a cor. nada mais é do que uma criação europeia. ela suporta. que diz que “é o antisemita que faz o judeu” (SARTRE apud FANON. E alternava seu nome com um nome africano que havia inventado: María Mandinga. aqui. Pois. Renomeando a filha. católico e europeu (Maria) com o negro. p. Considerava a menina de uma presença fantasmagórica e muito assustadora. pois comia com as escravas o que era servido no pátio onde eles viviam. colonizador. Como a cor é sinal exterior mais visível da raça. mas sim assume os valores negro do povo no qual se identificava. traduzindo o preconceito étnico-cultural característico do período colonial. congo e iorubá. Frantz Fanon fala em Pele negra Máscaras brancas que o negro tem duas dimensões. excluindo-a e exilando-a em um mundo (o dos escravos) onde a carga semântica do nome ganha. Sabendo disso. Sierva María era branca. o peso desse povo. para poder dizer . além desse comportamento. p. possuía hábitos e valores negros. e depois o amargo ressentimento daqueles que foram oprimidos e frequentemente injuriados. também. sua mãe já a considerava de um comportamento diferente. afroreligioso e africano (Mandinga). Desenvolveu.25). através de Burns. a menina aproveitava para assustar a mãe fazendo um barulho estranho. sendo ela filha de índio e seu marido um crioulo1. conotação pejorativa. Ela não assume os valores da metrópole.90). exemplifica. sem se levar em conta as suas aquisições educativas e sociais. visto que: Toda a projeção eufórica do mestiço passa pela reabilitação dos seus componentes raciais: se a mistura de sangues se torna aceitável para o branco. a forma como a mãe se referia à filha. uma com seus semelhantes e outra com o branco. 2007. o status de humanidade.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 259 ironia. que a menina conhecera antes mesmo do castelhano. Ao falar a língua dos negros. Bernarda Cabrera marca a diferença entre as duas. con la condicíon de que la muerte de la niña fuera por una causa digna” (MÁRQUEZ. 110). 2008. por identificação cultural e afetiva. é porque o negro e o índio adquirem status de humanidade e as suas culturas começam a ser repensadas dentro dos novos enfoques da História (CHIAMPI. por ter sido colonizado e escravizado. 2007. através dela. aos olhos do Fanon retoma Sartre. p. um paladar culinário exótico comparado com o europeu. E “ella le aumentaba el susto con una retahíla en lengua yoruba” (MÁRQUEZ. no entanto. p.56). Um nome que combinava o branco. Esse comportamento se apresentava nas danças africanas que a personagem aprendera desde muito nova. Mesmo antes da menina ser mordida pelo cachorro. Como se só confiasse nos negros. Sierva María assume essa cultura. o costume de mentir por vício.116). O negro. como diz Fanon. se igualando sempre aos negros. Possuía. principalmente aos brancos. por isso de uma posição social insegura. tão comum nas obras de García Márquez. o desprezo dos povos fortes e ricos por aqueles que eles consideram inferiores. que quem cria o inferiorizado é o racista: O preconceito de cor nada mais é do que a raiva irracional de uma raça por outra. do país colonizador. ela tornou-se o critério através do qual os homens são julgados. não poderiam sofrer a humilhação de ter uma filha com raiva. E de fato a menina se comporta de forma diferente entre um e outro.

que a menina não deveria estar aos cuidados do médico Abrenúncio. O escândalo dos vexames e desvarios de Sierva María chega aos ouvidos do bispo da diocese..260 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS do contato com o branco ele não se sentia inferiorizado por nenhuma outra raça. e os dois dizem que Deus os deu meios para salvar sua alma. o contemporâneo pintor francês André Pierre “fazia uma prece a ambos os deuses. 2007. A menina é internada num convento porque. a los noventa y tres días de ser mordida por el perro y sin ningún síntoma de la rabia” (MÁRQUEZ. p. segundo Hall. o diabo. como um selvagem. Mas o que incomodava a Igreja era a sabedoria do médico. p. que vive na indecidibilidade da cultura negra a de sua etnia branca. E foi nesse hibridismo que Sierva María cresceu. 160). Fanon diz que a Igreja das colônias não chamavam os colonizados para a religão. Nos diria Hall. E assim. como é o caso da personagem aqui trabalhada. ela . e este é crucial à cultura. O bispo diz ainda. não é estranho o fato de Sierva María ser considerada uma possessa por apresentar um comportamento negro. até mesmo. pôde sentir a “África” devido à forma como os deuses africanos foram combinados com os santos cristãos no vodu haitiano. além da escrava Dominga de Adviento. Ao perguntarem o que aconteceu com seu tornozelo. do opressor” (FANON. Quem fazia a ligação entre os dois mundos nos quais a menina vivia era Dominga de Adviento. que se atém a duas religiões. animal e. Ao chegar no convento. 2008. E assim como Dominga de Adviento. 71). Na Europa o mal é sempre representado pelo negro. considera junto a este que o corpo da menina não tem salvação. do estrangeiro e colonizador. se é negro – tanto faz se isso se refira à sujeira física ou à sujeira moral” (FANON. Em Os condenados da terra. Esse hibridismo. Delaura..67). tanto na figura do carrasco quanto na figura de Satã. do amo. pois a diferença é essencial ao significado. p.] Trata-se de um processo de tradução cultural. Ele alerta ainda que o termo “hibridismo não se refere a indivíduos híbridos. 2007. do pecado. Stuart Hall fala sobre o hibridismo religioso que presenciou tanto no Haiti como na Jamaica. segundo Hall. Fanon afirma que o negro é visto pelo branco como a figura do mal. fazendo isso no dia seguinte: “Fue en la última celda de ese rincón de olvido donde encerraron a Sierva María. que representa a razão na obra. y practicaba ambas a la vez. Este conversa com o pai da menina. p. marquês de Casalduero. sin orden ni concierto” (MÁRQUEZ. 38). 2007. 20). 1961. o marquês de Casalduero se convence de que deve internar sua filha no convento de Santa Clara. antes de iniciar seu trabalho” (HALL. o padre-bibliotecário e braço direito do bispo. com isso. e sabia que a personagem não estava possessa. [. por este ser judeu. dom Toribio de Cárceres y Virtudes.76-77). era uma boa propaganda para a Igreja Católica. Pois a Igreja é de brancos. em todo lugar há a différance. p. p. 2011. p32). cristão e vodu. está presente em toda a América Latina no “pecado-contriçãoabsolvição”. onde. pois o baile na terça-feira de carnaval vem seguido da missa na quarta-feira de cinzas. numa época de Inquisição. e explica que o que há com ela é uma possessão. E acrescenta: “fala-se de trevas quando se é sujo. uma das escravas do local a vê no pátio e reconhece os colares de candomblé. o que o bispo realmente pretende é colonizar e usá-la como exemplo e demonologizar as práticas culturais oriunda dos negros e ameríndios. mas que permanece em sua indecidibilidade” (HALL. agonístico uma vez que nunca se completa. a escrava governanta da casa e quem criara Sierva María: “Se había hecho católica sin renunciar a su fe yoruba. pois o que se dizia nas ruas era que a menina “rueda por los suelos presa de convulsiones obscenas y ladrando en jerga de idólatras” (MÁRQUEZ. mas sim para o “camino do branco. uma possessão demoníaca e o sucesso em seu exorcismo. Ao querer salvar a alma da personagem. Dessa forma. 2011. leva-a até a cozinha.

A Igreja condenava à fogueira ou a outros castigos todos aqueles que. E assim. Sempre que alguém tenta tirar seus colares (Sierva María usava colares de candomblé. Cantó en yoruba.. intimamente relacionadas y privilegiadas en ese mundo) eran contrarias a la ‘civilización’ y a las ‘buenas constumbres’. p. usa desse estratagema para esconder a verdade sobre o tornozelo mordido pelo cão raivoso. vê apenas uma menina pura e indefesa. p. 2007. no entanto não sabe ainda de quem se trata.107) A abadessa do convento ao ouvir o canto da menina fica deslumbrada com sua voz. disse Maria Mandinga. noviças do convento de Santa Clara. ameaçavam sua hegemonia religiosa e política. Sendo considerada pelas freiras dona de uma força de outro mundo. considerados por elas. E diz que o que parece demoníaco para eles (católicos) são os costumes negros que a menina aprendeu ao viver no pátio dos escravos após o abandono dos pais. Segundo o filólogo cubano Rogelio Rodríguez Coronel: Queda explícito. Sobre as atas: Decían que la niña se había complacido descuartizando un chivo que degolló con sus manos.84). anormais. Jugó al diábolo con los adultos en la cocina y con los niños del patio. 2007. mas todas as freiras do convento lhe atribuem todos os acontecimentos. mejor que ellos mismos entre si. o con las bestias de cualquier pelaje (MÁRQUEZ. representada por la clase dominante. E diz ao bispo que as atas onde as clarissas anotavam o comportamento da menina serviam mais para justificar a mentalidade da abadessa que o estado de Sierva María. p. y les ganó a todos. naquele convento ela tem todas as condições possíveis para que isso aconteça.) Una niña endemonia dentro del convento tenía la fascinación de una aventura novedosa (MÁRQUEZ. 2007. p. Al almuerzo se comió un plato con las criadillas y los ojos del chivo. Sierva María recupera seu mundo: Ayudó a degollar un chivo que se resistia a morir. Não só a abadessa.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 261 responde que sua mãe fez isso com uma faca. y se comió las criadillas y los ojos aliñados como fuego vivo. Lê saco los ojos y le cortó las criadillas . Hacía gala de un don de lenguas que le permitía entenderse con los africanos de cualquier nación. além de uma escapulário) ela se altera com muita agressividade. claro de que não há provas de que a menina esteja de fato possessa. pareciam ter mais curiosidade que medo: Pero los terrores de las clarisas eran contradictorios. la celda de Sierva María se convirtió en el centro de la curiosidad de todas. blanca. eurocidental y católica (CORONEL. outro motivo forte que levava a Igreja a condenar (através da Inquisição) as pessoas é o fato de se tratar de uma estratégia de controle e dominação políticosócio-cultural. foi para a cozinha erguendo o crucifixo que trazia pendente ao pescoço. E ao conhecer Sierva María. 1993. de certa forma. pues a pesar de los aspavientos de la abadesa y de los pavores de cada quien. y aun los que no entendían la escucharon absortos. Além da intolerância e ignorância. E diz ainda que mesmo que não esteja possuída. tudo o que acontece daí em diante no convento será atribuído aos demônios presentes em Sierva María. Ao conversar com a abadessa deixa . (.. en síntesis. Cayetano Delaura fora incumbido pelo bispo de cuidar do caso.78). Como haviam dito para ela que a menina estava possuída.49). que las manifestaciones ‘de caráter africano’ (precisamente las religiosas y las danzarias. Mas as clarissas. movidas pelo tédio. pois como tinha o costume de mentir por vício. Ao ser informada de que o canto era produzido pela “possessa” que ela aguardava. E quando perguntaram seu nome. Cayetano Delaura é o único na obra a perceber que a acusação de possessão feita pela Igreja à menina foi devido à intolerância e ignorância desta para com o comportamento negro e afro-religioso da personagem. en congo y en mandinga. que eran las partes que más lê gustaban. guisados en manteca de cerdo y sazonados con especias ardientes (MÁRQUEZ.

A contraposição América e Europa no antagonismo entre a inocência do primitivo e a degeneração da razão é representada na obra por. A perfídia. Crioulização e Crioulidade. Nota 1 O termo crioulo é “egresso do latim criare com o sentido de educar. Trad. os escravos e a população nativa dessa Colômbia.) O Novo dicionário de língua portuguesa de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira define crioulo como: o indivíduo de raça branca. nº1. em Conceitos de Literatura e Cultura. animais e plantas que se transportaram para o continente americano a partir de 1942. FANON. (. Frantz (1961): Os condenados da terra. Forma e Ideologia no Romance Hispano-Americano. Editora Perspectiva. o negro nascido nas Américas. passando. não percebiam que o que a menina tinha era um comportamento diferente do europeu. HALL. CORONEL. Centro de Letras e Artes. Sierva María. O que na verdade era um comportamento semelhante ao dos escravos. e. o despotismo) e com o substrato indígena (a perfídia. como já havia dito Fanon. pela abadessa e pelo bispo. (. que por serem considerados inferiores pelos europeus e seus descendentes de cor branca. a escravidão. refere-se à lógica sincrética do crioulo vernacular como modelo inclusivo com um majoritário aporte de construções sociais. ULISSEIA.. Salvador: EDUFBA. entretanto.262 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS García Márquez apresenta em Del amor y otros demonios uma América de brancos. homens de todas as raças. o termo identificava os que nasciam e eram educados nas Américas sem ser originários delas como os ameríndios. CHIAMPI. Stuart (2011): Da diáspora: identidades e mediações culturais . de classes subalternas. 2005. a indolência e o primitivismo são construções estereotipadas que legitimavam a visão deturpada. também. do europeu sobre os povos das Américas. Sobre essa América Chiampi afirma: Os elementos que compõem a imagem da América bárbara são identificados com a herança espanhola (a Inquisição.. Faculdade de Letras – PósGraduação. Ano 1. muitas vezes carregadas de preconceito. Buenos Aires: Debolsillo. fanáticos em suas crenças. p. o primitivismo. Gabriel García (2007): Del amor y otros demonios. p. nascidos nas Américas. respectivamente. Rio de Janeiro. a ignorância) – inclusive nas zonas de culturas autóctones superiores (CHIAMPI. nascido nas colônias europeias de além-mar. _______ (2008): Pele negra máscaras brancas. MÁRQUEZ.. era facilmente visto como algo demoníaco. E o definiram como uma possessão. o dialeto português falado em Cabo Verde e em outras possessões portuguesas da África. Irlemar (1980): O Realismo Maravilhoso. e de negros. dominando também de crioulo o dialeto falado por essas pessoas. Gláucia Renate Gongalves.) Na América hispânica. mas. Rogelio Rodríguez (1993): Marginalidad y literatura en textos afrocubanos de origen yorubá . Magdala França Vianna. por extensão. Miryam Ávila.Belo Horizonte: EdUFMG. afro-religiosos e primitivos. o termo crioulo não só indica os membros. 1980. que. Lisboa: Ed. Eliana Lourenço de Lima Reis. no segundo caso. Brasília: Representação da UNESCO.110). particularmente as das Américas. Homi K (2007): O local da cultura . In: Terceira Margem: Revista de Pós-Graduação em Letras. 103-5. Serafim Ferreira. a indolência. Trad.. a indicar. Universidade Federal do Rio de Janeiro. sua família. Renato da Silveira. Referências bibliográficas BHABHA. Belo Horizonte: EdUFMG. católicos de ascendência européia.) .” (cf.

se debaten a medio camino entre el mito.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 263 ESPACIOS. En ella se encuentra la Punta de Tarifa que es el lugar más al sur de la Europa continental y el más cercano al continente Africano. así como del conocimiento adquirido gracias a una enorme curiosidad hacia la historia de su propio pueblo. MITOS Y CLAVES DEL IMAGINARIO ANDALUZ EN LA POESÍA DE FEDERICO GARCÍA LORCA Clara Pajares Gil Universidade Federal de Viçosa Desde su violento asesinato en 1936 a manos del bando fascista. entre el Atlántico y el Mediterráneo. La posición geográfica de Andalucía la convirtió en tierra de paso de diversos pueblos ya desde la prehistoria. p. leyendas. tan sólo catorce escasos kilómetros de agua separan ambos continentes. Pocos escritores en lengua castellana han alcanzado una trayectoria semejante después de su muerte. de los paisajes. Ya desde inicios de la Edad de Piedra se encuentran muestras de culturas prehistóricas en Andalucía. la obra de Lorca no ha dejado de expandirse hasta alcanzar una posición universal en el mundo de la literatura. además de las experiencias y lecturas particulares. y foco de atracción de grandes civilizaciones. etc. La formación del complejo universo simbólico lorquiano se nutre. entre África y Europa. universalizando Andalucía y convirtiéndola en un espacio mítico en el que confluyen todos los grandes temas y las grandes preguntas (GARCÍA-POSADA. Andalucía. la leyenda y la historia. Una región mucho más cercana a Marruecos que al propio norte de España. creencias. En los valles del Guadalquivir y del .87). supersticiones. Nos acercaremos a un poeta que es heredero de viejísimas culturas. en este trabajo se recorre la palabra del escritor granadino a la luz de los ingredientes de los que se ha nutrido la historia y el fértil imaginario de su tierra natal. Con la pretensión de ser capaces de abrir ventanas inéditas desde las que poder asomarse a la obra lorquiana. Se ha considerado un lugar geoestratégico al hallarse en el extremo sur de la Península. perdidos en la noche de los tiempos. 1989. que componen el entorno de su niñez y adolescencia. Y entre las múltiples propiedades que hicieron de su obra un tesoro inmortal se encuentra ese ingenio único para mezclar en un cóctel singular la tradición milenaria y la vanguardia. imágenes. las mismas que han dado lugar a una región cuyos orígenes.

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Guadalete se encontraron guijarros tallados como primer exponente del paso del homo hábilis y ya en el último estadio del Paleolítico superior, la etapa llamada magdaleniense aparecen las primeras manifestaciones artísticas del hombre de CroMagnon andaluz en diversas cuevas malagueñas y gaditanas. Algunas de éstas, tras el paso y la huella de sucesivas generaciones prehistóricas, acabarían convertidas en auténticos santuarios profusamente decorados con toda clase de motivos zoomórficos, cinegéticos, mágicos etc. Destacan también, repartidos por casi todo el territorio andaluz, los monumentos funerarios megalíticos (MAZARRASA, 1980, p.33-48). Varios de estos sepulcros fueron encontrados en la provincia de Federico García Lorca, Granada. Eran monumentos dedicados al culto de los antepasados, generalmente levantados en lugares altos (para ver y ser vistos), en sociedades que comenzaban tener una relación particular con la muerte y a conceder importancia a la memoria de sus antepasados. Hay quien, como Gómez-Moreno, considera que los monumentos megalíticos andaluces de la Edad del Hierro constituyen el único testimonio arqueológico capaz de sustentar racionalmente el mito de los Tartesios (MAZARRASA, 1980, p.48). Caro Baroja, sin llegar a mencionar ninguna civilización, afirma: “Es lícito pensar que acaso algunos de los grandes sepulcros megalíticos andaluces fueran hechos para grandes reyes de tipo faraónico” (MAZARRASA, 1980, p.52). No sería una aberración pensar que el poeta granadino pudo encontrarse cerca de alguno de estos mausoleos arcaicos, estudiarlos u oír hablar de ellos en algún momento de su infancia. El culto de la tradición andaluza a la muerte (cuyo origen, como vemos, nos remonta al Neolítico) es un tema recurrente en la literatura lorquiana. El poeta dice que España es un país de danzas milenarias (haciendo alusión a pueblos ancestrales) y también de muerte, donde la gente cobra verdadera importancia después de abandonar la vida. Un país que exhibe a sus difuntos, donde “un

muerto está más vivo como muerto que en ningún sitio del mundo” (LORCA, 2004, p.154). En los escritos lorquianos se manifiesta un especial interés por las primeras civilizaciones que pasaron por Andalucía, como la de los tartesios. Situada a medio camino entre la Prehistoria y la Historia, en la llamada Protohistoria, la tartesia fue considerada por los griegos como la primera civilización de Occidente. Esta cultura, según el arqueólogo e historiador Adolf Schulten, prosperaría gracias a la riqueza metalúrgica de la zona (enclave importante de comercio de cobre y estaño) (MAZARRASA, 1980, p.55) que atraería a fenicios, griegos e indoeuropeos. Y la imaginación de algunos antropólogos y estudiosos (entre los que se encuentra el propio Schulten) ha querido asociarla a la fabulosa Atlántida de Platón, que algunas teorías presuponen que fue levantada en el espacio correspondiente al actual Parque Nacional de Doñana. A manos de Lorca llegaría un artículo que Schulten publicó en la Revista de Occidente en 1923 y que se refiere a los tartesios como la civilización más antigua de occidente (JOSEPH Y CABALLERO, 2006, p.21). Numerosos autores de la Antigüedad cuentan historias sobre los tartesios. Estesícoro, en su poema Gerioneida , habla de un fundador de la dinastía tartésica, el rey Gerión, poseedor de rebaños de vacas y toros. García Lorca también lo menciona en su ensayo Juego y teoría del duende : “Allí estaban los Floridas, que la gente cree carniceros, pero que en realidad son sacerdotes milenarios que siguen sacrificando toros a Gerión”. Este sería quizá un modo literario de situar históricamente un primer precedente de la tauromaquia, a la que Lorca dedicará poemas como La cogida y la muerte o Llanto por la muerte de Ignacio Sánchez Mejías. Justino, escritor romano del s.II d.C., habla de los habitantes del bosque de los tartesios, cuyo rey fue Gargoris, padre de Habis. Habis había sido fruto de amores incestuosos (cosa frecuente en las dinastías divinas

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de la tradición mítica mediterránea) y sería considerado como un rey muy beneficioso para su pueblo, dictando las primeras leyes, enseñando a labrar la tierra y dividiendo la sociedad en castas. En su Ora Marítima, Avieno (poeta latino del siglo IV d.C.) alude a la tierra tartesia (identificándola con el territorio correspondiente a la actual Cádiz) como a una ciudad opulenta. En Juego y Teoría del duende Lorca menciona al que fue considerado el último rey tartesio: “Allí estaba Ignacio Espeleta, hermoso como una tortuga romana, a quien preguntaron una vez <¿Cómo no trabajas?>; y él, con una sonrisa digna de Argantonio, respondió: <¿Cómo voy a trabajar, si soy de Cádiz?>” (LORCA, 2004p. 152) Heródoto nos cuenta que el rey tartesio Argantonio gobernó durante ochenta años (entre 630 y 550 a.C aproximadamente). Pero a partir del año 500 a.C ya no se tienen más noticias sobre los tartesios. Su desaparición aún continúa siendo un misterio (MAZARRASA, 1980, p 51-63). Después de los tartesios las civilizaciones más destacadas (previas a la conquista católica de la Península completa en 1492) que pasaron por Andalucía fueron: Turdetanos, griegos, fenicios, cartagineses, romanos, vándalos, visigodos, musulmanes y judíos. Se calcula que los gitanos llegarían a la Península en el siglo XV y proliferarían (aunque despreciados y marginados) sobre todo en época de dominio católico. Este cúmulo de costumbres, tradiciones y religiones heredadas de todos estos pueblos aparece claramente reflejado en los versos lorquianos. Pero lo interesante es de qué modo se presentan estos elementos, originalmente amalgamados y manifestando asociaciones interculturales estilizadas por la subjetividad artística del genio granadino que revelaban el mestizaje que Lorca respiraba en su propio ambiente. Si nos deslizamos atentamente a través de sus versos, observaremos que Lorca era conocedor de la historia de Andalucía anterior al catolicismo y al

islamismo. Encontramos multitud de referencias a la Antigüedad Clásica. Alusiones a los dioses del panteón, como en el poema San Rafael: “Y mientras el puente sopla/ diez rumores de Neptuno, / vendedores de tabaco/ huyen por el roto muro” (LORCA, 2012, p.84) A la cultura latina en poemas como El emplazado: “Y la sábana impecable, / de duro acento romano, / daba equilibrio a la muerte/ con las rectas de sus paños” (LORCA, 2012, p.101) O a las guerras púnicas, recordemos el poema Reyerta en el que dice: “Han muerto cuatro romanos/ y cinco cartagineses” (LORCA, 2012, p.66). Para Lorca, Andalucía representaba, entre otras cosas, un pequeño oriente dentro de occidente, generado básicamente gracias a las aportaciones de dos culturas: la árabe y la gitana (esta última llegada desde la Península indostánica). Los musulmanes permanecerían más que ninguna otra civilización en el sur de la Península ibérica (casi ocho siglos), por eso su influencia en la literatura y en las diversas artes será capital. Hasta el punto de que con ellos nacen las primeras manifestaciones líricas (conservadas por escrito) en español, las jarchas (aquellos poemillas breves, en lengua romance que acompañaban a las extensas moaxajas árabes o hebreas). Lorca había nacido en un pueblo, Fuentevaqueros, de la provincia de Granada, la ciudad de la Alhambra, último baluarte del islam hispánico. En la poesía lorquiana aparecerán referencias al pasado musulmán, frecuentemente diluyendo el elemento árabe en otros de la tradición cristiana (al igual que ocurría en Al Ándalus). En el poema San Rafael encontramos: “El arcángel aljamiado/ de lentejuelas oscuras” (LORCA, 2012, p.85) O en el poema San Miguel dice: “San Miguel, rey de los globos/ y de los números nones/ en el primor berberisco/ de gritos y miradores” (LORCA, 2012, p.82). Algunos símbolos característicos de la escritura lorquiana, como la luna y el color verde, también guardan una estrecha relación con la cultura

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árabe. La luna es el símbolo del islam, cultura que también concederá importancia a la noche desde un punto de vista literario. Y el color verde, del que tanto se ha hablado, constituye dos de las franjas de la bandera de Andalucía (a este verde se le ha llamado verde omeya , haciendo alusión a la dinastía de Al Ándalus). También el verde es el color de los infinitos olivares del sur de España y remite a la piel morena “aceitunada” de los gitanos. Su poema Crótalo es otra muestra del gusto del poeta por remontarse a un pasado remoto cuyos objetos guardan un vínculo estrecho y casi secreto con otros de la actualidad. En dicho poema Lorca establece una evidente conexión entre el antiguo instrumento musical de la tradición oriental y las castañuelas. Llama al crótalo “escarabajo sonoro”, imagen que se corresponde bastante bien con la de una castañuela, si pensamos en el típico escarabajo negro que abunda en tierras andaluzas (cuyo aspecto ciertamente se asemeja al de una castañuela) y describe el movimiento como “araña de la mano”. Esa imagen, dotada de gran plasticidad, remite directamente al movimiento de las manos cuando se tocan las castañuelas (LORCA, 2006, p.201). Para Francisco Umbral, Lorca paganiza , esoteriza y regionaliza el cristianismo andaluz en sus romances. Señala Umbral que, en el Romance de la Guardia Civil española, desacraliza e identifica la condición de judíos de la Virgen y San José con la de gitanos. Estas dos minorías (los judíos y los gitanos) habían estado proscritas por el catolicismo, imperante en Andalucía desde 1492 (UMBRAL, 2012, p.123). Como es sabido, Lorca fue un gran admirador de la cultura gitana, cuyos ambientes frecuentó. Sus visitas a las casas-cueva, hogar de los gitanos del Sacromonte granadino y escenario de fiestas flamencas, quedarían plasmadas en poemas como Cueva, en el que dice que: “El gitano evoca/ países

remotos” (LORCA, 2006, p.161), dejando constancia de la raíz oriental y exótica de los gitanos. En sus voces encuentra Lorca los ecos de matusalénicas culturas ya profundamente mezcladas con la, también viejísima, alma andaluza, cuya condición híbrida había dado lugar a fenómenos muy apreciados por el poeta, como el Cante Jondo. Nos cuenta Ian Gibson en su biografía de Lorca que un Lorca jovencito acompañó durante varios días a Ramón Menéndez Pidal a las cuevas del Sacromonte granadino para recoger romances orales (GIBSON, 1985, vol. I, p.300). Tras aquel acercamiento filológico (en compañía de Menéndez Pidal) a los romances vivos del Sacromonte (con el que el poeta quedó encantado), no es casualidad que Lorca sienta predilección por esta combinación métrica para su Romancero Gitano, considerándola el molde idóneo. Lorca (al igual que habían hecho otros poetas del Barroco y del siglo XIX) revitaliza una forma primitiva y oral que se mantenía en el mundo hispánico desde los albores medievales de su literatura. La pasión de Lorca por todas aquellas viejas culturas que entretejieron la historia mestiza del sur de la Península Ibérica nos transporta en un viaje que comienzó en la Prehistoria. Todos estos pueblos están, de algún modo (más o menos explícito), evocados en la pluma del poeta granadino. Porque, más allá del localismo folclórico anecdótico, más allá del egocentrismo y del subjetivismo literario, Lorca ha sabido proyectarse hacia el exterior, captar la esencia de una tierra compleja y saltar de lo antropológico a lo poético y de lo poético a lo inmortal.

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POESIA E FICÇÃO NA OBRA DE ROBERTO BOLAÑO: INTERSEÇÕES

Clarisse Lyra Simões PG - USP

Parece haver se formado já entre a crítica e os leitores de Roberto Bolaño um consenso sobre a menor valia de sua poesia em relação à sua prosa. Exemplo disto pode ser observado neste congresso, em que temos duas mesas de comunicações dedicadas ao autor (Cervantes lidera com três mesas, Bolaño vem na sequência) e nenhum trabalho que trate especificamente de sua produção poética. O meu texto, como vocês irão notar, não foge à regra, tendo como objetivo principal especular o modo como a poesia pode se imiscuir em suas narrativas, e não o contrário. Não deixa também de ser emblemático o fato de o mercado editorial brasileiro vir ignorando a grande parcela da obra de Bolaño escrita em verso. O crítico Matías Ayala, por exemplo, defende que o trabalho poético do chileno se tornou parte da “pré-história do narrador”, um trabalho que pode ser tomado como um “ índice biográfico-literario para investigar retrospectivamente su proceso creativo ” (AYALA, 2008, p. 98), mas cujo valor literário é relativizado, não chegando a ser comparável com o de sua produção ficcional. Ayala afirma que “el hecho de […] dejar de escribir en la primera persona del

singular le permitió [a Bolaño] sobrepasar los escollos de una lírica en la que no parecía destacar” (ibidem, p. 99), concluindo que
[...] se puede afirmar que Bolaño deja de escribir poesía para escribir sobre poetas, para ficcionalizar su propia vida azarosa y su fracasada carrera poética en Los detectives salvajes. Bolaño se sabe un mal poeta, y publica para demostrar y atestiguar que ha fracasado (ibidem, p. 100).

Esta passagem da escritura de Bolaño, que nos anos 90 se afasta da poesia, passando a escrever principalmente ficção, aparece ficcionalizada em Los detectives salvajes e é aludida com frequência pela sua crítica. Andrea Cobas Carral e Verónica Garibotto vêm nisto um trânsito que se relaciona com a economia da escrita, que se desloca desde “la poesía como una práctica que se desarrolla mayormente por fuera del mercado a la narrativa como un ejercicio de supervivencia ” (COBAS CARRAL e GARIBOTTO, 2008, p. 178). Alan Pauls, por sua vez, reflete sobre como em Los detectives salvajes – “un gran tratado de etnografía poética” (PAULS, 2008, p. 328), segundo ele - Bolaño “hace brillar a la Obra por su ausencia” (ibidem, p. 328), substituindo o idealismo que

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geralmente cerca a figura do poeta pela colocação em cena do que ele chama, segundo a “gran tradición del melodrama de artista”, “sed de vivir” (ibidem, p. 328). Diz Pauls:
Operación extraña, la de Los detectives salvajes: la poesía – la “obra poética” – queda afuera, del lado de lo real, de lo real-histórico (Mario Santiago, el infrarrealismo, la historia de la poesía mexicana, etc.); y lo que entra, lo que se infiltra en la ficción y ocupa el sistema circulatorio de la literatura, es algo que sólo creíamos conocer (y despreciábamos) bajo la forma del peor de los estereotipos: la Vida misma, la Vida Poética (ibidem, p. 328).

e sus configuraciones literarias ” (ibidem, p. 3), e levantando nos textos estudados procedimentos como o apelo afetivo ao destinatário, a adesão ideológica e o ocasional predomínio da emotividade (em Amuleto ), a crítica chilena acredita que, por muitas vezes, o “eu” emerge na narrativa de Bolaño, elidindo a distância imposta pela referencialidade e fazendo-se notar no texto um “profundo deseo [do autor] de estar sin distancia presente en su obra ” (ibidem, p. 16). Tais disposições, que corroboram os estudos da autoficção na narrativa bolañiana, interessam aqui na medida em que Solotorevsky as introduz não apenas como expediente narrativo, mas como uma espécie de resquício ou substrato lírico. Sabemos, é verdade, e Julio Cortázar escreveu sobre isto, que não existe uma linguagem romanesca pura (CORTÁZAR, 1994, p. 143). Segundo o argentino, “toda narración comporta el empleo de un lenguaje científico, nominativo”, que se alterna e se imbrica com “un lenguaje poético, simbólico” (ibidem, p. 143, grifo do autor). Além disto, já fora de uma instância puramente verbal, diz Cortázar que o romance conta ainda com o que ele chama de “aura poética”, “atmósfera que se desprende de la situación en sí [...], de los movimientos anímicos e acciones físicas de los personajes, del ritmo narrativo, [de] las estructuras argumentales” (ibidem, p. 144). Acima de qualquer teorização, no entanto, Cortázar considera o romance um “imenso baú”, uma forma sem leis (CORTÁZAR apud GONZÁLEZ BERMEJO, 2002, p. 73), tendo chegado a afirmar: “Há romances que são poemas. Há poemas que são romances” (ibidem, p. 72). A hipótese que nós gostaríamos de aventar neste ar tigo, tendo em conta esta prévia de informações, se erige contra a seguinte ideia, sustentada por Matías Ayala (crítico já citado no início do texto):
Esta segunda sección de la obra poética de Roberto Bolaño [aqui ele se refere à obra poética adulta de

Não obstante estas opiniões que enfatizam a passagem de um gênero a outro, o poeta catalão Pere Gimferrer enxerga na narrativa em prosa de Bolaño “una forma, apenas mascarada, de poema”, e afirma que “sus ficciones son tan poéticas cuanto narrativos son sus poemas ” (GIMFERRER, 2006, p. 7). Tais asseverações, em grande medida contrárias à crítica que insiste em uma mudança substancial de gênero, nos levam a pensar em como poderia o poema subsistir na produção ficcional de Bolaño, resposta que Gimferrer não nos dá. Myrna Solotorevsky aponta uma perspectiva interessante para a consideração deste questionamento. Em ensaio sobre a “Anulación de la distancia en novelas de Roberto Bolaño”, ela defende que, apesar do trânsito executado por ele do gênero lírico (no qual predomina a função emotiva e a expressão da interioridade do falante) ao narrativo (ao qual corresponde a função referencial), restam em sua ficção marcas “de esa proximidad al ‘yo’ y de su necessidad de manifestación” (SOLOTOREVSKY, 2008, p. 3). Analisando variadas obras do autor, tais quais as novelas Amuleto, Estrella distante, Amberes e La pista de hielo , Solotorevsky estima que “ el Bolaño presente en sus textos remite a [...] un pseudo-referente real ” (ibidem, p. 3). Considerando, contudo, o “Bolaño real” e as “equivalencias entre este, su biografía

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Bolaño, os libros Tres , Los perros románticos y Fragmentos de la universidad desconoc ida , publicados durante os anos 90], variopinta, y poco concentrada, parece ser la compilación de textos escritos a lo largo de los años más que un razonado o persistente proyecto poético. Se puede conjeturar que para entonces estaba concentrado en su narrativa y la poesía la ejecutaba en honor a los viejos tiempos (AYALA, 2008, p. 91-92).

cantadas no por hombres, sino por fantasmas (ibidem, p. 109).

Entre as qualidades que se associam à poesia em sua obra crítica, e mesmo em seus poemas, aparecem sempre as palavras (tão repetidas por ele) “ valentía ”, “ voluntad ”, “ valor ”, e jamais qualquer menção a uma condição específica de linguagem.

Nossa hipótese, portanto, é a de que havia sim um projeto poético posto em marcha por Bolaño, e que este projeto incluía não somente a sua produção em verso, mas também a sua narrativa. Longe do esquematismo pretendido pelo crítico chileno, que chega quase a opor poesia e ficção na produção de seu compatriota, acreditamos que a relação entre ambos gêneros em Bolaño se dá por contaminação e fluidez, em uma relação ambígua difícil de ser equacionada. Para justificar a falta de limites precisos entre poesia e prosa que vemos na obra de Bolaño, seria necessário recorrer às suas possíveis concepções de poesia. A concepção expressada por ele em ensaios e textos críticos (cuja formulação nunca se aproxima do conceito) parece extrapolar qualquer ideia de forma ou estrutura. É uma concepção que tem por base preceitos outros que não o de verso ou o de “infinitos juegos de la Analogía” (CORTÁZAR, 1994, p. 144), mas que parece orientar-se por uma espécie de caráter da poesia, e que poderia tranquilamente ser contemplada pela narrativa. Sobre o escritor chileno Pedro Lemebel, por exemplo, Bolaño disse: “Lemebel no necesita escribir poesía para ser el mejor poeta de mi generación. Nadie llega más hondo que Lemebel” (BOLAÑO, 2006, p. 65). Sobre os poetas em geral, afirmou:
No hay nadie en el mundo más valiente que ellos. No hay nadie en el mundo que encare el desastre con mayor dignidad y lucidez. Son, en apariencia, débiles, […] y trabajan en el vacío de la palabra, como astronautas perdidos en planetas sin salida posible, en un desierto donde no hay lectores, ni editores, apenas construcciones verbales o canciones idiotas

Também em seus romances encontramos formulações significativas desta tensão. Em 2666 , lemos: “Ingeborg le preguntaba a Reiter por qué no escribía poesía y Reiter le contestaba que toda la poesía, en cualquiera de sus múltiples disciplinas, estaba contenida o podía estar contenida, en una novela ” (idem, 2004, p. 969). Em Amuleto, por sua vez, se enuncia a seguinte profecia: “ La poesía no desaparecerá. Su no-poder se hará visible de otra manera” (idem, 2009, p. 134). Não por acaso, Amuleto se encontra em alto grau contaminada pela poesia. Relato construído a partir de uma temporalidade múltipla e cambiante, nele Bolaño logra elidir o tempo uniforme tradicional da narrativa, através de uma enunciação extremamente lírica da narradora e protagonista Auxilio Lacouture. No capítulo 9 do livro, exemplar neste sentido, oscilam três tempos: os anos 1963 imaginado, o 1968 rememorado, e o tempo da enunciação, que não se sabe ao certo quando é. Nós percorremos o fluxo da consciência de Auxilio e nos perdemos nele como ela própria, já que nenhum dos tempos de seu relato é sólido, nenhum constitui o que se poderia chamar o “tempo da realidade”. Se o comum nas memórias é o tempo da enunciação funcionar como base, como ponto a partir do qual se organizam as experiências, neste relato a base encontra-se desestabilizada, pois é um espaço – o banheiro feminino do quarto piso da UNAM, onde a protagonista permaneceu enclausurada durante a invasão da universidade em 1968 – que funciona como mirante, já descolado no tempo, flutuante, a partir do qual Auxilio vê o seu passado e o seu futuro.

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Encontrar-se no banheiro, para esta uruguaia residente no México, não implica necessariamente um relembrar: este é um espaço que ela ainda habita (pelo menos imaginativamente). Ele não se restringe, portanto, à experiência do ano ‘68, ele se desloca no tempo e se transforma no teatro de suas visões: em determinada cena, por exemplo, Auxilio estende a mão no banheiro para apontar o quadro instalado na sala da casa de Remedios Varo, que ela visita em sonho; em outra sequência, a voz da Remedios do sonho de Auxilio se perde entre os ladrilhos do banheiro da UNAM. Tal disposição temporal nos remete ao texto de Octavio Paz que diz: “a crise da sociedade moderna manifestou-se no romance como um regresso ao poema” (PAZ, 1996, p. 72). E mais adiante: “desde os princípios deste século o romance tende a ser poema de novo” (ibidem, p. 73). Neste ensaio sobre a “Ambiguidade do romance”, Paz faz referência a autores como James Joyce, Marcel Proust e William Faulkner. Sabemos que eles, através do monólogo interior, aboliram a perspectiva, eliminaram o abismo entre o homem e o mundo instaurado pelo narrador em terceira pessoa. Mas, mais do que isso, o monólogo interior instaura um tempo na narrativa que não é o dos fatos, mas um tempo que se desdobra, no caso de Amuleto, em temporalidades múltiplas que, ainda que não prescindam da história (isto é, de “uma narrativa de eventos dispostas conforme a sequência do tempo” [FORSTER, 2004, p. 57]) – e, por isso, continuem inseridas no âmbito do romance –, flertam com a noção temporal do poema, que às vezes é inexistente e às vezes se desloca livremente de um instante a outro, sem a necessidade de constituir uma cronologia. Experiência mais extrema neste sentido é a que Bolaño proporciona com o livro Amberes. Datado de 1980, o volume foi publicado em 2002 na categoria romance, gênero que lhe foi atribuído pelo próprio autor no prólogo à edição, no qual ele diz:

“ Obviamente, nunca llevé esta novela a ninguna editorial” (BOLAÑO, 2009, p. 9). Em 2007, porém, sai publicado o volume intitulado La universidad desconocida , reunião de grande parte da poesia de Bolaño organizada por ele mesmo e datada de 1993. Neste livro, encontra-se publicado novamente Amberes, agora sob o título “Gente que se aleja”. O ato não é gratuito. Amberes oferece um texto fragmentado de alto poder desestabilizador, cuja leitura envolve um acentuado grau de angústia, ocasionado pela dificuldade (ou impossibilidade) de se encontrarem os elos que permitam remontar os fatos e a cronologia. Desta forma, com a dupla inserção do texto em volumes de catalogação diferente, Bolaño desloca a questão da determinação do gênero do autor para o leitor, transformando-a em um ato de leitura. Ler Amberes como romance certamente é mais desconcertante, já que as convenções de leitura deste gênero implicam a possibilidade de se obter uma linearidade final (que insiste em escapar do leitor neste caso), enquanto a operação de leitura da poesia obedece a normas outras, podendo ser uma leitura salteada ou corrida, não estando o leitor preocupado em obter um sentido final para o conjunto. Neste sentido, pode-se dizer que o que determina o caráter genérico ambíguo deste texto é, antes de tudo, o recurso ao fragmento, elemento constitutivo de grande parte da obra de Bolaño. No jogo da representação, no qual estão em pugna fragmentação e totalidade, caos e ordem, organicidade e arbitrariedade, e, em última instância, a própria possibilidade do narrar, Bolaño logra por em cena a tenuidade dos limites entre poesia e ficção, ao sinalizar que, nas bordas de um romance cujas peças não se encaixam (e que por isto não teria sido aceito inicialmente por nenhuma editora), pode muito bem desenhar-se um poema.

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Nota
1

Aluna do mestrado do Programa de Pós-Graduação em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-Americana da Universidade de São Paulo. Desenvolve com o apoio da Fapesp o projeto de pesquisa “Fragmentação e multiplicidade em Los detectives salvajes, de Roberto Bolaño”.

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REPRESENTAÇÃOES DA MULHER E VOZES FEMININAS NO CONTEXTO IBEROAMERICANO

Cláudia Luna UFRJ

El discurso sobre la mujer es también un discurso sobre identidad y ciudadanía. Más importante, tal vez menos obvio, el discurso masculino sobre la identidad y la ciudadanía es también un discurso sobre el género. Las dos formaciones discursivas se determinan mutuamente, aunque en relaciones de desigualdad radical. (Pratt, 1995, p. 273)

Vive-se hoje um processo de revisão histórica propiciado pelos bicentenários dos processos de independência e formação das nacionalidades e seus respectivos imaginários na América Latina. Nesse contexto, abre-se oportunidade ímpar de repensar a escrita da história como um processo de cunho marcadamente androcêntrico, sob recorte tradicional, que relegou ao esquecimento ou a papel secundário a participação de mulheres como a peruana Micaela Bastidas, a equatoriana Manuela Sáenz, ou a brasileira Bárbara de Alencar, embora tivessem papel relevante nos processos encabeçados respectivamente por Tupac Amaru, Simón Bolívar e Frei Caneca. O projeto de pesquisa que ora realizamos visa a confrontar representações e autorrepresentações destas entre outras personagens históricas, considerando os projetos de emancipação que enunciam e as repercussões de sua atuação, no contexto latino-americano. Inicialmente, trata-se de analisar o processo de autorrepresentação expresso nas cartas e documentos públicos e privados de protagonistas das Independências latino-americanas.

A primeira etapa de trabalho constitui-se no estabelecimento do corpus a partir da compilação das fontes, que podem contar com o auxílio de trabalhos recentes de recuperação, em curso, ou fazer-se diretamente nos arquivos. Em muitos casos, há lacunas importante a preencher, pois a documentação existente é escassa ou de autoria coletiva. Interessa-nos investigar como se representam as mulheres nas independências e se afirmam (ou não) nas esferas pública e privada? Que elementos interferem no processo de construção da subjetividade, afirmação ou negação do protagonismo? Nossa hipótese inicial é de que há diferentes condicionantes, como questões étnicas e de classe, estado civil e origem. Por um lado temos a afirmação vigorosa de Micaela Bastidas, esposa de Tupac Amaru e uma das líderes da insurreição andina contra a metrópole; temos o mascaramento dos ideais de Manuela Sáenz, ao colocar-se perante Bolivar como mera amante e cuidadora, apesar de arguta estrategista e lutadora aguerrida. Quanto a Bárbara Alencar, há o ápice do

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processo de apagamento: apesar de presa e perseguida, transfere o protagonismo para o filho Martiniano, e mascara ou dilui sua subjetividade na construção de documentos coletivos, como na Proclama de 1817.

Como já observava Ángel Rama, a América Latina se caracteriza pela existência de regiões culturais, marcadas por história comum e, nesse traçado, esfumam-se as fronteiras nacionais estabelecidas pelo História oficial. Recordemos a mais evidente, a gauchesca, unindo territórios pertencentes à tríplice fronteira – Uruguai, Argentina e Brasil. A

O Brasil em face das Independências – cruzamentos e peculiaridades
Considerando os projetos emancipadores e as rebeliões ocorridas no Brasil, a primeira diferença que se percebe em relação aos países vizinhos é a referente ao projeto vitorioso – o da monarquia bragantina, de recorte centralizador e unificador, em oposição à vitória das propostas republicanas. Por outro lado, há intenso intercâmbio de ideias entre os americanos de colonização espanhola e os de colonização inglesa. São diversos projetos de América, intentos utópicos e de construção de novas nações ou de repúblicas, de territórios livres, de fundação de espaços sociais marcados por contratos sociais mais ou menos inclusivos, mais ou menos heterogêneos. O Brasil pareceria estar distante deste intercâmbio, à primeira vista, impressão que se desfaz à medida que adentramos o exame do passado. Uma primeira hipótese seria a de que o projeto absolutista e monárquico, centralizador, enfatiza o recorte atlântico, voltando as costas aos processos que se sucedem na América Hispânica. No entanto, é marcante o recorte imperial brasileiro a respeito dos vizinhos, as longas lutas pelo estabelecimento do território nacional, marcando as guerras de fronteiras que atravessam todo o século XIX e os episódios da diplomacia continental a esse respeito – da Guerra do Paraguai, a República Cisplatina, a disputa pelo território do Acre, em suma, a definição do grande território emergindo unificado sobre a variedade regional.

cultura guarani, do Paraguai e Centro Oeste brasileiro, o elemento afro-americano, no Rio de Janeiro, Bahia e Antilhas, o vasto território cultural amazônico, congregando países como Brasil, Equador, Peru, Bolívia, Venezuela, Colômbia. São linhas que se cruzam e sobrepõem imaginariamente sobre as linhas demarcatórias oficiais de províncias e nações, compondo um segundo traçado, a respeito do qual Rama pondera:
En este segundo mapa el estado Rio Grande do Sul, brasileño, muestra vínculos mayores con el Uruguay o la región pampeana argentina que con Matto (sic) Grosso o el nordeste de su propio país; la zona occidental andina de Venezuela se emparenta con la similar colombiana, mucho más que con la región central antillana. (RAMA, 1985, p. 58).

No caso brasileiro, o século XIX será palco de um jogo de tensões entre o regional e o nacional, no qual se insere o movimento de 1817, do qual participará Bárbara de Alencar. Nas primeiras décadas do século XIX assiste-se, sucessiva ou simultaneamente, a intentos mais ou menos logrados de emancipação em relação a Portugal, movimentos internos separatistas, oposição entre os diversos projetos dos agentes sociais envolvidos, acionando liberais e conser vadores, monarquistas e republicanos, regionalistas e centralistas. Distintos projetos de construção da nacionalidade que se cruzarão até que vença o projeto unificador, sob o Império de Pedro II. No Nordeste brasileiro, em especial na província de Pernambuco, o espírito independentista era bastante acirrado. Ao mesmo tempo que se mantinha comércio diretamente com países europeus

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e africanos, a dimensão continental do país isolava o a região do centro de decisões. A esse respeito narra o viajante Robert Walsh:
Os pernambucanos foram os primeiros a reconhecer o direito do Imperador ao trono do Brasil, bem como a total separação deste país de Portugal. Contudo, ainda alimentavam a esperança de se tornarem um Estado independente. Existia uma grande rivalidade entre a província e o Rio de Janeiro, e pequenas causas de descontentamento eram motivo de constante atrito entre as duas províncias. Entre outras coisas, os pernambucanos se queixavam de que lhes era cobrado um imposto para a iluminação das ruas do Rio, enquanto as de própria cidade eram mantidas em total escuridão. (WALSH, 1985, p.184).

negros, mulatos e brancos, comuns na Argentina, no Peru e no Brasil – a tentativa de implantar no Brasil um modelo semelhante ao intentado nas Antilhas (vide Haiti); o intercâmbio e busca de apoio com os Estados Unidos, por parte de insurgentes, calcados num prenúncio de pan-americanismo, antecipando a doutrina Monroe. Finalmente, o intercâmbio entre o Velho e o Novo Mundo, ou seja, a atuação conjunta de intelectuais hispano-americanos na Europa, como Fray Servando Teresa de Mier ou Andrés Bello, principalmente em Londres, e a busca de aprovação pela opinião pública europeia; já no caso do Brasil, a presença de brasileiros como estudantes na Escola de Coimbra, trazendo para cá o pensamento liberal. Em contrapartida, a presença dos viajantes europeus e seus depoimentos sobre o cenário americano, como, por exemplo Maria Graham1, Robert Walsh ou Daniel P. Kidder, constituindo um corpus precioso de relatos de viagem que nos trazem informações minuciosas sobre nossa história e sobre as representações cruzadas que se fizeram, reconstituindo o olhar estrangeiro sobre a América, na esteira de Humboldt.

Como afirmou lucidamente Marcel Velásquez, em sua exposição no Seminario Escritoras del Siglo XIX, em Lima (2009), resgatar a produção feminina no século XIX importa também como forma de resgatar o contexto em que estão engastadas, muitas vezes trazendo à tona publicações esquecidas ou renovando o interesse por áreas pouco exploradas. Em suma, um efeito colateral positivo na revirada do passado histórico. Nesse sentido, refletir sobre a posição das mulheres neste processo, antes de tudo nos leva a repensar uma série de questões que nos desafiam nestes dois séculos. Como já apontei em trabalhos anteriores, há alguns elementos comuns a todo o continente, como o sentimento nativista e o rechaço do elemento ultramarino (os reinóis); o papel destacado das ordens religiosas no processo – confrontem-se, por exemplo, os jesuítas expulsos, que, da Itália, revalorizam o dado americano, como Rafael Landívar, e a atuação de Frei Caneca, um dos mentores da Confederação do Equador, de 1824. Especialmente no Nordeste brasileiro, não podemos esquecer a relação estreita que se mantinha entre os coronéis (e as coronelas), a Igreja e o Estado. Outros dados a considerar são a separação entre as etnias e raças, as corporações militares de

Rodolfo Walsh, por exemplo, capelão da comitiva de Lord Strangford, em suas Notícias do Brasil (1825-1829), retrata conflitos regionais, narrando uma tentativa de insurreição malograda que se deu em fevereiro de 1929, em Pernambuco, e uma outra no Maranhão. Ele as explica pela distância em relação à Corte, associada à proximidade com outras “províncias republicanas”. Diz ele, referindo-se ao Maranhão:
A situação dessa província era sabidamente alarmante. Ela fica tão distante da capital que as comunicações entre esta e suas cidades de fronteira nunca se completam em menos de um ano, e em Tabatinga as notícias do Rio são trazidas muitas vezes passando pelo Cabo Horn, vindo assim do litoral e atravessando os Andes. Isso torna a influência do governo relativamente fraca, ao passo que a vizinhança das províncias republicanas representa um forte estímulo para que o seu

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exemplo seja seguido. (WALSH, 1985, p. 85) (grifo nosso)

e de 1824. No seu caso, o destaque maior será para o filho Martiniano de Alencar. Bastidas tampouco terá melhor sorte.

Das heroínas – semelhanças e contrastes
No cotejo entre a trajetória das personagens históricas podemos observar, em primeiro lugar, a masculinização da figura feminina no processo das independências. No caso de Manuela Sáenz, isso se vincula ao papel destacado que tiveram as mulheres no campo de batalha, nos diversos países, como soldados; no caso de Bárbara Alencar, ao matriarcado, ou seja, ao fato de que era comum as viúvas assumirem o comando de suas fazendas e por atuarem no campo político. Quanto a Micaela Bastidas, a morte após torturas atrozes aponta para o necessário processo de escarmento, a exemplaridade no castigo como forma de coibir novas rebeliões. Em segundo lugar, o jogo curioso de revelação e encobrimento – em relação a Sáenz, o processo de apagamento de sua atuação, de sua importância no campo político como estrategista e militante, que no seu caso começa por suas próprias mãos, ao colocarse como coadjuvante de Bolívar, nas cartas; e pela posteridade, que a conhece a partir do batismo que este lhe confere de Libertadora do Libertador. No caso de Bárbara se associa à figura da mártir, da mãe extremada, da mulher aprisionada, que sofre vexames e punição inclemente, mas se mantém fiel a seus ideais. Quanto a Micaela Bastidas simplesmente sua atuação será relegada a segundo plano, e associada sempre ao marido, ou seja, como a companheira de resistência e luta.

Até onde pude pesquisar, por outro lado, a figura de Bolívar se prestará a uma representação culta e popular de amplíssimo espectro, em todos os níveis, o que, creio, não sucede com Manuela Sáenz. Já quanto a Bárbara de Alencar, alcançou um destaque muito grande no campo do imaginário popular brasileiro, nos cancioneiros, na música popular, no cordel, no maracatu, em suma, em diversas formas de representação oral. Em relação a Bastidas, ainda estamos no começo da investigação. De todas as formas, o que ressalta da pesquisa é o quanto ainda há para se buscar, de forma a reconstituir pelo menos minimamente o efetivo papel desempenhado pelas mulheres nos processos de independência na América Latina. Nosso projeto, em suma, visa a contribuir para o processo de revisão histórica e ampliação do cânone literário latino-americano, no âmbito do processo coletivo de reflexão e crítica acerca dos bicentenários das independências na América Latina. A discussão local, temos certeza, será relevante na construção de saberes globais mais inclusivos e libertadores.

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Em relação à escrita da história, todas praticamente desapareceram do panteão de heróis da historiografia oficial. Manuela Sáenz surge sempre atrelada à figura de Bolívar, como um capítulo à parte. Quanto a Bárbara de Alencar é mencionada em pouquíssimos textos referentes às revoluções de 1817

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Nota
1 Seu diário da viagem e permanência no Brasil, entre 1821 e 1823, foi publicado em Londres em 1824 (GRAHAM, 1990).

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A DESTREZA ORAL E SUA IMPORTÂNCIA PARA A FORMAÇÃO DOS FALANTES DE ESPANHOL COMO LÍNGUA ESTRANGEIRA

Cristina do Sacramento Cardôso de Freitas Universidade Estadual de Santa Cruz - UESC

Introdução
A partir das ideias geradas no projeto de iniciação à docência intitulado “Ensinoaprendizagem da Língua Espanhola: a proficiência oral em foco”, desenvolvido na Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC - Ilhéus – BA), definiu-se o objetivo desta proposta, que é o de realizar uma reflexão a respeito de alguns aspectos relacionados à destreza oral entre alunos de nível iniciante, entre os quais se encontram: a investigação criteriosa das causas que conduzem à deficiência de sua produção oral, em língua espanhola; a análise detalhada das consequências de tal problema; e, finalmente, a proposição de atividades variadas de incentivo à otimização da expressão oral entre os mesmos. Para melhor compreendermos os aspectos que se relacionam ao desenvolvimento da destreza oral em língua espanhola, como L2, entre alunos de nível iniciante, decidimos organizar este referencial teórico em tópicos, entre os quais se encontram: a análise da questão das interferências linguísticas entre o português e o espanhol; a observação do uso de

métodos pretensamente comunicativos que visam facilitar a aprendizagem desta destreza; o papel da afetividade na relação professor-aluno e como esta influencia na capacidade de expressão oral do mesmo; as dificuldades específicas de aprendizagem da destreza oral em língua espanhola; a questão da fossilização e da interlíngua; a elaboração de um quadro em que se visualizam estes e outros fatores que definiríamos como de caráter individual, institucional e intrainstitucional; e, finalmente, a proposição de atividades que desenvolvam de maneira criativa, natural e estimulante a capacidade de expressão oral de alunos de nível iniciante. Para tal, sabemos que o processo natural de aquisição de uma língua tem como primeiro elemento de contato a oralidade, considerado o mais constante instrumento de uso linguístico. Portanto, um dos primeiros pontos a se desenvolver nos aprendizes espera-se que seja a oralidade. Mas o que vem a ser esta capacidade, habilidade ou destreza de se expressar corretamente em outro idioma? Quais são suas características?

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1. Revisão da Literatura
1.1. Características da destreza oral Estudos e pesquisas se desenvolveram no Brasil com o objetivo de compreender o fenômeno da produção oral em língua estrangeira, por falantes não nativos. Para Martín Peris (1996, p.50), algumas das principais características desta destreza são: é a destreza mais importante para muitos aprendizes de uma L2; possui uma utilidade prática real; as oportunidades de praticá-la dependem de muitos fatores externos ao aprendiz; conseguir um bom domínio desta destreza não é fácil, já que implica em ser capaz de utilizar um número considerável de microdestrezas capacitadoras, de interação e atuação com o outro, em contexto real. No entanto, em função das similaridades em diversos níveis reconhecidamente existentes entre a língua espanhola e a portuguesa, é possível afirmar que ainda há uma carência significativa no que diz respeito à discussão sobre as dificuldades específicas de alunos brasileiros e a proposição de materiais ou atividades que busquem o aprimoramento da expressão oral dos mesmos. As interferências que se produzem na aprendizagem do espanhol por lusofalantes representam o cavalo de batalha de profissionais e alunos e afetam a ambos.

do espanhol, dois grandes mitos sobre a língua povoam o imaginário comum. O primeiro é o de que a língua é composta basicamente por uma grande lista de palavras. Essa concepção é refletida no senso comum pelo apego que muitos professores têm aos chamados ‘falsos amigos’, os famosos falsos cognatos que evidentemente podem levar o indivíduo que não domina o idioma a uma série de situações embaraçosas. O problema não está em ensinar os ‘falsos amigos’ aos aprendizes, já que, de fato, esses elementos fazem parte da competência gramatical e linguística ideal de um falante da língua. A questão se centra na ideologia que essa ênfase nas questões lexicais da língua acarreta. Ao apresentar a língua como um grande inventário de vocábulos, essa ideologia, difundida inclusive pelos próprios meios de comunicação, constrói uma imagem de que a diferença entre as línguas portuguesa e espanhola se resolve apenas através de uma simples substituição de itens lexicais, promovendo uma visão de que os processos de uma língua se repetem uniformemente na outra. Não é difícil imaginar o quanto essa visão reducionista pode comprometer o desempenho de um aprendiz.

1.3. Métodos pretensamente ‘comunicativos’ O segundo ponto discutido pelas autoras é a

1.2. Interferências entre o português e o espanhol Determinando os efeitos da proximidade entre estas línguas, Kulikowsky e González (1999) fazem uma importante reflexão com relação à prática docente de espanhol para brasileiros. As autoras discutem como a imagem que o aprendiz de uma língua estrangeira tem do seu objeto de estudo pode determinar seu sucesso ou fracasso em termos de domínio oral desse conhecimento específico. No caso

ideia, não tão velada quanto a anterior, de que a língua é um instrumento destinado fundamentalmente à comunicação. Se a ênfase nos itens lexicais promove uma ideologia reducionista que impede o aprendiz de entender a língua como um sistema autônomo e extremamente complexo, a ênfase no fator comunicativo pode ter efeitos ainda piores no processo de ensino-aprendizagem do espanhol. Isso se deve ao fato de que a troca dos chamados objetivos gramaticais pelas competências comunicativas, na prática, não se realiza da maneira mais adequada.

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O falso objetivo de dominar as quatro habilidades em cada vez menos tempo é o principal elemento motivador do aprendizado, uma vez que fornece uma sensação de domínio imediato logo nas primeiras aulas, ainda que essa sensação seja ilusória, como salientam Celada e González (2005), pois provém de um novo reducionismo, o que se refere à uniformidade das situações pragmáticas nas quais um indivíduo pode se encontrar. Ao entender a língua como um instrumento que ‘serve’ basicamente para se comunicar, o indivíduo se apossa de suas expressões de maneira imediatista e utilitária, o que o distrai da real tarefa de compreender a língua como um sistema autônomo, com seus processos particulares. Alguns teóricos opinam sobre a importância do desenvolvimento desta capacidade comunicativa oral, o que inclui, a nosso ver, uma questão mais ampla que envolve a fluência verbal no idioma estrangeiro. Faerch e Kasper (1983) alegam que quanto mais o aluno se engaja em situações comunicativas, maior variedade e mais possibilidades ele tem não só de praticar sua capacidade comunicativa oral na língua estrangeira, como também de construir hipóteses sobre a L2 e testá-las. Dubin e Olshtain (1977) acreditam que o papel do professor deve ser o de facilitar o aprendiz a desenvolver suas próprias capacidades e recursos interiores para realizar adequadamente as tarefas comunicativas. Para Canale e Swain (1980), proficiência linguística significa não somente saber fonologia, sintaxe, vocabulário e semântica, mas também ser capaz de fazer uso desse conhecimento apropriadamente em comunicação real.

começaram a apresentar maior interesse a partir dos anos 70. A este respeito, Krashen (1982) estabeleceu uma relação direta entre a primeira e o êxito do aluno no processo de aprendizagem de uma nova língua. Este psicolinguista levou em conta três variáveis que possuem uma influência direta sobre a aprendizagem de idiomas: a atitude, a motivação e a personalidade. Explicou que existe um filtro de percepção, o chamado filtro afetivo, que se refere a um conjunto de circunstâncias, angústias, falta de interesse, de motivação, que, em determinados casos, bloqueiam a aquisição satisfatória do código e a compreensão ou, no nosso caso, a produção em idioma estrangeiro. Por isso, o aluno deverá ter uma atitude positiva que lhe permita uma maior permeabilidade diante do processo de aprendizagem e evitar as barreiras afetivas, que geram por sua vez, bloqueios mentais que não permitem que os dados sejam processados de forma completa. Em consequência, para que haja uma melhor receptividade aos conteúdos, se requer empatia, disponibilidade e autoconfiança.

1.5. Dificuldades específicas de aprendizagem da destreza oral em língua espanhola Além destas dificuldades pessoais e interpessoais que o aluno pode apresentar com relação à aprendizagem da língua estrangeira, em nossa prática docente percebemos também que, muitas vezes, alunos brasileiros, aprendizes de espanhol como língua estrangeira, demonstram algumas dificuldades no que diz respeito à pronúncia da língua espanhola.

1.4. O papel da afetividade na aprendizagem da expressão oral Por sua vez, estudos sobre a relação entre a afetividade e a capacidade de aprendizagem do aluno

Podemos dizer que existem aspectos nas duas línguas que não criarão dificuldades na aprendizagem. Teríamos também outros aspectos na língua estrangeira, sem equivalência na língua

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materna, nos quais seria mais difícil para os alunos alcançarem um nível de produção oral mais próximo do ideal. E, por último, há aqueles aspectos que de tão similares nas duas línguas, se tornam os mais passíveis de interferência e que, possivelmente, são os que provocarão mais problemas na aprendizagem. O ensino da pronúncia, em língua espanhola, é uma das destrezas que todo aluno necessita dominar quando aprende uma língua estrangeira. Por isso, deveria fazer parte dos conteúdos de qualquer plano curricular e o professor teria que incorporar às suas atividades em aula. Com relação ao momento da correção da pronúncia do aluno, esta é necessária no momento em que na produção oral se detectam equívocos. No entanto, o professor deverá enfrentar este momento da correção da pronúncia com cautela. É necessário também que tenha consciência do grau de “precisão fonética”, ou seja, o grau que deseja alcançar na produção oral dos estudantes.

influência direta e que o aproxima cada vez mais da língua-alvo de aprendizagem. Trata-se ainda de um sistema variável e dinâmico, distinto tanto da língua materna como da estrangeira (ainda que nele se encontrem elementos das duas); e que contém regras que lhe são próprias, pois cada aprendiz possui seu sistema específico em determinado estágio de aprendizagem. Entre os vários aspectos que observamos com relação às dificuldades enfrentadas por alunos brasileiros de espanhol, como segunda língua, encontram-se: a realização de fonemas nasais na língua espanhola, a abertura e o fechamento dos fonemas vocálicos, os encontros vocálicos em ditongos crescentes, alguns fonemas e alófonos oclusivos e fricativos, a realização da vibrante múltipla, entre outros fenômenos.

1.7. Análise de alguns fatores Foi possível observar que muitos fatores podem intervir no processo de aquisição de uma Quando não ocorre a devida correção dos equívocos de pronúncia cometidos pelos alunos, desde os primeiros contatos com o idioma estrangeiro, a consequência poderá ser a formação de um processo denominado interlíngua, em que estes futuros professores parecerão se contentar com o estado de língua atingido, sem desejar evoluir a partir da problemática mescla criada entre a língua materna e a língua estrangeira a qual estão expostos. O sistema linguístico desenvolvido por um falante não nativo na língua estrangeira foi denominado de várias maneiras, no entanto, o termo mais aceitado é o de interlíngua, proposto por Larry Selinker (1972). Para ele, a interlíngua é um sistema linguístico interiorizado (com características de linguagem porque serve para comunicar-se e possui gramática interna), sobre o qual o aprendiz possui Fatores institucionais; Fatores intrainstitucionais A tabela abaixo busca apresentar estes três aspectos principais envolvidos nesta pesquisa, objetivando investigar criteriosamente as causas da deficiência oral, analisar sua consequência e propor, à luz da teoria da revisão da literatura realizada, soluções criativas, modernas e práticas para tal questão. segunda língua. A partir de uma série de observações, detectamos que, entre os fatores que mais dificultam a solidez da expressão oral para os alunos iniciantes do Curso de Graduação em Letras (PortuguêsEspanhol), da Universidade foco de estudo nesta investigação, encontram-se: Fatores pessoais ou individuais;

1.6. A questão da interlíngua e da fossilização

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CAUSAS DA DEFICIÊNCIA ORAL 1. FATORES INDIVIDUAIS (ALUNO) a) timidez excessiva, vergonha, medo de errar e ser ridicularizado em sala de aula. b) distância afetiva no relacionamento professor-aluno, o que afasta os alunos da possibilidade de desejar expressar-se oralmente em língua estrangeira, em sala de aula. c) falsa ideia de facilidade na aprendizagem da língua espanhola, por tratar-se de uma língua-irmã à portuguesa. d) interferências linguísticas da língua materna sobre a língua estrangeira, criando a chamada interlíngua. e) falta de hábito de expor-se em público, em ambiente acadêmico, em língua estrangeira. f) dificuldades naturais de aprendizagem de um novo idioma, no início do processo. g) ausência de conhecimentos prévios em língua espanhola, anteriores à entrada na universidade. h) falsa crença de que, ao se graduarem como professores, ministrarão aulas de língua espanhola, em instituições públicas e privadas de ensino fundamental ou médio, em língua portuguesa. 1. FATORES INDIVIDUAIS (professor) a) utilização de metodologias pretensamente comunicativas no ensino da língua estrangeira. b) ausência de projetos ou atitudes individuais que privilegiem a presença de professores, alunos e outros convidados, falantes de língua espanhola como L1, em atividades acadêmicas em sala de aula de língua espanhola nesta universidade. 2. FATORES INSTITUCIONAIS a) grande quantidade de alunos por turma. b) carga horária insuficiente de aulas. c) ausência de meios auxiliares à aprendizagem, em ambiente acadêmico: laboratórios de informática e de idiomas bem equipados e modernos. 3.FATORES INTRAINSTITUCIONAIS a) ausência de programas de intercâmbio entre professores e alunos de universidades na Espanha e na América e as universidades públicas no Brasil.

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2. Proposição de atividades variadas de incentivo à otimização da expressão oral entre alunos de Língua Espanhola de nível básico
2.1. Assistir a um filme, em espanhol, sem legenda, e interromper a projeção antes do final para que os alunos tenham a oportunidade de propor finais criativos para a história e para os personagens principais, em forma de redações curtas, individuais (atividade indicada para trabalhar produção escrita e oral criativa). Algumas sugestões de filmes seriam: El laberinto del fauno, Un cuento chino, Vicky, Cristina, Barcelona, La suerte está echada, La casa de los espírutus, Manolito Gafotas, Crónica de una muerte anunciada, Frida, Muerte en Granada e Mujeres al borde de un ataque de nervios.

oralmente (explicando por que escolheu esta notícia, relatando seus principais aspectos e dando sua opinião sobre o tema); num primeiro momento, os demais alunos escutam a notícia e, num segundo momento, emitem suas opiniões sobre o mesmo, criando-se naturalmente um ambiente de debate sobre temas atuais diversos.

2.4. Relato de fotos de viagens (atividade indicada para trabalhar produção oral e descrição) Sequência de atividades: na aula anterior, o professor deverá solicitar aos alunos que tragam 5 fotos de viagens pessoais ou familiares, em pen driver, que considerem interessantes; na aula seguinte, as fotos de cada aluno serão projetadas para que todos possam visualizá-las com clareza; os alunos deverão fazer perguntas do tipo quem está na foto, onde e

2.2. Criação de conto moderno, em língua espanhola. Sequência de atividades: tempestade de ideias sobre o tema contos de fadas; compreensão auditiva de conto de fadas curto; leitura em voz alta, pelos alunos, do mesmo conto; escritura, em grupos, de novo conto (com características modernas), de forma criativa; gravação em áudio do conto produzido; apresentação, de forma teatralizada, do conto criado pelo grupo.

quando foi tirada, por quem, por que escolheu aquela foto específica para apresentar, etc.

2.5. Produção, em duplas, de diálogo em estabelecimento comercial, baseado em material autêntico (folhetos recolhidos em viagens a países de fala hispânica). Sequência de atividades: na aula anterior, o professor deverá entregar folhetos de estabelecimentos comerciais, em língua espanhola, aos alunos, em duplas; os estabelecimentos selecionados vão depender dos folhetos que o professor possuir para a atividade (por exemplo, de restaurantes, hotéis, estações de metrô, casas de dança, far mácias, consultórios dentár ios ou médicos, livrarias, lojas de roupas, teatros, cinemas, museus, mercados, lojas de eletrodomésticos, bancos, bares, etc).

2.3. Pesquisa no laboratório de informática da universidade sobre jornais e revistas digitais, em língua espanhola (atividade indicada para trabalhar leitura, relato oral e capacidade de argumentação, além do uso das novas tecnologias de informação). Sequência de atividades: cada aluno deverá pesquisar na internet uma notícia interessante, em língua espanhola; em seguida, deverá apresentá-la

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2.6. Produção de um vídeo curto (em forma de comercial de tv), em grupos, em língua espanhola, divulgando o Curso de Letras (Português-Espanhol) da universidade (atividade indicada para trabalhar produção oral, escrita, criatividade, organização, trabalho em grupo, uso das novas tecnologias, etc).

análise contemplativa destes fatores que geram dificuldade de produção oral entre os alunos de nível iniciante nas instituições de ensino superior. No entanto, ao longo do processo, nos demos conta de que, sem detectá-los claramente e sem tentarmos solucioná-los em curto ou médio prazo, a consequência recairá diretamente sobre a capacidade de expressão oral dos alunos. Acreditamos também que, de nada adiantaria a mera proposição de inúmeras atividades comunicacionais, em sala de aula, de aprimoramento da destreza oral e aquisição de fluência em idioma estrangeiro, se tais fatores mencionados não forem observados “com novos olhos”, tanto pela instituição de ensino superior, quanto pelo professor e, principalmente, pelos próprios alunos em questão, que deverão encarar o problema da aquisição da destreza oral de frente e não fingir que ele não existe. Assim, para concluir, como podemos observar, as causas da deficiência de expressão oral em língua espanhola estão intimamente relacionadas à sua consequência, a falta de fluência no idioma estrangeiro, e todos devem estar cientes deste fato:

2.7. Atividade de produção oral a partir do vídeo humorístico ‘Qué hora es’ (visa desenvolvimento da produção oral, escrita, criatividade, organização, trabalho em grupo, uso das novas tecnologias, etc). Sequência de atividades: neste vídeo de humor produzido por um grupo de humoristas mexicanos, os personagens são americanos e usam frases soltas, completamente descontextualizadas, em espanhol, para demonstrar questões relativas às dificuldades de produção oral em língua estrangeira; após assistirem ao vídeo, o professor dividirá a turma em grupos e lhes solicitará que criem situações teatralizadas semelhantes às que aparecem no vídeo ‘Qué hora es’. Tais situações deverão ser gravadas em vídeo.

Considerações finais
Finalmente, se pode afirmar que o objetivo do professor de ELE não deve ser simplesmente a

alunos, professores e, em última instância, a própria instituição de ensino superior.

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Referências bibliográficas
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A LEITURA DE PROFESSORES DE ESPANHOL, FORMADORES DE LEITORES, MEDIADA POR COMPUTADOR

Cristina Vergnano-Junger UERJ

1. Introdução
Este trabalho traz à discussão parte dos resultados da pesquisa “ Interleituras : interação e compreensão leitora em língua estrangeira mediadas por computador”, que vimos desenvolvendo na UERJ, há cerca de três anos. Vem sendo crescentes os estudos sobre as interações mediadas por computador. Neles observamos exposições teóricas sobre as características dos textos virtuais (MARCUSCHI, 2004; 2005); em vários casos, formas de lidar com eles (RIBEIRO, 2005; MAGNABOSCO, 2009) e sobre impactos que as tecnologias da informação e comunicação (TICs) vêm gerando no modo de vida/ interação das/entre as pessoas nesta era da informação (LAVID, 2005; CASSANY, 2011). No entanto, sentimos falta de mais pesquisas, hoje mais frequentes, com um desenho empírico que oferecesse amostras desses novos comportamentos associados aos gêneros digitais. Essa foi nossa motivação para utilizar uma abordagem metodológica empírica no Interleituras , a fim de monitorar procedimentos

leitores e, assim, refletir sobre como vêm ocorrendo, suas diferenças e especificidades com relação à leitura em meio impresso. Nossa questão central volta-se, portanto, para como se lê em ambientes vir tuais. Ou seja, preocupam-nos estratégias, procedimentos e conhecimentos que são postos em marcha durante o processo leitor mediado por computadores, em especial quando se trata da Internet. Neste breve artigo, apresentamos uma sucinta revisão teórica sobre o tema, as bases gerais de nosso desenho metodológico e uma síntese dos resultados encontrados, especificamente no que foi observado junto a dois docentes de espanhol, sujeitos do estudo.

2. Revistando alguns aspectos teóricos
Um rápido olhar à nossa volta já nos dá um panorama de como as TICs passaram a fazer parte do cotidiano das pessoas, independentemente, muitas vezes, da faixa etária e de condições socioeconômicas. São caixas eletrônicos, smartphones, câmaras digitais,

Nesse meio obser vamos. como as próprias práticas sociais relacionadas às TICs.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 287 cibercafés. A questão passa a ser. a discussão. Uma proposta metodológica O Interleituras se define como uma pesquisa exploratória e descritiva. o contexto espaço-temporal. em tal perspectiva. contudo. ao menos. Isso porque os autores que vêm estudando os textos produzidos especificamente em e para ambiente digital os caracterizam como hipertextuais e multimodais (RIBEIRO. tomando tal compreensão já como um tipo de produção de sentidos. crítico e reconstrutor de sentidos (VERGNANO-JUNGER. VERGNANO-JUNGER. Em resumo. assim. histórico e cultural. Necessariamente. tantas inovações estejam transformando nossa maneira de usar a linguagem e interagir. em conjunto com todos os estudos do grupo de pesquisa LabEV. Talvez. nesse momento. 2010). são efêmeros. Isso permite que cada leitor construa seu caminho próprio e componha. sem a pretensão. gêneros. como inovações próprias do ambiente virtual. Nosso foco está direcionado especificamente à leitura. recursos e atividades estão em construção e estudo. Isso significa dizer que. 2005. 2009). profusão de mensagens instantâneas (SMS). linguagens. tais recursos. portanto. diferentes produtos finais (“textos”) para leitura (RIBEIRO. em distintos idiomas. pluralidade acessos se fazem tanto de forma assíncrona como síncrona. Essa revolução da era da informação é. multidirecional. 2010). tanto gêneros que se caracterizam como reestruturações daqueles já existentes em fontes impressas. Importam. de diferentes partes do mundo. redes sociais. ainda muito recente. como nos casos da inclusão de outras tecnologias no passado. trabalhando com amostras limitadas. como e em que medida isso estaria ocorrendo. também. entendida como uma atividade complexa. 2005. fomentando a interação e o acesso a uma realidade plurilinguística e pluricultural. interconectados por links. com suas marcas linguísticas e tipográficas. Isso porque entendemos que não se pode produzir sem ser capaz de compreender. por isso. Os . implicam a existência de diferentes contextos. 2004. A forma de constituição dos gêneros virtuais é hipertextual. que está presente em diferentes práticas sociais e demanda um sujeito ativo. que. No que se refere às TICs e à leitura em meio virtual. nem uma hierarquia fixa entre suas partes. 3. oferecer exemplos que favoreçam. Deve-se assumir. viabilizados pelos recursos das TICs (MARCUSCH. de apresentar generalizações sobre as novas práticas. fragmentados. Adotamos uma abordagem qualitativa dos dados. ao contrário. simultânea ou isoladamente. e-mails. 2005). uma vez que buscamos identificar os comportamentos que vêm caracterizando as práticas leitoras mediadas por computador. blogs. sons imagens etc. reflexão e construção de um conhecimentos e atitude ativa de seus leitores. parte) deles em seu dia-a-dia. avaliamos essa perspectiva multidirecional como produtiva. De modo que as teorias a respeito e a caracterização de gêneros. no entanto. suportes e/ou gêneros não são acessíveis de forma universal ou democrática e várias pessoas conseguem prescindir de muitos (ou. a atividade caracteriza-se como um processo de construção de sentido que inclui insumos de diferentes direções e naturezas. o leitor com toda a sua bagagem de conhecimentos prévios. o que significa que não têm um centro. seja cedo para uma definição precisa de padrões. v ideogames . habilidades e estratégias. já em sua natureza. Propomos. diferentes outros textos que podem ser colocados em diálogo com o que se está lendo. de demandando. o texto. MAGNABOSCO.

limitando-nos às leituras livres: impressa e virtual. Ao finalizar as análises. a serem resolvidas durante as sessões correspondentes de monitoramento. Ou seja. por um lado. respectivamente livres e guiadas – preenchidos pelo sujeito durante cada uma das quatro sessões de leitura monitorada. dúvidas. convidaremos os sujeitos a participar de entrevistas a fim de discutir com eles nossas observações. Como instrumentos para as diferentes coletas de dados. As únicas limitações que lhes impusemos nessas sessões de leitura foram: de tempo (entre 30 e 45 minutos para cada sessão) e de meio (no caso da virtual. (c) quatro protocolos de acompanhamento do processo leitor – dois para leitura impressa e dois para leitura virtual. ao contrario das leituras guiadas que têm uma tarefa a cumprir. e em arquivo de áudio e vídeo (voz do sujeito e imagens da tela do computador). dificuldades. apenas o uso do computador conectado à Internet e no caso da impressa. (b) em que medida se diferencia e/ou aproxima da leitura em meio impresso. No que se refere ao perfil da ficha de sujeito. d-018 (faixa de 31 a 40 anos) é mais velho que d-019 (faixa de 26 a 30 anos) e ambos são professores de espanhol nos ensinos fundamental e médio. mas se admitindo o uso de materiais impressos próprios). contendo propostas de compreensão. 4. além do aspecto prático da limitação de espaço. Nossos sujeitos são professores de espanhol. no qual se recolhem as crenças do sujeito sobre leitura. D-018 gasta mais tempo (até 5 horas diárias) em atividades de leitura e no uso da Internet do que d-019 (entre 1 e 3 horas). por outro. monitoramos apenas seis sujeitos docentes. cada qual em suportes impressos e virtuais. nas sessões de leitura virtual. de um texto impresso. junto com o preenchimento dos protocolos. enquanto d-018 o faz tanto em casa . muito. escolhidos pelo fato de que suas práticas leitoras podem influenciar seu trabalho como mediadores e formadores de leitores. as sessões são gravadas em áudio. Apresentando e discutindo alguns dados Neste artigo apresentamos dados apenas de dois docentes – d-018 e d-019 –. com menor pressão e definições de objetivos e atividades por parte dos pesquisadores. relativamente. Como nossa abordagem de análise é qualitativa. estratégias usadas). O motivo. Também fazemos um recorte no que se refere às leituras selecionadas para comentário. (d) duas atividades de leitura guiada. em quatro sessões de leitura: duas livres e duas guiadas. No que se refere ao uso do computador e acesso à Internet. a partir do grau de concordância (nunca/nada. no caso das leituras em meio impresso. hipertextos. utilizamos: (a) uma ficha de caracterização de sujeito. com informações sobre seus hábitos leitores e de atividades em meio virtual. Também lhes pedimos que registrassem sua atividade no protocolo escrito e que comentassem oralmente (para a gravação) o que fizessem e pensassem durante a leitura (ações. Além do material preenchido pelos sujeitos. qualquer material não digital/virtual/multimídia. (b) um questionário. pouco. cujo conjunto de coletas está completo. é que se caracterizam como um contato mais espontâneo com a leitura. respectivamente. segundo uma abordagem multidirecional de leitura. leitura em espanhol língua estrangeira (ELE) e uso de bens informáticos.288 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS quadro mais amplo da questão. de um texto virtual e. faixa etária e atividade profissional. procuramos contribuir para responder os nossos problemas: (a) como o processo leitor está sendo desenvolvido em meio virtual e. sempre/totalmente) com uma série de 116 assertivas divididas em seis blocos temáticos. que estivesse disponível na biblioteca de um projeto de extensão sob a responsabilidade do Setor de Espanhol da UERJ.

Uma vez que as leituras eram livres.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 289 quanto no trabalho. com ênfase no texto. embora d-018 abra mais o leque de possibilidades do computador e da rede.”. ora outro. esta última não citada por d-018. D-018. navegação e participação em redes sociais. talvez pela menor frequência de uso do computador. Já na leitura virtual. Apesar disso. O primeiro se avalia como um usuário muito hábil e autônomo. Uma das possibilidades. nem tecnofóbica) a respeito das TICs e seu emprego. d-019 só o faz em casa. escolhendo histórias em quadrinhos e contos com temática de futebol. nesse caso. Focalizam seu interesse em questões relacionadas a trabalho e estudo. numa perspectiva unidirecional. afirmou concordar muito com o fato de que “O domínio de vocabulário. podemos tecer algumas reflexões sobre as possíveis tensões entre crenças e práticas. define .” . d-019 manteve-se ligado ao trabalho. que se considera apenas como relativamente hábil e autônomo. mas. cada um poderia definir o que fazer. ambos o dominam para usos cotidianos de caráter instrumental. conceitos e estruturas gramaticais é essencial à leitura. já que a leitura pode variar de indivíduo para indivíduo e poderá ser verificado durante a entrevista. tanto d-018. enquanto d-018 optou por ler para relaxar. incluindo a busca de informação e materiais. na qual “apreender” implica capturar/ receber o que está exposto no texto. os papéis se inverteram. representado pelas suas marcas linguísticas. pois a assertiva indica uma supervalorização das imagens que o leitor projeta no texto para lhe dar sentido. como e por quê. ao concordar plenamente com “Compreender um texto significa formar uma estrutura mental que representa o significado e a mensagem atribuídos ao texto. No caso da leitura impressa. houve avaliações de assertivas em que ora um. D-019 restringe seu uso ao e-mail. tendendo a uma perspectiva decodificadora. é que as assertivas tenham sido compreendidas de forma diferente da pretendida quando da elaboração do instrumento. não descar tada pelos pesquisadores. tendeu para uma perspectiva unidirecional. ao contrario do segundo. reconhecem tanto os aspectos positivos quanto as limitações do meio. ignorando a bagagem do leitor e outros elementos que possam ser conjugados para estabelecer a compreensão.” . centrada no leitor. Contraditoriamente. Isso seria admissível. podendo esta estar centrada no texto ou no leitor. selecionando textos que contribuíssem para a melhoria de sua prática e planejamentos. quanto d-019 oferecem dados que nos permitem incluí-los numa categoria de leitores prioritariamente multidirecionais. A primeira observação que fazemos se refere à definição de objetivos de leitura e às escolhas de gêneros e assuntos. Exemplos disso são: a) d-019 concordou totalmente com a assertiva “O centro do processo de leitura é o leitor. Quanto ao perfil de usuários de meio virtual. Quando efetivamente vão ler durante as sessões de monitoramento. desconsiderando que há outros elementos que entram em jogo na interação e contradizendo algumas avaliações feitas em outras assertivas.”. b) d-018 concorda totalmente com a assertiva “O leitor entende um texto ao apreender seu significado. Em termos de crenças coletadas a partir do questionário. para ter um momento de lazer. Pudemos constatar diferenças não apenas entre ambos os sujeitos. mas também entre as duas modalidades de leitura: impressa e virtual. Também contradiz sua tendência multidirecional. podendo ser avaliadas como pessoas que têm uma posição equilibrada (nem ufanista.

ao contrário do que havia feito na leitura impressa. com o skimming servindo como estratégia básica para uma panorâmica geral de cada material. D-019 considerou-se mais seguro na leitura impressa. teria sido mais fácil. não deu muito valor às imagens de maneira geral. Concluiu que. Era feita em blocos. educação e política brasileira. ambos consideraram ter alcançado seus objetivos. a fim de se atualizar e informar. Provavelmente foi motivado pelo costume que tem de utilizar a Internet como fonte de recursos para suas aulas. Ambos destacaram a importância do conhecimento de mundo e. em português. d-018 demonstrou mais facilidade com a internet e o computador de maneira geral: utilizou editor de texto. Nesse aspecto observamos a contradição entre crenças e práticas com relação à postura unidirecional . dispostos em páginas numeradas e sequenciais. seguiu a navegação de forma mais controlada/ordenada. A observação chama atenção. procurou textos sobre atualidade. sempre silenciosa. já que d-018 mostrouse sempre menos linear. pois conseguiu seguir do início ao fim e alcançar seus objetivos. mas também nos permite refletir sobre a necessidade de os textos veiculados em meio virtual serem mais curtos e apresentarem os links para enlaçarem conteúdos. Foi um pouco menos linear na leitura virtual. sua insegurança concretizou-se pela fragmentação da leitura. não sabia o endereço eletrônico para acesso. d-018 não definiu hipóteses sobre o que encontraria ao ler os textos impressos. integrando em sua leitura conteúdos ali encontrados. embora de forma menos linear do que na leitura impressa. ao contrário. Selecionou notícias e críticas de arte (procurava textos verbais sobre Guernica) em fontes em língua espanhola. Ao se autoavaliar. o pouco tempo para a atividade (informou que lê devagar). utilizando skimming e scanning. saltando de um a outro (o cursor serviu de apoio a essa movimentação). se estivesse em papel. D-019. aproveitando melhor os recursos que o meio virtual lhe oferecia. guardou informação na área de trabalho para uso posterior. Apesar disso. Já d-019. Os gêneros escolhidos foram notícias e vídeo. usaram como ponto de partida o buscador Google. ao contrario de d-019 que esperava ler textos que atendessem seu objetivo de aperfeiçoamento. Em termos estratégicos. mudando seu foco. enviou para si mesmo por email materiais. Isso ocorria inclusive quando se tratava de uma fonte habitualmente consultada. a não ser. sem relatar nada que os tivesse atrapalhado.290 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS sua atividade em termos de busca de materiais para usar em sala de aula. no caso de d-019. estratégias de copiar/recortar e colar. ao qual sempre retornavam para novas pesquisas. uma vez que sua formatação vertical. não acessou links. disse não ter sentido falta de apoio impresso ao ler na tela. dificulta a organização em texto corrido que temos em materiais impressos. quase se perdendo. havia diferença entre ambos. mesmo sendo seu conhecido. na leitura livre impressa. na leitura virtual. saltar de um texto para o outro. Embora tenha demonstrado mais proficiência no trato com o computador. abandonando o que não lhe interessava e. consultou diferentes sites. sem um fim preciso (nunca temos exata dimensão de sua totalidade espacial). salvou arquivos em pendrive. A observação do comportamento do mouse e da barra de rolagem da página pôde ajudar a confirmar que a leitura feita pelos dois docentes. d-018. Apesar de ter mais idade. como no caso de d-019 com o jornal cujas notícias leu e do qual. não seguia palavra a palavra. na leitura virtual. por não conseguir encontrar o que procurava. Ao contrário. queixou-se que um dos materiais lidos tinha a imagem do quadro Guernica muito antes das suas explicações e comentários. Isso tornava a leitura desconfortável e mais difícil. em vista da impossibilidade de encontrar o tema originalmente desejado. Mesmo assim.

acessar links. adaptadas ao ambiente virtual. observamos uma melhor integração ao meio. do texto ou de outros discursos/textos. Isso. como já regitramos. defendemos que é possível uma reflexão sobre seu papel na formação de seus alunos leitores e de como tais conhecimentos podem contribuir para otimizar o letramento em espanhol na era digital. Referências bibliográficas CASSANY. A fragmentação de atividade leitora em meio virtual atende a uma característica do suporte. não só para aprimorar a formação inicial e favorecer a formação continuada de professores. é viável apresentar alguns comportamentos que se caracterizam como possíveis tendências na leitura desses docentes. Aprender a ter consciência dessa tensão entre expectativa e realidade pode nos ajudar a aperfeiçoar a própria compreensão e. didático-pedagógica nossas crenças. mas nem sempre são fatores determinantes. Outro aspecto que nos chama atenção é o fato de que não necessariamente as crenças e percepções sobre nossas práticas leitoras se concretizam durante o ato de ler. sermos melhores professores. a necessidade. Textos de didáctica de la lengua y de la literatura. é factível assumir que professores que são exploradores das TICs. assim. continuar investigando para ampliar o campo teórico e para levar as novas teorias que estão sendo construídas ao terreno da prática. mais velho do que d-019. A atitude de d-018 foi. Como normalmente transferimos para nossa atividade 5. somando sua experiência aos constructos acadêmicos. embora. leitores multidirecionais poderão provocar em seus aprendizes um perfil de exploradores dos textos. 2011. mas para interagir com docentes e alunos. conhecimentos. Em especial e em nossa avaliação. do contexto.. apesar de ter apresentado posicionamentos favoráveis a uma perspectiva multidirecional em seu questionário. de apoio de suporte impresso em alguns contextos de leitura. portanto. 57. Después de internet. gêneros e ferramentas das TICs. p. o histórico de como aprendemos e daquilo que usamos. por parte do sujeito d-018. sob uma perspectiva crítica e reflexiva. aproveitando todos os recursos. 12-22. seus gêneros e recursos tenderão a levá-los à suas salas de aula. n. Algumas conclusões iniciais Embora não caiba generalizar comportamentos leitores em ambiente virtual com base neste estudo de amostra reduzida. A par tir da descrição desses sujeitos. abrir diferentes aplicativos para resolver as questões de leitura. Na verdade. menos linear. sejam eles de sua bagagem pessoal. Destacamos: o uso de estratégias clássicas de leitura. um aproveitamento heterogêneo e não sistemático dos recursos tipicamente virtuais dos textos de gêneros digitais. nos textos literários. estratégias que possuam. . um perfil leitor que oscila entre uni e multidirecional. mas é rejeitada como falha de leitura pelo sujeito. As faixas etárias podem contribuir para a maior ou menor intimidade com o ambiente virtual. Nos casos aqui exemplificados. abril.. inclusive no que se refere à autopercepção da proficiência. mesmo quando tende ao segundo caso em termos de crenças. Daniel.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 291 marcada pela leitura linear (do início ao fim) realizada e valorizada por d-019. Cabe. poucas foram as estratégias eminentemente virtuais observadas: copiar/colar. ter tendido igualmente a uma leitura seguida e completa dos contos escolhidos. merece atenção o estabelecimento do diálogo entre academia e meio escolar. ainda. Da mesma forma.

Rio de Janeiro: Lucerna. Belo Horizonte: CEALE. In: DIONISIO. nuevas herramientas. jan. (org).A. Julia. MARCUSCHI. 1. Letramento dig ital. n. Ler na tela – letramento e novos MAGNABOSCO. 2005. n. suportes de leitura e escrita. MACHADO. Luiz Antonio. C. _____. Gêneros textuais emergentes no contexto da tecnologia digital. Calidoscópio. aspectos soc iais e possibilidades pedagógicas. 2005. jan.) Gêneros textuais e ensino. E. ed. Gêneros textuais: definição e funcionalidade.8. V. VERGNANO-JUNGER.]: Unisinos.A. v.). (Orgs. A. 24-37. A. R. GÊNEROS DIGITAIS: modificação na e subsídio para a Leitura e a Escrita na Cibercultura. p. (Orgs. In: Revista Prolíngua (UFPB) . Hipertexto e gêneros digitais . A. COSCARELLI. RIBEIRO. 2009.C. 3 ed. M. Cristina.P. BEZERRA. Elaboração de materiais para o ensino de espanhol como língua estrangeira com apoio da internet.292 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS LAVID.l. RIBEIRO.2. Ana Elisa. 2005./jun. 1. Lenguaje y nuevas tecnologías. XAVIER. [S. 2010. v. 90-101. 2004. p. p./abr. A. L. Madrid: Cátedra. métodos y herramientas para el lingüista del siglo XXI. MARCUSCHI. . Rio de Janeiro: Lucerna.1. Gislaine Gracia. 125-150.

que recuperam vários períodos da história do Paraguai no século XIX e XX. O romance contém notas que complementam e outras que contradizem. que a cabeça seja posta em um poste por três dias. o isolamento e militarização do Paraguai como . Quando ele se defende das acusações sobre si no pasquim fixado na porta da catedral questiona retoricamente: “¿De qué me acusan estos anónimos papelarios? ¿De haber dado a este pueblo una Patria libre. Francia: as revoluções e a independência do Paraguai. outros como um prócer da nação paraguaia. do período do governo do Dr. p. soberana? Lo que es más importante ¿de haberle dado el sentimiento de Patria? (…) ¿De esto me acusan? (ROA BASTOS. os quais Roa Bastos mostra como podem ser reinterpretados pela ficção com a intenção de desvelar um fato histórico mascarado. Em seguida todos os funcionários da casa civil e militar também deveriam ser enforcados. 57). Francia. Nos questionamentos do Supremo há a evidência dos temas históricos do século XIX. O romance Yo el Supremo começa quando um pasquim é encontrado cravado na porta da Catedral de Encarnación em forma de decreto com assinatura falsificada do Supremo Ditador. Em Yo el Supremo Roa Bastos trata de vários temas ligados ao Dr. o Dr. o que Patiño jamais conseguirá. Mas o que há de unanimidade é que ele era um ferrenho defensor da independência e da soberania nacional. Para isto o povo deveria ser convocado através do sino da igreja para ver esta barbaridade. No documento apócrifo o Supremo ordena que seu cadáver seja decapitado. Francia. Francia. A partir destes fatos desencadeia-se toda a narrativa. como as notas às margens com letra desconhecida que levam à reconstrução das circunstâncias históricas que viveu o Dr. personagem para quem não foram unânimes os julgamentos da história.UNESP/ Assis Hijo de Hombre (1971) e Yo el Supremo (1974) são romances do escritor paraguaio Augusto Roa Bastos (1917-2005). MEMÓRIA E FICÇÃO EM YO EL SUPREMO E EM HIJO DE HOMBRE DE ROA BASTOS Damaris Pereira Santana Lima PG . Alguns o veem como um déspota sombrio. O ditador começa a procurar quem seria o autor de tal documento exigindo que seu secretário Policarpo Patiño localizasse o dito autor. independiente. Francia. como a ditadura do Dr. no Paraguai (1816-1840). 2008.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 293 HISTÓRIA.

66). 97). Francia. en bibliotecas y archivos privados y oficiales. 76). Hay que agregar a esto las versiones recogidas en las fuentes de la tradición oral. O romance reescreve a história com dados para a escritura de uma versão divergente da história oficial e hegemônica. “faltan folios” (p. La hago. Na narrativa há muitas evidências de vários fragmentos que dão a impressão de rascunhos.” (BOUVET. 119). espiados. pois fala do presente da enunciação do romance e se remete à história do Paraguai anterior à ditadura do Dr. a colônia penal. as crueldades e castigos para com inimigos. “quemado el borde del folio” (p. Supremo. foi-se passando a limpo a história. considerado pelo Supremo como Neste trabalho de investigação empreendido pelo Supremo e seu secretário Policarpo Patiño para descobrir quem se atreveu a parodiar os decretos do . 2009. consultados. os fuzilamentos. reforzando. O conteúdo histórico utilizado pelo compilador foi produzido pelo próprio Dr. espigados. éditos e inéditos. ou de papéis que teriam sido descartados: “hoja suelta”. O Supremo se debate contra uma imagem que lhe fora construída por seus sucessores e em particular por seus detratores. 2008. no pretende ser otra cosa (reflejar ni representar nada) sino escritura generada por esas otras escrituras contra las cuales se vuelve. de otros tantos volúmenes. (ROA BASTOS. Puedo rehacerla según mi voluntad. adversários e ex. por fontes contemporâneas ao ditador e por historiadores.294 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS estratégia do ditador para livrar seu país das intenções anexionistas de Buenos Aires e as imperialistas do Brasil. 2009. Nora Esperanza Bouvet (2009). enquanto ele narra. A cópia deste material dá voz à memória do Supremo. 585). em sua obra Estética del plágio y crítica política de la cultura em Yo el Supremo diz que em seu romance Roa Bastos realiza um trabalho de transformação dos materiais historiográficos em literários para construir uma obra de ficção colada aos referentes históricos que questiona os modos que se utilizaram para construílos. A história da Ditadura Perpétua é a matéria da ficção e consiste na cópia de escritos de e sobre o ditador. ajustando. mas que não tem limitações quanto à história. incluindo o presente da narrativa e até transcendê-lo. p. p. as arbitrárias detenções.30). Este conteúdo histórico é integrado ao simulacro romanesco. à narrativa. Os grandes e pequenos defeitos de seu governo. p. conta e corrige esta imagem. O Supremo pode fazer o que está declarando. correspondencias y toda suerte de testimonios ocultados. O Supremo age de acordo com sua vontade nesta contra-história que é construída com personagens e acontecimentos que são históricos. As fontes extratextuais são muitas. A história é apresentada através da visão do Supremo que se gaba afirmando: “Yo no escribo la historia. Também nestas memórias estão as contradições de seu regime paternalista. per iódicos. 274).amigos. (…) . Francia. p. Há um passado. já que a narrativa é pós-morte. Todos os temas que fazem parte do romance tem matriz historiográfica. um plano de fundo o qual ele não pode exercer o seu poder de controlá-lo ou corrigi-lo. Esta maneira de construir a narrativa possibilita a Roa Bastos ir do passado ao futuro. porque o autor outorgou-lhe um caráter fictício e ao mesmo tempo histórico. É muito clara a denúncia contra o regime atual. seus caprichos e sua postura para com os estrangeiros.de unos veinte mil legajos. 31-32). “al margen escrito em tinta roja” (p. Para a autora “el texto que escribe no olvida en ningún momento que lo es. 2008. Para a referida autora “son hilos ficcionales de esbozos novelescos que los historiadores hacen y Roa Bastos reorienta” ( BOUVET. personagem que não é onisciente. de maneira que a narrativa é a escrita da leitura de vários textos. enriqueciendo su sentido y verdad”. y unas quince mil horas de entrevistas grabadas(…) (ROA BASTOS. “Letra desconocida” (p. ou seja. folletos.

las fuentes de nuestros ríos. 2008. 115). Os fatos históricos que se referem ao século XIX são evocados pelas memórias do ancião Macario. Em Hijo de Hombre emerge a convivência dos rituais e ideias míticas aborígenes junto aos ritos do cristianismo. data da chegada do cometa Halley. o que não se sabe e o que se desejaria saber sobre Francia. período do governo do general Alfredo Stroessner (1954-1989). Sapukai e Itapé e do seu povo. Hijo de Hombre conta a história de dois povoados.” (ROA BASTOS. 115). somente. conta a história do ditador e do país alterando a linearidade da história oficial. no entanto se fundem dando origem a uma nova visão de mundo. no período de aproximadamente vinte e cinco anos. referindo-se à construção da usina de Itaipú. Além dos dados citados acima. 2008. assim a soberania nacional do Paraguai. A identidade paraguaia se constrói em um espaço onde as culturas lutam para se impor e. Dr. Neste fragmento há a alusão a dois momentos: o primeiro à agressão do império português no passado. quando lhes fora roubada grandes extensões de terra. 1971. protegendo. p. e a seguir trata de um tema presente naquele momento. 11). onde o Supremo insiste em falar das más intenções do Brasil. a saber. espaço onde restavam poucas coisas do tempo . Yo el Supremo é uma narrativa que desestabiliza o que a história oficial registrou. A cultura ocidental é mesclada com o substrato dos autóctones. Francia (1814-1840) e da guerra contra a Tríplice Aliança (1864-1870). p. Onde a língua e a religião espanhola se modificam pelo contato com a língua e com a religião do índio. P. quando especifica o roubo de los saltos de nuestras aguas. que foram trazidos pelo colonizador há mais de quinhentos anos. lugar “perdido em el corazón de la tierra bermeja del Guairá” (ROA BASTOS. “hijo de uno de los esclavos del dictador Francia” (ROA BASTOS. Esta afirmação é evidenciada desde as epígrafes do romance.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 295 entreguista. no entanto há alusões a fatos que precedem a esse período. personagem que era considerado a aparição do passado. as rebeliões dos camponeses e a guerra do Chaco. p. e termina com a morte de Miguel Vera e a conservação e compilação de seu manuscrito por Rosa Monzón. o segundo momento é o presente. cria outra história acrescentando o não registrado. O personagem faz alusão às relações entre Paraguai e Brasil e à sua firme política de defesa da integridade territorial. pelo império do Brasil. 12). Se o tempo da obra fosse ordenado de maneira linear. “Ya nos ha robado miles de leguas cuadradas de territorio. los altos de nuestras sierras aserradas con la sierra de los tratados de límites. a religião como veículo de transculturação. de bandeirantes paulistas a los que contuve e impedí seguir bandereando bandidescamente en territorio patrio. los saltos de nuestras aguas. sendo uma da tradição judaico-cristã.” (ROA BASTOS. 1971. O principal da narrativa se dá nesse segmento temporal. A descrição do povoado de Itapé. pouco tempo depois do final da guerra do Chaco em 1935. No texto da Circular Perpétua o Supremo traz à memória as invasões brasileiras em território paraguaio. Na Circular Perpétua o Supremo declara: “Llámese Imperio de Portugal o del Brasil. Hijo de Hombre (1960) é o romance de Augusto Roa Bastos que recupera a história do começo do século XX. a obra ainda evoca a história do período da ditadura de José Gaspar Rodríguez de Francia. O narrador conta o que ele ouvia quando criança através do velho Macario. fundindo a cultura cristã com a cultura aborígene. criador do Cristo de Itapé. sus hordas depredadoras de mamelucos. observar-se-ia que os acontecimentos começam em 1910. texto do livro de Ezequiel. Antigo Testamento e a outra é o Himno de los muertos de los guaraníes. da fundação de Sapukai e do desaparecimento de Gaspar Mora.

miséria e esquecimento para a maioria da população. ¡Vaya fineza! ¿Qué alma han de tener estos desalmados calumniadores? Estómagos cuadrúpedes de bestias cuatropeas. A Guerra del Chaco (1932-1935) é outro fato histórico evocado em Hijo de Hombre através dos registros do diário de Miguel Vera. amparadas pela lei. pois: “Os indivíduos que compõem uma sociedade sentem quase sempre a necessidade de ter antepassados. 2010. las letras. 218). Os personagens. p. que repete sem refletir e é demasiada porque exige esquecimento. bem como a história. Francia defendia a nação das tentativas anexionistas do Brasil e da Argentina. o ditado de uma longa circular. Relatos. pode ser compreendida como reconstrução do passado e como conservação das experiências humanas. Yo el Supremo é uma metanarrativa onde se percebem as considerações iniciais e as dúvidas a respeito do quê e como narrar na maior parte das modalidades da escrita que irá inserir os diálogos do ditador com seu secretário. Repetitiva. a história anterior ao tempo da narrativa. tem uma intertextualidade complexa. citações intercaladas. A memória. Areópago de las ciencias. A memória tema recorrente nas narrativas de extração histórica tem papel de destaque na sociedade em termos de representação coletiva. Mancillativa. pois. os espaços e os relatos de Hijo de Hombre apresentam a imagem de agonia da história e da sociedade paraguaia do começo do século XX. Uma das poucas coisas que resta é o rancho do Cristo no alto do monte de Itapé. Para o Supremo a memoria dos “memoriosos” é uma má memória. O Supremo ironiza utilizando a metáfora de Platão “Estómago del alma. 2010. No primeiro capítulo é evocada a história da Ditadura Perpétua quando se narra a vida de Macario que “ habría nacido algunos años después de haberse establecido la Dictadura Perpetua. p. O início do romance apresenta as memórias do narrador sobre o que ouvia na sua infância. Lembrar o passado é uma necessidade do ser humano. conforme a narrativa. las artes de este Continente…” (ROA BASTOS. Outro tema histórico evocado no romance é a tortura e a vigília que se estabeleceu nos ervais eram como menciona o texto. Memoria de ingiero-digiero. queriam devorar a nação paraguaia. O romance é construído sobre um sistema de citações direta e indiretas.” Compara seus opositores a animais ruminantes e define suas memórias como “ Memoria de mascamasca. Ninguém se atrevia a fugir deste reino de terror. é meramente armazenadora. 218).296 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS da sua fundação há mais de três séculos. um dos presos militares da prisão de Peña Hermosa. cuja busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje. na febre e na angústia . A narrativa apresenta um país destruído pelas guerras com seus vizinhos.” (LE GOFF. reflexões em um caderno privado. o esquecimento faz parte da estrutura da memória . anotações de uma letra desconhecida. p.” (LE GOFF. Profetizaron convertir a este país en la nueva Atenas. intertextualidade que traduz o inconsciente coletivo do Paraguai no período histórico registrado pelo romance. 2008. Desfigurativa. a visão que Macario apresenta é o Dr. p. A guerra contra a Trílice Aliança. individual ou coletiva.” (ROA BASTOS. 14) Ao contar sobre a Ditadura Perpétua. Su padre el liberto Pilar era ayuda de cámara del Supremo . países que segundo o Supremo. ou a Guerra Grande é evocada no romance. Sobre o tema Jacques Le Goff ainda pontua: “A memória é um elemento essencial do que se costuma chamar identidade. 1971. perseguido pelo avanço da modernidade que promete sucesso para alguns. ou seja. também através das memórias de Macario. Para o Supremo. mas muita dor.24).

O referido autor problematiza esta perspectiva paradoxal dizendo que o esquecimento constitui-se uma das condições da memória.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 297 porque para lembrar alguma coisa. 2007. A própria memória luta contra o esquecimento. escrita e correção do que se escreve. O esquecimento não significa amnésia. “Disculpen. “Yo busque superar los estereotipos de la narrativa regional. A narrativa é uma construção em leitura. no documento apócrifo. Quando Le Goff (2010. pois é uma maneira de se renunciar al beneficio del olvido. nas circulares. Rotundamente no. anotarlo en alguna parte. p. os fatos revolucionários pela independência do seu país. Já em Hijo de Hombre o tratamento da memória é diferente do que se vê em Yo el Supremo. p. 435) . a piedra-bezoar e o meteoro-azar estão associados às reflexões sobre a memória. p. conforme ele mesmo declara em entrevista a qual se refere Bouvet (2009). p. Para Le Goff “a outra forma de memória é o documento escrito num suporte especialmente destinado à escrita”. 2008. mas ao mesmo tempo o autor pontua que uma memória que nada esquecesse seria considerada monstruosa. pois é um discurso incapaz de escrever o que passa pelo imaginário coletivo.” (ROA BASTOS. a história ou a imprensa oficial não conseguiriam penetrar nos pensamentos de uma sociedade. De seguro estarán fatigadas sus mercedes con tantas bufonerías. Lo que es necesario recordar es el bien de nuestras patrias. 2008. É necessário saber lembrar e saber esquecer. pois há uma diferença substancial na produção literária de Roa Bastos.40). únicamente dictaba. A escrita que possui as funções de armazenamento de informações e a possibilidade de reexame e de correção. Nisto se vê o objetivo de Roa Bastos em se escrever uma intra-história. Segundo Paul Ricoeur (2007. Es el único modo que tengo de comprobar que existo aún. (…) Se escribe cuando ya no se puede obrar (ROA BASTOS. Em Yo el Supremo. Olvídenlas. 315) . Em Yo el Supremo há a simbologia de duas pedras: a piedra-bezoar e o meteoro-azar. p. p. pois faz-se necessário poder esquecer dos detalhes sem relevância para concentrarse no que é essencial. 424). (RICOEUR. Ahora debo dictar/ escribir.” (LE GOFF. mas a qualidade do que se lembra ou se esquece. que se encontram os fios condutores da narrativa. pois o discurso da história não é confiável. 75. 428). 2008. Em Yo el Supremo o leitor se depara com diversos monumentos escritos.” (ROA BASTOS. em princípio o esquecimento é considerado um dano à confiabilidade da memória. memória e esquecimento exigem equilíbrio. pois é nos documentos históricos. etc. a celebração através de um monumento e pontua sobre a pedra mármore como suporte a uma sobrecarga de memória. “le hace ignorar el sentido de los hechos.. Lembrar somente o que convém. não é a quantidade do que se lembra ou do que se esquece que faz construir uma boa memória. faz-se necessário esquecê-la.) Esta passagem corrobora a importância da escrita na preservação da memória. da Pré-história à Antiguidade. o “exceso de memória” carrega o discurso de detalhes desnecessários. nobles señores. Después olvidaba lo que había dictado. 2010. Os “arquivos de pedra em Yo el Supremo. p. Aunque estar enterrado en las letras ¿no es acaso la más completa manera de morir? ¿No? ¿Sí? ¿Y entonces? No. Como a memória é imortalizada pela escrita. Pedras como fio condutor da reflexão sobre a memória e como um recurso literário. 427) discorre sobre o desenvolvimento da memória: da oralidade à escrita. ele fala das formas de memória que são a comemoração. se lo ruego. No romance a tônica é a revisão e a correção dos arquivos que armazenam a história do Paraguai. Al principio no escribía. . O referido autor ainda salienta que “ todo documento tem em si um caráter de monumento e não existe memória coletiva bruta. pois.

O fato de o país ser marcado por tantas mortes faz dos cemitérios lugares monumentais. 2009. pela fragmentação da cultura paraguaia. siento que a la inocencia. p. (. uma intertextualidade.” (BOUVET. 1971. com certo pesar. (ROA BASTOS. aqui quem é detentor da memória coletiva detém uma memória essencialmente oral.. Em Hijo de Hombre desde as primeiras linhas emergem as memórias da coletividade na voz do excêntrico. Vale ressaltar que o ancião Macario sempre contava suas histórias em guarani. Jacques Le Goff (2010).)” (LE GOFF. pela inexistência de uma tradição literária paraguaia na qual inserir-se. 27) e se auto justifica por sua situação como escritor exilado. las repetidas muertes de mi vida.. 1971. “Lo que quería entonces era trabajar el texto desde adentro.. p. Mi testimonio no sirve más que a medias. evidenciadas pelas repetidas mortes provocadas por Miguel Vera. pontua que toda a evolução do mundo contemporâneo se dirige para as memórias coletivas. “El puesto de sepulturero en Sapukai es casi una dignidad”( ROA BASTOS. Emerge no relato sobre María Regalada a filha do coveiro. Escrever suas lembranças é também uma maneira de contar e reviver o passado. A passagem revela que conta-se para reviver o passado. Miguel Vera que apresenta suas lembranças de infância: Yo era muy chico entonces. ao tratar dos desenvolvimentos contemporâneos da memória. “História que fermenta a partir do estudo dos ‘lugares’ da memória coletiva. do motorista. Em muitos povoados paraguaios o cemitério é o lugar mais antigo. Ele declara ainda que não conta e escreve com a intenção de reviver o passado. a los asombros de mi infancia. do filho do escravo.” (ROA apud BOUVET. p.14). tal vez los estoy expiando. mientras escribo estos recuerdos.) lugares monumentais como os cemitérios (. p. Me había librado de esa conciencia que parecía estar dictándome los infortunios de la colectividad. testemunho não serve mais para nada. se mezclan mis traiciones y olvidos de hombre. 28). p. do leproso. As declarações acima podem ser consideradas resposta à diferença percebida na maneira de produção textual e de tratamento do tema memória. A história se esforça para criar uma história científica a partir da memória coletiva. ou seja. 27).. lugares simbólicos. Ahora mismo. A memória também aparece na voz do narrador.. Sapukai não seria o único povoado fundado junto a um cemitério secular. etc. el planteo estético había quedado condicionado por el mandato ético. O trabalho como coveiro era muito cobiçado em Sapukai. 2010. Os dois romances de Roa Bastos aqui comentados são textos em que história e ficção se cruzam promovendo. A observação de que as histórias eram sempre contadas em guarani mostra que Paraguai é uma sociedade que neste momento parece estar em transição entre a oralidade e a escrita. No estoy reviviendo estos recuerdos. o bilinguismo e a oralidade geraram o “mandato ético” de denunciar esta situação e de dar voz ou ser de alguma maneira o intérprete de uma coletividade vitimada pela desventura de suas vicissitudes. assim. pois diz que seu . As memórias de Miguel Vera contando de sua infância. de uma cultura ágrafa de uma literatura sem passado. Neste fragmento também é evidenciada a marca de tempo cíclico.) em Hijo de Hombre y otros textos..298 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS pero equivoqué el camino hacia fuera y hacia adentro. mas com o objetivo de purgar os males cometidos consciente ou inconscientemente no passado. E diz ainda que quando escreveu Yo el Supremo tinha deixado de ser o cruzado de uma literatura militante. “(. 2009. 467). p. 2009.” (BOUVET. 52). Em outro momento do romance há a alusão à Guerra Grande quando se trata da relação morte e vida no imaginário nacional. y podía dejar que esos infortunios fueran irradiados por la vida misma del texto.

História e Memória . Uno al nacer. Alain François [et al. 2010.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 299 O discurso ficcional ao dialogar com a história faz um questionamento à história oficial. 2008. Antônio. Buenos Aires: Debolsillo. Augusto. como diz o próprio Roa. Roa Bastos – Vida. otro al morir… Muere pero queda vivo en los otros. ROA BASTOS. o esquecimento. Estética del plagio y crítica política de la cultura en Yo el Supremo. LE GOFF. 1971. Nora Esperanza. Nos dois romances há também a presença de memória e esquecimento. ROA BASTOS. p. Yo el Supremo . A memória. obra y pensamiento. Asunción: Servilibro. a história. (trad. temas em debate na atual produção literária da América Latina. si ha sido cabal con el prójimo. la tierra come su cuerpo pero no su recuerdo…” (ROA BASTOS. Buenos Aires: Editorial Losada. Jacques. Augusto. SP: Editora da Unicamp. Y si sabe olvidarse en vida de sí mismo. . Campinas.]. RICOEUR. 38) Referências bibliográficas BOUVET. Paul. Campinas. PECCI. “—Porque el hombre. 2012. 2007. Asunción: Servilibro. Hijo de Hombre. tiene dos nacimientos. desta maneira uma contra história. mis hijos – decía repitiendo casi las mismas palabras de Gaspar–. SP: Editora da Unicamp. 2009. 1971. construindo.

portanto. mas sim. Após essas ponderações. Texto e discurso: limites incertos Ao propor a diferenciação de texto e discurso neste trabalho. refletir sobre o posicionamento teórico que se segue. Ao desenvolver um estudo sobre qualquer elemento que se inclui ou que leva no nome algum desses termos. Isso acontece até mesmo com os objetos de estudo mais recorrentes nas teorias modernas. discurso e gênero (textual e discursivo). se não contraditórios. a nossa intenção é escolher. Embora não apareçam sob esta nomenclatura. o que parece ser um senso comum para vários linguistas e teóricos da linguagem. Sendo assim. No entanto. partirei de uma breve discussão dos termos texto e discurso para mostrar a complexidade da separação entre ambos. observando o que se espera do aluno quando estudam os conectores. analisarei as três coleções de Língua Espanhola aprovadas no PNLD de 2012. às vezes. sob os nomes das classes gramaticais tradicionais a que pertencem. frequentemente. são muito próximos e. aqui entendido como uma construção social. quando comparamos suas definições. já tomamos a perspectiva de que se tratam de elementos ou conceitos diferentes.300 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS O TRATAMENTO DOS CONECTORES NAS COLEÇÕES DE LÍNGUA ESPANHOLA APROVADAS NO PNLD-2012: UMA QUESTÃO TEXTUAL OU DISCURSIVA? Daniel Mazzaro Vilar de Almeida PG-UFMG/UFV/UNIFAL Introdução Nos estudos linguísticos existem muitos conceitos e termos que. parecem intercambiáveis. percebemos que não existe um trabalho efetivo desses elementos que ultrapassem o âmbito formal do texto. parece crucial. mostrarei como também são escorregadias as definições do termo conector e seu “quase” sinônimo marcador discursivo. Em seguida. como texto. Em outras palavras. Neste trabalho refletirei sobre o tratamento dos conectores nos livros didáticos do Ensino Médio aprovados no PNLD 2012. não são levados em conta como elementos que conectam mais que frases ou enunciados (embora este último conceito alcance a semântica e/ou a pragmática da língua) e alcançam o nível discursivo do texto. dentre as diversas possibilidades de .

se desprendem conceitos como textualidade e contexto .ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 301 definições. por outro lado. Maingueneau (2008) explica que discurso pode ser. tem-se afirmado que o discurso é a relação de um texto com seu contexto (discurso = texto + contexto). já que esta é entendida como sistema de valores virtuais e/ou como idioma compartilhado pelos membros de uma comunidade linguística. Quanto ao primeiro. Discurso é também diferente de texto. em decorrência da ativação de processos e estratégias de ordem cognitiva. discurso é um uso restrito desse sistema compartilhado. em um momento dos estudos da LT. a segunda fase o define não como uma estrutura acabada (um produto). uma vez que a análise do discurso é uma tentativa de articular estruturações textuais e situações de comunicação. Bentes (2001) identifica três fases. na interação. ou seja. No segundo caso. Enquanto a primeira define o texto como uma sequência coerente e consistente de signos linguísticos delimitada por interrupções significativas na comunicação e possui status de maior unidade linguística. Ao fazer um panorama sobre análise do discurso. escrita ou oral. não apenas a depreensão de conteúdos semânticos. até seu cenário imediato de ocorrência ou o conhecimento prévio dos falantes e a própria linguagem . verbalização e construção. Desse ponto de vista. Segundo Maingueneau (2008). expressivo e referencial. de modo a permitir aos parceiros. desde o entorno sociocultural no qual a atividade comunicativa se desenvolve. a textualidade seria uma propriedade distintiva do texto. o texto passou a ser entendido como um sistema uniforme. dessa forma. ele pode englobar muitas ideias. um tipo de discurso (discurso jornalístico). e sim parte de atividades mais globais de comunicação. As restrições podem ser um posicionamento em um campo discursivo (discurso feminista). uma atividade verbal em contexto que se manifesta sob a forma de unidades transfrásticas. discurso deve ser visto de forma diferente de língua. Essa distinção permite distinguir a atividade discursiva nas suas múltiplas dimensões e sua única manifestação verbal. isto é. superior à sentença e. e a linguagem é considerada na sua relação com seus objetivos social. 1 É nesse mesmo caminho tortuoso que se tenta definir discurso. Já a terceira fase considera que sempre teremos à nossa disposição mais de uma definição de texto ou daquilo que se postula ser o objeto da Linguística Textual (LT). que filtra esses valores virtuais ou que pode suscitar novos valores (vê-se uma associação de discurso à dimensão social e mental). Maingueneau (2008) esclarece que. por um lado. uma diferenciação que possa nos servir para compreender o que acontece com o tratamento dos conectores. produções verbais específicas de uma categoria social (discurso das enfermeiras) ou uma categorização baseada num critério comunicacional (discurso polêmico). No primeiro caso. mas também a interação (ou atuação) de acordo com práticas socioculturais. o que deixa margens a dúvidas se realmente existe uma diferença entre esse e discurso. No entanto. o discurso é o uso da língua em um contexto particular. Quanto ao contexto. uma unidade linguística mais alta. Ele passa a ser visto como uma manifestação verbal constituída de elementos linguísticos selecionados e ordenados pelos falantes durante a atividade verbal. Mas. o conceito de texto já incorporou o de contexto. como vimos anteriormente. estável e abstrato. Fazendo um breve histórico do conceito de texto. o compreende no seu próprio processo de planejamento. objeto. que foram passos expressivos para perceber que o texto não é apenas um combinado de frases. as pesquisas da área discursiva podem se separar em dois polos: .

1998. seja suas características sintáticas etc. os pesquisadores que têm como argumento o estudo da organização textual. especialmente na Suíça romanda. é possível encontrar termos como marcadores de relação textual . Devemos ter a noção. A questão é que. Vejamos. Bonnafous. aos mesmos elementos estudados e.-M. de que nem todas as teorias (que não são poucas) coincidem entre si e. Curiosamente.. partículas pragmáticas. e em seguida os pragmaticistas. . seja a intenção do falante em usá-lo.23-24) O autor faz uma divisão interna da área discursiva para a qual utiliza termos específicos: na definição do primeiro polo aparece a expressão “organização textual”. p.. no entanto. semánticas y pragmáticas. J-M. Tournier. usa o termo marcadores del discurso e assim os define: son unidades lingüísticas invariables. Barbéris. las inferencias que se realizan en la comunicación. ou seja. Portolés (1998). quando ele explica que a finalidade dessas expressões é de guiar as inferências que se realizam na comunicação. por exemplo. partículas discursivas etc. B. no ejercen función sintáctica en el marco de la predicación oracional y poseen un cometido coincidente en el discurso: el de guiar. P. não se chegou a um acordo em questões básicas como a denominação e definição de seu conceito. . marcadores de estruturação textual. conectores discursivos . apoios do discurso . os conceitos atribuídos a esses termos ora se identificam. por isso. e na do segundo polo ele usa “discursos” e “posicionamentos ideológicos”. conectores pragmáticos . orações. J. elementos que. na próxima seção.147-148). p. Bres. (MAINGUENEAU. devido à diversidade de critérios adotados e às diferentes proposições metodológicas a partir dos quais se tem abordado o estudo dos conectores e dos marcadores discursivos Vê-se claramente o eixo pragmático e semântico da definição de Portolés. Roulet em Genebra. frases. ora se complementam. Podemos citar pessoas que trabalham na revista MOTS (S. de acuerdo con sus distintas propiedades morfosintácticas. (PORTOLÉS. Em Almeida (2011). além disso. como descrever o valor dos elementos de conexão entre orações e outros elementos se tantos pesquisadores o tomam o tomaram como seu assunto de investigação? Conectores ou Marcadores Discursivos? Uma das maneiras de alcançar o sucesso de que um texto/discurso possa fazer sentido é por meio de conexões entre as palavras. operadores discursivos. referindo-se. já que no tratamento dos marcadores discursivos elas se complementam devido aos âmbitos do objeto de estudo que cada teoria analisa: seja o contexto em que aparece um conector. Ou seja. como explica Escandell (2006). enlaces extraoracionais . (doravante MD). Détrie. os limites do texto estão em sua organização sistêmica. Várias foram (e são) as teorias que deram sua contribuição para elucidar a questão e o funcionamento dos conectores2. a conceituação de MD e conectores apresentam diferenças. foi um dos problemas que mais preocupou. M. parágrafos. que defendem uma concepção de linguagem na qual se misturam as influências do marxismo e da linguística da enunciação. Siblot. Fiala) ou o grupo de Montpellier “Praxiling” (J.De outro. 2008. enquanto que os limites do discurso se encontram em seu alcance sócio-ideológico. enunciados ou segmentos discursivos. aqueles que visam primeiramente articular discursos e posicionamentos ideológicos. P. seja a carga semântica da expressão. como se definem os conectores. ou E. essa diferença costuma estar no imaginário comum quando se distingue texto de discurso . muitas vezes.302 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS . optamos por não nos deter a apenas uma das teorias. Por isso. primeiramente os gramáticos e filósofos.De um lado.). Adam em Lausanne.

devem entender e orientar em suas atividades a linguagem como atividade social e política. voltemos à proposta deste texto e analisemos como os livros didáticos de espanhol aprovados no PNLD 2012 tratam os MD e os conectores. Portolés e Montolío se preocupam pelos posicionamentos ideológicos dos sujeitos envolvidos no jogo discursivo ao estudar os conectores e MD? Até que ponto as questões socioculturais influenciam o uso e interpretação desses elementos nos discursos? . que envolve concepções. esse elemento é de extrema importância para a leitura crítica do texto. prática discursiva. já que é uma porta para inferências do tipo socioculturais. 2010). Essas ideologias. de esa manera. 2010) e Síntesis (MARTIN. principalmente quando explica que os conectores funcionam. valores e ideologias inerentes aos grupos sociais.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 303 De forma parecida. as coleções. Nossa pergunta é: por que o termo mais usado é marcador discursivo e não textual? Portolés (1998) entende por discurso la acción y el resultado de utilizar las distintas unidades que facilita la gramática de una lengua en un acto concreto de comunicación. intenção(ões) e argumentação(ões). 2001.21). (MONTOLÍO. como os conectores/MD são tratados nas três coleções didáticas de espanhol do Ensino Médio aprovados no PNLD 2012 que são as seguintes: El arte de leer en español (PICANÇO. se sob o viés textual ou discursivo. ponto(s) de vista. expressa por meio de manifestação verbal e não verbal e que se concretiza em diferentes línguas e culturas. então. “como señales de balizamiento que un escritor eficaz va distribuyendo a lo largo de su discurso. temos as informações de que tanto as definições de marcadores discursivos como de conectores possuem uma raiz muito forte na pragmática e na semântica. Logo. conforme dividimos de forma didática anteriormente. Sua definição também possui uma estreita relação com a semántica e pragmática. como vimos anteriormente.27) Assim. em um texto. 2001. (PORTOLÉS. p. atividade em permanente construção. podemos ver que o conceito de linguagem está bem próximo ao que discutimos sobre discurso já que expressam ideologia(s). a fin de que su lector siga sin esfuerzos ni dificultades el camino interpretativo trazado” (MONTOLÍO. 2010). VILLALBA. esses pontos de vista. áreas de muita influência na Linguística Textual e na Análise do Discurso. mas usa o termo conectores e explica que (…) tienen como valor básico esta función de señalar de manera explícita con qué sentido van encadenándose los diferentes fragmentos oracionales del texto para. estreitamente relacionada à de enunciado 3. Montolío (2001) propõe uma definição. Vejamos. Dessa forma. Enlaces (OSMAN et al. por ello. p. para serem aprovadas. E essa definição. marca um limite com a definição de discurso proposta pelas correntes de Análise do Discurso. 1998. p. Até este momento. Um olhar sobre os conectores nas coleções de Língua Espanhola do Ensino Médio aprovadas no PNLD 2012 Segundo o Guia de Livros Didáticos: PNLD 2012: Língua Estrangeira Moderna (2011.10). intenções e argumentações podem se materializar no discurso por meio de conectores de modo a guiar o interlocutor desse texto/discurso no processo de interpretação. p. todo discurso se compone de una parte puramente gramatical y de otra pragmática. obtenida gracias al contexto. ayudar al receptor de un texto guiándole en el proceso de interpretación.21) Estas perguntas dariam origem a outras pesquisas. esto es. por isso heterogênea e historicamente situada.

. Após alguns exercícios de escrita nessa mesma seção. temos.) e outros exemplos. negación e duda. quando se trabalha o subjuntivo e é proposto ao aluno fazer frases sobre os personagens de um texto lido usando as expressões ojalá. Assim como nesses livros. uma breve explicação sobre . algumas conjunções (y/e. Os autores propõem um trabalho com as conjunções de coordenação y. por eso. o tratamento dos conectores por eso. sin embargo. outras conjunções como aunque. A divisão nas unidades é semântica: expressões concessivas (unidade 4). modo. como eles são Na coleção El arte de leer en español. tiempo. tampoco. No caso da coleção Síntesis. Parte deles aparece em atividades de preencher lacuna e possui. así que. Assim. ora e luego aparecem ser ter nenhum estudo sistemático prévio. os MD não aparecem em apenas um volume como um tema a ser estudado. volume 2). por meio de um quadro-resumo com outros exemplos e. debidamente e si bien . Novamente estas e outras expressões aparecem no capítulo 5 na seção Gramática básica sob o título Adverbios em um quadro-resumo dividido em lugar. quizás. no volume 1. no segundo capítulo. ora. Deixamos claro que nem todos os conectores citados apresentam o mesmo tratamento. isto é. e no volume 3 também aparecem outros conectores. por exemplo. cantidad. com destaque nas expressões. volume 2) e expressões de possibilidade e desejo (unidade 6. marcadores temporais (unidade 3. pues. o volume 3 trata dos MD na seção Manos a la obra . expressões temporais (unidade 6). como ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS os conectores são o segmento que segue o conector (tempo verbal. tratam das variações e. a unidade 3 apresenta na seção Para consultar (seção na qual consta um pequeno resumo dos temas linguísticos contemplados na seção gramatical ¡Ojo! ) de uma breve explicação das expressões en suma. classe gramatical etc. probablemente. na qual encontramos fragmentos dos textos (frases). porque. o sea. por exemplo. nem todos se explicam por meio de fragmentos dos textos para que o aluno entenda seu funcionamento. ante. por su parte e sino a partir de frases retiradas dos textos das seções ¡Mira! e ¡Acércate!. unidade 5). Como nossa intenção neste trabalho não é o de esgotar o assunto sobre o tratamento dos conectores nas coleções aprovadas no PNLD-2012. mas sim ao longo dos três.304 Vejamos apresentados nelas. isto é. o/ ó/u. Os conectores parecem ser resgatados novamente apenas no volume 3. na qual os autores os apresentam sob o título “conectores del discurso”. o tema é resgatado em Como te decía. sin embargo. además. e sistematizados nessas coleções. em seguida. na primeira unidade. por lo tanto na unidade 1 do volume 2).. expressões condicionais (unidade 7). sin embargo.. Nos volumes anteriores citam. porque. ya que. A coleção Enlaces apresenta os conectores principalmente no volume 3. o e pero por meio de exemplos tirados do áudio do capítulo e uma tirinha (apresenta-se o valor e um exemplo de cada conjunção). dedicadas à leitura e compreensão de texto. así. alguns advérbios de frequência (volume 1. ni.. como. Já no volume 2. Essas expressões são explicadas posteriormente na seção Para charlar y escribir . Em uma delas. exceto na unidade 8. como aunque (unidade 2) y si (unidade 3). no es seguro que e tal vez. não vamos descrever cada uma das atividades. afirmación. na seção Para consultar um sinônimo e/ou uma breve explicação do seu sentido. ó e u das duas primeiras conjunções e propõem atividades principalmente de preencher lacunas. uma atividade oral. os conectores são trabalhados pela primeira vez no capítulo 1 do segundo volume na seção Gramática básica . por eso.

mas sim de necessidade. Referências bibliográficas 4) Os marcadores discursivos são um assunto gramatical. ignora-se seu alcance social. em alguns casos. 245-287. como a coleção Enlaces que apresenta exercícios que conjugam a semântica e a sintaxe. sistêmico. Inclusive as atividades refletem esse pensamento. por exemplo. mas. dessa forma. ignorando. Dessa constatação. isto é. começando pelo artigo e terminando nas conjunções. A. já que o objetivo do ensino médio é de formar leitores críticos e isso só pode acontecer por meio de leituras analíticas que englobem as questões extratextuais. no final das contas. a causa de um fato e o aluno encontra a expressão porque ou ya que no texto e responde à atividade. aparecem apenas nas seções destinadas a tal estudo. pudemos perceber que esses elementos linguísticos são tratados no nível textual. Refiro-me a leituras inferências sociais. obviamente. na qual os alunos devem relacionar ideias por meio de conectores e também conjugar os verbos. pudemos perceber também que não há atividades de compreensão de texto nas quais seja BENTES. Apresentar atividades que envolvam essa esfera da linguagem não é uma questão de dificuldade ou facilidade. que desde o primeiro volume já apresenta um estudo de MD mais comuns. 2) As obras costumam restringir-se à importante fazer inferência de um conector. por exemplo. nas quais o leitor é convidado. C. Há exceções. ou seja. São Paulo: Cortez Editora. Em: MUSSALIM. Anna Christina (2001): Linguística Textual. Introdução à Linguística: domínios e fronteiras. 1. 3) O enfoque é dado aos conectores interfrásticos ou interoracionais. v.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 305 tampouco analisar as definições dadas às expressões. 2ª Ed. p.. linguístico. Não dizemos que isso seja equivocado. como guia na interpretação discursiva. A exceção é da coleção El arte de leer en español. Considerações finais Por meio das conclusões preliminares da análise do tratamento dos conectores e MD nas coleções de espanhol aprovadas pelo PNLD-2012. (Org). enumeraremos apenas essas. devido ao recorte do trabalho. Isso talvez se deva ao fato de os materiais preferirem seguir uma sequência de temas que está próxima à das gramáticas tradicionais. ou seja. BENTES. e. a refletir sobre a estratégia textual de apresentar determinados argumentos como contrapostos ou como causa-consequência. já que a maioria é de preencher lacuna. as coleções tratam os conectores como assunto importante a ser estudado? Sob que viés: textual e/ou discursivo? Em uma análise geral. Como já dito. da 2ª série. mas sim que não contempla mais que o uso semântico das expressões. apresentação de sinônimos e ideias dos conectores. por exemplo. . F. Eles não são tratados. nosso objetivo é ver o alcance do tratamento dessas expressões. Não me refiro a questões que pedem. o seu tratamento entre parágrafos. Outras conclusões podem ser obtidas. chegamos a algumas conclusões preliminares: 1) O estudo dos conectores costuma aparecer a partir do volume 2.

M. São Paulo: Parábola Editorial. I. [Re]Discutir texto. Dominique (2008): Discurso e análise do discurso. MARTIN. . 1946. gênero e discurso.. p. Ivan (2010): Síntesis. Terumi Koto Bonnet (2010): El arte de leer español. – Brasília: Ministério da Educação. uma sequência linguística concreta realizada por um emissor em uma situação comunicativa. 135-156. gênero e discurso. I. ESCANDELL VIDAL. [Re]Discutir texto. sugerimos uma leitura atenta de Portolés (1998a) e/ou Martín e Portolés (1999). MAINGUENEAU. sugiro a leitura do capítulo de Bentes e Resende (2008). REZENDE. p. Notas 1 Devido ao recorte deste texto. Para uma apresentação mais completa dos problemas de etiquetagem que se propõem das unidades suscetíveis de serem consideradas como marcadores do discurso. e se define dentro de uma teoria pragmática. São Paulo: Macmillan. Barcelona: Ariel (nova edição atualizada). Barcelona: Ariel. Sua interpretação depende de seu conteúdo semântico e de suas condições de emissão. de acordo com critérios discursivos. Estrella (2001): Conectores de la lengua escrita. como conjunções. MONTOLÍO. Guia de livros didáticos: PNLD 2012: Língua Estrangeira Moderna (2011). interjeições. Deise Cristina de Lima. Em: SIGNORINI. José (1998): Marcadores del discurso . advérbios. questões e fronteiras [con]textuais. et al (2010): Enlaces . São Paulo: Parábola Editorial. VILLALBA.306 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS ________. consideraremos marcadores discursivos e conectores termos sinônimos. OSMAN. PICANÇO. 2 Para esta pesquisa. Renato Cabral (2008): Texto: conceitos. vocativos etc. Barcelona: Ariel. São Paulo: Ática. Curitiba: Base Editorial. 3 Escandell (2006) explica que enunciado é uma unidade do discurso. assim como da obscura fronteira entre a classe dos marcadores e outras categorias limítrofes. PORTOLÉS. Victoria (2006): Introducción a la pragmática. Em: SIGNORINI. Secretaria de Educação Básica. no qual se discute com relativa profundidade os conceitos de textualidade e contexto. embora saibamos que existem diferenças teóricas entre eles. Soraia.

O DPD é um dicionário recente. de 2005. Para mostrar como é construída a imagem de dúvida no DPD. de Emilio M.Universidade de São Paulo Analisamos neste trabalho a imagem de dúvida no Diccionario Panhispánico de Dudas (DPD) da Real Academia Española ( RAE ) e Asociación de Academias de la Lengua Española (ASALE). Além destes temos o Diccionario de Dudas y Dificultades del Español de Manuel Seco. ed. tomamos algumas formulações das seções que precedem a nomenclatura (conjunto de verbetes) do DPD. 1992). sob a ótica da análise do discurso e da História das Ideias Linguísticas. o Diccionario Sopena de Dudas y Dificultades del Idioma. p XIII . DEFINIÇÕES E COMENTÁRIOS Daniela Ioná Brianezi PG . Mostramos assim que existe um grande repertório de dicionários de dúvidas no campo da língua espanhola desde algumas décadas. é dar “respuesta a las dudas más habituales”. como mostrado na seção Qué es el Diccionario Panhispánico de Dudas. As dúvidas tratadas no DPD podem ser de caráter fonológico. analisando sua estrutura para ver como se dá resposta à dúvida. ortográfico. consideramos o dicionário como instrumento linguístico (Auroux. A relevância deste último dicionário é especial para nossas análises. tomando como eixo da conceitualização o jogo de “antecipações imaginárias” descrito por Pecheux ([1969] 2010). de 1981 e o Diccionario de Usos y Dudas del Español Actual de José Martínez de Sousa. Há outros dicionários de dúvidas na língua espanhola. Esse trabalho faz parte dos estudos que desenvolvemos no mestrado em língua espanhola pela USP. XIII. Conforme argumenta Pecheux. Em seguida recortamos alguns verbetes. Martinez Amador (1953). cuja primeira edição data de 1961 e que está em sua 10a.. de 2011. como o Diccionario Gramatical y de Dudas del idioma. sintático e lexicossemântico.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 307 DICCIONARIO PANHISPÁNICO DE DUDAS: DÚVIDAS. visto que Manuel Seco ocupa desde 1980 a cadeira da letra A da RAE. p. morfológico. se referindo especificamente ao caso do discurso politico mas que podemos transferir diretamente a nosso caso (ibid:76): “ [a relação de sentidos entre discursos] implica que o orador experimente de certa maneira . Nessa linha. de 1996. o primeiro de dúvidas produzido pela RAE/ASALE. como pode ser visto em Qué es el Diccionario Panhipánico de Dudas. Seu objetivo.

em tempo hábil. às vezes. Esta antecipação do que o outro vai pensar parece constitutiva de qualquer discurso. temos a seguinte formulação: sd1: Centenares de hispanohablantes de todo el mundo se dirigen a diario a la Real Academia Española. onde este ouvinte o “espera”. observamos novamente a especificação numérica. al mismo tiempo. ‘centenares’ e outra que remete ao espaço (“de todo el mundo”) que tem como referente o consulente. de naturalizar seu papel de especialista que serve ao sujeito consulente. los miles de dudas concretas que asaltan a los hablantes en su manejo cotidiano del idioma y donde las Academias pudiesen. No caso do DPD. sobre todo. Temos aí um sintagma nominal marcado por uma especificação numérica. São também especificadas como “concretas”. que ‘se echaba de menos’. um não especialista. e que chegaria “espontaneamente”. Uma primeira projeção tem a ver com aquela proveniente do falante. A especificação especial “de todo el mundo” remete à própria denominação do dicionário: ‘Panhispánico’. O ‘se’ impessoal produz um efeito de generalização. Continuando ainda na ‘presentación’. temos a seguinte formulação: . pXI. A instituição “RAE/ASALE” administra essa dúvidas começando por uma classificação das mesmas: seriam da ordem ortográfica. de preceder o ouvinte é. o a cualquier otra de las que con ella integran la Asociación de Academias de la Lengua Espanõla. adelantarse a ofrecer recomendaciones sobre los procesos que está experimentando el español en este mismo momento. Trata-se aqui de uma dúvida “prevista” pela Academia. léxica ou gramatical. Iniciando nossas análise no item ‘presentación’ do DPD. era uma obra que faltava e veio para preencher um vazio existente. Notamos ainda em sd2 uma divisão no que se refere ao modo de projetar ou pensar a dúvida. o que funciona na direção de produzir a evidência da necessidade do próprio dicionário. en especial en lo que atañe a la adopción de neologismos y extranjerismos. de forma unitaria en todo el ámbito hispano. produzindo o efeito de sentido de são reais e não hipotéticas (são os falantes os que expõem suas dúvidas). que tem dúvidas quanto à língua e recorre à RAE ou às Academias da ASALE para pedir esclarecimentos. de sua necessidade. Se produz aí o efeito de que a dúvida irrompe naturalmente (ela ‘asalta’ o falante) o que por sua vez opera a favor de abrir o lugar da academia. para que todo ello ocurra dentro de los moldes propios de nuestra lengua y. adelantarse a ofrecer recomendaciones”. temos o sujeito lexicógrafo institucional.308 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS o lugar de ouvinte a partir de seu próprio lugar de orador: sua habilidade de imaginar. Já no fragmento seguinte aparece uma outra modalidade: “y donde las Academias pudiesen. (destaque nosso) Em sd2 notamos primeiramente a antecipação feita sobre a obra. A especificação que aí opera a favor de quantificar as consultas argumenta a favor da publicação e do funcionamento do dicionário. que antecipa a dúvida quanto ao consulente e constrói a imagem de dúvida nos paratextos a partir de um determinado jogo de antecipações. léxicas o gramaticales y pidiendo aclaración sobre ellas. (sublinhado nosso) sd2: Se echaba de menos una obra que permitiera resolver. […]” (destaques do autor). al mismo tiempo. decisiva se ele sabe prever. Opera aí um efeito de sentido pelo qual isso funciona como uma evidência. con comodidad y prontitud. No fragmento ‘miles de dudas concretas que asaltan a los hablantes’. ou seja. exponiendo sus dudas sobre cuestiones ortográficas. segundo a qual a instituição se ocuparia de tratar o que vê como Percebemos que inicia-se apresentando a dúvida como algo que “parte de um sujeito falante da língua espanhola”. como já mostramos. apesar de todos os dicionarios que mostramos anteriormente de dúvidas.

). geográfico-políticas (Arg. uma formulação que já nos permite passar a tratar uma outra parte do dicionário: sd3: El DPD se dirige tanto a quienes buscan resolver con rapidez una duda concreta y. embora não se mencione este fato nas sessões iniciais e em nenhum outro local do DPD. Notamos a volta do uso de ‘dudas concretas’. o DPD manteria a regularidade. como laísmo. a retomada da primeira acepção do Esta formulação nos faz compreeder a estrutura do verbete do DPD. verificamos que o enunciado definidor dos lexemas é retomado do DRAE. temporais (desusado). Como sustantivo masculino. como explicitado na seção antecedente à nomenclatura ‘signos’ (DPD:XXXV). voseo. aquelas anticipadas. Como adjetivo. A primeira delas é a falta de marcas no corpo do verbete. tipo de dúvida levantada pelo sujeito.) ou técnicas (medicina. os não temáticos vão escritos em letras minúsculas. el uso de lacrimal . Con este sentido se desaconseja. Os temáticos se referem a temas gramaticais. sejam elas gramaticais (adj. ainda de acordo com sd2.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 309 importante de ser trabalhado para que a língua continue ‘unitaria en todo el ámbito hispano’. 2. si los poseen. ‘extremo del ojo por donde salen las lágrimas’: «Sacó un pañuelo del bolsillo del delantal y enjugó con él sus lagrimales» (Bain Dolor [Col. están solo interesados en obtener una recomendación de buen uso. no item. v. São de número menor e vão escritos em letras maiúsculas. De acordo com nossa pesquisa. encontramos na seção: ‘qué es el diccionario panhispánico de dudas’. formado pela letra ‘L’: sd6: lag r imal lagr imal. de restrição de uso (informal. Temos o primeiro vocábulo. havendo no final do DPD a lista de todas as obras citadas. 1. já que este se diferencia do que encontramos num dicionário de língua. que englobam literatura. Veremos aqui algumas ocorrências de verbetes não temáticos. 1992]). por consiguiente. sublinhado nosso). 1993]). O DPD explicita que a maioria dos exemplos dos vocábulos foram retirados do CREA (Corpus de referencia del español actual) e em menor medida do CORDE (Corpus diacrónico del español). que restringe ou não o uso do vocábulo. Esta dúvida prevista. obervamos na parte ‘1’ da enunciação do vocábulo lagrimal. sempre com referência de onde foram tirados e do país de procedência. se referiria a neologismos e estrangeirismos. silenciando o segundo tipo de ‘dudas’ tratadas pelo DPD.” (destaque nosso) lacrimal: «Los ojos. leísmo. Con este mismo sentido se usa también el adjetivo . A estrutura dos verbetes pode conter ainda o enunciado definidor entre aspas simples. como a quienes desean conocer los argumentos que sostienen esas recomendaciones. retirado de nosso corpus de estudo para a dissertação do mestrado. ‘de (las) lágrimas’: «El conducto nasolagrimal va del saco lagrimal a la nariz» (Rosales/Reyes Enfermería [Méx. As restrições de uso no caso do DPD são encontradas no corpo do verbete. Registra-se na enunciação da maioria dos verbetes exemplos de uso dos vocábulos. biol. previstas pela academia. Começamos a mostrar agora como são os enunciados encontrados nos verbetes Temos dois tipos: os temáticos e os não temáticos. jornais e portais eletrônicos.. Levando em conta essas considerações. no tienen párpados ni glándulas lacrimales» (Vattuone Biología [Arg. por minoritario. Percebemos que esta é uma tendência também dos outros dicionários de dúvidas em língua española e. ‘destinatarios’ (DPD:XIII).). Par. (destaque negrito e itálico do DPD. vulgar). Continuando nossa busca da imagem de dúvida construída no DPD. neste caso. Percebemos algumas diferenças quanto à maneira de enunciação dos vocábulos no DPD em relação aos dicionários integrais ou diferenciais em língua espanhola. 1982]).

Na próxima formulação comenta-se que há um outro vocábulo possível de ser usado com o mesmo sentido. Nombre tradicional español de esta ciudad de Túnez: «Estuvieron cuatro días fondeados en La Goleta. com um exemplo de uso. la preferida por la Academia es la que lleva la definición directa. Temos então um exemplo. 1986]). Diccionario de la Lengua Española (DRAE). La Goulette: sd8: La G o ule tt e . Pensamos que o DPD segue também esta preferência. por certos falantes dessa língua. ‘lacrimal’. Como argumenta Indursky (1997:213-244). ’! La Goleta.2) a aquella. que nesse caso tem informações enciclopédicas. Go ulett tte sd9: La Gole ta Goleta ta. também é retomado o enunciado definidor deste (agora da segunda acepção) e novamente se apresenta um exemplo. visto que há uma proibição explícita do termo em sua grafia originária em francês. Cabe destacar que há um sintagma nominal com um adjetivo ‘nombre tradicional’. subitem Variantes Preferidas: sd10: Cuando las variantes admitidas no pueden figurar en un mismo artículo por exigencias del orden alfabético.2. já que trata-se de um deôntico de obrigação ‘dever’. sublinhado nosso). o que funciona a favor da direção do dizer que aí se instala: usar esta forma e não a otura. havendo a recusa do vocábulo em sua grafia originária. a remissão sugere que o vocábulo preferido é. neste caso. No debe usarse en español la forma francesa La Goulette. que num movimento anafórico retoma a cidade. pero no preferidas. O fato da preferência pelo topônimo em espanhol poderia ser explicado pelo relacionamento da Espanha com La Goleta.§ 6. situando o consulente quanto à localização de tal cidade. antepuerto de Túnez» (Faner Flor [Esp.2. temos em Advertencias para el uso de este diccionario .2 6.310 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS vocábulo no DRAE. O uso de ‘no se debe’ traz consigo o discurso-outro. Consultando então ‘La Goleta’ percebemos que não faz parte da nomenclatura do DRAE e carece de enunciado definidor no DPD. que não dever ser usada. La Goleta. uma outra posição sujeito que admitiria o uso do vocábulo em francês. mostrando novamente a preferência pelo vocábulo em espanhol. marcado por un morfema de negação. se definen mediante remisión (v. Na parte ‘2’. que produz o efeito de longevidade de uso. mais contundente que em ‘lagrimal’. em certas práticas. igualando os sentidos deste aos do primeiro. “a negação é um dos processos de internalização de enunciados oriundos de outros discursos”. se está desaconselhado pelo DPD. Reparamos na presença do verbo (desaconsejar). mostrando uma forma de “lidar com a alteridade” no discurso do DPD. Temos o uso do deítico ‘esta’. Esta é uma prática regular no dicionário. Consultando os paratextos da versão online do . ao contrário do que ocorreu em seu uso como adjetivo e tal fato é justificado por seu uso ser ‘minoritario’. Em seguida temos um comentário que ‘desaconseja’ o uso do vocábulo ‘lacrimal’ no caso de seu uso como substantivo. item Manejo del diccionario. ou seja. sem nenhuma formulação. Temos agora um topônimo de origem estrangeira. Novamente vemos um enunciado com verbo negativo. em sua grafia original. é porque essa forma é “usada”. criando uma circularidade com a palavraentrada em espanhol La Goleta . quando o consulente busca a palavra La Goulette. é remetido à palavra adaptada à grafia espanhola. Irrompe aí uma forma de alteridade sobre a qual se regula. visto que Neste caso. las aceptadas. La Goulette com ‘no debe usarse’. O uso de ‘desaconsejar’ nos permite ver que. que se baseia em Milner(1983) e Culioli (1990). (destaque negrito e itálico do DPD.

p. por tratar-se de um lexema estrangeiro. por tratar-se de uma vacilação na sua grafia e La Goulette como uma dúvida das previstas pela instituição. Sua língua oficial é o árabe. Em: GADET. . Campinas. FREDA (1997): A Fala dos Quarteis e outras vozes. interpelando assim os sujeitos consulentes a se assujeitarem à FD na qual o DPD se inscreve.8): “suponho que em toda sociedade a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada. no jogo de ‘poderes’ do discurso.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 311 ela conquistada pelo rei Espanhol Carlos V em 1535. organizada e redistribuída por certo número de procedimentos que têm por função conjurar seus poderes e perigos. Podemos classificar o primeiro. dominar seu acontecimento aleatório. tanto recomendando o uso de alguns vocábulo e beirando a proibição em outros. 61-161. p. FOUCAULT. Tony (orgs. Percebemos com a apresentação dos vocábulos. Michel ([1969] 2010): Análise Automática do Discurso (AAD-69). INDURSKY. Françoise. Como argumenta Foulcault ([1970]. enunciados de caráter sugestivo e prescritivo que seviriam para esclarecer a dúvida tratada. como uma das dúvidas concretas. PECHEUX. traducao: Eni Puccinelli Orlandi. Michel (2010): A ordem do discurso. Campinas: Editora da Unicamp. São Paulo : Ed Loyola. lagrimal . esquivar sua pesada e temível materialidade”. mas o francês continua sendo usado como língua do comércio. 2010. e só tornou-se independente em 1956. Por uma análise automática do discurso: uma introdução à obra de Michel Pêcheux. selecionada. Em 1881 ela foi anexada à França. SP: Editora da Unicamp. Os comentários sugestivos e prescritivos do DPD poderiam deste modo encaixarse como um destes ‘procedimentos’ de tentativa de controle da língua. Campinas.). Sylvain (1992): A revolucao tecnologica da gramatizacao . Com essas ocorrências gostaríamos de mostrar como o DPD ‘resolve’ os dois tipos de dúvidas encontrados. HAK. mas em 1574 ela foi tomada pelos otomanos. Referências bibliográficas AUROUX. SP: Editora da Unicamp.

públicas e privadas. há quatro versões diferentes da mesma prova identificadas pelas cores: azul. inferimos que o fato de inserir o espanhol numa prova de nível nacional poderá levar a uma aceleração do processo de implantação da língua como um dos efeitos retroativos do Enem. Filosofia e Sociologia) e Ciências da Natureza e suas tecnologias (Química. Linguagens. que antes visava à avaliação do perfil dos estudantes do ensino médio. o objetivo de selecionar alunos concluintes da educação básica para acesso ao ensino superior de várias instituições. amarela. referente ao primeiro dia do exame). passou a reforçar.312 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS TEXTOS E TESTES: COMO SE CONFIGURAM AS PROVAS DE LÍNGUA ESPANHOLA NO ENEM? Daniela Sayuri Kawamoto Kanashiro UFMS I. Assim como nas edições anteriores (19982008). códigos e suas tecnologias (Língua Portuguesa. mais uma vez. Matemática e suas tecnologias (Matemática). E se até o presente momento nem todas as instituições de ensino médio. A partir daquele ano a estrutura da prova sofreu alterações. garantem a oferta do espanhol (conforme prevê a Lei 11. inclusive as públicas. cinza. Gretel M. códigos e suas tecnologias e Matemática e suas tecnologias (no segundo dia do exame). no segundo dia do Enem). Nas distintas versões observam-se somente alterações na ordem das perguntas ou das alternativas. . azul e rosa (para caderno 2. Ciências Humanas e suas tecnologias (História. Geografia. foram incluídas 45 questões para cada área de conhecimento: Linguagens. As questões são as mesmas e mantêm-se os enunciados. Eres Fernández USP O espanhol no Enem Sem dúvida a inclusão do espanhol no Enem a partir de 2010 colocou em destaque. Língua Estrangeira (LE) – Inglês ou Espanhol [somente a partir de 2010]. Artes e Educação Física). amarela. A partir de 2009 a prova. Física e Biologia). por meio de algumas mudanças. algumas estaduais e federais. Cada caderno de questões é composto por duas áreas: Ciências Humanas e suas tecnologias e Ciências da Natureza e suas tecnologias (no primeiro dia do exame). Além da redação. branca e rosa (para o caderno 1. houve aumento no número de questões e a aplicação do exame foi organizada em dois dias. o referido idioma no contexto educacional brasileiro.161/ 2005 ).

não é sem propósito que as escolas – sobretudo as particulares – investem nos programas preparatórios e realizam simulados. Um candidato que conhece a ordem de apresentação das aviso). Isso aconteceu tendo em vista a intenção de substituir os diferentes vestibulares. nas 3 provas analisadas observamos alguns dados recorrentes: são incluídas 5 questões dentre as 90 propostas no caderno. 71% dos textos propostos não são autênticos 1 (50% são adaptações e 21% são fragmentos) e 86% dos textos foram veiculados na internet (51% em sites. principalmente das instituições federais de ensino superior.] Dentre os materiais. 4 e 5). em língua portuguesa. 36%. que refaz as questões das edições anteriores organizando o tempo disponível para resolvê-las.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 313 No novo Enem também permanece a elaboração do texto dissertativo argumentativo.. Nesse sentido. Além disso. utilizaram duas páginas (p. mais de um dia para a realização do processo e a inserção de itens de língua estrangeira (inglês e espanhol). disciplinas na prova. a um Sobre a organização das questões referentes à língua espanhola Especificamente sobre a língua espanhola. e na de Labella-Sánchez (2007). Serrani (2005) argumenta que a tendência em adotar princípios gerais do enfoque comunicativo nas aulas de línguas fez com que o texto literário perdesse certo espaço para o uso funcional do idioma. ou seja. 4 e p. O pouco tempo disponível para ler e resolver cada questão (cerca de 3 minutos) também contribui para conduzir a esse tipo de procedimento. por um processo apenas. que considerou as provas de seleção de três instituições públicas do estado do Paraná. pelo inglês (perguntas presentes nas páginas 2 e 3) ou pelo espanhol (p. Em nossa pesquisa de mestrado (KANASHIRO. a numeração também permaneceu a mesma: as questões de 91 a 95 foram de língua estrangeira e o candidato teve que optar. 5). conforme a referida pesquisadora: “[. Sobre a presença de textos predominantemente informativos. ou seja. Constatamos que as principais mudanças estabelecidas para o novo Enem objetivaram a aproximação ainda maior das características da organização dessa prova com a dos vestibulares tradicionais. no segundo dia de prova. ao treino. as perguntas figuraram sempre no caderno 2. 2007). Consideramos que o engessamento da estrutura da prova favorece o treinamento. Também não é em vão que tenham surgido cursos específicos de preparação para determinados vestibulares. no segundo dia de prova. junto com as 45 questões de Linguagens. para elaborar o texto dissertativo e preencher o gabarito. 14% em blog e 21% em jornal digital). concursos e para o Enem. apresenta certa vantagem se comparado àquele que não tem conhecimento sobre a organização e estrutura do exame. recursos e textos tirados do discurso da . códigos e suas tecnologias e mais 45 questões de Matemática e suas tecnologias. 7% correspondem a um artigo e 7%. que analisou as provas de vestibular da região sudeste.. postagens digitais. também foi observada a tendência em incluir em provas seletivas e/ou classificatórias textos da esfera jornalística. questões separadas por disciplinas. resultando na unificação da seleção. ou seja. Sobre os textos em língua espanhola Verificamos que 86% dos textos incluídos nas edições do Enem de 2010 e 2011 são informativos (36% são reportagens. no momento da inscrição. Dessa forma.

a Argentina do “Tango”. Além disso. Questão 92 – Pela observação da imagem e leitura do texto a respeito da votação eletrônica no Brasil. entre outros. As tarefas solicitadas foram: dentre as opções. tema e conteúdo do texto (verbal e não verbal). e seu título1 antecipa o tema que será tratado. os aspectos culturais. têm sido vistos como um avanço frente ao encliclopedismo ou “literarismo” de outrora. citada no corpo da mensagem. que é preciso trabalhar a conotação da linguagem e que a formação do leitor não deve se restringir a um grupo pequeno de textos que figuram na esfera da informação e da argumentação. O povo representa muito mais que esses temas genéricos. o México dos “Sombreros”. Tomando como base o fragmento. voto. Além disso. uma palestra. Os textos inseridos nas provas do Enem de 2010 e 2011 versaram sobre o tango. Questão 91 – O título da palestra. antecipa o tema que será tratado e mostra que o autor tem a intenção de . especificamente nas provas do Enem. 2005. Acerca das habilidades e questões propostas Nesta parte analisamos como se apresentam os enunciados dos itens correspondentes a cada habilidade da competência da área 22 para verificar se são coerentes com o estipulado na Matriz de Referência e com os objetivos estabelecidos para o Ensino Médio. Nenhum texto literário foi selecionado para abordar a importância da produção e/ou das manifestações culturais. estereótipos de um mundo hispânico longe de ser representação de todo o seu povo. não paginado) relacionadas na habilidade 8 . identificar a intenção do autor. revistas). p. por exemplo. (BRITO. Consideramos.” (SERRANI. Quadro 1 – Habilidade 5. Destacamos no Quadro 1 a repetição dos termos título e tema. E verificamos exatamente o que foi revelado por Brito ao analisar os textos presentes nas questões Enem 2010 1ª aplicação Enem 2010 2ª aplicação Enem 2011 Questão 95 – O texto jornalístico caracteriza-se basicamente por apresentar informações a respeito dos mais variados assuntos. por meio das palavras-chave urna. teclado. enunciados e respostas das questões Notamos que a habilidade 5 – Associar vocábulos e expressões de um texto em LEM ao seu tema – focaliza a associação entre título. a Espanha das “Touradas” e do “Flamenco”. entretanto.Fumantes engordam mais que não fumantes. citado no texto. qual proposição identifica o tema central e poderia ser usado como título? . 47). as touradas.alertar sobre os riscos mortais de determinados softwares de uso médico para o ser humano. botones e elector.o sistema brasileiro de votação eletrônica. O título pode fazer referência ao texto proposto ou a uma obra. Avaliamos que essas habilidades poderiam ser consideradas nas questões de qualquer disciplina que apresentassem um texto. é importante observar como são trabalhados. pautando-se no título e no tema tratados. literatura. identificar o tema. Brito (2004) atentou para o problema de visões estereotipadas quando se priorizam somente os grandes nomes da história. dança chilena. 2004. com base na imagem e no conteúdo verbal. ou seja.Reconhecer a importância da produção cultural em Língua Estrangeira Moderna – LEM – como representação da diversidade cultural e linguística.314 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS mídia (jornais. ao mesmo . identificar o título do texto. identifica-se como tema . cantores. Machu Picchu. por exemplo.

concluir que sempre teremos um texto que verse sobre o tema turismo relacionado a essa habilidade. caso tais descritores já tenham sido definidos4. identificassem uma das tarefas atribuídas às delegações. um percurso para turistas na Espanha. Como na habilidade anterior. é possível “treiná-los” a identificar título e tema. Questão 95 – O “Camino de la lengua”. uma pessoa que more na Espanha e queira viajar para a Alemanha com seu cachorro deve . envolve também os aspectos . ou seja. consideramos que a repetição do foco da pergunta (a identificação de informações) pode estar relacionada aos descritores (insuficientes ou pouco claros) ou à inexistência deles. é provável que tenhamos novamente outro texto informativo.vacinar o animal e depois solicitar o passaporte dele.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 315 tempo em que não é possível trabalhar com os alunos o tema e o título de todos os textos disponíveis. seus conectores. Quadro 2 – Habilidade 6. . além da temática original sobre a língua e a leitura espanholas. Ainda que não seja possível prever o assunto do texto da próxima edição do Enem com base nos itens que figuraram nas provas de 2010 e de 2011. de solicitar apenas a identificação de título e tema ou da associação entre eles. isto é. ainda. a relação entre imagens e instrução ou informação expressa. as distintas visões de um mesmo fato e. conduz o viajante por um roteiro que. da falta de entendimento das possibilidades para medir as habilidades propostas. mas compreendendo como pode estar estruturada no texto: suas partes. Enem 2010 1ª aplicação Enem 2010 2ª aplicação Enem 2011 Questão 93 – De acordo com as informaçõe