ATAS

Organizadores Adrián Pablo Fanjul Ivan Rodrigues Martin Margareth Santos

VII Congresso Brasileiro de Hispanistas
Comitê Organizador
Coordenação Adrián Pablo Fanjul (ABH-USP) Carlos Bonfim (UFBA) Fernanda Castelano Rodrigues (ABH-UFSCar) Marcia Paraquett (UFBA) Antonio Marcos Pereira (UFBA) Claudia Blaszkowski de Jacobi Edleise Mendes (UFBA) Hernán Yerro (UFBA) Ivan Rodrigues Martin (ABH-UNIFESP) Juan Facundo Sarmiento (UFBA) Julia Morena Silva da Costa (UFBA) Luciana Mariano (UNEB – Campus V) Mailson dos Santos Lopes (UFBA) Margareth Santos (ABH-USP) Patrício Barreiros (UEFS / UNEB – Campus I) Rosa Yokota (ABH-UFSCar) Xoán Carlos Lagares Diez (ABH-UFF)

Comitê Científico
Alai Garcia Diniz (UFSC) Alfredo Cordiviola (UFPE) Ana Cecilia Olmos (USP) Antônio Esteves (UNESP – Assis) Del Carmen Daher (UFF) Ester Abreu Vieira de Oliveira (UFES) Graciela Ravetti (UFMG) Heloísa Pezza Cintrão (USP) Isabel Gretel Eres Fernandes (USP) Livia Reis (UFF) Luizette Guimarães de Barros (UFSC) Magnolia Brasil Barbosa do Nascimento (UFF) Maria Augusta Vieira (USP) María Aurora Consuelo Alfaro Lagorio (UFRJ) Maria Eugênia Olimpio (UFBA) María Teresa Celada (USP) María Zulma M. Kulikowski (USP) Mario González (USP) Miriam Gárate (UNICAMP) Neide T. Maia González (USP) Silvana Serrani (UNICAMP) Silvia Cárcamo (UFRJ) Vera Lucia de Albuquerque Sant’Anna (UERJ)

Apoio

ATAS
do VII Congresso Brasileiro de Hispanistas
Organizadores Adrián Pablo Fanjul Ivan Rodrigues Martin Margareth Santos

São Paulo, 2013

Copyright © 2013 dos autores

Catalogação na Publicação (CIP) Serviço de Biblioteca e Documentação Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo

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Congresso Brasileiro de Hispanistas (7. : 2012 : Salvador, BA). Atas do VII Congresso Brasileiro de Hispanistas [Salvador, BA, 3 a 6 de setembro de 2012] [recurso eletrônico] /organizadores: Adrián Pablo Fanjul, Ivan Rodrigues Martin, Margareth Santos. – São Paulo : ABH, 2013. 18.291 Kb ISBN 978-85-66188-01-1 1. Literatura hispano-americana (História e crítica). 2. Literatura espanhola. 3. Língua espanhola (Estudo e ensino). I. Fanjul, Adrián Pablo. II. Martin, Ivan Rodrigues. III. Santos, Margareth. IV. Associação Brasileira de Hispanistas. V. Título. CDD 868.909

SUMÁRIO

Erotismo y picardía en Vida y costumbres de la Madre Andrea(c. 1650) A. Robert Lauer ............................................................................................................................................................ 17 Topografías del artista y desestabilización enunciativa en el rock de Argentina ............................................................. Adrián Pablo Fanjul .................................................................................................................................................... 23 Memórias da Guerra Civil Espanhola na ficção: leituras de ¿Qué me quieres, amor?, de Manuel Rivas e La lengua de las mariposas, de José Luis Cuerda Adriana Aparecida de Figueiredo Fiuza ...................................................................................................................... 31 A variação na realização do objeto pronominal acusativo no espanhol: um estudo inicial Adriana Martins Simões .............................................................................................................................................. 36 El pensamiento neomoderno en las columnas de Rosa Montero y Rosa Regás Adriana Virginia Bonatto ............................................................................................................................................ 45 Formas de enunciar la violencia en la obra de Doris Salcedo Alexander Castillo Morales – Instituto Caro y Cuervo ............................................................................................... 38 Relación autor-personaje en La última escala del Tramp Steamer de Álvaro Mutis Aleyda Gutiérrez Mavesoy ........................................................................................................................................... 59 Ensino de e/le e inclusão: reflexões sobre formação e trabalho docente Alice Moraes Rego de Souza (PG-UERJ) ..................................................................................................................... 66 Diálogos de Historia Natural: o homem prototípico e o homem em construção Amanda Brandão Araújo ............................................................................................................................................ 73 A hispanidade disposta em paralelo: vozes literárias contemporâneas dos povos originários das américas Amarino Oliveira de Queiroz ...................................................................................................................................... 80 África, Ásia e Oceania: fronteiras fluidas do hispanismo Amarino Oliveira de Queiroz ...................................................................................................................................... 85 Natalia, Julia, Mercedes y Elvira – Retrato de la mujer española en la posguerra Ana Carolina da Silva Pinto ........................................................................................................................................ 91 O “ensaio criativo” de Julio Cortázar Ana Carolina Macena Francini ................................................................................................................................... 98 Discurso autobiográfico e a busca identitária em Mi nombre es Victoria de Victoria Donda Ana Cristina dos Santos ............................................................................................................................................. 104

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O currículo das Universidades Públicas do Estado do Rio de Janeiro e a formação de professores em língua estrangeira: uma reflexão crítica Ana Maria Mendes Larghi ....................................................................................................................................... 111 Las ratas de Miguel Delibes e a denúncia da crise camponesa em Castela nos anos 1950-1960 Ana Paula de Souza ................................................................................................................................................... 118 Quando o metatexto de Tomás Eloy Martìnez autentica as vidas de Perón André Luis Mitidieri .................................................................................................................................................. 124 Calle Mayor e Señorita de Trevélez sob a ditadura franquista Angela dos Santos ...................................................................................................................................................... 131 Distribuição da perífrase “ter” + particípio no espanhol do México Anne Katheryne Estebe Maggessy .............................................................................................................................. 136 Literatura e Espanhol/LE: a questão da comunidade Antonio Andrade ........................................................................................................................................................ 142 A formação de professores de espanhol no Instituto Federal de Roraima: reflexões sobre a prática docente Antonio Ferreira da Silva Júnior ............................................................................................................................... 149 Polifuncionalidad de los marcadores del discurso y enseñanza del ELE Antonio Messias Nogueira da Silva ........................................................................................................................... 156 En busca del Paraíso: la representación de los germánicos en la obra de María Rosa Lojo Antonio R. Esteves ...................................................................................................................................................... 163 Rompendo fronteiras da cidade e da nação: representações de sujeitos que se moven entre as “islas urbanas” de Sergio Olguín e Cristian Alarcón Ary Pimentel .............................................................................................................................................................. 169 As traduções de quadrinhos sob um olhar discursivo Bárbara Zocal da Silva .............................................................................................................................................. 176 Discursos oficiales del 12 de octubre: un día conmemorativo peculiar Beatriz Adriana Komavli de Sánchez ........................................................................................................................ 183 Subordinadas temporais e finais em português e espanhol: questões de contraste e efeitos para a tradução Bruna Macedo de Oliveira ......................................................................................................................................... 190 O tema transversal da Pluralidade Cultural e sua reconfiguração nos LDs de língua espanhola Bruna Maria Silva Silvério ........................................................................................................................................ 198 O policialesco na figura de Amalfitano Bruna Tella Guerra .................................................................................................................................................... 204 ¿Bacrim o paramilitarismo? Análisis de la concepción de paramilitarismo en Colombia en el período 2002-2006 a través de la prensa escrita Camilo Ramírez Rodríguez e Adriana Yamile Suárez Reina .................................................................................... 209

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Inicios de la santidad medieval en lengua castellana: traducción y protagonismo femenino en La Vida de Santa María Egipciaca Carina Zubillaga ....................................................................................................................................................... 215 Chungui: violencia y trazos de memoria, (2009), de Edilberto Jiménez: desenhando a memória coletiva Carla Dameane P. de Souza ...................................................................................................................................... 221 O preenchimento da posição pré-verbal por complementos verbais e a noção de operador na história do espanhol Carlos Felipe Pinto ..................................................................................................................................................... 230 Invasiones del tiempo en el espacio de la casa Carlos Garcia Rizzon ................................................................................................................................................. 239 Pedidos de informação e pedidos de ação em português e em espanhol: um estudo entonacional de produção e percepção Carolina Gomes da Silva, Maristela da Silva Pinto e Priscila Cristina Ferreira de Sá ............................................ 246 De Dulcinéia a Heliana: perspectivismo e metaficção Célia Navarro Flores .................................................................................................................................................. 252 Sierva María de Todos los Ángeles e Maria Mandinga Cinthia Belonia .......................................................................................................................................................... 257 Espacios, mitos y claves del imaginario andaluz en la poesía de Federico García Lorca. Clara Pajares Gil ........................................................................................................................................................ 263 Poesia e ficção na obra de Roberto Bolaño: interseções Clarisse Lyra Simões .................................................................................................................................................. 268 Representaçãoes da mulher e vozes femininas no contexto iberoamericano Cláudia Luna ............................................................................................................................................................. 273 A destreza oral e sua importancia para a formação dos falantes de espanhol como língua estrangeira Cristina do Sacramento Cardôso de Freitas .............................................................................................................. 278 A leitura de professores de espanhol, formadores de leitores, mediada por computador Cristina Vergnano-Junger .......................................................................................................................................... 286 História, memória e ficção em Yo el Supremo e em Hijo de Hombre de Roa Bastos Damaris Pereira Santana Lima ................................................................................................................................. 293 O tratamento dos conectores nas coleções de língua espanhola aprovadas no PNLD-2012: uma questão textual ou discursiva? Daniel Mazzaro Vilar de Almeida ............................................................................................................................. 300 Diccionario Panhispánico de Dudas: dúvidas, definições e comentários Daniela Ioná Brianezi ............................................................................................................................................... 307 Textos e testes: como se configuram as provas de língua espanhola no Enem? Daniela Sayuri Kawamoto Kanashiro e I. Gretel M. Eres Fernández ....................................................................... 312

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A necessidade de narrar vivênciada pelos personagens do romance La hora violeta de Montserrat Roig Daniele Cristina da Silva ........................................................................................................................................... 320 La re-invención de América en la poesía y las artes del siglo XX Diana Araujo Pereira ................................................................................................................................................. 327 O trabalho com o plano inferencial de leitura em livros didáticos de Espanhol-LE22 Diego da Silva Vargas ................................................................................................................................................ 335 História, memória e ficção em Juan Gabriel Vásquez Diogo de Hollanda Cavalcanti .................................................................................................................................. 342 Juan José Saer: realidade, representação e ficção na perspectiva de gênero Eduardo Fava Rubio .................................................................................................................................................. 348 O ver-se nas páginas do papel: um estudo da representação feminina nas novelas cervantinas Edwirgens A. Ribeiro Lopes de Almeida .................................................................................................................... 353 Literaturas hispânicas no Oriente? A dupla identidade cultural e linguística em Margalit Matitiahu, de Israel Eidson Miguel da Silva Marcos ................................................................................................................................. 359 Heterotopias de función compensatoria en la escritura hispano-canadiense contemporánea Elena Palmero González ............................................................................................................................................ 364 O discurso de Fama em El cerco de Numancia, de Cervantes, e nas adaptações de Rafael Alberti Eleni Nogueira dos Santos ......................................................................................................................................... 371 Dialogo con la novela El Baile de la Victoria de Skármeta Esther Myriam Rojas Osorio. .................................................................................................................................... 376 Un extranjero en el poema: notas sobre la poesía de Fabio Morábito Fabiola Fernández Adechedera .................................................................................................................................. 380 Santiago Sierra: performer?* Fabíola Silva Tasca ..................................................................................................................................................... 386 Traduzindo e reconstruindo uma representação.Reflexões teórico-metodológicas em torno à implantação de um (novo) curso de E/LE Fátima Aparecida Teves Cabral Bruno ..................................................................................................................... 392 Sintagmas nominais complexos nos gêneros jornalísticos: Uma abordagem comparada entre artigos de opinião e notícias Felipe Diogo de Oliveira ............................................................................................................................................ 398 La literatura argentina revisitada: el mito de La Cautiva en un cuento de María Rosa Lojo Fernanda Ap. Ribeiro ................................................................................................................................................. 404 “La casita de los viejos”, de Maurício Kartun: tempo do sujeito, tempo da história Flávia Almeida Vieira Resende .................................................................................................................................. 408

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As escritoras na literatura afro-colombiana Francineide Palmeira ................................................................................................................................................. 412 O legado de Mercedes Sosa: a arte como instrumento de luta pela cidadania Franklin Larrubia Valverde ....................................................................................................................................... 418 Néstor Perlongher e Haroldo de Campos – um diálogo antropofágico Gabriela Beatriz Moura Ferro Bandeira de Souza ................................................................................................... 423 Reforma e a compreensão de sentidos de Licenciatura: questão filosófica ou de carga horária? Giselle da Motta Gil ................................................................................................................................................... 430 Corpo e espaço: reescritas da história em Finisterre, de María Rosa Lojo e Desmundo, de Ana Miranda Gracielle Marques ...................................................................................................................................................... 437 Rodolfo Walsh. ‘Exotización’ y conflicto en sus ‘escritos cubanos’ Gustavo Walter Spandau ........................................................................................................................................... 444 A que não soube vingar-se: em torno de “A meu amigo, que eu sempr’ amei” (B846, V432), de Johan Garcia Henrique Marques Samyn ......................................................................................................................................... 448 El uso de los modos indicativo/subjuntivo con tres verbos del español: “creer, pensar y saber” Iandra Maria Weirich da Silva Coelho ..................................................................................................................... 453 O diário de Ana Ozores: a escrita como expressão da subjetividade feminina em La Regenta Isabela Roque Loureiro .............................................................................................................................................. 460 Un niño grande: a ficcionalização de Jorge Luis Borges em Las libres del Sur Isis Milreu .................................................................................................................................................................. 466 Angústia e distopia: a Guerra Civil Espanhola em Saga, de Érico Veríssimo Ivan Rodrigues Martin .............................................................................................................................................. 471 Los marcadores discusivos en español a partir de la Lingüística de la Enunciación: una perspectiva en los estudios de E.L.E. Ivani Cristina Silva Fernandes .................................................................................................................................. 477 Observações sobre a relação cortesania/rusticidade na cena ibérica Jamyle Rocha Ferreira Souza ..................................................................................................................................... 484 La Colmena, de Camilo José Cela: conceitos de grotesco Jany Alfaia .................................................................................................................................................................. 488 A loucura como estrutura narrativa: de Miguel de Cervantes a Machado de Assis Jean Pierre Chauvin ................................................................................................................................................... 494 Religión y alegoría en las narraciones intercaladas del Quijote de Avellaneda John Lionel O´Kuinghttons Rodríguez ...................................................................................................................... 500 A ficção argentina traduz a Guerra das Malvinas Jorge Hernán Yerro ..................................................................................................................................................... 507

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Histórias, estórias e histórias: representações ficcionais da matéria de extração histórica nas narrativas de Delibes e de Assis Brasil Jorge Paulo de Oliveira Neres ..................................................................................................................................... 517 Cuerpos indígenas em metamorfosis: Un estudio del cuerpo a parir de mitos y leyendas de indios de la Amazonía Brasileña y Boliviana y sus representaciones en la actualidad José Maria Lopes Júnior ............................................................................................................................................. 519 Quemar las naves: por uma análise do Diccionario de Americanismos da Asociación de academias de la lengua española José Mauricio da Conceição Rocha ............................................................................................................................ 526 El atajo y La trama celeste, de Bioy Casares: historias de mundos posibles José Ronaldo Batista de Luna .................................................................................................................................... 533 Aspectos urbanos y culturales en narrativas gráficas argentinas Jozefh Fernando Soares Queiroz ................................................................................................................................ 540 Livro didático de espanhol e uma aprendizagem intercultural: é possível? Joziane Ferraz de Assis ............................................................................................................................................... 548 Una identidad para los apátridas. Identidad y exilio en dos novelas históricas latinoamericanas Juan David González Betancur ................................................................................................................................. 554 El uso del cómic como instrumento para la formación intercultural del profesor de español Juan Facundo Sarmiento ........................................................................................................................................... 560 O discurso ficcional em Los ríos profundos, de José María Arguedas: as leituras críticas de Antonio Cornejo Polar e Mario Vargas Llosa Juliana Bevilacqua Maioli ......................................................................................................................................... 566 De tabúes y terrores: Costa Rica y Brasil o dos modalidades de la literatura gótico-fantástica en Latinoamérica Karen Alejandra Calvo Díaz...................................................................................................................................... 571 Falar com deus: Estrategias de legitimação da mística feminina na américa hispânica colonial Karine Rocha .............................................................................................................................................................. 578 Percorrendo a trajetória da formação inicial do professor de E/LE Kelly Cristiane Henschel Pobbe de Carvalhoe Rozana Aparecida Lopes Messias .................................................... 583 A autonomia na formação de professores-tutores de espanhol como LE Kélvya Freitas Abreu, Priscila Barros David e Raquel Santiago Freire .................................................................... 589 A caricata valentia e o enredo “casi como fue” – uma análise da releitura “Don Juan Tenorio”, de Chespirito Larissa Pujol ............................................................................................................................................................... 597 Uma análise discursiva da mulher na sociedade através das tirinhas da Mafalda Larissa Zanetti Antas ................................................................................................................................................. 600 Pedro Lemebel, recepción, lectura Laura Janina Hosiasson ............................................................................................................................................. 605

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O grotesco em Del sol naciente, de Griselda Gambaro Laureny A. Lourenço da Silva .................................................................................................................................... 610 O conceito da honra no Século de Ouro e seu uso como mola dramática em El pintor de su deshonra, de Calderón de la Barca Liège Rinaldi .............................................................................................................................................................. 617 Esta mujer es su padre: Almodóvar, desestabilizações de gênero e a aula de ELE Leandro da Silva Gomes Cristóvão ............................................................................................................................ 623 O corpo em confissão: um discurso sobre o universo feminino simbolizado na obra de arte de Frida Kahlo Leticia Gomes Montenegro ........................................................................................................................................ 628 La potencialidad de los materiales lúdicos como protocolo de observación para el reconocimiento de géneros textuales escritos en español Letícia Joaquina de Castro Rodrigues Souza e Souza Ana Célia Clementino Moura ................................................................................................................................... 634 La tarea/renuncia del traductor en José María Arguedas Ligia Karina Martins de Andrade ............................................................................................................................. 641 Exames de Proficiência em espanhol como língua estrangeira Lílian Reis dos Santos ................................................................................................................................................ 648 Identidades em diálogo: mulher, sexualidade e família no livro didático de espanhol Liliene Maria Novaes Pereira da Silva ...................................................................................................................... 653 Nação idealizada em Aves sin nido Lina Arao ................................................................................................................................................................... 660 La expresión de la contrafactualidad en español: ¿diferentes variantes, diferentes interpretaciones? Lorena Mariel Menón ................................................................................................................................................ 665 Relações entre o Magrebe e a Espanha: os dois mundos de Najat El Hachmi em El Último Patriarca Louise Áurea Oliva .................................................................................................................................................... 673 Considerações sobre a importância da carga cultural compartilhada de unidades fraseológicas no ensino/aprendizagem intercultural de espanhol como língua estrangeira Luana Ferreira Rodrigues .......................................................................................................................................... 671 A formação do professor de Espanhol da Bahia e as variantes culturais hispano-americanas Luciana Vieira Mariano ............................................................................................................................................ 683 Análise das representações sociais nos cinco livros didáticos selecionados pelo PNLD para o ensino de espanhol a brasileiros Lucielena Mendonça de Lima .................................................................................................................................... 689 Representações sociais de futuros professores de espanhol sobre o Mercosul* Lucielena Mendonça de Lima .................................................................................................................................... 695

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Um copypaste de si mesmo: Mario Bellatin Luciene Azevedo ......................................................................................................................................................... 702 Tiempo verbal y discurso indirecto: diferentes abordajes Luizete Guimarães Barros ......................................................................................................................................... 709 O uso do pronome relativo possessivo cuyo em língua espanhola: considerações descritivo-analíticas Mailson dos Santos Lopes .......................................................................................................................................... 716 A tradução da ironia na narrativa de Maria Rosa Lojo Maira Angélica Pandolfi ............................................................................................................................................ 723 Aire de las Colinas, Cartas a Clara. Cartas pessoais de Juan Rulfo Mara Gonzalez Bezerra ............................................................................................................................................. 727 María Rosa Lojo: Una escritora de los bordes Marcela Crespo Buiturón ........................................................................................................................................... 732 Versos e cores do Prado Marcelo Maciel Cerigioli ............................................................................................................................................ 736 Literatura e Direito: o entrecruzar de fronteiras em Abel Posse Márcia de Fátima Xavier........................................................................................................................................... 743 O papel da Universidade na implantação do Espanhol no Estado da Bahia Marcia Paraquett ....................................................................................................................................................... 748 La presencia del negro y sus representaciones en el teatro cubano de Gerardo Fulleda León y Eugenio Hernández Espinosa Marcos Antônio Alexandre ........................................................................................................................................ 756 A corrosão dos anos triunfais franquistas Margareth Santos ....................................................................................................................................................... 763 A escrita de si como uma tradução de si: o caso específico da pintora Frida Kahlo Maria Auxiliadora de Jesus Ferreira .......................................................................................................................... 771 El español de todo el mundo María Cecilia Manzione Patrón ................................................................................................................................ 776 Poéticas da memória nas narrativas de Alfons Cervera e Vázquez Montalbán Maria de Fátima Alves Oliveira Marcari .................................................................................................................. 783 Explicaciones de lo femenino en la narrativa de Marcela Serrano María Esther Blanco Iglesias ...................................................................................................................................... 789 Contexto de ocorrência do imperfectivo habitual no Espanhol Paraguaio Maria Mercedes Riveiro Quintans Sebold ................................................................................................................. 796 Variação sobre o mesmo tema: acerca da memória em Sangra por la herida Maria Mirtis Caser .................................................................................................................................................... 803

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Las animalias… como elementos constructores del discurso en el Libro de buen amor de Juan Ruiz, Arcipreste de Hita María Teresa Miaja de la Peña ................................................... ..............................................................................810 Avatares de la historia en Paralelos. La pintura y la poesía en Cuba (en los siglos XVIII y XIX) de José Lezama Lima Mariana Sierra Aponte .............................................................................................................................................. 817 Préstamos terminológicos para una memoria del franquismo. Los niños encontrados de la literatura: una lectura de Mala gente que camina, de Benjamín Prado Mariela Sánchez ........................................................................................................................................................ 822 La investigación académica como sustrato de la narrativa histórica de María Rosa Lojo Marina L. Guidotti .................................................................................................................................................... 829 La casa de Bernarda Alba, metáfora conventual Mario M. González .................................................................................................................................................... 836 O différend indígena na narrativa do subcomandante Marcos Mélanie Létocart Araujo ............................................................................................................................................ 841 Literatura y conflicto armado: cotejando una novela de Garro Mercedes Pessoa Cavalcanti ....................................................................................................................................... 847 La traducción cultural en la literatura latinoamericana: reflexiones a partir de la obra de Gamaliel Churata y José María Arguedas Meritxell Hernando Marsal ....................................................................................................................................... 855 La Guerra Civil Española bajo la mirada de dos escritores aragoneses en el exilio: lectura de El cura de Almuniaced, de José Ramón Arana y Réquiem por un campesino español, de Ramón J. Sender. Michele Fonseca de Arruda ........................................................................................................................................ 864 El tema que nos ocupa: oraciones relativas en español Mirta Groppi .............................................................................................................................................................. 868 Expresso, logo existo: linguagem e constituição do indivíduo nas obras Mañana en la batalla piensa en mí de Javier Marías e Budapeste de Chico Buarque Mônica Gomes da Silva ............................................................................................................................................. 875 Evidencialidad en textos periodísticos: un análisis funcionalista en español Nadja Paulino Pessoa Prata ....................................................................................................................................... 881 Voces daba el bárbaro Corsicurvo. Lenguas y mecanismos de comunicación en el Persiles Nieves Rodríguez Valle ............................................................................................................................................... 887 Cómo se cuenta o contamos nuestra historia: historiografía literaria latinoamericana y enseñanza de la literatura Pablo Gasparini ......................................................................................................................................................... 896

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La luz de Cristina Bajo que ha tocado la historia y la memoria cordobesa. Una lectura desde la obra Como vivido cien veces (1995) Phelipe de Lima Cerdeira .......................................................................................................................................... 903 A trajetória dos manuais do professor de ELE no Brasil Raabe Oliveira ........................................................................................................................................................... 910 Manuel Rivas y Miguel Hernández: poesía hacia el porvenir Rachel Coelho Coimbra ............................................................................................................................................. 917 O horizonte filosófico do espaço de La Grande de Juan José Saer Raquel Alves Mota ..................................................................................................................................................... 923 De la prensa periódica a la novela. Cara y ceca o del otro lado del espejo: Manuel Vicent y Benjamín Prado (Aguirre el magnífico y Mala gente que camina) Raquel Macciuci ........................................................................................................................................................ 930 A ficcionalização da teoria, da crítica e do processo de criação literárias em La saga\fuga de J.B, de Gonzalo Torrente Ballester Regina Kohlrausch ..................................................................................................................................................... 937 Ricardo Palma e Las tradiciones peruanas: literatura e formação dos imaginários Regina Simon da Silva ............................................................................................................................................... 944 O aguirre posseano: tirano ou libertador? Regina Simon da Silva ............................................................................................................................................... 953 Provocações de um direito latino-americano que inclua os povos vencidos: notas a partir da Antropofagia de Oswald de Andrade e o surrealismo jurídico de Warat Ricardo Baitz .............................................................................................................................................................. 960 Educación-m no ensino de E/LE: análise de curso via SMS Rita de Cássia Rodrigues Oliveira ............................................................................................................................. 967 Poesía en Voz Alta y la escena cultural mexicana: la experiencia dramática de Octavio Paz Robson Batista dos Santos Hasmann ........................................................................................................................ 975 Cortés, Guatemotzin e Atzimba: da Conquista à ópera nacional mexicana! Robson Leitão ............................................................................................................................................................. 980 Desencuentros con Guimarães Rosa: la polémica de Vargas Llosa y Crespo por la traducción de Gran Sertón: Veredas Rodrigo Labriola ........................................................................................................................................................ 987 El ensayo: prolegómenos para una nueva historiografía ensayística iberoamericana Rodrigo Vasconcelos Machado ................................................................................................................................... 994 Tradução de La ciudad y los perros: análise da domesticação dos termos militares Roosevelt Ferreira ..................................................................................................................................................... 1000

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O que dizem os (ex) estudantes de um curso de licenciatura em letras-espanhol? Rosa Yokota .............................................................................................................................................................. 1009 O pronome tônico na produção não nativa de brasileiros falando espanhol e de argentinos falando português Rosa Yokota .............................................................................................................................................................. 1016 Palabra y poder en El sueño del pongo, de José María Arguedas Roseli Barros Cunha ................................................................................................................................................ 1023 Linguística Aplicada: estudos interdisciplinares e multiculturais na formação docente Rosineide Guilherme da Silva .................................................................................................................................. 1029 Sobre Ernesto Sábato, el surrealismo y la entrevista a un desconocido muchacho Ruben Daniel Méndez Castiglioni........................................................................................................................... 1035 José de Anchieta: o Barroco na poesia española Samuel Anderson de Oliveira Lima ......................................................................................................................... 1040 Contribuições de Jorge Amado para a Literatura Hispânica no Brasil Sandra Mara Mendes da Silva Bassani ................................................................................................................... 1047 El cine brasileño y España: El caso de Carlota Joaquina, princesa do Brasil (1994) Santiago de Pablo ..................................................................................................................................................... 1053 Zonas de penumbra e vacíos: ficção e História em Manuel Rivas Sebastião Ferreira Leste ........................................................................................................................................... 1060 Conhecendo Urganda Silvia Cobelo e Giselle Cristina Gonçalves Migliari ................................................................................................ 1067 Para enegrecer os modos de saber: histórias da NegrAmérica contadas na literatura de afrolatinos(as) Simone de Jesus Santos ............................................................................................................................................ 1074 Mania de escrever poesia: a prosa poética nas cartas de Emilio Prados Solange Munhoz ...................................................................................................................................................... 1080 La corrección del error y el feedback en la clase de lengua extranjera. Un análisis desde las teorías de la afectividad Stella Maris Baygorria ............................................................................................................................................. 1086 A escolha de retórica em Andrés Bello (1847) Stela Maris Detregiacchi Gabriel Danna ................................................................................................................ 1092 A palavra em O Livro das mil e uma noites e em O lapis do carpinteiro, de Manuel Rivas Susana Álvarez Martínez ......................................................................................................................................... 1098 Tradição e memória: um diálogo possível entre contos de Borges e Cem anos de solidão Suziane Carla Fonseca ............................................................................................................................................. 1105

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(Re)Construção de Chico Buarque: analisando a tradução do português para o espanhol em canções de protesto Thais Marçal Passos Sarmento ................................................................................................................................ 1113 Educação intercultural e ensino de e/le Thaísa Alves Brandão .............................................................................................................................................. 1020 Quando as luzes se acendem: a cumbia sob os holofotes, em Noites vazias, de Washington Cucurto Thiago José Moraes Carvalhal ................................................................................................................................. 1124 A transitividade em narrativas escritas por alunos brasileiros aprendizes de espanhol Valdecy de Oliveira Pontes ....................................................................................................................................... 1131 O gênero textual digital blog: o diário virtual eletrônico na aquisição de e/le Valéria Jane Siqueira Loureiro................................................................................................................................. 1137 Os trabalhadores e o impasse do Mercosul social. Valter de Almeida Freitas ......................................................................................................................................... 1144 La dificultad del uso de la preposición en las oraciones relativas de E/LE Vanessa Nogueira ..................................................................................................................................................... 1149 “Das Unheimliche”, de Freud e Así que pasen cinco años, Leyenda del tiempo en tres actos y cinco cuadros, de Lorca Virginia de Sousa Bonfim ........................................................................................................................................ 1156 “La rosa de piedra”: el cuento de nunca acabar Virginia Videira Casco ............................................................................................................................................. 1162 Casos de reinterpretação dativa na área geoletal mexicana Viviane Conceição Antunes Lima ............................................................................................................................ 1168 La traducción como práctica social en el curso de Secretariado Ejecutivo Viviane Cristina Poletto Lugli ................................................................................................................................. 1174 Leitura na Internet: a leitura literária no espaço virtual Viviane da Silva Santos ........................................................................................................................................... 1181 El Brasil Intelectual, de García Mérou, una mirada argentina sobre la formación de la literatura brasileña Weslei R. Cândido .................................................................................................................................................... 1187 Sobre a escritura pictural de Alejandro Xul Solar Yara Augusto ............................................................................................................................................................ 1192

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EROTISMO Y PICARDÍA EN VIDA Y COSTUMBRES DE LA MADRE ANDREA (C. 1650)

Dedicado a Mario M. González
A. Robert Lauer The University of Oklahoma

Vida y costumbres de la Madre Andrea (c. 1650), obra desconocida hasta 1958, cuando el hispanista neerlandés Jonas Andries van Praag publicara el manuscrito que había encontrado en la casa Beijers de Utrecht en 1950 (PRAAG, 1958, p.111), ha sido clasificada, desde entonces, como una novela picaresca anónima. Así la designa Enriqueta Zafra en sus dos recientes libros (ZAFRA, 2009, p.136 y ZAFRA, 2011, p.1), así como Howard Mancing en un importante ensayo (MANCING, 1996, p.288). Si así fuera, Madre Andrea sería entonces la última novela europea escrita en español que versa sobre una pícara, de la misma forma que La lozana andaluza (1528), de Francisco Delicado, constituiría la primera narrativa de este género. Dentro de este marco (15281650) tendríamos otras obras como el Libro de entretenimiento de la pícara Justina (1605) de Francisco López de Úbeda, La hija de Celestina (1612) de Alonso Jerónimo de Salas Barbadillo, La niña de los embustes, Teresa de Manzanares (1632) y La garduña de Sevilla y anzuelo de bolsas (1642) de Alonso de Castillo Solórzano y, acaso, «El castigo de la miseria» (Novelas amorosas y ejemplares, 1637) de María de Zayas y Sotomayor. Se excluyen

antecedentes como la Celestina de Fernando de Rojas, así como obras posteriores a 1650 escritas en otras lenguas como Die Lebensbeschreibung der Erzbetrügerin und Landstörzerin Courasche (La pícara Coraje ) (1669) de Hans Jakob Christoph von Grimmelshausen o The Fortunes and Misfortunes of the Famous Moll Flanders (1722) de Daniel Defoe. Poco sabemos de Vida y costumbres de la Madre Andrea. Se piensa que el autor sería un judío converso de origen portugués establecido en Amsterdam (ZAFRA, 2011, p.15). El hecho de que escribiera la obra en español no sería extraño, ya que los judíos conversos portugueses, amén de otros, solían escribir literatura en español durante la Monarquía Dual (1580-1640). De hecho, el autor usa varias palabras de origen portugués como velhaco (bellaco), ajudé (del port. ajudar > ayudar), remasgando (del port. resmungar > quejarse, refunfuñar), holla abafada (cubierta), pedintón (del port. pedinte > pordiosero), copo (vaso), baxuras (esp. bajezas, del port. baixar > bajar), mágoas (tristezas), papar (conseguir, follar). A la vez, van Praag indica que la obra contiene algunos galicismos (PRAAG,

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1958, p.119), lo que haría pensar que nuestro autor habría sido acaso un converso sefardita que hubiera pasado por algunos de los centros franceses de judíos portugueses como Ruán, Bayona o Burdeos antes de emigrar a Amsterdam. Otrosí, resalta en la obra el hecho de que el autor tenga altos conocimientos de matemáticas y de que sus alusiones bíblicas sean al Antiguo Testamento (PRAAG, 1958, p.126). El manuscrito de nuestra obra contiene 146 páginas y mide 17 x 11 cm., encuadernado en pergamino. A la par, en la guarda del libro se menciona en francés el hecho de que la obra es un «Manuscrit espagnol, en prose et en vers, du 17e siècle?» (PRAAG, 1958, p.111). Van Praag anota el hecho de que la última página contiene una filigrana que presenta unas armas entre dos grifos, la cual indica una procedencia italiana (genovesa). No obstante, este tipo de filigrana se usó en Provenza, España y Portugal en los siglos XVII y XVIII (PRAAG, 1958, p.111-112). En ausencia de un facsímile, el cual nos daría información sobre la caligrafía, nos ajustamos a la posible fecha de redacción de 1650, sugerida por el crítico neerlandés (PRAAG, 1958, p.113), aunque es de suponer, como este estudioso indica, que el único manuscrito de esta obra fuera una «copia dieciochesca de otro anterior» (PRAAG, 1958, p.112). La narrativa de Madre Andrea mantiene una organización esencialmente cronológica (ab ovo) que empieza con el nacimiento del personaje homónimo y termina en un punto indeterminado de su madurez. De esta forma sigue inicialmente la estructura básica de todas las novelas picarescas, con excepción de La hija de Celestina, que comienza in medias res. A la vez, Madre Andrea usa una retrospección temporal para informarnos de sus antecedentes, los cuales siempre son determinantes en la narración picaresca. Andrea fue hija de una prostituta y un padre de mancebía, o sea, un dueño de un burdel. Asimismo, por haber tenido su madre múltiples amantes, cada

cliente defiende que Andrea tiene algo suyo. Su herencia biológica y moral, por lo tanto, determina su vida ulterior. Después de este punto inicial, la narrativa hace un salto temporal indeterminado en el cual la protagonista ha dejado en parte su vida prostibularia para fungir el cargo administrativo de madre de mancebía: «después de la pasión me valí de la agencia» (ZAFRA, 2011, p.36). En este oficio tuvo gran éxito y ganó buen dinero: «Era tanta la miel que no me dejaban dormir las moscas» (ZAFRA, 2011, p.36). A diferencia de otras obras picarescas como, v. gr., Lazarillo de Tormes, Andrea, desde el principio de su relato, ha llegado a su «prosperidad y […] cumbre de toda buena fortuna» (CARRASCO, 1997, p.88). Lo que sigue será una serie de encuentros entre clientes, trabajadores sexuales y la Madre Andrea. Los relatos prostibularios se dan, primero, en series de parejas sencillas, v. gr., un joven y una prostituta; después, en tríadas; finalmente, en series de parejas gemelas o cuaternarias. Esta sección es en efecto pornográfica, en su sentido etimológico, y de carácter, primero, erótico, en sus relaciones ordinarias; después, exótico, en sus relaciones singulares1. Enriqueta Zafra nos recuerda que antes de que se clausuraran los burdeles de España en 1623 (ZAFRA, 2011, p.5), los prostíbulos servían ciertas funciones públicas, tanto para mujeres como para hombres. Para las primeras, la casa de lenocinio proporcionaba un modo de vida para féminas pobres y solteras que hubieran perdido la virginidad y que no tuvieran familiares en la ciudad donde trabajaran. El administrador de un burdel, el así llamado padre de mancebía, proporcionaba por una cifra fija, comida, alojamiento, ropa, sábanas y velas (ZAFRA, 2011, p.8). A la vez, las prostitutas eran examinadas por un médico y, en caso de que adolecieran de un mal venéreo, eran consignadas a un hospital. Si se arrepentían y decidían cambiar de vida, todas sus deudas se cancelaban. En cuanto a los segundos, se

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suponía que los clientes fueran hombres solteros que por falta de dinero o trabajo no podrían casarse. El burdel, a diferencia de la prostitución clandestina, protegía, por lo tanto, a las trabajadoras, a sus clientes y a la comunidad de mujeres honorables y acomodadas, las cuales se reservaban para uniones matrimoniales (laicas o eclesiásticas). Esta forma social de «contener el deseo» en ámbitos destinados para su ejercicio se limitaba legalmente a la fornicación simple entre un hombre y una mujer solteros, solutus cum soluta, y evitaba tanto el incesto como la penetración no natural (ZAFRA, 2011, p.8). Sin embargo, el deseo en Vida y costumbres de la Madre Andrea no puede ser contenido o limitado socialmente. En efecto, cada incidente prostibulario prueba precisamente lo contrario de lo que se supondría que ocurriera en un burdel antes de su clausura en 1623. El primero, por ejemplo, muestra a un joven de familia adinerada que roba dinero de su padre para deleitarse en los brazos de la joven y bella ramera Philipa. El segundo expone a un fraile impetuoso que estupra simultánea y encarnizadamente a tres mujeres: la Madre Andrea; una criada que, asustada, grita «Aquí del Rey» (ZAFRA, 2011, p.84); y, finalmente a una pobre y deslucida ramera destinada para su remate. El tercero revela a un letrado y un médico que primero dialogan extensa y cínicamente sobre sus profesiones y después se valen de una pareja de jóvenes de diferente sexo, «dos piezas de serafinas y serafines», para actos descomunales: «vengan orinales no diáfanos sino maduros y encarnados» (ZAFRA, 2011, p.132). Como vemos, todos estos usuarios no son personas indigentes sino pudientes y, en el caso del fraile, desposados con la Iglesia. El hecho de que se use a jóvenes de ambos sexos para actos singulares también indica la práctica de un tipo de sexualidad prohibida o «no natural», precisamente lo que un burdel trataba de evitar. El prostíbulo de la Madre Andrea, por tanto, no circunscribe sino que provoca un exceso o

elemento sobrante (super plus): no limita sino que provoca el deseo: y todo por un apreciable precio: «Allá se las hubieron y a mí […] me pagaron altamente» (ZAFRA, 2011, p.132)2. Lo antedicho constituiría el elemento erótico y picaresco 3 de Vida y costumbres de la Madrea Andrea. Toda novela picaresca se vale de episodios y peripecias que, al llegar a un punto culminante, provocan un cambio o paro permanente en la vida, el carácter o el movimiento del personaje principal. La obra, aunque indique la posibilidad de una subsiguiente parte, en efecto termina en ese momento4. A veces el cambio es súbito, como en La lozana andaluza, cuyo personaje principal renueva repentinamente su vida después de soñar que Plutón y Marte asolan Sierra Morena: «pues he visto mi ventura y desgracia, […] haré como hace la Paz, que huye a las islas, […] Estarme he reposada, y veré mundo nuevo, y no esperar que él me deje a mí, sino yo a él» (DELICADO, 1972, p.245). En otras ocasiones el cambio se intuye: Elena, de la Hija de Celestina , antes de ser agarrotada y encubada, «causando en los pechos más duros lástima y sentimiento doloroso» (SALAS BARBADILLO, 2008, p.153), hace testamento y restituye el hurto hecho a un tal don Rodrigo de Villafañe. Finalmente el cambio se impone: La pícara Justina, a pesar de narrar una vida jocosa, aunque moralmente reprehensible, indica al final del primer tomo que su fin será paulatinamente infausto: en el «primer libro me llamo la alojada, en el segundo la viuda, en el tercero la mal casada y en el cuarto la pobre» (LÓPEZ DE ÚBEDA, 2010, p.874). Asimismo, Teresa de Manzanares, al concluir su escandalosa crónica, indica que tuvo un fin infeliz casada, por cuarta y última vez, con un mercader civil, cincuentón y miserable. La «segunda parte» de su vida se llamaría, pues, « La congregación de la miseria » (CASTILLO SOLÓRZANO, 2005, p.283).

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La Madre Andrea es semejante a las susodichas obras, aunque con algunas diferencias. Si bien hay un cambio o peripecia decisiva, la narrativa se vale a lo largo de su extensión de fisuras que en efecto alteran el discurso salaz dominante. Estas fisuras generalmente se manifiestan como elocuciones vocativas dirigidas al lector que en efecto interrumpen y suplantan el discurso previo. En términos arquitectónicos, las fisuras representarían atalayas colocadas en encrucijadas, las cuales advierten al lector de cómo debiera captar el relato. Tienen, por lo tanto, una función adverbial. La palabra «lector» aparece cuatro veces en el texto. La primera vez se menciona en forma neutral al inicio de la obra para advertir al leedor que no tome «el fin de la palabra», o sea, los «salados casos, ridículos sucesos, pasatiempos deleitables y dichos de discreción y agudeza», sino que discierna en el modo de leer: «antes saca desta obra la cándida flor de la harina con que hagas pan de los santos» (ZAFRA, 2011, p.38). La segunda vez invoca al «lector lascivo o continente» (ZAFRA, 2011, p.100), precisamente después de fuertes descripciones exóticas que acaso provocarían placer en el primero y desazón en el segundo. Las dos últimas invocaciones a un «tú» se hacen hacia el final y van dirigidas al «lector pío» y al «lector benévolo». En ambos casos, las descripciones eróticas han concluido y la Madre Andrea, después de haber narrado congeries de desorden y escándalo, declara que «me metí a devota» (ZAFRA, 2011, p.144). Su última advertencia es que uno debe apartarse de ruines compañías, juegos y negocios que provocan la deshonestidad: «Huye pues del demonio y sus tentaciones, y sigue el bien y la santa y verdadera doctrina […], porque sólo de este modo puedes estar, vivir y morir cierto y tendrás en este mundo paz y después gloria» (ZAFRA, 2011, p.146). Se remata esta obra con una décima penitencial y ocho redondillas donde el autor pide clemencia divina. Vida y costumbres de la Madre Andrea es por lo tanto una obra picaresca con rasgos pornográficos y un auténtico fin moral. En efecto, todas las obras

picarescas tienen aspectos pornográficos, aunque generalmente de tipo erótico. Piénsese en la pícara Justina, que siempre está en peligro de perder la flor; o en Teresa de Manzanares o Elena, la hija de Celestina, quienes expresan cándidamente sus deseos sexuales y mantienen ocasionalmente relaciones adúlteras. Aldonza, la lozana andaluza, es, por supuesto, una cornucopia (pornucopia) de sexualidad ilimitada. Las relaciones triangulares, evidentemente, son comunes en toda narrativa picaresca, como se ve en los padres de Guzmán de Alfarache o en la relación entre el arcipreste de San Salvador, Lázaro de Tormes y la criada-esposa de ambos. Los elementos exóticos también se intuyen, como se observa en el padre afeminado de Guzmán de Alfarache, cuyos afeites inducen al narrador a declarar que «son actos de afeminados maricas, [que] dan ocasión para que dellos murmuren y se sospeche toda vileza, viéndolos embarrados y compuestos con las cosas sólo a mujeres permitidas» (ALEMÁN, 1984, vol. 1, p.118). Recuérdese asimismo la posible inversión del hiperactivo fraile de la Merced del tratado cuarto de Lazarillo de Tormes. Sin embargo, a diferencia de estas obras, Madre Andrea minimiza lo erótico y enfatiza lo exótico y escatológico. El lector de estas narrativas acaso sonriera ante los leves embustes de Justina o Teresa de Manzanares, pero probablemente se turbara ante las alusiones de sodomía, felación, urolagnia y coprofilia de la Madre Andrea y sus clientes. Lo exótico en esta obra se usa no para despertar el interés sino para provocar el desasosiego en el lector. No atrae; repele. En este sentido, se asemeja al Guzmán de Alfarache, aunque también, acaso, a Los 120 días de Sodoma del Marqués de Sade. No obstante, a diferencia de estas dos últimas obras, la intención moral se explica clara y largamente al final de Vida y costumbres de la Madre Andrea. A la vez, este propósito se expone en las fisuras del texto a lo largo de la obra. De esta forma, lo moral irrumpe en los momentos culminantes ímprobos, precisamente para desplazar lo concupiscente y

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desviarlo hacia la probidad: «Deja pues mujercillas, porque quitan el sueño, estragan la salud, deslustran la honra, consumen la hacienda, y muchas veces hacen perder las vidas; sé casto» (ZAFRA, 2011, p.144). Por ende, si las narrativas picarescas tienden hacia una finalidad moral, Madre Andrea mantiene esmeradamente esta función. En esto difiere del final irónico de Lazarillo de Tormes o del desenlace ambiguo de Guzmán de Alfarache: «Aquí di punto y fin a estas desgracias. Rematé la cuenta con mi mala vida. La que después gasté, todo el restante della verás en la tercera y última parte» (ALEMÁN, 1984, vol. 2, p.480). No obstante, se ajusta estructuralmente a éstas, y otras, en, v. gr., las extensas digresiones morales de Guzmán de Alfarache; las descripciones aciagas de la Roma puttana de La lozana andaluza; los aprovechamientos finales del narrador subalterno de La pícara Justina ; la narrativa «objetiva» del narrador de La hija de Celestina; los rótulos, escritos en tercera persona, de los capítulos de La niña de los embustes, Teresa de Manzanares; el prefacio del autor de Moll Flanders, el cual corrobora, antes de iniciar la narrativa principal, el arrepentimiento ulterior de la protagonista homónima y su cónyuge: «we resolve to spend the remainder of our years in sincere penitence for the wicked lives we have lived» (DEFOE, 2005, p.308); y la nota final del autor de la pícara Coraje, donde advierte a los jóvenes sobre los peligros de una vida pecaminosa y un arrepentimiento tardío (GRIMMELSHAUSEN, 2001, p.175). En concreto, Vida y costumbres de la Madre Andrea reúne a la vez lo más pecaminoso y moral de la novela picaresca escrita en español. En efecto, el tema de la pícara española, iniciado en Italia con La lozana andaluza, culmina en Holanda con la Madre Andrea . Sus descendientes literarias se extenderán después por el Reino Unido y América (Moll Flanders) y el Sacro Imperio Romano Germánico (la pícara Coraje). Sus aventuras, sin embargo, requerirían un subsiguiente estudio. Muchas gracias.

Referencias bibliográficas
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ZAFRA, Enriqueta (2009): Prostituidas por el texto: discurso prostibulario en la picaresca femenina . West Lafayette: Purdue University Press. ________, ed. (2011): The Life and Times of Mother Andrea / Vida y costumbres de la Madre Andrea. Traducción al inglés de Anne J. Cruz. Woodbridge: Tamesis.

Notas
1 Según John Anthony Cuddon, la pornografía (del griego porn– [prostituta] y graphein [escribir] > escritura de rameras) es una obra de ficción que enfatiza la actividad sexual de una forma cómica, seria, bizarra o sobrecogedora para suscitar la emoción sexual. Se subdivide en dos clases: a) erótica, la cual describe una actividad heterosexual en gran detalle; y b) exótica, que enfatiza lo perverso u anormal, incluyéndose el sadismo, el masoquismo, la pederastia y otras parafilias (CUDDON, 1993, p.729). 2 Se eliminan de este análisis los relatos no sexuales: El primero entre un poeta, un ebrio y un soldado que se emborrachan, se pelean y después abandonan el burdel sin tener comercio sexual; el segundo entre un filósofo, un matemático y un jaque que arguyen, comen y se salen del prostíbulo; y el de los tres ciegos que se emborrachan, se duermen y después simplemente se retiran de la casa de mancebía. El burdel, por tanto, sirve en estos casos no como un espacio de contención sino de desorden público. 3 El término alemán para este tipo de narrativa es Räuberroman (novela de depredadores o saqueadores). En efecto, el pícaro o la pícara es similar a un ave de rapiña. La acción principal que define a este ente es la de raptar, ya sea pan o vino en el caso de Lazarillo de Tormes, o dinero u honra en el caso de las pícaras. En la novela que nos ocupa, Andrea se jacta de haber trocado «sin violentarme» su honra por dinero: «Porque yo espontánea y liberalmente la repartía [honra], quedándome sin ella; mas no fui tan necia que no pidiese en recompensa el metal que la fortuna a tantos niega, que esa fue la lección primera con que me educó mi madre» (ZAFRA, 2011, p.34). El intercambio nunca es ecuánime, por supuesto. Al final de la novela, Andrea indica que el Hospital de Nuestra Señora del Amor de Dios (de Antón Martín) ya no tiene cupo para los enfermos que les manda la Madre. Las «picarillas [que] tan negro encarnadas […] infectaban cuántos árboles de cinselas [sic] las comunicaban» (ZAFRA, 2011, p.132) se han tenido que trasladar a Suecia y Baviera a infectar nuevos clientes. Por ende, Andrea y sus proxenetas privan, a cambio de un sucinto encuentro, no sólo de tesoro sino de salud, amén de la vida, a sus confiados e incautos clientes. 4 El hecho de que la mayoría de las novelas picarescas aludan a una subsecuente parte se debe a que el personaje al final de la obra todavía vive (salvo Elena, de La hija de Celestina, novela que requiere una narración en tercera persona). Por ende, Moll Flanders afirma lo obvio: «We cannot say, indeed, that this history is carried on quite to the end of the life of this famous Moll Flanders, for nobody can write their own life to the full end of it, unless they can write it after they are dead» (DEFOE, 2005, p.7). Considérese también la respuesta del pícaro Ginés de Pasamonte a la pregunta redundante de don Quijote sobre si el libro de su vida está acabado: «–¿Cómo puede estar acabado –respondió él–, si aún no está acabada mi vida? Lo que está escrito es desde mi nacimiento hasta el punto que esta última vez me han echado en galeras» (CERVANTES, 2004, vol. 1, p.266).

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TOPOGRAFÍAS DEL ARTISTA Y DESESTABILIZACIÓN ENUNCIATIVA EN EL ROCK DE ARGENTINA

Adrián Pablo Fanjul Universidade de São Paulo

1. Un caso puntual de un proyecto más amplio
Desarrollamos actualmente un estudio sobre la discursividad en el rock argentino, recorriendo sus diferentes épocas, acompañando mecanismos de regulación discursiva, que abordamos principalmente como delimitación de la exterioridad del campo1. En función de un factor que nos ha aparecido como significativo en los procesos de regulación, específicamente en cuanto a una de las fronteras recortadas para lo decible en el campo, factor al que no nos referiremos aquí porque afecta una de las hipótesis centrales de un trabajo que todavía está en elaboración, hemos dado bastante atención a la composición “Toxi Taxi”, grabada en 1991 por la banda Patricio Rey y los Redonditos de Ricota, más conocida como Los Redondos, una de las más nodales en la historia del rock nacional. El tema fue lanzado en el disco La mosca y la sopa . Creemos que esa composición es un punto de especial densidad, en el corpus del rock argentino, en cuanto a las redes de memoria hacia dentro del funcionamiento del campo y en relación con su exterior. Aquí la abordaremos a

partir de que se trata de uno de los casos, dentro de ese corpus, en que se escenifica, en la enunciación, al artista en actividad creadora relacionada con un desplazamiento en el espacio representado, lo que no excluye, por supuesto, la concomitancia de otras lecturas. Ese abordaje nos llevará a la posibilidad de confrontarlo, en la memoria discursiva, con dos temas del período clásico del rock argentino: “El oso”, de Moris (Mauricio Biravent, 1970), y “La balsa”, atribuido a Lito Nebbia y a Tanguito2 (1967). Esa misma confrontación promueve la observación de otra problemática central en nuestra investigación en curso: la de las configuraciones enunciativas, como modos relativamente estables de articulación de los seres en la enunciación, cuya articulación con la problemática de la memoria explicamos en el ítem siguiente. Las tres composiciones están transcritas al final, como anexos.

1999:80). Como anticipamos. Esa violencia. entre ellos. reglas que “los atraviesan y les constituyen un espacio de coexistencia” (FOUCAULT. por ejemplo. que selecciona y recorta modalidades de enunciación. memoria y seres en escena Consideramos la regulación a partir de diversos lugares de la teorización foucaultiana y de su lectura por estudiosos de la enunciación y del discurso en función de la problematización de la memoria discursiva. o sea. Así lo sostenemos porque creemos que esa distribución de voces y seres. y la configuración enunciativa. Como movimiento de choque de cuerpos. al proponerse el “principio de especificidad” (FOUCAULT. paráfrasis y diversas formas de retomada y remisión. es precisamente un juego de voces. tienen en común una representación de la actividad estética creadora relacionada con el desplazamiento en la escena representada. no debiendo confundirse con el concepto –de raíz althusseriana– de interpelación ideológica como constitutiva de posiciones de sujeto. esos conceptos reciben especificaciones. lo que. Una bisagra entre el mundo creado. el conjunto de letrística musical alcanza una figuración menos precisa que en la narrativa literaria. damos crucial importancia a las configuraciones enunciativas. la dimensión espacial de la escenografía representada en la enunciación. 2002: 191). por darse en una escena enunciativa.24 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 2. se revela como resultado de esa violencia reguladora del discurso a la que nos referimos a partir de Foucault. vemos la regulación como principio de una memoria discursiva: espacio de producción de implícitos (o preconstruidos). Así. Nos referimos a la interpelación representada en la enunciación . la percepción de la regulación como relaciones entre enunciados. a los modos como se articulan los participantes representados en la enunciación. En la primera parte y en el estribillo de “Toxi Taxi” es interpelado un ser representado en segunda composiciones entre las que estableceremos relaciones parafrásticas en este trabajo. y a la vez como matriz representacional del conflicto que todo discurso conlleva y que. La corriente de análisis del discurso en que actuaron estudiosos como Michel Pêcheux y Jean-Jacques Courtine adoptó varios aspectos de la teorización de Foucault. promueve la regularidad . en el título denominamos una “topografía del artista”. un “reggae – acelerado” (GOBELLO. relacionamos el pogo con la interpelación como acción enunciativa. en Maingueneau (2001). Al trasladarse a un abordaje del discurso como materialidad lingüística. vale recordar que. el espacio del cual la enunciación dice provenir. una práctica que les es impuesta. que en el caso de la . se concibe el discurso como una violencia ejercida sobre las cosas. si es observada en una determinada serie de enunciados en un campo. No sólo para este caso. Como punto de partida. Escenas ricoteras3 Un biógrafo de Los Redondos ha definido “Toxi Taxi” como un tema de “urgencia rítmica”. en Pêcheux (2007). concepto ampliamente tratado a lo largo de La arqueología del saber como juego de reglas de formación de los enunciados. 2008: 53). en El orden del discurso. Las tendencias dominantes para esas configuraciones y para la delimitación entre los seres en las mismas son un factor que relacionamos con la regulacióndesregulación de la memoria. sino en el conjunto de nuestro trabajo sobre la memoria discursiva en el rock argentino. en determinados períodos de la reflexión de Pêcheux y seguidores. temas y objetos. 3. Regulación. Y es importante recordar que fue un tema de “pogo”. La topografía es. tanto los interlocutores como los personajes y las voces citadas.

2010) mediante observaciones que podemos relacionar con las de investigadores que abordan la letrística de rock desde otros puntos de vista. instrumentador e instrumento de la violencia del poder. Pero también el paso no marcado de la . al conjunto del campo en ese sentido. En cuanto a lo segundo. Esa tendencia se desestabiliza notablemente en los años 80. había una tendencia ya verificable. la alternancia a la que nos referimos puede ser más o menos marcada. de modo general. diferencias entre agente y paciente. están sometidas a diversos juegos enunciativos. pero que no dejó de estar muy presente. así como los posicionamientos subjetivos que la atraviesan requieren diferenciar dos órdenes de problemas que creemos que son clave para confrontar momentos y tendencias en la discursividad del rock argentino: a) La producción de una interpelación cuestionadora hacia un interlocutor. en la poeticidad de géneros de lo popular en Argentina. la interpelación se relaciona con el papel de los interlocutores en el campo roquero y en relación con los conflictos que lo delimitan. o en la forma lingüística. una fuerte tendencia a ese tipo de escenificación caracterizó el debilitamiento de las figuras marginales en la evolución de la poética del tango argentino en los años 20/30. que en el rock se expresó más en su versión hedonista que contestataria. con el poder opresor y con la industria del espectáculo. para los años 60 y 70 del siglo XX. Y muy especialmente. marcó un desplazamiento en el rock argentino. el rock nacional está marcado históricamente por una cierta rigidez en cuanto a la representación de los seres y voces. Sobre la primera. Varios factores favorecieron. por ejemplo. por parte de una voz que se identifica al comienzo en una primera persona del plural (“Te tenemos allí…”). conviene referirnos brevemente a características del campo a respecto. Esa interlocución. como el papel alternado de ejecutor y víctima (“te esnifo” / “me esnifan”) en “Rock para los dientes”. en las situaciones de opresión reiteradamente representadas en sus composiciones. un cierto deseo de homogeneidad para su lado imaginario en el conflicto. gozador y gozado. concomitantemente con una diversificación del campo del rock y con el aumento cualitativo de las desigualdades en la clase media urbana. en su época de primer desarrollo y auge. como el disimulo del enemigo en “Nuestro amo juega al esclavo”. Como ha mostrado el trabajo de Menezes (2012). Por un lado. A veces. en este caso. Como hemos defendido en varios trabajos anteriores (fundamentalmente en FANJUL. visibles en la figuración. más o menos velada. un colectivo de “la juventud”). y. para la voz enunciadora. juegos mostrados. b) La alternancia de ubicaciones. sino que hace efectiva una interpelación. debe tenerse en cuenta. como veremos. el influjo de una racionalidad “humanocéntrica” dominante en el campo intelectual argentino de la época (TERÁN. Por otro. la percepción de ethé relativamente homogéneos y seres representados con un cierto cerramiento sobre sí.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 25 persona. La representación de ese tipo de interpelación tiene una larga tradición en la música urbana argentina en períodos de desestabilización de modelos. en relación con el conflicto representado. Los Redondos son una banda que no sólo corresponde al momento en que la estabilidad de identificaciones roqueras se ha derrumbado (ya no es pensable. con la peculiaridad de estar representada como interpelación realizada “en público”. por percibir que es uno de los rasgos mediante los cuales la obra de Los Redondos. no íntima. a la delimitación reforzada de los contornos de los seres en la enunciación. debido al carácter “en público” que señalamos. 1991:22).

Una de los rasgos del tipo de locutor y de personaje puesto en escena por el rock primero y del ethos que su voz encarna es el de una hexis de propósito (Fanjul. Provoca a la comparación. El prefabricado de “Toxi Taxi” está “preso”. rescata metafóricamente la imagen de un círculo trazado en rituales satánicos 4 para llegar a una propuesta que resume muy felizmente ese aspecto de la poética ricotera: “es una invocación: no está dentro del círculo pero tampoco fuera porque su sitio no es el pretendido cielo de la pureza”. creemos. de la época de la dictadura. con una impronta propia. es una figura recurrente en la delimitación no sólo de la identidad del artista sino también de héroes en general en las escenografías creadas por el rock argentino del 4. irá tras los que lo hacen negocio. NI siquiera vuelto sombra. Indagando el frecuente recurso a la figuración infernal en las composiciones de la banda. Quien se dispone a naufragar construirá su propia balsa para ir donde quiera. desde el lugar de análisis. como está. de Charly García. entre período clásico. En ese trabajo que acabamos de referir. una intertextualidad deliberada con composiciones clásicas del rock argentino. de ese modo. que tuvo un carácter comparativo en relación con pioneros del rock brasileño. recogen esa imagen a la que. una deriva positiva y afirmada en su mismidad. sólo será recortada en signos tras aprender las piruetas en la jaula-ciudad de los hombres.26 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS voz de un posicionamiento a otro en relación con el sojuzgado: compartiendo su lugar o asumiendo una sorna que la acerca al beneficiario-verdugo. Pero el artista-negocio pequeño y simple. El andar con un propósito. como en otros temas de la banda. Así vemos los andares de los seres construidos en esas composiciones. no se registra. pero que es posible. por ese camino. Y aun composiciones con un tono de profunda desazón. en el caso de “Toxi Taxi”. 2009). cierta resonancia en el inicio de “La Balsa” y de “Toxi Taxi”. El oso se desplaza “sin cesar”. entran en escena. Ambos se desplazarán desde ese lugar. en un artículo centrado en Los Redondos. como Mutantes o Raul Seixas. con los preconstruidos que les dieron sustento. aunque sea la de naufragar. Desencuentros –de memorias– del andar Proponemos abordar las tres composiciones propuestas en la Introducción a partir de lo que en ellas podemos observar como representación de la actividad de creación estética. encontrar un funcionamiento parafrástico que resulta polémico. tres ámbitos: la naturaleza. No diseñará su naufragio. subyace un preconstruido sobre el desplazamiento como posibilidad creadora. abandonado allí. observamos que ese rasgo se presenta inclusive en la escenificación de seres identificados con la locura. como “No te dejes desanimar”. sino directamente con las composiciones que consideraremos. toque y toque. la artesanía y la industria del espectáculo. propone el cuerpo roquero como “la epifanía misma del conflicto”. Pensamos que la desestabilización de identificaciones en el campo del rock nacional a partir . El locutor / artista de “La balsa” seguirá estricta e indudablemente su impronta: su (propia) idea es la de ir al lugar que él mismo más quiera. No en vano Monteleone (1992:30). pero va. va a seguir su “propia” dirección. va detrás del toxi taxi. y la naturaleza ilimitada. Su naufragar es un propósito. Una delimitación espacial determinando una predicación de abandono: Estoy muy solo y triste acá. Con ellas. en la que circula muy contento. Creemos que. en este mundo abandonado / Te tenemos allí.

pero de este se dice que está preso como si lo fuera. en varias de las composiciones de la época se propone. de esos dos versos? Te te-ne-mo-s a-llí / A-ban-do-na-do a-llí ¿Allí te guardamos. con cierta sorna. Por otro lado.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 27 de los 80 fue dando lugar a representaciones del desplazamiento y de la creación no compatibles con ese preconstruido. de mis tardes y de mí” (destacado nuestro) al enumerar lo que no fue olvidado. vemos escenificado un desplazamiento que puede percibirse. a la palabra de la calle. al volver del encierro está “contento de verdad”. con eco en la sílaba siguiente? ¿Estás allí para nosotros? ¿Sufrimos tu prisión. el tipo de movimiento que Kozack (1992:25) caracteriza como “recorridos circulares y constantemente invertidos”. la cultura establecida desde fuera del campo de identificaciones del rock. ni parece serlo el artista producido de “Toxi Taxi”. en su materialidad sonora y por el movimiento que sugiere a los cuerpos. Viendo primeramente esa prisión como control sobre el artista (la segunda parte del tema. Ni el oso de Moris aparece como “un animal feroz”. Al inicio del canto. como serializada e imitativa. finalmente. que es uno de los extremos de la primera etapa del rock argentino. “Toxi Taxi” es un claro caso de la alternancia de la voz entre diferentes lugares de decir en relación con el conflicto. el instinto como fundamento de la creatividad5. se desliza hacia una problemática diferente y una escenificación más específica). En efecto. Presos. Por ejemplo. todos podemos “darnos un toque”. de la “no cultura” a la “cultura propia”. e incluso. tu abandono? Creemos que es el inicio de una oscilación que se desplazará por toda la primera parte y el estribillo. por medio de la imagen de las “piruetas”. se caracteriza. también la confrontación de “Toxi Taxi” con “El oso” da lugar a interesantes relaciones de acercamiento y desencuentro en una memoria relacionada con el género. en el hermanamiento que sigue al pogo. Su tono en los dos primeros versos es de quien habla casi en privado. al fin y al cabo. El yo/nosotros representado se desplaza entre voces y posicionamientos atribuibles al poder opresor -poder sobre la escena y sobre el espectáculo-. y. Esa industria-circo. de modo más explícito que en “El oso”. después de la “prisión” de la industria del espectáculo. te mantenemos? Y ¿qué ubicaciones propone ese acusativo te. que está preso pero “va”. La ambigüedad respecto del interpelado. Así. el locutor gana cuerpo en una sonoridad ansiosa y trémula para la voz del intérprete. ¿Cómo no ver la ambigüedad de la declaración punteada. tiene su contrapartida en la voz enunciadora. En el viejo tema de Moris. es el momento de fiesta colectiva. a la resistencia a ese poder. Obsérvese el orden “de mis bosques. en lo que Authier-Revuz (2011:12) caracterizó como “movimientos bruscos de báscula del sentido en una palabra”: “Un toque por si las moscas van / Otro toque por si vas detrás”6. la naturaleza como espacio de creación. el héroe encuentra la posibilidad de resistencia en la autopercepción. la pregunta desafiante “la fiera más fiera ¿dónde está?” parece evocar. Aunque debe someterse a esa repetición por estar prisionero. una figuración como la del artista de la “no cultura”. en algo todos nos parecemos al pequeño artistanegocio . Así. en un estribillo que. La autora los relaciona con una ”estética del sobreviviente” de la cual Los Redondos marcarían un “límite crítico”. lo que más interesa aquí. sólo después la voz gana volumen. como explicaremos. silabeada. si lo consideramos como recorrido del artista. caminando “sin cesar” inicialmente en la vastedad de la no cultura. Esa palabra de la calle juega torciendo el significante hacia su letra.

Belo Horizonte: Faculdade de Letras da UFMG. Nº 11. (2010) “Enunciadores en el rock argentino. Em: Anais do V Congresso Brasileiro de Hispanistas e I Congresso Internacional da Associação Brasileira de Hispanistas. Buenos Aires: Siglo XXI. Y en el cierre. de la gestión opresora sobre los cuerpos que es uno de los grandes asuntos de Los Redondos. Pero ahora dice que cada día ve menos. A diferencia de la figura representada en la primera parte. fue preso acusado de tráfico minorista de drogas7. Había sido parte del rock platense en los primeros setenta. pág. o que creo algo. BELTRÁN FUENTES. Y las palabras que repite acentúan la diferenciación a respecto del creador representado en el período clásico del rock nacional. cada día creo menos mal. 2008. un “común” preso político. murió preso “de verdad” en 1978. 2009. Un claro caso de prisionero del control social. Montevideo: Fundación de Cultura Universitaria. 2239-47. Se configura más claramente un posicionamiento de resistencia. si se la compara con el resto del tema. Sara Rojo et. Buenos Aires: Centro Editor de América Latina.28 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 5. (1999): Banderas en tu corazón. Córdoba: Narvaja Editor. fundamentalmente porque se trae un nombre propio. _____ (2009) “Loucura. Apuntes sobre el mito de Los Redondos. M. La segunda parte de “Toxi Taxi” recupera estabilidad en los posicionamientos de modo concomitante con una fijación de la escenografía enunciativa. (2005): Libro de viajes y extravíos: un recorrido por el rock argentino 1965-1985. J. Y con él viene un colectivo que compartió la percepción del roquero como “visionario”8. Referencias bibliográficas AUTHIER-REVUZ. como sólo puede hacerlo un muerto en un sueño. la figura evocada. C. _____ (2002) La arqueología del saber. 141-155. creer y crear es una concesión. GOBELLO. MAINGUENEAU (2001) O contexto da obra literária. Era cercano a Los Redondos y llegó a integrar la banda Dulcemembrillo. (2011): Detenerse ante las palabras. Y la distribución de las voces. Buenos aires: Tusquets. pág. Elementos para una comparación con Brasil. FOUCAULT. (2008) El orden del discurso. cobra nitidez: está claro qué instancia o voz representada dice qué. M. Buenos Aires: Prego. Y la escena también cobra singularidad. y acabó muriendo en medio de un motín en el que todo indica que no tenía participación. no solo porque el “nosotros” pasó a ser un “yo”. “Luis María” y porque la temporalidad pasa a ser episódica: un narrador cuenta un sueño. No 10. DÍAZ. A. Estudios sobre la enunciación. (1992): “Estética del sobreviviente: una letra contemporánea. el rock no está en el pretendido cielo de la pureza. Estabilización del decir. nueva regulación. para una nueva regulación de los presupuestos. Alfredo (1989): La ideología antiautoritaria del rock nacional. Luis María Canosa. Al fin y al cabo. por qué no. p.). Luis María actualiza el pasado. C. São Paulo: Martins Fontes. vol. Menos mal que todavía creo en algo. realidade e deslocamento em cenografias pioneiras do rock”. o que al menos no oscila hacia formulaciones o direcciones argumentativas identificables con el poder. . al. O. 23-28.” En: Letr@ Viv@. mientras el terror construía las nuevas topografías del rincón y la pared desierta9. está en el pasado y no va a ningún lugar. (org.” En: Espacios de crítica y producción. junto con Federico Moura. Cuando ya no actuaba en música. KOZAK. 1. FANJUL. futuro compositor y vocalista de Virus.

T axi Taxi Solari / Bellinson. y a los chicos podamos alegrar. “Papel da memória”. “Conformate”. Sólo exigen que hagamos las piruetas. Vuelvo al bosque. muerto cuando me decía: Y yo así perdí mi amada libertad. (1992): “El infierno encantador. pandeiros e bandoneones . “Cada día veo menos cada día veo menos cada día veo menos creo menos mal”. Con el circo recorrí el mundo así. p. Universidade de São Paulo. Ya no hay tiempos de lamentos ¡Ya no hay más! Un sueño con Luis María. Pero nunca pude olvidarme del todo de mis bosques. M. 49-56. Papel da memória. me decía un tigre viejo. “Nunca el techo y la comida han de faltar.” Han pasado cuatro años de esta vida. 29-33. P. En: ACHARD. Otra vez el verde de la libertad. p. O embate entre vozes marginais e disciplinadoras em composições de samba e tango (19171945). Ahora piso yo el suelo de mi bosque. Pero un día vino el hombre con sus jaulas. al.” En: Espacios de crítica y producción. 1991 Te tenemos allí. de mis tardes y de mí. En un pueblito alejado alguien no cerró el candado. y yo dejé la ciudad. et. pero las tardes son mías. MONTELEONE. y a la noche me tiraba a descansar. PÊCHEUX. caminaba sin cesar. (2007). estoy contento de verdad. abandonado allí. Un toque por si las moscas van y otro toque por si vas detrás. “Entre pátrias. Estoy viejo. A. El oso Moris.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 29 MENEZES. Campinas : Pontes. preso como un animal (como un animal feroz). la fiera más fiera… ¿dónde está? Toxi-taxi viene y va y tu sombra va detrás de hordas notables con los secretos para hacer un negocio tan pequeño y simple como vos. Era una noche sin luna. 1970 Yo vivía en el bosque muy contento.” Tesis de doctorado en Letras. me encerró y me llevó a la ciudad. Violencia y poesía del rock. J. Anexos Toxi . Las mañanas y las tardes eran mías. . así las cosas. Nº 11. En el circo me enseñaron las piruetas. Caminaba. (2012).

y aprovechando el tema de Los Redondos “Barba Azul y el amor letal” va produciendo una reflexión que vincula lo infernal con la figuración del espacio social como prisión. por ejemplo.30 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS La balsa Lito Nebbia – Tanguito. tanto en el contexto de esta lectura interdiscursiva del tema a partir de la representación de la creación artística como en cualquier otro abordaje temático. A partir de ese relato. Por eso. en un manifiesto circulante en 1973. la de irme al lugar que yo mas quiera. en el rock argentino de los 60-70. y por supuesto. miembro de los primeros núcleos que fueron dando forma a la delimitación del rock nacional como campo. Me falta algo para ir pues caminando yo no puedo. aproximadamente como “por si acaso” o “por las dudas”. Monteleone relata. de Nito Mestre. 8 Sobre la representación del artista. Pero nuestro abordaje no es contenidístico. también conocido como “Barba Azul”. 9 Aludimos a las composiciones “Mientras no tenga miedo de hablar”. 5 Así está claramente enunciado. 1967 Estoy muy solo y triste. Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. . de Alejandro de Michele y Miguel Ángel Erausquin. Notas 1 2 El proyecto cuenta con apoyo del CNPq. como introductor explicativo que pone como causa la percepción de una posibilidad. acá. haya una cierta reiteración de “entender” la interrogación “¿la fiera más fiera dónde está?” como denuncia de que no se lleva a prisión a los jefes del tráfico sino a sus agentes menores. comportamientos atribuidos al asesino serial Giles de Rais. 7 Esa circunstancia ha dado lugar a que. ambas compuestas entre 1975 y 1976. no se propone un desciframiento alegórico de las composiciones parte a parte. en lecturas de interpretación literal de la letra de “Toxi Taxi” que han circulado en los medios. 3 4 Adjetivo muy usado para referirse a lo relativo a Los Redondos. 6 “Por si las moscas” es una unidad relativamente fijada. o como dirigida “al mismo” de la segunda estrofa. para ello. y “En el hospicio”. nos parecería muy reductor ver esa interrogación como mera denuncia. Tengo una idea. de donde sea. en español. como quien ve lo que otros no ven. hay un interesante recorrido en Díaz (2005: 154-167). Y cuando mi balsa esté lista partiré hacia la locura. no podemos afirmar si era o no esa su idea. Tengo que conseguir mucha madera. no es nuestra preocupación lo que hayan tenido en mente o no los compositores. Construiré una balsa y me iré a naufragar. en este mundo abandonado. registrado por Beltrán Fuentes (1989:95). redactado por Luis Alberto Spinetta: “El que recibe debe comprender definitivamente que los proyectos en materia de rock argentino nacen del instinto”. La continuidad (“por si las moscas van”) restituye “las moscas” a un valor independiente de esa construcción. A respecto. tengo que conseguir. Con mi balsa yo me iré a naufragar. Uno de los seudónimos de de José Alberto Iglesias (1945-1972).

“ Un saxo en la niebla ” e “Carmiña”. do início ao fim do século XX. Na cena seguinte. aproximando-o da narrativa ficcional. A primeira experiência escolar de Moncho. juntamente com outros dois contos. em que se evidenciam a vida cotidiana. embora seja uma ficção. aparece acordado no quarto. A princípio. amor?. publicado em 1995 e escrito originalmente em galego. Don Gregorio. retratos do atraso social de uma Espanha tradicionalista com os olhos voltados para o passado. Certamente este recurso é uma forma de dialogar com o espectador no sentido de mostrar como a narrativa fílmica. interpretado pelo ator Fernando Fernán Gómez. O medo de apanhar . criando com estas representações um suposto pacto de “verdade”. As cenas iniciais do filme mostram imagens fotográficas da época. como havia feito um tio. DE JOSÉ LUIS CUERDA Adriana Aparecida de Figueiredo Fiuza UNIOESTE No livro de contos ¿Qué me quieres. traduzindo-se em um grande êxito cinematográfico. chegando a querer fugir para a América. principalmente. de mulheres e crianças. por medo. o menino reluta em estabelecer uma relação amistosa com o professor e os outros alunos. de Manuel Rivas. para escapar da guerra na África. associada à pobreza e às dificuldades de sobrevivência da Espanha rural pré-franquista. é traumática. Tanto a narrativa literária quanto a fílmica relatam uma intensa relação entre um professor primário. foi transposta para o cinema em 1999 por José Luis Cuerda. Manuel Lozano. Moncho.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 31 MEMÓRIAS DA GUERRA CIVIL ESPANHOLA NA FICÇÃO: LEITURAS DE ¿QUÉ ME QUIERES. É neste momento em que o espectador dá um salto para a ficção sem se dar conta de tal fato. “ La lengua de las mariposas” é uma dessas narrativas que. e seu aluno Moncho. relatada no filme. incomodando o irmão mais velho com perguntas sobre o ambiente escolar e a atuação do professor. ansioso com seu primeiro dia na escola. Estas imagens “reais” se mesclam estrategicamente com as cenas do filme. pela ameaça que significa a ideia de frequentar a escola. está presente um conjunto de dezesseis relatos que narram a trajetória de personagens que transitam pelo contexto espanhol. DE MANUEL RIVAS E LA LENGUA DE LAS MARIPOSAS. AMOR?. Trata-se de uma maneira de iludir o espectador. pode ser tão verossimilhante quanto à realidade histórica. São imagens de pessoas simples do interior.

Quiero decir que mi madre era de misa diaria y los republicanos Portanto. 2006. no. descorazonador. p. no conto e no filme. no diálogo entre os pais de Moncho sobre a condição econômica de Don Gregorio: “ Estoy segura de que pasa necesidades”. “Los maestros no ganan lo que tendrían que ganar”. “Ellos son las luces de la República”. casi siempre sonreía con su cara de sapo. 26) “Si vosotros no os calláis. Entretanto. atua de maneira diferente dos outros “maestros” da época. Portanto. 26-27) Don Gregorio é o professor que ensina não apenas conhecimentos científicos. Cuando dos se peleaban durante el recreo. Al contrario. tendré que callarme yo”. ao complementar o relato do menino: No. Porque todo lo que él tocaba era un cuento fascinante. El maestro no pega” (RIVAS. Esta dicotomia pode ser observada na voz do narrador do conto. castigando não com violência física. por exemplo. p. percebe-se que o tema das duas Espanhas também está metaforizado no próprio discurso do casal. Esta questão dos ideais libertários pode ser vista ao longo da narrativa. Pronto me di cuenta de que el silencio del maestro era el peor castigo imaginable. já se sente de maneira velada uma ameaça política no pano de fundo social. Mi madre. Moncho torna-se amigo íntimo de Don Gregorio. 29) No discurso final da mãe percebe-se um tom de ameaça. divulgada pela Igreja. Y no pega. contrariando as convenções da sociedade espanhola daquele momento. frase que se repete na narrativa com o objetivo de enfatizar o tormento que era ir à escola. él los llamaba. logo em seguida ao diálogo dos pais de Moncho. quando o professor se sente desrespeitado pelos alunos. decía mi madre por la noche. muito mais poderoso que a correção física. la República!¡Ya veremos adónde va a parar la República! (RIVAS. Entretanto. perdida en el Sinaí. uma vez que o pai se identifica com a República (“Ellos son las luces de la República”) e a mãe adota uma postura conservadora. o que revela uma pedagogia de Don Gregorio diferente daquela que se praticava nos anos de 1930 e que ficava expresso no discurso de outros personagens. ao discorrer sobre a literatura. Era un silencio prolongado. como assegura o narrador Moncho: . p. mas com o silêncio. que comenta as posições ideológicas dos personagens: “Mi padre era republicano. con sentida solemnidad. Esta ameaça pode ser visualizada em alguns episódios como. urinando na frente de todos. Y se dirigía hacia el ventanal. como si nos hubiese dejado abandonados en un extraño país. como no do próprio pai do menino ao comentar-lhe em tom de ameaça: “Ya verás cuando vayas a la escuela!. sobretudo. Com o transcorrer da narrativa. o respeito aos alunos que advém deste princípio pedagógico. 2006. sentenciaba. mi padre. a natureza e as mulheres de maneira libertária. “parecéis carneros”. 26). que se via advertida pela proposta do Estado laico da República. p. […] La forma que Don Gregorio tenía de mostrarse muy enfadado era el silencio (RIVAS. “¡La República. 2006. sua conduta libertária é o que propiciará sua perseguição em um ambiente político sufocante que já se anunciava.32 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS e a exposição a que o menino é submetido frente aos outros alunos o fazem perder o controle de seu corpo. (RIVAS. y hacía que se estrecharan la mano. como se a vitória dos franquistas estivesse dada como certa. 2006. con la mirada ausente. O diálogo entre Moncho e sua mãe é referendado pelo narrador. Este tirocínio está relatado pelo narrador tanto no filme quanto no conto e é um ponto crucial para entender a metáfora do autoritarismo que paira naquele momento em que a Guerra Civil ainda não havia sido deflagrada na Galicia. ele instrui seus alunos também sobre as lições da vida. a exemplo de quando a mãe de Moncho pergunta como havia sido na escola: “ Te ha gustado la escuela?” “Mucho. el maestro Don Gregorio no pegaba. uma vez que o aluno percebe de maneira sensível os pressupostos libertários do professor e. Después los sentaba en el mismo pupitre.

Y al final de la cordada. o menor da família. 29). los libros. mas que compactuaram com a prisão dos inocentes como forma de eles próprios se livrarem do infortúnio dos vizinhos.. no se lo regaló”. (RIVAS. Moncho. 32) Em seguida. que.] “¡Criminales! ¡Rojos!” (. el bibliotecario del ateneo Resplandor Obrero. Papá no era amigo del alcalde. 32) Este pacto com o gesto criminoso da guarda civil é uma forma de proteger-se do mesmo crime. “¡Que vean que gritas. 2006. juntamente com outros homens do povoado.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 33 aparecían como enemigos de la Iglesia.” (RIVAS. Ramón. afim de livrar o personagem Quijote de sua suposta loucura. p. p. 2006. Los periódicos. ¿Has entendido bien? ¡No se lo regaló!” “No. o da Santa Inquisição. Moncho. argumenta: “ Hay que quemar las cosas que te comprometan. Papá no Le regalo un traje al maestro”. de la multitud fue saliendo un murmullo que acabo imitando aquellos insultos. inclusive o pai. Poco a poco. 31). 32) Ao final da narrativa literária e fílmica. insulta aqueles que antes pertenceram ao mesmo grupo ideológico que ele. ¡grita!” Mi madre llevaba a papá cogido del brazo. 33). A mãe de Moncho é a primeira da família a tomar a iniciativa de compactuar com os crimes do franquismo. instauraria a Censura e não somente a literária e junto com ela a repressão. o acovardamento dos que não foram encarcerados. Moncho. 2006. el vocalista de la Orquesta Sol y Vida. em minoria. mamá. el cantero a que llamaban Hércules. primeiro o povo sendo aprisionado de forma arbitrária. mas nem por isso menos aterrorizante. Charli. convencido que o melhor seria gritar. Neste sentido. Todo. Tal fato é observado na conduta imitativa dos que assistiram a atuação da guarda civil: Se escucharon algunas órdenes y gritos aislados que resonaron en la Alameda como petardos. El maestro. que vean que gritas!” (RIVAS. . Papá no era republicano. ainda que possa ser considerado um gesto covarde. uma vez que todo o povoado representava uma maioria que poderia facilmente ter parado a guarda civil. 31) El alcalde. [. 2006. Y otra cosa muy importante. pois demonstra os dois lados da Guerra. p. como si lo sujetase con todas sus fuerzas para que no desfalleciera. que proibiria a liberdade de expressão. cujos livros são queimados. em sua inocência de criança. “Sí que se lo regalo”. 2006.. por ser considerado um inimigo do regime ditatorial que se instaura.. Na verdade. custa a entender a conjuntura daquele momento histórico: “Recuerda esto. começa a gritar envergonhado e logo desesperado ofensas para dissimular sua profunda consternação e fraqueza: “¡Traidores!”. chepudo y feo como un sapo. o professor é preso. No se lo regalo. O término do relato é contundente. sem haver cometido crime algum. época em que se queimavam os livros considerados proibidos e da cena de Don Quijote de la Mancha (1605). p.. (RIVAS. Moncho. los de los sindicatos. 2006. p. padre de Dombodán. 2006. por lo que más quieras. É por esse motivo que ela faz todos negarem o passado republicano... aflito. Ramón. como revela o narrador: “Grita tú también. No ápice do conflito entre republicanos e franquistas no povoado a mãe impõe seu caráter religioso na tentativa de salvar sua família. p.” (RIVAS. “¡Traidores! ¡Criminales! ¡Rojos!” (RIVAS. “No. Ramón.) “¡Asesino! ¡Anarquista! ¡Comeniños!” (…) “¡Cabrón! ¡Hijo de mala madre!” (RIVAS. p. A imposição da mãe se dirige também a Moncho. a queima dos livros do pai se trata de um prenúncio do que viria a ser a ditadura franquista. Papá no hablaba mal de los curas. como ocorre com: O pai. O episódio nos traz à memória dois momentos emblemáticos da história da espanha.

Esta cena é marcante no final do filme em que a câmera fica lenta. parece ser no conto de Rivas a metáfora da própria infância. caberia questionar o motivo dessa necessidade de se abordar o tema da memória na literatura e no cinema contemporâneo. Portanto. (. que Moncho se surpreende pelo fato de as borboletas possuírem uma língua. Em tempos de ditadura. A borboleta. que sonhava em receber de Madrid um microscópio para mostrar aos alunos da escola a língua das boborletas: “Hoy el maestro ha dicho que las mariposas también tienen lengua.) ¿A que parece mentira eso de que las mariposas tengan lengua?” (RIVAS. por sua linguagem altamente simbólica. É importante ressaltar que assim como seu pai. individual ou coletiva. Esta é a última lembrança do narrador daquele período turbulento que a história relataria. configurada na idéia da memória da história recente. cargados de presos. 8) discorrem que a memória se transmite e se reforça por meio de práticas de rememoração e comemoração variadas. grítale tú también!” (RIVAS. 2006. entretanto. 33). 33). Tanto é assim. colorido e delicado. p. o controle da memória coletiva pode ser entendido como um instrumento e um objeto de poder. a não ser por meio de um microscópio. manipulou a memória da forma que pôde. com o objetivo de mascarar e eliminar a memória republicana e antifranquista. precisa ser desenrolada como a língua da borboleta do relato. 2006. cuja busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje. […] con los puños cerrados. que. Buscaba con desesperación el rostro del maestro para llamarle traidor y criminal. 2006. p. o próprio narrador também parece se surpreender pela falta de língua. a imagem da língua da borboleta enrolada dentro de sua boca é a imagem da mordaça. sólo fui capaz de murmurar con rabia: “¡Sapo! ¡Tilonorrinco! ¡Iris!” (RIVAS.34 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS também participa do episódio incitado pela mãe: “¡Grítale tú también. um animal belo. Le Goff assevera que “a memoria é um elemento essencial do que se costuma chamar identidade. Outra resposta plausível é a que nos oferece o historiador Jacques Le Goff. Quem possui o controle desta memória. relembra a efêmera alegria em companhia do professor Don Gregorio. também alcança o poder. para permanecer no poder. agora já adulto. que é o narrador do conto. p. Portanto.. relata como fora sua intervenção no acontecimento: Cuando los camiones arrancaron. Franco é um dos maiores exemplos desta teoria. na febre e na angústia” (2003. 469). A memória da Guerra Civil advém justamente da memória desse narrador que. ao refletir sobre a importância da memória no mundo contemporâneo. 26). já que nada consegue vê-la. O menino. como já é de conhecimento. passa muitas vezes despercebida pelas instâncias do poder. inevitavelmente. tirando piedras. As possibilidades de respostas são variadas. Daniel Lvovich e Jaquelina Bisquert (2008. Moncho se consome ao ver o profesor sendo levado para alguma prisão franquista e seu grito de insulto nada mais é que um grito de desesperança pelo que estava ocorrendo e o que haveria ainda de ocorrer na Espanha de Franco. o tema da memória na literatura é um gesto de se rememorar de forma coletiva. a literatura. prenunciando os longos anos da ditadura que se iniciava. estando livre de suas . utilizadas para estabelecer a memória coletiva.. que llevan enrollada como el muelle de un reloj. da falta de liberdade e do silêncio que a ditadura franquista impôs à sociedade espanhola. p. época em que tudo parece ser mais admirável. p. yo fui uno de los niños que corrieron detrás. Por fim. para que se tome consciência dela. una lengua finita y muy larga. visto que a literatura pode ser considerada como um espaço público da expressão da sociedade. No relato. Monchiño.

Jacques. Daniel. 1999. Em tempos de democracia. Local: Espanha: Sogecine. Entretanto. BISQUERT. Buenos Aires: Biblioteca Nacional. RIVAS. DVD (95 minutos). Jaquelina. LE GOFF. nas fraturas de seu discurso. por meio de políticas da memória. Sonoro. podendo revelar. a literatura pode desempenhar a função de preservar uma memória que se perde no tempo e no espaço. Campinas: UNICAMP. 2003. La cambiante memoria de la dictadura: discursos políticos. 2008. são fundamentais para a valorização dos códigos memorialísticos. legenda. movimientos sociales y legitimidad democrática. a memória silenciada e esquecida. 2006. ajudando a fixar sentidos para as reminiscências. .ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 35 amarras. amor? Madrid: Punto de Lectura. História e memória. LVOVICH. Manuel. Referências bibliográficas LA LENGUA DE LAS MARIPOSAS. Direção de José Luis Cuerda. oferecendo novas perspectivas sobre a memória e o seu reconhecimento público. não se pode esquecer que as reivindicações do presente e a intenção do Estado em dar voz e visibilidade ao passado. color. ¿Qué me quieres. Los Polvorines: Universidad Nacional de General Sarmiento.

ao analisar os dados. 1981. 2008. -específico]. Partimos da hipótese de que essa variedade apresentaria objetos nulos restringidos a antecedente [-determinado. específico].Universidade de São Paulo 0. a variedade de espanhol de Montevidéu também apresentaria objetos nulos restringidos a antecedente [-definido. 1997. LABOV. o que contrariaria essa hipótese inicial. Este artigo se estrutura da seguinte forma: na primeira parte abordaremos aspectos da gramática do espanhol quanto à realização do objeto pronominal acusativo. 1999. Na terceira parte apresentaremos alguns dados da análise e por fim algumas considerações a respeito. tendo como variantes o clítico e o objeto nulo e como corpus entrevistas do PRESEEA. 2006). na qual objetivamos detectar diferenças sintáticas subjacentes entre o espanhol e o português brasileiro nessa área da gramática. 1996. 1999). LICERAS. A segunda parte será dedicada à metodologia. iniciamos uma análise sociolinguística a respeito da variação na realização do objeto pronominal acusativo de 3ª pessoa no espanhol. 1994. +/específico]. Neste trabalho apresentaremos alguns dados da análise da variedade de espanhol de Montevidéu. embora em outras variedades do espanhol essa categoria vazia seja possível em contextos mais amplos (FERNÁNDEZ ORDÓÑEZ. WEINREICH. 2003). Entretanto. 2001. a partir das teorias gerativa (CHOMSKY.36 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS A VARIAÇÃO NA REALIZAÇÃO DO OBJETO PRONOMINAL ACUSATIVO NO ESPANHOL: UM ESTUDO INICIAL Adriana Martins Simões PG . Introdução Os trabalhos de Campos (1986) e Fernández Soriano (1999) mostram que o espanhol seria uma língua em que a categoria vazia em função de objeto direto estaria restringida a antecedente [-definido. 2003. Essa análise integra nossa pesquisa de doutorado1. específico]. 2002. . Considerando-se esses estudos. observamos categorias vazias em função de objeto acusativo com referente [+determinado. 2005. a fim de investigar a gramática não nativa do espanhol (GONZÁLEZ. 1999) e sociolinguística (LABOV. Conforme Groppi (1997). HERZOG. 1998.

como pode ser observado pela diferença no julgamento de gramaticalidade das sentenças (9) e (10). no qual o objeto nulo ocorre em referência a antecedente [-animado. res — ¿Compraste las flo flor es? — Sí. (1) (2) res — ¿Compraste flo flor es? — Sí. jugue uguet Me Ø i quitó otra vez [ e l j otasi en la chacra. 1999). ele lec ciones r abajoi ]. seria incompatível que fossem retomados por clítico. Essa categoria vazia ocorre em estruturas de topicalização [exemplo (3)]. como pode ser observado pelo contraste de gramaticalidade nas sentenças em (1) e (2). tr ¿Te Ø i permitirán entregar sin terminar Ø i ? [ e l t e lículai porque no Ø i vas a entender. Outra variedade em que o objeto nulo seria possível em contextos mais amplos seria a do espanhol falado na Serra do Equador. las c cosas de muje ujer ugue t e i ]. A gramática do espanhol na realização do objeto pronominal acusativo Por ser um determinante definido (DI TULLIO. . LEONETTI. Como na ausência de determinante os nomes comuns do espanhol não constituiriam expressões referenciais (LACA. no caso de um referente [-determinado. No vayas a ver esa p pe Já na variedade de espanhol de Montevidéu os objetos nulos estariam restringidos a antecedente [-definido. 1999): (6) (7) (8) Las e le c cio nesi yo nunca Ø i entendí. Assim. que nas variedades em geral do espanhol se restringiria apenas a esse tipo de antecedente (CAMPOS. que também apresenta objetos nulos com referente [-animado. 1997) 2. 1999). FERNÁNDEZ SORIANO. Ø/*las compré. em algumas variedades do espanhol o objeto nulo poderia ocorrer em contextos mais amplos. o clítico poderia ter como referente apenas um sintagma nominal [+específico] (FERNÁNDEZ SORIANO. 1986. 1999). Entretanto. -específico] (GROPPI. Vos sabés. *Ø/las compré. — Yo tampoco *lo / Ø tengo. +determinado] na fala de pessoas bilingues de nível sociocultural médio e baixo. conforme Fernández Ordóñez (1999). -específico] ocorreria o objeto nulo. 1999). +determinado] em construções de topicalização [exemplo (6)]. nas construções em que o verbo seleciona o objeto direto e o indireto [exemplo (4)] e nas orações que precedem a do antecedente [exemplo (5)]: (3) (4) (5) osas d em uje resi nadie Ø i entiende.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 37 1. — No vas a encontrar las b botas — Sí voy a encontrar Ø i . Siempre Ø i encontré cuando Ø i busqué. (9) — No tengo coche. FERNÁNDEZ ORDÓÑEZ. 1997. Entre essas variedades estaria o espanhol falado no Paraguai em contato com o guarani. em construções com objeto direto e indireto [exemplo (7)] e em orações adverbiais [exemplo (8)] (cf.

Tendo em vista esses estudos. analisamos diferentes faixas etárias6 e variedades do espanhol. de modo que nos contextos em que tivéssemos referentes [+determinados] e [+/-específicos] esperaríamos encontrar a retomada pelo clítico. Contudo. ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Em relação aos fatores linguísticos. — Yo tampoco lo / *Ø tengo.38 (10) — No tengo el coche. sendo elas a variedade de Montevidéu e a de Madri. os traços semânticos 5 do antecedente e diferentes contextos estruturais como topicalização. A análise sociolinguística: corpus e metodologia Para a realização do estudo sociolinguístico. construções em que o verbo seleciona os objetos direto e indireto e em construções adverbiais. Alguns dados da análise Iniciaremos apresentando alguns dados de 2. A variável de nossa pesquisa constitui a realização do objeto pronominal acusativo de 3ª pessoa e como variantes temos o clítico e o objeto nulo. Quanto aos fatores extralinguísticos. Nos enunciados em (11) e (12) os clíticos retomam um antecedente [+determinado. entre eles analisamos a estrutura do sintagma determinante4. partimos da hipótese de que na variedade de espanhol de Montevidéu os objetos nulos estariam restringidos a antecedente [-determinado. encontramos dados que contrariaram essa hipótese como veremos na terceira parte do artigo. 3 ocorrência de clítico encontrados nas entrevistas. Na maior parte dos fragmentos selecionados os clíticos ocorrem em construções com topicalização. -específico]. construções em que o verbo seleciona objeto direto e indireto e orações subordinadas adverbiais. porém em (12) trata-se dos casos em que o sintagma nominal é encabeçado por um quantificador7. +específico]. 3. analisamos 20 entrevistas da variedade de espanhol de Montevidéu provenientes do PRESEEA (Proyecto para el Estudio Sociolingüístico del Español de España y de América). r io no lo sentí tan mío / (…) (11a) I: (…) porque después cuando volví allá / ya como que e l bar barr icic le ta tirada en la plaza de deportes ¡no sabía icicle leta (11b) I: no antes no / eeh como ser Roberto dejó ocho días la b bicic dónde estaba! // <risas = “I” /> después se la trajo el hombre que cuidaba / porque al ver que no la iba a buscar se la trajo el hombre que cuidaba! (11c) us ab ue los te acordás? E: ahá // decime ¿y a t tus abue uelos ue los no los conocí I: <tiempo=”02:43"/> no / porque a mis ab abue uelos (12a) r it o I: (…) <vacilación/> después tuvieron el tupé de entrar al dormitorio // que hay un alhaje alhajer ito que Valeria tenía las alhajitas más // mejores l <vacilación/> las trajeron para acá porque yo lo encontré acá / y se lo llevaron / (…) (12b) c e ne ro a un c o no cid on uest ro d e a cá I: (…) esa misma noche porque habían asaltado a un alma almac ner co nocid cido nuest uestr acá a la v ue lta / estee no no lo había asaltado lo había amenazado / de asalto vue uelta .

constituiriam o tipo de antecedente com o qual essa categoria vazia seria possível nas variedades de espanhol em geral (CAMPOS. como vimos.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 39 Os enunciados em (13) e (14) constituem ocorrências de clítico cujo referente é [+determinado. -específico].) no es que le guste tanto e l d de a contracturar su espalda por ejemplo / (…) (13c) o ¿cuál es tu forma de tratamiento? E: perfecto / y cuando vas al médic médico I: bueno / ahí viste que bah bueno depende de la situaciones ¿no? un poco formales / también depende un poquito / voy y observo /si me tutea eeh yo lo tuteo / porque él me habilitó o nst r uc ción / podíamos hacerla la (14a) I: eh bueno ta la propuesta fue para para hacer algo una c co nstr ucción acá e r so na mm no sé de setenta años capaz (14b) I: sí / y ahí para mí es el tema de la edad // si es una p pe sona e r so na que la trato de usted / si es una p pe sona na<alargamiento/> hasta esa edad / eeh / de chico hasta esa edad más o menos yo ya la trataría de vos / en mi caso por lo menos Nos enunciados em (15) temos casos de objeto nulo com referente [-determinado. sendo os antecedentes dos enunciados em (14) sintagmas nominais encabeçados por quantificador. (15a) I: (…) porque yo he comido piza en bares / Ø he comido en otras casas escuchado mil historias de gente que ma // he (15b) I: (…) yo por suerte nunca he tenido p ro b le lema Ø ha tenido pero / yo no no no Ø he tenido así (15c) E: y en el jardín ¿tenés plantas plantas? I: sí / en el fondo Ø tenemos sí / (…) cio nes o no? (15d) E: ¿y en navidad también tenés v a ca cacio ciones I: no / en navidad no / Ø tengo únicamente el veinticinco de diciembre no trabajo porque igualmente es un feriado <ininteligible/> (15e) amig os E: listo / y<alargamiento/> y bueno tenés ¿amig amigos os? me imagino I: Ø tengo <risas = “I”/> .. que. FERNÁNDEZ SORIANO. 1997). 1999) e na variedade de Montevidéu (GROPPI. 1986. (13a) E: pero claro // ¿y tenés pasaporte / el pasaporte? o r t e me lo saqué sí I: e l pasap pasapo e p o r t e pero lo considera una necesidad y tiene tendencia (13b) I: (.. -específico].

Os enunciados em (16)-(18) apresentam ocorrências de objeto nulo [+determinado..) crema / pero un he hela lad de hela lad e r so na (16b) I: y<alargamiento/> suponete / si es una p pe sona determinado ca<alargamiento/>rgo en el en el área laboral te digo / por ejemplo / este Ø trato de usted na / y no Ø tuvieron y bueno (. 1999).. Nos enunciados (17a). constituem contextos estruturais em que o objeto nulo ocorre nas variedades do Paraguai e da Serra do Equador. o que revela variabilidade na intuição dos falantes. além de objetos nulos em referência a antecedente [-determinado. variedades estas que apresentam objetos (16a) nulos em contextos mais amplos (FERNÁNDEZ ORDÓÑEZ. conforme vimos. -específico]. -específico]. Esses dados contrariaram nossa hipótese inicial de que o objeto nulo na variedade de Montevidéu estaria restringido a antecedente [-determinado. (17b) e (17d). -específico]. construções com objeto direto e indireto e sentenças adverbiais. Observamos que algumas das construções com objetos nulos ocorreram em estruturas de topicalização..) e nt e ma yo r / por costumbre Ø trato de usted (17e) I: ahí lo trato de usted / no tengo mucha onda con la g ge nte may (18a) / la piza (18b) I: (…) ahora me tocó esto yestee y bueno / y<alargamiento/> lo primeros días fueron muy osas más e le me ntales no Ø podía hacer (…) podía / las c cosas ele leme mentales sobrellevé lo mejor que pude / los vestirme bravos porque ni bañarme podía sola / estee no podía nada / ni I: hace tiempo que no lo hace más / desde que falleció mi padre hace / veintiún año no / ella o midas case r as // dejó de hacer t o das esas c co caser no Ø hace más // lo que hace los domingos / de tradición así ... sendo que os enunciados em (16) constituem sintagmas nominais encabeçados por quantificadores..) (16c) I: (…) siempre le hubiera gustado tener una ne nena e int icinc o lo pasamos con la madre de mi marido acá (17a) I: (…) todo bien tranquilo y<alargamiento/> e l v ve inticinc icinco / en Montevideo / es viuda hace unos años / Ø pasamos con ella y la hija soltera vive con ella (…) (17b) I: (…) yo<alargamiento/> hace tres años atrás no sabía manejar una computadora / tenía miedo o mpu ta dor a y<alargamiento/> al empezar este curso<alargamiento/> me gustaba lo que era el diseño pero a la c co mputa tad la odiaba por el simple hecho de que no Ø conocía y me parecía más difícil de lo que era // y fui a hacer este curso medio a regañadientes y cuando me quise acordar estaba <vacilación/> ya estaba manejandoØ Ø y era mucho más fácil de lo que pensaba (…) (17c) nú E: ¿y tienen una comida típica para Navidad o van cambiando e l me menú nú? I: no Ø vamos cambiando de acuerdo al estado de ánimo de<alargamiento/>l que recibe / ulc es o los b udín ing lés / o a veces Ø preparaba mi (17d) I: (…) mi madre siempre preparando o los pan d dulc ulces budín inglés abuela y los mandaba para allá (.. além da ocorrência do objeto nulo.40 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Entretanto. +específico]. em que o sintagma nominal antecedente é encabeçado por determinante.. la d o en la heladería <cita> porque Miguel I: (. que. o referente também é retomado por clítico. assim como com referente [+determinado. encontramos essa categoria vazia com referente [+determinado. -específico]. os em (17) sintagmas nominais encabeçados por determinantes e os em (18) sintagmas nominais encabeçados por quantificador e determinante.) mi madre así <vacilación/> no se compraba un he hela lad nos ayuda / y tú sabes que no / yo te Ø hago en casa de lo que tú quieras / de chocolate / de ma yo<alarg amie nt o/>r u ocupa may o<alargamie amient nto/>r no / porque / la do d e he la d e ría no te Ø puedo comprar </cita> (.

ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 41 Nos enunciados em (19) e (20) os objetos nulos têm como referente um sintagma nominal [+determinado. -específico]. a que me quedé sin 4. nossa hipótese é de que haveria uma coexistência de gramáticas (CHOMSKY.. Algumas considerações sobre os dados Os dados observados revelam que na variedade de espanhol de Montevidéu os objetos Esses dados parecem sugerir que haveria um processo de variação linguística nessa variedade de espanhol.) (19b) I: (…) entonces eeh <vacilación/> Belén ahora por ejemplo estudia en <vacilación/> en unos lib ros no donde si la tarea es sintetizar la información / eeh <vacilación/> nos ahogamos porque libr no hay lo que es sintetizar porque están previstos para que el niño <énfasis> ya </énfasis> Ø tenga resumido (19c) I: nunca he llegado al <risas = “todos”/> / este<alargamiento/> / cuando llegué a los / unos cub ie r t os creo que Ø tenía Devoto / ya habían aparecido los táper / así cubie ier los cubiertos (…) (19d) E: ¿ahí en el Parque Rodó? I: sí / una plazoleta chiquitita / estee / 21 de Setiembre / se engancha con Bulevar ee l las / Ø violaron / eran las seis de la mañana España por ahí / a una d de el (20a) I: (…) digo / acá tenemos un solo canal de televisión que pasa información sobre <siglas = [sída]/> SIDA </siglas> / o / no lo mira nadie sobre / sobre drogas / que es e l canal cinc cinco E: <tiempo = “30:35”/> ah no I: <ininteligible/> ¿quién Ø mira? muy pocas personas miran canal cinco // (. A partir disso. Por outro lado.) yo ya me quebré el año pasado un pie / no fue acá pero / pero quedé E: ¿dónde fue? / ¿qué te pasó? I: y yo me Ø quebré en la Intendencia / (. contextos nos quais esperávamos encontrar apenas clíticos. sendo que em (19) o sintagma é encabeçado por quantificador.... observamos que a retomada do referente por clítico constitui a forma mais recorrente. +/-específico]. Em (20a).. (19a) I: (. o que contrariou nossa hipótese inicial. . ocorre variação entre o clítico e o objeto nulo. nulos seriam possíveis não apenas com referente [determinado. A seguir apresentamos algumas considerações e possibilidades de análise.. +específico]. como também com referente [+determinado.) (20b) ea E: ¿y cómo afecta eso t u tar tarea ea? ¿afecta en algo? I: <tiempo = “6:00”/> a veces Ø afecta en la labor en el aspecto de que no tenemos totalmente una / una resolución (…) Os dados que apresentamos constituem algumas ocorrências de realização do objeto pronominal acusativo de 3ª pessoa por clítico e objeto nulo encontrados nas entrevistas analisadas. apesar das ocorrências de objeto nulo. em que o sintagma nominal antecedente é encabeçado por determinante.

Angela (1997): Manual de gramática del español. ________ (2001): Ensaios sobre as gramáticas do português. Em: Estudos Lingüísticos XXXIII. Nossa ideia seria considerar a gramática que permite objetos nulos em contextos mais amplos como uma pista sobre a possibilidade dessa categoria vazia nas línguas naturais e a gramática dos objetos nulos restringidos como base para a análise da gramática não nativa. Campinas (SP): UNICAMP. Brasília: Ministerio de Educación. LIGHTFOOT.): Português brasileiro: uma viagem diacrônica. Ignacio & DEMONTE. FERNÁNDEZ SORIANO. inédita.): Ensino-Aprendizagem de Línguas Estrangeiras: reflexão e prática. Raposo. DI TULLIO. 1317-1391. 387-408. São Paulo. Em: Cadernos de Estudos Lingüísticos. Violeta (orgs. _____. as ocorrências de clíticos revelam que a ampliação na possibilidade de objetos nulos não estaria relacionada à perda do clítico. Ian & KATO. Madrid: Espasa. Charlotte (1993): O enfraquecimento da concordância no português brasileiro. & REIS.2: Español como lengua extranjera: investigación y docencia. Lisboa: Caminho. Mary (orgs. p. 239256. Violeta (orgs. Buenos Aires: Edicial. Trad. Os pronomes pessoais na aquisição/ aprendizagem do espanhol por brasileiros adultos. p. Editora da Unicamp. FERNÁNDEZ-ORDÓÑEZ. p. 2001). publicado em forma de CD Rom. Campinas – SP. Em: BOSQUE. Cultura y Deporte/ ABH. _____. 163-176. Dordrecht: Foris. 1209-1273. Referências bibliográficas _____. 53-70. E. _____. . Fátima Cabral (org. p. GONZÁLEZ. (1999): O Programa Minimalista. 1.): Hispanismo 2000. de español lengua extranjera de estudiantes brasileños: perspectivas de análisis. Hector (1986): Indefinite object drop. Campinas: UNICAMP/IEL. Lívia de Freitas (orgs. Neste momento estamos investigando a natureza dessas categorias vazias. (1999): Sobre a aquisição de clíticos do espanhol por falantes nativos do português. Pamplona: Universidad de Navarra.42 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 1999. laísmo y loísmo . 354-359. Madrid: Espasa. Por alguma razão essa variedade do espanhol teria passado a permitir objetos nulos com referentes [+determinados]. Em: TROUCHE. Em: RILCE: 14. GALVES. Tese de doutorado. ao contrário do que ocorreu no português brasileiro (cf. Em: BOSQUE. Entretanto. Formas y distribuciones. André Luiz G. Olga (1999): El pronombre personal. sendo uma gramática a que permite o clítico e a outra a que possibilita o objeto nulo em contextos mais amplos. Neide Therezinha Maia (1994): Cadê o pronome? O gato comeu. 17. Inés (1999): Leísmo. Ignacio & DEMONTE. 1993. p. _____. Editora da Unicamp.): Gramática Descriptiva de la Lengua Española. n. Campinas – SP.): Gramática Descriptiva de la Lengua Española. DL/FFLCH/USP. Pronombres átonos y tónicos. 1999) nessa variedade da língua. S. A análise quantitativa revelará os contextos linguísticos que favorecem o clítico e o objeto nulo e a análise das diferentes faixas etárias poderá indicar se se trata de uma variação estável. GALVES. p. (2001): La expresión de la persona en la producción CAMPOS. p. Carlos (SP): Claraluz. Noam (1981): Lectures on Governing and Binding. v. 36. 243-263. CHOMSKY. (1998): Pero ¿qué gramática es ésta? Los sujetos pronominales y los clíticos en la interlengua de brasileños adultos aprendices de Español/LE. (2003): Lugares de interpretação do fenômeno da aquisição de línguas estrangeiras. Em: ROBERTS. (2005): Quantas caras tem a transferência? Os clíticos no processo de aquisição/aprendizagem do Espanhol/Língua Estrangeira. Em: Linguistic Inquiry. n. _____. Em: BRUNO. p.

_____. ________ (2003): Monosyllabic place-holders in early child language and the L1/L2 ‘Fundamental Difference Hypothesis’. 65-85. Brenda (1999): Presencia y ausencia de determinante. os demonstrativos e os possessivos. FFLCH-USP. Trad. Marwin (2006): Fundamentos empíricos para uma teoria da mudança lingüística. Trad.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 43 GROPPI. Malden. p.htm. p. Uriel. Views on the acquisition and use of a second language. William (2008): Padrões Sociolinguísticos. Papers from the 6th Hispanic Linguistics Symposium and the 5th Conference on the Acquisition of Spanish and Portuguese. que. Em: EUROSLA ’97. Violeta (org. Cardoso. LICERAS. Mass. Isso significa que identificam um referente. 891-928.gub. Madrid: Taurus. São Paulo: Parábola Editorial. Madrid: Síntesis. de Marcos Bagno. Tese de Doutorado. apenas quantificam. (1999): Los determinantes. _____. Ana Teresa. Madrid: Arco Libros. LABOV. 1999). (1997): The now and then of L2 growing pains. mas não identificam um referente. Ignacio & DEMONTE. Neide Therezinha Maia González pelo Programa de Pós-Graduação em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-Americana da Faculdade de Filosofia. Marta Pereira Scherre.mec. Mass: Blackwell. por carecerem de definitude. practice and acquisition. Notas 1 Nossa pesquisa de doutorado está sendo desenvolvida sob a orientação da Profa. o que não implica que esse referente seja conhecido. Yves: Romance linguistics: Theory and acquisition.: Cascadilla Press. _____. esses elementos determinariam a referência de um sintagma nominal por terem como característica semântica a definitude. Somerville. David (1999): The development of language. Amsterdam: John Benjamins. change. Carolina R. Para o desenvolvimento dessa pesquisa contamos com uma bolsa do CNPq. Assim.uy/academiadeletras/MarcoPrincipal. Madrid: Espasa. LABOV. Quanto aos quantificadores. ROBERGE. Conforme esse autor (LEONETTI. Barcelona: Universitat Pompeu Fabra. processo n° 146998/ 2010-3. Carlos Eduardo: Theory. de Marcos Bagno. HERZOG. Juana Muñoz (1996): La adquisición de las lenguas segundas y la gramática universal. . esses seriam os numerais e os determinantes indefinidos. Manuel (1990): El artículo y la referencia. São Paulo: Parábola. Paula & PIÑEROS. As entrevistas analisadas da variedade de espanhol de Montevidéu estão disponíveis em http:// www. Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. William. LEONETTI. LIGHTFOOT. p. São Paulo. WEINREICH. LACA. Acquisition. and e volution . 2002. 258-283. (2002): Spanish L1/L2 crossroads: can we get there from here? Em: PÉREZ-LEROUX. Mirta (1997): Pronomes pessoais no português do Brasil e no espanhol do Uruguai . 2 3 Exemplos extraídos e adaptados de Groppi (1997:93). Proceedings. Em: BOSQUE. 317350. Em: KEMPCHINSKY.): Gramática Descriptiva de la Lengua Española. 4 Nos baseamos na classificação de Leonetti (1999) para distinguir determinantes e quantificadores. Dra. seriam determinantes o artigo definido. p.

30 a 45 anos. de modo que o SN será [+específico] apenas se fizer referência a um objeto determinado. (1) Óscar quiere ver una película. se a especificidade for vista a partir de critérios psicológicos. o sintagma nominal un yate em (3) seria considerado [+específico] por referir-se a um objeto determinado. ainda que desconhecido pelo falante. um sintagma [+definido] não significa que seja [+referencial] e um [-definido] não seria necessariamente [referencial]. que. (4) Lucas quiere el coche más rápido del mercado. careceriam de definitude. Assim. 1990). consideramos que um sintagma nominal encabeçado por esse quantificador pode ter um referente identificável e ser [+específico]. Por outro lado. Contudo. (2) Hay una película que Óscar quiere ver. 6 Os informantes das entrevistas foram divididos em quatro diferentes faixas etárias. a ausência de determinante implica que o sintagma seja [-referencial]. um sintagma determinado como em (4) teria uma referencialidade enfraquecida. Assim. 19 a 29 anos. sendo elas. 7 Apesar de classificarmos un(os)/una(s) como quantificadores. conforme Leonetti (1999). em (1) ‘una película’ será [+específico] se tiver o sentido de (2). . embora não se possa identificar um referente. (3) Ernesto quiere comprarse un yate. De acordo com Leonetti (1999).44 5 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Consideramos especificidade com base em critérios lógicos (LEONETTI. 46 a 59 anos e 60 a 89 anos.

El primero de ellos. pasando de un estado de carestía de los derechos de ciudadanía a la adquisición de un cúmulo de reivindicaciones que lograron sacarla de la “minoría de edad legal” (Romero Pérez. Universidad Nacional de La Plata (UNLP) Teniendo en cuenta el escaso número de estudios que se detienen en particular en el análisis de la columna de “autora”.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 45 EL PENSAMIENTO NEOMODERNO EN LAS COLUMNAS DE ROSA MONTERO Y ROSA REGÁS Adriana Virginia Bonatto Centro Interdisciplinario de Investigaciones en Género (CINIG) / Instituto de Investigaciones en Humanidades y Ciencias Sociales (UNLP . visto además con ojos despectivos tanto por la derecha franquista como por la izquierda que retornaba a la escena política. p. 2006). y para quienes la igualdad de derechos entre el hombre y la mujer no constituía una urgencia en la agenda de cambios por lograr (Martínez Ten et al. La modernización social.1 En el ámbito del feminismo teórico. 2009). y que por por entonces era llamado “movimiento de liberación de la mujer” (León Hernández. privilegió el trabajo de los “grupos de autoconsciencia” . en los . La organización de grupos politizados de mujeres urgía en los setenta y principios de los ochenta y gracias a ellos la situación cívica de la mujer española se modificó de manera radical. en la teoría y en la praxis.escasamente reconocido por la historiografía acerca del periodo mencionado. cultural y económica que protagonizara España desde la transición a la democracia en adelante debe una parte de su desarrollo a las intervenciones. del movimiento feminista de la década del setenta. 2011.CONICET) Facultad de Humanidades y Ciencias de la Educación (FaHCE). en contraste con la considerablemnte mayor atención que reciben los autores que escriben en prensa y el género del articulismo literario como fenómeno de hibridez (análisis en los que no se toman en cuenta las significaciones que el género sexual comporta en ellos). que reiteran la gran división del movimiento posterior a Simone de Beuvoir en Francia y en Estados Unidos: el feminismo de la diferencia y el feminismo de la igualdad.340) y de la adquisición de una serie de derechos impensables unos años atrás. proponemos aquí un acercamiento a las particularidades del discurso público dirigido de dos autoras españolas. a partir de la lectura de dos realidades epistémicas (el feminismo ilustrado y la literatura neomoderna) que en ellas convergen y que dan cuenta de la particular significancia del género en esta clase específica de comunicación. con una presencia menos contundente en la península.. se distinguen dos tendencias bien delimitadas.

1996. que han producido obras fragmentarias y no conclusivas. así como a la interpelación social y política en torno al cuidado del medioambiente y al uso racional de la tecnología. de autoinstituirse en representante de lo irreductiblemente humano (2006. la autoestima y la solidaridad (Romero Pérez. se vuelve.20) y la invención de una metáfora aglutinante que preserve la visión ilusoria de unidad y de desarrollo progresivo es una empresa inconcebible. la negatividad axiológica y la heterogeneidad formal (Navajas. y sin delimitaciones valorativas específicas. 2011. quien creó en la década del ochenta el Seminario Permanente “Feminismo e Ilustración” en la Universidad Complutense de Madrid. retoman sus disquisiciones en torno a la vindicación.45). Herederas del pensamiento filosófico de Simone de Beauvoir. p. en la novela . caracterizado por Gonzalo Navajas como estética neomoderna (Navajas. En la situación posmoderna el mundo se percibe como “confuso y declinante” (1996. dentro y fuera de España. se presenta como la expresión feminista del posestructuralismo teórico y del posmodernismo artístico: lectoras atentas y críticas del psicoanálisis lacaniano y seguidoras del pensamiento estetizante de Luce Irigaray. 1996). que en España ha venido impulsando los cambios más contundentes en relación con las políticas de igualdad e inclusión durante las últimas décadas.344). la literatura que se escribe a partir de la década del ochenta pauta el inicio de una nueva modalidad epistémica que se caracteriza por la aserción cognitiva y axiológica y que se aparta progresivamente de la configuración posmoderna. p. por no haber permitido la emancipación de las mujeres. y sus principales impulsoras son Amelia Valcárcel. con una proyección teórico política destacada en todo el ámbito español (Romero Pérez. 4 De acuerdo con Gonzalo Navajas. 2011.341). La corriente de la diferencia. al multiculturalismo de Amorós y al islamismo de Rosa Rodríguez Magda. p. es decir. se contraponen al programa emancipatorio desarrollado por la otra gran corriente. en cambio. abriendo un espacio inédito de reflexión y de acción. a la necesidad de las mujeres de participar en lo definido como lo “genéricamente humano” (Amorós.43) y proponen que la única forma de lograr la emancipación es mediante una verdadera y transformadora crítica al androcentrismo. 2011.46 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS que se abordaron temáticas como la sexualidad.2 Desde un punto de partida teórico que considera que el único modo de superar la desigualdad dentro del patriarcado es buscando estrategias de homologación de las mujeres con el sexo-género que detenta el poder. al cual consideran partícipe de un proyecto inacabado. p. Las ramificaciones de este pensamiento se extienden al ecofeminismo de Alicia Puleo.346-347). Las feministas de la igualdad hunden sus raíces en el pensamiento ilustrado. en sus planteos generales.17-19). aspectos en los que encuentran efectos perjudiciales para los grupos femeninos menos favorecidos (Romero Pérez. el feminismo de la igualdad cuenta en España con una trayectoria académica definitivamente asentada y reconocida. creadora del Feminismo de Estado3 y Celia Amorós. en la que se revela la impostura masculina de apropiarse fraudulentamente de lo universal. p. especialmente fuerte en narrativa. p. 2006. p. p. el feminismo de la igualdad. Desde este punto de vista.2). caracterizada esta última por la indeterminación epistemológica. movimientos con fuerte sustento filosófico que apuntan a la integración cultural y a la igualdad de los grupos étnicos oprimidos. La recuperación de premisas ilustradas en un contexto posmoderno es comparable al movimiento paralelo en el ámbito literario. 2011. aunque limitado a grupos restringidos de mujeres cultas y lectoras de las nuevas tendencias provenientes del posestructuralismo francés y del psicoanálisis lacaniano (Sendón de León. de regreso parcial a los supuestos de una episteme moderna.

p. y en que la saturación de la información. Un yo que se constituye en una suerte de guía de multitudes con resonancias morales fuertes.151). p. de manera mucho más marcada que en la literatura de invención.65). 2008. p. p. y Angulo Egea. la mitigación en las afirmaciones y los juicios de valor mediante el uso de fórmulas indirectas . la literatura y la crítica hechos por mujeres y por artistas pertenecientes a minorías. El cruce que proponemos entre pensamiento feminista ilustrado y literatura neomoderna nos sirve porque da cuenta del trasfondo cultural y epistémico que sostiene los procesos de construcción de un yo de enunciación femenino con características diferenciales en las columnas literarias Rosa Regás y de Rosa Montero. en las estrategias que se despliegan y en el tipo de diálogo que se establece con el lector. p. 2007. ironía.61). 2009)5. algunos creen encontrar diferencias sustantivas en las columnas de las escritoras mujeres (Fernández Pérez. Nos interesa demostrar cómo en un mundo en que los valores dominantes son los impuestos por el mercado y la competencia.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 47 contemporánea a una suerte de “potenciación del yo” (Navajas. y ambas también se han mostrado comprometidas con las realidades de las identidades social y culturalmente marginadas. En relación con el género columna de autor. Angulo Egea y León Gross. Esta vertiente es además visible especialmente en el arte. dan lugar a lo que Huyssen describe como los fenómenos posmodernos de obsolescencia planificada (Huyssen. en su tarea de exploración de la subjetividad basada en el sexo.83). En los modos de llevar a cabo el ejercicio persuasivo. Sin haber estado inscriptas oficialmente en ningún movimiento feminista. 2007.69). en la clase o en la raza y en su constante despegue de los procesos de canonización estandarizada (Huyssen. Estas características obligan a leer a estas autoras de modo diferencial dentro del vasto universo del articulismo literario. la escritura periodística de estas autoras configura una voz femenina y un yo de enunciación que se reviste de dos tipos de autoridad: la de escritora y la de mujer. 2004. p.183) en la que se experimenta con la posibilidad efectiva de alcanzar modos de conocimiento que rehabilitan la significación del lenguaje y la investigación ética (1996.244).68)– en un tipo de comunicación en la que la persuasión pareciera constituir el objetivo primero y último. p. como recurso para atraer la atención del interlocutor y comprometerlo en el tema tratado (Fernández Pérez. el cine. ambas han reflejado en sus relatos y novelas aspectos relacionados con la realidad desigual de la mujer y con la problemática de los juegos de poder que subyacen a las relaciones entre los sexos. absurdo. situación que no deja de lado la visión que muchos autores aducen de sus textos como ejercicios literarios (Grohman. los inmigrantes pobres y los niños. se ha señalado que el subjetivismo más radical es una de las características que comparten quienes se dedican a esta actividad (Castellani. 2008. p. sátira. 2011. como los vencidos de la Guerra Civil. que en la mayoría de los casos puede describirse como una prolongación de la escritura literaria: las obras de ficción resultan enriquecidas por las reflexiones diarias o semanales de un yo que afirma en la columna su punto de vista más personal y que en ella se toma todas las libertades retóricas (persuasión. por sobreabundancia y por yuxtaposición acelerada de la oferta cultural y mediática. 2008. 2007. Entre las características que se enumeran como propias del género femenino en el discurso público dirigido encontramos como predominantes la utilización del discurso cooperativo. práctica definitivamente consolidada en España. experimentación lingüística) y actitudinales (desde el compromiso abierto con causas sociales y políticas hasta el desenfado y la irrisión desconcertantes) con el fin de conectarse con el lector –aquél que fielmente acude a la columna como primer texto a ser leído del periódico (Castellani. 1996.

(…) dispo de de re cursos. q ue sólo enf nfe meda dad de Pr imer Mund undo que af e c tan al 10% d e la p obl a ción d e l plane ta. etcéctera). 2007. demencia y muerte. Es el caso de José María Hernández. Anabel. legitima un saber y un pensamiento específicos en los que la problemática de género. el 90% d e la fo de ig a ción sanitar ia m undial se c e nt r aba e n in v est inv estig iga sanitaria mundial ce ntr en las e nf e r me da d es d el P r ime r M und o. ubicada en un punto de mediación igualitaria con el otro . irónico y reivindicativo (Angulo Egea. 2008. 2009. la no conclusividad y la ausencia de valoraciones específicas. lo que implica convulsiones.67). 2011. en las columnas de Rosa Montero y de Rosa Regás se combinan ambos estilos y en este sentido pueden leerse como textos abocados a una construcción de imagen que cruza la expresividad femenina. como etiqueta que. p. 2011. no obstante. nt r as q ue e l 90% d e los e nf e r mos r estant es mie restant estantes mient ntr que el de enf nfe sólo disp o nían d e un 10% d e los r e cur sos. p. pérdida de tono muscular. El lenguaje es sencillo y coloquial. e n los límit es el bo de oscurida idad.69) en las columnas firmadas por voces masculinas. pueblos africanos. suele subrayarse la captatio benevolentiae y la mitigación de las mujeres opuestas a un “yo dictatorial” y “agresivo” (Castellani.304).36). p. su estilo fue progresivamente adaptándose al ritmo de las ideas de compromiso y de conciencia social hasta transformarse su voz en las últimas décadas en una perfecta mediadora encargada de elevar a rango público las voces silenciadas de los colectivos marginados (inmigrantes pobres.66). A veces sí que existen medicamentos nuevos. En general. p. En las columnas de Regás y Montero se observa con fuerza el trasfondo de un tipo de pensamiento que superador de las premisas de la configuración posmoderna. y que guarda al mismo tiempo una indiscutible orientación axiológica. directo y desencantado (Villar Hernández. Desde nuestro punto de vista. p. ambas escritoras apuntan de manera programática a la preser vación de una instancia narrativa o enunciadora que recupera su posición de autoridad y de saber ante el lector a partir de la transfiguración subjetiva de las experiencias o de los hechos argumentados. entonces. la búsqueda de la identificación. con la autoridad de la voz de escritora.48 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS o de la ironía (Fernández Pérez. 2007. la preferencia por el tono testimonial y confesional. Abocada a una escritura que en un principio privilegiaba el componente lúdico y el comentario inesperado. re latos so brecogedores d e pa dr es c onmo vedores y ob de ad re co ov gue r r e r os q ue l uc han p or e l fu t ur od es us hi jos guer que luc uchan po el fut uro de sus hijos en e lb o r d e mismo d e la oscur ida d. con un fuerte componente crítico. nunca está ausente.59) y la proyección de “un ethos empático y situado entre los ciudadanos de a pie” (Angulo Egea y León Gross. dificultades de aprendizaje. con la terrible enfermedad de Niemann-Pick en su versión precoz y más brutal. mujeres golpeadas. como así tampoco ocurre con la opción a una voz dictatorial o de autoridad como exclusiva del perfil masculino: como intentaremos demostrar.2 y Angulo Egea y León Gross. 2007. en el vasto espacio de la palabra pública. como veremos en los ejemplos citados a continuación: S e g ú n dec í a el i n f or m e . r e lat os histo de fro nte de vida. el uso del dialogismo o de la “retórica del consenso” como soporte para la cooperación en una estructura comunicativa igualitaria no es característica sólo de la columna femenina. p. declive intelectual. además.35) que les permite lograr una identificación exitosa con el lector. la pormenorización descriptiva antes que la jerarquización (Fernández Pérez. las apreciaciones afectivas con un uso considerable del diminutivo y de la hipérbole (Fernández Pérez. en límites . p. En las columnas es claramente visible la construcción de un proyecto individual asertivo que continúa y completa el desplegado en las obras de creación literaria y que formaría parte de la episteme neomoderna. (…) S o n hist o r ias d e la fr o nt era d e la v ida. fe de po ación de planeta. En contra de la fragmentación. pero las rutinas sanitarias impiden la distribución de los mismos a personas desesperadas que ya no tienen tiempo que perder. 2011. p. que tiene una hija. La participación de Rosa Montero en la sección de columnas de El País se remonta a los inicios de este periódico en 1976. enfermos terminales.

pues. inició tardíamente su actividad columnista primero en El País. la única que puede forzar a que algún día lleguen a buen fin las decisiones que los gobiernos toman de vez en cuando para acabar con la pobreza en un plazo determinado (que hasta hoy nunca se ha cumplido). La justicia no protegía nunca a la mujer y la religión le aconsejaba paciencia. ha c e mos t o d o lo p osib le p o r no hec o. el subrayado es nuestro). El País 13/11/2011. vive en Madrid. El País 30/10/2011. si la ciega burocracia que defiende como perro cancerbero nuestros privilegios podría dejar de ser tan ciega. (…). Cristina. en 1994. ya fuera porque su amor se había acabado o incluso porque recibía constantes malos tratos. el subrayado es nuestro). Con una retórica que no echa mano ni de máscaras ni de ambigüedades identitarias (Benson. y que señala injusticias y olvidos históricos. La madre de Liliana vive en Medellín y aún no ha podido ni siquiera escuchar la voz de su hija. El Correo de Bilbao 28/10/ 2007. […] p e r o cur curiosame iosament nte ad que ha y batal las m uc ho más g r andiosas y difíciles hay batallas muc ucho gr q ue se están lib r and o e n la pue r ta d e e nfr e nt e. (“Pobreza cero”. y luego con una columna dominical que aún continúa en El Correo de Bilbao. Hoy voy a hablar de un puñado de guerreros. tenía que ir armada de la venia marital. hac to posib osible po en t e r ar nos. se asemejaba mucho más a una situación de esclavitud. (“Guerreros en el posib osible de raz azo nable. el subrayado es nuestro) Rosa Regás. con el fin de llevar a cabo una suerte de misión pedagógica que instruye acerca de los deberes cívicos y humanos. «aguanta hija mía aguanta. Est o y hab land o d e la di v e r sida d te arnos. es decir. filo de la oscuridad”. Esto ocurría en las clases sociales llamadas ‘elevadas’ porque la falta de libertad. me contó una de esas historias modestas y urgentes que son como un chillido. están de alguna manera limitadas en su funcionamiento. y ha entrado en este espacio por derecho propio y sin florituras estilísticas. La hospitalizaron el miércoles por una cesárea de urgencia a causa de una complicación llamada preclampsia. la historia pura y dura: Liliana. Esta es. Y ese chillido se abrió paso y exigió su lugar. y Liliana tuvo que volver a ser operada el sábado. (…) (“Una vida que merezca ser llamada vida”. el subrayado es nuestro). colombiana. Esto habland lando de div sidad funcio nal. desde la ciudadanía. por funcional. Regás utiliza la columna como medio Nací en un país y en una época en que para abrir una cuenta corriente donde ingresar el primer sueldo de mi primer trabajo. de tal modo que se tiene la impresión de que la lucha contra la pobreza.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 49 d e lo p osib le y d e lo r az o nab le. lo importante es mantener la familia unida». 2006). la prosa del articulismo de Regás se revela con un tipo de autoridad que no deja dudas acerca de la legitimidad del saber de quien enuncia: […]El mundo divide de un plumazo el comportamiento del ciudadano y el de sus gobiernos. etcétera). Pues yo hoy tenía preparado un artículo muy elaborado y algo sarcástico sobre el disparate de los recortes a los profesores. (…) Me pregunto. 2006). Un país donde una mujer se quedaba sin hijos si osaba separarse de su marido. (“Clamores”. como si la pobreza no tuviera nada que ver con sus Ef e c t i v ame nt e: la p o b r eza d el m und o decisiones. (…) . de aquellas personas que. el trato despótico y sobre todo el olvido a que la justicia sometía a quienes vivían en condiciones infinitamente más precarias. pero resulta que ayer una lectora. por su parte. Madre y niño están en cuidados intensivos. En contraposición a una narrativa que en sus cuentos y novelas privilegia el universo de la intimidad y la exploración de las complejidades internas de los personajes (Benson. (…). De héroes y heroínas tenaces y discretos con los que convivimos sin apenas darnos cuenta de que están iosame nt e no a d v e r t imos q ue ahí. El País 13/09/2011. razones distintas (discapacidad intelectual. (…). D e he ch o . para hacer denuncia política y social.Ef Efe ament nte: po de mund undo es fr uto d e las p olít icas ne olib e r ales d e est os fru de polít olíticas neolib olibe de estos países y los ci uda danos r esp o nsab les q ue q uie ren ciuda udadanos resp espo nsables que quie uier a cabar c on e l la sab en q ue no disp o ne n d e más co el sabe que dispo nen de ar ma q ue una p ro t esta q ue ha d e mo vers e rm que pr te que de ov ne c esar iame nt ee n la ar e na p olít ica nec esariame iament nte en are polít olítica ica. libr ando en puer de enfr nfre nte. parálisis musculares o cerebrales. que viven pendientes de otros asuntos. en fin. es casi nada en comparación con las políticas que llevan a cabo los gobiernos de los países ricos.

c o mo dig na d soe el tr dicional.y lo único que oímos son promesas de cuantiosos regalos. la defensa de los derechos del animal y el cuidado del ecosistema) puede cumplir con el proyecto ilustrado de emancipación humana. (2006): La gran diferencia y sus pequeñas consecuencias… para las luchas de las mujeres . (…). supone la utilización de la cualidad tradicionalmente femenina de ‘mediadora’ pero desde un lugar lo suficientemente alejado del margen como para imponer ideas y generar la toma de conciencia. Está por comenzar la batalla electoral -de hecho este periodo preelectoral que vivimos ya es pura campaña. nser de Tie ier que hemos re cibid ido d e los ríos y d e los mar es de mares es. Universidad de la Laguna / SLCS. con la vertiente del feminismo de la igualdad como referente teórico que entiende que sólo mediante el reconocimiento de una razón crítica la lucha por la igualdad de las mujeres (ampliada a la reivindicación de las minorías. o id eas q ue er do em de qu j ust ifiq ue np or q ué d e f e nd e mos países carg a d os ustifiq ifique uen po qué de nde carga d e ult r ajes a los D e r e c hos H umanos y nos ultr De Humanos ale j amos d e ot r os q ue int e ntan camb iar e l cur so alej de otr que inte cambiar el curso dic tat o r ial d e s u p r o pia hist o r ia. En: Actas del I Congreso Internacional Latina de Comunicación Social. el subrayado es nuestro). r e f e r ida p or e je mplo éxitos. no sobre lo que nos dan o nos van a dar. (“Ideas”. 2000. Celia. Id eas so sob just usticia. asist imos a dest este ya dicta tad ura. El de quie uien emit mite Correo de Bilbao 06/03/2011. re po eje jemplo a los inmig r ant es. sino el siglo XX por miseria pura y dura y anhelo de labrarnos una vida más digna. asistimos una c o nstant e discr imina ción d e la m uje r q ue co nstante discrimina iminación de muje ujer que es j uzg a da p or e l ho mb r e ca v e r níc ola. Referencias bibliográficas AMORÓS. María (2009): Las mujeres en el periodismo literario: tres casos paradigmáticos. Estas columnas se articulan. ANGULO EGEA. con proyectos de leyes que impidan descalabrar más aún el paisaje de nuestras costas. revelando así una apropiación asertiva de la capacidad argumentativa racional del yo. El Correo de Bilbao 17/02/2008). igualdad con el otro que padece pero de autoridad con el lector que lee el periódico. en consonancia con la línea neomoderna. En conclusión. La capacidad de introducir y de vindicar la voz del otro. te niend ndo en memo mor en la e xp e r ie ncia las v e c es q ue lo fuimos nosot r os exp xpe iencia ve que nosotr en e l sig lo X X y no sólo por razones políticas. Id eas so sob p o l í ti c a e xt erio r. el fomento de la dignidad y autoridad de los maestros. alabanzas de la propia gestión y hundimiento de la del contrario. políticas y éticas que deben ser puntualizadas por la voz autorizada de la escritora que se ubica en relación de . los medios profesionales y materiales para incrementar la eficacia de los bre programas y el interés de los alumnos. o aquello que Montero denomina “chillido” (“Clamores”. nflict br co el Sáhara Palest alestina. Po r q ue inc incl que vi en l uso los q ue v i v imos e q ue ha d est er r ado y a la dic ta d ur a. las columnas de opinión de estas autoras pueden leerse como un modo particular de mediar en el complejo mundo de la voz pública a partir de la convicción de que aquello de lo que se argumenta responde a urgencias sociales. t e nie nd oe n la me mo r ia y e n inmigr antes. en cambio. s o b r e n u e s t r o p a p e l e n ex te or en c o nflic t os b r u tales c o mo e l Sáhar a o P alest ina. por pon e r sólo d os ej e mplos. y contraponiéndose a la vertiente del pensamiento y la literatura feminista en los que se pone el acento en las diferencias y en lo particular produciendo retóricamente el efecto de una diseminación y pulverización del sujeto constituyente (Femenías. además de lucirse en los estrenos y las exposiciones y conseguir que los medios hablen durante dos días de tan grandes bre j ust icia. Quisiéramos un debate de ideas sobre qué entienden por cultura. Ideas sobre lo que ha de ser la educación. sino sobre las ideas? (…). 13/09/2011) de aquel que no puede hacerse escuchar porque no parece poder acceder a marcos institucionales que hagan su voz inteligible y traducible a demandas legislativas de primer orden.50 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS n un país […]. El País. también e crít icas so e c es por e lt r a dicio nal. (…).Pero ¿no echamos de menos un debate. I d eas so b r e la dictat tato de su pr histo Id sob c o nse r v a ción d e la T ie rra q ue he mos r e cib id o. co digna de críticas le v an p or d e lant e q ue o f e nd en s u dig nida d y se l de lante of nde su dignida nidad lle lev po la d e q uie n las e mit e . p. y tamb ién juzg uzga po el homb mbr cav nícola. Madrid: Ediciones Cátedra. (…) (“Día de la mujer”.110).

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Cádiz: Ediciones APM. Romero Pérez. 2 Desde una perspectiva basada en la reivindicación de lo específicamente femenino y en la revalorización de las relaciones matrilineales. al derecho al divorcio en 1981. por ejemplo. por parte de Victoria Sendón de León (Cf. además. 299-327. Concha Espina. Carmen Rigalt. Josefina Carabias. del aborto inducido en 1985. Elvira Lindo. Carmen Rico Godoy. la dispersión tentadora y cumulativa del posmodernismo” (Gracia.): Artículo femenino singular. las representantes de esta corriente han interpelado el espacio político mediante propuestas concretas y guiadas de cambio. Gabriela Wiener. Rosa Montero. y de los planteamientos en torno a la creación de un espacio simbólico alternativo al patriarcado por medio del arte y de los medios de comunicación. en general. Diez mujeres esenciales en la historia del articulismo español . el del uso de anticonceptivos en 1983 y la legalización. que asegura cupos para mujeres en los cargos políticos. Maruja Torres. María y LEÓN GROSS. 2011 y Sendón de León. 5 Las escritoras analizadas por los estudios citados son Magda Donato. p. . con restricciones. Notas 1 Nos referimos. y candidaturas a cargos políticos que modificaron el escenario de posibilidades durante la democracia. de la Democracia Paritaria. Jordi Gracia anota acertadamente que las variables terminológicas apuntan a un mismo fin: “identificar una defensa de valores que no han caído abatidos por la aguda conciencia relativista del desconstruccionsimo ni. 2011. como fue el caso de la candidatura de Lidia Falcón al Parlamento europeo en 1999. Clara Sánchez. Carmen de Burgos. 220).18) 3 4 Impulsora. entre otras. Teodoro (dirs. p.52 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS ANGULO EGEA. p. Carmen Martín Gaite. Si bien hay quienes incluyen este movimiento de la literatura hacia la narratividad y hacia la recuperación de un yo coherente y unitario en las filas de un posmodernismo estético menos experimental. 2000c. todos promulgados gracias a la Constitución de 1978.

para articular una conciencia ética. así como también sus tácticas y estrategias. Uno de esos discursos es el artístico. En palabras de Merewether: violencia en cinco obras de Salcedo a partir de dos ejes: las condiciones de producción de la obra y su situación de enunciación. presentaban el cuerpo como escenario de agresión. (MEREWETHER.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 53 FORMAS DE ENUNCIAR LA VIOLENCIA EN LA OBRA DE DORIS SAL CEDO1 SALCEDO Alexander Castillo Morales Instituto Caro y Cuervo Adriana Yamile Suárez Reina Universidad Libre El fenómeno de la violencia hace parte de la cognición social por lo cual este se considera como un producto de interacciones personales que hacen posible toda una red de sentidos vinculados en la semiosis social. el arte debe dirigirse a la representación como tema político. Artistas anteriores. La no representación física hace que la focalización se aleje de cierto sensacionalismo que se produce cuando el primer plano presenta la atrocidad y el desgarro físico. tal como lo indica Malagón (2010). párr. La evocación del cuerpo ausente En su decir artístico. espacialización y focalización. puesto que en su decir estético se tematiza constantemente la violencia y se hace una aproximación a esta desde el arte político. el propósito de este trabajo es analizar el proceso enunciativo de la . su modalización. es decir. sentidos que toman forma en una multiplicidad de discursos a partir de los cuales es posible determinar las relaciones de poder en un contexto social. la sociedad y la cultura que se entretejen a través de una manifestación estética. el proyecto estético de Salcedo se basa en el convencimiento de que. una serie de meditaciones acerca del tema de la violencia. sf. la obra de la escultora colombiana Doris Salcedo. la obra de Salcedo se Doris Salcedo ha producido.1) articula a través de la idea de evocación la cual permite una manera diferente de tratamiento del cuerpo humano. En respuesta a la experiencia de vivir en un país sujeto a la violencia indiscriminada y al terrorismo. esto con el ánimo de develar los vestigios de las voces del individuo. mientras que en el caso de Salcedo se hace como realidad ausente. a través de sus esculturas y montajes. esta última entendida desde la perspectiva teórica de Ramírez (2008) como el proceso de actualización del lenguaje artístico en la puesta en escena de la obra misma. De acuerdo con lo anterior. particularmente en el caso que aquí nos ocupa.

Así. De ese modo. Las personas que interactúan con el ser cama o el ser andamio lo hacen desde una perspectiva funcional. El espectador queda enfrentado a una construcción que ha de generarle extrañamiento y preguntas. propio para la construcción. más bien lo que hace es crear un objeto cuya constitución evoca un espíritu minimalista centrado en una idea que sustenta su significado en la evocación metonímica que tiene cada elemento. cuya referencia es la enfermedad. Por eso se ha dicho que puede ser un objeto que evoca las nociones de construcción y enfermedad de manera simultánea. Así que más que la evocación de un cuerpo se evoca una actitud. En Sin título . tal como se ha dicho anteriormente.54 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Aquí se alude a la idea de sufrimiento. No crea la idea de una presencia humana próxima. es frialdad y en sí mismo genera distancia. La nueva estructura entremezcla de manera paradójica las nociones de enfermedad y construcción como referencia y como sentido profundo. Para Malagón. La espacialización como presentación del dolor. pero por otra parte puede ser más en el sentido de enfermedad. la desfuncionalización y la resemantización van más allá de la esfera formal y se convierten en idea sensible. pasividad que ha permitido que en Colombia la violencia y sus diferentes formas se naturalicen y se acepten como parte del destino. De esa manera. Los andamios no generan más afecto que el necesario para ensamblarlos y ponerlos para trabajar. La imagen presentada por Salcedo configura y clama por un lector inquisitivo que por lo menos deje la pasividad acostumbrada. No es el modo invasivo del medio de comunicación que presenta e induce una idea. imaginario y opinión sobre algún hecho o evento. y que por efecto de la repetición y el desgaste termina volviéndose corriente y cotidiano. Se acude al espectador como un individuo que debe construir alguna interpretación frente a la presencia de la obra que se deja hablar. En ambas estructuras originales. la evocación desde lo hospitalario o de salud hace pensar en la idea de curación. según el ámbito del que proviene. fría y de paso. pero también debe pensarse en la idea de muerte. clama por espectadores que no sean meros turistas culturales y que se involucren con los sentimientos y el sufrimiento de quienes viven en carne propia el conflicto. atravesadas por varillas de . Quizá alrededor de lo que implica la cama de hospital se circunscriban muchos sentimientos y deseos de curación. los trozos desechados (enfermos) de las camas de hospital se complementaban con las secciones de andamio. la conexión con los sucesos violentos o con la realidad nacional depende del lugar en donde se presente la obra. No se alude al espectador desde la presentación de una imagen que a primera vista le resulte “cotidiana”: gesto de dolor. indiferencia u olvido. sino desde la evocación y comporta la capacidad para sugerir múltiples lecturas. Para el caso de la obra Sin título 1987. El escenario hospitalario funge como un lugar en el cual de acuerdo con la atención prestada se dará el paso a la recuperación o al deceso. desde la perspectiva de las víctimas. Algo así como una arqueología de la desmemoria e indiferencia sobre nuestra enferma y perversa realidad. De ese modo. el tiempo de los hechos violentos es evocado como cotidianidad doméstica cuyo ritual ha sido fracturado y puesto en suspenso. Allí el cuerpo humano no aparece de forma directa. se conjugaban partes de camas de hospital desechadas con un andamio metálico para construcción. la violencia no se aborda desde la figuración. cadáver. pues se evoca en su sentido de tránsito. 1988-1989 (Camisas almidonadas) se presentan pilas de camisas muy bien dobladas y enyesadas. herida o arma. Así mismo. el material es metálico. el dolor y el sufrimiento como centro de los procesos de construcción nacional.

son terriblemente personales. La violencia amarillista que muchas veces es convocada con fotografías de primer plano y sangre es sustituida por formas sutiles. En ese sentido la obra propone una posición crítica y estética frente a las formas de comunicar la violencia. coloca a la mujer como quien ha hecho dicho oficio para que el esposo se coloque la ropa y vaya a trabajar. donde la literalidad espectacular se coloca en primer plano. párr. Atrabiliarios remite a la desaparición violenta y a la ausencia de personas. que en un país de corte machista como Colombia. Por otro lado. lo cual no implica olvidada. Perduran son reconocibles. incluso espiritual queda abierta y requiere ser sanada. economía. 5).. un tiempo pasado y familiar en donde el quehacer doméstico ha sido roto. este entierro. Al respecto Salcedo afirma que: “Cada vez que vemos un acto violento quedan los zapatos. es decir. la seguridad. Este uso de las camisas se ve paralizado por el hecho de que están enyesadas y atravesadas por las varillas de acero. El material de algodón de color blanco de las camisas se presenta limpio y acentúa la referencia a la camisa misma. Las camisas y los catres como presencia hablan de lo pendiente. la focalización de la obra se centra en una construcción metafórica en el cuerpo que no vuelve a la vida doméstica. una herida que está presente. De acuerdo con esto. y hoy por hoy.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 55 acero. Algo muy fuerte les ha hecho perder la posibilidad de ser usadas. Se crea un mundo posible en el cual se evocan cuerpos ausentes que no pueden usar la ropa y que se refuerzan en las mallas o “catres” los cuales sirven de personificación para representar el dolor y sufrimiento de los que no están. La pérdida de un ser querido implica una herida y un duelo para sus familiares. El yeso quita la función de las camisas. del duelo fallido. la violencia con que son atravesadas parece invocar una respuesta. Este objeto al ser presentado blanco. planchado y en pilas evoca el estado de potencialidad de uso: la “ropa” está lista para que alguien la use. es decir. sobre todo desde los medios masivos. Esa herida emocional. . Así. Además. El nicho se constituye entonces en una representación del osario en tanto lugar en el cual se guardan los restos humanos a manera de entierro. en vez de sellar un ciclo. en donde la afirmación de la identidad se configura como una línea divisoria que se va modificando con los años: racismo. en Atrabiliarios (1993). Allí se inserta la cotidianidad doméstica de una familia y en particular del rol femenino. el espectador tiene la posibilidad de transitar por entre la ausencia y la espera de las víctimas de la violencia. habla de víctimas cuyo cuerpo aún no se encuentra. eso significa que la idea de espacio es fundamental. grotescos y fuertes” (citada por GÓMEZ. el hogar cambia por un hecho violento que lo ha vulnerado. Entonces. hace volver la mirada sobre el sentido de éstas y crea un interrogante ¿por qué? Luego. Cabe anotar que el nicho a su vez se cubre con una piel de animal estirada y cocida. los objetos seleccionados son mínimos y sus posibilidades expresivas y sobre todo comunicativas son máximas. esto en razón a que uno de los principales elementos definitorios de un grupo busca responder a los interrogantes: ¿Qué lo hace diferente de otro? ¿Cuál es el espacio social que ocupa? Es decir que lo trasversal allí es la noción de división. de la herida que no sana. sf. Salcedo centra su mirada en las fronteras o límites que se le imponen a la alteridad. también el tiempo es invocado. no está sellado con una lápida por lo cual deja ver el objeto en su interior. por lo tanto. son fuente de información sobre sus dueños. Por su parte. pero en este caso el único resto humano es un objeto: los zapatos de mujer. se es en tanto que diferente a otro. De ese modo. Salcedo elige cuidadosamente los nichos en los muros dentro de los cuales se aprecian zapatos de mujer usados. En Shibboleth (2007-2008). Es importante indicar que esta obra se desarrolla como instalación. del dolor que no es superado y.

Este índice conlleva la rememoración de la violencia como artificio que altera el rito de despedida de la vida. el registro fotográfico es impactante por cuanto cada objeto escultórico tiene bastante fuerza y la idea de muerte genera un choque.se convierte en muerte al combinarse con los cuerpos en tanto que la tierra termina consumiéndolos y. Asimismo. La grieta de Shibboleth traza una línea que aunque perteneciente a la estructura social pocas veces se visibiliza. La grieta trasgrede entonces la institución y subvierte los parámetros de un arte canonizado. El tiempo que se invoca y la focalización misma conducen a la sensación de pérdida. La obra es una grieta de 167 metros en el suelo del Tate Modern -situado en el centro de Londres y el cual alberga a los representantes más importantes del arte moderno-. La enorme cicatriz de Shibboleth marca el discurso de la exclusión como elemento violento. algo que inició hace mucho tiempo pero no se detiene.se genera gracias a sus características estructurales. de tal modo. la rompe. esa es una de las características de las instalaciones. propicia la vida en el nacimiento de nuevos brotes de pasto. Acciones que tienen una fuerte carga psicológica en los individuos que se enfrentan a esta experiencia. duelo y dolor.2010). factores políticos e institucionales como la segregación espacial y simbólica. la desigualdad. la obra atraviesa la galería. Por eso. visibiliza la muerte y pone de manifiesto que la naturaleza -la tierra. Es el momento en que se está junto al ser querido en el acto ritual de la despedida. la penetra. La distribución de las mesas en el espacio hace que la espacialización sea un factor modal muy importante en el desarrollo de la obra. La experiencia como recorrido es muy importante en esta obra. es decir. adicionalmente.que se disponen una sobre otra de manera invertida y se encuentran unidas por una capa de tierra sobre la cual en algunos casos se perciben formas humanas y se deja ver el crecimiento de pasto. pero de trasfondo se encuentra la irrupción de la muerte pues no se puede acceder a la identificación del ser que allí yace. La obra juega entonces con la ambivalencia vida/ muerte en razón a que en apariencia se visibiliza un ciclo natural por los materiales que Salcedo elige. se propone que los espectadores sean “envueltos por su presencia”. No se trata de la construcción de un ensamble de mesas. una obra que se compone por 120 parejas de mesas de color gris con unas dimensiones de aproximadamente 50 centímetros de ancho por dos metros de largo -las mismas dimensiones de un ataúd convencional. al presentarse en dicha galería se evidencia la incursión de discursos de fractura. casi como artefacto de fuerte connotación ritual. . la noción de tiempo hace que la obra cobre fuerza en un “aquí y ahora”. sino que al presentarse como un gran conjunto donde la idea de instalación es el marco. es gradual. La violencia entonces es focalizada en términos de sus aristas dentro de las cuales se encuentran las condiciones de pobreza. tierra y hierba simplemente. el marco que se instaura hace que el espectador establezca una conexión emocional debido a su carga simbólica.56 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS El sentido de la división en Shibboleth enunciado anteriormente. protegido de otros a quienes no le pertenece. En tanto grieta posee un potencial simbólico que indica no solamente un daño temporal sino su historia y continuidad. Puede afirmarse que sin que haya la menor información sobre la anécdota que motivó el desarrollo de la obra. Justamente. en Plegaria muda (2008 . parcelado y mercantilizado. Finalmente. el escenario implica lo lúgubre y doloroso. y esa sensación es a la que se expone el espectador para entrar en los zapatos de quienes han sufrido este tipo de situación. No obstante.

los poderes locales de los guerrilleros y de los paramilitares.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 57 La voz de la violencia Las obras de Salcedo se inscriben en momentos históricos de la realidad nacional cuando “en Colombia.000 muertos en combate y otros 23. sino que se da en términos generales. el exterminio de los miembros de la Unión Patriótica. 2012. 57 por ciento mujeres y 70 por ciento menores de 18 años. 2012. los entramados de narcotraficantes y políticos clientelistas. el conflicto armado habría producido unos 11. se instauran procesos de negociación con las guerrillas. el cual data de 1986 hasta el presente. El problema de fondo sigue siendo el mismo desde la fundación de la república: la distancia entre los sueños del constitucionalismo y las prácticas sociales” (PALACIOS Y SAFFORD. En cuanto a los causantes de esta tragedia. el Estado y la política quedaron en vilo ante poderosas fuerzas centrífugas como la globalización. A parte de la desestabilización estatal por cuenta de los factores mencionados. En suma. Todas estas son formas de violencia y de inequidad sobre las cuales el interés no es profundizar pero que se deben mencionar. aunque los diferentes actores armados del conflicto tienen de una u otra forma conexiones con el mismo. por el contrario los aspectos sociales se hacen más dramáticos: Desde 1995. p. (PALACIOS Y SAFFORD. Más bien. de los cuales 12. (PALACIOS Y SAFFORD. El 66 por ciento de los refugiados son campesinos. aumentó considerablemente después de 1997.978 homicidios totales (excluyendo para el año 2000 las muertes por accidentes de tráfico). 2012. el 6 por ciento a la fuerza pública y el 16 por ciento a otros agentes. 2012. masacres. a las que se atribuye el 35 por ciento. poco a poco se da una escalada militarista y el desarrollo social nunca se convierte en una realidad.000 en episodios de asesinatos y ejecuciones extrajudiciales. el conflicto armado ha forzado el desplazamiento de un millón y medio de colombianos de sus hogares y vecindarios.984 son directamente imputables al conflicto armado. 514) Es así como la violencia ha tomado un papel cada vez más estelar. Tampoco se habla de una pérdida de confianza en la justicia y la creciente corrupción. seguidos por guerrillas. En el trienio de 1998 – 2000 se registraron en el país 73. p. Sin embargo. Al respecto Palacios y Safford dicen: “Los desarrollos legales de la Constitución quedaron en manos de la clase política preconstituyente. pobres en su mayoría. más aún cuando se ha aumentado la estigmatización frente al disenso y se le formulan señalamientos. en el 43 por ciento de los casos son paramilitares de derecha. ejecuciones extrajudiciales. la incidencia de esta violencia política. desaparición de personas) perpetrados por guerrillas. Aquí no se menciona el narcotráfico. Consideraciones finales En términos generales se encuentra que los elementos enunciativos de la obra de Salcedo permiten hablar de la violencia como hecho no . estos 34.000 muertos representan un 10 por ciento de todos los homicidios cometidos en estos dos decenios.483). 478) A este periodo los autores lo denominan “Interregno”. p. El 65 por ciento en forma familiar o individual y el 35 por ciento restante como éxodo colectivo.” (PALACIOS Y SAFFORD. que se desarrollan los procesos de liberalización de mercado y la Constitución de 1991. 514) Resulta imposible evitar el tema pues es parte de la realidad colombiana que continúa ahondándose sin una solución. entendida como las muertes en combate y los homicidios políticos de población civil inerme (asesinatos. al tiempo. Puede ponerse en perspectiva la realidad del conflicto con algunas cifras con las cuales se puede ilustrar la creciente violencia: Entre 1975 y 1995. p. pues la indiferencia y pérdida de memoria sobre la que tematiza salcedo no es sólo el conflicto armado. la guerra abierta con el narcotráfico. El conflicto está cada vez menos ideologizado y la presencia de intereses económicos es cada vez más prominente. paramilitares y en mucho menor grado por la fuerza pública.

De algún modo. Comunicarse con atención y cuidado con los elementos meticulosamente seleccionados. Luís Alfonso (2008) Comunicación y discurso La perspectiva polifónica en los discursos literario. País fragmentado. sociedad dividida. Recuperado el 22 de julio de 2012.htm#1 MALAGÓN-KURKA. En: banrepcultural. pues se connota el cuerpo vulnerado y se evoca el dolor que no acaba de quienes pierden a sus seres queridos. Marco & SAFFORD. RAMÍREZ. Charles (sf. el trabajo de Doris Salcedo es importante pues busca mantener fresca la memoria mediante la generación de objetos artísticos que involucren a los espectadores. La obra de tres artistas colombianos en tiempos de violencia: Beatriz González. pareciera que este tipo de obras tuviese más impacto en los escenarios especializados que en el público en general (colombiano). Departamento de arte. porque para la mayoría se vuelve demasiado cifrado debido a que la artista siguiendo el norte minimalista y la expresividad de los materiales espera que el lector haga ese tipo de lectura.org/blaavirtual/todaslasartes/ anam/anam27a. cotidiano y científico. María Margarita (2010) Arte como presencia indéxica. termina presentando a los demás (críticos y espectadores extranjeros) realidades que en buena medida le resultan exóticas y en dónde la fuerza de crítica política no tiene. En tal caso. porque el acceso a la cultura artística no es una constante en Colombia y por otra. Sobre esta última afirmación bien valdría la pena profundizar en un futuro. En esa línea. Oscar Muñoz y Doris Salcedo en la década de los noventa. . más que un impacto estético. porque las obras interpelan al espectador y esperan una actitud más dinámica. Por lo tanto. Recuperado el día 19 de julio de 2012. quizá. La banalización y la indiferencia son dos frentes de anestesia y de algún modo de protección y acomodamiento. En: unalmed. Estos deben acercarse al “escenario” que la artista construye y dejarse ir. Su obra entra en constante diálogo con los discursos de la violencia en Colombia.co/mediateca/ artenaturaleza/espanol/arte_tierra/ artetierra_col_tv. el tipo de lenguaje que en el ámbito artístico tiene gran aceptación y dentro del cual resulta altamente novedoso. Literatura y Semiótica de la Universidad Pedagógica y Tecnológica de Colombia. Tunja 2012. de allí que la voz de la violencia sea bastante nítida en su producción. MEREWETHER.) “ Dor is Salcedo ”. Bogotá: Universidad de los Andes. Facultad de Artes y humanidades.org. Facultad de Administración.htm PALACIOS. no todas las veces resulta atractivo para el público en general.58 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS espectacular. su éxito se registra por fuera de los contextos iniciales y aunque la obra continúa comunicando. de: http://www. Referencias bibliográficas GÓMEZ JARAMILLO. La artista produce obras con el fin de conmover a los espectadores a través de la experiencia que implica el recorrido de sus obras (todas se centran en apropiación espacial). donde el ritual y lo simbólico son fundamentales.edu. Ediciones Uniandes. Frank (2012) Historia de Colombia.banrepcultural. Patricia (sf. Nota 1 Este texto es una síntesis de las disquisiciones presentadas en el XXVII Congreso Nacional y I Internacional de Lingüística.unalmed. Bogotá: Universidad de los Andes. Ediciones Uniandes.edu. de: http://www. Pero también. cuando la mayoría se adentra con mayor facilidad a formas claramente narrativas y directas.co. No obstante. Bogotá: Cooperativa editorial Magisterio.) “Testimonio y Violencia”.

Universidade de São Paulo En La última escala del tramp steamer hay un juego con el azar como presencia recurrente en la vida del narrador-autor. “Como lo que voy a narrar es algo que supe por boca del . contada por Iturri al narrador-autor. con mi ninguna destreza. desde Las mil y una noches.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 59 RELACIÓN AUTOR-PERSONAJE EN LA ÚLTIMA ESCALA DEL TRAMP STEAMER DE ÁLVARO MUTIS Aleyda Gutiérrez Mavesoy PG . sino en varias paradas por los distintos continentes. Historia 1 Historia 2 Historia 3 Narrador Autor Narrador Autor Narrador . Ahondemos un poco en este concepto. “Ojala. Del amor y otros demonios. y la última es el relato de la historia de amor propiamente dicha. hasta verlo por última vez por el delta del Orinoco. otro es el relato de cómo el narrador-autor conoce la historia en su encuentro con Jon Iturri en el Orinoco. ¿Cuál es el juego que propone Mutis al disponer de esa manera la trama? ¿por qué se hace personaje de sus ficciones? ¿cómo lo hace? Hay en esta obra un juego de composición que oscila entre tres relatos. El Decamerón. con claves que desde las primeras líneas “Hay muchas maneras de contar esta historia (…)”.Autor El primer relato funciona como marco de composición de los otros. la dolorosa y peregrina fascinación de estos amores”. o El corazón de las tinieblas . azar que lo lleva a encontrarse con ese viejo barco mercantil en varias ocasiones y no sólo en una escala. El marco de composición narrativa es un recurso de la narración ya clásico. Álvaro Mutis finge la realidad de lo narrado a través de esta apertura que en sí misma tiene otra apertura dirigida al lector. Los sufrimientos del joven Werther. no se pierda aquí el encanto. Uno es el relato del narrador autor como testigo de los viajes del tramp steamer .Lector Narratario .Jon Iturri Encuentros con el tramp steamer Encuentro con Jon Iturri Historia de amor entre Jon Iturri y Warda Bashur Narratario .Lector Narratario .

2010. le permite a Mutis ubicarse y ubicarnos en el borde del mundo ficcional y del mundo real. secundaria. 2001. Todo este juego genera una forma de la verosimilitud y. La figura del autor como personaje. (Peña. es así como recurre a un testimonio que simula ser verídico para enganchar definitivamente al lector en esta historia de amor que “algo tienen de las nunca agotadas leyendas que nos han hechizado durante tantos siglos. también. desde Príamo y Tisbe hasta Marcel y Albertine. Mutis legitima el papel del autor como motor de la narración y señala la necesidad de la vuelta a la sencillez de la forma por la contundencia de la historia. Esos “marcos” operan como aperturas narrativas de carácter especial. pronto se pasa a una historia apócrifa o ficticia.” (316).la primera historia rodea la historia central como el marco de un cuadro. Existen distintas formas del marco de composición. hacerlo de la manera más sencilla y directa para no arriesgarme por caminos. imaginarlos como túneles por donde el autor lleva de la mano al lector y lo transporta. al mismo tiempo. sería aconsejable intentar. o aperitivos que despiertan el apetito por la historia principal. creador. Vamos a detenernos un poco en esta idea. pasando por Tristán e Isolda. para ello. prevenciones. Considero que. con lentitud de saurio malherido. pero nunca dice que es el mismo Álvaro Mutis -sólo a lo largo de la historia va enviando datos biográficos que a los conocedores de su vida lleva a asumir que es él mismo-. p. con muy pocas ganas. o bien intercalando en el discurso las dos historias en una especie de espiral. bien como el juego de las cajas chinas o de las muñecas rusas. los lectores nos va a contar una historia de amor relacionada con un barco mercantil. de una primera realidad que se supone verdadera. logra hacer figurar como “verdadero” lo que en adelante escribe. o inducciones hipnóticas para que el lector pase sedado al tema central de la obra. A nosotros. en verdad. con esa máscara logra fijar la idea de que se basa en un hecho real. sin temores. que buscan liberar al lector de las ataduras de la realidad primaria para llevarlo hacia la libertad de la ficción total. con ello.” (314). “Por eso he preferido. Álvaro Mutis no sólo actualiza el marco de composición sino también la importancia del autor como orquestador. Esta estrategia narrativa además de crear la ilusión de “verismo”. su vinculación laboral a una multinacional petrolera “Tuve que viajar a Helsinki para asistir a una reunión de expertos en publicaciones internas de las compañías petroleras. atajos y meandros que ni domino ni. ficticia. con el papel de narrador como mediador. frente a la experimentación exacerbada después del Nouve romance francés. siempre desde la voz del narrador-autor-personaje como deíctico que nos señala dónde hay salto y a cuál historia damos el salto. del universo narrativo. en este caso. la historia del tramp steamer “Entró de repente en el campo de mi vista. que la historia ocurrió y él la supo de boca del protagonista. ni advertencias. a otra. como en Las Mil y una noches el narrador pasa del relato al relato del relato. mejor. p. No podía dar crédito a mis ojos. le indican al lector que el narrador es el mismo autor. La simulación continúa a lo largo de todo el texto con los saltos entre una historia y otra.60 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS protagonista” (Mutis. La simulación empieza por el hecho de que el narrador se hace pasar por el autor. frente a la supuesta muerte del autor. crea la imagen del autor como elemento fundamental de la ficción que la obra construye. 292). Podemos. 3131).” (313).” (313). ya que parte de un hecho biográfico. Iba. ahora que la escribo para él –ya que contársela no me ha sido posible–. . engañado. sin que el lector tenga tiempo de distinguir entre la primera y la segunda. o “prólogos” narrativos. ayuda a generar expectativa en el lector por la historia que ha de ser contada en adelante. bien como su nombre lo dice -y siguiendo la metáfora de la pintura.

si nos detenemos en el hilo del relato. el esquema sería el de cajas chinas. como se prefiera nombrar a esta forma particular de narrar donde un relato está contenido por otro relato y así sucesivamente. Asistimos a la historia de la historia de la historia. aclaraciones de términos. han corrido por mi cuenta. porque en el interior de cada historia -a la que llamaremos macro.que hacen avanzar a la narración en una especie de espiral.se desarrollan pequeñas historias -o micro historias. en síntesis las formas de actuar del narrador hipostático -autor y personaje al mismo tiempo-. reflexiones sobre las emociones y percepciones personales sobre lo narrado. o las muñecas rusas.Warda Narratario (autor implícito) Narratario (lector implícito) En realidad. luego nos cuenta cómo conoció al capitán del barco y finalmente nos cuenta la historia de amor que a su vez le cuenta el capitán del barco. la figura más cercana sería de este tipo: Sin embargo. Como en el siguiente esquema de las cajas chinas. nos damos cuenta de que cada historia es una caja china de relatos. vuelven al lector a la conciencia de quién es el que escribe la historia: “Creo que no sobra advertir a mis lectores que ciertas alusiones museográficas hechas en esta descripción. sobre los otros. las intromisiones frecuentes del Narrador-autor en el plano de la narración. De cierta manera. que acumula información y utiliza la información previa para configurar la trama. Iturri mencionó algo como “esas estatuas de mujer que hay en Roma” o “los kouros que hay en Atenas” (344). Primer nivel Narrador (autor impl íci to) Segundo Nivel Narrador Tercer nivel (Jon Iturri) Historia Jon . con valoraciones sobre lo dicho. Un modelo de esta forma de avanzar el relato en el plano del discurso podría plantearse de la siguiente manera: .ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 61 primero nos cuenta cómo se encontró con el tramp steamer.

manuscritos. de aclarar y no sólo contar. pretende también marcar dos puntos: la imposibilidad de la escritura de captar completamente lo que le ha sido relatado y. no permite. diarios. la imposibilidad de comunicar la experiencia como acontecimiento -hacer y padecer en el mundoes vista por Mutis como la carencia fundamental del escritor. de que no dimos en el blanco”. desafortunadamente. no sólo busca organizar el universo de la narración. entre el conjunto de signos posibles es el más tangible a pesar de sus vacilaciones y lagunas. Esto explica que las acciones que presenta sean mínimas en comparación al copioso discurrir de la conciencia incrédula que se esfuerza por anular la impotencia que resulta de la imposible acumulación del saber. etc).a través de la palabra como fundadora del sentido -en su componente dialógico-. estos juegos del narrador-autorpersonaje llevan al lector a la oscilación entre el relato y la historia con mediación del narrador hipostático. El autor en varias ocasiones ha declarado que. es la característica fundamental de la propuesta de Mutis en La última escala del Tramp Steamer. La producción novelística de Mutis en su calidad de poética constituye un discurso difuso. pleno de ausencias y de signos súperalimenticios. Cercano a la idea de la necesidad de resemantizar la palabra -en nuestro caso en el universo narrativo. En primer lugar. Al hacer presencia explícita como el escritor de lo narrado. La manera como el capitán de navío insistía sobre la belleza de Warda Bashur tenía algo de reiterativo. conciencia del papel del escritor como mediador “Tal como aquí la resumo u ordeno. En las . que algo faltó. considerar al narrador hipostático como el narrador-autor-personaje que establece la narración en distintos niveles de diálogo: como diálogo con el lector. justamente por su condición de modelo performativo.62 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Ahora bien. diálogo con otros personajes y diálogo entre personajes. apuntan a señalar esa misma pérdida. (Laverde. Ahondemos un poco en estos dos aspectos. la prosa no lo ha liberado de la función de denunciar la otra orilla y. El autor implícito se introduce en el relato como narrador. p. 2008. considera que el lenguaje. al mismo tiempo. y sin embargo percibir que la obra se queda corta. saturado de agujeros y de luces. contrario a lo que él pensaba. 2000. de reflexionar. le sucede lo mismo que con la poesía: “la sensación de insuficiencia. 212-213).que ha caído en el vacío del significado -abuso de la técnica para lo literario. por ello. 188). el del otro” (Onfray. pero para mantener su credibilidad se enmascara en: editor de papeles encontrados (cartas. “toda palabra utilizada por alguien. su labor. p. o plantear un juego con el lector. Esta propuesta de narrador puede relacionarse con el planteamiento de Michel Onfray (2000) sobre la necesidad de la acción performativa en el uso del lenguaje. como la de Sísifo consiste en volcar en palabras la apreciación ético-estética del mundo. dar los acentos de retenida emoción que iban creciendo en el relato. por eso el preámbulo y las intromisiones constantes. algo de salmodia o cantinela” (350). y está mediatizada por un mundo. por ello la necesidad de explicar. es un universo entero cuyo destino es un oído. Entonces. transcriptor de información que le ha sido dada por fuentes orales. ya que permite establecer nuevos vínculos entre la palabra y el sentido. o como testigo directo de los acontecimientos. sin previsión y sin intención de permanencia.

desesperanzados. dentro de ese sistema de seres fuera de lo común -en el sentido literal y metafórico. la música. 2000. soñador de navíos. entonces. como par. unido a la tragedia. no hay rastro de su manera particular de ver o evaluar el mundo. Abdul Bashur. por ejemplo. se enmascara para no presentarse directamente. Tanto Illona. de Conrad. 189) Michel Onfray (2000) propone la figura del condottiere como una ética de la elegancia. Construye una nueva mirada sobre la ética del individuo a partir del análisis del arte en sus diferentes manifestaciones. Ilona llega con la lluvia y Un bel morir . un editor que no aparece como personaje de lo narrado. la búsqueda de lo selecto.en el relato. se permite el juego de nuevas “máscaras” con las cuales crea una sensación de mayor “veracidad” -recurrir al dato biográfico. 54) Asimismo. no recuerdo ya desde qué puerto hacia el interior. trocando lo inefable. sin ninguna orientación a un fin determinado. de la actitud ética de crítica a la modernidad industrial: Con mayor elocuencia que las veces anteriores. en momentos de incandescencia de una vida cotidiana transformada en vasto campo de experimentación para las agudezas y el momento propicio” (Onfray. Se hace personaje. (317) parte del grupo de los desesperanzados. alguien que sabe reconocer en los otros la presencia o ausencia de esa condición propuesta en la saga de Maqroll el Gaviero. la importancia de lo sublime y la pulsión por el hedonismo. como . se construye tanto como organizador responsable del relato.en el universo de su materia narrativa. por el acto mismo de estar en el mundo. Marlow y Axel Heyst. “una auténtica teoría de las pasiones destinada a producir una bella individualidad” (Onfray. 2008. del instante y el derroche. p. es interesante comprobar la coincidencia en ambos -el condottiere y el narrador de Mutis-. activa una moral del desprecio por los valores burgueses. aparece al principio como preámbulo y le da la voz a Maqroll para qué sea él quien narre y reflexione sobre lo narrado. p. la energía como fuerza vital. el teatro y la literatura. como los llama Mutis. pues participan de las empresas del mundo sin creer en ellas. cada época construye su ética de la elegancia. la grandeza unida a la magnificencia y la prodigalidad. 19). pero a la vez.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 63 primeras novelas: La nieve del Almirante. caracterizada por la imposición del estilo. y Tríptico de mar y tierra. la escultura. lo fundamental de este cambio es que el narrador entra a formar parte de esos seres de excepción. asunto que me suscita una náusea inmediata. (…) Estaba en Costa Rica como asesor de prensa de una comisión de técnicos de Toronto que realizaba un estudio para la construcción de un oleoducto. se presenta como un recopilador. incluso. p. del dandy afirma “jugador desencantado y esteta melancólico. Como lo afirma Consuelo Hernández. encantado de librarme de la insulsa conversación de mis compañeros de trabajo y de las interminables rememoraciones de sus hazañas en el golf. narrador hipostático. se me hizo patente la ruinosa condición de este viejo servidor de los mares que. Un par de amigos que había hecho en una accidentada sesión itinerante de alcohol y cabarets de nota más que dudosa. en última instancia. emprendía su amarga aventura con una resignación En La última escala del Tramp Steamer da el paso para mostrarse explícitamente como voz y como personaje de la narración. a partir de La última escala del tramp steamer se introduce dentro del mundo novelado como autor-personaje. es decir. (Laverde. Acepté. así. todo ello. la pintura. me había invitado en San José a un paseo en yate por la bahía Nicoya en Punta Arenas. simula no tener perspectiva. como Abdul Bashur y Jon Iturri (protagonista y narrador de La última escala del Tramo Steamer ) forman parte de esa familia espiritual a la que pertenecen el Bolívar de “El último rostro” y Alar el Ilirio de “La muerte del estratega” e. por enésima vez. la presencia en Lord Jim de del personaje narrador Marlow coincide con el papel de Maqroll en las novelas del colombiano. Cada época tiene su condottiere. 2000. al comparar a Joseph Conrad con Álvaro Mutis. En las obras posteriores: Armirbar .

esteta en la vida cotidiana. pero que definitivamente no pertenece a ese mundo. De ahí que su imagen se construya a partir de la erudición con evocaciones artísticas explícitas. Consideramos que por esta misma razón. No es ese ya nuestro mundo. engañoso y constante del precario presente. obsequio de los dioses. (330) En La última escala del Tramp Steamer el narrador se focaliza y se modaliza a sí mismo dentro de la obra.y ratifica su condición de artista. intelectual. están las huellas de esos días. sucede lo que los doctos llaman una epifanía. (325) el de las soberbias maldiciones con las que los dioses de la Hélade castigaban a los trasgresores de sus designios inmutables. además. También permite explicar porqué el personaje femenino es objeto y no sujeto de deseo. permite ver lo otro. amante de la buena vida. su actitud frente a lo narrado como confirmación de la ética de la desesperanza. lo que sí fue evidente para mí era que de continuar los encuentros. objetos y lugares especiales. Nuestro modesto infierno en vida no da para ser materia de la más alta poesía. En la obra menciona que su poesía se nutre de los encuentros con seres. bohemio nostálgico y poeta por vocación. Me quedé contemplando cómo se perdía en el horizonte y sentí que una parte de mí mismo se internaba en un viaje sin regreso. la buena compañía.64 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS de un buey del Latio sacado de las Geórgicas de Virgilio. de una diabólica espiral cuyo final podía ser . Concluimos que el propósito de este juego del narrador-autor-personaje apunta a hacer presentes distintos sistemas axiológicos. en estos tiempos de “mezquina necedad”. Nuestros asuntos. Si seguimos la lógica de Onfray sería una especie de actualización del condottiere. referencias ilustradas constantes y. como Jon Iturri. Como autor implícito y personaje testigo de los viajes del tramp steamer hace de sí mismo un escritor que pretende una salida espiritual -estética. el juego de las cajas chinas permite ver el relato del relato de la historia como un recurso de la veracidad y no sólo retruécano narrativo. Experiencia que debe ser arrasadora o simplemente confirmarnos en ciertas certezas harto útiles para seguir viviendo. Obediente a las empresas del hombre. lo ajeno. Es así como dentro de la obra se configura como un conocedor de arte. Poca cosa. Ahora que lo recuerdo. el tramp steamer y el Caribe “Algún día me propongo narrar lo que fueron aquellos paseos. Los hombres sólo conseguimos ahora cumplir con la mezquina cuota de venganza que nos imponen otros hombres. pero también conocedor del arte. Es así como trabaja el olvido. de tan nuestros. que se dirigen a la confirmación de una individualidad basada en el viaje como aprendizaje que. Cuando una de esas imágenes regresa con toda su voraz intención de persistir. la buena comida. hemos visto cómo el juego de voces entre el narrador-autor y el relator personaje produce un efecto de “realidad” que se afianza en el hecho biográfico introducido en la narración y con lo cual el lector asume un pacto narrativo cuasi “veraz” de la historia que le es contada. cosmopolita. Se presenta como un escritor que trabaja en una compañía petrolera. modelos éticos. la cosa hubiera adquirido los síntomas de una persecución mítica. como posible sin menoscabo de una actitud ética individual: la lucidez.” (327). A tal punto me pareció vetusto. con ironía se burla de esa gente y sus preocupaciones. (326) De este modo llegamos también al final del análisis. en buena parte de la poesía que he ido dejando por ahí regada en revistas efímeras y en ediciones no menos olvidables. pasan a ser extraños por obra del poder mimético. cuya mezquina desaprensión concedía aún mayor nobleza a ese esfuerzo sin otro premio que el desgaste y el olvido. si bien es cierto que. la literatura y la filosofía.a la degradación del mundo a través de la escritura. golpeado y sumiso.

ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 65 Referencias bibliográficas LAVERDE. Alfredo (2008). La condición humana. La construcción de uno mismo. Poesía y prosa . ONFRAY. El mundo. só lo se indicará el número de la página. SAID. Bogotá. Buenos Aires: Libros Perfil. el texto y el crítico . MALRAUX. Nota 1 En adelante. PEÑA Isaías (2011). _____ (1981). Álvaro (2001). dos tendencias. Barcelona: Random House. Instituto Colombiano de Cultura. El universo de la creación Narrativa. Buenos Aires: Sudamericana. Bogotá: Alfaguara. André (1999). Michel (2000). Medellín: Universidad de Antioquia. . cuando se mencione apartados de la obra estudiada. Bogotá: El Huaco. Empresas y tribulaciones de Maqroll el Gaviero. Edward (2004). la moral estética. Tradición literaria colombiana. MUTIS. Mondadori.

preferencialmente na rede regular de ensino” (artigo 208. posteriormente. na década de 1990. em 2003. é implantado. 2008. Dentro dessa perspectiva. o atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência. da Conferência de Jomtien (1990) e da Declaração de Salamanca (1994). à oferta do atendimento educacional especializado e à garantia da acessibilidade (BRASIL. é proclamado o Ano Internacional dos Deficientes pelas Nações Unidas. social. excluídos do espaço escolar. promovendo um amplo processo de formação de gestores e educadores nos municípios brasileiros para a garantia do direito de acesso de todos à escolarização. O quadro recém-apresentado começa a mudar nos anos 1980. o acesso à escola sempre foi marcado pelo paradoxo inclusão/exclusão. principalmente. durante muito tempo. sob formas distintas. p. quando. cujo objetivo é apoiar a transformação dos sistemas de ensino em sistemas educacionais inclusivos. aqueles que “distoam” de uma “normalização” intelectual. No Brasil. seja por fatores socioeconômicos. na Constituição Federal de 1988. em 1981. É quando começam. as discussões sobre a ampliação do acesso e a qualidade da educação das pessoas com necessidades educacionais especiais. Acompanhando a tendência mundial de luta contra a exclusão das minorias e a favor da igualdade de oportunidades. Assim. o Brasil estabelece. item III). de acordo com a qual o aluno com necessidades educativas especiais deveria adequar-se à “hegemonia” presente em sala de aula. . cultural e linguística foram. sob a influência. Mesmo com o advento da Constituição de 1988. seja pela presença de padrões físicos considerados distintos dos de uma suposta homogeneização.66 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS ENSINO DE E/LE E INCLUSÃO: REFLEXÕES SOBRE FORMAÇÃO E TRABALHO DOCENTE Alice Moraes Rego de Souza PG-UERJ Roberta Fraga de Mello PG-UERJ Introdução Historicamente. física. o Programa Educação Inclusiva. o trabalho do professor tem sido apontado como condição essencial para a inclusão eficaz dos alunos com necessidades educacionais especiais nas classes regulares de ensino.9). o atendimento a alunos com necessidades especiais seguiu sendo realizado sobre os pressupostos da Normalização e Integração. no âmbito internacional.

problemas destacados é o que se designa como “desconsideração das especificidades próprias dos níveis e/ou modalidades de ensino em que são atendidos os alunos da educação básica” (BRASIL. a partir da análise de seus fluxogramas. Diversas temáticas atravessam as reflexões acerca de um novo currículo para formar professores em nível superior. visto que este é um dos eixos que orientam as diretrizes curriculares de formação de professor em nosso país. A importância atribuída ao papel do professor. iniciada oficialmente no ano de 2001. 2009. A partir daí. depara-se com problemas em termos institucionais e curriculares.25).20) Uma vez conhecido o contexto de surgimento da reforma. p. Especificamente no campo curricular. 2009. afirmando que: “A educação básica deve ser inclusiva. Neste tópico. resta ainda observar em que termos é tratada a questão da educação especial. p. p.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 67 o que nos leva a refletir sobre a formação deste profissional visando atender às demandas da atualidade. A educação especial no âmbito da reforma das licenciaturas A reforma das licenciaturas é uma culminância de certa circulação de discursos sobre o papel do professor e suas responsabilidades na formação de cidadãos no contexto escolar. de modo a observar a relevância dada à temática no decorrer do documento. buscamos apresentar alguns possíveis progressos relativos à formação de professores de Língua Espanhola que beneficiem a perspectiva inclusiva e de respeito à heterogeneidade no espaço escolar. sendo uma delas a questão da educação especial. se reflete em documentos oficiais (pareceres e resoluções) que se destinam a formalizar a última reforma dos cursos de licenciatura. falase sobre o ensino para alunos com necessidades especiais. Ao mesmo tempo. formalizada pelo CNE. no ano seguinte. um dos 1. dentre outros temas. o MEC publica o Edital nº4 de 1997. com a publicação do Parecer CNE/CP nº9 de 2001 e. focaremos em algumas disposições do Parecer CNE/CP nº9 de 2001. particularmente no que diz respeito à educação especial. cria-se ambiente propício para a discussão sobre a participação dos institutos básicos na formação de professores das diversas áreas de conhecimento. a reforma surge a partir da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) – Lei nº 9. 150). (DAHER & SANT’ANNA. 2001. os quais precisam ser refletidos e explicitados. as licenciaturas não estão preparadas para desempenhar a função de formar professores que saibam lidar com a heterogeneidade posta pela inclusão” (PLETSCH. buscando observar como se apresenta a questão da educação especial nesses documentos institucionais. Ainda que possamos antecipar que “de maneira geral. De maneira geral. no sentido de atender a uma política de integração dos alunos . por meio do Parecer CNE/CP nº9 de 2001 e respectivas Resoluções CNE/CP nº1 e 2 de 2002. em geral. Para tal. Considerando a interseção entre as discussões sobre educação especial e sobre a reforma dos cursos de formação de professor. o presente trabalho fomenta uma reflexão sobre os novos currículos de licenciatura em Letras (habilitação PortuguêsEspanhol) das universidades públicas do Estado do Rio de Janeiro. como já apresentado. no contexto da mencionada reforma. culminando na reforma dos cursos de licenciatura. as universidades e outras instituições a contribuírem para a elaboração das diretrizes curriculares dos cursos de graduação. com a publicação das Resoluções CNE/CP nº1 e 2.394/1996 – a qual define que cada instituição de ensino superior (IES) deverá fixar seus currículos a partir das diretrizes pertinentes. o qual convoca a sociedade civil. O parecer em questão explicita que ao revisar o processo de formação docente.

o Parecer esclarece que a construção espacial para alunos cegos. de maneira geral. temáticas a serem consideradas... Novos currículos de formação docente e educação especial .)” (BRASIL. optou-se por focar a análise apenas nas IES do Estado do Rio de Janeiro que passaram pelo processo de reforma curricular iniciado em 2001. já que esta é uma realidade indissociável da escola. no que tange à atuação docente diante desse público. 2. na formação do professor. oferecer uma formação comum a todos os docentes e o atendimento às especificidades do trabalho com as diferentes etapas ou modalidades com que o professor irá trabalhar. especialmente no que concerne à educação especial. Mesmo diante da possibilidade da presença da temática sobre educação especial apenas em termos de formação específica. para atuação em modalidades ou campos específicos incluindo as respectivas práticas (. 55). ao mesmo tempo. A saída proposta para superar a “dicotomia” formação comum . Constata-se. Universidade Federal Fluminense (UFF) e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). a singularidade linguística dos alunos surdos.)” (BRASIL. vê-se que o Parecer CNE/CP nº9 de 2001. 2001. as IES reformularam seus currículos de modo a atender às novas demandas. Assim. a escolha foi por analisar a formação do professor de Língua Espanhola. Nesse caso. as formas de comunicação dos paralisados cerebrais. dentre os quais está o “eixo que articula a formação comum e a formação específica”. Por uma questão de afinidade profissional das pesquisadoras. p. p. quais são os reflexos desses discursos oficiais. dentre as possibilidades de formação específica que a IES pode ter. A problemática desta seção se centra na dificuldade de. o curso de Letras Português-Espanhol. Nesse sentido. Nesse caso. Assim sendo. o Parecer menciona a educação especial. são. uma vez que a educação especial pode configurar apenas como formação específica. são necessários alguns esclarecimentos sobre a escolha do corpus de análise. quais serão os reflexos deste aspecto nas atuais estruturas curriculares das IES que formam docentes na área de Língua Espanhola? Tal será a discussão que cabe ao próximo item deste artigo.. p. dá recorrente espaço para discussão sobre necessidade de incluir. a critério da instituição. a existência de uma brecha no Parecer. o Parecer apresenta alguns eixos. Por uma necessidade de recorte de corpus . a saber: Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). momento propício para o preparo do profissional para atuação com alunos com necessidades especiais. diz respeito aos critérios de organização para desenho de uma matriz curricular que contemple os diversos aspectos envolvidos com a atividade docente.68 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS com necessidades educacionais especiais nas classes comuns dos sistemas de ensino. entre outras. inclusive à questão da educação especial. considerando suas demandas próprias. 2001. p. (BRASIL. portanto. portanto.27). o que faz de sua presença nos A partir do Parecer CNE/CP nº9 de 2001 e suas respectivas resoluções. embora devessem fazer parte da formação comum a todos (. 2001. Isso exige que a formação dos professores das diferentes etapas da educação básica inclua conhecimentos relativos à educação desses alunos “(BRASIL..formação específica é a proposta de inclusão de espaços e tempos adequados que garantam “opções. 26) currículos uma escolha de cada IES. 2001. O documento reconhece que temáticas relativas à educação para alunos com necessidades especiais “raramente estão presentes nos cursos de formação de professores. nas novas estruturas curriculares? Inicialmente. 27) Outra proposta contida no documento.

Partindo de uma perspectiva discursiva.1. na medida em que tem seu surgimento e sua circulação fundamentada em “regras de organização vigentes em um grupo social determinado” (MAINGUENEAU. o fluxograma irá refletir questões colocadas ou não em destaque pela IES a que pertence. Para refletir. Sendo assim.2. suas etapas constituintes. ao enunciar sobre formação de professor é também uma forma de construir certa ideia de formação de professor. A reformulação curricular na UFF Tanto na grade curricular (expressa em forma de fluxograma) anterior e posterior à reforma das licenciaturas. p. mas sim a outra legislação específica sobre a questão da inclusão da LIBRAS na formação superior em algumas áreas de conhecimento – Decreto nº 5. como. metodológicos e mesmo em detalhes de análise. consequentemente. não mais nos aprofundamos em aspectos teóricos. por exemplo. a grade curricular do curso de Letras com habilitação em Português-Espanhol não sinalizava nenhum tipo de disciplina específica quanto à educação especial ou educação inclusiva. do que se privilegia ou não como parte da trajetória a ser percorrida pelo profissional em formação. Nem mesmo como eletiva existia a opção de disciplinas sobre tal temática. ainda que brevemente sobre esta questão. Quanto a esta última. de um grupo de seis disciplinas. 2. é um retrato de um curso de formação superior. pois esta compõe o grupo de disciplinas designadas como eletivas práticas. Assim sendo. o fluxograma mostra a inclusão de algumas oportunidades de discussão sobre educação especial. Entretanto. Vale ressaltar que a primeira disciplina relacionada não vem como uma resposta à demanda da reforma de 2001. o fluxograma. Assim. por meio da disciplina intitulada “Planejamento de Material para Ensino de Língua Portuguesa como L2 para a Comunidade Surda” (vinculada ao Departamento de Linguística) e a disciplina “Prática Pedagógica em Educação Inclusiva” (oferecida pela Faculdade de Educação). por sua vez. seus marcos. podendo esta ficar de fora. 2005. trata-se de uma eletiva. o aluno cursará apenas se quiser. o ponto de par tida são os fluxogramas que materializam a estrutura curricular dos cursos de graduação. não há tipo algum de menção explícita a disciplinas que tratem especificamente da questão . 2. A reformulação curricular na UERJ Antes da reforma das licenciaturas iniciada em 2001.626 de 2005.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 69 Em síntese. O fluxograma. Maingueneau (2005) afirma que os discursos têm caráter de ação. tampouco apresentava qualquer indício de disciplina que se voltasse para esse tema. de certo modo. Em outras palavras. Por uma questão de limitação de espaço. ou seja. o aluno precisa escolher três para cursar. assumir que os fluxogramas das IES são um discurso é sustentar a ideia de que seu surgimento e desenvolvimento são inseparáveis das relações sociais que o contextualizam. Já após a reforma. trabalhamos com a formação do professor de Língua Espanhola no Estado do Rio de Janeiro e seu preparo para atuar na educação especial. Ainda nesse sentido. nas subseções a seguir. o fluxograma pode ser compreendido como um discurso. buscamos abrir caminho para reflexões que merecem atenção mais detida em trabalhos futuros.52). mostrando uma síntese do curso. realizam-se algumas observações de análise sobre a presença do tema educação especial nos fluxogramas selecionados. A escolha deste material se deve ao entendimento de que o fluxograma.

3. o que é explicado no site da universidade. as disciplinas que passaram a ser oferecidas são em caráter de eletivo ou optativo. a disciplina eletiva “Tópicos Especiais em Educação Especial”. No caso das IES que oferecem disciplinas relacionadas à comunidade surda. Ainda há mais uma questão.4. Após a reforma. mas do surgimento de tal demanda. sejam LIBRAS ou disciplinas que abordem temas gerais sobre tal comunidade. na verdade. sendo que. uma redução do espaço aberto à reflexão e à produção de conhecimentos sobre ensino de língua espanhola como língua estrangeira para alunos com necessidades especiais. por se tratar de uma questão de linguagem. Sendo assim. explicitamente. A reformulação curricular na UFRJ Antes da reforma. Já as disciplinas de educação especial costumam obter um caráter mais geral. Ainda assim. ao Instituto ou à Faculdade de Letras. para alunos que ingressaram a partir de 2012. tal disciplina compõe o currículo do referido curso.626 de 2005 . é comum que a mesma fique atrelada aos departamentos de linguística. que abrange o ensino de maneira geral e não focado apenas em uma discussão específica. tal como ocorre na UFF e na UERJ. 2. Comentários gerais No caso das três IES. o espaço para debate sobre questões relativas ao ensino de Língua Espanhola é reduzido. pois ele também tem a sua disposição outras optativas. as mudanças relativas Outros documentos que descrevem a estrutura curricular do curso de Letras PortuguêsEspanhol na UFF mostram que. o fluxograma da UFRJ não indicava. relativa aos departamentos a que estão vinculadas as disciplinas. o que torna indispensável a reflexão sobre tais assuntos durante o processo de formação. Mesmo diante de um cenário . não se trata de uma alteração devido à reforma. a inclusão de disciplinas que tematizem a questão da inclusão e da educação para alunos com necessidades especiais não sofre alterações. muito embora esta seja obrigatória para os cursos de Letras – considerando o Decreto nº 5. podem ou não ser escolhidas pelo aluno. O fluxograma tampouco sinaliza a disciplina LIBRAS. ao espaço ocupado pela educação especial não foram expressivas.70 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS do ensino de espanhol para alunos com necessidades especiais. já mencionado. Em nenhum caso foi possível verificar a associação de uma disciplina que trate de educação especial ligada a algum departamento do Instituto ou da Faculdade de Letras. pela Faculdade de Educação. complementando as disposições do fluxograma1. o fluxograma passou a apresentar a disciplina LIBRAS (vinculada ao departamento de Linguística e Filologia). Sendo assim. essa disciplina compõe o grupo de optativas. Na maioria dos casos. o que mostra. ou seja. visto que atuar com alunos especiais não depende da escolha. visto que apenas há a inclusão da questão específica da surdez. mas de uma resposta a uma exigência legal de inclusão de LIBRAS nos cursos de Letras – Decreto nº 5. a existência de disciplina alguma que fosse específica para tratar de questões de inclusão ou ensino para alunos especiais. após a reforma. consequentemente. ficando a critério do aluno escolher cursar a disciplina. sendo oferecidas pela Faculdade de Educação. Entretanto. 2. passa a ser oferecida. Isso se choca com a realidade da atividade docente.626 de 2005 . visto que as poucas oportunidades oferecidas possibilitam uma abordagem desde uma perspectiva mais ampla. mais uma vez.

De Souza e Décio Rocha. o presente trabalho mostra que. curso de Licenciatura de graduação plena. 3. Disponível em: <http://www. Diário Oficial da União. Trad.gov. precisa proporcionar mais espaço para reflexão do assunto. as quais serão feitas na própria situação de trabalho e que. Rosana. GLAT. Assim. seja na atividade docente. 33. SCHWARTZ. de 8 de maio de 2001. Brasília: MEC. Parecer CNE/CP nº9. Brasília. FAITA . Da educação segregada à Educação Inclusiva: uma breve reflexão sobre os paradigmas educacionais no contexto da educação especial brasileira.br/ccivil_03/ _ato2004-2006/2005/decreto/d5626. o professor precisará refletir sobre tal questão. tal como visto na análise do Parecer CNE/CP nº 9 de 2001. FERNANDES. em algum momento.A (2009). quando surgem disciplinas relacionadas à educação especial. 18 de janeiro de 2002. contribuindo para uma forma diferente de pensar as antecipações do trabalho. A formação de professores para a educação inclusiva: legislação. ainda que o tratamento da educação especial pensada especificamente em termos de ensino de E/LE seja tarefa complexa. Brasília: Inclusão – Revista da Educação Especial – out/2005. Referências bibliográficas BRASIL. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica. Lei nº 9. Yves (2002). no exercício da profissão. ________(2010). de modo a. na perspectiva de Schwartz (2002) podem ser articuladas. ainda. tal ausência não implica a não criação de normas. diretrizes políticas e resultados de pesquisas. elas constituem-se como optativas / eletivas. embora seja uma realidade com a qual o professor está sujeito a se deparar. In: SOUZA-E-SILVA. minimamente.htm>. Entretanto. Curitiba: Editora UFPR. Do otium cum dignitate dos cursos de Letras à formação de línguas. Diário Oficial da União. p. 4. _______. SANT’ANNA. A formação. participando do processo de produção de normas e prescrições do trabalho realizado por este sujeito. 27894. _______. In: Trajetórias em Enunciação e Discurso: práticas de formação docente. 35-9. Seção 1. São Carlos: Editora Claraluz. 4 ed. Vera L. 143-56. Coleção Explorando o Ensino.626 de 22 de dezembro de 2005 . Revista Educar . DAHER. Edicléa Mascarenhas (2005). nota-se a constituição de um espaço restrito de prescrições ao trabalho do professor relativo a essa modalidade de ensino na etapa de formação. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. dá relevância ao assunto. E. p. 31. In: Espanhol: Ensino médio. Decreto 5. de algum modo. Considerações finais No caso dos fluxos analisados. Nesse sentido. seja na formação.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 71 que. portanto. aos saberes acadêmicos.planalto. Acessado em 10/08/2012. p. Brasília. Formação e exercício profissional de professor de língua espanhola: revendo conceitos e percursos. Del Carmen. Editora Cortez: São Paulo. em nível superior. p. 23 de dezembro de 1996. de 20 de dezembro de 1996. Análise de textos de comunicação. MAINGUENEAU. mesmo que não tenha de dar conta de prescrever o trabalho docente. Márcia Denise (2009). n. não foram identificadas marcas que explicitassem a relevância dada às discussões sobre ensino de Espanhol como Língua Estrangeira (E/LE) para alunos com necessidades especiais. Dominique (2005). PLETSCH. A abordagem do trabalho reconfigura nossa relação com os saberes acadêmicos: as antecipações do trabalho. orientar o docente em sua trajetória futura.394. de Cecília P.

php?option=com_content&task=view&id=45&Item( ( Nota 1 A informação mencionada está disponível em <http://www.).letras. Acessado em 10/08/2012. Fluxograma do curso de Licenciatura em Letras Português – Espanhol.br/sites/default/files/ letras_portugues_espanhol_-_licenciado_novo.pdf. Disponível em: http:// www. dep. Disponível em: http:// w w w . Fluxograma do curso de Licenciatura em Letras Português – Espanhol. Linguagem e trabalho : construção de objetos de análise no Brasil e na França. UFF. b r / index. São Paulo: Cortez.br/arqs/fluxogamas_cur sos/ letras_portugues_espanhol_licenciatura. UFRJ.uff. l e t r a s .br/obrigatoriedade-da-disciplinalibras>. Acessado em 30/08/2012. .uff. Disponível em: http:// www.72 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS (orgs.uerj. u f r j . UERJ. Fluxograma do curso de Licenciatura em Letras Português – Espanhol.letras.pdf. Acessado em 10/08/2012.

manifesta-se a superioridade do homem civilizado. Entre as conclusões buffonianas referentes às Américas coloniais destacam-se formulações intrigantes que merecem ser comentadas. a partir dos naturalistas ilustrados. Em vários textos produzidos por europeus que conheceram a América ou por americanos põe-se em questão a validade do caráter débil e frágil das espécies do Novo Mundo. Cornelius De Pauw. na qual aparecem suas teorias sobre os temas americanos. Em um pólo. Segundo Antonello Gerbi (1996). como Gonzalo Fernández Oviedo e os padres Acosta e Herrera.Universidade Federal de Pernambuco* A presença de dois discursos referentes à imagem simbólica do Novo Mundo representa a oposição entre Europa e América que seria determinante para a formação do pensamento moderno. contudo. natural de Paris. ocuparam-se de descrever muitas das peculiaridades americanas sem. homens conhecedores e adeptos a outros pontos de vista se propuseram a divulgá-los. a “polêmica do Novo Mundo” passa a apresentar discussão contínua. como o Conde Buffon. Do lado oposto. na ideia de que o homem ocidental teria alcançado a aptidão de elevarse a uma chamada “maioridade intelectual”. no século XVIII. . Foi o que fizeram europeus que de fato conheceram o cnotinente americano. fundamentada nos progressos realizados através do processo histórico europeu. o que o levou a trilhar um caminho em direção aos estudos científicos. encontra-se o nativo americano. ou Georges-Louis Leclerc (17071788). “a tese da ‘debilidade’ ou ‘imaturidade das Américas” nasce com o Conde de Buffon. mas excessivamente interessado em matemáticas e ciências. Entre suas principais obras encontra-se a volumosa História Natural . advindo da inferioridade daquele meio e da fraqueza de suas espécies animais. postular uma teoria universal da inferioridade do novo continente. o Abade Raynal e o historiador William Robertson. vegetais e humanas. Divulgadas as teorias e razões da inferioridade. culminando. Entretanto. Alguns autores que precederam o século XVIII. freqüentador do Colégio de Jesuítas e estudante de Direito.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 73 DIÁLOGOS DE HISTORIA NATURAL: O HOMEM PROTOTÍPICO E O HOMEM EM CONSTRUÇÃO Amanda Brandão Araújo PG . alguns crioulos e uns quantos padres jesuítas.

A umidade do ambiente é tão elevada que pode fazer definhar qualquer espécie passível de evolução. 19). 1996: p. Quaisquer semelhanças que pudessem existir entre as espécies de maior porte de ambos os continentes eram refutadas. mudo. conseguiriam atingir. ao contrário de Buffon e de Rousseau. de construir impérios e domar animais. ora para menosprezar os aspectos naturais e comportamentais da natureza e do homem. e isto sem exceção alguma. a América é um continente ainda intocado. p.) nem se encontra ali nenhum animal que se compare a eles. 1996). do qual o homem ainda não tomou posse. os carneiros. 1996: p. Mais que isso: a maioria dos nativos vive como os próprios animais. os cabritos monteses. filósofo e enciclopedista ilustrado de naturalidade discutível (provavelmente holandesa). A natureza americana seria hostil a qualquer desenvolvimento.] os que não foram transportados. continua as “difamações” da América. 1996: p. digo. Fonte de elevado preconceito e ignorância gerados a partir das teorias buffonianas é o postulado da degenerescência dos animais na América. ou pelo menos muito mais novo que o antigo. em critérios científicos relacionados à Ilustração. Recusaram-se a aceitar quaisquer formas de desenvolvimento e cultura “evoluída”. (GERBI. todos esses animais. (DE PAUW apud GERBI. ainda. Humanamente. Cornelius De Pauw. Para ele. Grifo do autor). incapaz de dominar a natureza em seu favor. à anta brasileira. De Pauw não acredita na “bondade natural” do homem.) Buffon entende que o continente – e o homem – americano está ainda em processo de evolução.74 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS A primeira delas refere-se à inexistência de grandes animais selvagens. os alces. imbecil e nada conheceria em toda a natureza .. inimigos do progresso e da sociedade. O homem é errante. impotente. 1996.. mas com o tempo e o exemplo dos europeus. mas lá chegaram por si mesmos. Opondo-se ao concluído por Buffon. São imaturos. Nas Recherches sur lês Américains. defende e aprofunda a tese de que os americanos são degenerados. numa palavra aqueles que são comuns aos dois mundos. é apenas um bruto incapaz de progresso. os porcos. os cervos. os criadores do progresso. tornaram-se menores. abandonado durante seis anos na ilha de Fernandez. os As deduções de Buffon deturpam as descrições dos autores que o antecederam. que mal acaba de emergir e ainda não secou direito. Sem ela. um mundo que ficou mais tempo sob as águas do mar. (BUFFON apud GERBI. portanto. deve aquilo que é à sociedade: o mais metafísico. A natureza do hemisfério ocidental não mais é imatura e .. etc. as raposas. insalubre portanto para gente civilizada e animais superiores. as cabras. que apenas multiplicam-se e avolumam-se. Rejeitam as leis e a ordem. e não existem no Novo (. inoperantes. se tornaria embrutecido. nada por si só. portanto. Diz Buffon: “os elefantes pertencem ao Antigo Continente. os cães. com exceção destinada aos insetos e répteis de menor porte. mas no oposto a isso: o homem apenas se aperfeiçoa em sociedade. Fisicamente. devido a sua “dimensão de um novilho de seis meses ou de uma pequeníssima mula” (GERBI. As espécies trazidas da Europa tenderiam a definhar-se. 20. os bois. “imberbes”. divide espaço com eles. ora para ridicularizar. O homem não é. 27. a América é um mundo novo. Os cavalos.” Alude. o maior filósofo.. garantindo a superioridade das espécies do Velho em detrimento das do Novo Mundo. que nem de longe poderia comparar-se aos grandes mamíferos. em tom extremamente mais enfático e definitivo que o do Conde. os asnos. ao saber da época. são também consideravelmente menores na América que na Europa. Os animais em geral são poucos em diversidade e em tamanho. em algum dia ainda indeterminado. um grau de desenvolvimento semelhante ao das mais incipientes civilizações européias. (GERBI. tais como os lobos. e [. Os “selvagens” americanos são.. fundamentado. 56).

Sua História da América (1777) fala sobre o Novo Mundo num tom mais Deve-se relegar ao plano das fábulas esta quantidade prodigiosa de cidades construídas com tanto cuidado e dispêndio. com sua Histoire Des Deux Indes. porém. que teriam determinado o temperamento dos habitantes (animais não políticos) e caracterizado (ou. retorna constantemente à “desventurada” natureza física americana. 1988) antigüidade das civilizações astecas. sem meios termos. trazendo assimetrias valorativas com implicações políticas. como dilúvios e “medonhos tremores de terra”. Considera como inverídica toda a obra de Garcilaso de la Vega sobre os incas. (RAYNAL apud GERBI. A imagem da Para concluir os “ataques” às Américas a que nos propomos.. É um vicio radical no outro hemisfério. já que estes foram atrasados e incapazes tanto quanto os demais seres daquele mundo. 1996). Raynal e De Pauw contestam a As radicais teses depauwnianas suscitaram grande número de réplicas. nas Américas. A ênfase do Abade. (RAYNAL apud VENTURA. As teses sobre as influências do clima e outros fatores naturais são consideradas por De Pauw. 1996). [. p. Na Europa mesmo levantaram-se contra ele vários defensores do “bom selvagem”.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 75 imperfeita (como o era para Buffon). O clima americano explicaria também a propensão dos seus habitantes ao alcoolismo e à concubinagem. embora deva apresentar idade semelhante à européia. expulsos das colônias. A indiferença quanto ao sexo. pois entende que “é sem dúvida um grande e terrível espetáculo ver a metade deste globo a tal ponto desgraçada pela natureza que tudo é ou degenerado ou monstruoso” (DE PAUW apud GERBI. fraca porque corrompida. De Pauw é tido como veemente antiamericanista. como se “desevoluísse” o que sequer começou a se desenvolver. atribuindo ao clima as doenças contagiosas e as baixas taxas de natalidade entre os povos. 53) Buffon. Também insurgiram-se jesuítas que. porém é dada maior relevância ao posicionamento em favor de grandes catástrofes. Mais um defensor da inferioridade americana foi o Abade Raynal. onde a imaturidade se revela por essa espécie de impotência. “A natureza se esqueceu de fazê-la crescer” (GERBI. da grandeza e magnificência das cidades e monumentos. como nos indivíduos do nosso Continente que não chegaram à puberdade. inferior porque degenerada ” (GERBI. e era impossível que fosse de outro modo. rejeitando as descrições de Hernan Cortés e do inca Garcilaso de la Vega. mais ou menos abrangentes. da bondade natural do homem e da natureza virgem. América em Raynal resulta da projeção de uma teoria climática que divide o mapa-mundi em zonas tórridas. .] Os povos se encontravam dispersos nos campos. descaracterizado) a fauna e flora locais.. “De Pauw repete até a saturação que a natureza é fraca e corrompida na América. é degenerada. A América não havia ainda se desenvolvido: era impúbere. supõe uma imperfeição nos órgãos. ao qual a natureza confiou o depósito da reprodução. mais determinadas ou mais indiretas. toltecas e incas. A umidade do clima fez com que essa condição “infantil” do continente e dos homens que nele habitavam fosse agravando-se. Raynal adota a posição de Buffon e De Pauw sobre as zonas tórridas e úmidas como insalubres. 1996. zonas glaciais e zonas temperadas. Haveria ocorrido. traziam de volta as experiências vividas nas mesmas. uma espécie de infância nos povos da América. Os dados de Las Casas sobre as numerosas populações do México e do Peru também são objeto de crítica. cuja inspiração é voltairiana e permeável às ideias de De Pauw. Ao inicio da “adolescência americana” também corresponderia a impotência dos nativos e a falta de atração por suas fêmeas. 1996). várias tragédias naturais nunca observadas no antigo continente. finalizamos com as considerações de Robertson. para ele.

2006. mientras otros.76 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS intermediário e repleto de meios termos. falsía. p. Perseguindo o objetivo de criticar os filósofos iluministas. Explicavase a grandeza e a miséria da natureza americana. envidia. comenta que quando conversou com os “selvagens” brasileiros em Rouen. maledicencia y perdón. entendeu. p. Montaigne (século XVI). mas mente-se desavergonhadamente: não é apreciado o que não é filosófico. no caso dos padres jesuítas e dos crioulos. nem tampouco se reputa como tal aquilo que não ataca a religião e adota a linguagem da impunidade (CLAVIJERO apud DOMINGUES. cuando en verdad es a aquellos que nosotros mismos hemos alterado con nuestras artes y mudado de su orden común a los que con más propiedad debíamos designar salvajes. Leitor de crônicas de viagens e conquistas. pedían limosna a sus puertas: y encontraban extraño que esos otros hombres no cogieran a los otros por la garganta. jamás se oyeron entre ellos... Em seu ensaio. por exemplo) e usa o que pode de suas obras em defesa de seus argumentos. 1996. Clavijero cita os antigos pioneiros nas descrições da América (Oviedo e Herrera. Do lado oposto da polêmica estão outros intelectuais. mas também as canibais. no entanto. 1954. Entende que o Século das Luzes teria publicado mais erros do que todos os séculos passados pois escreve-se com liberdade. o pusieran fuego a sus casas. sobre os canibais – levou a crítica da civilização européia. seja através da longa estadia em solo americano. inclusive. nascido na Nova Espanha. (MONTAIGNE apud HENRRÍQUEZ UREÑA. filho de pai espanhol e mãe crioula. Os animais que pertencem originalmente a esse quadrante do globo parecem ser de uma raça inferior. p. Diz Montaigne relatando o que os nativos haviam declarado: que habían visto que había hombres entre nosotros colmados de toda clase de comodidades. No ensaio Sobre los caníbales. A oposição filosófica entre natureza e cultura e a comparação entre o homem natural e o civilizado também ocuparam a mente desses intelectuais que. Como em: O princípio da vida parece ter sido menos ativo e vigoroso do que no velho continente [. diz: Creo que nada hay en esa nación que sea bárbaro o salvaje.. mas parece ao mesmo tempo ter sido menos vigorosa em suas produções. marinheiros. tendo a maior parte deles se baseado em experiências próprias. a consequências extremas.) Las palabras mismas que significan mentira. codicia.] as diferentes espécies de animais peculiares a ele são em muito menor número que as do outro hemisfério [. embora o tom pessimista predominasse. 9). p. traición. em dois ensaios famosos – um. (. En aquellos se hallan vivas y vigorosas las verdaderas y más Obra importantíssima sobre a defesa do Novo Mundo é a do padre jesuíta Francisco Javier Clavijero. que en éstos hemos bastardeado. por exemplo. através de uma visão ao mesmo tempo barroca. A defesa de Montaigne beneficia não só as tribos pacíficas. 28-29). como Humboldt.134) provechosas virtudes y piedades naturales. desfallecidos de hambre y desnudos con pobreza y necesidad. em parte. disimulo. em comparação com o estado selvagem.. comerciantes e ainda com uns “selvagens” brasileiros levados a Rouen durante o reinado de Carlos IX.] A natureza não somente era menos vigorosa prolífica no Novo Mundo. (ROBERTSON apud GERBI. seja através da realização de viagens. patriota e ilustrada. sino que cada cual suele llamar barbarie a aquello que no le es común…Son salvajes así como llamamos salvajes a aquellos frutos que la naturaleza por sí misma y por su natural progreso ha producido. nem tão feroz quanto as do outro continente. havia mantido contato com viajantes. 29-30).. tentando inclusive justificar atos de violência que pudessem ser cometidos pelos nativos. procuraram conhecer a outra versão da história. . 1954. nem tão robusta. aplicándolas solamente al placer de nuestro gusto corrompido. a legitimidade dos rituais. (MONTAIGNE apud HENRRÍQUEZ UREÑA..

os estabelecimentos científicos do México e a biblioteca de Botânica eram de tão boa qualidade que nenhuma da Europa poderia ousar comparar-se. Afirma que as Imagens fantásticas de juventude e inquietação. em muitos aspectos. Contradiz-se. não se esforçam por conceber com uma visão de conjunto a estrutura do globo terrestre. partindo de vários exemplos baseados em sua vivência. porém. o Jardim Botânico do . Refuta definitivamente a ideia de degeneração dos animais europeus na América e enaltece todos os aspectos culturais de sua terra natal e do Peru. Humboldt critica ainda a falta de apreciação advinda dos naturalistas do porte de De Pauw. porque.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 77 Centra suas críticas principalmente sobre a obra de De Pauw. sociais e culturais desenvolvidos no continente pelas mãos de seus administradores. por considerá-la a mais ofensiva dentre todas as calúnias propagadas sobre a América. A defesa suprema da América não foi feita. Raynal e Robertson com relação aos astecas. durante o século XVIII a produção artística das colônias excedeu a da Espanha e de Portugal. o que confere a seus escritos. Nos setecentos foram construídas. de crescente aridez e inércia da terra envelhecida só podem surgir naqueles que. e reúne-as basicamente nas Disertaciones e na Historia Antigua de México. p. Tanto los filósofos europeos como los jesuitas americanos utilizaron la misma lógica de razonamiento: los primeros para desarrollar teorías de principios antiamericanos. O jesuíta demonstra admirar a racionalidade ilustrada e a universalidade do ser humano. relata não haver outro sentimento senão encanto: as dificuldades de aclimatação tendiam a inexistentes. lisonjeando a vaidade dos europeus. se ligavam a hipóteses brilhantes sobre o antigo estado de nosso planeta. em muitos tópicos. havia leitores e havia estudiosos. 1988). religião. p. 1996. mas foi garantida pelos processos políticos. em estabelecer hierarquias. A respeito da degeneração dos animais domésticos. (HUMBOLDT apud GERBI. comenta: Essas idéias se propagaram com facilidade. uma contradição ainda maior: apesar de defender a América em sua unidade. restringindo sua defesa às sociedades “civilizadas”. econômicos. num jogo vazio de buscar contrastes entre os dois hemisférios. Segundo Méndez-Bonito. La obra de los jesuitas defensores de América constituye un ejemplo de cómo la razón ilustrada es una y la misma. Segundo Pedro Henrriquéz Ureña (1979. Os povos do novo continente superariam. que os nativos americanos têm valor equivalente aos europeus. seu estudo incrementou sobremaneira as discussões em torno da polêmica. em solo americano. (HUMBOLDT apud VENTURA. (2005. resultando em uma mistura densa de história natural. história civil e cultural e filosofia iluminista. lamentando que os mesmos não tivessem se dado a oportunidade de aprofundar-se em tão instrutivas culturas. Clavijero opõe-se às generalizações sobre o Novo Mundo e demonstra. Apresenta. política. comparar os povos da Nova Espanha e do Peru aos demais do continente. as primeiras bibliotecas públicas. viajando pela América do Sul e pelo Caribe de 1799 a 1804. os do antigo. através de uma obra maestra de algum filósofo. A diferença entre mexicanos e europeus seria relativa somente à falta de instrução dos primeiros. 242) Alexander von Humboldt. muitos dos quais ele se propôs a analisar através da interação de todos os fatores naturais que teve a oportunidade de observar em sua viagem. porém mescla conceitos religiosos aos racionais. los segundos para mostrar la invalidez y relatividad de esos sistemas antiamericanos que arrojarían las mismas conclusiones si se aplicaran al estudio del Antiguo Continente. 1954). porém. circunscrita a los límites que le impone su propia naturaleza. De qualquer forma. uma posição ambígua. contudo. nem se deve. afirma e reafirma que não se pode. 307) Humboldt rechaça ainda vários dos postulados de Buffon e De Pauw.

Pensar sobre as discussões em torno da “polêmica do Novo Mundo” nos leva a delinear de forma mais clara como a ignorância funciona como um véu sobre os olhos. Terry (2006): A ideia de cultura. Condillac. Boyle. Terry Eagleton lembra que A sociabilidade se impõe a nós como indivíduos em um nível ainda mais profundo do que a cultura. fez com que os críticos do “Novo Mundo” pudessem repensar seus valores a partir da força dos fatos históricos. Goiania. En el siglo XVIII circulaban muchos libros de orientación moderna: la Encyclopédie. etnicidade. por ejemplo. deixa-se de ver com clareza e o que resta são impropérios. gênero. In: FIGUEROA. obras de Bacon. Disponível em: <http:// w w w. em sua história. Anual. pp. LEDEZMA. Os ideais iluministas. MENDÉZ-BONITO. en 1785. o Museu de Historia Natural e o Jardim Botânico na Guatemala. los libros suplían la falta de universidades (…) Las listas de obras remitidas de Europa a los libreros de las colonias abarcan la mayor variedad concebible de títulos y asuntos. Domingo. HENRIQUEZ URENA. a n p h l a c . Pedro (1979): Historia de la cultura en la América Hispánica. Juan Ignacio de Molina y Juan Velasco. Luis Millones. Afirma que Entre las gentes educadas de la América hispánica hubo mucha afición a la lectura. Antonello (1996): O Novo Mundo. história natural e ilustração. História de uma polêmica (1750-1900). Acesso em: 05 jun. puerto de Lima. o r g / p e r i o d i c o s / r e v i s t a / r e v i s t a 5 / dossie2.F. quando alcançada. empresa que. Copérnico. através da penetração gradual e moderada do “espírito do século”. El saber de los jesuitas. Descartes. inclusive. Montesquieu. manifestações das Luzes se fizeram sentir fortemente nos aspectos sociais. o Observatório Astronômico de Bogotá e a Escola Náutica de Buenos Aires. catolicismo. Mas não diferem naquelas capacidades – linguagem.pdf>. p. denotando o uso inteligente e adaptado às necessidades locais. Lavoisier. Pedro (1954): Las corrientes literarias en la América hispánica.) É claro que os corpos humanos diferem. . fundamentaram a justificativa teórica da emancipação das colônias. Além da intensa atividade cultural. porém existe algo essencial no homem que mantém mesmo as culturas mais fechadas com um potencial de ser inerentemente ilimitadas e abertas. Ureña tece largo comentário sobre a vida cultural latinoamericana. em primeiro lugar. se mantuvieron en circulación secreta todavía cuando se les consideró peligrosos y se prohibió su lectura (HENRIQUEZ UREÑA.: Fondo de Cult. Laplace. HENRIQUEZ URENA. historias naturales u el Nuevo Mundo.. Silvia Navia (2005): Las historias naturales de Francisco Javier Clavijero. Anphlac : Revista Eletrônica. Houve um entrelaçamento dos temas ilustrados às formas tradicionais. 2010. Buffon. v. México D. Beatriz Helena (2010). sumaba 37 612 volúmenes. una sola remesa de libros recibida en El Callao. políticos e econômicos. [. 5. São Paulo: Unesp. Gassendi.] 221-250. 2006. Madrid: Iberoamericana. Leibniz.78 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS México. Referências bibliográficas DOMINGUES.. 39. Económica. Voltaire. Rousseau. GERBI. Culturalmente é possível ser conduzido por um caminho etnocêntrico de rechaço a outras culturas diferentes da própria. Locke. México: Fondo de Cultura Económica. EAGLETON. O México na “Polêmica do Novo Mundo”: humanismo. En el Brasil. las cantidades eran extraordinarias: así. 1979. sexualidade – que lhes permitem entrar em um relacionamento potencialmente universal uns com os outros. abrangendo as mais variadas manifestações artísticas. trabalho. capacidades físicas etc. São Paulo: Cia das Letras.

Avançados da Universidade de São Paulo. Acesso em: 08 mai. Instituto de Estudos ilustr mérica La tina. p h p ? p i d = S 0 1 0 3 40141988000300003&script=sci_arttext>. São Paulo. Nota * Bolsista CNPQ. Roberto (1988) L e i t tu ras Ra ilust r ação na A mér ica L at ina. set/ dez. 1988.scielo.br/ s c i e l o .ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 79 ur as de R a y nal e a VENTURA. Disponível em: <http://www. Aluna do mestrado em Teoria da Literatura através do Programa de Pós-graduação em Letras da Universidade Federal de Pernambuco. . 2010.

diversos autores e autoras se movimentaram e se movimentam no sentido de instrumentalizar as línguas locais. Na tentativa de identificar criações que. até certo ponto. Tal situação é agravada pela quase nenhuma circulação desses textos poéticos e narrativos entre nós. entre outras experiências equivalentes relacionadas aos povos maia. buscaremos desenvolver ao longo deste estudo uma breve reflexão acerca do exercício de tradução cultural e linguística que permeia algumas dessas manifestações poéticas e narrativas. que chegou mesmo a reivindicar no livro intitulado Decolonising the Mind – The . Os argumentos favoráveis a esta utilização foram rechaçados por escritores como o queniano Ngugi Wa Thiong’o. O uso de idiomas europeus como língua de literatura em detrimento dos idiomas locais veio configurando questão bastante delicada por dividir a opinião de realizadores. mapuche ou guarani. preocupados não apenas com o trabalho de afirmação de seus pertencimentos etnoculturais e suas identidades literárias. passaremos a referir como literaturas em espanhol dos povos originários das Américas. como é o caso das literaturas africanas de língua espanhola ou os registros literários hispano-filipinos em espanhol e em chabacano. Em meio ao trabalho acabam sendo preteridas outras possibilidades de apreciação estética e crítica desse universo. manuais. por exemplo. na condição de veículos de comunicação interétnica e de elaboração estética. críticos e observadores da cultura em alguns espaços geopolíticos conformados pela experiência colonial. as manifestações do universo canônico hispano-americano. Na África e na América hispânica. as quais via de regra contemplam regularmente a experiência peninsular e. bem como as manifestações literárias bilíngües do povo zapoteca no México. em seu conjunto mais amplo. por exemplo. ausentes que estão na maioria dos livros. quíchua. compêndios. lado a lado com a língua do colonizador. investindo numa maior visibilidade internacional das chamadas literaturas menores ou periféricas. antologias ou coletâneas brasileiras de literaturas de língua espanhola.80 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS A HISPANIDADE DISPOSTA EM PARALELO: VOZES LITERÁRIAS CONTEMPORÂNEAS DOS POVOS ORIGINÁRIOS DAS AMÉRICAS Amarino Oliveira de Queiroz Universidade Federal do Rio Grande do Norte As experiências literárias contemporâneas cultivadas em língua espanhola pelos chamados povos originários das Américas configura matéria de pouquíssima visibilidade no ambiente da pesquisa acadêmica brasileira.

dentro do debate lingüístico.de certa forma .o que defendeu no seu ensaio Decolonising the Mind . sino el de la gente iletrada de Luanda o Maputo. tais como The River Between ou Weep not. são exemplos perfeitos de como a ficção africana nada perde em autenticidade cultural por utilizar idiomas da colonização como meio de expressão literária. 23). Thiong’o baseia seu argumento numa possível maior capacidade de apreensão das culturas africanas através das próprias línguas autóctones. não é propriamente o uso do idioma herdado do colonizador como meio de expressão literár ia que torna as literatur as afr icanas cultur almente inautênticas ou mesmo as circunscreve aos domínios ur banos ou alfabetizados. já que. ¿Por qué no reconocer entonces que la lengua.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 81 Politics of Language in African Literature. o prêmio Nobel de Literatura. foram imediatamente traduzidas do gikuyu para o inglês? Na verdade. Neste sentido. destaque-se o exemplo do poeta. publicidade e difusão da obra literária. o gikuyu. em linhas gerais. Descrevendo as razões que o motivaram a substituir o inglês pela sua primeira língua. contudo. Chinua Achebe o Ben Okry no es el de Oxford. sino el de los obreros de Lagos. Devil on the cross (romance) e I Will Marry when I want (drama. y lo importante es cómo y para qué se usan? (NDONGO-BIDYOGO. recorrendo à memória e às tradições orais bem como a um profundo engajamento social e político. p. romancista e crítico Woyle Soynka: primeiro escritor da África negra a conquistar. Ele que o diga. para quem: Ngugi esquece-se. como ya sucede en Hispanoamérica. de 1986. sino el de Malabo y Bata. contrariando . co-autor). ante todo. Soynka empreende em seu exercício poético e ficcional uma combinação entre técnicas assimiladas do Ocidente e o expressivo universo cultural iorubano. que el portugués de Luandino Vieira o de Pepetela no es el de Coimbra o Lisboa. o recurso exclusivo das línguas africanas para a produção literária escrita do continente. isto agravado pelo fato de que é supostamente na Europa e nos Estados Unidos que se encontra a maior parte do público das literaturas anglófonas e francófonas. disposição também compartilhada pela maioria dos escritores anglófonos. que o imperialismo cultural manifesta-se no domínio lingüístico. (LEITE: 1998. o argumento defendido por Ngugi Wa Thiong’o não chegaria a estabelecer um consenso sequer entre seus pares. y que. a posição dos escritores africanos francófonos admite a legitimidade e reivindica o uso dos dois procedimentos. e também noutros. que el inglés de Amos Tutuola. Que nos diga por que razão as suas últimas obras. cultural e literário de intenção hispanista as múltiplas realidades através das quais . atendo-se ao modo pelo qual a utilização das línguas tomadas de empréstimo legitima o exercício criativo desses autores. Esta atitude foi contestada por vários autores e críticos literários como é o caso do angolano João Carlos Venâncio. 2006. revelando caminhos diversificados e abrindo espaço para interessantes soluções não só no fazer literário como na própria estrutura das línguas “tomadas de empréstimo”. todas las lenguas. 1992. (VENÂNCIO. propriamente dito. Os próprios livros de Ngugi. p. Nas modernas literaturas da África. em 1986. instrumentos de comunicación. escritos ainda em inglês. el español de María Nsue y de Maximiliano Nkogo no es el de Burgos o Madrid. child . sino el que se habla en los suburbios de Abidján o Brazzaville. 3) De acordo com grande par te da crítica literária africanista que adotou opiniões concordantes. 61). é pertinente a constatação do escritor e crítico literário guinéu-equatoriano Donato Ndongo Bidyogo: Dicen los expertos que el francés en que escribieron Amadou Kourouma o Sony Labou-Tansi no es el de París. entendendo que o vasto leque de possibilidades investigativas que se abre no espaço acadêmico brasileiro revela tanto a urgência quanto a necessidade de atualizar e incluir. Para trazer outro importante nome da literatura nigeriana escrita originalmente em inglês. p. como o da publicação. son. do Caribe e da América Latina produzidas em línguas europeias é cada vez maior o registro de experiências estética e politicamente inovadoras. Diante do exposto.

Tal caráter parece pontuar grande parte dos discursos identitários formatados. . seja pela interferência dos idiomas autóctones e de outras línguas estrangeiras. No que diz respeito aos povos originários das Américas propriamente. Um extenso leque de exemplos caracteriza esta tendência.82 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS se movimenta o castelhano em sua condição de idioma de comunicação. em muitos casos . algumas vozes literárias contemporâneas emanadas dentre os povos originários das Américas. artigo que intenta realizar um breve mapeamento das escritas contemporâneas de autores e autoras na América de língua oficial espanhola. os pesquisadores Arturo Arias. como também inscreve a literatura num território de agenciamento indígena dentro do atual contexto latino-americano. envolvendo incontáveis escritores que vão desde o boliviano Alcides Arguedas ao equatoriano Jorge Icaza. cultura. a partir de experiências literárias à margem. que hoy articula las movilizaciones de los pueblos originarios. En efecto. Mas é principalmente durante todo o século posterior que várias destas literaturas escritas passaram a experimentar de efervescência criativa na busca de uma autonomia estética. Muitos de seus autores encontrariam forte substância na tradição pré-colombiana. Bem a propósito. De modo assemelhado ao que ocorre com a escrita africana contemporânea em português e espanhol.e também em língua castelhana. entendida como um projeto lingüístico. no imaginário americano e na realidade sócio-cultural dos povos indígenas e seus descendentes. ensino e literatura. produzidas em contextos onde também a língua castelhana comparece como protagonista lado a lado com outros idiomas de literatura. pretendemos chamar a atenção para o caráter inclusivo desta condição plural e polifônica. epistêmico e político representa importante fenômeno ocorrido na produção simbólica do continente: En estas literaturas se reconfiguran las subjetividades indígenas y se cuestiona la hegemonía de “literaturas nacionales” circunscritas al imaginario de la población hegemónica criollomestiza de los Estados-naciones dominantes. se anticipa en el terreno de la literatura escrita. pese as sucessivas tentativas de apagamento decorrentes da experiência colonial. Luis Cárcamo-Huechante e Emilio del Valle Escalante (2012) argumentam que a emergência desse corpus autoral não apenas põe fim ao império dos indigenismos crioulos e mestiços. o processo de re-apropriação da língua do colonizador constitui uma das tendências claramente identificáveis em grande parte da obra assinada por representativos nomes das literaturas latino-americanas escritas nestes dois idiomas ibéricos. é sabido que tanto através da tradição oral como por meio do exercício da escrita nas próprias línguas autóctones e em castelhano seu pensamento e expressão cultural tiveram continuidade e difusão. uma vez que tal atividade. Esta característica é flagrante já a partir de meados do século XIX. la lucha por la restitución de soberanías y autonomías territoriales en el nivel político y social. estético. sobretudo. em “Literaturas de Abya Yala” 1. fazendo com que esta auto-representação e essa autodeterminação literária dos povos originários das Américas configurem um modo de dotar-se de soberania intelectual. seja por um particular procedimento de reinvenção lingüística e renovação estilística motivado pela interpenetração cultural cada vez mais ativa e diversificada. período que corresponde à independência política e à consolidação dos vários novos Estados americanos. tanto como estratégia de visibilização dos discursos poéticos e narrativos subalternizados como na condição de espaço de resignificação cultural e re-apropriação lingüística como parecem descrever. para ficar com apenas quatro desses nomes. gerando assim momentos de afirmação positiva e de reconhecimento internacional. passando pelo peruano José María Arguedas até o guatemalteco Miguel Ángel Asturias. La emergencia de dicha producción literaria se ha vuelto notable en países como Perú (quechua).

la capacidad de cruzar barreras lingüísticas y formales. su difusión estaría restringida al ámbito comunitario. ainda que tomando como veículo de expressão e divulgação a língua do antigo colonizador. pp. uma tarefa problemática. uma vez que Poetas y escritores indígenas contemporáneos mixturan además sus lecturas públicas con recursos sonoros. como é o caso de XTeya. o primeiro romance bilíngüe espanhol-maia. contista. 2012. 7-8) Não obstante. Guatemala (maya). pp. (ARIAS. tematizando a mobilização das populações autóctones na península de Yucatán. CÁRCAMO-HUECHANTE. expresión de una cultura que ya no se puede encasillar en un pasado prehispánico.. 2012). De modo distinto ao de outras publicações realizadas anteriormente. un corazón de mujer). en lengua española. a autora preteriu a retomada de relatos sobre a criação do mundo e outros elementos da cultura e da cosmogonia maia para investir na ficcionalização da vida e do assassinato de uma liderança social ocorrido nos anos 70 do século passado.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 83 Chile (mapuche). Dichas prácticas indigeneizantes se suelen asimismo enriquecer con el uso de las técnicas contemporáneas de la performance. entretanto. en línea. México (sobre todo maya. Tal es el caso de la literatura indígena en Colombia (. Los textos no se agotan en el espacio escrito. que saca origen de la literatura hispanoamericana. Así. para além do seu contexto específico de produção.. também ela própria poetisa bilíngue entende que esta produção literária contemporânea dos povos originários das Américas no puede concebirse sino de manera bilingüe. as práticas literárias desenvolvidas por vários desses criadores e criadoras não estão delimitadas apenas pelo chamado universo letrado. Esto conlleva una desestabilización de nuestros marcos categoriales e invita a indigenizar “la ciudad letrada” (. uma experiência estética inovadora e politicamente instigante como exercício de tradução cultural. CÁRCAMOHUECHANTE. pero con una perspectiva interna a los grupos mayas. Se amplifican en el evento de la performance pública. comienzan a ganar visibilidad otras literaturas indígenas emergentes... las temáticas sociales. visuales y corporales provenientes de sus tradiciones rituales nativas. (. 2012. la autora incursiona con su novela bilingüe en un género tradicionalmente escrito en español. 2009. especialmente en las últimas dos décadas. ni en la adhesión fiel a los modelos hispánicos. tradutora e . o de Rosa Chávez (ritualidad colectiva maya). Lorenzo Aillapán (sonidos pajariles del entorno mapuche).. incluyendo aquellos lenguajes del entorno animal y natural.. ejemplificándose en la poesía de Dourvalino Moura Fernández (pueblo desana) y Daniel Munduruku (pueblo mundurucu) en Brasil. a obra de Marisol Ceh Moo se caracteriza por un equilibrio entre las fuentes prehispánicas y una experimentación formal. paulatinamente. de acordo com a investigadora Michela Craveri.) romancista yucateca Marisol Ceh Moo. Asimismo. 25-26) En este nuevo contexto.). ya que es una creación pensada en alguno de los idiomas originarios de nuestro país. han hecho de este texto un ejemplo significativo de la nueva producción literaria en las lenguas indígenas de México. pero de permanecer sólo en éste. 9) o que parece configurar. necesariamente tiene que ser traducida al español. (Pineda. en otras latitudes del continente. lançado em 2009 pela ensaísta. a ensaísta e tradutora zapoteca Irma Pineda Santiago. Não obstante. Alimentando a proposta a partir de um lugar de enunciação que se aproxima ao de Marisol Ceh Moo. las identidades urbanas de la contemporaneidad indígena comienzan a adquirir notoriedad en narraciones y poemarios. ESCALANTE. zapoteca y náhuatl) y. (CRAVERI. Tal es el caso de las “lecturas literarias” de los poetas Leonel Lienlaf y Víctor Cifuentes (cultores del ül o canto mapuche). u puksiikal koolel (Teya. por lo que para poder llegar a una diversidad de lectores y escuchas. (ARIAS. Traduzir e traduzir-se configuram. p. musicales. El estilo de la autora.) También resaltan en este proceso las producciones literarias escritas de autores nativos de la Amazonía. Assim vêm se multiplicando experiências assemelhadas nos vários quadrantes da antiga América de colonização ibérica. ESCALANTE.

THIONG’O. Oralidades e escritas nas literaturas africanas. fazendo suas as palavras do professor mexicano e defendendo. VENÂNCIO. NDONGO-BIDYOGO.Instituto de Cultura e Língua Portuguesa. e é através dela que os movimentos indígenas costumam identificar o continente americano em sua totalidade. pp. pois. Conferencia en Hofstra University. Ana Mafalda.pdf Acessado em 12 ago 2012. Año XXV. POLAR. un corazón de mujer. El Caracol. a expressão Abya Yala significa “tierra en plena madurez”.hofstra.gob. Curry. Recife: UFPE. Literatura Indígena. Literatura e poder na África lusófona. Lima-Hanover. CEH MOO. ayer y hoy. “X-Teya. 2do. PINEDA. 3 de abril. Lisboa: Colibri. CÁRCAMO-HUECHANTE. Acesso em: 5 mai 2006. Referências bibliográficas ARIAS. 2007.H. 2006.: Consejo Nacional para la Cultura y las Artes (Letras Indígenas Contemporáneas). . mas também como uma riqueza a ser explorada no sentido de fazer valer. n. Disponível em: http://www. Marisol. 2009. Decolonizing the mind: the politics of language on African Literature.1992.edu/ PDF/lacs_event_040306. CRAVERI. Literatura guineana: una realidad emergente. mas também um exercício cada vez menos restritivo de literatura e do próprio fazer literário. Semestre de 1999. Nº 50. e onde o saber indígena seja um componente fundamental das novas sociedades. Ngugi wa. é a própria Irma Pineda Santiago quem indaga sobre o papel que devem desempenhar os escritores indígenas no futuro.F. Emilio del Valle. winter 2012 : volume xliii : issue 1. 13. não apenas um conceito. como um desafio permanente. México D.84 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Retomando as considerações do poeta e professor de literaturas indígenas Natalio Hernández (1990). HERNÁNDEZ. tributárias das criações na oralidade e do letramento em língua espanhola se nos coloca. LEITE. ESCALANTE. 2008. Donato. Lisboa: Ministério da Educação . conforme já apontava Antonio Cornejo Polar (1999) na penúltima década do século passado. para que juntos possam contribuir para a conformação de um novo tecido social onde as novas gerações vivam e convivam num ambiente social pluricultural e plurilingüe. por conseguinte. Lasaforum. Tese de Doutorado. Arturo. “Literaturas de Abya Yala”. N. un corazón de mujer. Programa de Pós-graduação em Letras. 25-26. As inscrituras do verbo: dizibilidades performáticas da palavra poética africana. “Para una teoria literaria hispanoamericana”. London: J. 9-12 QUEIROZ.culturaspopulareseindigenas. 1990. Luis. Nota 1 No idioma cuna do Panamá. México: DGCP. Rev ista de Crítica Literaria Latinoamericana. Amarino Oliveira de.1998. A dinâmica ascendente dessas escritas bilingües. Teya. Michela.pdf.mxcppdfla_auto traduccion_irma_pineda. de Marisol Ceh Moo”. José Carlos. Irma. o estabelecimento de um diálogo permanente entre escritores de diferentes línguas e culturas no mundo. Portsmouth.: Heinemann. pp. 1986. La autotraducción en la Literatura Indígena: ¿cuestión estética o soledad? Disponível em: www. um dos iniciadores do movimento de escritores indígenas no México. Antonio Cornejo. Natalio.

inclusive. a crescente utilização dessa língua como recurso literário por parte de vários autores e autoras oficialmente francófonos nos Camarões e na Costa do Marfim. Argélia. as diversas língua espanhola. o chamorro de Guam e das ilhas Marianas: cada um destes exemplos aponta em maior ou menor grau para a emergência do tema proposto. as relações entre o cânone e as margens ou a eleição de prioridades na hora de propor e cumprir os atuais componentes curriculares dos cursos de Letras. na África. o ritual católico da crucificação durante as festividades da Semana Santa. a resistente presença do idioma na comunicação e na expressão literária produzida no Saara Ocidental e nos acampamentos para refugiados saarauis em Tinduf. e a interferência do castelhano na formação do tagalo. Se nos ocuparmos da Ásia e da Oceania teremos o judeu-espanhol ou ladino de Israel e sua presença na comunicação e na literatura. do chabacano e de outros idiomas nacionais das Filipinas. por exemplo. ao sul do Pacífico. Vejamos. ÁSIA E OCEANIA: FRONTEIRAS FLUIDAS DO HISPANISMO Amarino Oliveira de Queiroz Universidade Federal do Rio Grande do Norte Salvo raras exceções. na dança ou na manutenção de uma religiosidade católica que perpetua. as relações do guanche autóctone com o castelhano das Canárias e suas implicações culturais. ainda. as inserções hispânicas sobre a cultura rapanui da ilha de Páscoa. no artesanato. uma grande área a descoberto no que tange aos estudos hispanistas desenvolvidos em território brasileiro até o presente. as leis do mercado editorial. ou literatura filipina escrita em . a literatura hispano-negro-africana da Guiné Equatorial. Presente como língua co-oficial até o ano de 1987 ao lado do tagalo e do inglês. com suas respectivas literaturas. o jaquetía ou haquitía do Marrocos. sugerindo uma discussão que passa por questões diversas como o direito à informação. Com destaque na expressão arquitetônica. atualmente o castelhano enfrenta um delicado processo político particularidades e implicações culturais do idioma espanhol e sua apreciação como língua de literatura a partir de outros contextos que não o peninsular ibérico e o hispano-americano parecem representar. a colonização e a descolonização intelectual. a questão identitária hispânica revela algumas complexidades do ponto de vista linguístico nas Filipinas.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 85 ÁFRICA. a chamada literatura filhispana.

o surgimento de uma expressão literária filipina é bastante anterior à chegada dos colonizadores espanhóis. e mais Edwin Agustín Lozada. y ahora de nosotros frente a nosotros mismos. a quase totalidade destes registros escritos desapareceu. a de crescimento. com a introdução da escrita em espanhol com caracteres latinos. resistindo como língua de literatura. Somos de los dos mundos y los dos mundos son nuestros. na atualidade. causada pela supressão do castelhano e da crescente anglicização do país. O debate acerca do tema provoca opiniões diversificadas e nem sempre favoráveis nos mais diferentes setores da vida nacional.86 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS de restabelecimento desta condição. uma simbiose cultural filipina perpassada historicamente por elementos autóctones e hispânicos. ou seja.. durante o século XIX. essa expressão contemporânea da literatura filipina em língua castelhana é alimentada pela publicação de revistas como “Guirnalda Polar” ou “Perro Berde”. Somente no século XVI. na qual floresceram. de artistas que defendem uma estética abertamente fil-hispana. além de contribuir. que também defende o conceito de fil-hispano em parte de sua obra gravada simultaneamente em inglês e espanhol. Em sua Breve Historia de la Literatura Filipina en Español. com destaque para o nome de José Rizal. La mirada naturalista y determinista. dramáticos. Federico Licsi Espino e Mariano Loyola. apesar de exemplos curiosos como o do cantor Josh Santana. encontrando reverberação também. correspondendo ao período formativo e onde predominaram a poesia e a crônica. Sólo que los “filipinos” nacidos a partir de 1901. criadores bilíngües que. Cuando Filipinas “siempre” ha sido hispanizada. a da decadência. y después. Elisabeth Medina. Além dos trabalhos individuais em livro. caso do já referido cantor pop Josh Santana ou da artista plástica e escritora Paulina Constancia. Marra Lanot ou Wystan de la Peña.los filipinos somos un nexo viviente entre Occidente y Oriente. Gómez Rivera refere ainda a existência de uma literatura hispano-filipina contemporânea. opinando sobre a polêmica instaurada a partir de uma possível “rehispanización” cultural e linguística do arquipélago das Filipinas. também se expressam literariamente em castelhano. o escritor Guillermo Gómez Rivera (2001) propõe uma periodização dessa literatura em quatro principais etapas: a inicial. la franca . ou pela iniciativa. na sua literatura contemporânea. A essa lista de autores e autoras podemos acrescentar o próprio Guillermo Gómez Rivera. em que se desenvolveram a poesia e o ensaio. além da poesía e do ensaio. realizada por missionários católicos. como veremos a seguir. eliminada por iniciativa dos conquistadores da mesma maneira como ocorreu com a maioria dos códices pré-colombianos nas Américas. poéticos e da letra do hino nacional filipino. tanto de los españoles y de los norteamericanos. rápidamente sufrieron primero el trueque cultural y la supresión del pasado.. é que foram aparecendo os primeiros criadores. Cultivada inicialmente em tagalo através de alfabeto silábico próprio. Bem a propósito. Esse caráter fil-hispânico é igualmente defendido por outros setores artísticos e culturais naquele arquipélago asiático. Edmundo Farolán Romero. por volta de 1593. apesar da atual vigência e prestígio interno do idioma inglês. no século passado. representada por nomes como os de Antonio Fernández Pasión. Não obstante. Concepción Huerta. o teatro. conforme mencionado. dijo que éramos indios o asiáticos y por lo tanto debemos atenernos a ser lo que somos y nada más. a da plenitude. no campo cultural. De allí el debate actual y absurdo de si Filipinas debería hispanizarse de nuevo o no. autor de importantes textos ficcionais. María Dolores Tapia del Río. a escritora Elisabeth Medina (2000) afirmaria que: . para a formação do idioma chabacano e de outras línguas locais. dentro e fora do arquipélago. o conto e o romance.

¿quién soy yo? Y busco en lo español al indio filipino. textos que a menudo hablan de Filipinas o que de todas formas presentan un enfoque. Guy Merlin V i-M Tadoun.. um curioso diálogo intercultural: Y llegó el español a esas islas indias Magallanes su nombre. O uso literário do castelhano em países asiáticos como as Filipinas é uma realidade compartilhada com a de alguns Estados africanos. 2000 . bien en el suelo patrio. Céline Cléménce Ndé e Mbol Nang.. Me gusta jazz y disco. ainda que escrevendo paralelamente em outros idiomas por motivações muitas vezes coincidentes. que a través de diferentes voces. editor de literatura e professor de língua espanhola. al dólar y al peso. contos. Edmundo Farolán (1981) apresenta uma voz lírica ambígua que. o bien en el extranjero (fenómeno en cierta forma común a otras literaturas post-coloniales).] (FAROLÁN. A G. A ese archipiélago de numerosas islas Descubiertas el año mil quinientos veintiuno. [. de familias filipinas.) por filipinos. este país mestizo. hombres y mujeres nacidos en Filipinas. dividida entre os dois idiomas oficiais do pais: o árabe hassania e o espanhol. una interpretación del mundo peculiarmente filipina y curiosamente son textos que se dirigen a los filipinos. Inongo-V i-Mak ako mé. una sensibilidad. (MEDINA. Germain Metamno. a este camino voy yo. disposto entre parênteses. p. (. Me gusta el dinero. La nobleza cristiana se esfuma en estas islas. un punto de vista sobre la realidad. “pone de manifiesto el sincretismo original de la nación filipina” e estabelece. 30-31) Autor de poesia. el nombre Filipinas. 20062007. Se para israelenses que escrevem em judeu-espanhol (Avner Pérez. entre outros).) […] Pero pronto llegaron las aves de rapiña— El gringo o el yanqui su nombre no importa. portanto.. Allí es donde me meto. além do espanhol. Joe y MacArthur. Situação similar vive a literatura produzida no Saara Ocidental. tagalo. 1981. textos teatrais e ensaios críticos. (Y yo me desespero. Edmundo Farolán Romero revela através da voz lírica o duplo lugar cultural de um autor que. Encuentro el hispanismo de Aparri hasta Joló: Filipinas y España. ni en los países hispanos. I. Don Segundo Sombra. la pregunta. se expressa literariamente em inglés. transformaram o castelhano literário em sua verdadeira plataforma de expressão. Farolán desenvolve outras atividades lingüísticas como a tradução para o tagalo do conhecido romance de Ricardo Güiraldes. novela. pp. Tras dos razas unidas. en línea). francês e outros . para dizê-lo com palavras de Andreas Gallo (2007:160)..ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 87 tergiversación y aniquilamiento de su conciencia histórica. (GALLO. política e identitária.) Estamos delante de textos escritos y publicados (. em países oficialmente francófonos da África diversos escritores e escritoras ak o mé (Robert Johlio. Em seu poema “Elogio a la Hispanidad”.. 152-153). convertendo-se numa opção estético-literária. la espada en la mano. Nascido em Manila em 1943. Apostando. idiomas. é novamente o hispanista italiano Andréa Gallo quem observa: el gran problema del escritor filipino que decide escribir en español es la falta de un público nacional y en consecuencia la falta de un público internacional. sigue manteniéndose viva y representando una tradición que para muchos filipinos es patrimonio de identidad.. na permanência e atualidade dessa particular expressão literária. En su lugar el inglés y su música tonta. Sin embargo esta situación no ha decretado la muerte definitiva y permanente de esta literatura. Lo mataron al león el león de Castilla. (En esta lucha del Yo. Honrando al Rey Felipe. Soy “brown” americano. Margalit Matitiahu) e filipinos que escrevem em chabacano e espanhol o hispano resiste. Ya no soy cristiano.

Mohamed Sidati ou Abderrahman Budda Hamadi. Mesmo com uma produção mais reduzida. también una evidente preocupación por lo que pasaba en el mundo. Divididos. real e simbolicamente. diversos criadores se dedicam também à prosa. Não obstante. entre os mundos arábico-africano e europeu-ibérico. No es hasta finales de los ochenta y principios de los noventa cuando parece que comienzan a aparecer atisbos claros de una poesía seria. pois. Fatma Ghalia ou Limam Boisha entre eles. além de desenvolverem intensa relação com o universo hispano-americano. embora venha perdendo espaço gradativamente nos territórios ocupados. la felicidad y la profunda pasión por hacer que la vida de los saharauis deje de ser rutinariamente triste y dolorosa. sino. Além de cultivar fundamentalmente a poesia. muitos dos autores e autoras saarauis refletem. passando a ser objeto de uma disputa política que envolve confrontos armados e negociações diplomáticas sem solução até os dias atuais. no sólo la lucha del pueblo saharaui y sus aspiraciones de libertad. Zahra Hasnaui. que já vem se arrastando há mais de trinta anos. também conhecido por Ebnu. De acordo com o estudioso Francisco Cenamor (2008). preocupada por todo lo que acontecía en su entorno. acumula força nos acampamentos para refugiados saarauis montados em território argelino. Además de temas que reflejan la vida cotidiana de la sociedad saharaui no exenta de sentimientos tan universales como el amor. o que teria motivado a sua invasão e ocupação militar quase que imediatamente após declarada a sua independência. Um juízo descuidado poderá classificá-la como incipiente. em síntese. esta recente literatura hispano-saaraui envereda ainda pelo romance. Larosi Haidar. sobretudo a partir do exterior. ganhando expressividade como língua de resistência cultural que se caracteriza pela influência de arcaísmos do castelhano ou a assimilação do idioma árabe. com escritores como Ahmed Mulay Ali. três influências principais: a tradição oral fortemente apegada à natureza e às vivências de seu país. já que grande parte de seus escritores e escritoras vive fora do país. A língua espanhola aparece ali. o país é rico em jazidas de fosfato e em atividade pesqueira. Bahia Mahmud Awah. Quanto à atividade literária. sobretudo através do conto e do ensaio: Mohamed Ali Ali Salem. na condição de língua co-oficial ao lado de uma modalidade local do idioma árabe.88 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Território cedido por acordo em fins de 1975 pela monarquia espanhola ao Marrocos e à Mauritânia. a República Árabe Democrática Saaraui foi invadida e ocupada militarmente pelo exército marroquino. também ao longo de suas obras uma multiplicidade de vivências culturais que por sua vez reivindicam. profunda. o Saara Ocidental também divide fronteiras com a Argélia e a Mauritânia. 1 . Localizado ao sul do Marrocos. porém torna-se necessário acrescentar que o seu surgimento é relativamente recente: as primeiras manifestações literárias registradas em espanhol por autores locais tiveram lugar nas últimas décadas do século XX. Apesar de ter quase toda a superfície territorial inserida dentro da zona desértica homônima. Mohamidi Fakal-la. a ampliação desses espaços. recuperada da tradição para o formato impresso através de vários livros que vêm sendo publicados. sob condições muito particulares. a poesia em castelhano da Espanha e da América e a luta pela independência do Reino de Marrocos. a produção saaraui em castelhano revela uma forte interferência da criação poética e narrativa na oralidade. de quem está fisicamente separado por enormes muros especialmente construídos para este fim. Conforme assegura o poeta Mohamed Salem Abdelfatah (2007). no mundo árabe o saaraui é conhecido como um povo de poetas e sua atividade apresenta. passados três meses de sua autoproclamada e até hoje não reconhecida independência política comandada pela Frente Popular de Liberación de Saguía el Hamra y Río de Oro. ou Frente Polisario. como dissemos.

ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 89 Mohamed Salem Abdelfatah Ebnu atuais das letras hispano-filipinas e saarauis. no debate brasileiro de intenção hispanista. Disponível em: http://letraclara. / y a las tres / las quiero por igual”. sua emergente presença no cenário das letras contemporâneas assinala também que à literatura hispano-saaraui toca caminhar afirmativamente ao lado das outras tantas expressões literárias que a partir da África. insistem em brotar. converte-se numa ponte que tende a promover um rico encontro entre a cultura autóctone do Saara Ocidental com as culturas espanhola e iberoamericana. pela projeção que está alcançando. a mescla das experiências. Referências bibliográficas ABDELFATAH. FUENTES. Mohamed Salem.wordpress. “Poesía saharaui en castellano”. hispanas e latino-americanas . “La poesía saharaui”. Um mundo singular. as incertezas política do país. Desafiando. Luali Lehsan. Edmundo. culturas. In: La Guirnalda Polar Núm. entendendo que esses espaços representam um contributo à parte na perspectiva do redimensionamento de conceitos como hispânico e hispanidade (CORDIVIOLA. ideias e sentimentos que ali encontram lugar. felizmente. 2004. pluralizando-os culturalmente e estendendo pela fluidez de suas fronteiras a transversalidade de manifestações como essas.com/ Acesado em: 22 abr 2008. 2005. “Literatura hispanofilipina: pasado. agosto 2003. memória e conflito na literatura hispano-americana do século XVI. a relação com outras alteridades africanas. especial: Cultura y literatura saharaui. Mohamed Salem. parece-nos necessário e inadiável incluir. interferências como as dos escritores filipinos Elisabeth Medina e Edmundo Farolán ou dos saarauis Mohamed Salem Abdelfatah e Limam Boisha. . O escritor integra a chamada Generación de La Amistad. Imaginação. Las Palmas: Puentepalo. 2005. Saleh Abdalahi. ao confessar a existência real e simbólica de “tres…/ tres amantes: Sáhara. Cuba y Canarias. poeticamente. duas de suas vozes no feminino. À guisa de ilustração. CENAMOR. Disponível em: http://www. constituem o coletivo Limam Boisha. dispondo-as de forma mais abrangente e buscando assimilar a fluidez com que têm se movimentado. Sukeina Taleb e Zahra Hasnaui. FAROLÁN. Conforme se pode observar através do sujeito poético de “Poligamia”. as várias realidades linguísticas. BOISHA. In: Revista Ariadna 25. Além de Mohamed Salem Abdelfatah. 82 – Pluralidades. a fim de que questões como a condição da hispanidade se coloque num patamar além das reinvidicações “nacionalistas”. Ali Salem Iselmu. S alka outras representantes como F at atma hamed. CORDIVIOLA. tão interessantes quanto desconhecidas. culturais e literárias relacionadas ao castelhano hoje. Embarek O conjunto de elementos híbridos resultantes do progressivo contato entre realidades díspares como a afro-arábica e a hispana encontram na expressão cultural saaraui motivação criadora permanente. Limam. complementa seu raciocínio defendendo que a poesia local em espanhol.ariadna-rc. pois. Perpectivando. os recortes aqui esboçados buscaram realizar o registro de alguns nomes presente y futuro”. 1998).htm Acessado em 3 abr 2007. embora a literatura saaraui em espanhol conte com ma A hame d. Los versos de la madera . Salka Embar ek ou Fatma Ghalia Abdesalam. Chejdan Mahmud.com/numero25/ sahara/sahara. um dos mais ativos grupamentos de escritores reunidos em torno da causa saaraui no exílio. tantas vezes legitimadoras de uma pureza original tanto descabida como anacrônica. Francisco. poema de Limam Boisha publicado em Los versos de la madera (2004). Recife: PGLetras/UFPE. portanto. Bahía Awah. Alfredo.aquí particularizadas nos recortes canário e cubano se revela na forma de uma sensível metáfora para atestar.

Quezón City. Vol 3. 2009. Mohamed Salem. Elisabeth. Carlos. Acessado em: 02 abr 2006. 28 de marzo de 2000. “Filipinas Hispanizada: ¿Una Buena Opción?” In: Hispanismo .com/numero25/sahara/sahara. número 25. In: II Congreso Nordestino de Español. El espejo enterrado. 1981. In: Humanities Diliman . Bogotá: Editorial Cabrera.90 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS FAROLÁN. No 2 (2006) & Vol 4. Disponible en: http:// www. In: Tercera primavera. In: Revista Ariadna.com/kaibigankastil/rivera7. p. 53. “¿Literatura Hispano-Filipina Disponible en: http://hispanismo. Guillermo Gómez. Edmundo. “Breve Historia de la Literatura Filipina en Español.html Acessado em: 4 abr 2009. GALLO. A. NOTA 1 ABDELFATAH. especial: Cultura y literatura saharaui. MEDINA. QUEIROZ. “Elogio a la Hispanidad”. O.ariadna-rc.html. Org.geocities. 1998. RIVERA. “De la invisible presencia: voces literarias en español desde África y Asia”. FUENTES. pp. No 1 (2007). Andrea. Contemporánea? Un ejemplo en la poesía de Edmundo Farolán Romero”. “La poesía saharaui”. Programação e Caderno de Resumos. Maceió.org/hispanoasia/5218filipinas-hispanizada-una-buena-opcion. 150-174. Filipinas. Disponible en http://www. 2009.htm Acceso en: 3 abr 2007 . Madrid: Taurus.

p. la neorrealista y la dialéctica. pues el protagonista individual cede la vez a un protagonista colectivo. 1980. desaparece el ansia del testimonio objetivo y surge una visión dialéctica de la realidad española basada en la confrontación de los estratos ideológicos y sociales. la cronología no es linear y las acciones son descritas de modo simultáneo. o sea. hasta la muerte del dictador Francisco Franco. establecido terminada la guerra con la victoria del bando nacionalista que duró treinta y seis años en el poder (1939 – 1975). cuya lección sacamos de su Historia de la novela social española . La segunda etapa. tal forma nueva tenía como objetivos retratar el cotidiano de las ciudades y la crisis existencial por la que pasaba el individuo que en ellas vivía. de la Guerra Civil Española (1936 – 1939) que dividió el país en dos partes (la España Nacionalista y la España Republicana). JULIA.Universidade Federal Fluminense A mediados del siglo XX una nueva forma de hacer novelas pasa a ser observada en España. Publicada en 1957. y del régimen franquista. Las novelas de posguerra. 411). se dividen en tres tipos: la existencialista y tremendista.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 91 NATALIA. MERCEDES Y ELVIRA – RETRATO DE LA MUJER ESPAÑOLA EN LA POSGUERRA Ana Carolina da Silva Pinto PG . termina exactamente en el año de 1950 y tenía como característica estudiar la vida en las ciudades de los años 40 y la angustia existencial del individuo que en ellas vivía. tras pasar por una sangrienta guerra que duró tres años y que dejó sus rastros destructivos en las décadas posteriores.” (RICO. generando odio. la neorrealista. la tercera etapa. Según Sanz Villanueva. por Carmen Martín Gaite. pero una necesidad de la autora para que pudiera expresarse. de forma que se observa que “la mirada apasionada del autor comienza a ser substituida por el frío contemplar de la cámara fotográfica. en la que las técnicas realistas no fueron una moda. Estamos hablando. La primera etapa. Finalmente. según Gonzalo Sobejano. la dialéctica. por lo tanto. la existencialista. la neorrealista. pero obser vamos un cambio en la estructura de la novela. sigue con el tema de la de la vida en las ciudades y la angustia existencial del individuo. Entre Visillos es una novela que forma parte de la segunda etapa. pobreza y varios muertos en ambas partes.

p. en especial. outros escritores que orientaram a sua produção no sentido da urgência da denúncia. A través de las relaciones que establecen con los demás personajes de la trama. El lector es presentado a los hábitos y costumbres de la burguesía de la pequeña ciudad española a partir de tres visiones. esa es la razón de la cantidad de diálogo que observamos en ellas y es a través de ellos que la trama es conducida. Ignacio Aldecoa (1925 – 1969). y dos narradores intradiegéticos. que narran en primera persona sus vivencias e impresiones de la sociedad en la que están inseridos. así que si no presenciaron el efectivo impacto que toda guerra engendra. presentados a Natalia y a sus hermanas Julia y Mercedes. escrevem com técnicas de representação que aproximam os discursos narrativos da reportagem e privilegiam a expressão do castelhano coloquial. Pablo Klein y el narrador omnisciente en tercera persona narran la sociedad como ven. el espacio que les era reservado a las mujeres de la época. y la religiosidad que no podría dejar de aparecer. reproduciendo. LOURENÇO. 301). diciéndonos que Perteneciente a la llamada generación del medio del siglo o generación de los niños de la guerra – una vez que los escritores que produjeron alrededor de los años 50 eran niños en la época de la Guerra Civil. Natalia y Pablo Klein. Também defenderam essa função social. en estas novelas. pues como ya vimos. Entre Visillos narra. retratando todo el conservadurismo y retraso de una sociedad patriarcal marcada por una dictadura que la devastó. 1994. la cuestión de la hipocresía y del conservadurismo de una ciudad que todavía se encontraba cerrada en razón de los años de guerra vividos. huérfanas de madre. entonces. como una cámara que registra todo lo que pasa delante de ella. Juan Goytisolo. Mas nestes últimos impunha-se uma concepção utilitária da arte que por vezes se sobrepunha à salvaguarda da qualidade artística da sua ficção. en el libro). Natalia. de un grupo de chicas adolescentes de clase media de los años 50. Entre Visillos tiene como tema principal la situación de las mujeres en los años de 1950 con todos los tabúes y privaciones que tenían que enfrentar. que viven con su padre y su tía. pero. escritor español que sigue produciendo y que también formó parte de la generación de los niños de la guerra. Novela que le dio reconocimiento a su autora por ganar el Premio Nadal en el mismo año de su publicación. El narrador no interviene en la historia. además de tratar de otros temas como la diferencia entre las clases sociales – ricos despreciando pobres y viceversa –. por lo tanto. La novela tiene inicio con la llegada de Pablo Klein. Somos. principalmente. pues la novela es narrada por tres focos narrativos: un narrador extradiegético que narra en tercera persona todo lo que ve. profesor de alemán que vuelve a su ciudad natal para impartir clases en el Liceo de la ciudad. nos es posible visualizar un retrato de las sociedades provincianas españolas del medio del siglo XX y. (SANZ VILLANUEVA apud ÁLVAREZ. A pesar de no ser el personaje principal. nos explica el motivo de la necesidad de que se hiciera en España novelas de este tipo. Todos eles coincidem na defesa da função social da literatura. pues estamos tratando de una sociedad conservadora. Jesús Fernández Santos (1926 – 1988) e Carmen Martín Gaite podem ser agrupados sob o rótulo de neo-realistas. por lo menos sintieron sus efectos – Carmen Martín Gaite con Entre Visillos escribe una novela social que hace una crítica a los modelos de conducta femeninos preconizados por la sociedad patriarcal española y a la vez denuncia una sociedad en la cual la mujer no tenía vez. esta figura inexiste en este tipo de novelas. pues es a través de él que la historia es delineada. este personaje se configura como un hilo conductor. la vida de un grupo de jóvenes de misma generación de una ciudad provinciana española (que no es explicitada . Ana Maria Matute (n.92 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Sánchez Ferlosio. como se fuera una cámara lo que testimonia.1926). São os representantes do chamado realismo social.

por el contrario. donde la madre sigue las normas sociales. p. 229-231). primeramente por confesar a su padre el cuanto le aburría la educación que les daba su tía Concha a ella y a sus hermanas. Natalia no tenía madre. era el hecho de no dejar que estudiara en su cuarto. obligándola a hacer sus tareas en la sala. es una chica independiente. Que nos volvemos mayores y él no lo quiere ver. me puse a defenderle y a decir que era un chico extraordinario. Según ella esta imagen de sus madres. es Pablo Klein quien la incentiva para que hable con su padre sobre sus pretensiones de seguir una carrera. p. que sólo quería convertirlas en unas estúpidas. por lo tanto. Siendo así. 1997. 185).ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 93 los novelistas españoles – por el hecho de que su público no dispone de medios de información veraces respecto a los problemas con que se enfrenta el país – responden a esta carencia de sus lectores trazando un cuadro lo más justo y equitativo posible de la realidad que contemplan. p. (SANDE. Natalia descubre un nuevo modelo masculino en su profesor de alemán Pablo Klein. (GOYTISOLO apud MARTÍNEZ CACHERO. no provee modelos maternales positivos” (ALBORG. 1958. lo que hacía con que ella depositara todas sus carencias afectivas en su padre que representaba un modelo de conducta para ella. y la distancia entre padre e hija aumenta. dedicadas al trabajo doméstico hasta la obsesión y sin siquiera la compensación del reconocimiento por parte de unos hombres que. “La sociedad patriarcal. […] De lo de mi carrera no le he dicho nada. un hombre viudo. sin embargo. tuvieron que pensar en cómo modificar y mejorar esas condiciones de vida: en la publicidad. que sólo nos educa para tener un novio rico y que seamos lo más retrasada posible en todo. Como ya vimos. sin verle la cara. cuando la niña empieza a crecer. . compensaban con actitudes prepotentes en la familia sus también difíciles condiciones de trabajo. educándolas para que tuvieran un novio rico y nada más. sacándola de un local privado para uno público donde pudiera ejercer más control sobre la chica. pero no como cualquier adolescente de su edad y sí por cuestionar el ambiente opresivo en el que vivía la mujer de su época. encerradas como el buen paño que se vende en el arca y esas cosas que dice ella a cada momento. y el futuro historiador de la sociedad española deberá apelar a ella si quiere reconstruir la vida cotidiana del país a través de la espesa cortina de humo y silencio de nuestros diarios. que estaba dominada por las tareas domésticas y por la obligación de encontrar un novio para casarse. por lo tanto a través de su diario que Natalia se refugiaba. que la tía Concha nos quiere convertir en unas estúpidas. Empezamos. De este modo la novela cumple en España una función testimonial que en Francia y los demás países de Europa corresponde a la prensa. que no sepamos nada ni nos alegremos con nada. que. Me arrodillé en la alfombra y allí. (…) he arrancado a hablar y le he dicho todo de un tirón. a su vez. el cine y los seriales radiofónicos hallaron fórmulas diversas para aspirar a finales más felices. 93-94). a analizar a Natalia. 38). sin embargo cuando toma coraje. […] Le he dicho que si tengo que ser una mujer resignada y razonable. no podía resultar atractiva a las niñas y adolescentes de posguerra En este fragmento podemos observar la inconformidad de Natalia con el medio en el que vivía. 2005. soñadora y rebelde. la más joven de las tres hermanas. Otra acción de tía Concha que también le aburría muchísimo a Natalia. p. nos complementa Concha Alborg. Saqué lo del novio de Julia. 1993. María del Mar Jorge de Sande en sus Apuntes sobre la Novela Española Femenina de Posguerra nos explica el porqué de la orfandad de la mayoría de las chicas de las novelas sociales. habla sobre todo lo que le aprieta el corazón menos sobre sus intenciones de proseguir sus estudios en Madrid: Qué difícil era: era dificilísimo. Era. lo que quiere es seguir sus estudios en una universidad. con quien podría conversar abiertamente como hacía con su padre en la infancia. caso su padre. o sea. A los dieciséis años. prefiero no vivir. Natalia no se preocupa en conseguir un novio y menos aún en casarse. lo permita. (MARTÍN GAITE.

oyendo la música de una emisora francesa – tan lejos. [. no sé para qué se lo ha tenido que contar a él. un guionista de cine que vive en Madrid. que es mentira cuando le digo que me enfado por las cosas que me dice él en las cartas …. Julia. Allí juntas. puesto que Miguel se niega a someterse a la tradición de pedir la mano de su novia a su padre. Julia. 11). como ya hemos visto en la conversa de Natalia y su padre. (MARTÍN GAITE. y es que ella por lo visto le ha contado lo de Fonsi. ¿qué miras? – Que has quitado la repisa con los libros. vive dividida entre el deseo de entregarse a su amor yendo para Madrid concretizar su unión con el guionista. Así le cuenta Natalia: “[…] He venido despedirme de mi hermana. diciéndole que me acordaba mucho de todo lo de ese año cuando nos hicimos novios. Siendo así.] Julia lloraba. a la vez. independiente que. porque a Ángel no le gusta el ambiente del Instituto. sirviéndole como ama de casa y en la educación de sus hijos. y su familia.. (MARTÍN GAITE. (MARTÍN GAITE. pero mi padre no sabe nada todavía. A partir de este fragmento observamos el triunfo de Julia como persona y como mujer que toma sus decisiones y enfrenta su destino. aquella chica de quinto que tuvo un hijo el año pasado. . finalmente. a través de Natalia que le cuenta la decisión de su hermana a Pablo Klein cuando lo encuentra en la estación de tren. El novio le ha encontrado allí un trabajo. para que se uniera a un hombre que solamente buscaba una joven inocente y virtuosa para dominarla. que tuvo una formación tradicional y católica. que por fin.. en el día de la partida de su hermana. 243). Yo le pregunté por qué. cogiendo un poco las cosas que había encima. la hermana del medio de Mercedes y Natalia. Anoche me desperté y estuve escribiéndole cosas como las que me escribe él. Natalia observa la reproducción de los dictámenes de la sociedad patriarcal. p. En nuestras casas no lo habíamos dicho. En este fragmento constatamos el malestar psicológico de Julia al descontrolarse por los deseos que le atormentaban y a la vez por lo que había sentido y hecho. ¿sabe? Se va a Madrid. volvería a pasar lo de aquel verano. que son los libros. representa la virilidad y la fuerza física y psicológica que somete a la mujer. Yo creo que si le viera mucho. 83). con él deseo de excitarle. asumiendo todas las responsabilidades que sus actitudes pueden causar. ¿Dónde tienes los libros? – En el cuarto trastero. que desaprueba tal unión.94 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS registrando en él todo lo que le afligía. Miguel interpreta un hombre libre e Al final de la novela sabemos que Julia. p. sabe Dios de donde venía – Natalia se tapó la cara contra el hombro de Gertru y se echó a llorar desconsoladamente. como también podemos percibirla en la fiesta del noviazgo de ésta misma amiga. 1958. puesto que son tratados como trastos lo que representa para uno la salida de la ignorancia y la apertura de puertas para la libertad. decide ir para Madrid quedarse con Miguel. lo más malo que se puede usted figurar. incluso.” (MARTÍN GAITE. llegando. p. 1958. tengo que hacer una selección de los libros antes de casarme. A partir de este fragmento percibimos la perplejidad de Natalia al ver que su amiga no proseguiría sus estudios a causa de su novio. […] Se sentaron en el sofá amarillo. p. Con su amiga Gertru. También percibimos el papel transgresor de Natalia. como por ejemplo lo de su amiga Gertru que dice que este curso por fin no se matricula. 255). se cree que vuelve después de las Natividades. a ir a la iglesia para confesarse: – Pero la tentación la tengo siempre. 1958. al apoyar la unión de su hermana Julia con Miguel. ya hace mucho. se siente culpada por el creciente deseo sexual que empieza a atormentarla. 1958. al no encontrar los libros que tenía: – Sí. Si te sirve alguno.

55). Te vienes al mirador con nosotras. Elvira. Creerá que lo ha entendido. pues ya pasó de la edad de relacionarse y casarse. dirá que qué disparate. pero no habrá entendido nada. (MARTÍN GAITE. como lo confiesa a Pablo Klein: No puede entender nada. en un tono casi histérico desfoga toda su frustración de vivir años reclusa en una misma ciudad. Elvira. sin entrar. Martín Gaite nos da otro ejemplo de mujer que cuestiona su papel en la sociedad.] En el pasillo. yo no me resigno. p. como hace Natalia. hipócrita y conservadora. Pasado este primer encuentro. Con su carácter difícil. es reservada. director del Instituto donde Pablo Klein vino a dar clases. sin embargo lo que quiere es salir a divertirse en las fiestas de sus amigos. por el cual se enamora sin nunca confesarlo. En la cocina no hay ninguna taza sucia. Finalmente.Mentira. dividido entre sus convicciones y los dictámenes de las normas sociales bajo las cuales vive. que dicen que con el fallecimiento de su padre debe quedarse en casa de luto. vivía a las vueltas con sus hermanas. 1958. A pesar de mostrarse una mujer liberal. es la heroína fracasada de la novela. Nos es presentada a través del propio profesor que al llegar al Instituto y saber de la muerte del director. puesto que. Si le explico por qué no fui a Suiza se reirá. quiere aprovechar la vida con intensidad. ¡Pero yo no! Yo me ahogo. qué manía de estar siempre en otro lado. 20) Este personaje se encuentra. a quien conocía desde niño. haciendo con que en sus posteriores encuentros no esconda la atracción física que siente por la joven. En este primer encuentro con el profesor. pelea con la chica para que se incluya al medio social: [. yo me desespero. y como tal. exhibiendo abiertamente sus amistades con otros hombres. Mercedes. que así como la tía Concha. como la familia escocida. al lado de su tía-madre Concha. la hermana mayor de Julia y Natalia. pero es joven. 1958. Elvira también se siente atraída por la experiencia y seguridad que Pablo Klein le transmitía. no has desayunado. . Solamente uno que vive aquí metido puede llegar a resignarse con las cosas que pasan aquí. Mercedes estaba discutiendo con Natalia. sin embargo se encontraba dividida entre el nuevo amor por el profesor y su pacata relación con Emilio. por lo tanto. con Elvira. para mostrarse una mujer independiente y segura de si. el modelo patriarcal del cual también era víctima. pasa del control de una figura masculina a otra. Es un personaje que reproduce la típica solterona de la época que como no poseía un hogar propio para preocuparse. interfiriendo en la vida de ellas: desaprobaba la relación de Julia y Miguel y vivía criticando a Natalia por sus hábitos raros.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 95 sin embargo es interesante notar que al mismo tiempo en que transgrede los valores de la sociedad patriarcal en que vive. no que no sienta la muerte de su padre. y hasta puede llegar a creer que vive y que respira. A seguir podemos observar el papel de madre siendo cumplido por la hermana mayor. puesto que la tensión erótica que surge entre ella y Pablo Klein le genera una lucha interior entre su deseo y la barrera que la sociedad patriarcal de la España posbélica le ofrecía a la mujer. Elvira le escribe a Pablo Klein una carta pidiéndole disculpas por lo ocurrido. al contrario de Natalia. (MARTÍN GAITE. Elvira es una chica que vive el aburrimiento del luto por la muerte de su padre. . La carta le suena a Pablo como una carta de amor. que eso no puede ser.. puesto su doble condición de hermana mayor de una familia sin madre y de mujer. Es la responsable por reproducir. El ambiente de la provinciana ciudad le aburre. va a visitar su familia. al contrariar su familia para vivir con su novio. p. representa una mujer llena de complejos. Don Rafael. por Dios.. ella se reconcilia con esta misma sociedad.

Referencias bibliográficas ALBORG. Elena Fonseca. en su artículo Las Escritoras del Silencio. ahogándose en las tareas domésticas y en el ambiente opresivo de tener que encontrar un novio para casarse. 2001). la corrupción. António Apolinário (1994): História da Literatura Espanhola.: Historia y Crítica de la Literatura Española. la traición. en que la Franco implantó su ley. Em Revista Cotidiano Mujer . por eso iban a fiestas. junto a la decadencia generalizada. 410-427. el hambre. NORA. Barcelona: Ed. CASADO. la mayoría de los “maestros” se había ido al exilio y la necesidad de dejar su testimonio en la memoria del país. (FONSECA. Venían de diferentes regiones de España. […] En ese clima surgió una generación de escritoras. asegurando la reproducción de los esquemas patriarcales. y. FONSECA. que veían la vida pasar entre los visillos de sus ventanas. Concha (1993): Cinco figuras en torno a la novela de posguerra: Galvarriato. el aislamiento cultural. porque hacia atrás era el horror. Lisboa: Ed. Martín Gaite construye.htm. Soriano. Boixadós y Aldecoa.cotidianomujer. Formica. Crítica. Pablo Gil y SOBEJANO. Literarias. LOURENÇO. Concluimos así que es a través de las entrelíneas de Entre Visillos que Martín Gaite . Asa. bajo la simplicidad de lo cotidiano. denunció. la frustración. al paseo central. de.96 pues al final. es a través de Natalia.). por las delaciones que ellas denunciaron y se las llamó la “generación del silencio”. Eloísa. admite ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS su incapacidad e contribuye con la memoria de su país al criticar la vida de las chicas de clase media de las pequeñas ciudades españolas de los años 50. la pobreza. en pleno año de 1957. el desarraigo. Eligieron un enfoque existencial. Em: RICO. quien le proporcionaría el matrimonio. que Martín Gaite. Sin embargo. sin despertar la atención de la censura. Madrid: Ed. p. escritora de la revista electrónica Cotidiano Mujer . hace su más fuerte denuncia al construir un personaje que representaba una chica rara – como la propia autora así lo definió. ÁLVAREZ. al cine y a la iglesia. BUCKLEY.org. que sin decirlo. Mercedes y Elvira. Después de analizar los personajes femeninos significativos de la novela. Acessado em: 12/08/2012. lo que la censura no les permitía. unas más jóvenes que otras. por aún cuestionar el papel de la mujer de esta misma sociedad. la soledad. de las mil maneras que elige la escritura para decir entre líneas. la mentira. no tenían donde mirar. indeterminación para superar sus frustraciones. sin discursos. Pertenecían al “realismo tremendista” y también al “cainismo”. la particular represión del régimen franquista sobre las mujeres. al casino. Eugenio G. Gonzalo (1980): Caracteres de la Novela de los Cincuenta. Contaron la realidad. así. y también la pobreza moral. la angustia. donde ocultaban. un personaje que representa una metáfora de futuro. Elena (2001): Las Escritoras del Silencio.uy/2001/35_p31. N° 35. Con Natalia. al decidir quedarse con Emilio. afirma que: Quienes vivieron la posguerra de esa guerra. pero las unía el peso de la doble censura. Disponível em http:// www. representa la esperanza en generaciones de mujeres que consiguieron romper con estereotipos para encontrar una posición en la sociedad. un malestar muy grande. Ramón. constatamos que Martín Gaite transgrede dos veces con Entre Visillos : primeramente por publicar una novela del realismo social en una sociedad en que solamente les era permitido a la mujer escribir lo que se quedó conocido en las letras hispánicas como novela rosa. Francisco (org. la nada. como es el caso de Julia. la eclesiástica y la política. y hacia delante. en su libro Desde la Ventana – al cuestionar el espacio que le era reservado a la mujer de la España posbélica. en segundo lugar.

Vol 70. ________. SANDE. 8/1 Época Contemporánea: 1939 – 1975. Madrid: Ed. Em Area and RICO. (1958): Entre Visillos.: Historia y Crítica de la Literatura Española. Espasa-Calpe. .ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 97 MARTÍN GAITE. Crítica. p. José María (1997): La novela española entre 1936 y el fin del siglo – Historia de una aventura. Acessado em 01/08/2012. Carmen (1999): Desde la ventana . Culture Studies . Madrid: Ed. Barcelona: Ed. María del Mar Jorge de (2005): Apuntes sobre la Novela Española Femenina de Posguerra. Gonzalo (1999): Carmen Martín Gaite. SOBEJANO. Francisco (org.). Disponível em: http:// r e p o s i t o r y. j p / b i t s t r e a m / 1 0 1 0 8 / 2 4 4 6 6 / 1 / acs070005. a c . Castalia. t u f s . Barcelona: Ed. Em: MARTÍNEZ CAHERO. 523526.pdf. Destino.

refletindo sobre a realidade latinoamericana.” (OVIEDO. contribuyo decisivamente al conocimiento de la realidad de sus respectivos países y así a definir la identidad hispanoamericana. p. Julio Cortázar (1914-1984) fez parte dessa tradição. porém dando-lhe novo ânimo.94) Na obra La vuelta al día en ochenta mundos (1967). Em uma época na qual política e arte pareciam estreitar ao máximo suas relações.23) narrativa e o próprio ensaio. . como José Martí (1853-1895) e Manuel González Prada (18441918). Ademais. Na América Latina. “ensayo creador debe entenderse también en el sentido de que surgen abundantes ejemplos de creadores que sienten la necesidad de asumir la función crítica como un reconocimiento de la importancia que ésta tiene para su ejercicio artístico. subjetiva. Em princípio. tornando (novamente) a América Latina objeto central de reflexão e representação nos anos sessenta. Sobre esses dois escritores. p. poesia. é interessante ressaltar que este livro foi publicado em um período de grande efervescência política e cultural impulsionada. o ensaio é o gênero que propõe a elaboração de uma reflexão profunda. assinala José Miguel Oviedo.98 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS O “ENSAIO CRIATIVO” DE JULIO CORTÁZAR Ana Carolina Macena Francini PG. Neste nova forma do ensaio. borrando os limites entre os vários gêneros concebidos tradicionalmente. como os textos “Verano en las colinas” e “Con legítimo orgullo”.” (OVIEDO. original. frente a Europa primero y luego ante Estados Unidos.dentro e fora de suas obras-. por sua vez. sobre um tema que pode ser o mais variado possível. 1991. os quais serão o foco da análise desse trabalho. a partir do século XIX. o ensaio começa a ter papel importante.Universidade de São Paulo Como se sabe. Cada uno. pela Revolução Cubana (1959). principalmente. é possível encontrar exemplos do “ensaio criativo” do escritor argentino. ficção e reflexão podem mesclar-se. 199. os intelectuais reconheceram como uma obrigação social posicionar-se frente aos acontecimentos. por meio do que Oviedo denominou “ensaio criativo”. : “Estos son los grandes padres del género: con ellos comienza la historia de nuestro ensayo. especialmente. em seu livro Breve historia del ensayo hispanoamericano. representado por grandes nomes. de modo distinto.

fotografias etc. y suelen presentarse como criaturas domesticadas. .). ilustrações. No entanto a própria organização do livro reforça uma das temáticas centrais da escritura de Cortázar: a concepção da realidade como absurda. Nele há contos. em seus textos. La vuelta al día en ochenta mundos pode ilustrar essa noção de arte defendida pelo escritor argentino. considera o modo fantástico uma forma mais complexa e profunda de relacionar-se com a realidade latino-americana de seu momento. tratando-o com familiaridade. se manifiestan con singular intensidad dentro o fuera de la mente humana.. novamente se problematiza a relação entre o humano e o animal. poemas. na prática de alguns hábitos. conforme explicou Claudia Gilman. salvajes o monstruosas. Como o próprio nome sugere. Por isso. Em “Verano en las colinas”. é uma viagem aos vários mundos de Cortázar. o papel do escritor latinoamericano até considerações sobre seu gato preto.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 99 Mas havia entre os escritores polêmicas discussões sobre a forma de apropriar-se da realidade latino-americana e intervir nela. pois o escritor argentino retoma este modo de narrar dando-lhe uma nova dimensão mais comprometida. desde reflexões sobre o Jazz. Nos invitan a establecer pasajes hacia “lo otro” que no pueden expresar. ( BETILLÓN. também. as artes plásticas. chamado Adorno.384) Assim. os animais acabam por provocar o sentimento do fantástico. como veremos nos “ensaios criativos” de La vuelta al día en ochenta mundos. dispostas de maneira aleatória remetendo às ilógicas colagens surrealistas. Sendo assim. são seres alheios e incomunicáveis e. citações. Em “Verano en las colinas” e “Con legítimo orgullo”. humor e certa ironia. como Cortázar. Dessa forma.. pois consideravam o ato criador em si uma forma legítima de compromisso com a realidade e um instrumento para a ruptura desta. muita vezes. y que el ser humano vive como una experiencia de horror (. reales o imaginarios. que muitas vezes foge da nossa compreensão. por exemplo. tal como ocorre em seu primeiro livro de contos Bestiario (1951). 1996. Enquanto alguns intelectuais defendiam a estética realista (os denominados anti-intelectualistas) . podem assemelhar-se em vários aspectos. em que o leitor poderá encontrar de tudo. Esse tom informal também condiz com a temática desse ensaio. em seu livro Entre la pluma y el Fusil (2003). impossível de ser compreendida a partir da racionalidade. es que estos nos acercan al “sentimiento de lo fantástico”: su manera de vivir y de percibir el mundo son materia fértil de lo fantástico. nessa obra. Este livro à primeira vista chama a atenção por sua difícil ou impossível classificação. acreditavam na equivalência entre política e prática simbólica. o animal reforça a concepção de realidade absurda do escritor argentino. ensaios. há alguns ensaios que mais parecem ‘ensaios fantásticos’. visando desestabilizar a realidade preconcebida pelo leitor. P. escritores experimentais. Um deles é seu aspecto comunicativo: Julio Cortázar interage com o leitor. Catherine Bretillón faz um panorama interessante sobre esse tema em seu artigo “La animalidad como materia de lo fantástico en los cuentos de Julio Cortázar”: Los animales cortazarianos. além de se confundirem os limites entre o ensaio e a ficção. a dualidade que há na relação entre o homem e o animal. cujas fronteiras também se borram na narrativa. é possível identificar com maior facilidade traços peculiares do ensaio. a despeito das diferenças. Talvez por essa razão os animais aparecem nos textos de Cortázar da maneira mais variada possível. Tema recorrente na obra de Cortázar.em que a conscientização dos leitores era prioridade em detrimento da criação artística-. que apesar da convivência. Com sua existência irracional. Pero la particularidad de los animales en los cuentos. os textos de Cortázar buscam explorar.

os cuidados com seu outro animalprovavelmente um pássaro-. p.. a realidade e a experiência mais imediata da vida são matérias do ensaio. chamado Obispo. grifo meu). y veo al obispo de frente (. começamos a duvidar da existência do gato e do Obispo. que tem necessidade de indagá-la. que intencionalmente as torna familiar ao leitor.” (CORTÁZAR. porém sempre no tom de quem falasse apenas de quadros e livros.. (CORTÁZAR. o leitor se depara com a seguinte pergunta de sua esposa: “. que este tipo de relato se configura quando. p. vão se incorporando novos dados que acabam retirando o leitor do aparentemente habitual e trazendo-lhe a sensação do estranho. são as indefiníveis ‘mancuspias’. como aponta Cortázar mais à frente. em seu livro Introdução à Literatura Fantástica . enquanto passa o verão em um povoado francês: Anoche acabé de construir la jaula para el obispo de Evreux. ao longo do ensaio.17) Da mesma forma ocorre em “Verano en las colinas”. que vai crescendo cada vez mais. como nos contos “Bestiario”. em que o homem e o animal convivem no mesmo espaço. ( CORTÀZAR.100 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS a qual não parece nada mais que cotidiana e trivial. “(. numa relação que se torna cada vez mais angustiante ao longo do conto.16. Adorno. Já em “Verano en las Colinas”. como afirma Lukács. Magritte.15) O leitor então toma conhecimento dessas informações dadas pelo ensaísta. 1970. dejándole apenas un punto de apoyo para el pie derecho. La batail 1970. Adorno. Esse “además” reforça o sentimento do fantástico no texto. se sobrepõem dois mundos de lógicas diferentes. p. A partir desse ponto. em que se parece estar vivenciando momentos íntimos e banais da vida de Cortázar. e sim tão-somente de uma bela e inútil superfície. Neste ensaio. em uma narrativa. incontroláveis que parecem perturbar a saúde mental e física de seus criadores. típica do conto fantástico. W..) me falta encarcelar al obispo que además es una mandrágora. Porém.. a semelhança com o ensaio parece maior. jugué con el gato Teodoro W. como nos definiu Todorov. Daí a contradição que expõe Lukács sobre o ensaio: Refiro-me aqui à ironia que há no fato de que o crítico sempre fala das questões últimas da vida. Uma experiência que estes não Tal recurso para causar o efeito perturbador recobra outros textos de Julio Cortázar. su lado mandrágora se acusa más en la sombra. ¿ya empezó la arterioesclerosis? ¿Y dónde vas a instalar la jaula del obispo?” (CORTÁZAR. e mesmo aqui do mais íntimo do íntimo. do contato com o desconhecido. y descubrí sobre el cielo de Cazenueve una nube solitaria que me hizo pensar en un cuadro de René le d e l’A rg o nne bataille de l’Arg rgo nne. la sombra del obispo se proyecta en las paredes enjalbegadas. em outras palavras. “Carta a una señorita en París” ou “Cefalea”. . Entretanto. do livro Bestiario. Sabemos. p. apenas de ornamentos belos e nãoessenciais da grande vida.) Cuando llega la hora de comer y enciendo el cabo de vela. o mundo real e o mundo sobrenatural.1 podem explicar por meio de uma lógica racional: é a perturbação da dúvida.¿Va a ser un libro de memorias? Entonces. 1970. Neste último relato. que. La cadena que sostiene la jaula chirría cada vez que se abre la puerta de mi cuarto. além de conjecturar sobre o tema para um próximo livro. criaturas pouco dóceis. criando uma outra realidade de natureza misteriosa. elaborá-lo é dar forma a uma situação vivida pelo crítico.16). por sua vez. se torna uma experiência perturbadora tanto para os personagens como para o leitor. animal que não aparece totalmente identificado no texto. 1970. pois o animal de “Cefalea” também não pertence a uma fauna conhecida. pois não se sabe de que animal se trata o Obispo e se este será assunto de um livro de Cortázar ou se de fato existe: Ya he encerrado al obispo: con dos llaves inglesas apreté el dogal de hierro que ciñe el cuello. por sua vez. Cortázar parece relatar fatos corriqueiros de sua vida cotidiana: os momentos com seu gato T.

poderia ser considerado um relato fantástico. por sua vez. pois borram-se as fronteiras entre ficção e realidade e inclui-se a subjetividade do autor. como propõe o ensaio. por outro. já que seriam considerados individualistas e alheios ao engajamento político defendido na época pelos escritores de visão anti-intelectualista. exerciam uma vigilância perante aos demais escritores que deveriam. Se. reafirmar a concepção do escritor sobre a realidade incompreensível e inclassificável. fantástica. porém as indistinções no “ensaio criativo” – tanto com relação ao animal quanto ao gênero – buscam. é uma tarefa que ninguém sabe a origem e simplesmente aceita como uma tradição que não pode ser contestada: . ironicamente. no dia de finados. A população desse país é obrigada pelo governo a recolher as folhas secas para que. a angústia da dúvida seguirá até o fim do ensaio. Cortázar que não partilhava dessa ideia aponta que a consequência para os escritores latino-americanos é que acabavam ficando presos em suas próprias narrativas e no mundo real eram “señores aburridos”. Por sua vez. pôr o compromisso político em primeiro lugar. realidade e reflexão parecem se mesclar.as mangostas. seja um dos ensaios mais políticos de La vuelta al día en ochenta mundos. Cortázar declara que a ele não interessa escrever suas memórias. assim eliminando as incômodas folhas secas. questão polêmica nesse período. é familiar ao leitor e aos poucos vai se tornando estranha. em meio a esse estado de perturbação e dúvida. Aludindo às questões de sua época.que se alimentam de serpentes. Ainda que em “Con legítimo orgullo” o animal representado remeta ao real . não se sentiam à vontade para escrever um livro de memórias. as mangostas . inclusive crianças e idosos. sarcasticamente. primordialmente. que força uma nova visão do leitor. O ensaísta sugere que os escritores latino-americanos. o leitor vai se interando da lógica absurda que há num costume que aparenta ser tão inofensivo. diferentemente da quase mandrágora de “Verano en las colinas” ou das “mancuspias”. Contudo. narra-se um antigo costume de um país (não especificado) de recolher as folhas secas que caem sobre os túmulos no cemitério. a princípio. muitas vezes por causa dessa vigilância e da autocensura. como um escritor europeu. o “ensaio criativo” vai avançando para o seu desfecho. Para tal. o próprio ensaio contrapõe tal afirmação e confirma seu modelo estético. pois lhe parece mais divertido falar de gatos e mandrágoras. Entretanto nele há uma estratégia de composição ficcional muito parecida com a do ensaio “Verano en las colinas” e nos contos de Bestiario. Já o ensaio “Con legítimo orgullo” está ainda mais próximo ao conto e se não estivesse num livro que mescla os gêneros. em que ficção. na sua visão. No ensaio em questão. novamente dando destaque para “Cefalea”. pois temiam ser tachados de vaidosos ou pedantes. pulverizar as folhas e apanhar as cobras nas expedições na selva. nesse texto a situação. por um lado. Porém. ele parece fazer críticas aos escritores que. ao longo da narrativa.irão comer. mas que não deixa de conter reflexões e críticas sobre a realidade e talvez. assim como no conto fantástico. sem deixar de lado o compromisso com o seu momento histórico.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 101 ainda que de forma menos aterrorizante. para elaborar uma essência que será utilizada para pulverizar as folhas que. desde uma posição anti-intelectualista. como comentado acima. No entanto. Cortázar volta à pergunta de sua mulher sobre escrever um livro autobiográfico e tece críticas sobre isso. ao discutir o papel do escritor latino-americano nos anos 1960. os túmulos estejam visíveis para serem homenageados. essa é uma campanha de que toda a população participa. o governo organizou uma complexa campanha em que é necessário ir à selva caçar serpentes. dividindo as tarefas de cuidar das mangostas.

Desse modo. além de estimular a consciência crítica do leitor. crescendo a quantidade de túmulos e por conseguinte de folhas secas a serem retiradas: “(. 1970. o ensaio é um “género camaleónico.38) Ao viver essa rotina infinita e absurda. cumpliendo uno tras otro los actos que el hábito escalona. 1970. os homens do conto não se diferenciam da serpente ou da mangosta .)” (CORTÁZAR. nos inquieta “que los animales parecen cumplir destinos de complejidades extrañamente refinadas.11) Assim. p. os personagens do conto produzem no leitor o mesmo sentimento do fantástico que podem causar os animais.” (OVIEDO. foi possível analisar algumas características do “ensaio criativo”. como nessa passagem: Andamos entonces sin reflexionar. p. pero estamos convencidos de que a nadie se le ocurriría que puede dejar de recogerlas.. Opressão esta. Por fim.” (CORTÁZAR. conviene subrayarloqué ocurre con nuestros gloriosos heridos. em seus hábitos. p. pois sempre terão a mesma atitude: “En cierto modo nos alegra haber tropezado con tantas dificultades para encontrar las tumbas porque eso prueba la utilidad de la campaña que va a comenzar a la mañana Porém. nota-se que por meio do modo fantástico. p.) (CORTÁZAR... deteniéndonos apenas para comer (hay trozos de pan en la mesa y sobre la repisa del living) o miramos en el espejo que duplica el dormitorio. o ensaio “Con legítimo orgullo”. p. já que a cada ano são necessários mais recrutas para a expedição da selva em que cada vez aumenta o número de mortos. pelo contrário. também parece haver momentos em que os criadores se confundem com os animais. da criação de uma situação absurda..385). 2001.) Como en los últimos años el número de bajas ha sido cada vez más grande. como delata o final da narrativa. Em “Cefalea”. [que] tiende a adoptar la forma que le convenga.. como revela a ironia do trecho..39)..38). p. 1970. Isso vai ficando mais nítido e mais absurdo quanto mais detalhes o narrador apresenta da campanha. incluso en aquellas cosas que podrían perturbar la tranquilidad pública. de Julio Cortázar. Apagando os limites entere o homem e o animal. es una de esas cosas que vienen desde muy atrás.72) Assim. tal como acreditava Julio Cortázar. a partir da apresentação dos dois textos de La vuelta al día en ochenta mundos .29) seguiente (. parecem viver num tempo a-histórico em que tudo se repetirá infinitamente. Por eso nunca sabremos -ni queremos saber. p. sin rebelarse contra ese enrevesado orden establecido (¿por quién?). o “ensaio criativo” parece ter sido a forma encontrada por Julio Cortázar para dar conta das necessidades políticas e estéticas de seu momento histórico.” (CORTÁZAR. 1970. sin parecer preocuparse por redefinir ellos mismos sus gestos (.)” (BETILLÓN. sem fim e sem razão de ser. . lo que es otro modo de decir que no se ciñe a una forma establecida. pois. com o tom irônico do narrador em primeira pessoa do plural. é possível indagar a realidade e refletir sobre ela. con las primeras lecciones de la infancia (. Como afirma José Miguel Oviedo.102 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Ninguno de nosotros recuerda el texto de la ley que obliga a recoger las hojas secas.. assim como afirma Bretillón. sustentada pela falta de consciência dos personagens. diferentemente de “Cefalea”. 1991. 1996. (CORTÁZAR. la municipalidad ha expropiado los terrenos adyacentes para ampliar el cementerio. representa uma alegoria dos regimes políticos de opressão: “La generosidad de nuestras autoridades no tiene límites. o que também pode ser uma referência à sociedade daquele período e um questionamento da condição humana. o texto alude a uma situação de leis autoritárias e população alienada e o decorrer da narrativa delata as consequências dramáticas dessa condição: a existência torna-se um ciclo vicioso.

Breve historia del ensayo hispanoamericano. 1970. La vuelta al día en ochenta mundos. Julio (1970b). Teodoro ya no sería el único en quedarse tan quieto. P. do mesmo livro.7. Madrid: Siglo XXI de España Editores. A temática animal vista nos dois ensaios também corrobora para essa ideia. “La animalidad como materia de lo fantástico en los cuentos de Julio Cortázar. Madrid: Alianza Editorial.scribd.” Em: Actual Investigación. OVIEDO. TODOROV. Introdução à Literatura Fantástica . nos dois textos analisados nesse estudo. dando relevância assim tanto à criação artística quanto ao compromisso com as questões sociais e políticas dos anos sessenta. os animais. “Sobre a essência e a forma do ensaio: uma carta a Leo Popper”.com/doc/56014858/essenciaFormaEnsaio . Entre la pluna y el fusil. reitera a sua noção de realidade que foge da explicação lógica e necessita de outras formas de narrar para estabelecer com ela um vínculo mais significativo.scribd. Tradução Mario Luiz Frungillo. Por outro. Referências bibliográficas BRETILLÓN. Catherine (1996). Em: http://pt. contrapondo-se aos antiintelectualistas. como seu gato Teodoro Adorno.” ( CORTÁZAR.com/doc/56014858/ essenciaFormaEnsaio. ao lançar mão do modo fantástico na ficção de seus ensaios. esse gênero híbrido representa seu posicionamento sobre o papel do escritor e da literatura. 383-410. Julio (1970a). La vuelta al día en ochenta mundos. Georg. http://pt. p. Nota 1 Lukács. Georg. Claudia (2003). Madrid: Siglo XXI de España Editores. mirando lo que todavía no sabemos ver. observou-se como as características do próprio ensaio e da ficção. valorizando a prática simbólica como forma de engajamento.p. CORTÁZAR. criando uma nova forma do gênero que buscava sondar níveis mais profundos da realidade latino americana. representada pelo modo fantástico. Tomo II. GILMAN. Febrero-mayo 96. pois como assinala Cortázar no ensaio “Del sentimiento de lo fantástico”. Buenos Aires: Siglo XXI Editores Argentina. ________. Tomo I.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 103 Por um lado. entremearam-se. LUKÁCS. “Sobre a essência e a forma do ensaio: uma carta a Leo Popper”. 75) Dessa forma. Tzvetan (2007) . tem maior facilidade para captar o fantástico na realidade: “Si en cualquier orden de lo fantástico llegáramos a esa naturalidad. Tradução Maria Clara Correa Castelo. José Miguel (1991). Tradução Mario Luiz Frungillo. São Paulo: Perspectiva. pobre animalito.

(MERCER. A narração dessas experiências individuais revelou a existência de histórias que traziam versões diferentes das apresentadas pela historiografia “oficial”. a autobiografia e os gêneros textuais correlatos. o sujeito ao narrar sua trajetória pessoal através da escrita. como círculos concêntricos. Por isso. como ocorre no texto autobiográfico Mi nombre es Victoria: una lucha por la identidad (2009). reconstrói tanto a sua identidade quanto o passado de seu país. Desse modo. subjetividade. Testemunhos. memórias.. políticos e morais da sociedade atual. o registro minucioso da vida do outro e da sua própria. Os sujeitos presentes nesses escritos delineiam uma trajetória que parte do individual. K. históricos ou ficcionais funcionou (e ainda funciona) como elementos de recuperação da memória individual e coletiva.] solo tiene sentido . da argentina Victoria Donda: “Mi historia [. sejam eles literários ou não. quando algo que se supõe como fixo. há uma ênfase nos gêneros discursivos que abordam as questões sobre identidade. diários íntimos. o indivíduo necessitou contar a sua própria versão dos acontecimentos e a elaboração textual de fatos memorialistas. Tais relatos de experiências pessoais..104 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS DISCURSO AUTOBIOGRÁFICO E A BUSCA IDENTITÁRIA EM MI NOMBRE ES VICTORIA DE VICTORIA DONDA Ana Cristina dos Santos UERJ / IL * A identidade somente se torna uma questão quando está em crise. em diversos países da região. Esse é o caso das narrativas em primeira pessoa na Argentina.) Na época contemporânea. Grande parte dos textos do final do século XX e início do XXI se relaciona a um dos temas da literatura da região: o viver durante e depois do golpe militar que instaurou uma ditadura de terror e repressão no país. mas alcançam também o coletivo. discutem tanto as questões relacionadas à subjetividade quanto as relacionadas aos aspectos filosóficos. postulam a identificação entre a experiência pessoal e a história da nação. os discursos sobre o “eu” proliferamse principalmente nas regiões em que houve a queda dos regimes totalitários. Nesses relatos. coerente e estável é deslocado pela experiência da dúvida e da incerteza. como é o caso da América Latina. propagam-se da memória individual para a memória coletiva política. durante os anos de 1976 a 1983. autobiografias e confissões são formas de “escritas de si” que se multiplicaram nas diferentes literaturas. Desse modo. A memória de sua própria experiência abarca também a experiência da coletividade. Durante os anos de transição e de recuperação democrática.

ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 105 rodeada de las otras treinta millones de historias que habitan la Argentina” (DONDA. 1999. identidade e alteridade e a constituição de novos sujeitos discursivos. A partir dos conceitos de escritas de si e autobiografia. ter o seu nome verdadeiro mudado na certidão de nascimento e como chegou a ser a deputada mais jovem do país. o enunciador deve permitir a sua identificação no interior do mesmo discurso. O primeiro da memória individual. em constante transformação à medida que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam. ter sido apropriada ilegalmente pela família do militar que a criou. ocorre quando sua história pessoal se entremeia com a história do país e abrange o período sombrio da ditadura argentina. na qual a narradora conta como descobriu ser filha de militantes políticos desaparecidos durante a ditadura militar. O segundo. O conhecimento desses dados extralinguísticos cria uma identidade entre a narradora. p. no qual os filhos dos presos . A narrativa registra fatos verídicos ocorridos na história contemporânea da Argentina.. Esse é o tema do trabalho ora apresentado: a autobiografia como forma de autoconhecimento e de recuperação identitária individual e coletiva. 21) “a identidade muda de acordo com a forma como o sujeito é interpelado ou representado” e do termo “verdade” como construto discursivo. de uma pessoa real . p. pois segundo Hall (2005. a narradora busca desconstruir e reconstruir uma subjetividade particular que a reporta a um grupo específico: o das crianças raptadas pelos militares na época da ditadura e que recuperam sua identidade anos ou décadas mais tarde. O texto analisado permite discutir essas questões. p. o da memória coletiva. Através do relato de sua experiência pessoal. estabelecendo o que Lejeune denominou como “pacto autobiográfico” 1 . p. A característica que define a existência do pacto autobiográfico é a identificação do nome do autor que aparece na capa do livro com o nome que o narrador se dá como personagem principal. ocorrida no ano de 2004 e noticiada em vários meios de comunicação na Argentina. de modo que a sua indagação sobre a veracidade do narrado é quase inexistente.. Dentro do texto analisado. 13) na época contemporânea: uma identidade fragmentária. abordam-se questões da identidade como parte de um processo de construção social e cultural. 14 ): “[. em par ticular a história de sua personalidade”. Esse processo de construção e desconstrução adequa-se à noção de identidade descentralizada difundida pelo teórico Stuart Hall (2005.] narrativa retrospectiva em prosa que uma pessoa real faz de sua própria existência. Logo. A existência de um pacto diminui a ficcionalidade do texto e faz o leitor acreditar na “verdade” do que lê. 243). A narrativa abrange dois planos.Victoria Donda – e de maneira retrospectiva. A autobiografia Mi nombre es Victoria Donda (2009) inscreve-se na definição de gênero autobiográfico apresentada pelo teórico francês Philippe Lejeune (2008. pois sabe existir uma realidade anterior e exterior ao texto. especialmente quando reconstrói discursivamente uma nova identidade para o sujeito feminino que nasceu sob o signo da opressão e foi privado de sua identidade. verificar como essa escrita reconfigura uma nova identidade para a narradora e suas implicações para a reconstrução identitária que aflora do sujeito feminino emergente dos ambientes sociopolíticos de poder e opressão. Seu objetivo é discutir questões vinculadas à escrita autobiográfica. o pacto com o leitor se torna mais forte porque a autobiografia retrata o processo de recuperação identitária de Victoria Donda. quando focaliza sua história individual. a autora real e a personagem central. para que haja o pacto.

] si toda conclusión es el punto de partida de una nueva historia. e entregue a uma família de militar por seu próprio tio paterno. esquecimentos. decide candidatar-se a uma vaga de deputada. Sabe-se. através da narradora-personagem. Mas. no momento da enunciação. Após se certificarem de que se tratava realmente de Victoria.e o relato de acontecimentos – o passado. os fatos . as integrantes da associação revelaram-lhe seu verdadeiro nome e sua história. Porém. O núcleo do narrável na autobiografia – a experiência pessoal – equivale à transformação do indivíduo. obrigatoriamente. no fragmento destacado. foi descoberta pelas Abuelas de la Plaza de Mayo (associação da qual sua verdadeira avó materna foi uma das fundadoras). e é eleita. como transformação: “parece não haver motivo suficiente para uma autobiografia se não houver uma intervenção. p. na época um importante comandante militar e que nos dias atuais está preso por delitos de lesa humanidade. p..106 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS políticos nascidos na prisão eram dados para adoção às famílias de militares e notificava-se às verdadeiras famílias que a criança havia morrido. se abría el juego para la aparición de Victoria” (DONDA. Também por esse motivo. mas Victoria “[. 195. omissões e deformações na história da personagem. por meio de uma denúncia anônima. ainda passa pelo filtro da subjetividade: a voz narrativa traz ao relato somente o que acredita ser importante para a compreensão da transformação sofrida. é seletiva. O verbo delata a existência de uma distância temporal entre o momento da enunciação – o presente. O desejo da narradora de falar de si procede do episódio que funda o ato autobiográfico na narrativa: o reencontro com sua própria história antes de ser raptada. A partir dessa consideração. 170). de não ser Analía. de uma mudança ou transformação radical que a impulsione ou justifique”. que a “memória perfeita” é capaz de reconstruir em seus detalhes: “En aquel momento recuerdo que lo único que quería era que los resultados dieran otra cosa que la que esperaba” (DONDA. Assim. Essa distância faz com que a voz narrativa só se recorde daquilo que a sua memória deseje recordar e essa recordação.. 1999. que Victoria foi separada de sua mãe ainda recémnascida. Esse momento de transformação . A recordação está submetida à memória e essa por sua vez. Grifo nosso).é tão importante em sua vida que aflora no relato como uma lembrança vívida. p. questiona-se: como é possível falar de verdade no texto autobiográfico? A busca pela verdade dos fatos foi a luz que guiou a narradora pelo caminho de seu autorreconhecimento. prevê e admite falhas. 31) uma das características mais importantes de todo relato autobiográfico é a ideia da vida como devir. Viveu durante vinte e sete anos com essa família. en aquel momento comenzaba a inscribirse el final de Analía y. na existência anterior do indivíduo. atendendo pelo nome de Analía quando.o divisor de um antes e um depois no decurso pessoal da narradora . a descoberta da verdade. erros. de um fato modificador em sua vida que marca um antes e um depois em sua existência pessoal. Esses dois planos fazem com que sua narração ultrapasse as linhas limítrofes entre a história individual e a coletiva. filha de José María Laureano Donda (Laureano) y María Hilda Pérez (a Cori). 2009. verifica-se que a escrita já aponta para uma marca de ambiguidade: o uso do verbo recordar. A descoberta de uma “história pessoal” diferente da conhecida é o ponto de partida da autobiografia de Victoria. no ano de 2007. a história pessoal de Vitória narrada na autobiografia conta o que lhe aconteceu em outro tempo para transformá-la na pessoa que é agora. qual é a verdade? Para a narradora. Sua busca pela identidade pessoal se desenha quase que obrigatoriamente no horizonte da construção da identidade coletiva argentina. Para Wander Mello Miranda (1992.

no momento da escritura. a percepção de verdade depende sempre da visão de quem reconta os fatos: “Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo ‘como ele de fato foi’. p. podem-se possuir tantas verdades quantos pontos de vista em seu relato. No texto analisado. questionou-se o próprio conhecimento histórico. por más consecuencias que puede tener sobre una existencia. p. o relato autobiográfico falha em sua premissa principal: rever a história de si mesmo para. todo ló que sé de mis padres y el destino que corrieron se fragiliza. Os diversos “olhares” inseridos no relato autobiográfico de Victoria colaboram para tornar tênue a noção de “verdade”. como a contemporânea. entre o “eu” que se foi e cuja vida se narra e o “eu” que se é no momento da escrita presente no texto autobiográfico. mas eles realmente aconteceram como ela conta? Se o que ela lembra está relacionado à subjetividade ou aos fatos relatados por outrem. É a divergência entre a vida e a escrita. Logo. por dolorosa que sea. 136). através da narração. apenas sostenido por declaraciones cruzadas de testigos y gente que les conoció [. . porque os acontecimentos podem ser alterados segundo a visão de quem os conta. para a narradorapersonagem conhecer a “verdade” sobre quem foi lhe permite. p. 1985. sua autobiografia vai além de si mesma.. Significa apropriar-se de uma reminiscência. 224). enredase com as das outras pessoas que conviveram com ela e com os seus verdadeiros pais: “A partir de este momento. essa constatação não impede a voz narrativa de buscar a “verdade”. Se o acesso ao passado só pode ocorre pela textualidade. Sua identidade é construída por meio de diversos “olhares” que se entrecruzam entre o seu presente e o seu passado. esses relatos estão repletos de subjetividades. Desse modo.. Nesse aspecto. Sua identidade pessoal é construída através de seu olhar e do olhar dos outros sobre si mesmo. tal como ela relampeja num momento de perigo” (BENJAMIN. Esse fato ocorre na autobiografia analisada. Com isso. a narração autobiográfica só existe enquanto discurso e não pode ser conclusiva. dos relatos das “abuelas de la Plaza de Mayo” e dos textos históricos da época. então. saber quem é: La verdad. A estética pós-moderna mostrou a impossibilidade de o homem conhecer a realidade e representá-la através da linguagem. as experiências pessoais que edificam o autorretrato de Victoria não advêm somente de suas lembranças. 17) também aborda essa contradição ao afirma que: Talvez a maneira mais apropriada de abordar o tema da autobiografia seja afirmando positivamente aquilo que ela não pode ser. logo. Como construções linguísticas. de sua verdadeira família. entre eles Leonor Arfuch (2010. p. representa a si próprio através do retrato do “outro”.]” (DONDA.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 107 contados constituem “a verdade”. logo. Sua história é narrada através de outros relatos fragmentários que tampouco dão conta da realidade tal como ela foi. Para tal. Duque-Estrada (2009. não há como afirmar que as suas experiências pessoais ocorreram da maneira como se apresentam na narrativa. 43). necessita de narrações alheias. 2009. mas das pertencentes a outras pessoas: dos amigos de seus pais. O momento da escrita autobiográfica faz convergir um “eu” que ao mesmo tempo é um “outro”. A contradição presente no texto autobiográfico de apresentar o vivido e a sua representação discursiva realça para inúmeros teóricos. Em uma realidade dúctil. “a impossibilidade da narração de si mesmo”. A impossibilidade de contar o passado ocorre também da dificuldade de o individuo aceder aos momentos anteriores de sua vida. reestruturá-la e contar os fatos como eles aconteceram. Ela é o norte da narração porque. afirmando a sua impossibilidade de cumprir a sua mais profunda promessa: apresentar a verdade de uma vida reunida numa trama narrativa. Se cada olhar traz um ponto de vista.

No se trata de una simple verdad de un nombre. quien no pudo sino sucumbir y sacrificarse para que la verdad ocupase su lugar en la historia” (DONDA. 2010) do documentário e da autobiografia. 2009.] mi historia es puesta al desnudo.. a voz narrativa não pode abarcar o “eu” sem relacioná-lo com a realidade de seu país. em sua reconstrução discursiva.22). Y esa persona era yo. Com esse ponto de vista. p. a narradora reconstrói o passado individual e o A afirmação presente ao longo da autobiografia de que os fatos relatados são como os vivenciou é importante para a narradora-personagem alcançar seu objetivo primordial com a escrita: sua recuperação identitária. p. mas não a de “experiência vivificada”. es la condición para ser uno mismo. Voltar ao seu passado é buscar uma nova versão para os acontecimentos. Sua subjetividade se revela à medida que sua história pessoal completa as lacunas vazias sobre os anos de ditadura da Argentina: “[. Desse modo. 2009. y por más complejo que pueda parecer hacer referencias a aquellas cosas como integrando una verdad incuestionable. A questão identitária é um dos temas mais importantes nas escritas atuais e torna central no texto autobiográfico. quien se había ido formando durante todo aquel tiempo. (DONDA. 219). trazendo à tona o discurso controverso da autobiografia. p. Victoria se conscientiza de que para construir a identidade atual. sua identidade pessoal mesclase com a identidade coletiva. No texto analisado. Entende que a escrita de sua trajetória é incapaz de traçar um retrato “verdadeiro” de quem ela foi. podía finalmente aceptar.. 2009. (DONDA. Ao contar sobre a sua própria vida.. y con ella. foi fundamental a contribuição da identidade construída no passado: [. Entender a sua trajetória pessoal é entender também a de seu próprio país. essa cisão ocorre entre uma identidade que se autorreconhecia como Analía e que agora de autodenomina Victoria: “Se ló debo [a identidade] a Analía. a qual chama de “eu”. Nessa busca de autorreconhecimento. 244). y aquel documental representaba el comienzo de un nuevo periodo en mi vida: Victoria. pois a voz narrativa afirma que a confecção de um documentário cinematográfico também foi essencial em sua busca identitária. de un origen o de una filiación.236) Porém. a narradora-personagem se apropria do discurso autobiográfico para pôr em ordem a vivência caótica . a narradora – em um movimento de sinceridade próprio à autobiografia . 2009. não é somente através do discurso escrito que reordena a sua trajetória pessoal. Victoria y Analía eran al fin la misma persona. pois mostra a busca identitária a partir da cisão entre a identidade anterior e a atual. Nesse “espaço biográfico” (ARFUCH.. Porém. 2009. 54) Uma vez que a construção identitária no mundo contemporâneo se relaciona também com o seu lugar no mundo social e cultural. a personagemnarradora assimila a pluralização de suas identidades. com o objetivo de revelar como o discurso hegemônico da ditadura modificou a sua história e a de seus pais. p. (DONDA.percebe a impossibilidade de exprimir toda a “verdade” dos fatos na escrita devido à distância temporal entre o momento da enunciação e o vivido. Mas. incorporar a Analía y avanzar. e fragmentária de sua identidade: reordena a sua experiência pessoal para conceber os limites e a interseção entre Analía e Victoria.108 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS es la condición esencial para ser. a narradora rejeita a opção de experiência “verdadeira”.] demasiadas cosas habían sucedido desde que conocí la verdad sobre mi identidad. acredita que sua enunciação retrate os fatos tais como os vivenciou: Contar aquel momento a través del filtro de una verdad revelada años después no sería ni justo ni honesto. definirse. la historia de un país que aún tiene problemas en reconocer y aceptar su pasado” (DONDA. p. La verdad afirma la existencia. lo cierto es que así fue como las viví.

O processo identitário de Victoria é instituído pela reivindicação do reconhecimento social de sua nova identidade: de quem é. e não descoberto [. pois essa só é reivindicada por aqueles que não são reconhecidos por seus interlocutores.. En ese desafío simbólico vive Cori. a sua trajetória pessoal na História da Argentina. relaciona a acepção do termo vitória (ação ou efeito de vencer) ao nome de batismo que recebeu de sua mãe ainda na prisão. o regime de opressão da ditadura não foi mais forte que a vontade materna de que sobrevivera: Después de todo. y en él se encuentra también mi legado. p. identificándome. p. EDUERJ. Segundo Figueiredo e Jovita (2005. mas também a luta pelo reconhecimento social da identidade incorporada. Não é uma intervenção feminina no espaço público dominado pelo sujeito masculino para publicar apenas suas intimidades. de seu passado e de sua atuação político-social no presente. filha de presos políticos. seu texto é um ponto de resistência cultural. Es por eso que mi nombre es Victoria. de Paloma Vidal.] a “identidade” só nos é revelada como algo a ser inventado. O discurso autobiográfico é uma ferramenta para que Victoria. A compreensão desse fato aclara o subtítulo da autobiografia – “Una lucha por la identidad”. Rio de Janeiro. recuperar a identidade que lhe foi tomada. como a de seus pais e da própria Argentina.. No momento de enunciação de sua história. destruição e reconstrução identitária. dandolhe voz e poder para intervir tanto na reescritura de sua história quanto na História da Argentina e assim. 254) Ao ressignificar o seu nome. a reconstrução do passado é um combate pela reconstrução histórica que “también llamamos ahora de combates por la identidad”. a escrita autobiográfica empreendida pela narradora não relata somente o caminho percorrido pela personagem para a incorporação de um novo nome – marca indelével da identidade – e a perda do nome antigo.. que Cori les ganó la última partida. sabedora de que “[. Referências bibliográficas . apodere-se da palavra e adquira um papel fundamental no processo social. a narradora faz com o seu nome adquira novos matizes. Para Beatriz Sarlo (2007. a escrita autobiográfica analisada deve ser entendia como uma escrita cujo discurso é eminentemente político. Com a ressignificação. de quem são seus pais. para mostrar que ARFUCH. Sua narrativa transita entre o espaço privado e o público. 2009. 191). En mi nombre está su último grito. A narração de suas experiências é o processo pelo qual Victoria tenta se redescobrir e redefinir a sua identidade. Victoria inscreve Desse modo. político e histórico de seu país. 21-2). de que discurso é poder.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 109 coletivo. ressignifica-o para poder abarcar tanto a história da personagem. 2005. p. enfrenta um movimento de revisão. p. a busca por uma identidade está estreitamente relacionada à questão do reconhecimento. em uma relação de complementaridade. Leonor (2010): O espaço biográfico: dilemas da subjetividade contemporânea. Nessa luta.. nascida sob o signo da opressão.] como uma coisa que ainda se precisa construir a partir do zero ou escolher entre as alternativas e então lutar por ela e protegê-la lutando ainda mais” (BAUMAN. Su último obstinado rechazo al destino que le era impuesto. a pesar de imaginar que su esposo estaba muerto y que ella no sobreviviría mucho después del parto. Trad. Dessa forma. (DONDA. A voz narrativa está consciente de que a realidade pode ser reordenada através da palavra. Desse modo. 27). a pesar de la certeza de que le robarían a su hija. Porque mi existencia prueba que finalmente Cori consiguió su objetivo. Cori hizo pasar un mensaje a sus asesinos dándome un nombre.

I. Buenos Aires: Siglo XXI Editores Argentina. Rio de Janeiro: DP&A. 17-58. p. Arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Beatriz (2007): Tiempo pasado : cultura de la memoria y giro subjetivo. Notas * Professora Adjunta do Mestrado em Teoria da Literatura e Literatura Comparada e do Departamento de Letras Neolatinas (Português/Espanhol) do Instituto de Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. DONDA. Buenos Aires: Editorial Sudamericana. Em: Magia e técnica. HALL. Juiz de Fora: UFJF. de Sergio Paulo Rouanet. Em: Dev ires autobiográficos: a atualidade da escrita de si. 189 -205. p. Trad. Eurídice (org. DUQUE-ESTRADA. pois afirma que o relatado na autobiografia só existe enquanto discurso e. LEJEUNE. 1 Em textos posteriores. Obras escolhidas. Entrevista a Benedetto Vechi. 7ª ed. Belo Horizonte: Ed. é uma construção da memória. Rio de Janeiro: Zahar. Vol. FIGUEIREDO Eurídice e NORONHA. Em: FIGUEIREDO. Victoria (2009): Mi nombre es Victoria: una lucha por la identidad. (2009): Im/ Possibilidades da autobiografia. 222-32. de Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. Zygmunt (2005): Identidade . Elyzabeth Muylaert. Philippe (2008): O pacto autobiográfico. p. Jovita Maria (2005): Identidade nacional e identidade cultural. Una discusión. Lejeune amplia o termo “pacto autobiográfico” para “pacto de verdade” ou “pacto referencial”. como tal. BENJAMIN. São Paulo: Brasiliense. SARLO. UFMG.). . Rio de Janeiro: Nau/ Ed Puc-Rio. Trad. Walter (1994): Sobre o conceito de história. Trad. de Carlos Alberto Medeiros. Stuart (2005): A identidade cultural na pósmodernidade. 10 ed.110 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS BAUMAN. Conceitos de literatura e cultura.

ainda. em termos de sua estrutura.. são unânimes em encaminhar o aprendizado para a formação integral do aluno/professor.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 111 O CURRÍCULO DAS UNIVERSIDADES PÚBLICAS DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO E A FORMAÇÃO DE PROFESSORES EM LÍNGUA ESTRANGEIRA: UMA REFLEXÃO CRÍTICA. desenvolver no aluno a consciência de que aprender uma língua estrangeira é muito mais que adquirir habilidades linguísticas.Universidade Federal Fluminense Introdução Esta comunicação é parte inicial de uma investigação que tem como objetivo apresentar alguns dados levantados acerca dos currículos das Universidades públicas do Estado do Rio de Janeiro nos cursos de Licenciatura em Português/Espanhol. de acordo com as diretrizes estabelecidas pelo PARECER 492/2001 do Ministério da Educação. Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Ana Maria Mendes Larghi PG . . 2009.. os currículos. principalmente porque sabemos da excelência que cada uma delas busca. É importante lembrar que. Foram analisadas quatro universidades públicas do Estado do Rio de Janeiro. assim como seus currículos não é tarefa simples. Portanto. p. a partir dela. embora apresentem variações estruturais e quantitativas nas disciplinas. possa entender a si mesmo e a sua própria. E. Analisar criticamente o ensino de línguas nas universidades públicas do Estado do Rio de Janeiro. é interagir com o outro de modo a alterar e construir saberes de forma dialética. a Universidade deve estar preparada para formar o profissional que possa atender as especificações legais.enseñar y aprender lenguas extranjeras es una oportunidad increíble de promover la integración entre mi mundo y este mundo mágico que me llega y que me permite verme y sentirme parte de un todo complejo”.7): “. Segundo (PARAQUETT. é oportunizar o aprendizado de outra cultura para que. quanto ao ensino de línguas. E o compromisso da Universidade é levar o aluno/ professor de LE a aprender muito mais que ensinar a gramática e o léxico de uma língua. são elas: Universidade Federal Fluminense (UFF). os profissionais do curso de Letras devem “ter domínio do uso da língua ou das línguas que sejam objetivo de seus estudos. funcionamento e manifestações culturais”. E. Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) .

coletou dados a respeito da formação dos professores da rede pública.112 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Dessa maneira. esses e outros questionamentos. 2008). Com relação às propostas curriculares e a autonomia que a LDB . e o quanto as questões políticas são determinantes na elaboração da grade curricular. E os resultados nos levaram a questionar como estão sendo formados os futuros professores de LE? Por que encontramos professores tão inseguros diante das classes? Pretendese aclarar. A pesquisa de campo (por amostragem) foi realizada com professores do ensino médio da rede pública estadual.161/2005. II. vimos a importância de ações políticas direcionadas à melhoria da educação brasileira.LEI 9394 de 20 de dezembro de 1996. e se apoia nas concepções de cultura de CANCLINI (2006). Os dados coletados na pesquisa com professores apontaram ser de responsabilidade do Estado a elaboração de políticas públicas para melhorias na educação brasileira. O gráfico 1 apresenta o resultado da pesquisa: 1. integrativa e contextualizada. . dá as Universidades. em seu Art. Em estudos anteriores. como forma de ampliar o espaço do conhecimento. a “integração entre os mundos”. inicia-se aqui uma das questões que permeia a nossa reflexão. Esta investigação adota como referência PARAQUETT (2007. observou-se como se deu a implantação da língua espanhola na rede pública do Estado do Rio de janeiro. sugerindo uma prática dinâmica. 2009) e MOTA (2004) em definições sobre Inter/ multiculturalismo. A importância do currículo na formação do professor de língua estrangeira Tomando como tema central a importância do currículo para a formação do futuro professor. na aventura do aprender uma LE. A primeira delas é a importância do Currículo para a formação do professor de LE e sua consonância com os PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais) e as OCEM (Orientações Curriculares para o Ensino Médio). 53. ainda. tornando-o mais próximo da realidade. Perguntados sobre a formação de professores de LE a pesquisa aponta que 75% do total dos entrevistados responsabiliza o poder público por melhorias nas condições de formação do professor de LE. seu conhecimento e utilização das sugestões dos documentos oficiais em sua prática. Enquanto que. HALL (2006) e MENDES (2004. A publicação dos documentos oficiais promoveu uma maior reflexão sobre a organização curricular do ensino de LE. pois a extinção do currículo mínimo proporcionou um avanço para o ensino. ancora-se na Pedagogia Multicultural. no decorrer da investigação proposta para o Doutorado. Essa investigação. 2007. a melhoria do nível cultural do professor situarse-ia em 25% como responsabilidade do poder público. baseados na Lei 11.

ressaltando. a utilização dos gêneros na prática pedagógica. Dessa maneira. p. é bastante enriquecedora.interagir com outras disciplinas. portanto.. 8). abarcando mais do que conteúdos tradicionais. “todo enunciado ocorre em um gênero do discurso. ( OCEM. o que se observa. 2000. Vale lembrar que ambos os documentos foram criados para orientar a prática do professor em sala de aula.é preciso adotar uma visão ampliada dos conteúdos a serem incluídos nos programas de curso para além das tradicionais ( ouvir. embora não haja nenhuma disciplina específica com esta nomenclatura (o que poderia ser uma sugestão). para formar professores de LE. as OCEM entendem que o currículo para o ensino de E/LE deve abordar “temas relevantes para a vida do estudante”. No entanto. criar novas disciplinas poderiam ser contribuições para habilitar professores que tornem as aulas de LE reais “ferramentas” de inclusão social. a UERJ é a única que apresenta a disciplina “Produção de material didático para o ensino de Espanhol”. na preparação do material didático. “. embasadas na teoria de Bakhtin. poderia ser a adoção de disciplinas na grade curricular que levasse o professor/aluno. ler. é que os professores encontram muitas dificuldades em entender a proposta de ensinar LE a partir dos gêneros. dedicamos a segunda parte às Orientações Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (OCEM). contextualiza o ensino com o “currículo real” (OCEM. p. entender) e das sequências lexicais e componentes gramaticais próprios da norma culta”. 9). O currículo do curso de Letras. Dentre as Universidades que fazem parte da pesquisa. E por que tantos professores não fazem uso das sugestões dos documentos oficiais? Como esses professores foram formados? Essas foram algumas das interrogações que nos levaram a refletir sobre o papel do currículo na formação de professores. à diferença.”. falar. p. ao reconhecimento da diversidade”.. de cidadania e de inclusão social. ser interdisciplinar. Em consonância com os PCNs. promovendo o ensino que possa: “ levar o estudante a ver-se e constituir-se como sujeito a partir do contato e da exposição ao outro. 2008. encaminho a discussão para a importância do ensino de LE estar voltado para “. Os gêneros são criados e recriados. Os PCNs afirmam que “o estudo dos gêneros discursivos e dos modos como se ar ticulam proporciona uma visão ampla das possibilidades de usos da linguagem” (BRASIL. o valor do aprendizado de LE como forma de autoconhecimento. Reitera-se que o trabalho com os gêneros discursivos é proposta de disciplinas nas Universidades. 150). convergências. inclusive. . Refletindo sobre as contribuições dos PCNs (BRASIL. p. percebe-se que a proposta de trabalho com os gêneros discursivos. Segundo Bakhtin. e fazem parte da comunicação humana. abrangente e flexível.. consoante com OCEM (2008. para o Currículo das Universidades. E este exercício poderia se iniciar durante os estágios de regência. já que a utilização da língua está envolvida nos discursos históricos. a produzir material didático a partir dos gêneros. 1998). 133). à medida que se apoia em um contexto que circula à nossa volta todo o tempo.. Atitudes como revisar as ementas das disciplinas. sugerindo que o Projeto Político Pedagógico e o Currículo possam aproximar-se sempre do “currículo real” dos alunos. encontrar interdependências. que façam parte do “currículo real”. culturais e sociais”.. Continuando a reflexão sobre os documentos oficiais. em sua grade regular. O desafio de preparar os professores para ensinar E/LE através dos gêneros discursivos.. na prática.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 113 Não resta dúvida que os documentos trouxeram contribuições importantes. deve promover a alteridade.

cursos e programas de educação superior previstos nesta Lei. de acordo com o Art. o “conteudismo”. entendo que a proposta de uma abordagem que seja social e Inter/Multicultural para o ensino de línguas. nos termos dos seus projetos pedagógicos.Em outras palavras. as dimensões dos componentes comuns:. são asseguradas às universidades. “nas quais a articulação teoria-prática garanta. De acordo com o artigo 53... divididas em: 400 (quatrocentas) horas de prática como componentes curricular. a pedagogia multicultural acredita na valorização da voz do sujeito/professor e do sujeito/estudante.estabelecer planos. p.fixar os currículos dos seus cursos e programas. ainda é a maneira mais usual de ensinar LE. em um mundo pluriligue e multicultural. pg. são necessárias revisões curriculares que tenham como principal objetivo construir um ambiente de aprendizagem onde o aluno/professor possa interagir e participar democraticamente do aprendizado. através do dialogismo. uma perspectiva de construção do conhecimento de forma dialética e multidimensional. 2004. e 200 (duzentas) horas para outras formas de atividades acadêmico-científico cultural.criar.. 1º da Resolução do CNE/ CP 2. pensando o ensino do E/LE como “um conjunto de valores e de relações interculturais” (OCEM. do aperfeiçoamento da formação cultural. 1800 (mil e oitocentas) horas de aulas para os conteúdos curriculares de natureza científico-cultural. esta medida caracterizou um avanço para o ensino no Brasil. é que quando assumem suas classes a simples transmissão de conhecimentos. 2. concede-se às Universidades autonomia para “fixar os currículos dos seus cursos e programas. 2004. mas o que se observa. Essa reflexão nos leva a pensar que são necessárias mudanças paradigmáticas no contexto . outra (s) cultura (s). como linguista aplicada.”. 41) I . (Mota e Scheyerl. programas e projetos de pesquisa científica. no mínimo. quando for o caso. obedecendo às normas gerais da União e.de 20 de dezembro de 1996. descobrindo a polarização dos saberes e assumindo. sem prejuízo de outras. . 53. pois deu condições às Universidades de ‘aproximar’ o currículo de sua realidade social. assim como no desenvolvimento da sensibilidade de escuta às múltiplas outras vozes. de 19 de fevereiro de 2002 estabelece que será de. II. De acordo com ( MOTA e SCHEYERL. assegura que as Universidades: Art.. II . em um mundo onde as relações culturais estão cada vez mais próximas. em contato com outra(s) língua(s). compar tilhada e importante modificadora de todo o processo ensinoaprendizagem. Portanto.. III . No exercício de sua autonomia. 400 (quatrocentas) horas de estágio curricular supervisionado. técnica e científica do cidadão. em sua sede.. através do diálogo. produção artística e atividades de extensão.. promove a construção de conhecimentos em LE.41). no exercício de sua autonomia.”. Das Universidades públicas do Estado do Rio de Janeiro Quanto ao currículo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional LDB . na prática.149). 2008. p. organizar e extinguir. Art. Dessa forma. II. as Universidades desenvolveram currículos que preconizam a formação docente. 53.114 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS É importante e necessário que a universidade leve o aluno/professor a refletir sobre sua língua e sua cultura. Sobretudo entendendo cultura como prática social. do respectivo sistema de ensino. da LDB. A carga horária das licenciaturas de graduação plena. as seguintes atribuições: Na busca do desenvolvimento de competências e habilidades. observadas as diretrizes gerais pertinentes. 2800 (duas mil e oitocentas) horas.

são elas: a primeira em azul envolve as disciplinas de E/ LE e literaturas. E/LE e Literaturas.0% da grade curricular. Na Universidade Federal Fluminense (UFF) o currículo encontra-se distribuído entre Língua materna e Literaturas. Contando com uma carga horária de 2. Na sequência.360 horas. apresentaremos os gráficos elaborados a partir das grades curriculares das Universidades. os dados classificados em apenas duas categorias. Gráfico 3 . Quanto à carga horária. para a segunda categoria são 29 disciplinas. acrescida de 120 optativas. o que corresponde a 37.9% do curso. na cor vermelha. e disciplinas pedagógicas. estas foram levadas em conta. É preciso lembrar que esta é uma pesquisa inicial. portanto. Gráfico 2 O gráfico 2 mostra que para a formação em E/LE são apontadas 18 disciplinas para a primeira categoria. assim como as atividades complementares. 60 eletivas e 200 horas de atividades complementares. totalizando 3. o que corresponde a 62. optou-se por apresentar abaixo. Literaturas e a parte pedagógica. a fim de desenvolver a formação por meio de atividades de pesquisa que integrem as disciplinas e possam dar conta de um ensino humanizado e criativo. A segunda categoria envolve a formação em Língua materna. Não foram computadas nos gráficos as disciplinas optativas e eletivas.980 horas.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 115 acadêmico.

e para a segunda categoria 44 disciplinas. Buscar-se-á com a pesquisa.5% do curso. Na Universidade Federal do Rio de Janeiro ( UFRJ) o currículo encontra-se distribuído entre Língua materna e Literaturas. E/LE e Literaturas. o que corresponde a 75. Gráfico 5 O gráfico 5 mostra que para a Formação em E/LE são apontadas 11 disciplinas na primeira categoria. e disciplinas pedagógicas.3%.200 horas.116 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS O gráfico 3 mostra que para a formação em E/LE são apontadas 20 disciplinas para a primeira categoria. o que corresponde a 24. e para a segunda categoria 34 disciplinas. Conta com uma carga horária de 3. E/LE e Literaturas. e um total de 242 créditos. E/LE e Literaturas. avaliar .3%. o que corresponde a 31. o que corresponde a 68. o que corresponde a 31. Na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) o currículo encontra-se distribuído entre Língua materna e Literaturas. e disciplinas pedagógicas. Gráfico 4 O gráfico 4 mostra que para a formação em E/LE são apontadas 20 disciplinas na primeira categoria. e um total de 242 créditos.5% da grade curricular.07% da grade curricular.200 horas. Na Universidade Federal do Rio de Janeiro ( UFRJ) o currículo encontra-se distribuído entre Língua materna e Literaturas.280 horas. através de entrevista junto aos alunos do curso de letras. e a parte pedagógica. e um total de 152 créditos. Conta com uma carga horária de 4. o que corresponde a 68. Conta com uma carga horária de 4. e para a segunda categoria 44 disciplinas.07% da grade curricular.

9394/96.pdf.ufrrj.br/graduacao/arquivos/docs_curso/ matriz/IM/76_lic_letras-portugues-espanholliteraturas_matriz_2009-1. p. no Brasil. 1996. Márcia (2007): Linguística Aplicada. Kátia e Denise (2004): Recortes Interculturais na sala de aula de Línguas Estrangeiras .php?option=com_content&task=view&id=45 UFRRJ:http://r1. Sabe-se que. letras_portugues_espanhol_licenciatura. RESOLUÇÃO CNE/CP 2. .gov.gov. MOTA e SCHEYERL.UFBA. UFRJ:http://www.br/seesp/arquivos/ pdf/res1_2. Salvador.ufrj. Acesso 13/05/ 2012. Mikhail.dep.pdf. de 20 dez.br/ index. de 18 de Fevereiro de 2002.Ensino Médio. Dispõe das Diretrizes e Bases da Educação Nacional. p.pdf. u f f . DE 19 DE FEVEREIRO DE 2002.41Salvador. Disponível em http://portal. U F F : h t t p : / / w w w.br/arqs/fluxogamas_cursos/ BRASIL. Disponível em <http://www. CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO CONSELHO PLENO. l e t r a s . Acessado em 18/01/2010. Acessado em 11/06/2012. UERJ:http://www. São Paulo: Martins Fontes. BH: Editora. MEC . ORIENTAÇÔES CURRICULARES NACIONAIS. (2008): Linguagens. Acessado em 11/06/2012.mec. Brasília: Ministério da Educação. (1998).br>. Lei nº.179. Referências bibliográficas BAKHTIN.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 117 o currículo de cada uma das Universidades. b r / s i te s / d e f a u l t / f i l e s / BRASIL.uerj. a fim de alcançar a excelência na educação. Acessado em 11/06/ 2012.letras.Acessado em 12/06/ 2012.07 l e t r a s _ p o r t u g u e s _ e s p a n h o l _ _licenciado_novo. ainda são necessários maiores investimentos em pesquisas e financiamentos para o ensino de LE.(1992): Estética da Criação Verbal. inclusión social y aprendizaje de español en contexto latinoamericano. p. Refletindo-se sobre a relação língua/cultura.Ministério da Educação.planalto. Revista Nebrija de Lingüística Aplicada. PARAQUETT. códigos e suas tecnologias/ Secretaria de Educação Básica: MEC. sua relevância no processo ensino/ aprendizagem de língua estrangeira e na formação do professor de E/ LE. RESOLUÇÃO CNE/CP Nº 1. PCN – Parâmetros Curriculares Nacionais . Espanha. Acessado em 07/06/2012.pdf.

nascido da relação incestuosa entre dois irmãos. foi levada a um manicômio de onde nunca mais retornaria. p. Apesar dessa desestruturação familiar. Nini. o romance relata as dificuldades vividas por moradores de um pequeno e miserável povoado castelhano. comparado por alguns personagens a uma espécie de pequeno deus: “Digo que el Nini ese todo lo sabe. ao apresentar problemas psiquiátricos após a gravidez. De maneira intuitiva. por ordem da censura.UFMT Las ratas (1962) é o quinto romance escrito por Miguel Delibes e. o menino era capaz de analisar as mínimas nuanças nas alterações climáticas. Román e Iluminada e ao ancião local Centenario. que nunca fora à escola. havia adquirido junto aos avós polígamos Abundio. no comportamento dos animais e na constituição da vegetação. Ambientado na segunda metade da década de 1950 (provavelmente entre 1956-57). Esse conhecimento lhe conferia status de sábio. 54) Com a ingenuidade própria da idade e a sabedoria extraordinária. jornal no qual trabalhava. e a Jesus. Seu pai. fazendo com que de alguma maneira aquela história fosse contada. numa intertextualidade bíblica: “¡Qué condenado crío! Cada vez que lo veo así me recuerda a Jesús entre los doctores. um homem ignorante e embrutecido. Parece dios. 19). 2010. Delibes decidiu transformar em ficção a realidade social que conhecia com propriedade. a matéria para o enredo surgiu da impossibilidade de publicar no El norte de Castilla 1 . eram vendidas no povoado. vivia da caça de ratazanas que além de alimentar a ele e ao filho. 2010. p. ao longo de um ciclo agrícola de pouco menos de um ano. Ratero e Marcela.” (DELIBES.118 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS LAS RATAS DE MIGUEL DELIBES E A DENÚNCIA DA CRISE CAMPONESA EM CASTELA NOS ANOS 1950-1960 Ana Paula de Souza PG . Nini sobrevivia de . o El Norte estava impedido. de fazer qualquer menção ao problema. O protagonista Nini é um menino de 11 anos de idade. Depois de publicar no jornal uma série de reportagens sobre a difícil situação do trabalhador rural nos campos castelhanos. Percebendo que os censores não eram tão atentos e ferrenhos com os conteúdos das obras literárias como com as publicações periódicas. denúncias relativas ao abandono sofrido pelos camponeses castelhanos por parte do governo franquista.” (DELIBES. segundo o próprio autor. Sua mãe. no estado do solo. uma sabedoria popular inigualável entre os habitantes do vilarejo.

Na organização social agrária do século XX. Esses grandes latifundiários contratavam o serviço de trabalhadores sem terra que viviam no campo por jornadas. e as consequências concretas desse acontecimento histórico para as condições da sociedade anos após o desfecho do conflito. O presente estudo se dedica a desvendar o social por trás do literário. Ao revelar tais implicações sociais a partir da narrativa ficcional delibesiana. Las ratas apresenta a profunda relação do camponês espanhol com a terra.o solo pouco fértil. existente em Castela até a primeira metade do século XIX. 1990. num relato existencialista e desolado. Nini se converteu em uma espécie de oráculo de sua comunidade á medida que com suas previsões meteorológicas e com sua percepção da natureza. mas como recurso estrutural que constitui o literário. de acordo com as . Segundo o próprio autor. Por um lado. Através da ótica do personagem. ajudava os camponeses na luta contra as adversidades da região . Interessa também para este estudo verificar de que modo as cicatrizes da Guerra Civil permeiam o inconsciente coletivo dos personagens. aquele que possuía a maior concentração de terra em uma determinada região (geralmente mais de 100 hectares). Esse modelo agrário denominado tradicional 3 foi reafirmado pelo estado franquista de forma autoritária. procurando entender a crise agrária dentro do contexto econômico do país e os problemas vividos pela população campesina 1. por exemplo. e surgiu o cacique. não fosse a candura do olhar infantil. o clima austero e a total falta de investimentos. cuya fascinación sólo advertimos cuando ya nos ha escapado de entre los dedos… (DELIBES apud RODRÍGUEZ PUÉRTOLAS. o que desapareceria na vida do adulto que enfrentava as vicissitudes de um pós-guerra e de uma ditadura: Hoy más que nunca gusta el hombre de recuperar su consciencia de niño. tratava-se de uma agricultura baseada centralmente na produção de cereais. animalizadas e na configuração de personagens primitivos e ignorantes que parecem não ter lugar em pleno século XX. para a qual se utilizava uma tecnologia produtiva tradicional voltada para o mercado interno. Desse modo. de evocar una etapa – tal vez la única que merece ser vivida – cuyo encanto. O retrato da crise campesina castelhana em Las ratas Segundo Pérez-Díaz (1994). Por outro lado. além de outros problemas menos evidenciados. a fome e a improdutividade. Problemas esses literariamente suavizados pela sabedoria carismática do protagonista infantil e pelas crenças supersticiosas de um povo inconsciente do seu papel social e. desapareceu a figura do señor. faz-se presente no respeito do homem do campo pelos ciclos da vida na natureza. o protagonista cumpria em seu povoado um papel do qual o estado se ausentara. portanto incapaz de reivindicar seus direitos políticos. as principais características da agricultura castelhana até os anos 1960 eram as mesmas da primeira metade do século XIX.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 119 pequenos trabalhos realizados para os agricultores e criadores de animais. sobretudo o trigo. A preocupação ambiental de Delibes. da qual depende sua existência. 115) castelhana tais como a apatia social. p. o autor desnuda as consequências do abando no estabelecimento de relações humanas embrutecidas. este trabalho inscreve-se na perspectiva de Candido (2000) ao entender o social não como causa ou significado2. tendo como base a exploração do campesino. Ou seja. Delibes constrói uma visão autêntica e poética de uma realidade que seria insuportavelmente cruel. além da denúncia do abandono político dos trabalhadores dos campos castelhanos. a presença da criança na obra literária representa a nostalgia de uma fase da vida genuinamente feliz e íntegra.

o projeto de reforma agrária surgido no período da Segunda República (1931-39) foi invalidado durante o governo Franco. Os demais campesinos. p. anarquistas e membros de outros grupos políticos que lutaram pela república durante a Guerra. De acordo com Pérez-Díaz. a criação de animais ou a manufatura. doña Resu y la señora Clo sumaban. Proprietários de 10 a 100 hectares. comunistas. le contestó que el mal era para los pobres. poseía las tres cuartas partes del término. Esse esquecimento por parte do poder público. os agricultores médios que sobrevivem da agricultura. 2010. que além de agricultor é o marceneiro do lugar. ou seja. sobreviver exclusivamente da agricultura. O agricultor castelhano tinha de lidar com invernos rigorosos.120 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS necessidades do plantio e da colheita. conforme resume o narrador: “En el pueblo. inclusive como jornaleiros. aos traidores da pátria. Doña Resu. os campesinos médios e pequenos conseguiam. blasfemaban y decían: ‘No se puede vivir en este desierto’. Esto no impedía a don Antero. y ante los nublados. inclusive com maior ênfase. detentor da maior proporção de terras. o vilarejo castelhano fictício criado por Delibes reproduz essa organização social exatamente como o descrito no estudo de Pérez-Díaz: Don Antero. outro problema enfrentado pelo campesinato castelhano e denunciado por Delibes em Las ratas. são aqueles que para manter suas famílias tem de trabalhar como jornaleiros em outras terras ou se dedicam a outros trabalhos como a caça. oscilações térmicas e aridez do solo. A mecanização agrícola. por exemplo. Além da má distribuição das terras. el Poderoso. através do relato de Delibes. a total ausência de políticas públicas e investimentos para melhorar a condição de trabalho desses camponeses. socialistas. a quien las adversidades afinaban la suspicacia. A própria ideia de divisão de terras estava ideologicamente relacionada . el Pruden y el puñado de vecinos del lugar. mitad por mitad. para garantir o sustento da família. 2010. señora Clo e Pruden representam nessa pirâmide. 36). observa-se. manifestar frívolamente en su tertulia de la ciudad que “por lo que hacía a su pueblo. que tinha em sua base aliada o apoio dos grandes proprietários de terra. Em Las ratas . verões quentes e secos. la tierra andaba muy repartida. aliado à austeridade da natureza na região redundam no isolamento destacado no trecho. é a subordinação do agricultor às intempéries do clima. pois não conseguiam sobreviver apenas da terra e eram obrigados a realizar outras atividades. como hacían ellos.” (DELIBES. El señor Rosalino.” (DELIBES. y la última cuarta parte se la distribuían. Pruden. entre las dos. el Poderoso. p. 2010. geadas e nevascas. irregularidades das chuvas. la sequía o la helada negra. las tres cuartas partes de la cuarta parte restante. republicanos. chegava apenas para os grandes latifundiários que tinham como financiá-la. lamenta não ter acesso à tecnologia diante da possibilidade de ter de ressemear os campos por falta de chuvas: Y el Pruden. como é o caso de Antoliano. indicando ao leitor de forma direta o lugar social que o mesmo ocupa no povoado: o de cacique. (…) soltó una carcajada: ___ A voleo no siembran ya más que los mendigos y los tontos. bien poco costaba hacerlo. Os camponeses que possuíam menos de 10 hectares eram considerados marginais . Por isso o personagem Don Antero se sente confortável para afirmar que em seu povoado a terra está ainda muito dividida. (DELIBES. não sem dificuldades. personagem da obra que sintetiza a figura do agricultor incansável na luta contra as adversidades. 42) Delibes atribui ao personagem Don Antero o epíteto el Poderoso. las gentes maldecían de la soledad. puesto que utilizando la máquina. 47) aos perdedores da guerra. aos quais Nini se refere como vecinos del lugar. o pastoreio. Numa região que tinha como principal atividade econômica a agricultura. p.

(DELIBES. foram declaradas zonas de interesse nacional as áreas agricultáveis. não restava aos agricultores como Pruden outra coisa que esperar dos céus o milagre da chuva. talvez o autor quisesse lembrar que ideias como a do reflorestamento surgiram no bojo da Guerra Civil Espanhola e da mente de homens afinados com o ideal republicano. até os anos 1950 em Castela. ao menos teoricamente. Diante dessa otimista afirmação. o tierra vegetal. y cuando la guerra. Em Las ratas Delibes narra o processo de replantio florestal em Castela: Antes hicieron esto en Torrecillórigo. Hay. personagem que dá voz ao camponês consciente da impossibilidade do trabalho naquelas condições. Nini. 2010. apenas a las veinticuatro horas de estallar. Após um mapeamento. Dijo impulsivamente al niño. ao assumir o Ministério da Agricultura entre os anos de 1951-57. la azada al hombro. Rafael Cavestany tinha como projeto para sanar a aridez castelhana. (DELIBES. La repoblación forestal era la obsesión de los hombres nuevos. . 2010. p.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 121 Nesse trecho da narrativa. No entanto. Cuando el Pruden quiera agua no tiene más que levantar la compuerta y ya está. al. Delibes opõe dois discursos antagônicos – o de Pruden. Mesmo tendo sido negativos os resultados da primeira tentativa. Ao referir-se a hombres nuevos. porque o que era promessa de resgate da produtividade do campo desfez-se no primeiro verão. De acordo com Pérez-Díaz. Somente a partir da década de 1960 foram introduzidos os arados modernos e o trator. os benefícios da recomposição vegetal para o clima e para o solo. 89). aunque ahora eran empleados del Estado dedicados a la ardua tarea de la repoblación forestal. 88-89) O projeto do reflorestamento já havia sido executado pelos republicanos durante a guerra civil através do trabalho de brigadistas voluntários. “dispuestos a convertir Castilla en un jardín” (DELIBES. atraen las lluvias y forman el humus.. Sendo a seca no momento do plantio e do desenvolvimento da plantação uma das principais preocupações dos agricultores castelhanos da época. No había tarea más apremiante y los prohombres decían: “Los árboles regulan el clima. o personagem Pruden menciona esperançoso um plano de irrigação elaborado pelo governo: Tomó al Nini nerviosamente por el pescuezo y le explicó confusamente algo sobre un plan de regadío de que hablaba el diario y que alcanzaría hasta el pueblo. Em Las ratas esses trabalhadores vinham de Estremadura. ¡Arriba el campo!” Y todos los hombres de todos los pueblos de la cuenca se desparramaron ilusionados. p. si llueve como si no. talvez esses homens não conhecessem de fato o rigor climático do ambiente castelhano. Entretanto. 2010. ao longo da década de 1950 esse plano de irrigação havia atingido menos de dois por cento das zonas mapeadas. De fato. intelectuais que conheciam. según se sentaba en el banco del fondo: ___ Date cuenta. 89). com foices e trilhos tirados por mulas. ¿Te das cuenta? Dejaremos de vivir aperreados mirando al cielo todo el día de Dios. os habitantes locais que conheciam os resultados da primeira tentativa de reflorestamento respondiam: “Sólo Dios hace milagros”. para essa segunda etapa do trabalho. que plantar árboles. contratavam-se jornaleiros. e o de Rosalino que assume a voz do cacique e impassível. 2010. Hay que hacer la revolución. p. p. zomba dos agricultores que ainda semeiam de forma primitiva. após meses de trabalho dos Segundo Barciela López et. (DELIBES. Tão logo. 45) Outro projeto desse ministério foi o de reflorestamento. se organizaron brigadas de voluntarios con el fin de convertir la escueta aridez de Castilla en un bosque frondoso. um plano de irrigação. A colheita também era feita manualmente. porém secas que dependiam do projeto de irrigação para tornarem-se de fato produtivas. por las inhóspitas laderas. pues. o plano era agora retomado pelo novo ministro da agricultura e. boa parte do cultivo era realizado com a ajuda de rudimentares arados como os utilizados no período romano. Pero llegó el sol de agosto y abrasó los tiernos brotes y los cerros siguieron mondos como calaveras.

quando a ideia era a de que cada trabalhador tivesse uma pequena porção de terra na qual trabalharia apenas a sua família. permaneceria de forma velada no inconsciente Delibes constrói a imagem da perda da colheita por meio de personificações que humanizam os cereais. se acostaban mansamente sobre el lodo. decapitados e cadavéricos. Ainda que o saber camponês fosse empírico. rebrillaban las charcas. Após dias de secura e calor intensos. rígidos sobre los granos de trigo y los cascabillos desparramados. desapareceria a figura do cacique. o desfecho conhecido dos agricultores castelhanos repetiu-se ao início do verão. As precipitações climáticas e as mudanças que elas provocam no meio ambiente são descritas com a poeticidade e a sensibilidade de quem conhece com propriedade a paisagem castelhana. Esse enfrentamento entre jornaleiros e pequenos agricultores existente desde antes da guerra. p. 91) popular e se repetiria como no fragmento do discurso dos personagens delibesianos. Ora. o protagonista contempla a plantação destruída: Los trigos. o autor vai deslindando a tênue margem que separa ou vincula a denúncia social e a literatura. Em Las ratas Delibes aponta as principais dificuldades enfrentadas cotidianamente pelo campesino castelhano durante a crise agrária dos anos 1950. poeticamente. 2010. devido ao forte sentido de comprometimento crítico de Delibes ao revelar a difícil condição do camponês . Como profundo conhecedor de Castela e de sua gente. termina com a chegada do verão e os riscos que a estação traz consigo. p. Nini. Terminada a forte chuva. lê nos sinais da natureza e vinda de uma forte chuva de granizo que aniquila os campos ás vésperas da colheita do trigo. 179) Talvez essa rejeição pelos trabalhadores jornaleiros vindos de outras regiões do país tivesse uma explicação social mais profunda. o autor resgata a figura do homem do campo como aquele que melhor entende o seu habitat. entre as quais a da reforma agrária. entre las espigas decapitadas. O castelhano não era amistoso à vinda dos trabalhadores estremenhos e no inconsciente coletivo se construíam todo tipo de estereótipos negativos em torno aos forasteiros: Pero en el pueblo no querían a los extremeños porque estimaban su labor inútil. Segundo PérezDíaz. (DELIBES. comparando-os a seres humanos recostados ao solo.”(DELIBES. Com tudo. No entanto. nenhuma vicissitude impressiona mais o leitor que a impotência do trabalhador perante a natureza adversa. entre a má distribuição da terra. Por los caminos y junto a las linderas yacían los cadáveres de los trigueros y las alondras. se a terra fosse dividida de maneira equitativa entre as famílias camponesas. Embora tenha sido publicada em 1962. esse trecho confronta não apenas saberes como também culturas.122 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS estremenhos. não poderia ser ignorado por aqueles que detinham o saber científico. o oráculo do clima castelhano. desde antes da Guerra Civil Espanhola os camponeses começaram a reivindicar suas pautas econômicas e sociais. Os pequenos camponeses viam. Las ratas nos parece ser um romance ainda arraigado ao conceito de novela social espanhola dos anos 50. impedían el acceso de las ovejas a las colinas y les atribuían toda clase de vicios. A narrativa que começa cronologicamente com o início do ciclo agrícola no outono. Delibes não só critica políticas públicas fracassadas como também confronta o saber científico com o saber popular. na figura do jornaleiro. uma mão-de-obra barata a serviço do grande latifúndio. Ante cualquier desaguisado la gente decía: ___ Habrán sido los extremeños. contratante dos serviços dos jornaleiros. arracimados desordenadamente por la violencia cambiante del ciclón. A trechos. a falta de investimento e crédito e os projetos políticos ineficazes. E assim. 2010. Durante su estancia los nativos disfrutaban de una absoluta impunidad. Nesse momento.

utiliza-se o termo tradicional para definir o sistema agrário espanhol de meados do século XIX a meados do século XX. Queiroz. María Inmaculada e MELGAREJO MORENO. Acessado em 07/08/2012. 2 3 Palavras tal qual empregadas por Antonio Candido em Literatura e sociedade.com/pdf/ Asp5a. Joaquín (1996): La intervención del Estado en la agricultura durante el siglo XX. Segundo Pérez-Díaz (1994). Julio e ZAVALA. Iris (1974): Historia social de la literatura española III. A. pp. Referências bibliográficas BARCIELA LÓPEZ.ahistcon. CANDIDO.). o autor faz da literatura um instrumento de ação social capaz de fazer com que as autoridades políticas da época voltassem seu olhar para uma região do país esquecida e isolada.pdf. Antonio (2000): Literatura e sociedade . DELIBES. São Paulo: T. BLANCO AGUINAGA.org/ docs/ayer/ayer21_03. Acessado em 07/08/2012. Carlos (Coor. Miguel (2010): Las ratas. LÓPEZ ORTIZ. Em Ayer. RODRÍGUEZ PUÉRTOLAS. Nesse romance. Barcelona: Destino. 51-96. . Notas 1 Jornal publicado em Valladolid até os dias atuais. Carlos. Miguel Delibes iniciou seu trabalho no periódico a partir de 1940 chegando a ser o diretor de 1958 a 1963.asp-research. campesinos y agricultura en Castilla entre mediados del siglo XVI y mediados del sig lo XX. Víctor (1994): Transformaciones de una tradición. nº 21. Disponível em http://www.pdf. El Estado y la modernización económica. Madri: Castalia. Disponível em http://www. PÉREZ-DÍAZ.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 123 castelhano.

intertítulos. prólogos etc.. 1989). prefácios. Publicadas na revista . 3) pela metatextualidade. “Ascenso. a maneira pela qual se viabiliza a possibilidade de um texto escapar a uma singularidade que muitas vezes se torna insatisfatória a seu deciframento ou a sua compreensão. no limite. os romances La novela de Perón (MARTÌNEZ. 4) arquitextualidade: articula uma menção paratextual (subtítulos e títulos. A transtextualidade ocorre de diferentes modos: 1) pela intertextualidade. cifradas ou expressas. a presença efetiva de um texto em outro.). decadencia y derrota de José López Rega” (p. notas à margem. concebido tanto como o movimento político nascido depois do golpe de Estado de 1943. e previamente ditadas pelo general Juan Domingo Perón a López Rega. com outros textos e textualidades (Cf. ilustrações etc. relação geralmente denominada comentário. Dessa forma. unindo um texto a outro texto que fala dele sem citá-lo e inclusive. 1985) e Santa Evita (MARTÍNEZ. é por excelência a relação crítica. sem nomeá-lo. epílogos. 179-188) retrata histórias cotidianas do exílio de Perón e sua extravagante relação com o secretário e mordomo José López Rega. advertências. uma relação de copresença entre dois ou mais textos. finais. como em Poesias. 2) pelas relações com os paratextos: títulos. epígrafes. notas de pé de páginas. triunfo. subtítulos. 5) hipertextualidade: responsável por unir um texto B (hipertexto) com um texto anterior A (hipotexto) no qual se enxerta de uma maneira distinta à do comentário. assim como Las memorias del General e Las vidas del general constituem hipertextos de um hipotexto chamado “Las memorias del semanario Panorama”. e a identidade política de quem o invoca quanto como uma proposta de constituir a nação argentina. gravadas por Martínez durante quatro dias. ou seja. Integrando a última coletânea. “El Brujo”. GENETTE. Esse artigo revela-se como indicativo das formas por intermédio das quais pode ocorrer a transtextualidade. as quais discorrem sobre o peronismo.124 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS QUANDO O MET ATEXT O DE TOMÁS EL OY META TEXTO ELO MAR TÌNEZ AUTENTICA AS VID AS DE PERÓN VIDAS MARTÌNEZ André Luis Mitidieri UESC Centramos atenção nas coletâneas de artigos jornalísticos de Tomás Eloy Martínez intituladas Las memorias del General (1996) e Las vidas del General (2004). fazendo com que se considere as relações. ou seja. Ensaios etc. 1995).

o subtítulo do livro Las vidas del General (MARTÍNEZ. a partir do momento em que o autor substitui a palavra “Memorias” (constante na edição de 1996) pelo termo “Vidas” no título da obra lançada a público em 2004. integra a coletânea Las memorias del General (MARTÍNEZ. o intelectual argentino afirma que prepara Las vidas del General esperando. talvez inutilmente. A mesma coletânea passa a ser intitulada Las vidas del General: memorias del exilio y otros textos sobre Juan Domingo Perón (MARTÍNEZ 2004)1 em nova edição. acrescida de um prólogo (p. mas também os outros relatos dissidentes que completam ou contradizem tal imagem (p. MARTÍNEZ. constantes na edição anterior. Enquanto professor de literatura em universidades norte-americanas. As relações arquitextual. loc. além das (des)memórias de Perón. Reiterando os vínculos entre Las memorias del General e o primeiro dos romances mencionados. Insatisfeito com as lacunas encontradas no discurso de Perón. aliadas às contracapas de ambas as edições. 135-170). 1996. Ainda informa que. contudo. fornece informações a respeito de quatro outros textos que. O subtítulo dessa publicação – “memorias del exilio y otros textos sobre Juan Domingo Perón”. 195-218). figurando em sua página de rosto. o autor procede a investigações e à reconstrução de diálogos. 123-134) e “La tumba sin sosiego” (p. Dentre outras mudanças que ocorrem nesse paratexto. reelaborando o que nomeia como “desmemorias” no capítulo “Las memorias de Puerta de Hierro” (p. na nova versão. refere-se à omissão de que o corpo completo das “Memórias” se originou daqueles diálogos (Cf. essas “memórias” englobam os 50 primeiros anos da vida do expresidente argentino. hipertextual. Mais adiante. configura-se simultaneamente como uma relação arquitextual e paratextual que parece fazer mais jus ao caráter plural das identidades no mundo contemporâneo. da forma crítica como o autor encaminha seus textos ao leitor. No mesmo prólogo. 195-218). 1996). se sublevar contra a vontade de Perón (Cf. na edição precedente. 14). acompanhado de respectivos documentos. 1970. a morte do sindicalista Augusto Vandor e as ideias de Perón sobre o que denominava “a liberação dos povos”. p. insere dois outros capítulos: “Perón y sus novelas” (p. mas aos dias 21 e 28 de abril. O texto fonte. 11). 13-122). menos significativa. dizia respeitar e. 13-122) que. cit. Todas essas relações intertextuais e paratextuais. diz suprimir o que considera um pleonasmo: o capítulo “Las memorias del semanario Panorama ” (MARTÍNEZ. p. Outra alteração.). que o título recente lhe parece mais apropriado por refletir nem tão somente os relatos com os quais Perón desejou inserir-se na história. instauram consideráveis mudanças que se reiteram na relação arquitextual. 9-15) no qual o autor infere. agora voltam a ser republicados. 2004). “Ascenso. ao mesmo tempo. é republicado ao final do mesmo livro. MARTÍNEZ 1996. Martínez não ignora os desenvolvimentos teóricos acerca desse tema. quer dizer. A título de exemplo. p. p. intertextual e paratextual são elas mesmas indicativas da relação metatextual. 20) quando.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 125 argentina Panorama a 14 abr. comporta entre seus outros textos. que dialogue com todas as ficções que ele havia escrito sobre o peronismo e possam encerrá-las. como “Las memorias del semanario Panorama” (MARTÍNEZ 1996. No mesmo periódico. importa mencionar o fragmento no qual o jornalista afirma que “este libro restaura los diálogos de Puerta de Hierro en el orden y del modo como sucedieron ” (p. O prefácio utilizado em Las memorias del General passa a servir de introdução ao capítulo “Las Memorias de Puerta de Hierro” de Las vidas del General (MARTÍNEZ 2004. o jornalista edita fragmentos relacionados àquele texto: sobre Evita. . dentre outras considerações.

Abel. fornece outros dados através de uma biografia reconstruída por membros do Clube de Correspondentes de Madrid. escrito por “el Brujo”. que teceria o iluminismo Rosacruz e alquimia de Paracelso com os rituais brasileiros de Umbanda”. consideravelmente frequente. Na mesma direção. Buenos Aires. da Associated Press.. GENETTE. como secretário ou assistente.2 alcançar uma compreensão global do universo. a quem a lentidão de suas ascensões no escalão policial induziu-o a pedir para ser reformado em 1962. o então cabo reformado pediu a Alberte para servir como custódia de Isabel. Desobedeci à advertência e tomei somente algumas precauções. Quando esse mandou a esposa a Mendoza em 1965. era conhecido como empregado para tarefas domésticas e editor de uma revista de tiragem limitada. Sua militância peronista parece iniciar aquele ano.126 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS triunfo. 179-188). Executando o retrato biográfico daquele protagonista quase iletrado. praticamente todas as mensagens. artigo escrito em Caracas e publicado no jornal La Opinión em 22 de julho de 1975. Caso não conte com uma fugaz semana em agosto de 1975. a instância autoral inclui. Os libelos me declararam inimigo da Argentina e me concediam quarenta e oito horas para partir ao estrangeiro. com esperança de retornar em poucas semanas. por volta de 1950. dois dias depois que o “Bruxo” viu-se obrigado a renunciar e par tiu ao Rio de Janeiro como embaixador extraordinário da presidenta Isabelita Perón. 1989. no exílio em Madri”. respondia às ordens de José López Rega. e que propunham. de intertexto citacional de apoio. um dos herdeiros de Perón. p. Alem. a voz autobiográfica do jornalista. López Rega havia imprimido alguns panfletos do peronismo clandestino e conquistado a confiança do major Bernardo Alberte.. posso dizer que demorei nove anos para voltar [. fez explodir uma bomba lança-panfletos em frente ao edifício da editora Abril.4 Por meio de seu narrador. Alguns .5 López Rega é apresentado como um rosto anônimo entre aqueles que rodeavam Perón em 1966. Elias. aparentemente. submeter-se ao simultâneo ensino de Antúlio. ao começo do texto. referendando o indício paratextual que tem valor contratual (CF. “Conjetura-se que foi então quando a convenceu de seu desinteresse patriótico e obteve consentimento para colaborar com ela. Dez dias mais tarde. estalou uma segunda bomba e recebi ameaças mais rotundas no apartamento onde morava e em um restaurante onde estava almoçando. para apoiar o candidato a governador Ernesto Corvalán Nanclares. Ainda não associado “ao paroquiano das ciências ocultas que vivia em Madri por um ano à procura da aprovação do General para sua difusa doutrina espiritualista. o escritor insere a própria voz autobiográfica para dizer que ouviu pela primeira vez o nome de José López Rega quando tomou conhecimento do livro Astrologia esotérica. sustentada por avisos de militantes peronistas. que assim declara: No final de abril de 1975. a quem quisesse 3 Em 1963. 18). na qual o esotérico aparecia como integrante circunstancial da equipe de vigilância presidencial. quando se vinculou com alguns membros da loja maçônica Anael e instalou uma pequena imprensa próxima à ponte ferroviária da rua Salguero. telefonemas e pedidos de audiência dirigidos ao General passam pela anuência do “Bruxo”. Pela memória de Tony Navarro. O metatexto crítico de Martínez assim é praticado com uma parte. Martínez informa que os escritos de dom José interpretavam o destino dos seres humanos “como um diálogo entre o poder dos perfumes e o poder das cores. Viajei à França. sem talento aparente para a política. em uma das vias de acesso à Costaneira Norte de Buenos Aires.6 Em 1971. e depois como um cabo disciplinado e ambicioso.]. na esquina de Paraguai e Leandro N. Moisés e Maomé”. decadencia y derrota de José López Rega” (p. a Triple A. uma organização parapolicial que era financiada com fundos do Ministério de Bem-Estar Social e que.

o “milagreiro” deteve um poder que. cidade brasileira fronteiriça com a Argentina. fundar uma religião para o Terceiro Mundo. e na qual sua presençã é solicitada como narradorpersonagem: “Não sou o único a quem se definiu em Madri como um fazedor de milagres. outra vez destacada na narrativa. não duraria muito tempo. não raro toma para si o envelope. consiste em toda intrusão do narrador ou do narratário extradiegético no universo diegético (ou de personagens diegéticas num universo metadiegético etc. segundo ele. “com o pretexto de que ‘o General tem muitas coisas para atender e não convém abusar de sua saúde’”. da qual seria ele o profeta e o pontífice. descobri uma espécie de sossegado bodegueiro de subúrbio. capaz de ressuscitar os mortos e ler os pensamentos alheios. que carecia de escrúpulos na relação social e de senso do ridículo. provém uma possível resposta: “‘Eu sou o para-raios que detém todos os males enviados contra esta casa. Devo dizer que a negou e atribuiu sua invenção. Também não sou o único que começou a levá-lo a sério quando já era muito tarde”. A ambição por bens materiais. reuniram dados sobre uma empresa de engarrafar água em Uruguaiana. A gravidade estaria no fato de ele impor ao produto o nome de Perón e sugerir que esse recomendaria suas virtudes.12 A informação de que “el Brujo” teria utilizado o conhecimento adquirido nos arquivos e nas correspondências de Perón a fim de amedrontar peronistas que deixaram rastros escritos de sua deslealdade ou torpeza é atribuída a alguns de seus adversários. foi de qualquer maneira inferior ao personagem delirante e descarado que haviam prometido as fábulas madrilenhas. As lembranças do escritor alcançam o protagonista no mês de “junho de 1972. Mais uma vez. contudo. a partir dessa fonte. Em vez do megalomaníaco e intrometido Rasputin anunciado por seus detratores.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 127 peronistas. posteriormente. publicada em Astrología estérica junto a conjeturas místicas sobre Perón. quando o vi pela primeira vez. em 1970. ao ódio que lhe professavam ‘alguns inimigos bruxos’”. ou inversamente. 7 A relação metatextual que se vai confirmando não prescinde de um elemento típico das narrativas ficcionais. seu ponto frágil. a metalepse autobiográfica de Martínez confere autenticidade à narração: “Perguntei a López Rega sobre a veracidade daquela história.). trata-se da “metalepse” que. seu único prazer.11 O cotidiano do “Bruxo” no escritório da Gran Vía em Madri. capaz de ir mais longe do que sonhava.9 O narrador recorre a informes detidos em 1972 por um dos correspondentes de Madri para comunicar que o secretário do ex-presidente tinha um plano para transformar a Argentina num campo de cultivo mágico. a crença de que o destino da humanidade seria decidido por claves musicais. é informada por Martínez a partir de correspondentes estrangeiros que. deixam para entregar a correspondência quando se despedem do ex-mandatário. tomada biográfica na qual o testemunho de Martínez reitera o procedimento autobiográfico anteriormente indicado: A impressão que me causou. segundo Gérard Genette (2004). a fim de transferir o peso político e o carisma de Perón a si mesmo e. maciço como um touro. o hábito da escrita. assegura: “O certo é que o domínio dessa enorme . sabendo de tal vigilância. literalmente. de cuja voz. O autor-narrador. todos esses dados são antecedidos no texto pela breve. quando mantivemos um diálogo fugaz junto à Quinta 17 de Outubro”. mas o secretário (a quem o narrador oferece voz). Cada vez sou menos López Rega e cada vez sou mais a saúde do General’”. mas significativa. O escritor confirma essas pretensões místicas quando soma seu testemunho à história primeira que ele mesmo narra.10 Com uma ideologia esdrúxula.8 A ocasião permite a Tomás Eloy Martínez levantar uma hipótese a respeito da tolerância de Perón para com o mordomo.

e que somente uma política de conciliação e unidade nacional poderia salvá-lo. Presentes não apenas no texto aqui estudado. de certo modo. 14 É também considerado metaléptico esse enunciado que o mordomo havia proferido acerca de si mesmo. Alfaguara. se for verdade – pois é verdade – que je sempre é também um outro”. os partidos político. de ordem étnica. o povo desesperado. o derrubou de maneira póstuma. política ou religiosa. a vida do general junto a outras vidas – tomando a forma de uma metalepse que “está no núcleo íntimo de tudo o quanto cremos poder dizer ou pensar a respeito de nós mesmos. a . além da cobiça. A esses. se uniram e conciliaram para dizer-lhe basta. ________ (1995): Santa Evita. o excesso de fé em seus poderes individuais: Antes de regressar à Argentina. Nesse artigo. Altea. 13 arrogância. Ao contrário. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica. Planeta. como também em outros artigos que integram Las memorias del General e Las vidas del General. somente quando se fizer o novo inventario das ruínas. mas que integra uma coletânea na qual o papel de protagonista é ocupado por Perón. pois há “homens que são escolhidos por Deus e outros. integrando a coletânea Las memorias del General. a derrota do “Bruxo” talvez encontrasse entre seus motivos. triunfo. Tomás Eloy (1996): Las memorias del General. Foi o próprio Perón quem.128 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS massa informativa. é depois eliminada de sua reedição em Las vidas del General. Gérard (1989): Palimpsestos . No entanto. Alfaguara. Perón havia pronunciado que o país estava em ruínas. caberia tratálos com rigor. López Rega acreditou no isolamento do poder e na necessidade de que o país se colocasse a serviço de suas convicções. de acordo com as convicções e as palavras de López Rega. o fanatismo e a intolerância daqueles tempos alertam-nos sobre os riscos dos atuais fundamentalismos. a perspectiva biográfica voltada ao secretário de Perón é compartilhada com as intrusões autobiográficas de Martínez. Buenos Aires: Aguilar. Taurus. O metatexto crítico autentica as configurações que esse havia estabelecido para sua obra – as (des)memórias de Perón ao lado de outros textos. ________ (1985): La novela de Perón . MARTÍNEZ. “Ascenso.16 Participante assíduo nas reuniões políticas da Puerta de Hierro aproximadamente desde 1969. De acordo com a parte final do artigo que. não. porque a imprensa. Você com quem quer estar? Com a massa ou com o que amassa?”. GENETTE. Gérard (2004): Metalepsis : de la figura a la ficción. sobretudo. decadencia y derrota de José López Rega”. Buenos Aires: Planeta. os sindicatos. haverá possibilidade de saber se essa voz de mando não teria se pronunciado tarde demais. somada a sua infalível memória de policial bem adestrado. Buenos Aires: Planeta. o secretário acreditava em um Espírito Supremo que outorgaria poderes a alguns seres humanos e a outros.15 Referências bibliográficas GENETTE. Madrid: Altea. ________ (2004): Las vidas del General . foi uma das chaves de seu poder político”. Buenos Aires: Biblioteca del Sur. aos inimigos. Traducción por Luciano Padilla López. os empresários e. Taurus. que forma parte do amplo cenário psicossocial contemplado pelas referidas obras de cunho jornalístico e memorialístico. nem Deus nem sabe. consistindo em discurso secundário que confirma o artigo por ele protagonizado. de cuja existência.

Alem. la Triple A. Tampoco soy el único que empezó a tomarlo en serio cuando ya era demasiado tarde” (MARTÍNEZ. 181). 182). Trata-se do informe sobre uma bomba que destruiu o carro de Perón em 1957. Viajé a Francia. 7 "con el pretexto de que ‘el General tiene demasiadas cosas que atender y no conviene abusar de su salud’” (Id.).). respondía a las órdenes de José López Rega. en la esquina de Paraguay y Leandro N. Ibid. En vez del Rasputín megalómano y entrometido que anunciaban sus detractores. o explosivo não teria sido colocado no veículo pela embaixada da Argentina na Venezuela e sim pelo chefe do Serviço de Inteligência daquele país. 182-183). p. Desobedecí la advertencia y sólo tomé algunas precauciones. 6 “Se conjetura que fue entonces cuando la convenció de su desinterés patriótico y obtuvo consentimiento para colaborar con ella. p. Su militancia peronista parece arrancar aquel año. Los libelos me declararon enemigo de la Argentina y me concedían cuarenta y ocho horas para marcharme al extranjero. y luego como un cabo disciplinado y ambicioso. fue de todos modos inferior al personaje delirante y cachafaz que habían prometido las fábulas madrileñas. Ibid. 2004. literalmente. en el exilio de Madrid” (Id. descubrí más bien a una especie de sosegado almacenero de suburbio. 185). someterse al magisterio simultáneo de Antulio. sin embargo. 116-119). loc. 2004. Ao contrário do que afirmava o general. 186). . p. 2004. p. 3 “al feligrés de las ciencias ocultas que vivía en Madrid desde hacía un año buscando la aprobación del General para su difusa doctrina espiritualista. Diez días más tarde. 2 “A fines de abril de 1975. con la esperanza de regresar a las pocas semanas. 10 “No soy el único ante quien se definió en Madrid como un hacedor de milagros. 20. y que proponían. cuando mantuvimos un diálogo fugaz junto a la entrada de la quinta 17 de Octubre” (MARTÍNEZ. al parecer. p. cit. Buenos Aires. loc. constante nessa seção de Las memorias del General (MARTÍNEZ. que carecía de escrúpulos en la relación social y de todo sentimiento del ridículo” (MARTÍNEZ. estalló una segunda bomba y recibí amenazas más rotundas en el departamento donde vivía y en un restaurante donde estaba almorzando.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 129 Notas 1 O documento n. Ibid. cit. 9 "‘Yo soy el pararrayos que detiene todos los males enviados contra esta casa. 2004. 5 "como circunstancial integrante del equipo de vigilancia presidencial. macizo como un toro. 4 “como un diálogo entre el poder de los perfumes y el poder de los colores. hizo estallar una bomba lanzapanfletos frente al edificio de la editorial Abril. 2004. Tardé nueve años en volver. con la salvedad de una fugaz semana en agosto de 1975 […]” (MARTÍNEZ. en una de las vías de acceso a la Costanera Norte de Buenos Aires” (Id. 184). como secretario o asistente. 184). capaz de resucitar a los muertos y leer los pensamientos ajenos. 8 “junio de 1972. 12 "La impresión que me causó. é eliminado da coletânea Las vidas del general. quando de seu exílio em Caracas. cuando se vinculó con algunos miembros de la logia Anael e instaló una pequeña imprenta cerca del puente ferroviario de la calle Salguero. Ibid. p. p. 11 "Pregunté a López Rega sobre la veracidad de aquella historia. hacia 1950. al odio que le profesaban ‘algunos brujos enemigos’” (MARTÍNEZ. una organización parapolicial que se financiaba con fondos del Ministerio de Bienestar Social y que. 1996. Elías. p. Abel. que entretejía el iluminismo Rosacruz y la alquimia de Paracelso con los rituales brasileños de Umbanda” (Id. cuando lo vi por primera vez. Moisés y Mahoma” (MARTÍNEZ. p. Cada vez soy menos López Rega y cada vez soy más la salud del General” (MARTÍNEZ. p. Debo decir que la negó y que atribuyó su invención. a quienes quisieran alcanzar una comprensión global del universo. 183). 182). a quien la lentitud de sus ascensos en el escalón policial indujo a pedir retiro en 1962.

porque la prensa. 2004. Perón había predicado que el país estaba en ruinas. 1996. 2004. loc.130 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 13 “Lo cierto es que el dominio de esa enorme masa informativa. cit. si es verdad – pues es verdad – que je siempre es también otro” (GENETTE. en cierto modo. los sindicatos. A la inversa. 129). ¿Usted con quién quiere estar? ¿Con la masa o con el que amasa?” (MARTÍNEZ. el pueblo desesperado. sobre todo. 16 “está en el núcleo íntimo de todo cuanto creemos que podemos decir o pensar respecto de nosotros mismos. 14 "hombres que son elegidos por Dios y otros de los que Dios ni se entera que existen. se unieron y conciliaron para decirle basta. p. 15 "Antes de regresar a la Argentina. podrá saberse si esa voz de alto no se pronunció demasiado tarde” (MARTÍNEZ. sumada a su infalible memoria de policía bien adiestrado. lo derrocó de manera póstuma. los partidos políticos. y que sólo una política de conciliación y unidad nacional podía salvarlo. Fue el propio Perón quien. . Pero sólo cuando se haga el nuevo inventario de las ruinas. p. 144). López Rega creyó en el aislamiento del poder y en la necesidad de que el país se pusiera al servicio de sus convicciones. los empresarios y. fue una de las llaves de su poder político” (MARTÍNEZ.). p. 187).

e produziu uma obra crítica à . Neste sentido. Assim. passando a ser caracterizado como uma técnica que permitia movimentos de massas. Neste período. foi crucial para que o cinema e a literatura espanhola fossem diretamente afetados em suas produções. essas técnicas de reprodução da arte. o cinema também foi utilizado como meio de propaganda ideológica sobre as massas. em vista de manter o status quo . poderiam promover a democratização no campo das artes. essa se torna uma mídia explorada com fins de mudança social. que os regimes totalitários exercessem sobre os filmes uma censura asfixiante. Certamente isso não foi diferente no regime franquista. A partir desta problemática. O objetivo é tentar vislumbrar.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 131 CALLE MAYOR E SEÑORITA DE TREVÉLEZ SOB A DITADURA FRANQUISTA Angela dos Santos FATEC – ZL e SCS O cinema e a técnica cinematográfica ganham corpo nas primeiras décadas do século XX. mutilando obras e ditando regras tanto políticas quanto religiosas. pretende-se apresentar aqui. Especialmente no pós-guerra. ao mesmo tempo em que encomendavam obras para propagar seus ideais e impor sua forma e conteúdo. de que maneira o cineasta conseguiu subverter a ordem. no início do século. a produção cinematográfica de transposições literárias tomou uma proporção ainda maior que nos anos anteriores. uma análise do filme Calle Mayor (1956). No plano das possibilidades. com o apogeu da indústria cinematográfica. cujo enredo é baseado em uma adaptação livre da obra La Señorita de Trevélez (1916). na medida do possível. Não era raro. tornandoo um instrumento de propaganda política. contribuiu de forma contundente para a difusão dos ideais franquistas. devido ao fato de atingir um contingente enorme de pessoas. do dramaturgo Carlos Arniches. A censura atuou de forma incisiva nas produções cinematográficas. através das câmaras perspicazes de Antonio Bardem. do cineasta Juan Antonio Bardem. a moral e os bons costumes. Mas o inverso também ocorreu. e sob a vigilância da censura. posto o seu poder de fascínio e sua vertente influenciadora. o silêncio imposto nos longos anos de ditadura de Franco. segundo Walter Benjamin (1985).

Suas personagens são apresentadas com características singulares. pintarrajada e sonriente” (ARNICHES. de Edgar Neville. a transposição é feita somente através do argumento e converte o cômico em tragédia. Qualificada pelo autor de “farsa cómida en tres actos”. proliferam nos teatros apresentações de obras de todo tipo de gênero. La Señorita de Trevélez é considerada a obra mais relevante de sua produção teatral. com intenção evidente de caricaturar o madrileno. Sem dúvida. perpetuam as condições da mulher frente à sociedade patriarcal. e D. Nesse período. para fugir do tédio de uma cidade. vítimas de uma cruel brincadeira engendrada por jovens ociosos. pois o engano é perpetuado e Flora de Trevélez segue em completa ignorância dos fatos. tecendo uma odiosa brincadeira sem precedentes. p. principalmente o conhecido género chico. são próximas quanto ao argumento. 1998.132 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS sociedade de sua época. mas estaciona neste ponto. na qual se percebe que não há a pretensão de uma crítica severa à sociedade. suprimindo sílabas. São elas: Flora de Trevélez. Comediógrafo e excelente pintor de ambientes populares. As duas obras em análise. tem o mesmo título da obra teatral. preferência de certo tipo de público. É bastante próxima à obra de Arniches. que é sem dúvida a personagem de maior relevância. Já não possui o tom jocoso e não se emprega o jogo de palavras que caracteriza a obra teatral. mas não quanto ao gênero. Trata-se de encontrar. de fala peculiar. que se aproximam do folclórico. uma teatral e a outra fílmica. associado ao costumbrismo e ao humor. irmão de Flora. A obra em análise de Arniches foi escrita e levada à cena em plena Guerra Mundial. Criando assim.94). em sua maioria peças cômicas. uma solteirona de idade avançada de classe burguesa “la cara ridícula. ainda que residual ou mínima. Também merece atenção Numeriano Galán. com fins humorísticos. utilizando jogo de palavras. Ela sacrificou um possível matrimônio pela felicidade de sua irmã. Vale destacar as principais personagens da peça. e é considerado o criador da “tragédia grotesca”. já que o trabalho de Arniches é reconhecido como uma comédia grotesca. Dada a importância desta obra. Gonzalo de Trevélez. uma linguagem própria que logo é repassada ao povo. tendendo ao sentimentalismo e ao melodrama. Ele narra um drama causado por homens que. jovem escolhido pelos amigos fanfarrões para ser o suposto pretendente de Flora. produzida às vésperas da guerra civil espanhola em 1936. que enchem as salas de teatro. foram realizadas duas versões cinematográficas. a possibilidade. aplicando um léxico próprio. Sua obra está a meio caminho entre a tragédia e a comédia. a esta comicidade própria da farsa está presente o drama que vivem os irmãos Trevélez. A primeira. O argumento desta tragédia grotesca apresenta um conflito dramático relacionado ao cotidiano e protagonizado por heróis igualmente grotescos que tramam brincadeiras de mau gosto. simplesmente para evadir-se do tédio da vida quotidiana da pequena cidade. A obra de Arniches relaciona características regionalistas. membros de um cassino provinciano. tornando-o um verdadeiro “vício nacional”. na impossibilidade. . . soube recriar de maneira exemplar a riqueza da linguagem popular de Madri. Carlos Arniches foi um mestre na arte de escrever obras deste gênero. Ele revela um conflito dramático relacionado ao cotidiano de uma pequena cidade. Na obra fílmica.

anunciando precisamente: Aquí abajo está la ciudad. ele tomou o argumento da obra teatral e transformou-a em uma tragédia. Juan Antonio Bardem realiza o filme Calle Mayor . em condições pouco convencionais. como se o expediente pudesse ser uma fábula. em plena ditadura franquista. com argumento e roteiro do próprio diretor. convidada pelo próprio diretor para protagonizar Isabel. a partir de 1943. 1956). Outras cenas foram cortadas pela censura. na qual o diretor não se preocupou em seguir a história linear do gênero cômico. daquela sociedade. A cidade indefinida no filme é na realidade Logroño. para os padrões da época. Um fato que fornece a dimensão do momento político merece ser pontuado. que são maioria e vão acompanhadas por outras amigas ou alguém da família. as personagens perdem as características grotescas e assumem um papel mais fidedigno da realidade. Esta obra é uma coprodução hispano francesa. em cidades provincianas. Possivelmente foi graças à intervenção da coprodutora francesa e a esta recusa de Betsy Blair que o diretor conseguiu ser liberado algumas semanas depois. Parte dessa ambientação de Juan consiste na aproximação a um grupo de jovens acostumados a zombar das pessoas. Durante os longos anos de ditadura. Vê seus sonhos de se casar prestes a se realizem quando percebe as investidas de Juan. Durante a rodagem do filme. sendo possível vislumbrar diversos elementos. é uma transposição livre de uma obra teatral. evidenciando os costumes de uma pequena cidade. . pois era obcessão da censura de que qualquer filme não revelasse a localização e a época das histórias contadas. É o que levantaremos nesta análise. além de outros locais pontuais da cidade. a indústria cinematográfica enfrenta uma censura feroz e. Isabel é uma solteirona e. Na verdade.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 133 Anos depois. Una ciudad cualquiera en cualquier provincia de cualquier país. quanto ao seu conteúdo moral. e a atriz. em 1956. se recusa a continuar as filmagens sem Bardem. Bardem é detido. que tem como intérprete a norte-americana Betsy Blair. Nessa transposição. sem espaço e tempo próprios de uma sociedade. dando ênfase à visão de uma pequena burguesia local. Calle Mayor . Una pequeña ciudad de provincias. El color del pelo o la forma de las casas. o bairro velho e a calle Mayor de Palencia. ou melhor dizendo. dos bons costumes. La historia que está a punto de comenzar no tiene unas coordenadas geográficas precisas. Foi obrigado a retirar os letreiros de lojas e bares das filmagens. los anuncios en las paredes o una determinada manera de sonreír y hablar no debe ser forzosamente una bandera concreta para envolver a estos hombres y mujeres que va a empezar a vivir delante de nosotros (BARDEM. A censura encarregou-se de que o diretor fizesse um prólogo. não é mais uma jovem na idade de “buen merecer”. O motivo principal é ver e serem vistos. a um sistema de classificações que tenta controlar a indústria por meio de subvenções que servem à ideologia do regime franquista. um jovem de Madrid que reside na cidade havia apenas três meses e que já se ambientou ao estilo de vida provinciano. Só assim ele conclui o filme. tais como o cassino. como já foi dito. político e social. A principal tarefa da Junta de Clasificación y Censura é a de exercer a censura dos filmes nacionais e estrangeiros. onde os constantes passeios pela calle mayor reproduzem um ritual cotidiano. mas Bardem soube magistralmente revelar aspectos políticos e religiosos. a catedral. Bardem evidentemente teve problemas com o roteiro. com brincadeiras nada honrosas. tão comum à época. sob forte pressão do Estado para que o filme prossiga com outro diretor. principalmente as mulheres solteiras.

. e muito menos grotesca. Isabel revela-se uma personagem viva. No filme o aspecto religioso. Y no de cualquier mujer.. Yo no. La fuente: La señorita de Trevélez de Don Carlos Arniches. religião e meros planos de passeios de seminaristas. revela sua visão comprometida com o lado social. às freiras e seminaristas. Juan torna-se algoz e também vítima de seus amigos. en particular. cantando com mais entusiasmo. Federico terá um papel importante como representante de uma postura comprometida. Un tercer afluente venía del poema de Agustín de Foxá: las seis muchachas en el mirador. pois naquela Numeriano Galán é involuntariamente envolvido na trama. que está de passagem pela cidade. Além dos muitos cortes realizados. me dediqué a explicar y expandir una crítica general del mundo español de los 50 y. Dentre os cortes. Outra sequência é a declaração de amor feita por ele na metade de uma procissão. já que Juan se acovarda e foge. no final. Um indicativo importante que se faz referência no filme é a revista Ideas. pois ela não é feia. Don Gonzalo. pois é escolhido para forjar uma relação com Isabel. onde Juan dá indicações a Isabel de seu interesse. sino específicamente de una señorita de la pequeña burguesía de una ciudad de provincias. No entanto. Flora não é a protagonista. no filme desaparece completamente. Bardem diz: El texto nace de una fuente y más afluentes. Edgar Neville hizo una versión cinematográfica de La señorita de Trevélez con María Gámez como protagonista. não está de acordo com as constantes brincadeiras do grupo e condena suas atitudes. o domínio das figuras masculinas prevalece. estabelece uma oposição ao franquismo e que a personagem Federico traz de forma que atualiza a ação e a situação política da época. fica claro que ele critica as atitudes . manifesta-se poucas vezes. foram acrescentadas algumas sequências ao roteiro original. dos homens perante a vida inculta. Otra vez la soledad de una mujer abandonada y asfixiada por las conveniencias sociales de su mundo. Bardem desenvolve uma sequência exemplar no interior de uma igreja. segue a procissão. nada se parecendo com Flora. Sua atitude em tentar ajudar Isabel a fugir daquela cidade e dos olhares de escárnio de todos. se vê obrigado a revelar tudo a Isabel. roubando a cena da protagonista. Federico. Não se evidencia uma proposta para que as mulheres adotem um papel mais ativo na sociedade. mas de maneira contundente. próxima da realidade. estarrecida e feliz pela audácia do suposto amante. Mas é manifesto que Bardem explora bem mais o aspecto social que em Arniches. É um aspecto que difere da obra teatral. las seis mujeres de maridos ricos. terna e patética. improdutiva e conformista. A respeito de sua obra. na qual somente as mulheres participam e Isabel. no filme. uma revista que. Dessa forma traça uma diferença entre o roteiro original e o resultado final do filme. ya en el borde de la soltería. siguiendo paso a paso la línea que había escrito don Carlos. Yo tomé como elemento fundamental de mi texto la broma. un análisis de la condición de la mujer en España. É ele que. Apesar de a censura ter impedido que a prática religiosa tivesse mais relevância no filme. já que Apesar de Bardem dar ênfase ao drama da mulher espanhola. nos anos 50. As personagens masculinas perdem a característica grotesca e adquirem uma personalidade mais complexa. Foram cortadas todas as outras sequências sobre caridade. Un afluente fue Doña Rosita la soltera de Federico García Lorca. Apesar do título da obra teatral. que aparece como o protagonista na peça teatral. as eliminações se deram aos momentos de referências a manifestações amorosas apaixonadas. y a partir de ahí.134 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Fazendo parte desse grupo. cabendo a seu irmão este papel. O papel de protagonista cabe agora à personagem feminina. amigo de Juan.

o que ganha corpo na história é a pequena cidade provinciana. Ao mudar completamente o gênero da obra original. C. Ele utiliza-se de suas câmaras perspicazes para revelar o absurdo de tal sociedade e nos brinda com um filme de oposição à norma e à política vigente. com personagens cotidianos e familiares. Isabel es todo lo contrario. a brincadeira. Ríos Carratalá (2000. J. na medida do possível. elevada ao papel de protagonista. se por seu corte neorrealista. não rompe com o modelo estabelecido. Aunque Carlos Arniches siempre critica a los burladores y a quienes. cai uma forte chuva. BENJAMIN. Referências bibliográficas ARNICHES. DVD. A brincadeira torna-se sem sentido e Isabel segue com sua atitude passiva e conformista. S. Dessa forma. inaugura-se uma produção voltada a uma aguda consciência social. paseos. graças a um grupo de cineastas que busca uma nova forma de representar e que partem de um universo mais realista.A. No hay ninguna razón objetiva porque la condene a la soltería. faz uma crítica à sociedade patriarcal. com matizes próprios do diretor. Madrid: Cátedra. 135) explica a brincadeira ao personagem feminino: No es lo mismo burlarse de un personaje grotesco como Florita que de una mujer como Isabel. arte e política. (2000): El teatro en el cine español. (1956): Calle mayor. de que é uma obra sobre a condição feminina.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 135 percebemos um deslocamento do que diz respeito ao próprio Bardem.P. Coproducción España-Francia. un baile en el Círculo. Bardem. W. mesmo sob a censura franquista. Madrid: Plot Ediciones. mas na verdade são as convenções. rezos y. Nos anos 50. BARDEM. O que torna esse filme uma obra singular. mais reveladora e instigante. se limita a hacer lo mismo que las demás mujeres de la ciudad: novenas. já que a censura tinha o papel de mutilar e descaracterizar as produções em geral. Fora. en cualquier caso. O filme termina com Isabel vendo o mundo através da janela de seu quarto.A. BARDEM.A. que se evidencia no texto fílmico. Magia e técnica. Alicante: Publicaciones de la Universidad. São Paulo: Brasiliense. en general. Um futuro sombrio e tormentoso a aguarda. J. (1998): La señorita de Trevélez. No es fea como Florita. anualmente. o diretor subverte a obra teatral e escreve outra história. 95 min. Bardem faz parte deste grupo e este filme diferencia- . De certa forma. (1985): Obras Escolhidas . juegan con los sentimientos de los demás. trad. distanciando-se dos filmes produzidos até então.(1993): Calle Mayor . v. tampoco es cursi y. Suevia Films / Play Art / Iberia Films. Rouanet. procesiones. RÍOS CARRATALÁ. I. el retrato de la solterona casi invita a burla. J.

como no exemplo do inglês abaixo em (6). no português. as perífrases podem ter quatro tipos de valores: temporais.136 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS DISTRIBUIÇÃO DA PERÍFRASE “TER” + PARTICÍPIO NO ESPANHOL DO MÉXICO Anne Katheryne Estebe Maggessy UFRJ 1. tem traços comuns1 com a habitualidade e faz referência a uma pluralidade de ações. Contudo.3). O aspecto contínuo/durativo ainda poderá ser dividido em progressivo e não progressivo. Além disso. o aspecto perfectivo e o imperfectivo. então para . Segundo COMRIE (1976. há uma diferença aspectual entre elas. Introdução O espanhol. na segunda é perfectivo. há uma diferença no modo como a constituição interna da situação é vista. como por exemplo no próprio português. ou seja. assim como o português. Para este autor. então ela será apenas habitual. A perífrase “tener” + particípio é considerada uma perífrase aspectual. completo. p. o aspecto imperfectivo é dividido em aspecto habitual e aspecto contínuo/durativo.19). modais e estilísticos. segundo o autor. Ao observar os exemplos “João estava lendo um livro” e “João leu um livro”. na proposta do autor. decidimos verificar a co-ocorrência desta perífrase com outras perífrases. Já em sentenças como em (7). há dois aspectos básicos na língua. haverá a leitura habitual iterativa. para abarcar outros tipos de distinções aspectuais que podem fazer parte de algumas línguas. Para este autor. aspectuais. se uma situação individual pode ser prolongada indefinidamente no tempo. O aspecto iterativo. vendo-a de dentro. Essa oposição é gramaticalizada em diversas línguas. Enquanto na primeira o aspecto é imperfectivo. Enquanto o aspecto perfectivo trata a situação ou evento como um todo. no contexto do aspecto iterativo e na variante do espanhol da Cidade do México. Essa perífrase. pois serve para mostrar a categoria verbal denominada aspecto. por isso. Mas se essa situação não puder ser prolongada. o aspecto imperfectivo se refere essencialmente à estrutura interna de uma situação. percebe-se que ambas as sentenças referem-se ao passado. está sendo substituída pela perífrase “estar” + gerúndio e. por exemplo. é uma língua que apresenta grande abundância de perífrases verbais. Para GÓMEZ TORREGO (1988. o aspecto se define em função dos diferentes modos de observar a constituição temporal interna de uma situação. p.

O comportamento perifrástico de “tener” + particípio Segundo GÓMEZ TORREGO (1988. A perífrase EG é canonicamente descrita. quanto no espanhol de Madri. de Buenos Aires e de Valparaíso. verificase que a perífrase “estar” + gerúndio (EG) está gradativamente substituindo a perífrase “ter” + particípio nas gerações mais jovens da população. na variante carioca. desempenham papel principal na composição dos aspectos durativo e iterativo. sólo me Em português. Como nos exemplos abaixo: Tengo escrito ya cincuenta fólios. (7) “The policeman used to stand at the corner for two hours each day” (O policial costumava ficar no corredor duas horas por dia) (8) “The old professor used always to arrive late” (O velho professor costumava sempre chegar tarde). que apresenta repetição. é pelo menos um dos fatores propiciadores da leitura aspectual iterativa. se indica um valor repetitivo ou de insistência como em: . Mas. um marcador adverbial como two hours each day (duas horas por dia) ou always (sempre). outras vezes. FERNÁNDEZ DE CASTRO (1999) e YLLERA (1999). Além disso. marcadores adverbiais e argumentos plurais. como em (8). sólo me quedan la cocina y el baño Tengo corregidos ya veinte exámenes. já pudemos verificar a possibilidade da expressão aspectual iterativa em sentenças com a perífrase EG tanto no PB. como a que expressa o aspecto progressivo ou durativo. sólo me quedan diez O autor também afirma que. já que segundo GÓMEZ TORREGO (1988). a iteratividade é uma categoria aspectual com marcas linguísticas específicas como tipo de verbo. Dessa forma. seu uso mais produtivo expressa o aspecto perfectivo.192 ). o aspecto iterativo é normalmente expresso pela perífrase “ter” + particípio com o auxiliar no presente do indicativo. “estar” + gerúndio e “ter” + par ticípio são construções perifrásticas que quedan veinte. Segundo o autor. mas em estudos como o de MENDES (2005). De acordo com os estudos de WACHOWICZ (2006). 2. p. pode-se dizer que para COMRIE. Com isso. considera-se nesse trabalho a iteratividade como aspecto por apresentar um evento escalonado. 2010 e 2011).ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 137 o autor a única interpretação razoável envolvida será a iterativa. segundo o próprio COMRIE. Tengo empapeladas ya três habitaciones. tanto do português quanto do espanhol. o aspecto iterativo é considerado como pertencente ao aspecto imperfectivo. um dos aspectos básicos da língua. E. ou seja. em estudos anteriores (2009. (6) “The temple of Diana used to stand at Ephesus” (O templo de Diana costumava ficar em Efesus) dentro dos estudos linguísticos. ao observar os exemplos do inglês acima. nos surgiu a curiosidade de investigar se a perífrase “tener” + particípio também estaria apresentando leitura aspectual iterativa no espanhol do México como a perífrase “estar” + gerúndio. o valor mais característico da perífrase “tener” + particípio é o valor perfectivo-acumulativo de um estado alcançado.

segundo estudos do PB e do espanhol. HARRE cita outros exemplos em que. interessa o estado no sujeito e não no objeto. Enquanto isso. y sabía ser te ngo afe de ve un tío cordial cuando quería. v e c es q ue s e lo t e ng or e p e t ido hasta la sa re sacie cieda dad. no sirve discutir. se lo digo en serio. espanhol. Tienen vivido mucho tiempo en España y por eso hablan tan bien el español. o meu discurso (VIEIRA. […]”. ainda que rejeitadas por outros. FERNÁNDEZ DE CASTRO (1990.. Com isso. luego. Tengo castigado al niño muchas veces. Por isso.166). q ué sé y yo cie da d. Tengo perdida la cartera varias veces. mas também como estendido e relevantemente durativo. não só como meramente concluído. esse tipo de construção não se usa mais e um exemplo como o apresentado tende a ser interpretado com valor de imperfectivo. como no caso anterior. Tengo despertado al niño un montón de veces. Sentenças essas. de ésas le t te ngo vistas po cas. Fiéis. temos acesso aos estudos de HARRE (1991: 52-78).. afirma que o valor de “tener” + particípio. Lo menos cinco años que se lo vengo diciendo ya: “vamos a hacer un esfuerzo. c. parece ser que. quando perífrase. no trabalho de YLLERA (1999). de ponerse hecho un toro colorado y salir arreando con todo lo que e ng ov istas unas p o cas pilla por delante. não-acabado e durativo. I. Segundo DIAS (1970. o la mo ntaña d e montaña de unas economías. no te pongas a llorar E que. faenas de ésas. apud TRAVAGLIA 2006). Le tengo prestado el coche muchas veces. que te ngo .[…] Ahora. te robaron) Da mesma forma.278).. Me gusta el espectáculo. Tenemos hablado mucho sobre este asunto. a perífrase expressa uma ação iterativa sem implicar necessariamente um estado resultante: a. com verbos intransitivos e advérbios quantificadores. p.) Tengo decidido ir a tu casa (= estoy decidido ir. eso sí. Especial si alcanzo a tempo de la primera embestida. a nossa hipótese é a de que a produtividade dessas sentenças com “tener” + particípio em contexto iterativo estará relacionada com a presença de verbos intransitivos e de advérbios quantificadores. a perífrase “ter” + particípio já apresentou o valor de aspecto acabado como no exemplo “Tenho acabado. b..138 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Te tengo dicho que te calles Te lo tengo advertido. Eso es grande! Yo lo t e ng o af e itado la mar d e v e c es. Si no lo vas a apear de su convencimiento. cursivo. observamos nos exemplos abaixo a presença da conjunção de ênfase e quantificações temporais extensivas que acompanham a perífrase “tener” + particípio: (133) No. c. p. Quizás que no se lo tengo yo dicho eso un montón de veces. aceitas por alguns falantes de .) Tengo entendido que te robaron este verano (=creo. pero grande. es inútil. estas construções distam muito de ser unanimemente aceitas e empregadas por todos os falantes do espanhol. b. 950)”. como dito anteriormente. é de uma gradação perfectiva na qual o processo não aparece. Para TRAVAGLIA (2006. que cita exemplos de sentenças com “tener” + particípio expressando o aspecto iterativo. Mas. a. Tiene viajado mucho por el extranjero. d. Felipe. em ocasiões. como nos seguintes casos: Tengo pensado ir a tu casa (= pienso ir. si es inútil.

5 24/90 26. Ele está composto por 8 sentenças distratoras formadas por verbos do tipo estado. 4. é interessante notar que a perífrase mais selecionada nas sentenças alvo.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 139 3. também expressa o aspecto iterativo. + QUANTITATIVO N/TOTAL HABER + PARTICÍPIO ESTAR + GERÚNDIO TENER + PARTICÍPIO TOTAIS 62/90 % 68.61). como os seguintes verbos: gustar / tener / amar / permanecer / vivir en un piso/ odiar / querer / creer. para verificar se os nativos da Cidade do México selecionariam sentenças com “tener” + particípio ou com “estar” + gerúndio ou com “haber” + particípio em contexto iterativo. A variável sexo não pôde ser controlada. o aspecto perfeito também pode ser expresso no português pelo pretérito perfeito “ter” + particípio. p. segundo a classificação de VENDLER (1967).8 DISTRATORAS ESTADO N/TOTAL 45/120 % 37. Resultados ALVO INTRANS. Esta perífrase chamada de pretérito perfeito composto. que estão relacionados abaixo: llegar tarde todos los días correr un chingo de veces bailar un chingo de veces salir varias veces despertarme muchas veces nadar todos los días Aplicamos o teste à 15 falantes de espanhol da cidade do México entre 20 e 24 anos. Metodologia Elaboramos um teste de preenchimento. O teste se resume a uma carta de uma estudante mexicana que está no Chile e descreve tudo o que tem feito à sua família.8 4/90 0 4. De acordo com este autor. percebemos que a perífrase mais .5 4. foi “haber” + particípio. expressa o aspecto perfeito (perfect). com nível superior. pois indica a relevância do presente contínuo de uma situação passada.4 0 3/120 5/120 2. que são formadas por verbos do tipo estado. com verbos intransitivos mais advérbio quantificador.6 67/120 55. com 14 lacunas. que tem significação iterativa. segundo COMRIE (1976. que segundo os estudiosos do PB. E por 6 sentenças alvo.1 Após a leitura da tabela. Observando também o comportamento das sentenças distratoras.

Abaixo apresentamos as sentenças que tiveram ocorrência da perífrase “tener” + particípio. (1) 5. (6) A) Tengo nadado todos los días. (10) C) Estoy permaneciendo firme en mi propósito. as sentenças selecionadas abaixo não possuem essas características e apresentam o verbo principal do tipo estado. “bailar un chingo de veces” e “despertarme muchas veces”. (14) B) He permanecido firme en mi propósito. (1) A) Aquí tengo salido varias veces.140 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS selecionada foi “estar” + gerúndio. Diferente do esperado. (2) B) He corrido un chingo de veces. Conclusão . pois não possuíam as características descritas por HARRE como favorecedoras da iteratividade. (3) Estes exemplos acima. se apresenta em forma de gerúndio que é. (5) C) Estoy corriendo un chingo de veces. Essa combinação pode parecer inicialmente estranha. essa é uma construção possível na língua. nos mostram que a seleção das sentenças com a perífrase “tener” + particípio. (1) B) Aquí he salido varias veces. Pois não há fatores que diferenciem essas sentenças de outras que não foram selecionadas como “llegar tarde todos los días”. ao contrário. parece ter sido aleatória por parte dos informantes. (5) A) Tengo gustado de todas las personas de la Universidad. (6) D) Me gustan/ agradan todas las personas. (8) C) Estoy creyendo que ser gordita no es bueno. (+) dinâmico.3 (1) B) He gustado de todas las personas. (8) C) Estoy gustando de todas las personas. que seriam com a presença de verbos intransitivos e advérbios quantificadores. mas não é considerada muito produtiva. (1) B) He nadado todos los días. pois encontramos ocorrências de “tener” + particípio em sentenças com advérbios quantificadores e verbos D) Permanezco firme en mi propósito. pois um verbo de estado que é por sua natureza (-) dinâmico. (1) B) He creído que ser gordita no es bueno. apresentamos as sentenças distratoras que não esperávamos que fossem selecionadas. (9) ALVO (n° de sentenças selecionadas): A) Tengo corrido un chingo de veces2. Ainda assim. DISTRATORA (n° de sentenças selecionadas): A) Tengo creído que ser gordita no es bueno. (6) C) Estoy nadando todos los días. A hipótese não pôde ser refutada. juntamente com as escolhas feitas pelos informantes e com o número de vezes que foi selecionada entre parêntesis: Abaixo. (2) A) Tengo permanecido firme en mi propósito.

segundo a classificação vendleriana . é a descrição de uma situação que é característica de um período estendido de tempo. Comportamiento sintáctico e historia de su caracterización. ainda não é possível falar da substituição da perífrase “tener” + particípio por qualquer outra perífrase. Cambridge: Cambridge University Press. (1988): Perífrasis verbales. Artigo publicado nos Anais do 6° Encontro Celsul – Círculo de Estudos Linguísticos do Sul. Tese de doutorado. entre outros. Alicia (1999): “Las perífrasis verbales de gerundio y participio. Contudo. 2 A expressão “un chingo de veces” é uma forma coloquial dos jovens da Cidade do México expressarem uma repetição. 3391-3441. GÓMEZ TORREGO. estendido no fato de que a situação referida é para ser vista não como uma propriedade acidental do momento. Finalmente. Seria o equivalente a “muchas veces”. mas precisamente. Universidade Estadual de Campinas. 2. L. 6. Notas 1 Segundo Comrie (1976). T. MENDES. foi possível encontrar o uso da perífrase “tener” + particípio em contexto do aspecto iterativo. VENDLER. F. 3 Em consulta informal. a flutuação do uso dessa perífrase com as perífrases “haber” + particípio e “estar” + gerúndio. (1990): Las perífrasis verbales en español. p. Ithaca: Cornell.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 141 intransitivos. Luiz Carlos (2006): O aspecto verbal no português: a categoria e sua expressão.” Gramática descriptiva de la lengua española. podendo ser combinado também com verbos do tipo estado. YLLERA. TRAVAGLIA. Oviedo. . Arco/Libros. C. verificamos que a perífrase “tener” + particípio também possui traços de imperfectividade e de iteratividade. Zener (1967): Linguistics in Philosophy. Sintaxis. eds. Publicaciones del Departamento de Filología Española. Madrid. o traço que é comum em todos os habituais. sendo ou não também iterativos. Uberlândia: EDUFU. Além disso. na variante investigada do espanhol do México. que também compartem os traços de imperfectividade e iteratividade. Madrid: Espasa. Universidad de Oviedo. H . pudemos perceber que o uso de “tener” + particípio pode não ser tão restrito. Ignacio Bosque y Violeta Demonte. aspecto verbal e variação no português. Vol. Ronald Beline (2005): Estar + gerúndio e ter + particípio.The interaction between temporal and atemporal structure . (2006): Marcas linguísticas de iteratividade em PB. semántica y estilística. (1993): A theory of aspectuality . como tratado por alguns estudiosos. conforme é usado no PB. verificamos um uso dessa forma do verbo gustar. VERKUYL. FERNÁNDEZ DE CASTRO. Referências bibliográficas COMRIE. Cambridge University Press. não só de perfectividade. como um traço característico de todo o período.ed. Bernard (1976): Aspect. e sem advérbios do tipo quantificador. É significativo observar também. 4. Embora o número de ocorrências tenha sido baixo. WACHOWICZ.

la comunidad queda amurallada dentro de sí misma y separada de su exterior. buscar estratégias de compreensão das formações discursivas e das condições de produção do discurso (FOUCAULT. y la inversión mítica queda perfectamente cumplida. num nível mais profundo. entre sujeito e alteridade. embora seu lugar de enunciação seja quase sempre distinto ao lugar de enunciação do seu interlocutor. lugar de estabelecimento de relações múltiplas e imprevistas com a alteridade – e a noção de immunitas – ligada . 2007. necessariamente. una tierra. a lo particular de un sujeto común. e por outro. Aquele que escreve em uma língua não materna precisa. una esencia –. Isto se percebe ainda na própria polissemia que a noção de “comunidade” enceta. 2008) que dão sustentação àquilo que se materializa no texto. tem de. segundo a ótica de Roberto Esposito: Pese a todas las precauciones teóricas tendientes a garantizarlo. Una vez que se la identifica – con un pueblo. aquele que lê em uma língua estrangeira. a reducir lo general del ‘en común’.1 Tal duplicidade está ligada ao movimento pendular de abertura e resistência que se verifica no contato entre diferentes culturas e comunidades discursivas2 e. 44-45) De acordo com Esposito.142 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS LITERATURA E ESPANHOL/LE: A QUESTÃO DA COMUNIDADE Antonio Andrade UFRJ É possível iniciar uma discussão a respeito da relação entre língua. construir formas de identificação do leitor com o texto. discurso e comunidade pela seguinte pergunta: escrever ou ler em uma língua estrangeira significa pertencer à comunidade? A própria pergunta já deixa intencionalmente aberto um campo de definição: comunidade a que pertence(m) o(s) autor(es) ou a que pertence(m) o(s) leitor(es)? A resposta a essa questão leva-nos a aceitar a ideia de duplicidade ao tratarmos do processo de interação verbal em língua estrangeira. possuir um grau de inserção no universo discursivo referente à língua em que se processa o ato de ler. p. ese vacío tiende irresistiblemente a proponerse como un lleno. num esforço de previsão das expectativas discursivas de uma dada comunidade a que o texto se dirige. (ESPOSITO. embora traga para a leitura as marcas ideológicas e inconscientes de sua constituição identitária. De forma paralela. por um lado. o problema da comunidade advém da tensão entre a ideia de communitas – termo que delineia a configuração do “espaço comum” como um vazio.

são responsáveis pela produção de diferentes formas de leitura de um texto: (.. cultura e discursividade.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 143 aos projetos de (auto)proteção. op. tentam justificar a prevalência ou a posição desses grupos no terreno de disputas pela hegemonia. relacionar-se com ausência ou presença de polidez. com Silviano Santiago (2000). a título de exemplo. (SERRANI. ainda que a possibilidade do “equívoco” não esteja excluída nesse caso. é importante para o analista evidenciar. p. mas também devem ser vistos como marcas de regularidades enunciativas e de memórias discursivas. p. etc. op. do enunciado com o contexto sociodiscursivo. Evidentemente. Santiago assinala. ao situar-se na ordem do discurso. gerarem outros tipos de deslocamento significativo. No entanto. ser lido como um produtivo mecanismo de desterritorialização/ descolonização do sentido.. a possibilidade de o não compar tilhamento da memória discursiva e o não reconhecimento das marcas de regularidades enunciativas. 85). da mesma forma como Foucault (2002. em boa parte. Consciente de que “aquilo que se diz significa em relação ao que não se diz. ou a partir da história da leitura de um texto. distintas formações discursivas que atravessam os contextos socioculturais brasileiro e argentino. Pode-se verificar. ao lugar social do qual se diz. a partir da análise do texto de Cortázar..” Mas em lugar de reproduzir a frase na língua original. tais considerações estão perfeitamente conectadas ao estudo da interação entre coenunciadores pertencentes à mesma comunidade.) considerando o estudo sobre leitura em espanhol e português (. seu contexto original: “je voudrais un château saignant. invertendo. isto é. poderia.). por exemplo. 98) Aprofundando o exame das relações entre literatura. o leitor tende a seguir modelos de leitura já instaurados que funcionam como padrões de previsibilidade. a partir dos modelos de leitura. de modo especular. na interação verbal entre brasileiros e hispânicos mediado pelo texto escrito. seja por vontade paródica – traduz a frase avistada no espelho de um restaurante parisiense. A modo de exemplificação. a partir de condições de produção do discurso divergentes? Como bem apontou Serrani (2010). Neste caso. Essas regularidades condicionam a produção e a compreensão verbais do sujeito do discurso que. a partir de textos escritos e lidos sob as mesmas condições. o analista do discurso que se debruça sobre o ato de ler precisa reconhecer que toda leitura tem sua história. por um lado. ao longo da história. de outra forma. muitas vezes.. o que acontece na interação com textos em língua estrangeira escritos. gregarismo e consequente isolamento de distintos grupos sociais. a reflexão proposta por Orlandi (2001) a propósito dos mecanismos de variação e regulação (polissemia e paráfrase) encetados pela relação do texto com a sua exterioridade. ideológica e cultural que o definem. p. Desse modo. bem como aos discursos que. compartilhando o conhecimento consciente ou inconsciente de suas regras de funcionamento ideológico.. Essas marcas integram a constituição subjetiva. o sujeito estará habilitado a produzir (ou deslocar) sentidos. pode-se vislumbrar. ele a traduz .” (ORLANDI. O que poderia ser recebido como a formação de um mal-entendido capaz de vedar a comunicação. ou seja. que o personagem principal de 62 Modelo para armar – seja por desconhecimento das condições de produção do discurso na leitura em língua estrangeira. cit. as possibilidades de nascimento da pluralidade de sentido. a imprevisibilidade. 36) demonstra que os princípios e regras de coerção do discurso são simultaneamente responsáveis por sua produtividade. Mas. para quem se diz. em relação aos discursos. Tal reflexão de ordem político-filosófica coaduna-se com a perspectiva da análise do discurso.. cabe pensar que os modos de enunciar denominados abruptos [contexto argentino] ou por transições [contexto brasileiro] podem. não possui controle consciente do seu dizer. suas condições de produção. cit.

(SERRANI. cit. visto que inúmeras experiências escolares. de muitos professores de língua estrangeira em relação à abordagem de textos literários em suas salas de aula. p.. que. el castillo . colonialista.144 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS imediatamente para o espanhol: “Quisiera un castillo sangriento. a produção dissidente da classe popular como sinal de “resistência cultural”. Digo isso porque a própria autora sinaliza a possibilidade de tensão entre conhecimento dominante e dissidência no contexto das mesmas práticas sociodiscursivas.. ainda que relacionadas a um estudo de caso em contexto educacional de língua materna. mas também o deslizamento do sentido no interior deste processo. além de desconsiderar. que dentro do impulso imunitário de agrupamento sociocultural subsiste conjuntamente Tal concepção do discurso literário como um “entre-lugar” prevê não só a inevitabilidade da conexão entre leitura e produção. 51-52) . O não pertencimento à comunidade estrangeira e o não compartilhamento de determinados modelos literários da cultura letrada. são fatores preponderantes para o afastamento do leitor em relação ao texto que lhe é apresentado. E o adjetivo. a maioria manifestou que não acharia esse tipo de material adequado e que a leitura não entusiasmava. é preciso evitar a ideia de que. deve-se também evitar interpretar dessa maneira as considerações de Orlandi (2001. (SANTIAGO.” Escrito no espelho e apropriado pelo campo visual do personagem latinoamericano.).. de outro modo. Dessa forma. na pena do escritor argentino. Consequentemente. o desejo de ver o château. A propósito. château sai do contexto gastronômico e se inscreve no contexto feudal. nem sempre. Os futuros professores responderam explicitamente de modo negativo e os jovens que iriam responder o questionário não foram explícitos. de maneira engajada. pelo fato de não compartilharem os mesmos modelos discursivos do grupo social a que pertence o autor. ora declarado. que se tratava de pré-conceito. sangriento . conforme aponta Esposito. A dúvida sobre a (in)adequação do texto literário à didática de língua estrangeira tem demonstrado ser uma falsa questão.) perguntamos aos estudantes (e a alguns futuros professores) se poemas como esses seriam aptos para aulas de língua a adolescentes. Curioso notar que essa mesma questão foi desenvolvida por Serrani (2010) em texto em que a autora examina dados de pesquisa a propósito dos mitos e preconceitos sobre o interesse de alunos no ensino médio pela poesia: (. da perspectiva do interesse dos estudantes. o castillo sacrificado. de certo modo. posteriormente. No entanto. nos ajudam a desmistificar certo receio ora velado. “impediria” a classe popular de formar seus modelos de leitura. a interação entre coenunciadores pertencentes a distintas comunidades – ou. portanto.. relatadas em diversos congressos da área. 93) a respeito da hegemonia das políticas de leitura da classe média. ancorados em diferentes formações ideológicas e subjetivas – só poderá dar lugar a gestos de repúdio por par te dos leitores. 22) Tais observações. saignant. já que o material interessou à maioria dos alunos. torna-se a marca evidente de um ataque. A tradução do significante avança um novo significado (. Tal compreensão do letramento em comunidades discursivas não hegemônicas liga-se a uma concepção muito engessada da relação entre discurso e classe social. a casa onde mora o senhor. mas por meio de expressões faciais e outros gestos corporais. p. vêm comprovando a possibilidade de engajamento discursivo de jovens estudantes brasileiros com esse tipo de texto. de uma rebelião. motivando e agravando seu afastamento em relação às práticas de letramento promovidas pela escola. p. o que reforça visões deterministas sobre os percursos de formação dos sentidos. os depoimentos mostraram. esses poemas. seriam adequados para uso em sala. op. na leitura... op. cit. que significava apenas a preferência ou o gosto do cliente pelo bife malpassado. por parte dos estudantes da educação básica. a fogo e sangue. de derrubálo. embora sua perspectiva crítica só enxergue.

.. É preciso se buscar uma compreensão mais aprofundada da heterogeneidade cultural e discursiva das comunidades. quero chamar atenção ao fato de que a formação docente para o trabalho com textos literários em aulas de espanhol não pode. Tais concepções.) clarificar e refinar conceitos de letramento.) não é um elemento do texto. que o prazer que se manifesta no processo de interação com o texto literário é atópico. p. por isso é capaz de estabelecer e romper resistências quanto ao discurso do outro.. chamo a atenção para a necessidade de se buscar um viés mais complexo de entendimento dos sinais de proximidade e distanciamento manifestados no ato da leitura. a necessidade de se estar atento às diferenças institucionais e subjetivas envolvidas nas (re-)significações conduzidas pela ação pedagógica – desde a escolha do texto até sua mediação –. em vez disso. nenhuma mentalidade. 30).ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 145 um impulso comunitário de abertura à exterioridade. 484).) ha entrado en el escenario otra dimensión. p. portanto. ao mesmo tempo produzido pelo modo como é posicionado na trama do discurso literário e produtor de atos responsivos em face do enunciado: ator envolvido em tensos movimentos de adesão e deslocamento. reivindica atenção às “demandas locais de letramentos diferentes”: “Antes de tudo.. 2010a). não ocupa lugares fixos na cadeia significante. que (. (. personagens. mas também desde o . Seguindo a esteira dessa colocação. estudar as práticas de letramento em contextos culturais e ideológicos diversos” (Ibidem).. Esta perspectiva coaduna-se à de Brian Street (2006. asociada al inconsciente psicoanalítico: aquel donde está instalado el deseo. nos conflitos entre formas de compreensão textual e nos graus de consciência do leitor em relação a sua posição no processo de leitura. vista assim como espaço de tensão entre diferentes vozes: autor real.. p. receptáculo de divergentes forças discursivas de acabamento e dispersão.. Tal consciência requer da pesquisa uma investigação mais densa quanto à produtividade da noção de exotopia3 (do autor e do leitor) no processo dialógico. 2003. procuro estender o critério de não coincidência entre os papéis enunciativos colocados em jogo no âmbito da produção escrita para a análise da compreensão leitora. 239). 29). CÁRCAMO. quem em lugar de aceitar a existência de um processo único e autônomo de letramento. Isto sinaliza. leitor virtual e leitor real. Isso remete às considerações de Neide González sobre a dimensão afetiva (o investimento desejante) que permeia a relação das comunidades e dos sujeitos – entendidos como entidades não monolíticas – com a língua estrangeira: “En los últimos años.. junto com Barthes. de modo algum. precisamos (. Com isso. autor representado. Não à toa. isto é. ser reduzida ao estereótipo de que a literatura estrangeira serviria como uma estratégia de resolução de conflitos hipotéticos ou como forma de “substituir” experiências diretas com o estrangeiro (cf. Para Barthes (2008. (. 2001. “O prazer (.) afecta ese proceso especial en el que inevitablemente identidad y alteridad se enfrentan” (GONZÁLEZ...) é uma deriva. portanto. nenhum idioleto”. lançando mão da perspectiva bakhtiniana (BAKHTIN. abandonar o grande divisor entre ‘letramento’ e ‘iletramento’ e. sugerem a necessidade de se focalizar as distintas exotopias envolvidas na produção da leitura literária em E/LE por sujeitos situados em diversos contextos. de modo muitas vezes imprevisto. p. bem como do possível deslocamento de sentidos produzido não só desde o âmbito da produção. 2007. qualquer coisa que é ao mesmo tempo revolucionária e associal e que não pode ser fixada por nenhuma coletividade. Assumir uma posição menos simplificada em relação ao papel da ideologia na atividade leitora significa compreender. admitindo o dialogismo de vozes não coincidentes na interação propiciada pelo ato de ler. Esse ponto de vista solicita ainda o entendimento do leitor como instância enunciativa ligada à natureza dúplice – (ir)repetível – da discursividade.

os estudos literários contribuem muito.E de formação” (Vanessa. cujo reflexo nesses casos é a busca de “soluções mágicas” para os problemas linguísticos e interculturais através do conhecimento literário.4 Esses dizeres ignoram a plurivocidade de sentidos da linguagem nos gêneros literários. 104). “o aluno de língua estrangeira aprende. apresento adiante alguns excertos de textos produzidos em 2011 por licenciandos de Letras Português-Espanhol de uma universidade pública do Estado do Rio de Janeiro ao serem interrogados a propósito da contribuição da literatura para sua formação inicial como docentes de língua estrangeira: “Os estudos literários são importantes para a formação do professor de L. É importante lembrar.) e aceitar as diferenças ou lidar melhor com elas” (Daniele. percebe-se nesses enunciados a força tipificadora que a simplificação do discurso em torno do literário. 6º período). como se a cultura do outro. um conhecimento sobre o mundo. pudesse ser abarcada na sua inteireza como um conteúdo didático. como é de se esperar que ocorra em toda e qualquer atividade discursiva. futuro professor de línguas e literaturas. no aluno-leitor universitário. Tenho podido constatar. Além disso. se a questão da estrangeiridade só consegue ser representada aí em termos de “adaptação”/”aceitação”. 5º período). ao mesmo tempo singular e comunitário. mas a história. em Bakhtin (2010b. para muitos. 4º período). portanto. para concluir. a sensibilidade para o efeito dialógico e tensivo. que cede lugar à má interpretação da produção teórico-crítica sobre o literário (note-se nos fragmentos acima certa tendência a se confundir a literatura com o domínio institucional dos “estudos literários”). Tal opinião é baseada na defesa de que aprender uma língua é muito mais do que conhecer a estrutura da mesma. talvez isso seja um sinal de que. Aliás. silenciando dilemas da subjetividade e da comunidade. entretanto aqui talvez a falta de um contato mais íntimo com a literatura. O professor ensinará não só a gramática da língua. que. “Na minha opinião. no contexto de minha pesquisa sobre a relação entre letramento literário e formação docente. . do cultural e do histórico vem produzindo em nosso cenário acadêmico. De certa maneira.. a experiência literária estrangeira que vem sendo vivenciada na universidade não é a do questionamento e da desconstrução do senso comum.146 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS da leitura do texto literário. ou de maneira positiva. p. principalmente se o futuro professor busca obras literárias da sua L. mesmo “o amor ao outro” não é capaz de suspender a diferença: traço constitutivo da própria discursividade. vem tornando mais aguda a potência apassivadora (e apaziguadora) do discurso.. A vontade de enunciar dá lugar a um ser enunciado. para a formação do professor de língua estrangeira. fazendo com que seus alunos conheçam e aprendam a respeitar outras culturas” (Rafaela. representada por comunidades linguísticas e literárias estrangeiras.E pela oportunidade que oferece a literatura de um maior conhecimento cultural. uma outra cultura) e a tomar gosto por um outro tipo de leitura” (Frederico. Como se vê. que o ato estético de enunciação pode provocar. A título de exemplo. a questão gramatical e estrutural também é importante. mas também ter acesso à cultura dos países que têm tal língua como oficial. a consideração do leitor nesse processo é fundamental para qualquer intento de se (re-)configurar as bases dessa formação. dentre outras coisas. a se adaptar a algo diferente (no caso. É preciso despertar. por exemplo. bem como o fato de que sujeito e alteridade estão imbricados e se problematizam mutuamente. 5º período). certa cristalização de visões simplificadoras da ideia de outridade. “[a literatura] nos faz quebrar (ou confirmar) paradigmas (.

Em: Uma literatura nos trópicos. focaliza os usos e análises da comunicação escrita realizados por indivíduos (membros da comunidade) que. n. p. S. 398-400. (2002): A ordem do discurso. p. ESPOSITO. Rio de Janeiro: Forense Universitária. (2003): Discourse community. B. Em: Revista de Filologia e Linguística Portuguesa. p. 239-255. ORLANDI. ________ (2008): A arqueologia do saber. Em: BRAIT. p. SERRANI. Em: Anuario Brasileño de Estudios Hispánicos. mas porque é gerado pelas formações discursivas. M. Notas 1 Trago à tona aqui uma consideração de Kumaravadivelu a propósito do vínculo inexorável – observado no pensamento de Foucault – entre discurso. STREET. compartilham interesses e expectativas comuns e encontram-se engajados em práticas comunicativas propiciadas por determinados gêneros discursivos. fundamental para a análise dos procedimentos de construção do sentido acionados pela leitura: “Um texto significa o que significa não por causa de quaisquer traços linguísticos objetivos inerentes. Unicamp. embora não necessariamente precisem interagir de maneira direta ou estar próximos uns dos outros. São Paulo: Contexto/Ed. 465-488. (2008): Cronotopo e exotopia. Buenos Aires: Amorrortu. BAKHTIN. J. Em: Hispanismo 2000. (2010): Discurso e cultura na aula de língua. L. (. E.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 147 Referências bibliográficas AMORIM. FOUCAULT. P. 8. BARTHES.) Analisar texto ou discurso significa analisar formações discursivas essencialmente políticas e ideológicas por natureza” (KUMARAVADIVELU. BORG. p. p. GA). São Paulo: Contexto. Atlanta. R. textualidade e significação. B. N. p. Oxford University Press. (org. R. Em: ELT Journal Volume. era da globalização. (2003): Estética da criação verbal. 140). KUMARAVADIVELU. S. (2000): O entre-lugar do discurso latinoamericano. Suplemento Jubileo de Plata de la APEERJ. .. (2006): Perspectivas interculturais sobre o letramento. 1. São Paulo: Loyola. Rio de Janeiro: Rocco. (2006): Linguística aplicada na ________ (2010a): Problemas da poética de Dostoiévski. o conceito original de “comunidade discursiva”. 129-148. 57/4. M. ________ (2010b): Para uma filosofia do ato responsável. cada qual com suas ideologias particulares e modos particulares de controlar o poder. Rio de Janeiro: Forense Universitária. March 19-21. São Paulo: Martins Fontes. Em: Annual Meeting of the Conference on College Composition and Communication (38 th. (2008): O prazer do texto . 95-114. atribuído a Swales (1987). M. GONZÁLEZ. SWALES. CÁRCAMO. (1987): Approaching the concept of discourse community. São Paulo: Perspectiva. S.. (2007): Communitas: origen y destino de la comunidad. São Paulo: Parábola. SANTIAGO. E. 2006. São Paulo: Pedro & João Editores. v. 25-31. B.) Por uma linguística aplicada indisciplinar . p. (2001): La expresión de la persona en la producción de Español Lengua Extranjera de estudiantes brasileños: perspectivas de análisis.) Bakhtin: outros conceitos-chave. 9-26. 2 Segundo Borg (2003). (2007): La literatura en la formación y en la práctica del profesor. Em: MOITA LOPES. Campinas: Pontes. (2001): Discurso e leitura . (org.

à possibilidade de o enunciador situar-se em “um lugar exterior. . 95-96). fundamental ao trabalho de criação e de objetivação”. “refere-se à atividade criadora em geral”. segundo Amorim (2008. 4 Todos os nomes dos licenciandos que colaboraram com a pesquisa foram alterados a fim de preservar suas identidades. de onde provém sua singularidade dentro do processo discursivo-enunciativo e de onde se derivam os valores éticos de sua posição.148 3 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS O conceito bakhtiniano de exotopia. p.

licenciaturas. Vale à pena destacar o curso inicia suas atividades no ano de 2006. Durante muito tempo. do setor de agronegócios e de serviços. No entanto. ensino técnico. nasce uma ampla discussão interna e externa sobre o papel de atuação dessas instituições no cenário educacional brasileiro e sobre a identidade institucional de cada Centro de formação. bacharelados e pós-graduação (lato e stricto sensu).ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 149 A FORMAÇÃO DE PROFESSORES DE ESPANHOL NO INSTITUTO FEDERAL DE RORAIMA: REFLEXÕES SOBRE A PRÁTICA DOCENTE Antonio Ferreira da Silva Júnior CEFET/RJ. ensino médio integrado ao técnico. Para este artigo. servidores e teóricos da Educação pelo entendimento do seu verdadeiro papel perante a sociedade. a Rede Federal passou por uma constante mudança de sua identidade institucional. cursos superiores de tecnologia. 2 Centros Federais de Educação Tecnológica (CEFET) e 1 Universidade Tecnológica. implicando um interesse e debate entre os professores. somente no ano de 2000 (decreto 3.462/2000). no decorrer dos seus mais de cem anos de existência. alguns CEFET começam a oferecer cursos de licenciatura em Física. Matemática e Ciências. instituições responsáveis por oferecer em todos os Estados brasileiros uma gama de cursos: ensino médio. No que se refere à formação de professores na Rede. antes da mudança para Instituto Federal. nos centramos no histórico dos Institutos Federais e sua proposta de formação de professores e no debate sobre o curso de Licenciatura em Espanhol do Instituto Federal de Roraima (IFRR). portanto. sinalizando que tal proposta não é decorrente do atendimento de uma exigência do MEC para preenchimento de vagas. por determinação do MEC como alternativa para escassez de professores em algumas áreas do conhecimento. PUCSP Introdução A Rede Federal de Educação Profissional e Tecnológica é formada por 38 Institutos Federais. concepções de ensino e a imagem do . Esperamos a partir da análise do Projeto Político Pedagógico do referido curso tecer considerações para as seguintes questões: formação docente em Institutos Tecnológicos. A partir da publicação de tal decreto. pioneiro na oferta de cursos de Letras no cenário da Rede. as “escolas” da Rede preocuparam-se com a formação de mão de obra especializada de nível médio para atender as demandas profissionais da indústria.

Desde sua aprovação e expansão aos demais Estados da Federação. A formação de professores nas “escolas” da Rede Federal No final dos anos 90. principalmente. Esses são alguns pontos colocados em cena. além do desenvolvimento de atividades de pesquisa e extensão. Essa expansão inesperada e pouco discutida entre os atores (professores. 2008). Técnico e Tecnológico. A transformação dos CEFET em Institutos Federais não foi uma medida governamental obrigatória. contando com o mesmo corpo docente cursos de diferentes níveis e modalidades de ensino. inclusive. tais “escolas” passam a ser vistas como “instituições de educação superior. dirigentes e demais membros da comunidade escolar) da Rede Federal permitiu uma série de questões internas advindas dessa política de expansão do ensino técnico e superior do governo Lula. como: (a) articulação entre cursos de diferentes níveis de ensino. as escolas federais da Rede de educação profissional e tecnológica. básica e profissional. técnicos administrativos. não podem deixar de ministrar o ensino profissionalizante. (c) atuação do professor em diferentes níveis de ensino. . principalmente. 1961). alunos. CELANI (2001) e PAIVA (2005). tais 1. Nilo Peçanha. Os Institutos Federais são equiparados às universidades federais. Tal mudança acarretou novamente em uma mudança identitária das escolas e. no entanto. podemos dizer que foi quase unânime. De acordo com o decreto de criação. Para alcançar tais objetivos.406/97 1.462/00. após a constituição dos Institutos Federais e a abertura de inúmeros cursos de licenciatura em diferentes áreas do conhecimento.566. através do decreto número 7. A reestruturação interna dos CEFET estava sendo discutida no teor desse documento. pluricurriculares e multicampi” (BRASIL. Institutos Federais: seu percurso identitário No dia 23 de setembro de 1909. (d) oferta de cursos de licenciatura como mera formalidade para atendimento de demandas impostas pelo MEC ou vocação dos colegiados.150 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS professor contemporâneo. o então Presidente da República. cria 19 Escolas de Aprendizes e Artífices nas capitais dos estados da confederação e com essas o desenvolvimento do ensino profissional primário e gratuito. normalmente. permitindo uma maior expansão e diversidade das licenciaturas oferecidas no país. no entanto. (g) necessidade de mudança do estigma de origem atribuído aos Institutos Federais/CEFET conhecidos até hoje como “escolas” técnicas. (b) falta de esclarecimentos da atuação do docente na Carreira de Professor do Ensino Básico. os CEFET passaram a atuar na formação e na capacitação de professores para a Educação Básica e da Educação profissional atendendo a um chamado do Ministério da Educação com a aprovação do decreto número 2. passaram por diferentes nomenclaturas. (e) presença de professores concursados sem formação pedagógica atuando nos cursos de licenciatura. que foi reescrito e substituído pelo decreto número 3. o fortalecimento e a padronização de uma identidade visual para a Rede Federal de ensino. Isso implica um processo interno de compreensão de como articular num mesmo espaço e. O objetivo inicial dessas escolas era formar operários e contramestres a partir de um ensino focado nas habilidades necessárias e práticas para desempenhar ofícios manuais (FONSECA. aos estudos teóricos de GADOTTI (2001). (f) formação do licenciando vista como de um trabalhador técnico. 2. recorremos.

Acreditamos que essa abertura para as Letras representou um importante movimento de quebra de paradigmas que culmina no ano de 2008. encontram amparo no decreto 5. já que elas possuíam longa tradição no ensino de formação técnica e começaram. entendemos que a própria origem da Rede sustente essa demanda. determinou carga mínima de 2800 horas. que os saberes relacionados à área industrial. Vale à pena ressaltar também que esses cursos abriram uma nova estrutura interna no ensino das escolas da Rede Federal. extinguiu-se a formação do professor da Educação Básica no chamado regime 3 + 1. : . porém.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 151 O decreto acima ainda é reforçado por outro de número 5. de certa maneira. Com a nova roupagem desses cursos. Após a publicação desses documentos muitos cursos de Licenciatura nos CEFET começaram a ser projetados em todo o país. a ofertar Bacharelados em Engenharia com inúmeras habilitações. percebemos. num mesmo espaço institucional. de licenciaturas na Rede. englobando 400 horas de prática curricular. Histórico do Curso de Letras/Espanhol do IFRR Como professor da Rede Federal desde 2007. Com essa regulamentação. Em relação à carga horária das licenciaturas. que dispõe no parágrafo único do capítulo II sobre a possibilidade de abertura de cursos em outros campos do saber. (g) o uso das tecnologias da informação e da comunicação e (h) de metodologias. 400 horas de estágio curricular supervisionado. convivem com modalidades e níveis de ensino diversificados. no ano de 2006. por outro lado. carga horária e Diretrizes para os cursos de formação de professores do país. da oferta de cursos de Licenciatura em Letras/Espanhol em dois CEFET. a resolução número 1 de 19 de fevereiro de 2000. ainda em constante construção. 2005). de formação pedagógica e de formação geral. por conta de uma nova identidade para a Rede. os primeiros cursos de licenciatura dos CEFET começaram a se configurar. estratégias e materiais de apoio inovadores. à tecnologia e às exatas são privilegiados. Aliado a isso. (d) o desenvolvimento de hábitos de elaboração e trabalho em equipe. nem sempre adequada à realidade e ao contexto de cada curso de licenciatura (PAIVA. 1800 horas de aulas para os conteúdos curriculares de natureza científicocultural e 200 horas para atividades acadêmicocientífico-culturais. De acordo com essas diretrizes. favorecendo. a partir também dos anos 90. o perfil dos cursos de Licenciatura é reformulado através da Resolução do Conselho Nacional de Educação (CNE).224.224/04. conseguimos visualizar uma interdisciplinaridade entre os eixos de formação específica. porém. (e) o aprimoramento em práticas investigativas. 3. já que os licenciandos. (b) o acolhimento e o trato da diversidade. três anos de conteúdos característicos de um curso de bacharelado somados a um ano de formação pedagógica. (f ) a elaboração e a execução de projetos de desenvolvimento dos conteúdos curriculares. de 1º de outubro de 2004. em pouco tempo de instituição. Essa proposta de integração entre os saberes teóricos e práticos já é algo bastante comum na organização curricular das licenciaturas dos Institutos Federais. A inquietação para o desenvolvimento deste artigo surgiu ao tomar conhecimento. cujo objetivo era rever aspectos da prática docente formalizando sua duração. (c) o exercício de atividades de enriquecimento cultural. na superação do tradicional modelo hegemônico disciplinar dos cursos de formação de docentes e reforçando a verticalização do ensino. Os cursos de Letras fogem do eixo tecnológico previsto inicialmente para oferta. Alguns pontos centrais foram: (a) o ensino visando à aprendizagem do licenciando. em 18 de fevereiro de 2002.

Na introdução do documento. A elaboração do mesmo deuse por uma comissão liderada por duas representantes da área de espanhol. Segundo Paiva (2005): [. que atribuem sentido ao teor de tais prescrições. Como justificativa. o texto informa que o Estado O projeto pedagógico deve ser entendido como um gênero importante para a definição de uma concepção única de formação por parte dos docentes . de um curso. percebemos o caráter diferenciado desses cursos em comparação aos já oferecidos no mercado. e elemento norteador da discussão do perfil desejado de profissional da área de atuação.. em torno de disciplinas.] o projeto do curso deveria ser o carro chefe para garantir a qualidade do ensino. Cada vez mais. As ementas e programas se escoram em bibliografia desatualizada. a teoria não dialoga com a prática. através de análise de projetos e matrizes. em nosso caso o de língua estrangeira.152 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Por meio do decreto mencionado. A lei 11. 2001. o projeto do IFRR apresenta estudos estatísticos como os da Agência Brasil/ Radiobrás. o que implica numa demanda significativa de interessados pela aprendizagem da língua. e ainda conta com um Centro de Estudos de Línguas Estrangeiras (CELEM). destaca a aproximação do Estado de Roraima a países hispanofalantes. condução e a manutenção desses cursos. o da UFRR. Ainda. alguns CEFET conseguiram o embasamento para ofertar as primeiras licenciaturas em Humanas. No desenvolvimento da justificativa. coletados em agosto de 2005. além do mercado econômico. o projeto apresenta a carência de profissionais de ensino de espanhol como língua estrangeira (E/LE) na cidade de Boa Vista e nos municípios do interior.. com o intuito de funcionar como mais um espaço de formação. acreditamos que tais orientações permitem avaliar como cada instituição entende e concebe a formação de professores. p. O único existente até aquele momento. O projeto pedagógico do IFRR nomeia o curso como sendo de Licenciatura Plena em Língua Espanhola e Literaturas. Outro ponto de reforço do projeto é a falta no Estado de cursos de formação de professores. sabemos que fatores decorrentes da motivação de um colegiado de professores são fundamentais para a apresentação. Em seguida. cultural e social existente nessa área de fronteira. que torna obrigatória a oferta de espanhol no Ensino Médio. dentro do modelo de transmissão de conhecimento. porque. 18) como um processo dinâmico: “[. Isso implica em reconhecer o projeto de curso. Cada universidade precisa refletir sobre a necessidade constante de estudar o perfil de professor mais adequado à realidade escolar do país. não conseguia suprir a demanda por profissionais da área.. nosso objetivo principal nas páginas a seguir está em averiguar como o IFRR idealizou seu curso de Licenciatura a partir das informações públicas disponíveis em seu projeto pedagógico. a análise dos projetos revela o predomínio de currículos organizados de forma tradicional. No entanto. revelando uma carência de 12 mil professores em todo o Brasil para aplicação da lei de oferta do espanhol. Além de a oferta acontecer num espaço até pouco tempo visto como de formação para Educação Básica e Profissional. e a metodologia é ainda centrada no professor. Nesse sentido. como pensar a formação do profissional de linguagens numa instituição onde algumas áreas do saber são vistas como mais tradicionais que outras? Tal pergunta constitui nosso interesse ao estabelecer uma reflexão sobre os cursos de Licenciatura em Espanhol da Rede mediante análise dos projetos e matrizes curriculares dos cursos. conforme assinala Gadotti (apud VEIGA. aparece citada como mais um argumento para a criação do curso.] Todo projeto supõe ruptura com o presente e promessas para o futuro”. além de a maioria não apresentar coerência entre os objetivos e o perfil do egresso.1165/05.. o texto sinaliza que a instituição oferece o espanhol desde o ano de 1995 na grade de todos os seus cursos. No entanto.

ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 153 de Roraima necessita de um número emergencial de 128 docentes para atuação nas escolas do Estado.680 horas. atividades de extensão e de natureza acadêmico-científico-cultural. Literatura. mas pelo menos pode ser considerado um avanço comparado às demais grades. Cultura e Formação Docente. Como ponto diferencial. O documento emprega os dados de 2002 do Sistema Estadual de Educação e dados da esfera educacional do município de Boa Vista. a tradução e como intérprete. Como objetivo geral do curso do IFRR.580 horas dos Conteúdos/ Conhecimentos/Competências Curriculares de natureza científica. o programa organiza-se em quatro ciclos (Introdutório. para traçar um mapa da Educação Básica do Estado. valorizando a formação do professor como profissional do ensino. O diferencial da proposta do programa curricular do IFRR é que distribui entre os vários períodos a carga horária da disciplina de “Prática profissional” (estágio supervisionado. Formação Docente e Complementação Profissional) perpassando em quatro áreas do saber: Língua Espanhola e Linguística. desde os conhecimentos mais estruturais da língua de estudo. entre eles a pesquisa. O projeto de ambos possibilita que até 20% do conteúdo também possa ser ministrado à distância. O projeto atenta para a adequação das orientações do Parecer CNE/CP número 1. O curso está dividido em 8 períodos com duração mínima de 4 anos. do sujeito da aprendizagem. culturais e pedagógicos. permitindo uma maior flexibilização curricular e. o projeto destaca “formar profissionais competentes no processo de ensino e aprendizagem da Língua Espanhola como língua estrangeira e suas Literaturas”. conforme consta a seguir o texto do projeto: . como já mencionado anteriormente neste estudo. O projeto sinaliza uma ampla formação. A matriz curricular subdivide-se em 2. conforme portaria número 4.059 de 10 de dezembro de 2004. humanística. prática curricular e de pesquisa). os componentes curriculares dividem-se em dois campos do conhecimento: (1) Literatura e cultura e (2) Metodologia para aquisição e/ou aprendizagem de E/ LE. Básico. o documento apresenta que a proposta de trabalho do curso se pauta “numa estrutura com identidade própria. em nível superior e determinar a duração e a carga horária mínimas dos Cursos de Licenciatura. passando por aspectos históricos. pedagógica e cultural. porque permite a inclusão do aluno na realidade digital. A partir dessa divisão. a consultoria. que não articulam. técnica. ainda. ética e democrática”. O curso do IFRR apresenta diferentes linhas teóricas somente na apresentação do ciclo introdutório da aprendizagem da língua espanhola. O curso na íntegra soma 3. documentos responsáveis por instituir as diretrizes curriculares nacionais para a formação de Professores da Educação Básica. alerta que o modelo curricular está baseado em competências que contribuam para uma completa formação humanística e pedagógica. as redações de jornais. alicerçado numa sólida base científica. a teoria e a vivência em sala de aula por parte dos aprendizes. consequentemente. A possibilidade de educação a distância é vista como um avanço. Não podemos afirmar que tal desmembramento da carga seja positivo ou negativo. 400 horas de estágio obrigatório e 100 horas de aprofundamento de estudos. O documento delimita o foco da formação como sendo a preparação do licenciado para atuar na docência. desde os primeiros períodos. 600 horas de práticas a serem vivenciadas ao longo do curso. Tendo em vista que o eixo central do programa é a área de Língua Espanhola. mas também apresenta espaços possíveis de atuação do profissional concluinte do curso. coletados em 2003. O projeto. de 18 de fevereiro de 2002 e da Resolução CNE/CP número 02/2002.

o projeto apresenta todos esses pontos no nível inicial de aprendizagem (correspondente ao segundo semestre). implicou no aumento de vagas e diversidade dos mesmos. no entanto. cada “escola” constituinte da Rede Federal foi construindo uma história própria. por exemplo). 2001) para atuar em diferentes contextos educacionais brasileiros. As ementas das disciplinas permitem visualizar a preocupação da comissão elaboradora do projeto a todo o momento na transversalidade do saber. Deverá atender à integração dos distintos componentes curriculares. seja por vontade política ou de interesse democrático. O projeto fornece importante contribuição para a formação de profissionais diferenciados e reflexivos (CELANI. Como vimos no decorrer do artigo. estar focada na formação de trabalhadores para atuação no mundo produtivo.] Constitui o eixo da carreira tendo como base o enfoque integral da língua espanhola (semântica. Além disso.154 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS [. Ciência e Tecnologia são instituições de ensino superior diferenciadas. e está orientado tanto à operação funcional-instrumental. em sua maioria. privilegiando o enfoque contrastivo na aprendizagem da Gramática Espanhola (IFET RORAIMA. já que o projeto não sinaliza a necessidade de conhecimento da língua para realizar o mesmo. que iniciaram. projetos e experiências de ensino. de abordagens e de olhares para o ensino de línguas. No decorrer de sua existência. 2005) Considerações finais Os Institutos Federais de Educação. o que pode representar uma dificuldade para o aluno iniciante no estudo da língua estrangeira. vale à pena reforçar que em relação aos cursos de licenciatura da Rede. quanto comunicacional da língua espanhola. primeiro. futuro professor. dotado de conhecimentos teóricos e de ampla formação cidadã. talvez seja mais coerente o colegiado primar por uma consonância teórica na elaboração das disciplinas iniciais de língua espanhola. por anseios profissionais.. levanta o método comunicativo e finaliza mostrando a importância da análise contrastiva. Por outro lado. pragmática). o projeto também inova em relação às outras grades curriculares de Letras em todo o Brasil. usa a “análise do discurso” sem a implicação teórica apropriada. Apesar de a Rede Federal. incluindo uma gramática descritiva e uma metodologia de análise dos discursos. desde sua origem. técnico e tecnológico. Apresenta uma visão mais tradicional do ensino demonstrada pela menção à gramática descritiva e ao reduzir a língua em blocos fechados (semântica. morfossintaxe. que num primeiro momento foram concursados para atuar no ensino médio. idealizada por docentes. a mudança de CEFET para Instituto. . Não queremos dizer que discutir a língua sobre diferentes abordagens não seja importante para o aluno. Em relação às disciplinas de formação didático-pedagógica. o curso de Letras/Espanhol do IFRR é uma proposta recente e inovadora. acreditamos que os projetos analisados imprimem uma formação vinculada a um futuro trabalhador da sala de aula. seu percurso acadêmico e sua identidade institucional em 1909 no ato de criação das primeiras escolas de Aprendizes e Artífices. No trecho acima. e segundo. na relação entre a teoria e prática do futuro professor de E/LE. pela necessidade de formação de docentes de espanhol. morfossintaxe.. mas que acabaram por levar a experiência desses níveis para a idealização de um curso de licenciatura. o texto de apresentação das competências a serem desenvolvidas no primeiro ciclo expõe múltiplas correntes.

ET (orgs. ———.gov. “O novo perfil dos cursos de Licenciatura em Letras”. .L. BRASIL. In: TOMICH.php?option=content&task=view&id=91&Itemid=207>.mec. 2011. de graduação plena. Brasília. Maria Antonieta Alba. Resolução CNE/CP 2/2002. 1961.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 155 Referências bibliográficas BRASIL. pp. Campinas: Papirus. ———. “Ensino de Línguas Estrangeiras – ocupação ou profissão”. Decreto 3. de 18 de fevereiro de 2002 .php/ component/content/article/46-cursos/68-licenciaturaplena-em-lingua-espanhola-e-suas-literaturas>. 2001.095 de 24/04/07 . P. 2001. Ciência e Tecnologia IFET.M.). para fins de constituição dos Institutos Federais de Educação. MEC.O.ifrr. História do ensino industrial no Brasil.http://p or tal. Pelotas: Educat.br/campus_bv/index. Vilson (org.948. de 8 de dezembro de 1994. CELANI.Estabelece diretrizes para o processo de integração de instituições federais de educação tecnológica. de 27 de novembro de 1997. 2000. A interculturalidade no ensino de inglês. 345363. In: LEFFA. MEC. Expansão da Rede Federal. Disponível em: <www. Disponível em: < http://www. A. no âmbito da Rede Federal de Educação Tecnológica. IFET RORAIMA. VEIGA.406. I. 8º do Decreto 2. de formação de professores da Educação Básica em nível superior. Florianópolis: UFSC. Resolução CNE/CP 1/2002. FONSECA. Celso Suckow da. 23.462 de 17/05/2000 .edu.Institui a duração e a carga horária dos cursos de Licenciatura.dá nova redação ao art. Decreto 6. V.) O professor de línguas estrangeiras – construindo a profissão. Último acesso em: 03 set 2009. Nota 1 A oferta inicial dos cursos de licenciatura nas escolas da Rede remete à oferta voltada para a área das Ciências da natureza. 2005. 21-40. p. 2005. ———. PAIVA. Rio de Janeiro: Composto e Impresso no Curso de Tipografia e Encadernação da Escola Técnica Nacional. Último acesso em: 30 fev. Plano de curso para formação do professor da Educação Básica em nível superior – Licenciatura plena em Língua Espanhola e Literaturas.br/setec/ index. (Org. que regulamenta a Lei nº 8.) Projeto político-pedagógico da escola: uma construção possível. ed. de 19 de fevereiro de 2002.

todavía hacen falta estudios que se ocupen de forma más detallada del tratamiento de la polifuncionalidad de los marcadores del discurso. a la estructura de los actos de habla y a la estructura de intercambio comunicativo propuestas por Schiffrin). Otros estudios. pueden funcionar como marcadores. Lo cierto es que muchos de los estudios que se han llevado a cabo en este ámbito suelen señalar la especificidad de los rasgos suprasegmentales (como la entonación . Van Dijk (1979). al parecer. respectivamente. la estructura de los actos de habla.156 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS POLIFUNCIONALIDAD DE LOS MARCADORES DEL DISCURSO Y ENSEÑANZA DEL E/LE Antonio Messias Nogueira da Silva Universidade Federal do Pará 1. en su precursor estudio “Pragmatic connectives”. asociados con los marcadores. En este sentido. tal es el caso de los modelos de Shiffrin (1987) y de Redeker (1991). a la estructura ideacional. o la delimitación por pausas) que. así como suelen indicar la existencia de algunos de esos rasgos que. deslinda el aspecto polifuncional de los MD a partir de cinco dominios del discurso: la estructura del intercambio comunicativo. El modelo de Schiffrin. En el ámbito hispánico. Introducción La polifuncionalidad de los marcadores del aspectos del estudio de Schiffrin y defiende que el marco de participación y el estado informacional no son independientes de las otras tres estructuras. al estudiar la coherencia que se construye por medio de relaciones entre unidades adyacentes en el discurso. 1987: 25). Redeker (1991). por su parte. no asociados con una pieza léxica en concreto. observó que algunas unidades presentan un carácter polifuncional porque operan en distintos planos del discurso: el semántico y el pragmático . según esta autora. Así. estudios como los discurso (en adelante MD) es un tema que. como los que se basan en la coherencia discursiva. realiza una revisión de algunos . no ha recibido bastante atención por parte de estudiosos que se han ocupado de desvelar el valor semántico-pragmático de estas unidades discursivas. el marco de participación y el estado informacional (SCHIFFRIN. la estructura ideacional. por lo que deben ser incorporados a ellas. determinan el sentido de estas partículas discursivas. estructura retórica y estructura secuencial (las cuales corresponden. la duración silábica. también han puesto de relieve la polifuncionalidad de los MD. el modelo ideal se debe basar en tres componentes: estructura ideacional.

o una aceptación neta y entusiasmada (b ).¿Te no apetecen gominolas? (. 2004). aunque complementarias.. la cuestión es que en la mente de los especialistas ha acabado calando la importancia de lo prosódico como factor decisivo para explicar la polifuncionalidad de los marcadores. tales como la entonación. la entonación. 1974). en este caso bueno puede aparecer con un alargamiento de las vocales.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 157 de Domínguez García y Dorta Luis (2002). matizado por la entonación. el hecho. señala que la polifuncionalidad de los MD “está en relación con la aptitud de las par tículas extraoracionales para recibir rasgos suprasegmentales distintos (sobre todo.Bue Buen o. perspectivas. por ejemplo. las reacciones del interlocutor. o. o más o menos connivencia con el interlocutor. 2000: 209). más importante aún. algunos rasgos suprasegmentales. el marcador bueno puede aparecer con un alargamiento de las vocales y acompañado de una repetición del signo.) es una necesidad para entender el funcionamiento de estos elementos en la conversación coloquial (PONS BORDERÍA. según esta autora. por ejemplo. en mayor o menor medida. los cuales indicarían. Elordieta y Romera (2002). Martín Butragueño (2002). de otro modo. intensificándola o atenuándola): a) . por ejemplo. la información directamente accesible a partir del contexto situacional. Martín Zorraquino (1998: 23). y en función de factores que no tienen incidencia en el texto escrito. con lo que se contribuye a matizar el valor semántico-estilístico (el sentido) de dichas unidades”. Así. además.. b uee no o … ¿Tú que siempre te ha sido fiel. puede expresar desacuerdo (d ) del interlocutor (también en este caso. frecuentemente matizan el contenido instruccional de los MD (MARTÍN ZORRAQUINO. De esta manera. a la palabra que les queda más cercana en el enunciado (ALLERTON Y CRUTTENDEN. creemos que resulta posible establecer las diferencias entre los diversos conectores pragmáticos contrastando el funcionamiento pragmático y discursivo de aquellos que realizan una misma función. etc. por ejemplo. en cambio. -Buee Bueeno noo ueeno noo crees? no . d) -Me ha dicho tu ex mujer gominolas? (-Buee Bueeno noo no o . por su parte. La polifuncionalidad (. una misma forma tiene asociada varias . puede indicar una ueno simple y clara aceptación (a ). la entonación). como c lar laro y b i e n . no solo el marcador b ue ueno o (que ) también muchos otros marcadores. precisamente. el que una ocurrencia de un conector se pueda analizar desde distintas. pueden tener su sentido determinado por los rasgos suprasegmentales. Así pues. Para Hidalgo Navarro (2010: 65). y que. podrían señalar también que afectan. sino En definitiva. Por otro lado. ). Sirvan de ejemplo las siguientes palabras para comprender la dinámica de los conectores: Comenzar el análisis desde las funciones permite explicar la polifuncionalidad de un conector y. una mayor o menor elevación de tono. Briz (1996) e Hidalgo (1997) aportan nuevos datos sobre las propiedades prosódicas y las funciones de algunos marcadores del discurso del español. Con todo. o un consentimiento resignado (c ). el marcador b ue no. b) -¿ Te apetecen no ! ¡Encantado!). como. en una misma ocurrencia de un marcador sea posible identificar más de un valor (tanto en el plano semánticoargumentativo como en el enunciativo y en el interactivo.) determina que resulte extremadamente difícil proponer un significado constante para cada marcador. los marcadores conversacionales presentan una mayor polifuncionalidad en el discurso. o. En contraste con los marcadores comunes en la escritura. se puede afirmar que: (…) una mayor o menor fuerza en el acento. cuyo propósito es reforzar la réplica. más o menos convicción por parte del hablante en relación con el “comentario” que reflejan. una mayor o menor cantidad en las sílabas y una mayor o menor duración en las pausas se corresponderían con sentidos o matices diversos en la expresión de los marcadores. c) -¿Te apetecen gominolas? (-¡Bue Bueno no o …). de que una misma función pueda ser desempeñada por más de una forma.

un problema para el aprendizaje de estas unidades. el profesor de ELE: (…) más aún que para la didáctica de otras clases de palabras. pero. principalmente en los niveles avanzado y superior. apenas se ofrecen aclaraciones teóricas sobre el valor semánticopragmático de los MD y la poca información que se presenta respecto de este aspecto suele ser de forma muy superficial y. por polifuncionalidad del marcador b ue ueno medio de un ejercicio. p ues yo resulta que es que he tenido las dos “Bue Bueno condiciones…”. Polifuncionalidad de los MD y su enseñanza en los manuales de E/LE1 Cabe destacar. a diferencia de lo observado en la lengua escrita. pragmática de estas unidades. además. en palabras de Pons Bordería (2000). Así.158 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS funciones y una misma función puede estar desempeñada por varias formas. Tal diversidad de marcadores implica también atención a la versatilidad semántico- La polifuncionalidad de los MD es un aspecto que muy raramente se advierte en los manuales de nivel B2 que analizamos.4.159) también se refiere a la no cuando. se presentan. excusas o justificaciones”. procedentes. a numerosos ejemplos de cada uno de ellos (de cada marcador). La polifuncionalidad de los MD es una realidad en la lengua y su enseñanza en las clases de ELE facilitaría al aprendiz la calidad de su aprendizaje. . b) respuesta “Bue Bueno Bueno Sueña 3 (p. los marcadores en el discurso oral sean mucho más difícilmente sistematizables. según parece. en la enseñanza de estos elementos. tomando como base un texto conversacional que el estudiante debe escuchar para resolver algunos ejercicios. constituye. a diferencia de los niveles anteriores (A1. según el MCER. conforme este manual. a nuestro modo de ver. ya que. ueno no y p ues se usan Según este manual. lo que comporta que. “Las palabras b ue ueno también con otras muchas funciones”. lo que. el profesor de ELE debe introducir una mayor diversidad de MD con vistas a que el aprendiz convierta “sus frases en un discurso claro y coherente” (MCER. que la mayoría de los manuales analizados sigue el enfoque comunicativo. o para darse tiempo a pensar en la no … P ues … o Bue no .). a partir de estos niveles. se lo presenta como una fórmula que los hablantes utilizan para cumplir dos no …) y funciones: iniciar una conversación ( b ue ueno no . 2. La relación entre formas y funciones es. en estos. § 3. combinados o no en la conversación. Los man tratan de este aspecto son: a) A Fondo (p. como. comentarios sobre la polifuncionalidad uales d e ni v e l B2 que manuales de niv de algunos MD 2. por lo que tanto el docente como el discente se ven ante situaciones donde no saben muy bien cuándo. con frecuencia. por su polifuncionalidad y carácter distribucional. A2 y B1). de los 15 manuales investigados. por ejemplo. presenta brevemente un comentario respecto al aspecto polifuncional de los marcadores b ue no y p ues .). además. pues solo en cuatro. aunque muy por encima. en primer lugar. puesto que en diversas unidades didácticas de los manuales analizados suelen aparecer algunos marcadores que.81) que. (…) tiene que recurrir. el cual. el surgimiento de diferentes contextos en los que los MD se manifiestan con múltiples funciones. de textos diversos y situados en contextos diferentes. c) Aula 4 (p.65) presenta una concluirla (b ue ueno nota en la que queda claro el valor polifuncional del conector es que . puede introducir “explicaciones y. al trabajar con los MD. Es decir. por ejemplo. p ues …”. cómo y qué formas usar en determinados contextos. con objeto de facilitar a sus alumnos el aprendizaje de su empleo” (MARTÍN ZORRAQUINO. ofrecen dificultades para su comprensión. ocupa una parte muy pequeña dentro de una unidad. al principio de frase cuando se quiere marcar que pasamos de una etapa de la conversación a otra: no . suprayectiva. 1999).

como también a los propios estudiantes que podrían utilizar este conector. 1998: 214). oig a y otros semejantes de los marcadores mir mira oiga resultaría profundamente interesante en las clases de ELE. como ordenador del discurso. aun. De manera particular. ya que no tiene sentido desde un punto de vista metodológico y didáctico. etc. por lo que las explicaciones que se presentan en los más deberían contemplar. por ejemplo: la toma del turno de palabra. e ni ve l uales d prácticamente no se trata en los man manuales de niv C1 que hemos analizado (un total de 8 manuales de este nivel). el inicio del diálogo o. atenuar el contenido de una respuesta en relación con la pregunta del interlocutor. o y e . señalan las relaciones sociales que se establecen entre hablante y oyente (cfr. por presentar matices de versatilidad semántica un poco más complicados. en manuales acerca de ade además primer lugar. su significado semántico-pragmático de conector aditivo. será más razonable que él realice una concienciada selección de marcadores de polifuncionalidad más sencilla para ir introduciéndolos a partir del B2. este último. a sab er y o s ea . semántico-pragmática de los marcadores c lar laro v e ng a . aplicando. v amos . en general.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 159 La polifuncionalidad de los MD los casos más complejos de polifuncionalidad. siempre y cuando tome como referencia el manual donde figura esta información. 58) que presenta una notación en la que comenta la polifuncionalidad de los conectores ir . est o es . PONS BORDERÍA. sí . cumple funciones distintas en cada caso de su empleo (expresar conformidad con lo propuesto previamente por alguien. 1999) que. la atención a la polifuncionalidad a . o bien “introducen un argumento que dice exactamente lo mismo de otro modo” o bien “introducen una consecuencia del argumento anterior”. Así pues. más b ie n . no trate de aplicar todos los casos en un nivel B2 o en un nivel C1 o C2. explicativos es dec decir esto sabe sea según este manual.). el profesor dejaría b ueno3 . exigiría de los aprendices un mejor dominio de las competencias lingüística y pragmática para comprenderlos y ponerlos en práctica. Si bien es cierto que al profesor de ELE no deberían preocuparle excesivamente los casos de polifuncionalidad en un nivel B2.. es que . introducir una autocorrección. pues son casos complejos que normalmente y según el MCER. es decir. inclusive en los contextos que exigen su uso como conector aditivo. en el nivel C1 comentar todos los casos posibles. tal es n . (cfr. p ues . introducir un cambio de tema en la conversación. pensamos que lo primero que se debería explicar es su significado de adición en tanto en cuanto resulte como un elemento conectivo y su función sea la de vincular dos miembros discursivos cuya orientación argumentativa tiene que ser la misma. si es deseo del profesor trabajar con casos de polifuncionalidad de determinados marcadores. Así pues.etc. El único método que introduce algún tipo de información sobre este aspecto es el manual El Ventilador (p. y a . e h . se deben aplicar de manera más detallada en los niveles C1 y C2. Téngase en cuenta que el marcador a d e m á s (junto con el conector a p a r t e . sino elegir polifuncionalidad de b ue ueno dos o tres funciones más sencillas de este marcador y. v ale . MARTIN ncima bie ien ZORRAQUINO Y PORTOLÉS. la clasificación del conector ade además exclusivamente como estructurador de la información que ordena el discurso con vistas a dar continuidad al mismo puede crear confusión tanto en las explicaciones pertinentes que el profesor pudiera dar a sus alumnos. Para los niveles C1 y C2. por ejemplo. por ser marcadores explicativos. Ahora bien. más propio del español oral coloquial) es el conector aditivo más frecuente. b ue nga mira oiga ueno no . es decir. oig a . mir a . luego. oy e . como. o el caso de los marcadores b ie ien s ea . los cuales. ya que estas unidades desarrollan diferentes estrategias discursivas en la conversación. poseen un doble valor. Tanto en los manuales de nivel B2 como en más los de nivel C1. e nc ima . si bien lo más práctico sería no aplicar todos los casos de no en el nivel B2. únicamente. resultaría más práctico empezar por el B2. en especial. etc. casos de versatilidad o .

est o es . queremos dejar constancia de que ninguno de los manuales de ELE de que nos ocupamos en este estudio contiene suficientes informaciones sobre la polifuncionalidad de los MD como para que un aprendiz de español pueda llegar a comprender perfectamente el funcionamiento de las unidades que introduce. convierte la tarea de aprendizaje de los MD aún más engorrosa. o en otros términos. Conclusiones En fin.160 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Ahora bien. solo uno 4 de los ocho manuales publicados para el nivel C1 comenta. funcionando. es donde el aprendiz –en lo que se refiere a su expresión escrita. Tomamos como más de que hemos ejemplo el caso del conector ade además venido hablando: este marcador también puede ordenar la materia discursiva. el aprendiz necesariamente deberá reconocer otros rasgos característicos de estas partículas discursivas que pasan desde el aprender los diversos efectos de sentido que subyacen al uso de varios marcadores. este significado básico de ade además entonces. sino que también requiere que él cambie la manera de enseñar dichas unidades. también deberá hacer frente a este otro problema que es la ausencia o la carencia de informaciones respecto de la polifuncionalidad de los MD en los manuales de ELE. también la distribuye y la divide en agrupaciones más pequeñas. lo que indica la gran riqueza de sus matices expresivos. una vez entendido. Sin embargo. enseñar otras funciones que este conector puede ejercer en los textos. donde mucho más que en el nivel B2. se presentasen anotaciones a través de cuadros didácticos. pero siempre después de que se explicase su significado semántico-pragmático más básico y frecuente en español. la oposición y el contraste. etc. se le podrían. “(…) en su explicación debería huir de una presentación estática. la sucesión temporal o la expresión de hipótesis. aunque de manera muy general. en listas que perpetúen la vieja idea . se hace necesaria su atención. así. para aclarar el aspecto polifuncional de los MD. conforme hemos visto más arriba. resultaría conveniente que. Pero esta es una tarea que no solo requiere del profesor un conocimiento más profundo del valor semántico-pragmático de los MD que explica. Así. la condición. a sab er y o s ea ). en este nivel. a nuestro modo de ver. este aspecto y. Según nuestra opinión. fluidos y bien estructurados. el problema surge porque los manuales no suelen explicar la polifuncionalidad de los MD que introducen en sus unidades didácticas. pues al tiempo que introduce una nueva información coorientada con la temática que se presenta en el miembro discursivo precedente (función de conector aditivo). aporta una mayor seguridad con respecto al uso de estas partículas. puesto que no toma en consideración el hecho de que la polifuncionalidad de estas unidades constituye un rasgo característico de muchas de ellas. con vistas a que el discurso resulte más fácilmente comprensible. restringiéndose a un pequeño grupo de marcadores ir . por ejemplo– debe aprender a escribir “(…) textos claros. que –no hace falta decir– ya se enfrenta a la compleja tarea de explicar en sus clases cuáles son los mecanismos de los que se valen los hablantes nativos para estructurar u ordenar su discurso así como expresar la causa. hecho que refuerza la necesidad de los estudiantes del nivel C1 de aprender a usar un mayor número posible de MD. como ordenador del discurso. por lo que en el nivel C1 deberían recibir mayor atención. globos. Por otro lado. Para ello. aspecto que. 220). Lo cierto es que el profesor de ELE. Además. 3.. además. una vez que el alumno aprenda más . la consecuencia. se ha de poner de manifiesto la notable carencia del tratamiento de la polifuncionalidad de los MD en los manuales de nivel C1. Este es un problema sabe sea (es dec decir esto que. en los manuales de ELE. mostrando un uso controlado de estructuras organizativas. conectores y otros mecanismos de cohesión” (MCER: p. hasta su polifuncionalidad. etc.

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Madrid: Grupo Anaya. VV.58). . Martín Zorraquino y Portolés (1999) y Martín Zorraquino (1994). 2004. 2005. VV.AA.AA. 2008. 2007. Chicos Chicas 4 (Libro del Alumno). VV. VV.AA. VV. Notas 1 2 3 La completa información bibliográfica de estos manuales figura en el apartado Referencias.AA. Madrid: Grupo Anaya.AA. Madrid: SGEL. Español sin fronteras 2. A fondo 2. VV. El Ventilador. Madrid: Edinumen. Pasaporte 4.AA. VV.A.AA. Para el estudio de la polifuncionalidad de bueno. 2008.AA. Madrid: EDELSA. 2007. Español lengua viva 4. 2007.AA. 2007.AA. Sueña 3. 2010.AA. 2007. Prisma consolida. 2006. Destino Erasmus 2. Puesta a punto. Punto final. véanse Bauhr (1994). Madrid: SGEL. Madrid: SGEL. VV. 2005. VV. 2007. VV. 2006. EsEspañol 3. 2008. VV.AA. Analizamos 15 manuales del nivel B2 y 08 del nivel C1.AA. Gente 3 (Libro de Trabajo). Nuevo Ven 3. VV. Madrid: Santillana.AA. Madrid. Barcelona: Difusión. A fondo. Madrid: EDELSA. Dominio. Español sin fronteras 3. Madrid: Edelsa. Barcelona: Difusión. 2009.1998. Madrid: EDELSA. Madrid: Espasa-Calpe.AA. 2006. Sueña 4. VV. VV. Aula 4. Madrid: EDELSA. VV.AA.162 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Lista de manuales consultados VV. S. Madrid: SGEL. Madrid: SGEL. VV. 2006. VV.AA. VV. VV. Español lengua viva 3. Edelsa.AA. Madrid: EDELSA. Madrid: Edinumen. Prisma avanza.A. 4 Se trata del manual El Ventilador (p.AA. 2005. Barcelona: Difusión. 2007.AA.AA. Eco 3 (Libro del Alumno).AA. 2006. Barcelona: Difusión. Madrid: Santillana. Abanico. VV.AA. VV. 2008. S. VV.

de uso más amplio. El autoconcepto de ésa cultura trasciende el territorio comprendido por Alemania como nación . circulan por las fronteras de varios mundos. en lugar de “alemán”. “Tatuajes en el cielo y en la tierra” y “Ojos de caballo zarco”. La vasta galería de sus personajes está poblada por seres excéntricos que tratan de encontrar una identidad posible o un lugar. Esteves FCL-UNESP-Assis Autora de una obra variopinta que incluye. discutiendo como están dibujados discursivamente dichos personajes y cuál es la imagen del continente americano reflejada en su mirada. En la larga lista de su obra ficcional merecen destaque las narrativas casi siempre urdidas en los borrosos límites entre historia y ficción. Rosa María Lojo. originarios de tierras germánicas. en esas novelas los personajes germánicos no son protagonistas ni tampoco su visión de América y de Argentina es el tema central. en un constante deambular.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 163 EN BUSCA DEL PARAÍSO: LA REPRESENTACIÓN DE LOS GERMÁNICOS EN LA OBRA DE MARÍA ROSA LOJO Antonio R. Hay que subrayar. a pesar de la casi sinonimia. migrantes. Preferimos. Entre ellos se pueden constatar aquellos que. usar el adjetivo “germánico”. por el libro de relatos Amores insólitos de nuestra historia (2001) y concluye en Las libres del sur (2004). Exiliados. El mapa de dicha presencia arranca de su primera novela. viajeros y aventureros en general. en especial por el vasto territorio argentino. viene ocupando un destacado lugar en las letras argentinas. en el ámbito literario. Como los demás. poemarios. ya que. para estas notas. que en general abordan cuestiones históricas e identitarias asociadas a tránsitos y fronteras. también tenían la cabeza poblada por fantasías sobre la tierra nueva y soñaban construir nuevas realidades. desde la publicación de su primer libro en 1984. por algún motivo. sin embargo. Canción perdida en Buenos Aires al Oeste (1987). imaginario o real. que con excepción de los dos relatos de Amores insólitos de nuestra historia. El presente trabajo pretende trazar una breve cartografía de la presencia de los germánicos en narrativas de María Rosa Lojo. colecciones de relatos y varias novelas. llegaron a la región del rio de la Plata. pasa por La pasión de los nómades (1994). este último se asocia más directamente a Alemania como Estado moderno. en donde encontrarla y/o encontrarse.

partiendo de ello. se tejen en los umbrales de la ficción y de la historia. 2001. 219). partiendo de dicha mirada. de los Un típico a v e n t tu re muchos que deambularon por el territorio americano en el siglo XIX. sin embargo. presentándolo como un hombre sensible. sigue las estrategias usadas en las narrativas de extracción históricas. hace una inversión de la épica tradicional de la conquista. que se trata de mera opción personal. el relato que hace una especie de relectura a contrapelo del episodio de la conquista y se ubica en la base de la construcción discursiva de la Argentina. era gozar de los encantos de la mujer americana.164 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS moderna. ur e r o germánico. viajeros e inmigrantes. de acuerdo con aquello que Beatriz Pastor llama de discurso narrativo del fracaso (PASTOR. es su experiencia y el relato de Lojo. una riqueza superior al deseo de volver a Europa cargado de oro y plata. de “Tatuajes en el cielo y en la tierra”. relato incluido en el volumen Amores insólitos de nuestra historia (2001). Solamente por cuestiones didácticas. 2006. El relato de María Rosa Lojo. capaz de ver al otro y dispuesto a descubrir en los cuerpos. viene desde los tiempos de la conquista. Hay que quedar claro. Él abandona los anales de la historia de la conquista argentina para protagonizar. Los germánicos que aparecen en los relatos de María Rosa Lojo. Además. como se sabe. Lo que él ofrece al mundo. Tenemos entonces no un conquistador español sino su equivalente germánico. Ambos amantes. Como los relatos de María Rosa Lojo. que trata de trazar la cartografía del cuerpo de la mujer americana y no los mapas de los tesoros de las nuevas tierras. 44). Una de sus preocupaciones centrales. que ocupó y ocupa un espacio que va más allá de las fronteras geográficas de aquél. La marca principal de ese aventurero de Straubing es la lectura particular que él hace del Nuevo Mundo. juntamente con la imaginada Ximú. sobreviven en el “territorio natural de su pasión” y proponen otra lectura posible para la conquista. La construcción de los personajes germánicos en las obras en cuestión. 2008. atraídos por la exuberante naturaleza local o . una vez que según el relato. La presencia de germánicos en América. comprendiendo prácticamente toda la historia del continente después de la llegada de los conquistadores. entendidos como narrativas de extracción histórica (TROUCHE. 33). p. abarcan un período que va del XVI al siglo XX y han nacido en varios puntos del ancho territorio ocupado por la lengua alemana y la cultura germánica. Algunos son personajes históricos ficcionalizados. una indígena de la tribu de los Xarayes. los dividí en cuatro categorías que a veces se cruzan ente sí: conquistadores. Esa versión alternativa de la historia se hace posible a partir de las fisuras del relato del cronista germánico y es a partir de dicho entrelugar que la narrativa de María Rosa Lojo teje su contrapunto a la historia hegemónica. tratando de encontrar fortuna. p. usaré en este trabajo el orden cronológico de la acción de los relatos y no las fechas de su publicación. El ejemplo de c onquistador está en Ulrich Schimidl. entretejida a través de la memoria de la mujer una vez que en el relato la nativa conquistada es quien se apodera del cuerpo del amado. Este lansquenete bávaro que participó de la expedición de la primera fundación de Buenos Aires dejó uno de los primeros relatos de la ocupación del rio de la Plata. El grado de ficción e historia que hay en cada uno de ellos cambia según el personaje. otros son personajes puramente ficcionales. la imagen y autoimagen que los germánicos construyeron de su cultura es muy compleja y su discusión ultrapasa los objetivos de esta ponencia y al espacio de que dispongo. p. más que encontrar al reino del Dorado. “las Amazonas eran notoriamente inexistentes” (LOJO. centraliza el foco en la mirada que Ximú tiene del conquistador germánico. aventureros.

Personaje de la misma novela y asociado a él. Ese personaje. Totalmente ficcional. en su discurso. 2001. llega a la Argentina como secretario del Conde Hermann von Keyserling. Evidentemente él será expulsado de dicho paraíso. a una huerta y a una “escuela especializada y a un Instituto de Idiomas”. El personaje histórico se traslada a las páginas de Las libres de Sur (2004). capaces de hacer nacer una nueva realidad. El conde está reconstruido como el modelo negativo del germánico. ese hombre “que se considera un espíritu libre pensador y libertario. patrocinado por la mecenas de las artes argentinas que fue Victoria Ocampo. también en Amores insólitos de nuestra historia (2001). en sus relatos de viaje será desconstruída por la propia Victoria en sus memorias y sirven de base para lectura que hace María Rosa Lojo de la relación de ambos. la salvación de la hegemonía europea (BLOSS. pero descendiente del hombre de “ojos de caballo zarco”. La imagen que él construye de Argentina. protagonista de “Ojos de caballo zarco”. ante la imposibilidad de la posesión de los metales (cobre y plata) de las minas de Famatina.98). transformándolo en una especie de ogro primitivo. Como en el caso anterior. . también nacido en Straubing. negación de lo que él considera cultura civilizada europea. quien lo había invitado a Buenos Aires. Se trata de un conocido filósofo de las primeras décadas del siglo XX que viajó a Argentina en fines de los años 20. en tiempos de crisis. Utz von Phorner. una especie de pantalla de proyección en la que. ha sufrido la más inicua discriminación y la burla de los campesinos analfabetos” (LOJO. usando lo ajeno para estabilizar lo propio. una vez que además de ser incapaz de ver el “otro”. En Chivilcoy él se dedica. construido a partir de los dos anteriores. reta al caudillo Facundo Quiroga y por su audacia consigue un espacio en la nueva patria en construcción. Debido a su piel blanca y principalmente por el color de sus ojos. Sus relatos de viaje muestran una Argentina bárbara. por ejemplo. una nueva visión del mundo. esa pantalla de proyección invertida. en el cual se quedan las mujeres. Reconstruyendo los desencuentros amorosos de la pareja y la posterior polémica del conde con Victoria. por amor. 2004. mientras él se pierde en su estéril Europa. p. ocupando la segunda mitad de la novela. 1995). el filósofo alemán trataba de defender. gracias a su relación con Victoria Ocampo. noble báltico de lengua alemana. p. su figura muestra como el viajero/aventurero se transforma en inmigrante al entrar en contacto con la nueva tierra y principalmente al encontrar en ella el amor de su vida. se fija. Representa en el relato una inversión del tópico de la superioridad europea que normalmente sostiene los discursos racistas. Victoria fue. violador del universo femenino y de la imagen edénica de las tierras americanas. no regresa a su tierra y decide fijarse en la Argentina después de casarse con la gallega Carmen Brey. protagonista de la narrativa. al lado de su amada. casado con una nieta de Bismarck. Ese ingeniero de minas. la narradora dibuja su imagen en la novela. 202). Se trata de una nueva estrategia del discurso colonial. Además repite un par amoroso presente en buena parte de la narrativa de Lojo: el germánico (o su descendiente) que se enamora de la gallega (o su descendiente) para formar un matrimonio que representa una especie de emblemática pareja fundadora argentina. en La Rioja. En defensa de su amor por una criolla. lo representa negativamente en sus escritos. “de tanto hurgar en historias de alemanes y españoles que perseguían las Fuentes de Juvencia o los palacios de El Dorado” (LOJO. es el Conde Hermann von Keyserling. en las páginas de la novela Las libres del Sur (2004). en Argentina como ganadero y adopta la nueva tierra como suya. hundida en la crisis que producirá los desastres de la Segunda Guerra Mundial. su imagen es opuesta a la de Ulrich Schimidl. En ese sentido.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 165 simplemente en búsqueda de aventuras es Karl von Phorner.

que decide rehacer su trayecto juntamente con los dos gallegos. hay cierta similitud entre su historia familiar y la historia de la familia Neira. la segunda novela de la autora. en La pasión de los nómades (1994. “Irene miraba al vacío. es decir. antes de su periplo siguiendo los pasos de Lucio Victorio Mansilla. p. Inicialmente se fijan en Brasil y después en la provincia argentina de Misiones. los diversos viajeros que la visitaron y. el capítulo IV de la segunda parte de La pasión de los nómades. con padre gallego y socialista.” (LOJO. parece estar en la novela justamente para discutir la cuestión de la identidad argentina y lo hace a partir de la experiencia de la inmigración de la familia Reuter. cuando los Reuter entran en escena. en las ramas de un gigantesco aguaribay. Allí cerca. Se puede decir que Federico Reuter y su esposa Ana sean una especie de dobles de Alberto Krieger e Irene Neira. en donde el médico busca la reconciliación con su padre. de paso. los protagonistas. interesa la presencia germana. el protagonista del viaje anterior. Irene y Alberto. y se casa con él para disgusto de su padre. Alberto. incluyendo los primitivos conquistadores. un ex pastor luterano que había abandonado la familia y el sacerdocio debido al alcohol. Federico reitera que no pretende hacer repetir. Para la presente discusión. Irene. que. La casa de los Neira hospedará a Rosaura dos Carballos y Merlín. 1987. se enamora del hijo de un inmigrante alemán. Rosaura va a encontrar. asociada a esa familia gallega. también las r ant es que abandonaron el sucesivas olas de mig migr antes “Viejo continente” para fijarse en tierras americanas en búsqueda de ese El Dorado imaginario. 1987. […] Yo no diría ya que el país es mío sino . es educado por la madre y el abuelo. De ese modo. Con ello. los protagonistas se reúnen en una cena en la casa de los Reuter en la que se discute el problema de la inmigración asociado al drama de la identidad argentina. paradójicamente ella siente más distante en su casa. en los últimos dos siglos. La familia Neira. sin embargo. Me quedo con el ámbito imperfecto que me ha tocado. Como en los antiguos “coloquios”.29). vuelve a aparecer. estudiosa de filosofía. Hija de la diáspora republicana española. El origen extranjero común hermana a los personajes.166 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS La representación del universo americano como una especie de paraíso siempre estuvo presente en el imaginario europeo y es parte de los sucesivos discursos relativos a la región. el médico de origen misionero Alberto Krieger. protagonistas de su primera novela. p. Con los inmigrantes alemanes pasó lo mismo. 36). La joven pareja va a vivir en un pueblo de Misiones. Federico Reuter narra entonces la epopeya de sus antepasados que en el siglo XIX abandonan Alemania en busca de una nueva patria. representada por sus sobrevivientes. María Rosa Lojo tiene entre sus temas la cuestión del desarraigo y la búsqueda de una patria posible. El hijo/nieto de inmigrantes alemanes ayuda a Irene en el encuentro con la identidad argentina. Canción perdida en Buenos Aires al Oeste (1987). una vez más. al mismo Lucio Victorio. Aquí hay una duplicación de la pareja compuesta por un descendiente de alemanes y una descendiente de gallegos. que “había sido gaucho brasilero casi antes de ser alemán” (LOJO. que tiene el mismo nombre del padre. Ese discurso se reitera y se discute en las dos primeras novelas de María Rosa Lojo: Canción perdida en Buenos Aires al Oeste (1987) y La pasión de los nómades (1994). la historia: No voy a repetir la búsqueda del Paraíso en la tierra. sin saberlo pertenecía ya a esta tierra y a Alberto Krieger. que en la historia ya han regresado a Misiones. La hija de los Neira. Discutiendo la costumbre de los argentinos en abandonar su tierra delante de las casi cíclicas crisis.

no hace falta ir muy lejos. 2001. Cruz. El lugar de realización de dicho amor son las tierras argentinas. 125-131. p. criando un entrelugar (SANTIAGO. a los cuales se asocian los demás. p. Ser argentino. 109). se trata de un constante ajuste en dichos espacios de frontera y de circulación. Los escritos de viaje del conde Hermann Keyserling como psicodrama de una relación amorosa? In Limites. USP. discute dos problemas básicos y centrales. en dicho contexto.ed. Dichos temas siempre se plantean a partir de la experiencia femenina y la dificultad que tiene la mujer para hacer escuchar su voz en un mundo dominado por el discurso masculino.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 167 que nosotros. ampliando el espacio de la discusión a la superación de los límites de la frontera: “Nos despedimos pensando en alas. La obra narrativa de María Rosa Lojo. G. 108-9). (Tesis de Doctorado). Tales corredores (LOJO. las migraciones. deja de ser el hombre sensible que descubre el cuerpo y la tierra de la amada y se transforma en el ogro violador. El segundo es la inserción de la mujer en el universo tradicionalmente dominado por el varón. 2. otredad. Entre la historia y la ficción: el exilio sin protagonistas de María Rosa Lojo. el exilio. A través de la metáfora del tránsito. y un hombre de origen germánico. El primero es la construcción de la identidad argentina y todo lo que conlleva esa temática. ———— (2001): Amores insólitos de nuestra historia Buenos Aires: Alfaguara. Dicho personaje germánico es el hombre que sale de su tierra en busca de un paraíso y lo encuentra no solamente en la tierra plena de elementos telúricos pero principalmente en el amor de una mujer. viajeros. LOJO. CRESPO BUITURÓN. pp. 2008. se establece el conflicto y el germánico. entonces. Lleida: Facultad de Letras de la Universidad de Lleida. penetrando por las fisuras naturales del sistema. irremediablemente. la frontera. María Rosa (2010): Árbol de familia. La idea de argentinidad aparece asociada en nuestros relatos con la unión entre una mujer hispánica o americana. sino los paraísos pasados y los futuros y que para buscar esas pobres verdades incluso raramente alcanzadas por los hombres llamados sabios.” (LOJO. R. 1978). São Paulo: Ed. Niterói: ABRALIC. Anais do 3° Congresso ABRALIC. la identidad y la Referências bibliográficas BLOSS. la tierra americana del deseo de los conquistadores/viajeros/aventureros/ migrantes. p. es la capacidad de promover dicho tránsito. tiene una significación especial ejerciendo la función de promover la comunicación. Por ello. Buenos Aires: Sudamericana. los personajes de María Rosa cruzan las fronteras tradicionales. aparece rotundamente negada en la voz de Merlín. Rio de Janeiro: Imago. 2008. entonces. Linda. aventureros e inmigrantes y aventureros. tan repetida en el discurso de conquistadores. Poética do pós-moderninsmo (1991): Trad. (LOJO. en ríos y en migraciones” (LOJO. en el cual la identidad se presenta como un discurso en movilización continua. la traducción como mediación. Lo insólito del amor. Anja (1995): El drama de la comunicación transatlántica. La idea del Paraíso. como se sabe. Marcela. 2010) permiten el tránsito entre lo uno y lo diverso. El capítulo concluye con la voz narrativa de Rosaura dos Carballos. los tránsitos en general son constantes en su obra. en ese contexto. 1999. . HUTCHEON. Cuando no ocurre el encuentro. El amor. (2008): Andar por los bordes. le pertenecemos y mucho más de lo que nos damos cuenta. espacio de transición. 110). reiterando la opinión de Federico Reuter: “Que no hay paraísos.

Ensaios sobre dependência cultural. En busca de una identidad . del Signo. SANTIAGO. (ed. TROUCHE. André (2006): América: história e ficção . Vol. La conquista de América narrada por sus coetáneos (14921589). La novela histórica en Argentina. Barcelona. 109-127.. MOLINA. pp. Hebe B. Buenos Aires: Ed.168 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS ———— (1987): Canción perdida en Buenos Aires al Oeste Buenos Aires: Torres Agüero. II. Buenos Aires: Sudamericana. Niterói: EdUFF: 2006. Buenos Aires: Debolsillo. ———— (2004): Las libres del Sur . São Paulo: Perspectiva. . Buenos Aires: Corregidor. Silviano (1978): O entre-lugar do discurso latino-americano. ———— (2008): Una pasión de los nómades. In Uma literatura nos trópicos. ———— (2004): Diálogo con Mercedes Giuffré. (2010): La poética de la rosa: Modulaciones de la ficción histórica en María Rosa Lojo. PASTOR. M. Beatriz (2008): El segundo descubrimiento. MOLINA. pp.) Poéticas de autor en la literatura argentina (desde 1950). Víctor C. Buenos Aires: Edhasa. Hebe B. 1128. In GIUFFRÉ. In ZONONA.

Uma literatura que deriva do encontro de dois mundos. este trabalho se propõe discutir alguns aspectos relacionados às estratégias de representação da cidade e da nação em histórias narradas desde as margens da cidade e da própria literatura. inclusão e exclusão. que o termo francês au-delà capta tão bem – aqui e lá. no ‘além’: um movimento exploratório incessante. para frente e pra trás. uma literatura da ambivalência e do entrelugar: assim são os textos que nos últimos tempos . de todos os lados.” Homi K. Bhabha As cidades latino-americanas da narrativa contemporânea se apresentam como espaços fragmentários e territórios de enfrentamento nos quais circulam personagens que vivem entre a estranheza e a descoberta de si e do Outro.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 169 ROMPENDO FRONTEIRAS DA CIDADE E DA NAÇÃO: REPRESENTAÇÕES DE SUJEITOS QUE SE MOVEN ENTRE AS “ISLAS URBANAS” DE SERGIO OLGUÍN E CRISTIAN ALARCÓN Ary Pimentel UFRJ “Encontramo-nos no momento de trânsito em que espaço e tempo se cruzam para produzir figuras complexas de diferença e identidade. A partir dos dois modelos de urbanização complementares (segregação e auto-segregação sócio-espacial) que traduzem as contradições e crises vividas “aqui” por uma América Latina que se enfrenta a radicais transformações no processo de modernização. para lá e para cá. ao mesmo tempo. um distúrbio em direção. estes relatos dão visibilidade e um papel protagônico a grupos muito particulares da urbe contemporânea. interior e exterior. As “zonas sagradas” e os “espaços incivilizados” se interpenetram e se projetam em contraponto complementar nesta espécie de viagem ao outro lado dos muros da cidade. fort/da. tais como os sujeitos diaspóricos de Si me querés quereme transa (Cristian Alarcón) ou o personagem que transita entre distintas ilhas ao longo de um só dia em Oscura monótona sangre (Sergio Olguín). Em diálogo aberto com os arquivos da antropologia. Textos como estes conseguem gerar uma reflexão questionadora acerca do cruzamento de fronteiras que separam e. agora como imensas manchas urbanas totalmente fragmentadas que dificultam ou impossibilitam as interações materiais entre seus habitantes. Isso porque há uma sensação de desorientação. fazem com que surjam novas “zonas de contato” entre distintos territórios e culturas de uma megalópole como a capital argentina. tal como assinalou Roberto Echevarría em seu libro Mito y archivo (2000). passado e presente.

Si me querés quereme transa e Oscura monótona sangre nos permitem fazer uma reflexão sobre as relações entre o imaginário. “construímos. “la villa de los paraguayos. “chegamos assim a necessidade de dar conta de um mundo no qual a diversidade não está só em terras longínquas. drogas e imigrantes peruanos. chilenos e bolivianos. os labirintos da Villa 21. Viajam dentro da própria urbe a procura de uma cidade que não é sua. mas aqui mesmo” (GARCÍA CANCLINI . p. nas “micropoles” que..170 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS constituem nosso campo de interesse. Personagens e narradores mergulham na zona de contato e. derivando em subculturas e conflitos interculturais. nessas novas “ilhas urbanas” (entidades que se constituem em torno de territórios reais ou simbólicos) que se passam as ações da maioria dos romances escritos nos últimos dez anos. jornal e televisão. “vem depois” dos grandes clássicos latino-americanos. e a ação de grupos pequenos. em Diferentes e desiguais e desconectados. A fragmentação tanto identitária como territorial resultante da pluralização e heterogeneização de culturas. p. 2005. García Márquez. 2019. donde se habla tanto guaraní como argentino” (OLGUÍN. de alguma forma o deslocamento dos sujeitos é bastante semelhante nas duas obras. 113). é o que permite estruturar este território de novas identificações apresentado por Cristian Alarcón: . p. É justamente nestes territórios que circulam os personagens de Si me querés quereme transa e Oscura monótona sangre. E é aí. seus códigos.” (2008. Nos dois casos estamos diante de sujeitos que já não conseguem viver a nação ou a cidade como totalidades integradas. seu culto à coragem. pelo cinema e pelos meios de comunicação.17). como rádio. temos um repórter-escritor que mergulha na realidade de um enclave popular no coração urbe para tentar entender um mundo de violência.) fragmentos que elegemos para ancorar nossa subjetividade. mas buscando fazer dela a sua cidade. permanecem em plena fronteira vivenciando os sentidos e sem-sentidos da cidade através das mediações das narrativas veiculadas pela literatura. para usar uma expressão de Josefina Ludmer. Trata-se de duas narrativas publicadas em 2010 que podem muito bem exemplificar certos aspectos da produção que. como Borges. segundo García Canclini. e constata o fim das ideologias em tempos nos quais ex-guerrilheiros maoístas tornam-se “capos” do tráfico de varejo. o protagonista se desvia do caminho que faz todos os dias em direção a sua empresa para buscar os prazeres e a “adrenalina” de uma outra vida em regiões praticamente desconhecidas por ele. Em uma. O que está no centro dos dois textos é a passagem de fronteiras: do cotidiano familiar para o estranho que emerge no território do Outro ou na zona intersticial que se projeta entre os dois mundos. Para contar a história de cinco clãs que disputam o controle da distribuição de cocaína em uma villa de Buenos Aires. ainda dentro das grandes urbes. suas guerras. O processo de construção de uma memória comum e a coesão comunitária antes tributárias de relatos totalizadores agora só é possível nas “novas tribos” ou “aldeias urbanas”. Na outra. 22). Tal como concluiu Néstor García Canclini. pequenas comunidades onde as mediações entre indivíduo e a identidade grupal ainda se estabelecem face-to-face. sem jamais se decidir a abandonar integralmente o seu mundo. Cristian Alarcón vai à procura do mundo de jovens criminosos. (.. Embora muito diferentes na sua concepção. Cortázar. o mundo da cultura e os territórios em que se fragmentou a cidade. Oscura monótona sangre .

onde Josefina Ludmer se propõe a pensar os novos tempos a partir . narco-traficantes e grupos paramilitares. Si me querés. entre nosotros. más desconocidos: los que están aquí mismo. o en un brazo.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 171 Villa del Señor se extiende a lo largo y ancho de treinta manzanas. Bajo esas leyes inquebrantables funciona el ejército privado (…). da cidade e da própria narrativa. cabe lembrar que.61) A cidade narrada em ambas narrativas é fruto de uma experiência de deslocamento. atravesadas por arbitrarios pasillos angostos. Oriundas que são de um processo de deterritorialização e reterritorialização da cultura.61) E os cógidos ganham enorme destaque nesta viagem mediada pelo texto narrativo aos “redutos da violência”. p. p. Cristian Alarcón expressa sua atração por um mundo de disputas territoriais onde mais importante que o pertencimento à nação e o compartilhamento de seus grandes relatos é o respeito ou a traição aos códigos de fidelidade grupal. Constituído de um conjunto de clãs. 2010. Si el muchacho no entendió con la vergüenza de andar con la cara como un mutante. también. tanto dentro das fronteiras da cidade como para além das fronteiras nacionais. sus terrenos fueron ocupados por los inmigrantes que llegaron a Buenos Aires a partir de la década del cincuenta. o escritor argentino Mar tín Caparrós. na quarta capa da primeira edição. Diante de mobilidades. impõe-se um novo marco legal. talvez já possamos começar a falar de uma literatura que está se gestando em diálogo com uma cultura “deslocalizada” ou “translocal” de que nos fala James Clifford em Dilemas de la cultura. Mas. o mundo das “islas urbanas” reúne sujeitos em torno de um território e de um conjunto de códigos com base nos quais se constrói o sentimento de pertencimento a um lugar e a um grupo. fundamento mais importante da vida social neste contexto.20). ao mesmo tempo. quereme transa. esta é também uma literatura que constrói “relatos de localização” (GARCÍA CANCLINI. peruanos e bolivianos. En cada una de las treinta ciudades más importantes del mundo existe una procesión del Señor de los milagros que es idéntica a una en el centro de Lima. em suas tramas assume um contorno estrutural o movimento da migração limítrofe motivado por razões econômicas ou pelos “desplazamentos” derivados das guerras entre guerrilheiros.25). 2008. 2008. p. tal como a define Beatriz Jaguaribe (Apud GARCÍA CANCLINI. cómo la migración de sujetos y culturas generan un fenómeno de transnacionalidad. nesta verdadeira experiência de “voyeurismo protegido”. 2010. (ALARCÓN. migrações e trânsitos de todo tipo. se gana un tiro en una pierna. Em Aquí. (ALARCÓN. De formas irregulares.” Assim o promove. num processo em que a dinâmica cultural transcende as fronteiras nacionais: Me fascina cómo la historia de América latina vuelve a surgir a miles de kilómetros. No lugar onde antes imperava a anomia passam a reger os códigos da “isla urbana”: Entre todos ellos rige un código que permite el dominio piramidal sin titubeos: a la primera falta la sanción es rapar a cero y afeitar las cejas. comunidades de migrantes convivem com o mundo “narco” e se tornam peças de um jogo complexo em cujo centro estão as frequentes guerras para definir o comando absoluto do tráfico de cocaína entre “transas” paraguaios. A partir desta perspectiva. Em entrevista intitulada “El mundo narco habla de un mundo por venir”. Nesse mundo à parte. p. América Latina . de Cristian Alarcón. un viaje a los mundos más lejanos. El ercer error es el fatal: muere acribillado. Esses movimentos redesenham as car tografias da nação. chilenos. surge uma arte que se estrutura a partir dos novos deslocamentos humanos. “es.1 Num bairro em que se instala a ausência do Estado e suas instituições.

de um presente que não pode produzir clássicos. fornecendo as marcas de pertencimento a pequenos coletivos. está fragmentado. havia uma certa cartografia mais sólida e clara. e a própria representação estava associada a lugares estabelecidos. monolítico ou compreensível. Enquanto que os clássicos latino-americanos falavam de territórios muito maiores e buscavam as chaves da identidade em grandes narrativas nacionais.172 de termos como ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS “imaginação pública”. A cidade não se narra a partir de um todo sintético. mas sim sobre “ilhas urbanas” como sugere Josefina Ludmer em seu texto “La ciudad: en la isla urbana”. Mas não só isso. destaca-se o discurso antropológico como mediador na literatura. identidades e nações vão por esse caminho. territórios insulares que constituem um grande arquipélago no qual cada vez mais deslocam os sujeitos. uma crônica. “paraguas” ou “bolitas”. como nos recorda Néstor García Canclini: Como se ha dicho a menudo. E é justamente isto que encontramos em Si me querés quereme transa. Si me querés. essa narrativa contemporânea. minoritarios y subalternos en la propia sociedad. Talvez seja justamente a partir da percepção do trabalho com a escala pequena e do processo de microlocalização identitária presente nas duas obras que se possa destacar um dos aspectos centrais para o estudo da literatura produzida neste momento de virada de século quando se observa uma tendência que aponta para a erosão das narrativas nacionais e para a importância crescente do território como um espaço de ancoragem da identidade que pode contribuir para a coesão de comunidades imaginadas. pero con predominio de lo que sucede en interacciones locales y de escala pequeña. que ela chama de instrumentos conceituais para organizar certas reflexões. De manera que la antropología es una disciplina con largo entrenamiento para estudiar procesos de aculturación. Cinema e literatura. um testemunho” 2 . de transculturación y las zonas de contacto entre culturas. 2010) está em disputa e em constantes deslocamentos estratégicos.3 . uma biografia. 2003). Não faz mais sentido falar sobre cidade. Em meio a estas fronteiras de gênero cada vez mais voláteis. y luego de los diferentes. buscando o Outro distante no interior da própria cidade. Assim como o romance latino-americano moderno no qual se estabelecem mecanismos de narrativa derivados do “arquivo” da antropologia. Cuando unos y otros fueron modernizándose o cambiando. mas sim a partir dos seus fragmentos. como uma investigação histórica. Tal como o primeiro livro de Alarcón ( Cuando me muera quiero que me toquen cumbia . as ilhas residenciais do condomínio ou as ilhas dos espaços de segregação nos quais residem “cartoneros”. escreve-se a partir de pedaços da realidade. Agora a representação e seus sujeitos (como obser vamos nas “narrativas migrantes”. Porto & Torres. o relato de reportagem e a pesquisa de campo da antropologia. quereme transa é um projeto essencialmente pautado em um trabalho de campo. obra de um autor que opera na fronteira entre a invenção. Por “pós-autônoma” Ludmer entende a literatura que “trata de ser outra coisa. cf. “realidadeficção” e “literatura pós-autônoma”. este também circula entre a crônica familiar e o testemunho. como tudo. narrativa de tempos e discursos fugazes. só que agora em uma escala bem mais reduzida. la antropología fue la primera ciencia social que se ocupó de los otros lejanos. se destacaban las tradiciones o resistencias locales a lo innovador. O território. Antes. sejam estes os que integram as ilhas do trabalho. entre o romance verdadeiro e o jornalismo investigativo.

a um meio ambiente natural que partilho com outros. “trata de ser outra coisa”. Sus sentidos no son compartidos por todas las personas y grupos que residen dentro del territorio argentino. na medida em que a ênfase recai no que transcende o indivíduo e reforça a comunidade na qual ele se insere. 2006. ganha espaço protagônico a . as narrativas construídas por Sergio Olguín e Cristian Alarcón. As favelas e. Não estão dentro. mas também a que me liga a um território. Trata-se não da cidade real. não estão fora: são o dentrofora. (2010. são o longe perto de Buenos Aires. p. Aqui percebemos mais uma vez a importância do território. paraguaios. e ilhas que são destinadas aos refugos ou às quais estes são destinados. Isto nos leva a pensar num aspecto muito específico envolvido em um fenômeno que acontece na história recente da cidade: o surgimento das novas favelas a partir da migração limítrofe. observa que: La membresía. 198). De tal forma que a história do território se confunde com a história da comunidade. as que apresentam uma expressiva concentração de peruanos. É em torno do território compartilhado que se organizam as narrativas da memória e os mitos comuns. É nestes espaços intersticiais que o valor da cultura do agora está sendo negociado.20). p. segundo o crítico indiano: Esses “entre-lugares” fornecem o terreno para a elaboração de estratégias de subjetivação – singular e coletiva – que dão início a novos signos de identidade e postos inovadores de colaboração e contestação. de residência dos que garantiram o direito instável de ocupar o que Noé Jitrik definiu como “zona sagrada”4. é a partir da ancoragem no território da “ilha urbana” que se constituem as tramas identitárias da comunidade. Elizabete Jelín. p. la lealtad y la pertenencia nacional son conceptos en transformación. os “entre lugares” ou o “aqui e lá” de que nos fala Bhabha (1998. Como assinala Beatriz Sarlo em relação às ficções de Borges. (JELIN. ilhas de prazer. quer ser ensaio de sociologia ou geografia urbana. 1998. Menos aún por la población migrante. Essas são as pequenas histórias do dia-a-dia : tempo que se cristaliza em espaço. bolivianos ou coreanos.48) Numa literatura que recusa a fixidez das imagens geográficas. destacado o movimento dos grupos humanos. Existen y se generan distintos criterios de diferenciación y jerarquización que catalogan a algunos grupos como potenciales contribuyentes al desarrollo del país. afirma Ludmer. chilenos. A su vez.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 173 A literatura pós-autônoma. sobre su lugar en la sociedad argentina. são versões da cidade (SARLO. com fronteiras deslizantes que nos impedem uma cartografia segura. a história de um lugar se torna história pessoal. seu relato quer ser roteiro de cinema: filme de estrada sem sair do interior da grande metrópole. no ato de definir a própria ideia de sociedade. descarnado e objetivo. por sua vez. Não se pode traçar um mapa destas ilhas a partir do percurso trilhado no dia-a-dia. los diferentes grupos migratorios desarrollan distintas estrategias de inserción a partir de la idea. Não apenas a relação interindividual. bairros fechados. Elas são movediças. Michel Maffesoli nos recorda que: Devemos estar atentos ao componente relacional da vida social. Oscura monótona sangre quer ser cartografia. más o menos compartida. mas da cidade que é ao mesmo tempo lida e imaginada: a Buenos Ares narrada através de seus fragmentos. dos processos econômicos e das manifestações culturais. a uma cidade. A partir daí. 2009. elemento que começa a se tornar obsoleto neste contexto. em um estudo sobre as migrações limítrofes na Argentina. enclaves. Deduz-se um mapa impreciso que apontaria para a existência de ilhas de trabalho. em particular. (BHABHA. Para além da importância da nação. p.19). p.141). ilhas urbanas. O homem em relação.

movido pelo impulso. Parece que estão dentro e fora da nação. Inicialmente caracterizado pelos contrários. Itaú Cultural. GARCÍA CANCLINI. (1998): O local da cultura . In: COELHO NETTO. o protagonista de Oscura monótona sangre. Aparece assim um quadro recorrente. 2ª ed. Um empresário que se sente seguro em sua vida de cidadão modelo a percorrer todas as manhãs as mesmas avenidas que comunicam a sua ilha residencial à ilha industrial onde trabalha do outro lado da cidade. líneas y límites. ______ (2008): Imaginários culturais da cidade: conhecimento / espetáculo / desconhecimento.174 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS figura da migração limítrofe e os contextos de sociabilidade construídos por estes sujeitos em uma concentração territorial e identitária que assume a forma de pequenas tribos e parece demonstrar em cada uma de suas narrativas que ainda não sabemos lidar com a diferença interna. literatura y arte en la perspectiva posmoderna. “las ciudades latinoamericanas de la literatura son territorios de extrañeza y vértigo con cartografías y trayectos que marcan zonas. De la diversidad a la interculturalidad. Rio de Janeiro: Editora UFRJ. Referências bibliográficas ALARCÓN. Belo Horizonte: Editora UFMG. leyes y sujetos específicos” (LUDMER. Luiz Sérgio Henriques. uma nova nação. da cidade e da sociedade: formando uma nova comunidade. p. um cenário de realidade/ficção onde os sujeitos constroem constantemente estratégias para entrar e sair sem que saibam já muito bem se estão dentro ou fora. Barcelona: Gedisa. Este é caso de Julio Andrada. quereme transa. os personagens experimentam as consequências de um efeito inesperado de deslocamento nos dois sentidos do termo: saem de um lugar cuja lógica dominavam para penetrar em outro território bastante instável e ao mesmo tempo se sentem eufóricos e desconfortáveis neste novo lugar. . entre fragmentos y ruinas. quereme transa e Oscura monótona sangre. BHABHA. Mas as ilhas que são ao mesmo tempo um território e um sujeito coletivo “es un mundo con reglas. p. José Teixeira.131). Barcelona: Gedisa. Cristian (2010): Si me querés. Carlos Reynoso. Homi K. A cultura pela cidade. org. desiguais e desconectados: mapas da intelectualidade. religando pedaços dispersos e propiciando interações simbólicas que permitem superar parcialmente a fragmentação da experiência. A literatura do presente parece determinada por uma estrutura que frequenta diferentes narrativas: o cruzamento de uma fronteira cada vez mais porosa e deslizante que em vez de separar propicia contatos. org (2011): Conflictos interculturales. pequena nação que requer um novo relato. 15-31. p. como os personagens de Si me querés.” (2010. Trad. James (1995): Dilemas de la cultura : antropología. Myriam Ávila. mas que só vivencia a verdadeira aventura ao mergulhar. Néstor. Trad. pelo contrário. Eliana Lourenço de Lima Reis e Gláucia Renate Gonçalves. mas que. São Paulo: Iluminuras. Trad. CLIFFORD. Néstor. nos bairros humildes que margeiam essas avenidas.130). de Aquí América Latina. A construção de pontes ou de caminhos de aproximação através de textos que narram e dão coerência à cidade. demonstram que as fronteiras já não impedem a passagem de um lado para o outro. As cidades cindidas de modo cada vez mais radical apresentamse nas narrativas do século XXI como “ilhas urbanas”. 2010. Como diz Josefina Ludmer em seu ensaio “La ciudad: En la isla urbana”. Buenos Aires: Norma. In: GARCÍA CANCLINI. ______ (2005): Diferentes. 103-112. despertam a curiosidade e propiciam o contato. p.

p. La vuelta a Cortázar en nueve ensayos. Niterói: EdUFF. Elizabeth (2006): Migraciones y derechos: instituciones y prácticas sociales en la construcción de la igualdad y la diferencia. D. JELIN. Rio de Janeiro: Forense Universitária. México. Cristian Alarcón: “El mundo narco habla de un mundo por venir”. Buenos Aires: Prometeo. org. pp. Roberto (2000): Mito y archivo: una teoría de la narrativa latinoamericana. De la diversidad a la interculturalidad. Virginia Aguirre Muñoz. 225-260. MAFFESOLI.com.valor. Sara Vinocur de. TORRES (2010): Literaturas migrantes. Revista Ñ. Barcelona: Gedisa. Migraciones regionales hacia la Argentina: diferencia. Disponível em http://publicidade-valordigital.com/diariodelaferia/2010/04/25/ cristian_alarcon_el_mundo_narco_habla_de_un_mundo_por_venir/. SARLO. Buenos Aires: Tusquets. In: GARCÍA CANCLINI. org. Sergio (2010): Oscura monótona sangre. 1968. In: GRIMSON. Néstor. Notas sobre la “zona sagrada” y el mundo de los “otros” en Bestiario de Julio Cortázar.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 175 GONZÁLEZ ECHEVARRÍA. 25 abr.br/cultura/1130334 Acessado em 01/09/2012. A literatura não é mais sagrada: entrevista a Josefina Ludmer. Acessado em 01/09/2012. Notas 1 BORDÓN.: Fondo de Cultura Económica. Néstor. p. In: TIRRI. Maria Bernadette. 2ª ed. 104-5. 2ª ed.clarin. Beatriz (2009): La ciudad vista : mercancías y cultura urbana. 4ª ed. TIRRI. Disponível em http://weblogs. Maria de Lourdes Menezes. Elizabeth. Néstor. Rio de Janeiro. 3 GARCÍA CANCLINI. 13 -39. JITRIK. Buenos Aires: Siglo XXI. orgs. desigualdad y derechos. de Clarín. 2011. In: FIGUEIREDO. Conceitos de literatura e cultura. Noé. Trad. PORTO. Eurídice. 2010. Trad. JELIN. 4 Cf. Buenos Aires. . Editora UFJF. Conflictos interculturales. org. 47-68. Juan Manuel. OLGUÍN. p. Michel (2010): O tempo das tribos: o declínio do individualismo nas sociedades de massa. 2 BERTOL Rachel. Valor. Alejandro.F.

. No entanto. como também as publicações do grande roteirista Hector Oesterheld. e suas intensas publicações. O período entre os anos 1929 e a Segunda Guerra Mundial é considerado como o que mais ousou em criatividade e propiciou a expansão e a exportação das HQs. Schulz). Um dos nomes mais expressivos do meio de produção das HQs é o do italiano Hugo Pratt.176 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS AS TRADUÇÕES DE QUADRINHOS SOB UM OLHAR DISCURSIVO Bárbara Zocal da Silva PG. assim. com começo. popularmente chamadas de HQs. inovou a estrutura dos quadrinhos ao colorir as histórias e ao delimitar as falas das personagens por meio do balão. principalmente no gênero da aventura. Suas produções artísticas influenciaram consideravelmente a qualidade de produção das historinhas em toda a América Latina. Calvin & Hobbes (de Bill Watterson) e Mafalda (de Quino). Sabe-se. Há uma valorização maior do texto sobre a imagem. o que os torna expressivamente ricos. esse produto de massa. em 1895. 2010). consagraram-se neste design que conhecemos por volta dos anos 1880. Personagens como Peanuts (de Charles M. para onde se mudou nos anos 1950. permitiram à Argentina criar uma rica tradição em suas historietas densamente elaboradas. obedecendo. Esse movimento de exportação conquistou muitos fãs – grandes consumidores – e também estimulou um intenso desenvolvimento da criação de HQs em outros países como na França. com sua série The Yellow Kid . muito valorizado na Europa e na América Latina. meio e fim definidos.Universidade de São Paulo As Histórias em Quadrinhos. A partir da década de 1950. os quadrinhos aderem a um caráter mais ácido. Garfield (de Jim Davis). intensificaram-se as criações intelectuais das Histórias em Quadrinhos. à ordem de narrativa. não há como especificarmos certamente quando surgiu e qual foi a primeira história em quadrinhos. animais e crianças aparentemente ingênuos. à ordem de sequência dos diálogos e à ordem de permanência das mesmas personagens (SANTOS. que. cultural e popular. questionam a formação das relações familiares. as HQs se popularizaram nos Estados Unidos e tal pioneirismo deve-se ao americano Richard Fenton Outcalt. em especial na Argentina. que no fim do século XIX. indagam-se sobre os problemas sociais e políticos e valem-se de um humor sarcástico para fazerem chistes. na Itália e na Argentina.

p. Angeli. como. por exemplo. 2006.14). Destacam-se grandes nomes de cartunistas como os de Angelo Agostini. o mundo dos super-heróis. entre tantos outros humoristas e jornalistas. Ziraldo. afinava com os propósitos de variados humoristas e quadrinhistas: ganhar dinheiro sem abrir mão de criticar e rir de nossas mazelas. e ainda fazem. De acordo com Patati. A persistência de um jornal como O Pasquim . a aventura.10). entre tantos outros projetos culturais idealizados.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 177 As HQs no Brasil Em contrapartida. p. percebeu-se o sucesso das HQs de humor que comentavam “de modo agudo os problemas do momento” (PATATI. o Versus . roteirista.14). . entre outros. devido aos temas regionais abordados. A evolução dos acontecimentos políticos tornou o espaço dos quadrinhos e do humor na imprensa do Brasil ainda menor do que já era. Henfil foi reconhecido – internacionalmente – pela influência que seus trabalhos tiveram em sua vida militante e pelo seu brilhante trabalho como cartunista. além de inovar quanto à estética dos quadrinhos – criava não apenas faces. inclusive. Com o crescimento na produção de quadrinhos no Brasil. a guerra. Os brasileiros não mais se satisfaziam em rir dos problemas político-sociais do mundo. inovou quanto à criticidade a seu país. pois. Tanto caíram no gosto do público que muitas outras histórias de humor e de aventura. e A Turma da Mônica . BRAGA. assim. Entretanto. Millôr. foi um dos quadrinhistas mais representativos no Brasil. lançada em 1905 (VERGUEIRO. durante o período da ditadura militar no Brasil. (PATATI. Um exemplo de resistência da época é o semanário O Pasquim. criada por Ziraldo Alves Pinto. foram os responsáveis pela fundação da Editora Abril em 1950. Guidacci.199). p. p. Henfil. principalmente as historinhas de O Pato Donald . Ivan Lessa. eles queriam falar de seus próprios problemas. O jornal contou com a colaboração criativa de Jaguar. pois fizeram frente aos governos da época. “considerada talvez como a mais importante e genuína contribuição brasileira à industria dos quadrinhos” (VERGUEIRO. 2010. chamados “alternativos”. à condição apática da população diante da ditadura. que lutaram bravamente contra a censura para verem publicadas suas edições. apresentador. ou ainda. de acordo com Patati. nessa época. o Brasil era tomado pelas produções norte-americanas e caminhava vagarosamente em direção a uma produção própria de Histórias em Quadrinhos. muito sucesso nas páginas dos periódicos. Fortuna. Carlos Estevão e Millôr Fernandes. Duas outras revistas que contribuíram para uma história das HQs no Brasil surgiram na década de 1960 e são a revista O Pererê. mas traços claros das expressões faciais –. BRAGA. o gênero infantil foi o que prevaleceu na criação das HQs brasileiras. o humor crítico e político. colunista. ao governo e.199) Henrique de Souza Filho. com foco sempre para o lado infantil. pois. 2011. 2011. Os quadrinhos humorísticos foram ideologicamente significativos entre os anos 1964 e 1985. de John Stanley) e o Pimentinha (Dennis the Menace. o terror. popularmente conhecido como Henfil. que “abusava de uma linguagem polêmica de humor contra o milagre econômico e fazia críticas incansáveis à ditadura” (SANTOS. tornou-os as mais influentes publicações de seu tempo. as tirinhas com tendências críticas fizeram. criada por Maurício de Souza. A primeira revista brasileira que publicou regularmente quadrinhos no Brasil foi a revista Ticotico. Os gibis da família Disney. escritor. fizeram sucesso como a Luluzinha ( Little Lulu . e que ainda obtém grande êxito. outros gêneros de quadrinhos invadiram o mundo das HQs brasileiras. Braga (2006). pensava-se que esse tipo de literatura era dirigido exclusivamente às crianças. 2006. Braga (2006). A comunhão de propósitos entre autores e editores destes jornais. p. de Hank Ketcham).

participariam conjuntamente Quino. eles têm condições financeiras de terem uma casa própria. problemas sofridos nessas décadas por grande parte dos países. os conflitos da guerra fria. conhecido como Quino. “funciona pelo inconsciente e pela ideologia”. pois Quino queria muito que ele estivesse envolvido no projeto. as privações da infância. p. (ORLANDI. 1999. para cumprir esse propósito. Ela seria traduzida para o “portunhol” e. O projeto consistia numa tradução diferenciada de algumas histor ietas da personagem Mafalda . comportando-se. seria o tradutor ideal e Henfil revisaria tudo. um carro. Mouzar Benedito. pois a Argentina passava por um momento de repressão política sob o comando de militares peronistas. Em princípio. uma televisão e direito às férias em família. percebemos que essa é uma das características primordiais para que o humor seja compreendido. como uma criança. Mafalda provém da classe média e percebemos. pois. por trás de seus debates. e outra foi realizada por Mouzar Benedito. Ao analisarmos o discurso de Mafalda. em suas opções tradutórias. a influência . e Henfil. O fato de Mônica Stahel (doravante MS MS) manter. (ORLANDI. em 1982. Mafalda. p.20) Ao voltarmo-nos para a análise das traduções. são as imagens que constituem as diferentes posições na relação discursiva. Dessa forma. a constante luta pelo poder entre os Estados Unidos e a ex-URSS. a cultura geral. Henfil participou em 1982 de um projeto do grande cartunista argentino Joaquín Salvador Lavado.15) As tirinhas da Mafalda que pertencem ao corpus . Sob a luz da Análise do Discurso de linha francesa. politizado. notamos que uma característica bem marcante da divergência entre as duas traduções das mesmas tirinhas de Mafalda é a relação de seus respectivos tradutores com suas próprias concepções de tradução. o quadrinhista.. considerando a produção de sentidos enquanto parte de suas vidas. com homens falando. assim. de certa forma. com maneiras de significar. ainda assim. Ela e sua família gozam de regalias. que usa da expressividade da fala como uma tentativa de buscar seus direitos e de conscientizar a população para as questões políticas à sua volta. a problemática familiar. e. sociais e políticas que podem estar contidas em duas traduções diferentes realizadas no Brasil das mesmas tirinhas escritas originalmente em espanhol hispano-americano. ou seja. como revelado em uma entrevista de Mouzar sobre Henfil na Rev ista Imprensa de junho de 2008. Assim. Uma dessas traduções foi realizada por Mônica Stahel. uma vez que ele não poderia realizar o trabalho na época. jornalista também engajado politicamente. mas com a língua no mundo. e editada pela Global. 1999.. a má educação. o tradutor. pretendemos observar algumas questões linguísticas. a idéia de Quino era que Henfil traduzisse as tirinhas. [. em 1998. em plena crise econômica. problemas incompreensíveis aos olhos de uma menina de seis anos de idade. escritas entre as décadas de 1962 e 1973. retratam. decidiram que Mouzar. definimos a garotinha de seis anos. seja enquanto sujeitos. e o mundo sofria com a Guerra Fria. como sujeito discursivo.] a primeira coisa a se observar é que a Análise de Discurso não trabalha com a língua enquanto um sistema abstrato. inclusive pela Argentina e pelo Brasil. como mostram as tirinhas. estruturas frasais mais próximas da língua portuguesa indica uma tendência Como editor. como sujeito de tendência socialista. e editada pela Martins Fontes. De acordo com Orlandi (1999). vemos a forma histórica de um sujeito inserido numa conjuntura política de tensão. seja enquanto membros de uma determinada forma de sociedade. uma representatividade do cotidiano dessa classe. historicamente posicionada. Por outro lado. porém. quando nos deparamos com Mafalda lançando seu olhar crítico à sua vida e ao mundo à sua volta.178 O projeto ambivalente ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS norte-americana. de uma forma geral. o editor-revisor.

p. “como diz Pêcheux (1975). abrangendo. inclusive entre as crianças. o que possibilitaria a compreensão de tais tirinhas em uma maior comunidade interpretativa (FISH. dessa forma. percebemos na tradução de Mouzar Benedito. “¡AAAAAAI!” (tirinha 1). não há discurso sem sujeito e não há sujeito sem ideologia: o indivíduo é interpelado em sujeito pela ideologia e é assim que a língua faz sentido. período de Diretas Já e de sindicalismo. Ao compararmos as duas traduções das tirinhas. Entretanto. período de intensa participação popular após os anos de silêncio.” (ORLANDI. é condicionada por fatores ideológicos e contextuais. comunidades interpretativas (FISH. a que comunidade interpretativa. por exemplo. em relação ao original. inclusive. aos seus objetivos. 1995). em último lugar. assim. a concepção pós-moderna de tradução. a ideologia e a construção de discurso mostra que a tradução. o estudo das relações entre o signo.20) . “¡Como!” e “Bueno” (tirinha 2) – privilegiando uma linguagem mais truncada e. significam em nós e para nós. p. de forma prática. à qual vinculamos MB MB. às crianças leitoras. “¿E daí?”. por seguir as exigências de domesticação (VENUTI. década de 80. 1999. retratada nas tirinhas. ao contrário da de Mônica Stahel. a presença de itens lexicais marcados ideologicamente pelos conflitos vivenciados na América Latina entre o período das ditaduras.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 179 à invisibilidade do tradutor . fato que pode ser justificado pela sua participação militante tanto na época conflituosa. Diferentemente. muitas vezes. a quem ele pretende dirigir determinada tradução. 1995) impostas pelas editoras que manipulam e difundem a idéia equivocada de que uma tradução deve ser “fiel à idéia do autor do texto original”. restrita aos leitores que não têm conhecimento da língua espanhola e.” (ORLANDI. Mouzar Benedito (doravante MB MB) mantém as estruturas das traduções das tirinhas mais próximas da língua espanhola – ele mantém os pontos de interrogação e de exclamação. o discurso e a ideologia presentes nas traduções de Mouzar Benedito e de Mônica Stahel. assim como a leitura. por exemplo. à sua concepção de tradução e. as diferentes concepções de tradução nos levam à reflexão sobre o quão ideologicamente marcadas são as traduções de MS MS. no entanto. quanto na época de sua tradução. de acordo com a concepção de Venuti (1995). afinal. trabalhando a relação línguadiscurso-ideologia discutida em Orlandi (1999). 1992) distintas das abrangidas por MS e permanecendo como um tradutor mais visível (VENUTI. às suas interpretações proporcionadas pela sua leitura. expõe que há três questões sobre as quais o tradutor Tirinha 1 deve refletir e ser fiel a elas.17) A teoria na prática Analisemos agora. a relação entre a língua. em segundo lugar. 1992). 1999. as interjeições e muitas palavras grafadas como em espanhol como. De acordo com Arrojo (1986). para ilustrar o fato de que até mesmo as palavras mais “simples do nosso cotidiano já chegam até nós carregadas de sentidos que não sabemos como se constituíram e que. privilegiando. Primeiramente. consumidores alvo das histórias em quadrinhos no Brasil. Sendo assim. uma leitura fluente e transparente.

ao contrário. nos determos nas palavras “re c lamand lamando itad percebemos que a opção tradutória de MB relacionase ao discurso de um sujeito afetado. mas. porém.. por mudança.pe nsei que er mu n do q ue esta va r eclamand o ” e a de M B qu av re do “A h. Sendo assim.180 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Mafalda. vemos que a tradução de MB do primeiro quadrinho mantém uma semelhança maior em relação à forma e ao léxico da língua espanhola. estão inhas 2 presentes nas Tir irinhas 2... expressões e preposições são produzidas (isto é..ac hei que er mund undo que tinha gr itad o” e “g r ita d o” . ao iq ue e ra o e nse compararmos a opção de MS “A h. mas grita como se clamasse por socorro. em seguida. de uma preposição. num impulso. p... pela ideologia socialista da época. reproduzidas). que não se queixa ou reclama da situação política e social do mundo. o sentido de uma palavra. 1988.creí que lq ue se había q ue j a d o” . simplesmente.. a expressão da dor.cr h.160) Outras formas discursivas relevantes para exemplificarmos a relação do sujeito com a historicidade e com o interdiscurso. é determinado pelas posições ideológicas que estão em jogo no processo sócio-histórico no qual as palavras. ouve as notícias sobre o mundo e.p h.a c he iq ue e ra o m und oq ue t inha g r ita d o” e h... inconscientemente.. na tirinha 1. ouve uma y!” e sai em busca do sofredor da ação interjeição “¡A “¡Ay!” que desencadeou. (PECHÊUX.. não existe “em si mesmo” (isto é. Ao se deparar com o globo terrestre na sala de sua casa. de uma expressão. etc. er a e lm und oe el mund undo el que que uej (Tradução de Mônica Stahel) (Tradução de Mouzar Benedito) Ao observarmos as traduções.. a garotinha fantasia com a possibilidade de o mundo ter sofrido a dor.. em sua relação transparente com a literalidade do significante). No último quadrinho... . dadas as condições de produção na qual se inserem. ao mesmo tempo que desliga seu rádio. encontra eí q ue seu pai com um martelo na mão e diz: “A h. inserida no contexto de seu ambiente familiar.

que estão em confronto e.. outra estrutura nos chama r icanos e os a atenção.. para um acordo. assim mesmo.¿V o cê não esta da língua espanhola. e não os países subdesenvolvidos da América do Sul. M B traduz os mesmos r t e-ame r icanos e os r ussos quadrinhos como “os no nor e-amer russos também estão b r avos e mesmo assim c o me rciam br co mer e nt re e les ” e “a h umanida d e não está far ta ne m da ntr eles les” humanida umanidad farta nem S usanita ne md ev o cê” nem de vo cê”. por exemplo. co me rciam com os russos. desde o fim do século XIX até o fim do século XX.¿Vo estav b r avo c om e la?” co ela?” la?”.. Não há espaço para uma mer negociação. pudemos propor um ensaio de análise. e MB aproxima-se mais das estruturas co va o mo!. mediante um olhar discursivo sobre a língua. de como duas . com um enfoque especial para o Brasil e a Argentina. v vo estav de mal c om e la?” ela?” la?”. M S mantém uma linguagem mais clara e de fácil compreensão para seu o cê não esta va d e público alvo. Enquanto MS traduz “os ame amer r ussos também estão d e mal no e ntant o ne g o ciam de entant ntanto neg e nt re si” e “a h umanida d e não está c he ia ne m da ntr humanida umanidad che heia nem Susanita ne md ev o cê” nem de vo cê”. eles somente o fazem para cumprir o protocolo. contudo. as crianças “Ué...ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 181 (Tradução de Mônica Stahel) (Tradução de Mouzar Benedito) Na segunda tirinha. elas r t e-ame r icanos especificam que são os no nor e-amer icanos. Considerações finais Após um breve esboço da história das Histórias em Quadrinhos. o discurso e a ideologia. destacamos a expressividade r te-ame r icanos ” e “co me rciam ” das das palavras “no nor e-amer icanos” mer ciam” traduções de MB MB. Essas formações discursivas dão maior ênfase ao conflito da Guerra Fria em si. respectivamente nos segundo e quarto quadrinhos. “¡C “¡Co mo!..

Campinas: Pontes. Tradução de Eni Pulcinelli Orlandi. W (Orgs). (1982).asp?idEdicao=11&idMateriaRevista=123>. SANTOS. Disponível em < http:// www. PORTAL IMPRENSA. O Universo Feminino nas Histórias em Quadrinhos. QUINO. E. jul. (2011) A história contextualização constitui intrinsecamente a interpretação.189-206.. São Paulo: Ática. C. do cartunista argentino Quino. somos. (2010). (1990). S. K. Referências bibliográficas ARROJO. pois no ato da interpretação nos posicionamos ideologicamente./dez. 10 años con Mafalda. A. Tradução de Mouzar Benedito. Campinas (SP). Deste estudo é depreendemos inevitável e que a PADIAL. S. AUTHIER-REVUZ.br/edicao11outubro2010/ universo-femin-hq. 3ª ed. (Org.historiaimagem. 43-68. Almanaque dos quadrinhos: 100 anos de uma mídia popular. (19): 25-42. (1988). Disponível em <http:// portalimprensa. levados a pensar que mandamos em nossos pensamentos e temos controle de nossas formas de expressão. Alfa (São Paulo). VERGUEIRO. R. Oficina de Tradução: a teoria na prática. somos meros sujeitos assujeitados (AUTHIEZ-REVUZ. (2002). Rio de Janeiro. evolução e mercado. F. . Henfil não morreu. São Paulo: Laços.3. (1990). São Paulo: Martins Fontes. E. PECHÊUX.uol. Rio de Janeiro: Ediouro. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. p. BRAGA.. M. VENUTI. Is there a text in this class? Tradução de Rafael Eugênio Hoyos-Andrade. p. Palavra. (2011). (1998). Tradução de Celene M. p. Análise de discurso: princípios e procedimentos.). Discurso e Textualidade. contudo. Acesso em: 15 de março de 2011. Campinas: Pontes. 1990) às estruturas e governados pelas ações regidas ideologicamente e constituídas dadas as relações que estabelecemos com a língua e com a história em nossas experiências de mundo. Campinas: Editora da UNICAMP. QUINO.144-185. RODRIGUES. Tradução de Eni Pulcinelli Orlandi. Cruz e João Wanderley Geraldi. seja na exposição de nossas próprias idéias. PECHÊUX. seja na escolha das palavras que utilizamos. FISH. v. Buenos Aires: Ediciones de la Flor. na verdade. (1999). Campinas: Pontes. n. SANTOS. A língua não é transparente – não deveríamos tratá-la de forma ingênua –. somos determinados por nossa relação com a língua e com a história e essa relação se faz no inconsciente. O discurso: estrutura e acontecimento. Tradução de Carolina Alfaro. (2006). (2006).111-134. J. A invisibilidade do tradutor. Lawrence.com. QUINO.br/revista/ edicao_mes. ORLANDI.com. podem apresentar divergências quanto às concepções de tradução. Mafalda 2. p. em quadrinhos no Brasil: Análise.pdf >. São Paulo: Editora Global. à relação do tradutor com o léxico e à significação das palavras em sua relação com o mundo. Heterogeneidade(s) enunciativa(s).182 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS traduções diferentes das mesmas tirinhas da personagem Mafalda. (1986). Acesso em: 14 de março. In: Cadernos de estudos lingüísticos . M. (1995). R. P.36. (1992). PATATI. 10 anos com Mafalda. M. Tradução de Monica Stahel.

Su lectura. Ese vínculo exaltado con la ‘madre patria’ fue tan relevante que se plasmó en otros dominios asociados: en la educación. Los discursos conmemorativos del “Día de la Raza”. Esos discursos oficiales. pronunciados por presidentes o altos mandatarios de gobierno. hace con que pertenezcan a un espacio privilegiado. siempre fragmentado. una vez que el régimen de enunciabilidad ha cambiado: El análisis del archivo comporta. conmemorativo del 12 de octubre. Presentaremos algunas aproximaciones iniciales de nuestra investigación de doctorado que pretende contribuir para discutir la noción de hispanidad de aquella época y construir un archivo. la práctica de construcción de un archivo con estos pronunciamientos se nos presenta como instigante y desafiadora. una región privilegiada: al mismo tiempo próxima a nosotros. vigoraron con fuerza entre fines del siglo XIX y la primera mitad del siglo XX y responden a circunstancias históricas y políticas muy particulares. pues. su descripción hoy. pronunciado por el entonces .ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 183 DISCURSOS OFICIALES DEL 12 DE OCTUBRE: UN DÍA CONMEMORATIVO PECULIAR Beatriz Adriana Komavli de Sánchez –UERJ PG . objeto de resignificaciones a lo largo del tiempo. vigente en el calendario oficial español y en muchos países hispanoamericanos. en los posicionamientos políticos de las Academias de Lengua y Letras de América y en la política externa de aquella época. trataban de un ámbito no de objetos materiales sino de dependencias simbólicas y de parentesco. provoca un efecto de rareza que. según Foucault ([1969]1995). nos delimita. (p. es aquello que fuera de nosotros. de estas prácticas discursivas de la memoria pública del 12 de octubre1. parcial.UFF El objetivo de esta comunicación es presentar una serie de reflexiones en torno al día festivo. se trata de la orla del tiempo que cerca nuestro presente. “Día de la Hispanidad”. 150-151) (Traducción de la autora) Escogimos para esta ocasión presentar algunos esbozos analíticos del discurso de 12 de octubre de 1947. La descripción del archivo desarrolla sus posibilidades (y el control de sus posibilidades) a partir de los discursos que comienzan a dejar de ser los nuestros. Actualmente. pero diferente de nuestra actualidad. “entre la tradición y el olvido”. que lo domina y que lo indica en su alteridad.

la estabilización del referente. en ninguna de las florecientes naciones la lengua constituyó un problema en aquel inicio (finales del siglo XVIII y comienzos del XIX) ya que los pueblos y líderes criollos tenían la misma lengua que los Foucault. guiado por una visión antropológica: “una comunidad política imag inada – e imaginada como siendo intrínsecamente limitada y. caracterizado por Daher (2000. en su arqueología. de lo ‘decible faltoso’. en la medida en que tratan del mismo dominio de objetos. 32) así define el concepto de nación. aunque pueda dirigirse a muchos otros destinatarios que no sean los directamente anunciados. 37) en términos de ‘interdicto’ de un discurso. Esos vínculos conforman un juego enunciativo que es preciso examinar. soberana”. Aquellos enunciados renegados son reformulados por . al mismo tiempo. no reactualice otros enunciados” ([1969]1995. un abanico de relaciones posibles futuras. inaugura. p. el enunciador acostumbra a anunciar de forma explícita a quien se dirige. por un lado. conforman ese concepto moderno aglutinante que se materializa en prácticas. de sinonimia. 113). (Traducción de la autora) Contextualización del discurso En su clásica obra de referencia para los estudiosos de las ciencias sociales. Ese proceso al mismo tiempo funciona describiendo.184 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS presidente de la República Argentina. creando. de paráfrasis. p. sostiene que los límites del enunciado son los otros enunciados con los cuales se puede establecer un espacio de correlaciones. parafraseándolo. Para la autora. p. la reescritura es un mecanismo constitutivo del lenguaje que nos posibilita nominar algo o alguien de modos diferentes. Maingueneau (2008. El abordaje teórico La visión dialógica de Bajtín y el Análisis del Discurso de línea francesa que considera los estudios enunciativos nos ayudarán a destacar algunas marcas lingüísticas de la red de filiaciones identitarias que se tejían entre la madre patria y las excolonias materializadas en los discursos oficiales del 12 de octubre. una especie de fraternidad horizontal que atraviesa a todos los integrantes que. surge el sentido como efecto. etc. p. calificando. sin conocerse. 86): En el género pronunciamiento político. sino una multiplicidad de “oyentes” es otra marca importante de esos discursos. La certeza de un auditorio en el cual se incluyen no solo los destinatarios explícitamente designados por él en su discurso. valiéndose de otros recursos. El género pronunciamiento es así En esta primera aproximación destacamos el proceso designativo que conforma. la ilusión de una equivalencia entre las palabras y. Anderson (2011. Esa relación no solo es posible de ser establecida con otros enunciados pasados como también condiciona. objetos del discurso. 83-108) se refiere a dicho mecanismo en términos de reescritura. general Juan Domingo Perón2. Ese proceso comprende estrategias de sustitución. Otra particularidad de ese discurso político presidencial es la de que el enunciador tiene garantizado por el poder del cargo empírico que ocupa el derecho al pronunciamiento – ya que su papel social así lo autoriza y legitima. y aún más: “no hay enunciado que. Anderson afirma que en América. Estos direccionamientos pueden ser recuperados por medio de diferentes marcas lingüísticas. de la tensión que subyace entre la paráfrasis (lo mismo) y la polisemia (lo diferente). 2001. por el otro. Del conflicto. Orlandi (apud KARIM. diseña. de una forma o de otra. Se imagina y no se inventa. p.

ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 185 excolonizadores. Para tal. el 11/10/1917 publica un decreto declarando el 12 de octubre fiesta nacional dedicada a la raza. 16-17) apunta que. en este caso los descendientes remanecientes de diversas comunidades indígenas. el intento fracasado en el norte de África y los regionalismos internos aceleraron la necesidad de reatar lazos con las excolonias americanas. la fiesta de 12 de octubre en España no se encajaría en ninguno de los dos tipos señalados en el párrafo anterior. A propósito de las fiestas nacionales. de adoptar la fecha del 12 de octubre como Día de la Raza fue acogida rápidamente por muchos gobiernos. Recientemente. aliada a la ideología de esa hispanidad se mostró muy efectiva para consolidar la fecha conmemorativa: “Se trata así de poner de manifiesto la pureza moral de la nacionalidad española: la categoría superior. después de un cierto período de resentimiento. y a veces políticos y económicos. de nuestro espíritu imperial. lazos culturales. Según el mencionado autor. Tateishi (2005. 262). ese proceso fue motivado por: la disgregación de la Unión Soviética. la madre patria recorre a su pasado exaltándolo. Conflictos internos en España postergaron la definición de una fecha conmemorativa nacional hasta que las celebraciones por el IV Centenario del Descubrimiento de América en 1892. (. p. por más duras que hayan sido. . apud TATEISHI. por el decreto 1584/2010 sobre feriados nacionales y días no laborables de la actual presidenta argentina.. monolítica. p. la descolonización de África. s/d) apunta dos tipos de celebraciones de la memoria pública: “la que insiste en la continuidad de la nación desde el pasado histórico. Grupos enteros que habían permanecido en el olvido. y la que celebra la nación moderna a partir de la ruptura con el pasado”.. Heymann (2007. La coincidencia de la fecha con el día festivo religioso de la Virgen del Pilar. El castellano. el presidente Hipólito Irigoyen. de la Hispanidad. de entender la unidad cultural de cada nación que da lugar. Si es imperial. el proceso de globalización y los movimientos migratorios. 2003. Las guerras revolucionarias. hecha por la Unión Ibero-Americana en 1912. siguiendo a Tateishi (2005). lengua vernácula. Juliá (1990) que en su artículo Vieja nación.) defensora y misionera de la verdadera civilización. al multiculturalismo. así califica a esta conmemoración “fiesta imposible de la nación española”. luego la pérdida en 1895 de Cuba y de Puerto Rico en 1898. el creciente expansionismo de los Estados Unidos en América. fiesta imperial. 268). cuyo propósito era recuperar un prestigio perdido. Cristina Kirchner. ¿cómo calificarla para las naciones de lengua española. la fecha fue redesignada como Día del Respeto a la Diversidad Cultural3. excolonias? En América la propuesta. (Traducción de la autora) universalista. en la medida en que eran guerras entre parientes. s/d). si es imposible para España. En ese sentido es coincidente con S. entre las exmetrópolis y las nuevas naciones (p. ahora estimadas como ‘hijas’ bajo un nuevo prisma de política la externa. la constitución de nuevos bloques económicos (UE y Mercosur). En el caso específico de Argentina que nos interesa.. Sin embargo la festividad solo gana estatuto legal el 9 de enero de 1958. fuera posible reatar íntimos lazos culturales. también. 2005. fue impuesto a los indígenas americanos en los dominios de la corona española. aun así eran tranquilizadoras. que es la Cristiandad” (VALLS. Ese vínculo familiar garantizaba que. en la segunda mitad de ese siglo. en escala mundial. entre otras.Fue justamente el hecho de compartir con la metrópolis la misma lengua (y también la religión y la cultura) que había posibilitado las primeras creaciones de imágenes nacionales (p. Para entender lo que ocurrió en ese período de tiempo es menester considerar que hasta mediados del siglo XX predominó una manera única. 1999 e ABÓS.. p. Una fiesta compartida puede cumplir esa función de afianzar.

de hecho. Son ellas: la reina Isabel (Nueva Recopilación de las Leyes de Indias). La Galatea. su vida. espejo y paradigma de su raza (1). el inmortal complutense. su honda vivencia espiritual y su suprema gracia hispánica (5). no exhaustiva. el inmortal alcaíno. genio auténticamente español. Persiles y Sigismunda. Renán. (12) América y España: identidad pacifista. (9) Inteligencia y milicia. Diario de Madrid (1788). otros discursos pronunciados por Perón (8/6/44. su propio dolor físico y espiritual. CERVANTES: el grande hombre. el prototipo del caballero católico. 6 Sabio.y Argentina mantuvieron vínculos políticos muy estrechos. (7) Conciencia social de Cervantes. (4) España rediviva en el criollo Quijote. la más alta expresión de las virtudes. 10/7/44 y 24/11/44). Menéndez y Pelayo. para conformar su entramado. su indómita inteligencia (8). otras voces comparecen de manera más o menos explícita.… una riqueza tal de vocablos. la perennidad del Quijote. su palpitación humana. su prosa …fina. Discurso de las armas y de las letras de Cervantes. Crónica General de Alfonso el Aproximaciones al discurso del 12 de octubre de 1947 La sesión fue realizada en la Academia Argentina de Letras con el doble objetivo de rendir homenaje al cuarto centenario del nacimiento de Miguel de Cervantes. aprovechando la proximidad supuesta del nacimiento del homenajeado (entre el 29/9 y 9/10/1547) y conmemorar el Día de la Raza. le siguen dieciséis tópicos cuyos subtítulos. un notable cervantista inglés (s/d). Se hace preciso aclarar que en aquella época. Los números entre paréntesis indican los subtítulos en los que se encontraron tales designaciones. (11) Grandeza de España. decreto del presidente Irigoyen de 1917. su obra. magistral. (6) Entraña popular cervantina.186 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS lucharon por sus derechos y reivindicaron su lugar en la memoria ahora transformada en valor. la hispanidad y la lengua. de raíz hispana. A la introducción del extenso discurso de 13 páginas. Como en todo discurso. su vida triste. (14) Argentina es libertad. el más grande de los escritores castellanos. un escritor contemporáneo (s/d). (5) Porvenir enraizado en el pasado. (13) Paz y justicia social. Madariaga. A lo largo del pronunciamiento son hechos comentarios sobre la obra Don Quijote de La Mancha así como también hay réplicas a los detractores internos y a las potencias extranjeras enemigas (expansionismo de los Estados Unidos y el avance de la Unión Soviética en Eurasia). o indirectamente. la raza. una recolección. sus compañeros de esclavitud. el genio máximo del idioma. (3) América: empresa de héroes. Argentina. (2) La raza: superación de nuestro destino. código del honor y breviario del caballero. (10) La revolución y las almas. Weber. de las designaciones correspondientes a Cervantes. la universalidad de Cervantes. Ortega y Gasset. el título del discurso es Homenaje a Cervantes 4. el misterio y la magia de Cervantes (9). la sencillez de su estilo. pozo de sabiduría y. España. España – bajo el régimen del General Francisco Franco . (15) Transformación del mundo y (16) Resurrección del Quijote . su universalidad (6). un deber moral de reconocer múltiples identidades. con genial previsión (7). por los siglos de los siglos. la inmortal figura de Cervantes. estrecha. merecedores de muchas críticas. Consideramos entonces que es ese nuevo régimen de enunciabilidad el que nos posibilitará la descripción del archivo en cuestión. aquí numerados son: (1) Espíritu contra utilitarismo. el glorioso manco de Lepanto. un dicho. directa . Presentamos a seguir. prototipo católico. a tal punto que en 1946 las dos naciones firmaron el Convenio Comercial y de Pagos por el cual Argentina fornecería cereales a España5. dolorosa. (8) Cervantes. Cervantes –el prototipo del español.(10). un versículo de Job.

ya los oponentes son considerados utilitaristas. este sentido primario de la justicia (11). valores y creencias. vínculos de idioma. de cultura. unidad de cultura y unidad de destino. nuestra . para (re)crear una historia. el éxito de nuestra política exterior (idealista. la verdadera unidad espiritual de los pueblos hispanos. Una vez más nos deparamos con un ámbito semántico difícil de delimitar. el ideal hispánico-ascético. Esta hispanidad se alinea al espiritualismo. nos referimos a la curiosa designación ‘quijotes de nuestras pampas’ (1) en la que se condensan la figura del Quijote y la del gaucho para predicar los rasgos en común valorizados: ‘el riesgo por el bien’. esta filiación (4). LA HISPANIDAD: el heroísmo y la nobleza. la levadura de su sangre. eterna. nuestro sello personal indefinible e inconfundible. civilizadora. el sentimiento patriótico español (11). el pensamiento inspirador de sus grandes estadistas (12). debe resucitar don Quijote y abrirse el sepulcro del Cid Campeador. una herencia inmortal (4). iguales a ella en su esencia y naturaleza (3). estoico. de no resolverlo con acierto. LA LENGUA: el idioma más hermoso de la tierra (2). los pueblos de la hispanidad. su sangre. marcados por el signo de una misión cristiana. empresa universal. ARGENTINA: coheredera de la espiritualidad hispánica. estas identidades. Hoy. la patria. su maternal regazo. de religión. la más prodigiosa acumulación de incitaciones ideales. sus hijas (3). su más calificado blasón. un estilo de vida (2). Una figura emblemática ha llamado nuestra atención. su obra civilizadora. un patrimonio cultural acumulado durante siglos (16). nuevo Prometeo. su gloriosa trayectoria histórica. tan noble tronco (1). quijotesca) (13). unidad de origen.… un desbordamiento de pasión. la pasión patriótica. interpretada como destino. la flor de la caballería. una comunidad de ideas e ideales. nuestro origen y nuestro destino. Perón cierra el discurso haciendo una exhortación que no podíamos dejar de traer: Como miembros de la comunidad occidental no podemos sustraernos a un problema que. ‘la ventura de todo afán justiciero’ y ‘el sabor de “jugarse por entero”’. ese orbe espiritual. la universalidad de lo español (9). lo español. el sentido misional de la cultura hispánica. un afán pacifista. los únicos valores eternos (10). puede derrumbar un patrimonio espiritual acumulado durante siglos. Se rescatan fragmentos del pasado de España. un rosario de heroísmos. el ascetismo y la espiritualidad. valor incorporado y absorbido por nuestra cultura. En varios momentos hay como una superposición entre los valores adjudicados a los diversos objetos de discurso. la armonía de su lengua (4). su empresa. el signo de una auténtica misión (2). la mejor ejecutora de la raza. una empresa universal. la riqueza espiritual.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 187 ESPAÑA: la Patria Madre.…el más puro y elevado. única en el mundo. por esta grandiosidad y por esta fuerza. la ascética grandeza ibérica y cristiana (5). magnífico aporte a la cultura occidental. que bajo determinada coyuntura se proyecta para un presente y un futuro y así hacer frente a las grandes transformaciones sociales en el panorama mundial de aquella época. esta imposición del destino (5). de historia. isla de paz (1). distintas a la madre en su forma y apariencia. la más prodigiosa acumulación de incitaciones ideales (9). de sacrificios y de ejemplares renunciamientos. los valores espirituales. más que nunca. fecunda. la madre España. sus más sublimes proporciones (la vertiente hispánica de la cultura occidental y latina) (4). una suma de imponderables. acaso resignado. LA RAZA: algo puramente espiritual. la magnitud de su empresa.

São Paulo: Pontes. São Paulo : Librería Española e Hispanoamericana . Jornal El País. Disponible en: http://www7a. Disponible en: http://elpais. Consulta realizada el 26/01/2012.com/diario/ 1990/07/19/internacional/648338411_850215. Dominique (2008): Gênese dos ANDERSON. F. (2000): Discursos presidenciais de 1o de maio: a trajetória de uma prática discursiva.ne. En consonancia con González (2005). En: XI Congreso Brasileño de Profesores de Español. política e cultura. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Paulo. Michel ([1969]1995): A Arqueologia do Saber.pdf. MT: Unemat. 59-71). 2008) y que rescata valores vigentes en la Castilla del siglo XV. podríamos decir que desacraliza una visión de lengua monolítica que se ajustaba a esa formación ideológica. p. Maria C. JULIÁ. En: GOMES. TATEISHI. Luciana Quillet (2007): O devoir de mémoire na França contemporânea: entre memória. 19-7-1990. Cáceres. que se aparta de la definición genérica dada por el diccionario7. La Academia Argentina de Letras y el peronismo (1946-1956). En: Oralità e Memoria. (2001): Significação –Da História ao nome Israel e Palestina na Folha de S.biglobe. G. São Paulo: Companhia das Letras. p. . 15-43.Casa del Lector. KARIM. PUC-SP.jp/~hirotate/ hiro-es/art-hiro/hiro-4.188 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Consideraciones finales Estas primeras aproximaciones se mostraron muy productivas por revelar los valores adjudicados en aquella época a la noción de hispanidad. 2007.es/exterior/br/ es/publicaciones/XI_congreso. Rio de Janeiro: FGV. Benedict (2011): Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. Campinas. 129-144. Actas del XI Congreso Brasileño de Profesores de Español. Denise Bottman. noción que puede ser confundida con la de hispanismo y con la que mantiene parentescos. La fiesta del 12 de octubre parece haber servido de pasquín para una determinada coyuntura histórica y política. GONZÁLEZ. DAHER. En definitiva. Santos (1990): Vieja nación. HEYMANN. GLOZMAN. 4ta ed. história. Salvador. El advenimiento del multiculturalismo. Mario Miguel (2005): Hispanidad e Hispanismo para profesores brasileños de Español. discursos. . Referencias bibliográficas MAINGUENEAU. Taisir M. pp. Tateishi (2005) especifica más aún y afirma que “(la hispanidad) era un concepto íntimamente ligado al nacional-catolicismo del régimen franquista”. p. 2 da reimpressão. a partir de la segunda mitad del siglo XX. Cagliari: Arxiu de Tradicions . Tese de doutorado em Lingüística Aplicada ao ensino de línguas.html (consulta realizada el 08/04/2012). Trad. Angela de Castro (coord. 2-8.htm (última consulta realizada el 25/06/2012). fiesta imperial. se observan marcas lingüísticas de un movimiento político-cultural que surge a fines del siglo XIX bajo el signo del conservadorismo (GLOZMAN. SP: Parábola.): Direitos e cidadania –memória. Em: Sociedade e Discurso. www. FOUCAULT. Mara (2008).educacion. legislação e direitos. Hirotaka (2005): Estado–nación y fiesta nacional. En: anclajes XIII. a cura di Joan Armangué i Herrero.

sin los contenidos de los subtítulos (6) al (15). miembros del Cuerpo Diplomático y Consular.ar Consultado el 26/01/12. aclarando que faltan los subtítulos (1) y (8).htm. Para su versión completa remitimos al lector al sitio del Centro Virtual Cervantes. Discursos Gral.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 189 Notas 1 Título provisorio de la tesis: Discursos oficiales del 12 de octubre: ¿Raza. Daher –UFF. También alertamos que en otros sitios investigados el pronunciamiento figura incompleto y sin aclaraciones. Departamento Colecciones Especiales. etc. 22da ed. carpeta No 11. Hispanidad o Resistencia indígena? Orientadora: Dra Maria Del Carmen F. don Carlos Ibarguren y el Académico de Número. 2 Biblioteca del Congreso de la Nación.boletinoficial. . enviados especiales. Conjunto y comunidad de los pueblos hispánicos. ministros. 1947. Carácter genérico de todos los pueblos de lengua y cultura hispánica.es/literatura/quijote_america/argentina/ ibarguren. http://cvc.tau.cervantes. don Arturo Marasso.: 1. Consulta realizada el 28/1/2012. académicos.gov. representantes de instituciones culturales y universitarias. 3 4 www. 5 6 http://www. Juan D.ac. G. 7 Diccionario de la Lengua Española (RAE). 2. Perón. Se encontraban también presentes el embajador de España. Además discursaron el señor presidente de la Academia Argentina de Letras.htm Consultado el 6/4/2012.il/eial/I_1/rein. Dada la extensión del discurso no lo presentamos en anexo.

DEMONTE. de forma comparada.Universidade de São Paulo estudo se desviavam do padrão de frequência normal de seleção de infinitivos ou subjuntivos dessas construções em português. mas não somente. com “quando/cuando” e “até/hasta”. pouco natural. 1996). em ambas as línguas. de uma perspectiva gramatical. principal. com “para/ para”. constatamos uma grande proximidade entre o texto meta e o texto fonte. 315). seria verificar como tais 1 Introdução A partir da observação de um corpus de traduções de receitas feitas por treze aprendizes brasileiros de espanhol como língua estrangeira (E/ LE). na Gramática descriptiva de la lengua española (BOSQUE. O primeiro passo no sentido de comprovar essa intuição. considerando a noção de “naturalidade” como aquelas “coisas que de fato são ditas numa dada área de uma dada língua ou variante linguística” (TAGNIN. 2 As subordinadas adverbiais temporais: comparações entre “quando/cuando” e “até/hasta” . buscamos sistematizar. par tindo de alguns casos que serão analisados em nossa pesquisa de mestrado e com base em gramáticas e trabalhos que abordam tais estruturas. 2003) e na Gramática descritiva do português (PERINI. e nas orações subordinadas adverbiais finais.190 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS SUBORDINADAS TEMPORAIS E FINAIS EM PORTUGUÊS E ESPANHOL: QUESTÕES DE CONTRASTE E EFEITOS PARA A TRADUÇÃO Bruna Macedo de Oliveira 1 PG . 1998) e. as informações normativodescritivas levantadas para o português e para o espanhol. fundamentalmente nas chamadas orações subordinadas adverbiais temporais. intuitivamente. 2000) e em Construcciones temporales (MARTÍNEZ GARCÍA. no que se refere à seleção dos tempos e modos verbais que se seguiam a essas estruturas. que as construções utilizadas naquele orações são descritas. Isso fazia com que o produto das traduções desses sujeitos soasse. p. para o português. No presente estudo. TEIXEIRA. 2004. na Gramática de usos do português (NEVES. para o espanhol.

na subordinada em língua espanhola. segundo Perini (1998). desligue e deixe esfriar. (3) Junte a cebola e o alho e cozinhe até estarem macios. constituído por uma oração principal (nuclear ou matriz) e uma temporal que tem o papel de situar ou delimitar cronologicamente o evento da oração principal (PÉREZ SALDANYA. Diferentemente do que acontece em língua portuguesa. 2000). “quando” será acompanhado de futuro do subjuntivo (1)2. Ilari et al (2008) explicam que se localiza entre as menos gramaticalizadas do português. p. se o que se pretende é uma expressão de eventualidade. mas dois tipos de “hasta”: at i v o (que apontaria o limite final de um um d ur urat ati calização intervalo. aparecem com indicativo se designam eventos factuais (passados. um ponto final cujo início se pressupõe. podendo ou não aparecer flexionados.38). (2b) Cuando enfríe. (1) Quand o ferver. Um fator importante. a presença de formas verbais futuras. Quando segundo a concordância estabelecida em cada caso. pois. A preposição “até” estabelece relações de dois o r ais (4b). em geral.3198-3199) explica que há uma segunda hipótese relativa a esse conector em língua espanhola. no que se refere ao infinitivo flexionado.787). de modo que. No caso da preposição “até”. especialmente na correlação temporal do modo indicativo. Em língua portuguesa. o conector “ cuando ” não admite. “a análise das construções temporais pode ser representada pela análise das orações iniciadas pela conjunção ‘quando’”. por ser ela uma das mais produtivas em língua portuguesa. como em (5b)). (5b) Juan no llegó hasta las tres. A preposição “ hasta ” também se constitui como um nexo de tipo delimitativo. (4b) Sove bem a massa até dar o ponto. apresenta um sujeito e possui flexões de número e pessoa (3). ao contrário do infinitivo impessoal existente nas línguas românticas. como em (5a)) e outro de lo localização p o nt ual (que situaria o momento em que o evento ntual ocorre. espa espaciais presente a ideia de um limite. só será possível na subordinada o uso do imperfeito do subjuntivo (2a) ou do presente (2b): (2a) Junto con la patata cortada echamos el pimentón y cuando estuviera sofrito echamos el agua. Esse conector admite verbos tanto no modo finito quanto na forma infinitiva. de acordo com Perini. fornecendo-nos informações sobre o momento em que começa e/ou termina o evento verbal. Contudo. García Fernández (2000. p. segundo a qual não existiria um. (4a) É um caminho progressivo até chegar ao pódio olímpico. é um caso especial existente apenas em língua portuguesa. ou seja.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 191 A oração subordinada adverbial temporal compõe um período composto. (5a) Juan se quedó hasta las tres. de acordo com Neves (2003. suas condições de concordância são distintas das dos demais tempos e as intuições dos sujeitos sobre quando utilizá-lo são muito menos seguras do que para os outros tempos verbais. em que está ciais (4a)3 e t e mp mpo tipos. quando o referido na oração principal se orienta ao futuro. presentes ou habituais) e com subjuntivo quando se referem a contextos posteriores e não factuais. extraer la rama de vainilla. . O infinitivo flexionado. As orações introduzidas por “ cuando ” em língua espanhola se comportam de maneira análoga ao restante das orações temporais. é que. p. como indica Martínez García (1996.

tal relação não está prevista. mas sim se houvesse dois. podem construir-se: i) com sujeito idêntico ao da (6b) *Cantó la escena final de Salomé hasta bajar al mercado. por suas .201). p. o infinitivo flexionado. e ii) com sujeito distinto do da oração principal. O segundo baseia-se na possibilidade de que dito elemento seja seguido por uma oração de infinitivo. ambos extraídos de Neves (2003: 886). como se nota em (7a e 7b). direto) em Arraial do a servir de base à criação de gigas.3. esse não seria o caso das orações finais. (6a) Cantó la escena final de Salomé hasta perder totalmente su voz. os animais foram a serem/ser colocados um a um em canoas par para levados até o cativeiro natural. embora haja dois pontos a seu favor. Tal diferença.889): Como havíamos assinalado ao tratar da temporal com “até”. (7a) No pararé hasta no haberlo conseguido. que só se constroem com subjuntivo ou com a preposição “para” seguida de infinitivo. (9) Na base em Maranguape.886-887). Essas orações são formadas por uma oração principal (nuclear ou matriz) e uma oração final que. o que comprovaria a dupla natureza. O primeiro diria respeito ao fato de que alguns gramáticos observaram que essa preposição não se comporta da mesma forma em contextos afirmativos e negativos. Entretanto. as finais encontram sua representante máxima na preposição “para”. não encontra explicação natural se considerarmos a existência de um só “hasta”. (8) Leve(suj1) ao fogo par a que as batatas(suj2) fiquem para bem douradinhas. de uma forma geral. as orações adverbiais constituem exemplos de orações construídas com indicativo e subjuntivo. p. No caso de “hasta ” pontual. p. em que ambas as sentenças são gramaticais. Na presença de “ hasta ” durativo. caso em que o infinitivo pode ou não. par para finalidade e avaliarmos a sua extrema importância na administração. p. oração principal. aparecer flexionado (9). o objetivo. para fazer a concordância com o respectivo sujeito (10). as orações finais introduzidas pela preposição “para” seguida de “que” e um verbo no subjuntivo (modo finito) são aquelas que apresentam um sujeito distinto da oração principal (8). a flexão para indicar o sujeito da final é desnecessária (NEVES. não existiria a mesma restrição. segundo Bechara (1999. Em casos como (6b). Cabo. subdividir a própria a melhor apreendermos a sua contabilidade. como dispõe o referido autor (ibidem. a finalidade do pensamento contido na sentença matriz”. para concordar com seu sujeito. “expressam a intenção.192 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS García Fernández destaca que tal proposta não estaria livre de problemas. No entanto. caso em que é mais comum o infinitivo aparecer flexionado. essa possibilidade se limita a alguns casos nos quais há uma relação de consequência entre a oração subordinada e a principal (6a). (11) Comprou oito hectares(obj. As orações formadas pela preposição “para” seguidas de verbo em infinitivo. Segundo Neves (2003. 3 As o r ações s ub o r dina das finais: o caso d e or sub ubo dinadas de “par a/p ar a” para/ ara (10) Convém. atualmente. 2003. par para subordinada tiver o mesmo referente de qualquer outro membro da oração principal. (7b) No me habló hasta no haber llegado al teatro. quando o sujeito da oração Da mesma forma que as temporais podem ser representadas por “quando”. Castilho (2010) explica que. por outro lado.501).

não sei o que se passa na ara cabeça do Rei. como expõe Perini (1998). a d v e r b iais d de e n unciação (14): ( 1 3 ) Esboçou um movimento p a r a seguíssemos em frente. em tais orações. cuja realização. em muitos casos. de maneira que. Para a língua espanhola. mas um objetivo. . ara O uso do subjuntivo neste caso justifica-se pelo traço de intencionalidade que marca a oração subordinada final e porque esta não exprime nenhum fato. ao explicar que é desnecessário. segundo Pérez Saldanya (2000. de forma que o (17) Esta cuerda servirá p ar a mantener sujeto el ara paquete. que indicam o propósito ou a intenção pela qual um agente realiza o evento expresso na oração principal. que a correferência se dê entre os sujeitos.209) nas orações finais. p. o infinitivo flexionado. p. que p. seja porque não diz respeito a nenhum sujeito concreto. a oração subordinada geralmente aparece em infinitivo.74). e subjuntivo quando os agentes não sejam os mesmos (16). se a opção se der em favor da primeira.3310). Galán Rodríguez (2000. será utilizado o infinitivo não flexionado e se a opção se der em favor do segundo. Galán Rodríguez (2000. e i i ) as que rc e modificam o próprio ato linguístico. as orações finais podem ser de dois tipos. Existem. do ponto de vista do nível em que estão construídas. apesar de não contarem com advérbio. aparecer em contextos sem agente. p. p. p. mas a um sujeito genérico ou indeterminado.3629). Neves (ibidem) explica que. (14) Par a dizer a verdade. Segundo Porto Dapena (1991. p.209-210) acrescenta que há situações em que o infinitivo será utilizado mesmo quando os sujeitos das duas orações não forem os mesmos. um v alo alor basicament nte co nsecu cut Com relação aos tempos e modos verbais que acompanham as finais. Para Cunha e Cintra (2001).3308). mais optativa do que obrigatória. seja porque o sujeito da oração subordinada coincide com um argumento da principal.3625) expõe que as orações finais foram incluídas nas chamadas adverbiais circunstanciais em razão de que a finalidade expressa por elas enuncia uma circunstância. Embora as possibilidades de manifestação do fenômeno dependam de traços semânticos e sintáticos do verbo principal. como (19). um evento virtual. dois tipos de orações finais: as propriamente ditas.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 193 características bastante particulares. adver biais cir c u n s t a n c i a s (13). será necessariamente posterior ao designado pela oração principal. Essa afirmação é corroborada por Galán Rodríguez (2000. Nesses casos. (15) Juana canta p ar a alegrarse. nos quais se referem à ideia de objetivo como utilidade. Porto Dapena (1991. ou p u r a s s. exemplos como (11) mostram que a escolha pela forma flexionada ou não do infinitivo é. e as que têm r basicame nt ec o nse cu t i vo . As orações finais podem ainda. a rascar y cortar las (18) Este tipo de azada sirve p ar ara malas yerbas. essa eleição depende da evidência dada à ação ou a seu agente. distinguidos de acordo com seu comportamento sintático: i ) as que ligam o conteúdo proposicional da oração principal. de acordo com Pérez Saldanya (2000. p. como (17). utilizar-se-á obrigatoriamente infinitivo quando os sujeitos têm o mesmo referente (15). ocupa um lugar marginalizado na sintaxe de nossa língua. ara (16) Juana canta p ar a que nos alegremos. como em (18).3621) assinala que os traços semânticos que exprimem a finalidade têm um claro reflexo sintático. ambos os exemplos extraídos de García (1996. se chegar a ser produzida.

já que é García Fernández. pudemos observar que no uso moderno da língua espanhola. utiliza-se um verbo na forma pessoal. em que não se pode considerar a final como de tipo “pura” por não haver um sujeito pessoal (+humano) na oração principal. a mandarla hoy / p ar (25) Escribe la carta p ar a que ara ara la mandes hoy. No caso das finais com “para/ para ”. O modo subjuntivo. em especial quando: i) o verbo principal é passivo. p. ( 2 0 ) Llama a la enfermera p a r a levantarte ra (enfermera-tú). estaria previsto com “quanto”. diretamente. Nas situações em que o verbo apresentar um complemento direto referido a pessoas. com subjuntivo (24). como de tipo d ur urat ati evidente nelas a ideia de consequência entre as duas orações. A partir da comparação efetuada. a alternância entre infinitivo e um verbo na forma finita pode ser modificada. segundo tipologia trazida à luz por at i vo . As estruturas com “até/hasta” encontradas em o r al e poderiam receitas exprimem uma relação t e mp mpo ser classificadas. tanto o infinitivo quanto a forma pessoal (ambos em 25) são possíveis. de maneira geral. 2000. neste item. = yo) mi coche p ar a ir (suj. em que a ação da oração dependente só se cumprirá se a ação contida na principal também realizar-se. embora se entenda como uma ação que alguém realizará. iii) o verbo principal está modalizado. o futuro do subjuntivo. como em (21) 4 . Isso ocorre porque. Quando o verbo da oração principal está no imperativo. Não obstante. no gênero receita. aos casos que serão objeto de estudo em nossa pesquisa. poderá ocorrer com agentes idênticos (22)5 .75). Em língua portuguesa.194 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS agente que executa a ação pode manifestar-se em um complemento direto ou indireto. para indicar eventos orientados ao futuro. e i v) a oração de <para que + subjuntivo> denota a atitude do falante (GALÁN RODRÍGUEZ. como (20). p. (21) Esto servirá p ar a que nos dejen en paz durante ara una temporada. o complemento direto é suscetível de ser correferencial com o sujeito do infinitivo (23) (GARCÍA. aparecerá nas situações em que há dois agentes distintos. . Nas receitas. (23) Los jefes lo enviaron a Madrid p ar a hacer unas ara gestiones. 4 Orações subordinadas adverbiais temporais e finais estudadas: contrastes e efeitos para a tradução Tomaremos. aquelas informações que dizem respeito. além do sujeito do verbo (no caso de este ser também o agente). ii) os sujeitos designam entidades inanimadas e não aparece na oração principal um agente explícito. em alguns casos. para realizar a mesma relação de sentido. (24) Haz los deberes p ar a que mañana no te riña el ara profesor.3634). enfatizamos principalmente as tipologias adotadas em cada uma das línguas. essas construções poderiam ser identificadas como de tipo (22) Los corresponsales fueron convocados a una a que informasen correctamente rueda de prensa p ar ara a sus agencias y periódicos. ‘“ ara yo) a la feria. há duas possibilidades para o emprego de verbos nas construções temporais iniciadas por “cuando”: o de imperfeito do subjuntivo e o presente do subjuntivo. (19) Le presté (suj. se há correferência entre os sujeitos. principalmente. Se os sujeitos não são correferenciais. a situação geral também sofre ligeira alteração. 1996.

três possíveis escolhas na tradução para língua portuguesa. não resulta pouco incomum. Numa breve observação de um corpus de receitas coletadas da internet e escritas originalmente nas duas línguas. (27). em língua portuguesa. pode configurar-se como um importante parâmetro de análise na classificação das orações finais das receitas de nosso corpus. quando for possível a correferência com qualquer um dos termos. Parece existir. com “para”. especialmente nos casos de “até/hasta” e “para/para”. com agente humano. já que ambas podem ser construídas tanto com presente de subjuntivo (28a). Em língua espanhola. será eletiva. Embora esta pareça ser uma hipótese estranha. são seguidas de infinitivo. não parece ser possível utilizar infinitivo nas subordinadas finais em todos os casos indicados para a língua portuguesa. Observamos ainda que a grande maioria das construções finais com “para” (89% do total) e das temporais com “até” (80% do total). só 2% do total de orações eram seguidas de infinitivo flexionado. devido à possibilidade de não concordância (não flexão) com o sujeito. apenas 18%. Embora seu uso esteja igualmente previsto quando haja . 33% dos casos seguidos de infinitivo e com “hasta”. No gênero receita. Não se constatou o mesmo comportamento nessas estruturas em língua espanhola: encontramos. A circunstancial as divisão entre finais pur puras as. podemos dizer que parece haver. Isso pode evidenciar a natureza flutuante do infinitivo em português. Com base no cotejo gramatical aqui realizado. quanto com infinitivo. em geral. en porciones. apesar de o infinitivo ser possível nas duas línguas em caso de correferencialidade com outros (28b) Embrulhe as batatas em papel alumínio e le v e ao forno par a assar(em) por cerca de 1 hora. em língua portuguesa. (28c) Prepárala en un gran molde cuadrado y córtala a tener unos deliciosos pasteles. o que pode corroborar a afirmação de Perini (1998) sobre a insegurança dos falantes com relação ao emprego dessa estrutura. Esses dados podem indicar que. lev para Em (28b).ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 195 cir cunstancial (segundo classificação de Neves). em que fica clara a característica semântica de agentividade e prospectividade. abordada por Pérez Saldanya. lo ara podemos pasar por el pasapurés. ou que há dois sujeitos distintos e a correferência se dá entre o objeto direto da oração principal (as batatas) e o sujeito da final (as batatas). como em (28c). rc onse cu t i vo . sem agente ou com um sujeito e de v alo alor co nsecu cut não humano. com predomínio de correferencialidade com o objeto direto. (26). verificamos que. as subordinadas finais com “para” parecem funcionar de maneira análoga às temporais com “até”. para o uso de infinitivo e subjuntivo nas estruturas subordinadas com um caráter prospectivo. (28a) Vá virando os cubinhos conforme vão a q ue fiquem com um dourado por dourando par para igual. um leque um pouco mais abrangente que o verificado em língua espanhola. p ar ara 5 Considerações finais (27) El aceite sirve p ar a que no se peguen las láminas ara de lasaña. por exemplo. (26) Par a conseguir una textura más delicada. em língua portuguesa. seja ele flexionado ou não (28b). correferencialidade com qualquer dos termos da principal. Esta última hipótese. algumas mais e outras menos frequentes em seu uso. podemos supor que vo cê leva o sujeito de “levar” é o mesmo de “assar” (v ao forno para v o cê assar). parece ser mais provável quando o sujeito da primeira oração se mantém na oração dependente. em língua portuguesa.

Os dados das traduções dos aprendizes referidos na introdução parecem ir na contramão dos números iniciais obtidos nos corpora de receitas escritas em português. Em: BOSQUE. p. como ocorria no texto fonte. nem sempre parecem coincidir nas duas línguas e no gênero tratado e. agora. 3129-3207. Classes de palavras e processo de construção. Em: ILARI. V. Campinas: Editora da UNICAMP. no que se refere ao emprego de infinitivos. Madrid: Espasa. Vol. DEMONTE. 3.. mais detidamente. rev. 2. H. V. et al. M. Madrid: Arco/Libros. (1996): Las expresiones causales y finales. M. (1996): Construcciones temporales. S.196 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS termos da oração principal. M. p. I. São Paulo: Editora UNESP. CUNHA. Vol. E. I. T. V. dos quais apresentamos aqui apenas uns poucos dados quantitativos.. DEMONTE. comparar o que neles encontrarmos com as descrições gramaticais efetuadas e. I. L. poderemos observar como (e se) nossos sujeitos farão uso de todas essas possibilidades que. p. V. Vol. como se dá nesse gênero e na tradução a questão da correferencialidade nas duas línguas.) Gramática Descriptiva de la Lengua Española. A. (dir. Gramática Descriptiva de la Lengua Española. houve predominância de estruturas com subjuntivo. p.) Gramática do português culto falado no Brasil. CASTILHO. (2008): A preposição. São Paulo: Contexto. p. CINTRA. Rio de Janeiro: Lucerna. a distribuição desses usos não ocorra numa mesma medida. Gramática Descriptiva de la Lengua Española. Madrid: Arco/Libros. GARCÍA FERNÁNDEZ. (orgs. 37. Em: BOSQUE. por fim. 884-893. Em: BOSQUE. H. C.. BECHARA. e se haverá diferenças significativas no uso dessa forma nominal nas estruturas com “até/hasta” e “para/para”. PÉREZ SALDANYA. Assim. 787-801. ed. apesar de semelhantes em determinados casos. ILARI R. GARCÍA. realizar um cotejo de ambas as análises com o produto das traduções que serão feitas por outros estudantes brasileiros de E/LE. (2000): Los complementos adverbiales temporales.. La subordinación temporal. L. (2001): Nova gramática do português contemporâneo. realizar um tratamento mais acurado desses corpora de receitas. tanto nas temporais com “até” como nas finais com “para”. MARTÍNEZ GARCÍA. p. Resta-nos. F. (1999): Moderna gramática portuguesa. H. R. M. (2003): Gramática de usos do português. 2. (2010): Nova Gramática do Português Brasileiro. 760-763. nos textos finais por eles traduzidos. M. e ampl. 338-381. NEVES. DEMONTE. 3621-3642. já que. (2000): La Subordinación Causal y Final. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. II. Madrid: Espasa.. GALÁN RODRÍGUEZ. L. 3253-3318. Referências bibliográficas . NEVES. (2000): El modo en las subordinadas relativas y adverbiales. C. Madrid: Espasa.

fac. 313-358. PORTO DAPENA.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 197 PERINI. TEIXEIRA. p. p. p. Os exemplos a seguir. 292-297. O. . (1998): Gramática descritiva do português.3. Exemplo extraído de Porto Dapena (1991. foram extraídos de receitas culinárias obtidas em sites (brasileiros e espanhóis) da Internet. 199-206.310).209). Madrid: Arco/Libros.br/campusonline/esportes/item/2329-brasilienses-rumo-aop%C3%B3dio-ol%C3%ADmpico 4 5 Exemplo extraído de Pérez Saldanya (2000. v. J. 10. Notas 1 2 Bolsista Fapesp. (2004): Linguística de Corpus e Tradução Técnica – Relato da montagem de um corpus multivarietal de culinária. Em: TradTerm. A.. São Paulo. São Paulo: Ática. (1991): Del indicativo al subjuntivo: valores y usos de los modos del verbo. FFLCH/USP. 3 Exemplo extraído de http://www. A. E. M.unb. E. sempre que não especificada outra fonte.125-179. TAGNIN. S. p.

como deixa bem claro Silva (2000). Além disso. p. prioritariamente. políticos. ser compreendida fora de um processo de produção simbólica e discursiva. por sua vez. Essas questões devem ser inevitavelmente abordadas no ensino. mesmo sem darnos conta. em que o “ser brasileiro” não tem nenhum referente natural ou fixo. mas que há anos vem sedo estudado por diversas áreas do conhecimento. é importante ressaltar que a identidade nacional pode pautar-se sob diversos princípios: sociais. 2011. Isso quer dizer que a identidade está presente e qualquer tipo de relação (principalmente nas de poder). a pesquisa propõe-se a analisar como é abordada a identidade nacional brasileira nos livros didáticos. Para isso é importante levar em conta que o termo identidade apresenta uma definição complexa. Isso quer dizer que “ser brasileiro” entende-se não se enquadrar em outras identidades que apoiamse em nacionalidades. naturais ou predeterminadas. 2000). todo processo que gera significados está envolvido com relações de poder. Ainda. a identidade está intimamente relacionada a sistemas simbólicos e sempre assumimos uma posição. estabelecendo significados e nos posicionando na sociedade. […]. no ensino de .198 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS O TEMA TRANSVERSAL DA PLURALIDADE CULTURAL E SUA RECONFIGURAÇÃO NOS LDS DE LÍNGUA ESPANHOLA. Para Woorward (2000). Ela só tem sentido em relação com uma cadeia de significação formada por outras identidades nacionais que. etnográficos. Baseando-se no discurso de Hall (2000).UFF De uma forma geral. Bruna Maria Silva Silvério PG . ao reconhecer a sua identidade. pois uma já pressupõe outra. segundo Silva (2011): A identidade “ser brasileiro” não pode.” (Woorward. para citar alguns. o sujeito. Entendendo-se que a identidade está intimamente relacionada à diferença. (Silva. 80) Ao conceituar identidade. geográficos. reconhecerá também o outro. não pode-se deixar de focalizar a importância que as relações de poder têm para no seu processo de formação. A autora afirma isso ao dizer: “É por meio dos significados produzidos pelas representações que damos sentido à nossa experiência e àquilo que somos. por exemplo. A identidade “brasileiro”. pressupõe um referente antagônico a ela. onde há sempre a dicotomia entre o incluído e o excluído. em diferentes épocas do ensino de Espanhol. tampouco são fixas. não é um absoluto que exista anteriormente à linguagem e fora dela.

no sentido de que se assume a posição de existência de “culturas”. foi um dos livros aprovados pelo PNLD de 2011. segunda ela. esse momento pode significar. encontra-se a seguinte consideração: Trata-se.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 199 língua. Saludos (MARTIN. Com base nessas questões da identidade brasileiro. p.” (Coracini. através da Resolução nº 3 de 11 de janeiro de 2008. uma vez que esta é parte constitutiva da cultura de um povo ou nação. 1990). Depois de dez anos da criação do Programa. que é. “é possível afirmar que as representações que fazemos do estrangeiro e as representações que o estrangeiro faz de nós atravessam. (MEC/SEB. o ser brasileiro não é consituído por como nos vemos. com livros de inglês ou espanhol. também. os estrangeiros acham que somos. referentes a diferentes épocas de ensino de Língua Espanhola: Vamos a hablar (JIMÉNEZ e CÁCERES. portanto. Embora tenha sido lançada anteriormente. em seu ar tigo “A celebração do outro na constituição da identidade” (2003). Dessa forma. Ou seja. No Guia de Livros Didáticos – PNLD 2011. mas também representa uma esperança de que o Espanhol seja mais difundido entre as escolas. Língua Estrangeira (inglês e espanhol) passa a integrar a lista de disciplinas contempladas pelo PNLD. 2004) e Saludos (MARTIN. apenas no edital de 2011. ano em que foi inserido o componente curricular Língua Estrangeira Moderna. pois. em uma sociedade essencialmente pluricultural1 é importante que haja uma uma educação também focada na interculturalidade. de Língua Estrangeira Moderna. para os anos finais do ensino fundamental” (Diário Oficial da União. respeitando as diferenças sem estabelecer uma organização hierárquica entre elas. pode-se afirmar que o ensino de língua estrangeira deve vincular-se à noção de cultura. a autora defende que o sujeito é formado pelas concepções e impressões do outro. social e nacional. 2003. 2010) Isto é. de um momento importante na história do ensino de LEM nas escolas públicas brasileiras. Ou seja. a interrelação ativa de várias culturas que vivem em um mesmo espaço geográfico. uma ampliação do número de escolas que oferecem essa língua. e sim pelo que os outros. a coleção foi reformulada para participar da seleção do Programa Nacional do Livro Didático –PNLD 2011 e será essa a edição analisada. Em suma. Arriba (CALLEGARI e RINALDI. que reflete um reconhecimento do papel que esse componente curricular tem na formação dos estudantes. ao assumir uma visão da psicanálise lacaniana. A coleção mais atual. “fica definido para o componente curricular de Língua Estrangeira o atendimento a partir do PNLD 2011. 2010).201) O presente trabalho propõe analisar três coleções de livros didáticos destinados ao Ensino Fundamental. 14 de janeiro de 2008). o sentimento de identidade subjetiva. de modo constitutivo. a universalização da distribuição dos livros de Espanhol e Inglês significa um avanço na qualidade do ensino público brasileiro. em suas próprias palavras. Como afirma Paraquett. no que dispõe sobre a execução do PNLD. 2010). Segundo Coracini. Com relação ao corpus do trabalho. já que esta também está subordinadas às relações de poder. No caso específico de Espanhol. pode-se dizer que o LD tem grande importância na aprendizagem da língua estrangeira. Já que há pouco tempo que foi estabelecida a obrigatoriedade de oferta desta disciplina para o ensino fundamental e médio. além de . considerando que sua inclusão no ensino público é um fato recente. o momento não é só de ingresso das disciplinas de língua estrangeira no Programa do FNDE para a escolha dos livros didádicos para o ensino público básico.

essa construção identitária também tem uma base social. p. por exemplo. Baseando-se no discurso de Hall. Isso quer dizer que “ser brasileiro” entende-se não se enquadrar em outras identidades que apoiam-se em nacionalidades. naturais ou predeterminadas. 1990 apud Woodward. deve posicionar-se de forma autônoma como uma função de sua cidadania plena. Ela só tem sentido em relação com uma cadeia de significação formada por outras identidades nacionais que. Dessa forma. como afirma ainda a autora. advêm de relações de poder e das vastas possibilidades de relações nos permeiam: […] a identidade marca o encontro de nosso passado com as relações sociais. Enquanto sujeitos. no ensino de língua. pode ser considerado um dos principais formadores de opinião do aluno acerca dos aspectos sociais e culturais da língua. prioritariamente. a partir da aprendizagem de língua estrangeira. 80) A relevância das questões identitárias no ensino de língua Cultura e identidade são assuntos que vêm sendo discutidos há muito tempo e abrangem os estudos de diversas áreas. p. em que o “ser brasileiro” não tem nenhum referente natural ou fixo. estamos submetidos a sistemas simbólicos e assumimos uma posição na sociedade mesmo sem dar-nos conta. nessa visão. 2011. identidade e diferença estão intimamente imbricadas em uma relação interdependente. tampouco são fixas. Isso significa que a construção de uma determinada identidade depende de um símbolo. etnográficos. onde há sempre a dicotomia entre o incluído e o excluído. 19) De acordo com a visão de Silva (2011). uma representação simbolica: “É por meio dos significados produzidos pelas representações que damos sentido à nossa experiência e àquilo que somos. culturais e econômicas nas quais vivemos agora […] a identidade é a interseção de nossas vidas cotidianas comas relações econômicas e políticas de subordinação e dominação. não é um absoluto que exista anteriormente à linguagem e fora dela. uma não se consolida sem a outra. […]. 2011. políticos. já que esta também está subordinadas às relações de poder. Além disso. Isso se deve ao fato. Isso se dá a partir da visão socio-interacional da língua e da aprendizagem. entende-se que ele deve também ter a preocupação de inserir o aluno na sociedade em que vive como cidadão crítico e que seja capaz de reconhecer-se como participante da diversidade cultural de sua nação. Essas questões devem ser inevitavelmente abordadas no ensino. o aluno. é importante ressaltar que a identidade nacional pode pautar-se sob diversos princípios: sociais.200 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS apresentar um suporte a conteúdos abordados em sala de aula. de que tais conceitos são inerentes a qualquer pessoa e a qualquer relação. que se posicione e que saiba aceitar e respeitar o outro. . Levando isso em conta. como deixa bem claro o autor. (RUTHERFORD. segundo Silva (2011): A identidade “ser brasileiro” não pode. não pode-se deixar de focalizar a importância que as relações de poder têm para no seu processo de formação. baseando-se em Woorward (2011). cuja manifestação mais evidente na aula de língua estrangeira seja a cultura diferente da sua. A identidade “brasileiro”. Além disso. por sua vez. todo processo que gera significados está envolvido com relações de poder. pressupõe um referente antagônico a ela. para citar alguns.” (Woorward. (Silva. ser compreendida fora de um processo de produção simbólica e discursiva. compreende-se que os LDs têm a função de formar um cidadão crítico. Ainda. Sistemas simbólicos porque a identidade é marcada por meio de símbolos. 1998). até porque está intimamente ligada a práticas de significaões que Ao conceituar identidade. como propõe os PCNs (BRASIL/SEF. geográficos. isto é. 2011) Além de depender do símbolo.

p. p.” (Silva. questionador dos sistemas de representação de identidades existentes em seu entorno e.(Neves. que embora também intermediada pelos métodos e pelos materiais adotados. normalmente o mais superior. Ainda. “devemos ter uma ideia partilhada sobre aquilo que a constitui. afirma que a identidade e.” (Silva. (Silva. o estranho: “A força homogeneizadora da identidade normal é diretamente proporcional à sua invisibilidade. também tem grande base no que acreditamos ser. além de ser dependente do passado histórico e das relações sociais de poder. 91 e 92) Segundo Coracini. como afirma. Ou seja.83) Essa relação de desigualdade identitária também precisa tomar um lugar no ensino de língua: “A pedagogia e o currículo deveriam ser capazes de oferecer oportunidades para que as crianças e os/as jovens desenvolvessem capacidades de crítica e questionamento dos sistemas e das formas dominantes de representação da identidade e da diferença. do país em que vive. destacando-se o “anormal”. sempre é considerado o “normal”. A normalidade. faz com que ela se torne invisível. bem como o material e o livro didático utilizados. Entendo. Assim. que põe em jogo as contradições da constituição histórica dos sujeitos. entende-se que um currículo pedagógico. em seu livro Identidade e Diferença (2011).24) Silva. Woodward (2000). Também. Apesar de ser uma pergunta difícil de ser respondida. Mas sim.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 201 Uma questão importante para o comprometer-se com a proposta de formação de um sujeito crítico. deve . como aquilo que existe e que devemos apenas entender e respeitar. interessado na inserção do aluno como cidadão participante dos processos de constituição e significação da identidade e da diferença. já que o encontro com o outro (incluindo o espaço social da escola) é inevitável. o aluno deve ser capaz não só de entender essa diversidade como um produto. o falante toma outra posição subjetiva. essencialmente. pois são a partir delas que as pessoas assumem determinadas posições. consequentemente. a atividade pedagógica se dá entre sujeitos. a resposta a tal pergunta tem dependência também na ideia do que fazemos do que é ser brasileiro. p. através de elos sociais. criticar e questioná-lo: Uma política pedagógica e curricular da identidade e da diferença tem a obrigação de ir além das benevolentes declarações de boa vontade para com a diferença. a diferença devem integrar o currículo pedagógico. 2000. assumindo uma visão dicotômica da identidade e diferença – onde sempre existe um “eu” ou “nós” e “o outro” ou “os outros” – os dois lados nunca terão o mesmo peso. No espaço heterogêneo em que vive. relacionada a uma identidade. por exemplo – pode-se afirmar que identidade. 100) A identidade de um povo e a sua cultura formam-se através de diferenças. Ela tem que colocar no seu centro uma teroria que permita não simplesmente reconhecer e celebrar a diferença e identidade. Entende-se que mais do que aprender o código e suas funções na outra língua. já que não é possível ter contato com todas as pessoas que fazem parte da nossa identidade nacional. em seu ar tigo “A celebração do outro na constituição da identidade” (2003). p. Essa posição diz respeito a uma intersubjetividade inconsciente. até pensando na diversidade do nosso país – o “ser brasileiro’ pode mudar de acordo com cada região do país. principalmente quando se trata de um país plural como o Brasil. Isso significa que um será sempre mais privilegiado que outro. 2006) desenvolvimento da pesquisa pode basear-se na pergunta o que é ser brasileiro?. 2000. por não terem o mesmo papel perante a sociedade.” (Silva. Aqui fica bem claro que o estabelecimento de uma identidade depende da diferença. mas questionála. portanto. 2000. a depender de um sistema de classifições onde diversos fatores estão envolvidos. o ser brasileiro não é consituído por como Dessa forma. um dos lados. compreender o processo em que se dá o estabelecimento das identidades. 2000.

BRASIL/SEF (1998): Parâmetros curriculares nacionais : terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental: língua estrangeira. ao entrar em contato com uma língua estrangeira. Simone (2004): ¡Arriba!.doc HALL. ao assumir uma visão da psicanálise lacaniana.br/organon/article/view/30024 COLECTIVO AMANI (1994): Educación Intercultural: Análisis y resolución de conflictos. Organização Liv Sovik. abrindo novas formas de ver o mundo. Stuart (2009): Da diáspora: identidades e mediações culturais.201) Ainda. P. São Paulo: Martins Fontes. Brasília: MEC/SEF. VARGENS. Disponível em: http://seer. de nossos antepassados ou daqueles que parecem não deixar rastros. os estrangeiros acham que somos. p. (1990): Vamos a hablar: curso de lengua española. essa heterogeidade se complexifica. Campinas. Sempre que se aprende uma nova língua há um processo de formação da identidade. Carlos (2003): Pluralismo. Ed. _____ (2003): “A celebração do outro na constituição da identidade”. SP: Mercado das Letras. Referências bibliográficas BAKHTIN. 35. In: Linguagem & Ensino (UCPel. Roque de Barros (2009): Cultura: um conceito antropológico. novas formas de organização do pensamento e novas imagens do outro.A.] 1ª edição atualizada – Belo Horizonte: Editora UFMG. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. LOPES. 17. é preciso que o outro dê a sua existência. 2003. de modo constitutivo. (2007): A celebração do outro: arquivo. p. R. F. CORACINI. por exemplo. 373-392. e CÁCERES. v. memória e identidade. In: Políticas de integração curricular.com/ revista/impresa/8estudios/texto_cgimenez. 12. p. Dessa forma. social e nacional.. Marília Vasques e RINALDI. Impresso). O sujeito por si só é heterogêneo e. Catarata.8. FREITAS. sem saber como nem porquê. e sim pelo que os outros. L. em suas próprias palavras. M. . é que sustenta a nossa identidade: “o que somos e o que pensamos ver está carregado do dizer alheio. A. São Paulo: Moderna. RJ: Ed. V. multiculturalismo e interculturalidad.” (Coracini. 201) É através desse dizer alheio que constroi-se o imaginário de pertencimento de uma nação. pois uma língua sempre traz com ela outras identidades.cesdonbosco. n. São Paulo: Editora Ática. Revista Organon.202 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS nos vemos. o sentimento de identidade subjetiva.” (Coracini. “é possível afirmar que as representações que fazemos do estrangeiro e as representações que o estrangeiro faz de nós atravessam. e nos tornamos singulares diante do estrangeiro. UERJ. Disponível em: www.ufrgs. As característica que são atribuídas a nós brasileiros. J. JIMÉNEZ. Tradução Adelaine La Guardia Resende [et al. LARAIA. M. Ou seja. GIMÉNEZ ROMERO.M. In: Educación y futuro: revista de investigación aplicada y experiencias educativas. 2003. para que exista uma identidade nacional.P. M. n. a autora defende que o sujeito é formado pelas concepções e impressões do outro. dizer que nos precede ou que precede nossa consciência e que herdamos. D. E segundo Coracini (2007) essas novas vozes se entremeiam no incosciente do sujeito aprendiz.M (2009): Pluralidade Cultural nos Parâmetros Curriculares Nacionais: uma diversidade de vozes.C (2008): O livro didático na política de currículo para o ensino médio. (1992): Estética da criação verbal. CALLEGARI.

9). Secretaria de Educação Básica.) e COSTA. (org. Marcia (2010): Multiculturalismo. E. Kathryn MARTIN. São Paulo: Editora Ática. Woordward (2000): Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 203 PARAQUET T. S. C. M. SILVA. Stuart Hall. Petrópolis. Brasília: Ministério da Educação. interculturalismo e ensino/aprendizagem de espanhol para brasileiros.). ressaltando as diferenças. P. .). In: Currículo intertranscultural: novos itinerários para a educação / SP: Cortez: Intituto Paulo Freire . Tomaz Tadeu da (org. In: BARROS.(Biblioteca freiriana. multiculturalismo e currículo intercultural. I. (org. R (2010): Saludos – curso de lengua española. G. R (2004): Cultura. RJ: Vozes. v. Nota 1 a autora entende esse conceito como a co-presença de várias culturas. PADILHA.

A procura por tal bibliotecário anônimo e pelo resumo de todo o acervo geram uma ânsia de busca retrospectiva: em um livro C poderiam ser encontradas pistas de um livro B. que passam a almejar a justificativa de suas próprias existências através do entendimento da Biblioteca. de Jorge Luis Borges. intertítulos. nos links textuais estabelecidos entre um texto e outro(s). da coletânea Ficciones. essa sobreposição de textos. Definida por Gerard Genette (1997) como transtextualidade. seus limites. até a possível obtenção do objetivo. imitações. inclusive. Tal local. e. é descrita uma biblioteca que é comparada ao Universo. transformações. de um livro B os resquícios de um A. Nesses tempos. apesar dos limitados caracteres de uma língua). Genette. contudo. alusões. Não existe sequer um texto que não seja transtextual. surge a lenda del Hombre de Libro. é a transtextualidade. epígrafes. essa questão abrange muito mais do que a noção comum de intertextualidade. Exemplos disso são os títulos. eram reutilizados.204 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS O POLICIALESCO NA FIGURA DE AMALFITANO Bruna Tella Guerra PG . após terem suas inscrições apagadas.Unicamp Uma característica essencial da Literatura é a transcendência textual. o objeto da poética estaria justamente nessa transcendência. Nele. que conheceria um tomo com a súmula perfeita de todos os outros. enfim. esses “rastros”. pergaminhos utilizados antes da invenção do papel e que. transpassam e oferecem sentidos aos textos. é abordada no conto “La Biblioteca de Babel” . ad infinitum. dividido em partes geometricamente semelhantes. estabelecer relações de sentido. mas todas as maneiras pelas quais um texto pode ultrapassar suas “barreiras”. para isso. empresta a figura dos palimpsestos (antes usada por Philippe Lejeune). . Essa característica. sua compreensão tornase um desafio aos seres humanos. e assim. entre outros elementos que tangenciam. comentários. eliminar inteiramente o que havia sido escrito antes. No sentido figurado. uma empreitada ilimitada (assumindo a dimensão da própria Biblioteca). Diante de tal grandiosidade (sem um livro sequer igual ao outro. Mais que isso. é tido como infinito. sem.

A busca por um autor “desaparecido” também ocorre por mais de uma vez: em Los detectives salvajes e 2666. Tomemos como modelo o personagem Quincas Borba. raciocínio lógico. Ignácio Echevarría. Um exemplo é o personagem Arturo Belano. apresentando a imagem do detetive como intitulação do texto geral da narrativa e como intertítulo da segunda parte do livro. assumindo que esta. sentidos e links dentro da obra de um mesmo autor. ambos locais que aparecem constantemente nos textos de Bolaño. Nos finais do século XX e início do XXI. então. estabelecida por Edgar Allan Poe e Arthur Conan Doyle. da coletânea Putas asesinas. tornando claro que encontrar “rastros” e sentidos de um texto em outro é inerente à Literatura. Não são poucos seus títulos e intertítulos que contemplam a figura do detetive. contos ou narrativas longas. ganha um folhetim no qual é o protagonista. que Ulysses.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 205 Uma das tantas possíveis interpretações do conto que a procura pelo livro súmula traz à tona é a questão da transtextualidade. “Los detectives perdidos”. que ganhou o apreço bolañeano” nos leva a inferir que essa característica faz parte do próprio projeto estético do autor. de James Joyce. aquela que apresenta referências. etc. fronteira de México e Estados Unidos. A construção desse linkado “mundo coerente e plausível torna-se essa ideia quando tomamos nota de que em entrevista a Dunia Gras Miravet para a revista Cuadernos Hispanoamericanos. podemos nos atentar a outro ponto importante da literatura bolañeana: geralmente sob forma de paratextos. ou que O Ano da Morte de Ricardo Reis. “Los detectives helados” de Los perros románticos. por exemplo. hiperbólicos: há recorrência de personagens. sejam eles poemas. desaparecimentos. pistas. Nesses casos. que é o detetivesco. O premiado e famigerado Los detectives salvajes é um dos exemplos. de Machado de Assis. uma representante rigorosa da transtextualidade interna é a obra de Roberto Bolaño. Os textos de Roberto Bolaño não apresentam enredos que se enquadram na literatura policial tradicional. Entretanto. Outros casos de transcendência textual interna são o deserto de Sonora. No que reside. Uma intenção interpretativa: as pistas de Bolaño Aliado ao projeto estético transtextual. retoma a vida de um dos principais heterônimos de Fernando Pessoa. têm estruturas distintas e não contêm casos policiais aos moldes Sherlock Holmes. porque estabelece sentidos com obras de outros autores. há também a transtextualidade “interna”. um dos protagonistas de Los detectives salvajes e também do conto “Fotos”. Os links dentro de seus próprios textos são intensos. ainda. espaços e ações. Mais . que após aparecer roubando o relógio de Brás Cubas em Memórias Póstumas. bem como a cidade de Santa Teresa. teríamos um tipo de transtextualidade a qual poderíamos chamar de “externa”. Há ainda outros exemplos pertencentes a coletâneas de textos e somente sob forma de intertítulos: o conto “Detectives” de Llamadas telefónicas. os poemas “Los detectives”. afirma em Nota Editorial que seria Belano o narrador de 2666. É quase uma obviedade. apresenta elementos constantes (assassinatos. investigações. Roberto Bolaño nos dá pistas sobre um aspecto ao qual podemos considerar ao lermos seus textos. Apesar desses textos trazerem a mesma figura no nome. de José Saramago.) e estruturas comuns (crime – investigações – desvendamento do crime). Bolaño afirmou que sua poesia e sua prosa pertencem a um mesmo projeto estético. o detetivesco em Bolaño? Uma das soluções possíveis para essa questão reside no fato de que o gênero policial. é um retorno moderno da Odisseia .

praticamente descartada. então. sem necessariamente um estar ligado ao outro. Os textos de Bolaño são mais difusos ainda: apresentam elementos típicos desse tipo de narrativa. sendo ele. mas os títulos temáticos que trazem a questão policialesca. e seus leitores procuram encontrar sentidos e relações em vão. No caso de Amalfitano. apesar de estar longe de ser um Holmes. ocorre também em Bolaño na tentativa de encontrar significações e relações. Devido a isso. também com uma divisão de cinco partes. sentimentos e características de Amalfitano. sendo que Amalfitano tem uma só para si: “La parte de Amalfitano”. na maioria das vezes.206 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS do público (mostrando-se até hoje na literatura. Além de entendermos o leitor como detetive. O movimento feito em La Biblioteca de Babel para buscar um sentido da vida ou da existência da Biblioteca. Nesse caso. o Amalfitano e detetivesco: relações Um dos personagens sobre o qual podemos pensar a respeito dessas questões é Amalfitano. é um professor universitário. Ele aparece em dois livros póstumos: um deles é 2666. em meados do século XX a assumir um caráter diferente. e. então. diferentes daquelas de 2666 . muitas pistas “escapam por entre nossos dedos”. Amalfitano. Isso nos mostra uma completa inversão da conhecida ordenação dos fatos e do foco narrativo da literatura policial. apesar de o enredo também não mostrar nenhuma narrativa policial tradicional. por exemplo. Bolaño constrói um mundo ficcional. as histórias não se fecham. apontando para o próprio projeto estético transtextual. sendo que três delas abordam ações. que em certo momento sofre demissão da Universidad de Barcelona e muda-se para o México. que permeia mais de um texto de Roberto Bolaño. Esse tipo de leitura é perfeitamente possível para a obra bolañeana no geral. de Ernesto Sabato. ainda que participe com maior ou menor frequência nas outras. as pistas são inconclusas. dividido em cinco partes supostamente que o torna o próprio detetive. O outro livro chama-se Los sinsabores del verdadero policía. como assassinatos. nomes e ações. nem mesmo . O que nos leva a fazer relações da literatura de Bolaño com o aspecto detetivesco não é. passou. por exemplo. A precisão lógica de Auguste Dupin é. Este último apresenta o mesmo caso de intitulação que remete ao policialesco. a transtextualidade se dá pela percepção de um leitor que utiliza o paradigma indiciário para encontrar possíveis relações e estabelecer sentidos. que teria dito que el verdadero policía é o leitor tentando ordenar incansavelmente a trama. conhecemos o assassino já no primeiro parágrafo. chileno. em séries televisivas e filmes). diante de tantas informações. informações que obtemos em Los sinsabores del verdadero policía são. inclusive. buscas e mistérios. sua estrutura. o narrador da história. não conhecemos por completo nada que nos é apresentado. podem haver outras tentativas de identificação do aspecto detetivesco. acabando por adquirir um sentido enigmático: quem é o policial? Quais seus dissabores? A contracapa da edição da Editora Anagrama traz uma citação de Roberto Bolaño (sem referência). onde começa a trabalhar na Universidad de Santa Teresa. A pesquisa acadêmica independentes. Em El Túnel (1948). eles acabam assumindo um sentido figurado que encadeam alguns questionamentos: 1) Quem são os detetives dos textos bolañeanos? 2) Por que são referidos dessa maneira? 3) Qual o sentido decorrente dessa escolha? algum personagem literalmente detetive ou da polícia. O fato de ser professor universitário é a primeira característica desse personagem que poderia assemelhar-se ao detetivesco.

Não se sabe se tal voz é a consciência de Amalfitano. a resolução de um problema descarta qualquer raciocínio lógico. ocorrendo também em “ La parte de los críticos” (também do 2666 ). por certos episódios de mistério impossíveis de serem resolvidos em sua objetividade. que seriam um oásis de horror em meio ao tédio de Amalfitano (caso quisermos oferecer uma interpretação à epígrafe baudelaireana de 2666). que são citados diversas vezes em “La parte de Amalfitano”. em que quatro professores universitários viajam em busca de Archimboldi. um elemento que representaria o ponto de partida de uma narrativa policial tradicional ocorre como “pano de fundo” das ações de Amalfitano: os assassinatos de mulheres de Santa Teresa. Outro episódio é o de “la voz”. muito menos de tê-lo colocado nas caixas de mudança. renderia um relato policial de primeira magnitude. A imagem detetivesca do professor universitário é recorrente em Bolaño. que nunca oferece soluções definitivas. uma vez que parece apresentar conflitos com a questão sexual (Amalfitano assume-se homossexual depois de adulto) ou uma vivência mística que ironizaria o realismo mágico. tal qual a pesquisa em Literatura. Baseado. no México. acabam refletindo sobre a vida. acaba por ficar intrigado. Nesse momento. de 2666. sobre questões da existência. é resvalado à margem através da figura de Amalfitano: mandado para o México. nas ideias de Duchamp.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 207 segue pistas. Conclusão É possível percebermos que a estética transtextual de Roberto Bolaño acaba por criar um “mundo bolañeano”. um escritor “desaparecido” que não é encontrado por eles. . ocorrendo das mais variadas formas. uma vez que todos parecem ser “retalhos de uma mesma colcha”. Para Amalfitano. quatro coisas sobre a vida. para uma cidade fronteiriça entre México e Estados Unidos. Essa última interpretação estaria em consonância com a apatia de Bolaño por alguns autores que compuseramo boom da Literatura hispano-americana na década de 1960. Por fim. no qual há uma “dança” entre textos. Um deles acontece quando Amalfitano está desencaixotando os livros que havia selecionado durante a mudança de Barcelona para Santa Teresa. enfim. então. local no qual. faz inferências e estabelece conclusões a respeito de seus objetos de estudo. porém. para que ele sofresse as intempéries e aprendesse. mas nada é concluído. Esse aspecto nos permite alastrar interpretações de um texto para outros. que ganharão uma das parte de 2666: “La parte de los crímenes” e serão abordados também em Los sinsabores del verdadero policía. não lembrando-se de ter comprado tal livro. segundo um personagem de “La parte de Fate”. porém. Amalfitano decide pendurar o livro de geometria no varal do quintal. onde questões inexplicáveis estariam passíveis de ocorrer. O professor depara-se com um chamado Testamento geometrico. inconclusas. nem mesmo de ter estado na cidade da livraria na qual ele havia sido comercializado. Juntos. através de uma visão eurocêntrica da exoticidade da América Latina. de Rafael Dieste e. Amalfitano passa. As buscas são frustradas e as pistas. O intelectual latino-americano. região marginal do globo (como toda a América Latina). uma voz que Amalfitano escuta e com a qual conversa. distanciando-se do tipo de investigação feita pelos tradicionais detetives. esses casos não parecem ter significativa importância em sua vida. Nesse mesmo sentido de indefinição.

Doubinsky. a busca incansável por pistas e a possibilidade de relacionar elementos que aparecem com frequência.. N. (2009): Ficciones. Trad. Madrid: Alianza Editorial. enfim. GENETTE. presente objetivamente em títulos de livros. G.) que todo lo que había visto en el extrarradio de Santa Teresa y em la misma ciudad. BOLAÑO. Entrevistador) Cuadernos Hispanoamericanos. (D. BOLAÑO. (C. por uma reflexão de Amalfitano sobre Santa Teresa. R. A incompletude dessas investigações e a infinita busca proporcionada pelo caráter de La Biblioteca de Babel. Barcelona: Editorial Anagrama.) Lincoln: University of Nebraska Press. (2011): Los sinsabores del verdadero policía.208 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Aqui. BORGES. fragmentos. G. A estética de Bolaño permite. MIRAVET. 265). (oct de 2000): Entrevista con Roberto Bolaño.. que pensa “(. (1997): Palimpsests: literature in second degree. contos ou poemas. (2011): 2666. . imágenes que contenían en sí toda la orfandad del mundo. Reflexão esta que parece ser uma metonímia de sua própria obra. L. Barcelona: Editorial Anagrama. parecem ser descritas. utilizamos como exemplo a questão detetivesca. servindo também de respaldo para a interpretação do recidivante personagem Amalfitano. R.” (p. J. Referências bibliográficas BOLAÑO. fragmentos. imágenes sin asidero. então. Esta. R.

33). dicha representación se configura a partir de la omisión total o parcial de los sujetos.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 209 ¿BACRIM O PARAMILITARISMO? ANÁLISIS DE LA CONCEPCIÓN DE PARAMILITARISMO EN COLOMBIA EN EL PERÍODO 2002-2006 A TRAVÉS DE LA PRENSA ESCRITA Camilo Ramírez Rodríguez Corporación Universitaria Minuto de Dios Adriana Yamile Suárez Reina Universidad Libre El abordaje que desde la prensa se hace a los paramilitares como actores sociales que influyen en la sociedad colombiana -pues detentan un poder y tienen un objetivo claro de acción. se selecciona un corpus en relación con los siguientes criterios: 1. Así. etc. del interés por estudiar la capacidad de los medios masivos para erigirse como instancias sociales fundamentales en los procesos de construcción del consenso. la construcción de los actores se hace principalmente a través de los mecanismos de inclusión y exclusión. para el autor. El análisis de estos dos mecanismos permite rastrear formas conscientes e inconscientes de legitimar intereses ideológicos en el discurso.no responde necesariamente a una perspectiva objetiva. aluden a la consolidación del “deber ser” del concepto de paramilitarismo en el escenario de la prensa escrita. en el segundo. individually or collectivety. Para ello se parte de los postulados de Theo Van Leeuwen los cuales se remiten a los diferentes sistemas de designación discursiva que hacen alusión a los actores sociales como medio de representación. la exclusión. representa el concepto de paramilitarismo en Colombia durante los años 2002 al 2006. La motivación de este análisis parte. Metodológicamente. se elige el periódico El Tiempo por su alto índice de lecturabilidad en Colombia y porque además está en sintonía directa con las políticas gubernamentales de turno. se remite a modos explícitos de enunciar a los actores. razón por la cual este trabajo pretende analizar cómo la prensa escrita. by reference to their person or their utterance. De esta manera. and without thereby also privileging the context or contexts in which one or the other tends to occur as more normative than others (VAN LEEUWEEN. que para el caso de este trabajo. . Para el primer mecanismo. y en segundo lugar. porque se hace necesario reconocer las connotaciones de dicho consenso bajo el supuesto de que los medios responden a los intereses propios de determinadas estructuras de poder. 1996. en primer lugar. en par ticular el periódico El Tiempo. en palabras del autor: How can ´Sayers´ be represented –impersonally or personally. p. –without privileging any of these choices as more ´literal´ than others.

y la inclusión. autónomo del Estado pero sin confrontarlo. el paramilitarismo se concibe entonces como un proyecto paralelo al Estado que comparte un objetivo en común: las guerrillas. Ellos sencillamente se independizaron de sus progenitores y ahora esquilman a todo el mundo (I) No obstante. por una parte. presidente entrante era establecer un diálogo y buscar una posible desmovilización de dichos grupos. Lo que se busca a través de estas categorías textuales es analizar el porqué de dicha ausencia o presencia. 2. […] los paras se han vuelto un factor de inseguridad. Cabe destacar que este trabajo no se basa sencillamente en abordar la exclusión o la inclusión de los actores. se recrudecieron los ataques armados y. se avecinaban unas elecciones presidenciales que se alimentaron de la idea de ahondar en la confrontación militar como única vía para resolver dicho conflicto. tras los primeros acercamientos entre el gobierno y los paramilitares. así como en la debilidad del Estado colombiano para Construcción. este problema se da en términos 2002 – 2003: El fracaso de un “proyecto político” En los primeros meses del año 2002 se generó un clima de tensión pues. el diario caracteriza a los paramilitares como poseedores de un proyecto político que se basa en contrarrestar el avance y la acción de las guerrillas. incluso para quienes en un primer momento los promovieron con la ilusión de brindarse protección frente a la guerrilla.210 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Referenciar al paramilitarismo en tanto actor del conflicto armado colombiano. básicamente. por su parte. situación concebida por Van Leeuwen como sobredeterminación por desviación. es decir. el diario El Tiempo representa a los paramilitares como un actor con unas condiciones bastante particulares a través del mecanismo de inclusión. gracias a la categoría de activación. Bajo esta situación. se recurre a la estrategia de atenuar las características negativas del actor. Pertenecer a la tipología textual de editorial puesto que representa la línea de pensamiento del diario. y se convierte en un problema: Sus más lúcidos dirigentes aspiraron a configurar un proyecto contrainsurgente civil. señala que es necesario adherirse a las ideas presentadas. afrontar tales acciones. pues el Estado los dejó desamparados (II). En primera instancia. Así. a apelar a la justicia privada y hasta a confabularse con el narcotráfico para defender su vida y sus intereses ante el acoso de la guerrilla. algunos editoriales sugerían que el reto para el de la “ilegalidad” de su accionar pero se concibe como “un mal necesario” en relación con la guerrilla: Losparasi son la máxima expresión de la debilidad territorial del Estado: sectores de la sociedad civil han tenido que recurrir a apoyar la sedición. ya que la exclusión es un indicador de que algo debe ser controlado. el diario . el corpus resultante fue de cinco (5) editoriales de cada uno de los años que abarcan el periodo estudiado. propició que la propuesta presidencial de Álvaro Uribe “Primero Colombia” tuviera éxito. dicho proyecto se les sale de las manos tanto a sus líderes como al Estado. por otro. 3. De acuerdo con lo anterior. De este modo. La necesidad de realizar una intervención militar. de alcance nacional. De allí. No obstante. difusión y ocultamiento del concepto de paramilitarismo A continuación se presentarán los resultados fruto del estudio del corpus mencionado anteriormente. porque estaba comprometida con acabar el problema de los grupos al margen de la ley. reduciendo el análisis a su aparición o a su ausencia. Haber sido publicado entre los años 2002 al 2006.

De otro lado. Como se puede apreciar. Las primeras desmovilizaciones de miembros de los paramilitares. el proceso no pinta bien (VI). “Grupo antigurrillero”. el “fracaso” del proyecto político paramilitar y su posible desmovilización fue el éxito político del gobierno Uribe: la idea de reelección.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 211 cambia no sólo la nominación del actor. En este periodo. entre otras. Su verdadero y único interés es aprovechar las expectativas de un desarme paramilitar y el poder intimidatorio de la extradición. por supuesto. Esta situación conlleva ambigüedad pues se da una justificación o valoración benéfica de dicho grupo: “PDS. la dejación de armas constituye un éxito político para el Gobierno en su política de Seguridad Democrática. es mucho más complejo y exigente. la intervención de este país se restringe al provecho que pueda sacar de la situación. Adicionalmente. las negociaciones son calificadas desde el diario como “empantanadas” y la responsabilidad de este impase recae únicamente en el gobierno: Luego del fracaso del Referendo. Pero sin olvidar tampoco que para muchos es mejor tener alguna seguridad que no tener ninguna. en cuatro años no es posible realizar un proceso de desmovilización y lo que menos se quiere es incurrir en los errores de los gobiernos pasados: “Muy probablemente la promesa oficial de desarticularlos completamente antes de terminar la actual administración no se pueda cumplir” (IV). dicha ley genera una fuerte polémica que divide la opinión pública ya que pasar del “dicho al hecho” no es tan fácil como inicialmente se creía. el Gobierno podría estar frente a un nuevo traspié: el fracaso de las conversaciones con los grupos paramilitares con vistas a su desmovilización. la situación del discurso combativo se utiliza como trampolín para la futura reelección ya que. presenta el diario. disminuye la responsabilidad correspondiente a los paramilitares con la estrategia de beneficialización. “simples pandilleros”. que así sería más dura que nunca…” (VII). En esa medida. Sin embargo. que fortalecerá la confianza ciudadana en el Gobierno y el prestigio del presidente Álvaro Uribe Vélez” (V). desmonte total del paramilitarismo. Tras los primeros diálogos y algunas “desmovilizaciones” se plantea una Ley de Alternatividad a través de la cual se negociará el .” (II) tangencialmente. una posible intervención externa no enfrenta el fenómeno paramilitar sino que lo toca 2004: Desmovilización: un problema “Porque. sino las características de sus acciones. Por tanto. “Boy scouts que han aprendido a hacer la guerra en los últimos meses” (III). A pesar de la insistencia de algunos de estos grupos en realizar hechos demostrativos de su intención de desmovilizarse. situación expresa de los Estados Unidos: Lo de Estados Unidos. para dar un golpe sustantivo al narcotráfico… (VII). promotores de desarrollo social en los barrios”. ya que a través de la categoría de la exclusión parcial se cataloga de “más dura” la tarea del gobierno frente a las guerrillas sin el “apoyo” que brindaban los grupos paramilitares: “pues la lucha contra las Farc. se mantiene la ambigüedad en relación con la caracterización del actor paramilitar. asimismo. pero muy pragmático. es mejor tener siete milparasi en armas que tener diez mil. en conjunto con la minimización del actor y sus acciones realizada por el diario. sin importarle los crímenes cometidos por los paramilitares en Colombia. lo encuadran como un ente con el cual se puede dialogar. como diría Maturana. El diario hace uso de la estrategia de activación para poner en el ojo del huracán al gobierno y su aparente poca voluntad de diálogo. se cuestionan las posibles solicitudes de extradición. El éxito de dichos diálogos fortalece la credibilidad en el gobierno del presidente Uribe: “Sin duda.

Los argumentos esgrimidos son la capacidad de su poder militar. en varios editoriales se reitera que es mejor aceptar dicha ley antes de una posible reacción violenta de los paramilitares. pero automáticamente subvierte esta apreciación a través de un cuestionamiento implícito en sus líneas: si se buscara una paz definitiva la disposición de “perdón” debe ser mayor ¿Qué estamos dispuestos a dar por una paz definitiva? ¿Cuál es su costo? simultáneamente la estimen demasiado blanda para los paramilitares” (IX). En épocas más recientes. Aquí se invocan nuevamente las voces de la cultura: “el . a través del uso de la exclusión parcial. La redención a la cual se hace alusión en las líneas anteriores se presenta en los editoriales a través del apoyo a la Ley 975 de 2005 o Ley de Justicia y Paz. y entonces tendríamos un escenario catastrófico: un Estado precario atacado simultáneamente por dos ejércitos irregulares. La paz también es un acto de soberanía (VIII). En dicha falacia se apela a la minimización de la influencia de organismos internacionales que están interesados en que este proceso no quede en la impunidad. aun cuando Pero mañana. en medio de un proceso electoral decisivo. incluso por encima de la justicia. sino que también traería como consecuencia –implícita. aun cuando también más bajo que el que anhelan los paramilitares” (VIII). Un ejemplo de ello es cuando se cuestiona el valor institucional de la Corte Penal Internacional como ente de justicia: La Corte Penal Internacional no es el irresistible y omnipotente ángel vengador que nos pintan. esto en razón a que a la paz se llega a través de la redención. y la poca efectividad del Estado frente a un conflicto en dos frentes: 2005 . Este documento es calificado en el diario como “lo mejor” que se podría lograr en esta coyuntura a pesar de lo que sus opositores afirman: “Y. se insinúa en una sola editorial. según cuentan los ciudadanos de la época. para presionar una negociación en condiciones más favorables. y no a través de la justicia. podrían actuar como una fuerza desestabilizadora y atacar violentamente instituciones y políticas del Gobierno. Dicha consagración.212 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS De otro lado. tal como reza el adagio popular: “el que peca y reza empata”. Lo que es más real es la posibilidad de la perpetuación y el agravamiento de la guerra en Colombia si no se desmovilizan pronto los paramilitares con un acuerdo nacional inspirado en el principio de la paz como valor supremo. el país del Sagrado Corazón: ¿una “justicia” confesional? Colombia fue consagrada en época de la guerra de los mil días al cuidado del Sagrado Corazón.2006: Colombia. el recrudecimiento de los ataques por parte de la guerrilla. (VIII) Otro de los argumentos que sustentan la “confesionalidad” de la justicia se basa en la falacia de la autonomía del Estado colombiano. Para justificar la viabilidad de la ley se hace uso del contraste: “ni las Farc ni el Eln aceptarán dicha ley por considerarla demasiado dura para ellos. sino que por el contrario se concibe dicho proceso desde una “justicia” confesional.el hecho de que la guerrilla posiblemente retome el poder. En esa misma dirección. sirvió para que finalizara este cruento episodio. como la referenciada en los editoriales de los años 2005 y 2006. en efecto. para llegar a un acuerdo de paz tal vez el nivel de perdón tendría que ser más alto que el que finalmente otorgará la Ley. el proceso de desmovilización de los paramilitares no se consagra a una deidad católica de manera directa. Esto podría coincidir con una reactivación del accionar armado de la guerrilla. Una intervención externa sería no solo la piedra en el zapato para el proceso. cómo dicho proceso puede incurrir en la impunidad. […] Los paramilitares están hoy más fuertes que nunca y sus posibilidades de perduración y expansión hacia el futuro son prácticamente ilimitadas. parece que se reviviera una parte de la historia. Aquí.

la Ley de Justicia y Paz. sino que ahora. se hace uso de la categorización al poner en el mismo racero a aquellos que pertenecieron a grupos paramilitares y no se desmovilizaron y al delincuente común. Asimismo. se resalta entonces la necesidad de un diálogo a cualquier precio a partir del miedo. se alude al fenómeno paramilitar con los términos “desmovilizados” o “no desmovilizados” de acuerdo con la favorabilidad o no respecto a la Ley de Justicia y Paz. En el periodo estudiado se evidencia cómo la representación del actor justifica las políticas del Estado y legitima la violencia que este órgano ejerce en defensa de la comunidad. Ahora bien. este instrumento jamás contestó al interrogante del ¿Por qué no reconocer que hay conflicto armado? El simple hecho de analizarlo implicaría revisar la noción de justicia. como lo afirma el mismo diario-. el uso recurrente de contrastes ambiguos normalmente entre los paramilitares y la guerrilla no deja una posición clar a. aunque imperfecta.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 213 enemigo de tu enemigo es tu amigo” y la ley debe tratarlo como tal. Además. Adicionalmente. se conceptualiza el fenómeno al afirmar que para concebir un grupo como paramilitar es porque dicho grupo tiene nexos con el Estado: La diferencia central entre estas nuevas manifestaciones criminales y los grupos paramilitares es que su enemigo ya no son solo los grupos guerrilleros o sus bases de apoyo social y político. funcionó como mecanismo para que miles de paramilitares se desmovilizaran. Por otra parte. los editoriales del año 2006 se enfrentan a la diatriba de mencionar o no al paramilitarismo. atentan contra las instituciones estatales. No obstante. En esa misma línea. las instituciones estatales” (x) Consideraciones finales El anterior análisis relacionado con el concepto de paramilitarismo presentado por el diario El Tiempo permite establecer los mecanismos a través de los cuales la representación del fenómeno es de difícil identificación y atenúa la importancia de abordar dicha problemática. se encuentran: la asignación del rol para mostrar a dicho actor como poseedor de una “estructura política” -aunque problemática-. que a su vez conforma una “estructura social” -descompuesta. Posterior a la aplicación de dicha ley. pero como fenómeno estructural endémico de la sociedad colombiana sí. enquistada. sino. y por el contrar io. igualmente. . el problema ahora es que es de difícil identificación. la beneficialización se utiliza para destacar ese potencial bélico del que disponen los paramilitares. Aquí la estrategia es utilizar la exclusión parcial en razón a que no se puede hablar de paramilitarismo ya que este concluyó en el proceso de desmovilización de sus miembros. Así. Así. Sin embargo. basado en acciones hechas pero presentadas como hipotéticas en un futuro próximo. se utiliza una disociación por contraste. verdad y reparación que hasta el momento no se han cumplido. Respecto a las estrategias. así como también hace eco del proceso que pretende sustentar su impunidad. se justifica disimuladamente la acción paramilitar bajo la idea del “mal necesario”. pues se dice que estas nuevas “manifestaciones criminales” no comparten el mismo objetivo del gobierno. el paramilitarismo desde su forma nominal no existe. se da cuenta de dos ejes particulares: las estrategias empleadas para velar el fenómeno y la validación del proceso de impunidad. Al hacer un acercamiento para resolver la situación legal de esa “estructura social” se visualiza una posibilidad política para el Estado de sacarle partido al conflicto.

De esta manera el “buen ciudadano” debe ser sobre todo un “buen patriota” o inscribirse en cualquier otro patrón de lo que es “correcto” en tiempo de guerra. Este mecanismo conlleva la impunidad puesto que al no presentarse nominalmente al fenómeno. Gracias a la exclusión parcial de este actor se legitima la creación de un discurso sobre la defensa de las normas. 189 . La lógica entonces de difundir el éxito de la desmovilización paramilitar trae consigo no solamente la supresión del nombre sino el cambio en la concepción del fenómeno. Madrid: Editorial Cátedra. El ralito y mi abuela. (1996). En: CONTRERAS. In C. London: Routledge. Coulthard (Eds. 28 de noviembre de 2003. IV. El Tiempo. Desmovilización de autodefensas. al difundir el desvanecimiento de la categoría “paramilitar”. 8 de abril de 2005. Leyendo en los cómics más allá de la adolescencia. Entonces. El Tiempo. El Tiempo. El Tiempo. The representation of social actors. El Tiempo. No maduros para el perdón. VI. pero cuando no hay actor – porque es elidido.214 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS De acuerdo con esto último. según haya dictaminado el discurso de autoridad dominante para la formación social en la que política y/o administrativamente se encuentre integrado el individuo (FERNÁNDEZ. & SIERRA. X. 4 de octubre de 2004. su impunidad. se limpia el nombre del gobierno sin perder ese brazo oscuro de acción. VAN LEEUWEN. El Tiempo.). p. Juan Carlos. El Tiempo. IX. F. El pantano paramilitar. la prensa al caracterizar al actor por su nombre determina su identidad. ANEXOS: Noticias I. T. 5 de junio de 2006. Así. 7 de noviembre de 2003. El Tiempo. (2004) El Capitán América nunca supo convencer a los malos. F. y se propicia. El Pantano Paramilitar. VII. Es más. se excluyen de manera sistemática los aspectos ideológicos y estructurales de la violencia en Colombia. Al respecto. Fernández afirma: La retórica bélica tiene como finalidad explicar razones. 189) Referencias bibliográficas FERNÁNDEZ. Justicia y paz: 2005 y 2016. 4 de julio de 2003 III. V. 8 de julio de 2005. Texts and practices. El futuro de los paramilitares. Readings in Critical Discourse Analysis. El Tiempo. el proceso de significación de este discurso se configura a partir de unas condiciones de producción específicas que están determinadas por la filiación del medio con la ideología que proclama el gobierno de la época a través del uso de la retórica bélica. . El Tiempo emplea esta retórica bélica al evadir la responsabilidad de utilizar la nominación del fenómeno paramilitar como tal. 1989. 2 de agosto de 2002. 7 de noviembre de 2003.es difícil identificar quién es el responsable de los hechos violentos. Caldas-Coulthard & M. El Tiempo. p. Una desmovilización inédita. Culturas de guerra. II. En esa medida. ahora ya no existe el problema. por ende. oculta no solo un nombre sino un discurso que busca la impunidad. R. El Tiempo. sin encontrar argumentos que hagan imposible el rechazo popular a las acciones armadas y a elaborar relatos dirigidos a crear una ilusión al mismo tiempo de victimismo y de orgullo patrio (…). 24 de noviembre de 2003. ¿Tercera generación?. La desmovilización de los paramilitares.224 . VIII.

que comienza a desarrollarse probablemente en Francia a partir del siglo XII. La versión occidental de la leyenda. La narración de la vida de María se concreta en tercera persona y asume un estricto orden cronológico. María no es la protagonista del relato. María. centrándola en María de Egipto y relegando a Gozimás a ser sólo el testigo de la santidad de la nueva protagonista. una fuerza sobrenatural le impide la entrada al templo el día de la Ascensión.Universidad de Buenos Aires La leyenda de Santa María Egipciaca. Por indicación divina y como penitencia por su vida anterior de pecado. Intentando encontrar una explicación para la transformación de la leyenda en el paso de la versión inicial oriental a la occidental. La historia. En un viaje a Jerusalén. una de las santas más populares y paradigmáticas durante la Edad Media. después de lo cual ella dirige una larga oración a la Virgen María. extendiéndose luego el relato de su vida y muerte santas desde allí a toda la cristiandad. Estas redacciones iniciales de la historia de la santa constituyen la versión oriental de la leyenda de María Egipciaca como prostituta arrepentida. en el cual se embarca con unos romeros siete años después. narra la vida de una joven nacida en Egipto. cambia totalmente el eje de la historia. DELGADO se pregunta: “¿Se debió a un precoz individualismo el .ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 215 INICIOS DE LA SANTIDAD MEDIEVAL EN LENGUA CASTELLANA: TRADUCCIÓN Y PROTAGONISMO FEMENINO EN LA VIDA DE SANTA MARÍA EGIPCIACA Carina Zubillaga SECRIT (IIBICRIT-CONICET) . en ellas. tiene como primer testimonio escrito un texto griego compuesto por Sofronio en el siglo VII que se traduce luego al latín en la segunda mitad del siglo VIII. donde sobrevive con sólo tres panes. se convierte y cambia absolutamente de conducta. un monje que la descubre como penitente en el desierto y que encuentra en ella el modelo de humildad necesario para variar su conducta y reorientar su vida espiritual1. entonces. sino sólo el ejemplo de santidad frente al cual resulta confrontado Gozimás. en la biografía de la santa2. padece incontables sufrimientos y finalmente muere en una muerte santa que presencia el monje Gozimás. pasa cuarenta y siete años en el desierto. que a los doce años huye de su casa paterna a Alejandría para ejercer allí la prostitución y abandonarse a toda clase de pecados. ya en su versión occidental. quien la entierra ayudado por un león y confirma la historia de la penitente en la abadía de San Juan. la vida de la santa se transforma. de la que es miembro.

La traducción de las vidas de santos desde el latín a las lenguas vernáculas que se desarrolla en Europa occidental a partir del siglo XII testimonia. Su respuesta se enfoca. preeminencia de la figura femenina y un lenguaje accesible para todos como parámetros determinantes. p. p. 1980. El fenómeno religioso innovador que se está produciendo en ese momento histórico es. Frente al ideal imposible de feminidad que la Virgen María encarnó. a la difusión de las órdenes mendicantes. en los lineamientos del IV Concilio de Letrán de 1215. p. y hacerlo a través de las lenguas vernáculas y de las historias de santos más accesibles y cercanos a los fieles como principales estrategias espirituales. como bien lo testimonian numerosas leyendas y devociones a santos que se intensifican ya a partir del siglo XII. más amplio que un concilio singular –por más importante que éste sea– y además anterior3. 98). La manera en que se transformó la leyenda de Santa María Egipciaca en su paso a las lenguas vernáculas revela sin dudas una adaptación cultural expresada primera y fundamentalmente en lo lingüístico. el culto también creciente de las prostitutas arrepentidas. sin embargo. La Vida de Santa María Egipciaca (en adelante. 184-185). Ante la santidad . 2004. como en este caso de la leyenda de María Egipciaca. La evolución de las leyendas hagiográficas atraviesa un umbral literario crítico en su traslación a las lenguas vernáculas (ROBERTSON. sino que además cambian la prosa por el verso. Se trata de la necesidad de la Iglesia de orientar el proceso de conversión cristiana particularmente hacia los laicos. Es anónima y está compuesta en verso irregular. aunque igualmente difícil de alcanzar. 2004. Por tal motivo. se prefieren el verso a la prosa y las imágenes plásticas al convencionalismo retórico. un verdadero proceso de adaptación cultural. cuyo eje en los sacramentos del arrepentimiento y la penitencia se piensa puede haber impulsado relatos e historias como ésta de la pecadora arrepentida. p. la devoción paralela a las penitentes tal vez resultó la respuesta posible. que contribuyó al desarrollo y avance de la espiritualidad femenina 5 . como sucede también con otros tantos estudiosos. 305). será el receptor privilegiado de la reformulación de las viejas leyendas hagiográficas que contemplarán inversiones de protagonismo. lo que la hace contrastar aún más con la producción hagiográfica castellana más relevante del período: la escrita por Gonzalo de Berceo en el marco del mester de clerecía como escuela poética y de la estilizada cuaderna vía de versos alejandrinos monorrimos4. 2005. 185).216 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS que se amplificara el protagonismo de la pecadora penitente y se la caracterizara físicamente allí donde la versión original se presentaba en forma tan espartana?” (DELGADO. Entre los fenómenos religiosos más relevantes del siglo XII se encuentra asimismo la extensión del culto mariano debido. A la popularidad de la Virgen como intercesora y como anti-tipo de Eva se suma. en una doble orientación que se manifiesta tanto en el ritmo y estructura de los poemas como en su variación narrativa. un cambio tanto social como devocional. centrado primeramente en la lengua y en la apertura a la laicidad que supone el acceso de historias y leyendas –antes circunscritas especialmente al ámbito monástico– al conjunto de los fieles cristianos. O. El poema francés del siglo XII y luego el poema hispánico del temprano siglo XIII –que a su vez lo traduce– trasladan la leyenda no sólo del latín. de manera paralela. Un nuevo público. mayoritariamente laico. fundamentalmente. también: “¿Fue deliberado el desdén del desconocido autor del siglo XIII hacia el protagonismo de Zósimas?” (DELGADO. Vida) del siglo XIII traduce la francesa Vie de Sainte Marie l’Egyptienne con bastante fidelidad y constituye probablemente la hagiografía castellana más antigua de las conservadas por escrito (BAÑOS VALLEJO.

reconociéndola como aquella que personifica en sí misma todo el misterio de la Encarnación : “… ¡Ay. se expresa básicamente en su Vida a partir de su imagen física. lo que las prostitutas arrepentidas representaron fue justamente el proceso de transformación del pecado a la gracia visible en las figuras contrapuestas de Eva y de la Virgen. María como Madre del Redentor es también. 535). A la dinámica de la paradoja de la Virgen María como Madre de Cristo el poeta suma también a continuación la dinámica de la oposición entre ambas Marías. reconociéndose entonces en la Madre de Dios como el modelo de la santidad que finalmente alcanzará. tanto María Magdalena –el prototipo básico de la penitente– como María Egipciaca dramatizan en sus respectivas leyendas a la santidad como un proceso arduo y complejo pero posible para cualquier pecador. del pecado a la santidad. Esta idea se reiterará en otros lugares de la misma plegaria. El proceso de conversión de María Egipciaca. lo central en la nueva versión de la leyenda de la santa es el protagonismo femenino. Esta relación innegable entre la Virgen y María de Egipto presente en los cultos compartidos está tematizada en el poema en el momento crucial de la conversión de la pecadora. A la castidad de la Virgen se opone la lujuria como principal característica de la pecadora. la pecadora reconoce en su oración que las 7 diferencias las separan: “Un nonbre avemos yo e ti. En este sentido. como expresión acabada de la posibilidad de cambio de todo cristiano. / que en el tu vientre toviste al tu padre!” (v. La plegaria se revela a partir de estas paradojas y oposiciones que la construyen como un espacio de auto-confrontación. sin dudas. por ejemplo en los v. así como la humildad de la Madre de Dios es confrontada con el orgullo de María de Egipto. v. 483-484)8. en el cual María se muestra arrepentida al oponer su pecado a la majestad de la Virgen. A pesar de compartir el mismo nombre. La dramatización de este proceso de conversión habría resultado un vehículo privilegiado en Europa para la exposición de la doctrina cristiana. arrepentimiento y penitencia las leyendas de prostitutas santas comunicaron la doctrina cristiana a los lectores u oyentes como experiencias concretas a ser compartidas antes que como conceptos abstractos6. la intercesora por excelencia entre su Hijo y todo pecador11. que elevarían sus súplicas tanto a la Madre de Dios como a la pecadora arrepentida.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 217 innegable de la Virgen María. sino también su cuerpo. cuando en Jerusalén le dirige una oración a María. duenya. dulçe madre. pero extendiéndose luego a una oposición que parte de la correspondencia entre una y otra y por eso deviene finalmente en identificación gracias a las logradas simetrías formales del fragmento. que se vuelve entonces imagen en el poema de cómo rezarle a la Virgen. conformando a través de la sucesión de estas paradojas9 la figura de la Virgen María como la única en la cual pueden reconciliarse todas las diferencias10. 533-534). 517-518: “Grant maravilla fue del padre / que su fija fizo madre”. Narrativamente. en principio a partir de la yuxtaposición entre la primera persona de quien ruega y la segunda persona que es rogada en el nombre que comparten (“tú María e yo María”. en este sentido. visible particularmente en el diseño biográfico de la vida de María y su transformación espiritual concebida como un proceso tan integral que abarca no sólo su espíritu. Este encuentro entre María Egipciaca y la Virgen María en el espacio de la oración refleja con seguridad la práctica devocional de gran cantidad de los fieles del período. más allá de la gravedad de su pecado. En este punto la oración alcanza su máximo lirismo. contrastada como la representación gráfica de un antes y un después del . ya que al desarrollar actos de conversión. / mas mucho eres tú luenye de mí” (v.

la Edad Media asume con interés creciente el culto de las prostitutas arrepentidas. En este sentido. entre quienes se difundían . / como la rosa quando es granada” (v. 217218). / blanquas como leche d’ovejas” (v. en tanto cuando era bella “la faz tenié colorada. Baste citar sólo los ejemplos más destacados de esa contraposición para imaginar cómo pudieron haber sido recibidos por los hombres y mujeres del Medioevo. El contraste de la descripción primero de la joven. / mucho eran negras e pegadas” (v. En ambos retratos el mismo esquema de color predomina. El eje legendario del modelo de la prostituta arrepentida está cifrado en estos dos retratos contrastantes de María Egipciaca. 732-733). con la leche de las ovejas. en su vejez se le vuelve “la faz muy negra e arrugada / de frío viento e elada” (v. sucio y seco de la penitente– remite valorativamente a su purificación interior. Además de aquellas santas que manifiestan vocación de santidad desde la infancia. tal como la flor del espina” (v. en una pérdida de carnadura que se evidencia claramente en la casi tangible sequedad de su cuerpo sometido a las inclemencias del desierto. como María Egipciaca.218 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS arrepentimiento presente en el centro del poema en la oración que ya hemos referido. sólo que invertido. fealdad con santidad y vejez. 215). que eran alvas. Las comparaciones que sobreabundan en la descripción de la joven y hermosa pecadora. 213-214). en el segundo retrato. El poeta organiza estos retratos de María de modo valorativo. que podría reconocerse fácilmente en el pecado inicial de lujuria de María de Egipto y eso le daría la posibilidad de no ver como tan lejana la promesa de santidad. que asocian por un lado belleza con juventud y corrupción interior y. en el segundo se destaca el negro como imagen gráfica de la fealdad y de los atributos físicos perdidos. que eran ruvios. 736-737). 225-226). 221-222). si joven tenía “su cuello e su petrina. como penitente “las sus orejas. y lo testimonia en relatos hagiográficos como su Vida hispánica centrados en el arrepentimiento y en la dinámica de la penitencia como horizontes de todo cristiano. por otro. asignándole en la primera descripción una luminosidad exterior –dada por el blanco de su cuerpo. mientras que en el primero sobreabunda el blanco como representación de la belleza juvenil. 724-725)12. / tornaron blancos e suzios” (v. con la rosa o con las manzanas. ya en el desierto “tan negra era su petrina / como la pez e la resina” (v. / quando los tiende semejan espetos” (v. 726-727). connotando una materialidad viva y colorida. 223-224). se oponen luego en el segundo retrato de la penitente a la resina. / como yo cuido eran secas” (v. mientras como prostituta “de sus tetiellas bien es sana. al arrepentirse de sus pecados “en sus pechos non avía tetas. dejándose el blanco sólo como término de comparación o para describir los cabellos envejecidos de la anciana: “e los sus cabellos. 738-739). en tanto en su juventud “braços e cuerpo e todo lo al / blanco es como cristal” (v. en su vejez posee “braços luengos e secos dedos. / tales son como maçana” (v. que tiene entre sus principales manifestaciones el modelo de las penitentes. hermosa y pecadora María y luego de la vieja y espantosa penitente asume la forma de dos extremos tan irreconciliables como impactantes. la impureza física –dada por el cuerpo opaco. Mientras en su juventud María Egipciaca “redondas avié las orejas. y el negro se emplea sólo para los ojos: “ojos negros e sobreçejas” (v. 740-741). y el plateado y dorado de su vestimenta– y una vivacidad evidente –que aporta el colorado– que contrastan con la oscuridad interior que ese brillo externo necesariamente supone. por el contrario. la presencia e importancia de la santidad femenina en los siglos XII y XIII no es un fenómeno aislado en el marco de las nuevas prácticas devocionales y la expresión de la piedad del período. Seguramente los laicos.

Françoise: Pratiques hagiographiques dans l’Espagne du Moyen Âge et du Siècle d’Or. Walsh. el eje del cambio devocional que se produce a partir del siglo XII es la veneración a la figura de Cristo en consonancia con el descubrimiento de la intimidad individualizadora de la persona humana (FERNÁNDEZ CONDE. Ernesto (2004): Mariales franceses. p. SNOW. Fernando (2005): Una “pecatriz” y una mística. B. . CORTINA. CSIC. p. M. University of Exeter. DELGADO. Université de Toulouse-Le Mirail. presentada particularmente a través de las imágenes contrastantes de su cuerpo. CRUZ-SÁENZ. p. Esa impronta humanizadora eleva. María S. 41-45. Duncan (1980): Poem and Spirit. Esa devoción. E. En: Medievalia et Humanistica. un ejemplo cercano y posible de los alcances inconmensurables de la gracia cristiana de la salvación. N° 18. Exeter: Ed. Julian (2006): The “Mester de Clerecía”: Intellectuals and Ideologies. Francisco Javier (2005): La religiosidad medieval en España. Tamesis. fuentes. (1977): La vida de Santa María Egipcíaca: A Fourteenth-Century Translation of a Work by Paul the Deacon (Ms. WEISS. p.: Saints and their Authors: Studies in Medieval Hagiography in Honor of John K.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 219 de manera privilegiada estos nacientes textos en lengua vernácula. ANDRÉS CASTELLANOS. texto y vocabulario. Dayle (1992): The Poetics of (Non)Conversion: The Vida de Santa María Egipçiaca and La Celestina. Marina (1976): Alone of All Her Sex: The Myth and the Cult of the Virgin Mary. Ediciones Trea-Ediciones de la Universidad de Oviedo. BAÑOS VALLEJO. (1990): Notes on the Fourteenth-Century Spanish Translation of Paul the Deacon’s Vita Sanctae Mariae Aegyptiacae. John K. En: Revista de Estudios Hispánicos. RAE. 183-208. de (1964): “La Vida de Santa María Egipciaca” traducida por un juglar anónimo hacia 1215: gramática. p. p. Schiavonne de (1979): The Life of Saint Mary of Egypt: An Edition and Study of the Medieval French and Spanish Verse Redactions. Plena Edad Media (siglos XI-XIII). En: CONNOLLY. ingleses Particularmente en España. Puvill. Madison: Ed. se vincula con la creciente devoción a la Virgen María como Madre del Salvador y propicia una sensibilidad que define nuevas manifestaciones religiosas durante el período. edición de los textos . Asturias-Oviedo: Ed. vocabulario. WALSH. Alfred A. New York: Ed. ROBERTSON. y españoles en la creación de la vertiente occidental de la leyenda de Santa María Egipcíaca: hacia el nuevo modelo hagiográfico de los siglos XIII-XIV. versificación. and BUSSELL THOMPSON. N° XXXVIII. asimismo. Hispanic Seminary of Medieval Studies. En: Hispanic Journal. p. 305-327. Manuel (1970-72): “Vida de Santa María Egipciaca”: estudios. 452). N° 2. Madrid: Ed. 95128. Jane E. encontraron en la transformación espiritual de María de Egipto. Lynn Rice (1980): The Aesthetics of Morality: Two Portraits of Mary of Egypt in the Vida de Santa María Egipciaca. N° VII. The Twelfth-Century French Life of Saint Mary the Egyptian. La dudosa ejemplaridad de las santas en los poemas medievales. Referências bibliográficas ALVAR. Biblioteca Nacional BN 780). Toulouse: Ed. En: CAZAL. WARNER. Barcelona: Ed. Madrid: Ed. 83-96. Knopf. 97-111. Meretrics. a santas como María Egipciaca como modelos con los cuales los fieles devotos pueden relacionarse e identificarse más directa y afectivamente. que se centra en Jesús Niño y en los episodios de su vida oculta. FERNÁNDEZ CONDE. 2005. En: Medioevo Romanzo. SEIDENSPINNER-NÚÑEZ. Joseph T. Woodbridge: Ed.

Esc. p. sino un principio formal encarnado. Para profundizar en los diversos aspectos del culto mariano. 10 En esta oración la Virgen María no es meramente una persona a quien la pecadora ora. 11 “De todas las ideas difundidas desde los albores de la Alta Edad Media. el Libro de Apolonio. madre de todos los que viven en un sentido espiritual. la Vida se conserva en un manuscrito de fines del siglo XIV. y otro que es una reescritura de los Evangelios Apócrifos. en particular María Magdalena (WALSH y BUSSELL THOMPSON. la influencia directa del IV Concilio de Letrán sobre la leyenda occidental de Santa María Egipciaca no debe ser exagerada (WEISS. 1980. la santidad de la Virgen María se basó en su rol como theotokos (Madre de Dios). ALVAR (1970-72) y CRUZ-SÁENZ (1979). orientando particularmente sus observaciones y su análisis al carácter figural que adquieren esos retratos. K-III-4. 1980. 2004. mediadora entre Dios y la humanidad a causa de la Encarnación de la divinidad que la convirtió en una segunda Eva. Existen ediciones del poema hispánico de ANDRÉS CASTELLANOS (1964). 318). 6 La función catequética de este tipo de leyendas prevalece sobre los sermones o la enseñanza abstracta (SEIDENSPINNER-NÚÑEZ. p. p. como el uso de la siguiente metáfora: “E fue maravillosa cosa / que de la espina salió la rosa” (v. p. 313). ver SNOW (1990. 3 Aunque es un indicador crucial de los asuntos eclesiásticos contemporáneos.220 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Notas 1 Para ahondar en esta versión oriental de la leyenda de Santa María Egipciaca. cuando la difusión del culto mariano se extiende de manera sistemática entre los laicos. 519-520). el Libro de los tres reyes de Oriente. 7 Desde comienzos del siglo XII. 8 Cito según mi propia transcripción del poema que integra el Ms. 2006. junto con un poema escrito en cuaderna vía. 2 La prinicpal implicancia del paso de la narración de la vida de la santa a su biografía es una secuencia ininterrumpida desde su infancia hasta su muerte. del cual estoy preparando una edición crítica conjunta. ver WARNER (1976). luego de más de cuarenta años de penitencia en el desierto (ROBERTSON. el K-III-4 de la Biblioteca de San Lorenzo de El Escorial. que es el aspecto más pragmático de su culto…” (DELGADO. 12 CORTINA (1980. . la reconciliación universal de los contrarios (ROBERTSON. quizá la que mayor influjo tuvo en los siglos posteriores fue la idea de la Virgen como intercesora entre el pecador devoto y Cristo. 187). p. 6). 84). 8396). 4 Llamativamente. 1986. 41-45) ya señaló la importancia del empleo del color en las dos descripciones contrastantes de María Egipciaca. p. 5 Sólo un secreto oculto en la psiquis medieval explicaría de manera acabada la fascinación de la leyenda de las prostitutas arrepentidas. 100). 9 La paradoja está incluso reforzada con el empleo de algunos dispositivos ornamentales. sin embargo. p. 1992. p.

em toda a Região das Fazendas (Oreja de Perro)3. de Souza PG . evitando e ao mesmo tempo promovendo o seu esquecimento. por exemplo. E se a História assume a função de um tribunal. como membro da equipe profissional do Centro de Desenvolvimento Agropecuário (CEDAP) e condutor do programa de rádio Rimaykusunchik4. torna-se um recurso privilegiado de acesso ao passado. à medida em que passa a ser captada pela História. sua presença na comunidade passa a ser constante.UFMG Seja a memória uma configuração cultural. O Relatório Final da Comissão da Verdade e Reconciliação 1 do Peru resulta da reunião de uma série de narrativas sobre a recente História dos conflitos políticos vividos pelo país. atua contra o amnésia e manifesta váriadas versões sobre os espisódios que pertencem. estudos literários e outros). pela primeira vez. capacidade investigada por diversas disciplinas (teologia. filosofia. psicologia sociologia. em formatos de escritura diferenciados. pois. DE EDILBERTO JIMÉNEZ: DESENHANDO A MEMÓRIA COLETIVA Carla Dameane P. porque atua de maneira revisionista sobre os eventos do passado selecionando-os. ou. com a finalidade de reunir e escrever uma História respaldada pela heterogeneidade de versões e sujeitos envolvidos. nos anos entre 1980 e 2000 2 Essa comissão trabalhou com o objetivo de esclarecer a natureza do processo e dos fatos da guerra interna. em Chungui e. Sendo recebido com festa e música. (2009).Peru . com a finalidade de difundir informações sobre como vivia e se organizava aquela população. ele presenciava as dificuladades e . posteriormente. vía construção de imagens possíveis de serem transmitidas oralmente. que Edilberto Jiménez tornou-se um interlocutor de testemunhas da violência. em seu permanente exercício.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 221 CHUNGUI: VIOLENCIA Y TRAZOS DE MEMORIA. ou. A necessidade de discurtir e apurar estes eventos aciona a comunidade nacional. através de seu arquivamento. além de determinar as responsabilidades jurídicas sobre tais acontecimentos e apresentar as consequências dos abusos contra dos direitos humanos. O antropólogo visitou Chungui. em 1996. a Memória. Foi num contexto prévio aos trabalhos da CVR . a um evento histórico específico.

durante o processo de produção desse livro. sequestros. por causa disso. Jiménez ouve de diversas pessoas relatos que o deixaram comovido e. em torno do reconhecimento dos eventos de violência ocorridos em Chungui. analfabetas. pouco a pouco. Envolvido nesse debate. imaginar. ou. desenhar e mostrar Em Chungui: violencia y trazos de memoria aparecem os relatos orais recolhidos por Jiménez. o idioma quéchua para o castelhano. amparada por outros códigos. Esses testemunhos formam parte de uma macro narrativa e adquirem um valor de fonte histórica e jurídica. dos quais elas haviam sido testemunhas. encabeçada pelo prefeito. 178) e a partir desse rastro “inaugura o ato de fazer história” (RICŒUR. a participação de Edilberto Jiménez foi decisiva. traduzindo lembranças-imagens. a essa comoção. por que se referem a fatos reais testemunhados diretamente. A denúncia tornou pública a existência de 40 fossas comuns e o registro de mais de 200 desaparecidos. Como se estivessem reconstituindo cada um dos crimes (massacres. ou lugares onde ocorreram tais delitos. desaparecimentos forçados. com o medo que havia nas pessoas de conversarem sobre os acontecimentos violentos. correspondendo aos relatos. realiza uma denúcia formal ao Congresso. Jiménez devolve às testemunhas. nesse processo. Foi nessa situação de vis memoriae7 que Jiménez registrou os relatos e os transpôs para outro código de escritura associando o trabalho de tradutor à criação dos desenhos e retábulos. tortura. muitas delas falantes do quéchua. Nesse contexto. infanticídio. violência sexual contra mulheres. Jiménez atuou diretamente sobre as recordações das testemunhas. Além de traduzir a oralidade para a escrita. eram muitas vezes supervisionados pelas testemunhas que lhe diziam “así como estás dibujando. O silencio sobre a violência em Chuingui chega definitivamente ao fim quando uma delegação desta cidade.Peru e. solicitou a ajuda dos comitês de auto defesa para que pudesse recorrer outras comunidades da região e registrar mais testemunhos. p. así ocurrió”. as testemunhas voltavam aos locais onde haviam fossas comuns. porém ele cumpriu uma função extensiva a de escrivão. Por levar em conta a importância da imagem para os povos pré-hispânicos. O material recolhido foi entregue a CVR . 178). que não o da letra. cada um dos testemunhos registrados no livro admite “a iniciativa de uma pessoa física ou jurídica que visa a preservar os rastros de sua própria atividade” (RICŒUR. Além disso. entre outros). Na medida em que “fazer história” relacionase com a necessidade de escrever e arquivar. quanto da Comisedh (Comissão de Direitos Humanos do Peru). no intuito de responder. para lembranças-imagens visuais5 . 2007. horror sin lágrimas… una historia peruana de Luis Felipe Degregori6. ou. penso que. execuções arbitrárias. do continente latinoamericano. Jiménez passou a ser membro tanto dessa comissão. ativamente. p.8 Violência e transformação do espaço Ao considerar que um dos temas centrais de que se ocupa a problemática da representação da . recordadas oralmente. que possuem dificuldades para ler e escrever. suas imagens como um formato de escritura legível. tratamentos Recordar.222 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS participava das discussões e atividades relativas ao cotidiano dos moradores. aos 20 minutos Jiménez conta sobre como o esboço dos desenhos. começou a anotar os testemunhos orais e a esboçar seus primeiros desenhos. degradantes. 2007. No documentário Chungui. Foi nesse ambiente em que se tornou uma figura familiar e rompeu. indiretamente pelos sujeitos enunciativos.

e de que maneira esse espaço de confraternização seria afetado devido a presença e permanência dos grupos violentos (Partido Comunista do Peru-Sendero Luminoso (PCP-SL) e as Forças Armadas Oficiais do Estado Peruano (FFAA)). A ação de imaginar (no sentido de propor uma imagem à recordação). os encontros sociais (festivais juvenis. desde antigas gerações. batizados.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 223 Memória reside na relação estreita entre recordar e imaginar penso que. por sua vez. Ao fazer essa analogia o autor chama atenção aos muitos aspectos que caracterizavam o relacionamento dos chunguinos com o lugar. festas religiosas. Um dos últimos desenhos de Chungui: violencia y trazos de memoria faz referência ao Llaqta Maqta (jovem da cidade) um gênero musical tradicional da região. a ação de recordar. Naquela imagem onde se representa o relato sobre a chegada do PCP-SL em Chillihua. Edilberto Jiménez refere-se a essa expressão de vida e alegria como algo que consegue ser preservado mesmo após os anos de violência. Através dos desenhos é possível perceber como a presença do autoritarismo em Chungui compromete as perspectivas espaciais e temporais e obstrui a normalidade que antes definia as relações que os campesinos mantinham entre si e com o território. matrimônios. tem a colaboração de Jiménez que. com o modo de convivênicia que agrega os moradores à comunidade. 317). p. Esse taqui9 acompanhou. 156-157). p. tornando visíveis os crimes e os detalhes que entornam os acontecimentos que lhes são relatados. Em: JIMÉNEZ. por parte dos sobreviventes. aniversários) relacionando-se. J. recorrendo aos seus talentos como retablista transpõe para os desenhos essa memória individual e coletiva. 2009. “Laqta Maqta” (Desenho de Edilberto Jiménez em: Chungui: violencia y trazos de memoria. “Dijeron: “Deben obedecer a los responsables” (H. diretamente. retratando a presença do . 2009. a elaboração das ilustrações em Chungui: violencia y trazos de memoria resulta de um processo que inclui previamente. o espaço celeste aparece comprimido por olhos.

livre de qualquer metáfora. J. 246-247). Em: JIMÉNEZ. ou. H. p. 2009. também teremos sujeitos enunciativos que não presenciaram diretamente os crimes. 298-269) e em “Lírio Qaqa Profundo Abismo” (T. a crueldade desses assassinatos e a percepção daquele que foi tesmunha indireta do fato. Em: JIMÉNEZ. dirigindo-se a casa de sua família em Ninabamba. por estarem envolvidos nas situações descritas. quando se depara frente a uma situação em que é convocado pelos soldados da FFAA a testemunhar um assassinato. No caso dos testemunhos “Vi con mis propios ojos” (M. e C.M. que não presenciou os assassinatos. indiretamente testemunhas desses crimes. encontra os corpos das vítimas numa tal disposição que o faz supor o que de veras teria ocorrido. 2009. como no relato “Asustado agarraba la soga” (E. “Las cabezas estaban en distintos lugares”. Em: JIMÉNEZ. 2009. Os relatos são sempre de sobreviventes que foram direta. . ou. p. Em: JIMÉNEZ. 2009. O jovem estudante caminhava despreocupado. há casos em que este sobrevivente tornou-se testemunha por acaso.147). Em: JIMÉNEZ. onde os corpos haviam sido abandonados. A representação visual desse testemunho põe em cena. p. Em outro testemunho Jiménez utiliza essa linguagem oferecendo elementos visuais distribuídos pelo céu e que faz com o que o espaço funcione como um refletor cósmico. e L. 2009. p. E. D. 236). O sobrevivente. O. mas tiveram acesso ao cenário onde este ocorreu. B. 2009. C. (Desenho de Edilberto Jiménez. Mas. 200-201). 236-237). 2009. Em: Chungui: violencia y trazos de memoria.224 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS atoritarismo e da vigilância de um partido “que tenía muchísimos ojos y oídos y muy facilmente se enteraba de todo” (E. C. Trata-se da respresentação que oferece ao relato “Las cabezas estaban en distintos lugares” (V. p. Em: JIMÉNEZ. Q. p. O. p. Essa mesma elaboração de um espaço carregado de olhos e orelhas se repete fazendo alusão ao testemunho “Le dieron más de 20 Chicotazos” (G. 160-161).

“Estuve calladito en el árbol y lloraba calladito”(Desenho de Edilberto Jiménez. entre eles mulheres e crianças. e L. 2009. Em: Chungui: violencia y trazos de memoria. Em: JIMÉNEZ. 2009. 2009. as testemunhas presenciaram o assassinato dos detidos. 239). 238-239) sobreviventes contam como se esconderam em meio a paisagem para nela se camuflar e poder acompanhar as diversas pessoas de sua familia que haviam sido apreendidas pelos soldados da FFAA. D. escondidos entre árvores. Nessa situação. p. 201). p. I. “Estuve calladito en el árbol y lloraba calladito” (M. .ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 225 “Asustado agarraba la soga”(Desenho de Edilberto Jiménez. Em outro testemunho. p. Em: Chungui: violencia y trazos de memoria.

o sofrimento como uma experiência concreta. Os caminhos e abismos foram redefinidos. fechada em si mesma. deixada pela alma do marido. Esse enquadramento relativo ao espaço delineia. R. 2009. não sugeria frestas para a liberdade. 2009. p. tornam-se testemunhas de sua busca. No testemunho “Calladitos sin que nadie sepa. 296). No relato a mulher conta que estava acompanhada por seu cunhado. contra as próprias pessoas que antes residiam ali. desde muito tempo. compar tilhada entre vítimas fatais. pelos soldados da FFAA. após terem os encontrado mortos. 297). mas no desenho apenas aparecem como companhias uma lua. Nos desenhos de Jiménez. como em um sonho. O território foi utilizado. nos llevamos su cuerpito” (H. Em: JIMÉNEZ. Com base na mensagem onírica. a viúva sai a procura do corpo. 51). Em: Chungui: violencia y trazos de memoria. que chora. Na representação visual elementos da natureza e ao mesmo tempo cósmicos. 2009. aludindo a Abilio Vergara 10 “territorio-paisaje-prisión” (VERGARA. 296-297) uma viúva relata. para o olhar do leitor. sobreviventes e algozes. percebo como esse território. p. Em: JIMÉNEZ. os grupos a um . p. 2009. seu esposo lhe disse o local onde seu corpo se encontrava após ter sido assassinado.226 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Grande parte desses sobreviventes tornaramse peças fundamentais para o posterior reconhecimento de fossas comuns e lugares onde eles mesmos haviam enterrado seus familiares. os elementos utilizados impregnam o ambiente e fazem com que o espaço se pareça. 320) impregnado de afetividade e que vincula. R. que a espreitam. na maioria das vezes. e os zorros (raposas). “Calladitos sin que nadie sepa. A mulher encerra seu testemunho contando que ela mesma realizou o funeral do esposo enterrando-o ao lado de sua casa desde onde “él simpre me cuida y cuida a sus hijos” (H. à pedradas. 2011. um “Local de Geração” (ASSMANN. com a finalidade de que facilitassem os mecanismos de assassinato e a paisagem. no contexto da guerra. Através desses relatos e suas versões visuais. p. p. nos llevamos su cuerpito” (Desenho de Edilberto Jiménez. para Jiménez.

– Campinas. COMISEDH. a histór ia. Essa união permeabiliza os obstáculos que se colocam diante da possibilidade de se refazer as próprias vidas e superar os traumas sofridos. (2009). DED. mesmo por aquelas pessoas que nunca estiveram lá. Chungui destaca-se por ali terem-se cometido crimes exemplares contra os direitos humanos14. recopilado por Jiménez: Karu llaqtapin tiyani Chungui llaqtapin tiyani karu laqtalla kaptincha periodistapas chayanchu congresistapas qamunchu 11 Qanchi riupas waqansi Chungui mayuwan tupaspa chaynama llaqtallay waqan manaña pipas yuyaptin13. Mesmo assim. e cuja lembrança de seus moradores. Por mais que se tente narrar as histórias relativas aos crimes cometidos nessa região. Projeto de Tradução Coordenado por Paulo Soethe. através dela. o esquecimento. que a população revindica mudanças estruturais e sociais que podem dar fim à pobreza. É para esse território. RICŒUR. (JIMÉNEZ. (2007). 349) sobre o qual não é possível formalizar um sentido . Essa conexão constitui por um lado. p. cuja história não deve se repetir. Paul. JIMÉNEZ. vivos e mortos. No que se refere à violência indiscriminada que caracteriza a guerra interna do Peru. pois. Editora da Unicamp. Aleida. como seus mortos. Fazer-se recordar na memória das autoridades e de outros povos é o que deseja o chunguino quando canta e dança este Llaqta Maqta. torna-se também um “Local Traumático” (ASSMANN. Edilberto. Campinas. étnicos e sociais. uma ferida difícil de cicratizar na memória nacional e histórica. 2. SP: Editora da Unicamp. SP. 129) No livro de Jiménez encontra-se vários motivos para que Chungui torne-se um lugar a ser recordado. Formas e Transformações da Memória cultural. Referências bibliográficas ASSMANN. em seus desenhos. p. são os mesmos que abrem fissuras sugererindo a impossibilidade de se reproduzir a aura12 desse local e tudo que se refere a multidimensionalidade dos fatos que ocorreram aí. Chungui: violencia y trazos de memoria. é o motivo pelo qual esse lugar tornou-se inesquecível.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 227 familiares. Tradução: Alain François [et al. Lima: IEP. finalmente.]. (2011). por Jiménez. ao analfabetismo. Espaços da Recordação. esse território é o lugar onde os moradores cultivam à terra como espaço sagrado e estabelecem o contato. Por outro lado. aqueles elementos que ajudam a elaborar a representação dessas memórias. devemos celebrar. às doenças e ao atraso consequentes de anos de esquecimento. 2009. ed. A memór ia. . enquanto “Local de Geração” Chungui possui uma memória afetiva e costumes que fortalecem os vínculos que unem as pessoas ao lugar. 2011.

p. 2010. p. sobretudo. COMISEDH. Edilberto. SP: Editora da Unicamp. o autor aponta ser um traço comum tanto na imaginação quanto na memória. Retablos de Edilberto Jiménez sobre la Violencia Política” . e afirma ser possível estabelecer uma linha que as una. “a presença do ausente” (RICŒUR. (2009). Edilberto. horror sin lágrimas… una historia peruana. 61). 31-36. Lima: IEP.pdf>. A memória como Ars e Vis. Lima Peru. Espaços da Recordação. p. a realidade se encontra em suspenso. uma imagem fabulada. (2009). encontram-se as postulações que distinguem imaginação de memória. Lima: IEP. entendida como “arte”. 62 minutos. . Em: Galería Virtual Carlos Iván Degregori. 3 “Orelha do Cachorro”. Primera Parte: El Proceso. Disponível em: < http://www. Diferente dela a vis memoriae seria uma memória em “potência”. 7 Para Aleida Assmann (2011) a ideia da mnemotécnica romana. (2011). Acessado em 25 de julho de 2012. Introducción. Formas e Transformações da Memória cultural. Coordenador da Tradução Paulo Soethe. Chungui. 4 5 “Conversemos”. Conferir: JIMÉNEZ BORJA. p. 8 Conferir a exposição virtual “Universos de Memoria. Em: JIMÉNEZ. Em: ASSMANN. atuar contra o tempo e o esquecimento “cujos efeitos são superados com a ajuda de certas técnicas” (ASSMANN. Chungui: Violencia y trazos de memória. Estaria mais relacionada com a recordação involuntária que.pe/ ifinal/pdf/TOMO%20I/INTRODUCCION. (1943). 61). Edilberto. Aleida. Por outro lado. SP: Editora da Unicamp. “La fiesta y la danza en el antiguo Perú.org. 317-361. Ver mais detalhes em ASSMANN. 6 Chungui. Las Víctimas. O nome Orelha do Cachorro foi dado à essa região. Tradução de Fernanda Boechat Em: Espaços da Recordação. p. ars memoriae. (2011). Instituto de Estudios Peruanos. DED. Peru. Arturo. Segundo Edilberto Jiménez. Diretor Luis Felipe Degregori. Versão digital disponível em: <http://www. cverdad. sem dispor de métodos de armazenamentos artificiais (como é o caso da mnemotécnica) sempre podem ser acessadas pela memória. Em Paul Ricœur (2007). 11 Ver: ASSMANN. Tradução de Daniel Martineschen. Conferir: JIMÉNEZ. p. com Alejandro Toledo (1946). Contudo. Toda essa região próxima a Chungui corresponderia a orelha desse cachorro. Aleida. 9 Segundo Jiménez Borja (1946. 2011.228 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Notas 1 A Comissão da Verdade do Peru tem sua formação durante o governo de Valentin Paniagua (1936-2006) e no governo seguinte. Campinas. p. assemelha-se a um cachorro sentado. 10 VERGARA Abílio. Aleida. 34). Em: JIMÉNEZ. 87-129. pelos militares. Formas e Transformações da Memória cultural. que tornem identificáveis estas conexões entre memória e imaginação. una introducción. pois. (2003). passa a se denominar Comissão da Verdade e Reconciliação.iep. 2007. em alusão ao mapa do estado de Ayacucho. Em Castelhano e Quéchua. Los Hechos.org. para os moradores de Chungui não é usual a expressão Orelha do cachorro como nome que dá referência a região das Fazendas “Zona de Hacienda”. La violencia. Campinas. Trata-se da “lembrançaimagem” (RICŒUR.” Em: Revista del Museo Nacional. Acessado em 23 de junho de 2012. na memória existe um “real” anterior à imagem. p. Locais. COMISEDH. no caso de operações historiográficas do passado. Coordenador da Tradução Paulo Soethe. p. 122-159. Ele explica que na imaginação é possível enxergar um “irreal”. 122) no Peru antigo Taki/Taqui significava dançar e cantar como duas ações que se realizam simultaneamente. 2 Consultar: Informe Final da Comisión de la Verdad y Reconciliación. cuja forma. 2007. DED.pe/cid/galeria-cid/>. Violencia y Trazos de Memoria. isto é. La memoria de la barbarie en imágenes. possui relações com os processos de armazenamento e pretende. tomo XV. 36-67.

ed.165-196. Versão dig ital disponível em: < http://www. a partir do conceito de aura proposto por Walter Benjamin (1994.cverdad. arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica.org. Conferir: Informe Final da Comisión de la Verdad y Reconciliación. Vol. Historias representativas de la violencia. Em: Magia e técnica.0% SECCION%20TERCERALos%20Escenarios%20de%20la%20v iolencia%continuacion)/ 2. os conflitos alcançaram os maiores índices de violência. em Chungui e nos territórios asháninka.%20HISTORIAS%20REPRESENTATIVAS%20DE%20LA%20VIOLENCIA 20Introduccion.pdf>. . BENJAMIN. / nem os congressistas chegam. Tradução de Sergio Paulo Rounet.170). p. 14 De acordo com o Relatório Final da Comissão da Verdade. p. (2003). São Paulo: Brasiliense. 7. I. Acessado em 26 de junho de 2012. composta de elementos espaciais e temporais: a aparição única de uma coisa distante.pe/ifi nal/pdf/TOMO%20V/ /2. (1994).ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 229 12 No sentido em que propõe Aleida Assmann. / Dizem também que o rio Qanchi chora / ao se encontrar com o rio de Chungui / assim chora a o meu povoado / quando ninguém se lembra”. Primera Parte: Capítulo 2. Walter. 13 “Vivo num povoado distante / vivo na comunidade de Chungui / certamente por estar distante / os jornalistas não chegam. como “uma figura singular. por mais perto que ela esteja”.

com a focalização. b.3 espanhol atual: a. que não impõe restrições de fronteamento (exemplos (2) e (3): (2) Tematização: e. a. os autores mostram que o espanhol atual. estrutura informativa e prosódia tem sido um aspecto bastante estudado nos últimos anos dentro do quadro da gramática gerativa. (HERNANZ e BRUCART. . ao estudar o posicionamento dos pronomes clíticos na história do espanhol. 95) Com respeito à flexibilidade de fronteamento. p. 1987. *esa aria c a n t ó Montserrat Caballé maravillosamente. Introdução1 A relação entre ordem de palavras. ao contrário da focalização. apresenta uma série de variações que estão relacionadas com efeitos informativos. No referido trabalho. embora tenha a ordem básica S-VO. é possível a ordem Tópico-S-V. (3) Focalização: e el problema. DE DOS PARTES co nsta el examen. b) não é todo elemento que pode ser tematizado.230 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS O PREENCHIMENTO DA POSIÇÃO PRÉ-VERBAL POR COMPLEMENTOS VERBAIS E A NOÇÃO DE OPERADOR NA HISTÓRIA DO ESPANHOL Carlos Felipe Pinto Universidade Tiradentes 1. Fontana (1993) mostra que: a) O espanhol antigo não impunha restrições ao constituinte fronteado. a única ordem possível é Foco-V-S2 (exemplo (1)). EN EL PARO resid eside b. *En el paro. EN PRIMAVERA v isitó Juan Leningrado. Considerando as possíveis ordens de constituintes. En primavera Juan v isitó Leningrado. *De dos partes el examen co nsta nsta. a. Hernanz e Brucart (1987) mostram que: a) com a tematização. como se ilustra no contraste entre (4) e (5): (4) (1) a. Um dos primeiros trabalhos sobre o espanhol nesse sentido é o de Hernanz e Brucart (1987). el problema resid eside b.

p.4 (FONTANA. em (7d) o objeto fronteado é o elemento interrogado. em (7b). pelo menos. tenho o objetivo de explicar o motivo desses contrastes entre as duas fases do espanhol. 107) mostra o seguinte contraste: . dicen que Nuria tiene ___i. ¿qué libros tienes? Wh-movement c. (7) a. diferentemente do que acontece no espanhol atual. Uino & agua d e ue el clerigo mezclar en el caliz. em (7c) o objeto fronteado deixa um vazio dentro da oração. Distintos tipos de fronteamento (5) espanhol antigo: a. Grande duelo av ie ien espanhol atual: b. O espanhol atual tem.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 231 r í a n los invitados el otro b. 1993. Discutindo a noção de operador. por outro lado. (FONTANA. b. Neste trabalho. 1993. 64/55/56) Em (7a). conforme os exemplos em (7) a seguir: Clitic left dislocation (CLLD) b. a. Libros. o objeto é recuperado por um clítico dentro da oração. *visitar q u e er pabellón. o XP fronteado não tem correspondência dentro da oração. A Nuriai lei dieron un libro anoche. esa aria la c a n t ó Montserrat Caballé maravillosamente. Confessar =se d e ue uen pecados. *?con una horquilla para el pelo ab abrían chorizos las puertas de los coches. dois aspectos que contrastam claramente o espanhol atual com o espanhol antigo são a maior flexibilidade para fronteamento de constituintes no espanhol antigo e a maior possibilidade de fronteamento de objetos sem a recuperação com o clítico5. *?maravillosamente cantó Montserrat Caballé esa ária. n los xpistianos de sus c. 2. d. rían esos c. p. *?desde Cornellá v ol olv porque no habían autobuses. A discussão se concentra nos complementos verbais já que os adjuntos. podem ser fronteados sem restrição em ambas as fases da língua6. como se ilustra em (6). p. quatro tipos de construções A-Barra. sólo tengo romances. *esa aria c a n t ó Montserrat Caballé maravillosamente. (6) espanhol antigo: n las yentes christianas. a Alexandria de la Palla. d. Deste lugar de Vigeva fue S. c. Topicalization7 3. 55/61/65/86) b) Os complementos verbais podiam ser fronteados sem a duplicação pelo clítico no espanhol antigo. v ió Nuria andando e. Cinque (1995. Left dislocation (LD) Librosi. A noção de operador Como se observa pela rápida discussão acima. M.

p. como mostra a agramaticalidade de (11): porque a categoria vazia fica sem ser caracterizada. não pode ficar sem ser duplicado pelo clítico. loj invitero domani (non oggi) Gianni. a explicação vai no sentido contrário: como o DP no inicio da (10) *Chii loi inviterai? (CINQUE. este DP é capaz de vincular a categoria vazia dentro da oração caracterizando-a como variável. se houvesse um movimento-WH . a presença do clítico é requerida e. a categoria vazia poderia se caracterizar como variável já que seria vinculada pelo operador11. na CLLD. o problema de (11) é que o DP “Gianni” não se caracteriza como um operador e o DP nulo dentro da oração não pode ser caracterizado como nenhum tipo de categoria vazia. não pode ser pro porque é não identificado. Aux visto 4. a oração se torna agramatical não A pergunta que Cinque (1995) procura é responder é por que o DP em TopP. ho visto ___j Gianni. 108) oração é caracterizado como operador já que é derivado via movimento-WH . é preciso explicar que tais diferenças estão relacionadas com diferenças mais profundas entre as duas fases da língua 12 . a categoria vazia é caracterizada como uma anáfora (vestígio de DP) e pode ser licenciada. o convidarei amanhã (não hoje) Cinque (1995) comenta que a falta de movimento-WH nesse tipo de construção é um argumento crucial10 tendo em vista que. na topicalização. mas porque o operador não pode vincular nenhuma variável (o operador vincularia o clítico. não pode ser vestígio de DP porque é livre na sua categoria de regência. (11) *Giannij. A inserção do clítico é uma estratégia de último recurso para licenciar a categoria vazia dentro do VP. 1995. é proibida. Quando o clítico é inserido.232 (8) ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Giannij. Os dados em (9) também mostram que somente a topicalização é gerada via movimento-WH8 tendo em vista o paralelismo entre (9) e (10). 109) fases do espanhol. 9 diferenças apresentadas nos exemplos de (4) a (6) acima levaram Fontana (1993) a analisar o espanhol antigo como uma língua V2. Os exemplos abaixo ilustram essa característica do espanhol antigo: . p. que não é uma variável). e não pode ser variável porque não é vinculado por um operador . As Na análise de Cinque (1995). 1995. como em (8). Com relação ao exemplo em (10). Não pode ser PRO porque é governado. Se o clítico é introduzido. como no caso da CLLD. (9) GiANNIj (*loj) invitero (non Pietro) Gianni (*o) convidarei (não Pietro) Os dados em (8) e (9) mostram que. “Línguas V2” tem sido uma etiqueta utilizada para classificar aquelas línguas nas quais o verbo finito aparece na segunda posição na oração e é precedido exclusivamente por um único constituinte seja qual for a sua função sintática13. O efeito V2 no espanhol antigo Antes de explicar as diferenças entre as duas (CINQUE.

en todos los buenos hechos que quisiere comenzar. E esta carta ot Garcíez. a dios d e b e hombre a d e lantar y p o ne primeramientre. não se caracteriza como operador e a presença do clítico é necessária na CLLD e a presença de outro DP é necessária na LD. como não há um traço EPP d e mi paciencia t ole r ar que haya pued c. y así co mie d esc e nd er : esce nde r ner b. 2011. o rg a la abatíssima Sancha oto rga (13) a. porque este cuerpo muchas lágrimas ha d e j a d o a sus parientes: y amargos dolores. p. os dados em (15) ilustram construções de object shif . no espanhol antigo (e nas línguas V2 em geral). Assim. e la priora doña María Fortúnez e tod el convento. O conjunto de ordem O-V com clítico aumenta. (PINTO. em FinP. Explicando o contraste entre as duas fases do espanhol A partir da exposição de Cinque (1995). o traço EPP em CP. . a Os exemplos em (12) ilustram a ordem V2 em oração matriz e oração subordinada. que exibe movimento do verbo exclusivamente para IP14. si corazon has nz o el espiritu por las medulas mienz nzo (14) a. o objeto fronteado se caracteriza como um operador e pode licenciar a categoria vazia. 5. b. Como o objeto não pode ser movido para SpecFinP. matando a tu madre (12) a. No espanhol antigo. se movia para CP. os exemplos em (13) ilustram a ordem O-V sem retomada clítica em oração matriz e oração subordinada. no espanhol antigo. se nota o interessante cruzamento de dados em Fontana (1993) e Pinto (2011): quando a ordem O-V sem clítico diminui. 255) externa. Por essa razão. mas somente pode ser concatenado diretamente em SpecTopP através da operação de concatenação (15) a. é possível ter uma explicação para o contraste entre as duas fases do espanhol. si el deudor otros bienes t uv iese b. atrai o verbo e o movimento do verbo para Finº permite que qualquer constituinte seja movido para SpecFinP15. como agora f ezie ezier Núnnez nza el libro de la flor de las mienza c. assim como nas línguas V2. has.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 233 e . aqui c o mie historias de oriente dados em (12) a (15) oferecem evidências de que o verbo. o que é um reflexo da mudança linguística16. quando se tem a ordem O-V. No espanhol atual. o verbo não se move para Finº e não permite que qualquer constituinte ocupe esta posição. diferentemente do espanhol atual. armas odiosas t o mast maste Clitemestra ro n el maestre don Pero b. os dados em (14) ilustram a ordem Aux-S-V. que é caracterizada como variável deixada dentro do VP. que no pue oler subido en corazón humano conmigo en el ilícito amor comunicar su deleite. mais especificamente em FinP.

p. independentemente de sua função informativa. GÓMEZ TORREGO. Oxford: Oxford University Press. Bare quantifiers. L. . o elemento em primeira posição ocupava SpecFinP. como apontaram Hernanz e Brucart (1987) e Fontana (1993) nos exemplos ilustrados em (2) e (3). v. ed. Em consequência disso. Cecilia (2004). No espanhol atual. Nova Iorque: Cambridge University Press. b r antar ueb antar. a ordem O-V em contextos neutros é banida já que não há lugar de pouso disponível para o objeto (SpecFinP não é uma posição ativa no espanhol atual). Luigi (org.. Josep M. a categoria vazia deixada dentro do VP precisa ser caracterizada de alguma forma: a) como esses elementos não possuem clíticos. Complementos circunstanciais são selecionados pelo verbo lexical. CINQUE. POLETTO. Phrase structure and the Syntax of clitics in the history of Spanish. E tod aquel quj esta carta q ue (1223) ue b r antar (1225) que ueb b. Dissertation. Old French. Null Subjects and Verb Second Phenomena. devido ao traço EPP de FinP. and the notion of operator at S-structure.234 6. Ph. esses complementos circunstanciais fronteados conseguiam caracterizar as categorias vazias deixadas no VP como variável porque se caracterizavam como operadores. A conclusão que se obtém dessa discussão é que os objetos fronteados no espanhol antigo e no espanhol atual ocupam lugares diferentes na estrutura. 2. FONTANA. The Structure of CP and IP. No espanhol antigo. (1993). Italian syntax and Universal Grammar . Guglielmo (1995). (2002). por isso.] (16) a. v. o seu lugar de pouso é SpecFocP17.). 1. 52-75. como as ilustradas em (16) a seguir. Paola. University of California. Marianne (1987a). Gramática didáctica del español. quantified A contraparte gramatical das orações em (16) no espanhol atual exibe obrigatoriamente a ordem V-O18 . como o verbo se movia para Finº e qualquer constituinte podia ocupar a posição de SpecFinP. 5. Esta análise explica também porque o espanhol atual apresenta restrições à tematização . Ph. qualquer constituinte. no caso da focalização. No caso da tematização. 104-120. University of Pennsylvania. The Cartography of Syntactic Structures. Conclusão ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS indiretos. a periferia esquerda da oração é destinada para usos informativos.D. a categoria vazia não pode ser caracterizada como uma anáfora. Natural Language & Linguistic Theory. Topic.. p. Quando um objeto é movido. Focus and V2: Defining the CP Sublayers. esses elementos fronteados não se caracterizam como operadores e não podem caracterizar a categoria vazia como uma variável. principalmente de complementos circunstanciais. podia ocupar a primeira posição sem a duplicação pelo clítico. ADAMS. No espanhol antigo. b) como a tematização no espanhol atual é gerada via concatenação. In: ______. Madrid: Ediciones SM. quyen esto q uisiese q BENINCÀ. p. In: RIZZI. [.D Dissertation. Quando esses elementos são tematizados. orações do espanhol antigo. n. Marianne (1987b). Por isso. o objeto é concatenado diretamente em SpecTopP. assim como os objetos diretos e NPs. 1-32. são agramaticais no espanhol atual: Referências bibliográficas ADAMS. Tal movimento era desencadeado por questões meramente formais. 8. From Old French to the Theory of Pro-Drop.

The C-Systen in brythonic celtic languages. 2. Elements of grammar. tanto formais como funcionais. Residual verb second and the Wh criterion. Bonnie. p. Sten (1996). RIZZI. The Cartography of Syntactic Structures. RIZZI.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 235 HERNANZ. Luigi (1997). Universidade de Geneva (citado do manuscrito). p. Sten (1995). Linguistic Inquiry. Adoto a seguinte distinção terminológica: To picalização = ESTRATÉGIA SINTÁTICA na qual um constituinte é movido de sua posição de base dentro da oração para a periferia esquerda. The Verb always leaves IP in V2 clauses. Luigi (org. Universidade Estadual de Campinas. predominantemente na periferia esquerda. Ian (2004). SCHWARTZ. . A estratégia discursiva de tematização pode ser realizada através da operação com ou sem movimento sintático. Luigi (orgs. The Structure of CP and IP. Language Variation and Change. p. VIKNER. Liliane (org. 297328. (citado do manuscrito) PINTO. Tese de Doutorado. v. Maria Luisa (1980). Ordem de palav ras. dada. Parametters and functional heads. On Left Dislocation and Topicalization in Spanish. In: HAEGEMAN. subjects in the Germanic languages .). v. A noção de fronteamento que estou assumindo está relacionada exclusivamente com a ordem superficial. 281-337. como informação conhecida. Pr incípios teór icos. RIZZI. Oxford: Oxford University Press. VIKNER. 2. p. ROBERTS. Oxford: Oxford University Press. Barcelona: Crítica. Luigi (1991). V2 and the EPP. KROCH. BRUCART. Nova Iorque/Oxford: Oxford University Press. Notas 1 Este trabalho faz parte da discussão sobre o movimento do verbo na história do espanhol apresentada em minha Tese de Doutorado (PINTO. assumo a topicalização como uma operação sintática de movimento A-Barra independentemente de seus efeitos discursivos. ou seja. Kluwer: Dordrecht. 11-62. La oración simple . v. p. F r ont eame nt o = EFEITO SINTÁTICO LINEAR em que um constituinte aparece no início da oração onteame eament nto (periferia esquerda). Carlos Felipe (2011). In: BELLETTI. In: RIZZI. Adriana. 11. 2011). Anthony (1989). Reflexes of Grammar in Patterns of Language Change. José María (1987).). pressuposta ou como o tópico discursivo. 363-393. sem considerar se há ou não movimento de constituinte. Verb movement and expletive RIVERO. The fine structure of the left periphery. María Lluisa. ou seja. 1. 199-244. é posto em matização destaque.). movimento do verbo e efeito V2 na história do espanhol. 2 Os termos tópico/topicalização são termos que cobrem vários fenômenos linguísticos e são usados por várias vertentes teóricas. n. Te mat ização = ESTRATÉGIA DISCURSIVA na qual um constituinte é tematizado. La sintaxis.

2002). como apresentei acima. no lo vi. GÓMEZ TORREGO. as maiúsculas indicam que o constituinte recebeu a proeminência prosódica. no lo vi. *¿Qué te pregunta (que) por qué no tiene? b. é posto em destaque. objetos indefinidos têm retomada facultativa. 6 É importante ter em mente a diferença entre complemento e adjunto verbal: complemento verbal é o elemento que é selecionado semanticamente pelo verbo. 380) Se topicalização e movimento-WH fossem o mesmo tipo de movimento. 5 Como o espanhol tem um sistema de clíticos defectivo. o sintagma “en la mesa” é um complemento do verbo. Os verbos são destacados em negrito. (ii) A: ¿Viste algún chico? B: *No. nas quais se diz que os complementos circunstanciais podem ser facultativos ou obrigatórios. Quando o constituinte focalizado se encontra fora da sua posição canônica na oração. na frase “Juan puso el libro en la mesa”. Dinero. p. Nesta definição. não necessariamente na periferia esquerda. Línguas que possuem um sistema de clíticos mais ricos. Se esse movimento é usado como recurso de tematização ou de focalização é algo que pode variar entre as línguas. Contudo se são o mesmo tipo de movimento ou não é irrelevante para a discussão (ver BENINCÀ e POLETTO. 2004. (RIVERO. como o catalão e o francês. Tal contraste pode ser explicado pelo caráter do clítico. Observar que esta definição é diferente da apresenta em algumas gramáticas do espanhol (por exemplo. a retomada só pode ser observada com objetos diretos e indiretos. no he visto ninguno. 3 Nos exemplos. B’: No. preguntan (que) quién tiene. Dinero.236 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Focalização = ESTRATÉGIA DISCURSIVA na qual um constituinte é focalizado. já os adjuntos. 4 Parece haver alguma relação entre definitude e presença do clítico nesse tipo de construção: objetos definidos são obrigatoriamente retomados. *¿Qué preguntan (que) quién tiene? (ii) a. não. 1980. 8 Rivero (1980) assume que a topicalização é diferente de movimento-WH a partir de dados como (i) e (ii) (i) a. te pregunta (que) por qué no tiene. 7 O que Cinque (1995) chama de topicalização é equivalente a focus movement. ou seja. Assumo. para uma discussão detalhada da questão em modelos . que a topicalização é um movimento A-Barra que deixa uma posição vazia dentro da oração. como a informação nova que completa a pressuposição ou o contraste que corrige a asserção anterior. as orações em (ii) não deveriam ser possíveis. que é essencialmente definido: (i) A: ¿Viste al chico? B: No. exibem os mesmos fatos com outras funções sintáticas. b. sempre é derivado via movimento A-Barra (topicalização ).

1989. 15 Esta análise se baseia em Roberts (2004). 14 As análises propostas para o efeito V2 nas línguas humanas são muitas e diversas: há análises que propõem que o efeito V2 sempre implica em movimento do verbo para CP e há análises que propõem que há possibilidade de efeito V2 em IP (especialmente no caso das línguas simétricas). Ver também Rivero (1980). a oração deveria ser agramatical já que orações relativas são caracterizadas como ilhas e não podem ter constituintes extraídos de dentro de si. e línguas assimétricas. p. que exibem o efeito V2 tanto em orações principais como em orações subordinadas. p. but in sentences with preposed noun phrase complements. 16 Este aspecto também é trazido por Kroch (1989) a partir da proposta de Adams (1987a. há línguas que. deixam o verbo na última posição da oração e há línguas que deixam o verbo na posição medial. observe-se o parâmetro do sujeito nulo: línguas de sujeito nulo exibem uma série de características que não são encontradas em línguas de sujeito preenchido (extração de sujeito de orações subordinadas. 1987b) sobre a história do francês: In sentences with preposed adverbs and prepositional phrases. O que é relevante é que ambas as construções são derivadas via um tipo de movimento A-Barra.. nas orações subordinadas. que perdeu tal propriedade já há algum tempo. an increase in the rate of use of the resumptive clitic pronouns required by left dislocation. Se uma categoria não se move. We have. passa obrigatoriamente pela questão do movimento. 12 Tais diferenças reforçam a hipótese de que um parâmetro é uma série de características que se manifesta em conjunto. ou estruturalmente.. (HERNANZ e BRUCART. 86) Se houvesse movimento do DP de dentro da oração relativa para o inicio da oração matriz. reversed the sign of the slope of the regression. Minha análise. the only effect of the change in accent on word order will be a decline in the rate of subject-verb inversion.] If we fit a logistic curve to Priestley’s data via regression and compare the logistic transform of the fitted curve with Fontaine’s results. ademais. [. No caso das línguas simétricas. No Capítulo 01 de Pinto (2011) fiz uma discussão bastante densa da questão e apresento fortes evidências com base no modelo cartográfico de Rizzi (1997) e nos argumentos apresentados por Vikner (1995) e Schwartz e Vikner (1996) de que o efeito V2 acontece sempre no campo CP. inversão livre. no Critério-WH por exemplo. there will be an additional effect. o efeito V2 em oração subordinada pode ser generalizado ou restringido. 10 Que este tipo de construção não é derivado através de movimento é evidenciado pelo fato de que podem aparecer em contextos de ilha. As línguas V2 são divididas principalmente em dois grupos: línguas simétricas. (KROCH. No caso das línguas assimétricas. 1987. 13-14) . procura explicar a variação na manifestação no efeito V2 dentro do campo CP. que exibem somente o efeito V2 em orações principais.. efeito “that-trace” etc).ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 237 minimalistas). como mostra o exemplo do espanhol: (i) El dinero Maria ignora quién lo tiene. como os quantifcadores nus. since the rise in left dislocation corresponds to the loss of topicalization. of course. 9 Cinque (1995) diz um operador pode ser definido inerentemente. 11 Lembrar que a definição de operador de Rizzi (1991). Por exemplo. we obtain the pattern in Figure 5 below. como alguns DPs em CP. 13 O grupo mais representativo de línguas V2 na atualidade são as línguas germânicas. não se caracteriza como operador. exceto o inglês.

18 Em Pinto (2011. Por isso. o foco sempre se caracteriza como operador e qualquer constituinte pode se mover para a periferia esquerda.212) sintetizo a seguinte correlação: Contexto Focalização Tematização Neutro Espanhol antigo O-V O-V O-V Espanhol atual O-V O-cl-V V-O . p.238 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 17 O movimento de constituinte é obrigatório na focalização por uma questão de escopo: o elemento focalizado precisa ter escopo sobre o restante da oração.

Según Poe. El primero iar io es el cuento que abre B est estiar iario io. . Las escritas de esos cuentos respetan la brevedad y la intensidad reconocidas por Edgar Allan Poe. de Julio Cortázar. podemos leer al tiempo presente como siendo el deflagrador de la expulsión de los hermanos – siempre restrictos al mundo del pasado – en el cuento del escritor argentino. el escritor estadounidense estableció principios en la estructuración del cuento que apuntan para una unidad de efecto. dios de la lluvia que propiciaba la agricultura. cuentista que principió la teoría sobre el género. son muy perceptibles a los lectores de esos cuentos publicados en libro en la década de 1950. como sonidos sofocados o murmullos de una conversación. En ambas narrativas. Una.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 239 INVASIONES DEL TIEMPO EN EL ESPACIO DE LA CASA Carlos Garcia Rizzon UNIPAMPA Los acercamientos entre “Casa tomada”. la lectura del cuento en una sola asentada . se torna necesaria. quien toma la casa en “Chac Mool”. y el otro. Para eso. por la réplica de la estatua de un Chac Mool. el efecto deseado. del año de 1951. hace parte de L os días e nmascar a d os enmascar nmascara os. y a la transferencia de identidades en relación a “Chac Mool”. en el final. de Carlos Fuentes. a su luz y de modo inverso. Algunos críticos ya apuntaron alegorías al peronismo (que se apodera de Argentina) o a las inmigraciones (que se apropian de Buenos Aires) o mismo del lector (que se adueña del texto) en el caso de “Casa tomada”. desde su primera frase. figura de la mitología mexicana que simbolizaba un mensajero entre los hombres y Tlaloc. por ruidos imprecisos. En los textos “Review of Twice-told tales” (1842) y “The philosophy of composition” (1846). todas las palabras de la composición deben estar direccionadas a provocar. la otra. Sorprendiendo en sus finales. esos cuentos crean efectos que abren diferentes posibilidades para interpretar los abandonos de las casas por sus moradores. y “Chac Mool”. La lectura del tiempo como invasor de las casas es otra de las posibles interpretaciones: es el pasado. también iniciando el libro. personajes de vidas solitarias y hábitos rutineros abandonan sus casas – herencias y recordaciones de patrimonios familiares – porque ellas son invadidas. caracterizado en la estatua. que será alcanzado con la fuerza derivable de la totalidad del texto. lo que induce a una exaltación del alma en el lector. sin interrupciones. obra que marca el estreno del escritor mexicano en 1954.

preserva la idea de unidad y depuración con el objetivo de alcanzar una intensidad narrativa que sea atractiva. p. 68). p. es decir. rechazar la subjetividad del autor y volcarse a extrañamientos percibidos en la observación de la propia realidad cotidiana. 520). nt os d e amo r. probablemente por su ceguera. De esa forma. un fragmento de la realidad. actúa como una explosión que se abre a una realidad mucho más amplia. el tiempo”. Muy sutilmente el narrador nos atrae a su terrible mundo. De la misma forma. Otro texto teórico.” (BORGES. que el cuento inicia por su final. Siguiendo conceptos que venían desde Poe. En el mismo sentido y con sarcasmo. “todo cuento perdurable es como la semilla donde está durmiendo el árbol gigantesco. 1970. A pesar de no haber escrito artículos teóricos que tratasen de sus concepciones acerca del género. aconsejándolos respecto a los textos. el autor ruso mantuvo correspondencias con jóvenes escritores iniciantes para quienes exponía sus consideraciones. el de explayar en quinientas páginas una idea cuya perfecta exposición oral cabe en pocos minutos. donde un recorte. Antón Chejov. Es un mundo poroso. p. que el cuento deba tratar sus temas sin exageraciones. el cotidiano se refleja en las acciones de los “personajes – caracterizados por Jorge Luis Borges en análisis a los textos de Julio Cortázar. Sin embargo. en que los seres se entrelazan”. pues “el cuento literario consta de los mismos elementos que el cuento oral y es. mas que pueden ser extendidos también al protagonista del cuento de Carlos Fuentes – deliberadamente triviales. Chejov observa también un carácter de apertura de la obra. en palabras de Cortázar. 1989. redijo textos como “Manual del perfecto cuentista”. En América Latina. El uruguayo Horacio Quiroga. que es llevado a dar continuidad a la narrativa. con ironía. En sintonía con las ideas de Chejov. Su pensamiento coincide con Poe cuanto a la brevedad y al efecto. Y Borges continúa: “También se juega con la materia de que somos hechos. presentó cuestiones respecto al cuento como narrativa. nuestros escritores igualmente se dedicaron a pensar sobre el cuento como género literario. partiendo de los principios sugeridos por Poe y Chejov. 516) y va más allá de lo que cuenta. el relato de una historia bastante interesante y suficientemente breve para que absorba toda nuestra atención” (QUIROGA. vemos la sugestión de la complicidad del lector en la construcción del cuento. 429) También Julio Cortázar. siendo exigida su participación en la creación de la historia narrada.240 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Aún en el siglo XIX. Comparó esa escritura a una fotografía. Cortázar amplía la idea del efecto que el cuento provoca en el lector. 521-522). Ese árbol crecerá en nosotros. O sea. “Chac Mool” y “Casa tomada” trabajan con la perspectiva de lo no acabamiento. aborda . para Cortázar “un cuento es significativo cuando quiebra sus propios límites” (2004. otro escritor. d e lo cur ayd em ue r te autor de Cue uent ntos de amor de locur cura de mue uer (1917). (2001. Pensando en la ruptura de lo cotidiano que los cuentos de Chejov ofrecen. en una conferencia proferida en Cuba. “Los trueques del perfecto cuentista” y “Decálogo del perfecto cuentista”. en el final de la década de 1960. en 1970. pues. de Ricardo Piglia. también escritor argentino. donde la felicidad es imposible. por ejemplo. p. y publicada con el título de “Algunos aspectos del cuento” en la revista “Casa de las Américas”. dice. “Tesis sobre el cuento”. como este. trascendiendo espiritualmente la imagen que muestra. entonces. pues persiste retumbando en la mente del lector la continuidad de los acontecimientos. p. Jorge Luis Borges comenta en el prólogo de Fic cio nes Ficcio ciones nes: “Desvarío laborioso y empobrecedor el de componer vastos libros. señaló algunas cuestiones más sobre la elaboración de los cuentos. Sugiere. presentando normas para la producción de cuentos. dará su sombra en nuestra memoria” (2004. regidas por rutinas triviales.

p. Cada una de las dos historias se cuenta de un modo distinto. p. Los hermanos. 73) de lana para las tricotas de Irene. comprendida por lo que está por detrás de ellas. Borges destaca. las casas son descriptas como sólidas construcciones de tiempos imponentes. apenas buscan refugiarse cada vez más en el interior de la casa. la solución encontrada es el abandono de la casa. o sea. esos personajes presentan una falta de aspiración y una indiferencia con el mundo y la sociedad que los rodea. de relaciones de causa y efecto. donde “podían vivir ocho personas sin estorbarse”. 2000. como un volcarse de silla sobre la alfombra o un ahogado susurro de conversación. (PIGLIA. . de geografías bien cartografiadas. y espaciosa y antigua la de los personajes de “Casa tomada”. la noción de lo fantástico no difiere de lo real. una que se lee en la superficie de las líneas escritas. de psicologías definidas. oponiéndose. Los puntos de cruce son el fundamento de la construcción. Para Piglia. de Ernest Hemingway. 509). cerrando puertas y abriendo espacio para lo irracional: Aún según Piglia. Los mismos acontecimientos entran simultáneamente en dos lógicas narrativas antagónicas. Encerrados en la seguridad de sus hogares – protecciones de lo ya establecido –. Trabajar con dos historias quiere decir trabajar con dos sistemas diferentes de causalidad. Representan mundos autárquicos y aislados. con lo subentendido y con la alusión de la historia que está aparente.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 241 que el cuento presenta dos historias. Lo perturbador en “Casa tomada” está en la actitud de los hermanos. el cuento es una historia que esconde una historia secreta. es decir. prácticamente no salen de casa. “un poco lúgubre en su arquitectura porfiriana” la casa de Filiberto. el hermano a la lectura u ordenación de una colección de estampillas (“para matar el tiempo”) e Irene a los tejidos de lana (tal vez un “gran pretexto para no hacer nada”). 508-509) Fui por el pasillo hasta enfrentar la entornada puerta de roble [. personaje de “Chac Mool”.. las historias aparentes de las invasiones caracterizan formas literarias que subvierten padrones convencionales de la racionalidad. los sábados. Eso nos remete a la teoría del iceberg . En los cuentos “Casa tomada” y “Chac Mool”.] cuando escuché algo en el comedor o la biblioteca. También lo oí. siendo apenas la cara oculta de la realidad. tiene la costumbre de comprar madejas Cortázar comparte. El sonido venía impreciso y sordo. para quien el verdadero estudio de la realidad no residía en las leyes sino en las excepciones a esas leyes” (p. felizmente la llave estaba puesta de nuestro lado y además corrí el gran cerrojo para más seguridad. dice más adelante. (p. Me tiré contra la puerta antes de que fuera demasiado tarde. 133) Cuando la invasión se hace completa. personajes de Cortázar. en su análisis de […] a ese falso realismo que consiste en creer que todas las cosas pueden describirse y explicarse como lo daba por sentado el optimismo filosófico y científico del siglo XVIII. son incapaces de reaccionar a la invasión de los ruidos. Contrariando lo que podría ser natural. de manera fantástica en el cuento de Cortázar y en el ámbito de lo maravilloso en el relato de Fuentes. en el fondo del pasillo que traía desde aquellas piezas hasta la puerta. al mismo tiempo o un segundo después. Para Cortázar. como dijo en la conferencia a los cubanos. Irene y su anónimo hermano. dentro de un mundo regido más o menos armoniosamente por un sistema de leyes. Tanto en uno como en otro cuento. y otra aludida.. pues no hay sobresaltos o protestas. que se mueven en el terreno de lo fantástico sin distinguirlo de la realidad. con el “fecundo descubrimiento de Alfred Jarry. la cerré de golpe apoyando el cuerpo. la historia secreta se construye con lo no dicho. Los elementos esenciales del cuento tienen doble función y son usados de manera distinta en cada una de las dos historias. De forma similar. apenas el hermano. Se dedican a la limpieza de la casa. a la cocina. (2004. de principios.

El Chac Mool. Sí. [. pues él se desequilibra mentalmente y llega a ofrecer “sus servicios al Secretario de Recursos Hidráulicos para hacer llover en el desierto” (p. sin ningún carácter investigativo. creando una atmósfera en que la tensión mental es provocada por difusos e inexplicables ruidos de algo apenas mencionado. Fue en el sótano que. Aumentando sus problemas. o mito passou a ser considerado o próprio real compreendido na simultaneidade de suas perspectivas prováveis” (1993. 1976. entonces empezó a llover. p. A partir del momento en que Filiberto lleva la estatua a su casa. entre ellos. mensajero que es. aún no amanecía. se escuchaban pasos en la escalera. primeramente. de que en la oscuridad laten más pulsos que el propio. que “la magia es la coronación o pesadilla de lo casual... 20-21) Dominado por la estatua. un objeto decorativo sin ninguna significación histórica o religiosa. Así. ocre. alimentos e inclusive a ceder sus aposentos. con su barriga encarnada. Pero ya está aquí. [. interliga el pasado con el presente. Cuando volví a abrir los ojos. p. (1989. inundando el sótano” (p. y las lluvias se han colado. Para Bella Josef. Pesadilla. que lo obliga a buscar agua.] Todas las leyes naturales lo rigen. el mundo de los antiguos mexicanos actuará sin ningún extrañamiento a la comprensión racional de la realidad. y otras imaginarias”. 335). una vez que “la tubería volvió a descomponerse. todas en relación al agua. de una revelación privilegiada de la realidad. (CARPENTIER. p. de una iluminación incomún o singularmente favorecedora de las escalas y categorías de la realidad. 28).. yuxtaponiendo los tiempos y alterando maravillosamente la realidad: […] lo real maravilloso comienza a serlo. huir y dejar la casa es la única alternativa para Filiberto. percibidas con particular intensidad en virtud de una exaltación del espíritu que lo conduce a un modo de “estado límite”. un despertar sobresaltado. erguido. Si en la historia fantástica de “Casa tomada” hay una naturalización de lo irreal.] Cuando sin aliento encendí la luz. y se desbordó por el suelo y llegó hasta el sótano” (p. visitar sitios arqueológicos y coleccionar piezas antiguas de la cultura mexicana. a incienso y sangre. Esas actividades. por el momento en el sótano mientras reorganizo mi cuarto de trofeos a fin de darle cabida” (p.. “na literatura hispano-americana. la profundidad del sótano comienza a reavivar Chac Mool. donde la presencia concreta de una estatua gana vida y los elementos de lo maravilloso se asocian a los mitos de las culturas indígenas. de manera inequívoca.. 15). sin embargo.] Chac Mool avanzó hacia la cama. dejé correr el agua de la cocina. Su interés por “ciertas formas del arte indígena mexicano” no pasa de un deseo coleccionista. Filiberto es un funcionario público preso a una vida de rutinas y hábitos rígidos. Así como el interior de las pirámides de los antiguos pueblos mexicanos preservaba los elementos culturales del pasado.. Incauto. en “Chac Mool” el “algo más” se revela por una sobrenaturalización de lo real. cuando surge de una inesperada alteración de la realidad (el milagro). (p. [. sonriente.. la estatua adquiere vida y lo hace prisionero y esclavo de sus deseos: Y ayer. El cuarto olía a horror. él pasa a enfrentar una serie de perturbaciones. No sé cuánto tiempo pretendí dormir. 21).242 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS “Casa tomada”. 16). por fin. revelan actitudes mecánicas y superficiales. Los tormentos de Filiberto seguirán en casa. no su contradicción. Allí estaba Chac Mool. donde la réplica de un Chac Mool que él compra en una feria popular será nada más que un trofeo conquistado. 15). con esa seguridad espantosa de que hay dos respiraciones en la noche. Filiberto colocó la estatua del Chac Mool. xvii) . elemento vinculado a Chac Mool en la mitología: “Amanecí con la tubería descompuesta. Vuelta a dormir. e irán interferir en su trabajo. antes de llevarla a su cuarto de trofeos: “El traslado a la casa me costó más que la adquisición. en el cuento de Fuentes..

ya no quedaba nada por hacer fuera de unos pocos platos sucios. mientras el mundo se transformaba con el tiempo. (p. 132). ausente de valor e interferencia en la realización de su vida.. apenas mantiene la evasiva función de evitar el Su esfuerzo en mantener la casa. o estar. si un bromista pinta de rojo el agua. Almorzábamos a mediodía. Filiberto ya no distingue lo que es realidad o delirio. percepciones que se funden en la mente del personaje: […] todo es tan natural. Las lecturas de los mismos libros que el hermano hace no añaden nada. y a eso de las once yo le dejaba a Irene las últimas habitaciones por repasar y me iba a la cocina. con la ciudad misma. Vivir “en aquel caserón antiguo. 11-12) La limpieza de la casa es una rutina que mantiene un pasado envejecido.. más que lo creído por mí. pero esto lo es.. sólo real cuando se le aprisiona en un caracol. pues no pasan de simples rellenos del tiempo. porque nos damos mejor cuenta de su existencia. Las ejecuciones mecánicas de sus tareas se tornan operaciones improductivas. Como reconoce el hermano. y más. Sin embargo. sin renovación. la fuente de sodas [.. 19) padres. a mí se me murió María Esther antes que llegáramos a comprometernos” (p. Océano libre y ficticio. (p.. habían ido cincelándose a ritmo distinto del mío”. como barricada de una invasión. la cola aquí. con la mitad de los cuartos bajo llave y empolvados. y nosotros no conocemos más que uno de los trozos desprendidos de su gran cuerpo. Si es real un garrafón. (p. acomodado a una existencia uniforme.. levantándonos a las siete.]. y luego. 12). la cabeza fue a dar allá. Sus actividades también son repetitivas. Del mismo modo. Filiberto no acompañó los cambios: […] decidí gastar cinco pesos en un café. mecánica y mediocre. No existe ningún avance y ninguna construcción. los hermanos de “Casa tomada” preservan la casa “espaciosa y antigua” que “guardaba los recuerdos” de infancia por el hábito de “persistir en ella”.. ¿no lo son todos los muertos. Es el mismo al que íbamos de jóvenes y al que ahora nunca concurro [. Y las estampillas reordenadas en el álbum no alteran la preservada antigüedad. como relata el hermano: Hacíamos la limpieza por la mañana. 11).. presentes y olvidados? [. modernizadas – también. Es incapaz de ambicionar un cambio. 131) Filiberto es un sujeto de “tentaciones burocráticas”. el interés por un Chac Mool no demuestra ningún conocimiento por una cultura. lo que le causaba algún sufrimiento: “Sentí la angustia de no poder meter los dedos en el pasado y pegar los trozos de algún rompecabezas abandonado” (p. 21) retrata su conformismo por no haber alcanzado los planes idealizados en la juventud: “parecíamos prometerlo todo. y lo que era una antigua representación divina se reduce a un objeto decorativo que se compra en una tienda de feria que vende recuerdos para turistas. real imagen monstruosa en un espejo de circo. sin alteraciones en sus hábitos.. 131). siempre puntuales. una vez que consideraba que “desde 1939 no llegaba nada valioso a la Argentina” (p. Nos resultaba grato almorzar pensando en la casa profunda y silenciosa y cómo nos bastábamos para mantenerla limpia.] Realidad: cierto día la quebraron en mil pedazos. quedamos a la mitad del camino” (p. De igual manera.]. pues no realiza relaciones con otras obras. que no constituyeron familias y permanecieron estériles: “A veces llegamos a creer que era ella [la casa] la que no nos dejó casarnos. En fin. caracterizándose por la manutención de una disciplina que lo impidió de cualquier transformación o realización de un sueño. es apenas un reflejo condicionado de su rutina. “ciertamente muy grande” y “única herencia y recuerdo” de sus . Real bocanada de cigarro efímera. reales.. probablemente la casa haya interferido en las vidas de él y de Irene. pues en toda su trayectoria de vida “había habido constancia”. hoy volví a sentarme en las sillas.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 243 Cuando el Chac Mool se humaniza. se cree en lo real. Con el café que casi no reconocía. Irene rechazó dos pretendientes sin mayor motivo. sin criados ni vida familiar” (p.

sua história. Ya Irene. en “Casa tomada” los ruidos invasores pueden indicar el tiempo de la modernidad. La tercera dimensión equivale a la vida humana. Tanto los hermanos de “Casa tomada”. Confortables en la mediocridad. correndo o risco de confundir o presente com aquilo que já não o é. então. independentes de nós.] a veces tejía un chaleco y después lo destejía en un momento porque algo no le agradaba (p. representado por la estatua de una cultura antigua. lo que hizo nacer el imperialismo. La segunda dimensión pertenece a la vida animal. 2002. altoparlantes. [. seja pela constatação da ordem segundo a qual eles se organizam para formar um sistema. Se puede vivir sin pensar” (p. ancho y profundidad. Já não estaremos. Se quiséssemos apreender o “presente como história” de Lukács e Sweezy. a los hombres. que se apodera de la casa. Sem relações não há “fatos”. 131-132). um novo momento do modo de produção antigo. (1989. llevan a una inexistencia histórica. sendo histórico. 135). sob pena de nos perder em um presente abstrato. ou melhor. aún según Borges. p. não ao passado. mas às categorias que ele nos legou. y aquellos por la indiferencia con el presente. um novo sistema temporal. despertadores y. que se reconhecem as categorias da realidade e as categorias de análise. sin alteraciones que agreguen novedades. son obligados a abandonar sus casas porque no ofrecen espacio al transcurso del tiempo. apropiarse del espacio y. Jorge Luis Borges presenta tres dimensiones de la vida: Tres dimensiones tiene la vida. 10) En el ensayo “La penúltima versión de la realidad”. lo diferente y la transformación. de la vida. a los animales. Eso tornó la vida humana menos intensa y más extensa. Los sonidos de máquinas. este por no conocer y respetar el pasado. 198) En esa clasificación. todo conceito se esgota no tempo. La vida de los vegetales es una vida en longitud. “aparte de su actividad matinal pasaba el resto del día tejiendo en el sofá de su dormitorio. Mas nos toca fazer que se convertam em fatos históricos mediante a identificação das relações que os define. según Korzybski. vivir el tiempo. y poco a poco empezábamos a no pensar. .. E. La primera dimensión corresponde a la vida vegetal. seja pela observação de suas relações de causa e efeito. assim definida. Os fatos estão todos aí. citando diferentes pensadores. bocinas. sin renovación o actualización. La vida de los hombres es una vida en profundidad. los hermanos no crecen. cabría a los vegetales acumular energía. um modo de produção novo ou a transição entre os dois. el geógrafo Milton Santos observa: Para apreender o presente é indispensável um esforço no sentido de dar as costas. La vida de los animales es una vida en latitud. que cierran la casa y a sí propios con el intuito de impedir la novedad. más recientemente. alarmas de autos y llamadas de teléfonos celulares son marcas indisimuladas de nuevos tiempos. É por sua existência histórica. un acumulador de piezas de arte indígena que desfigura y anula sus representaciones del pasado. del movimiento. Vivir sin pensar es no reconocer el pasar del tiempo.. deveríamos ver o passado como algo que encobre as raízes do presente. Presos en las recordaciones y en la manutención de lo mismo. Abdicando del tiempo y dado a la adquisición de objetos y pertenencias. no interior de uma estrutura social. (SANTOS. como Filiberto. um conceito. En ese sentido.244 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS contacto con los ruidos invasores. no demuestran necesidades y tampoco ambiciones: “Estábamos bien. no se desenvuelven y no producen. únicos seres previsores e históricos. donde el ritmo de vida de viejos tiempos ya no encuentra lugar. Conservar categorias envelhecidas equivale a redigir um dogma. el hombre materialista conquistó personas y territorios. exigiendo el reconocimiento de su presencia. irreal e impotente. Si en “Chac Mool” es el pasado. p. Largo. La permanencia y la conformación de lo establecido. isto é. La expulsión o el abandono de sus casas son fantásticas o maravillosas cobranzas que el tiempo hace del aislamiento de Irene y su hermano y de Filiberto.

Prólogos. Vol. QUIROGA. São Paulo: Paz e Terra. Bestiario. Ficciones. Obras completas. . Buenos Aires: Punto de lectura.: Ediciones Era. Buenos Aires: Emece. 10ª ed. FUENTES. Los días enmascarados. São Paulo: Ática. México D. 17ª ed. Pensando o espaço do homem. Formas breves. JOSEF.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 245 Referencias bibliográficas BORGES. Julio (2008): Casa tomada. Carlos (2001): Chac Mool. GOTLIB. El reino de este mundo. _____ (1992): Julio Cortázar: cuentos. Bella (1993): O espaço reconquistado. Cuentos completos. Barcelona: Anagrama. _____ (1989): Prólogo.F. Buenos Aires: Nemont. 11ª ed. _____ (2004): Algunos aspectos del cuento. Vol. Obras completas. PIGLIA. CORTÁZAR. 17ª ed. 1. 7. CARPENTIER. Buenos Aires: Emecé. Buenos Aires: Suma de Letras Argentina. Vol. Obra crítica. 2. Milton (1986): O presente como espaço. São Paulo: Hucitec. 8ª ed. Ricardo (2001): Tesis sobre el cuento. 2ª ed. SANTOS. Horacio (1970): Sobre literatura: obras inéditas y desconocidas. Discusión. Montevideo: Arca. Buenos Aires: Emece. Nádia Battella (2006): Teoria do conto. 2ª ed. Jorge Luis (1989): La penúltima versión de la realidad. Alejo (1976): Prólogo.

nos perguntamos: (a) como os aprendizes cariocas de ELE produzem o acento tonal de tais pedidos?. Considerando as diferenças prosódicas já descritas entre o PBLM e o ELM. (c) a transferência prosódica da LM compromete a inteligibilidade e/ou gera um julgamento negativo da competência prosódica do falante de LE. ou seja. morfológicos e sintáticos no ensinoaprendizagem de espanhol como língua estrangeira (ELE). descrevemos fonética e analisamos fonologicamente os pedidos de informação e os pedidos de ação em ELE. mas julgam a entoação dos aprendizes como insuficiente. Em um segundo momento. inclusive em seu quadro de variações dialetais. Como nosso objeto de estudo são os pedidos de informação e de ação. Nosso trabalho está organizado da seguinte forma: na sessão 1 definimos nosso objeto de estudo: . respectivamente (MORAES.246 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS PEDIDOS DE INFORMAÇÃO E PEDIDOS DE AÇÃO EM PORTUGUÊS E EM ESPANHOL: UM ESTUDO ENTONACIONAL DE PRODUÇÃO E PERCEPÇÃO Carolina Gomes da Silva PG/UFRJ Maristela da Silva Pinto UFRRJ Priscila Cristina Ferreira de Sá PG/UFRJ Introdução Dispomos de uma quantidade de informação relativamente importante para a sistematização dos níveis lexicais. a parte segmental está bastante descrita. (b) os juízes reconhecem os pedidos. a fim de verificar a produção desses atos ilocutórios por aprendizes de ELE e a percepção de ditos atos por parte de nativos de diferentes áreas dialetais. 2008. Para realizar o estudo da produção. contamos com julgamento de nove juízes nativos de seis áreas dialetais distintas e de três aprendizes de ELE. com o padrão entonacional L+<H*L% e L+>H*L%. No entanto. p. (b) que características prosódicas esses falantes transferem de sua LM para a LE?. Do ponto de vista fonético e fonológico. contrastamos o estudo realizado por Moraes (2008) para o PBLM com o de Estevas Vilaplana & Prieto (2008) para o ELM. por parte de falantes de LM? Nossas hipóteses são: (a) os aprendizes cariocas de ELE realizam os pedidos de informação e os pedidos de ação – em ELE como o fazem em PBLM. a parte prosódica ainda precisa de mais estudo e descrição.393). Já para o estudo da percepção. pretendemos com este trabalho realizar uma analise contrastiva de tais pedidos em português brasileiro como língua materna (PBLM) e em espanhol madrileno como língua materna (ELM).

obser vamos o comportamento dos parâmetros acústicos de frequência fundamental (F0) e duração no tonema (último vocábulo tônico do enunciado) dos pedidos. sendo seis de pedidos de informação e seis de Vilaplana & Prieto (2008). San Juan e por três falantes de . 2005. esses pedidos apresentam diferenças entre si. espera uma ação verbal por parte do receptor. Comparamos esses 24 enunciados em 1. pedidos de ação. para o pedido de informação e L+>H*L%. para o ELM (fala madrilena): L*HH%. Descrevemos esses 24 enunciados foneticamente e os analisamos fonologicamente. Cabe ressaltar que o enunciador espera que o ouvinte lhe dê uma resposta com sim ou não. na sessão 3 apresentamos os resultados e na sessão 4. o enunciador pergunta algo que desconhece ao ouvinte e supõe que este detém a informação (KERBRAT-ORECCHIONI. para o pedido de ação. Para dar conta da análise fonológica seguimos o sistema de notação Métrico Autossegmental (AM). 19932012). na sessão 2 apresentamos a metodologia adotada. ELE com quatro enunciados modelo. Andaluzia. Tais enunciados foram produzidos por dois informantes. correspondendo a tentativas do falante de levar o ouvinte a fazer algo (Searle. nossas discussões e conclusões. para o PBLM (fala carioca): L+<H*L%. 1 de Honduras. para o pedido de informação e H+L*L%. com nível superior completo em Letras – Português/ Espanhol. selecionamos 12 enunciados e os deslexicalizamos para que fossem julgados por nove juízes nativos de seis áreas dialetais distintas: 1 da Espanha. 1999) marcando o tonema (ou núcleo) a partir de um tom alto (H) ou baixo (L). Lima. ou seja. com idade entre 25 e 35 anos. cidade da Guatemala. e as de Estevas 2.94). 1984 apud Wilson. diz respeito à percepção de ditos enunciados por falantes nativos de espanhol. embora o enunciador faça uma pergunta.Atos ilocutórios: Pedidos de informação e pedidos de ação Os pedidos de informação e os pedidos de ação equivalem a atos ilocutórios diretivos. Nos pedidos de informação. ele espera uma ação não verbal por parte do ouvinte. marcada na frase pela formulação interrogativa. isto é. A segunda. Usamos as propostas de Moraes (2008). Já para o estudo da percepção. proposto por Pierrehumbert (1980) e Ladd (1996.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 247 pedidos de informação e pedidos de ação. cariocas. adultos. sendo dois de pedido de informação e dois de pedido de ação. como em “Renata jogava?”. ambos do sexo feminino. 2011. No entanto. 2 da Guatemala. p. espera-se o cumprimento de um ato qualquer. Os contornos entonacionais dos enunciados analisados foram obtidos a partir do programa PRAAT (BOERSMA & WEENINK. 1 de Porto Rio. Para o estudo da produção. San Salvador. Com relação à descrição fonética. como em “Destranca a janela?”. 3 do Chile. extraídos dos trabalhos de Moraes (2008) para o PBLM (fala carioca) e de Estevas Vilaplana & Prieto (2008) para o ELM (fala madrilena). Diferentemente dos pedidos de informação. Santiago de Chile. nos pedidos de ação. p. 1 do Peru. gravamos a leitura em voz alta de 24 enunciados interrogativos totais em ELE. para o pedido de ação.102). professores de ELE e inseridos no mercado de trabalho.Metodologia Nosso trabalho se divide em duas partes: a primeira se refere à análise da produção dos pedidos de informação e de ação por falantes brasileiros de ELE. considerando o formato do contorno entonacional e seus movimentos.

os pedidos de informação e os de ação são analisados segundo o reconhecimento dos atos ilocutórios e a avaliação da entoação dos aprendizes por parte dos juízes. em função da implementação da F0 e da duração. seguida de uma queda de 65 Hz da sílaba tônica para a pós-tônica. observamos que nos pedidos de informação os sujeitos implementam a F0 em ELE com uma subida. Já nos pedidos de ação. tiveram de definir o tipo de pedido (de informação ou de ação) e atribuir um conceito à entoação dada por nossos sujeitos aprendizes a cada um desses 12 enunciados. se o juiz julgasse a entoação dada ao enunciado pelo sujeito como b o a .Resultados Para o estudo da produção. os pedidos de informação e os de ação em PBLM. em média. Esses conceitos poderiam ser: A . 3. todos do Brasil. Já para o estudo da percepção. em média. como não b bo analisados. de 40 Hz da sílaba pretônica para tônica. todos com nível superior. Esses juízes/avaliadores. seguida de uma queda de 73 Hz da tônica para a póstônica. assim como em função de sua configuração tonal.1. a seguir. após ouvirem cada enunciado. observamos que os sujeitos implementam a F0 em ELE com uma subida. falantes de espanhol nativos ou não. 3. Rio de Janeiro. B. como ilustrado no gráfico 1. se o juiz julgasse a entoação dada ao enunciado pelo sujeito oa. tônicas e pós-tônicas do tonema dos pedidos de informação e ação em ELE. se o juiz julgasse a entoação dada ao enunciado pelo sujeito como média e C . ELM e ELE são os d e inf o r mação e d e ação o ne ma/núc le o (Hz): p e did Média d e F0 das v o g ais no t de leo pe didos de info de vo to nema/núc ma/núcle Gráfico 1: Variação de média de F0 nas vogais pretônicas. com idade entre 20 e 45 anos.Produção Analisando os dados.248 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS ELE. sendo dois do sexo feminino e uma do sexo masculino. . Cabe destacar que os três juízes cariocas são professores de ELE. de 25 Hz da sílaba pretônica para tônica.

2008. p. sendo com alinhamento tardio (L+<H*L%). a distância em milissegundos correspondendo ao alinhamento tonal (pico. ou seja. p. a distância em milissegundos correspondendo ao alinhamento tonal (pico. 393) Espanhol Europeu (fala madrilena): H+L*L% ( Estevas Vilaplana & Prieto. . 280) Espanhol/LE (falantes cariocas): L+>H*L% Tabela 1: Síntese das atribuições tonais para os pedidos de informação e os de ação. no primeiro caso e com alinhamento antecipado (L+>H*L%). p. vale) em relação à sílaba proeminente é inferior a 40% da duração total desta sílaba. vale) em relação à sílaba proeminente é superior a 60% da duração total desta sílaba. Por outro lado. Qua dr oc o mpar at i vo da média d o alinhame nt ot o nal e mr e lação à sílaba p ro e mine nt e no t o ne ma/ Quadr dro co mparat ati do alinhament nto to em re pr minent nte to nema/ núc le o (%): p e did os d e inf o r mação e d e ação núcle leo pe didos de info de Gráfico 2: Há um alinhamento tardio médio de 890ms (89%) do total da sílaba proeminente. sua língua materna e se diferencia do padrão descrito para o ELM. nota-se que nos pedidos de informação há um alinhamento tardio na sílaba tônica. 393) Espanhol Europeu (fala madrilena): L*HH% (Estevas Vilaplana & Prieto. Tal atribuição se assemelha a atribuição tonal do PB. Sintetizamos estes resultados na tabela abaixo. 2008. 280) Espanhol/LE (falantes cariocas): L+<H*L% Pedido de Ação Português do Brasil (fala carioca): L+>H*L% (Moraes. 2008. fala madrilena: um contorno melódico final ascendente (L*HH%) para o pedido de informação e um contorno melódico final descendente (H+L*L%) para o pedido de ação. nos pedidos de informação e um alinhamento antecipado médio de 390ms (39%) do total da sílaba proeminente. 2008.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 249 Com relação ao comportamento da duração. p. fala carioca. Análise Fonológica de Pedidos de Informação e Pedidos de Ação: Atribuição Tonal Pedido de Informação Português do Brasil (fala carioca): L+<H*L% (Moraes. nos pedidos de ação. No que concerne à atribuição tonal. como exemplificado no gráfico 2. constatamos em nossas análises que os sujeitos realizam os contornos dos pedidos de informação e de ação em ELE com o contorno melódico final circunflexo L+H*L%. ou seja. observase um alinhamento antecipado na sílaba tônica. no segundo caso.

nota-se que em 47% dos casos há reconhecimento dos pedidos de informação e 44% dos pedidos de ação.3/5 7.0/2 5. É interessante observar que uma matriz de confusão Mat r iz d eC o nfusão: P e did os d e inf o r mação e d e ação atr de Co Pe didos de info de Percepção Produção Pedido de Informação Pedido de Ação Pedido de Informação 34 40 Tabela 2: Resultados na matriz de confusão. Santiago de Chile Guatemala. Andaluzia Chile. Cabe ressaltar que houve um maior número de reconhecimento do pedido de informação pelos juízes (vide tabela 3). .Percepção ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS permite confrontar pares binários de confusão. Como utilizamos neste teste de percepção enunciados deslexicalizados. Rio de Janeiro Pedido de Informação 10.8/3 8. acreditamos que possa ter dificultado o reconhecimento por parte dos juízes.6) do que para os pedidos de informação (6. ou seja. confeccionamos uma matriz de confusão. San Juan Brasil. San Salvador Peru.6/6 3.0/9 Pedido de Ação 10.7/11 Tabela 3: Avaliação do julgamento dos juízes. somente o prosódico.7/3 9. o que está sendo confundido com o que foi reconhecido. isto é. Pedido de Ação 38 32 Confrontando os dados referentes ao quantitativo de casos em que a intenção do aprendiz em produzir seus enunciados foi identificada pelos juízes. Confrontando os dados referentes ao reconhecimento dos pedidos de informação e de ação.0/1 7. como ilustrado na tabela 2.6/7 5. cidade da Guatemala Honduras.3/5 5. sem o nível lexical. nota-se que os juízes atribuem melhor nota para os pedidos de ação (7.7).5/3 8. Lima Porto Rico.0/1 6.2.0/4 7.250 3. Com os resultados obtidos através do teste de percepção. Notas at r ib uídas aos p e did os d e inf o r mação e d e ação atr ibuídas pe didos de info de Área dialetal dos juízes Espanha.6/6 5.

mas são poucos os estudos que tratam especificamente da relação entre entoação e atos ilocutórios. os aprendizes tendem a se basear no sistema prosódico da sua LM. Disponível em: http://www. empregam o sistema de sua LM pelo qual filtram a fala da LE. o acento tonal nuclear mais frequente apresenta subida da sílaba pretônica para tônica seguida de uma queda da sílaba tônica para pós-tônica. & PRIETO. Referências bibliográficas BOERSMA. com a descrição dos contornos entonacionais dos enunciados na LM e na LE. Victoria (2011): Motivações pragmáticas. Acessado em 05/02/2012. quando não compromete a inteligibilidade. 87 – 110. em outras palavras. portanto. .: Proceedings of the Speech Prosody The Fourth International Conference in Speech Prosody. por parte de falantes de LM. Mário Eduardo (org. No ensino de espanhol como língua estrangeira são muitos os trabalhos que apresentam as dificuldades enfrentadas por um brasileiro aprendiz dessa língua. São Paulo: Contexto. Niterói: EdUFF. David (1993-2012): Praat.fon. Plinio. CÉSAR (eds. KERBRAT_ORECCHIONI. Em: BARBOSA. Paul & WEENINK. com alinhamento antecipado do pico na sílaba tônica. MORAES. WILSON. Esperamos. Em: MARTELOTTA. gera um julgamento negativo da competência prosódica do falante de LE. Em suma. Eva. Disponível em: http://stel.nl/praat/ ESTEBAS VILAPLANA. os aprendizes de LE têm elementos para contrastar marcas específicas da LM com as da LE e se tornam capazes de minimizar as transferências prosódicas de sua LM quando se expressam na LE. João Antônio de (2008): The Pitch Accents in Brazilian Portuguese: analysis by synthesis. Já para o pedido de ação. Sandra & REIS. Em: Estudios de fonética experimental XVII.hum.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 251 Conclusões Constatamos com este estudo que o acento tonal nuclear mais frequente produzido pelos falantes brasileiros aprendizes de ELE nos enunciados interrogativos totais que funcionam como pedido de informação apresenta subida da sílaba pretônica para tônica seguida de uma queda da sílaba tônica para pós-tônica. com este trabalho contribuir no ensino da oralidade do Espanhol como língua estrangeira.pdf.ub. Campinas: IEL.uva. p.edu/labfon/sites/default/files/XVII-15. Pilar (2008): La notación prosódica del español: una revisión del Sp_ToBI. pois acreditamos que.) Manual de linguística.). fato este que dificulta a inteligibilidade da produção oral do falante de LE e. MADUREIRA. Catherine (2005): Os atos de linguagem no discurso. com alinhamento tardio do pico na sílaba tônica.

Dulcinéia é. 33) Essa dualidade da personagem será reforçada e reiterada ao longo da obra. 2000. I. uma das mais misteriosas2. Neste trabalho pretendemos estabelecer algumas relações entre as personagens Dulcinéia del Toboso. Necio él. 152). 27). dura ella y vos no amante. sob diferentes perspectivas e. p. que nos apresenta Aldonza Lorenzo. p. (DQ. mais especificamente o livro El ingenioso hidalgo Don Quijote de La Mancha. Ni a vuesas cuitas muestra talante. sem dúvida. Já nos poemas introdutórios.252 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS DE DULCINÉIA A HELIANA: PERSPECTIVISMO E METAFICÇÃO Célia Navarro Flores Universidade Federal de Sergipe – UFS Em nossa pesquisa atual1. ou seja. por outro. como ambas são construídas a partir de um processo metaficcional. honesta y sabia” e em “De Solisdán a Don Quijote de la Mancha”. Nossa intenção é mostrar como. as duas são descritas a par tir de modelos literários pré-existentes. Preliminares. Dulcinéia ora será descrita como uma linda princesa. Desaguisado contra vos comete. tanto Dulcinéia como Heliana são apresentadas ao leitor de forma ambígua. I. sugerindo-nos a possibilidade de uma união carnal entre Dom Quixote e Dulcinéia e colocando sua honestidade em dúvida: Y si la vuesa linda Dulcinea. em uma perspectiva comparatista. Não há na obra de Cervantes uma descrição precisa da personagem. do livro de Suassuna. En tal desmán vueso conorte sea Que Sancho Panza fue mal alcagüete. mas uma multiplicidade de pontos de vista 3 que incidem sobre ela e que propiciam inúmeras leituras de Dulcinéia. como “una moza labradora de muy . por um lado. do escritor brasileiro Ariano Suassuna. Preliminares. visamos observar. a influência da obra cervantina. da obra cervantina e Heliana. p. podemos observar diferentes pontos de vista sobre a personagem. no primeiro capítulo. Iniciemos por Dulcinéia. na obra O Romance d’ A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta. Dulcinéia é descrita como “famosa. ora como uma feia prostituta. o “eu lírico” atribui a castidade de Dom Quixote à incompetência de Sancho como alcoviteiro. No poema “La señora Oriana a Dulcinea del Toboso” (DQ. A única descrição mais confiável seria a do narrador. Das 669 personagens que compõe a obra de Cervantes (RILEY.

“inventa” Dulcinéia del Toboso. da segunda parte. a expressão “todos los imposibles y quiméricos atributos de belleza que los poetas 6 dan a sus damas”. Na obra de Suassuna. con las Alastrajareas. su blancura nieve (. de donde se infiere que. uma das melhores descrições é a do capítulo 13 da primeira parte. el Toboso. A perspectiva de Dom Quixote sobre Dulcinéia é oposta a de Sancho. mármol su pecho. a qual se personifica no capítulo X. lábios.. pues en ella se vienen a hacer verdaderos todos los imposibles y quiméricos atributos de belleza que los poetas dan a sus damas: que sus cabellos son oro.. con las Madasimas. Sancho também sentiria um desejo reprimido por Dulcinéia e. “prostituta” e “burlar com alguém” pode significar “ter relações sexuais” — também a descrição das atividades realizadas por Aldonza (“rastrillando lino o trillando en las eras”) tem conotação sexual. no capítulo 1 da primeira parte. Segundo González (2010). episódio em que Sancho engana Dom Quixote ao afirmar que três feias lavradoras seriam Dulcinéia acompanhada de duas damas. não é um cavaleiro. O romance que está escrevendo é uma epopeia. p. o protagonistanarrador. p. I. não é delicada como uma princesa. Alonso Quijano necessita uma dama por quem se enamorar e. su hermosura. perlas sus dientes. I. ou seja. puesto que se conceda que hay Dulcinea en el Toboso o fuera de él. (DQ. pues es reina y señora mía. Vejamos rapidamente dois pontos de vista: o de Sancho e o de Dom Quixote. Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna. estaria tornandoa uma mulher acessível a ele. sus ojos soles. de quien están llenas las historias que vuesa merced bien sabe.). Sancho a rebaixa ainda mais ao compará-la a uma prostituta afirmando que ela “tiene mucho de cortesana: con todos se burla”: “cortesã” também significa.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 253 buen parecer”4 (DQ. alabastro su cuello. —(. pescoço. ou seja. 32) Vejamos agora como Ariano Suassuna se vale da mesma estratégia para criar a personagem Heliana.). Enfatizamos. tomando como modelo uma vizinha por quem durante algum tempo andou apaixonado. peito e mãos) e a comparação com elementos nobres da natureza (ouro. Dom Quixote conscientemente a descreve a imitação dos “poetas”. 283). testa. 44). olhos. Quando Sancho descobre que Dulcinéia é Aldonza Lorenzo. 13. sus mejillas rosas. como em português. à diferença de Dom Quixote. nessa descrição. Dom Quixote descreve Dulcinéia diversas vezes. Como todo bom cavaleiro. bochechas. su patria.. su calidad por lo menos ha de ser princesa. No capítulo 32 da segunda parte. p. mas um escritor. un lugar de la Mancha. o duque põe em dúvida a existência e a linhagem de Dulcinéia e novamente se alude à literatura ao comparar Dulcinéia com as damas dos livros de cavalarias: — Así es — dijo el duque. su frente campos elíseos.. en lo de la alteza del linaje no corre parejas con las Orianas. sobrehumana. sus labios corales. II. Sancho cria o que González chamou de “la antidulcinea”. da qual o protagonista é Sinésio. (. pero hame de dar licencia el señor don Quijote para que diga lo que me fuerza a decir la historia que de sus hazañas he leído. ni con otras deste jaez. no capítulo 25 da primeira parte (p. Dom Quixote mobiliza todo um sistema de descrição do modelo feminino herdado da literatura renascentista 5: a descrição a partir da parte superior do corpo (cabelos. sol. 141-142) Nesta descrição.. sobrancelhas. Ao longo do livro de Cervantes. ele diz que ela seria uma mulher de “pelo en pecho” — que tanto pode significar “valente” quanto referir-se ao caráter masculinizado de Dulcinéia —.. y que sea hermosa en sumo grado que vuesa merced nos la pinta. corais.) Solo sé decir. marfil sus manos. dentes. (DQ. sus cejas arcos del cielo. sua voz se assemelha ao som de um sino e é uma mulher de talhe robusto (“qué rejo tiene”). pérolas etc.) que su nombre es Dulcinea. um cavaleiro que — após ser raptado e preso — volta . ao rebaixá-la a uma e prostituta. a intenção de Sancho é destruir o universo de Dom Quixote. 1.

Maria Elvira. Até aqui. porém. personagem que estava enamorado por Clara. uma senhora idosa.. A dama de Sinésio é Heliana. Entretanto. por outro. Tais quais as damas dos livros de cavalaria. presenciou um ato estranho de Heliana: a acompanhante da moça. Em uma delas. mostrando-nos uma faceta da personagem que se opõe à imagem de perfeita dama. vivia com as mãos cobertas e não permita que nenhum homem as descobrisse. “Nós já temos passado por outras situações semelhantes. Heliana é apresentada ao leitor por meios tortuosos: Quaderna conta ao Corregedor que uma informante sua. que vive isolada do mundo por seu pai e que tem seu rosto estampado no escudo de seu cavaleiro. com um graveto.) É por causa de Heliana que ele (o pai delas) prefere viver isolado. p. ela apresenta algumas ambiguidades. Poderíamos dizer que. 207. sempre são outros personagens que se referem a ela. Quaderna nos conta que costumava dar consultas astrológicas em seu gabinete. a senhora idosa. Heliana sempre foi meio estranha e selvagem. todas constrangedoras. Assim como Dulcinéia. assim como Dulcinéia. ou .. Se por um lado é a dama dos livros de cavalaria. a dama pintada em seu escudo aparece com as mãos cobertas. Clara conta que a família já está acostumada com as esquisitices de Heliana: — “La em casa. nunca ouvimos a voz de Heliana. logo o amor de Sinésio por Heliana era secreto e impossível. 2007. Com isso queremos evidenciar o fato de que Heliana é a típica dama dos romances de cavalaria. a qual é descrita como uma dama dos livros de cavalaria. não acho nada de censurável no que ela faz. astrosa e fatídica” (SUASSUNA. o narrador nos conta que a moça possuía hábitos estranhos e constrangedores. parenta de Clara conta a Quaderna que ouviu uma conversa entre Clara e Gustavo. Maria Elvira. é a mulher lasciva. 498) (. Quaderna nos conta que Sinésio havia se apaixonado por Heliana quando ainda crianças. Como vimos. naquela Fortaleza afastada (SUASSUNA. irmã de Heliana. ao nos apresentar a personagem sob diferentes perspectivas. Ao descrever as roupas do Donzel Sinésio. Dulcinéia é inventada por Dom Quixote a partir de um processo metaficcional.). p. nós já estamos todos habituados com as estranhezas de Heliana! Não é que eu tenha vergonha nenhuma dela. ocultamente. 207. porém o pai de Sinésio e o de Heliana tinham acordado que Sinésio se casaria com Clara. que desempenha o papel das “dueñas” dos livros de cavalarias. desabotoou o vestido e começou a passar mel nos mamilos. Ariano Suassuna está criando uma antiheliana. Como vimos. 499). Gustavo conta a Clara que.. o amor da vida de Sinésio. 47) o fato de que Heliana. desde menina! (. Ou seja.254 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS para vingar a morte de seu pai. fizera uma pequena fogueira para afugentar as abelhas de uma colmeia e. Quaderna observa que em sua capa havia um escudo bordado com a figura de uma mulher de cabelos soltos e com as mãos cobertas. como veremos. coincidentemente. contou que Gustavo descreveu a Clara o ato obsceno de Heliana. Assim como Dulcinéia. mesmo quando os outros acham que aquilo é mais do que esquisitice!” (SUASSUNA. Encontramos aqui a dicotomia pureza/lascívia presente na personagem de Cervantes. “estranha e selvagem”.. as irmãs Heliana e Clara vivem isoladas em uma fortaleza construída pelo pai e são acompanhadas por uma criada. a história de Heliana passou de boca em boca até chegar aos ouvidos do corregedor e aos olhos do leitor. Quaderna considera “uma coincidência epopeica. Nessa conversa. Sinésio7. da mesma forma que Cervantes criou a antidulcinéia. Heliana é mostrada em diferentes facetas. o cavaleiro está enamorado por uma mulher que cobre as mãos e. Heliana é a perfeita dama de cavaleiro andante dos livros de ficção. que unta os seios com mel. Heliana retirou o mel da colmeia. a não ser.

a ficção se remete à própria ficção. morena. Essa ideia de síntese está na própria concepção da obra de Suassuna: o Romance d’A Pedra do Reino é um modelo do que Suassuna chama de “romance armorial”. jogo mais simples e popular. personagem do livro de Cervantes por diversos vieses. cavalo. Corregedor. o negro-escarlate da Paixão e a cassa da Pureza. como vimos anteriormente — também apresenta a cor do sol. presente em Dulcinéia. De fato. porém. que era irmão de Sinésio. a outra. o mel de abelhas. era espanto e unidade. na obra de Suassuna temos três: Clemente. na “atitude da corça arisca”.. não em contradição e separadamente. a urze. para dar um castanho-claro. duas diferentes perspectivas: a mulher casta Notamos no fragmento. e Quaderna. “ambas a r rd te s”. Heliana. que é descrita em comparação com as mulheres das obras de José de Alencar. 2007. tendo conhecido Heliana como menina-e-moça e. Quaderna compara Heliana às personagens de Alencar: (. como o jogo de damas. “c c hamas embebida em mel”. loura e angélica. o fogo de Isabel e o angelical de Ceci. Enquanto na obra de Cervantes. O mel.). “d d our av a as oura “d oura d our sol”. deriva de Helios. Para Suassuna popular e erudito não se opõem. 504) fragmento “o mel de abelhas” e “embebidas em mel” — elemento relacionado à Heliana. pelo que pude ver e adivinhar de seu amor por Sinésio.. quando eu e Sinésio vimos pela primeira vez aquela que seria a Dama e princesa de sua vida. O mesmo processo ocorre com Heliana. pelo menos.) (SUASSUNA. assim era Heliana! E eu. Seu amor era “vinho. Quaderna atribui a Heliana a faceta prostituta. Para ele. ela estava com doze anos. Essa unidade buscada a partir de oposições (a união dos contrastes) é constante na obra de Suassuna. É que. Fogo presente também coxas”. e sim em unidade. O cabelo dela era como se tivesse sido formado somando-se o louro de Ceci e Clara com o escuro de Lucíola e Isabel. unindo a Verbena. Inicialmente. despertava nela a mulher. (. Genoveva como Isabel: uma. segundo o narrador. Depois. p. Mas Heliana juntava tudo isso. ardente e no cio. Assim como Dulcinéia. Heliana pode ser comparada com Dulcinéia del Toboso.. dourado. Heliana é considerada a dama de um cavaleiro e é apresentada ao leitor por. macio. torre etc). “morenadas pelo sol em seu nome. que significa “sol”.) Clara era como Cecília8. Posteriormente. nas quais há também reis e rainhas como no xadrez e há os naipes com duas cores.. mais sofisticado e reproduz os personagens da corte (rei. negro. O movimento armorial9 encabeçado por Suassuna nos anos 70 procura criar uma arte erudita a partir das raízes populares. as duas são opostas. irmã de Gustavo e noiva de Arésio. como a Emília de Diva. “aveludada pela pubescência”. rainha. que é a síntese dos dois: moreno. como moça e mulher. as cartas. que aparece duas vezes no . Samuel branco e Quaderna. quando Dom Quixote descreve sua amada a partir dos retratos femininos da Literatura renascentista. isto é. mas se conjugam. a urtiga. o Vinho. Heliana apresenta facetas opostas: o “negro escarlate da paixão e a cassa da Pureza”. o calor e o sol são elementos recorrentes no Romance d’A Pedra do Reino. com “H”. é uma síntese das duas. depois. uma recorrência de e e no cio”. diferentemente de Dulcinéia. fino. Sr. e era daí que se originava também a penugem macia e rara que lhe dourava as coxas “alvas mas amorenada pelo sol” (. Clemente preferia a dama (negros contra brancos). poderia dizer dela tudo o que José de Alencar disse de tantas outras. Samuel preferia o jogo de xadrez. em Heliana. peão. Vejamos. “f a d o ”.. fruto e chamas embebidas em mel”. neste breve trabalho vimos como a personagem do Romance d’A Pedra do Reino. sempre separando em muitas o que. ambas ardentes. essas oposições estão em perfeita unidade. O fogo. Assim como Dulcinéia. a mesma idade da irmã de Lucíola. entretanto. Ao mencionar Lucíola. Quaderna compara Clara com Genoveva Moraes. Era um fruto verde. Enfim. o amor felino da Onça jovem e fêmea.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 255 seja. temos dois protagonistas que aparentemente se opõem (Dom Quixote e Sancho). fogo e canto do sangue. imagens relacionadas ao fogo: “ar ard nte ar d e nt den t es f o g o e o canto do sangue”.. pois Heliana.

GONZÁLEZ. Recife: Editora Universitária da UFPE. a partir da própria literatura. Em La concepción romántica del Quijote. 3 Sobre o perspectivismo no Quixote. Sobre Suassuna e o movimento armorial. ver nossa tese de doutoramente “Da palavra ao traço: Dom Quixote. Edward. vive isolada em uma fortaleza) e. 5 6 7 Lembremos do famoso poema de Góngora “Mientras por competir con tu cabello”. 4 Lembremos que Dom Quixote desautoriza o narrador/autor. Da palavra ao traço: Dom Quixote. é descrita como “estranha” e pratica atos. Dulcinéia é descrita por Dom Quixote a partir dos retratos femininos da poesia renascentista e Heliana é uma das personagens femininas de José de Alencar. quando diz que por ser árabe. Para um estudo mais profundo sobre a construção da personagem Dulcinéia na obra de Cervantes. Edward. Ariano Suassuna e o movimento armorial 1970/ 76. é mentiroso. RILEY. Referências bibliográficas CERVANTES. (2007) Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai e volta. RILEY. porém uma cortesã para Sancho. (2000) Ideales e ilusiones. Tanto uma como outra é descrita. . no qual ele apresenta os principais estudos sobre o tema. à imitação dos cavaleiros ficcionais. tese defendida na Universidade de São Paulo. que poderíamos considerar lascivos. Ariano. defendida na Universidade de São Paulo. de José de Alencar. Miguel de (1998). (2005) Perspectivismo y existencialismo. p. Em Lemir . Dom Quixote pretende pintar um retrato de Dulcinéia em seu escudo. em determinado momento. Cide Hamete Benengeli. Barcelona: Crítica. pp. Don Quijote de La Mancha . SUASSUNA. Sancho Pança e Dulcinéia del Toboso. Barcelona: Crítica. 8 9 Cecília e Isabel são personagens de O Guarani. Notas 1 2 A pesquisa conta com o apoio do CNPq. Grifo nosso. Emblemas da sagração armorial.256 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS e a lasciva. DIDER. assim como Dulcinéia é uma princesa para Dom Quixote. Barcelona: Crítica. remetemos o leitor ao texto de Close (2005. Barcelona: Crítica. 262-276). Em Introducción al Quijote. Maria Thereza. (2000) Modos de ser. Heliana apresenta as características de uma dama (rosto pintado no escudo e amada secretamente pelo cavaleiro Sinésio. ver DIDIER (2000). em 2007. Mario M. Anthony. CLOSE. (2010) Las transformaciones de Aldonza Lorenzo. 205-215. Lembremos que. FLORES. (2000). nº 14. Rio de Janeiro: José Olympio. ao mesmo tempo. Célia Navarro (2007). Sancho Pança e Dulcinéia del Toboso . Em Introducción al Quijote. Dirigida por Francisco Rico. Edición del Instituto Cervantes. em um processo de metaficção.

aguça a suspeição já existente sobre seu comportamento identificado com o ethos dos escravos. hija de noble y plebeya. apesar da pele branca. Sierva María de Todos los Angeles é uma personagem complexa.UFF Neste trabalho abordo o comportamento da personagem Sierva María de Todos los Angeles da obra Del amor y otros demonios de Gabriel García Márquez. Trata-se de uma menina que possui um comportamento identificado com o ethos negroafricano. estigmatizavam-se as pessoas que contraiam a raiva (Rhabdoviridae). A demonologização das práticas culturais de origem negro-africana e ameríndia. que caracteriza um ato de exclusão e discriminação: María Mandinga. do título de marquesa. a personagem adquire um comportamento semelhante ao dos escravos e. recebe também um nome com a marca da migração interlinguística crioula. que não ultrapassa os 13 anos de idade.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 257 SIERVA MARÍA DE TODOS LOS ÁNGELES E MARIA MANDINGA Cinthia Belonia PG . À época (século XVIII na América espanhola). além de possuir um nome de batismo visivelmente católico. uma estratégia da Igreja Católica para a perpetuação do poder eclesiástico através da imposição do discurso religioso. Dominda de Adviento. Durante o vice-reinado da Colômbia. Mesmo tendo um quarto na casa grande. dado por sua mãe. da posição social considerável em sua cidade e de um nome de batismo católico. principalmente pela Igreja Católica. quando. Para a Igreja. escrava governanta da casa. a menina é vítima de uma manifestação demoníaca. no romance. constitui. esse discurso servia à legitimação da inquisição e do sistema escravocrata. Tal personagem é uma menina branca que fora criada no pátio dos escravos de sua casa. que não aceita nenhuma explicação médica. tuvo una infancia de expósita. após ter sido mordida por um cachorro raivoso em companhia de negros. ela dormia na rede do pátio dos escravos junto das outras escravas da casa. é quem a cria dentro de seus costumes. E foi ali que cresceu: La niña. La madre la odió desde que le dio de . reproduzidas pela personagem. pois após seu nascimento foi negligenciada por seus pais. Seu comportamento rotulado como “negro” passa a ser mal interpretado pela sociedade local. Devido a essa criação. por isso.

2007. além de transitar também no mundo dos negros por se identificar com os mesmos. Stuart Hall afirma que: A distinção de nossa cultura é manifestadamente o resultado do maior entrelaçamento e fusão. Pois a menina tinha liberdade para transitar no mundo dos brancos por ser essa a sua Diferente das outras vítimas. 91). Dominga de Adviento la amamantó. e essa livre transição não era permitida aos colonizados. Ele atravessa as fronteiras entre senhor e escravo.258 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS mamar por la única vez. O que toma (o) lugar. Sobre esse aspecto da personagem. era capaz de atravessar a fronteira que há entre senhores e escravos. Além dela. Afinal.24). através da metáfora literária. Sierva María estava completamente sã. Como uma hispano-americana que era. ele abre um espaço interalar entre os dois locais do poema. demarcada pela fronteira que separava o pátio da Casa Grande. podemos chamar de astúcia. Esta duplicação resiste ao tradicional elo causal que explica o racismo metropolitano contemporâneo como resultado dos preconceitos históricos das nações imperialistas. mas também não tão igual aos negros. também foram mordidos três escravos negros. a beber sangre de gallo en ayunas y deslizarse por entre los cristianos sin ser vista ni sentida. p. o Hemisfério Sul da escravidão e o Hemisfério Norte da diáspora e da migração. conseguindo passar entre os cristãos sem ser vista. na qual nenhum colonizado poderia experimentar a mesma liberdade que ela. por mais que se parecesse com eles devido aos costumes que mantinha. Transpuesta en el patio de los esclavos. Sierva María aprendió a bailar desde antes de hablar. a instância subalterna que executa a sua vingança circulando sem ser visto. como un ser inmaterial (MÁRQUEZ. mas. . p. 2007. O que ela de fato sugere é uma nova compreensão de ambas as formas de racismo. cuyo rostro se presume tan temible que sólo se deja ver en sueños. o preconceito étnico-social. p. ao mostrar que em sociedades estratificadas até os cachorros são preconceituosos. A Dos habían desaparecido. Caracterítica típica dos negros e dos colonizados para sobreviverem num mundo de repressão. como nos ensina Bhabha. culturais e de poder (BHABHA. baseada em suas estruturas simbólica e espacial comuns – a estrutura maniqueísta de Fanon – articuladas dentro de diferentes relações temporais. na fornalha da sociedade colonial. y se negó a tenerla con ella por temor de matarla. filha dessa colonização. proporcionava a Sierva María um sentimento de proteção em relação à sociedade escravocrata. 31). la bautizó en Cristo y la consagró a Olokun. y un tercero había muerto del mal de rabia en la segunda semana. Había un cuarto que no fue mordido sino apenas salpicado por la baba del mismo perro. p. cor. que então se tornam estranhamente duplicados no centenário fantasmático do inconsciente político. Esse resultado híbrido não pode mais ser facilmente desagregado em seus elementos “autênticos” de origem (HALL. no sentido do suplemento derridiano. é o mau olho desencarnado. aprendió tres lenguas africanas al mismo tiempo. de diferentes elementos culturais africanos. Por isso híbrida. Sobre isso o pensador indo-britânico Homi Bhabha em O local da cultura nos diz que: A invisibilidade apaga a autopresença daquele “Eu” em termos do qual funcionam os conceitos tradicionais de agência política e domínio narrativo. Graças a essa criação negra.54). 2007. É possível que o narrador tenha escolhido esses personagens para sublinhar. y siempre con una máscara. Meses depois: O pátio dos escravos constituía o local onde Sierva María se sentia livre para manifestar seu comportamento dúbio sem sofrer nenhum tipo de discriminação. a marquesinha branca cresceu diferente dos seus. 2011. A história de Sierva María inicia após ela ser mordida por um cachorro na rua quando passeava com uma das escravas fazendo compras para a festa de seus 12 anos. Sobre esse hibridismo. asiáticos e europeus. una deidad yoruba de sexo incierto. A exclusão geográfica. ela possui características do pluriculturalismo que identifica muitos povos colonizados. por não podermos classificar a personagem numa única identidade. y estaba agonizando en el hospital del Amor de Dios (MÁRQUEZ. ela não era uma deles. sin duda escamoteados por los suyos para tratar de hechizarlos. Fazendo sua mãe acreditar que o cachorro contraíra raiva após mordê-la.

p. afroreligioso e africano (Mandinga). pois antes . no entanto. 2008.90). Pois. visto que: Toda a projeção eufórica do mestiço passa pela reabilitação dos seus componentes raciais: se a mistura de sangues se torna aceitável para o branco. por isso o índio e o crioulo (nesse caso não se trata da cor da pele) não adquiriram. aqui. E “ella le aumentaba el susto con una retahíla en lengua yoruba” (MÁRQUEZ. nada mais é do que uma criação europeia. pois comia com as escravas o que era servido no pátio onde eles viviam. Renomeando a filha. por ter sido colonizado e escravizado. não poderiam sofrer a humilhação de ter uma filha com raiva. Mesmo antes da menina ser mordida pelo cachorro. colonizador. sem se levar em conta as suas aquisições educativas e sociais. As raças de pele clara terminaram desprezando as raças de pele escura e estas se recusam a continuar aceitando a condição modesta que lhe pretendem impor (BURNS apud FANON. Possuía. Como se só confiasse nos negros. possuía hábitos e valores negros. se igualando sempre aos negros. Como a cor é sinal exterior mais visível da raça. a forma como a mãe se referia à filha. Esse comportamento se apresentava nas danças africanas que a personagem aprendera desde muito nova. através dela. do país colonizador. que quem cria o inferiorizado é o racista: O preconceito de cor nada mais é do que a raiva irracional de uma raça por outra. p. 110). con la condicíon de que la muerte de la niña fuera por una causa digna” (MÁRQUEZ. tão comum nas obras de García Márquez.116). congo e iorubá. p. 2008. Sierva María era branca. 2007. principalmente aos brancos. mas sim assume os valores negro do povo no qual se identificava. nas línguas mandinga. além desse comportamento. Bernarda Cabrera marca a diferença entre as duas. 2007.56). católico e europeu (Maria) com o negro. Ao falar a língua dos negros. através de Burns. Desenvolveu. e depois o amargo ressentimento daqueles que foram oprimidos e frequentemente injuriados. também. Um nome que combinava o branco. Frantz Fanon fala em Pele negra Máscaras brancas que o negro tem duas dimensões. por identificação cultural e afetiva. uma com seus semelhantes e outra com o branco. conotação pejorativa. Sierva María assume essa cultura. que diz que “é o antisemita que faz o judeu” (SARTRE apud FANON. Tal nome era uma forma da mãe demonstrar seu preconceito com os negros e com o comportamento da filha que se assemelhava ao deles. p. aos olhos do Fanon retoma Sartre. Ela não assume os valores da metrópole. o desprezo dos povos fortes e ricos por aqueles que eles consideram inferiores. p. um paladar culinário exótico comparado com o europeu. ela tornou-se o critério através do qual os homens são julgados. exemplifica. E de fato a menina se comporta de forma diferente entre um e outro. o costume de mentir por vício. O negro. traduzindo o preconceito étnico-cultural característico do período colonial.25). que a menina conhecera antes mesmo do castelhano. Sua mãe costumava dizer que a única coisa que a menina tinha de branco era a cor. Mesmo assim “estaba dispuesta a hacer la farsa de las lágrimas y a guardar un luto de madre adolorida por preservar su honra. Considerava a menina de uma presença fantasmagórica e muito assustadora. a menina aproveitava para assustar a mãe fazendo um barulho estranho. por isso de uma posição social insegura. para poder dizer . o peso desse povo. excluindo-a e exilando-a em um mundo (o dos escravos) onde a carga semântica do nome ganha. o status de humanidade. como diz Fanon.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 259 ironia. E alternava seu nome com um nome africano que havia inventado: María Mandinga. Sabendo disso. sendo ela filha de índio e seu marido um crioulo1. é porque o negro e o índio adquirem status de humanidade e as suas culturas começam a ser repensadas dentro dos novos enfoques da História (CHIAMPI. sua mãe já a considerava de um comportamento diferente. ela suporta.

Quem fazia a ligação entre os dois mundos nos quais a menina vivia era Dominga de Adviento. o que o bispo realmente pretende é colonizar e usá-la como exemplo e demonologizar as práticas culturais oriunda dos negros e ameríndios. p. mas que permanece em sua indecidibilidade” (HALL. ela . A menina é internada num convento porque. e os dois dizem que Deus os deu meios para salvar sua alma. até mesmo.67). que a menina não deveria estar aos cuidados do médico Abrenúncio. se é negro – tanto faz se isso se refira à sujeira física ou à sujeira moral” (FANON. Pois a Igreja é de brancos. que se atém a duas religiões. p32). [. 2007. agonístico uma vez que nunca se completa. Este conversa com o pai da menina. E acrescenta: “fala-se de trevas quando se é sujo. pois a diferença é essencial ao significado. Esse hibridismo. O bispo diz ainda. numa época de Inquisição. leva-a até a cozinha. 1961. Delaura. O escândalo dos vexames e desvarios de Sierva María chega aos ouvidos do bispo da diocese. do pecado.76-77). p. Na Europa o mal é sempre representado pelo negro. Stuart Hall fala sobre o hibridismo religioso que presenciou tanto no Haiti como na Jamaica. segundo Hall. Ao querer salvar a alma da personagem.260 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS do contato com o branco ele não se sentia inferiorizado por nenhuma outra raça. 2011. uma possessão demoníaca e o sucesso em seu exorcismo. Nos diria Hall. com isso. p. a escrava governanta da casa e quem criara Sierva María: “Se había hecho católica sin renunciar a su fe yoruba. 2007. fazendo isso no dia seguinte: “Fue en la última celda de ese rincón de olvido donde encerraron a Sierva María. e sabia que a personagem não estava possessa. o contemporâneo pintor francês André Pierre “fazia uma prece a ambos os deuses. e explica que o que há com ela é uma possessão. está presente em toda a América Latina no “pecado-contriçãoabsolvição”. Dessa forma. o marquês de Casalduero se convence de que deve internar sua filha no convento de Santa Clara. 160). que representa a razão na obra. E foi nesse hibridismo que Sierva María cresceu. não é estranho o fato de Sierva María ser considerada uma possessa por apresentar um comportamento negro. y practicaba ambas a la vez. antes de iniciar seu trabalho” (HALL... Mas o que incomodava a Igreja era a sabedoria do médico. Fanon afirma que o negro é visto pelo branco como a figura do mal. que vive na indecidibilidade da cultura negra a de sua etnia branca. 2007.] Trata-se de um processo de tradução cultural. uma das escravas do local a vê no pátio e reconhece os colares de candomblé. do estrangeiro e colonizador. Ao perguntarem o que aconteceu com seu tornozelo. marquês de Casalduero. 71). Fanon diz que a Igreja das colônias não chamavam os colonizados para a religão. além da escrava Dominga de Adviento. em todo lugar há a différance. considera junto a este que o corpo da menina não tem salvação. E assim. sin orden ni concierto” (MÁRQUEZ. segundo Hall. Ao chegar no convento. o padre-bibliotecário e braço direito do bispo. era uma boa propaganda para a Igreja Católica. 2011. Em Os condenados da terra. dom Toribio de Cárceres y Virtudes. 2008. p. p. pois o que se dizia nas ruas era que a menina “rueda por los suelos presa de convulsiones obscenas y ladrando en jerga de idólatras” (MÁRQUEZ. 20). E assim como Dominga de Adviento. como é o caso da personagem aqui trabalhada. a los noventa y tres días de ser mordida por el perro y sin ningún síntoma de la rabia” (MÁRQUEZ. cristão e vodu. Ele alerta ainda que o termo “hibridismo não se refere a indivíduos híbridos. por este ser judeu. 38). pois o baile na terça-feira de carnaval vem seguido da missa na quarta-feira de cinzas. e este é crucial à cultura. do opressor” (FANON. onde. tanto na figura do carrasco quanto na figura de Satã. p. o diabo. mas sim para o “camino do branco. do amo. animal e. pôde sentir a “África” devido à forma como os deuses africanos foram combinados com os santos cristãos no vodu haitiano. como um selvagem.

Hacía gala de un don de lenguas que le permitía entenderse con los africanos de cualquier nación. Como haviam dito para ela que a menina estava possuída. no entanto não sabe ainda de quem se trata. mejor que ellos mismos entre si. que eran las partes que más lê gustaban. y les ganó a todos. Segundo o filólogo cubano Rogelio Rodríguez Coronel: Queda explícito. en congo y en mandinga. p.. anormais. (. Al almuerzo se comió un plato con las criadillas y los ojos del chivo. claro de que não há provas de que a menina esteja de fato possessa. Cantó en yoruba. de certa forma.. tudo o que acontece daí em diante no convento será atribuído aos demônios presentes em Sierva María. Mas as clarissas. E diz que o que parece demoníaco para eles (católicos) são os costumes negros que a menina aprendeu ao viver no pátio dos escravos após o abandono dos pais.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 261 responde que sua mãe fez isso com uma faca. naquele convento ela tem todas as condições possíveis para que isso aconteça. y aun los que no entendían la escucharon absortos.84). pois como tinha o costume de mentir por vício. p. p. o con las bestias de cualquier pelaje (MÁRQUEZ. E diz ainda que mesmo que não esteja possuída. além de uma escapulário) ela se altera com muita agressividade. mas todas as freiras do convento lhe atribuem todos os acontecimentos. Sierva María recupera seu mundo: Ayudó a degollar un chivo que se resistia a morir. Cayetano Delaura fora incumbido pelo bispo de cuidar do caso. p. Jugó al diábolo con los adultos en la cocina y con los niños del patio.107) A abadessa do convento ao ouvir o canto da menina fica deslumbrada com sua voz. foi para a cozinha erguendo o crucifixo que trazia pendente ao pescoço. representada por la clase dominante. ameaçavam sua hegemonia religiosa e política. E diz ao bispo que as atas onde as clarissas anotavam o comportamento da menina serviam mais para justificar a mentalidade da abadessa que o estado de Sierva María. intimamente relacionadas y privilegiadas en ese mundo) eran contrarias a la ‘civilización’ y a las ‘buenas constumbres’.) Una niña endemonia dentro del convento tenía la fascinación de una aventura novedosa (MÁRQUEZ. outro motivo forte que levava a Igreja a condenar (através da Inquisição) as pessoas é o fato de se tratar de uma estratégia de controle e dominação políticosócio-cultural. Sempre que alguém tenta tirar seus colares (Sierva María usava colares de candomblé. Cayetano Delaura é o único na obra a perceber que a acusação de possessão feita pela Igreja à menina foi devido à intolerância e ignorância desta para com o comportamento negro e afro-religioso da personagem.49). y se comió las criadillas y los ojos aliñados como fuego vivo. 1993. guisados en manteca de cerdo y sazonados con especias ardientes (MÁRQUEZ. en síntesis. usa desse estratagema para esconder a verdade sobre o tornozelo mordido pelo cão raivoso. Lê saco los ojos y le cortó las criadillas . E quando perguntaram seu nome. Não só a abadessa. 2007. eurocidental y católica (CORONEL. vê apenas uma menina pura e indefesa.78). considerados por elas. Sobre as atas: Decían que la niña se había complacido descuartizando un chivo que degolló con sus manos. noviças do convento de Santa Clara. Ao conversar com a abadessa deixa . E ao conhecer Sierva María. Sendo considerada pelas freiras dona de uma força de outro mundo. pareciam ter mais curiosidade que medo: Pero los terrores de las clarisas eran contradictorios. 2007. que las manifestaciones ‘de caráter africano’ (precisamente las religiosas y las danzarias. Ao ser informada de que o canto era produzido pela “possessa” que ela aguardava. la celda de Sierva María se convirtió en el centro de la curiosidad de todas. E assim. movidas pelo tédio. blanca. disse Maria Mandinga. pues a pesar de los aspavientos de la abadesa y de los pavores de cada quien. A Igreja condenava à fogueira ou a outros castigos todos aqueles que. Além da intolerância e ignorância. 2007.

passando.. Magdala França Vianna. Frantz (1961): Os condenados da terra. Miryam Ávila. Renato da Silveira. a escravidão. Centro de Letras e Artes. o negro nascido nas Américas. afro-religiosos e primitivos. não percebiam que o que a menina tinha era um comportamento diferente do europeu. CORONEL.) O Novo dicionário de língua portuguesa de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira define crioulo como: o indivíduo de raça branca. e de negros. de classes subalternas. Gabriel García (2007): Del amor y otros demonios. no segundo caso. Forma e Ideologia no Romance Hispano-Americano. por extensão. HALL. Sierva María. Trad. Irlemar (1980): O Realismo Maravilhoso. católicos de ascendência européia. Buenos Aires: Debolsillo. a ignorância) – inclusive nas zonas de culturas autóctones superiores (CHIAMPI.. a indolência e o primitivismo são construções estereotipadas que legitimavam a visão deturpada. Faculdade de Letras – PósGraduação. Rio de Janeiro. a indicar. dominando também de crioulo o dialeto falado por essas pessoas. os escravos e a população nativa dessa Colômbia. também. 1980. (. o termo identificava os que nasciam e eram educados nas Américas sem ser originários delas como os ameríndios. homens de todas as raças. do europeu sobre os povos das Américas. (. Editora Perspectiva. O que na verdade era um comportamento semelhante ao dos escravos.. pela abadessa e pelo bispo. em Conceitos de Literatura e Cultura. Eliana Lourenço de Lima Reis. refere-se à lógica sincrética do crioulo vernacular como modelo inclusivo com um majoritário aporte de construções sociais. 2005. particularmente as das Américas. nascidos nas Américas. Nota 1 O termo crioulo é “egresso do latim criare com o sentido de educar. era facilmente visto como algo demoníaco. Lisboa: Ed. fanáticos em suas crenças. nascido nas colônias europeias de além-mar. FANON. E o definiram como uma possessão. ULISSEIA. o despotismo) e com o substrato indígena (a perfídia.. p. o dialeto português falado em Cabo Verde e em outras possessões portuguesas da África. Stuart (2011): Da diáspora: identidades e mediações culturais . Gláucia Renate Gongalves. Referências bibliográficas BHABHA. a indolência. sua família. In: Terceira Margem: Revista de Pós-Graduação em Letras. Belo Horizonte: EdUFMG. muitas vezes carregadas de preconceito. e. o termo crioulo não só indica os membros. Ano 1. Salvador: EDUFBA. entretanto. nº1.) Na América hispânica. CHIAMPI.) . animais e plantas que se transportaram para o continente americano a partir de 1942. _______ (2008): Pele negra máscaras brancas.” (cf. A perfídia. como já havia dito Fanon. que por serem considerados inferiores pelos europeus e seus descendentes de cor branca.262 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS García Márquez apresenta em Del amor y otros demonios uma América de brancos. respectivamente. MÁRQUEZ. A contraposição América e Europa no antagonismo entre a inocência do primitivo e a degeneração da razão é representada na obra por. o primitivismo. Rogelio Rodríguez (1993): Marginalidad y literatura en textos afrocubanos de origen yorubá . Serafim Ferreira.110). 103-5. que.Belo Horizonte: EdUFMG. Universidade Federal do Rio de Janeiro. Crioulização e Crioulidade. Homi K (2007): O local da cultura . Sobre essa América Chiampi afirma: Os elementos que compõem a imagem da América bárbara são identificados com a herança espanhola (a Inquisição. Brasília: Representação da UNESCO. p. mas. Trad.

leyendas. La formación del complejo universo simbólico lorquiano se nutre. Con la pretensión de ser capaces de abrir ventanas inéditas desde las que poder asomarse a la obra lorquiana. En ella se encuentra la Punta de Tarifa que es el lugar más al sur de la Europa continental y el más cercano al continente Africano. y foco de atracción de grandes civilizaciones. Una región mucho más cercana a Marruecos que al propio norte de España. tan sólo catorce escasos kilómetros de agua separan ambos continentes. p. Nos acercaremos a un poeta que es heredero de viejísimas culturas. 1989. se debaten a medio camino entre el mito. en este trabajo se recorre la palabra del escritor granadino a la luz de los ingredientes de los que se ha nutrido la historia y el fértil imaginario de su tierra natal. de los paisajes. Andalucía. supersticiones. que componen el entorno de su niñez y adolescencia. La posición geográfica de Andalucía la convirtió en tierra de paso de diversos pueblos ya desde la prehistoria. las mismas que han dado lugar a una región cuyos orígenes. Ya desde inicios de la Edad de Piedra se encuentran muestras de culturas prehistóricas en Andalucía. Pocos escritores en lengua castellana han alcanzado una trayectoria semejante después de su muerte. así como del conocimiento adquirido gracias a una enorme curiosidad hacia la historia de su propio pueblo. la leyenda y la historia. perdidos en la noche de los tiempos. entre el Atlántico y el Mediterráneo. Se ha considerado un lugar geoestratégico al hallarse en el extremo sur de la Península. creencias. entre África y Europa.87). Y entre las múltiples propiedades que hicieron de su obra un tesoro inmortal se encuentra ese ingenio único para mezclar en un cóctel singular la tradición milenaria y la vanguardia. MITOS Y CLAVES DEL IMAGINARIO ANDALUZ EN LA POESÍA DE FEDERICO GARCÍA LORCA Clara Pajares Gil Universidade Federal de Viçosa Desde su violento asesinato en 1936 a manos del bando fascista. En los valles del Guadalquivir y del .ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 263 ESPACIOS. además de las experiencias y lecturas particulares. universalizando Andalucía y convirtiéndola en un espacio mítico en el que confluyen todos los grandes temas y las grandes preguntas (GARCÍA-POSADA. la obra de Lorca no ha dejado de expandirse hasta alcanzar una posición universal en el mundo de la literatura. imágenes. etc.

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Guadalete se encontraron guijarros tallados como primer exponente del paso del homo hábilis y ya en el último estadio del Paleolítico superior, la etapa llamada magdaleniense aparecen las primeras manifestaciones artísticas del hombre de CroMagnon andaluz en diversas cuevas malagueñas y gaditanas. Algunas de éstas, tras el paso y la huella de sucesivas generaciones prehistóricas, acabarían convertidas en auténticos santuarios profusamente decorados con toda clase de motivos zoomórficos, cinegéticos, mágicos etc. Destacan también, repartidos por casi todo el territorio andaluz, los monumentos funerarios megalíticos (MAZARRASA, 1980, p.33-48). Varios de estos sepulcros fueron encontrados en la provincia de Federico García Lorca, Granada. Eran monumentos dedicados al culto de los antepasados, generalmente levantados en lugares altos (para ver y ser vistos), en sociedades que comenzaban tener una relación particular con la muerte y a conceder importancia a la memoria de sus antepasados. Hay quien, como Gómez-Moreno, considera que los monumentos megalíticos andaluces de la Edad del Hierro constituyen el único testimonio arqueológico capaz de sustentar racionalmente el mito de los Tartesios (MAZARRASA, 1980, p.48). Caro Baroja, sin llegar a mencionar ninguna civilización, afirma: “Es lícito pensar que acaso algunos de los grandes sepulcros megalíticos andaluces fueran hechos para grandes reyes de tipo faraónico” (MAZARRASA, 1980, p.52). No sería una aberración pensar que el poeta granadino pudo encontrarse cerca de alguno de estos mausoleos arcaicos, estudiarlos u oír hablar de ellos en algún momento de su infancia. El culto de la tradición andaluza a la muerte (cuyo origen, como vemos, nos remonta al Neolítico) es un tema recurrente en la literatura lorquiana. El poeta dice que España es un país de danzas milenarias (haciendo alusión a pueblos ancestrales) y también de muerte, donde la gente cobra verdadera importancia después de abandonar la vida. Un país que exhibe a sus difuntos, donde “un

muerto está más vivo como muerto que en ningún sitio del mundo” (LORCA, 2004, p.154). En los escritos lorquianos se manifiesta un especial interés por las primeras civilizaciones que pasaron por Andalucía, como la de los tartesios. Situada a medio camino entre la Prehistoria y la Historia, en la llamada Protohistoria, la tartesia fue considerada por los griegos como la primera civilización de Occidente. Esta cultura, según el arqueólogo e historiador Adolf Schulten, prosperaría gracias a la riqueza metalúrgica de la zona (enclave importante de comercio de cobre y estaño) (MAZARRASA, 1980, p.55) que atraería a fenicios, griegos e indoeuropeos. Y la imaginación de algunos antropólogos y estudiosos (entre los que se encuentra el propio Schulten) ha querido asociarla a la fabulosa Atlántida de Platón, que algunas teorías presuponen que fue levantada en el espacio correspondiente al actual Parque Nacional de Doñana. A manos de Lorca llegaría un artículo que Schulten publicó en la Revista de Occidente en 1923 y que se refiere a los tartesios como la civilización más antigua de occidente (JOSEPH Y CABALLERO, 2006, p.21). Numerosos autores de la Antigüedad cuentan historias sobre los tartesios. Estesícoro, en su poema Gerioneida , habla de un fundador de la dinastía tartésica, el rey Gerión, poseedor de rebaños de vacas y toros. García Lorca también lo menciona en su ensayo Juego y teoría del duende : “Allí estaban los Floridas, que la gente cree carniceros, pero que en realidad son sacerdotes milenarios que siguen sacrificando toros a Gerión”. Este sería quizá un modo literario de situar históricamente un primer precedente de la tauromaquia, a la que Lorca dedicará poemas como La cogida y la muerte o Llanto por la muerte de Ignacio Sánchez Mejías. Justino, escritor romano del s.II d.C., habla de los habitantes del bosque de los tartesios, cuyo rey fue Gargoris, padre de Habis. Habis había sido fruto de amores incestuosos (cosa frecuente en las dinastías divinas

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de la tradición mítica mediterránea) y sería considerado como un rey muy beneficioso para su pueblo, dictando las primeras leyes, enseñando a labrar la tierra y dividiendo la sociedad en castas. En su Ora Marítima, Avieno (poeta latino del siglo IV d.C.) alude a la tierra tartesia (identificándola con el territorio correspondiente a la actual Cádiz) como a una ciudad opulenta. En Juego y Teoría del duende Lorca menciona al que fue considerado el último rey tartesio: “Allí estaba Ignacio Espeleta, hermoso como una tortuga romana, a quien preguntaron una vez <¿Cómo no trabajas?>; y él, con una sonrisa digna de Argantonio, respondió: <¿Cómo voy a trabajar, si soy de Cádiz?>” (LORCA, 2004p. 152) Heródoto nos cuenta que el rey tartesio Argantonio gobernó durante ochenta años (entre 630 y 550 a.C aproximadamente). Pero a partir del año 500 a.C ya no se tienen más noticias sobre los tartesios. Su desaparición aún continúa siendo un misterio (MAZARRASA, 1980, p 51-63). Después de los tartesios las civilizaciones más destacadas (previas a la conquista católica de la Península completa en 1492) que pasaron por Andalucía fueron: Turdetanos, griegos, fenicios, cartagineses, romanos, vándalos, visigodos, musulmanes y judíos. Se calcula que los gitanos llegarían a la Península en el siglo XV y proliferarían (aunque despreciados y marginados) sobre todo en época de dominio católico. Este cúmulo de costumbres, tradiciones y religiones heredadas de todos estos pueblos aparece claramente reflejado en los versos lorquianos. Pero lo interesante es de qué modo se presentan estos elementos, originalmente amalgamados y manifestando asociaciones interculturales estilizadas por la subjetividad artística del genio granadino que revelaban el mestizaje que Lorca respiraba en su propio ambiente. Si nos deslizamos atentamente a través de sus versos, observaremos que Lorca era conocedor de la historia de Andalucía anterior al catolicismo y al

islamismo. Encontramos multitud de referencias a la Antigüedad Clásica. Alusiones a los dioses del panteón, como en el poema San Rafael: “Y mientras el puente sopla/ diez rumores de Neptuno, / vendedores de tabaco/ huyen por el roto muro” (LORCA, 2012, p.84) A la cultura latina en poemas como El emplazado: “Y la sábana impecable, / de duro acento romano, / daba equilibrio a la muerte/ con las rectas de sus paños” (LORCA, 2012, p.101) O a las guerras púnicas, recordemos el poema Reyerta en el que dice: “Han muerto cuatro romanos/ y cinco cartagineses” (LORCA, 2012, p.66). Para Lorca, Andalucía representaba, entre otras cosas, un pequeño oriente dentro de occidente, generado básicamente gracias a las aportaciones de dos culturas: la árabe y la gitana (esta última llegada desde la Península indostánica). Los musulmanes permanecerían más que ninguna otra civilización en el sur de la Península ibérica (casi ocho siglos), por eso su influencia en la literatura y en las diversas artes será capital. Hasta el punto de que con ellos nacen las primeras manifestaciones líricas (conservadas por escrito) en español, las jarchas (aquellos poemillas breves, en lengua romance que acompañaban a las extensas moaxajas árabes o hebreas). Lorca había nacido en un pueblo, Fuentevaqueros, de la provincia de Granada, la ciudad de la Alhambra, último baluarte del islam hispánico. En la poesía lorquiana aparecerán referencias al pasado musulmán, frecuentemente diluyendo el elemento árabe en otros de la tradición cristiana (al igual que ocurría en Al Ándalus). En el poema San Rafael encontramos: “El arcángel aljamiado/ de lentejuelas oscuras” (LORCA, 2012, p.85) O en el poema San Miguel dice: “San Miguel, rey de los globos/ y de los números nones/ en el primor berberisco/ de gritos y miradores” (LORCA, 2012, p.82). Algunos símbolos característicos de la escritura lorquiana, como la luna y el color verde, también guardan una estrecha relación con la cultura

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árabe. La luna es el símbolo del islam, cultura que también concederá importancia a la noche desde un punto de vista literario. Y el color verde, del que tanto se ha hablado, constituye dos de las franjas de la bandera de Andalucía (a este verde se le ha llamado verde omeya , haciendo alusión a la dinastía de Al Ándalus). También el verde es el color de los infinitos olivares del sur de España y remite a la piel morena “aceitunada” de los gitanos. Su poema Crótalo es otra muestra del gusto del poeta por remontarse a un pasado remoto cuyos objetos guardan un vínculo estrecho y casi secreto con otros de la actualidad. En dicho poema Lorca establece una evidente conexión entre el antiguo instrumento musical de la tradición oriental y las castañuelas. Llama al crótalo “escarabajo sonoro”, imagen que se corresponde bastante bien con la de una castañuela, si pensamos en el típico escarabajo negro que abunda en tierras andaluzas (cuyo aspecto ciertamente se asemeja al de una castañuela) y describe el movimiento como “araña de la mano”. Esa imagen, dotada de gran plasticidad, remite directamente al movimiento de las manos cuando se tocan las castañuelas (LORCA, 2006, p.201). Para Francisco Umbral, Lorca paganiza , esoteriza y regionaliza el cristianismo andaluz en sus romances. Señala Umbral que, en el Romance de la Guardia Civil española, desacraliza e identifica la condición de judíos de la Virgen y San José con la de gitanos. Estas dos minorías (los judíos y los gitanos) habían estado proscritas por el catolicismo, imperante en Andalucía desde 1492 (UMBRAL, 2012, p.123). Como es sabido, Lorca fue un gran admirador de la cultura gitana, cuyos ambientes frecuentó. Sus visitas a las casas-cueva, hogar de los gitanos del Sacromonte granadino y escenario de fiestas flamencas, quedarían plasmadas en poemas como Cueva, en el que dice que: “El gitano evoca/ países

remotos” (LORCA, 2006, p.161), dejando constancia de la raíz oriental y exótica de los gitanos. En sus voces encuentra Lorca los ecos de matusalénicas culturas ya profundamente mezcladas con la, también viejísima, alma andaluza, cuya condición híbrida había dado lugar a fenómenos muy apreciados por el poeta, como el Cante Jondo. Nos cuenta Ian Gibson en su biografía de Lorca que un Lorca jovencito acompañó durante varios días a Ramón Menéndez Pidal a las cuevas del Sacromonte granadino para recoger romances orales (GIBSON, 1985, vol. I, p.300). Tras aquel acercamiento filológico (en compañía de Menéndez Pidal) a los romances vivos del Sacromonte (con el que el poeta quedó encantado), no es casualidad que Lorca sienta predilección por esta combinación métrica para su Romancero Gitano, considerándola el molde idóneo. Lorca (al igual que habían hecho otros poetas del Barroco y del siglo XIX) revitaliza una forma primitiva y oral que se mantenía en el mundo hispánico desde los albores medievales de su literatura. La pasión de Lorca por todas aquellas viejas culturas que entretejieron la historia mestiza del sur de la Península Ibérica nos transporta en un viaje que comienzó en la Prehistoria. Todos estos pueblos están, de algún modo (más o menos explícito), evocados en la pluma del poeta granadino. Porque, más allá del localismo folclórico anecdótico, más allá del egocentrismo y del subjetivismo literario, Lorca ha sabido proyectarse hacia el exterior, captar la esencia de una tierra compleja y saltar de lo antropológico a lo poético y de lo poético a lo inmortal.

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POESIA E FICÇÃO NA OBRA DE ROBERTO BOLAÑO: INTERSEÇÕES

Clarisse Lyra Simões PG - USP

Parece haver se formado já entre a crítica e os leitores de Roberto Bolaño um consenso sobre a menor valia de sua poesia em relação à sua prosa. Exemplo disto pode ser observado neste congresso, em que temos duas mesas de comunicações dedicadas ao autor (Cervantes lidera com três mesas, Bolaño vem na sequência) e nenhum trabalho que trate especificamente de sua produção poética. O meu texto, como vocês irão notar, não foge à regra, tendo como objetivo principal especular o modo como a poesia pode se imiscuir em suas narrativas, e não o contrário. Não deixa também de ser emblemático o fato de o mercado editorial brasileiro vir ignorando a grande parcela da obra de Bolaño escrita em verso. O crítico Matías Ayala, por exemplo, defende que o trabalho poético do chileno se tornou parte da “pré-história do narrador”, um trabalho que pode ser tomado como um “ índice biográfico-literario para investigar retrospectivamente su proceso creativo ” (AYALA, 2008, p. 98), mas cujo valor literário é relativizado, não chegando a ser comparável com o de sua produção ficcional. Ayala afirma que “el hecho de […] dejar de escribir en la primera persona del

singular le permitió [a Bolaño] sobrepasar los escollos de una lírica en la que no parecía destacar” (ibidem, p. 99), concluindo que
[...] se puede afirmar que Bolaño deja de escribir poesía para escribir sobre poetas, para ficcionalizar su propia vida azarosa y su fracasada carrera poética en Los detectives salvajes. Bolaño se sabe un mal poeta, y publica para demostrar y atestiguar que ha fracasado (ibidem, p. 100).

Esta passagem da escritura de Bolaño, que nos anos 90 se afasta da poesia, passando a escrever principalmente ficção, aparece ficcionalizada em Los detectives salvajes e é aludida com frequência pela sua crítica. Andrea Cobas Carral e Verónica Garibotto vêm nisto um trânsito que se relaciona com a economia da escrita, que se desloca desde “la poesía como una práctica que se desarrolla mayormente por fuera del mercado a la narrativa como un ejercicio de supervivencia ” (COBAS CARRAL e GARIBOTTO, 2008, p. 178). Alan Pauls, por sua vez, reflete sobre como em Los detectives salvajes – “un gran tratado de etnografía poética” (PAULS, 2008, p. 328), segundo ele - Bolaño “hace brillar a la Obra por su ausencia” (ibidem, p. 328), substituindo o idealismo que

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geralmente cerca a figura do poeta pela colocação em cena do que ele chama, segundo a “gran tradición del melodrama de artista”, “sed de vivir” (ibidem, p. 328). Diz Pauls:
Operación extraña, la de Los detectives salvajes: la poesía – la “obra poética” – queda afuera, del lado de lo real, de lo real-histórico (Mario Santiago, el infrarrealismo, la historia de la poesía mexicana, etc.); y lo que entra, lo que se infiltra en la ficción y ocupa el sistema circulatorio de la literatura, es algo que sólo creíamos conocer (y despreciábamos) bajo la forma del peor de los estereotipos: la Vida misma, la Vida Poética (ibidem, p. 328).

e sus configuraciones literarias ” (ibidem, p. 3), e levantando nos textos estudados procedimentos como o apelo afetivo ao destinatário, a adesão ideológica e o ocasional predomínio da emotividade (em Amuleto ), a crítica chilena acredita que, por muitas vezes, o “eu” emerge na narrativa de Bolaño, elidindo a distância imposta pela referencialidade e fazendo-se notar no texto um “profundo deseo [do autor] de estar sin distancia presente en su obra ” (ibidem, p. 16). Tais disposições, que corroboram os estudos da autoficção na narrativa bolañiana, interessam aqui na medida em que Solotorevsky as introduz não apenas como expediente narrativo, mas como uma espécie de resquício ou substrato lírico. Sabemos, é verdade, e Julio Cortázar escreveu sobre isto, que não existe uma linguagem romanesca pura (CORTÁZAR, 1994, p. 143). Segundo o argentino, “toda narración comporta el empleo de un lenguaje científico, nominativo”, que se alterna e se imbrica com “un lenguaje poético, simbólico” (ibidem, p. 143, grifo do autor). Além disto, já fora de uma instância puramente verbal, diz Cortázar que o romance conta ainda com o que ele chama de “aura poética”, “atmósfera que se desprende de la situación en sí [...], de los movimientos anímicos e acciones físicas de los personajes, del ritmo narrativo, [de] las estructuras argumentales” (ibidem, p. 144). Acima de qualquer teorização, no entanto, Cortázar considera o romance um “imenso baú”, uma forma sem leis (CORTÁZAR apud GONZÁLEZ BERMEJO, 2002, p. 73), tendo chegado a afirmar: “Há romances que são poemas. Há poemas que são romances” (ibidem, p. 72). A hipótese que nós gostaríamos de aventar neste ar tigo, tendo em conta esta prévia de informações, se erige contra a seguinte ideia, sustentada por Matías Ayala (crítico já citado no início do texto):
Esta segunda sección de la obra poética de Roberto Bolaño [aqui ele se refere à obra poética adulta de

Não obstante estas opiniões que enfatizam a passagem de um gênero a outro, o poeta catalão Pere Gimferrer enxerga na narrativa em prosa de Bolaño “una forma, apenas mascarada, de poema”, e afirma que “sus ficciones son tan poéticas cuanto narrativos son sus poemas ” (GIMFERRER, 2006, p. 7). Tais asseverações, em grande medida contrárias à crítica que insiste em uma mudança substancial de gênero, nos levam a pensar em como poderia o poema subsistir na produção ficcional de Bolaño, resposta que Gimferrer não nos dá. Myrna Solotorevsky aponta uma perspectiva interessante para a consideração deste questionamento. Em ensaio sobre a “Anulación de la distancia en novelas de Roberto Bolaño”, ela defende que, apesar do trânsito executado por ele do gênero lírico (no qual predomina a função emotiva e a expressão da interioridade do falante) ao narrativo (ao qual corresponde a função referencial), restam em sua ficção marcas “de esa proximidad al ‘yo’ y de su necessidad de manifestación” (SOLOTOREVSKY, 2008, p. 3). Analisando variadas obras do autor, tais quais as novelas Amuleto, Estrella distante, Amberes e La pista de hielo , Solotorevsky estima que “ el Bolaño presente en sus textos remite a [...] un pseudo-referente real ” (ibidem, p. 3). Considerando, contudo, o “Bolaño real” e as “equivalencias entre este, su biografía

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Bolaño, os libros Tres , Los perros románticos y Fragmentos de la universidad desconoc ida , publicados durante os anos 90], variopinta, y poco concentrada, parece ser la compilación de textos escritos a lo largo de los años más que un razonado o persistente proyecto poético. Se puede conjeturar que para entonces estaba concentrado en su narrativa y la poesía la ejecutaba en honor a los viejos tiempos (AYALA, 2008, p. 91-92).

cantadas no por hombres, sino por fantasmas (ibidem, p. 109).

Entre as qualidades que se associam à poesia em sua obra crítica, e mesmo em seus poemas, aparecem sempre as palavras (tão repetidas por ele) “ valentía ”, “ voluntad ”, “ valor ”, e jamais qualquer menção a uma condição específica de linguagem.

Nossa hipótese, portanto, é a de que havia sim um projeto poético posto em marcha por Bolaño, e que este projeto incluía não somente a sua produção em verso, mas também a sua narrativa. Longe do esquematismo pretendido pelo crítico chileno, que chega quase a opor poesia e ficção na produção de seu compatriota, acreditamos que a relação entre ambos gêneros em Bolaño se dá por contaminação e fluidez, em uma relação ambígua difícil de ser equacionada. Para justificar a falta de limites precisos entre poesia e prosa que vemos na obra de Bolaño, seria necessário recorrer às suas possíveis concepções de poesia. A concepção expressada por ele em ensaios e textos críticos (cuja formulação nunca se aproxima do conceito) parece extrapolar qualquer ideia de forma ou estrutura. É uma concepção que tem por base preceitos outros que não o de verso ou o de “infinitos juegos de la Analogía” (CORTÁZAR, 1994, p. 144), mas que parece orientar-se por uma espécie de caráter da poesia, e que poderia tranquilamente ser contemplada pela narrativa. Sobre o escritor chileno Pedro Lemebel, por exemplo, Bolaño disse: “Lemebel no necesita escribir poesía para ser el mejor poeta de mi generación. Nadie llega más hondo que Lemebel” (BOLAÑO, 2006, p. 65). Sobre os poetas em geral, afirmou:
No hay nadie en el mundo más valiente que ellos. No hay nadie en el mundo que encare el desastre con mayor dignidad y lucidez. Son, en apariencia, débiles, […] y trabajan en el vacío de la palabra, como astronautas perdidos en planetas sin salida posible, en un desierto donde no hay lectores, ni editores, apenas construcciones verbales o canciones idiotas

Também em seus romances encontramos formulações significativas desta tensão. Em 2666 , lemos: “Ingeborg le preguntaba a Reiter por qué no escribía poesía y Reiter le contestaba que toda la poesía, en cualquiera de sus múltiples disciplinas, estaba contenida o podía estar contenida, en una novela ” (idem, 2004, p. 969). Em Amuleto, por sua vez, se enuncia a seguinte profecia: “ La poesía no desaparecerá. Su no-poder se hará visible de otra manera” (idem, 2009, p. 134). Não por acaso, Amuleto se encontra em alto grau contaminada pela poesia. Relato construído a partir de uma temporalidade múltipla e cambiante, nele Bolaño logra elidir o tempo uniforme tradicional da narrativa, através de uma enunciação extremamente lírica da narradora e protagonista Auxilio Lacouture. No capítulo 9 do livro, exemplar neste sentido, oscilam três tempos: os anos 1963 imaginado, o 1968 rememorado, e o tempo da enunciação, que não se sabe ao certo quando é. Nós percorremos o fluxo da consciência de Auxilio e nos perdemos nele como ela própria, já que nenhum dos tempos de seu relato é sólido, nenhum constitui o que se poderia chamar o “tempo da realidade”. Se o comum nas memórias é o tempo da enunciação funcionar como base, como ponto a partir do qual se organizam as experiências, neste relato a base encontra-se desestabilizada, pois é um espaço – o banheiro feminino do quarto piso da UNAM, onde a protagonista permaneceu enclausurada durante a invasão da universidade em 1968 – que funciona como mirante, já descolado no tempo, flutuante, a partir do qual Auxilio vê o seu passado e o seu futuro.

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Encontrar-se no banheiro, para esta uruguaia residente no México, não implica necessariamente um relembrar: este é um espaço que ela ainda habita (pelo menos imaginativamente). Ele não se restringe, portanto, à experiência do ano ‘68, ele se desloca no tempo e se transforma no teatro de suas visões: em determinada cena, por exemplo, Auxilio estende a mão no banheiro para apontar o quadro instalado na sala da casa de Remedios Varo, que ela visita em sonho; em outra sequência, a voz da Remedios do sonho de Auxilio se perde entre os ladrilhos do banheiro da UNAM. Tal disposição temporal nos remete ao texto de Octavio Paz que diz: “a crise da sociedade moderna manifestou-se no romance como um regresso ao poema” (PAZ, 1996, p. 72). E mais adiante: “desde os princípios deste século o romance tende a ser poema de novo” (ibidem, p. 73). Neste ensaio sobre a “Ambiguidade do romance”, Paz faz referência a autores como James Joyce, Marcel Proust e William Faulkner. Sabemos que eles, através do monólogo interior, aboliram a perspectiva, eliminaram o abismo entre o homem e o mundo instaurado pelo narrador em terceira pessoa. Mas, mais do que isso, o monólogo interior instaura um tempo na narrativa que não é o dos fatos, mas um tempo que se desdobra, no caso de Amuleto, em temporalidades múltiplas que, ainda que não prescindam da história (isto é, de “uma narrativa de eventos dispostas conforme a sequência do tempo” [FORSTER, 2004, p. 57]) – e, por isso, continuem inseridas no âmbito do romance –, flertam com a noção temporal do poema, que às vezes é inexistente e às vezes se desloca livremente de um instante a outro, sem a necessidade de constituir uma cronologia. Experiência mais extrema neste sentido é a que Bolaño proporciona com o livro Amberes. Datado de 1980, o volume foi publicado em 2002 na categoria romance, gênero que lhe foi atribuído pelo próprio autor no prólogo à edição, no qual ele diz:

“ Obviamente, nunca llevé esta novela a ninguna editorial” (BOLAÑO, 2009, p. 9). Em 2007, porém, sai publicado o volume intitulado La universidad desconocida , reunião de grande parte da poesia de Bolaño organizada por ele mesmo e datada de 1993. Neste livro, encontra-se publicado novamente Amberes, agora sob o título “Gente que se aleja”. O ato não é gratuito. Amberes oferece um texto fragmentado de alto poder desestabilizador, cuja leitura envolve um acentuado grau de angústia, ocasionado pela dificuldade (ou impossibilidade) de se encontrarem os elos que permitam remontar os fatos e a cronologia. Desta forma, com a dupla inserção do texto em volumes de catalogação diferente, Bolaño desloca a questão da determinação do gênero do autor para o leitor, transformando-a em um ato de leitura. Ler Amberes como romance certamente é mais desconcertante, já que as convenções de leitura deste gênero implicam a possibilidade de se obter uma linearidade final (que insiste em escapar do leitor neste caso), enquanto a operação de leitura da poesia obedece a normas outras, podendo ser uma leitura salteada ou corrida, não estando o leitor preocupado em obter um sentido final para o conjunto. Neste sentido, pode-se dizer que o que determina o caráter genérico ambíguo deste texto é, antes de tudo, o recurso ao fragmento, elemento constitutivo de grande parte da obra de Bolaño. No jogo da representação, no qual estão em pugna fragmentação e totalidade, caos e ordem, organicidade e arbitrariedade, e, em última instância, a própria possibilidade do narrar, Bolaño logra por em cena a tenuidade dos limites entre poesia e ficção, ao sinalizar que, nas bordas de um romance cujas peças não se encaixam (e que por isto não teria sido aceito inicialmente por nenhuma editora), pode muito bem desenhar-se um poema.

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Nota
1

Aluna do mestrado do Programa de Pós-Graduação em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-Americana da Universidade de São Paulo. Desenvolve com o apoio da Fapesp o projeto de pesquisa “Fragmentação e multiplicidade em Los detectives salvajes, de Roberto Bolaño”.

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REPRESENTAÇÃOES DA MULHER E VOZES FEMININAS NO CONTEXTO IBEROAMERICANO

Cláudia Luna UFRJ

El discurso sobre la mujer es también un discurso sobre identidad y ciudadanía. Más importante, tal vez menos obvio, el discurso masculino sobre la identidad y la ciudadanía es también un discurso sobre el género. Las dos formaciones discursivas se determinan mutuamente, aunque en relaciones de desigualdad radical. (Pratt, 1995, p. 273)

Vive-se hoje um processo de revisão histórica propiciado pelos bicentenários dos processos de independência e formação das nacionalidades e seus respectivos imaginários na América Latina. Nesse contexto, abre-se oportunidade ímpar de repensar a escrita da história como um processo de cunho marcadamente androcêntrico, sob recorte tradicional, que relegou ao esquecimento ou a papel secundário a participação de mulheres como a peruana Micaela Bastidas, a equatoriana Manuela Sáenz, ou a brasileira Bárbara de Alencar, embora tivessem papel relevante nos processos encabeçados respectivamente por Tupac Amaru, Simón Bolívar e Frei Caneca. O projeto de pesquisa que ora realizamos visa a confrontar representações e autorrepresentações destas entre outras personagens históricas, considerando os projetos de emancipação que enunciam e as repercussões de sua atuação, no contexto latino-americano. Inicialmente, trata-se de analisar o processo de autorrepresentação expresso nas cartas e documentos públicos e privados de protagonistas das Independências latino-americanas.

A primeira etapa de trabalho constitui-se no estabelecimento do corpus a partir da compilação das fontes, que podem contar com o auxílio de trabalhos recentes de recuperação, em curso, ou fazer-se diretamente nos arquivos. Em muitos casos, há lacunas importante a preencher, pois a documentação existente é escassa ou de autoria coletiva. Interessa-nos investigar como se representam as mulheres nas independências e se afirmam (ou não) nas esferas pública e privada? Que elementos interferem no processo de construção da subjetividade, afirmação ou negação do protagonismo? Nossa hipótese inicial é de que há diferentes condicionantes, como questões étnicas e de classe, estado civil e origem. Por um lado temos a afirmação vigorosa de Micaela Bastidas, esposa de Tupac Amaru e uma das líderes da insurreição andina contra a metrópole; temos o mascaramento dos ideais de Manuela Sáenz, ao colocar-se perante Bolivar como mera amante e cuidadora, apesar de arguta estrategista e lutadora aguerrida. Quanto a Bárbara Alencar, há o ápice do

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processo de apagamento: apesar de presa e perseguida, transfere o protagonismo para o filho Martiniano, e mascara ou dilui sua subjetividade na construção de documentos coletivos, como na Proclama de 1817.

Como já observava Ángel Rama, a América Latina se caracteriza pela existência de regiões culturais, marcadas por história comum e, nesse traçado, esfumam-se as fronteiras nacionais estabelecidas pelo História oficial. Recordemos a mais evidente, a gauchesca, unindo territórios pertencentes à tríplice fronteira – Uruguai, Argentina e Brasil. A

O Brasil em face das Independências – cruzamentos e peculiaridades
Considerando os projetos emancipadores e as rebeliões ocorridas no Brasil, a primeira diferença que se percebe em relação aos países vizinhos é a referente ao projeto vitorioso – o da monarquia bragantina, de recorte centralizador e unificador, em oposição à vitória das propostas republicanas. Por outro lado, há intenso intercâmbio de ideias entre os americanos de colonização espanhola e os de colonização inglesa. São diversos projetos de América, intentos utópicos e de construção de novas nações ou de repúblicas, de territórios livres, de fundação de espaços sociais marcados por contratos sociais mais ou menos inclusivos, mais ou menos heterogêneos. O Brasil pareceria estar distante deste intercâmbio, à primeira vista, impressão que se desfaz à medida que adentramos o exame do passado. Uma primeira hipótese seria a de que o projeto absolutista e monárquico, centralizador, enfatiza o recorte atlântico, voltando as costas aos processos que se sucedem na América Hispânica. No entanto, é marcante o recorte imperial brasileiro a respeito dos vizinhos, as longas lutas pelo estabelecimento do território nacional, marcando as guerras de fronteiras que atravessam todo o século XIX e os episódios da diplomacia continental a esse respeito – da Guerra do Paraguai, a República Cisplatina, a disputa pelo território do Acre, em suma, a definição do grande território emergindo unificado sobre a variedade regional.

cultura guarani, do Paraguai e Centro Oeste brasileiro, o elemento afro-americano, no Rio de Janeiro, Bahia e Antilhas, o vasto território cultural amazônico, congregando países como Brasil, Equador, Peru, Bolívia, Venezuela, Colômbia. São linhas que se cruzam e sobrepõem imaginariamente sobre as linhas demarcatórias oficiais de províncias e nações, compondo um segundo traçado, a respeito do qual Rama pondera:
En este segundo mapa el estado Rio Grande do Sul, brasileño, muestra vínculos mayores con el Uruguay o la región pampeana argentina que con Matto (sic) Grosso o el nordeste de su propio país; la zona occidental andina de Venezuela se emparenta con la similar colombiana, mucho más que con la región central antillana. (RAMA, 1985, p. 58).

No caso brasileiro, o século XIX será palco de um jogo de tensões entre o regional e o nacional, no qual se insere o movimento de 1817, do qual participará Bárbara de Alencar. Nas primeiras décadas do século XIX assiste-se, sucessiva ou simultaneamente, a intentos mais ou menos logrados de emancipação em relação a Portugal, movimentos internos separatistas, oposição entre os diversos projetos dos agentes sociais envolvidos, acionando liberais e conser vadores, monarquistas e republicanos, regionalistas e centralistas. Distintos projetos de construção da nacionalidade que se cruzarão até que vença o projeto unificador, sob o Império de Pedro II. No Nordeste brasileiro, em especial na província de Pernambuco, o espírito independentista era bastante acirrado. Ao mesmo tempo que se mantinha comércio diretamente com países europeus

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e africanos, a dimensão continental do país isolava o a região do centro de decisões. A esse respeito narra o viajante Robert Walsh:
Os pernambucanos foram os primeiros a reconhecer o direito do Imperador ao trono do Brasil, bem como a total separação deste país de Portugal. Contudo, ainda alimentavam a esperança de se tornarem um Estado independente. Existia uma grande rivalidade entre a província e o Rio de Janeiro, e pequenas causas de descontentamento eram motivo de constante atrito entre as duas províncias. Entre outras coisas, os pernambucanos se queixavam de que lhes era cobrado um imposto para a iluminação das ruas do Rio, enquanto as de própria cidade eram mantidas em total escuridão. (WALSH, 1985, p.184).

negros, mulatos e brancos, comuns na Argentina, no Peru e no Brasil – a tentativa de implantar no Brasil um modelo semelhante ao intentado nas Antilhas (vide Haiti); o intercâmbio e busca de apoio com os Estados Unidos, por parte de insurgentes, calcados num prenúncio de pan-americanismo, antecipando a doutrina Monroe. Finalmente, o intercâmbio entre o Velho e o Novo Mundo, ou seja, a atuação conjunta de intelectuais hispano-americanos na Europa, como Fray Servando Teresa de Mier ou Andrés Bello, principalmente em Londres, e a busca de aprovação pela opinião pública europeia; já no caso do Brasil, a presença de brasileiros como estudantes na Escola de Coimbra, trazendo para cá o pensamento liberal. Em contrapartida, a presença dos viajantes europeus e seus depoimentos sobre o cenário americano, como, por exemplo Maria Graham1, Robert Walsh ou Daniel P. Kidder, constituindo um corpus precioso de relatos de viagem que nos trazem informações minuciosas sobre nossa história e sobre as representações cruzadas que se fizeram, reconstituindo o olhar estrangeiro sobre a América, na esteira de Humboldt.

Como afirmou lucidamente Marcel Velásquez, em sua exposição no Seminario Escritoras del Siglo XIX, em Lima (2009), resgatar a produção feminina no século XIX importa também como forma de resgatar o contexto em que estão engastadas, muitas vezes trazendo à tona publicações esquecidas ou renovando o interesse por áreas pouco exploradas. Em suma, um efeito colateral positivo na revirada do passado histórico. Nesse sentido, refletir sobre a posição das mulheres neste processo, antes de tudo nos leva a repensar uma série de questões que nos desafiam nestes dois séculos. Como já apontei em trabalhos anteriores, há alguns elementos comuns a todo o continente, como o sentimento nativista e o rechaço do elemento ultramarino (os reinóis); o papel destacado das ordens religiosas no processo – confrontem-se, por exemplo, os jesuítas expulsos, que, da Itália, revalorizam o dado americano, como Rafael Landívar, e a atuação de Frei Caneca, um dos mentores da Confederação do Equador, de 1824. Especialmente no Nordeste brasileiro, não podemos esquecer a relação estreita que se mantinha entre os coronéis (e as coronelas), a Igreja e o Estado. Outros dados a considerar são a separação entre as etnias e raças, as corporações militares de

Rodolfo Walsh, por exemplo, capelão da comitiva de Lord Strangford, em suas Notícias do Brasil (1825-1829), retrata conflitos regionais, narrando uma tentativa de insurreição malograda que se deu em fevereiro de 1929, em Pernambuco, e uma outra no Maranhão. Ele as explica pela distância em relação à Corte, associada à proximidade com outras “províncias republicanas”. Diz ele, referindo-se ao Maranhão:
A situação dessa província era sabidamente alarmante. Ela fica tão distante da capital que as comunicações entre esta e suas cidades de fronteira nunca se completam em menos de um ano, e em Tabatinga as notícias do Rio são trazidas muitas vezes passando pelo Cabo Horn, vindo assim do litoral e atravessando os Andes. Isso torna a influência do governo relativamente fraca, ao passo que a vizinhança das províncias republicanas representa um forte estímulo para que o seu

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exemplo seja seguido. (WALSH, 1985, p. 85) (grifo nosso)

e de 1824. No seu caso, o destaque maior será para o filho Martiniano de Alencar. Bastidas tampouco terá melhor sorte.

Das heroínas – semelhanças e contrastes
No cotejo entre a trajetória das personagens históricas podemos observar, em primeiro lugar, a masculinização da figura feminina no processo das independências. No caso de Manuela Sáenz, isso se vincula ao papel destacado que tiveram as mulheres no campo de batalha, nos diversos países, como soldados; no caso de Bárbara Alencar, ao matriarcado, ou seja, ao fato de que era comum as viúvas assumirem o comando de suas fazendas e por atuarem no campo político. Quanto a Micaela Bastidas, a morte após torturas atrozes aponta para o necessário processo de escarmento, a exemplaridade no castigo como forma de coibir novas rebeliões. Em segundo lugar, o jogo curioso de revelação e encobrimento – em relação a Sáenz, o processo de apagamento de sua atuação, de sua importância no campo político como estrategista e militante, que no seu caso começa por suas próprias mãos, ao colocarse como coadjuvante de Bolívar, nas cartas; e pela posteridade, que a conhece a partir do batismo que este lhe confere de Libertadora do Libertador. No caso de Bárbara se associa à figura da mártir, da mãe extremada, da mulher aprisionada, que sofre vexames e punição inclemente, mas se mantém fiel a seus ideais. Quanto a Micaela Bastidas simplesmente sua atuação será relegada a segundo plano, e associada sempre ao marido, ou seja, como a companheira de resistência e luta.

Até onde pude pesquisar, por outro lado, a figura de Bolívar se prestará a uma representação culta e popular de amplíssimo espectro, em todos os níveis, o que, creio, não sucede com Manuela Sáenz. Já quanto a Bárbara de Alencar, alcançou um destaque muito grande no campo do imaginário popular brasileiro, nos cancioneiros, na música popular, no cordel, no maracatu, em suma, em diversas formas de representação oral. Em relação a Bastidas, ainda estamos no começo da investigação. De todas as formas, o que ressalta da pesquisa é o quanto ainda há para se buscar, de forma a reconstituir pelo menos minimamente o efetivo papel desempenhado pelas mulheres nos processos de independência na América Latina. Nosso projeto, em suma, visa a contribuir para o processo de revisão histórica e ampliação do cânone literário latino-americano, no âmbito do processo coletivo de reflexão e crítica acerca dos bicentenários das independências na América Latina. A discussão local, temos certeza, será relevante na construção de saberes globais mais inclusivos e libertadores.

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Em relação à escrita da história, todas praticamente desapareceram do panteão de heróis da historiografia oficial. Manuela Sáenz surge sempre atrelada à figura de Bolívar, como um capítulo à parte. Quanto a Bárbara de Alencar é mencionada em pouquíssimos textos referentes às revoluções de 1817

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Nota
1 Seu diário da viagem e permanência no Brasil, entre 1821 e 1823, foi publicado em Londres em 1824 (GRAHAM, 1990).

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A DESTREZA ORAL E SUA IMPORTÂNCIA PARA A FORMAÇÃO DOS FALANTES DE ESPANHOL COMO LÍNGUA ESTRANGEIRA

Cristina do Sacramento Cardôso de Freitas Universidade Estadual de Santa Cruz - UESC

Introdução
A partir das ideias geradas no projeto de iniciação à docência intitulado “Ensinoaprendizagem da Língua Espanhola: a proficiência oral em foco”, desenvolvido na Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC - Ilhéus – BA), definiu-se o objetivo desta proposta, que é o de realizar uma reflexão a respeito de alguns aspectos relacionados à destreza oral entre alunos de nível iniciante, entre os quais se encontram: a investigação criteriosa das causas que conduzem à deficiência de sua produção oral, em língua espanhola; a análise detalhada das consequências de tal problema; e, finalmente, a proposição de atividades variadas de incentivo à otimização da expressão oral entre os mesmos. Para melhor compreendermos os aspectos que se relacionam ao desenvolvimento da destreza oral em língua espanhola, como L2, entre alunos de nível iniciante, decidimos organizar este referencial teórico em tópicos, entre os quais se encontram: a análise da questão das interferências linguísticas entre o português e o espanhol; a observação do uso de

métodos pretensamente comunicativos que visam facilitar a aprendizagem desta destreza; o papel da afetividade na relação professor-aluno e como esta influencia na capacidade de expressão oral do mesmo; as dificuldades específicas de aprendizagem da destreza oral em língua espanhola; a questão da fossilização e da interlíngua; a elaboração de um quadro em que se visualizam estes e outros fatores que definiríamos como de caráter individual, institucional e intrainstitucional; e, finalmente, a proposição de atividades que desenvolvam de maneira criativa, natural e estimulante a capacidade de expressão oral de alunos de nível iniciante. Para tal, sabemos que o processo natural de aquisição de uma língua tem como primeiro elemento de contato a oralidade, considerado o mais constante instrumento de uso linguístico. Portanto, um dos primeiros pontos a se desenvolver nos aprendizes espera-se que seja a oralidade. Mas o que vem a ser esta capacidade, habilidade ou destreza de se expressar corretamente em outro idioma? Quais são suas características?

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1. Revisão da Literatura
1.1. Características da destreza oral Estudos e pesquisas se desenvolveram no Brasil com o objetivo de compreender o fenômeno da produção oral em língua estrangeira, por falantes não nativos. Para Martín Peris (1996, p.50), algumas das principais características desta destreza são: é a destreza mais importante para muitos aprendizes de uma L2; possui uma utilidade prática real; as oportunidades de praticá-la dependem de muitos fatores externos ao aprendiz; conseguir um bom domínio desta destreza não é fácil, já que implica em ser capaz de utilizar um número considerável de microdestrezas capacitadoras, de interação e atuação com o outro, em contexto real. No entanto, em função das similaridades em diversos níveis reconhecidamente existentes entre a língua espanhola e a portuguesa, é possível afirmar que ainda há uma carência significativa no que diz respeito à discussão sobre as dificuldades específicas de alunos brasileiros e a proposição de materiais ou atividades que busquem o aprimoramento da expressão oral dos mesmos. As interferências que se produzem na aprendizagem do espanhol por lusofalantes representam o cavalo de batalha de profissionais e alunos e afetam a ambos.

do espanhol, dois grandes mitos sobre a língua povoam o imaginário comum. O primeiro é o de que a língua é composta basicamente por uma grande lista de palavras. Essa concepção é refletida no senso comum pelo apego que muitos professores têm aos chamados ‘falsos amigos’, os famosos falsos cognatos que evidentemente podem levar o indivíduo que não domina o idioma a uma série de situações embaraçosas. O problema não está em ensinar os ‘falsos amigos’ aos aprendizes, já que, de fato, esses elementos fazem parte da competência gramatical e linguística ideal de um falante da língua. A questão se centra na ideologia que essa ênfase nas questões lexicais da língua acarreta. Ao apresentar a língua como um grande inventário de vocábulos, essa ideologia, difundida inclusive pelos próprios meios de comunicação, constrói uma imagem de que a diferença entre as línguas portuguesa e espanhola se resolve apenas através de uma simples substituição de itens lexicais, promovendo uma visão de que os processos de uma língua se repetem uniformemente na outra. Não é difícil imaginar o quanto essa visão reducionista pode comprometer o desempenho de um aprendiz.

1.3. Métodos pretensamente ‘comunicativos’ O segundo ponto discutido pelas autoras é a

1.2. Interferências entre o português e o espanhol Determinando os efeitos da proximidade entre estas línguas, Kulikowsky e González (1999) fazem uma importante reflexão com relação à prática docente de espanhol para brasileiros. As autoras discutem como a imagem que o aprendiz de uma língua estrangeira tem do seu objeto de estudo pode determinar seu sucesso ou fracasso em termos de domínio oral desse conhecimento específico. No caso

ideia, não tão velada quanto a anterior, de que a língua é um instrumento destinado fundamentalmente à comunicação. Se a ênfase nos itens lexicais promove uma ideologia reducionista que impede o aprendiz de entender a língua como um sistema autônomo e extremamente complexo, a ênfase no fator comunicativo pode ter efeitos ainda piores no processo de ensino-aprendizagem do espanhol. Isso se deve ao fato de que a troca dos chamados objetivos gramaticais pelas competências comunicativas, na prática, não se realiza da maneira mais adequada.

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O falso objetivo de dominar as quatro habilidades em cada vez menos tempo é o principal elemento motivador do aprendizado, uma vez que fornece uma sensação de domínio imediato logo nas primeiras aulas, ainda que essa sensação seja ilusória, como salientam Celada e González (2005), pois provém de um novo reducionismo, o que se refere à uniformidade das situações pragmáticas nas quais um indivíduo pode se encontrar. Ao entender a língua como um instrumento que ‘serve’ basicamente para se comunicar, o indivíduo se apossa de suas expressões de maneira imediatista e utilitária, o que o distrai da real tarefa de compreender a língua como um sistema autônomo, com seus processos particulares. Alguns teóricos opinam sobre a importância do desenvolvimento desta capacidade comunicativa oral, o que inclui, a nosso ver, uma questão mais ampla que envolve a fluência verbal no idioma estrangeiro. Faerch e Kasper (1983) alegam que quanto mais o aluno se engaja em situações comunicativas, maior variedade e mais possibilidades ele tem não só de praticar sua capacidade comunicativa oral na língua estrangeira, como também de construir hipóteses sobre a L2 e testá-las. Dubin e Olshtain (1977) acreditam que o papel do professor deve ser o de facilitar o aprendiz a desenvolver suas próprias capacidades e recursos interiores para realizar adequadamente as tarefas comunicativas. Para Canale e Swain (1980), proficiência linguística significa não somente saber fonologia, sintaxe, vocabulário e semântica, mas também ser capaz de fazer uso desse conhecimento apropriadamente em comunicação real.

começaram a apresentar maior interesse a partir dos anos 70. A este respeito, Krashen (1982) estabeleceu uma relação direta entre a primeira e o êxito do aluno no processo de aprendizagem de uma nova língua. Este psicolinguista levou em conta três variáveis que possuem uma influência direta sobre a aprendizagem de idiomas: a atitude, a motivação e a personalidade. Explicou que existe um filtro de percepção, o chamado filtro afetivo, que se refere a um conjunto de circunstâncias, angústias, falta de interesse, de motivação, que, em determinados casos, bloqueiam a aquisição satisfatória do código e a compreensão ou, no nosso caso, a produção em idioma estrangeiro. Por isso, o aluno deverá ter uma atitude positiva que lhe permita uma maior permeabilidade diante do processo de aprendizagem e evitar as barreiras afetivas, que geram por sua vez, bloqueios mentais que não permitem que os dados sejam processados de forma completa. Em consequência, para que haja uma melhor receptividade aos conteúdos, se requer empatia, disponibilidade e autoconfiança.

1.5. Dificuldades específicas de aprendizagem da destreza oral em língua espanhola Além destas dificuldades pessoais e interpessoais que o aluno pode apresentar com relação à aprendizagem da língua estrangeira, em nossa prática docente percebemos também que, muitas vezes, alunos brasileiros, aprendizes de espanhol como língua estrangeira, demonstram algumas dificuldades no que diz respeito à pronúncia da língua espanhola.

1.4. O papel da afetividade na aprendizagem da expressão oral Por sua vez, estudos sobre a relação entre a afetividade e a capacidade de aprendizagem do aluno

Podemos dizer que existem aspectos nas duas línguas que não criarão dificuldades na aprendizagem. Teríamos também outros aspectos na língua estrangeira, sem equivalência na língua

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materna, nos quais seria mais difícil para os alunos alcançarem um nível de produção oral mais próximo do ideal. E, por último, há aqueles aspectos que de tão similares nas duas línguas, se tornam os mais passíveis de interferência e que, possivelmente, são os que provocarão mais problemas na aprendizagem. O ensino da pronúncia, em língua espanhola, é uma das destrezas que todo aluno necessita dominar quando aprende uma língua estrangeira. Por isso, deveria fazer parte dos conteúdos de qualquer plano curricular e o professor teria que incorporar às suas atividades em aula. Com relação ao momento da correção da pronúncia do aluno, esta é necessária no momento em que na produção oral se detectam equívocos. No entanto, o professor deverá enfrentar este momento da correção da pronúncia com cautela. É necessário também que tenha consciência do grau de “precisão fonética”, ou seja, o grau que deseja alcançar na produção oral dos estudantes.

influência direta e que o aproxima cada vez mais da língua-alvo de aprendizagem. Trata-se ainda de um sistema variável e dinâmico, distinto tanto da língua materna como da estrangeira (ainda que nele se encontrem elementos das duas); e que contém regras que lhe são próprias, pois cada aprendiz possui seu sistema específico em determinado estágio de aprendizagem. Entre os vários aspectos que observamos com relação às dificuldades enfrentadas por alunos brasileiros de espanhol, como segunda língua, encontram-se: a realização de fonemas nasais na língua espanhola, a abertura e o fechamento dos fonemas vocálicos, os encontros vocálicos em ditongos crescentes, alguns fonemas e alófonos oclusivos e fricativos, a realização da vibrante múltipla, entre outros fenômenos.

1.7. Análise de alguns fatores Foi possível observar que muitos fatores podem intervir no processo de aquisição de uma Quando não ocorre a devida correção dos equívocos de pronúncia cometidos pelos alunos, desde os primeiros contatos com o idioma estrangeiro, a consequência poderá ser a formação de um processo denominado interlíngua, em que estes futuros professores parecerão se contentar com o estado de língua atingido, sem desejar evoluir a partir da problemática mescla criada entre a língua materna e a língua estrangeira a qual estão expostos. O sistema linguístico desenvolvido por um falante não nativo na língua estrangeira foi denominado de várias maneiras, no entanto, o termo mais aceitado é o de interlíngua, proposto por Larry Selinker (1972). Para ele, a interlíngua é um sistema linguístico interiorizado (com características de linguagem porque serve para comunicar-se e possui gramática interna), sobre o qual o aprendiz possui Fatores institucionais; Fatores intrainstitucionais A tabela abaixo busca apresentar estes três aspectos principais envolvidos nesta pesquisa, objetivando investigar criteriosamente as causas da deficiência oral, analisar sua consequência e propor, à luz da teoria da revisão da literatura realizada, soluções criativas, modernas e práticas para tal questão. segunda língua. A partir de uma série de observações, detectamos que, entre os fatores que mais dificultam a solidez da expressão oral para os alunos iniciantes do Curso de Graduação em Letras (PortuguêsEspanhol), da Universidade foco de estudo nesta investigação, encontram-se: Fatores pessoais ou individuais;

1.6. A questão da interlíngua e da fossilização

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CAUSAS DA DEFICIÊNCIA ORAL 1. FATORES INDIVIDUAIS (ALUNO) a) timidez excessiva, vergonha, medo de errar e ser ridicularizado em sala de aula. b) distância afetiva no relacionamento professor-aluno, o que afasta os alunos da possibilidade de desejar expressar-se oralmente em língua estrangeira, em sala de aula. c) falsa ideia de facilidade na aprendizagem da língua espanhola, por tratar-se de uma língua-irmã à portuguesa. d) interferências linguísticas da língua materna sobre a língua estrangeira, criando a chamada interlíngua. e) falta de hábito de expor-se em público, em ambiente acadêmico, em língua estrangeira. f) dificuldades naturais de aprendizagem de um novo idioma, no início do processo. g) ausência de conhecimentos prévios em língua espanhola, anteriores à entrada na universidade. h) falsa crença de que, ao se graduarem como professores, ministrarão aulas de língua espanhola, em instituições públicas e privadas de ensino fundamental ou médio, em língua portuguesa. 1. FATORES INDIVIDUAIS (professor) a) utilização de metodologias pretensamente comunicativas no ensino da língua estrangeira. b) ausência de projetos ou atitudes individuais que privilegiem a presença de professores, alunos e outros convidados, falantes de língua espanhola como L1, em atividades acadêmicas em sala de aula de língua espanhola nesta universidade. 2. FATORES INSTITUCIONAIS a) grande quantidade de alunos por turma. b) carga horária insuficiente de aulas. c) ausência de meios auxiliares à aprendizagem, em ambiente acadêmico: laboratórios de informática e de idiomas bem equipados e modernos. 3.FATORES INTRAINSTITUCIONAIS a) ausência de programas de intercâmbio entre professores e alunos de universidades na Espanha e na América e as universidades públicas no Brasil.

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2. Proposição de atividades variadas de incentivo à otimização da expressão oral entre alunos de Língua Espanhola de nível básico
2.1. Assistir a um filme, em espanhol, sem legenda, e interromper a projeção antes do final para que os alunos tenham a oportunidade de propor finais criativos para a história e para os personagens principais, em forma de redações curtas, individuais (atividade indicada para trabalhar produção escrita e oral criativa). Algumas sugestões de filmes seriam: El laberinto del fauno, Un cuento chino, Vicky, Cristina, Barcelona, La suerte está echada, La casa de los espírutus, Manolito Gafotas, Crónica de una muerte anunciada, Frida, Muerte en Granada e Mujeres al borde de un ataque de nervios.

oralmente (explicando por que escolheu esta notícia, relatando seus principais aspectos e dando sua opinião sobre o tema); num primeiro momento, os demais alunos escutam a notícia e, num segundo momento, emitem suas opiniões sobre o mesmo, criando-se naturalmente um ambiente de debate sobre temas atuais diversos.

2.4. Relato de fotos de viagens (atividade indicada para trabalhar produção oral e descrição) Sequência de atividades: na aula anterior, o professor deverá solicitar aos alunos que tragam 5 fotos de viagens pessoais ou familiares, em pen driver, que considerem interessantes; na aula seguinte, as fotos de cada aluno serão projetadas para que todos possam visualizá-las com clareza; os alunos deverão fazer perguntas do tipo quem está na foto, onde e

2.2. Criação de conto moderno, em língua espanhola. Sequência de atividades: tempestade de ideias sobre o tema contos de fadas; compreensão auditiva de conto de fadas curto; leitura em voz alta, pelos alunos, do mesmo conto; escritura, em grupos, de novo conto (com características modernas), de forma criativa; gravação em áudio do conto produzido; apresentação, de forma teatralizada, do conto criado pelo grupo.

quando foi tirada, por quem, por que escolheu aquela foto específica para apresentar, etc.

2.5. Produção, em duplas, de diálogo em estabelecimento comercial, baseado em material autêntico (folhetos recolhidos em viagens a países de fala hispânica). Sequência de atividades: na aula anterior, o professor deverá entregar folhetos de estabelecimentos comerciais, em língua espanhola, aos alunos, em duplas; os estabelecimentos selecionados vão depender dos folhetos que o professor possuir para a atividade (por exemplo, de restaurantes, hotéis, estações de metrô, casas de dança, far mácias, consultórios dentár ios ou médicos, livrarias, lojas de roupas, teatros, cinemas, museus, mercados, lojas de eletrodomésticos, bancos, bares, etc).

2.3. Pesquisa no laboratório de informática da universidade sobre jornais e revistas digitais, em língua espanhola (atividade indicada para trabalhar leitura, relato oral e capacidade de argumentação, além do uso das novas tecnologias de informação). Sequência de atividades: cada aluno deverá pesquisar na internet uma notícia interessante, em língua espanhola; em seguida, deverá apresentá-la

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2.6. Produção de um vídeo curto (em forma de comercial de tv), em grupos, em língua espanhola, divulgando o Curso de Letras (Português-Espanhol) da universidade (atividade indicada para trabalhar produção oral, escrita, criatividade, organização, trabalho em grupo, uso das novas tecnologias, etc).

análise contemplativa destes fatores que geram dificuldade de produção oral entre os alunos de nível iniciante nas instituições de ensino superior. No entanto, ao longo do processo, nos demos conta de que, sem detectá-los claramente e sem tentarmos solucioná-los em curto ou médio prazo, a consequência recairá diretamente sobre a capacidade de expressão oral dos alunos. Acreditamos também que, de nada adiantaria a mera proposição de inúmeras atividades comunicacionais, em sala de aula, de aprimoramento da destreza oral e aquisição de fluência em idioma estrangeiro, se tais fatores mencionados não forem observados “com novos olhos”, tanto pela instituição de ensino superior, quanto pelo professor e, principalmente, pelos próprios alunos em questão, que deverão encarar o problema da aquisição da destreza oral de frente e não fingir que ele não existe. Assim, para concluir, como podemos observar, as causas da deficiência de expressão oral em língua espanhola estão intimamente relacionadas à sua consequência, a falta de fluência no idioma estrangeiro, e todos devem estar cientes deste fato:

2.7. Atividade de produção oral a partir do vídeo humorístico ‘Qué hora es’ (visa desenvolvimento da produção oral, escrita, criatividade, organização, trabalho em grupo, uso das novas tecnologias, etc). Sequência de atividades: neste vídeo de humor produzido por um grupo de humoristas mexicanos, os personagens são americanos e usam frases soltas, completamente descontextualizadas, em espanhol, para demonstrar questões relativas às dificuldades de produção oral em língua estrangeira; após assistirem ao vídeo, o professor dividirá a turma em grupos e lhes solicitará que criem situações teatralizadas semelhantes às que aparecem no vídeo ‘Qué hora es’. Tais situações deverão ser gravadas em vídeo.

Considerações finais
Finalmente, se pode afirmar que o objetivo do professor de ELE não deve ser simplesmente a

alunos, professores e, em última instância, a própria instituição de ensino superior.

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Referências bibliográficas
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A LEITURA DE PROFESSORES DE ESPANHOL, FORMADORES DE LEITORES, MEDIADA POR COMPUTADOR

Cristina Vergnano-Junger UERJ

1. Introdução
Este trabalho traz à discussão parte dos resultados da pesquisa “ Interleituras : interação e compreensão leitora em língua estrangeira mediadas por computador”, que vimos desenvolvendo na UERJ, há cerca de três anos. Vem sendo crescentes os estudos sobre as interações mediadas por computador. Neles observamos exposições teóricas sobre as características dos textos virtuais (MARCUSCHI, 2004; 2005); em vários casos, formas de lidar com eles (RIBEIRO, 2005; MAGNABOSCO, 2009) e sobre impactos que as tecnologias da informação e comunicação (TICs) vêm gerando no modo de vida/ interação das/entre as pessoas nesta era da informação (LAVID, 2005; CASSANY, 2011). No entanto, sentimos falta de mais pesquisas, hoje mais frequentes, com um desenho empírico que oferecesse amostras desses novos comportamentos associados aos gêneros digitais. Essa foi nossa motivação para utilizar uma abordagem metodológica empírica no Interleituras , a fim de monitorar procedimentos

leitores e, assim, refletir sobre como vêm ocorrendo, suas diferenças e especificidades com relação à leitura em meio impresso. Nossa questão central volta-se, portanto, para como se lê em ambientes vir tuais. Ou seja, preocupam-nos estratégias, procedimentos e conhecimentos que são postos em marcha durante o processo leitor mediado por computadores, em especial quando se trata da Internet. Neste breve artigo, apresentamos uma sucinta revisão teórica sobre o tema, as bases gerais de nosso desenho metodológico e uma síntese dos resultados encontrados, especificamente no que foi observado junto a dois docentes de espanhol, sujeitos do estudo.

2. Revistando alguns aspectos teóricos
Um rápido olhar à nossa volta já nos dá um panorama de como as TICs passaram a fazer parte do cotidiano das pessoas, independentemente, muitas vezes, da faixa etária e de condições socioeconômicas. São caixas eletrônicos, smartphones, câmaras digitais,

assim. Nesse meio obser vamos. de apresentar generalizações sobre as novas práticas. habilidades e estratégias. e-mails. de diferentes partes do mundo. VERGNANO-JUNGER. A questão passa a ser. gêneros. uma vez que buscamos identificar os comportamentos que vêm caracterizando as práticas leitoras mediadas por computador. nem uma hierarquia fixa entre suas partes. 2010). em distintos idiomas. profusão de mensagens instantâneas (SMS). Nosso foco está direcionado especificamente à leitura. recursos e atividades estão em construção e estudo. MAGNABOSCO. simultânea ou isoladamente. suportes e/ou gêneros não são acessíveis de forma universal ou democrática e várias pessoas conseguem prescindir de muitos (ou. o texto. redes sociais. 3. ainda muito recente. portanto. sem a pretensão. por isso. são efêmeros.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 287 cibercafés. Isso significa dizer que. diferentes produtos finais (“textos”) para leitura (RIBEIRO. multidirecional. nesse momento. crítico e reconstrutor de sentidos (VERGNANO-JUNGER. contudo. Os . diferentes outros textos que podem ser colocados em diálogo com o que se está lendo. Em resumo. fragmentados. entendida como uma atividade complexa. em tal perspectiva. ao menos. 2009). avaliamos essa perspectiva multidirecional como produtiva. já em sua natureza. Adotamos uma abordagem qualitativa dos dados. como e em que medida isso estaria ocorrendo. em conjunto com todos os estudos do grupo de pesquisa LabEV. 2010). v ideogames . com suas marcas linguísticas e tipográficas. blogs. Isso porque entendemos que não se pode produzir sem ser capaz de compreender. No que se refere às TICs e à leitura em meio virtual. histórico e cultural. ao contrário. como nos casos da inclusão de outras tecnologias no passado. que. fomentando a interação e o acesso a uma realidade plurilinguística e pluricultural. parte) deles em seu dia-a-dia. sons imagens etc. a discussão. linguagens. Isso porque os autores que vêm estudando os textos produzidos especificamente em e para ambiente digital os caracterizam como hipertextuais e multimodais (RIBEIRO. Necessariamente. Importam. implicam a existência de diferentes contextos. Propomos. como inovações próprias do ambiente virtual. Uma proposta metodológica O Interleituras se define como uma pesquisa exploratória e descritiva. o leitor com toda a sua bagagem de conhecimentos prévios. seja cedo para uma definição precisa de padrões. A forma de constituição dos gêneros virtuais é hipertextual. interconectados por links. o que significa que não têm um centro. pluralidade acessos se fazem tanto de forma assíncrona como síncrona. 2005. reflexão e construção de um conhecimentos e atitude ativa de seus leitores. de demandando. o contexto espaço-temporal. tais recursos. Deve-se assumir. tanto gêneros que se caracterizam como reestruturações daqueles já existentes em fontes impressas. trabalhando com amostras limitadas. viabilizados pelos recursos das TICs (MARCUSCH. tomando tal compreensão já como um tipo de produção de sentidos. como as próprias práticas sociais relacionadas às TICs. Talvez. também. que está presente em diferentes práticas sociais e demanda um sujeito ativo. tantas inovações estejam transformando nossa maneira de usar a linguagem e interagir. Essa revolução da era da informação é. 2005). De modo que as teorias a respeito e a caracterização de gêneros. oferecer exemplos que favoreçam. 2005. no entanto. Isso permite que cada leitor construa seu caminho próprio e componha. a atividade caracteriza-se como um processo de construção de sentido que inclui insumos de diferentes direções e naturezas. 2004.

de um texto impresso. por um lado. cujo conjunto de coletas está completo. convidaremos os sujeitos a participar de entrevistas a fim de discutir com eles nossas observações. As únicas limitações que lhes impusemos nessas sessões de leitura foram: de tempo (entre 30 e 45 minutos para cada sessão) e de meio (no caso da virtual. com menor pressão e definições de objetivos e atividades por parte dos pesquisadores. (c) quatro protocolos de acompanhamento do processo leitor – dois para leitura impressa e dois para leitura virtual. de um texto virtual e. segundo uma abordagem multidirecional de leitura. No que se refere ao uso do computador e acesso à Internet. Ou seja. hipertextos. cada qual em suportes impressos e virtuais. as sessões são gravadas em áudio. No que se refere ao perfil da ficha de sujeito. d-018 (faixa de 31 a 40 anos) é mais velho que d-019 (faixa de 26 a 30 anos) e ambos são professores de espanhol nos ensinos fundamental e médio. em quatro sessões de leitura: duas livres e duas guiadas. mas se admitindo o uso de materiais impressos próprios). muito. D-018 gasta mais tempo (até 5 horas diárias) em atividades de leitura e no uso da Internet do que d-019 (entre 1 e 3 horas). dificuldades. e em arquivo de áudio e vídeo (voz do sujeito e imagens da tela do computador). ao contrario das leituras guiadas que têm uma tarefa a cumprir. relativamente. contendo propostas de compreensão. a serem resolvidas durante as sessões correspondentes de monitoramento. além do aspecto prático da limitação de espaço. a partir do grau de concordância (nunca/nada. no qual se recolhem as crenças do sujeito sobre leitura. sempre/totalmente) com uma série de 116 assertivas divididas em seis blocos temáticos. limitando-nos às leituras livres: impressa e virtual. nas sessões de leitura virtual. O motivo. leitura em espanhol língua estrangeira (ELE) e uso de bens informáticos. (b) um questionário. dúvidas. enquanto d-018 o faz tanto em casa . junto com o preenchimento dos protocolos. Ao finalizar as análises.288 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS quadro mais amplo da questão. respectivamente livres e guiadas – preenchidos pelo sujeito durante cada uma das quatro sessões de leitura monitorada. Como instrumentos para as diferentes coletas de dados. com informações sobre seus hábitos leitores e de atividades em meio virtual. Apresentando e discutindo alguns dados Neste artigo apresentamos dados apenas de dois docentes – d-018 e d-019 –. pouco. escolhidos pelo fato de que suas práticas leitoras podem influenciar seu trabalho como mediadores e formadores de leitores. Nossos sujeitos são professores de espanhol. que estivesse disponível na biblioteca de um projeto de extensão sob a responsabilidade do Setor de Espanhol da UERJ. estratégias usadas). é que se caracterizam como um contato mais espontâneo com a leitura. qualquer material não digital/virtual/multimídia. respectivamente. por outro. utilizamos: (a) uma ficha de caracterização de sujeito. (d) duas atividades de leitura guiada. apenas o uso do computador conectado à Internet e no caso da impressa. Além do material preenchido pelos sujeitos. 4. procuramos contribuir para responder os nossos problemas: (a) como o processo leitor está sendo desenvolvido em meio virtual e. Também lhes pedimos que registrassem sua atividade no protocolo escrito e que comentassem oralmente (para a gravação) o que fizessem e pensassem durante a leitura (ações. Também fazemos um recorte no que se refere às leituras selecionadas para comentário. (b) em que medida se diferencia e/ou aproxima da leitura em meio impresso. no caso das leituras em meio impresso. Como nossa abordagem de análise é qualitativa. monitoramos apenas seis sujeitos docentes. faixa etária e atividade profissional.

não descar tada pelos pesquisadores. pois a assertiva indica uma supervalorização das imagens que o leitor projeta no texto para lhe dar sentido. mas também entre as duas modalidades de leitura: impressa e virtual. navegação e participação em redes sociais. Quando efetivamente vão ler durante as sessões de monitoramento. ora outro. selecionando textos que contribuíssem para a melhoria de sua prática e planejamentos.”. enquanto d-018 optou por ler para relaxar. nesse caso. Apesar disso. Isso seria admissível. A primeira observação que fazemos se refere à definição de objetivos de leitura e às escolhas de gêneros e assuntos. que se considera apenas como relativamente hábil e autônomo. O primeiro se avalia como um usuário muito hábil e autônomo. na qual “apreender” implica capturar/ receber o que está exposto no texto. escolhendo histórias em quadrinhos e contos com temática de futebol. Contraditoriamente. Já na leitura virtual. nem tecnofóbica) a respeito das TICs e seu emprego. b) d-018 concorda totalmente com a assertiva “O leitor entende um texto ao apreender seu significado. Quanto ao perfil de usuários de meio virtual. Em termos de crenças coletadas a partir do questionário. incluindo a busca de informação e materiais. como e por quê. os papéis se inverteram. já que a leitura pode variar de indivíduo para indivíduo e poderá ser verificado durante a entrevista. No caso da leitura impressa. centrada no leitor. para ter um momento de lazer. Pudemos constatar diferenças não apenas entre ambos os sujeitos. Também contradiz sua tendência multidirecional. talvez pela menor frequência de uso do computador. podendo esta estar centrada no texto ou no leitor. d-019 só o faz em casa. podendo ser avaliadas como pessoas que têm uma posição equilibrada (nem ufanista. numa perspectiva unidirecional. reconhecem tanto os aspectos positivos quanto as limitações do meio.” .ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 289 quanto no trabalho. ao contrario do segundo. desconsiderando que há outros elementos que entram em jogo na interação e contradizendo algumas avaliações feitas em outras assertivas. houve avaliações de assertivas em que ora um. Uma vez que as leituras eram livres. afirmou concordar muito com o fato de que “O domínio de vocabulário. tendendo a uma perspectiva decodificadora. D-018. ao concordar plenamente com “Compreender um texto significa formar uma estrutura mental que representa o significado e a mensagem atribuídos ao texto. esta última não citada por d-018. d-019 manteve-se ligado ao trabalho. podemos tecer algumas reflexões sobre as possíveis tensões entre crenças e práticas.”. Exemplos disso são: a) d-019 concordou totalmente com a assertiva “O centro do processo de leitura é o leitor.” . D-019 restringe seu uso ao e-mail. Focalizam seu interesse em questões relacionadas a trabalho e estudo. ignorando a bagagem do leitor e outros elementos que possam ser conjugados para estabelecer a compreensão. mas. define . ambos o dominam para usos cotidianos de caráter instrumental. cada um poderia definir o que fazer. conceitos e estruturas gramaticais é essencial à leitura. é que as assertivas tenham sido compreendidas de forma diferente da pretendida quando da elaboração do instrumento. tendeu para uma perspectiva unidirecional. com ênfase no texto. quanto d-019 oferecem dados que nos permitem incluí-los numa categoria de leitores prioritariamente multidirecionais. representado pelas suas marcas linguísticas. Uma das possibilidades. embora d-018 abra mais o leque de possibilidades do computador e da rede. tanto d-018.

D-019 considerou-se mais seguro na leitura impressa. não acessou links.290 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS sua atividade em termos de busca de materiais para usar em sala de aula. teria sido mais fácil. usaram como ponto de partida o buscador Google. integrando em sua leitura conteúdos ali encontrados. Ao se autoavaliar. procurou textos sobre atualidade. Em termos estratégicos. dispostos em páginas numeradas e sequenciais. Mesmo assim. na leitura virtual. a fim de se atualizar e informar. estratégias de copiar/recortar e colar. na leitura livre impressa. uma vez que sua formatação vertical. ao contrario de d-019 que esperava ler textos que atendessem seu objetivo de aperfeiçoamento. disse não ter sentido falta de apoio impresso ao ler na tela. sem um fim preciso (nunca temos exata dimensão de sua totalidade espacial). Concluiu que. enviou para si mesmo por email materiais. saltar de um texto para o outro. quase se perdendo. com o skimming servindo como estratégia básica para uma panorâmica geral de cada material. se estivesse em papel. saltando de um a outro (o cursor serviu de apoio a essa movimentação). pois conseguiu seguir do início ao fim e alcançar seus objetivos. sempre silenciosa. ao qual sempre retornavam para novas pesquisas. Embora tenha demonstrado mais proficiência no trato com o computador. A observação do comportamento do mouse e da barra de rolagem da página pôde ajudar a confirmar que a leitura feita pelos dois docentes. Ambos destacaram a importância do conhecimento de mundo e. Era feita em blocos. Provavelmente foi motivado pelo costume que tem de utilizar a Internet como fonte de recursos para suas aulas. havia diferença entre ambos. D-019. Apesar disso. Ao contrário. abandonando o que não lhe interessava e. d-018 demonstrou mais facilidade com a internet e o computador de maneira geral: utilizou editor de texto. d-018 não definiu hipóteses sobre o que encontraria ao ler os textos impressos. Isso ocorria inclusive quando se tratava de uma fonte habitualmente consultada. Apesar de ter mais idade. d-018. educação e política brasileira. no caso de d-019. Selecionou notícias e críticas de arte (procurava textos verbais sobre Guernica) em fontes em língua espanhola. A observação chama atenção. Isso tornava a leitura desconfortável e mais difícil. não sabia o endereço eletrônico para acesso. consultou diferentes sites. sua insegurança concretizou-se pela fragmentação da leitura. ao contrário do que havia feito na leitura impressa. sem relatar nada que os tivesse atrapalhado. seguiu a navegação de forma mais controlada/ordenada. mas também nos permite refletir sobre a necessidade de os textos veiculados em meio virtual serem mais curtos e apresentarem os links para enlaçarem conteúdos. por não conseguir encontrar o que procurava. em português. ao contrário. não deu muito valor às imagens de maneira geral. Já d-019. embora de forma menos linear do que na leitura impressa. dificulta a organização em texto corrido que temos em materiais impressos. salvou arquivos em pendrive. mesmo sendo seu conhecido. já que d-018 mostrouse sempre menos linear. ambos consideraram ter alcançado seus objetivos. como no caso de d-019 com o jornal cujas notícias leu e do qual. o pouco tempo para a atividade (informou que lê devagar). na leitura virtual. Foi um pouco menos linear na leitura virtual. aproveitando melhor os recursos que o meio virtual lhe oferecia. em vista da impossibilidade de encontrar o tema originalmente desejado. guardou informação na área de trabalho para uso posterior. Os gêneros escolhidos foram notícias e vídeo. a não ser. não seguia palavra a palavra. queixou-se que um dos materiais lidos tinha a imagem do quadro Guernica muito antes das suas explicações e comentários. Nesse aspecto observamos a contradição entre crenças e práticas com relação à postura unidirecional . utilizando skimming e scanning. mudando seu foco.

portanto. Aprender a ter consciência dessa tensão entre expectativa e realidade pode nos ajudar a aperfeiçoar a própria compreensão e. embora. adaptadas ao ambiente virtual. mesmo quando tende ao segundo caso em termos de crenças. Referências bibliográficas CASSANY. sejam eles de sua bagagem pessoal. nos textos literários. Después de internet. por parte do sujeito d-018. como já regitramos. n. Nos casos aqui exemplificados. leitores multidirecionais poderão provocar em seus aprendizes um perfil de exploradores dos textos. acessar links. p. A atitude de d-018 foi. sermos melhores professores. não só para aprimorar a formação inicial e favorecer a formação continuada de professores. 57. a necessidade. um perfil leitor que oscila entre uni e multidirecional. somando sua experiência aos constructos acadêmicos. é factível assumir que professores que são exploradores das TICs. Isso. um aproveitamento heterogêneo e não sistemático dos recursos tipicamente virtuais dos textos de gêneros digitais. A fragmentação de atividade leitora em meio virtual atende a uma característica do suporte. inclusive no que se refere à autopercepção da proficiência. aproveitando todos os recursos. mas para interagir com docentes e alunos. 2011. assim.. 12-22. . Destacamos: o uso de estratégias clássicas de leitura. o histórico de como aprendemos e daquilo que usamos. Cabe. apesar de ter apresentado posicionamentos favoráveis a uma perspectiva multidirecional em seu questionário. mais velho do que d-019. ainda. continuar investigando para ampliar o campo teórico e para levar as novas teorias que estão sendo construídas ao terreno da prática. abrir diferentes aplicativos para resolver as questões de leitura. Outro aspecto que nos chama atenção é o fato de que não necessariamente as crenças e percepções sobre nossas práticas leitoras se concretizam durante o ato de ler. mas nem sempre são fatores determinantes. ter tendido igualmente a uma leitura seguida e completa dos contos escolhidos. merece atenção o estabelecimento do diálogo entre academia e meio escolar. A par tir da descrição desses sujeitos. estratégias que possuam. de apoio de suporte impresso em alguns contextos de leitura. Textos de didáctica de la lengua y de la literatura. do contexto. seus gêneros e recursos tenderão a levá-los à suas salas de aula.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 291 marcada pela leitura linear (do início ao fim) realizada e valorizada por d-019. Da mesma forma. defendemos que é possível uma reflexão sobre seu papel na formação de seus alunos leitores e de como tais conhecimentos podem contribuir para otimizar o letramento em espanhol na era digital. Na verdade. gêneros e ferramentas das TICs. Algumas conclusões iniciais Embora não caiba generalizar comportamentos leitores em ambiente virtual com base neste estudo de amostra reduzida. As faixas etárias podem contribuir para a maior ou menor intimidade com o ambiente virtual. abril. Daniel. Em especial e em nossa avaliação. é viável apresentar alguns comportamentos que se caracterizam como possíveis tendências na leitura desses docentes. sob uma perspectiva crítica e reflexiva. conhecimentos. menos linear. observamos uma melhor integração ao meio. do texto ou de outros discursos/textos. poucas foram as estratégias eminentemente virtuais observadas: copiar/colar.. Como normalmente transferimos para nossa atividade 5. didático-pedagógica nossas crenças. mas é rejeitada como falha de leitura pelo sujeito.

A. 2010. 2005. _____. Hipertexto e gêneros digitais ./abr. E. 2009. GÊNEROS DIGITAIS: modificação na e subsídio para a Leitura e a Escrita na Cibercultura. n. 2004.C. RIBEIRO. Rio de Janeiro: Lucerna. MARCUSCHI.2. Rio de Janeiro: Lucerna.). V. 2005.P. Gêneros textuais: definição e funcionalidade. Belo Horizonte: CEALE. Gêneros textuais emergentes no contexto da tecnologia digital. nuevas herramientas. (Orgs. [S.1. VERGNANO-JUNGER. v.]: Unisinos. XAVIER. Elaboração de materiais para o ensino de espanhol como língua estrangeira com apoio da internet. 3 ed. Calidoscópio. 1. jan. MARCUSCHI.l. C. 1.) Gêneros textuais e ensino. p. BEZERRA. p. Gislaine Gracia. 2005. . 125-150.A. Cristina. jan.8. COSCARELLI. métodos y herramientas para el lingüista del siglo XXI. Madrid: Cátedra. (Orgs. A. RIBEIRO. Julia. R. v. p. aspectos soc iais e possibilidades pedagógicas. A. (org). MACHADO. In: DIONISIO. 24-37.292 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS LAVID. 90-101. L. suportes de leitura e escrita. Ana Elisa. n. Ler na tela – letramento e novos MAGNABOSCO. M.A./jun. Luiz Antonio. A. Letramento dig ital. In: Revista Prolíngua (UFPB) . Lenguaje y nuevas tecnologías. ed.

Francia. Alguns o veem como um déspota sombrio. A partir destes fatos desencadeia-se toda a narrativa. do período do governo do Dr. como a ditadura do Dr. como as notas às margens com letra desconhecida que levam à reconstrução das circunstâncias históricas que viveu o Dr. que recuperam vários períodos da história do Paraguai no século XIX e XX. Francia: as revoluções e a independência do Paraguai. soberana? Lo que es más importante ¿de haberle dado el sentimiento de Patria? (…) ¿De esto me acusan? (ROA BASTOS. Francia. no Paraguai (1816-1840). outros como um prócer da nação paraguaia. personagem para quem não foram unânimes os julgamentos da história. Em Yo el Supremo Roa Bastos trata de vários temas ligados ao Dr. o que Patiño jamais conseguirá.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 293 HISTÓRIA. Nos questionamentos do Supremo há a evidência dos temas históricos do século XIX. Para isto o povo deveria ser convocado através do sino da igreja para ver esta barbaridade. os quais Roa Bastos mostra como podem ser reinterpretados pela ficção com a intenção de desvelar um fato histórico mascarado. independiente. No documento apócrifo o Supremo ordena que seu cadáver seja decapitado. o isolamento e militarização do Paraguai como . p. Mas o que há de unanimidade é que ele era um ferrenho defensor da independência e da soberania nacional. 57). O ditador começa a procurar quem seria o autor de tal documento exigindo que seu secretário Policarpo Patiño localizasse o dito autor. O romance Yo el Supremo começa quando um pasquim é encontrado cravado na porta da Catedral de Encarnación em forma de decreto com assinatura falsificada do Supremo Ditador. Em seguida todos os funcionários da casa civil e militar também deveriam ser enforcados. o Dr. MEMÓRIA E FICÇÃO EM YO EL SUPREMO E EM HIJO DE HOMBRE DE ROA BASTOS Damaris Pereira Santana Lima PG .UNESP/ Assis Hijo de Hombre (1971) e Yo el Supremo (1974) são romances do escritor paraguaio Augusto Roa Bastos (1917-2005). Quando ele se defende das acusações sobre si no pasquim fixado na porta da catedral questiona retoricamente: “¿De qué me acusan estos anónimos papelarios? ¿De haber dado a este pueblo una Patria libre. Francia. Francia. 2008. O romance contém notas que complementam e outras que contradizem. que a cabeça seja posta em um poste por três dias.

de maneira que a narrativa é a escrita da leitura de vários textos. Os grandes e pequenos defeitos de seu governo. 274). “al margen escrito em tinta roja” (p. As fontes extratextuais são muitas. considerado pelo Supremo como Neste trabalho de investigação empreendido pelo Supremo e seu secretário Policarpo Patiño para descobrir quem se atreveu a parodiar os decretos do . porque o autor outorgou-lhe um caráter fictício e ao mesmo tempo histórico. ajustando. Também nestas memórias estão as contradições de seu regime paternalista. O Supremo se debate contra uma imagem que lhe fora construída por seus sucessores e em particular por seus detratores. Para a referida autora “son hilos ficcionales de esbozos novelescos que los historiadores hacen y Roa Bastos reorienta” ( BOUVET. O conteúdo histórico utilizado pelo compilador foi produzido pelo próprio Dr. Para a autora “el texto que escribe no olvida en ningún momento que lo es. Na narrativa há muitas evidências de vários fragmentos que dão a impressão de rascunhos. ou seja. 2008. os fuzilamentos. Há um passado. um plano de fundo o qual ele não pode exercer o seu poder de controlá-lo ou corrigi-lo. Francia. Nora Esperanza Bouvet (2009).” (BOUVET. Puedo rehacerla según mi voluntad.30).amigos. consultados. folletos. 97). correspondencias y toda suerte de testimonios ocultados. 2009. a colônia penal. ou de papéis que teriam sido descartados: “hoja suelta”. por fontes contemporâneas ao ditador e por historiadores. as arbitrárias detenções. en bibliotecas y archivos privados y oficiales. “faltan folios” (p. p. adversários e ex. mas que não tem limitações quanto à história. O Supremo pode fazer o que está declarando. Hay que agregar a esto las versiones recogidas en las fuentes de la tradición oral. O romance reescreve a história com dados para a escritura de uma versão divergente da história oficial e hegemônica. “quemado el borde del folio” (p. conta e corrige esta imagem. p. 119). (…) . 31-32). espiados. já que a narrativa é pós-morte. foi-se passando a limpo a história. Todos os temas que fazem parte do romance tem matriz historiográfica. pois fala do presente da enunciação do romance e se remete à história do Paraguai anterior à ditadura do Dr. seus caprichos e sua postura para com os estrangeiros. Supremo. no pretende ser otra cosa (reflejar ni representar nada) sino escritura generada por esas otras escrituras contra las cuales se vuelve. per iódicos. enquanto ele narra. A história é apresentada através da visão do Supremo que se gaba afirmando: “Yo no escribo la historia. éditos e inéditos. “Letra desconocida” (p. as crueldades e castigos para com inimigos. Esta maneira de construir a narrativa possibilita a Roa Bastos ir do passado ao futuro.de unos veinte mil legajos. O Supremo age de acordo com sua vontade nesta contra-história que é construída com personagens e acontecimentos que são históricos. Este conteúdo histórico é integrado ao simulacro romanesco. É muito clara a denúncia contra o regime atual. à narrativa. personagem que não é onisciente. Francia. 2009. espigados. (ROA BASTOS. enriqueciendo su sentido y verdad”. 76). y unas quince mil horas de entrevistas grabadas(…) (ROA BASTOS. 585).66). 2008. de otros tantos volúmenes. em sua obra Estética del plágio y crítica política de la cultura em Yo el Supremo diz que em seu romance Roa Bastos realiza um trabalho de transformação dos materiais historiográficos em literários para construir uma obra de ficção colada aos referentes históricos que questiona os modos que se utilizaram para construílos. A cópia deste material dá voz à memória do Supremo. reforzando. A história da Ditadura Perpétua é a matéria da ficção e consiste na cópia de escritos de e sobre o ditador. La hago.294 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS estratégia do ditador para livrar seu país das intenções anexionistas de Buenos Aires e as imperialistas do Brasil. p. p. incluindo o presente da narrativa e até transcendê-lo.

Hijo de Hombre conta a história de dois povoados. Além dos dados citados acima. Yo el Supremo é uma narrativa que desestabiliza o que a história oficial registrou. texto do livro de Ezequiel. Francia (1814-1840) e da guerra contra a Tríplice Aliança (1864-1870). quando lhes fora roubada grandes extensões de terra. a religião como veículo de transculturação. sus hordas depredadoras de mamelucos. assim a soberania nacional do Paraguai. conta a história do ditador e do país alterando a linearidade da história oficial. 12). 2008. Em Hijo de Hombre emerge a convivência dos rituais e ideias míticas aborígenes junto aos ritos do cristianismo.” (ROA BASTOS. e termina com a morte de Miguel Vera e a conservação e compilação de seu manuscrito por Rosa Monzón. pouco tempo depois do final da guerra do Chaco em 1935. O personagem faz alusão às relações entre Paraguai e Brasil e à sua firme política de defesa da integridade territorial. período do governo do general Alfredo Stroessner (1954-1989). onde o Supremo insiste em falar das más intenções do Brasil. no entanto há alusões a fatos que precedem a esse período. lugar “perdido em el corazón de la tierra bermeja del Guairá” (ROA BASTOS. personagem que era considerado a aparição do passado. “Ya nos ha robado miles de leguas cuadradas de territorio. 1971.” (ROA BASTOS. no entanto se fundem dando origem a uma nova visão de mundo. Esta afirmação é evidenciada desde as epígrafes do romance. O principal da narrativa se dá nesse segmento temporal. Na Circular Perpétua o Supremo declara: “Llámese Imperio de Portugal o del Brasil. A descrição do povoado de Itapé. criador do Cristo de Itapé. as rebeliões dos camponeses e a guerra do Chaco. A cultura ocidental é mesclada com o substrato dos autóctones. observar-se-ia que os acontecimentos começam em 1910. 115). los altos de nuestras sierras aserradas con la sierra de los tratados de límites. 2008. 115). Antigo Testamento e a outra é o Himno de los muertos de los guaraníes. referindo-se à construção da usina de Itaipú. Sapukai e Itapé e do seu povo. sendo uma da tradição judaico-cristã. da fundação de Sapukai e do desaparecimento de Gaspar Mora. Hijo de Hombre (1960) é o romance de Augusto Roa Bastos que recupera a história do começo do século XX. data da chegada do cometa Halley. Dr. las fuentes de nuestros ríos. 11). Os fatos históricos que se referem ao século XIX são evocados pelas memórias do ancião Macario. cria outra história acrescentando o não registrado. o que não se sabe e o que se desejaria saber sobre Francia. espaço onde restavam poucas coisas do tempo . o segundo momento é o presente. e a seguir trata de um tema presente naquele momento. los saltos de nuestras aguas. No texto da Circular Perpétua o Supremo traz à memória as invasões brasileiras em território paraguaio. A identidade paraguaia se constrói em um espaço onde as culturas lutam para se impor e. a obra ainda evoca a história do período da ditadura de José Gaspar Rodríguez de Francia. Neste fragmento há a alusão a dois momentos: o primeiro à agressão do império português no passado. “hijo de uno de los esclavos del dictador Francia” (ROA BASTOS. 1971. Onde a língua e a religião espanhola se modificam pelo contato com a língua e com a religião do índio. O narrador conta o que ele ouvia quando criança através do velho Macario. p. P. pelo império do Brasil. de bandeirantes paulistas a los que contuve e impedí seguir bandereando bandidescamente en territorio patrio. quando especifica o roubo de los saltos de nuestras aguas. que foram trazidos pelo colonizador há mais de quinhentos anos. Se o tempo da obra fosse ordenado de maneira linear. fundindo a cultura cristã com a cultura aborígene. a saber. somente. protegendo. no período de aproximadamente vinte e cinco anos.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 295 entreguista. p. p.

citações intercaladas.” (ROA BASTOS. 2010. a visão que Macario apresenta é o Dr. Sobre o tema Jacques Le Goff ainda pontua: “A memória é um elemento essencial do que se costuma chamar identidade. Relatos. O romance é construído sobre um sistema de citações direta e indiretas. Ninguém se atrevia a fugir deste reino de terror.24). p. ou a Guerra Grande é evocada no romance. O Supremo ironiza utilizando a metáfora de Platão “Estómago del alma. Para o Supremo a memoria dos “memoriosos” é uma má memória. p. o esquecimento faz parte da estrutura da memória . Memoria de ingiero-digiero. 2010. 218). ou seja. Yo el Supremo é uma metanarrativa onde se percebem as considerações iniciais e as dúvidas a respeito do quê e como narrar na maior parte das modalidades da escrita que irá inserir os diálogos do ditador com seu secretário. Desfigurativa. o ditado de uma longa circular. mas muita dor. A memória tema recorrente nas narrativas de extração histórica tem papel de destaque na sociedade em termos de representação coletiva.” Compara seus opositores a animais ruminantes e define suas memórias como “ Memoria de mascamasca. ¡Vaya fineza! ¿Qué alma han de tener estos desalmados calumniadores? Estómagos cuadrúpedes de bestias cuatropeas. Mancillativa. Outro tema histórico evocado no romance é a tortura e a vigília que se estabeleceu nos ervais eram como menciona o texto. Para o Supremo. A guerra contra a Trílice Aliança. anotações de uma letra desconhecida. tem uma intertextualidade complexa. intertextualidade que traduz o inconsciente coletivo do Paraguai no período histórico registrado pelo romance. que repete sem refletir e é demasiada porque exige esquecimento. 14) Ao contar sobre a Ditadura Perpétua. reflexões em um caderno privado. p.296 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS da sua fundação há mais de três séculos. perseguido pelo avanço da modernidade que promete sucesso para alguns. cuja busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje. Francia defendia a nação das tentativas anexionistas do Brasil e da Argentina. um dos presos militares da prisão de Peña Hermosa. A Guerra del Chaco (1932-1935) é outro fato histórico evocado em Hijo de Hombre através dos registros do diário de Miguel Vera. Repetitiva. A narrativa apresenta um país destruído pelas guerras com seus vizinhos. conforme a narrativa. miséria e esquecimento para a maioria da população. amparadas pela lei. também através das memórias de Macario. No primeiro capítulo é evocada a história da Ditadura Perpétua quando se narra a vida de Macario que “ habría nacido algunos años después de haberse establecido la Dictadura Perpetua. Uma das poucas coisas que resta é o rancho do Cristo no alto do monte de Itapé. O início do romance apresenta as memórias do narrador sobre o que ouvia na sua infância. a história anterior ao tempo da narrativa. pois: “Os indivíduos que compõem uma sociedade sentem quase sempre a necessidade de ter antepassados. 2008. Profetizaron convertir a este país en la nueva Atenas. pois. Lembrar o passado é uma necessidade do ser humano. Su padre el liberto Pilar era ayuda de cámara del Supremo . las artes de este Continente…” (ROA BASTOS. 218). las letras. países que segundo o Supremo. os espaços e os relatos de Hijo de Hombre apresentam a imagem de agonia da história e da sociedade paraguaia do começo do século XX. queriam devorar a nação paraguaia. pode ser compreendida como reconstrução do passado e como conservação das experiências humanas. Os personagens. A memória.” (LE GOFF. na febre e na angústia . p. Areópago de las ciencias. 1971. bem como a história. é meramente armazenadora. individual ou coletiva.” (LE GOFF.

nobles señores. O esquecimento não significa amnésia. os fatos revolucionários pela independência do seu país. A narrativa é uma construção em leitura. da Pré-história à Antiguidade. pois o discurso da história não é confiável. Os “arquivos de pedra em Yo el Supremo. 315) . Pedras como fio condutor da reflexão sobre a memória e como um recurso literário. Em Yo el Supremo o leitor se depara com diversos monumentos escritos. pois há uma diferença substancial na produção literária de Roa Bastos. escrita e correção do que se escreve. mas ao mesmo tempo o autor pontua que uma memória que nada esquecesse seria considerada monstruosa.40). nas circulares. Olvídenlas. etc. Es el único modo que tengo de comprobar que existo aún. mas a qualidade do que se lembra ou se esquece. Segundo Paul Ricoeur (2007. Em Yo el Supremo há a simbologia de duas pedras: a piedra-bezoar e o meteoro-azar. O referido autor ainda salienta que “ todo documento tem em si um caráter de monumento e não existe memória coletiva bruta. Al principio no escribía. a piedra-bezoar e o meteoro-azar estão associados às reflexões sobre a memória. 428). Rotundamente no. pois é uma maneira de se renunciar al beneficio del olvido. o “exceso de memória” carrega o discurso de detalhes desnecessários. “le hace ignorar el sentido de los hechos. Já em Hijo de Hombre o tratamento da memória é diferente do que se vê em Yo el Supremo. 2010. (RICOEUR. faz-se necessário esquecê-la. A escrita que possui as funções de armazenamento de informações e a possibilidade de reexame e de correção. a história ou a imprensa oficial não conseguiriam penetrar nos pensamentos de uma sociedade.” (ROA BASTOS. p. p. pois é um discurso incapaz de escrever o que passa pelo imaginário coletivo. (…) Se escribe cuando ya no se puede obrar (ROA BASTOS. Ahora debo dictar/ escribir. não é a quantidade do que se lembra ou do que se esquece que faz construir uma boa memória. De seguro estarán fatigadas sus mercedes con tantas bufonerías. 424). p. “Disculpen. 2007. A própria memória luta contra o esquecimento. p. se lo ruego.. 2008. pois. O referido autor problematiza esta perspectiva paradoxal dizendo que o esquecimento constitui-se uma das condições da memória.” (ROA BASTOS. p. pois é nos documentos históricos. Después olvidaba lo que había dictado. conforme ele mesmo declara em entrevista a qual se refere Bouvet (2009). Em Yo el Supremo. 75. no documento apócrifo. Aunque estar enterrado en las letras ¿no es acaso la más completa manera de morir? ¿No? ¿Sí? ¿Y entonces? No.” (LE GOFF. que se encontram os fios condutores da narrativa. ele fala das formas de memória que são a comemoração. Para Le Goff “a outra forma de memória é o documento escrito num suporte especialmente destinado à escrita”. 435) . Como a memória é imortalizada pela escrita. p. anotarlo en alguna parte. 2008. “Yo busque superar los estereotipos de la narrativa regional. 427) discorre sobre o desenvolvimento da memória: da oralidade à escrita. em princípio o esquecimento é considerado um dano à confiabilidade da memória. É necessário saber lembrar e saber esquecer. memória e esquecimento exigem equilíbrio. . No romance a tônica é a revisão e a correção dos arquivos que armazenam a história do Paraguai. Quando Le Goff (2010.) Esta passagem corrobora a importância da escrita na preservação da memória. únicamente dictaba. a celebração através de um monumento e pontua sobre a pedra mármore como suporte a uma sobrecarga de memória. Lo que es necesario recordar es el bien de nuestras patrias. Nisto se vê o objetivo de Roa Bastos em se escrever uma intra-história. p.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 297 porque para lembrar alguma coisa. Lembrar somente o que convém. pois faz-se necessário poder esquecer dos detalhes sem relevância para concentrarse no que é essencial. 2008.

As declarações acima podem ser consideradas resposta à diferença percebida na maneira de produção textual e de tratamento do tema memória. (..” (ROA apud BOUVET. Emerge no relato sobre María Regalada a filha do coveiro.” (BOUVET. pela fragmentação da cultura paraguaia. No estoy reviviendo estos recuerdos. do filho do escravo. uma intertextualidade. p. A observação de que as histórias eram sempre contadas em guarani mostra que Paraguai é uma sociedade que neste momento parece estar em transição entre a oralidade e a escrita. 27). Vale ressaltar que o ancião Macario sempre contava suas histórias em guarani. com certo pesar. pontua que toda a evolução do mundo contemporâneo se dirige para as memórias coletivas.)” (LE GOFF. etc. “História que fermenta a partir do estudo dos ‘lugares’ da memória coletiva. 27) e se auto justifica por sua situação como escritor exilado. Em outro momento do romance há a alusão à Guerra Grande quando se trata da relação morte e vida no imaginário nacional. do motorista. de uma cultura ágrafa de uma literatura sem passado. el planteo estético había quedado condicionado por el mandato ético. Mi testimonio no sirve más que a medias. p. Em muitos povoados paraguaios o cemitério é o lugar mais antigo. 1971. Escrever suas lembranças é também uma maneira de contar e reviver o passado. 2009. p. Sapukai não seria o único povoado fundado junto a um cemitério secular. siento que a la inocencia. “(. pois diz que seu .. assim. o bilinguismo e a oralidade geraram o “mandato ético” de denunciar esta situação e de dar voz ou ser de alguma maneira o intérprete de uma coletividade vitimada pela desventura de suas vicissitudes. do leproso..) lugares monumentais como os cemitérios (. se mezclan mis traiciones y olvidos de hombre. Miguel Vera que apresenta suas lembranças de infância: Yo era muy chico entonces. pela inexistência de uma tradição literária paraguaia na qual inserir-se. Jacques Le Goff (2010). As memórias de Miguel Vera contando de sua infância. lugares simbólicos. O trabalho como coveiro era muito cobiçado em Sapukai. mas com o objetivo de purgar os males cometidos consciente ou inconscientemente no passado. Ahora mismo. ou seja. las repetidas muertes de mi vida.) em Hijo de Hombre y otros textos. A passagem revela que conta-se para reviver o passado. A história se esforça para criar uma história científica a partir da memória coletiva. tal vez los estoy expiando.. (ROA BASTOS. O fato de o país ser marcado por tantas mortes faz dos cemitérios lugares monumentais. ao tratar dos desenvolvimentos contemporâneos da memória. 1971. Ele declara ainda que não conta e escreve com a intenção de reviver o passado. E diz ainda que quando escreveu Yo el Supremo tinha deixado de ser o cruzado de uma literatura militante. 2009. p. Em Hijo de Hombre desde as primeiras linhas emergem as memórias da coletividade na voz do excêntrico. evidenciadas pelas repetidas mortes provocadas por Miguel Vera.. 467). “El puesto de sepulturero en Sapukai es casi una dignidad”( ROA BASTOS. aqui quem é detentor da memória coletiva detém uma memória essencialmente oral. a los asombros de mi infancia. p. Me había librado de esa conciencia que parecía estar dictándome los infortunios de la colectividad. Neste fragmento também é evidenciada a marca de tempo cíclico. 52). “Lo que quería entonces era trabajar el texto desde adentro.14).” (BOUVET.298 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS pero equivoqué el camino hacia fuera y hacia adentro. A memória também aparece na voz do narrador. mientras escribo estos recuerdos.. 28). y podía dejar que esos infortunios fueran irradiados por la vida misma del texto. Os dois romances de Roa Bastos aqui comentados são textos em que história e ficção se cruzam promovendo. 2010. testemunho não serve mais para nada. 2009. p.

ROA BASTOS. Antônio. . o esquecimento.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 299 O discurso ficcional ao dialogar com a história faz um questionamento à história oficial. Augusto. 1971. 1971. Uno al nacer. 2008. 2010. Campinas. 2007. Asunción: Servilibro. RICOEUR. Estética del plagio y crítica política de la cultura en Yo el Supremo. como diz o próprio Roa. Buenos Aires: Debolsillo. Roa Bastos – Vida. História e Memória . Paul. ROA BASTOS. Jacques. desta maneira uma contra história. Campinas. obra y pensamiento. 2012. Hijo de Hombre. Alain François [et al. 38) Referências bibliográficas BOUVET. (trad. construindo. Nos dois romances há também a presença de memória e esquecimento. LE GOFF. Nora Esperanza. a história. Buenos Aires: Editorial Losada. SP: Editora da Unicamp. A memória. Yo el Supremo . “—Porque el hombre. temas em debate na atual produção literária da América Latina. tiene dos nacimientos. Asunción: Servilibro. otro al morir… Muere pero queda vivo en los otros.]. p. la tierra come su cuerpo pero no su recuerdo…” (ROA BASTOS. Y si sabe olvidarse en vida de sí mismo. si ha sido cabal con el prójimo. 2009. Augusto. mis hijos – decía repitiendo casi las mismas palabras de Gaspar–. PECCI. SP: Editora da Unicamp.

observando o que se espera do aluno quando estudam os conectores. parecem intercambiáveis. quando comparamos suas definições. são muito próximos e. mas sim. aqui entendido como uma construção social.300 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS O TRATAMENTO DOS CONECTORES NAS COLEÇÕES DE LÍNGUA ESPANHOLA APROVADAS NO PNLD-2012: UMA QUESTÃO TEXTUAL OU DISCURSIVA? Daniel Mazzaro Vilar de Almeida PG-UFMG/UFV/UNIFAL Introdução Nos estudos linguísticos existem muitos conceitos e termos que. se não contraditórios. percebemos que não existe um trabalho efetivo desses elementos que ultrapassem o âmbito formal do texto. portanto. Em seguida. sob os nomes das classes gramaticais tradicionais a que pertencem. frequentemente. No entanto. já tomamos a perspectiva de que se tratam de elementos ou conceitos diferentes. Embora não apareçam sob esta nomenclatura. como texto. não são levados em conta como elementos que conectam mais que frases ou enunciados (embora este último conceito alcance a semântica e/ou a pragmática da língua) e alcançam o nível discursivo do texto. discurso e gênero (textual e discursivo). Em outras palavras. dentre as diversas possibilidades de . parece crucial. Isso acontece até mesmo com os objetos de estudo mais recorrentes nas teorias modernas. mostrarei como também são escorregadias as definições do termo conector e seu “quase” sinônimo marcador discursivo. às vezes. Texto e discurso: limites incertos Ao propor a diferenciação de texto e discurso neste trabalho. partirei de uma breve discussão dos termos texto e discurso para mostrar a complexidade da separação entre ambos. o que parece ser um senso comum para vários linguistas e teóricos da linguagem. analisarei as três coleções de Língua Espanhola aprovadas no PNLD de 2012. Neste trabalho refletirei sobre o tratamento dos conectores nos livros didáticos do Ensino Médio aprovados no PNLD 2012. a nossa intenção é escolher. Ao desenvolver um estudo sobre qualquer elemento que se inclui ou que leva no nome algum desses termos. Sendo assim. refletir sobre o posicionamento teórico que se segue. Após essas ponderações.

como vimos anteriormente. As restrições podem ser um posicionamento em um campo discursivo (discurso feminista). estável e abstrato. discurso deve ser visto de forma diferente de língua. discurso é um uso restrito desse sistema compartilhado. isto é. mas também a interação (ou atuação) de acordo com práticas socioculturais. Enquanto a primeira define o texto como uma sequência coerente e consistente de signos linguísticos delimitada por interrupções significativas na comunicação e possui status de maior unidade linguística. e sim parte de atividades mais globais de comunicação. o discurso é o uso da língua em um contexto particular. uma unidade linguística mais alta. Fazendo um breve histórico do conceito de texto. na interação. superior à sentença e. No primeiro caso. o compreende no seu próprio processo de planejamento. Essa distinção permite distinguir a atividade discursiva nas suas múltiplas dimensões e sua única manifestação verbal. que filtra esses valores virtuais ou que pode suscitar novos valores (vê-se uma associação de discurso à dimensão social e mental). já que esta é entendida como sistema de valores virtuais e/ou como idioma compartilhado pelos membros de uma comunidade linguística. o que deixa margens a dúvidas se realmente existe uma diferença entre esse e discurso. Mas. as pesquisas da área discursiva podem se separar em dois polos: . o conceito de texto já incorporou o de contexto. uma atividade verbal em contexto que se manifesta sob a forma de unidades transfrásticas. não apenas a depreensão de conteúdos semânticos. o texto passou a ser entendido como um sistema uniforme. Desse ponto de vista. expressivo e referencial. em decorrência da ativação de processos e estratégias de ordem cognitiva. ou seja. ele pode englobar muitas ideias. produções verbais específicas de uma categoria social (discurso das enfermeiras) ou uma categorização baseada num critério comunicacional (discurso polêmico). em um momento dos estudos da LT. um tipo de discurso (discurso jornalístico). objeto. tem-se afirmado que o discurso é a relação de um texto com seu contexto (discurso = texto + contexto). verbalização e construção.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 301 definições. Ao fazer um panorama sobre análise do discurso. Maingueneau (2008) explica que discurso pode ser. Segundo Maingueneau (2008). escrita ou oral. uma diferenciação que possa nos servir para compreender o que acontece com o tratamento dos conectores. Quanto ao primeiro. desde o entorno sociocultural no qual a atividade comunicativa se desenvolve. de modo a permitir aos parceiros. dessa forma. a segunda fase o define não como uma estrutura acabada (um produto). Maingueneau (2008) esclarece que. No entanto. e a linguagem é considerada na sua relação com seus objetivos social. Já a terceira fase considera que sempre teremos à nossa disposição mais de uma definição de texto ou daquilo que se postula ser o objeto da Linguística Textual (LT). Ele passa a ser visto como uma manifestação verbal constituída de elementos linguísticos selecionados e ordenados pelos falantes durante a atividade verbal. até seu cenário imediato de ocorrência ou o conhecimento prévio dos falantes e a própria linguagem . 1 É nesse mesmo caminho tortuoso que se tenta definir discurso. por outro lado. que foram passos expressivos para perceber que o texto não é apenas um combinado de frases. por um lado. uma vez que a análise do discurso é uma tentativa de articular estruturações textuais e situações de comunicação. a textualidade seria uma propriedade distintiva do texto. Quanto ao contexto. Bentes (2001) identifica três fases. se desprendem conceitos como textualidade e contexto . No segundo caso. Discurso é também diferente de texto.

Barbéris. e em seguida os pragmaticistas. de que nem todas as teorias (que não são poucas) coincidem entre si e. orações. no entanto. partículas pragmáticas. A questão é que. . Vejamos. referindo-se. aos mesmos elementos estudados e. apoios do discurso . J-M. os conceitos atribuídos a esses termos ora se identificam.De outro. Roulet em Genebra.23-24) O autor faz uma divisão interna da área discursiva para a qual utiliza termos específicos: na definição do primeiro polo aparece a expressão “organização textual”. e na do segundo polo ele usa “discursos” e “posicionamentos ideológicos”. seja suas características sintáticas etc. por exemplo. especialmente na Suíça romanda. Por isso. os limites do texto estão em sua organização sistêmica. é possível encontrar termos como marcadores de relação textual .). Curiosamente. essa diferença costuma estar no imaginário comum quando se distingue texto de discurso . frases. partículas discursivas etc. . não se chegou a um acordo em questões básicas como a denominação e definição de seu conceito. enunciados ou segmentos discursivos. Devemos ter a noção. já que no tratamento dos marcadores discursivos elas se complementam devido aos âmbitos do objeto de estudo que cada teoria analisa: seja o contexto em que aparece um conector. quando ele explica que a finalidade dessas expressões é de guiar as inferências que se realizam na comunicação.De um lado. M. Várias foram (e são) as teorias que deram sua contribuição para elucidar a questão e o funcionamento dos conectores2. Bres. Em Almeida (2011).. enquanto que os limites do discurso se encontram em seu alcance sócio-ideológico.147-148). primeiramente os gramáticos e filósofos. como explica Escandell (2006). como se definem os conectores. marcadores de estruturação textual. seja a intenção do falante em usá-lo. 1998. seja a carga semântica da expressão. Fiala) ou o grupo de Montpellier “Praxiling” (J. las inferencias que se realizan en la comunicación.. elementos que. P. ou E. além disso. semánticas y pragmáticas. a conceituação de MD e conectores apresentam diferenças. 2008. Détrie. optamos por não nos deter a apenas uma das teorias. operadores discursivos. Tournier. Siblot. como descrever o valor dos elementos de conexão entre orações e outros elementos se tantos pesquisadores o tomam o tomaram como seu assunto de investigação? Conectores ou Marcadores Discursivos? Uma das maneiras de alcançar o sucesso de que um texto/discurso possa fazer sentido é por meio de conexões entre as palavras. na próxima seção. Portolés (1998). aqueles que visam primeiramente articular discursos e posicionamentos ideológicos. Ou seja. os pesquisadores que têm como argumento o estudo da organização textual. foi um dos problemas que mais preocupou. (MAINGUENEAU. ora se complementam. muitas vezes. B. enlaces extraoracionais . conectores pragmáticos . usa o termo marcadores del discurso e assim os define: son unidades lingüísticas invariables.-M. (doravante MD). por isso. ou seja.302 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS . P. que defendem uma concepção de linguagem na qual se misturam as influências do marxismo e da linguística da enunciação. J. Bonnafous. parágrafos. devido à diversidade de critérios adotados e às diferentes proposições metodológicas a partir dos quais se tem abordado o estudo dos conectores e dos marcadores discursivos Vê-se claramente o eixo pragmático e semântico da definição de Portolés. (PORTOLÉS. p. Adam em Lausanne. no ejercen función sintáctica en el marco de la predicación oracional y poseen un cometido coincidente en el discurso: el de guiar. Podemos citar pessoas que trabalham na revista MOTS (S. conectores discursivos . p. de acuerdo con sus distintas propiedades morfosintácticas.

por isso heterogênea e historicamente situada. então. principalmente quando explica que os conectores funcionam. (MONTOLÍO. intenções e argumentações podem se materializar no discurso por meio de conectores de modo a guiar o interlocutor desse texto/discurso no processo de interpretação. por ello. como vimos anteriormente. intenção(ões) e argumentação(ões). podemos ver que o conceito de linguagem está bem próximo ao que discutimos sobre discurso já que expressam ideologia(s).27) Assim. que envolve concepções. se sob o viés textual ou discursivo. Enlaces (OSMAN et al. 2010). Até este momento. 2010) e Síntesis (MARTIN. Sua definição também possui uma estreita relação com a semántica e pragmática. prática discursiva. atividade em permanente construção. esses pontos de vista. valores e ideologias inerentes aos grupos sociais. Nossa pergunta é: por que o termo mais usado é marcador discursivo e não textual? Portolés (1998) entende por discurso la acción y el resultado de utilizar las distintas unidades que facilita la gramática de una lengua en un acto concreto de comunicación.21) Estas perguntas dariam origem a outras pesquisas.10). p. expressa por meio de manifestação verbal e não verbal e que se concretiza em diferentes línguas e culturas. “como señales de balizamiento que un escritor eficaz va distribuyendo a lo largo de su discurso. p. Portolés e Montolío se preocupam pelos posicionamentos ideológicos dos sujeitos envolvidos no jogo discursivo ao estudar os conectores e MD? Até que ponto as questões socioculturais influenciam o uso e interpretação desses elementos nos discursos? . marca um limite com a definição de discurso proposta pelas correntes de Análise do Discurso. a fin de que su lector siga sin esfuerzos ni dificultades el camino interpretativo trazado” (MONTOLÍO. áreas de muita influência na Linguística Textual e na Análise do Discurso. estreitamente relacionada à de enunciado 3. p. obtenida gracias al contexto. 2001. VILLALBA. ponto(s) de vista. as coleções. esse elemento é de extrema importância para a leitura crítica do texto. ayudar al receptor de un texto guiándole en el proceso de interpretación. devem entender e orientar em suas atividades a linguagem como atividade social e política.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 303 De forma parecida. já que é uma porta para inferências do tipo socioculturais. esto es. todo discurso se compone de una parte puramente gramatical y de otra pragmática. em um texto. temos as informações de que tanto as definições de marcadores discursivos como de conectores possuem uma raiz muito forte na pragmática e na semântica. mas usa o termo conectores e explica que (…) tienen como valor básico esta función de señalar de manera explícita con qué sentido van encadenándose los diferentes fragmentos oracionales del texto para. para serem aprovadas. Logo. de esa manera. voltemos à proposta deste texto e analisemos como os livros didáticos de espanhol aprovados no PNLD 2012 tratam os MD e os conectores. 2010). Montolío (2001) propõe uma definição. (PORTOLÉS. Vejamos. como os conectores/MD são tratados nas três coleções didáticas de espanhol do Ensino Médio aprovados no PNLD 2012 que são as seguintes: El arte de leer en español (PICANÇO. conforme dividimos de forma didática anteriormente. p. Um olhar sobre os conectores nas coleções de Língua Espanhola do Ensino Médio aprovadas no PNLD 2012 Segundo o Guia de Livros Didáticos: PNLD 2012: Língua Estrangeira Moderna (2011. Dessa forma. 1998.21). Essas ideologias. E essa definição. 2001.

expressões temporais (unidade 6). Nos volumes anteriores citam. isto é. afirmación. volume 2) e expressões de possibilidade e desejo (unidade 6. Assim como nesses livros.. probablemente. A coleção Enlaces apresenta os conectores principalmente no volume 3. por exemplo. por lo tanto na unidade 1 do volume 2). tratam das variações e. nem todos se explicam por meio de fragmentos dos textos para que o aluno entenda seu funcionamento. negación e duda. o tratamento dos conectores por eso.. tiempo. modo. por exemplo. uma breve explicação sobre . os conectores são trabalhados pela primeira vez no capítulo 1 do segundo volume na seção Gramática básica . algumas conjunções (y/e. porque. por su parte e sino a partir de frases retiradas dos textos das seções ¡Mira! e ¡Acércate!. o e pero por meio de exemplos tirados do áudio do capítulo e uma tirinha (apresenta-se o valor e um exemplo de cada conjunção). na seção Para consultar um sinônimo e/ou uma breve explicação do seu sentido. na primeira unidade. Após alguns exercícios de escrita nessa mesma seção.304 Vejamos apresentados nelas.) e outros exemplos. Já no volume 2. como eles são Na coleção El arte de leer en español. quizás. quando se trabalha o subjuntivo e é proposto ao aluno fazer frases sobre os personagens de um texto lido usando as expressões ojalá. Os autores propõem um trabalho com as conjunções de coordenação y. e no volume 3 também aparecem outros conectores. Assim. expressões condicionais (unidade 7). Os conectores parecem ser resgatados novamente apenas no volume 3. como. ante. os MD não aparecem em apenas um volume como um tema a ser estudado. Novamente estas e outras expressões aparecem no capítulo 5 na seção Gramática básica sob o título Adverbios em um quadro-resumo dividido em lugar. por eso. ni. sin embargo. Parte deles aparece em atividades de preencher lacuna e possui.. A divisão nas unidades é semântica: expressões concessivas (unidade 4). tampoco. cantidad. unidade 5). así. classe gramatical etc. Essas expressões são explicadas posteriormente na seção Para charlar y escribir . por meio de um quadro-resumo com outros exemplos e. así que. ora e luego aparecem ser ter nenhum estudo sistemático prévio. alguns advérbios de frequência (volume 1. uma atividade oral. sin embargo. ó e u das duas primeiras conjunções e propõem atividades principalmente de preencher lacunas. No caso da coleção Síntesis. na qual os autores os apresentam sob o título “conectores del discurso”. no volume 1. marcadores temporais (unidade 3. exceto na unidade 8. o tema é resgatado em Como te decía. ya que. no segundo capítulo. porque. o/ ó/u. debidamente e si bien . no es seguro que e tal vez. o sea. sin embargo. por eso. na qual encontramos fragmentos dos textos (frases). además. isto é. mas sim ao longo dos três. como ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS os conectores são o segmento que segue o conector (tempo verbal. como aunque (unidade 2) y si (unidade 3). volume 2). temos. Como nossa intenção neste trabalho não é o de esgotar o assunto sobre o tratamento dos conectores nas coleções aprovadas no PNLD-2012. com destaque nas expressões. dedicadas à leitura e compreensão de texto. outras conjunções como aunque. Em uma delas. a unidade 3 apresenta na seção Para consultar (seção na qual consta um pequeno resumo dos temas linguísticos contemplados na seção gramatical ¡Ojo! ) de uma breve explicação das expressões en suma. ora. e sistematizados nessas coleções. o volume 3 trata dos MD na seção Manos a la obra . não vamos descrever cada uma das atividades. pues. Deixamos claro que nem todos os conectores citados apresentam o mesmo tratamento. em seguida..

por exemplo. que desde o primeiro volume já apresenta um estudo de MD mais comuns. Não me refiro a questões que pedem. Isso talvez se deva ao fato de os materiais preferirem seguir uma sequência de temas que está próxima à das gramáticas tradicionais. como guia na interpretação discursiva. F. Introdução à Linguística: domínios e fronteiras. chegamos a algumas conclusões preliminares: 1) O estudo dos conectores costuma aparecer a partir do volume 2. a causa de um fato e o aluno encontra a expressão porque ou ya que no texto e responde à atividade. Não dizemos que isso seja equivocado. (Org). começando pelo artigo e terminando nas conjunções. ignora-se seu alcance social. da 2ª série. pudemos perceber também que não há atividades de compreensão de texto nas quais seja BENTES. Refiro-me a leituras inferências sociais. C. apresentação de sinônimos e ideias dos conectores. Como já dito. isto é. mas. por exemplo. enumeraremos apenas essas. devido ao recorte do trabalho. Referências bibliográficas 4) Os marcadores discursivos são um assunto gramatical. Em: MUSSALIM. a refletir sobre a estratégia textual de apresentar determinados argumentos como contrapostos ou como causa-consequência. já que o objetivo do ensino médio é de formar leitores críticos e isso só pode acontecer por meio de leituras analíticas que englobem as questões extratextuais. dessa forma. na qual os alunos devem relacionar ideias por meio de conectores e também conjugar os verbos. A exceção é da coleção El arte de leer en español. linguístico. aparecem apenas nas seções destinadas a tal estudo. Considerações finais Por meio das conclusões preliminares da análise do tratamento dos conectores e MD nas coleções de espanhol aprovadas pelo PNLD-2012. ou seja. 1. Inclusive as atividades refletem esse pensamento. nosso objetivo é ver o alcance do tratamento dessas expressões. ignorando. 245-287. no final das contas. e. o seu tratamento entre parágrafos. mas sim de necessidade. Dessa constatação. Há exceções. mas sim que não contempla mais que o uso semântico das expressões. A. BENTES. ou seja. 2) As obras costumam restringir-se à importante fazer inferência de um conector. .. Outras conclusões podem ser obtidas. Anna Christina (2001): Linguística Textual. Eles não são tratados. São Paulo: Cortez Editora. as coleções tratam os conectores como assunto importante a ser estudado? Sob que viés: textual e/ou discursivo? Em uma análise geral. obviamente. nas quais o leitor é convidado. Apresentar atividades que envolvam essa esfera da linguagem não é uma questão de dificuldade ou facilidade. em alguns casos. já que a maioria é de preencher lacuna.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 305 tampouco analisar as definições dadas às expressões. sistêmico. por exemplo. p. 2ª Ed. 3) O enfoque é dado aos conectores interfrásticos ou interoracionais. como a coleção Enlaces que apresenta exercícios que conjugam a semântica e a sintaxe. v. pudemos perceber que esses elementos linguísticos são tratados no nível textual.

1946. I. Terumi Koto Bonnet (2010): El arte de leer español. Dominique (2008): Discurso e análise do discurso. p. Secretaria de Educação Básica. sugerimos uma leitura atenta de Portolés (1998a) e/ou Martín e Portolés (1999). Sua interpretação depende de seu conteúdo semântico e de suas condições de emissão. I. Guia de livros didáticos: PNLD 2012: Língua Estrangeira Moderna (2011). vocativos etc. [Re]Discutir texto. São Paulo: Ática. 2 Para esta pesquisa. REZENDE. OSMAN. Curitiba: Base Editorial. et al (2010): Enlaces . sugiro a leitura do capítulo de Bentes e Resende (2008). Estrella (2001): Conectores de la lengua escrita. MARTIN. Barcelona: Ariel (nova edição atualizada). de acordo com critérios discursivos. .306 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS ________. Para uma apresentação mais completa dos problemas de etiquetagem que se propõem das unidades suscetíveis de serem consideradas como marcadores do discurso. Barcelona: Ariel. 3 Escandell (2006) explica que enunciado é uma unidade do discurso. p. Renato Cabral (2008): Texto: conceitos. como conjunções. gênero e discurso.. PICANÇO. interjeições. ESCANDELL VIDAL. uma sequência linguística concreta realizada por um emissor em uma situação comunicativa. M. São Paulo: Macmillan. – Brasília: Ministério da Educação. Barcelona: Ariel. VILLALBA. São Paulo: Parábola Editorial. São Paulo: Parábola Editorial. assim como da obscura fronteira entre a classe dos marcadores e outras categorias limítrofes. Victoria (2006): Introducción a la pragmática. MONTOLÍO. Em: SIGNORINI. Notas 1 Devido ao recorte deste texto. Ivan (2010): Síntesis. [Re]Discutir texto. Em: SIGNORINI. José (1998): Marcadores del discurso . 135-156. consideraremos marcadores discursivos e conectores termos sinônimos. Soraia. PORTOLÉS. embora saibamos que existem diferenças teóricas entre eles. advérbios. gênero e discurso. MAINGUENEAU. questões e fronteiras [con]textuais. Deise Cristina de Lima. no qual se discute com relativa profundidade os conceitos de textualidade e contexto. e se define dentro de uma teoria pragmática.

Universidade de São Paulo Analisamos neste trabalho a imagem de dúvida no Diccionario Panhispánico de Dudas (DPD) da Real Academia Española ( RAE ) e Asociación de Academias de la Lengua Española (ASALE). DEFINIÇÕES E COMENTÁRIOS Daniela Ioná Brianezi PG . tomamos algumas formulações das seções que precedem a nomenclatura (conjunto de verbetes) do DPD. ed. de Emilio M. como o Diccionario Gramatical y de Dudas del idioma. Mostramos assim que existe um grande repertório de dicionários de dúvidas no campo da língua espanhola desde algumas décadas.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 307 DICCIONARIO PANHISPÁNICO DE DUDAS: DÚVIDAS. 1992). Além destes temos o Diccionario de Dudas y Dificultades del Español de Manuel Seco. Nessa linha. de 2011. ortográfico. XIII. o primeiro de dúvidas produzido pela RAE/ASALE. tomando como eixo da conceitualização o jogo de “antecipações imaginárias” descrito por Pecheux ([1969] 2010). p XIII . As dúvidas tratadas no DPD podem ser de caráter fonológico. analisando sua estrutura para ver como se dá resposta à dúvida. é dar “respuesta a las dudas más habituales”. o Diccionario Sopena de Dudas y Dificultades del Idioma. sob a ótica da análise do discurso e da História das Ideias Linguísticas. p. cuja primeira edição data de 1961 e que está em sua 10a. como mostrado na seção Qué es el Diccionario Panhispánico de Dudas. O DPD é um dicionário recente. se referindo especificamente ao caso do discurso politico mas que podemos transferir diretamente a nosso caso (ibid:76): “ [a relação de sentidos entre discursos] implica que o orador experimente de certa maneira . consideramos o dicionário como instrumento linguístico (Auroux. Esse trabalho faz parte dos estudos que desenvolvemos no mestrado em língua espanhola pela USP. Para mostrar como é construída a imagem de dúvida no DPD. A relevância deste último dicionário é especial para nossas análises. de 1996. sintático e lexicossemântico. Seu objetivo. Conforme argumenta Pecheux.. morfológico. Há outros dicionários de dúvidas na língua espanhola. de 2005. de 1981 e o Diccionario de Usos y Dudas del Español Actual de José Martínez de Sousa. Em seguida recortamos alguns verbetes. como pode ser visto em Qué es el Diccionario Panhipánico de Dudas. visto que Manuel Seco ocupa desde 1980 a cadeira da letra A da RAE. Martinez Amador (1953).

segundo a qual a instituição se ocuparia de tratar o que vê como Percebemos que inicia-se apresentando a dúvida como algo que “parte de um sujeito falante da língua espanhola”. como já mostramos. decisiva se ele sabe prever. A instituição “RAE/ASALE” administra essa dúvidas começando por uma classificação das mesmas: seriam da ordem ortográfica. (destaque nosso) Em sd2 notamos primeiramente a antecipação feita sobre a obra. observamos novamente a especificação numérica. temos o sujeito lexicógrafo institucional. al mismo tiempo. Esta antecipação do que o outro vai pensar parece constitutiva de qualquer discurso. al mismo tiempo. Continuando ainda na ‘presentación’. A especificação especial “de todo el mundo” remete à própria denominação do dicionário: ‘Panhispánico’. Uma primeira projeção tem a ver com aquela proveniente do falante. temos a seguinte formulação: . Trata-se aqui de uma dúvida “prevista” pela Academia. sobre todo. São também especificadas como “concretas”. de sua necessidade. de preceder o ouvinte é. Já no fragmento seguinte aparece uma outra modalidade: “y donde las Academias pudiesen.308 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS o lugar de ouvinte a partir de seu próprio lugar de orador: sua habilidade de imaginar. produzindo o efeito de sentido de são reais e não hipotéticas (são os falantes os que expõem suas dúvidas). onde este ouvinte o “espera”. apesar de todos os dicionarios que mostramos anteriormente de dúvidas. en especial en lo que atañe a la adopción de neologismos y extranjerismos. de forma unitaria en todo el ámbito hispano. […]” (destaques do autor). o que funciona na direção de produzir a evidência da necessidade do próprio dicionário. (sublinhado nosso) sd2: Se echaba de menos una obra que permitiera resolver. léxica ou gramatical. pXI. O ‘se’ impessoal produz um efeito de generalização. Temos aí um sintagma nominal marcado por uma especificação numérica. que antecipa a dúvida quanto ao consulente e constrói a imagem de dúvida nos paratextos a partir de um determinado jogo de antecipações. No caso do DPD. Notamos ainda em sd2 uma divisão no que se refere ao modo de projetar ou pensar a dúvida. A especificação que aí opera a favor de quantificar as consultas argumenta a favor da publicação e do funcionamento do dicionário. de naturalizar seu papel de especialista que serve ao sujeito consulente. para que todo ello ocurra dentro de los moldes propios de nuestra lengua y. que ‘se echaba de menos’. era uma obra que faltava e veio para preencher um vazio existente. exponiendo sus dudas sobre cuestiones ortográficas. temos a seguinte formulação: sd1: Centenares de hispanohablantes de todo el mundo se dirigen a diario a la Real Academia Española. o a cualquier otra de las que con ella integran la Asociación de Academias de la Lengua Espanõla. em tempo hábil. adelantarse a ofrecer recomendaciones sobre los procesos que está experimentando el español en este mismo momento. Iniciando nossas análise no item ‘presentación’ do DPD. um não especialista. con comodidad y prontitud. às vezes. Opera aí um efeito de sentido pelo qual isso funciona como uma evidência. que tem dúvidas quanto à língua e recorre à RAE ou às Academias da ASALE para pedir esclarecimentos. e que chegaria “espontaneamente”. los miles de dudas concretas que asaltan a los hablantes en su manejo cotidiano del idioma y donde las Academias pudiesen. adelantarse a ofrecer recomendaciones”. Se produz aí o efeito de que a dúvida irrompe naturalmente (ela ‘asalta’ o falante) o que por sua vez opera a favor de abrir o lugar da academia. léxicas o gramaticales y pidiendo aclaración sobre ellas. ou seja. ‘centenares’ e outra que remete ao espaço (“de todo el mundo”) que tem como referente o consulente. No fragmento ‘miles de dudas concretas que asaltan a los hablantes’.

” (destaque nosso) lacrimal: «Los ojos. 1982]). Esta dúvida prevista. voseo. verificamos que o enunciado definidor dos lexemas é retomado do DRAE. encontramos na seção: ‘qué es el diccionario panhispánico de dudas’. Notamos a volta do uso de ‘dudas concretas’. no item. Con este mismo sentido se usa también el adjetivo . silenciando o segundo tipo de ‘dudas’ tratadas pelo DPD. 1992]). ‘de (las) lágrimas’: «El conducto nasolagrimal va del saco lagrimal a la nariz» (Rosales/Reyes Enfermería [Méx. Percebemos que esta é uma tendência também dos outros dicionários de dúvidas em língua española e. a retomada da primeira acepção do Esta formulação nos faz compreeder a estrutura do verbete do DPD. v. os não temáticos vão escritos em letras minúsculas. ‘destinatarios’ (DPD:XIII). Registra-se na enunciação da maioria dos verbetes exemplos de uso dos vocábulos. 1. aquelas anticipadas. obervamos na parte ‘1’ da enunciação do vocábulo lagrimal. As restrições de uso no caso do DPD são encontradas no corpo do verbete. o DPD manteria a regularidade. Levando em conta essas considerações. Como sustantivo masculino. se referiria a neologismos e estrangeirismos. temporais (desusado). Par. vulgar). el uso de lacrimal . por consiguiente. Como adjetivo. Veremos aqui algumas ocorrências de verbetes não temáticos. Continuando nossa busca da imagem de dúvida construída no DPD.) ou técnicas (medicina. sempre com referência de onde foram tirados e do país de procedência. 2. no tienen párpados ni glándulas lacrimales» (Vattuone Biología [Arg. 1993]). por minoritario.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 309 importante de ser trabalhado para que a língua continue ‘unitaria en todo el ámbito hispano’. como laísmo. tipo de dúvida levantada pelo sujeito. jornais e portais eletrônicos. ainda de acordo com sd2. leísmo. biol. geográfico-políticas (Arg. Os temáticos se referem a temas gramaticais. que englobam literatura. A estrutura dos verbetes pode conter ainda o enunciado definidor entre aspas simples. neste caso. São de número menor e vão escritos em letras maiúsculas.). que restringe ou não o uso do vocábulo. si los poseen. ‘extremo del ojo por donde salen las lágrimas’: «Sacó un pañuelo del bolsillo del delantal y enjugó con él sus lagrimales» (Bain Dolor [Col. Percebemos algumas diferenças quanto à maneira de enunciação dos vocábulos no DPD em relação aos dicionários integrais ou diferenciais em língua espanhola. Começamos a mostrar agora como são os enunciados encontrados nos verbetes Temos dois tipos: os temáticos e os não temáticos.. O DPD explicita que a maioria dos exemplos dos vocábulos foram retirados do CREA (Corpus de referencia del español actual) e em menor medida do CORDE (Corpus diacrónico del español).). sublinhado nosso). A primeira delas é a falta de marcas no corpo do verbete. formado pela letra ‘L’: sd6: lag r imal lagr imal. já que este se diferencia do que encontramos num dicionário de língua. Temos o primeiro vocábulo. como a quienes desean conocer los argumentos que sostienen esas recomendaciones. retirado de nosso corpus de estudo para a dissertação do mestrado. havendo no final do DPD a lista de todas as obras citadas. De acordo com nossa pesquisa. uma formulação que já nos permite passar a tratar uma outra parte do dicionário: sd3: El DPD se dirige tanto a quienes buscan resolver con rapidez una duda concreta y. Con este sentido se desaconseja. como explicitado na seção antecedente à nomenclatura ‘signos’ (DPD:XXXV). sejam elas gramaticais (adj. previstas pela academia. (destaque negrito e itálico do DPD. están solo interesados en obtener una recomendación de buen uso. de restrição de uso (informal. embora não se mencione este fato nas sessões iniciais e em nenhum outro local do DPD.

que produz o efeito de longevidade de uso.310 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS vocábulo no DRAE. No debe usarse en español la forma francesa La Goulette. (destaque negrito e itálico do DPD. é remetido à palavra adaptada à grafia espanhola. mais contundente que em ‘lagrimal’. também é retomado o enunciado definidor deste (agora da segunda acepção) e novamente se apresenta um exemplo. Go ulett tte sd9: La Gole ta Goleta ta. La Goulette: sd8: La G o ule tt e . ao contrário do que ocorreu em seu uso como adjetivo e tal fato é justificado por seu uso ser ‘minoritario’. Cabe destacar que há um sintagma nominal com um adjetivo ‘nombre tradicional’. pero no preferidas. se está desaconselhado pelo DPD. sem nenhuma formulação.2. ’! La Goleta. ou seja. antepuerto de Túnez» (Faner Flor [Esp. em sua grafia original. las aceptadas. com um exemplo de uso. Em seguida temos um comentário que ‘desaconseja’ o uso do vocábulo ‘lacrimal’ no caso de seu uso como substantivo. igualando os sentidos deste aos do primeiro. ‘lacrimal’. Esta é uma prática regular no dicionário. havendo a recusa do vocábulo em sua grafia originária.2 6. sublinhado nosso). quando o consulente busca a palavra La Goulette. O uso de ‘desaconsejar’ nos permite ver que. Na parte ‘2’. o que funciona a favor da direção do dizer que aí se instala: usar esta forma e não a otura. Consultando os paratextos da versão online do . marcado por un morfema de negação. em certas práticas.2) a aquella. por certos falantes dessa língua. subitem Variantes Preferidas: sd10: Cuando las variantes admitidas no pueden figurar en un mismo artículo por exigencias del orden alfabético. criando uma circularidade com a palavraentrada em espanhol La Goleta . neste caso. Nombre tradicional español de esta ciudad de Túnez: «Estuvieron cuatro días fondeados en La Goleta. mostrando novamente a preferência pelo vocábulo em espanhol. 1986]). que não dever ser usada. Na próxima formulação comenta-se que há um outro vocábulo possível de ser usado com o mesmo sentido. é porque essa forma é “usada”. Irrompe aí uma forma de alteridade sobre a qual se regula.2. que num movimento anafórico retoma a cidade. visto que há uma proibição explícita do termo em sua grafia originária em francês. Consultando então ‘La Goleta’ percebemos que não faz parte da nomenclatura do DRAE e carece de enunciado definidor no DPD. Temos então um exemplo. Pensamos que o DPD segue também esta preferência. a remissão sugere que o vocábulo preferido é. que se baseia em Milner(1983) e Culioli (1990). uma outra posição sujeito que admitiria o uso do vocábulo em francês. se definen mediante remisión (v. Temos agora um topônimo de origem estrangeira. Novamente vemos um enunciado com verbo negativo. “a negação é um dos processos de internalização de enunciados oriundos de outros discursos”.§ 6. Reparamos na presença do verbo (desaconsejar). la preferida por la Academia es la que lleva la definición directa. que nesse caso tem informações enciclopédicas. item Manejo del diccionario. Temos o uso do deítico ‘esta’. temos em Advertencias para el uso de este diccionario . La Goleta. situando o consulente quanto à localização de tal cidade. já que trata-se de um deôntico de obrigação ‘dever’. O fato da preferência pelo topônimo em espanhol poderia ser explicado pelo relacionamento da Espanha com La Goleta. Diccionario de la Lengua Española (DRAE). mostrando uma forma de “lidar com a alteridade” no discurso do DPD. O uso de ‘no se debe’ traz consigo o discurso-outro. visto que Neste caso. Como argumenta Indursky (1997:213-244). La Goulette com ‘no debe usarse’.

INDURSKY. Percebemos com a apresentação dos vocábulos. por tratar-se de um lexema estrangeiro. Em 1881 ela foi anexada à França. mas o francês continua sendo usado como língua do comércio. Michel (2010): A ordem do discurso. São Paulo : Ed Loyola. enunciados de caráter sugestivo e prescritivo que seviriam para esclarecer a dúvida tratada. p. Sylvain (1992): A revolucao tecnologica da gramatizacao . 2010. esquivar sua pesada e temível materialidade”. dominar seu acontecimento aleatório. Campinas. Os comentários sugestivos e prescritivos do DPD poderiam deste modo encaixarse como um destes ‘procedimentos’ de tentativa de controle da língua. FOUCAULT. Por uma análise automática do discurso: uma introdução à obra de Michel Pêcheux. Podemos classificar o primeiro. traducao: Eni Puccinelli Orlandi. p. Campinas. selecionada. Françoise. por tratar-se de uma vacilação na sua grafia e La Goulette como uma dúvida das previstas pela instituição. mas em 1574 ela foi tomada pelos otomanos. 61-161.). lagrimal . PECHEUX. tanto recomendando o uso de alguns vocábulo e beirando a proibição em outros. Michel ([1969] 2010): Análise Automática do Discurso (AAD-69). Como argumenta Foulcault ([1970]. Tony (orgs. FREDA (1997): A Fala dos Quarteis e outras vozes. Sua língua oficial é o árabe. no jogo de ‘poderes’ do discurso. organizada e redistribuída por certo número de procedimentos que têm por função conjurar seus poderes e perigos. Em: GADET. Referências bibliográficas AUROUX. como uma das dúvidas concretas. Com essas ocorrências gostaríamos de mostrar como o DPD ‘resolve’ os dois tipos de dúvidas encontrados. HAK. SP: Editora da Unicamp. Campinas: Editora da Unicamp.8): “suponho que em toda sociedade a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada. SP: Editora da Unicamp.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 311 ela conquistada pelo rei Espanhol Carlos V em 1535. e só tornou-se independente em 1956. interpelando assim os sujeitos consulentes a se assujeitarem à FD na qual o DPD se inscreve. .

Geografia. há quatro versões diferentes da mesma prova identificadas pelas cores: azul.312 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS TEXTOS E TESTES: COMO SE CONFIGURAM AS PROVAS DE LÍNGUA ESPANHOLA NO ENEM? Daniela Sayuri Kawamoto Kanashiro UFMS I. amarela. branca e rosa (para o caderno 1. mais uma vez. passou a reforçar.161/ 2005 ). inferimos que o fato de inserir o espanhol numa prova de nível nacional poderá levar a uma aceleração do processo de implantação da língua como um dos efeitos retroativos do Enem. Nas distintas versões observam-se somente alterações na ordem das perguntas ou das alternativas. . Ciências Humanas e suas tecnologias (História. A partir daquele ano a estrutura da prova sofreu alterações. Gretel M. algumas estaduais e federais. E se até o presente momento nem todas as instituições de ensino médio. Linguagens. Física e Biologia). o referido idioma no contexto educacional brasileiro. Língua Estrangeira (LE) – Inglês ou Espanhol [somente a partir de 2010]. Artes e Educação Física). Além da redação. As questões são as mesmas e mantêm-se os enunciados. que antes visava à avaliação do perfil dos estudantes do ensino médio. houve aumento no número de questões e a aplicação do exame foi organizada em dois dias. Cada caderno de questões é composto por duas áreas: Ciências Humanas e suas tecnologias e Ciências da Natureza e suas tecnologias (no primeiro dia do exame). inclusive as públicas. amarela. referente ao primeiro dia do exame). cinza. códigos e suas tecnologias e Matemática e suas tecnologias (no segundo dia do exame). o objetivo de selecionar alunos concluintes da educação básica para acesso ao ensino superior de várias instituições. A partir de 2009 a prova. foram incluídas 45 questões para cada área de conhecimento: Linguagens. Filosofia e Sociologia) e Ciências da Natureza e suas tecnologias (Química. Eres Fernández USP O espanhol no Enem Sem dúvida a inclusão do espanhol no Enem a partir de 2010 colocou em destaque. garantem a oferta do espanhol (conforme prevê a Lei 11. Matemática e suas tecnologias (Matemática). públicas e privadas. azul e rosa (para caderno 2. códigos e suas tecnologias (Língua Portuguesa. por meio de algumas mudanças. no segundo dia do Enem). Assim como nas edições anteriores (19982008).

Constatamos que as principais mudanças estabelecidas para o novo Enem objetivaram a aproximação ainda maior das características da organização dessa prova com a dos vestibulares tradicionais. as perguntas figuraram sempre no caderno 2. Isso aconteceu tendo em vista a intenção de substituir os diferentes vestibulares. conforme a referida pesquisadora: “[. a numeração também permaneceu a mesma: as questões de 91 a 95 foram de língua estrangeira e o candidato teve que optar. utilizaram duas páginas (p. concursos e para o Enem. ou seja. ou seja. apresenta certa vantagem se comparado àquele que não tem conhecimento sobre a organização e estrutura do exame. ou seja. O pouco tempo disponível para ler e resolver cada questão (cerca de 3 minutos) também contribui para conduzir a esse tipo de procedimento. 14% em blog e 21% em jornal digital). em língua portuguesa. resultando na unificação da seleção. que analisou as provas de vestibular da região sudeste. que refaz as questões das edições anteriores organizando o tempo disponível para resolvê-las. códigos e suas tecnologias e mais 45 questões de Matemática e suas tecnologias. Também não é em vão que tenham surgido cursos específicos de preparação para determinados vestibulares.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 313 No novo Enem também permanece a elaboração do texto dissertativo argumentativo. 71% dos textos propostos não são autênticos 1 (50% são adaptações e 21% são fragmentos) e 86% dos textos foram veiculados na internet (51% em sites. Consideramos que o engessamento da estrutura da prova favorece o treinamento. no segundo dia de prova. 4 e 5). 4 e p. nas 3 provas analisadas observamos alguns dados recorrentes: são incluídas 5 questões dentre as 90 propostas no caderno. recursos e textos tirados do discurso da . Nesse sentido. também foi observada a tendência em incluir em provas seletivas e/ou classificatórias textos da esfera jornalística. no momento da inscrição.. Dessa forma. Sobre a presença de textos predominantemente informativos. a um Sobre a organização das questões referentes à língua espanhola Especificamente sobre a língua espanhola. para elaborar o texto dissertativo e preencher o gabarito. principalmente das instituições federais de ensino superior. questões separadas por disciplinas. não é sem propósito que as escolas – sobretudo as particulares – investem nos programas preparatórios e realizam simulados. Sobre os textos em língua espanhola Verificamos que 86% dos textos incluídos nas edições do Enem de 2010 e 2011 são informativos (36% são reportagens. por um processo apenas.. junto com as 45 questões de Linguagens. e na de Labella-Sánchez (2007). disciplinas na prova. Serrani (2005) argumenta que a tendência em adotar princípios gerais do enfoque comunicativo nas aulas de línguas fez com que o texto literário perdesse certo espaço para o uso funcional do idioma. que considerou as provas de seleção de três instituições públicas do estado do Paraná. mais de um dia para a realização do processo e a inserção de itens de língua estrangeira (inglês e espanhol). 36%. ao treino. postagens digitais. Um candidato que conhece a ordem de apresentação das aviso). 7% correspondem a um artigo e 7%. no segundo dia de prova. Além disso. 5).] Dentre os materiais. Em nossa pesquisa de mestrado (KANASHIRO. pelo inglês (perguntas presentes nas páginas 2 e 3) ou pelo espanhol (p. 2007).

Além disso. p. estereótipos de um mundo hispânico longe de ser representação de todo o seu povo. Tomando como base o fragmento. com base na imagem e no conteúdo verbal. têm sido vistos como um avanço frente ao encliclopedismo ou “literarismo” de outrora. o México dos “Sombreros”. E verificamos exatamente o que foi revelado por Brito ao analisar os textos presentes nas questões Enem 2010 1ª aplicação Enem 2010 2ª aplicação Enem 2011 Questão 95 – O texto jornalístico caracteriza-se basicamente por apresentar informações a respeito dos mais variados assuntos.alertar sobre os riscos mortais de determinados softwares de uso médico para o ser humano. dança chilena. por meio das palavras-chave urna. por exemplo.o sistema brasileiro de votação eletrônica. pautando-se no título e no tema tratados. uma palestra. Os textos inseridos nas provas do Enem de 2010 e 2011 versaram sobre o tango. identifica-se como tema . Questão 92 – Pela observação da imagem e leitura do texto a respeito da votação eletrônica no Brasil. Acerca das habilidades e questões propostas Nesta parte analisamos como se apresentam os enunciados dos itens correspondentes a cada habilidade da competência da área 22 para verificar se são coerentes com o estipulado na Matriz de Referência e com os objetivos estabelecidos para o Ensino Médio.Fumantes engordam mais que não fumantes. Machu Picchu. O povo representa muito mais que esses temas genéricos. que é preciso trabalhar a conotação da linguagem e que a formação do leitor não deve se restringir a um grupo pequeno de textos que figuram na esfera da informação e da argumentação. a Argentina do “Tango”. (BRITO. ao mesmo . identificar a intenção do autor. entre outros. especificamente nas provas do Enem. tema e conteúdo do texto (verbal e não verbal). Questão 91 – O título da palestra. citada no corpo da mensagem. citado no texto. qual proposição identifica o tema central e poderia ser usado como título? . identificar o tema. cantores. os aspectos culturais. antecipa o tema que será tratado e mostra que o autor tem a intenção de . por exemplo. as touradas. Brito (2004) atentou para o problema de visões estereotipadas quando se priorizam somente os grandes nomes da história. Avaliamos que essas habilidades poderiam ser consideradas nas questões de qualquer disciplina que apresentassem um texto. As tarefas solicitadas foram: dentre as opções. O título pode fazer referência ao texto proposto ou a uma obra. 47). Destacamos no Quadro 1 a repetição dos termos título e tema. botones e elector.Reconhecer a importância da produção cultural em Língua Estrangeira Moderna – LEM – como representação da diversidade cultural e linguística. não paginado) relacionadas na habilidade 8 . identificar o título do texto. é importante observar como são trabalhados. Além disso. ou seja. revistas). teclado. entretanto. voto. Nenhum texto literário foi selecionado para abordar a importância da produção e/ou das manifestações culturais. Quadro 1 – Habilidade 5. e seu título1 antecipa o tema que será tratado. 2005. Consideramos.314 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS mídia (jornais. a Espanha das “Touradas” e do “Flamenco”. literatura. 2004.” (SERRANI. enunciados e respostas das questões Notamos que a habilidade 5 – Associar vocábulos e expressões de um texto em LEM ao seu tema – focaliza a associação entre título.

consideramos que a repetição do foco da pergunta (a identificação de informações) pode estar relacionada aos descritores (insuficientes ou pouco claros) ou à inexistência deles. enunciados e respostas das questões Com relação à habilidade 6 – Utilizar os conhecimentos da LEM e de seus mecanismos como meio de ampliar as possibilidades de acesso a informações. concluir que sempre teremos um texto que verse sobre o tema turismo relacionado a essa habilidade. Questão 92 – O Comitê do Patrimônio Mundial reúne-se regularmente para deliberar sobre ações que visem à conservação e à preservação do patrimônio mundial. da falta de entendimento das possibilidades para medir as habilidades propostas. a relação entre imagens e instrução ou informação expressa. Conforme os textos propostos. conduz o viajante por um roteiro que. destaca-se . é possível “treiná-los” a identificar título e tema. Enem 2010 1ª aplicação Enem 2010 2ª aplicação Enem 2011 Questão 93 – De acordo com as informações sobre aeroportos e estações ferroviárias na Europa. ainda. Consideramos que os descritores permitiriam nortear a elaboração de outros tipos de itens que também medissem a habilidade de usar os conhecimentos de espanhol como meio de ampliar o acesso a outros conhecimentos.arquitetônicos e gastronômicos. ou seja. de solicitar apenas a identificação de título e tema ou da associação entre eles. além da temática original sobre a língua e a leitura espanholas. Ainda que não seja possível prever o assunto do texto da próxima edição do Enem com base nos itens que figuraram nas provas de 2010 e de 2011. .ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 315 tempo em que não é possível trabalhar com os alunos o tema e o título de todos os textos disponíveis. um percurso para tu