ATAS

Organizadores Adrián Pablo Fanjul Ivan Rodrigues Martin Margareth Santos

VII Congresso Brasileiro de Hispanistas
Comitê Organizador
Coordenação Adrián Pablo Fanjul (ABH-USP) Carlos Bonfim (UFBA) Fernanda Castelano Rodrigues (ABH-UFSCar) Marcia Paraquett (UFBA) Antonio Marcos Pereira (UFBA) Claudia Blaszkowski de Jacobi Edleise Mendes (UFBA) Hernán Yerro (UFBA) Ivan Rodrigues Martin (ABH-UNIFESP) Juan Facundo Sarmiento (UFBA) Julia Morena Silva da Costa (UFBA) Luciana Mariano (UNEB – Campus V) Mailson dos Santos Lopes (UFBA) Margareth Santos (ABH-USP) Patrício Barreiros (UEFS / UNEB – Campus I) Rosa Yokota (ABH-UFSCar) Xoán Carlos Lagares Diez (ABH-UFF)

Comitê Científico
Alai Garcia Diniz (UFSC) Alfredo Cordiviola (UFPE) Ana Cecilia Olmos (USP) Antônio Esteves (UNESP – Assis) Del Carmen Daher (UFF) Ester Abreu Vieira de Oliveira (UFES) Graciela Ravetti (UFMG) Heloísa Pezza Cintrão (USP) Isabel Gretel Eres Fernandes (USP) Livia Reis (UFF) Luizette Guimarães de Barros (UFSC) Magnolia Brasil Barbosa do Nascimento (UFF) Maria Augusta Vieira (USP) María Aurora Consuelo Alfaro Lagorio (UFRJ) Maria Eugênia Olimpio (UFBA) María Teresa Celada (USP) María Zulma M. Kulikowski (USP) Mario González (USP) Miriam Gárate (UNICAMP) Neide T. Maia González (USP) Silvana Serrani (UNICAMP) Silvia Cárcamo (UFRJ) Vera Lucia de Albuquerque Sant’Anna (UERJ)

Apoio

ATAS
do VII Congresso Brasileiro de Hispanistas
Organizadores Adrián Pablo Fanjul Ivan Rodrigues Martin Margareth Santos

São Paulo, 2013

Copyright © 2013 dos autores

Catalogação na Publicação (CIP) Serviço de Biblioteca e Documentação Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo

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Congresso Brasileiro de Hispanistas (7. : 2012 : Salvador, BA). Atas do VII Congresso Brasileiro de Hispanistas [Salvador, BA, 3 a 6 de setembro de 2012] [recurso eletrônico] /organizadores: Adrián Pablo Fanjul, Ivan Rodrigues Martin, Margareth Santos. – São Paulo : ABH, 2013. 18.291 Kb ISBN 978-85-66188-01-1 1. Literatura hispano-americana (História e crítica). 2. Literatura espanhola. 3. Língua espanhola (Estudo e ensino). I. Fanjul, Adrián Pablo. II. Martin, Ivan Rodrigues. III. Santos, Margareth. IV. Associação Brasileira de Hispanistas. V. Título. CDD 868.909

SUMÁRIO

Erotismo y picardía en Vida y costumbres de la Madre Andrea(c. 1650) A. Robert Lauer ............................................................................................................................................................ 17 Topografías del artista y desestabilización enunciativa en el rock de Argentina ............................................................. Adrián Pablo Fanjul .................................................................................................................................................... 23 Memórias da Guerra Civil Espanhola na ficção: leituras de ¿Qué me quieres, amor?, de Manuel Rivas e La lengua de las mariposas, de José Luis Cuerda Adriana Aparecida de Figueiredo Fiuza ...................................................................................................................... 31 A variação na realização do objeto pronominal acusativo no espanhol: um estudo inicial Adriana Martins Simões .............................................................................................................................................. 36 El pensamiento neomoderno en las columnas de Rosa Montero y Rosa Regás Adriana Virginia Bonatto ............................................................................................................................................ 45 Formas de enunciar la violencia en la obra de Doris Salcedo Alexander Castillo Morales – Instituto Caro y Cuervo ............................................................................................... 38 Relación autor-personaje en La última escala del Tramp Steamer de Álvaro Mutis Aleyda Gutiérrez Mavesoy ........................................................................................................................................... 59 Ensino de e/le e inclusão: reflexões sobre formação e trabalho docente Alice Moraes Rego de Souza (PG-UERJ) ..................................................................................................................... 66 Diálogos de Historia Natural: o homem prototípico e o homem em construção Amanda Brandão Araújo ............................................................................................................................................ 73 A hispanidade disposta em paralelo: vozes literárias contemporâneas dos povos originários das américas Amarino Oliveira de Queiroz ...................................................................................................................................... 80 África, Ásia e Oceania: fronteiras fluidas do hispanismo Amarino Oliveira de Queiroz ...................................................................................................................................... 85 Natalia, Julia, Mercedes y Elvira – Retrato de la mujer española en la posguerra Ana Carolina da Silva Pinto ........................................................................................................................................ 91 O “ensaio criativo” de Julio Cortázar Ana Carolina Macena Francini ................................................................................................................................... 98 Discurso autobiográfico e a busca identitária em Mi nombre es Victoria de Victoria Donda Ana Cristina dos Santos ............................................................................................................................................. 104

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O currículo das Universidades Públicas do Estado do Rio de Janeiro e a formação de professores em língua estrangeira: uma reflexão crítica Ana Maria Mendes Larghi ....................................................................................................................................... 111 Las ratas de Miguel Delibes e a denúncia da crise camponesa em Castela nos anos 1950-1960 Ana Paula de Souza ................................................................................................................................................... 118 Quando o metatexto de Tomás Eloy Martìnez autentica as vidas de Perón André Luis Mitidieri .................................................................................................................................................. 124 Calle Mayor e Señorita de Trevélez sob a ditadura franquista Angela dos Santos ...................................................................................................................................................... 131 Distribuição da perífrase “ter” + particípio no espanhol do México Anne Katheryne Estebe Maggessy .............................................................................................................................. 136 Literatura e Espanhol/LE: a questão da comunidade Antonio Andrade ........................................................................................................................................................ 142 A formação de professores de espanhol no Instituto Federal de Roraima: reflexões sobre a prática docente Antonio Ferreira da Silva Júnior ............................................................................................................................... 149 Polifuncionalidad de los marcadores del discurso y enseñanza del ELE Antonio Messias Nogueira da Silva ........................................................................................................................... 156 En busca del Paraíso: la representación de los germánicos en la obra de María Rosa Lojo Antonio R. Esteves ...................................................................................................................................................... 163 Rompendo fronteiras da cidade e da nação: representações de sujeitos que se moven entre as “islas urbanas” de Sergio Olguín e Cristian Alarcón Ary Pimentel .............................................................................................................................................................. 169 As traduções de quadrinhos sob um olhar discursivo Bárbara Zocal da Silva .............................................................................................................................................. 176 Discursos oficiales del 12 de octubre: un día conmemorativo peculiar Beatriz Adriana Komavli de Sánchez ........................................................................................................................ 183 Subordinadas temporais e finais em português e espanhol: questões de contraste e efeitos para a tradução Bruna Macedo de Oliveira ......................................................................................................................................... 190 O tema transversal da Pluralidade Cultural e sua reconfiguração nos LDs de língua espanhola Bruna Maria Silva Silvério ........................................................................................................................................ 198 O policialesco na figura de Amalfitano Bruna Tella Guerra .................................................................................................................................................... 204 ¿Bacrim o paramilitarismo? Análisis de la concepción de paramilitarismo en Colombia en el período 2002-2006 a través de la prensa escrita Camilo Ramírez Rodríguez e Adriana Yamile Suárez Reina .................................................................................... 209

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Inicios de la santidad medieval en lengua castellana: traducción y protagonismo femenino en La Vida de Santa María Egipciaca Carina Zubillaga ....................................................................................................................................................... 215 Chungui: violencia y trazos de memoria, (2009), de Edilberto Jiménez: desenhando a memória coletiva Carla Dameane P. de Souza ...................................................................................................................................... 221 O preenchimento da posição pré-verbal por complementos verbais e a noção de operador na história do espanhol Carlos Felipe Pinto ..................................................................................................................................................... 230 Invasiones del tiempo en el espacio de la casa Carlos Garcia Rizzon ................................................................................................................................................. 239 Pedidos de informação e pedidos de ação em português e em espanhol: um estudo entonacional de produção e percepção Carolina Gomes da Silva, Maristela da Silva Pinto e Priscila Cristina Ferreira de Sá ............................................ 246 De Dulcinéia a Heliana: perspectivismo e metaficção Célia Navarro Flores .................................................................................................................................................. 252 Sierva María de Todos los Ángeles e Maria Mandinga Cinthia Belonia .......................................................................................................................................................... 257 Espacios, mitos y claves del imaginario andaluz en la poesía de Federico García Lorca. Clara Pajares Gil ........................................................................................................................................................ 263 Poesia e ficção na obra de Roberto Bolaño: interseções Clarisse Lyra Simões .................................................................................................................................................. 268 Representaçãoes da mulher e vozes femininas no contexto iberoamericano Cláudia Luna ............................................................................................................................................................. 273 A destreza oral e sua importancia para a formação dos falantes de espanhol como língua estrangeira Cristina do Sacramento Cardôso de Freitas .............................................................................................................. 278 A leitura de professores de espanhol, formadores de leitores, mediada por computador Cristina Vergnano-Junger .......................................................................................................................................... 286 História, memória e ficção em Yo el Supremo e em Hijo de Hombre de Roa Bastos Damaris Pereira Santana Lima ................................................................................................................................. 293 O tratamento dos conectores nas coleções de língua espanhola aprovadas no PNLD-2012: uma questão textual ou discursiva? Daniel Mazzaro Vilar de Almeida ............................................................................................................................. 300 Diccionario Panhispánico de Dudas: dúvidas, definições e comentários Daniela Ioná Brianezi ............................................................................................................................................... 307 Textos e testes: como se configuram as provas de língua espanhola no Enem? Daniela Sayuri Kawamoto Kanashiro e I. Gretel M. Eres Fernández ....................................................................... 312

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A necessidade de narrar vivênciada pelos personagens do romance La hora violeta de Montserrat Roig Daniele Cristina da Silva ........................................................................................................................................... 320 La re-invención de América en la poesía y las artes del siglo XX Diana Araujo Pereira ................................................................................................................................................. 327 O trabalho com o plano inferencial de leitura em livros didáticos de Espanhol-LE22 Diego da Silva Vargas ................................................................................................................................................ 335 História, memória e ficção em Juan Gabriel Vásquez Diogo de Hollanda Cavalcanti .................................................................................................................................. 342 Juan José Saer: realidade, representação e ficção na perspectiva de gênero Eduardo Fava Rubio .................................................................................................................................................. 348 O ver-se nas páginas do papel: um estudo da representação feminina nas novelas cervantinas Edwirgens A. Ribeiro Lopes de Almeida .................................................................................................................... 353 Literaturas hispânicas no Oriente? A dupla identidade cultural e linguística em Margalit Matitiahu, de Israel Eidson Miguel da Silva Marcos ................................................................................................................................. 359 Heterotopias de función compensatoria en la escritura hispano-canadiense contemporánea Elena Palmero González ............................................................................................................................................ 364 O discurso de Fama em El cerco de Numancia, de Cervantes, e nas adaptações de Rafael Alberti Eleni Nogueira dos Santos ......................................................................................................................................... 371 Dialogo con la novela El Baile de la Victoria de Skármeta Esther Myriam Rojas Osorio. .................................................................................................................................... 376 Un extranjero en el poema: notas sobre la poesía de Fabio Morábito Fabiola Fernández Adechedera .................................................................................................................................. 380 Santiago Sierra: performer?* Fabíola Silva Tasca ..................................................................................................................................................... 386 Traduzindo e reconstruindo uma representação.Reflexões teórico-metodológicas em torno à implantação de um (novo) curso de E/LE Fátima Aparecida Teves Cabral Bruno ..................................................................................................................... 392 Sintagmas nominais complexos nos gêneros jornalísticos: Uma abordagem comparada entre artigos de opinião e notícias Felipe Diogo de Oliveira ............................................................................................................................................ 398 La literatura argentina revisitada: el mito de La Cautiva en un cuento de María Rosa Lojo Fernanda Ap. Ribeiro ................................................................................................................................................. 404 “La casita de los viejos”, de Maurício Kartun: tempo do sujeito, tempo da história Flávia Almeida Vieira Resende .................................................................................................................................. 408

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As escritoras na literatura afro-colombiana Francineide Palmeira ................................................................................................................................................. 412 O legado de Mercedes Sosa: a arte como instrumento de luta pela cidadania Franklin Larrubia Valverde ....................................................................................................................................... 418 Néstor Perlongher e Haroldo de Campos – um diálogo antropofágico Gabriela Beatriz Moura Ferro Bandeira de Souza ................................................................................................... 423 Reforma e a compreensão de sentidos de Licenciatura: questão filosófica ou de carga horária? Giselle da Motta Gil ................................................................................................................................................... 430 Corpo e espaço: reescritas da história em Finisterre, de María Rosa Lojo e Desmundo, de Ana Miranda Gracielle Marques ...................................................................................................................................................... 437 Rodolfo Walsh. ‘Exotización’ y conflicto en sus ‘escritos cubanos’ Gustavo Walter Spandau ........................................................................................................................................... 444 A que não soube vingar-se: em torno de “A meu amigo, que eu sempr’ amei” (B846, V432), de Johan Garcia Henrique Marques Samyn ......................................................................................................................................... 448 El uso de los modos indicativo/subjuntivo con tres verbos del español: “creer, pensar y saber” Iandra Maria Weirich da Silva Coelho ..................................................................................................................... 453 O diário de Ana Ozores: a escrita como expressão da subjetividade feminina em La Regenta Isabela Roque Loureiro .............................................................................................................................................. 460 Un niño grande: a ficcionalização de Jorge Luis Borges em Las libres del Sur Isis Milreu .................................................................................................................................................................. 466 Angústia e distopia: a Guerra Civil Espanhola em Saga, de Érico Veríssimo Ivan Rodrigues Martin .............................................................................................................................................. 471 Los marcadores discusivos en español a partir de la Lingüística de la Enunciación: una perspectiva en los estudios de E.L.E. Ivani Cristina Silva Fernandes .................................................................................................................................. 477 Observações sobre a relação cortesania/rusticidade na cena ibérica Jamyle Rocha Ferreira Souza ..................................................................................................................................... 484 La Colmena, de Camilo José Cela: conceitos de grotesco Jany Alfaia .................................................................................................................................................................. 488 A loucura como estrutura narrativa: de Miguel de Cervantes a Machado de Assis Jean Pierre Chauvin ................................................................................................................................................... 494 Religión y alegoría en las narraciones intercaladas del Quijote de Avellaneda John Lionel O´Kuinghttons Rodríguez ...................................................................................................................... 500 A ficção argentina traduz a Guerra das Malvinas Jorge Hernán Yerro ..................................................................................................................................................... 507

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Histórias, estórias e histórias: representações ficcionais da matéria de extração histórica nas narrativas de Delibes e de Assis Brasil Jorge Paulo de Oliveira Neres ..................................................................................................................................... 517 Cuerpos indígenas em metamorfosis: Un estudio del cuerpo a parir de mitos y leyendas de indios de la Amazonía Brasileña y Boliviana y sus representaciones en la actualidad José Maria Lopes Júnior ............................................................................................................................................. 519 Quemar las naves: por uma análise do Diccionario de Americanismos da Asociación de academias de la lengua española José Mauricio da Conceição Rocha ............................................................................................................................ 526 El atajo y La trama celeste, de Bioy Casares: historias de mundos posibles José Ronaldo Batista de Luna .................................................................................................................................... 533 Aspectos urbanos y culturales en narrativas gráficas argentinas Jozefh Fernando Soares Queiroz ................................................................................................................................ 540 Livro didático de espanhol e uma aprendizagem intercultural: é possível? Joziane Ferraz de Assis ............................................................................................................................................... 548 Una identidad para los apátridas. Identidad y exilio en dos novelas históricas latinoamericanas Juan David González Betancur ................................................................................................................................. 554 El uso del cómic como instrumento para la formación intercultural del profesor de español Juan Facundo Sarmiento ........................................................................................................................................... 560 O discurso ficcional em Los ríos profundos, de José María Arguedas: as leituras críticas de Antonio Cornejo Polar e Mario Vargas Llosa Juliana Bevilacqua Maioli ......................................................................................................................................... 566 De tabúes y terrores: Costa Rica y Brasil o dos modalidades de la literatura gótico-fantástica en Latinoamérica Karen Alejandra Calvo Díaz...................................................................................................................................... 571 Falar com deus: Estrategias de legitimação da mística feminina na américa hispânica colonial Karine Rocha .............................................................................................................................................................. 578 Percorrendo a trajetória da formação inicial do professor de E/LE Kelly Cristiane Henschel Pobbe de Carvalhoe Rozana Aparecida Lopes Messias .................................................... 583 A autonomia na formação de professores-tutores de espanhol como LE Kélvya Freitas Abreu, Priscila Barros David e Raquel Santiago Freire .................................................................... 589 A caricata valentia e o enredo “casi como fue” – uma análise da releitura “Don Juan Tenorio”, de Chespirito Larissa Pujol ............................................................................................................................................................... 597 Uma análise discursiva da mulher na sociedade através das tirinhas da Mafalda Larissa Zanetti Antas ................................................................................................................................................. 600 Pedro Lemebel, recepción, lectura Laura Janina Hosiasson ............................................................................................................................................. 605

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O grotesco em Del sol naciente, de Griselda Gambaro Laureny A. Lourenço da Silva .................................................................................................................................... 610 O conceito da honra no Século de Ouro e seu uso como mola dramática em El pintor de su deshonra, de Calderón de la Barca Liège Rinaldi .............................................................................................................................................................. 617 Esta mujer es su padre: Almodóvar, desestabilizações de gênero e a aula de ELE Leandro da Silva Gomes Cristóvão ............................................................................................................................ 623 O corpo em confissão: um discurso sobre o universo feminino simbolizado na obra de arte de Frida Kahlo Leticia Gomes Montenegro ........................................................................................................................................ 628 La potencialidad de los materiales lúdicos como protocolo de observación para el reconocimiento de géneros textuales escritos en español Letícia Joaquina de Castro Rodrigues Souza e Souza Ana Célia Clementino Moura ................................................................................................................................... 634 La tarea/renuncia del traductor en José María Arguedas Ligia Karina Martins de Andrade ............................................................................................................................. 641 Exames de Proficiência em espanhol como língua estrangeira Lílian Reis dos Santos ................................................................................................................................................ 648 Identidades em diálogo: mulher, sexualidade e família no livro didático de espanhol Liliene Maria Novaes Pereira da Silva ...................................................................................................................... 653 Nação idealizada em Aves sin nido Lina Arao ................................................................................................................................................................... 660 La expresión de la contrafactualidad en español: ¿diferentes variantes, diferentes interpretaciones? Lorena Mariel Menón ................................................................................................................................................ 665 Relações entre o Magrebe e a Espanha: os dois mundos de Najat El Hachmi em El Último Patriarca Louise Áurea Oliva .................................................................................................................................................... 673 Considerações sobre a importância da carga cultural compartilhada de unidades fraseológicas no ensino/aprendizagem intercultural de espanhol como língua estrangeira Luana Ferreira Rodrigues .......................................................................................................................................... 671 A formação do professor de Espanhol da Bahia e as variantes culturais hispano-americanas Luciana Vieira Mariano ............................................................................................................................................ 683 Análise das representações sociais nos cinco livros didáticos selecionados pelo PNLD para o ensino de espanhol a brasileiros Lucielena Mendonça de Lima .................................................................................................................................... 689 Representações sociais de futuros professores de espanhol sobre o Mercosul* Lucielena Mendonça de Lima .................................................................................................................................... 695

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Um copypaste de si mesmo: Mario Bellatin Luciene Azevedo ......................................................................................................................................................... 702 Tiempo verbal y discurso indirecto: diferentes abordajes Luizete Guimarães Barros ......................................................................................................................................... 709 O uso do pronome relativo possessivo cuyo em língua espanhola: considerações descritivo-analíticas Mailson dos Santos Lopes .......................................................................................................................................... 716 A tradução da ironia na narrativa de Maria Rosa Lojo Maira Angélica Pandolfi ............................................................................................................................................ 723 Aire de las Colinas, Cartas a Clara. Cartas pessoais de Juan Rulfo Mara Gonzalez Bezerra ............................................................................................................................................. 727 María Rosa Lojo: Una escritora de los bordes Marcela Crespo Buiturón ........................................................................................................................................... 732 Versos e cores do Prado Marcelo Maciel Cerigioli ............................................................................................................................................ 736 Literatura e Direito: o entrecruzar de fronteiras em Abel Posse Márcia de Fátima Xavier........................................................................................................................................... 743 O papel da Universidade na implantação do Espanhol no Estado da Bahia Marcia Paraquett ....................................................................................................................................................... 748 La presencia del negro y sus representaciones en el teatro cubano de Gerardo Fulleda León y Eugenio Hernández Espinosa Marcos Antônio Alexandre ........................................................................................................................................ 756 A corrosão dos anos triunfais franquistas Margareth Santos ....................................................................................................................................................... 763 A escrita de si como uma tradução de si: o caso específico da pintora Frida Kahlo Maria Auxiliadora de Jesus Ferreira .......................................................................................................................... 771 El español de todo el mundo María Cecilia Manzione Patrón ................................................................................................................................ 776 Poéticas da memória nas narrativas de Alfons Cervera e Vázquez Montalbán Maria de Fátima Alves Oliveira Marcari .................................................................................................................. 783 Explicaciones de lo femenino en la narrativa de Marcela Serrano María Esther Blanco Iglesias ...................................................................................................................................... 789 Contexto de ocorrência do imperfectivo habitual no Espanhol Paraguaio Maria Mercedes Riveiro Quintans Sebold ................................................................................................................. 796 Variação sobre o mesmo tema: acerca da memória em Sangra por la herida Maria Mirtis Caser .................................................................................................................................................... 803

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Las animalias… como elementos constructores del discurso en el Libro de buen amor de Juan Ruiz, Arcipreste de Hita María Teresa Miaja de la Peña ................................................... ..............................................................................810 Avatares de la historia en Paralelos. La pintura y la poesía en Cuba (en los siglos XVIII y XIX) de José Lezama Lima Mariana Sierra Aponte .............................................................................................................................................. 817 Préstamos terminológicos para una memoria del franquismo. Los niños encontrados de la literatura: una lectura de Mala gente que camina, de Benjamín Prado Mariela Sánchez ........................................................................................................................................................ 822 La investigación académica como sustrato de la narrativa histórica de María Rosa Lojo Marina L. Guidotti .................................................................................................................................................... 829 La casa de Bernarda Alba, metáfora conventual Mario M. González .................................................................................................................................................... 836 O différend indígena na narrativa do subcomandante Marcos Mélanie Létocart Araujo ............................................................................................................................................ 841 Literatura y conflicto armado: cotejando una novela de Garro Mercedes Pessoa Cavalcanti ....................................................................................................................................... 847 La traducción cultural en la literatura latinoamericana: reflexiones a partir de la obra de Gamaliel Churata y José María Arguedas Meritxell Hernando Marsal ....................................................................................................................................... 855 La Guerra Civil Española bajo la mirada de dos escritores aragoneses en el exilio: lectura de El cura de Almuniaced, de José Ramón Arana y Réquiem por un campesino español, de Ramón J. Sender. Michele Fonseca de Arruda ........................................................................................................................................ 864 El tema que nos ocupa: oraciones relativas en español Mirta Groppi .............................................................................................................................................................. 868 Expresso, logo existo: linguagem e constituição do indivíduo nas obras Mañana en la batalla piensa en mí de Javier Marías e Budapeste de Chico Buarque Mônica Gomes da Silva ............................................................................................................................................. 875 Evidencialidad en textos periodísticos: un análisis funcionalista en español Nadja Paulino Pessoa Prata ....................................................................................................................................... 881 Voces daba el bárbaro Corsicurvo. Lenguas y mecanismos de comunicación en el Persiles Nieves Rodríguez Valle ............................................................................................................................................... 887 Cómo se cuenta o contamos nuestra historia: historiografía literaria latinoamericana y enseñanza de la literatura Pablo Gasparini ......................................................................................................................................................... 896

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La luz de Cristina Bajo que ha tocado la historia y la memoria cordobesa. Una lectura desde la obra Como vivido cien veces (1995) Phelipe de Lima Cerdeira .......................................................................................................................................... 903 A trajetória dos manuais do professor de ELE no Brasil Raabe Oliveira ........................................................................................................................................................... 910 Manuel Rivas y Miguel Hernández: poesía hacia el porvenir Rachel Coelho Coimbra ............................................................................................................................................. 917 O horizonte filosófico do espaço de La Grande de Juan José Saer Raquel Alves Mota ..................................................................................................................................................... 923 De la prensa periódica a la novela. Cara y ceca o del otro lado del espejo: Manuel Vicent y Benjamín Prado (Aguirre el magnífico y Mala gente que camina) Raquel Macciuci ........................................................................................................................................................ 930 A ficcionalização da teoria, da crítica e do processo de criação literárias em La saga\fuga de J.B, de Gonzalo Torrente Ballester Regina Kohlrausch ..................................................................................................................................................... 937 Ricardo Palma e Las tradiciones peruanas: literatura e formação dos imaginários Regina Simon da Silva ............................................................................................................................................... 944 O aguirre posseano: tirano ou libertador? Regina Simon da Silva ............................................................................................................................................... 953 Provocações de um direito latino-americano que inclua os povos vencidos: notas a partir da Antropofagia de Oswald de Andrade e o surrealismo jurídico de Warat Ricardo Baitz .............................................................................................................................................................. 960 Educación-m no ensino de E/LE: análise de curso via SMS Rita de Cássia Rodrigues Oliveira ............................................................................................................................. 967 Poesía en Voz Alta y la escena cultural mexicana: la experiencia dramática de Octavio Paz Robson Batista dos Santos Hasmann ........................................................................................................................ 975 Cortés, Guatemotzin e Atzimba: da Conquista à ópera nacional mexicana! Robson Leitão ............................................................................................................................................................. 980 Desencuentros con Guimarães Rosa: la polémica de Vargas Llosa y Crespo por la traducción de Gran Sertón: Veredas Rodrigo Labriola ........................................................................................................................................................ 987 El ensayo: prolegómenos para una nueva historiografía ensayística iberoamericana Rodrigo Vasconcelos Machado ................................................................................................................................... 994 Tradução de La ciudad y los perros: análise da domesticação dos termos militares Roosevelt Ferreira ..................................................................................................................................................... 1000

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O que dizem os (ex) estudantes de um curso de licenciatura em letras-espanhol? Rosa Yokota .............................................................................................................................................................. 1009 O pronome tônico na produção não nativa de brasileiros falando espanhol e de argentinos falando português Rosa Yokota .............................................................................................................................................................. 1016 Palabra y poder en El sueño del pongo, de José María Arguedas Roseli Barros Cunha ................................................................................................................................................ 1023 Linguística Aplicada: estudos interdisciplinares e multiculturais na formação docente Rosineide Guilherme da Silva .................................................................................................................................. 1029 Sobre Ernesto Sábato, el surrealismo y la entrevista a un desconocido muchacho Ruben Daniel Méndez Castiglioni........................................................................................................................... 1035 José de Anchieta: o Barroco na poesia española Samuel Anderson de Oliveira Lima ......................................................................................................................... 1040 Contribuições de Jorge Amado para a Literatura Hispânica no Brasil Sandra Mara Mendes da Silva Bassani ................................................................................................................... 1047 El cine brasileño y España: El caso de Carlota Joaquina, princesa do Brasil (1994) Santiago de Pablo ..................................................................................................................................................... 1053 Zonas de penumbra e vacíos: ficção e História em Manuel Rivas Sebastião Ferreira Leste ........................................................................................................................................... 1060 Conhecendo Urganda Silvia Cobelo e Giselle Cristina Gonçalves Migliari ................................................................................................ 1067 Para enegrecer os modos de saber: histórias da NegrAmérica contadas na literatura de afrolatinos(as) Simone de Jesus Santos ............................................................................................................................................ 1074 Mania de escrever poesia: a prosa poética nas cartas de Emilio Prados Solange Munhoz ...................................................................................................................................................... 1080 La corrección del error y el feedback en la clase de lengua extranjera. Un análisis desde las teorías de la afectividad Stella Maris Baygorria ............................................................................................................................................. 1086 A escolha de retórica em Andrés Bello (1847) Stela Maris Detregiacchi Gabriel Danna ................................................................................................................ 1092 A palavra em O Livro das mil e uma noites e em O lapis do carpinteiro, de Manuel Rivas Susana Álvarez Martínez ......................................................................................................................................... 1098 Tradição e memória: um diálogo possível entre contos de Borges e Cem anos de solidão Suziane Carla Fonseca ............................................................................................................................................. 1105

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(Re)Construção de Chico Buarque: analisando a tradução do português para o espanhol em canções de protesto Thais Marçal Passos Sarmento ................................................................................................................................ 1113 Educação intercultural e ensino de e/le Thaísa Alves Brandão .............................................................................................................................................. 1020 Quando as luzes se acendem: a cumbia sob os holofotes, em Noites vazias, de Washington Cucurto Thiago José Moraes Carvalhal ................................................................................................................................. 1124 A transitividade em narrativas escritas por alunos brasileiros aprendizes de espanhol Valdecy de Oliveira Pontes ....................................................................................................................................... 1131 O gênero textual digital blog: o diário virtual eletrônico na aquisição de e/le Valéria Jane Siqueira Loureiro................................................................................................................................. 1137 Os trabalhadores e o impasse do Mercosul social. Valter de Almeida Freitas ......................................................................................................................................... 1144 La dificultad del uso de la preposición en las oraciones relativas de E/LE Vanessa Nogueira ..................................................................................................................................................... 1149 “Das Unheimliche”, de Freud e Así que pasen cinco años, Leyenda del tiempo en tres actos y cinco cuadros, de Lorca Virginia de Sousa Bonfim ........................................................................................................................................ 1156 “La rosa de piedra”: el cuento de nunca acabar Virginia Videira Casco ............................................................................................................................................. 1162 Casos de reinterpretação dativa na área geoletal mexicana Viviane Conceição Antunes Lima ............................................................................................................................ 1168 La traducción como práctica social en el curso de Secretariado Ejecutivo Viviane Cristina Poletto Lugli ................................................................................................................................. 1174 Leitura na Internet: a leitura literária no espaço virtual Viviane da Silva Santos ........................................................................................................................................... 1181 El Brasil Intelectual, de García Mérou, una mirada argentina sobre la formación de la literatura brasileña Weslei R. Cândido .................................................................................................................................................... 1187 Sobre a escritura pictural de Alejandro Xul Solar Yara Augusto ............................................................................................................................................................ 1192

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EROTISMO Y PICARDÍA EN VIDA Y COSTUMBRES DE LA MADRE ANDREA (C. 1650)

Dedicado a Mario M. González
A. Robert Lauer The University of Oklahoma

Vida y costumbres de la Madre Andrea (c. 1650), obra desconocida hasta 1958, cuando el hispanista neerlandés Jonas Andries van Praag publicara el manuscrito que había encontrado en la casa Beijers de Utrecht en 1950 (PRAAG, 1958, p.111), ha sido clasificada, desde entonces, como una novela picaresca anónima. Así la designa Enriqueta Zafra en sus dos recientes libros (ZAFRA, 2009, p.136 y ZAFRA, 2011, p.1), así como Howard Mancing en un importante ensayo (MANCING, 1996, p.288). Si así fuera, Madre Andrea sería entonces la última novela europea escrita en español que versa sobre una pícara, de la misma forma que La lozana andaluza (1528), de Francisco Delicado, constituiría la primera narrativa de este género. Dentro de este marco (15281650) tendríamos otras obras como el Libro de entretenimiento de la pícara Justina (1605) de Francisco López de Úbeda, La hija de Celestina (1612) de Alonso Jerónimo de Salas Barbadillo, La niña de los embustes, Teresa de Manzanares (1632) y La garduña de Sevilla y anzuelo de bolsas (1642) de Alonso de Castillo Solórzano y, acaso, «El castigo de la miseria» (Novelas amorosas y ejemplares, 1637) de María de Zayas y Sotomayor. Se excluyen

antecedentes como la Celestina de Fernando de Rojas, así como obras posteriores a 1650 escritas en otras lenguas como Die Lebensbeschreibung der Erzbetrügerin und Landstörzerin Courasche (La pícara Coraje ) (1669) de Hans Jakob Christoph von Grimmelshausen o The Fortunes and Misfortunes of the Famous Moll Flanders (1722) de Daniel Defoe. Poco sabemos de Vida y costumbres de la Madre Andrea. Se piensa que el autor sería un judío converso de origen portugués establecido en Amsterdam (ZAFRA, 2011, p.15). El hecho de que escribiera la obra en español no sería extraño, ya que los judíos conversos portugueses, amén de otros, solían escribir literatura en español durante la Monarquía Dual (1580-1640). De hecho, el autor usa varias palabras de origen portugués como velhaco (bellaco), ajudé (del port. ajudar > ayudar), remasgando (del port. resmungar > quejarse, refunfuñar), holla abafada (cubierta), pedintón (del port. pedinte > pordiosero), copo (vaso), baxuras (esp. bajezas, del port. baixar > bajar), mágoas (tristezas), papar (conseguir, follar). A la vez, van Praag indica que la obra contiene algunos galicismos (PRAAG,

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1958, p.119), lo que haría pensar que nuestro autor habría sido acaso un converso sefardita que hubiera pasado por algunos de los centros franceses de judíos portugueses como Ruán, Bayona o Burdeos antes de emigrar a Amsterdam. Otrosí, resalta en la obra el hecho de que el autor tenga altos conocimientos de matemáticas y de que sus alusiones bíblicas sean al Antiguo Testamento (PRAAG, 1958, p.126). El manuscrito de nuestra obra contiene 146 páginas y mide 17 x 11 cm., encuadernado en pergamino. A la par, en la guarda del libro se menciona en francés el hecho de que la obra es un «Manuscrit espagnol, en prose et en vers, du 17e siècle?» (PRAAG, 1958, p.111). Van Praag anota el hecho de que la última página contiene una filigrana que presenta unas armas entre dos grifos, la cual indica una procedencia italiana (genovesa). No obstante, este tipo de filigrana se usó en Provenza, España y Portugal en los siglos XVII y XVIII (PRAAG, 1958, p.111-112). En ausencia de un facsímile, el cual nos daría información sobre la caligrafía, nos ajustamos a la posible fecha de redacción de 1650, sugerida por el crítico neerlandés (PRAAG, 1958, p.113), aunque es de suponer, como este estudioso indica, que el único manuscrito de esta obra fuera una «copia dieciochesca de otro anterior» (PRAAG, 1958, p.112). La narrativa de Madre Andrea mantiene una organización esencialmente cronológica (ab ovo) que empieza con el nacimiento del personaje homónimo y termina en un punto indeterminado de su madurez. De esta forma sigue inicialmente la estructura básica de todas las novelas picarescas, con excepción de La hija de Celestina, que comienza in medias res. A la vez, Madre Andrea usa una retrospección temporal para informarnos de sus antecedentes, los cuales siempre son determinantes en la narración picaresca. Andrea fue hija de una prostituta y un padre de mancebía, o sea, un dueño de un burdel. Asimismo, por haber tenido su madre múltiples amantes, cada

cliente defiende que Andrea tiene algo suyo. Su herencia biológica y moral, por lo tanto, determina su vida ulterior. Después de este punto inicial, la narrativa hace un salto temporal indeterminado en el cual la protagonista ha dejado en parte su vida prostibularia para fungir el cargo administrativo de madre de mancebía: «después de la pasión me valí de la agencia» (ZAFRA, 2011, p.36). En este oficio tuvo gran éxito y ganó buen dinero: «Era tanta la miel que no me dejaban dormir las moscas» (ZAFRA, 2011, p.36). A diferencia de otras obras picarescas como, v. gr., Lazarillo de Tormes, Andrea, desde el principio de su relato, ha llegado a su «prosperidad y […] cumbre de toda buena fortuna» (CARRASCO, 1997, p.88). Lo que sigue será una serie de encuentros entre clientes, trabajadores sexuales y la Madre Andrea. Los relatos prostibularios se dan, primero, en series de parejas sencillas, v. gr., un joven y una prostituta; después, en tríadas; finalmente, en series de parejas gemelas o cuaternarias. Esta sección es en efecto pornográfica, en su sentido etimológico, y de carácter, primero, erótico, en sus relaciones ordinarias; después, exótico, en sus relaciones singulares1. Enriqueta Zafra nos recuerda que antes de que se clausuraran los burdeles de España en 1623 (ZAFRA, 2011, p.5), los prostíbulos servían ciertas funciones públicas, tanto para mujeres como para hombres. Para las primeras, la casa de lenocinio proporcionaba un modo de vida para féminas pobres y solteras que hubieran perdido la virginidad y que no tuvieran familiares en la ciudad donde trabajaran. El administrador de un burdel, el así llamado padre de mancebía, proporcionaba por una cifra fija, comida, alojamiento, ropa, sábanas y velas (ZAFRA, 2011, p.8). A la vez, las prostitutas eran examinadas por un médico y, en caso de que adolecieran de un mal venéreo, eran consignadas a un hospital. Si se arrepentían y decidían cambiar de vida, todas sus deudas se cancelaban. En cuanto a los segundos, se

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suponía que los clientes fueran hombres solteros que por falta de dinero o trabajo no podrían casarse. El burdel, a diferencia de la prostitución clandestina, protegía, por lo tanto, a las trabajadoras, a sus clientes y a la comunidad de mujeres honorables y acomodadas, las cuales se reservaban para uniones matrimoniales (laicas o eclesiásticas). Esta forma social de «contener el deseo» en ámbitos destinados para su ejercicio se limitaba legalmente a la fornicación simple entre un hombre y una mujer solteros, solutus cum soluta, y evitaba tanto el incesto como la penetración no natural (ZAFRA, 2011, p.8). Sin embargo, el deseo en Vida y costumbres de la Madre Andrea no puede ser contenido o limitado socialmente. En efecto, cada incidente prostibulario prueba precisamente lo contrario de lo que se supondría que ocurriera en un burdel antes de su clausura en 1623. El primero, por ejemplo, muestra a un joven de familia adinerada que roba dinero de su padre para deleitarse en los brazos de la joven y bella ramera Philipa. El segundo expone a un fraile impetuoso que estupra simultánea y encarnizadamente a tres mujeres: la Madre Andrea; una criada que, asustada, grita «Aquí del Rey» (ZAFRA, 2011, p.84); y, finalmente a una pobre y deslucida ramera destinada para su remate. El tercero revela a un letrado y un médico que primero dialogan extensa y cínicamente sobre sus profesiones y después se valen de una pareja de jóvenes de diferente sexo, «dos piezas de serafinas y serafines», para actos descomunales: «vengan orinales no diáfanos sino maduros y encarnados» (ZAFRA, 2011, p.132). Como vemos, todos estos usuarios no son personas indigentes sino pudientes y, en el caso del fraile, desposados con la Iglesia. El hecho de que se use a jóvenes de ambos sexos para actos singulares también indica la práctica de un tipo de sexualidad prohibida o «no natural», precisamente lo que un burdel trataba de evitar. El prostíbulo de la Madre Andrea, por tanto, no circunscribe sino que provoca un exceso o

elemento sobrante (super plus): no limita sino que provoca el deseo: y todo por un apreciable precio: «Allá se las hubieron y a mí […] me pagaron altamente» (ZAFRA, 2011, p.132)2. Lo antedicho constituiría el elemento erótico y picaresco 3 de Vida y costumbres de la Madrea Andrea. Toda novela picaresca se vale de episodios y peripecias que, al llegar a un punto culminante, provocan un cambio o paro permanente en la vida, el carácter o el movimiento del personaje principal. La obra, aunque indique la posibilidad de una subsiguiente parte, en efecto termina en ese momento4. A veces el cambio es súbito, como en La lozana andaluza, cuyo personaje principal renueva repentinamente su vida después de soñar que Plutón y Marte asolan Sierra Morena: «pues he visto mi ventura y desgracia, […] haré como hace la Paz, que huye a las islas, […] Estarme he reposada, y veré mundo nuevo, y no esperar que él me deje a mí, sino yo a él» (DELICADO, 1972, p.245). En otras ocasiones el cambio se intuye: Elena, de la Hija de Celestina , antes de ser agarrotada y encubada, «causando en los pechos más duros lástima y sentimiento doloroso» (SALAS BARBADILLO, 2008, p.153), hace testamento y restituye el hurto hecho a un tal don Rodrigo de Villafañe. Finalmente el cambio se impone: La pícara Justina, a pesar de narrar una vida jocosa, aunque moralmente reprehensible, indica al final del primer tomo que su fin será paulatinamente infausto: en el «primer libro me llamo la alojada, en el segundo la viuda, en el tercero la mal casada y en el cuarto la pobre» (LÓPEZ DE ÚBEDA, 2010, p.874). Asimismo, Teresa de Manzanares, al concluir su escandalosa crónica, indica que tuvo un fin infeliz casada, por cuarta y última vez, con un mercader civil, cincuentón y miserable. La «segunda parte» de su vida se llamaría, pues, « La congregación de la miseria » (CASTILLO SOLÓRZANO, 2005, p.283).

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La Madre Andrea es semejante a las susodichas obras, aunque con algunas diferencias. Si bien hay un cambio o peripecia decisiva, la narrativa se vale a lo largo de su extensión de fisuras que en efecto alteran el discurso salaz dominante. Estas fisuras generalmente se manifiestan como elocuciones vocativas dirigidas al lector que en efecto interrumpen y suplantan el discurso previo. En términos arquitectónicos, las fisuras representarían atalayas colocadas en encrucijadas, las cuales advierten al lector de cómo debiera captar el relato. Tienen, por lo tanto, una función adverbial. La palabra «lector» aparece cuatro veces en el texto. La primera vez se menciona en forma neutral al inicio de la obra para advertir al leedor que no tome «el fin de la palabra», o sea, los «salados casos, ridículos sucesos, pasatiempos deleitables y dichos de discreción y agudeza», sino que discierna en el modo de leer: «antes saca desta obra la cándida flor de la harina con que hagas pan de los santos» (ZAFRA, 2011, p.38). La segunda vez invoca al «lector lascivo o continente» (ZAFRA, 2011, p.100), precisamente después de fuertes descripciones exóticas que acaso provocarían placer en el primero y desazón en el segundo. Las dos últimas invocaciones a un «tú» se hacen hacia el final y van dirigidas al «lector pío» y al «lector benévolo». En ambos casos, las descripciones eróticas han concluido y la Madre Andrea, después de haber narrado congeries de desorden y escándalo, declara que «me metí a devota» (ZAFRA, 2011, p.144). Su última advertencia es que uno debe apartarse de ruines compañías, juegos y negocios que provocan la deshonestidad: «Huye pues del demonio y sus tentaciones, y sigue el bien y la santa y verdadera doctrina […], porque sólo de este modo puedes estar, vivir y morir cierto y tendrás en este mundo paz y después gloria» (ZAFRA, 2011, p.146). Se remata esta obra con una décima penitencial y ocho redondillas donde el autor pide clemencia divina. Vida y costumbres de la Madre Andrea es por lo tanto una obra picaresca con rasgos pornográficos y un auténtico fin moral. En efecto, todas las obras

picarescas tienen aspectos pornográficos, aunque generalmente de tipo erótico. Piénsese en la pícara Justina, que siempre está en peligro de perder la flor; o en Teresa de Manzanares o Elena, la hija de Celestina, quienes expresan cándidamente sus deseos sexuales y mantienen ocasionalmente relaciones adúlteras. Aldonza, la lozana andaluza, es, por supuesto, una cornucopia (pornucopia) de sexualidad ilimitada. Las relaciones triangulares, evidentemente, son comunes en toda narrativa picaresca, como se ve en los padres de Guzmán de Alfarache o en la relación entre el arcipreste de San Salvador, Lázaro de Tormes y la criada-esposa de ambos. Los elementos exóticos también se intuyen, como se observa en el padre afeminado de Guzmán de Alfarache, cuyos afeites inducen al narrador a declarar que «son actos de afeminados maricas, [que] dan ocasión para que dellos murmuren y se sospeche toda vileza, viéndolos embarrados y compuestos con las cosas sólo a mujeres permitidas» (ALEMÁN, 1984, vol. 1, p.118). Recuérdese asimismo la posible inversión del hiperactivo fraile de la Merced del tratado cuarto de Lazarillo de Tormes. Sin embargo, a diferencia de estas obras, Madre Andrea minimiza lo erótico y enfatiza lo exótico y escatológico. El lector de estas narrativas acaso sonriera ante los leves embustes de Justina o Teresa de Manzanares, pero probablemente se turbara ante las alusiones de sodomía, felación, urolagnia y coprofilia de la Madre Andrea y sus clientes. Lo exótico en esta obra se usa no para despertar el interés sino para provocar el desasosiego en el lector. No atrae; repele. En este sentido, se asemeja al Guzmán de Alfarache, aunque también, acaso, a Los 120 días de Sodoma del Marqués de Sade. No obstante, a diferencia de estas dos últimas obras, la intención moral se explica clara y largamente al final de Vida y costumbres de la Madre Andrea. A la vez, este propósito se expone en las fisuras del texto a lo largo de la obra. De esta forma, lo moral irrumpe en los momentos culminantes ímprobos, precisamente para desplazar lo concupiscente y

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desviarlo hacia la probidad: «Deja pues mujercillas, porque quitan el sueño, estragan la salud, deslustran la honra, consumen la hacienda, y muchas veces hacen perder las vidas; sé casto» (ZAFRA, 2011, p.144). Por ende, si las narrativas picarescas tienden hacia una finalidad moral, Madre Andrea mantiene esmeradamente esta función. En esto difiere del final irónico de Lazarillo de Tormes o del desenlace ambiguo de Guzmán de Alfarache: «Aquí di punto y fin a estas desgracias. Rematé la cuenta con mi mala vida. La que después gasté, todo el restante della verás en la tercera y última parte» (ALEMÁN, 1984, vol. 2, p.480). No obstante, se ajusta estructuralmente a éstas, y otras, en, v. gr., las extensas digresiones morales de Guzmán de Alfarache; las descripciones aciagas de la Roma puttana de La lozana andaluza; los aprovechamientos finales del narrador subalterno de La pícara Justina ; la narrativa «objetiva» del narrador de La hija de Celestina; los rótulos, escritos en tercera persona, de los capítulos de La niña de los embustes, Teresa de Manzanares; el prefacio del autor de Moll Flanders, el cual corrobora, antes de iniciar la narrativa principal, el arrepentimiento ulterior de la protagonista homónima y su cónyuge: «we resolve to spend the remainder of our years in sincere penitence for the wicked lives we have lived» (DEFOE, 2005, p.308); y la nota final del autor de la pícara Coraje, donde advierte a los jóvenes sobre los peligros de una vida pecaminosa y un arrepentimiento tardío (GRIMMELSHAUSEN, 2001, p.175). En concreto, Vida y costumbres de la Madre Andrea reúne a la vez lo más pecaminoso y moral de la novela picaresca escrita en español. En efecto, el tema de la pícara española, iniciado en Italia con La lozana andaluza, culmina en Holanda con la Madre Andrea . Sus descendientes literarias se extenderán después por el Reino Unido y América (Moll Flanders) y el Sacro Imperio Romano Germánico (la pícara Coraje). Sus aventuras, sin embargo, requerirían un subsiguiente estudio. Muchas gracias.

Referencias bibliográficas
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ZAFRA, Enriqueta (2009): Prostituidas por el texto: discurso prostibulario en la picaresca femenina . West Lafayette: Purdue University Press. ________, ed. (2011): The Life and Times of Mother Andrea / Vida y costumbres de la Madre Andrea. Traducción al inglés de Anne J. Cruz. Woodbridge: Tamesis.

Notas
1 Según John Anthony Cuddon, la pornografía (del griego porn– [prostituta] y graphein [escribir] > escritura de rameras) es una obra de ficción que enfatiza la actividad sexual de una forma cómica, seria, bizarra o sobrecogedora para suscitar la emoción sexual. Se subdivide en dos clases: a) erótica, la cual describe una actividad heterosexual en gran detalle; y b) exótica, que enfatiza lo perverso u anormal, incluyéndose el sadismo, el masoquismo, la pederastia y otras parafilias (CUDDON, 1993, p.729). 2 Se eliminan de este análisis los relatos no sexuales: El primero entre un poeta, un ebrio y un soldado que se emborrachan, se pelean y después abandonan el burdel sin tener comercio sexual; el segundo entre un filósofo, un matemático y un jaque que arguyen, comen y se salen del prostíbulo; y el de los tres ciegos que se emborrachan, se duermen y después simplemente se retiran de la casa de mancebía. El burdel, por tanto, sirve en estos casos no como un espacio de contención sino de desorden público. 3 El término alemán para este tipo de narrativa es Räuberroman (novela de depredadores o saqueadores). En efecto, el pícaro o la pícara es similar a un ave de rapiña. La acción principal que define a este ente es la de raptar, ya sea pan o vino en el caso de Lazarillo de Tormes, o dinero u honra en el caso de las pícaras. En la novela que nos ocupa, Andrea se jacta de haber trocado «sin violentarme» su honra por dinero: «Porque yo espontánea y liberalmente la repartía [honra], quedándome sin ella; mas no fui tan necia que no pidiese en recompensa el metal que la fortuna a tantos niega, que esa fue la lección primera con que me educó mi madre» (ZAFRA, 2011, p.34). El intercambio nunca es ecuánime, por supuesto. Al final de la novela, Andrea indica que el Hospital de Nuestra Señora del Amor de Dios (de Antón Martín) ya no tiene cupo para los enfermos que les manda la Madre. Las «picarillas [que] tan negro encarnadas […] infectaban cuántos árboles de cinselas [sic] las comunicaban» (ZAFRA, 2011, p.132) se han tenido que trasladar a Suecia y Baviera a infectar nuevos clientes. Por ende, Andrea y sus proxenetas privan, a cambio de un sucinto encuentro, no sólo de tesoro sino de salud, amén de la vida, a sus confiados e incautos clientes. 4 El hecho de que la mayoría de las novelas picarescas aludan a una subsecuente parte se debe a que el personaje al final de la obra todavía vive (salvo Elena, de La hija de Celestina, novela que requiere una narración en tercera persona). Por ende, Moll Flanders afirma lo obvio: «We cannot say, indeed, that this history is carried on quite to the end of the life of this famous Moll Flanders, for nobody can write their own life to the full end of it, unless they can write it after they are dead» (DEFOE, 2005, p.7). Considérese también la respuesta del pícaro Ginés de Pasamonte a la pregunta redundante de don Quijote sobre si el libro de su vida está acabado: «–¿Cómo puede estar acabado –respondió él–, si aún no está acabada mi vida? Lo que está escrito es desde mi nacimiento hasta el punto que esta última vez me han echado en galeras» (CERVANTES, 2004, vol. 1, p.266).

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TOPOGRAFÍAS DEL ARTISTA Y DESESTABILIZACIÓN ENUNCIATIVA EN EL ROCK DE ARGENTINA

Adrián Pablo Fanjul Universidade de São Paulo

1. Un caso puntual de un proyecto más amplio
Desarrollamos actualmente un estudio sobre la discursividad en el rock argentino, recorriendo sus diferentes épocas, acompañando mecanismos de regulación discursiva, que abordamos principalmente como delimitación de la exterioridad del campo1. En función de un factor que nos ha aparecido como significativo en los procesos de regulación, específicamente en cuanto a una de las fronteras recortadas para lo decible en el campo, factor al que no nos referiremos aquí porque afecta una de las hipótesis centrales de un trabajo que todavía está en elaboración, hemos dado bastante atención a la composición “Toxi Taxi”, grabada en 1991 por la banda Patricio Rey y los Redonditos de Ricota, más conocida como Los Redondos, una de las más nodales en la historia del rock nacional. El tema fue lanzado en el disco La mosca y la sopa . Creemos que esa composición es un punto de especial densidad, en el corpus del rock argentino, en cuanto a las redes de memoria hacia dentro del funcionamiento del campo y en relación con su exterior. Aquí la abordaremos a

partir de que se trata de uno de los casos, dentro de ese corpus, en que se escenifica, en la enunciación, al artista en actividad creadora relacionada con un desplazamiento en el espacio representado, lo que no excluye, por supuesto, la concomitancia de otras lecturas. Ese abordaje nos llevará a la posibilidad de confrontarlo, en la memoria discursiva, con dos temas del período clásico del rock argentino: “El oso”, de Moris (Mauricio Biravent, 1970), y “La balsa”, atribuido a Lito Nebbia y a Tanguito2 (1967). Esa misma confrontación promueve la observación de otra problemática central en nuestra investigación en curso: la de las configuraciones enunciativas, como modos relativamente estables de articulación de los seres en la enunciación, cuya articulación con la problemática de la memoria explicamos en el ítem siguiente. Las tres composiciones están transcritas al final, como anexos.

reglas que “los atraviesan y les constituyen un espacio de coexistencia” (FOUCAULT. concepto ampliamente tratado a lo largo de La arqueología del saber como juego de reglas de formación de los enunciados. relacionamos el pogo con la interpelación como acción enunciativa. 2008: 53). el conjunto de letrística musical alcanza una figuración menos precisa que en la narrativa literaria. una práctica que les es impuesta. la dimensión espacial de la escenografía representada en la enunciación. que en el caso de la . se concibe el discurso como una violencia ejercida sobre las cosas. promueve la regularidad . al proponerse el “principio de especificidad” (FOUCAULT. Como movimiento de choque de cuerpos. Nos referimos a la interpelación representada en la enunciación . por darse en una escena enunciativa. Una bisagra entre el mundo creado. Y es importante recordar que fue un tema de “pogo”. en Maingueneau (2001). Al trasladarse a un abordaje del discurso como materialidad lingüística. sino en el conjunto de nuestro trabajo sobre la memoria discursiva en el rock argentino. entre ellos. La corriente de análisis del discurso en que actuaron estudiosos como Michel Pêcheux y Jean-Jacques Courtine adoptó varios aspectos de la teorización de Foucault. paráfrasis y diversas formas de retomada y remisión. y la configuración enunciativa. 1999:80). no debiendo confundirse con el concepto –de raíz althusseriana– de interpelación ideológica como constitutiva de posiciones de sujeto. No sólo para este caso. tienen en común una representación de la actividad estética creadora relacionada con el desplazamiento en la escena representada. Esa violencia. a los modos como se articulan los participantes representados en la enunciación. en Pêcheux (2007). Como anticipamos. la percepción de la regulación como relaciones entre enunciados. lo que. un “reggae – acelerado” (GOBELLO. En la primera parte y en el estribillo de “Toxi Taxi” es interpelado un ser representado en segunda composiciones entre las que estableceremos relaciones parafrásticas en este trabajo.24 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 2. Regulación. y a la vez como matriz representacional del conflicto que todo discurso conlleva y que. en el título denominamos una “topografía del artista”. 2002: 191). vale recordar que. Las tendencias dominantes para esas configuraciones y para la delimitación entre los seres en las mismas son un factor que relacionamos con la regulacióndesregulación de la memoria. Así lo sostenemos porque creemos que esa distribución de voces y seres. memoria y seres en escena Consideramos la regulación a partir de diversos lugares de la teorización foucaultiana y de su lectura por estudiosos de la enunciación y del discurso en función de la problematización de la memoria discursiva. el espacio del cual la enunciación dice provenir. si es observada en una determinada serie de enunciados en un campo. tanto los interlocutores como los personajes y las voces citadas. esos conceptos reciben especificaciones. en determinados períodos de la reflexión de Pêcheux y seguidores. Escenas ricoteras3 Un biógrafo de Los Redondos ha definido “Toxi Taxi” como un tema de “urgencia rítmica”. Así. que selecciona y recorta modalidades de enunciación. o sea. se revela como resultado de esa violencia reguladora del discurso a la que nos referimos a partir de Foucault. La topografía es. vemos la regulación como principio de una memoria discursiva: espacio de producción de implícitos (o preconstruidos). temas y objetos. en El orden del discurso. damos crucial importancia a las configuraciones enunciativas. por ejemplo. Como punto de partida. 3. es precisamente un juego de voces.

Y muy especialmente. sino que hace efectiva una interpelación. la alternancia a la que nos referimos puede ser más o menos marcada. por percibir que es uno de los rasgos mediante los cuales la obra de Los Redondos. como el papel alternado de ejecutor y víctima (“te esnifo” / “me esnifan”) en “Rock para los dientes”. en este caso. y.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 25 persona. A veces. o en la forma lingüística. para los años 60 y 70 del siglo XX. un cierto deseo de homogeneidad para su lado imaginario en el conflicto. juegos mostrados. Esa tendencia se desestabiliza notablemente en los años 80. una fuerte tendencia a ese tipo de escenificación caracterizó el debilitamiento de las figuras marginales en la evolución de la poética del tango argentino en los años 20/30. conviene referirnos brevemente a características del campo a respecto. Pero también el paso no marcado de la . Por un lado. b) La alternancia de ubicaciones. a la delimitación reforzada de los contornos de los seres en la enunciación. concomitantemente con una diversificación del campo del rock y con el aumento cualitativo de las desigualdades en la clase media urbana. Varios factores favorecieron. el influjo de una racionalidad “humanocéntrica” dominante en el campo intelectual argentino de la época (TERÁN. como el disimulo del enemigo en “Nuestro amo juega al esclavo”. por parte de una voz que se identifica al comienzo en una primera persona del plural (“Te tenemos allí…”). pero que no dejó de estar muy presente. La representación de ese tipo de interpelación tiene una larga tradición en la música urbana argentina en períodos de desestabilización de modelos. gozador y gozado. para la voz enunciadora. la percepción de ethé relativamente homogéneos y seres representados con un cierto cerramiento sobre sí. 2010) mediante observaciones que podemos relacionar con las de investigadores que abordan la letrística de rock desde otros puntos de vista. en relación con el conflicto representado. así como los posicionamientos subjetivos que la atraviesan requieren diferenciar dos órdenes de problemas que creemos que son clave para confrontar momentos y tendencias en la discursividad del rock argentino: a) La producción de una interpelación cuestionadora hacia un interlocutor. Los Redondos son una banda que no sólo corresponde al momento en que la estabilidad de identificaciones roqueras se ha derrumbado (ya no es pensable. están sometidas a diversos juegos enunciativos. por ejemplo. visibles en la figuración. la interpelación se relaciona con el papel de los interlocutores en el campo roquero y en relación con los conflictos que lo delimitan. el rock nacional está marcado históricamente por una cierta rigidez en cuanto a la representación de los seres y voces. instrumentador e instrumento de la violencia del poder. debe tenerse en cuenta. de modo general. Por otro. Como hemos defendido en varios trabajos anteriores (fundamentalmente en FANJUL. un colectivo de “la juventud”). En cuanto a lo segundo. en la poeticidad de géneros de lo popular en Argentina. había una tendencia ya verificable. en las situaciones de opresión reiteradamente representadas en sus composiciones. no íntima. Esa interlocución. Como ha mostrado el trabajo de Menezes (2012). como veremos. debido al carácter “en público” que señalamos. en su época de primer desarrollo y auge. con el poder opresor y con la industria del espectáculo. que en el rock se expresó más en su versión hedonista que contestataria. con la peculiaridad de estar representada como interpelación realizada “en público”. al conjunto del campo en ese sentido. diferencias entre agente y paciente. 1991:22). marcó un desplazamiento en el rock argentino. Sobre la primera. más o menos velada.

Desencuentros –de memorias– del andar Proponemos abordar las tres composiciones propuestas en la Introducción a partir de lo que en ellas podemos observar como representación de la actividad de creación estética. Creemos que. pero va. una intertextualidad deliberada con composiciones clásicas del rock argentino. toque y toque. tres ámbitos: la naturaleza. creemos. Así vemos los andares de los seres construidos en esas composiciones. No diseñará su naufragio. Una de los rasgos del tipo de locutor y de personaje puesto en escena por el rock primero y del ethos que su voz encarna es el de una hexis de propósito (Fanjul. en el caso de “Toxi Taxi”. El prefabricado de “Toxi Taxi” está “preso”. sólo será recortada en signos tras aprender las piruetas en la jaula-ciudad de los hombres. en la que circula muy contento. irá tras los que lo hacen negocio. Provoca a la comparación. que tuvo un carácter comparativo en relación con pioneros del rock brasileño. Indagando el frecuente recurso a la figuración infernal en las composiciones de la banda. cierta resonancia en el inicio de “La Balsa” y de “Toxi Taxi”. de ese modo. pero que es posible. aunque sea la de naufragar. Quien se dispone a naufragar construirá su propia balsa para ir donde quiera. 2009). sino directamente con las composiciones que consideraremos. de la época de la dictadura. El oso se desplaza “sin cesar”. no se registra. como “No te dejes desanimar”. como en otros temas de la banda. subyace un preconstruido sobre el desplazamiento como posibilidad creadora. observamos que ese rasgo se presenta inclusive en la escenificación de seres identificados con la locura. El locutor / artista de “La balsa” seguirá estricta e indudablemente su impronta: su (propia) idea es la de ir al lugar que él mismo más quiera. Pero el artista-negocio pequeño y simple. en un artículo centrado en Los Redondos. Una delimitación espacial determinando una predicación de abandono: Estoy muy solo y triste acá. una deriva positiva y afirmada en su mismidad. la artesanía y la industria del espectáculo. de Charly García. como Mutantes o Raul Seixas. abandonado allí. entre período clásico. propone el cuerpo roquero como “la epifanía misma del conflicto”. Con ellas. con una impronta propia. es una figura recurrente en la delimitación no sólo de la identidad del artista sino también de héroes en general en las escenografías creadas por el rock argentino del 4.26 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS voz de un posicionamiento a otro en relación con el sojuzgado: compartiendo su lugar o asumiendo una sorna que la acerca al beneficiario-verdugo. rescata metafóricamente la imagen de un círculo trazado en rituales satánicos 4 para llegar a una propuesta que resume muy felizmente ese aspecto de la poética ricotera: “es una invocación: no está dentro del círculo pero tampoco fuera porque su sitio no es el pretendido cielo de la pureza”. Pensamos que la desestabilización de identificaciones en el campo del rock nacional a partir . por ese camino. como está. encontrar un funcionamiento parafrástico que resulta polémico. desde el lugar de análisis. y la naturaleza ilimitada. va detrás del toxi taxi. NI siquiera vuelto sombra. En ese trabajo que acabamos de referir. entran en escena. El andar con un propósito. Y aun composiciones con un tono de profunda desazón. recogen esa imagen a la que. en este mundo abandonado / Te tenemos allí. con los preconstruidos que les dieron sustento. Su naufragar es un propósito. Ambos se desplazarán desde ese lugar. va a seguir su “propia” dirección. No en vano Monteleone (1992:30).

que es uno de los extremos de la primera etapa del rock argentino. finalmente. de modo más explícito que en “El oso”. con eco en la sílaba siguiente? ¿Estás allí para nosotros? ¿Sufrimos tu prisión. después de la “prisión” de la industria del espectáculo. el locutor gana cuerpo en una sonoridad ansiosa y trémula para la voz del intérprete. En el viejo tema de Moris.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 27 de los 80 fue dando lugar a representaciones del desplazamiento y de la creación no compatibles con ese preconstruido. en el hermanamiento que sigue al pogo. e incluso. se desliza hacia una problemática diferente y una escenificación más específica). en un estribillo que. tiene su contrapartida en la voz enunciadora. la cultura establecida desde fuera del campo de identificaciones del rock. Así. Obsérvese el orden “de mis bosques. en lo que Authier-Revuz (2011:12) caracterizó como “movimientos bruscos de báscula del sentido en una palabra”: “Un toque por si las moscas van / Otro toque por si vas detrás”6. también la confrontación de “Toxi Taxi” con “El oso” da lugar a interesantes relaciones de acercamiento y desencuentro en una memoria relacionada con el género. a la palabra de la calle. sólo después la voz gana volumen. Ni el oso de Moris aparece como “un animal feroz”. con cierta sorna. La autora los relaciona con una ”estética del sobreviviente” de la cual Los Redondos marcarían un “límite crítico”. Al inicio del canto. si lo consideramos como recorrido del artista. la pregunta desafiante “la fiera más fiera ¿dónde está?” parece evocar. Presos. al fin y al cabo. a la resistencia a ese poder. en su materialidad sonora y por el movimiento que sugiere a los cuerpos. tu abandono? Creemos que es el inicio de una oscilación que se desplazará por toda la primera parte y el estribillo. El yo/nosotros representado se desplaza entre voces y posicionamientos atribuibles al poder opresor -poder sobre la escena y sobre el espectáculo-. una figuración como la del artista de la “no cultura”. Su tono en los dos primeros versos es de quien habla casi en privado. todos podemos “darnos un toque”. La ambigüedad respecto del interpelado. se caracteriza. que está preso pero “va”. la naturaleza como espacio de creación. el héroe encuentra la posibilidad de resistencia en la autopercepción. y. pero de este se dice que está preso como si lo fuera. ¿Cómo no ver la ambigüedad de la declaración punteada. Aunque debe someterse a esa repetición por estar prisionero. como explicaremos. Esa palabra de la calle juega torciendo el significante hacia su letra. Esa industria-circo. Así. en algo todos nos parecemos al pequeño artistanegocio . por medio de la imagen de las “piruetas”. de esos dos versos? Te te-ne-mo-s a-llí / A-ban-do-na-do a-llí ¿Allí te guardamos. silabeada. es el momento de fiesta colectiva. ni parece serlo el artista producido de “Toxi Taxi”. al volver del encierro está “contento de verdad”. de mis tardes y de mí” (destacado nuestro) al enumerar lo que no fue olvidado. Por ejemplo. Viendo primeramente esa prisión como control sobre el artista (la segunda parte del tema. el tipo de movimiento que Kozack (1992:25) caracteriza como “recorridos circulares y constantemente invertidos”. vemos escenificado un desplazamiento que puede percibirse. en varias de las composiciones de la época se propone. de la “no cultura” a la “cultura propia”. te mantenemos? Y ¿qué ubicaciones propone ese acusativo te. lo que más interesa aquí. En efecto. el instinto como fundamento de la creatividad5. “Toxi Taxi” es un claro caso de la alternancia de la voz entre diferentes lugares de decir en relación con el conflicto. Por otro lado. caminando “sin cesar” inicialmente en la vastedad de la no cultura. como serializada e imitativa.

o que al menos no oscila hacia formulaciones o direcciones argumentativas identificables con el poder. de la gestión opresora sobre los cuerpos que es uno de los grandes asuntos de Los Redondos. São Paulo: Martins Fontes. Belo Horizonte: Faculdade de Letras da UFMG. fue preso acusado de tráfico minorista de drogas7. vol. O. mientras el terror construía las nuevas topografías del rincón y la pared desierta9. KOZAK. BELTRÁN FUENTES. Buenos aires: Tusquets. no solo porque el “nosotros” pasó a ser un “yo”. 2009. GOBELLO. Y la distribución de las voces. (2008) El orden del discurso. un “común” preso político. 2008.28 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 5. futuro compositor y vocalista de Virus. Se configura más claramente un posicionamiento de resistencia. si se la compara con el resto del tema. (1999): Banderas en tu corazón.). Y en el cierre. Al fin y al cabo. Nº 11. La segunda parte de “Toxi Taxi” recupera estabilidad en los posicionamientos de modo concomitante con una fijación de la escenografía enunciativa. Era cercano a Los Redondos y llegó a integrar la banda Dulcemembrillo. Luis María actualiza el pasado. (2010) “Enunciadores en el rock argentino. pág. 23-28. realidade e deslocamento em cenografias pioneiras do rock”. M. Elementos para una comparación con Brasil. Estabilización del decir. p. MAINGUENEAU (2001) O contexto da obra literária. nueva regulación. Luis María Canosa. _____ (2002) La arqueología del saber. 2239-47. Alfredo (1989): La ideología antiautoritaria del rock nacional. Buenos Aires: Siglo XXI. FOUCAULT. . (2005): Libro de viajes y extravíos: un recorrido por el rock argentino 1965-1985.” En: Letr@ Viv@. No 10. Buenos Aires: Prego. (1992): “Estética del sobreviviente: una letra contemporánea. fundamentalmente porque se trae un nombre propio. J. la figura evocada. o que creo algo. Estudios sobre la enunciación. C. Un claro caso de prisionero del control social. (2011): Detenerse ante las palabras. el rock no está en el pretendido cielo de la pureza. Había sido parte del rock platense en los primeros setenta. Em: Anais do V Congresso Brasileiro de Hispanistas e I Congresso Internacional da Associação Brasileira de Hispanistas. Y con él viene un colectivo que compartió la percepción del roquero como “visionario”8. (org. Referencias bibliográficas AUTHIER-REVUZ. _____ (2009) “Loucura. Buenos Aires: Centro Editor de América Latina. Pero ahora dice que cada día ve menos. “Luis María” y porque la temporalidad pasa a ser episódica: un narrador cuenta un sueño. creer y crear es una concesión. Montevideo: Fundación de Cultura Universitaria. Sara Rojo et.” En: Espacios de crítica y producción. para una nueva regulación de los presupuestos. está en el pasado y no va a ningún lugar. C. y acabó muriendo en medio de un motín en el que todo indica que no tenía participación. Cuando ya no actuaba en música. Y la escena también cobra singularidad. M. 1. junto con Federico Moura. Apuntes sobre el mito de Los Redondos. Menos mal que todavía creo en algo. por qué no. cobra nitidez: está claro qué instancia o voz representada dice qué. pág. 141-155. murió preso “de verdad” en 1978. DÍAZ. como sólo puede hacerlo un muerto en un sueño. al. A diferencia de la figura representada en la primera parte. cada día creo menos mal. FANJUL. A. Córdoba: Narvaja Editor. Y las palabras que repite acentúan la diferenciación a respecto del creador representado en el período clásico del rock nacional.

“Entre pátrias. 49-56. El oso Moris. Universidade de São Paulo. 1970 Yo vivía en el bosque muy contento. (1992): “El infierno encantador. y a los chicos podamos alegrar. “Cada día veo menos cada día veo menos cada día veo menos creo menos mal”. (2012). O embate entre vozes marginais e disciplinadoras em composições de samba e tango (19171945). “Nunca el techo y la comida han de faltar. MONTELEONE. Nº 11. P. Violencia y poesía del rock. 1991 Te tenemos allí. preso como un animal (como un animal feroz).ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 29 MENEZES.” Han pasado cuatro años de esta vida. “Papel da memória”. pero las tardes son mías. Con el circo recorrí el mundo así. A. pandeiros e bandoneones . me encerró y me llevó a la ciudad. En el circo me enseñaron las piruetas. Era una noche sin luna. p. abandonado allí. estoy contento de verdad. . y a la noche me tiraba a descansar. M. Vuelvo al bosque. así las cosas. En: ACHARD. Sólo exigen que hagamos las piruetas. et. me decía un tigre viejo. Ahora piso yo el suelo de mi bosque. Caminaba. Pero un día vino el hombre con sus jaulas. Un toque por si las moscas van y otro toque por si vas detrás. muerto cuando me decía: Y yo así perdí mi amada libertad. Las mañanas y las tardes eran mías.” Tesis de doctorado en Letras. Ya no hay tiempos de lamentos ¡Ya no hay más! Un sueño con Luis María. (2007). y yo dejé la ciudad. En un pueblito alejado alguien no cerró el candado. “Conformate”. Campinas : Pontes.” En: Espacios de crítica y producción. 29-33. al. J. de mis tardes y de mí.T axi Taxi Solari / Bellinson. Estoy viejo. la fiera más fiera… ¿dónde está? Toxi-taxi viene y va y tu sombra va detrás de hordas notables con los secretos para hacer un negocio tan pequeño y simple como vos. p. Papel da memória. Otra vez el verde de la libertad. Pero nunca pude olvidarme del todo de mis bosques. Anexos Toxi . PÊCHEUX. caminaba sin cesar.

haya una cierta reiteración de “entender” la interrogación “¿la fiera más fiera dónde está?” como denuncia de que no se lleva a prisión a los jefes del tráfico sino a sus agentes menores. 1967 Estoy muy solo y triste. A respecto. acá. en este mundo abandonado. nos parecería muy reductor ver esa interrogación como mera denuncia. Por eso. en un manifiesto circulante en 1973. tanto en el contexto de esta lectura interdiscursiva del tema a partir de la representación de la creación artística como en cualquier otro abordaje temático. Monteleone relata. y “En el hospicio”. en lecturas de interpretación literal de la letra de “Toxi Taxi” que han circulado en los medios. redactado por Luis Alberto Spinetta: “El que recibe debe comprender definitivamente que los proyectos en materia de rock argentino nacen del instinto”. 3 4 Adjetivo muy usado para referirse a lo relativo a Los Redondos. Tengo una idea. Notas 1 2 El proyecto cuenta con apoyo del CNPq. la de irme al lugar que yo mas quiera. La continuidad (“por si las moscas van”) restituye “las moscas” a un valor independiente de esa construcción. Pero nuestro abordaje no es contenidístico. o como dirigida “al mismo” de la segunda estrofa. . Y cuando mi balsa esté lista partiré hacia la locura. Uno de los seudónimos de de José Alberto Iglesias (1945-1972). como introductor explicativo que pone como causa la percepción de una posibilidad. Me falta algo para ir pues caminando yo no puedo. y aprovechando el tema de Los Redondos “Barba Azul y el amor letal” va produciendo una reflexión que vincula lo infernal con la figuración del espacio social como prisión. Construiré una balsa y me iré a naufragar. 7 Esa circunstancia ha dado lugar a que. también conocido como “Barba Azul”. no podemos afirmar si era o no esa su idea. comportamientos atribuidos al asesino serial Giles de Rais. no es nuestra preocupación lo que hayan tenido en mente o no los compositores. de Nito Mestre. Tengo que conseguir mucha madera. hay un interesante recorrido en Díaz (2005: 154-167). no se propone un desciframiento alegórico de las composiciones parte a parte. 5 Así está claramente enunciado. A partir de ese relato. como quien ve lo que otros no ven.30 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS La balsa Lito Nebbia – Tanguito. 9 Aludimos a las composiciones “Mientras no tenga miedo de hablar”. miembro de los primeros núcleos que fueron dando forma a la delimitación del rock nacional como campo. 6 “Por si las moscas” es una unidad relativamente fijada. Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. aproximadamente como “por si acaso” o “por las dudas”. en el rock argentino de los 60-70. y por supuesto. por ejemplo. 8 Sobre la representación del artista. tengo que conseguir. en español. de Alejandro de Michele y Miguel Ángel Erausquin. para ello. Con mi balsa yo me iré a naufragar. de donde sea. registrado por Beltrán Fuentes (1989:95). ambas compuestas entre 1975 y 1976.

pela ameaça que significa a ideia de frequentar a escola. Na cena seguinte. como havia feito um tio. AMOR?. Tanto a narrativa literária quanto a fílmica relatam uma intensa relação entre um professor primário. aparece acordado no quarto. São imagens de pessoas simples do interior. pode ser tão verossimilhante quanto à realidade histórica. incomodando o irmão mais velho com perguntas sobre o ambiente escolar e a atuação do professor. Moncho. está presente um conjunto de dezesseis relatos que narram a trajetória de personagens que transitam pelo contexto espanhol. chegando a querer fugir para a América. principalmente. “ La lengua de las mariposas” é uma dessas narrativas que. aproximando-o da narrativa ficcional. As cenas iniciais do filme mostram imagens fotográficas da época. A primeira experiência escolar de Moncho. foi transposta para o cinema em 1999 por José Luis Cuerda. o menino reluta em estabelecer uma relação amistosa com o professor e os outros alunos. DE MANUEL RIVAS E LA LENGUA DE LAS MARIPOSAS. de mulheres e crianças. é traumática. e seu aluno Moncho. embora seja uma ficção. em que se evidenciam a vida cotidiana. O medo de apanhar . “ Un saxo en la niebla ” e “Carmiña”. interpretado pelo ator Fernando Fernán Gómez. relatada no filme. do início ao fim do século XX. traduzindo-se em um grande êxito cinematográfico.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 31 MEMÓRIAS DA GUERRA CIVIL ESPANHOLA NA FICÇÃO: LEITURAS DE ¿QUÉ ME QUIERES. associada à pobreza e às dificuldades de sobrevivência da Espanha rural pré-franquista. Manuel Lozano. retratos do atraso social de uma Espanha tradicionalista com os olhos voltados para o passado. Certamente este recurso é uma forma de dialogar com o espectador no sentido de mostrar como a narrativa fílmica. ansioso com seu primeiro dia na escola. A princípio. amor?. publicado em 1995 e escrito originalmente em galego. Estas imagens “reais” se mesclam estrategicamente com as cenas do filme. DE JOSÉ LUIS CUERDA Adriana Aparecida de Figueiredo Fiuza UNIOESTE No livro de contos ¿Qué me quieres. criando com estas representações um suposto pacto de “verdade”. juntamente com outros dois contos. Don Gregorio. para escapar da guerra na África. por medo. É neste momento em que o espectador dá um salto para a ficção sem se dar conta de tal fato. Trata-se de uma maneira de iludir o espectador. de Manuel Rivas.

“Los maestros no ganan lo que tendrían que ganar”. Pronto me di cuenta de que el silencio del maestro era el peor castigo imaginable. o que revela uma pedagogia de Don Gregorio diferente daquela que se praticava nos anos de 1930 e que ficava expresso no discurso de outros personagens. ele instrui seus alunos também sobre as lições da vida. Com o transcorrer da narrativa. no diálogo entre os pais de Moncho sobre a condição econômica de Don Gregorio: “ Estoy segura de que pasa necesidades”. Este tirocínio está relatado pelo narrador tanto no filme quanto no conto e é um ponto crucial para entender a metáfora do autoritarismo que paira naquele momento em que a Guerra Civil ainda não havia sido deflagrada na Galicia. 29) No discurso final da mãe percebe-se um tom de ameaça. ao complementar o relato do menino: No. decía mi madre por la noche. como se a vitória dos franquistas estivesse dada como certa. el maestro Don Gregorio no pegaba. p. descorazonador. mi padre. 2006. a natureza e as mulheres de maneira libertária. no conto e no filme. “parecéis carneros”. p. divulgada pela Igreja. Entretanto. y hacía que se estrecharan la mano. Cuando dos se peleaban durante el recreo. Y no pega. 26-27) Don Gregorio é o professor que ensina não apenas conhecimentos científicos. Entretanto. Moncho torna-se amigo íntimo de Don Gregorio. uma vez que o pai se identifica com a República (“Ellos son las luces de la República”) e a mãe adota uma postura conservadora. sua conduta libertária é o que propiciará sua perseguição em um ambiente político sufocante que já se anunciava. “¡La República. como si nos hubiese dejado abandonados en un extraño país. Mi madre. Era un silencio prolongado. 2006. por exemplo. Esta questão dos ideais libertários pode ser vista ao longo da narrativa. O diálogo entre Moncho e sua mãe é referendado pelo narrador. “Ellos son las luces de la República”. p. como assegura o narrador Moncho: . (RIVAS. no. Esta dicotomia pode ser observada na voz do narrador do conto. 26). como no do próprio pai do menino ao comentar-lhe em tom de ameaça: “Ya verás cuando vayas a la escuela!. El maestro no pega” (RIVAS. Al contrario. contrariando as convenções da sociedade espanhola daquele momento. frase que se repete na narrativa com o objetivo de enfatizar o tormento que era ir à escola. ao discorrer sobre a literatura. já se sente de maneira velada uma ameaça política no pano de fundo social. Esta ameaça pode ser visualizada em alguns episódios como. 2006. la República!¡Ya veremos adónde va a parar la República! (RIVAS. Quiero decir que mi madre era de misa diaria y los republicanos Portanto. castigando não com violência física. tendré que callarme yo”. Portanto. mas com o silêncio. […] La forma que Don Gregorio tenía de mostrarse muy enfadado era el silencio (RIVAS. perdida en el Sinaí. quando o professor se sente desrespeitado pelos alunos. con la mirada ausente.32 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS e a exposição a que o menino é submetido frente aos outros alunos o fazem perder o controle de seu corpo. urinando na frente de todos. p. Después los sentaba en el mismo pupitre. a exemplo de quando a mãe de Moncho pergunta como havia sido na escola: “ Te ha gustado la escuela?” “Mucho. muito mais poderoso que a correção física. Y se dirigía hacia el ventanal. casi siempre sonreía con su cara de sapo. 2006. sentenciaba. él los llamaba. atua de maneira diferente dos outros “maestros” da época. que comenta as posições ideológicas dos personagens: “Mi padre era republicano. con sentida solemnidad. sobretudo. Porque todo lo que él tocaba era un cuento fascinante. que se via advertida pela proposta do Estado laico da República. uma vez que o aluno percebe de maneira sensível os pressupostos libertários do professor e. o respeito aos alunos que advém deste princípio pedagógico. logo em seguida ao diálogo dos pais de Moncho. percebe-se que o tema das duas Espanhas também está metaforizado no próprio discurso do casal. 26) “Si vosotros no os calláis.

2006. No se lo regalo. Moncho. primeiro o povo sendo aprisionado de forma arbitrária. “¡Que vean que gritas. Neste sentido. aflito. inclusive o pai. 33). los de los sindicatos. cujos livros são queimados. que vean que gritas!” (RIVAS. Moncho. como ocorre com: O pai. p. no se lo regaló”. como si lo sujetase con todas sus fuerzas para que no desfalleciera. ¿Has entendido bien? ¡No se lo regaló!” “No. p. 29). “No. juntamente com outros homens do povoado. começa a gritar envergonhado e logo desesperado ofensas para dissimular sua profunda consternação e fraqueza: “¡Traidores!”. Los periódicos. Ramón. a queima dos livros do pai se trata de um prenúncio do que viria a ser a ditadura franquista. uma vez que todo o povoado representava uma maioria que poderia facilmente ter parado a guarda civil. pois demonstra os dois lados da Guerra. de la multitud fue saliendo un murmullo que acabo imitando aquellos insultos.” (RIVAS. É por esse motivo que ela faz todos negarem o passado republicano. Moncho. (RIVAS. em minoria. 2006. O episódio nos traz à memória dois momentos emblemáticos da história da espanha.. Papá no hablaba mal de los curas. A mãe de Moncho é a primeira da família a tomar a iniciativa de compactuar com os crimes do franquismo.] “¡Criminales! ¡Rojos!” (. que proibiria a liberdade de expressão.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 33 aparecían como enemigos de la Iglesia. 2006. Papá no Le regalo un traje al maestro”. Ramón. Poco a poco. o professor é preso. Papá no era republicano. Na verdade. chepudo y feo como un sapo. sem haver cometido crime algum. p. A imposição da mãe se dirige também a Moncho. o da Santa Inquisição. o menor da família. que. p. afim de livrar o personagem Quijote de sua suposta loucura.. convencido que o melhor seria gritar. como revela o narrador: “Grita tú también. el cantero a que llamaban Hércules. por ser considerado um inimigo do regime ditatorial que se instaura. época em que se queimavam os livros considerados proibidos e da cena de Don Quijote de la Mancha (1605). por lo que más quieras. mas que compactuaram com a prisão dos inocentes como forma de eles próprios se livrarem do infortúnio dos vizinhos. 2006. [. (RIVAS. “¡Traidores! ¡Criminales! ¡Rojos!” (RIVAS. No ápice do conflito entre republicanos e franquistas no povoado a mãe impõe seu caráter religioso na tentativa de salvar sua família. 32) Ao final da narrativa literária e fílmica. ainda que possa ser considerado um gesto covarde.) “¡Asesino! ¡Anarquista! ¡Comeniños!” (…) “¡Cabrón! ¡Hijo de mala madre!” (RIVAS. 2006.” (RIVAS. O término do relato é contundente. Y otra cosa muy importante. los libros.. El maestro. 31). instauraria a Censura e não somente a literária e junto com ela a repressão. mamá. em sua inocência de criança. 32) Este pacto com o gesto criminoso da guarda civil é uma forma de proteger-se do mesmo crime. custa a entender a conjuntura daquele momento histórico: “Recuerda esto. 2006. 2006. insulta aqueles que antes pertenceram ao mesmo grupo ideológico que ele. p.. Todo. padre de Dombodán. Y al final de la cordada. p. o acovardamento dos que não foram encarcerados. Moncho. el vocalista de la Orquesta Sol y Vida. ¡grita!” Mi madre llevaba a papá cogido del brazo. Charli.. 31) El alcalde. argumenta: “ Hay que quemar las cosas que te comprometan. “Sí que se lo regalo”. Papá no era amigo del alcalde. p. 32) Em seguida.. el bibliotecario del ateneo Resplandor Obrero. mas nem por isso menos aterrorizante. Tal fato é observado na conduta imitativa dos que assistiram a atuação da guarda civil: Se escucharon algunas órdenes y gritos aislados que resonaron en la Alameda como petardos. . Ramón.

26). caberia questionar o motivo dessa necessidade de se abordar o tema da memória na literatura e no cinema contemporâneo. Buscaba con desesperación el rostro del maestro para llamarle traidor y criminal. 33). que Moncho se surpreende pelo fato de as borboletas possuírem uma língua. época em que tudo parece ser mais admirável. 2006. p. 469). […] con los puños cerrados. (. Tanto é assim. Outra resposta plausível é a que nos oferece o historiador Jacques Le Goff. visto que a literatura pode ser considerada como um espaço público da expressão da sociedade. Portanto. que sonhava em receber de Madrid um microscópio para mostrar aos alunos da escola a língua das boborletas: “Hoy el maestro ha dicho que las mariposas también tienen lengua. relembra a efêmera alegria em companhia do professor Don Gregorio. Quem possui o controle desta memória. Portanto. cuja busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje. prenunciando os longos anos da ditadura que se iniciava. também alcança o poder. com o objetivo de mascarar e eliminar a memória republicana e antifranquista. Em tempos de ditadura. como já é de conhecimento. já que nada consegue vê-la. Esta é a última lembrança do narrador daquele período turbulento que a história relataria. ao refletir sobre a importância da memória no mundo contemporâneo. Moncho se consome ao ver o profesor sendo levado para alguma prisão franquista e seu grito de insulto nada mais é que um grito de desesperança pelo que estava ocorrendo e o que haveria ainda de ocorrer na Espanha de Franco. a não ser por meio de um microscópio.. a imagem da língua da borboleta enrolada dentro de sua boca é a imagem da mordaça. grítale tú también!” (RIVAS. Por fim. Monchiño. p. 33).) ¿A que parece mentira eso de que las mariposas tengan lengua?” (RIVAS. agora já adulto. No relato. Daniel Lvovich e Jaquelina Bisquert (2008. o tema da memória na literatura é um gesto de se rememorar de forma coletiva. o próprio narrador também parece se surpreender pela falta de língua. o controle da memória coletiva pode ser entendido como um instrumento e um objeto de poder. sólo fui capaz de murmurar con rabia: “¡Sapo! ¡Tilonorrinco! ¡Iris!” (RIVAS. 2006. A borboleta. yo fui uno de los niños que corrieron detrás. O menino. que. da falta de liberdade e do silêncio que a ditadura franquista impôs à sociedade espanhola. que llevan enrollada como el muelle de un reloj.. passa muitas vezes despercebida pelas instâncias do poder. para permanecer no poder. parece ser no conto de Rivas a metáfora da própria infância. relata como fora sua intervenção no acontecimento: Cuando los camiones arrancaron.34 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS também participa do episódio incitado pela mãe: “¡Grítale tú también. 2006. que é o narrador do conto. Franco é um dos maiores exemplos desta teoria. 8) discorrem que a memória se transmite e se reforça por meio de práticas de rememoração e comemoração variadas. cargados de presos. p. configurada na idéia da memória da história recente. na febre e na angústia” (2003. para que se tome consciência dela. utilizadas para estabelecer a memória coletiva. tirando piedras. una lengua finita y muy larga. individual ou coletiva. por sua linguagem altamente simbólica. A memória da Guerra Civil advém justamente da memória desse narrador que. As possibilidades de respostas são variadas. p. um animal belo. colorido e delicado. inevitavelmente. precisa ser desenrolada como a língua da borboleta do relato. manipulou a memória da forma que pôde. Esta cena é marcante no final do filme em que a câmera fica lenta. entretanto. estando livre de suas . Le Goff assevera que “a memoria é um elemento essencial do que se costuma chamar identidade. É importante ressaltar que assim como seu pai. a literatura. p.

Jaquelina. Manuel. Sonoro. 2006. podendo revelar. 2003. Jacques. LE GOFF. a literatura pode desempenhar a função de preservar uma memória que se perde no tempo e no espaço. La cambiante memoria de la dictadura: discursos políticos. Los Polvorines: Universidad Nacional de General Sarmiento. ¿Qué me quieres. LVOVICH. Daniel. movimientos sociales y legitimidad democrática. 1999.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 35 amarras. não se pode esquecer que as reivindicações do presente e a intenção do Estado em dar voz e visibilidade ao passado. Buenos Aires: Biblioteca Nacional. amor? Madrid: Punto de Lectura. 2008. legenda. Entretanto. Local: Espanha: Sogecine. nas fraturas de seu discurso. Direção de José Luis Cuerda. História e memória. color. por meio de políticas da memória. ajudando a fixar sentidos para as reminiscências. DVD (95 minutos). BISQUERT. oferecendo novas perspectivas sobre a memória e o seu reconhecimento público. Referências bibliográficas LA LENGUA DE LAS MARIPOSAS. Em tempos de democracia. RIVAS. a memória silenciada e esquecida. são fundamentais para a valorização dos códigos memorialísticos. . Campinas: UNICAMP.

Neste trabalho apresentaremos alguns dados da análise da variedade de espanhol de Montevidéu. na qual objetivamos detectar diferenças sintáticas subjacentes entre o espanhol e o português brasileiro nessa área da gramática. 1998. +/específico]. iniciamos uma análise sociolinguística a respeito da variação na realização do objeto pronominal acusativo de 3ª pessoa no espanhol.36 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS A VARIAÇÃO NA REALIZAÇÃO DO OBJETO PRONOMINAL ACUSATIVO NO ESPANHOL: UM ESTUDO INICIAL Adriana Martins Simões PG . Entretanto. LABOV. a variedade de espanhol de Montevidéu também apresentaria objetos nulos restringidos a antecedente [-definido. 1997. 1981.Universidade de São Paulo 0. Conforme Groppi (1997). 2001. A segunda parte será dedicada à metodologia. a partir das teorias gerativa (CHOMSKY. tendo como variantes o clítico e o objeto nulo e como corpus entrevistas do PRESEEA. embora em outras variedades do espanhol essa categoria vazia seja possível em contextos mais amplos (FERNÁNDEZ ORDÓÑEZ. 1996. Essa análise integra nossa pesquisa de doutorado1. 1999) e sociolinguística (LABOV. 2003). o que contrariaria essa hipótese inicial. 2006). 2002. . ao analisar os dados. a fim de investigar a gramática não nativa do espanhol (GONZÁLEZ. específico]. específico]. 1999). -específico]. Introdução Os trabalhos de Campos (1986) e Fernández Soriano (1999) mostram que o espanhol seria uma língua em que a categoria vazia em função de objeto direto estaria restringida a antecedente [-definido. WEINREICH. 2008. 2003. HERZOG. Na terceira parte apresentaremos alguns dados da análise e por fim algumas considerações a respeito. 2005. 1999. Partimos da hipótese de que essa variedade apresentaria objetos nulos restringidos a antecedente [-determinado. LICERAS. Este artigo se estrutura da seguinte forma: na primeira parte abordaremos aspectos da gramática do espanhol quanto à realização do objeto pronominal acusativo. observamos categorias vazias em função de objeto acusativo com referente [+determinado. 1994. Considerando-se esses estudos.

— No vas a encontrar las b botas — Sí voy a encontrar Ø i . 1999). A gramática do espanhol na realização do objeto pronominal acusativo Por ser um determinante definido (DI TULLIO. las c cosas de muje ujer ugue t e i ]. nas construções em que o verbo seleciona o objeto direto e o indireto [exemplo (4)] e nas orações que precedem a do antecedente [exemplo (5)]: (3) (4) (5) osas d em uje resi nadie Ø i entiende. que nas variedades em geral do espanhol se restringiria apenas a esse tipo de antecedente (CAMPOS. 1997. -específico] (GROPPI. jugue uguet Me Ø i quitó otra vez [ e l j otasi en la chacra. 1999). (1) (2) res — ¿Compraste flo flor es? — Sí. . — Yo tampoco *lo / Ø tengo. No vayas a ver esa p pe Já na variedade de espanhol de Montevidéu os objetos nulos estariam restringidos a antecedente [-definido. LEONETTI. em algumas variedades do espanhol o objeto nulo poderia ocorrer em contextos mais amplos. o clítico poderia ter como referente apenas um sintagma nominal [+específico] (FERNÁNDEZ SORIANO. FERNÁNDEZ SORIANO. +determinado] na fala de pessoas bilingues de nível sociocultural médio e baixo. -específico] ocorreria o objeto nulo. como pode ser observado pela diferença no julgamento de gramaticalidade das sentenças (9) e (10). +determinado] em construções de topicalização [exemplo (6)]. Ø/*las compré. Entretanto. 1999). 1997) 2. FERNÁNDEZ ORDÓÑEZ. conforme Fernández Ordóñez (1999). Entre essas variedades estaria o espanhol falado no Paraguai em contato com o guarani. no qual o objeto nulo ocorre em referência a antecedente [-animado. 1986. ele lec ciones r abajoi ]. Como na ausência de determinante os nomes comuns do espanhol não constituiriam expressões referenciais (LACA. tr ¿Te Ø i permitirán entregar sin terminar Ø i ? [ e l t e lículai porque no Ø i vas a entender.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 37 1. Assim. Essa categoria vazia ocorre em estruturas de topicalização [exemplo (3)]. Vos sabés. em construções com objeto direto e indireto [exemplo (7)] e em orações adverbiais [exemplo (8)] (cf. no caso de um referente [-determinado. Siempre Ø i encontré cuando Ø i busqué. como pode ser observado pelo contraste de gramaticalidade nas sentenças em (1) e (2). *Ø/las compré. 1999): (6) (7) (8) Las e le c cio nesi yo nunca Ø i entendí. que também apresenta objetos nulos com referente [-animado. 1999). Outra variedade em que o objeto nulo seria possível em contextos mais amplos seria a do espanhol falado na Serra do Equador. (9) — No tengo coche. seria incompatível que fossem retomados por clítico. res — ¿Compraste las flo flor es? — Sí.

A análise sociolinguística: corpus e metodologia Para a realização do estudo sociolinguístico. entre eles analisamos a estrutura do sintagma determinante4. sendo elas a variedade de Montevidéu e a de Madri. Nos enunciados em (11) e (12) os clíticos retomam um antecedente [+determinado. analisamos diferentes faixas etárias6 e variedades do espanhol. encontramos dados que contrariaram essa hipótese como veremos na terceira parte do artigo. Na maior parte dos fragmentos selecionados os clíticos ocorrem em construções com topicalização. — Yo tampoco lo / *Ø tengo. Tendo em vista esses estudos. os traços semânticos 5 do antecedente e diferentes contextos estruturais como topicalização. construções em que o verbo seleciona os objetos direto e indireto e em construções adverbiais. construções em que o verbo seleciona objeto direto e indireto e orações subordinadas adverbiais. Contudo. porém em (12) trata-se dos casos em que o sintagma nominal é encabeçado por um quantificador7. Alguns dados da análise Iniciaremos apresentando alguns dados de 2. +específico]. 3.38 (10) — No tengo el coche. analisamos 20 entrevistas da variedade de espanhol de Montevidéu provenientes do PRESEEA (Proyecto para el Estudio Sociolingüístico del Español de España y de América). A variável de nossa pesquisa constitui a realização do objeto pronominal acusativo de 3ª pessoa e como variantes temos o clítico e o objeto nulo. Quanto aos fatores extralinguísticos. -específico]. 3 ocorrência de clítico encontrados nas entrevistas. partimos da hipótese de que na variedade de espanhol de Montevidéu os objetos nulos estariam restringidos a antecedente [-determinado. de modo que nos contextos em que tivéssemos referentes [+determinados] e [+/-específicos] esperaríamos encontrar a retomada pelo clítico. r io no lo sentí tan mío / (…) (11a) I: (…) porque después cuando volví allá / ya como que e l bar barr icic le ta tirada en la plaza de deportes ¡no sabía icicle leta (11b) I: no antes no / eeh como ser Roberto dejó ocho días la b bicic dónde estaba! // <risas = “I” /> después se la trajo el hombre que cuidaba / porque al ver que no la iba a buscar se la trajo el hombre que cuidaba! (11c) us ab ue los te acordás? E: ahá // decime ¿y a t tus abue uelos ue los no los conocí I: <tiempo=”02:43"/> no / porque a mis ab abue uelos (12a) r it o I: (…) <vacilación/> después tuvieron el tupé de entrar al dormitorio // que hay un alhaje alhajer ito que Valeria tenía las alhajitas más // mejores l <vacilación/> las trajeron para acá porque yo lo encontré acá / y se lo llevaron / (…) (12b) c e ne ro a un c o no cid on uest ro d e a cá I: (…) esa misma noche porque habían asaltado a un alma almac ner co nocid cido nuest uestr acá a la v ue lta / estee no no lo había asaltado lo había amenazado / de asalto vue uelta . ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Em relação aos fatores linguísticos.

1986. constituiriam o tipo de antecedente com o qual essa categoria vazia seria possível nas variedades de espanhol em geral (CAMPOS.. 1997).ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 39 Os enunciados em (13) e (14) constituem ocorrências de clítico cujo referente é [+determinado. sendo os antecedentes dos enunciados em (14) sintagmas nominais encabeçados por quantificador.) no es que le guste tanto e l d de a contracturar su espalda por ejemplo / (…) (13c) o ¿cuál es tu forma de tratamiento? E: perfecto / y cuando vas al médic médico I: bueno / ahí viste que bah bueno depende de la situaciones ¿no? un poco formales / también depende un poquito / voy y observo /si me tutea eeh yo lo tuteo / porque él me habilitó o nst r uc ción / podíamos hacerla la (14a) I: eh bueno ta la propuesta fue para para hacer algo una c co nstr ucción acá e r so na mm no sé de setenta años capaz (14b) I: sí / y ahí para mí es el tema de la edad // si es una p pe sona e r so na que la trato de usted / si es una p pe sona na<alargamiento/> hasta esa edad / eeh / de chico hasta esa edad más o menos yo ya la trataría de vos / en mi caso por lo menos Nos enunciados em (15) temos casos de objeto nulo com referente [-determinado. (13a) E: pero claro // ¿y tenés pasaporte / el pasaporte? o r t e me lo saqué sí I: e l pasap pasapo e p o r t e pero lo considera una necesidad y tiene tendencia (13b) I: (. como vimos. (15a) I: (…) porque yo he comido piza en bares / Ø he comido en otras casas escuchado mil historias de gente que ma // he (15b) I: (…) yo por suerte nunca he tenido p ro b le lema Ø ha tenido pero / yo no no no Ø he tenido así (15c) E: y en el jardín ¿tenés plantas plantas? I: sí / en el fondo Ø tenemos sí / (…) cio nes o no? (15d) E: ¿y en navidad también tenés v a ca cacio ciones I: no / en navidad no / Ø tengo únicamente el veinticinco de diciembre no trabajo porque igualmente es un feriado <ininteligible/> (15e) amig os E: listo / y<alargamiento/> y bueno tenés ¿amig amigos os? me imagino I: Ø tengo <risas = “I”/> .. 1999) e na variedade de Montevidéu (GROPPI. que. -específico]. FERNÁNDEZ SORIANO. -específico].

-específico].. (17b) e (17d)..) crema / pero un he hela lad de hela lad e r so na (16b) I: y<alargamiento/> suponete / si es una p pe sona determinado ca<alargamiento/>rgo en el en el área laboral te digo / por ejemplo / este Ø trato de usted na / y no Ø tuvieron y bueno (. encontramos essa categoria vazia com referente [+determinado. variedades estas que apresentam objetos (16a) nulos em contextos mais amplos (FERNÁNDEZ ORDÓÑEZ.40 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Entretanto. -específico]. -específico]. Os enunciados em (16)-(18) apresentam ocorrências de objeto nulo [+determinado. além de objetos nulos em referência a antecedente [-determinado. Nos enunciados (17a). assim como com referente [+determinado. que.) e nt e ma yo r / por costumbre Ø trato de usted (17e) I: ahí lo trato de usted / no tengo mucha onda con la g ge nte may (18a) / la piza (18b) I: (…) ahora me tocó esto yestee y bueno / y<alargamiento/> lo primeros días fueron muy osas más e le me ntales no Ø podía hacer (…) podía / las c cosas ele leme mentales sobrellevé lo mejor que pude / los vestirme bravos porque ni bañarme podía sola / estee no podía nada / ni I: hace tiempo que no lo hace más / desde que falleció mi padre hace / veintiún año no / ella o midas case r as // dejó de hacer t o das esas c co caser no Ø hace más // lo que hace los domingos / de tradición así .. +específico]. Observamos que algumas das construções com objetos nulos ocorreram em estruturas de topicalização. o que revela variabilidade na intuição dos falantes...) (16c) I: (…) siempre le hubiera gustado tener una ne nena e int icinc o lo pasamos con la madre de mi marido acá (17a) I: (…) todo bien tranquilo y<alargamiento/> e l v ve inticinc icinco / en Montevideo / es viuda hace unos años / Ø pasamos con ella y la hija soltera vive con ella (…) (17b) I: (…) yo<alargamiento/> hace tres años atrás no sabía manejar una computadora / tenía miedo o mpu ta dor a y<alargamiento/> al empezar este curso<alargamiento/> me gustaba lo que era el diseño pero a la c co mputa tad la odiaba por el simple hecho de que no Ø conocía y me parecía más difícil de lo que era // y fui a hacer este curso medio a regañadientes y cuando me quise acordar estaba <vacilación/> ya estaba manejandoØ Ø y era mucho más fácil de lo que pensaba (…) (17c) nú E: ¿y tienen una comida típica para Navidad o van cambiando e l me menú nú? I: no Ø vamos cambiando de acuerdo al estado de ánimo de<alargamiento/>l que recibe / ulc es o los b udín ing lés / o a veces Ø preparaba mi (17d) I: (…) mi madre siempre preparando o los pan d dulc ulces budín inglés abuela y los mandaba para allá (. Esses dados contrariaram nossa hipótese inicial de que o objeto nulo na variedade de Montevidéu estaria restringido a antecedente [-determinado. os em (17) sintagmas nominais encabeçados por determinantes e os em (18) sintagmas nominais encabeçados por quantificador e determinante. constituem contextos estruturais em que o objeto nulo ocorre nas variedades do Paraguai e da Serra do Equador. sendo que os enunciados em (16) constituem sintagmas nominais encabeçados por quantificadores. o referente também é retomado por clítico. conforme vimos. 1999).. construções com objeto direto e indireto e sentenças adverbiais.. em que o sintagma nominal antecedente é encabeçado por determinante. -específico].. la d o en la heladería <cita> porque Miguel I: (.) mi madre así <vacilación/> no se compraba un he hela lad nos ayuda / y tú sabes que no / yo te Ø hago en casa de lo que tú quieras / de chocolate / de ma yo<alarg amie nt o/>r u ocupa may o<alargamie amient nto/>r no / porque / la do d e he la d e ría no te Ø puedo comprar </cita> (. além da ocorrência do objeto nulo.

. A partir disso.. nossa hipótese é de que haveria uma coexistência de gramáticas (CHOMSKY. (19a) I: (. como também com referente [+determinado. . -específico]. contextos nos quais esperávamos encontrar apenas clíticos.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 41 Nos enunciados em (19) e (20) os objetos nulos têm como referente um sintagma nominal [+determinado. a que me quedé sin 4. Por outro lado. sendo que em (19) o sintagma é encabeçado por quantificador. Algumas considerações sobre os dados Os dados observados revelam que na variedade de espanhol de Montevidéu os objetos Esses dados parecem sugerir que haveria um processo de variação linguística nessa variedade de espanhol.) (19b) I: (…) entonces eeh <vacilación/> Belén ahora por ejemplo estudia en <vacilación/> en unos lib ros no donde si la tarea es sintetizar la información / eeh <vacilación/> nos ahogamos porque libr no hay lo que es sintetizar porque están previstos para que el niño <énfasis> ya </énfasis> Ø tenga resumido (19c) I: nunca he llegado al <risas = “todos”/> / este<alargamiento/> / cuando llegué a los / unos cub ie r t os creo que Ø tenía Devoto / ya habían aparecido los táper / así cubie ier los cubiertos (…) (19d) E: ¿ahí en el Parque Rodó? I: sí / una plazoleta chiquitita / estee / 21 de Setiembre / se engancha con Bulevar ee l las / Ø violaron / eran las seis de la mañana España por ahí / a una d de el (20a) I: (…) digo / acá tenemos un solo canal de televisión que pasa información sobre <siglas = [sída]/> SIDA </siglas> / o / no lo mira nadie sobre / sobre drogas / que es e l canal cinc cinco E: <tiempo = “30:35”/> ah no I: <ininteligible/> ¿quién Ø mira? muy pocas personas miran canal cinco // (. +específico].) (20b) ea E: ¿y cómo afecta eso t u tar tarea ea? ¿afecta en algo? I: <tiempo = “6:00”/> a veces Ø afecta en la labor en el aspecto de que no tenemos totalmente una / una resolución (…) Os dados que apresentamos constituem algumas ocorrências de realização do objeto pronominal acusativo de 3ª pessoa por clítico e objeto nulo encontrados nas entrevistas analisadas. ocorre variação entre o clítico e o objeto nulo.. Em (20a).. observamos que a retomada do referente por clítico constitui a forma mais recorrente. nulos seriam possíveis não apenas com referente [determinado..) yo ya me quebré el año pasado un pie / no fue acá pero / pero quedé E: ¿dónde fue? / ¿qué te pasó? I: y yo me Ø quebré en la Intendencia / (.. em que o sintagma nominal antecedente é encabeçado por determinante. apesar das ocorrências de objeto nulo. o que contrariou nossa hipótese inicial. A seguir apresentamos algumas considerações e possibilidades de análise. +/-específico].

p. Hector (1986): Indefinite object drop. p. _____. DI TULLIO. p. Madrid: Espasa. _____. Formas y distribuciones. São Paulo. Lisboa: Caminho. inédita. Pamplona: Universidad de Navarra. n. Tese de doutorado. Raposo. (1998): Pero ¿qué gramática es ésta? Los sujetos pronominales y los clíticos en la interlengua de brasileños adultos aprendices de Español/LE. p. 17. Mary (orgs. p. Ignacio & DEMONTE. Carlos (SP): Claraluz. DL/FFLCH/USP. FERNÁNDEZ SORIANO. Ian & KATO. LIGHTFOOT. Editora da Unicamp. GALVES. 387-408. n. Campinas – SP.): Gramática Descriptiva de la Lengua Española. Angela (1997): Manual de gramática del español. Em: Estudos Lingüísticos XXXIII. Cultura y Deporte/ ABH. S. Fátima Cabral (org. CHOMSKY. E. (2003): Lugares de interpretação do fenômeno da aquisição de línguas estrangeiras. Pronombres átonos y tónicos. Noam (1981): Lectures on Governing and Binding. 1317-1391. Em: Linguistic Inquiry. Trad. Em: Cadernos de Estudos Lingüísticos. 1993. Lívia de Freitas (orgs. Madrid: Espasa. 1209-1273. Entretanto.): Hispanismo 2000. _____. 354-359. Por alguma razão essa variedade do espanhol teria passado a permitir objetos nulos com referentes [+determinados]. Violeta (orgs. _____. 239256. Em: TROUCHE. _____. 1999) nessa variedade da língua. sendo uma gramática a que permite o clítico e a outra a que possibilita o objeto nulo em contextos mais amplos. Dordrecht: Foris. Neste momento estamos investigando a natureza dessas categorias vazias. laísmo y loísmo . Ignacio & DEMONTE. 36. p. Buenos Aires: Edicial. Em: BRUNO. (1999): Sobre a aquisição de clíticos do espanhol por falantes nativos do português. ao contrário do que ocorreu no português brasileiro (cf. FERNÁNDEZ-ORDÓÑEZ. Em: ROBERTS. Brasília: Ministerio de Educación. A análise quantitativa revelará os contextos linguísticos que favorecem o clítico e o objeto nulo e a análise das diferentes faixas etárias poderá indicar se se trata de uma variação estável.): Gramática Descriptiva de la Lengua Española. publicado em forma de CD Rom. p. GONZÁLEZ. Em: RILCE: 14. (1999): O Programa Minimalista. Editora da Unicamp. (2005): Quantas caras tem a transferência? Os clíticos no processo de aquisição/aprendizagem do Espanhol/Língua Estrangeira. Os pronomes pessoais na aquisição/ aprendizagem do espanhol por brasileiros adultos.): Ensino-Aprendizagem de Línguas Estrangeiras: reflexão e prática. p.): Português brasileiro: uma viagem diacrônica.42 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 1999. Em: BOSQUE. ________ (2001): Ensaios sobre as gramáticas do português.2: Español como lengua extranjera: investigación y docencia. as ocorrências de clíticos revelam que a ampliação na possibilidade de objetos nulos não estaria relacionada à perda do clítico. Violeta (orgs. 1. (2001): La expresión de la persona en la producción CAMPOS. . Campinas: UNICAMP/IEL. 53-70. Nossa ideia seria considerar a gramática que permite objetos nulos em contextos mais amplos como uma pista sobre a possibilidade dessa categoria vazia nas línguas naturais e a gramática dos objetos nulos restringidos como base para a análise da gramática não nativa. 2001). 243-263. Campinas – SP. Em: BOSQUE. GALVES. v. Referências bibliográficas _____. André Luiz G. Olga (1999): El pronombre personal. Charlotte (1993): O enfraquecimento da concordância no português brasileiro. & REIS. Campinas (SP): UNICAMP. 163-176. Neide Therezinha Maia (1994): Cadê o pronome? O gato comeu. de español lengua extranjera de estudiantes brasileños: perspectivas de análisis. Inés (1999): Leísmo.

WEINREICH. Em: BOSQUE. Papers from the 6th Hispanic Linguistics Symposium and the 5th Conference on the Acquisition of Spanish and Portuguese. Amsterdam: John Benjamins. Mirta (1997): Pronomes pessoais no português do Brasil e no espanhol do Uruguai .mec. . LACA. São Paulo.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 43 GROPPI. São Paulo: Parábola Editorial. Madrid: Taurus. apenas quantificam. 891-928. LICERAS. mas não identificam um referente. esses seriam os numerais e os determinantes indefinidos. por carecerem de definitude. Ignacio & DEMONTE. 258-283. 317350. Trad. Em: EUROSLA ’97. Madrid: Espasa. processo n° 146998/ 2010-3. São Paulo: Parábola. Barcelona: Universitat Pompeu Fabra. William. Madrid: Síntesis. and e volution . (1999): Los determinantes.): Gramática Descriptiva de la Lengua Española. Malden. Mass: Blackwell. Trad. os demonstrativos e os possessivos. Proceedings. 1999). esses elementos determinariam a referência de um sintagma nominal por terem como característica semântica a definitude. Ana Teresa. Tese de Doutorado. Paula & PIÑEROS. o que não implica que esse referente seja conhecido. HERZOG. 65-85.: Cascadilla Press. ROBERGE. William (2008): Padrões Sociolinguísticos. Views on the acquisition and use of a second language. Uriel. practice and acquisition. Assim. As entrevistas analisadas da variedade de espanhol de Montevidéu estão disponíveis em http:// www. _____. Para o desenvolvimento dessa pesquisa contamos com uma bolsa do CNPq. p. Marta Pereira Scherre. (2002): Spanish L1/L2 crossroads: can we get there from here? Em: PÉREZ-LEROUX. Juana Muñoz (1996): La adquisición de las lenguas segundas y la gramática universal. Marwin (2006): Fundamentos empíricos para uma teoria da mudança lingüística. seriam determinantes o artigo definido. FFLCH-USP. Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.htm. LABOV. 2 3 Exemplos extraídos e adaptados de Groppi (1997:93). que. Acquisition. Isso significa que identificam um referente. LEONETTI. Cardoso. Madrid: Arco Libros. Notas 1 Nossa pesquisa de doutorado está sendo desenvolvida sob a orientação da Profa. Quanto aos quantificadores. de Marcos Bagno. Brenda (1999): Presencia y ausencia de determinante. p. Manuel (1990): El artículo y la referencia. Somerville. Dra. David (1999): The development of language. Neide Therezinha Maia González pelo Programa de Pós-Graduação em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-Americana da Faculdade de Filosofia. change. ________ (2003): Monosyllabic place-holders in early child language and the L1/L2 ‘Fundamental Difference Hypothesis’. Yves: Romance linguistics: Theory and acquisition. LIGHTFOOT. Mass. 2002. LABOV. Carlos Eduardo: Theory. _____. Em: KEMPCHINSKY. _____. p. de Marcos Bagno. Carolina R. Violeta (org.gub. 4 Nos baseamos na classificação de Leonetti (1999) para distinguir determinantes e quantificadores. p. Conforme esse autor (LEONETTI.uy/academiadeletras/MarcoPrincipal. (1997): The now and then of L2 growing pains.

(2) Hay una película que Óscar quiere ver. em (1) ‘una película’ será [+específico] se tiver o sentido de (2). embora não se possa identificar um referente. um sintagma determinado como em (4) teria uma referencialidade enfraquecida. 6 Os informantes das entrevistas foram divididos em quatro diferentes faixas etárias. De acordo com Leonetti (1999). a ausência de determinante implica que o sintagma seja [-referencial]. um sintagma [+definido] não significa que seja [+referencial] e um [-definido] não seria necessariamente [referencial]. Contudo. conforme Leonetti (1999). consideramos que um sintagma nominal encabeçado por esse quantificador pode ter um referente identificável e ser [+específico]. (4) Lucas quiere el coche más rápido del mercado. 30 a 45 anos. que. 19 a 29 anos. 7 Apesar de classificarmos un(os)/una(s) como quantificadores.44 5 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Consideramos especificidade com base em critérios lógicos (LEONETTI. ainda que desconhecido pelo falante. de modo que o SN será [+específico] apenas se fizer referência a um objeto determinado. o sintagma nominal un yate em (3) seria considerado [+específico] por referir-se a um objeto determinado. 1990). careceriam de definitude. Assim. (3) Ernesto quiere comprarse un yate. sendo elas. se a especificidade for vista a partir de critérios psicológicos. Assim. Por outro lado. . (1) Óscar quiere ver una película. 46 a 59 anos e 60 a 89 anos.

y que por por entonces era llamado “movimiento de liberación de la mujer” (León Hernández. privilegió el trabajo de los “grupos de autoconsciencia” . con una presencia menos contundente en la península. en contraste con la considerablemnte mayor atención que reciben los autores que escriben en prensa y el género del articulismo literario como fenómeno de hibridez (análisis en los que no se toman en cuenta las significaciones que el género sexual comporta en ellos). en los . pasando de un estado de carestía de los derechos de ciudadanía a la adquisición de un cúmulo de reivindicaciones que lograron sacarla de la “minoría de edad legal” (Romero Pérez. 2009). a partir de la lectura de dos realidades epistémicas (el feminismo ilustrado y la literatura neomoderna) que en ellas convergen y que dan cuenta de la particular significancia del género en esta clase específica de comunicación.1 En el ámbito del feminismo teórico. 2011. 2006).ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 45 EL PENSAMIENTO NEOMODERNO EN LAS COLUMNAS DE ROSA MONTERO Y ROSA REGÁS Adriana Virginia Bonatto Centro Interdisciplinario de Investigaciones en Género (CINIG) / Instituto de Investigaciones en Humanidades y Ciencias Sociales (UNLP . Universidad Nacional de La Plata (UNLP) Teniendo en cuenta el escaso número de estudios que se detienen en particular en el análisis de la columna de “autora”. p..escasamente reconocido por la historiografía acerca del periodo mencionado. se distinguen dos tendencias bien delimitadas. La modernización social. en la teoría y en la praxis. El primero de ellos. que reiteran la gran división del movimiento posterior a Simone de Beuvoir en Francia y en Estados Unidos: el feminismo de la diferencia y el feminismo de la igualdad. cultural y económica que protagonizara España desde la transición a la democracia en adelante debe una parte de su desarrollo a las intervenciones. y para quienes la igualdad de derechos entre el hombre y la mujer no constituía una urgencia en la agenda de cambios por lograr (Martínez Ten et al. del movimiento feminista de la década del setenta. La organización de grupos politizados de mujeres urgía en los setenta y principios de los ochenta y gracias a ellos la situación cívica de la mujer española se modificó de manera radical.CONICET) Facultad de Humanidades y Ciencias de la Educación (FaHCE).340) y de la adquisición de una serie de derechos impensables unos años atrás. proponemos aquí un acercamiento a las particularidades del discurso público dirigido de dos autoras españolas. visto además con ojos despectivos tanto por la derecha franquista como por la izquierda que retornaba a la escena política.

1996). y sin delimitaciones valorativas específicas. la autoestima y la solidaridad (Romero Pérez.2). en la novela . es decir. en sus planteos generales. en cambio. p.43) y proponen que la única forma de lograr la emancipación es mediante una verdadera y transformadora crítica al androcentrismo. se contraponen al programa emancipatorio desarrollado por la otra gran corriente. y sus principales impulsoras son Amelia Valcárcel. Desde este punto de vista. la negatividad axiológica y la heterogeneidad formal (Navajas. 2006.341). 2011. dentro y fuera de España.344). 4 De acuerdo con Gonzalo Navajas. Herederas del pensamiento filosófico de Simone de Beauvoir. así como a la interpelación social y política en torno al cuidado del medioambiente y al uso racional de la tecnología. se vuelve. p. al multiculturalismo de Amorós y al islamismo de Rosa Rodríguez Magda.45). Las feministas de la igualdad hunden sus raíces en el pensamiento ilustrado. La corriente de la diferencia. p. caracterizado por Gonzalo Navajas como estética neomoderna (Navajas. 2011. 2011. creadora del Feminismo de Estado3 y Celia Amorós. La recuperación de premisas ilustradas en un contexto posmoderno es comparable al movimiento paralelo en el ámbito literario. el feminismo de la igualdad. el feminismo de la igualdad cuenta en España con una trayectoria académica definitivamente asentada y reconocida. que en España ha venido impulsando los cambios más contundentes en relación con las políticas de igualdad e inclusión durante las últimas décadas. movimientos con fuerte sustento filosófico que apuntan a la integración cultural y a la igualdad de los grupos étnicos oprimidos. la literatura que se escribe a partir de la década del ochenta pauta el inicio de una nueva modalidad epistémica que se caracteriza por la aserción cognitiva y axiológica y que se aparta progresivamente de la configuración posmoderna. p. p. p. al cual consideran partícipe de un proyecto inacabado. de regreso parcial a los supuestos de una episteme moderna.46 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS que se abordaron temáticas como la sexualidad. abriendo un espacio inédito de reflexión y de acción.17-19). por no haber permitido la emancipación de las mujeres. p. con una proyección teórico política destacada en todo el ámbito español (Romero Pérez. Las ramificaciones de este pensamiento se extienden al ecofeminismo de Alicia Puleo.346-347). a la necesidad de las mujeres de participar en lo definido como lo “genéricamente humano” (Amorós. aunque limitado a grupos restringidos de mujeres cultas y lectoras de las nuevas tendencias provenientes del posestructuralismo francés y del psicoanálisis lacaniano (Sendón de León. p. quien creó en la década del ochenta el Seminario Permanente “Feminismo e Ilustración” en la Universidad Complutense de Madrid. En la situación posmoderna el mundo se percibe como “confuso y declinante” (1996.2 Desde un punto de partida teórico que considera que el único modo de superar la desigualdad dentro del patriarcado es buscando estrategias de homologación de las mujeres con el sexo-género que detenta el poder. que han producido obras fragmentarias y no conclusivas. en la que se revela la impostura masculina de apropiarse fraudulentamente de lo universal.20) y la invención de una metáfora aglutinante que preserve la visión ilusoria de unidad y de desarrollo progresivo es una empresa inconcebible. se presenta como la expresión feminista del posestructuralismo teórico y del posmodernismo artístico: lectoras atentas y críticas del psicoanálisis lacaniano y seguidoras del pensamiento estetizante de Luce Irigaray. 1996. aspectos en los que encuentran efectos perjudiciales para los grupos femeninos menos favorecidos (Romero Pérez. de autoinstituirse en representante de lo irreductiblemente humano (2006. especialmente fuerte en narrativa. 2011. caracterizada esta última por la indeterminación epistemológica. retoman sus disquisiciones en torno a la vindicación.

en las estrategias que se despliegan y en el tipo de diálogo que se establece con el lector. En los modos de llevar a cabo el ejercicio persuasivo. Sin haber estado inscriptas oficialmente en ningún movimiento feminista.68)– en un tipo de comunicación en la que la persuasión pareciera constituir el objetivo primero y último. algunos creen encontrar diferencias sustantivas en las columnas de las escritoras mujeres (Fernández Pérez. como recurso para atraer la atención del interlocutor y comprometerlo en el tema tratado (Fernández Pérez. la mitigación en las afirmaciones y los juicios de valor mediante el uso de fórmulas indirectas . 2004. ironía. 2007. 2008. 2007. situación que no deja de lado la visión que muchos autores aducen de sus textos como ejercicios literarios (Grohman. p. Nos interesa demostrar cómo en un mundo en que los valores dominantes son los impuestos por el mercado y la competencia. práctica definitivamente consolidada en España. p. p. sátira. y Angulo Egea. p. que en la mayoría de los casos puede describirse como una prolongación de la escritura literaria: las obras de ficción resultan enriquecidas por las reflexiones diarias o semanales de un yo que afirma en la columna su punto de vista más personal y que en ella se toma todas las libertades retóricas (persuasión. dan lugar a lo que Huyssen describe como los fenómenos posmodernos de obsolescencia planificada (Huyssen. p. ambas han reflejado en sus relatos y novelas aspectos relacionados con la realidad desigual de la mujer y con la problemática de los juegos de poder que subyacen a las relaciones entre los sexos.244). 2011. p.69). se ha señalado que el subjetivismo más radical es una de las características que comparten quienes se dedican a esta actividad (Castellani.151). de manera mucho más marcada que en la literatura de invención.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 47 contemporánea a una suerte de “potenciación del yo” (Navajas. los inmigrantes pobres y los niños. En relación con el género columna de autor. en la clase o en la raza y en su constante despegue de los procesos de canonización estandarizada (Huyssen. Entre las características que se enumeran como propias del género femenino en el discurso público dirigido encontramos como predominantes la utilización del discurso cooperativo. absurdo.83). por sobreabundancia y por yuxtaposición acelerada de la oferta cultural y mediática. experimentación lingüística) y actitudinales (desde el compromiso abierto con causas sociales y políticas hasta el desenfado y la irrisión desconcertantes) con el fin de conectarse con el lector –aquél que fielmente acude a la columna como primer texto a ser leído del periódico (Castellani.61). 1996. Angulo Egea y León Gross. 2007. la escritura periodística de estas autoras configura una voz femenina y un yo de enunciación que se reviste de dos tipos de autoridad: la de escritora y la de mujer. p. en su tarea de exploración de la subjetividad basada en el sexo. el cine. p. El cruce que proponemos entre pensamiento feminista ilustrado y literatura neomoderna nos sirve porque da cuenta del trasfondo cultural y epistémico que sostiene los procesos de construcción de un yo de enunciación femenino con características diferenciales en las columnas literarias Rosa Regás y de Rosa Montero. y en que la saturación de la información. y ambas también se han mostrado comprometidas con las realidades de las identidades social y culturalmente marginadas. 2008. 2009)5. Un yo que se constituye en una suerte de guía de multitudes con resonancias morales fuertes.65). la literatura y la crítica hechos por mujeres y por artistas pertenecientes a minorías. 2008.183) en la que se experimenta con la posibilidad efectiva de alcanzar modos de conocimiento que rehabilitan la significación del lenguaje y la investigación ética (1996. Esta vertiente es además visible especialmente en el arte. Estas características obligan a leer a estas autoras de modo diferencial dentro del vasto universo del articulismo literario. como los vencidos de la Guerra Civil.

dificultades de aprendizaje.48 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS o de la ironía (Fernández Pérez. mujeres golpeadas. lo que implica convulsiones. 2011.67). suele subrayarse la captatio benevolentiae y la mitigación de las mujeres opuestas a un “yo dictatorial” y “agresivo” (Castellani. la pormenorización descriptiva antes que la jerarquización (Fernández Pérez. con la autoridad de la voz de escritora. el 90% d e la fo de ig a ción sanitar ia m undial se c e nt r aba e n in v est inv estig iga sanitaria mundial ce ntr en las e nf e r me da d es d el P r ime r M und o.36). p. etcéctera). e n los límit es el bo de oscurida idad. A veces sí que existen medicamentos nuevos. fe de po ación de planeta. además.35) que les permite lograr una identificación exitosa con el lector.66). nunca está ausente.304). p. con un fuerte componente crítico. p. Desde nuestro punto de vista. las apreciaciones afectivas con un uso considerable del diminutivo y de la hipérbole (Fernández Pérez.2 y Angulo Egea y León Gross. 2009. la preferencia por el tono testimonial y confesional. como así tampoco ocurre con la opción a una voz dictatorial o de autoridad como exclusiva del perfil masculino: como intentaremos demostrar. Anabel. como etiqueta que. con la terrible enfermedad de Niemann-Pick en su versión precoz y más brutal. como veremos en los ejemplos citados a continuación: S e g ú n dec í a el i n f or m e . ambas escritoras apuntan de manera programática a la preser vación de una instancia narrativa o enunciadora que recupera su posición de autoridad y de saber ante el lector a partir de la transfiguración subjetiva de las experiencias o de los hechos argumentados. Abocada a una escritura que en un principio privilegiaba el componente lúdico y el comentario inesperado. p.69) en las columnas firmadas por voces masculinas. p. directo y desencantado (Villar Hernández. En las columnas es claramente visible la construcción de un proyecto individual asertivo que continúa y completa el desplegado en las obras de creación literaria y que formaría parte de la episteme neomoderna. y que guarda al mismo tiempo una indiscutible orientación axiológica. pero las rutinas sanitarias impiden la distribución de los mismos a personas desesperadas que ya no tienen tiempo que perder. entonces. declive intelectual. 2007. en el vasto espacio de la palabra pública. no obstante. p. (…) S o n hist o r ias d e la fr o nt era d e la v ida. En contra de la fragmentación. enfermos terminales. p. (…) dispo de de re cursos. su estilo fue progresivamente adaptándose al ritmo de las ideas de compromiso y de conciencia social hasta transformarse su voz en las últimas décadas en una perfecta mediadora encargada de elevar a rango público las voces silenciadas de los colectivos marginados (inmigrantes pobres. pueblos africanos. nt r as q ue e l 90% d e los e nf e r mos r estant es mie restant estantes mient ntr que el de enf nfe sólo disp o nían d e un 10% d e los r e cur sos. irónico y reivindicativo (Angulo Egea. 2007. Es el caso de José María Hernández. que tiene una hija. q ue sólo enf nfe meda dad de Pr imer Mund undo que af e c tan al 10% d e la p obl a ción d e l plane ta. r e lat os histo de fro nte de vida. la búsqueda de la identificación. la no conclusividad y la ausencia de valoraciones específicas.59) y la proyección de “un ethos empático y situado entre los ciudadanos de a pie” (Angulo Egea y León Gross. 2007. el uso del dialogismo o de la “retórica del consenso” como soporte para la cooperación en una estructura comunicativa igualitaria no es característica sólo de la columna femenina. en límites . demencia y muerte. re latos so brecogedores d e pa dr es c onmo vedores y ob de ad re co ov gue r r e r os q ue l uc han p or e l fu t ur od es us hi jos guer que luc uchan po el fut uro de sus hijos en e lb o r d e mismo d e la oscur ida d. La participación de Rosa Montero en la sección de columnas de El País se remonta a los inicios de este periódico en 1976. legitima un saber y un pensamiento específicos en los que la problemática de género. pérdida de tono muscular. En las columnas de Regás y Montero se observa con fuerza el trasfondo de un tipo de pensamiento que superador de las premisas de la configuración posmoderna. ubicada en un punto de mediación igualitaria con el otro . 2011. p. En general. 2011. El lenguaje es sencillo y coloquial. 2008. en las columnas de Rosa Montero y de Rosa Regás se combinan ambos estilos y en este sentido pueden leerse como textos abocados a una construcción de imagen que cruza la expresividad femenina.

(…). (…). Y ese chillido se abrió paso y exigió su lugar. Con una retórica que no echa mano ni de máscaras ni de ambigüedades identitarias (Benson. Madre y niño están en cuidados intensivos. pero resulta que ayer una lectora. si la ciega burocracia que defiende como perro cancerbero nuestros privilegios podría dejar de ser tan ciega. lo importante es mantener la familia unida». inició tardíamente su actividad columnista primero en El País. La hospitalizaron el miércoles por una cesárea de urgencia a causa de una complicación llamada preclampsia. (…). (…) Me pregunto. es decir. y que señala injusticias y olvidos históricos. ya fuera porque su amor se había acabado o incluso porque recibía constantes malos tratos. filo de la oscuridad”. tenía que ir armada de la venia marital. la historia pura y dura: Liliana. Esta es. la prosa del articulismo de Regás se revela con un tipo de autoridad que no deja dudas acerca de la legitimidad del saber de quien enuncia: […]El mundo divide de un plumazo el comportamiento del ciudadano y el de sus gobiernos. De héroes y heroínas tenaces y discretos con los que convivimos sin apenas darnos cuenta de que están iosame nt e no a d v e r t imos q ue ahí. etcétera). (“Pobreza cero”. Est o y hab land o d e la di v e r sida d te arnos. y ha entrado en este espacio por derecho propio y sin florituras estilísticas. con el fin de llevar a cabo una suerte de misión pedagógica que instruye acerca de los deberes cívicos y humanos.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 49 d e lo p osib le y d e lo r az o nab le. ha c e mos t o d o lo p osib le p o r no hec o. el trato despótico y sobre todo el olvido a que la justicia sometía a quienes vivían en condiciones infinitamente más precarias. la única que puede forzar a que algún día lleguen a buen fin las decisiones que los gobiernos toman de vez en cuando para acabar con la pobreza en un plazo determinado (que hasta hoy nunca se ha cumplido). El Correo de Bilbao 28/10/ 2007. En contraposición a una narrativa que en sus cuentos y novelas privilegia el universo de la intimidad y la exploración de las complejidades internas de los personajes (Benson. en fin. y luego con una columna dominical que aún continúa en El Correo de Bilbao. como si la pobreza no tuviera nada que ver con sus Ef e c t i v ame nt e: la p o b r eza d el m und o decisiones. […] p e r o cur curiosame iosament nte ad que ha y batal las m uc ho más g r andiosas y difíciles hay batallas muc ucho gr q ue se están lib r and o e n la pue r ta d e e nfr e nt e. de tal modo que se tiene la impresión de que la lucha contra la pobreza. vive en Madrid. para hacer denuncia política y social. El País 13/11/2011. pues. (…) (“Una vida que merezca ser llamada vida”. hac to posib osible po en t e r ar nos. y Liliana tuvo que volver a ser operada el sábado. es casi nada en comparación con las políticas que llevan a cabo los gobiernos de los países ricos. libr ando en puer de enfr nfre nte. D e he ch o . el subrayado es nuestro). el subrayado es nuestro). el subrayado es nuestro) Rosa Regás. 2006). en 1994. (“Clamores”. me contó una de esas historias modestas y urgentes que son como un chillido. por su parte. Pues yo hoy tenía preparado un artículo muy elaborado y algo sarcástico sobre el disparate de los recortes a los profesores. 2006). Cristina. el subrayado es nuestro). Esto ocurría en las clases sociales llamadas ‘elevadas’ porque la falta de libertad. Hoy voy a hablar de un puñado de guerreros. por funcional. parálisis musculares o cerebrales. que viven pendientes de otros asuntos. (…) .Ef Efe ament nte: po de mund undo es fr uto d e las p olít icas ne olib e r ales d e est os fru de polít olíticas neolib olibe de estos países y los ci uda danos r esp o nsab les q ue q uie ren ciuda udadanos resp espo nsables que quie uier a cabar c on e l la sab en q ue no disp o ne n d e más co el sabe que dispo nen de ar ma q ue una p ro t esta q ue ha d e mo vers e rm que pr te que de ov ne c esar iame nt ee n la ar e na p olít ica nec esariame iament nte en are polít olítica ica. (“Guerreros en el posib osible de raz azo nable. razones distintas (discapacidad intelectual. El País 13/09/2011. colombiana. La madre de Liliana vive en Medellín y aún no ha podido ni siquiera escuchar la voz de su hija. se asemejaba mucho más a una situación de esclavitud. La justicia no protegía nunca a la mujer y la religión le aconsejaba paciencia. «aguanta hija mía aguanta. desde la ciudadanía. Esto habland lando de div sidad funcio nal. El País 30/10/2011. Un país donde una mujer se quedaba sin hijos si osaba separarse de su marido. están de alguna manera limitadas en su funcionamiento. de aquellas personas que. Regás utiliza la columna como medio Nací en un país y en una época en que para abrir una cuenta corriente donde ingresar el primer sueldo de mi primer trabajo.

Está por comenzar la batalla electoral -de hecho este periodo preelectoral que vivimos ya es pura campaña. y tamb ién juzg uzga po el homb mbr cav nícola. El Correo de Bilbao 17/02/2008). sino sobre las ideas? (…). Quisiéramos un debate de ideas sobre qué entienden por cultura. políticas y éticas que deben ser puntualizadas por la voz autorizada de la escritora que se ubica en relación de . nser de Tie ier que hemos re cibid ido d e los ríos y d e los mar es de mares es. Referencias bibliográficas AMORÓS. también e crít icas so e c es por e lt r a dicio nal. el fomento de la dignidad y autoridad de los maestros. te niend ndo en memo mor en la e xp e r ie ncia las v e c es q ue lo fuimos nosot r os exp xpe iencia ve que nosotr en e l sig lo X X y no sólo por razones políticas. asistimos una c o nstant e discr imina ción d e la m uje r q ue co nstante discrimina iminación de muje ujer que es j uzg a da p or e l ho mb r e ca v e r níc ola. (…) (“Día de la mujer”.110). 13/09/2011) de aquel que no puede hacerse escuchar porque no parece poder acceder a marcos institucionales que hagan su voz inteligible y traducible a demandas legislativas de primer orden. Celia. 2000. Madrid: Ediciones Cátedra. La capacidad de introducir y de vindicar la voz del otro. Id eas so sob p o l í ti c a e xt erio r. los medios profesionales y materiales para incrementar la eficacia de los bre programas y el interés de los alumnos. nflict br co el Sáhara Palest alestina. o id eas q ue er do em de qu j ust ifiq ue np or q ué d e f e nd e mos países carg a d os ustifiq ifique uen po qué de nde carga d e ult r ajes a los D e r e c hos H umanos y nos ultr De Humanos ale j amos d e ot r os q ue int e ntan camb iar e l cur so alej de otr que inte cambiar el curso dic tat o r ial d e s u p r o pia hist o r ia. además de lucirse en los estrenos y las exposiciones y conseguir que los medios hablen durante dos días de tan grandes bre j ust icia. sino el siglo XX por miseria pura y dura y anhelo de labrarnos una vida más digna. en consonancia con la línea neomoderna. con proyectos de leyes que impidan descalabrar más aún el paisaje de nuestras costas. las columnas de opinión de estas autoras pueden leerse como un modo particular de mediar en el complejo mundo de la voz pública a partir de la convicción de que aquello de lo que se argumenta responde a urgencias sociales.y lo único que oímos son promesas de cuantiosos regalos. por pon e r sólo d os ej e mplos. Po r q ue inc incl que vi en l uso los q ue v i v imos e q ue ha d est er r ado y a la dic ta d ur a. (“Ideas”.50 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS n un país […]. no sobre lo que nos dan o nos van a dar. re po eje jemplo a los inmig r ant es.Pero ¿no echamos de menos un debate. p. r e f e r ida p or e je mplo éxitos. Estas columnas se articulan. supone la utilización de la cualidad tradicionalmente femenina de ‘mediadora’ pero desde un lugar lo suficientemente alejado del margen como para imponer ideas y generar la toma de conciencia. c o mo dig na d soe el tr dicional. ANGULO EGEA. (…). igualdad con el otro que padece pero de autoridad con el lector que lee el periódico. o aquello que Montero denomina “chillido” (“Clamores”. y contraponiéndose a la vertiente del pensamiento y la literatura feminista en los que se pone el acento en las diferencias y en lo particular produciendo retóricamente el efecto de una diseminación y pulverización del sujeto constituyente (Femenías. María (2009): Las mujeres en el periodismo literario: tres casos paradigmáticos. alabanzas de la propia gestión y hundimiento de la del contrario. (2006): La gran diferencia y sus pequeñas consecuencias… para las luchas de las mujeres . revelando así una apropiación asertiva de la capacidad argumentativa racional del yo. en cambio. co digna de críticas le v an p or d e lant e q ue o f e nd en s u dig nida d y se l de lante of nde su dignida nidad lle lev po la d e q uie n las e mit e . asist imos a dest este ya dicta tad ura. con la vertiente del feminismo de la igualdad como referente teórico que entiende que sólo mediante el reconocimiento de una razón crítica la lucha por la igualdad de las mujeres (ampliada a la reivindicación de las minorías. Id eas so sob just usticia. En conclusión. s o b r e n u e s t r o p a p e l e n ex te or en c o nflic t os b r u tales c o mo e l Sáhar a o P alest ina. El País. I d eas so b r e la dictat tato de su pr histo Id sob c o nse r v a ción d e la T ie rra q ue he mos r e cib id o. Universidad de la Laguna / SLCS. (…). la defensa de los derechos del animal y el cuidado del ecosistema) puede cumplir con el proyecto ilustrado de emancipación humana. El de quie uien emit mite Correo de Bilbao 06/03/2011. t e nie nd oe n la me mo r ia y e n inmigr antes. Ideas sobre lo que ha de ser la educación. En: Actas del I Congreso Internacional Latina de Comunicación Social. el subrayado es nuestro).

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Maruja Torres. y de los planteamientos en torno a la creación de un espacio simbólico alternativo al patriarcado por medio del arte y de los medios de comunicación. entre otras. como fue el caso de la candidatura de Lidia Falcón al Parlamento europeo en 1999. Concha Espina. en general. la dispersión tentadora y cumulativa del posmodernismo” (Gracia. Si bien hay quienes incluyen este movimiento de la literatura hacia la narratividad y hacia la recuperación de un yo coherente y unitario en las filas de un posmodernismo estético menos experimental. Jordi Gracia anota acertadamente que las variables terminológicas apuntan a un mismo fin: “identificar una defensa de valores que no han caído abatidos por la aguda conciencia relativista del desconstruccionsimo ni. Josefina Carabias. y candidaturas a cargos políticos que modificaron el escenario de posibilidades durante la democracia. p. 299-327. además. Cádiz: Ediciones APM. Gabriela Wiener. 2 Desde una perspectiva basada en la reivindicación de lo específicamente femenino y en la revalorización de las relaciones matrilineales. Romero Pérez. Carmen de Burgos. . Clara Sánchez. 220). Rosa Montero. Carmen Rico Godoy.52 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS ANGULO EGEA. con restricciones. Elvira Lindo. p. Notas 1 Nos referimos. 5 Las escritoras analizadas por los estudios citados son Magda Donato.18) 3 4 Impulsora. por ejemplo. 2000c. Carmen Martín Gaite.): Artículo femenino singular. que asegura cupos para mujeres en los cargos políticos. Carmen Rigalt. Teodoro (dirs. todos promulgados gracias a la Constitución de 1978. 2011 y Sendón de León. por parte de Victoria Sendón de León (Cf. María y LEÓN GROSS. el del uso de anticonceptivos en 1983 y la legalización. las representantes de esta corriente han interpelado el espacio político mediante propuestas concretas y guiadas de cambio. al derecho al divorcio en 1981. p. 2011. de la Democracia Paritaria. Diez mujeres esenciales en la historia del articulismo español . del aborto inducido en 1985.

1) articula a través de la idea de evocación la cual permite una manera diferente de tratamiento del cuerpo humano. En palabras de Merewether: violencia en cinco obras de Salcedo a partir de dos ejes: las condiciones de producción de la obra y su situación de enunciación. Artistas anteriores. la obra de Salcedo se Doris Salcedo ha producido. la obra de la escultora colombiana Doris Salcedo. esto con el ánimo de develar los vestigios de las voces del individuo. a través de sus esculturas y montajes. particularmente en el caso que aquí nos ocupa. En respuesta a la experiencia de vivir en un país sujeto a la violencia indiscriminada y al terrorismo. presentaban el cuerpo como escenario de agresión. De acuerdo con lo anterior. el propósito de este trabajo es analizar el proceso enunciativo de la . Uno de esos discursos es el artístico. sentidos que toman forma en una multiplicidad de discursos a partir de los cuales es posible determinar las relaciones de poder en un contexto social. tal como lo indica Malagón (2010). La no representación física hace que la focalización se aleje de cierto sensacionalismo que se produce cuando el primer plano presenta la atrocidad y el desgarro físico. espacialización y focalización. mientras que en el caso de Salcedo se hace como realidad ausente. es decir.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 53 FORMAS DE ENUNCIAR LA VIOLENCIA EN LA OBRA DE DORIS SAL CEDO1 SALCEDO Alexander Castillo Morales Instituto Caro y Cuervo Adriana Yamile Suárez Reina Universidad Libre El fenómeno de la violencia hace parte de la cognición social por lo cual este se considera como un producto de interacciones personales que hacen posible toda una red de sentidos vinculados en la semiosis social. párr. la sociedad y la cultura que se entretejen a través de una manifestación estética. sf. el proyecto estético de Salcedo se basa en el convencimiento de que. el arte debe dirigirse a la representación como tema político. (MEREWETHER. una serie de meditaciones acerca del tema de la violencia. para articular una conciencia ética. esta última entendida desde la perspectiva teórica de Ramírez (2008) como el proceso de actualización del lenguaje artístico en la puesta en escena de la obra misma. su modalización. puesto que en su decir estético se tematiza constantemente la violencia y se hace una aproximación a esta desde el arte político. La evocación del cuerpo ausente En su decir artístico. así como también sus tácticas y estrategias.

La nueva estructura entremezcla de manera paradójica las nociones de enfermedad y construcción como referencia y como sentido profundo. indiferencia u olvido. la desfuncionalización y la resemantización van más allá de la esfera formal y se convierten en idea sensible. sino desde la evocación y comporta la capacidad para sugerir múltiples lecturas. tal como se ha dicho anteriormente. No crea la idea de una presencia humana próxima. fría y de paso. El espectador queda enfrentado a una construcción que ha de generarle extrañamiento y preguntas. Quizá alrededor de lo que implica la cama de hospital se circunscriban muchos sentimientos y deseos de curación. y que por efecto de la repetición y el desgaste termina volviéndose corriente y cotidiano. se conjugaban partes de camas de hospital desechadas con un andamio metálico para construcción.54 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Aquí se alude a la idea de sufrimiento. cuya referencia es la enfermedad. la evocación desde lo hospitalario o de salud hace pensar en la idea de curación. 1988-1989 (Camisas almidonadas) se presentan pilas de camisas muy bien dobladas y enyesadas. imaginario y opinión sobre algún hecho o evento. Por eso se ha dicho que puede ser un objeto que evoca las nociones de construcción y enfermedad de manera simultánea. No es el modo invasivo del medio de comunicación que presenta e induce una idea. pasividad que ha permitido que en Colombia la violencia y sus diferentes formas se naturalicen y se acepten como parte del destino. De esa manera. Así mismo. el tiempo de los hechos violentos es evocado como cotidianidad doméstica cuyo ritual ha sido fracturado y puesto en suspenso. herida o arma. clama por espectadores que no sean meros turistas culturales y que se involucren con los sentimientos y el sufrimiento de quienes viven en carne propia el conflicto. La espacialización como presentación del dolor. Algo así como una arqueología de la desmemoria e indiferencia sobre nuestra enferma y perversa realidad. atravesadas por varillas de . el dolor y el sufrimiento como centro de los procesos de construcción nacional. propio para la construcción. la violencia no se aborda desde la figuración. El escenario hospitalario funge como un lugar en el cual de acuerdo con la atención prestada se dará el paso a la recuperación o al deceso. los trozos desechados (enfermos) de las camas de hospital se complementaban con las secciones de andamio. pero por otra parte puede ser más en el sentido de enfermedad. pues se evoca en su sentido de tránsito. En ambas estructuras originales. Para Malagón. es frialdad y en sí mismo genera distancia. Allí el cuerpo humano no aparece de forma directa. Se acude al espectador como un individuo que debe construir alguna interpretación frente a la presencia de la obra que se deja hablar. más bien lo que hace es crear un objeto cuya constitución evoca un espíritu minimalista centrado en una idea que sustenta su significado en la evocación metonímica que tiene cada elemento. No se alude al espectador desde la presentación de una imagen que a primera vista le resulte “cotidiana”: gesto de dolor. Los andamios no generan más afecto que el necesario para ensamblarlos y ponerlos para trabajar. En Sin título . el material es metálico. cadáver. De ese modo. De ese modo. desde la perspectiva de las víctimas. Así. pero también debe pensarse en la idea de muerte. Así que más que la evocación de un cuerpo se evoca una actitud. Las personas que interactúan con el ser cama o el ser andamio lo hacen desde una perspectiva funcional. Para el caso de la obra Sin título 1987. según el ámbito del que proviene. La imagen presentada por Salcedo configura y clama por un lector inquisitivo que por lo menos deje la pasividad acostumbrada. la conexión con los sucesos violentos o con la realidad nacional depende del lugar en donde se presente la obra.

en Atrabiliarios (1993). La pérdida de un ser querido implica una herida y un duelo para sus familiares. son terriblemente personales.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 55 acero. la seguridad. Entonces. Perduran son reconocibles. incluso espiritual queda abierta y requiere ser sanada. la violencia con que son atravesadas parece invocar una respuesta. Es importante indicar que esta obra se desarrolla como instalación. Algo muy fuerte les ha hecho perder la posibilidad de ser usadas. hace volver la mirada sobre el sentido de éstas y crea un interrogante ¿por qué? Luego. Las camisas y los catres como presencia hablan de lo pendiente. este entierro. es decir. En ese sentido la obra propone una posición crítica y estética frente a las formas de comunicar la violencia. lo cual no implica olvidada. que en un país de corte machista como Colombia. se es en tanto que diferente a otro. Este uso de las camisas se ve paralizado por el hecho de que están enyesadas y atravesadas por las varillas de acero. . un tiempo pasado y familiar en donde el quehacer doméstico ha sido roto. párr. sobre todo desde los medios masivos. Por otro lado. grotescos y fuertes” (citada por GÓMEZ. Salcedo elige cuidadosamente los nichos en los muros dentro de los cuales se aprecian zapatos de mujer usados. pero en este caso el único resto humano es un objeto: los zapatos de mujer. Allí se inserta la cotidianidad doméstica de una familia y en particular del rol femenino. del dolor que no es superado y. Además. El yeso quita la función de las camisas. De ese modo. y hoy por hoy. esto en razón a que uno de los principales elementos definitorios de un grupo busca responder a los interrogantes: ¿Qué lo hace diferente de otro? ¿Cuál es el espacio social que ocupa? Es decir que lo trasversal allí es la noción de división. Este objeto al ser presentado blanco. habla de víctimas cuyo cuerpo aún no se encuentra. Esa herida emocional. el hogar cambia por un hecho violento que lo ha vulnerado. donde la literalidad espectacular se coloca en primer plano. El material de algodón de color blanco de las camisas se presenta limpio y acentúa la referencia a la camisa misma. de la herida que no sana. Se crea un mundo posible en el cual se evocan cuerpos ausentes que no pueden usar la ropa y que se refuerzan en las mallas o “catres” los cuales sirven de personificación para representar el dolor y sufrimiento de los que no están. no está sellado con una lápida por lo cual deja ver el objeto en su interior. De acuerdo con esto. El nicho se constituye entonces en una representación del osario en tanto lugar en el cual se guardan los restos humanos a manera de entierro. Por su parte. el espectador tiene la posibilidad de transitar por entre la ausencia y la espera de las víctimas de la violencia. por lo tanto. Atrabiliarios remite a la desaparición violenta y a la ausencia de personas. Al respecto Salcedo afirma que: “Cada vez que vemos un acto violento quedan los zapatos. en donde la afirmación de la identidad se configura como una línea divisoria que se va modificando con los años: racismo. también el tiempo es invocado. Salcedo centra su mirada en las fronteras o límites que se le imponen a la alteridad. la focalización de la obra se centra en una construcción metafórica en el cuerpo que no vuelve a la vida doméstica. coloca a la mujer como quien ha hecho dicho oficio para que el esposo se coloque la ropa y vaya a trabajar. eso significa que la idea de espacio es fundamental. los objetos seleccionados son mínimos y sus posibilidades expresivas y sobre todo comunicativas son máximas. en vez de sellar un ciclo. una herida que está presente. del duelo fallido. planchado y en pilas evoca el estado de potencialidad de uso: la “ropa” está lista para que alguien la use. es decir. 5). economía. Cabe anotar que el nicho a su vez se cubre con una piel de animal estirada y cocida. sf. son fuente de información sobre sus dueños. En Shibboleth (2007-2008). La violencia amarillista que muchas veces es convocada con fotografías de primer plano y sangre es sustituida por formas sutiles.. Así.

duelo y dolor. la obra atraviesa la galería.2010). esa es una de las características de las instalaciones. La violencia entonces es focalizada en términos de sus aristas dentro de las cuales se encuentran las condiciones de pobreza.se genera gracias a sus características estructurales. factores políticos e institucionales como la segregación espacial y simbólica. al presentarse en dicha galería se evidencia la incursión de discursos de fractura. Acciones que tienen una fuerte carga psicológica en los individuos que se enfrentan a esta experiencia. No se trata de la construcción de un ensamble de mesas. Justamente. sino que al presentarse como un gran conjunto donde la idea de instalación es el marco. propicia la vida en el nacimiento de nuevos brotes de pasto. el registro fotográfico es impactante por cuanto cada objeto escultórico tiene bastante fuerza y la idea de muerte genera un choque.se convierte en muerte al combinarse con los cuerpos en tanto que la tierra termina consumiéndolos y. En tanto grieta posee un potencial simbólico que indica no solamente un daño temporal sino su historia y continuidad. el marco que se instaura hace que el espectador establezca una conexión emocional debido a su carga simbólica. No obstante. Es el momento en que se está junto al ser querido en el acto ritual de la despedida. . La distribución de las mesas en el espacio hace que la espacialización sea un factor modal muy importante en el desarrollo de la obra. Asimismo. Puede afirmarse que sin que haya la menor información sobre la anécdota que motivó el desarrollo de la obra. adicionalmente. protegido de otros a quienes no le pertenece. El tiempo que se invoca y la focalización misma conducen a la sensación de pérdida. parcelado y mercantilizado. y esa sensación es a la que se expone el espectador para entrar en los zapatos de quienes han sufrido este tipo de situación.56 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS El sentido de la división en Shibboleth enunciado anteriormente. es decir. en Plegaria muda (2008 . algo que inició hace mucho tiempo pero no se detiene. la noción de tiempo hace que la obra cobre fuerza en un “aquí y ahora”. La grieta trasgrede entonces la institución y subvierte los parámetros de un arte canonizado. se propone que los espectadores sean “envueltos por su presencia”. visibiliza la muerte y pone de manifiesto que la naturaleza -la tierra. pero de trasfondo se encuentra la irrupción de la muerte pues no se puede acceder a la identificación del ser que allí yace. la desigualdad.que se disponen una sobre otra de manera invertida y se encuentran unidas por una capa de tierra sobre la cual en algunos casos se perciben formas humanas y se deja ver el crecimiento de pasto. la penetra. de tal modo. es gradual. La obra es una grieta de 167 metros en el suelo del Tate Modern -situado en el centro de Londres y el cual alberga a los representantes más importantes del arte moderno-. la rompe. el escenario implica lo lúgubre y doloroso. Por eso. Este índice conlleva la rememoración de la violencia como artificio que altera el rito de despedida de la vida. una obra que se compone por 120 parejas de mesas de color gris con unas dimensiones de aproximadamente 50 centímetros de ancho por dos metros de largo -las mismas dimensiones de un ataúd convencional. tierra y hierba simplemente. casi como artefacto de fuerte connotación ritual. La experiencia como recorrido es muy importante en esta obra. La obra juega entonces con la ambivalencia vida/ muerte en razón a que en apariencia se visibiliza un ciclo natural por los materiales que Salcedo elige. Finalmente. La grieta de Shibboleth traza una línea que aunque perteneciente a la estructura social pocas veces se visibiliza. La enorme cicatriz de Shibboleth marca el discurso de la exclusión como elemento violento.

Sin embargo. entendida como las muertes en combate y los homicidios políticos de población civil inerme (asesinatos. el exterminio de los miembros de la Unión Patriótica. masacres. 2012.978 homicidios totales (excluyendo para el año 2000 las muertes por accidentes de tráfico). El 65 por ciento en forma familiar o individual y el 35 por ciento restante como éxodo colectivo. 514) Resulta imposible evitar el tema pues es parte de la realidad colombiana que continúa ahondándose sin una solución. p. pobres en su mayoría. sino que se da en términos generales. en el 43 por ciento de los casos son paramilitares de derecha. En el trienio de 1998 – 2000 se registraron en el país 73. 57 por ciento mujeres y 70 por ciento menores de 18 años. por el contrario los aspectos sociales se hacen más dramáticos: Desde 1995. el 6 por ciento a la fuerza pública y el 16 por ciento a otros agentes. la guerra abierta con el narcotráfico. se instauran procesos de negociación con las guerrillas. El conflicto está cada vez menos ideologizado y la presencia de intereses económicos es cada vez más prominente. seguidos por guerrillas. Todas estas son formas de violencia y de inequidad sobre las cuales el interés no es profundizar pero que se deben mencionar. de los cuales 12. 2012. 514) Es así como la violencia ha tomado un papel cada vez más estelar. el conflicto armado ha forzado el desplazamiento de un millón y medio de colombianos de sus hogares y vecindarios. En suma. p. la incidencia de esta violencia política.984 son directamente imputables al conflicto armado. El 66 por ciento de los refugiados son campesinos. el Estado y la política quedaron en vilo ante poderosas fuerzas centrífugas como la globalización. p.000 en episodios de asesinatos y ejecuciones extrajudiciales. Aquí no se menciona el narcotráfico.” (PALACIOS Y SAFFORD. el conflicto armado habría producido unos 11.000 muertos representan un 10 por ciento de todos los homicidios cometidos en estos dos decenios. ejecuciones extrajudiciales. más aún cuando se ha aumentado la estigmatización frente al disenso y se le formulan señalamientos. A parte de la desestabilización estatal por cuenta de los factores mencionados. (PALACIOS Y SAFFORD.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 57 La voz de la violencia Las obras de Salcedo se inscriben en momentos históricos de la realidad nacional cuando “en Colombia. Tampoco se habla de una pérdida de confianza en la justicia y la creciente corrupción. que se desarrollan los procesos de liberalización de mercado y la Constitución de 1991. aumentó considerablemente después de 1997. paramilitares y en mucho menor grado por la fuerza pública. El problema de fondo sigue siendo el mismo desde la fundación de la república: la distancia entre los sueños del constitucionalismo y las prácticas sociales” (PALACIOS Y SAFFORD. Más bien.483). los poderes locales de los guerrilleros y de los paramilitares.000 muertos en combate y otros 23. (PALACIOS Y SAFFORD. los entramados de narcotraficantes y políticos clientelistas. desaparición de personas) perpetrados por guerrillas. aunque los diferentes actores armados del conflicto tienen de una u otra forma conexiones con el mismo. el cual data de 1986 hasta el presente. al tiempo. 478) A este periodo los autores lo denominan “Interregno”. Puede ponerse en perspectiva la realidad del conflicto con algunas cifras con las cuales se puede ilustrar la creciente violencia: Entre 1975 y 1995. a las que se atribuye el 35 por ciento. 2012. estos 34. p. poco a poco se da una escalada militarista y el desarrollo social nunca se convierte en una realidad. pues la indiferencia y pérdida de memoria sobre la que tematiza salcedo no es sólo el conflicto armado. En cuanto a los causantes de esta tragedia. Consideraciones finales En términos generales se encuentra que los elementos enunciativos de la obra de Salcedo permiten hablar de la violencia como hecho no . Al respecto Palacios y Safford dicen: “Los desarrollos legales de la Constitución quedaron en manos de la clase política preconstituyente. 2012.

Bogotá: Universidad de los Andes.edu. pareciera que este tipo de obras tuviese más impacto en los escenarios especializados que en el público en general (colombiano). En: unalmed. de: http://www. Ediciones Uniandes. su éxito se registra por fuera de los contextos iniciales y aunque la obra continúa comunicando. Marco & SAFFORD. Departamento de arte.banrepcultural. La banalización y la indiferencia son dos frentes de anestesia y de algún modo de protección y acomodamiento. No obstante.htm PALACIOS. Luís Alfonso (2008) Comunicación y discurso La perspectiva polifónica en los discursos literario. Recuperado el día 19 de julio de 2012. Tunja 2012.co/mediateca/ artenaturaleza/espanol/arte_tierra/ artetierra_col_tv. Charles (sf. RAMÍREZ. Por lo tanto. de: http://www. Patricia (sf. cotidiano y científico. María Margarita (2010) Arte como presencia indéxica. En: banrepcultural. de allí que la voz de la violencia sea bastante nítida en su producción. más que un impacto estético. el trabajo de Doris Salcedo es importante pues busca mantener fresca la memoria mediante la generación de objetos artísticos que involucren a los espectadores. Referencias bibliográficas GÓMEZ JARAMILLO. En tal caso. MEREWETHER. Comunicarse con atención y cuidado con los elementos meticulosamente seleccionados. Bogotá: Cooperativa editorial Magisterio.org. La obra de tres artistas colombianos en tiempos de violencia: Beatriz González.org/blaavirtual/todaslasartes/ anam/anam27a. Sobre esta última afirmación bien valdría la pena profundizar en un futuro. La artista produce obras con el fin de conmover a los espectadores a través de la experiencia que implica el recorrido de sus obras (todas se centran en apropiación espacial). cuando la mayoría se adentra con mayor facilidad a formas claramente narrativas y directas. Estos deben acercarse al “escenario” que la artista construye y dejarse ir. el tipo de lenguaje que en el ámbito artístico tiene gran aceptación y dentro del cual resulta altamente novedoso. no todas las veces resulta atractivo para el público en general.) “Testimonio y Violencia”. sociedad dividida.co. De algún modo.unalmed.) “ Dor is Salcedo ”. En esa línea. Facultad de Administración. Recuperado el 22 de julio de 2012. porque el acceso a la cultura artística no es una constante en Colombia y por otra. porque para la mayoría se vuelve demasiado cifrado debido a que la artista siguiendo el norte minimalista y la expresividad de los materiales espera que el lector haga ese tipo de lectura. Su obra entra en constante diálogo con los discursos de la violencia en Colombia. donde el ritual y lo simbólico son fundamentales. País fragmentado. Nota 1 Este texto es una síntesis de las disquisiciones presentadas en el XXVII Congreso Nacional y I Internacional de Lingüística. Frank (2012) Historia de Colombia.htm#1 MALAGÓN-KURKA. Facultad de Artes y humanidades. quizá. Bogotá: Universidad de los Andes. .edu. Oscar Muñoz y Doris Salcedo en la década de los noventa. pues se connota el cuerpo vulnerado y se evoca el dolor que no acaba de quienes pierden a sus seres queridos. Ediciones Uniandes. termina presentando a los demás (críticos y espectadores extranjeros) realidades que en buena medida le resultan exóticas y en dónde la fuerza de crítica política no tiene. Literatura y Semiótica de la Universidad Pedagógica y Tecnológica de Colombia.58 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS espectacular. porque las obras interpelan al espectador y esperan una actitud más dinámica. Pero también.

con claves que desde las primeras líneas “Hay muchas maneras de contar esta historia (…)”. “Ojala.Lector Narratario . contada por Iturri al narrador-autor. Historia 1 Historia 2 Historia 3 Narrador Autor Narrador Autor Narrador . El marco de composición narrativa es un recurso de la narración ya clásico. El Decamerón. Álvaro Mutis finge la realidad de lo narrado a través de esta apertura que en sí misma tiene otra apertura dirigida al lector. Del amor y otros demonios. azar que lo lleva a encontrarse con ese viejo barco mercantil en varias ocasiones y no sólo en una escala. Uno es el relato del narrador autor como testigo de los viajes del tramp steamer . Los sufrimientos del joven Werther.Universidade de São Paulo En La última escala del tramp steamer hay un juego con el azar como presencia recurrente en la vida del narrador-autor.Autor El primer relato funciona como marco de composición de los otros. o El corazón de las tinieblas . Ahondemos un poco en este concepto.Lector Narratario . y la última es el relato de la historia de amor propiamente dicha. sino en varias paradas por los distintos continentes.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 59 RELACIÓN AUTOR-PERSONAJE EN LA ÚLTIMA ESCALA DEL TRAMP STEAMER DE ÁLVARO MUTIS Aleyda Gutiérrez Mavesoy PG .Jon Iturri Encuentros con el tramp steamer Encuentro con Jon Iturri Historia de amor entre Jon Iturri y Warda Bashur Narratario . “Como lo que voy a narrar es algo que supe por boca del . ¿Cuál es el juego que propone Mutis al disponer de esa manera la trama? ¿por qué se hace personaje de sus ficciones? ¿cómo lo hace? Hay en esta obra un juego de composición que oscila entre tres relatos. no se pierda aquí el encanto. con mi ninguna destreza. otro es el relato de cómo el narrador-autor conoce la historia en su encuentro con Jon Iturri en el Orinoco. la dolorosa y peregrina fascinación de estos amores”. hasta verlo por última vez por el delta del Orinoco. desde Las mil y una noches.

ahora que la escribo para él –ya que contársela no me ha sido posible–. 3131). ya que parte de un hecho biográfico. en este caso. . sin que el lector tenga tiempo de distinguir entre la primera y la segunda. 292). siempre desde la voz del narrador-autor-personaje como deíctico que nos señala dónde hay salto y a cuál historia damos el salto. (Peña. atajos y meandros que ni domino ni. los lectores nos va a contar una historia de amor relacionada con un barco mercantil. con el papel de narrador como mediador.” (313). sin temores. del universo narrativo. le indican al lector que el narrador es el mismo autor. es así como recurre a un testimonio que simula ser verídico para enganchar definitivamente al lector en esta historia de amor que “algo tienen de las nunca agotadas leyendas que nos han hechizado durante tantos siglos. o inducciones hipnóticas para que el lector pase sedado al tema central de la obra. o “prólogos” narrativos. La simulación continúa a lo largo de todo el texto con los saltos entre una historia y otra. sería aconsejable intentar. “Por eso he preferido. o aperitivos que despiertan el apetito por la historia principal. que buscan liberar al lector de las ataduras de la realidad primaria para llevarlo hacia la libertad de la ficción total. creador. a otra.” (316). Álvaro Mutis no sólo actualiza el marco de composición sino también la importancia del autor como orquestador. 2001. pasando por Tristán e Isolda. al mismo tiempo. su vinculación laboral a una multinacional petrolera “Tuve que viajar a Helsinki para asistir a una reunión de expertos en publicaciones internas de las compañías petroleras. Podemos.la primera historia rodea la historia central como el marco de un cuadro. también. 2010. mejor. Considero que. p. imaginarlos como túneles por donde el autor lleva de la mano al lector y lo transporta. pero nunca dice que es el mismo Álvaro Mutis -sólo a lo largo de la historia va enviando datos biográficos que a los conocedores de su vida lleva a asumir que es él mismo-. para ello. frente a la supuesta muerte del autor. La figura del autor como personaje.” (314). A nosotros. Esta estrategia narrativa además de crear la ilusión de “verismo”. prevenciones. que la historia ocurrió y él la supo de boca del protagonista.” (313). ayuda a generar expectativa en el lector por la historia que ha de ser contada en adelante. como en Las Mil y una noches el narrador pasa del relato al relato del relato. la historia del tramp steamer “Entró de repente en el campo de mi vista. desde Príamo y Tisbe hasta Marcel y Albertine. en verdad. Existen distintas formas del marco de composición. secundaria. Esos “marcos” operan como aperturas narrativas de carácter especial. ni advertencias. hacerlo de la manera más sencilla y directa para no arriesgarme por caminos. Vamos a detenernos un poco en esta idea. frente a la experimentación exacerbada después del Nouve romance francés. p. logra hacer figurar como “verdadero” lo que en adelante escribe. crea la imagen del autor como elemento fundamental de la ficción que la obra construye. con lentitud de saurio malherido. con esa máscara logra fijar la idea de que se basa en un hecho real. con ello. La simulación empieza por el hecho de que el narrador se hace pasar por el autor. bien como el juego de las cajas chinas o de las muñecas rusas. Mutis legitima el papel del autor como motor de la narración y señala la necesidad de la vuelta a la sencillez de la forma por la contundencia de la historia. bien como su nombre lo dice -y siguiendo la metáfora de la pintura. Todo este juego genera una forma de la verosimilitud y. No podía dar crédito a mis ojos. Iba. de una primera realidad que se supone verdadera. ficticia. pronto se pasa a una historia apócrifa o ficticia. le permite a Mutis ubicarse y ubicarnos en el borde del mundo ficcional y del mundo real. con muy pocas ganas. engañado.60 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS protagonista” (Mutis. o bien intercalando en el discurso las dos historias en una especie de espiral.

luego nos cuenta cómo conoció al capitán del barco y finalmente nos cuenta la historia de amor que a su vez le cuenta el capitán del barco. que acumula información y utiliza la información previa para configurar la trama.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 61 primero nos cuenta cómo se encontró con el tramp steamer.que hacen avanzar a la narración en una especie de espiral. en síntesis las formas de actuar del narrador hipostático -autor y personaje al mismo tiempo-.se desarrollan pequeñas historias -o micro historias. Un modelo de esta forma de avanzar el relato en el plano del discurso podría plantearse de la siguiente manera: . De cierta manera. Primer nivel Narrador (autor impl íci to) Segundo Nivel Narrador Tercer nivel (Jon Iturri) Historia Jon . Como en el siguiente esquema de las cajas chinas. Iturri mencionó algo como “esas estatuas de mujer que hay en Roma” o “los kouros que hay en Atenas” (344). nos damos cuenta de que cada historia es una caja china de relatos. aclaraciones de términos. han corrido por mi cuenta. las intromisiones frecuentes del Narrador-autor en el plano de la narración. con valoraciones sobre lo dicho. porque en el interior de cada historia -a la que llamaremos macro. la figura más cercana sería de este tipo: Sin embargo.Warda Narratario (autor implícito) Narratario (lector implícito) En realidad. reflexiones sobre las emociones y percepciones personales sobre lo narrado. Asistimos a la historia de la historia de la historia. sobre los otros. si nos detenemos en el hilo del relato. o las muñecas rusas. el esquema sería el de cajas chinas. vuelven al lector a la conciencia de quién es el que escribe la historia: “Creo que no sobra advertir a mis lectores que ciertas alusiones museográficas hechas en esta descripción. como se prefiera nombrar a esta forma particular de narrar donde un relato está contenido por otro relato y así sucesivamente.

contrario a lo que él pensaba. Cercano a la idea de la necesidad de resemantizar la palabra -en nuestro caso en el universo narrativo. considera que el lenguaje. pretende también marcar dos puntos: la imposibilidad de la escritura de captar completamente lo que le ha sido relatado y. no sólo busca organizar el universo de la narración. “toda palabra utilizada por alguien. le sucede lo mismo que con la poesía: “la sensación de insuficiencia. La producción novelística de Mutis en su calidad de poética constituye un discurso difuso. por eso el preámbulo y las intromisiones constantes. que algo faltó. la imposibilidad de comunicar la experiencia como acontecimiento -hacer y padecer en el mundoes vista por Mutis como la carencia fundamental del escritor. El autor implícito se introduce en el relato como narrador. de aclarar y no sólo contar. por ello. el del otro” (Onfray. Ahondemos un poco en estos dos aspectos.62 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Ahora bien. no permite. y está mediatizada por un mundo. entre el conjunto de signos posibles es el más tangible a pesar de sus vacilaciones y lagunas. diálogo con otros personajes y diálogo entre personajes.a través de la palabra como fundadora del sentido -en su componente dialógico-. la prosa no lo ha liberado de la función de denunciar la otra orilla y. manuscritos. de reflexionar. justamente por su condición de modelo performativo. 2000. 2008. diarios. o como testigo directo de los acontecimientos. es la característica fundamental de la propuesta de Mutis en La última escala del Tramp Steamer. o plantear un juego con el lector. conciencia del papel del escritor como mediador “Tal como aquí la resumo u ordeno. sin previsión y sin intención de permanencia. considerar al narrador hipostático como el narrador-autor-personaje que establece la narración en distintos niveles de diálogo: como diálogo con el lector. p. pero para mantener su credibilidad se enmascara en: editor de papeles encontrados (cartas. p. El autor en varias ocasiones ha declarado que. 212-213). Esta propuesta de narrador puede relacionarse con el planteamiento de Michel Onfray (2000) sobre la necesidad de la acción performativa en el uso del lenguaje. En las . al mismo tiempo. pleno de ausencias y de signos súperalimenticios. estos juegos del narrador-autorpersonaje llevan al lector a la oscilación entre el relato y la historia con mediación del narrador hipostático. En primer lugar. desafortunadamente.que ha caído en el vacío del significado -abuso de la técnica para lo literario. etc). La manera como el capitán de navío insistía sobre la belleza de Warda Bashur tenía algo de reiterativo. y sin embargo percibir que la obra se queda corta. apuntan a señalar esa misma pérdida. por ello la necesidad de explicar. como la de Sísifo consiste en volcar en palabras la apreciación ético-estética del mundo. su labor. 188). Entonces. saturado de agujeros y de luces. de que no dimos en el blanco”. Esto explica que las acciones que presenta sean mínimas en comparación al copioso discurrir de la conciencia incrédula que se esfuerza por anular la impotencia que resulta de la imposible acumulación del saber. dar los acentos de retenida emoción que iban creciendo en el relato. transcriptor de información que le ha sido dada por fuentes orales. ya que permite establecer nuevos vínculos entre la palabra y el sentido. es un universo entero cuyo destino es un oído. Al hacer presencia explícita como el escritor de lo narrado. algo de salmodia o cantinela” (350). (Laverde.

dentro de ese sistema de seres fuera de lo común -en el sentido literal y metafórico. En las obras posteriores: Armirbar . activa una moral del desprecio por los valores burgueses. alguien que sabe reconocer en los otros la presencia o ausencia de esa condición propuesta en la saga de Maqroll el Gaviero. “una auténtica teoría de las pasiones destinada a producir una bella individualidad” (Onfray. lo fundamental de este cambio es que el narrador entra a formar parte de esos seres de excepción. cada época construye su ética de la elegancia. se permite el juego de nuevas “máscaras” con las cuales crea una sensación de mayor “veracidad” -recurrir al dato biográfico. por ejemplo. la escultura. es decir. asunto que me suscita una náusea inmediata. no hay rastro de su manera particular de ver o evaluar el mundo. del instante y el derroche. Se hace personaje. en momentos de incandescencia de una vida cotidiana transformada en vasto campo de experimentación para las agudezas y el momento propicio” (Onfray. soñador de navíos. 2008. de Conrad. Ilona llega con la lluvia y Un bel morir . la importancia de lo sublime y la pulsión por el hedonismo. por enésima vez. me había invitado en San José a un paseo en yate por la bahía Nicoya en Punta Arenas. la pintura. p. como los llama Mutis. Construye una nueva mirada sobre la ética del individuo a partir del análisis del arte en sus diferentes manifestaciones. trocando lo inefable. al comparar a Joseph Conrad con Álvaro Mutis. Un par de amigos que había hecho en una accidentada sesión itinerante de alcohol y cabarets de nota más que dudosa. es interesante comprobar la coincidencia en ambos -el condottiere y el narrador de Mutis-. (317) parte del grupo de los desesperanzados. Tanto Illona. simula no tener perspectiva. narrador hipostático. encantado de librarme de la insulsa conversación de mis compañeros de trabajo y de las interminables rememoraciones de sus hazañas en el golf.en el relato. la música. no recuerdo ya desde qué puerto hacia el interior. a partir de La última escala del tramp steamer se introduce dentro del mundo novelado como autor-personaje. como Abdul Bashur y Jon Iturri (protagonista y narrador de La última escala del Tramo Steamer ) forman parte de esa familia espiritual a la que pertenecen el Bolívar de “El último rostro” y Alar el Ilirio de “La muerte del estratega” e. se enmascara para no presentarse directamente. unido a la tragedia. Marlow y Axel Heyst. sin ninguna orientación a un fin determinado. y Tríptico de mar y tierra. Como lo afirma Consuelo Hernández. un editor que no aparece como personaje de lo narrado. la energía como fuerza vital. 2000. como . caracterizada por la imposición del estilo. p. como par. 189) Michel Onfray (2000) propone la figura del condottiere como una ética de la elegancia. p. el teatro y la literatura.en el universo de su materia narrativa. (Laverde. desesperanzados. todo ello. (…) Estaba en Costa Rica como asesor de prensa de una comisión de técnicos de Toronto que realizaba un estudio para la construcción de un oleoducto. pues participan de las empresas del mundo sin creer en ellas. se me hizo patente la ruinosa condición de este viejo servidor de los mares que. aparece al principio como preámbulo y le da la voz a Maqroll para qué sea él quien narre y reflexione sobre lo narrado. emprendía su amarga aventura con una resignación En La última escala del Tramp Steamer da el paso para mostrarse explícitamente como voz y como personaje de la narración. se construye tanto como organizador responsable del relato. la búsqueda de lo selecto. 2000. del dandy afirma “jugador desencantado y esteta melancólico. la grandeza unida a la magnificencia y la prodigalidad. la presencia en Lord Jim de del personaje narrador Marlow coincide con el papel de Maqroll en las novelas del colombiano. entonces. pero a la vez. Abdul Bashur. Acepté. 54) Asimismo.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 63 primeras novelas: La nieve del Almirante. incluso. Cada época tiene su condottiere. 19). se presenta como un recopilador. de la actitud ética de crítica a la modernidad industrial: Con mayor elocuencia que las veces anteriores. por el acto mismo de estar en el mundo. así. en última instancia.

64 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS de un buey del Latio sacado de las Geórgicas de Virgilio. hemos visto cómo el juego de voces entre el narrador-autor y el relator personaje produce un efecto de “realidad” que se afianza en el hecho biográfico introducido en la narración y con lo cual el lector asume un pacto narrativo cuasi “veraz” de la historia que le es contada. la literatura y la filosofía. Se presenta como un escritor que trabaja en una compañía petrolera. además. sucede lo que los doctos llaman una epifanía. pero que definitivamente no pertenece a ese mundo.y ratifica su condición de artista. Los hombres sólo conseguimos ahora cumplir con la mezquina cuota de venganza que nos imponen otros hombres. de tan nuestros. A tal punto me pareció vetusto. intelectual. Consideramos que por esta misma razón. Poca cosa. También permite explicar porqué el personaje femenino es objeto y no sujeto de deseo. No es ese ya nuestro mundo. Experiencia que debe ser arrasadora o simplemente confirmarnos en ciertas certezas harto útiles para seguir viviendo. esteta en la vida cotidiana. la buena comida. engañoso y constante del precario presente. en buena parte de la poesía que he ido dejando por ahí regada en revistas efímeras y en ediciones no menos olvidables. con ironía se burla de esa gente y sus preocupaciones. Nuestros asuntos. Nuestro modesto infierno en vida no da para ser materia de la más alta poesía. pasan a ser extraños por obra del poder mimético. en estos tiempos de “mezquina necedad”. Me quedé contemplando cómo se perdía en el horizonte y sentí que una parte de mí mismo se internaba en un viaje sin regreso. Como autor implícito y personaje testigo de los viajes del tramp steamer hace de sí mismo un escritor que pretende una salida espiritual -estética.a la degradación del mundo a través de la escritura. Es así como dentro de la obra se configura como un conocedor de arte. de una diabólica espiral cuyo final podía ser . (326) De este modo llegamos también al final del análisis. el tramp steamer y el Caribe “Algún día me propongo narrar lo que fueron aquellos paseos. Ahora que lo recuerdo. modelos éticos. lo ajeno. (330) En La última escala del Tramp Steamer el narrador se focaliza y se modaliza a sí mismo dentro de la obra. bohemio nostálgico y poeta por vocación. cosmopolita. el juego de las cajas chinas permite ver el relato del relato de la historia como un recurso de la veracidad y no sólo retruécano narrativo. Cuando una de esas imágenes regresa con toda su voraz intención de persistir. la buena compañía.” (327). su actitud frente a lo narrado como confirmación de la ética de la desesperanza. si bien es cierto que. cuya mezquina desaprensión concedía aún mayor nobleza a ese esfuerzo sin otro premio que el desgaste y el olvido. la cosa hubiera adquirido los síntomas de una persecución mítica. como Jon Iturri. En la obra menciona que su poesía se nutre de los encuentros con seres. Obediente a las empresas del hombre. lo que sí fue evidente para mí era que de continuar los encuentros. (325) el de las soberbias maldiciones con las que los dioses de la Hélade castigaban a los trasgresores de sus designios inmutables. como posible sin menoscabo de una actitud ética individual: la lucidez. permite ver lo otro. golpeado y sumiso. amante de la buena vida. De ahí que su imagen se construya a partir de la erudición con evocaciones artísticas explícitas. obsequio de los dioses. Es así como trabaja el olvido. pero también conocedor del arte. referencias ilustradas constantes y. están las huellas de esos días. Si seguimos la lógica de Onfray sería una especie de actualización del condottiere. objetos y lugares especiales. que se dirigen a la confirmación de una individualidad basada en el viaje como aprendizaje que. Concluimos que el propósito de este juego del narrador-autor-personaje apunta a hacer presentes distintos sistemas axiológicos.

cuando se mencione apartados de la obra estudiada. Michel (2000). MUTIS. Medellín: Universidad de Antioquia. Tradición literaria colombiana. Buenos Aires: Sudamericana. El mundo. Alfredo (2008). Álvaro (2001). só lo se indicará el número de la página. ONFRAY. Edward (2004). La condición humana. Barcelona: Random House. _____ (1981). André (1999). El universo de la creación Narrativa.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 65 Referencias bibliográficas LAVERDE. el texto y el crítico . SAID. la moral estética. Buenos Aires: Libros Perfil. Empresas y tribulaciones de Maqroll el Gaviero. Mondadori. Nota 1 En adelante. La construcción de uno mismo. Instituto Colombiano de Cultura. MALRAUX. PEÑA Isaías (2011). Bogotá: El Huaco. . Poesía y prosa . Bogotá. Bogotá: Alfaguara. dos tendencias.

principalmente. cujo objetivo é apoiar a transformação dos sistemas de ensino em sistemas educacionais inclusivos. na década de 1990. é implantado. é proclamado o Ano Internacional dos Deficientes pelas Nações Unidas. Assim. no âmbito internacional. durante muito tempo. cultural e linguística foram. É quando começam.66 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS ENSINO DE E/LE E INCLUSÃO: REFLEXÕES SOBRE FORMAÇÃO E TRABALHO DOCENTE Alice Moraes Rego de Souza PG-UERJ Roberta Fraga de Mello PG-UERJ Introdução Historicamente. item III). . excluídos do espaço escolar. posteriormente. aqueles que “distoam” de uma “normalização” intelectual. promovendo um amplo processo de formação de gestores e educadores nos municípios brasileiros para a garantia do direito de acesso de todos à escolarização. No Brasil. o atendimento a alunos com necessidades especiais seguiu sendo realizado sobre os pressupostos da Normalização e Integração. o Programa Educação Inclusiva. física. da Conferência de Jomtien (1990) e da Declaração de Salamanca (1994). Mesmo com o advento da Constituição de 1988. sob formas distintas. o trabalho do professor tem sido apontado como condição essencial para a inclusão eficaz dos alunos com necessidades educacionais especiais nas classes regulares de ensino. seja pela presença de padrões físicos considerados distintos dos de uma suposta homogeneização. seja por fatores socioeconômicos. 2008. quando.9). preferencialmente na rede regular de ensino” (artigo 208. p. social. o atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência. em 1981. as discussões sobre a ampliação do acesso e a qualidade da educação das pessoas com necessidades educacionais especiais. o acesso à escola sempre foi marcado pelo paradoxo inclusão/exclusão. O quadro recém-apresentado começa a mudar nos anos 1980. na Constituição Federal de 1988. sob a influência. à oferta do atendimento educacional especializado e à garantia da acessibilidade (BRASIL. o Brasil estabelece. Acompanhando a tendência mundial de luta contra a exclusão das minorias e a favor da igualdade de oportunidades. em 2003. de acordo com a qual o aluno com necessidades educativas especiais deveria adequar-se à “hegemonia” presente em sala de aula. Dentro dessa perspectiva.

2001. as universidades e outras instituições a contribuírem para a elaboração das diretrizes curriculares dos cursos de graduação.394/1996 – a qual define que cada instituição de ensino superior (IES) deverá fixar seus currículos a partir das diretrizes pertinentes. afirmando que: “A educação básica deve ser inclusiva. os quais precisam ser refletidos e explicitados. iniciada oficialmente no ano de 2001.25). resta ainda observar em que termos é tratada a questão da educação especial. buscando observar como se apresenta a questão da educação especial nesses documentos institucionais. sendo uma delas a questão da educação especial. particularmente no que diz respeito à educação especial. se reflete em documentos oficiais (pareceres e resoluções) que se destinam a formalizar a última reforma dos cursos de licenciatura. por meio do Parecer CNE/CP nº9 de 2001 e respectivas Resoluções CNE/CP nº1 e 2 de 2002. De maneira geral. Ainda que possamos antecipar que “de maneira geral. cria-se ambiente propício para a discussão sobre a participação dos institutos básicos na formação de professores das diversas áreas de conhecimento. com a publicação do Parecer CNE/CP nº9 de 2001 e. O parecer em questão explicita que ao revisar o processo de formação docente. 150). o presente trabalho fomenta uma reflexão sobre os novos currículos de licenciatura em Letras (habilitação PortuguêsEspanhol) das universidades públicas do Estado do Rio de Janeiro. focaremos em algumas disposições do Parecer CNE/CP nº9 de 2001. culminando na reforma dos cursos de licenciatura. com a publicação das Resoluções CNE/CP nº1 e 2. (DAHER & SANT’ANNA. A partir daí. 2009. no ano seguinte. visto que este é um dos eixos que orientam as diretrizes curriculares de formação de professor em nosso país. 2009. Especificamente no campo curricular. em geral. dentre outros temas. como já apresentado. o qual convoca a sociedade civil. buscamos apresentar alguns possíveis progressos relativos à formação de professores de Língua Espanhola que beneficiem a perspectiva inclusiva e de respeito à heterogeneidade no espaço escolar. a reforma surge a partir da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) – Lei nº 9. depara-se com problemas em termos institucionais e curriculares. Considerando a interseção entre as discussões sobre educação especial e sobre a reforma dos cursos de formação de professor. falase sobre o ensino para alunos com necessidades especiais. no contexto da mencionada reforma. Para tal. A educação especial no âmbito da reforma das licenciaturas A reforma das licenciaturas é uma culminância de certa circulação de discursos sobre o papel do professor e suas responsabilidades na formação de cidadãos no contexto escolar. A importância atribuída ao papel do professor.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 67 o que nos leva a refletir sobre a formação deste profissional visando atender às demandas da atualidade. no sentido de atender a uma política de integração dos alunos . Neste tópico.20) Uma vez conhecido o contexto de surgimento da reforma. p. p. um dos 1. de modo a observar a relevância dada à temática no decorrer do documento. Diversas temáticas atravessam as reflexões acerca de um novo currículo para formar professores em nível superior. formalizada pelo CNE. a partir da análise de seus fluxogramas. as licenciaturas não estão preparadas para desempenhar a função de formar professores que saibam lidar com a heterogeneidade posta pela inclusão” (PLETSCH. Ao mesmo tempo. o MEC publica o Edital nº4 de 1997. p. problemas destacados é o que se designa como “desconsideração das especificidades próprias dos níveis e/ou modalidades de ensino em que são atendidos os alunos da educação básica” (BRASIL.

uma vez que a educação especial pode configurar apenas como formação específica. Constata-se. as formas de comunicação dos paralisados cerebrais. O documento reconhece que temáticas relativas à educação para alunos com necessidades especiais “raramente estão presentes nos cursos de formação de professores. Assim. 2001. especialmente no que concerne à educação especial. inclusive à questão da educação especial. 2. 26) currículos uma escolha de cada IES. o curso de Letras Português-Espanhol. ao mesmo tempo.68 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS com necessidades educacionais especiais nas classes comuns dos sistemas de ensino. portanto. são necessários alguns esclarecimentos sobre a escolha do corpus de análise. para atuação em modalidades ou campos específicos incluindo as respectivas práticas (. (BRASIL. o Parecer apresenta alguns eixos. quais são os reflexos desses discursos oficiais. portanto. p. a existência de uma brecha no Parecer. o que faz de sua presença nos A partir do Parecer CNE/CP nº9 de 2001 e suas respectivas resoluções. entre outras. dá recorrente espaço para discussão sobre necessidade de incluir. diz respeito aos critérios de organização para desenho de uma matriz curricular que contemple os diversos aspectos envolvidos com a atividade docente. na formação do professor. dentre as possibilidades de formação específica que a IES pode ter.. oferecer uma formação comum a todos os docentes e o atendimento às especificidades do trabalho com as diferentes etapas ou modalidades com que o professor irá trabalhar.. p.27). Mesmo diante da possibilidade da presença da temática sobre educação especial apenas em termos de formação específica. Por uma questão de afinidade profissional das pesquisadoras. a singularidade linguística dos alunos surdos. p. momento propício para o preparo do profissional para atuação com alunos com necessidades especiais. nas novas estruturas curriculares? Inicialmente. a escolha foi por analisar a formação do professor de Língua Espanhola. dentre os quais está o “eixo que articula a formação comum e a formação específica”.)” (BRASIL. 2001. Nesse caso. 2001.. Novos currículos de formação docente e educação especial . Universidade Federal Fluminense (UFF) e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). são. já que esta é uma realidade indissociável da escola. a critério da instituição. a saber: Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). considerando suas demandas próprias. embora devessem fazer parte da formação comum a todos (. A saída proposta para superar a “dicotomia” formação comum . no que tange à atuação docente diante desse público. o Parecer menciona a educação especial. de maneira geral. o Parecer esclarece que a construção espacial para alunos cegos.. vê-se que o Parecer CNE/CP nº9 de 2001. temáticas a serem consideradas. 27) Outra proposta contida no documento. p. quais serão os reflexos deste aspecto nas atuais estruturas curriculares das IES que formam docentes na área de Língua Espanhola? Tal será a discussão que cabe ao próximo item deste artigo.formação específica é a proposta de inclusão de espaços e tempos adequados que garantam “opções. Por uma necessidade de recorte de corpus . Nesse sentido. Assim sendo.)” (BRASIL. 55). Nesse caso. A problemática desta seção se centra na dificuldade de. 2001. Isso exige que a formação dos professores das diferentes etapas da educação básica inclua conhecimentos relativos à educação desses alunos “(BRASIL. optou-se por focar a análise apenas nas IES do Estado do Rio de Janeiro que passaram pelo processo de reforma curricular iniciado em 2001. as IES reformularam seus currículos de modo a atender às novas demandas.

de um grupo de seis disciplinas. Maingueneau (2005) afirma que os discursos têm caráter de ação. o ponto de par tida são os fluxogramas que materializam a estrutura curricular dos cursos de graduação. consequentemente. o fluxograma. Já após a reforma. Vale ressaltar que a primeira disciplina relacionada não vem como uma resposta à demanda da reforma de 2001. trabalhamos com a formação do professor de Língua Espanhola no Estado do Rio de Janeiro e seu preparo para atuar na educação especial. na medida em que tem seu surgimento e sua circulação fundamentada em “regras de organização vigentes em um grupo social determinado” (MAINGUENEAU. A reformulação curricular na UFF Tanto na grade curricular (expressa em forma de fluxograma) anterior e posterior à reforma das licenciaturas. Partindo de uma perspectiva discursiva. Para refletir. buscamos abrir caminho para reflexões que merecem atenção mais detida em trabalhos futuros. o aluno cursará apenas se quiser.626 de 2005. o fluxograma irá refletir questões colocadas ou não em destaque pela IES a que pertence. ainda que brevemente sobre esta questão. Assim sendo. O fluxograma. não há tipo algum de menção explícita a disciplinas que tratem especificamente da questão . seus marcos. ao enunciar sobre formação de professor é também uma forma de construir certa ideia de formação de professor. o fluxograma pode ser compreendido como um discurso. de certo modo. trata-se de uma eletiva. Entretanto. Sendo assim. como. A escolha deste material se deve ao entendimento de que o fluxograma. podendo esta ficar de fora.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 69 Em síntese. por sua vez. é um retrato de um curso de formação superior. não mais nos aprofundamos em aspectos teóricos. tampouco apresentava qualquer indício de disciplina que se voltasse para esse tema. 2. o aluno precisa escolher três para cursar. realizam-se algumas observações de análise sobre a presença do tema educação especial nos fluxogramas selecionados. Assim. p. Nem mesmo como eletiva existia a opção de disciplinas sobre tal temática. Ainda nesse sentido. por meio da disciplina intitulada “Planejamento de Material para Ensino de Língua Portuguesa como L2 para a Comunidade Surda” (vinculada ao Departamento de Linguística) e a disciplina “Prática Pedagógica em Educação Inclusiva” (oferecida pela Faculdade de Educação). suas etapas constituintes. 2005. assumir que os fluxogramas das IES são um discurso é sustentar a ideia de que seu surgimento e desenvolvimento são inseparáveis das relações sociais que o contextualizam.2. metodológicos e mesmo em detalhes de análise. mas sim a outra legislação específica sobre a questão da inclusão da LIBRAS na formação superior em algumas áreas de conhecimento – Decreto nº 5. nas subseções a seguir. Por uma questão de limitação de espaço. 2. a grade curricular do curso de Letras com habilitação em Português-Espanhol não sinalizava nenhum tipo de disciplina específica quanto à educação especial ou educação inclusiva. A reformulação curricular na UERJ Antes da reforma das licenciaturas iniciada em 2001. por exemplo. ou seja. pois esta compõe o grupo de disciplinas designadas como eletivas práticas. mostrando uma síntese do curso. Em outras palavras. o fluxograma mostra a inclusão de algumas oportunidades de discussão sobre educação especial.52). Quanto a esta última. do que se privilegia ou não como parte da trajetória a ser percorrida pelo profissional em formação.1.

para alunos que ingressaram a partir de 2012. por se tratar de uma questão de linguagem. Na maioria dos casos. Comentários gerais No caso das três IES. O fluxograma tampouco sinaliza a disciplina LIBRAS. é comum que a mesma fique atrelada aos departamentos de linguística. passa a ser oferecida. sejam LIBRAS ou disciplinas que abordem temas gerais sobre tal comunidade. ou seja. que abrange o ensino de maneira geral e não focado apenas em uma discussão específica. o que mostra. não se trata de uma alteração devido à reforma. pois ele também tem a sua disposição outras optativas. as disciplinas que passaram a ser oferecidas são em caráter de eletivo ou optativo. Sendo assim. essa disciplina compõe o grupo de optativas. Após a reforma. após a reforma. o que torna indispensável a reflexão sobre tais assuntos durante o processo de formação. relativa aos departamentos a que estão vinculadas as disciplinas. No caso das IES que oferecem disciplinas relacionadas à comunidade surda. Entretanto. Mesmo diante de um cenário . sendo que. pela Faculdade de Educação.626 de 2005 . podem ou não ser escolhidas pelo aluno. o fluxograma passou a apresentar a disciplina LIBRAS (vinculada ao departamento de Linguística e Filologia). Sendo assim. explicitamente. mais uma vez. o espaço para debate sobre questões relativas ao ensino de Língua Espanhola é reduzido. uma redução do espaço aberto à reflexão e à produção de conhecimentos sobre ensino de língua espanhola como língua estrangeira para alunos com necessidades especiais. Ainda assim. visto que atuar com alunos especiais não depende da escolha. a disciplina eletiva “Tópicos Especiais em Educação Especial”.626 de 2005 . na verdade. Em nenhum caso foi possível verificar a associação de uma disciplina que trate de educação especial ligada a algum departamento do Instituto ou da Faculdade de Letras. sendo oferecidas pela Faculdade de Educação. 2. 2. ao espaço ocupado pela educação especial não foram expressivas. já mencionado. o fluxograma da UFRJ não indicava. complementando as disposições do fluxograma1. mas de uma resposta a uma exigência legal de inclusão de LIBRAS nos cursos de Letras – Decreto nº 5. Já as disciplinas de educação especial costumam obter um caráter mais geral. o que é explicado no site da universidade. Isso se choca com a realidade da atividade docente. ao Instituto ou à Faculdade de Letras. tal como ocorre na UFF e na UERJ. mas do surgimento de tal demanda. Ainda há mais uma questão.70 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS do ensino de espanhol para alunos com necessidades especiais. consequentemente. as mudanças relativas Outros documentos que descrevem a estrutura curricular do curso de Letras PortuguêsEspanhol na UFF mostram que.3. tal disciplina compõe o currículo do referido curso. a inclusão de disciplinas que tematizem a questão da inclusão e da educação para alunos com necessidades especiais não sofre alterações. muito embora esta seja obrigatória para os cursos de Letras – considerando o Decreto nº 5.4. visto que apenas há a inclusão da questão específica da surdez. ficando a critério do aluno escolher cursar a disciplina. A reformulação curricular na UFRJ Antes da reforma. a existência de disciplina alguma que fosse específica para tratar de questões de inclusão ou ensino para alunos especiais. visto que as poucas oportunidades oferecidas possibilitam uma abordagem desde uma perspectiva mais ampla.

Vera L. 4 ed. Coleção Explorando o Ensino. Assim. _______. A abordagem do trabalho reconfigura nossa relação com os saberes acadêmicos: as antecipações do trabalho. Brasília. São Carlos: Editora Claraluz. 35-9.br/ccivil_03/ _ato2004-2006/2005/decreto/d5626. p. ________(2010). Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica. no exercício da profissão. In: Espanhol: Ensino médio. Brasília. participando do processo de produção de normas e prescrições do trabalho realizado por este sujeito. Lei nº 9. 3. DAHER. p. aos saberes acadêmicos. n. GLAT. contribuindo para uma forma diferente de pensar as antecipações do trabalho. 143-56. de Cecília P. 18 de janeiro de 2002. Diário Oficial da União. seja na formação.planalto. _______.394. embora seja uma realidade com a qual o professor está sujeito a se deparar. nota-se a constituição de um espaço restrito de prescrições ao trabalho do professor relativo a essa modalidade de ensino na etapa de formação. MAINGUENEAU. tal como visto na análise do Parecer CNE/CP nº 9 de 2001. de modo a. Dominique (2005). as quais serão feitas na própria situação de trabalho e que. Entretanto. 31. In: Trajetórias em Enunciação e Discurso: práticas de formação docente. De Souza e Décio Rocha. Acessado em 10/08/2012. ainda que o tratamento da educação especial pensada especificamente em termos de ensino de E/LE seja tarefa complexa. em algum momento.htm>. ainda. Referências bibliográficas BRASIL. de algum modo. 33. quando surgem disciplinas relacionadas à educação especial. Edicléa Mascarenhas (2005). FERNANDES. portanto. mesmo que não tenha de dar conta de prescrever o trabalho docente. não foram identificadas marcas que explicitassem a relevância dada às discussões sobre ensino de Espanhol como Língua Estrangeira (E/LE) para alunos com necessidades especiais. E. SANT’ANNA. Yves (2002). Brasília: Inclusão – Revista da Educação Especial – out/2005. PLETSCH. Formação e exercício profissional de professor de língua espanhola: revendo conceitos e percursos. Márcia Denise (2009). Da educação segregada à Educação Inclusiva: uma breve reflexão sobre os paradigmas educacionais no contexto da educação especial brasileira. A formação de professores para a educação inclusiva: legislação. Análise de textos de comunicação. dá relevância ao assunto. Do otium cum dignitate dos cursos de Letras à formação de línguas. p.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 71 que. Rosana. Revista Educar . Disponível em: <http://www. Considerações finais No caso dos fluxos analisados. elas constituem-se como optativas / eletivas. o professor precisará refletir sobre tal questão. Parecer CNE/CP nº9. 27894.626 de 22 de dezembro de 2005 . Curitiba: Editora UFPR. Del Carmen. de 20 de dezembro de 1996. A formação. em nível superior. o presente trabalho mostra que. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. diretrizes políticas e resultados de pesquisas. In: SOUZA-E-SILVA. Seção 1. minimamente. Decreto 5. de 8 de maio de 2001. Trad. 23 de dezembro de 1996. Diário Oficial da União. FAITA .A (2009). Nesse sentido. p. 4. orientar o docente em sua trajetória futura. curso de Licenciatura de graduação plena. Editora Cortez: São Paulo. Brasília: MEC. seja na atividade docente. na perspectiva de Schwartz (2002) podem ser articuladas. precisa proporcionar mais espaço para reflexão do assunto.gov. tal ausência não implica a não criação de normas. SCHWARTZ.

b r / index.br/arqs/fluxogamas_cur sos/ letras_portugues_espanhol_licenciatura. Disponível em: http:// w w w . UFF. Acessado em 10/08/2012. UERJ.pdf.pdf.uff. u f r j . Disponível em: http:// www. Disponível em: http:// www. Acessado em 30/08/2012. Fluxograma do curso de Licenciatura em Letras Português – Espanhol.br/sites/default/files/ letras_portugues_espanhol_-_licenciado_novo. dep.72 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS (orgs.br/obrigatoriedade-da-disciplinalibras>. São Paulo: Cortez.letras. Acessado em 10/08/2012.uff.uerj. Fluxograma do curso de Licenciatura em Letras Português – Espanhol. l e t r a s .php?option=com_content&task=view&id=45&Item( ( Nota 1 A informação mencionada está disponível em <http://www. Linguagem e trabalho : construção de objetos de análise no Brasil e na França.). . Fluxograma do curso de Licenciatura em Letras Português – Espanhol. UFRJ.letras.

ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 73 DIÁLOGOS DE HISTORIA NATURAL: O HOMEM PROTOTÍPICO E O HOMEM EM CONSTRUÇÃO Amanda Brandão Araújo PG . vegetais e humanas. Do lado oposto. Entre as conclusões buffonianas referentes às Américas coloniais destacam-se formulações intrigantes que merecem ser comentadas. homens conhecedores e adeptos a outros pontos de vista se propuseram a divulgá-los. “a tese da ‘debilidade’ ou ‘imaturidade das Américas” nasce com o Conde de Buffon. postular uma teoria universal da inferioridade do novo continente. ocuparam-se de descrever muitas das peculiaridades americanas sem. Foi o que fizeram europeus que de fato conheceram o cnotinente americano. advindo da inferioridade daquele meio e da fraqueza de suas espécies animais. Alguns autores que precederam o século XVIII. manifesta-se a superioridade do homem civilizado. o que o levou a trilhar um caminho em direção aos estudos científicos. . no século XVIII. contudo. na ideia de que o homem ocidental teria alcançado a aptidão de elevarse a uma chamada “maioridade intelectual”. Entretanto. alguns crioulos e uns quantos padres jesuítas. na qual aparecem suas teorias sobre os temas americanos. encontra-se o nativo americano. Em vários textos produzidos por europeus que conheceram a América ou por americanos põe-se em questão a validade do caráter débil e frágil das espécies do Novo Mundo. ou Georges-Louis Leclerc (17071788). fundamentada nos progressos realizados através do processo histórico europeu. a partir dos naturalistas ilustrados.Universidade Federal de Pernambuco* A presença de dois discursos referentes à imagem simbólica do Novo Mundo representa a oposição entre Europa e América que seria determinante para a formação do pensamento moderno. Segundo Antonello Gerbi (1996). Cornelius De Pauw. a “polêmica do Novo Mundo” passa a apresentar discussão contínua. como Gonzalo Fernández Oviedo e os padres Acosta e Herrera. freqüentador do Colégio de Jesuítas e estudante de Direito. natural de Paris. mas excessivamente interessado em matemáticas e ciências. culminando. Entre suas principais obras encontra-se a volumosa História Natural . Divulgadas as teorias e razões da inferioridade. como o Conde Buffon. Em um pólo. o Abade Raynal e o historiador William Robertson.

um grau de desenvolvimento semelhante ao das mais incipientes civilizações européias.] os que não foram transportados. conseguiriam atingir. mas com o tempo e o exemplo dos europeus. tais como os lobos. nada por si só. Para ele. “imberbes”. Grifo do autor). é apenas um bruto incapaz de progresso.. inoperantes. mas lá chegaram por si mesmos. os As deduções de Buffon deturpam as descrições dos autores que o antecederam. os cabritos monteses. 27. Diz Buffon: “os elefantes pertencem ao Antigo Continente. 1996: p. digo. com exceção destinada aos insetos e répteis de menor porte. Rejeitam as leis e a ordem. inimigos do progresso e da sociedade. mudo. ora para menosprezar os aspectos naturais e comportamentais da natureza e do homem.74 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS A primeira delas refere-se à inexistência de grandes animais selvagens. garantindo a superioridade das espécies do Velho em detrimento das do Novo Mundo. Os animais em geral são poucos em diversidade e em tamanho.. De Pauw não acredita na “bondade natural” do homem. as cabras. ou pelo menos muito mais novo que o antigo.) Buffon entende que o continente – e o homem – americano está ainda em processo de evolução. em tom extremamente mais enfático e definitivo que o do Conde. do qual o homem ainda não tomou posse. os alces. impotente. (DE PAUW apud GERBI. numa palavra aqueles que são comuns aos dois mundos. à anta brasileira. ao saber da época. de construir impérios e domar animais. Quaisquer semelhanças que pudessem existir entre as espécies de maior porte de ambos os continentes eram refutadas. A umidade do ambiente é tão elevada que pode fazer definhar qualquer espécie passível de evolução. Humanamente. e [.. todos esses animais. (GERBI. e não existem no Novo (. Cornelius De Pauw. abandonado durante seis anos na ilha de Fernandez.) nem se encontra ali nenhum animal que se compare a eles. os carneiros. fundamentado. etc. que nem de longe poderia comparar-se aos grandes mamíferos. a América é um continente ainda intocado. tornaram-se menores. ora para ridicularizar. os criadores do progresso. Mais que isso: a maioria dos nativos vive como os próprios animais. portanto. os cães. e isto sem exceção alguma. são também consideravelmente menores na América que na Europa. Os cavalos. p. São imaturos. filósofo e enciclopedista ilustrado de naturalidade discutível (provavelmente holandesa). 1996: p. em algum dia ainda indeterminado. 1996). que apenas multiplicam-se e avolumam-se. a América é um mundo novo. devido a sua “dimensão de um novilho de seis meses ou de uma pequeníssima mula” (GERBI. os asnos. continua as “difamações” da América. (GERBI. os porcos. que mal acaba de emergir e ainda não secou direito.. um mundo que ficou mais tempo sob as águas do mar. ainda. 19). 56). 20. incapaz de dominar a natureza em seu favor. (BUFFON apud GERBI. A natureza do hemisfério ocidental não mais é imatura e . defende e aprofunda a tese de que os americanos são degenerados. os cervos. portanto. ao contrário de Buffon e de Rousseau. O homem é errante. Recusaram-se a aceitar quaisquer formas de desenvolvimento e cultura “evoluída”. 1996. imbecil e nada conheceria em toda a natureza . Fisicamente. Fonte de elevado preconceito e ignorância gerados a partir das teorias buffonianas é o postulado da degenerescência dos animais na América. insalubre portanto para gente civilizada e animais superiores. A natureza americana seria hostil a qualquer desenvolvimento. o maior filósofo. mas no oposto a isso: o homem apenas se aperfeiçoa em sociedade. 1996: p. Opondo-se ao concluído por Buffon. Sem ela. divide espaço com eles. deve aquilo que é à sociedade: o mais metafísico.” Alude. Os “selvagens” americanos são. em critérios científicos relacionados à Ilustração. as raposas. As espécies trazidas da Europa tenderiam a definhar-se. O homem não é. se tornaria embrutecido. Nas Recherches sur lês Américains.. os bois.

Ao inicio da “adolescência americana” também corresponderia a impotência dos nativos e a falta de atração por suas fêmeas. 1996. Considera como inverídica toda a obra de Garcilaso de la Vega sobre os incas. Também insurgiram-se jesuítas que. onde a imaturidade se revela por essa espécie de impotência. América em Raynal resulta da projeção de uma teoria climática que divide o mapa-mundi em zonas tórridas. A imagem da Para concluir os “ataques” às Américas a que nos propomos. p. supõe uma imperfeição nos órgãos. toltecas e incas. uma espécie de infância nos povos da América. “A natureza se esqueceu de fazê-la crescer” (GERBI.. Raynal e De Pauw contestam a As radicais teses depauwnianas suscitaram grande número de réplicas.] Os povos se encontravam dispersos nos campos. como dilúvios e “medonhos tremores de terra”. Raynal adota a posição de Buffon e De Pauw sobre as zonas tórridas e úmidas como insalubres. como se “desevoluísse” o que sequer começou a se desenvolver. A América não havia ainda se desenvolvido: era impúbere. expulsos das colônias. 1988) antigüidade das civilizações astecas. 1996). 1996). inferior porque degenerada ” (GERBI. “De Pauw repete até a saturação que a natureza é fraca e corrompida na América. da bondade natural do homem e da natureza virgem. Na Europa mesmo levantaram-se contra ele vários defensores do “bom selvagem”. pois entende que “é sem dúvida um grande e terrível espetáculo ver a metade deste globo a tal ponto desgraçada pela natureza que tudo é ou degenerado ou monstruoso” (DE PAUW apud GERBI. 1996). Os dados de Las Casas sobre as numerosas populações do México e do Peru também são objeto de crítica. cuja inspiração é voltairiana e permeável às ideias de De Pauw. [. rejeitando as descrições de Hernan Cortés e do inca Garcilaso de la Vega. sem meios termos. (RAYNAL apud GERBI. já que estes foram atrasados e incapazes tanto quanto os demais seres daquele mundo. retorna constantemente à “desventurada” natureza física americana. da grandeza e magnificência das cidades e monumentos. porém. A umidade do clima fez com que essa condição “infantil” do continente e dos homens que nele habitavam fosse agravando-se. mais determinadas ou mais indiretas. 53) Buffon. como nos indivíduos do nosso Continente que não chegaram à puberdade. atribuindo ao clima as doenças contagiosas e as baixas taxas de natalidade entre os povos. A indiferença quanto ao sexo. porém é dada maior relevância ao posicionamento em favor de grandes catástrofes. trazendo assimetrias valorativas com implicações políticas. fraca porque corrompida. e era impossível que fosse de outro modo. traziam de volta as experiências vividas nas mesmas. zonas glaciais e zonas temperadas. Mais um defensor da inferioridade americana foi o Abade Raynal. Haveria ocorrido. com sua Histoire Des Deux Indes. é degenerada.. As teses sobre as influências do clima e outros fatores naturais são consideradas por De Pauw. embora deva apresentar idade semelhante à européia. De Pauw é tido como veemente antiamericanista. para ele. Sua História da América (1777) fala sobre o Novo Mundo num tom mais Deve-se relegar ao plano das fábulas esta quantidade prodigiosa de cidades construídas com tanto cuidado e dispêndio. (RAYNAL apud VENTURA. várias tragédias naturais nunca observadas no antigo continente. finalizamos com as considerações de Robertson. A ênfase do Abade. descaracterizado) a fauna e flora locais. O clima americano explicaria também a propensão dos seus habitantes ao alcoolismo e à concubinagem. nas Américas. que teriam determinado o temperamento dos habitantes (animais não políticos) e caracterizado (ou. É um vicio radical no outro hemisfério. . mais ou menos abrangentes.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 75 imperfeita (como o era para Buffon). ao qual a natureza confiou o depósito da reprodução.

pedían limosna a sus puertas: y encontraban extraño que esos otros hombres no cogieran a los otros por la garganta. desfallecidos de hambre y desnudos con pobreza y necesidad. como Humboldt. nem tão feroz quanto as do outro continente. tentando inclusive justificar atos de violência que pudessem ser cometidos pelos nativos. embora o tom pessimista predominasse.. envidia. Clavijero cita os antigos pioneiros nas descrições da América (Oviedo e Herrera.. (MONTAIGNE apud HENRRÍQUEZ UREÑA. comerciantes e ainda com uns “selvagens” brasileiros levados a Rouen durante o reinado de Carlos IX. Em seu ensaio. maledicencia y perdón. codicia. A defesa de Montaigne beneficia não só as tribos pacíficas. por exemplo. p. Como em: O princípio da vida parece ter sido menos ativo e vigoroso do que no velho continente [. tendo a maior parte deles se baseado em experiências próprias. em dois ensaios famosos – um. mas parece ao mesmo tempo ter sido menos vigorosa em suas produções. traición. (.] as diferentes espécies de animais peculiares a ele são em muito menor número que as do outro hemisfério [. sino que cada cual suele llamar barbarie a aquello que no le es común…Son salvajes así como llamamos salvajes a aquellos frutos que la naturaleza por sí misma y por su natural progreso ha producido. (ROBERTSON apud GERBI. Explicavase a grandeza e a miséria da natureza americana. havia mantido contato com viajantes. em parte. no caso dos padres jesuítas e dos crioulos. patriota e ilustrada. Perseguindo o objetivo de criticar os filósofos iluministas. diz: Creo que nada hay en esa nación que sea bárbaro o salvaje. En aquellos se hallan vivas y vigorosas las verdaderas y más Obra importantíssima sobre a defesa do Novo Mundo é a do padre jesuíta Francisco Javier Clavijero. p. procuraram conhecer a outra versão da história. comenta que quando conversou com os “selvagens” brasileiros em Rouen. em comparação com o estado selvagem. 28-29). Os animais que pertencem originalmente a esse quadrante do globo parecem ser de uma raça inferior. cuando en verdad es a aquellos que nosotros mismos hemos alterado con nuestras artes y mudado de su orden común a los que con más propiedad debíamos designar salvajes. aplicándolas solamente al placer de nuestro gusto corrompido.76 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS intermediário e repleto de meios termos. Montaigne (século XVI). . Leitor de crônicas de viagens e conquistas. que en éstos hemos bastardeado. por exemplo) e usa o que pode de suas obras em defesa de seus argumentos. através de uma visão ao mesmo tempo barroca. 2006. nem tampouco se reputa como tal aquilo que não ataca a religião e adota a linguagem da impunidade (CLAVIJERO apud DOMINGUES. mas mente-se desavergonhadamente: não é apreciado o que não é filosófico. (MONTAIGNE apud HENRRÍQUEZ UREÑA.. no entanto. filho de pai espanhol e mãe crioula. Diz Montaigne relatando o que os nativos haviam declarado: que habían visto que había hombres entre nosotros colmados de toda clase de comodidades.) Las palabras mismas que significan mentira. 9). seja através da realização de viagens.. No ensaio Sobre los caníbales. p. entendeu. p.134) provechosas virtudes y piedades naturales. a consequências extremas. mientras otros. Entende que o Século das Luzes teria publicado mais erros do que todos os séculos passados pois escreve-se com liberdade. nem tão robusta. mas também as canibais. A oposição filosófica entre natureza e cultura e a comparação entre o homem natural e o civilizado também ocuparam a mente desses intelectuais que. falsía. 1954. o pusieran fuego a sus casas. a legitimidade dos rituais. 1996.. 1954.. Do lado oposto da polêmica estão outros intelectuais. 29-30). marinheiros. sobre os canibais – levou a crítica da civilização européia. inclusive. nascido na Nova Espanha. jamás se oyeron entre ellos. seja através da longa estadia em solo americano. disimulo.] A natureza não somente era menos vigorosa prolífica no Novo Mundo.

viajando pela América do Sul e pelo Caribe de 1799 a 1804. durante o século XVIII a produção artística das colônias excedeu a da Espanha e de Portugal. lisonjeando a vaidade dos europeus. em solo americano. (2005. Clavijero opõe-se às generalizações sobre o Novo Mundo e demonstra. A defesa suprema da América não foi feita. (HUMBOLDT apud VENTURA.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 77 Centra suas críticas principalmente sobre a obra de De Pauw. uma posição ambígua. partindo de vários exemplos baseados em sua vivência. comenta: Essas idéias se propagaram com facilidade. O jesuíta demonstra admirar a racionalidade ilustrada e a universalidade do ser humano. Afirma que as Imagens fantásticas de juventude e inquietação. 1954). uma contradição ainda maior: apesar de defender a América em sua unidade. restringindo sua defesa às sociedades “civilizadas”. e reúne-as basicamente nas Disertaciones e na Historia Antigua de México. Apresenta. 307) Humboldt rechaça ainda vários dos postulados de Buffon e De Pauw. em muitos aspectos. porque. Refuta definitivamente a ideia de degeneração dos animais europeus na América e enaltece todos os aspectos culturais de sua terra natal e do Peru. 242) Alexander von Humboldt. que os nativos americanos têm valor equivalente aos europeus. Os povos do novo continente superariam. Raynal e Robertson com relação aos astecas. religião. havia leitores e havia estudiosos. p. por considerá-la a mais ofensiva dentre todas as calúnias propagadas sobre a América. Humboldt critica ainda a falta de apreciação advinda dos naturalistas do porte de De Pauw. em estabelecer hierarquias. em muitos tópicos. Segundo Pedro Henrriquéz Ureña (1979. não se esforçam por conceber com uma visão de conjunto a estrutura do globo terrestre. comparar os povos da Nova Espanha e do Peru aos demais do continente. Contradiz-se. o que confere a seus escritos. seu estudo incrementou sobremaneira as discussões em torno da polêmica. contudo. relata não haver outro sentimento senão encanto: as dificuldades de aclimatação tendiam a inexistentes. história civil e cultural e filosofia iluminista. lamentando que os mesmos não tivessem se dado a oportunidade de aprofundar-se em tão instrutivas culturas. as primeiras bibliotecas públicas. A diferença entre mexicanos e europeus seria relativa somente à falta de instrução dos primeiros. (HUMBOLDT apud GERBI. nem se deve. afirma e reafirma que não se pode. los segundos para mostrar la invalidez y relatividad de esos sistemas antiamericanos que arrojarían las mismas conclusiones si se aplicaran al estudio del Antiguo Continente. Nos setecentos foram construídas. A respeito da degeneração dos animais domésticos. porém. porém. num jogo vazio de buscar contrastes entre os dois hemisférios. através de uma obra maestra de algum filósofo. p. 1996. De qualquer forma. se ligavam a hipóteses brilhantes sobre o antigo estado de nosso planeta. Segundo Méndez-Bonito. Tanto los filósofos europeos como los jesuitas americanos utilizaron la misma lógica de razonamiento: los primeros para desarrollar teorías de principios antiamericanos. mas foi garantida pelos processos políticos. os estabelecimentos científicos do México e a biblioteca de Botânica eram de tão boa qualidade que nenhuma da Europa poderia ousar comparar-se. os do antigo. de crescente aridez e inércia da terra envelhecida só podem surgir naqueles que. o Jardim Botânico do . sociais e culturais desenvolvidos no continente pelas mãos de seus administradores. muitos dos quais ele se propôs a analisar através da interação de todos os fatores naturais que teve a oportunidade de observar em sua viagem. 1988). política. porém mescla conceitos religiosos aos racionais. econômicos. resultando em uma mistura densa de história natural. circunscrita a los límites que le impone su propia naturaleza. La obra de los jesuitas defensores de América constituye un ejemplo de cómo la razón ilustrada es una y la misma.

Condillac. puerto de Lima. manifestações das Luzes se fizeram sentir fortemente nos aspectos sociais. LEDEZMA. Referências bibliográficas DOMINGUES. o Museu de Historia Natural e o Jardim Botânico na Guatemala. Rousseau. las cantidades eran extraordinarias: así. Terry (2006): A ideia de cultura. MENDÉZ-BONITO. p. En el Brasil. Beatriz Helena (2010). 2010. por ejemplo. Buffon. Houve um entrelaçamento dos temas ilustrados às formas tradicionais. denotando o uso inteligente e adaptado às necessidades locais. HENRIQUEZ URENA. o r g / p e r i o d i c o s / r e v i s t a / r e v i s t a 5 / dossie2. inclusive. EAGLETON. Anphlac : Revista Eletrônica. São Paulo: Cia das Letras. Locke. historias naturales u el Nuevo Mundo. Luis Millones. Afirma que Entre las gentes educadas de la América hispánica hubo mucha afición a la lectura. Disponível em: <http:// w w w.: Fondo de Cult. Anual.pdf>. em primeiro lugar. GERBI. empresa que. catolicismo. 5. en 1785. políticos e econômicos. Laplace. o Observatório Astronômico de Bogotá e a Escola Náutica de Buenos Aires. Acesso em: 05 jun. In: FIGUEROA. Os ideais iluministas. Pedro (1979): Historia de la cultura en la América Hispánica. El saber de los jesuitas. 1979. gênero. sumaba 37 612 volúmenes. v. através da penetração gradual e moderada do “espírito do século”. HENRIQUEZ URENA. abrangendo as mais variadas manifestações artísticas. Ureña tece largo comentário sobre a vida cultural latinoamericana..78 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS México. trabalho. Goiania. Madrid: Iberoamericana. Gassendi. etnicidade. porém existe algo essencial no homem que mantém mesmo as culturas mais fechadas com um potencial de ser inerentemente ilimitadas e abertas. Mas não diferem naquelas capacidades – linguagem. Juan Ignacio de Molina y Juan Velasco.F. 2006. Pensar sobre as discussões em torno da “polêmica do Novo Mundo” nos leva a delinear de forma mais clara como a ignorância funciona como um véu sobre os olhos. quando alcançada. México: Fondo de Cultura Económica. En el siglo XVIII circulaban muchos libros de orientación moderna: la Encyclopédie. Culturalmente é possível ser conduzido por um caminho etnocêntrico de rechaço a outras culturas diferentes da própria. história natural e ilustração. História de uma polêmica (1750-1900). em sua história. Domingo. Boyle.] 221-250. los libros suplían la falta de universidades (…) Las listas de obras remitidas de Europa a los libreros de las colonias abarcan la mayor variedad concebible de títulos y asuntos. Silvia Navia (2005): Las historias naturales de Francisco Javier Clavijero. deixa-se de ver com clareza e o que resta são impropérios. pp. Montesquieu. 39. una sola remesa de libros recibida en El Callao. fundamentaram a justificativa teórica da emancipação das colônias. sexualidade – que lhes permitem entrar em um relacionamento potencialmente universal uns com os outros. São Paulo: Unesp. Voltaire. [. México D. Antonello (1996): O Novo Mundo.. O México na “Polêmica do Novo Mundo”: humanismo. Lavoisier. capacidades físicas etc.) É claro que os corpos humanos diferem. Económica. Copérnico. Pedro (1954): Las corrientes literarias en la América hispánica. se mantuvieron en circulación secreta todavía cuando se les consideró peligrosos y se prohibió su lectura (HENRIQUEZ UREÑA. . Leibniz. a n p h l a c . obras de Bacon. Além da intensa atividade cultural. Descartes. Terry Eagleton lembra que A sociabilidade se impõe a nós como indivíduos em um nível ainda mais profundo do que a cultura. fez com que os críticos do “Novo Mundo” pudessem repensar seus valores a partir da força dos fatos históricos.

Aluna do mestrado em Teoria da Literatura através do Programa de Pós-graduação em Letras da Universidade Federal de Pernambuco. São Paulo.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 79 ur as de R a y nal e a VENTURA. Disponível em: <http://www. Roberto (1988) L e i t tu ras Ra ilust r ação na A mér ica L at ina. Instituto de Estudos ilustr mérica La tina. p h p ? p i d = S 0 1 0 3 40141988000300003&script=sci_arttext>. Avançados da Universidade de São Paulo. 2010. set/ dez. .br/ s c i e l o .scielo. Nota * Bolsista CNPQ. Acesso em: 08 mai. 1988.

como é o caso das literaturas africanas de língua espanhola ou os registros literários hispano-filipinos em espanhol e em chabacano. as manifestações do universo canônico hispano-americano. quíchua. bem como as manifestações literárias bilíngües do povo zapoteca no México. Em meio ao trabalho acabam sendo preteridas outras possibilidades de apreciação estética e crítica desse universo. entre outras experiências equivalentes relacionadas aos povos maia. diversos autores e autoras se movimentaram e se movimentam no sentido de instrumentalizar as línguas locais. críticos e observadores da cultura em alguns espaços geopolíticos conformados pela experiência colonial.80 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS A HISPANIDADE DISPOSTA EM PARALELO: VOZES LITERÁRIAS CONTEMPORÂNEAS DOS POVOS ORIGINÁRIOS DAS AMÉRICAS Amarino Oliveira de Queiroz Universidade Federal do Rio Grande do Norte As experiências literárias contemporâneas cultivadas em língua espanhola pelos chamados povos originários das Américas configura matéria de pouquíssima visibilidade no ambiente da pesquisa acadêmica brasileira. antologias ou coletâneas brasileiras de literaturas de língua espanhola. mapuche ou guarani. por exemplo. que chegou mesmo a reivindicar no livro intitulado Decolonising the Mind – The . lado a lado com a língua do colonizador. na condição de veículos de comunicação interétnica e de elaboração estética. buscaremos desenvolver ao longo deste estudo uma breve reflexão acerca do exercício de tradução cultural e linguística que permeia algumas dessas manifestações poéticas e narrativas. preocupados não apenas com o trabalho de afirmação de seus pertencimentos etnoculturais e suas identidades literárias. investindo numa maior visibilidade internacional das chamadas literaturas menores ou periféricas. Na África e na América hispânica. por exemplo. compêndios. Na tentativa de identificar criações que. manuais. O uso de idiomas europeus como língua de literatura em detrimento dos idiomas locais veio configurando questão bastante delicada por dividir a opinião de realizadores. Os argumentos favoráveis a esta utilização foram rechaçados por escritores como o queniano Ngugi Wa Thiong’o. ausentes que estão na maioria dos livros. até certo ponto. as quais via de regra contemplam regularmente a experiência peninsular e. Tal situação é agravada pela quase nenhuma circulação desses textos poéticos e narrativos entre nós. em seu conjunto mais amplo. passaremos a referir como literaturas em espanhol dos povos originários das Américas.

Os próprios livros de Ngugi. não é propriamente o uso do idioma herdado do colonizador como meio de expressão literár ia que torna as literatur as afr icanas cultur almente inautênticas ou mesmo as circunscreve aos domínios ur banos ou alfabetizados. Diante do exposto. propriamente dito. instrumentos de comunicación. el español de María Nsue y de Maximiliano Nkogo no es el de Burgos o Madrid. entendendo que o vasto leque de possibilidades investigativas que se abre no espaço acadêmico brasileiro revela tanto a urgência quanto a necessidade de atualizar e incluir. em linhas gerais. Que nos diga por que razão as suas últimas obras. de 1986. Thiong’o baseia seu argumento numa possível maior capacidade de apreensão das culturas africanas através das próprias línguas autóctones. revelando caminhos diversificados e abrindo espaço para interessantes soluções não só no fazer literário como na própria estrutura das línguas “tomadas de empréstimo”. Nas modernas literaturas da África.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 81 Politics of Language in African Literature. o prêmio Nobel de Literatura. Ele que o diga. que el inglés de Amos Tutuola. ante todo. Chinua Achebe o Ben Okry no es el de Oxford. em 1986. como o da publicação. para quem: Ngugi esquece-se. son. tais como The River Between ou Weep not. o gikuyu. dentro do debate lingüístico. foram imediatamente traduzidas do gikuyu para o inglês? Na verdade. p. child . o recurso exclusivo das línguas africanas para a produção literária escrita do continente. romancista e crítico Woyle Soynka: primeiro escritor da África negra a conquistar. Neste sentido. e também noutros. Para trazer outro importante nome da literatura nigeriana escrita originalmente em inglês.de certa forma . recorrendo à memória e às tradições orais bem como a um profundo engajamento social e político. 23). contrariando . (VENÂNCIO. como ya sucede en Hispanoamérica. já que. p. Soynka empreende em seu exercício poético e ficcional uma combinação entre técnicas assimiladas do Ocidente e o expressivo universo cultural iorubano. 1992. ¿Por qué no reconocer entonces que la lengua. que o imperialismo cultural manifesta-se no domínio lingüístico.o que defendeu no seu ensaio Decolonising the Mind . 61). sino el de la gente iletrada de Luanda o Maputo. (LEITE: 1998. y que. Descrevendo as razões que o motivaram a substituir o inglês pela sua primeira língua. p. do Caribe e da América Latina produzidas em línguas europeias é cada vez maior o registro de experiências estética e politicamente inovadoras. 2006. y lo importante es cómo y para qué se usan? (NDONGO-BIDYOGO. cultural e literário de intenção hispanista as múltiplas realidades através das quais . todas las lenguas. disposição também compartilhada pela maioria dos escritores anglófonos. Esta atitude foi contestada por vários autores e críticos literários como é o caso do angolano João Carlos Venâncio. a posição dos escritores africanos francófonos admite a legitimidade e reivindica o uso dos dois procedimentos. sino el que se habla en los suburbios de Abidján o Brazzaville. Devil on the cross (romance) e I Will Marry when I want (drama. são exemplos perfeitos de como a ficção africana nada perde em autenticidade cultural por utilizar idiomas da colonização como meio de expressão literária. que el portugués de Luandino Vieira o de Pepetela no es el de Coimbra o Lisboa. destaque-se o exemplo do poeta. co-autor). contudo. o argumento defendido por Ngugi Wa Thiong’o não chegaria a estabelecer um consenso sequer entre seus pares. sino el de Malabo y Bata. atendo-se ao modo pelo qual a utilização das línguas tomadas de empréstimo legitima o exercício criativo desses autores. escritos ainda em inglês. 3) De acordo com grande par te da crítica literária africanista que adotou opiniões concordantes. é pertinente a constatação do escritor e crítico literário guinéu-equatoriano Donato Ndongo Bidyogo: Dicen los expertos que el francés en que escribieron Amadou Kourouma o Sony Labou-Tansi no es el de París. sino el de los obreros de Lagos. publicidade e difusão da obra literária. isto agravado pelo fato de que é supostamente na Europa e nos Estados Unidos que se encontra a maior parte do público das literaturas anglófonas e francófonas.

De modo assemelhado ao que ocorre com a escrita africana contemporânea em português e espanhol. algumas vozes literárias contemporâneas emanadas dentre os povos originários das Américas. No que diz respeito aos povos originários das Américas propriamente. se anticipa en el terreno de la literatura escrita. epistêmico e político representa importante fenômeno ocorrido na produção simbólica do continente: En estas literaturas se reconfiguran las subjetividades indígenas y se cuestiona la hegemonía de “literaturas nacionales” circunscritas al imaginario de la población hegemónica criollomestiza de los Estados-naciones dominantes. La emergencia de dicha producción literaria se ha vuelto notable en países como Perú (quechua). pese as sucessivas tentativas de apagamento decorrentes da experiência colonial. En efecto. cultura. seja pela interferência dos idiomas autóctones e de outras línguas estrangeiras. passando pelo peruano José María Arguedas até o guatemalteco Miguel Ángel Asturias. Bem a propósito. Mas é principalmente durante todo o século posterior que várias destas literaturas escritas passaram a experimentar de efervescência criativa na busca de uma autonomia estética. envolvendo incontáveis escritores que vão desde o boliviano Alcides Arguedas ao equatoriano Jorge Icaza. gerando assim momentos de afirmação positiva e de reconhecimento internacional. Tal caráter parece pontuar grande parte dos discursos identitários formatados. o processo de re-apropriação da língua do colonizador constitui uma das tendências claramente identificáveis em grande parte da obra assinada por representativos nomes das literaturas latino-americanas escritas nestes dois idiomas ibéricos. os pesquisadores Arturo Arias. estético. produzidas em contextos onde também a língua castelhana comparece como protagonista lado a lado com outros idiomas de literatura. sobretudo. no imaginário americano e na realidade sócio-cultural dos povos indígenas e seus descendentes. a partir de experiências literárias à margem. em “Literaturas de Abya Yala” 1. para ficar com apenas quatro desses nomes. Esta característica é flagrante já a partir de meados do século XIX. Um extenso leque de exemplos caracteriza esta tendência. é sabido que tanto através da tradição oral como por meio do exercício da escrita nas próprias línguas autóctones e em castelhano seu pensamento e expressão cultural tiveram continuidade e difusão. em muitos casos . tanto como estratégia de visibilização dos discursos poéticos e narrativos subalternizados como na condição de espaço de resignificação cultural e re-apropriação lingüística como parecem descrever. la lucha por la restitución de soberanías y autonomías territoriales en el nivel político y social. fazendo com que esta auto-representação e essa autodeterminação literária dos povos originários das Américas configurem um modo de dotar-se de soberania intelectual. seja por um particular procedimento de reinvenção lingüística e renovação estilística motivado pela interpenetração cultural cada vez mais ativa e diversificada. uma vez que tal atividade.e também em língua castelhana. período que corresponde à independência política e à consolidação dos vários novos Estados americanos. pretendemos chamar a atenção para o caráter inclusivo desta condição plural e polifônica. artigo que intenta realizar um breve mapeamento das escritas contemporâneas de autores e autoras na América de língua oficial espanhola. . entendida como um projeto lingüístico.82 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS se movimenta o castelhano em sua condição de idioma de comunicação. como também inscreve a literatura num território de agenciamento indígena dentro do atual contexto latino-americano. Luis Cárcamo-Huechante e Emilio del Valle Escalante (2012) argumentam que a emergência desse corpus autoral não apenas põe fim ao império dos indigenismos crioulos e mestiços. ensino e literatura. Muitos de seus autores encontrariam forte substância na tradição pré-colombiana. que hoy articula las movilizaciones de los pueblos originarios.

Tal es el caso de la literatura indígena en Colombia (. México (sobre todo maya. comienzan a ganar visibilidad otras literaturas indígenas emergentes. Não obstante. (Pineda. Esto conlleva una desestabilización de nuestros marcos categoriales e invita a indigenizar “la ciudad letrada” (. contista. (. pero con una perspectiva interna a los grupos mayas. que saca origen de la literatura hispanoamericana. as práticas literárias desenvolvidas por vários desses criadores e criadoras não estão delimitadas apenas pelo chamado universo letrado. Tal es el caso de las “lecturas literarias” de los poetas Leonel Lienlaf y Víctor Cifuentes (cultores del ül o canto mapuche).. (ARIAS. ESCALANTE. para além do seu contexto específico de produção. tematizando a mobilização das populações autóctones na península de Yucatán. por lo que para poder llegar a una diversidad de lectores y escuchas. en línea. El estilo de la autora.. ya que es una creación pensada en alguno de los idiomas originarios de nuestro país. tradutora e . 25-26) En este nuevo contexto. p. 7-8) Não obstante. pp. ESCALANTE. Los textos no se agotan en el espacio escrito. visuales y corporales provenientes de sus tradiciones rituales nativas. u puksiikal koolel (Teya. de acordo com a investigadora Michela Craveri. 2012). pero de permanecer sólo en éste. uma experiência estética inovadora e politicamente instigante como exercício de tradução cultural.). especialmente en las últimas dos décadas. CÁRCAMO-HUECHANTE. 2012.. Dichas prácticas indigeneizantes se suelen asimismo enriquecer con el uso de las técnicas contemporáneas de la performance. musicales. 9) o que parece configurar.) También resaltan en este proceso las producciones literarias escritas de autores nativos de la Amazonía. pp. o de Rosa Chávez (ritualidad colectiva maya). Así.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 83 Chile (mapuche). Traduzir e traduzir-se configuram.) romancista yucateca Marisol Ceh Moo. 2012. expresión de una cultura que ya no se puede encasillar en un pasado prehispánico. Asimismo. uma vez que Poetas y escritores indígenas contemporáneos mixturan además sus lecturas públicas con recursos sonoros. ni en la adhesión fiel a los modelos hispánicos. la capacidad de cruzar barreras lingüísticas y formales. la autora incursiona con su novela bilingüe en un género tradicionalmente escrito en español. 2009. incluyendo aquellos lenguajes del entorno animal y natural. também ela própria poetisa bilíngue entende que esta produção literária contemporânea dos povos originários das Américas no puede concebirse sino de manera bilingüe. Assim vêm se multiplicando experiências assemelhadas nos vários quadrantes da antiga América de colonização ibérica. un corazón de mujer). (CRAVERI. zapoteca y náhuatl) y. a obra de Marisol Ceh Moo se caracteriza por un equilibrio entre las fuentes prehispánicas y una experimentación formal. a ensaísta e tradutora zapoteca Irma Pineda Santiago. Alimentando a proposta a partir de um lugar de enunciação que se aproxima ao de Marisol Ceh Moo. Lorenzo Aillapán (sonidos pajariles del entorno mapuche). en lengua española... en otras latitudes del continente.. uma tarefa problemática. (ARIAS. han hecho de este texto un ejemplo significativo de la nueva producción literaria en las lenguas indígenas de México. necesariamente tiene que ser traducida al español. como é o caso de XTeya. ainda que tomando como veículo de expressão e divulgação a língua do antigo colonizador. De modo distinto ao de outras publicações realizadas anteriormente. CÁRCAMOHUECHANTE. Guatemala (maya). o primeiro romance bilíngüe espanhol-maia. su difusión estaría restringida al ámbito comunitario. a autora preteriu a retomada de relatos sobre a criação do mundo e outros elementos da cultura e da cosmogonia maia para investir na ficcionalização da vida e do assassinato de uma liderança social ocorrido nos anos 70 do século passado. Se amplifican en el evento de la performance pública. entretanto. paulatinamente. ejemplificándose en la poesía de Dourvalino Moura Fernández (pueblo desana) y Daniel Munduruku (pueblo mundurucu) en Brasil. las identidades urbanas de la contemporaneidad indígena comienzan a adquirir notoriedad en narraciones y poemarios. lançado em 2009 pela ensaísta. las temáticas sociales.

H. Amarino Oliveira de. como um desafio permanente. Decolonizing the mind: the politics of language on African Literature. Natalio. é a própria Irma Pineda Santiago quem indaga sobre o papel que devem desempenhar os escritores indígenas no futuro. 2009.1998.F. pp. tributárias das criações na oralidade e do letramento em língua espanhola se nos coloca. 1986.gob. por conseguinte. um dos iniciadores do movimento de escritores indígenas no México. Tese de Doutorado. NDONGO-BIDYOGO. un corazón de mujer. LEITE.1992. ayer y hoy. 25-26. Teya.pdf Acessado em 12 ago 2012. 9-12 QUEIROZ. Literatura guineana: una realidad emergente. Luis. pp. Michela. Rev ista de Crítica Literaria Latinoamericana. POLAR. Lisboa: Ministério da Educação . . La autotraducción en la Literatura Indígena: ¿cuestión estética o soledad? Disponível em: www. José Carlos.: Heinemann.hofstra. mas também um exercício cada vez menos restritivo de literatura e do próprio fazer literário. 2008. de Marisol Ceh Moo”. Ana Mafalda. pois. 13. Arturo. CEH MOO. Portsmouth. THIONG’O. “X-Teya. HERNÁNDEZ. El Caracol. un corazón de mujer. N. A dinâmica ascendente dessas escritas bilingües. VENÂNCIO. Literatura Indígena. mas também como uma riqueza a ser explorada no sentido de fazer valer. México: DGCP.: Consejo Nacional para la Cultura y las Artes (Letras Indígenas Contemporáneas). Donato. Conferencia en Hofstra University. ESCALANTE. “Para una teoria literaria hispanoamericana”. Ngugi wa. CÁRCAMO-HUECHANTE. winter 2012 : volume xliii : issue 1. Marisol. Año XXV. Lisboa: Colibri. Recife: UFPE. Irma. As inscrituras do verbo: dizibilidades performáticas da palavra poética africana. London: J.culturaspopulareseindigenas. fazendo suas as palavras do professor mexicano e defendendo. n. Antonio Cornejo. a expressão Abya Yala significa “tierra en plena madurez”. Oralidades e escritas nas literaturas africanas. 2do. Literatura e poder na África lusófona. Semestre de 1999. não apenas um conceito. Lima-Hanover. Disponível em: http://www. para que juntos possam contribuir para a conformação de um novo tecido social onde as novas gerações vivam e convivam num ambiente social pluricultural e plurilingüe. Curry. Nota 1 No idioma cuna do Panamá. 1990.mxcppdfla_auto traduccion_irma_pineda. “Literaturas de Abya Yala”. e onde o saber indígena seja um componente fundamental das novas sociedades. Lasaforum. Emilio del Valle. 3 de abril. CRAVERI.Instituto de Cultura e Língua Portuguesa. México D. Programa de Pós-graduação em Letras. 2007. 2006.84 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Retomando as considerações do poeta e professor de literaturas indígenas Natalio Hernández (1990).pdf.edu/ PDF/lacs_event_040306. conforme já apontava Antonio Cornejo Polar (1999) na penúltima década do século passado. Referências bibliográficas ARIAS. o estabelecimento de um diálogo permanente entre escritores de diferentes línguas e culturas no mundo. e é através dela que os movimentos indígenas costumam identificar o continente americano em sua totalidade. PINEDA. Nº 50. Acesso em: 5 mai 2006.

inclusive. e a interferência do castelhano na formação do tagalo. atualmente o castelhano enfrenta um delicado processo político particularidades e implicações culturais do idioma espanhol e sua apreciação como língua de literatura a partir de outros contextos que não o peninsular ibérico e o hispano-americano parecem representar. Argélia. ainda. as leis do mercado editorial. ÁSIA E OCEANIA: FRONTEIRAS FLUIDAS DO HISPANISMO Amarino Oliveira de Queiroz Universidade Federal do Rio Grande do Norte Salvo raras exceções. as relações entre o cânone e as margens ou a eleição de prioridades na hora de propor e cumprir os atuais componentes curriculares dos cursos de Letras. ou literatura filipina escrita em . as relações do guanche autóctone com o castelhano das Canárias e suas implicações culturais. Com destaque na expressão arquitetônica. a chamada literatura filhispana. a questão identitária hispânica revela algumas complexidades do ponto de vista linguístico nas Filipinas. Vejamos. a resistente presença do idioma na comunicação e na expressão literária produzida no Saara Ocidental e nos acampamentos para refugiados saarauis em Tinduf. ao sul do Pacífico. o jaquetía ou haquitía do Marrocos. as inserções hispânicas sobre a cultura rapanui da ilha de Páscoa. a crescente utilização dessa língua como recurso literário por parte de vários autores e autoras oficialmente francófonos nos Camarões e na Costa do Marfim. na dança ou na manutenção de uma religiosidade católica que perpetua.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 85 ÁFRICA. Se nos ocuparmos da Ásia e da Oceania teremos o judeu-espanhol ou ladino de Israel e sua presença na comunicação e na literatura. as diversas língua espanhola. sugerindo uma discussão que passa por questões diversas como o direito à informação. a literatura hispano-negro-africana da Guiné Equatorial. na África. com suas respectivas literaturas. o ritual católico da crucificação durante as festividades da Semana Santa. do chabacano e de outros idiomas nacionais das Filipinas. a colonização e a descolonização intelectual. por exemplo. Presente como língua co-oficial até o ano de 1987 ao lado do tagalo e do inglês. uma grande área a descoberto no que tange aos estudos hispanistas desenvolvidos em território brasileiro até o presente. o chamorro de Guam e das ilhas Marianas: cada um destes exemplos aponta em maior ou menor grau para a emergência do tema proposto. no artesanato.

é que foram aparecendo os primeiros criadores. além da poesía e do ensaio. opinando sobre a polêmica instaurada a partir de uma possível “rehispanización” cultural e linguística do arquipélago das Filipinas. De allí el debate actual y absurdo de si Filipinas debería hispanizarse de nuevo o no. eliminada por iniciativa dos conquistadores da mesma maneira como ocorreu com a maioria dos códices pré-colombianos nas Américas. e mais Edwin Agustín Lozada. apesar de exemplos curiosos como o do cantor Josh Santana. também se expressam literariamente em castelhano. o conto e o romance. o teatro. ou seja. uma simbiose cultural filipina perpassada historicamente por elementos autóctones e hispânicos. essa expressão contemporânea da literatura filipina em língua castelhana é alimentada pela publicação de revistas como “Guirnalda Polar” ou “Perro Berde”. por volta de 1593. com a introdução da escrita em espanhol com caracteres latinos. na sua literatura contemporânea. com destaque para o nome de José Rizal. Gómez Rivera refere ainda a existência de uma literatura hispano-filipina contemporânea. no século passado. resistindo como língua de literatura. caso do já referido cantor pop Josh Santana ou da artista plástica e escritora Paulina Constancia. dijo que éramos indios o asiáticos y por lo tanto debemos atenernos a ser lo que somos y nada más. autor de importantes textos ficcionais. representada por nomes como os de Antonio Fernández Pasión. Sólo que los “filipinos” nacidos a partir de 1901. para a formação do idioma chabacano e de outras línguas locais.los filipinos somos un nexo viviente entre Occidente y Oriente. como veremos a seguir. a escritora Elisabeth Medina (2000) afirmaria que: . a da plenitude. conforme mencionado.86 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS de restabelecimento desta condição. O debate acerca do tema provoca opiniões diversificadas e nem sempre favoráveis nos mais diferentes setores da vida nacional. la franca . tanto de los españoles y de los norteamericanos. y después. a da decadência. Somente no século XVI. na qual floresceram. Bem a propósito. A essa lista de autores e autoras podemos acrescentar o próprio Guillermo Gómez Rivera. criadores bilíngües que. em que se desenvolveram a poesia e o ensaio. Além dos trabalhos individuais em livro. a quase totalidade destes registros escritos desapareceu. Esse caráter fil-hispânico é igualmente defendido por outros setores artísticos e culturais naquele arquipélago asiático. o escritor Guillermo Gómez Rivera (2001) propõe uma periodização dessa literatura em quatro principais etapas: a inicial. além de contribuir. La mirada naturalista y determinista. rápidamente sufrieron primero el trueque cultural y la supresión del pasado. y ahora de nosotros frente a nosotros mismos. Federico Licsi Espino e Mariano Loyola. realizada por missionários católicos. Não obstante. apesar da atual vigência e prestígio interno do idioma inglês. na atualidade. Elisabeth Medina. ou pela iniciativa. dramáticos. durante o século XIX. encontrando reverberação também.. de artistas que defendem uma estética abertamente fil-hispana. Edmundo Farolán Romero. dentro e fora do arquipélago. poéticos e da letra do hino nacional filipino. correspondendo ao período formativo e onde predominaram a poesia e a crônica.. Cultivada inicialmente em tagalo através de alfabeto silábico próprio. Em sua Breve Historia de la Literatura Filipina en Español. causada pela supressão do castelhano e da crescente anglicização do país. Somos de los dos mundos y los dos mundos son nuestros. o surgimento de uma expressão literária filipina é bastante anterior à chegada dos colonizadores espanhóis. María Dolores Tapia del Río. que também defende o conceito de fil-hispano em parte de sua obra gravada simultaneamente em inglês e espanhol. a de crescimento. Cuando Filipinas “siempre” ha sido hispanizada. Marra Lanot ou Wystan de la Peña. no campo cultural. Concepción Huerta.

Germain Metamno. pp. Ya no soy cristiano. en línea). Sin embargo esta situación no ha decretado la muerte definitiva y permanente de esta literatura. Céline Cléménce Ndé e Mbol Nang. portanto. (En esta lucha del Yo. dividida entre os dois idiomas oficiais do pais: o árabe hassania e o espanhol. entre outros). o bien en el extranjero (fenómeno en cierta forma común a otras literaturas post-coloniales). 1981. Me gusta el dinero. textos que a menudo hablan de Filipinas o que de todas formas presentan un enfoque.. bien en el suelo patrio. convertendo-se numa opção estético-literária. (Y yo me desespero.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 87 tergiversación y aniquilamiento de su conciencia histórica. el nombre Filipinas. textos teatrais e ensaios críticos. (MEDINA. Se para israelenses que escrevem em judeu-espanhol (Avner Pérez... Apostando. Nascido em Manila em 1943. é novamente o hispanista italiano Andréa Gallo quem observa: el gran problema del escritor filipino que decide escribir en español es la falta de un público nacional y en consecuencia la falta de un público internacional. novela. disposto entre parênteses. em países oficialmente francófonos da África diversos escritores e escritoras ak o mé (Robert Johlio. Me gusta jazz y disco. 2000 .) […] Pero pronto llegaron las aves de rapiña— El gringo o el yanqui su nombre no importa. tagalo. O uso literário do castelhano em países asiáticos como as Filipinas é uma realidade compartilhada com a de alguns Estados africanos. Edmundo Farolán (1981) apresenta uma voz lírica ambígua que. Encuentro el hispanismo de Aparri hasta Joló: Filipinas y España. [. Guy Merlin V i-M Tadoun. Farolán desenvolve outras atividades lingüísticas como a tradução para o tagalo do conhecido romance de Ricardo Güiraldes. Joe y MacArthur. “pone de manifiesto el sincretismo original de la nación filipina” e estabelece. Lo mataron al león el león de Castilla.. um curioso diálogo intercultural: Y llegó el español a esas islas indias Magallanes su nombre. a este camino voy yo. I.] (FAROLÁN. Em seu poema “Elogio a la Hispanidad”. ainda que escrevendo paralelamente em outros idiomas por motivações muitas vezes coincidentes. se expressa literariamente em inglés. contos.. ¿quién soy yo? Y busco en lo español al indio filipino. p. além do espanhol. 20062007.) por filipinos. Don Segundo Sombra. La nobleza cristiana se esfuma en estas islas. Inongo-V i-Mak ako mé. una sensibilidad. Edmundo Farolán Romero revela através da voz lírica o duplo lugar cultural de um autor que. Tras dos razas unidas. para dizê-lo com palavras de Andreas Gallo (2007:160). este país mestizo. ni en los países hispanos. editor de literatura e professor de língua espanhola. hombres y mujeres nacidos en Filipinas. 152-153). Soy “brown” americano. la pregunta. Honrando al Rey Felipe. A ese archipiélago de numerosas islas Descubiertas el año mil quinientos veintiuno. al dólar y al peso. la espada en la mano.) Estamos delante de textos escritos y publicados (. política e identitária. de familias filipinas. 30-31) Autor de poesia. francês e outros . sigue manteniéndose viva y representando una tradición que para muchos filipinos es patrimonio de identidad. Margalit Matitiahu) e filipinos que escrevem em chabacano e espanhol o hispano resiste. idiomas. transformaram o castelhano literário em sua verdadeira plataforma de expressão. una interpretación del mundo peculiarmente filipina y curiosamente son textos que se dirigen a los filipinos. A G.. un punto de vista sobre la realidad. que a través de diferentes voces. na permanência e atualidade dessa particular expressão literária. Allí es donde me meto. Situação similar vive a literatura produzida no Saara Ocidental. (. En su lugar el inglés y su música tonta. (GALLO.

real e simbolicamente. no sólo la lucha del pueblo saharaui y sus aspiraciones de libertad. profunda. la felicidad y la profunda pasión por hacer que la vida de los saharauis deje de ser rutinariamente triste y dolorosa. a ampliação desses espaços. Além de cultivar fundamentalmente a poesia. Apesar de ter quase toda a superfície territorial inserida dentro da zona desértica homônima. porém torna-se necessário acrescentar que o seu surgimento é relativamente recente: as primeiras manifestações literárias registradas em espanhol por autores locais tiveram lugar nas últimas décadas do século XX. como dissemos. de quem está fisicamente separado por enormes muros especialmente construídos para este fim. Divididos. o Saara Ocidental também divide fronteiras com a Argélia e a Mauritânia. Zahra Hasnaui. Larosi Haidar. sino. preocupada por todo lo que acontecía en su entorno. sobretudo a partir do exterior. diversos criadores se dedicam também à prosa. muitos dos autores e autoras saarauis refletem. a produção saaraui em castelhano revela uma forte interferência da criação poética e narrativa na oralidade. três influências principais: a tradição oral fortemente apegada à natureza e às vivências de seu país.88 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Território cedido por acordo em fins de 1975 pela monarquia espanhola ao Marrocos e à Mauritânia. Mohamed Sidati ou Abderrahman Budda Hamadi. sob condições muito particulares. pois. Um juízo descuidado poderá classificá-la como incipiente. já que grande parte de seus escritores e escritoras vive fora do país. No es hasta finales de los ochenta y principios de los noventa cuando parece que comienzan a aparecer atisbos claros de una poesía seria. Fatma Ghalia ou Limam Boisha entre eles. a República Árabe Democrática Saaraui foi invadida e ocupada militarmente pelo exército marroquino. entre os mundos arábico-africano e europeu-ibérico. también una evidente preocupación por lo que pasaba en el mundo. A língua espanhola aparece ali. 1 . Mohamidi Fakal-la. a poesia em castelhano da Espanha e da América e a luta pela independência do Reino de Marrocos. acumula força nos acampamentos para refugiados saarauis montados em território argelino. além de desenvolverem intensa relação com o universo hispano-americano. Mesmo com uma produção mais reduzida. no mundo árabe o saaraui é conhecido como um povo de poetas e sua atividade apresenta. embora venha perdendo espaço gradativamente nos territórios ocupados. passados três meses de sua autoproclamada e até hoje não reconhecida independência política comandada pela Frente Popular de Liberación de Saguía el Hamra y Río de Oro. esta recente literatura hispano-saaraui envereda ainda pelo romance. também conhecido por Ebnu. Localizado ao sul do Marrocos. em síntese. também ao longo de suas obras uma multiplicidade de vivências culturais que por sua vez reivindicam. Bahia Mahmud Awah. Conforme assegura o poeta Mohamed Salem Abdelfatah (2007). Quanto à atividade literária. Não obstante. na condição de língua co-oficial ao lado de uma modalidade local do idioma árabe. recuperada da tradição para o formato impresso através de vários livros que vêm sendo publicados. que já vem se arrastando há mais de trinta anos. com escritores como Ahmed Mulay Ali. o que teria motivado a sua invasão e ocupação militar quase que imediatamente após declarada a sua independência. o país é rico em jazidas de fosfato e em atividade pesqueira. passando a ser objeto de uma disputa política que envolve confrontos armados e negociações diplomáticas sem solução até os dias atuais. ou Frente Polisario. De acordo com o estudioso Francisco Cenamor (2008). ganhando expressividade como língua de resistência cultural que se caracteriza pela influência de arcaísmos do castelhano ou a assimilação do idioma árabe. Además de temas que reflejan la vida cotidiana de la sociedad saharaui no exenta de sentimientos tan universales como el amor. sobretudo através do conto e do ensaio: Mohamed Ali Ali Salem.

um dos mais ativos grupamentos de escritores reunidos em torno da causa saaraui no exílio. entendendo que esses espaços representam um contributo à parte na perspectiva do redimensionamento de conceitos como hispânico e hispanidade (CORDIVIOLA. S alka outras representantes como F at atma hamed. tantas vezes legitimadoras de uma pureza original tanto descabida como anacrônica. Edmundo. Saleh Abdalahi. pela projeção que está alcançando. ideias e sentimentos que ali encontram lugar. no debate brasileiro de intenção hispanista. Além de Mohamed Salem Abdelfatah. Embarek O conjunto de elementos híbridos resultantes do progressivo contato entre realidades díspares como a afro-arábica e a hispana encontram na expressão cultural saaraui motivação criadora permanente. Chejdan Mahmud. Limam. Las Palmas: Puentepalo. a relação com outras alteridades africanas. FAROLÁN. Francisco. . 2005. a mescla das experiências. felizmente. agosto 2003. culturas. À guisa de ilustração. / y a las tres / las quiero por igual”.ariadna-rc. 82 – Pluralidades. O escritor integra a chamada Generación de La Amistad. In: La Guirnalda Polar Núm. interferências como as dos escritores filipinos Elisabeth Medina e Edmundo Farolán ou dos saarauis Mohamed Salem Abdelfatah e Limam Boisha. Um mundo singular. tão interessantes quanto desconhecidas. Los versos de la madera . parece-nos necessário e inadiável incluir. especial: Cultura y literatura saharaui. Salka Embar ek ou Fatma Ghalia Abdesalam. memória e conflito na literatura hispano-americana do século XVI. CORDIVIOLA. Ali Salem Iselmu. Recife: PGLetras/UFPE. complementa seu raciocínio defendendo que a poesia local em espanhol.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 89 Mohamed Salem Abdelfatah Ebnu atuais das letras hispano-filipinas e saarauis. Mohamed Salem. “Poesía saharaui en castellano”. hispanas e latino-americanas . portanto. “La poesía saharaui”. Disponível em: http://www. converte-se numa ponte que tende a promover um rico encontro entre a cultura autóctone do Saara Ocidental com as culturas espanhola e iberoamericana. as várias realidades linguísticas. sua emergente presença no cenário das letras contemporâneas assinala também que à literatura hispano-saaraui toca caminhar afirmativamente ao lado das outras tantas expressões literárias que a partir da África.htm Acessado em 3 abr 2007. Referências bibliográficas ABDELFATAH. poema de Limam Boisha publicado em Los versos de la madera (2004). os recortes aqui esboçados buscaram realizar o registro de alguns nomes presente y futuro”. insistem em brotar. Mohamed Salem. BOISHA. a fim de que questões como a condição da hispanidade se coloque num patamar além das reinvidicações “nacionalistas”. poeticamente. Luali Lehsan. embora a literatura saaraui em espanhol conte com ma A hame d. In: Revista Ariadna 25. Perpectivando.wordpress.com/ Acesado em: 22 abr 2008. Conforme se pode observar através do sujeito poético de “Poligamia”. Bahía Awah. CENAMOR. Sukeina Taleb e Zahra Hasnaui. Disponível em: http://letraclara.aquí particularizadas nos recortes canário e cubano se revela na forma de uma sensível metáfora para atestar. 2004. 2005. Cuba y Canarias. ao confessar a existência real e simbólica de “tres…/ tres amantes: Sáhara. dispondo-as de forma mais abrangente e buscando assimilar a fluidez com que têm se movimentado.com/numero25/ sahara/sahara. pluralizando-os culturalmente e estendendo pela fluidez de suas fronteiras a transversalidade de manifestações como essas. “Literatura hispanofilipina: pasado. culturais e literárias relacionadas ao castelhano hoje. constituem o coletivo Limam Boisha. Imaginação. FUENTES. Alfredo. as incertezas política do país. 1998). Desafiando. pois. duas de suas vozes no feminino.

Filipinas.com/numero25/sahara/sahara. especial: Cultura y literatura saharaui. MEDINA. In: II Congreso Nordestino de Español. “¿Literatura Hispano-Filipina Disponible en: http://hispanismo. Contemporánea? Un ejemplo en la poesía de Edmundo Farolán Romero”. Guillermo Gómez. Vol 3. “La poesía saharaui”.90 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS FAROLÁN. 1998. Elisabeth. “Breve Historia de la Literatura Filipina en Español. 28 de marzo de 2000. Acessado em: 02 abr 2006.ariadna-rc. 2009. 1981. p. 2009. El espejo enterrado. No 1 (2007). 150-174. Bogotá: Editorial Cabrera. Disponible en: http:// www.com/kaibigankastil/rivera7. A.org/hispanoasia/5218filipinas-hispanizada-una-buena-opcion.html. 53. Disponible en http://www.htm Acceso en: 3 abr 2007 . GALLO. RIVERA. Edmundo. “Elogio a la Hispanidad”. No 2 (2006) & Vol 4. Andrea. Mohamed Salem. Carlos. O. Programação e Caderno de Resumos. Quezón City. NOTA 1 ABDELFATAH. FUENTES. pp. “De la invisible presencia: voces literarias en español desde África y Asia”. Maceió. Org. In: Revista Ariadna.geocities. In: Humanities Diliman . QUEIROZ. número 25.html Acessado em: 4 abr 2009. Madrid: Taurus. In: Tercera primavera. “Filipinas Hispanizada: ¿Una Buena Opción?” In: Hispanismo .

1980. en la que las técnicas realistas no fueron una moda. Entre Visillos es una novela que forma parte de la segunda etapa. la neorrealista y la dialéctica. hasta la muerte del dictador Francisco Franco. Según Sanz Villanueva. MERCEDES Y ELVIRA – RETRATO DE LA MUJER ESPAÑOLA EN LA POSGUERRA Ana Carolina da Silva Pinto PG . la tercera etapa. desaparece el ansia del testimonio objetivo y surge una visión dialéctica de la realidad española basada en la confrontación de los estratos ideológicos y sociales. p. la neorrealista. generando odio.” (RICO. Estamos hablando. Finalmente. la existencialista. Publicada en 1957. tras pasar por una sangrienta guerra que duró tres años y que dejó sus rastros destructivos en las décadas posteriores. cuya lección sacamos de su Historia de la novela social española . de la Guerra Civil Española (1936 – 1939) que dividió el país en dos partes (la España Nacionalista y la España Republicana). tal forma nueva tenía como objetivos retratar el cotidiano de las ciudades y la crisis existencial por la que pasaba el individuo que en ellas vivía. o sea. 411). se dividen en tres tipos: la existencialista y tremendista. y del régimen franquista. la dialéctica. sigue con el tema de la de la vida en las ciudades y la angustia existencial del individuo. por Carmen Martín Gaite.Universidade Federal Fluminense A mediados del siglo XX una nueva forma de hacer novelas pasa a ser observada en España. La segunda etapa. pues el protagonista individual cede la vez a un protagonista colectivo. de forma que se observa que “la mirada apasionada del autor comienza a ser substituida por el frío contemplar de la cámara fotográfica.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 91 NATALIA. La primera etapa. Las novelas de posguerra. JULIA. pobreza y varios muertos en ambas partes. termina exactamente en el año de 1950 y tenía como característica estudiar la vida en las ciudades de los años 40 y la angustia existencial del individuo que en ellas vivía. según Gonzalo Sobejano. la neorrealista. pero obser vamos un cambio en la estructura de la novela. pero una necesidad de la autora para que pudiera expresarse. establecido terminada la guerra con la victoria del bando nacionalista que duró treinta y seis años en el poder (1939 – 1975). por lo tanto. la cronología no es linear y las acciones son descritas de modo simultáneo.

reproduciendo. pero. escrevem com técnicas de representação que aproximam os discursos narrativos da reportagem e privilegiam a expressão do castelhano coloquial. en el libro). LOURENÇO. Natalia y Pablo Klein. 1994. A través de las relaciones que establecen con los demás personajes de la trama. La novela tiene inicio con la llegada de Pablo Klein. p. pues estamos tratando de una sociedad conservadora. en especial. 301). São os representantes do chamado realismo social. Todos eles coincidem na defesa da função social da literatura. Entre Visillos tiene como tema principal la situación de las mujeres en los años de 1950 con todos los tabúes y privaciones que tenían que enfrentar. Somos. Mas nestes últimos impunha-se uma concepção utilitária da arte que por vezes se sobrepunha à salvaguarda da qualidade artística da sua ficção. además de tratar de otros temas como la diferencia entre las clases sociales – ricos despreciando pobres y viceversa –. así que si no presenciaron el efectivo impacto que toda guerra engendra. este personaje se configura como un hilo conductor. pues la novela es narrada por tres focos narrativos: un narrador extradiegético que narra en tercera persona todo lo que ve. entonces. presentados a Natalia y a sus hermanas Julia y Mercedes. escritor español que sigue produciendo y que también formó parte de la generación de los niños de la guerra. que viven con su padre y su tía. diciéndonos que Perteneciente a la llamada generación del medio del siglo o generación de los niños de la guerra – una vez que los escritores que produjeron alrededor de los años 50 eran niños en la época de la Guerra Civil. y dos narradores intradiegéticos. A pesar de no ser el personaje principal. la cuestión de la hipocresía y del conservadurismo de una ciudad que todavía se encontraba cerrada en razón de los años de guerra vividos. el espacio que les era reservado a las mujeres de la época. Novela que le dio reconocimiento a su autora por ganar el Premio Nadal en el mismo año de su publicación. Ana Maria Matute (n. Juan Goytisolo. nos es posible visualizar un retrato de las sociedades provincianas españolas del medio del siglo XX y. que narran en primera persona sus vivencias e impresiones de la sociedad en la que están inseridos. en estas novelas. esa es la razón de la cantidad de diálogo que observamos en ellas y es a través de ellos que la trama es conducida. Também defenderam essa função social. El narrador no interviene en la historia. esta figura inexiste en este tipo de novelas. (SANZ VILLANUEVA apud ÁLVAREZ. retratando todo el conservadurismo y retraso de una sociedad patriarcal marcada por una dictadura que la devastó. pues como ya vimos. como se fuera una cámara lo que testimonia. Entre Visillos narra. y la religiosidad que no podría dejar de aparecer. profesor de alemán que vuelve a su ciudad natal para impartir clases en el Liceo de la ciudad. El lector es presentado a los hábitos y costumbres de la burguesía de la pequeña ciudad española a partir de tres visiones. huérfanas de madre. por lo menos sintieron sus efectos – Carmen Martín Gaite con Entre Visillos escribe una novela social que hace una crítica a los modelos de conducta femeninos preconizados por la sociedad patriarcal española y a la vez denuncia una sociedad en la cual la mujer no tenía vez. por lo tanto.1926). nos explica el motivo de la necesidad de que se hiciera en España novelas de este tipo. Jesús Fernández Santos (1926 – 1988) e Carmen Martín Gaite podem ser agrupados sob o rótulo de neo-realistas. principalmente. Ignacio Aldecoa (1925 – 1969). Pablo Klein y el narrador omnisciente en tercera persona narran la sociedad como ven. pues es a través de él que la historia es delineada. la vida de un grupo de jóvenes de misma generación de una ciudad provinciana española (que no es explicitada . outros escritores que orientaram a sua produção no sentido da urgência da denúncia.92 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Sánchez Ferlosio. como una cámara que registra todo lo que pasa delante de ella. Natalia. de un grupo de chicas adolescentes de clase media de los años 50.

(GOYTISOLO apud MARTÍNEZ CACHERO. 2005. prefiero no vivir. por lo tanto.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 93 los novelistas españoles – por el hecho de que su público no dispone de medios de información veraces respecto a los problemas con que se enfrenta el país – responden a esta carencia de sus lectores trazando un cuadro lo más justo y equitativo posible de la realidad que contemplan. . con quien podría conversar abiertamente como hacía con su padre en la infancia. Saqué lo del novio de Julia. (SANDE. sin embargo. dedicadas al trabajo doméstico hasta la obsesión y sin siquiera la compensación del reconocimiento por parte de unos hombres que. sin embargo cuando toma coraje. 38). y la distancia entre padre e hija aumenta. obligándola a hacer sus tareas en la sala. Otra acción de tía Concha que también le aburría muchísimo a Natalia. Natalia no tenía madre. compensaban con actitudes prepotentes en la familia sus también difíciles condiciones de trabajo. Era. era el hecho de no dejar que estudiara en su cuarto. sacándola de un local privado para uno público donde pudiera ejercer más control sobre la chica. Empezamos. (…) he arrancado a hablar y le he dicho todo de un tirón. primeramente por confesar a su padre el cuanto le aburría la educación que les daba su tía Concha a ella y a sus hermanas. que sólo quería convertirlas en unas estúpidas. A los dieciséis años. 93-94). donde la madre sigue las normas sociales. Que nos volvemos mayores y él no lo quiere ver. que no sepamos nada ni nos alegremos con nada. no provee modelos maternales positivos” (ALBORG. que la tía Concha nos quiere convertir en unas estúpidas. el cine y los seriales radiofónicos hallaron fórmulas diversas para aspirar a finales más felices. la más joven de las tres hermanas. nos complementa Concha Alborg. Según ella esta imagen de sus madres. p. que. Como ya vimos. y el futuro historiador de la sociedad española deberá apelar a ella si quiere reconstruir la vida cotidiana del país a través de la espesa cortina de humo y silencio de nuestros diarios. (MARTÍN GAITE. que sólo nos educa para tener un novio rico y que seamos lo más retrasada posible en todo. 1993. me puse a defenderle y a decir que era un chico extraordinario. 185). Siendo así. 1997. […] De lo de mi carrera no le he dicho nada. sin verle la cara. lo que quiere es seguir sus estudios en una universidad. Me arrodillé en la alfombra y allí. un hombre viudo. […] Le he dicho que si tengo que ser una mujer resignada y razonable. Natalia no se preocupa en conseguir un novio y menos aún en casarse. soñadora y rebelde. o sea. De este modo la novela cumple en España una función testimonial que en Francia y los demás países de Europa corresponde a la prensa. p. por lo tanto a través de su diario que Natalia se refugiaba. Natalia descubre un nuevo modelo masculino en su profesor de alemán Pablo Klein. a su vez. no podía resultar atractiva a las niñas y adolescentes de posguerra En este fragmento podemos observar la inconformidad de Natalia con el medio en el que vivía. caso su padre. es Pablo Klein quien la incentiva para que hable con su padre sobre sus pretensiones de seguir una carrera. educándolas para que tuvieran un novio rico y nada más. 229-231). a analizar a Natalia. cuando la niña empieza a crecer. 1958. “La sociedad patriarcal. es una chica independiente. que estaba dominada por las tareas domésticas y por la obligación de encontrar un novio para casarse. por el contrario. pero no como cualquier adolescente de su edad y sí por cuestionar el ambiente opresivo en el que vivía la mujer de su época. María del Mar Jorge de Sande en sus Apuntes sobre la Novela Española Femenina de Posguerra nos explica el porqué de la orfandad de la mayoría de las chicas de las novelas sociales. lo permita. tuvieron que pensar en cómo modificar y mejorar esas condiciones de vida: en la publicidad. encerradas como el buen paño que se vende en el arca y esas cosas que dice ella a cada momento. p. habla sobre todo lo que le aprieta el corazón menos sobre sus intenciones de proseguir sus estudios en Madrid: Qué difícil era: era dificilísimo. lo que hacía con que ella depositara todas sus carencias afectivas en su padre que representaba un modelo de conducta para ella. p.

A partir de este fragmento percibimos la perplejidad de Natalia al ver que su amiga no proseguiría sus estudios a causa de su novio.” (MARTÍN GAITE. En este fragmento constatamos el malestar psicológico de Julia al descontrolarse por los deseos que le atormentaban y a la vez por lo que había sentido y hecho. decide ir para Madrid quedarse con Miguel. asumiendo todas las responsabilidades que sus actitudes pueden causar. Yo creo que si le viera mucho. como también podemos percibirla en la fiesta del noviazgo de ésta misma amiga. (MARTÍN GAITE. [. oyendo la música de una emisora francesa – tan lejos. incluso. puesto que son tratados como trastos lo que representa para uno la salida de la ignorancia y la apertura de puertas para la libertad. Julia. en el día de la partida de su hermana. 1958.94 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS registrando en él todo lo que le afligía. se siente culpada por el creciente deseo sexual que empieza a atormentarla. 83). 1958. p. al apoyar la unión de su hermana Julia con Miguel. se cree que vuelve después de las Natividades. Miguel interpreta un hombre libre e Al final de la novela sabemos que Julia.. a ir a la iglesia para confesarse: – Pero la tentación la tengo siempre. sirviéndole como ama de casa y en la educación de sus hijos. finalmente. que tuvo una formación tradicional y católica. aquella chica de quinto que tuvo un hijo el año pasado. como ya hemos visto en la conversa de Natalia y su padre. Julia. (MARTÍN GAITE. sabe Dios de donde venía – Natalia se tapó la cara contra el hombro de Gertru y se echó a llorar desconsoladamente. El novio le ha encontrado allí un trabajo. Natalia observa la reproducción de los dictámenes de la sociedad patriarcal. 11). ¿Dónde tienes los libros? – En el cuarto trastero. Si te sirve alguno. y su familia. independiente que. a la vez. Yo le pregunté por qué. 1958. Allí juntas. que es mentira cuando le digo que me enfado por las cosas que me dice él en las cartas …. cogiendo un poco las cosas que había encima. Anoche me desperté y estuve escribiéndole cosas como las que me escribe él. A partir de este fragmento observamos el triunfo de Julia como persona y como mujer que toma sus decisiones y enfrenta su destino. . puesto que Miguel se niega a someterse a la tradición de pedir la mano de su novia a su padre. que por fin. p. la hermana del medio de Mercedes y Natalia. […] Se sentaron en el sofá amarillo. no sé para qué se lo ha tenido que contar a él. volvería a pasar lo de aquel verano. para que se uniera a un hombre que solamente buscaba una joven inocente y virtuosa para dominarla. Con su amiga Gertru. porque a Ángel no le gusta el ambiente del Instituto.. ¿qué miras? – Que has quitado la repisa con los libros. p. representa la virilidad y la fuerza física y psicológica que somete a la mujer. a través de Natalia que le cuenta la decisión de su hermana a Pablo Klein cuando lo encuentra en la estación de tren. pero mi padre no sabe nada todavía. p. vive dividida entre el deseo de entregarse a su amor yendo para Madrid concretizar su unión con el guionista. Siendo así.] Julia lloraba. que desaprueba tal unión. También percibimos el papel transgresor de Natalia. un guionista de cine que vive en Madrid. ya hace mucho. En nuestras casas no lo habíamos dicho. (MARTÍN GAITE. Así le cuenta Natalia: “[…] He venido despedirme de mi hermana. tengo que hacer una selección de los libros antes de casarme. llegando. con él deseo de excitarle. 255). ¿sabe? Se va a Madrid. 243). diciéndole que me acordaba mucho de todo lo de ese año cuando nos hicimos novios. 1958. que son los libros. lo más malo que se puede usted figurar. como por ejemplo lo de su amiga Gertru que dice que este curso por fin no se matricula. y es que ella por lo visto le ha contado lo de Fonsi. al no encontrar los libros que tenía: – Sí.

interfiriendo en la vida de ellas: desaprobaba la relación de Julia y Miguel y vivía criticando a Natalia por sus hábitos raros. por Dios. y como tal. en un tono casi histérico desfoga toda su frustración de vivir años reclusa en una misma ciudad. Finalmente. al contrario de Natalia. Nos es presentada a través del propio profesor que al llegar al Instituto y saber de la muerte del director. al lado de su tía-madre Concha. por lo tanto. ¡Pero yo no! Yo me ahogo. Mercedes. pelea con la chica para que se incluya al medio social: [.] En el pasillo. Elvira le escribe a Pablo Klein una carta pidiéndole disculpas por lo ocurrido. puesto que la tensión erótica que surge entre ella y Pablo Klein le genera una lucha interior entre su deseo y la barrera que la sociedad patriarcal de la España posbélica le ofrecía a la mujer.. A pesar de mostrarse una mujer liberal. que dicen que con el fallecimiento de su padre debe quedarse en casa de luto. pero no habrá entendido nada. Elvira. no has desayunado. En este primer encuentro con el profesor. hipócrita y conservadora. no que no sienta la muerte de su padre. Solamente uno que vive aquí metido puede llegar a resignarse con las cosas que pasan aquí. Pasado este primer encuentro. yo me desespero. quiere aprovechar la vida con intensidad. para mostrarse una mujer independiente y segura de si. Martín Gaite nos da otro ejemplo de mujer que cuestiona su papel en la sociedad. como hace Natalia. p. Creerá que lo ha entendido.Mentira.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 95 sin embargo es interesante notar que al mismo tiempo en que transgrede los valores de la sociedad patriarcal en que vive. como lo confiesa a Pablo Klein: No puede entender nada. dirá que qué disparate. sin embargo lo que quiere es salir a divertirse en las fiestas de sus amigos. Si le explico por qué no fui a Suiza se reirá. 1958. es reservada. La carta le suena a Pablo como una carta de amor. Mercedes estaba discutiendo con Natalia. haciendo con que en sus posteriores encuentros no esconda la atracción física que siente por la joven. Es la responsable por reproducir. va a visitar su familia. el modelo patriarcal del cual también era víctima. Elvira. 55). la hermana mayor de Julia y Natalia. que eso no puede ser. En la cocina no hay ninguna taza sucia. dividido entre sus convicciones y los dictámenes de las normas sociales bajo las cuales vive.. . 1958. pasa del control de una figura masculina a otra. p. representa una mujer llena de complejos. Es un personaje que reproduce la típica solterona de la época que como no poseía un hogar propio para preocuparse. exhibiendo abiertamente sus amistades con otros hombres. Don Rafael. que así como la tía Concha. puesto su doble condición de hermana mayor de una familia sin madre y de mujer. sin embargo se encontraba dividida entre el nuevo amor por el profesor y su pacata relación con Emilio. a quien conocía desde niño. con Elvira. al contrariar su familia para vivir con su novio. qué manía de estar siempre en otro lado. (MARTÍN GAITE. (MARTÍN GAITE. El ambiente de la provinciana ciudad le aburre. vivía a las vueltas con sus hermanas. 20) Este personaje se encuentra. y hasta puede llegar a creer que vive y que respira. . es la heroína fracasada de la novela. ella se reconcilia con esta misma sociedad. por el cual se enamora sin nunca confesarlo. Elvira es una chica que vive el aburrimiento del luto por la muerte de su padre. como la familia escocida. A seguir podemos observar el papel de madre siendo cumplido por la hermana mayor. sin entrar. director del Instituto donde Pablo Klein vino a dar clases. Con su carácter difícil. pero es joven. Te vienes al mirador con nosotras. puesto que. yo no me resigno. Elvira también se siente atraída por la experiencia y seguridad que Pablo Klein le transmitía. pues ya pasó de la edad de relacionarse y casarse.

que sin decirlo.). (FONSECA. la nada. Formica. Mercedes y Elvira. Sin embargo. la traición. y también la pobreza moral. porque hacia atrás era el horror. Eligieron un enfoque existencial. ÁLVAREZ. la soledad. Elena Fonseca. LOURENÇO. al cine y a la iglesia. la mayoría de los “maestros” se había ido al exilio y la necesidad de dejar su testimonio en la memoria del país. Ramón. la particular represión del régimen franquista sobre las mujeres. Eloísa. Contaron la realidad. Literarias. Em: RICO. y hacia delante. por aún cuestionar el papel de la mujer de esta misma sociedad. Elena (2001): Las Escritoras del Silencio. FONSECA.96 pues al final. el hambre. de las mil maneras que elige la escritura para decir entre líneas. António Apolinário (1994): História da Literatura Espanhola. al paseo central.htm.uy/2001/35_p31. la corrupción. bajo la simplicidad de lo cotidiano. y. Em Revista Cotidiano Mujer . Eugenio G. quien le proporcionaría el matrimonio. al decidir quedarse con Emilio. unas más jóvenes que otras. N° 35. representa la esperanza en generaciones de mujeres que consiguieron romper con estereotipos para encontrar una posición en la sociedad. sin discursos. un personaje que representa una metáfora de futuro. Pertenecían al “realismo tremendista” y también al “cainismo”. junto a la decadencia generalizada. Concluimos así que es a través de las entrelíneas de Entre Visillos que Martín Gaite . en su libro Desde la Ventana – al cuestionar el espacio que le era reservado a la mujer de la España posbélica. por eso iban a fiestas. Boixadós y Aldecoa. 2001). Barcelona: Ed. Asa. Disponível em http:// www. p. es a través de Natalia. constatamos que Martín Gaite transgrede dos veces con Entre Visillos : primeramente por publicar una novela del realismo social en una sociedad en que solamente les era permitido a la mujer escribir lo que se quedó conocido en las letras hispánicas como novela rosa. afirma que: Quienes vivieron la posguerra de esa guerra. Martín Gaite construye. como es el caso de Julia. Francisco (org. Con Natalia. que Martín Gaite. Después de analizar los personajes femeninos significativos de la novela. en segundo lugar. en pleno año de 1957. Referencias bibliográficas ALBORG. el aislamiento cultural. Concha (1993): Cinco figuras en torno a la novela de posguerra: Galvarriato.org.cotidianomujer. donde ocultaban. un malestar muy grande. Venían de diferentes regiones de España. CASADO. la angustia. el desarraigo. admite ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS su incapacidad e contribuye con la memoria de su país al criticar la vida de las chicas de clase media de las pequeñas ciudades españolas de los años 50. la mentira.: Historia y Crítica de la Literatura Española. BUCKLEY. al casino. Pablo Gil y SOBEJANO. en que la Franco implantó su ley. la frustración. asegurando la reproducción de los esquemas patriarcales. no tenían donde mirar. Acessado em: 12/08/2012. escritora de la revista electrónica Cotidiano Mujer . Madrid: Ed. sin despertar la atención de la censura. pero las unía el peso de la doble censura. indeterminación para superar sus frustraciones. así. Crítica. NORA. de. lo que la censura no les permitía. ahogándose en las tareas domésticas y en el ambiente opresivo de tener que encontrar un novio para casarse. hace su más fuerte denuncia al construir un personaje que representaba una chica rara – como la propia autora así lo definió. […] En ese clima surgió una generación de escritoras. Soriano. Lisboa: Ed. denunció. Gonzalo (1980): Caracteres de la Novela de los Cincuenta. la eclesiástica y la política. 410-427. por las delaciones que ellas denunciaron y se las llamó la “generación del silencio”. la pobreza. en su artículo Las Escritoras del Silencio. que veían la vida pasar entre los visillos de sus ventanas.

Crítica. Em: MARTÍNEZ CAHERO. ________. José María (1997): La novela española entre 1936 y el fin del siglo – Historia de una aventura. SOBEJANO. Barcelona: Ed. Em Area and RICO. Francisco (org. Disponível em: http:// r e p o s i t o r y. Madrid: Ed. t u f s . Carmen (1999): Desde la ventana . Vol 70. 8/1 Época Contemporánea: 1939 – 1975. SANDE. Destino. p. María del Mar Jorge de (2005): Apuntes sobre la Novela Española Femenina de Posguerra. j p / b i t s t r e a m / 1 0 1 0 8 / 2 4 4 6 6 / 1 / acs070005. Barcelona: Ed. Gonzalo (1999): Carmen Martín Gaite. 523526. Espasa-Calpe. Acessado em 01/08/2012.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 97 MARTÍN GAITE.: Historia y Crítica de la Literatura Española.). Castalia. Madrid: Ed.pdf. Culture Studies . a c . . (1958): Entre Visillos.

sobre um tema que pode ser o mais variado possível. é interessante ressaltar que este livro foi publicado em um período de grande efervescência política e cultural impulsionada. frente a Europa primero y luego ante Estados Unidos. borrando os limites entre os vários gêneros concebidos tradicionalmente. de modo distinto. os intelectuais reconheceram como uma obrigação social posicionar-se frente aos acontecimentos.Universidade de São Paulo Como se sabe. Na América Latina. 1991.94) Na obra La vuelta al día en ochenta mundos (1967). Cada uno. refletindo sobre a realidade latinoamericana. o ensaio começa a ter papel importante. poesia. Julio Cortázar (1914-1984) fez parte dessa tradição. : “Estos son los grandes padres del género: con ellos comienza la historia de nuestro ensayo. Sobre esses dois escritores. ficção e reflexão podem mesclar-se. contribuyo decisivamente al conocimiento de la realidad de sus respectivos países y así a definir la identidad hispanoamericana. por meio do que Oviedo denominou “ensaio criativo”. porém dando-lhe novo ânimo.” (OVIEDO. Em uma época na qual política e arte pareciam estreitar ao máximo suas relações. Ademais.23) narrativa e o próprio ensaio. em seu livro Breve historia del ensayo hispanoamericano.” (OVIEDO. pela Revolução Cubana (1959). p. p. os quais serão o foco da análise desse trabalho. por sua vez. . Em princípio. como os textos “Verano en las colinas” e “Con legítimo orgullo”. Neste nova forma do ensaio. tornando (novamente) a América Latina objeto central de reflexão e representação nos anos sessenta. é possível encontrar exemplos do “ensaio criativo” do escritor argentino.98 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS O “ENSAIO CRIATIVO” DE JULIO CORTÁZAR Ana Carolina Macena Francini PG. subjetiva. o ensaio é o gênero que propõe a elaboração de uma reflexão profunda. especialmente.dentro e fora de suas obras-. 199. como José Martí (1853-1895) e Manuel González Prada (18441918). original. assinala José Miguel Oviedo. a partir do século XIX. “ensayo creador debe entenderse también en el sentido de que surgen abundantes ejemplos de creadores que sienten la necesidad de asumir la función crítica como un reconocimiento de la importancia que ésta tiene para su ejercicio artístico. representado por grandes nomes. principalmente.

. a despeito das diferenças. em seus textos. tratando-o com familiaridade. impossível de ser compreendida a partir da racionalidade. Este livro à primeira vista chama a atenção por sua difícil ou impossível classificação. é possível identificar com maior facilidade traços peculiares do ensaio. muita vezes. y suelen presentarse como criaturas domesticadas. . 1996. o animal reforça a concepção de realidade absurda do escritor argentino. as artes plásticas.384) Assim. Como o próprio nome sugere. No entanto a própria organização do livro reforça uma das temáticas centrais da escritura de Cortázar: a concepção da realidade como absurda. os animais acabam por provocar o sentimento do fantástico. Pero la particularidad de los animales en los cuentos. também. o papel do escritor latinoamericano até considerações sobre seu gato preto. dispostas de maneira aleatória remetendo às ilógicas colagens surrealistas. Um deles é seu aspecto comunicativo: Julio Cortázar interage com o leitor. na prática de alguns hábitos. novamente se problematiza a relação entre o humano e o animal. podem assemelhar-se em vários aspectos. Nos invitan a establecer pasajes hacia “lo otro” que no pueden expresar. como Cortázar. Com sua existência irracional. que muitas vezes foge da nossa compreensão. Por isso. Enquanto alguns intelectuais defendiam a estética realista (os denominados anti-intelectualistas) . tal como ocorre em seu primeiro livro de contos Bestiario (1951). Em “Verano en las colinas”. Em “Verano en las colinas” e “Con legítimo orgullo”. citações. considera o modo fantástico uma forma mais complexa e profunda de relacionar-se com a realidade latino-americana de seu momento. é uma viagem aos vários mundos de Cortázar. que apesar da convivência. ilustrações. há alguns ensaios que mais parecem ‘ensaios fantásticos’. ( BETILLÓN. se manifiestan con singular intensidad dentro o fuera de la mente humana. visando desestabilizar a realidade preconcebida pelo leitor. poemas.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 99 Mas havia entre os escritores polêmicas discussões sobre a forma de apropriar-se da realidade latino-americana e intervir nela. além de se confundirem os limites entre o ensaio e a ficção. P. ensaios. escritores experimentais. conforme explicou Claudia Gilman. a dualidade que há na relação entre o homem e o animal. Dessa forma. Catherine Bretillón faz um panorama interessante sobre esse tema em seu artigo “La animalidad como materia de lo fantástico en los cuentos de Julio Cortázar”: Los animales cortazarianos. como veremos nos “ensaios criativos” de La vuelta al día en ochenta mundos. por exemplo. chamado Adorno. os textos de Cortázar buscam explorar. em que o leitor poderá encontrar de tudo. Tema recorrente na obra de Cortázar. em seu livro Entre la pluma y el Fusil (2003). La vuelta al día en ochenta mundos pode ilustrar essa noção de arte defendida pelo escritor argentino.. Nele há contos. fotografias etc. são seres alheios e incomunicáveis e. pois consideravam o ato criador em si uma forma legítima de compromisso com a realidade e um instrumento para a ruptura desta. nessa obra. cujas fronteiras também se borram na narrativa. Sendo assim. salvajes o monstruosas. acreditavam na equivalência entre política e prática simbólica. pois o escritor argentino retoma este modo de narrar dando-lhe uma nova dimensão mais comprometida. y que el ser humano vive como una experiencia de horror (. desde reflexões sobre o Jazz. Esse tom informal também condiz com a temática desse ensaio. es que estos nos acercan al “sentimiento de lo fantástico”: su manera de vivir y de percibir el mundo son materia fértil de lo fantástico.). reales o imaginarios.em que a conscientização dos leitores era prioridade em detrimento da criação artística-. Talvez por essa razão os animais aparecem nos textos de Cortázar da maneira mais variada possível. humor e certa ironia.

Sabemos.) Cuando llega la hora de comer y enciendo el cabo de vela. que tem necessidade de indagá-la. em outras palavras. Entretanto. enquanto passa o verão em um povoado francês: Anoche acabé de construir la jaula para el obispo de Evreux. são as indefiníveis ‘mancuspias’.. Porém. como afirma Lukács. chamado Obispo. jugué con el gato Teodoro W. como nos contos “Bestiario”. Daí a contradição que expõe Lukács sobre o ensaio: Refiro-me aqui à ironia que há no fato de que o crítico sempre fala das questões últimas da vida. numa relação que se torna cada vez mais angustiante ao longo do conto. .1 podem explicar por meio de uma lógica racional: é a perturbação da dúvida. típica do conto fantástico. animal que não aparece totalmente identificado no texto. vão se incorporando novos dados que acabam retirando o leitor do aparentemente habitual e trazendo-lhe a sensação do estranho.. pois não se sabe de que animal se trata o Obispo e se este será assunto de um livro de Cortázar ou se de fato existe: Ya he encerrado al obispo: con dos llaves inglesas apreté el dogal de hierro que ciñe el cuello. Adorno. porém sempre no tom de quem falasse apenas de quadros e livros. 1970.16. “(. ( CORTÀZAR.¿Va a ser un libro de memorias? Entonces. que.. incontroláveis que parecem perturbar a saúde mental e física de seus criadores.. se sobrepõem dois mundos de lógicas diferentes. p. grifo meu). 1970. Cortázar parece relatar fatos corriqueiros de sua vida cotidiana: os momentos com seu gato T. o mundo real e o mundo sobrenatural. que este tipo de relato se configura quando. a realidade e a experiência mais imediata da vida são matérias do ensaio. se torna uma experiência perturbadora tanto para os personagens como para o leitor. pois o animal de “Cefalea” também não pertence a uma fauna conhecida. y veo al obispo de frente (. “Carta a una señorita en París” ou “Cefalea”. La cadena que sostiene la jaula chirría cada vez que se abre la puerta de mi cuarto. em uma narrativa. W. Neste ensaio. p. Já em “Verano en las Colinas”. além de conjecturar sobre o tema para um próximo livro. Magritte.16). Adorno. criando uma outra realidade de natureza misteriosa.15) O leitor então toma conhecimento dessas informações dadas pelo ensaísta. do livro Bestiario. começamos a duvidar da existência do gato e do Obispo. Uma experiência que estes não Tal recurso para causar o efeito perturbador recobra outros textos de Julio Cortázar.” (CORTÁZAR. que intencionalmente as torna familiar ao leitor. La batail 1970. ao longo do ensaio. em que o homem e o animal convivem no mesmo espaço. elaborá-lo é dar forma a uma situação vivida pelo crítico. o leitor se depara com a seguinte pergunta de sua esposa: “. p. como aponta Cortázar mais à frente. su lado mandrágora se acusa más en la sombra. que vai crescendo cada vez mais. la sombra del obispo se proyecta en las paredes enjalbegadas. por sua vez. p. A partir desse ponto.) me falta encarcelar al obispo que además es una mandrágora. como nos definiu Todorov. os cuidados com seu outro animalprovavelmente um pássaro-. Esse “además” reforça o sentimento do fantástico no texto. 1970. criaturas pouco dóceis. do contato com o desconhecido. por sua vez. (CORTÁZAR. em que se parece estar vivenciando momentos íntimos e banais da vida de Cortázar.17) Da mesma forma ocorre em “Verano en las colinas”. em seu livro Introdução à Literatura Fantástica . ¿ya empezó la arterioesclerosis? ¿Y dónde vas a instalar la jaula del obispo?” (CORTÁZAR. apenas de ornamentos belos e nãoessenciais da grande vida. a semelhança com o ensaio parece maior.100 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS a qual não parece nada mais que cotidiana e trivial. e sim tão-somente de uma bela e inútil superfície. e mesmo aqui do mais íntimo do íntimo. Neste último relato. dejándole apenas un punto de apoyo para el pie derecho. y descubrí sobre el cielo de Cazenueve una nube solitaria que me hizo pensar en un cuadro de René le d e l’A rg o nne bataille de l’Arg rgo nne.

dividindo as tarefas de cuidar das mangostas. Se. A população desse país é obrigada pelo governo a recolher as folhas secas para que. mas que não deixa de conter reflexões e críticas sobre a realidade e talvez. Cortázar declara que a ele não interessa escrever suas memórias. o “ensaio criativo” vai avançando para o seu desfecho. por um lado. é uma tarefa que ninguém sabe a origem e simplesmente aceita como uma tradição que não pode ser contestada: . primordialmente. No ensaio em questão. ao discutir o papel do escritor latino-americano nos anos 1960. Por sua vez. para elaborar uma essência que será utilizada para pulverizar as folhas que. pois temiam ser tachados de vaidosos ou pedantes. não se sentiam à vontade para escrever um livro de memórias. Aludindo às questões de sua época. Cortázar que não partilhava dessa ideia aponta que a consequência para os escritores latino-americanos é que acabavam ficando presos em suas próprias narrativas e no mundo real eram “señores aburridos”. as mangostas .ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 101 ainda que de forma menos aterrorizante. sarcasticamente. Ainda que em “Con legítimo orgullo” o animal representado remeta ao real . fantástica. novamente dando destaque para “Cefalea”. seja um dos ensaios mais políticos de La vuelta al día en ochenta mundos. o leitor vai se interando da lógica absurda que há num costume que aparenta ser tão inofensivo. ao longo da narrativa. nesse texto a situação. desde uma posição anti-intelectualista. por sua vez.as mangostas. narra-se um antigo costume de um país (não especificado) de recolher as folhas secas que caem sobre os túmulos no cemitério. pois lhe parece mais divertido falar de gatos e mandrágoras. Porém. questão polêmica nesse período. diferentemente da quase mandrágora de “Verano en las colinas” ou das “mancuspias”. Cortázar volta à pergunta de sua mulher sobre escrever um livro autobiográfico e tece críticas sobre isso. é familiar ao leitor e aos poucos vai se tornando estranha. Contudo. sem deixar de lado o compromisso com o seu momento histórico. por outro. Para tal. em meio a esse estado de perturbação e dúvida. muitas vezes por causa dessa vigilância e da autocensura. no dia de finados. O ensaísta sugere que os escritores latino-americanos. como propõe o ensaio. Entretanto nele há uma estratégia de composição ficcional muito parecida com a do ensaio “Verano en las colinas” e nos contos de Bestiario.irão comer. pois borram-se as fronteiras entre ficção e realidade e inclui-se a subjetividade do autor. ironicamente. os túmulos estejam visíveis para serem homenageados. como comentado acima. a angústia da dúvida seguirá até o fim do ensaio. essa é uma campanha de que toda a população participa. na sua visão. reafirmar a concepção do escritor sobre a realidade incompreensível e inclassificável. realidade e reflexão parecem se mesclar. já que seriam considerados individualistas e alheios ao engajamento político defendido na época pelos escritores de visão anti-intelectualista. ele parece fazer críticas aos escritores que. o governo organizou uma complexa campanha em que é necessário ir à selva caçar serpentes. em que ficção. assim como no conto fantástico. No entanto. pulverizar as folhas e apanhar as cobras nas expedições na selva. porém as indistinções no “ensaio criativo” – tanto com relação ao animal quanto ao gênero – buscam. assim eliminando as incômodas folhas secas. como um escritor europeu. o próprio ensaio contrapõe tal afirmação e confirma seu modelo estético. que força uma nova visão do leitor. Já o ensaio “Con legítimo orgullo” está ainda mais próximo ao conto e se não estivesse num livro que mescla os gêneros. poderia ser considerado um relato fantástico. exerciam uma vigilância perante aos demais escritores que deveriam. inclusive crianças e idosos. a princípio. pôr o compromisso político em primeiro lugar.que se alimentam de serpentes.

” (OVIEDO. Apagando os limites entere o homem e o animal. já que a cada ano são necessários mais recrutas para a expedição da selva em que cada vez aumenta o número de mortos. . o ensaio “Con legítimo orgullo”. parecem viver num tempo a-histórico em que tudo se repetirá infinitamente. p. conviene subrayarloqué ocurre con nuestros gloriosos heridos.385). é possível indagar a realidade e refletir sobre ela.)” (CORTÁZAR. pero estamos convencidos de que a nadie se le ocurriría que puede dejar de recogerlas.39).. [que] tiende a adoptar la forma que le convenga. p. Por eso nunca sabremos -ni queremos saber. p.) Como en los últimos años el número de bajas ha sido cada vez más grande. cumpliendo uno tras otro los actos que el hábito escalona. 2001. pois sempre terão a mesma atitude: “En cierto modo nos alegra haber tropezado con tantas dificultades para encontrar las tumbas porque eso prueba la utilidad de la campaña que va a comenzar a la mañana Porém. 1970. Opressão esta. lo que es otro modo de decir que no se ciñe a una forma establecida. em seus hábitos. nota-se que por meio do modo fantástico. sin rebelarse contra ese enrevesado orden establecido (¿por quién?). p. os personagens do conto produzem no leitor o mesmo sentimento do fantástico que podem causar os animais. com o tom irônico do narrador em primeira pessoa do plural. p. o que também pode ser uma referência à sociedade daquele período e um questionamento da condição humana. sustentada pela falta de consciência dos personagens. pelo contrário. também parece haver momentos em que os criadores se confundem com os animais.) (CORTÁZAR. os homens do conto não se diferenciam da serpente ou da mangosta . la municipalidad ha expropiado los terrenos adyacentes para ampliar el cementerio. como nessa passagem: Andamos entonces sin reflexionar. pois. tal como acreditava Julio Cortázar.. Isso vai ficando mais nítido e mais absurdo quanto mais detalhes o narrador apresenta da campanha. a partir da apresentação dos dois textos de La vuelta al día en ochenta mundos .. con las primeras lecciones de la infancia (.” (CORTÁZAR.38) Ao viver essa rotina infinita e absurda. 1991. como delata o final da narrativa. representa uma alegoria dos regimes políticos de opressão: “La generosidad de nuestras autoridades no tiene límites. Como afirma José Miguel Oviedo..102 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Ninguno de nosotros recuerda el texto de la ley que obliga a recoger las hojas secas. como revela a ironia do trecho.72) Assim. deteniéndonos apenas para comer (hay trozos de pan en la mesa y sobre la repisa del living) o miramos en el espejo que duplica el dormitorio. diferentemente de “Cefalea”. assim como afirma Bretillón. 1996. sin parecer preocuparse por redefinir ellos mismos sus gestos (. o texto alude a uma situação de leis autoritárias e população alienada e o decorrer da narrativa delata as consequências dramáticas dessa condição: a existência torna-se um ciclo vicioso. crescendo a quantidade de túmulos e por conseguinte de folhas secas a serem retiradas: “(. (CORTÁZAR.11) Assim. es una de esas cosas que vienen desde muy atrás. foi possível analisar algumas características do “ensaio criativo”. sem fim e sem razão de ser. Por fim. o “ensaio criativo” parece ter sido a forma encontrada por Julio Cortázar para dar conta das necessidades políticas e estéticas de seu momento histórico..)” (BETILLÓN. Em “Cefalea”. de Julio Cortázar. 1970.” (CORTÁZAR. Desse modo.. p..38). nos inquieta “que los animales parecen cumplir destinos de complejidades extrañamente refinadas. 1970. o ensaio é um “género camaleónico. 1970. da criação de uma situação absurda. além de estimular a consciência crítica do leitor..29) seguiente (. incluso en aquellas cosas que podrían perturbar la tranquilidad pública. p.

pobre animalito. “La animalidad como materia de lo fantástico en los cuentos de Julio Cortázar. Nota 1 Lukács. Tradução Mario Luiz Frungillo. Madrid: Siglo XXI de España Editores. Febrero-mayo 96. representada pelo modo fantástico. La vuelta al día en ochenta mundos. http://pt. Georg. valorizando a prática simbólica como forma de engajamento. contrapondo-se aos antiintelectualistas. Georg. Tradução Mario Luiz Frungillo. Tzvetan (2007) . La vuelta al día en ochenta mundos. criando uma nova forma do gênero que buscava sondar níveis mais profundos da realidade latino americana. Teodoro ya no sería el único en quedarse tan quieto. Breve historia del ensayo hispanoamericano. “Sobre a essência e a forma do ensaio: uma carta a Leo Popper”.” ( CORTÁZAR. observou-se como as características do próprio ensaio e da ficção. esse gênero híbrido representa seu posicionamento sobre o papel do escritor e da literatura. Buenos Aires: Siglo XXI Editores Argentina.com/doc/56014858/essenciaFormaEnsaio . LUKÁCS. São Paulo: Perspectiva. 1970. reitera a sua noção de realidade que foge da explicação lógica e necessita de outras formas de narrar para estabelecer com ela um vínculo mais significativo. Julio (1970b). como seu gato Teodoro Adorno. Tomo II.scribd. Madrid: Siglo XXI de España Editores. P. dando relevância assim tanto à criação artística quanto ao compromisso com as questões sociais e políticas dos anos sessenta. ________. mirando lo que todavía no sabemos ver. 383-410.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 103 Por um lado. Entre la pluna y el fusil. José Miguel (1991). OVIEDO. GILMAN. pois como assinala Cortázar no ensaio “Del sentimiento de lo fantástico”. Catherine (1996). entremearam-se. p. Claudia (2003). CORTÁZAR. Em: http://pt. A temática animal vista nos dois ensaios também corrobora para essa ideia. TODOROV.p. Tradução Maria Clara Correa Castelo. ao lançar mão do modo fantástico na ficção de seus ensaios.scribd.” Em: Actual Investigación. tem maior facilidade para captar o fantástico na realidade: “Si en cualquier orden de lo fantástico llegáramos a esa naturalidad. “Sobre a essência e a forma do ensaio: uma carta a Leo Popper”. os animais. Julio (1970a). Tomo I. 75) Dessa forma. nos dois textos analisados nesse estudo.7.com/doc/56014858/ essenciaFormaEnsaio. Madrid: Alianza Editorial. do mesmo livro. Introdução à Literatura Fantástica . Referências bibliográficas BRETILLÓN. Por outro.

Nesses relatos. A memória de sua própria experiência abarca também a experiência da coletividade. históricos ou ficcionais funcionou (e ainda funciona) como elementos de recuperação da memória individual e coletiva. políticos e morais da sociedade atual. como círculos concêntricos. Esse é o caso das narrativas em primeira pessoa na Argentina. propagam-se da memória individual para a memória coletiva política.] solo tiene sentido . como ocorre no texto autobiográfico Mi nombre es Victoria: una lucha por la identidad (2009). autobiografias e confissões são formas de “escritas de si” que se multiplicaram nas diferentes literaturas. os discursos sobre o “eu” proliferamse principalmente nas regiões em que houve a queda dos regimes totalitários. a autobiografia e os gêneros textuais correlatos. A narração dessas experiências individuais revelou a existência de histórias que traziam versões diferentes das apresentadas pela historiografia “oficial”.. como é o caso da América Latina. (MERCER.. sejam eles literários ou não. Por isso. quando algo que se supõe como fixo.) Na época contemporânea. Desse modo. K. postulam a identificação entre a experiência pessoal e a história da nação. diários íntimos. Os sujeitos presentes nesses escritos delineiam uma trajetória que parte do individual. o indivíduo necessitou contar a sua própria versão dos acontecimentos e a elaboração textual de fatos memorialistas. Testemunhos. coerente e estável é deslocado pela experiência da dúvida e da incerteza. memórias. Grande parte dos textos do final do século XX e início do XXI se relaciona a um dos temas da literatura da região: o viver durante e depois do golpe militar que instaurou uma ditadura de terror e repressão no país. Tais relatos de experiências pessoais. Desse modo. mas alcançam também o coletivo.104 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS DISCURSO AUTOBIOGRÁFICO E A BUSCA IDENTITÁRIA EM MI NOMBRE ES VICTORIA DE VICTORIA DONDA Ana Cristina dos Santos UERJ / IL * A identidade somente se torna uma questão quando está em crise. Durante os anos de transição e de recuperação democrática. subjetividade. da argentina Victoria Donda: “Mi historia [. discutem tanto as questões relacionadas à subjetividade quanto as relacionadas aos aspectos filosóficos. em diversos países da região. o registro minucioso da vida do outro e da sua própria. há uma ênfase nos gêneros discursivos que abordam as questões sobre identidade. o sujeito ao narrar sua trajetória pessoal através da escrita. reconstrói tanto a sua identidade quanto o passado de seu país. durante os anos de 1976 a 1983.

verificar como essa escrita reconfigura uma nova identidade para a narradora e suas implicações para a reconstrução identitária que aflora do sujeito feminino emergente dos ambientes sociopolíticos de poder e opressão. O conhecimento desses dados extralinguísticos cria uma identidade entre a narradora. para que haja o pacto. A partir dos conceitos de escritas de si e autobiografia. o pacto com o leitor se torna mais forte porque a autobiografia retrata o processo de recuperação identitária de Victoria Donda. especialmente quando reconstrói discursivamente uma nova identidade para o sujeito feminino que nasceu sob o signo da opressão e foi privado de sua identidade. A narrativa registra fatos verídicos ocorridos na história contemporânea da Argentina. pois sabe existir uma realidade anterior e exterior ao texto. pois segundo Hall (2005. 1999. p. Esse é o tema do trabalho ora apresentado: a autobiografia como forma de autoconhecimento e de recuperação identitária individual e coletiva. p. ter o seu nome verdadeiro mudado na certidão de nascimento e como chegou a ser a deputada mais jovem do país.. p. Através do relato de sua experiência pessoal. de modo que a sua indagação sobre a veracidade do narrado é quase inexistente. o da memória coletiva. a autora real e a personagem central. O primeiro da memória individual. ter sido apropriada ilegalmente pela família do militar que a criou.Victoria Donda – e de maneira retrospectiva. A narrativa abrange dois planos. de uma pessoa real ..] narrativa retrospectiva em prosa que uma pessoa real faz de sua própria existência. ocorrida no ano de 2004 e noticiada em vários meios de comunicação na Argentina. Logo. A característica que define a existência do pacto autobiográfico é a identificação do nome do autor que aparece na capa do livro com o nome que o narrador se dá como personagem principal. o enunciador deve permitir a sua identificação no interior do mesmo discurso. Dentro do texto analisado. estabelecendo o que Lejeune denominou como “pacto autobiográfico” 1 . O texto analisado permite discutir essas questões. Esse processo de construção e desconstrução adequa-se à noção de identidade descentralizada difundida pelo teórico Stuart Hall (2005. 13) na época contemporânea: uma identidade fragmentária. a narradora busca desconstruir e reconstruir uma subjetividade particular que a reporta a um grupo específico: o das crianças raptadas pelos militares na época da ditadura e que recuperam sua identidade anos ou décadas mais tarde. na qual a narradora conta como descobriu ser filha de militantes políticos desaparecidos durante a ditadura militar. quando focaliza sua história individual. no qual os filhos dos presos . p. em constante transformação à medida que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam. O segundo. Seu objetivo é discutir questões vinculadas à escrita autobiográfica. abordam-se questões da identidade como parte de um processo de construção social e cultural.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 105 rodeada de las otras treinta millones de historias que habitan la Argentina” (DONDA. em par ticular a história de sua personalidade”. 14 ): “[. 21) “a identidade muda de acordo com a forma como o sujeito é interpelado ou representado” e do termo “verdade” como construto discursivo. ocorre quando sua história pessoal se entremeia com a história do país e abrange o período sombrio da ditadura argentina. identidade e alteridade e a constituição de novos sujeitos discursivos. 243). A autobiografia Mi nombre es Victoria Donda (2009) inscreve-se na definição de gênero autobiográfico apresentada pelo teórico francês Philippe Lejeune (2008. A existência de um pacto diminui a ficcionalidade do texto e faz o leitor acreditar na “verdade” do que lê.

O desejo da narradora de falar de si procede do episódio que funda o ato autobiográfico na narrativa: o reencontro com sua própria história antes de ser raptada. e é eleita. de não ser Analía. por meio de uma denúncia anônima. Essa distância faz com que a voz narrativa só se recorde daquilo que a sua memória deseje recordar e essa recordação. p. na existência anterior do indivíduo. Esse momento de transformação . de um fato modificador em sua vida que marca um antes e um depois em sua existência pessoal. en aquel momento comenzaba a inscribirse el final de Analía y. 31) uma das características mais importantes de todo relato autobiográfico é a ideia da vida como devir. se abría el juego para la aparición de Victoria” (DONDA.é tão importante em sua vida que aflora no relato como uma lembrança vívida. ainda passa pelo filtro da subjetividade: a voz narrativa traz ao relato somente o que acredita ser importante para a compreensão da transformação sofrida. a história pessoal de Vitória narrada na autobiografia conta o que lhe aconteceu em outro tempo para transformá-la na pessoa que é agora. Grifo nosso). Para Wander Mello Miranda (1992. O verbo delata a existência de uma distância temporal entre o momento da enunciação – o presente. foi descoberta pelas Abuelas de la Plaza de Mayo (associação da qual sua verdadeira avó materna foi uma das fundadoras). A descoberta de uma “história pessoal” diferente da conhecida é o ponto de partida da autobiografia de Victoria. obrigatoriamente. Viveu durante vinte e sete anos com essa família. Mas. os fatos .] si toda conclusión es el punto de partida de una nueva historia. prevê e admite falhas. de uma mudança ou transformação radical que a impulsione ou justifique”. 1999.e o relato de acontecimentos – o passado. as integrantes da associação revelaram-lhe seu verdadeiro nome e sua história. como transformação: “parece não haver motivo suficiente para uma autobiografia se não houver uma intervenção. esquecimentos. Assim. na época um importante comandante militar e que nos dias atuais está preso por delitos de lesa humanidade. no momento da enunciação. Também por esse motivo.. atendendo pelo nome de Analía quando. Porém. é seletiva. p. filha de José María Laureano Donda (Laureano) y María Hilda Pérez (a Cori). no ano de 2007. erros. que Victoria foi separada de sua mãe ainda recémnascida. qual é a verdade? Para a narradora. verifica-se que a escrita já aponta para uma marca de ambiguidade: o uso do verbo recordar. Sua busca pela identidade pessoal se desenha quase que obrigatoriamente no horizonte da construção da identidade coletiva argentina. 195. no fragmento destacado. A partir dessa consideração. mas Victoria “[. que a “memória perfeita” é capaz de reconstruir em seus detalhes: “En aquel momento recuerdo que lo único que quería era que los resultados dieran otra cosa que la que esperaba” (DONDA. Sabe-se. através da narradora-personagem. Esses dois planos fazem com que sua narração ultrapasse as linhas limítrofes entre a história individual e a coletiva. decide candidatar-se a uma vaga de deputada. e entregue a uma família de militar por seu próprio tio paterno.o divisor de um antes e um depois no decurso pessoal da narradora . 170). O núcleo do narrável na autobiografia – a experiência pessoal – equivale à transformação do indivíduo. 2009. Após se certificarem de que se tratava realmente de Victoria. A recordação está submetida à memória e essa por sua vez. p. questiona-se: como é possível falar de verdade no texto autobiográfico? A busca pela verdade dos fatos foi a luz que guiou a narradora pelo caminho de seu autorreconhecimento. omissões e deformações na história da personagem. a descoberta da verdade.106 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS políticos nascidos na prisão eram dados para adoção às famílias de militares e notificava-se às verdadeiras famílias que a criança havia morrido..

afirmando a sua impossibilidade de cumprir a sua mais profunda promessa: apresentar a verdade de uma vida reunida numa trama narrativa. dos relatos das “abuelas de la Plaza de Mayo” e dos textos históricos da época. p. Como construções linguísticas. No texto analisado.. tal como ela relampeja num momento de perigo” (BENJAMIN. logo. p. podem-se possuir tantas verdades quantos pontos de vista em seu relato. por más consecuencias que puede tener sobre una existencia. p. Esse fato ocorre na autobiografia analisada. É a divergência entre a vida e a escrita. essa constatação não impede a voz narrativa de buscar a “verdade”. necessita de narrações alheias. 43). não há como afirmar que as suas experiências pessoais ocorreram da maneira como se apresentam na narrativa. por dolorosa que sea. 17) também aborda essa contradição ao afirma que: Talvez a maneira mais apropriada de abordar o tema da autobiografia seja afirmando positivamente aquilo que ela não pode ser. Duque-Estrada (2009.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 107 contados constituem “a verdade”. mas eles realmente aconteceram como ela conta? Se o que ela lembra está relacionado à subjetividade ou aos fatos relatados por outrem. enredase com as das outras pessoas que conviveram com ela e com os seus verdadeiros pais: “A partir de este momento. Para tal. entre o “eu” que se foi e cuja vida se narra e o “eu” que se é no momento da escrita presente no texto autobiográfico. 1985. A contradição presente no texto autobiográfico de apresentar o vivido e a sua representação discursiva realça para inúmeros teóricos. o relato autobiográfico falha em sua premissa principal: rever a história de si mesmo para. Os diversos “olhares” inseridos no relato autobiográfico de Victoria colaboram para tornar tênue a noção de “verdade”. “a impossibilidade da narração de si mesmo”. mas das pertencentes a outras pessoas: dos amigos de seus pais. Se cada olhar traz um ponto de vista. a narração autobiográfica só existe enquanto discurso e não pode ser conclusiva. Em uma realidade dúctil. 224). para a narradorapersonagem conhecer a “verdade” sobre quem foi lhe permite. sua autobiografia vai além de si mesma. p. no momento da escritura. Nesse aspecto. questionou-se o próprio conhecimento histórico. todo ló que sé de mis padres y el destino que corrieron se fragiliza. apenas sostenido por declaraciones cruzadas de testigos y gente que les conoció [. logo. entre eles Leonor Arfuch (2010. Com isso. reestruturá-la e contar os fatos como eles aconteceram. a percepção de verdade depende sempre da visão de quem reconta os fatos: “Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo ‘como ele de fato foi’. representa a si próprio através do retrato do “outro”. Logo. saber quem é: La verdad. Significa apropriar-se de uma reminiscência. esses relatos estão repletos de subjetividades. 2009. então. como a contemporânea.. Sua identidade é construída por meio de diversos “olhares” que se entrecruzam entre o seu presente e o seu passado. 136). Sua história é narrada através de outros relatos fragmentários que tampouco dão conta da realidade tal como ela foi. O momento da escrita autobiográfica faz convergir um “eu” que ao mesmo tempo é um “outro”. Desse modo. através da narração.]” (DONDA. Ela é o norte da narração porque. porque os acontecimentos podem ser alterados segundo a visão de quem os conta. Sua identidade pessoal é construída através de seu olhar e do olhar dos outros sobre si mesmo. Se o acesso ao passado só pode ocorre pela textualidade. as experiências pessoais que edificam o autorretrato de Victoria não advêm somente de suas lembranças. . A estética pós-moderna mostrou a impossibilidade de o homem conhecer a realidade e representá-la através da linguagem. de sua verdadeira família. A impossibilidade de contar o passado ocorre também da dificuldade de o individuo aceder aos momentos anteriores de sua vida.

. y por más complejo que pueda parecer hacer referencias a aquellas cosas como integrando una verdad incuestionable. No texto analisado. Victoria y Analía eran al fin la misma persona. Desse modo. Sua subjetividade se revela à medida que sua história pessoal completa as lacunas vazias sobre os anos de ditadura da Argentina: “[. y con ella. Nesse “espaço biográfico” (ARFUCH. p. Entende que a escrita de sua trajetória é incapaz de traçar um retrato “verdadeiro” de quem ela foi.22). (DONDA. (DONDA. a narradora – em um movimento de sinceridade próprio à autobiografia . La verdad afirma la existencia. 2009. de un origen o de una filiación.percebe a impossibilidade de exprimir toda a “verdade” dos fatos na escrita devido à distância temporal entre o momento da enunciação e o vivido. a narradora rejeita a opção de experiência “verdadeira”. 2009. 2009. não é somente através do discurso escrito que reordena a sua trajetória pessoal. mas não a de “experiência vivificada”. 2009. p. p. (DONDA. podía finalmente aceptar. 219). 2010) do documentário e da autobiografia. definirse.. Voltar ao seu passado é buscar uma nova versão para os acontecimentos. pois mostra a busca identitária a partir da cisão entre a identidade anterior e a atual. com o objetivo de revelar como o discurso hegemônico da ditadura modificou a sua história e a de seus pais. la historia de un país que aún tiene problemas en reconocer y aceptar su pasado” (DONDA. pois a voz narrativa afirma que a confecção de um documentário cinematográfico também foi essencial em sua busca identitária. a narradora reconstrói o passado individual e o A afirmação presente ao longo da autobiografia de que os fatos relatados são como os vivenciou é importante para a narradora-personagem alcançar seu objetivo primordial com a escrita: sua recuperação identitária. No se trata de una simple verdad de un nombre. Porém. lo cierto es que así fue como las viví. incorporar a Analía y avanzar. 2009..108 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS es la condición esencial para ser. a narradora-personagem se apropria do discurso autobiográfico para pôr em ordem a vivência caótica . Com esse ponto de vista. Y esa persona era yo. 54) Uma vez que a construção identitária no mundo contemporâneo se relaciona também com o seu lugar no mundo social e cultural.236) Porém. a voz narrativa não pode abarcar o “eu” sem relacioná-lo com a realidade de seu país. em sua reconstrução discursiva. a qual chama de “eu”. e fragmentária de sua identidade: reordena a sua experiência pessoal para conceber os limites e a interseção entre Analía e Victoria. essa cisão ocorre entre uma identidade que se autorreconhecia como Analía e que agora de autodenomina Victoria: “Se ló debo [a identidade] a Analía. acredita que sua enunciação retrate os fatos tais como os vivenciou: Contar aquel momento a través del filtro de una verdad revelada años después no sería ni justo ni honesto. Nessa busca de autorreconhecimento.] demasiadas cosas habían sucedido desde que conocí la verdad sobre mi identidad.. Mas. p. trazendo à tona o discurso controverso da autobiografia. Ao contar sobre a sua própria vida. y aquel documental representaba el comienzo de un nuevo periodo en mi vida: Victoria. quien no pudo sino sucumbir y sacrificarse para que la verdad ocupase su lugar en la historia” (DONDA. A questão identitária é um dos temas mais importantes nas escritas atuais e torna central no texto autobiográfico. 244).] mi historia es puesta al desnudo. quien se había ido formando durante todo aquel tiempo. foi fundamental a contribuição da identidade construída no passado: [. es la condición para ser uno mismo. a personagemnarradora assimila a pluralização de suas identidades. Entender a sua trajetória pessoal é entender também a de seu próprio país. sua identidade pessoal mesclase com a identidade coletiva. Victoria se conscientiza de que para construir a identidade atual. p.

para mostrar que ARFUCH. a reconstrução do passado é um combate pela reconstrução histórica que “también llamamos ahora de combates por la identidad”. Victoria inscreve Desse modo. Com a ressignificação. p. En ese desafío simbólico vive Cori. nascida sob o signo da opressão. dandolhe voz e poder para intervir tanto na reescritura de sua história quanto na História da Argentina e assim. a escrita autobiográfica empreendida pela narradora não relata somente o caminho percorrido pela personagem para a incorporação de um novo nome – marca indelével da identidade – e a perda do nome antigo. Leonor (2010): O espaço biográfico: dilemas da subjetividade contemporânea.. Desse modo. que Cori les ganó la última partida. En mi nombre está su último grito. o regime de opressão da ditadura não foi mais forte que a vontade materna de que sobrevivera: Después de todo.] a “identidade” só nos é revelada como algo a ser inventado. Sua narrativa transita entre o espaço privado e o público. mas também a luta pelo reconhecimento social da identidade incorporada. Para Beatriz Sarlo (2007. recuperar a identidade que lhe foi tomada.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 109 coletivo. 2009. de seu passado e de sua atuação político-social no presente. O processo identitário de Victoria é instituído pela reivindicação do reconhecimento social de sua nova identidade: de quem é. Trad. a narradora faz com o seu nome adquira novos matizes. como a de seus pais e da própria Argentina.] como uma coisa que ainda se precisa construir a partir do zero ou escolher entre as alternativas e então lutar por ela e protegê-la lutando ainda mais” (BAUMAN. em uma relação de complementaridade.. 21-2).. EDUERJ. (DONDA. identificándome. enfrenta um movimento de revisão. Segundo Figueiredo e Jovita (2005. Nessa luta. p. a sua trajetória pessoal na História da Argentina. 191). A voz narrativa está consciente de que a realidade pode ser reordenada através da palavra. seu texto é um ponto de resistência cultural. Porque mi existencia prueba que finalmente Cori consiguió su objetivo. O discurso autobiográfico é uma ferramenta para que Victoria. sabedora de que “[. pois essa só é reivindicada por aqueles que não são reconhecidos por seus interlocutores. a pesar de imaginar que su esposo estaba muerto y que ella no sobreviviría mucho después del parto. de que discurso é poder. a pesar de la certeza de que le robarían a su hija.. p. e não descoberto [. a escrita autobiográfica analisada deve ser entendia como uma escrita cujo discurso é eminentemente político. Não é uma intervenção feminina no espaço público dominado pelo sujeito masculino para publicar apenas suas intimidades. Su último obstinado rechazo al destino que le era impuesto. No momento de enunciação de sua história. filha de presos políticos. y en él se encuentra también mi legado. Referências bibliográficas . ressignifica-o para poder abarcar tanto a história da personagem. A narração de suas experiências é o processo pelo qual Victoria tenta se redescobrir e redefinir a sua identidade. a busca por uma identidade está estreitamente relacionada à questão do reconhecimento. Dessa forma. político e histórico de seu país. apodere-se da palavra e adquira um papel fundamental no processo social. 254) Ao ressignificar o seu nome. relaciona a acepção do termo vitória (ação ou efeito de vencer) ao nome de batismo que recebeu de sua mãe ainda na prisão. Cori hizo pasar un mensaje a sus asesinos dándome un nombre. 2005. Es por eso que mi nombre es Victoria. p. Rio de Janeiro. A compreensão desse fato aclara o subtítulo da autobiografia – “Una lucha por la identidad”. de quem são seus pais. destruição e reconstrução identitária. de Paloma Vidal. 27).

de Carlos Alberto Medeiros. 189 -205. Em: Magia e técnica. Vol. p. Stuart (2005): A identidade cultural na pósmodernidade. p. Juiz de Fora: UFJF. pois afirma que o relatado na autobiografia só existe enquanto discurso e. Conceitos de literatura e cultura. 7ª ed. Trad. Jovita Maria (2005): Identidade nacional e identidade cultural. FIGUEIREDO Eurídice e NORONHA. 1 Em textos posteriores. Zygmunt (2005): Identidade . Belo Horizonte: Ed. Em: Dev ires autobiográficos: a atualidade da escrita de si. Rio de Janeiro: DP&A. 222-32. Una discusión.). Rio de Janeiro: Zahar. (2009): Im/ Possibilidades da autobiografia. Elyzabeth Muylaert. Eurídice (org. BENJAMIN. 17-58. São Paulo: Brasiliense. DONDA. Buenos Aires: Editorial Sudamericana. Walter (1994): Sobre o conceito de história. de Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. Trad. Rio de Janeiro: Nau/ Ed Puc-Rio. é uma construção da memória. LEJEUNE. Lejeune amplia o termo “pacto autobiográfico” para “pacto de verdade” ou “pacto referencial”. Philippe (2008): O pacto autobiográfico.110 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS BAUMAN. Obras escolhidas. de Sergio Paulo Rouanet. HALL. . 10 ed. Trad. DUQUE-ESTRADA. Victoria (2009): Mi nombre es Victoria: una lucha por la identidad. SARLO. Em: FIGUEIREDO. p. I. Buenos Aires: Siglo XXI Editores Argentina. Beatriz (2007): Tiempo pasado : cultura de la memoria y giro subjetivo. Notas * Professora Adjunta do Mestrado em Teoria da Literatura e Literatura Comparada e do Departamento de Letras Neolatinas (Português/Espanhol) do Instituto de Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. UFMG. Entrevista a Benedetto Vechi. como tal. Arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura.

assim como seus currículos não é tarefa simples.. a partir dela. a Universidade deve estar preparada para formar o profissional que possa atender as especificações legais. Analisar criticamente o ensino de línguas nas universidades públicas do Estado do Rio de Janeiro. é interagir com o outro de modo a alterar e construir saberes de forma dialética.. Segundo (PARAQUETT. Foram analisadas quatro universidades públicas do Estado do Rio de Janeiro. 2009.7): “. os currículos. Ana Maria Mendes Larghi PG . embora apresentem variações estruturais e quantitativas nas disciplinas.Universidade Federal Fluminense Introdução Esta comunicação é parte inicial de uma investigação que tem como objetivo apresentar alguns dados levantados acerca dos currículos das Universidades públicas do Estado do Rio de Janeiro nos cursos de Licenciatura em Português/Espanhol. em termos de sua estrutura. Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). de acordo com as diretrizes estabelecidas pelo PARECER 492/2001 do Ministério da Educação. É importante lembrar que. Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) . E. E o compromisso da Universidade é levar o aluno/ professor de LE a aprender muito mais que ensinar a gramática e o léxico de uma língua. os profissionais do curso de Letras devem “ter domínio do uso da língua ou das línguas que sejam objetivo de seus estudos. E.enseñar y aprender lenguas extranjeras es una oportunidad increíble de promover la integración entre mi mundo y este mundo mágico que me llega y que me permite verme y sentirme parte de un todo complejo”. Portanto. são unânimes em encaminhar o aprendizado para a formação integral do aluno/professor. quanto ao ensino de línguas. é oportunizar o aprendizado de outra cultura para que. funcionamento e manifestações culturais”. . ainda. principalmente porque sabemos da excelência que cada uma delas busca.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 111 O CURRÍCULO DAS UNIVERSIDADES PÚBLICAS DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO E A FORMAÇÃO DE PROFESSORES EM LÍNGUA ESTRANGEIRA: UMA REFLEXÃO CRÍTICA. p. possa entender a si mesmo e a sua própria. desenvolver no aluno a consciência de que aprender uma língua estrangeira é muito mais que adquirir habilidades linguísticas. são elas: Universidade Federal Fluminense (UFF).

em seu Art. dá as Universidades. A pesquisa de campo (por amostragem) foi realizada com professores do ensino médio da rede pública estadual. . Enquanto que. na aventura do aprender uma LE. observou-se como se deu a implantação da língua espanhola na rede pública do Estado do Rio de janeiro. A importância do currículo na formação do professor de língua estrangeira Tomando como tema central a importância do currículo para a formação do futuro professor. O gráfico 1 apresenta o resultado da pesquisa: 1. II. seu conhecimento e utilização das sugestões dos documentos oficiais em sua prática. pois a extinção do currículo mínimo proporcionou um avanço para o ensino. e o quanto as questões políticas são determinantes na elaboração da grade curricular. ainda. Essa investigação. integrativa e contextualizada. HALL (2006) e MENDES (2004. 2008). esses e outros questionamentos.112 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Dessa maneira. coletou dados a respeito da formação dos professores da rede pública. baseados na Lei 11. inicia-se aqui uma das questões que permeia a nossa reflexão. A publicação dos documentos oficiais promoveu uma maior reflexão sobre a organização curricular do ensino de LE. Os dados coletados na pesquisa com professores apontaram ser de responsabilidade do Estado a elaboração de políticas públicas para melhorias na educação brasileira. ancora-se na Pedagogia Multicultural. sugerindo uma prática dinâmica. Com relação às propostas curriculares e a autonomia que a LDB . a melhoria do nível cultural do professor situarse-ia em 25% como responsabilidade do poder público. e se apoia nas concepções de cultura de CANCLINI (2006). 53. tornando-o mais próximo da realidade.161/2005. 2009) e MOTA (2004) em definições sobre Inter/ multiculturalismo. 2007.LEI 9394 de 20 de dezembro de 1996. Esta investigação adota como referência PARAQUETT (2007. E os resultados nos levaram a questionar como estão sendo formados os futuros professores de LE? Por que encontramos professores tão inseguros diante das classes? Pretendese aclarar. como forma de ampliar o espaço do conhecimento. a “integração entre os mundos”. A primeira delas é a importância do Currículo para a formação do professor de LE e sua consonância com os PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais) e as OCEM (Orientações Curriculares para o Ensino Médio). Perguntados sobre a formação de professores de LE a pesquisa aponta que 75% do total dos entrevistados responsabiliza o poder público por melhorias nas condições de formação do professor de LE. no decorrer da investigação proposta para o Doutorado. vimos a importância de ações políticas direcionadas à melhoria da educação brasileira. Em estudos anteriores.

E este exercício poderia se iniciar durante os estágios de regência. Dessa maneira... Segundo Bakhtin. para o Currículo das Universidades. No entanto. Continuando a reflexão sobre os documentos oficiais. a produzir material didático a partir dos gêneros. encontrar interdependências. inclusive. Vale lembrar que ambos os documentos foram criados para orientar a prática do professor em sala de aula. ressaltando. ao reconhecimento da diversidade”. para formar professores de LE. p. já que a utilização da língua está envolvida nos discursos históricos. as OCEM entendem que o currículo para o ensino de E/LE deve abordar “temas relevantes para a vida do estudante”. poderia ser a adoção de disciplinas na grade curricular que levasse o professor/aluno. ser interdisciplinar.interagir com outras disciplinas. Em consonância com os PCNs. “todo enunciado ocorre em um gênero do discurso. promovendo o ensino que possa: “ levar o estudante a ver-se e constituir-se como sujeito a partir do contato e da exposição ao outro. percebe-se que a proposta de trabalho com os gêneros discursivos. dedicamos a segunda parte às Orientações Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (OCEM).. Dentre as Universidades que fazem parte da pesquisa. entender) e das sequências lexicais e componentes gramaticais próprios da norma culta”.”. 133). 2008. é bastante enriquecedora. na preparação do material didático.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 113 Não resta dúvida que os documentos trouxeram contribuições importantes. culturais e sociais”. ler. O currículo do curso de Letras. embasadas na teoria de Bakhtin. que façam parte do “currículo real”. deve promover a alteridade. o valor do aprendizado de LE como forma de autoconhecimento. 1998). à diferença.. E por que tantos professores não fazem uso das sugestões dos documentos oficiais? Como esses professores foram formados? Essas foram algumas das interrogações que nos levaram a refletir sobre o papel do currículo na formação de professores. Reitera-se que o trabalho com os gêneros discursivos é proposta de disciplinas nas Universidades. embora não haja nenhuma disciplina específica com esta nomenclatura (o que poderia ser uma sugestão). em sua grade regular. portanto. à medida que se apoia em um contexto que circula à nossa volta todo o tempo. Refletindo sobre as contribuições dos PCNs (BRASIL. encaminho a discussão para a importância do ensino de LE estar voltado para “. Atitudes como revisar as ementas das disciplinas.. a utilização dos gêneros na prática pedagógica. ( OCEM. . falar. na prática. 2000. abarcando mais do que conteúdos tradicionais. convergências. abrangente e flexível. sugerindo que o Projeto Político Pedagógico e o Currículo possam aproximar-se sempre do “currículo real” dos alunos. p. o que se observa.. contextualiza o ensino com o “currículo real” (OCEM. a UERJ é a única que apresenta a disciplina “Produção de material didático para o ensino de Espanhol”. “.é preciso adotar uma visão ampliada dos conteúdos a serem incluídos nos programas de curso para além das tradicionais ( ouvir. p. de cidadania e de inclusão social. O desafio de preparar os professores para ensinar E/LE através dos gêneros discursivos. Os gêneros são criados e recriados. p. e fazem parte da comunicação humana. 150). Os PCNs afirmam que “o estudo dos gêneros discursivos e dos modos como se ar ticulam proporciona uma visão ampla das possibilidades de usos da linguagem” (BRASIL. 9). é que os professores encontram muitas dificuldades em entender a proposta de ensinar LE a partir dos gêneros. consoante com OCEM (2008. criar novas disciplinas poderiam ser contribuições para habilitar professores que tornem as aulas de LE reais “ferramentas” de inclusão social. 8).

2800 (duas mil e oitocentas) horas.. “nas quais a articulação teoria-prática garanta. o “conteudismo”. entendo que a proposta de uma abordagem que seja social e Inter/Multicultural para o ensino de línguas. p. II .149). as dimensões dos componentes comuns:. Essa reflexão nos leva a pensar que são necessárias mudanças paradigmáticas no contexto . pensando o ensino do E/LE como “um conjunto de valores e de relações interculturais” (OCEM. 1º da Resolução do CNE/ CP 2. 1800 (mil e oitocentas) horas de aulas para os conteúdos curriculares de natureza científico-cultural. 2008. compar tilhada e importante modificadora de todo o processo ensinoaprendizagem. II.. as Universidades desenvolveram currículos que preconizam a formação docente. 2. são necessárias revisões curriculares que tenham como principal objetivo construir um ambiente de aprendizagem onde o aluno/professor possa interagir e participar democraticamente do aprendizado. esta medida caracterizou um avanço para o ensino no Brasil. como linguista aplicada. Sobretudo entendendo cultura como prática social.criar. do respectivo sistema de ensino.estabelecer planos. em contato com outra(s) língua(s). cursos e programas de educação superior previstos nesta Lei. produção artística e atividades de extensão. II. através do dialogismo.. a pedagogia multicultural acredita na valorização da voz do sujeito/professor e do sujeito/estudante. outra (s) cultura (s). técnica e científica do cidadão. uma perspectiva de construção do conhecimento de forma dialética e multidimensional. obedecendo às normas gerais da União e.. Portanto. observadas as diretrizes gerais pertinentes. pg. De acordo com o artigo 53. 53. Dessa forma. . programas e projetos de pesquisa científica. Art. em um mundo pluriligue e multicultural. No exercício de sua autonomia. no exercício de sua autonomia. A carga horária das licenciaturas de graduação plena. organizar e extinguir. nos termos dos seus projetos pedagógicos. na prática. mas o que se observa. ainda é a maneira mais usual de ensinar LE. Das Universidades públicas do Estado do Rio de Janeiro Quanto ao currículo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional LDB .”.. concede-se às Universidades autonomia para “fixar os currículos dos seus cursos e programas. descobrindo a polarização dos saberes e assumindo.41).de 20 de dezembro de 1996. em sua sede. III .Em outras palavras. do aperfeiçoamento da formação cultural. as seguintes atribuições: Na busca do desenvolvimento de competências e habilidades.. pois deu condições às Universidades de ‘aproximar’ o currículo de sua realidade social.”.114 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS É importante e necessário que a universidade leve o aluno/professor a refletir sobre sua língua e sua cultura. da LDB. assim como no desenvolvimento da sensibilidade de escuta às múltiplas outras vozes. 400 (quatrocentas) horas de estágio curricular supervisionado. 41) I . 2004. 2004. divididas em: 400 (quatrocentas) horas de prática como componentes curricular. de 19 de fevereiro de 2002 estabelece que será de. De acordo com ( MOTA e SCHEYERL. de acordo com o Art. são asseguradas às universidades. em um mundo onde as relações culturais estão cada vez mais próximas. promove a construção de conhecimentos em LE. sem prejuízo de outras. (Mota e Scheyerl. p. no mínimo.fixar os currículos dos seus cursos e programas. quando for o caso. assegura que as Universidades: Art. através do diálogo.. 53. é que quando assumem suas classes a simples transmissão de conhecimentos. e 200 (duzentas) horas para outras formas de atividades acadêmico-científico cultural.

E/LE e Literaturas. os dados classificados em apenas duas categorias. o que corresponde a 62. e disciplinas pedagógicas. Quanto à carga horária. 60 eletivas e 200 horas de atividades complementares. estas foram levadas em conta. acrescida de 120 optativas.9% do curso. Na sequência. para a segunda categoria são 29 disciplinas. A segunda categoria envolve a formação em Língua materna. a fim de desenvolver a formação por meio de atividades de pesquisa que integrem as disciplinas e possam dar conta de um ensino humanizado e criativo. na cor vermelha. Gráfico 2 O gráfico 2 mostra que para a formação em E/LE são apontadas 18 disciplinas para a primeira categoria.360 horas. Gráfico 3 . apresentaremos os gráficos elaborados a partir das grades curriculares das Universidades. Contando com uma carga horária de 2.980 horas. totalizando 3. assim como as atividades complementares.0% da grade curricular. Literaturas e a parte pedagógica.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 115 acadêmico. Na Universidade Federal Fluminense (UFF) o currículo encontra-se distribuído entre Língua materna e Literaturas. o que corresponde a 37. Não foram computadas nos gráficos as disciplinas optativas e eletivas. É preciso lembrar que esta é uma pesquisa inicial. portanto. são elas: a primeira em azul envolve as disciplinas de E/ LE e literaturas. optou-se por apresentar abaixo.

07% da grade curricular.3%. o que corresponde a 68. Gráfico 5 O gráfico 5 mostra que para a Formação em E/LE são apontadas 11 disciplinas na primeira categoria. e disciplinas pedagógicas.200 horas. o que corresponde a 31.116 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS O gráfico 3 mostra que para a formação em E/LE são apontadas 20 disciplinas para a primeira categoria. o que corresponde a 31. Buscar-se-á com a pesquisa.5% do curso. E/LE e Literaturas. Gráfico 4 O gráfico 4 mostra que para a formação em E/LE são apontadas 20 disciplinas na primeira categoria. Conta com uma carga horária de 3. o que corresponde a 68. e um total de 152 créditos. e um total de 242 créditos. e disciplinas pedagógicas. Conta com uma carga horária de 4.07% da grade curricular.5% da grade curricular. Na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) o currículo encontra-se distribuído entre Língua materna e Literaturas.3%. o que corresponde a 75. e a parte pedagógica. e para a segunda categoria 44 disciplinas. e para a segunda categoria 44 disciplinas. através de entrevista junto aos alunos do curso de letras. E/LE e Literaturas. Na Universidade Federal do Rio de Janeiro ( UFRJ) o currículo encontra-se distribuído entre Língua materna e Literaturas. avaliar . Na Universidade Federal do Rio de Janeiro ( UFRJ) o currículo encontra-se distribuído entre Língua materna e Literaturas. Conta com uma carga horária de 4. e para a segunda categoria 34 disciplinas.280 horas. E/LE e Literaturas. o que corresponde a 24.200 horas. e um total de 242 créditos.

PARAQUETT.Acessado em 12/06/ 2012. (1998). U F F : h t t p : / / w w w. de 20 dez.php?option=com_content&task=view&id=45 UFRRJ:http://r1. letras_portugues_espanhol_licenciatura. 1996.gov.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 117 o currículo de cada uma das Universidades. Sabe-se que. a fim de alcançar a excelência na educação.pdf. Acessado em 11/06/ 2012. códigos e suas tecnologias/ Secretaria de Educação Básica: MEC.41Salvador. no Brasil. UERJ:http://www. 9394/96. RESOLUÇÃO CNE/CP Nº 1. Acessado em 11/06/2012. Dispõe das Diretrizes e Bases da Educação Nacional.Ministério da Educação. UFRJ:http://www.br/seesp/arquivos/ pdf/res1_2.(1992): Estética da Criação Verbal. Acesso 13/05/ 2012. .07 l e t r a s _ p o r t u g u e s _ e s p a n h o l _ _licenciado_novo.mec. RESOLUÇÃO CNE/CP 2.pdf. Lei nº.br/ index. Revista Nebrija de Lingüística Aplicada. Mikhail.pdf. Brasília: Ministério da Educação.planalto. b r / s i te s / d e f a u l t / f i l e s / BRASIL.179. Refletindo-se sobre a relação língua/cultura. Acessado em 11/06/2012. ORIENTAÇÔES CURRICULARES NACIONAIS. inclusión social y aprendizaje de español en contexto latinoamericano. p. sua relevância no processo ensino/ aprendizagem de língua estrangeira e na formação do professor de E/ LE.br/arqs/fluxogamas_cursos/ BRASIL.Ensino Médio.br/graduacao/arquivos/docs_curso/ matriz/IM/76_lic_letras-portugues-espanholliteraturas_matriz_2009-1. Márcia (2007): Linguística Aplicada. Espanha.pdf. l e t r a s .br>. p. PCN – Parâmetros Curriculares Nacionais . Referências bibliográficas BAKHTIN. Disponível em <http://www. São Paulo: Martins Fontes. Acessado em 18/01/2010. MOTA e SCHEYERL. p.letras.ufrj. u f f . de 18 de Fevereiro de 2002. CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO CONSELHO PLENO.ufrrj. BH: Editora. DE 19 DE FEVEREIRO DE 2002.gov. MEC . (2008): Linguagens. Salvador. Acessado em 07/06/2012. ainda são necessários maiores investimentos em pesquisas e financiamentos para o ensino de LE. Kátia e Denise (2004): Recortes Interculturais na sala de aula de Línguas Estrangeiras .uerj.dep. Disponível em http://portal.UFBA.

ao apresentar problemas psiquiátricos após a gravidez. eram vendidas no povoado. no estado do solo.UFMT Las ratas (1962) é o quinto romance escrito por Miguel Delibes e. o menino era capaz de analisar as mínimas nuanças nas alterações climáticas.” (DELIBES. jornal no qual trabalhava. segundo o próprio autor. p. Depois de publicar no jornal uma série de reportagens sobre a difícil situação do trabalhador rural nos campos castelhanos. uma sabedoria popular inigualável entre os habitantes do vilarejo.118 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS LAS RATAS DE MIGUEL DELIBES E A DENÚNCIA DA CRISE CAMPONESA EM CASTELA NOS ANOS 1950-1960 Ana Paula de Souza PG . que nunca fora à escola. 2010. ao longo de um ciclo agrícola de pouco menos de um ano. p. Nini sobrevivia de . vivia da caça de ratazanas que além de alimentar a ele e ao filho. o El Norte estava impedido.” (DELIBES. De maneira intuitiva. denúncias relativas ao abandono sofrido pelos camponeses castelhanos por parte do governo franquista. Percebendo que os censores não eram tão atentos e ferrenhos com os conteúdos das obras literárias como com as publicações periódicas. O protagonista Nini é um menino de 11 anos de idade. Ambientado na segunda metade da década de 1950 (provavelmente entre 1956-57). foi levada a um manicômio de onde nunca mais retornaria. Delibes decidiu transformar em ficção a realidade social que conhecia com propriedade. 2010. de fazer qualquer menção ao problema. comparado por alguns personagens a uma espécie de pequeno deus: “Digo que el Nini ese todo lo sabe. 54) Com a ingenuidade própria da idade e a sabedoria extraordinária. a matéria para o enredo surgiu da impossibilidade de publicar no El norte de Castilla 1 . Parece dios. havia adquirido junto aos avós polígamos Abundio. Nini. o romance relata as dificuldades vividas por moradores de um pequeno e miserável povoado castelhano. Apesar dessa desestruturação familiar. fazendo com que de alguma maneira aquela história fosse contada. nascido da relação incestuosa entre dois irmãos. no comportamento dos animais e na constituição da vegetação. 19). e a Jesus. por ordem da censura. Ratero e Marcela. Seu pai. Esse conhecimento lhe conferia status de sábio. um homem ignorante e embrutecido. Sua mãe. numa intertextualidade bíblica: “¡Qué condenado crío! Cada vez que lo veo así me recuerda a Jesús entre los doctores. Román e Iluminada e ao ancião local Centenario.

Esse modelo agrário denominado tradicional 3 foi reafirmado pelo estado franquista de forma autoritária. portanto incapaz de reivindicar seus direitos políticos. a presença da criança na obra literária representa a nostalgia de uma fase da vida genuinamente feliz e íntegra. animalizadas e na configuração de personagens primitivos e ignorantes que parecem não ter lugar em pleno século XX. Ou seja. desapareceu a figura do señor. o autor desnuda as consequências do abando no estabelecimento de relações humanas embrutecidas. Ao revelar tais implicações sociais a partir da narrativa ficcional delibesiana. Desse modo. faz-se presente no respeito do homem do campo pelos ciclos da vida na natureza. Através da ótica do personagem. a fome e a improdutividade. as principais características da agricultura castelhana até os anos 1960 eram as mesmas da primeira metade do século XIX. Segundo o próprio autor. ajudava os camponeses na luta contra as adversidades da região . Nini se converteu em uma espécie de oráculo de sua comunidade á medida que com suas previsões meteorológicas e com sua percepção da natureza. mas como recurso estrutural que constitui o literário. existente em Castela até a primeira metade do século XIX. este trabalho inscreve-se na perspectiva de Candido (2000) ao entender o social não como causa ou significado2. Interessa também para este estudo verificar de que modo as cicatrizes da Guerra Civil permeiam o inconsciente coletivo dos personagens. e surgiu o cacique. o protagonista cumpria em seu povoado um papel do qual o estado se ausentara. tratava-se de uma agricultura baseada centralmente na produção de cereais. o que desapareceria na vida do adulto que enfrentava as vicissitudes de um pós-guerra e de uma ditadura: Hoy más que nunca gusta el hombre de recuperar su consciencia de niño. de acordo com as . para a qual se utilizava uma tecnologia produtiva tradicional voltada para o mercado interno. não fosse a candura do olhar infantil. O presente estudo se dedica a desvendar o social por trás do literário. sobretudo o trigo. A preocupação ambiental de Delibes. O retrato da crise campesina castelhana em Las ratas Segundo Pérez-Díaz (1994). Por um lado. Las ratas apresenta a profunda relação do camponês espanhol com a terra. 1990.o solo pouco fértil. p. procurando entender a crise agrária dentro do contexto econômico do país e os problemas vividos pela população campesina 1. de evocar una etapa – tal vez la única que merece ser vivida – cuyo encanto. num relato existencialista e desolado. tendo como base a exploração do campesino. cuya fascinación sólo advertimos cuando ya nos ha escapado de entre los dedos… (DELIBES apud RODRÍGUEZ PUÉRTOLAS. Problemas esses literariamente suavizados pela sabedoria carismática do protagonista infantil e pelas crenças supersticiosas de um povo inconsciente do seu papel social e. além da denúncia do abandono político dos trabalhadores dos campos castelhanos. Na organização social agrária do século XX. Esses grandes latifundiários contratavam o serviço de trabalhadores sem terra que viviam no campo por jornadas. 115) castelhana tais como a apatia social. aquele que possuía a maior concentração de terra em uma determinada região (geralmente mais de 100 hectares).ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 119 pequenos trabalhos realizados para os agricultores e criadores de animais. por exemplo. o clima austero e a total falta de investimentos. além de outros problemas menos evidenciados. Delibes constrói uma visão autêntica e poética de uma realidade que seria insuportavelmente cruel. da qual depende sua existência. Por outro lado. e as consequências concretas desse acontecimento histórico para as condições da sociedade anos após o desfecho do conflito.

36). El señor Rosalino. o projeto de reforma agrária surgido no período da Segunda República (1931-39) foi invalidado durante o governo Franco.” (DELIBES. como hacían ellos. mitad por mitad. señora Clo e Pruden representam nessa pirâmide. y la última cuarta parte se la distribuían. Além da má distribuição das terras. manifestar frívolamente en su tertulia de la ciudad que “por lo que hacía a su pueblo. o vilarejo castelhano fictício criado por Delibes reproduz essa organização social exatamente como o descrito no estudo de Pérez-Díaz: Don Antero. 42) Delibes atribui ao personagem Don Antero o epíteto el Poderoso. Proprietários de 10 a 100 hectares. Por isso o personagem Don Antero se sente confortável para afirmar que em seu povoado a terra está ainda muito dividida. p. verões quentes e secos. el Poderoso. observa-se. os campesinos médios e pequenos conseguiam. puesto que utilizando la máquina. 2010.120 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS necessidades do plantio e da colheita. aliado à austeridade da natureza na região redundam no isolamento destacado no trecho. conforme resume o narrador: “En el pueblo. pois não conseguiam sobreviver apenas da terra e eram obrigados a realizar outras atividades. Pruden. 47) aos perdedores da guerra. las tres cuartas partes de la cuarta parte restante. O agricultor castelhano tinha de lidar com invernos rigorosos. é a subordinação do agricultor às intempéries do clima. doña Resu y la señora Clo sumaban. Os camponeses que possuíam menos de 10 hectares eram considerados marginais . Numa região que tinha como principal atividade econômica a agricultura. le contestó que el mal era para los pobres. a quien las adversidades afinaban la suspicacia. a total ausência de políticas públicas e investimentos para melhorar a condição de trabalho desses camponeses. por exemplo. personagem da obra que sintetiza a figura do agricultor incansável na luta contra as adversidades. Em Las ratas . republicanos. inclusive com maior ênfase. não sem dificuldades. 2010. o pastoreio. Esse esquecimento por parte do poder público. inclusive como jornaleiros. Doña Resu. geadas e nevascas. socialistas. las gentes maldecían de la soledad. outro problema enfrentado pelo campesinato castelhano e denunciado por Delibes em Las ratas. De acordo com Pérez-Díaz. comunistas. p. el Poderoso. A própria ideia de divisão de terras estava ideologicamente relacionada . poseía las tres cuartas partes del término. entre las dos. Esto no impedía a don Antero. blasfemaban y decían: ‘No se puede vivir en este desierto’. como é o caso de Antoliano. A mecanização agrícola. para garantir o sustento da família. el Pruden y el puñado de vecinos del lugar. (…) soltó una carcajada: ___ A voleo no siembran ya más que los mendigos y los tontos. os agricultores médios que sobrevivem da agricultura. lamenta não ter acesso à tecnologia diante da possibilidade de ter de ressemear os campos por falta de chuvas: Y el Pruden. a criação de animais ou a manufatura. indicando ao leitor de forma direta o lugar social que o mesmo ocupa no povoado: o de cacique. sobreviver exclusivamente da agricultura. p. ou seja. (DELIBES. Os demais campesinos. la sequía o la helada negra.” (DELIBES. que tinha em sua base aliada o apoio dos grandes proprietários de terra. aos quais Nini se refere como vecinos del lugar. bien poco costaba hacerlo. la tierra andaba muy repartida. chegava apenas para os grandes latifundiários que tinham como financiá-la. detentor da maior proporção de terras. y ante los nublados. anarquistas e membros de outros grupos políticos que lutaram pela república durante a Guerra. são aqueles que para manter suas famílias tem de trabalhar como jornaleiros em outras terras ou se dedicam a outros trabalhos como a caça. que além de agricultor é o marceneiro do lugar. através do relato de Delibes. aos traidores da pátria. irregularidades das chuvas. 2010. oscilações térmicas e aridez do solo.

si llueve como si no. se organizaron brigadas de voluntarios con el fin de convertir la escueta aridez de Castilla en un bosque frondoso. Entretanto. o plano era agora retomado pelo novo ministro da agricultura e. Ao referir-se a hombres nuevos. contratavam-se jornaleiros. 2010. p. Diante dessa otimista afirmação. os habitantes locais que conheciam os resultados da primeira tentativa de reflorestamento respondiam: “Sólo Dios hace milagros”. Somente a partir da década de 1960 foram introduzidos os arados modernos e o trator. por las inhóspitas laderas. No entanto. ¿Te das cuenta? Dejaremos de vivir aperreados mirando al cielo todo el día de Dios. (DELIBES. la azada al hombro. al. personagem que dá voz ao camponês consciente da impossibilidade do trabalho naquelas condições.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 121 Nesse trecho da narrativa. ao menos teoricamente. atraen las lluvias y forman el humus. No había tarea más apremiante y los prohombres decían: “Los árboles regulan el clima. ao assumir o Ministério da Agricultura entre os anos de 1951-57. Sendo a seca no momento do plantio e do desenvolvimento da plantação uma das principais preocupações dos agricultores castelhanos da época. Mesmo tendo sido negativos os resultados da primeira tentativa. porque o que era promessa de resgate da produtividade do campo desfez-se no primeiro verão. Em Las ratas esses trabalhadores vinham de Estremadura. Cuando el Pruden quiera agua no tiene más que levantar la compuerta y ya está. Rafael Cavestany tinha como projeto para sanar a aridez castelhana. 89). A colheita também era feita manualmente. os benefícios da recomposição vegetal para o clima e para o solo. 88-89) O projeto do reflorestamento já havia sido executado pelos republicanos durante a guerra civil através do trabalho de brigadistas voluntários. boa parte do cultivo era realizado com a ajuda de rudimentares arados como os utilizados no período romano. (DELIBES. o personagem Pruden menciona esperançoso um plano de irrigação elaborado pelo governo: Tomó al Nini nerviosamente por el pescuezo y le explicó confusamente algo sobre un plan de regadío de que hablaba el diario y que alcanzaría hasta el pueblo. Tão logo.. ao longo da década de 1950 esse plano de irrigação havia atingido menos de dois por cento das zonas mapeadas. De acordo com Pérez-Díaz. talvez o autor quisesse lembrar que ideias como a do reflorestamento surgiram no bojo da Guerra Civil Espanhola e da mente de homens afinados com o ideal republicano. p. ¡Arriba el campo!” Y todos los hombres de todos los pueblos de la cuenca se desparramaron ilusionados. p. 89). p. não restava aos agricultores como Pruden outra coisa que esperar dos céus o milagre da chuva. Dijo impulsivamente al niño. um plano de irrigação. y cuando la guerra. após meses de trabalho dos Segundo Barciela López et. (DELIBES. según se sentaba en el banco del fondo: ___ Date cuenta. Após um mapeamento. 2010. 2010. . com foices e trilhos tirados por mulas. o tierra vegetal. pues. De fato. talvez esses homens não conhecessem de fato o rigor climático do ambiente castelhano. porém secas que dependiam do projeto de irrigação para tornarem-se de fato produtivas. até os anos 1950 em Castela. e o de Rosalino que assume a voz do cacique e impassível. La repoblación forestal era la obsesión de los hombres nuevos. “dispuestos a convertir Castilla en un jardín” (DELIBES. 45) Outro projeto desse ministério foi o de reflorestamento. aunque ahora eran empleados del Estado dedicados a la ardua tarea de la repoblación forestal. Hay. Pero llegó el sol de agosto y abrasó los tiernos brotes y los cerros siguieron mondos como calaveras. intelectuais que conheciam. Em Las ratas Delibes narra o processo de replantio florestal em Castela: Antes hicieron esto en Torrecillórigo. 2010. apenas a las veinticuatro horas de estallar. que plantar árboles. Nini. zomba dos agricultores que ainda semeiam de forma primitiva. Hay que hacer la revolución. Delibes opõe dois discursos antagônicos – o de Pruden. para essa segunda etapa do trabalho. foram declaradas zonas de interesse nacional as áreas agricultáveis.

impedían el acceso de las ovejas a las colinas y les atribuían toda clase de vicios. Nesse momento. Ainda que o saber camponês fosse empírico. Em Las ratas Delibes aponta as principais dificuldades enfrentadas cotidianamente pelo campesino castelhano durante a crise agrária dos anos 1950. p. desde antes da Guerra Civil Espanhola os camponeses começaram a reivindicar suas pautas econômicas e sociais. poeticamente. contratante dos serviços dos jornaleiros. p. rebrillaban las charcas. As precipitações climáticas e as mudanças que elas provocam no meio ambiente são descritas com a poeticidade e a sensibilidade de quem conhece com propriedade a paisagem castelhana. entre las espigas decapitadas. entre as quais a da reforma agrária. 91) popular e se repetiria como no fragmento do discurso dos personagens delibesianos. se acostaban mansamente sobre el lodo. (DELIBES. A trechos. Terminada a forte chuva.”(DELIBES. comparando-os a seres humanos recostados ao solo. Ante cualquier desaguisado la gente decía: ___ Habrán sido los extremeños. decapitados e cadavéricos. Segundo PérezDíaz. No entanto. rígidos sobre los granos de trigo y los cascabillos desparramados. 2010. arracimados desordenadamente por la violencia cambiante del ciclón. desapareceria a figura do cacique. 2010. na figura do jornaleiro. o protagonista contempla a plantação destruída: Los trigos. lê nos sinais da natureza e vinda de uma forte chuva de granizo que aniquila os campos ás vésperas da colheita do trigo.122 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS estremenhos. se a terra fosse dividida de maneira equitativa entre as famílias camponesas. Após dias de secura e calor intensos. a falta de investimento e crédito e os projetos políticos ineficazes. o desfecho conhecido dos agricultores castelhanos repetiu-se ao início do verão. E assim. Como profundo conhecedor de Castela e de sua gente. A narrativa que começa cronologicamente com o início do ciclo agrícola no outono. não poderia ser ignorado por aqueles que detinham o saber científico. Embora tenha sido publicada em 1962. o oráculo do clima castelhano. uma mão-de-obra barata a serviço do grande latifúndio. Os pequenos camponeses viam. entre a má distribuição da terra. o autor vai deslindando a tênue margem que separa ou vincula a denúncia social e a literatura. Delibes não só critica políticas públicas fracassadas como também confronta o saber científico com o saber popular. O castelhano não era amistoso à vinda dos trabalhadores estremenhos e no inconsciente coletivo se construíam todo tipo de estereótipos negativos em torno aos forasteiros: Pero en el pueblo no querían a los extremeños porque estimaban su labor inútil. devido ao forte sentido de comprometimento crítico de Delibes ao revelar a difícil condição do camponês . o autor resgata a figura do homem do campo como aquele que melhor entende o seu habitat. 179) Talvez essa rejeição pelos trabalhadores jornaleiros vindos de outras regiões do país tivesse uma explicação social mais profunda. Las ratas nos parece ser um romance ainda arraigado ao conceito de novela social espanhola dos anos 50. esse trecho confronta não apenas saberes como também culturas. Nini. Por los caminos y junto a las linderas yacían los cadáveres de los trigueros y las alondras. permaneceria de forma velada no inconsciente Delibes constrói a imagem da perda da colheita por meio de personificações que humanizam os cereais. Durante su estancia los nativos disfrutaban de una absoluta impunidad. termina com a chegada do verão e os riscos que a estação traz consigo. nenhuma vicissitude impressiona mais o leitor que a impotência do trabalhador perante a natureza adversa. Com tudo. quando a ideia era a de que cada trabalhador tivesse uma pequena porção de terra na qual trabalharia apenas a sua família. Esse enfrentamento entre jornaleiros e pequenos agricultores existente desde antes da guerra. Ora.

María Inmaculada e MELGAREJO MORENO.ahistcon. utiliza-se o termo tradicional para definir o sistema agrário espanhol de meados do século XIX a meados do século XX. CANDIDO. . Barcelona: Destino. RODRÍGUEZ PUÉRTOLAS. Carlos.pdf. Queiroz. Miguel (2010): Las ratas. Notas 1 Jornal publicado em Valladolid até os dias atuais. Julio e ZAVALA. PÉREZ-DÍAZ.asp-research. Segundo Pérez-Díaz (1994). São Paulo: T. Iris (1974): Historia social de la literatura española III. Nesse romance. 51-96. Disponível em http://www. BLANCO AGUINAGA. Acessado em 07/08/2012. o autor faz da literatura um instrumento de ação social capaz de fazer com que as autoridades políticas da época voltassem seu olhar para uma região do país esquecida e isolada. nº 21. Antonio (2000): Literatura e sociedade . campesinos y agricultura en Castilla entre mediados del siglo XVI y mediados del sig lo XX. Em Ayer. Miguel Delibes iniciou seu trabalho no periódico a partir de 1940 chegando a ser o diretor de 1958 a 1963.com/pdf/ Asp5a. Víctor (1994): Transformaciones de una tradición. Madri: Castalia. Carlos (Coor. pp. 2 3 Palavras tal qual empregadas por Antonio Candido em Literatura e sociedade.). Joaquín (1996): La intervención del Estado en la agricultura durante el siglo XX.org/ docs/ayer/ayer21_03. A. Acessado em 07/08/2012. Disponível em http://www. LÓPEZ ORTIZ. Referências bibliográficas BARCIELA LÓPEZ.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 123 castelhano. El Estado y la modernización económica.pdf. DELIBES.

como em Poesias. a maneira pela qual se viabiliza a possibilidade de um texto escapar a uma singularidade que muitas vezes se torna insatisfatória a seu deciframento ou a sua compreensão. decadencia y derrota de José López Rega” (p. “El Brujo”. ou seja. “Ascenso. prólogos etc.. as quais discorrem sobre o peronismo. e previamente ditadas pelo general Juan Domingo Perón a López Rega. Esse artigo revela-se como indicativo das formas por intermédio das quais pode ocorrer a transtextualidade. unindo um texto a outro texto que fala dele sem citá-lo e inclusive. advertências.124 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS QUANDO O MET ATEXT O DE TOMÁS EL OY META TEXTO ELO MAR TÌNEZ AUTENTICA AS VID AS DE PERÓN VIDAS MARTÌNEZ André Luis Mitidieri UESC Centramos atenção nas coletâneas de artigos jornalísticos de Tomás Eloy Martínez intituladas Las memorias del General (1996) e Las vidas del General (2004). fazendo com que se considere as relações. sem nomeá-lo. ou seja. Publicadas na revista . uma relação de copresença entre dois ou mais textos. intertítulos. 179-188) retrata histórias cotidianas do exílio de Perón e sua extravagante relação com o secretário e mordomo José López Rega. 2) pelas relações com os paratextos: títulos. concebido tanto como o movimento político nascido depois do golpe de Estado de 1943. e a identidade política de quem o invoca quanto como uma proposta de constituir a nação argentina. 4) arquitextualidade: articula uma menção paratextual (subtítulos e títulos. 1985) e Santa Evita (MARTÍNEZ. ilustrações etc. com outros textos e textualidades (Cf. a presença efetiva de um texto em outro. 1995). epígrafes. é por excelência a relação crítica. cifradas ou expressas. prefácios. epílogos. triunfo. notas de pé de páginas. relação geralmente denominada comentário. 3) pela metatextualidade. os romances La novela de Perón (MARTÌNEZ. GENETTE. no limite. 5) hipertextualidade: responsável por unir um texto B (hipertexto) com um texto anterior A (hipotexto) no qual se enxerta de uma maneira distinta à do comentário.). A transtextualidade ocorre de diferentes modos: 1) pela intertextualidade. assim como Las memorias del General e Las vidas del general constituem hipertextos de um hipotexto chamado “Las memorias del semanario Panorama”. gravadas por Martínez durante quatro dias. finais. Ensaios etc. notas à margem. 1989). Integrando a última coletânea. subtítulos. Dessa forma.

ao mesmo tempo. agora voltam a ser republicados. 195-218). 195-218). A título de exemplo. Todas essas relações intertextuais e paratextuais. instauram consideráveis mudanças que se reiteram na relação arquitextual. 1996). loc. A mesma coletânea passa a ser intitulada Las vidas del General: memorias del exilio y otros textos sobre Juan Domingo Perón (MARTÍNEZ 2004)1 em nova edição. integra a coletânea Las memorias del General (MARTÍNEZ. 9-15) no qual o autor infere. 1970. insere dois outros capítulos: “Perón y sus novelas” (p. 123-134) e “La tumba sin sosiego” (p. cit. contudo. é republicado ao final do mesmo livro. na edição precedente. Enquanto professor de literatura em universidades norte-americanas. p. intertextual e paratextual são elas mesmas indicativas da relação metatextual. No mesmo periódico. Reiterando os vínculos entre Las memorias del General e o primeiro dos romances mencionados. p. 13-122). O texto fonte. menos significativa. figurando em sua página de rosto. dentre outras considerações. p. No mesmo prólogo. As relações arquitextual. configura-se simultaneamente como uma relação arquitextual e paratextual que parece fazer mais jus ao caráter plural das identidades no mundo contemporâneo. MARTÍNEZ. além das (des)memórias de Perón. O subtítulo dessa publicação – “memorias del exilio y otros textos sobre Juan Domingo Perón”. .). 135-170). acompanhado de respectivos documentos. constantes na edição anterior. 20) quando. que o título recente lhe parece mais apropriado por refletir nem tão somente os relatos com os quais Perón desejou inserir-se na história. 1996. o jornalista edita fragmentos relacionados àquele texto: sobre Evita. essas “memórias” englobam os 50 primeiros anos da vida do expresidente argentino. aliadas às contracapas de ambas as edições. se sublevar contra a vontade de Perón (Cf. mas aos dias 21 e 28 de abril. 11). p. acrescida de um prólogo (p. hipertextual. o intelectual argentino afirma que prepara Las vidas del General esperando. Ainda informa que. a partir do momento em que o autor substitui a palavra “Memorias” (constante na edição de 1996) pelo termo “Vidas” no título da obra lançada a público em 2004. Insatisfeito com as lacunas encontradas no discurso de Perón. da forma crítica como o autor encaminha seus textos ao leitor. como “Las memorias del semanario Panorama” (MARTÍNEZ 1996. fornece informações a respeito de quatro outros textos que. “Ascenso. 14). comporta entre seus outros textos. diz suprimir o que considera um pleonasmo: o capítulo “Las memorias del semanario Panorama ” (MARTÍNEZ. a morte do sindicalista Augusto Vandor e as ideias de Perón sobre o que denominava “a liberação dos povos”. 13-122) que. Outra alteração.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 125 argentina Panorama a 14 abr. Martínez não ignora os desenvolvimentos teóricos acerca desse tema. o autor procede a investigações e à reconstrução de diálogos. talvez inutilmente. MARTÍNEZ 1996. O prefácio utilizado em Las memorias del General passa a servir de introdução ao capítulo “Las Memorias de Puerta de Hierro” de Las vidas del General (MARTÍNEZ 2004. Dentre outras mudanças que ocorrem nesse paratexto. na nova versão. que dialogue com todas as ficções que ele havia escrito sobre o peronismo e possam encerrá-las. dizia respeitar e. quer dizer. 2004). mas também os outros relatos dissidentes que completam ou contradizem tal imagem (p. Mais adiante. o subtítulo do livro Las vidas del General (MARTÍNEZ. importa mencionar o fragmento no qual o jornalista afirma que “este libro restaura los diálogos de Puerta de Hierro en el orden y del modo como sucedieron ” (p. reelaborando o que nomeia como “desmemorias” no capítulo “Las memorias de Puerta de Hierro” (p. refere-se à omissão de que o corpo completo das “Memórias” se originou daqueles diálogos (Cf.

6 Em 1971. a voz autobiográfica do jornalista. 18). a instância autoral inclui. no exílio em Madri”. era conhecido como empregado para tarefas domésticas e editor de uma revista de tiragem limitada. posso dizer que demorei nove anos para voltar [. com esperança de retornar em poucas semanas. referendando o indício paratextual que tem valor contratual (CF. Caso não conte com uma fugaz semana em agosto de 1975. Viajei à França. Martínez informa que os escritos de dom José interpretavam o destino dos seres humanos “como um diálogo entre o poder dos perfumes e o poder das cores. Pela memória de Tony Navarro. Quando esse mandou a esposa a Mendoza em 1965.4 Por meio de seu narrador. Sua militância peronista parece iniciar aquele ano. O metatexto crítico de Martínez assim é praticado com uma parte. como secretário ou assistente. Elias.5 López Rega é apresentado como um rosto anônimo entre aqueles que rodeavam Perón em 1966. uma organização parapolicial que era financiada com fundos do Ministério de Bem-Estar Social e que. decadencia y derrota de José López Rega” (p. submeter-se ao simultâneo ensino de Antúlio. que assim declara: No final de abril de 1975. a quem quisesse 3 Em 1963. p. a Triple A. escrito por “el Brujo”.. a quem a lentidão de suas ascensões no escalão policial induziu-o a pedir para ser reformado em 1962. e depois como um cabo disciplinado e ambicioso. 179-188). dois dias depois que o “Bruxo” viu-se obrigado a renunciar e par tiu ao Rio de Janeiro como embaixador extraordinário da presidenta Isabelita Perón. aparentemente. de intertexto citacional de apoio. fez explodir uma bomba lança-panfletos em frente ao edifício da editora Abril. na qual o esotérico aparecia como integrante circunstancial da equipe de vigilância presidencial. Na mesma direção. um dos herdeiros de Perón. o então cabo reformado pediu a Alberte para servir como custódia de Isabel. Alguns . em uma das vias de acesso à Costaneira Norte de Buenos Aires. por volta de 1950. para apoiar o candidato a governador Ernesto Corvalán Nanclares.2 alcançar uma compreensão global do universo. fornece outros dados através de uma biografia reconstruída por membros do Clube de Correspondentes de Madrid. GENETTE. Buenos Aires. Abel. Moisés e Maomé”. Ainda não associado “ao paroquiano das ciências ocultas que vivia em Madri por um ano à procura da aprovação do General para sua difusa doutrina espiritualista. telefonemas e pedidos de audiência dirigidos ao General passam pela anuência do “Bruxo”. respondia às ordens de José López Rega. Alem. Executando o retrato biográfico daquele protagonista quase iletrado. que teceria o iluminismo Rosacruz e alquimia de Paracelso com os rituais brasileiros de Umbanda”. 1989. o escritor insere a própria voz autobiográfica para dizer que ouviu pela primeira vez o nome de José López Rega quando tomou conhecimento do livro Astrologia esotérica. quando se vinculou com alguns membros da loja maçônica Anael e instalou uma pequena imprensa próxima à ponte ferroviária da rua Salguero. sem talento aparente para a política. praticamente todas as mensagens. na esquina de Paraguai e Leandro N. e que propunham. da Associated Press. Desobedeci à advertência e tomei somente algumas precauções.. “Conjetura-se que foi então quando a convenceu de seu desinteresse patriótico e obteve consentimento para colaborar com ela. ao começo do texto. Dez dias mais tarde. consideravelmente frequente.]. artigo escrito em Caracas e publicado no jornal La Opinión em 22 de julho de 1975. López Rega havia imprimido alguns panfletos do peronismo clandestino e conquistado a confiança do major Bernardo Alberte. sustentada por avisos de militantes peronistas. estalou uma segunda bomba e recebi ameaças mais rotundas no apartamento onde morava e em um restaurante onde estava almoçando.126 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS triunfo. Os libelos me declararam inimigo da Argentina e me concediam quarenta e oito horas para partir ao estrangeiro.

mas o secretário (a quem o narrador oferece voz). a crença de que o destino da humanidade seria decidido por claves musicais. trata-se da “metalepse” que. que carecia de escrúpulos na relação social e de senso do ridículo. e na qual sua presençã é solicitada como narradorpersonagem: “Não sou o único a quem se definiu em Madri como um fazedor de milagres. não raro toma para si o envelope.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 127 peronistas. Também não sou o único que começou a levá-lo a sério quando já era muito tarde”. outra vez destacada na narrativa. da qual seria ele o profeta e o pontífice. Devo dizer que a negou e atribuiu sua invenção. contudo. O escritor confirma essas pretensões místicas quando soma seu testemunho à história primeira que ele mesmo narra. quando o vi pela primeira vez. mas significativa. não duraria muito tempo. literalmente. 7 A relação metatextual que se vai confirmando não prescinde de um elemento típico das narrativas ficcionais. o hábito da escrita. Cada vez sou menos López Rega e cada vez sou mais a saúde do General’”.10 Com uma ideologia esdrúxula. consiste em toda intrusão do narrador ou do narratário extradiegético no universo diegético (ou de personagens diegéticas num universo metadiegético etc. quando mantivemos um diálogo fugaz junto à Quinta 17 de Outubro”. seu único prazer. a partir dessa fonte. deixam para entregar a correspondência quando se despedem do ex-mandatário.). publicada em Astrología estérica junto a conjeturas místicas sobre Perón.9 O narrador recorre a informes detidos em 1972 por um dos correspondentes de Madri para comunicar que o secretário do ex-presidente tinha um plano para transformar a Argentina num campo de cultivo mágico. foi de qualquer maneira inferior ao personagem delirante e descarado que haviam prometido as fábulas madrilenhas.12 A informação de que “el Brujo” teria utilizado o conhecimento adquirido nos arquivos e nas correspondências de Perón a fim de amedrontar peronistas que deixaram rastros escritos de sua deslealdade ou torpeza é atribuída a alguns de seus adversários. cidade brasileira fronteiriça com a Argentina. A ambição por bens materiais. segundo ele. provém uma possível resposta: “‘Eu sou o para-raios que detém todos os males enviados contra esta casa. de cuja voz. o “milagreiro” deteve um poder que. posteriormente. todos esses dados são antecedidos no texto pela breve. a metalepse autobiográfica de Martínez confere autenticidade à narração: “Perguntei a López Rega sobre a veracidade daquela história. em 1970. a fim de transferir o peso político e o carisma de Perón a si mesmo e. ou inversamente. Em vez do megalomaníaco e intrometido Rasputin anunciado por seus detratores. capaz de ressuscitar os mortos e ler os pensamentos alheios.11 O cotidiano do “Bruxo” no escritório da Gran Vía em Madri. “com o pretexto de que ‘o General tem muitas coisas para atender e não convém abusar de sua saúde’”. ao ódio que lhe professavam ‘alguns inimigos bruxos’”. é informada por Martínez a partir de correspondentes estrangeiros que.8 A ocasião permite a Tomás Eloy Martínez levantar uma hipótese a respeito da tolerância de Perón para com o mordomo. capaz de ir mais longe do que sonhava. A gravidade estaria no fato de ele impor ao produto o nome de Perón e sugerir que esse recomendaria suas virtudes. tomada biográfica na qual o testemunho de Martínez reitera o procedimento autobiográfico anteriormente indicado: A impressão que me causou. As lembranças do escritor alcançam o protagonista no mês de “junho de 1972. maciço como um touro. assegura: “O certo é que o domínio dessa enorme . O autor-narrador. reuniram dados sobre uma empresa de engarrafar água em Uruguaiana. descobri uma espécie de sossegado bodegueiro de subúrbio. segundo Gérard Genette (2004). Mais uma vez. seu ponto frágil. sabendo de tal vigilância. fundar uma religião para o Terceiro Mundo.

de ordem étnica. ________ (1995): Santa Evita. porque a imprensa. a . Tomás Eloy (1996): Las memorias del General. a derrota do “Bruxo” talvez encontrasse entre seus motivos. os partidos político. integrando a coletânea Las memorias del General. o povo desesperado. o derrubou de maneira póstuma. os empresários e. de acordo com as convicções e as palavras de López Rega. Buenos Aires: Aguilar. política ou religiosa. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica. decadencia y derrota de José López Rega”. Nesse artigo. sobretudo. foi uma das chaves de seu poder político”. López Rega acreditou no isolamento do poder e na necessidade de que o país se colocasse a serviço de suas convicções. Madrid: Altea. Você com quem quer estar? Com a massa ou com o que amassa?”. que forma parte do amplo cenário psicossocial contemplado pelas referidas obras de cunho jornalístico e memorialístico. se uniram e conciliaram para dizer-lhe basta.15 Referências bibliográficas GENETTE. Alfaguara. se for verdade – pois é verdade – que je sempre é também um outro”. o secretário acreditava em um Espírito Supremo que outorgaria poderes a alguns seres humanos e a outros. triunfo. como também em outros artigos que integram Las memorias del General e Las vidas del General. MARTÍNEZ. De acordo com a parte final do artigo que. o excesso de fé em seus poderes individuais: Antes de regressar à Argentina. aos inimigos. Buenos Aires: Biblioteca del Sur. o fanatismo e a intolerância daqueles tempos alertam-nos sobre os riscos dos atuais fundamentalismos. ________ (1985): La novela de Perón . nem Deus nem sabe. pois há “homens que são escolhidos por Deus e outros. além da cobiça. Gérard (2004): Metalepsis : de la figura a la ficción. A esses. “Ascenso. Traducción por Luciano Padilla López. Taurus. consistindo em discurso secundário que confirma o artigo por ele protagonizado. caberia tratálos com rigor. 13 arrogância. mas que integra uma coletânea na qual o papel de protagonista é ocupado por Perón. Buenos Aires: Planeta. Gérard (1989): Palimpsestos .16 Participante assíduo nas reuniões políticas da Puerta de Hierro aproximadamente desde 1969. ________ (2004): Las vidas del General . Foi o próprio Perón quem. os sindicatos. Taurus. e que somente uma política de conciliação e unidade nacional poderia salvá-lo. de cuja existência. não. somente quando se fizer o novo inventario das ruínas. somada a sua infalível memória de policial bem adestrado. haverá possibilidade de saber se essa voz de mando não teria se pronunciado tarde demais. Planeta. Buenos Aires: Planeta. Presentes não apenas no texto aqui estudado. O metatexto crítico autentica as configurações que esse havia estabelecido para sua obra – as (des)memórias de Perón ao lado de outros textos. GENETTE. Perón havia pronunciado que o país estava em ruínas. 14 É também considerado metaléptico esse enunciado que o mordomo havia proferido acerca de si mesmo. No entanto. é depois eliminada de sua reedição em Las vidas del General. de certo modo. Alfaguara. Ao contrário.128 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS massa informativa. a perspectiva biográfica voltada ao secretário de Perón é compartilhada com as intrusões autobiográficas de Martínez. Altea. a vida do general junto a outras vidas – tomando a forma de uma metalepse que “está no núcleo íntimo de tudo o quanto cremos poder dizer ou pensar a respeito de nós mesmos.

hacia 1950. Tampoco soy el único que empezó a tomarlo en serio cuando ya era demasiado tarde” (MARTÍNEZ. 4 “como un diálogo entre el poder de los perfumes y el poder de los colores. 2004. a quien la lentitud de sus ascensos en el escalón policial indujo a pedir retiro en 1962. literalmente. p. al odio que le profesaban ‘algunos brujos enemigos’” (MARTÍNEZ. p. hizo estallar una bomba lanzapanfletos frente al edificio de la editorial Abril. Viajé a Francia. 10 “No soy el único ante quien se definió en Madrid como un hacedor de milagros. p. loc. é eliminado da coletânea Las vidas del general.). descubrí más bien a una especie de sosegado almacenero de suburbio. Abel. cit. en una de las vías de acceso a la Costanera Norte de Buenos Aires” (Id. 9 "‘Yo soy el pararrayos que detiene todos los males enviados contra esta casa. p. la Triple A. 3 “al feligrés de las ciencias ocultas que vivía en Madrid desde hacía un año buscando la aprobación del General para su difusa doctrina espiritualista. con la esperanza de regresar a las pocas semanas. 6 “Se conjetura que fue entonces cuando la convenció de su desinterés patriótico y obtuvo consentimiento para colaborar con ella. cit. cuando se vinculó con algunos miembros de la logia Anael e instaló una pequeña imprenta cerca del puente ferroviario de la calle Salguero. fue de todos modos inferior al personaje delirante y cachafaz que habían prometido las fábulas madrileñas. loc. o explosivo não teria sido colocado no veículo pela embaixada da Argentina na Venezuela e sim pelo chefe do Serviço de Inteligência daquele país. 116-119). Cada vez soy menos López Rega y cada vez soy más la salud del General” (MARTÍNEZ. someterse al magisterio simultáneo de Antulio. p.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 129 Notas 1 O documento n. 186). Ibid. Diez días más tarde. que entretejía el iluminismo Rosacruz y la alquimia de Paracelso con los rituales brasileños de Umbanda” (Id. p. al parecer. Debo decir que la negó y que atribuyó su invención. 2004. 184). 182-183). 5 "como circunstancial integrante del equipo de vigilancia presidencial. 184). capaz de resucitar a los muertos y leer los pensamientos ajenos. Su militancia peronista parece arrancar aquel año. Elías. 182). cuando mantuvimos un diálogo fugaz junto a la entrada de la quinta 17 de Octubre” (MARTÍNEZ. 12 "La impresión que me causó. p. p. . sin embargo. 11 "Pregunté a López Rega sobre la veracidad de aquella historia. 7 "con el pretexto de que ‘el General tiene demasiadas cosas que atender y no conviene abusar de su salud’” (Id. con la salvedad de una fugaz semana en agosto de 1975 […]” (MARTÍNEZ. Ibid. 2004. 182). una organización parapolicial que se financiaba con fondos del Ministerio de Bienestar Social y que. Los libelos me declararon enemigo de la Argentina y me concedían cuarenta y ocho horas para marcharme al extranjero.). p. p. Desobedecí la advertencia y sólo tomé algunas precauciones. a quienes quisieran alcanzar una comprensión global del universo. y que proponían. quando de seu exílio em Caracas. 8 “junio de 1972. respondía a las órdenes de José López Rega. Alem. Ibid. y luego como un cabo disciplinado y ambicioso. macizo como un toro. 20. Ao contrário do que afirmava o general. en el exilio de Madrid” (Id. cuando lo vi por primera vez. 2004. Trata-se do informe sobre uma bomba que destruiu o carro de Perón em 1957. estalló una segunda bomba y recibí amenazas más rotundas en el departamento donde vivía y en un restaurante donde estaba almorzando. 181). que carecía de escrúpulos en la relación social y de todo sentimiento del ridículo” (MARTÍNEZ. Tardé nueve años en volver. constante nessa seção de Las memorias del General (MARTÍNEZ. 2 “A fines de abril de 1975. 2004. como secretario o asistente. Moisés y Mahoma” (MARTÍNEZ. en la esquina de Paraguay y Leandro N. 1996. 183). Ibid. 185). En vez del Rasputín megalómano y entrometido que anunciaban sus detractores. Buenos Aires.

loc. 144). los partidos políticos. se unieron y conciliaron para decirle basta. los empresarios y. porque la prensa. 16 “está en el núcleo íntimo de todo cuanto creemos que podemos decir o pensar respecto de nosotros mismos. en cierto modo. p. 2004. . cit. p. p. el pueblo desesperado. Perón había predicado que el país estaba en ruinas. sobre todo. los sindicatos. y que sólo una política de conciliación y unidad nacional podía salvarlo. 187). fue una de las llaves de su poder político” (MARTÍNEZ. A la inversa. 14 "hombres que son elegidos por Dios y otros de los que Dios ni se entera que existen. lo derrocó de manera póstuma. ¿Usted con quién quiere estar? ¿Con la masa o con el que amasa?” (MARTÍNEZ. si es verdad – pues es verdad – que je siempre es también otro” (GENETTE. 2004. 15 "Antes de regresar a la Argentina. sumada a su infalible memoria de policía bien adiestrado.). López Rega creyó en el aislamiento del poder y en la necesidad de que el país se pusiera al servicio de sus convicciones. Pero sólo cuando se haga el nuevo inventario de las ruinas. podrá saberse si esa voz de alto no se pronunció demasiado tarde” (MARTÍNEZ.130 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 13 “Lo cierto es que el dominio de esa enorme masa informativa. 129). Fue el propio Perón quien. 1996.

o cinema também foi utilizado como meio de propaganda ideológica sobre as massas. A censura atuou de forma incisiva nas produções cinematográficas. e produziu uma obra crítica à . devido ao fato de atingir um contingente enorme de pessoas. do cineasta Juan Antonio Bardem. Certamente isso não foi diferente no regime franquista. e sob a vigilância da censura. através das câmaras perspicazes de Antonio Bardem. posto o seu poder de fascínio e sua vertente influenciadora. Assim. pretende-se apresentar aqui. mutilando obras e ditando regras tanto políticas quanto religiosas. O objetivo é tentar vislumbrar. a produção cinematográfica de transposições literárias tomou uma proporção ainda maior que nos anos anteriores.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 131 CALLE MAYOR E SEÑORITA DE TREVÉLEZ SOB A DITADURA FRANQUISTA Angela dos Santos FATEC – ZL e SCS O cinema e a técnica cinematográfica ganham corpo nas primeiras décadas do século XX. cujo enredo é baseado em uma adaptação livre da obra La Señorita de Trevélez (1916). em vista de manter o status quo . de que maneira o cineasta conseguiu subverter a ordem. a moral e os bons costumes. uma análise do filme Calle Mayor (1956). Neste sentido. na medida do possível. ao mesmo tempo em que encomendavam obras para propagar seus ideais e impor sua forma e conteúdo. tornandoo um instrumento de propaganda política. do dramaturgo Carlos Arniches. contribuiu de forma contundente para a difusão dos ideais franquistas. passando a ser caracterizado como uma técnica que permitia movimentos de massas. Não era raro. No plano das possibilidades. Neste período. Especialmente no pós-guerra. essa se torna uma mídia explorada com fins de mudança social. que os regimes totalitários exercessem sobre os filmes uma censura asfixiante. Mas o inverso também ocorreu. segundo Walter Benjamin (1985). essas técnicas de reprodução da arte. poderiam promover a democratização no campo das artes. foi crucial para que o cinema e a literatura espanhola fossem diretamente afetados em suas produções. com o apogeu da indústria cinematográfica. A partir desta problemática. no início do século. o silêncio imposto nos longos anos de ditadura de Franco.

As duas obras em análise. em sua maioria peças cômicas. 1998. Ele narra um drama causado por homens que. com intenção evidente de caricaturar o madrileno. mas estaciona neste ponto. Suas personagens são apresentadas com características singulares. preferência de certo tipo de público.132 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS sociedade de sua época. Sem dúvida. jovem escolhido pelos amigos fanfarrões para ser o suposto pretendente de Flora. perpetuam as condições da mulher frente à sociedade patriarcal. Também merece atenção Numeriano Galán. aplicando um léxico próprio. Já não possui o tom jocoso e não se emprega o jogo de palavras que caracteriza a obra teatral. a transposição é feita somente através do argumento e converte o cômico em tragédia. . vítimas de uma cruel brincadeira engendrada por jovens ociosos. já que o trabalho de Arniches é reconhecido como uma comédia grotesca. pois o engano é perpetuado e Flora de Trevélez segue em completa ignorância dos fatos. a esta comicidade própria da farsa está presente o drama que vivem os irmãos Trevélez. utilizando jogo de palavras. ainda que residual ou mínima. Criando assim. Ela sacrificou um possível matrimônio pela felicidade de sua irmã. principalmente o conhecido género chico. e é considerado o criador da “tragédia grotesca”. de Edgar Neville. A obra de Arniches relaciona características regionalistas. Qualificada pelo autor de “farsa cómida en tres actos”. Sua obra está a meio caminho entre a tragédia e a comédia. na impossibilidade. p. irmão de Flora. É bastante próxima à obra de Arniches. uma linguagem própria que logo é repassada ao povo. . Ele revela um conflito dramático relacionado ao cotidiano de uma pequena cidade. proliferam nos teatros apresentações de obras de todo tipo de gênero. mas não quanto ao gênero. para fugir do tédio de uma cidade. tendendo ao sentimentalismo e ao melodrama. com fins humorísticos. que enchem as salas de teatro. pintarrajada e sonriente” (ARNICHES. simplesmente para evadir-se do tédio da vida quotidiana da pequena cidade. tecendo uma odiosa brincadeira sem precedentes. e D. que é sem dúvida a personagem de maior relevância. tem o mesmo título da obra teatral.94). suprimindo sílabas. membros de um cassino provinciano. O argumento desta tragédia grotesca apresenta um conflito dramático relacionado ao cotidiano e protagonizado por heróis igualmente grotescos que tramam brincadeiras de mau gosto. Trata-se de encontrar. Comediógrafo e excelente pintor de ambientes populares. produzida às vésperas da guerra civil espanhola em 1936. Carlos Arniches foi um mestre na arte de escrever obras deste gênero. na qual se percebe que não há a pretensão de uma crítica severa à sociedade. A obra em análise de Arniches foi escrita e levada à cena em plena Guerra Mundial. uma solteirona de idade avançada de classe burguesa “la cara ridícula. uma teatral e a outra fílmica. São elas: Flora de Trevélez. que se aproximam do folclórico. soube recriar de maneira exemplar a riqueza da linguagem popular de Madri. A primeira. Dada a importância desta obra. de fala peculiar. associado ao costumbrismo e ao humor. Nesse período. Na obra fílmica. a possibilidade. Vale destacar as principais personagens da peça. tornando-o um verdadeiro “vício nacional”. são próximas quanto ao argumento. foram realizadas duas versões cinematográficas. Gonzalo de Trevélez. La Señorita de Trevélez é considerada a obra mais relevante de sua produção teatral.

Um fato que fornece a dimensão do momento político merece ser pontuado. ele tomou o argumento da obra teatral e transformou-a em uma tragédia. que tem como intérprete a norte-americana Betsy Blair. los anuncios en las paredes o una determinada manera de sonreír y hablar no debe ser forzosamente una bandera concreta para envolver a estos hombres y mujeres que va a empezar a vivir delante de nosotros (BARDEM. mas Bardem soube magistralmente revelar aspectos políticos e religiosos. Juan Antonio Bardem realiza o filme Calle Mayor . La historia que está a punto de comenzar no tiene unas coordenadas geográficas precisas. Durante a rodagem do filme. a partir de 1943. e a atriz. dando ênfase à visão de uma pequena burguesia local. O motivo principal é ver e serem vistos. Una pequeña ciudad de provincias. convidada pelo próprio diretor para protagonizar Isabel. para os padrões da época. Isabel é uma solteirona e. A censura encarregou-se de que o diretor fizesse um prólogo. pois era obcessão da censura de que qualquer filme não revelasse a localização e a época das histórias contadas. Vê seus sonhos de se casar prestes a se realizem quando percebe as investidas de Juan. Bardem evidentemente teve problemas com o roteiro. a catedral. que são maioria e vão acompanhadas por outras amigas ou alguém da família. É o que levantaremos nesta análise. Só assim ele conclui o filme. Bardem é detido. Na verdade. principalmente as mulheres solteiras. Nessa transposição. tais como o cassino. em cidades provincianas. a indústria cinematográfica enfrenta uma censura feroz e. tão comum à época. sob forte pressão do Estado para que o filme prossiga com outro diretor. Una ciudad cualquiera en cualquier provincia de cualquier país. anunciando precisamente: Aquí abajo está la ciudad. Esta obra é uma coprodução hispano francesa. político e social. em condições pouco convencionais. Calle Mayor . . dos bons costumes. as personagens perdem as características grotescas e assumem um papel mais fidedigno da realidade. A cidade indefinida no filme é na realidade Logroño. Parte dessa ambientação de Juan consiste na aproximação a um grupo de jovens acostumados a zombar das pessoas. Durante os longos anos de ditadura. o bairro velho e a calle Mayor de Palencia. em 1956.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 133 Anos depois. quanto ao seu conteúdo moral. El color del pelo o la forma de las casas. Possivelmente foi graças à intervenção da coprodutora francesa e a esta recusa de Betsy Blair que o diretor conseguiu ser liberado algumas semanas depois. se recusa a continuar as filmagens sem Bardem. como se o expediente pudesse ser uma fábula. evidenciando os costumes de uma pequena cidade. em plena ditadura franquista. não é mais uma jovem na idade de “buen merecer”. ou melhor dizendo. 1956). sendo possível vislumbrar diversos elementos. é uma transposição livre de uma obra teatral. daquela sociedade. a um sistema de classificações que tenta controlar a indústria por meio de subvenções que servem à ideologia do regime franquista. com brincadeiras nada honrosas. sem espaço e tempo próprios de uma sociedade. na qual o diretor não se preocupou em seguir a história linear do gênero cômico. A principal tarefa da Junta de Clasificación y Censura é a de exercer a censura dos filmes nacionais e estrangeiros. com argumento e roteiro do próprio diretor. Foi obrigado a retirar os letreiros de lojas e bares das filmagens. como já foi dito. além de outros locais pontuais da cidade. Outras cenas foram cortadas pela censura. onde os constantes passeios pela calle mayor reproduzem um ritual cotidiano. um jovem de Madrid que reside na cidade havia apenas três meses e que já se ambientou ao estilo de vida provinciano.

A respeito de sua obra. cantando com mais entusiasmo. Outra sequência é a declaração de amor feita por ele na metade de uma procissão. Isabel revela-se uma personagem viva. as eliminações se deram aos momentos de referências a manifestações amorosas apaixonadas. Flora não é a protagonista. ya en el borde de la soltería. já que Juan se acovarda e foge. não está de acordo com as constantes brincadeiras do grupo e condena suas atitudes. foram acrescentadas algumas sequências ao roteiro original. No filme o aspecto religioso. que está de passagem pela cidade. É ele que.. Foram cortadas todas as outras sequências sobre caridade. Mas é manifesto que Bardem explora bem mais o aspecto social que em Arniches. Apesar do título da obra teatral. Sua atitude em tentar ajudar Isabel a fugir daquela cidade e dos olhares de escárnio de todos. siguiendo paso a paso la línea que había escrito don Carlos. Apesar de a censura ter impedido que a prática religiosa tivesse mais relevância no filme. Federico. nada se parecendo com Flora. Não se evidencia uma proposta para que as mulheres adotem um papel mais ativo na sociedade. estarrecida e feliz pela audácia do suposto amante. pois ela não é feia. me dediqué a explicar y expandir una crítica general del mundo español de los 50 y. segue a procissão. terna e patética. Otra vez la soledad de una mujer abandonada y asfixiada por las conveniencias sociales de su mundo. onde Juan dá indicações a Isabel de seu interesse. na qual somente as mulheres participam e Isabel.. La fuente: La señorita de Trevélez de Don Carlos Arniches. cabendo a seu irmão este papel. Yo tomé como elemento fundamental de mi texto la broma. Edgar Neville hizo una versión cinematográfica de La señorita de Trevélez con María Gámez como protagonista. sino específicamente de una señorita de la pequeña burguesía de una ciudad de provincias. Bardem desenvolve uma sequência exemplar no interior de uma igreja. se vê obrigado a revelar tudo a Isabel. fica claro que ele critica as atitudes . Além dos muitos cortes realizados. No entanto. pois é escolhido para forjar uma relação com Isabel. às freiras e seminaristas. Dessa forma traça uma diferença entre o roteiro original e o resultado final do filme. Un tercer afluente venía del poema de Agustín de Foxá: las seis muchachas en el mirador. amigo de Juan. próxima da realidade. Yo no. e muito menos grotesca. Un afluente fue Doña Rosita la soltera de Federico García Lorca. mas de maneira contundente.134 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Fazendo parte desse grupo. no final. un análisis de la condición de la mujer en España. Bardem diz: El texto nace de una fuente y más afluentes. improdutiva e conformista. dos homens perante a vida inculta. revela sua visão comprometida com o lado social. pois naquela Numeriano Galán é involuntariamente envolvido na trama. no filme. roubando a cena da protagonista. É um aspecto que difere da obra teatral. Y no de cualquier mujer. O papel de protagonista cabe agora à personagem feminina. Um indicativo importante que se faz referência no filme é a revista Ideas. en particular. no filme desaparece completamente. religião e meros planos de passeios de seminaristas. las seis mujeres de maridos ricos. já que Apesar de Bardem dar ênfase ao drama da mulher espanhola. manifesta-se poucas vezes. Juan torna-se algoz e também vítima de seus amigos. estabelece uma oposição ao franquismo e que a personagem Federico traz de forma que atualiza a ação e a situação política da época. Don Gonzalo. nos anos 50. As personagens masculinas perdem a característica grotesca e adquirem uma personalidade mais complexa. Federico terá um papel importante como representante de uma postura comprometida. Dentre os cortes. que aparece como o protagonista na peça teatral. o domínio das figuras masculinas prevalece. y a partir de ahí. uma revista que.

se limita a hacer lo mismo que las demás mujeres de la ciudad: novenas. se por seu corte neorrealista. en cualquier caso. Madrid: Plot Ediciones. a brincadeira. na medida do possível.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 135 percebemos um deslocamento do que diz respeito ao próprio Bardem. O filme termina com Isabel vendo o mundo através da janela de seu quarto. o que ganha corpo na história é a pequena cidade provinciana. W. Referências bibliográficas ARNICHES. Nos anos 50. (1998): La señorita de Trevélez. Fora. procesiones. RÍOS CARRATALÁ. en general. Dessa forma. 135) explica a brincadeira ao personagem feminino: No es lo mismo burlarse de un personaje grotesco como Florita que de una mujer como Isabel. Ríos Carratalá (2000. trad.A. São Paulo: Brasiliense.(1993): Calle Mayor . Suevia Films / Play Art / Iberia Films. graças a um grupo de cineastas que busca uma nova forma de representar e que partem de um universo mais realista. com personagens cotidianos e familiares. O que torna esse filme uma obra singular. el retrato de la solterona casi invita a burla. já que a censura tinha o papel de mutilar e descaracterizar as produções em geral. Ele utiliza-se de suas câmaras perspicazes para revelar o absurdo de tal sociedade e nos brinda com um filme de oposição à norma e à política vigente. A brincadeira torna-se sem sentido e Isabel segue com sua atitude passiva e conformista. 95 min. Isabel es todo lo contrario. juegan con los sentimientos de los demás. Ao mudar completamente o gênero da obra original. mesmo sob a censura franquista. BARDEM. Um futuro sombrio e tormentoso a aguarda. Coproducción España-Francia. o diretor subverte a obra teatral e escreve outra história. Aunque Carlos Arniches siempre critica a los burladores y a quienes. I. faz uma crítica à sociedade patriarcal.P. Madrid: Cátedra. v. J. BARDEM. De certa forma. paseos. C. mais reveladora e instigante. un baile en el Círculo. arte e política. rezos y.A. Magia e técnica. J. S. elevada ao papel de protagonista. Bardem. Bardem faz parte deste grupo e este filme diferencia- . tampoco es cursi y. não rompe com o modelo estabelecido. Rouanet.A. (1985): Obras Escolhidas . J. BENJAMIN. anualmente. Alicante: Publicaciones de la Universidad. que se evidencia no texto fílmico. cai uma forte chuva. No es fea como Florita. inaugura-se uma produção voltada a uma aguda consciência social. de que é uma obra sobre a condição feminina. com matizes próprios do diretor. mas na verdade são as convenções. No hay ninguna razón objetiva porque la condene a la soltería. (2000): El teatro en el cine español. (1956): Calle mayor. distanciando-se dos filmes produzidos até então. DVD.

Contudo. Além disso. ou seja. A perífrase “tener” + particípio é considerada uma perífrase aspectual. p. o aspecto imperfectivo é dividido em aspecto habitual e aspecto contínuo/durativo. haverá a leitura habitual iterativa. no português. tem traços comuns1 com a habitualidade e faz referência a uma pluralidade de ações. o aspecto imperfectivo se refere essencialmente à estrutura interna de uma situação.136 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS DISTRIBUIÇÃO DA PERÍFRASE “TER” + PARTICÍPIO NO ESPANHOL DO MÉXICO Anne Katheryne Estebe Maggessy UFRJ 1. p. no contexto do aspecto iterativo e na variante do espanhol da Cidade do México. aspectuais. decidimos verificar a co-ocorrência desta perífrase com outras perífrases. assim como o português. vendo-a de dentro. é uma língua que apresenta grande abundância de perífrases verbais. para abarcar outros tipos de distinções aspectuais que podem fazer parte de algumas línguas. na segunda é perfectivo. se uma situação individual pode ser prolongada indefinidamente no tempo. Essa oposição é gramaticalizada em diversas línguas. o aspecto perfectivo e o imperfectivo. na proposta do autor. há uma diferença no modo como a constituição interna da situação é vista. Enquanto na primeira o aspecto é imperfectivo. por exemplo. Segundo COMRIE (1976. Introdução O espanhol. completo. como no exemplo do inglês abaixo em (6). como por exemplo no próprio português. então ela será apenas habitual. o aspecto se define em função dos diferentes modos de observar a constituição temporal interna de uma situação. Para GÓMEZ TORREGO (1988. então para . O aspecto contínuo/durativo ainda poderá ser dividido em progressivo e não progressivo. Mas se essa situação não puder ser prolongada. por isso. Para este autor. as perífrases podem ter quatro tipos de valores: temporais.3). segundo o autor. há dois aspectos básicos na língua. Já em sentenças como em (7).19). percebe-se que ambas as sentenças referem-se ao passado. pois serve para mostrar a categoria verbal denominada aspecto. O aspecto iterativo. há uma diferença aspectual entre elas. Para este autor. Essa perífrase. Ao observar os exemplos “João estava lendo um livro” e “João leu um livro”. está sendo substituída pela perífrase “estar” + gerúndio e. modais e estilísticos. Enquanto o aspecto perfectivo trata a situação ou evento como um todo.

desempenham papel principal na composição dos aspectos durativo e iterativo. Como nos exemplos abaixo: Tengo escrito ya cincuenta fólios. Com isso. considera-se nesse trabalho a iteratividade como aspecto por apresentar um evento escalonado. a iteratividade é uma categoria aspectual com marcas linguísticas específicas como tipo de verbo. pode-se dizer que para COMRIE. como em (8).192 ). um marcador adverbial como two hours each day (duas horas por dia) ou always (sempre). Dessa forma. outras vezes. “estar” + gerúndio e “ter” + par ticípio são construções perifrásticas que quedan veinte. 2010 e 2011). Tengo empapeladas ya três habitaciones. na variante carioca. E. ao observar os exemplos do inglês acima. verificase que a perífrase “estar” + gerúndio (EG) está gradativamente substituindo a perífrase “ter” + particípio nas gerações mais jovens da população. p. já que segundo GÓMEZ TORREGO (1988). Segundo o autor. já pudemos verificar a possibilidade da expressão aspectual iterativa em sentenças com a perífrase EG tanto no PB. o valor mais característico da perífrase “tener” + particípio é o valor perfectivo-acumulativo de um estado alcançado. quanto no espanhol de Madri.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 137 o autor a única interpretação razoável envolvida será a iterativa. Mas. ou seja. tanto do português quanto do espanhol. seu uso mais produtivo expressa o aspecto perfectivo. sólo me Em português. (6) “The temple of Diana used to stand at Ephesus” (O templo de Diana costumava ficar em Efesus) dentro dos estudos linguísticos. segundo o próprio COMRIE. De acordo com os estudos de WACHOWICZ (2006). o aspecto iterativo é considerado como pertencente ao aspecto imperfectivo. sólo me quedan la cocina y el baño Tengo corregidos ya veinte exámenes. é pelo menos um dos fatores propiciadores da leitura aspectual iterativa. em estudos anteriores (2009. mas em estudos como o de MENDES (2005). de Buenos Aires e de Valparaíso. O comportamento perifrástico de “tener” + particípio Segundo GÓMEZ TORREGO (1988. o aspecto iterativo é normalmente expresso pela perífrase “ter” + particípio com o auxiliar no presente do indicativo. como a que expressa o aspecto progressivo ou durativo. se indica um valor repetitivo ou de insistência como em: . FERNÁNDEZ DE CASTRO (1999) e YLLERA (1999). A perífrase EG é canonicamente descrita. marcadores adverbiais e argumentos plurais. um dos aspectos básicos da língua. que apresenta repetição. 2. (7) “The policeman used to stand at the corner for two hours each day” (O policial costumava ficar no corredor duas horas por dia) (8) “The old professor used always to arrive late” (O velho professor costumava sempre chegar tarde). Além disso. nos surgiu a curiosidade de investigar se a perífrase “tener” + particípio também estaria apresentando leitura aspectual iterativa no espanhol do México como a perífrase “estar” + gerúndio. sólo me quedan diez O autor também afirma que.

interessa o estado no sujeito e não no objeto.138 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Te tengo dicho que te calles Te lo tengo advertido. no te pongas a llorar E que. espanhol. a. ainda que rejeitadas por outros. HARRE cita outros exemplos em que. […]”. esse tipo de construção não se usa mais e um exemplo como o apresentado tende a ser interpretado com valor de imperfectivo. y sabía ser te ngo afe de ve un tío cordial cuando quería. pero grande. estas construções distam muito de ser unanimemente aceitas e empregadas por todos os falantes do espanhol. de ésas le t te ngo vistas po cas. Para TRAVAGLIA (2006. v e c es q ue s e lo t e ng or e p e t ido hasta la sa re sacie cieda dad. Eso es grande! Yo lo t e ng o af e itado la mar d e v e c es. es inútil. si es inútil. segundo estudos do PB e do espanhol. não-acabado e durativo. Felipe.. afirma que o valor de “tener” + particípio. observamos nos exemplos abaixo a presença da conjunção de ênfase e quantificações temporais extensivas que acompanham a perífrase “tener” + particípio: (133) No. Tengo perdida la cartera varias veces. Quizás que no se lo tengo yo dicho eso un montón de veces.) Tengo decidido ir a tu casa (= estoy decidido ir. p. Tiene viajado mucho por el extranjero. o meu discurso (VIEIRA. Enquanto isso.[…] Ahora. como nos seguintes casos: Tengo pensado ir a tu casa (= pienso ir. q ué sé y yo cie da d. é de uma gradação perfectiva na qual o processo não aparece. a nossa hipótese é a de que a produtividade dessas sentenças com “tener” + particípio em contexto iterativo estará relacionada com a presença de verbos intransitivos e de advérbios quantificadores. Tengo castigado al niño muchas veces. apud TRAVAGLIA 2006).. temos acesso aos estudos de HARRE (1991: 52-78). não só como meramente concluído.) Tengo entendido que te robaron este verano (=creo. parece ser que. te robaron) Da mesma forma. Tienen vivido mucho tiempo en España y por eso hablan tan bien el español. faenas de ésas. Especial si alcanzo a tempo de la primera embestida. Lo menos cinco años que se lo vengo diciendo ya: “vamos a hacer un esfuerzo. como dito anteriormente. c. 950)”. aceitas por alguns falantes de . Fiéis. Por isso. no trabalho de YLLERA (1999). b. I. p. de ponerse hecho un toro colorado y salir arreando con todo lo que e ng ov istas unas p o cas pilla por delante. se lo digo en serio. eso sí. quando perífrase. Segundo DIAS (1970. a perífrase expressa uma ação iterativa sem implicar necessariamente um estado resultante: a. FERNÁNDEZ DE CASTRO (1990. d.166).. Me gusta el espectáculo. o la mo ntaña d e montaña de unas economías.278). Tengo despertado al niño un montón de veces. Com isso. que cita exemplos de sentenças com “tener” + particípio expressando o aspecto iterativo. Tenemos hablado mucho sobre este asunto. com verbos intransitivos e advérbios quantificadores. Mas. no sirve discutir. como no caso anterior. Le tengo prestado el coche muchas veces. luego. a perífrase “ter” + particípio já apresentou o valor de aspecto acabado como no exemplo “Tenho acabado. c. mas também como estendido e relevantemente durativo. b. Si no lo vas a apear de su convencimiento. em ocasiões.. Sentenças essas. cursivo. que te ngo .

como os seguintes verbos: gustar / tener / amar / permanecer / vivir en un piso/ odiar / querer / creer.5 24/90 26. com 14 lacunas. E por 6 sentenças alvo. o aspecto perfeito também pode ser expresso no português pelo pretérito perfeito “ter” + particípio. De acordo com este autor.5 4. O teste se resume a uma carta de uma estudante mexicana que está no Chile e descreve tudo o que tem feito à sua família.61).8 DISTRATORAS ESTADO N/TOTAL 45/120 % 37.6 67/120 55.1 Após a leitura da tabela.8 4/90 0 4. Metodologia Elaboramos um teste de preenchimento. para verificar se os nativos da Cidade do México selecionariam sentenças com “tener” + particípio ou com “estar” + gerúndio ou com “haber” + particípio em contexto iterativo. que segundo os estudiosos do PB. que tem significação iterativa. com verbos intransitivos mais advérbio quantificador. A variável sexo não pôde ser controlada. foi “haber” + particípio. pois indica a relevância do presente contínuo de uma situação passada. expressa o aspecto perfeito (perfect). que são formadas por verbos do tipo estado. segundo COMRIE (1976. Observando também o comportamento das sentenças distratoras. 4. também expressa o aspecto iterativo. segundo a classificação de VENDLER (1967). p. percebemos que a perífrase mais . que estão relacionados abaixo: llegar tarde todos los días correr un chingo de veces bailar un chingo de veces salir varias veces despertarme muchas veces nadar todos los días Aplicamos o teste à 15 falantes de espanhol da cidade do México entre 20 e 24 anos. Resultados ALVO INTRANS. com nível superior. é interessante notar que a perífrase mais selecionada nas sentenças alvo. Esta perífrase chamada de pretérito perfeito composto.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 139 3. Ele está composto por 8 sentenças distratoras formadas por verbos do tipo estado. + QUANTITATIVO N/TOTAL HABER + PARTICÍPIO ESTAR + GERÚNDIO TENER + PARTICÍPIO TOTAIS 62/90 % 68.4 0 3/120 5/120 2.

juntamente com as escolhas feitas pelos informantes e com o número de vezes que foi selecionada entre parêntesis: Abaixo. apresentamos as sentenças distratoras que não esperávamos que fossem selecionadas. (1) A) Aquí tengo salido varias veces. (6) C) Estoy nadando todos los días. DISTRATORA (n° de sentenças selecionadas): A) Tengo creído que ser gordita no es bueno. (1) B) He creído que ser gordita no es bueno. pois não possuíam as características descritas por HARRE como favorecedoras da iteratividade.140 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS selecionada foi “estar” + gerúndio. Diferente do esperado. (8) C) Estoy creyendo que ser gordita no es bueno. (5) A) Tengo gustado de todas las personas de la Universidad. (6) A) Tengo nadado todos los días. (2) A) Tengo permanecido firme en mi propósito. Conclusão . Pois não há fatores que diferenciem essas sentenças de outras que não foram selecionadas como “llegar tarde todos los días”. essa é uma construção possível na língua. (9) ALVO (n° de sentenças selecionadas): A) Tengo corrido un chingo de veces2. Ainda assim. mas não é considerada muito produtiva. nos mostram que a seleção das sentenças com a perífrase “tener” + particípio. “bailar un chingo de veces” e “despertarme muchas veces”. pois encontramos ocorrências de “tener” + particípio em sentenças com advérbios quantificadores e verbos D) Permanezco firme en mi propósito. parece ter sido aleatória por parte dos informantes.3 (1) B) He gustado de todas las personas. (1) B) He nadado todos los días. ao contrário. se apresenta em forma de gerúndio que é. pois um verbo de estado que é por sua natureza (-) dinâmico. (14) B) He permanecido firme en mi propósito. (6) D) Me gustan/ agradan todas las personas. (5) C) Estoy corriendo un chingo de veces. A hipótese não pôde ser refutada. (3) Estes exemplos acima. (10) C) Estoy permaneciendo firme en mi propósito. (2) B) He corrido un chingo de veces. (8) C) Estoy gustando de todas las personas. (+) dinâmico. Abaixo apresentamos as sentenças que tiveram ocorrência da perífrase “tener” + particípio. que seriam com a presença de verbos intransitivos e advérbios quantificadores. Essa combinação pode parecer inicialmente estranha. (1) 5. as sentenças selecionadas abaixo não possuem essas características e apresentam o verbo principal do tipo estado. (1) B) Aquí he salido varias veces.

conforme é usado no PB. semántica y estilística. pudemos perceber que o uso de “tener” + particípio pode não ser tão restrito. Bernard (1976): Aspect. VENDLER. podendo ser combinado também com verbos do tipo estado. (1988): Perífrasis verbales. Arco/Libros. verificamos que a perífrase “tener” + particípio também possui traços de imperfectividade e de iteratividade. Madrid: Espasa. Oviedo. a flutuação do uso dessa perífrase com as perífrases “haber” + particípio e “estar” + gerúndio.ed. H .” Gramática descriptiva de la lengua española. Cambridge University Press. Seria o equivalente a “muchas veces”. Universidade Estadual de Campinas. 6. 4. L. como tratado por alguns estudiosos. TRAVAGLIA. Ignacio Bosque y Violeta Demonte. o traço que é comum em todos os habituais. YLLERA. segundo a classificação vendleriana . Alicia (1999): “Las perífrasis verbales de gerundio y participio. F. C. Artigo publicado nos Anais do 6° Encontro Celsul – Círculo de Estudos Linguísticos do Sul. p. Embora o número de ocorrências tenha sido baixo.The interaction between temporal and atemporal structure . Além disso. . Notas 1 Segundo Comrie (1976). ainda não é possível falar da substituição da perífrase “tener” + particípio por qualquer outra perífrase. VERKUYL. Comportamiento sintáctico e historia de su caracterización.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 141 intransitivos. sendo ou não também iterativos. que também compartem os traços de imperfectividade e iteratividade. como um traço característico de todo o período. Vol. não só de perfectividade. 3391-3441. Finalmente. aspecto verbal e variação no português. Cambridge: Cambridge University Press. foi possível encontrar o uso da perífrase “tener” + particípio em contexto do aspecto iterativo. 3 Em consulta informal. Referências bibliográficas COMRIE. estendido no fato de que a situação referida é para ser vista não como uma propriedade acidental do momento. MENDES. 2 A expressão “un chingo de veces” é uma forma coloquial dos jovens da Cidade do México expressarem uma repetição. eds. (1990): Las perífrasis verbales en español. (1993): A theory of aspectuality . entre outros. mas precisamente. (2006): Marcas linguísticas de iteratividade em PB. 2. Ronald Beline (2005): Estar + gerúndio e ter + particípio. Publicaciones del Departamento de Filología Española. é a descrição de uma situação que é característica de um período estendido de tempo. Ithaca: Cornell. na variante investigada do espanhol do México. Madrid. WACHOWICZ. Uberlândia: EDUFU. verificamos um uso dessa forma do verbo gustar. GÓMEZ TORREGO. FERNÁNDEZ DE CASTRO. Sintaxis. Luiz Carlos (2006): O aspecto verbal no português: a categoria e sua expressão. Contudo. Universidad de Oviedo. e sem advérbios do tipo quantificador. Tese de doutorado. T. Zener (1967): Linguistics in Philosophy. É significativo observar também.

44-45) De acordo com Esposito. Isto se percebe ainda na própria polissemia que a noção de “comunidade” enceta. a reducir lo general del ‘en común’.1 Tal duplicidade está ligada ao movimento pendular de abertura e resistência que se verifica no contato entre diferentes culturas e comunidades discursivas2 e. y la inversión mítica queda perfectamente cumplida. num esforço de previsão das expectativas discursivas de uma dada comunidade a que o texto se dirige. De forma paralela. buscar estratégias de compreensão das formações discursivas e das condições de produção do discurso (FOUCAULT. entre sujeito e alteridade. embora traga para a leitura as marcas ideológicas e inconscientes de sua constituição identitária. embora seu lugar de enunciação seja quase sempre distinto ao lugar de enunciação do seu interlocutor. segundo a ótica de Roberto Esposito: Pese a todas las precauciones teóricas tendientes a garantizarlo. ese vacío tiende irresistiblemente a proponerse como un lleno. (ESPOSITO. a lo particular de un sujeto común. 2007. tem de. por um lado. la comunidad queda amurallada dentro de sí misma y separada de su exterior. lugar de estabelecimento de relações múltiplas e imprevistas com a alteridade – e a noção de immunitas – ligada . discurso e comunidade pela seguinte pergunta: escrever ou ler em uma língua estrangeira significa pertencer à comunidade? A própria pergunta já deixa intencionalmente aberto um campo de definição: comunidade a que pertence(m) o(s) autor(es) ou a que pertence(m) o(s) leitor(es)? A resposta a essa questão leva-nos a aceitar a ideia de duplicidade ao tratarmos do processo de interação verbal em língua estrangeira. construir formas de identificação do leitor com o texto. e por outro.142 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS LITERATURA E ESPANHOL/LE: A QUESTÃO DA COMUNIDADE Antonio Andrade UFRJ É possível iniciar uma discussão a respeito da relação entre língua. possuir um grau de inserção no universo discursivo referente à língua em que se processa o ato de ler. p. o problema da comunidade advém da tensão entre a ideia de communitas – termo que delineia a configuração do “espaço comum” como um vazio. aquele que lê em uma língua estrangeira. necessariamente. Una vez que se la identifica – con un pueblo. num nível mais profundo. una esencia –. Aquele que escreve em uma língua não materna precisa. 2008) que dão sustentação àquilo que se materializa no texto. una tierra.

ao lugar social do qual se diz. invertendo.). Consciente de que “aquilo que se diz significa em relação ao que não se diz. Santiago assinala. a partir da análise do texto de Cortázar. de outra forma. Neste caso. op. p. poderia. Evidentemente.. cultura e discursividade. seja por vontade paródica – traduz a frase avistada no espelho de um restaurante parisiense. cabe pensar que os modos de enunciar denominados abruptos [contexto argentino] ou por transições [contexto brasileiro] podem. do enunciado com o contexto sociodiscursivo. ele a traduz . cit. a partir de textos escritos e lidos sob as mesmas condições. p. são responsáveis pela produção de diferentes formas de leitura de um texto: (. etc. ao longo da história.” Mas em lugar de reproduzir a frase na língua original. Mas. ou a partir da história da leitura de um texto. Essas regularidades condicionam a produção e a compreensão verbais do sujeito do discurso que. para quem se diz. Tal reflexão de ordem político-filosófica coaduna-se com a perspectiva da análise do discurso. o que acontece na interação com textos em língua estrangeira escritos. bem como aos discursos que. (SERRANI. em relação aos discursos. distintas formações discursivas que atravessam os contextos socioculturais brasileiro e argentino. ao situar-se na ordem do discurso. No entanto. compartilhando o conhecimento consciente ou inconsciente de suas regras de funcionamento ideológico. Essas marcas integram a constituição subjetiva. da mesma forma como Foucault (2002. com Silviano Santiago (2000). ser lido como um produtivo mecanismo de desterritorialização/ descolonização do sentido. cit.. ainda que a possibilidade do “equívoco” não esteja excluída nesse caso.. gregarismo e consequente isolamento de distintos grupos sociais. que o personagem principal de 62 Modelo para armar – seja por desconhecimento das condições de produção do discurso na leitura em língua estrangeira.) considerando o estudo sobre leitura em espanhol e português (. Pode-se verificar. de modo especular. a partir de condições de produção do discurso divergentes? Como bem apontou Serrani (2010). o sujeito estará habilitado a produzir (ou deslocar) sentidos. tentam justificar a prevalência ou a posição desses grupos no terreno de disputas pela hegemonia. por um lado. relacionar-se com ausência ou presença de polidez. mas também devem ser vistos como marcas de regularidades enunciativas e de memórias discursivas. não possui controle consciente do seu dizer. A modo de exemplificação. na interação verbal entre brasileiros e hispânicos mediado pelo texto escrito. o analista do discurso que se debruça sobre o ato de ler precisa reconhecer que toda leitura tem sua história.. ideológica e cultural que o definem. isto é. pode-se vislumbrar. seu contexto original: “je voudrais un château saignant. tais considerações estão perfeitamente conectadas ao estudo da interação entre coenunciadores pertencentes à mesma comunidade.. 85). a partir dos modelos de leitura. p.” (ORLANDI. a reflexão proposta por Orlandi (2001) a propósito dos mecanismos de variação e regulação (polissemia e paráfrase) encetados pela relação do texto com a sua exterioridade. a título de exemplo.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 143 aos projetos de (auto)proteção. o leitor tende a seguir modelos de leitura já instaurados que funcionam como padrões de previsibilidade. a possibilidade de o não compar tilhamento da memória discursiva e o não reconhecimento das marcas de regularidades enunciativas.. Desse modo. por exemplo. muitas vezes. gerarem outros tipos de deslocamento significativo. é importante para o analista evidenciar. ou seja. 98) Aprofundando o exame das relações entre literatura. 36) demonstra que os princípios e regras de coerção do discurso são simultaneamente responsáveis por sua produtividade. em boa parte. suas condições de produção. op. a imprevisibilidade. as possibilidades de nascimento da pluralidade de sentido. O que poderia ser recebido como a formação de um mal-entendido capaz de vedar a comunicação.

a maioria manifestou que não acharia esse tipo de material adequado e que a leitura não entusiasmava. Dessa forma. colonialista.).144 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS imediatamente para o espanhol: “Quisiera un castillo sangriento. 22) Tais observações. além de desconsiderar. esses poemas. posteriormente. relatadas em diversos congressos da área. vêm comprovando a possibilidade de engajamento discursivo de jovens estudantes brasileiros com esse tipo de texto.. O não pertencimento à comunidade estrangeira e o não compartilhamento de determinados modelos literários da cultura letrada. cit. de certo modo.” Escrito no espelho e apropriado pelo campo visual do personagem latinoamericano. op. a casa onde mora o senhor.. E o adjetivo. de derrubálo. motivando e agravando seu afastamento em relação às práticas de letramento promovidas pela escola. são fatores preponderantes para o afastamento do leitor em relação ao texto que lhe é apresentado. cit. mas também o deslizamento do sentido no interior deste processo. o desejo de ver o château. que dentro do impulso imunitário de agrupamento sociocultural subsiste conjuntamente Tal concepção do discurso literário como um “entre-lugar” prevê não só a inevitabilidade da conexão entre leitura e produção. a fogo e sangue. o que reforça visões deterministas sobre os percursos de formação dos sentidos. portanto. Os futuros professores responderam explicitamente de modo negativo e os jovens que iriam responder o questionário não foram explícitos. na pena do escritor argentino. é preciso evitar a ideia de que. que se tratava de pré-conceito. el castillo . nos ajudam a desmistificar certo receio ora velado. 93) a respeito da hegemonia das políticas de leitura da classe média. Consequentemente. da perspectiva do interesse dos estudantes. por parte dos estudantes da educação básica. pelo fato de não compartilharem os mesmos modelos discursivos do grupo social a que pertence o autor. de muitos professores de língua estrangeira em relação à abordagem de textos literários em suas salas de aula. os depoimentos mostraram.. visto que inúmeras experiências escolares. conforme aponta Esposito. ainda que relacionadas a um estudo de caso em contexto educacional de língua materna.. “impediria” a classe popular de formar seus modelos de leitura. torna-se a marca evidente de um ataque. deve-se também evitar interpretar dessa maneira as considerações de Orlandi (2001. Curioso notar que essa mesma questão foi desenvolvida por Serrani (2010) em texto em que a autora examina dados de pesquisa a propósito dos mitos e preconceitos sobre o interesse de alunos no ensino médio pela poesia: (. A dúvida sobre a (in)adequação do texto literário à didática de língua estrangeira tem demonstrado ser uma falsa questão. No entanto. que significava apenas a preferência ou o gosto do cliente pelo bife malpassado. a produção dissidente da classe popular como sinal de “resistência cultural”.) perguntamos aos estudantes (e a alguns futuros professores) se poemas como esses seriam aptos para aulas de língua a adolescentes. A tradução do significante avança um novo significado (. 51-52) . (SANTIAGO. op. o castillo sacrificado. A propósito. p. na leitura. de maneira engajada. seriam adequados para uso em sala. Tal compreensão do letramento em comunidades discursivas não hegemônicas liga-se a uma concepção muito engessada da relação entre discurso e classe social. a interação entre coenunciadores pertencentes a distintas comunidades – ou.. ancorados em diferentes formações ideológicas e subjetivas – só poderá dar lugar a gestos de repúdio por par te dos leitores. (SERRANI.. que. p. de outro modo. nem sempre. Digo isso porque a própria autora sinaliza a possibilidade de tensão entre conhecimento dominante e dissidência no contexto das mesmas práticas sociodiscursivas. de uma rebelião. embora sua perspectiva crítica só enxergue. mas por meio de expressões faciais e outros gestos corporais. ora declarado. sangriento . p. já que o material interessou à maioria dos alunos. saignant. château sai do contexto gastronômico e se inscreve no contexto feudal.

Seguindo a esteira dessa colocação. Isto sinaliza. sugerem a necessidade de se focalizar as distintas exotopias envolvidas na produção da leitura literária em E/LE por sujeitos situados em diversos contextos.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 145 um impulso comunitário de abertura à exterioridade. É preciso se buscar uma compreensão mais aprofundada da heterogeneidade cultural e discursiva das comunidades. por isso é capaz de estabelecer e romper resistências quanto ao discurso do outro. portanto. 2007. CÁRCAMO. lançando mão da perspectiva bakhtiniana (BAKHTIN. isto é.. de modo muitas vezes imprevisto. Esse ponto de vista solicita ainda o entendimento do leitor como instância enunciativa ligada à natureza dúplice – (ir)repetível – da discursividade. qualquer coisa que é ao mesmo tempo revolucionária e associal e que não pode ser fixada por nenhuma coletividade. que o prazer que se manifesta no processo de interação com o texto literário é atópico.. abandonar o grande divisor entre ‘letramento’ e ‘iletramento’ e. não ocupa lugares fixos na cadeia significante. de modo algum.. “O prazer (. (.. nenhum idioleto”. autor representado. Com isso. Tal consciência requer da pesquisa uma investigação mais densa quanto à produtividade da noção de exotopia3 (do autor e do leitor) no processo dialógico. admitindo o dialogismo de vozes não coincidentes na interação propiciada pelo ato de ler. Tais concepções. personagens. Para Barthes (2008. 2010a).) não é um elemento do texto. p. asociada al inconsciente psicoanalítico: aquel donde está instalado el deseo. reivindica atenção às “demandas locais de letramentos diferentes”: “Antes de tudo. receptáculo de divergentes forças discursivas de acabamento e dispersão. Esta perspectiva coaduna-se à de Brian Street (2006. portanto.. vista assim como espaço de tensão entre diferentes vozes: autor real. 30).. Assumir uma posição menos simplificada em relação ao papel da ideologia na atividade leitora significa compreender. p. bem como do possível deslocamento de sentidos produzido não só desde o âmbito da produção. 239). 484). (. ao mesmo tempo produzido pelo modo como é posicionado na trama do discurso literário e produtor de atos responsivos em face do enunciado: ator envolvido em tensos movimentos de adesão e deslocamento. p. que (.) clarificar e refinar conceitos de letramento. quem em lugar de aceitar a existência de um processo único e autônomo de letramento..) é uma deriva.) ha entrado en el escenario otra dimensión. Isso remete às considerações de Neide González sobre a dimensão afetiva (o investimento desejante) que permeia a relação das comunidades e dos sujeitos – entendidos como entidades não monolíticas – com a língua estrangeira: “En los últimos años. quero chamar atenção ao fato de que a formação docente para o trabalho com textos literários em aulas de espanhol não pode.. nos conflitos entre formas de compreensão textual e nos graus de consciência do leitor em relação a sua posição no processo de leitura. p. ser reduzida ao estereótipo de que a literatura estrangeira serviria como uma estratégia de resolução de conflitos hipotéticos ou como forma de “substituir” experiências diretas com o estrangeiro (cf. em vez disso. mas também desde o . chamo a atenção para a necessidade de se buscar um viés mais complexo de entendimento dos sinais de proximidade e distanciamento manifestados no ato da leitura. leitor virtual e leitor real. procuro estender o critério de não coincidência entre os papéis enunciativos colocados em jogo no âmbito da produção escrita para a análise da compreensão leitora. estudar as práticas de letramento em contextos culturais e ideológicos diversos” (Ibidem). 2001. 29).) afecta ese proceso especial en el que inevitablemente identidad y alteridad se enfrentan” (GONZÁLEZ. precisamos (. 2003. junto com Barthes. Não à toa.. a necessidade de se estar atento às diferenças institucionais e subjetivas envolvidas nas (re-)significações conduzidas pela ação pedagógica – desde a escolha do texto até sua mediação –. nenhuma mentalidade..

ou de maneira positiva. se a questão da estrangeiridade só consegue ser representada aí em termos de “adaptação”/”aceitação”. cujo reflexo nesses casos é a busca de “soluções mágicas” para os problemas linguísticos e interculturais através do conhecimento literário. a se adaptar a algo diferente (no caso. apresento adiante alguns excertos de textos produzidos em 2011 por licenciandos de Letras Português-Espanhol de uma universidade pública do Estado do Rio de Janeiro ao serem interrogados a propósito da contribuição da literatura para sua formação inicial como docentes de língua estrangeira: “Os estudos literários são importantes para a formação do professor de L. fazendo com que seus alunos conheçam e aprendam a respeitar outras culturas” (Rafaela. Além disso. bem como o fato de que sujeito e alteridade estão imbricados e se problematizam mutuamente. que. Tal opinião é baseada na defesa de que aprender uma língua é muito mais do que conhecer a estrutura da mesma. p. para concluir.E de formação” (Vanessa. por exemplo. em Bakhtin (2010b. a experiência literária estrangeira que vem sendo vivenciada na universidade não é a do questionamento e da desconstrução do senso comum. entretanto aqui talvez a falta de um contato mais íntimo com a literatura. mas a história.4 Esses dizeres ignoram a plurivocidade de sentidos da linguagem nos gêneros literários. que cede lugar à má interpretação da produção teórico-crítica sobre o literário (note-se nos fragmentos acima certa tendência a se confundir a literatura com o domínio institucional dos “estudos literários”). para muitos. Tenho podido constatar. 6º período). O professor ensinará não só a gramática da língua.. talvez isso seja um sinal de que. “[a literatura] nos faz quebrar (ou confirmar) paradigmas (. no aluno-leitor universitário. pudesse ser abarcada na sua inteireza como um conteúdo didático. . para a formação do professor de língua estrangeira. portanto. uma outra cultura) e a tomar gosto por um outro tipo de leitura” (Frederico. certa cristalização de visões simplificadoras da ideia de outridade. 4º período). a sensibilidade para o efeito dialógico e tensivo. Aliás. que o ato estético de enunciação pode provocar. representada por comunidades linguísticas e literárias estrangeiras. mas também ter acesso à cultura dos países que têm tal língua como oficial. vem tornando mais aguda a potência apassivadora (e apaziguadora) do discurso. no contexto de minha pesquisa sobre a relação entre letramento literário e formação docente.. a questão gramatical e estrutural também é importante. principalmente se o futuro professor busca obras literárias da sua L. De certa maneira. “Na minha opinião. mesmo “o amor ao outro” não é capaz de suspender a diferença: traço constitutivo da própria discursividade. “o aluno de língua estrangeira aprende. dentre outras coisas. Como se vê.146 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS da leitura do texto literário. ao mesmo tempo singular e comunitário. É preciso despertar. silenciando dilemas da subjetividade e da comunidade. percebe-se nesses enunciados a força tipificadora que a simplificação do discurso em torno do literário. 5º período). A vontade de enunciar dá lugar a um ser enunciado. futuro professor de línguas e literaturas. os estudos literários contribuem muito. do cultural e do histórico vem produzindo em nosso cenário acadêmico. como se a cultura do outro. como é de se esperar que ocorra em toda e qualquer atividade discursiva. A título de exemplo.) e aceitar as diferenças ou lidar melhor com elas” (Daniele. É importante lembrar. a consideração do leitor nesse processo é fundamental para qualquer intento de se (re-)configurar as bases dessa formação. um conhecimento sobre o mundo.E pela oportunidade que oferece a literatura de um maior conhecimento cultural. 5º período). 104).

(org. 398-400. p. Em: Uma literatura nos trópicos. p. São Paulo: Contexto/Ed. p. ________ (2010b): Para uma filosofia do ato responsável. Campinas: Pontes..ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 147 Referências bibliográficas AMORIM. 8. STREET. R. (org. era da globalização. focaliza os usos e análises da comunicação escrita realizados por indivíduos (membros da comunidade) que. Rio de Janeiro: Rocco. Rio de Janeiro: Forense Universitária. (2003): Discourse community. KUMARAVADIVELU. (2006): Perspectivas interculturais sobre o letramento. p. p.) Analisar texto ou discurso significa analisar formações discursivas essencialmente políticas e ideológicas por natureza” (KUMARAVADIVELU. (2007): Communitas: origen y destino de la comunidad. (2008): O prazer do texto . 25-31. M. (2007): La literatura en la formación y en la práctica del profesor. textualidade e significação. (2006): Linguística aplicada na ________ (2010a): Problemas da poética de Dostoiévski. S. N. Oxford University Press. SERRANI. fundamental para a análise dos procedimentos de construção do sentido acionados pela leitura: “Um texto significa o que significa não por causa de quaisquer traços linguísticos objetivos inerentes. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Atlanta. ESPOSITO. B. SWALES. 2 Segundo Borg (2003). Em: BRAIT. L. BARTHES. 129-148. Notas 1 Trago à tona aqui uma consideração de Kumaravadivelu a propósito do vínculo inexorável – observado no pensamento de Foucault – entre discurso. (2000): O entre-lugar do discurso latinoamericano. São Paulo: Contexto. CÁRCAMO. o conceito original de “comunidade discursiva”. SANTIAGO. atribuído a Swales (1987). (2008): Cronotopo e exotopia. Em: Anuario Brasileño de Estudios Hispánicos. (2001): La expresión de la persona en la producción de Español Lengua Extranjera de estudiantes brasileños: perspectivas de análisis. embora não necessariamente precisem interagir de maneira direta ou estar próximos uns dos outros. Buenos Aires: Amorrortu. Em: Annual Meeting of the Conference on College Composition and Communication (38 th. p. 239-255. Suplemento Jubileo de Plata de la APEERJ. 2006. BORG. v. 57/4. B. (. 95-114. (2003): Estética da criação verbal. ORLANDI. São Paulo: Parábola. GA). M. S. Em: Hispanismo 2000. 140). March 19-21.) Bakhtin: outros conceitos-chave. S. Unicamp. (2001): Discurso e leitura . P. n. (2002): A ordem do discurso. 1. São Paulo: Pedro & João Editores. São Paulo: Martins Fontes. J. São Paulo: Loyola. ________ (2008): A arqueologia do saber. GONZÁLEZ. Em: MOITA LOPES. (1987): Approaching the concept of discourse community. 465-488.. E. 9-26. compartilham interesses e expectativas comuns e encontram-se engajados em práticas comunicativas propiciadas por determinados gêneros discursivos. BAKHTIN.) Por uma linguística aplicada indisciplinar . B. Em: Revista de Filologia e Linguística Portuguesa. São Paulo: Perspectiva. (2010): Discurso e cultura na aula de língua. M. p. E. FOUCAULT. Em: ELT Journal Volume. cada qual com suas ideologias particulares e modos particulares de controlar o poder. mas porque é gerado pelas formações discursivas. . R. p.

148 3 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS O conceito bakhtiniano de exotopia. “refere-se à atividade criadora em geral”. de onde provém sua singularidade dentro do processo discursivo-enunciativo e de onde se derivam os valores éticos de sua posição. segundo Amorim (2008. à possibilidade de o enunciador situar-se em “um lugar exterior. 4 Todos os nomes dos licenciandos que colaboraram com a pesquisa foram alterados a fim de preservar suas identidades. p. 95-96). fundamental ao trabalho de criação e de objetivação”. .

No entanto. do setor de agronegócios e de serviços. ensino técnico. instituições responsáveis por oferecer em todos os Estados brasileiros uma gama de cursos: ensino médio. licenciaturas. no decorrer dos seus mais de cem anos de existência. Durante muito tempo. portanto. Matemática e Ciências.462/2000). 2 Centros Federais de Educação Tecnológica (CEFET) e 1 Universidade Tecnológica. a Rede Federal passou por uma constante mudança de sua identidade institucional. cursos superiores de tecnologia. PUCSP Introdução A Rede Federal de Educação Profissional e Tecnológica é formada por 38 Institutos Federais. pioneiro na oferta de cursos de Letras no cenário da Rede. somente no ano de 2000 (decreto 3.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 149 A FORMAÇÃO DE PROFESSORES DE ESPANHOL NO INSTITUTO FEDERAL DE RORAIMA: REFLEXÕES SOBRE A PRÁTICA DOCENTE Antonio Ferreira da Silva Júnior CEFET/RJ. nasce uma ampla discussão interna e externa sobre o papel de atuação dessas instituições no cenário educacional brasileiro e sobre a identidade institucional de cada Centro de formação. ensino médio integrado ao técnico. bacharelados e pós-graduação (lato e stricto sensu). A partir da publicação de tal decreto. Vale à pena destacar o curso inicia suas atividades no ano de 2006. Para este artigo. concepções de ensino e a imagem do . No que se refere à formação de professores na Rede. antes da mudança para Instituto Federal. servidores e teóricos da Educação pelo entendimento do seu verdadeiro papel perante a sociedade. Esperamos a partir da análise do Projeto Político Pedagógico do referido curso tecer considerações para as seguintes questões: formação docente em Institutos Tecnológicos. as “escolas” da Rede preocuparam-se com a formação de mão de obra especializada de nível médio para atender as demandas profissionais da indústria. sinalizando que tal proposta não é decorrente do atendimento de uma exigência do MEC para preenchimento de vagas. implicando um interesse e debate entre os professores. por determinação do MEC como alternativa para escassez de professores em algumas áreas do conhecimento. nos centramos no histórico dos Institutos Federais e sua proposta de formação de professores e no debate sobre o curso de Licenciatura em Espanhol do Instituto Federal de Roraima (IFRR). alguns CEFET começam a oferecer cursos de licenciatura em Física.

principalmente.406/97 1. 2008). básica e profissional. A formação de professores nas “escolas” da Rede Federal No final dos anos 90. Desde sua aprovação e expansão aos demais Estados da Federação. principalmente. Para alcançar tais objetivos. 1961).462/00. CELANI (2001) e PAIVA (2005). (e) presença de professores concursados sem formação pedagógica atuando nos cursos de licenciatura. o fortalecimento e a padronização de uma identidade visual para a Rede Federal de ensino. os CEFET passaram a atuar na formação e na capacitação de professores para a Educação Básica e da Educação profissional atendendo a um chamado do Ministério da Educação com a aprovação do decreto número 2. Esses são alguns pontos colocados em cena. (b) falta de esclarecimentos da atuação do docente na Carreira de Professor do Ensino Básico. no entanto. aos estudos teóricos de GADOTTI (2001). . Essa expansão inesperada e pouco discutida entre os atores (professores. as escolas federais da Rede de educação profissional e tecnológica. como: (a) articulação entre cursos de diferentes níveis de ensino. Os Institutos Federais são equiparados às universidades federais. passaram por diferentes nomenclaturas. contando com o mesmo corpo docente cursos de diferentes níveis e modalidades de ensino. Isso implica um processo interno de compreensão de como articular num mesmo espaço e. recorremos. através do decreto número 7. A reestruturação interna dos CEFET estava sendo discutida no teor desse documento. inclusive. O objetivo inicial dessas escolas era formar operários e contramestres a partir de um ensino focado nas habilidades necessárias e práticas para desempenhar ofícios manuais (FONSECA. 2. além do desenvolvimento de atividades de pesquisa e extensão. o então Presidente da República.566.150 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS professor contemporâneo. (d) oferta de cursos de licenciatura como mera formalidade para atendimento de demandas impostas pelo MEC ou vocação dos colegiados. Tal mudança acarretou novamente em uma mudança identitária das escolas e. não podem deixar de ministrar o ensino profissionalizante. tais 1. após a constituição dos Institutos Federais e a abertura de inúmeros cursos de licenciatura em diferentes áreas do conhecimento. que foi reescrito e substituído pelo decreto número 3. Técnico e Tecnológico. dirigentes e demais membros da comunidade escolar) da Rede Federal permitiu uma série de questões internas advindas dessa política de expansão do ensino técnico e superior do governo Lula. permitindo uma maior expansão e diversidade das licenciaturas oferecidas no país. Nilo Peçanha. De acordo com o decreto de criação. Institutos Federais: seu percurso identitário No dia 23 de setembro de 1909. podemos dizer que foi quase unânime. A transformação dos CEFET em Institutos Federais não foi uma medida governamental obrigatória. (c) atuação do professor em diferentes níveis de ensino. (g) necessidade de mudança do estigma de origem atribuído aos Institutos Federais/CEFET conhecidos até hoje como “escolas” técnicas. normalmente. (f) formação do licenciando vista como de um trabalhador técnico. cria 19 Escolas de Aprendizes e Artífices nas capitais dos estados da confederação e com essas o desenvolvimento do ensino profissional primário e gratuito. pluricurriculares e multicampi” (BRASIL. tais “escolas” passam a ser vistas como “instituições de educação superior. técnicos administrativos. alunos. no entanto.

(b) o acolhimento e o trato da diversidade. Após a publicação desses documentos muitos cursos de Licenciatura nos CEFET começaram a ser projetados em todo o país. 400 horas de estágio curricular supervisionado. da oferta de cursos de Licenciatura em Letras/Espanhol em dois CEFET. (e) o aprimoramento em práticas investigativas. Alguns pontos centrais foram: (a) o ensino visando à aprendizagem do licenciando. convivem com modalidades e níveis de ensino diversificados.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 151 O decreto acima ainda é reforçado por outro de número 5. carga horária e Diretrizes para os cursos de formação de professores do país. em 18 de fevereiro de 2002. nem sempre adequada à realidade e ao contexto de cada curso de licenciatura (PAIVA. três anos de conteúdos característicos de um curso de bacharelado somados a um ano de formação pedagógica. Histórico do Curso de Letras/Espanhol do IFRR Como professor da Rede Federal desde 2007. Aliado a isso. na superação do tradicional modelo hegemônico disciplinar dos cursos de formação de docentes e reforçando a verticalização do ensino. já que elas possuíam longa tradição no ensino de formação técnica e começaram. num mesmo espaço institucional. a ofertar Bacharelados em Engenharia com inúmeras habilitações. (d) o desenvolvimento de hábitos de elaboração e trabalho em equipe. Essa proposta de integração entre os saberes teóricos e práticos já é algo bastante comum na organização curricular das licenciaturas dos Institutos Federais. de certa maneira. Acreditamos que essa abertura para as Letras representou um importante movimento de quebra de paradigmas que culmina no ano de 2008. (g) o uso das tecnologias da informação e da comunicação e (h) de metodologias.224/04. ainda em constante construção. que dispõe no parágrafo único do capítulo II sobre a possibilidade de abertura de cursos em outros campos do saber. Os cursos de Letras fogem do eixo tecnológico previsto inicialmente para oferta. de licenciaturas na Rede. os primeiros cursos de licenciatura dos CEFET começaram a se configurar. Com essa regulamentação. cujo objetivo era rever aspectos da prática docente formalizando sua duração. por outro lado. (f ) a elaboração e a execução de projetos de desenvolvimento dos conteúdos curriculares. : . favorecendo. Com a nova roupagem desses cursos. 1800 horas de aulas para os conteúdos curriculares de natureza científicocultural e 200 horas para atividades acadêmicocientífico-culturais. percebemos. Em relação à carga horária das licenciaturas. de formação pedagógica e de formação geral. (c) o exercício de atividades de enriquecimento cultural. em pouco tempo de instituição. já que os licenciandos. o perfil dos cursos de Licenciatura é reformulado através da Resolução do Conselho Nacional de Educação (CNE). a partir também dos anos 90. estratégias e materiais de apoio inovadores. a resolução número 1 de 19 de fevereiro de 2000. porém. Vale à pena ressaltar também que esses cursos abriram uma nova estrutura interna no ensino das escolas da Rede Federal. determinou carga mínima de 2800 horas. no ano de 2006. encontram amparo no decreto 5. que os saberes relacionados à área industrial. 3. porém. 2005).224. conseguimos visualizar uma interdisciplinaridade entre os eixos de formação específica. de 1º de outubro de 2004. entendemos que a própria origem da Rede sustente essa demanda. De acordo com essas diretrizes. englobando 400 horas de prática curricular. A inquietação para o desenvolvimento deste artigo surgiu ao tomar conhecimento. por conta de uma nova identidade para a Rede. extinguiu-se a formação do professor da Educação Básica no chamado regime 3 + 1. à tecnologia e às exatas são privilegiados.

que atribuem sentido ao teor de tais prescrições.. Outro ponto de reforço do projeto é a falta no Estado de cursos de formação de professores. Cada universidade precisa refletir sobre a necessidade constante de estudar o perfil de professor mais adequado à realidade escolar do país. aparece citada como mais um argumento para a criação do curso. Na introdução do documento. O único existente até aquele momento. a teoria não dialoga com a prática. No entanto. a análise dos projetos revela o predomínio de currículos organizados de forma tradicional. que torna obrigatória a oferta de espanhol no Ensino Médio. Segundo Paiva (2005): [. A lei 11.] Todo projeto supõe ruptura com o presente e promessas para o futuro”. Além de a oferta acontecer num espaço até pouco tempo visto como de formação para Educação Básica e Profissional.. de um curso. o projeto do IFRR apresenta estudos estatísticos como os da Agência Brasil/ Radiobrás. coletados em agosto de 2005. Nesse sentido. condução e a manutenção desses cursos. alguns CEFET conseguiram o embasamento para ofertar as primeiras licenciaturas em Humanas. além do mercado econômico. Ainda. Em seguida. não conseguia suprir a demanda por profissionais da área. Isso implica em reconhecer o projeto de curso. através de análise de projetos e matrizes. Como justificativa. p. acreditamos que tais orientações permitem avaliar como cada instituição entende e concebe a formação de professores. o que implica numa demanda significativa de interessados pela aprendizagem da língua. No entanto. o da UFRR. o projeto apresenta a carência de profissionais de ensino de espanhol como língua estrangeira (E/LE) na cidade de Boa Vista e nos municípios do interior. e elemento norteador da discussão do perfil desejado de profissional da área de atuação. conforme assinala Gadotti (apud VEIGA. Cada vez mais. como pensar a formação do profissional de linguagens numa instituição onde algumas áreas do saber são vistas como mais tradicionais que outras? Tal pergunta constitui nosso interesse ao estabelecer uma reflexão sobre os cursos de Licenciatura em Espanhol da Rede mediante análise dos projetos e matrizes curriculares dos cursos. A elaboração do mesmo deuse por uma comissão liderada por duas representantes da área de espanhol. O projeto pedagógico do IFRR nomeia o curso como sendo de Licenciatura Plena em Língua Espanhola e Literaturas. o texto sinaliza que a instituição oferece o espanhol desde o ano de 1995 na grade de todos os seus cursos.152 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Por meio do decreto mencionado. porque. e a metodologia é ainda centrada no professor.1165/05.. e ainda conta com um Centro de Estudos de Línguas Estrangeiras (CELEM). 18) como um processo dinâmico: “[. em nosso caso o de língua estrangeira. As ementas e programas se escoram em bibliografia desatualizada. dentro do modelo de transmissão de conhecimento. em torno de disciplinas. cultural e social existente nessa área de fronteira. percebemos o caráter diferenciado desses cursos em comparação aos já oferecidos no mercado.. revelando uma carência de 12 mil professores em todo o Brasil para aplicação da lei de oferta do espanhol. o texto informa que o Estado O projeto pedagógico deve ser entendido como um gênero importante para a definição de uma concepção única de formação por parte dos docentes . 2001. além de a maioria não apresentar coerência entre os objetivos e o perfil do egresso. destaca a aproximação do Estado de Roraima a países hispanofalantes. No desenvolvimento da justificativa. sabemos que fatores decorrentes da motivação de um colegiado de professores são fundamentais para a apresentação.] o projeto do curso deveria ser o carro chefe para garantir a qualidade do ensino. com o intuito de funcionar como mais um espaço de formação. nosso objetivo principal nas páginas a seguir está em averiguar como o IFRR idealizou seu curso de Licenciatura a partir das informações públicas disponíveis em seu projeto pedagógico.

A partir dessa divisão. o documento apresenta que a proposta de trabalho do curso se pauta “numa estrutura com identidade própria. O curso está dividido em 8 períodos com duração mínima de 4 anos. Não podemos afirmar que tal desmembramento da carga seja positivo ou negativo. 600 horas de práticas a serem vivenciadas ao longo do curso. a tradução e como intérprete. como já mencionado anteriormente neste estudo. culturais e pedagógicos. Literatura. Como ponto diferencial. prática curricular e de pesquisa). 400 horas de estágio obrigatório e 100 horas de aprofundamento de estudos.059 de 10 de dezembro de 2004. O projeto atenta para a adequação das orientações do Parecer CNE/CP número 1.680 horas. Tendo em vista que o eixo central do programa é a área de Língua Espanhola. permitindo uma maior flexibilização curricular e. o projeto destaca “formar profissionais competentes no processo de ensino e aprendizagem da Língua Espanhola como língua estrangeira e suas Literaturas”. pedagógica e cultural. conforme consta a seguir o texto do projeto: . Básico. entre eles a pesquisa.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 153 de Roraima necessita de um número emergencial de 128 docentes para atuação nas escolas do Estado. O projeto de ambos possibilita que até 20% do conteúdo também possa ser ministrado à distância. consequentemente. O diferencial da proposta do programa curricular do IFRR é que distribui entre os vários períodos a carga horária da disciplina de “Prática profissional” (estágio supervisionado. de 18 de fevereiro de 2002 e da Resolução CNE/CP número 02/2002. Formação Docente e Complementação Profissional) perpassando em quatro áreas do saber: Língua Espanhola e Linguística. desde os conhecimentos mais estruturais da língua de estudo. conforme portaria número 4. A possibilidade de educação a distância é vista como um avanço. Cultura e Formação Docente. o programa organiza-se em quatro ciclos (Introdutório. em nível superior e determinar a duração e a carga horária mínimas dos Cursos de Licenciatura.580 horas dos Conteúdos/ Conhecimentos/Competências Curriculares de natureza científica. alerta que o modelo curricular está baseado em competências que contribuam para uma completa formação humanística e pedagógica. passando por aspectos históricos. alicerçado numa sólida base científica. os componentes curriculares dividem-se em dois campos do conhecimento: (1) Literatura e cultura e (2) Metodologia para aquisição e/ou aprendizagem de E/ LE. ética e democrática”. documentos responsáveis por instituir as diretrizes curriculares nacionais para a formação de Professores da Educação Básica. porque permite a inclusão do aluno na realidade digital. as redações de jornais. coletados em 2003. atividades de extensão e de natureza acadêmico-científico-cultural. ainda. para traçar um mapa da Educação Básica do Estado. a consultoria. do sujeito da aprendizagem. técnica. A matriz curricular subdivide-se em 2. O curso do IFRR apresenta diferentes linhas teóricas somente na apresentação do ciclo introdutório da aprendizagem da língua espanhola. O documento emprega os dados de 2002 do Sistema Estadual de Educação e dados da esfera educacional do município de Boa Vista. O documento delimita o foco da formação como sendo a preparação do licenciado para atuar na docência. humanística. mas também apresenta espaços possíveis de atuação do profissional concluinte do curso. O projeto. desde os primeiros períodos. que não articulam. mas pelo menos pode ser considerado um avanço comparado às demais grades. a teoria e a vivência em sala de aula por parte dos aprendizes. O projeto sinaliza uma ampla formação. Como objetivo geral do curso do IFRR. O curso na íntegra soma 3. valorizando a formação do professor como profissional do ensino.

morfossintaxe. futuro professor. Ciência e Tecnologia são instituições de ensino superior diferenciadas. quanto comunicacional da língua espanhola. seja por vontade política ou de interesse democrático. Apresenta uma visão mais tradicional do ensino demonstrada pela menção à gramática descritiva e ao reduzir a língua em blocos fechados (semântica. o que pode representar uma dificuldade para o aluno iniciante no estudo da língua estrangeira. e está orientado tanto à operação funcional-instrumental. o projeto apresenta todos esses pontos no nível inicial de aprendizagem (correspondente ao segundo semestre). no entanto.. pela necessidade de formação de docentes de espanhol. 2001) para atuar em diferentes contextos educacionais brasileiros. por anseios profissionais. usa a “análise do discurso” sem a implicação teórica apropriada. morfossintaxe. que num primeiro momento foram concursados para atuar no ensino médio.] Constitui o eixo da carreira tendo como base o enfoque integral da língua espanhola (semântica. Além disso. vale à pena reforçar que em relação aos cursos de licenciatura da Rede. a mudança de CEFET para Instituto. e segundo. na relação entre a teoria e prática do futuro professor de E/LE. que iniciaram. cada “escola” constituinte da Rede Federal foi construindo uma história própria. No trecho acima. primeiro. o projeto também inova em relação às outras grades curriculares de Letras em todo o Brasil. técnico e tecnológico. o texto de apresentação das competências a serem desenvolvidas no primeiro ciclo expõe múltiplas correntes. mas que acabaram por levar a experiência desses níveis para a idealização de um curso de licenciatura. pragmática). talvez seja mais coerente o colegiado primar por uma consonância teórica na elaboração das disciplinas iniciais de língua espanhola. Não queremos dizer que discutir a língua sobre diferentes abordagens não seja importante para o aluno. incluindo uma gramática descritiva e uma metodologia de análise dos discursos. . acreditamos que os projetos analisados imprimem uma formação vinculada a um futuro trabalhador da sala de aula. já que o projeto não sinaliza a necessidade de conhecimento da língua para realizar o mesmo. o curso de Letras/Espanhol do IFRR é uma proposta recente e inovadora. por exemplo). levanta o método comunicativo e finaliza mostrando a importância da análise contrastiva. seu percurso acadêmico e sua identidade institucional em 1909 no ato de criação das primeiras escolas de Aprendizes e Artífices. Por outro lado. No decorrer de sua existência. Em relação às disciplinas de formação didático-pedagógica. 2005) Considerações finais Os Institutos Federais de Educação.154 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS [. Como vimos no decorrer do artigo. Apesar de a Rede Federal. desde sua origem. implicou no aumento de vagas e diversidade dos mesmos. projetos e experiências de ensino. privilegiando o enfoque contrastivo na aprendizagem da Gramática Espanhola (IFET RORAIMA. O projeto fornece importante contribuição para a formação de profissionais diferenciados e reflexivos (CELANI. As ementas das disciplinas permitem visualizar a preocupação da comissão elaboradora do projeto a todo o momento na transversalidade do saber. de abordagens e de olhares para o ensino de línguas.. idealizada por docentes. em sua maioria. Deverá atender à integração dos distintos componentes curriculares. dotado de conhecimentos teóricos e de ampla formação cidadã. estar focada na formação de trabalhadores para atuação no mundo produtivo.

21-40. “O novo perfil dos cursos de Licenciatura em Letras”. 23.dá nova redação ao art. pp. . BRASIL. IFET RORAIMA. 8º do Decreto 2. de graduação plena. ed. Celso Suckow da. In: LEFFA. P. 2001. VEIGA.br/campus_bv/index. (Org.095 de 24/04/07 .Institui a duração e a carga horária dos cursos de Licenciatura. In: TOMICH.php/ component/content/article/46-cursos/68-licenciaturaplena-em-lingua-espanhola-e-suas-literaturas>. 2000. Nota 1 A oferta inicial dos cursos de licenciatura nas escolas da Rede remete à oferta voltada para a área das Ciências da natureza.L.) O professor de línguas estrangeiras – construindo a profissão. que regulamenta a Lei nº 8. de 27 de novembro de 1997. ———. 2005. Disponível em: < http://www. 2011. Pelotas: Educat. 345363. A interculturalidade no ensino de inglês.Estabelece diretrizes para o processo de integração de instituições federais de educação tecnológica. Último acesso em: 03 set 2009. I. A. ———.edu. Decreto 6. História do ensino industrial no Brasil.mec.406. FONSECA.ifrr.php?option=content&task=view&id=91&Itemid=207>. de 19 de fevereiro de 2002. Último acesso em: 30 fev. Resolução CNE/CP 1/2002. CELANI. V. Campinas: Papirus. Disponível em: <www. “Ensino de Línguas Estrangeiras – ocupação ou profissão”. ET (orgs. p. Expansão da Rede Federal. Plano de curso para formação do professor da Educação Básica em nível superior – Licenciatura plena em Língua Espanhola e Literaturas.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 155 Referências bibliográficas BRASIL. de 18 de fevereiro de 2002 .M.948. MEC. Maria Antonieta Alba.br/setec/ index.).http://p or tal. de 8 de dezembro de 1994. MEC. Decreto 3. 1961. Vilson (org. PAIVA. de formação de professores da Educação Básica em nível superior. ———.462 de 17/05/2000 . Resolução CNE/CP 2/2002.gov. Rio de Janeiro: Composto e Impresso no Curso de Tipografia e Encadernação da Escola Técnica Nacional.) Projeto político-pedagógico da escola: uma construção possível.O. Brasília. 2005. Florianópolis: UFSC. para fins de constituição dos Institutos Federais de Educação. Ciência e Tecnologia IFET. no âmbito da Rede Federal de Educação Tecnológica. 2001.

el modelo ideal se debe basar en tres componentes: estructura ideacional. En el ámbito hispánico. observó que algunas unidades presentan un carácter polifuncional porque operan en distintos planos del discurso: el semántico y el pragmático . así como suelen indicar la existencia de algunos de esos rasgos que. pueden funcionar como marcadores. Lo cierto es que muchos de los estudios que se han llevado a cabo en este ámbito suelen señalar la especificidad de los rasgos suprasegmentales (como la entonación . Así. todavía hacen falta estudios que se ocupen de forma más detallada del tratamiento de la polifuncionalidad de los marcadores del discurso. al parecer. realiza una revisión de algunos . también han puesto de relieve la polifuncionalidad de los MD. Otros estudios. En este sentido. por lo que deben ser incorporados a ellas. estudios como los discurso (en adelante MD) es un tema que. estructura retórica y estructura secuencial (las cuales corresponden. o la delimitación por pausas) que. como los que se basan en la coherencia discursiva. al estudiar la coherencia que se construye por medio de relaciones entre unidades adyacentes en el discurso. El modelo de Schiffrin. deslinda el aspecto polifuncional de los MD a partir de cinco dominios del discurso: la estructura del intercambio comunicativo. Redeker (1991). por su parte. Van Dijk (1979). tal es el caso de los modelos de Shiffrin (1987) y de Redeker (1991). en su precursor estudio “Pragmatic connectives”. respectivamente. no ha recibido bastante atención por parte de estudiosos que se han ocupado de desvelar el valor semántico-pragmático de estas unidades discursivas. el marco de participación y el estado informacional (SCHIFFRIN. determinan el sentido de estas partículas discursivas. la duración silábica. a la estructura ideacional.156 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS POLIFUNCIONALIDAD DE LOS MARCADORES DEL DISCURSO Y ENSEÑANZA DEL E/LE Antonio Messias Nogueira da Silva Universidade Federal do Pará 1. no asociados con una pieza léxica en concreto. Introducción La polifuncionalidad de los marcadores del aspectos del estudio de Schiffrin y defiende que el marco de participación y el estado informacional no son independientes de las otras tres estructuras. según esta autora. asociados con los marcadores. la estructura de los actos de habla. 1987: 25). la estructura ideacional. a la estructura de los actos de habla y a la estructura de intercambio comunicativo propuestas por Schiffrin).

a la palabra que les queda más cercana en el enunciado (ALLERTON Y CRUTTENDEN. frecuentemente matizan el contenido instruccional de los MD (MARTÍN ZORRAQUINO. Para Hidalgo Navarro (2010: 65). en este caso bueno puede aparecer con un alargamiento de las vocales. sino En definitiva. perspectivas. Martín Butragueño (2002). precisamente. y en función de factores que no tienen incidencia en el texto escrito. las reacciones del interlocutor.¿Te no apetecen gominolas? (. Por otro lado. c) -¿Te apetecen gominolas? (-¡Bue Bueno no o …). más importante aún.. En contraste con los marcadores comunes en la escritura. la entonación.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 157 de Domínguez García y Dorta Luis (2002). y que.Bue Buen o. los cuales indicarían. o una aceptación neta y entusiasmada (b ). o. la información directamente accesible a partir del contexto situacional. Así pues. ). una mayor o menor elevación de tono. por ejemplo. en cambio. según esta autora. Con todo. cuyo propósito es reforzar la réplica. como. los marcadores conversacionales presentan una mayor polifuncionalidad en el discurso. De esta manera. La polifuncionalidad (. el hecho. señala que la polifuncionalidad de los MD “está en relación con la aptitud de las par tículas extraoracionales para recibir rasgos suprasegmentales distintos (sobre todo. una mayor o menor cantidad en las sílabas y una mayor o menor duración en las pausas se corresponderían con sentidos o matices diversos en la expresión de los marcadores. por ejemplo. puede expresar desacuerdo (d ) del interlocutor (también en este caso. 2000: 209). 2004). por su parte. Elordieta y Romera (2002). d) -Me ha dicho tu ex mujer gominolas? (-Buee Bueeno noo no o . creemos que resulta posible establecer las diferencias entre los diversos conectores pragmáticos contrastando el funcionamiento pragmático y discursivo de aquellos que realizan una misma función. el marcador bueno puede aparecer con un alargamiento de las vocales y acompañado de una repetición del signo. además. el marcador b ue no. algunos rasgos suprasegmentales. intensificándola o atenuándola): a) . la cuestión es que en la mente de los especialistas ha acabado calando la importancia de lo prosódico como factor decisivo para explicar la polifuncionalidad de los marcadores. se puede afirmar que: (…) una mayor o menor fuerza en el acento. tales como la entonación. pueden tener su sentido determinado por los rasgos suprasegmentales. una misma forma tiene asociada varias . la entonación).) determina que resulte extremadamente difícil proponer un significado constante para cada marcador. por ejemplo. o un consentimiento resignado (c ). como c lar laro y b i e n . Sirvan de ejemplo las siguientes palabras para comprender la dinámica de los conectores: Comenzar el análisis desde las funciones permite explicar la polifuncionalidad de un conector y. o más o menos connivencia con el interlocutor. b uee no o … ¿Tú que siempre te ha sido fiel. -Buee Bueeno noo ueeno noo crees? no . con lo que se contribuye a matizar el valor semántico-estilístico (el sentido) de dichas unidades”. aunque complementarias. más o menos convicción por parte del hablante en relación con el “comentario” que reflejan. en mayor o menor medida.) es una necesidad para entender el funcionamiento de estos elementos en la conversación coloquial (PONS BORDERÍA. en una misma ocurrencia de un marcador sea posible identificar más de un valor (tanto en el plano semánticoargumentativo como en el enunciativo y en el interactivo. Así. o. podrían señalar también que afectan. Martín Zorraquino (1998: 23). 1974). etc. matizado por la entonación. puede indicar una ueno simple y clara aceptación (a ). no solo el marcador b ue ueno o (que ) también muchos otros marcadores. b) -¿ Te apetecen no ! ¡Encantado!). por ejemplo. de que una misma función pueda ser desempeñada por más de una forma. el que una ocurrencia de un conector se pueda analizar desde distintas. Briz (1996) e Hidalgo (1997) aportan nuevos datos sobre las propiedades prosódicas y las funciones de algunos marcadores del discurso del español. de otro modo..

ocupa una parte muy pequeña dentro de una unidad. un problema para el aprendizaje de estas unidades. cómo y qué formas usar en determinados contextos.). (…) tiene que recurrir. 1999). de los 15 manuales investigados. puesto que en diversas unidades didácticas de los manuales analizados suelen aparecer algunos marcadores que. Tal diversidad de marcadores implica también atención a la versatilidad semántico- La polifuncionalidad de los MD es un aspecto que muy raramente se advierte en los manuales de nivel B2 que analizamos. por ejemplo. . aunque muy por encima. constituye. en palabras de Pons Bordería (2000). en la enseñanza de estos elementos. apenas se ofrecen aclaraciones teóricas sobre el valor semánticopragmático de los MD y la poca información que se presenta respecto de este aspecto suele ser de forma muy superficial y. A2 y B1). el profesor de ELE: (…) más aún que para la didáctica de otras clases de palabras. conforme este manual. por polifuncionalidad del marcador b ue ueno medio de un ejercicio. al trabajar con los MD. tomando como base un texto conversacional que el estudiante debe escuchar para resolver algunos ejercicios. suprayectiva.4. pues solo en cuatro. que la mayoría de los manuales analizados sigue el enfoque comunicativo. § 3. a numerosos ejemplos de cada uno de ellos (de cada marcador). además. 2. por ejemplo. ya que. los marcadores en el discurso oral sean mucho más difícilmente sistematizables. con frecuencia.). al principio de frase cuando se quiere marcar que pasamos de una etapa de la conversación a otra: no . lo que.65) presenta una concluirla (b ue ueno nota en la que queda claro el valor polifuncional del conector es que . como. de textos diversos y situados en contextos diferentes. en primer lugar. “Las palabras b ue ueno también con otras muchas funciones”. Polifuncionalidad de los MD y su enseñanza en los manuales de E/LE1 Cabe destacar. ofrecen dificultades para su comprensión. principalmente en los niveles avanzado y superior. a diferencia de los niveles anteriores (A1. puede introducir “explicaciones y. el surgimiento de diferentes contextos en los que los MD se manifiestan con múltiples funciones. por lo que tanto el docente como el discente se ven ante situaciones donde no saben muy bien cuándo. a partir de estos niveles. a diferencia de lo observado en la lengua escrita.158 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS funciones y una misma función puede estar desempeñada por varias formas. ueno no y p ues se usan Según este manual. excusas o justificaciones”. p ues yo resulta que es que he tenido las dos “Bue Bueno condiciones…”. combinados o no en la conversación. el profesor de ELE debe introducir una mayor diversidad de MD con vistas a que el aprendiz convierta “sus frases en un discurso claro y coherente” (MCER.81) que. con objeto de facilitar a sus alumnos el aprendizaje de su empleo” (MARTÍN ZORRAQUINO. a nuestro modo de ver. se presentan. Los man tratan de este aspecto son: a) A Fondo (p. procedentes. por su polifuncionalidad y carácter distribucional. Así. se lo presenta como una fórmula que los hablantes utilizan para cumplir dos no …) y funciones: iniciar una conversación ( b ue ueno no . según el MCER. p ues …”. según parece. La polifuncionalidad de los MD es una realidad en la lengua y su enseñanza en las clases de ELE facilitaría al aprendiz la calidad de su aprendizaje. lo que comporta que. presenta brevemente un comentario respecto al aspecto polifuncional de los marcadores b ue no y p ues .159) también se refiere a la no cuando. el cual. en estos. b) respuesta “Bue Bueno Bueno Sueña 3 (p. Es decir. además. pero. c) Aula 4 (p. comentarios sobre la polifuncionalidad uales d e ni v e l B2 que manuales de niv de algunos MD 2. o para darse tiempo a pensar en la no … P ues … o Bue no . pragmática de estas unidades. La relación entre formas y funciones es.

Para los niveles C1 y C2. por ser marcadores explicativos. sí . v ale . en el nivel C1 comentar todos los casos posibles. e h . Téngase en cuenta que el marcador a d e m á s (junto con el conector a p a r t e . (cfr. De manera particular. o y e . introducir una autocorrección. atenuar el contenido de una respuesta en relación con la pregunta del interlocutor. este último. en especial. y a . resultaría más práctico empezar por el B2. como. pensamos que lo primero que se debería explicar es su significado de adición en tanto en cuanto resulte como un elemento conectivo y su función sea la de vincular dos miembros discursivos cuya orientación argumentativa tiene que ser la misma. si es deseo del profesor trabajar con casos de polifuncionalidad de determinados marcadores. por ejemplo. aplicando. b ue nga mira oiga ueno no .). explicativos es dec decir esto sabe sea según este manual. como también a los propios estudiantes que podrían utilizar este conector. semántico-pragmática de los marcadores c lar laro v e ng a . 1999) que. su significado semántico-pragmático de conector aditivo. ya que no tiene sentido desde un punto de vista metodológico y didáctico. es decir. únicamente. mir a . etc.. por ejemplo: la toma del turno de palabra. la atención a la polifuncionalidad a . es que . o bien “introducen un argumento que dice exactamente lo mismo de otro modo” o bien “introducen una consecuencia del argumento anterior”. sino elegir polifuncionalidad de b ue ueno dos o tres funciones más sencillas de este marcador y. El único método que introduce algún tipo de información sobre este aspecto es el manual El Ventilador (p. Tanto en los manuales de nivel B2 como en más los de nivel C1. será más razonable que él realice una concienciada selección de marcadores de polifuncionalidad más sencilla para ir introduciéndolos a partir del B2. poseen un doble valor. casos de versatilidad o . se deben aplicar de manera más detallada en los niveles C1 y C2. la clasificación del conector ade además exclusivamente como estructurador de la información que ordena el discurso con vistas a dar continuidad al mismo puede crear confusión tanto en las explicaciones pertinentes que el profesor pudiera dar a sus alumnos. el profesor dejaría b ueno3 . siempre y cuando tome como referencia el manual donde figura esta información. el inicio del diálogo o. Si bien es cierto que al profesor de ELE no deberían preocuparle excesivamente los casos de polifuncionalidad en un nivel B2. Así pues. v amos . es decir. como ordenador del discurso. o el caso de los marcadores b ie ien s ea . luego. 1998: 214). más propio del español oral coloquial) es el conector aditivo más frecuente. Ahora bien. oig a . oy e . e nc ima . exigiría de los aprendices un mejor dominio de las competencias lingüística y pragmática para comprenderlos y ponerlos en práctica. tal es n . e ni ve l uales d prácticamente no se trata en los man manuales de niv C1 que hemos analizado (un total de 8 manuales de este nivel). a sab er y o s ea . en manuales acerca de ade además primer lugar. oig a y otros semejantes de los marcadores mir mira oiga resultaría profundamente interesante en las clases de ELE. ya que estas unidades desarrollan diferentes estrategias discursivas en la conversación. aun. etc. p ues . 58) que presenta una notación en la que comenta la polifuncionalidad de los conectores ir . PONS BORDERÍA. más b ie n . MARTIN ncima bie ien ZORRAQUINO Y PORTOLÉS. no trate de aplicar todos los casos en un nivel B2 o en un nivel C1 o C2. est o es .etc. en general. cumple funciones distintas en cada caso de su empleo (expresar conformidad con lo propuesto previamente por alguien. por presentar matices de versatilidad semántica un poco más complicados.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 159 La polifuncionalidad de los MD los casos más complejos de polifuncionalidad. los cuales. si bien lo más práctico sería no aplicar todos los casos de no en el nivel B2. Así pues. pues son casos complejos que normalmente y según el MCER. por lo que las explicaciones que se presentan en los más deberían contemplar. señalan las relaciones sociales que se establecen entre hablante y oyente (cfr. inclusive en los contextos que exigen su uso como conector aditivo. introducir un cambio de tema en la conversación.

etc. por ejemplo– debe aprender a escribir “(…) textos claros.. también la distribuye y la divide en agrupaciones más pequeñas. para aclarar el aspecto polifuncional de los MD. en los manuales de ELE. Sin embargo. aspecto que. Este es un problema sabe sea (es dec decir esto que. queremos dejar constancia de que ninguno de los manuales de ELE de que nos ocupamos en este estudio contiene suficientes informaciones sobre la polifuncionalidad de los MD como para que un aprendiz de español pueda llegar a comprender perfectamente el funcionamiento de las unidades que introduce. en listas que perpetúen la vieja idea . etc. pues al tiempo que introduce una nueva información coorientada con la temática que se presenta en el miembro discursivo precedente (función de conector aditivo). Según nuestra opinión. fluidos y bien estructurados. lo que indica la gran riqueza de sus matices expresivos. la oposición y el contraste. est o es . se le podrían. 220). se presentasen anotaciones a través de cuadros didácticos. hasta su polifuncionalidad. la condición. Pero esta es una tarea que no solo requiere del profesor un conocimiento más profundo del valor semántico-pragmático de los MD que explica. Tomamos como más de que hemos ejemplo el caso del conector ade además venido hablando: este marcador también puede ordenar la materia discursiva. que –no hace falta decir– ya se enfrenta a la compleja tarea de explicar en sus clases cuáles son los mecanismos de los que se valen los hablantes nativos para estructurar u ordenar su discurso así como expresar la causa. este significado básico de ade además entonces. conforme hemos visto más arriba. Además. en este nivel. solo uno 4 de los ocho manuales publicados para el nivel C1 comenta. la sucesión temporal o la expresión de hipótesis. Por otro lado. además. mostrando un uso controlado de estructuras organizativas. este aspecto y. la consecuencia. el problema surge porque los manuales no suelen explicar la polifuncionalidad de los MD que introducen en sus unidades didácticas. funcionando. Para ello.160 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Ahora bien. o en otros términos. así. restringiéndose a un pequeño grupo de marcadores ir . Conclusiones En fin. a sab er y o s ea ). convierte la tarea de aprendizaje de los MD aún más engorrosa. 3. el aprendiz necesariamente deberá reconocer otros rasgos característicos de estas partículas discursivas que pasan desde el aprender los diversos efectos de sentido que subyacen al uso de varios marcadores. enseñar otras funciones que este conector puede ejercer en los textos. “(…) en su explicación debería huir de una presentación estática. una vez entendido. hecho que refuerza la necesidad de los estudiantes del nivel C1 de aprender a usar un mayor número posible de MD. Lo cierto es que el profesor de ELE. a nuestro modo de ver. se ha de poner de manifiesto la notable carencia del tratamiento de la polifuncionalidad de los MD en los manuales de nivel C1. como ordenador del discurso. también deberá hacer frente a este otro problema que es la ausencia o la carencia de informaciones respecto de la polifuncionalidad de los MD en los manuales de ELE. sino que también requiere que él cambie la manera de enseñar dichas unidades. es donde el aprendiz –en lo que se refiere a su expresión escrita. con vistas a que el discurso resulte más fácilmente comprensible. donde mucho más que en el nivel B2. por lo que en el nivel C1 deberían recibir mayor atención. una vez que el alumno aprenda más . conectores y otros mecanismos de cohesión” (MCER: p. se hace necesaria su atención. puesto que no toma en consideración el hecho de que la polifuncionalidad de estas unidades constituye un rasgo característico de muchas de ellas. pero siempre después de que se explicase su significado semántico-pragmático más básico y frecuente en español. Así. resultaría conveniente que. aporta una mayor seguridad con respecto al uso de estas partículas. globos. aunque de manera muy general.

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a pesar de la casi sinonimia. también tenían la cabeza poblada por fantasías sobre la tierra nueva y soñaban construir nuevas realidades. Esteves FCL-UNESP-Assis Autora de una obra variopinta que incluye. La vasta galería de sus personajes está poblada por seres excéntricos que tratan de encontrar una identidad posible o un lugar. llegaron a la región del rio de la Plata. de uso más amplio. que en general abordan cuestiones históricas e identitarias asociadas a tránsitos y fronteras. El mapa de dicha presencia arranca de su primera novela. poemarios. desde la publicación de su primer libro en 1984. este último se asocia más directamente a Alemania como Estado moderno. imaginario o real. en lugar de “alemán”. para estas notas. viene ocupando un destacado lugar en las letras argentinas. Hay que subrayar. usar el adjetivo “germánico”. por algún motivo. viajeros y aventureros en general. pasa por La pasión de los nómades (1994). migrantes. El presente trabajo pretende trazar una breve cartografía de la presencia de los germánicos en narrativas de María Rosa Lojo. Como los demás. en un constante deambular. en donde encontrarla y/o encontrarse. El autoconcepto de ésa cultura trasciende el territorio comprendido por Alemania como nación . En la larga lista de su obra ficcional merecen destaque las narrativas casi siempre urdidas en los borrosos límites entre historia y ficción. Preferimos. ya que. originarios de tierras germánicas. Exiliados. en el ámbito literario. por el libro de relatos Amores insólitos de nuestra historia (2001) y concluye en Las libres del sur (2004). discutiendo como están dibujados discursivamente dichos personajes y cuál es la imagen del continente americano reflejada en su mirada.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 163 EN BUSCA DEL PARAÍSO: LA REPRESENTACIÓN DE LOS GERMÁNICOS EN LA OBRA DE MARÍA ROSA LOJO Antonio R. que con excepción de los dos relatos de Amores insólitos de nuestra historia. circulan por las fronteras de varios mundos. en esas novelas los personajes germánicos no son protagonistas ni tampoco su visión de América y de Argentina es el tema central. colecciones de relatos y varias novelas. Canción perdida en Buenos Aires al Oeste (1987). Entre ellos se pueden constatar aquellos que. “Tatuajes en el cielo y en la tierra” y “Ojos de caballo zarco”. en especial por el vasto territorio argentino. sin embargo. Rosa María Lojo.

2001. una indígena de la tribu de los Xarayes. El ejemplo de c onquistador está en Ulrich Schimidl. los dividí en cuatro categorías que a veces se cruzan ente sí: conquistadores. p.164 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS moderna. ur e r o germánico. Solamente por cuestiones didácticas. aventureros. 44). El grado de ficción e historia que hay en cada uno de ellos cambia según el personaje. El relato de María Rosa Lojo. Hay que quedar claro. presentándolo como un hombre sensible. que se trata de mera opción personal. es su experiencia y el relato de Lojo. “las Amazonas eran notoriamente inexistentes” (LOJO. partiendo de ello. Como los relatos de María Rosa Lojo. una vez que según el relato. Este lansquenete bávaro que participó de la expedición de la primera fundación de Buenos Aires dejó uno de los primeros relatos de la ocupación del rio de la Plata. centraliza el foco en la mirada que Ximú tiene del conquistador germánico. viene desde los tiempos de la conquista. como se sabe. la imagen y autoimagen que los germánicos construyeron de su cultura es muy compleja y su discusión ultrapasa los objetivos de esta ponencia y al espacio de que dispongo. Ambos amantes. viajeros e inmigrantes. La presencia de germánicos en América. p. de los Un típico a v e n t tu re muchos que deambularon por el territorio americano en el siglo XIX. abarcan un período que va del XVI al siglo XX y han nacido en varios puntos del ancho territorio ocupado por la lengua alemana y la cultura germánica. 219). comprendiendo prácticamente toda la historia del continente después de la llegada de los conquistadores. sin embargo. que trata de trazar la cartografía del cuerpo de la mujer americana y no los mapas de los tesoros de las nuevas tierras. sigue las estrategias usadas en las narrativas de extracción históricas. usaré en este trabajo el orden cronológico de la acción de los relatos y no las fechas de su publicación. Algunos son personajes históricos ficcionalizados. 2006. Tenemos entonces no un conquistador español sino su equivalente germánico. Lo que él ofrece al mundo. juntamente con la imaginada Ximú. una riqueza superior al deseo de volver a Europa cargado de oro y plata. que ocupó y ocupa un espacio que va más allá de las fronteras geográficas de aquél. Una de sus preocupaciones centrales. La construcción de los personajes germánicos en las obras en cuestión. partiendo de dicha mirada. entendidos como narrativas de extracción histórica (TROUCHE. Él abandona los anales de la historia de la conquista argentina para protagonizar. Además. era gozar de los encantos de la mujer americana. el relato que hace una especie de relectura a contrapelo del episodio de la conquista y se ubica en la base de la construcción discursiva de la Argentina. La marca principal de ese aventurero de Straubing es la lectura particular que él hace del Nuevo Mundo. Esa versión alternativa de la historia se hace posible a partir de las fisuras del relato del cronista germánico y es a partir de dicho entrelugar que la narrativa de María Rosa Lojo teje su contrapunto a la historia hegemónica. 33). más que encontrar al reino del Dorado. de “Tatuajes en el cielo y en la tierra”. p. se tejen en los umbrales de la ficción y de la historia. 2008. atraídos por la exuberante naturaleza local o . sobreviven en el “territorio natural de su pasión” y proponen otra lectura posible para la conquista. tratando de encontrar fortuna. de acuerdo con aquello que Beatriz Pastor llama de discurso narrativo del fracaso (PASTOR. entretejida a través de la memoria de la mujer una vez que en el relato la nativa conquistada es quien se apodera del cuerpo del amado. otros son personajes puramente ficcionales. relato incluido en el volumen Amores insólitos de nuestra historia (2001). hace una inversión de la épica tradicional de la conquista. capaz de ver al otro y dispuesto a descubrir en los cuerpos. Los germánicos que aparecen en los relatos de María Rosa Lojo.

negación de lo que él considera cultura civilizada europea. lo representa negativamente en sus escritos. el filósofo alemán trataba de defender. ante la imposibilidad de la posesión de los metales (cobre y plata) de las minas de Famatina. protagonista de la narrativa. construido a partir de los dos anteriores. Se trata de un conocido filósofo de las primeras décadas del siglo XX que viajó a Argentina en fines de los años 20. El conde está reconstruido como el modelo negativo del germánico. pero descendiente del hombre de “ojos de caballo zarco”. Representa en el relato una inversión del tópico de la superioridad europea que normalmente sostiene los discursos racistas. Debido a su piel blanca y principalmente por el color de sus ojos. transformándolo en una especie de ogro primitivo. usando lo ajeno para estabilizar lo propio. una especie de pantalla de proyección en la que. en La Rioja. reta al caudillo Facundo Quiroga y por su audacia consigue un espacio en la nueva patria en construcción. 202). Reconstruyendo los desencuentros amorosos de la pareja y la posterior polémica del conde con Victoria. gracias a su relación con Victoria Ocampo. mientras él se pierde en su estéril Europa. también en Amores insólitos de nuestra historia (2001). en sus relatos de viaje será desconstruída por la propia Victoria en sus memorias y sirven de base para lectura que hace María Rosa Lojo de la relación de ambos. patrocinado por la mecenas de las artes argentinas que fue Victoria Ocampo. al lado de su amada. se fija. en tiempos de crisis. “de tanto hurgar en historias de alemanes y españoles que perseguían las Fuentes de Juvencia o los palacios de El Dorado” (LOJO. a una huerta y a una “escuela especializada y a un Instituto de Idiomas”. esa pantalla de proyección invertida. ocupando la segunda mitad de la novela. en el cual se quedan las mujeres. llega a la Argentina como secretario del Conde Hermann von Keyserling. por ejemplo. ese hombre “que se considera un espíritu libre pensador y libertario. Sus relatos de viaje muestran una Argentina bárbara. la salvación de la hegemonía europea (BLOSS. En defensa de su amor por una criolla. Evidentemente él será expulsado de dicho paraíso. Ese personaje. El personaje histórico se traslada a las páginas de Las libres de Sur (2004). . Totalmente ficcional. no regresa a su tierra y decide fijarse en la Argentina después de casarse con la gallega Carmen Brey.98). una nueva visión del mundo.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 165 simplemente en búsqueda de aventuras es Karl von Phorner. casado con una nieta de Bismarck. 2004. 2001. hundida en la crisis que producirá los desastres de la Segunda Guerra Mundial. En Chivilcoy él se dedica. por amor. Utz von Phorner. protagonista de “Ojos de caballo zarco”. en las páginas de la novela Las libres del Sur (2004). también nacido en Straubing. Como en el caso anterior. su figura muestra como el viajero/aventurero se transforma en inmigrante al entrar en contacto con la nueva tierra y principalmente al encontrar en ella el amor de su vida. violador del universo femenino y de la imagen edénica de las tierras americanas. 1995). noble báltico de lengua alemana. p. Victoria fue. Además repite un par amoroso presente en buena parte de la narrativa de Lojo: el germánico (o su descendiente) que se enamora de la gallega (o su descendiente) para formar un matrimonio que representa una especie de emblemática pareja fundadora argentina. p. ha sufrido la más inicua discriminación y la burla de los campesinos analfabetos” (LOJO. En ese sentido. una vez que además de ser incapaz de ver el “otro”. su imagen es opuesta a la de Ulrich Schimidl. en Argentina como ganadero y adopta la nueva tierra como suya. en su discurso. La imagen que él construye de Argentina. la narradora dibuja su imagen en la novela. Personaje de la misma novela y asociado a él. es el Conde Hermann von Keyserling. capaces de hacer nacer una nueva realidad. Se trata de una nueva estrategia del discurso colonial. Ese ingeniero de minas. quien lo había invitado a Buenos Aires.

que. Irene y Alberto. en las ramas de un gigantesco aguaribay. sin embargo. paradójicamente ella siente más distante en su casa. la segunda novela de la autora. de paso. Inicialmente se fijan en Brasil y después en la provincia argentina de Misiones. Irene. Con los inmigrantes alemanes pasó lo mismo. La casa de los Neira hospedará a Rosaura dos Carballos y Merlín. Federico Reuter narra entonces la epopeya de sus antepasados que en el siglo XIX abandonan Alemania en busca de una nueva patria.166 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS La representación del universo americano como una especie de paraíso siempre estuvo presente en el imaginario europeo y es parte de los sucesivos discursos relativos a la región. es decir. en La pasión de los nómades (1994. protagonistas de su primera novela. los protagonistas se reúnen en una cena en la casa de los Reuter en la que se discute el problema de la inmigración asociado al drama de la identidad argentina. Aquí hay una duplicación de la pareja compuesta por un descendiente de alemanes y una descendiente de gallegos. representada por sus sobrevivientes. al mismo Lucio Victorio. 36). la historia: No voy a repetir la búsqueda del Paraíso en la tierra. en los últimos dos siglos. […] Yo no diría ya que el país es mío sino . los diversos viajeros que la visitaron y. estudiosa de filosofía. “Irene miraba al vacío. con padre gallego y socialista. 1987. La joven pareja va a vivir en un pueblo de Misiones. Como en los antiguos “coloquios”. Me quedo con el ámbito imperfecto que me ha tocado. Canción perdida en Buenos Aires al Oeste (1987). que decide rehacer su trayecto juntamente con los dos gallegos. Hija de la diáspora republicana española. Federico reitera que no pretende hacer repetir. un ex pastor luterano que había abandonado la familia y el sacerdocio debido al alcohol. La familia Neira. María Rosa Lojo tiene entre sus temas la cuestión del desarraigo y la búsqueda de una patria posible. El origen extranjero común hermana a los personajes. que en la historia ya han regresado a Misiones. una vez más. es educado por la madre y el abuelo. 1987. el capítulo IV de la segunda parte de La pasión de los nómades. el médico de origen misionero Alberto Krieger. que tiene el mismo nombre del padre. p. también las r ant es que abandonaron el sucesivas olas de mig migr antes “Viejo continente” para fijarse en tierras americanas en búsqueda de ese El Dorado imaginario.” (LOJO. Rosaura va a encontrar. hay cierta similitud entre su historia familiar y la historia de la familia Neira. vuelve a aparecer. Con ello. asociada a esa familia gallega. Alberto. que “había sido gaucho brasilero casi antes de ser alemán” (LOJO. Ese discurso se reitera y se discute en las dos primeras novelas de María Rosa Lojo: Canción perdida en Buenos Aires al Oeste (1987) y La pasión de los nómades (1994). se enamora del hijo de un inmigrante alemán. Se puede decir que Federico Reuter y su esposa Ana sean una especie de dobles de Alberto Krieger e Irene Neira. antes de su periplo siguiendo los pasos de Lucio Victorio Mansilla. en donde el médico busca la reconciliación con su padre.29). cuando los Reuter entran en escena. y se casa con él para disgusto de su padre. Allí cerca. interesa la presencia germana. La hija de los Neira. De ese modo. Para la presente discusión. parece estar en la novela justamente para discutir la cuestión de la identidad argentina y lo hace a partir de la experiencia de la inmigración de la familia Reuter. Discutiendo la costumbre de los argentinos en abandonar su tierra delante de las casi cíclicas crisis. incluyendo los primitivos conquistadores. los protagonistas. el protagonista del viaje anterior. p. El hijo/nieto de inmigrantes alemanes ayuda a Irene en el encuentro con la identidad argentina. sin saberlo pertenecía ya a esta tierra y a Alberto Krieger.

ampliando el espacio de la discusión a la superación de los límites de la frontera: “Nos despedimos pensando en alas. 108-9). viajeros. . tan repetida en el discurso de conquistadores. USP. El segundo es la inserción de la mujer en el universo tradicionalmente dominado por el varón. la frontera. María Rosa (2010): Árbol de familia. se establece el conflicto y el germánico. Anais do 3° Congresso ABRALIC. aventureros e inmigrantes y aventureros. no hace falta ir muy lejos. 110). Lo insólito del amor. 125-131. 1999. aparece rotundamente negada en la voz de Merlín. (2008): Andar por los bordes. en el cual la identidad se presenta como un discurso en movilización continua. Dichos temas siempre se plantean a partir de la experiencia femenina y la dificultad que tiene la mujer para hacer escuchar su voz en un mundo dominado por el discurso masculino. La idea de argentinidad aparece asociada en nuestros relatos con la unión entre una mujer hispánica o americana. tiene una significación especial ejerciendo la función de promover la comunicación. 2001. Por ello. Lleida: Facultad de Letras de la Universidad de Lleida. El amor. en ríos y en migraciones” (LOJO. São Paulo: Ed. El lugar de realización de dicho amor son las tierras argentinas. G.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 167 que nosotros. 2. LOJO. en dicho contexto. la traducción como mediación. se trata de un constante ajuste en dichos espacios de frontera y de circulación. 2008. criando un entrelugar (SANTIAGO. Tales corredores (LOJO. A través de la metáfora del tránsito. Anja (1995): El drama de la comunicación transatlántica. otredad. Poética do pós-moderninsmo (1991): Trad. a los cuales se asocian los demás. como se sabe. la identidad y la Referências bibliográficas BLOSS. espacio de transición. El primero es la construcción de la identidad argentina y todo lo que conlleva esa temática. La obra narrativa de María Rosa Lojo. pp. CRESPO BUITURÓN. HUTCHEON. Niterói: ABRALIC. Buenos Aires: Sudamericana. Cuando no ocurre el encuentro. 2008. entonces. irremediablemente. le pertenecemos y mucho más de lo que nos damos cuenta. el exilio. Dicho personaje germánico es el hombre que sale de su tierra en busca de un paraíso y lo encuentra no solamente en la tierra plena de elementos telúricos pero principalmente en el amor de una mujer. Ser argentino. reiterando la opinión de Federico Reuter: “Que no hay paraísos. y un hombre de origen germánico. La idea del Paraíso.ed. Los escritos de viaje del conde Hermann Keyserling como psicodrama de una relación amorosa? In Limites. los personajes de María Rosa cruzan las fronteras tradicionales. El capítulo concluye con la voz narrativa de Rosaura dos Carballos. penetrando por las fisuras naturales del sistema. los tránsitos en general son constantes en su obra. Rio de Janeiro: Imago. la tierra americana del deseo de los conquistadores/viajeros/aventureros/ migrantes.” (LOJO. Cruz. p. las migraciones. p. entonces. Entre la historia y la ficción: el exilio sin protagonistas de María Rosa Lojo. es la capacidad de promover dicho tránsito. 1978). discute dos problemas básicos y centrales. en ese contexto. 2010) permiten el tránsito entre lo uno y lo diverso. Marcela. R. ———— (2001): Amores insólitos de nuestra historia Buenos Aires: Alfaguara. (LOJO. p. deja de ser el hombre sensible que descubre el cuerpo y la tierra de la amada y se transforma en el ogro violador. (Tesis de Doctorado). 109). sino los paraísos pasados y los futuros y que para buscar esas pobres verdades incluso raramente alcanzadas por los hombres llamados sabios. Linda.

168 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS ———— (1987): Canción perdida en Buenos Aires al Oeste Buenos Aires: Torres Agüero. SANTIAGO. . Buenos Aires: Sudamericana. Ensaios sobre dependência cultural. La novela histórica en Argentina. II. MOLINA. La conquista de América narrada por sus coetáneos (14921589). Silviano (1978): O entre-lugar do discurso latino-americano. Buenos Aires: Edhasa. PASTOR. In ZONONA. São Paulo: Perspectiva..) Poéticas de autor en la literatura argentina (desde 1950). Vol. (ed. MOLINA. 109-127. 1128. TROUCHE. ———— (2004): Las libres del Sur . pp. In GIUFFRÉ. Buenos Aires: Debolsillo. ———— (2008): Una pasión de los nómades. En busca de una identidad . ———— (2004): Diálogo con Mercedes Giuffré. Víctor C. Beatriz (2008): El segundo descubrimiento. André (2006): América: história e ficção . In Uma literatura nos trópicos. M. del Signo. Niterói: EdUFF: 2006. Buenos Aires: Ed. pp. Hebe B. Hebe B. Buenos Aires: Corregidor. (2010): La poética de la rosa: Modulaciones de la ficción histórica en María Rosa Lojo. Barcelona.

tal como assinalou Roberto Echevarría em seu libro Mito y archivo (2000). Isso porque há uma sensação de desorientação. Em diálogo aberto com os arquivos da antropologia. interior e exterior. Textos como estes conseguem gerar uma reflexão questionadora acerca do cruzamento de fronteiras que separam e. que o termo francês au-delà capta tão bem – aqui e lá.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 169 ROMPENDO FRONTEIRAS DA CIDADE E DA NAÇÃO: REPRESENTAÇÕES DE SUJEITOS QUE SE MOVEN ENTRE AS “ISLAS URBANAS” DE SERGIO OLGUÍN E CRISTIAN ALARCÓN Ary Pimentel UFRJ “Encontramo-nos no momento de trânsito em que espaço e tempo se cruzam para produzir figuras complexas de diferença e identidade. agora como imensas manchas urbanas totalmente fragmentadas que dificultam ou impossibilitam as interações materiais entre seus habitantes. A partir dos dois modelos de urbanização complementares (segregação e auto-segregação sócio-espacial) que traduzem as contradições e crises vividas “aqui” por uma América Latina que se enfrenta a radicais transformações no processo de modernização. fazem com que surjam novas “zonas de contato” entre distintos territórios e culturas de uma megalópole como a capital argentina. de todos os lados. este trabalho se propõe discutir alguns aspectos relacionados às estratégias de representação da cidade e da nação em histórias narradas desde as margens da cidade e da própria literatura. Bhabha As cidades latino-americanas da narrativa contemporânea se apresentam como espaços fragmentários e territórios de enfrentamento nos quais circulam personagens que vivem entre a estranheza e a descoberta de si e do Outro. no ‘além’: um movimento exploratório incessante. passado e presente. inclusão e exclusão. fort/da. para lá e para cá.” Homi K. Uma literatura que deriva do encontro de dois mundos. As “zonas sagradas” e os “espaços incivilizados” se interpenetram e se projetam em contraponto complementar nesta espécie de viagem ao outro lado dos muros da cidade. para frente e pra trás. uma literatura da ambivalência e do entrelugar: assim são os textos que nos últimos tempos . estes relatos dão visibilidade e um papel protagônico a grupos muito particulares da urbe contemporânea. ao mesmo tempo. tais como os sujeitos diaspóricos de Si me querés quereme transa (Cristian Alarcón) ou o personagem que transita entre distintas ilhas ao longo de um só dia em Oscura monótona sangre (Sergio Olguín). um distúrbio em direção.

2019. pequenas comunidades onde as mediações entre indivíduo e a identidade grupal ainda se estabelecem face-to-face. Embora muito diferentes na sua concepção.. ainda dentro das grandes urbes. e constata o fim das ideologias em tempos nos quais ex-guerrilheiros maoístas tornam-se “capos” do tráfico de varejo. mas buscando fazer dela a sua cidade. como rádio. drogas e imigrantes peruanos. derivando em subculturas e conflitos interculturais. permanecem em plena fronteira vivenciando os sentidos e sem-sentidos da cidade através das mediações das narrativas veiculadas pela literatura.) fragmentos que elegemos para ancorar nossa subjetividade. 113). p. pelo cinema e pelos meios de comunicação. seu culto à coragem. o protagonista se desvia do caminho que faz todos os dias em direção a sua empresa para buscar os prazeres e a “adrenalina” de uma outra vida em regiões praticamente desconhecidas por ele. O que está no centro dos dois textos é a passagem de fronteiras: do cotidiano familiar para o estranho que emerge no território do Outro ou na zona intersticial que se projeta entre os dois mundos. “construímos. “chegamos assim a necessidade de dar conta de um mundo no qual a diversidade não está só em terras longínquas. como Borges. jornal e televisão. O processo de construção de uma memória comum e a coesão comunitária antes tributárias de relatos totalizadores agora só é possível nas “novas tribos” ou “aldeias urbanas”. Nos dois casos estamos diante de sujeitos que já não conseguem viver a nação ou a cidade como totalidades integradas. temos um repórter-escritor que mergulha na realidade de um enclave popular no coração urbe para tentar entender um mundo de violência. segundo García Canclini. de alguma forma o deslocamento dos sujeitos é bastante semelhante nas duas obras.17). p. Tal como concluiu Néstor García Canclini. Personagens e narradores mergulham na zona de contato e. Cristian Alarcón vai à procura do mundo de jovens criminosos. 22). p. Cortázar. mas aqui mesmo” (GARCÍA CANCLINI . em Diferentes e desiguais e desconectados. 2005. donde se habla tanto guaraní como argentino” (OLGUÍN. Viajam dentro da própria urbe a procura de uma cidade que não é sua.. García Márquez. Si me querés quereme transa e Oscura monótona sangre nos permitem fazer uma reflexão sobre as relações entre o imaginário. Para contar a história de cinco clãs que disputam o controle da distribuição de cocaína em uma villa de Buenos Aires. é o que permite estruturar este território de novas identificações apresentado por Cristian Alarcón: . o mundo da cultura e os territórios em que se fragmentou a cidade. “la villa de los paraguayos. nessas novas “ilhas urbanas” (entidades que se constituem em torno de territórios reais ou simbólicos) que se passam as ações da maioria dos romances escritos nos últimos dez anos. “vem depois” dos grandes clássicos latino-americanos. e a ação de grupos pequenos. A fragmentação tanto identitária como territorial resultante da pluralização e heterogeneização de culturas. Em uma. Na outra. E é aí. os labirintos da Villa 21. para usar uma expressão de Josefina Ludmer. suas guerras. chilenos e bolivianos.” (2008. (. nas “micropoles” que. seus códigos. Trata-se de duas narrativas publicadas em 2010 que podem muito bem exemplificar certos aspectos da produção que. Oscura monótona sangre . É justamente nestes territórios que circulam os personagens de Si me querés quereme transa e Oscura monótona sangre.170 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS constituem nosso campo de interesse. sem jamais se decidir a abandonar integralmente o seu mundo.

61) A cidade narrada em ambas narrativas é fruto de uma experiência de deslocamento. América Latina . En cada una de las treinta ciudades más importantes del mundo existe una procesión del Señor de los milagros que es idéntica a una en el centro de Lima. num processo em que a dinâmica cultural transcende as fronteiras nacionais: Me fascina cómo la historia de América latina vuelve a surgir a miles de kilómetros. p. Nesse mundo à parte. 2008. Si el muchacho no entendió con la vergüenza de andar con la cara como un mutante. impõe-se um novo marco legal. (ALARCÓN.” Assim o promove. 2008. o mundo das “islas urbanas” reúne sujeitos em torno de um território e de um conjunto de códigos com base nos quais se constrói o sentimento de pertencimento a um lugar e a um grupo. nesta verdadeira experiência de “voyeurismo protegido”.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 171 Villa del Señor se extiende a lo largo y ancho de treinta manzanas. em suas tramas assume um contorno estrutural o movimento da migração limítrofe motivado por razões econômicas ou pelos “desplazamentos” derivados das guerras entre guerrilheiros. narco-traficantes e grupos paramilitares.20).1 Num bairro em que se instala a ausência do Estado e suas instituições. No lugar onde antes imperava a anomia passam a reger os códigos da “isla urbana”: Entre todos ellos rige un código que permite el dominio piramidal sin titubeos: a la primera falta la sanción es rapar a cero y afeitar las cejas. entre nosotros. cabe lembrar que. “es. Esses movimentos redesenham as car tografias da nação. surge uma arte que se estrutura a partir dos novos deslocamentos humanos. fundamento mais importante da vida social neste contexto. (ALARCÓN. migrações e trânsitos de todo tipo. Mas. 2010. o escritor argentino Mar tín Caparrós. Constituído de um conjunto de clãs. quereme transa. na quarta capa da primeira edição. cómo la migración de sujetos y culturas generan un fenómeno de transnacionalidad. De formas irregulares. tanto dentro das fronteiras da cidade como para além das fronteiras nacionais. también. p. A partir desta perspectiva. p.25). da cidade e da própria narrativa. atravesadas por arbitrarios pasillos angostos. comunidades de migrantes convivem com o mundo “narco” e se tornam peças de um jogo complexo em cujo centro estão as frequentes guerras para definir o comando absoluto do tráfico de cocaína entre “transas” paraguaios. Em Aquí.61) E os cógidos ganham enorme destaque nesta viagem mediada pelo texto narrativo aos “redutos da violência”. un viaje a los mundos más lejanos. Diante de mobilidades. o en un brazo. ao mesmo tempo. Oriundas que são de um processo de deterritorialização e reterritorialização da cultura. Em entrevista intitulada “El mundo narco habla de un mundo por venir”. talvez já possamos começar a falar de uma literatura que está se gestando em diálogo com uma cultura “deslocalizada” ou “translocal” de que nos fala James Clifford em Dilemas de la cultura. sus terrenos fueron ocupados por los inmigrantes que llegaron a Buenos Aires a partir de la década del cincuenta. onde Josefina Ludmer se propõe a pensar os novos tempos a partir . se gana un tiro en una pierna. p. Bajo esas leyes inquebrantables funciona el ejército privado (…). chilenos. peruanos e bolivianos. Cristian Alarcón expressa sua atração por um mundo de disputas territoriais onde mais importante que o pertencimento à nação e o compartilhamento de seus grandes relatos é o respeito ou a traição aos códigos de fidelidade grupal. más desconocidos: los que están aquí mismo. tal como a define Beatriz Jaguaribe (Apud GARCÍA CANCLINI. El ercer error es el fatal: muere acribillado. esta é também uma literatura que constrói “relatos de localização” (GARCÍA CANCLINI. 2010. de Cristian Alarcón. Si me querés.

Cuando unos y otros fueron modernizándose o cambiando. “realidadeficção” e “literatura pós-autônoma”.172 de termos como ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS “imaginação pública”. Em meio a estas fronteiras de gênero cada vez mais voláteis. monolítico ou compreensível. escreve-se a partir de pedaços da realidade. Antes. um testemunho” 2 . Mas não só isso. e a própria representação estava associada a lugares estabelecidos. de um presente que não pode produzir clássicos. está fragmentado. fornecendo as marcas de pertencimento a pequenos coletivos. O território. Talvez seja justamente a partir da percepção do trabalho com a escala pequena e do processo de microlocalização identitária presente nas duas obras que se possa destacar um dos aspectos centrais para o estudo da literatura produzida neste momento de virada de século quando se observa uma tendência que aponta para a erosão das narrativas nacionais e para a importância crescente do território como um espaço de ancoragem da identidade que pode contribuir para a coesão de comunidades imaginadas. entre o romance verdadeiro e o jornalismo investigativo. obra de um autor que opera na fronteira entre a invenção. se destacaban las tradiciones o resistencias locales a lo innovador. havia uma certa cartografia mais sólida e clara. A cidade não se narra a partir de um todo sintético. pero con predominio de lo que sucede en interacciones locales y de escala pequeña. cf. Si me querés. quereme transa é um projeto essencialmente pautado em um trabalho de campo. Agora a representação e seus sujeitos (como obser vamos nas “narrativas migrantes”. Enquanto que os clássicos latino-americanos falavam de territórios muito maiores e buscavam as chaves da identidade em grandes narrativas nacionais. mas sim sobre “ilhas urbanas” como sugere Josefina Ludmer em seu texto “La ciudad: en la isla urbana”. buscando o Outro distante no interior da própria cidade. destaca-se o discurso antropológico como mediador na literatura. as ilhas residenciais do condomínio ou as ilhas dos espaços de segregação nos quais residem “cartoneros”. Por “pós-autônoma” Ludmer entende a literatura que “trata de ser outra coisa. de transculturación y las zonas de contacto entre culturas. só que agora em uma escala bem mais reduzida.3 . De manera que la antropología es una disciplina con largo entrenamiento para estudiar procesos de aculturación. mas sim a partir dos seus fragmentos. Tal como o primeiro livro de Alarcón ( Cuando me muera quiero que me toquen cumbia . Porto & Torres. uma crônica. Não faz mais sentido falar sobre cidade. como uma investigação histórica. como tudo. minoritarios y subalternos en la propia sociedad. narrativa de tempos e discursos fugazes. Assim como o romance latino-americano moderno no qual se estabelecem mecanismos de narrativa derivados do “arquivo” da antropologia. “paraguas” ou “bolitas”. sejam estes os que integram as ilhas do trabalho. como nos recorda Néstor García Canclini: Como se ha dicho a menudo. y luego de los diferentes. territórios insulares que constituem um grande arquipélago no qual cada vez mais deslocam os sujeitos. 2010) está em disputa e em constantes deslocamentos estratégicos. que ela chama de instrumentos conceituais para organizar certas reflexões. essa narrativa contemporânea. E é justamente isto que encontramos em Si me querés quereme transa. uma biografia. o relato de reportagem e a pesquisa de campo da antropologia. identidades e nações vão por esse caminho. este também circula entre a crônica familiar e o testemunho. 2003). la antropología fue la primera ciencia social que se ocupó de los otros lejanos. Cinema e literatura.

são o longe perto de Buenos Aires. na medida em que a ênfase recai no que transcende o indivíduo e reforça a comunidade na qual ele se insere. (JELIN.48) Numa literatura que recusa a fixidez das imagens geográficas. la lealtad y la pertenencia nacional son conceptos en transformación. O homem em relação. destacado o movimento dos grupos humanos. p. observa que: La membresía. descarnado e objetivo. ilhas urbanas. com fronteiras deslizantes que nos impedem uma cartografia segura. a história de um lugar se torna história pessoal. Para além da importância da nação. os “entre lugares” ou o “aqui e lá” de que nos fala Bhabha (1998. Michel Maffesoli nos recorda que: Devemos estar atentos ao componente relacional da vida social. quer ser ensaio de sociologia ou geografia urbana. bolivianos ou coreanos. “trata de ser outra coisa”. Deduz-se um mapa impreciso que apontaria para a existência de ilhas de trabalho. 2009. De tal forma que a história do território se confunde com a história da comunidade. (BHABHA. dos processos econômicos e das manifestações culturais. a uma cidade. Trata-se não da cidade real. não estão fora: são o dentrofora. mas também a que me liga a um território. Não apenas a relação interindividual. Elizabete Jelín. enclaves. Existen y se generan distintos criterios de diferenciación y jerarquización que catalogan a algunos grupos como potenciales contribuyentes al desarrollo del país. p. afirma Ludmer. p. Não se pode traçar um mapa destas ilhas a partir do percurso trilhado no dia-a-dia. É em torno do território compartilhado que se organizam as narrativas da memória e os mitos comuns. Aqui percebemos mais uma vez a importância do território. por sua vez. em um estudo sobre as migrações limítrofes na Argentina.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 173 A literatura pós-autônoma. A partir daí. no ato de definir a própria ideia de sociedade. paraguaios. são versões da cidade (SARLO. Isto nos leva a pensar num aspecto muito específico envolvido em um fenômeno que acontece na história recente da cidade: o surgimento das novas favelas a partir da migração limítrofe. segundo o crítico indiano: Esses “entre-lugares” fornecem o terreno para a elaboração de estratégias de subjetivação – singular e coletiva – que dão início a novos signos de identidade e postos inovadores de colaboração e contestação. mas da cidade que é ao mesmo tempo lida e imaginada: a Buenos Ares narrada através de seus fragmentos.141). sobre su lugar en la sociedad argentina. as que apresentam uma expressiva concentração de peruanos. Sus sentidos no son compartidos por todas las personas y grupos que residen dentro del territorio argentino. em particular. As favelas e.20). de residência dos que garantiram o direito instável de ocupar o que Noé Jitrik definiu como “zona sagrada”4. 1998. Menos aún por la población migrante. elemento que começa a se tornar obsoleto neste contexto. (2010. Como assinala Beatriz Sarlo em relação às ficções de Borges. ganha espaço protagônico a . Não estão dentro. e ilhas que são destinadas aos refugos ou às quais estes são destinados. p. bairros fechados. 2006. chilenos. 198). los diferentes grupos migratorios desarrollan distintas estrategias de inserción a partir de la idea. ilhas de prazer. Oscura monótona sangre quer ser cartografia. a um meio ambiente natural que partilho com outros. p. Essas são as pequenas histórias do dia-a-dia : tempo que se cristaliza em espaço.19). as narrativas construídas por Sergio Olguín e Cristian Alarcón. A su vez. seu relato quer ser roteiro de cinema: filme de estrada sem sair do interior da grande metrópole. É nestes espaços intersticiais que o valor da cultura do agora está sendo negociado. Elas são movediças. é a partir da ancoragem no território da “ilha urbana” que se constituem as tramas identitárias da comunidade. más o menos compartida.

José Teixeira. Eliana Lourenço de Lima Reis e Gláucia Renate Gonçalves. os personagens experimentam as consequências de um efeito inesperado de deslocamento nos dois sentidos do termo: saem de um lugar cuja lógica dominavam para penetrar em outro território bastante instável e ao mesmo tempo se sentem eufóricos e desconfortáveis neste novo lugar. desiguais e desconectados: mapas da intelectualidade. demonstram que as fronteiras já não impedem a passagem de um lado para o outro.” (2010. Barcelona: Gedisa. Buenos Aires: Norma. CLIFFORD. como os personagens de Si me querés. p. Parece que estão dentro e fora da nação. . quereme transa e Oscura monótona sangre. quereme transa. In: GARCÍA CANCLINI. A construção de pontes ou de caminhos de aproximação através de textos que narram e dão coerência à cidade. Carlos Reynoso. Cristian (2010): Si me querés. mas que só vivencia a verdadeira aventura ao mergulhar. Aparece assim um quadro recorrente. Um empresário que se sente seguro em sua vida de cidadão modelo a percorrer todas as manhãs as mesmas avenidas que comunicam a sua ilha residencial à ilha industrial onde trabalha do outro lado da cidade. org (2011): Conflictos interculturales. movido pelo impulso.174 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS figura da migração limítrofe e os contextos de sociabilidade construídos por estes sujeitos em uma concentração territorial e identitária que assume a forma de pequenas tribos e parece demonstrar em cada uma de suas narrativas que ainda não sabemos lidar com a diferença interna. BHABHA. “las ciudades latinoamericanas de la literatura son territorios de extrañeza y vértigo con cartografías y trayectos que marcan zonas. Mas as ilhas que são ao mesmo tempo um território e um sujeito coletivo “es un mundo con reglas. p. 2010. de Aquí América Latina. GARCÍA CANCLINI. Luiz Sérgio Henriques. leyes y sujetos específicos” (LUDMER. p. Myriam Ávila. uma nova nação. A cultura pela cidade. entre fragmentos y ruinas. 15-31. Itaú Cultural. org. Belo Horizonte: Editora UFMG. James (1995): Dilemas de la cultura : antropología.131). ______ (2005): Diferentes. 103-112. 2ª ed. Homi K. (1998): O local da cultura . As cidades cindidas de modo cada vez mais radical apresentamse nas narrativas do século XXI como “ilhas urbanas”. mas que. Néstor. o protagonista de Oscura monótona sangre. São Paulo: Iluminuras. religando pedaços dispersos e propiciando interações simbólicas que permitem superar parcialmente a fragmentação da experiência. Referências bibliográficas ALARCÓN. ______ (2008): Imaginários culturais da cidade: conhecimento / espetáculo / desconhecimento. pequena nação que requer um novo relato. Trad. In: COELHO NETTO. Rio de Janeiro: Editora UFRJ. A literatura do presente parece determinada por uma estrutura que frequenta diferentes narrativas: o cruzamento de uma fronteira cada vez mais porosa e deslizante que em vez de separar propicia contatos. p. despertam a curiosidade e propiciam o contato. Néstor. da cidade e da sociedade: formando uma nova comunidade. Inicialmente caracterizado pelos contrários. De la diversidad a la interculturalidad.130). líneas y límites. Trad. Como diz Josefina Ludmer em seu ensaio “La ciudad: En la isla urbana”. literatura y arte en la perspectiva posmoderna. Trad. Este é caso de Julio Andrada. pelo contrário. um cenário de realidade/ficção onde os sujeitos constroem constantemente estratégias para entrar e sair sem que saibam já muito bem se estão dentro ou fora. Barcelona: Gedisa. nos bairros humildes que margeiam essas avenidas.

104-5. Notas 1 BORDÓN. Noé. JELIN.br/cultura/1130334 Acessado em 01/09/2012. JITRIK. La vuelta a Cortázar en nueve ensayos. Niterói: EdUFF.com/diariodelaferia/2010/04/25/ cristian_alarcon_el_mundo_narco_habla_de_un_mundo_por_venir/. Conflictos interculturales.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 175 GONZÁLEZ ECHEVARRÍA. Sara Vinocur de. Juan Manuel. orgs. Trad. Valor. In: GARCÍA CANCLINI. 25 abr. Néstor. org. SARLO. 4 Cf. Migraciones regionales hacia la Argentina: diferencia. pp. Néstor. . D. Virginia Aguirre Muñoz. 13 -39. De la diversidad a la interculturalidad. 47-68. Eurídice. Disponível em http://weblogs.valor. Acessado em 01/09/2012. 1968. OLGUÍN. Disponível em http://publicidade-valordigital. 225-260. org. 2010. Revista Ñ. Buenos Aires: Prometeo. org. In: FIGUEIREDO. Néstor. PORTO. MAFFESOLI. A literatura não é mais sagrada: entrevista a Josefina Ludmer.F. JELIN. Cristian Alarcón: “El mundo narco habla de un mundo por venir”. p. Sergio (2010): Oscura monótona sangre. Elizabeth (2006): Migraciones y derechos: instituciones y prácticas sociales en la construcción de la igualdad y la diferencia. Barcelona: Gedisa. 2011. 4ª ed.com. Buenos Aires. p. p.clarin. TORRES (2010): Literaturas migrantes. Buenos Aires: Siglo XXI. Conceitos de literatura e cultura. Beatriz (2009): La ciudad vista : mercancías y cultura urbana. Rio de Janeiro. Roberto (2000): Mito y archivo: una teoría de la narrativa latinoamericana. In: TIRRI. Maria Bernadette. Alejandro. 2ª ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Buenos Aires: Tusquets. 2 BERTOL Rachel. 2ª ed. Elizabeth. México. desigualdad y derechos. de Clarín. 3 GARCÍA CANCLINI. Michel (2010): O tempo das tribos: o declínio do individualismo nas sociedades de massa. Maria de Lourdes Menezes. TIRRI. In: GRIMSON. Editora UFJF.: Fondo de Cultura Económica. Trad. Notas sobre la “zona sagrada” y el mundo de los “otros” en Bestiario de Julio Cortázar.

obedecendo. permitiram à Argentina criar uma rica tradição em suas historietas densamente elaboradas. cultural e popular. Suas produções artísticas influenciaram consideravelmente a qualidade de produção das historinhas em toda a América Latina. como também as publicações do grande roteirista Hector Oesterheld. questionam a formação das relações familiares. Sabe-se. No entanto.176 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS AS TRADUÇÕES DE QUADRINHOS SOB UM OLHAR DISCURSIVO Bárbara Zocal da Silva PG.Universidade de São Paulo As Histórias em Quadrinhos. intensificaram-se as criações intelectuais das Histórias em Quadrinhos. . A partir da década de 1950. animais e crianças aparentemente ingênuos. que no fim do século XIX. para onde se mudou nos anos 1950. O período entre os anos 1929 e a Segunda Guerra Mundial é considerado como o que mais ousou em criatividade e propiciou a expansão e a exportação das HQs. na Itália e na Argentina. assim. que. inovou a estrutura dos quadrinhos ao colorir as histórias e ao delimitar as falas das personagens por meio do balão. o que os torna expressivamente ricos. Schulz). os quadrinhos aderem a um caráter mais ácido. muito valorizado na Europa e na América Latina. Personagens como Peanuts (de Charles M. à ordem de narrativa. Calvin & Hobbes (de Bill Watterson) e Mafalda (de Quino). Garfield (de Jim Davis). principalmente no gênero da aventura. meio e fim definidos. em especial na Argentina. e suas intensas publicações. não há como especificarmos certamente quando surgiu e qual foi a primeira história em quadrinhos. Um dos nomes mais expressivos do meio de produção das HQs é o do italiano Hugo Pratt. com começo. as HQs se popularizaram nos Estados Unidos e tal pioneirismo deve-se ao americano Richard Fenton Outcalt. em 1895. Esse movimento de exportação conquistou muitos fãs – grandes consumidores – e também estimulou um intenso desenvolvimento da criação de HQs em outros países como na França. popularmente chamadas de HQs. à ordem de sequência dos diálogos e à ordem de permanência das mesmas personagens (SANTOS. indagam-se sobre os problemas sociais e políticos e valem-se de um humor sarcástico para fazerem chistes. com sua série The Yellow Kid . Há uma valorização maior do texto sobre a imagem. 2010). consagraram-se neste design que conhecemos por volta dos anos 1880. esse produto de massa.

mas traços claros das expressões faciais –. A persistência de um jornal como O Pasquim . a guerra. A evolução dos acontecimentos políticos tornou o espaço dos quadrinhos e do humor na imprensa do Brasil ainda menor do que já era. De acordo com Patati. foram os responsáveis pela fundação da Editora Abril em 1950. o terror. principalmente as historinhas de O Pato Donald . Braga (2006). Millôr. pois. por exemplo. que “abusava de uma linguagem polêmica de humor contra o milagre econômico e fazia críticas incansáveis à ditadura” (SANTOS. Os gibis da família Disney. BRAGA. de acordo com Patati. A comunhão de propósitos entre autores e editores destes jornais. roteirista. entre tantos outros humoristas e jornalistas. como. colunista. assim. devido aos temas regionais abordados.14). 2006. Um exemplo de resistência da época é o semanário O Pasquim. 2006. pensava-se que esse tipo de literatura era dirigido exclusivamente às crianças. e que ainda obtém grande êxito.199). e A Turma da Mônica . o gênero infantil foi o que prevaleceu na criação das HQs brasileiras. outros gêneros de quadrinhos invadiram o mundo das HQs brasileiras. Carlos Estevão e Millôr Fernandes. p. nessa época. o Brasil era tomado pelas produções norte-americanas e caminhava vagarosamente em direção a uma produção própria de Histórias em Quadrinhos. p. 2010. popularmente conhecido como Henfil.14). BRAGA. o humor crítico e político. percebeu-se o sucesso das HQs de humor que comentavam “de modo agudo os problemas do momento” (PATATI. apresentador. O jornal contou com a colaboração criativa de Jaguar. Guidacci. à condição apática da população diante da ditadura. afinava com os propósitos de variados humoristas e quadrinhistas: ganhar dinheiro sem abrir mão de criticar e rir de nossas mazelas. o mundo dos super-heróis. p. Angeli. Fortuna. criada por Ziraldo Alves Pinto. as tirinhas com tendências críticas fizeram. . de John Stanley) e o Pimentinha (Dennis the Menace. pois fizeram frente aos governos da época. 2011. entre tantos outros projetos culturais idealizados. Com o crescimento na produção de quadrinhos no Brasil. tornou-os as mais influentes publicações de seu tempo. fizeram sucesso como a Luluzinha ( Little Lulu . muito sucesso nas páginas dos periódicos. foi um dos quadrinhistas mais representativos no Brasil. e ainda fazem. de Hank Ketcham). Destacam-se grandes nomes de cartunistas como os de Angelo Agostini. eles queriam falar de seus próprios problemas. além de inovar quanto à estética dos quadrinhos – criava não apenas faces. Ziraldo. ao governo e. “considerada talvez como a mais importante e genuína contribuição brasileira à industria dos quadrinhos” (VERGUEIRO.199) Henrique de Souza Filho. chamados “alternativos”.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 177 As HQs no Brasil Em contrapartida. 2011. (PATATI. Duas outras revistas que contribuíram para uma história das HQs no Brasil surgiram na década de 1960 e são a revista O Pererê. Os brasileiros não mais se satisfaziam em rir dos problemas político-sociais do mundo. com foco sempre para o lado infantil. Tanto caíram no gosto do público que muitas outras histórias de humor e de aventura. p. que lutaram bravamente contra a censura para verem publicadas suas edições. inovou quanto à criticidade a seu país. entre outros. inclusive. Braga (2006). pois. Ivan Lessa. lançada em 1905 (VERGUEIRO. Henfil foi reconhecido – internacionalmente – pela influência que seus trabalhos tiveram em sua vida militante e pelo seu brilhante trabalho como cartunista. criada por Maurício de Souza. o Versus . durante o período da ditadura militar no Brasil. a aventura. ou ainda. Henfil.10). escritor. p. Entretanto. A primeira revista brasileira que publicou regularmente quadrinhos no Brasil foi a revista Ticotico. Os quadrinhos humorísticos foram ideologicamente significativos entre os anos 1964 e 1985.

com homens falando. participariam conjuntamente Quino. e editada pela Global. (ORLANDI. a má educação. de certa forma. escritas entre as décadas de 1962 e 1973. Mafalda provém da classe média e percebemos. em 1998. Sob a luz da Análise do Discurso de linha francesa. as privações da infância.. o editor-revisor. seria o tradutor ideal e Henfil revisaria tudo. Ao analisarmos o discurso de Mafalda. “funciona pelo inconsciente e pela ideologia”. a cultura geral. decidiram que Mouzar. e. problemas sofridos nessas décadas por grande parte dos países. pois Quino queria muito que ele estivesse envolvido no projeto. como mostram as tirinhas. estruturas frasais mais próximas da língua portuguesa indica uma tendência Como editor. como uma criança. de uma forma geral. historicamente posicionada. a problemática familiar. e Henfil. conhecido como Quino. Henfil participou em 1982 de um projeto do grande cartunista argentino Joaquín Salvador Lavado. definimos a garotinha de seis anos. e o mundo sofria com a Guerra Fria. eles têm condições financeiras de terem uma casa própria. inclusive pela Argentina e pelo Brasil. o quadrinhista. (ORLANDI. Mouzar Benedito.. como sujeito discursivo. seja enquanto sujeitos. e editada pela Martins Fontes. sociais e políticas que podem estar contidas em duas traduções diferentes realizadas no Brasil das mesmas tirinhas escritas originalmente em espanhol hispano-americano. problemas incompreensíveis aos olhos de uma menina de seis anos de idade. Em princípio.20) Ao voltarmo-nos para a análise das traduções. pois. que usa da expressividade da fala como uma tentativa de buscar seus direitos e de conscientizar a população para as questões políticas à sua volta. por trás de seus debates. ainda assim. a constante luta pelo poder entre os Estados Unidos e a ex-URSS. ou seja. Mafalda.15) As tirinhas da Mafalda que pertencem ao corpus . como sujeito de tendência socialista. Dessa forma. em 1982. percebemos que essa é uma das características primordiais para que o humor seja compreendido. como revelado em uma entrevista de Mouzar sobre Henfil na Rev ista Imprensa de junho de 2008. O projeto consistia numa tradução diferenciada de algumas histor ietas da personagem Mafalda . mas com a língua no mundo. 1999.] a primeira coisa a se observar é que a Análise de Discurso não trabalha com a língua enquanto um sistema abstrato. retratam. notamos que uma característica bem marcante da divergência entre as duas traduções das mesmas tirinhas de Mafalda é a relação de seus respectivos tradutores com suas próprias concepções de tradução. p. uma televisão e direito às férias em família. Uma dessas traduções foi realizada por Mônica Stahel. Por outro lado. para cumprir esse propósito. assim. e outra foi realizada por Mouzar Benedito. são as imagens que constituem as diferentes posições na relação discursiva. em plena crise econômica.178 O projeto ambivalente ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS norte-americana. em suas opções tradutórias. pois a Argentina passava por um momento de repressão política sob o comando de militares peronistas. 1999. o tradutor. uma representatividade do cotidiano dessa classe. um carro. O fato de Mônica Stahel (doravante MS MS) manter. [. pretendemos observar algumas questões linguísticas. os conflitos da guerra fria. porém. a influência . jornalista também engajado politicamente. seja enquanto membros de uma determinada forma de sociedade. uma vez que ele não poderia realizar o trabalho na época. Assim. comportando-se. vemos a forma histórica de um sujeito inserido numa conjuntura política de tensão. Ela seria traduzida para o “portunhol” e. considerando a produção de sentidos enquanto parte de suas vidas. Ela e sua família gozam de regalias. De acordo com Orlandi (1999). quando nos deparamos com Mafalda lançando seu olhar crítico à sua vida e ao mundo à sua volta. a idéia de Quino era que Henfil traduzisse as tirinhas. com maneiras de significar. p. politizado.

em relação ao original. às crianças leitoras. p. privilegiando. 1999. período de Diretas Já e de sindicalismo. comunidades interpretativas (FISH. inclusive. não há discurso sem sujeito e não há sujeito sem ideologia: o indivíduo é interpelado em sujeito pela ideologia e é assim que a língua faz sentido. p. assim como a leitura. o discurso e a ideologia presentes nas traduções de Mouzar Benedito e de Mônica Stahel. em último lugar. Ao compararmos as duas traduções das tirinhas. por seguir as exigências de domesticação (VENUTI. a quem ele pretende dirigir determinada tradução. dessa forma. as interjeições e muitas palavras grafadas como em espanhol como. a ideologia e a construção de discurso mostra que a tradução. uma leitura fluente e transparente. é condicionada por fatores ideológicos e contextuais. inclusive entre as crianças. período de intensa participação popular após os anos de silêncio. muitas vezes. abrangendo. o que possibilitaria a compreensão de tais tirinhas em uma maior comunidade interpretativa (FISH. a relação entre a língua. o estudo das relações entre o signo. à sua concepção de tradução e. “¡Como!” e “Bueno” (tirinha 2) – privilegiando uma linguagem mais truncada e. a que comunidade interpretativa. de forma prática. significam em nós e para nós. as diferentes concepções de tradução nos levam à reflexão sobre o quão ideologicamente marcadas são as traduções de MS MS. retratada nas tirinhas. afinal. em segundo lugar. 1992). quanto na época de sua tradução. Primeiramente. às suas interpretações proporcionadas pela sua leitura. 1992) distintas das abrangidas por MS e permanecendo como um tradutor mais visível (VENUTI. de acordo com a concepção de Venuti (1995). “como diz Pêcheux (1975). Entretanto. por exemplo. Mouzar Benedito (doravante MB MB) mantém as estruturas das traduções das tirinhas mais próximas da língua espanhola – ele mantém os pontos de interrogação e de exclamação. De acordo com Arrojo (1986).” (ORLANDI. restrita aos leitores que não têm conhecimento da língua espanhola e. aos seus objetivos. fato que pode ser justificado pela sua participação militante tanto na época conflituosa. à qual vinculamos MB MB. para ilustrar o fato de que até mesmo as palavras mais “simples do nosso cotidiano já chegam até nós carregadas de sentidos que não sabemos como se constituíram e que. “¡AAAAAAI!” (tirinha 1). Sendo assim. 1995). 1995) impostas pelas editoras que manipulam e difundem a idéia equivocada de que uma tradução deve ser “fiel à idéia do autor do texto original”.” (ORLANDI. por exemplo. 1999. no entanto. percebemos na tradução de Mouzar Benedito. a presença de itens lexicais marcados ideologicamente pelos conflitos vivenciados na América Latina entre o período das ditaduras. consumidores alvo das histórias em quadrinhos no Brasil. década de 80.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 179 à invisibilidade do tradutor . “¿E daí?”. Diferentemente. trabalhando a relação línguadiscurso-ideologia discutida em Orlandi (1999). expõe que há três questões sobre as quais o tradutor Tirinha 1 deve refletir e ser fiel a elas. assim. a concepção pós-moderna de tradução.17) A teoria na prática Analisemos agora.20) . ao contrário da de Mônica Stahel.

. p. a expressão da dor. No último quadrinho. porém. em sua relação transparente com a literalidade do significante).creí que lq ue se había q ue j a d o” .ac hei que er mund undo que tinha gr itad o” e “g r ita d o” . reproduzidas).pe nsei que er mu n do q ue esta va r eclamand o ” e a de M B qu av re do “A h.. mas. ouve uma y!” e sai em busca do sofredor da ação interjeição “¡A “¡Ay!” que desencadeou. estão inhas 2 presentes nas Tir irinhas 2.160) Outras formas discursivas relevantes para exemplificarmos a relação do sujeito com a historicidade e com o interdiscurso. é determinado pelas posições ideológicas que estão em jogo no processo sócio-histórico no qual as palavras... de uma expressão..p h. . expressões e preposições são produzidas (isto é. inconscientemente.. (PECHÊUX.cr h.. simplesmente. pela ideologia socialista da época. em seguida. ao iq ue e ra o e nse compararmos a opção de MS “A h... inserida no contexto de seu ambiente familiar. na tirinha 1.a c he iq ue e ra o m und oq ue t inha g r ita d o” e h. por mudança.. o sentido de uma palavra. ouve as notícias sobre o mundo e. er a e lm und oe el mund undo el que que uej (Tradução de Mônica Stahel) (Tradução de Mouzar Benedito) Ao observarmos as traduções.180 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Mafalda.. Sendo assim.. etc. mas grita como se clamasse por socorro.. que não se queixa ou reclama da situação política e social do mundo.. dadas as condições de produção na qual se inserem. ao contrário. não existe “em si mesmo” (isto é. nos determos nas palavras “re c lamand lamando itad percebemos que a opção tradutória de MB relacionase ao discurso de um sujeito afetado. encontra eí q ue seu pai com um martelo na mão e diz: “A h. 1988. vemos que a tradução de MB do primeiro quadrinho mantém uma semelhança maior em relação à forma e ao léxico da língua espanhola.. a garotinha fantasia com a possibilidade de o mundo ter sofrido a dor. de uma preposição. num impulso. Ao se deparar com o globo terrestre na sala de sua casa. ao mesmo tempo que desliga seu rádio.

elas r t e-ame r icanos especificam que são os no nor e-amer icanos. assim mesmo. de como duas . respectivamente nos segundo e quarto quadrinhos. M B traduz os mesmos r t e-ame r icanos e os r ussos quadrinhos como “os no nor e-amer russos também estão b r avos e mesmo assim c o me rciam br co mer e nt re e les ” e “a h umanida d e não está far ta ne m da ntr eles les” humanida umanidad farta nem S usanita ne md ev o cê” nem de vo cê”... e MB aproxima-se mais das estruturas co va o mo!. Enquanto MS traduz “os ame amer r ussos também estão d e mal no e ntant o ne g o ciam de entant ntanto neg e nt re si” e “a h umanida d e não está c he ia ne m da ntr humanida umanidad che heia nem Susanita ne md ev o cê” nem de vo cê”. mediante um olhar discursivo sobre a língua. pudemos propor um ensaio de análise. e não os países subdesenvolvidos da América do Sul.. as crianças “Ué. eles somente o fazem para cumprir o protocolo.¿V o cê não esta da língua espanhola. desde o fim do século XIX até o fim do século XX. Não há espaço para uma mer negociação. outra estrutura nos chama r icanos e os a atenção. o discurso e a ideologia.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 181 (Tradução de Mônica Stahel) (Tradução de Mouzar Benedito) Na segunda tirinha.. Essas formações discursivas dão maior ênfase ao conflito da Guerra Fria em si. para um acordo. co me rciam com os russos. v vo estav de mal c om e la?” ela?” la?”. “¡C “¡Co mo!. Considerações finais Após um breve esboço da história das Histórias em Quadrinhos.¿Vo estav b r avo c om e la?” co ela?” la?”.. M S mantém uma linguagem mais clara e de fácil compreensão para seu o cê não esta va d e público alvo. que estão em confronto e. com um enfoque especial para o Brasil e a Argentina. contudo. por exemplo.. destacamos a expressividade r te-ame r icanos ” e “co me rciam ” das das palavras “no nor e-amer icanos” mer ciam” traduções de MB MB.

In: Cadernos de estudos lingüísticos . Buenos Aires: Ediciones de la Flor.182 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS traduções diferentes das mesmas tirinhas da personagem Mafalda. Rio de Janeiro. p. São Paulo: Laços. E.3. Palavra. Discurso e Textualidade. Disponível em < http:// www. (2006). levados a pensar que mandamos em nossos pensamentos e temos controle de nossas formas de expressão. (2011). C. VERGUEIRO. São Paulo: Editora Global. J. 43-68. A.pdf >. seja na escolha das palavras que utilizamos. PECHÊUX. Tradução de Mouzar Benedito. BRAGA. pois no ato da interpretação nos posicionamos ideologicamente. (1998). à relação do tradutor com o léxico e à significação das palavras em sua relação com o mundo. (2011) A história contextualização constitui intrinsecamente a interpretação. Acesso em: 15 de março de 2011. Deste estudo é depreendemos inevitável e que a PADIAL.com. VENUTI. AUTHIER-REVUZ. Tradução de Eni Pulcinelli Orlandi.historiaimagem. 1990) às estruturas e governados pelas ações regidas ideologicamente e constituídas dadas as relações que estabelecemos com a língua e com a história em nossas experiências de mundo.asp?idEdicao=11&idMateriaRevista=123>. contudo. Tradução de Eni Pulcinelli Orlandi. (2002). São Paulo: Martins Fontes. v. QUINO. somos. do cartunista argentino Quino. A invisibilidade do tradutor. n. F. Lawrence. R. Campinas (SP).. M. RODRIGUES. QUINO. R. (1982). Tradução de Celene M.36. Mafalda 2. Oficina de Tradução: a teoria na prática. em quadrinhos no Brasil: Análise. Alfa (São Paulo). Acesso em: 14 de março. Rio de Janeiro: Ediouro. SANTOS.br/edicao11outubro2010/ universo-femin-hq. Referências bibliográficas ARROJO.144-185.com. somos meros sujeitos assujeitados (AUTHIEZ-REVUZ. Is there a text in this class? Tradução de Rafael Eugênio Hoyos-Andrade. p. jul. SANTOS. (1988). Campinas: Pontes. O discurso: estrutura e acontecimento.). ORLANDI. Tradução de Carolina Alfaro. evolução e mercado. Campinas: Pontes. (2006).br/revista/ edicao_mes. M. PECHÊUX. PATATI. . P. Cruz e João Wanderley Geraldi. Campinas: Editora da UNICAMP. (19): 25-42.uol. Heterogeneidade(s) enunciativa(s). São Paulo: Ática. FISH. 10 años con Mafalda. na verdade. podem apresentar divergências quanto às concepções de tradução. (2010). Disponível em <http:// portalimprensa. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. p. K. S. p. E. Tradução de Monica Stahel. Campinas: Pontes. Henfil não morreu.111-134. (1990). (1999). seja na exposição de nossas próprias idéias. 10 anos com Mafalda. O Universo Feminino nas Histórias em Quadrinhos. (1990).. 3ª ed. (Org. W (Orgs). A língua não é transparente – não deveríamos tratá-la de forma ingênua –./dez. M. (1995). Análise de discurso: princípios e procedimentos. (1986). PORTAL IMPRENSA. S. QUINO. somos determinados por nossa relação com a língua e com a história e essa relação se faz no inconsciente.189-206. (1992). Almanaque dos quadrinhos: 100 anos de uma mídia popular.

vigoraron con fuerza entre fines del siglo XIX y la primera mitad del siglo XX y responden a circunstancias históricas y políticas muy particulares. Los discursos conmemorativos del “Día de la Raza”. pronunciado por el entonces . según Foucault ([1969]1995).ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 183 DISCURSOS OFICIALES DEL 12 DE OCTUBRE: UN DÍA CONMEMORATIVO PECULIAR Beatriz Adriana Komavli de Sánchez –UERJ PG . conmemorativo del 12 de octubre. Ese vínculo exaltado con la ‘madre patria’ fue tan relevante que se plasmó en otros dominios asociados: en la educación. objeto de resignificaciones a lo largo del tiempo. una región privilegiada: al mismo tiempo próxima a nosotros. parcial. hace con que pertenezcan a un espacio privilegiado. la práctica de construcción de un archivo con estos pronunciamientos se nos presenta como instigante y desafiadora. que lo domina y que lo indica en su alteridad.UFF El objetivo de esta comunicación es presentar una serie de reflexiones en torno al día festivo. pero diferente de nuestra actualidad. Su lectura. pues. La descripción del archivo desarrolla sus posibilidades (y el control de sus posibilidades) a partir de los discursos que comienzan a dejar de ser los nuestros. “Día de la Hispanidad”. Presentaremos algunas aproximaciones iniciales de nuestra investigación de doctorado que pretende contribuir para discutir la noción de hispanidad de aquella época y construir un archivo. Actualmente. de estas prácticas discursivas de la memoria pública del 12 de octubre1. vigente en el calendario oficial español y en muchos países hispanoamericanos. “entre la tradición y el olvido”. siempre fragmentado. nos delimita. se trata de la orla del tiempo que cerca nuestro presente. provoca un efecto de rareza que. su descripción hoy. en los posicionamientos políticos de las Academias de Lengua y Letras de América y en la política externa de aquella época. una vez que el régimen de enunciabilidad ha cambiado: El análisis del archivo comporta. (p. es aquello que fuera de nosotros. trataban de un ámbito no de objetos materiales sino de dependencias simbólicas y de parentesco. Esos discursos oficiales. 150-151) (Traducción de la autora) Escogimos para esta ocasión presentar algunos esbozos analíticos del discurso de 12 de octubre de 1947. pronunciados por presidentes o altos mandatarios de gobierno.

El abordaje teórico La visión dialógica de Bajtín y el Análisis del Discurso de línea francesa que considera los estudios enunciativos nos ayudarán a destacar algunas marcas lingüísticas de la red de filiaciones identitarias que se tejían entre la madre patria y las excolonias materializadas en los discursos oficiales del 12 de octubre. en la medida en que tratan del mismo dominio de objetos. p. Anderson (2011. la ilusión de una equivalencia entre las palabras y. 83-108) se refiere a dicho mecanismo en términos de reescritura. Del conflicto. no reactualice otros enunciados” ([1969]1995. un abanico de relaciones posibles futuras. guiado por una visión antropológica: “una comunidad política imag inada – e imaginada como siendo intrínsecamente limitada y. diseña. sin conocerse. una especie de fraternidad horizontal que atraviesa a todos los integrantes que. surge el sentido como efecto. por el otro. valiéndose de otros recursos. 86): En el género pronunciamiento político. calificando. objetos del discurso. parafraseándolo. Aquellos enunciados renegados son reformulados por . de lo ‘decible faltoso’. general Juan Domingo Perón2. p. la reescritura es un mecanismo constitutivo del lenguaje que nos posibilita nominar algo o alguien de modos diferentes. soberana”. el enunciador acostumbra a anunciar de forma explícita a quien se dirige. sino una multiplicidad de “oyentes” es otra marca importante de esos discursos. 32) así define el concepto de nación. p. Estos direccionamientos pueden ser recuperados por medio de diferentes marcas lingüísticas. aunque pueda dirigirse a muchos otros destinatarios que no sean los directamente anunciados. de sinonimia. Esa relación no solo es posible de ser establecida con otros enunciados pasados como también condiciona. Ese proceso al mismo tiempo funciona describiendo. El género pronunciamiento es así En esta primera aproximación destacamos el proceso designativo que conforma. de paráfrasis. Para la autora. Orlandi (apud KARIM. p. 37) en términos de ‘interdicto’ de un discurso. 2001.184 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS presidente de la República Argentina. de la tensión que subyace entre la paráfrasis (lo mismo) y la polisemia (lo diferente). Otra particularidad de ese discurso político presidencial es la de que el enunciador tiene garantizado por el poder del cargo empírico que ocupa el derecho al pronunciamiento – ya que su papel social así lo autoriza y legitima. Se imagina y no se inventa. caracterizado por Daher (2000. Maingueneau (2008. inaugura. Ese proceso comprende estrategias de sustitución. y aún más: “no hay enunciado que. en su arqueología. sostiene que los límites del enunciado son los otros enunciados con los cuales se puede establecer un espacio de correlaciones. por un lado. Anderson afirma que en América. de una forma o de otra. p. al mismo tiempo. etc. en ninguna de las florecientes naciones la lengua constituyó un problema en aquel inicio (finales del siglo XVIII y comienzos del XIX) ya que los pueblos y líderes criollos tenían la misma lengua que los Foucault. (Traducción de la autora) Contextualización del discurso En su clásica obra de referencia para los estudiosos de las ciencias sociales. conforman ese concepto moderno aglutinante que se materializa en prácticas. 113). la estabilización del referente. La certeza de un auditorio en el cual se incluyen no solo los destinatarios explícitamente designados por él en su discurso. creando. Esos vínculos conforman un juego enunciativo que es preciso examinar.

fuera posible reatar íntimos lazos culturales. al multiculturalismo. de nuestro espíritu imperial. Las guerras revolucionarias. excolonias? En América la propuesta. Juliá (1990) que en su artículo Vieja nación. el presidente Hipólito Irigoyen. La coincidencia de la fecha con el día festivo religioso de la Virgen del Pilar. (Traducción de la autora) universalista. Una fiesta compartida puede cumplir esa función de afianzar. Sin embargo la festividad solo gana estatuto legal el 9 de enero de 1958. Para entender lo que ocurrió en ese período de tiempo es menester considerar que hasta mediados del siglo XX predominó una manera única. aun así eran tranquilizadoras.) defensora y misionera de la verdadera civilización. fiesta imperial. de la Hispanidad. 268). por más duras que hayan sido. ahora estimadas como ‘hijas’ bajo un nuevo prisma de política la externa. 262). fue impuesto a los indígenas americanos en los dominios de la corona española. (. s/d) apunta dos tipos de celebraciones de la memoria pública: “la que insiste en la continuidad de la nación desde el pasado histórico. cuyo propósito era recuperar un prestigio perdido. entre otras. también. en escala mundial. 2005. ¿cómo calificarla para las naciones de lengua española.. Conflictos internos en España postergaron la definición de una fecha conmemorativa nacional hasta que las celebraciones por el IV Centenario del Descubrimiento de América en 1892. En el caso específico de Argentina que nos interesa. p. el 11/10/1917 publica un decreto declarando el 12 de octubre fiesta nacional dedicada a la raza. Recientemente. Ese vínculo familiar garantizaba que. lazos culturales.. siguiendo a Tateishi (2005). ese proceso fue motivado por: la disgregación de la Unión Soviética. en la segunda mitad de ese siglo. p. la fiesta de 12 de octubre en España no se encajaría en ninguno de los dos tipos señalados en el párrafo anterior. la madre patria recorre a su pasado exaltándolo. así califica a esta conmemoración “fiesta imposible de la nación española”. luego la pérdida en 1895 de Cuba y de Puerto Rico en 1898. . entre las exmetrópolis y las nuevas naciones (p. lengua vernácula. si es imposible para España. en este caso los descendientes remanecientes de diversas comunidades indígenas. de adoptar la fecha del 12 de octubre como Día de la Raza fue acogida rápidamente por muchos gobiernos. y a veces políticos y económicos. de entender la unidad cultural de cada nación que da lugar. hecha por la Unión Ibero-Americana en 1912. la descolonización de África. Si es imperial. Cristina Kirchner. s/d). Para tal. el creciente expansionismo de los Estados Unidos en América. por el decreto 1584/2010 sobre feriados nacionales y días no laborables de la actual presidenta argentina. aliada a la ideología de esa hispanidad se mostró muy efectiva para consolidar la fecha conmemorativa: “Se trata así de poner de manifiesto la pureza moral de la nacionalidad española: la categoría superior. En ese sentido es coincidente con S. A propósito de las fiestas nacionales. el proceso de globalización y los movimientos migratorios. 1999 e ABÓS. Grupos enteros que habían permanecido en el olvido. Según el mencionado autor. Tateishi (2005. p.. 2003. 16-17) apunta que. la fecha fue redesignada como Día del Respeto a la Diversidad Cultural3. El castellano.Fue justamente el hecho de compartir con la metrópolis la misma lengua (y también la religión y la cultura) que había posibilitado las primeras creaciones de imágenes nacionales (p. monolítica. después de un cierto período de resentimiento. en la medida en que eran guerras entre parientes. y la que celebra la nación moderna a partir de la ruptura con el pasado”.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 185 excolonizadores. apud TATEISHI.. Heymann (2007. el intento fracasado en el norte de África y los regionalismos internos aceleraron la necesidad de reatar lazos con las excolonias americanas. la constitución de nuevos bloques económicos (UE y Mercosur). que es la Cristiandad” (VALLS.

186 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS lucharon por sus derechos y reivindicaron su lugar en la memoria ahora transformada en valor. (12) América y España: identidad pacifista. la sencillez de su estilo. de hecho. un dicho. prototipo católico. su prosa …fina. Renán. código del honor y breviario del caballero. estrecha. la perennidad del Quijote. (3) América: empresa de héroes. otros discursos pronunciados por Perón (8/6/44. genio auténticamente español. A la introducción del extenso discurso de 13 páginas. Madariaga. su obra. el más grande de los escritores castellanos. (10) La revolución y las almas. (2) La raza: superación de nuestro destino. el inmortal complutense. el misterio y la magia de Cervantes (9). Son ellas: la reina Isabel (Nueva Recopilación de las Leyes de Indias). Discurso de las armas y de las letras de Cervantes. aprovechando la proximidad supuesta del nacimiento del homenajeado (entre el 29/9 y 9/10/1547) y conmemorar el Día de la Raza. le siguen dieciséis tópicos cuyos subtítulos. Se hace preciso aclarar que en aquella época. pozo de sabiduría y. con genial previsión (7). aquí numerados son: (1) Espíritu contra utilitarismo. un notable cervantista inglés (s/d). la más alta expresión de las virtudes. su palpitación humana. (5) Porvenir enraizado en el pasado. (11) Grandeza de España. Weber. sus compañeros de esclavitud. el prototipo del caballero católico. otras voces comparecen de manera más o menos explícita. su universalidad (6). un versículo de Job. no exhaustiva. España – bajo el régimen del General Francisco Franco . magistral. su vida. el inmortal alcaíno. dolorosa. directa . España. A lo largo del pronunciamiento son hechos comentarios sobre la obra Don Quijote de La Mancha así como también hay réplicas a los detractores internos y a las potencias extranjeras enemigas (expansionismo de los Estados Unidos y el avance de la Unión Soviética en Eurasia). decreto del presidente Irigoyen de 1917. Crónica General de Alfonso el Aproximaciones al discurso del 12 de octubre de 1947 La sesión fue realizada en la Academia Argentina de Letras con el doble objetivo de rendir homenaje al cuarto centenario del nacimiento de Miguel de Cervantes. Los números entre paréntesis indican los subtítulos en los que se encontraron tales designaciones. a tal punto que en 1946 las dos naciones firmaron el Convenio Comercial y de Pagos por el cual Argentina fornecería cereales a España5. merecedores de muchas críticas. un deber moral de reconocer múltiples identidades.(10). su vida triste. de raíz hispana. La Galatea. (15) Transformación del mundo y (16) Resurrección del Quijote . la hispanidad y la lengua. la universalidad de Cervantes. su indómita inteligencia (8). Consideramos entonces que es ese nuevo régimen de enunciabilidad el que nos posibilitará la descripción del archivo en cuestión. (9) Inteligencia y milicia. 10/7/44 y 24/11/44). su propio dolor físico y espiritual. Ortega y Gasset. 6 Sabio. Presentamos a seguir. la inmortal figura de Cervantes. (13) Paz y justicia social. Menéndez y Pelayo. (7) Conciencia social de Cervantes. para conformar su entramado. su honda vivencia espiritual y su suprema gracia hispánica (5). un escritor contemporáneo (s/d). CERVANTES: el grande hombre. (6) Entraña popular cervantina. de las designaciones correspondientes a Cervantes. Cervantes –el prototipo del español. Diario de Madrid (1788). o indirectamente. una recolección. (8) Cervantes.y Argentina mantuvieron vínculos políticos muy estrechos. el glorioso manco de Lepanto. Argentina. espejo y paradigma de su raza (1). Como en todo discurso. (4) España rediviva en el criollo Quijote. la raza. el genio máximo del idioma. el título del discurso es Homenaje a Cervantes 4. Persiles y Sigismunda.… una riqueza tal de vocablos. por los siglos de los siglos. (14) Argentina es libertad.

nuestro sello personal indefinible e inconfundible. nuestra . eterna. un afán pacifista. un patrimonio cultural acumulado durante siglos (16). Hoy. magnífico aporte a la cultura occidental. ya los oponentes son considerados utilitaristas. tan noble tronco (1). iguales a ella en su esencia y naturaleza (3). el signo de una auténtica misión (2). más que nunca. nuevo Prometeo. sus hijas (3). Esta hispanidad se alinea al espiritualismo. de historia. el sentimiento patriótico español (11). quijotesca) (13). una empresa universal. Una vez más nos deparamos con un ámbito semántico difícil de delimitar. esta filiación (4). de religión. sus más sublimes proporciones (la vertiente hispánica de la cultura occidental y latina) (4). la flor de la caballería. nos referimos a la curiosa designación ‘quijotes de nuestras pampas’ (1) en la que se condensan la figura del Quijote y la del gaucho para predicar los rasgos en común valorizados: ‘el riesgo por el bien’. de cultura. el pensamiento inspirador de sus grandes estadistas (12). ese orbe espiritual. En varios momentos hay como una superposición entre los valores adjudicados a los diversos objetos de discurso.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 187 ESPAÑA: la Patria Madre. estas identidades. el ascetismo y la espiritualidad. para (re)crear una historia. isla de paz (1). unidad de cultura y unidad de destino. valores y creencias. valor incorporado y absorbido por nuestra cultura. su gloriosa trayectoria histórica. los valores espirituales. la más prodigiosa acumulación de incitaciones ideales (9). una suma de imponderables. una comunidad de ideas e ideales.…el más puro y elevado. la levadura de su sangre. la madre España. marcados por el signo de una misión cristiana. su maternal regazo. de sacrificios y de ejemplares renunciamientos. ARGENTINA: coheredera de la espiritualidad hispánica. su más calificado blasón. este sentido primario de la justicia (11). los pueblos de la hispanidad. estoico. su empresa. unidad de origen. nuestro origen y nuestro destino. Se rescatan fragmentos del pasado de España. empresa universal. el sentido misional de la cultura hispánica. esta imposición del destino (5). Una figura emblemática ha llamado nuestra atención. fecunda. la más prodigiosa acumulación de incitaciones ideales.… un desbordamiento de pasión. la pasión patriótica. los únicos valores eternos (10). ‘la ventura de todo afán justiciero’ y ‘el sabor de “jugarse por entero”’. un estilo de vida (2). lo español. su obra civilizadora. interpretada como destino. distintas a la madre en su forma y apariencia. la universalidad de lo español (9). LA HISPANIDAD: el heroísmo y la nobleza. de no resolverlo con acierto. civilizadora. la mejor ejecutora de la raza. la magnitud de su empresa. LA RAZA: algo puramente espiritual. la riqueza espiritual. acaso resignado. vínculos de idioma. que bajo determinada coyuntura se proyecta para un presente y un futuro y así hacer frente a las grandes transformaciones sociales en el panorama mundial de aquella época. LA LENGUA: el idioma más hermoso de la tierra (2). Perón cierra el discurso haciendo una exhortación que no podíamos dejar de traer: Como miembros de la comunidad occidental no podemos sustraernos a un problema que. el éxito de nuestra política exterior (idealista. el ideal hispánico-ascético. puede derrumbar un patrimonio espiritual acumulado durante siglos. debe resucitar don Quijote y abrirse el sepulcro del Cid Campeador. la patria. por esta grandiosidad y por esta fuerza. una herencia inmortal (4). la ascética grandeza ibérica y cristiana (5). la verdadera unidad espiritual de los pueblos hispanos. su sangre. la armonía de su lengua (4). única en el mundo. un rosario de heroísmos.

Jornal El País.com/diario/ 1990/07/19/internacional/648338411_850215. história. . p. En definitiva. Actas del XI Congreso Brasileño de Profesores de Español. En: GOMES. Rio de Janeiro: FGV. Michel ([1969]1995): A Arqueologia do Saber. En: XI Congreso Brasileño de Profesores de Español. Salvador. En: anclajes XIII. 2-8. DAHER. 2 da reimpressão. HEYMANN. a partir de la segunda mitad del siglo XX. PUC-SP. Rio de Janeiro: Forense Universitária. 2008) y que rescata valores vigentes en la Castilla del siglo XV. Angela de Castro (coord. a cura di Joan Armangué i Herrero. Mario Miguel (2005): Hispanidad e Hispanismo para profesores brasileños de Español. La Academia Argentina de Letras y el peronismo (1946-1956). Paulo.): Direitos e cidadania –memória.188 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Consideraciones finales Estas primeras aproximaciones se mostraron muy productivas por revelar los valores adjudicados en aquella época a la noción de hispanidad. Trad. . Disponible en: http://elpais. Mara (2008).biglobe. (2001): Significação –Da História ao nome Israel e Palestina na Folha de S. JULIÁ.htm (última consulta realizada el 25/06/2012). Maria C. En: Oralità e Memoria. Benedict (2011): Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. Tese de doutorado em Lingüística Aplicada ao ensino de línguas. se observan marcas lingüísticas de un movimiento político-cultural que surge a fines del siglo XIX bajo el signo del conservadorismo (GLOZMAN. p. São Paulo: Companhia das Letras. F. 129-144. Campinas. discursos. MT: Unemat. 19-7-1990.ne. Dominique (2008): Gênese dos ANDERSON. Cagliari: Arxiu de Tradicions . podríamos decir que desacraliza una visión de lengua monolítica que se ajustaba a esa formación ideológica.jp/~hirotate/ hiro-es/art-hiro/hiro-4. fiesta imperial.es/exterior/br/ es/publicaciones/XI_congreso. En consonancia con González (2005). Cáceres. 15-43. Taisir M. La fiesta del 12 de octubre parece haber servido de pasquín para una determinada coyuntura histórica y política. 2007. Disponible en: http://www7a. TATEISHI. noción que puede ser confundida con la de hispanismo y con la que mantiene parentescos. www. G. SP: Parábola.educacion. Tateishi (2005) especifica más aún y afirma que “(la hispanidad) era un concepto íntimamente ligado al nacional-catolicismo del régimen franquista”. política e cultura.pdf. GONZÁLEZ. (2000): Discursos presidenciais de 1o de maio: a trajetória de uma prática discursiva. 59-71). pp. São Paulo: Pontes. 4ta ed. p. Denise Bottman. KARIM. São Paulo : Librería Española e Hispanoamericana . Santos (1990): Vieja nación. legislação e direitos. Referencias bibliográficas MAINGUENEAU. El advenimiento del multiculturalismo. Hirotaka (2005): Estado–nación y fiesta nacional. Consulta realizada el 26/01/2012. Luciana Quillet (2007): O devoir de mémoire na França contemporânea: entre memória.html (consulta realizada el 08/04/2012). FOUCAULT.Casa del Lector. que se aparta de la definición genérica dada por el diccionario7. Em: Sociedade e Discurso. GLOZMAN.

Daher –UFF.htm. 3 4 www.ar Consultado el 26/01/12.cervantes. enviados especiales.boletinoficial. aclarando que faltan los subtítulos (1) y (8). 1947. Dada la extensión del discurso no lo presentamos en anexo. Conjunto y comunidad de los pueblos hispánicos. Consulta realizada el 28/1/2012. carpeta No 11. sin los contenidos de los subtítulos (6) al (15).ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 189 Notas 1 Título provisorio de la tesis: Discursos oficiales del 12 de octubre: ¿Raza. miembros del Cuerpo Diplomático y Consular. representantes de instituciones culturales y universitarias. Discursos Gral. Juan D. Se encontraban también presentes el embajador de España. . 2.il/eial/I_1/rein. http://cvc. Perón. 5 6 http://www. académicos. G. Carácter genérico de todos los pueblos de lengua y cultura hispánica. don Carlos Ibarguren y el Académico de Número.ac. 2 Biblioteca del Congreso de la Nación. 22da ed. don Arturo Marasso.gov. Para su versión completa remitimos al lector al sitio del Centro Virtual Cervantes.es/literatura/quijote_america/argentina/ ibarguren. ministros.: 1.tau. También alertamos que en otros sitios investigados el pronunciamiento figura incompleto y sin aclaraciones. 7 Diccionario de la Lengua Española (RAE). etc. Hispanidad o Resistencia indígena? Orientadora: Dra Maria Del Carmen F. Departamento Colecciones Especiales. Además discursaron el señor presidente de la Academia Argentina de Letras.htm Consultado el 6/4/2012.

DEMONTE. em ambas as línguas. na Gramática descriptiva de la lengua española (BOSQUE. principal. pouco natural. para o português.Universidade de São Paulo estudo se desviavam do padrão de frequência normal de seleção de infinitivos ou subjuntivos dessas construções em português. No presente estudo. Isso fazia com que o produto das traduções desses sujeitos soasse. no que se refere à seleção dos tempos e modos verbais que se seguiam a essas estruturas. O primeiro passo no sentido de comprovar essa intuição. buscamos sistematizar. com “quando/cuando” e “até/hasta”. considerando a noção de “naturalidade” como aquelas “coisas que de fato são ditas numa dada área de uma dada língua ou variante linguística” (TAGNIN. na Gramática de usos do português (NEVES. intuitivamente. p. de forma comparada. as informações normativodescritivas levantadas para o português e para o espanhol. 1998) e. que as construções utilizadas naquele orações são descritas. constatamos uma grande proximidade entre o texto meta e o texto fonte. 315). de uma perspectiva gramatical. e nas orações subordinadas adverbiais finais. com “para/ para”. 1996). par tindo de alguns casos que serão analisados em nossa pesquisa de mestrado e com base em gramáticas e trabalhos que abordam tais estruturas. seria verificar como tais 1 Introdução A partir da observação de um corpus de traduções de receitas feitas por treze aprendizes brasileiros de espanhol como língua estrangeira (E/ LE). 2004. TEIXEIRA. para o espanhol. fundamentalmente nas chamadas orações subordinadas adverbiais temporais.190 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS SUBORDINADAS TEMPORAIS E FINAIS EM PORTUGUÊS E ESPANHOL: QUESTÕES DE CONTRASTE E EFEITOS PARA A TRADUÇÃO Bruna Macedo de Oliveira 1 PG . 2000) e em Construcciones temporales (MARTÍNEZ GARCÍA. mas não somente. 2 As subordinadas adverbiais temporais: comparações entre “quando/cuando” e “até/hasta” . 2003) e na Gramática descritiva do português (PERINI.

p. p. desligue e deixe esfriar. na subordinada em língua espanhola. Quando segundo a concordância estabelecida em cada caso. Contudo. Em língua portuguesa. . como em (5b)). em que está ciais (4a)3 e t e mp mpo tipos. Diferentemente do que acontece em língua portuguesa.38). presentes ou habituais) e com subjuntivo quando se referem a contextos posteriores e não factuais. espa espaciais presente a ideia de um limite. é um caso especial existente apenas em língua portuguesa. fornecendo-nos informações sobre o momento em que começa e/ou termina o evento verbal. se o que se pretende é uma expressão de eventualidade. 2000). No caso da preposição “até”.3198-3199) explica que há uma segunda hipótese relativa a esse conector em língua espanhola. como em (5a)) e outro de lo localização p o nt ual (que situaria o momento em que o evento ntual ocorre. ao contrário do infinitivo impessoal existente nas línguas românticas. por ser ela uma das mais produtivas em língua portuguesa. a presença de formas verbais futuras. como indica Martínez García (1996. um ponto final cujo início se pressupõe. Ilari et al (2008) explicam que se localiza entre as menos gramaticalizadas do português. A preposição “ hasta ” também se constitui como um nexo de tipo delimitativo. (4b) Sove bem a massa até dar o ponto. A preposição “até” estabelece relações de dois o r ais (4b). O infinitivo flexionado. segundo Perini (1998).ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 191 A oração subordinada adverbial temporal compõe um período composto. quando o referido na oração principal se orienta ao futuro. segundo a qual não existiria um. Esse conector admite verbos tanto no modo finito quanto na forma infinitiva. constituído por uma oração principal (nuclear ou matriz) e uma temporal que tem o papel de situar ou delimitar cronologicamente o evento da oração principal (PÉREZ SALDANYA. (4a) É um caminho progressivo até chegar ao pódio olímpico. (5a) Juan se quedó hasta las tres. suas condições de concordância são distintas das dos demais tempos e as intuições dos sujeitos sobre quando utilizá-lo são muito menos seguras do que para os outros tempos verbais. As orações introduzidas por “ cuando ” em língua espanhola se comportam de maneira análoga ao restante das orações temporais. mas dois tipos de “hasta”: at i v o (que apontaria o limite final de um um d ur urat ati calização intervalo. em geral. p. Um fator importante. “quando” será acompanhado de futuro do subjuntivo (1)2. (1) Quand o ferver. é que. de acordo com Neves (2003. podendo ou não aparecer flexionados.787). extraer la rama de vainilla. no que se refere ao infinitivo flexionado. García Fernández (2000. “a análise das construções temporais pode ser representada pela análise das orações iniciadas pela conjunção ‘quando’”. (5b) Juan no llegó hasta las tres. ou seja. o conector “ cuando ” não admite. (2b) Cuando enfríe. (3) Junte a cebola e o alho e cozinhe até estarem macios. de modo que. de acordo com Perini. pois. só será possível na subordinada o uso do imperfeito do subjuntivo (2a) ou do presente (2b): (2a) Junto con la patata cortada echamos el pimentón y cuando estuviera sofrito echamos el agua. especialmente na correlação temporal do modo indicativo. apresenta um sujeito e possui flexões de número e pessoa (3). aparecem com indicativo se designam eventos factuais (passados.

(7b) No me habló hasta no haber llegado al teatro. p. quando o sujeito da oração Da mesma forma que as temporais podem ser representadas por “quando”.201). oração principal. aparecer flexionado (9). atualmente. por suas . “expressam a intenção. não existiria a mesma restrição. o que comprovaria a dupla natureza.501). par para finalidade e avaliarmos a sua extrema importância na administração. (8) Leve(suj1) ao fogo par a que as batatas(suj2) fiquem para bem douradinhas. que só se constroem com subjuntivo ou com a preposição “para” seguida de infinitivo. Entretanto. e ii) com sujeito distinto do da oração principal. 2003. para concordar com seu sujeito. a flexão para indicar o sujeito da final é desnecessária (NEVES. Cabo. (9) Na base em Maranguape.886-887). em que ambas as sentenças são gramaticais. Segundo Neves (2003. o infinitivo flexionado.192 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS García Fernández destaca que tal proposta não estaria livre de problemas. O primeiro diria respeito ao fato de que alguns gramáticos observaram que essa preposição não se comporta da mesma forma em contextos afirmativos e negativos. essa possibilidade se limita a alguns casos nos quais há uma relação de consequência entre a oração subordinada e a principal (6a).3. caso em que o infinitivo pode ou não. como dispõe o referido autor (ibidem. (7a) No pararé hasta no haberlo conseguido. As orações formadas pela preposição “para” seguidas de verbo em infinitivo. Tal diferença. p. mas sim se houvesse dois. Na presença de “ hasta ” durativo. No caso de “hasta ” pontual. os animais foram a serem/ser colocados um a um em canoas par para levados até o cativeiro natural. as orações finais introduzidas pela preposição “para” seguida de “que” e um verbo no subjuntivo (modo finito) são aquelas que apresentam um sujeito distinto da oração principal (8). de uma forma geral. Em casos como (6b). como se nota em (7a e 7b). não encontra explicação natural se considerarmos a existência de um só “hasta”. as orações adverbiais constituem exemplos de orações construídas com indicativo e subjuntivo. o objetivo. No entanto. para fazer a concordância com o respectivo sujeito (10). caso em que é mais comum o infinitivo aparecer flexionado. direto) em Arraial do a servir de base à criação de gigas. segundo Bechara (1999. (11) Comprou oito hectares(obj.889): Como havíamos assinalado ao tratar da temporal com “até”. por outro lado. tal relação não está prevista. as finais encontram sua representante máxima na preposição “para”. par para subordinada tiver o mesmo referente de qualquer outro membro da oração principal. Castilho (2010) explica que. (6a) Cantó la escena final de Salomé hasta perder totalmente su voz. p. podem construir-se: i) com sujeito idêntico ao da (6b) *Cantó la escena final de Salomé hasta bajar al mercado. p. a finalidade do pensamento contido na sentença matriz”. embora haja dois pontos a seu favor. esse não seria o caso das orações finais. ambos extraídos de Neves (2003: 886). 3 As o r ações s ub o r dina das finais: o caso d e or sub ubo dinadas de “par a/p ar a” para/ ara (10) Convém. Essas orações são formadas por uma oração principal (nuclear ou matriz) e uma oração final que. O segundo baseia-se na possibilidade de que dito elemento seja seguido por uma oração de infinitivo. subdividir a própria a melhor apreendermos a sua contabilidade.

3625) expõe que as orações finais foram incluídas nas chamadas adverbiais circunstanciais em razão de que a finalidade expressa por elas enuncia uma circunstância. p.74). não sei o que se passa na ara cabeça do Rei. (15) Juana canta p ar a alegrarse. de acordo com Pérez Saldanya (2000. ocupa um lugar marginalizado na sintaxe de nossa língua. cuja realização. aparecer em contextos sem agente. ao explicar que é desnecessário. Porto Dapena (1991.3308).209-210) acrescenta que há situações em que o infinitivo será utilizado mesmo quando os sujeitos das duas orações não forem os mesmos. e subjuntivo quando os agentes não sejam os mesmos (16). em tais orações. que p. em muitos casos. . o infinitivo flexionado. dois tipos de orações finais: as propriamente ditas. do ponto de vista do nível em que estão construídas. p. essa eleição depende da evidência dada à ação ou a seu agente. ara (16) Juana canta p ar a que nos alegremos. seja porque não diz respeito a nenhum sujeito concreto. que a correferência se dê entre os sujeitos. Embora as possibilidades de manifestação do fenômeno dependam de traços semânticos e sintáticos do verbo principal. ou p u r a s s. p. a rascar y cortar las (18) Este tipo de azada sirve p ar ara malas yerbas. Existem. e i i ) as que rc e modificam o próprio ato linguístico. segundo Pérez Saldanya (2000. exemplos como (11) mostram que a escolha pela forma flexionada ou não do infinitivo é. e as que têm r basicame nt ec o nse cu t i vo . como (17).209) nas orações finais. Segundo Porto Dapena (1991. como em (18). p. as orações finais podem ser de dois tipos.3629). que indicam o propósito ou a intenção pela qual um agente realiza o evento expresso na oração principal. de forma que o (17) Esta cuerda servirá p ar a mantener sujeto el ara paquete. ara O uso do subjuntivo neste caso justifica-se pelo traço de intencionalidade que marca a oração subordinada final e porque esta não exprime nenhum fato. distinguidos de acordo com seu comportamento sintático: i ) as que ligam o conteúdo proposicional da oração principal. mais optativa do que obrigatória. a oração subordinada geralmente aparece em infinitivo. adver biais cir c u n s t a n c i a s (13). Nesses casos. As orações finais podem ainda. Para a língua espanhola. Galán Rodríguez (2000. um evento virtual. p. seja porque o sujeito da oração subordinada coincide com um argumento da principal. p. Galán Rodríguez (2000. como expõe Perini (1998). a d v e r b iais d de e n unciação (14): ( 1 3 ) Esboçou um movimento p a r a seguíssemos em frente. utilizar-se-á obrigatoriamente infinitivo quando os sujeitos têm o mesmo referente (15). um v alo alor basicament nte co nsecu cut Com relação aos tempos e modos verbais que acompanham as finais. p. Neves (ibidem) explica que. apesar de não contarem com advérbio. (14) Par a dizer a verdade. de maneira que. será utilizado o infinitivo não flexionado e se a opção se der em favor do segundo. se chegar a ser produzida.3310). como (19). nos quais se referem à ideia de objetivo como utilidade. ambos os exemplos extraídos de García (1996.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 193 características bastante particulares. será necessariamente posterior ao designado pela oração principal. Essa afirmação é corroborada por Galán Rodríguez (2000. se a opção se der em favor da primeira.3621) assinala que os traços semânticos que exprimem a finalidade têm um claro reflexo sintático. mas um objetivo. Para Cunha e Cintra (2001). mas a um sujeito genérico ou indeterminado.

de maneira geral. e i v) a oração de <para que + subjuntivo> denota a atitude do falante (GALÁN RODRÍGUEZ. 4 Orações subordinadas adverbiais temporais e finais estudadas: contrastes e efeitos para a tradução Tomaremos. ‘“ ara yo) a la feria. para realizar a mesma relação de sentido. aquelas informações que dizem respeito. Isso ocorre porque. No caso das finais com “para/ para ”.194 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS agente que executa a ação pode manifestar-se em um complemento direto ou indireto. estaria previsto com “quanto”. a alternância entre infinitivo e um verbo na forma finita pode ser modificada. Se os sujeitos não são correferenciais. além do sujeito do verbo (no caso de este ser também o agente). como em (21) 4 . ( 2 0 ) Llama a la enfermera p a r a levantarte ra (enfermera-tú). a mandarla hoy / p ar (25) Escribe la carta p ar a que ara ara la mandes hoy. o futuro do subjuntivo. (19) Le presté (suj. (21) Esto servirá p ar a que nos dejen en paz durante ara una temporada. poderá ocorrer com agentes idênticos (22)5 .3634). aos casos que serão objeto de estudo em nossa pesquisa. tanto o infinitivo quanto a forma pessoal (ambos em 25) são possíveis. aparecerá nas situações em que há dois agentes distintos. Nas situações em que o verbo apresentar um complemento direto referido a pessoas. se há correferência entre os sujeitos. Quando o verbo da oração principal está no imperativo. (23) Los jefes lo enviaron a Madrid p ar a hacer unas ara gestiones. como de tipo d ur urat ati evidente nelas a ideia de consequência entre as duas orações. ii) os sujeitos designam entidades inanimadas e não aparece na oração principal um agente explícito. As estruturas com “até/hasta” encontradas em o r al e poderiam receitas exprimem uma relação t e mp mpo ser classificadas. a situação geral também sofre ligeira alteração. principalmente. em alguns casos. em especial quando: i) o verbo principal é passivo. 2000. para indicar eventos orientados ao futuro. p. = yo) mi coche p ar a ir (suj. Não obstante. Em língua portuguesa. como (20). 1996. segundo tipologia trazida à luz por at i vo . . p. enfatizamos principalmente as tipologias adotadas em cada uma das línguas. em que a ação da oração dependente só se cumprirá se a ação contida na principal também realizar-se. o complemento direto é suscetível de ser correferencial com o sujeito do infinitivo (23) (GARCÍA. no gênero receita.75). utiliza-se um verbo na forma pessoal. iii) o verbo principal está modalizado. neste item. A partir da comparação efetuada. (24) Haz los deberes p ar a que mañana no te riña el ara profesor. com subjuntivo (24). embora se entenda como uma ação que alguém realizará. em que não se pode considerar a final como de tipo “pura” por não haver um sujeito pessoal (+humano) na oração principal. essas construções poderiam ser identificadas como de tipo (22) Los corresponsales fueron convocados a una a que informasen correctamente rueda de prensa p ar ara a sus agencias y periódicos. diretamente. Nas receitas. O modo subjuntivo. já que é García Fernández. pudemos observar que no uso moderno da língua espanhola. há duas possibilidades para o emprego de verbos nas construções temporais iniciadas por “cuando”: o de imperfeito do subjuntivo e o presente do subjuntivo.

parece ser mais provável quando o sujeito da primeira oração se mantém na oração dependente. sem agente ou com um sujeito e de v alo alor co nsecu cut não humano. Embora seu uso esteja igualmente previsto quando haja . correferencialidade com qualquer dos termos da principal. lev para Em (28b). o que pode corroborar a afirmação de Perini (1998) sobre a insegurança dos falantes com relação ao emprego dessa estrutura. com predomínio de correferencialidade com o objeto direto. Esta última hipótese. em língua portuguesa. en porciones. um leque um pouco mais abrangente que o verificado em língua espanhola. No gênero receita. Parece existir. pode configurar-se como um importante parâmetro de análise na classificação das orações finais das receitas de nosso corpus. para o uso de infinitivo e subjuntivo nas estruturas subordinadas com um caráter prospectivo. em língua portuguesa. com agente humano. (28c) Prepárala en un gran molde cuadrado y córtala a tener unos deliciosos pasteles. em geral. três possíveis escolhas na tradução para língua portuguesa. especialmente nos casos de “até/hasta” e “para/para”. por exemplo. as subordinadas finais com “para” parecem funcionar de maneira análoga às temporais com “até”. são seguidas de infinitivo. Não se constatou o mesmo comportamento nessas estruturas em língua espanhola: encontramos. podemos supor que vo cê leva o sujeito de “levar” é o mesmo de “assar” (v ao forno para v o cê assar). (26). como em (28c). em que fica clara a característica semântica de agentividade e prospectividade. em língua portuguesa. quando for possível a correferência com qualquer um dos termos. Numa breve observação de um corpus de receitas coletadas da internet e escritas originalmente nas duas línguas. (27). já que ambas podem ser construídas tanto com presente de subjuntivo (28a). p ar ara 5 Considerações finais (27) El aceite sirve p ar a que no se peguen las láminas ara de lasaña. Em língua espanhola. apenas 18%. Embora esta pareça ser uma hipótese estranha. verificamos que. Com base no cotejo gramatical aqui realizado. quanto com infinitivo. em língua portuguesa.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 195 cir cunstancial (segundo classificação de Neves). Esses dados podem indicar que. (26) Par a conseguir una textura más delicada. não parece ser possível utilizar infinitivo nas subordinadas finais em todos os casos indicados para a língua portuguesa. devido à possibilidade de não concordância (não flexão) com o sujeito. abordada por Pérez Saldanya. ou que há dois sujeitos distintos e a correferência se dá entre o objeto direto da oração principal (as batatas) e o sujeito da final (as batatas). algumas mais e outras menos frequentes em seu uso. (28a) Vá virando os cubinhos conforme vão a q ue fiquem com um dourado por dourando par para igual. lo ara podemos pasar por el pasapurés. podemos dizer que parece haver. apesar de o infinitivo ser possível nas duas línguas em caso de correferencialidade com outros (28b) Embrulhe as batatas em papel alumínio e le v e ao forno par a assar(em) por cerca de 1 hora. rc onse cu t i vo . só 2% do total de orações eram seguidas de infinitivo flexionado. será eletiva. Isso pode evidenciar a natureza flutuante do infinitivo em português. 33% dos casos seguidos de infinitivo e com “hasta”. A circunstancial as divisão entre finais pur puras as. Observamos ainda que a grande maioria das construções finais com “para” (89% do total) e das temporais com “até” (80% do total). com “para”. não resulta pouco incomum. seja ele flexionado ou não (28b).

Referências bibliográficas . CASTILHO. M. como se dá nesse gênero e na tradução a questão da correferencialidade nas duas línguas. Gramática Descriptiva de la Lengua Española. CINTRA. 3621-3642. p. (orgs. La subordinación temporal. Em: BOSQUE. p. dos quais apresentamos aqui apenas uns poucos dados quantitativos. Em: BOSQUE. Madrid: Espasa. H. como ocorria no texto fonte. já que. p. 3129-3207. T. (1999): Moderna gramática portuguesa. apesar de semelhantes em determinados casos. Gramática Descriptiva de la Lengua Española. e ampl. e se haverá diferenças significativas no uso dessa forma nominal nas estruturas com “até/hasta” e “para/para”. (2008): A preposição. GARCÍA.. (2003): Gramática de usos do português. PÉREZ SALDANYA. Vol. I. agora. H. mais detidamente. V. V. Em: ILARI.) Gramática do português culto falado no Brasil. Madrid: Espasa. I. 884-893. 3253-3318. 37. A. p. L. Madrid: Arco/Libros. comparar o que neles encontrarmos com as descrições gramaticais efetuadas e. C.. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. GARCÍA FERNÁNDEZ. DEMONTE. no que se refere ao emprego de infinitivos. nos textos finais por eles traduzidos. a distribuição desses usos não ocorra numa mesma medida. L. M. DEMONTE. II. 787-801. V. houve predominância de estruturas com subjuntivo. (2000): El modo en las subordinadas relativas y adverbiales. R. São Paulo: Editora UNESP.) Gramática Descriptiva de la Lengua Española.. 2. (2000): Los complementos adverbiales temporales. 3. Campinas: Editora da UNICAMP. p.196 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS termos da oração principal. (2000): La Subordinación Causal y Final. por fim. Assim. p. Em: BOSQUE. São Paulo: Contexto. Vol. (1996): Construcciones temporales. Madrid: Arco/Libros. CUNHA. 2.. realizar um cotejo de ambas as análises com o produto das traduções que serão feitas por outros estudantes brasileiros de E/LE. L. nem sempre parecem coincidir nas duas línguas e no gênero tratado e. H. M. (1996): Las expresiones causales y finales. E. Classes de palavras e processo de construção. rev. et al. 760-763. M. (2010): Nova Gramática do Português Brasileiro. BECHARA. Rio de Janeiro: Lucerna. Vol. GALÁN RODRÍGUEZ. V. (dir. poderemos observar como (e se) nossos sujeitos farão uso de todas essas possibilidades que. MARTÍNEZ GARCÍA. ILARI R. ed. Madrid: Espasa. 338-381. DEMONTE. Resta-nos. S.. NEVES. F. realizar um tratamento mais acurado desses corpora de receitas. NEVES. C. (2001): Nova gramática do português contemporâneo. I. M. tanto nas temporais com “até” como nas finais com “para”. Os dados das traduções dos aprendizes referidos na introdução parecem ir na contramão dos números iniciais obtidos nos corpora de receitas escritas em português.

M.fac. E. p. FFLCH/USP. A. foram extraídos de receitas culinárias obtidas em sites (brasileiros e espanhóis) da Internet. TEIXEIRA.209). PORTO DAPENA..310).unb.125-179. Exemplo extraído de Porto Dapena (1991. São Paulo. Em: TradTerm. E. TAGNIN. p. Os exemplos a seguir. p. Madrid: Arco/Libros. O. sempre que não especificada outra fonte. 313-358.br/campusonline/esportes/item/2329-brasilienses-rumo-aop%C3%B3dio-ol%C3%ADmpico 4 5 Exemplo extraído de Pérez Saldanya (2000. . 292-297. (1991): Del indicativo al subjuntivo: valores y usos de los modos del verbo.3. (2004): Linguística de Corpus e Tradução Técnica – Relato da montagem de um corpus multivarietal de culinária. A.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 197 PERINI. J. 3 Exemplo extraído de http://www. S. v. Notas 1 2 Bolsista Fapesp. p. São Paulo: Ática. 199-206. (1998): Gramática descritiva do português. 10.

todo processo que gera significados está envolvido com relações de poder. Bruna Maria Silva Silvério PG . em que o “ser brasileiro” não tem nenhum referente natural ou fixo. Ela só tem sentido em relação com uma cadeia de significação formada por outras identidades nacionais que. 2000). estabelecendo significados e nos posicionando na sociedade. Entendendo-se que a identidade está intimamente relacionada à diferença. no ensino de .” (Woorward. […]. a identidade está intimamente relacionada a sistemas simbólicos e sempre assumimos uma posição. políticos. pois uma já pressupõe outra. pressupõe um referente antagônico a ela. (Silva. 80) Ao conceituar identidade. para citar alguns. por exemplo. etnográficos. Para isso é importante levar em conta que o termo identidade apresenta uma definição complexa. tampouco são fixas. naturais ou predeterminadas. prioritariamente. reconhecerá também o outro. Essas questões devem ser inevitavelmente abordadas no ensino. mesmo sem darnos conta. é importante ressaltar que a identidade nacional pode pautar-se sob diversos princípios: sociais. como deixa bem claro Silva (2000). 2011. Isso quer dizer que a identidade está presente e qualquer tipo de relação (principalmente nas de poder). ao reconhecer a sua identidade. por sua vez. Além disso. Baseando-se no discurso de Hall (2000). Ainda. a pesquisa propõe-se a analisar como é abordada a identidade nacional brasileira nos livros didáticos. p. não pode-se deixar de focalizar a importância que as relações de poder têm para no seu processo de formação. mas que há anos vem sedo estudado por diversas áreas do conhecimento. A identidade “brasileiro”. o sujeito. Isso quer dizer que “ser brasileiro” entende-se não se enquadrar em outras identidades que apoiamse em nacionalidades. ser compreendida fora de um processo de produção simbólica e discursiva. geográficos.UFF De uma forma geral. A autora afirma isso ao dizer: “É por meio dos significados produzidos pelas representações que damos sentido à nossa experiência e àquilo que somos. onde há sempre a dicotomia entre o incluído e o excluído. em diferentes épocas do ensino de Espanhol. não é um absoluto que exista anteriormente à linguagem e fora dela. segundo Silva (2011): A identidade “ser brasileiro” não pode. Para Woorward (2000).198 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS O TEMA TRANSVERSAL DA PLURALIDADE CULTURAL E SUA RECONFIGURAÇÃO NOS LDS DE LÍNGUA ESPANHOLA.

p. 2010). ao assumir uma visão da psicanálise lacaniana. também. o momento não é só de ingresso das disciplinas de língua estrangeira no Programa do FNDE para a escolha dos livros didádicos para o ensino público básico. Dessa forma. mas também representa uma esperança de que o Espanhol seja mais difundido entre as escolas. No Guia de Livros Didáticos – PNLD 2011. no que dispõe sobre a execução do PNLD.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 199 língua. considerando que sua inclusão no ensino público é um fato recente. portanto. referentes a diferentes épocas de ensino de Língua Espanhola: Vamos a hablar (JIMÉNEZ e CÁCERES. 2010) Isto é. esse momento pode significar. o sentimento de identidade subjetiva. No caso específico de Espanhol. Arriba (CALLEGARI e RINALDI. encontra-se a seguinte consideração: Trata-se. que é. pois. 14 de janeiro de 2008). o ser brasileiro não é consituído por como nos vemos. Com relação ao corpus do trabalho. já que esta também está subordinadas às relações de poder. a autora defende que o sujeito é formado pelas concepções e impressões do outro. além de . os estrangeiros acham que somos. Embora tenha sido lançada anteriormente. e sim pelo que os outros. de modo constitutivo. 2010). Segundo Coracini. 2004) e Saludos (MARTIN. em uma sociedade essencialmente pluricultural1 é importante que haja uma uma educação também focada na interculturalidade. a universalização da distribuição dos livros de Espanhol e Inglês significa um avanço na qualidade do ensino público brasileiro. apenas no edital de 2011. em suas próprias palavras. 1990). que reflete um reconhecimento do papel que esse componente curricular tem na formação dos estudantes. A coleção mais atual. 2003. através da Resolução nº 3 de 11 de janeiro de 2008. Depois de dez anos da criação do Programa. respeitando as diferenças sem estabelecer uma organização hierárquica entre elas. de um momento importante na história do ensino de LEM nas escolas públicas brasileiras. Ou seja. Como afirma Paraquett. pode-se afirmar que o ensino de língua estrangeira deve vincular-se à noção de cultura. uma ampliação do número de escolas que oferecem essa língua. Já que há pouco tempo que foi estabelecida a obrigatoriedade de oferta desta disciplina para o ensino fundamental e médio. Língua Estrangeira (inglês e espanhol) passa a integrar a lista de disciplinas contempladas pelo PNLD. a interrelação ativa de várias culturas que vivem em um mesmo espaço geográfico. “fica definido para o componente curricular de Língua Estrangeira o atendimento a partir do PNLD 2011. a coleção foi reformulada para participar da seleção do Programa Nacional do Livro Didático –PNLD 2011 e será essa a edição analisada. no sentido de que se assume a posição de existência de “culturas”. Ou seja. Com base nessas questões da identidade brasileiro. ano em que foi inserido o componente curricular Língua Estrangeira Moderna. para os anos finais do ensino fundamental” (Diário Oficial da União.” (Coracini. com livros de inglês ou espanhol. foi um dos livros aprovados pelo PNLD de 2011.201) O presente trabalho propõe analisar três coleções de livros didáticos destinados ao Ensino Fundamental. uma vez que esta é parte constitutiva da cultura de um povo ou nação. (MEC/SEB. Em suma. social e nacional. Saludos (MARTIN. pode-se dizer que o LD tem grande importância na aprendizagem da língua estrangeira. “é possível afirmar que as representações que fazemos do estrangeiro e as representações que o estrangeiro faz de nós atravessam. em seu ar tigo “A celebração do outro na constituição da identidade” (2003). segunda ela. de Língua Estrangeira Moderna.

que se posicione e que saiba aceitar e respeitar o outro. 2011. Ela só tem sentido em relação com uma cadeia de significação formada por outras identidades nacionais que. A identidade “brasileiro”. não pode-se deixar de focalizar a importância que as relações de poder têm para no seu processo de formação. o aluno. pressupõe um referente antagônico a ela. no ensino de língua. de que tais conceitos são inerentes a qualquer pessoa e a qualquer relação. já que esta também está subordinadas às relações de poder. Essas questões devem ser inevitavelmente abordadas no ensino. políticos. pode ser considerado um dos principais formadores de opinião do aluno acerca dos aspectos sociais e culturais da língua. em que o “ser brasileiro” não tem nenhum referente natural ou fixo. estamos submetidos a sistemas simbólicos e assumimos uma posição na sociedade mesmo sem dar-nos conta. por sua vez. naturais ou predeterminadas. por exemplo. ser compreendida fora de um processo de produção simbólica e discursiva. baseando-se em Woorward (2011). nessa visão. . como propõe os PCNs (BRASIL/SEF. 2011) Além de depender do símbolo. Ainda. 1998). 2011. não é um absoluto que exista anteriormente à linguagem e fora dela. identidade e diferença estão intimamente imbricadas em uma relação interdependente. Além disso. segundo Silva (2011): A identidade “ser brasileiro” não pode. Isso se deve ao fato. como afirma ainda a autora. até porque está intimamente ligada a práticas de significaões que Ao conceituar identidade. essa construção identitária também tem uma base social. onde há sempre a dicotomia entre o incluído e o excluído. Além disso. advêm de relações de poder e das vastas possibilidades de relações nos permeiam: […] a identidade marca o encontro de nosso passado com as relações sociais. (Silva. Isso significa que a construção de uma determinada identidade depende de um símbolo. etnográficos. 1990 apud Woodward. Sistemas simbólicos porque a identidade é marcada por meio de símbolos. Enquanto sujeitos. uma não se consolida sem a outra. é importante ressaltar que a identidade nacional pode pautar-se sob diversos princípios: sociais. isto é. Isso se dá a partir da visão socio-interacional da língua e da aprendizagem. a partir da aprendizagem de língua estrangeira.200 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS apresentar um suporte a conteúdos abordados em sala de aula. Levando isso em conta. p. geográficos. deve posicionar-se de forma autônoma como uma função de sua cidadania plena. para citar alguns. (RUTHERFORD. Isso quer dizer que “ser brasileiro” entende-se não se enquadrar em outras identidades que apoiam-se em nacionalidades. prioritariamente. 19) De acordo com a visão de Silva (2011).” (Woorward. […]. p. todo processo que gera significados está envolvido com relações de poder. cuja manifestação mais evidente na aula de língua estrangeira seja a cultura diferente da sua. compreende-se que os LDs têm a função de formar um cidadão crítico. Dessa forma. tampouco são fixas. uma representação simbolica: “É por meio dos significados produzidos pelas representações que damos sentido à nossa experiência e àquilo que somos. Baseando-se no discurso de Hall. culturais e econômicas nas quais vivemos agora […] a identidade é a interseção de nossas vidas cotidianas comas relações econômicas e políticas de subordinação e dominação. entende-se que ele deve também ter a preocupação de inserir o aluno na sociedade em que vive como cidadão crítico e que seja capaz de reconhecer-se como participante da diversidade cultural de sua nação. 80) A relevância das questões identitárias no ensino de língua Cultura e identidade são assuntos que vêm sendo discutidos há muito tempo e abrangem os estudos de diversas áreas. como deixa bem claro o autor.

além de ser dependente do passado histórico e das relações sociais de poder. um dos lados. afirma que a identidade e. a depender de um sistema de classifições onde diversos fatores estão envolvidos. a diferença devem integrar o currículo pedagógico.(Neves. o falante toma outra posição subjetiva. como afirma. p. portanto.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 201 Uma questão importante para o comprometer-se com a proposta de formação de um sujeito crítico. por exemplo – pode-se afirmar que identidade. Entende-se que mais do que aprender o código e suas funções na outra língua. “devemos ter uma ideia partilhada sobre aquilo que a constitui. bem como o material e o livro didático utilizados. Ainda. faz com que ela se torne invisível. compreender o processo em que se dá o estabelecimento das identidades. Isso significa que um será sempre mais privilegiado que outro. sempre é considerado o “normal”.” (Silva. Ou seja. já que não é possível ter contato com todas as pessoas que fazem parte da nossa identidade nacional. Apesar de ser uma pergunta difícil de ser respondida. essencialmente. relacionada a uma identidade. deve . questionador dos sistemas de representação de identidades existentes em seu entorno e. em seu livro Identidade e Diferença (2011). a resposta a tal pergunta tem dependência também na ideia do que fazemos do que é ser brasileiro. pois são a partir delas que as pessoas assumem determinadas posições.” (Silva. destacando-se o “anormal”. consequentemente. No espaço heterogêneo em que vive. principalmente quando se trata de um país plural como o Brasil. como aquilo que existe e que devemos apenas entender e respeitar. Woodward (2000). a atividade pedagógica se dá entre sujeitos. p. Entendo. entende-se que um currículo pedagógico. (Silva. 2006) desenvolvimento da pesquisa pode basear-se na pergunta o que é ser brasileiro?. Aqui fica bem claro que o estabelecimento de uma identidade depende da diferença. Ela tem que colocar no seu centro uma teroria que permita não simplesmente reconhecer e celebrar a diferença e identidade. Assim. Também.” (Silva. o estranho: “A força homogeneizadora da identidade normal é diretamente proporcional à sua invisibilidade. até pensando na diversidade do nosso país – o “ser brasileiro’ pode mudar de acordo com cada região do país. p. o aluno deve ser capaz não só de entender essa diversidade como um produto. 2000.24) Silva. que embora também intermediada pelos métodos e pelos materiais adotados. interessado na inserção do aluno como cidadão participante dos processos de constituição e significação da identidade e da diferença. 100) A identidade de um povo e a sua cultura formam-se através de diferenças. p. que põe em jogo as contradições da constituição histórica dos sujeitos. Essa posição diz respeito a uma intersubjetividade inconsciente. já que o encontro com o outro (incluindo o espaço social da escola) é inevitável. através de elos sociais. normalmente o mais superior. 2000.83) Essa relação de desigualdade identitária também precisa tomar um lugar no ensino de língua: “A pedagogia e o currículo deveriam ser capazes de oferecer oportunidades para que as crianças e os/as jovens desenvolvessem capacidades de crítica e questionamento dos sistemas e das formas dominantes de representação da identidade e da diferença. em seu ar tigo “A celebração do outro na constituição da identidade” (2003). do país em que vive. o ser brasileiro não é consituído por como Dessa forma. A normalidade. Mas sim. por não terem o mesmo papel perante a sociedade. assumindo uma visão dicotômica da identidade e diferença – onde sempre existe um “eu” ou “nós” e “o outro” ou “os outros” – os dois lados nunca terão o mesmo peso. mas questionála. criticar e questioná-lo: Uma política pedagógica e curricular da identidade e da diferença tem a obrigação de ir além das benevolentes declarações de boa vontade para com a diferença. 2000. também tem grande base no que acreditamos ser. 2000. 91 e 92) Segundo Coracini.

essa heterogeidade se complexifica. 201) É através desse dizer alheio que constroi-se o imaginário de pertencimento de uma nação. ao assumir uma visão da psicanálise lacaniana. dizer que nos precede ou que precede nossa consciência e que herdamos.8. Ed. Carlos (2003): Pluralismo. LARAIA. JIMÉNEZ.” (Coracini. Disponível em: www. de modo constitutivo. memória e identidade.doc HALL. F. LOPES. J. In: Linguagem & Ensino (UCPel. p. D. Disponível em: http://seer. Referências bibliográficas BAKHTIN. 2003. (1990): Vamos a hablar: curso de lengua española. Ou seja. Brasília: MEC/SEF. P. Simone (2004): ¡Arriba!. Roque de Barros (2009): Cultura: um conceito antropológico. e CÁCERES. 2003. São Paulo: Moderna. FREITAS. M. São Paulo: Editora Ática.br/organon/article/view/30024 COLECTIVO AMANI (1994): Educación Intercultural: Análisis y resolución de conflictos. E segundo Coracini (2007) essas novas vozes se entremeiam no incosciente do sujeito aprendiz. A. é que sustenta a nossa identidade: “o que somos e o que pensamos ver está carregado do dizer alheio. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. Dessa forma.202 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS nos vemos. n. BRASIL/SEF (1998): Parâmetros curriculares nacionais : terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental: língua estrangeira. 17. M. ao entrar em contato com uma língua estrangeira. RJ: Ed. sem saber como nem porquê. é preciso que o outro dê a sua existência. M. Campinas.A. (2007): A celebração do outro: arquivo.201) Ainda.” (Coracini. V. GIMÉNEZ ROMERO. multiculturalismo e interculturalidad. v. Tradução Adelaine La Guardia Resende [et al. (1992): Estética da criação verbal.ufrgs. p. UERJ. n.M. _____ (2003): “A celebração do outro na constituição da identidade”. . VARGENS. e nos tornamos singulares diante do estrangeiro. para que exista uma identidade nacional. 373-392. e sim pelo que os outros. In: Educación y futuro: revista de investigación aplicada y experiencias educativas. O sujeito por si só é heterogêneo e.M (2009): Pluralidade Cultural nos Parâmetros Curriculares Nacionais: uma diversidade de vozes. Marília Vasques e RINALDI.cesdonbosco. de nossos antepassados ou daqueles que parecem não deixar rastros. CORACINI. os estrangeiros acham que somos. a autora defende que o sujeito é formado pelas concepções e impressões do outro.com/ revista/impresa/8estudios/texto_cgimenez. As característica que são atribuídas a nós brasileiros. em suas próprias palavras. SP: Mercado das Letras. São Paulo: Martins Fontes. o sentimento de identidade subjetiva. Impresso). In: Políticas de integração curricular. por exemplo. Catarata. 12. CALLEGARI.P. Organização Liv Sovik. 35. Stuart (2009): Da diáspora: identidades e mediações culturais. social e nacional. p. pois uma língua sempre traz com ela outras identidades. abrindo novas formas de ver o mundo.. “é possível afirmar que as representações que fazemos do estrangeiro e as representações que o estrangeiro faz de nós atravessam. R.] 1ª edição atualizada – Belo Horizonte: Editora UFMG. Sempre que se aprende uma nova língua há um processo de formação da identidade. Revista Organon.C (2008): O livro didático na política de currículo para o ensino médio. L. novas formas de organização do pensamento e novas imagens do outro.

SILVA. G. Woordward (2000): Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. (org. v. PADILHA. Tomaz Tadeu da (org. Kathryn MARTIN. ressaltando as diferenças.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 203 PARAQUET T. . M. R (2004): Cultura. interculturalismo e ensino/aprendizagem de espanhol para brasileiros. multiculturalismo e currículo intercultural. Stuart Hall. I.(Biblioteca freiriana. R (2010): Saludos – curso de lengua española. São Paulo: Editora Ática. P. In: BARROS.) e COSTA. Secretaria de Educação Básica. S. Nota 1 a autora entende esse conceito como a co-presença de várias culturas.). In: Currículo intertranscultural: novos itinerários para a educação / SP: Cortez: Intituto Paulo Freire . E.9). Marcia (2010): Multiculturalismo. C. RJ: Vozes. Petrópolis. (org.). Brasília: Ministério da Educação.

sem. para isso. e. eram reutilizados. estabelecer relações de sentido. o objeto da poética estaria justamente nessa transcendência. Definida por Gerard Genette (1997) como transtextualidade. No sentido figurado. pergaminhos utilizados antes da invenção do papel e que. e assim.204 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS O POLICIALESCO NA FIGURA DE AMALFITANO Bruna Tella Guerra PG . empresta a figura dos palimpsestos (antes usada por Philippe Lejeune). alusões. após terem suas inscrições apagadas.Unicamp Uma característica essencial da Literatura é a transcendência textual. esses “rastros”. Nesses tempos. Tal local. surge a lenda del Hombre de Libro. essa questão abrange muito mais do que a noção comum de intertextualidade. mas todas as maneiras pelas quais um texto pode ultrapassar suas “barreiras”. de um livro B os resquícios de um A. ad infinitum. nos links textuais estabelecidos entre um texto e outro(s). . entre outros elementos que tangenciam. contudo. Nele. é tido como infinito. da coletânea Ficciones. epígrafes. enfim. que passam a almejar a justificativa de suas próprias existências através do entendimento da Biblioteca. Exemplos disso são os títulos. inclusive. é a transtextualidade. Genette. de Jorge Luis Borges. seus limites. intertítulos. sua compreensão tornase um desafio aos seres humanos. é abordada no conto “La Biblioteca de Babel” . essa sobreposição de textos. imitações. transpassam e oferecem sentidos aos textos. dividido em partes geometricamente semelhantes. Mais que isso. é descrita uma biblioteca que é comparada ao Universo. apesar dos limitados caracteres de uma língua). uma empreitada ilimitada (assumindo a dimensão da própria Biblioteca). transformações. A procura por tal bibliotecário anônimo e pelo resumo de todo o acervo geram uma ânsia de busca retrospectiva: em um livro C poderiam ser encontradas pistas de um livro B. Essa característica. Diante de tal grandiosidade (sem um livro sequer igual ao outro. até a possível obtenção do objetivo. Não existe sequer um texto que não seja transtextual. eliminar inteiramente o que havia sido escrito antes. comentários. que conheceria um tomo com a súmula perfeita de todos os outros.

há também a transtextualidade “interna”. Nesses casos. de Machado de Assis. raciocínio lógico. uma representante rigorosa da transtextualidade interna é a obra de Roberto Bolaño.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 205 Uma das tantas possíveis interpretações do conto que a procura pelo livro súmula traz à tona é a questão da transtextualidade. Um exemplo é o personagem Arturo Belano. apresentando a imagem do detetive como intitulação do texto geral da narrativa e como intertítulo da segunda parte do livro. “Los detectives perdidos”. desaparecimentos. que Ulysses. da coletânea Putas asesinas. é um retorno moderno da Odisseia . Tomemos como modelo o personagem Quincas Borba. retoma a vida de um dos principais heterônimos de Fernando Pessoa. sejam eles poemas. espaços e ações. Mais . podemos nos atentar a outro ponto importante da literatura bolañeana: geralmente sob forma de paratextos. investigações. contos ou narrativas longas. Os links dentro de seus próprios textos são intensos. por exemplo. Não são poucos seus títulos e intertítulos que contemplam a figura do detetive. fronteira de México e Estados Unidos. tornando claro que encontrar “rastros” e sentidos de um texto em outro é inerente à Literatura. que é o detetivesco. O premiado e famigerado Los detectives salvajes é um dos exemplos. Bolaño afirmou que sua poesia e sua prosa pertencem a um mesmo projeto estético. estabelecida por Edgar Allan Poe e Arthur Conan Doyle. os poemas “Los detectives”. A construção desse linkado “mundo coerente e plausível torna-se essa ideia quando tomamos nota de que em entrevista a Dunia Gras Miravet para a revista Cuadernos Hispanoamericanos. aquela que apresenta referências. que após aparecer roubando o relógio de Brás Cubas em Memórias Póstumas. etc. têm estruturas distintas e não contêm casos policiais aos moldes Sherlock Holmes. Roberto Bolaño nos dá pistas sobre um aspecto ao qual podemos considerar ao lermos seus textos. “Los detectives helados” de Los perros románticos. ou que O Ano da Morte de Ricardo Reis. um dos protagonistas de Los detectives salvajes e também do conto “Fotos”. Há ainda outros exemplos pertencentes a coletâneas de textos e somente sob forma de intertítulos: o conto “Detectives” de Llamadas telefónicas.) e estruturas comuns (crime – investigações – desvendamento do crime). afirma em Nota Editorial que seria Belano o narrador de 2666. bem como a cidade de Santa Teresa. sentidos e links dentro da obra de um mesmo autor. de James Joyce. Ignácio Echevarría. ambos locais que aparecem constantemente nos textos de Bolaño. assumindo que esta. Entretanto. ganha um folhetim no qual é o protagonista. apresenta elementos constantes (assassinatos. porque estabelece sentidos com obras de outros autores. pistas. Os textos de Roberto Bolaño não apresentam enredos que se enquadram na literatura policial tradicional. Uma intenção interpretativa: as pistas de Bolaño Aliado ao projeto estético transtextual. É quase uma obviedade. ainda. Nos finais do século XX e início do XXI. teríamos um tipo de transtextualidade a qual poderíamos chamar de “externa”. A busca por um autor “desaparecido” também ocorre por mais de uma vez: em Los detectives salvajes e 2666. Apesar desses textos trazerem a mesma figura no nome. que ganhou o apreço bolañeano” nos leva a inferir que essa característica faz parte do próprio projeto estético do autor. de José Saramago. No que reside. Outros casos de transcendência textual interna são o deserto de Sonora. então. hiperbólicos: há recorrência de personagens. o detetivesco em Bolaño? Uma das soluções possíveis para essa questão reside no fato de que o gênero policial.

Os textos de Bolaño são mais difusos ainda: apresentam elementos típicos desse tipo de narrativa. como assassinatos. apesar de estar longe de ser um Holmes. sem necessariamente um estar ligado ao outro. O outro livro chama-se Los sinsabores del verdadero policía. Nesse caso. na maioria das vezes. mas os títulos temáticos que trazem a questão policialesca. dividido em cinco partes supostamente que o torna o próprio detetive. em séries televisivas e filmes). Esse tipo de leitura é perfeitamente possível para a obra bolañeana no geral. onde começa a trabalhar na Universidad de Santa Teresa. o Amalfitano e detetivesco: relações Um dos personagens sobre o qual podemos pensar a respeito dessas questões é Amalfitano. Devido a isso. é um professor universitário. Além de entendermos o leitor como detetive. diferentes daquelas de 2666 . diante de tantas informações. por exemplo. nem mesmo . inclusive. sua estrutura. Este último apresenta o mesmo caso de intitulação que remete ao policialesco. e seus leitores procuram encontrar sentidos e relações em vão.206 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS do público (mostrando-se até hoje na literatura. em meados do século XX a assumir um caráter diferente. ainda que participe com maior ou menor frequência nas outras. que permeia mais de um texto de Roberto Bolaño. Ele aparece em dois livros póstumos: um deles é 2666. nomes e ações. O fato de ser professor universitário é a primeira característica desse personagem que poderia assemelhar-se ao detetivesco. não conhecemos por completo nada que nos é apresentado. sentimentos e características de Amalfitano. podem haver outras tentativas de identificação do aspecto detetivesco. de Ernesto Sabato. Bolaño constrói um mundo ficcional. informações que obtemos em Los sinsabores del verdadero policía são. apontando para o próprio projeto estético transtextual. buscas e mistérios. então. Em El Túnel (1948). passou. conhecemos o assassino já no primeiro parágrafo. ocorre também em Bolaño na tentativa de encontrar significações e relações. apesar de o enredo também não mostrar nenhuma narrativa policial tradicional. praticamente descartada. as pistas são inconclusas. Isso nos mostra uma completa inversão da conhecida ordenação dos fatos e do foco narrativo da literatura policial. eles acabam assumindo um sentido figurado que encadeam alguns questionamentos: 1) Quem são os detetives dos textos bolañeanos? 2) Por que são referidos dessa maneira? 3) Qual o sentido decorrente dessa escolha? algum personagem literalmente detetive ou da polícia. a transtextualidade se dá pela percepção de um leitor que utiliza o paradigma indiciário para encontrar possíveis relações e estabelecer sentidos. que em certo momento sofre demissão da Universidad de Barcelona e muda-se para o México. também com uma divisão de cinco partes. O movimento feito em La Biblioteca de Babel para buscar um sentido da vida ou da existência da Biblioteca. O que nos leva a fazer relações da literatura de Bolaño com o aspecto detetivesco não é. por exemplo. sendo que três delas abordam ações. A pesquisa acadêmica independentes. então. A precisão lógica de Auguste Dupin é. No caso de Amalfitano. chileno. Amalfitano. sendo que Amalfitano tem uma só para si: “La parte de Amalfitano”. que teria dito que el verdadero policía é o leitor tentando ordenar incansavelmente a trama. muitas pistas “escapam por entre nossos dedos”. e. acabando por adquirir um sentido enigmático: quem é o policial? Quais seus dissabores? A contracapa da edição da Editora Anagrama traz uma citação de Roberto Bolaño (sem referência). sendo ele. as histórias não se fecham. o narrador da história.

As buscas são frustradas e as pistas. onde questões inexplicáveis estariam passíveis de ocorrer. ocorrendo também em “ La parte de los críticos” (também do 2666 ). para que ele sofresse as intempéries e aprendesse. uma voz que Amalfitano escuta e com a qual conversa. enfim. Nesse momento. no México. local no qual. segundo um personagem de “La parte de Fate”. que são citados diversas vezes em “La parte de Amalfitano”. uma vez que parece apresentar conflitos com a questão sexual (Amalfitano assume-se homossexual depois de adulto) ou uma vivência mística que ironizaria o realismo mágico. Esse aspecto nos permite alastrar interpretações de um texto para outros. no qual há uma “dança” entre textos. através de uma visão eurocêntrica da exoticidade da América Latina. . Conclusão É possível percebermos que a estética transtextual de Roberto Bolaño acaba por criar um “mundo bolañeano”. Nesse mesmo sentido de indefinição. acaba por ficar intrigado. distanciando-se do tipo de investigação feita pelos tradicionais detetives. que nunca oferece soluções definitivas. tal qual a pesquisa em Literatura. um escritor “desaparecido” que não é encontrado por eles. acabam refletindo sobre a vida. porém. Não se sabe se tal voz é a consciência de Amalfitano. O professor depara-se com um chamado Testamento geometrico. Por fim. porém. nas ideias de Duchamp. um elemento que representaria o ponto de partida de uma narrativa policial tradicional ocorre como “pano de fundo” das ações de Amalfitano: os assassinatos de mulheres de Santa Teresa. mas nada é concluído. A imagem detetivesca do professor universitário é recorrente em Bolaño. Outro episódio é o de “la voz”. Para Amalfitano. Essa última interpretação estaria em consonância com a apatia de Bolaño por alguns autores que compuseramo boom da Literatura hispano-americana na década de 1960. de 2666. que seriam um oásis de horror em meio ao tédio de Amalfitano (caso quisermos oferecer uma interpretação à epígrafe baudelaireana de 2666). Baseado. a resolução de um problema descarta qualquer raciocínio lógico. ocorrendo das mais variadas formas. região marginal do globo (como toda a América Latina). sobre questões da existência. faz inferências e estabelece conclusões a respeito de seus objetos de estudo. para uma cidade fronteiriça entre México e Estados Unidos. Juntos. Amalfitano decide pendurar o livro de geometria no varal do quintal. nem mesmo de ter estado na cidade da livraria na qual ele havia sido comercializado. que ganharão uma das parte de 2666: “La parte de los crímenes” e serão abordados também em Los sinsabores del verdadero policía. é resvalado à margem através da figura de Amalfitano: mandado para o México. O intelectual latino-americano.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 207 segue pistas. renderia um relato policial de primeira magnitude. por certos episódios de mistério impossíveis de serem resolvidos em sua objetividade. quatro coisas sobre a vida. então. uma vez que todos parecem ser “retalhos de uma mesma colcha”. Um deles acontece quando Amalfitano está desencaixotando os livros que havia selecionado durante a mudança de Barcelona para Santa Teresa. esses casos não parecem ter significativa importância em sua vida. não lembrando-se de ter comprado tal livro. inconclusas. em que quatro professores universitários viajam em busca de Archimboldi. muito menos de tê-lo colocado nas caixas de mudança. Amalfitano passa. de Rafael Dieste e.

MIRAVET. Barcelona: Editorial Anagrama.. por uma reflexão de Amalfitano sobre Santa Teresa. presente objetivamente em títulos de livros. fragmentos. . (oct de 2000): Entrevista con Roberto Bolaño. imágenes que contenían en sí toda la orfandad del mundo. A incompletude dessas investigações e a infinita busca proporcionada pelo caráter de La Biblioteca de Babel. R. contos ou poemas. Doubinsky. enfim. (D. (2011): 2666. fragmentos. (2011): Los sinsabores del verdadero policía.) Lincoln: University of Nebraska Press. N. Reflexão esta que parece ser uma metonímia de sua própria obra. Entrevistador) Cuadernos Hispanoamericanos. utilizamos como exemplo a questão detetivesca.” (p.) que todo lo que había visto en el extrarradio de Santa Teresa y em la misma ciudad. BORGES. J. (1997): Palimpsests: literature in second degree. Esta. então. imágenes sin asidero. GENETTE. Barcelona: Editorial Anagrama. (2009): Ficciones. L. que pensa “(.. BOLAÑO. Referências bibliográficas BOLAÑO. a busca incansável por pistas e a possibilidade de relacionar elementos que aparecem com frequência. 265). Trad. A estética de Bolaño permite. G.208 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Aqui. Madrid: Alianza Editorial. servindo também de respaldo para a interpretação do recidivante personagem Amalfitano. parecem ser descritas. R. G. R. BOLAÑO. (C.

representa el concepto de paramilitarismo en Colombia durante los años 2002 al 2006. –without privileging any of these choices as more ´literal´ than others. Así. p. 1996.no responde necesariamente a una perspectiva objetiva. individually or collectivety. Para el primer mecanismo. . De esta manera. Metodológicamente. razón por la cual este trabajo pretende analizar cómo la prensa escrita. del interés por estudiar la capacidad de los medios masivos para erigirse como instancias sociales fundamentales en los procesos de construcción del consenso. La motivación de este análisis parte. aluden a la consolidación del “deber ser” del concepto de paramilitarismo en el escenario de la prensa escrita. la exclusión. se elige el periódico El Tiempo por su alto índice de lecturabilidad en Colombia y porque además está en sintonía directa con las políticas gubernamentales de turno. la construcción de los actores se hace principalmente a través de los mecanismos de inclusión y exclusión. se remite a modos explícitos de enunciar a los actores. Para ello se parte de los postulados de Theo Van Leeuwen los cuales se remiten a los diferentes sistemas de designación discursiva que hacen alusión a los actores sociales como medio de representación. 33). en el segundo. en palabras del autor: How can ´Sayers´ be represented –impersonally or personally. etc. El análisis de estos dos mecanismos permite rastrear formas conscientes e inconscientes de legitimar intereses ideológicos en el discurso.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 209 ¿BACRIM O PARAMILITARISMO? ANÁLISIS DE LA CONCEPCIÓN DE PARAMILITARISMO EN COLOMBIA EN EL PERÍODO 2002-2006 A TRAVÉS DE LA PRENSA ESCRITA Camilo Ramírez Rodríguez Corporación Universitaria Minuto de Dios Adriana Yamile Suárez Reina Universidad Libre El abordaje que desde la prensa se hace a los paramilitares como actores sociales que influyen en la sociedad colombiana -pues detentan un poder y tienen un objetivo claro de acción. by reference to their person or their utterance. porque se hace necesario reconocer las connotaciones de dicho consenso bajo el supuesto de que los medios responden a los intereses propios de determinadas estructuras de poder. que para el caso de este trabajo. para el autor. and without thereby also privileging the context or contexts in which one or the other tends to occur as more normative than others (VAN LEEUWEEN. y en segundo lugar. dicha representación se configura a partir de la omisión total o parcial de los sujetos. se selecciona un corpus en relación con los siguientes criterios: 1. en par ticular el periódico El Tiempo. en primer lugar.

señala que es necesario adherirse a las ideas presentadas. Haber sido publicado entre los años 2002 al 2006. Lo que se busca a través de estas categorías textuales es analizar el porqué de dicha ausencia o presencia.210 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Referenciar al paramilitarismo en tanto actor del conflicto armado colombiano. por otro. De este modo. así como en la debilidad del Estado colombiano para Construcción. reduciendo el análisis a su aparición o a su ausencia. se recrudecieron los ataques armados y. a apelar a la justicia privada y hasta a confabularse con el narcotráfico para defender su vida y sus intereses ante el acoso de la guerrilla. La necesidad de realizar una intervención militar. el corpus resultante fue de cinco (5) editoriales de cada uno de los años que abarcan el periodo estudiado. situación concebida por Van Leeuwen como sobredeterminación por desviación. Pertenecer a la tipología textual de editorial puesto que representa la línea de pensamiento del diario. De allí. el diario El Tiempo representa a los paramilitares como un actor con unas condiciones bastante particulares a través del mecanismo de inclusión. por su parte. Ellos sencillamente se independizaron de sus progenitores y ahora esquilman a todo el mundo (I) No obstante. difusión y ocultamiento del concepto de paramilitarismo A continuación se presentarán los resultados fruto del estudio del corpus mencionado anteriormente. presidente entrante era establecer un diálogo y buscar una posible desmovilización de dichos grupos. 3. se recurre a la estrategia de atenuar las características negativas del actor. algunos editoriales sugerían que el reto para el de la “ilegalidad” de su accionar pero se concibe como “un mal necesario” en relación con la guerrilla: Losparasi son la máxima expresión de la debilidad territorial del Estado: sectores de la sociedad civil han tenido que recurrir a apoyar la sedición. y se convierte en un problema: Sus más lúcidos dirigentes aspiraron a configurar un proyecto contrainsurgente civil. por una parte. incluso para quienes en un primer momento los promovieron con la ilusión de brindarse protección frente a la guerrilla. […] los paras se han vuelto un factor de inseguridad. autónomo del Estado pero sin confrontarlo. el diario caracteriza a los paramilitares como poseedores de un proyecto político que se basa en contrarrestar el avance y la acción de las guerrillas. De acuerdo con lo anterior. porque estaba comprometida con acabar el problema de los grupos al margen de la ley. el diario . No obstante. gracias a la categoría de activación. básicamente. Bajo esta situación. el paramilitarismo se concibe entonces como un proyecto paralelo al Estado que comparte un objetivo en común: las guerrillas. pues el Estado los dejó desamparados (II). de alcance nacional. tras los primeros acercamientos entre el gobierno y los paramilitares. En primera instancia. es decir. 2. propició que la propuesta presidencial de Álvaro Uribe “Primero Colombia” tuviera éxito. dicho proyecto se les sale de las manos tanto a sus líderes como al Estado. se avecinaban unas elecciones presidenciales que se alimentaron de la idea de ahondar en la confrontación militar como única vía para resolver dicho conflicto. este problema se da en términos 2002 – 2003: El fracaso de un “proyecto político” En los primeros meses del año 2002 se generó un clima de tensión pues. y la inclusión. Así. Cabe destacar que este trabajo no se basa sencillamente en abordar la exclusión o la inclusión de los actores. ya que la exclusión es un indicador de que algo debe ser controlado. afrontar tales acciones.

situación expresa de los Estados Unidos: Lo de Estados Unidos. Adicionalmente. “Grupo antigurrillero”. Las primeras desmovilizaciones de miembros de los paramilitares. De otro lado. A pesar de la insistencia de algunos de estos grupos en realizar hechos demostrativos de su intención de desmovilizarse. dicha ley genera una fuerte polémica que divide la opinión pública ya que pasar del “dicho al hecho” no es tan fácil como inicialmente se creía. El diario hace uso de la estrategia de activación para poner en el ojo del huracán al gobierno y su aparente poca voluntad de diálogo. desmonte total del paramilitarismo. una posible intervención externa no enfrenta el fenómeno paramilitar sino que lo toca 2004: Desmovilización: un problema “Porque. las negociaciones son calificadas desde el diario como “empantanadas” y la responsabilidad de este impase recae únicamente en el gobierno: Luego del fracaso del Referendo. lo encuadran como un ente con el cual se puede dialogar. que fortalecerá la confianza ciudadana en el Gobierno y el prestigio del presidente Álvaro Uribe Vélez” (V). Tras los primeros diálogos y algunas “desmovilizaciones” se plantea una Ley de Alternatividad a través de la cual se negociará el . se cuestionan las posibles solicitudes de extradición. disminuye la responsabilidad correspondiente a los paramilitares con la estrategia de beneficialización. Pero sin olvidar tampoco que para muchos es mejor tener alguna seguridad que no tener ninguna. pero muy pragmático. Como se puede apreciar. asimismo. la intervención de este país se restringe al provecho que pueda sacar de la situación. para dar un golpe sustantivo al narcotráfico… (VII). la situación del discurso combativo se utiliza como trampolín para la futura reelección ya que. presenta el diario.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 211 cambia no sólo la nominación del actor. sino las características de sus acciones. En esa medida. la dejación de armas constituye un éxito político para el Gobierno en su política de Seguridad Democrática. se mantiene la ambigüedad en relación con la caracterización del actor paramilitar. en conjunto con la minimización del actor y sus acciones realizada por el diario. Sin embargo. entre otras. que así sería más dura que nunca…” (VII). Esta situación conlleva ambigüedad pues se da una justificación o valoración benéfica de dicho grupo: “PDS. Su verdadero y único interés es aprovechar las expectativas de un desarme paramilitar y el poder intimidatorio de la extradición. el Gobierno podría estar frente a un nuevo traspié: el fracaso de las conversaciones con los grupos paramilitares con vistas a su desmovilización. promotores de desarrollo social en los barrios”. el proceso no pinta bien (VI).” (II) tangencialmente. En este periodo. sin importarle los crímenes cometidos por los paramilitares en Colombia. “simples pandilleros”. el “fracaso” del proyecto político paramilitar y su posible desmovilización fue el éxito político del gobierno Uribe: la idea de reelección. es mejor tener siete milparasi en armas que tener diez mil. como diría Maturana. por supuesto. ya que a través de la categoría de la exclusión parcial se cataloga de “más dura” la tarea del gobierno frente a las guerrillas sin el “apoyo” que brindaban los grupos paramilitares: “pues la lucha contra las Farc. “Boy scouts que han aprendido a hacer la guerra en los últimos meses” (III). es mucho más complejo y exigente. en cuatro años no es posible realizar un proceso de desmovilización y lo que menos se quiere es incurrir en los errores de los gobiernos pasados: “Muy probablemente la promesa oficial de desarticularlos completamente antes de terminar la actual administración no se pueda cumplir” (IV). El éxito de dichos diálogos fortalece la credibilidad en el gobierno del presidente Uribe: “Sin duda. Por tanto.

el hecho de que la guerrilla posiblemente retome el poder. como la referenciada en los editoriales de los años 2005 y 2006. En esa misma dirección. cómo dicho proceso puede incurrir en la impunidad. Aquí. en medio de un proceso electoral decisivo. el recrudecimiento de los ataques por parte de la guerrilla. Para justificar la viabilidad de la ley se hace uso del contraste: “ni las Farc ni el Eln aceptarán dicha ley por considerarla demasiado dura para ellos. Una intervención externa sería no solo la piedra en el zapato para el proceso. incluso por encima de la justicia. pero automáticamente subvierte esta apreciación a través de un cuestionamiento implícito en sus líneas: si se buscara una paz definitiva la disposición de “perdón” debe ser mayor ¿Qué estamos dispuestos a dar por una paz definitiva? ¿Cuál es su costo? simultáneamente la estimen demasiado blanda para los paramilitares” (IX). el proceso de desmovilización de los paramilitares no se consagra a una deidad católica de manera directa. Lo que es más real es la posibilidad de la perpetuación y el agravamiento de la guerra en Colombia si no se desmovilizan pronto los paramilitares con un acuerdo nacional inspirado en el principio de la paz como valor supremo. sino que por el contrario se concibe dicho proceso desde una “justicia” confesional. en efecto. y no a través de la justicia. aun cuando Pero mañana. sirvió para que finalizara este cruento episodio. (VIII) Otro de los argumentos que sustentan la “confesionalidad” de la justicia se basa en la falacia de la autonomía del Estado colombiano. Esto podría coincidir con una reactivación del accionar armado de la guerrilla. aun cuando también más bajo que el que anhelan los paramilitares” (VIII). el país del Sagrado Corazón: ¿una “justicia” confesional? Colombia fue consagrada en época de la guerra de los mil días al cuidado del Sagrado Corazón. para presionar una negociación en condiciones más favorables. […] Los paramilitares están hoy más fuertes que nunca y sus posibilidades de perduración y expansión hacia el futuro son prácticamente ilimitadas. y entonces tendríamos un escenario catastrófico: un Estado precario atacado simultáneamente por dos ejércitos irregulares. Los argumentos esgrimidos son la capacidad de su poder militar. tal como reza el adagio popular: “el que peca y reza empata”. En dicha falacia se apela a la minimización de la influencia de organismos internacionales que están interesados en que este proceso no quede en la impunidad. La paz también es un acto de soberanía (VIII). La redención a la cual se hace alusión en las líneas anteriores se presenta en los editoriales a través del apoyo a la Ley 975 de 2005 o Ley de Justicia y Paz. para llegar a un acuerdo de paz tal vez el nivel de perdón tendría que ser más alto que el que finalmente otorgará la Ley. Este documento es calificado en el diario como “lo mejor” que se podría lograr en esta coyuntura a pesar de lo que sus opositores afirman: “Y. esto en razón a que a la paz se llega a través de la redención. a través del uso de la exclusión parcial. podrían actuar como una fuerza desestabilizadora y atacar violentamente instituciones y políticas del Gobierno.2006: Colombia. parece que se reviviera una parte de la historia. En épocas más recientes. y la poca efectividad del Estado frente a un conflicto en dos frentes: 2005 . Dicha consagración. Aquí se invocan nuevamente las voces de la cultura: “el . Un ejemplo de ello es cuando se cuestiona el valor institucional de la Corte Penal Internacional como ente de justicia: La Corte Penal Internacional no es el irresistible y omnipotente ángel vengador que nos pintan. según cuentan los ciudadanos de la época. se insinúa en una sola editorial. en varios editoriales se reitera que es mejor aceptar dicha ley antes de una posible reacción violenta de los paramilitares. sino que también traería como consecuencia –implícita.212 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS De otro lado.

pues se dice que estas nuevas “manifestaciones criminales” no comparten el mismo objetivo del gobierno. que a su vez conforma una “estructura social” -descompuesta. No obstante. Sin embargo. las instituciones estatales” (x) Consideraciones finales El anterior análisis relacionado con el concepto de paramilitarismo presentado por el diario El Tiempo permite establecer los mecanismos a través de los cuales la representación del fenómeno es de difícil identificación y atenúa la importancia de abordar dicha problemática. En esa misma línea. se conceptualiza el fenómeno al afirmar que para concebir un grupo como paramilitar es porque dicho grupo tiene nexos con el Estado: La diferencia central entre estas nuevas manifestaciones criminales y los grupos paramilitares es que su enemigo ya no son solo los grupos guerrilleros o sus bases de apoyo social y político. se utiliza una disociación por contraste. verdad y reparación que hasta el momento no se han cumplido. Al hacer un acercamiento para resolver la situación legal de esa “estructura social” se visualiza una posibilidad política para el Estado de sacarle partido al conflicto. pero como fenómeno estructural endémico de la sociedad colombiana sí. se encuentran: la asignación del rol para mostrar a dicho actor como poseedor de una “estructura política” -aunque problemática-. este instrumento jamás contestó al interrogante del ¿Por qué no reconocer que hay conflicto armado? El simple hecho de analizarlo implicaría revisar la noción de justicia. atentan contra las instituciones estatales. se hace uso de la categorización al poner en el mismo racero a aquellos que pertenecieron a grupos paramilitares y no se desmovilizaron y al delincuente común. el paramilitarismo desde su forma nominal no existe. Asimismo. aunque imperfecta. se da cuenta de dos ejes particulares: las estrategias empleadas para velar el fenómeno y la validación del proceso de impunidad. Además. sino que ahora. sino. se resalta entonces la necesidad de un diálogo a cualquier precio a partir del miedo. basado en acciones hechas pero presentadas como hipotéticas en un futuro próximo. la Ley de Justicia y Paz. se justifica disimuladamente la acción paramilitar bajo la idea del “mal necesario”. funcionó como mecanismo para que miles de paramilitares se desmovilizaran. la beneficialización se utiliza para destacar ese potencial bélico del que disponen los paramilitares. y por el contrar io. Posterior a la aplicación de dicha ley. como lo afirma el mismo diario-. se alude al fenómeno paramilitar con los términos “desmovilizados” o “no desmovilizados” de acuerdo con la favorabilidad o no respecto a la Ley de Justicia y Paz. el uso recurrente de contrastes ambiguos normalmente entre los paramilitares y la guerrilla no deja una posición clar a. enquistada. Ahora bien. los editoriales del año 2006 se enfrentan a la diatriba de mencionar o no al paramilitarismo. Aquí la estrategia es utilizar la exclusión parcial en razón a que no se puede hablar de paramilitarismo ya que este concluyó en el proceso de desmovilización de sus miembros. Por otra parte.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 213 enemigo de tu enemigo es tu amigo” y la ley debe tratarlo como tal. así como también hace eco del proceso que pretende sustentar su impunidad. . En el periodo estudiado se evidencia cómo la representación del actor justifica las políticas del Estado y legitima la violencia que este órgano ejerce en defensa de la comunidad. Así. Adicionalmente. el problema ahora es que es de difícil identificación. Así. igualmente. Respecto a las estrategias.

VAN LEEUWEN. según haya dictaminado el discurso de autoridad dominante para la formación social en la que política y/o administrativamente se encuentre integrado el individuo (FERNÁNDEZ. Justicia y paz: 2005 y 2016. 7 de noviembre de 2003. El ralito y mi abuela. pero cuando no hay actor – porque es elidido. (1996). II.es difícil identificar quién es el responsable de los hechos violentos. Leyendo en los cómics más allá de la adolescencia. la prensa al caracterizar al actor por su nombre determina su identidad. 5 de junio de 2006. Entonces. In C. 28 de noviembre de 2003. (2004) El Capitán América nunca supo convencer a los malos. El pantano paramilitar. El Tiempo. 189 . No maduros para el perdón. Al respecto. Es más. Coulthard (Eds. VI. p. De esta manera el “buen ciudadano” debe ser sobre todo un “buen patriota” o inscribirse en cualquier otro patrón de lo que es “correcto” en tiempo de guerra. El Tiempo. 7 de noviembre de 2003. V. oculta no solo un nombre sino un discurso que busca la impunidad. ANEXOS: Noticias I.214 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS De acuerdo con esto último. London: Routledge. El Pantano Paramilitar. se excluyen de manera sistemática los aspectos ideológicos y estructurales de la violencia en Colombia.224 . Culturas de guerra. En esa medida. Fernández afirma: La retórica bélica tiene como finalidad explicar razones. 2 de agosto de 2002. y se propicia. El Tiempo. F. El Tiempo. Readings in Critical Discourse Analysis. 8 de julio de 2005. T. F. El Tiempo emplea esta retórica bélica al evadir la responsabilidad de utilizar la nominación del fenómeno paramilitar como tal. Madrid: Editorial Cátedra. La desmovilización de los paramilitares. su impunidad. 189) Referencias bibliográficas FERNÁNDEZ. 24 de noviembre de 2003.). Este mecanismo conlleva la impunidad puesto que al no presentarse nominalmente al fenómeno. p. El Tiempo. el proceso de significación de este discurso se configura a partir de unas condiciones de producción específicas que están determinadas por la filiación del medio con la ideología que proclama el gobierno de la época a través del uso de la retórica bélica. La lógica entonces de difundir el éxito de la desmovilización paramilitar trae consigo no solamente la supresión del nombre sino el cambio en la concepción del fenómeno. Desmovilización de autodefensas. El Tiempo. El Tiempo. 8 de abril de 2005. En: CONTRERAS. R. 1989. El Tiempo. X. 4 de octubre de 2004. Una desmovilización inédita. . VII. El Tiempo. Así. Texts and practices. & SIERRA. por ende. 4 de julio de 2003 III. se limpia el nombre del gobierno sin perder ese brazo oscuro de acción. ¿Tercera generación?. Caldas-Coulthard & M. ahora ya no existe el problema. IV. El Tiempo. The representation of social actors. VIII. El Tiempo. IX. Juan Carlos. al difundir el desvanecimiento de la categoría “paramilitar”. sin encontrar argumentos que hagan imposible el rechazo popular a las acciones armadas y a elaborar relatos dirigidos a crear una ilusión al mismo tiempo de victimismo y de orgullo patrio (…). El futuro de los paramilitares. Gracias a la exclusión parcial de este actor se legitima la creación de un discurso sobre la defensa de las normas.

que comienza a desarrollarse probablemente en Francia a partir del siglo XII. En un viaje a Jerusalén. después de lo cual ella dirige una larga oración a la Virgen María. María no es la protagonista del relato. narra la vida de una joven nacida en Egipto.Universidad de Buenos Aires La leyenda de Santa María Egipciaca. Intentando encontrar una explicación para la transformación de la leyenda en el paso de la versión inicial oriental a la occidental. donde sobrevive con sólo tres panes. La historia. Estas redacciones iniciales de la historia de la santa constituyen la versión oriental de la leyenda de María Egipciaca como prostituta arrepentida. en ellas. una de las santas más populares y paradigmáticas durante la Edad Media.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 215 INICIOS DE LA SANTIDAD MEDIEVAL EN LENGUA CASTELLANA: TRADUCCIÓN Y PROTAGONISMO FEMENINO EN LA VIDA DE SANTA MARÍA EGIPCIACA Carina Zubillaga SECRIT (IIBICRIT-CONICET) . extendiéndose luego el relato de su vida y muerte santas desde allí a toda la cristiandad. ya en su versión occidental. cambia totalmente el eje de la historia. pasa cuarenta y siete años en el desierto. entonces. que a los doce años huye de su casa paterna a Alejandría para ejercer allí la prostitución y abandonarse a toda clase de pecados. en el cual se embarca con unos romeros siete años después. padece incontables sufrimientos y finalmente muere en una muerte santa que presencia el monje Gozimás. un monje que la descubre como penitente en el desierto y que encuentra en ella el modelo de humildad necesario para variar su conducta y reorientar su vida espiritual1. una fuerza sobrenatural le impide la entrada al templo el día de la Ascensión. DELGADO se pregunta: “¿Se debió a un precoz individualismo el . tiene como primer testimonio escrito un texto griego compuesto por Sofronio en el siglo VII que se traduce luego al latín en la segunda mitad del siglo VIII. en la biografía de la santa2. quien la entierra ayudado por un león y confirma la historia de la penitente en la abadía de San Juan. de la que es miembro. María. centrándola en María de Egipto y relegando a Gozimás a ser sólo el testigo de la santidad de la nueva protagonista. sino sólo el ejemplo de santidad frente al cual resulta confrontado Gozimás. La versión occidental de la leyenda. La narración de la vida de María se concreta en tercera persona y asume un estricto orden cronológico. la vida de la santa se transforma. Por indicación divina y como penitencia por su vida anterior de pecado. se convierte y cambia absolutamente de conducta.

Ante la santidad .216 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS que se amplificara el protagonismo de la pecadora penitente y se la caracterizara físicamente allí donde la versión original se presentaba en forma tan espartana?” (DELGADO. La evolución de las leyendas hagiográficas atraviesa un umbral literario crítico en su traslación a las lenguas vernáculas (ROBERTSON. y hacerlo a través de las lenguas vernáculas y de las historias de santos más accesibles y cercanos a los fieles como principales estrategias espirituales. el culto también creciente de las prostitutas arrepentidas. Es anónima y está compuesta en verso irregular. Un nuevo público. 2005. sino que además cambian la prosa por el verso. 185). un cambio tanto social como devocional. 2004. El poema francés del siglo XII y luego el poema hispánico del temprano siglo XIII –que a su vez lo traduce– trasladan la leyenda no sólo del latín. Vida) del siglo XIII traduce la francesa Vie de Sainte Marie l’Egyptienne con bastante fidelidad y constituye probablemente la hagiografía castellana más antigua de las conservadas por escrito (BAÑOS VALLEJO. p. a la difusión de las órdenes mendicantes. fundamentalmente. 2004. como en este caso de la leyenda de María Egipciaca. se prefieren el verso a la prosa y las imágenes plásticas al convencionalismo retórico. también: “¿Fue deliberado el desdén del desconocido autor del siglo XIII hacia el protagonismo de Zósimas?” (DELGADO. lo que la hace contrastar aún más con la producción hagiográfica castellana más relevante del período: la escrita por Gonzalo de Berceo en el marco del mester de clerecía como escuela poética y de la estilizada cuaderna vía de versos alejandrinos monorrimos4. en los lineamientos del IV Concilio de Letrán de 1215. 98). 305). mayoritariamente laico. La Vida de Santa María Egipciaca (en adelante. como bien lo testimonian numerosas leyendas y devociones a santos que se intensifican ya a partir del siglo XII. Su respuesta se enfoca. Se trata de la necesidad de la Iglesia de orientar el proceso de conversión cristiana particularmente hacia los laicos. un verdadero proceso de adaptación cultural. 184-185). sin embargo. que contribuyó al desarrollo y avance de la espiritualidad femenina 5 . La traducción de las vidas de santos desde el latín a las lenguas vernáculas que se desarrolla en Europa occidental a partir del siglo XII testimonia. será el receptor privilegiado de la reformulación de las viejas leyendas hagiográficas que contemplarán inversiones de protagonismo. p. como sucede también con otros tantos estudiosos. A la popularidad de la Virgen como intercesora y como anti-tipo de Eva se suma. Entre los fenómenos religiosos más relevantes del siglo XII se encuentra asimismo la extensión del culto mariano debido. La manera en que se transformó la leyenda de Santa María Egipciaca en su paso a las lenguas vernáculas revela sin dudas una adaptación cultural expresada primera y fundamentalmente en lo lingüístico. centrado primeramente en la lengua y en la apertura a la laicidad que supone el acceso de historias y leyendas –antes circunscritas especialmente al ámbito monástico– al conjunto de los fieles cristianos. p. aunque igualmente difícil de alcanzar. O. 1980. cuyo eje en los sacramentos del arrepentimiento y la penitencia se piensa puede haber impulsado relatos e historias como ésta de la pecadora arrepentida. más amplio que un concilio singular –por más importante que éste sea– y además anterior3. Por tal motivo. preeminencia de la figura femenina y un lenguaje accesible para todos como parámetros determinantes. la devoción paralela a las penitentes tal vez resultó la respuesta posible. de manera paralela. El fenómeno religioso innovador que se está produciendo en ese momento histórico es. en una doble orientación que se manifiesta tanto en el ritmo y estructura de los poemas como en su variación narrativa. Frente al ideal imposible de feminidad que la Virgen María encarnó. p.

conformando a través de la sucesión de estas paradojas9 la figura de la Virgen María como la única en la cual pueden reconciliarse todas las diferencias10. v.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 217 innegable de la Virgen María. Esta idea se reiterará en otros lugares de la misma plegaria. A pesar de compartir el mismo nombre. así como la humildad de la Madre de Dios es confrontada con el orgullo de María de Egipto. que elevarían sus súplicas tanto a la Madre de Dios como a la pecadora arrepentida. ya que al desarrollar actos de conversión. sin dudas. que se vuelve entonces imagen en el poema de cómo rezarle a la Virgen. La plegaria se revela a partir de estas paradojas y oposiciones que la construyen como un espacio de auto-confrontación. contrastada como la representación gráfica de un antes y un después del . pero extendiéndose luego a una oposición que parte de la correspondencia entre una y otra y por eso deviene finalmente en identificación gracias a las logradas simetrías formales del fragmento. en este sentido. se expresa básicamente en su Vida a partir de su imagen física. la pecadora reconoce en su oración que las 7 diferencias las separan: “Un nonbre avemos yo e ti. duenya. sino también su cuerpo. 517-518: “Grant maravilla fue del padre / que su fija fizo madre”. arrepentimiento y penitencia las leyendas de prostitutas santas comunicaron la doctrina cristiana a los lectores u oyentes como experiencias concretas a ser compartidas antes que como conceptos abstractos6. reconociéndose entonces en la Madre de Dios como el modelo de la santidad que finalmente alcanzará. 483-484)8. Esta relación innegable entre la Virgen y María de Egipto presente en los cultos compartidos está tematizada en el poema en el momento crucial de la conversión de la pecadora. visible particularmente en el diseño biográfico de la vida de María y su transformación espiritual concebida como un proceso tan integral que abarca no sólo su espíritu. En este sentido. / que en el tu vientre toviste al tu padre!” (v. 533-534). La dramatización de este proceso de conversión habría resultado un vehículo privilegiado en Europa para la exposición de la doctrina cristiana. lo que las prostitutas arrepentidas representaron fue justamente el proceso de transformación del pecado a la gracia visible en las figuras contrapuestas de Eva y de la Virgen. Este encuentro entre María Egipciaca y la Virgen María en el espacio de la oración refleja con seguridad la práctica devocional de gran cantidad de los fieles del período. la intercesora por excelencia entre su Hijo y todo pecador11. más allá de la gravedad de su pecado. como expresión acabada de la posibilidad de cambio de todo cristiano. A la dinámica de la paradoja de la Virgen María como Madre de Cristo el poeta suma también a continuación la dinámica de la oposición entre ambas Marías. reconociéndola como aquella que personifica en sí misma todo el misterio de la Encarnación : “… ¡Ay. cuando en Jerusalén le dirige una oración a María. / mas mucho eres tú luenye de mí” (v. en principio a partir de la yuxtaposición entre la primera persona de quien ruega y la segunda persona que es rogada en el nombre que comparten (“tú María e yo María”. por ejemplo en los v. Narrativamente. dulçe madre. del pecado a la santidad. En este punto la oración alcanza su máximo lirismo. María como Madre del Redentor es también. A la castidad de la Virgen se opone la lujuria como principal característica de la pecadora. en el cual María se muestra arrepentida al oponer su pecado a la majestad de la Virgen. lo central en la nueva versión de la leyenda de la santa es el protagonismo femenino. tanto María Magdalena –el prototipo básico de la penitente– como María Egipciaca dramatizan en sus respectivas leyendas a la santidad como un proceso arduo y complejo pero posible para cualquier pecador. El proceso de conversión de María Egipciaca. 535).

/ mucho eran negras e pegadas” (v.218 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS arrepentimiento presente en el centro del poema en la oración que ya hemos referido. asignándole en la primera descripción una luminosidad exterior –dada por el blanco de su cuerpo. en tanto cuando era bella “la faz tenié colorada. / tornaron blancos e suzios” (v. / como yo cuido eran secas” (v. 213-214). En ambos retratos el mismo esquema de color predomina. 217218). 221-222). y lo testimonia en relatos hagiográficos como su Vida hispánica centrados en el arrepentimiento y en la dinámica de la penitencia como horizontes de todo cristiano. en una pérdida de carnadura que se evidencia claramente en la casi tangible sequedad de su cuerpo sometido a las inclemencias del desierto. 223-224). mientras que en el primero sobreabunda el blanco como representación de la belleza juvenil. fealdad con santidad y vejez. dejándose el blanco sólo como término de comparación o para describir los cabellos envejecidos de la anciana: “e los sus cabellos. / tales son como maçana” (v. la Edad Media asume con interés creciente el culto de las prostitutas arrepentidas. que tiene entre sus principales manifestaciones el modelo de las penitentes. / como la rosa quando es granada” (v. ya en el desierto “tan negra era su petrina / como la pez e la resina” (v. / quando los tiende semejan espetos” (v. El eje legendario del modelo de la prostituta arrepentida está cifrado en estos dos retratos contrastantes de María Egipciaca. 738-739). 724-725)12. El poeta organiza estos retratos de María de modo valorativo. se oponen luego en el segundo retrato de la penitente a la resina. en el segundo se destaca el negro como imagen gráfica de la fealdad y de los atributos físicos perdidos. 726-727). entre quienes se difundían . por otro. Baste citar sólo los ejemplos más destacados de esa contraposición para imaginar cómo pudieron haber sido recibidos por los hombres y mujeres del Medioevo. sucio y seco de la penitente– remite valorativamente a su purificación interior. connotando una materialidad viva y colorida. la impureza física –dada por el cuerpo opaco. Además de aquellas santas que manifiestan vocación de santidad desde la infancia. 740-741). que podría reconocerse fácilmente en el pecado inicial de lujuria de María de Egipto y eso le daría la posibilidad de no ver como tan lejana la promesa de santidad. por el contrario. en su vejez se le vuelve “la faz muy negra e arrugada / de frío viento e elada” (v. que asocian por un lado belleza con juventud y corrupción interior y. mientras como prostituta “de sus tetiellas bien es sana. al arrepentirse de sus pecados “en sus pechos non avía tetas. tal como la flor del espina” (v. como penitente “las sus orejas. 225-226). Seguramente los laicos. 215). que eran ruvios. Las comparaciones que sobreabundan en la descripción de la joven y hermosa pecadora. hermosa y pecadora María y luego de la vieja y espantosa penitente asume la forma de dos extremos tan irreconciliables como impactantes. en su vejez posee “braços luengos e secos dedos. 736-737). si joven tenía “su cuello e su petrina. / blanquas como leche d’ovejas” (v. como María Egipciaca. sólo que invertido. con la leche de las ovejas. En este sentido. y el negro se emplea sólo para los ojos: “ojos negros e sobreçejas” (v. El contraste de la descripción primero de la joven. con la rosa o con las manzanas. Mientras en su juventud María Egipciaca “redondas avié las orejas. 732-733). la presencia e importancia de la santidad femenina en los siglos XII y XIII no es un fenómeno aislado en el marco de las nuevas prácticas devocionales y la expresión de la piedad del período. que eran alvas. en el segundo retrato. en tanto en su juventud “braços e cuerpo e todo lo al / blanco es como cristal” (v. y el plateado y dorado de su vestimenta– y una vivacidad evidente –que aporta el colorado– que contrastan con la oscuridad interior que ese brillo externo necesariamente supone.

Asturias-Oviedo: Ed. M. Esa impronta humanizadora eleva. p. ANDRÉS CASTELLANOS. Esa devoción. CRUZ-SÁENZ. Julian (2006): The “Mester de Clerecía”: Intellectuals and Ideologies. Barcelona: Ed. Puvill. FERNÁNDEZ CONDE. New York: Ed. a santas como María Egipciaca como modelos con los cuales los fieles devotos pueden relacionarse e identificarse más directa y afectivamente. En: Medievalia et Humanistica. un ejemplo cercano y posible de los alcances inconmensurables de la gracia cristiana de la salvación. presentada particularmente a través de las imágenes contrastantes de su cuerpo. En: CAZAL. SNOW. WALSH. 183-208. 83-96. Marina (1976): Alone of All Her Sex: The Myth and the Cult of the Virgin Mary. Schiavonne de (1979): The Life of Saint Mary of Egypt: An Edition and Study of the Medieval French and Spanish Verse Redactions. y españoles en la creación de la vertiente occidental de la leyenda de Santa María Egipcíaca: hacia el nuevo modelo hagiográfico de los siglos XIII-XIV. p. N° 18.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 219 de manera privilegiada estos nacientes textos en lengua vernácula. WARNER. 97-111. Woodbridge: Ed. texto y vocabulario. B.: Saints and their Authors: Studies in Medieval Hagiography in Honor of John K. Hispanic Seminary of Medieval Studies. The Twelfth-Century French Life of Saint Mary the Egyptian. and BUSSELL THOMPSON. Alfred A. La dudosa ejemplaridad de las santas en los poemas medievales. p. CORTINA. En: Hispanic Journal. Knopf. Madrid: Ed. Exeter: Ed. DELGADO. Joseph T. Université de Toulouse-Le Mirail. que se centra en Jesús Niño y en los episodios de su vida oculta. fuentes. 95128. (1990): Notes on the Fourteenth-Century Spanish Translation of Paul the Deacon’s Vita Sanctae Mariae Aegyptiacae. En: Medioevo Romanzo. 452). Biblioteca Nacional BN 780). BAÑOS VALLEJO. Fernando (2005): Una “pecatriz” y una mística. 305-327. En: CONNOLLY. SEIDENSPINNER-NÚÑEZ. Lynn Rice (1980): The Aesthetics of Morality: Two Portraits of Mary of Egypt in the Vida de Santa María Egipciaca. N° VII. En: Revista de Estudios Hispánicos. Ernesto (2004): Mariales franceses. E. 2005. ROBERTSON. Dayle (1992): The Poetics of (Non)Conversion: The Vida de Santa María Egipçiaca and La Celestina. University of Exeter. Plena Edad Media (siglos XI-XIII). p. de (1964): “La Vida de Santa María Egipciaca” traducida por un juglar anónimo hacia 1215: gramática. CSIC. Francisco Javier (2005): La religiosidad medieval en España. Tamesis. p. Meretrics. RAE. Françoise: Pratiques hagiographiques dans l’Espagne du Moyen Âge et du Siècle d’Or. Duncan (1980): Poem and Spirit. vocabulario. N° 2. Ediciones Trea-Ediciones de la Universidad de Oviedo. el eje del cambio devocional que se produce a partir del siglo XII es la veneración a la figura de Cristo en consonancia con el descubrimiento de la intimidad individualizadora de la persona humana (FERNÁNDEZ CONDE. asimismo. se vincula con la creciente devoción a la Virgen María como Madre del Salvador y propicia una sensibilidad que define nuevas manifestaciones religiosas durante el período. Madrid: Ed. 41-45. Madison: Ed. versificación. N° XXXVIII. Toulouse: Ed. (1977): La vida de Santa María Egipcíaca: A Fourteenth-Century Translation of a Work by Paul the Deacon (Ms. Jane E. . WEISS. p. Walsh. edición de los textos . María S. Manuel (1970-72): “Vida de Santa María Egipciaca”: estudios. Referências bibliográficas ALVAR. John K. p. encontraron en la transformación espiritual de María de Egipto. ingleses Particularmente en España.

84). 313). madre de todos los que viven en un sentido espiritual. 9 La paradoja está incluso reforzada con el empleo de algunos dispositivos ornamentales. la influencia directa del IV Concilio de Letrán sobre la leyenda occidental de Santa María Egipciaca no debe ser exagerada (WEISS. p. 519-520). 4 Llamativamente. . 11 “De todas las ideas difundidas desde los albores de la Alta Edad Media. p. sin embargo. que es el aspecto más pragmático de su culto…” (DELGADO. ALVAR (1970-72) y CRUZ-SÁENZ (1979). Esc. 12 CORTINA (1980. como el uso de la siguiente metáfora: “E fue maravillosa cosa / que de la espina salió la rosa” (v. 1992. 6 La función catequética de este tipo de leyendas prevalece sobre los sermones o la enseñanza abstracta (SEIDENSPINNER-NÚÑEZ. 187). orientando particularmente sus observaciones y su análisis al carácter figural que adquieren esos retratos. Existen ediciones del poema hispánico de ANDRÉS CASTELLANOS (1964). junto con un poema escrito en cuaderna vía. el Libro de los tres reyes de Oriente. del cual estoy preparando una edición crítica conjunta. p. la reconciliación universal de los contrarios (ROBERTSON. la santidad de la Virgen María se basó en su rol como theotokos (Madre de Dios). 100). p. 1980. 3 Aunque es un indicador crucial de los asuntos eclesiásticos contemporáneos. Para profundizar en los diversos aspectos del culto mariano. 6). 10 En esta oración la Virgen María no es meramente una persona a quien la pecadora ora. p. 7 Desde comienzos del siglo XII. 318). quizá la que mayor influjo tuvo en los siglos posteriores fue la idea de la Virgen como intercesora entre el pecador devoto y Cristo. 8396). 41-45) ya señaló la importancia del empleo del color en las dos descripciones contrastantes de María Egipciaca. p. p. 1986. 2004. mediadora entre Dios y la humanidad a causa de la Encarnación de la divinidad que la convirtió en una segunda Eva. ver WARNER (1976). p. el K-III-4 de la Biblioteca de San Lorenzo de El Escorial. la Vida se conserva en un manuscrito de fines del siglo XIV. luego de más de cuarenta años de penitencia en el desierto (ROBERTSON. 8 Cito según mi propia transcripción del poema que integra el Ms. 1980. y otro que es una reescritura de los Evangelios Apócrifos. 5 Sólo un secreto oculto en la psiquis medieval explicaría de manera acabada la fascinación de la leyenda de las prostitutas arrepentidas. cuando la difusión del culto mariano se extiende de manera sistemática entre los laicos. 2 La prinicpal implicancia del paso de la narración de la vida de la santa a su biografía es una secuencia ininterrumpida desde su infancia hasta su muerte. 2006. K-III-4. el Libro de Apolonio. ver SNOW (1990.220 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Notas 1 Para ahondar en esta versión oriental de la leyenda de Santa María Egipciaca. sino un principio formal encarnado. en particular María Magdalena (WALSH y BUSSELL THOMPSON.

sua presença na comunidade passa a ser constante. ou. O Relatório Final da Comissão da Verdade e Reconciliação 1 do Peru resulta da reunião de uma série de narrativas sobre a recente História dos conflitos políticos vividos pelo país. de Souza PG . (2009). E se a História assume a função de um tribunal. com a finalidade de difundir informações sobre como vivia e se organizava aquela população. em seu permanente exercício. nos anos entre 1980 e 2000 2 Essa comissão trabalhou com o objetivo de esclarecer a natureza do processo e dos fatos da guerra interna. Foi num contexto prévio aos trabalhos da CVR . além de determinar as responsabilidades jurídicas sobre tais acontecimentos e apresentar as consequências dos abusos contra dos direitos humanos. com a finalidade de reunir e escrever uma História respaldada pela heterogeneidade de versões e sujeitos envolvidos. posteriormente. A necessidade de discurtir e apurar estes eventos aciona a comunidade nacional. em formatos de escritura diferenciados. ou. ele presenciava as dificuladades e . em Chungui e. estudos literários e outros). à medida em que passa a ser captada pela História. psicologia sociologia. Sendo recebido com festa e música. pela primeira vez. em 1996. por exemplo. evitando e ao mesmo tempo promovendo o seu esquecimento.UFMG Seja a memória uma configuração cultural. como membro da equipe profissional do Centro de Desenvolvimento Agropecuário (CEDAP) e condutor do programa de rádio Rimaykusunchik4. porque atua de maneira revisionista sobre os eventos do passado selecionando-os. capacidade investigada por diversas disciplinas (teologia. torna-se um recurso privilegiado de acesso ao passado. vía construção de imagens possíveis de serem transmitidas oralmente. que Edilberto Jiménez tornou-se um interlocutor de testemunhas da violência. atua contra o amnésia e manifesta váriadas versões sobre os espisódios que pertencem. O antropólogo visitou Chungui. pois. através de seu arquivamento. DE EDILBERTO JIMÉNEZ: DESENHANDO A MEMÓRIA COLETIVA Carla Dameane P. em toda a Região das Fazendas (Oreja de Perro)3. a um evento histórico específico. a Memória.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 221 CHUNGUI: VIOLENCIA Y TRAZOS DE MEMORIA.Peru . filosofia.

que não o da letra. que possuem dificuldades para ler e escrever. 178). 2007. realiza uma denúcia formal ao Congresso. o idioma quéchua para o castelhano. A denúncia tornou pública a existência de 40 fossas comuns e o registro de mais de 200 desaparecidos. começou a anotar os testemunhos orais e a esboçar seus primeiros desenhos. para lembranças-imagens visuais5 . traduzindo lembranças-imagens. O material recolhido foi entregue a CVR . por causa disso. Jiménez atuou diretamente sobre as recordações das testemunhas. pouco a pouco. Além de traduzir a oralidade para a escrita. recordadas oralmente. Jiménez devolve às testemunhas. infanticídio. aos 20 minutos Jiménez conta sobre como o esboço dos desenhos. tortura. horror sin lágrimas… una historia peruana de Luis Felipe Degregori6. amparada por outros códigos. Envolvido nesse debate. as testemunhas voltavam aos locais onde haviam fossas comuns. tratamentos Recordar. com o medo que havia nas pessoas de conversarem sobre os acontecimentos violentos. Foi nesse ambiente em que se tornou uma figura familiar e rompeu. desaparecimentos forçados. ou. Foi nessa situação de vis memoriae7 que Jiménez registrou os relatos e os transpôs para outro código de escritura associando o trabalho de tradutor à criação dos desenhos e retábulos. por que se referem a fatos reais testemunhados diretamente. Além disso. entre outros). eram muitas vezes supervisionados pelas testemunhas que lhe diziam “así como estás dibujando. degradantes. em torno do reconhecimento dos eventos de violência ocorridos em Chungui. Jiménez ouve de diversas pessoas relatos que o deixaram comovido e. ativamente. Como se estivessem reconstituindo cada um dos crimes (massacres. Por levar em conta a importância da imagem para os povos pré-hispânicos. 178) e a partir desse rastro “inaugura o ato de fazer história” (RICŒUR. a essa comoção. ou. ou lugares onde ocorreram tais delitos. O silencio sobre a violência em Chuingui chega definitivamente ao fim quando uma delegação desta cidade. solicitou a ajuda dos comitês de auto defesa para que pudesse recorrer outras comunidades da região e registrar mais testemunhos.8 Violência e transformação do espaço Ao considerar que um dos temas centrais de que se ocupa a problemática da representação da . imaginar. p. No documentário Chungui. 2007. así ocurrió”. porém ele cumpriu uma função extensiva a de escrivão.Peru e. a participação de Edilberto Jiménez foi decisiva. Nesse contexto. quanto da Comisedh (Comissão de Direitos Humanos do Peru). muitas delas falantes do quéchua.222 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS participava das discussões e atividades relativas ao cotidiano dos moradores. indiretamente pelos sujeitos enunciativos. Jiménez passou a ser membro tanto dessa comissão. p. nesse processo. suas imagens como um formato de escritura legível. dos quais elas haviam sido testemunhas. no intuito de responder. cada um dos testemunhos registrados no livro admite “a iniciativa de uma pessoa física ou jurídica que visa a preservar os rastros de sua própria atividade” (RICŒUR. encabeçada pelo prefeito. Na medida em que “fazer história” relacionase com a necessidade de escrever e arquivar. correspondendo aos relatos. do continente latinoamericano. desenhar e mostrar Em Chungui: violencia y trazos de memoria aparecem os relatos orais recolhidos por Jiménez. execuções arbitrárias. violência sexual contra mulheres. analfabetas. Esses testemunhos formam parte de uma macro narrativa e adquirem um valor de fonte histórica e jurídica. sequestros. penso que. durante o processo de produção desse livro.

A ação de imaginar (no sentido de propor uma imagem à recordação). com o modo de convivênicia que agrega os moradores à comunidade. Um dos últimos desenhos de Chungui: violencia y trazos de memoria faz referência ao Llaqta Maqta (jovem da cidade) um gênero musical tradicional da região. por parte dos sobreviventes. festas religiosas. e de que maneira esse espaço de confraternização seria afetado devido a presença e permanência dos grupos violentos (Partido Comunista do Peru-Sendero Luminoso (PCP-SL) e as Forças Armadas Oficiais do Estado Peruano (FFAA)). Esse taqui9 acompanhou.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 223 Memória reside na relação estreita entre recordar e imaginar penso que. Naquela imagem onde se representa o relato sobre a chegada do PCP-SL em Chillihua. 317). “Dijeron: “Deben obedecer a los responsables” (H. “Laqta Maqta” (Desenho de Edilberto Jiménez em: Chungui: violencia y trazos de memoria. recorrendo aos seus talentos como retablista transpõe para os desenhos essa memória individual e coletiva. a ação de recordar. aniversários) relacionando-se. tornando visíveis os crimes e os detalhes que entornam os acontecimentos que lhes são relatados. Edilberto Jiménez refere-se a essa expressão de vida e alegria como algo que consegue ser preservado mesmo após os anos de violência. tem a colaboração de Jiménez que. Através dos desenhos é possível perceber como a presença do autoritarismo em Chungui compromete as perspectivas espaciais e temporais e obstrui a normalidade que antes definia as relações que os campesinos mantinham entre si e com o território. Ao fazer essa analogia o autor chama atenção aos muitos aspectos que caracterizavam o relacionamento dos chunguinos com o lugar. retratando a presença do . J. os encontros sociais (festivais juvenis. 156-157). desde antigas gerações. matrimônios. batizados. p. 2009. diretamente. p. Em: JIMÉNEZ. 2009. a elaboração das ilustrações em Chungui: violencia y trazos de memoria resulta de um processo que inclui previamente. o espaço celeste aparece comprimido por olhos. por sua vez.

p. e L. J. (Desenho de Edilberto Jiménez. C. há casos em que este sobrevivente tornou-se testemunha por acaso. p. também teremos sujeitos enunciativos que não presenciaram diretamente os crimes. p. mas tiveram acesso ao cenário onde este ocorreu. por estarem envolvidos nas situações descritas. O. 236).224 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS atoritarismo e da vigilância de um partido “que tenía muchísimos ojos y oídos y muy facilmente se enteraba de todo” (E. Trata-se da respresentação que oferece ao relato “Las cabezas estaban en distintos lugares” (V. O sobrevivente. Em: JIMÉNEZ. livre de qualquer metáfora. encontra os corpos das vítimas numa tal disposição que o faz supor o que de veras teria ocorrido. 2009. 160-161). Mas. Em: JIMÉNEZ. . D. indiretamente testemunhas desses crimes. 2009. Q. O. No caso dos testemunhos “Vi con mis propios ojos” (M. Em outro testemunho Jiménez utiliza essa linguagem oferecendo elementos visuais distribuídos pelo céu e que faz com o que o espaço funcione como um refletor cósmico. Em: JIMÉNEZ.147). 200-201). 246-247). dirigindo-se a casa de sua família em Ninabamba. Em: Chungui: violencia y trazos de memoria. como no relato “Asustado agarraba la soga” (E. ou. que não presenciou os assassinatos. onde os corpos haviam sido abandonados. Em: JIMÉNEZ. ou. 2009. A representação visual desse testemunho põe em cena. B. Em: JIMÉNEZ. 236-237). H. 298-269) e em “Lírio Qaqa Profundo Abismo” (T. p. 2009. p. 2009. 2009. 2009. p. Os relatos são sempre de sobreviventes que foram direta. quando se depara frente a uma situação em que é convocado pelos soldados da FFAA a testemunhar um assassinato. “Las cabezas estaban en distintos lugares”. e C. p. C. E. O jovem estudante caminhava despreocupado. Em: JIMÉNEZ. Essa mesma elaboração de um espaço carregado de olhos e orelhas se repete fazendo alusão ao testemunho “Le dieron más de 20 Chicotazos” (G. a crueldade desses assassinatos e a percepção daquele que foi tesmunha indireta do fato.M.

2009. Em: JIMÉNEZ. 2009.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 225 “Asustado agarraba la soga”(Desenho de Edilberto Jiménez. . I. p. entre eles mulheres e crianças. “Estuve calladito en el árbol y lloraba calladito”(Desenho de Edilberto Jiménez. Em: Chungui: violencia y trazos de memoria. Em outro testemunho. as testemunhas presenciaram o assassinato dos detidos. “Estuve calladito en el árbol y lloraba calladito” (M. 201). 238-239) sobreviventes contam como se esconderam em meio a paisagem para nela se camuflar e poder acompanhar as diversas pessoas de sua familia que haviam sido apreendidas pelos soldados da FFAA. p. 239). Em: Chungui: violencia y trazos de memoria. D. 2009. escondidos entre árvores. Nessa situação. p. e L.

296-297) uma viúva relata. para Jiménez. nos llevamos su cuerpito” (H. pelos soldados da FFAA. não sugeria frestas para a liberdade. Na representação visual elementos da natureza e ao mesmo tempo cósmicos. mas no desenho apenas aparecem como companhias uma lua. Nos desenhos de Jiménez. deixada pela alma do marido. 297). p. no contexto da guerra. desde muito tempo. 320) impregnado de afetividade e que vincula. os grupos a um . 2009. para o olhar do leitor. p. p. Em: JIMÉNEZ. 296). que a espreitam. e os zorros (raposas). R. com a finalidade de que facilitassem os mecanismos de assassinato e a paisagem. na maioria das vezes. fechada em si mesma. nos llevamos su cuerpito” (Desenho de Edilberto Jiménez. Com base na mensagem onírica. p. Em: Chungui: violencia y trazos de memoria. após terem os encontrado mortos. o sofrimento como uma experiência concreta. Através desses relatos e suas versões visuais. à pedradas. No testemunho “Calladitos sin que nadie sepa. “Calladitos sin que nadie sepa. seu esposo lhe disse o local onde seu corpo se encontrava após ter sido assassinado. aludindo a Abilio Vergara 10 “territorio-paisaje-prisión” (VERGARA. A mulher encerra seu testemunho contando que ela mesma realizou o funeral do esposo enterrando-o ao lado de sua casa desde onde “él simpre me cuida y cuida a sus hijos” (H. 51). Esse enquadramento relativo ao espaço delineia. contra as próprias pessoas que antes residiam ali. sobreviventes e algozes. 2009. No relato a mulher conta que estava acompanhada por seu cunhado. a viúva sai a procura do corpo. um “Local de Geração” (ASSMANN. tornam-se testemunhas de sua busca. 2009. 2009. percebo como esse território. p. que chora. compar tilhada entre vítimas fatais. 2011. R. Os caminhos e abismos foram redefinidos.226 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Grande parte desses sobreviventes tornaramse peças fundamentais para o posterior reconhecimento de fossas comuns e lugares onde eles mesmos haviam enterrado seus familiares. O território foi utilizado. Em: JIMÉNEZ. os elementos utilizados impregnam o ambiente e fazem com que o espaço se pareça. como em um sonho.

Chungui destaca-se por ali terem-se cometido crimes exemplares contra os direitos humanos14. Editora da Unicamp. o esquecimento. p. cuja história não deve se repetir. uma ferida difícil de cicratizar na memória nacional e histórica. p. esse território é o lugar onde os moradores cultivam à terra como espaço sagrado e estabelecem o contato. 129) No livro de Jiménez encontra-se vários motivos para que Chungui torne-se um lugar a ser recordado. enquanto “Local de Geração” Chungui possui uma memória afetiva e costumes que fortalecem os vínculos que unem as pessoas ao lugar. por Jiménez. é o motivo pelo qual esse lugar tornou-se inesquecível. (2007). . A memór ia. No que se refere à violência indiscriminada que caracteriza a guerra interna do Peru. Edilberto.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 227 familiares. devemos celebrar. étnicos e sociais. aqueles elementos que ajudam a elaborar a representação dessas memórias. como seus mortos. Campinas. COMISEDH. recopilado por Jiménez: Karu llaqtapin tiyani Chungui llaqtapin tiyani karu laqtalla kaptincha periodistapas chayanchu congresistapas qamunchu 11 Qanchi riupas waqansi Chungui mayuwan tupaspa chaynama llaqtallay waqan manaña pipas yuyaptin13. finalmente. Projeto de Tradução Coordenado por Paulo Soethe. Essa união permeabiliza os obstáculos que se colocam diante da possibilidade de se refazer as próprias vidas e superar os traumas sofridos. Formas e Transformações da Memória cultural. em seus desenhos. Por mais que se tente narrar as histórias relativas aos crimes cometidos nessa região. às doenças e ao atraso consequentes de anos de esquecimento. 2. 2009. SP. Chungui: violencia y trazos de memoria. vivos e mortos. que a população revindica mudanças estruturais e sociais que podem dar fim à pobreza. ao analfabetismo. ed. DED. a histór ia. Essa conexão constitui por um lado. Espaços da Recordação. Referências bibliográficas ASSMANN. pois. através dela. É para esse território. e cuja lembrança de seus moradores. torna-se também um “Local Traumático” (ASSMANN. (2009). Lima: IEP. Por outro lado. 349) sobre o qual não é possível formalizar um sentido . RICŒUR. Aleida. Tradução: Alain François [et al. – Campinas. (2011). Paul. JIMÉNEZ. são os mesmos que abrem fissuras sugererindo a impossibilidade de se reproduzir a aura12 desse local e tudo que se refere a multidimensionalidade dos fatos que ocorreram aí. SP: Editora da Unicamp. Mesmo assim. 2011. Fazer-se recordar na memória das autoridades e de outros povos é o que deseja o chunguino quando canta e dança este Llaqta Maqta. (JIMÉNEZ. mesmo por aquelas pessoas que nunca estiveram lá.].

11 Ver: ASSMANN. Peru. cuja forma. (1943). 61). 34). Violencia y Trazos de Memoria. Versão digital disponível em: <http://www.pe/ ifinal/pdf/TOMO%20I/INTRODUCCION. Segundo Edilberto Jiménez. para os moradores de Chungui não é usual a expressão Orelha do cachorro como nome que dá referência a região das Fazendas “Zona de Hacienda”. Campinas. no caso de operações historiográficas do passado. 31-36. Trata-se da “lembrançaimagem” (RICŒUR. DED. Aleida. (2003). Los Hechos. 2 Consultar: Informe Final da Comisión de la Verdad y Reconciliación. 6 Chungui. Em: Galería Virtual Carlos Iván Degregori. Contudo. horror sin lágrimas… una historia peruana. sem dispor de métodos de armazenamentos artificiais (como é o caso da mnemotécnica) sempre podem ser acessadas pela memória. pois. na memória existe um “real” anterior à imagem. p. Em Castelhano e Quéchua.org. Locais.iep. p. isto é. a realidade se encontra em suspenso. O nome Orelha do Cachorro foi dado à essa região. Ele explica que na imaginação é possível enxergar um “irreal”. Toda essa região próxima a Chungui corresponderia a orelha desse cachorro. (2011). Instituto de Estudios Peruanos. entendida como “arte”. 9 Segundo Jiménez Borja (1946. 7 Para Aleida Assmann (2011) a ideia da mnemotécnica romana. 122) no Peru antigo Taki/Taqui significava dançar e cantar como duas ações que se realizam simultaneamente. DED. 2007.pe/cid/galeria-cid/>. Aleida. Chungui: Violencia y trazos de memória. una introducción. cverdad. Chungui. Coordenador da Tradução Paulo Soethe. La memoria de la barbarie en imágenes. 317-361. (2009). atuar contra o tempo e o esquecimento “cujos efeitos são superados com a ajuda de certas técnicas” (ASSMANN. p. Las Víctimas. 10 VERGARA Abílio. Lima Peru. Disponível em: < http://www. p. A memória como Ars e Vis. uma imagem fabulada. assemelha-se a um cachorro sentado. Em: ASSMANN. Aleida. 3 “Orelha do Cachorro”. Primera Parte: El Proceso. Conferir: JIMÉNEZ BORJA. 2010. Lima: IEP. Em: JIMÉNEZ. que tornem identificáveis estas conexões entre memória e imaginação. pelos militares. Diretor Luis Felipe Degregori. Estaria mais relacionada com a recordação involuntária que. SP: Editora da Unicamp. 8 Conferir a exposição virtual “Universos de Memoria. Por outro lado. 61). Lima: IEP. passa a se denominar Comissão da Verdade e Reconciliação. Edilberto. p. ars memoriae. Tradução de Daniel Martineschen.228 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Notas 1 A Comissão da Verdade do Peru tem sua formação durante o governo de Valentin Paniagua (1936-2006) e no governo seguinte. em alusão ao mapa do estado de Ayacucho. p. Arturo. p. Formas e Transformações da Memória cultural.org. p. Diferente dela a vis memoriae seria uma memória em “potência”. .” Em: Revista del Museo Nacional. Formas e Transformações da Memória cultural. sobretudo. encontram-se as postulações que distinguem imaginação de memória. Em Paul Ricœur (2007). Edilberto. Espaços da Recordação. Acessado em 23 de junho de 2012. Acessado em 25 de julho de 2012. (2011). SP: Editora da Unicamp. “a presença do ausente” (RICŒUR. La violencia. 87-129. Em: JIMÉNEZ. (2009). o autor aponta ser um traço comum tanto na imaginação quanto na memória. Campinas. Retablos de Edilberto Jiménez sobre la Violencia Política” . 2011. COMISEDH. 36-67. Ver mais detalhes em ASSMANN. Coordenador da Tradução Paulo Soethe. 4 5 “Conversemos”. e afirma ser possível estabelecer uma linha que as una. tomo XV. Tradução de Fernanda Boechat Em: Espaços da Recordação. 122-159. 2007.pdf>. 62 minutos. p. Introducción. Edilberto. possui relações com os processos de armazenamento e pretende. com Alejandro Toledo (1946). “La fiesta y la danza en el antiguo Perú. Conferir: JIMÉNEZ. COMISEDH.

composta de elementos espaciais e temporais: a aparição única de uma coisa distante. arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 14 De acordo com o Relatório Final da Comissão da Verdade.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 229 12 No sentido em que propõe Aleida Assmann. Primera Parte: Capítulo 2. I. / Dizem também que o rio Qanchi chora / ao se encontrar com o rio de Chungui / assim chora a o meu povoado / quando ninguém se lembra”. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. Conferir: Informe Final da Comisión de la Verdad y Reconciliación. BENJAMIN. Acessado em 26 de junho de 2012.org. Historias representativas de la violencia. p. em Chungui e nos territórios asháninka. Walter.pdf>. 13 “Vivo num povoado distante / vivo na comunidade de Chungui / certamente por estar distante / os jornalistas não chegam. Vol.165-196. (2003). (1994).170). os conflitos alcançaram os maiores índices de violência. p.pe/ifi nal/pdf/TOMO%20V/ /2. por mais perto que ela esteja”.0% SECCION%20TERCERALos%20Escenarios%20de%20la%20v iolencia%continuacion)/ 2. / nem os congressistas chegam. a partir do conceito de aura proposto por Walter Benjamin (1994. Versão dig ital disponível em: < http://www. ed.%20HISTORIAS%20REPRESENTATIVAS%20DE%20LA%20VIOLENCIA 20Introduccion.cverdad. como “uma figura singular. Em: Magia e técnica. 7. São Paulo: Brasiliense. Tradução de Sergio Paulo Rounet. .

os autores mostram que o espanhol atual. a. No referido trabalho. é possível a ordem Tópico-S-V. *En el paro. Considerando as possíveis ordens de constituintes. ao contrário da focalização. *De dos partes el examen co nsta nsta.3 espanhol atual: a. DE DOS PARTES co nsta el examen. estrutura informativa e prosódia tem sido um aspecto bastante estudado nos últimos anos dentro do quadro da gramática gerativa. b) não é todo elemento que pode ser tematizado. a. EN PRIMAVERA v isitó Juan Leningrado. el problema resid eside b. Um dos primeiros trabalhos sobre o espanhol nesse sentido é o de Hernanz e Brucart (1987). . com a focalização. p. (HERNANZ e BRUCART. 95) Com respeito à flexibilidade de fronteamento. Fontana (1993) mostra que: a) O espanhol antigo não impunha restrições ao constituinte fronteado.230 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS O PREENCHIMENTO DA POSIÇÃO PRÉ-VERBAL POR COMPLEMENTOS VERBAIS E A NOÇÃO DE OPERADOR NA HISTÓRIA DO ESPANHOL Carlos Felipe Pinto Universidade Tiradentes 1. a única ordem possível é Foco-V-S2 (exemplo (1)). EN EL PARO resid eside b. *esa aria c a n t ó Montserrat Caballé maravillosamente. Hernanz e Brucart (1987) mostram que: a) com a tematização. como se ilustra no contraste entre (4) e (5): (4) (1) a. ao estudar o posicionamento dos pronomes clíticos na história do espanhol. (3) Focalização: e el problema. b. En primavera Juan v isitó Leningrado. que não impõe restrições de fronteamento (exemplos (2) e (3): (2) Tematização: e. embora tenha a ordem básica S-VO. Introdução1 A relação entre ordem de palavras. 1987. apresenta uma série de variações que estão relacionadas com efeitos informativos.

tenho o objetivo de explicar o motivo desses contrastes entre as duas fases do espanhol. b. diferentemente do que acontece no espanhol atual. o XP fronteado não tem correspondência dentro da oração. p. Neste trabalho. 1993. d.4 (FONTANA. dois aspectos que contrastam claramente o espanhol atual com o espanhol antigo são a maior flexibilidade para fronteamento de constituintes no espanhol antigo e a maior possibilidade de fronteamento de objetos sem a recuperação com o clítico5. v ió Nuria andando e. A discussão se concentra nos complementos verbais já que os adjuntos. esa aria la c a n t ó Montserrat Caballé maravillosamente. Confessar =se d e ue uen pecados. por outro lado. sólo tengo romances. Distintos tipos de fronteamento (5) espanhol antigo: a. em (7b). conforme os exemplos em (7) a seguir: Clitic left dislocation (CLLD) b. A Nuriai lei dieron un libro anoche. A noção de operador Como se observa pela rápida discussão acima. como se ilustra em (6). a. (FONTANA. Libros. *?desde Cornellá v ol olv porque no habían autobuses. 2. em (7c) o objeto fronteado deixa um vazio dentro da oração. *visitar q u e er pabellón. Cinque (1995. 1993. 107) mostra o seguinte contraste: . (7) a. Discutindo a noção de operador. n los xpistianos de sus c. ¿qué libros tienes? Wh-movement c. p.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 231 r í a n los invitados el otro b. Uino & agua d e ue el clerigo mezclar en el caliz. *?con una horquilla para el pelo ab abrían chorizos las puertas de los coches. Left dislocation (LD) Librosi. o objeto é recuperado por um clítico dentro da oração. c. Topicalization7 3. d. em (7d) o objeto fronteado é o elemento interrogado. M. dicen que Nuria tiene ___i. p. quatro tipos de construções A-Barra. 64/55/56) Em (7a). a Alexandria de la Palla. O espanhol atual tem. Grande duelo av ie ien espanhol atual: b. *?maravillosamente cantó Montserrat Caballé esa ária. 55/61/65/86) b) Os complementos verbais podiam ser fronteados sem a duplicação pelo clítico no espanhol antigo. Deste lugar de Vigeva fue S. rían esos c. podem ser fronteados sem restrição em ambas as fases da língua6. (6) espanhol antigo: n las yentes christianas. *esa aria c a n t ó Montserrat Caballé maravillosamente. pelo menos.

A inserção do clítico é uma estratégia de último recurso para licenciar a categoria vazia dentro do VP. Aux visto 4. este DP é capaz de vincular a categoria vazia dentro da oração caracterizando-a como variável. como em (8). e não pode ser variável porque não é vinculado por um operador . que não é uma variável). como mostra a agramaticalidade de (11): porque a categoria vazia fica sem ser caracterizada. ho visto ___j Gianni. Não pode ser PRO porque é governado. p. na CLLD. não pode ficar sem ser duplicado pelo clítico. não pode ser vestígio de DP porque é livre na sua categoria de regência. 1995. a oração se torna agramatical não A pergunta que Cinque (1995) procura é responder é por que o DP em TopP. Os dados em (9) também mostram que somente a topicalização é gerada via movimento-WH8 tendo em vista o paralelismo entre (9) e (10). não pode ser pro porque é não identificado. a presença do clítico é requerida e. Quando o clítico é inserido.232 (8) ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Giannij. (9) GiANNIj (*loj) invitero (non Pietro) Gianni (*o) convidarei (não Pietro) Os dados em (8) e (9) mostram que. o problema de (11) é que o DP “Gianni” não se caracteriza como um operador e o DP nulo dentro da oração não pode ser caracterizado como nenhum tipo de categoria vazia. como no caso da CLLD. a categoria vazia é caracterizada como uma anáfora (vestígio de DP) e pode ser licenciada. na topicalização. mas porque o operador não pode vincular nenhuma variável (o operador vincularia o clítico. é preciso explicar que tais diferenças estão relacionadas com diferenças mais profundas entre as duas fases da língua 12 . (11) *Giannij. 9 diferenças apresentadas nos exemplos de (4) a (6) acima levaram Fontana (1993) a analisar o espanhol antigo como uma língua V2. loj invitero domani (non oggi) Gianni. “Línguas V2” tem sido uma etiqueta utilizada para classificar aquelas línguas nas quais o verbo finito aparece na segunda posição na oração e é precedido exclusivamente por um único constituinte seja qual for a sua função sintática13. 1995. As Na análise de Cinque (1995). o convidarei amanhã (não hoje) Cinque (1995) comenta que a falta de movimento-WH nesse tipo de construção é um argumento crucial10 tendo em vista que. Os exemplos abaixo ilustram essa característica do espanhol antigo: . 108) oração é caracterizado como operador já que é derivado via movimento-WH . se houvesse um movimento-WH . O efeito V2 no espanhol antigo Antes de explicar as diferenças entre as duas (CINQUE. Se o clítico é introduzido. é proibida. Com relação ao exemplo em (10). 109) fases do espanhol. a explicação vai no sentido contrário: como o DP no inicio da (10) *Chii loi inviterai? (CINQUE. p. a categoria vazia poderia se caracterizar como variável já que seria vinculada pelo operador11.

não se caracteriza como operador e a presença do clítico é necessária na CLLD e a presença de outro DP é necessária na LD. Assim. Como o objeto não pode ser movido para SpecFinP. atrai o verbo e o movimento do verbo para Finº permite que qualquer constituinte seja movido para SpecFinP15. quando se tem a ordem O-V. p. en todos los buenos hechos que quisiere comenzar. (PINTO. y así co mie d esc e nd er : esce nde r ner b. 255) externa. 5. 2011. como não há um traço EPP d e mi paciencia t ole r ar que haya pued c. a dios d e b e hombre a d e lantar y p o ne primeramientre. se movia para CP. assim como nas línguas V2. . o objeto fronteado se caracteriza como um operador e pode licenciar a categoria vazia. os dados em (14) ilustram a ordem Aux-S-V. os dados em (15) ilustram construções de object shif . a Os exemplos em (12) ilustram a ordem V2 em oração matriz e oração subordinada. matando a tu madre (12) a. que é caracterizada como variável deixada dentro do VP. se nota o interessante cruzamento de dados em Fontana (1993) e Pinto (2011): quando a ordem O-V sem clítico diminui. é possível ter uma explicação para o contraste entre as duas fases do espanhol. aqui c o mie historias de oriente dados em (12) a (15) oferecem evidências de que o verbo. mas somente pode ser concatenado diretamente em SpecTopP através da operação de concatenação (15) a. no espanhol antigo (e nas línguas V2 em geral). diferentemente do espanhol atual. No espanhol atual. Por essa razão. o que é um reflexo da mudança linguística16. que exibe movimento do verbo exclusivamente para IP14. como agora f ezie ezier Núnnez nza el libro de la flor de las mienza c. armas odiosas t o mast maste Clitemestra ro n el maestre don Pero b. si el deudor otros bienes t uv iese b. E esta carta ot Garcíez. Explicando o contraste entre as duas fases do espanhol A partir da exposição de Cinque (1995). o rg a la abatíssima Sancha oto rga (13) a. No espanhol antigo. mais especificamente em FinP. no espanhol antigo. o traço EPP em CP. que no pue oler subido en corazón humano conmigo en el ilícito amor comunicar su deleite. em FinP. o verbo não se move para Finº e não permite que qualquer constituinte ocupe esta posição.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 233 e . b. porque este cuerpo muchas lágrimas ha d e j a d o a sus parientes: y amargos dolores. si corazon has nz o el espiritu por las medulas mienz nzo (14) a. e la priora doña María Fortúnez e tod el convento. O conjunto de ordem O-V com clítico aumenta. os exemplos em (13) ilustram a ordem O-V sem retomada clítica em oração matriz e oração subordinada. has.

234 6. POLETTO.D. podia ocupar a primeira posição sem a duplicação pelo clítico. Marianne (1987b). Null Subjects and Verb Second Phenomena. 2. p. p. b r antar ueb antar. Ph. GÓMEZ TORREGO. No espanhol antigo. The Structure of CP and IP. 5. Old French. Quando esses elementos são tematizados. Tal movimento era desencadeado por questões meramente formais. quantified A contraparte gramatical das orações em (16) no espanhol atual exibe obrigatoriamente a ordem V-O18 . 1-32.). ADAMS. Oxford: Oxford University Press. a periferia esquerda da oração é destinada para usos informativos. Complementos circunstanciais são selecionados pelo verbo lexical. esses elementos fronteados não se caracterizam como operadores e não podem caracterizar a categoria vazia como uma variável. Topic. Quando um objeto é movido. Madrid: Ediciones SM. Nova Iorque: Cambridge University Press. L.D Dissertation. a ordem O-V em contextos neutros é banida já que não há lugar de pouso disponível para o objeto (SpecFinP não é uma posição ativa no espanhol atual). o elemento em primeira posição ocupava SpecFinP.. são agramaticais no espanhol atual: Referências bibliográficas ADAMS. b) como a tematização no espanhol atual é gerada via concatenação. ed. como o verbo se movia para Finº e qualquer constituinte podia ocupar a posição de SpecFinP. Gramática didáctica del español. Paola. Phrase structure and the Syntax of clitics in the history of Spanish. University of Pennsylvania. devido ao traço EPP de FinP. Conclusão ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS indiretos. [. E tod aquel quj esta carta q ue (1223) ue b r antar (1225) que ueb b. esses complementos circunstanciais fronteados conseguiam caracterizar as categorias vazias deixadas no VP como variável porque se caracterizavam como operadores. (2002). (1993). n. CINQUE. Josep M. and the notion of operator at S-structure. independentemente de sua função informativa. o seu lugar de pouso é SpecFocP17. v. a categoria vazia deixada dentro do VP precisa ser caracterizada de alguma forma: a) como esses elementos não possuem clíticos. p. Cecilia (2004). qualquer constituinte.] (16) a. In: ______. orações do espanhol antigo. 52-75. No caso da tematização. No espanhol antigo. 104-120. Guglielmo (1995). Focus and V2: Defining the CP Sublayers. como as ilustradas em (16) a seguir. 8. Dissertation. Por isso. Marianne (1987a). Ph. The Cartography of Syntactic Structures. Italian syntax and Universal Grammar .. Bare quantifiers. por isso. v. Em consequência disso. principalmente de complementos circunstanciais. FONTANA. Natural Language & Linguistic Theory. University of California. como apontaram Hernanz e Brucart (1987) e Fontana (1993) nos exemplos ilustrados em (2) e (3). a categoria vazia não pode ser caracterizada como uma anáfora. In: RIZZI. no caso da focalização. A conclusão que se obtém dessa discussão é que os objetos fronteados no espanhol antigo e no espanhol atual ocupam lugares diferentes na estrutura. 1. quyen esto q uisiese q BENINCÀ. No espanhol atual. o objeto é concatenado diretamente em SpecTopP. Esta análise explica também porque o espanhol atual apresenta restrições à tematização . . assim como os objetos diretos e NPs. From Old French to the Theory of Pro-Drop. Luigi (org.

A noção de fronteamento que estou assumindo está relacionada exclusivamente com a ordem superficial. José María (1987). Elements of grammar. 11. The Verb always leaves IP in V2 clauses. Oxford: Oxford University Press. é posto em matização destaque. KROCH. sem considerar se há ou não movimento de constituinte. Verb movement and expletive RIVERO. Parametters and functional heads. 2 Os termos tópico/topicalização são termos que cobrem vários fenômenos linguísticos e são usados por várias vertentes teóricas. Notas 1 Este trabalho faz parte da discussão sobre o movimento do verbo na história do espanhol apresentada em minha Tese de Doutorado (PINTO. 2. . The Structure of CP and IP. p.). v. como informação conhecida. Tese de Doutorado. v. Pr incípios teór icos. RIZZI. 1. p. V2 and the EPP. In: RIZZI. Adoto a seguinte distinção terminológica: To picalização = ESTRATÉGIA SINTÁTICA na qual um constituinte é movido de sua posição de base dentro da oração para a periferia esquerda. v. Luigi (orgs. Luigi (1991). Luigi (org. VIKNER. La sintaxis. n. BRUCART. Oxford: Oxford University Press. dada. Ordem de palav ras. The C-Systen in brythonic celtic languages. 281-337. In: BELLETTI. Universidade de Geneva (citado do manuscrito). On Left Dislocation and Topicalization in Spanish. A estratégia discursiva de tematização pode ser realizada através da operação com ou sem movimento sintático. VIKNER. Language Variation and Change. 2011). p. ou seja. Sten (1996).ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 235 HERNANZ. 199-244. Adriana. 11-62. pressuposta ou como o tópico discursivo.). (citado do manuscrito) PINTO. Kluwer: Dordrecht. Linguistic Inquiry. RIZZI. Sten (1995). Residual verb second and the Wh criterion. predominantemente na periferia esquerda. The fine structure of the left periphery. La oración simple . Luigi (1997). ou seja. movimento do verbo e efeito V2 na história do espanhol. Reflexes of Grammar in Patterns of Language Change. subjects in the Germanic languages . Bonnie. RIZZI. Liliane (org. The Cartography of Syntactic Structures. Anthony (1989). 297328. Maria Luisa (1980). Nova Iorque/Oxford: Oxford University Press. 2. assumo a topicalização como uma operação sintática de movimento A-Barra independentemente de seus efeitos discursivos.). SCHWARTZ. p. Barcelona: Crítica. tanto formais como funcionais. Carlos Felipe (2011). Ian (2004). p. Universidade Estadual de Campinas. F r ont eame nt o = EFEITO SINTÁTICO LINEAR em que um constituinte aparece no início da oração onteame eament nto (periferia esquerda). Te mat ização = ESTRATÉGIA DISCURSIVA na qual um constituinte é tematizado. María Lluisa. ROBERTS. In: HAEGEMAN. 363-393.

para uma discussão detalhada da questão em modelos . te pregunta (que) por qué no tiene. no he visto ninguno. 4 Parece haver alguma relação entre definitude e presença do clítico nesse tipo de construção: objetos definidos são obrigatoriamente retomados. Dinero. na frase “Juan puso el libro en la mesa”. Os verbos são destacados em negrito. GÓMEZ TORREGO. já os adjuntos. não. b. que a topicalização é um movimento A-Barra que deixa uma posição vazia dentro da oração. as orações em (ii) não deveriam ser possíveis. no lo vi. as maiúsculas indicam que o constituinte recebeu a proeminência prosódica. Observar que esta definição é diferente da apresenta em algumas gramáticas do espanhol (por exemplo. p. Línguas que possuem um sistema de clíticos mais ricos. 380) Se topicalização e movimento-WH fossem o mesmo tipo de movimento. preguntan (que) quién tiene. B’: No. Assumo. *¿Qué preguntan (que) quién tiene? (ii) a. 2002).236 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Focalização = ESTRATÉGIA DISCURSIVA na qual um constituinte é focalizado. Dinero. *¿Qué te pregunta (que) por qué no tiene? b. que é essencialmente definido: (i) A: ¿Viste al chico? B: No. exibem os mesmos fatos com outras funções sintáticas. objetos indefinidos têm retomada facultativa. 8 Rivero (1980) assume que a topicalização é diferente de movimento-WH a partir de dados como (i) e (ii) (i) a. sempre é derivado via movimento A-Barra (topicalização ). como apresentei acima. Se esse movimento é usado como recurso de tematização ou de focalização é algo que pode variar entre as línguas. (RIVERO. nas quais se diz que os complementos circunstanciais podem ser facultativos ou obrigatórios. o sintagma “en la mesa” é um complemento do verbo. no lo vi. Contudo se são o mesmo tipo de movimento ou não é irrelevante para a discussão (ver BENINCÀ e POLETTO. como a informação nova que completa a pressuposição ou o contraste que corrige a asserção anterior. é posto em destaque. 1980. Nesta definição. Quando o constituinte focalizado se encontra fora da sua posição canônica na oração. 6 É importante ter em mente a diferença entre complemento e adjunto verbal: complemento verbal é o elemento que é selecionado semanticamente pelo verbo. Tal contraste pode ser explicado pelo caráter do clítico. 2004. como o catalão e o francês. (ii) A: ¿Viste algún chico? B: *No. não necessariamente na periferia esquerda. a retomada só pode ser observada com objetos diretos e indiretos. ou seja. 3 Nos exemplos. 5 Como o espanhol tem um sistema de clíticos defectivo. 7 O que Cinque (1995) chama de topicalização é equivalente a focus movement.

reversed the sign of the slope of the regression. 1987b) sobre a história do francês: In sentences with preposed adverbs and prepositional phrases. (HERNANZ e BRUCART. Ver também Rivero (1980). que perdeu tal propriedade já há algum tempo.. of course.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 237 minimalistas). 13-14) . 15 Esta análise se baseia em Roberts (2004). [. but in sentences with preposed noun phrase complements. efeito “that-trace” etc). As línguas V2 são divididas principalmente em dois grupos: línguas simétricas. o efeito V2 em oração subordinada pode ser generalizado ou restringido. como mostra o exemplo do espanhol: (i) El dinero Maria ignora quién lo tiene. no Critério-WH por exemplo. Se uma categoria não se move. 11 Lembrar que a definição de operador de Rizzi (1991). O que é relevante é que ambas as construções são derivadas via um tipo de movimento A-Barra. observe-se o parâmetro do sujeito nulo: línguas de sujeito nulo exibem uma série de características que não são encontradas em línguas de sujeito preenchido (extração de sujeito de orações subordinadas. 86) Se houvesse movimento do DP de dentro da oração relativa para o inicio da oração matriz. que exibem o efeito V2 tanto em orações principais como em orações subordinadas. não se caracteriza como operador. Por exemplo. 1987. ademais. (KROCH. ou estruturalmente. there will be an additional effect. No Capítulo 01 de Pinto (2011) fiz uma discussão bastante densa da questão e apresento fortes evidências com base no modelo cartográfico de Rizzi (1997) e nos argumentos apresentados por Vikner (1995) e Schwartz e Vikner (1996) de que o efeito V2 acontece sempre no campo CP. an increase in the rate of use of the resumptive clitic pronouns required by left dislocation. No caso das línguas assimétricas. since the rise in left dislocation corresponds to the loss of topicalization. We have. 13 O grupo mais representativo de línguas V2 na atualidade são as línguas germânicas. p. 1989. como os quantifcadores nus.. 14 As análises propostas para o efeito V2 nas línguas humanas são muitas e diversas: há análises que propõem que o efeito V2 sempre implica em movimento do verbo para CP e há análises que propõem que há possibilidade de efeito V2 em IP (especialmente no caso das línguas simétricas). nas orações subordinadas. p. No caso das línguas simétricas. 10 Que este tipo de construção não é derivado através de movimento é evidenciado pelo fato de que podem aparecer em contextos de ilha. 16 Este aspecto também é trazido por Kroch (1989) a partir da proposta de Adams (1987a. we obtain the pattern in Figure 5 below. e línguas assimétricas. the only effect of the change in accent on word order will be a decline in the rate of subject-verb inversion.. Minha análise. procura explicar a variação na manifestação no efeito V2 dentro do campo CP. deixam o verbo na última posição da oração e há línguas que deixam o verbo na posição medial. a oração deveria ser agramatical já que orações relativas são caracterizadas como ilhas e não podem ter constituintes extraídos de dentro de si. como alguns DPs em CP. passa obrigatoriamente pela questão do movimento. inversão livre. exceto o inglês.] If we fit a logistic curve to Priestley’s data via regression and compare the logistic transform of the fitted curve with Fontaine’s results. há línguas que. 9 Cinque (1995) diz um operador pode ser definido inerentemente. 12 Tais diferenças reforçam a hipótese de que um parâmetro é uma série de características que se manifesta em conjunto. que exibem somente o efeito V2 em orações principais.

o foco sempre se caracteriza como operador e qualquer constituinte pode se mover para a periferia esquerda. Por isso. p. 18 Em Pinto (2011.212) sintetizo a seguinte correlação: Contexto Focalização Tematização Neutro Espanhol antigo O-V O-V O-V Espanhol atual O-V O-cl-V V-O .238 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 17 O movimento de constituinte é obrigatório na focalização por uma questão de escopo: o elemento focalizado precisa ter escopo sobre o restante da oração.

de Carlos Fuentes. lo que induce a una exaltación del alma en el lector. el efecto deseado. del año de 1951. de Julio Cortázar. La lectura del tiempo como invasor de las casas es otra de las posibles interpretaciones: es el pasado. la lectura del cuento en una sola asentada . Según Poe. por la réplica de la estatua de un Chac Mool. obra que marca el estreno del escritor mexicano en 1954. son muy perceptibles a los lectores de esos cuentos publicados en libro en la década de 1950. hace parte de L os días e nmascar a d os enmascar nmascara os. dios de la lluvia que propiciaba la agricultura. En los textos “Review of Twice-told tales” (1842) y “The philosophy of composition” (1846). Algunos críticos ya apuntaron alegorías al peronismo (que se apodera de Argentina) o a las inmigraciones (que se apropian de Buenos Aires) o mismo del lector (que se adueña del texto) en el caso de “Casa tomada”. podemos leer al tiempo presente como siendo el deflagrador de la expulsión de los hermanos – siempre restrictos al mundo del pasado – en el cuento del escritor argentino. desde su primera frase. y “Chac Mool”. también iniciando el libro.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 239 INVASIONES DEL TIEMPO EN EL ESPACIO DE LA CASA Carlos Garcia Rizzon UNIPAMPA Los acercamientos entre “Casa tomada”. El primero iar io es el cuento que abre B est estiar iario io. que será alcanzado con la fuerza derivable de la totalidad del texto. personajes de vidas solitarias y hábitos rutineros abandonan sus casas – herencias y recordaciones de patrimonios familiares – porque ellas son invadidas. la otra. Una. y a la transferencia de identidades en relación a “Chac Mool”. a su luz y de modo inverso. quien toma la casa en “Chac Mool”. Sorprendiendo en sus finales. caracterizado en la estatua. En ambas narrativas. Para eso. cuentista que principió la teoría sobre el género. y el otro. esos cuentos crean efectos que abren diferentes posibilidades para interpretar los abandonos de las casas por sus moradores. Las escritas de esos cuentos respetan la brevedad y la intensidad reconocidas por Edgar Allan Poe. en el final. por ruidos imprecisos. sin interrupciones. el escritor estadounidense estableció principios en la estructuración del cuento que apuntan para una unidad de efecto. figura de la mitología mexicana que simbolizaba un mensajero entre los hombres y Tlaloc. . todas las palabras de la composición deben estar direccionadas a provocar. se torna necesaria. como sonidos sofocados o murmullos de una conversación.

presentó cuestiones respecto al cuento como narrativa. donde la felicidad es imposible. de Ricardo Piglia. aconsejándolos respecto a los textos. que el cuento deba tratar sus temas sin exageraciones. preserva la idea de unidad y depuración con el objetivo de alcanzar una intensidad narrativa que sea atractiva. también escritor argentino. en que los seres se entrelazan”. 1970. Ese árbol crecerá en nosotros. siendo exigida su participación en la creación de la historia narrada. Sin embargo. Y Borges continúa: “También se juega con la materia de que somos hechos. por ejemplo. trascendiendo espiritualmente la imagen que muestra. aborda . (2001. en el final de la década de 1960. p. y publicada con el título de “Algunos aspectos del cuento” en la revista “Casa de las Américas”. en 1970. entonces. para Cortázar “un cuento es significativo cuando quiebra sus propios límites” (2004. en palabras de Cortázar. Comparó esa escritura a una fotografía. “Chac Mool” y “Casa tomada” trabajan con la perspectiva de lo no acabamiento. otro escritor. nt os d e amo r. 68). Siguiendo conceptos que venían desde Poe. con ironía. presentando normas para la producción de cuentos. el cotidiano se refleja en las acciones de los “personajes – caracterizados por Jorge Luis Borges en análisis a los textos de Julio Cortázar. “todo cuento perdurable es como la semilla donde está durmiendo el árbol gigantesco. Antón Chejov. En América Latina.” (BORGES. dice. De esa forma. En sintonía con las ideas de Chejov. rechazar la subjetividad del autor y volcarse a extrañamientos percibidos en la observación de la propia realidad cotidiana. Muy sutilmente el narrador nos atrae a su terrible mundo. 429) También Julio Cortázar. el relato de una historia bastante interesante y suficientemente breve para que absorba toda nuestra atención” (QUIROGA. 521-522). pues. Jorge Luis Borges comenta en el prólogo de Fic cio nes Ficcio ciones nes: “Desvarío laborioso y empobrecedor el de componer vastos libros. Otro texto teórico. un fragmento de la realidad. p. mas que pueden ser extendidos también al protagonista del cuento de Carlos Fuentes – deliberadamente triviales. A pesar de no haber escrito artículos teóricos que tratasen de sus concepciones acerca del género. que es llevado a dar continuidad a la narrativa. Sugiere. d e lo cur ayd em ue r te autor de Cue uent ntos de amor de locur cura de mue uer (1917). 516) y va más allá de lo que cuenta. señaló algunas cuestiones más sobre la elaboración de los cuentos.240 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Aún en el siglo XIX. actúa como una explosión que se abre a una realidad mucho más amplia. pues “el cuento literario consta de los mismos elementos que el cuento oral y es. p. el autor ruso mantuvo correspondencias con jóvenes escritores iniciantes para quienes exponía sus consideraciones. como este. “Tesis sobre el cuento”. partiendo de los principios sugeridos por Poe y Chejov. es decir. “Los trueques del perfecto cuentista” y “Decálogo del perfecto cuentista”. dará su sombra en nuestra memoria” (2004. Chejov observa también un carácter de apertura de la obra. Es un mundo poroso. Pensando en la ruptura de lo cotidiano que los cuentos de Chejov ofrecen. redijo textos como “Manual del perfecto cuentista”. De la misma forma. pues persiste retumbando en la mente del lector la continuidad de los acontecimientos. el de explayar en quinientas páginas una idea cuya perfecta exposición oral cabe en pocos minutos. O sea. regidas por rutinas triviales. donde un recorte. p. el tiempo”. p. en una conferencia proferida en Cuba. nuestros escritores igualmente se dedicaron a pensar sobre el cuento como género literario. 1989. En el mismo sentido y con sarcasmo. que el cuento inicia por su final. El uruguayo Horacio Quiroga. vemos la sugestión de la complicidad del lector en la construcción del cuento. probablemente por su ceguera. Cortázar amplía la idea del efecto que el cuento provoca en el lector. Su pensamiento coincide con Poe cuanto a la brevedad y al efecto. 520).

la historia secreta se construye con lo no dicho. personajes de Cortázar. Eso nos remete a la teoría del iceberg . También lo oí. y espaciosa y antigua la de los personajes de “Casa tomada”. con el “fecundo descubrimiento de Alfred Jarry. a la cocina. El sonido venía impreciso y sordo.. felizmente la llave estaba puesta de nuestro lado y además corrí el gran cerrojo para más seguridad. pues no hay sobresaltos o protestas. como un volcarse de silla sobre la alfombra o un ahogado susurro de conversación. dentro de un mundo regido más o menos armoniosamente por un sistema de leyes. apenas el hermano. Me tiré contra la puerta antes de que fuera demasiado tarde. Irene y su anónimo hermano.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 241 que el cuento presenta dos historias. cerrando puertas y abriendo espacio para lo irracional: Aún según Piglia. donde “podían vivir ocho personas sin estorbarse”. en su análisis de […] a ese falso realismo que consiste en creer que todas las cosas pueden describirse y explicarse como lo daba por sentado el optimismo filosófico y científico del siglo XVIII. los sábados. de relaciones de causa y efecto. p. Cada una de las dos historias se cuenta de un modo distinto. que se mueven en el terreno de lo fantástico sin distinguirlo de la realidad. es decir. (PIGLIA. de principios. Contrariando lo que podría ser natural. Tanto en uno como en otro cuento. de psicologías definidas. las casas son descriptas como sólidas construcciones de tiempos imponentes. y otra aludida. “un poco lúgubre en su arquitectura porfiriana” la casa de Filiberto. con lo subentendido y con la alusión de la historia que está aparente. Los hermanos. una que se lee en la superficie de las líneas escritas. de manera fantástica en el cuento de Cortázar y en el ámbito de lo maravilloso en el relato de Fuentes. Para Cortázar. 2000. Se dedican a la limpieza de la casa.] cuando escuché algo en el comedor o la biblioteca. para quien el verdadero estudio de la realidad no residía en las leyes sino en las excepciones a esas leyes” (p. 509). . Lo perturbador en “Casa tomada” está en la actitud de los hermanos. Para Piglia. o sea. son incapaces de reaccionar a la invasión de los ruidos. el cuento es una historia que esconde una historia secreta. Los elementos esenciales del cuento tienen doble función y son usados de manera distinta en cada una de las dos historias. Trabajar con dos historias quiere decir trabajar con dos sistemas diferentes de causalidad. Los puntos de cruce son el fundamento de la construcción. como dijo en la conferencia a los cubanos. dice más adelante. tiene la costumbre de comprar madejas Cortázar comparte. el hermano a la lectura u ordenación de una colección de estampillas (“para matar el tiempo”) e Irene a los tejidos de lana (tal vez un “gran pretexto para no hacer nada”). la solución encontrada es el abandono de la casa. de Ernest Hemingway. en el fondo del pasillo que traía desde aquellas piezas hasta la puerta. personaje de “Chac Mool”. 508-509) Fui por el pasillo hasta enfrentar la entornada puerta de roble [.. 133) Cuando la invasión se hace completa. Encerrados en la seguridad de sus hogares – protecciones de lo ya establecido –. comprendida por lo que está por detrás de ellas. Borges destaca. p. (p. oponiéndose. siendo apenas la cara oculta de la realidad. la noción de lo fantástico no difiere de lo real. De forma similar. apenas buscan refugiarse cada vez más en el interior de la casa. Los mismos acontecimientos entran simultáneamente en dos lógicas narrativas antagónicas. (2004. 73) de lana para las tricotas de Irene. esos personajes presentan una falta de aspiración y una indiferencia con el mundo y la sociedad que los rodea. la cerré de golpe apoyando el cuerpo. las historias aparentes de las invasiones caracterizan formas literarias que subvierten padrones convencionales de la racionalidad. de geografías bien cartografiadas. al mismo tiempo o un segundo después. Representan mundos autárquicos y aislados. prácticamente no salen de casa. En los cuentos “Casa tomada” y “Chac Mool”.

sin ningún carácter investigativo.] Todas las leyes naturales lo rigen. dejé correr el agua de la cocina. pues él se desequilibra mentalmente y llega a ofrecer “sus servicios al Secretario de Recursos Hidráulicos para hacer llover en el desierto” (p.. xvii) . El Chac Mool. huir y dejar la casa es la única alternativa para Filiberto.. o mito passou a ser considerado o próprio real compreendido na simultaneidade de suas perspectivas prováveis” (1993. se escuchaban pasos en la escalera. primeramente. él pasa a enfrentar una serie de perturbaciones. y las lluvias se han colado. de que en la oscuridad laten más pulsos que el propio. p. Fue en el sótano que. Incauto. p. Sí. yuxtaponiendo los tiempos y alterando maravillosamente la realidad: […] lo real maravilloso comienza a serlo. Pero ya está aquí. donde la presencia concreta de una estatua gana vida y los elementos de lo maravilloso se asocian a los mitos de las culturas indígenas. elemento vinculado a Chac Mool en la mitología: “Amanecí con la tubería descompuesta. de una iluminación incomún o singularmente favorecedora de las escalas y categorías de la realidad. erguido. interliga el pasado con el presente.. por el momento en el sótano mientras reorganizo mi cuarto de trofeos a fin de darle cabida” (p. de manera inequívoca. 28). A partir del momento en que Filiberto lleva la estatua a su casa. visitar sitios arqueológicos y coleccionar piezas antiguas de la cultura mexicana. 16). con su barriga encarnada.. 15). aún no amanecía. y otras imaginarias”. entonces empezó a llover. alimentos e inclusive a ceder sus aposentos. y se desbordó por el suelo y llegó hasta el sótano” (p. la profundidad del sótano comienza a reavivar Chac Mool. (p. 15).. No sé cuánto tiempo pretendí dormir. por fin.. un despertar sobresaltado. Cuando volví a abrir los ojos. una vez que “la tubería volvió a descomponerse. la estatua adquiere vida y lo hace prisionero y esclavo de sus deseos: Y ayer. (1989. sin embargo. no su contradicción. mensajero que es. de una revelación privilegiada de la realidad. inundando el sótano” (p. p.] Chac Mool avanzó hacia la cama. [. [. 21). en el cuento de Fuentes. Filiberto es un funcionario público preso a una vida de rutinas y hábitos rígidos. cuando surge de una inesperada alteración de la realidad (el milagro).. con esa seguridad espantosa de que hay dos respiraciones en la noche. Allí estaba Chac Mool. que “la magia es la coronación o pesadilla de lo casual. 1976. Vuelta a dormir. sonriente. 335). Pesadilla. revelan actitudes mecánicas y superficiales. El cuarto olía a horror. percibidas con particular intensidad en virtud de una exaltación del espíritu que lo conduce a un modo de “estado límite”. todas en relación al agua. Su interés por “ciertas formas del arte indígena mexicano” no pasa de un deseo coleccionista. donde la réplica de un Chac Mool que él compra en una feria popular será nada más que un trofeo conquistado. e irán interferir en su trabajo. ocre. Así como el interior de las pirámides de los antiguos pueblos mexicanos preservaba los elementos culturales del pasado. Aumentando sus problemas. creando una atmósfera en que la tensión mental es provocada por difusos e inexplicables ruidos de algo apenas mencionado. en “Chac Mool” el “algo más” se revela por una sobrenaturalización de lo real. Para Bella Josef. Así. Filiberto colocó la estatua del Chac Mool. (CARPENTIER. Esas actividades. “na literatura hispano-americana. un objeto decorativo sin ninguna significación histórica o religiosa. el mundo de los antiguos mexicanos actuará sin ningún extrañamiento a la comprensión racional de la realidad.242 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS “Casa tomada”. a incienso y sangre. [.] Cuando sin aliento encendí la luz. Si en la historia fantástica de “Casa tomada” hay una naturalización de lo irreal. Los tormentos de Filiberto seguirán en casa. que lo obliga a buscar agua.. antes de llevarla a su cuarto de trofeos: “El traslado a la casa me costó más que la adquisición. 20-21) Dominado por la estatua. entre ellos.

que no constituyeron familias y permanecieron estériles: “A veces llegamos a creer que era ella [la casa] la que no nos dejó casarnos. porque nos damos mejor cuenta de su existencia. como barricada de una invasión. Las lecturas de los mismos libros que el hermano hace no añaden nada. De igual manera. Del mismo modo. modernizadas – también. la fuente de sodas [. 19) padres. ¿no lo son todos los muertos.. reales. a mí se me murió María Esther antes que llegáramos a comprometernos” (p. con la mitad de los cuartos bajo llave y empolvados. Y las estampillas reordenadas en el álbum no alteran la preservada antigüedad. y lo que era una antigua representación divina se reduce a un objeto decorativo que se compra en una tienda de feria que vende recuerdos para turistas. “ciertamente muy grande” y “única herencia y recuerdo” de sus .]. la cabeza fue a dar allá. 131). sin criados ni vida familiar” (p. el interés por un Chac Mool no demuestra ningún conocimiento por una cultura. ausente de valor e interferencia en la realización de su vida. Si es real un garrafón. quedamos a la mitad del camino” (p. es apenas un reflejo condicionado de su rutina.]. (p... y más. con la ciudad misma. real imagen monstruosa en un espejo de circo. Vivir “en aquel caserón antiguo. Irene rechazó dos pretendientes sin mayor motivo. Sin embargo. acomodado a una existencia uniforme. sin renovación. mientras el mundo se transformaba con el tiempo. presentes y olvidados? [. como relata el hermano: Hacíamos la limpieza por la mañana. sólo real cuando se le aprisiona en un caracol. Filiberto ya no distingue lo que es realidad o delirio. o estar. caracterizándose por la manutención de una disciplina que lo impidió de cualquier transformación o realización de un sueño. percepciones que se funden en la mente del personaje: […] todo es tan natural. y luego. 12). Real bocanada de cigarro efímera. pues no pasan de simples rellenos del tiempo.. (p.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 243 Cuando el Chac Mool se humaniza. siempre puntuales. 21) retrata su conformismo por no haber alcanzado los planes idealizados en la juventud: “parecíamos prometerlo todo. pero esto lo es. ya no quedaba nada por hacer fuera de unos pocos platos sucios. Como reconoce el hermano. lo que le causaba algún sufrimiento: “Sentí la angustia de no poder meter los dedos en el pasado y pegar los trozos de algún rompecabezas abandonado” (p. apenas mantiene la evasiva función de evitar el Su esfuerzo en mantener la casa.. se cree en lo real. una vez que consideraba que “desde 1939 no llegaba nada valioso a la Argentina” (p.. Con el café que casi no reconocía. No existe ningún avance y ninguna construcción.. Es incapaz de ambicionar un cambio. 11-12) La limpieza de la casa es una rutina que mantiene un pasado envejecido. 131) Filiberto es un sujeto de “tentaciones burocráticas”. hoy volví a sentarme en las sillas.. pues no realiza relaciones con otras obras.. habían ido cincelándose a ritmo distinto del mío”. Las ejecuciones mecánicas de sus tareas se tornan operaciones improductivas. Filiberto no acompañó los cambios: […] decidí gastar cinco pesos en un café. Nos resultaba grato almorzar pensando en la casa profunda y silenciosa y cómo nos bastábamos para mantenerla limpia. y nosotros no conocemos más que uno de los trozos desprendidos de su gran cuerpo. Es el mismo al que íbamos de jóvenes y al que ahora nunca concurro [. mecánica y mediocre. probablemente la casa haya interferido en las vidas de él y de Irene. y a eso de las once yo le dejaba a Irene las últimas habitaciones por repasar y me iba a la cocina. (p.] Realidad: cierto día la quebraron en mil pedazos. los hermanos de “Casa tomada” preservan la casa “espaciosa y antigua” que “guardaba los recuerdos” de infancia por el hábito de “persistir en ella”. la cola aquí. 132).. sin alteraciones en sus hábitos. Almorzábamos a mediodía. pues en toda su trayectoria de vida “había habido constancia”. si un bromista pinta de rojo el agua. Océano libre y ficticio. 11). Sus actividades también son repetitivas. En fin. levantándonos a las siete. más que lo creído por mí.

La vida de los hombres es una vida en profundidad. y poco a poco empezábamos a no pensar. como Filiberto. donde el ritmo de vida de viejos tiempos ya no encuentra lugar. 10) En el ensayo “La penúltima versión de la realidad”. (1989. seja pela constatação da ordem segundo a qual eles se organizam para formar um sistema. lo que hizo nacer el imperialismo.. p. bocinas. este por no conocer y respetar el pasado. el hombre materialista conquistó personas y territorios. En ese sentido. vivir el tiempo. um novo momento do modo de produção antigo. Si en “Chac Mool” es el pasado. del movimiento. irreal e impotente. ou melhor. Tanto los hermanos de “Casa tomada”. un acumulador de piezas de arte indígena que desfigura y anula sus representaciones del pasado. todo conceito se esgota no tempo. no se desenvuelven y no producen. “aparte de su actividad matinal pasaba el resto del día tejiendo en el sofá de su dormitorio. Mas nos toca fazer que se convertam em fatos históricos mediante a identificação das relações que os define. La expulsión o el abandono de sus casas son fantásticas o maravillosas cobranzas que el tiempo hace del aislamiento de Irene y su hermano y de Filiberto. más recientemente. isto é. únicos seres previsores e históricos. La vida de los vegetales es una vida en longitud. correndo o risco de confundir o presente com aquilo que já não o é.] a veces tejía un chaleco y después lo destejía en un momento porque algo no le agradaba (p. en “Casa tomada” los ruidos invasores pueden indicar el tiempo de la modernidad. sendo histórico. sin alteraciones que agreguen novedades. então. no interior de uma estrutura social. lo diferente y la transformación. cabría a los vegetales acumular energía. citando diferentes pensadores. 198) En esa clasificación. Presos en las recordaciones y en la manutención de lo mismo. Confortables en la mediocridad. Eso tornó la vida humana menos intensa y más extensa. [. que se apodera de la casa. altoparlantes. el geógrafo Milton Santos observa: Para apreender o presente é indispensável um esforço no sentido de dar as costas. Sem relações não há “fatos”. mas às categorias que ele nos legou. Se quiséssemos apreender o “presente como história” de Lukács e Sweezy. Los sonidos de máquinas. y aquellos por la indiferencia con el presente. que se reconhecem as categorias da realidade e as categorias de análise. Abdicando del tiempo y dado a la adquisición de objetos y pertenencias. Jorge Luis Borges presenta tres dimensiones de la vida: Tres dimensiones tiene la vida. apropiarse del espacio y. sob pena de nos perder em um presente abstrato. sin renovación o actualización. assim definida. Vivir sin pensar es no reconocer el pasar del tiempo. É por sua existência histórica. Largo. um modo de produção novo ou a transição entre os dois. 135). Os fatos estão todos aí. La segunda dimensión pertenece a la vida animal. no demuestran necesidades y tampoco ambiciones: “Estábamos bien.244 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS contacto con los ruidos invasores. sua história. p. exigiendo el reconocimiento de su presencia.. La tercera dimensión equivale a la vida humana. E. son obligados a abandonar sus casas porque no ofrecen espacio al transcurso del tiempo. 2002. . La permanencia y la conformación de lo establecido. que cierran la casa y a sí propios con el intuito de impedir la novedad. La primera dimensión corresponde a la vida vegetal. alarmas de autos y llamadas de teléfonos celulares son marcas indisimuladas de nuevos tiempos. ancho y profundidad. um novo sistema temporal. aún según Borges. seja pela observação de suas relações de causa e efeito. a los hombres. independentes de nós. los hermanos no crecen. representado por la estatua de una cultura antigua. deveríamos ver o passado como algo que encobre as raízes do presente. (SANTOS. despertadores y. Já não estaremos. não ao passado. La vida de los animales es una vida en latitud. Conservar categorias envelhecidas equivale a redigir um dogma. según Korzybski. Se puede vivir sin pensar” (p. de la vida. Ya Irene. um conceito. 131-132). a los animales. llevan a una inexistencia histórica.

CORTÁZAR. Prólogos. Carlos (2001): Chac Mool. SANTOS. Montevideo: Arca. FUENTES. São Paulo: Hucitec. Bella (1993): O espaço reconquistado. QUIROGA. Horacio (1970): Sobre literatura: obras inéditas y desconocidas.: Ediciones Era. 2ª ed. Cuentos completos. PIGLIA. El reino de este mundo. 10ª ed. 7. Vol. 1. Buenos Aires: Emecé. Obras completas. Buenos Aires: Nemont. Obras completas. JOSEF. Milton (1986): O presente como espaço. Buenos Aires: Emece. Obra crítica. . 8ª ed. Barcelona: Anagrama. Julio (2008): Casa tomada. _____ (2004): Algunos aspectos del cuento. Ficciones. CARPENTIER. Ricardo (2001): Tesis sobre el cuento. México D. 17ª ed. Jorge Luis (1989): La penúltima versión de la realidad. Alejo (1976): Prólogo. Vol. 17ª ed.F. São Paulo: Paz e Terra. Formas breves. Buenos Aires: Suma de Letras Argentina. 11ª ed. Bestiario. Buenos Aires: Punto de lectura. Los días enmascarados. Discusión. 2. Buenos Aires: Emece. GOTLIB.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 245 Referencias bibliográficas BORGES. 2ª ed. Vol. _____ (1992): Julio Cortázar: cuentos. São Paulo: Ática. Pensando o espaço do homem. Nádia Battella (2006): Teoria do conto. _____ (1989): Prólogo.

inclusive em seu quadro de variações dialetais. Como nosso objeto de estudo são os pedidos de informação e de ação. 2008. com o padrão entonacional L+<H*L% e L+>H*L%. por parte de falantes de LM? Nossas hipóteses são: (a) os aprendizes cariocas de ELE realizam os pedidos de informação e os pedidos de ação – em ELE como o fazem em PBLM. Para realizar o estudo da produção. ou seja. (b) os juízes reconhecem os pedidos.393). Nosso trabalho está organizado da seguinte forma: na sessão 1 definimos nosso objeto de estudo: . Do ponto de vista fonético e fonológico. a parte segmental está bastante descrita.246 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS PEDIDOS DE INFORMAÇÃO E PEDIDOS DE AÇÃO EM PORTUGUÊS E EM ESPANHOL: UM ESTUDO ENTONACIONAL DE PRODUÇÃO E PERCEPÇÃO Carolina Gomes da Silva PG/UFRJ Maristela da Silva Pinto UFRRJ Priscila Cristina Ferreira de Sá PG/UFRJ Introdução Dispomos de uma quantidade de informação relativamente importante para a sistematização dos níveis lexicais. (b) que características prosódicas esses falantes transferem de sua LM para a LE?. a fim de verificar a produção desses atos ilocutórios por aprendizes de ELE e a percepção de ditos atos por parte de nativos de diferentes áreas dialetais. Já para o estudo da percepção. descrevemos fonética e analisamos fonologicamente os pedidos de informação e os pedidos de ação em ELE. Em um segundo momento. respectivamente (MORAES. No entanto. contrastamos o estudo realizado por Moraes (2008) para o PBLM com o de Estevas Vilaplana & Prieto (2008) para o ELM. p. (c) a transferência prosódica da LM compromete a inteligibilidade e/ou gera um julgamento negativo da competência prosódica do falante de LE. mas julgam a entoação dos aprendizes como insuficiente. morfológicos e sintáticos no ensinoaprendizagem de espanhol como língua estrangeira (ELE). contamos com julgamento de nove juízes nativos de seis áreas dialetais distintas e de três aprendizes de ELE. pretendemos com este trabalho realizar uma analise contrastiva de tais pedidos em português brasileiro como língua materna (PBLM) e em espanhol madrileno como língua materna (ELM). nos perguntamos: (a) como os aprendizes cariocas de ELE produzem o acento tonal de tais pedidos?. a parte prosódica ainda precisa de mais estudo e descrição. Considerando as diferenças prosódicas já descritas entre o PBLM e o ELM.

para o ELM (fala madrilena): L*HH%. p. 19932012).94). diz respeito à percepção de ditos enunciados por falantes nativos de espanhol. Comparamos esses 24 enunciados em 1. Usamos as propostas de Moraes (2008). 3 do Chile. gravamos a leitura em voz alta de 24 enunciados interrogativos totais em ELE. para o PBLM (fala carioca): L+<H*L%. p. ele espera uma ação não verbal por parte do ouvinte. o enunciador pergunta algo que desconhece ao ouvinte e supõe que este detém a informação (KERBRAT-ORECCHIONI. Para dar conta da análise fonológica seguimos o sistema de notação Métrico Autossegmental (AM). considerando o formato do contorno entonacional e seus movimentos. Tais enunciados foram produzidos por dois informantes. No entanto. proposto por Pierrehumbert (1980) e Ladd (1996. ambos do sexo feminino. selecionamos 12 enunciados e os deslexicalizamos para que fossem julgados por nove juízes nativos de seis áreas dialetais distintas: 1 da Espanha. para o pedido de informação e L+>H*L%. 1999) marcando o tonema (ou núcleo) a partir de um tom alto (H) ou baixo (L). para o pedido de informação e H+L*L%.Atos ilocutórios: Pedidos de informação e pedidos de ação Os pedidos de informação e os pedidos de ação equivalem a atos ilocutórios diretivos. Andaluzia. cidade da Guatemala.Metodologia Nosso trabalho se divide em duas partes: a primeira se refere à análise da produção dos pedidos de informação e de ação por falantes brasileiros de ELE. na sessão 2 apresentamos a metodologia adotada. 1 de Honduras. com idade entre 25 e 35 anos. 1984 apud Wilson. 2 da Guatemala. Cabe ressaltar que o enunciador espera que o ouvinte lhe dê uma resposta com sim ou não. espera-se o cumprimento de um ato qualquer. ELE com quatro enunciados modelo. sendo dois de pedido de informação e dois de pedido de ação. 2011. A segunda. marcada na frase pela formulação interrogativa. adultos. sendo seis de pedidos de informação e seis de Vilaplana & Prieto (2008). pedidos de ação. Para o estudo da produção. 1 do Peru. como em “Renata jogava?”. esses pedidos apresentam diferenças entre si. Os contornos entonacionais dos enunciados analisados foram obtidos a partir do programa PRAAT (BOERSMA & WEENINK. Nos pedidos de informação. San Salvador. correspondendo a tentativas do falante de levar o ouvinte a fazer algo (Searle. na sessão 3 apresentamos os resultados e na sessão 4. Descrevemos esses 24 enunciados foneticamente e os analisamos fonologicamente. para o pedido de ação. Diferentemente dos pedidos de informação. 2005. cariocas. Lima. ou seja. e as de Estevas 2. nossas discussões e conclusões. com nível superior completo em Letras – Português/ Espanhol. como em “Destranca a janela?”. isto é. San Juan e por três falantes de . nos pedidos de ação.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 247 pedidos de informação e pedidos de ação. 1 de Porto Rio. embora o enunciador faça uma pergunta. para o pedido de ação. extraídos dos trabalhos de Moraes (2008) para o PBLM (fala carioca) e de Estevas Vilaplana & Prieto (2008) para o ELM (fala madrilena). Já para o estudo da percepção.102). professores de ELE e inseridos no mercado de trabalho. Santiago de Chile. Com relação à descrição fonética. espera uma ação verbal por parte do receptor. obser vamos o comportamento dos parâmetros acústicos de frequência fundamental (F0) e duração no tonema (último vocábulo tônico do enunciado) dos pedidos.

. em função da implementação da F0 e da duração. de 40 Hz da sílaba pretônica para tônica. Já nos pedidos de ação. em média. ELM e ELE são os d e inf o r mação e d e ação o ne ma/núc le o (Hz): p e did Média d e F0 das v o g ais no t de leo pe didos de info de vo to nema/núc ma/núcle Gráfico 1: Variação de média de F0 nas vogais pretônicas.248 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS ELE. com idade entre 20 e 45 anos. após ouvirem cada enunciado. se o juiz julgasse a entoação dada ao enunciado pelo sujeito como b o a . como ilustrado no gráfico 1. B.Produção Analisando os dados. se o juiz julgasse a entoação dada ao enunciado pelo sujeito como média e C .1. como não b bo analisados. a seguir. tiveram de definir o tipo de pedido (de informação ou de ação) e atribuir um conceito à entoação dada por nossos sujeitos aprendizes a cada um desses 12 enunciados. seguida de uma queda de 65 Hz da sílaba tônica para a pós-tônica. os pedidos de informação e os de ação em PBLM. Esses conceitos poderiam ser: A . os pedidos de informação e os de ação são analisados segundo o reconhecimento dos atos ilocutórios e a avaliação da entoação dos aprendizes por parte dos juízes. observamos que nos pedidos de informação os sujeitos implementam a F0 em ELE com uma subida. todos do Brasil. todos com nível superior. observamos que os sujeitos implementam a F0 em ELE com uma subida. tônicas e pós-tônicas do tonema dos pedidos de informação e ação em ELE. Rio de Janeiro. Já para o estudo da percepção.Resultados Para o estudo da produção. assim como em função de sua configuração tonal. falantes de espanhol nativos ou não. se o juiz julgasse a entoação dada ao enunciado pelo sujeito oa. sendo dois do sexo feminino e uma do sexo masculino. Cabe destacar que os três juízes cariocas são professores de ELE. seguida de uma queda de 73 Hz da tônica para a póstônica. 3. 3. Esses juízes/avaliadores. de 25 Hz da sílaba pretônica para tônica. em média.

2008. . fala madrilena: um contorno melódico final ascendente (L*HH%) para o pedido de informação e um contorno melódico final descendente (H+L*L%) para o pedido de ação. p. Análise Fonológica de Pedidos de Informação e Pedidos de Ação: Atribuição Tonal Pedido de Informação Português do Brasil (fala carioca): L+<H*L% (Moraes. observase um alinhamento antecipado na sílaba tônica. nos pedidos de ação. a distância em milissegundos correspondendo ao alinhamento tonal (pico. p. no primeiro caso e com alinhamento antecipado (L+>H*L%). vale) em relação à sílaba proeminente é inferior a 40% da duração total desta sílaba. 393) Espanhol Europeu (fala madrilena): L*HH% (Estevas Vilaplana & Prieto. No que concerne à atribuição tonal. sua língua materna e se diferencia do padrão descrito para o ELM. sendo com alinhamento tardio (L+<H*L%). ou seja. Qua dr oc o mpar at i vo da média d o alinhame nt ot o nal e mr e lação à sílaba p ro e mine nt e no t o ne ma/ Quadr dro co mparat ati do alinhament nto to em re pr minent nte to nema/ núc le o (%): p e did os d e inf o r mação e d e ação núcle leo pe didos de info de Gráfico 2: Há um alinhamento tardio médio de 890ms (89%) do total da sílaba proeminente. constatamos em nossas análises que os sujeitos realizam os contornos dos pedidos de informação e de ação em ELE com o contorno melódico final circunflexo L+H*L%. 2008. Sintetizamos estes resultados na tabela abaixo. a distância em milissegundos correspondendo ao alinhamento tonal (pico. 393) Espanhol Europeu (fala madrilena): H+L*L% ( Estevas Vilaplana & Prieto. 2008. nota-se que nos pedidos de informação há um alinhamento tardio na sílaba tônica. nos pedidos de informação e um alinhamento antecipado médio de 390ms (39%) do total da sílaba proeminente. 280) Espanhol/LE (falantes cariocas): L+<H*L% Pedido de Ação Português do Brasil (fala carioca): L+>H*L% (Moraes. 2008.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 249 Com relação ao comportamento da duração. vale) em relação à sílaba proeminente é superior a 60% da duração total desta sílaba. fala carioca. p. 280) Espanhol/LE (falantes cariocas): L+>H*L% Tabela 1: Síntese das atribuições tonais para os pedidos de informação e os de ação. ou seja. Por outro lado. como exemplificado no gráfico 2. no segundo caso. p. Tal atribuição se assemelha a atribuição tonal do PB.

7/3 9.0/1 7. Com os resultados obtidos através do teste de percepção.7).7/11 Tabela 3: Avaliação do julgamento dos juízes. . acreditamos que possa ter dificultado o reconhecimento por parte dos juízes. ou seja. confeccionamos uma matriz de confusão. San Juan Brasil. somente o prosódico. Rio de Janeiro Pedido de Informação 10.5/3 8. Notas at r ib uídas aos p e did os d e inf o r mação e d e ação atr ibuídas pe didos de info de Área dialetal dos juízes Espanha.3/5 7. nota-se que em 47% dos casos há reconhecimento dos pedidos de informação e 44% dos pedidos de ação.0/2 5. Cabe ressaltar que houve um maior número de reconhecimento do pedido de informação pelos juízes (vide tabela 3).3/5 5. nota-se que os juízes atribuem melhor nota para os pedidos de ação (7.0/9 Pedido de Ação 10. Como utilizamos neste teste de percepção enunciados deslexicalizados.250 3.0/4 7. Lima Porto Rico.6/6 3. sem o nível lexical.0/1 6.6) do que para os pedidos de informação (6. San Salvador Peru. isto é. Andaluzia Chile.6/6 5. É interessante observar que uma matriz de confusão Mat r iz d eC o nfusão: P e did os d e inf o r mação e d e ação atr de Co Pe didos de info de Percepção Produção Pedido de Informação Pedido de Ação Pedido de Informação 34 40 Tabela 2: Resultados na matriz de confusão.Percepção ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS permite confrontar pares binários de confusão. Santiago de Chile Guatemala. como ilustrado na tabela 2. Confrontando os dados referentes ao reconhecimento dos pedidos de informação e de ação.2. o que está sendo confundido com o que foi reconhecido. cidade da Guatemala Honduras.6/7 5. Pedido de Ação 38 32 Confrontando os dados referentes ao quantitativo de casos em que a intenção do aprendiz em produzir seus enunciados foi identificada pelos juízes.8/3 8.

WILSON. empregam o sistema de sua LM pelo qual filtram a fala da LE. gera um julgamento negativo da competência prosódica do falante de LE. Eva.) Manual de linguística. Em suma. Em: BARBOSA. João Antônio de (2008): The Pitch Accents in Brazilian Portuguese: analysis by synthesis. Disponível em: http://stel. 87 – 110. o acento tonal nuclear mais frequente apresenta subida da sílaba pretônica para tônica seguida de uma queda da sílaba tônica para pós-tônica. com este trabalho contribuir no ensino da oralidade do Espanhol como língua estrangeira. mas são poucos os estudos que tratam especificamente da relação entre entoação e atos ilocutórios. & PRIETO. No ensino de espanhol como língua estrangeira são muitos os trabalhos que apresentam as dificuldades enfrentadas por um brasileiro aprendiz dessa língua. com alinhamento tardio do pico na sílaba tônica.edu/labfon/sites/default/files/XVII-15.uva. Pilar (2008): La notación prosódica del español: una revisión del Sp_ToBI. Niterói: EdUFF.pdf. Sandra & REIS. Disponível em: http://www. . Plinio. portanto. Catherine (2005): Os atos de linguagem no discurso.). quando não compromete a inteligibilidade. Esperamos. Paul & WEENINK. MADUREIRA. Victoria (2011): Motivações pragmáticas. os aprendizes tendem a se basear no sistema prosódico da sua LM. Em: MARTELOTTA. KERBRAT_ORECCHIONI. com a descrição dos contornos entonacionais dos enunciados na LM e na LE. com alinhamento antecipado do pico na sílaba tônica. fato este que dificulta a inteligibilidade da produção oral do falante de LE e. p. por parte de falantes de LM.: Proceedings of the Speech Prosody The Fourth International Conference in Speech Prosody. Campinas: IEL. os aprendizes de LE têm elementos para contrastar marcas específicas da LM com as da LE e se tornam capazes de minimizar as transferências prosódicas de sua LM quando se expressam na LE.ub. pois acreditamos que.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 251 Conclusões Constatamos com este estudo que o acento tonal nuclear mais frequente produzido pelos falantes brasileiros aprendizes de ELE nos enunciados interrogativos totais que funcionam como pedido de informação apresenta subida da sílaba pretônica para tônica seguida de uma queda da sílaba tônica para pós-tônica.hum. Referências bibliográficas BOERSMA. Em: Estudios de fonética experimental XVII. São Paulo: Contexto. CÉSAR (eds. MORAES. Mário Eduardo (org. David (1993-2012): Praat.fon.nl/praat/ ESTEBAS VILAPLANA. Acessado em 05/02/2012. Já para o pedido de ação. em outras palavras.

visamos observar. 27). da obra cervantina e Heliana. I. na obra O Romance d’ A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta. o “eu lírico” atribui a castidade de Dom Quixote à incompetência de Sancho como alcoviteiro. Nossa intenção é mostrar como. em uma perspectiva comparatista. Dulcinéia é. Não há na obra de Cervantes uma descrição precisa da personagem. as duas são descritas a par tir de modelos literários pré-existentes. Das 669 personagens que compõe a obra de Cervantes (RILEY. 2000. sem dúvida. ou seja. ora como uma feia prostituta. Preliminares. Desaguisado contra vos comete. Neste trabalho pretendemos estabelecer algumas relações entre as personagens Dulcinéia del Toboso. 152). Dulcinéia é descrita como “famosa. 33) Essa dualidade da personagem será reforçada e reiterada ao longo da obra. do livro de Suassuna. mais especificamente o livro El ingenioso hidalgo Don Quijote de La Mancha. como ambas são construídas a partir de um processo metaficcional. como “una moza labradora de muy . Necio él. Já nos poemas introdutórios. En tal desmán vueso conorte sea Que Sancho Panza fue mal alcagüete. Ni a vuesas cuitas muestra talante. honesta y sabia” e em “De Solisdán a Don Quijote de la Mancha”. p. p. dura ella y vos no amante. mas uma multiplicidade de pontos de vista 3 que incidem sobre ela e que propiciam inúmeras leituras de Dulcinéia. no primeiro capítulo. por um lado. sugerindo-nos a possibilidade de uma união carnal entre Dom Quixote e Dulcinéia e colocando sua honestidade em dúvida: Y si la vuesa linda Dulcinea. Iniciemos por Dulcinéia.252 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS DE DULCINÉIA A HELIANA: PERSPECTIVISMO E METAFICÇÃO Célia Navarro Flores Universidade Federal de Sergipe – UFS Em nossa pesquisa atual1. (DQ. A única descrição mais confiável seria a do narrador. I. a influência da obra cervantina. sob diferentes perspectivas e. uma das mais misteriosas2. No poema “La señora Oriana a Dulcinea del Toboso” (DQ. p. do escritor brasileiro Ariano Suassuna. tanto Dulcinéia como Heliana são apresentadas ao leitor de forma ambígua. Dulcinéia ora será descrita como uma linda princesa. podemos observar diferentes pontos de vista sobre a personagem. que nos apresenta Aldonza Lorenzo. Preliminares. por outro.

de donde se infiere que.) que su nombre es Dulcinea. marfil sus manos. a intenção de Sancho é destruir o universo de Dom Quixote. el Toboso. sus mejillas rosas. sus labios corales. en lo de la alteza del linaje no corre parejas con las Orianas.. Quando Sancho descobre que Dulcinéia é Aldonza Lorenzo. pérolas etc. da segunda parte. mármol su pecho. p. con las Madasimas. Na obra de Suassuna. Ao longo do livro de Cervantes. pues es reina y señora mía. sus cejas arcos del cielo. pues en ella se vienen a hacer verdaderos todos los imposibles y quiméricos atributos de belleza que los poetas dan a sus damas: que sus cabellos son oro. ao rebaixá-la a uma e prostituta. peito e mãos) e a comparação com elementos nobres da natureza (ouro. olhos.). no capítulo 1 da primeira parte. não é um cavaleiro. sus ojos soles. sobrancelhas. ou seja. II. o protagonistanarrador. corais. não é delicada como uma princesa. y que sea hermosa en sumo grado que vuesa merced nos la pinta. tomando como modelo uma vizinha por quem durante algum tempo andou apaixonado. alabastro su cuello. Dom Quixote mobiliza todo um sistema de descrição do modelo feminino herdado da literatura renascentista 5: a descrição a partir da parte superior do corpo (cabelos. Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna. un lugar de la Mancha. lábios. “inventa” Dulcinéia del Toboso. Dom Quixote descreve Dulcinéia diversas vezes. como em português. bochechas. Como todo bom cavaleiro. su blancura nieve (. ele diz que ela seria uma mulher de “pelo en pecho” — que tanto pode significar “valente” quanto referir-se ao caráter masculinizado de Dulcinéia —. ou seja. 32) Vejamos agora como Ariano Suassuna se vale da mesma estratégia para criar a personagem Heliana. O romance que está escrevendo é uma epopeia. de quien están llenas las historias que vuesa merced bien sabe. p. nessa descrição. 283). uma das melhores descrições é a do capítulo 13 da primeira parte. Sancho também sentiria um desejo reprimido por Dulcinéia e. p. perlas sus dientes.).. à diferença de Dom Quixote. su hermosura. sol. dentes. estaria tornandoa uma mulher acessível a ele. sua voz se assemelha ao som de um sino e é uma mulher de talhe robusto (“qué rejo tiene”). (. I. Enfatizamos. Dom Quixote conscientemente a descreve a imitação dos “poetas”. episódio em que Sancho engana Dom Quixote ao afirmar que três feias lavradoras seriam Dulcinéia acompanhada de duas damas. 44). su frente campos elíseos. con las Alastrajareas. mas um escritor. da qual o protagonista é Sinésio..ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 253 buen parecer”4 (DQ. (DQ. su calidad por lo menos ha de ser princesa. Alonso Quijano necessita uma dama por quem se enamorar e. 141-142) Nesta descrição. sobrehumana. pescoço. a qual se personifica no capítulo X. I. um cavaleiro que — após ser raptado e preso — volta . (DQ. 1. testa. o duque põe em dúvida a existência e a linhagem de Dulcinéia e novamente se alude à literatura ao comparar Dulcinéia com as damas dos livros de cavalarias: — Así es — dijo el duque. —(. no capítulo 25 da primeira parte (p. 13. No capítulo 32 da segunda parte. A perspectiva de Dom Quixote sobre Dulcinéia é oposta a de Sancho.) Solo sé decir. puesto que se conceda que hay Dulcinea en el Toboso o fuera de él. “prostituta” e “burlar com alguém” pode significar “ter relações sexuais” — também a descrição das atividades realizadas por Aldonza (“rastrillando lino o trillando en las eras”) tem conotação sexual. a expressão “todos los imposibles y quiméricos atributos de belleza que los poetas 6 dan a sus damas”. ni con otras deste jaez. su patria.... Sancho a rebaixa ainda mais ao compará-la a uma prostituta afirmando que ela “tiene mucho de cortesana: con todos se burla”: “cortesã” também significa. Vejamos rapidamente dois pontos de vista: o de Sancho e o de Dom Quixote. Segundo González (2010). pero hame de dar licencia el señor don Quijote para que diga lo que me fuerza a decir la historia que de sus hazañas he leído. Sancho cria o que González chamou de “la antidulcinea”.

Heliana é a perfeita dama de cavaleiro andante dos livros de ficção. Gustavo conta a Clara que. Ariano Suassuna está criando uma antiheliana. 207. porém o pai de Sinésio e o de Heliana tinham acordado que Sinésio se casaria com Clara. logo o amor de Sinésio por Heliana era secreto e impossível. naquela Fortaleza afastada (SUASSUNA. coincidentemente. astrosa e fatídica” (SUASSUNA. Dulcinéia é inventada por Dom Quixote a partir de um processo metaficcional. como veremos. a não ser. a senhora idosa. da mesma forma que Cervantes criou a antidulcinéia. 2007. o amor da vida de Sinésio. ou . Assim como Dulcinéia.. Ou seja. Heliana sempre foi meio estranha e selvagem. parenta de Clara conta a Quaderna que ouviu uma conversa entre Clara e Gustavo. mostrando-nos uma faceta da personagem que se opõe à imagem de perfeita dama. Heliana retirou o mel da colmeia. Quaderna nos conta que costumava dar consultas astrológicas em seu gabinete. a dama pintada em seu escudo aparece com as mãos cobertas.254 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS para vingar a morte de seu pai. assim como Dulcinéia. “Nós já temos passado por outras situações semelhantes. desde menina! (. Sinésio7. Quaderna considera “uma coincidência epopeica.) É por causa de Heliana que ele (o pai delas) prefere viver isolado. Até aqui. p. presenciou um ato estranho de Heliana: a acompanhante da moça. Entretanto. não acho nada de censurável no que ela faz. porém. Como vimos. é a mulher lasciva.). o cavaleiro está enamorado por uma mulher que cobre as mãos e. Maria Elvira. nunca ouvimos a voz de Heliana. 498) (. vivia com as mãos cobertas e não permita que nenhum homem as descobrisse. Com isso queremos evidenciar o fato de que Heliana é a típica dama dos romances de cavalaria. a qual é descrita como uma dama dos livros de cavalaria. o narrador nos conta que a moça possuía hábitos estranhos e constrangedores. contou que Gustavo descreveu a Clara o ato obsceno de Heliana. Se por um lado é a dama dos livros de cavalaria. personagem que estava enamorado por Clara. Maria Elvira. uma senhora idosa. Encontramos aqui a dicotomia pureza/lascívia presente na personagem de Cervantes. que desempenha o papel das “dueñas” dos livros de cavalarias. 207. Tais quais as damas dos livros de cavalaria. que vive isolada do mundo por seu pai e que tem seu rosto estampado no escudo de seu cavaleiro. p. que unta os seios com mel. 47) o fato de que Heliana. mesmo quando os outros acham que aquilo é mais do que esquisitice!” (SUASSUNA. desabotoou o vestido e começou a passar mel nos mamilos. Heliana é apresentada ao leitor por meios tortuosos: Quaderna conta ao Corregedor que uma informante sua.. Em uma delas. irmã de Heliana. “estranha e selvagem”. Quaderna nos conta que Sinésio havia se apaixonado por Heliana quando ainda crianças. ao nos apresentar a personagem sob diferentes perspectivas. Nessa conversa. ela apresenta algumas ambiguidades. com um graveto. sempre são outros personagens que se referem a ela. Poderíamos dizer que. todas constrangedoras. A dama de Sinésio é Heliana.. nós já estamos todos habituados com as estranhezas de Heliana! Não é que eu tenha vergonha nenhuma dela. Ao descrever as roupas do Donzel Sinésio. Como vimos. a história de Heliana passou de boca em boca até chegar aos ouvidos do corregedor e aos olhos do leitor. fizera uma pequena fogueira para afugentar as abelhas de uma colmeia e. Heliana é mostrada em diferentes facetas. por outro. Quaderna observa que em sua capa havia um escudo bordado com a figura de uma mulher de cabelos soltos e com as mãos cobertas.. Clara conta que a família já está acostumada com as esquisitices de Heliana: — “La em casa. as irmãs Heliana e Clara vivem isoladas em uma fortaleza construída pelo pai e são acompanhadas por uma criada. ocultamente. 499). Assim como Dulcinéia.

que era irmão de Sinésio. neste breve trabalho vimos como a personagem do Romance d’A Pedra do Reino. assim era Heliana! E eu. Vejamos. 2007. é uma síntese das duas. a urtiga. irmã de Gustavo e noiva de Arésio. Assim como Dulcinéia. porém. O mel. era espanto e unidade. presente em Dulcinéia. peão. com “H”. isto é. depois. p.) (SUASSUNA. temos dois protagonistas que aparentemente se opõem (Dom Quixote e Sancho). Quaderna compara Clara com Genoveva Moraes. as duas são opostas.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 255 seja. quando Dom Quixote descreve sua amada a partir dos retratos femininos da Literatura renascentista. imagens relacionadas ao fogo: “ar ard nte ar d e nt den t es f o g o e o canto do sangue”. unindo a Verbena. Ao mencionar Lucíola. Samuel branco e Quaderna. como o jogo de damas. Sr. as cartas. Heliana é considerada a dama de um cavaleiro e é apresentada ao leitor por. Corregedor. despertava nela a mulher. o calor e o sol são elementos recorrentes no Romance d’A Pedra do Reino. Depois.. Enfim. morena.. como vimos anteriormente — também apresenta a cor do sol. Clemente preferia a dama (negros contra brancos). e sim em unidade. torre etc). (. 504) fragmento “o mel de abelhas” e “embebidas em mel” — elemento relacionado à Heliana. Posteriormente. mais sofisticado e reproduz os personagens da corte (rei. nas quais há também reis e rainhas como no xadrez e há os naipes com duas cores. que é descrita em comparação com as mulheres das obras de José de Alencar. pelo que pude ver e adivinhar de seu amor por Sinésio. O movimento armorial9 encabeçado por Suassuna nos anos 70 procura criar uma arte erudita a partir das raízes populares. O cabelo dela era como se tivesse sido formado somando-se o louro de Ceci e Clara com o escuro de Lucíola e Isabel. a ficção se remete à própria ficção. Samuel preferia o jogo de xadrez. Heliana apresenta facetas opostas: o “negro escarlate da paixão e a cassa da Pureza”. essas oposições estão em perfeita unidade. uma recorrência de e e no cio”. macio. mas se conjugam. Genoveva como Isabel: uma. “d d our av a as oura “d oura d our sol”. Quaderna atribui a Heliana a faceta prostituta. fino. Essa ideia de síntese está na própria concepção da obra de Suassuna: o Romance d’A Pedra do Reino é um modelo do que Suassuna chama de “romance armorial”. É que.. diferentemente de Dulcinéia. poderia dizer dela tudo o que José de Alencar disse de tantas outras.. a outra. o Vinho. O mesmo processo ocorre com Heliana. personagem do livro de Cervantes por diversos vieses. pois Heliana. cavalo. em Heliana. sempre separando em muitas o que. a mesma idade da irmã de Lucíola. deriva de Helios. entretanto. o fogo de Isabel e o angelical de Ceci.). Assim como Dulcinéia. e Quaderna. duas diferentes perspectivas: a mulher casta Notamos no fragmento. ambas ardentes. “ambas a r rd te s”. O fogo. “aveludada pela pubescência”. que aparece duas vezes no . fruto e chamas embebidas em mel”. fogo e canto do sangue.. o amor felino da Onça jovem e fêmea. Heliana pode ser comparada com Dulcinéia del Toboso.) Clara era como Cecília8. na obra de Suassuna temos três: Clemente. De fato. quando eu e Sinésio vimos pela primeira vez aquela que seria a Dama e princesa de sua vida. “c c hamas embebida em mel”. na “atitude da corça arisca”. Essa unidade buscada a partir de oposições (a união dos contrastes) é constante na obra de Suassuna. Inicialmente. Quaderna compara Heliana às personagens de Alencar: (.. ardente e no cio. não em contradição e separadamente. “f a d o ”. Fogo presente também coxas”. como a Emília de Diva. Para Suassuna popular e erudito não se opõem. que significa “sol”. Seu amor era “vinho. Heliana. a urze. dourado. jogo mais simples e popular. negro. tendo conhecido Heliana como menina-e-moça e. “morenadas pelo sol em seu nome. Era um fruto verde. pelo menos. o negro-escarlate da Paixão e a cassa da Pureza. Enquanto na obra de Cervantes. como moça e mulher. ela estava com doze anos. para dar um castanho-claro. Para ele. o mel de abelhas. e era daí que se originava também a penugem macia e rara que lhe dourava as coxas “alvas mas amorenada pelo sol” (. que é a síntese dos dois: moreno. loura e angélica. Mas Heliana juntava tudo isso. rainha. segundo o narrador.

FLORES. Barcelona: Crítica. Sobre Suassuna e o movimento armorial. pp. 5 6 7 Lembremos do famoso poema de Góngora “Mientras por competir con tu cabello”. Edward. Heliana apresenta as características de uma dama (rosto pintado no escudo e amada secretamente pelo cavaleiro Sinésio. Para um estudo mais profundo sobre a construção da personagem Dulcinéia na obra de Cervantes. em 2007. (2005) Perspectivismo y existencialismo. DIDER. Dirigida por Francisco Rico. Miguel de (1998). (2000). porém uma cortesã para Sancho. 262-276). Em Introducción al Quijote. assim como Dulcinéia é uma princesa para Dom Quixote. Recife: Editora Universitária da UFPE. CLOSE. Célia Navarro (2007). defendida na Universidade de São Paulo. ver DIDIER (2000). Maria Thereza. Tanto uma como outra é descrita. tese defendida na Universidade de São Paulo. (2000) Ideales e ilusiones. nº 14. Edición del Instituto Cervantes. Em Lemir . à imitação dos cavaleiros ficcionais. em determinado momento. Dulcinéia é descrita por Dom Quixote a partir dos retratos femininos da poesia renascentista e Heliana é uma das personagens femininas de José de Alencar. 205-215. em um processo de metaficção. a partir da própria literatura. GONZÁLEZ. Edward. 3 Sobre o perspectivismo no Quixote. (2000) Modos de ser. é descrita como “estranha” e pratica atos. Sancho Pança e Dulcinéia del Toboso.256 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS e a lasciva. de José de Alencar. Dom Quixote pretende pintar um retrato de Dulcinéia em seu escudo. 8 9 Cecília e Isabel são personagens de O Guarani. 4 Lembremos que Dom Quixote desautoriza o narrador/autor. RILEY. p. Em La concepción romántica del Quijote. Don Quijote de La Mancha . é mentiroso. Lembremos que. quando diz que por ser árabe. Notas 1 2 A pesquisa conta com o apoio do CNPq. Referências bibliográficas CERVANTES. remetemos o leitor ao texto de Close (2005. Da palavra ao traço: Dom Quixote. RILEY. Mario M. Anthony. vive isolada em uma fortaleza) e. Rio de Janeiro: José Olympio. Sancho Pança e Dulcinéia del Toboso . Barcelona: Crítica. . ao mesmo tempo. Barcelona: Crítica. Emblemas da sagração armorial. que poderíamos considerar lascivos. ver nossa tese de doutoramente “Da palavra ao traço: Dom Quixote. Ariano. SUASSUNA. (2007) Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai e volta. no qual ele apresenta os principais estudos sobre o tema. Cide Hamete Benengeli. Ariano Suassuna e o movimento armorial 1970/ 76. (2010) Las transformaciones de Aldonza Lorenzo. Barcelona: Crítica. Em Introducción al Quijote. Grifo nosso.

tuvo una infancia de expósita. por isso. Dominda de Adviento.UFF Neste trabalho abordo o comportamento da personagem Sierva María de Todos los Angeles da obra Del amor y otros demonios de Gabriel García Márquez. principalmente pela Igreja Católica. constitui. é quem a cria dentro de seus costumes. que não ultrapassa os 13 anos de idade. a personagem adquire um comportamento semelhante ao dos escravos e. uma estratégia da Igreja Católica para a perpetuação do poder eclesiástico através da imposição do discurso religioso. que não aceita nenhuma explicação médica. apesar da pele branca. no romance. Mesmo tendo um quarto na casa grande. Para a Igreja. dado por sua mãe. Seu comportamento rotulado como “negro” passa a ser mal interpretado pela sociedade local. além de possuir um nome de batismo visivelmente católico. esse discurso servia à legitimação da inquisição e do sistema escravocrata. reproduzidas pela personagem. Trata-se de uma menina que possui um comportamento identificado com o ethos negroafricano.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 257 SIERVA MARÍA DE TODOS LOS ÁNGELES E MARIA MANDINGA Cinthia Belonia PG . E foi ali que cresceu: La niña. hija de noble y plebeya. Sierva María de Todos los Angeles é uma personagem complexa. após ter sido mordida por um cachorro raivoso em companhia de negros. ela dormia na rede do pátio dos escravos junto das outras escravas da casa. A demonologização das práticas culturais de origem negro-africana e ameríndia. escrava governanta da casa. do título de marquesa. da posição social considerável em sua cidade e de um nome de batismo católico. La madre la odió desde que le dio de . a menina é vítima de uma manifestação demoníaca. quando. pois após seu nascimento foi negligenciada por seus pais. À época (século XVIII na América espanhola). Tal personagem é uma menina branca que fora criada no pátio dos escravos de sua casa. Devido a essa criação. estigmatizavam-se as pessoas que contraiam a raiva (Rhabdoviridae). Durante o vice-reinado da Colômbia. aguça a suspeição já existente sobre seu comportamento identificado com o ethos dos escravos. recebe também um nome com a marca da migração interlinguística crioula. que caracteriza um ato de exclusão e discriminação: María Mandinga.

o preconceito étnico-social. culturais e de poder (BHABHA. Sobre isso o pensador indo-britânico Homi Bhabha em O local da cultura nos diz que: A invisibilidade apaga a autopresença daquele “Eu” em termos do qual funcionam os conceitos tradicionais de agência política e domínio narrativo. y siempre con una máscara. proporcionava a Sierva María um sentimento de proteção em relação à sociedade escravocrata. podemos chamar de astúcia. p. aprendió tres lenguas africanas al mismo tiempo. y se negó a tenerla con ella por temor de matarla. una deidad yoruba de sexo incierto. cuyo rostro se presume tan temible que sólo se deja ver en sueños. além de transitar também no mundo dos negros por se identificar com os mesmos. Caracterítica típica dos negros e dos colonizados para sobreviverem num mundo de repressão. Dominga de Adviento la amamantó. através da metáfora literária. Stuart Hall afirma que: A distinção de nossa cultura é manifestadamente o resultado do maior entrelaçamento e fusão. 2007.258 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS mamar por la única vez. filha dessa colonização. Sobre esse aspecto da personagem. O que toma (o) lugar. Sierva María aprendió a bailar desde antes de hablar. Por isso híbrida. y un tercero había muerto del mal de rabia en la segunda semana. mas também não tão igual aos negros. Transpuesta en el patio de los esclavos. asiáticos e europeus. ao mostrar que em sociedades estratificadas até os cachorros são preconceituosos. 2011. Além dela. 2007. 31). cor. de diferentes elementos culturais africanos. era capaz de atravessar a fronteira que há entre senhores e escravos. . como nos ensina Bhabha. a marquesinha branca cresceu diferente dos seus. a beber sangre de gallo en ayunas y deslizarse por entre los cristianos sin ser vista ni sentida. Esse resultado híbrido não pode mais ser facilmente desagregado em seus elementos “autênticos” de origem (HALL. Esta duplicação resiste ao tradicional elo causal que explica o racismo metropolitano contemporâneo como resultado dos preconceitos históricos das nações imperialistas.54). baseada em suas estruturas simbólica e espacial comuns – a estrutura maniqueísta de Fanon – articuladas dentro de diferentes relações temporais. o Hemisfério Sul da escravidão e o Hemisfério Norte da diáspora e da migração. Afinal. Fazendo sua mãe acreditar que o cachorro contraíra raiva após mordê-la. A Dos habían desaparecido. la bautizó en Cristo y la consagró a Olokun. na qual nenhum colonizado poderia experimentar a mesma liberdade que ela. por não podermos classificar a personagem numa única identidade. p. A exclusão geográfica. ela não era uma deles. no sentido do suplemento derridiano. também foram mordidos três escravos negros. e essa livre transição não era permitida aos colonizados. Ele atravessa as fronteiras entre senhor e escravo. sin duda escamoteados por los suyos para tratar de hechizarlos. na fornalha da sociedade colonial. Pois a menina tinha liberdade para transitar no mundo dos brancos por ser essa a sua Diferente das outras vítimas. y estaba agonizando en el hospital del Amor de Dios (MÁRQUEZ. Como uma hispano-americana que era. demarcada pela fronteira que separava o pátio da Casa Grande. 2007. Meses depois: O pátio dos escravos constituía o local onde Sierva María se sentia livre para manifestar seu comportamento dúbio sem sofrer nenhum tipo de discriminação. que então se tornam estranhamente duplicados no centenário fantasmático do inconsciente político. A história de Sierva María inicia após ela ser mordida por um cachorro na rua quando passeava com uma das escravas fazendo compras para a festa de seus 12 anos. Había un cuarto que no fue mordido sino apenas salpicado por la baba del mismo perro. Graças a essa criação negra. é o mau olho desencarnado. ele abre um espaço interalar entre os dois locais do poema. p. Sobre esse hibridismo. mas. Sierva María estava completamente sã. como un ser inmaterial (MÁRQUEZ. por mais que se parecesse com eles devido aos costumes que mantinha. a instância subalterna que executa a sua vingança circulando sem ser visto.24). 91). p. ela possui características do pluriculturalismo que identifica muitos povos colonizados. O que ela de fato sugere é uma nova compreensão de ambas as formas de racismo. É possível que o narrador tenha escolhido esses personagens para sublinhar. conseguindo passar entre os cristãos sem ser vista.

As raças de pele clara terminaram desprezando as raças de pele escura e estas se recusam a continuar aceitando a condição modesta que lhe pretendem impor (BURNS apud FANON. Considerava a menina de uma presença fantasmagórica e muito assustadora. conotação pejorativa. principalmente aos brancos. Desenvolveu. p. também. pois comia com as escravas o que era servido no pátio onde eles viviam. Sierva María era branca. E de fato a menina se comporta de forma diferente entre um e outro. Esse comportamento se apresentava nas danças africanas que a personagem aprendera desde muito nova. p. 2007. E alternava seu nome com um nome africano que havia inventado: María Mandinga. Bernarda Cabrera marca a diferença entre as duas. p. aos olhos do Fanon retoma Sartre. não poderiam sofrer a humilhação de ter uma filha com raiva. con la condicíon de que la muerte de la niña fuera por una causa digna” (MÁRQUEZ. Ao falar a língua dos negros. aqui. Possuía. visto que: Toda a projeção eufórica do mestiço passa pela reabilitação dos seus componentes raciais: se a mistura de sangues se torna aceitável para o branco. que diz que “é o antisemita que faz o judeu” (SARTRE apud FANON. um paladar culinário exótico comparado com o europeu. 2008. o status de humanidade. por isso de uma posição social insegura. e depois o amargo ressentimento daqueles que foram oprimidos e frequentemente injuriados. Mesmo antes da menina ser mordida pelo cachorro. mas sim assume os valores negro do povo no qual se identificava. sua mãe já a considerava de um comportamento diferente. possuía hábitos e valores negros. por identificação cultural e afetiva. p. católico e europeu (Maria) com o negro. além desse comportamento.90). nas línguas mandinga. sem se levar em conta as suas aquisições educativas e sociais. Frantz Fanon fala em Pele negra Máscaras brancas que o negro tem duas dimensões. a menina aproveitava para assustar a mãe fazendo um barulho estranho. p. E “ella le aumentaba el susto con una retahíla en lengua yoruba” (MÁRQUEZ. por ter sido colonizado e escravizado. Ela não assume os valores da metrópole. que a menina conhecera antes mesmo do castelhano. congo e iorubá. se igualando sempre aos negros. através dela.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 259 ironia. para poder dizer . através de Burns. Tal nome era uma forma da mãe demonstrar seu preconceito com os negros e com o comportamento da filha que se assemelhava ao deles. 110). ela suporta. Renomeando a filha. Pois. Um nome que combinava o branco. ela tornou-se o critério através do qual os homens são julgados. O negro. 2008. o peso desse povo. Sierva María assume essa cultura. é porque o negro e o índio adquirem status de humanidade e as suas culturas começam a ser repensadas dentro dos novos enfoques da História (CHIAMPI. no entanto. por isso o índio e o crioulo (nesse caso não se trata da cor da pele) não adquiriram. nada mais é do que uma criação europeia.56). sendo ela filha de índio e seu marido um crioulo1. excluindo-a e exilando-a em um mundo (o dos escravos) onde a carga semântica do nome ganha. 2007. Como a cor é sinal exterior mais visível da raça. colonizador. Sabendo disso. do país colonizador. Mesmo assim “estaba dispuesta a hacer la farsa de las lágrimas y a guardar un luto de madre adolorida por preservar su honra. que quem cria o inferiorizado é o racista: O preconceito de cor nada mais é do que a raiva irracional de uma raça por outra. traduzindo o preconceito étnico-cultural característico do período colonial. o costume de mentir por vício. a forma como a mãe se referia à filha. Sua mãe costumava dizer que a única coisa que a menina tinha de branco era a cor.25). tão comum nas obras de García Márquez. exemplifica.116). o desprezo dos povos fortes e ricos por aqueles que eles consideram inferiores. Como se só confiasse nos negros. pois antes . afroreligioso e africano (Mandinga). uma com seus semelhantes e outra com o branco. como diz Fanon.

do pecado. Este conversa com o pai da menina. Stuart Hall fala sobre o hibridismo religioso que presenciou tanto no Haiti como na Jamaica. considera junto a este que o corpo da menina não tem salvação. a los noventa y tres días de ser mordida por el perro y sin ningún síntoma de la rabia” (MÁRQUEZ. p32). numa época de Inquisição. 2007. Mas o que incomodava a Igreja era a sabedoria do médico. cristão e vodu. [. do opressor” (FANON. p. 38). do estrangeiro e colonizador. p. mas sim para o “camino do branco. animal e. o marquês de Casalduero se convence de que deve internar sua filha no convento de Santa Clara. o contemporâneo pintor francês André Pierre “fazia uma prece a ambos os deuses. A menina é internada num convento porque. 71). O bispo diz ainda. e explica que o que há com ela é uma possessão.67). 2007. onde. mas que permanece em sua indecidibilidade” (HALL. 20). como um selvagem. se é negro – tanto faz se isso se refira à sujeira física ou à sujeira moral” (FANON. Pois a Igreja é de brancos. E assim como Dominga de Adviento. segundo Hall. pois o que se dizia nas ruas era que a menina “rueda por los suelos presa de convulsiones obscenas y ladrando en jerga de idólatras” (MÁRQUEZ. e os dois dizem que Deus os deu meios para salvar sua alma. pois a diferença é essencial ao significado. com isso. E acrescenta: “fala-se de trevas quando se é sujo. Na Europa o mal é sempre representado pelo negro. 1961. p. pôde sentir a “África” devido à forma como os deuses africanos foram combinados com os santos cristãos no vodu haitiano. Em Os condenados da terra. em todo lugar há a différance. 2008. era uma boa propaganda para a Igreja Católica. Nos diria Hall.76-77). que se atém a duas religiões. tanto na figura do carrasco quanto na figura de Satã. agonístico uma vez que nunca se completa. O escândalo dos vexames e desvarios de Sierva María chega aos ouvidos do bispo da diocese. e sabia que a personagem não estava possessa. a escrava governanta da casa e quem criara Sierva María: “Se había hecho católica sin renunciar a su fe yoruba. que a menina não deveria estar aos cuidados do médico Abrenúncio. Ao perguntarem o que aconteceu com seu tornozelo. Delaura. Fanon diz que a Igreja das colônias não chamavam os colonizados para a religão. leva-a até a cozinha. p. marquês de Casalduero. Ao querer salvar a alma da personagem. o que o bispo realmente pretende é colonizar e usá-la como exemplo e demonologizar as práticas culturais oriunda dos negros e ameríndios. Quem fazia a ligação entre os dois mundos nos quais a menina vivia era Dominga de Adviento. está presente em toda a América Latina no “pecado-contriçãoabsolvição”. E assim. o padre-bibliotecário e braço direito do bispo. além da escrava Dominga de Adviento. como é o caso da personagem aqui trabalhada. por este ser judeu. Fanon afirma que o negro é visto pelo branco como a figura do mal. 160). até mesmo. 2011. que vive na indecidibilidade da cultura negra a de sua etnia branca. e este é crucial à cultura. uma das escravas do local a vê no pátio e reconhece os colares de candomblé. dom Toribio de Cárceres y Virtudes.. antes de iniciar seu trabalho” (HALL. o diabo. do amo. fazendo isso no dia seguinte: “Fue en la última celda de ese rincón de olvido donde encerraron a Sierva María. y practicaba ambas a la vez. Ele alerta ainda que o termo “hibridismo não se refere a indivíduos híbridos. Ao chegar no convento. sin orden ni concierto” (MÁRQUEZ. que representa a razão na obra.] Trata-se de um processo de tradução cultural. 2007. p..260 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS do contato com o branco ele não se sentia inferiorizado por nenhuma outra raça. uma possessão demoníaca e o sucesso em seu exorcismo. ela . 2011. não é estranho o fato de Sierva María ser considerada uma possessa por apresentar um comportamento negro. E foi nesse hibridismo que Sierva María cresceu. pois o baile na terça-feira de carnaval vem seguido da missa na quarta-feira de cinzas. p. Dessa forma. segundo Hall. Esse hibridismo.

mas todas as freiras do convento lhe atribuem todos os acontecimentos. Não só a abadessa. E quando perguntaram seu nome. pues a pesar de los aspavientos de la abadesa y de los pavores de cada quien. 2007. que las manifestaciones ‘de caráter africano’ (precisamente las religiosas y las danzarias. 2007.107) A abadessa do convento ao ouvir o canto da menina fica deslumbrada com sua voz. Sobre as atas: Decían que la niña se había complacido descuartizando un chivo que degolló con sus manos. en síntesis. Sempre que alguém tenta tirar seus colares (Sierva María usava colares de candomblé.. usa desse estratagema para esconder a verdade sobre o tornozelo mordido pelo cão raivoso. Ao ser informada de que o canto era produzido pela “possessa” que ela aguardava.49). Mas as clarissas. eurocidental y católica (CORONEL. de certa forma. Hacía gala de un don de lenguas que le permitía entenderse con los africanos de cualquier nación. E diz ao bispo que as atas onde as clarissas anotavam o comportamento da menina serviam mais para justificar a mentalidade da abadessa que o estado de Sierva María.84). E diz que o que parece demoníaco para eles (católicos) são os costumes negros que a menina aprendeu ao viver no pátio dos escravos após o abandono dos pais. movidas pelo tédio. Segundo o filólogo cubano Rogelio Rodríguez Coronel: Queda explícito. (. ameaçavam sua hegemonia religiosa e política. p. vê apenas uma menina pura e indefesa. E diz ainda que mesmo que não esteja possuída. Sendo considerada pelas freiras dona de uma força de outro mundo. y les ganó a todos. representada por la clase dominante. o con las bestias de cualquier pelaje (MÁRQUEZ. E assim. além de uma escapulário) ela se altera com muita agressividade. anormais. Sierva María recupera seu mundo: Ayudó a degollar un chivo que se resistia a morir. p. Como haviam dito para ela que a menina estava possuída. Ao conversar com a abadessa deixa . guisados en manteca de cerdo y sazonados con especias ardientes (MÁRQUEZ.) Una niña endemonia dentro del convento tenía la fascinación de una aventura novedosa (MÁRQUEZ. Al almuerzo se comió un plato con las criadillas y los ojos del chivo. tudo o que acontece daí em diante no convento será atribuído aos demônios presentes em Sierva María. 1993. la celda de Sierva María se convirtió en el centro de la curiosidad de todas.78). y aun los que no entendían la escucharon absortos. p. y se comió las criadillas y los ojos aliñados como fuego vivo. foi para a cozinha erguendo o crucifixo que trazia pendente ao pescoço. A Igreja condenava à fogueira ou a outros castigos todos aqueles que. Cayetano Delaura é o único na obra a perceber que a acusação de possessão feita pela Igreja à menina foi devido à intolerância e ignorância desta para com o comportamento negro e afro-religioso da personagem. no entanto não sabe ainda de quem se trata. Cantó en yoruba. claro de que não há provas de que a menina esteja de fato possessa. en congo y en mandinga. p. pareciam ter mais curiosidade que medo: Pero los terrores de las clarisas eran contradictorios. que eran las partes que más lê gustaban. 2007. Jugó al diábolo con los adultos en la cocina y con los niños del patio. pois como tinha o costume de mentir por vício.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 261 responde que sua mãe fez isso com uma faca. naquele convento ela tem todas as condições possíveis para que isso aconteça. blanca. E ao conhecer Sierva María. outro motivo forte que levava a Igreja a condenar (através da Inquisição) as pessoas é o fato de se tratar de uma estratégia de controle e dominação políticosócio-cultural. Além da intolerância e ignorância. intimamente relacionadas y privilegiadas en ese mundo) eran contrarias a la ‘civilización’ y a las ‘buenas constumbres’. mejor que ellos mismos entre si.. Cayetano Delaura fora incumbido pelo bispo de cuidar do caso. disse Maria Mandinga. considerados por elas. Lê saco los ojos y le cortó las criadillas . noviças do convento de Santa Clara.

) Na América hispânica. Sobre essa América Chiampi afirma: Os elementos que compõem a imagem da América bárbara são identificados com a herança espanhola (a Inquisição. de classes subalternas. sua família. 1980. o dialeto português falado em Cabo Verde e em outras possessões portuguesas da África. homens de todas as raças.. 2005. respectivamente. CORONEL. Universidade Federal do Rio de Janeiro. fanáticos em suas crenças. p.. Editora Perspectiva. nº1.262 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS García Márquez apresenta em Del amor y otros demonios uma América de brancos. (. Ano 1. Crioulização e Crioulidade. nascido nas colônias europeias de além-mar. CHIAMPI.. Irlemar (1980): O Realismo Maravilhoso. Buenos Aires: Debolsillo. o termo identificava os que nasciam e eram educados nas Américas sem ser originários delas como os ameríndios. entretanto. Magdala França Vianna. refere-se à lógica sincrética do crioulo vernacular como modelo inclusivo com um majoritário aporte de construções sociais. (. HALL. Lisboa: Ed. Rogelio Rodríguez (1993): Marginalidad y literatura en textos afrocubanos de origen yorubá . muitas vezes carregadas de preconceito. Belo Horizonte: EdUFMG. Sierva María. Brasília: Representação da UNESCO. Trad. os escravos e a população nativa dessa Colômbia. ULISSEIA. A perfídia. não percebiam que o que a menina tinha era um comportamento diferente do europeu.Belo Horizonte: EdUFMG. em Conceitos de Literatura e Cultura. passando. dominando também de crioulo o dialeto falado por essas pessoas.110). como já havia dito Fanon.” (cf. e. afro-religiosos e primitivos. católicos de ascendência européia. Stuart (2011): Da diáspora: identidades e mediações culturais . a escravidão. 103-5. Renato da Silveira.. Eliana Lourenço de Lima Reis. a indolência e o primitivismo são construções estereotipadas que legitimavam a visão deturpada. nascidos nas Américas. MÁRQUEZ. também.) O Novo dicionário de língua portuguesa de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira define crioulo como: o indivíduo de raça branca. E o definiram como uma possessão. In: Terceira Margem: Revista de Pós-Graduação em Letras. o primitivismo. o termo crioulo não só indica os membros. que por serem considerados inferiores pelos europeus e seus descendentes de cor branca. a ignorância) – inclusive nas zonas de culturas autóctones superiores (CHIAMPI. Frantz (1961): Os condenados da terra. Serafim Ferreira. Salvador: EDUFBA. que. Miryam Ávila. _______ (2008): Pele negra máscaras brancas. Homi K (2007): O local da cultura . Faculdade de Letras – PósGraduação. o negro nascido nas Américas. FANON. mas. A contraposição América e Europa no antagonismo entre a inocência do primitivo e a degeneração da razão é representada na obra por. particularmente as das Américas. Nota 1 O termo crioulo é “egresso do latim criare com o sentido de educar. animais e plantas que se transportaram para o continente americano a partir de 1942.) . no segundo caso. Gabriel García (2007): Del amor y otros demonios. Centro de Letras e Artes. pela abadessa e pelo bispo. do europeu sobre os povos das Américas. O que na verdade era um comportamento semelhante ao dos escravos. a indolência. Gláucia Renate Gongalves. o despotismo) e com o substrato indígena (a perfídia. Referências bibliográficas BHABHA. a indicar. p. Trad. por extensão. Forma e Ideologia no Romance Hispano-Americano. e de negros. era facilmente visto como algo demoníaco. Rio de Janeiro.

1989. que componen el entorno de su niñez y adolescencia. y foco de atracción de grandes civilizaciones.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 263 ESPACIOS. se debaten a medio camino entre el mito. La posición geográfica de Andalucía la convirtió en tierra de paso de diversos pueblos ya desde la prehistoria. La formación del complejo universo simbólico lorquiano se nutre. imágenes. En los valles del Guadalquivir y del . universalizando Andalucía y convirtiéndola en un espacio mítico en el que confluyen todos los grandes temas y las grandes preguntas (GARCÍA-POSADA.87). en este trabajo se recorre la palabra del escritor granadino a la luz de los ingredientes de los que se ha nutrido la historia y el fértil imaginario de su tierra natal. la leyenda y la historia. entre África y Europa. MITOS Y CLAVES DEL IMAGINARIO ANDALUZ EN LA POESÍA DE FEDERICO GARCÍA LORCA Clara Pajares Gil Universidade Federal de Viçosa Desde su violento asesinato en 1936 a manos del bando fascista. perdidos en la noche de los tiempos. Una región mucho más cercana a Marruecos que al propio norte de España. de los paisajes. Pocos escritores en lengua castellana han alcanzado una trayectoria semejante después de su muerte. además de las experiencias y lecturas particulares. etc. Nos acercaremos a un poeta que es heredero de viejísimas culturas. así como del conocimiento adquirido gracias a una enorme curiosidad hacia la historia de su propio pueblo. Con la pretensión de ser capaces de abrir ventanas inéditas desde las que poder asomarse a la obra lorquiana. Se ha considerado un lugar geoestratégico al hallarse en el extremo sur de la Península. supersticiones. Y entre las múltiples propiedades que hicieron de su obra un tesoro inmortal se encuentra ese ingenio único para mezclar en un cóctel singular la tradición milenaria y la vanguardia. creencias. la obra de Lorca no ha dejado de expandirse hasta alcanzar una posición universal en el mundo de la literatura. leyendas. En ella se encuentra la Punta de Tarifa que es el lugar más al sur de la Europa continental y el más cercano al continente Africano. tan sólo catorce escasos kilómetros de agua separan ambos continentes. las mismas que han dado lugar a una región cuyos orígenes. p. Ya desde inicios de la Edad de Piedra se encuentran muestras de culturas prehistóricas en Andalucía. Andalucía. entre el Atlántico y el Mediterráneo.

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Guadalete se encontraron guijarros tallados como primer exponente del paso del homo hábilis y ya en el último estadio del Paleolítico superior, la etapa llamada magdaleniense aparecen las primeras manifestaciones artísticas del hombre de CroMagnon andaluz en diversas cuevas malagueñas y gaditanas. Algunas de éstas, tras el paso y la huella de sucesivas generaciones prehistóricas, acabarían convertidas en auténticos santuarios profusamente decorados con toda clase de motivos zoomórficos, cinegéticos, mágicos etc. Destacan también, repartidos por casi todo el territorio andaluz, los monumentos funerarios megalíticos (MAZARRASA, 1980, p.33-48). Varios de estos sepulcros fueron encontrados en la provincia de Federico García Lorca, Granada. Eran monumentos dedicados al culto de los antepasados, generalmente levantados en lugares altos (para ver y ser vistos), en sociedades que comenzaban tener una relación particular con la muerte y a conceder importancia a la memoria de sus antepasados. Hay quien, como Gómez-Moreno, considera que los monumentos megalíticos andaluces de la Edad del Hierro constituyen el único testimonio arqueológico capaz de sustentar racionalmente el mito de los Tartesios (MAZARRASA, 1980, p.48). Caro Baroja, sin llegar a mencionar ninguna civilización, afirma: “Es lícito pensar que acaso algunos de los grandes sepulcros megalíticos andaluces fueran hechos para grandes reyes de tipo faraónico” (MAZARRASA, 1980, p.52). No sería una aberración pensar que el poeta granadino pudo encontrarse cerca de alguno de estos mausoleos arcaicos, estudiarlos u oír hablar de ellos en algún momento de su infancia. El culto de la tradición andaluza a la muerte (cuyo origen, como vemos, nos remonta al Neolítico) es un tema recurrente en la literatura lorquiana. El poeta dice que España es un país de danzas milenarias (haciendo alusión a pueblos ancestrales) y también de muerte, donde la gente cobra verdadera importancia después de abandonar la vida. Un país que exhibe a sus difuntos, donde “un

muerto está más vivo como muerto que en ningún sitio del mundo” (LORCA, 2004, p.154). En los escritos lorquianos se manifiesta un especial interés por las primeras civilizaciones que pasaron por Andalucía, como la de los tartesios. Situada a medio camino entre la Prehistoria y la Historia, en la llamada Protohistoria, la tartesia fue considerada por los griegos como la primera civilización de Occidente. Esta cultura, según el arqueólogo e historiador Adolf Schulten, prosperaría gracias a la riqueza metalúrgica de la zona (enclave importante de comercio de cobre y estaño) (MAZARRASA, 1980, p.55) que atraería a fenicios, griegos e indoeuropeos. Y la imaginación de algunos antropólogos y estudiosos (entre los que se encuentra el propio Schulten) ha querido asociarla a la fabulosa Atlántida de Platón, que algunas teorías presuponen que fue levantada en el espacio correspondiente al actual Parque Nacional de Doñana. A manos de Lorca llegaría un artículo que Schulten publicó en la Revista de Occidente en 1923 y que se refiere a los tartesios como la civilización más antigua de occidente (JOSEPH Y CABALLERO, 2006, p.21). Numerosos autores de la Antigüedad cuentan historias sobre los tartesios. Estesícoro, en su poema Gerioneida , habla de un fundador de la dinastía tartésica, el rey Gerión, poseedor de rebaños de vacas y toros. García Lorca también lo menciona en su ensayo Juego y teoría del duende : “Allí estaban los Floridas, que la gente cree carniceros, pero que en realidad son sacerdotes milenarios que siguen sacrificando toros a Gerión”. Este sería quizá un modo literario de situar históricamente un primer precedente de la tauromaquia, a la que Lorca dedicará poemas como La cogida y la muerte o Llanto por la muerte de Ignacio Sánchez Mejías. Justino, escritor romano del s.II d.C., habla de los habitantes del bosque de los tartesios, cuyo rey fue Gargoris, padre de Habis. Habis había sido fruto de amores incestuosos (cosa frecuente en las dinastías divinas

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de la tradición mítica mediterránea) y sería considerado como un rey muy beneficioso para su pueblo, dictando las primeras leyes, enseñando a labrar la tierra y dividiendo la sociedad en castas. En su Ora Marítima, Avieno (poeta latino del siglo IV d.C.) alude a la tierra tartesia (identificándola con el territorio correspondiente a la actual Cádiz) como a una ciudad opulenta. En Juego y Teoría del duende Lorca menciona al que fue considerado el último rey tartesio: “Allí estaba Ignacio Espeleta, hermoso como una tortuga romana, a quien preguntaron una vez <¿Cómo no trabajas?>; y él, con una sonrisa digna de Argantonio, respondió: <¿Cómo voy a trabajar, si soy de Cádiz?>” (LORCA, 2004p. 152) Heródoto nos cuenta que el rey tartesio Argantonio gobernó durante ochenta años (entre 630 y 550 a.C aproximadamente). Pero a partir del año 500 a.C ya no se tienen más noticias sobre los tartesios. Su desaparición aún continúa siendo un misterio (MAZARRASA, 1980, p 51-63). Después de los tartesios las civilizaciones más destacadas (previas a la conquista católica de la Península completa en 1492) que pasaron por Andalucía fueron: Turdetanos, griegos, fenicios, cartagineses, romanos, vándalos, visigodos, musulmanes y judíos. Se calcula que los gitanos llegarían a la Península en el siglo XV y proliferarían (aunque despreciados y marginados) sobre todo en época de dominio católico. Este cúmulo de costumbres, tradiciones y religiones heredadas de todos estos pueblos aparece claramente reflejado en los versos lorquianos. Pero lo interesante es de qué modo se presentan estos elementos, originalmente amalgamados y manifestando asociaciones interculturales estilizadas por la subjetividad artística del genio granadino que revelaban el mestizaje que Lorca respiraba en su propio ambiente. Si nos deslizamos atentamente a través de sus versos, observaremos que Lorca era conocedor de la historia de Andalucía anterior al catolicismo y al

islamismo. Encontramos multitud de referencias a la Antigüedad Clásica. Alusiones a los dioses del panteón, como en el poema San Rafael: “Y mientras el puente sopla/ diez rumores de Neptuno, / vendedores de tabaco/ huyen por el roto muro” (LORCA, 2012, p.84) A la cultura latina en poemas como El emplazado: “Y la sábana impecable, / de duro acento romano, / daba equilibrio a la muerte/ con las rectas de sus paños” (LORCA, 2012, p.101) O a las guerras púnicas, recordemos el poema Reyerta en el que dice: “Han muerto cuatro romanos/ y cinco cartagineses” (LORCA, 2012, p.66). Para Lorca, Andalucía representaba, entre otras cosas, un pequeño oriente dentro de occidente, generado básicamente gracias a las aportaciones de dos culturas: la árabe y la gitana (esta última llegada desde la Península indostánica). Los musulmanes permanecerían más que ninguna otra civilización en el sur de la Península ibérica (casi ocho siglos), por eso su influencia en la literatura y en las diversas artes será capital. Hasta el punto de que con ellos nacen las primeras manifestaciones líricas (conservadas por escrito) en español, las jarchas (aquellos poemillas breves, en lengua romance que acompañaban a las extensas moaxajas árabes o hebreas). Lorca había nacido en un pueblo, Fuentevaqueros, de la provincia de Granada, la ciudad de la Alhambra, último baluarte del islam hispánico. En la poesía lorquiana aparecerán referencias al pasado musulmán, frecuentemente diluyendo el elemento árabe en otros de la tradición cristiana (al igual que ocurría en Al Ándalus). En el poema San Rafael encontramos: “El arcángel aljamiado/ de lentejuelas oscuras” (LORCA, 2012, p.85) O en el poema San Miguel dice: “San Miguel, rey de los globos/ y de los números nones/ en el primor berberisco/ de gritos y miradores” (LORCA, 2012, p.82). Algunos símbolos característicos de la escritura lorquiana, como la luna y el color verde, también guardan una estrecha relación con la cultura

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árabe. La luna es el símbolo del islam, cultura que también concederá importancia a la noche desde un punto de vista literario. Y el color verde, del que tanto se ha hablado, constituye dos de las franjas de la bandera de Andalucía (a este verde se le ha llamado verde omeya , haciendo alusión a la dinastía de Al Ándalus). También el verde es el color de los infinitos olivares del sur de España y remite a la piel morena “aceitunada” de los gitanos. Su poema Crótalo es otra muestra del gusto del poeta por remontarse a un pasado remoto cuyos objetos guardan un vínculo estrecho y casi secreto con otros de la actualidad. En dicho poema Lorca establece una evidente conexión entre el antiguo instrumento musical de la tradición oriental y las castañuelas. Llama al crótalo “escarabajo sonoro”, imagen que se corresponde bastante bien con la de una castañuela, si pensamos en el típico escarabajo negro que abunda en tierras andaluzas (cuyo aspecto ciertamente se asemeja al de una castañuela) y describe el movimiento como “araña de la mano”. Esa imagen, dotada de gran plasticidad, remite directamente al movimiento de las manos cuando se tocan las castañuelas (LORCA, 2006, p.201). Para Francisco Umbral, Lorca paganiza , esoteriza y regionaliza el cristianismo andaluz en sus romances. Señala Umbral que, en el Romance de la Guardia Civil española, desacraliza e identifica la condición de judíos de la Virgen y San José con la de gitanos. Estas dos minorías (los judíos y los gitanos) habían estado proscritas por el catolicismo, imperante en Andalucía desde 1492 (UMBRAL, 2012, p.123). Como es sabido, Lorca fue un gran admirador de la cultura gitana, cuyos ambientes frecuentó. Sus visitas a las casas-cueva, hogar de los gitanos del Sacromonte granadino y escenario de fiestas flamencas, quedarían plasmadas en poemas como Cueva, en el que dice que: “El gitano evoca/ países

remotos” (LORCA, 2006, p.161), dejando constancia de la raíz oriental y exótica de los gitanos. En sus voces encuentra Lorca los ecos de matusalénicas culturas ya profundamente mezcladas con la, también viejísima, alma andaluza, cuya condición híbrida había dado lugar a fenómenos muy apreciados por el poeta, como el Cante Jondo. Nos cuenta Ian Gibson en su biografía de Lorca que un Lorca jovencito acompañó durante varios días a Ramón Menéndez Pidal a las cuevas del Sacromonte granadino para recoger romances orales (GIBSON, 1985, vol. I, p.300). Tras aquel acercamiento filológico (en compañía de Menéndez Pidal) a los romances vivos del Sacromonte (con el que el poeta quedó encantado), no es casualidad que Lorca sienta predilección por esta combinación métrica para su Romancero Gitano, considerándola el molde idóneo. Lorca (al igual que habían hecho otros poetas del Barroco y del siglo XIX) revitaliza una forma primitiva y oral que se mantenía en el mundo hispánico desde los albores medievales de su literatura. La pasión de Lorca por todas aquellas viejas culturas que entretejieron la historia mestiza del sur de la Península Ibérica nos transporta en un viaje que comienzó en la Prehistoria. Todos estos pueblos están, de algún modo (más o menos explícito), evocados en la pluma del poeta granadino. Porque, más allá del localismo folclórico anecdótico, más allá del egocentrismo y del subjetivismo literario, Lorca ha sabido proyectarse hacia el exterior, captar la esencia de una tierra compleja y saltar de lo antropológico a lo poético y de lo poético a lo inmortal.

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POESIA E FICÇÃO NA OBRA DE ROBERTO BOLAÑO: INTERSEÇÕES

Clarisse Lyra Simões PG - USP

Parece haver se formado já entre a crítica e os leitores de Roberto Bolaño um consenso sobre a menor valia de sua poesia em relação à sua prosa. Exemplo disto pode ser observado neste congresso, em que temos duas mesas de comunicações dedicadas ao autor (Cervantes lidera com três mesas, Bolaño vem na sequência) e nenhum trabalho que trate especificamente de sua produção poética. O meu texto, como vocês irão notar, não foge à regra, tendo como objetivo principal especular o modo como a poesia pode se imiscuir em suas narrativas, e não o contrário. Não deixa também de ser emblemático o fato de o mercado editorial brasileiro vir ignorando a grande parcela da obra de Bolaño escrita em verso. O crítico Matías Ayala, por exemplo, defende que o trabalho poético do chileno se tornou parte da “pré-história do narrador”, um trabalho que pode ser tomado como um “ índice biográfico-literario para investigar retrospectivamente su proceso creativo ” (AYALA, 2008, p. 98), mas cujo valor literário é relativizado, não chegando a ser comparável com o de sua produção ficcional. Ayala afirma que “el hecho de […] dejar de escribir en la primera persona del

singular le permitió [a Bolaño] sobrepasar los escollos de una lírica en la que no parecía destacar” (ibidem, p. 99), concluindo que
[...] se puede afirmar que Bolaño deja de escribir poesía para escribir sobre poetas, para ficcionalizar su propia vida azarosa y su fracasada carrera poética en Los detectives salvajes. Bolaño se sabe un mal poeta, y publica para demostrar y atestiguar que ha fracasado (ibidem, p. 100).

Esta passagem da escritura de Bolaño, que nos anos 90 se afasta da poesia, passando a escrever principalmente ficção, aparece ficcionalizada em Los detectives salvajes e é aludida com frequência pela sua crítica. Andrea Cobas Carral e Verónica Garibotto vêm nisto um trânsito que se relaciona com a economia da escrita, que se desloca desde “la poesía como una práctica que se desarrolla mayormente por fuera del mercado a la narrativa como un ejercicio de supervivencia ” (COBAS CARRAL e GARIBOTTO, 2008, p. 178). Alan Pauls, por sua vez, reflete sobre como em Los detectives salvajes – “un gran tratado de etnografía poética” (PAULS, 2008, p. 328), segundo ele - Bolaño “hace brillar a la Obra por su ausencia” (ibidem, p. 328), substituindo o idealismo que

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geralmente cerca a figura do poeta pela colocação em cena do que ele chama, segundo a “gran tradición del melodrama de artista”, “sed de vivir” (ibidem, p. 328). Diz Pauls:
Operación extraña, la de Los detectives salvajes: la poesía – la “obra poética” – queda afuera, del lado de lo real, de lo real-histórico (Mario Santiago, el infrarrealismo, la historia de la poesía mexicana, etc.); y lo que entra, lo que se infiltra en la ficción y ocupa el sistema circulatorio de la literatura, es algo que sólo creíamos conocer (y despreciábamos) bajo la forma del peor de los estereotipos: la Vida misma, la Vida Poética (ibidem, p. 328).

e sus configuraciones literarias ” (ibidem, p. 3), e levantando nos textos estudados procedimentos como o apelo afetivo ao destinatário, a adesão ideológica e o ocasional predomínio da emotividade (em Amuleto ), a crítica chilena acredita que, por muitas vezes, o “eu” emerge na narrativa de Bolaño, elidindo a distância imposta pela referencialidade e fazendo-se notar no texto um “profundo deseo [do autor] de estar sin distancia presente en su obra ” (ibidem, p. 16). Tais disposições, que corroboram os estudos da autoficção na narrativa bolañiana, interessam aqui na medida em que Solotorevsky as introduz não apenas como expediente narrativo, mas como uma espécie de resquício ou substrato lírico. Sabemos, é verdade, e Julio Cortázar escreveu sobre isto, que não existe uma linguagem romanesca pura (CORTÁZAR, 1994, p. 143). Segundo o argentino, “toda narración comporta el empleo de un lenguaje científico, nominativo”, que se alterna e se imbrica com “un lenguaje poético, simbólico” (ibidem, p. 143, grifo do autor). Além disto, já fora de uma instância puramente verbal, diz Cortázar que o romance conta ainda com o que ele chama de “aura poética”, “atmósfera que se desprende de la situación en sí [...], de los movimientos anímicos e acciones físicas de los personajes, del ritmo narrativo, [de] las estructuras argumentales” (ibidem, p. 144). Acima de qualquer teorização, no entanto, Cortázar considera o romance um “imenso baú”, uma forma sem leis (CORTÁZAR apud GONZÁLEZ BERMEJO, 2002, p. 73), tendo chegado a afirmar: “Há romances que são poemas. Há poemas que são romances” (ibidem, p. 72). A hipótese que nós gostaríamos de aventar neste ar tigo, tendo em conta esta prévia de informações, se erige contra a seguinte ideia, sustentada por Matías Ayala (crítico já citado no início do texto):
Esta segunda sección de la obra poética de Roberto Bolaño [aqui ele se refere à obra poética adulta de

Não obstante estas opiniões que enfatizam a passagem de um gênero a outro, o poeta catalão Pere Gimferrer enxerga na narrativa em prosa de Bolaño “una forma, apenas mascarada, de poema”, e afirma que “sus ficciones son tan poéticas cuanto narrativos son sus poemas ” (GIMFERRER, 2006, p. 7). Tais asseverações, em grande medida contrárias à crítica que insiste em uma mudança substancial de gênero, nos levam a pensar em como poderia o poema subsistir na produção ficcional de Bolaño, resposta que Gimferrer não nos dá. Myrna Solotorevsky aponta uma perspectiva interessante para a consideração deste questionamento. Em ensaio sobre a “Anulación de la distancia en novelas de Roberto Bolaño”, ela defende que, apesar do trânsito executado por ele do gênero lírico (no qual predomina a função emotiva e a expressão da interioridade do falante) ao narrativo (ao qual corresponde a função referencial), restam em sua ficção marcas “de esa proximidad al ‘yo’ y de su necessidad de manifestación” (SOLOTOREVSKY, 2008, p. 3). Analisando variadas obras do autor, tais quais as novelas Amuleto, Estrella distante, Amberes e La pista de hielo , Solotorevsky estima que “ el Bolaño presente en sus textos remite a [...] un pseudo-referente real ” (ibidem, p. 3). Considerando, contudo, o “Bolaño real” e as “equivalencias entre este, su biografía

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Bolaño, os libros Tres , Los perros románticos y Fragmentos de la universidad desconoc ida , publicados durante os anos 90], variopinta, y poco concentrada, parece ser la compilación de textos escritos a lo largo de los años más que un razonado o persistente proyecto poético. Se puede conjeturar que para entonces estaba concentrado en su narrativa y la poesía la ejecutaba en honor a los viejos tiempos (AYALA, 2008, p. 91-92).

cantadas no por hombres, sino por fantasmas (ibidem, p. 109).

Entre as qualidades que se associam à poesia em sua obra crítica, e mesmo em seus poemas, aparecem sempre as palavras (tão repetidas por ele) “ valentía ”, “ voluntad ”, “ valor ”, e jamais qualquer menção a uma condição específica de linguagem.

Nossa hipótese, portanto, é a de que havia sim um projeto poético posto em marcha por Bolaño, e que este projeto incluía não somente a sua produção em verso, mas também a sua narrativa. Longe do esquematismo pretendido pelo crítico chileno, que chega quase a opor poesia e ficção na produção de seu compatriota, acreditamos que a relação entre ambos gêneros em Bolaño se dá por contaminação e fluidez, em uma relação ambígua difícil de ser equacionada. Para justificar a falta de limites precisos entre poesia e prosa que vemos na obra de Bolaño, seria necessário recorrer às suas possíveis concepções de poesia. A concepção expressada por ele em ensaios e textos críticos (cuja formulação nunca se aproxima do conceito) parece extrapolar qualquer ideia de forma ou estrutura. É uma concepção que tem por base preceitos outros que não o de verso ou o de “infinitos juegos de la Analogía” (CORTÁZAR, 1994, p. 144), mas que parece orientar-se por uma espécie de caráter da poesia, e que poderia tranquilamente ser contemplada pela narrativa. Sobre o escritor chileno Pedro Lemebel, por exemplo, Bolaño disse: “Lemebel no necesita escribir poesía para ser el mejor poeta de mi generación. Nadie llega más hondo que Lemebel” (BOLAÑO, 2006, p. 65). Sobre os poetas em geral, afirmou:
No hay nadie en el mundo más valiente que ellos. No hay nadie en el mundo que encare el desastre con mayor dignidad y lucidez. Son, en apariencia, débiles, […] y trabajan en el vacío de la palabra, como astronautas perdidos en planetas sin salida posible, en un desierto donde no hay lectores, ni editores, apenas construcciones verbales o canciones idiotas

Também em seus romances encontramos formulações significativas desta tensão. Em 2666 , lemos: “Ingeborg le preguntaba a Reiter por qué no escribía poesía y Reiter le contestaba que toda la poesía, en cualquiera de sus múltiples disciplinas, estaba contenida o podía estar contenida, en una novela ” (idem, 2004, p. 969). Em Amuleto, por sua vez, se enuncia a seguinte profecia: “ La poesía no desaparecerá. Su no-poder se hará visible de otra manera” (idem, 2009, p. 134). Não por acaso, Amuleto se encontra em alto grau contaminada pela poesia. Relato construído a partir de uma temporalidade múltipla e cambiante, nele Bolaño logra elidir o tempo uniforme tradicional da narrativa, através de uma enunciação extremamente lírica da narradora e protagonista Auxilio Lacouture. No capítulo 9 do livro, exemplar neste sentido, oscilam três tempos: os anos 1963 imaginado, o 1968 rememorado, e o tempo da enunciação, que não se sabe ao certo quando é. Nós percorremos o fluxo da consciência de Auxilio e nos perdemos nele como ela própria, já que nenhum dos tempos de seu relato é sólido, nenhum constitui o que se poderia chamar o “tempo da realidade”. Se o comum nas memórias é o tempo da enunciação funcionar como base, como ponto a partir do qual se organizam as experiências, neste relato a base encontra-se desestabilizada, pois é um espaço – o banheiro feminino do quarto piso da UNAM, onde a protagonista permaneceu enclausurada durante a invasão da universidade em 1968 – que funciona como mirante, já descolado no tempo, flutuante, a partir do qual Auxilio vê o seu passado e o seu futuro.

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Encontrar-se no banheiro, para esta uruguaia residente no México, não implica necessariamente um relembrar: este é um espaço que ela ainda habita (pelo menos imaginativamente). Ele não se restringe, portanto, à experiência do ano ‘68, ele se desloca no tempo e se transforma no teatro de suas visões: em determinada cena, por exemplo, Auxilio estende a mão no banheiro para apontar o quadro instalado na sala da casa de Remedios Varo, que ela visita em sonho; em outra sequência, a voz da Remedios do sonho de Auxilio se perde entre os ladrilhos do banheiro da UNAM. Tal disposição temporal nos remete ao texto de Octavio Paz que diz: “a crise da sociedade moderna manifestou-se no romance como um regresso ao poema” (PAZ, 1996, p. 72). E mais adiante: “desde os princípios deste século o romance tende a ser poema de novo” (ibidem, p. 73). Neste ensaio sobre a “Ambiguidade do romance”, Paz faz referência a autores como James Joyce, Marcel Proust e William Faulkner. Sabemos que eles, através do monólogo interior, aboliram a perspectiva, eliminaram o abismo entre o homem e o mundo instaurado pelo narrador em terceira pessoa. Mas, mais do que isso, o monólogo interior instaura um tempo na narrativa que não é o dos fatos, mas um tempo que se desdobra, no caso de Amuleto, em temporalidades múltiplas que, ainda que não prescindam da história (isto é, de “uma narrativa de eventos dispostas conforme a sequência do tempo” [FORSTER, 2004, p. 57]) – e, por isso, continuem inseridas no âmbito do romance –, flertam com a noção temporal do poema, que às vezes é inexistente e às vezes se desloca livremente de um instante a outro, sem a necessidade de constituir uma cronologia. Experiência mais extrema neste sentido é a que Bolaño proporciona com o livro Amberes. Datado de 1980, o volume foi publicado em 2002 na categoria romance, gênero que lhe foi atribuído pelo próprio autor no prólogo à edição, no qual ele diz:

“ Obviamente, nunca llevé esta novela a ninguna editorial” (BOLAÑO, 2009, p. 9). Em 2007, porém, sai publicado o volume intitulado La universidad desconocida , reunião de grande parte da poesia de Bolaño organizada por ele mesmo e datada de 1993. Neste livro, encontra-se publicado novamente Amberes, agora sob o título “Gente que se aleja”. O ato não é gratuito. Amberes oferece um texto fragmentado de alto poder desestabilizador, cuja leitura envolve um acentuado grau de angústia, ocasionado pela dificuldade (ou impossibilidade) de se encontrarem os elos que permitam remontar os fatos e a cronologia. Desta forma, com a dupla inserção do texto em volumes de catalogação diferente, Bolaño desloca a questão da determinação do gênero do autor para o leitor, transformando-a em um ato de leitura. Ler Amberes como romance certamente é mais desconcertante, já que as convenções de leitura deste gênero implicam a possibilidade de se obter uma linearidade final (que insiste em escapar do leitor neste caso), enquanto a operação de leitura da poesia obedece a normas outras, podendo ser uma leitura salteada ou corrida, não estando o leitor preocupado em obter um sentido final para o conjunto. Neste sentido, pode-se dizer que o que determina o caráter genérico ambíguo deste texto é, antes de tudo, o recurso ao fragmento, elemento constitutivo de grande parte da obra de Bolaño. No jogo da representação, no qual estão em pugna fragmentação e totalidade, caos e ordem, organicidade e arbitrariedade, e, em última instância, a própria possibilidade do narrar, Bolaño logra por em cena a tenuidade dos limites entre poesia e ficção, ao sinalizar que, nas bordas de um romance cujas peças não se encaixam (e que por isto não teria sido aceito inicialmente por nenhuma editora), pode muito bem desenhar-se um poema.

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Nota
1

Aluna do mestrado do Programa de Pós-Graduação em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-Americana da Universidade de São Paulo. Desenvolve com o apoio da Fapesp o projeto de pesquisa “Fragmentação e multiplicidade em Los detectives salvajes, de Roberto Bolaño”.

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REPRESENTAÇÃOES DA MULHER E VOZES FEMININAS NO CONTEXTO IBEROAMERICANO

Cláudia Luna UFRJ

El discurso sobre la mujer es también un discurso sobre identidad y ciudadanía. Más importante, tal vez menos obvio, el discurso masculino sobre la identidad y la ciudadanía es también un discurso sobre el género. Las dos formaciones discursivas se determinan mutuamente, aunque en relaciones de desigualdad radical. (Pratt, 1995, p. 273)

Vive-se hoje um processo de revisão histórica propiciado pelos bicentenários dos processos de independência e formação das nacionalidades e seus respectivos imaginários na América Latina. Nesse contexto, abre-se oportunidade ímpar de repensar a escrita da história como um processo de cunho marcadamente androcêntrico, sob recorte tradicional, que relegou ao esquecimento ou a papel secundário a participação de mulheres como a peruana Micaela Bastidas, a equatoriana Manuela Sáenz, ou a brasileira Bárbara de Alencar, embora tivessem papel relevante nos processos encabeçados respectivamente por Tupac Amaru, Simón Bolívar e Frei Caneca. O projeto de pesquisa que ora realizamos visa a confrontar representações e autorrepresentações destas entre outras personagens históricas, considerando os projetos de emancipação que enunciam e as repercussões de sua atuação, no contexto latino-americano. Inicialmente, trata-se de analisar o processo de autorrepresentação expresso nas cartas e documentos públicos e privados de protagonistas das Independências latino-americanas.

A primeira etapa de trabalho constitui-se no estabelecimento do corpus a partir da compilação das fontes, que podem contar com o auxílio de trabalhos recentes de recuperação, em curso, ou fazer-se diretamente nos arquivos. Em muitos casos, há lacunas importante a preencher, pois a documentação existente é escassa ou de autoria coletiva. Interessa-nos investigar como se representam as mulheres nas independências e se afirmam (ou não) nas esferas pública e privada? Que elementos interferem no processo de construção da subjetividade, afirmação ou negação do protagonismo? Nossa hipótese inicial é de que há diferentes condicionantes, como questões étnicas e de classe, estado civil e origem. Por um lado temos a afirmação vigorosa de Micaela Bastidas, esposa de Tupac Amaru e uma das líderes da insurreição andina contra a metrópole; temos o mascaramento dos ideais de Manuela Sáenz, ao colocar-se perante Bolivar como mera amante e cuidadora, apesar de arguta estrategista e lutadora aguerrida. Quanto a Bárbara Alencar, há o ápice do

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processo de apagamento: apesar de presa e perseguida, transfere o protagonismo para o filho Martiniano, e mascara ou dilui sua subjetividade na construção de documentos coletivos, como na Proclama de 1817.

Como já observava Ángel Rama, a América Latina se caracteriza pela existência de regiões culturais, marcadas por história comum e, nesse traçado, esfumam-se as fronteiras nacionais estabelecidas pelo História oficial. Recordemos a mais evidente, a gauchesca, unindo territórios pertencentes à tríplice fronteira – Uruguai, Argentina e Brasil. A

O Brasil em face das Independências – cruzamentos e peculiaridades
Considerando os projetos emancipadores e as rebeliões ocorridas no Brasil, a primeira diferença que se percebe em relação aos países vizinhos é a referente ao projeto vitorioso – o da monarquia bragantina, de recorte centralizador e unificador, em oposição à vitória das propostas republicanas. Por outro lado, há intenso intercâmbio de ideias entre os americanos de colonização espanhola e os de colonização inglesa. São diversos projetos de América, intentos utópicos e de construção de novas nações ou de repúblicas, de territórios livres, de fundação de espaços sociais marcados por contratos sociais mais ou menos inclusivos, mais ou menos heterogêneos. O Brasil pareceria estar distante deste intercâmbio, à primeira vista, impressão que se desfaz à medida que adentramos o exame do passado. Uma primeira hipótese seria a de que o projeto absolutista e monárquico, centralizador, enfatiza o recorte atlântico, voltando as costas aos processos que se sucedem na América Hispânica. No entanto, é marcante o recorte imperial brasileiro a respeito dos vizinhos, as longas lutas pelo estabelecimento do território nacional, marcando as guerras de fronteiras que atravessam todo o século XIX e os episódios da diplomacia continental a esse respeito – da Guerra do Paraguai, a República Cisplatina, a disputa pelo território do Acre, em suma, a definição do grande território emergindo unificado sobre a variedade regional.

cultura guarani, do Paraguai e Centro Oeste brasileiro, o elemento afro-americano, no Rio de Janeiro, Bahia e Antilhas, o vasto território cultural amazônico, congregando países como Brasil, Equador, Peru, Bolívia, Venezuela, Colômbia. São linhas que se cruzam e sobrepõem imaginariamente sobre as linhas demarcatórias oficiais de províncias e nações, compondo um segundo traçado, a respeito do qual Rama pondera:
En este segundo mapa el estado Rio Grande do Sul, brasileño, muestra vínculos mayores con el Uruguay o la región pampeana argentina que con Matto (sic) Grosso o el nordeste de su propio país; la zona occidental andina de Venezuela se emparenta con la similar colombiana, mucho más que con la región central antillana. (RAMA, 1985, p. 58).

No caso brasileiro, o século XIX será palco de um jogo de tensões entre o regional e o nacional, no qual se insere o movimento de 1817, do qual participará Bárbara de Alencar. Nas primeiras décadas do século XIX assiste-se, sucessiva ou simultaneamente, a intentos mais ou menos logrados de emancipação em relação a Portugal, movimentos internos separatistas, oposição entre os diversos projetos dos agentes sociais envolvidos, acionando liberais e conser vadores, monarquistas e republicanos, regionalistas e centralistas. Distintos projetos de construção da nacionalidade que se cruzarão até que vença o projeto unificador, sob o Império de Pedro II. No Nordeste brasileiro, em especial na província de Pernambuco, o espírito independentista era bastante acirrado. Ao mesmo tempo que se mantinha comércio diretamente com países europeus

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e africanos, a dimensão continental do país isolava o a região do centro de decisões. A esse respeito narra o viajante Robert Walsh:
Os pernambucanos foram os primeiros a reconhecer o direito do Imperador ao trono do Brasil, bem como a total separação deste país de Portugal. Contudo, ainda alimentavam a esperança de se tornarem um Estado independente. Existia uma grande rivalidade entre a província e o Rio de Janeiro, e pequenas causas de descontentamento eram motivo de constante atrito entre as duas províncias. Entre outras coisas, os pernambucanos se queixavam de que lhes era cobrado um imposto para a iluminação das ruas do Rio, enquanto as de própria cidade eram mantidas em total escuridão. (WALSH, 1985, p.184).

negros, mulatos e brancos, comuns na Argentina, no Peru e no Brasil – a tentativa de implantar no Brasil um modelo semelhante ao intentado nas Antilhas (vide Haiti); o intercâmbio e busca de apoio com os Estados Unidos, por parte de insurgentes, calcados num prenúncio de pan-americanismo, antecipando a doutrina Monroe. Finalmente, o intercâmbio entre o Velho e o Novo Mundo, ou seja, a atuação conjunta de intelectuais hispano-americanos na Europa, como Fray Servando Teresa de Mier ou Andrés Bello, principalmente em Londres, e a busca de aprovação pela opinião pública europeia; já no caso do Brasil, a presença de brasileiros como estudantes na Escola de Coimbra, trazendo para cá o pensamento liberal. Em contrapartida, a presença dos viajantes europeus e seus depoimentos sobre o cenário americano, como, por exemplo Maria Graham1, Robert Walsh ou Daniel P. Kidder, constituindo um corpus precioso de relatos de viagem que nos trazem informações minuciosas sobre nossa história e sobre as representações cruzadas que se fizeram, reconstituindo o olhar estrangeiro sobre a América, na esteira de Humboldt.

Como afirmou lucidamente Marcel Velásquez, em sua exposição no Seminario Escritoras del Siglo XIX, em Lima (2009), resgatar a produção feminina no século XIX importa também como forma de resgatar o contexto em que estão engastadas, muitas vezes trazendo à tona publicações esquecidas ou renovando o interesse por áreas pouco exploradas. Em suma, um efeito colateral positivo na revirada do passado histórico. Nesse sentido, refletir sobre a posição das mulheres neste processo, antes de tudo nos leva a repensar uma série de questões que nos desafiam nestes dois séculos. Como já apontei em trabalhos anteriores, há alguns elementos comuns a todo o continente, como o sentimento nativista e o rechaço do elemento ultramarino (os reinóis); o papel destacado das ordens religiosas no processo – confrontem-se, por exemplo, os jesuítas expulsos, que, da Itália, revalorizam o dado americano, como Rafael Landívar, e a atuação de Frei Caneca, um dos mentores da Confederação do Equador, de 1824. Especialmente no Nordeste brasileiro, não podemos esquecer a relação estreita que se mantinha entre os coronéis (e as coronelas), a Igreja e o Estado. Outros dados a considerar são a separação entre as etnias e raças, as corporações militares de

Rodolfo Walsh, por exemplo, capelão da comitiva de Lord Strangford, em suas Notícias do Brasil (1825-1829), retrata conflitos regionais, narrando uma tentativa de insurreição malograda que se deu em fevereiro de 1929, em Pernambuco, e uma outra no Maranhão. Ele as explica pela distância em relação à Corte, associada à proximidade com outras “províncias republicanas”. Diz ele, referindo-se ao Maranhão:
A situação dessa província era sabidamente alarmante. Ela fica tão distante da capital que as comunicações entre esta e suas cidades de fronteira nunca se completam em menos de um ano, e em Tabatinga as notícias do Rio são trazidas muitas vezes passando pelo Cabo Horn, vindo assim do litoral e atravessando os Andes. Isso torna a influência do governo relativamente fraca, ao passo que a vizinhança das províncias republicanas representa um forte estímulo para que o seu

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exemplo seja seguido. (WALSH, 1985, p. 85) (grifo nosso)

e de 1824. No seu caso, o destaque maior será para o filho Martiniano de Alencar. Bastidas tampouco terá melhor sorte.

Das heroínas – semelhanças e contrastes
No cotejo entre a trajetória das personagens históricas podemos observar, em primeiro lugar, a masculinização da figura feminina no processo das independências. No caso de Manuela Sáenz, isso se vincula ao papel destacado que tiveram as mulheres no campo de batalha, nos diversos países, como soldados; no caso de Bárbara Alencar, ao matriarcado, ou seja, ao fato de que era comum as viúvas assumirem o comando de suas fazendas e por atuarem no campo político. Quanto a Micaela Bastidas, a morte após torturas atrozes aponta para o necessário processo de escarmento, a exemplaridade no castigo como forma de coibir novas rebeliões. Em segundo lugar, o jogo curioso de revelação e encobrimento – em relação a Sáenz, o processo de apagamento de sua atuação, de sua importância no campo político como estrategista e militante, que no seu caso começa por suas próprias mãos, ao colocarse como coadjuvante de Bolívar, nas cartas; e pela posteridade, que a conhece a partir do batismo que este lhe confere de Libertadora do Libertador. No caso de Bárbara se associa à figura da mártir, da mãe extremada, da mulher aprisionada, que sofre vexames e punição inclemente, mas se mantém fiel a seus ideais. Quanto a Micaela Bastidas simplesmente sua atuação será relegada a segundo plano, e associada sempre ao marido, ou seja, como a companheira de resistência e luta.

Até onde pude pesquisar, por outro lado, a figura de Bolívar se prestará a uma representação culta e popular de amplíssimo espectro, em todos os níveis, o que, creio, não sucede com Manuela Sáenz. Já quanto a Bárbara de Alencar, alcançou um destaque muito grande no campo do imaginário popular brasileiro, nos cancioneiros, na música popular, no cordel, no maracatu, em suma, em diversas formas de representação oral. Em relação a Bastidas, ainda estamos no começo da investigação. De todas as formas, o que ressalta da pesquisa é o quanto ainda há para se buscar, de forma a reconstituir pelo menos minimamente o efetivo papel desempenhado pelas mulheres nos processos de independência na América Latina. Nosso projeto, em suma, visa a contribuir para o processo de revisão histórica e ampliação do cânone literário latino-americano, no âmbito do processo coletivo de reflexão e crítica acerca dos bicentenários das independências na América Latina. A discussão local, temos certeza, será relevante na construção de saberes globais mais inclusivos e libertadores.

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Em relação à escrita da história, todas praticamente desapareceram do panteão de heróis da historiografia oficial. Manuela Sáenz surge sempre atrelada à figura de Bolívar, como um capítulo à parte. Quanto a Bárbara de Alencar é mencionada em pouquíssimos textos referentes às revoluções de 1817

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Nota
1 Seu diário da viagem e permanência no Brasil, entre 1821 e 1823, foi publicado em Londres em 1824 (GRAHAM, 1990).

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A DESTREZA ORAL E SUA IMPORTÂNCIA PARA A FORMAÇÃO DOS FALANTES DE ESPANHOL COMO LÍNGUA ESTRANGEIRA

Cristina do Sacramento Cardôso de Freitas Universidade Estadual de Santa Cruz - UESC

Introdução
A partir das ideias geradas no projeto de iniciação à docência intitulado “Ensinoaprendizagem da Língua Espanhola: a proficiência oral em foco”, desenvolvido na Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC - Ilhéus – BA), definiu-se o objetivo desta proposta, que é o de realizar uma reflexão a respeito de alguns aspectos relacionados à destreza oral entre alunos de nível iniciante, entre os quais se encontram: a investigação criteriosa das causas que conduzem à deficiência de sua produção oral, em língua espanhola; a análise detalhada das consequências de tal problema; e, finalmente, a proposição de atividades variadas de incentivo à otimização da expressão oral entre os mesmos. Para melhor compreendermos os aspectos que se relacionam ao desenvolvimento da destreza oral em língua espanhola, como L2, entre alunos de nível iniciante, decidimos organizar este referencial teórico em tópicos, entre os quais se encontram: a análise da questão das interferências linguísticas entre o português e o espanhol; a observação do uso de

métodos pretensamente comunicativos que visam facilitar a aprendizagem desta destreza; o papel da afetividade na relação professor-aluno e como esta influencia na capacidade de expressão oral do mesmo; as dificuldades específicas de aprendizagem da destreza oral em língua espanhola; a questão da fossilização e da interlíngua; a elaboração de um quadro em que se visualizam estes e outros fatores que definiríamos como de caráter individual, institucional e intrainstitucional; e, finalmente, a proposição de atividades que desenvolvam de maneira criativa, natural e estimulante a capacidade de expressão oral de alunos de nível iniciante. Para tal, sabemos que o processo natural de aquisição de uma língua tem como primeiro elemento de contato a oralidade, considerado o mais constante instrumento de uso linguístico. Portanto, um dos primeiros pontos a se desenvolver nos aprendizes espera-se que seja a oralidade. Mas o que vem a ser esta capacidade, habilidade ou destreza de se expressar corretamente em outro idioma? Quais são suas características?

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1. Revisão da Literatura
1.1. Características da destreza oral Estudos e pesquisas se desenvolveram no Brasil com o objetivo de compreender o fenômeno da produção oral em língua estrangeira, por falantes não nativos. Para Martín Peris (1996, p.50), algumas das principais características desta destreza são: é a destreza mais importante para muitos aprendizes de uma L2; possui uma utilidade prática real; as oportunidades de praticá-la dependem de muitos fatores externos ao aprendiz; conseguir um bom domínio desta destreza não é fácil, já que implica em ser capaz de utilizar um número considerável de microdestrezas capacitadoras, de interação e atuação com o outro, em contexto real. No entanto, em função das similaridades em diversos níveis reconhecidamente existentes entre a língua espanhola e a portuguesa, é possível afirmar que ainda há uma carência significativa no que diz respeito à discussão sobre as dificuldades específicas de alunos brasileiros e a proposição de materiais ou atividades que busquem o aprimoramento da expressão oral dos mesmos. As interferências que se produzem na aprendizagem do espanhol por lusofalantes representam o cavalo de batalha de profissionais e alunos e afetam a ambos.

do espanhol, dois grandes mitos sobre a língua povoam o imaginário comum. O primeiro é o de que a língua é composta basicamente por uma grande lista de palavras. Essa concepção é refletida no senso comum pelo apego que muitos professores têm aos chamados ‘falsos amigos’, os famosos falsos cognatos que evidentemente podem levar o indivíduo que não domina o idioma a uma série de situações embaraçosas. O problema não está em ensinar os ‘falsos amigos’ aos aprendizes, já que, de fato, esses elementos fazem parte da competência gramatical e linguística ideal de um falante da língua. A questão se centra na ideologia que essa ênfase nas questões lexicais da língua acarreta. Ao apresentar a língua como um grande inventário de vocábulos, essa ideologia, difundida inclusive pelos próprios meios de comunicação, constrói uma imagem de que a diferença entre as línguas portuguesa e espanhola se resolve apenas através de uma simples substituição de itens lexicais, promovendo uma visão de que os processos de uma língua se repetem uniformemente na outra. Não é difícil imaginar o quanto essa visão reducionista pode comprometer o desempenho de um aprendiz.

1.3. Métodos pretensamente ‘comunicativos’ O segundo ponto discutido pelas autoras é a

1.2. Interferências entre o português e o espanhol Determinando os efeitos da proximidade entre estas línguas, Kulikowsky e González (1999) fazem uma importante reflexão com relação à prática docente de espanhol para brasileiros. As autoras discutem como a imagem que o aprendiz de uma língua estrangeira tem do seu objeto de estudo pode determinar seu sucesso ou fracasso em termos de domínio oral desse conhecimento específico. No caso

ideia, não tão velada quanto a anterior, de que a língua é um instrumento destinado fundamentalmente à comunicação. Se a ênfase nos itens lexicais promove uma ideologia reducionista que impede o aprendiz de entender a língua como um sistema autônomo e extremamente complexo, a ênfase no fator comunicativo pode ter efeitos ainda piores no processo de ensino-aprendizagem do espanhol. Isso se deve ao fato de que a troca dos chamados objetivos gramaticais pelas competências comunicativas, na prática, não se realiza da maneira mais adequada.

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O falso objetivo de dominar as quatro habilidades em cada vez menos tempo é o principal elemento motivador do aprendizado, uma vez que fornece uma sensação de domínio imediato logo nas primeiras aulas, ainda que essa sensação seja ilusória, como salientam Celada e González (2005), pois provém de um novo reducionismo, o que se refere à uniformidade das situações pragmáticas nas quais um indivíduo pode se encontrar. Ao entender a língua como um instrumento que ‘serve’ basicamente para se comunicar, o indivíduo se apossa de suas expressões de maneira imediatista e utilitária, o que o distrai da real tarefa de compreender a língua como um sistema autônomo, com seus processos particulares. Alguns teóricos opinam sobre a importância do desenvolvimento desta capacidade comunicativa oral, o que inclui, a nosso ver, uma questão mais ampla que envolve a fluência verbal no idioma estrangeiro. Faerch e Kasper (1983) alegam que quanto mais o aluno se engaja em situações comunicativas, maior variedade e mais possibilidades ele tem não só de praticar sua capacidade comunicativa oral na língua estrangeira, como também de construir hipóteses sobre a L2 e testá-las. Dubin e Olshtain (1977) acreditam que o papel do professor deve ser o de facilitar o aprendiz a desenvolver suas próprias capacidades e recursos interiores para realizar adequadamente as tarefas comunicativas. Para Canale e Swain (1980), proficiência linguística significa não somente saber fonologia, sintaxe, vocabulário e semântica, mas também ser capaz de fazer uso desse conhecimento apropriadamente em comunicação real.

começaram a apresentar maior interesse a partir dos anos 70. A este respeito, Krashen (1982) estabeleceu uma relação direta entre a primeira e o êxito do aluno no processo de aprendizagem de uma nova língua. Este psicolinguista levou em conta três variáveis que possuem uma influência direta sobre a aprendizagem de idiomas: a atitude, a motivação e a personalidade. Explicou que existe um filtro de percepção, o chamado filtro afetivo, que se refere a um conjunto de circunstâncias, angústias, falta de interesse, de motivação, que, em determinados casos, bloqueiam a aquisição satisfatória do código e a compreensão ou, no nosso caso, a produção em idioma estrangeiro. Por isso, o aluno deverá ter uma atitude positiva que lhe permita uma maior permeabilidade diante do processo de aprendizagem e evitar as barreiras afetivas, que geram por sua vez, bloqueios mentais que não permitem que os dados sejam processados de forma completa. Em consequência, para que haja uma melhor receptividade aos conteúdos, se requer empatia, disponibilidade e autoconfiança.

1.5. Dificuldades específicas de aprendizagem da destreza oral em língua espanhola Além destas dificuldades pessoais e interpessoais que o aluno pode apresentar com relação à aprendizagem da língua estrangeira, em nossa prática docente percebemos também que, muitas vezes, alunos brasileiros, aprendizes de espanhol como língua estrangeira, demonstram algumas dificuldades no que diz respeito à pronúncia da língua espanhola.

1.4. O papel da afetividade na aprendizagem da expressão oral Por sua vez, estudos sobre a relação entre a afetividade e a capacidade de aprendizagem do aluno

Podemos dizer que existem aspectos nas duas línguas que não criarão dificuldades na aprendizagem. Teríamos também outros aspectos na língua estrangeira, sem equivalência na língua

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materna, nos quais seria mais difícil para os alunos alcançarem um nível de produção oral mais próximo do ideal. E, por último, há aqueles aspectos que de tão similares nas duas línguas, se tornam os mais passíveis de interferência e que, possivelmente, são os que provocarão mais problemas na aprendizagem. O ensino da pronúncia, em língua espanhola, é uma das destrezas que todo aluno necessita dominar quando aprende uma língua estrangeira. Por isso, deveria fazer parte dos conteúdos de qualquer plano curricular e o professor teria que incorporar às suas atividades em aula. Com relação ao momento da correção da pronúncia do aluno, esta é necessária no momento em que na produção oral se detectam equívocos. No entanto, o professor deverá enfrentar este momento da correção da pronúncia com cautela. É necessário também que tenha consciência do grau de “precisão fonética”, ou seja, o grau que deseja alcançar na produção oral dos estudantes.

influência direta e que o aproxima cada vez mais da língua-alvo de aprendizagem. Trata-se ainda de um sistema variável e dinâmico, distinto tanto da língua materna como da estrangeira (ainda que nele se encontrem elementos das duas); e que contém regras que lhe são próprias, pois cada aprendiz possui seu sistema específico em determinado estágio de aprendizagem. Entre os vários aspectos que observamos com relação às dificuldades enfrentadas por alunos brasileiros de espanhol, como segunda língua, encontram-se: a realização de fonemas nasais na língua espanhola, a abertura e o fechamento dos fonemas vocálicos, os encontros vocálicos em ditongos crescentes, alguns fonemas e alófonos oclusivos e fricativos, a realização da vibrante múltipla, entre outros fenômenos.

1.7. Análise de alguns fatores Foi possível observar que muitos fatores podem intervir no processo de aquisição de uma Quando não ocorre a devida correção dos equívocos de pronúncia cometidos pelos alunos, desde os primeiros contatos com o idioma estrangeiro, a consequência poderá ser a formação de um processo denominado interlíngua, em que estes futuros professores parecerão se contentar com o estado de língua atingido, sem desejar evoluir a partir da problemática mescla criada entre a língua materna e a língua estrangeira a qual estão expostos. O sistema linguístico desenvolvido por um falante não nativo na língua estrangeira foi denominado de várias maneiras, no entanto, o termo mais aceitado é o de interlíngua, proposto por Larry Selinker (1972). Para ele, a interlíngua é um sistema linguístico interiorizado (com características de linguagem porque serve para comunicar-se e possui gramática interna), sobre o qual o aprendiz possui Fatores institucionais; Fatores intrainstitucionais A tabela abaixo busca apresentar estes três aspectos principais envolvidos nesta pesquisa, objetivando investigar criteriosamente as causas da deficiência oral, analisar sua consequência e propor, à luz da teoria da revisão da literatura realizada, soluções criativas, modernas e práticas para tal questão. segunda língua. A partir de uma série de observações, detectamos que, entre os fatores que mais dificultam a solidez da expressão oral para os alunos iniciantes do Curso de Graduação em Letras (PortuguêsEspanhol), da Universidade foco de estudo nesta investigação, encontram-se: Fatores pessoais ou individuais;

1.6. A questão da interlíngua e da fossilização

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CAUSAS DA DEFICIÊNCIA ORAL 1. FATORES INDIVIDUAIS (ALUNO) a) timidez excessiva, vergonha, medo de errar e ser ridicularizado em sala de aula. b) distância afetiva no relacionamento professor-aluno, o que afasta os alunos da possibilidade de desejar expressar-se oralmente em língua estrangeira, em sala de aula. c) falsa ideia de facilidade na aprendizagem da língua espanhola, por tratar-se de uma língua-irmã à portuguesa. d) interferências linguísticas da língua materna sobre a língua estrangeira, criando a chamada interlíngua. e) falta de hábito de expor-se em público, em ambiente acadêmico, em língua estrangeira. f) dificuldades naturais de aprendizagem de um novo idioma, no início do processo. g) ausência de conhecimentos prévios em língua espanhola, anteriores à entrada na universidade. h) falsa crença de que, ao se graduarem como professores, ministrarão aulas de língua espanhola, em instituições públicas e privadas de ensino fundamental ou médio, em língua portuguesa. 1. FATORES INDIVIDUAIS (professor) a) utilização de metodologias pretensamente comunicativas no ensino da língua estrangeira. b) ausência de projetos ou atitudes individuais que privilegiem a presença de professores, alunos e outros convidados, falantes de língua espanhola como L1, em atividades acadêmicas em sala de aula de língua espanhola nesta universidade. 2. FATORES INSTITUCIONAIS a) grande quantidade de alunos por turma. b) carga horária insuficiente de aulas. c) ausência de meios auxiliares à aprendizagem, em ambiente acadêmico: laboratórios de informática e de idiomas bem equipados e modernos. 3.FATORES INTRAINSTITUCIONAIS a) ausência de programas de intercâmbio entre professores e alunos de universidades na Espanha e na América e as universidades públicas no Brasil.

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2. Proposição de atividades variadas de incentivo à otimização da expressão oral entre alunos de Língua Espanhola de nível básico
2.1. Assistir a um filme, em espanhol, sem legenda, e interromper a projeção antes do final para que os alunos tenham a oportunidade de propor finais criativos para a história e para os personagens principais, em forma de redações curtas, individuais (atividade indicada para trabalhar produção escrita e oral criativa). Algumas sugestões de filmes seriam: El laberinto del fauno, Un cuento chino, Vicky, Cristina, Barcelona, La suerte está echada, La casa de los espírutus, Manolito Gafotas, Crónica de una muerte anunciada, Frida, Muerte en Granada e Mujeres al borde de un ataque de nervios.

oralmente (explicando por que escolheu esta notícia, relatando seus principais aspectos e dando sua opinião sobre o tema); num primeiro momento, os demais alunos escutam a notícia e, num segundo momento, emitem suas opiniões sobre o mesmo, criando-se naturalmente um ambiente de debate sobre temas atuais diversos.

2.4. Relato de fotos de viagens (atividade indicada para trabalhar produção oral e descrição) Sequência de atividades: na aula anterior, o professor deverá solicitar aos alunos que tragam 5 fotos de viagens pessoais ou familiares, em pen driver, que considerem interessantes; na aula seguinte, as fotos de cada aluno serão projetadas para que todos possam visualizá-las com clareza; os alunos deverão fazer perguntas do tipo quem está na foto, onde e

2.2. Criação de conto moderno, em língua espanhola. Sequência de atividades: tempestade de ideias sobre o tema contos de fadas; compreensão auditiva de conto de fadas curto; leitura em voz alta, pelos alunos, do mesmo conto; escritura, em grupos, de novo conto (com características modernas), de forma criativa; gravação em áudio do conto produzido; apresentação, de forma teatralizada, do conto criado pelo grupo.

quando foi tirada, por quem, por que escolheu aquela foto específica para apresentar, etc.

2.5. Produção, em duplas, de diálogo em estabelecimento comercial, baseado em material autêntico (folhetos recolhidos em viagens a países de fala hispânica). Sequência de atividades: na aula anterior, o professor deverá entregar folhetos de estabelecimentos comerciais, em língua espanhola, aos alunos, em duplas; os estabelecimentos selecionados vão depender dos folhetos que o professor possuir para a atividade (por exemplo, de restaurantes, hotéis, estações de metrô, casas de dança, far mácias, consultórios dentár ios ou médicos, livrarias, lojas de roupas, teatros, cinemas, museus, mercados, lojas de eletrodomésticos, bancos, bares, etc).

2.3. Pesquisa no laboratório de informática da universidade sobre jornais e revistas digitais, em língua espanhola (atividade indicada para trabalhar leitura, relato oral e capacidade de argumentação, além do uso das novas tecnologias de informação). Sequência de atividades: cada aluno deverá pesquisar na internet uma notícia interessante, em língua espanhola; em seguida, deverá apresentá-la

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2.6. Produção de um vídeo curto (em forma de comercial de tv), em grupos, em língua espanhola, divulgando o Curso de Letras (Português-Espanhol) da universidade (atividade indicada para trabalhar produção oral, escrita, criatividade, organização, trabalho em grupo, uso das novas tecnologias, etc).

análise contemplativa destes fatores que geram dificuldade de produção oral entre os alunos de nível iniciante nas instituições de ensino superior. No entanto, ao longo do processo, nos demos conta de que, sem detectá-los claramente e sem tentarmos solucioná-los em curto ou médio prazo, a consequência recairá diretamente sobre a capacidade de expressão oral dos alunos. Acreditamos também que, de nada adiantaria a mera proposição de inúmeras atividades comunicacionais, em sala de aula, de aprimoramento da destreza oral e aquisição de fluência em idioma estrangeiro, se tais fatores mencionados não forem observados “com novos olhos”, tanto pela instituição de ensino superior, quanto pelo professor e, principalmente, pelos próprios alunos em questão, que deverão encarar o problema da aquisição da destreza oral de frente e não fingir que ele não existe. Assim, para concluir, como podemos observar, as causas da deficiência de expressão oral em língua espanhola estão intimamente relacionadas à sua consequência, a falta de fluência no idioma estrangeiro, e todos devem estar cientes deste fato:

2.7. Atividade de produção oral a partir do vídeo humorístico ‘Qué hora es’ (visa desenvolvimento da produção oral, escrita, criatividade, organização, trabalho em grupo, uso das novas tecnologias, etc). Sequência de atividades: neste vídeo de humor produzido por um grupo de humoristas mexicanos, os personagens são americanos e usam frases soltas, completamente descontextualizadas, em espanhol, para demonstrar questões relativas às dificuldades de produção oral em língua estrangeira; após assistirem ao vídeo, o professor dividirá a turma em grupos e lhes solicitará que criem situações teatralizadas semelhantes às que aparecem no vídeo ‘Qué hora es’. Tais situações deverão ser gravadas em vídeo.

Considerações finais
Finalmente, se pode afirmar que o objetivo do professor de ELE não deve ser simplesmente a

alunos, professores e, em última instância, a própria instituição de ensino superior.

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Referências bibliográficas
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A LEITURA DE PROFESSORES DE ESPANHOL, FORMADORES DE LEITORES, MEDIADA POR COMPUTADOR

Cristina Vergnano-Junger UERJ

1. Introdução
Este trabalho traz à discussão parte dos resultados da pesquisa “ Interleituras : interação e compreensão leitora em língua estrangeira mediadas por computador”, que vimos desenvolvendo na UERJ, há cerca de três anos. Vem sendo crescentes os estudos sobre as interações mediadas por computador. Neles observamos exposições teóricas sobre as características dos textos virtuais (MARCUSCHI, 2004; 2005); em vários casos, formas de lidar com eles (RIBEIRO, 2005; MAGNABOSCO, 2009) e sobre impactos que as tecnologias da informação e comunicação (TICs) vêm gerando no modo de vida/ interação das/entre as pessoas nesta era da informação (LAVID, 2005; CASSANY, 2011). No entanto, sentimos falta de mais pesquisas, hoje mais frequentes, com um desenho empírico que oferecesse amostras desses novos comportamentos associados aos gêneros digitais. Essa foi nossa motivação para utilizar uma abordagem metodológica empírica no Interleituras , a fim de monitorar procedimentos

leitores e, assim, refletir sobre como vêm ocorrendo, suas diferenças e especificidades com relação à leitura em meio impresso. Nossa questão central volta-se, portanto, para como se lê em ambientes vir tuais. Ou seja, preocupam-nos estratégias, procedimentos e conhecimentos que são postos em marcha durante o processo leitor mediado por computadores, em especial quando se trata da Internet. Neste breve artigo, apresentamos uma sucinta revisão teórica sobre o tema, as bases gerais de nosso desenho metodológico e uma síntese dos resultados encontrados, especificamente no que foi observado junto a dois docentes de espanhol, sujeitos do estudo.

2. Revistando alguns aspectos teóricos
Um rápido olhar à nossa volta já nos dá um panorama de como as TICs passaram a fazer parte do cotidiano das pessoas, independentemente, muitas vezes, da faixa etária e de condições socioeconômicas. São caixas eletrônicos, smartphones, câmaras digitais,

simultânea ou isoladamente. Isso porque os autores que vêm estudando os textos produzidos especificamente em e para ambiente digital os caracterizam como hipertextuais e multimodais (RIBEIRO. redes sociais. Necessariamente. Propomos. são efêmeros. profusão de mensagens instantâneas (SMS). Nosso foco está direcionado especificamente à leitura. viabilizados pelos recursos das TICs (MARCUSCH.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 287 cibercafés. 2009). que está presente em diferentes práticas sociais e demanda um sujeito ativo. portanto. Uma proposta metodológica O Interleituras se define como uma pesquisa exploratória e descritiva. Em resumo. histórico e cultural. como nos casos da inclusão de outras tecnologias no passado. em tal perspectiva. uma vez que buscamos identificar os comportamentos que vêm caracterizando as práticas leitoras mediadas por computador. Isso porque entendemos que não se pode produzir sem ser capaz de compreender. no entanto. por isso. de demandando. Deve-se assumir. multidirecional. pluralidade acessos se fazem tanto de forma assíncrona como síncrona. No que se refere às TICs e à leitura em meio virtual. também. em distintos idiomas. gêneros. tanto gêneros que se caracterizam como reestruturações daqueles já existentes em fontes impressas. seja cedo para uma definição precisa de padrões. nem uma hierarquia fixa entre suas partes. 2005). trabalhando com amostras limitadas. recursos e atividades estão em construção e estudo. que. e-mails. em conjunto com todos os estudos do grupo de pesquisa LabEV. Importam. v ideogames . Adotamos uma abordagem qualitativa dos dados. linguagens. fomentando a interação e o acesso a uma realidade plurilinguística e pluricultural. oferecer exemplos que favoreçam. de diferentes partes do mundo. como inovações próprias do ambiente virtual. 2005. tomando tal compreensão já como um tipo de produção de sentidos. nesse momento. entendida como uma atividade complexa. diferentes outros textos que podem ser colocados em diálogo com o que se está lendo. ao menos. Essa revolução da era da informação é. 3. tantas inovações estejam transformando nossa maneira de usar a linguagem e interagir. Isso significa dizer que. VERGNANO-JUNGER. reflexão e construção de um conhecimentos e atitude ativa de seus leitores. já em sua natureza. contudo. crítico e reconstrutor de sentidos (VERGNANO-JUNGER. avaliamos essa perspectiva multidirecional como produtiva. De modo que as teorias a respeito e a caracterização de gêneros. de apresentar generalizações sobre as novas práticas. ao contrário. assim. suportes e/ou gêneros não são acessíveis de forma universal ou democrática e várias pessoas conseguem prescindir de muitos (ou. Talvez. A questão passa a ser. 2004. como e em que medida isso estaria ocorrendo. o contexto espaço-temporal. ainda muito recente. interconectados por links. com suas marcas linguísticas e tipográficas. a discussão. 2005. tais recursos. habilidades e estratégias. MAGNABOSCO. como as próprias práticas sociais relacionadas às TICs. sons imagens etc. Os . Isso permite que cada leitor construa seu caminho próprio e componha. o que significa que não têm um centro. 2010). 2010). diferentes produtos finais (“textos”) para leitura (RIBEIRO. blogs. sem a pretensão. a atividade caracteriza-se como um processo de construção de sentido que inclui insumos de diferentes direções e naturezas. A forma de constituição dos gêneros virtuais é hipertextual. o texto. implicam a existência de diferentes contextos. Nesse meio obser vamos. parte) deles em seu dia-a-dia. fragmentados. o leitor com toda a sua bagagem de conhecimentos prévios.

a partir do grau de concordância (nunca/nada. de um texto impresso. de um texto virtual e. utilizamos: (a) uma ficha de caracterização de sujeito. Nossos sujeitos são professores de espanhol. contendo propostas de compreensão. dificuldades.288 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS quadro mais amplo da questão. por outro. junto com o preenchimento dos protocolos. Como nossa abordagem de análise é qualitativa. enquanto d-018 o faz tanto em casa . pouco. apenas o uso do computador conectado à Internet e no caso da impressa. d-018 (faixa de 31 a 40 anos) é mais velho que d-019 (faixa de 26 a 30 anos) e ambos são professores de espanhol nos ensinos fundamental e médio. limitando-nos às leituras livres: impressa e virtual. (d) duas atividades de leitura guiada. convidaremos os sujeitos a participar de entrevistas a fim de discutir com eles nossas observações. Ou seja. leitura em espanhol língua estrangeira (ELE) e uso de bens informáticos. hipertextos. monitoramos apenas seis sujeitos docentes. relativamente. com menor pressão e definições de objetivos e atividades por parte dos pesquisadores. As únicas limitações que lhes impusemos nessas sessões de leitura foram: de tempo (entre 30 e 45 minutos para cada sessão) e de meio (no caso da virtual. D-018 gasta mais tempo (até 5 horas diárias) em atividades de leitura e no uso da Internet do que d-019 (entre 1 e 3 horas). Como instrumentos para as diferentes coletas de dados. 4. procuramos contribuir para responder os nossos problemas: (a) como o processo leitor está sendo desenvolvido em meio virtual e. dúvidas. Além do material preenchido pelos sujeitos. (b) em que medida se diferencia e/ou aproxima da leitura em meio impresso. faixa etária e atividade profissional. cada qual em suportes impressos e virtuais. Apresentando e discutindo alguns dados Neste artigo apresentamos dados apenas de dois docentes – d-018 e d-019 –. ao contrario das leituras guiadas que têm uma tarefa a cumprir. a serem resolvidas durante as sessões correspondentes de monitoramento. sempre/totalmente) com uma série de 116 assertivas divididas em seis blocos temáticos. que estivesse disponível na biblioteca de um projeto de extensão sob a responsabilidade do Setor de Espanhol da UERJ. as sessões são gravadas em áudio. estratégias usadas). No que se refere ao uso do computador e acesso à Internet. No que se refere ao perfil da ficha de sujeito. no qual se recolhem as crenças do sujeito sobre leitura. além do aspecto prático da limitação de espaço. escolhidos pelo fato de que suas práticas leitoras podem influenciar seu trabalho como mediadores e formadores de leitores. qualquer material não digital/virtual/multimídia. (b) um questionário. Também fazemos um recorte no que se refere às leituras selecionadas para comentário. (c) quatro protocolos de acompanhamento do processo leitor – dois para leitura impressa e dois para leitura virtual. em quatro sessões de leitura: duas livres e duas guiadas. é que se caracterizam como um contato mais espontâneo com a leitura. respectivamente livres e guiadas – preenchidos pelo sujeito durante cada uma das quatro sessões de leitura monitorada. e em arquivo de áudio e vídeo (voz do sujeito e imagens da tela do computador). segundo uma abordagem multidirecional de leitura. Também lhes pedimos que registrassem sua atividade no protocolo escrito e que comentassem oralmente (para a gravação) o que fizessem e pensassem durante a leitura (ações. com informações sobre seus hábitos leitores e de atividades em meio virtual. no caso das leituras em meio impresso. por um lado. muito. mas se admitindo o uso de materiais impressos próprios). cujo conjunto de coletas está completo. O motivo. nas sessões de leitura virtual. Ao finalizar as análises. respectivamente.

”. b) d-018 concorda totalmente com a assertiva “O leitor entende um texto ao apreender seu significado. ignorando a bagagem do leitor e outros elementos que possam ser conjugados para estabelecer a compreensão. incluindo a busca de informação e materiais. D-019 restringe seu uso ao e-mail. que se considera apenas como relativamente hábil e autônomo. embora d-018 abra mais o leque de possibilidades do computador e da rede. com ênfase no texto.”. escolhendo histórias em quadrinhos e contos com temática de futebol. mas. esta última não citada por d-018. selecionando textos que contribuíssem para a melhoria de sua prática e planejamentos.” . podemos tecer algumas reflexões sobre as possíveis tensões entre crenças e práticas. já que a leitura pode variar de indivíduo para indivíduo e poderá ser verificado durante a entrevista. Já na leitura virtual. afirmou concordar muito com o fato de que “O domínio de vocabulário. Apesar disso. houve avaliações de assertivas em que ora um.” . ora outro. reconhecem tanto os aspectos positivos quanto as limitações do meio. Pudemos constatar diferenças não apenas entre ambos os sujeitos. Em termos de crenças coletadas a partir do questionário. tendendo a uma perspectiva decodificadora. desconsiderando que há outros elementos que entram em jogo na interação e contradizendo algumas avaliações feitas em outras assertivas. não descar tada pelos pesquisadores. numa perspectiva unidirecional. Contraditoriamente. nem tecnofóbica) a respeito das TICs e seu emprego. para ter um momento de lazer. enquanto d-018 optou por ler para relaxar. é que as assertivas tenham sido compreendidas de forma diferente da pretendida quando da elaboração do instrumento. ao contrario do segundo. talvez pela menor frequência de uso do computador. tanto d-018. os papéis se inverteram. D-018. A primeira observação que fazemos se refere à definição de objetivos de leitura e às escolhas de gêneros e assuntos. podendo esta estar centrada no texto ou no leitor. No caso da leitura impressa. Isso seria admissível. Quanto ao perfil de usuários de meio virtual. Quando efetivamente vão ler durante as sessões de monitoramento. cada um poderia definir o que fazer. representado pelas suas marcas linguísticas. O primeiro se avalia como um usuário muito hábil e autônomo. tendeu para uma perspectiva unidirecional. como e por quê. Uma das possibilidades. define .ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 289 quanto no trabalho. navegação e participação em redes sociais. pois a assertiva indica uma supervalorização das imagens que o leitor projeta no texto para lhe dar sentido. d-019 só o faz em casa. Focalizam seu interesse em questões relacionadas a trabalho e estudo. centrada no leitor. ao concordar plenamente com “Compreender um texto significa formar uma estrutura mental que representa o significado e a mensagem atribuídos ao texto. quanto d-019 oferecem dados que nos permitem incluí-los numa categoria de leitores prioritariamente multidirecionais. Exemplos disso são: a) d-019 concordou totalmente com a assertiva “O centro do processo de leitura é o leitor. conceitos e estruturas gramaticais é essencial à leitura. mas também entre as duas modalidades de leitura: impressa e virtual. Também contradiz sua tendência multidirecional. d-019 manteve-se ligado ao trabalho. nesse caso. na qual “apreender” implica capturar/ receber o que está exposto no texto. Uma vez que as leituras eram livres. podendo ser avaliadas como pessoas que têm uma posição equilibrada (nem ufanista. ambos o dominam para usos cotidianos de caráter instrumental.

educação e política brasileira. sempre silenciosa. estratégias de copiar/recortar e colar. saltar de um texto para o outro. no caso de d-019. quase se perdendo. o pouco tempo para a atividade (informou que lê devagar). Ao se autoavaliar. por não conseguir encontrar o que procurava. seguiu a navegação de forma mais controlada/ordenada. na leitura virtual. a fim de se atualizar e informar. aproveitando melhor os recursos que o meio virtual lhe oferecia. Embora tenha demonstrado mais proficiência no trato com o computador. não seguia palavra a palavra. d-018 não definiu hipóteses sobre o que encontraria ao ler os textos impressos. dificulta a organização em texto corrido que temos em materiais impressos. queixou-se que um dos materiais lidos tinha a imagem do quadro Guernica muito antes das suas explicações e comentários. Já d-019. Selecionou notícias e críticas de arte (procurava textos verbais sobre Guernica) em fontes em língua espanhola. usaram como ponto de partida o buscador Google. Ambos destacaram a importância do conhecimento de mundo e. Foi um pouco menos linear na leitura virtual. com o skimming servindo como estratégia básica para uma panorâmica geral de cada material. teria sido mais fácil. havia diferença entre ambos. mudando seu foco. não sabia o endereço eletrônico para acesso. na leitura virtual. Em termos estratégicos. abandonando o que não lhe interessava e. guardou informação na área de trabalho para uso posterior. A observação chama atenção. D-019 considerou-se mais seguro na leitura impressa. saltando de um a outro (o cursor serviu de apoio a essa movimentação). ao qual sempre retornavam para novas pesquisas. a não ser. em vista da impossibilidade de encontrar o tema originalmente desejado. ao contrário do que havia feito na leitura impressa. Apesar de ter mais idade. integrando em sua leitura conteúdos ali encontrados. mas também nos permite refletir sobre a necessidade de os textos veiculados em meio virtual serem mais curtos e apresentarem os links para enlaçarem conteúdos. utilizando skimming e scanning. dispostos em páginas numeradas e sequenciais. A observação do comportamento do mouse e da barra de rolagem da página pôde ajudar a confirmar que a leitura feita pelos dois docentes. ao contrário. Ao contrário. consultou diferentes sites. como no caso de d-019 com o jornal cujas notícias leu e do qual. sem relatar nada que os tivesse atrapalhado. mesmo sendo seu conhecido. pois conseguiu seguir do início ao fim e alcançar seus objetivos. D-019. Isso tornava a leitura desconfortável e mais difícil. Mesmo assim. ao contrario de d-019 que esperava ler textos que atendessem seu objetivo de aperfeiçoamento. sua insegurança concretizou-se pela fragmentação da leitura. Os gêneros escolhidos foram notícias e vídeo. Provavelmente foi motivado pelo costume que tem de utilizar a Internet como fonte de recursos para suas aulas. d-018. já que d-018 mostrouse sempre menos linear. enviou para si mesmo por email materiais. uma vez que sua formatação vertical. salvou arquivos em pendrive. na leitura livre impressa. não deu muito valor às imagens de maneira geral. sem um fim preciso (nunca temos exata dimensão de sua totalidade espacial). Isso ocorria inclusive quando se tratava de uma fonte habitualmente consultada. embora de forma menos linear do que na leitura impressa. Concluiu que.290 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS sua atividade em termos de busca de materiais para usar em sala de aula. Nesse aspecto observamos a contradição entre crenças e práticas com relação à postura unidirecional . não acessou links. Apesar disso. se estivesse em papel. Era feita em blocos. d-018 demonstrou mais facilidade com a internet e o computador de maneira geral: utilizou editor de texto. ambos consideraram ter alcançado seus objetivos. em português. disse não ter sentido falta de apoio impresso ao ler na tela. procurou textos sobre atualidade.

n. estratégias que possuam. A fragmentação de atividade leitora em meio virtual atende a uma característica do suporte. embora. nos textos literários. ainda. p. inclusive no que se refere à autopercepção da proficiência. 57. 2011. um aproveitamento heterogêneo e não sistemático dos recursos tipicamente virtuais dos textos de gêneros digitais. de apoio de suporte impresso em alguns contextos de leitura. Destacamos: o uso de estratégias clássicas de leitura. ter tendido igualmente a uma leitura seguida e completa dos contos escolhidos. Nos casos aqui exemplificados. didático-pedagógica nossas crenças. adaptadas ao ambiente virtual. abril. leitores multidirecionais poderão provocar em seus aprendizes um perfil de exploradores dos textos. acessar links. mesmo quando tende ao segundo caso em termos de crenças.. Textos de didáctica de la lengua y de la literatura. aproveitando todos os recursos. por parte do sujeito d-018. Na verdade. como já regitramos. a necessidade. Referências bibliográficas CASSANY. o histórico de como aprendemos e daquilo que usamos. observamos uma melhor integração ao meio. . do contexto. menos linear. sob uma perspectiva crítica e reflexiva. apesar de ter apresentado posicionamentos favoráveis a uma perspectiva multidirecional em seu questionário. A atitude de d-018 foi. Después de internet. As faixas etárias podem contribuir para a maior ou menor intimidade com o ambiente virtual. Isso. Como normalmente transferimos para nossa atividade 5. sejam eles de sua bagagem pessoal. um perfil leitor que oscila entre uni e multidirecional. continuar investigando para ampliar o campo teórico e para levar as novas teorias que estão sendo construídas ao terreno da prática. assim. mais velho do que d-019. portanto. merece atenção o estabelecimento do diálogo entre academia e meio escolar. Cabe. mas para interagir com docentes e alunos. Da mesma forma. conhecimentos. do texto ou de outros discursos/textos. mas nem sempre são fatores determinantes. mas é rejeitada como falha de leitura pelo sujeito. não só para aprimorar a formação inicial e favorecer a formação continuada de professores. Aprender a ter consciência dessa tensão entre expectativa e realidade pode nos ajudar a aperfeiçoar a própria compreensão e. abrir diferentes aplicativos para resolver as questões de leitura. Algumas conclusões iniciais Embora não caiba generalizar comportamentos leitores em ambiente virtual com base neste estudo de amostra reduzida. é viável apresentar alguns comportamentos que se caracterizam como possíveis tendências na leitura desses docentes. A par tir da descrição desses sujeitos. Daniel.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 291 marcada pela leitura linear (do início ao fim) realizada e valorizada por d-019.. poucas foram as estratégias eminentemente virtuais observadas: copiar/colar. somando sua experiência aos constructos acadêmicos. Em especial e em nossa avaliação. Outro aspecto que nos chama atenção é o fato de que não necessariamente as crenças e percepções sobre nossas práticas leitoras se concretizam durante o ato de ler. sermos melhores professores. gêneros e ferramentas das TICs. defendemos que é possível uma reflexão sobre seu papel na formação de seus alunos leitores e de como tais conhecimentos podem contribuir para otimizar o letramento em espanhol na era digital. 12-22. seus gêneros e recursos tenderão a levá-los à suas salas de aula. é factível assumir que professores que são exploradores das TICs.

P. Madrid: Cátedra. n. A. Elaboração de materiais para o ensino de espanhol como língua estrangeira com apoio da internet. BEZERRA. _____. E. 2004. A.292 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS LAVID. C. Gêneros textuais emergentes no contexto da tecnologia digital. métodos y herramientas para el lingüista del siglo XXI. Luiz Antonio. V. Julia. A. jan. Cristina. aspectos soc iais e possibilidades pedagógicas. n. Letramento dig ital. 1.l. RIBEIRO. COSCARELLI.). Belo Horizonte: CEALE. In: DIONISIO. 125-150. Calidoscópio. 90-101. R. 2005./abr. VERGNANO-JUNGER. GÊNEROS DIGITAIS: modificação na e subsídio para a Leitura e a Escrita na Cibercultura. jan. suportes de leitura e escrita. (org).C.]: Unisinos. . 2005. RIBEIRO.1.8. (Orgs. 2010. MARCUSCHI. Gêneros textuais: definição e funcionalidade. p. ed. Gislaine Gracia. Ana Elisa. 2005. 24-37.2. 1. nuevas herramientas. p. Rio de Janeiro: Lucerna. In: Revista Prolíngua (UFPB) . MARCUSCHI. Ler na tela – letramento e novos MAGNABOSCO. 2009. Hipertexto e gêneros digitais . 3 ed. A.A. v.A. Rio de Janeiro: Lucerna. (Orgs./jun. MACHADO. XAVIER.) Gêneros textuais e ensino. [S. Lenguaje y nuevas tecnologías. v. M. p. L.

Alguns o veem como um déspota sombrio. independiente. como a ditadura do Dr. Mas o que há de unanimidade é que ele era um ferrenho defensor da independência e da soberania nacional. A partir destes fatos desencadeia-se toda a narrativa. MEMÓRIA E FICÇÃO EM YO EL SUPREMO E EM HIJO DE HOMBRE DE ROA BASTOS Damaris Pereira Santana Lima PG . Francia. como as notas às margens com letra desconhecida que levam à reconstrução das circunstâncias históricas que viveu o Dr. Francia. p. Francia. os quais Roa Bastos mostra como podem ser reinterpretados pela ficção com a intenção de desvelar um fato histórico mascarado. que a cabeça seja posta em um poste por três dias. Em Yo el Supremo Roa Bastos trata de vários temas ligados ao Dr. o isolamento e militarização do Paraguai como . Para isto o povo deveria ser convocado através do sino da igreja para ver esta barbaridade. 2008. Nos questionamentos do Supremo há a evidência dos temas históricos do século XIX. no Paraguai (1816-1840). que recuperam vários períodos da história do Paraguai no século XIX e XX. o que Patiño jamais conseguirá. O romance Yo el Supremo começa quando um pasquim é encontrado cravado na porta da Catedral de Encarnación em forma de decreto com assinatura falsificada do Supremo Ditador. Francia. Francia: as revoluções e a independência do Paraguai. o Dr. personagem para quem não foram unânimes os julgamentos da história. O ditador começa a procurar quem seria o autor de tal documento exigindo que seu secretário Policarpo Patiño localizasse o dito autor. do período do governo do Dr. outros como um prócer da nação paraguaia. Em seguida todos os funcionários da casa civil e militar também deveriam ser enforcados. O romance contém notas que complementam e outras que contradizem. No documento apócrifo o Supremo ordena que seu cadáver seja decapitado.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 293 HISTÓRIA. Quando ele se defende das acusações sobre si no pasquim fixado na porta da catedral questiona retoricamente: “¿De qué me acusan estos anónimos papelarios? ¿De haber dado a este pueblo una Patria libre. 57). soberana? Lo que es más importante ¿de haberle dado el sentimiento de Patria? (…) ¿De esto me acusan? (ROA BASTOS.UNESP/ Assis Hijo de Hombre (1971) e Yo el Supremo (1974) são romances do escritor paraguaio Augusto Roa Bastos (1917-2005).

66). Supremo. ou de papéis que teriam sido descartados: “hoja suelta”. adversários e ex. “Letra desconocida” (p.amigos. 585). en bibliotecas y archivos privados y oficiales. 31-32). p. As fontes extratextuais são muitas. foi-se passando a limpo a história.294 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS estratégia do ditador para livrar seu país das intenções anexionistas de Buenos Aires e as imperialistas do Brasil. consultados. espiados. considerado pelo Supremo como Neste trabalho de investigação empreendido pelo Supremo e seu secretário Policarpo Patiño para descobrir quem se atreveu a parodiar os decretos do . porque o autor outorgou-lhe um caráter fictício e ao mesmo tempo histórico. Há um passado. 2009. 97). seus caprichos e sua postura para com os estrangeiros. reforzando. enriqueciendo su sentido y verdad”. correspondencias y toda suerte de testimonios ocultados. Todos os temas que fazem parte do romance tem matriz historiográfica. os fuzilamentos.de unos veinte mil legajos. éditos e inéditos. pois fala do presente da enunciação do romance e se remete à história do Paraguai anterior à ditadura do Dr. de otros tantos volúmenes. espigados. p. ajustando. Este conteúdo histórico é integrado ao simulacro romanesco. “faltan folios” (p. enquanto ele narra. O romance reescreve a história com dados para a escritura de uma versão divergente da história oficial e hegemônica. 274). O Supremo se debate contra uma imagem que lhe fora construída por seus sucessores e em particular por seus detratores. A história da Ditadura Perpétua é a matéria da ficção e consiste na cópia de escritos de e sobre o ditador. já que a narrativa é pós-morte. de maneira que a narrativa é a escrita da leitura de vários textos. O Supremo pode fazer o que está declarando. as crueldades e castigos para com inimigos. É muito clara a denúncia contra o regime atual. Para a referida autora “son hilos ficcionales de esbozos novelescos que los historiadores hacen y Roa Bastos reorienta” ( BOUVET. à narrativa. A história é apresentada através da visão do Supremo que se gaba afirmando: “Yo no escribo la historia. um plano de fundo o qual ele não pode exercer o seu poder de controlá-lo ou corrigi-lo. “al margen escrito em tinta roja” (p. no pretende ser otra cosa (reflejar ni representar nada) sino escritura generada por esas otras escrituras contra las cuales se vuelve. a colônia penal. (ROA BASTOS. as arbitrárias detenções. Também nestas memórias estão as contradições de seu regime paternalista. incluindo o presente da narrativa e até transcendê-lo. Puedo rehacerla según mi voluntad. personagem que não é onisciente.30). Para a autora “el texto que escribe no olvida en ningún momento que lo es. Francia. 119). Esta maneira de construir a narrativa possibilita a Roa Bastos ir do passado ao futuro. per iódicos. Francia. Os grandes e pequenos defeitos de seu governo. (…) . “quemado el borde del folio” (p. ou seja. Na narrativa há muitas evidências de vários fragmentos que dão a impressão de rascunhos. La hago. p. mas que não tem limitações quanto à história. O Supremo age de acordo com sua vontade nesta contra-história que é construída com personagens e acontecimentos que são históricos. 76).” (BOUVET. em sua obra Estética del plágio y crítica política de la cultura em Yo el Supremo diz que em seu romance Roa Bastos realiza um trabalho de transformação dos materiais historiográficos em literários para construir uma obra de ficção colada aos referentes históricos que questiona os modos que se utilizaram para construílos. por fontes contemporâneas ao ditador e por historiadores. y unas quince mil horas de entrevistas grabadas(…) (ROA BASTOS. p. O conteúdo histórico utilizado pelo compilador foi produzido pelo próprio Dr. 2008. Hay que agregar a esto las versiones recogidas en las fuentes de la tradición oral. 2009. Nora Esperanza Bouvet (2009). folletos. conta e corrige esta imagem. A cópia deste material dá voz à memória do Supremo. 2008.

1971. O personagem faz alusão às relações entre Paraguai e Brasil e à sua firme política de defesa da integridade territorial. referindo-se à construção da usina de Itaipú. P. 11). no entanto se fundem dando origem a uma nova visão de mundo. fundindo a cultura cristã com a cultura aborígene. A identidade paraguaia se constrói em um espaço onde as culturas lutam para se impor e. 12). e a seguir trata de um tema presente naquele momento. p. pelo império do Brasil. cria outra história acrescentando o não registrado. los saltos de nuestras aguas. protegendo.” (ROA BASTOS. onde o Supremo insiste em falar das más intenções do Brasil. Neste fragmento há a alusão a dois momentos: o primeiro à agressão do império português no passado. texto do livro de Ezequiel. as rebeliões dos camponeses e a guerra do Chaco. pouco tempo depois do final da guerra do Chaco em 1935. “Ya nos ha robado miles de leguas cuadradas de territorio. 1971. Francia (1814-1840) e da guerra contra a Tríplice Aliança (1864-1870).” (ROA BASTOS. las fuentes de nuestros ríos. sus hordas depredadoras de mamelucos. Onde a língua e a religião espanhola se modificam pelo contato com a língua e com a religião do índio.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 295 entreguista. o que não se sabe e o que se desejaria saber sobre Francia. Os fatos históricos que se referem ao século XIX são evocados pelas memórias do ancião Macario. Em Hijo de Hombre emerge a convivência dos rituais e ideias míticas aborígenes junto aos ritos do cristianismo. Na Circular Perpétua o Supremo declara: “Llámese Imperio de Portugal o del Brasil. personagem que era considerado a aparição do passado. criador do Cristo de Itapé. No texto da Circular Perpétua o Supremo traz à memória as invasões brasileiras em território paraguaio. A descrição do povoado de Itapé. conta a história do ditador e do país alterando a linearidade da história oficial. O principal da narrativa se dá nesse segmento temporal. 2008. quando lhes fora roubada grandes extensões de terra. que foram trazidos pelo colonizador há mais de quinhentos anos. p. 2008. período do governo do general Alfredo Stroessner (1954-1989). 115). p. Hijo de Hombre (1960) é o romance de Augusto Roa Bastos que recupera a história do começo do século XX. sendo uma da tradição judaico-cristã. A cultura ocidental é mesclada com o substrato dos autóctones. Dr. de bandeirantes paulistas a los que contuve e impedí seguir bandereando bandidescamente en territorio patrio. “hijo de uno de los esclavos del dictador Francia” (ROA BASTOS. a religião como veículo de transculturação. espaço onde restavam poucas coisas do tempo . o segundo momento é o presente. assim a soberania nacional do Paraguai. observar-se-ia que os acontecimentos começam em 1910. somente. Hijo de Hombre conta a história de dois povoados. no período de aproximadamente vinte e cinco anos. data da chegada do cometa Halley. Yo el Supremo é uma narrativa que desestabiliza o que a história oficial registrou. Se o tempo da obra fosse ordenado de maneira linear. O narrador conta o que ele ouvia quando criança através do velho Macario. a obra ainda evoca a história do período da ditadura de José Gaspar Rodríguez de Francia. Esta afirmação é evidenciada desde as epígrafes do romance. no entanto há alusões a fatos que precedem a esse período. los altos de nuestras sierras aserradas con la sierra de los tratados de límites. lugar “perdido em el corazón de la tierra bermeja del Guairá” (ROA BASTOS. da fundação de Sapukai e do desaparecimento de Gaspar Mora. Além dos dados citados acima. a saber. quando especifica o roubo de los saltos de nuestras aguas. Sapukai e Itapé e do seu povo. Antigo Testamento e a outra é o Himno de los muertos de los guaraníes. e termina com a morte de Miguel Vera e a conservação e compilação de seu manuscrito por Rosa Monzón. 115).

p. países que segundo o Supremo.” Compara seus opositores a animais ruminantes e define suas memórias como “ Memoria de mascamasca. Profetizaron convertir a este país en la nueva Atenas. individual ou coletiva. A memória tema recorrente nas narrativas de extração histórica tem papel de destaque na sociedade em termos de representação coletiva. miséria e esquecimento para a maioria da população. cuja busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje. também através das memórias de Macario. o ditado de uma longa circular. No primeiro capítulo é evocada a história da Ditadura Perpétua quando se narra a vida de Macario que “ habría nacido algunos años después de haberse establecido la Dictadura Perpetua. las letras. Outro tema histórico evocado no romance é a tortura e a vigília que se estabeleceu nos ervais eram como menciona o texto. A guerra contra a Trílice Aliança. Su padre el liberto Pilar era ayuda de cámara del Supremo . na febre e na angústia . Desfigurativa.” (LE GOFF. O Supremo ironiza utilizando a metáfora de Platão “Estómago del alma. que repete sem refletir e é demasiada porque exige esquecimento. citações intercaladas. a visão que Macario apresenta é o Dr. pode ser compreendida como reconstrução do passado e como conservação das experiências humanas. p. O romance é construído sobre um sistema de citações direta e indiretas. a história anterior ao tempo da narrativa. Memoria de ingiero-digiero. Repetitiva. ou seja. 14) Ao contar sobre a Ditadura Perpétua.24). pois. 218). ¡Vaya fineza! ¿Qué alma han de tener estos desalmados calumniadores? Estómagos cuadrúpedes de bestias cuatropeas. 1971. Yo el Supremo é uma metanarrativa onde se percebem as considerações iniciais e as dúvidas a respeito do quê e como narrar na maior parte das modalidades da escrita que irá inserir os diálogos do ditador com seu secretário. os espaços e os relatos de Hijo de Hombre apresentam a imagem de agonia da história e da sociedade paraguaia do começo do século XX. tem uma intertextualidade complexa. Para o Supremo a memoria dos “memoriosos” é uma má memória. Francia defendia a nação das tentativas anexionistas do Brasil e da Argentina. las artes de este Continente…” (ROA BASTOS. Os personagens. Ninguém se atrevia a fugir deste reino de terror. o esquecimento faz parte da estrutura da memória . pois: “Os indivíduos que compõem uma sociedade sentem quase sempre a necessidade de ter antepassados. 2010. mas muita dor. Areópago de las ciencias. perseguido pelo avanço da modernidade que promete sucesso para alguns.296 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS da sua fundação há mais de três séculos. é meramente armazenadora. 218). intertextualidade que traduz o inconsciente coletivo do Paraguai no período histórico registrado pelo romance. p. 2008. O início do romance apresenta as memórias do narrador sobre o que ouvia na sua infância. um dos presos militares da prisão de Peña Hermosa. Relatos. 2010. anotações de uma letra desconhecida. Para o Supremo. reflexões em um caderno privado. bem como a história.” (LE GOFF. Mancillativa. A narrativa apresenta um país destruído pelas guerras com seus vizinhos. conforme a narrativa. A Guerra del Chaco (1932-1935) é outro fato histórico evocado em Hijo de Hombre através dos registros do diário de Miguel Vera.” (ROA BASTOS. A memória. p. Lembrar o passado é uma necessidade do ser humano. ou a Guerra Grande é evocada no romance. Sobre o tema Jacques Le Goff ainda pontua: “A memória é um elemento essencial do que se costuma chamar identidade. Uma das poucas coisas que resta é o rancho do Cristo no alto do monte de Itapé. queriam devorar a nação paraguaia. amparadas pela lei.

Aunque estar enterrado en las letras ¿no es acaso la más completa manera de morir? ¿No? ¿Sí? ¿Y entonces? No. 428). Já em Hijo de Hombre o tratamento da memória é diferente do que se vê em Yo el Supremo. É necessário saber lembrar e saber esquecer. em princípio o esquecimento é considerado um dano à confiabilidade da memória. pois faz-se necessário poder esquecer dos detalhes sem relevância para concentrarse no que é essencial. p. pois o discurso da história não é confiável. Segundo Paul Ricoeur (2007. que se encontram os fios condutores da narrativa. a piedra-bezoar e o meteoro-azar estão associados às reflexões sobre a memória. 315) . Quando Le Goff (2010. Ahora debo dictar/ escribir. p. A narrativa é uma construção em leitura. 2007. mas ao mesmo tempo o autor pontua que uma memória que nada esquecesse seria considerada monstruosa. pois há uma diferença substancial na produção literária de Roa Bastos. Como a memória é imortalizada pela escrita. 2008. “Disculpen. únicamente dictaba. De seguro estarán fatigadas sus mercedes con tantas bufonerías. memória e esquecimento exigem equilíbrio. anotarlo en alguna parte. 435) . Nisto se vê o objetivo de Roa Bastos em se escrever uma intra-história. 2010. p. no documento apócrifo. p.40). 75.) Esta passagem corrobora a importância da escrita na preservação da memória. 424). Pedras como fio condutor da reflexão sobre a memória e como um recurso literário.” (ROA BASTOS. Al principio no escribía. p. 2008. Em Yo el Supremo o leitor se depara com diversos monumentos escritos. Lembrar somente o que convém. 427) discorre sobre o desenvolvimento da memória: da oralidade à escrita.. “Yo busque superar los estereotipos de la narrativa regional. pois é um discurso incapaz de escrever o que passa pelo imaginário coletivo. conforme ele mesmo declara em entrevista a qual se refere Bouvet (2009). Después olvidaba lo que había dictado. “le hace ignorar el sentido de los hechos. Para Le Goff “a outra forma de memória é o documento escrito num suporte especialmente destinado à escrita”. No romance a tônica é a revisão e a correção dos arquivos que armazenam a história do Paraguai. pois é uma maneira de se renunciar al beneficio del olvido. A própria memória luta contra o esquecimento. Em Yo el Supremo. O referido autor ainda salienta que “ todo documento tem em si um caráter de monumento e não existe memória coletiva bruta. mas a qualidade do que se lembra ou se esquece. faz-se necessário esquecê-la. (…) Se escribe cuando ya no se puede obrar (ROA BASTOS. p. não é a quantidade do que se lembra ou do que se esquece que faz construir uma boa memória. 2008. p.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 297 porque para lembrar alguma coisa. nobles señores. Es el único modo que tengo de comprobar que existo aún.” (ROA BASTOS. Em Yo el Supremo há a simbologia de duas pedras: a piedra-bezoar e o meteoro-azar. . a celebração através de um monumento e pontua sobre a pedra mármore como suporte a uma sobrecarga de memória. da Pré-história à Antiguidade. ele fala das formas de memória que são a comemoração.” (LE GOFF. os fatos revolucionários pela independência do seu país. A escrita que possui as funções de armazenamento de informações e a possibilidade de reexame e de correção. a história ou a imprensa oficial não conseguiriam penetrar nos pensamentos de uma sociedade. Lo que es necesario recordar es el bien de nuestras patrias. O esquecimento não significa amnésia. Rotundamente no. Os “arquivos de pedra em Yo el Supremo. pois é nos documentos históricos. se lo ruego. o “exceso de memória” carrega o discurso de detalhes desnecessários. (RICOEUR. pois. etc. escrita e correção do que se escreve. O referido autor problematiza esta perspectiva paradoxal dizendo que o esquecimento constitui-se uma das condições da memória. Olvídenlas. nas circulares.

Mi testimonio no sirve más que a medias. p. (. A memória também aparece na voz do narrador.” (BOUVET. 2009. As memórias de Miguel Vera contando de sua infância. A passagem revela que conta-se para reviver o passado. Neste fragmento também é evidenciada a marca de tempo cíclico. A observação de que as histórias eram sempre contadas em guarani mostra que Paraguai é uma sociedade que neste momento parece estar em transição entre a oralidade e a escrita. p. etc. Ele declara ainda que não conta e escreve com a intenção de reviver o passado. 52). assim. mientras escribo estos recuerdos. No estoy reviviendo estos recuerdos.) lugares monumentais como os cemitérios (. do filho do escravo. p. As declarações acima podem ser consideradas resposta à diferença percebida na maneira de produção textual e de tratamento do tema memória. E diz ainda que quando escreveu Yo el Supremo tinha deixado de ser o cruzado de uma literatura militante. ou seja. p.14). Em muitos povoados paraguaios o cemitério é o lugar mais antigo. (ROA BASTOS. a los asombros de mi infancia. o bilinguismo e a oralidade geraram o “mandato ético” de denunciar esta situação e de dar voz ou ser de alguma maneira o intérprete de uma coletividade vitimada pela desventura de suas vicissitudes. y podía dejar que esos infortunios fueran irradiados por la vida misma del texto. 27) e se auto justifica por sua situação como escritor exilado. A história se esforça para criar uma história científica a partir da memória coletiva. Escrever suas lembranças é também uma maneira de contar e reviver o passado. Emerge no relato sobre María Regalada a filha do coveiro. 2010.” (ROA apud BOUVET. “História que fermenta a partir do estudo dos ‘lugares’ da memória coletiva. do motorista. de uma cultura ágrafa de uma literatura sem passado. se mezclan mis traiciones y olvidos de hombre. ao tratar dos desenvolvimentos contemporâneos da memória. Me había librado de esa conciencia que parecía estar dictándome los infortunios de la colectividad.. el planteo estético había quedado condicionado por el mandato ético. Os dois romances de Roa Bastos aqui comentados são textos em que história e ficção se cruzam promovendo. O fato de o país ser marcado por tantas mortes faz dos cemitérios lugares monumentais. 1971. tal vez los estoy expiando. pontua que toda a evolução do mundo contemporâneo se dirige para as memórias coletivas. Sapukai não seria o único povoado fundado junto a um cemitério secular. “(. uma intertextualidade..) em Hijo de Hombre y otros textos. 2009. p. “El puesto de sepulturero en Sapukai es casi una dignidad”( ROA BASTOS. 2009. O trabalho como coveiro era muito cobiçado em Sapukai..” (BOUVET. Vale ressaltar que o ancião Macario sempre contava suas histórias em guarani. aqui quem é detentor da memória coletiva detém uma memória essencialmente oral. Miguel Vera que apresenta suas lembranças de infância: Yo era muy chico entonces. Em Hijo de Hombre desde as primeiras linhas emergem as memórias da coletividade na voz do excêntrico. lugares simbólicos.)” (LE GOFF. Em outro momento do romance há a alusão à Guerra Grande quando se trata da relação morte e vida no imaginário nacional. p. “Lo que quería entonces era trabajar el texto desde adentro. evidenciadas pelas repetidas mortes provocadas por Miguel Vera. mas com o objetivo de purgar os males cometidos consciente ou inconscientemente no passado. pois diz que seu . pela fragmentação da cultura paraguaia. 27). pela inexistência de uma tradição literária paraguaia na qual inserir-se. testemunho não serve mais para nada. Jacques Le Goff (2010). com certo pesar. las repetidas muertes de mi vida.. siento que a la inocencia... 467). Ahora mismo. do leproso. 28).298 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS pero equivoqué el camino hacia fuera y hacia adentro. 1971.

. 2008. Hijo de Hombre. desta maneira uma contra história. Buenos Aires: Editorial Losada. Asunción: Servilibro. História e Memória . tiene dos nacimientos. (trad. Alain François [et al. RICOEUR. a história. Augusto. “—Porque el hombre. PECCI. 2007. Nos dois romances há também a presença de memória e esquecimento. si ha sido cabal con el prójimo. otro al morir… Muere pero queda vivo en los otros. Campinas. 38) Referências bibliográficas BOUVET. mis hijos – decía repitiendo casi las mismas palabras de Gaspar–. A memória. construindo. Augusto. Asunción: Servilibro.]. obra y pensamiento. LE GOFF. Uno al nacer. ROA BASTOS. Yo el Supremo . temas em debate na atual produção literária da América Latina. Roa Bastos – Vida.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 299 O discurso ficcional ao dialogar com a história faz um questionamento à história oficial. o esquecimento. ROA BASTOS. la tierra come su cuerpo pero no su recuerdo…” (ROA BASTOS. 2010. Antônio. 1971. Campinas. Nora Esperanza. Buenos Aires: Debolsillo. como diz o próprio Roa. Jacques. 2009. Estética del plagio y crítica política de la cultura en Yo el Supremo. Y si sabe olvidarse en vida de sí mismo. p. 2012. Paul. SP: Editora da Unicamp. 1971. SP: Editora da Unicamp.

Texto e discurso: limites incertos Ao propor a diferenciação de texto e discurso neste trabalho. não são levados em conta como elementos que conectam mais que frases ou enunciados (embora este último conceito alcance a semântica e/ou a pragmática da língua) e alcançam o nível discursivo do texto. Embora não apareçam sob esta nomenclatura. partirei de uma breve discussão dos termos texto e discurso para mostrar a complexidade da separação entre ambos. mas sim. No entanto. observando o que se espera do aluno quando estudam os conectores. se não contraditórios. analisarei as três coleções de Língua Espanhola aprovadas no PNLD de 2012. como texto. parece crucial. a nossa intenção é escolher. Ao desenvolver um estudo sobre qualquer elemento que se inclui ou que leva no nome algum desses termos. Isso acontece até mesmo com os objetos de estudo mais recorrentes nas teorias modernas.300 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS O TRATAMENTO DOS CONECTORES NAS COLEÇÕES DE LÍNGUA ESPANHOLA APROVADAS NO PNLD-2012: UMA QUESTÃO TEXTUAL OU DISCURSIVA? Daniel Mazzaro Vilar de Almeida PG-UFMG/UFV/UNIFAL Introdução Nos estudos linguísticos existem muitos conceitos e termos que. Em outras palavras. às vezes. aqui entendido como uma construção social. Sendo assim. Neste trabalho refletirei sobre o tratamento dos conectores nos livros didáticos do Ensino Médio aprovados no PNLD 2012. discurso e gênero (textual e discursivo). parecem intercambiáveis. percebemos que não existe um trabalho efetivo desses elementos que ultrapassem o âmbito formal do texto. refletir sobre o posicionamento teórico que se segue. portanto. sob os nomes das classes gramaticais tradicionais a que pertencem. já tomamos a perspectiva de que se tratam de elementos ou conceitos diferentes. são muito próximos e. Após essas ponderações. mostrarei como também são escorregadias as definições do termo conector e seu “quase” sinônimo marcador discursivo. quando comparamos suas definições. o que parece ser um senso comum para vários linguistas e teóricos da linguagem. dentre as diversas possibilidades de . frequentemente. Em seguida.

dessa forma. Quanto ao primeiro. como vimos anteriormente. de modo a permitir aos parceiros. discurso deve ser visto de forma diferente de língua. na interação. isto é. já que esta é entendida como sistema de valores virtuais e/ou como idioma compartilhado pelos membros de uma comunidade linguística. As restrições podem ser um posicionamento em um campo discursivo (discurso feminista). uma atividade verbal em contexto que se manifesta sob a forma de unidades transfrásticas. a textualidade seria uma propriedade distintiva do texto. ele pode englobar muitas ideias. Segundo Maingueneau (2008). No primeiro caso. No entanto. Maingueneau (2008) esclarece que. discurso é um uso restrito desse sistema compartilhado. em um momento dos estudos da LT. Maingueneau (2008) explica que discurso pode ser. que filtra esses valores virtuais ou que pode suscitar novos valores (vê-se uma associação de discurso à dimensão social e mental). e a linguagem é considerada na sua relação com seus objetivos social. uma unidade linguística mais alta. o texto passou a ser entendido como um sistema uniforme. Mas. Ele passa a ser visto como uma manifestação verbal constituída de elementos linguísticos selecionados e ordenados pelos falantes durante a atividade verbal. Já a terceira fase considera que sempre teremos à nossa disposição mais de uma definição de texto ou daquilo que se postula ser o objeto da Linguística Textual (LT). desde o entorno sociocultural no qual a atividade comunicativa se desenvolve. que foram passos expressivos para perceber que o texto não é apenas um combinado de frases. o discurso é o uso da língua em um contexto particular. Quanto ao contexto. a segunda fase o define não como uma estrutura acabada (um produto). 1 É nesse mesmo caminho tortuoso que se tenta definir discurso. Discurso é também diferente de texto. No segundo caso. se desprendem conceitos como textualidade e contexto . Fazendo um breve histórico do conceito de texto. tem-se afirmado que o discurso é a relação de um texto com seu contexto (discurso = texto + contexto). não apenas a depreensão de conteúdos semânticos. e sim parte de atividades mais globais de comunicação. o compreende no seu próprio processo de planejamento. Enquanto a primeira define o texto como uma sequência coerente e consistente de signos linguísticos delimitada por interrupções significativas na comunicação e possui status de maior unidade linguística. uma diferenciação que possa nos servir para compreender o que acontece com o tratamento dos conectores. até seu cenário imediato de ocorrência ou o conhecimento prévio dos falantes e a própria linguagem . Bentes (2001) identifica três fases. produções verbais específicas de uma categoria social (discurso das enfermeiras) ou uma categorização baseada num critério comunicacional (discurso polêmico). Desse ponto de vista. superior à sentença e. escrita ou oral. o que deixa margens a dúvidas se realmente existe uma diferença entre esse e discurso. por um lado. em decorrência da ativação de processos e estratégias de ordem cognitiva. uma vez que a análise do discurso é uma tentativa de articular estruturações textuais e situações de comunicação. por outro lado. expressivo e referencial. um tipo de discurso (discurso jornalístico). o conceito de texto já incorporou o de contexto. estável e abstrato. Essa distinção permite distinguir a atividade discursiva nas suas múltiplas dimensões e sua única manifestação verbal. Ao fazer um panorama sobre análise do discurso. objeto. ou seja. verbalização e construção. as pesquisas da área discursiva podem se separar em dois polos: . mas também a interação (ou atuação) de acordo com práticas socioculturais.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 301 definições.

ou seja. Fiala) ou o grupo de Montpellier “Praxiling” (J. Détrie. enlaces extraoracionais . ou E. seja a carga semântica da expressão. A questão é que. marcadores de estruturação textual. aqueles que visam primeiramente articular discursos e posicionamentos ideológicos. Roulet em Genebra. P. Siblot. apoios do discurso . como descrever o valor dos elementos de conexão entre orações e outros elementos se tantos pesquisadores o tomam o tomaram como seu assunto de investigação? Conectores ou Marcadores Discursivos? Uma das maneiras de alcançar o sucesso de que um texto/discurso possa fazer sentido é por meio de conexões entre as palavras. J. e na do segundo polo ele usa “discursos” e “posicionamentos ideológicos”. B. que defendem uma concepção de linguagem na qual se misturam as influências do marxismo e da linguística da enunciação. Bonnafous. (PORTOLÉS. Tournier. muitas vezes. frases. partículas discursivas etc. essa diferença costuma estar no imaginário comum quando se distingue texto de discurso . já que no tratamento dos marcadores discursivos elas se complementam devido aos âmbitos do objeto de estudo que cada teoria analisa: seja o contexto em que aparece um conector..De outro. Vejamos. por isso. por exemplo. como explica Escandell (2006). p. . P. no entanto.. de que nem todas as teorias (que não são poucas) coincidem entre si e. os conceitos atribuídos a esses termos ora se identificam. aos mesmos elementos estudados e. no ejercen función sintáctica en el marco de la predicación oracional y poseen un cometido coincidente en el discurso: el de guiar.302 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS . Podemos citar pessoas que trabalham na revista MOTS (S. conectores pragmáticos . (MAINGUENEAU. p. seja suas características sintáticas etc. optamos por não nos deter a apenas uma das teorias. Por isso. operadores discursivos. foi um dos problemas que mais preocupou. ora se complementam. Bres. parágrafos. de acuerdo con sus distintas propiedades morfosintácticas. não se chegou a um acordo em questões básicas como a denominação e definição de seu conceito. e em seguida os pragmaticistas. enquanto que os limites do discurso se encontram em seu alcance sócio-ideológico. Barbéris. quando ele explica que a finalidade dessas expressões é de guiar as inferências que se realizam na comunicação.147-148). como se definem os conectores. Devemos ter a noção. referindo-se. J-M. os pesquisadores que têm como argumento o estudo da organização textual.-M. las inferencias que se realizan en la comunicación. elementos que. a conceituação de MD e conectores apresentam diferenças. . Curiosamente. Adam em Lausanne. usa o termo marcadores del discurso e assim os define: son unidades lingüísticas invariables.23-24) O autor faz uma divisão interna da área discursiva para a qual utiliza termos específicos: na definição do primeiro polo aparece a expressão “organização textual”. semánticas y pragmáticas. Portolés (1998). orações. enunciados ou segmentos discursivos.). Ou seja. Em Almeida (2011). especialmente na Suíça romanda. na próxima seção. primeiramente os gramáticos e filósofos. conectores discursivos . Várias foram (e são) as teorias que deram sua contribuição para elucidar a questão e o funcionamento dos conectores2. seja a intenção do falante em usá-lo. além disso. M. (doravante MD). os limites do texto estão em sua organização sistêmica. 2008. é possível encontrar termos como marcadores de relação textual . partículas pragmáticas.De um lado. devido à diversidade de critérios adotados e às diferentes proposições metodológicas a partir dos quais se tem abordado o estudo dos conectores e dos marcadores discursivos Vê-se claramente o eixo pragmático e semântico da definição de Portolés. 1998.

intenções e argumentações podem se materializar no discurso por meio de conectores de modo a guiar o interlocutor desse texto/discurso no processo de interpretação. 2010). marca um limite com a definição de discurso proposta pelas correntes de Análise do Discurso. se sob o viés textual ou discursivo. Enlaces (OSMAN et al. temos as informações de que tanto as definições de marcadores discursivos como de conectores possuem uma raiz muito forte na pragmática e na semântica. atividade em permanente construção. p. expressa por meio de manifestação verbal e não verbal e que se concretiza em diferentes línguas e culturas. como os conectores/MD são tratados nas três coleções didáticas de espanhol do Ensino Médio aprovados no PNLD 2012 que são as seguintes: El arte de leer en español (PICANÇO. p. Logo.10).21). áreas de muita influência na Linguística Textual e na Análise do Discurso. a fin de que su lector siga sin esfuerzos ni dificultades el camino interpretativo trazado” (MONTOLÍO. voltemos à proposta deste texto e analisemos como os livros didáticos de espanhol aprovados no PNLD 2012 tratam os MD e os conectores. principalmente quando explica que os conectores funcionam. devem entender e orientar em suas atividades a linguagem como atividade social e política. em um texto. p. como vimos anteriormente. “como señales de balizamiento que un escritor eficaz va distribuyendo a lo largo de su discurso. Até este momento. então. esto es. Nossa pergunta é: por que o termo mais usado é marcador discursivo e não textual? Portolés (1998) entende por discurso la acción y el resultado de utilizar las distintas unidades que facilita la gramática de una lengua en un acto concreto de comunicación. obtenida gracias al contexto. ponto(s) de vista.27) Assim. 2010). para serem aprovadas. por ello. 2001. (MONTOLÍO. Um olhar sobre os conectores nas coleções de Língua Espanhola do Ensino Médio aprovadas no PNLD 2012 Segundo o Guia de Livros Didáticos: PNLD 2012: Língua Estrangeira Moderna (2011. conforme dividimos de forma didática anteriormente. Montolío (2001) propõe uma definição. de esa manera.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 303 De forma parecida. todo discurso se compone de una parte puramente gramatical y de otra pragmática. valores e ideologias inerentes aos grupos sociais. as coleções. Dessa forma. já que é uma porta para inferências do tipo socioculturais. que envolve concepções. 2001. intenção(ões) e argumentação(ões). podemos ver que o conceito de linguagem está bem próximo ao que discutimos sobre discurso já que expressam ideologia(s). 1998. Sua definição também possui uma estreita relação com a semántica e pragmática. estreitamente relacionada à de enunciado 3. E essa definição. ayudar al receptor de un texto guiándole en el proceso de interpretación. (PORTOLÉS. prática discursiva. esse elemento é de extrema importância para a leitura crítica do texto. Vejamos.21) Estas perguntas dariam origem a outras pesquisas. VILLALBA. 2010) e Síntesis (MARTIN. p. Essas ideologias. esses pontos de vista. mas usa o termo conectores e explica que (…) tienen como valor básico esta función de señalar de manera explícita con qué sentido van encadenándose los diferentes fragmentos oracionales del texto para. por isso heterogênea e historicamente situada. Portolés e Montolío se preocupam pelos posicionamentos ideológicos dos sujeitos envolvidos no jogo discursivo ao estudar os conectores e MD? Até que ponto as questões socioculturais influenciam o uso e interpretação desses elementos nos discursos? .

sin embargo. no es seguro que e tal vez. em seguida. outras conjunções como aunque. por exemplo. tampoco. quizás. como ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS os conectores são o segmento que segue o conector (tempo verbal. na qual encontramos fragmentos dos textos (frases). uma breve explicação sobre . ora e luego aparecem ser ter nenhum estudo sistemático prévio. isto é. no segundo capítulo. Já no volume 2. Novamente estas e outras expressões aparecem no capítulo 5 na seção Gramática básica sob o título Adverbios em um quadro-resumo dividido em lugar. Os conectores parecem ser resgatados novamente apenas no volume 3. o tema é resgatado em Como te decía. por meio de um quadro-resumo com outros exemplos e. Os autores propõem um trabalho com as conjunções de coordenação y.. uma atividade oral. Essas expressões são explicadas posteriormente na seção Para charlar y escribir . como aunque (unidade 2) y si (unidade 3). modo. a unidade 3 apresenta na seção Para consultar (seção na qual consta um pequeno resumo dos temas linguísticos contemplados na seção gramatical ¡Ojo! ) de uma breve explicação das expressões en suma. Após alguns exercícios de escrita nessa mesma seção. como eles são Na coleção El arte de leer en español. debidamente e si bien . algumas conjunções (y/e. volume 2) e expressões de possibilidade e desejo (unidade 6. A divisão nas unidades é semântica: expressões concessivas (unidade 4). o e pero por meio de exemplos tirados do áudio do capítulo e uma tirinha (apresenta-se o valor e um exemplo de cada conjunção). Como nossa intenção neste trabalho não é o de esgotar o assunto sobre o tratamento dos conectores nas coleções aprovadas no PNLD-2012. os MD não aparecem em apenas um volume como um tema a ser estudado. ora. como. ante. isto é. marcadores temporais (unidade 3. quando se trabalha o subjuntivo e é proposto ao aluno fazer frases sobre os personagens de um texto lido usando as expressões ojalá. A coleção Enlaces apresenta os conectores principalmente no volume 3. porque. e no volume 3 também aparecem outros conectores. o volume 3 trata dos MD na seção Manos a la obra . sin embargo. Parte deles aparece em atividades de preencher lacuna e possui. e sistematizados nessas coleções. cantidad. expressões temporais (unidade 6). Nos volumes anteriores citam. exceto na unidade 8. na seção Para consultar um sinônimo e/ou uma breve explicação do seu sentido. afirmación. o sea. por eso. na qual os autores os apresentam sob o título “conectores del discurso”. ni. así que. por eso.) e outros exemplos. expressões condicionais (unidade 7). negación e duda.. classe gramatical etc. ó e u das duas primeiras conjunções e propõem atividades principalmente de preencher lacunas. por lo tanto na unidade 1 do volume 2). sin embargo. Em uma delas.. por su parte e sino a partir de frases retiradas dos textos das seções ¡Mira! e ¡Acércate!. unidade 5). Assim. ya que. porque. Assim como nesses livros. na primeira unidade. dedicadas à leitura e compreensão de texto. não vamos descrever cada uma das atividades. por exemplo. nem todos se explicam por meio de fragmentos dos textos para que o aluno entenda seu funcionamento. así. o/ ó/u. Deixamos claro que nem todos os conectores citados apresentam o mesmo tratamento. temos. además. alguns advérbios de frequência (volume 1. no volume 1. probablemente. pues. No caso da coleção Síntesis. volume 2).. mas sim ao longo dos três. os conectores são trabalhados pela primeira vez no capítulo 1 do segundo volume na seção Gramática básica . com destaque nas expressões. o tratamento dos conectores por eso.304 Vejamos apresentados nelas. tratam das variações e. tiempo.

da 2ª série. devido ao recorte do trabalho. 2ª Ed. Considerações finais Por meio das conclusões preliminares da análise do tratamento dos conectores e MD nas coleções de espanhol aprovadas pelo PNLD-2012. Eles não são tratados. Apresentar atividades que envolvam essa esfera da linguagem não é uma questão de dificuldade ou facilidade. 2) As obras costumam restringir-se à importante fazer inferência de um conector. mas. já que a maioria é de preencher lacuna. mas sim de necessidade. nosso objetivo é ver o alcance do tratamento dessas expressões. aparecem apenas nas seções destinadas a tal estudo.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 305 tampouco analisar as definições dadas às expressões. A. ou seja. Refiro-me a leituras inferências sociais. 1. Isso talvez se deva ao fato de os materiais preferirem seguir uma sequência de temas que está próxima à das gramáticas tradicionais. as coleções tratam os conectores como assunto importante a ser estudado? Sob que viés: textual e/ou discursivo? Em uma análise geral. nas quais o leitor é convidado. na qual os alunos devem relacionar ideias por meio de conectores e também conjugar os verbos. Não dizemos que isso seja equivocado. no final das contas. Anna Christina (2001): Linguística Textual. Dessa constatação. ignora-se seu alcance social. F. chegamos a algumas conclusões preliminares: 1) O estudo dos conectores costuma aparecer a partir do volume 2. por exemplo. apresentação de sinônimos e ideias dos conectores. ou seja. linguístico. 245-287. em alguns casos. p. São Paulo: Cortez Editora. pudemos perceber também que não há atividades de compreensão de texto nas quais seja BENTES. Não me refiro a questões que pedem. Inclusive as atividades refletem esse pensamento. que desde o primeiro volume já apresenta um estudo de MD mais comuns. começando pelo artigo e terminando nas conjunções. Outras conclusões podem ser obtidas. dessa forma. (Org). obviamente. já que o objetivo do ensino médio é de formar leitores críticos e isso só pode acontecer por meio de leituras analíticas que englobem as questões extratextuais. v. pudemos perceber que esses elementos linguísticos são tratados no nível textual. como guia na interpretação discursiva. Há exceções. por exemplo. ignorando. sistêmico. como a coleção Enlaces que apresenta exercícios que conjugam a semântica e a sintaxe. 3) O enfoque é dado aos conectores interfrásticos ou interoracionais. . por exemplo. A exceção é da coleção El arte de leer en español. a refletir sobre a estratégia textual de apresentar determinados argumentos como contrapostos ou como causa-consequência. Como já dito. C. e. BENTES. mas sim que não contempla mais que o uso semântico das expressões. o seu tratamento entre parágrafos. isto é. Em: MUSSALIM.. Referências bibliográficas 4) Os marcadores discursivos são um assunto gramatical. Introdução à Linguística: domínios e fronteiras. a causa de um fato e o aluno encontra a expressão porque ou ya que no texto e responde à atividade. enumeraremos apenas essas.

Terumi Koto Bonnet (2010): El arte de leer español. Ivan (2010): Síntesis. Dominique (2008): Discurso e análise do discurso. e se define dentro de uma teoria pragmática. VILLALBA. Secretaria de Educação Básica. 3 Escandell (2006) explica que enunciado é uma unidade do discurso. OSMAN. São Paulo: Ática. Victoria (2006): Introducción a la pragmática. Barcelona: Ariel. Para uma apresentação mais completa dos problemas de etiquetagem que se propõem das unidades suscetíveis de serem consideradas como marcadores do discurso. São Paulo: Macmillan. MAINGUENEAU. José (1998): Marcadores del discurso . consideraremos marcadores discursivos e conectores termos sinônimos. Barcelona: Ariel. 135-156. São Paulo: Parábola Editorial. p. p. MARTIN. Deise Cristina de Lima. Barcelona: Ariel (nova edição atualizada). Guia de livros didáticos: PNLD 2012: Língua Estrangeira Moderna (2011).306 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS ________. uma sequência linguística concreta realizada por um emissor em uma situação comunicativa. [Re]Discutir texto. PICANÇO. como conjunções. Soraia. Em: SIGNORINI.. M. MONTOLÍO. embora saibamos que existem diferenças teóricas entre eles. Sua interpretação depende de seu conteúdo semântico e de suas condições de emissão. no qual se discute com relativa profundidade os conceitos de textualidade e contexto. Renato Cabral (2008): Texto: conceitos. Notas 1 Devido ao recorte deste texto. de acordo com critérios discursivos. vocativos etc. ESCANDELL VIDAL. . [Re]Discutir texto. questões e fronteiras [con]textuais. interjeições. Estrella (2001): Conectores de la lengua escrita. sugiro a leitura do capítulo de Bentes e Resende (2008). assim como da obscura fronteira entre a classe dos marcadores e outras categorias limítrofes. 2 Para esta pesquisa. I. PORTOLÉS. Em: SIGNORINI. et al (2010): Enlaces . – Brasília: Ministério da Educação. REZENDE. São Paulo: Parábola Editorial. 1946. advérbios. gênero e discurso. I. gênero e discurso. sugerimos uma leitura atenta de Portolés (1998a) e/ou Martín e Portolés (1999). Curitiba: Base Editorial.

analisando sua estrutura para ver como se dá resposta à dúvida. como o Diccionario Gramatical y de Dudas del idioma. Seu objetivo. sintático e lexicossemântico. Martinez Amador (1953). sob a ótica da análise do discurso e da História das Ideias Linguísticas. XIII. como pode ser visto em Qué es el Diccionario Panhipánico de Dudas. DEFINIÇÕES E COMENTÁRIOS Daniela Ioná Brianezi PG . o primeiro de dúvidas produzido pela RAE/ASALE. cuja primeira edição data de 1961 e que está em sua 10a. As dúvidas tratadas no DPD podem ser de caráter fonológico. ed. morfológico. Há outros dicionários de dúvidas na língua espanhola. p XIII . como mostrado na seção Qué es el Diccionario Panhispánico de Dudas. Conforme argumenta Pecheux. p. 1992). de 2005. tomando como eixo da conceitualização o jogo de “antecipações imaginárias” descrito por Pecheux ([1969] 2010). Em seguida recortamos alguns verbetes. se referindo especificamente ao caso do discurso politico mas que podemos transferir diretamente a nosso caso (ibid:76): “ [a relação de sentidos entre discursos] implica que o orador experimente de certa maneira . é dar “respuesta a las dudas más habituales”. tomamos algumas formulações das seções que precedem a nomenclatura (conjunto de verbetes) do DPD. A relevância deste último dicionário é especial para nossas análises. Nessa linha. Para mostrar como é construída a imagem de dúvida no DPD. Mostramos assim que existe um grande repertório de dicionários de dúvidas no campo da língua espanhola desde algumas décadas.Universidade de São Paulo Analisamos neste trabalho a imagem de dúvida no Diccionario Panhispánico de Dudas (DPD) da Real Academia Española ( RAE ) e Asociación de Academias de la Lengua Española (ASALE). de 1996. de 2011. Esse trabalho faz parte dos estudos que desenvolvemos no mestrado em língua espanhola pela USP. Além destes temos o Diccionario de Dudas y Dificultades del Español de Manuel Seco. de Emilio M. o Diccionario Sopena de Dudas y Dificultades del Idioma. ortográfico. O DPD é um dicionário recente.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 307 DICCIONARIO PANHISPÁNICO DE DUDAS: DÚVIDAS. visto que Manuel Seco ocupa desde 1980 a cadeira da letra A da RAE. de 1981 e o Diccionario de Usos y Dudas del Español Actual de José Martínez de Sousa. consideramos o dicionário como instrumento linguístico (Auroux..

(sublinhado nosso) sd2: Se echaba de menos una obra que permitiera resolver. o que funciona na direção de produzir a evidência da necessidade do próprio dicionário. ‘centenares’ e outra que remete ao espaço (“de todo el mundo”) que tem como referente o consulente. adelantarse a ofrecer recomendaciones”. Já no fragmento seguinte aparece uma outra modalidade: “y donde las Academias pudiesen. con comodidad y prontitud. en especial en lo que atañe a la adopción de neologismos y extranjerismos. adelantarse a ofrecer recomendaciones sobre los procesos que está experimentando el español en este mismo momento. São também especificadas como “concretas”. e que chegaria “espontaneamente”. onde este ouvinte o “espera”. que ‘se echaba de menos’. Uma primeira projeção tem a ver com aquela proveniente do falante. que tem dúvidas quanto à língua e recorre à RAE ou às Academias da ASALE para pedir esclarecimentos. los miles de dudas concretas que asaltan a los hablantes en su manejo cotidiano del idioma y donde las Academias pudiesen. ou seja. temos a seguinte formulação: sd1: Centenares de hispanohablantes de todo el mundo se dirigen a diario a la Real Academia Española. Se produz aí o efeito de que a dúvida irrompe naturalmente (ela ‘asalta’ o falante) o que por sua vez opera a favor de abrir o lugar da academia. (destaque nosso) Em sd2 notamos primeiramente a antecipação feita sobre a obra. No caso do DPD. para que todo ello ocurra dentro de los moldes propios de nuestra lengua y. um não especialista. […]” (destaques do autor). às vezes. de preceder o ouvinte é. No fragmento ‘miles de dudas concretas que asaltan a los hablantes’. al mismo tiempo. Trata-se aqui de uma dúvida “prevista” pela Academia. apesar de todos os dicionarios que mostramos anteriormente de dúvidas. observamos novamente a especificação numérica. O ‘se’ impessoal produz um efeito de generalização. al mismo tiempo. exponiendo sus dudas sobre cuestiones ortográficas. Opera aí um efeito de sentido pelo qual isso funciona como uma evidência. de naturalizar seu papel de especialista que serve ao sujeito consulente. segundo a qual a instituição se ocuparia de tratar o que vê como Percebemos que inicia-se apresentando a dúvida como algo que “parte de um sujeito falante da língua espanhola”. que antecipa a dúvida quanto ao consulente e constrói a imagem de dúvida nos paratextos a partir de um determinado jogo de antecipações. léxica ou gramatical. como já mostramos. A especificação que aí opera a favor de quantificar as consultas argumenta a favor da publicação e do funcionamento do dicionário. produzindo o efeito de sentido de são reais e não hipotéticas (são os falantes os que expõem suas dúvidas). pXI. decisiva se ele sabe prever. Continuando ainda na ‘presentación’. A instituição “RAE/ASALE” administra essa dúvidas começando por uma classificação das mesmas: seriam da ordem ortográfica. Iniciando nossas análise no item ‘presentación’ do DPD. temos o sujeito lexicógrafo institucional. de forma unitaria en todo el ámbito hispano. em tempo hábil. Temos aí um sintagma nominal marcado por uma especificação numérica. de sua necessidade. léxicas o gramaticales y pidiendo aclaración sobre ellas. era uma obra que faltava e veio para preencher um vazio existente. temos a seguinte formulação: .308 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS o lugar de ouvinte a partir de seu próprio lugar de orador: sua habilidade de imaginar. o a cualquier otra de las que con ella integran la Asociación de Academias de la Lengua Espanõla. Notamos ainda em sd2 uma divisão no que se refere ao modo de projetar ou pensar a dúvida. Esta antecipação do que o outro vai pensar parece constitutiva de qualquer discurso. sobre todo. A especificação especial “de todo el mundo” remete à própria denominação do dicionário: ‘Panhispánico’.

Par. Os temáticos se referem a temas gramaticais. como explicitado na seção antecedente à nomenclatura ‘signos’ (DPD:XXXV). Veremos aqui algumas ocorrências de verbetes não temáticos. embora não se mencione este fato nas sessões iniciais e em nenhum outro local do DPD. Continuando nossa busca da imagem de dúvida construída no DPD. aquelas anticipadas. obervamos na parte ‘1’ da enunciação do vocábulo lagrimal. silenciando o segundo tipo de ‘dudas’ tratadas pelo DPD. neste caso. se referiria a neologismos e estrangeirismos. que englobam literatura. sempre com referência de onde foram tirados e do país de procedência. havendo no final do DPD a lista de todas as obras citadas. biol. os não temáticos vão escritos em letras minúsculas. São de número menor e vão escritos em letras maiúsculas.) ou técnicas (medicina. Notamos a volta do uso de ‘dudas concretas’. Con este sentido se desaconseja. no tienen párpados ni glándulas lacrimales» (Vattuone Biología [Arg. previstas pela academia. vulgar). ‘extremo del ojo por donde salen las lágrimas’: «Sacó un pañuelo del bolsillo del delantal y enjugó con él sus lagrimales» (Bain Dolor [Col. tipo de dúvida levantada pelo sujeito. 1. 2. retirado de nosso corpus de estudo para a dissertação do mestrado. Percebemos algumas diferenças quanto à maneira de enunciação dos vocábulos no DPD em relação aos dicionários integrais ou diferenciais em língua espanhola. que restringe ou não o uso do vocábulo. ‘de (las) lágrimas’: «El conducto nasolagrimal va del saco lagrimal a la nariz» (Rosales/Reyes Enfermería [Méx..ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 309 importante de ser trabalhado para que a língua continue ‘unitaria en todo el ámbito hispano’. leísmo. geográfico-políticas (Arg. sejam elas gramaticais (adj. voseo. 1993]). 1992]). ainda de acordo com sd2. (destaque negrito e itálico do DPD. formado pela letra ‘L’: sd6: lag r imal lagr imal. o DPD manteria a regularidade. ‘destinatarios’ (DPD:XIII). verificamos que o enunciado definidor dos lexemas é retomado do DRAE.” (destaque nosso) lacrimal: «Los ojos. As restrições de uso no caso do DPD são encontradas no corpo do verbete. como laísmo. encontramos na seção: ‘qué es el diccionario panhispánico de dudas’. sublinhado nosso). Começamos a mostrar agora como são os enunciados encontrados nos verbetes Temos dois tipos: os temáticos e os não temáticos. temporais (desusado). uma formulação que já nos permite passar a tratar uma outra parte do dicionário: sd3: El DPD se dirige tanto a quienes buscan resolver con rapidez una duda concreta y. si los poseen. el uso de lacrimal . están solo interesados en obtener una recomendación de buen uso. já que este se diferencia do que encontramos num dicionário de língua. como a quienes desean conocer los argumentos que sostienen esas recomendaciones. De acordo com nossa pesquisa. 1982]). de restrição de uso (informal. Con este mismo sentido se usa también el adjetivo . por minoritario. O DPD explicita que a maioria dos exemplos dos vocábulos foram retirados do CREA (Corpus de referencia del español actual) e em menor medida do CORDE (Corpus diacrónico del español). Percebemos que esta é uma tendência também dos outros dicionários de dúvidas em língua española e.). jornais e portais eletrônicos.). Registra-se na enunciação da maioria dos verbetes exemplos de uso dos vocábulos. por consiguiente. Como adjetivo. Como sustantivo masculino. Levando em conta essas considerações. a retomada da primeira acepção do Esta formulação nos faz compreeder a estrutura do verbete do DPD. A estrutura dos verbetes pode conter ainda o enunciado definidor entre aspas simples. v. A primeira delas é a falta de marcas no corpo do verbete. Esta dúvida prevista. Temos o primeiro vocábulo. no item.

2) a aquella. las aceptadas. já que trata-se de um deôntico de obrigação ‘dever’. Como argumenta Indursky (1997:213-244). pero no preferidas. antepuerto de Túnez» (Faner Flor [Esp.2. item Manejo del diccionario. em sua grafia original. O uso de ‘desaconsejar’ nos permite ver que.§ 6. La Goulette: sd8: La G o ule tt e . Em seguida temos um comentário que ‘desaconseja’ o uso do vocábulo ‘lacrimal’ no caso de seu uso como substantivo. subitem Variantes Preferidas: sd10: Cuando las variantes admitidas no pueden figurar en un mismo artículo por exigencias del orden alfabético. quando o consulente busca a palavra La Goulette. (destaque negrito e itálico do DPD. Pensamos que o DPD segue também esta preferência. Temos então um exemplo. havendo a recusa do vocábulo em sua grafia originária. também é retomado o enunciado definidor deste (agora da segunda acepção) e novamente se apresenta um exemplo. O fato da preferência pelo topônimo em espanhol poderia ser explicado pelo relacionamento da Espanha com La Goleta. criando uma circularidade com a palavraentrada em espanhol La Goleta . em certas práticas. Go ulett tte sd9: La Gole ta Goleta ta. La Goleta. Na parte ‘2’. Temos o uso do deítico ‘esta’. que nesse caso tem informações enciclopédicas. la preferida por la Academia es la que lleva la definición directa. é porque essa forma é “usada”. com um exemplo de uso. temos em Advertencias para el uso de este diccionario . ou seja.310 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS vocábulo no DRAE. uma outra posição sujeito que admitiria o uso do vocábulo em francês. Consultando os paratextos da versão online do . visto que há uma proibição explícita do termo em sua grafia originária em francês. ‘lacrimal’. No debe usarse en español la forma francesa La Goulette. que não dever ser usada. Novamente vemos um enunciado com verbo negativo. sem nenhuma formulação. situando o consulente quanto à localização de tal cidade. O uso de ‘no se debe’ traz consigo o discurso-outro. ao contrário do que ocorreu em seu uso como adjetivo e tal fato é justificado por seu uso ser ‘minoritario’.2 6. La Goulette com ‘no debe usarse’. por certos falantes dessa língua. Nombre tradicional español de esta ciudad de Túnez: «Estuvieron cuatro días fondeados en La Goleta. Temos agora um topônimo de origem estrangeira. mais contundente que em ‘lagrimal’. Irrompe aí uma forma de alteridade sobre a qual se regula. ’! La Goleta. é remetido à palavra adaptada à grafia espanhola. se definen mediante remisión (v. se está desaconselhado pelo DPD. que produz o efeito de longevidade de uso. marcado por un morfema de negação. sublinhado nosso). neste caso. 1986]).2. Diccionario de la Lengua Española (DRAE). “a negação é um dos processos de internalização de enunciados oriundos de outros discursos”. Cabe destacar que há um sintagma nominal com um adjetivo ‘nombre tradicional’. mostrando novamente a preferência pelo vocábulo em espanhol. Na próxima formulação comenta-se que há um outro vocábulo possível de ser usado com o mesmo sentido. que se baseia em Milner(1983) e Culioli (1990). mostrando uma forma de “lidar com a alteridade” no discurso do DPD. Consultando então ‘La Goleta’ percebemos que não faz parte da nomenclatura do DRAE e carece de enunciado definidor no DPD. visto que Neste caso. Esta é uma prática regular no dicionário. Reparamos na presença do verbo (desaconsejar). o que funciona a favor da direção do dizer que aí se instala: usar esta forma e não a otura. a remissão sugere que o vocábulo preferido é. igualando os sentidos deste aos do primeiro. que num movimento anafórico retoma a cidade.

Podemos classificar o primeiro. Françoise. . Michel (2010): A ordem do discurso. interpelando assim os sujeitos consulentes a se assujeitarem à FD na qual o DPD se inscreve. Michel ([1969] 2010): Análise Automática do Discurso (AAD-69). HAK. 2010. lagrimal . SP: Editora da Unicamp. SP: Editora da Unicamp. FREDA (1997): A Fala dos Quarteis e outras vozes.8): “suponho que em toda sociedade a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada. Percebemos com a apresentação dos vocábulos. FOUCAULT. p. por tratar-se de uma vacilação na sua grafia e La Goulette como uma dúvida das previstas pela instituição. enunciados de caráter sugestivo e prescritivo que seviriam para esclarecer a dúvida tratada. PECHEUX. organizada e redistribuída por certo número de procedimentos que têm por função conjurar seus poderes e perigos. p. Como argumenta Foulcault ([1970]. no jogo de ‘poderes’ do discurso. Em 1881 ela foi anexada à França. e só tornou-se independente em 1956. Por uma análise automática do discurso: uma introdução à obra de Michel Pêcheux. como uma das dúvidas concretas. Campinas. Sylvain (1992): A revolucao tecnologica da gramatizacao . traducao: Eni Puccinelli Orlandi. INDURSKY. Campinas. tanto recomendando o uso de alguns vocábulo e beirando a proibição em outros. São Paulo : Ed Loyola. Referências bibliográficas AUROUX. mas em 1574 ela foi tomada pelos otomanos. Sua língua oficial é o árabe.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 311 ela conquistada pelo rei Espanhol Carlos V em 1535. Com essas ocorrências gostaríamos de mostrar como o DPD ‘resolve’ os dois tipos de dúvidas encontrados. Campinas: Editora da Unicamp. Tony (orgs. esquivar sua pesada e temível materialidade”. mas o francês continua sendo usado como língua do comércio. Em: GADET. 61-161.). por tratar-se de um lexema estrangeiro. Os comentários sugestivos e prescritivos do DPD poderiam deste modo encaixarse como um destes ‘procedimentos’ de tentativa de controle da língua. dominar seu acontecimento aleatório. selecionada.

amarela. Linguagens. inclusive as públicas. houve aumento no número de questões e a aplicação do exame foi organizada em dois dias. Geografia. Assim como nas edições anteriores (19982008). amarela. Matemática e suas tecnologias (Matemática). há quatro versões diferentes da mesma prova identificadas pelas cores: azul. Ciências Humanas e suas tecnologias (História. garantem a oferta do espanhol (conforme prevê a Lei 11. inferimos que o fato de inserir o espanhol numa prova de nível nacional poderá levar a uma aceleração do processo de implantação da língua como um dos efeitos retroativos do Enem. o objetivo de selecionar alunos concluintes da educação básica para acesso ao ensino superior de várias instituições. branca e rosa (para o caderno 1. Gretel M. o referido idioma no contexto educacional brasileiro. que antes visava à avaliação do perfil dos estudantes do ensino médio. Além da redação. códigos e suas tecnologias (Língua Portuguesa. Artes e Educação Física). Eres Fernández USP O espanhol no Enem Sem dúvida a inclusão do espanhol no Enem a partir de 2010 colocou em destaque. algumas estaduais e federais. Filosofia e Sociologia) e Ciências da Natureza e suas tecnologias (Química. A partir daquele ano a estrutura da prova sofreu alterações. E se até o presente momento nem todas as instituições de ensino médio. códigos e suas tecnologias e Matemática e suas tecnologias (no segundo dia do exame). por meio de algumas mudanças. públicas e privadas. Física e Biologia). passou a reforçar. . Língua Estrangeira (LE) – Inglês ou Espanhol [somente a partir de 2010]. As questões são as mesmas e mantêm-se os enunciados. foram incluídas 45 questões para cada área de conhecimento: Linguagens. Nas distintas versões observam-se somente alterações na ordem das perguntas ou das alternativas. azul e rosa (para caderno 2. Cada caderno de questões é composto por duas áreas: Ciências Humanas e suas tecnologias e Ciências da Natureza e suas tecnologias (no primeiro dia do exame). A partir de 2009 a prova. referente ao primeiro dia do exame). mais uma vez.312 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS TEXTOS E TESTES: COMO SE CONFIGURAM AS PROVAS DE LÍNGUA ESPANHOLA NO ENEM? Daniela Sayuri Kawamoto Kanashiro UFMS I.161/ 2005 ). cinza. no segundo dia do Enem).

ou seja. Em nossa pesquisa de mestrado (KANASHIRO.] Dentre os materiais. recursos e textos tirados do discurso da . questões separadas por disciplinas. Constatamos que as principais mudanças estabelecidas para o novo Enem objetivaram a aproximação ainda maior das características da organização dessa prova com a dos vestibulares tradicionais. Consideramos que o engessamento da estrutura da prova favorece o treinamento. 2007).ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 313 No novo Enem também permanece a elaboração do texto dissertativo argumentativo. no segundo dia de prova. a um Sobre a organização das questões referentes à língua espanhola Especificamente sobre a língua espanhola. por um processo apenas. apresenta certa vantagem se comparado àquele que não tem conhecimento sobre a organização e estrutura do exame. Serrani (2005) argumenta que a tendência em adotar princípios gerais do enfoque comunicativo nas aulas de línguas fez com que o texto literário perdesse certo espaço para o uso funcional do idioma.. postagens digitais.. 4 e 5). que considerou as provas de seleção de três instituições públicas do estado do Paraná. não é sem propósito que as escolas – sobretudo as particulares – investem nos programas preparatórios e realizam simulados. 71% dos textos propostos não são autênticos 1 (50% são adaptações e 21% são fragmentos) e 86% dos textos foram veiculados na internet (51% em sites. ou seja. em língua portuguesa. as perguntas figuraram sempre no caderno 2. pelo inglês (perguntas presentes nas páginas 2 e 3) ou pelo espanhol (p. Um candidato que conhece a ordem de apresentação das aviso). para elaborar o texto dissertativo e preencher o gabarito. mais de um dia para a realização do processo e a inserção de itens de língua estrangeira (inglês e espanhol). no momento da inscrição. Nesse sentido. 7% correspondem a um artigo e 7%. 36%. que refaz as questões das edições anteriores organizando o tempo disponível para resolvê-las. conforme a referida pesquisadora: “[. O pouco tempo disponível para ler e resolver cada questão (cerca de 3 minutos) também contribui para conduzir a esse tipo de procedimento. também foi observada a tendência em incluir em provas seletivas e/ou classificatórias textos da esfera jornalística. disciplinas na prova. 14% em blog e 21% em jornal digital). principalmente das instituições federais de ensino superior. nas 3 provas analisadas observamos alguns dados recorrentes: são incluídas 5 questões dentre as 90 propostas no caderno. a numeração também permaneceu a mesma: as questões de 91 a 95 foram de língua estrangeira e o candidato teve que optar. e na de Labella-Sánchez (2007). Isso aconteceu tendo em vista a intenção de substituir os diferentes vestibulares. que analisou as provas de vestibular da região sudeste. ou seja. no segundo dia de prova. Além disso. Sobre a presença de textos predominantemente informativos. concursos e para o Enem. ao treino. 5). resultando na unificação da seleção. junto com as 45 questões de Linguagens. utilizaram duas páginas (p. códigos e suas tecnologias e mais 45 questões de Matemática e suas tecnologias. Também não é em vão que tenham surgido cursos específicos de preparação para determinados vestibulares. 4 e p. Dessa forma. Sobre os textos em língua espanhola Verificamos que 86% dos textos incluídos nas edições do Enem de 2010 e 2011 são informativos (36% são reportagens.

” (SERRANI. O povo representa muito mais que esses temas genéricos. Avaliamos que essas habilidades poderiam ser consideradas nas questões de qualquer disciplina que apresentassem um texto. Quadro 1 – Habilidade 5. pautando-se no título e no tema tratados.314 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS mídia (jornais. citado no texto. qual proposição identifica o tema central e poderia ser usado como título? . (BRITO. Os textos inseridos nas provas do Enem de 2010 e 2011 versaram sobre o tango. Machu Picchu. identificar o tema. O título pode fazer referência ao texto proposto ou a uma obra. as touradas.o sistema brasileiro de votação eletrônica. 2004. Questão 91 – O título da palestra. Além disso. E verificamos exatamente o que foi revelado por Brito ao analisar os textos presentes nas questões Enem 2010 1ª aplicação Enem 2010 2ª aplicação Enem 2011 Questão 95 – O texto jornalístico caracteriza-se basicamente por apresentar informações a respeito dos mais variados assuntos. uma palestra. antecipa o tema que será tratado e mostra que o autor tem a intenção de . ou seja.Reconhecer a importância da produção cultural em Língua Estrangeira Moderna – LEM – como representação da diversidade cultural e linguística. por exemplo. com base na imagem e no conteúdo verbal. botones e elector. Tomando como base o fragmento. As tarefas solicitadas foram: dentre as opções. têm sido vistos como um avanço frente ao encliclopedismo ou “literarismo” de outrora. Brito (2004) atentou para o problema de visões estereotipadas quando se priorizam somente os grandes nomes da história. 47).alertar sobre os riscos mortais de determinados softwares de uso médico para o ser humano. p. a Argentina do “Tango”. Além disso. voto. teclado. especificamente nas provas do Enem. estereótipos de um mundo hispânico longe de ser representação de todo o seu povo. Acerca das habilidades e questões propostas Nesta parte analisamos como se apresentam os enunciados dos itens correspondentes a cada habilidade da competência da área 22 para verificar se são coerentes com o estipulado na Matriz de Referência e com os objetivos estabelecidos para o Ensino Médio. revistas). entretanto. 2005. Consideramos. Questão 92 – Pela observação da imagem e leitura do texto a respeito da votação eletrônica no Brasil. o México dos “Sombreros”. identificar o título do texto. cantores. não paginado) relacionadas na habilidade 8 . identifica-se como tema . citada no corpo da mensagem. por meio das palavras-chave urna. Nenhum texto literário foi selecionado para abordar a importância da produção e/ou das manifestações culturais. dança chilena. que é preciso trabalhar a conotação da linguagem e que a formação do leitor não deve se restringir a um grupo pequeno de textos que figuram na esfera da informação e da argumentação. a Espanha das “Touradas” e do “Flamenco”. entre outros. os aspectos culturais. enunciados e respostas das questões Notamos que a habilidade 5 – Associar vocábulos e expressões de um texto em LEM ao seu tema – focaliza a associação entre título. tema e conteúdo do texto (verbal e não verbal). identificar a intenção do autor. é importante observar como são trabalhados. por exemplo. e seu título1 antecipa o tema que será tratado.Fumantes engordam mais que não fumantes. Destacamos no Quadro 1 a repetição dos termos título e tema. literatura. ao mesmo .

concluir que sempre teremos um texto que verse sobre o tema turismo relacionado a essa habilidade. consideramos que a repetição do foco da pergunta (a identificação de informações) pode estar relacionada aos descritores (insuficientes ou pouco claros) ou à inexistência deles. é provável que tenhamos novamente outro texto informativo. Como na habilidade anterior. de solicitar apenas a identificação de título e tema ou da associação entre eles. Salientamos que o acesso à informação não se dá somente identificando-a. Questão 95 – O “Camino de la lengua”. seus conectores. isto é. destaca-se . tecnologias e culturas – os itens se pautaram em textos informativos e exigiram a identificação de um determinado dado expresso no texto. Questão 92 – O Comitê do Patrimônio Mundial reúne-se regularmente para deliberar sobre ações que visem à conservação e à preservação do patrimônio mundial.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 315 tempo em que não é possível trabalhar com os alunos o tema e o título de todos os textos disponíveis. Enem 2010 1ª aplicação Enem 2010 2ª aplicação Enem 2011 Questão 93 – De acordo com as informações sobre aeroportos e estações ferroviárias na Europa. mas compreendendo como pode estar estruturada no texto: suas partes. enunciados e respostas das questões Com relação à habilidade 6 – Utilizar os conhecimentos da LEM e de seus mecanismos como meio de ampliar as possibilidades de acesso a informações. além da temática original sobre a língua e a leitura espanholas. é possível “treiná-los” a identificar título e tema. da falta de entendimento das possibilidades para medir as habilidades propostas. . um percurso para turistas na Espanha. solicitando a identificação de um determinado elemento do texto.discussão sobre o estado de conservação dos bens já declarados patrimônios mundiais. ainda. a diferenciação entre fato e opinião. envolve também os aspectos . Ainda que não seja possível prever o assunto do texto da próxima edição do Enem com base nos itens que figuraram nas provas de 2010 e de 2011. identificassem uma das tarefas atribuídas às de