ATAS

Organizadores Adrián Pablo Fanjul Ivan Rodrigues Martin Margareth Santos

VII Congresso Brasileiro de Hispanistas
Comitê Organizador
Coordenação Adrián Pablo Fanjul (ABH-USP) Carlos Bonfim (UFBA) Fernanda Castelano Rodrigues (ABH-UFSCar) Marcia Paraquett (UFBA) Antonio Marcos Pereira (UFBA) Claudia Blaszkowski de Jacobi Edleise Mendes (UFBA) Hernán Yerro (UFBA) Ivan Rodrigues Martin (ABH-UNIFESP) Juan Facundo Sarmiento (UFBA) Julia Morena Silva da Costa (UFBA) Luciana Mariano (UNEB – Campus V) Mailson dos Santos Lopes (UFBA) Margareth Santos (ABH-USP) Patrício Barreiros (UEFS / UNEB – Campus I) Rosa Yokota (ABH-UFSCar) Xoán Carlos Lagares Diez (ABH-UFF)

Comitê Científico
Alai Garcia Diniz (UFSC) Alfredo Cordiviola (UFPE) Ana Cecilia Olmos (USP) Antônio Esteves (UNESP – Assis) Del Carmen Daher (UFF) Ester Abreu Vieira de Oliveira (UFES) Graciela Ravetti (UFMG) Heloísa Pezza Cintrão (USP) Isabel Gretel Eres Fernandes (USP) Livia Reis (UFF) Luizette Guimarães de Barros (UFSC) Magnolia Brasil Barbosa do Nascimento (UFF) Maria Augusta Vieira (USP) María Aurora Consuelo Alfaro Lagorio (UFRJ) Maria Eugênia Olimpio (UFBA) María Teresa Celada (USP) María Zulma M. Kulikowski (USP) Mario González (USP) Miriam Gárate (UNICAMP) Neide T. Maia González (USP) Silvana Serrani (UNICAMP) Silvia Cárcamo (UFRJ) Vera Lucia de Albuquerque Sant’Anna (UERJ)

Apoio

ATAS
do VII Congresso Brasileiro de Hispanistas
Organizadores Adrián Pablo Fanjul Ivan Rodrigues Martin Margareth Santos

São Paulo, 2013

Copyright © 2013 dos autores

Catalogação na Publicação (CIP) Serviço de Biblioteca e Documentação Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo

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Congresso Brasileiro de Hispanistas (7. : 2012 : Salvador, BA). Atas do VII Congresso Brasileiro de Hispanistas [Salvador, BA, 3 a 6 de setembro de 2012] [recurso eletrônico] /organizadores: Adrián Pablo Fanjul, Ivan Rodrigues Martin, Margareth Santos. – São Paulo : ABH, 2013. 18.291 Kb ISBN 978-85-66188-01-1 1. Literatura hispano-americana (História e crítica). 2. Literatura espanhola. 3. Língua espanhola (Estudo e ensino). I. Fanjul, Adrián Pablo. II. Martin, Ivan Rodrigues. III. Santos, Margareth. IV. Associação Brasileira de Hispanistas. V. Título. CDD 868.909

SUMÁRIO

Erotismo y picardía en Vida y costumbres de la Madre Andrea(c. 1650) A. Robert Lauer ............................................................................................................................................................ 17 Topografías del artista y desestabilización enunciativa en el rock de Argentina ............................................................. Adrián Pablo Fanjul .................................................................................................................................................... 23 Memórias da Guerra Civil Espanhola na ficção: leituras de ¿Qué me quieres, amor?, de Manuel Rivas e La lengua de las mariposas, de José Luis Cuerda Adriana Aparecida de Figueiredo Fiuza ...................................................................................................................... 31 A variação na realização do objeto pronominal acusativo no espanhol: um estudo inicial Adriana Martins Simões .............................................................................................................................................. 36 El pensamiento neomoderno en las columnas de Rosa Montero y Rosa Regás Adriana Virginia Bonatto ............................................................................................................................................ 45 Formas de enunciar la violencia en la obra de Doris Salcedo Alexander Castillo Morales – Instituto Caro y Cuervo ............................................................................................... 38 Relación autor-personaje en La última escala del Tramp Steamer de Álvaro Mutis Aleyda Gutiérrez Mavesoy ........................................................................................................................................... 59 Ensino de e/le e inclusão: reflexões sobre formação e trabalho docente Alice Moraes Rego de Souza (PG-UERJ) ..................................................................................................................... 66 Diálogos de Historia Natural: o homem prototípico e o homem em construção Amanda Brandão Araújo ............................................................................................................................................ 73 A hispanidade disposta em paralelo: vozes literárias contemporâneas dos povos originários das américas Amarino Oliveira de Queiroz ...................................................................................................................................... 80 África, Ásia e Oceania: fronteiras fluidas do hispanismo Amarino Oliveira de Queiroz ...................................................................................................................................... 85 Natalia, Julia, Mercedes y Elvira – Retrato de la mujer española en la posguerra Ana Carolina da Silva Pinto ........................................................................................................................................ 91 O “ensaio criativo” de Julio Cortázar Ana Carolina Macena Francini ................................................................................................................................... 98 Discurso autobiográfico e a busca identitária em Mi nombre es Victoria de Victoria Donda Ana Cristina dos Santos ............................................................................................................................................. 104

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O currículo das Universidades Públicas do Estado do Rio de Janeiro e a formação de professores em língua estrangeira: uma reflexão crítica Ana Maria Mendes Larghi ....................................................................................................................................... 111 Las ratas de Miguel Delibes e a denúncia da crise camponesa em Castela nos anos 1950-1960 Ana Paula de Souza ................................................................................................................................................... 118 Quando o metatexto de Tomás Eloy Martìnez autentica as vidas de Perón André Luis Mitidieri .................................................................................................................................................. 124 Calle Mayor e Señorita de Trevélez sob a ditadura franquista Angela dos Santos ...................................................................................................................................................... 131 Distribuição da perífrase “ter” + particípio no espanhol do México Anne Katheryne Estebe Maggessy .............................................................................................................................. 136 Literatura e Espanhol/LE: a questão da comunidade Antonio Andrade ........................................................................................................................................................ 142 A formação de professores de espanhol no Instituto Federal de Roraima: reflexões sobre a prática docente Antonio Ferreira da Silva Júnior ............................................................................................................................... 149 Polifuncionalidad de los marcadores del discurso y enseñanza del ELE Antonio Messias Nogueira da Silva ........................................................................................................................... 156 En busca del Paraíso: la representación de los germánicos en la obra de María Rosa Lojo Antonio R. Esteves ...................................................................................................................................................... 163 Rompendo fronteiras da cidade e da nação: representações de sujeitos que se moven entre as “islas urbanas” de Sergio Olguín e Cristian Alarcón Ary Pimentel .............................................................................................................................................................. 169 As traduções de quadrinhos sob um olhar discursivo Bárbara Zocal da Silva .............................................................................................................................................. 176 Discursos oficiales del 12 de octubre: un día conmemorativo peculiar Beatriz Adriana Komavli de Sánchez ........................................................................................................................ 183 Subordinadas temporais e finais em português e espanhol: questões de contraste e efeitos para a tradução Bruna Macedo de Oliveira ......................................................................................................................................... 190 O tema transversal da Pluralidade Cultural e sua reconfiguração nos LDs de língua espanhola Bruna Maria Silva Silvério ........................................................................................................................................ 198 O policialesco na figura de Amalfitano Bruna Tella Guerra .................................................................................................................................................... 204 ¿Bacrim o paramilitarismo? Análisis de la concepción de paramilitarismo en Colombia en el período 2002-2006 a través de la prensa escrita Camilo Ramírez Rodríguez e Adriana Yamile Suárez Reina .................................................................................... 209

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Inicios de la santidad medieval en lengua castellana: traducción y protagonismo femenino en La Vida de Santa María Egipciaca Carina Zubillaga ....................................................................................................................................................... 215 Chungui: violencia y trazos de memoria, (2009), de Edilberto Jiménez: desenhando a memória coletiva Carla Dameane P. de Souza ...................................................................................................................................... 221 O preenchimento da posição pré-verbal por complementos verbais e a noção de operador na história do espanhol Carlos Felipe Pinto ..................................................................................................................................................... 230 Invasiones del tiempo en el espacio de la casa Carlos Garcia Rizzon ................................................................................................................................................. 239 Pedidos de informação e pedidos de ação em português e em espanhol: um estudo entonacional de produção e percepção Carolina Gomes da Silva, Maristela da Silva Pinto e Priscila Cristina Ferreira de Sá ............................................ 246 De Dulcinéia a Heliana: perspectivismo e metaficção Célia Navarro Flores .................................................................................................................................................. 252 Sierva María de Todos los Ángeles e Maria Mandinga Cinthia Belonia .......................................................................................................................................................... 257 Espacios, mitos y claves del imaginario andaluz en la poesía de Federico García Lorca. Clara Pajares Gil ........................................................................................................................................................ 263 Poesia e ficção na obra de Roberto Bolaño: interseções Clarisse Lyra Simões .................................................................................................................................................. 268 Representaçãoes da mulher e vozes femininas no contexto iberoamericano Cláudia Luna ............................................................................................................................................................. 273 A destreza oral e sua importancia para a formação dos falantes de espanhol como língua estrangeira Cristina do Sacramento Cardôso de Freitas .............................................................................................................. 278 A leitura de professores de espanhol, formadores de leitores, mediada por computador Cristina Vergnano-Junger .......................................................................................................................................... 286 História, memória e ficção em Yo el Supremo e em Hijo de Hombre de Roa Bastos Damaris Pereira Santana Lima ................................................................................................................................. 293 O tratamento dos conectores nas coleções de língua espanhola aprovadas no PNLD-2012: uma questão textual ou discursiva? Daniel Mazzaro Vilar de Almeida ............................................................................................................................. 300 Diccionario Panhispánico de Dudas: dúvidas, definições e comentários Daniela Ioná Brianezi ............................................................................................................................................... 307 Textos e testes: como se configuram as provas de língua espanhola no Enem? Daniela Sayuri Kawamoto Kanashiro e I. Gretel M. Eres Fernández ....................................................................... 312

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A necessidade de narrar vivênciada pelos personagens do romance La hora violeta de Montserrat Roig Daniele Cristina da Silva ........................................................................................................................................... 320 La re-invención de América en la poesía y las artes del siglo XX Diana Araujo Pereira ................................................................................................................................................. 327 O trabalho com o plano inferencial de leitura em livros didáticos de Espanhol-LE22 Diego da Silva Vargas ................................................................................................................................................ 335 História, memória e ficção em Juan Gabriel Vásquez Diogo de Hollanda Cavalcanti .................................................................................................................................. 342 Juan José Saer: realidade, representação e ficção na perspectiva de gênero Eduardo Fava Rubio .................................................................................................................................................. 348 O ver-se nas páginas do papel: um estudo da representação feminina nas novelas cervantinas Edwirgens A. Ribeiro Lopes de Almeida .................................................................................................................... 353 Literaturas hispânicas no Oriente? A dupla identidade cultural e linguística em Margalit Matitiahu, de Israel Eidson Miguel da Silva Marcos ................................................................................................................................. 359 Heterotopias de función compensatoria en la escritura hispano-canadiense contemporánea Elena Palmero González ............................................................................................................................................ 364 O discurso de Fama em El cerco de Numancia, de Cervantes, e nas adaptações de Rafael Alberti Eleni Nogueira dos Santos ......................................................................................................................................... 371 Dialogo con la novela El Baile de la Victoria de Skármeta Esther Myriam Rojas Osorio. .................................................................................................................................... 376 Un extranjero en el poema: notas sobre la poesía de Fabio Morábito Fabiola Fernández Adechedera .................................................................................................................................. 380 Santiago Sierra: performer?* Fabíola Silva Tasca ..................................................................................................................................................... 386 Traduzindo e reconstruindo uma representação.Reflexões teórico-metodológicas em torno à implantação de um (novo) curso de E/LE Fátima Aparecida Teves Cabral Bruno ..................................................................................................................... 392 Sintagmas nominais complexos nos gêneros jornalísticos: Uma abordagem comparada entre artigos de opinião e notícias Felipe Diogo de Oliveira ............................................................................................................................................ 398 La literatura argentina revisitada: el mito de La Cautiva en un cuento de María Rosa Lojo Fernanda Ap. Ribeiro ................................................................................................................................................. 404 “La casita de los viejos”, de Maurício Kartun: tempo do sujeito, tempo da história Flávia Almeida Vieira Resende .................................................................................................................................. 408

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As escritoras na literatura afro-colombiana Francineide Palmeira ................................................................................................................................................. 412 O legado de Mercedes Sosa: a arte como instrumento de luta pela cidadania Franklin Larrubia Valverde ....................................................................................................................................... 418 Néstor Perlongher e Haroldo de Campos – um diálogo antropofágico Gabriela Beatriz Moura Ferro Bandeira de Souza ................................................................................................... 423 Reforma e a compreensão de sentidos de Licenciatura: questão filosófica ou de carga horária? Giselle da Motta Gil ................................................................................................................................................... 430 Corpo e espaço: reescritas da história em Finisterre, de María Rosa Lojo e Desmundo, de Ana Miranda Gracielle Marques ...................................................................................................................................................... 437 Rodolfo Walsh. ‘Exotización’ y conflicto en sus ‘escritos cubanos’ Gustavo Walter Spandau ........................................................................................................................................... 444 A que não soube vingar-se: em torno de “A meu amigo, que eu sempr’ amei” (B846, V432), de Johan Garcia Henrique Marques Samyn ......................................................................................................................................... 448 El uso de los modos indicativo/subjuntivo con tres verbos del español: “creer, pensar y saber” Iandra Maria Weirich da Silva Coelho ..................................................................................................................... 453 O diário de Ana Ozores: a escrita como expressão da subjetividade feminina em La Regenta Isabela Roque Loureiro .............................................................................................................................................. 460 Un niño grande: a ficcionalização de Jorge Luis Borges em Las libres del Sur Isis Milreu .................................................................................................................................................................. 466 Angústia e distopia: a Guerra Civil Espanhola em Saga, de Érico Veríssimo Ivan Rodrigues Martin .............................................................................................................................................. 471 Los marcadores discusivos en español a partir de la Lingüística de la Enunciación: una perspectiva en los estudios de E.L.E. Ivani Cristina Silva Fernandes .................................................................................................................................. 477 Observações sobre a relação cortesania/rusticidade na cena ibérica Jamyle Rocha Ferreira Souza ..................................................................................................................................... 484 La Colmena, de Camilo José Cela: conceitos de grotesco Jany Alfaia .................................................................................................................................................................. 488 A loucura como estrutura narrativa: de Miguel de Cervantes a Machado de Assis Jean Pierre Chauvin ................................................................................................................................................... 494 Religión y alegoría en las narraciones intercaladas del Quijote de Avellaneda John Lionel O´Kuinghttons Rodríguez ...................................................................................................................... 500 A ficção argentina traduz a Guerra das Malvinas Jorge Hernán Yerro ..................................................................................................................................................... 507

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Histórias, estórias e histórias: representações ficcionais da matéria de extração histórica nas narrativas de Delibes e de Assis Brasil Jorge Paulo de Oliveira Neres ..................................................................................................................................... 517 Cuerpos indígenas em metamorfosis: Un estudio del cuerpo a parir de mitos y leyendas de indios de la Amazonía Brasileña y Boliviana y sus representaciones en la actualidad José Maria Lopes Júnior ............................................................................................................................................. 519 Quemar las naves: por uma análise do Diccionario de Americanismos da Asociación de academias de la lengua española José Mauricio da Conceição Rocha ............................................................................................................................ 526 El atajo y La trama celeste, de Bioy Casares: historias de mundos posibles José Ronaldo Batista de Luna .................................................................................................................................... 533 Aspectos urbanos y culturales en narrativas gráficas argentinas Jozefh Fernando Soares Queiroz ................................................................................................................................ 540 Livro didático de espanhol e uma aprendizagem intercultural: é possível? Joziane Ferraz de Assis ............................................................................................................................................... 548 Una identidad para los apátridas. Identidad y exilio en dos novelas históricas latinoamericanas Juan David González Betancur ................................................................................................................................. 554 El uso del cómic como instrumento para la formación intercultural del profesor de español Juan Facundo Sarmiento ........................................................................................................................................... 560 O discurso ficcional em Los ríos profundos, de José María Arguedas: as leituras críticas de Antonio Cornejo Polar e Mario Vargas Llosa Juliana Bevilacqua Maioli ......................................................................................................................................... 566 De tabúes y terrores: Costa Rica y Brasil o dos modalidades de la literatura gótico-fantástica en Latinoamérica Karen Alejandra Calvo Díaz...................................................................................................................................... 571 Falar com deus: Estrategias de legitimação da mística feminina na américa hispânica colonial Karine Rocha .............................................................................................................................................................. 578 Percorrendo a trajetória da formação inicial do professor de E/LE Kelly Cristiane Henschel Pobbe de Carvalhoe Rozana Aparecida Lopes Messias .................................................... 583 A autonomia na formação de professores-tutores de espanhol como LE Kélvya Freitas Abreu, Priscila Barros David e Raquel Santiago Freire .................................................................... 589 A caricata valentia e o enredo “casi como fue” – uma análise da releitura “Don Juan Tenorio”, de Chespirito Larissa Pujol ............................................................................................................................................................... 597 Uma análise discursiva da mulher na sociedade através das tirinhas da Mafalda Larissa Zanetti Antas ................................................................................................................................................. 600 Pedro Lemebel, recepción, lectura Laura Janina Hosiasson ............................................................................................................................................. 605

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O grotesco em Del sol naciente, de Griselda Gambaro Laureny A. Lourenço da Silva .................................................................................................................................... 610 O conceito da honra no Século de Ouro e seu uso como mola dramática em El pintor de su deshonra, de Calderón de la Barca Liège Rinaldi .............................................................................................................................................................. 617 Esta mujer es su padre: Almodóvar, desestabilizações de gênero e a aula de ELE Leandro da Silva Gomes Cristóvão ............................................................................................................................ 623 O corpo em confissão: um discurso sobre o universo feminino simbolizado na obra de arte de Frida Kahlo Leticia Gomes Montenegro ........................................................................................................................................ 628 La potencialidad de los materiales lúdicos como protocolo de observación para el reconocimiento de géneros textuales escritos en español Letícia Joaquina de Castro Rodrigues Souza e Souza Ana Célia Clementino Moura ................................................................................................................................... 634 La tarea/renuncia del traductor en José María Arguedas Ligia Karina Martins de Andrade ............................................................................................................................. 641 Exames de Proficiência em espanhol como língua estrangeira Lílian Reis dos Santos ................................................................................................................................................ 648 Identidades em diálogo: mulher, sexualidade e família no livro didático de espanhol Liliene Maria Novaes Pereira da Silva ...................................................................................................................... 653 Nação idealizada em Aves sin nido Lina Arao ................................................................................................................................................................... 660 La expresión de la contrafactualidad en español: ¿diferentes variantes, diferentes interpretaciones? Lorena Mariel Menón ................................................................................................................................................ 665 Relações entre o Magrebe e a Espanha: os dois mundos de Najat El Hachmi em El Último Patriarca Louise Áurea Oliva .................................................................................................................................................... 673 Considerações sobre a importância da carga cultural compartilhada de unidades fraseológicas no ensino/aprendizagem intercultural de espanhol como língua estrangeira Luana Ferreira Rodrigues .......................................................................................................................................... 671 A formação do professor de Espanhol da Bahia e as variantes culturais hispano-americanas Luciana Vieira Mariano ............................................................................................................................................ 683 Análise das representações sociais nos cinco livros didáticos selecionados pelo PNLD para o ensino de espanhol a brasileiros Lucielena Mendonça de Lima .................................................................................................................................... 689 Representações sociais de futuros professores de espanhol sobre o Mercosul* Lucielena Mendonça de Lima .................................................................................................................................... 695

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Um copypaste de si mesmo: Mario Bellatin Luciene Azevedo ......................................................................................................................................................... 702 Tiempo verbal y discurso indirecto: diferentes abordajes Luizete Guimarães Barros ......................................................................................................................................... 709 O uso do pronome relativo possessivo cuyo em língua espanhola: considerações descritivo-analíticas Mailson dos Santos Lopes .......................................................................................................................................... 716 A tradução da ironia na narrativa de Maria Rosa Lojo Maira Angélica Pandolfi ............................................................................................................................................ 723 Aire de las Colinas, Cartas a Clara. Cartas pessoais de Juan Rulfo Mara Gonzalez Bezerra ............................................................................................................................................. 727 María Rosa Lojo: Una escritora de los bordes Marcela Crespo Buiturón ........................................................................................................................................... 732 Versos e cores do Prado Marcelo Maciel Cerigioli ............................................................................................................................................ 736 Literatura e Direito: o entrecruzar de fronteiras em Abel Posse Márcia de Fátima Xavier........................................................................................................................................... 743 O papel da Universidade na implantação do Espanhol no Estado da Bahia Marcia Paraquett ....................................................................................................................................................... 748 La presencia del negro y sus representaciones en el teatro cubano de Gerardo Fulleda León y Eugenio Hernández Espinosa Marcos Antônio Alexandre ........................................................................................................................................ 756 A corrosão dos anos triunfais franquistas Margareth Santos ....................................................................................................................................................... 763 A escrita de si como uma tradução de si: o caso específico da pintora Frida Kahlo Maria Auxiliadora de Jesus Ferreira .......................................................................................................................... 771 El español de todo el mundo María Cecilia Manzione Patrón ................................................................................................................................ 776 Poéticas da memória nas narrativas de Alfons Cervera e Vázquez Montalbán Maria de Fátima Alves Oliveira Marcari .................................................................................................................. 783 Explicaciones de lo femenino en la narrativa de Marcela Serrano María Esther Blanco Iglesias ...................................................................................................................................... 789 Contexto de ocorrência do imperfectivo habitual no Espanhol Paraguaio Maria Mercedes Riveiro Quintans Sebold ................................................................................................................. 796 Variação sobre o mesmo tema: acerca da memória em Sangra por la herida Maria Mirtis Caser .................................................................................................................................................... 803

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Las animalias… como elementos constructores del discurso en el Libro de buen amor de Juan Ruiz, Arcipreste de Hita María Teresa Miaja de la Peña ................................................... ..............................................................................810 Avatares de la historia en Paralelos. La pintura y la poesía en Cuba (en los siglos XVIII y XIX) de José Lezama Lima Mariana Sierra Aponte .............................................................................................................................................. 817 Préstamos terminológicos para una memoria del franquismo. Los niños encontrados de la literatura: una lectura de Mala gente que camina, de Benjamín Prado Mariela Sánchez ........................................................................................................................................................ 822 La investigación académica como sustrato de la narrativa histórica de María Rosa Lojo Marina L. Guidotti .................................................................................................................................................... 829 La casa de Bernarda Alba, metáfora conventual Mario M. González .................................................................................................................................................... 836 O différend indígena na narrativa do subcomandante Marcos Mélanie Létocart Araujo ............................................................................................................................................ 841 Literatura y conflicto armado: cotejando una novela de Garro Mercedes Pessoa Cavalcanti ....................................................................................................................................... 847 La traducción cultural en la literatura latinoamericana: reflexiones a partir de la obra de Gamaliel Churata y José María Arguedas Meritxell Hernando Marsal ....................................................................................................................................... 855 La Guerra Civil Española bajo la mirada de dos escritores aragoneses en el exilio: lectura de El cura de Almuniaced, de José Ramón Arana y Réquiem por un campesino español, de Ramón J. Sender. Michele Fonseca de Arruda ........................................................................................................................................ 864 El tema que nos ocupa: oraciones relativas en español Mirta Groppi .............................................................................................................................................................. 868 Expresso, logo existo: linguagem e constituição do indivíduo nas obras Mañana en la batalla piensa en mí de Javier Marías e Budapeste de Chico Buarque Mônica Gomes da Silva ............................................................................................................................................. 875 Evidencialidad en textos periodísticos: un análisis funcionalista en español Nadja Paulino Pessoa Prata ....................................................................................................................................... 881 Voces daba el bárbaro Corsicurvo. Lenguas y mecanismos de comunicación en el Persiles Nieves Rodríguez Valle ............................................................................................................................................... 887 Cómo se cuenta o contamos nuestra historia: historiografía literaria latinoamericana y enseñanza de la literatura Pablo Gasparini ......................................................................................................................................................... 896

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La luz de Cristina Bajo que ha tocado la historia y la memoria cordobesa. Una lectura desde la obra Como vivido cien veces (1995) Phelipe de Lima Cerdeira .......................................................................................................................................... 903 A trajetória dos manuais do professor de ELE no Brasil Raabe Oliveira ........................................................................................................................................................... 910 Manuel Rivas y Miguel Hernández: poesía hacia el porvenir Rachel Coelho Coimbra ............................................................................................................................................. 917 O horizonte filosófico do espaço de La Grande de Juan José Saer Raquel Alves Mota ..................................................................................................................................................... 923 De la prensa periódica a la novela. Cara y ceca o del otro lado del espejo: Manuel Vicent y Benjamín Prado (Aguirre el magnífico y Mala gente que camina) Raquel Macciuci ........................................................................................................................................................ 930 A ficcionalização da teoria, da crítica e do processo de criação literárias em La saga\fuga de J.B, de Gonzalo Torrente Ballester Regina Kohlrausch ..................................................................................................................................................... 937 Ricardo Palma e Las tradiciones peruanas: literatura e formação dos imaginários Regina Simon da Silva ............................................................................................................................................... 944 O aguirre posseano: tirano ou libertador? Regina Simon da Silva ............................................................................................................................................... 953 Provocações de um direito latino-americano que inclua os povos vencidos: notas a partir da Antropofagia de Oswald de Andrade e o surrealismo jurídico de Warat Ricardo Baitz .............................................................................................................................................................. 960 Educación-m no ensino de E/LE: análise de curso via SMS Rita de Cássia Rodrigues Oliveira ............................................................................................................................. 967 Poesía en Voz Alta y la escena cultural mexicana: la experiencia dramática de Octavio Paz Robson Batista dos Santos Hasmann ........................................................................................................................ 975 Cortés, Guatemotzin e Atzimba: da Conquista à ópera nacional mexicana! Robson Leitão ............................................................................................................................................................. 980 Desencuentros con Guimarães Rosa: la polémica de Vargas Llosa y Crespo por la traducción de Gran Sertón: Veredas Rodrigo Labriola ........................................................................................................................................................ 987 El ensayo: prolegómenos para una nueva historiografía ensayística iberoamericana Rodrigo Vasconcelos Machado ................................................................................................................................... 994 Tradução de La ciudad y los perros: análise da domesticação dos termos militares Roosevelt Ferreira ..................................................................................................................................................... 1000

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O que dizem os (ex) estudantes de um curso de licenciatura em letras-espanhol? Rosa Yokota .............................................................................................................................................................. 1009 O pronome tônico na produção não nativa de brasileiros falando espanhol e de argentinos falando português Rosa Yokota .............................................................................................................................................................. 1016 Palabra y poder en El sueño del pongo, de José María Arguedas Roseli Barros Cunha ................................................................................................................................................ 1023 Linguística Aplicada: estudos interdisciplinares e multiculturais na formação docente Rosineide Guilherme da Silva .................................................................................................................................. 1029 Sobre Ernesto Sábato, el surrealismo y la entrevista a un desconocido muchacho Ruben Daniel Méndez Castiglioni........................................................................................................................... 1035 José de Anchieta: o Barroco na poesia española Samuel Anderson de Oliveira Lima ......................................................................................................................... 1040 Contribuições de Jorge Amado para a Literatura Hispânica no Brasil Sandra Mara Mendes da Silva Bassani ................................................................................................................... 1047 El cine brasileño y España: El caso de Carlota Joaquina, princesa do Brasil (1994) Santiago de Pablo ..................................................................................................................................................... 1053 Zonas de penumbra e vacíos: ficção e História em Manuel Rivas Sebastião Ferreira Leste ........................................................................................................................................... 1060 Conhecendo Urganda Silvia Cobelo e Giselle Cristina Gonçalves Migliari ................................................................................................ 1067 Para enegrecer os modos de saber: histórias da NegrAmérica contadas na literatura de afrolatinos(as) Simone de Jesus Santos ............................................................................................................................................ 1074 Mania de escrever poesia: a prosa poética nas cartas de Emilio Prados Solange Munhoz ...................................................................................................................................................... 1080 La corrección del error y el feedback en la clase de lengua extranjera. Un análisis desde las teorías de la afectividad Stella Maris Baygorria ............................................................................................................................................. 1086 A escolha de retórica em Andrés Bello (1847) Stela Maris Detregiacchi Gabriel Danna ................................................................................................................ 1092 A palavra em O Livro das mil e uma noites e em O lapis do carpinteiro, de Manuel Rivas Susana Álvarez Martínez ......................................................................................................................................... 1098 Tradição e memória: um diálogo possível entre contos de Borges e Cem anos de solidão Suziane Carla Fonseca ............................................................................................................................................. 1105

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(Re)Construção de Chico Buarque: analisando a tradução do português para o espanhol em canções de protesto Thais Marçal Passos Sarmento ................................................................................................................................ 1113 Educação intercultural e ensino de e/le Thaísa Alves Brandão .............................................................................................................................................. 1020 Quando as luzes se acendem: a cumbia sob os holofotes, em Noites vazias, de Washington Cucurto Thiago José Moraes Carvalhal ................................................................................................................................. 1124 A transitividade em narrativas escritas por alunos brasileiros aprendizes de espanhol Valdecy de Oliveira Pontes ....................................................................................................................................... 1131 O gênero textual digital blog: o diário virtual eletrônico na aquisição de e/le Valéria Jane Siqueira Loureiro................................................................................................................................. 1137 Os trabalhadores e o impasse do Mercosul social. Valter de Almeida Freitas ......................................................................................................................................... 1144 La dificultad del uso de la preposición en las oraciones relativas de E/LE Vanessa Nogueira ..................................................................................................................................................... 1149 “Das Unheimliche”, de Freud e Así que pasen cinco años, Leyenda del tiempo en tres actos y cinco cuadros, de Lorca Virginia de Sousa Bonfim ........................................................................................................................................ 1156 “La rosa de piedra”: el cuento de nunca acabar Virginia Videira Casco ............................................................................................................................................. 1162 Casos de reinterpretação dativa na área geoletal mexicana Viviane Conceição Antunes Lima ............................................................................................................................ 1168 La traducción como práctica social en el curso de Secretariado Ejecutivo Viviane Cristina Poletto Lugli ................................................................................................................................. 1174 Leitura na Internet: a leitura literária no espaço virtual Viviane da Silva Santos ........................................................................................................................................... 1181 El Brasil Intelectual, de García Mérou, una mirada argentina sobre la formación de la literatura brasileña Weslei R. Cândido .................................................................................................................................................... 1187 Sobre a escritura pictural de Alejandro Xul Solar Yara Augusto ............................................................................................................................................................ 1192

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EROTISMO Y PICARDÍA EN VIDA Y COSTUMBRES DE LA MADRE ANDREA (C. 1650)

Dedicado a Mario M. González
A. Robert Lauer The University of Oklahoma

Vida y costumbres de la Madre Andrea (c. 1650), obra desconocida hasta 1958, cuando el hispanista neerlandés Jonas Andries van Praag publicara el manuscrito que había encontrado en la casa Beijers de Utrecht en 1950 (PRAAG, 1958, p.111), ha sido clasificada, desde entonces, como una novela picaresca anónima. Así la designa Enriqueta Zafra en sus dos recientes libros (ZAFRA, 2009, p.136 y ZAFRA, 2011, p.1), así como Howard Mancing en un importante ensayo (MANCING, 1996, p.288). Si así fuera, Madre Andrea sería entonces la última novela europea escrita en español que versa sobre una pícara, de la misma forma que La lozana andaluza (1528), de Francisco Delicado, constituiría la primera narrativa de este género. Dentro de este marco (15281650) tendríamos otras obras como el Libro de entretenimiento de la pícara Justina (1605) de Francisco López de Úbeda, La hija de Celestina (1612) de Alonso Jerónimo de Salas Barbadillo, La niña de los embustes, Teresa de Manzanares (1632) y La garduña de Sevilla y anzuelo de bolsas (1642) de Alonso de Castillo Solórzano y, acaso, «El castigo de la miseria» (Novelas amorosas y ejemplares, 1637) de María de Zayas y Sotomayor. Se excluyen

antecedentes como la Celestina de Fernando de Rojas, así como obras posteriores a 1650 escritas en otras lenguas como Die Lebensbeschreibung der Erzbetrügerin und Landstörzerin Courasche (La pícara Coraje ) (1669) de Hans Jakob Christoph von Grimmelshausen o The Fortunes and Misfortunes of the Famous Moll Flanders (1722) de Daniel Defoe. Poco sabemos de Vida y costumbres de la Madre Andrea. Se piensa que el autor sería un judío converso de origen portugués establecido en Amsterdam (ZAFRA, 2011, p.15). El hecho de que escribiera la obra en español no sería extraño, ya que los judíos conversos portugueses, amén de otros, solían escribir literatura en español durante la Monarquía Dual (1580-1640). De hecho, el autor usa varias palabras de origen portugués como velhaco (bellaco), ajudé (del port. ajudar > ayudar), remasgando (del port. resmungar > quejarse, refunfuñar), holla abafada (cubierta), pedintón (del port. pedinte > pordiosero), copo (vaso), baxuras (esp. bajezas, del port. baixar > bajar), mágoas (tristezas), papar (conseguir, follar). A la vez, van Praag indica que la obra contiene algunos galicismos (PRAAG,

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1958, p.119), lo que haría pensar que nuestro autor habría sido acaso un converso sefardita que hubiera pasado por algunos de los centros franceses de judíos portugueses como Ruán, Bayona o Burdeos antes de emigrar a Amsterdam. Otrosí, resalta en la obra el hecho de que el autor tenga altos conocimientos de matemáticas y de que sus alusiones bíblicas sean al Antiguo Testamento (PRAAG, 1958, p.126). El manuscrito de nuestra obra contiene 146 páginas y mide 17 x 11 cm., encuadernado en pergamino. A la par, en la guarda del libro se menciona en francés el hecho de que la obra es un «Manuscrit espagnol, en prose et en vers, du 17e siècle?» (PRAAG, 1958, p.111). Van Praag anota el hecho de que la última página contiene una filigrana que presenta unas armas entre dos grifos, la cual indica una procedencia italiana (genovesa). No obstante, este tipo de filigrana se usó en Provenza, España y Portugal en los siglos XVII y XVIII (PRAAG, 1958, p.111-112). En ausencia de un facsímile, el cual nos daría información sobre la caligrafía, nos ajustamos a la posible fecha de redacción de 1650, sugerida por el crítico neerlandés (PRAAG, 1958, p.113), aunque es de suponer, como este estudioso indica, que el único manuscrito de esta obra fuera una «copia dieciochesca de otro anterior» (PRAAG, 1958, p.112). La narrativa de Madre Andrea mantiene una organización esencialmente cronológica (ab ovo) que empieza con el nacimiento del personaje homónimo y termina en un punto indeterminado de su madurez. De esta forma sigue inicialmente la estructura básica de todas las novelas picarescas, con excepción de La hija de Celestina, que comienza in medias res. A la vez, Madre Andrea usa una retrospección temporal para informarnos de sus antecedentes, los cuales siempre son determinantes en la narración picaresca. Andrea fue hija de una prostituta y un padre de mancebía, o sea, un dueño de un burdel. Asimismo, por haber tenido su madre múltiples amantes, cada

cliente defiende que Andrea tiene algo suyo. Su herencia biológica y moral, por lo tanto, determina su vida ulterior. Después de este punto inicial, la narrativa hace un salto temporal indeterminado en el cual la protagonista ha dejado en parte su vida prostibularia para fungir el cargo administrativo de madre de mancebía: «después de la pasión me valí de la agencia» (ZAFRA, 2011, p.36). En este oficio tuvo gran éxito y ganó buen dinero: «Era tanta la miel que no me dejaban dormir las moscas» (ZAFRA, 2011, p.36). A diferencia de otras obras picarescas como, v. gr., Lazarillo de Tormes, Andrea, desde el principio de su relato, ha llegado a su «prosperidad y […] cumbre de toda buena fortuna» (CARRASCO, 1997, p.88). Lo que sigue será una serie de encuentros entre clientes, trabajadores sexuales y la Madre Andrea. Los relatos prostibularios se dan, primero, en series de parejas sencillas, v. gr., un joven y una prostituta; después, en tríadas; finalmente, en series de parejas gemelas o cuaternarias. Esta sección es en efecto pornográfica, en su sentido etimológico, y de carácter, primero, erótico, en sus relaciones ordinarias; después, exótico, en sus relaciones singulares1. Enriqueta Zafra nos recuerda que antes de que se clausuraran los burdeles de España en 1623 (ZAFRA, 2011, p.5), los prostíbulos servían ciertas funciones públicas, tanto para mujeres como para hombres. Para las primeras, la casa de lenocinio proporcionaba un modo de vida para féminas pobres y solteras que hubieran perdido la virginidad y que no tuvieran familiares en la ciudad donde trabajaran. El administrador de un burdel, el así llamado padre de mancebía, proporcionaba por una cifra fija, comida, alojamiento, ropa, sábanas y velas (ZAFRA, 2011, p.8). A la vez, las prostitutas eran examinadas por un médico y, en caso de que adolecieran de un mal venéreo, eran consignadas a un hospital. Si se arrepentían y decidían cambiar de vida, todas sus deudas se cancelaban. En cuanto a los segundos, se

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suponía que los clientes fueran hombres solteros que por falta de dinero o trabajo no podrían casarse. El burdel, a diferencia de la prostitución clandestina, protegía, por lo tanto, a las trabajadoras, a sus clientes y a la comunidad de mujeres honorables y acomodadas, las cuales se reservaban para uniones matrimoniales (laicas o eclesiásticas). Esta forma social de «contener el deseo» en ámbitos destinados para su ejercicio se limitaba legalmente a la fornicación simple entre un hombre y una mujer solteros, solutus cum soluta, y evitaba tanto el incesto como la penetración no natural (ZAFRA, 2011, p.8). Sin embargo, el deseo en Vida y costumbres de la Madre Andrea no puede ser contenido o limitado socialmente. En efecto, cada incidente prostibulario prueba precisamente lo contrario de lo que se supondría que ocurriera en un burdel antes de su clausura en 1623. El primero, por ejemplo, muestra a un joven de familia adinerada que roba dinero de su padre para deleitarse en los brazos de la joven y bella ramera Philipa. El segundo expone a un fraile impetuoso que estupra simultánea y encarnizadamente a tres mujeres: la Madre Andrea; una criada que, asustada, grita «Aquí del Rey» (ZAFRA, 2011, p.84); y, finalmente a una pobre y deslucida ramera destinada para su remate. El tercero revela a un letrado y un médico que primero dialogan extensa y cínicamente sobre sus profesiones y después se valen de una pareja de jóvenes de diferente sexo, «dos piezas de serafinas y serafines», para actos descomunales: «vengan orinales no diáfanos sino maduros y encarnados» (ZAFRA, 2011, p.132). Como vemos, todos estos usuarios no son personas indigentes sino pudientes y, en el caso del fraile, desposados con la Iglesia. El hecho de que se use a jóvenes de ambos sexos para actos singulares también indica la práctica de un tipo de sexualidad prohibida o «no natural», precisamente lo que un burdel trataba de evitar. El prostíbulo de la Madre Andrea, por tanto, no circunscribe sino que provoca un exceso o

elemento sobrante (super plus): no limita sino que provoca el deseo: y todo por un apreciable precio: «Allá se las hubieron y a mí […] me pagaron altamente» (ZAFRA, 2011, p.132)2. Lo antedicho constituiría el elemento erótico y picaresco 3 de Vida y costumbres de la Madrea Andrea. Toda novela picaresca se vale de episodios y peripecias que, al llegar a un punto culminante, provocan un cambio o paro permanente en la vida, el carácter o el movimiento del personaje principal. La obra, aunque indique la posibilidad de una subsiguiente parte, en efecto termina en ese momento4. A veces el cambio es súbito, como en La lozana andaluza, cuyo personaje principal renueva repentinamente su vida después de soñar que Plutón y Marte asolan Sierra Morena: «pues he visto mi ventura y desgracia, […] haré como hace la Paz, que huye a las islas, […] Estarme he reposada, y veré mundo nuevo, y no esperar que él me deje a mí, sino yo a él» (DELICADO, 1972, p.245). En otras ocasiones el cambio se intuye: Elena, de la Hija de Celestina , antes de ser agarrotada y encubada, «causando en los pechos más duros lástima y sentimiento doloroso» (SALAS BARBADILLO, 2008, p.153), hace testamento y restituye el hurto hecho a un tal don Rodrigo de Villafañe. Finalmente el cambio se impone: La pícara Justina, a pesar de narrar una vida jocosa, aunque moralmente reprehensible, indica al final del primer tomo que su fin será paulatinamente infausto: en el «primer libro me llamo la alojada, en el segundo la viuda, en el tercero la mal casada y en el cuarto la pobre» (LÓPEZ DE ÚBEDA, 2010, p.874). Asimismo, Teresa de Manzanares, al concluir su escandalosa crónica, indica que tuvo un fin infeliz casada, por cuarta y última vez, con un mercader civil, cincuentón y miserable. La «segunda parte» de su vida se llamaría, pues, « La congregación de la miseria » (CASTILLO SOLÓRZANO, 2005, p.283).

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La Madre Andrea es semejante a las susodichas obras, aunque con algunas diferencias. Si bien hay un cambio o peripecia decisiva, la narrativa se vale a lo largo de su extensión de fisuras que en efecto alteran el discurso salaz dominante. Estas fisuras generalmente se manifiestan como elocuciones vocativas dirigidas al lector que en efecto interrumpen y suplantan el discurso previo. En términos arquitectónicos, las fisuras representarían atalayas colocadas en encrucijadas, las cuales advierten al lector de cómo debiera captar el relato. Tienen, por lo tanto, una función adverbial. La palabra «lector» aparece cuatro veces en el texto. La primera vez se menciona en forma neutral al inicio de la obra para advertir al leedor que no tome «el fin de la palabra», o sea, los «salados casos, ridículos sucesos, pasatiempos deleitables y dichos de discreción y agudeza», sino que discierna en el modo de leer: «antes saca desta obra la cándida flor de la harina con que hagas pan de los santos» (ZAFRA, 2011, p.38). La segunda vez invoca al «lector lascivo o continente» (ZAFRA, 2011, p.100), precisamente después de fuertes descripciones exóticas que acaso provocarían placer en el primero y desazón en el segundo. Las dos últimas invocaciones a un «tú» se hacen hacia el final y van dirigidas al «lector pío» y al «lector benévolo». En ambos casos, las descripciones eróticas han concluido y la Madre Andrea, después de haber narrado congeries de desorden y escándalo, declara que «me metí a devota» (ZAFRA, 2011, p.144). Su última advertencia es que uno debe apartarse de ruines compañías, juegos y negocios que provocan la deshonestidad: «Huye pues del demonio y sus tentaciones, y sigue el bien y la santa y verdadera doctrina […], porque sólo de este modo puedes estar, vivir y morir cierto y tendrás en este mundo paz y después gloria» (ZAFRA, 2011, p.146). Se remata esta obra con una décima penitencial y ocho redondillas donde el autor pide clemencia divina. Vida y costumbres de la Madre Andrea es por lo tanto una obra picaresca con rasgos pornográficos y un auténtico fin moral. En efecto, todas las obras

picarescas tienen aspectos pornográficos, aunque generalmente de tipo erótico. Piénsese en la pícara Justina, que siempre está en peligro de perder la flor; o en Teresa de Manzanares o Elena, la hija de Celestina, quienes expresan cándidamente sus deseos sexuales y mantienen ocasionalmente relaciones adúlteras. Aldonza, la lozana andaluza, es, por supuesto, una cornucopia (pornucopia) de sexualidad ilimitada. Las relaciones triangulares, evidentemente, son comunes en toda narrativa picaresca, como se ve en los padres de Guzmán de Alfarache o en la relación entre el arcipreste de San Salvador, Lázaro de Tormes y la criada-esposa de ambos. Los elementos exóticos también se intuyen, como se observa en el padre afeminado de Guzmán de Alfarache, cuyos afeites inducen al narrador a declarar que «son actos de afeminados maricas, [que] dan ocasión para que dellos murmuren y se sospeche toda vileza, viéndolos embarrados y compuestos con las cosas sólo a mujeres permitidas» (ALEMÁN, 1984, vol. 1, p.118). Recuérdese asimismo la posible inversión del hiperactivo fraile de la Merced del tratado cuarto de Lazarillo de Tormes. Sin embargo, a diferencia de estas obras, Madre Andrea minimiza lo erótico y enfatiza lo exótico y escatológico. El lector de estas narrativas acaso sonriera ante los leves embustes de Justina o Teresa de Manzanares, pero probablemente se turbara ante las alusiones de sodomía, felación, urolagnia y coprofilia de la Madre Andrea y sus clientes. Lo exótico en esta obra se usa no para despertar el interés sino para provocar el desasosiego en el lector. No atrae; repele. En este sentido, se asemeja al Guzmán de Alfarache, aunque también, acaso, a Los 120 días de Sodoma del Marqués de Sade. No obstante, a diferencia de estas dos últimas obras, la intención moral se explica clara y largamente al final de Vida y costumbres de la Madre Andrea. A la vez, este propósito se expone en las fisuras del texto a lo largo de la obra. De esta forma, lo moral irrumpe en los momentos culminantes ímprobos, precisamente para desplazar lo concupiscente y

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desviarlo hacia la probidad: «Deja pues mujercillas, porque quitan el sueño, estragan la salud, deslustran la honra, consumen la hacienda, y muchas veces hacen perder las vidas; sé casto» (ZAFRA, 2011, p.144). Por ende, si las narrativas picarescas tienden hacia una finalidad moral, Madre Andrea mantiene esmeradamente esta función. En esto difiere del final irónico de Lazarillo de Tormes o del desenlace ambiguo de Guzmán de Alfarache: «Aquí di punto y fin a estas desgracias. Rematé la cuenta con mi mala vida. La que después gasté, todo el restante della verás en la tercera y última parte» (ALEMÁN, 1984, vol. 2, p.480). No obstante, se ajusta estructuralmente a éstas, y otras, en, v. gr., las extensas digresiones morales de Guzmán de Alfarache; las descripciones aciagas de la Roma puttana de La lozana andaluza; los aprovechamientos finales del narrador subalterno de La pícara Justina ; la narrativa «objetiva» del narrador de La hija de Celestina; los rótulos, escritos en tercera persona, de los capítulos de La niña de los embustes, Teresa de Manzanares; el prefacio del autor de Moll Flanders, el cual corrobora, antes de iniciar la narrativa principal, el arrepentimiento ulterior de la protagonista homónima y su cónyuge: «we resolve to spend the remainder of our years in sincere penitence for the wicked lives we have lived» (DEFOE, 2005, p.308); y la nota final del autor de la pícara Coraje, donde advierte a los jóvenes sobre los peligros de una vida pecaminosa y un arrepentimiento tardío (GRIMMELSHAUSEN, 2001, p.175). En concreto, Vida y costumbres de la Madre Andrea reúne a la vez lo más pecaminoso y moral de la novela picaresca escrita en español. En efecto, el tema de la pícara española, iniciado en Italia con La lozana andaluza, culmina en Holanda con la Madre Andrea . Sus descendientes literarias se extenderán después por el Reino Unido y América (Moll Flanders) y el Sacro Imperio Romano Germánico (la pícara Coraje). Sus aventuras, sin embargo, requerirían un subsiguiente estudio. Muchas gracias.

Referencias bibliográficas
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ZAFRA, Enriqueta (2009): Prostituidas por el texto: discurso prostibulario en la picaresca femenina . West Lafayette: Purdue University Press. ________, ed. (2011): The Life and Times of Mother Andrea / Vida y costumbres de la Madre Andrea. Traducción al inglés de Anne J. Cruz. Woodbridge: Tamesis.

Notas
1 Según John Anthony Cuddon, la pornografía (del griego porn– [prostituta] y graphein [escribir] > escritura de rameras) es una obra de ficción que enfatiza la actividad sexual de una forma cómica, seria, bizarra o sobrecogedora para suscitar la emoción sexual. Se subdivide en dos clases: a) erótica, la cual describe una actividad heterosexual en gran detalle; y b) exótica, que enfatiza lo perverso u anormal, incluyéndose el sadismo, el masoquismo, la pederastia y otras parafilias (CUDDON, 1993, p.729). 2 Se eliminan de este análisis los relatos no sexuales: El primero entre un poeta, un ebrio y un soldado que se emborrachan, se pelean y después abandonan el burdel sin tener comercio sexual; el segundo entre un filósofo, un matemático y un jaque que arguyen, comen y se salen del prostíbulo; y el de los tres ciegos que se emborrachan, se duermen y después simplemente se retiran de la casa de mancebía. El burdel, por tanto, sirve en estos casos no como un espacio de contención sino de desorden público. 3 El término alemán para este tipo de narrativa es Räuberroman (novela de depredadores o saqueadores). En efecto, el pícaro o la pícara es similar a un ave de rapiña. La acción principal que define a este ente es la de raptar, ya sea pan o vino en el caso de Lazarillo de Tormes, o dinero u honra en el caso de las pícaras. En la novela que nos ocupa, Andrea se jacta de haber trocado «sin violentarme» su honra por dinero: «Porque yo espontánea y liberalmente la repartía [honra], quedándome sin ella; mas no fui tan necia que no pidiese en recompensa el metal que la fortuna a tantos niega, que esa fue la lección primera con que me educó mi madre» (ZAFRA, 2011, p.34). El intercambio nunca es ecuánime, por supuesto. Al final de la novela, Andrea indica que el Hospital de Nuestra Señora del Amor de Dios (de Antón Martín) ya no tiene cupo para los enfermos que les manda la Madre. Las «picarillas [que] tan negro encarnadas […] infectaban cuántos árboles de cinselas [sic] las comunicaban» (ZAFRA, 2011, p.132) se han tenido que trasladar a Suecia y Baviera a infectar nuevos clientes. Por ende, Andrea y sus proxenetas privan, a cambio de un sucinto encuentro, no sólo de tesoro sino de salud, amén de la vida, a sus confiados e incautos clientes. 4 El hecho de que la mayoría de las novelas picarescas aludan a una subsecuente parte se debe a que el personaje al final de la obra todavía vive (salvo Elena, de La hija de Celestina, novela que requiere una narración en tercera persona). Por ende, Moll Flanders afirma lo obvio: «We cannot say, indeed, that this history is carried on quite to the end of the life of this famous Moll Flanders, for nobody can write their own life to the full end of it, unless they can write it after they are dead» (DEFOE, 2005, p.7). Considérese también la respuesta del pícaro Ginés de Pasamonte a la pregunta redundante de don Quijote sobre si el libro de su vida está acabado: «–¿Cómo puede estar acabado –respondió él–, si aún no está acabada mi vida? Lo que está escrito es desde mi nacimiento hasta el punto que esta última vez me han echado en galeras» (CERVANTES, 2004, vol. 1, p.266).

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TOPOGRAFÍAS DEL ARTISTA Y DESESTABILIZACIÓN ENUNCIATIVA EN EL ROCK DE ARGENTINA

Adrián Pablo Fanjul Universidade de São Paulo

1. Un caso puntual de un proyecto más amplio
Desarrollamos actualmente un estudio sobre la discursividad en el rock argentino, recorriendo sus diferentes épocas, acompañando mecanismos de regulación discursiva, que abordamos principalmente como delimitación de la exterioridad del campo1. En función de un factor que nos ha aparecido como significativo en los procesos de regulación, específicamente en cuanto a una de las fronteras recortadas para lo decible en el campo, factor al que no nos referiremos aquí porque afecta una de las hipótesis centrales de un trabajo que todavía está en elaboración, hemos dado bastante atención a la composición “Toxi Taxi”, grabada en 1991 por la banda Patricio Rey y los Redonditos de Ricota, más conocida como Los Redondos, una de las más nodales en la historia del rock nacional. El tema fue lanzado en el disco La mosca y la sopa . Creemos que esa composición es un punto de especial densidad, en el corpus del rock argentino, en cuanto a las redes de memoria hacia dentro del funcionamiento del campo y en relación con su exterior. Aquí la abordaremos a

partir de que se trata de uno de los casos, dentro de ese corpus, en que se escenifica, en la enunciación, al artista en actividad creadora relacionada con un desplazamiento en el espacio representado, lo que no excluye, por supuesto, la concomitancia de otras lecturas. Ese abordaje nos llevará a la posibilidad de confrontarlo, en la memoria discursiva, con dos temas del período clásico del rock argentino: “El oso”, de Moris (Mauricio Biravent, 1970), y “La balsa”, atribuido a Lito Nebbia y a Tanguito2 (1967). Esa misma confrontación promueve la observación de otra problemática central en nuestra investigación en curso: la de las configuraciones enunciativas, como modos relativamente estables de articulación de los seres en la enunciación, cuya articulación con la problemática de la memoria explicamos en el ítem siguiente. Las tres composiciones están transcritas al final, como anexos.

por ejemplo. vemos la regulación como principio de una memoria discursiva: espacio de producción de implícitos (o preconstruidos). 2002: 191).24 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 2. Las tendencias dominantes para esas configuraciones y para la delimitación entre los seres en las mismas son un factor que relacionamos con la regulacióndesregulación de la memoria. al proponerse el “principio de especificidad” (FOUCAULT. Regulación. una práctica que les es impuesta. concepto ampliamente tratado a lo largo de La arqueología del saber como juego de reglas de formación de los enunciados. Como punto de partida. lo que. No sólo para este caso. esos conceptos reciben especificaciones. que en el caso de la . si es observada en una determinada serie de enunciados en un campo. y la configuración enunciativa. promueve la regularidad . reglas que “los atraviesan y les constituyen un espacio de coexistencia” (FOUCAULT. el conjunto de letrística musical alcanza una figuración menos precisa que en la narrativa literaria. en Pêcheux (2007). Esa violencia. sino en el conjunto de nuestro trabajo sobre la memoria discursiva en el rock argentino. la dimensión espacial de la escenografía representada en la enunciación. La corriente de análisis del discurso en que actuaron estudiosos como Michel Pêcheux y Jean-Jacques Courtine adoptó varios aspectos de la teorización de Foucault. Escenas ricoteras3 Un biógrafo de Los Redondos ha definido “Toxi Taxi” como un tema de “urgencia rítmica”. vale recordar que. es precisamente un juego de voces. Una bisagra entre el mundo creado. 1999:80). Como anticipamos. en determinados períodos de la reflexión de Pêcheux y seguidores. damos crucial importancia a las configuraciones enunciativas. a los modos como se articulan los participantes representados en la enunciación. en el título denominamos una “topografía del artista”. que selecciona y recorta modalidades de enunciación. La topografía es. Nos referimos a la interpelación representada en la enunciación . se concibe el discurso como una violencia ejercida sobre las cosas. o sea. 2008: 53). En la primera parte y en el estribillo de “Toxi Taxi” es interpelado un ser representado en segunda composiciones entre las que estableceremos relaciones parafrásticas en este trabajo. la percepción de la regulación como relaciones entre enunciados. Así lo sostenemos porque creemos que esa distribución de voces y seres. Como movimiento de choque de cuerpos. un “reggae – acelerado” (GOBELLO. y a la vez como matriz representacional del conflicto que todo discurso conlleva y que. 3. temas y objetos. no debiendo confundirse con el concepto –de raíz althusseriana– de interpelación ideológica como constitutiva de posiciones de sujeto. por darse en una escena enunciativa. Así. en Maingueneau (2001). entre ellos. Al trasladarse a un abordaje del discurso como materialidad lingüística. tienen en común una representación de la actividad estética creadora relacionada con el desplazamiento en la escena representada. paráfrasis y diversas formas de retomada y remisión. memoria y seres en escena Consideramos la regulación a partir de diversos lugares de la teorización foucaultiana y de su lectura por estudiosos de la enunciación y del discurso en función de la problematización de la memoria discursiva. relacionamos el pogo con la interpelación como acción enunciativa. el espacio del cual la enunciación dice provenir. se revela como resultado de esa violencia reguladora del discurso a la que nos referimos a partir de Foucault. Y es importante recordar que fue un tema de “pogo”. tanto los interlocutores como los personajes y las voces citadas. en El orden del discurso.

más o menos velada. había una tendencia ya verificable. Pero también el paso no marcado de la . como el papel alternado de ejecutor y víctima (“te esnifo” / “me esnifan”) en “Rock para los dientes”. un cierto deseo de homogeneidad para su lado imaginario en el conflicto. conviene referirnos brevemente a características del campo a respecto. b) La alternancia de ubicaciones. la alternancia a la que nos referimos puede ser más o menos marcada. por ejemplo. debe tenerse en cuenta. Como hemos defendido en varios trabajos anteriores (fundamentalmente en FANJUL. 2010) mediante observaciones que podemos relacionar con las de investigadores que abordan la letrística de rock desde otros puntos de vista. para los años 60 y 70 del siglo XX. juegos mostrados. la percepción de ethé relativamente homogéneos y seres representados con un cierto cerramiento sobre sí. y. en las situaciones de opresión reiteradamente representadas en sus composiciones. 1991:22). Esa tendencia se desestabiliza notablemente en los años 80. La representación de ese tipo de interpelación tiene una larga tradición en la música urbana argentina en períodos de desestabilización de modelos. Esa interlocución. Por un lado. con el poder opresor y con la industria del espectáculo. de modo general. Varios factores favorecieron. Como ha mostrado el trabajo de Menezes (2012). instrumentador e instrumento de la violencia del poder. con la peculiaridad de estar representada como interpelación realizada “en público”. debido al carácter “en público” que señalamos. un colectivo de “la juventud”). Sobre la primera. marcó un desplazamiento en el rock argentino. así como los posicionamientos subjetivos que la atraviesan requieren diferenciar dos órdenes de problemas que creemos que son clave para confrontar momentos y tendencias en la discursividad del rock argentino: a) La producción de una interpelación cuestionadora hacia un interlocutor. sino que hace efectiva una interpelación. la interpelación se relaciona con el papel de los interlocutores en el campo roquero y en relación con los conflictos que lo delimitan. por parte de una voz que se identifica al comienzo en una primera persona del plural (“Te tenemos allí…”). una fuerte tendencia a ese tipo de escenificación caracterizó el debilitamiento de las figuras marginales en la evolución de la poética del tango argentino en los años 20/30. al conjunto del campo en ese sentido. en este caso. pero que no dejó de estar muy presente. como veremos. no íntima. A veces. a la delimitación reforzada de los contornos de los seres en la enunciación. Por otro. visibles en la figuración. en relación con el conflicto representado. en la poeticidad de géneros de lo popular en Argentina. gozador y gozado. En cuanto a lo segundo.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 25 persona. para la voz enunciadora. o en la forma lingüística. como el disimulo del enemigo en “Nuestro amo juega al esclavo”. Los Redondos son una banda que no sólo corresponde al momento en que la estabilidad de identificaciones roqueras se ha derrumbado (ya no es pensable. Y muy especialmente. concomitantemente con una diversificación del campo del rock y con el aumento cualitativo de las desigualdades en la clase media urbana. el influjo de una racionalidad “humanocéntrica” dominante en el campo intelectual argentino de la época (TERÁN. en su época de primer desarrollo y auge. por percibir que es uno de los rasgos mediante los cuales la obra de Los Redondos. el rock nacional está marcado históricamente por una cierta rigidez en cuanto a la representación de los seres y voces. están sometidas a diversos juegos enunciativos. que en el rock se expresó más en su versión hedonista que contestataria. diferencias entre agente y paciente.

Pero el artista-negocio pequeño y simple. es una figura recurrente en la delimitación no sólo de la identidad del artista sino también de héroes en general en las escenografías creadas por el rock argentino del 4. Una delimitación espacial determinando una predicación de abandono: Estoy muy solo y triste acá. una intertextualidad deliberada con composiciones clásicas del rock argentino. abandonado allí. toque y toque. 2009). irá tras los que lo hacen negocio. tres ámbitos: la naturaleza. sólo será recortada en signos tras aprender las piruetas en la jaula-ciudad de los hombres. con una impronta propia. como Mutantes o Raul Seixas. En ese trabajo que acabamos de referir. recogen esa imagen a la que. la artesanía y la industria del espectáculo. desde el lugar de análisis. en un artículo centrado en Los Redondos. entran en escena. no se registra. encontrar un funcionamiento parafrástico que resulta polémico. va detrás del toxi taxi. en este mundo abandonado / Te tenemos allí. creemos. va a seguir su “propia” dirección. subyace un preconstruido sobre el desplazamiento como posibilidad creadora. NI siquiera vuelto sombra. Su naufragar es un propósito. pero va. aunque sea la de naufragar. Ambos se desplazarán desde ese lugar. Creemos que. en el caso de “Toxi Taxi”. cierta resonancia en el inicio de “La Balsa” y de “Toxi Taxi”. El locutor / artista de “La balsa” seguirá estricta e indudablemente su impronta: su (propia) idea es la de ir al lugar que él mismo más quiera. como está. de ese modo. Provoca a la comparación. propone el cuerpo roquero como “la epifanía misma del conflicto”. con los preconstruidos que les dieron sustento. Una de los rasgos del tipo de locutor y de personaje puesto en escena por el rock primero y del ethos que su voz encarna es el de una hexis de propósito (Fanjul. Pensamos que la desestabilización de identificaciones en el campo del rock nacional a partir . El prefabricado de “Toxi Taxi” está “preso”. de Charly García. de la época de la dictadura. El andar con un propósito. sino directamente con las composiciones que consideraremos. en la que circula muy contento. Desencuentros –de memorias– del andar Proponemos abordar las tres composiciones propuestas en la Introducción a partir de lo que en ellas podemos observar como representación de la actividad de creación estética. Indagando el frecuente recurso a la figuración infernal en las composiciones de la banda. que tuvo un carácter comparativo en relación con pioneros del rock brasileño. Con ellas. No en vano Monteleone (1992:30). pero que es posible. observamos que ese rasgo se presenta inclusive en la escenificación de seres identificados con la locura. como “No te dejes desanimar”. rescata metafóricamente la imagen de un círculo trazado en rituales satánicos 4 para llegar a una propuesta que resume muy felizmente ese aspecto de la poética ricotera: “es una invocación: no está dentro del círculo pero tampoco fuera porque su sitio no es el pretendido cielo de la pureza”.26 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS voz de un posicionamiento a otro en relación con el sojuzgado: compartiendo su lugar o asumiendo una sorna que la acerca al beneficiario-verdugo. como en otros temas de la banda. Así vemos los andares de los seres construidos en esas composiciones. El oso se desplaza “sin cesar”. una deriva positiva y afirmada en su mismidad. Y aun composiciones con un tono de profunda desazón. por ese camino. Quien se dispone a naufragar construirá su propia balsa para ir donde quiera. entre período clásico. y la naturaleza ilimitada. No diseñará su naufragio.

al fin y al cabo. el locutor gana cuerpo en una sonoridad ansiosa y trémula para la voz del intérprete. Presos. al volver del encierro está “contento de verdad”. todos podemos “darnos un toque”. también la confrontación de “Toxi Taxi” con “El oso” da lugar a interesantes relaciones de acercamiento y desencuentro en una memoria relacionada con el género. pero de este se dice que está preso como si lo fuera. el tipo de movimiento que Kozack (1992:25) caracteriza como “recorridos circulares y constantemente invertidos”. Al inicio del canto. “Toxi Taxi” es un claro caso de la alternancia de la voz entre diferentes lugares de decir en relación con el conflicto. Por ejemplo. es el momento de fiesta colectiva. en el hermanamiento que sigue al pogo. con eco en la sílaba siguiente? ¿Estás allí para nosotros? ¿Sufrimos tu prisión. En efecto. a la resistencia a ese poder. tiene su contrapartida en la voz enunciadora. como serializada e imitativa. en un estribillo que. La autora los relaciona con una ”estética del sobreviviente” de la cual Los Redondos marcarían un “límite crítico”. en su materialidad sonora y por el movimiento que sugiere a los cuerpos. Aunque debe someterse a esa repetición por estar prisionero. ¿Cómo no ver la ambigüedad de la declaración punteada. e incluso. silabeada. con cierta sorna. de esos dos versos? Te te-ne-mo-s a-llí / A-ban-do-na-do a-llí ¿Allí te guardamos. la pregunta desafiante “la fiera más fiera ¿dónde está?” parece evocar. que es uno de los extremos de la primera etapa del rock argentino. a la palabra de la calle. de modo más explícito que en “El oso”. finalmente. si lo consideramos como recorrido del artista. la naturaleza como espacio de creación. Ni el oso de Moris aparece como “un animal feroz”. en algo todos nos parecemos al pequeño artistanegocio . lo que más interesa aquí. En el viejo tema de Moris. La ambigüedad respecto del interpelado. una figuración como la del artista de la “no cultura”. sólo después la voz gana volumen. Obsérvese el orden “de mis bosques. la cultura establecida desde fuera del campo de identificaciones del rock. Viendo primeramente esa prisión como control sobre el artista (la segunda parte del tema. de la “no cultura” a la “cultura propia”. el instinto como fundamento de la creatividad5.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 27 de los 80 fue dando lugar a representaciones del desplazamiento y de la creación no compatibles con ese preconstruido. después de la “prisión” de la industria del espectáculo. de mis tardes y de mí” (destacado nuestro) al enumerar lo que no fue olvidado. El yo/nosotros representado se desplaza entre voces y posicionamientos atribuibles al poder opresor -poder sobre la escena y sobre el espectáculo-. que está preso pero “va”. ni parece serlo el artista producido de “Toxi Taxi”. se desliza hacia una problemática diferente y una escenificación más específica). se caracteriza. el héroe encuentra la posibilidad de resistencia en la autopercepción. vemos escenificado un desplazamiento que puede percibirse. Por otro lado. tu abandono? Creemos que es el inicio de una oscilación que se desplazará por toda la primera parte y el estribillo. en lo que Authier-Revuz (2011:12) caracterizó como “movimientos bruscos de báscula del sentido en una palabra”: “Un toque por si las moscas van / Otro toque por si vas detrás”6. caminando “sin cesar” inicialmente en la vastedad de la no cultura. Su tono en los dos primeros versos es de quien habla casi en privado. Esa palabra de la calle juega torciendo el significante hacia su letra. como explicaremos. Esa industria-circo. te mantenemos? Y ¿qué ubicaciones propone ese acusativo te. Así. Así. y. por medio de la imagen de las “piruetas”. en varias de las composiciones de la época se propone.

Cuando ya no actuaba en música. 2239-47. fundamentalmente porque se trae un nombre propio. para una nueva regulación de los presupuestos. Se configura más claramente un posicionamiento de resistencia. 141-155. murió preso “de verdad” en 1978. Belo Horizonte: Faculdade de Letras da UFMG. A. (2011): Detenerse ante las palabras. Elementos para una comparación con Brasil. Apuntes sobre el mito de Los Redondos. por qué no. cada día creo menos mal. cobra nitidez: está claro qué instancia o voz representada dice qué. (2008) El orden del discurso. creer y crear es una concesión. Referencias bibliográficas AUTHIER-REVUZ. GOBELLO. MAINGUENEAU (2001) O contexto da obra literária. BELTRÁN FUENTES. 2008. DÍAZ. y acabó muriendo en medio de un motín en el que todo indica que no tenía participación. está en el pasado y no va a ningún lugar. No 10. _____ (2009) “Loucura. Y la escena también cobra singularidad. Alfredo (1989): La ideología antiautoritaria del rock nacional. _____ (2002) La arqueología del saber. Estabilización del decir. p. A diferencia de la figura representada en la primera parte. Montevideo: Fundación de Cultura Universitaria. no solo porque el “nosotros” pasó a ser un “yo”. La segunda parte de “Toxi Taxi” recupera estabilidad en los posicionamientos de modo concomitante con una fijación de la escenografía enunciativa. “Luis María” y porque la temporalidad pasa a ser episódica: un narrador cuenta un sueño. FANJUL.” En: Letr@ Viv@.). Buenos aires: Tusquets. nueva regulación. si se la compara con el resto del tema. C. J. M. Y con él viene un colectivo que compartió la percepción del roquero como “visionario”8. Al fin y al cabo. (1999): Banderas en tu corazón. Un claro caso de prisionero del control social. (2005): Libro de viajes y extravíos: un recorrido por el rock argentino 1965-1985. Buenos Aires: Centro Editor de América Latina. o que creo algo. São Paulo: Martins Fontes. Estudios sobre la enunciación. Em: Anais do V Congresso Brasileiro de Hispanistas e I Congresso Internacional da Associação Brasileira de Hispanistas. Nº 11. (1992): “Estética del sobreviviente: una letra contemporánea. al. Menos mal que todavía creo en algo. vol. mientras el terror construía las nuevas topografías del rincón y la pared desierta9. M. FOUCAULT. pág. la figura evocada. 2009. . Y la distribución de las voces. Luis María actualiza el pasado. futuro compositor y vocalista de Virus. Y en el cierre.” En: Espacios de crítica y producción. Y las palabras que repite acentúan la diferenciación a respecto del creador representado en el período clásico del rock nacional. realidade e deslocamento em cenografias pioneiras do rock”. de la gestión opresora sobre los cuerpos que es uno de los grandes asuntos de Los Redondos. junto con Federico Moura. o que al menos no oscila hacia formulaciones o direcciones argumentativas identificables con el poder. Luis María Canosa. Pero ahora dice que cada día ve menos. Buenos Aires: Prego. (2010) “Enunciadores en el rock argentino. KOZAK. un “común” preso político. O. Había sido parte del rock platense en los primeros setenta. el rock no está en el pretendido cielo de la pureza. Buenos Aires: Siglo XXI. 23-28. Sara Rojo et. Córdoba: Narvaja Editor. fue preso acusado de tráfico minorista de drogas7. como sólo puede hacerlo un muerto en un sueño.28 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 5. pág. C. (org. Era cercano a Los Redondos y llegó a integrar la banda Dulcemembrillo. 1.

(1992): “El infierno encantador. . MONTELEONE. p. y a la noche me tiraba a descansar. (2012). M. “Entre pátrias.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 29 MENEZES. 1970 Yo vivía en el bosque muy contento. preso como un animal (como un animal feroz). al. p. Ya no hay tiempos de lamentos ¡Ya no hay más! Un sueño con Luis María. “Nunca el techo y la comida han de faltar. (2007). me decía un tigre viejo. Vuelvo al bosque. Papel da memória. J. de mis tardes y de mí. En un pueblito alejado alguien no cerró el candado. muerto cuando me decía: Y yo así perdí mi amada libertad. Violencia y poesía del rock. “Papel da memória”. O embate entre vozes marginais e disciplinadoras em composições de samba e tango (19171945). Pero un día vino el hombre con sus jaulas. Campinas : Pontes. Ahora piso yo el suelo de mi bosque. En: ACHARD. Caminaba. 49-56. Las mañanas y las tardes eran mías. Con el circo recorrí el mundo así. et. me encerró y me llevó a la ciudad.” Han pasado cuatro años de esta vida. PÊCHEUX. Anexos Toxi . Estoy viejo. así las cosas. “Conformate”. Nº 11. Sólo exigen que hagamos las piruetas. y yo dejé la ciudad. abandonado allí. 29-33. Universidade de São Paulo. estoy contento de verdad. Un toque por si las moscas van y otro toque por si vas detrás. 1991 Te tenemos allí. P. caminaba sin cesar. pero las tardes son mías. Pero nunca pude olvidarme del todo de mis bosques.” Tesis de doctorado en Letras. pandeiros e bandoneones . “Cada día veo menos cada día veo menos cada día veo menos creo menos mal”. la fiera más fiera… ¿dónde está? Toxi-taxi viene y va y tu sombra va detrás de hordas notables con los secretos para hacer un negocio tan pequeño y simple como vos.T axi Taxi Solari / Bellinson. Otra vez el verde de la libertad. El oso Moris. En el circo me enseñaron las piruetas. y a los chicos podamos alegrar. Era una noche sin luna. A.” En: Espacios de crítica y producción.

haya una cierta reiteración de “entender” la interrogación “¿la fiera más fiera dónde está?” como denuncia de que no se lleva a prisión a los jefes del tráfico sino a sus agentes menores. la de irme al lugar que yo mas quiera. A partir de ese relato. La continuidad (“por si las moscas van”) restituye “las moscas” a un valor independiente de esa construcción. redactado por Luis Alberto Spinetta: “El que recibe debe comprender definitivamente que los proyectos en materia de rock argentino nacen del instinto”. Y cuando mi balsa esté lista partiré hacia la locura. Monteleone relata. en un manifiesto circulante en 1973. Me falta algo para ir pues caminando yo no puedo. 8 Sobre la representación del artista. para ello. en lecturas de interpretación literal de la letra de “Toxi Taxi” que han circulado en los medios. Uno de los seudónimos de de José Alberto Iglesias (1945-1972). . y aprovechando el tema de Los Redondos “Barba Azul y el amor letal” va produciendo una reflexión que vincula lo infernal con la figuración del espacio social como prisión. comportamientos atribuidos al asesino serial Giles de Rais. tanto en el contexto de esta lectura interdiscursiva del tema a partir de la representación de la creación artística como en cualquier otro abordaje temático. nos parecería muy reductor ver esa interrogación como mera denuncia. aproximadamente como “por si acaso” o “por las dudas”. acá. en este mundo abandonado. no podemos afirmar si era o no esa su idea. Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. hay un interesante recorrido en Díaz (2005: 154-167). 1967 Estoy muy solo y triste. también conocido como “Barba Azul”. 6 “Por si las moscas” es una unidad relativamente fijada. Tengo una idea.30 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS La balsa Lito Nebbia – Tanguito. por ejemplo. 3 4 Adjetivo muy usado para referirse a lo relativo a Los Redondos. Por eso. de Nito Mestre. Tengo que conseguir mucha madera. como introductor explicativo que pone como causa la percepción de una posibilidad. en el rock argentino de los 60-70. registrado por Beltrán Fuentes (1989:95). no es nuestra preocupación lo que hayan tenido en mente o no los compositores. 9 Aludimos a las composiciones “Mientras no tenga miedo de hablar”. Pero nuestro abordaje no es contenidístico. o como dirigida “al mismo” de la segunda estrofa. tengo que conseguir. Construiré una balsa y me iré a naufragar. no se propone un desciframiento alegórico de las composiciones parte a parte. Notas 1 2 El proyecto cuenta con apoyo del CNPq. y “En el hospicio”. y por supuesto. 5 Así está claramente enunciado. de Alejandro de Michele y Miguel Ángel Erausquin. 7 Esa circunstancia ha dado lugar a que. como quien ve lo que otros no ven. en español. Con mi balsa yo me iré a naufragar. A respecto. de donde sea. miembro de los primeros núcleos que fueron dando forma a la delimitación del rock nacional como campo. ambas compuestas entre 1975 y 1976.

de Manuel Rivas. A princípio. aproximando-o da narrativa ficcional. AMOR?. de mulheres e crianças. O medo de apanhar . interpretado pelo ator Fernando Fernán Gómez. associada à pobreza e às dificuldades de sobrevivência da Espanha rural pré-franquista. Moncho. A primeira experiência escolar de Moncho. São imagens de pessoas simples do interior. embora seja uma ficção. por medo. e seu aluno Moncho. chegando a querer fugir para a América. juntamente com outros dois contos. amor?. Estas imagens “reais” se mesclam estrategicamente com as cenas do filme. É neste momento em que o espectador dá um salto para a ficção sem se dar conta de tal fato. Tanto a narrativa literária quanto a fílmica relatam uma intensa relação entre um professor primário. incomodando o irmão mais velho com perguntas sobre o ambiente escolar e a atuação do professor. como havia feito um tio. Manuel Lozano. Don Gregorio. Certamente este recurso é uma forma de dialogar com o espectador no sentido de mostrar como a narrativa fílmica. para escapar da guerra na África. As cenas iniciais do filme mostram imagens fotográficas da época. o menino reluta em estabelecer uma relação amistosa com o professor e os outros alunos. relatada no filme. está presente um conjunto de dezesseis relatos que narram a trajetória de personagens que transitam pelo contexto espanhol. principalmente. pode ser tão verossimilhante quanto à realidade histórica. aparece acordado no quarto. pela ameaça que significa a ideia de frequentar a escola. é traumática. traduzindo-se em um grande êxito cinematográfico. publicado em 1995 e escrito originalmente em galego. retratos do atraso social de uma Espanha tradicionalista com os olhos voltados para o passado. DE MANUEL RIVAS E LA LENGUA DE LAS MARIPOSAS. Trata-se de uma maneira de iludir o espectador. do início ao fim do século XX. DE JOSÉ LUIS CUERDA Adriana Aparecida de Figueiredo Fiuza UNIOESTE No livro de contos ¿Qué me quieres. “ Un saxo en la niebla ” e “Carmiña”.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 31 MEMÓRIAS DA GUERRA CIVIL ESPANHOLA NA FICÇÃO: LEITURAS DE ¿QUÉ ME QUIERES. em que se evidenciam a vida cotidiana. “ La lengua de las mariposas” é uma dessas narrativas que. foi transposta para o cinema em 1999 por José Luis Cuerda. ansioso com seu primeiro dia na escola. Na cena seguinte. criando com estas representações um suposto pacto de “verdade”.

por exemplo. con la mirada ausente. perdida en el Sinaí. já se sente de maneira velada uma ameaça política no pano de fundo social. Este tirocínio está relatado pelo narrador tanto no filme quanto no conto e é um ponto crucial para entender a metáfora do autoritarismo que paira naquele momento em que a Guerra Civil ainda não havia sido deflagrada na Galicia. Mi madre. Era un silencio prolongado. Esta ameaça pode ser visualizada em alguns episódios como. que comenta as posições ideológicas dos personagens: “Mi padre era republicano. castigando não com violência física. Porque todo lo que él tocaba era un cuento fascinante. la República!¡Ya veremos adónde va a parar la República! (RIVAS. a natureza e as mulheres de maneira libertária. mas com o silêncio. p. Moncho torna-se amigo íntimo de Don Gregorio.32 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS e a exposição a que o menino é submetido frente aos outros alunos o fazem perder o controle de seu corpo. uma vez que o pai se identifica com a República (“Ellos son las luces de la República”) e a mãe adota uma postura conservadora. como se a vitória dos franquistas estivesse dada como certa. él los llamaba. (RIVAS. Y se dirigía hacia el ventanal. 26-27) Don Gregorio é o professor que ensina não apenas conhecimentos científicos. frase que se repete na narrativa com o objetivo de enfatizar o tormento que era ir à escola. tendré que callarme yo”. atua de maneira diferente dos outros “maestros” da época. Al contrario. “Ellos son las luces de la República”. “parecéis carneros”. no. casi siempre sonreía con su cara de sapo. a exemplo de quando a mãe de Moncho pergunta como havia sido na escola: “ Te ha gustado la escuela?” “Mucho. como no do próprio pai do menino ao comentar-lhe em tom de ameaça: “Ya verás cuando vayas a la escuela!. 2006. no diálogo entre os pais de Moncho sobre a condição econômica de Don Gregorio: “ Estoy segura de que pasa necesidades”. sentenciaba. logo em seguida ao diálogo dos pais de Moncho. 2006. quando o professor se sente desrespeitado pelos alunos. Después los sentaba en el mismo pupitre. Pronto me di cuenta de que el silencio del maestro era el peor castigo imaginable. muito mais poderoso que a correção física. ele instrui seus alunos também sobre as lições da vida. 2006. Entretanto. divulgada pela Igreja. Quiero decir que mi madre era de misa diaria y los republicanos Portanto. 26). 2006. p. que se via advertida pela proposta do Estado laico da República. 29) No discurso final da mãe percebe-se um tom de ameaça. sua conduta libertária é o que propiciará sua perseguição em um ambiente político sufocante que já se anunciava. Com o transcorrer da narrativa. urinando na frente de todos. p. “¡La República. O diálogo entre Moncho e sua mãe é referendado pelo narrador. Cuando dos se peleaban durante el recreo. como si nos hubiese dejado abandonados en un extraño país. Esta questão dos ideais libertários pode ser vista ao longo da narrativa. percebe-se que o tema das duas Espanhas também está metaforizado no próprio discurso do casal. ao complementar o relato do menino: No. ao discorrer sobre a literatura. Portanto. […] La forma que Don Gregorio tenía de mostrarse muy enfadado era el silencio (RIVAS. y hacía que se estrecharan la mano. contrariando as convenções da sociedade espanhola daquele momento. “Los maestros no ganan lo que tendrían que ganar”. el maestro Don Gregorio no pegaba. como assegura o narrador Moncho: . descorazonador. con sentida solemnidad. p. Y no pega. no conto e no filme. Esta dicotomia pode ser observada na voz do narrador do conto. El maestro no pega” (RIVAS. decía mi madre por la noche. o que revela uma pedagogia de Don Gregorio diferente daquela que se praticava nos anos de 1930 e que ficava expresso no discurso de outros personagens. Entretanto. uma vez que o aluno percebe de maneira sensível os pressupostos libertários do professor e. mi padre. 26) “Si vosotros no os calláis. sobretudo. o respeito aos alunos que advém deste princípio pedagógico.

argumenta: “ Hay que quemar las cosas que te comprometan. Charli. “No. convencido que o melhor seria gritar. [. ¿Has entendido bien? ¡No se lo regaló!” “No. El maestro. Moncho. 2006. em minoria. O término do relato é contundente.” (RIVAS. chepudo y feo como un sapo. Papá no Le regalo un traje al maestro”. p. no se lo regaló”. juntamente com outros homens do povoado.) “¡Asesino! ¡Anarquista! ¡Comeniños!” (…) “¡Cabrón! ¡Hijo de mala madre!” (RIVAS. No ápice do conflito entre republicanos e franquistas no povoado a mãe impõe seu caráter religioso na tentativa de salvar sua família.. o da Santa Inquisição. que. p.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 33 aparecían como enemigos de la Iglesia. p. Ramón. A imposição da mãe se dirige também a Moncho. el vocalista de la Orquesta Sol y Vida. como ocorre com: O pai. 2006. O episódio nos traz à memória dois momentos emblemáticos da história da espanha. 31). insulta aqueles que antes pertenceram ao mesmo grupo ideológico que ele. em sua inocência de criança. 32) Ao final da narrativa literária e fílmica. 2006. padre de Dombodán. pois demonstra os dois lados da Guerra. o acovardamento dos que não foram encarcerados. p.. 31) El alcalde. época em que se queimavam os livros considerados proibidos e da cena de Don Quijote de la Mancha (1605). Poco a poco. afim de livrar o personagem Quijote de sua suposta loucura. 33). 2006. 32) Em seguida. como si lo sujetase con todas sus fuerzas para que no desfalleciera. Ramón. Moncho. Papá no era republicano. Los periódicos. ¡grita!” Mi madre llevaba a papá cogido del brazo. ainda que possa ser considerado um gesto covarde. aflito. custa a entender a conjuntura daquele momento histórico: “Recuerda esto. Ramón. que proibiria a liberdade de expressão. Moncho. mamá. . el cantero a que llamaban Hércules. A mãe de Moncho é a primeira da família a tomar a iniciativa de compactuar com os crimes do franquismo. Todo. los de los sindicatos. “¡Traidores! ¡Criminales! ¡Rojos!” (RIVAS. p. Y otra cosa muy importante. cujos livros são queimados. de la multitud fue saliendo un murmullo que acabo imitando aquellos insultos... Tal fato é observado na conduta imitativa dos que assistiram a atuação da guarda civil: Se escucharon algunas órdenes y gritos aislados que resonaron en la Alameda como petardos. p.. mas nem por isso menos aterrorizante. Papá no era amigo del alcalde. como revela o narrador: “Grita tú también. los libros. É por esse motivo que ela faz todos negarem o passado republicano. “Sí que se lo regalo”. o professor é preso. (RIVAS. 32) Este pacto com o gesto criminoso da guarda civil é uma forma de proteger-se do mesmo crime. sem haver cometido crime algum. 2006. Papá no hablaba mal de los curas. No se lo regalo. “¡Que vean que gritas. p.] “¡Criminales! ¡Rojos!” (. primeiro o povo sendo aprisionado de forma arbitrária. 2006.” (RIVAS. o menor da família. 29). (RIVAS. Neste sentido. 2006. mas que compactuaram com a prisão dos inocentes como forma de eles próprios se livrarem do infortúnio dos vizinhos. por lo que más quieras. inclusive o pai. instauraria a Censura e não somente a literária e junto com ela a repressão. Na verdade. uma vez que todo o povoado representava uma maioria que poderia facilmente ter parado a guarda civil. a queima dos livros do pai se trata de um prenúncio do que viria a ser a ditadura franquista. Moncho. começa a gritar envergonhado e logo desesperado ofensas para dissimular sua profunda consternação e fraqueza: “¡Traidores!”. el bibliotecario del ateneo Resplandor Obrero.. Y al final de la cordada. por ser considerado um inimigo do regime ditatorial que se instaura. que vean que gritas!” (RIVAS.

26). Portanto. da falta de liberdade e do silêncio que a ditadura franquista impôs à sociedade espanhola. visto que a literatura pode ser considerada como um espaço público da expressão da sociedade. 8) discorrem que a memória se transmite e se reforça por meio de práticas de rememoração e comemoração variadas. como já é de conhecimento. Esta é a última lembrança do narrador daquele período turbulento que a história relataria. 33). 2006. p. grítale tú también!” (RIVAS. que sonhava em receber de Madrid um microscópio para mostrar aos alunos da escola a língua das boborletas: “Hoy el maestro ha dicho que las mariposas también tienen lengua. agora já adulto. inevitavelmente. relata como fora sua intervenção no acontecimento: Cuando los camiones arrancaron. a imagem da língua da borboleta enrolada dentro de sua boca é a imagem da mordaça. No relato. prenunciando os longos anos da ditadura que se iniciava. 2006.. parece ser no conto de Rivas a metáfora da própria infância. A borboleta. Portanto. já que nada consegue vê-la. um animal belo. época em que tudo parece ser mais admirável. manipulou a memória da forma que pôde. caberia questionar o motivo dessa necessidade de se abordar o tema da memória na literatura e no cinema contemporâneo. precisa ser desenrolada como a língua da borboleta do relato. Monchiño. a não ser por meio de um microscópio. o próprio narrador também parece se surpreender pela falta de língua. passa muitas vezes despercebida pelas instâncias do poder. sólo fui capaz de murmurar con rabia: “¡Sapo! ¡Tilonorrinco! ¡Iris!” (RIVAS.. na febre e na angústia” (2003. A memória da Guerra Civil advém justamente da memória desse narrador que. que é o narrador do conto. Outra resposta plausível é a que nos oferece o historiador Jacques Le Goff. O menino. Franco é um dos maiores exemplos desta teoria. Por fim. que Moncho se surpreende pelo fato de as borboletas possuírem uma língua. una lengua finita y muy larga. individual ou coletiva. estando livre de suas . 33). a literatura. o tema da memória na literatura é um gesto de se rememorar de forma coletiva. Tanto é assim.34 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS também participa do episódio incitado pela mãe: “¡Grítale tú también. p. o controle da memória coletiva pode ser entendido como um instrumento e um objeto de poder. Esta cena é marcante no final do filme em que a câmera fica lenta. 469). Quem possui o controle desta memória. ao refletir sobre a importância da memória no mundo contemporâneo.) ¿A que parece mentira eso de que las mariposas tengan lengua?” (RIVAS. As possibilidades de respostas são variadas. para permanecer no poder. tirando piedras. Em tempos de ditadura. […] con los puños cerrados. também alcança o poder. cuja busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje. Daniel Lvovich e Jaquelina Bisquert (2008. para que se tome consciência dela. Moncho se consome ao ver o profesor sendo levado para alguma prisão franquista e seu grito de insulto nada mais é que um grito de desesperança pelo que estava ocorrendo e o que haveria ainda de ocorrer na Espanha de Franco. (. cargados de presos. que llevan enrollada como el muelle de un reloj. É importante ressaltar que assim como seu pai. Buscaba con desesperación el rostro del maestro para llamarle traidor y criminal. p. colorido e delicado. yo fui uno de los niños que corrieron detrás. p. configurada na idéia da memória da história recente. utilizadas para estabelecer a memória coletiva. que. 2006. Le Goff assevera que “a memoria é um elemento essencial do que se costuma chamar identidade. p. por sua linguagem altamente simbólica. entretanto. relembra a efêmera alegria em companhia do professor Don Gregorio. com o objetivo de mascarar e eliminar a memória republicana e antifranquista.

não se pode esquecer que as reivindicações do presente e a intenção do Estado em dar voz e visibilidade ao passado. Local: Espanha: Sogecine. Em tempos de democracia. LE GOFF. Referências bibliográficas LA LENGUA DE LAS MARIPOSAS. 2008. podendo revelar. BISQUERT. 1999. amor? Madrid: Punto de Lectura. ¿Qué me quieres. nas fraturas de seu discurso. Campinas: UNICAMP. Los Polvorines: Universidad Nacional de General Sarmiento. Jacques.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 35 amarras. La cambiante memoria de la dictadura: discursos políticos. Sonoro. Direção de José Luis Cuerda. 2006. ajudando a fixar sentidos para as reminiscências. LVOVICH. a literatura pode desempenhar a função de preservar uma memória que se perde no tempo e no espaço. Manuel. Entretanto. Buenos Aires: Biblioteca Nacional. legenda. . Jaquelina. História e memória. 2003. DVD (95 minutos). a memória silenciada e esquecida. movimientos sociales y legitimidad democrática. color. Daniel. por meio de políticas da memória. RIVAS. oferecendo novas perspectivas sobre a memória e o seu reconhecimento público. são fundamentais para a valorização dos códigos memorialísticos.

Este artigo se estrutura da seguinte forma: na primeira parte abordaremos aspectos da gramática do espanhol quanto à realização do objeto pronominal acusativo. LABOV. o que contrariaria essa hipótese inicial. Neste trabalho apresentaremos alguns dados da análise da variedade de espanhol de Montevidéu. 2002. 1981. 1998. 1994. 2005. específico]. 2006). 2003). observamos categorias vazias em função de objeto acusativo com referente [+determinado.Universidade de São Paulo 0. Entretanto. LICERAS. 1997. Partimos da hipótese de que essa variedade apresentaria objetos nulos restringidos a antecedente [-determinado. Essa análise integra nossa pesquisa de doutorado1. Conforme Groppi (1997). A segunda parte será dedicada à metodologia. na qual objetivamos detectar diferenças sintáticas subjacentes entre o espanhol e o português brasileiro nessa área da gramática. 1996. iniciamos uma análise sociolinguística a respeito da variação na realização do objeto pronominal acusativo de 3ª pessoa no espanhol. Na terceira parte apresentaremos alguns dados da análise e por fim algumas considerações a respeito. Introdução Os trabalhos de Campos (1986) e Fernández Soriano (1999) mostram que o espanhol seria uma língua em que a categoria vazia em função de objeto direto estaria restringida a antecedente [-definido. 1999). . ao analisar os dados. 1999) e sociolinguística (LABOV. a partir das teorias gerativa (CHOMSKY. HERZOG. -específico]. a variedade de espanhol de Montevidéu também apresentaria objetos nulos restringidos a antecedente [-definido. 2008. 2001. Considerando-se esses estudos. WEINREICH. tendo como variantes o clítico e o objeto nulo e como corpus entrevistas do PRESEEA. 2003. embora em outras variedades do espanhol essa categoria vazia seja possível em contextos mais amplos (FERNÁNDEZ ORDÓÑEZ. específico].36 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS A VARIAÇÃO NA REALIZAÇÃO DO OBJETO PRONOMINAL ACUSATIVO NO ESPANHOL: UM ESTUDO INICIAL Adriana Martins Simões PG . +/específico]. a fim de investigar a gramática não nativa do espanhol (GONZÁLEZ. 1999.

o clítico poderia ter como referente apenas um sintagma nominal [+específico] (FERNÁNDEZ SORIANO. +determinado] na fala de pessoas bilingues de nível sociocultural médio e baixo. Entretanto. nas construções em que o verbo seleciona o objeto direto e o indireto [exemplo (4)] e nas orações que precedem a do antecedente [exemplo (5)]: (3) (4) (5) osas d em uje resi nadie Ø i entiende. Vos sabés. como pode ser observado pelo contraste de gramaticalidade nas sentenças em (1) e (2). No vayas a ver esa p pe Já na variedade de espanhol de Montevidéu os objetos nulos estariam restringidos a antecedente [-definido. em construções com objeto direto e indireto [exemplo (7)] e em orações adverbiais [exemplo (8)] (cf. -específico] (GROPPI. em algumas variedades do espanhol o objeto nulo poderia ocorrer em contextos mais amplos. que nas variedades em geral do espanhol se restringiria apenas a esse tipo de antecedente (CAMPOS. 1986. que também apresenta objetos nulos com referente [-animado. 1999): (6) (7) (8) Las e le c cio nesi yo nunca Ø i entendí. seria incompatível que fossem retomados por clítico. — Yo tampoco *lo / Ø tengo. Entre essas variedades estaria o espanhol falado no Paraguai em contato com o guarani. jugue uguet Me Ø i quitó otra vez [ e l j otasi en la chacra. Outra variedade em que o objeto nulo seria possível em contextos mais amplos seria a do espanhol falado na Serra do Equador. ele lec ciones r abajoi ]. . FERNÁNDEZ ORDÓÑEZ. res — ¿Compraste las flo flor es? — Sí. Essa categoria vazia ocorre em estruturas de topicalização [exemplo (3)]. 1999). (1) (2) res — ¿Compraste flo flor es? — Sí. conforme Fernández Ordóñez (1999). 1999). tr ¿Te Ø i permitirán entregar sin terminar Ø i ? [ e l t e lículai porque no Ø i vas a entender. *Ø/las compré. Como na ausência de determinante os nomes comuns do espanhol não constituiriam expressões referenciais (LACA. A gramática do espanhol na realização do objeto pronominal acusativo Por ser um determinante definido (DI TULLIO. 1997. Siempre Ø i encontré cuando Ø i busqué. 1999). — No vas a encontrar las b botas — Sí voy a encontrar Ø i . LEONETTI. las c cosas de muje ujer ugue t e i ]. 1999). +determinado] em construções de topicalização [exemplo (6)]. -específico] ocorreria o objeto nulo. Assim. FERNÁNDEZ SORIANO. 1997) 2. como pode ser observado pela diferença no julgamento de gramaticalidade das sentenças (9) e (10).ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 37 1. no qual o objeto nulo ocorre em referência a antecedente [-animado. no caso de um referente [-determinado. (9) — No tengo coche. Ø/*las compré.

Alguns dados da análise Iniciaremos apresentando alguns dados de 2. porém em (12) trata-se dos casos em que o sintagma nominal é encabeçado por um quantificador7. A análise sociolinguística: corpus e metodologia Para a realização do estudo sociolinguístico. sendo elas a variedade de Montevidéu e a de Madri. A variável de nossa pesquisa constitui a realização do objeto pronominal acusativo de 3ª pessoa e como variantes temos o clítico e o objeto nulo. ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Em relação aos fatores linguísticos.38 (10) — No tengo el coche. de modo que nos contextos em que tivéssemos referentes [+determinados] e [+/-específicos] esperaríamos encontrar a retomada pelo clítico. — Yo tampoco lo / *Ø tengo. r io no lo sentí tan mío / (…) (11a) I: (…) porque después cuando volví allá / ya como que e l bar barr icic le ta tirada en la plaza de deportes ¡no sabía icicle leta (11b) I: no antes no / eeh como ser Roberto dejó ocho días la b bicic dónde estaba! // <risas = “I” /> después se la trajo el hombre que cuidaba / porque al ver que no la iba a buscar se la trajo el hombre que cuidaba! (11c) us ab ue los te acordás? E: ahá // decime ¿y a t tus abue uelos ue los no los conocí I: <tiempo=”02:43"/> no / porque a mis ab abue uelos (12a) r it o I: (…) <vacilación/> después tuvieron el tupé de entrar al dormitorio // que hay un alhaje alhajer ito que Valeria tenía las alhajitas más // mejores l <vacilación/> las trajeron para acá porque yo lo encontré acá / y se lo llevaron / (…) (12b) c e ne ro a un c o no cid on uest ro d e a cá I: (…) esa misma noche porque habían asaltado a un alma almac ner co nocid cido nuest uestr acá a la v ue lta / estee no no lo había asaltado lo había amenazado / de asalto vue uelta . encontramos dados que contrariaram essa hipótese como veremos na terceira parte do artigo. analisamos 20 entrevistas da variedade de espanhol de Montevidéu provenientes do PRESEEA (Proyecto para el Estudio Sociolingüístico del Español de España y de América). analisamos diferentes faixas etárias6 e variedades do espanhol. 3. +específico]. Na maior parte dos fragmentos selecionados os clíticos ocorrem em construções com topicalização. Contudo. Quanto aos fatores extralinguísticos. os traços semânticos 5 do antecedente e diferentes contextos estruturais como topicalização. construções em que o verbo seleciona objeto direto e indireto e orações subordinadas adverbiais. Tendo em vista esses estudos. Nos enunciados em (11) e (12) os clíticos retomam um antecedente [+determinado. 3 ocorrência de clítico encontrados nas entrevistas. partimos da hipótese de que na variedade de espanhol de Montevidéu os objetos nulos estariam restringidos a antecedente [-determinado. -específico]. entre eles analisamos a estrutura do sintagma determinante4. construções em que o verbo seleciona os objetos direto e indireto e em construções adverbiais.

(15a) I: (…) porque yo he comido piza en bares / Ø he comido en otras casas escuchado mil historias de gente que ma // he (15b) I: (…) yo por suerte nunca he tenido p ro b le lema Ø ha tenido pero / yo no no no Ø he tenido así (15c) E: y en el jardín ¿tenés plantas plantas? I: sí / en el fondo Ø tenemos sí / (…) cio nes o no? (15d) E: ¿y en navidad también tenés v a ca cacio ciones I: no / en navidad no / Ø tengo únicamente el veinticinco de diciembre no trabajo porque igualmente es un feriado <ininteligible/> (15e) amig os E: listo / y<alargamiento/> y bueno tenés ¿amig amigos os? me imagino I: Ø tengo <risas = “I”/> . que.. constituiriam o tipo de antecedente com o qual essa categoria vazia seria possível nas variedades de espanhol em geral (CAMPOS. -específico]. (13a) E: pero claro // ¿y tenés pasaporte / el pasaporte? o r t e me lo saqué sí I: e l pasap pasapo e p o r t e pero lo considera una necesidad y tiene tendencia (13b) I: (. como vimos.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 39 Os enunciados em (13) e (14) constituem ocorrências de clítico cujo referente é [+determinado.. 1986. sendo os antecedentes dos enunciados em (14) sintagmas nominais encabeçados por quantificador. 1999) e na variedade de Montevidéu (GROPPI.) no es que le guste tanto e l d de a contracturar su espalda por ejemplo / (…) (13c) o ¿cuál es tu forma de tratamiento? E: perfecto / y cuando vas al médic médico I: bueno / ahí viste que bah bueno depende de la situaciones ¿no? un poco formales / también depende un poquito / voy y observo /si me tutea eeh yo lo tuteo / porque él me habilitó o nst r uc ción / podíamos hacerla la (14a) I: eh bueno ta la propuesta fue para para hacer algo una c co nstr ucción acá e r so na mm no sé de setenta años capaz (14b) I: sí / y ahí para mí es el tema de la edad // si es una p pe sona e r so na que la trato de usted / si es una p pe sona na<alargamiento/> hasta esa edad / eeh / de chico hasta esa edad más o menos yo ya la trataría de vos / en mi caso por lo menos Nos enunciados em (15) temos casos de objeto nulo com referente [-determinado. 1997). FERNÁNDEZ SORIANO. -específico].

o que revela variabilidade na intuição dos falantes.... (17b) e (17d). que. os em (17) sintagmas nominais encabeçados por determinantes e os em (18) sintagmas nominais encabeçados por quantificador e determinante.. construções com objeto direto e indireto e sentenças adverbiais. além da ocorrência do objeto nulo. +específico]. variedades estas que apresentam objetos (16a) nulos em contextos mais amplos (FERNÁNDEZ ORDÓÑEZ. Esses dados contrariaram nossa hipótese inicial de que o objeto nulo na variedade de Montevidéu estaria restringido a antecedente [-determinado. -específico].40 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Entretanto.. Os enunciados em (16)-(18) apresentam ocorrências de objeto nulo [+determinado. encontramos essa categoria vazia com referente [+determinado. Nos enunciados (17a).. -específico].) mi madre así <vacilación/> no se compraba un he hela lad nos ayuda / y tú sabes que no / yo te Ø hago en casa de lo que tú quieras / de chocolate / de ma yo<alarg amie nt o/>r u ocupa may o<alargamie amient nto/>r no / porque / la do d e he la d e ría no te Ø puedo comprar </cita> (.) (16c) I: (…) siempre le hubiera gustado tener una ne nena e int icinc o lo pasamos con la madre de mi marido acá (17a) I: (…) todo bien tranquilo y<alargamiento/> e l v ve inticinc icinco / en Montevideo / es viuda hace unos años / Ø pasamos con ella y la hija soltera vive con ella (…) (17b) I: (…) yo<alargamiento/> hace tres años atrás no sabía manejar una computadora / tenía miedo o mpu ta dor a y<alargamiento/> al empezar este curso<alargamiento/> me gustaba lo que era el diseño pero a la c co mputa tad la odiaba por el simple hecho de que no Ø conocía y me parecía más difícil de lo que era // y fui a hacer este curso medio a regañadientes y cuando me quise acordar estaba <vacilación/> ya estaba manejandoØ Ø y era mucho más fácil de lo que pensaba (…) (17c) nú E: ¿y tienen una comida típica para Navidad o van cambiando e l me menú nú? I: no Ø vamos cambiando de acuerdo al estado de ánimo de<alargamiento/>l que recibe / ulc es o los b udín ing lés / o a veces Ø preparaba mi (17d) I: (…) mi madre siempre preparando o los pan d dulc ulces budín inglés abuela y los mandaba para allá (. 1999).) crema / pero un he hela lad de hela lad e r so na (16b) I: y<alargamiento/> suponete / si es una p pe sona determinado ca<alargamiento/>rgo en el en el área laboral te digo / por ejemplo / este Ø trato de usted na / y no Ø tuvieron y bueno (. sendo que os enunciados em (16) constituem sintagmas nominais encabeçados por quantificadores. além de objetos nulos em referência a antecedente [-determinado. constituem contextos estruturais em que o objeto nulo ocorre nas variedades do Paraguai e da Serra do Equador. Observamos que algumas das construções com objetos nulos ocorreram em estruturas de topicalização.) e nt e ma yo r / por costumbre Ø trato de usted (17e) I: ahí lo trato de usted / no tengo mucha onda con la g ge nte may (18a) / la piza (18b) I: (…) ahora me tocó esto yestee y bueno / y<alargamiento/> lo primeros días fueron muy osas más e le me ntales no Ø podía hacer (…) podía / las c cosas ele leme mentales sobrellevé lo mejor que pude / los vestirme bravos porque ni bañarme podía sola / estee no podía nada / ni I: hace tiempo que no lo hace más / desde que falleció mi padre hace / veintiún año no / ella o midas case r as // dejó de hacer t o das esas c co caser no Ø hace más // lo que hace los domingos / de tradición así . o referente também é retomado por clítico.. assim como com referente [+determinado. -específico]. -específico].. la d o en la heladería <cita> porque Miguel I: (. conforme vimos. em que o sintagma nominal antecedente é encabeçado por determinante.

(19a) I: (. Em (20a). em que o sintagma nominal antecedente é encabeçado por determinante. Por outro lado..) (20b) ea E: ¿y cómo afecta eso t u tar tarea ea? ¿afecta en algo? I: <tiempo = “6:00”/> a veces Ø afecta en la labor en el aspecto de que no tenemos totalmente una / una resolución (…) Os dados que apresentamos constituem algumas ocorrências de realização do objeto pronominal acusativo de 3ª pessoa por clítico e objeto nulo encontrados nas entrevistas analisadas. ..) yo ya me quebré el año pasado un pie / no fue acá pero / pero quedé E: ¿dónde fue? / ¿qué te pasó? I: y yo me Ø quebré en la Intendencia / (. A seguir apresentamos algumas considerações e possibilidades de análise. como também com referente [+determinado. nulos seriam possíveis não apenas com referente [determinado. -específico].. Algumas considerações sobre os dados Os dados observados revelam que na variedade de espanhol de Montevidéu os objetos Esses dados parecem sugerir que haveria um processo de variação linguística nessa variedade de espanhol. nossa hipótese é de que haveria uma coexistência de gramáticas (CHOMSKY.. ocorre variação entre o clítico e o objeto nulo. o que contrariou nossa hipótese inicial.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 41 Nos enunciados em (19) e (20) os objetos nulos têm como referente um sintagma nominal [+determinado.. contextos nos quais esperávamos encontrar apenas clíticos. observamos que a retomada do referente por clítico constitui a forma mais recorrente. A partir disso.) (19b) I: (…) entonces eeh <vacilación/> Belén ahora por ejemplo estudia en <vacilación/> en unos lib ros no donde si la tarea es sintetizar la información / eeh <vacilación/> nos ahogamos porque libr no hay lo que es sintetizar porque están previstos para que el niño <énfasis> ya </énfasis> Ø tenga resumido (19c) I: nunca he llegado al <risas = “todos”/> / este<alargamiento/> / cuando llegué a los / unos cub ie r t os creo que Ø tenía Devoto / ya habían aparecido los táper / así cubie ier los cubiertos (…) (19d) E: ¿ahí en el Parque Rodó? I: sí / una plazoleta chiquitita / estee / 21 de Setiembre / se engancha con Bulevar ee l las / Ø violaron / eran las seis de la mañana España por ahí / a una d de el (20a) I: (…) digo / acá tenemos un solo canal de televisión que pasa información sobre <siglas = [sída]/> SIDA </siglas> / o / no lo mira nadie sobre / sobre drogas / que es e l canal cinc cinco E: <tiempo = “30:35”/> ah no I: <ininteligible/> ¿quién Ø mira? muy pocas personas miran canal cinco // (.. +específico]. sendo que em (19) o sintagma é encabeçado por quantificador. +/-específico]. apesar das ocorrências de objeto nulo. a que me quedé sin 4.

laísmo y loísmo . v. São Paulo. (1999): Sobre a aquisição de clíticos do espanhol por falantes nativos do português. p. Madrid: Espasa. Madrid: Espasa. Por alguma razão essa variedade do espanhol teria passado a permitir objetos nulos com referentes [+determinados]. Pronombres átonos y tónicos. Cultura y Deporte/ ABH. publicado em forma de CD Rom. Campinas – SP. sendo uma gramática a que permite o clítico e a outra a que possibilita o objeto nulo em contextos mais amplos. Angela (1997): Manual de gramática del español. Ignacio & DEMONTE. p. Entretanto. Nossa ideia seria considerar a gramática que permite objetos nulos em contextos mais amplos como uma pista sobre a possibilidade dessa categoria vazia nas línguas naturais e a gramática dos objetos nulos restringidos como base para a análise da gramática não nativa. Em: RILCE: 14. n. Campinas – SP. Em: Linguistic Inquiry. (1998): Pero ¿qué gramática es ésta? Los sujetos pronominales y los clíticos en la interlengua de brasileños adultos aprendices de Español/LE. p. 243-263. GALVES. Tese de doutorado. n. Em: ROBERTS. Em: Estudos Lingüísticos XXXIII. Hector (1986): Indefinite object drop. 239256. 2001). E. Campinas (SP): UNICAMP. Raposo. (2003): Lugares de interpretação do fenômeno da aquisição de línguas estrangeiras.): Gramática Descriptiva de la Lengua Española. Carlos (SP): Claraluz. Trad. S. Em: TROUCHE.2: Español como lengua extranjera: investigación y docencia. Pamplona: Universidad de Navarra. Os pronomes pessoais na aquisição/ aprendizagem do espanhol por brasileiros adultos. André Luiz G. Editora da Unicamp. 1993. Charlotte (1993): O enfraquecimento da concordância no português brasileiro. CHOMSKY. Buenos Aires: Edicial. LIGHTFOOT. _____. Referências bibliográficas _____. (2001): La expresión de la persona en la producción CAMPOS.): Gramática Descriptiva de la Lengua Española. 1317-1391. p. 17. 53-70. de español lengua extranjera de estudiantes brasileños: perspectivas de análisis. ao contrário do que ocorreu no português brasileiro (cf. p.): Português brasileiro: uma viagem diacrônica. & REIS. inédita. 354-359. _____. 36. _____. _____.42 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 1999. DI TULLIO. Mary (orgs. Em: BOSQUE. FERNÁNDEZ SORIANO. Violeta (orgs. ________ (2001): Ensaios sobre as gramáticas do português. Em: BOSQUE. A análise quantitativa revelará os contextos linguísticos que favorecem o clítico e o objeto nulo e a análise das diferentes faixas etárias poderá indicar se se trata de uma variação estável. . 1. 163-176. Em: BRUNO. GALVES. DL/FFLCH/USP. _____. Inés (1999): Leísmo. Ian & KATO. p. Lisboa: Caminho. Neide Therezinha Maia (1994): Cadê o pronome? O gato comeu. Noam (1981): Lectures on Governing and Binding. Fátima Cabral (org. FERNÁNDEZ-ORDÓÑEZ. Neste momento estamos investigando a natureza dessas categorias vazias. Ignacio & DEMONTE. Campinas: UNICAMP/IEL. Lívia de Freitas (orgs. Dordrecht: Foris. Em: Cadernos de Estudos Lingüísticos.): Ensino-Aprendizagem de Línguas Estrangeiras: reflexão e prática. (1999): O Programa Minimalista. (2005): Quantas caras tem a transferência? Os clíticos no processo de aquisição/aprendizagem do Espanhol/Língua Estrangeira. Formas y distribuciones. GONZÁLEZ. 1999) nessa variedade da língua. 387-408. Violeta (orgs. 1209-1273. Brasília: Ministerio de Educación. as ocorrências de clíticos revelam que a ampliação na possibilidade de objetos nulos não estaria relacionada à perda do clítico. Editora da Unicamp. p. p.): Hispanismo 2000. Olga (1999): El pronombre personal.

317350. Marwin (2006): Fundamentos empíricos para uma teoria da mudança lingüística. As entrevistas analisadas da variedade de espanhol de Montevidéu estão disponíveis em http:// www. Ana Teresa. o que não implica que esse referente seja conhecido. LABOV. Em: EUROSLA ’97. Carlos Eduardo: Theory. LACA. Neide Therezinha Maia González pelo Programa de Pós-Graduação em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-Americana da Faculdade de Filosofia. David (1999): The development of language. . Uriel. Papers from the 6th Hispanic Linguistics Symposium and the 5th Conference on the Acquisition of Spanish and Portuguese. 4 Nos baseamos na classificação de Leonetti (1999) para distinguir determinantes e quantificadores. Mirta (1997): Pronomes pessoais no português do Brasil e no espanhol do Uruguai . ROBERGE. (1997): The now and then of L2 growing pains. Para o desenvolvimento dessa pesquisa contamos com uma bolsa do CNPq. seriam determinantes o artigo definido. change. FFLCH-USP. Violeta (org. _____. and e volution . (2002): Spanish L1/L2 crossroads: can we get there from here? Em: PÉREZ-LEROUX. Carolina R. Views on the acquisition and use of a second language. 1999). Malden. mas não identificam um referente. Paula & PIÑEROS. Em: KEMPCHINSKY. os demonstrativos e os possessivos. Brenda (1999): Presencia y ausencia de determinante. Proceedings. 2002. Notas 1 Nossa pesquisa de doutorado está sendo desenvolvida sob a orientação da Profa. p. Trad. HERZOG. 65-85.gub.): Gramática Descriptiva de la Lengua Española. São Paulo: Parábola Editorial. por carecerem de definitude. Somerville. São Paulo. 258-283. Madrid: Síntesis. esses seriam os numerais e os determinantes indefinidos. Juana Muñoz (1996): La adquisición de las lenguas segundas y la gramática universal. p. São Paulo: Parábola. WEINREICH. Conforme esse autor (LEONETTI. Marta Pereira Scherre. Ignacio & DEMONTE. LEONETTI. Assim. Quanto aos quantificadores. Yves: Romance linguistics: Theory and acquisition. 891-928. processo n° 146998/ 2010-3. ________ (2003): Monosyllabic place-holders in early child language and the L1/L2 ‘Fundamental Difference Hypothesis’. p. Cardoso. apenas quantificam. de Marcos Bagno. de Marcos Bagno. Madrid: Taurus.uy/academiadeletras/MarcoPrincipal. Mass: Blackwell. Barcelona: Universitat Pompeu Fabra. Dra. LICERAS. Acquisition. Amsterdam: John Benjamins.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 43 GROPPI. William (2008): Padrões Sociolinguísticos. _____. Madrid: Arco Libros. p. Mass.: Cascadilla Press. LABOV. _____.htm. William. 2 3 Exemplos extraídos e adaptados de Groppi (1997:93). Madrid: Espasa. Trad. Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Em: BOSQUE. practice and acquisition. Manuel (1990): El artículo y la referencia.mec. Isso significa que identificam um referente. esses elementos determinariam a referência de um sintagma nominal por terem como característica semântica a definitude. Tese de Doutorado. (1999): Los determinantes. que. LIGHTFOOT.

46 a 59 anos e 60 a 89 anos. em (1) ‘una película’ será [+específico] se tiver o sentido de (2). 6 Os informantes das entrevistas foram divididos em quatro diferentes faixas etárias. Assim.44 5 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Consideramos especificidade com base em critérios lógicos (LEONETTI. (2) Hay una película que Óscar quiere ver. (4) Lucas quiere el coche más rápido del mercado. Contudo. a ausência de determinante implica que o sintagma seja [-referencial]. . 7 Apesar de classificarmos un(os)/una(s) como quantificadores. um sintagma [+definido] não significa que seja [+referencial] e um [-definido] não seria necessariamente [referencial]. conforme Leonetti (1999). Por outro lado. embora não se possa identificar um referente. que. (3) Ernesto quiere comprarse un yate. ainda que desconhecido pelo falante. se a especificidade for vista a partir de critérios psicológicos. De acordo com Leonetti (1999). 19 a 29 anos. Assim. um sintagma determinado como em (4) teria uma referencialidade enfraquecida. 30 a 45 anos. 1990). sendo elas. o sintagma nominal un yate em (3) seria considerado [+específico] por referir-se a um objeto determinado. de modo que o SN será [+específico] apenas se fizer referência a um objeto determinado. consideramos que um sintagma nominal encabeçado por esse quantificador pode ter um referente identificável e ser [+específico]. (1) Óscar quiere ver una película. careceriam de definitude.

2011. El primero de ellos. y para quienes la igualdad de derechos entre el hombre y la mujer no constituía una urgencia en la agenda de cambios por lograr (Martínez Ten et al. en contraste con la considerablemnte mayor atención que reciben los autores que escriben en prensa y el género del articulismo literario como fenómeno de hibridez (análisis en los que no se toman en cuenta las significaciones que el género sexual comporta en ellos). cultural y económica que protagonizara España desde la transición a la democracia en adelante debe una parte de su desarrollo a las intervenciones. privilegió el trabajo de los “grupos de autoconsciencia” .. pasando de un estado de carestía de los derechos de ciudadanía a la adquisición de un cúmulo de reivindicaciones que lograron sacarla de la “minoría de edad legal” (Romero Pérez. visto además con ojos despectivos tanto por la derecha franquista como por la izquierda que retornaba a la escena política. 2006). Universidad Nacional de La Plata (UNLP) Teniendo en cuenta el escaso número de estudios que se detienen en particular en el análisis de la columna de “autora”. del movimiento feminista de la década del setenta. La modernización social. proponemos aquí un acercamiento a las particularidades del discurso público dirigido de dos autoras españolas.340) y de la adquisición de una serie de derechos impensables unos años atrás. La organización de grupos politizados de mujeres urgía en los setenta y principios de los ochenta y gracias a ellos la situación cívica de la mujer española se modificó de manera radical.escasamente reconocido por la historiografía acerca del periodo mencionado.CONICET) Facultad de Humanidades y Ciencias de la Educación (FaHCE). a partir de la lectura de dos realidades epistémicas (el feminismo ilustrado y la literatura neomoderna) que en ellas convergen y que dan cuenta de la particular significancia del género en esta clase específica de comunicación. 2009). en la teoría y en la praxis. en los . se distinguen dos tendencias bien delimitadas.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 45 EL PENSAMIENTO NEOMODERNO EN LAS COLUMNAS DE ROSA MONTERO Y ROSA REGÁS Adriana Virginia Bonatto Centro Interdisciplinario de Investigaciones en Género (CINIG) / Instituto de Investigaciones en Humanidades y Ciencias Sociales (UNLP . p.1 En el ámbito del feminismo teórico. con una presencia menos contundente en la península. que reiteran la gran división del movimiento posterior a Simone de Beuvoir en Francia y en Estados Unidos: el feminismo de la diferencia y el feminismo de la igualdad. y que por por entonces era llamado “movimiento de liberación de la mujer” (León Hernández.

se presenta como la expresión feminista del posestructuralismo teórico y del posmodernismo artístico: lectoras atentas y críticas del psicoanálisis lacaniano y seguidoras del pensamiento estetizante de Luce Irigaray. creadora del Feminismo de Estado3 y Celia Amorós. de regreso parcial a los supuestos de una episteme moderna. la literatura que se escribe a partir de la década del ochenta pauta el inicio de una nueva modalidad epistémica que se caracteriza por la aserción cognitiva y axiológica y que se aparta progresivamente de la configuración posmoderna. aunque limitado a grupos restringidos de mujeres cultas y lectoras de las nuevas tendencias provenientes del posestructuralismo francés y del psicoanálisis lacaniano (Sendón de León. el feminismo de la igualdad.341). 2011. en la que se revela la impostura masculina de apropiarse fraudulentamente de lo universal. en sus planteos generales. la autoestima y la solidaridad (Romero Pérez. y sus principales impulsoras son Amelia Valcárcel. p. que en España ha venido impulsando los cambios más contundentes en relación con las políticas de igualdad e inclusión durante las últimas décadas. 2011. caracterizado por Gonzalo Navajas como estética neomoderna (Navajas.20) y la invención de una metáfora aglutinante que preserve la visión ilusoria de unidad y de desarrollo progresivo es una empresa inconcebible. a la necesidad de las mujeres de participar en lo definido como lo “genéricamente humano” (Amorós. 2006. p. p. en la novela . p. Las feministas de la igualdad hunden sus raíces en el pensamiento ilustrado. p. quien creó en la década del ochenta el Seminario Permanente “Feminismo e Ilustración” en la Universidad Complutense de Madrid. especialmente fuerte en narrativa.2 Desde un punto de partida teórico que considera que el único modo de superar la desigualdad dentro del patriarcado es buscando estrategias de homologación de las mujeres con el sexo-género que detenta el poder. Desde este punto de vista. p.17-19). el feminismo de la igualdad cuenta en España con una trayectoria académica definitivamente asentada y reconocida. 1996. 1996).344). retoman sus disquisiciones en torno a la vindicación. abriendo un espacio inédito de reflexión y de acción. se contraponen al programa emancipatorio desarrollado por la otra gran corriente. dentro y fuera de España. En la situación posmoderna el mundo se percibe como “confuso y declinante” (1996. al multiculturalismo de Amorós y al islamismo de Rosa Rodríguez Magda. al cual consideran partícipe de un proyecto inacabado. movimientos con fuerte sustento filosófico que apuntan a la integración cultural y a la igualdad de los grupos étnicos oprimidos.46 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS que se abordaron temáticas como la sexualidad. la negatividad axiológica y la heterogeneidad formal (Navajas. 2011. en cambio.45). por no haber permitido la emancipación de las mujeres. 4 De acuerdo con Gonzalo Navajas. con una proyección teórico política destacada en todo el ámbito español (Romero Pérez. que han producido obras fragmentarias y no conclusivas.346-347). y sin delimitaciones valorativas específicas. así como a la interpelación social y política en torno al cuidado del medioambiente y al uso racional de la tecnología. La recuperación de premisas ilustradas en un contexto posmoderno es comparable al movimiento paralelo en el ámbito literario. La corriente de la diferencia. p.43) y proponen que la única forma de lograr la emancipación es mediante una verdadera y transformadora crítica al androcentrismo. se vuelve. 2011. Herederas del pensamiento filosófico de Simone de Beauvoir.2). aspectos en los que encuentran efectos perjudiciales para los grupos femeninos menos favorecidos (Romero Pérez. p. de autoinstituirse en representante de lo irreductiblemente humano (2006. caracterizada esta última por la indeterminación epistemológica. es decir. Las ramificaciones de este pensamiento se extienden al ecofeminismo de Alicia Puleo.

ironía. la mitigación en las afirmaciones y los juicios de valor mediante el uso de fórmulas indirectas . p. en las estrategias que se despliegan y en el tipo de diálogo que se establece con el lector. y ambas también se han mostrado comprometidas con las realidades de las identidades social y culturalmente marginadas. la escritura periodística de estas autoras configura una voz femenina y un yo de enunciación que se reviste de dos tipos de autoridad: la de escritora y la de mujer. por sobreabundancia y por yuxtaposición acelerada de la oferta cultural y mediática. 2009)5. 2007.83). absurdo. p. de manera mucho más marcada que en la literatura de invención. Nos interesa demostrar cómo en un mundo en que los valores dominantes son los impuestos por el mercado y la competencia. situación que no deja de lado la visión que muchos autores aducen de sus textos como ejercicios literarios (Grohman. Entre las características que se enumeran como propias del género femenino en el discurso público dirigido encontramos como predominantes la utilización del discurso cooperativo. y en que la saturación de la información. p. Angulo Egea y León Gross. p.68)– en un tipo de comunicación en la que la persuasión pareciera constituir el objetivo primero y último. como los vencidos de la Guerra Civil. se ha señalado que el subjetivismo más radical es una de las características que comparten quienes se dedican a esta actividad (Castellani. 2008. 2004. la literatura y la crítica hechos por mujeres y por artistas pertenecientes a minorías. en la clase o en la raza y en su constante despegue de los procesos de canonización estandarizada (Huyssen. experimentación lingüística) y actitudinales (desde el compromiso abierto con causas sociales y políticas hasta el desenfado y la irrisión desconcertantes) con el fin de conectarse con el lector –aquél que fielmente acude a la columna como primer texto a ser leído del periódico (Castellani. p. p.69). 2011. p. sátira.151). ambas han reflejado en sus relatos y novelas aspectos relacionados con la realidad desigual de la mujer y con la problemática de los juegos de poder que subyacen a las relaciones entre los sexos. como recurso para atraer la atención del interlocutor y comprometerlo en el tema tratado (Fernández Pérez. 2007. y Angulo Egea. 1996.61). En los modos de llevar a cabo el ejercicio persuasivo. Sin haber estado inscriptas oficialmente en ningún movimiento feminista. Estas características obligan a leer a estas autoras de modo diferencial dentro del vasto universo del articulismo literario. Un yo que se constituye en una suerte de guía de multitudes con resonancias morales fuertes.244). en su tarea de exploración de la subjetividad basada en el sexo. el cine. En relación con el género columna de autor. los inmigrantes pobres y los niños.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 47 contemporánea a una suerte de “potenciación del yo” (Navajas. dan lugar a lo que Huyssen describe como los fenómenos posmodernos de obsolescencia planificada (Huyssen. El cruce que proponemos entre pensamiento feminista ilustrado y literatura neomoderna nos sirve porque da cuenta del trasfondo cultural y epistémico que sostiene los procesos de construcción de un yo de enunciación femenino con características diferenciales en las columnas literarias Rosa Regás y de Rosa Montero.65). Esta vertiente es además visible especialmente en el arte. 2007. práctica definitivamente consolidada en España. 2008. p. 2008. algunos creen encontrar diferencias sustantivas en las columnas de las escritoras mujeres (Fernández Pérez. que en la mayoría de los casos puede describirse como una prolongación de la escritura literaria: las obras de ficción resultan enriquecidas por las reflexiones diarias o semanales de un yo que afirma en la columna su punto de vista más personal y que en ella se toma todas las libertades retóricas (persuasión.183) en la que se experimenta con la posibilidad efectiva de alcanzar modos de conocimiento que rehabilitan la significación del lenguaje y la investigación ética (1996.

El lenguaje es sencillo y coloquial. p. r e lat os histo de fro nte de vida. 2011. A veces sí que existen medicamentos nuevos. como etiqueta que. fe de po ación de planeta. p. Desde nuestro punto de vista. 2007. ubicada en un punto de mediación igualitaria con el otro . Es el caso de José María Hernández. p. 2007. e n los límit es el bo de oscurida idad. 2011. en límites . las apreciaciones afectivas con un uso considerable del diminutivo y de la hipérbole (Fernández Pérez.304).48 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS o de la ironía (Fernández Pérez. lo que implica convulsiones.59) y la proyección de “un ethos empático y situado entre los ciudadanos de a pie” (Angulo Egea y León Gross. el 90% d e la fo de ig a ción sanitar ia m undial se c e nt r aba e n in v est inv estig iga sanitaria mundial ce ntr en las e nf e r me da d es d el P r ime r M und o. legitima un saber y un pensamiento específicos en los que la problemática de género. 2007. 2011. nunca está ausente. dificultades de aprendizaje. irónico y reivindicativo (Angulo Egea. la no conclusividad y la ausencia de valoraciones específicas. con un fuerte componente crítico. Abocada a una escritura que en un principio privilegiaba el componente lúdico y el comentario inesperado. con la terrible enfermedad de Niemann-Pick en su versión precoz y más brutal. que tiene una hija.69) en las columnas firmadas por voces masculinas. En las columnas es claramente visible la construcción de un proyecto individual asertivo que continúa y completa el desplegado en las obras de creación literaria y que formaría parte de la episteme neomoderna. con la autoridad de la voz de escritora. p. ambas escritoras apuntan de manera programática a la preser vación de una instancia narrativa o enunciadora que recupera su posición de autoridad y de saber ante el lector a partir de la transfiguración subjetiva de las experiencias o de los hechos argumentados. directo y desencantado (Villar Hernández. (…) dispo de de re cursos. como veremos en los ejemplos citados a continuación: S e g ú n dec í a el i n f or m e . mujeres golpeadas. p. demencia y muerte. p.66). enfermos terminales. declive intelectual. La participación de Rosa Montero en la sección de columnas de El País se remonta a los inicios de este periódico en 1976. etcéctera). la búsqueda de la identificación. p. el uso del dialogismo o de la “retórica del consenso” como soporte para la cooperación en una estructura comunicativa igualitaria no es característica sólo de la columna femenina. en las columnas de Rosa Montero y de Rosa Regás se combinan ambos estilos y en este sentido pueden leerse como textos abocados a una construcción de imagen que cruza la expresividad femenina. 2009.35) que les permite lograr una identificación exitosa con el lector. su estilo fue progresivamente adaptándose al ritmo de las ideas de compromiso y de conciencia social hasta transformarse su voz en las últimas décadas en una perfecta mediadora encargada de elevar a rango público las voces silenciadas de los colectivos marginados (inmigrantes pobres. además. 2008. suele subrayarse la captatio benevolentiae y la mitigación de las mujeres opuestas a un “yo dictatorial” y “agresivo” (Castellani. pueblos africanos.2 y Angulo Egea y León Gross. En las columnas de Regás y Montero se observa con fuerza el trasfondo de un tipo de pensamiento que superador de las premisas de la configuración posmoderna.36). en el vasto espacio de la palabra pública. y que guarda al mismo tiempo una indiscutible orientación axiológica. re latos so brecogedores d e pa dr es c onmo vedores y ob de ad re co ov gue r r e r os q ue l uc han p or e l fu t ur od es us hi jos guer que luc uchan po el fut uro de sus hijos en e lb o r d e mismo d e la oscur ida d. (…) S o n hist o r ias d e la fr o nt era d e la v ida.67). q ue sólo enf nfe meda dad de Pr imer Mund undo que af e c tan al 10% d e la p obl a ción d e l plane ta. Anabel. pero las rutinas sanitarias impiden la distribución de los mismos a personas desesperadas que ya no tienen tiempo que perder. como así tampoco ocurre con la opción a una voz dictatorial o de autoridad como exclusiva del perfil masculino: como intentaremos demostrar. entonces. pérdida de tono muscular. no obstante. En contra de la fragmentación. p. nt r as q ue e l 90% d e los e nf e r mos r estant es mie restant estantes mient ntr que el de enf nfe sólo disp o nían d e un 10% d e los r e cur sos. En general. la pormenorización descriptiva antes que la jerarquización (Fernández Pérez. la preferencia por el tono testimonial y confesional.

el trato despótico y sobre todo el olvido a que la justicia sometía a quienes vivían en condiciones infinitamente más precarias. 2006). y ha entrado en este espacio por derecho propio y sin florituras estilísticas. y que señala injusticias y olvidos históricos. me contó una de esas historias modestas y urgentes que son como un chillido. el subrayado es nuestro) Rosa Regás. en 1994. Esto ocurría en las clases sociales llamadas ‘elevadas’ porque la falta de libertad. la historia pura y dura: Liliana. (“Clamores”. de tal modo que se tiene la impresión de que la lucha contra la pobreza. por su parte. La madre de Liliana vive en Medellín y aún no ha podido ni siquiera escuchar la voz de su hija. Pues yo hoy tenía preparado un artículo muy elaborado y algo sarcástico sobre el disparate de los recortes a los profesores. y Liliana tuvo que volver a ser operada el sábado. Hoy voy a hablar de un puñado de guerreros. de aquellas personas que. (…). desde la ciudadanía. colombiana. la única que puede forzar a que algún día lleguen a buen fin las decisiones que los gobiernos toman de vez en cuando para acabar con la pobreza en un plazo determinado (que hasta hoy nunca se ha cumplido). (…). (…) . Esta es. Un país donde una mujer se quedaba sin hijos si osaba separarse de su marido. en fin. […] p e r o cur curiosame iosament nte ad que ha y batal las m uc ho más g r andiosas y difíciles hay batallas muc ucho gr q ue se están lib r and o e n la pue r ta d e e nfr e nt e. De héroes y heroínas tenaces y discretos con los que convivimos sin apenas darnos cuenta de que están iosame nt e no a d v e r t imos q ue ahí. como si la pobreza no tuviera nada que ver con sus Ef e c t i v ame nt e: la p o b r eza d el m und o decisiones. si la ciega burocracia que defiende como perro cancerbero nuestros privilegios podría dejar de ser tan ciega. (…). Con una retórica que no echa mano ni de máscaras ni de ambigüedades identitarias (Benson. Cristina. lo importante es mantener la familia unida». el subrayado es nuestro). En contraposición a una narrativa que en sus cuentos y novelas privilegia el universo de la intimidad y la exploración de las complejidades internas de los personajes (Benson. se asemejaba mucho más a una situación de esclavitud. la prosa del articulismo de Regás se revela con un tipo de autoridad que no deja dudas acerca de la legitimidad del saber de quien enuncia: […]El mundo divide de un plumazo el comportamiento del ciudadano y el de sus gobiernos. parálisis musculares o cerebrales. ha c e mos t o d o lo p osib le p o r no hec o. La justicia no protegía nunca a la mujer y la religión le aconsejaba paciencia. Est o y hab land o d e la di v e r sida d te arnos. inició tardíamente su actividad columnista primero en El País. Madre y niño están en cuidados intensivos. (…) (“Una vida que merezca ser llamada vida”. razones distintas (discapacidad intelectual. por funcional. pero resulta que ayer una lectora. Regás utiliza la columna como medio Nací en un país y en una época en que para abrir una cuenta corriente donde ingresar el primer sueldo de mi primer trabajo. El Correo de Bilbao 28/10/ 2007. El País 30/10/2011. hac to posib osible po en t e r ar nos. con el fin de llevar a cabo una suerte de misión pedagógica que instruye acerca de los deberes cívicos y humanos. (“Guerreros en el posib osible de raz azo nable. y luego con una columna dominical que aún continúa en El Correo de Bilbao. que viven pendientes de otros asuntos. (“Pobreza cero”.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 49 d e lo p osib le y d e lo r az o nab le. etcétera). están de alguna manera limitadas en su funcionamiento. para hacer denuncia política y social. pues. 2006). el subrayado es nuestro). Esto habland lando de div sidad funcio nal. libr ando en puer de enfr nfre nte. filo de la oscuridad”. vive en Madrid. es casi nada en comparación con las políticas que llevan a cabo los gobiernos de los países ricos. tenía que ir armada de la venia marital. «aguanta hija mía aguanta. El País 13/11/2011. D e he ch o . La hospitalizaron el miércoles por una cesárea de urgencia a causa de una complicación llamada preclampsia. es decir. el subrayado es nuestro).Ef Efe ament nte: po de mund undo es fr uto d e las p olít icas ne olib e r ales d e est os fru de polít olíticas neolib olibe de estos países y los ci uda danos r esp o nsab les q ue q uie ren ciuda udadanos resp espo nsables que quie uier a cabar c on e l la sab en q ue no disp o ne n d e más co el sabe que dispo nen de ar ma q ue una p ro t esta q ue ha d e mo vers e rm que pr te que de ov ne c esar iame nt ee n la ar e na p olít ica nec esariame iament nte en are polít olítica ica. ya fuera porque su amor se había acabado o incluso porque recibía constantes malos tratos. (…) Me pregunto. Y ese chillido se abrió paso y exigió su lugar. El País 13/09/2011.

con proyectos de leyes que impidan descalabrar más aún el paisaje de nuestras costas. co digna de críticas le v an p or d e lant e q ue o f e nd en s u dig nida d y se l de lante of nde su dignida nidad lle lev po la d e q uie n las e mit e . asistimos una c o nstant e discr imina ción d e la m uje r q ue co nstante discrimina iminación de muje ujer que es j uzg a da p or e l ho mb r e ca v e r níc ola. Estas columnas se articulan. asist imos a dest este ya dicta tad ura. en cambio. Celia.50 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS n un país […]. o aquello que Montero denomina “chillido” (“Clamores”. El Correo de Bilbao 17/02/2008). s o b r e n u e s t r o p a p e l e n ex te or en c o nflic t os b r u tales c o mo e l Sáhar a o P alest ina.110). I d eas so b r e la dictat tato de su pr histo Id sob c o nse r v a ción d e la T ie rra q ue he mos r e cib id o. en consonancia con la línea neomoderna. En conclusión. políticas y éticas que deben ser puntualizadas por la voz autorizada de la escritora que se ubica en relación de . (…) (“Día de la mujer”. 2000. o id eas q ue er do em de qu j ust ifiq ue np or q ué d e f e nd e mos países carg a d os ustifiq ifique uen po qué de nde carga d e ult r ajes a los D e r e c hos H umanos y nos ultr De Humanos ale j amos d e ot r os q ue int e ntan camb iar e l cur so alej de otr que inte cambiar el curso dic tat o r ial d e s u p r o pia hist o r ia. (…). (2006): La gran diferencia y sus pequeñas consecuencias… para las luchas de las mujeres . con la vertiente del feminismo de la igualdad como referente teórico que entiende que sólo mediante el reconocimiento de una razón crítica la lucha por la igualdad de las mujeres (ampliada a la reivindicación de las minorías. la defensa de los derechos del animal y el cuidado del ecosistema) puede cumplir con el proyecto ilustrado de emancipación humana. el fomento de la dignidad y autoridad de los maestros. por pon e r sólo d os ej e mplos. Referencias bibliográficas AMORÓS. (…). supone la utilización de la cualidad tradicionalmente femenina de ‘mediadora’ pero desde un lugar lo suficientemente alejado del margen como para imponer ideas y generar la toma de conciencia. y tamb ién juzg uzga po el homb mbr cav nícola. además de lucirse en los estrenos y las exposiciones y conseguir que los medios hablen durante dos días de tan grandes bre j ust icia. t e nie nd oe n la me mo r ia y e n inmigr antes. Id eas so sob just usticia. y contraponiéndose a la vertiente del pensamiento y la literatura feminista en los que se pone el acento en las diferencias y en lo particular produciendo retóricamente el efecto de una diseminación y pulverización del sujeto constituyente (Femenías. también e crít icas so e c es por e lt r a dicio nal.y lo único que oímos son promesas de cuantiosos regalos. igualdad con el otro que padece pero de autoridad con el lector que lee el periódico. alabanzas de la propia gestión y hundimiento de la del contrario. sino el siglo XX por miseria pura y dura y anhelo de labrarnos una vida más digna. Po r q ue inc incl que vi en l uso los q ue v i v imos e q ue ha d est er r ado y a la dic ta d ur a. las columnas de opinión de estas autoras pueden leerse como un modo particular de mediar en el complejo mundo de la voz pública a partir de la convicción de que aquello de lo que se argumenta responde a urgencias sociales. El de quie uien emit mite Correo de Bilbao 06/03/2011. el subrayado es nuestro). p. (“Ideas”. Ideas sobre lo que ha de ser la educación. sino sobre las ideas? (…). los medios profesionales y materiales para incrementar la eficacia de los bre programas y el interés de los alumnos. Id eas so sob p o l í ti c a e xt erio r. Universidad de la Laguna / SLCS. En: Actas del I Congreso Internacional Latina de Comunicación Social.Pero ¿no echamos de menos un debate. La capacidad de introducir y de vindicar la voz del otro. r e f e r ida p or e je mplo éxitos. no sobre lo que nos dan o nos van a dar. revelando así una apropiación asertiva de la capacidad argumentativa racional del yo. c o mo dig na d soe el tr dicional. Quisiéramos un debate de ideas sobre qué entienden por cultura. ANGULO EGEA. Madrid: Ediciones Cátedra. re po eje jemplo a los inmig r ant es. 13/09/2011) de aquel que no puede hacerse escuchar porque no parece poder acceder a marcos institucionales que hagan su voz inteligible y traducible a demandas legislativas de primer orden. El País. Está por comenzar la batalla electoral -de hecho este periodo preelectoral que vivimos ya es pura campaña. nflict br co el Sáhara Palest alestina. María (2009): Las mujeres en el periodismo literario: tres casos paradigmáticos. te niend ndo en memo mor en la e xp e r ie ncia las v e c es q ue lo fuimos nosot r os exp xpe iencia ve que nosotr en e l sig lo X X y no sólo por razones políticas. nser de Tie ier que hemos re cibid ido d e los ríos y d e los mar es de mares es.

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p. Jordi Gracia anota acertadamente que las variables terminológicas apuntan a un mismo fin: “identificar una defensa de valores que no han caído abatidos por la aguda conciencia relativista del desconstruccionsimo ni. Notas 1 Nos referimos. el del uso de anticonceptivos en 1983 y la legalización. Concha Espina. Teodoro (dirs. Elvira Lindo. 2 Desde una perspectiva basada en la reivindicación de lo específicamente femenino y en la revalorización de las relaciones matrilineales. Diez mujeres esenciales en la historia del articulismo español . las representantes de esta corriente han interpelado el espacio político mediante propuestas concretas y guiadas de cambio. por ejemplo. Rosa Montero. p. 220). Carmen de Burgos. Romero Pérez. 5 Las escritoras analizadas por los estudios citados son Magda Donato. Gabriela Wiener. 2011. como fue el caso de la candidatura de Lidia Falcón al Parlamento europeo en 1999. p.52 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS ANGULO EGEA. Josefina Carabias. Carmen Rigalt. la dispersión tentadora y cumulativa del posmodernismo” (Gracia. y candidaturas a cargos políticos que modificaron el escenario de posibilidades durante la democracia. y de los planteamientos en torno a la creación de un espacio simbólico alternativo al patriarcado por medio del arte y de los medios de comunicación. del aborto inducido en 1985.18) 3 4 Impulsora. 2011 y Sendón de León. todos promulgados gracias a la Constitución de 1978. en general. . Clara Sánchez. Carmen Rico Godoy. María y LEÓN GROSS. Carmen Martín Gaite. 2000c. que asegura cupos para mujeres en los cargos políticos. Maruja Torres. 299-327.): Artículo femenino singular. al derecho al divorcio en 1981. con restricciones. además. Cádiz: Ediciones APM. de la Democracia Paritaria. por parte de Victoria Sendón de León (Cf. entre otras. Si bien hay quienes incluyen este movimiento de la literatura hacia la narratividad y hacia la recuperación de un yo coherente y unitario en las filas de un posmodernismo estético menos experimental.

sentidos que toman forma en una multiplicidad de discursos a partir de los cuales es posible determinar las relaciones de poder en un contexto social. (MEREWETHER. sf. Artistas anteriores. la sociedad y la cultura que se entretejen a través de una manifestación estética. mientras que en el caso de Salcedo se hace como realidad ausente. espacialización y focalización. a través de sus esculturas y montajes. presentaban el cuerpo como escenario de agresión. su modalización. una serie de meditaciones acerca del tema de la violencia. puesto que en su decir estético se tematiza constantemente la violencia y se hace una aproximación a esta desde el arte político. párr.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 53 FORMAS DE ENUNCIAR LA VIOLENCIA EN LA OBRA DE DORIS SAL CEDO1 SALCEDO Alexander Castillo Morales Instituto Caro y Cuervo Adriana Yamile Suárez Reina Universidad Libre El fenómeno de la violencia hace parte de la cognición social por lo cual este se considera como un producto de interacciones personales que hacen posible toda una red de sentidos vinculados en la semiosis social. esta última entendida desde la perspectiva teórica de Ramírez (2008) como el proceso de actualización del lenguaje artístico en la puesta en escena de la obra misma.1) articula a través de la idea de evocación la cual permite una manera diferente de tratamiento del cuerpo humano. así como también sus tácticas y estrategias. particularmente en el caso que aquí nos ocupa. La evocación del cuerpo ausente En su decir artístico. En palabras de Merewether: violencia en cinco obras de Salcedo a partir de dos ejes: las condiciones de producción de la obra y su situación de enunciación. tal como lo indica Malagón (2010). la obra de la escultora colombiana Doris Salcedo. es decir. La no representación física hace que la focalización se aleje de cierto sensacionalismo que se produce cuando el primer plano presenta la atrocidad y el desgarro físico. el arte debe dirigirse a la representación como tema político. el propósito de este trabajo es analizar el proceso enunciativo de la . En respuesta a la experiencia de vivir en un país sujeto a la violencia indiscriminada y al terrorismo. esto con el ánimo de develar los vestigios de las voces del individuo. De acuerdo con lo anterior. la obra de Salcedo se Doris Salcedo ha producido. para articular una conciencia ética. Uno de esos discursos es el artístico. el proyecto estético de Salcedo se basa en el convencimiento de que.

desde la perspectiva de las víctimas. la conexión con los sucesos violentos o con la realidad nacional depende del lugar en donde se presente la obra. En Sin título . De ese modo. la desfuncionalización y la resemantización van más allá de la esfera formal y se convierten en idea sensible. pues se evoca en su sentido de tránsito. pero también debe pensarse en la idea de muerte. herida o arma. pero por otra parte puede ser más en el sentido de enfermedad. Por eso se ha dicho que puede ser un objeto que evoca las nociones de construcción y enfermedad de manera simultánea. De esa manera. La nueva estructura entremezcla de manera paradójica las nociones de enfermedad y construcción como referencia y como sentido profundo. Así que más que la evocación de un cuerpo se evoca una actitud.54 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Aquí se alude a la idea de sufrimiento. El escenario hospitalario funge como un lugar en el cual de acuerdo con la atención prestada se dará el paso a la recuperación o al deceso. La imagen presentada por Salcedo configura y clama por un lector inquisitivo que por lo menos deje la pasividad acostumbrada. cuya referencia es la enfermedad. pasividad que ha permitido que en Colombia la violencia y sus diferentes formas se naturalicen y se acepten como parte del destino. Para el caso de la obra Sin título 1987. De ese modo. fría y de paso. Se acude al espectador como un individuo que debe construir alguna interpretación frente a la presencia de la obra que se deja hablar. tal como se ha dicho anteriormente. Allí el cuerpo humano no aparece de forma directa. los trozos desechados (enfermos) de las camas de hospital se complementaban con las secciones de andamio. más bien lo que hace es crear un objeto cuya constitución evoca un espíritu minimalista centrado en una idea que sustenta su significado en la evocación metonímica que tiene cada elemento. Así. propio para la construcción. la evocación desde lo hospitalario o de salud hace pensar en la idea de curación. atravesadas por varillas de . No es el modo invasivo del medio de comunicación que presenta e induce una idea. No crea la idea de una presencia humana próxima. el tiempo de los hechos violentos es evocado como cotidianidad doméstica cuyo ritual ha sido fracturado y puesto en suspenso. se conjugaban partes de camas de hospital desechadas con un andamio metálico para construcción. Quizá alrededor de lo que implica la cama de hospital se circunscriban muchos sentimientos y deseos de curación. 1988-1989 (Camisas almidonadas) se presentan pilas de camisas muy bien dobladas y enyesadas. el dolor y el sufrimiento como centro de los procesos de construcción nacional. la violencia no se aborda desde la figuración. Así mismo. sino desde la evocación y comporta la capacidad para sugerir múltiples lecturas. el material es metálico. Algo así como una arqueología de la desmemoria e indiferencia sobre nuestra enferma y perversa realidad. No se alude al espectador desde la presentación de una imagen que a primera vista le resulte “cotidiana”: gesto de dolor. Los andamios no generan más afecto que el necesario para ensamblarlos y ponerlos para trabajar. según el ámbito del que proviene. cadáver. La espacialización como presentación del dolor. En ambas estructuras originales. imaginario y opinión sobre algún hecho o evento. Las personas que interactúan con el ser cama o el ser andamio lo hacen desde una perspectiva funcional. Para Malagón. es frialdad y en sí mismo genera distancia. clama por espectadores que no sean meros turistas culturales y que se involucren con los sentimientos y el sufrimiento de quienes viven en carne propia el conflicto. indiferencia u olvido. y que por efecto de la repetición y el desgaste termina volviéndose corriente y cotidiano. El espectador queda enfrentado a una construcción que ha de generarle extrañamiento y preguntas.

pero en este caso el único resto humano es un objeto: los zapatos de mujer. El material de algodón de color blanco de las camisas se presenta limpio y acentúa la referencia a la camisa misma. 5). Se crea un mundo posible en el cual se evocan cuerpos ausentes que no pueden usar la ropa y que se refuerzan en las mallas o “catres” los cuales sirven de personificación para representar el dolor y sufrimiento de los que no están. El yeso quita la función de las camisas. del dolor que no es superado y. Allí se inserta la cotidianidad doméstica de una familia y en particular del rol femenino. esto en razón a que uno de los principales elementos definitorios de un grupo busca responder a los interrogantes: ¿Qué lo hace diferente de otro? ¿Cuál es el espacio social que ocupa? Es decir que lo trasversal allí es la noción de división. Atrabiliarios remite a la desaparición violenta y a la ausencia de personas. son fuente de información sobre sus dueños. coloca a la mujer como quien ha hecho dicho oficio para que el esposo se coloque la ropa y vaya a trabajar. Algo muy fuerte les ha hecho perder la posibilidad de ser usadas. Es importante indicar que esta obra se desarrolla como instalación. sobre todo desde los medios masivos. se es en tanto que diferente a otro. incluso espiritual queda abierta y requiere ser sanada. por lo tanto. Este objeto al ser presentado blanco. Por su parte. habla de víctimas cuyo cuerpo aún no se encuentra. es decir. Cabe anotar que el nicho a su vez se cubre con una piel de animal estirada y cocida. hace volver la mirada sobre el sentido de éstas y crea un interrogante ¿por qué? Luego.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 55 acero. es decir. Al respecto Salcedo afirma que: “Cada vez que vemos un acto violento quedan los zapatos. Por otro lado. planchado y en pilas evoca el estado de potencialidad de uso: la “ropa” está lista para que alguien la use. donde la literalidad espectacular se coloca en primer plano. en donde la afirmación de la identidad se configura como una línea divisoria que se va modificando con los años: racismo. son terriblemente personales. La violencia amarillista que muchas veces es convocada con fotografías de primer plano y sangre es sustituida por formas sutiles. Perduran son reconocibles. sf. párr. De acuerdo con esto. no está sellado con una lápida por lo cual deja ver el objeto en su interior. economía. Las camisas y los catres como presencia hablan de lo pendiente. este entierro. Así. un tiempo pasado y familiar en donde el quehacer doméstico ha sido roto. los objetos seleccionados son mínimos y sus posibilidades expresivas y sobre todo comunicativas son máximas. que en un país de corte machista como Colombia. la violencia con que son atravesadas parece invocar una respuesta. en Atrabiliarios (1993). Este uso de las camisas se ve paralizado por el hecho de que están enyesadas y atravesadas por las varillas de acero. de la herida que no sana. El nicho se constituye entonces en una representación del osario en tanto lugar en el cual se guardan los restos humanos a manera de entierro. una herida que está presente. . la focalización de la obra se centra en una construcción metafórica en el cuerpo que no vuelve a la vida doméstica. la seguridad. Esa herida emocional. del duelo fallido. Además. el hogar cambia por un hecho violento que lo ha vulnerado. Entonces. lo cual no implica olvidada. La pérdida de un ser querido implica una herida y un duelo para sus familiares. eso significa que la idea de espacio es fundamental. el espectador tiene la posibilidad de transitar por entre la ausencia y la espera de las víctimas de la violencia. En Shibboleth (2007-2008). grotescos y fuertes” (citada por GÓMEZ. De ese modo. también el tiempo es invocado.. En ese sentido la obra propone una posición crítica y estética frente a las formas de comunicar la violencia. Salcedo centra su mirada en las fronteras o límites que se le imponen a la alteridad. y hoy por hoy. en vez de sellar un ciclo. Salcedo elige cuidadosamente los nichos en los muros dentro de los cuales se aprecian zapatos de mujer usados.

la noción de tiempo hace que la obra cobre fuerza en un “aquí y ahora”. la desigualdad. el marco que se instaura hace que el espectador establezca una conexión emocional debido a su carga simbólica. esa es una de las características de las instalaciones. una obra que se compone por 120 parejas de mesas de color gris con unas dimensiones de aproximadamente 50 centímetros de ancho por dos metros de largo -las mismas dimensiones de un ataúd convencional. adicionalmente. duelo y dolor. La experiencia como recorrido es muy importante en esta obra. el registro fotográfico es impactante por cuanto cada objeto escultórico tiene bastante fuerza y la idea de muerte genera un choque. visibiliza la muerte y pone de manifiesto que la naturaleza -la tierra. tierra y hierba simplemente. Asimismo. La grieta de Shibboleth traza una línea que aunque perteneciente a la estructura social pocas veces se visibiliza. La obra es una grieta de 167 metros en el suelo del Tate Modern -situado en el centro de Londres y el cual alberga a los representantes más importantes del arte moderno-. No se trata de la construcción de un ensamble de mesas. y esa sensación es a la que se expone el espectador para entrar en los zapatos de quienes han sufrido este tipo de situación. Este índice conlleva la rememoración de la violencia como artificio que altera el rito de despedida de la vida.2010). la rompe. En tanto grieta posee un potencial simbólico que indica no solamente un daño temporal sino su historia y continuidad. al presentarse en dicha galería se evidencia la incursión de discursos de fractura.que se disponen una sobre otra de manera invertida y se encuentran unidas por una capa de tierra sobre la cual en algunos casos se perciben formas humanas y se deja ver el crecimiento de pasto. de tal modo. protegido de otros a quienes no le pertenece. El tiempo que se invoca y la focalización misma conducen a la sensación de pérdida. La enorme cicatriz de Shibboleth marca el discurso de la exclusión como elemento violento. la obra atraviesa la galería. factores políticos e institucionales como la segregación espacial y simbólica. se propone que los espectadores sean “envueltos por su presencia”. Acciones que tienen una fuerte carga psicológica en los individuos que se enfrentan a esta experiencia. . La distribución de las mesas en el espacio hace que la espacialización sea un factor modal muy importante en el desarrollo de la obra. La obra juega entonces con la ambivalencia vida/ muerte en razón a que en apariencia se visibiliza un ciclo natural por los materiales que Salcedo elige. es gradual. La violencia entonces es focalizada en términos de sus aristas dentro de las cuales se encuentran las condiciones de pobreza. Finalmente. No obstante. Justamente. parcelado y mercantilizado. Por eso.56 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS El sentido de la división en Shibboleth enunciado anteriormente.se convierte en muerte al combinarse con los cuerpos en tanto que la tierra termina consumiéndolos y. es decir. en Plegaria muda (2008 . Es el momento en que se está junto al ser querido en el acto ritual de la despedida. sino que al presentarse como un gran conjunto donde la idea de instalación es el marco. casi como artefacto de fuerte connotación ritual. la penetra.se genera gracias a sus características estructurales. el escenario implica lo lúgubre y doloroso. Puede afirmarse que sin que haya la menor información sobre la anécdota que motivó el desarrollo de la obra. pero de trasfondo se encuentra la irrupción de la muerte pues no se puede acceder a la identificación del ser que allí yace. algo que inició hace mucho tiempo pero no se detiene. propicia la vida en el nacimiento de nuevos brotes de pasto. La grieta trasgrede entonces la institución y subvierte los parámetros de un arte canonizado.

el 6 por ciento a la fuerza pública y el 16 por ciento a otros agentes. la incidencia de esta violencia política. Consideraciones finales En términos generales se encuentra que los elementos enunciativos de la obra de Salcedo permiten hablar de la violencia como hecho no . estos 34. la guerra abierta con el narcotráfico. de los cuales 12. los poderes locales de los guerrilleros y de los paramilitares. se instauran procesos de negociación con las guerrillas. En suma. 2012. Al respecto Palacios y Safford dicen: “Los desarrollos legales de la Constitución quedaron en manos de la clase política preconstituyente. los entramados de narcotraficantes y políticos clientelistas. sino que se da en términos generales. Todas estas son formas de violencia y de inequidad sobre las cuales el interés no es profundizar pero que se deben mencionar. (PALACIOS Y SAFFORD. p. 478) A este periodo los autores lo denominan “Interregno”. 2012. Aquí no se menciona el narcotráfico. 2012.000 en episodios de asesinatos y ejecuciones extrajudiciales.000 muertos representan un 10 por ciento de todos los homicidios cometidos en estos dos decenios. Puede ponerse en perspectiva la realidad del conflicto con algunas cifras con las cuales se puede ilustrar la creciente violencia: Entre 1975 y 1995. al tiempo. a las que se atribuye el 35 por ciento. por el contrario los aspectos sociales se hacen más dramáticos: Desde 1995. p. el Estado y la política quedaron en vilo ante poderosas fuerzas centrífugas como la globalización. más aún cuando se ha aumentado la estigmatización frente al disenso y se le formulan señalamientos. En el trienio de 1998 – 2000 se registraron en el país 73. el cual data de 1986 hasta el presente. 57 por ciento mujeres y 70 por ciento menores de 18 años. desaparición de personas) perpetrados por guerrillas. A parte de la desestabilización estatal por cuenta de los factores mencionados. el conflicto armado habría producido unos 11.” (PALACIOS Y SAFFORD. El 66 por ciento de los refugiados son campesinos. poco a poco se da una escalada militarista y el desarrollo social nunca se convierte en una realidad. El problema de fondo sigue siendo el mismo desde la fundación de la república: la distancia entre los sueños del constitucionalismo y las prácticas sociales” (PALACIOS Y SAFFORD. seguidos por guerrillas. El 65 por ciento en forma familiar o individual y el 35 por ciento restante como éxodo colectivo. Sin embargo. El conflicto está cada vez menos ideologizado y la presencia de intereses económicos es cada vez más prominente. 514) Resulta imposible evitar el tema pues es parte de la realidad colombiana que continúa ahondándose sin una solución.984 son directamente imputables al conflicto armado.000 muertos en combate y otros 23. pues la indiferencia y pérdida de memoria sobre la que tematiza salcedo no es sólo el conflicto armado. En cuanto a los causantes de esta tragedia. aumentó considerablemente después de 1997. en el 43 por ciento de los casos son paramilitares de derecha. ejecuciones extrajudiciales. p. 514) Es así como la violencia ha tomado un papel cada vez más estelar. el exterminio de los miembros de la Unión Patriótica.978 homicidios totales (excluyendo para el año 2000 las muertes por accidentes de tráfico). que se desarrollan los procesos de liberalización de mercado y la Constitución de 1991. entendida como las muertes en combate y los homicidios políticos de población civil inerme (asesinatos. pobres en su mayoría. Tampoco se habla de una pérdida de confianza en la justicia y la creciente corrupción.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 57 La voz de la violencia Las obras de Salcedo se inscriben en momentos históricos de la realidad nacional cuando “en Colombia. aunque los diferentes actores armados del conflicto tienen de una u otra forma conexiones con el mismo. p. Más bien. 2012. paramilitares y en mucho menor grado por la fuerza pública. (PALACIOS Y SAFFORD. masacres.483). el conflicto armado ha forzado el desplazamiento de un millón y medio de colombianos de sus hogares y vecindarios.

La artista produce obras con el fin de conmover a los espectadores a través de la experiencia que implica el recorrido de sus obras (todas se centran en apropiación espacial). Por lo tanto. Marco & SAFFORD.co/mediateca/ artenaturaleza/espanol/arte_tierra/ artetierra_col_tv. Oscar Muñoz y Doris Salcedo en la década de los noventa. Nota 1 Este texto es una síntesis de las disquisiciones presentadas en el XXVII Congreso Nacional y I Internacional de Lingüística. . Departamento de arte. cuando la mayoría se adentra con mayor facilidad a formas claramente narrativas y directas. En: banrepcultural.co.58 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS espectacular. Patricia (sf.banrepcultural. Comunicarse con atención y cuidado con los elementos meticulosamente seleccionados. Referencias bibliográficas GÓMEZ JARAMILLO. Pero también. más que un impacto estético. cotidiano y científico.htm#1 MALAGÓN-KURKA. Tunja 2012. RAMÍREZ. Ediciones Uniandes. porque las obras interpelan al espectador y esperan una actitud más dinámica. porque el acceso a la cultura artística no es una constante en Colombia y por otra. el tipo de lenguaje que en el ámbito artístico tiene gran aceptación y dentro del cual resulta altamente novedoso.htm PALACIOS. Sobre esta última afirmación bien valdría la pena profundizar en un futuro. Ediciones Uniandes. de: http://www. Facultad de Administración. En: unalmed. De algún modo. porque para la mayoría se vuelve demasiado cifrado debido a que la artista siguiendo el norte minimalista y la expresividad de los materiales espera que el lector haga ese tipo de lectura. No obstante. La banalización y la indiferencia son dos frentes de anestesia y de algún modo de protección y acomodamiento.edu. pues se connota el cuerpo vulnerado y se evoca el dolor que no acaba de quienes pierden a sus seres queridos. País fragmentado.unalmed. termina presentando a los demás (críticos y espectadores extranjeros) realidades que en buena medida le resultan exóticas y en dónde la fuerza de crítica política no tiene. Recuperado el 22 de julio de 2012. el trabajo de Doris Salcedo es importante pues busca mantener fresca la memoria mediante la generación de objetos artísticos que involucren a los espectadores. su éxito se registra por fuera de los contextos iniciales y aunque la obra continúa comunicando. no todas las veces resulta atractivo para el público en general. sociedad dividida. Estos deben acercarse al “escenario” que la artista construye y dejarse ir. María Margarita (2010) Arte como presencia indéxica. Bogotá: Universidad de los Andes. pareciera que este tipo de obras tuviese más impacto en los escenarios especializados que en el público en general (colombiano). En tal caso. Recuperado el día 19 de julio de 2012. MEREWETHER. Literatura y Semiótica de la Universidad Pedagógica y Tecnológica de Colombia.org/blaavirtual/todaslasartes/ anam/anam27a.) “ Dor is Salcedo ”. La obra de tres artistas colombianos en tiempos de violencia: Beatriz González. Charles (sf. En esa línea. Facultad de Artes y humanidades. Frank (2012) Historia de Colombia. Luís Alfonso (2008) Comunicación y discurso La perspectiva polifónica en los discursos literario. quizá.edu.) “Testimonio y Violencia”.org. Bogotá: Universidad de los Andes. de: http://www. Bogotá: Cooperativa editorial Magisterio. Su obra entra en constante diálogo con los discursos de la violencia en Colombia. donde el ritual y lo simbólico son fundamentales. de allí que la voz de la violencia sea bastante nítida en su producción.

sino en varias paradas por los distintos continentes. “Como lo que voy a narrar es algo que supe por boca del . desde Las mil y una noches. y la última es el relato de la historia de amor propiamente dicha. contada por Iturri al narrador-autor. Álvaro Mutis finge la realidad de lo narrado a través de esta apertura que en sí misma tiene otra apertura dirigida al lector. hasta verlo por última vez por el delta del Orinoco.Universidade de São Paulo En La última escala del tramp steamer hay un juego con el azar como presencia recurrente en la vida del narrador-autor. con mi ninguna destreza. Los sufrimientos del joven Werther. “Ojala. El marco de composición narrativa es un recurso de la narración ya clásico.Lector Narratario .Lector Narratario . Historia 1 Historia 2 Historia 3 Narrador Autor Narrador Autor Narrador . El Decamerón. azar que lo lleva a encontrarse con ese viejo barco mercantil en varias ocasiones y no sólo en una escala. la dolorosa y peregrina fascinación de estos amores”. o El corazón de las tinieblas . ¿Cuál es el juego que propone Mutis al disponer de esa manera la trama? ¿por qué se hace personaje de sus ficciones? ¿cómo lo hace? Hay en esta obra un juego de composición que oscila entre tres relatos. Del amor y otros demonios. Uno es el relato del narrador autor como testigo de los viajes del tramp steamer .ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 59 RELACIÓN AUTOR-PERSONAJE EN LA ÚLTIMA ESCALA DEL TRAMP STEAMER DE ÁLVARO MUTIS Aleyda Gutiérrez Mavesoy PG . con claves que desde las primeras líneas “Hay muchas maneras de contar esta historia (…)”.Jon Iturri Encuentros con el tramp steamer Encuentro con Jon Iturri Historia de amor entre Jon Iturri y Warda Bashur Narratario . Ahondemos un poco en este concepto.Autor El primer relato funciona como marco de composición de los otros. no se pierda aquí el encanto. otro es el relato de cómo el narrador-autor conoce la historia en su encuentro con Jon Iturri en el Orinoco.

(Peña. es así como recurre a un testimonio que simula ser verídico para enganchar definitivamente al lector en esta historia de amor que “algo tienen de las nunca agotadas leyendas que nos han hechizado durante tantos siglos. engañado. pero nunca dice que es el mismo Álvaro Mutis -sólo a lo largo de la historia va enviando datos biográficos que a los conocedores de su vida lleva a asumir que es él mismo-. No podía dar crédito a mis ojos.” (313). o aperitivos que despiertan el apetito por la historia principal. o inducciones hipnóticas para que el lector pase sedado al tema central de la obra. La simulación empieza por el hecho de que el narrador se hace pasar por el autor. p. mejor. bien como su nombre lo dice -y siguiendo la metáfora de la pintura. Existen distintas formas del marco de composición. en verdad. para ello. pasando por Tristán e Isolda. Podemos. como en Las Mil y una noches el narrador pasa del relato al relato del relato.” (314). con muy pocas ganas. La simulación continúa a lo largo de todo el texto con los saltos entre una historia y otra. siempre desde la voz del narrador-autor-personaje como deíctico que nos señala dónde hay salto y a cuál historia damos el salto. desde Príamo y Tisbe hasta Marcel y Albertine. con esa máscara logra fijar la idea de que se basa en un hecho real. creador. frente a la supuesta muerte del autor. 3131).” (313). que buscan liberar al lector de las ataduras de la realidad primaria para llevarlo hacia la libertad de la ficción total. 2001. Mutis legitima el papel del autor como motor de la narración y señala la necesidad de la vuelta a la sencillez de la forma por la contundencia de la historia. del universo narrativo. le indican al lector que el narrador es el mismo autor. Iba. ahora que la escribo para él –ya que contársela no me ha sido posible–. Todo este juego genera una forma de la verosimilitud y. Álvaro Mutis no sólo actualiza el marco de composición sino también la importancia del autor como orquestador.la primera historia rodea la historia central como el marco de un cuadro. a otra. ya que parte de un hecho biográfico. Vamos a detenernos un poco en esta idea. frente a la experimentación exacerbada después del Nouve romance francés. al mismo tiempo. sería aconsejable intentar. bien como el juego de las cajas chinas o de las muñecas rusas. en este caso. Esta estrategia narrativa además de crear la ilusión de “verismo”. prevenciones. crea la imagen del autor como elemento fundamental de la ficción que la obra construye. le permite a Mutis ubicarse y ubicarnos en el borde del mundo ficcional y del mundo real.60 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS protagonista” (Mutis. su vinculación laboral a una multinacional petrolera “Tuve que viajar a Helsinki para asistir a una reunión de expertos en publicaciones internas de las compañías petroleras. sin temores. o bien intercalando en el discurso las dos historias en una especie de espiral. con el papel de narrador como mediador. con ello. ni advertencias. ficticia. 2010. los lectores nos va a contar una historia de amor relacionada con un barco mercantil. también. hacerlo de la manera más sencilla y directa para no arriesgarme por caminos. con lentitud de saurio malherido. .” (316). imaginarlos como túneles por donde el autor lleva de la mano al lector y lo transporta. pronto se pasa a una historia apócrifa o ficticia. La figura del autor como personaje. A nosotros. sin que el lector tenga tiempo de distinguir entre la primera y la segunda. Esos “marcos” operan como aperturas narrativas de carácter especial. ayuda a generar expectativa en el lector por la historia que ha de ser contada en adelante. de una primera realidad que se supone verdadera. atajos y meandros que ni domino ni. o “prólogos” narrativos. logra hacer figurar como “verdadero” lo que en adelante escribe. “Por eso he preferido. que la historia ocurrió y él la supo de boca del protagonista. secundaria. p. Considero que. 292). la historia del tramp steamer “Entró de repente en el campo de mi vista.

luego nos cuenta cómo conoció al capitán del barco y finalmente nos cuenta la historia de amor que a su vez le cuenta el capitán del barco. sobre los otros. el esquema sería el de cajas chinas. con valoraciones sobre lo dicho. han corrido por mi cuenta. vuelven al lector a la conciencia de quién es el que escribe la historia: “Creo que no sobra advertir a mis lectores que ciertas alusiones museográficas hechas en esta descripción. nos damos cuenta de que cada historia es una caja china de relatos. las intromisiones frecuentes del Narrador-autor en el plano de la narración. Iturri mencionó algo como “esas estatuas de mujer que hay en Roma” o “los kouros que hay en Atenas” (344). Como en el siguiente esquema de las cajas chinas. Asistimos a la historia de la historia de la historia. la figura más cercana sería de este tipo: Sin embargo.se desarrollan pequeñas historias -o micro historias. Un modelo de esta forma de avanzar el relato en el plano del discurso podría plantearse de la siguiente manera: . en síntesis las formas de actuar del narrador hipostático -autor y personaje al mismo tiempo-. aclaraciones de términos.que hacen avanzar a la narración en una especie de espiral.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 61 primero nos cuenta cómo se encontró con el tramp steamer. o las muñecas rusas. que acumula información y utiliza la información previa para configurar la trama. como se prefiera nombrar a esta forma particular de narrar donde un relato está contenido por otro relato y así sucesivamente. reflexiones sobre las emociones y percepciones personales sobre lo narrado. porque en el interior de cada historia -a la que llamaremos macro. si nos detenemos en el hilo del relato. Primer nivel Narrador (autor impl íci to) Segundo Nivel Narrador Tercer nivel (Jon Iturri) Historia Jon .Warda Narratario (autor implícito) Narratario (lector implícito) En realidad. De cierta manera.

La manera como el capitán de navío insistía sobre la belleza de Warda Bashur tenía algo de reiterativo. entre el conjunto de signos posibles es el más tangible a pesar de sus vacilaciones y lagunas. p. p. En primer lugar. que algo faltó. transcriptor de información que le ha sido dada por fuentes orales. contrario a lo que él pensaba. como la de Sísifo consiste en volcar en palabras la apreciación ético-estética del mundo. su labor. de aclarar y no sólo contar. El autor implícito se introduce en el relato como narrador. diarios. pretende también marcar dos puntos: la imposibilidad de la escritura de captar completamente lo que le ha sido relatado y. de reflexionar. El autor en varias ocasiones ha declarado que. por ello. saturado de agujeros y de luces. 2000. no permite. conciencia del papel del escritor como mediador “Tal como aquí la resumo u ordeno. el del otro” (Onfray. por ello la necesidad de explicar. etc). diálogo con otros personajes y diálogo entre personajes. 2008. o como testigo directo de los acontecimientos. manuscritos. es un universo entero cuyo destino es un oído. Esta propuesta de narrador puede relacionarse con el planteamiento de Michel Onfray (2000) sobre la necesidad de la acción performativa en el uso del lenguaje. considerar al narrador hipostático como el narrador-autor-personaje que establece la narración en distintos niveles de diálogo: como diálogo con el lector. por eso el preámbulo y las intromisiones constantes. le sucede lo mismo que con la poesía: “la sensación de insuficiencia. de que no dimos en el blanco”. al mismo tiempo.que ha caído en el vacío del significado -abuso de la técnica para lo literario. y sin embargo percibir que la obra se queda corta.62 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Ahora bien. En las . pero para mantener su credibilidad se enmascara en: editor de papeles encontrados (cartas. algo de salmodia o cantinela” (350). o plantear un juego con el lector. desafortunadamente. sin previsión y sin intención de permanencia. Al hacer presencia explícita como el escritor de lo narrado. Esto explica que las acciones que presenta sean mínimas en comparación al copioso discurrir de la conciencia incrédula que se esfuerza por anular la impotencia que resulta de la imposible acumulación del saber. es la característica fundamental de la propuesta de Mutis en La última escala del Tramp Steamer. Cercano a la idea de la necesidad de resemantizar la palabra -en nuestro caso en el universo narrativo. considera que el lenguaje. ya que permite establecer nuevos vínculos entre la palabra y el sentido. la prosa no lo ha liberado de la función de denunciar la otra orilla y. 188). pleno de ausencias y de signos súperalimenticios. apuntan a señalar esa misma pérdida. Entonces. estos juegos del narrador-autorpersonaje llevan al lector a la oscilación entre el relato y la historia con mediación del narrador hipostático. 212-213). dar los acentos de retenida emoción que iban creciendo en el relato. y está mediatizada por un mundo. justamente por su condición de modelo performativo. (Laverde.a través de la palabra como fundadora del sentido -en su componente dialógico-. “toda palabra utilizada por alguien. la imposibilidad de comunicar la experiencia como acontecimiento -hacer y padecer en el mundoes vista por Mutis como la carencia fundamental del escritor. La producción novelística de Mutis en su calidad de poética constituye un discurso difuso. Ahondemos un poco en estos dos aspectos. no sólo busca organizar el universo de la narración.

lo fundamental de este cambio es que el narrador entra a formar parte de esos seres de excepción. desesperanzados. como Abdul Bashur y Jon Iturri (protagonista y narrador de La última escala del Tramo Steamer ) forman parte de esa familia espiritual a la que pertenecen el Bolívar de “El último rostro” y Alar el Ilirio de “La muerte del estratega” e.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 63 primeras novelas: La nieve del Almirante. 2000. en última instancia. la música. emprendía su amarga aventura con una resignación En La última escala del Tramp Steamer da el paso para mostrarse explícitamente como voz y como personaje de la narración. se construye tanto como organizador responsable del relato. 2008. la presencia en Lord Jim de del personaje narrador Marlow coincide con el papel de Maqroll en las novelas del colombiano. por ejemplo. así. como . en momentos de incandescencia de una vida cotidiana transformada en vasto campo de experimentación para las agudezas y el momento propicio” (Onfray. 19). p. 189) Michel Onfray (2000) propone la figura del condottiere como una ética de la elegancia. asunto que me suscita una náusea inmediata. el teatro y la literatura. aparece al principio como preámbulo y le da la voz a Maqroll para qué sea él quien narre y reflexione sobre lo narrado. Construye una nueva mirada sobre la ética del individuo a partir del análisis del arte en sus diferentes manifestaciones. Tanto Illona. de la actitud ética de crítica a la modernidad industrial: Con mayor elocuencia que las veces anteriores. se presenta como un recopilador. En las obras posteriores: Armirbar . pues participan de las empresas del mundo sin creer en ellas. sin ninguna orientación a un fin determinado. “una auténtica teoría de las pasiones destinada a producir una bella individualidad” (Onfray. caracterizada por la imposición del estilo. alguien que sabe reconocer en los otros la presencia o ausencia de esa condición propuesta en la saga de Maqroll el Gaviero.en el universo de su materia narrativa. por el acto mismo de estar en el mundo. Acepté. activa una moral del desprecio por los valores burgueses. y Tríptico de mar y tierra. a partir de La última escala del tramp steamer se introduce dentro del mundo novelado como autor-personaje. Ilona llega con la lluvia y Un bel morir . me había invitado en San José a un paseo en yate por la bahía Nicoya en Punta Arenas. narrador hipostático. dentro de ese sistema de seres fuera de lo común -en el sentido literal y metafórico. se me hizo patente la ruinosa condición de este viejo servidor de los mares que. al comparar a Joseph Conrad con Álvaro Mutis. de Conrad. encantado de librarme de la insulsa conversación de mis compañeros de trabajo y de las interminables rememoraciones de sus hazañas en el golf. 54) Asimismo. se permite el juego de nuevas “máscaras” con las cuales crea una sensación de mayor “veracidad” -recurrir al dato biográfico. la importancia de lo sublime y la pulsión por el hedonismo. entonces. Marlow y Axel Heyst. (…) Estaba en Costa Rica como asesor de prensa de una comisión de técnicos de Toronto que realizaba un estudio para la construcción de un oleoducto. pero a la vez. del dandy afirma “jugador desencantado y esteta melancólico. del instante y el derroche. no recuerdo ya desde qué puerto hacia el interior. se enmascara para no presentarse directamente. por enésima vez. la búsqueda de lo selecto. Cada época tiene su condottiere. la pintura. unido a la tragedia. simula no tener perspectiva. incluso. Un par de amigos que había hecho en una accidentada sesión itinerante de alcohol y cabarets de nota más que dudosa. Como lo afirma Consuelo Hernández. p. como par. la energía como fuerza vital. Se hace personaje. todo ello. 2000. es decir. (317) parte del grupo de los desesperanzados. p. como los llama Mutis. Abdul Bashur. trocando lo inefable. es interesante comprobar la coincidencia en ambos -el condottiere y el narrador de Mutis-. (Laverde. la escultura. la grandeza unida a la magnificencia y la prodigalidad. soñador de navíos. un editor que no aparece como personaje de lo narrado. cada época construye su ética de la elegancia.en el relato. no hay rastro de su manera particular de ver o evaluar el mundo.

la cosa hubiera adquirido los síntomas de una persecución mítica. la buena compañía. el tramp steamer y el Caribe “Algún día me propongo narrar lo que fueron aquellos paseos. permite ver lo otro. la literatura y la filosofía. bohemio nostálgico y poeta por vocación.a la degradación del mundo a través de la escritura. con ironía se burla de esa gente y sus preocupaciones. referencias ilustradas constantes y. como Jon Iturri. En la obra menciona que su poesía se nutre de los encuentros con seres. Nuestros asuntos. No es ese ya nuestro mundo. Cuando una de esas imágenes regresa con toda su voraz intención de persistir. engañoso y constante del precario presente. Es así como dentro de la obra se configura como un conocedor de arte. obsequio de los dioses. Se presenta como un escritor que trabaja en una compañía petrolera. que se dirigen a la confirmación de una individualidad basada en el viaje como aprendizaje que. Como autor implícito y personaje testigo de los viajes del tramp steamer hace de sí mismo un escritor que pretende una salida espiritual -estética. intelectual. en buena parte de la poesía que he ido dejando por ahí regada en revistas efímeras y en ediciones no menos olvidables. modelos éticos. (326) De este modo llegamos también al final del análisis. de tan nuestros. esteta en la vida cotidiana.y ratifica su condición de artista. el juego de las cajas chinas permite ver el relato del relato de la historia como un recurso de la veracidad y no sólo retruécano narrativo. Los hombres sólo conseguimos ahora cumplir con la mezquina cuota de venganza que nos imponen otros hombres. Obediente a las empresas del hombre. la buena comida. pero también conocedor del arte. su actitud frente a lo narrado como confirmación de la ética de la desesperanza. Si seguimos la lógica de Onfray sería una especie de actualización del condottiere. Nuestro modesto infierno en vida no da para ser materia de la más alta poesía. A tal punto me pareció vetusto. objetos y lugares especiales.64 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS de un buey del Latio sacado de las Geórgicas de Virgilio. amante de la buena vida. (325) el de las soberbias maldiciones con las que los dioses de la Hélade castigaban a los trasgresores de sus designios inmutables. hemos visto cómo el juego de voces entre el narrador-autor y el relator personaje produce un efecto de “realidad” que se afianza en el hecho biográfico introducido en la narración y con lo cual el lector asume un pacto narrativo cuasi “veraz” de la historia que le es contada. Es así como trabaja el olvido. De ahí que su imagen se construya a partir de la erudición con evocaciones artísticas explícitas. además. Poca cosa. lo ajeno. Me quedé contemplando cómo se perdía en el horizonte y sentí que una parte de mí mismo se internaba en un viaje sin regreso. Concluimos que el propósito de este juego del narrador-autor-personaje apunta a hacer presentes distintos sistemas axiológicos. si bien es cierto que. están las huellas de esos días. como posible sin menoscabo de una actitud ética individual: la lucidez. lo que sí fue evidente para mí era que de continuar los encuentros. Consideramos que por esta misma razón. pasan a ser extraños por obra del poder mimético. sucede lo que los doctos llaman una epifanía. en estos tiempos de “mezquina necedad”. También permite explicar porqué el personaje femenino es objeto y no sujeto de deseo. golpeado y sumiso. Ahora que lo recuerdo. pero que definitivamente no pertenece a ese mundo.” (327). cuya mezquina desaprensión concedía aún mayor nobleza a ese esfuerzo sin otro premio que el desgaste y el olvido. (330) En La última escala del Tramp Steamer el narrador se focaliza y se modaliza a sí mismo dentro de la obra. Experiencia que debe ser arrasadora o simplemente confirmarnos en ciertas certezas harto útiles para seguir viviendo. de una diabólica espiral cuyo final podía ser . cosmopolita.

MUTIS. só lo se indicará el número de la página. Bogotá: Alfaguara. Alfredo (2008). Medellín: Universidad de Antioquia. Bogotá: El Huaco. Nota 1 En adelante. Barcelona: Random House. Bogotá. André (1999).ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 65 Referencias bibliográficas LAVERDE. PEÑA Isaías (2011). Instituto Colombiano de Cultura. la moral estética. _____ (1981). MALRAUX. Michel (2000). La construcción de uno mismo. Buenos Aires: Sudamericana. dos tendencias. SAID. Mondadori. La condición humana. Poesía y prosa . el texto y el crítico . Empresas y tribulaciones de Maqroll el Gaviero. Tradición literaria colombiana. Álvaro (2001). . ONFRAY. El mundo. Buenos Aires: Libros Perfil. El universo de la creación Narrativa. Edward (2004). cuando se mencione apartados de la obra estudiada.

. É quando começam. promovendo um amplo processo de formação de gestores e educadores nos municípios brasileiros para a garantia do direito de acesso de todos à escolarização. o Brasil estabelece. aqueles que “distoam” de uma “normalização” intelectual. o atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência. é implantado. na década de 1990. em 1981. 2008. Acompanhando a tendência mundial de luta contra a exclusão das minorias e a favor da igualdade de oportunidades. o Programa Educação Inclusiva. física. durante muito tempo. p. de acordo com a qual o aluno com necessidades educativas especiais deveria adequar-se à “hegemonia” presente em sala de aula. Assim. à oferta do atendimento educacional especializado e à garantia da acessibilidade (BRASIL.9). as discussões sobre a ampliação do acesso e a qualidade da educação das pessoas com necessidades educacionais especiais. seja por fatores socioeconômicos. O quadro recém-apresentado começa a mudar nos anos 1980. cujo objetivo é apoiar a transformação dos sistemas de ensino em sistemas educacionais inclusivos. sob formas distintas.66 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS ENSINO DE E/LE E INCLUSÃO: REFLEXÕES SOBRE FORMAÇÃO E TRABALHO DOCENTE Alice Moraes Rego de Souza PG-UERJ Roberta Fraga de Mello PG-UERJ Introdução Historicamente. Dentro dessa perspectiva. quando. No Brasil. Mesmo com o advento da Constituição de 1988. o trabalho do professor tem sido apontado como condição essencial para a inclusão eficaz dos alunos com necessidades educacionais especiais nas classes regulares de ensino. o atendimento a alunos com necessidades especiais seguiu sendo realizado sobre os pressupostos da Normalização e Integração. principalmente. da Conferência de Jomtien (1990) e da Declaração de Salamanca (1994). excluídos do espaço escolar. em 2003. na Constituição Federal de 1988. cultural e linguística foram. posteriormente. seja pela presença de padrões físicos considerados distintos dos de uma suposta homogeneização. preferencialmente na rede regular de ensino” (artigo 208. o acesso à escola sempre foi marcado pelo paradoxo inclusão/exclusão. item III). social. no âmbito internacional. sob a influência. é proclamado o Ano Internacional dos Deficientes pelas Nações Unidas.

formalizada pelo CNE. A educação especial no âmbito da reforma das licenciaturas A reforma das licenciaturas é uma culminância de certa circulação de discursos sobre o papel do professor e suas responsabilidades na formação de cidadãos no contexto escolar. De maneira geral. como já apresentado. se reflete em documentos oficiais (pareceres e resoluções) que se destinam a formalizar a última reforma dos cursos de licenciatura. (DAHER & SANT’ANNA. iniciada oficialmente no ano de 2001. Neste tópico. particularmente no que diz respeito à educação especial. A importância atribuída ao papel do professor. p. p. Ao mesmo tempo. depara-se com problemas em termos institucionais e curriculares. A partir daí. sendo uma delas a questão da educação especial. resta ainda observar em que termos é tratada a questão da educação especial. cria-se ambiente propício para a discussão sobre a participação dos institutos básicos na formação de professores das diversas áreas de conhecimento.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 67 o que nos leva a refletir sobre a formação deste profissional visando atender às demandas da atualidade. problemas destacados é o que se designa como “desconsideração das especificidades próprias dos níveis e/ou modalidades de ensino em que são atendidos os alunos da educação básica” (BRASIL. 2009. buscamos apresentar alguns possíveis progressos relativos à formação de professores de Língua Espanhola que beneficiem a perspectiva inclusiva e de respeito à heterogeneidade no espaço escolar.25). a partir da análise de seus fluxogramas. Considerando a interseção entre as discussões sobre educação especial e sobre a reforma dos cursos de formação de professor. com a publicação das Resoluções CNE/CP nº1 e 2.20) Uma vez conhecido o contexto de surgimento da reforma. p. em geral. O parecer em questão explicita que ao revisar o processo de formação docente. de modo a observar a relevância dada à temática no decorrer do documento. no ano seguinte. focaremos em algumas disposições do Parecer CNE/CP nº9 de 2001. as universidades e outras instituições a contribuírem para a elaboração das diretrizes curriculares dos cursos de graduação. o MEC publica o Edital nº4 de 1997. um dos 1. com a publicação do Parecer CNE/CP nº9 de 2001 e. 150). no sentido de atender a uma política de integração dos alunos . culminando na reforma dos cursos de licenciatura.394/1996 – a qual define que cada instituição de ensino superior (IES) deverá fixar seus currículos a partir das diretrizes pertinentes. o presente trabalho fomenta uma reflexão sobre os novos currículos de licenciatura em Letras (habilitação PortuguêsEspanhol) das universidades públicas do Estado do Rio de Janeiro. a reforma surge a partir da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) – Lei nº 9. Diversas temáticas atravessam as reflexões acerca de um novo currículo para formar professores em nível superior. Para tal. Especificamente no campo curricular. Ainda que possamos antecipar que “de maneira geral. 2009. no contexto da mencionada reforma. 2001. por meio do Parecer CNE/CP nº9 de 2001 e respectivas Resoluções CNE/CP nº1 e 2 de 2002. os quais precisam ser refletidos e explicitados. dentre outros temas. falase sobre o ensino para alunos com necessidades especiais. as licenciaturas não estão preparadas para desempenhar a função de formar professores que saibam lidar com a heterogeneidade posta pela inclusão” (PLETSCH. afirmando que: “A educação básica deve ser inclusiva. o qual convoca a sociedade civil. buscando observar como se apresenta a questão da educação especial nesses documentos institucionais. visto que este é um dos eixos que orientam as diretrizes curriculares de formação de professor em nosso país.

especialmente no que concerne à educação especial. a critério da instituição. o Parecer apresenta alguns eixos.)” (BRASIL. são. p. A saída proposta para superar a “dicotomia” formação comum . dá recorrente espaço para discussão sobre necessidade de incluir. a saber: Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). já que esta é uma realidade indissociável da escola. Por uma questão de afinidade profissional das pesquisadoras. optou-se por focar a análise apenas nas IES do Estado do Rio de Janeiro que passaram pelo processo de reforma curricular iniciado em 2001. Nesse caso.. p. quais são os reflexos desses discursos oficiais. Por uma necessidade de recorte de corpus . uma vez que a educação especial pode configurar apenas como formação específica. embora devessem fazer parte da formação comum a todos (. O documento reconhece que temáticas relativas à educação para alunos com necessidades especiais “raramente estão presentes nos cursos de formação de professores. a existência de uma brecha no Parecer. Nesse sentido. dentre os quais está o “eixo que articula a formação comum e a formação específica”. o que faz de sua presença nos A partir do Parecer CNE/CP nº9 de 2001 e suas respectivas resoluções. o curso de Letras Português-Espanhol. para atuação em modalidades ou campos específicos incluindo as respectivas práticas (. as IES reformularam seus currículos de modo a atender às novas demandas. vê-se que o Parecer CNE/CP nº9 de 2001. a escolha foi por analisar a formação do professor de Língua Espanhola. as formas de comunicação dos paralisados cerebrais. 27) Outra proposta contida no documento. ao mesmo tempo. na formação do professor. 2001. 2001. nas novas estruturas curriculares? Inicialmente. temáticas a serem consideradas. Assim sendo. entre outras. Universidade Federal Fluminense (UFF) e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). a singularidade linguística dos alunos surdos. são necessários alguns esclarecimentos sobre a escolha do corpus de análise. 26) currículos uma escolha de cada IES. Constata-se.. diz respeito aos critérios de organização para desenho de uma matriz curricular que contemple os diversos aspectos envolvidos com a atividade docente.. oferecer uma formação comum a todos os docentes e o atendimento às especificidades do trabalho com as diferentes etapas ou modalidades com que o professor irá trabalhar.. momento propício para o preparo do profissional para atuação com alunos com necessidades especiais.)” (BRASIL. dentre as possibilidades de formação específica que a IES pode ter. 2001. Isso exige que a formação dos professores das diferentes etapas da educação básica inclua conhecimentos relativos à educação desses alunos “(BRASIL. Assim. considerando suas demandas próprias. o Parecer menciona a educação especial. Novos currículos de formação docente e educação especial . A problemática desta seção se centra na dificuldade de. o Parecer esclarece que a construção espacial para alunos cegos. Nesse caso. de maneira geral.27). quais serão os reflexos deste aspecto nas atuais estruturas curriculares das IES que formam docentes na área de Língua Espanhola? Tal será a discussão que cabe ao próximo item deste artigo.68 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS com necessidades educacionais especiais nas classes comuns dos sistemas de ensino. portanto. p. inclusive à questão da educação especial. portanto. (BRASIL.formação específica é a proposta de inclusão de espaços e tempos adequados que garantam “opções. Mesmo diante da possibilidade da presença da temática sobre educação especial apenas em termos de formação específica. 2001. p. 2. 55). no que tange à atuação docente diante desse público.

o fluxograma pode ser compreendido como um discurso. suas etapas constituintes. trata-se de uma eletiva. 2005. Em outras palavras. como. por sua vez. de um grupo de seis disciplinas. não há tipo algum de menção explícita a disciplinas que tratem especificamente da questão . Nem mesmo como eletiva existia a opção de disciplinas sobre tal temática. nas subseções a seguir. 2. na medida em que tem seu surgimento e sua circulação fundamentada em “regras de organização vigentes em um grupo social determinado” (MAINGUENEAU. Ainda nesse sentido. o ponto de par tida são os fluxogramas que materializam a estrutura curricular dos cursos de graduação.52). o aluno precisa escolher três para cursar.2. Sendo assim. de certo modo. Já após a reforma. trabalhamos com a formação do professor de Língua Espanhola no Estado do Rio de Janeiro e seu preparo para atuar na educação especial. assumir que os fluxogramas das IES são um discurso é sustentar a ideia de que seu surgimento e desenvolvimento são inseparáveis das relações sociais que o contextualizam. buscamos abrir caminho para reflexões que merecem atenção mais detida em trabalhos futuros. Maingueneau (2005) afirma que os discursos têm caráter de ação. Para refletir. Entretanto. seus marcos.1. do que se privilegia ou não como parte da trajetória a ser percorrida pelo profissional em formação. o fluxograma irá refletir questões colocadas ou não em destaque pela IES a que pertence. realizam-se algumas observações de análise sobre a presença do tema educação especial nos fluxogramas selecionados. Assim. p. consequentemente. ao enunciar sobre formação de professor é também uma forma de construir certa ideia de formação de professor. por meio da disciplina intitulada “Planejamento de Material para Ensino de Língua Portuguesa como L2 para a Comunidade Surda” (vinculada ao Departamento de Linguística) e a disciplina “Prática Pedagógica em Educação Inclusiva” (oferecida pela Faculdade de Educação). A reformulação curricular na UFF Tanto na grade curricular (expressa em forma de fluxograma) anterior e posterior à reforma das licenciaturas. ainda que brevemente sobre esta questão. o aluno cursará apenas se quiser. mostrando uma síntese do curso. Por uma questão de limitação de espaço. Partindo de uma perspectiva discursiva.626 de 2005. metodológicos e mesmo em detalhes de análise. o fluxograma mostra a inclusão de algumas oportunidades de discussão sobre educação especial. A escolha deste material se deve ao entendimento de que o fluxograma. o fluxograma. é um retrato de um curso de formação superior. 2. tampouco apresentava qualquer indício de disciplina que se voltasse para esse tema. Quanto a esta última. Assim sendo. Vale ressaltar que a primeira disciplina relacionada não vem como uma resposta à demanda da reforma de 2001. pois esta compõe o grupo de disciplinas designadas como eletivas práticas. por exemplo. a grade curricular do curso de Letras com habilitação em Português-Espanhol não sinalizava nenhum tipo de disciplina específica quanto à educação especial ou educação inclusiva. podendo esta ficar de fora. não mais nos aprofundamos em aspectos teóricos. O fluxograma. A reformulação curricular na UERJ Antes da reforma das licenciaturas iniciada em 2001. ou seja. mas sim a outra legislação específica sobre a questão da inclusão da LIBRAS na formação superior em algumas áreas de conhecimento – Decreto nº 5.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 69 Em síntese.

explicitamente. No caso das IES que oferecem disciplinas relacionadas à comunidade surda.70 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS do ensino de espanhol para alunos com necessidades especiais. o que mostra. 2. a inclusão de disciplinas que tematizem a questão da inclusão e da educação para alunos com necessidades especiais não sofre alterações. a disciplina eletiva “Tópicos Especiais em Educação Especial”. visto que apenas há a inclusão da questão específica da surdez. a existência de disciplina alguma que fosse específica para tratar de questões de inclusão ou ensino para alunos especiais. pois ele também tem a sua disposição outras optativas. 2.3. ao Instituto ou à Faculdade de Letras. o fluxograma da UFRJ não indicava. por se tratar de uma questão de linguagem. mas do surgimento de tal demanda. mas de uma resposta a uma exigência legal de inclusão de LIBRAS nos cursos de Letras – Decreto nº 5. sejam LIBRAS ou disciplinas que abordem temas gerais sobre tal comunidade. Isso se choca com a realidade da atividade docente. Na maioria dos casos. as disciplinas que passaram a ser oferecidas são em caráter de eletivo ou optativo. tal como ocorre na UFF e na UERJ. o fluxograma passou a apresentar a disciplina LIBRAS (vinculada ao departamento de Linguística e Filologia). passa a ser oferecida. Já as disciplinas de educação especial costumam obter um caráter mais geral. as mudanças relativas Outros documentos que descrevem a estrutura curricular do curso de Letras PortuguêsEspanhol na UFF mostram que. mais uma vez. Entretanto. Ainda assim. já mencionado.626 de 2005 . uma redução do espaço aberto à reflexão e à produção de conhecimentos sobre ensino de língua espanhola como língua estrangeira para alunos com necessidades especiais. consequentemente. muito embora esta seja obrigatória para os cursos de Letras – considerando o Decreto nº 5. complementando as disposições do fluxograma1. é comum que a mesma fique atrelada aos departamentos de linguística. o que torna indispensável a reflexão sobre tais assuntos durante o processo de formação. Sendo assim. para alunos que ingressaram a partir de 2012. na verdade. sendo que. sendo oferecidas pela Faculdade de Educação. Após a reforma. o espaço para debate sobre questões relativas ao ensino de Língua Espanhola é reduzido. A reformulação curricular na UFRJ Antes da reforma. essa disciplina compõe o grupo de optativas. o que é explicado no site da universidade. Comentários gerais No caso das três IES. ao espaço ocupado pela educação especial não foram expressivas. não se trata de uma alteração devido à reforma. ou seja. ficando a critério do aluno escolher cursar a disciplina. pela Faculdade de Educação. visto que atuar com alunos especiais não depende da escolha. visto que as poucas oportunidades oferecidas possibilitam uma abordagem desde uma perspectiva mais ampla.626 de 2005 . Ainda há mais uma questão. que abrange o ensino de maneira geral e não focado apenas em uma discussão específica. após a reforma. Mesmo diante de um cenário . O fluxograma tampouco sinaliza a disciplina LIBRAS. relativa aos departamentos a que estão vinculadas as disciplinas. podem ou não ser escolhidas pelo aluno. tal disciplina compõe o currículo do referido curso. Sendo assim. Em nenhum caso foi possível verificar a associação de uma disciplina que trate de educação especial ligada a algum departamento do Instituto ou da Faculdade de Letras.4.

elas constituem-se como optativas / eletivas. minimamente. na perspectiva de Schwartz (2002) podem ser articuladas. aos saberes acadêmicos. _______. de algum modo.htm>. de Cecília P. seja na atividade docente. p. embora seja uma realidade com a qual o professor está sujeito a se deparar. Da educação segregada à Educação Inclusiva: uma breve reflexão sobre os paradigmas educacionais no contexto da educação especial brasileira. Seção 1. 35-9. DAHER. dá relevância ao assunto. 4. mesmo que não tenha de dar conta de prescrever o trabalho docente. SANT’ANNA. no exercício da profissão. o professor precisará refletir sobre tal questão. diretrizes políticas e resultados de pesquisas. São Carlos: Editora Claraluz. participando do processo de produção de normas e prescrições do trabalho realizado por este sujeito. de 8 de maio de 2001. ainda que o tratamento da educação especial pensada especificamente em termos de ensino de E/LE seja tarefa complexa. ainda. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília: MEC. Revista Educar . 27894. Disponível em: <http://www. Del Carmen. Considerações finais No caso dos fluxos analisados. não foram identificadas marcas que explicitassem a relevância dada às discussões sobre ensino de Espanhol como Língua Estrangeira (E/LE) para alunos com necessidades especiais.br/ccivil_03/ _ato2004-2006/2005/decreto/d5626. Rosana. 18 de janeiro de 2002. p. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica. o presente trabalho mostra que. Brasília. FAITA . A abordagem do trabalho reconfigura nossa relação com os saberes acadêmicos: as antecipações do trabalho. MAINGUENEAU. SCHWARTZ. Coleção Explorando o Ensino.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 71 que. 31. Diário Oficial da União. quando surgem disciplinas relacionadas à educação especial. Diário Oficial da União. Dominique (2005).gov. A formação. em algum momento. tal ausência não implica a não criação de normas.planalto. p. Brasília. orientar o docente em sua trajetória futura. Yves (2002). n. A formação de professores para a educação inclusiva: legislação. curso de Licenciatura de graduação plena.394. tal como visto na análise do Parecer CNE/CP nº 9 de 2001. Curitiba: Editora UFPR. 33. Edicléa Mascarenhas (2005).626 de 22 de dezembro de 2005 . 3. Nesse sentido. PLETSCH. Decreto 5. GLAT. contribuindo para uma forma diferente de pensar as antecipações do trabalho. Vera L. FERNANDES. Referências bibliográficas BRASIL. Acessado em 10/08/2012. Márcia Denise (2009). In: Trajetórias em Enunciação e Discurso: práticas de formação docente. In: Espanhol: Ensino médio. 4 ed. Formação e exercício profissional de professor de língua espanhola: revendo conceitos e percursos. Trad. De Souza e Décio Rocha. 143-56. nota-se a constituição de um espaço restrito de prescrições ao trabalho do professor relativo a essa modalidade de ensino na etapa de formação. Assim. Do otium cum dignitate dos cursos de Letras à formação de línguas. ________(2010). Análise de textos de comunicação. de 20 de dezembro de 1996. Parecer CNE/CP nº9. as quais serão feitas na própria situação de trabalho e que. Brasília: Inclusão – Revista da Educação Especial – out/2005. em nível superior. p. _______. 23 de dezembro de 1996. Entretanto.A (2009). Lei nº 9. portanto. In: SOUZA-E-SILVA. precisa proporcionar mais espaço para reflexão do assunto. seja na formação. Editora Cortez: São Paulo. E. de modo a.

pdf. São Paulo: Cortez.uff. Fluxograma do curso de Licenciatura em Letras Português – Espanhol. b r / index. UFF.pdf.php?option=com_content&task=view&id=45&Item( ( Nota 1 A informação mencionada está disponível em <http://www. Disponível em: http:// www.72 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS (orgs.). UERJ. .uff.uerj. Disponível em: http:// www. Linguagem e trabalho : construção de objetos de análise no Brasil e na França. Disponível em: http:// w w w .br/obrigatoriedade-da-disciplinalibras>. Acessado em 10/08/2012. Acessado em 10/08/2012.letras.br/sites/default/files/ letras_portugues_espanhol_-_licenciado_novo.letras.br/arqs/fluxogamas_cur sos/ letras_portugues_espanhol_licenciatura. Acessado em 30/08/2012. u f r j . UFRJ. Fluxograma do curso de Licenciatura em Letras Português – Espanhol. l e t r a s . dep. Fluxograma do curso de Licenciatura em Letras Português – Espanhol.

culminando. homens conhecedores e adeptos a outros pontos de vista se propuseram a divulgá-los. como o Conde Buffon. Divulgadas as teorias e razões da inferioridade. Foi o que fizeram europeus que de fato conheceram o cnotinente americano. natural de Paris. fundamentada nos progressos realizados através do processo histórico europeu. postular uma teoria universal da inferioridade do novo continente. “a tese da ‘debilidade’ ou ‘imaturidade das Américas” nasce com o Conde de Buffon. Entre as conclusões buffonianas referentes às Américas coloniais destacam-se formulações intrigantes que merecem ser comentadas. contudo. ou Georges-Louis Leclerc (17071788). Segundo Antonello Gerbi (1996). mas excessivamente interessado em matemáticas e ciências. Cornelius De Pauw. freqüentador do Colégio de Jesuítas e estudante de Direito. o que o levou a trilhar um caminho em direção aos estudos científicos. a partir dos naturalistas ilustrados. Em um pólo. o Abade Raynal e o historiador William Robertson. ocuparam-se de descrever muitas das peculiaridades americanas sem. . Entretanto. Do lado oposto. a “polêmica do Novo Mundo” passa a apresentar discussão contínua. alguns crioulos e uns quantos padres jesuítas. manifesta-se a superioridade do homem civilizado. vegetais e humanas. Em vários textos produzidos por europeus que conheceram a América ou por americanos põe-se em questão a validade do caráter débil e frágil das espécies do Novo Mundo. Alguns autores que precederam o século XVIII. advindo da inferioridade daquele meio e da fraqueza de suas espécies animais. como Gonzalo Fernández Oviedo e os padres Acosta e Herrera. na qual aparecem suas teorias sobre os temas americanos. Entre suas principais obras encontra-se a volumosa História Natural .Universidade Federal de Pernambuco* A presença de dois discursos referentes à imagem simbólica do Novo Mundo representa a oposição entre Europa e América que seria determinante para a formação do pensamento moderno. no século XVIII. encontra-se o nativo americano. na ideia de que o homem ocidental teria alcançado a aptidão de elevarse a uma chamada “maioridade intelectual”.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 73 DIÁLOGOS DE HISTORIA NATURAL: O HOMEM PROTOTÍPICO E O HOMEM EM CONSTRUÇÃO Amanda Brandão Araújo PG .

] os que não foram transportados. o maior filósofo.) Buffon entende que o continente – e o homem – americano está ainda em processo de evolução. 1996: p. imbecil e nada conheceria em toda a natureza . tais como os lobos.. portanto. todos esses animais. Diz Buffon: “os elefantes pertencem ao Antigo Continente. continua as “difamações” da América.. um grau de desenvolvimento semelhante ao das mais incipientes civilizações européias. O homem não é. as raposas. a América é um mundo novo. Quaisquer semelhanças que pudessem existir entre as espécies de maior porte de ambos os continentes eram refutadas. se tornaria embrutecido. ora para menosprezar os aspectos naturais e comportamentais da natureza e do homem. divide espaço com eles. numa palavra aqueles que são comuns aos dois mundos. impotente. 1996. mas lá chegaram por si mesmos. os As deduções de Buffon deturpam as descrições dos autores que o antecederam. A natureza americana seria hostil a qualquer desenvolvimento. e não existem no Novo (. mas no oposto a isso: o homem apenas se aperfeiçoa em sociedade. O homem é errante. tornaram-se menores. 27.. inimigos do progresso e da sociedade. é apenas um bruto incapaz de progresso. de construir impérios e domar animais. Humanamente. incapaz de dominar a natureza em seu favor.. “imberbes”. e [. Os “selvagens” americanos são. portanto. Rejeitam as leis e a ordem. 1996: p. os criadores do progresso. que nem de longe poderia comparar-se aos grandes mamíferos. defende e aprofunda a tese de que os americanos são degenerados. ainda. conseguiriam atingir. (GERBI. Grifo do autor). mudo. fundamentado. Sem ela.. Recusaram-se a aceitar quaisquer formas de desenvolvimento e cultura “evoluída”. Cornelius De Pauw. 20. Fisicamente. insalubre portanto para gente civilizada e animais superiores. digo. filósofo e enciclopedista ilustrado de naturalidade discutível (provavelmente holandesa). os cervos. em critérios científicos relacionados à Ilustração. Opondo-se ao concluído por Buffon. os bois. A natureza do hemisfério ocidental não mais é imatura e . a América é um continente ainda intocado. do qual o homem ainda não tomou posse. 1996). em algum dia ainda indeterminado. ou pelo menos muito mais novo que o antigo. os cães. 1996: p. um mundo que ficou mais tempo sob as águas do mar. 19). que apenas multiplicam-se e avolumam-se. os asnos. Nas Recherches sur lês Américains. ao saber da época. deve aquilo que é à sociedade: o mais metafísico. Os cavalos. 56). com exceção destinada aos insetos e répteis de menor porte. que mal acaba de emergir e ainda não secou direito. (DE PAUW apud GERBI. (BUFFON apud GERBI. os porcos. Fonte de elevado preconceito e ignorância gerados a partir das teorias buffonianas é o postulado da degenerescência dos animais na América. p. De Pauw não acredita na “bondade natural” do homem. Os animais em geral são poucos em diversidade e em tamanho. à anta brasileira. os cabritos monteses. As espécies trazidas da Europa tenderiam a definhar-se. (GERBI. são também consideravelmente menores na América que na Europa. as cabras. inoperantes. os carneiros. garantindo a superioridade das espécies do Velho em detrimento das do Novo Mundo.74 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS A primeira delas refere-se à inexistência de grandes animais selvagens.) nem se encontra ali nenhum animal que se compare a eles. Para ele. A umidade do ambiente é tão elevada que pode fazer definhar qualquer espécie passível de evolução. e isto sem exceção alguma. devido a sua “dimensão de um novilho de seis meses ou de uma pequeníssima mula” (GERBI. ao contrário de Buffon e de Rousseau.” Alude. nada por si só. Mais que isso: a maioria dos nativos vive como os próprios animais. os alces. etc. abandonado durante seis anos na ilha de Fernandez. ora para ridicularizar. em tom extremamente mais enfático e definitivo que o do Conde. mas com o tempo e o exemplo dos europeus. São imaturos.

várias tragédias naturais nunca observadas no antigo continente. A ênfase do Abade. América em Raynal resulta da projeção de uma teoria climática que divide o mapa-mundi em zonas tórridas.] Os povos se encontravam dispersos nos campos. fraca porque corrompida. De Pauw é tido como veemente antiamericanista. toltecas e incas. (RAYNAL apud GERBI. inferior porque degenerada ” (GERBI. retorna constantemente à “desventurada” natureza física americana. cuja inspiração é voltairiana e permeável às ideias de De Pauw. onde a imaturidade se revela por essa espécie de impotência. já que estes foram atrasados e incapazes tanto quanto os demais seres daquele mundo. porém. Considera como inverídica toda a obra de Garcilaso de la Vega sobre os incas. porém é dada maior relevância ao posicionamento em favor de grandes catástrofes. traziam de volta as experiências vividas nas mesmas. é degenerada. 1988) antigüidade das civilizações astecas.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 75 imperfeita (como o era para Buffon). mais ou menos abrangentes. Raynal adota a posição de Buffon e De Pauw sobre as zonas tórridas e úmidas como insalubres. e era impossível que fosse de outro modo. O clima americano explicaria também a propensão dos seus habitantes ao alcoolismo e à concubinagem. descaracterizado) a fauna e flora locais. As teses sobre as influências do clima e outros fatores naturais são consideradas por De Pauw. A indiferença quanto ao sexo. 1996. como dilúvios e “medonhos tremores de terra”. É um vicio radical no outro hemisfério. A umidade do clima fez com que essa condição “infantil” do continente e dos homens que nele habitavam fosse agravando-se. 53) Buffon. “A natureza se esqueceu de fazê-la crescer” (GERBI. atribuindo ao clima as doenças contagiosas e as baixas taxas de natalidade entre os povos. Os dados de Las Casas sobre as numerosas populações do México e do Peru também são objeto de crítica. 1996). com sua Histoire Des Deux Indes. para ele. sem meios termos. . uma espécie de infância nos povos da América.. nas Américas. Na Europa mesmo levantaram-se contra ele vários defensores do “bom selvagem”. Mais um defensor da inferioridade americana foi o Abade Raynal.. Sua História da América (1777) fala sobre o Novo Mundo num tom mais Deve-se relegar ao plano das fábulas esta quantidade prodigiosa de cidades construídas com tanto cuidado e dispêndio. como se “desevoluísse” o que sequer começou a se desenvolver. mais determinadas ou mais indiretas. 1996). supõe uma imperfeição nos órgãos. trazendo assimetrias valorativas com implicações políticas. ao qual a natureza confiou o depósito da reprodução. da grandeza e magnificência das cidades e monumentos. como nos indivíduos do nosso Continente que não chegaram à puberdade. A imagem da Para concluir os “ataques” às Américas a que nos propomos. 1996). embora deva apresentar idade semelhante à européia. Raynal e De Pauw contestam a As radicais teses depauwnianas suscitaram grande número de réplicas. finalizamos com as considerações de Robertson. Ao inicio da “adolescência americana” também corresponderia a impotência dos nativos e a falta de atração por suas fêmeas. [. “De Pauw repete até a saturação que a natureza é fraca e corrompida na América. Também insurgiram-se jesuítas que. pois entende que “é sem dúvida um grande e terrível espetáculo ver a metade deste globo a tal ponto desgraçada pela natureza que tudo é ou degenerado ou monstruoso” (DE PAUW apud GERBI. da bondade natural do homem e da natureza virgem. (RAYNAL apud VENTURA. zonas glaciais e zonas temperadas. A América não havia ainda se desenvolvido: era impúbere. Haveria ocorrido. p. que teriam determinado o temperamento dos habitantes (animais não políticos) e caracterizado (ou. expulsos das colônias. rejeitando as descrições de Hernan Cortés e do inca Garcilaso de la Vega.

(ROBERTSON apud GERBI. entendeu. Os animais que pertencem originalmente a esse quadrante do globo parecem ser de uma raça inferior. p. jamás se oyeron entre ellos. nem tão feroz quanto as do outro continente. sobre os canibais – levou a crítica da civilização européia. tentando inclusive justificar atos de violência que pudessem ser cometidos pelos nativos. (. No ensaio Sobre los caníbales. cuando en verdad es a aquellos que nosotros mismos hemos alterado con nuestras artes y mudado de su orden común a los que con más propiedad debíamos designar salvajes. em parte. seja através da realização de viagens. desfallecidos de hambre y desnudos con pobreza y necesidad.134) provechosas virtudes y piedades naturales. o pusieran fuego a sus casas. 29-30). Entende que o Século das Luzes teria publicado mais erros do que todos os séculos passados pois escreve-se com liberdade. Leitor de crônicas de viagens e conquistas. seja através da longa estadia em solo americano. Clavijero cita os antigos pioneiros nas descrições da América (Oviedo e Herrera. mas parece ao mesmo tempo ter sido menos vigorosa em suas produções.. por exemplo) e usa o que pode de suas obras em defesa de seus argumentos. procuraram conhecer a outra versão da história. mientras otros..) Las palabras mismas que significan mentira. em comparação com o estado selvagem. patriota e ilustrada. que en éstos hemos bastardeado. sino que cada cual suele llamar barbarie a aquello que no le es común…Son salvajes así como llamamos salvajes a aquellos frutos que la naturaleza por sí misma y por su natural progreso ha producido. . a consequências extremas. envidia. no entanto. p. aplicándolas solamente al placer de nuestro gusto corrompido. Do lado oposto da polêmica estão outros intelectuais. inclusive. Diz Montaigne relatando o que os nativos haviam declarado: que habían visto que había hombres entre nosotros colmados de toda clase de comodidades.. comerciantes e ainda com uns “selvagens” brasileiros levados a Rouen durante o reinado de Carlos IX. 9). como Humboldt. nascido na Nova Espanha. Como em: O princípio da vida parece ter sido menos ativo e vigoroso do que no velho continente [. tendo a maior parte deles se baseado em experiências próprias. Explicavase a grandeza e a miséria da natureza americana. p... maledicencia y perdón. havia mantido contato com viajantes. mas também as canibais. falsía. Montaigne (século XVI). por exemplo. mas mente-se desavergonhadamente: não é apreciado o que não é filosófico.] A natureza não somente era menos vigorosa prolífica no Novo Mundo. comenta que quando conversou com os “selvagens” brasileiros em Rouen. disimulo. a legitimidade dos rituais. (MONTAIGNE apud HENRRÍQUEZ UREÑA. En aquellos se hallan vivas y vigorosas las verdaderas y más Obra importantíssima sobre a defesa do Novo Mundo é a do padre jesuíta Francisco Javier Clavijero. A oposição filosófica entre natureza e cultura e a comparação entre o homem natural e o civilizado também ocuparam a mente desses intelectuais que. filho de pai espanhol e mãe crioula. p. através de uma visão ao mesmo tempo barroca.76 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS intermediário e repleto de meios termos. embora o tom pessimista predominasse. traición. pedían limosna a sus puertas: y encontraban extraño que esos otros hombres no cogieran a los otros por la garganta. 28-29).] as diferentes espécies de animais peculiares a ele são em muito menor número que as do outro hemisfério [. codicia. Perseguindo o objetivo de criticar os filósofos iluministas. 2006. Em seu ensaio. A defesa de Montaigne beneficia não só as tribos pacíficas. nem tão robusta. (MONTAIGNE apud HENRRÍQUEZ UREÑA. nem tampouco se reputa como tal aquilo que não ataca a religião e adota a linguagem da impunidade (CLAVIJERO apud DOMINGUES. 1954. 1996. em dois ensaios famosos – um. 1954. no caso dos padres jesuítas e dos crioulos. marinheiros.. diz: Creo que nada hay en esa nación que sea bárbaro o salvaje.

porém mescla conceitos religiosos aos racionais. em estabelecer hierarquias. A defesa suprema da América não foi feita. lamentando que os mesmos não tivessem se dado a oportunidade de aprofundar-se em tão instrutivas culturas. Segundo Méndez-Bonito. porém. los segundos para mostrar la invalidez y relatividad de esos sistemas antiamericanos que arrojarían las mismas conclusiones si se aplicaran al estudio del Antiguo Continente. mas foi garantida pelos processos políticos. sociais e culturais desenvolvidos no continente pelas mãos de seus administradores. religião. as primeiras bibliotecas públicas. p. De qualquer forma. resultando em uma mistura densa de história natural. uma contradição ainda maior: apesar de defender a América em sua unidade. Segundo Pedro Henrriquéz Ureña (1979. em muitos tópicos. circunscrita a los límites que le impone su propia naturaleza. não se esforçam por conceber com uma visão de conjunto a estrutura do globo terrestre. A diferença entre mexicanos e europeus seria relativa somente à falta de instrução dos primeiros. 307) Humboldt rechaça ainda vários dos postulados de Buffon e De Pauw. Contradiz-se. de crescente aridez e inércia da terra envelhecida só podem surgir naqueles que. história civil e cultural e filosofia iluminista. durante o século XVIII a produção artística das colônias excedeu a da Espanha e de Portugal. o que confere a seus escritos. muitos dos quais ele se propôs a analisar através da interação de todos os fatores naturais que teve a oportunidade de observar em sua viagem. havia leitores e havia estudiosos. 242) Alexander von Humboldt. nem se deve. O jesuíta demonstra admirar a racionalidade ilustrada e a universalidade do ser humano. comparar os povos da Nova Espanha e do Peru aos demais do continente. seu estudo incrementou sobremaneira as discussões em torno da polêmica. porque. Apresenta. política. Humboldt critica ainda a falta de apreciação advinda dos naturalistas do porte de De Pauw. por considerá-la a mais ofensiva dentre todas as calúnias propagadas sobre a América. 1988). La obra de los jesuitas defensores de América constituye un ejemplo de cómo la razón ilustrada es una y la misma. através de uma obra maestra de algum filósofo. Refuta definitivamente a ideia de degeneração dos animais europeus na América e enaltece todos os aspectos culturais de sua terra natal e do Peru. Raynal e Robertson com relação aos astecas. que os nativos americanos têm valor equivalente aos europeus. Tanto los filósofos europeos como los jesuitas americanos utilizaron la misma lógica de razonamiento: los primeros para desarrollar teorías de principios antiamericanos. e reúne-as basicamente nas Disertaciones e na Historia Antigua de México. contudo. afirma e reafirma que não se pode. lisonjeando a vaidade dos europeus. econômicos. Clavijero opõe-se às generalizações sobre o Novo Mundo e demonstra. se ligavam a hipóteses brilhantes sobre o antigo estado de nosso planeta. comenta: Essas idéias se propagaram com facilidade. (HUMBOLDT apud GERBI. os estabelecimentos científicos do México e a biblioteca de Botânica eram de tão boa qualidade que nenhuma da Europa poderia ousar comparar-se. p. relata não haver outro sentimento senão encanto: as dificuldades de aclimatação tendiam a inexistentes. Afirma que as Imagens fantásticas de juventude e inquietação. em muitos aspectos. 1996. Nos setecentos foram construídas.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 77 Centra suas críticas principalmente sobre a obra de De Pauw. (HUMBOLDT apud VENTURA. restringindo sua defesa às sociedades “civilizadas”. em solo americano. porém. uma posição ambígua. partindo de vários exemplos baseados em sua vivência. 1954). viajando pela América do Sul e pelo Caribe de 1799 a 1804. num jogo vazio de buscar contrastes entre os dois hemisférios. A respeito da degeneração dos animais domésticos. Os povos do novo continente superariam. os do antigo. o Jardim Botânico do . (2005.

Juan Ignacio de Molina y Juan Velasco. Mas não diferem naquelas capacidades – linguagem. 1979. Gassendi. etnicidade. gênero. O México na “Polêmica do Novo Mundo”: humanismo. Condillac. obras de Bacon. historias naturales u el Nuevo Mundo. história natural e ilustração. En el Brasil. las cantidades eran extraordinarias: así. Lavoisier. Culturalmente é possível ser conduzido por um caminho etnocêntrico de rechaço a outras culturas diferentes da própria. Os ideais iluministas. o Museu de Historia Natural e o Jardim Botânico na Guatemala. Laplace. El saber de los jesuitas.. Goiania. EAGLETON. deixa-se de ver com clareza e o que resta são impropérios. Além da intensa atividade cultural. Afirma que Entre las gentes educadas de la América hispánica hubo mucha afición a la lectura. trabalho. Descartes. Pensar sobre as discussões em torno da “polêmica do Novo Mundo” nos leva a delinear de forma mais clara como a ignorância funciona como um véu sobre os olhos. Houve um entrelaçamento dos temas ilustrados às formas tradicionais. sumaba 37 612 volúmenes. 2010. Beatriz Helena (2010). [. los libros suplían la falta de universidades (…) Las listas de obras remitidas de Europa a los libreros de las colonias abarcan la mayor variedad concebible de títulos y asuntos. Montesquieu. capacidades físicas etc. abrangendo as mais variadas manifestações artísticas. México D. Luis Millones. pp. Locke. Anual. fundamentaram a justificativa teórica da emancipação das colônias. 39. HENRIQUEZ URENA.78 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS México. Buffon. Referências bibliográficas DOMINGUES. o r g / p e r i o d i c o s / r e v i s t a / r e v i s t a 5 / dossie2. Pedro (1954): Las corrientes literarias en la América hispánica. 2006. a n p h l a c . sexualidade – que lhes permitem entrar em um relacionamento potencialmente universal uns com os outros. . por ejemplo.: Fondo de Cult. quando alcançada. em primeiro lugar. Anphlac : Revista Eletrônica. Terry (2006): A ideia de cultura.pdf>. Domingo. denotando o uso inteligente e adaptado às necessidades locais. o Observatório Astronômico de Bogotá e a Escola Náutica de Buenos Aires. Acesso em: 05 jun. LEDEZMA. empresa que. una sola remesa de libros recibida en El Callao. através da penetração gradual e moderada do “espírito do século”. fez com que os críticos do “Novo Mundo” pudessem repensar seus valores a partir da força dos fatos históricos. v. políticos e econômicos. puerto de Lima. En el siglo XVIII circulaban muchos libros de orientación moderna: la Encyclopédie.] 221-250. HENRIQUEZ URENA. História de uma polêmica (1750-1900). Económica. Rousseau. 5. Antonello (1996): O Novo Mundo. MENDÉZ-BONITO. São Paulo: Cia das Letras. São Paulo: Unesp.F. Ureña tece largo comentário sobre a vida cultural latinoamericana. Boyle. porém existe algo essencial no homem que mantém mesmo as culturas mais fechadas com um potencial de ser inerentemente ilimitadas e abertas. em sua história. catolicismo. Voltaire. manifestações das Luzes se fizeram sentir fortemente nos aspectos sociais.) É claro que os corpos humanos diferem. Leibniz. Pedro (1979): Historia de la cultura en la América Hispánica. p. Terry Eagleton lembra que A sociabilidade se impõe a nós como indivíduos em um nível ainda mais profundo do que a cultura. Disponível em: <http:// w w w.. en 1785. In: FIGUEROA. Copérnico. México: Fondo de Cultura Económica. Madrid: Iberoamericana. Silvia Navia (2005): Las historias naturales de Francisco Javier Clavijero. inclusive. se mantuvieron en circulación secreta todavía cuando se les consideró peligrosos y se prohibió su lectura (HENRIQUEZ UREÑA. GERBI.

2010. 1988. Disponível em: <http://www. Instituto de Estudos ilustr mérica La tina. Avançados da Universidade de São Paulo. Aluna do mestrado em Teoria da Literatura através do Programa de Pós-graduação em Letras da Universidade Federal de Pernambuco. set/ dez. São Paulo. Nota * Bolsista CNPQ.br/ s c i e l o . p h p ? p i d = S 0 1 0 3 40141988000300003&script=sci_arttext>. Roberto (1988) L e i t tu ras Ra ilust r ação na A mér ica L at ina. . Acesso em: 08 mai.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 79 ur as de R a y nal e a VENTURA.scielo.

mapuche ou guarani. Em meio ao trabalho acabam sendo preteridas outras possibilidades de apreciação estética e crítica desse universo. em seu conjunto mais amplo. entre outras experiências equivalentes relacionadas aos povos maia. preocupados não apenas com o trabalho de afirmação de seus pertencimentos etnoculturais e suas identidades literárias. até certo ponto. diversos autores e autoras se movimentaram e se movimentam no sentido de instrumentalizar as línguas locais. na condição de veículos de comunicação interétnica e de elaboração estética. antologias ou coletâneas brasileiras de literaturas de língua espanhola. por exemplo. bem como as manifestações literárias bilíngües do povo zapoteca no México. Tal situação é agravada pela quase nenhuma circulação desses textos poéticos e narrativos entre nós. ausentes que estão na maioria dos livros. que chegou mesmo a reivindicar no livro intitulado Decolonising the Mind – The . como é o caso das literaturas africanas de língua espanhola ou os registros literários hispano-filipinos em espanhol e em chabacano. as quais via de regra contemplam regularmente a experiência peninsular e. O uso de idiomas europeus como língua de literatura em detrimento dos idiomas locais veio configurando questão bastante delicada por dividir a opinião de realizadores. Os argumentos favoráveis a esta utilização foram rechaçados por escritores como o queniano Ngugi Wa Thiong’o. manuais. Na África e na América hispânica. investindo numa maior visibilidade internacional das chamadas literaturas menores ou periféricas. por exemplo. críticos e observadores da cultura em alguns espaços geopolíticos conformados pela experiência colonial. buscaremos desenvolver ao longo deste estudo uma breve reflexão acerca do exercício de tradução cultural e linguística que permeia algumas dessas manifestações poéticas e narrativas.80 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS A HISPANIDADE DISPOSTA EM PARALELO: VOZES LITERÁRIAS CONTEMPORÂNEAS DOS POVOS ORIGINÁRIOS DAS AMÉRICAS Amarino Oliveira de Queiroz Universidade Federal do Rio Grande do Norte As experiências literárias contemporâneas cultivadas em língua espanhola pelos chamados povos originários das Américas configura matéria de pouquíssima visibilidade no ambiente da pesquisa acadêmica brasileira. quíchua. as manifestações do universo canônico hispano-americano. passaremos a referir como literaturas em espanhol dos povos originários das Américas. lado a lado com a língua do colonizador. compêndios. Na tentativa de identificar criações que.

o que defendeu no seu ensaio Decolonising the Mind . contrariando . foram imediatamente traduzidas do gikuyu para o inglês? Na verdade. 1992. 2006. Thiong’o baseia seu argumento numa possível maior capacidade de apreensão das culturas africanas através das próprias línguas autóctones. Nas modernas literaturas da África. son. isto agravado pelo fato de que é supostamente na Europa e nos Estados Unidos que se encontra a maior parte do público das literaturas anglófonas e francófonas. que el portugués de Luandino Vieira o de Pepetela no es el de Coimbra o Lisboa. atendo-se ao modo pelo qual a utilização das línguas tomadas de empréstimo legitima o exercício criativo desses autores. escritos ainda em inglês. o gikuyu. não é propriamente o uso do idioma herdado do colonizador como meio de expressão literár ia que torna as literatur as afr icanas cultur almente inautênticas ou mesmo as circunscreve aos domínios ur banos ou alfabetizados. que o imperialismo cultural manifesta-se no domínio lingüístico. romancista e crítico Woyle Soynka: primeiro escritor da África negra a conquistar. Ele que o diga. para quem: Ngugi esquece-se. sino el que se habla en los suburbios de Abidján o Brazzaville. a posição dos escritores africanos francófonos admite a legitimidade e reivindica o uso dos dois procedimentos. Neste sentido. publicidade e difusão da obra literária. (VENÂNCIO. são exemplos perfeitos de como a ficção africana nada perde em autenticidade cultural por utilizar idiomas da colonização como meio de expressão literária. sino el de la gente iletrada de Luanda o Maputo. tais como The River Between ou Weep not. Que nos diga por que razão as suas últimas obras. como ya sucede en Hispanoamérica. 61). p. ante todo. e também noutros. em 1986. sino el de Malabo y Bata. que el inglés de Amos Tutuola. sino el de los obreros de Lagos. co-autor). Soynka empreende em seu exercício poético e ficcional uma combinação entre técnicas assimiladas do Ocidente e o expressivo universo cultural iorubano. cultural e literário de intenção hispanista as múltiplas realidades através das quais . (LEITE: 1998. entendendo que o vasto leque de possibilidades investigativas que se abre no espaço acadêmico brasileiro revela tanto a urgência quanto a necessidade de atualizar e incluir. o prêmio Nobel de Literatura. em linhas gerais. p. 3) De acordo com grande par te da crítica literária africanista que adotou opiniões concordantes. propriamente dito. todas las lenguas. el español de María Nsue y de Maximiliano Nkogo no es el de Burgos o Madrid. recorrendo à memória e às tradições orais bem como a um profundo engajamento social e político. Devil on the cross (romance) e I Will Marry when I want (drama.de certa forma . Diante do exposto. o argumento defendido por Ngugi Wa Thiong’o não chegaria a estabelecer um consenso sequer entre seus pares. Chinua Achebe o Ben Okry no es el de Oxford. 23). revelando caminhos diversificados e abrindo espaço para interessantes soluções não só no fazer literário como na própria estrutura das línguas “tomadas de empréstimo”. instrumentos de comunicación. já que. o recurso exclusivo das línguas africanas para a produção literária escrita do continente. Esta atitude foi contestada por vários autores e críticos literários como é o caso do angolano João Carlos Venâncio. Descrevendo as razões que o motivaram a substituir o inglês pela sua primeira língua. dentro do debate lingüístico. ¿Por qué no reconocer entonces que la lengua. y lo importante es cómo y para qué se usan? (NDONGO-BIDYOGO. como o da publicação. p. de 1986. é pertinente a constatação do escritor e crítico literário guinéu-equatoriano Donato Ndongo Bidyogo: Dicen los expertos que el francés en que escribieron Amadou Kourouma o Sony Labou-Tansi no es el de París.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 81 Politics of Language in African Literature. do Caribe e da América Latina produzidas em línguas europeias é cada vez maior o registro de experiências estética e politicamente inovadoras. child . disposição também compartilhada pela maioria dos escritores anglófonos. contudo. Para trazer outro importante nome da literatura nigeriana escrita originalmente em inglês. y que. Os próprios livros de Ngugi. destaque-se o exemplo do poeta.

82 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS se movimenta o castelhano em sua condição de idioma de comunicação. tanto como estratégia de visibilização dos discursos poéticos e narrativos subalternizados como na condição de espaço de resignificação cultural e re-apropriação lingüística como parecem descrever. seja pela interferência dos idiomas autóctones e de outras línguas estrangeiras. se anticipa en el terreno de la literatura escrita. estético. En efecto. gerando assim momentos de afirmação positiva e de reconhecimento internacional. De modo assemelhado ao que ocorre com a escrita africana contemporânea em português e espanhol. em muitos casos . passando pelo peruano José María Arguedas até o guatemalteco Miguel Ángel Asturias. epistêmico e político representa importante fenômeno ocorrido na produção simbólica do continente: En estas literaturas se reconfiguran las subjetividades indígenas y se cuestiona la hegemonía de “literaturas nacionales” circunscritas al imaginario de la población hegemónica criollomestiza de los Estados-naciones dominantes. seja por um particular procedimento de reinvenção lingüística e renovação estilística motivado pela interpenetração cultural cada vez mais ativa e diversificada. pese as sucessivas tentativas de apagamento decorrentes da experiência colonial. Muitos de seus autores encontrariam forte substância na tradição pré-colombiana. sobretudo. a partir de experiências literárias à margem. uma vez que tal atividade. pretendemos chamar a atenção para o caráter inclusivo desta condição plural e polifônica.e também em língua castelhana. é sabido que tanto através da tradição oral como por meio do exercício da escrita nas próprias línguas autóctones e em castelhano seu pensamento e expressão cultural tiveram continuidade e difusão. Um extenso leque de exemplos caracteriza esta tendência. Luis Cárcamo-Huechante e Emilio del Valle Escalante (2012) argumentam que a emergência desse corpus autoral não apenas põe fim ao império dos indigenismos crioulos e mestiços. produzidas em contextos onde também a língua castelhana comparece como protagonista lado a lado com outros idiomas de literatura. no imaginário americano e na realidade sócio-cultural dos povos indígenas e seus descendentes. entendida como um projeto lingüístico. artigo que intenta realizar um breve mapeamento das escritas contemporâneas de autores e autoras na América de língua oficial espanhola. os pesquisadores Arturo Arias. La emergencia de dicha producción literaria se ha vuelto notable en países como Perú (quechua). Bem a propósito. la lucha por la restitución de soberanías y autonomías territoriales en el nivel político y social. período que corresponde à independência política e à consolidação dos vários novos Estados americanos. que hoy articula las movilizaciones de los pueblos originarios. algumas vozes literárias contemporâneas emanadas dentre os povos originários das Américas. para ficar com apenas quatro desses nomes. . como também inscreve a literatura num território de agenciamento indígena dentro do atual contexto latino-americano. fazendo com que esta auto-representação e essa autodeterminação literária dos povos originários das Américas configurem um modo de dotar-se de soberania intelectual. ensino e literatura. Esta característica é flagrante já a partir de meados do século XIX. No que diz respeito aos povos originários das Américas propriamente. em “Literaturas de Abya Yala” 1. cultura. Tal caráter parece pontuar grande parte dos discursos identitários formatados. envolvendo incontáveis escritores que vão desde o boliviano Alcides Arguedas ao equatoriano Jorge Icaza. Mas é principalmente durante todo o século posterior que várias destas literaturas escritas passaram a experimentar de efervescência criativa na busca de uma autonomia estética. o processo de re-apropriação da língua do colonizador constitui uma das tendências claramente identificáveis em grande parte da obra assinada por representativos nomes das literaturas latino-americanas escritas nestes dois idiomas ibéricos.

uma vez que Poetas y escritores indígenas contemporáneos mixturan además sus lecturas públicas con recursos sonoros. 2009. o primeiro romance bilíngüe espanhol-maia. 2012. CÁRCAMO-HUECHANTE. também ela própria poetisa bilíngue entende que esta produção literária contemporânea dos povos originários das Américas no puede concebirse sino de manera bilingüe. como é o caso de XTeya. Asimismo. han hecho de este texto un ejemplo significativo de la nueva producción literaria en las lenguas indígenas de México. ESCALANTE. 2012. Dichas prácticas indigeneizantes se suelen asimismo enriquecer con el uso de las técnicas contemporáneas de la performance. as práticas literárias desenvolvidas por vários desses criadores e criadoras não estão delimitadas apenas pelo chamado universo letrado. uma experiência estética inovadora e politicamente instigante como exercício de tradução cultural. De modo distinto ao de outras publicações realizadas anteriormente. Tal es el caso de las “lecturas literarias” de los poetas Leonel Lienlaf y Víctor Cifuentes (cultores del ül o canto mapuche). Los textos no se agotan en el espacio escrito. Esto conlleva una desestabilización de nuestros marcos categoriales e invita a indigenizar “la ciudad letrada” (. la autora incursiona con su novela bilingüe en un género tradicionalmente escrito en español. las temáticas sociales. ni en la adhesión fiel a los modelos hispánicos. tematizando a mobilização das populações autóctones na península de Yucatán. un corazón de mujer). la capacidad de cruzar barreras lingüísticas y formales. 25-26) En este nuevo contexto. ya que es una creación pensada en alguno de los idiomas originarios de nuestro país. pero con una perspectiva interna a los grupos mayas. u puksiikal koolel (Teya. especialmente en las últimas dos décadas. tradutora e . visuales y corporales provenientes de sus tradiciones rituales nativas. Tal es el caso de la literatura indígena en Colombia (. por lo que para poder llegar a una diversidad de lectores y escuchas. Assim vêm se multiplicando experiências assemelhadas nos vários quadrantes da antiga América de colonização ibérica. p.. que saca origen de la literatura hispanoamericana. El estilo de la autora. expresión de una cultura que ya no se puede encasillar en un pasado prehispánico. 9) o que parece configurar.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 83 Chile (mapuche). Así. incluyendo aquellos lenguajes del entorno animal y natural. Alimentando a proposta a partir de um lugar de enunciação que se aproxima ao de Marisol Ceh Moo.). (ARIAS. en lengua española. lançado em 2009 pela ensaísta. Não obstante. pero de permanecer sólo en éste. Guatemala (maya)... paulatinamente. contista. o de Rosa Chávez (ritualidad colectiva maya).. (. comienzan a ganar visibilidad otras literaturas indígenas emergentes. necesariamente tiene que ser traducida al español.) También resaltan en este proceso las producciones literarias escritas de autores nativos de la Amazonía. ainda que tomando como veículo de expressão e divulgação a língua do antigo colonizador. musicales. México (sobre todo maya. a autora preteriu a retomada de relatos sobre a criação do mundo e outros elementos da cultura e da cosmogonia maia para investir na ficcionalização da vida e do assassinato de uma liderança social ocorrido nos anos 70 do século passado. pp. las identidades urbanas de la contemporaneidad indígena comienzan a adquirir notoriedad en narraciones y poemarios. (Pineda. (CRAVERI. para além do seu contexto específico de produção. en línea. (ARIAS. ESCALANTE. ejemplificándose en la poesía de Dourvalino Moura Fernández (pueblo desana) y Daniel Munduruku (pueblo mundurucu) en Brasil. de acordo com a investigadora Michela Craveri. uma tarefa problemática.. a ensaísta e tradutora zapoteca Irma Pineda Santiago. entretanto. 7-8) Não obstante. Lorenzo Aillapán (sonidos pajariles del entorno mapuche). a obra de Marisol Ceh Moo se caracteriza por un equilibrio entre las fuentes prehispánicas y una experimentación formal. su difusión estaría restringida al ámbito comunitario. pp. 2012).. CÁRCAMOHUECHANTE. Traduzir e traduzir-se configuram. en otras latitudes del continente. zapoteca y náhuatl) y.) romancista yucateca Marisol Ceh Moo. Se amplifican en el evento de la performance pública.

é a própria Irma Pineda Santiago quem indaga sobre o papel que devem desempenhar os escritores indígenas no futuro. Recife: UFPE. CEH MOO. Amarino Oliveira de. mas também como uma riqueza a ser explorada no sentido de fazer valer. Nota 1 No idioma cuna do Panamá. La autotraducción en la Literatura Indígena: ¿cuestión estética o soledad? Disponível em: www. . pp. Lisboa: Ministério da Educação . conforme já apontava Antonio Cornejo Polar (1999) na penúltima década do século passado. A dinâmica ascendente dessas escritas bilingües. 1986. 2do. pois. 1990. Curry. e onde o saber indígena seja um componente fundamental das novas sociedades. 2007. e é através dela que os movimentos indígenas costumam identificar o continente americano em sua totalidade. Antonio Cornejo. 25-26. Semestre de 1999. Lasaforum.84 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Retomando as considerações do poeta e professor de literaturas indígenas Natalio Hernández (1990). “X-Teya. Conferencia en Hofstra University. Ngugi wa. Literatura e poder na África lusófona. Portsmouth. 2008.hofstra. para que juntos possam contribuir para a conformação de um novo tecido social onde as novas gerações vivam e convivam num ambiente social pluricultural e plurilingüe. não apenas um conceito. Disponível em: http://www. como um desafio permanente. ESCALANTE. “Literaturas de Abya Yala”. Ana Mafalda. Decolonizing the mind: the politics of language on African Literature. n.gob. Teya. México: DGCP. THIONG’O.pdf Acessado em 12 ago 2012. 2006. Oralidades e escritas nas literaturas africanas. Nº 50. Referências bibliográficas ARIAS. 3 de abril. “Para una teoria literaria hispanoamericana”. Marisol. CÁRCAMO-HUECHANTE. de Marisol Ceh Moo”.H. fazendo suas as palavras do professor mexicano e defendendo. LEITE. Emilio del Valle. Irma. tributárias das criações na oralidade e do letramento em língua espanhola se nos coloca. HERNÁNDEZ. CRAVERI. 9-12 QUEIROZ. winter 2012 : volume xliii : issue 1. Tese de Doutorado.: Heinemann. VENÂNCIO.1998.culturaspopulareseindigenas. um dos iniciadores do movimento de escritores indígenas no México. Luis. mas também um exercício cada vez menos restritivo de literatura e do próprio fazer literário. un corazón de mujer. Literatura guineana: una realidad emergente. Programa de Pós-graduação em Letras. Michela. 13. As inscrituras do verbo: dizibilidades performáticas da palavra poética africana. Rev ista de Crítica Literaria Latinoamericana. Lisboa: Colibri. Natalio. ayer y hoy. Arturo.pdf.: Consejo Nacional para la Cultura y las Artes (Letras Indígenas Contemporáneas). Donato. pp. por conseguinte. PINEDA.Instituto de Cultura e Língua Portuguesa. NDONGO-BIDYOGO.1992.mxcppdfla_auto traduccion_irma_pineda. un corazón de mujer. 2009. o estabelecimento de um diálogo permanente entre escritores de diferentes línguas e culturas no mundo. México D. London: J. POLAR. Lima-Hanover. El Caracol. N. José Carlos.F. Literatura Indígena. Acesso em: 5 mai 2006. Año XXV.edu/ PDF/lacs_event_040306. a expressão Abya Yala significa “tierra en plena madurez”.

a colonização e a descolonização intelectual. Presente como língua co-oficial até o ano de 1987 ao lado do tagalo e do inglês. atualmente o castelhano enfrenta um delicado processo político particularidades e implicações culturais do idioma espanhol e sua apreciação como língua de literatura a partir de outros contextos que não o peninsular ibérico e o hispano-americano parecem representar. inclusive. as leis do mercado editorial. as relações entre o cânone e as margens ou a eleição de prioridades na hora de propor e cumprir os atuais componentes curriculares dos cursos de Letras. as relações do guanche autóctone com o castelhano das Canárias e suas implicações culturais. o chamorro de Guam e das ilhas Marianas: cada um destes exemplos aponta em maior ou menor grau para a emergência do tema proposto. a chamada literatura filhispana. no artesanato. ou literatura filipina escrita em . as diversas língua espanhola. na África. sugerindo uma discussão que passa por questões diversas como o direito à informação. Com destaque na expressão arquitetônica. o ritual católico da crucificação durante as festividades da Semana Santa. a literatura hispano-negro-africana da Guiné Equatorial. ao sul do Pacífico. por exemplo. Vejamos. do chabacano e de outros idiomas nacionais das Filipinas. na dança ou na manutenção de uma religiosidade católica que perpetua.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 85 ÁFRICA. a crescente utilização dessa língua como recurso literário por parte de vários autores e autoras oficialmente francófonos nos Camarões e na Costa do Marfim. uma grande área a descoberto no que tange aos estudos hispanistas desenvolvidos em território brasileiro até o presente. o jaquetía ou haquitía do Marrocos. Se nos ocuparmos da Ásia e da Oceania teremos o judeu-espanhol ou ladino de Israel e sua presença na comunicação e na literatura. a resistente presença do idioma na comunicação e na expressão literária produzida no Saara Ocidental e nos acampamentos para refugiados saarauis em Tinduf. e a interferência do castelhano na formação do tagalo. ainda. as inserções hispânicas sobre a cultura rapanui da ilha de Páscoa. a questão identitária hispânica revela algumas complexidades do ponto de vista linguístico nas Filipinas. com suas respectivas literaturas. ÁSIA E OCEANIA: FRONTEIRAS FLUIDAS DO HISPANISMO Amarino Oliveira de Queiroz Universidade Federal do Rio Grande do Norte Salvo raras exceções. Argélia.

Cuando Filipinas “siempre” ha sido hispanizada. Elisabeth Medina. Gómez Rivera refere ainda a existência de uma literatura hispano-filipina contemporânea. ou pela iniciativa. Somente no século XVI. o surgimento de uma expressão literária filipina é bastante anterior à chegada dos colonizadores espanhóis. apesar da atual vigência e prestígio interno do idioma inglês. dentro e fora do arquipélago. opinando sobre a polêmica instaurada a partir de uma possível “rehispanización” cultural e linguística do arquipélago das Filipinas.. como veremos a seguir. por volta de 1593. resistindo como língua de literatura. conforme mencionado. María Dolores Tapia del Río. a da decadência. y ahora de nosotros frente a nosotros mismos. Edmundo Farolán Romero. correspondendo ao período formativo e onde predominaram a poesia e a crônica. poéticos e da letra do hino nacional filipino. a escritora Elisabeth Medina (2000) afirmaria que: . essa expressão contemporânea da literatura filipina em língua castelhana é alimentada pela publicação de revistas como “Guirnalda Polar” ou “Perro Berde”. também se expressam literariamente em castelhano. Em sua Breve Historia de la Literatura Filipina en Español. com destaque para o nome de José Rizal. o teatro. Concepción Huerta. Cultivada inicialmente em tagalo através de alfabeto silábico próprio. Esse caráter fil-hispânico é igualmente defendido por outros setores artísticos e culturais naquele arquipélago asiático. tanto de los españoles y de los norteamericanos. para a formação do idioma chabacano e de outras línguas locais. Não obstante. Bem a propósito. Federico Licsi Espino e Mariano Loyola. de artistas que defendem uma estética abertamente fil-hispana. representada por nomes como os de Antonio Fernández Pasión. ou seja. no século passado.los filipinos somos un nexo viviente entre Occidente y Oriente. Somos de los dos mundos y los dos mundos son nuestros. autor de importantes textos ficcionais.86 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS de restabelecimento desta condição. e mais Edwin Agustín Lozada. além de contribuir. Marra Lanot ou Wystan de la Peña. De allí el debate actual y absurdo de si Filipinas debería hispanizarse de nuevo o no. o escritor Guillermo Gómez Rivera (2001) propõe uma periodização dessa literatura em quatro principais etapas: a inicial. durante o século XIX. dramáticos. é que foram aparecendo os primeiros criadores. na atualidade.. na qual floresceram. caso do já referido cantor pop Josh Santana ou da artista plástica e escritora Paulina Constancia. uma simbiose cultural filipina perpassada historicamente por elementos autóctones e hispânicos. o conto e o romance. A essa lista de autores e autoras podemos acrescentar o próprio Guillermo Gómez Rivera. causada pela supressão do castelhano e da crescente anglicização do país. apesar de exemplos curiosos como o do cantor Josh Santana. O debate acerca do tema provoca opiniões diversificadas e nem sempre favoráveis nos mais diferentes setores da vida nacional. encontrando reverberação também. a da plenitude. no campo cultural. além da poesía e do ensaio. realizada por missionários católicos. rápidamente sufrieron primero el trueque cultural y la supresión del pasado. na sua literatura contemporânea. y después. dijo que éramos indios o asiáticos y por lo tanto debemos atenernos a ser lo que somos y nada más. a quase totalidade destes registros escritos desapareceu. com a introdução da escrita em espanhol com caracteres latinos. que também defende o conceito de fil-hispano em parte de sua obra gravada simultaneamente em inglês e espanhol. La mirada naturalista y determinista. criadores bilíngües que. Além dos trabalhos individuais em livro. la franca . eliminada por iniciativa dos conquistadores da mesma maneira como ocorreu com a maioria dos códices pré-colombianos nas Américas. a de crescimento. em que se desenvolveram a poesia e o ensaio. Sólo que los “filipinos” nacidos a partir de 1901.

textos teatrais e ensaios críticos. tagalo. disposto entre parênteses. A G.. (MEDINA. la pregunta. dividida entre os dois idiomas oficiais do pais: o árabe hassania e o espanhol. além do espanhol. En su lugar el inglés y su música tonta. sigue manteniéndose viva y representando una tradición que para muchos filipinos es patrimonio de identidad. portanto. é novamente o hispanista italiano Andréa Gallo quem observa: el gran problema del escritor filipino que decide escribir en español es la falta de un público nacional y en consecuencia la falta de un público internacional. Sin embargo esta situación no ha decretado la muerte definitiva y permanente de esta literatura.) […] Pero pronto llegaron las aves de rapiña— El gringo o el yanqui su nombre no importa. Joe y MacArthur. bien en el suelo patrio. política e identitária. el nombre Filipinas. o bien en el extranjero (fenómeno en cierta forma común a otras literaturas post-coloniales). Allí es donde me meto. La nobleza cristiana se esfuma en estas islas.] (FAROLÁN. Nascido em Manila em 1943. ¿quién soy yo? Y busco en lo español al indio filipino. 2000 . Se para israelenses que escrevem em judeu-espanhol (Avner Pérez. textos que a menudo hablan de Filipinas o que de todas formas presentan un enfoque. A ese archipiélago de numerosas islas Descubiertas el año mil quinientos veintiuno. Edmundo Farolán (1981) apresenta uma voz lírica ambígua que. ainda que escrevendo paralelamente em outros idiomas por motivações muitas vezes coincidentes. Honrando al Rey Felipe.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 87 tergiversación y aniquilamiento de su conciencia histórica. francês e outros . (Y yo me desespero. ni en los países hispanos. en línea). Em seu poema “Elogio a la Hispanidad”. Tras dos razas unidas. Soy “brown” americano. “pone de manifiesto el sincretismo original de la nación filipina” e estabelece. (GALLO. Edmundo Farolán Romero revela através da voz lírica o duplo lugar cultural de um autor que. de familias filipinas. (. un punto de vista sobre la realidad. Inongo-V i-Mak ako mé. em países oficialmente francófonos da África diversos escritores e escritoras ak o mé (Robert Johlio. (En esta lucha del Yo. Lo mataron al león el león de Castilla.) por filipinos. Céline Cléménce Ndé e Mbol Nang. 152-153). idiomas. transformaram o castelhano literário em sua verdadeira plataforma de expressão. 20062007. a este camino voy yo. pp. la espada en la mano. al dólar y al peso. Encuentro el hispanismo de Aparri hasta Joló: Filipinas y España. I. Margalit Matitiahu) e filipinos que escrevem em chabacano e espanhol o hispano resiste. Situação similar vive a literatura produzida no Saara Ocidental. Apostando. una interpretación del mundo peculiarmente filipina y curiosamente son textos que se dirigen a los filipinos... se expressa literariamente em inglés.. contos. para dizê-lo com palavras de Andreas Gallo (2007:160). [.. O uso literário do castelhano em países asiáticos como as Filipinas é uma realidade compartilhada com a de alguns Estados africanos. 1981. este país mestizo. p. Don Segundo Sombra.. Farolán desenvolve outras atividades lingüísticas como a tradução para o tagalo do conhecido romance de Ricardo Güiraldes. Guy Merlin V i-M Tadoun. Germain Metamno. convertendo-se numa opção estético-literária. una sensibilidad.) Estamos delante de textos escritos y publicados (. um curioso diálogo intercultural: Y llegó el español a esas islas indias Magallanes su nombre. Ya no soy cristiano. 30-31) Autor de poesia. Me gusta el dinero. novela. entre outros). na permanência e atualidade dessa particular expressão literária. hombres y mujeres nacidos en Filipinas. editor de literatura e professor de língua espanhola. que a través de diferentes voces. Me gusta jazz y disco.

além de desenvolverem intensa relação com o universo hispano-americano. preocupada por todo lo que acontecía en su entorno. a poesia em castelhano da Espanha e da América e a luta pela independência do Reino de Marrocos. entre os mundos arábico-africano e europeu-ibérico. o que teria motivado a sua invasão e ocupação militar quase que imediatamente após declarada a sua independência. Fatma Ghalia ou Limam Boisha entre eles. a ampliação desses espaços. Quanto à atividade literária. esta recente literatura hispano-saaraui envereda ainda pelo romance. o Saara Ocidental também divide fronteiras com a Argélia e a Mauritânia. sob condições muito particulares. em síntese. já que grande parte de seus escritores e escritoras vive fora do país. três influências principais: a tradição oral fortemente apegada à natureza e às vivências de seu país. sino. ou Frente Polisario. diversos criadores se dedicam também à prosa. Um juízo descuidado poderá classificá-la como incipiente. muitos dos autores e autoras saarauis refletem. Zahra Hasnaui. no sólo la lucha del pueblo saharaui y sus aspiraciones de libertad. No es hasta finales de los ochenta y principios de los noventa cuando parece que comienzan a aparecer atisbos claros de una poesía seria. la felicidad y la profunda pasión por hacer que la vida de los saharauis deje de ser rutinariamente triste y dolorosa. de quem está fisicamente separado por enormes muros especialmente construídos para este fim. na condição de língua co-oficial ao lado de uma modalidade local do idioma árabe. Mesmo com uma produção mais reduzida. Localizado ao sul do Marrocos. com escritores como Ahmed Mulay Ali. a produção saaraui em castelhano revela uma forte interferência da criação poética e narrativa na oralidade. también una evidente preocupación por lo que pasaba en el mundo. De acordo com o estudioso Francisco Cenamor (2008). Además de temas que reflejan la vida cotidiana de la sociedad saharaui no exenta de sentimientos tan universales como el amor. no mundo árabe o saaraui é conhecido como um povo de poetas e sua atividade apresenta. A língua espanhola aparece ali. Divididos. real e simbolicamente. também ao longo de suas obras uma multiplicidade de vivências culturais que por sua vez reivindicam. Mohamed Sidati ou Abderrahman Budda Hamadi. recuperada da tradição para o formato impresso através de vários livros que vêm sendo publicados. o país é rico em jazidas de fosfato e em atividade pesqueira. Não obstante. porém torna-se necessário acrescentar que o seu surgimento é relativamente recente: as primeiras manifestações literárias registradas em espanhol por autores locais tiveram lugar nas últimas décadas do século XX. Apesar de ter quase toda a superfície territorial inserida dentro da zona desértica homônima. sobretudo através do conto e do ensaio: Mohamed Ali Ali Salem. Bahia Mahmud Awah. Larosi Haidar. também conhecido por Ebnu. 1 . acumula força nos acampamentos para refugiados saarauis montados em território argelino. embora venha perdendo espaço gradativamente nos territórios ocupados. pois. Conforme assegura o poeta Mohamed Salem Abdelfatah (2007). passando a ser objeto de uma disputa política que envolve confrontos armados e negociações diplomáticas sem solução até os dias atuais. que já vem se arrastando há mais de trinta anos. ganhando expressividade como língua de resistência cultural que se caracteriza pela influência de arcaísmos do castelhano ou a assimilação do idioma árabe. Mohamidi Fakal-la. sobretudo a partir do exterior. a República Árabe Democrática Saaraui foi invadida e ocupada militarmente pelo exército marroquino. como dissemos. profunda.88 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Território cedido por acordo em fins de 1975 pela monarquia espanhola ao Marrocos e à Mauritânia. Além de cultivar fundamentalmente a poesia. passados três meses de sua autoproclamada e até hoje não reconhecida independência política comandada pela Frente Popular de Liberación de Saguía el Hamra y Río de Oro.

entendendo que esses espaços representam um contributo à parte na perspectiva do redimensionamento de conceitos como hispânico e hispanidade (CORDIVIOLA. . 2005.com/numero25/ sahara/sahara. dispondo-as de forma mais abrangente e buscando assimilar a fluidez com que têm se movimentado. a relação com outras alteridades africanas. insistem em brotar. pois. ideias e sentimentos que ali encontram lugar. Salka Embar ek ou Fatma Ghalia Abdesalam. Limam. portanto. Chejdan Mahmud. constituem o coletivo Limam Boisha. Disponível em: http://www. Las Palmas: Puentepalo. agosto 2003. ao confessar a existência real e simbólica de “tres…/ tres amantes: Sáhara. 1998). O escritor integra a chamada Generación de La Amistad. Mohamed Salem. Um mundo singular. CORDIVIOLA.ariadna-rc. os recortes aqui esboçados buscaram realizar o registro de alguns nomes presente y futuro”. Mohamed Salem. Saleh Abdalahi. interferências como as dos escritores filipinos Elisabeth Medina e Edmundo Farolán ou dos saarauis Mohamed Salem Abdelfatah e Limam Boisha.wordpress. embora a literatura saaraui em espanhol conte com ma A hame d. Ali Salem Iselmu. poeticamente. Desafiando. a mescla das experiências. In: Revista Ariadna 25. sua emergente presença no cenário das letras contemporâneas assinala também que à literatura hispano-saaraui toca caminhar afirmativamente ao lado das outras tantas expressões literárias que a partir da África. Luali Lehsan. as incertezas política do país. Recife: PGLetras/UFPE. In: La Guirnalda Polar Núm. “La poesía saharaui”. Além de Mohamed Salem Abdelfatah.htm Acessado em 3 abr 2007. Bahía Awah. Edmundo. tão interessantes quanto desconhecidas. 82 – Pluralidades. FUENTES. BOISHA. Los versos de la madera . “Poesía saharaui en castellano”. Imaginação. Perpectivando. Embarek O conjunto de elementos híbridos resultantes do progressivo contato entre realidades díspares como a afro-arábica e a hispana encontram na expressão cultural saaraui motivação criadora permanente. hispanas e latino-americanas . culturais e literárias relacionadas ao castelhano hoje. 2005. Disponível em: http://letraclara. “Literatura hispanofilipina: pasado. Cuba y Canarias. converte-se numa ponte que tende a promover um rico encontro entre a cultura autóctone do Saara Ocidental com as culturas espanhola e iberoamericana. especial: Cultura y literatura saharaui. S alka outras representantes como F at atma hamed. tantas vezes legitimadoras de uma pureza original tanto descabida como anacrônica.aquí particularizadas nos recortes canário e cubano se revela na forma de uma sensível metáfora para atestar. as várias realidades linguísticas. duas de suas vozes no feminino. parece-nos necessário e inadiável incluir. Sukeina Taleb e Zahra Hasnaui. felizmente. / y a las tres / las quiero por igual”. Conforme se pode observar através do sujeito poético de “Poligamia”.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 89 Mohamed Salem Abdelfatah Ebnu atuais das letras hispano-filipinas e saarauis. pela projeção que está alcançando. CENAMOR. no debate brasileiro de intenção hispanista. Francisco. a fim de que questões como a condição da hispanidade se coloque num patamar além das reinvidicações “nacionalistas”. memória e conflito na literatura hispano-americana do século XVI. um dos mais ativos grupamentos de escritores reunidos em torno da causa saaraui no exílio. complementa seu raciocínio defendendo que a poesia local em espanhol. FAROLÁN. pluralizando-os culturalmente e estendendo pela fluidez de suas fronteiras a transversalidade de manifestações como essas. 2004. poema de Limam Boisha publicado em Los versos de la madera (2004).com/ Acesado em: 22 abr 2008. À guisa de ilustração. Referências bibliográficas ABDELFATAH. Alfredo. culturas.

Maceió. NOTA 1 ABDELFATAH. Elisabeth. 1998. 150-174. QUEIROZ. RIVERA.org/hispanoasia/5218filipinas-hispanizada-una-buena-opcion. “¿Literatura Hispano-Filipina Disponible en: http://hispanismo. In: Tercera primavera. 2009. No 2 (2006) & Vol 4. Acessado em: 02 abr 2006. 1981. “Filipinas Hispanizada: ¿Una Buena Opción?” In: Hispanismo .com/numero25/sahara/sahara. “Breve Historia de la Literatura Filipina en Español. In: Revista Ariadna. “Elogio a la Hispanidad”.90 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS FAROLÁN. Andrea. No 1 (2007). Vol 3. Programação e Caderno de Resumos. Disponible en: http:// www. p.com/kaibigankastil/rivera7. A.html. In: II Congreso Nordestino de Español. Disponible en http://www. Edmundo. “La poesía saharaui”. In: Humanities Diliman . Quezón City. 2009. MEDINA. especial: Cultura y literatura saharaui. Guillermo Gómez. FUENTES. 53.htm Acceso en: 3 abr 2007 . pp. 28 de marzo de 2000. GALLO. Filipinas. Madrid: Taurus. “De la invisible presencia: voces literarias en español desde África y Asia”. Contemporánea? Un ejemplo en la poesía de Edmundo Farolán Romero”. número 25. Mohamed Salem.geocities.html Acessado em: 4 abr 2009. Bogotá: Editorial Cabrera. O.ariadna-rc. Carlos. Org. El espejo enterrado.

pero obser vamos un cambio en la estructura de la novela. p. Estamos hablando. Entre Visillos es una novela que forma parte de la segunda etapa. desaparece el ansia del testimonio objetivo y surge una visión dialéctica de la realidad española basada en la confrontación de los estratos ideológicos y sociales. la neorrealista y la dialéctica. se dividen en tres tipos: la existencialista y tremendista. de la Guerra Civil Española (1936 – 1939) que dividió el país en dos partes (la España Nacionalista y la España Republicana). pobreza y varios muertos en ambas partes. la neorrealista. por Carmen Martín Gaite. Las novelas de posguerra. tal forma nueva tenía como objetivos retratar el cotidiano de las ciudades y la crisis existencial por la que pasaba el individuo que en ellas vivía. por lo tanto. tras pasar por una sangrienta guerra que duró tres años y que dejó sus rastros destructivos en las décadas posteriores. JULIA. la dialéctica.” (RICO. MERCEDES Y ELVIRA – RETRATO DE LA MUJER ESPAÑOLA EN LA POSGUERRA Ana Carolina da Silva Pinto PG .ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 91 NATALIA. La primera etapa. la neorrealista. cuya lección sacamos de su Historia de la novela social española . Finalmente. Según Sanz Villanueva. 411). Publicada en 1957. La segunda etapa. sigue con el tema de la de la vida en las ciudades y la angustia existencial del individuo. de forma que se observa que “la mirada apasionada del autor comienza a ser substituida por el frío contemplar de la cámara fotográfica. la tercera etapa. establecido terminada la guerra con la victoria del bando nacionalista que duró treinta y seis años en el poder (1939 – 1975). la existencialista. 1980. termina exactamente en el año de 1950 y tenía como característica estudiar la vida en las ciudades de los años 40 y la angustia existencial del individuo que en ellas vivía. en la que las técnicas realistas no fueron una moda. o sea. generando odio. y del régimen franquista. pues el protagonista individual cede la vez a un protagonista colectivo. la cronología no es linear y las acciones son descritas de modo simultáneo.Universidade Federal Fluminense A mediados del siglo XX una nueva forma de hacer novelas pasa a ser observada en España. según Gonzalo Sobejano. pero una necesidad de la autora para que pudiera expresarse. hasta la muerte del dictador Francisco Franco.

p. El lector es presentado a los hábitos y costumbres de la burguesía de la pequeña ciudad española a partir de tres visiones. principalmente. esta figura inexiste en este tipo de novelas. Ignacio Aldecoa (1925 – 1969). São os representantes do chamado realismo social. reproduciendo. nos es posible visualizar un retrato de las sociedades provincianas españolas del medio del siglo XX y. que narran en primera persona sus vivencias e impresiones de la sociedad en la que están inseridos. esa es la razón de la cantidad de diálogo que observamos en ellas y es a través de ellos que la trama es conducida. así que si no presenciaron el efectivo impacto que toda guerra engendra. Natalia. escritor español que sigue produciendo y que también formó parte de la generación de los niños de la guerra. como una cámara que registra todo lo que pasa delante de ella. nos explica el motivo de la necesidad de que se hiciera en España novelas de este tipo. que viven con su padre y su tía. por lo menos sintieron sus efectos – Carmen Martín Gaite con Entre Visillos escribe una novela social que hace una crítica a los modelos de conducta femeninos preconizados por la sociedad patriarcal española y a la vez denuncia una sociedad en la cual la mujer no tenía vez. El narrador no interviene en la historia. Natalia y Pablo Klein. en el libro). Pablo Klein y el narrador omnisciente en tercera persona narran la sociedad como ven. diciéndonos que Perteneciente a la llamada generación del medio del siglo o generación de los niños de la guerra – una vez que los escritores que produjeron alrededor de los años 50 eran niños en la época de la Guerra Civil. pues la novela es narrada por tres focos narrativos: un narrador extradiegético que narra en tercera persona todo lo que ve. además de tratar de otros temas como la diferencia entre las clases sociales – ricos despreciando pobres y viceversa –. por lo tanto. la vida de un grupo de jóvenes de misma generación de una ciudad provinciana española (que no es explicitada . Novela que le dio reconocimiento a su autora por ganar el Premio Nadal en el mismo año de su publicación. pues estamos tratando de una sociedad conservadora. outros escritores que orientaram a sua produção no sentido da urgência da denúncia.1926). 1994. el espacio que les era reservado a las mujeres de la época. 301). (SANZ VILLANUEVA apud ÁLVAREZ. Entre Visillos tiene como tema principal la situación de las mujeres en los años de 1950 con todos los tabúes y privaciones que tenían que enfrentar. retratando todo el conservadurismo y retraso de una sociedad patriarcal marcada por una dictadura que la devastó. LOURENÇO. y la religiosidad que no podría dejar de aparecer. entonces. Somos. y dos narradores intradiegéticos. profesor de alemán que vuelve a su ciudad natal para impartir clases en el Liceo de la ciudad. pues es a través de él que la historia es delineada. Jesús Fernández Santos (1926 – 1988) e Carmen Martín Gaite podem ser agrupados sob o rótulo de neo-realistas.92 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Sánchez Ferlosio. huérfanas de madre. Também defenderam essa função social. de un grupo de chicas adolescentes de clase media de los años 50. la cuestión de la hipocresía y del conservadurismo de una ciudad que todavía se encontraba cerrada en razón de los años de guerra vividos. A pesar de no ser el personaje principal. pues como ya vimos. como se fuera una cámara lo que testimonia. este personaje se configura como un hilo conductor. presentados a Natalia y a sus hermanas Julia y Mercedes. Ana Maria Matute (n. Juan Goytisolo. en estas novelas. Todos eles coincidem na defesa da função social da literatura. La novela tiene inicio con la llegada de Pablo Klein. Entre Visillos narra. en especial. escrevem com técnicas de representação que aproximam os discursos narrativos da reportagem e privilegiam a expressão do castelhano coloquial. Mas nestes últimos impunha-se uma concepção utilitária da arte que por vezes se sobrepunha à salvaguarda da qualidade artística da sua ficção. pero. A través de las relaciones que establecen con los demás personajes de la trama.

pero no como cualquier adolescente de su edad y sí por cuestionar el ambiente opresivo en el que vivía la mujer de su época. lo que hacía con que ella depositara todas sus carencias afectivas en su padre que representaba un modelo de conducta para ella. que estaba dominada por las tareas domésticas y por la obligación de encontrar un novio para casarse. por el contrario. me puse a defenderle y a decir que era un chico extraordinario. que sólo nos educa para tener un novio rico y que seamos lo más retrasada posible en todo. 2005. prefiero no vivir. no podía resultar atractiva a las niñas y adolescentes de posguerra En este fragmento podemos observar la inconformidad de Natalia con el medio en el que vivía. y la distancia entre padre e hija aumenta. que no sepamos nada ni nos alegremos con nada. encerradas como el buen paño que se vende en el arca y esas cosas que dice ella a cada momento.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 93 los novelistas españoles – por el hecho de que su público no dispone de medios de información veraces respecto a los problemas con que se enfrenta el país – responden a esta carencia de sus lectores trazando un cuadro lo más justo y equitativo posible de la realidad que contemplan. educándolas para que tuvieran un novio rico y nada más. soñadora y rebelde. es Pablo Klein quien la incentiva para que hable con su padre sobre sus pretensiones de seguir una carrera. caso su padre. a analizar a Natalia. con quien podría conversar abiertamente como hacía con su padre en la infancia. Natalia no se preocupa en conseguir un novio y menos aún en casarse. 1997. Siendo así. 229-231). y el futuro historiador de la sociedad española deberá apelar a ella si quiere reconstruir la vida cotidiana del país a través de la espesa cortina de humo y silencio de nuestros diarios. Natalia descubre un nuevo modelo masculino en su profesor de alemán Pablo Klein. lo que quiere es seguir sus estudios en una universidad. la más joven de las tres hermanas. era el hecho de no dejar que estudiara en su cuarto. habla sobre todo lo que le aprieta el corazón menos sobre sus intenciones de proseguir sus estudios en Madrid: Qué difícil era: era dificilísimo. por lo tanto a través de su diario que Natalia se refugiaba. p. o sea. cuando la niña empieza a crecer. que sólo quería convertirlas en unas estúpidas. por lo tanto. Según ella esta imagen de sus madres. Otra acción de tía Concha que también le aburría muchísimo a Natalia. Me arrodillé en la alfombra y allí. 185). un hombre viudo. p. 38). 93-94). primeramente por confesar a su padre el cuanto le aburría la educación que les daba su tía Concha a ella y a sus hermanas. […] De lo de mi carrera no le he dicho nada. Saqué lo del novio de Julia. que. Empezamos. p. “La sociedad patriarcal. (MARTÍN GAITE. sacándola de un local privado para uno público donde pudiera ejercer más control sobre la chica. donde la madre sigue las normas sociales. (…) he arrancado a hablar y le he dicho todo de un tirón. Natalia no tenía madre. dedicadas al trabajo doméstico hasta la obsesión y sin siquiera la compensación del reconocimiento por parte de unos hombres que. sin embargo. Como ya vimos. sin embargo cuando toma coraje. sin verle la cara. Era. el cine y los seriales radiofónicos hallaron fórmulas diversas para aspirar a finales más felices. no provee modelos maternales positivos” (ALBORG. a su vez. es una chica independiente. p. Que nos volvemos mayores y él no lo quiere ver. De este modo la novela cumple en España una función testimonial que en Francia y los demás países de Europa corresponde a la prensa. compensaban con actitudes prepotentes en la familia sus también difíciles condiciones de trabajo. nos complementa Concha Alborg. . 1993. María del Mar Jorge de Sande en sus Apuntes sobre la Novela Española Femenina de Posguerra nos explica el porqué de la orfandad de la mayoría de las chicas de las novelas sociales. (SANDE. (GOYTISOLO apud MARTÍNEZ CACHERO. que la tía Concha nos quiere convertir en unas estúpidas. […] Le he dicho que si tengo que ser una mujer resignada y razonable. A los dieciséis años. lo permita. tuvieron que pensar en cómo modificar y mejorar esas condiciones de vida: en la publicidad. 1958. obligándola a hacer sus tareas en la sala.

no sé para qué se lo ha tenido que contar a él. sirviéndole como ama de casa y en la educación de sus hijos. Así le cuenta Natalia: “[…] He venido despedirme de mi hermana. [. 1958. El novio le ha encontrado allí un trabajo. p. porque a Ángel no le gusta el ambiente del Instituto. p. 1958. que por fin. la hermana del medio de Mercedes y Natalia. 1958. en el día de la partida de su hermana. Siendo así.. independiente que. En nuestras casas no lo habíamos dicho. p. Con su amiga Gertru. 255). a la vez. se siente culpada por el creciente deseo sexual que empieza a atormentarla. Anoche me desperté y estuve escribiéndole cosas como las que me escribe él. También percibimos el papel transgresor de Natalia. con él deseo de excitarle. como por ejemplo lo de su amiga Gertru que dice que este curso por fin no se matricula. oyendo la música de una emisora francesa – tan lejos. Allí juntas. lo más malo que se puede usted figurar. ya hace mucho. (MARTÍN GAITE. cogiendo un poco las cosas que había encima. Julia. vive dividida entre el deseo de entregarse a su amor yendo para Madrid concretizar su unión con el guionista. como ya hemos visto en la conversa de Natalia y su padre. puesto que son tratados como trastos lo que representa para uno la salida de la ignorancia y la apertura de puertas para la libertad. que desaprueba tal unión. puesto que Miguel se niega a someterse a la tradición de pedir la mano de su novia a su padre. para que se uniera a un hombre que solamente buscaba una joven inocente y virtuosa para dominarla. que son los libros. En este fragmento constatamos el malestar psicológico de Julia al descontrolarse por los deseos que le atormentaban y a la vez por lo que había sentido y hecho.] Julia lloraba. ¿qué miras? – Que has quitado la repisa con los libros. Miguel interpreta un hombre libre e Al final de la novela sabemos que Julia. A partir de este fragmento percibimos la perplejidad de Natalia al ver que su amiga no proseguiría sus estudios a causa de su novio. volvería a pasar lo de aquel verano. Julia. aquella chica de quinto que tuvo un hijo el año pasado. ¿Dónde tienes los libros? – En el cuarto trastero. asumiendo todas las responsabilidades que sus actitudes pueden causar. representa la virilidad y la fuerza física y psicológica que somete a la mujer. (MARTÍN GAITE. decide ir para Madrid quedarse con Miguel.94 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS registrando en él todo lo que le afligía. 11). diciéndole que me acordaba mucho de todo lo de ese año cuando nos hicimos novios. p. (MARTÍN GAITE. pero mi padre no sabe nada todavía. a ir a la iglesia para confesarse: – Pero la tentación la tengo siempre. como también podemos percibirla en la fiesta del noviazgo de ésta misma amiga. 1958. al no encontrar los libros que tenía: – Sí. Natalia observa la reproducción de los dictámenes de la sociedad patriarcal.” (MARTÍN GAITE. ¿sabe? Se va a Madrid. y es que ella por lo visto le ha contado lo de Fonsi. que tuvo una formación tradicional y católica. Si te sirve alguno.. […] Se sentaron en el sofá amarillo. . y su familia. se cree que vuelve después de las Natividades. 83). incluso. tengo que hacer una selección de los libros antes de casarme. finalmente. un guionista de cine que vive en Madrid. A partir de este fragmento observamos el triunfo de Julia como persona y como mujer que toma sus decisiones y enfrenta su destino. sabe Dios de donde venía – Natalia se tapó la cara contra el hombro de Gertru y se echó a llorar desconsoladamente. llegando. que es mentira cuando le digo que me enfado por las cosas que me dice él en las cartas …. a través de Natalia que le cuenta la decisión de su hermana a Pablo Klein cuando lo encuentra en la estación de tren. Yo creo que si le viera mucho. 243). al apoyar la unión de su hermana Julia con Miguel. Yo le pregunté por qué.

Nos es presentada a través del propio profesor que al llegar al Instituto y saber de la muerte del director.. que así como la tía Concha. Es la responsable por reproducir. que eso no puede ser. Elvira es una chica que vive el aburrimiento del luto por la muerte de su padre. (MARTÍN GAITE. sin embargo se encontraba dividida entre el nuevo amor por el profesor y su pacata relación con Emilio.. ¡Pero yo no! Yo me ahogo. En la cocina no hay ninguna taza sucia. 1958. puesto que la tensión erótica que surge entre ella y Pablo Klein le genera una lucha interior entre su deseo y la barrera que la sociedad patriarcal de la España posbélica le ofrecía a la mujer. va a visitar su familia. Mercedes. Elvira. hipócrita y conservadora. pasa del control de una figura masculina a otra. yo me desespero. pelea con la chica para que se incluya al medio social: [. como hace Natalia. ella se reconcilia con esta misma sociedad. al contrario de Natalia. no que no sienta la muerte de su padre. director del Instituto donde Pablo Klein vino a dar clases. 20) Este personaje se encuentra. . por el cual se enamora sin nunca confesarlo. el modelo patriarcal del cual también era víctima. La carta le suena a Pablo como una carta de amor. p. y como tal. interfiriendo en la vida de ellas: desaprobaba la relación de Julia y Miguel y vivía criticando a Natalia por sus hábitos raros. por Dios. 1958. Elvira le escribe a Pablo Klein una carta pidiéndole disculpas por lo ocurrido. por lo tanto. Creerá que lo ha entendido. como la familia escocida. al contrariar su familia para vivir con su novio. (MARTÍN GAITE.Mentira. Elvira. quiere aprovechar la vida con intensidad. qué manía de estar siempre en otro lado. la hermana mayor de Julia y Natalia. dividido entre sus convicciones y los dictámenes de las normas sociales bajo las cuales vive.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 95 sin embargo es interesante notar que al mismo tiempo en que transgrede los valores de la sociedad patriarcal en que vive. exhibiendo abiertamente sus amistades con otros hombres. A pesar de mostrarse una mujer liberal. p. Don Rafael. Pasado este primer encuentro. dirá que qué disparate. Mercedes estaba discutiendo con Natalia. es la heroína fracasada de la novela. como lo confiesa a Pablo Klein: No puede entender nada. haciendo con que en sus posteriores encuentros no esconda la atracción física que siente por la joven. yo no me resigno. representa una mujer llena de complejos. En este primer encuentro con el profesor. sin embargo lo que quiere es salir a divertirse en las fiestas de sus amigos. Te vienes al mirador con nosotras. El ambiente de la provinciana ciudad le aburre. Finalmente. pero no habrá entendido nada. pero es joven. Solamente uno que vive aquí metido puede llegar a resignarse con las cosas que pasan aquí. al lado de su tía-madre Concha. Si le explico por qué no fui a Suiza se reirá. Con su carácter difícil. Martín Gaite nos da otro ejemplo de mujer que cuestiona su papel en la sociedad. es reservada. en un tono casi histérico desfoga toda su frustración de vivir años reclusa en una misma ciudad. pues ya pasó de la edad de relacionarse y casarse. a quien conocía desde niño. puesto su doble condición de hermana mayor de una familia sin madre y de mujer. Es un personaje que reproduce la típica solterona de la época que como no poseía un hogar propio para preocuparse. Elvira también se siente atraída por la experiencia y seguridad que Pablo Klein le transmitía. sin entrar. . para mostrarse una mujer independiente y segura de si. y hasta puede llegar a creer que vive y que respira. que dicen que con el fallecimiento de su padre debe quedarse en casa de luto. no has desayunado.] En el pasillo. puesto que. A seguir podemos observar el papel de madre siendo cumplido por la hermana mayor. vivía a las vueltas con sus hermanas. con Elvira. 55).

Em: RICO. unas más jóvenes que otras. quien le proporcionaría el matrimonio.: Historia y Crítica de la Literatura Española. la soledad. Lisboa: Ed. al casino. en pleno año de 1957. la mentira. por las delaciones que ellas denunciaron y se las llamó la “generación del silencio”. Em Revista Cotidiano Mujer . como es el caso de Julia. Boixadós y Aldecoa. al decidir quedarse con Emilio. en su artículo Las Escritoras del Silencio. la mayoría de los “maestros” se había ido al exilio y la necesidad de dejar su testimonio en la memoria del país.uy/2001/35_p31. el hambre. el desarraigo. Literarias. representa la esperanza en generaciones de mujeres que consiguieron romper con estereotipos para encontrar una posición en la sociedad. un personaje que representa una metáfora de futuro. 2001). 410-427. por aún cuestionar el papel de la mujer de esta misma sociedad. un malestar muy grande. en que la Franco implantó su ley. Disponível em http:// www. afirma que: Quienes vivieron la posguerra de esa guerra. de. sin discursos. que Martín Gaite. (FONSECA. […] En ese clima surgió una generación de escritoras. Contaron la realidad. por eso iban a fiestas. porque hacia atrás era el horror. Sin embargo. sin despertar la atención de la censura. Pablo Gil y SOBEJANO. Eugenio G. Referencias bibliográficas ALBORG. pero las unía el peso de la doble censura. FONSECA. y hacia delante. NORA. Venían de diferentes regiones de España.). ahogándose en las tareas domésticas y en el ambiente opresivo de tener que encontrar un novio para casarse. la nada. denunció. Crítica. la corrupción. Madrid: Ed. BUCKLEY. Barcelona: Ed.htm. bajo la simplicidad de lo cotidiano. hace su más fuerte denuncia al construir un personaje que representaba una chica rara – como la propia autora así lo definió. Ramón. es a través de Natalia.cotidianomujer. y. Gonzalo (1980): Caracteres de la Novela de los Cincuenta. la particular represión del régimen franquista sobre las mujeres. no tenían donde mirar. Concluimos así que es a través de las entrelíneas de Entre Visillos que Martín Gaite . António Apolinário (1994): História da Literatura Espanhola. al cine y a la iglesia. así. Mercedes y Elvira. y también la pobreza moral. lo que la censura no les permitía. N° 35.96 pues al final. que sin decirlo. escritora de la revista electrónica Cotidiano Mujer . Pertenecían al “realismo tremendista” y también al “cainismo”. la frustración. p. la angustia. Eloísa. Francisco (org. Formica. junto a la decadencia generalizada. Elena (2001): Las Escritoras del Silencio. indeterminación para superar sus frustraciones. Soriano.org. de las mil maneras que elige la escritura para decir entre líneas. la pobreza. asegurando la reproducción de los esquemas patriarcales. Después de analizar los personajes femeninos significativos de la novela. la eclesiástica y la política. en su libro Desde la Ventana – al cuestionar el espacio que le era reservado a la mujer de la España posbélica. Eligieron un enfoque existencial. que veían la vida pasar entre los visillos de sus ventanas. admite ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS su incapacidad e contribuye con la memoria de su país al criticar la vida de las chicas de clase media de las pequeñas ciudades españolas de los años 50. ÁLVAREZ. Elena Fonseca. CASADO. Concha (1993): Cinco figuras en torno a la novela de posguerra: Galvarriato. Asa. la traición. al paseo central. en segundo lugar. constatamos que Martín Gaite transgrede dos veces con Entre Visillos : primeramente por publicar una novela del realismo social en una sociedad en que solamente les era permitido a la mujer escribir lo que se quedó conocido en las letras hispánicas como novela rosa. Martín Gaite construye. el aislamiento cultural. LOURENÇO. donde ocultaban. Con Natalia. Acessado em: 12/08/2012.

SANDE. . Crítica. José María (1997): La novela española entre 1936 y el fin del siglo – Historia de una aventura. Acessado em 01/08/2012. Madrid: Ed. Castalia. p. 523526. Espasa-Calpe. j p / b i t s t r e a m / 1 0 1 0 8 / 2 4 4 6 6 / 1 / acs070005. Carmen (1999): Desde la ventana . Em: MARTÍNEZ CAHERO. t u f s . Francisco (org.: Historia y Crítica de la Literatura Española. Culture Studies . (1958): Entre Visillos. Barcelona: Ed. SOBEJANO. Em Area and RICO. Barcelona: Ed. Gonzalo (1999): Carmen Martín Gaite.). Destino.pdf. Madrid: Ed. María del Mar Jorge de (2005): Apuntes sobre la Novela Española Femenina de Posguerra. a c . 8/1 Época Contemporánea: 1939 – 1975.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 97 MARTÍN GAITE. Disponível em: http:// r e p o s i t o r y. Vol 70. ________.

a partir do século XIX. Sobre esses dois escritores. Neste nova forma do ensaio. principalmente.” (OVIEDO.94) Na obra La vuelta al día en ochenta mundos (1967). borrando os limites entre os vários gêneros concebidos tradicionalmente. 199. é interessante ressaltar que este livro foi publicado em um período de grande efervescência política e cultural impulsionada. Cada uno. Em princípio. : “Estos son los grandes padres del género: con ellos comienza la historia de nuestro ensayo.dentro e fora de suas obras-. em seu livro Breve historia del ensayo hispanoamericano. o ensaio começa a ter papel importante. os intelectuais reconheceram como uma obrigação social posicionar-se frente aos acontecimentos.” (OVIEDO.98 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS O “ENSAIO CRIATIVO” DE JULIO CORTÁZAR Ana Carolina Macena Francini PG. representado por grandes nomes. poesia. de modo distinto. por meio do que Oviedo denominou “ensaio criativo”. contribuyo decisivamente al conocimiento de la realidad de sus respectivos países y así a definir la identidad hispanoamericana. como os textos “Verano en las colinas” e “Con legítimo orgullo”. original. . como José Martí (1853-1895) e Manuel González Prada (18441918). Em uma época na qual política e arte pareciam estreitar ao máximo suas relações. frente a Europa primero y luego ante Estados Unidos. assinala José Miguel Oviedo. tornando (novamente) a América Latina objeto central de reflexão e representação nos anos sessenta. Ademais. porém dando-lhe novo ânimo. p. o ensaio é o gênero que propõe a elaboração de uma reflexão profunda. ficção e reflexão podem mesclar-se. pela Revolução Cubana (1959). Julio Cortázar (1914-1984) fez parte dessa tradição. refletindo sobre a realidade latinoamericana. especialmente. sobre um tema que pode ser o mais variado possível. por sua vez. “ensayo creador debe entenderse también en el sentido de que surgen abundantes ejemplos de creadores que sienten la necesidad de asumir la función crítica como un reconocimiento de la importancia que ésta tiene para su ejercicio artístico. subjetiva. Na América Latina. 1991. p.Universidade de São Paulo Como se sabe. é possível encontrar exemplos do “ensaio criativo” do escritor argentino. os quais serão o foco da análise desse trabalho.23) narrativa e o próprio ensaio.

P. Enquanto alguns intelectuais defendiam a estética realista (os denominados anti-intelectualistas) . Esse tom informal também condiz com a temática desse ensaio. Pero la particularidad de los animales en los cuentos. se manifiestan con singular intensidad dentro o fuera de la mente humana. os textos de Cortázar buscam explorar. que muitas vezes foge da nossa compreensão. a despeito das diferenças. dispostas de maneira aleatória remetendo às ilógicas colagens surrealistas. y suelen presentarse como criaturas domesticadas. nessa obra. No entanto a própria organização do livro reforça uma das temáticas centrais da escritura de Cortázar: a concepção da realidade como absurda. Um deles é seu aspecto comunicativo: Julio Cortázar interage com o leitor. em seus textos. são seres alheios e incomunicáveis e. escritores experimentais. que apesar da convivência. muita vezes. Catherine Bretillón faz um panorama interessante sobre esse tema em seu artigo “La animalidad como materia de lo fantástico en los cuentos de Julio Cortázar”: Los animales cortazarianos. Nos invitan a establecer pasajes hacia “lo otro” que no pueden expresar. citações. como Cortázar.. a dualidade que há na relação entre o homem e o animal. as artes plásticas. ilustrações. es que estos nos acercan al “sentimiento de lo fantástico”: su manera de vivir y de percibir el mundo son materia fértil de lo fantástico. Com sua existência irracional. novamente se problematiza a relação entre o humano e o animal. . o animal reforça a concepção de realidade absurda do escritor argentino. chamado Adorno.. y que el ser humano vive como una experiencia de horror (. há alguns ensaios que mais parecem ‘ensaios fantásticos’. em seu livro Entre la pluma y el Fusil (2003). cujas fronteiras também se borram na narrativa. salvajes o monstruosas. Sendo assim. ensaios. Este livro à primeira vista chama a atenção por sua difícil ou impossível classificação. Em “Verano en las colinas”. reales o imaginarios. também. La vuelta al día en ochenta mundos pode ilustrar essa noção de arte defendida pelo escritor argentino. fotografias etc.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 99 Mas havia entre os escritores polêmicas discussões sobre a forma de apropriar-se da realidade latino-americana e intervir nela. Nele há contos. 1996. Por isso. Talvez por essa razão os animais aparecem nos textos de Cortázar da maneira mais variada possível. ( BETILLÓN. na prática de alguns hábitos. Dessa forma. é uma viagem aos vários mundos de Cortázar.384) Assim. pois o escritor argentino retoma este modo de narrar dando-lhe uma nova dimensão mais comprometida. Tema recorrente na obra de Cortázar. acreditavam na equivalência entre política e prática simbólica. visando desestabilizar a realidade preconcebida pelo leitor. além de se confundirem os limites entre o ensaio e a ficção. por exemplo. considera o modo fantástico uma forma mais complexa e profunda de relacionar-se com a realidade latino-americana de seu momento. desde reflexões sobre o Jazz. impossível de ser compreendida a partir da racionalidade. humor e certa ironia. como veremos nos “ensaios criativos” de La vuelta al día en ochenta mundos. podem assemelhar-se em vários aspectos. os animais acabam por provocar o sentimento do fantástico.em que a conscientização dos leitores era prioridade em detrimento da criação artística-. conforme explicou Claudia Gilman. em que o leitor poderá encontrar de tudo. tratando-o com familiaridade. tal como ocorre em seu primeiro livro de contos Bestiario (1951).). pois consideravam o ato criador em si uma forma legítima de compromisso com a realidade e um instrumento para a ruptura desta. o papel do escritor latinoamericano até considerações sobre seu gato preto. Como o próprio nome sugere. é possível identificar com maior facilidade traços peculiares do ensaio. Em “Verano en las colinas” e “Con legítimo orgullo”. poemas.

criando uma outra realidade de natureza misteriosa.) Cuando llega la hora de comer y enciendo el cabo de vela. como nos contos “Bestiario”. “Carta a una señorita en París” ou “Cefalea”. do contato com o desconhecido. em que se parece estar vivenciando momentos íntimos e banais da vida de Cortázar. além de conjecturar sobre o tema para um próximo livro. a realidade e a experiência mais imediata da vida são matérias do ensaio. como nos definiu Todorov. dejándole apenas un punto de apoyo para el pie derecho. que tem necessidade de indagá-la. começamos a duvidar da existência do gato e do Obispo. su lado mandrágora se acusa más en la sombra. 1970. . Adorno. Adorno. a semelhança com o ensaio parece maior. criaturas pouco dóceis. Neste último relato. que intencionalmente as torna familiar ao leitor. Cortázar parece relatar fatos corriqueiros de sua vida cotidiana: os momentos com seu gato T. são as indefiníveis ‘mancuspias’. numa relação que se torna cada vez mais angustiante ao longo do conto.17) Da mesma forma ocorre em “Verano en las colinas”. ao longo do ensaio. elaborá-lo é dar forma a uma situação vivida pelo crítico. os cuidados com seu outro animalprovavelmente um pássaro-..” (CORTÁZAR.) me falta encarcelar al obispo que además es una mandrágora. como aponta Cortázar mais à frente. por sua vez. animal que não aparece totalmente identificado no texto. que este tipo de relato se configura quando. Porém.¿Va a ser un libro de memorias? Entonces. grifo meu). pois não se sabe de que animal se trata o Obispo e se este será assunto de um livro de Cortázar ou se de fato existe: Ya he encerrado al obispo: con dos llaves inglesas apreté el dogal de hierro que ciñe el cuello.. jugué con el gato Teodoro W. p.15) O leitor então toma conhecimento dessas informações dadas pelo ensaísta. e mesmo aqui do mais íntimo do íntimo. enquanto passa o verão em um povoado francês: Anoche acabé de construir la jaula para el obispo de Evreux. por sua vez.. pois o animal de “Cefalea” também não pertence a uma fauna conhecida. “(. Já em “Verano en las Colinas”. Sabemos. Esse “además” reforça o sentimento do fantástico no texto. (CORTÁZAR. Magritte. Neste ensaio.16. y descubrí sobre el cielo de Cazenueve una nube solitaria que me hizo pensar en un cuadro de René le d e l’A rg o nne bataille de l’Arg rgo nne. em outras palavras. A partir desse ponto. La batail 1970. 1970. que.16). chamado Obispo. y veo al obispo de frente (. se sobrepõem dois mundos de lógicas diferentes. 1970. em uma narrativa. como afirma Lukács.100 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS a qual não parece nada mais que cotidiana e trivial. p. apenas de ornamentos belos e nãoessenciais da grande vida. incontroláveis que parecem perturbar a saúde mental e física de seus criadores. se torna uma experiência perturbadora tanto para os personagens como para o leitor. Entretanto. Daí a contradição que expõe Lukács sobre o ensaio: Refiro-me aqui à ironia que há no fato de que o crítico sempre fala das questões últimas da vida. p. la sombra del obispo se proyecta en las paredes enjalbegadas. p. La cadena que sostiene la jaula chirría cada vez que se abre la puerta de mi cuarto. W. Uma experiência que estes não Tal recurso para causar o efeito perturbador recobra outros textos de Julio Cortázar. ( CORTÀZAR. o leitor se depara com a seguinte pergunta de sua esposa: “. e sim tão-somente de uma bela e inútil superfície. típica do conto fantástico. vão se incorporando novos dados que acabam retirando o leitor do aparentemente habitual e trazendo-lhe a sensação do estranho.. em seu livro Introdução à Literatura Fantástica . do livro Bestiario. que vai crescendo cada vez mais. porém sempre no tom de quem falasse apenas de quadros e livros. ¿ya empezó la arterioesclerosis? ¿Y dónde vas a instalar la jaula del obispo?” (CORTÁZAR.1 podem explicar por meio de uma lógica racional: é a perturbação da dúvida. em que o homem e o animal convivem no mesmo espaço. o mundo real e o mundo sobrenatural.

mas que não deixa de conter reflexões e críticas sobre a realidade e talvez. por sua vez. novamente dando destaque para “Cefalea”. sem deixar de lado o compromisso com o seu momento histórico. no dia de finados. pois temiam ser tachados de vaidosos ou pedantes. dividindo as tarefas de cuidar das mangostas. narra-se um antigo costume de um país (não especificado) de recolher as folhas secas que caem sobre os túmulos no cemitério. as mangostas . em que ficção. No entanto. ironicamente. Contudo. porém as indistinções no “ensaio criativo” – tanto com relação ao animal quanto ao gênero – buscam. Cortázar declara que a ele não interessa escrever suas memórias. A população desse país é obrigada pelo governo a recolher as folhas secas para que. Por sua vez. ao discutir o papel do escritor latino-americano nos anos 1960. por um lado. essa é uma campanha de que toda a população participa.que se alimentam de serpentes. a angústia da dúvida seguirá até o fim do ensaio. pôr o compromisso político em primeiro lugar. realidade e reflexão parecem se mesclar. poderia ser considerado um relato fantástico. fantástica. Já o ensaio “Con legítimo orgullo” está ainda mais próximo ao conto e se não estivesse num livro que mescla os gêneros. seja um dos ensaios mais políticos de La vuelta al día en ochenta mundos. primordialmente. os túmulos estejam visíveis para serem homenageados. ao longo da narrativa. pois borram-se as fronteiras entre ficção e realidade e inclui-se a subjetividade do autor. muitas vezes por causa dessa vigilância e da autocensura. pois lhe parece mais divertido falar de gatos e mandrágoras.as mangostas. Ainda que em “Con legítimo orgullo” o animal representado remeta ao real . o “ensaio criativo” vai avançando para o seu desfecho. Entretanto nele há uma estratégia de composição ficcional muito parecida com a do ensaio “Verano en las colinas” e nos contos de Bestiario. nesse texto a situação. ele parece fazer críticas aos escritores que. desde uma posição anti-intelectualista. o governo organizou uma complexa campanha em que é necessário ir à selva caçar serpentes. Aludindo às questões de sua época. Cortázar volta à pergunta de sua mulher sobre escrever um livro autobiográfico e tece críticas sobre isso. assim como no conto fantástico. inclusive crianças e idosos. questão polêmica nesse período. como comentado acima. como propõe o ensaio.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 101 ainda que de forma menos aterrorizante.irão comer. Porém. como um escritor europeu. o leitor vai se interando da lógica absurda que há num costume que aparenta ser tão inofensivo. em meio a esse estado de perturbação e dúvida. assim eliminando as incômodas folhas secas. o próprio ensaio contrapõe tal afirmação e confirma seu modelo estético. já que seriam considerados individualistas e alheios ao engajamento político defendido na época pelos escritores de visão anti-intelectualista. na sua visão. Cortázar que não partilhava dessa ideia aponta que a consequência para os escritores latino-americanos é que acabavam ficando presos em suas próprias narrativas e no mundo real eram “señores aburridos”. que força uma nova visão do leitor. por outro. reafirmar a concepção do escritor sobre a realidade incompreensível e inclassificável. a princípio. Se. No ensaio em questão. para elaborar uma essência que será utilizada para pulverizar as folhas que. Para tal. sarcasticamente. exerciam uma vigilância perante aos demais escritores que deveriam. é uma tarefa que ninguém sabe a origem e simplesmente aceita como uma tradição que não pode ser contestada: . diferentemente da quase mandrágora de “Verano en las colinas” ou das “mancuspias”. O ensaísta sugere que os escritores latino-americanos. pulverizar as folhas e apanhar as cobras nas expedições na selva. não se sentiam à vontade para escrever um livro de memórias. é familiar ao leitor e aos poucos vai se tornando estranha.

1970. crescendo a quantidade de túmulos e por conseguinte de folhas secas a serem retiradas: “(. os homens do conto não se diferenciam da serpente ou da mangosta . 1970. . Desse modo.38) Ao viver essa rotina infinita e absurda. incluso en aquellas cosas que podrían perturbar la tranquilidad pública.11) Assim. conviene subrayarloqué ocurre con nuestros gloriosos heridos. de Julio Cortázar. assim como afirma Bretillón. sem fim e sem razão de ser. sin rebelarse contra ese enrevesado orden establecido (¿por quién?).” (CORTÁZAR. con las primeras lecciones de la infancia (. representa uma alegoria dos regimes políticos de opressão: “La generosidad de nuestras autoridades no tiene límites.38). Isso vai ficando mais nítido e mais absurdo quanto mais detalhes o narrador apresenta da campanha. cumpliendo uno tras otro los actos que el hábito escalona. Apagando os limites entere o homem e o animal.385). pero estamos convencidos de que a nadie se le ocurriría que puede dejar de recogerlas. 1970. p.39). o que também pode ser uma referência à sociedade daquele período e um questionamento da condição humana. p. pois. o texto alude a uma situação de leis autoritárias e população alienada e o decorrer da narrativa delata as consequências dramáticas dessa condição: a existência torna-se um ciclo vicioso.)” (CORTÁZAR. p.” (CORTÁZAR. Por fim..)” (BETILLÓN.. tal como acreditava Julio Cortázar. [que] tiende a adoptar la forma que le convenga. nos inquieta “que los animales parecen cumplir destinos de complejidades extrañamente refinadas. Opressão esta. é possível indagar a realidade e refletir sobre ela. já que a cada ano são necessários mais recrutas para a expedição da selva em que cada vez aumenta o número de mortos. p. os personagens do conto produzem no leitor o mesmo sentimento do fantástico que podem causar os animais. pelo contrário. o ensaio “Con legítimo orgullo”. com o tom irônico do narrador em primeira pessoa do plural. além de estimular a consciência crítica do leitor. 1996.. o ensaio é um “género camaleónico. es una de esas cosas que vienen desde muy atrás. Como afirma José Miguel Oviedo. como revela a ironia do trecho...” (OVIEDO. lo que es otro modo de decir que no se ciñe a una forma establecida. p.. 1970. la municipalidad ha expropiado los terrenos adyacentes para ampliar el cementerio. Por eso nunca sabremos -ni queremos saber.) Como en los últimos años el número de bajas ha sido cada vez más grande. deteniéndonos apenas para comer (hay trozos de pan en la mesa y sobre la repisa del living) o miramos en el espejo que duplica el dormitorio. pois sempre terão a mesma atitude: “En cierto modo nos alegra haber tropezado con tantas dificultades para encontrar las tumbas porque eso prueba la utilidad de la campaña que va a comenzar a la mañana Porém. 2001. parecem viver num tempo a-histórico em que tudo se repetirá infinitamente.102 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Ninguno de nosotros recuerda el texto de la ley que obliga a recoger las hojas secas.29) seguiente (. o “ensaio criativo” parece ter sido a forma encontrada por Julio Cortázar para dar conta das necessidades políticas e estéticas de seu momento histórico. como nessa passagem: Andamos entonces sin reflexionar. a partir da apresentação dos dois textos de La vuelta al día en ochenta mundos .72) Assim. p. também parece haver momentos em que os criadores se confundem com os animais. sustentada pela falta de consciência dos personagens. Em “Cefalea”. (CORTÁZAR. da criação de uma situação absurda. foi possível analisar algumas características do “ensaio criativo”. como delata o final da narrativa. em seus hábitos. sin parecer preocuparse por redefinir ellos mismos sus gestos (. nota-se que por meio do modo fantástico.. diferentemente de “Cefalea”. p. 1991.) (CORTÁZAR..

Tradução Maria Clara Correa Castelo. Breve historia del ensayo hispanoamericano. Entre la pluna y el fusil. Claudia (2003). Tradução Mario Luiz Frungillo. Febrero-mayo 96. CORTÁZAR. Tomo I. Georg. São Paulo: Perspectiva. representada pelo modo fantástico.p. esse gênero híbrido representa seu posicionamento sobre o papel do escritor e da literatura. valorizando a prática simbólica como forma de engajamento. Julio (1970b). contrapondo-se aos antiintelectualistas. Tomo II. P. La vuelta al día en ochenta mundos. ao lançar mão do modo fantástico na ficção de seus ensaios. do mesmo livro. Georg. 1970. Em: http://pt. http://pt. “Sobre a essência e a forma do ensaio: uma carta a Leo Popper”.7. José Miguel (1991). Madrid: Siglo XXI de España Editores. Madrid: Alianza Editorial. ________.” Em: Actual Investigación. Introdução à Literatura Fantástica . dando relevância assim tanto à criação artística quanto ao compromisso com as questões sociais e políticas dos anos sessenta. Nota 1 Lukács. nos dois textos analisados nesse estudo. Buenos Aires: Siglo XXI Editores Argentina. Tzvetan (2007) .scribd. Tradução Mario Luiz Frungillo. Referências bibliográficas BRETILLÓN. A temática animal vista nos dois ensaios também corrobora para essa ideia. Julio (1970a). Catherine (1996). p. observou-se como as características do próprio ensaio e da ficção. os animais. pobre animalito. “La animalidad como materia de lo fantástico en los cuentos de Julio Cortázar.com/doc/56014858/ essenciaFormaEnsaio. tem maior facilidade para captar o fantástico na realidade: “Si en cualquier orden de lo fantástico llegáramos a esa naturalidad. TODOROV.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 103 Por um lado. Teodoro ya no sería el único en quedarse tan quieto. “Sobre a essência e a forma do ensaio: uma carta a Leo Popper”. GILMAN. reitera a sua noção de realidade que foge da explicação lógica e necessita de outras formas de narrar para estabelecer com ela um vínculo mais significativo. 75) Dessa forma. mirando lo que todavía no sabemos ver.scribd. LUKÁCS. OVIEDO. 383-410. Por outro.” ( CORTÁZAR. como seu gato Teodoro Adorno. La vuelta al día en ochenta mundos. Madrid: Siglo XXI de España Editores.com/doc/56014858/essenciaFormaEnsaio . pois como assinala Cortázar no ensaio “Del sentimiento de lo fantástico”. criando uma nova forma do gênero que buscava sondar níveis mais profundos da realidade latino americana. entremearam-se.

o indivíduo necessitou contar a sua própria versão dos acontecimentos e a elaboração textual de fatos memorialistas. da argentina Victoria Donda: “Mi historia [. mas alcançam também o coletivo. A memória de sua própria experiência abarca também a experiência da coletividade.] solo tiene sentido . Por isso. como círculos concêntricos. propagam-se da memória individual para a memória coletiva política. postulam a identificação entre a experiência pessoal e a história da nação. discutem tanto as questões relacionadas à subjetividade quanto as relacionadas aos aspectos filosóficos. a autobiografia e os gêneros textuais correlatos.) Na época contemporânea. A narração dessas experiências individuais revelou a existência de histórias que traziam versões diferentes das apresentadas pela historiografia “oficial”.. Testemunhos. autobiografias e confissões são formas de “escritas de si” que se multiplicaram nas diferentes literaturas. em diversos países da região. Nesses relatos. como é o caso da América Latina. Grande parte dos textos do final do século XX e início do XXI se relaciona a um dos temas da literatura da região: o viver durante e depois do golpe militar que instaurou uma ditadura de terror e repressão no país.. Tais relatos de experiências pessoais.104 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS DISCURSO AUTOBIOGRÁFICO E A BUSCA IDENTITÁRIA EM MI NOMBRE ES VICTORIA DE VICTORIA DONDA Ana Cristina dos Santos UERJ / IL * A identidade somente se torna uma questão quando está em crise. Desse modo. políticos e morais da sociedade atual. memórias. o registro minucioso da vida do outro e da sua própria. sejam eles literários ou não. coerente e estável é deslocado pela experiência da dúvida e da incerteza. Esse é o caso das narrativas em primeira pessoa na Argentina. durante os anos de 1976 a 1983. K. o sujeito ao narrar sua trajetória pessoal através da escrita. os discursos sobre o “eu” proliferamse principalmente nas regiões em que houve a queda dos regimes totalitários. (MERCER. quando algo que se supõe como fixo. como ocorre no texto autobiográfico Mi nombre es Victoria: una lucha por la identidad (2009). Desse modo. subjetividade. diários íntimos. há uma ênfase nos gêneros discursivos que abordam as questões sobre identidade. Durante os anos de transição e de recuperação democrática. históricos ou ficcionais funcionou (e ainda funciona) como elementos de recuperação da memória individual e coletiva. reconstrói tanto a sua identidade quanto o passado de seu país. Os sujeitos presentes nesses escritos delineiam uma trajetória que parte do individual.

Através do relato de sua experiência pessoal. em par ticular a história de sua personalidade”. verificar como essa escrita reconfigura uma nova identidade para a narradora e suas implicações para a reconstrução identitária que aflora do sujeito feminino emergente dos ambientes sociopolíticos de poder e opressão.. Esse é o tema do trabalho ora apresentado: a autobiografia como forma de autoconhecimento e de recuperação identitária individual e coletiva. identidade e alteridade e a constituição de novos sujeitos discursivos. ocorrida no ano de 2004 e noticiada em vários meios de comunicação na Argentina. 243). o da memória coletiva. A característica que define a existência do pacto autobiográfico é a identificação do nome do autor que aparece na capa do livro com o nome que o narrador se dá como personagem principal. p. O conhecimento desses dados extralinguísticos cria uma identidade entre a narradora. em constante transformação à medida que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam. ter sido apropriada ilegalmente pela família do militar que a criou. Dentro do texto analisado.. de modo que a sua indagação sobre a veracidade do narrado é quase inexistente. pois sabe existir uma realidade anterior e exterior ao texto. O primeiro da memória individual. A partir dos conceitos de escritas de si e autobiografia. abordam-se questões da identidade como parte de um processo de construção social e cultural. de uma pessoa real . a autora real e a personagem central. Seu objetivo é discutir questões vinculadas à escrita autobiográfica. 13) na época contemporânea: uma identidade fragmentária. 21) “a identidade muda de acordo com a forma como o sujeito é interpelado ou representado” e do termo “verdade” como construto discursivo. no qual os filhos dos presos . A existência de um pacto diminui a ficcionalidade do texto e faz o leitor acreditar na “verdade” do que lê. na qual a narradora conta como descobriu ser filha de militantes políticos desaparecidos durante a ditadura militar. ter o seu nome verdadeiro mudado na certidão de nascimento e como chegou a ser a deputada mais jovem do país.] narrativa retrospectiva em prosa que uma pessoa real faz de sua própria existência. p. para que haja o pacto. p. a narradora busca desconstruir e reconstruir uma subjetividade particular que a reporta a um grupo específico: o das crianças raptadas pelos militares na época da ditadura e que recuperam sua identidade anos ou décadas mais tarde. o enunciador deve permitir a sua identificação no interior do mesmo discurso. 1999. A narrativa abrange dois planos. O segundo. quando focaliza sua história individual. A narrativa registra fatos verídicos ocorridos na história contemporânea da Argentina.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 105 rodeada de las otras treinta millones de historias que habitan la Argentina” (DONDA. 14 ): “[. pois segundo Hall (2005. A autobiografia Mi nombre es Victoria Donda (2009) inscreve-se na definição de gênero autobiográfico apresentada pelo teórico francês Philippe Lejeune (2008. Logo.Victoria Donda – e de maneira retrospectiva. o pacto com o leitor se torna mais forte porque a autobiografia retrata o processo de recuperação identitária de Victoria Donda. O texto analisado permite discutir essas questões. ocorre quando sua história pessoal se entremeia com a história do país e abrange o período sombrio da ditadura argentina. p. especialmente quando reconstrói discursivamente uma nova identidade para o sujeito feminino que nasceu sob o signo da opressão e foi privado de sua identidade. Esse processo de construção e desconstrução adequa-se à noção de identidade descentralizada difundida pelo teórico Stuart Hall (2005. estabelecendo o que Lejeune denominou como “pacto autobiográfico” 1 .

Também por esse motivo. como transformação: “parece não haver motivo suficiente para uma autobiografia se não houver uma intervenção. e é eleita. Para Wander Mello Miranda (1992. omissões e deformações na história da personagem. foi descoberta pelas Abuelas de la Plaza de Mayo (associação da qual sua verdadeira avó materna foi uma das fundadoras). que Victoria foi separada de sua mãe ainda recémnascida. Esse momento de transformação . na existência anterior do indivíduo. Sua busca pela identidade pessoal se desenha quase que obrigatoriamente no horizonte da construção da identidade coletiva argentina. os fatos . Porém. 195. na época um importante comandante militar e que nos dias atuais está preso por delitos de lesa humanidade. Assim. A partir dessa consideração. Grifo nosso). as integrantes da associação revelaram-lhe seu verdadeiro nome e sua história. que a “memória perfeita” é capaz de reconstruir em seus detalhes: “En aquel momento recuerdo que lo único que quería era que los resultados dieran otra cosa que la que esperaba” (DONDA. Mas. 2009. por meio de uma denúncia anônima. se abría el juego para la aparición de Victoria” (DONDA. Esses dois planos fazem com que sua narração ultrapasse as linhas limítrofes entre a história individual e a coletiva. O verbo delata a existência de uma distância temporal entre o momento da enunciação – o presente. questiona-se: como é possível falar de verdade no texto autobiográfico? A busca pela verdade dos fatos foi a luz que guiou a narradora pelo caminho de seu autorreconhecimento. no momento da enunciação. Sabe-se. mas Victoria “[. qual é a verdade? Para a narradora. no fragmento destacado.. 31) uma das características mais importantes de todo relato autobiográfico é a ideia da vida como devir. é seletiva. O núcleo do narrável na autobiografia – a experiência pessoal – equivale à transformação do indivíduo. Após se certificarem de que se tratava realmente de Victoria.é tão importante em sua vida que aflora no relato como uma lembrança vívida. atendendo pelo nome de Analía quando. filha de José María Laureano Donda (Laureano) y María Hilda Pérez (a Cori). p. e entregue a uma família de militar por seu próprio tio paterno. a história pessoal de Vitória narrada na autobiografia conta o que lhe aconteceu em outro tempo para transformá-la na pessoa que é agora. p. de um fato modificador em sua vida que marca um antes e um depois em sua existência pessoal. p. de não ser Analía. no ano de 2007. através da narradora-personagem. Viveu durante vinte e sete anos com essa família. 1999. erros. en aquel momento comenzaba a inscribirse el final de Analía y. A descoberta de uma “história pessoal” diferente da conhecida é o ponto de partida da autobiografia de Victoria. de uma mudança ou transformação radical que a impulsione ou justifique”.] si toda conclusión es el punto de partida de una nueva historia. ainda passa pelo filtro da subjetividade: a voz narrativa traz ao relato somente o que acredita ser importante para a compreensão da transformação sofrida. decide candidatar-se a uma vaga de deputada. esquecimentos. 170).e o relato de acontecimentos – o passado. a descoberta da verdade.. verifica-se que a escrita já aponta para uma marca de ambiguidade: o uso do verbo recordar. A recordação está submetida à memória e essa por sua vez.106 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS políticos nascidos na prisão eram dados para adoção às famílias de militares e notificava-se às verdadeiras famílias que a criança havia morrido. obrigatoriamente.o divisor de um antes e um depois no decurso pessoal da narradora . O desejo da narradora de falar de si procede do episódio que funda o ato autobiográfico na narrativa: o reencontro com sua própria história antes de ser raptada. Essa distância faz com que a voz narrativa só se recorde daquilo que a sua memória deseje recordar e essa recordação. prevê e admite falhas.

representa a si próprio através do retrato do “outro”. No texto analisado. por más consecuencias que puede tener sobre una existencia. “a impossibilidade da narração de si mesmo”. então. p. Sua identidade é construída por meio de diversos “olhares” que se entrecruzam entre o seu presente e o seu passado. A contradição presente no texto autobiográfico de apresentar o vivido e a sua representação discursiva realça para inúmeros teóricos. 17) também aborda essa contradição ao afirma que: Talvez a maneira mais apropriada de abordar o tema da autobiografia seja afirmando positivamente aquilo que ela não pode ser. p. esses relatos estão repletos de subjetividades. A estética pós-moderna mostrou a impossibilidade de o homem conhecer a realidade e representá-la através da linguagem. 43). Com isso. Como construções linguísticas. p. entre o “eu” que se foi e cuja vida se narra e o “eu” que se é no momento da escrita presente no texto autobiográfico. entre eles Leonor Arfuch (2010.. Se cada olhar traz um ponto de vista. 224). essa constatação não impede a voz narrativa de buscar a “verdade”. p. porque os acontecimentos podem ser alterados segundo a visão de quem os conta. A impossibilidade de contar o passado ocorre também da dificuldade de o individuo aceder aos momentos anteriores de sua vida.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 107 contados constituem “a verdade”. Desse modo. tal como ela relampeja num momento de perigo” (BENJAMIN. Nesse aspecto. mas das pertencentes a outras pessoas: dos amigos de seus pais. as experiências pessoais que edificam o autorretrato de Victoria não advêm somente de suas lembranças. afirmando a sua impossibilidade de cumprir a sua mais profunda promessa: apresentar a verdade de uma vida reunida numa trama narrativa. no momento da escritura.]” (DONDA. . reestruturá-la e contar os fatos como eles aconteceram. saber quem é: La verdad. logo. 136). É a divergência entre a vida e a escrita. Ela é o norte da narração porque. através da narração.. como a contemporânea. O momento da escrita autobiográfica faz convergir um “eu” que ao mesmo tempo é um “outro”. Se o acesso ao passado só pode ocorre pela textualidade. a percepção de verdade depende sempre da visão de quem reconta os fatos: “Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo ‘como ele de fato foi’. para a narradorapersonagem conhecer a “verdade” sobre quem foi lhe permite. Esse fato ocorre na autobiografia analisada. necessita de narrações alheias. Significa apropriar-se de uma reminiscência. 2009. Sua história é narrada através de outros relatos fragmentários que tampouco dão conta da realidade tal como ela foi. Para tal. dos relatos das “abuelas de la Plaza de Mayo” e dos textos históricos da época. 1985. Em uma realidade dúctil. Logo. enredase com as das outras pessoas que conviveram com ela e com os seus verdadeiros pais: “A partir de este momento. a narração autobiográfica só existe enquanto discurso e não pode ser conclusiva. todo ló que sé de mis padres y el destino que corrieron se fragiliza. mas eles realmente aconteceram como ela conta? Se o que ela lembra está relacionado à subjetividade ou aos fatos relatados por outrem. por dolorosa que sea. Sua identidade pessoal é construída através de seu olhar e do olhar dos outros sobre si mesmo. não há como afirmar que as suas experiências pessoais ocorreram da maneira como se apresentam na narrativa. sua autobiografia vai além de si mesma. logo. questionou-se o próprio conhecimento histórico. Duque-Estrada (2009. apenas sostenido por declaraciones cruzadas de testigos y gente que les conoció [. de sua verdadeira família. o relato autobiográfico falha em sua premissa principal: rever a história de si mesmo para. podem-se possuir tantas verdades quantos pontos de vista em seu relato. Os diversos “olhares” inseridos no relato autobiográfico de Victoria colaboram para tornar tênue a noção de “verdade”.

2009. quien se había ido formando durante todo aquel tiempo. Desse modo. e fragmentária de sua identidade: reordena a sua experiência pessoal para conceber os limites e a interseção entre Analía e Victoria.] demasiadas cosas habían sucedido desde que conocí la verdad sobre mi identidad. La verdad afirma la existencia. p. (DONDA. essa cisão ocorre entre uma identidade que se autorreconhecia como Analía e que agora de autodenomina Victoria: “Se ló debo [a identidade] a Analía. a personagemnarradora assimila a pluralização de suas identidades. a narradora-personagem se apropria do discurso autobiográfico para pôr em ordem a vivência caótica . lo cierto es que así fue como las viví. 2009.. mas não a de “experiência vivificada”. p. 244).22). Com esse ponto de vista... podía finalmente aceptar. es la condición para ser uno mismo. 219). y aquel documental representaba el comienzo de un nuevo periodo en mi vida: Victoria. 2009. a narradora reconstrói o passado individual e o A afirmação presente ao longo da autobiografia de que os fatos relatados são como os vivenciou é importante para a narradora-personagem alcançar seu objetivo primordial com a escrita: sua recuperação identitária. Entende que a escrita de sua trajetória é incapaz de traçar um retrato “verdadeiro” de quem ela foi. (DONDA. a qual chama de “eu”. incorporar a Analía y avanzar. Sua subjetividade se revela à medida que sua história pessoal completa as lacunas vazias sobre os anos de ditadura da Argentina: “[. pois a voz narrativa afirma que a confecção de um documentário cinematográfico também foi essencial em sua busca identitária. Nesse “espaço biográfico” (ARFUCH. 2009. definirse. Mas. Voltar ao seu passado é buscar uma nova versão para os acontecimentos. No texto analisado. (DONDA. 54) Uma vez que a construção identitária no mundo contemporâneo se relaciona também com o seu lugar no mundo social e cultural.percebe a impossibilidade de exprimir toda a “verdade” dos fatos na escrita devido à distância temporal entre o momento da enunciação e o vivido. em sua reconstrução discursiva. Nessa busca de autorreconhecimento. p.236) Porém. y con ella. sua identidade pessoal mesclase com a identidade coletiva. de un origen o de una filiación. a voz narrativa não pode abarcar o “eu” sem relacioná-lo com a realidade de seu país. Victoria y Analía eran al fin la misma persona. 2009. trazendo à tona o discurso controverso da autobiografia.. a narradora – em um movimento de sinceridade próprio à autobiografia . la historia de un país que aún tiene problemas en reconocer y aceptar su pasado” (DONDA. quien no pudo sino sucumbir y sacrificarse para que la verdad ocupase su lugar en la historia” (DONDA.] mi historia es puesta al desnudo.108 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS es la condición esencial para ser. com o objetivo de revelar como o discurso hegemônico da ditadura modificou a sua história e a de seus pais. Ao contar sobre a sua própria vida. y por más complejo que pueda parecer hacer referencias a aquellas cosas como integrando una verdad incuestionable. Victoria se conscientiza de que para construir a identidade atual. pois mostra a busca identitária a partir da cisão entre a identidade anterior e a atual. p. a narradora rejeita a opção de experiência “verdadeira”. p. Y esa persona era yo. não é somente através do discurso escrito que reordena a sua trajetória pessoal. Entender a sua trajetória pessoal é entender também a de seu próprio país. acredita que sua enunciação retrate os fatos tais como os vivenciou: Contar aquel momento a través del filtro de una verdad revelada años después no sería ni justo ni honesto. No se trata de una simple verdad de un nombre. 2010) do documentário e da autobiografia. foi fundamental a contribuição da identidade construída no passado: [. Porém. A questão identitária é um dos temas mais importantes nas escritas atuais e torna central no texto autobiográfico.

a sua trajetória pessoal na História da Argentina. de seu passado e de sua atuação político-social no presente. sabedora de que “[. 27). p.. Trad. (DONDA. para mostrar que ARFUCH. destruição e reconstrução identitária. a escrita autobiográfica analisada deve ser entendia como uma escrita cujo discurso é eminentemente político. En mi nombre está su último grito. Rio de Janeiro. ressignifica-o para poder abarcar tanto a história da personagem. a narradora faz com o seu nome adquira novos matizes. Sua narrativa transita entre o espaço privado e o público. a pesar de imaginar que su esposo estaba muerto y que ella no sobreviviría mucho después del parto.] como uma coisa que ainda se precisa construir a partir do zero ou escolher entre as alternativas e então lutar por ela e protegê-la lutando ainda mais” (BAUMAN. enfrenta um movimento de revisão. Dessa forma. pois essa só é reivindicada por aqueles que não são reconhecidos por seus interlocutores. de Paloma Vidal. Segundo Figueiredo e Jovita (2005.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 109 coletivo. seu texto é um ponto de resistência cultural. Para Beatriz Sarlo (2007. apodere-se da palavra e adquira um papel fundamental no processo social. dandolhe voz e poder para intervir tanto na reescritura de sua história quanto na História da Argentina e assim. Su último obstinado rechazo al destino que le era impuesto. Desse modo. y en él se encuentra también mi legado.] a “identidade” só nos é revelada como algo a ser inventado.. de que discurso é poder. a escrita autobiográfica empreendida pela narradora não relata somente o caminho percorrido pela personagem para a incorporação de um novo nome – marca indelével da identidade – e a perda do nome antigo. No momento de enunciação de sua história. identificándome. 21-2). relaciona a acepção do termo vitória (ação ou efeito de vencer) ao nome de batismo que recebeu de sua mãe ainda na prisão. a busca por uma identidade está estreitamente relacionada à questão do reconhecimento. p. nascida sob o signo da opressão. Referências bibliográficas . político e histórico de seu país. Es por eso que mi nombre es Victoria. Nessa luta. A voz narrativa está consciente de que a realidade pode ser reordenada através da palavra. recuperar a identidade que lhe foi tomada.. O processo identitário de Victoria é instituído pela reivindicação do reconhecimento social de sua nova identidade: de quem é. A compreensão desse fato aclara o subtítulo da autobiografia – “Una lucha por la identidad”. Com a ressignificação. Victoria inscreve Desse modo. como a de seus pais e da própria Argentina. a reconstrução do passado é um combate pela reconstrução histórica que “también llamamos ahora de combates por la identidad”. em uma relação de complementaridade. o regime de opressão da ditadura não foi mais forte que a vontade materna de que sobrevivera: Después de todo. p.. Não é uma intervenção feminina no espaço público dominado pelo sujeito masculino para publicar apenas suas intimidades. 2009. a pesar de la certeza de que le robarían a su hija. Porque mi existencia prueba que finalmente Cori consiguió su objetivo. filha de presos políticos. p. de quem são seus pais. Cori hizo pasar un mensaje a sus asesinos dándome un nombre. 191). e não descoberto [. 254) Ao ressignificar o seu nome. mas também a luta pelo reconhecimento social da identidade incorporada. que Cori les ganó la última partida. O discurso autobiográfico é uma ferramenta para que Victoria. En ese desafío simbólico vive Cori. EDUERJ. 2005. Leonor (2010): O espaço biográfico: dilemas da subjetividade contemporânea. A narração de suas experiências é o processo pelo qual Victoria tenta se redescobrir e redefinir a sua identidade.

p. 222-32. DONDA. como tal. UFMG. Lejeune amplia o termo “pacto autobiográfico” para “pacto de verdade” ou “pacto referencial”. Walter (1994): Sobre o conceito de história. DUQUE-ESTRADA. de Sergio Paulo Rouanet. p. Belo Horizonte: Ed. Vol. Eurídice (org. Em: Magia e técnica. . Obras escolhidas. Em: Dev ires autobiográficos: a atualidade da escrita de si. 10 ed. é uma construção da memória. Rio de Janeiro: Nau/ Ed Puc-Rio. Buenos Aires: Siglo XXI Editores Argentina. Rio de Janeiro: DP&A. Philippe (2008): O pacto autobiográfico. Zygmunt (2005): Identidade . 189 -205. Jovita Maria (2005): Identidade nacional e identidade cultural.110 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS BAUMAN. Trad. 7ª ed. Rio de Janeiro: Zahar.). Stuart (2005): A identidade cultural na pósmodernidade. Trad. I. Trad. SARLO. Juiz de Fora: UFJF. BENJAMIN. 17-58. Elyzabeth Muylaert. São Paulo: Brasiliense. pois afirma que o relatado na autobiografia só existe enquanto discurso e. Notas * Professora Adjunta do Mestrado em Teoria da Literatura e Literatura Comparada e do Departamento de Letras Neolatinas (Português/Espanhol) do Instituto de Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. LEJEUNE. Victoria (2009): Mi nombre es Victoria: una lucha por la identidad. Beatriz (2007): Tiempo pasado : cultura de la memoria y giro subjetivo. de Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. Conceitos de literatura e cultura. de Carlos Alberto Medeiros. p. (2009): Im/ Possibilidades da autobiografia. 1 Em textos posteriores. Entrevista a Benedetto Vechi. Arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. FIGUEIREDO Eurídice e NORONHA. Em: FIGUEIREDO. Una discusión. Buenos Aires: Editorial Sudamericana. HALL.

ainda. desenvolver no aluno a consciência de que aprender uma língua estrangeira é muito mais que adquirir habilidades linguísticas. Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). possa entender a si mesmo e a sua própria. embora apresentem variações estruturais e quantitativas nas disciplinas. em termos de sua estrutura. assim como seus currículos não é tarefa simples. quanto ao ensino de línguas. principalmente porque sabemos da excelência que cada uma delas busca. são unânimes em encaminhar o aprendizado para a formação integral do aluno/professor.7): “. funcionamento e manifestações culturais”. 2009. os currículos.Universidade Federal Fluminense Introdução Esta comunicação é parte inicial de uma investigação que tem como objetivo apresentar alguns dados levantados acerca dos currículos das Universidades públicas do Estado do Rio de Janeiro nos cursos de Licenciatura em Português/Espanhol.. Portanto. . Segundo (PARAQUETT. E o compromisso da Universidade é levar o aluno/ professor de LE a aprender muito mais que ensinar a gramática e o léxico de uma língua. os profissionais do curso de Letras devem “ter domínio do uso da língua ou das línguas que sejam objetivo de seus estudos. p. a Universidade deve estar preparada para formar o profissional que possa atender as especificações legais. é oportunizar o aprendizado de outra cultura para que. É importante lembrar que. a partir dela. Ana Maria Mendes Larghi PG . Foram analisadas quatro universidades públicas do Estado do Rio de Janeiro..enseñar y aprender lenguas extranjeras es una oportunidad increíble de promover la integración entre mi mundo y este mundo mágico que me llega y que me permite verme y sentirme parte de un todo complejo”. Analisar criticamente o ensino de línguas nas universidades públicas do Estado do Rio de Janeiro. E. E. são elas: Universidade Federal Fluminense (UFF). de acordo com as diretrizes estabelecidas pelo PARECER 492/2001 do Ministério da Educação.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 111 O CURRÍCULO DAS UNIVERSIDADES PÚBLICAS DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO E A FORMAÇÃO DE PROFESSORES EM LÍNGUA ESTRANGEIRA: UMA REFLEXÃO CRÍTICA. Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) . é interagir com o outro de modo a alterar e construir saberes de forma dialética.

161/2005. inicia-se aqui uma das questões que permeia a nossa reflexão. e o quanto as questões políticas são determinantes na elaboração da grade curricular. sugerindo uma prática dinâmica. II. Os dados coletados na pesquisa com professores apontaram ser de responsabilidade do Estado a elaboração de políticas públicas para melhorias na educação brasileira.LEI 9394 de 20 de dezembro de 1996. seu conhecimento e utilização das sugestões dos documentos oficiais em sua prática. a “integração entre os mundos”.112 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Dessa maneira. 2009) e MOTA (2004) em definições sobre Inter/ multiculturalismo. integrativa e contextualizada. ainda. observou-se como se deu a implantação da língua espanhola na rede pública do Estado do Rio de janeiro. O gráfico 1 apresenta o resultado da pesquisa: 1. na aventura do aprender uma LE. HALL (2006) e MENDES (2004. 53. baseados na Lei 11. A publicação dos documentos oficiais promoveu uma maior reflexão sobre a organização curricular do ensino de LE. coletou dados a respeito da formação dos professores da rede pública. como forma de ampliar o espaço do conhecimento. vimos a importância de ações políticas direcionadas à melhoria da educação brasileira. E os resultados nos levaram a questionar como estão sendo formados os futuros professores de LE? Por que encontramos professores tão inseguros diante das classes? Pretendese aclarar. esses e outros questionamentos. a melhoria do nível cultural do professor situarse-ia em 25% como responsabilidade do poder público. . A importância do currículo na formação do professor de língua estrangeira Tomando como tema central a importância do currículo para a formação do futuro professor. 2007. Esta investigação adota como referência PARAQUETT (2007. Com relação às propostas curriculares e a autonomia que a LDB . Enquanto que. A pesquisa de campo (por amostragem) foi realizada com professores do ensino médio da rede pública estadual. Perguntados sobre a formação de professores de LE a pesquisa aponta que 75% do total dos entrevistados responsabiliza o poder público por melhorias nas condições de formação do professor de LE. 2008). tornando-o mais próximo da realidade. A primeira delas é a importância do Currículo para a formação do professor de LE e sua consonância com os PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais) e as OCEM (Orientações Curriculares para o Ensino Médio). Essa investigação. e se apoia nas concepções de cultura de CANCLINI (2006). ancora-se na Pedagogia Multicultural. em seu Art. dá as Universidades. pois a extinção do currículo mínimo proporcionou um avanço para o ensino. Em estudos anteriores. no decorrer da investigação proposta para o Doutorado.

2000. em sua grade regular. Em consonância com os PCNs. é que os professores encontram muitas dificuldades em entender a proposta de ensinar LE a partir dos gêneros. Refletindo sobre as contribuições dos PCNs (BRASIL. p. à diferença. ser interdisciplinar. O currículo do curso de Letras.é preciso adotar uma visão ampliada dos conteúdos a serem incluídos nos programas de curso para além das tradicionais ( ouvir. culturais e sociais”. Dentre as Universidades que fazem parte da pesquisa. na preparação do material didático.”. E este exercício poderia se iniciar durante os estágios de regência. inclusive. 150). poderia ser a adoção de disciplinas na grade curricular que levasse o professor/aluno. convergências. promovendo o ensino que possa: “ levar o estudante a ver-se e constituir-se como sujeito a partir do contato e da exposição ao outro. falar.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 113 Não resta dúvida que os documentos trouxeram contribuições importantes. 2008. percebe-se que a proposta de trabalho com os gêneros discursivos. abrangente e flexível. encontrar interdependências. de cidadania e de inclusão social. dedicamos a segunda parte às Orientações Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (OCEM). p. sugerindo que o Projeto Político Pedagógico e o Currículo possam aproximar-se sempre do “currículo real” dos alunos. contextualiza o ensino com o “currículo real” (OCEM. embora não haja nenhuma disciplina específica com esta nomenclatura (o que poderia ser uma sugestão).interagir com outras disciplinas. portanto. O desafio de preparar os professores para ensinar E/LE através dos gêneros discursivos.. consoante com OCEM (2008. .. “.. já que a utilização da língua está envolvida nos discursos históricos. encaminho a discussão para a importância do ensino de LE estar voltado para “. Reitera-se que o trabalho com os gêneros discursivos é proposta de disciplinas nas Universidades. ler. p. Segundo Bakhtin.. ao reconhecimento da diversidade”. embasadas na teoria de Bakhtin. as OCEM entendem que o currículo para o ensino de E/LE deve abordar “temas relevantes para a vida do estudante”. entender) e das sequências lexicais e componentes gramaticais próprios da norma culta”. o valor do aprendizado de LE como forma de autoconhecimento. para formar professores de LE. à medida que se apoia em um contexto que circula à nossa volta todo o tempo. p. a utilização dos gêneros na prática pedagógica. Vale lembrar que ambos os documentos foram criados para orientar a prática do professor em sala de aula. que façam parte do “currículo real”. a UERJ é a única que apresenta a disciplina “Produção de material didático para o ensino de Espanhol”. 8). Os PCNs afirmam que “o estudo dos gêneros discursivos e dos modos como se ar ticulam proporciona uma visão ampla das possibilidades de usos da linguagem” (BRASIL. ressaltando. abarcando mais do que conteúdos tradicionais... Continuando a reflexão sobre os documentos oficiais. e fazem parte da comunicação humana. Os gêneros são criados e recriados. para o Currículo das Universidades. No entanto. a produzir material didático a partir dos gêneros. “todo enunciado ocorre em um gênero do discurso. Dessa maneira. criar novas disciplinas poderiam ser contribuições para habilitar professores que tornem as aulas de LE reais “ferramentas” de inclusão social. 133). é bastante enriquecedora. Atitudes como revisar as ementas das disciplinas. deve promover a alteridade. na prática. 9). 1998). ( OCEM. E por que tantos professores não fazem uso das sugestões dos documentos oficiais? Como esses professores foram formados? Essas foram algumas das interrogações que nos levaram a refletir sobre o papel do currículo na formação de professores. o que se observa.

III . ainda é a maneira mais usual de ensinar LE. 2004. divididas em: 400 (quatrocentas) horas de prática como componentes curricular. 2008. as seguintes atribuições: Na busca do desenvolvimento de competências e habilidades. entendo que a proposta de uma abordagem que seja social e Inter/Multicultural para o ensino de línguas. pois deu condições às Universidades de ‘aproximar’ o currículo de sua realidade social. através do dialogismo. 2800 (duas mil e oitocentas) horas. 2004. concede-se às Universidades autonomia para “fixar os currículos dos seus cursos e programas. produção artística e atividades de extensão. (Mota e Scheyerl. observadas as diretrizes gerais pertinentes. Das Universidades públicas do Estado do Rio de Janeiro Quanto ao currículo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional LDB . Sobretudo entendendo cultura como prática social.. programas e projetos de pesquisa científica.estabelecer planos.de 20 de dezembro de 1996. uma perspectiva de construção do conhecimento de forma dialética e multidimensional. p. as Universidades desenvolveram currículos que preconizam a formação docente. Essa reflexão nos leva a pensar que são necessárias mudanças paradigmáticas no contexto .149). quando for o caso. Dessa forma. é que quando assumem suas classes a simples transmissão de conhecimentos. do aperfeiçoamento da formação cultural. 1800 (mil e oitocentas) horas de aulas para os conteúdos curriculares de natureza científico-cultural. 53. outra (s) cultura (s). De acordo com ( MOTA e SCHEYERL. II . 41) I . promove a construção de conhecimentos em LE. 2. II. no mínimo. nos termos dos seus projetos pedagógicos.. da LDB.”. 1º da Resolução do CNE/ CP 2. No exercício de sua autonomia.fixar os currículos dos seus cursos e programas. descobrindo a polarização dos saberes e assumindo.. “nas quais a articulação teoria-prática garanta. e 200 (duzentas) horas para outras formas de atividades acadêmico-científico cultural.41). sem prejuízo de outras. em contato com outra(s) língua(s). as dimensões dos componentes comuns:. De acordo com o artigo 53. são necessárias revisões curriculares que tenham como principal objetivo construir um ambiente de aprendizagem onde o aluno/professor possa interagir e participar democraticamente do aprendizado. Art. pg. . cursos e programas de educação superior previstos nesta Lei. mas o que se observa. na prática.114 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS É importante e necessário que a universidade leve o aluno/professor a refletir sobre sua língua e sua cultura.criar. em um mundo pluriligue e multicultural. p. do respectivo sistema de ensino. compar tilhada e importante modificadora de todo o processo ensinoaprendizagem. de 19 de fevereiro de 2002 estabelece que será de. A carga horária das licenciaturas de graduação plena. organizar e extinguir.. a pedagogia multicultural acredita na valorização da voz do sujeito/professor e do sujeito/estudante. assegura que as Universidades: Art. em um mundo onde as relações culturais estão cada vez mais próximas. no exercício de sua autonomia. como linguista aplicada. Portanto. II.”. pensando o ensino do E/LE como “um conjunto de valores e de relações interculturais” (OCEM.. o “conteudismo”. através do diálogo. 53. são asseguradas às universidades.. 400 (quatrocentas) horas de estágio curricular supervisionado. esta medida caracterizou um avanço para o ensino no Brasil. técnica e científica do cidadão. assim como no desenvolvimento da sensibilidade de escuta às múltiplas outras vozes. de acordo com o Art.Em outras palavras.. em sua sede. obedecendo às normas gerais da União e.

0% da grade curricular. Contando com uma carga horária de 2. Na sequência. o que corresponde a 62. Na Universidade Federal Fluminense (UFF) o currículo encontra-se distribuído entre Língua materna e Literaturas. optou-se por apresentar abaixo. E/LE e Literaturas. o que corresponde a 37. É preciso lembrar que esta é uma pesquisa inicial. assim como as atividades complementares. são elas: a primeira em azul envolve as disciplinas de E/ LE e literaturas.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 115 acadêmico. e disciplinas pedagógicas. a fim de desenvolver a formação por meio de atividades de pesquisa que integrem as disciplinas e possam dar conta de um ensino humanizado e criativo. Não foram computadas nos gráficos as disciplinas optativas e eletivas. Literaturas e a parte pedagógica.980 horas. totalizando 3. acrescida de 120 optativas. portanto. Quanto à carga horária.360 horas. apresentaremos os gráficos elaborados a partir das grades curriculares das Universidades. Gráfico 3 . estas foram levadas em conta. os dados classificados em apenas duas categorias.9% do curso. Gráfico 2 O gráfico 2 mostra que para a formação em E/LE são apontadas 18 disciplinas para a primeira categoria. 60 eletivas e 200 horas de atividades complementares. A segunda categoria envolve a formação em Língua materna. na cor vermelha. para a segunda categoria são 29 disciplinas.

e para a segunda categoria 44 disciplinas. E/LE e Literaturas. o que corresponde a 31. e um total de 152 créditos.3%. Conta com uma carga horária de 3.5% da grade curricular. e para a segunda categoria 44 disciplinas.280 horas. Conta com uma carga horária de 4. o que corresponde a 68. Na Universidade Federal do Rio de Janeiro ( UFRJ) o currículo encontra-se distribuído entre Língua materna e Literaturas.5% do curso. Na Universidade Federal do Rio de Janeiro ( UFRJ) o currículo encontra-se distribuído entre Língua materna e Literaturas. e disciplinas pedagógicas.200 horas. o que corresponde a 31. avaliar . através de entrevista junto aos alunos do curso de letras. Gráfico 5 O gráfico 5 mostra que para a Formação em E/LE são apontadas 11 disciplinas na primeira categoria. o que corresponde a 75. Conta com uma carga horária de 4. o que corresponde a 24. e para a segunda categoria 34 disciplinas.07% da grade curricular. Buscar-se-á com a pesquisa. e um total de 242 créditos. E/LE e Literaturas.3%. Na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) o currículo encontra-se distribuído entre Língua materna e Literaturas. o que corresponde a 68. e um total de 242 créditos.200 horas. Gráfico 4 O gráfico 4 mostra que para a formação em E/LE são apontadas 20 disciplinas na primeira categoria. E/LE e Literaturas.07% da grade curricular. e disciplinas pedagógicas.116 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS O gráfico 3 mostra que para a formação em E/LE são apontadas 20 disciplinas para a primeira categoria. e a parte pedagógica.

MEC . DE 19 DE FEVEREIRO DE 2002. Brasília: Ministério da Educação.07 l e t r a s _ p o r t u g u e s _ e s p a n h o l _ _licenciado_novo.php?option=com_content&task=view&id=45 UFRRJ:http://r1.pdf.br>.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 117 o currículo de cada uma das Universidades. Revista Nebrija de Lingüística Aplicada. RESOLUÇÃO CNE/CP 2. p.179. Acesso 13/05/ 2012.gov. RESOLUÇÃO CNE/CP Nº 1. MOTA e SCHEYERL. u f f . códigos e suas tecnologias/ Secretaria de Educação Básica: MEC. ORIENTAÇÔES CURRICULARES NACIONAIS.br/arqs/fluxogamas_cursos/ BRASIL. Disponível em http://portal. UFRJ:http://www. U F F : h t t p : / / w w w. Referências bibliográficas BAKHTIN.ufrrj. . sua relevância no processo ensino/ aprendizagem de língua estrangeira e na formação do professor de E/ LE.mec. a fim de alcançar a excelência na educação. (1998). l e t r a s .uerj. p.pdf. de 18 de Fevereiro de 2002. Lei nº. 1996. São Paulo: Martins Fontes. 9394/96. Disponível em <http://www. Acessado em 11/06/2012.br/graduacao/arquivos/docs_curso/ matriz/IM/76_lic_letras-portugues-espanholliteraturas_matriz_2009-1. de 20 dez. Acessado em 11/06/ 2012. p. inclusión social y aprendizaje de español en contexto latinoamericano. BH: Editora. Acessado em 11/06/2012.pdf. Espanha. Sabe-se que. UERJ:http://www. no Brasil. Salvador. Kátia e Denise (2004): Recortes Interculturais na sala de aula de Línguas Estrangeiras . (2008): Linguagens. b r / s i te s / d e f a u l t / f i l e s / BRASIL.41Salvador. Mikhail. ainda são necessários maiores investimentos em pesquisas e financiamentos para o ensino de LE. PARAQUETT.Ensino Médio.letras. Dispõe das Diretrizes e Bases da Educação Nacional.Ministério da Educação. CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO CONSELHO PLENO.Acessado em 12/06/ 2012.br/seesp/arquivos/ pdf/res1_2. PCN – Parâmetros Curriculares Nacionais .UFBA.dep. letras_portugues_espanhol_licenciatura. Refletindo-se sobre a relação língua/cultura.gov.planalto. Acessado em 18/01/2010.(1992): Estética da Criação Verbal.br/ index.pdf. Márcia (2007): Linguística Aplicada. Acessado em 07/06/2012.ufrj.

Nini sobrevivia de . Ratero e Marcela. o El Norte estava impedido. jornal no qual trabalhava. Depois de publicar no jornal uma série de reportagens sobre a difícil situação do trabalhador rural nos campos castelhanos. fazendo com que de alguma maneira aquela história fosse contada. Nini. 19). o menino era capaz de analisar as mínimas nuanças nas alterações climáticas. foi levada a um manicômio de onde nunca mais retornaria. 2010. Esse conhecimento lhe conferia status de sábio. o romance relata as dificuldades vividas por moradores de um pequeno e miserável povoado castelhano.118 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS LAS RATAS DE MIGUEL DELIBES E A DENÚNCIA DA CRISE CAMPONESA EM CASTELA NOS ANOS 1950-1960 Ana Paula de Souza PG .” (DELIBES. p. 2010. comparado por alguns personagens a uma espécie de pequeno deus: “Digo que el Nini ese todo lo sabe. de fazer qualquer menção ao problema. ao longo de um ciclo agrícola de pouco menos de um ano. ao apresentar problemas psiquiátricos após a gravidez. numa intertextualidade bíblica: “¡Qué condenado crío! Cada vez que lo veo así me recuerda a Jesús entre los doctores. p. Percebendo que os censores não eram tão atentos e ferrenhos com os conteúdos das obras literárias como com as publicações periódicas. vivia da caça de ratazanas que além de alimentar a ele e ao filho.UFMT Las ratas (1962) é o quinto romance escrito por Miguel Delibes e. De maneira intuitiva. eram vendidas no povoado. 54) Com a ingenuidade própria da idade e a sabedoria extraordinária. O protagonista Nini é um menino de 11 anos de idade. a matéria para o enredo surgiu da impossibilidade de publicar no El norte de Castilla 1 . Delibes decidiu transformar em ficção a realidade social que conhecia com propriedade. um homem ignorante e embrutecido.” (DELIBES. e a Jesus. Seu pai. uma sabedoria popular inigualável entre os habitantes do vilarejo. Sua mãe. havia adquirido junto aos avós polígamos Abundio. Ambientado na segunda metade da década de 1950 (provavelmente entre 1956-57). segundo o próprio autor. nascido da relação incestuosa entre dois irmãos. no estado do solo. Román e Iluminada e ao ancião local Centenario. que nunca fora à escola. Parece dios. Apesar dessa desestruturação familiar. denúncias relativas ao abandono sofrido pelos camponeses castelhanos por parte do governo franquista. por ordem da censura. no comportamento dos animais e na constituição da vegetação.

Ou seja. para a qual se utilizava uma tecnologia produtiva tradicional voltada para o mercado interno. Através da ótica do personagem. mas como recurso estrutural que constitui o literário. A preocupação ambiental de Delibes. cuya fascinación sólo advertimos cuando ya nos ha escapado de entre los dedos… (DELIBES apud RODRÍGUEZ PUÉRTOLAS.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 119 pequenos trabalhos realizados para os agricultores e criadores de animais. 1990. O presente estudo se dedica a desvendar o social por trás do literário. e surgiu o cacique. num relato existencialista e desolado. o autor desnuda as consequências do abando no estabelecimento de relações humanas embrutecidas. O retrato da crise campesina castelhana em Las ratas Segundo Pérez-Díaz (1994). Nini se converteu em uma espécie de oráculo de sua comunidade á medida que com suas previsões meteorológicas e com sua percepção da natureza. Esse modelo agrário denominado tradicional 3 foi reafirmado pelo estado franquista de forma autoritária. tendo como base a exploração do campesino. Las ratas apresenta a profunda relação do camponês espanhol com a terra. faz-se presente no respeito do homem do campo pelos ciclos da vida na natureza. este trabalho inscreve-se na perspectiva de Candido (2000) ao entender o social não como causa ou significado2. não fosse a candura do olhar infantil. Problemas esses literariamente suavizados pela sabedoria carismática do protagonista infantil e pelas crenças supersticiosas de um povo inconsciente do seu papel social e. Por outro lado. Desse modo.o solo pouco fértil. Interessa também para este estudo verificar de que modo as cicatrizes da Guerra Civil permeiam o inconsciente coletivo dos personagens. Por um lado. procurando entender a crise agrária dentro do contexto econômico do país e os problemas vividos pela população campesina 1. Na organização social agrária do século XX. além de outros problemas menos evidenciados. por exemplo. de evocar una etapa – tal vez la única que merece ser vivida – cuyo encanto. as principais características da agricultura castelhana até os anos 1960 eram as mesmas da primeira metade do século XIX. Ao revelar tais implicações sociais a partir da narrativa ficcional delibesiana. animalizadas e na configuração de personagens primitivos e ignorantes que parecem não ter lugar em pleno século XX. sobretudo o trigo. Esses grandes latifundiários contratavam o serviço de trabalhadores sem terra que viviam no campo por jornadas. de acordo com as . o que desapareceria na vida do adulto que enfrentava as vicissitudes de um pós-guerra e de uma ditadura: Hoy más que nunca gusta el hombre de recuperar su consciencia de niño. e as consequências concretas desse acontecimento histórico para as condições da sociedade anos após o desfecho do conflito. a fome e a improdutividade. Segundo o próprio autor. o protagonista cumpria em seu povoado um papel do qual o estado se ausentara. além da denúncia do abandono político dos trabalhadores dos campos castelhanos. existente em Castela até a primeira metade do século XIX. da qual depende sua existência. 115) castelhana tais como a apatia social. p. ajudava os camponeses na luta contra as adversidades da região . portanto incapaz de reivindicar seus direitos políticos. a presença da criança na obra literária representa a nostalgia de uma fase da vida genuinamente feliz e íntegra. o clima austero e a total falta de investimentos. tratava-se de uma agricultura baseada centralmente na produção de cereais. Delibes constrói uma visão autêntica e poética de uma realidade que seria insuportavelmente cruel. aquele que possuía a maior concentração de terra em uma determinada região (geralmente mais de 100 hectares). desapareceu a figura do señor.

doña Resu y la señora Clo sumaban. poseía las tres cuartas partes del término. 2010. inclusive com maior ênfase. Doña Resu. Os demais campesinos. Em Las ratas . señora Clo e Pruden representam nessa pirâmide.” (DELIBES. puesto que utilizando la máquina. aos traidores da pátria. inclusive como jornaleiros. El señor Rosalino. pois não conseguiam sobreviver apenas da terra e eram obrigados a realizar outras atividades. para garantir o sustento da família. socialistas. mitad por mitad. por exemplo. oscilações térmicas e aridez do solo. são aqueles que para manter suas famílias tem de trabalhar como jornaleiros em outras terras ou se dedicam a outros trabalhos como a caça. 2010. que tinha em sua base aliada o apoio dos grandes proprietários de terra. las gentes maldecían de la soledad. aos quais Nini se refere como vecinos del lugar. A mecanização agrícola. 2010. 42) Delibes atribui ao personagem Don Antero o epíteto el Poderoso. como é o caso de Antoliano. o pastoreio. y la última cuarta parte se la distribuían. A própria ideia de divisão de terras estava ideologicamente relacionada . conforme resume o narrador: “En el pueblo. el Poderoso. (…) soltó una carcajada: ___ A voleo no siembran ya más que los mendigos y los tontos. De acordo com Pérez-Díaz. el Pruden y el puñado de vecinos del lugar. personagem da obra que sintetiza a figura do agricultor incansável na luta contra as adversidades. 47) aos perdedores da guerra. a criação de animais ou a manufatura. las tres cuartas partes de la cuarta parte restante. a total ausência de políticas públicas e investimentos para melhorar a condição de trabalho desses camponeses. o projeto de reforma agrária surgido no período da Segunda República (1931-39) foi invalidado durante o governo Franco. p. lamenta não ter acesso à tecnologia diante da possibilidade de ter de ressemear os campos por falta de chuvas: Y el Pruden. la sequía o la helada negra. O agricultor castelhano tinha de lidar com invernos rigorosos. Pruden. irregularidades das chuvas. manifestar frívolamente en su tertulia de la ciudad que “por lo que hacía a su pueblo. geadas e nevascas. la tierra andaba muy repartida. como hacían ellos.120 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS necessidades do plantio e da colheita. através do relato de Delibes. detentor da maior proporção de terras. comunistas. entre las dos. não sem dificuldades. el Poderoso. outro problema enfrentado pelo campesinato castelhano e denunciado por Delibes em Las ratas. o vilarejo castelhano fictício criado por Delibes reproduz essa organização social exatamente como o descrito no estudo de Pérez-Díaz: Don Antero. aliado à austeridade da natureza na região redundam no isolamento destacado no trecho. sobreviver exclusivamente da agricultura. bien poco costaba hacerlo. Proprietários de 10 a 100 hectares. verões quentes e secos. Os camponeses que possuíam menos de 10 hectares eram considerados marginais . Esse esquecimento por parte do poder público. indicando ao leitor de forma direta o lugar social que o mesmo ocupa no povoado: o de cacique. Esto no impedía a don Antero. Por isso o personagem Don Antero se sente confortável para afirmar que em seu povoado a terra está ainda muito dividida. os agricultores médios que sobrevivem da agricultura. Além da má distribuição das terras. p. a quien las adversidades afinaban la suspicacia. y ante los nublados. ou seja. chegava apenas para os grandes latifundiários que tinham como financiá-la. le contestó que el mal era para los pobres. (DELIBES. é a subordinação do agricultor às intempéries do clima. que além de agricultor é o marceneiro do lugar.” (DELIBES. Numa região que tinha como principal atividade econômica a agricultura. p. observa-se. 36). blasfemaban y decían: ‘No se puede vivir en este desierto’. anarquistas e membros de outros grupos políticos que lutaram pela república durante a Guerra. republicanos. os campesinos médios e pequenos conseguiam.

Em Las ratas Delibes narra o processo de replantio florestal em Castela: Antes hicieron esto en Torrecillórigo. Sendo a seca no momento do plantio e do desenvolvimento da plantação uma das principais preocupações dos agricultores castelhanos da época. apenas a las veinticuatro horas de estallar. Mesmo tendo sido negativos os resultados da primeira tentativa. até os anos 1950 em Castela. Em Las ratas esses trabalhadores vinham de Estremadura. De acordo com Pérez-Díaz. Hay que hacer la revolución. não restava aos agricultores como Pruden outra coisa que esperar dos céus o milagre da chuva. zomba dos agricultores que ainda semeiam de forma primitiva. o plano era agora retomado pelo novo ministro da agricultura e. 45) Outro projeto desse ministério foi o de reflorestamento. 89). Ao referir-se a hombres nuevos. para essa segunda etapa do trabalho. ao menos teoricamente. Cuando el Pruden quiera agua no tiene más que levantar la compuerta y ya está. aunque ahora eran empleados del Estado dedicados a la ardua tarea de la repoblación forestal. 2010. Delibes opõe dois discursos antagônicos – o de Pruden. o tierra vegetal. Nini. p. A colheita também era feita manualmente. (DELIBES. 2010. 88-89) O projeto do reflorestamento já havia sido executado pelos republicanos durante a guerra civil através do trabalho de brigadistas voluntários. No entanto. La repoblación forestal era la obsesión de los hombres nuevos. talvez esses homens não conhecessem de fato o rigor climático do ambiente castelhano. Tão logo. que plantar árboles. (DELIBES. si llueve como si no. 89). e o de Rosalino que assume a voz do cacique e impassível. No había tarea más apremiante y los prohombres decían: “Los árboles regulan el clima. Hay. según se sentaba en el banco del fondo: ___ Date cuenta. ¿Te das cuenta? Dejaremos de vivir aperreados mirando al cielo todo el día de Dios. “dispuestos a convertir Castilla en un jardín” (DELIBES.. Após um mapeamento. os benefícios da recomposição vegetal para o clima e para o solo.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 121 Nesse trecho da narrativa. p. Pero llegó el sol de agosto y abrasó los tiernos brotes y los cerros siguieron mondos como calaveras. ao assumir o Ministério da Agricultura entre os anos de 1951-57. talvez o autor quisesse lembrar que ideias como a do reflorestamento surgiram no bojo da Guerra Civil Espanhola e da mente de homens afinados com o ideal republicano. la azada al hombro. contratavam-se jornaleiros. foram declaradas zonas de interesse nacional as áreas agricultáveis. Rafael Cavestany tinha como projeto para sanar a aridez castelhana. ao longo da década de 1950 esse plano de irrigação havia atingido menos de dois por cento das zonas mapeadas. Dijo impulsivamente al niño. Entretanto. (DELIBES. intelectuais que conheciam. um plano de irrigação. porque o que era promessa de resgate da produtividade do campo desfez-se no primeiro verão. Somente a partir da década de 1960 foram introduzidos os arados modernos e o trator. após meses de trabalho dos Segundo Barciela López et. o personagem Pruden menciona esperançoso um plano de irrigação elaborado pelo governo: Tomó al Nini nerviosamente por el pescuezo y le explicó confusamente algo sobre un plan de regadío de que hablaba el diario y que alcanzaría hasta el pueblo. personagem que dá voz ao camponês consciente da impossibilidade do trabalho naquelas condições. por las inhóspitas laderas. De fato. y cuando la guerra. se organizaron brigadas de voluntarios con el fin de convertir la escueta aridez de Castilla en un bosque frondoso. p. ¡Arriba el campo!” Y todos los hombres de todos los pueblos de la cuenca se desparramaron ilusionados. atraen las lluvias y forman el humus. boa parte do cultivo era realizado com a ajuda de rudimentares arados como os utilizados no período romano. pues. al. os habitantes locais que conheciam os resultados da primeira tentativa de reflorestamento respondiam: “Sólo Dios hace milagros”. 2010. Diante dessa otimista afirmação. . porém secas que dependiam do projeto de irrigação para tornarem-se de fato produtivas. 2010. com foices e trilhos tirados por mulas. p.

Segundo PérezDíaz. arracimados desordenadamente por la violencia cambiante del ciclón. Em Las ratas Delibes aponta as principais dificuldades enfrentadas cotidianamente pelo campesino castelhano durante a crise agrária dos anos 1950. As precipitações climáticas e as mudanças que elas provocam no meio ambiente são descritas com a poeticidade e a sensibilidade de quem conhece com propriedade a paisagem castelhana. Ora. o autor resgata a figura do homem do campo como aquele que melhor entende o seu habitat. entre a má distribuição da terra. o protagonista contempla a plantação destruída: Los trigos. decapitados e cadavéricos. não poderia ser ignorado por aqueles que detinham o saber científico. lê nos sinais da natureza e vinda de uma forte chuva de granizo que aniquila os campos ás vésperas da colheita do trigo. uma mão-de-obra barata a serviço do grande latifúndio. A trechos. O castelhano não era amistoso à vinda dos trabalhadores estremenhos e no inconsciente coletivo se construíam todo tipo de estereótipos negativos em torno aos forasteiros: Pero en el pueblo no querían a los extremeños porque estimaban su labor inútil.”(DELIBES. permaneceria de forma velada no inconsciente Delibes constrói a imagem da perda da colheita por meio de personificações que humanizam os cereais. entre las espigas decapitadas. esse trecho confronta não apenas saberes como também culturas. se a terra fosse dividida de maneira equitativa entre as famílias camponesas. na figura do jornaleiro. comparando-os a seres humanos recostados ao solo. rebrillaban las charcas. Os pequenos camponeses viam. entre as quais a da reforma agrária. a falta de investimento e crédito e os projetos políticos ineficazes. devido ao forte sentido de comprometimento crítico de Delibes ao revelar a difícil condição do camponês . 179) Talvez essa rejeição pelos trabalhadores jornaleiros vindos de outras regiões do país tivesse uma explicação social mais profunda. desapareceria a figura do cacique. Após dias de secura e calor intensos. A narrativa que começa cronologicamente com o início do ciclo agrícola no outono. Com tudo. termina com a chegada do verão e os riscos que a estação traz consigo. poeticamente. Nini. (DELIBES. 2010. p. No entanto. Ainda que o saber camponês fosse empírico.122 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS estremenhos. p. nenhuma vicissitude impressiona mais o leitor que a impotência do trabalhador perante a natureza adversa. Nesse momento. quando a ideia era a de que cada trabalhador tivesse uma pequena porção de terra na qual trabalharia apenas a sua família. E assim. o oráculo do clima castelhano. Como profundo conhecedor de Castela e de sua gente. rígidos sobre los granos de trigo y los cascabillos desparramados. Por los caminos y junto a las linderas yacían los cadáveres de los trigueros y las alondras. o autor vai deslindando a tênue margem que separa ou vincula a denúncia social e a literatura. Ante cualquier desaguisado la gente decía: ___ Habrán sido los extremeños. contratante dos serviços dos jornaleiros. desde antes da Guerra Civil Espanhola os camponeses começaram a reivindicar suas pautas econômicas e sociais. impedían el acceso de las ovejas a las colinas y les atribuían toda clase de vicios. se acostaban mansamente sobre el lodo. Esse enfrentamento entre jornaleiros e pequenos agricultores existente desde antes da guerra. Embora tenha sido publicada em 1962. Durante su estancia los nativos disfrutaban de una absoluta impunidad. Delibes não só critica políticas públicas fracassadas como também confronta o saber científico com o saber popular. o desfecho conhecido dos agricultores castelhanos repetiu-se ao início do verão. Las ratas nos parece ser um romance ainda arraigado ao conceito de novela social espanhola dos anos 50. 91) popular e se repetiria como no fragmento do discurso dos personagens delibesianos. 2010. Terminada a forte chuva.

RODRÍGUEZ PUÉRTOLAS. María Inmaculada e MELGAREJO MORENO. Carlos (Coor. Madri: Castalia. . Antonio (2000): Literatura e sociedade . Nesse romance. 51-96. pp.).asp-research.ahistcon.com/pdf/ Asp5a. Queiroz. Víctor (1994): Transformaciones de una tradición. El Estado y la modernización económica. Barcelona: Destino. LÓPEZ ORTIZ.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 123 castelhano. Em Ayer. CANDIDO. PÉREZ-DÍAZ.pdf. utiliza-se o termo tradicional para definir o sistema agrário espanhol de meados do século XIX a meados do século XX. o autor faz da literatura um instrumento de ação social capaz de fazer com que as autoridades políticas da época voltassem seu olhar para uma região do país esquecida e isolada. Carlos.org/ docs/ayer/ayer21_03. Disponível em http://www. Miguel Delibes iniciou seu trabalho no periódico a partir de 1940 chegando a ser o diretor de 1958 a 1963. Acessado em 07/08/2012.pdf. Acessado em 07/08/2012. Segundo Pérez-Díaz (1994). campesinos y agricultura en Castilla entre mediados del siglo XVI y mediados del sig lo XX. Disponível em http://www. Iris (1974): Historia social de la literatura española III. São Paulo: T. BLANCO AGUINAGA. Notas 1 Jornal publicado em Valladolid até os dias atuais. A. Miguel (2010): Las ratas. DELIBES. Joaquín (1996): La intervención del Estado en la agricultura durante el siglo XX. Julio e ZAVALA. Referências bibliográficas BARCIELA LÓPEZ. 2 3 Palavras tal qual empregadas por Antonio Candido em Literatura e sociedade. nº 21.

como em Poesias. Dessa forma. subtítulos. notas à margem. e previamente ditadas pelo general Juan Domingo Perón a López Rega. notas de pé de páginas. 2) pelas relações com os paratextos: títulos. advertências.. concebido tanto como o movimento político nascido depois do golpe de Estado de 1943.). a presença efetiva de um texto em outro. e a identidade política de quem o invoca quanto como uma proposta de constituir a nação argentina. gravadas por Martínez durante quatro dias. ou seja. 5) hipertextualidade: responsável por unir um texto B (hipertexto) com um texto anterior A (hipotexto) no qual se enxerta de uma maneira distinta à do comentário. “Ascenso. uma relação de copresença entre dois ou mais textos. epígrafes. no limite. 4) arquitextualidade: articula uma menção paratextual (subtítulos e títulos. 179-188) retrata histórias cotidianas do exílio de Perón e sua extravagante relação com o secretário e mordomo José López Rega. com outros textos e textualidades (Cf. 3) pela metatextualidade. ilustrações etc. epílogos. Integrando a última coletânea. prefácios. GENETTE. as quais discorrem sobre o peronismo. triunfo. os romances La novela de Perón (MARTÌNEZ. Ensaios etc. cifradas ou expressas. a maneira pela qual se viabiliza a possibilidade de um texto escapar a uma singularidade que muitas vezes se torna insatisfatória a seu deciframento ou a sua compreensão. fazendo com que se considere as relações. Publicadas na revista . prólogos etc. Esse artigo revela-se como indicativo das formas por intermédio das quais pode ocorrer a transtextualidade. 1995). “El Brujo”. assim como Las memorias del General e Las vidas del general constituem hipertextos de um hipotexto chamado “Las memorias del semanario Panorama”. é por excelência a relação crítica. intertítulos. decadencia y derrota de José López Rega” (p. 1985) e Santa Evita (MARTÍNEZ. ou seja. A transtextualidade ocorre de diferentes modos: 1) pela intertextualidade. unindo um texto a outro texto que fala dele sem citá-lo e inclusive.124 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS QUANDO O MET ATEXT O DE TOMÁS EL OY META TEXTO ELO MAR TÌNEZ AUTENTICA AS VID AS DE PERÓN VIDAS MARTÌNEZ André Luis Mitidieri UESC Centramos atenção nas coletâneas de artigos jornalísticos de Tomás Eloy Martínez intituladas Las memorias del General (1996) e Las vidas del General (2004). finais. 1989). relação geralmente denominada comentário. sem nomeá-lo.

Mais adiante. 195-218). p. diz suprimir o que considera um pleonasmo: o capítulo “Las memorias del semanario Panorama ” (MARTÍNEZ. MARTÍNEZ 1996. p. hipertextual. 195-218). menos significativa. a partir do momento em que o autor substitui a palavra “Memorias” (constante na edição de 1996) pelo termo “Vidas” no título da obra lançada a público em 2004. Todas essas relações intertextuais e paratextuais. loc. dentre outras considerações. 9-15) no qual o autor infere. As relações arquitextual. reelaborando o que nomeia como “desmemorias” no capítulo “Las memorias de Puerta de Hierro” (p. 1996. comporta entre seus outros textos. configura-se simultaneamente como uma relação arquitextual e paratextual que parece fazer mais jus ao caráter plural das identidades no mundo contemporâneo. 135-170). Outra alteração. 1970. p. 1996). Martínez não ignora os desenvolvimentos teóricos acerca desse tema. 13-122). No mesmo prólogo.). o jornalista edita fragmentos relacionados àquele texto: sobre Evita. MARTÍNEZ. p. acompanhado de respectivos documentos. 14). instauram consideráveis mudanças que se reiteram na relação arquitextual. integra a coletânea Las memorias del General (MARTÍNEZ. insere dois outros capítulos: “Perón y sus novelas” (p. figurando em sua página de rosto. como “Las memorias del semanario Panorama” (MARTÍNEZ 1996. No mesmo periódico. mas aos dias 21 e 28 de abril. Insatisfeito com as lacunas encontradas no discurso de Perón. A título de exemplo. cit. dizia respeitar e. O texto fonte. refere-se à omissão de que o corpo completo das “Memórias” se originou daqueles diálogos (Cf. se sublevar contra a vontade de Perón (Cf. mas também os outros relatos dissidentes que completam ou contradizem tal imagem (p. Enquanto professor de literatura em universidades norte-americanas. contudo. 2004). acrescida de um prólogo (p. além das (des)memórias de Perón. talvez inutilmente. Ainda informa que. O subtítulo dessa publicação – “memorias del exilio y otros textos sobre Juan Domingo Perón”. ao mesmo tempo. a morte do sindicalista Augusto Vandor e as ideias de Perón sobre o que denominava “a liberação dos povos”. intertextual e paratextual são elas mesmas indicativas da relação metatextual. agora voltam a ser republicados. “Ascenso. 13-122) que. fornece informações a respeito de quatro outros textos que. . 11). na edição precedente. 20) quando. na nova versão. é republicado ao final do mesmo livro. o autor procede a investigações e à reconstrução de diálogos. que o título recente lhe parece mais apropriado por refletir nem tão somente os relatos com os quais Perón desejou inserir-se na história. essas “memórias” englobam os 50 primeiros anos da vida do expresidente argentino. importa mencionar o fragmento no qual o jornalista afirma que “este libro restaura los diálogos de Puerta de Hierro en el orden y del modo como sucedieron ” (p. que dialogue com todas as ficções que ele havia escrito sobre o peronismo e possam encerrá-las. 123-134) e “La tumba sin sosiego” (p. o intelectual argentino afirma que prepara Las vidas del General esperando.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 125 argentina Panorama a 14 abr. A mesma coletânea passa a ser intitulada Las vidas del General: memorias del exilio y otros textos sobre Juan Domingo Perón (MARTÍNEZ 2004)1 em nova edição. o subtítulo do livro Las vidas del General (MARTÍNEZ. Reiterando os vínculos entre Las memorias del General e o primeiro dos romances mencionados. aliadas às contracapas de ambas as edições. constantes na edição anterior. quer dizer. Dentre outras mudanças que ocorrem nesse paratexto. O prefácio utilizado em Las memorias del General passa a servir de introdução ao capítulo “Las Memorias de Puerta de Hierro” de Las vidas del General (MARTÍNEZ 2004. da forma crítica como o autor encaminha seus textos ao leitor.

decadencia y derrota de José López Rega” (p. que assim declara: No final de abril de 1975. Viajei à França. quando se vinculou com alguns membros da loja maçônica Anael e instalou uma pequena imprensa próxima à ponte ferroviária da rua Salguero. ao começo do texto. como secretário ou assistente.126 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS triunfo. em uma das vias de acesso à Costaneira Norte de Buenos Aires. a Triple A. a quem quisesse 3 Em 1963.. na qual o esotérico aparecia como integrante circunstancial da equipe de vigilância presidencial. na esquina de Paraguai e Leandro N.5 López Rega é apresentado como um rosto anônimo entre aqueles que rodeavam Perón em 1966. Dez dias mais tarde. Moisés e Maomé”. 18). 179-188).4 Por meio de seu narrador.6 Em 1971. de intertexto citacional de apoio. Abel. Alguns . dois dias depois que o “Bruxo” viu-se obrigado a renunciar e par tiu ao Rio de Janeiro como embaixador extraordinário da presidenta Isabelita Perón. Elias. Alem. Martínez informa que os escritos de dom José interpretavam o destino dos seres humanos “como um diálogo entre o poder dos perfumes e o poder das cores. e depois como um cabo disciplinado e ambicioso. a voz autobiográfica do jornalista. posso dizer que demorei nove anos para voltar [. Executando o retrato biográfico daquele protagonista quase iletrado. telefonemas e pedidos de audiência dirigidos ao General passam pela anuência do “Bruxo”. consideravelmente frequente. p. era conhecido como empregado para tarefas domésticas e editor de uma revista de tiragem limitada. submeter-se ao simultâneo ensino de Antúlio. um dos herdeiros de Perón. da Associated Press. o escritor insere a própria voz autobiográfica para dizer que ouviu pela primeira vez o nome de José López Rega quando tomou conhecimento do livro Astrologia esotérica. Os libelos me declararam inimigo da Argentina e me concediam quarenta e oito horas para partir ao estrangeiro. a quem a lentidão de suas ascensões no escalão policial induziu-o a pedir para ser reformado em 1962. aparentemente. GENETTE. sustentada por avisos de militantes peronistas. uma organização parapolicial que era financiada com fundos do Ministério de Bem-Estar Social e que. que teceria o iluminismo Rosacruz e alquimia de Paracelso com os rituais brasileiros de Umbanda”. e que propunham. praticamente todas as mensagens. O metatexto crítico de Martínez assim é praticado com uma parte. Desobedeci à advertência e tomei somente algumas precauções. Ainda não associado “ao paroquiano das ciências ocultas que vivia em Madri por um ano à procura da aprovação do General para sua difusa doutrina espiritualista.. Na mesma direção. Sua militância peronista parece iniciar aquele ano. López Rega havia imprimido alguns panfletos do peronismo clandestino e conquistado a confiança do major Bernardo Alberte. 1989. Quando esse mandou a esposa a Mendoza em 1965. por volta de 1950. estalou uma segunda bomba e recebi ameaças mais rotundas no apartamento onde morava e em um restaurante onde estava almoçando. fornece outros dados através de uma biografia reconstruída por membros do Clube de Correspondentes de Madrid. para apoiar o candidato a governador Ernesto Corvalán Nanclares. a instância autoral inclui. escrito por “el Brujo”. respondia às ordens de José López Rega. fez explodir uma bomba lança-panfletos em frente ao edifício da editora Abril. referendando o indício paratextual que tem valor contratual (CF.]. o então cabo reformado pediu a Alberte para servir como custódia de Isabel. artigo escrito em Caracas e publicado no jornal La Opinión em 22 de julho de 1975. no exílio em Madri”. Caso não conte com uma fugaz semana em agosto de 1975. sem talento aparente para a política. Buenos Aires. Pela memória de Tony Navarro. “Conjetura-se que foi então quando a convenceu de seu desinteresse patriótico e obteve consentimento para colaborar com ela. com esperança de retornar em poucas semanas.2 alcançar uma compreensão global do universo.

descobri uma espécie de sossegado bodegueiro de subúrbio. Em vez do megalomaníaco e intrometido Rasputin anunciado por seus detratores. quando mantivemos um diálogo fugaz junto à Quinta 17 de Outubro”. O escritor confirma essas pretensões místicas quando soma seu testemunho à história primeira que ele mesmo narra. capaz de ressuscitar os mortos e ler os pensamentos alheios.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 127 peronistas. Cada vez sou menos López Rega e cada vez sou mais a saúde do General’”. a metalepse autobiográfica de Martínez confere autenticidade à narração: “Perguntei a López Rega sobre a veracidade daquela história. que carecia de escrúpulos na relação social e de senso do ridículo. cidade brasileira fronteiriça com a Argentina. publicada em Astrología estérica junto a conjeturas místicas sobre Perón. outra vez destacada na narrativa. seu único prazer. da qual seria ele o profeta e o pontífice. trata-se da “metalepse” que. deixam para entregar a correspondência quando se despedem do ex-mandatário. não raro toma para si o envelope. A gravidade estaria no fato de ele impor ao produto o nome de Perón e sugerir que esse recomendaria suas virtudes. segundo Gérard Genette (2004). Mais uma vez.9 O narrador recorre a informes detidos em 1972 por um dos correspondentes de Madri para comunicar que o secretário do ex-presidente tinha um plano para transformar a Argentina num campo de cultivo mágico. seu ponto frágil. A ambição por bens materiais. Devo dizer que a negou e atribuiu sua invenção. O autor-narrador.12 A informação de que “el Brujo” teria utilizado o conhecimento adquirido nos arquivos e nas correspondências de Perón a fim de amedrontar peronistas que deixaram rastros escritos de sua deslealdade ou torpeza é atribuída a alguns de seus adversários. a crença de que o destino da humanidade seria decidido por claves musicais. não duraria muito tempo.10 Com uma ideologia esdrúxula. de cuja voz. e na qual sua presençã é solicitada como narradorpersonagem: “Não sou o único a quem se definiu em Madri como um fazedor de milagres. a fim de transferir o peso político e o carisma de Perón a si mesmo e. é informada por Martínez a partir de correspondentes estrangeiros que. todos esses dados são antecedidos no texto pela breve. maciço como um touro. o hábito da escrita. 7 A relação metatextual que se vai confirmando não prescinde de um elemento típico das narrativas ficcionais. quando o vi pela primeira vez. fundar uma religião para o Terceiro Mundo. segundo ele. em 1970. mas significativa. reuniram dados sobre uma empresa de engarrafar água em Uruguaiana. assegura: “O certo é que o domínio dessa enorme . posteriormente. ou inversamente.8 A ocasião permite a Tomás Eloy Martínez levantar uma hipótese a respeito da tolerância de Perón para com o mordomo. mas o secretário (a quem o narrador oferece voz). Também não sou o único que começou a levá-lo a sério quando já era muito tarde”. o “milagreiro” deteve um poder que. contudo. As lembranças do escritor alcançam o protagonista no mês de “junho de 1972. tomada biográfica na qual o testemunho de Martínez reitera o procedimento autobiográfico anteriormente indicado: A impressão que me causou. foi de qualquer maneira inferior ao personagem delirante e descarado que haviam prometido as fábulas madrilenhas. ao ódio que lhe professavam ‘alguns inimigos bruxos’”. provém uma possível resposta: “‘Eu sou o para-raios que detém todos os males enviados contra esta casa.11 O cotidiano do “Bruxo” no escritório da Gran Vía em Madri. a partir dessa fonte. capaz de ir mais longe do que sonhava. literalmente. “com o pretexto de que ‘o General tem muitas coisas para atender e não convém abusar de sua saúde’”. sabendo de tal vigilância. consiste em toda intrusão do narrador ou do narratário extradiegético no universo diegético (ou de personagens diegéticas num universo metadiegético etc.).

________ (1985): La novela de Perón . De acordo com a parte final do artigo que. além da cobiça. Perón havia pronunciado que o país estava em ruínas. o derrubou de maneira póstuma. é depois eliminada de sua reedição em Las vidas del General. Tomás Eloy (1996): Las memorias del General.128 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS massa informativa. decadencia y derrota de José López Rega”. não. Taurus. sobretudo. ________ (2004): Las vidas del General . ________ (1995): Santa Evita. os partidos político. Traducción por Luciano Padilla López. se for verdade – pois é verdade – que je sempre é também um outro”. Foi o próprio Perón quem. GENETTE. triunfo. Altea. Ao contrário. O metatexto crítico autentica as configurações que esse havia estabelecido para sua obra – as (des)memórias de Perón ao lado de outros textos. que forma parte do amplo cenário psicossocial contemplado pelas referidas obras de cunho jornalístico e memorialístico. e que somente uma política de conciliação e unidade nacional poderia salvá-lo. haverá possibilidade de saber se essa voz de mando não teria se pronunciado tarde demais. Buenos Aires: Biblioteca del Sur. consistindo em discurso secundário que confirma o artigo por ele protagonizado. Você com quem quer estar? Com a massa ou com o que amassa?”. de cuja existência. 13 arrogância.16 Participante assíduo nas reuniões políticas da Puerta de Hierro aproximadamente desde 1969. os sindicatos. A esses. pois há “homens que são escolhidos por Deus e outros. de ordem étnica. Planeta. somente quando se fizer o novo inventario das ruínas. Alfaguara. mas que integra uma coletânea na qual o papel de protagonista é ocupado por Perón. 14 É também considerado metaléptico esse enunciado que o mordomo havia proferido acerca de si mesmo. a derrota do “Bruxo” talvez encontrasse entre seus motivos. Buenos Aires: Planeta. o fanatismo e a intolerância daqueles tempos alertam-nos sobre os riscos dos atuais fundamentalismos. Buenos Aires: Planeta. “Ascenso. Gérard (2004): Metalepsis : de la figura a la ficción. o secretário acreditava em um Espírito Supremo que outorgaria poderes a alguns seres humanos e a outros. Alfaguara. se uniram e conciliaram para dizer-lhe basta. política ou religiosa. a perspectiva biográfica voltada ao secretário de Perón é compartilhada com as intrusões autobiográficas de Martínez. a vida do general junto a outras vidas – tomando a forma de uma metalepse que “está no núcleo íntimo de tudo o quanto cremos poder dizer ou pensar a respeito de nós mesmos. porque a imprensa. Madrid: Altea. os empresários e. López Rega acreditou no isolamento do poder e na necessidade de que o país se colocasse a serviço de suas convicções. MARTÍNEZ. Gérard (1989): Palimpsestos . a . o povo desesperado. Buenos Aires: Aguilar. Presentes não apenas no texto aqui estudado. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica. de acordo com as convicções e as palavras de López Rega. como também em outros artigos que integram Las memorias del General e Las vidas del General. de certo modo. integrando a coletânea Las memorias del General. o excesso de fé em seus poderes individuais: Antes de regressar à Argentina. caberia tratálos com rigor. aos inimigos. nem Deus nem sabe.15 Referências bibliográficas GENETTE. Taurus. No entanto. Nesse artigo. foi uma das chaves de seu poder político”. somada a sua infalível memória de policial bem adestrado.

cuando lo vi por primera vez. a quien la lentitud de sus ascensos en el escalón policial indujo a pedir retiro en 1962. cit. 182-183). constante nessa seção de Las memorias del General (MARTÍNEZ. é eliminado da coletânea Las vidas del general. con la salvedad de una fugaz semana en agosto de 1975 […]” (MARTÍNEZ. 7 "con el pretexto de que ‘el General tiene demasiadas cosas que atender y no conviene abusar de su salud’” (Id. fue de todos modos inferior al personaje delirante y cachafaz que habían prometido las fábulas madrileñas. Su militancia peronista parece arrancar aquel año. macizo como un toro. Ao contrário do que afirmava o general. 1996. 2004. literalmente. con la esperanza de regresar a las pocas semanas. 10 “No soy el único ante quien se definió en Madrid como un hacedor de milagros. 181). Ibid. . la Triple A. al parecer. 182). Viajé a Francia. en la esquina de Paraguay y Leandro N. 186). p. p. Debo decir que la negó y que atribuyó su invención. en el exilio de Madrid” (Id. Moisés y Mahoma” (MARTÍNEZ. como secretario o asistente. en una de las vías de acceso a la Costanera Norte de Buenos Aires” (Id. Cada vez soy menos López Rega y cada vez soy más la salud del General” (MARTÍNEZ. 6 “Se conjetura que fue entonces cuando la convenció de su desinterés patriótico y obtuvo consentimiento para colaborar con ella. 20. 116-119). Tampoco soy el único que empezó a tomarlo en serio cuando ya era demasiado tarde” (MARTÍNEZ. Diez días más tarde.). En vez del Rasputín megalómano y entrometido que anunciaban sus detractores. loc. p. respondía a las órdenes de José López Rega. o explosivo não teria sido colocado no veículo pela embaixada da Argentina na Venezuela e sim pelo chefe do Serviço de Inteligência daquele país. Ibid. loc. quando de seu exílio em Caracas. Alem. 5 "como circunstancial integrante del equipo de vigilancia presidencial. Ibid. sin embargo. 2004. 12 "La impresión que me causó. 4 “como un diálogo entre el poder de los perfumes y el poder de los colores. 2004. p. p. al odio que le profesaban ‘algunos brujos enemigos’” (MARTÍNEZ. Trata-se do informe sobre uma bomba que destruiu o carro de Perón em 1957. Buenos Aires. 2 “A fines de abril de 1975. Tardé nueve años en volver. someterse al magisterio simultáneo de Antulio. 2004. estalló una segunda bomba y recibí amenazas más rotundas en el departamento donde vivía y en un restaurante donde estaba almorzando. cit. cuando mantuvimos un diálogo fugaz junto a la entrada de la quinta 17 de Octubre” (MARTÍNEZ. 184). Elías. y que proponían. una organización parapolicial que se financiaba con fondos del Ministerio de Bienestar Social y que. 9 "‘Yo soy el pararrayos que detiene todos los males enviados contra esta casa. p. y luego como un cabo disciplinado y ambicioso. Ibid. Los libelos me declararon enemigo de la Argentina y me concedían cuarenta y ocho horas para marcharme al extranjero. capaz de resucitar a los muertos y leer los pensamientos ajenos. Desobedecí la advertencia y sólo tomé algunas precauciones. hizo estallar una bomba lanzapanfletos frente al edificio de la editorial Abril. 182). 183). 2004. Abel. p. a quienes quisieran alcanzar una comprensión global del universo. 185). 8 “junio de 1972. 11 "Pregunté a López Rega sobre la veracidad de aquella historia. p. hacia 1950. p. 184). que carecía de escrúpulos en la relación social y de todo sentimiento del ridículo” (MARTÍNEZ. cuando se vinculó con algunos miembros de la logia Anael e instaló una pequeña imprenta cerca del puente ferroviario de la calle Salguero.). descubrí más bien a una especie de sosegado almacenero de suburbio. 3 “al feligrés de las ciencias ocultas que vivía en Madrid desde hacía un año buscando la aprobación del General para su difusa doctrina espiritualista.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 129 Notas 1 O documento n. que entretejía el iluminismo Rosacruz y la alquimia de Paracelso con los rituales brasileños de Umbanda” (Id. p.

A la inversa.130 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 13 “Lo cierto es que el dominio de esa enorme masa informativa. el pueblo desesperado. si es verdad – pues es verdad – que je siempre es también otro” (GENETTE. 129). cit. 2004. 2004. loc. y que sólo una política de conciliación y unidad nacional podía salvarlo. los empresarios y. fue una de las llaves de su poder político” (MARTÍNEZ. 144). sobre todo. López Rega creyó en el aislamiento del poder y en la necesidad de que el país se pusiera al servicio de sus convicciones. lo derrocó de manera póstuma. 15 "Antes de regresar a la Argentina. p. p. porque la prensa. podrá saberse si esa voz de alto no se pronunció demasiado tarde” (MARTÍNEZ. 187). Perón había predicado que el país estaba en ruinas.). . ¿Usted con quién quiere estar? ¿Con la masa o con el que amasa?” (MARTÍNEZ. sumada a su infalible memoria de policía bien adiestrado. los partidos políticos. se unieron y conciliaron para decirle basta. 16 “está en el núcleo íntimo de todo cuanto creemos que podemos decir o pensar respecto de nosotros mismos. 14 "hombres que son elegidos por Dios y otros de los que Dios ni se entera que existen. los sindicatos. en cierto modo. Fue el propio Perón quien. 1996. Pero sólo cuando se haga el nuevo inventario de las ruinas. p.

essa se torna uma mídia explorada com fins de mudança social. cujo enredo é baseado em uma adaptação livre da obra La Señorita de Trevélez (1916). o cinema também foi utilizado como meio de propaganda ideológica sobre as massas. O objetivo é tentar vislumbrar. o silêncio imposto nos longos anos de ditadura de Franco. passando a ser caracterizado como uma técnica que permitia movimentos de massas. uma análise do filme Calle Mayor (1956). Neste período. Não era raro. poderiam promover a democratização no campo das artes.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 131 CALLE MAYOR E SEÑORITA DE TREVÉLEZ SOB A DITADURA FRANQUISTA Angela dos Santos FATEC – ZL e SCS O cinema e a técnica cinematográfica ganham corpo nas primeiras décadas do século XX. do dramaturgo Carlos Arniches. tornandoo um instrumento de propaganda política. Mas o inverso também ocorreu. do cineasta Juan Antonio Bardem. a produção cinematográfica de transposições literárias tomou uma proporção ainda maior que nos anos anteriores. No plano das possibilidades. devido ao fato de atingir um contingente enorme de pessoas. em vista de manter o status quo . pretende-se apresentar aqui. A partir desta problemática. através das câmaras perspicazes de Antonio Bardem. a moral e os bons costumes. Neste sentido. segundo Walter Benjamin (1985). mutilando obras e ditando regras tanto políticas quanto religiosas. Certamente isso não foi diferente no regime franquista. ao mesmo tempo em que encomendavam obras para propagar seus ideais e impor sua forma e conteúdo. Assim. no início do século. contribuiu de forma contundente para a difusão dos ideais franquistas. Especialmente no pós-guerra. foi crucial para que o cinema e a literatura espanhola fossem diretamente afetados em suas produções. A censura atuou de forma incisiva nas produções cinematográficas. posto o seu poder de fascínio e sua vertente influenciadora. que os regimes totalitários exercessem sobre os filmes uma censura asfixiante. com o apogeu da indústria cinematográfica. na medida do possível. essas técnicas de reprodução da arte. e sob a vigilância da censura. de que maneira o cineasta conseguiu subverter a ordem. e produziu uma obra crítica à .

suprimindo sílabas. A obra em análise de Arniches foi escrita e levada à cena em plena Guerra Mundial. associado ao costumbrismo e ao humor. Trata-se de encontrar. mas estaciona neste ponto. . pintarrajada e sonriente” (ARNICHES. que enchem as salas de teatro. Ele narra um drama causado por homens que. produzida às vésperas da guerra civil espanhola em 1936. em sua maioria peças cômicas. Sem dúvida. uma teatral e a outra fílmica. Gonzalo de Trevélez. preferência de certo tipo de público. pois o engano é perpetuado e Flora de Trevélez segue em completa ignorância dos fatos. La Señorita de Trevélez é considerada a obra mais relevante de sua produção teatral. mas não quanto ao gênero. Criando assim. soube recriar de maneira exemplar a riqueza da linguagem popular de Madri. a esta comicidade própria da farsa está presente o drama que vivem os irmãos Trevélez. perpetuam as condições da mulher frente à sociedade patriarcal. são próximas quanto ao argumento. irmão de Flora. para fugir do tédio de uma cidade. Comediógrafo e excelente pintor de ambientes populares. utilizando jogo de palavras. na impossibilidade. com fins humorísticos. Ela sacrificou um possível matrimônio pela felicidade de sua irmã. . ainda que residual ou mínima. de fala peculiar. e D. O argumento desta tragédia grotesca apresenta um conflito dramático relacionado ao cotidiano e protagonizado por heróis igualmente grotescos que tramam brincadeiras de mau gosto. Carlos Arniches foi um mestre na arte de escrever obras deste gênero. com intenção evidente de caricaturar o madrileno.132 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS sociedade de sua época. Qualificada pelo autor de “farsa cómida en tres actos”. proliferam nos teatros apresentações de obras de todo tipo de gênero. Sua obra está a meio caminho entre a tragédia e a comédia. A obra de Arniches relaciona características regionalistas. tornando-o um verdadeiro “vício nacional”. simplesmente para evadir-se do tédio da vida quotidiana da pequena cidade. Suas personagens são apresentadas com características singulares. uma solteirona de idade avançada de classe burguesa “la cara ridícula. vítimas de uma cruel brincadeira engendrada por jovens ociosos. A primeira. de Edgar Neville. Vale destacar as principais personagens da peça.94). jovem escolhido pelos amigos fanfarrões para ser o suposto pretendente de Flora. a transposição é feita somente através do argumento e converte o cômico em tragédia. já que o trabalho de Arniches é reconhecido como uma comédia grotesca. que se aproximam do folclórico. Também merece atenção Numeriano Galán. foram realizadas duas versões cinematográficas. Nesse período. aplicando um léxico próprio. e é considerado o criador da “tragédia grotesca”. Dada a importância desta obra. Ele revela um conflito dramático relacionado ao cotidiano de uma pequena cidade. p. tecendo uma odiosa brincadeira sem precedentes. São elas: Flora de Trevélez. 1998. na qual se percebe que não há a pretensão de uma crítica severa à sociedade. tendendo ao sentimentalismo e ao melodrama. tem o mesmo título da obra teatral. principalmente o conhecido género chico. a possibilidade. É bastante próxima à obra de Arniches. As duas obras em análise. Já não possui o tom jocoso e não se emprega o jogo de palavras que caracteriza a obra teatral. Na obra fílmica. que é sem dúvida a personagem de maior relevância. membros de um cassino provinciano. uma linguagem própria que logo é repassada ao povo.

em plena ditadura franquista. a um sistema de classificações que tenta controlar a indústria por meio de subvenções que servem à ideologia do regime franquista. a catedral. La historia que está a punto de comenzar no tiene unas coordenadas geográficas precisas.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 133 Anos depois. como se o expediente pudesse ser uma fábula. se recusa a continuar as filmagens sem Bardem. Bardem evidentemente teve problemas com o roteiro. A principal tarefa da Junta de Clasificación y Censura é a de exercer a censura dos filmes nacionais e estrangeiros. onde os constantes passeios pela calle mayor reproduzem um ritual cotidiano. em condições pouco convencionais. para os padrões da época. a indústria cinematográfica enfrenta uma censura feroz e. o bairro velho e a calle Mayor de Palencia. as personagens perdem as características grotescas e assumem um papel mais fidedigno da realidade. Vê seus sonhos de se casar prestes a se realizem quando percebe as investidas de Juan. principalmente as mulheres solteiras. Só assim ele conclui o filme. convidada pelo próprio diretor para protagonizar Isabel. Una ciudad cualquiera en cualquier provincia de cualquier país. daquela sociedade. tais como o cassino. não é mais uma jovem na idade de “buen merecer”. em cidades provincianas. Calle Mayor . dando ênfase à visão de uma pequena burguesia local. dos bons costumes. tão comum à época. El color del pelo o la forma de las casas. O motivo principal é ver e serem vistos. Una pequeña ciudad de provincias. e a atriz. anunciando precisamente: Aquí abajo está la ciudad. Um fato que fornece a dimensão do momento político merece ser pontuado. Outras cenas foram cortadas pela censura. A censura encarregou-se de que o diretor fizesse um prólogo. com argumento e roteiro do próprio diretor. Nessa transposição. sob forte pressão do Estado para que o filme prossiga com outro diretor. Parte dessa ambientação de Juan consiste na aproximação a um grupo de jovens acostumados a zombar das pessoas. quanto ao seu conteúdo moral. sendo possível vislumbrar diversos elementos. Na verdade. Durante a rodagem do filme. Bardem é detido. Foi obrigado a retirar os letreiros de lojas e bares das filmagens. pois era obcessão da censura de que qualquer filme não revelasse a localização e a época das histórias contadas. que tem como intérprete a norte-americana Betsy Blair. evidenciando os costumes de uma pequena cidade. com brincadeiras nada honrosas. em 1956. na qual o diretor não se preocupou em seguir a história linear do gênero cômico. Isabel é uma solteirona e. É o que levantaremos nesta análise. A cidade indefinida no filme é na realidade Logroño. ele tomou o argumento da obra teatral e transformou-a em uma tragédia. a partir de 1943. Juan Antonio Bardem realiza o filme Calle Mayor . como já foi dito. um jovem de Madrid que reside na cidade havia apenas três meses e que já se ambientou ao estilo de vida provinciano. é uma transposição livre de uma obra teatral. los anuncios en las paredes o una determinada manera de sonreír y hablar no debe ser forzosamente una bandera concreta para envolver a estos hombres y mujeres que va a empezar a vivir delante de nosotros (BARDEM. . mas Bardem soube magistralmente revelar aspectos políticos e religiosos. além de outros locais pontuais da cidade. Possivelmente foi graças à intervenção da coprodutora francesa e a esta recusa de Betsy Blair que o diretor conseguiu ser liberado algumas semanas depois. ou melhor dizendo. Durante os longos anos de ditadura. político e social. 1956). sem espaço e tempo próprios de uma sociedade. que são maioria e vão acompanhadas por outras amigas ou alguém da família. Esta obra é uma coprodução hispano francesa.

nos anos 50. e muito menos grotesca. Bardem diz: El texto nace de una fuente y más afluentes. A respeito de sua obra. nada se parecendo com Flora. as eliminações se deram aos momentos de referências a manifestações amorosas apaixonadas. ya en el borde de la soltería. Yo tomé como elemento fundamental de mi texto la broma. Juan torna-se algoz e também vítima de seus amigos. É um aspecto que difere da obra teatral. fica claro que ele critica as atitudes . No filme o aspecto religioso. un análisis de la condición de la mujer en España. pois é escolhido para forjar uma relação com Isabel.. sino específicamente de una señorita de la pequeña burguesía de una ciudad de provincias. La fuente: La señorita de Trevélez de Don Carlos Arniches. no final. uma revista que. cabendo a seu irmão este papel. Otra vez la soledad de una mujer abandonada y asfixiada por las conveniencias sociales de su mundo. onde Juan dá indicações a Isabel de seu interesse. às freiras e seminaristas.134 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Fazendo parte desse grupo. já que Juan se acovarda e foge. próxima da realidade. foram acrescentadas algumas sequências ao roteiro original. siguiendo paso a paso la línea que había escrito don Carlos. Yo no. Mas é manifesto que Bardem explora bem mais o aspecto social que em Arniches. mas de maneira contundente. Flora não é a protagonista. Federico. cantando com mais entusiasmo. As personagens masculinas perdem a característica grotesca e adquirem uma personalidade mais complexa. O papel de protagonista cabe agora à personagem feminina. dos homens perante a vida inculta. o domínio das figuras masculinas prevalece. en particular. já que Apesar de Bardem dar ênfase ao drama da mulher espanhola. Foram cortadas todas as outras sequências sobre caridade. no filme. Edgar Neville hizo una versión cinematográfica de La señorita de Trevélez con María Gámez como protagonista. Bardem desenvolve uma sequência exemplar no interior de uma igreja. se vê obrigado a revelar tudo a Isabel. y a partir de ahí. Don Gonzalo. las seis mujeres de maridos ricos. pois ela não é feia. É ele que. amigo de Juan. revela sua visão comprometida com o lado social. No entanto. Y no de cualquier mujer. Além dos muitos cortes realizados. na qual somente as mulheres participam e Isabel. Un tercer afluente venía del poema de Agustín de Foxá: las seis muchachas en el mirador. Un afluente fue Doña Rosita la soltera de Federico García Lorca. manifesta-se poucas vezes. estarrecida e feliz pela audácia do suposto amante. não está de acordo com as constantes brincadeiras do grupo e condena suas atitudes. pois naquela Numeriano Galán é involuntariamente envolvido na trama. me dediqué a explicar y expandir una crítica general del mundo español de los 50 y. terna e patética. Outra sequência é a declaração de amor feita por ele na metade de uma procissão. Apesar do título da obra teatral. Apesar de a censura ter impedido que a prática religiosa tivesse mais relevância no filme. Sua atitude em tentar ajudar Isabel a fugir daquela cidade e dos olhares de escárnio de todos. que aparece como o protagonista na peça teatral. no filme desaparece completamente. improdutiva e conformista. segue a procissão. Isabel revela-se uma personagem viva. Dessa forma traça uma diferença entre o roteiro original e o resultado final do filme.. religião e meros planos de passeios de seminaristas. Não se evidencia uma proposta para que as mulheres adotem um papel mais ativo na sociedade. Dentre os cortes. Um indicativo importante que se faz referência no filme é a revista Ideas. roubando a cena da protagonista. Federico terá um papel importante como representante de uma postura comprometida. estabelece uma oposição ao franquismo e que a personagem Federico traz de forma que atualiza a ação e a situação política da época. que está de passagem pela cidade.

J. Coproducción España-Francia. distanciando-se dos filmes produzidos até então. O filme termina com Isabel vendo o mundo através da janela de seu quarto. de que é uma obra sobre a condição feminina. Bardem. se limita a hacer lo mismo que las demás mujeres de la ciudad: novenas. J. (1985): Obras Escolhidas . paseos. Magia e técnica.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 135 percebemos um deslocamento do que diz respeito ao próprio Bardem. procesiones. RÍOS CARRATALÁ. faz uma crítica à sociedade patriarcal.P. cai uma forte chuva. Dessa forma. tampoco es cursi y. De certa forma. graças a um grupo de cineastas que busca uma nova forma de representar e que partem de um universo mais realista. arte e política. C. São Paulo: Brasiliense. inaugura-se uma produção voltada a uma aguda consciência social. Isabel es todo lo contrario. No hay ninguna razón objetiva porque la condene a la soltería. No es fea como Florita. un baile en el Círculo. 135) explica a brincadeira ao personagem feminino: No es lo mismo burlarse de un personaje grotesco como Florita que de una mujer como Isabel. S. 95 min. (2000): El teatro en el cine español. BARDEM.A. BENJAMIN. (1998): La señorita de Trevélez. Ele utiliza-se de suas câmaras perspicazes para revelar o absurdo de tal sociedade e nos brinda com um filme de oposição à norma e à política vigente. Madrid: Cátedra. Ríos Carratalá (2000. mais reveladora e instigante. v. elevada ao papel de protagonista. Referências bibliográficas ARNICHES. I.(1993): Calle Mayor . W. Madrid: Plot Ediciones. O que torna esse filme uma obra singular. não rompe com o modelo estabelecido. en cualquier caso. se por seu corte neorrealista. Ao mudar completamente o gênero da obra original. J. Aunque Carlos Arniches siempre critica a los burladores y a quienes. BARDEM. juegan con los sentimientos de los demás.A. anualmente. o que ganha corpo na história é a pequena cidade provinciana. Bardem faz parte deste grupo e este filme diferencia- . DVD. mas na verdade são as convenções. Alicante: Publicaciones de la Universidad. el retrato de la solterona casi invita a burla. com personagens cotidianos e familiares. com matizes próprios do diretor. Fora. rezos y. já que a censura tinha o papel de mutilar e descaracterizar as produções em geral. a brincadeira. Suevia Films / Play Art / Iberia Films. que se evidencia no texto fílmico. Nos anos 50. Um futuro sombrio e tormentoso a aguarda. A brincadeira torna-se sem sentido e Isabel segue com sua atitude passiva e conformista. mesmo sob a censura franquista. o diretor subverte a obra teatral e escreve outra história.A. (1956): Calle mayor. Rouanet. na medida do possível. trad. en general.

no contexto do aspecto iterativo e na variante do espanhol da Cidade do México. há uma diferença no modo como a constituição interna da situação é vista. Além disso.3). Enquanto na primeira o aspecto é imperfectivo. Para este autor. percebe-se que ambas as sentenças referem-se ao passado. Essa perífrase. há dois aspectos básicos na língua. haverá a leitura habitual iterativa. Introdução O espanhol. O aspecto iterativo. Mas se essa situação não puder ser prolongada. Ao observar os exemplos “João estava lendo um livro” e “João leu um livro”. Contudo. o aspecto perfectivo e o imperfectivo. ou seja. Essa oposição é gramaticalizada em diversas línguas. então ela será apenas habitual. como por exemplo no próprio português. assim como o português. completo. aspectuais. como no exemplo do inglês abaixo em (6). Enquanto o aspecto perfectivo trata a situação ou evento como um todo. na proposta do autor. as perífrases podem ter quatro tipos de valores: temporais. se uma situação individual pode ser prolongada indefinidamente no tempo. na segunda é perfectivo. Segundo COMRIE (1976. decidimos verificar a co-ocorrência desta perífrase com outras perífrases. A perífrase “tener” + particípio é considerada uma perífrase aspectual. tem traços comuns1 com a habitualidade e faz referência a uma pluralidade de ações. pois serve para mostrar a categoria verbal denominada aspecto. é uma língua que apresenta grande abundância de perífrases verbais. Já em sentenças como em (7). O aspecto contínuo/durativo ainda poderá ser dividido em progressivo e não progressivo.136 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS DISTRIBUIÇÃO DA PERÍFRASE “TER” + PARTICÍPIO NO ESPANHOL DO MÉXICO Anne Katheryne Estebe Maggessy UFRJ 1. o aspecto se define em função dos diferentes modos de observar a constituição temporal interna de uma situação.19). para abarcar outros tipos de distinções aspectuais que podem fazer parte de algumas línguas. no português. Para GÓMEZ TORREGO (1988. então para . há uma diferença aspectual entre elas. Para este autor. por isso. o aspecto imperfectivo se refere essencialmente à estrutura interna de uma situação. o aspecto imperfectivo é dividido em aspecto habitual e aspecto contínuo/durativo. segundo o autor. p. vendo-a de dentro. modais e estilísticos. p. está sendo substituída pela perífrase “estar” + gerúndio e. por exemplo.

outras vezes. FERNÁNDEZ DE CASTRO (1999) e YLLERA (1999). em estudos anteriores (2009. quanto no espanhol de Madri. desempenham papel principal na composição dos aspectos durativo e iterativo. Dessa forma. (7) “The policeman used to stand at the corner for two hours each day” (O policial costumava ficar no corredor duas horas por dia) (8) “The old professor used always to arrive late” (O velho professor costumava sempre chegar tarde). tanto do português quanto do espanhol. segundo o próprio COMRIE. 2010 e 2011). o aspecto iterativo é considerado como pertencente ao aspecto imperfectivo. A perífrase EG é canonicamente descrita. mas em estudos como o de MENDES (2005). O comportamento perifrástico de “tener” + particípio Segundo GÓMEZ TORREGO (1988. como em (8). se indica um valor repetitivo ou de insistência como em: . 2. Segundo o autor. um dos aspectos básicos da língua. p. Como nos exemplos abaixo: Tengo escrito ya cincuenta fólios.192 ). a iteratividade é uma categoria aspectual com marcas linguísticas específicas como tipo de verbo. que apresenta repetição. nos surgiu a curiosidade de investigar se a perífrase “tener” + particípio também estaria apresentando leitura aspectual iterativa no espanhol do México como a perífrase “estar” + gerúndio. já pudemos verificar a possibilidade da expressão aspectual iterativa em sentenças com a perífrase EG tanto no PB. pode-se dizer que para COMRIE. como a que expressa o aspecto progressivo ou durativo. marcadores adverbiais e argumentos plurais. já que segundo GÓMEZ TORREGO (1988). um marcador adverbial como two hours each day (duas horas por dia) ou always (sempre). o valor mais característico da perífrase “tener” + particípio é o valor perfectivo-acumulativo de um estado alcançado. de Buenos Aires e de Valparaíso. De acordo com os estudos de WACHOWICZ (2006). Além disso. Tengo empapeladas ya três habitaciones. sólo me quedan la cocina y el baño Tengo corregidos ya veinte exámenes. o aspecto iterativo é normalmente expresso pela perífrase “ter” + particípio com o auxiliar no presente do indicativo. na variante carioca. é pelo menos um dos fatores propiciadores da leitura aspectual iterativa. verificase que a perífrase “estar” + gerúndio (EG) está gradativamente substituindo a perífrase “ter” + particípio nas gerações mais jovens da população. sólo me quedan diez O autor também afirma que. (6) “The temple of Diana used to stand at Ephesus” (O templo de Diana costumava ficar em Efesus) dentro dos estudos linguísticos. Mas. considera-se nesse trabalho a iteratividade como aspecto por apresentar um evento escalonado. ao observar os exemplos do inglês acima. Com isso. E. “estar” + gerúndio e “ter” + par ticípio são construções perifrásticas que quedan veinte. seu uso mais produtivo expressa o aspecto perfectivo. sólo me Em português. ou seja.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 137 o autor a única interpretação razoável envolvida será a iterativa.

a nossa hipótese é a de que a produtividade dessas sentenças com “tener” + particípio em contexto iterativo estará relacionada com a presença de verbos intransitivos e de advérbios quantificadores. é de uma gradação perfectiva na qual o processo não aparece. a perífrase expressa uma ação iterativa sem implicar necessariamente um estado resultante: a. FERNÁNDEZ DE CASTRO (1990.) Tengo entendido que te robaron este verano (=creo. apud TRAVAGLIA 2006). Enquanto isso. Felipe. com verbos intransitivos e advérbios quantificadores. esse tipo de construção não se usa mais e um exemplo como o apresentado tende a ser interpretado com valor de imperfectivo. Tiene viajado mucho por el extranjero. quando perífrase. como no caso anterior. v e c es q ue s e lo t e ng or e p e t ido hasta la sa re sacie cieda dad. parece ser que. p. […]”. que te ngo . no trabalho de YLLERA (1999). Especial si alcanzo a tempo de la primera embestida.278). cursivo. o meu discurso (VIEIRA. Eso es grande! Yo lo t e ng o af e itado la mar d e v e c es.. a perífrase “ter” + particípio já apresentou o valor de aspecto acabado como no exemplo “Tenho acabado. Segundo DIAS (1970. estas construções distam muito de ser unanimemente aceitas e empregadas por todos os falantes do espanhol. Para TRAVAGLIA (2006. Tengo castigado al niño muchas veces.) Tengo decidido ir a tu casa (= estoy decidido ir. de ésas le t te ngo vistas po cas. ainda que rejeitadas por outros. 950)”. espanhol. te robaron) Da mesma forma. Tienen vivido mucho tiempo en España y por eso hablan tan bien el español. o la mo ntaña d e montaña de unas economías. d. faenas de ésas. observamos nos exemplos abaixo a presença da conjunção de ênfase e quantificações temporais extensivas que acompanham a perífrase “tener” + particípio: (133) No. c. Sentenças essas. pero grande. es inútil. Lo menos cinco años que se lo vengo diciendo ya: “vamos a hacer un esfuerzo.. segundo estudos do PB e do espanhol. aceitas por alguns falantes de .138 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Te tengo dicho que te calles Te lo tengo advertido. Tenemos hablado mucho sobre este asunto..166). a.. Le tengo prestado el coche muchas veces. Si no lo vas a apear de su convencimiento. temos acesso aos estudos de HARRE (1991: 52-78). Mas. Quizás que no se lo tengo yo dicho eso un montón de veces. Por isso. q ué sé y yo cie da d. no te pongas a llorar E que. HARRE cita outros exemplos em que. no sirve discutir. Tengo despertado al niño un montón de veces. Tengo perdida la cartera varias veces. interessa o estado no sujeito e não no objeto. como dito anteriormente. b. si es inútil. Me gusta el espectáculo. que cita exemplos de sentenças com “tener” + particípio expressando o aspecto iterativo. como nos seguintes casos: Tengo pensado ir a tu casa (= pienso ir. luego. p. se lo digo en serio. y sabía ser te ngo afe de ve un tío cordial cuando quería. b. I. c. Com isso. de ponerse hecho un toro colorado y salir arreando con todo lo que e ng ov istas unas p o cas pilla por delante. afirma que o valor de “tener” + particípio.[…] Ahora. Fiéis. não-acabado e durativo. eso sí. em ocasiões. não só como meramente concluído. mas também como estendido e relevantemente durativo.

De acordo com este autor.5 4.6 67/120 55. Metodologia Elaboramos um teste de preenchimento.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 139 3. Esta perífrase chamada de pretérito perfeito composto. para verificar se os nativos da Cidade do México selecionariam sentenças com “tener” + particípio ou com “estar” + gerúndio ou com “haber” + particípio em contexto iterativo. + QUANTITATIVO N/TOTAL HABER + PARTICÍPIO ESTAR + GERÚNDIO TENER + PARTICÍPIO TOTAIS 62/90 % 68. Ele está composto por 8 sentenças distratoras formadas por verbos do tipo estado.8 DISTRATORAS ESTADO N/TOTAL 45/120 % 37. expressa o aspecto perfeito (perfect). é interessante notar que a perífrase mais selecionada nas sentenças alvo. com 14 lacunas. Resultados ALVO INTRANS. p. pois indica a relevância do presente contínuo de uma situação passada.4 0 3/120 5/120 2. com nível superior. A variável sexo não pôde ser controlada.5 24/90 26. que são formadas por verbos do tipo estado. Observando também o comportamento das sentenças distratoras.1 Após a leitura da tabela. o aspecto perfeito também pode ser expresso no português pelo pretérito perfeito “ter” + particípio. percebemos que a perífrase mais . segundo a classificação de VENDLER (1967). 4. que tem significação iterativa. com verbos intransitivos mais advérbio quantificador. segundo COMRIE (1976. foi “haber” + particípio. também expressa o aspecto iterativo. que estão relacionados abaixo: llegar tarde todos los días correr un chingo de veces bailar un chingo de veces salir varias veces despertarme muchas veces nadar todos los días Aplicamos o teste à 15 falantes de espanhol da cidade do México entre 20 e 24 anos. como os seguintes verbos: gustar / tener / amar / permanecer / vivir en un piso/ odiar / querer / creer. E por 6 sentenças alvo. O teste se resume a uma carta de uma estudante mexicana que está no Chile e descreve tudo o que tem feito à sua família.61).8 4/90 0 4. que segundo os estudiosos do PB.

pois um verbo de estado que é por sua natureza (-) dinâmico. Pois não há fatores que diferenciem essas sentenças de outras que não foram selecionadas como “llegar tarde todos los días”. (1) A) Aquí tengo salido varias veces. Essa combinação pode parecer inicialmente estranha. pois não possuíam as características descritas por HARRE como favorecedoras da iteratividade.3 (1) B) He gustado de todas las personas. Diferente do esperado. (5) A) Tengo gustado de todas las personas de la Universidad. apresentamos as sentenças distratoras que não esperávamos que fossem selecionadas. (8) C) Estoy creyendo que ser gordita no es bueno. “bailar un chingo de veces” e “despertarme muchas veces”. (6) A) Tengo nadado todos los días. (6) C) Estoy nadando todos los días. mas não é considerada muito produtiva. (1) 5. (3) Estes exemplos acima. (14) B) He permanecido firme en mi propósito. ao contrário. A hipótese não pôde ser refutada. se apresenta em forma de gerúndio que é. (1) B) He nadado todos los días. DISTRATORA (n° de sentenças selecionadas): A) Tengo creído que ser gordita no es bueno. (10) C) Estoy permaneciendo firme en mi propósito. Ainda assim.140 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS selecionada foi “estar” + gerúndio. (2) B) He corrido un chingo de veces. (1) B) Aquí he salido varias veces. que seriam com a presença de verbos intransitivos e advérbios quantificadores. parece ter sido aleatória por parte dos informantes. (+) dinâmico. essa é uma construção possível na língua. (1) B) He creído que ser gordita no es bueno. nos mostram que a seleção das sentenças com a perífrase “tener” + particípio. Conclusão . pois encontramos ocorrências de “tener” + particípio em sentenças com advérbios quantificadores e verbos D) Permanezco firme en mi propósito. Abaixo apresentamos as sentenças que tiveram ocorrência da perífrase “tener” + particípio. (9) ALVO (n° de sentenças selecionadas): A) Tengo corrido un chingo de veces2. juntamente com as escolhas feitas pelos informantes e com o número de vezes que foi selecionada entre parêntesis: Abaixo. as sentenças selecionadas abaixo não possuem essas características e apresentam o verbo principal do tipo estado. (6) D) Me gustan/ agradan todas las personas. (2) A) Tengo permanecido firme en mi propósito. (5) C) Estoy corriendo un chingo de veces. (8) C) Estoy gustando de todas las personas.

Bernard (1976): Aspect. (1988): Perífrasis verbales. Ithaca: Cornell. estendido no fato de que a situação referida é para ser vista não como uma propriedade acidental do momento. sendo ou não também iterativos. Zener (1967): Linguistics in Philosophy. Ignacio Bosque y Violeta Demonte. 4. aspecto verbal e variação no português. Oviedo. (2006): Marcas linguísticas de iteratividade em PB. Madrid. T. Cambridge: Cambridge University Press.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 141 intransitivos.ed. Referências bibliográficas COMRIE. é a descrição de uma situação que é característica de um período estendido de tempo. Universidad de Oviedo. Embora o número de ocorrências tenha sido baixo.” Gramática descriptiva de la lengua española. na variante investigada do espanhol do México. semántica y estilística. Madrid: Espasa. p. ainda não é possível falar da substituição da perífrase “tener” + particípio por qualquer outra perífrase. a flutuação do uso dessa perífrase com as perífrases “haber” + particípio e “estar” + gerúndio. Seria o equivalente a “muchas veces”. Cambridge University Press. C. foi possível encontrar o uso da perífrase “tener” + particípio em contexto do aspecto iterativo. VERKUYL. 6. pudemos perceber que o uso de “tener” + particípio pode não ser tão restrito. eds. FERNÁNDEZ DE CASTRO. Ronald Beline (2005): Estar + gerúndio e ter + particípio. verificamos um uso dessa forma do verbo gustar. Contudo. TRAVAGLIA. Comportamiento sintáctico e historia de su caracterización. Além disso. o traço que é comum em todos os habituais. como um traço característico de todo o período. Vol. WACHOWICZ. podendo ser combinado também com verbos do tipo estado. 3391-3441. Artigo publicado nos Anais do 6° Encontro Celsul – Círculo de Estudos Linguísticos do Sul. segundo a classificação vendleriana . É significativo observar também. Tese de doutorado. Alicia (1999): “Las perífrasis verbales de gerundio y participio. que também compartem os traços de imperfectividade e iteratividade. conforme é usado no PB. 3 Em consulta informal. 2 A expressão “un chingo de veces” é uma forma coloquial dos jovens da Cidade do México expressarem uma repetição. MENDES. Universidade Estadual de Campinas. L. e sem advérbios do tipo quantificador. entre outros. H . verificamos que a perífrase “tener” + particípio também possui traços de imperfectividade e de iteratividade. VENDLER. Uberlândia: EDUFU. (1990): Las perífrasis verbales en español. YLLERA. mas precisamente. não só de perfectividade.The interaction between temporal and atemporal structure . Notas 1 Segundo Comrie (1976). como tratado por alguns estudiosos. 2. (1993): A theory of aspectuality . Publicaciones del Departamento de Filología Española. Sintaxis. F. Finalmente. . Arco/Libros. Luiz Carlos (2006): O aspecto verbal no português: a categoria e sua expressão. GÓMEZ TORREGO.

possuir um grau de inserção no universo discursivo referente à língua em que se processa o ato de ler. 44-45) De acordo com Esposito. De forma paralela. Isto se percebe ainda na própria polissemia que a noção de “comunidade” enceta. construir formas de identificação do leitor com o texto. por um lado. e por outro. 2007. ese vacío tiende irresistiblemente a proponerse como un lleno. o problema da comunidade advém da tensão entre a ideia de communitas – termo que delineia a configuração do “espaço comum” como um vazio. entre sujeito e alteridade. una tierra. lugar de estabelecimento de relações múltiplas e imprevistas com a alteridade – e a noção de immunitas – ligada . buscar estratégias de compreensão das formações discursivas e das condições de produção do discurso (FOUCAULT. num nível mais profundo. 2008) que dão sustentação àquilo que se materializa no texto. Una vez que se la identifica – con un pueblo. aquele que lê em uma língua estrangeira. embora seu lugar de enunciação seja quase sempre distinto ao lugar de enunciação do seu interlocutor. a reducir lo general del ‘en común’. a lo particular de un sujeto común. y la inversión mítica queda perfectamente cumplida. la comunidad queda amurallada dentro de sí misma y separada de su exterior.142 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS LITERATURA E ESPANHOL/LE: A QUESTÃO DA COMUNIDADE Antonio Andrade UFRJ É possível iniciar uma discussão a respeito da relação entre língua. embora traga para a leitura as marcas ideológicas e inconscientes de sua constituição identitária. tem de. p. necessariamente. Aquele que escreve em uma língua não materna precisa. discurso e comunidade pela seguinte pergunta: escrever ou ler em uma língua estrangeira significa pertencer à comunidade? A própria pergunta já deixa intencionalmente aberto um campo de definição: comunidade a que pertence(m) o(s) autor(es) ou a que pertence(m) o(s) leitor(es)? A resposta a essa questão leva-nos a aceitar a ideia de duplicidade ao tratarmos do processo de interação verbal em língua estrangeira. segundo a ótica de Roberto Esposito: Pese a todas las precauciones teóricas tendientes a garantizarlo. una esencia –. (ESPOSITO.1 Tal duplicidade está ligada ao movimento pendular de abertura e resistência que se verifica no contato entre diferentes culturas e comunidades discursivas2 e. num esforço de previsão das expectativas discursivas de uma dada comunidade a que o texto se dirige.

ideológica e cultural que o definem. cultura e discursividade. invertendo. Mas. 98) Aprofundando o exame das relações entre literatura. (SERRANI. Essas regularidades condicionam a produção e a compreensão verbais do sujeito do discurso que..) considerando o estudo sobre leitura em espanhol e português (.” Mas em lugar de reproduzir a frase na língua original. do enunciado com o contexto sociodiscursivo. No entanto. Santiago assinala. gerarem outros tipos de deslocamento significativo. por exemplo. o analista do discurso que se debruça sobre o ato de ler precisa reconhecer que toda leitura tem sua história. compartilhando o conhecimento consciente ou inconsciente de suas regras de funcionamento ideológico. Essas marcas integram a constituição subjetiva. tais considerações estão perfeitamente conectadas ao estudo da interação entre coenunciadores pertencentes à mesma comunidade. etc. O que poderia ser recebido como a formação de um mal-entendido capaz de vedar a comunicação. bem como aos discursos que. para quem se diz. Tal reflexão de ordem político-filosófica coaduna-se com a perspectiva da análise do discurso. são responsáveis pela produção de diferentes formas de leitura de um texto: (. gregarismo e consequente isolamento de distintos grupos sociais. com Silviano Santiago (2000). a partir de textos escritos e lidos sob as mesmas condições. pode-se vislumbrar. A modo de exemplificação. a reflexão proposta por Orlandi (2001) a propósito dos mecanismos de variação e regulação (polissemia e paráfrase) encetados pela relação do texto com a sua exterioridade. de modo especular. seu contexto original: “je voudrais un château saignant. p. as possibilidades de nascimento da pluralidade de sentido. Evidentemente.. seja por vontade paródica – traduz a frase avistada no espelho de um restaurante parisiense. por um lado.. ou a partir da história da leitura de um texto.. a possibilidade de o não compar tilhamento da memória discursiva e o não reconhecimento das marcas de regularidades enunciativas. o leitor tende a seguir modelos de leitura já instaurados que funcionam como padrões de previsibilidade. cabe pensar que os modos de enunciar denominados abruptos [contexto argentino] ou por transições [contexto brasileiro] podem. de outra forma. a partir da análise do texto de Cortázar. op. relacionar-se com ausência ou presença de polidez. isto é. p. muitas vezes. é importante para o analista evidenciar. em relação aos discursos. o sujeito estará habilitado a produzir (ou deslocar) sentidos.” (ORLANDI. o que acontece na interação com textos em língua estrangeira escritos. Desse modo. 85). p. a partir dos modelos de leitura. a imprevisibilidade. em boa parte. ao longo da história.. Neste caso..ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 143 aos projetos de (auto)proteção. na interação verbal entre brasileiros e hispânicos mediado pelo texto escrito. cit. suas condições de produção. ou seja. mas também devem ser vistos como marcas de regularidades enunciativas e de memórias discursivas. Pode-se verificar. não possui controle consciente do seu dizer. ser lido como um produtivo mecanismo de desterritorialização/ descolonização do sentido. da mesma forma como Foucault (2002. cit. ao situar-se na ordem do discurso. tentam justificar a prevalência ou a posição desses grupos no terreno de disputas pela hegemonia. distintas formações discursivas que atravessam os contextos socioculturais brasileiro e argentino. Consciente de que “aquilo que se diz significa em relação ao que não se diz. ele a traduz . a título de exemplo. ao lugar social do qual se diz. op. que o personagem principal de 62 Modelo para armar – seja por desconhecimento das condições de produção do discurso na leitura em língua estrangeira. a partir de condições de produção do discurso divergentes? Como bem apontou Serrani (2010). 36) demonstra que os princípios e regras de coerção do discurso são simultaneamente responsáveis por sua produtividade. poderia.). ainda que a possibilidade do “equívoco” não esteja excluída nesse caso.

posteriormente. 22) Tais observações. é preciso evitar a ideia de que. a produção dissidente da classe popular como sinal de “resistência cultural”. Curioso notar que essa mesma questão foi desenvolvida por Serrani (2010) em texto em que a autora examina dados de pesquisa a propósito dos mitos e preconceitos sobre o interesse de alunos no ensino médio pela poesia: (. Consequentemente. 93) a respeito da hegemonia das políticas de leitura da classe média. que. ainda que relacionadas a um estudo de caso em contexto educacional de língua materna.. “impediria” a classe popular de formar seus modelos de leitura. os depoimentos mostraram. pelo fato de não compartilharem os mesmos modelos discursivos do grupo social a que pertence o autor. são fatores preponderantes para o afastamento do leitor em relação ao texto que lhe é apresentado.. château sai do contexto gastronômico e se inscreve no contexto feudal. que significava apenas a preferência ou o gosto do cliente pelo bife malpassado. de maneira engajada. por parte dos estudantes da educação básica. nos ajudam a desmistificar certo receio ora velado.). visto que inúmeras experiências escolares. conforme aponta Esposito. na leitura. ora declarado. de certo modo. a maioria manifestou que não acharia esse tipo de material adequado e que a leitura não entusiasmava. p. E o adjetivo. nem sempre. de muitos professores de língua estrangeira em relação à abordagem de textos literários em suas salas de aula. p. a casa onde mora o senhor. 51-52) . na pena do escritor argentino. além de desconsiderar.. op. de uma rebelião. portanto. cit. de derrubálo. o desejo de ver o château. o castillo sacrificado. cit. (SANTIAGO.. deve-se também evitar interpretar dessa maneira as considerações de Orlandi (2001. Dessa forma. colonialista. a fogo e sangue. relatadas em diversos congressos da área. Os futuros professores responderam explicitamente de modo negativo e os jovens que iriam responder o questionário não foram explícitos. que se tratava de pré-conceito. A tradução do significante avança um novo significado (. (SERRANI. mas por meio de expressões faciais e outros gestos corporais. O não pertencimento à comunidade estrangeira e o não compartilhamento de determinados modelos literários da cultura letrada. esses poemas. No entanto. já que o material interessou à maioria dos alunos... Digo isso porque a própria autora sinaliza a possibilidade de tensão entre conhecimento dominante e dissidência no contexto das mesmas práticas sociodiscursivas. de outro modo. da perspectiva do interesse dos estudantes. A propósito. a interação entre coenunciadores pertencentes a distintas comunidades – ou. o que reforça visões deterministas sobre os percursos de formação dos sentidos.144 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS imediatamente para o espanhol: “Quisiera un castillo sangriento. p. embora sua perspectiva crítica só enxergue. vêm comprovando a possibilidade de engajamento discursivo de jovens estudantes brasileiros com esse tipo de texto. sangriento . motivando e agravando seu afastamento em relação às práticas de letramento promovidas pela escola. A dúvida sobre a (in)adequação do texto literário à didática de língua estrangeira tem demonstrado ser uma falsa questão. el castillo . ancorados em diferentes formações ideológicas e subjetivas – só poderá dar lugar a gestos de repúdio por par te dos leitores.) perguntamos aos estudantes (e a alguns futuros professores) se poemas como esses seriam aptos para aulas de língua a adolescentes.” Escrito no espelho e apropriado pelo campo visual do personagem latinoamericano. saignant. seriam adequados para uso em sala. torna-se a marca evidente de um ataque. op. que dentro do impulso imunitário de agrupamento sociocultural subsiste conjuntamente Tal concepção do discurso literário como um “entre-lugar” prevê não só a inevitabilidade da conexão entre leitura e produção. mas também o deslizamento do sentido no interior deste processo. Tal compreensão do letramento em comunidades discursivas não hegemônicas liga-se a uma concepção muito engessada da relação entre discurso e classe social.

p. não ocupa lugares fixos na cadeia significante. 30). junto com Barthes... (. personagens. de modo algum. mas também desde o . 484). Tal consciência requer da pesquisa uma investigação mais densa quanto à produtividade da noção de exotopia3 (do autor e do leitor) no processo dialógico. ser reduzida ao estereótipo de que a literatura estrangeira serviria como uma estratégia de resolução de conflitos hipotéticos ou como forma de “substituir” experiências diretas com o estrangeiro (cf. nenhum idioleto”. Assumir uma posição menos simplificada em relação ao papel da ideologia na atividade leitora significa compreender. chamo a atenção para a necessidade de se buscar um viés mais complexo de entendimento dos sinais de proximidade e distanciamento manifestados no ato da leitura.. p.. asociada al inconsciente psicoanalítico: aquel donde está instalado el deseo. Com isso. Seguindo a esteira dessa colocação. em vez disso.) não é um elemento do texto. 29).ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 145 um impulso comunitário de abertura à exterioridade. receptáculo de divergentes forças discursivas de acabamento e dispersão. 2010a). 239). estudar as práticas de letramento em contextos culturais e ideológicos diversos” (Ibidem).. quero chamar atenção ao fato de que a formação docente para o trabalho com textos literários em aulas de espanhol não pode. CÁRCAMO. reivindica atenção às “demandas locais de letramentos diferentes”: “Antes de tudo.) é uma deriva. a necessidade de se estar atento às diferenças institucionais e subjetivas envolvidas nas (re-)significações conduzidas pela ação pedagógica – desde a escolha do texto até sua mediação –. qualquer coisa que é ao mesmo tempo revolucionária e associal e que não pode ser fixada por nenhuma coletividade. 2003. nos conflitos entre formas de compreensão textual e nos graus de consciência do leitor em relação a sua posição no processo de leitura. vista assim como espaço de tensão entre diferentes vozes: autor real. isto é. precisamos (. leitor virtual e leitor real.) afecta ese proceso especial en el que inevitablemente identidad y alteridad se enfrentan” (GONZÁLEZ. nenhuma mentalidade. “O prazer (. admitindo o dialogismo de vozes não coincidentes na interação propiciada pelo ato de ler. que o prazer que se manifesta no processo de interação com o texto literário é atópico.. 2007. portanto. p.) clarificar e refinar conceitos de letramento. ao mesmo tempo produzido pelo modo como é posicionado na trama do discurso literário e produtor de atos responsivos em face do enunciado: ator envolvido em tensos movimentos de adesão e deslocamento. 2001.) ha entrado en el escenario otra dimensión. Isto sinaliza. autor representado. p.. Isso remete às considerações de Neide González sobre a dimensão afetiva (o investimento desejante) que permeia a relação das comunidades e dos sujeitos – entendidos como entidades não monolíticas – com a língua estrangeira: “En los últimos años. quem em lugar de aceitar a existência de um processo único e autônomo de letramento. bem como do possível deslocamento de sentidos produzido não só desde o âmbito da produção. procuro estender o critério de não coincidência entre os papéis enunciativos colocados em jogo no âmbito da produção escrita para a análise da compreensão leitora. É preciso se buscar uma compreensão mais aprofundada da heterogeneidade cultural e discursiva das comunidades. por isso é capaz de estabelecer e romper resistências quanto ao discurso do outro. lançando mão da perspectiva bakhtiniana (BAKHTIN. Tais concepções.. que (. Esse ponto de vista solicita ainda o entendimento do leitor como instância enunciativa ligada à natureza dúplice – (ir)repetível – da discursividade. portanto. (.. abandonar o grande divisor entre ‘letramento’ e ‘iletramento’ e. de modo muitas vezes imprevisto. sugerem a necessidade de se focalizar as distintas exotopias envolvidas na produção da leitura literária em E/LE por sujeitos situados em diversos contextos. Não à toa. Esta perspectiva coaduna-se à de Brian Street (2006. Para Barthes (2008..

Tal opinião é baseada na defesa de que aprender uma língua é muito mais do que conhecer a estrutura da mesma. . a questão gramatical e estrutural também é importante. como se a cultura do outro. dentre outras coisas. no contexto de minha pesquisa sobre a relação entre letramento literário e formação docente. um conhecimento sobre o mundo. silenciando dilemas da subjetividade e da comunidade. mesmo “o amor ao outro” não é capaz de suspender a diferença: traço constitutivo da própria discursividade. os estudos literários contribuem muito. bem como o fato de que sujeito e alteridade estão imbricados e se problematizam mutuamente. p. se a questão da estrangeiridade só consegue ser representada aí em termos de “adaptação”/”aceitação”. 5º período). Aliás. mas a história. Tenho podido constatar. para muitos. entretanto aqui talvez a falta de um contato mais íntimo com a literatura. a experiência literária estrangeira que vem sendo vivenciada na universidade não é a do questionamento e da desconstrução do senso comum.146 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS da leitura do texto literário. a se adaptar a algo diferente (no caso. “Na minha opinião. ou de maneira positiva. a consideração do leitor nesse processo é fundamental para qualquer intento de se (re-)configurar as bases dessa formação. fazendo com que seus alunos conheçam e aprendam a respeitar outras culturas” (Rafaela. representada por comunidades linguísticas e literárias estrangeiras. por exemplo.. em Bakhtin (2010b. como é de se esperar que ocorra em toda e qualquer atividade discursiva. futuro professor de línguas e literaturas. A título de exemplo. “[a literatura] nos faz quebrar (ou confirmar) paradigmas (.) e aceitar as diferenças ou lidar melhor com elas” (Daniele. 6º período). É preciso despertar. mas também ter acesso à cultura dos países que têm tal língua como oficial. certa cristalização de visões simplificadoras da ideia de outridade. 5º período). pudesse ser abarcada na sua inteireza como um conteúdo didático. uma outra cultura) e a tomar gosto por um outro tipo de leitura” (Frederico. que o ato estético de enunciação pode provocar. De certa maneira. Além disso. que cede lugar à má interpretação da produção teórico-crítica sobre o literário (note-se nos fragmentos acima certa tendência a se confundir a literatura com o domínio institucional dos “estudos literários”). 4º período). apresento adiante alguns excertos de textos produzidos em 2011 por licenciandos de Letras Português-Espanhol de uma universidade pública do Estado do Rio de Janeiro ao serem interrogados a propósito da contribuição da literatura para sua formação inicial como docentes de língua estrangeira: “Os estudos literários são importantes para a formação do professor de L. a sensibilidade para o efeito dialógico e tensivo. cujo reflexo nesses casos é a busca de “soluções mágicas” para os problemas linguísticos e interculturais através do conhecimento literário. É importante lembrar. “o aluno de língua estrangeira aprende. no aluno-leitor universitário. que. A vontade de enunciar dá lugar a um ser enunciado. ao mesmo tempo singular e comunitário.E de formação” (Vanessa.. principalmente se o futuro professor busca obras literárias da sua L. vem tornando mais aguda a potência apassivadora (e apaziguadora) do discurso. talvez isso seja um sinal de que. percebe-se nesses enunciados a força tipificadora que a simplificação do discurso em torno do literário. para concluir.4 Esses dizeres ignoram a plurivocidade de sentidos da linguagem nos gêneros literários.E pela oportunidade que oferece a literatura de um maior conhecimento cultural. para a formação do professor de língua estrangeira. do cultural e do histórico vem produzindo em nosso cenário acadêmico. 104). Como se vê. O professor ensinará não só a gramática da língua. portanto.

Em: Hispanismo 2000. embora não necessariamente precisem interagir de maneira direta ou estar próximos uns dos outros. p. S. compartilham interesses e expectativas comuns e encontram-se engajados em práticas comunicativas propiciadas por determinados gêneros discursivos. B. fundamental para a análise dos procedimentos de construção do sentido acionados pela leitura: “Um texto significa o que significa não por causa de quaisquer traços linguísticos objetivos inerentes. 8. ________ (2010b): Para uma filosofia do ato responsável. São Paulo: Contexto/Ed. São Paulo: Parábola. São Paulo: Loyola. 9-26. (2008): O prazer do texto . CÁRCAMO. GA). Em: Revista de Filologia e Linguística Portuguesa. Em: ELT Journal Volume. B. (2002): A ordem do discurso. S. ESPOSITO. (. Em: BRAIT. 239-255. 1. era da globalização. P. E. L. (2001): La expresión de la persona en la producción de Español Lengua Extranjera de estudiantes brasileños: perspectivas de análisis. p. 465-488. (2008): Cronotopo e exotopia. March 19-21. (2000): O entre-lugar do discurso latinoamericano.) Bakhtin: outros conceitos-chave. (org. Em: MOITA LOPES. M. Rio de Janeiro: Forense Universitária. mas porque é gerado pelas formações discursivas. SANTIAGO. 57/4. KUMARAVADIVELU. 129-148. São Paulo: Martins Fontes. (2007): La literatura en la formación y en la práctica del profesor. R. (2003): Discourse community. Em: Annual Meeting of the Conference on College Composition and Communication (38 th. ORLANDI. Notas 1 Trago à tona aqui uma consideração de Kumaravadivelu a propósito do vínculo inexorável – observado no pensamento de Foucault – entre discurso. (1987): Approaching the concept of discourse community. Suplemento Jubileo de Plata de la APEERJ. cada qual com suas ideologias particulares e modos particulares de controlar o poder. 2006. N. Oxford University Press. (org. p. v. Em: Uma literatura nos trópicos. Rio de Janeiro: Rocco. Campinas: Pontes.. BAKHTIN. p. R. (2007): Communitas: origen y destino de la comunidad. SWALES. o conceito original de “comunidade discursiva”. 2 Segundo Borg (2003). 25-31. p. ________ (2008): A arqueologia do saber. textualidade e significação. SERRANI. B. GONZÁLEZ. E. Atlanta. J. S. M. BARTHES. Unicamp. São Paulo: Contexto. (2006): Linguística aplicada na ________ (2010a): Problemas da poética de Dostoiévski. p. p. focaliza os usos e análises da comunicação escrita realizados por indivíduos (membros da comunidade) que. (2003): Estética da criação verbal. Buenos Aires: Amorrortu. São Paulo: Pedro & João Editores. p. STREET. M. 95-114.) Analisar texto ou discurso significa analisar formações discursivas essencialmente políticas e ideológicas por natureza” (KUMARAVADIVELU. São Paulo: Perspectiva. Em: Anuario Brasileño de Estudios Hispánicos. 398-400. FOUCAULT. (2010): Discurso e cultura na aula de língua..) Por uma linguística aplicada indisciplinar . . (2001): Discurso e leitura . BORG. atribuído a Swales (1987). 140). (2006): Perspectivas interculturais sobre o letramento. n.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 147 Referências bibliográficas AMORIM. Rio de Janeiro: Forense Universitária.

“refere-se à atividade criadora em geral”. p. 4 Todos os nomes dos licenciandos que colaboraram com a pesquisa foram alterados a fim de preservar suas identidades. à possibilidade de o enunciador situar-se em “um lugar exterior.148 3 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS O conceito bakhtiniano de exotopia. fundamental ao trabalho de criação e de objetivação”. . segundo Amorim (2008. 95-96). de onde provém sua singularidade dentro do processo discursivo-enunciativo e de onde se derivam os valores éticos de sua posição.

no decorrer dos seus mais de cem anos de existência. PUCSP Introdução A Rede Federal de Educação Profissional e Tecnológica é formada por 38 Institutos Federais. antes da mudança para Instituto Federal. a Rede Federal passou por uma constante mudança de sua identidade institucional. No entanto. No que se refere à formação de professores na Rede. servidores e teóricos da Educação pelo entendimento do seu verdadeiro papel perante a sociedade. 2 Centros Federais de Educação Tecnológica (CEFET) e 1 Universidade Tecnológica. Esperamos a partir da análise do Projeto Político Pedagógico do referido curso tecer considerações para as seguintes questões: formação docente em Institutos Tecnológicos. A partir da publicação de tal decreto. ensino técnico. sinalizando que tal proposta não é decorrente do atendimento de uma exigência do MEC para preenchimento de vagas. Matemática e Ciências. instituições responsáveis por oferecer em todos os Estados brasileiros uma gama de cursos: ensino médio. cursos superiores de tecnologia. nasce uma ampla discussão interna e externa sobre o papel de atuação dessas instituições no cenário educacional brasileiro e sobre a identidade institucional de cada Centro de formação. bacharelados e pós-graduação (lato e stricto sensu). ensino médio integrado ao técnico. concepções de ensino e a imagem do . do setor de agronegócios e de serviços. Para este artigo. por determinação do MEC como alternativa para escassez de professores em algumas áreas do conhecimento. as “escolas” da Rede preocuparam-se com a formação de mão de obra especializada de nível médio para atender as demandas profissionais da indústria. nos centramos no histórico dos Institutos Federais e sua proposta de formação de professores e no debate sobre o curso de Licenciatura em Espanhol do Instituto Federal de Roraima (IFRR). licenciaturas. portanto. Durante muito tempo. implicando um interesse e debate entre os professores.462/2000). alguns CEFET começam a oferecer cursos de licenciatura em Física.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 149 A FORMAÇÃO DE PROFESSORES DE ESPANHOL NO INSTITUTO FEDERAL DE RORAIMA: REFLEXÕES SOBRE A PRÁTICA DOCENTE Antonio Ferreira da Silva Júnior CEFET/RJ. pioneiro na oferta de cursos de Letras no cenário da Rede. Vale à pena destacar o curso inicia suas atividades no ano de 2006. somente no ano de 2000 (decreto 3.

A formação de professores nas “escolas” da Rede Federal No final dos anos 90. . permitindo uma maior expansão e diversidade das licenciaturas oferecidas no país. Para alcançar tais objetivos. O objetivo inicial dessas escolas era formar operários e contramestres a partir de um ensino focado nas habilidades necessárias e práticas para desempenhar ofícios manuais (FONSECA.462/00. Isso implica um processo interno de compreensão de como articular num mesmo espaço e. Essa expansão inesperada e pouco discutida entre os atores (professores. contando com o mesmo corpo docente cursos de diferentes níveis e modalidades de ensino. (e) presença de professores concursados sem formação pedagógica atuando nos cursos de licenciatura. cria 19 Escolas de Aprendizes e Artífices nas capitais dos estados da confederação e com essas o desenvolvimento do ensino profissional primário e gratuito. o fortalecimento e a padronização de uma identidade visual para a Rede Federal de ensino. básica e profissional. (g) necessidade de mudança do estigma de origem atribuído aos Institutos Federais/CEFET conhecidos até hoje como “escolas” técnicas. 1961). A reestruturação interna dos CEFET estava sendo discutida no teor desse documento.406/97 1. inclusive. além do desenvolvimento de atividades de pesquisa e extensão. no entanto.150 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS professor contemporâneo. A transformação dos CEFET em Institutos Federais não foi uma medida governamental obrigatória. recorremos. passaram por diferentes nomenclaturas.566. Os Institutos Federais são equiparados às universidades federais. como: (a) articulação entre cursos de diferentes níveis de ensino. podemos dizer que foi quase unânime. os CEFET passaram a atuar na formação e na capacitação de professores para a Educação Básica e da Educação profissional atendendo a um chamado do Ministério da Educação com a aprovação do decreto número 2. através do decreto número 7. Esses são alguns pontos colocados em cena. (b) falta de esclarecimentos da atuação do docente na Carreira de Professor do Ensino Básico. De acordo com o decreto de criação. Técnico e Tecnológico. dirigentes e demais membros da comunidade escolar) da Rede Federal permitiu uma série de questões internas advindas dessa política de expansão do ensino técnico e superior do governo Lula. 2008). tais 1. principalmente. não podem deixar de ministrar o ensino profissionalizante. que foi reescrito e substituído pelo decreto número 3. (f) formação do licenciando vista como de um trabalhador técnico. as escolas federais da Rede de educação profissional e tecnológica. (d) oferta de cursos de licenciatura como mera formalidade para atendimento de demandas impostas pelo MEC ou vocação dos colegiados. Desde sua aprovação e expansão aos demais Estados da Federação. no entanto. alunos. pluricurriculares e multicampi” (BRASIL. técnicos administrativos. Nilo Peçanha. Tal mudança acarretou novamente em uma mudança identitária das escolas e. (c) atuação do professor em diferentes níveis de ensino. normalmente. 2. principalmente. aos estudos teóricos de GADOTTI (2001). Institutos Federais: seu percurso identitário No dia 23 de setembro de 1909. o então Presidente da República. após a constituição dos Institutos Federais e a abertura de inúmeros cursos de licenciatura em diferentes áreas do conhecimento. tais “escolas” passam a ser vistas como “instituições de educação superior. CELANI (2001) e PAIVA (2005).

De acordo com essas diretrizes. (e) o aprimoramento em práticas investigativas. percebemos. de 1º de outubro de 2004.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 151 O decreto acima ainda é reforçado por outro de número 5. que os saberes relacionados à área industrial. já que elas possuíam longa tradição no ensino de formação técnica e começaram. (g) o uso das tecnologias da informação e da comunicação e (h) de metodologias. três anos de conteúdos característicos de um curso de bacharelado somados a um ano de formação pedagógica. a resolução número 1 de 19 de fevereiro de 2000. ainda em constante construção. num mesmo espaço institucional. Os cursos de Letras fogem do eixo tecnológico previsto inicialmente para oferta. (f ) a elaboração e a execução de projetos de desenvolvimento dos conteúdos curriculares. cujo objetivo era rever aspectos da prática docente formalizando sua duração. a partir também dos anos 90. que dispõe no parágrafo único do capítulo II sobre a possibilidade de abertura de cursos em outros campos do saber. A inquietação para o desenvolvimento deste artigo surgiu ao tomar conhecimento. já que os licenciandos. estratégias e materiais de apoio inovadores. em 18 de fevereiro de 2002. 1800 horas de aulas para os conteúdos curriculares de natureza científicocultural e 200 horas para atividades acadêmicocientífico-culturais. conseguimos visualizar uma interdisciplinaridade entre os eixos de formação específica. carga horária e Diretrizes para os cursos de formação de professores do país. no ano de 2006. (d) o desenvolvimento de hábitos de elaboração e trabalho em equipe. (b) o acolhimento e o trato da diversidade. Após a publicação desses documentos muitos cursos de Licenciatura nos CEFET começaram a ser projetados em todo o país. encontram amparo no decreto 5. por conta de uma nova identidade para a Rede. da oferta de cursos de Licenciatura em Letras/Espanhol em dois CEFET. Essa proposta de integração entre os saberes teóricos e práticos já é algo bastante comum na organização curricular das licenciaturas dos Institutos Federais. englobando 400 horas de prática curricular. Alguns pontos centrais foram: (a) o ensino visando à aprendizagem do licenciando. Histórico do Curso de Letras/Espanhol do IFRR Como professor da Rede Federal desde 2007. Aliado a isso.224/04. a ofertar Bacharelados em Engenharia com inúmeras habilitações. de certa maneira. Com a nova roupagem desses cursos. à tecnologia e às exatas são privilegiados. Com essa regulamentação. Em relação à carga horária das licenciaturas. : . de formação pedagógica e de formação geral. o perfil dos cursos de Licenciatura é reformulado através da Resolução do Conselho Nacional de Educação (CNE). determinou carga mínima de 2800 horas. por outro lado. 3. porém. Acreditamos que essa abertura para as Letras representou um importante movimento de quebra de paradigmas que culmina no ano de 2008. 400 horas de estágio curricular supervisionado. em pouco tempo de instituição. favorecendo. convivem com modalidades e níveis de ensino diversificados. nem sempre adequada à realidade e ao contexto de cada curso de licenciatura (PAIVA. porém.224. na superação do tradicional modelo hegemônico disciplinar dos cursos de formação de docentes e reforçando a verticalização do ensino. Vale à pena ressaltar também que esses cursos abriram uma nova estrutura interna no ensino das escolas da Rede Federal. de licenciaturas na Rede. extinguiu-se a formação do professor da Educação Básica no chamado regime 3 + 1. os primeiros cursos de licenciatura dos CEFET começaram a se configurar. 2005). (c) o exercício de atividades de enriquecimento cultural. entendemos que a própria origem da Rede sustente essa demanda.

152 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Por meio do decreto mencionado. o projeto do IFRR apresenta estudos estatísticos como os da Agência Brasil/ Radiobrás.] o projeto do curso deveria ser o carro chefe para garantir a qualidade do ensino. Nesse sentido. 2001. destaca a aproximação do Estado de Roraima a países hispanofalantes. condução e a manutenção desses cursos. o da UFRR. sabemos que fatores decorrentes da motivação de um colegiado de professores são fundamentais para a apresentação. acreditamos que tais orientações permitem avaliar como cada instituição entende e concebe a formação de professores. Isso implica em reconhecer o projeto de curso. Ainda. coletados em agosto de 2005. Cada vez mais. A elaboração do mesmo deuse por uma comissão liderada por duas representantes da área de espanhol. com o intuito de funcionar como mais um espaço de formação. cultural e social existente nessa área de fronteira. Na introdução do documento.1165/05. No entanto. No desenvolvimento da justificativa. aparece citada como mais um argumento para a criação do curso. que atribuem sentido ao teor de tais prescrições. O único existente até aquele momento. As ementas e programas se escoram em bibliografia desatualizada. p... além de a maioria não apresentar coerência entre os objetivos e o perfil do egresso. em torno de disciplinas. dentro do modelo de transmissão de conhecimento. A lei 11. em nosso caso o de língua estrangeira. Segundo Paiva (2005): [. Além de a oferta acontecer num espaço até pouco tempo visto como de formação para Educação Básica e Profissional. além do mercado econômico. o que implica numa demanda significativa de interessados pela aprendizagem da língua.. O projeto pedagógico do IFRR nomeia o curso como sendo de Licenciatura Plena em Língua Espanhola e Literaturas. No entanto. a análise dos projetos revela o predomínio de currículos organizados de forma tradicional. porque. revelando uma carência de 12 mil professores em todo o Brasil para aplicação da lei de oferta do espanhol. de um curso. através de análise de projetos e matrizes. conforme assinala Gadotti (apud VEIGA. que torna obrigatória a oferta de espanhol no Ensino Médio. Como justificativa. Outro ponto de reforço do projeto é a falta no Estado de cursos de formação de professores. o projeto apresenta a carência de profissionais de ensino de espanhol como língua estrangeira (E/LE) na cidade de Boa Vista e nos municípios do interior. o texto sinaliza que a instituição oferece o espanhol desde o ano de 1995 na grade de todos os seus cursos. e elemento norteador da discussão do perfil desejado de profissional da área de atuação. o texto informa que o Estado O projeto pedagógico deve ser entendido como um gênero importante para a definição de uma concepção única de formação por parte dos docentes . e ainda conta com um Centro de Estudos de Línguas Estrangeiras (CELEM).. percebemos o caráter diferenciado desses cursos em comparação aos já oferecidos no mercado. 18) como um processo dinâmico: “[. como pensar a formação do profissional de linguagens numa instituição onde algumas áreas do saber são vistas como mais tradicionais que outras? Tal pergunta constitui nosso interesse ao estabelecer uma reflexão sobre os cursos de Licenciatura em Espanhol da Rede mediante análise dos projetos e matrizes curriculares dos cursos.] Todo projeto supõe ruptura com o presente e promessas para o futuro”. nosso objetivo principal nas páginas a seguir está em averiguar como o IFRR idealizou seu curso de Licenciatura a partir das informações públicas disponíveis em seu projeto pedagógico. Cada universidade precisa refletir sobre a necessidade constante de estudar o perfil de professor mais adequado à realidade escolar do país. e a metodologia é ainda centrada no professor. a teoria não dialoga com a prática. Em seguida. não conseguia suprir a demanda por profissionais da área. alguns CEFET conseguiram o embasamento para ofertar as primeiras licenciaturas em Humanas.

humanística. 600 horas de práticas a serem vivenciadas ao longo do curso. Básico. prática curricular e de pesquisa). atividades de extensão e de natureza acadêmico-científico-cultural. a tradução e como intérprete.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 153 de Roraima necessita de um número emergencial de 128 docentes para atuação nas escolas do Estado. mas pelo menos pode ser considerado um avanço comparado às demais grades. do sujeito da aprendizagem. coletados em 2003. para traçar um mapa da Educação Básica do Estado. os componentes curriculares dividem-se em dois campos do conhecimento: (1) Literatura e cultura e (2) Metodologia para aquisição e/ou aprendizagem de E/ LE. o projeto destaca “formar profissionais competentes no processo de ensino e aprendizagem da Língua Espanhola como língua estrangeira e suas Literaturas”.580 horas dos Conteúdos/ Conhecimentos/Competências Curriculares de natureza científica. O projeto sinaliza uma ampla formação. o documento apresenta que a proposta de trabalho do curso se pauta “numa estrutura com identidade própria. A matriz curricular subdivide-se em 2. Cultura e Formação Docente. passando por aspectos históricos. O diferencial da proposta do programa curricular do IFRR é que distribui entre os vários períodos a carga horária da disciplina de “Prática profissional” (estágio supervisionado. desde os primeiros períodos. O documento delimita o foco da formação como sendo a preparação do licenciado para atuar na docência. de 18 de fevereiro de 2002 e da Resolução CNE/CP número 02/2002. ainda. conforme consta a seguir o texto do projeto: . a consultoria. o programa organiza-se em quatro ciclos (Introdutório. entre eles a pesquisa. a teoria e a vivência em sala de aula por parte dos aprendizes. consequentemente. conforme portaria número 4. porque permite a inclusão do aluno na realidade digital. A partir dessa divisão. O documento emprega os dados de 2002 do Sistema Estadual de Educação e dados da esfera educacional do município de Boa Vista. Não podemos afirmar que tal desmembramento da carga seja positivo ou negativo. O curso do IFRR apresenta diferentes linhas teóricas somente na apresentação do ciclo introdutório da aprendizagem da língua espanhola. técnica. Formação Docente e Complementação Profissional) perpassando em quatro áreas do saber: Língua Espanhola e Linguística. em nível superior e determinar a duração e a carga horária mínimas dos Cursos de Licenciatura. A possibilidade de educação a distância é vista como um avanço. as redações de jornais. 400 horas de estágio obrigatório e 100 horas de aprofundamento de estudos.059 de 10 de dezembro de 2004. Literatura. pedagógica e cultural. O projeto. que não articulam. O projeto de ambos possibilita que até 20% do conteúdo também possa ser ministrado à distância. permitindo uma maior flexibilização curricular e. valorizando a formação do professor como profissional do ensino.680 horas. ética e democrática”. alicerçado numa sólida base científica. Como objetivo geral do curso do IFRR. culturais e pedagógicos. como já mencionado anteriormente neste estudo. O curso na íntegra soma 3. Como ponto diferencial. Tendo em vista que o eixo central do programa é a área de Língua Espanhola. desde os conhecimentos mais estruturais da língua de estudo. mas também apresenta espaços possíveis de atuação do profissional concluinte do curso. O projeto atenta para a adequação das orientações do Parecer CNE/CP número 1. O curso está dividido em 8 períodos com duração mínima de 4 anos. alerta que o modelo curricular está baseado em competências que contribuam para uma completa formação humanística e pedagógica. documentos responsáveis por instituir as diretrizes curriculares nacionais para a formação de Professores da Educação Básica.

quanto comunicacional da língua espanhola. Por outro lado. Além disso. implicou no aumento de vagas e diversidade dos mesmos. o curso de Letras/Espanhol do IFRR é uma proposta recente e inovadora. Apresenta uma visão mais tradicional do ensino demonstrada pela menção à gramática descritiva e ao reduzir a língua em blocos fechados (semântica. No trecho acima. estar focada na formação de trabalhadores para atuação no mundo produtivo. pela necessidade de formação de docentes de espanhol. pragmática). e segundo. 2005) Considerações finais Os Institutos Federais de Educação. Em relação às disciplinas de formação didático-pedagógica. o projeto apresenta todos esses pontos no nível inicial de aprendizagem (correspondente ao segundo semestre). futuro professor. em sua maioria. a mudança de CEFET para Instituto. primeiro. incluindo uma gramática descritiva e uma metodologia de análise dos discursos. e está orientado tanto à operação funcional-instrumental.] Constitui o eixo da carreira tendo como base o enfoque integral da língua espanhola (semântica. seu percurso acadêmico e sua identidade institucional em 1909 no ato de criação das primeiras escolas de Aprendizes e Artífices. morfossintaxe. por exemplo). vale à pena reforçar que em relação aos cursos de licenciatura da Rede. privilegiando o enfoque contrastivo na aprendizagem da Gramática Espanhola (IFET RORAIMA. 2001) para atuar em diferentes contextos educacionais brasileiros. que iniciaram. acreditamos que os projetos analisados imprimem uma formação vinculada a um futuro trabalhador da sala de aula. . Apesar de a Rede Federal. morfossintaxe. dotado de conhecimentos teóricos e de ampla formação cidadã. na relação entre a teoria e prática do futuro professor de E/LE. técnico e tecnológico. usa a “análise do discurso” sem a implicação teórica apropriada. Deverá atender à integração dos distintos componentes curriculares. As ementas das disciplinas permitem visualizar a preocupação da comissão elaboradora do projeto a todo o momento na transversalidade do saber. o projeto também inova em relação às outras grades curriculares de Letras em todo o Brasil. mas que acabaram por levar a experiência desses níveis para a idealização de um curso de licenciatura. Como vimos no decorrer do artigo. O projeto fornece importante contribuição para a formação de profissionais diferenciados e reflexivos (CELANI. idealizada por docentes. projetos e experiências de ensino.. por anseios profissionais. Não queremos dizer que discutir a língua sobre diferentes abordagens não seja importante para o aluno. o que pode representar uma dificuldade para o aluno iniciante no estudo da língua estrangeira.. Ciência e Tecnologia são instituições de ensino superior diferenciadas. no entanto. levanta o método comunicativo e finaliza mostrando a importância da análise contrastiva. talvez seja mais coerente o colegiado primar por uma consonância teórica na elaboração das disciplinas iniciais de língua espanhola. já que o projeto não sinaliza a necessidade de conhecimento da língua para realizar o mesmo. cada “escola” constituinte da Rede Federal foi construindo uma história própria. de abordagens e de olhares para o ensino de línguas. o texto de apresentação das competências a serem desenvolvidas no primeiro ciclo expõe múltiplas correntes. desde sua origem. que num primeiro momento foram concursados para atuar no ensino médio. No decorrer de sua existência. seja por vontade política ou de interesse democrático.154 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS [.

Brasília.php?option=content&task=view&id=91&Itemid=207>. V. MEC. Expansão da Rede Federal. A. Último acesso em: 30 fev. Nota 1 A oferta inicial dos cursos de licenciatura nas escolas da Rede remete à oferta voltada para a área das Ciências da natureza. 8º do Decreto 2. Resolução CNE/CP 1/2002. ———. ———. 23. 2000. 2005. Decreto 6. CELANI. A interculturalidade no ensino de inglês. ———. Disponível em: < http://www. FONSECA. História do ensino industrial no Brasil. Ciência e Tecnologia IFET. para fins de constituição dos Institutos Federais de Educação. Plano de curso para formação do professor da Educação Básica em nível superior – Licenciatura plena em Língua Espanhola e Literaturas. “Ensino de Línguas Estrangeiras – ocupação ou profissão”.Institui a duração e a carga horária dos cursos de Licenciatura. 21-40. 2011.L. Vilson (org. I. Maria Antonieta Alba. IFET RORAIMA. pp. Resolução CNE/CP 2/2002.br/setec/ index.gov. Disponível em: <www.462 de 17/05/2000 .948. de graduação plena.mec. de 27 de novembro de 1997.) O professor de línguas estrangeiras – construindo a profissão. p.edu.095 de 24/04/07 . 2001. . ET (orgs. 2001. Último acesso em: 03 set 2009.ifrr. P. Campinas: Papirus. no âmbito da Rede Federal de Educação Tecnológica.406. VEIGA. Rio de Janeiro: Composto e Impresso no Curso de Tipografia e Encadernação da Escola Técnica Nacional. de 8 de dezembro de 1994. Celso Suckow da. In: LEFFA. 345363. BRASIL. de 18 de fevereiro de 2002 .dá nova redação ao art.http://p or tal.br/campus_bv/index.php/ component/content/article/46-cursos/68-licenciaturaplena-em-lingua-espanhola-e-suas-literaturas>.Estabelece diretrizes para o processo de integração de instituições federais de educação tecnológica. que regulamenta a Lei nº 8.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 155 Referências bibliográficas BRASIL. In: TOMICH. de formação de professores da Educação Básica em nível superior. (Org. de 19 de fevereiro de 2002. ed.).M. 1961. Florianópolis: UFSC. Pelotas: Educat. 2005.) Projeto político-pedagógico da escola: uma construção possível. PAIVA. “O novo perfil dos cursos de Licenciatura em Letras”.O. MEC. Decreto 3.

no asociados con una pieza léxica en concreto. 1987: 25). por su parte. deslinda el aspecto polifuncional de los MD a partir de cinco dominios del discurso: la estructura del intercambio comunicativo. en su precursor estudio “Pragmatic connectives”. Otros estudios. asociados con los marcadores. a la estructura de los actos de habla y a la estructura de intercambio comunicativo propuestas por Schiffrin). determinan el sentido de estas partículas discursivas. Van Dijk (1979). realiza una revisión de algunos . a la estructura ideacional. o la delimitación por pausas) que. tal es el caso de los modelos de Shiffrin (1987) y de Redeker (1991). el modelo ideal se debe basar en tres componentes: estructura ideacional. al parecer. Así. por lo que deben ser incorporados a ellas. pueden funcionar como marcadores. la duración silábica. como los que se basan en la coherencia discursiva. Introducción La polifuncionalidad de los marcadores del aspectos del estudio de Schiffrin y defiende que el marco de participación y el estado informacional no son independientes de las otras tres estructuras. la estructura de los actos de habla. En el ámbito hispánico. estudios como los discurso (en adelante MD) es un tema que. la estructura ideacional. todavía hacen falta estudios que se ocupen de forma más detallada del tratamiento de la polifuncionalidad de los marcadores del discurso. también han puesto de relieve la polifuncionalidad de los MD. El modelo de Schiffrin. En este sentido. no ha recibido bastante atención por parte de estudiosos que se han ocupado de desvelar el valor semántico-pragmático de estas unidades discursivas. respectivamente. Redeker (1991). observó que algunas unidades presentan un carácter polifuncional porque operan en distintos planos del discurso: el semántico y el pragmático . al estudiar la coherencia que se construye por medio de relaciones entre unidades adyacentes en el discurso. estructura retórica y estructura secuencial (las cuales corresponden. así como suelen indicar la existencia de algunos de esos rasgos que.156 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS POLIFUNCIONALIDAD DE LOS MARCADORES DEL DISCURSO Y ENSEÑANZA DEL E/LE Antonio Messias Nogueira da Silva Universidade Federal do Pará 1. según esta autora. Lo cierto es que muchos de los estudios que se han llevado a cabo en este ámbito suelen señalar la especificidad de los rasgos suprasegmentales (como la entonación . el marco de participación y el estado informacional (SCHIFFRIN.

La polifuncionalidad (. Así. pueden tener su sentido determinado por los rasgos suprasegmentales. se puede afirmar que: (…) una mayor o menor fuerza en el acento. c) -¿Te apetecen gominolas? (-¡Bue Bueno no o …). por ejemplo. no solo el marcador b ue ueno o (que ) también muchos otros marcadores. una mayor o menor elevación de tono.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 157 de Domínguez García y Dorta Luis (2002). Martín Butragueño (2002). 2004). y en función de factores que no tienen incidencia en el texto escrito. o una aceptación neta y entusiasmada (b ). intensificándola o atenuándola): a) . el hecho. el marcador bueno puede aparecer con un alargamiento de las vocales y acompañado de una repetición del signo. por su parte. o un consentimiento resignado (c ). De esta manera. señala que la polifuncionalidad de los MD “está en relación con la aptitud de las par tículas extraoracionales para recibir rasgos suprasegmentales distintos (sobre todo. los marcadores conversacionales presentan una mayor polifuncionalidad en el discurso.. la cuestión es que en la mente de los especialistas ha acabado calando la importancia de lo prosódico como factor decisivo para explicar la polifuncionalidad de los marcadores. Así pues. en mayor o menor medida.. además. el que una ocurrencia de un conector se pueda analizar desde distintas.) determina que resulte extremadamente difícil proponer un significado constante para cada marcador. más importante aún. las reacciones del interlocutor. la entonación). y que. algunos rasgos suprasegmentales. Briz (1996) e Hidalgo (1997) aportan nuevos datos sobre las propiedades prosódicas y las funciones de algunos marcadores del discurso del español. según esta autora. ). la entonación. por ejemplo. en este caso bueno puede aparecer con un alargamiento de las vocales. Para Hidalgo Navarro (2010: 65). sino En definitiva. -Buee Bueeno noo ueeno noo crees? no . cuyo propósito es reforzar la réplica.Bue Buen o. más o menos convicción por parte del hablante en relación con el “comentario” que reflejan. podrían señalar también que afectan. Elordieta y Romera (2002). aunque complementarias. b) -¿ Te apetecen no ! ¡Encantado!). los cuales indicarían. creemos que resulta posible establecer las diferencias entre los diversos conectores pragmáticos contrastando el funcionamiento pragmático y discursivo de aquellos que realizan una misma función. con lo que se contribuye a matizar el valor semántico-estilístico (el sentido) de dichas unidades”. frecuentemente matizan el contenido instruccional de los MD (MARTÍN ZORRAQUINO. en cambio. a la palabra que les queda más cercana en el enunciado (ALLERTON Y CRUTTENDEN. d) -Me ha dicho tu ex mujer gominolas? (-Buee Bueeno noo no o . como c lar laro y b i e n . el marcador b ue no. Con todo. perspectivas. precisamente. o. o. por ejemplo. en una misma ocurrencia de un marcador sea posible identificar más de un valor (tanto en el plano semánticoargumentativo como en el enunciativo y en el interactivo. 2000: 209). una misma forma tiene asociada varias . En contraste con los marcadores comunes en la escritura. la información directamente accesible a partir del contexto situacional. puede indicar una ueno simple y clara aceptación (a ). de otro modo. etc. b uee no o … ¿Tú que siempre te ha sido fiel. o más o menos connivencia con el interlocutor. Por otro lado. de que una misma función pueda ser desempeñada por más de una forma. Martín Zorraquino (1998: 23). matizado por la entonación. tales como la entonación. Sirvan de ejemplo las siguientes palabras para comprender la dinámica de los conectores: Comenzar el análisis desde las funciones permite explicar la polifuncionalidad de un conector y.¿Te no apetecen gominolas? (. 1974). puede expresar desacuerdo (d ) del interlocutor (también en este caso. una mayor o menor cantidad en las sílabas y una mayor o menor duración en las pausas se corresponderían con sentidos o matices diversos en la expresión de los marcadores. por ejemplo. como.) es una necesidad para entender el funcionamiento de estos elementos en la conversación coloquial (PONS BORDERÍA.

ueno no y p ues se usan Según este manual. por ejemplo. apenas se ofrecen aclaraciones teóricas sobre el valor semánticopragmático de los MD y la poca información que se presenta respecto de este aspecto suele ser de forma muy superficial y. . el profesor de ELE debe introducir una mayor diversidad de MD con vistas a que el aprendiz convierta “sus frases en un discurso claro y coherente” (MCER. además. comentarios sobre la polifuncionalidad uales d e ni v e l B2 que manuales de niv de algunos MD 2. tomando como base un texto conversacional que el estudiante debe escuchar para resolver algunos ejercicios. en estos. La relación entre formas y funciones es. c) Aula 4 (p. Tal diversidad de marcadores implica también atención a la versatilidad semántico- La polifuncionalidad de los MD es un aspecto que muy raramente se advierte en los manuales de nivel B2 que analizamos. puede introducir “explicaciones y.159) también se refiere a la no cuando. pero. 2. procedentes. por ejemplo. A2 y B1). a partir de estos niveles. a diferencia de lo observado en la lengua escrita. 1999). por su polifuncionalidad y carácter distribucional.4. se lo presenta como una fórmula que los hablantes utilizan para cumplir dos no …) y funciones: iniciar una conversación ( b ue ueno no . de los 15 manuales investigados. el cual. el surgimiento de diferentes contextos en los que los MD se manifiestan con múltiples funciones. a diferencia de los niveles anteriores (A1. conforme este manual. a nuestro modo de ver. un problema para el aprendizaje de estas unidades. con frecuencia.). por lo que tanto el docente como el discente se ven ante situaciones donde no saben muy bien cuándo. con objeto de facilitar a sus alumnos el aprendizaje de su empleo” (MARTÍN ZORRAQUINO. o para darse tiempo a pensar en la no … P ues … o Bue no . p ues yo resulta que es que he tenido las dos “Bue Bueno condiciones…”. La polifuncionalidad de los MD es una realidad en la lengua y su enseñanza en las clases de ELE facilitaría al aprendiz la calidad de su aprendizaje. pragmática de estas unidades. además. al trabajar con los MD.158 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS funciones y una misma función puede estar desempeñada por varias formas. ocupa una parte muy pequeña dentro de una unidad. que la mayoría de los manuales analizados sigue el enfoque comunicativo. el profesor de ELE: (…) más aún que para la didáctica de otras clases de palabras. se presentan. como. ofrecen dificultades para su comprensión. los marcadores en el discurso oral sean mucho más difícilmente sistematizables. Es decir. ya que. b) respuesta “Bue Bueno Bueno Sueña 3 (p. en primer lugar. en la enseñanza de estos elementos. aunque muy por encima. lo que comporta que. pues solo en cuatro. “Las palabras b ue ueno también con otras muchas funciones”. puesto que en diversas unidades didácticas de los manuales analizados suelen aparecer algunos marcadores que. presenta brevemente un comentario respecto al aspecto polifuncional de los marcadores b ue no y p ues . de textos diversos y situados en contextos diferentes. suprayectiva. p ues …”. según parece. Los man tratan de este aspecto son: a) A Fondo (p.). por polifuncionalidad del marcador b ue ueno medio de un ejercicio. principalmente en los niveles avanzado y superior.65) presenta una concluirla (b ue ueno nota en la que queda claro el valor polifuncional del conector es que . a numerosos ejemplos de cada uno de ellos (de cada marcador). constituye.81) que. Polifuncionalidad de los MD y su enseñanza en los manuales de E/LE1 Cabe destacar. (…) tiene que recurrir. según el MCER. Así. al principio de frase cuando se quiere marcar que pasamos de una etapa de la conversación a otra: no . § 3. excusas o justificaciones”. en palabras de Pons Bordería (2000). cómo y qué formas usar en determinados contextos. combinados o no en la conversación. lo que.

Para los niveles C1 y C2. PONS BORDERÍA. la atención a la polifuncionalidad a . aun. como también a los propios estudiantes que podrían utilizar este conector. etc. inclusive en los contextos que exigen su uso como conector aditivo. o bien “introducen un argumento que dice exactamente lo mismo de otro modo” o bien “introducen una consecuencia del argumento anterior”. resultaría más práctico empezar por el B2. etc. se deben aplicar de manera más detallada en los niveles C1 y C2. por presentar matices de versatilidad semántica un poco más complicados.. mir a .ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 159 La polifuncionalidad de los MD los casos más complejos de polifuncionalidad. ya que estas unidades desarrollan diferentes estrategias discursivas en la conversación. los cuales. 1998: 214). tal es n . luego. explicativos es dec decir esto sabe sea según este manual. señalan las relaciones sociales que se establecen entre hablante y oyente (cfr. introducir una autocorrección. e ni ve l uales d prácticamente no se trata en los man manuales de niv C1 que hemos analizado (un total de 8 manuales de este nivel). si bien lo más práctico sería no aplicar todos los casos de no en el nivel B2. pensamos que lo primero que se debería explicar es su significado de adición en tanto en cuanto resulte como un elemento conectivo y su función sea la de vincular dos miembros discursivos cuya orientación argumentativa tiene que ser la misma. semántico-pragmática de los marcadores c lar laro v e ng a . poseen un doble valor. siempre y cuando tome como referencia el manual donde figura esta información. su significado semántico-pragmático de conector aditivo. este último. por ejemplo. oig a . a sab er y o s ea . el inicio del diálogo o. aplicando. como ordenador del discurso. v amos . Ahora bien. De manera particular. y a . oy e . est o es . p ues . es que . El único método que introduce algún tipo de información sobre este aspecto es el manual El Ventilador (p. oig a y otros semejantes de los marcadores mir mira oiga resultaría profundamente interesante en las clases de ELE. en el nivel C1 comentar todos los casos posibles. atenuar el contenido de una respuesta en relación con la pregunta del interlocutor. Téngase en cuenta que el marcador a d e m á s (junto con el conector a p a r t e . en manuales acerca de ade además primer lugar.). o y e . por ejemplo: la toma del turno de palabra. pues son casos complejos que normalmente y según el MCER. b ue nga mira oiga ueno no . sí . el profesor dejaría b ueno3 . exigiría de los aprendices un mejor dominio de las competencias lingüística y pragmática para comprenderlos y ponerlos en práctica. es decir. Así pues. Así pues. introducir un cambio de tema en la conversación. en especial. ya que no tiene sentido desde un punto de vista metodológico y didáctico. 1999) que. Si bien es cierto que al profesor de ELE no deberían preocuparle excesivamente los casos de polifuncionalidad en un nivel B2. sino elegir polifuncionalidad de b ue ueno dos o tres funciones más sencillas de este marcador y. (cfr. MARTIN ncima bie ien ZORRAQUINO Y PORTOLÉS. por lo que las explicaciones que se presentan en los más deberían contemplar. Tanto en los manuales de nivel B2 como en más los de nivel C1. la clasificación del conector ade además exclusivamente como estructurador de la información que ordena el discurso con vistas a dar continuidad al mismo puede crear confusión tanto en las explicaciones pertinentes que el profesor pudiera dar a sus alumnos. únicamente. por ser marcadores explicativos. más b ie n . si es deseo del profesor trabajar con casos de polifuncionalidad de determinados marcadores. más propio del español oral coloquial) es el conector aditivo más frecuente. será más razonable que él realice una concienciada selección de marcadores de polifuncionalidad más sencilla para ir introduciéndolos a partir del B2. cumple funciones distintas en cada caso de su empleo (expresar conformidad con lo propuesto previamente por alguien. e nc ima . 58) que presenta una notación en la que comenta la polifuncionalidad de los conectores ir . casos de versatilidad o . en general. e h . es decir. o el caso de los marcadores b ie ien s ea . no trate de aplicar todos los casos en un nivel B2 o en un nivel C1 o C2. v ale . como.etc.

la sucesión temporal o la expresión de hipótesis. aspecto que. Además. Así. el aprendiz necesariamente deberá reconocer otros rasgos característicos de estas partículas discursivas que pasan desde el aprender los diversos efectos de sentido que subyacen al uso de varios marcadores. restringiéndose a un pequeño grupo de marcadores ir . sino que también requiere que él cambie la manera de enseñar dichas unidades. 220). una vez entendido. este aspecto y.160 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Ahora bien. etc. aunque de manera muy general. se presentasen anotaciones a través de cuadros didácticos. conforme hemos visto más arriba. est o es . se ha de poner de manifiesto la notable carencia del tratamiento de la polifuncionalidad de los MD en los manuales de nivel C1. mostrando un uso controlado de estructuras organizativas. lo que indica la gran riqueza de sus matices expresivos. Tomamos como más de que hemos ejemplo el caso del conector ade además venido hablando: este marcador también puede ordenar la materia discursiva. “(…) en su explicación debería huir de una presentación estática. es donde el aprendiz –en lo que se refiere a su expresión escrita. la condición. Según nuestra opinión. etc. como ordenador del discurso. conectores y otros mecanismos de cohesión” (MCER: p. pero siempre después de que se explicase su significado semántico-pragmático más básico y frecuente en español. Conclusiones En fin. hasta su polifuncionalidad. Sin embargo. la consecuencia. aporta una mayor seguridad con respecto al uso de estas partículas. por lo que en el nivel C1 deberían recibir mayor atención. se hace necesaria su atención. además. en este nivel. se le podrían. fluidos y bien estructurados. que –no hace falta decir– ya se enfrenta a la compleja tarea de explicar en sus clases cuáles son los mecanismos de los que se valen los hablantes nativos para estructurar u ordenar su discurso así como expresar la causa. hecho que refuerza la necesidad de los estudiantes del nivel C1 de aprender a usar un mayor número posible de MD. en listas que perpetúen la vieja idea . puesto que no toma en consideración el hecho de que la polifuncionalidad de estas unidades constituye un rasgo característico de muchas de ellas. globos.. resultaría conveniente que. en los manuales de ELE. pues al tiempo que introduce una nueva información coorientada con la temática que se presenta en el miembro discursivo precedente (función de conector aditivo). a nuestro modo de ver. también deberá hacer frente a este otro problema que es la ausencia o la carencia de informaciones respecto de la polifuncionalidad de los MD en los manuales de ELE. también la distribuye y la divide en agrupaciones más pequeñas. enseñar otras funciones que este conector puede ejercer en los textos. funcionando. convierte la tarea de aprendizaje de los MD aún más engorrosa. este significado básico de ade además entonces. donde mucho más que en el nivel B2. Pero esta es una tarea que no solo requiere del profesor un conocimiento más profundo del valor semántico-pragmático de los MD que explica. Este es un problema sabe sea (es dec decir esto que. Por otro lado. a sab er y o s ea ). con vistas a que el discurso resulte más fácilmente comprensible. o en otros términos. 3. Para ello. por ejemplo– debe aprender a escribir “(…) textos claros. el problema surge porque los manuales no suelen explicar la polifuncionalidad de los MD que introducen en sus unidades didácticas. solo uno 4 de los ocho manuales publicados para el nivel C1 comenta. una vez que el alumno aprenda más . queremos dejar constancia de que ninguno de los manuales de ELE de que nos ocupamos en este estudio contiene suficientes informaciones sobre la polifuncionalidad de los MD como para que un aprendiz de español pueda llegar a comprender perfectamente el funcionamiento de las unidades que introduce. la oposición y el contraste. Lo cierto es que el profesor de ELE. para aclarar el aspecto polifuncional de los MD. así.

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1998. VV. 2008. VV.AA. VV.162 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Lista de manuales consultados VV. . Madrid: Grupo Anaya. Pasaporte 4. VV. A fondo. VV. 2005. Español sin fronteras 2. VV.AA. Destino Erasmus 2. Gente 3 (Libro de Trabajo). Madrid: EDELSA. VV.AA. VV.AA. 2006. Madrid: Edelsa.AA.AA. Madrid: EDELSA.AA.AA. Eco 3 (Libro del Alumno). VV. Madrid: SGEL.AA. Madrid: EDELSA. 2007. Español sin fronteras 3. A fondo 2. Madrid: Santillana.AA. Para el estudio de la polifuncionalidad de bueno. 2005. 2006. Madrid: Grupo Anaya.AA.AA. Punto final. 2009. Puesta a punto. 2008.AA. EsEspañol 3. Dominio. VV. 2010. VV.AA.AA. VV. Madrid: SGEL. VV.AA.AA. Madrid: Edinumen. 2007. Barcelona: Difusión. VV. 2005. 2006.AA.58).AA. VV. Madrid: SGEL. Sueña 3.A. Barcelona: Difusión. VV. Martín Zorraquino y Portolés (1999) y Martín Zorraquino (1994). Edelsa. 2006. VV. 2004. VV. 2007. S. VV. 2008. Aula 4. Madrid. VV. Prisma avanza.A. Notas 1 2 3 La completa información bibliográfica de estos manuales figura en el apartado Referencias.AA. Abanico. Sueña 4. 2007.AA. Madrid: SGEL. Madrid: EDELSA. Madrid: SGEL. El Ventilador. VV. Prisma consolida. Barcelona: Difusión. Madrid: Espasa-Calpe. Barcelona: Difusión. Madrid: Edinumen. Madrid: EDELSA. 2007. VV. Español lengua viva 3. Nuevo Ven 3.AA. 2007. S. véanse Bauhr (1994). Chicos Chicas 4 (Libro del Alumno). Español lengua viva 4. 4 Se trata del manual El Ventilador (p. Analizamos 15 manuales del nivel B2 y 08 del nivel C1. 2008. 2006. Madrid: Santillana. 2007.AA.

Preferimos. Rosa María Lojo. desde la publicación de su primer libro en 1984. en el ámbito literario. originarios de tierras germánicas. en lugar de “alemán”. viene ocupando un destacado lugar en las letras argentinas. Hay que subrayar. discutiendo como están dibujados discursivamente dichos personajes y cuál es la imagen del continente americano reflejada en su mirada. La vasta galería de sus personajes está poblada por seres excéntricos que tratan de encontrar una identidad posible o un lugar. en donde encontrarla y/o encontrarse. en especial por el vasto territorio argentino. de uso más amplio. usar el adjetivo “germánico”. que con excepción de los dos relatos de Amores insólitos de nuestra historia. por algún motivo. Exiliados. imaginario o real. pasa por La pasión de los nómades (1994). Esteves FCL-UNESP-Assis Autora de una obra variopinta que incluye.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 163 EN BUSCA DEL PARAÍSO: LA REPRESENTACIÓN DE LOS GERMÁNICOS EN LA OBRA DE MARÍA ROSA LOJO Antonio R. a pesar de la casi sinonimia. en esas novelas los personajes germánicos no son protagonistas ni tampoco su visión de América y de Argentina es el tema central. Entre ellos se pueden constatar aquellos que. colecciones de relatos y varias novelas. que en general abordan cuestiones históricas e identitarias asociadas a tránsitos y fronteras. sin embargo. poemarios. Como los demás. también tenían la cabeza poblada por fantasías sobre la tierra nueva y soñaban construir nuevas realidades. “Tatuajes en el cielo y en la tierra” y “Ojos de caballo zarco”. circulan por las fronteras de varios mundos. para estas notas. migrantes. por el libro de relatos Amores insólitos de nuestra historia (2001) y concluye en Las libres del sur (2004). este último se asocia más directamente a Alemania como Estado moderno. En la larga lista de su obra ficcional merecen destaque las narrativas casi siempre urdidas en los borrosos límites entre historia y ficción. llegaron a la región del rio de la Plata. El presente trabajo pretende trazar una breve cartografía de la presencia de los germánicos en narrativas de María Rosa Lojo. en un constante deambular. ya que. El autoconcepto de ésa cultura trasciende el territorio comprendido por Alemania como nación . Canción perdida en Buenos Aires al Oeste (1987). viajeros y aventureros en general. El mapa de dicha presencia arranca de su primera novela.

viene desde los tiempos de la conquista. era gozar de los encantos de la mujer americana. la imagen y autoimagen que los germánicos construyeron de su cultura es muy compleja y su discusión ultrapasa los objetivos de esta ponencia y al espacio de que dispongo. El grado de ficción e historia que hay en cada uno de ellos cambia según el personaje. 33). Esa versión alternativa de la historia se hace posible a partir de las fisuras del relato del cronista germánico y es a partir de dicho entrelugar que la narrativa de María Rosa Lojo teje su contrapunto a la historia hegemónica. el relato que hace una especie de relectura a contrapelo del episodio de la conquista y se ubica en la base de la construcción discursiva de la Argentina. relato incluido en el volumen Amores insólitos de nuestra historia (2001). Hay que quedar claro. de “Tatuajes en el cielo y en la tierra”. La construcción de los personajes germánicos en las obras en cuestión. 2006. ur e r o germánico. “las Amazonas eran notoriamente inexistentes” (LOJO. Solamente por cuestiones didácticas. centraliza el foco en la mirada que Ximú tiene del conquistador germánico. sobreviven en el “territorio natural de su pasión” y proponen otra lectura posible para la conquista. sigue las estrategias usadas en las narrativas de extracción históricas. Tenemos entonces no un conquistador español sino su equivalente germánico. tratando de encontrar fortuna. Además. abarcan un período que va del XVI al siglo XX y han nacido en varios puntos del ancho territorio ocupado por la lengua alemana y la cultura germánica. de los Un típico a v e n t tu re muchos que deambularon por el territorio americano en el siglo XIX. capaz de ver al otro y dispuesto a descubrir en los cuerpos. Este lansquenete bávaro que participó de la expedición de la primera fundación de Buenos Aires dejó uno de los primeros relatos de la ocupación del rio de la Plata. se tejen en los umbrales de la ficción y de la historia. La marca principal de ese aventurero de Straubing es la lectura particular que él hace del Nuevo Mundo. p. presentándolo como un hombre sensible. aventureros. partiendo de ello. p. comprendiendo prácticamente toda la historia del continente después de la llegada de los conquistadores. Los germánicos que aparecen en los relatos de María Rosa Lojo. Él abandona los anales de la historia de la conquista argentina para protagonizar. usaré en este trabajo el orden cronológico de la acción de los relatos y no las fechas de su publicación. 2001. 219). partiendo de dicha mirada. Lo que él ofrece al mundo. de acuerdo con aquello que Beatriz Pastor llama de discurso narrativo del fracaso (PASTOR. El relato de María Rosa Lojo.164 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS moderna. juntamente con la imaginada Ximú. más que encontrar al reino del Dorado. entendidos como narrativas de extracción histórica (TROUCHE. es su experiencia y el relato de Lojo. los dividí en cuatro categorías que a veces se cruzan ente sí: conquistadores. entretejida a través de la memoria de la mujer una vez que en el relato la nativa conquistada es quien se apodera del cuerpo del amado. 2008. que trata de trazar la cartografía del cuerpo de la mujer americana y no los mapas de los tesoros de las nuevas tierras. una indígena de la tribu de los Xarayes. Ambos amantes. Algunos son personajes históricos ficcionalizados. otros son personajes puramente ficcionales. que ocupó y ocupa un espacio que va más allá de las fronteras geográficas de aquél. 44). una riqueza superior al deseo de volver a Europa cargado de oro y plata. atraídos por la exuberante naturaleza local o . viajeros e inmigrantes. Como los relatos de María Rosa Lojo. hace una inversión de la épica tradicional de la conquista. una vez que según el relato. p. El ejemplo de c onquistador está en Ulrich Schimidl. que se trata de mera opción personal. sin embargo. La presencia de germánicos en América. como se sabe. Una de sus preocupaciones centrales.

capaces de hacer nacer una nueva realidad. se fija. la narradora dibuja su imagen en la novela. por ejemplo. transformándolo en una especie de ogro primitivo. una nueva visión del mundo. Debido a su piel blanca y principalmente por el color de sus ojos. “de tanto hurgar en historias de alemanes y españoles que perseguían las Fuentes de Juvencia o los palacios de El Dorado” (LOJO. en el cual se quedan las mujeres. Además repite un par amoroso presente en buena parte de la narrativa de Lojo: el germánico (o su descendiente) que se enamora de la gallega (o su descendiente) para formar un matrimonio que representa una especie de emblemática pareja fundadora argentina. patrocinado por la mecenas de las artes argentinas que fue Victoria Ocampo. llega a la Argentina como secretario del Conde Hermann von Keyserling. En Chivilcoy él se dedica. 1995). mientras él se pierde en su estéril Europa. en su discurso. . al lado de su amada. Utz von Phorner. una especie de pantalla de proyección en la que. en Argentina como ganadero y adopta la nueva tierra como suya. en La Rioja. protagonista de “Ojos de caballo zarco”. protagonista de la narrativa. Sus relatos de viaje muestran una Argentina bárbara. En ese sentido. construido a partir de los dos anteriores. es el Conde Hermann von Keyserling. ocupando la segunda mitad de la novela. esa pantalla de proyección invertida. Como en el caso anterior. La imagen que él construye de Argentina. Representa en el relato una inversión del tópico de la superioridad europea que normalmente sostiene los discursos racistas. ante la imposibilidad de la posesión de los metales (cobre y plata) de las minas de Famatina.98). negación de lo que él considera cultura civilizada europea. quien lo había invitado a Buenos Aires. también nacido en Straubing. pero descendiente del hombre de “ojos de caballo zarco”.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 165 simplemente en búsqueda de aventuras es Karl von Phorner. usando lo ajeno para estabilizar lo propio. en tiempos de crisis. El personaje histórico se traslada a las páginas de Las libres de Sur (2004). su figura muestra como el viajero/aventurero se transforma en inmigrante al entrar en contacto con la nueva tierra y principalmente al encontrar en ella el amor de su vida. noble báltico de lengua alemana. Reconstruyendo los desencuentros amorosos de la pareja y la posterior polémica del conde con Victoria. también en Amores insólitos de nuestra historia (2001). violador del universo femenino y de la imagen edénica de las tierras americanas. la salvación de la hegemonía europea (BLOSS. reta al caudillo Facundo Quiroga y por su audacia consigue un espacio en la nueva patria en construcción. su imagen es opuesta a la de Ulrich Schimidl. 202). por amor. gracias a su relación con Victoria Ocampo. en las páginas de la novela Las libres del Sur (2004). p. El conde está reconstruido como el modelo negativo del germánico. Evidentemente él será expulsado de dicho paraíso. casado con una nieta de Bismarck. el filósofo alemán trataba de defender. ese hombre “que se considera un espíritu libre pensador y libertario. no regresa a su tierra y decide fijarse en la Argentina después de casarse con la gallega Carmen Brey. Personaje de la misma novela y asociado a él. En defensa de su amor por una criolla. Se trata de un conocido filósofo de las primeras décadas del siglo XX que viajó a Argentina en fines de los años 20. 2001. p. Totalmente ficcional. en sus relatos de viaje será desconstruída por la propia Victoria en sus memorias y sirven de base para lectura que hace María Rosa Lojo de la relación de ambos. Ese personaje. hundida en la crisis que producirá los desastres de la Segunda Guerra Mundial. 2004. Ese ingeniero de minas. Victoria fue. a una huerta y a una “escuela especializada y a un Instituto de Idiomas”. lo representa negativamente en sus escritos. ha sufrido la más inicua discriminación y la burla de los campesinos analfabetos” (LOJO. Se trata de una nueva estrategia del discurso colonial. una vez que además de ser incapaz de ver el “otro”.

se enamora del hijo de un inmigrante alemán. La hija de los Neira.29). vuelve a aparecer. representada por sus sobrevivientes. 1987. sin saberlo pertenecía ya a esta tierra y a Alberto Krieger. estudiosa de filosofía. p. La casa de los Neira hospedará a Rosaura dos Carballos y Merlín. p. De ese modo. Se puede decir que Federico Reuter y su esposa Ana sean una especie de dobles de Alberto Krieger e Irene Neira. El hijo/nieto de inmigrantes alemanes ayuda a Irene en el encuentro con la identidad argentina. los diversos viajeros que la visitaron y. Ese discurso se reitera y se discute en las dos primeras novelas de María Rosa Lojo: Canción perdida en Buenos Aires al Oeste (1987) y La pasión de los nómades (1994). con padre gallego y socialista. y se casa con él para disgusto de su padre. cuando los Reuter entran en escena. que en la historia ya han regresado a Misiones. Federico Reuter narra entonces la epopeya de sus antepasados que en el siglo XIX abandonan Alemania en busca de una nueva patria. asociada a esa familia gallega. Rosaura va a encontrar. interesa la presencia germana. sin embargo. que. la segunda novela de la autora. incluyendo los primitivos conquistadores. que “había sido gaucho brasilero casi antes de ser alemán” (LOJO. Canción perdida en Buenos Aires al Oeste (1987). Discutiendo la costumbre de los argentinos en abandonar su tierra delante de las casi cíclicas crisis. los protagonistas se reúnen en una cena en la casa de los Reuter en la que se discute el problema de la inmigración asociado al drama de la identidad argentina. paradójicamente ella siente más distante en su casa. que decide rehacer su trayecto juntamente con los dos gallegos. Irene y Alberto. un ex pastor luterano que había abandonado la familia y el sacerdocio debido al alcohol. de paso. que tiene el mismo nombre del padre. antes de su periplo siguiendo los pasos de Lucio Victorio Mansilla. La familia Neira. en los últimos dos siglos. […] Yo no diría ya que el país es mío sino . parece estar en la novela justamente para discutir la cuestión de la identidad argentina y lo hace a partir de la experiencia de la inmigración de la familia Reuter. Como en los antiguos “coloquios”. Me quedo con el ámbito imperfecto que me ha tocado. 1987. María Rosa Lojo tiene entre sus temas la cuestión del desarraigo y la búsqueda de una patria posible. Inicialmente se fijan en Brasil y después en la provincia argentina de Misiones. también las r ant es que abandonaron el sucesivas olas de mig migr antes “Viejo continente” para fijarse en tierras americanas en búsqueda de ese El Dorado imaginario. Para la presente discusión. Irene. La joven pareja va a vivir en un pueblo de Misiones. una vez más. Federico reitera que no pretende hacer repetir. el protagonista del viaje anterior. Hija de la diáspora republicana española. hay cierta similitud entre su historia familiar y la historia de la familia Neira. El origen extranjero común hermana a los personajes. en las ramas de un gigantesco aguaribay.166 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS La representación del universo americano como una especie de paraíso siempre estuvo presente en el imaginario europeo y es parte de los sucesivos discursos relativos a la región.” (LOJO. Allí cerca. 36). Con los inmigrantes alemanes pasó lo mismo. la historia: No voy a repetir la búsqueda del Paraíso en la tierra. “Irene miraba al vacío. los protagonistas. el médico de origen misionero Alberto Krieger. en La pasión de los nómades (1994. el capítulo IV de la segunda parte de La pasión de los nómades. es decir. es educado por la madre y el abuelo. en donde el médico busca la reconciliación con su padre. al mismo Lucio Victorio. protagonistas de su primera novela. Con ello. Aquí hay una duplicación de la pareja compuesta por un descendiente de alemanes y una descendiente de gallegos. Alberto.

p. 1999. 109). Anais do 3° Congresso ABRALIC. discute dos problemas básicos y centrales. las migraciones. pp. tan repetida en el discurso de conquistadores.” (LOJO. La obra narrativa de María Rosa Lojo. El lugar de realización de dicho amor son las tierras argentinas. (LOJO. LOJO. 2. 1978). Tales corredores (LOJO. entonces. . viajeros. como se sabe. en dicho contexto. aventureros e inmigrantes y aventureros. espacio de transición. María Rosa (2010): Árbol de familia. los tránsitos en general son constantes en su obra. El primero es la construcción de la identidad argentina y todo lo que conlleva esa temática. El capítulo concluye con la voz narrativa de Rosaura dos Carballos. a los cuales se asocian los demás. G. 2010) permiten el tránsito entre lo uno y lo diverso. (2008): Andar por los bordes. criando un entrelugar (SANTIAGO. Cruz. y un hombre de origen germánico.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 167 que nosotros. 108-9). no hace falta ir muy lejos. El segundo es la inserción de la mujer en el universo tradicionalmente dominado por el varón. aparece rotundamente negada en la voz de Merlín. en ríos y en migraciones” (LOJO. Lo insólito del amor. Marcela. 2008. Dicho personaje germánico es el hombre que sale de su tierra en busca de un paraíso y lo encuentra no solamente en la tierra plena de elementos telúricos pero principalmente en el amor de una mujer. Linda. reiterando la opinión de Federico Reuter: “Que no hay paraísos. es la capacidad de promover dicho tránsito. Poética do pós-moderninsmo (1991): Trad. (Tesis de Doctorado). entonces. en el cual la identidad se presenta como un discurso en movilización continua. tiene una significación especial ejerciendo la función de promover la comunicación. penetrando por las fisuras naturales del sistema. 2001. R. se establece el conflicto y el germánico. A través de la metáfora del tránsito. La idea de argentinidad aparece asociada en nuestros relatos con la unión entre una mujer hispánica o americana.ed. Niterói: ABRALIC. deja de ser el hombre sensible que descubre el cuerpo y la tierra de la amada y se transforma en el ogro violador. otredad. ampliando el espacio de la discusión a la superación de los límites de la frontera: “Nos despedimos pensando en alas. p. Buenos Aires: Sudamericana. los personajes de María Rosa cruzan las fronteras tradicionales. la identidad y la Referências bibliográficas BLOSS. p. le pertenecemos y mucho más de lo que nos damos cuenta. 125-131. en ese contexto. Entre la historia y la ficción: el exilio sin protagonistas de María Rosa Lojo. la frontera. irremediablemente. Por ello. USP. 2008. sino los paraísos pasados y los futuros y que para buscar esas pobres verdades incluso raramente alcanzadas por los hombres llamados sabios. se trata de un constante ajuste en dichos espacios de frontera y de circulación. CRESPO BUITURÓN. ———— (2001): Amores insólitos de nuestra historia Buenos Aires: Alfaguara. La idea del Paraíso. la traducción como mediación. el exilio. El amor. HUTCHEON. Ser argentino. Rio de Janeiro: Imago. la tierra americana del deseo de los conquistadores/viajeros/aventureros/ migrantes. Lleida: Facultad de Letras de la Universidad de Lleida. Los escritos de viaje del conde Hermann Keyserling como psicodrama de una relación amorosa? In Limites. Dichos temas siempre se plantean a partir de la experiencia femenina y la dificultad que tiene la mujer para hacer escuchar su voz en un mundo dominado por el discurso masculino. Anja (1995): El drama de la comunicación transatlántica. Cuando no ocurre el encuentro. São Paulo: Ed. 110).

TROUCHE. In Uma literatura nos trópicos. Buenos Aires: Edhasa. M. . ———— (2004): Las libres del Sur . La conquista de América narrada por sus coetáneos (14921589). 1128. Barcelona. Buenos Aires: Ed. Beatriz (2008): El segundo descubrimiento. São Paulo: Perspectiva. Vol. En busca de una identidad . ———— (2004): Diálogo con Mercedes Giuffré. MOLINA. Buenos Aires: Corregidor. Silviano (1978): O entre-lugar do discurso latino-americano. La novela histórica en Argentina. André (2006): América: história e ficção . Niterói: EdUFF: 2006. pp.. Ensaios sobre dependência cultural.168 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS ———— (1987): Canción perdida en Buenos Aires al Oeste Buenos Aires: Torres Agüero. Hebe B. SANTIAGO. MOLINA. pp. PASTOR. Buenos Aires: Sudamericana. Víctor C. Hebe B. II. ———— (2008): Una pasión de los nómades. In GIUFFRÉ. Buenos Aires: Debolsillo. (ed. 109-127. del Signo. In ZONONA.) Poéticas de autor en la literatura argentina (desde 1950). (2010): La poética de la rosa: Modulaciones de la ficción histórica en María Rosa Lojo.

agora como imensas manchas urbanas totalmente fragmentadas que dificultam ou impossibilitam as interações materiais entre seus habitantes. um distúrbio em direção. interior e exterior. uma literatura da ambivalência e do entrelugar: assim são os textos que nos últimos tempos . fort/da. passado e presente. para frente e pra trás. estes relatos dão visibilidade e um papel protagônico a grupos muito particulares da urbe contemporânea. inclusão e exclusão. Isso porque há uma sensação de desorientação. ao mesmo tempo. tal como assinalou Roberto Echevarría em seu libro Mito y archivo (2000). Em diálogo aberto com os arquivos da antropologia. que o termo francês au-delà capta tão bem – aqui e lá. Bhabha As cidades latino-americanas da narrativa contemporânea se apresentam como espaços fragmentários e territórios de enfrentamento nos quais circulam personagens que vivem entre a estranheza e a descoberta de si e do Outro. A partir dos dois modelos de urbanização complementares (segregação e auto-segregação sócio-espacial) que traduzem as contradições e crises vividas “aqui” por uma América Latina que se enfrenta a radicais transformações no processo de modernização. tais como os sujeitos diaspóricos de Si me querés quereme transa (Cristian Alarcón) ou o personagem que transita entre distintas ilhas ao longo de um só dia em Oscura monótona sangre (Sergio Olguín). para lá e para cá. Textos como estes conseguem gerar uma reflexão questionadora acerca do cruzamento de fronteiras que separam e. no ‘além’: um movimento exploratório incessante.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 169 ROMPENDO FRONTEIRAS DA CIDADE E DA NAÇÃO: REPRESENTAÇÕES DE SUJEITOS QUE SE MOVEN ENTRE AS “ISLAS URBANAS” DE SERGIO OLGUÍN E CRISTIAN ALARCÓN Ary Pimentel UFRJ “Encontramo-nos no momento de trânsito em que espaço e tempo se cruzam para produzir figuras complexas de diferença e identidade. de todos os lados.” Homi K. este trabalho se propõe discutir alguns aspectos relacionados às estratégias de representação da cidade e da nação em histórias narradas desde as margens da cidade e da própria literatura. Uma literatura que deriva do encontro de dois mundos. fazem com que surjam novas “zonas de contato” entre distintos territórios e culturas de uma megalópole como a capital argentina. As “zonas sagradas” e os “espaços incivilizados” se interpenetram e se projetam em contraponto complementar nesta espécie de viagem ao outro lado dos muros da cidade.

temos um repórter-escritor que mergulha na realidade de um enclave popular no coração urbe para tentar entender um mundo de violência. Nos dois casos estamos diante de sujeitos que já não conseguem viver a nação ou a cidade como totalidades integradas. como rádio. Tal como concluiu Néstor García Canclini. Personagens e narradores mergulham na zona de contato e. seu culto à coragem. o mundo da cultura e os territórios em que se fragmentou a cidade. Trata-se de duas narrativas publicadas em 2010 que podem muito bem exemplificar certos aspectos da produção que. Cristian Alarcón vai à procura do mundo de jovens criminosos. drogas e imigrantes peruanos. derivando em subculturas e conflitos interculturais.170 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS constituem nosso campo de interesse. Cortázar. os labirintos da Villa 21. 22). O que está no centro dos dois textos é a passagem de fronteiras: do cotidiano familiar para o estranho que emerge no território do Outro ou na zona intersticial que se projeta entre os dois mundos. Para contar a história de cinco clãs que disputam o controle da distribuição de cocaína em uma villa de Buenos Aires. seus códigos. o protagonista se desvia do caminho que faz todos os dias em direção a sua empresa para buscar os prazeres e a “adrenalina” de uma outra vida em regiões praticamente desconhecidas por ele. “construímos. Oscura monótona sangre . chilenos e bolivianos. e constata o fim das ideologias em tempos nos quais ex-guerrilheiros maoístas tornam-se “capos” do tráfico de varejo. Na outra. p. como Borges. O processo de construção de uma memória comum e a coesão comunitária antes tributárias de relatos totalizadores agora só é possível nas “novas tribos” ou “aldeias urbanas”. e a ação de grupos pequenos. ainda dentro das grandes urbes. donde se habla tanto guaraní como argentino” (OLGUÍN. suas guerras.) fragmentos que elegemos para ancorar nossa subjetividade. nessas novas “ilhas urbanas” (entidades que se constituem em torno de territórios reais ou simbólicos) que se passam as ações da maioria dos romances escritos nos últimos dez anos. pequenas comunidades onde as mediações entre indivíduo e a identidade grupal ainda se estabelecem face-to-face. É justamente nestes territórios que circulam os personagens de Si me querés quereme transa e Oscura monótona sangre. pelo cinema e pelos meios de comunicação. nas “micropoles” que. para usar uma expressão de Josefina Ludmer. de alguma forma o deslocamento dos sujeitos é bastante semelhante nas duas obras. E é aí. “chegamos assim a necessidade de dar conta de um mundo no qual a diversidade não está só em terras longínquas. segundo García Canclini. (. Embora muito diferentes na sua concepção. “la villa de los paraguayos. em Diferentes e desiguais e desconectados. Em uma.17). mas aqui mesmo” (GARCÍA CANCLINI .. permanecem em plena fronteira vivenciando os sentidos e sem-sentidos da cidade através das mediações das narrativas veiculadas pela literatura.. A fragmentação tanto identitária como territorial resultante da pluralização e heterogeneização de culturas. sem jamais se decidir a abandonar integralmente o seu mundo. Si me querés quereme transa e Oscura monótona sangre nos permitem fazer uma reflexão sobre as relações entre o imaginário. 113). jornal e televisão. 2019. Viajam dentro da própria urbe a procura de uma cidade que não é sua. é o que permite estruturar este território de novas identificações apresentado por Cristian Alarcón: . García Márquez. p. “vem depois” dos grandes clássicos latino-americanos.” (2008. 2005. mas buscando fazer dela a sua cidade. p.

61) E os cógidos ganham enorme destaque nesta viagem mediada pelo texto narrativo aos “redutos da violência”. talvez já possamos começar a falar de uma literatura que está se gestando em diálogo com uma cultura “deslocalizada” ou “translocal” de que nos fala James Clifford em Dilemas de la cultura. cómo la migración de sujetos y culturas generan un fenómeno de transnacionalidad. (ALARCÓN. América Latina . 2008. tanto dentro das fronteiras da cidade como para além das fronteiras nacionais. p. 2010. chilenos. Em Aquí. tal como a define Beatriz Jaguaribe (Apud GARCÍA CANCLINI. En cada una de las treinta ciudades más importantes del mundo existe una procesión del Señor de los milagros que es idéntica a una en el centro de Lima. Esses movimentos redesenham as car tografias da nação. o en un brazo. (ALARCÓN. p. migrações e trânsitos de todo tipo. cabe lembrar que. Diante de mobilidades. narco-traficantes e grupos paramilitares.” Assim o promove. surge uma arte que se estrutura a partir dos novos deslocamentos humanos. Nesse mundo à parte. No lugar onde antes imperava a anomia passam a reger os códigos da “isla urbana”: Entre todos ellos rige un código que permite el dominio piramidal sin titubeos: a la primera falta la sanción es rapar a cero y afeitar las cejas. más desconocidos: los que están aquí mismo. nesta verdadeira experiência de “voyeurismo protegido”. de Cristian Alarcón. o mundo das “islas urbanas” reúne sujeitos em torno de um território e de um conjunto de códigos com base nos quais se constrói o sentimento de pertencimento a um lugar e a um grupo. onde Josefina Ludmer se propõe a pensar os novos tempos a partir . quereme transa.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 171 Villa del Señor se extiende a lo largo y ancho de treinta manzanas. num processo em que a dinâmica cultural transcende as fronteiras nacionais: Me fascina cómo la historia de América latina vuelve a surgir a miles de kilómetros. se gana un tiro en una pierna.61) A cidade narrada em ambas narrativas é fruto de uma experiência de deslocamento. atravesadas por arbitrarios pasillos angostos. 2008. un viaje a los mundos más lejanos. Cristian Alarcón expressa sua atração por um mundo de disputas territoriais onde mais importante que o pertencimento à nação e o compartilhamento de seus grandes relatos é o respeito ou a traição aos códigos de fidelidade grupal. p. Si el muchacho no entendió con la vergüenza de andar con la cara como un mutante.25). da cidade e da própria narrativa. también. Em entrevista intitulada “El mundo narco habla de un mundo por venir”. Si me querés. Oriundas que são de um processo de deterritorialização e reterritorialização da cultura.1 Num bairro em que se instala a ausência do Estado e suas instituições. Constituído de um conjunto de clãs. sus terrenos fueron ocupados por los inmigrantes que llegaron a Buenos Aires a partir de la década del cincuenta. esta é também uma literatura que constrói “relatos de localização” (GARCÍA CANCLINI. A partir desta perspectiva. “es.20). impõe-se um novo marco legal. peruanos e bolivianos. ao mesmo tempo. 2010. em suas tramas assume um contorno estrutural o movimento da migração limítrofe motivado por razões econômicas ou pelos “desplazamentos” derivados das guerras entre guerrilheiros. El ercer error es el fatal: muere acribillado. comunidades de migrantes convivem com o mundo “narco” e se tornam peças de um jogo complexo em cujo centro estão as frequentes guerras para definir o comando absoluto do tráfico de cocaína entre “transas” paraguaios. De formas irregulares. na quarta capa da primeira edição. Mas. fundamento mais importante da vida social neste contexto. o escritor argentino Mar tín Caparrós. p. entre nosotros. Bajo esas leyes inquebrantables funciona el ejército privado (…).

E é justamente isto que encontramos em Si me querés quereme transa. Mas não só isso. buscando o Outro distante no interior da própria cidade. Agora a representação e seus sujeitos (como obser vamos nas “narrativas migrantes”. mas sim sobre “ilhas urbanas” como sugere Josefina Ludmer em seu texto “La ciudad: en la isla urbana”. 2003). la antropología fue la primera ciencia social que se ocupó de los otros lejanos. Antes. Porto & Torres. um testemunho” 2 . escreve-se a partir de pedaços da realidade. de um presente que não pode produzir clássicos. havia uma certa cartografia mais sólida e clara. Por “pós-autônoma” Ludmer entende a literatura que “trata de ser outra coisa. identidades e nações vão por esse caminho. mas sim a partir dos seus fragmentos. y luego de los diferentes. sejam estes os que integram as ilhas do trabalho. como tudo. Não faz mais sentido falar sobre cidade. fornecendo as marcas de pertencimento a pequenos coletivos. como nos recorda Néstor García Canclini: Como se ha dicho a menudo. entre o romance verdadeiro e o jornalismo investigativo. só que agora em uma escala bem mais reduzida. que ela chama de instrumentos conceituais para organizar certas reflexões. “paraguas” ou “bolitas”. Cuando unos y otros fueron modernizándose o cambiando. uma crônica.3 . “realidadeficção” e “literatura pós-autônoma”. Talvez seja justamente a partir da percepção do trabalho com a escala pequena e do processo de microlocalização identitária presente nas duas obras que se possa destacar um dos aspectos centrais para o estudo da literatura produzida neste momento de virada de século quando se observa uma tendência que aponta para a erosão das narrativas nacionais e para a importância crescente do território como um espaço de ancoragem da identidade que pode contribuir para a coesão de comunidades imaginadas. minoritarios y subalternos en la propia sociedad. O território. e a própria representação estava associada a lugares estabelecidos. obra de um autor que opera na fronteira entre a invenção. Si me querés. Assim como o romance latino-americano moderno no qual se estabelecem mecanismos de narrativa derivados do “arquivo” da antropologia. Cinema e literatura. uma biografia. cf. este também circula entre a crônica familiar e o testemunho. Em meio a estas fronteiras de gênero cada vez mais voláteis. as ilhas residenciais do condomínio ou as ilhas dos espaços de segregação nos quais residem “cartoneros”. 2010) está em disputa e em constantes deslocamentos estratégicos. como uma investigação histórica. está fragmentado. monolítico ou compreensível. Enquanto que os clássicos latino-americanos falavam de territórios muito maiores e buscavam as chaves da identidade em grandes narrativas nacionais. se destacaban las tradiciones o resistencias locales a lo innovador. De manera que la antropología es una disciplina con largo entrenamiento para estudiar procesos de aculturación.172 de termos como ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS “imaginação pública”. narrativa de tempos e discursos fugazes. Tal como o primeiro livro de Alarcón ( Cuando me muera quiero que me toquen cumbia . territórios insulares que constituem um grande arquipélago no qual cada vez mais deslocam os sujeitos. A cidade não se narra a partir de um todo sintético. pero con predominio de lo que sucede en interacciones locales y de escala pequeña. o relato de reportagem e a pesquisa de campo da antropologia. de transculturación y las zonas de contacto entre culturas. destaca-se o discurso antropológico como mediador na literatura. quereme transa é um projeto essencialmente pautado em um trabalho de campo. essa narrativa contemporânea.

As favelas e. ilhas urbanas. más o menos compartida. são o longe perto de Buenos Aires. em particular. enclaves. bolivianos ou coreanos. É em torno do território compartilhado que se organizam as narrativas da memória e os mitos comuns. Elizabete Jelín. a um meio ambiente natural que partilho com outros. p. p. por sua vez. Deduz-se um mapa impreciso que apontaria para a existência de ilhas de trabalho. descarnado e objetivo. quer ser ensaio de sociologia ou geografia urbana. Não estão dentro. De tal forma que a história do território se confunde com a história da comunidade. A partir daí. não estão fora: são o dentrofora.19). seu relato quer ser roteiro de cinema: filme de estrada sem sair do interior da grande metrópole. destacado o movimento dos grupos humanos. p. ilhas de prazer. mas também a que me liga a um território. na medida em que a ênfase recai no que transcende o indivíduo e reforça a comunidade na qual ele se insere. Isto nos leva a pensar num aspecto muito específico envolvido em um fenômeno que acontece na história recente da cidade: o surgimento das novas favelas a partir da migração limítrofe. 2006. afirma Ludmer. “trata de ser outra coisa”. segundo o crítico indiano: Esses “entre-lugares” fornecem o terreno para a elaboração de estratégias de subjetivação – singular e coletiva – que dão início a novos signos de identidade e postos inovadores de colaboração e contestação. Sus sentidos no son compartidos por todas las personas y grupos que residen dentro del territorio argentino. e ilhas que são destinadas aos refugos ou às quais estes são destinados. A su vez. a uma cidade. no ato de definir a própria ideia de sociedade. são versões da cidade (SARLO. mas da cidade que é ao mesmo tempo lida e imaginada: a Buenos Ares narrada através de seus fragmentos. é a partir da ancoragem no território da “ilha urbana” que se constituem as tramas identitárias da comunidade. os “entre lugares” ou o “aqui e lá” de que nos fala Bhabha (1998. (JELIN. a história de um lugar se torna história pessoal. em um estudo sobre as migrações limítrofes na Argentina. Como assinala Beatriz Sarlo em relação às ficções de Borges. (2010. la lealtad y la pertenencia nacional son conceptos en transformación. as narrativas construídas por Sergio Olguín e Cristian Alarcón. com fronteiras deslizantes que nos impedem uma cartografia segura. Menos aún por la población migrante. Existen y se generan distintos criterios de diferenciación y jerarquización que catalogan a algunos grupos como potenciales contribuyentes al desarrollo del país. elemento que começa a se tornar obsoleto neste contexto.141). ganha espaço protagônico a . É nestes espaços intersticiais que o valor da cultura do agora está sendo negociado. Michel Maffesoli nos recorda que: Devemos estar atentos ao componente relacional da vida social. 198). chilenos. Trata-se não da cidade real. 2009. as que apresentam uma expressiva concentração de peruanos. bairros fechados. sobre su lugar en la sociedad argentina. Elas são movediças.20). Aqui percebemos mais uma vez a importância do território. dos processos econômicos e das manifestações culturais. los diferentes grupos migratorios desarrollan distintas estrategias de inserción a partir de la idea. Não apenas a relação interindividual.48) Numa literatura que recusa a fixidez das imagens geográficas. observa que: La membresía. 1998. p. Essas são as pequenas histórias do dia-a-dia : tempo que se cristaliza em espaço. (BHABHA. Não se pode traçar um mapa destas ilhas a partir do percurso trilhado no dia-a-dia. O homem em relação. Para além da importância da nação.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 173 A literatura pós-autônoma. paraguaios. de residência dos que garantiram o direito instável de ocupar o que Noé Jitrik definiu como “zona sagrada”4. Oscura monótona sangre quer ser cartografia. p.

o protagonista de Oscura monótona sangre. As cidades cindidas de modo cada vez mais radical apresentamse nas narrativas do século XXI como “ilhas urbanas”. . Inicialmente caracterizado pelos contrários. Barcelona: Gedisa. da cidade e da sociedade: formando uma nova comunidade. 2010. In: GARCÍA CANCLINI. José Teixeira. A construção de pontes ou de caminhos de aproximação através de textos que narram e dão coerência à cidade. Eliana Lourenço de Lima Reis e Gláucia Renate Gonçalves. como os personagens de Si me querés. líneas y límites. Trad. 15-31. nos bairros humildes que margeiam essas avenidas. quereme transa e Oscura monótona sangre. Trad. ______ (2008): Imaginários culturais da cidade: conhecimento / espetáculo / desconhecimento. 2ª ed. BHABHA. pelo contrário. “las ciudades latinoamericanas de la literatura son territorios de extrañeza y vértigo con cartografías y trayectos que marcan zonas. A literatura do presente parece determinada por uma estrutura que frequenta diferentes narrativas: o cruzamento de uma fronteira cada vez mais porosa e deslizante que em vez de separar propicia contatos. org. leyes y sujetos específicos” (LUDMER. Cristian (2010): Si me querés. Barcelona: Gedisa. org (2011): Conflictos interculturales. desiguais e desconectados: mapas da intelectualidade. Mas as ilhas que são ao mesmo tempo um território e um sujeito coletivo “es un mundo con reglas. Myriam Ávila.” (2010. p. Luiz Sérgio Henriques. 103-112. (1998): O local da cultura . Como diz Josefina Ludmer em seu ensaio “La ciudad: En la isla urbana”. Este é caso de Julio Andrada. literatura y arte en la perspectiva posmoderna. demonstram que as fronteiras já não impedem a passagem de um lado para o outro. Homi K. Parece que estão dentro e fora da nação. Itaú Cultural. movido pelo impulso. mas que só vivencia a verdadeira aventura ao mergulhar. pequena nação que requer um novo relato. um cenário de realidade/ficção onde os sujeitos constroem constantemente estratégias para entrar e sair sem que saibam já muito bem se estão dentro ou fora. Néstor. uma nova nação. religando pedaços dispersos e propiciando interações simbólicas que permitem superar parcialmente a fragmentação da experiência. Buenos Aires: Norma. entre fragmentos y ruinas. São Paulo: Iluminuras. GARCÍA CANCLINI. De la diversidad a la interculturalidad.174 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS figura da migração limítrofe e os contextos de sociabilidade construídos por estes sujeitos em uma concentração territorial e identitária que assume a forma de pequenas tribos e parece demonstrar em cada uma de suas narrativas que ainda não sabemos lidar com a diferença interna. p. In: COELHO NETTO. Um empresário que se sente seguro em sua vida de cidadão modelo a percorrer todas as manhãs as mesmas avenidas que comunicam a sua ilha residencial à ilha industrial onde trabalha do outro lado da cidade. A cultura pela cidade. p. p. Néstor. Carlos Reynoso. os personagens experimentam as consequências de um efeito inesperado de deslocamento nos dois sentidos do termo: saem de um lugar cuja lógica dominavam para penetrar em outro território bastante instável e ao mesmo tempo se sentem eufóricos e desconfortáveis neste novo lugar. Belo Horizonte: Editora UFMG. de Aquí América Latina. James (1995): Dilemas de la cultura : antropología. despertam a curiosidade e propiciam o contato.130).131). ______ (2005): Diferentes. mas que. Aparece assim um quadro recorrente. Referências bibliográficas ALARCÓN. Trad. Rio de Janeiro: Editora UFRJ. quereme transa. CLIFFORD.

: Fondo de Cultura Económica. JELIN. 1968. 2 BERTOL Rachel. Valor. org. In: FIGUEIREDO. . Trad. JITRIK. Conceitos de literatura e cultura. 2ª ed. D. Barcelona: Gedisa. Alejandro. 2010. In: GRIMSON. Noé. SARLO. In: GARCÍA CANCLINI. Notas 1 BORDÓN. TIRRI. org.br/cultura/1130334 Acessado em 01/09/2012. 4 Cf. 2011. PORTO. La vuelta a Cortázar en nueve ensayos. Editora UFJF. Néstor. In: TIRRI. p. 4ª ed. Sergio (2010): Oscura monótona sangre. 2ª ed. 25 abr. A literatura não é mais sagrada: entrevista a Josefina Ludmer. Buenos Aires: Prometeo. de Clarín. Notas sobre la “zona sagrada” y el mundo de los “otros” en Bestiario de Julio Cortázar. TORRES (2010): Literaturas migrantes. Buenos Aires: Siglo XXI. pp.valor. desigualdad y derechos. Conflictos interculturales. OLGUÍN.clarin. Elizabeth (2006): Migraciones y derechos: instituciones y prácticas sociales en la construcción de la igualdad y la diferencia. Néstor.com/diariodelaferia/2010/04/25/ cristian_alarcon_el_mundo_narco_habla_de_un_mundo_por_venir/.F. Maria de Lourdes Menezes. México. Michel (2010): O tempo das tribos: o declínio do individualismo nas sociedades de massa. Roberto (2000): Mito y archivo: una teoría de la narrativa latinoamericana. Buenos Aires: Tusquets. Acessado em 01/09/2012. Trad. 104-5. Niterói: EdUFF. JELIN. Cristian Alarcón: “El mundo narco habla de un mundo por venir”. Disponível em http://publicidade-valordigital. 225-260. MAFFESOLI. 47-68. De la diversidad a la interculturalidad. Néstor. Juan Manuel. p. Virginia Aguirre Muñoz. Rio de Janeiro. Buenos Aires. orgs.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 175 GONZÁLEZ ECHEVARRÍA. Sara Vinocur de. Maria Bernadette. org. 3 GARCÍA CANCLINI. Eurídice. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Disponível em http://weblogs. Revista Ñ. Migraciones regionales hacia la Argentina: diferencia. 13 -39. Elizabeth. Beatriz (2009): La ciudad vista : mercancías y cultura urbana.com. p.

animais e crianças aparentemente ingênuos. esse produto de massa. em 1895.Universidade de São Paulo As Histórias em Quadrinhos. No entanto. popularmente chamadas de HQs. na Itália e na Argentina.176 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS AS TRADUÇÕES DE QUADRINHOS SOB UM OLHAR DISCURSIVO Bárbara Zocal da Silva PG. os quadrinhos aderem a um caráter mais ácido. com sua série The Yellow Kid . Sabe-se. Schulz). como também as publicações do grande roteirista Hector Oesterheld. as HQs se popularizaram nos Estados Unidos e tal pioneirismo deve-se ao americano Richard Fenton Outcalt. Suas produções artísticas influenciaram consideravelmente a qualidade de produção das historinhas em toda a América Latina. não há como especificarmos certamente quando surgiu e qual foi a primeira história em quadrinhos. principalmente no gênero da aventura. Calvin & Hobbes (de Bill Watterson) e Mafalda (de Quino). 2010). muito valorizado na Europa e na América Latina. com começo. obedecendo. Garfield (de Jim Davis). Esse movimento de exportação conquistou muitos fãs – grandes consumidores – e também estimulou um intenso desenvolvimento da criação de HQs em outros países como na França. à ordem de sequência dos diálogos e à ordem de permanência das mesmas personagens (SANTOS. intensificaram-se as criações intelectuais das Histórias em Quadrinhos. cultural e popular. Um dos nomes mais expressivos do meio de produção das HQs é o do italiano Hugo Pratt. consagraram-se neste design que conhecemos por volta dos anos 1880. A partir da década de 1950. Personagens como Peanuts (de Charles M. e suas intensas publicações. Há uma valorização maior do texto sobre a imagem. assim. O período entre os anos 1929 e a Segunda Guerra Mundial é considerado como o que mais ousou em criatividade e propiciou a expansão e a exportação das HQs. questionam a formação das relações familiares. à ordem de narrativa. para onde se mudou nos anos 1950. que no fim do século XIX. em especial na Argentina. meio e fim definidos. que. permitiram à Argentina criar uma rica tradição em suas historietas densamente elaboradas. . o que os torna expressivamente ricos. inovou a estrutura dos quadrinhos ao colorir as histórias e ao delimitar as falas das personagens por meio do balão. indagam-se sobre os problemas sociais e políticos e valem-se de um humor sarcástico para fazerem chistes.

popularmente conhecido como Henfil. p. criada por Ziraldo Alves Pinto. O jornal contou com a colaboração criativa de Jaguar. p. e que ainda obtém grande êxito. além de inovar quanto à estética dos quadrinhos – criava não apenas faces. tornou-os as mais influentes publicações de seu tempo. Com o crescimento na produção de quadrinhos no Brasil. A primeira revista brasileira que publicou regularmente quadrinhos no Brasil foi a revista Ticotico. lançada em 1905 (VERGUEIRO. percebeu-se o sucesso das HQs de humor que comentavam “de modo agudo os problemas do momento” (PATATI. mas traços claros das expressões faciais –. Braga (2006). Tanto caíram no gosto do público que muitas outras histórias de humor e de aventura. BRAGA. devido aos temas regionais abordados. chamados “alternativos”. nessa época. inovou quanto à criticidade a seu país. escritor. 2011. De acordo com Patati. A comunhão de propósitos entre autores e editores destes jornais. Os brasileiros não mais se satisfaziam em rir dos problemas político-sociais do mundo. Ziraldo. eles queriam falar de seus próprios problemas. fizeram sucesso como a Luluzinha ( Little Lulu . Henfil. Fortuna. entre tantos outros humoristas e jornalistas. entre tantos outros projetos culturais idealizados. muito sucesso nas páginas dos periódicos. Duas outras revistas que contribuíram para uma história das HQs no Brasil surgiram na década de 1960 e são a revista O Pererê. p. ao governo e. pois. assim.14). a aventura. o gênero infantil foi o que prevaleceu na criação das HQs brasileiras. Angeli. Os quadrinhos humorísticos foram ideologicamente significativos entre os anos 1964 e 1985. Entretanto. pois fizeram frente aos governos da época. apresentador. Os gibis da família Disney. p. o Brasil era tomado pelas produções norte-americanas e caminhava vagarosamente em direção a uma produção própria de Histórias em Quadrinhos. Braga (2006). a guerra. as tirinhas com tendências críticas fizeram. Um exemplo de resistência da época é o semanário O Pasquim. o mundo dos super-heróis.199). entre outros. A evolução dos acontecimentos políticos tornou o espaço dos quadrinhos e do humor na imprensa do Brasil ainda menor do que já era. A persistência de um jornal como O Pasquim . o Versus . inclusive.14). Ivan Lessa. roteirista. que “abusava de uma linguagem polêmica de humor contra o milagre econômico e fazia críticas incansáveis à ditadura” (SANTOS. BRAGA. afinava com os propósitos de variados humoristas e quadrinhistas: ganhar dinheiro sem abrir mão de criticar e rir de nossas mazelas. p. 2006. por exemplo.10). criada por Maurício de Souza. Guidacci. o terror. 2006. “considerada talvez como a mais importante e genuína contribuição brasileira à industria dos quadrinhos” (VERGUEIRO. durante o período da ditadura militar no Brasil. (PATATI. de Hank Ketcham). como. e ainda fazem. 2010. de John Stanley) e o Pimentinha (Dennis the Menace. foi um dos quadrinhistas mais representativos no Brasil. 2011.199) Henrique de Souza Filho. Carlos Estevão e Millôr Fernandes. outros gêneros de quadrinhos invadiram o mundo das HQs brasileiras. o humor crítico e político. Millôr. colunista. com foco sempre para o lado infantil. . de acordo com Patati. ou ainda. foram os responsáveis pela fundação da Editora Abril em 1950. pensava-se que esse tipo de literatura era dirigido exclusivamente às crianças. e A Turma da Mônica . principalmente as historinhas de O Pato Donald .ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 177 As HQs no Brasil Em contrapartida. à condição apática da população diante da ditadura. Destacam-se grandes nomes de cartunistas como os de Angelo Agostini. que lutaram bravamente contra a censura para verem publicadas suas edições. pois. Henfil foi reconhecido – internacionalmente – pela influência que seus trabalhos tiveram em sua vida militante e pelo seu brilhante trabalho como cartunista.

sociais e políticas que podem estar contidas em duas traduções diferentes realizadas no Brasil das mesmas tirinhas escritas originalmente em espanhol hispano-americano. retratam. com homens falando. inclusive pela Argentina e pelo Brasil.178 O projeto ambivalente ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS norte-americana. Sob a luz da Análise do Discurso de linha francesa. como uma criança. (ORLANDI. mas com a língua no mundo. e. que usa da expressividade da fala como uma tentativa de buscar seus direitos e de conscientizar a população para as questões políticas à sua volta. definimos a garotinha de seis anos. Ao analisarmos o discurso de Mafalda. Ela seria traduzida para o “portunhol” e. assim. são as imagens que constituem as diferentes posições na relação discursiva. estruturas frasais mais próximas da língua portuguesa indica uma tendência Como editor. a má educação. De acordo com Orlandi (1999). problemas sofridos nessas décadas por grande parte dos países. percebemos que essa é uma das características primordiais para que o humor seja compreendido. ainda assim. (ORLANDI. seria o tradutor ideal e Henfil revisaria tudo. o tradutor. problemas incompreensíveis aos olhos de uma menina de seis anos de idade.] a primeira coisa a se observar é que a Análise de Discurso não trabalha com a língua enquanto um sistema abstrato. p.20) Ao voltarmo-nos para a análise das traduções. Mafalda provém da classe média e percebemos. as privações da infância. 1999. pois. e editada pela Martins Fontes. uma representatividade do cotidiano dessa classe. Por outro lado. 1999. O projeto consistia numa tradução diferenciada de algumas histor ietas da personagem Mafalda . historicamente posicionada. com maneiras de significar. O fato de Mônica Stahel (doravante MS MS) manter. Dessa forma. decidiram que Mouzar.. eles têm condições financeiras de terem uma casa própria. porém. para cumprir esse propósito. escritas entre as décadas de 1962 e 1973. o editor-revisor. e outra foi realizada por Mouzar Benedito. Assim. considerando a produção de sentidos enquanto parte de suas vidas. quando nos deparamos com Mafalda lançando seu olhar crítico à sua vida e ao mundo à sua volta. politizado.15) As tirinhas da Mafalda que pertencem ao corpus . um carro. de uma forma geral. a influência . em suas opções tradutórias. pois Quino queria muito que ele estivesse envolvido no projeto. ou seja. a constante luta pelo poder entre os Estados Unidos e a ex-URSS. jornalista também engajado politicamente. Henfil participou em 1982 de um projeto do grande cartunista argentino Joaquín Salvador Lavado. pretendemos observar algumas questões linguísticas. Mouzar Benedito. vemos a forma histórica de um sujeito inserido numa conjuntura política de tensão. a problemática familiar. “funciona pelo inconsciente e pela ideologia”. em 1998. como mostram as tirinhas.. p. e Henfil. [. seja enquanto membros de uma determinada forma de sociedade. Em princípio. por trás de seus debates. seja enquanto sujeitos. Uma dessas traduções foi realizada por Mônica Stahel. conhecido como Quino. o quadrinhista. a idéia de Quino era que Henfil traduzisse as tirinhas. Mafalda. em 1982. e o mundo sofria com a Guerra Fria. em plena crise econômica. uma televisão e direito às férias em família. pois a Argentina passava por um momento de repressão política sob o comando de militares peronistas. participariam conjuntamente Quino. e editada pela Global. uma vez que ele não poderia realizar o trabalho na época. comportando-se. como revelado em uma entrevista de Mouzar sobre Henfil na Rev ista Imprensa de junho de 2008. a cultura geral. como sujeito discursivo. os conflitos da guerra fria. Ela e sua família gozam de regalias. notamos que uma característica bem marcante da divergência entre as duas traduções das mesmas tirinhas de Mafalda é a relação de seus respectivos tradutores com suas próprias concepções de tradução. como sujeito de tendência socialista. de certa forma.

p.” (ORLANDI. 1995). o que possibilitaria a compreensão de tais tirinhas em uma maior comunidade interpretativa (FISH. comunidades interpretativas (FISH. uma leitura fluente e transparente. por exemplo. a ideologia e a construção de discurso mostra que a tradução. consumidores alvo das histórias em quadrinhos no Brasil. 1999. afinal. a quem ele pretende dirigir determinada tradução. muitas vezes. 1999. Ao compararmos as duas traduções das tirinhas. a concepção pós-moderna de tradução. as interjeições e muitas palavras grafadas como em espanhol como. inclusive. restrita aos leitores que não têm conhecimento da língua espanhola e. as diferentes concepções de tradução nos levam à reflexão sobre o quão ideologicamente marcadas são as traduções de MS MS. inclusive entre as crianças. Diferentemente.20) . período de Diretas Já e de sindicalismo. para ilustrar o fato de que até mesmo as palavras mais “simples do nosso cotidiano já chegam até nós carregadas de sentidos que não sabemos como se constituíram e que.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 179 à invisibilidade do tradutor . 1992) distintas das abrangidas por MS e permanecendo como um tradutor mais visível (VENUTI. ao contrário da de Mônica Stahel. de forma prática. à sua concepção de tradução e. por seguir as exigências de domesticação (VENUTI.17) A teoria na prática Analisemos agora. fato que pode ser justificado pela sua participação militante tanto na época conflituosa. expõe que há três questões sobre as quais o tradutor Tirinha 1 deve refletir e ser fiel a elas. “¡Como!” e “Bueno” (tirinha 2) – privilegiando uma linguagem mais truncada e. Mouzar Benedito (doravante MB MB) mantém as estruturas das traduções das tirinhas mais próximas da língua espanhola – ele mantém os pontos de interrogação e de exclamação. é condicionada por fatores ideológicos e contextuais. por exemplo. “¿E daí?”. Sendo assim. em último lugar. à qual vinculamos MB MB. a relação entre a língua. privilegiando. às crianças leitoras. p. 1995) impostas pelas editoras que manipulam e difundem a idéia equivocada de que uma tradução deve ser “fiel à idéia do autor do texto original”. De acordo com Arrojo (1986). 1992). a que comunidade interpretativa. não há discurso sem sujeito e não há sujeito sem ideologia: o indivíduo é interpelado em sujeito pela ideologia e é assim que a língua faz sentido. década de 80. retratada nas tirinhas. quanto na época de sua tradução. o estudo das relações entre o signo.” (ORLANDI. período de intensa participação popular após os anos de silêncio. Primeiramente. Entretanto. trabalhando a relação línguadiscurso-ideologia discutida em Orlandi (1999). abrangendo. de acordo com a concepção de Venuti (1995). assim. “¡AAAAAAI!” (tirinha 1). aos seus objetivos. “como diz Pêcheux (1975). significam em nós e para nós. em segundo lugar. assim como a leitura. no entanto. em relação ao original. dessa forma. às suas interpretações proporcionadas pela sua leitura. percebemos na tradução de Mouzar Benedito. a presença de itens lexicais marcados ideologicamente pelos conflitos vivenciados na América Latina entre o período das ditaduras. o discurso e a ideologia presentes nas traduções de Mouzar Benedito e de Mônica Stahel.

de uma preposição.. reproduzidas). pela ideologia socialista da época. dadas as condições de produção na qual se inserem. na tirinha 1.. num impulso. mas grita como se clamasse por socorro.. ouve as notícias sobre o mundo e. por mudança... simplesmente. 1988. ao contrário. de uma expressão. a garotinha fantasia com a possibilidade de o mundo ter sofrido a dor. vemos que a tradução de MB do primeiro quadrinho mantém uma semelhança maior em relação à forma e ao léxico da língua espanhola... não existe “em si mesmo” (isto é. er a e lm und oe el mund undo el que que uej (Tradução de Mônica Stahel) (Tradução de Mouzar Benedito) Ao observarmos as traduções. etc. .creí que lq ue se había q ue j a d o” . estão inhas 2 presentes nas Tir irinhas 2.ac hei que er mund undo que tinha gr itad o” e “g r ita d o” .. mas.p h.pe nsei que er mu n do q ue esta va r eclamand o ” e a de M B qu av re do “A h. expressões e preposições são produzidas (isto é.. p. ao iq ue e ra o e nse compararmos a opção de MS “A h. o sentido de uma palavra. inserida no contexto de seu ambiente familiar..a c he iq ue e ra o m und oq ue t inha g r ita d o” e h.160) Outras formas discursivas relevantes para exemplificarmos a relação do sujeito com a historicidade e com o interdiscurso. a expressão da dor. em sua relação transparente com a literalidade do significante). inconscientemente. em seguida. Ao se deparar com o globo terrestre na sala de sua casa. (PECHÊUX. encontra eí q ue seu pai com um martelo na mão e diz: “A h. ouve uma y!” e sai em busca do sofredor da ação interjeição “¡A “¡Ay!” que desencadeou.. é determinado pelas posições ideológicas que estão em jogo no processo sócio-histórico no qual as palavras...180 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Mafalda. No último quadrinho. Sendo assim. nos determos nas palavras “re c lamand lamando itad percebemos que a opção tradutória de MB relacionase ao discurso de um sujeito afetado. que não se queixa ou reclama da situação política e social do mundo. ao mesmo tempo que desliga seu rádio..cr h. porém..

mediante um olhar discursivo sobre a língua. elas r t e-ame r icanos especificam que são os no nor e-amer icanos. as crianças “Ué.. eles somente o fazem para cumprir o protocolo. e MB aproxima-se mais das estruturas co va o mo!. desde o fim do século XIX até o fim do século XX. Enquanto MS traduz “os ame amer r ussos também estão d e mal no e ntant o ne g o ciam de entant ntanto neg e nt re si” e “a h umanida d e não está c he ia ne m da ntr humanida umanidad che heia nem Susanita ne md ev o cê” nem de vo cê”. v vo estav de mal c om e la?” ela?” la?”. por exemplo. “¡C “¡Co mo!. para um acordo.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 181 (Tradução de Mônica Stahel) (Tradução de Mouzar Benedito) Na segunda tirinha. co me rciam com os russos. Não há espaço para uma mer negociação. o discurso e a ideologia... com um enfoque especial para o Brasil e a Argentina. outra estrutura nos chama r icanos e os a atenção... e não os países subdesenvolvidos da América do Sul. pudemos propor um ensaio de análise..¿Vo estav b r avo c om e la?” co ela?” la?”. contudo. Considerações finais Após um breve esboço da história das Histórias em Quadrinhos. M B traduz os mesmos r t e-ame r icanos e os r ussos quadrinhos como “os no nor e-amer russos também estão b r avos e mesmo assim c o me rciam br co mer e nt re e les ” e “a h umanida d e não está far ta ne m da ntr eles les” humanida umanidad farta nem S usanita ne md ev o cê” nem de vo cê”. destacamos a expressividade r te-ame r icanos ” e “co me rciam ” das das palavras “no nor e-amer icanos” mer ciam” traduções de MB MB. respectivamente nos segundo e quarto quadrinhos. Essas formações discursivas dão maior ênfase ao conflito da Guerra Fria em si.¿V o cê não esta da língua espanhola. M S mantém uma linguagem mais clara e de fácil compreensão para seu o cê não esta va d e público alvo. de como duas . que estão em confronto e. assim mesmo.

à relação do tradutor com o léxico e à significação das palavras em sua relação com o mundo. evolução e mercado. A invisibilidade do tradutor. (1982). 10 años con Mafalda. (1990).189-206.br/edicao11outubro2010/ universo-femin-hq. (2011). (1992).. do cartunista argentino Quino.uol. 1990) às estruturas e governados pelas ações regidas ideologicamente e constituídas dadas as relações que estabelecemos com a língua e com a história em nossas experiências de mundo. (1999). SANTOS. PECHÊUX. Almanaque dos quadrinhos: 100 anos de uma mídia popular. AUTHIER-REVUZ.asp?idEdicao=11&idMateriaRevista=123>. São Paulo: Editora Global. SANTOS. RODRIGUES. W (Orgs). jul. O Universo Feminino nas Histórias em Quadrinhos. Tradução de Eni Pulcinelli Orlandi. Heterogeneidade(s) enunciativa(s). Tradução de Monica Stahel. Is there a text in this class? Tradução de Rafael Eugênio Hoyos-Andrade. pois no ato da interpretação nos posicionamos ideologicamente. M. 43-68. E. Tradução de Carolina Alfaro. QUINO. p. BRAGA. (1995).36.111-134. p. Mafalda 2. QUINO. Deste estudo é depreendemos inevitável e que a PADIAL. (2002). v. (Org.br/revista/ edicao_mes.pdf >. R. Tradução de Celene M.). ORLANDI. Oficina de Tradução: a teoria na prática. F. P. Campinas (SP). São Paulo: Ática. na verdade. Lawrence. FISH. somos determinados por nossa relação com a língua e com a história e essa relação se faz no inconsciente. Palavra. J. O discurso: estrutura e acontecimento. . Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. somos meros sujeitos assujeitados (AUTHIEZ-REVUZ.historiaimagem.182 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS traduções diferentes das mesmas tirinhas da personagem Mafalda. Acesso em: 15 de março de 2011. VENUTI. PATATI. seja na exposição de nossas próprias idéias. Acesso em: 14 de março. Análise de discurso: princípios e procedimentos.com. (19): 25-42. S. (1986). Disponível em <http:// portalimprensa. Campinas: Pontes. 3ª ed. C. Tradução de Mouzar Benedito. levados a pensar que mandamos em nossos pensamentos e temos controle de nossas formas de expressão. Referências bibliográficas ARROJO. M. M. seja na escolha das palavras que utilizamos. contudo. somos. E. Buenos Aires: Ediciones de la Flor. R. p. Henfil não morreu. (1990). 10 anos com Mafalda./dez. PORTAL IMPRENSA. A língua não é transparente – não deveríamos tratá-la de forma ingênua –. n. Rio de Janeiro. Discurso e Textualidade. Alfa (São Paulo). (1998). São Paulo: Martins Fontes. A. QUINO. em quadrinhos no Brasil: Análise. Campinas: Pontes. p. S. In: Cadernos de estudos lingüísticos .. Campinas: Editora da UNICAMP. (2011) A história contextualização constitui intrinsecamente a interpretação. (2006). (2006).3. Rio de Janeiro: Ediouro. Cruz e João Wanderley Geraldi. (2010).144-185. (1988). Disponível em < http:// www. PECHÊUX. VERGUEIRO. Campinas: Pontes. K. podem apresentar divergências quanto às concepções de tradução.com. Tradução de Eni Pulcinelli Orlandi. São Paulo: Laços.

una región privilegiada: al mismo tiempo próxima a nosotros. Los discursos conmemorativos del “Día de la Raza”. según Foucault ([1969]1995). de estas prácticas discursivas de la memoria pública del 12 de octubre1. Ese vínculo exaltado con la ‘madre patria’ fue tan relevante que se plasmó en otros dominios asociados: en la educación. (p. pronunciado por el entonces . una vez que el régimen de enunciabilidad ha cambiado: El análisis del archivo comporta. la práctica de construcción de un archivo con estos pronunciamientos se nos presenta como instigante y desafiadora. vigoraron con fuerza entre fines del siglo XIX y la primera mitad del siglo XX y responden a circunstancias históricas y políticas muy particulares. pues. “entre la tradición y el olvido”. parcial. en los posicionamientos políticos de las Academias de Lengua y Letras de América y en la política externa de aquella época. La descripción del archivo desarrolla sus posibilidades (y el control de sus posibilidades) a partir de los discursos que comienzan a dejar de ser los nuestros. su descripción hoy. provoca un efecto de rareza que. vigente en el calendario oficial español y en muchos países hispanoamericanos.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 183 DISCURSOS OFICIALES DEL 12 DE OCTUBRE: UN DÍA CONMEMORATIVO PECULIAR Beatriz Adriana Komavli de Sánchez –UERJ PG . conmemorativo del 12 de octubre. pronunciados por presidentes o altos mandatarios de gobierno. trataban de un ámbito no de objetos materiales sino de dependencias simbólicas y de parentesco. Su lectura. Presentaremos algunas aproximaciones iniciales de nuestra investigación de doctorado que pretende contribuir para discutir la noción de hispanidad de aquella época y construir un archivo. hace con que pertenezcan a un espacio privilegiado. se trata de la orla del tiempo que cerca nuestro presente. objeto de resignificaciones a lo largo del tiempo. Actualmente. “Día de la Hispanidad”. siempre fragmentado.UFF El objetivo de esta comunicación es presentar una serie de reflexiones en torno al día festivo. pero diferente de nuestra actualidad. Esos discursos oficiales. es aquello que fuera de nosotros. nos delimita. que lo domina y que lo indica en su alteridad. 150-151) (Traducción de la autora) Escogimos para esta ocasión presentar algunos esbozos analíticos del discurso de 12 de octubre de 1947.

p. la reescritura es un mecanismo constitutivo del lenguaje que nos posibilita nominar algo o alguien de modos diferentes. una especie de fraternidad horizontal que atraviesa a todos los integrantes que. Para la autora. p. por el otro. de sinonimia. un abanico de relaciones posibles futuras. objetos del discurso. Otra particularidad de ese discurso político presidencial es la de que el enunciador tiene garantizado por el poder del cargo empírico que ocupa el derecho al pronunciamiento – ya que su papel social así lo autoriza y legitima. Ese proceso comprende estrategias de sustitución. Anderson afirma que en América. 83-108) se refiere a dicho mecanismo en términos de reescritura. el enunciador acostumbra a anunciar de forma explícita a quien se dirige. surge el sentido como efecto. Ese proceso al mismo tiempo funciona describiendo. Maingueneau (2008. sino una multiplicidad de “oyentes” es otra marca importante de esos discursos. conforman ese concepto moderno aglutinante que se materializa en prácticas. Estos direccionamientos pueden ser recuperados por medio de diferentes marcas lingüísticas. la estabilización del referente. etc. soberana”. caracterizado por Daher (2000. de una forma o de otra. guiado por una visión antropológica: “una comunidad política imag inada – e imaginada como siendo intrínsecamente limitada y. Anderson (2011. Se imagina y no se inventa. sostiene que los límites del enunciado son los otros enunciados con los cuales se puede establecer un espacio de correlaciones. aunque pueda dirigirse a muchos otros destinatarios que no sean los directamente anunciados.184 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS presidente de la República Argentina. sin conocerse. de la tensión que subyace entre la paráfrasis (lo mismo) y la polisemia (lo diferente). no reactualice otros enunciados” ([1969]1995. por un lado. calificando. en su arqueología. 37) en términos de ‘interdicto’ de un discurso. p. valiéndose de otros recursos. creando. Del conflicto. 113). de lo ‘decible faltoso’. 86): En el género pronunciamiento político. p. diseña. Aquellos enunciados renegados son reformulados por . y aún más: “no hay enunciado que. inaugura. general Juan Domingo Perón2. p. El abordaje teórico La visión dialógica de Bajtín y el Análisis del Discurso de línea francesa que considera los estudios enunciativos nos ayudarán a destacar algunas marcas lingüísticas de la red de filiaciones identitarias que se tejían entre la madre patria y las excolonias materializadas en los discursos oficiales del 12 de octubre. parafraseándolo. El género pronunciamiento es así En esta primera aproximación destacamos el proceso designativo que conforma. Esos vínculos conforman un juego enunciativo que es preciso examinar. al mismo tiempo. Orlandi (apud KARIM. La certeza de un auditorio en el cual se incluyen no solo los destinatarios explícitamente designados por él en su discurso. Esa relación no solo es posible de ser establecida con otros enunciados pasados como también condiciona. la ilusión de una equivalencia entre las palabras y. en ninguna de las florecientes naciones la lengua constituyó un problema en aquel inicio (finales del siglo XVIII y comienzos del XIX) ya que los pueblos y líderes criollos tenían la misma lengua que los Foucault. 32) así define el concepto de nación. 2001. en la medida en que tratan del mismo dominio de objetos. de paráfrasis. (Traducción de la autora) Contextualización del discurso En su clásica obra de referencia para los estudiosos de las ciencias sociales.

Cristina Kirchner. aun así eran tranquilizadoras. de entender la unidad cultural de cada nación que da lugar. aliada a la ideología de esa hispanidad se mostró muy efectiva para consolidar la fecha conmemorativa: “Se trata así de poner de manifiesto la pureza moral de la nacionalidad española: la categoría superior. p. p. El castellano. de nuestro espíritu imperial. Según el mencionado autor. también. en escala mundial.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 185 excolonizadores. cuyo propósito era recuperar un prestigio perdido. Conflictos internos en España postergaron la definición de una fecha conmemorativa nacional hasta que las celebraciones por el IV Centenario del Descubrimiento de América en 1892. en la segunda mitad de ese siglo. siguiendo a Tateishi (2005). por el decreto 1584/2010 sobre feriados nacionales y días no laborables de la actual presidenta argentina. . que es la Cristiandad” (VALLS. 2003. s/d) apunta dos tipos de celebraciones de la memoria pública: “la que insiste en la continuidad de la nación desde el pasado histórico. s/d).. el 11/10/1917 publica un decreto declarando el 12 de octubre fiesta nacional dedicada a la raza. A propósito de las fiestas nacionales. fuera posible reatar íntimos lazos culturales. entre las exmetrópolis y las nuevas naciones (p.Fue justamente el hecho de compartir con la metrópolis la misma lengua (y también la religión y la cultura) que había posibilitado las primeras creaciones de imágenes nacionales (p. ¿cómo calificarla para las naciones de lengua española. 16-17) apunta que. la madre patria recorre a su pasado exaltándolo. En el caso específico de Argentina que nos interesa. Juliá (1990) que en su artículo Vieja nación. la constitución de nuevos bloques económicos (UE y Mercosur). y la que celebra la nación moderna a partir de la ruptura con el pasado”. después de un cierto período de resentimiento. de la Hispanidad. el creciente expansionismo de los Estados Unidos en América. lazos culturales. lengua vernácula.) defensora y misionera de la verdadera civilización. hecha por la Unión Ibero-Americana en 1912. fiesta imperial. así califica a esta conmemoración “fiesta imposible de la nación española”. en la medida en que eran guerras entre parientes. 2005. luego la pérdida en 1895 de Cuba y de Puerto Rico en 1898. Grupos enteros que habían permanecido en el olvido. monolítica. la descolonización de África. 262). Para tal. la fiesta de 12 de octubre en España no se encajaría en ninguno de los dos tipos señalados en el párrafo anterior. fue impuesto a los indígenas americanos en los dominios de la corona española. 268). 1999 e ABÓS.. Heymann (2007.. Las guerras revolucionarias. el presidente Hipólito Irigoyen. ese proceso fue motivado por: la disgregación de la Unión Soviética. la fecha fue redesignada como Día del Respeto a la Diversidad Cultural3. de adoptar la fecha del 12 de octubre como Día de la Raza fue acogida rápidamente por muchos gobiernos. ahora estimadas como ‘hijas’ bajo un nuevo prisma de política la externa. por más duras que hayan sido. Recientemente. Una fiesta compartida puede cumplir esa función de afianzar. Sin embargo la festividad solo gana estatuto legal el 9 de enero de 1958. excolonias? En América la propuesta. Tateishi (2005. entre otras. Ese vínculo familiar garantizaba que. Para entender lo que ocurrió en ese período de tiempo es menester considerar que hasta mediados del siglo XX predominó una manera única. el intento fracasado en el norte de África y los regionalismos internos aceleraron la necesidad de reatar lazos con las excolonias americanas. el proceso de globalización y los movimientos migratorios. Si es imperial. si es imposible para España. al multiculturalismo. (Traducción de la autora) universalista. En ese sentido es coincidente con S. La coincidencia de la fecha con el día festivo religioso de la Virgen del Pilar. p. en este caso los descendientes remanecientes de diversas comunidades indígenas. (. y a veces políticos y económicos. apud TATEISHI..

Argentina. el genio máximo del idioma. Crónica General de Alfonso el Aproximaciones al discurso del 12 de octubre de 1947 La sesión fue realizada en la Academia Argentina de Letras con el doble objetivo de rendir homenaje al cuarto centenario del nacimiento de Miguel de Cervantes. el glorioso manco de Lepanto. España. la más alta expresión de las virtudes. decreto del presidente Irigoyen de 1917. (2) La raza: superación de nuestro destino. sus compañeros de esclavitud. a tal punto que en 1946 las dos naciones firmaron el Convenio Comercial y de Pagos por el cual Argentina fornecería cereales a España5. CERVANTES: el grande hombre. Cervantes –el prototipo del español. su propio dolor físico y espiritual. Diario de Madrid (1788). el prototipo del caballero católico. la sencillez de su estilo. de las designaciones correspondientes a Cervantes. Menéndez y Pelayo. un escritor contemporáneo (s/d). la inmortal figura de Cervantes. (15) Transformación del mundo y (16) Resurrección del Quijote . Renán. la perennidad del Quijote. la raza. aprovechando la proximidad supuesta del nacimiento del homenajeado (entre el 29/9 y 9/10/1547) y conmemorar el Día de la Raza. aquí numerados son: (1) Espíritu contra utilitarismo. Se hace preciso aclarar que en aquella época. España – bajo el régimen del General Francisco Franco . Los números entre paréntesis indican los subtítulos en los que se encontraron tales designaciones. genio auténticamente español. espejo y paradigma de su raza (1). A lo largo del pronunciamiento son hechos comentarios sobre la obra Don Quijote de La Mancha así como también hay réplicas a los detractores internos y a las potencias extranjeras enemigas (expansionismo de los Estados Unidos y el avance de la Unión Soviética en Eurasia). el inmortal alcaíno. un versículo de Job.(10). pozo de sabiduría y. un dicho. (3) América: empresa de héroes. Ortega y Gasset. un notable cervantista inglés (s/d). de raíz hispana. 10/7/44 y 24/11/44). (11) Grandeza de España. otras voces comparecen de manera más o menos explícita. su vida triste. su universalidad (6). código del honor y breviario del caballero. (12) América y España: identidad pacifista. el más grande de los escritores castellanos. dolorosa.y Argentina mantuvieron vínculos políticos muy estrechos. la hispanidad y la lengua. su vida. Discurso de las armas y de las letras de Cervantes. (13) Paz y justicia social. (14) Argentina es libertad. el inmortal complutense. una recolección. su honda vivencia espiritual y su suprema gracia hispánica (5). (5) Porvenir enraizado en el pasado. Consideramos entonces que es ese nuevo régimen de enunciabilidad el que nos posibilitará la descripción del archivo en cuestión. Weber. con genial previsión (7). 6 Sabio. directa . (10) La revolución y las almas. su palpitación humana. (8) Cervantes. le siguen dieciséis tópicos cuyos subtítulos. prototipo católico. por los siglos de los siglos. otros discursos pronunciados por Perón (8/6/44. Presentamos a seguir. o indirectamente.186 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS lucharon por sus derechos y reivindicaron su lugar en la memoria ahora transformada en valor. magistral.… una riqueza tal de vocablos. (9) Inteligencia y milicia. de hecho. no exhaustiva. su prosa …fina. el título del discurso es Homenaje a Cervantes 4. para conformar su entramado. Como en todo discurso. La Galatea. estrecha. merecedores de muchas críticas. un deber moral de reconocer múltiples identidades. Persiles y Sigismunda. (6) Entraña popular cervantina. su obra. A la introducción del extenso discurso de 13 páginas. la universalidad de Cervantes. su indómita inteligencia (8). el misterio y la magia de Cervantes (9). Madariaga. Son ellas: la reina Isabel (Nueva Recopilación de las Leyes de Indias). (7) Conciencia social de Cervantes. (4) España rediviva en el criollo Quijote.

nuestra . nuestro sello personal indefinible e inconfundible. iguales a ella en su esencia y naturaleza (3). única en el mundo. unidad de cultura y unidad de destino. la universalidad de lo español (9). la patria. que bajo determinada coyuntura se proyecta para un presente y un futuro y así hacer frente a las grandes transformaciones sociales en el panorama mundial de aquella época. esta filiación (4). una herencia inmortal (4).…el más puro y elevado. de historia. su sangre. isla de paz (1). valores y creencias. En varios momentos hay como una superposición entre los valores adjudicados a los diversos objetos de discurso. la riqueza espiritual. acaso resignado. el ideal hispánico-ascético. Esta hispanidad se alinea al espiritualismo. valor incorporado y absorbido por nuestra cultura. un rosario de heroísmos. la verdadera unidad espiritual de los pueblos hispanos. su obra civilizadora. quijotesca) (13). Hoy. de sacrificios y de ejemplares renunciamientos. estoico. magnífico aporte a la cultura occidental. ARGENTINA: coheredera de la espiritualidad hispánica. puede derrumbar un patrimonio espiritual acumulado durante siglos. estas identidades. su gloriosa trayectoria histórica. fecunda. de religión. civilizadora. la magnitud de su empresa. LA RAZA: algo puramente espiritual. LA LENGUA: el idioma más hermoso de la tierra (2). nuevo Prometeo. la pasión patriótica. esta imposición del destino (5). un patrimonio cultural acumulado durante siglos (16). LA HISPANIDAD: el heroísmo y la nobleza. eterna. unidad de origen. debe resucitar don Quijote y abrirse el sepulcro del Cid Campeador. los únicos valores eternos (10).ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 187 ESPAÑA: la Patria Madre. de no resolverlo con acierto. su más calificado blasón. nuestro origen y nuestro destino. la levadura de su sangre. este sentido primario de la justicia (11). el éxito de nuestra política exterior (idealista. una suma de imponderables. los pueblos de la hispanidad. una comunidad de ideas e ideales. su maternal regazo. los valores espirituales. la más prodigiosa acumulación de incitaciones ideales. vínculos de idioma. el sentimiento patriótico español (11). la más prodigiosa acumulación de incitaciones ideales (9). la armonía de su lengua (4). el pensamiento inspirador de sus grandes estadistas (12). la mejor ejecutora de la raza. Perón cierra el discurso haciendo una exhortación que no podíamos dejar de traer: Como miembros de la comunidad occidental no podemos sustraernos a un problema que. un estilo de vida (2). distintas a la madre en su forma y apariencia.… un desbordamiento de pasión. ese orbe espiritual. un afán pacifista. para (re)crear una historia. el signo de una auténtica misión (2). sus más sublimes proporciones (la vertiente hispánica de la cultura occidental y latina) (4). Una vez más nos deparamos con un ámbito semántico difícil de delimitar. el ascetismo y la espiritualidad. la madre España. marcados por el signo de una misión cristiana. Una figura emblemática ha llamado nuestra atención. el sentido misional de la cultura hispánica. interpretada como destino. ‘la ventura de todo afán justiciero’ y ‘el sabor de “jugarse por entero”’. Se rescatan fragmentos del pasado de España. la ascética grandeza ibérica y cristiana (5). empresa universal. más que nunca. ya los oponentes son considerados utilitaristas. tan noble tronco (1). una empresa universal. de cultura. nos referimos a la curiosa designación ‘quijotes de nuestras pampas’ (1) en la que se condensan la figura del Quijote y la del gaucho para predicar los rasgos en común valorizados: ‘el riesgo por el bien’. por esta grandiosidad y por esta fuerza. la flor de la caballería. sus hijas (3). su empresa. lo español.

Tese de doutorado em Lingüística Aplicada ao ensino de línguas. Rio de Janeiro: FGV. discursos. Salvador. Disponible en: http://elpais. Michel ([1969]1995): A Arqueologia do Saber. Taisir M. PUC-SP. podríamos decir que desacraliza una visión de lengua monolítica que se ajustaba a esa formación ideológica. Tateishi (2005) especifica más aún y afirma que “(la hispanidad) era un concepto íntimamente ligado al nacional-catolicismo del régimen franquista”. Hirotaka (2005): Estado–nación y fiesta nacional. En definitiva.educacion. La Academia Argentina de Letras y el peronismo (1946-1956).Casa del Lector. FOUCAULT. 19-7-1990.188 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Consideraciones finales Estas primeras aproximaciones se mostraron muy productivas por revelar los valores adjudicados en aquella época a la noción de hispanidad. Cagliari: Arxiu de Tradicions . Disponible en: http://www7a. Mara (2008). En: anclajes XIII. p. fiesta imperial. se observan marcas lingüísticas de un movimiento político-cultural que surge a fines del siglo XIX bajo el signo del conservadorismo (GLOZMAN. MT: Unemat. Angela de Castro (coord. São Paulo : Librería Española e Hispanoamericana . a cura di Joan Armangué i Herrero. GLOZMAN. legislação e direitos. 15-43.htm (última consulta realizada el 25/06/2012).html (consulta realizada el 08/04/2012). En consonancia con González (2005).pdf. La fiesta del 12 de octubre parece haber servido de pasquín para una determinada coyuntura histórica y política. a partir de la segunda mitad del siglo XX. El advenimiento del multiculturalismo. Santos (1990): Vieja nación. Actas del XI Congreso Brasileño de Profesores de Español. Consulta realizada el 26/01/2012. 129-144. Em: Sociedade e Discurso. DAHER. noción que puede ser confundida con la de hispanismo y con la que mantiene parentescos. (2000): Discursos presidenciais de 1o de maio: a trajetória de uma prática discursiva. Benedict (2011): Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. São Paulo: Pontes. GONZÁLEZ. En: XI Congreso Brasileño de Profesores de Español. que se aparta de la definición genérica dada por el diccionario7. Dominique (2008): Gênese dos ANDERSON.jp/~hirotate/ hiro-es/art-hiro/hiro-4. (2001): Significação –Da História ao nome Israel e Palestina na Folha de S.es/exterior/br/ es/publicaciones/XI_congreso. 2-8. política e cultura. Luciana Quillet (2007): O devoir de mémoire na França contemporânea: entre memória. Campinas.ne. TATEISHI. F.biglobe. Maria C. Rio de Janeiro: Forense Universitária. JULIÁ. 2008) y que rescata valores vigentes en la Castilla del siglo XV.com/diario/ 1990/07/19/internacional/648338411_850215. Jornal El País. G. 59-71). SP: Parábola. Referencias bibliográficas MAINGUENEAU.): Direitos e cidadania –memória. KARIM. história. 2 da reimpressão. Paulo. 4ta ed. p. São Paulo: Companhia das Letras. Mario Miguel (2005): Hispanidad e Hispanismo para profesores brasileños de Español. En: GOMES. . 2007. HEYMANN. www. p. Trad. En: Oralità e Memoria. . Denise Bottman. Cáceres. pp.

2. 2 Biblioteca del Congreso de la Nación.htm. miembros del Cuerpo Diplomático y Consular. Juan D. Discursos Gral. Conjunto y comunidad de los pueblos hispánicos. Consulta realizada el 28/1/2012. Daher –UFF.ac. representantes de instituciones culturales y universitarias. Hispanidad o Resistencia indígena? Orientadora: Dra Maria Del Carmen F.: 1.boletinoficial. enviados especiales.htm Consultado el 6/4/2012. Además discursaron el señor presidente de la Academia Argentina de Letras. 22da ed.il/eial/I_1/rein.gov. 5 6 http://www. . don Carlos Ibarguren y el Académico de Número.tau. etc. 7 Diccionario de la Lengua Española (RAE).es/literatura/quijote_america/argentina/ ibarguren. académicos.ar Consultado el 26/01/12. Para su versión completa remitimos al lector al sitio del Centro Virtual Cervantes.cervantes. Departamento Colecciones Especiales. 1947. Dada la extensión del discurso no lo presentamos en anexo. Perón. Carácter genérico de todos los pueblos de lengua y cultura hispánica. ministros. carpeta No 11. G. sin los contenidos de los subtítulos (6) al (15). aclarando que faltan los subtítulos (1) y (8). don Arturo Marasso. http://cvc. También alertamos que en otros sitios investigados el pronunciamiento figura incompleto y sin aclaraciones. 3 4 www.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 189 Notas 1 Título provisorio de la tesis: Discursos oficiales del 12 de octubre: ¿Raza. Se encontraban también presentes el embajador de España.

pouco natural. mas não somente.Universidade de São Paulo estudo se desviavam do padrão de frequência normal de seleção de infinitivos ou subjuntivos dessas construções em português. O primeiro passo no sentido de comprovar essa intuição. para o português. 2000) e em Construcciones temporales (MARTÍNEZ GARCÍA. 2003) e na Gramática descritiva do português (PERINI. buscamos sistematizar. p. 1998) e. fundamentalmente nas chamadas orações subordinadas adverbiais temporais. 2004. na Gramática de usos do português (NEVES. as informações normativodescritivas levantadas para o português e para o espanhol. par tindo de alguns casos que serão analisados em nossa pesquisa de mestrado e com base em gramáticas e trabalhos que abordam tais estruturas. Isso fazia com que o produto das traduções desses sujeitos soasse.190 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS SUBORDINADAS TEMPORAIS E FINAIS EM PORTUGUÊS E ESPANHOL: QUESTÕES DE CONTRASTE E EFEITOS PARA A TRADUÇÃO Bruna Macedo de Oliveira 1 PG . para o espanhol. 2 As subordinadas adverbiais temporais: comparações entre “quando/cuando” e “até/hasta” . na Gramática descriptiva de la lengua española (BOSQUE. com “para/ para”. e nas orações subordinadas adverbiais finais. constatamos uma grande proximidade entre o texto meta e o texto fonte. com “quando/cuando” e “até/hasta”. intuitivamente. de forma comparada. 315). No presente estudo. que as construções utilizadas naquele orações são descritas. de uma perspectiva gramatical. principal. 1996). em ambas as línguas. no que se refere à seleção dos tempos e modos verbais que se seguiam a essas estruturas. DEMONTE. TEIXEIRA. considerando a noção de “naturalidade” como aquelas “coisas que de fato são ditas numa dada área de uma dada língua ou variante linguística” (TAGNIN. seria verificar como tais 1 Introdução A partir da observação de um corpus de traduções de receitas feitas por treze aprendizes brasileiros de espanhol como língua estrangeira (E/ LE).

(4a) É um caminho progressivo até chegar ao pódio olímpico. ao contrário do infinitivo impessoal existente nas línguas românticas. 2000). (2b) Cuando enfríe. “a análise das construções temporais pode ser representada pela análise das orações iniciadas pela conjunção ‘quando’”. (5a) Juan se quedó hasta las tres. No caso da preposição “até”. a presença de formas verbais futuras. A preposição “até” estabelece relações de dois o r ais (4b). de acordo com Neves (2003. p. espa espaciais presente a ideia de um limite. quando o referido na oração principal se orienta ao futuro. no que se refere ao infinitivo flexionado. O infinitivo flexionado. p. como em (5a)) e outro de lo localização p o nt ual (que situaria o momento em que o evento ntual ocorre. de modo que. é um caso especial existente apenas em língua portuguesa. é que.787). Diferentemente do que acontece em língua portuguesa. (3) Junte a cebola e o alho e cozinhe até estarem macios. pois. extraer la rama de vainilla. suas condições de concordância são distintas das dos demais tempos e as intuições dos sujeitos sobre quando utilizá-lo são muito menos seguras do que para os outros tempos verbais. Ilari et al (2008) explicam que se localiza entre as menos gramaticalizadas do português. Um fator importante.3198-3199) explica que há uma segunda hipótese relativa a esse conector em língua espanhola. (4b) Sove bem a massa até dar o ponto. “quando” será acompanhado de futuro do subjuntivo (1)2. segundo Perini (1998). em geral. (5b) Juan no llegó hasta las tres. um ponto final cujo início se pressupõe. se o que se pretende é uma expressão de eventualidade. desligue e deixe esfriar. fornecendo-nos informações sobre o momento em que começa e/ou termina o evento verbal. Contudo. por ser ela uma das mais produtivas em língua portuguesa. (1) Quand o ferver. na subordinada em língua espanhola. só será possível na subordinada o uso do imperfeito do subjuntivo (2a) ou do presente (2b): (2a) Junto con la patata cortada echamos el pimentón y cuando estuviera sofrito echamos el agua. em que está ciais (4a)3 e t e mp mpo tipos. A preposição “ hasta ” também se constitui como um nexo de tipo delimitativo. especialmente na correlação temporal do modo indicativo. ou seja.38). Quando segundo a concordância estabelecida em cada caso. aparecem com indicativo se designam eventos factuais (passados. como em (5b)). presentes ou habituais) e com subjuntivo quando se referem a contextos posteriores e não factuais. García Fernández (2000. podendo ou não aparecer flexionados. Esse conector admite verbos tanto no modo finito quanto na forma infinitiva. mas dois tipos de “hasta”: at i v o (que apontaria o limite final de um um d ur urat ati calização intervalo. de acordo com Perini. p.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 191 A oração subordinada adverbial temporal compõe um período composto. . As orações introduzidas por “ cuando ” em língua espanhola se comportam de maneira análoga ao restante das orações temporais. apresenta um sujeito e possui flexões de número e pessoa (3). segundo a qual não existiria um. como indica Martínez García (1996. Em língua portuguesa. constituído por uma oração principal (nuclear ou matriz) e uma temporal que tem o papel de situar ou delimitar cronologicamente o evento da oração principal (PÉREZ SALDANYA. o conector “ cuando ” não admite.

para fazer a concordância com o respectivo sujeito (10).501). tal relação não está prevista. o objetivo. (7b) No me habló hasta no haber llegado al teatro.886-887). O primeiro diria respeito ao fato de que alguns gramáticos observaram que essa preposição não se comporta da mesma forma em contextos afirmativos e negativos. (11) Comprou oito hectares(obj. não existiria a mesma restrição. As orações formadas pela preposição “para” seguidas de verbo em infinitivo. os animais foram a serem/ser colocados um a um em canoas par para levados até o cativeiro natural. por outro lado. segundo Bechara (1999. essa possibilidade se limita a alguns casos nos quais há uma relação de consequência entre a oração subordinada e a principal (6a). as orações finais introduzidas pela preposição “para” seguida de “que” e um verbo no subjuntivo (modo finito) são aquelas que apresentam um sujeito distinto da oração principal (8). as finais encontram sua representante máxima na preposição “para”. O segundo baseia-se na possibilidade de que dito elemento seja seguido por uma oração de infinitivo. Entretanto. Castilho (2010) explica que.3. como dispõe o referido autor (ibidem. as orações adverbiais constituem exemplos de orações construídas com indicativo e subjuntivo. atualmente. embora haja dois pontos a seu favor. No entanto. (7a) No pararé hasta no haberlo conseguido. “expressam a intenção. que só se constroem com subjuntivo ou com a preposição “para” seguida de infinitivo. esse não seria o caso das orações finais. o infinitivo flexionado.192 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS García Fernández destaca que tal proposta não estaria livre de problemas. de uma forma geral. o que comprovaria a dupla natureza. par para subordinada tiver o mesmo referente de qualquer outro membro da oração principal. por suas . No caso de “hasta ” pontual. Na presença de “ hasta ” durativo. direto) em Arraial do a servir de base à criação de gigas. 3 As o r ações s ub o r dina das finais: o caso d e or sub ubo dinadas de “par a/p ar a” para/ ara (10) Convém. Essas orações são formadas por uma oração principal (nuclear ou matriz) e uma oração final que.889): Como havíamos assinalado ao tratar da temporal com “até”. caso em que o infinitivo pode ou não. p.201). (8) Leve(suj1) ao fogo par a que as batatas(suj2) fiquem para bem douradinhas. par para finalidade e avaliarmos a sua extrema importância na administração. oração principal. quando o sujeito da oração Da mesma forma que as temporais podem ser representadas por “quando”. Segundo Neves (2003. (9) Na base em Maranguape. podem construir-se: i) com sujeito idêntico ao da (6b) *Cantó la escena final de Salomé hasta bajar al mercado. não encontra explicação natural se considerarmos a existência de um só “hasta”. (6a) Cantó la escena final de Salomé hasta perder totalmente su voz. Em casos como (6b). Tal diferença. 2003. aparecer flexionado (9). caso em que é mais comum o infinitivo aparecer flexionado. e ii) com sujeito distinto do da oração principal. subdividir a própria a melhor apreendermos a sua contabilidade. para concordar com seu sujeito. a flexão para indicar o sujeito da final é desnecessária (NEVES. p. mas sim se houvesse dois. p. em que ambas as sentenças são gramaticais. Cabo. como se nota em (7a e 7b). ambos extraídos de Neves (2003: 886). a finalidade do pensamento contido na sentença matriz”. p.

e i i ) as que rc e modificam o próprio ato linguístico. As orações finais podem ainda. mais optativa do que obrigatória. Essa afirmação é corroborada por Galán Rodríguez (2000.3310). de maneira que. a d v e r b iais d de e n unciação (14): ( 1 3 ) Esboçou um movimento p a r a seguíssemos em frente. de acordo com Pérez Saldanya (2000. do ponto de vista do nível em que estão construídas. ocupa um lugar marginalizado na sintaxe de nossa língua. distinguidos de acordo com seu comportamento sintático: i ) as que ligam o conteúdo proposicional da oração principal. . mas um objetivo. de forma que o (17) Esta cuerda servirá p ar a mantener sujeto el ara paquete. as orações finais podem ser de dois tipos. como expõe Perini (1998). (15) Juana canta p ar a alegrarse. cuja realização.209) nas orações finais. Para a língua espanhola.74). que p. um evento virtual. será utilizado o infinitivo não flexionado e se a opção se der em favor do segundo. ara O uso do subjuntivo neste caso justifica-se pelo traço de intencionalidade que marca a oração subordinada final e porque esta não exprime nenhum fato. seja porque não diz respeito a nenhum sujeito concreto. nos quais se referem à ideia de objetivo como utilidade. Para Cunha e Cintra (2001). e subjuntivo quando os agentes não sejam os mesmos (16). aparecer em contextos sem agente. p. o infinitivo flexionado. em tais orações. ara (16) Juana canta p ar a que nos alegremos. p.3625) expõe que as orações finais foram incluídas nas chamadas adverbiais circunstanciais em razão de que a finalidade expressa por elas enuncia uma circunstância. ou p u r a s s. dois tipos de orações finais: as propriamente ditas. ao explicar que é desnecessário. Galán Rodríguez (2000. p. a rascar y cortar las (18) Este tipo de azada sirve p ar ara malas yerbas. como (19). p. ambos os exemplos extraídos de García (1996.209-210) acrescenta que há situações em que o infinitivo será utilizado mesmo quando os sujeitos das duas orações não forem os mesmos. como em (18).ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 193 características bastante particulares. Galán Rodríguez (2000.3308). Segundo Porto Dapena (1991.3629). utilizar-se-á obrigatoriamente infinitivo quando os sujeitos têm o mesmo referente (15).3621) assinala que os traços semânticos que exprimem a finalidade têm um claro reflexo sintático. a oração subordinada geralmente aparece em infinitivo. p. será necessariamente posterior ao designado pela oração principal. e as que têm r basicame nt ec o nse cu t i vo . Nesses casos. que indicam o propósito ou a intenção pela qual um agente realiza o evento expresso na oração principal. apesar de não contarem com advérbio. como (17). exemplos como (11) mostram que a escolha pela forma flexionada ou não do infinitivo é. adver biais cir c u n s t a n c i a s (13). Embora as possibilidades de manifestação do fenômeno dependam de traços semânticos e sintáticos do verbo principal. mas a um sujeito genérico ou indeterminado. segundo Pérez Saldanya (2000. Neves (ibidem) explica que. Porto Dapena (1991. um v alo alor basicament nte co nsecu cut Com relação aos tempos e modos verbais que acompanham as finais. se a opção se der em favor da primeira. (14) Par a dizer a verdade. p. não sei o que se passa na ara cabeça do Rei. seja porque o sujeito da oração subordinada coincide com um argumento da principal. Existem. p. se chegar a ser produzida. essa eleição depende da evidência dada à ação ou a seu agente. em muitos casos. que a correferência se dê entre os sujeitos.

(24) Haz los deberes p ar a que mañana no te riña el ara profesor. p. com subjuntivo (24). ‘“ ara yo) a la feria. diretamente.75). p. e i v) a oração de <para que + subjuntivo> denota a atitude do falante (GALÁN RODRÍGUEZ. Em língua portuguesa. em que a ação da oração dependente só se cumprirá se a ação contida na principal também realizar-se. há duas possibilidades para o emprego de verbos nas construções temporais iniciadas por “cuando”: o de imperfeito do subjuntivo e o presente do subjuntivo. já que é García Fernández. segundo tipologia trazida à luz por at i vo . iii) o verbo principal está modalizado. como (20). poderá ocorrer com agentes idênticos (22)5 . a situação geral também sofre ligeira alteração. enfatizamos principalmente as tipologias adotadas em cada uma das línguas. A partir da comparação efetuada. 1996. para indicar eventos orientados ao futuro. neste item. Não obstante. se há correferência entre os sujeitos. principalmente. a alternância entre infinitivo e um verbo na forma finita pode ser modificada. 2000. o complemento direto é suscetível de ser correferencial com o sujeito do infinitivo (23) (GARCÍA. em que não se pode considerar a final como de tipo “pura” por não haver um sujeito pessoal (+humano) na oração principal. em especial quando: i) o verbo principal é passivo. a mandarla hoy / p ar (25) Escribe la carta p ar a que ara ara la mandes hoy. aos casos que serão objeto de estudo em nossa pesquisa. No caso das finais com “para/ para ”. Isso ocorre porque. aquelas informações que dizem respeito. ii) os sujeitos designam entidades inanimadas e não aparece na oração principal um agente explícito.194 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS agente que executa a ação pode manifestar-se em um complemento direto ou indireto. (19) Le presté (suj. Nas situações em que o verbo apresentar um complemento direto referido a pessoas. Nas receitas. essas construções poderiam ser identificadas como de tipo (22) Los corresponsales fueron convocados a una a que informasen correctamente rueda de prensa p ar ara a sus agencias y periódicos. como de tipo d ur urat ati evidente nelas a ideia de consequência entre as duas orações. (21) Esto servirá p ar a que nos dejen en paz durante ara una temporada. o futuro do subjuntivo. para realizar a mesma relação de sentido. . em alguns casos. 4 Orações subordinadas adverbiais temporais e finais estudadas: contrastes e efeitos para a tradução Tomaremos. aparecerá nas situações em que há dois agentes distintos. utiliza-se um verbo na forma pessoal. = yo) mi coche p ar a ir (suj. como em (21) 4 . (23) Los jefes lo enviaron a Madrid p ar a hacer unas ara gestiones. Se os sujeitos não são correferenciais. O modo subjuntivo.3634). estaria previsto com “quanto”. embora se entenda como uma ação que alguém realizará. tanto o infinitivo quanto a forma pessoal (ambos em 25) são possíveis. pudemos observar que no uso moderno da língua espanhola. As estruturas com “até/hasta” encontradas em o r al e poderiam receitas exprimem uma relação t e mp mpo ser classificadas. no gênero receita. além do sujeito do verbo (no caso de este ser também o agente). ( 2 0 ) Llama a la enfermera p a r a levantarte ra (enfermera-tú). Quando o verbo da oração principal está no imperativo. de maneira geral.

Com base no cotejo gramatical aqui realizado. Em língua espanhola. Embora seu uso esteja igualmente previsto quando haja . Isso pode evidenciar a natureza flutuante do infinitivo em português. para o uso de infinitivo e subjuntivo nas estruturas subordinadas com um caráter prospectivo. são seguidas de infinitivo. em língua portuguesa. três possíveis escolhas na tradução para língua portuguesa. com agente humano. devido à possibilidade de não concordância (não flexão) com o sujeito. (26) Par a conseguir una textura más delicada. seja ele flexionado ou não (28b). A circunstancial as divisão entre finais pur puras as. as subordinadas finais com “para” parecem funcionar de maneira análoga às temporais com “até”. Esses dados podem indicar que. Embora esta pareça ser uma hipótese estranha. podemos dizer que parece haver. 33% dos casos seguidos de infinitivo e com “hasta”. em língua portuguesa. em que fica clara a característica semântica de agentividade e prospectividade. Observamos ainda que a grande maioria das construções finais com “para” (89% do total) e das temporais com “até” (80% do total). será eletiva. (28c) Prepárala en un gran molde cuadrado y córtala a tener unos deliciosos pasteles. apesar de o infinitivo ser possível nas duas línguas em caso de correferencialidade com outros (28b) Embrulhe as batatas em papel alumínio e le v e ao forno par a assar(em) por cerca de 1 hora. algumas mais e outras menos frequentes em seu uso. apenas 18%. quanto com infinitivo. um leque um pouco mais abrangente que o verificado em língua espanhola. só 2% do total de orações eram seguidas de infinitivo flexionado. com predomínio de correferencialidade com o objeto direto. não resulta pouco incomum. parece ser mais provável quando o sujeito da primeira oração se mantém na oração dependente. com “para”. (28a) Vá virando os cubinhos conforme vão a q ue fiquem com um dourado por dourando par para igual. quando for possível a correferência com qualquer um dos termos.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 195 cir cunstancial (segundo classificação de Neves). verificamos que. não parece ser possível utilizar infinitivo nas subordinadas finais em todos os casos indicados para a língua portuguesa. rc onse cu t i vo . abordada por Pérez Saldanya. p ar ara 5 Considerações finais (27) El aceite sirve p ar a que no se peguen las láminas ara de lasaña. especialmente nos casos de “até/hasta” e “para/para”. em língua portuguesa. No gênero receita. correferencialidade com qualquer dos termos da principal. em língua portuguesa. podemos supor que vo cê leva o sujeito de “levar” é o mesmo de “assar” (v ao forno para v o cê assar). lo ara podemos pasar por el pasapurés. en porciones. Não se constatou o mesmo comportamento nessas estruturas em língua espanhola: encontramos. já que ambas podem ser construídas tanto com presente de subjuntivo (28a). (27). Esta última hipótese. em geral. pode configurar-se como um importante parâmetro de análise na classificação das orações finais das receitas de nosso corpus. lev para Em (28b). sem agente ou com um sujeito e de v alo alor co nsecu cut não humano. (26). como em (28c). por exemplo. o que pode corroborar a afirmação de Perini (1998) sobre a insegurança dos falantes com relação ao emprego dessa estrutura. Parece existir. ou que há dois sujeitos distintos e a correferência se dá entre o objeto direto da oração principal (as batatas) e o sujeito da final (as batatas). Numa breve observação de um corpus de receitas coletadas da internet e escritas originalmente nas duas línguas.

L. 2. São Paulo: Editora UNESP. 338-381. A. GARCÍA FERNÁNDEZ. L. Em: BOSQUE. CUNHA. (2000): La Subordinación Causal y Final. Assim. V. (1996): Las expresiones causales y finales. Madrid: Espasa. H. V. Madrid: Espasa. São Paulo: Contexto. H. V. dos quais apresentamos aqui apenas uns poucos dados quantitativos. Madrid: Espasa. (1996): Construcciones temporales. Vol. et al. 3253-3318. e se haverá diferenças significativas no uso dessa forma nominal nas estruturas com “até/hasta” e “para/para”. como ocorria no texto fonte. houve predominância de estruturas com subjuntivo. C. 787-801. mais detidamente. (2010): Nova Gramática do Português Brasileiro. Vol. S. Em: ILARI. GARCÍA. DEMONTE. I. Os dados das traduções dos aprendizes referidos na introdução parecem ir na contramão dos números iniciais obtidos nos corpora de receitas escritas em português. R. NEVES. já que. realizar um tratamento mais acurado desses corpora de receitas. Gramática Descriptiva de la Lengua Española.) Gramática do português culto falado no Brasil. poderemos observar como (e se) nossos sujeitos farão uso de todas essas possibilidades que. ILARI R. 760-763. ed. 3621-3642. CASTILHO. Vol. PÉREZ SALDANYA. como se dá nesse gênero e na tradução a questão da correferencialidade nas duas línguas. (2008): A preposição. (2001): Nova gramática do português contemporâneo. BECHARA. I. 3. M. Gramática Descriptiva de la Lengua Española. comparar o que neles encontrarmos com as descrições gramaticais efetuadas e. 2. Rio de Janeiro: Lucerna.. CINTRA. Madrid: Arco/Libros.. 3129-3207. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. p.. NEVES. M. (2003): Gramática de usos do português. H. GALÁN RODRÍGUEZ. no que se refere ao emprego de infinitivos. M. V. La subordinación temporal. Em: BOSQUE.196 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS termos da oração principal. Em: BOSQUE.. tanto nas temporais com “até” como nas finais com “para”. nem sempre parecem coincidir nas duas línguas e no gênero tratado e. p. T. e ampl. (orgs. DEMONTE. (2000): El modo en las subordinadas relativas y adverbiales. E. Campinas: Editora da UNICAMP. por fim. (1999): Moderna gramática portuguesa. Resta-nos. rev. nos textos finais por eles traduzidos. a distribuição desses usos não ocorra numa mesma medida. p. Classes de palavras e processo de construção. agora. M. I. Referências bibliográficas . p. 884-893. II.) Gramática Descriptiva de la Lengua Española. DEMONTE. Madrid: Arco/Libros. F. L. C. (2000): Los complementos adverbiales temporales. apesar de semelhantes em determinados casos.. (dir. M. MARTÍNEZ GARCÍA. realizar um cotejo de ambas as análises com o produto das traduções que serão feitas por outros estudantes brasileiros de E/LE. p. 37. p.

313-358.unb. (1998): Gramática descritiva do português. sempre que não especificada outra fonte. p.3.310). Notas 1 2 Bolsista Fapesp. E. 292-297. PORTO DAPENA. . p. TAGNIN. v. Madrid: Arco/Libros.. 3 Exemplo extraído de http://www. (1991): Del indicativo al subjuntivo: valores y usos de los modos del verbo.209). A.125-179.fac. Exemplo extraído de Porto Dapena (1991. TEIXEIRA. 199-206. foram extraídos de receitas culinárias obtidas em sites (brasileiros e espanhóis) da Internet. J. 10. p. O. São Paulo: Ática. E. M. S. (2004): Linguística de Corpus e Tradução Técnica – Relato da montagem de um corpus multivarietal de culinária. Em: TradTerm.br/campusonline/esportes/item/2329-brasilienses-rumo-aop%C3%B3dio-ol%C3%ADmpico 4 5 Exemplo extraído de Pérez Saldanya (2000. Os exemplos a seguir. p.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 197 PERINI. São Paulo. A. FFLCH/USP.

pois uma já pressupõe outra. no ensino de . Isso quer dizer que “ser brasileiro” entende-se não se enquadrar em outras identidades que apoiamse em nacionalidades. segundo Silva (2011): A identidade “ser brasileiro” não pode. não pode-se deixar de focalizar a importância que as relações de poder têm para no seu processo de formação. estabelecendo significados e nos posicionando na sociedade. mas que há anos vem sedo estudado por diversas áreas do conhecimento. por exemplo. Entendendo-se que a identidade está intimamente relacionada à diferença. é importante ressaltar que a identidade nacional pode pautar-se sob diversos princípios: sociais. por sua vez. A autora afirma isso ao dizer: “É por meio dos significados produzidos pelas representações que damos sentido à nossa experiência e àquilo que somos. 2011. Baseando-se no discurso de Hall (2000). para citar alguns. mesmo sem darnos conta. ao reconhecer a sua identidade. reconhecerá também o outro. Ela só tem sentido em relação com uma cadeia de significação formada por outras identidades nacionais que. (Silva. ser compreendida fora de um processo de produção simbólica e discursiva. políticos. tampouco são fixas. Bruna Maria Silva Silvério PG . pressupõe um referente antagônico a ela. prioritariamente. Essas questões devem ser inevitavelmente abordadas no ensino. Para Woorward (2000). naturais ou predeterminadas.UFF De uma forma geral. p. geográficos. […]. em que o “ser brasileiro” não tem nenhum referente natural ou fixo. o sujeito. Ainda. todo processo que gera significados está envolvido com relações de poder. etnográficos. não é um absoluto que exista anteriormente à linguagem e fora dela. em diferentes épocas do ensino de Espanhol. Para isso é importante levar em conta que o termo identidade apresenta uma definição complexa.198 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS O TEMA TRANSVERSAL DA PLURALIDADE CULTURAL E SUA RECONFIGURAÇÃO NOS LDS DE LÍNGUA ESPANHOLA. a pesquisa propõe-se a analisar como é abordada a identidade nacional brasileira nos livros didáticos. Isso quer dizer que a identidade está presente e qualquer tipo de relação (principalmente nas de poder). A identidade “brasileiro”. Além disso.” (Woorward. onde há sempre a dicotomia entre o incluído e o excluído. 2000). 80) Ao conceituar identidade. como deixa bem claro Silva (2000). a identidade está intimamente relacionada a sistemas simbólicos e sempre assumimos uma posição.

de modo constitutivo. o ser brasileiro não é consituído por como nos vemos. Já que há pouco tempo que foi estabelecida a obrigatoriedade de oferta desta disciplina para o ensino fundamental e médio. Como afirma Paraquett. foi um dos livros aprovados pelo PNLD de 2011. a autora defende que o sujeito é formado pelas concepções e impressões do outro. social e nacional. ano em que foi inserido o componente curricular Língua Estrangeira Moderna. Em suma. pois. a universalização da distribuição dos livros de Espanhol e Inglês significa um avanço na qualidade do ensino público brasileiro. “é possível afirmar que as representações que fazemos do estrangeiro e as representações que o estrangeiro faz de nós atravessam. Ou seja. considerando que sua inclusão no ensino público é um fato recente. Embora tenha sido lançada anteriormente. (MEC/SEB. segunda ela. Com base nessas questões da identidade brasileiro. esse momento pode significar. a interrelação ativa de várias culturas que vivem em um mesmo espaço geográfico. uma vez que esta é parte constitutiva da cultura de um povo ou nação. Língua Estrangeira (inglês e espanhol) passa a integrar a lista de disciplinas contempladas pelo PNLD. 1990). que é. 2010). A coleção mais atual. 14 de janeiro de 2008). 2004) e Saludos (MARTIN.201) O presente trabalho propõe analisar três coleções de livros didáticos destinados ao Ensino Fundamental. em seu ar tigo “A celebração do outro na constituição da identidade” (2003). pode-se dizer que o LD tem grande importância na aprendizagem da língua estrangeira. no que dispõe sobre a execução do PNLD. portanto. que reflete um reconhecimento do papel que esse componente curricular tem na formação dos estudantes. os estrangeiros acham que somos. no sentido de que se assume a posição de existência de “culturas”. p. referentes a diferentes épocas de ensino de Língua Espanhola: Vamos a hablar (JIMÉNEZ e CÁCERES. Dessa forma. de um momento importante na história do ensino de LEM nas escolas públicas brasileiras. pode-se afirmar que o ensino de língua estrangeira deve vincular-se à noção de cultura. Arriba (CALLEGARI e RINALDI. a coleção foi reformulada para participar da seleção do Programa Nacional do Livro Didático –PNLD 2011 e será essa a edição analisada. o momento não é só de ingresso das disciplinas de língua estrangeira no Programa do FNDE para a escolha dos livros didádicos para o ensino público básico. 2010) Isto é. uma ampliação do número de escolas que oferecem essa língua. Saludos (MARTIN.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 199 língua. já que esta também está subordinadas às relações de poder.” (Coracini. além de . encontra-se a seguinte consideração: Trata-se. ao assumir uma visão da psicanálise lacaniana. apenas no edital de 2011. com livros de inglês ou espanhol. de Língua Estrangeira Moderna. 2010). também. o sentimento de identidade subjetiva. Segundo Coracini. Com relação ao corpus do trabalho. 2003. mas também representa uma esperança de que o Espanhol seja mais difundido entre as escolas. respeitando as diferenças sem estabelecer uma organização hierárquica entre elas. No Guia de Livros Didáticos – PNLD 2011. em uma sociedade essencialmente pluricultural1 é importante que haja uma uma educação também focada na interculturalidade. para os anos finais do ensino fundamental” (Diário Oficial da União. em suas próprias palavras. “fica definido para o componente curricular de Língua Estrangeira o atendimento a partir do PNLD 2011. Depois de dez anos da criação do Programa. através da Resolução nº 3 de 11 de janeiro de 2008. e sim pelo que os outros. No caso específico de Espanhol. Ou seja.

geográficos. (RUTHERFORD. como deixa bem claro o autor. 1998). o aluno. Além disso. pressupõe um referente antagônico a ela.200 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS apresentar um suporte a conteúdos abordados em sala de aula. isto é. estamos submetidos a sistemas simbólicos e assumimos uma posição na sociedade mesmo sem dar-nos conta. para citar alguns. 19) De acordo com a visão de Silva (2011). p.” (Woorward. onde há sempre a dicotomia entre o incluído e o excluído. tampouco são fixas. como afirma ainda a autora. já que esta também está subordinadas às relações de poder. Isso quer dizer que “ser brasileiro” entende-se não se enquadrar em outras identidades que apoiam-se em nacionalidades. por exemplo. prioritariamente. Levando isso em conta. segundo Silva (2011): A identidade “ser brasileiro” não pode. Isso se deve ao fato. é importante ressaltar que a identidade nacional pode pautar-se sob diversos princípios: sociais. […]. culturais e econômicas nas quais vivemos agora […] a identidade é a interseção de nossas vidas cotidianas comas relações econômicas e políticas de subordinação e dominação. deve posicionar-se de forma autônoma como uma função de sua cidadania plena. não pode-se deixar de focalizar a importância que as relações de poder têm para no seu processo de formação. em que o “ser brasileiro” não tem nenhum referente natural ou fixo. pode ser considerado um dos principais formadores de opinião do aluno acerca dos aspectos sociais e culturais da língua. que se posicione e que saiba aceitar e respeitar o outro. Sistemas simbólicos porque a identidade é marcada por meio de símbolos. (Silva. essa construção identitária também tem uma base social. não é um absoluto que exista anteriormente à linguagem e fora dela. 80) A relevância das questões identitárias no ensino de língua Cultura e identidade são assuntos que vêm sendo discutidos há muito tempo e abrangem os estudos de diversas áreas. Baseando-se no discurso de Hall. baseando-se em Woorward (2011). como propõe os PCNs (BRASIL/SEF. todo processo que gera significados está envolvido com relações de poder. Isso se dá a partir da visão socio-interacional da língua e da aprendizagem. até porque está intimamente ligada a práticas de significaões que Ao conceituar identidade. a partir da aprendizagem de língua estrangeira. nessa visão. compreende-se que os LDs têm a função de formar um cidadão crítico. Ainda. p. A identidade “brasileiro”. Enquanto sujeitos. Essas questões devem ser inevitavelmente abordadas no ensino. 2011. de que tais conceitos são inerentes a qualquer pessoa e a qualquer relação. advêm de relações de poder e das vastas possibilidades de relações nos permeiam: […] a identidade marca o encontro de nosso passado com as relações sociais. uma representação simbolica: “É por meio dos significados produzidos pelas representações que damos sentido à nossa experiência e àquilo que somos. Dessa forma. 2011. identidade e diferença estão intimamente imbricadas em uma relação interdependente. uma não se consolida sem a outra. Isso significa que a construção de uma determinada identidade depende de um símbolo. naturais ou predeterminadas. 1990 apud Woodward. Além disso. cuja manifestação mais evidente na aula de língua estrangeira seja a cultura diferente da sua. ser compreendida fora de um processo de produção simbólica e discursiva. 2011) Além de depender do símbolo. Ela só tem sentido em relação com uma cadeia de significação formada por outras identidades nacionais que. políticos. por sua vez. no ensino de língua. etnográficos. . entende-se que ele deve também ter a preocupação de inserir o aluno na sociedade em que vive como cidadão crítico e que seja capaz de reconhecer-se como participante da diversidade cultural de sua nação.

o estranho: “A força homogeneizadora da identidade normal é diretamente proporcional à sua invisibilidade. 2000. também tem grande base no que acreditamos ser. o aluno deve ser capaz não só de entender essa diversidade como um produto. através de elos sociais. p. normalmente o mais superior. p.(Neves. No espaço heterogêneo em que vive. já que não é possível ter contato com todas as pessoas que fazem parte da nossa identidade nacional.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 201 Uma questão importante para o comprometer-se com a proposta de formação de um sujeito crítico. Essa posição diz respeito a uma intersubjetividade inconsciente. Woodward (2000). 2000. faz com que ela se torne invisível. bem como o material e o livro didático utilizados.” (Silva. principalmente quando se trata de um país plural como o Brasil. p. (Silva. relacionada a uma identidade. Entende-se que mais do que aprender o código e suas funções na outra língua. além de ser dependente do passado histórico e das relações sociais de poder. 100) A identidade de um povo e a sua cultura formam-se através de diferenças. que embora também intermediada pelos métodos e pelos materiais adotados. como aquilo que existe e que devemos apenas entender e respeitar. em seu livro Identidade e Diferença (2011). afirma que a identidade e. 91 e 92) Segundo Coracini. mas questionála. 2006) desenvolvimento da pesquisa pode basear-se na pergunta o que é ser brasileiro?. Assim. a resposta a tal pergunta tem dependência também na ideia do que fazemos do que é ser brasileiro. essencialmente. a diferença devem integrar o currículo pedagógico. já que o encontro com o outro (incluindo o espaço social da escola) é inevitável. p.83) Essa relação de desigualdade identitária também precisa tomar um lugar no ensino de língua: “A pedagogia e o currículo deveriam ser capazes de oferecer oportunidades para que as crianças e os/as jovens desenvolvessem capacidades de crítica e questionamento dos sistemas e das formas dominantes de representação da identidade e da diferença. entende-se que um currículo pedagógico. por não terem o mesmo papel perante a sociedade. que põe em jogo as contradições da constituição histórica dos sujeitos. deve . Aqui fica bem claro que o estabelecimento de uma identidade depende da diferença. um dos lados. portanto. a atividade pedagógica se dá entre sujeitos. Ainda. consequentemente. destacando-se o “anormal”. Isso significa que um será sempre mais privilegiado que outro. questionador dos sistemas de representação de identidades existentes em seu entorno e. 2000. a depender de um sistema de classifições onde diversos fatores estão envolvidos.24) Silva. Apesar de ser uma pergunta difícil de ser respondida. A normalidade. o ser brasileiro não é consituído por como Dessa forma. em seu ar tigo “A celebração do outro na constituição da identidade” (2003).” (Silva. Ou seja. até pensando na diversidade do nosso país – o “ser brasileiro’ pode mudar de acordo com cada região do país. o falante toma outra posição subjetiva. “devemos ter uma ideia partilhada sobre aquilo que a constitui. 2000. do país em que vive. Entendo. interessado na inserção do aluno como cidadão participante dos processos de constituição e significação da identidade e da diferença. como afirma. pois são a partir delas que as pessoas assumem determinadas posições. Também. por exemplo – pode-se afirmar que identidade. criticar e questioná-lo: Uma política pedagógica e curricular da identidade e da diferença tem a obrigação de ir além das benevolentes declarações de boa vontade para com a diferença. Ela tem que colocar no seu centro uma teroria que permita não simplesmente reconhecer e celebrar a diferença e identidade. compreender o processo em que se dá o estabelecimento das identidades. assumindo uma visão dicotômica da identidade e diferença – onde sempre existe um “eu” ou “nós” e “o outro” ou “os outros” – os dois lados nunca terão o mesmo peso. Mas sim.” (Silva. sempre é considerado o “normal”.

O sujeito por si só é heterogêneo e. e nos tornamos singulares diante do estrangeiro. Catarata. J. F. RJ: Ed. dizer que nos precede ou que precede nossa consciência e que herdamos. Brasília: MEC/SEF. P. 2003. As característica que são atribuídas a nós brasileiros. FREITAS. A.doc HALL. Dessa forma. R. o sentimento de identidade subjetiva. Sempre que se aprende uma nova língua há um processo de formação da identidade. “é possível afirmar que as representações que fazemos do estrangeiro e as representações que o estrangeiro faz de nós atravessam. Carlos (2003): Pluralismo.M (2009): Pluralidade Cultural nos Parâmetros Curriculares Nacionais: uma diversidade de vozes. Marília Vasques e RINALDI. novas formas de organização do pensamento e novas imagens do outro. p. São Paulo: Martins Fontes. 12. abrindo novas formas de ver o mundo. São Paulo: Editora Ática.” (Coracini. social e nacional. Disponível em: http://seer. em suas próprias palavras. multiculturalismo e interculturalidad. (2007): A celebração do outro: arquivo. CALLEGARI. Ou seja. 373-392. (1992): Estética da criação verbal.com/ revista/impresa/8estudios/texto_cgimenez. 35. p. VARGENS.C (2008): O livro didático na política de currículo para o ensino médio. São Paulo: Moderna.P. Organização Liv Sovik. In: Políticas de integração curricular.] 1ª edição atualizada – Belo Horizonte: Editora UFMG. 2003. SP: Mercado das Letras.202 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS nos vemos. a autora defende que o sujeito é formado pelas concepções e impressões do outro. n. (1990): Vamos a hablar: curso de lengua española. Referências bibliográficas BAKHTIN.cesdonbosco. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.br/organon/article/view/30024 COLECTIVO AMANI (1994): Educación Intercultural: Análisis y resolución de conflictos.ufrgs. M. V. p. memória e identidade. Disponível em: www. 17. de nossos antepassados ou daqueles que parecem não deixar rastros. M. é preciso que o outro dê a sua existência. v. essa heterogeidade se complexifica. M. por exemplo.. ao assumir uma visão da psicanálise lacaniana. e CÁCERES. pois uma língua sempre traz com ela outras identidades. In: Educación y futuro: revista de investigación aplicada y experiencias educativas.” (Coracini. JIMÉNEZ. sem saber como nem porquê. GIMÉNEZ ROMERO.201) Ainda. D. E segundo Coracini (2007) essas novas vozes se entremeiam no incosciente do sujeito aprendiz. os estrangeiros acham que somos.M.8. 201) É através desse dizer alheio que constroi-se o imaginário de pertencimento de uma nação. Tradução Adelaine La Guardia Resende [et al.A. é que sustenta a nossa identidade: “o que somos e o que pensamos ver está carregado do dizer alheio. Stuart (2009): Da diáspora: identidades e mediações culturais. BRASIL/SEF (1998): Parâmetros curriculares nacionais : terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental: língua estrangeira. n. Simone (2004): ¡Arriba!. L. LOPES. para que exista uma identidade nacional. UERJ. . Impresso). Ed. de modo constitutivo. Roque de Barros (2009): Cultura: um conceito antropológico. In: Linguagem & Ensino (UCPel. e sim pelo que os outros. CORACINI. Revista Organon. _____ (2003): “A celebração do outro na constituição da identidade”. LARAIA. Campinas. ao entrar em contato com uma língua estrangeira.

(Biblioteca freiriana. G. Marcia (2010): Multiculturalismo.) e COSTA.).). . R (2004): Cultura. E. São Paulo: Editora Ática. C. v.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 203 PARAQUET T. In: Currículo intertranscultural: novos itinerários para a educação / SP: Cortez: Intituto Paulo Freire . R (2010): Saludos – curso de lengua española. Petrópolis.9). Woordward (2000): Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. ressaltando as diferenças. S. Secretaria de Educação Básica. interculturalismo e ensino/aprendizagem de espanhol para brasileiros. multiculturalismo e currículo intercultural. Tomaz Tadeu da (org. Stuart Hall. SILVA. In: BARROS. (org. Nota 1 a autora entende esse conceito como a co-presença de várias culturas. PADILHA. I. P. Kathryn MARTIN. M. (org. RJ: Vozes. Brasília: Ministério da Educação.

uma empreitada ilimitada (assumindo a dimensão da própria Biblioteca). essa questão abrange muito mais do que a noção comum de intertextualidade. após terem suas inscrições apagadas. No sentido figurado. epígrafes. Diante de tal grandiosidade (sem um livro sequer igual ao outro. e assim. de Jorge Luis Borges. Nesses tempos. é abordada no conto “La Biblioteca de Babel” . entre outros elementos que tangenciam. até a possível obtenção do objetivo. de um livro B os resquícios de um A. estabelecer relações de sentido. esses “rastros”. Essa característica. é a transtextualidade. seus limites. mas todas as maneiras pelas quais um texto pode ultrapassar suas “barreiras”. sua compreensão tornase um desafio aos seres humanos. Genette. inclusive. o objeto da poética estaria justamente nessa transcendência. alusões. nos links textuais estabelecidos entre um texto e outro(s). eram reutilizados. ad infinitum. sem. imitações. empresta a figura dos palimpsestos (antes usada por Philippe Lejeune). intertítulos. e. Não existe sequer um texto que não seja transtextual. Nele. Tal local. dividido em partes geometricamente semelhantes. Exemplos disso são os títulos. comentários. Definida por Gerard Genette (1997) como transtextualidade. essa sobreposição de textos. pergaminhos utilizados antes da invenção do papel e que. enfim. contudo. é tido como infinito. para isso. é descrita uma biblioteca que é comparada ao Universo. que conheceria um tomo com a súmula perfeita de todos os outros.Unicamp Uma característica essencial da Literatura é a transcendência textual. surge a lenda del Hombre de Libro. que passam a almejar a justificativa de suas próprias existências através do entendimento da Biblioteca.204 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS O POLICIALESCO NA FIGURA DE AMALFITANO Bruna Tella Guerra PG . transpassam e oferecem sentidos aos textos. apesar dos limitados caracteres de uma língua). eliminar inteiramente o que havia sido escrito antes. Mais que isso. A procura por tal bibliotecário anônimo e pelo resumo de todo o acervo geram uma ânsia de busca retrospectiva: em um livro C poderiam ser encontradas pistas de um livro B. transformações. . da coletânea Ficciones.

Uma intenção interpretativa: as pistas de Bolaño Aliado ao projeto estético transtextual.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 205 Uma das tantas possíveis interpretações do conto que a procura pelo livro súmula traz à tona é a questão da transtextualidade. espaços e ações. Um exemplo é o personagem Arturo Belano. há também a transtextualidade “interna”. Bolaño afirmou que sua poesia e sua prosa pertencem a um mesmo projeto estético. de Machado de Assis. é um retorno moderno da Odisseia . uma representante rigorosa da transtextualidade interna é a obra de Roberto Bolaño. têm estruturas distintas e não contêm casos policiais aos moldes Sherlock Holmes. ambos locais que aparecem constantemente nos textos de Bolaño. podemos nos atentar a outro ponto importante da literatura bolañeana: geralmente sob forma de paratextos. A busca por um autor “desaparecido” também ocorre por mais de uma vez: em Los detectives salvajes e 2666. tornando claro que encontrar “rastros” e sentidos de um texto em outro é inerente à Literatura. Os textos de Roberto Bolaño não apresentam enredos que se enquadram na literatura policial tradicional. teríamos um tipo de transtextualidade a qual poderíamos chamar de “externa”. “Los detectives helados” de Los perros románticos. No que reside. fronteira de México e Estados Unidos. que ganhou o apreço bolañeano” nos leva a inferir que essa característica faz parte do próprio projeto estético do autor. aquela que apresenta referências. bem como a cidade de Santa Teresa. de José Saramago. apresentando a imagem do detetive como intitulação do texto geral da narrativa e como intertítulo da segunda parte do livro. Mais . Outros casos de transcendência textual interna são o deserto de Sonora. Nos finais do século XX e início do XXI. etc. pistas. sentidos e links dentro da obra de um mesmo autor. sejam eles poemas. Entretanto. O premiado e famigerado Los detectives salvajes é um dos exemplos. de James Joyce.) e estruturas comuns (crime – investigações – desvendamento do crime). que Ulysses. afirma em Nota Editorial que seria Belano o narrador de 2666. Não são poucos seus títulos e intertítulos que contemplam a figura do detetive. Há ainda outros exemplos pertencentes a coletâneas de textos e somente sob forma de intertítulos: o conto “Detectives” de Llamadas telefónicas. Nesses casos. ou que O Ano da Morte de Ricardo Reis. contos ou narrativas longas. É quase uma obviedade. o detetivesco em Bolaño? Uma das soluções possíveis para essa questão reside no fato de que o gênero policial. Os links dentro de seus próprios textos são intensos. apresenta elementos constantes (assassinatos. que após aparecer roubando o relógio de Brás Cubas em Memórias Póstumas. ganha um folhetim no qual é o protagonista. retoma a vida de um dos principais heterônimos de Fernando Pessoa. porque estabelece sentidos com obras de outros autores. A construção desse linkado “mundo coerente e plausível torna-se essa ideia quando tomamos nota de que em entrevista a Dunia Gras Miravet para a revista Cuadernos Hispanoamericanos. por exemplo. desaparecimentos. Tomemos como modelo o personagem Quincas Borba. Apesar desses textos trazerem a mesma figura no nome. raciocínio lógico. investigações. Roberto Bolaño nos dá pistas sobre um aspecto ao qual podemos considerar ao lermos seus textos. hiperbólicos: há recorrência de personagens. ainda. da coletânea Putas asesinas. “Los detectives perdidos”. que é o detetivesco. então. Ignácio Echevarría. estabelecida por Edgar Allan Poe e Arthur Conan Doyle. os poemas “Los detectives”. um dos protagonistas de Los detectives salvajes e também do conto “Fotos”. assumindo que esta.

Amalfitano. informações que obtemos em Los sinsabores del verdadero policía são. diante de tantas informações. sendo que Amalfitano tem uma só para si: “La parte de Amalfitano”. sem necessariamente um estar ligado ao outro. O fato de ser professor universitário é a primeira característica desse personagem que poderia assemelhar-se ao detetivesco. eles acabam assumindo um sentido figurado que encadeam alguns questionamentos: 1) Quem são os detetives dos textos bolañeanos? 2) Por que são referidos dessa maneira? 3) Qual o sentido decorrente dessa escolha? algum personagem literalmente detetive ou da polícia. não conhecemos por completo nada que nos é apresentado. acabando por adquirir um sentido enigmático: quem é o policial? Quais seus dissabores? A contracapa da edição da Editora Anagrama traz uma citação de Roberto Bolaño (sem referência). nomes e ações. O movimento feito em La Biblioteca de Babel para buscar um sentido da vida ou da existência da Biblioteca. Esse tipo de leitura é perfeitamente possível para a obra bolañeana no geral. apontando para o próprio projeto estético transtextual. Além de entendermos o leitor como detetive. ocorre também em Bolaño na tentativa de encontrar significações e relações. buscas e mistérios. as histórias não se fecham. sendo ele. então. A precisão lógica de Auguste Dupin é. Devido a isso. Ele aparece em dois livros póstumos: um deles é 2666. e seus leitores procuram encontrar sentidos e relações em vão. Bolaño constrói um mundo ficcional. que teria dito que el verdadero policía é o leitor tentando ordenar incansavelmente a trama. Nesse caso. O que nos leva a fazer relações da literatura de Bolaño com o aspecto detetivesco não é. O outro livro chama-se Los sinsabores del verdadero policía. No caso de Amalfitano. de Ernesto Sabato. dividido em cinco partes supostamente que o torna o próprio detetive. sua estrutura. nem mesmo . praticamente descartada. por exemplo. em séries televisivas e filmes). que permeia mais de um texto de Roberto Bolaño. ainda que participe com maior ou menor frequência nas outras. como assassinatos. A pesquisa acadêmica independentes. apesar de o enredo também não mostrar nenhuma narrativa policial tradicional. Este último apresenta o mesmo caso de intitulação que remete ao policialesco. chileno. a transtextualidade se dá pela percepção de um leitor que utiliza o paradigma indiciário para encontrar possíveis relações e estabelecer sentidos. sentimentos e características de Amalfitano. diferentes daquelas de 2666 .206 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS do público (mostrando-se até hoje na literatura. muitas pistas “escapam por entre nossos dedos”. Os textos de Bolaño são mais difusos ainda: apresentam elementos típicos desse tipo de narrativa. mas os títulos temáticos que trazem a questão policialesca. apesar de estar longe de ser um Holmes. onde começa a trabalhar na Universidad de Santa Teresa. sendo que três delas abordam ações. em meados do século XX a assumir um caráter diferente. as pistas são inconclusas. é um professor universitário. conhecemos o assassino já no primeiro parágrafo. que em certo momento sofre demissão da Universidad de Barcelona e muda-se para o México. o Amalfitano e detetivesco: relações Um dos personagens sobre o qual podemos pensar a respeito dessas questões é Amalfitano. Em El Túnel (1948). o narrador da história. por exemplo. então. Isso nos mostra uma completa inversão da conhecida ordenação dos fatos e do foco narrativo da literatura policial. e. também com uma divisão de cinco partes. passou. na maioria das vezes. inclusive. podem haver outras tentativas de identificação do aspecto detetivesco.

muito menos de tê-lo colocado nas caixas de mudança. sobre questões da existência. que ganharão uma das parte de 2666: “La parte de los crímenes” e serão abordados também em Los sinsabores del verdadero policía. Outro episódio é o de “la voz”. O intelectual latino-americano. Para Amalfitano. quatro coisas sobre a vida. Um deles acontece quando Amalfitano está desencaixotando os livros que havia selecionado durante a mudança de Barcelona para Santa Teresa. um elemento que representaria o ponto de partida de uma narrativa policial tradicional ocorre como “pano de fundo” das ações de Amalfitano: os assassinatos de mulheres de Santa Teresa. Amalfitano decide pendurar o livro de geometria no varal do quintal. Nesse momento. O professor depara-se com um chamado Testamento geometrico. Nesse mesmo sentido de indefinição. esses casos não parecem ter significativa importância em sua vida. Esse aspecto nos permite alastrar interpretações de um texto para outros. ocorrendo também em “ La parte de los críticos” (também do 2666 ). Por fim. Amalfitano passa. para uma cidade fronteiriça entre México e Estados Unidos. Não se sabe se tal voz é a consciência de Amalfitano. As buscas são frustradas e as pistas. enfim. mas nada é concluído. então. para que ele sofresse as intempéries e aprendesse. por certos episódios de mistério impossíveis de serem resolvidos em sua objetividade. Baseado. uma voz que Amalfitano escuta e com a qual conversa. no México. uma vez que parece apresentar conflitos com a questão sexual (Amalfitano assume-se homossexual depois de adulto) ou uma vivência mística que ironizaria o realismo mágico. Conclusão É possível percebermos que a estética transtextual de Roberto Bolaño acaba por criar um “mundo bolañeano”. tal qual a pesquisa em Literatura. a resolução de um problema descarta qualquer raciocínio lógico. é resvalado à margem através da figura de Amalfitano: mandado para o México. uma vez que todos parecem ser “retalhos de uma mesma colcha”. nem mesmo de ter estado na cidade da livraria na qual ele havia sido comercializado. de 2666. Essa última interpretação estaria em consonância com a apatia de Bolaño por alguns autores que compuseramo boom da Literatura hispano-americana na década de 1960. porém. inconclusas. não lembrando-se de ter comprado tal livro. através de uma visão eurocêntrica da exoticidade da América Latina. faz inferências e estabelece conclusões a respeito de seus objetos de estudo. distanciando-se do tipo de investigação feita pelos tradicionais detetives. Juntos. região marginal do globo (como toda a América Latina). um escritor “desaparecido” que não é encontrado por eles. acabam refletindo sobre a vida. . acaba por ficar intrigado. nas ideias de Duchamp. no qual há uma “dança” entre textos. onde questões inexplicáveis estariam passíveis de ocorrer.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 207 segue pistas. segundo um personagem de “La parte de Fate”. A imagem detetivesca do professor universitário é recorrente em Bolaño. de Rafael Dieste e. em que quatro professores universitários viajam em busca de Archimboldi. que nunca oferece soluções definitivas. que são citados diversas vezes em “La parte de Amalfitano”. local no qual. ocorrendo das mais variadas formas. que seriam um oásis de horror em meio ao tédio de Amalfitano (caso quisermos oferecer uma interpretação à epígrafe baudelaireana de 2666). renderia um relato policial de primeira magnitude. porém.

enfim. 265). Trad. N. (2011): Los sinsabores del verdadero policía. imágenes sin asidero. A estética de Bolaño permite. R. fragmentos. Barcelona: Editorial Anagrama. Barcelona: Editorial Anagrama.208 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Aqui. R. R. BOLAÑO. Doubinsky. a busca incansável por pistas e a possibilidade de relacionar elementos que aparecem com frequência.” (p. presente objetivamente em títulos de livros. (2009): Ficciones. (D. Referências bibliográficas BOLAÑO. imágenes que contenían en sí toda la orfandad del mundo. L. (C. por uma reflexão de Amalfitano sobre Santa Teresa. (oct de 2000): Entrevista con Roberto Bolaño. Madrid: Alianza Editorial. A incompletude dessas investigações e a infinita busca proporcionada pelo caráter de La Biblioteca de Babel.) Lincoln: University of Nebraska Press.. G. que pensa “(. Reflexão esta que parece ser uma metonímia de sua própria obra. J. GENETTE. BOLAÑO. G. Entrevistador) Cuadernos Hispanoamericanos. então. utilizamos como exemplo a questão detetivesca.) que todo lo que había visto en el extrarradio de Santa Teresa y em la misma ciudad.. (1997): Palimpsests: literature in second degree. contos ou poemas. Esta. parecem ser descritas. . servindo também de respaldo para a interpretação do recidivante personagem Amalfitano. MIRAVET. fragmentos. (2011): 2666. BORGES.

representa el concepto de paramilitarismo en Colombia durante los años 2002 al 2006. se elige el periódico El Tiempo por su alto índice de lecturabilidad en Colombia y porque además está en sintonía directa con las políticas gubernamentales de turno. la exclusión. Así. El análisis de estos dos mecanismos permite rastrear formas conscientes e inconscientes de legitimar intereses ideológicos en el discurso. para el autor. Para ello se parte de los postulados de Theo Van Leeuwen los cuales se remiten a los diferentes sistemas de designación discursiva que hacen alusión a los actores sociales como medio de representación. Metodológicamente. . se remite a modos explícitos de enunciar a los actores. aluden a la consolidación del “deber ser” del concepto de paramilitarismo en el escenario de la prensa escrita. by reference to their person or their utterance. 33). que para el caso de este trabajo. en palabras del autor: How can ´Sayers´ be represented –impersonally or personally. etc. p. Para el primer mecanismo. razón por la cual este trabajo pretende analizar cómo la prensa escrita. la construcción de los actores se hace principalmente a través de los mecanismos de inclusión y exclusión. porque se hace necesario reconocer las connotaciones de dicho consenso bajo el supuesto de que los medios responden a los intereses propios de determinadas estructuras de poder. –without privileging any of these choices as more ´literal´ than others. se selecciona un corpus en relación con los siguientes criterios: 1. en par ticular el periódico El Tiempo. dicha representación se configura a partir de la omisión total o parcial de los sujetos. y en segundo lugar. en primer lugar.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 209 ¿BACRIM O PARAMILITARISMO? ANÁLISIS DE LA CONCEPCIÓN DE PARAMILITARISMO EN COLOMBIA EN EL PERÍODO 2002-2006 A TRAVÉS DE LA PRENSA ESCRITA Camilo Ramírez Rodríguez Corporación Universitaria Minuto de Dios Adriana Yamile Suárez Reina Universidad Libre El abordaje que desde la prensa se hace a los paramilitares como actores sociales que influyen en la sociedad colombiana -pues detentan un poder y tienen un objetivo claro de acción. and without thereby also privileging the context or contexts in which one or the other tends to occur as more normative than others (VAN LEEUWEEN. en el segundo. De esta manera.no responde necesariamente a una perspectiva objetiva. La motivación de este análisis parte. 1996. del interés por estudiar la capacidad de los medios masivos para erigirse como instancias sociales fundamentales en los procesos de construcción del consenso. individually or collectivety.

se recurre a la estrategia de atenuar las características negativas del actor. algunos editoriales sugerían que el reto para el de la “ilegalidad” de su accionar pero se concibe como “un mal necesario” en relación con la guerrilla: Losparasi son la máxima expresión de la debilidad territorial del Estado: sectores de la sociedad civil han tenido que recurrir a apoyar la sedición. La necesidad de realizar una intervención militar. De allí. difusión y ocultamiento del concepto de paramilitarismo A continuación se presentarán los resultados fruto del estudio del corpus mencionado anteriormente. el corpus resultante fue de cinco (5) editoriales de cada uno de los años que abarcan el periodo estudiado. el diario caracteriza a los paramilitares como poseedores de un proyecto político que se basa en contrarrestar el avance y la acción de las guerrillas. No obstante. situación concebida por Van Leeuwen como sobredeterminación por desviación. […] los paras se han vuelto un factor de inseguridad. Bajo esta situación. pues el Estado los dejó desamparados (II). así como en la debilidad del Estado colombiano para Construcción. se recrudecieron los ataques armados y. propició que la propuesta presidencial de Álvaro Uribe “Primero Colombia” tuviera éxito. por una parte. autónomo del Estado pero sin confrontarlo. Haber sido publicado entre los años 2002 al 2006. incluso para quienes en un primer momento los promovieron con la ilusión de brindarse protección frente a la guerrilla. Ellos sencillamente se independizaron de sus progenitores y ahora esquilman a todo el mundo (I) No obstante. por su parte. de alcance nacional. por otro. a apelar a la justicia privada y hasta a confabularse con el narcotráfico para defender su vida y sus intereses ante el acoso de la guerrilla. afrontar tales acciones. De acuerdo con lo anterior. el diario El Tiempo representa a los paramilitares como un actor con unas condiciones bastante particulares a través del mecanismo de inclusión. señala que es necesario adherirse a las ideas presentadas. el diario . básicamente. es decir. 2. gracias a la categoría de activación. tras los primeros acercamientos entre el gobierno y los paramilitares. De este modo. Cabe destacar que este trabajo no se basa sencillamente en abordar la exclusión o la inclusión de los actores. dicho proyecto se les sale de las manos tanto a sus líderes como al Estado. y se convierte en un problema: Sus más lúcidos dirigentes aspiraron a configurar un proyecto contrainsurgente civil. ya que la exclusión es un indicador de que algo debe ser controlado. y la inclusión. presidente entrante era establecer un diálogo y buscar una posible desmovilización de dichos grupos. Pertenecer a la tipología textual de editorial puesto que representa la línea de pensamiento del diario. En primera instancia. el paramilitarismo se concibe entonces como un proyecto paralelo al Estado que comparte un objetivo en común: las guerrillas. este problema se da en términos 2002 – 2003: El fracaso de un “proyecto político” En los primeros meses del año 2002 se generó un clima de tensión pues. Lo que se busca a través de estas categorías textuales es analizar el porqué de dicha ausencia o presencia. Así. reduciendo el análisis a su aparición o a su ausencia.210 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Referenciar al paramilitarismo en tanto actor del conflicto armado colombiano. porque estaba comprometida con acabar el problema de los grupos al margen de la ley. se avecinaban unas elecciones presidenciales que se alimentaron de la idea de ahondar en la confrontación militar como única vía para resolver dicho conflicto. 3.

en conjunto con la minimización del actor y sus acciones realizada por el diario. como diría Maturana. se mantiene la ambigüedad en relación con la caracterización del actor paramilitar. las negociaciones son calificadas desde el diario como “empantanadas” y la responsabilidad de este impase recae únicamente en el gobierno: Luego del fracaso del Referendo. el “fracaso” del proyecto político paramilitar y su posible desmovilización fue el éxito político del gobierno Uribe: la idea de reelección. ya que a través de la categoría de la exclusión parcial se cataloga de “más dura” la tarea del gobierno frente a las guerrillas sin el “apoyo” que brindaban los grupos paramilitares: “pues la lucha contra las Farc. Adicionalmente. disminuye la responsabilidad correspondiente a los paramilitares con la estrategia de beneficialización. presenta el diario. En esa medida. desmonte total del paramilitarismo. Su verdadero y único interés es aprovechar las expectativas de un desarme paramilitar y el poder intimidatorio de la extradición. “Boy scouts que han aprendido a hacer la guerra en los últimos meses” (III). Por tanto. es mucho más complejo y exigente. El diario hace uso de la estrategia de activación para poner en el ojo del huracán al gobierno y su aparente poca voluntad de diálogo. que fortalecerá la confianza ciudadana en el Gobierno y el prestigio del presidente Álvaro Uribe Vélez” (V).” (II) tangencialmente. sino las características de sus acciones. en cuatro años no es posible realizar un proceso de desmovilización y lo que menos se quiere es incurrir en los errores de los gobiernos pasados: “Muy probablemente la promesa oficial de desarticularlos completamente antes de terminar la actual administración no se pueda cumplir” (IV). es mejor tener siete milparasi en armas que tener diez mil. la dejación de armas constituye un éxito político para el Gobierno en su política de Seguridad Democrática. lo encuadran como un ente con el cual se puede dialogar. dicha ley genera una fuerte polémica que divide la opinión pública ya que pasar del “dicho al hecho” no es tan fácil como inicialmente se creía. pero muy pragmático. Tras los primeros diálogos y algunas “desmovilizaciones” se plantea una Ley de Alternatividad a través de la cual se negociará el . asimismo. por supuesto. promotores de desarrollo social en los barrios”. el Gobierno podría estar frente a un nuevo traspié: el fracaso de las conversaciones con los grupos paramilitares con vistas a su desmovilización. El éxito de dichos diálogos fortalece la credibilidad en el gobierno del presidente Uribe: “Sin duda. A pesar de la insistencia de algunos de estos grupos en realizar hechos demostrativos de su intención de desmovilizarse. En este periodo. la situación del discurso combativo se utiliza como trampolín para la futura reelección ya que. Pero sin olvidar tampoco que para muchos es mejor tener alguna seguridad que no tener ninguna. Las primeras desmovilizaciones de miembros de los paramilitares. para dar un golpe sustantivo al narcotráfico… (VII). sin importarle los crímenes cometidos por los paramilitares en Colombia. una posible intervención externa no enfrenta el fenómeno paramilitar sino que lo toca 2004: Desmovilización: un problema “Porque. “simples pandilleros”. que así sería más dura que nunca…” (VII). “Grupo antigurrillero”. la intervención de este país se restringe al provecho que pueda sacar de la situación. situación expresa de los Estados Unidos: Lo de Estados Unidos. se cuestionan las posibles solicitudes de extradición. Esta situación conlleva ambigüedad pues se da una justificación o valoración benéfica de dicho grupo: “PDS. el proceso no pinta bien (VI). Sin embargo. Como se puede apreciar. entre otras.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 211 cambia no sólo la nominación del actor. De otro lado.

tal como reza el adagio popular: “el que peca y reza empata”. aun cuando también más bajo que el que anhelan los paramilitares” (VIII). podrían actuar como una fuerza desestabilizadora y atacar violentamente instituciones y políticas del Gobierno. (VIII) Otro de los argumentos que sustentan la “confesionalidad” de la justicia se basa en la falacia de la autonomía del Estado colombiano. el país del Sagrado Corazón: ¿una “justicia” confesional? Colombia fue consagrada en época de la guerra de los mil días al cuidado del Sagrado Corazón. […] Los paramilitares están hoy más fuertes que nunca y sus posibilidades de perduración y expansión hacia el futuro son prácticamente ilimitadas. Este documento es calificado en el diario como “lo mejor” que se podría lograr en esta coyuntura a pesar de lo que sus opositores afirman: “Y. Lo que es más real es la posibilidad de la perpetuación y el agravamiento de la guerra en Colombia si no se desmovilizan pronto los paramilitares con un acuerdo nacional inspirado en el principio de la paz como valor supremo. Aquí. parece que se reviviera una parte de la historia. sino que también traería como consecuencia –implícita. Para justificar la viabilidad de la ley se hace uso del contraste: “ni las Farc ni el Eln aceptarán dicha ley por considerarla demasiado dura para ellos. a través del uso de la exclusión parcial. Dicha consagración. sino que por el contrario se concibe dicho proceso desde una “justicia” confesional. para presionar una negociación en condiciones más favorables. pero automáticamente subvierte esta apreciación a través de un cuestionamiento implícito en sus líneas: si se buscara una paz definitiva la disposición de “perdón” debe ser mayor ¿Qué estamos dispuestos a dar por una paz definitiva? ¿Cuál es su costo? simultáneamente la estimen demasiado blanda para los paramilitares” (IX). Los argumentos esgrimidos son la capacidad de su poder militar. para llegar a un acuerdo de paz tal vez el nivel de perdón tendría que ser más alto que el que finalmente otorgará la Ley. En esa misma dirección. cómo dicho proceso puede incurrir en la impunidad. En épocas más recientes. y no a través de la justicia. el recrudecimiento de los ataques por parte de la guerrilla.2006: Colombia. Un ejemplo de ello es cuando se cuestiona el valor institucional de la Corte Penal Internacional como ente de justicia: La Corte Penal Internacional no es el irresistible y omnipotente ángel vengador que nos pintan. aun cuando Pero mañana. en efecto. Esto podría coincidir con una reactivación del accionar armado de la guerrilla. La paz también es un acto de soberanía (VIII). en medio de un proceso electoral decisivo. se insinúa en una sola editorial. Una intervención externa sería no solo la piedra en el zapato para el proceso.el hecho de que la guerrilla posiblemente retome el poder. En dicha falacia se apela a la minimización de la influencia de organismos internacionales que están interesados en que este proceso no quede en la impunidad. incluso por encima de la justicia. según cuentan los ciudadanos de la época. y la poca efectividad del Estado frente a un conflicto en dos frentes: 2005 . y entonces tendríamos un escenario catastrófico: un Estado precario atacado simultáneamente por dos ejércitos irregulares. La redención a la cual se hace alusión en las líneas anteriores se presenta en los editoriales a través del apoyo a la Ley 975 de 2005 o Ley de Justicia y Paz. el proceso de desmovilización de los paramilitares no se consagra a una deidad católica de manera directa. como la referenciada en los editoriales de los años 2005 y 2006. Aquí se invocan nuevamente las voces de la cultura: “el . en varios editoriales se reitera que es mejor aceptar dicha ley antes de una posible reacción violenta de los paramilitares. esto en razón a que a la paz se llega a través de la redención. sirvió para que finalizara este cruento episodio.212 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS De otro lado.

se da cuenta de dos ejes particulares: las estrategias empleadas para velar el fenómeno y la validación del proceso de impunidad. pues se dice que estas nuevas “manifestaciones criminales” no comparten el mismo objetivo del gobierno. como lo afirma el mismo diario-. el problema ahora es que es de difícil identificación. Asimismo. la Ley de Justicia y Paz. Respecto a las estrategias. se resalta entonces la necesidad de un diálogo a cualquier precio a partir del miedo. los editoriales del año 2006 se enfrentan a la diatriba de mencionar o no al paramilitarismo. la beneficialización se utiliza para destacar ese potencial bélico del que disponen los paramilitares. basado en acciones hechas pero presentadas como hipotéticas en un futuro próximo. se conceptualiza el fenómeno al afirmar que para concebir un grupo como paramilitar es porque dicho grupo tiene nexos con el Estado: La diferencia central entre estas nuevas manifestaciones criminales y los grupos paramilitares es que su enemigo ya no son solo los grupos guerrilleros o sus bases de apoyo social y político. sino. Por otra parte. Además. verdad y reparación que hasta el momento no se han cumplido. igualmente. se utiliza una disociación por contraste. En el periodo estudiado se evidencia cómo la representación del actor justifica las políticas del Estado y legitima la violencia que este órgano ejerce en defensa de la comunidad. funcionó como mecanismo para que miles de paramilitares se desmovilizaran. Adicionalmente. sino que ahora. atentan contra las instituciones estatales. se encuentran: la asignación del rol para mostrar a dicho actor como poseedor de una “estructura política” -aunque problemática-. Así. el paramilitarismo desde su forma nominal no existe. las instituciones estatales” (x) Consideraciones finales El anterior análisis relacionado con el concepto de paramilitarismo presentado por el diario El Tiempo permite establecer los mecanismos a través de los cuales la representación del fenómeno es de difícil identificación y atenúa la importancia de abordar dicha problemática. se hace uso de la categorización al poner en el mismo racero a aquellos que pertenecieron a grupos paramilitares y no se desmovilizaron y al delincuente común. el uso recurrente de contrastes ambiguos normalmente entre los paramilitares y la guerrilla no deja una posición clar a. Sin embargo. enquistada. se alude al fenómeno paramilitar con los términos “desmovilizados” o “no desmovilizados” de acuerdo con la favorabilidad o no respecto a la Ley de Justicia y Paz.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 213 enemigo de tu enemigo es tu amigo” y la ley debe tratarlo como tal. Posterior a la aplicación de dicha ley. este instrumento jamás contestó al interrogante del ¿Por qué no reconocer que hay conflicto armado? El simple hecho de analizarlo implicaría revisar la noción de justicia. que a su vez conforma una “estructura social” -descompuesta. Aquí la estrategia es utilizar la exclusión parcial en razón a que no se puede hablar de paramilitarismo ya que este concluyó en el proceso de desmovilización de sus miembros. En esa misma línea. Al hacer un acercamiento para resolver la situación legal de esa “estructura social” se visualiza una posibilidad política para el Estado de sacarle partido al conflicto. No obstante. . Así. aunque imperfecta. se justifica disimuladamente la acción paramilitar bajo la idea del “mal necesario”. así como también hace eco del proceso que pretende sustentar su impunidad. pero como fenómeno estructural endémico de la sociedad colombiana sí. y por el contrar io. Ahora bien.

224 . Texts and practices. 189 . En esa medida. V. No maduros para el perdón. El Tiempo. In C. al difundir el desvanecimiento de la categoría “paramilitar”. El futuro de los paramilitares. Juan Carlos. ahora ya no existe el problema. 24 de noviembre de 2003. IV. Es más. . Al respecto. El Tiempo. & SIERRA. por ende. su impunidad. según haya dictaminado el discurso de autoridad dominante para la formación social en la que política y/o administrativamente se encuentre integrado el individuo (FERNÁNDEZ. El pantano paramilitar. El Tiempo emplea esta retórica bélica al evadir la responsabilidad de utilizar la nominación del fenómeno paramilitar como tal. (1996). Así. 5 de junio de 2006. pero cuando no hay actor – porque es elidido. Una desmovilización inédita. T.214 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS De acuerdo con esto último. En: CONTRERAS. 7 de noviembre de 2003. The representation of social actors. se excluyen de manera sistemática los aspectos ideológicos y estructurales de la violencia en Colombia. Este mecanismo conlleva la impunidad puesto que al no presentarse nominalmente al fenómeno. (2004) El Capitán América nunca supo convencer a los malos. la prensa al caracterizar al actor por su nombre determina su identidad. Leyendo en los cómics más allá de la adolescencia. La desmovilización de los paramilitares. X. La lógica entonces de difundir el éxito de la desmovilización paramilitar trae consigo no solamente la supresión del nombre sino el cambio en la concepción del fenómeno. Caldas-Coulthard & M. y se propicia. p. Readings in Critical Discourse Analysis. 189) Referencias bibliográficas FERNÁNDEZ. Culturas de guerra. El Tiempo. Coulthard (Eds. 7 de noviembre de 2003. VII. Justicia y paz: 2005 y 2016. El Tiempo. London: Routledge. El Tiempo. VAN LEEUWEN. Gracias a la exclusión parcial de este actor se legitima la creación de un discurso sobre la defensa de las normas. se limpia el nombre del gobierno sin perder ese brazo oscuro de acción. R. Fernández afirma: La retórica bélica tiene como finalidad explicar razones. El Tiempo.). VI. El Tiempo. II. Madrid: Editorial Cátedra. ¿Tercera generación?. p. 28 de noviembre de 2003. ANEXOS: Noticias I. Desmovilización de autodefensas. El Tiempo. 4 de octubre de 2004. F. el proceso de significación de este discurso se configura a partir de unas condiciones de producción específicas que están determinadas por la filiación del medio con la ideología que proclama el gobierno de la época a través del uso de la retórica bélica. Entonces. sin encontrar argumentos que hagan imposible el rechazo popular a las acciones armadas y a elaborar relatos dirigidos a crear una ilusión al mismo tiempo de victimismo y de orgullo patrio (…). El Tiempo. 8 de julio de 2005. El Tiempo.es difícil identificar quién es el responsable de los hechos violentos. De esta manera el “buen ciudadano” debe ser sobre todo un “buen patriota” o inscribirse en cualquier otro patrón de lo que es “correcto” en tiempo de guerra. F. oculta no solo un nombre sino un discurso que busca la impunidad. El ralito y mi abuela. El Pantano Paramilitar. IX. 1989. 4 de julio de 2003 III. VIII. 8 de abril de 2005. 2 de agosto de 2002. El Tiempo.

padece incontables sufrimientos y finalmente muere en una muerte santa que presencia el monje Gozimás. cambia totalmente el eje de la historia. quien la entierra ayudado por un león y confirma la historia de la penitente en la abadía de San Juan. una de las santas más populares y paradigmáticas durante la Edad Media. donde sobrevive con sólo tres panes. La narración de la vida de María se concreta en tercera persona y asume un estricto orden cronológico. narra la vida de una joven nacida en Egipto. La historia. Intentando encontrar una explicación para la transformación de la leyenda en el paso de la versión inicial oriental a la occidental. de la que es miembro. una fuerza sobrenatural le impide la entrada al templo el día de la Ascensión. sino sólo el ejemplo de santidad frente al cual resulta confrontado Gozimás.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 215 INICIOS DE LA SANTIDAD MEDIEVAL EN LENGUA CASTELLANA: TRADUCCIÓN Y PROTAGONISMO FEMENINO EN LA VIDA DE SANTA MARÍA EGIPCIACA Carina Zubillaga SECRIT (IIBICRIT-CONICET) . la vida de la santa se transforma. La versión occidental de la leyenda. después de lo cual ella dirige una larga oración a la Virgen María. que comienza a desarrollarse probablemente en Francia a partir del siglo XII. un monje que la descubre como penitente en el desierto y que encuentra en ella el modelo de humildad necesario para variar su conducta y reorientar su vida espiritual1. centrándola en María de Egipto y relegando a Gozimás a ser sólo el testigo de la santidad de la nueva protagonista. María. pasa cuarenta y siete años en el desierto. en la biografía de la santa2. ya en su versión occidental. Estas redacciones iniciales de la historia de la santa constituyen la versión oriental de la leyenda de María Egipciaca como prostituta arrepentida. DELGADO se pregunta: “¿Se debió a un precoz individualismo el . en el cual se embarca con unos romeros siete años después. entonces. tiene como primer testimonio escrito un texto griego compuesto por Sofronio en el siglo VII que se traduce luego al latín en la segunda mitad del siglo VIII. en ellas. María no es la protagonista del relato.Universidad de Buenos Aires La leyenda de Santa María Egipciaca. Por indicación divina y como penitencia por su vida anterior de pecado. que a los doce años huye de su casa paterna a Alejandría para ejercer allí la prostitución y abandonarse a toda clase de pecados. extendiéndose luego el relato de su vida y muerte santas desde allí a toda la cristiandad. En un viaje a Jerusalén. se convierte y cambia absolutamente de conducta.

un cambio tanto social como devocional. La Vida de Santa María Egipciaca (en adelante. 305). sin embargo. p. 2005. El fenómeno religioso innovador que se está produciendo en ese momento histórico es. 2004. p. El poema francés del siglo XII y luego el poema hispánico del temprano siglo XIII –que a su vez lo traduce– trasladan la leyenda no sólo del latín. A la popularidad de la Virgen como intercesora y como anti-tipo de Eva se suma. Entre los fenómenos religiosos más relevantes del siglo XII se encuentra asimismo la extensión del culto mariano debido. Su respuesta se enfoca. Por tal motivo. y hacerlo a través de las lenguas vernáculas y de las historias de santos más accesibles y cercanos a los fieles como principales estrategias espirituales. aunque igualmente difícil de alcanzar. como sucede también con otros tantos estudiosos. 1980. se prefieren el verso a la prosa y las imágenes plásticas al convencionalismo retórico. centrado primeramente en la lengua y en la apertura a la laicidad que supone el acceso de historias y leyendas –antes circunscritas especialmente al ámbito monástico– al conjunto de los fieles cristianos. Un nuevo público. un verdadero proceso de adaptación cultural. 184-185). Vida) del siglo XIII traduce la francesa Vie de Sainte Marie l’Egyptienne con bastante fidelidad y constituye probablemente la hagiografía castellana más antigua de las conservadas por escrito (BAÑOS VALLEJO. Frente al ideal imposible de feminidad que la Virgen María encarnó. 98). Se trata de la necesidad de la Iglesia de orientar el proceso de conversión cristiana particularmente hacia los laicos. lo que la hace contrastar aún más con la producción hagiográfica castellana más relevante del período: la escrita por Gonzalo de Berceo en el marco del mester de clerecía como escuela poética y de la estilizada cuaderna vía de versos alejandrinos monorrimos4. 185). Es anónima y está compuesta en verso irregular. p. cuyo eje en los sacramentos del arrepentimiento y la penitencia se piensa puede haber impulsado relatos e historias como ésta de la pecadora arrepentida. también: “¿Fue deliberado el desdén del desconocido autor del siglo XIII hacia el protagonismo de Zósimas?” (DELGADO. en una doble orientación que se manifiesta tanto en el ritmo y estructura de los poemas como en su variación narrativa. fundamentalmente. de manera paralela. mayoritariamente laico. Ante la santidad . p. La traducción de las vidas de santos desde el latín a las lenguas vernáculas que se desarrolla en Europa occidental a partir del siglo XII testimonia. que contribuyó al desarrollo y avance de la espiritualidad femenina 5 . como en este caso de la leyenda de María Egipciaca. el culto también creciente de las prostitutas arrepentidas. será el receptor privilegiado de la reformulación de las viejas leyendas hagiográficas que contemplarán inversiones de protagonismo. a la difusión de las órdenes mendicantes. más amplio que un concilio singular –por más importante que éste sea– y además anterior3. La manera en que se transformó la leyenda de Santa María Egipciaca en su paso a las lenguas vernáculas revela sin dudas una adaptación cultural expresada primera y fundamentalmente en lo lingüístico. en los lineamientos del IV Concilio de Letrán de 1215. preeminencia de la figura femenina y un lenguaje accesible para todos como parámetros determinantes. 2004.216 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS que se amplificara el protagonismo de la pecadora penitente y se la caracterizara físicamente allí donde la versión original se presentaba en forma tan espartana?” (DELGADO. sino que además cambian la prosa por el verso. como bien lo testimonian numerosas leyendas y devociones a santos que se intensifican ya a partir del siglo XII. La evolución de las leyendas hagiográficas atraviesa un umbral literario crítico en su traslación a las lenguas vernáculas (ROBERTSON. la devoción paralela a las penitentes tal vez resultó la respuesta posible. O.

/ mas mucho eres tú luenye de mí” (v. ya que al desarrollar actos de conversión. como expresión acabada de la posibilidad de cambio de todo cristiano. por ejemplo en los v. A la castidad de la Virgen se opone la lujuria como principal característica de la pecadora. que se vuelve entonces imagen en el poema de cómo rezarle a la Virgen. reconociéndola como aquella que personifica en sí misma todo el misterio de la Encarnación : “… ¡Ay. Narrativamente. lo que las prostitutas arrepentidas representaron fue justamente el proceso de transformación del pecado a la gracia visible en las figuras contrapuestas de Eva y de la Virgen. 533-534). Esta relación innegable entre la Virgen y María de Egipto presente en los cultos compartidos está tematizada en el poema en el momento crucial de la conversión de la pecadora. se expresa básicamente en su Vida a partir de su imagen física. lo central en la nueva versión de la leyenda de la santa es el protagonismo femenino. María como Madre del Redentor es también. En este punto la oración alcanza su máximo lirismo. duenya. así como la humildad de la Madre de Dios es confrontada con el orgullo de María de Egipto. más allá de la gravedad de su pecado. conformando a través de la sucesión de estas paradojas9 la figura de la Virgen María como la única en la cual pueden reconciliarse todas las diferencias10. 517-518: “Grant maravilla fue del padre / que su fija fizo madre”. la pecadora reconoce en su oración que las 7 diferencias las separan: “Un nonbre avemos yo e ti.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 217 innegable de la Virgen María. contrastada como la representación gráfica de un antes y un después del . 483-484)8. v. pero extendiéndose luego a una oposición que parte de la correspondencia entre una y otra y por eso deviene finalmente en identificación gracias a las logradas simetrías formales del fragmento. Esta idea se reiterará en otros lugares de la misma plegaria. 535). la intercesora por excelencia entre su Hijo y todo pecador11. La dramatización de este proceso de conversión habría resultado un vehículo privilegiado en Europa para la exposición de la doctrina cristiana. sino también su cuerpo. en el cual María se muestra arrepentida al oponer su pecado a la majestad de la Virgen. A la dinámica de la paradoja de la Virgen María como Madre de Cristo el poeta suma también a continuación la dinámica de la oposición entre ambas Marías. cuando en Jerusalén le dirige una oración a María. tanto María Magdalena –el prototipo básico de la penitente– como María Egipciaca dramatizan en sus respectivas leyendas a la santidad como un proceso arduo y complejo pero posible para cualquier pecador. sin dudas. arrepentimiento y penitencia las leyendas de prostitutas santas comunicaron la doctrina cristiana a los lectores u oyentes como experiencias concretas a ser compartidas antes que como conceptos abstractos6. dulçe madre. que elevarían sus súplicas tanto a la Madre de Dios como a la pecadora arrepentida. / que en el tu vientre toviste al tu padre!” (v. reconociéndose entonces en la Madre de Dios como el modelo de la santidad que finalmente alcanzará. del pecado a la santidad. El proceso de conversión de María Egipciaca. en principio a partir de la yuxtaposición entre la primera persona de quien ruega y la segunda persona que es rogada en el nombre que comparten (“tú María e yo María”. Este encuentro entre María Egipciaca y la Virgen María en el espacio de la oración refleja con seguridad la práctica devocional de gran cantidad de los fieles del período. visible particularmente en el diseño biográfico de la vida de María y su transformación espiritual concebida como un proceso tan integral que abarca no sólo su espíritu. en este sentido. En este sentido. La plegaria se revela a partir de estas paradojas y oposiciones que la construyen como un espacio de auto-confrontación. A pesar de compartir el mismo nombre.

tal como la flor del espina” (v. fealdad con santidad y vejez. 217218). Las comparaciones que sobreabundan en la descripción de la joven y hermosa pecadora. 732-733). 221-222). y el plateado y dorado de su vestimenta– y una vivacidad evidente –que aporta el colorado– que contrastan con la oscuridad interior que ese brillo externo necesariamente supone. al arrepentirse de sus pecados “en sus pechos non avía tetas. en tanto en su juventud “braços e cuerpo e todo lo al / blanco es como cristal” (v. / como yo cuido eran secas” (v. en tanto cuando era bella “la faz tenié colorada. que asocian por un lado belleza con juventud y corrupción interior y. 213-214). la Edad Media asume con interés creciente el culto de las prostitutas arrepentidas. / mucho eran negras e pegadas” (v. que podría reconocerse fácilmente en el pecado inicial de lujuria de María de Egipto y eso le daría la posibilidad de no ver como tan lejana la promesa de santidad. por el contrario. que tiene entre sus principales manifestaciones el modelo de las penitentes. 215). Seguramente los laicos. / como la rosa quando es granada” (v. como María Egipciaca. / quando los tiende semejan espetos” (v. y el negro se emplea sólo para los ojos: “ojos negros e sobreçejas” (v. 738-739). Además de aquellas santas que manifiestan vocación de santidad desde la infancia. como penitente “las sus orejas. / tales son como maçana” (v. connotando una materialidad viva y colorida. en el segundo se destaca el negro como imagen gráfica de la fealdad y de los atributos físicos perdidos. en el segundo retrato. Mientras en su juventud María Egipciaca “redondas avié las orejas. en su vejez se le vuelve “la faz muy negra e arrugada / de frío viento e elada” (v.218 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS arrepentimiento presente en el centro del poema en la oración que ya hemos referido. sólo que invertido. / blanquas como leche d’ovejas” (v. El contraste de la descripción primero de la joven. asignándole en la primera descripción una luminosidad exterior –dada por el blanco de su cuerpo. 724-725)12. en una pérdida de carnadura que se evidencia claramente en la casi tangible sequedad de su cuerpo sometido a las inclemencias del desierto. hermosa y pecadora María y luego de la vieja y espantosa penitente asume la forma de dos extremos tan irreconciliables como impactantes. con la rosa o con las manzanas. se oponen luego en el segundo retrato de la penitente a la resina. 223-224). en su vejez posee “braços luengos e secos dedos. con la leche de las ovejas. / tornaron blancos e suzios” (v. si joven tenía “su cuello e su petrina. y lo testimonia en relatos hagiográficos como su Vida hispánica centrados en el arrepentimiento y en la dinámica de la penitencia como horizontes de todo cristiano. ya en el desierto “tan negra era su petrina / como la pez e la resina” (v. entre quienes se difundían . dejándose el blanco sólo como término de comparación o para describir los cabellos envejecidos de la anciana: “e los sus cabellos. que eran alvas. En ambos retratos el mismo esquema de color predomina. 726-727). mientras que en el primero sobreabunda el blanco como representación de la belleza juvenil. El eje legendario del modelo de la prostituta arrepentida está cifrado en estos dos retratos contrastantes de María Egipciaca. En este sentido. la presencia e importancia de la santidad femenina en los siglos XII y XIII no es un fenómeno aislado en el marco de las nuevas prácticas devocionales y la expresión de la piedad del período. sucio y seco de la penitente– remite valorativamente a su purificación interior. que eran ruvios. 740-741). la impureza física –dada por el cuerpo opaco. El poeta organiza estos retratos de María de modo valorativo. Baste citar sólo los ejemplos más destacados de esa contraposición para imaginar cómo pudieron haber sido recibidos por los hombres y mujeres del Medioevo. 225-226). 736-737). mientras como prostituta “de sus tetiellas bien es sana. por otro.

Ernesto (2004): Mariales franceses. Puvill. 305-327. CORTINA. se vincula con la creciente devoción a la Virgen María como Madre del Salvador y propicia una sensibilidad que define nuevas manifestaciones religiosas durante el período. Barcelona: Ed. un ejemplo cercano y posible de los alcances inconmensurables de la gracia cristiana de la salvación. N° XXXVIII. que se centra en Jesús Niño y en los episodios de su vida oculta. Madison: Ed. John K. and BUSSELL THOMPSON. encontraron en la transformación espiritual de María de Egipto. María S. fuentes. 83-96. Jane E. BAÑOS VALLEJO. En: Medioevo Romanzo. RAE. En: CONNOLLY. Tamesis. p. 2005. Esa impronta humanizadora eleva. ANDRÉS CASTELLANOS. La dudosa ejemplaridad de las santas en los poemas medievales. ingleses Particularmente en España. DELGADO. 95128. SNOW. p. Ediciones Trea-Ediciones de la Universidad de Oviedo. Fernando (2005): Una “pecatriz” y una mística. Marina (1976): Alone of All Her Sex: The Myth and the Cult of the Virgin Mary. E. Duncan (1980): Poem and Spirit. New York: Ed. Madrid: Ed. el eje del cambio devocional que se produce a partir del siglo XII es la veneración a la figura de Cristo en consonancia con el descubrimiento de la intimidad individualizadora de la persona humana (FERNÁNDEZ CONDE. University of Exeter. edición de los textos . Schiavonne de (1979): The Life of Saint Mary of Egypt: An Edition and Study of the Medieval French and Spanish Verse Redactions. p. N° 18. p. Dayle (1992): The Poetics of (Non)Conversion: The Vida de Santa María Egipçiaca and La Celestina. 183-208. de (1964): “La Vida de Santa María Egipciaca” traducida por un juglar anónimo hacia 1215: gramática. WEISS. Knopf. vocabulario. . CSIC. FERNÁNDEZ CONDE. WALSH. Woodbridge: Ed. Francisco Javier (2005): La religiosidad medieval en España. Manuel (1970-72): “Vida de Santa María Egipciaca”: estudios. The Twelfth-Century French Life of Saint Mary the Egyptian.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 219 de manera privilegiada estos nacientes textos en lengua vernácula. (1977): La vida de Santa María Egipcíaca: A Fourteenth-Century Translation of a Work by Paul the Deacon (Ms. Biblioteca Nacional BN 780). WARNER. Alfred A. Lynn Rice (1980): The Aesthetics of Morality: Two Portraits of Mary of Egypt in the Vida de Santa María Egipciaca. Université de Toulouse-Le Mirail. p. texto y vocabulario. B.: Saints and their Authors: Studies in Medieval Hagiography in Honor of John K. En: Medievalia et Humanistica. Referências bibliográficas ALVAR. a santas como María Egipciaca como modelos con los cuales los fieles devotos pueden relacionarse e identificarse más directa y afectivamente. p. asimismo. y españoles en la creación de la vertiente occidental de la leyenda de Santa María Egipcíaca: hacia el nuevo modelo hagiográfico de los siglos XIII-XIV. N° 2. Julian (2006): The “Mester de Clerecía”: Intellectuals and Ideologies. En: Revista de Estudios Hispánicos. Meretrics. En: CAZAL. 97-111. Asturias-Oviedo: Ed. Joseph T. Françoise: Pratiques hagiographiques dans l’Espagne du Moyen Âge et du Siècle d’Or. Plena Edad Media (siglos XI-XIII). SEIDENSPINNER-NÚÑEZ. N° VII. 452). Esa devoción. Walsh. CRUZ-SÁENZ. Hispanic Seminary of Medieval Studies. p. 41-45. Toulouse: Ed. presentada particularmente a través de las imágenes contrastantes de su cuerpo. ROBERTSON. Madrid: Ed. Exeter: Ed. M. versificación. (1990): Notes on the Fourteenth-Century Spanish Translation of Paul the Deacon’s Vita Sanctae Mariae Aegyptiacae. En: Hispanic Journal.

madre de todos los que viven en un sentido espiritual. en particular María Magdalena (WALSH y BUSSELL THOMPSON. 100). como el uso de la siguiente metáfora: “E fue maravillosa cosa / que de la espina salió la rosa” (v. 1992. 3 Aunque es un indicador crucial de los asuntos eclesiásticos contemporáneos. 318). 41-45) ya señaló la importancia del empleo del color en las dos descripciones contrastantes de María Egipciaca. sin embargo. 313). 7 Desde comienzos del siglo XII. ver WARNER (1976). 11 “De todas las ideas difundidas desde los albores de la Alta Edad Media. quizá la que mayor influjo tuvo en los siglos posteriores fue la idea de la Virgen como intercesora entre el pecador devoto y Cristo. 8396). y otro que es una reescritura de los Evangelios Apócrifos. 1986. Esc. 1980. 8 Cito según mi propia transcripción del poema que integra el Ms. 2 La prinicpal implicancia del paso de la narración de la vida de la santa a su biografía es una secuencia ininterrumpida desde su infancia hasta su muerte. p. 12 CORTINA (1980. p. 6). 10 En esta oración la Virgen María no es meramente una persona a quien la pecadora ora. luego de más de cuarenta años de penitencia en el desierto (ROBERTSON. p. 1980. p. mediadora entre Dios y la humanidad a causa de la Encarnación de la divinidad que la convirtió en una segunda Eva. la santidad de la Virgen María se basó en su rol como theotokos (Madre de Dios). p. 6 La función catequética de este tipo de leyendas prevalece sobre los sermones o la enseñanza abstracta (SEIDENSPINNER-NÚÑEZ. 519-520). ALVAR (1970-72) y CRUZ-SÁENZ (1979). el Libro de Apolonio. p. 2006. . el K-III-4 de la Biblioteca de San Lorenzo de El Escorial. la influencia directa del IV Concilio de Letrán sobre la leyenda occidental de Santa María Egipciaca no debe ser exagerada (WEISS. cuando la difusión del culto mariano se extiende de manera sistemática entre los laicos. 2004. orientando particularmente sus observaciones y su análisis al carácter figural que adquieren esos retratos. la reconciliación universal de los contrarios (ROBERTSON. 9 La paradoja está incluso reforzada con el empleo de algunos dispositivos ornamentales. la Vida se conserva en un manuscrito de fines del siglo XIV. sino un principio formal encarnado. 84). Para profundizar en los diversos aspectos del culto mariano. que es el aspecto más pragmático de su culto…” (DELGADO. p. Existen ediciones del poema hispánico de ANDRÉS CASTELLANOS (1964). el Libro de los tres reyes de Oriente. del cual estoy preparando una edición crítica conjunta. 4 Llamativamente. 5 Sólo un secreto oculto en la psiquis medieval explicaría de manera acabada la fascinación de la leyenda de las prostitutas arrepentidas. ver SNOW (1990. junto con un poema escrito en cuaderna vía. K-III-4. 187). p.220 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Notas 1 Para ahondar en esta versión oriental de la leyenda de Santa María Egipciaca.

Sendo recebido com festa e música. porque atua de maneira revisionista sobre os eventos do passado selecionando-os. psicologia sociologia. O Relatório Final da Comissão da Verdade e Reconciliação 1 do Peru resulta da reunião de uma série de narrativas sobre a recente História dos conflitos políticos vividos pelo país. de Souza PG . evitando e ao mesmo tempo promovendo o seu esquecimento. pela primeira vez. com a finalidade de reunir e escrever uma História respaldada pela heterogeneidade de versões e sujeitos envolvidos. ou. filosofia. em Chungui e. torna-se um recurso privilegiado de acesso ao passado. como membro da equipe profissional do Centro de Desenvolvimento Agropecuário (CEDAP) e condutor do programa de rádio Rimaykusunchik4. em 1996. a Memória. estudos literários e outros). em toda a Região das Fazendas (Oreja de Perro)3. por exemplo. Foi num contexto prévio aos trabalhos da CVR .UFMG Seja a memória uma configuração cultural. com a finalidade de difundir informações sobre como vivia e se organizava aquela população. posteriormente. vía construção de imagens possíveis de serem transmitidas oralmente. ou. O antropólogo visitou Chungui.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 221 CHUNGUI: VIOLENCIA Y TRAZOS DE MEMORIA. DE EDILBERTO JIMÉNEZ: DESENHANDO A MEMÓRIA COLETIVA Carla Dameane P. A necessidade de discurtir e apurar estes eventos aciona a comunidade nacional. nos anos entre 1980 e 2000 2 Essa comissão trabalhou com o objetivo de esclarecer a natureza do processo e dos fatos da guerra interna. à medida em que passa a ser captada pela História. pois. E se a História assume a função de um tribunal. além de determinar as responsabilidades jurídicas sobre tais acontecimentos e apresentar as consequências dos abusos contra dos direitos humanos. através de seu arquivamento. sua presença na comunidade passa a ser constante. (2009). capacidade investigada por diversas disciplinas (teologia. em formatos de escritura diferenciados. que Edilberto Jiménez tornou-se um interlocutor de testemunhas da violência. ele presenciava as dificuladades e . a um evento histórico específico.Peru . atua contra o amnésia e manifesta váriadas versões sobre os espisódios que pertencem. em seu permanente exercício.

Jiménez passou a ser membro tanto dessa comissão. com o medo que havia nas pessoas de conversarem sobre os acontecimentos violentos. penso que. quanto da Comisedh (Comissão de Direitos Humanos do Peru). 2007. ou. encabeçada pelo prefeito. muitas delas falantes do quéchua. Jiménez ouve de diversas pessoas relatos que o deixaram comovido e. por que se referem a fatos reais testemunhados diretamente. suas imagens como um formato de escritura legível. a essa comoção. Foi nesse ambiente em que se tornou uma figura familiar e rompeu. así ocurrió”. durante o processo de produção desse livro. horror sin lágrimas… una historia peruana de Luis Felipe Degregori6. execuções arbitrárias. no intuito de responder. No documentário Chungui.Peru e. imaginar. 178) e a partir desse rastro “inaugura o ato de fazer história” (RICŒUR. tortura. desenhar e mostrar Em Chungui: violencia y trazos de memoria aparecem os relatos orais recolhidos por Jiménez. p. 178).8 Violência e transformação do espaço Ao considerar que um dos temas centrais de que se ocupa a problemática da representação da . eram muitas vezes supervisionados pelas testemunhas que lhe diziam “así como estás dibujando. começou a anotar os testemunhos orais e a esboçar seus primeiros desenhos. ativamente. pouco a pouco. que possuem dificuldades para ler e escrever. p. 2007. solicitou a ajuda dos comitês de auto defesa para que pudesse recorrer outras comunidades da região e registrar mais testemunhos. ou. que não o da letra. Jiménez devolve às testemunhas. as testemunhas voltavam aos locais onde haviam fossas comuns. Jiménez atuou diretamente sobre as recordações das testemunhas. a participação de Edilberto Jiménez foi decisiva. Foi nessa situação de vis memoriae7 que Jiménez registrou os relatos e os transpôs para outro código de escritura associando o trabalho de tradutor à criação dos desenhos e retábulos. em torno do reconhecimento dos eventos de violência ocorridos em Chungui. desaparecimentos forçados. porém ele cumpriu uma função extensiva a de escrivão. A denúncia tornou pública a existência de 40 fossas comuns e o registro de mais de 200 desaparecidos. correspondendo aos relatos. violência sexual contra mulheres. cada um dos testemunhos registrados no livro admite “a iniciativa de uma pessoa física ou jurídica que visa a preservar os rastros de sua própria atividade” (RICŒUR. Como se estivessem reconstituindo cada um dos crimes (massacres. Envolvido nesse debate. amparada por outros códigos. para lembranças-imagens visuais5 . Além de traduzir a oralidade para a escrita. indiretamente pelos sujeitos enunciativos. analfabetas. Nesse contexto. traduzindo lembranças-imagens. nesse processo. O material recolhido foi entregue a CVR . recordadas oralmente. infanticídio. Na medida em que “fazer história” relacionase com a necessidade de escrever e arquivar. Além disso. tratamentos Recordar. Por levar em conta a importância da imagem para os povos pré-hispânicos. realiza uma denúcia formal ao Congresso. entre outros).222 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS participava das discussões e atividades relativas ao cotidiano dos moradores. o idioma quéchua para o castelhano. O silencio sobre a violência em Chuingui chega definitivamente ao fim quando uma delegação desta cidade. do continente latinoamericano. ou lugares onde ocorreram tais delitos. Esses testemunhos formam parte de uma macro narrativa e adquirem um valor de fonte histórica e jurídica. dos quais elas haviam sido testemunhas. sequestros. degradantes. aos 20 minutos Jiménez conta sobre como o esboço dos desenhos. por causa disso.

a elaboração das ilustrações em Chungui: violencia y trazos de memoria resulta de um processo que inclui previamente. “Dijeron: “Deben obedecer a los responsables” (H. A ação de imaginar (no sentido de propor uma imagem à recordação). p. 156-157). a ação de recordar. 2009. Esse taqui9 acompanhou. por parte dos sobreviventes. J. Naquela imagem onde se representa o relato sobre a chegada do PCP-SL em Chillihua. p. Edilberto Jiménez refere-se a essa expressão de vida e alegria como algo que consegue ser preservado mesmo após os anos de violência.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 223 Memória reside na relação estreita entre recordar e imaginar penso que. matrimônios. aniversários) relacionando-se. Ao fazer essa analogia o autor chama atenção aos muitos aspectos que caracterizavam o relacionamento dos chunguinos com o lugar. tem a colaboração de Jiménez que. 317). retratando a presença do . Através dos desenhos é possível perceber como a presença do autoritarismo em Chungui compromete as perspectivas espaciais e temporais e obstrui a normalidade que antes definia as relações que os campesinos mantinham entre si e com o território. com o modo de convivênicia que agrega os moradores à comunidade. festas religiosas. desde antigas gerações. por sua vez. os encontros sociais (festivais juvenis. e de que maneira esse espaço de confraternização seria afetado devido a presença e permanência dos grupos violentos (Partido Comunista do Peru-Sendero Luminoso (PCP-SL) e as Forças Armadas Oficiais do Estado Peruano (FFAA)). Um dos últimos desenhos de Chungui: violencia y trazos de memoria faz referência ao Llaqta Maqta (jovem da cidade) um gênero musical tradicional da região. recorrendo aos seus talentos como retablista transpõe para os desenhos essa memória individual e coletiva. o espaço celeste aparece comprimido por olhos. diretamente. “Laqta Maqta” (Desenho de Edilberto Jiménez em: Chungui: violencia y trazos de memoria. Em: JIMÉNEZ. tornando visíveis os crimes e os detalhes que entornam os acontecimentos que lhes são relatados. 2009. batizados.

p. 160-161). 236-237). E. por estarem envolvidos nas situações descritas. p.M. livre de qualquer metáfora. 2009. ou. Essa mesma elaboração de um espaço carregado de olhos e orelhas se repete fazendo alusão ao testemunho “Le dieron más de 20 Chicotazos” (G. Em: JIMÉNEZ. como no relato “Asustado agarraba la soga” (E. também teremos sujeitos enunciativos que não presenciaram diretamente os crimes. Q. dirigindo-se a casa de sua família em Ninabamba. 2009. e L. há casos em que este sobrevivente tornou-se testemunha por acaso. p. Em: JIMÉNEZ. O. ou. C. 200-201). 2009. mas tiveram acesso ao cenário onde este ocorreu. p.224 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS atoritarismo e da vigilância de um partido “que tenía muchísimos ojos y oídos y muy facilmente se enteraba de todo” (E. encontra os corpos das vítimas numa tal disposição que o faz supor o que de veras teria ocorrido. que não presenciou os assassinatos. Em: JIMÉNEZ. . Mas. 2009. Os relatos são sempre de sobreviventes que foram direta. e C. Em outro testemunho Jiménez utiliza essa linguagem oferecendo elementos visuais distribuídos pelo céu e que faz com o que o espaço funcione como um refletor cósmico. “Las cabezas estaban en distintos lugares”. J. 298-269) e em “Lírio Qaqa Profundo Abismo” (T. O. p. quando se depara frente a uma situação em que é convocado pelos soldados da FFAA a testemunhar um assassinato. 2009. C. O sobrevivente. O jovem estudante caminhava despreocupado. H. Trata-se da respresentação que oferece ao relato “Las cabezas estaban en distintos lugares” (V. p. (Desenho de Edilberto Jiménez. 2009. onde os corpos haviam sido abandonados. 236). No caso dos testemunhos “Vi con mis propios ojos” (M. Em: Chungui: violencia y trazos de memoria. Em: JIMÉNEZ. B. p. A representação visual desse testemunho põe em cena. 2009. Em: JIMÉNEZ. 246-247). indiretamente testemunhas desses crimes. Em: JIMÉNEZ. a crueldade desses assassinatos e a percepção daquele que foi tesmunha indireta do fato.147). D.

Em: Chungui: violencia y trazos de memoria. p. 2009. p. 238-239) sobreviventes contam como se esconderam em meio a paisagem para nela se camuflar e poder acompanhar as diversas pessoas de sua familia que haviam sido apreendidas pelos soldados da FFAA. p. Em outro testemunho. Nessa situação. 2009. D. Em: Chungui: violencia y trazos de memoria. Em: JIMÉNEZ. as testemunhas presenciaram o assassinato dos detidos. I. “Estuve calladito en el árbol y lloraba calladito” (M. 239). 201). “Estuve calladito en el árbol y lloraba calladito”(Desenho de Edilberto Jiménez. e L. entre eles mulheres e crianças. . 2009. escondidos entre árvores.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 225 “Asustado agarraba la soga”(Desenho de Edilberto Jiménez.

Em: JIMÉNEZ. não sugeria frestas para a liberdade. à pedradas. nos llevamos su cuerpito” (H. No relato a mulher conta que estava acompanhada por seu cunhado. p. No testemunho “Calladitos sin que nadie sepa. p. Em: JIMÉNEZ. 2009. os elementos utilizados impregnam o ambiente e fazem com que o espaço se pareça. Com base na mensagem onírica. R. 2011. sobreviventes e algozes. com a finalidade de que facilitassem os mecanismos de assassinato e a paisagem. um “Local de Geração” (ASSMANN. no contexto da guerra. p. a viúva sai a procura do corpo. Esse enquadramento relativo ao espaço delineia. que a espreitam. o sofrimento como uma experiência concreta. 320) impregnado de afetividade e que vincula. tornam-se testemunhas de sua busca.226 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Grande parte desses sobreviventes tornaramse peças fundamentais para o posterior reconhecimento de fossas comuns e lugares onde eles mesmos haviam enterrado seus familiares. pelos soldados da FFAA. na maioria das vezes. deixada pela alma do marido. 2009. para Jiménez. R. A mulher encerra seu testemunho contando que ela mesma realizou o funeral do esposo enterrando-o ao lado de sua casa desde onde “él simpre me cuida y cuida a sus hijos” (H. nos llevamos su cuerpito” (Desenho de Edilberto Jiménez. desde muito tempo. contra as próprias pessoas que antes residiam ali. após terem os encontrado mortos. 297). p. 296-297) uma viúva relata. fechada em si mesma. seu esposo lhe disse o local onde seu corpo se encontrava após ter sido assassinado. 51). Nos desenhos de Jiménez. percebo como esse território. Em: Chungui: violencia y trazos de memoria. Na representação visual elementos da natureza e ao mesmo tempo cósmicos. mas no desenho apenas aparecem como companhias uma lua. aludindo a Abilio Vergara 10 “territorio-paisaje-prisión” (VERGARA. Através desses relatos e suas versões visuais. os grupos a um . “Calladitos sin que nadie sepa. compar tilhada entre vítimas fatais. O território foi utilizado. Os caminhos e abismos foram redefinidos. 2009. que chora. 296). para o olhar do leitor. como em um sonho. 2009. p. e os zorros (raposas).

Campinas. COMISEDH. étnicos e sociais. Por outro lado. p. Essa união permeabiliza os obstáculos que se colocam diante da possibilidade de se refazer as próprias vidas e superar os traumas sofridos. A memór ia. aqueles elementos que ajudam a elaborar a representação dessas memórias. esse território é o lugar onde os moradores cultivam à terra como espaço sagrado e estabelecem o contato. torna-se também um “Local Traumático” (ASSMANN. DED. enquanto “Local de Geração” Chungui possui uma memória afetiva e costumes que fortalecem os vínculos que unem as pessoas ao lugar. é o motivo pelo qual esse lugar tornou-se inesquecível. (JIMÉNEZ. Paul.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 227 familiares. Aleida. a histór ia. Formas e Transformações da Memória cultural. p. vivos e mortos. e cuja lembrança de seus moradores. em seus desenhos. mesmo por aquelas pessoas que nunca estiveram lá. Essa conexão constitui por um lado. RICŒUR. (2011). 2009. Chungui: violencia y trazos de memoria. que a população revindica mudanças estruturais e sociais que podem dar fim à pobreza. através dela. JIMÉNEZ. Fazer-se recordar na memória das autoridades e de outros povos é o que deseja o chunguino quando canta e dança este Llaqta Maqta. Projeto de Tradução Coordenado por Paulo Soethe. por Jiménez. Lima: IEP. devemos celebrar.]. Chungui destaca-se por ali terem-se cometido crimes exemplares contra os direitos humanos14. 2. ao analfabetismo. – Campinas. como seus mortos. (2009). SP: Editora da Unicamp. às doenças e ao atraso consequentes de anos de esquecimento. 129) No livro de Jiménez encontra-se vários motivos para que Chungui torne-se um lugar a ser recordado. finalmente. . ed. Editora da Unicamp. Referências bibliográficas ASSMANN. o esquecimento. (2007). recopilado por Jiménez: Karu llaqtapin tiyani Chungui llaqtapin tiyani karu laqtalla kaptincha periodistapas chayanchu congresistapas qamunchu 11 Qanchi riupas waqansi Chungui mayuwan tupaspa chaynama llaqtallay waqan manaña pipas yuyaptin13. são os mesmos que abrem fissuras sugererindo a impossibilidade de se reproduzir a aura12 desse local e tudo que se refere a multidimensionalidade dos fatos que ocorreram aí. No que se refere à violência indiscriminada que caracteriza a guerra interna do Peru. Edilberto. uma ferida difícil de cicratizar na memória nacional e histórica. 2011. Por mais que se tente narrar as histórias relativas aos crimes cometidos nessa região. SP. cuja história não deve se repetir. pois. 349) sobre o qual não é possível formalizar um sentido . Mesmo assim. Tradução: Alain François [et al. Espaços da Recordação. É para esse território.

SP: Editora da Unicamp. Lima Peru. p. Coordenador da Tradução Paulo Soethe. encontram-se as postulações que distinguem imaginação de memória. Em: ASSMANN. com Alejandro Toledo (1946). sobretudo. Espaços da Recordação. para os moradores de Chungui não é usual a expressão Orelha do cachorro como nome que dá referência a região das Fazendas “Zona de Hacienda”. p. Locais.org. ars memoriae. Toda essa região próxima a Chungui corresponderia a orelha desse cachorro. isto é. 7 Para Aleida Assmann (2011) a ideia da mnemotécnica romana. 36-67. p. que tornem identificáveis estas conexões entre memória e imaginação. na memória existe um “real” anterior à imagem. sem dispor de métodos de armazenamentos artificiais (como é o caso da mnemotécnica) sempre podem ser acessadas pela memória. Trata-se da “lembrançaimagem” (RICŒUR. Acessado em 25 de julho de 2012. A memória como Ars e Vis. Violencia y Trazos de Memoria.org. p. tomo XV. Em: JIMÉNEZ. p. horror sin lágrimas… una historia peruana. Campinas.pe/ ifinal/pdf/TOMO%20I/INTRODUCCION. SP: Editora da Unicamp. pois. Arturo. 61). Aleida. 3 “Orelha do Cachorro”. Las Víctimas. (2003). o autor aponta ser um traço comum tanto na imaginação quanto na memória. Edilberto. no caso de operações historiográficas do passado. una introducción. 9 Segundo Jiménez Borja (1946. pelos militares. Instituto de Estudios Peruanos. La violencia. Lima: IEP. (2011). Conferir: JIMÉNEZ. p. Chungui: Violencia y trazos de memória. Diferente dela a vis memoriae seria uma memória em “potência”. Retablos de Edilberto Jiménez sobre la Violencia Política” . cverdad. 87-129. Los Hechos. a realidade se encontra em suspenso. 2007. Formas e Transformações da Memória cultural. O nome Orelha do Cachorro foi dado à essa região. . Em: JIMÉNEZ. atuar contra o tempo e o esquecimento “cujos efeitos são superados com a ajuda de certas técnicas” (ASSMANN. passa a se denominar Comissão da Verdade e Reconciliação. 8 Conferir a exposição virtual “Universos de Memoria. 10 VERGARA Abílio. Campinas. uma imagem fabulada. (2009). La memoria de la barbarie en imágenes. Estaria mais relacionada com a recordação involuntária que. p. Disponível em: < http://www. “La fiesta y la danza en el antiguo Perú. Ver mais detalhes em ASSMANN. Formas e Transformações da Memória cultural. 31-36. Peru. Coordenador da Tradução Paulo Soethe. 2010. COMISEDH. (2009). Versão digital disponível em: <http://www. assemelha-se a um cachorro sentado. COMISEDH. 11 Ver: ASSMANN. Lima: IEP. 2011.pdf>. Aleida.iep. DED. 122) no Peru antigo Taki/Taqui significava dançar e cantar como duas ações que se realizam simultaneamente. Tradução de Fernanda Boechat Em: Espaços da Recordação. DED. cuja forma. 2007. Segundo Edilberto Jiménez. Tradução de Daniel Martineschen. Introducción. Por outro lado. Em: Galería Virtual Carlos Iván Degregori. Contudo.” Em: Revista del Museo Nacional. Chungui. Em Paul Ricœur (2007). Em Castelhano e Quéchua. Primera Parte: El Proceso. p. p. 122-159. 61). e afirma ser possível estabelecer uma linha que as una. 6 Chungui. Edilberto. Acessado em 23 de junho de 2012. 62 minutos. Ele explica que na imaginação é possível enxergar um “irreal”. possui relações com os processos de armazenamento e pretende. entendida como “arte”. (1943).pe/cid/galeria-cid/>. 2 Consultar: Informe Final da Comisión de la Verdad y Reconciliación. Conferir: JIMÉNEZ BORJA. (2011). “a presença do ausente” (RICŒUR. Edilberto. 4 5 “Conversemos”. 34). Diretor Luis Felipe Degregori. Aleida. em alusão ao mapa do estado de Ayacucho.228 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Notas 1 A Comissão da Verdade do Peru tem sua formação durante o governo de Valentin Paniagua (1936-2006) e no governo seguinte. 317-361.

0% SECCION%20TERCERALos%20Escenarios%20de%20la%20v iolencia%continuacion)/ 2. 13 “Vivo num povoado distante / vivo na comunidade de Chungui / certamente por estar distante / os jornalistas não chegam. Historias representativas de la violencia. Vol. por mais perto que ela esteja”. . (1994). Versão dig ital disponível em: < http://www. p. Em: Magia e técnica. p. Walter. composta de elementos espaciais e temporais: a aparição única de uma coisa distante.%20HISTORIAS%20REPRESENTATIVAS%20DE%20LA%20VIOLENCIA 20Introduccion. como “uma figura singular. Tradução de Sergio Paulo Rounet.165-196.pdf>. / Dizem também que o rio Qanchi chora / ao se encontrar com o rio de Chungui / assim chora a o meu povoado / quando ninguém se lembra”. Primera Parte: Capítulo 2. 7. ed.170). Conferir: Informe Final da Comisión de la Verdad y Reconciliación. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. (2003).ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 229 12 No sentido em que propõe Aleida Assmann. 14 De acordo com o Relatório Final da Comissão da Verdade. em Chungui e nos territórios asháninka.pe/ifi nal/pdf/TOMO%20V/ /2. / nem os congressistas chegam. I. os conflitos alcançaram os maiores índices de violência. a partir do conceito de aura proposto por Walter Benjamin (1994. Acessado em 26 de junho de 2012. BENJAMIN.cverdad. São Paulo: Brasiliense.org.

que não impõe restrições de fronteamento (exemplos (2) e (3): (2) Tematização: e. os autores mostram que o espanhol atual. En primavera Juan v isitó Leningrado. é possível a ordem Tópico-S-V. 95) Com respeito à flexibilidade de fronteamento. a. a. como se ilustra no contraste entre (4) e (5): (4) (1) a. *En el paro. Hernanz e Brucart (1987) mostram que: a) com a tematização. a única ordem possível é Foco-V-S2 (exemplo (1)). (HERNANZ e BRUCART. Fontana (1993) mostra que: a) O espanhol antigo não impunha restrições ao constituinte fronteado. p. ao estudar o posicionamento dos pronomes clíticos na história do espanhol. Introdução1 A relação entre ordem de palavras. EN EL PARO resid eside b. com a focalização. (3) Focalização: e el problema.3 espanhol atual: a. b. Considerando as possíveis ordens de constituintes. el problema resid eside b. apresenta uma série de variações que estão relacionadas com efeitos informativos. EN PRIMAVERA v isitó Juan Leningrado. estrutura informativa e prosódia tem sido um aspecto bastante estudado nos últimos anos dentro do quadro da gramática gerativa. DE DOS PARTES co nsta el examen.230 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS O PREENCHIMENTO DA POSIÇÃO PRÉ-VERBAL POR COMPLEMENTOS VERBAIS E A NOÇÃO DE OPERADOR NA HISTÓRIA DO ESPANHOL Carlos Felipe Pinto Universidade Tiradentes 1. ao contrário da focalização. embora tenha a ordem básica S-VO. b) não é todo elemento que pode ser tematizado. *esa aria c a n t ó Montserrat Caballé maravillosamente. No referido trabalho. 1987. Um dos primeiros trabalhos sobre o espanhol nesse sentido é o de Hernanz e Brucart (1987). . *De dos partes el examen co nsta nsta.

Distintos tipos de fronteamento (5) espanhol antigo: a. b. *?desde Cornellá v ol olv porque no habían autobuses. c. 1993. O espanhol atual tem. A discussão se concentra nos complementos verbais já que os adjuntos. em (7b). tenho o objetivo de explicar o motivo desses contrastes entre as duas fases do espanhol. o XP fronteado não tem correspondência dentro da oração. *?maravillosamente cantó Montserrat Caballé esa ária. quatro tipos de construções A-Barra. dicen que Nuria tiene ___i. 1993. Confessar =se d e ue uen pecados. por outro lado.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 231 r í a n los invitados el otro b. Discutindo a noção de operador. conforme os exemplos em (7) a seguir: Clitic left dislocation (CLLD) b. Topicalization7 3. rían esos c. em (7c) o objeto fronteado deixa um vazio dentro da oração. Uino & agua d e ue el clerigo mezclar en el caliz. (7) a. Deste lugar de Vigeva fue S. Grande duelo av ie ien espanhol atual: b. A Nuriai lei dieron un libro anoche. ¿qué libros tienes? Wh-movement c. A noção de operador Como se observa pela rápida discussão acima. diferentemente do que acontece no espanhol atual. Neste trabalho. em (7d) o objeto fronteado é o elemento interrogado. o objeto é recuperado por um clítico dentro da oração. *visitar q u e er pabellón. M. v ió Nuria andando e. como se ilustra em (6). *esa aria c a n t ó Montserrat Caballé maravillosamente. 2. n los xpistianos de sus c. 107) mostra o seguinte contraste: . (6) espanhol antigo: n las yentes christianas. a. p. pelo menos. dois aspectos que contrastam claramente o espanhol atual com o espanhol antigo são a maior flexibilidade para fronteamento de constituintes no espanhol antigo e a maior possibilidade de fronteamento de objetos sem a recuperação com o clítico5. p. d.4 (FONTANA. Cinque (1995. 64/55/56) Em (7a). d. Libros. p. Left dislocation (LD) Librosi. a Alexandria de la Palla. sólo tengo romances. (FONTANA. *?con una horquilla para el pelo ab abrían chorizos las puertas de los coches. 55/61/65/86) b) Os complementos verbais podiam ser fronteados sem a duplicação pelo clítico no espanhol antigo. podem ser fronteados sem restrição em ambas as fases da língua6. esa aria la c a n t ó Montserrat Caballé maravillosamente.

108) oração é caracterizado como operador já que é derivado via movimento-WH . loj invitero domani (non oggi) Gianni. não pode ser vestígio de DP porque é livre na sua categoria de regência. Se o clítico é introduzido. e não pode ser variável porque não é vinculado por um operador . que não é uma variável). o problema de (11) é que o DP “Gianni” não se caracteriza como um operador e o DP nulo dentro da oração não pode ser caracterizado como nenhum tipo de categoria vazia. este DP é capaz de vincular a categoria vazia dentro da oração caracterizando-a como variável. O efeito V2 no espanhol antigo Antes de explicar as diferenças entre as duas (CINQUE. a presença do clítico é requerida e. a explicação vai no sentido contrário: como o DP no inicio da (10) *Chii loi inviterai? (CINQUE. Aux visto 4. se houvesse um movimento-WH . como mostra a agramaticalidade de (11): porque a categoria vazia fica sem ser caracterizada. p. 1995. 109) fases do espanhol. Não pode ser PRO porque é governado. não pode ficar sem ser duplicado pelo clítico. é preciso explicar que tais diferenças estão relacionadas com diferenças mais profundas entre as duas fases da língua 12 . o convidarei amanhã (não hoje) Cinque (1995) comenta que a falta de movimento-WH nesse tipo de construção é um argumento crucial10 tendo em vista que. não pode ser pro porque é não identificado. As Na análise de Cinque (1995). é proibida. Quando o clítico é inserido. (11) *Giannij. a categoria vazia poderia se caracterizar como variável já que seria vinculada pelo operador11. A inserção do clítico é uma estratégia de último recurso para licenciar a categoria vazia dentro do VP. como no caso da CLLD.232 (8) ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Giannij. ho visto ___j Gianni. Os exemplos abaixo ilustram essa característica do espanhol antigo: . “Línguas V2” tem sido uma etiqueta utilizada para classificar aquelas línguas nas quais o verbo finito aparece na segunda posição na oração e é precedido exclusivamente por um único constituinte seja qual for a sua função sintática13. p. Os dados em (9) também mostram que somente a topicalização é gerada via movimento-WH8 tendo em vista o paralelismo entre (9) e (10). 1995. 9 diferenças apresentadas nos exemplos de (4) a (6) acima levaram Fontana (1993) a analisar o espanhol antigo como uma língua V2. na topicalização. a categoria vazia é caracterizada como uma anáfora (vestígio de DP) e pode ser licenciada. na CLLD. como em (8). Com relação ao exemplo em (10). (9) GiANNIj (*loj) invitero (non Pietro) Gianni (*o) convidarei (não Pietro) Os dados em (8) e (9) mostram que. mas porque o operador não pode vincular nenhuma variável (o operador vincularia o clítico. a oração se torna agramatical não A pergunta que Cinque (1995) procura é responder é por que o DP em TopP.

mas somente pode ser concatenado diretamente em SpecTopP através da operação de concatenação (15) a. E esta carta ot Garcíez. O conjunto de ordem O-V com clítico aumenta. em FinP. que é caracterizada como variável deixada dentro do VP. mais especificamente em FinP. se nota o interessante cruzamento de dados em Fontana (1993) e Pinto (2011): quando a ordem O-V sem clítico diminui. os dados em (14) ilustram a ordem Aux-S-V. no espanhol antigo (e nas línguas V2 em geral).ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 233 e . 255) externa. aqui c o mie historias de oriente dados em (12) a (15) oferecem evidências de que o verbo. diferentemente do espanhol atual. os exemplos em (13) ilustram a ordem O-V sem retomada clítica em oração matriz e oração subordinada. que no pue oler subido en corazón humano conmigo en el ilícito amor comunicar su deleite. porque este cuerpo muchas lágrimas ha d e j a d o a sus parientes: y amargos dolores. o verbo não se move para Finº e não permite que qualquer constituinte ocupe esta posição. Por essa razão. (PINTO. No espanhol atual. 5. si corazon has nz o el espiritu por las medulas mienz nzo (14) a. atrai o verbo e o movimento do verbo para Finº permite que qualquer constituinte seja movido para SpecFinP15. 2011. matando a tu madre (12) a. has. o que é um reflexo da mudança linguística16. é possível ter uma explicação para o contraste entre as duas fases do espanhol. o objeto fronteado se caracteriza como um operador e pode licenciar a categoria vazia. si el deudor otros bienes t uv iese b. armas odiosas t o mast maste Clitemestra ro n el maestre don Pero b. se movia para CP. no espanhol antigo. No espanhol antigo. en todos los buenos hechos que quisiere comenzar. o traço EPP em CP. a dios d e b e hombre a d e lantar y p o ne primeramientre. b. Explicando o contraste entre as duas fases do espanhol A partir da exposição de Cinque (1995). quando se tem a ordem O-V. . como agora f ezie ezier Núnnez nza el libro de la flor de las mienza c. não se caracteriza como operador e a presença do clítico é necessária na CLLD e a presença de outro DP é necessária na LD. Assim. Como o objeto não pode ser movido para SpecFinP. o rg a la abatíssima Sancha oto rga (13) a. y así co mie d esc e nd er : esce nde r ner b. os dados em (15) ilustram construções de object shif . assim como nas línguas V2. como não há um traço EPP d e mi paciencia t ole r ar que haya pued c. a Os exemplos em (12) ilustram a ordem V2 em oração matriz e oração subordinada. e la priora doña María Fortúnez e tod el convento. p. que exibe movimento do verbo exclusivamente para IP14.

(2002). 52-75. quyen esto q uisiese q BENINCÀ. Phrase structure and the Syntax of clitics in the history of Spanish. No espanhol antigo. quantified A contraparte gramatical das orações em (16) no espanhol atual exibe obrigatoriamente a ordem V-O18 .] (16) a. In: ______. 2. In: RIZZI. Natural Language & Linguistic Theory. Paola. Topic. orações do espanhol antigo. b r antar ueb antar. GÓMEZ TORREGO. L. (1993). v. a categoria vazia deixada dentro do VP precisa ser caracterizada de alguma forma: a) como esses elementos não possuem clíticos. o elemento em primeira posição ocupava SpecFinP. The Cartography of Syntactic Structures. Luigi (org. o seu lugar de pouso é SpecFocP17. por isso. ed. Oxford: Oxford University Press. and the notion of operator at S-structure. a ordem O-V em contextos neutros é banida já que não há lugar de pouso disponível para o objeto (SpecFinP não é uma posição ativa no espanhol atual). A conclusão que se obtém dessa discussão é que os objetos fronteados no espanhol antigo e no espanhol atual ocupam lugares diferentes na estrutura. 104-120. Conclusão ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS indiretos. qualquer constituinte. Guglielmo (1995). [. Ph. Marianne (1987a). esses elementos fronteados não se caracterizam como operadores e não podem caracterizar a categoria vazia como uma variável. Por isso. University of Pennsylvania. Bare quantifiers. Esta análise explica também porque o espanhol atual apresenta restrições à tematização . 5. Quando esses elementos são tematizados. No espanhol atual.D Dissertation. como as ilustradas em (16) a seguir. a categoria vazia não pode ser caracterizada como uma anáfora.D.). devido ao traço EPP de FinP. No espanhol antigo. 8. n. Complementos circunstanciais são selecionados pelo verbo lexical. CINQUE. Cecilia (2004). v. Dissertation. esses complementos circunstanciais fronteados conseguiam caracterizar as categorias vazias deixadas no VP como variável porque se caracterizavam como operadores. Focus and V2: Defining the CP Sublayers. são agramaticais no espanhol atual: Referências bibliográficas ADAMS. 1-32. no caso da focalização. assim como os objetos diretos e NPs. No caso da tematização. Nova Iorque: Cambridge University Press. b) como a tematização no espanhol atual é gerada via concatenação. p. Null Subjects and Verb Second Phenomena. independentemente de sua função informativa. Gramática didáctica del español. E tod aquel quj esta carta q ue (1223) ue b r antar (1225) que ueb b. Marianne (1987b). Em consequência disso. . University of California.. p. Madrid: Ediciones SM. como apontaram Hernanz e Brucart (1987) e Fontana (1993) nos exemplos ilustrados em (2) e (3). a periferia esquerda da oração é destinada para usos informativos.. 1. Quando um objeto é movido. Italian syntax and Universal Grammar . podia ocupar a primeira posição sem a duplicação pelo clítico. POLETTO. principalmente de complementos circunstanciais. Tal movimento era desencadeado por questões meramente formais. como o verbo se movia para Finº e qualquer constituinte podia ocupar a posição de SpecFinP. Josep M.234 6. FONTANA. o objeto é concatenado diretamente em SpecTopP. Ph. The Structure of CP and IP. p. Old French. ADAMS. From Old French to the Theory of Pro-Drop.

como informação conhecida. Tese de Doutorado. 199-244. The fine structure of the left periphery. La oración simple . ou seja. (citado do manuscrito) PINTO. sem considerar se há ou não movimento de constituinte. La sintaxis. Luigi (1991). 11. Nova Iorque/Oxford: Oxford University Press. María Lluisa. p. RIZZI. Carlos Felipe (2011). A noção de fronteamento que estou assumindo está relacionada exclusivamente com a ordem superficial. F r ont eame nt o = EFEITO SINTÁTICO LINEAR em que um constituinte aparece no início da oração onteame eament nto (periferia esquerda). In: BELLETTI. p. Parametters and functional heads. Oxford: Oxford University Press. Luigi (orgs. 11-62. Oxford: Oxford University Press. 281-337. tanto formais como funcionais. Anthony (1989). V2 and the EPP. Te mat ização = ESTRATÉGIA DISCURSIVA na qual um constituinte é tematizado. On Left Dislocation and Topicalization in Spanish. Luigi (1997). BRUCART. Verb movement and expletive RIVERO. 2011). In: RIZZI.).). assumo a topicalização como uma operação sintática de movimento A-Barra independentemente de seus efeitos discursivos. Universidade de Geneva (citado do manuscrito). VIKNER. The Structure of CP and IP. v. 2 Os termos tópico/topicalização são termos que cobrem vários fenômenos linguísticos e são usados por várias vertentes teóricas. Bonnie. Adoto a seguinte distinção terminológica: To picalização = ESTRATÉGIA SINTÁTICA na qual um constituinte é movido de sua posição de base dentro da oração para a periferia esquerda. The Cartography of Syntactic Structures. dada. pressuposta ou como o tópico discursivo. Liliane (org. José María (1987). Notas 1 Este trabalho faz parte da discussão sobre o movimento do verbo na história do espanhol apresentada em minha Tese de Doutorado (PINTO. subjects in the Germanic languages . n. p. Elements of grammar. The C-Systen in brythonic celtic languages. p. Ian (2004). Sten (1996). The Verb always leaves IP in V2 clauses. Adriana. v. predominantemente na periferia esquerda. ROBERTS. Pr incípios teór icos. 1. 2. SCHWARTZ. ou seja. 297328.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 235 HERNANZ. In: HAEGEMAN. VIKNER. RIZZI. p. Luigi (org.). 2. Linguistic Inquiry. Maria Luisa (1980). Barcelona: Crítica. Sten (1995). Reflexes of Grammar in Patterns of Language Change. v. . KROCH. Universidade Estadual de Campinas. Ordem de palav ras. Kluwer: Dordrecht. RIZZI. Residual verb second and the Wh criterion. movimento do verbo e efeito V2 na história do espanhol. é posto em matização destaque. 363-393. A estratégia discursiva de tematização pode ser realizada através da operação com ou sem movimento sintático. Language Variation and Change.

no lo vi. Assumo. Tal contraste pode ser explicado pelo caráter do clítico. 8 Rivero (1980) assume que a topicalização é diferente de movimento-WH a partir de dados como (i) e (ii) (i) a. a retomada só pode ser observada com objetos diretos e indiretos.236 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Focalização = ESTRATÉGIA DISCURSIVA na qual um constituinte é focalizado. no lo vi. 4 Parece haver alguma relação entre definitude e presença do clítico nesse tipo de construção: objetos definidos são obrigatoriamente retomados. Observar que esta definição é diferente da apresenta em algumas gramáticas do espanhol (por exemplo. é posto em destaque. 2004. nas quais se diz que os complementos circunstanciais podem ser facultativos ou obrigatórios. 3 Nos exemplos. as orações em (ii) não deveriam ser possíveis. 7 O que Cinque (1995) chama de topicalização é equivalente a focus movement. *¿Qué preguntan (que) quién tiene? (ii) a. preguntan (que) quién tiene. no he visto ninguno. Nesta definição. Dinero. B’: No. que é essencialmente definido: (i) A: ¿Viste al chico? B: No. Quando o constituinte focalizado se encontra fora da sua posição canônica na oração. b. já os adjuntos. te pregunta (que) por qué no tiene. como apresentei acima. objetos indefinidos têm retomada facultativa. 1980. 5 Como o espanhol tem um sistema de clíticos defectivo. 380) Se topicalização e movimento-WH fossem o mesmo tipo de movimento. não necessariamente na periferia esquerda. 2002). (RIVERO. para uma discussão detalhada da questão em modelos . como o catalão e o francês. não. exibem os mesmos fatos com outras funções sintáticas. ou seja. (ii) A: ¿Viste algún chico? B: *No. sempre é derivado via movimento A-Barra (topicalização ). GÓMEZ TORREGO. Contudo se são o mesmo tipo de movimento ou não é irrelevante para a discussão (ver BENINCÀ e POLETTO. 6 É importante ter em mente a diferença entre complemento e adjunto verbal: complemento verbal é o elemento que é selecionado semanticamente pelo verbo. Línguas que possuem um sistema de clíticos mais ricos. na frase “Juan puso el libro en la mesa”. Dinero. Se esse movimento é usado como recurso de tematização ou de focalização é algo que pode variar entre as línguas. p. Os verbos são destacados em negrito. o sintagma “en la mesa” é um complemento do verbo. como a informação nova que completa a pressuposição ou o contraste que corrige a asserção anterior. as maiúsculas indicam que o constituinte recebeu a proeminência prosódica. que a topicalização é um movimento A-Barra que deixa uma posição vazia dentro da oração. *¿Qué te pregunta (que) por qué no tiene? b.

como mostra o exemplo do espanhol: (i) El dinero Maria ignora quién lo tiene. que exibem somente o efeito V2 em orações principais. No Capítulo 01 de Pinto (2011) fiz uma discussão bastante densa da questão e apresento fortes evidências com base no modelo cartográfico de Rizzi (1997) e nos argumentos apresentados por Vikner (1995) e Schwartz e Vikner (1996) de que o efeito V2 acontece sempre no campo CP. como os quantifcadores nus. 16 Este aspecto também é trazido por Kroch (1989) a partir da proposta de Adams (1987a. 10 Que este tipo de construção não é derivado através de movimento é evidenciado pelo fato de que podem aparecer em contextos de ilha. procura explicar a variação na manifestação no efeito V2 dentro do campo CP.. 1989. ademais. a oração deveria ser agramatical já que orações relativas são caracterizadas como ilhas e não podem ter constituintes extraídos de dentro de si. ou estruturalmente. No caso das línguas assimétricas. que exibem o efeito V2 tanto em orações principais como em orações subordinadas. Se uma categoria não se move. exceto o inglês.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 237 minimalistas). O que é relevante é que ambas as construções são derivadas via um tipo de movimento A-Barra. [. no Critério-WH por exemplo. but in sentences with preposed noun phrase complements. there will be an additional effect. Minha análise. há línguas que. we obtain the pattern in Figure 5 below. We have. Ver também Rivero (1980). 1987b) sobre a história do francês: In sentences with preposed adverbs and prepositional phrases. não se caracteriza como operador.. efeito “that-trace” etc). reversed the sign of the slope of the regression. o efeito V2 em oração subordinada pode ser generalizado ou restringido. Por exemplo. passa obrigatoriamente pela questão do movimento. nas orações subordinadas. que perdeu tal propriedade já há algum tempo. e línguas assimétricas. (KROCH. since the rise in left dislocation corresponds to the loss of topicalization. p. 13-14) . 1987. 11 Lembrar que a definição de operador de Rizzi (1991). 86) Se houvesse movimento do DP de dentro da oração relativa para o inicio da oração matriz.] If we fit a logistic curve to Priestley’s data via regression and compare the logistic transform of the fitted curve with Fontaine’s results. As línguas V2 são divididas principalmente em dois grupos: línguas simétricas. p. deixam o verbo na última posição da oração e há línguas que deixam o verbo na posição medial.. an increase in the rate of use of the resumptive clitic pronouns required by left dislocation. 13 O grupo mais representativo de línguas V2 na atualidade são as línguas germânicas. the only effect of the change in accent on word order will be a decline in the rate of subject-verb inversion. como alguns DPs em CP. observe-se o parâmetro do sujeito nulo: línguas de sujeito nulo exibem uma série de características que não são encontradas em línguas de sujeito preenchido (extração de sujeito de orações subordinadas. No caso das línguas simétricas. inversão livre. of course. 12 Tais diferenças reforçam a hipótese de que um parâmetro é uma série de características que se manifesta em conjunto. 14 As análises propostas para o efeito V2 nas línguas humanas são muitas e diversas: há análises que propõem que o efeito V2 sempre implica em movimento do verbo para CP e há análises que propõem que há possibilidade de efeito V2 em IP (especialmente no caso das línguas simétricas). 9 Cinque (1995) diz um operador pode ser definido inerentemente. (HERNANZ e BRUCART. 15 Esta análise se baseia em Roberts (2004).

18 Em Pinto (2011.238 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 17 O movimento de constituinte é obrigatório na focalização por uma questão de escopo: o elemento focalizado precisa ter escopo sobre o restante da oração. Por isso. p. o foco sempre se caracteriza como operador e qualquer constituinte pode se mover para a periferia esquerda.212) sintetizo a seguinte correlação: Contexto Focalização Tematização Neutro Espanhol antigo O-V O-V O-V Espanhol atual O-V O-cl-V V-O .

Según Poe. el escritor estadounidense estableció principios en la estructuración del cuento que apuntan para una unidad de efecto. . podemos leer al tiempo presente como siendo el deflagrador de la expulsión de los hermanos – siempre restrictos al mundo del pasado – en el cuento del escritor argentino.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 239 INVASIONES DEL TIEMPO EN EL ESPACIO DE LA CASA Carlos Garcia Rizzon UNIPAMPA Los acercamientos entre “Casa tomada”. obra que marca el estreno del escritor mexicano en 1954. y el otro. se torna necesaria. esos cuentos crean efectos que abren diferentes posibilidades para interpretar los abandonos de las casas por sus moradores. a su luz y de modo inverso. caracterizado en la estatua. la otra. son muy perceptibles a los lectores de esos cuentos publicados en libro en la década de 1950. Sorprendiendo en sus finales. por la réplica de la estatua de un Chac Mool. En los textos “Review of Twice-told tales” (1842) y “The philosophy of composition” (1846). como sonidos sofocados o murmullos de una conversación. del año de 1951. Una. desde su primera frase. y a la transferencia de identidades en relación a “Chac Mool”. En ambas narrativas. cuentista que principió la teoría sobre el género. La lectura del tiempo como invasor de las casas es otra de las posibles interpretaciones: es el pasado. por ruidos imprecisos. el efecto deseado. El primero iar io es el cuento que abre B est estiar iario io. figura de la mitología mexicana que simbolizaba un mensajero entre los hombres y Tlaloc. Las escritas de esos cuentos respetan la brevedad y la intensidad reconocidas por Edgar Allan Poe. Para eso. hace parte de L os días e nmascar a d os enmascar nmascara os. personajes de vidas solitarias y hábitos rutineros abandonan sus casas – herencias y recordaciones de patrimonios familiares – porque ellas son invadidas. y “Chac Mool”. quien toma la casa en “Chac Mool”. de Julio Cortázar. Algunos críticos ya apuntaron alegorías al peronismo (que se apodera de Argentina) o a las inmigraciones (que se apropian de Buenos Aires) o mismo del lector (que se adueña del texto) en el caso de “Casa tomada”. de Carlos Fuentes. la lectura del cuento en una sola asentada . dios de la lluvia que propiciaba la agricultura. que será alcanzado con la fuerza derivable de la totalidad del texto. en el final. lo que induce a una exaltación del alma en el lector. sin interrupciones. todas las palabras de la composición deben estar direccionadas a provocar. también iniciando el libro.

pues “el cuento literario consta de los mismos elementos que el cuento oral y es. donde un recorte. que el cuento deba tratar sus temas sin exageraciones. El uruguayo Horacio Quiroga. p. preserva la idea de unidad y depuración con el objetivo de alcanzar una intensidad narrativa que sea atractiva. en que los seres se entrelazan”. Jorge Luis Borges comenta en el prólogo de Fic cio nes Ficcio ciones nes: “Desvarío laborioso y empobrecedor el de componer vastos libros. trascendiendo espiritualmente la imagen que muestra. el cotidiano se refleja en las acciones de los “personajes – caracterizados por Jorge Luis Borges en análisis a los textos de Julio Cortázar. “todo cuento perdurable es como la semilla donde está durmiendo el árbol gigantesco. 1970. O sea. partiendo de los principios sugeridos por Poe y Chejov. señaló algunas cuestiones más sobre la elaboración de los cuentos. En América Latina. 68). donde la felicidad es imposible. “Los trueques del perfecto cuentista” y “Decálogo del perfecto cuentista”. también escritor argentino. Su pensamiento coincide con Poe cuanto a la brevedad y al efecto. Antón Chejov. por ejemplo. Comparó esa escritura a una fotografía. p. que el cuento inicia por su final. y publicada con el título de “Algunos aspectos del cuento” en la revista “Casa de las Américas”. entonces. p. regidas por rutinas triviales. que es llevado a dar continuidad a la narrativa. otro escritor. Cortázar amplía la idea del efecto que el cuento provoca en el lector. aborda . vemos la sugestión de la complicidad del lector en la construcción del cuento. pues. p. Y Borges continúa: “También se juega con la materia de que somos hechos. probablemente por su ceguera. el tiempo”. d e lo cur ayd em ue r te autor de Cue uent ntos de amor de locur cura de mue uer (1917). el relato de una historia bastante interesante y suficientemente breve para que absorba toda nuestra atención” (QUIROGA. Siguiendo conceptos que venían desde Poe. Muy sutilmente el narrador nos atrae a su terrible mundo. es decir. 1989. nuestros escritores igualmente se dedicaron a pensar sobre el cuento como género literario. A pesar de no haber escrito artículos teóricos que tratasen de sus concepciones acerca del género. un fragmento de la realidad. 521-522). de Ricardo Piglia. Chejov observa también un carácter de apertura de la obra. pues persiste retumbando en la mente del lector la continuidad de los acontecimientos. 429) También Julio Cortázar. 520). Ese árbol crecerá en nosotros. presentando normas para la producción de cuentos. aconsejándolos respecto a los textos. el de explayar en quinientas páginas una idea cuya perfecta exposición oral cabe en pocos minutos. en 1970. “Tesis sobre el cuento”. en una conferencia proferida en Cuba. En sintonía con las ideas de Chejov.240 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS Aún en el siglo XIX. el autor ruso mantuvo correspondencias con jóvenes escritores iniciantes para quienes exponía sus consideraciones. Pensando en la ruptura de lo cotidiano que los cuentos de Chejov ofrecen. con ironía. actúa como una explosión que se abre a una realidad mucho más amplia. Sugiere. redijo textos como “Manual del perfecto cuentista”. De la misma forma. presentó cuestiones respecto al cuento como narrativa.” (BORGES. siendo exigida su participación en la creación de la historia narrada. De esa forma. nt os d e amo r. Sin embargo. Otro texto teórico. rechazar la subjetividad del autor y volcarse a extrañamientos percibidos en la observación de la propia realidad cotidiana. mas que pueden ser extendidos también al protagonista del cuento de Carlos Fuentes – deliberadamente triviales. (2001. p. en palabras de Cortázar. 516) y va más allá de lo que cuenta. Es un mundo poroso. como este. dará su sombra en nuestra memoria” (2004. en el final de la década de 1960. para Cortázar “un cuento es significativo cuando quiebra sus propios límites” (2004. En el mismo sentido y con sarcasmo. dice. “Chac Mool” y “Casa tomada” trabajan con la perspectiva de lo no acabamiento.

personajes de Cortázar. pues no hay sobresaltos o protestas. Tanto en uno como en otro cuento. al mismo tiempo o un segundo después. las casas son descriptas como sólidas construcciones de tiempos imponentes. siendo apenas la cara oculta de la realidad. de psicologías definidas. Trabajar con dos historias quiere decir trabajar con dos sistemas diferentes de causalidad. en su análisis de […] a ese falso realismo que consiste en creer que todas las cosas pueden describirse y explicarse como lo daba por sentado el optimismo filosófico y científico del siglo XVIII. Los hermanos. con el “fecundo descubrimiento de Alfred Jarry. esos personajes presentan una falta de aspiración y una indiferencia con el mundo y la sociedad que los rodea. Para Piglia. . que se mueven en el terreno de lo fantástico sin distinguirlo de la realidad. Para Cortázar.. y espaciosa y antigua la de los personajes de “Casa tomada”. oponiéndose. cerrando puertas y abriendo espacio para lo irracional: Aún según Piglia. prácticamente no salen de casa. Irene y su anónimo hermano. apenas el hermano. Los puntos de cruce son el fundamento de la construcción. 508-509) Fui por el pasillo hasta enfrentar la entornada puerta de roble [. (2004. p. Borges destaca. apenas buscan refugiarse cada vez más en el interior de la casa. 73) de lana para las tricotas de Irene. En los cuentos “Casa tomada” y “Chac Mool”. El sonido venía impreciso y sordo. 2000. felizmente la llave estaba puesta de nuestro lado y además corrí el gran cerrojo para más seguridad. donde “podían vivir ocho personas sin estorbarse”. son incapaces de reaccionar a la invasión de los ruidos. Se dedican a la limpieza de la casa. las historias aparentes de las invasiones caracterizan formas literarias que subvierten padrones convencionales de la racionalidad. personaje de “Chac Mool”. y otra aludida. como dijo en la conferencia a los cubanos. Los mismos acontecimientos entran simultáneamente en dos lógicas narrativas antagónicas. dice más adelante. dentro de un mundo regido más o menos armoniosamente por un sistema de leyes. para quien el verdadero estudio de la realidad no residía en las leyes sino en las excepciones a esas leyes” (p. Me tiré contra la puerta antes de que fuera demasiado tarde. como un volcarse de silla sobre la alfombra o un ahogado susurro de conversación. 509). De forma similar. los sábados. es decir. de manera fantástica en el cuento de Cortázar y en el ámbito de lo maravilloso en el relato de Fuentes.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 241 que el cuento presenta dos historias. el cuento es una historia que esconde una historia secreta. p. la cerré de golpe apoyando el cuerpo. (PIGLIA. de Ernest Hemingway. Contrariando lo que podría ser natural. Eso nos remete a la teoría del iceberg . Representan mundos autárquicos y aislados. de principios.] cuando escuché algo en el comedor o la biblioteca. el hermano a la lectura u ordenación de una colección de estampillas (“para matar el tiempo”) e Irene a los tejidos de lana (tal vez un “gran pretexto para no hacer nada”). Encerrados en la seguridad de sus hogares – protecciones de lo ya establecido –. a la cocina. (p. o sea. Los elementos esenciales del cuento tienen doble función y son usados de manera distinta en cada una de las dos historias. comprendida por lo que está por detrás de ellas. una que se lee en la superficie de las líneas escritas. 133) Cuando la invasión se hace completa. También lo oí. “un poco lúgubre en su arquitectura porfiriana” la casa de Filiberto. de relaciones de causa y efecto. en el fondo del pasillo que traía desde aquellas piezas hasta la puerta. la solución encontrada es el abandono de la casa.. de geografías bien cartografiadas. tiene la costumbre de comprar madejas Cortázar comparte. Lo perturbador en “Casa tomada” está en la actitud de los hermanos. con lo subentendido y con la alusión de la historia que está aparente. la historia secreta se construye con lo no dicho. Cada una de las dos historias se cuenta de un modo distinto. la noción de lo fantástico no difiere de lo real.

Así como el interior de las pirámides de los antiguos pueblos mexicanos preservaba los elementos culturales del pasado.. Si en la historia fantástica de “Casa tomada” hay una naturalización de lo irreal. 20-21) Dominado por la estatua. interliga el pasado con el presente. sin ningún carácter investigativo. el mundo de los antiguos mexicanos actuará sin ningún extrañamiento a la comprensión racional de la realidad. primeramente. Fue en el sótano que. Para Bella Josef. Allí estaba Chac Mool. p. mensajero que es. 15). No sé cuánto tiempo pretendí dormir. Esas actividades. una vez que “la tubería volvió a descomponerse. (CARPENTIER. entre ellos. 1976. huir y dejar la casa es la única alternativa para Filiberto. se escuchaban pasos en la escalera. por el momento en el sótano mientras reorganizo mi cuarto de trofeos a fin de darle cabida” (p. y las lluvias se han colado. 16). (1989. pues él se desequilibra mentalmente y llega a ofrecer “sus servicios al Secretario de Recursos Hidráulicos para hacer llover en el desierto” (p. no su contradicción. percibidas con particular intensidad en virtud de una exaltación del espíritu que lo conduce a un modo de “estado límite”. [. Su interés por “ciertas formas del arte indígena mexicano” no pasa de un deseo coleccionista.. donde la réplica de un Chac Mool que él compra en una feria popular será nada más que un trofeo conquistado. de manera inequívoca. Así. entonces empezó a llover. xvii) . donde la presencia concreta de una estatua gana vida y los elementos de lo maravilloso se asocian a los mitos de las culturas indígenas. y se desbordó por el suelo y llegó hasta el sótano” (p. que “la magia es la coronación o pesadilla de lo casual. en el cuento de Fuentes. Pero ya está aquí. [. e irán interferir en su trabajo. la profundidad del sótano comienza a reavivar Chac Mool. visitar sitios arqueológicos y coleccionar piezas antiguas de la cultura mexicana. alimentos e inclusive a ceder sus aposentos. p. elemento vinculado a Chac Mool en la mitología: “Amanecí con la tubería descompuesta. Vuelta a dormir. sin embargo. en “Chac Mool” el “algo más” se revela por una sobrenaturalización de lo real.. aún no amanecía. que lo obliga a buscar agua. 15). yuxtaponiendo los tiempos y alterando maravillosamente la realidad: […] lo real maravilloso comienza a serlo. inundando el sótano” (p. 28). de una iluminación incomún o singularmente favorecedora de las escalas y categorías de la realidad. Filiberto es un funcionario público preso a una vida de rutinas y hábitos rígidos. erguido. Los tormentos de Filiberto seguirán en casa. “na literatura hispano-americana. con su barriga encarnada. Incauto. todas en relación al agua. El cuarto olía a horror. a incienso y sangre. de que en la oscuridad laten más pulsos que el propio. A partir del momento en que Filiberto lleva la estatua a su casa.. la estatua adquiere vida y lo hace prisionero y esclavo de sus deseos: Y ayer. 335). Filiberto colocó la estatua del Chac Mool. [. de una revelación privilegiada de la realidad.] Chac Mool avanzó hacia la cama.] Todas las leyes naturales lo rigen. dejé correr el agua de la cocina. Aumentando sus problemas. un despertar sobresaltado. creando una atmósfera en que la tensión mental es provocada por difusos e inexplicables ruidos de algo apenas mencionado.. por fin. un objeto decorativo sin ninguna significación histórica o religiosa. y otras imaginarias”.. (p. ocre. cuando surge de una inesperada alteración de la realidad (el milagro). Pesadilla. o mito passou a ser considerado o próprio real compreendido na simultaneidade de suas perspectivas prováveis” (1993.. antes de llevarla a su cuarto de trofeos: “El traslado a la casa me costó más que la adquisición. revelan actitudes mecánicas y superficiales.] Cuando sin aliento encendí la luz..242 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS “Casa tomada”. Sí. 21). él pasa a enfrentar una serie de perturbaciones. sonriente. El Chac Mool. p. Cuando volví a abrir los ojos. con esa seguridad espantosa de que hay dos respiraciones en la noche.

la cabeza fue a dar allá.. De igual manera. No existe ningún avance y ninguna construcción. pues no pasan de simples rellenos del tiempo. Con el café que casi no reconocía. real imagen monstruosa en un espejo de circo. Como reconoce el hermano. pues en toda su trayectoria de vida “había habido constancia”. (p. Y las estampillas reordenadas en el álbum no alteran la preservada antigüedad. lo que le causaba algún sufrimiento: “Sentí la angustia de no poder meter los dedos en el pasado y pegar los trozos de algún rompecabezas abandonado” (p. Nos resultaba grato almorzar pensando en la casa profunda y silenciosa y cómo nos bastábamos para mantenerla limpia... ¿no lo son todos los muertos. si un bromista pinta de rojo el agua. con la mitad de los cuartos bajo llave y empolvados. ausente de valor e interferencia en la realización de su vida. presentes y olvidados? [. con la ciudad misma. caracterizándose por la manutención de una disciplina que lo impidió de cualquier transformación o realización de un sueño. 11). y luego. siempre puntuales. más que lo creído por mí.. o estar. que no constituyeron familias y permanecieron estériles: “A veces llegamos a creer que era ella [la casa] la que no nos dejó casarnos. sin criados ni vida familiar” (p. y lo que era una antigua representación divina se reduce a un objeto decorativo que se compra en una tienda de feria que vende recuerdos para turistas. el interés por un Chac Mool no demuestra ningún conocimiento por una cultura. Filiberto ya no distingue lo que es realidad o delirio. (p. Las lecturas de los mismos libros que el hermano hace no añaden nada. sin alteraciones en sus hábitos. como barricada de una invasión. 11-12) La limpieza de la casa es una rutina que mantiene un pasado envejecido. pues no realiza relaciones con otras obras. la cola aquí.. Vivir “en aquel caserón antiguo.. modernizadas – también. percepciones que se funden en la mente del personaje: […] todo es tan natural. se cree en lo real. a mí se me murió María Esther antes que llegáramos a comprometernos” (p. apenas mantiene la evasiva función de evitar el Su esfuerzo en mantener la casa. quedamos a la mitad del camino” (p. probablemente la casa haya interferido en las vidas de él y de Irene. mientras el mundo se transformaba con el tiempo. Sus actividades también son repetitivas. Real bocanada de cigarro efímera. y más. la fuente de sodas [. y nosotros no conocemos más que uno de los trozos desprendidos de su gran cuerpo. Almorzábamos a mediodía. Irene rechazó dos pretendientes sin mayor motivo. porque nos damos mejor cuenta de su existencia. mecánica y mediocre. Filiberto no acompañó los cambios: […] decidí gastar cinco pesos en un café. ya no quedaba nada por hacer fuera de unos pocos platos sucios. pero esto lo es.. los hermanos de “Casa tomada” preservan la casa “espaciosa y antigua” que “guardaba los recuerdos” de infancia por el hábito de “persistir en ella”.. Del mismo modo. 131) Filiberto es un sujeto de “tentaciones burocráticas”. levantándonos a las siete. Las ejecuciones mecánicas de sus tareas se tornan operaciones improductivas. 19) padres. “ciertamente muy grande” y “única herencia y recuerdo” de sus . Es incapaz de ambicionar un cambio. es apenas un reflejo condicionado de su rutina. sólo real cuando se le aprisiona en un caracol. 21) retrata su conformismo por no haber alcanzado los planes idealizados en la juventud: “parecíamos prometerlo todo.. como relata el hermano: Hacíamos la limpieza por la mañana. una vez que consideraba que “desde 1939 no llegaba nada valioso a la Argentina” (p. Si es real un garrafón. reales. 131). 132). (p. Es el mismo al que íbamos de jóvenes y al que ahora nunca concurro [.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 243 Cuando el Chac Mool se humaniza.] Realidad: cierto día la quebraron en mil pedazos. 12). Océano libre y ficticio. sin renovación. y a eso de las once yo le dejaba a Irene las últimas habitaciones por repasar y me iba a la cocina. acomodado a una existencia uniforme. hoy volví a sentarme en las sillas.].]. habían ido cincelándose a ritmo distinto del mío”.. En fin. Sin embargo.

lo que hizo nacer el imperialismo. como Filiberto. exigiendo el reconocimiento de su presencia. son obligados a abandonar sus casas porque no ofrecen espacio al transcurso del tiempo. apropiarse del espacio y. p. Se puede vivir sin pensar” (p. no se desenvuelven y no producen. assim definida. 198) En esa clasificación. en “Casa tomada” los ruidos invasores pueden indicar el tiempo de la modernidad. correndo o risco de confundir o presente com aquilo que já não o é. los hermanos no crecen. todo conceito se esgota no tempo. seja pela observação de suas relações de causa e efeito. “aparte de su actividad matinal pasaba el resto del día tejiendo en el sofá de su dormitorio. del movimiento. alarmas de autos y llamadas de teléfonos celulares son marcas indisimuladas de nuevos tiempos.244 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS contacto con los ruidos invasores. La tercera dimensión equivale a la vida humana. según Korzybski. sin renovación o actualización. um novo momento do modo de produção antigo. no demuestran necesidades y tampoco ambiciones: “Estábamos bien. y aquellos por la indiferencia con el presente. sendo histórico. Vivir sin pensar es no reconocer el pasar del tiempo. el geógrafo Milton Santos observa: Para apreender o presente é indispensável um esforço no sentido de dar as costas. más recientemente. Si en “Chac Mool” es el pasado. donde el ritmo de vida de viejos tiempos ya no encuentra lugar. ou melhor. p. Confortables en la mediocridad. seja pela constatação da ordem segundo a qual eles se organizam para formar um sistema. [. um modo de produção novo ou a transição entre os dois. vivir el tiempo. Abdicando del tiempo y dado a la adquisición de objetos y pertenencias. Mas nos toca fazer que se convertam em fatos históricos mediante a identificação das relações que os define. ancho y profundidad.. . 2002. lo diferente y la transformación. um conceito. (SANTOS. Jorge Luis Borges presenta tres dimensiones de la vida: Tres dimensiones tiene la vida. de la vida. cabría a los vegetales acumular energía. Presos en las recordaciones y en la manutención de lo mismo.] a veces tejía un chaleco y después lo destejía en un momento porque algo no le agradaba (p. (1989. independentes de nós. Tanto los hermanos de “Casa tomada”. 10) En el ensayo “La penúltima versión de la realidad”. este por no conocer y respetar el pasado. 135). Sem relações não há “fatos”. que se reconhecem as categorias da realidade e as categorias de análise. bocinas. únicos seres previsores e históricos. La expulsión o el abandono de sus casas son fantásticas o maravillosas cobranzas que el tiempo hace del aislamiento de Irene y su hermano y de Filiberto. el hombre materialista conquistó personas y territorios.. então. un acumulador de piezas de arte indígena que desfigura y anula sus representaciones del pasado. Os fatos estão todos aí. citando diferentes pensadores. não ao passado. llevan a una inexistencia histórica. a los hombres. Se quiséssemos apreender o “presente como história” de Lukács e Sweezy. representado por la estatua de una cultura antigua. La primera dimensión corresponde a la vida vegetal. altoparlantes. Largo. La vida de los vegetales es una vida en longitud. É por sua existência histórica. La permanencia y la conformación de lo establecido. La vida de los animales es una vida en latitud. Conservar categorias envelhecidas equivale a redigir um dogma. isto é. sin alteraciones que agreguen novedades. despertadores y. En ese sentido. Eso tornó la vida humana menos intensa y más extensa. a los animales. Los sonidos de máquinas. sob pena de nos perder em um presente abstrato. irreal e impotente. sua história. Já não estaremos. E. mas às categorias que ele nos legou. Ya Irene. y poco a poco empezábamos a no pensar. aún según Borges. que se apodera de la casa. no interior de uma estrutura social. La vida de los hombres es una vida en profundidad. La segunda dimensión pertenece a la vida animal. deveríamos ver o passado como algo que encobre as raízes do presente. que cierran la casa y a sí propios con el intuito de impedir la novedad. 131-132). um novo sistema temporal.

Los días enmascarados. Jorge Luis (1989): La penúltima versión de la realidad. Formas breves. Buenos Aires: Emece.: Ediciones Era. 10ª ed. SANTOS. Bestiario. São Paulo: Paz e Terra. CORTÁZAR. Ficciones. Horacio (1970): Sobre literatura: obras inéditas y desconocidas. Buenos Aires: Suma de Letras Argentina. Buenos Aires: Emece. Julio (2008): Casa tomada. Buenos Aires: Punto de lectura. 2ª ed. FUENTES. El reino de este mundo. CARPENTIER. 2. JOSEF. _____ (2004): Algunos aspectos del cuento. Alejo (1976): Prólogo. 2ª ed. Pensando o espaço do homem. Buenos Aires: Nemont. Buenos Aires: Emecé. São Paulo: Ática. QUIROGA. Carlos (2001): Chac Mool. Barcelona: Anagrama. Obra crítica. Obras completas.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 245 Referencias bibliográficas BORGES. Bella (1993): O espaço reconquistado. Ricardo (2001): Tesis sobre el cuento. Prólogos.F. _____ (1992): Julio Cortázar: cuentos. GOTLIB. Milton (1986): O presente como espaço. Discusión. Obras completas. 8ª ed. Cuentos completos. . Montevideo: Arca. Vol. Nádia Battella (2006): Teoria do conto. _____ (1989): Prólogo. 17ª ed. 7. Vol. 1. 17ª ed. 11ª ed. São Paulo: Hucitec. Vol. México D. PIGLIA.

Para realizar o estudo da produção. Nosso trabalho está organizado da seguinte forma: na sessão 1 definimos nosso objeto de estudo: .246 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS PEDIDOS DE INFORMAÇÃO E PEDIDOS DE AÇÃO EM PORTUGUÊS E EM ESPANHOL: UM ESTUDO ENTONACIONAL DE PRODUÇÃO E PERCEPÇÃO Carolina Gomes da Silva PG/UFRJ Maristela da Silva Pinto UFRRJ Priscila Cristina Ferreira de Sá PG/UFRJ Introdução Dispomos de uma quantidade de informação relativamente importante para a sistematização dos níveis lexicais. Já para o estudo da percepção. Do ponto de vista fonético e fonológico. mas julgam a entoação dos aprendizes como insuficiente. pretendemos com este trabalho realizar uma analise contrastiva de tais pedidos em português brasileiro como língua materna (PBLM) e em espanhol madrileno como língua materna (ELM). (b) que características prosódicas esses falantes transferem de sua LM para a LE?. por parte de falantes de LM? Nossas hipóteses são: (a) os aprendizes cariocas de ELE realizam os pedidos de informação e os pedidos de ação – em ELE como o fazem em PBLM. contamos com julgamento de nove juízes nativos de seis áreas dialetais distintas e de três aprendizes de ELE. descrevemos fonética e analisamos fonologicamente os pedidos de informação e os pedidos de ação em ELE. respectivamente (MORAES. Considerando as diferenças prosódicas já descritas entre o PBLM e o ELM. nos perguntamos: (a) como os aprendizes cariocas de ELE produzem o acento tonal de tais pedidos?. (c) a transferência prosódica da LM compromete a inteligibilidade e/ou gera um julgamento negativo da competência prosódica do falante de LE. 2008. morfológicos e sintáticos no ensinoaprendizagem de espanhol como língua estrangeira (ELE). No entanto. Em um segundo momento. (b) os juízes reconhecem os pedidos. inclusive em seu quadro de variações dialetais. p. a parte segmental está bastante descrita. a fim de verificar a produção desses atos ilocutórios por aprendizes de ELE e a percepção de ditos atos por parte de nativos de diferentes áreas dialetais.393). Como nosso objeto de estudo são os pedidos de informação e de ação. ou seja. contrastamos o estudo realizado por Moraes (2008) para o PBLM com o de Estevas Vilaplana & Prieto (2008) para o ELM. com o padrão entonacional L+<H*L% e L+>H*L%. a parte prosódica ainda precisa de mais estudo e descrição.

proposto por Pierrehumbert (1980) e Ladd (1996. Já para o estudo da percepção. para o PBLM (fala carioca): L+<H*L%. ou seja. para o pedido de informação e L+>H*L%. como em “Renata jogava?”. Usamos as propostas de Moraes (2008). 1999) marcando o tonema (ou núcleo) a partir de um tom alto (H) ou baixo (L). Nos pedidos de informação. 1 do Peru. o enunciador pergunta algo que desconhece ao ouvinte e supõe que este detém a informação (KERBRAT-ORECCHIONI. para o pedido de informação e H+L*L%. Andaluzia. cidade da Guatemala. Tais enunciados foram produzidos por dois informantes. para o pedido de ação. considerando o formato do contorno entonacional e seus movimentos. San Salvador.94). ambos do sexo feminino. Com relação à descrição fonética. diz respeito à percepção de ditos enunciados por falantes nativos de espanhol. correspondendo a tentativas do falante de levar o ouvinte a fazer algo (Searle. 2 da Guatemala. A segunda. espera-se o cumprimento de um ato qualquer. marcada na frase pela formulação interrogativa. 2011. Os contornos entonacionais dos enunciados analisados foram obtidos a partir do programa PRAAT (BOERSMA & WEENINK. na sessão 3 apresentamos os resultados e na sessão 4. 2005. sendo dois de pedido de informação e dois de pedido de ação. adultos. Para dar conta da análise fonológica seguimos o sistema de notação Métrico Autossegmental (AM). isto é. gravamos a leitura em voz alta de 24 enunciados interrogativos totais em ELE. San Juan e por três falantes de . e as de Estevas 2. 1984 apud Wilson. professores de ELE e inseridos no mercado de trabalho.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 247 pedidos de informação e pedidos de ação. ELE com quatro enunciados modelo. Comparamos esses 24 enunciados em 1.102). p. Cabe ressaltar que o enunciador espera que o ouvinte lhe dê uma resposta com sim ou não. na sessão 2 apresentamos a metodologia adotada. com idade entre 25 e 35 anos. 3 do Chile. espera uma ação verbal por parte do receptor. Santiago de Chile. Diferentemente dos pedidos de informação. cariocas. 19932012). 1 de Honduras. p. Lima. embora o enunciador faça uma pergunta. ele espera uma ação não verbal por parte do ouvinte.Atos ilocutórios: Pedidos de informação e pedidos de ação Os pedidos de informação e os pedidos de ação equivalem a atos ilocutórios diretivos. obser vamos o comportamento dos parâmetros acústicos de frequência fundamental (F0) e duração no tonema (último vocábulo tônico do enunciado) dos pedidos. selecionamos 12 enunciados e os deslexicalizamos para que fossem julgados por nove juízes nativos de seis áreas dialetais distintas: 1 da Espanha. No entanto.Metodologia Nosso trabalho se divide em duas partes: a primeira se refere à análise da produção dos pedidos de informação e de ação por falantes brasileiros de ELE. como em “Destranca a janela?”. Para o estudo da produção. pedidos de ação. sendo seis de pedidos de informação e seis de Vilaplana & Prieto (2008). 1 de Porto Rio. extraídos dos trabalhos de Moraes (2008) para o PBLM (fala carioca) e de Estevas Vilaplana & Prieto (2008) para o ELM (fala madrilena). Descrevemos esses 24 enunciados foneticamente e os analisamos fonologicamente. para o ELM (fala madrilena): L*HH%. esses pedidos apresentam diferenças entre si. nos pedidos de ação. para o pedido de ação. com nível superior completo em Letras – Português/ Espanhol. nossas discussões e conclusões.

3. em média. todos com nível superior. em média. sendo dois do sexo feminino e uma do sexo masculino. seguida de uma queda de 65 Hz da sílaba tônica para a pós-tônica. assim como em função de sua configuração tonal. Esses conceitos poderiam ser: A . Cabe destacar que os três juízes cariocas são professores de ELE. Já nos pedidos de ação. todos do Brasil. tônicas e pós-tônicas do tonema dos pedidos de informação e ação em ELE. de 40 Hz da sílaba pretônica para tônica. os pedidos de informação e os de ação em PBLM. ELM e ELE são os d e inf o r mação e d e ação o ne ma/núc le o (Hz): p e did Média d e F0 das v o g ais no t de leo pe didos de info de vo to nema/núc ma/núcle Gráfico 1: Variação de média de F0 nas vogais pretônicas. com idade entre 20 e 45 anos. seguida de uma queda de 73 Hz da tônica para a póstônica. observamos que os sujeitos implementam a F0 em ELE com uma subida. após ouvirem cada enunciado. como não b bo analisados.Produção Analisando os dados. observamos que nos pedidos de informação os sujeitos implementam a F0 em ELE com uma subida. como ilustrado no gráfico 1. se o juiz julgasse a entoação dada ao enunciado pelo sujeito como média e C . de 25 Hz da sílaba pretônica para tônica. em função da implementação da F0 e da duração. Esses juízes/avaliadores. se o juiz julgasse a entoação dada ao enunciado pelo sujeito como b o a . B. tiveram de definir o tipo de pedido (de informação ou de ação) e atribuir um conceito à entoação dada por nossos sujeitos aprendizes a cada um desses 12 enunciados.248 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS ELE. se o juiz julgasse a entoação dada ao enunciado pelo sujeito oa. a seguir. Rio de Janeiro. Já para o estudo da percepção. falantes de espanhol nativos ou não. .Resultados Para o estudo da produção. 3.1. os pedidos de informação e os de ação são analisados segundo o reconhecimento dos atos ilocutórios e a avaliação da entoação dos aprendizes por parte dos juízes.

280) Espanhol/LE (falantes cariocas): L+>H*L% Tabela 1: Síntese das atribuições tonais para os pedidos de informação e os de ação. 393) Espanhol Europeu (fala madrilena): L*HH% (Estevas Vilaplana & Prieto. Por outro lado. fala madrilena: um contorno melódico final ascendente (L*HH%) para o pedido de informação e um contorno melódico final descendente (H+L*L%) para o pedido de ação. a distância em milissegundos correspondendo ao alinhamento tonal (pico. 2008. no segundo caso. a distância em milissegundos correspondendo ao alinhamento tonal (pico. Qua dr oc o mpar at i vo da média d o alinhame nt ot o nal e mr e lação à sílaba p ro e mine nt e no t o ne ma/ Quadr dro co mparat ati do alinhament nto to em re pr minent nte to nema/ núc le o (%): p e did os d e inf o r mação e d e ação núcle leo pe didos de info de Gráfico 2: Há um alinhamento tardio médio de 890ms (89%) do total da sílaba proeminente. 2008. p. nos pedidos de informação e um alinhamento antecipado médio de 390ms (39%) do total da sílaba proeminente. observase um alinhamento antecipado na sílaba tônica. constatamos em nossas análises que os sujeitos realizam os contornos dos pedidos de informação e de ação em ELE com o contorno melódico final circunflexo L+H*L%. Tal atribuição se assemelha a atribuição tonal do PB. sua língua materna e se diferencia do padrão descrito para o ELM. p. . vale) em relação à sílaba proeminente é superior a 60% da duração total desta sílaba. 393) Espanhol Europeu (fala madrilena): H+L*L% ( Estevas Vilaplana & Prieto. Sintetizamos estes resultados na tabela abaixo. Análise Fonológica de Pedidos de Informação e Pedidos de Ação: Atribuição Tonal Pedido de Informação Português do Brasil (fala carioca): L+<H*L% (Moraes. como exemplificado no gráfico 2. No que concerne à atribuição tonal. nota-se que nos pedidos de informação há um alinhamento tardio na sílaba tônica. sendo com alinhamento tardio (L+<H*L%). 2008.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 249 Com relação ao comportamento da duração. ou seja. nos pedidos de ação. vale) em relação à sílaba proeminente é inferior a 40% da duração total desta sílaba. 2008. fala carioca. 280) Espanhol/LE (falantes cariocas): L+<H*L% Pedido de Ação Português do Brasil (fala carioca): L+>H*L% (Moraes. ou seja. p. p. no primeiro caso e com alinhamento antecipado (L+>H*L%).

0/1 6.0/2 5.0/9 Pedido de Ação 10. Pedido de Ação 38 32 Confrontando os dados referentes ao quantitativo de casos em que a intenção do aprendiz em produzir seus enunciados foi identificada pelos juízes.250 3.5/3 8.7). confeccionamos uma matriz de confusão. Rio de Janeiro Pedido de Informação 10. o que está sendo confundido com o que foi reconhecido.0/4 7.7/11 Tabela 3: Avaliação do julgamento dos juízes.7/3 9.Percepção ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS permite confrontar pares binários de confusão. nota-se que em 47% dos casos há reconhecimento dos pedidos de informação e 44% dos pedidos de ação. como ilustrado na tabela 2. cidade da Guatemala Honduras. sem o nível lexical. San Juan Brasil. San Salvador Peru.6/6 3.6/6 5. Andaluzia Chile.6/7 5. Confrontando os dados referentes ao reconhecimento dos pedidos de informação e de ação.8/3 8. nota-se que os juízes atribuem melhor nota para os pedidos de ação (7.6) do que para os pedidos de informação (6.0/1 7.2. É interessante observar que uma matriz de confusão Mat r iz d eC o nfusão: P e did os d e inf o r mação e d e ação atr de Co Pe didos de info de Percepção Produção Pedido de Informação Pedido de Ação Pedido de Informação 34 40 Tabela 2: Resultados na matriz de confusão. Santiago de Chile Guatemala. . Lima Porto Rico. acreditamos que possa ter dificultado o reconhecimento por parte dos juízes. Com os resultados obtidos através do teste de percepção.3/5 7. somente o prosódico. Cabe ressaltar que houve um maior número de reconhecimento do pedido de informação pelos juízes (vide tabela 3). Como utilizamos neste teste de percepção enunciados deslexicalizados. ou seja. isto é.3/5 5. Notas at r ib uídas aos p e did os d e inf o r mação e d e ação atr ibuídas pe didos de info de Área dialetal dos juízes Espanha.

Sandra & REIS. p. & PRIETO. Niterói: EdUFF. Campinas: IEL. com a descrição dos contornos entonacionais dos enunciados na LM e na LE. gera um julgamento negativo da competência prosódica do falante de LE. com alinhamento tardio do pico na sílaba tônica. Victoria (2011): Motivações pragmáticas. Paul & WEENINK. com este trabalho contribuir no ensino da oralidade do Espanhol como língua estrangeira.uva. Esperamos. os aprendizes tendem a se basear no sistema prosódico da sua LM. Pilar (2008): La notación prosódica del español: una revisión del Sp_ToBI.edu/labfon/sites/default/files/XVII-15.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 251 Conclusões Constatamos com este estudo que o acento tonal nuclear mais frequente produzido pelos falantes brasileiros aprendizes de ELE nos enunciados interrogativos totais que funcionam como pedido de informação apresenta subida da sílaba pretônica para tônica seguida de uma queda da sílaba tônica para pós-tônica. São Paulo: Contexto. fato este que dificulta a inteligibilidade da produção oral do falante de LE e. No ensino de espanhol como língua estrangeira são muitos os trabalhos que apresentam as dificuldades enfrentadas por um brasileiro aprendiz dessa língua.) Manual de linguística. WILSON. KERBRAT_ORECCHIONI. Em: BARBOSA. Referências bibliográficas BOERSMA. Em suma.fon. Acessado em 05/02/2012. Em: Estudios de fonética experimental XVII. mas são poucos os estudos que tratam especificamente da relação entre entoação e atos ilocutórios. o acento tonal nuclear mais frequente apresenta subida da sílaba pretônica para tônica seguida de uma queda da sílaba tônica para pós-tônica.). pois acreditamos que. portanto. com alinhamento antecipado do pico na sílaba tônica. por parte de falantes de LM.nl/praat/ ESTEBAS VILAPLANA. MADUREIRA. Disponível em: http://www.hum. 87 – 110. . CÉSAR (eds. os aprendizes de LE têm elementos para contrastar marcas específicas da LM com as da LE e se tornam capazes de minimizar as transferências prosódicas de sua LM quando se expressam na LE. Mário Eduardo (org. Eva. MORAES. Plinio.pdf. empregam o sistema de sua LM pelo qual filtram a fala da LE. em outras palavras. Catherine (2005): Os atos de linguagem no discurso. Já para o pedido de ação.: Proceedings of the Speech Prosody The Fourth International Conference in Speech Prosody. Em: MARTELOTTA. quando não compromete a inteligibilidade.ub. Disponível em: http://stel. João Antônio de (2008): The Pitch Accents in Brazilian Portuguese: analysis by synthesis. David (1993-2012): Praat.

A única descrição mais confiável seria a do narrador. Dulcinéia ora será descrita como uma linda princesa. p. (DQ. sugerindo-nos a possibilidade de uma união carnal entre Dom Quixote e Dulcinéia e colocando sua honestidade em dúvida: Y si la vuesa linda Dulcinea. a influência da obra cervantina. Nossa intenção é mostrar como. Dulcinéia é. Não há na obra de Cervantes uma descrição precisa da personagem. Iniciemos por Dulcinéia. mais especificamente o livro El ingenioso hidalgo Don Quijote de La Mancha. por um lado. 33) Essa dualidade da personagem será reforçada e reiterada ao longo da obra. Preliminares. como ambas são construídas a partir de um processo metaficcional. No poema “La señora Oriana a Dulcinea del Toboso” (DQ. honesta y sabia” e em “De Solisdán a Don Quijote de la Mancha”. as duas são descritas a par tir de modelos literários pré-existentes. sob diferentes perspectivas e. na obra O Romance d’ A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta. En tal desmán vueso conorte sea Que Sancho Panza fue mal alcagüete. Desaguisado contra vos comete. que nos apresenta Aldonza Lorenzo. 27). Dulcinéia é descrita como “famosa. tanto Dulcinéia como Heliana são apresentadas ao leitor de forma ambígua. da obra cervantina e Heliana. I. Ni a vuesas cuitas muestra talante. dura ella y vos no amante. Das 669 personagens que compõe a obra de Cervantes (RILEY. do escritor brasileiro Ariano Suassuna. ou seja. mas uma multiplicidade de pontos de vista 3 que incidem sobre ela e que propiciam inúmeras leituras de Dulcinéia. o “eu lírico” atribui a castidade de Dom Quixote à incompetência de Sancho como alcoviteiro. Neste trabalho pretendemos estabelecer algumas relações entre as personagens Dulcinéia del Toboso. sem dúvida. em uma perspectiva comparatista. como “una moza labradora de muy . podemos observar diferentes pontos de vista sobre a personagem. Preliminares. 2000. no primeiro capítulo. do livro de Suassuna.252 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS DE DULCINÉIA A HELIANA: PERSPECTIVISMO E METAFICÇÃO Célia Navarro Flores Universidade Federal de Sergipe – UFS Em nossa pesquisa atual1. p. visamos observar. 152). I. por outro. uma das mais misteriosas2. p. Necio él. Já nos poemas introdutórios. ora como uma feia prostituta.

perlas sus dientes. Sancho a rebaixa ainda mais ao compará-la a uma prostituta afirmando que ela “tiene mucho de cortesana: con todos se burla”: “cortesã” também significa. testa. Quando Sancho descobre que Dulcinéia é Aldonza Lorenzo. 283). o duque põe em dúvida a existência e a linhagem de Dulcinéia e novamente se alude à literatura ao comparar Dulcinéia com as damas dos livros de cavalarias: — Así es — dijo el duque.. Ao longo do livro de Cervantes. Vejamos rapidamente dois pontos de vista: o de Sancho e o de Dom Quixote. sobrancelhas. Enfatizamos. o protagonistanarrador.) que su nombre es Dulcinea. lábios. I. ao rebaixá-la a uma e prostituta.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 253 buen parecer”4 (DQ. olhos. con las Alastrajareas. el Toboso. não é um cavaleiro. II. pues en ella se vienen a hacer verdaderos todos los imposibles y quiméricos atributos de belleza que los poetas dan a sus damas: que sus cabellos son oro. bochechas. no capítulo 25 da primeira parte (p. marfil sus manos. nessa descrição. da qual o protagonista é Sinésio. (DQ. no capítulo 1 da primeira parte. Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna. sus ojos soles. Dom Quixote descreve Dulcinéia diversas vezes. de quien están llenas las historias que vuesa merced bien sabe. I.). ou seja. sus cejas arcos del cielo. (DQ. Dom Quixote mobiliza todo um sistema de descrição do modelo feminino herdado da literatura renascentista 5: a descrição a partir da parte superior do corpo (cabelos. p. sus mejillas rosas. pérolas etc. ni con otras deste jaez. Alonso Quijano necessita uma dama por quem se enamorar e. “prostituta” e “burlar com alguém” pode significar “ter relações sexuais” — também a descrição das atividades realizadas por Aldonza (“rastrillando lino o trillando en las eras”) tem conotação sexual. O romance que está escrevendo é uma epopeia. tomando como modelo uma vizinha por quem durante algum tempo andou apaixonado. pues es reina y señora mía. su calidad por lo menos ha de ser princesa. estaria tornandoa uma mulher acessível a ele. Como todo bom cavaleiro. Sancho também sentiria um desejo reprimido por Dulcinéia e. sus labios corales. puesto que se conceda que hay Dulcinea en el Toboso o fuera de él. con las Madasimas. mármol su pecho. su patria. peito e mãos) e a comparação com elementos nobres da natureza (ouro. mas um escritor. ele diz que ela seria uma mulher de “pelo en pecho” — que tanto pode significar “valente” quanto referir-se ao caráter masculinizado de Dulcinéia —. su blancura nieve (. episódio em que Sancho engana Dom Quixote ao afirmar que três feias lavradoras seriam Dulcinéia acompanhada de duas damas.). a expressão “todos los imposibles y quiméricos atributos de belleza que los poetas 6 dan a sus damas”. Na obra de Suassuna. sol. 32) Vejamos agora como Ariano Suassuna se vale da mesma estratégia para criar a personagem Heliana. (. Segundo González (2010).. um cavaleiro que — após ser raptado e preso — volta .. de donde se infiere que. y que sea hermosa en sumo grado que vuesa merced nos la pinta. Sancho cria o que González chamou de “la antidulcinea”. uma das melhores descrições é a do capítulo 13 da primeira parte. p.) Solo sé decir. 1. un lugar de la Mancha. pero hame de dar licencia el señor don Quijote para que diga lo que me fuerza a decir la historia que de sus hazañas he leído. a intenção de Sancho é destruir o universo de Dom Quixote. No capítulo 32 da segunda parte. en lo de la alteza del linaje no corre parejas con las Orianas. corais. não é delicada como uma princesa. como em português. sobrehumana. Dom Quixote conscientemente a descreve a imitação dos “poetas”. —(. p. da segunda parte. ou seja... su hermosura. 44). su frente campos elíseos. A perspectiva de Dom Quixote sobre Dulcinéia é oposta a de Sancho. sua voz se assemelha ao som de um sino e é uma mulher de talhe robusto (“qué rejo tiene”). alabastro su cuello. 141-142) Nesta descrição. pescoço. dentes. à diferença de Dom Quixote. a qual se personifica no capítulo X. 13. “inventa” Dulcinéia del Toboso..

Heliana é mostrada em diferentes facetas. que desempenha o papel das “dueñas” dos livros de cavalarias. Como vimos. ou . a senhora idosa. Até aqui. a história de Heliana passou de boca em boca até chegar aos ouvidos do corregedor e aos olhos do leitor. o cavaleiro está enamorado por uma mulher que cobre as mãos e. personagem que estava enamorado por Clara. é a mulher lasciva. presenciou um ato estranho de Heliana: a acompanhante da moça. assim como Dulcinéia. a qual é descrita como uma dama dos livros de cavalaria. uma senhora idosa. Assim como Dulcinéia. 47) o fato de que Heliana. todas constrangedoras.). 499). nós já estamos todos habituados com as estranhezas de Heliana! Não é que eu tenha vergonha nenhuma dela. Tais quais as damas dos livros de cavalaria. que unta os seios com mel.. a dama pintada em seu escudo aparece com as mãos cobertas. Assim como Dulcinéia. “Nós já temos passado por outras situações semelhantes. as irmãs Heliana e Clara vivem isoladas em uma fortaleza construída pelo pai e são acompanhadas por uma criada. Ao descrever as roupas do Donzel Sinésio. com um graveto. “estranha e selvagem”. ela apresenta algumas ambiguidades. sempre são outros personagens que se referem a ela. 207. A dama de Sinésio é Heliana. não acho nada de censurável no que ela faz. a não ser.. porém o pai de Sinésio e o de Heliana tinham acordado que Sinésio se casaria com Clara. naquela Fortaleza afastada (SUASSUNA. 207. Maria Elvira. o amor da vida de Sinésio. da mesma forma que Cervantes criou a antidulcinéia. por outro. mesmo quando os outros acham que aquilo é mais do que esquisitice!” (SUASSUNA. Sinésio7. p. contou que Gustavo descreveu a Clara o ato obsceno de Heliana. mostrando-nos uma faceta da personagem que se opõe à imagem de perfeita dama.. vivia com as mãos cobertas e não permita que nenhum homem as descobrisse. Encontramos aqui a dicotomia pureza/lascívia presente na personagem de Cervantes.) É por causa de Heliana que ele (o pai delas) prefere viver isolado. porém. astrosa e fatídica” (SUASSUNA. nunca ouvimos a voz de Heliana. coincidentemente.254 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS para vingar a morte de seu pai. 498) (. Maria Elvira. Clara conta que a família já está acostumada com as esquisitices de Heliana: — “La em casa. desde menina! (. Se por um lado é a dama dos livros de cavalaria. ocultamente. Com isso queremos evidenciar o fato de que Heliana é a típica dama dos romances de cavalaria. fizera uma pequena fogueira para afugentar as abelhas de uma colmeia e. Entretanto. Ou seja. p. Nessa conversa. Heliana sempre foi meio estranha e selvagem. Poderíamos dizer que. que vive isolada do mundo por seu pai e que tem seu rosto estampado no escudo de seu cavaleiro. Quaderna considera “uma coincidência epopeica. Gustavo conta a Clara que. Em uma delas. 2007. irmã de Heliana. Dulcinéia é inventada por Dom Quixote a partir de um processo metaficcional. Como vimos. desabotoou o vestido e começou a passar mel nos mamilos. Ariano Suassuna está criando uma antiheliana. como veremos. o narrador nos conta que a moça possuía hábitos estranhos e constrangedores. ao nos apresentar a personagem sob diferentes perspectivas. parenta de Clara conta a Quaderna que ouviu uma conversa entre Clara e Gustavo. Heliana é a perfeita dama de cavaleiro andante dos livros de ficção. Quaderna nos conta que costumava dar consultas astrológicas em seu gabinete. Heliana retirou o mel da colmeia. Quaderna observa que em sua capa havia um escudo bordado com a figura de uma mulher de cabelos soltos e com as mãos cobertas. Quaderna nos conta que Sinésio havia se apaixonado por Heliana quando ainda crianças. Heliana é apresentada ao leitor por meios tortuosos: Quaderna conta ao Corregedor que uma informante sua. logo o amor de Sinésio por Heliana era secreto e impossível..

. “f a d o ”. que aparece duas vezes no . unindo a Verbena. na obra de Suassuna temos três: Clemente.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 255 seja. pois Heliana. assim era Heliana! E eu. loura e angélica. Posteriormente. como a Emília de Diva. Quaderna atribui a Heliana a faceta prostituta. Heliana apresenta facetas opostas: o “negro escarlate da paixão e a cassa da Pureza”. Quaderna compara Clara com Genoveva Moraes. como moça e mulher. fogo e canto do sangue. era espanto e unidade. Quaderna compara Heliana às personagens de Alencar: (. Essa ideia de síntese está na própria concepção da obra de Suassuna: o Romance d’A Pedra do Reino é um modelo do que Suassuna chama de “romance armorial”. a ficção se remete à própria ficção. O movimento armorial9 encabeçado por Suassuna nos anos 70 procura criar uma arte erudita a partir das raízes populares. tendo conhecido Heliana como menina-e-moça e. segundo o narrador. dourado. pelo menos. é uma síntese das duas. neste breve trabalho vimos como a personagem do Romance d’A Pedra do Reino.). isto é. Depois. O cabelo dela era como se tivesse sido formado somando-se o louro de Ceci e Clara com o escuro de Lucíola e Isabel. mas se conjugam. que era irmão de Sinésio. o negro-escarlate da Paixão e a cassa da Pureza. personagem do livro de Cervantes por diversos vieses. “morenadas pelo sol em seu nome. Para Suassuna popular e erudito não se opõem. a mesma idade da irmã de Lucíola. a urtiga. nas quais há também reis e rainhas como no xadrez e há os naipes com duas cores.. porém. É que. entretanto.. para dar um castanho-claro. Inicialmente. De fato. Samuel preferia o jogo de xadrez. Enquanto na obra de Cervantes. o calor e o sol são elementos recorrentes no Romance d’A Pedra do Reino. que significa “sol”. poderia dizer dela tudo o que José de Alencar disse de tantas outras. 504) fragmento “o mel de abelhas” e “embebidas em mel” — elemento relacionado à Heliana. imagens relacionadas ao fogo: “ar ard nte ar d e nt den t es f o g o e o canto do sangue”. e Quaderna. Assim como Dulcinéia.. ardente e no cio. Heliana. duas diferentes perspectivas: a mulher casta Notamos no fragmento. O mesmo processo ocorre com Heliana. cavalo. temos dois protagonistas que aparentemente se opõem (Dom Quixote e Sancho). em Heliana. “d d our av a as oura “d oura d our sol”. Era um fruto verde. e sim em unidade. Corregedor. Sr. essas oposições estão em perfeita unidade. O mel. negro. e era daí que se originava também a penugem macia e rara que lhe dourava as coxas “alvas mas amorenada pelo sol” (. o fogo de Isabel e o angelical de Ceci. p. presente em Dulcinéia. deriva de Helios. Genoveva como Isabel: uma. Enfim. Vejamos. ambas ardentes. Seu amor era “vinho. Clemente preferia a dama (negros contra brancos). não em contradição e separadamente. que é a síntese dos dois: moreno. irmã de Gustavo e noiva de Arésio. as cartas. jogo mais simples e popular. despertava nela a mulher. O fogo. Samuel branco e Quaderna. na “atitude da corça arisca”. Heliana é considerada a dama de um cavaleiro e é apresentada ao leitor por. Mas Heliana juntava tudo isso.) Clara era como Cecília8.. torre etc). quando Dom Quixote descreve sua amada a partir dos retratos femininos da Literatura renascentista. Ao mencionar Lucíola. fino. sempre separando em muitas o que. mais sofisticado e reproduz os personagens da corte (rei. como vimos anteriormente — também apresenta a cor do sol. morena. 2007. com “H”. que é descrita em comparação com as mulheres das obras de José de Alencar.) (SUASSUNA.. Para ele. “aveludada pela pubescência”. o amor felino da Onça jovem e fêmea. “c c hamas embebida em mel”. depois. fruto e chamas embebidas em mel”. Heliana pode ser comparada com Dulcinéia del Toboso. Fogo presente também coxas”. a urze. macio. diferentemente de Dulcinéia. o Vinho. a outra. as duas são opostas. como o jogo de damas. (. pelo que pude ver e adivinhar de seu amor por Sinésio. Essa unidade buscada a partir de oposições (a união dos contrastes) é constante na obra de Suassuna. peão. ela estava com doze anos. Assim como Dulcinéia. o mel de abelhas. rainha. “ambas a r rd te s”. uma recorrência de e e no cio”. quando eu e Sinésio vimos pela primeira vez aquela que seria a Dama e princesa de sua vida.

8 9 Cecília e Isabel são personagens de O Guarani. nº 14. ao mesmo tempo. Em La concepción romántica del Quijote. em determinado momento. Anthony. RILEY. Edward. Sobre Suassuna e o movimento armorial. (2000) Modos de ser. em 2007. assim como Dulcinéia é uma princesa para Dom Quixote. Maria Thereza. GONZÁLEZ. Notas 1 2 A pesquisa conta com o apoio do CNPq. (2005) Perspectivismo y existencialismo. 5 6 7 Lembremos do famoso poema de Góngora “Mientras por competir con tu cabello”. Barcelona: Crítica. 4 Lembremos que Dom Quixote desautoriza o narrador/autor. Barcelona: Crítica. Grifo nosso. p. tese defendida na Universidade de São Paulo. de José de Alencar. vive isolada em uma fortaleza) e. Barcelona: Crítica. Em Introducción al Quijote. que poderíamos considerar lascivos. Sancho Pança e Dulcinéia del Toboso . (2010) Las transformaciones de Aldonza Lorenzo. Tanto uma como outra é descrita. 205-215.256 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS e a lasciva. porém uma cortesã para Sancho. Recife: Editora Universitária da UFPE. Sancho Pança e Dulcinéia del Toboso. defendida na Universidade de São Paulo. Cide Hamete Benengeli. Em Lemir . Ariano Suassuna e o movimento armorial 1970/ 76. Ariano. Lembremos que. SUASSUNA. 3 Sobre o perspectivismo no Quixote. (2000) Ideales e ilusiones. (2000). CLOSE. é descrita como “estranha” e pratica atos. Em Introducción al Quijote. a partir da própria literatura. Célia Navarro (2007). . Emblemas da sagração armorial. remetemos o leitor ao texto de Close (2005. 262-276). Heliana apresenta as características de uma dama (rosto pintado no escudo e amada secretamente pelo cavaleiro Sinésio. é mentiroso. FLORES. à imitação dos cavaleiros ficcionais. Dulcinéia é descrita por Dom Quixote a partir dos retratos femininos da poesia renascentista e Heliana é uma das personagens femininas de José de Alencar. Edición del Instituto Cervantes. DIDER. Referências bibliográficas CERVANTES. pp. RILEY. (2007) Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai e volta. Don Quijote de La Mancha . Rio de Janeiro: José Olympio. ver nossa tese de doutoramente “Da palavra ao traço: Dom Quixote. Da palavra ao traço: Dom Quixote. Dom Quixote pretende pintar um retrato de Dulcinéia em seu escudo. Edward. em um processo de metaficção. Miguel de (1998). quando diz que por ser árabe. no qual ele apresenta os principais estudos sobre o tema. Mario M. Para um estudo mais profundo sobre a construção da personagem Dulcinéia na obra de Cervantes. Barcelona: Crítica. Dirigida por Francisco Rico. ver DIDIER (2000).

escrava governanta da casa. Dominda de Adviento. Durante o vice-reinado da Colômbia. Para a Igreja. além de possuir um nome de batismo visivelmente católico. apesar da pele branca. a menina é vítima de uma manifestação demoníaca. é quem a cria dentro de seus costumes. que caracteriza um ato de exclusão e discriminação: María Mandinga. estigmatizavam-se as pessoas que contraiam a raiva (Rhabdoviridae). principalmente pela Igreja Católica. A demonologização das práticas culturais de origem negro-africana e ameríndia. Trata-se de uma menina que possui um comportamento identificado com o ethos negroafricano. ela dormia na rede do pátio dos escravos junto das outras escravas da casa. aguça a suspeição já existente sobre seu comportamento identificado com o ethos dos escravos. que não aceita nenhuma explicação médica. Tal personagem é uma menina branca que fora criada no pátio dos escravos de sua casa. esse discurso servia à legitimação da inquisição e do sistema escravocrata.UFF Neste trabalho abordo o comportamento da personagem Sierva María de Todos los Angeles da obra Del amor y otros demonios de Gabriel García Márquez. hija de noble y plebeya.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 257 SIERVA MARÍA DE TODOS LOS ÁNGELES E MARIA MANDINGA Cinthia Belonia PG . a personagem adquire um comportamento semelhante ao dos escravos e. La madre la odió desde que le dio de . da posição social considerável em sua cidade e de um nome de batismo católico. por isso. uma estratégia da Igreja Católica para a perpetuação do poder eclesiástico através da imposição do discurso religioso. Mesmo tendo um quarto na casa grande. do título de marquesa. reproduzidas pela personagem. constitui. que não ultrapassa os 13 anos de idade. E foi ali que cresceu: La niña. Devido a essa criação. tuvo una infancia de expósita. Sierva María de Todos los Angeles é uma personagem complexa. recebe também um nome com a marca da migração interlinguística crioula. Seu comportamento rotulado como “negro” passa a ser mal interpretado pela sociedade local. dado por sua mãe. pois após seu nascimento foi negligenciada por seus pais. após ter sido mordida por um cachorro raivoso em companhia de negros. À época (século XVIII na América espanhola). quando. no romance.

e essa livre transição não era permitida aos colonizados. aprendió tres lenguas africanas al mismo tiempo. a beber sangre de gallo en ayunas y deslizarse por entre los cristianos sin ser vista ni sentida. o preconceito étnico-social.54). y un tercero había muerto del mal de rabia en la segunda semana. . Stuart Hall afirma que: A distinção de nossa cultura é manifestadamente o resultado do maior entrelaçamento e fusão. a instância subalterna que executa a sua vingança circulando sem ser visto. Por isso híbrida. proporcionava a Sierva María um sentimento de proteção em relação à sociedade escravocrata. por não podermos classificar a personagem numa única identidade. ela não era uma deles. Sierva María estava completamente sã. por mais que se parecesse com eles devido aos costumes que mantinha.258 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS mamar por la única vez. Pois a menina tinha liberdade para transitar no mundo dos brancos por ser essa a sua Diferente das outras vítimas. filha dessa colonização. Sobre esse aspecto da personagem. Ele atravessa as fronteiras entre senhor e escravo. de diferentes elementos culturais africanos. Esta duplicação resiste ao tradicional elo causal que explica o racismo metropolitano contemporâneo como resultado dos preconceitos históricos das nações imperialistas. baseada em suas estruturas simbólica e espacial comuns – a estrutura maniqueísta de Fanon – articuladas dentro de diferentes relações temporais. cor. Caracterítica típica dos negros e dos colonizados para sobreviverem num mundo de repressão. p. Graças a essa criação negra. ele abre um espaço interalar entre os dois locais do poema. na fornalha da sociedade colonial. 2007. 2011. através da metáfora literária. A história de Sierva María inicia após ela ser mordida por um cachorro na rua quando passeava com uma das escravas fazendo compras para a festa de seus 12 anos. o Hemisfério Sul da escravidão e o Hemisfério Norte da diáspora e da migração. sin duda escamoteados por los suyos para tratar de hechizarlos. Além dela. demarcada pela fronteira que separava o pátio da Casa Grande. asiáticos e europeus. na qual nenhum colonizado poderia experimentar a mesma liberdade que ela. Afinal. podemos chamar de astúcia. Esse resultado híbrido não pode mais ser facilmente desagregado em seus elementos “autênticos” de origem (HALL. O que ela de fato sugere é uma nova compreensão de ambas as formas de racismo. Fazendo sua mãe acreditar que o cachorro contraíra raiva após mordê-la. mas também não tão igual aos negros. É possível que o narrador tenha escolhido esses personagens para sublinhar.24). Transpuesta en el patio de los esclavos. p. Sobre esse hibridismo. como nos ensina Bhabha. ao mostrar que em sociedades estratificadas até os cachorros são preconceituosos. A exclusão geográfica. além de transitar também no mundo dos negros por se identificar com os mesmos. y se negó a tenerla con ella por temor de matarla. Como uma hispano-americana que era. una deidad yoruba de sexo incierto. que então se tornam estranhamente duplicados no centenário fantasmático do inconsciente político. Sobre isso o pensador indo-britânico Homi Bhabha em O local da cultura nos diz que: A invisibilidade apaga a autopresença daquele “Eu” em termos do qual funcionam os conceitos tradicionais de agência política e domínio narrativo. y siempre con una máscara. Dominga de Adviento la amamantó. Sierva María aprendió a bailar desde antes de hablar. la bautizó en Cristo y la consagró a Olokun. p. 2007. 2007. Meses depois: O pátio dos escravos constituía o local onde Sierva María se sentia livre para manifestar seu comportamento dúbio sem sofrer nenhum tipo de discriminação. também foram mordidos três escravos negros. no sentido do suplemento derridiano. y estaba agonizando en el hospital del Amor de Dios (MÁRQUEZ. 91). é o mau olho desencarnado. O que toma (o) lugar. era capaz de atravessar a fronteira que há entre senhores e escravos. p. ela possui características do pluriculturalismo que identifica muitos povos colonizados. cuyo rostro se presume tan temible que sólo se deja ver en sueños. a marquesinha branca cresceu diferente dos seus. A Dos habían desaparecido. 31). mas. culturais e de poder (BHABHA. conseguindo passar entre os cristãos sem ser vista. como un ser inmaterial (MÁRQUEZ. Había un cuarto que no fue mordido sino apenas salpicado por la baba del mismo perro.

afroreligioso e africano (Mandinga). Sabendo disso. Como se só confiasse nos negros. e depois o amargo ressentimento daqueles que foram oprimidos e frequentemente injuriados. é porque o negro e o índio adquirem status de humanidade e as suas culturas começam a ser repensadas dentro dos novos enfoques da História (CHIAMPI.116). um paladar culinário exótico comparado com o europeu. ela suporta. por isso de uma posição social insegura. 2007. Pois.90). sua mãe já a considerava de um comportamento diferente. uma com seus semelhantes e outra com o branco. E alternava seu nome com um nome africano que havia inventado: María Mandinga. con la condicíon de que la muerte de la niña fuera por una causa digna” (MÁRQUEZ. E “ella le aumentaba el susto con una retahíla en lengua yoruba” (MÁRQUEZ. pois comia com as escravas o que era servido no pátio onde eles viviam. Mesmo assim “estaba dispuesta a hacer la farsa de las lágrimas y a guardar un luto de madre adolorida por preservar su honra. Renomeando a filha. visto que: Toda a projeção eufórica do mestiço passa pela reabilitação dos seus componentes raciais: se a mistura de sangues se torna aceitável para o branco. Considerava a menina de uma presença fantasmagórica e muito assustadora. Tal nome era uma forma da mãe demonstrar seu preconceito com os negros e com o comportamento da filha que se assemelhava ao deles. no entanto. 2007. que diz que “é o antisemita que faz o judeu” (SARTRE apud FANON. Frantz Fanon fala em Pele negra Máscaras brancas que o negro tem duas dimensões. principalmente aos brancos. se igualando sempre aos negros. por identificação cultural e afetiva. a menina aproveitava para assustar a mãe fazendo um barulho estranho. aqui. a forma como a mãe se referia à filha. mas sim assume os valores negro do povo no qual se identificava. conotação pejorativa. Esse comportamento se apresentava nas danças africanas que a personagem aprendera desde muito nova. aos olhos do Fanon retoma Sartre. por isso o índio e o crioulo (nesse caso não se trata da cor da pele) não adquiriram. colonizador. Desenvolveu. Um nome que combinava o branco. através de Burns. Como a cor é sinal exterior mais visível da raça.25). Bernarda Cabrera marca a diferença entre as duas. Sua mãe costumava dizer que a única coisa que a menina tinha de branco era a cor. exemplifica. por ter sido colonizado e escravizado. p. católico e europeu (Maria) com o negro. possuía hábitos e valores negros. congo e iorubá. Possuía. p. também. 110). o costume de mentir por vício. o peso desse povo. além desse comportamento. que a menina conhecera antes mesmo do castelhano. ela tornou-se o critério através do qual os homens são julgados. através dela. o status de humanidade. para poder dizer . 2008. pois antes . do país colonizador. Ela não assume os valores da metrópole. Ao falar a língua dos negros. p. Mesmo antes da menina ser mordida pelo cachorro. Sierva María era branca. sendo ela filha de índio e seu marido um crioulo1.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 259 ironia. O negro. Sierva María assume essa cultura. p. que quem cria o inferiorizado é o racista: O preconceito de cor nada mais é do que a raiva irracional de uma raça por outra. p. As raças de pele clara terminaram desprezando as raças de pele escura e estas se recusam a continuar aceitando a condição modesta que lhe pretendem impor (BURNS apud FANON. o desprezo dos povos fortes e ricos por aqueles que eles consideram inferiores. tão comum nas obras de García Márquez. traduzindo o preconceito étnico-cultural característico do período colonial. excluindo-a e exilando-a em um mundo (o dos escravos) onde a carga semântica do nome ganha. não poderiam sofrer a humilhação de ter uma filha com raiva. como diz Fanon. nada mais é do que uma criação europeia. sem se levar em conta as suas aquisições educativas e sociais. E de fato a menina se comporta de forma diferente entre um e outro. 2008. nas línguas mandinga.56).

38). E assim como Dominga de Adviento. Fanon afirma que o negro é visto pelo branco como a figura do mal.. [. p. e explica que o que há com ela é uma possessão. E assim. ela . segundo Hall. que se atém a duas religiões. não é estranho o fato de Sierva María ser considerada uma possessa por apresentar um comportamento negro. mas que permanece em sua indecidibilidade” (HALL.260 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS do contato com o branco ele não se sentia inferiorizado por nenhuma outra raça. o padre-bibliotecário e braço direito do bispo. Este conversa com o pai da menina. mas sim para o “camino do branco. 2007. Quem fazia a ligação entre os dois mundos nos quais a menina vivia era Dominga de Adviento. y practicaba ambas a la vez.67). Ao perguntarem o que aconteceu com seu tornozelo. Em Os condenados da terra. e os dois dizem que Deus os deu meios para salvar sua alma. 20). Pois a Igreja é de brancos. uma possessão demoníaca e o sucesso em seu exorcismo. o que o bispo realmente pretende é colonizar e usá-la como exemplo e demonologizar as práticas culturais oriunda dos negros e ameríndios. p. Mas o que incomodava a Igreja era a sabedoria do médico. p32). Stuart Hall fala sobre o hibridismo religioso que presenciou tanto no Haiti como na Jamaica. p. antes de iniciar seu trabalho” (HALL. Fanon diz que a Igreja das colônias não chamavam os colonizados para a religão. do estrangeiro e colonizador. pôde sentir a “África” devido à forma como os deuses africanos foram combinados com os santos cristãos no vodu haitiano. O escândalo dos vexames e desvarios de Sierva María chega aos ouvidos do bispo da diocese. a escrava governanta da casa e quem criara Sierva María: “Se había hecho católica sin renunciar a su fe yoruba. uma das escravas do local a vê no pátio e reconhece os colares de candomblé. onde. animal e. Dessa forma. pois o que se dizia nas ruas era que a menina “rueda por los suelos presa de convulsiones obscenas y ladrando en jerga de idólatras” (MÁRQUEZ. até mesmo. Delaura. A menina é internada num convento porque. do opressor” (FANON. como um selvagem. sin orden ni concierto” (MÁRQUEZ. o diabo. pois o baile na terça-feira de carnaval vem seguido da missa na quarta-feira de cinzas. a los noventa y tres días de ser mordida por el perro y sin ningún síntoma de la rabia” (MÁRQUEZ. que representa a razão na obra. do pecado. cristão e vodu. em todo lugar há a différance. era uma boa propaganda para a Igreja Católica. 2007. O bispo diz ainda. se é negro – tanto faz se isso se refira à sujeira física ou à sujeira moral” (FANON. Ele alerta ainda que o termo “hibridismo não se refere a indivíduos híbridos. tanto na figura do carrasco quanto na figura de Satã. p.] Trata-se de um processo de tradução cultural. que a menina não deveria estar aos cuidados do médico Abrenúncio. está presente em toda a América Latina no “pecado-contriçãoabsolvição”. e sabia que a personagem não estava possessa.76-77). 2011. considera junto a este que o corpo da menina não tem salvação. como é o caso da personagem aqui trabalhada. 160). 2008. segundo Hall. dom Toribio de Cárceres y Virtudes. agonístico uma vez que nunca se completa.. além da escrava Dominga de Adviento. Esse hibridismo. Na Europa o mal é sempre representado pelo negro. 71). Ao chegar no convento. Ao querer salvar a alma da personagem. e este é crucial à cultura. do amo. pois a diferença é essencial ao significado. 1961. marquês de Casalduero. 2007. leva-a até a cozinha. E acrescenta: “fala-se de trevas quando se é sujo. por este ser judeu. fazendo isso no dia seguinte: “Fue en la última celda de ese rincón de olvido donde encerraron a Sierva María. o contemporâneo pintor francês André Pierre “fazia uma prece a ambos os deuses. o marquês de Casalduero se convence de que deve internar sua filha no convento de Santa Clara. 2011. p. E foi nesse hibridismo que Sierva María cresceu. p. que vive na indecidibilidade da cultura negra a de sua etnia branca. Nos diria Hall. numa época de Inquisição. com isso.

anormais.) Una niña endemonia dentro del convento tenía la fascinación de una aventura novedosa (MÁRQUEZ.84). Segundo o filólogo cubano Rogelio Rodríguez Coronel: Queda explícito. o con las bestias de cualquier pelaje (MÁRQUEZ. mejor que ellos mismos entre si. Não só a abadessa. p. que eran las partes que más lê gustaban. Hacía gala de un don de lenguas que le permitía entenderse con los africanos de cualquier nación. Ao conversar com a abadessa deixa . en síntesis. pareciam ter mais curiosidade que medo: Pero los terrores de las clarisas eran contradictorios. claro de que não há provas de que a menina esteja de fato possessa. Sendo considerada pelas freiras dona de uma força de outro mundo. Como haviam dito para ela que a menina estava possuída. Cayetano Delaura é o único na obra a perceber que a acusação de possessão feita pela Igreja à menina foi devido à intolerância e ignorância desta para com o comportamento negro e afro-religioso da personagem. considerados por elas. no entanto não sabe ainda de quem se trata. eurocidental y católica (CORONEL. representada por la clase dominante. Sempre que alguém tenta tirar seus colares (Sierva María usava colares de candomblé. movidas pelo tédio. E diz que o que parece demoníaco para eles (católicos) são os costumes negros que a menina aprendeu ao viver no pátio dos escravos após o abandono dos pais. 2007. Mas as clarissas.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 261 responde que sua mãe fez isso com uma faca. que las manifestaciones ‘de caráter africano’ (precisamente las religiosas y las danzarias. Al almuerzo se comió un plato con las criadillas y los ojos del chivo. y se comió las criadillas y los ojos aliñados como fuego vivo. noviças do convento de Santa Clara.78). tudo o que acontece daí em diante no convento será atribuído aos demônios presentes em Sierva María. guisados en manteca de cerdo y sazonados con especias ardientes (MÁRQUEZ. y aun los que no entendían la escucharon absortos. pues a pesar de los aspavientos de la abadesa y de los pavores de cada quien. p. mas todas as freiras do convento lhe atribuem todos os acontecimentos. usa desse estratagema para esconder a verdade sobre o tornozelo mordido pelo cão raivoso. 2007. y les ganó a todos. E assim. la celda de Sierva María se convirtió en el centro de la curiosidad de todas. foi para a cozinha erguendo o crucifixo que trazia pendente ao pescoço.49). E diz ao bispo que as atas onde as clarissas anotavam o comportamento da menina serviam mais para justificar a mentalidade da abadessa que o estado de Sierva María. E diz ainda que mesmo que não esteja possuída. Sierva María recupera seu mundo: Ayudó a degollar un chivo que se resistia a morir. de certa forma. A Igreja condenava à fogueira ou a outros castigos todos aqueles que. disse Maria Mandinga. Jugó al diábolo con los adultos en la cocina y con los niños del patio. Lê saco los ojos y le cortó las criadillas .. além de uma escapulário) ela se altera com muita agressividade. Cayetano Delaura fora incumbido pelo bispo de cuidar do caso. E ao conhecer Sierva María. pois como tinha o costume de mentir por vício. outro motivo forte que levava a Igreja a condenar (através da Inquisição) as pessoas é o fato de se tratar de uma estratégia de controle e dominação políticosócio-cultural. 1993. p. Cantó en yoruba. Ao ser informada de que o canto era produzido pela “possessa” que ela aguardava. en congo y en mandinga. E quando perguntaram seu nome. vê apenas uma menina pura e indefesa. p. intimamente relacionadas y privilegiadas en ese mundo) eran contrarias a la ‘civilización’ y a las ‘buenas constumbres’. Sobre as atas: Decían que la niña se había complacido descuartizando un chivo que degolló con sus manos.107) A abadessa do convento ao ouvir o canto da menina fica deslumbrada com sua voz. naquele convento ela tem todas as condições possíveis para que isso aconteça. blanca. (.. 2007. ameaçavam sua hegemonia religiosa e política. Além da intolerância e ignorância.

Miryam Ávila. animais e plantas que se transportaram para o continente americano a partir de 1942. nascido nas colônias europeias de além-mar. o dialeto português falado em Cabo Verde e em outras possessões portuguesas da África.. ULISSEIA. particularmente as das Américas. pela abadessa e pelo bispo. Crioulização e Crioulidade. p. sua família. CORONEL. nº1.262 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS García Márquez apresenta em Del amor y otros demonios uma América de brancos. Sierva María. católicos de ascendência européia. Frantz (1961): Os condenados da terra. HALL. em Conceitos de Literatura e Cultura. que por serem considerados inferiores pelos europeus e seus descendentes de cor branca. Sobre essa América Chiampi afirma: Os elementos que compõem a imagem da América bárbara são identificados com a herança espanhola (a Inquisição. Eliana Lourenço de Lima Reis. _______ (2008): Pele negra máscaras brancas. Universidade Federal do Rio de Janeiro. Nota 1 O termo crioulo é “egresso do latim criare com o sentido de educar. nascidos nas Américas. Trad. e de negros.. o negro nascido nas Américas. FANON.” (cf. E o definiram como uma possessão. homens de todas as raças. a ignorância) – inclusive nas zonas de culturas autóctones superiores (CHIAMPI. do europeu sobre os povos das Américas. a escravidão. Serafim Ferreira.Belo Horizonte: EdUFMG. não percebiam que o que a menina tinha era um comportamento diferente do europeu. Rio de Janeiro. Homi K (2007): O local da cultura . entretanto. Forma e Ideologia no Romance Hispano-Americano. (. Centro de Letras e Artes. os escravos e a população nativa dessa Colômbia.. de classes subalternas. Brasília: Representação da UNESCO. In: Terceira Margem: Revista de Pós-Graduação em Letras. o termo crioulo não só indica os membros. fanáticos em suas crenças. Belo Horizonte: EdUFMG. mas. 1980. o despotismo) e com o substrato indígena (a perfídia. Irlemar (1980): O Realismo Maravilhoso. o termo identificava os que nasciam e eram educados nas Américas sem ser originários delas como os ameríndios. Ano 1. Stuart (2011): Da diáspora: identidades e mediações culturais .) O Novo dicionário de língua portuguesa de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira define crioulo como: o indivíduo de raça branca. Rogelio Rodríguez (1993): Marginalidad y literatura en textos afrocubanos de origen yorubá . p.. também. 2005.110). Buenos Aires: Debolsillo. dominando também de crioulo o dialeto falado por essas pessoas. O que na verdade era um comportamento semelhante ao dos escravos. (. Referências bibliográficas BHABHA. Gabriel García (2007): Del amor y otros demonios. passando.) . como já havia dito Fanon. MÁRQUEZ. que. a indolência. no segundo caso. muitas vezes carregadas de preconceito. o primitivismo. A contraposição América e Europa no antagonismo entre a inocência do primitivo e a degeneração da razão é representada na obra por. Trad. Lisboa: Ed. era facilmente visto como algo demoníaco. Renato da Silveira. e. refere-se à lógica sincrética do crioulo vernacular como modelo inclusivo com um majoritário aporte de construções sociais. afro-religiosos e primitivos. a indolência e o primitivismo são construções estereotipadas que legitimavam a visão deturpada.) Na América hispânica. Editora Perspectiva. respectivamente. Faculdade de Letras – PósGraduação. Gláucia Renate Gongalves. Magdala França Vianna. CHIAMPI. 103-5. Salvador: EDUFBA. A perfídia. a indicar. por extensão.

imágenes.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 263 ESPACIOS. en este trabajo se recorre la palabra del escritor granadino a la luz de los ingredientes de los que se ha nutrido la historia y el fértil imaginario de su tierra natal. leyendas. Y entre las múltiples propiedades que hicieron de su obra un tesoro inmortal se encuentra ese ingenio único para mezclar en un cóctel singular la tradición milenaria y la vanguardia. así como del conocimiento adquirido gracias a una enorme curiosidad hacia la historia de su propio pueblo. la obra de Lorca no ha dejado de expandirse hasta alcanzar una posición universal en el mundo de la literatura. creencias. Pocos escritores en lengua castellana han alcanzado una trayectoria semejante después de su muerte. Andalucía. MITOS Y CLAVES DEL IMAGINARIO ANDALUZ EN LA POESÍA DE FEDERICO GARCÍA LORCA Clara Pajares Gil Universidade Federal de Viçosa Desde su violento asesinato en 1936 a manos del bando fascista. La formación del complejo universo simbólico lorquiano se nutre. La posición geográfica de Andalucía la convirtió en tierra de paso de diversos pueblos ya desde la prehistoria. Nos acercaremos a un poeta que es heredero de viejísimas culturas. Ya desde inicios de la Edad de Piedra se encuentran muestras de culturas prehistóricas en Andalucía. se debaten a medio camino entre el mito. 1989. entre África y Europa. universalizando Andalucía y convirtiéndola en un espacio mítico en el que confluyen todos los grandes temas y las grandes preguntas (GARCÍA-POSADA. las mismas que han dado lugar a una región cuyos orígenes.87). En ella se encuentra la Punta de Tarifa que es el lugar más al sur de la Europa continental y el más cercano al continente Africano. además de las experiencias y lecturas particulares. entre el Atlántico y el Mediterráneo. la leyenda y la historia. tan sólo catorce escasos kilómetros de agua separan ambos continentes. que componen el entorno de su niñez y adolescencia. y foco de atracción de grandes civilizaciones. Una región mucho más cercana a Marruecos que al propio norte de España. Se ha considerado un lugar geoestratégico al hallarse en el extremo sur de la Península. Con la pretensión de ser capaces de abrir ventanas inéditas desde las que poder asomarse a la obra lorquiana. de los paisajes. perdidos en la noche de los tiempos. p. supersticiones. etc. En los valles del Guadalquivir y del .

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Guadalete se encontraron guijarros tallados como primer exponente del paso del homo hábilis y ya en el último estadio del Paleolítico superior, la etapa llamada magdaleniense aparecen las primeras manifestaciones artísticas del hombre de CroMagnon andaluz en diversas cuevas malagueñas y gaditanas. Algunas de éstas, tras el paso y la huella de sucesivas generaciones prehistóricas, acabarían convertidas en auténticos santuarios profusamente decorados con toda clase de motivos zoomórficos, cinegéticos, mágicos etc. Destacan también, repartidos por casi todo el territorio andaluz, los monumentos funerarios megalíticos (MAZARRASA, 1980, p.33-48). Varios de estos sepulcros fueron encontrados en la provincia de Federico García Lorca, Granada. Eran monumentos dedicados al culto de los antepasados, generalmente levantados en lugares altos (para ver y ser vistos), en sociedades que comenzaban tener una relación particular con la muerte y a conceder importancia a la memoria de sus antepasados. Hay quien, como Gómez-Moreno, considera que los monumentos megalíticos andaluces de la Edad del Hierro constituyen el único testimonio arqueológico capaz de sustentar racionalmente el mito de los Tartesios (MAZARRASA, 1980, p.48). Caro Baroja, sin llegar a mencionar ninguna civilización, afirma: “Es lícito pensar que acaso algunos de los grandes sepulcros megalíticos andaluces fueran hechos para grandes reyes de tipo faraónico” (MAZARRASA, 1980, p.52). No sería una aberración pensar que el poeta granadino pudo encontrarse cerca de alguno de estos mausoleos arcaicos, estudiarlos u oír hablar de ellos en algún momento de su infancia. El culto de la tradición andaluza a la muerte (cuyo origen, como vemos, nos remonta al Neolítico) es un tema recurrente en la literatura lorquiana. El poeta dice que España es un país de danzas milenarias (haciendo alusión a pueblos ancestrales) y también de muerte, donde la gente cobra verdadera importancia después de abandonar la vida. Un país que exhibe a sus difuntos, donde “un

muerto está más vivo como muerto que en ningún sitio del mundo” (LORCA, 2004, p.154). En los escritos lorquianos se manifiesta un especial interés por las primeras civilizaciones que pasaron por Andalucía, como la de los tartesios. Situada a medio camino entre la Prehistoria y la Historia, en la llamada Protohistoria, la tartesia fue considerada por los griegos como la primera civilización de Occidente. Esta cultura, según el arqueólogo e historiador Adolf Schulten, prosperaría gracias a la riqueza metalúrgica de la zona (enclave importante de comercio de cobre y estaño) (MAZARRASA, 1980, p.55) que atraería a fenicios, griegos e indoeuropeos. Y la imaginación de algunos antropólogos y estudiosos (entre los que se encuentra el propio Schulten) ha querido asociarla a la fabulosa Atlántida de Platón, que algunas teorías presuponen que fue levantada en el espacio correspondiente al actual Parque Nacional de Doñana. A manos de Lorca llegaría un artículo que Schulten publicó en la Revista de Occidente en 1923 y que se refiere a los tartesios como la civilización más antigua de occidente (JOSEPH Y CABALLERO, 2006, p.21). Numerosos autores de la Antigüedad cuentan historias sobre los tartesios. Estesícoro, en su poema Gerioneida , habla de un fundador de la dinastía tartésica, el rey Gerión, poseedor de rebaños de vacas y toros. García Lorca también lo menciona en su ensayo Juego y teoría del duende : “Allí estaban los Floridas, que la gente cree carniceros, pero que en realidad son sacerdotes milenarios que siguen sacrificando toros a Gerión”. Este sería quizá un modo literario de situar históricamente un primer precedente de la tauromaquia, a la que Lorca dedicará poemas como La cogida y la muerte o Llanto por la muerte de Ignacio Sánchez Mejías. Justino, escritor romano del s.II d.C., habla de los habitantes del bosque de los tartesios, cuyo rey fue Gargoris, padre de Habis. Habis había sido fruto de amores incestuosos (cosa frecuente en las dinastías divinas

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de la tradición mítica mediterránea) y sería considerado como un rey muy beneficioso para su pueblo, dictando las primeras leyes, enseñando a labrar la tierra y dividiendo la sociedad en castas. En su Ora Marítima, Avieno (poeta latino del siglo IV d.C.) alude a la tierra tartesia (identificándola con el territorio correspondiente a la actual Cádiz) como a una ciudad opulenta. En Juego y Teoría del duende Lorca menciona al que fue considerado el último rey tartesio: “Allí estaba Ignacio Espeleta, hermoso como una tortuga romana, a quien preguntaron una vez <¿Cómo no trabajas?>; y él, con una sonrisa digna de Argantonio, respondió: <¿Cómo voy a trabajar, si soy de Cádiz?>” (LORCA, 2004p. 152) Heródoto nos cuenta que el rey tartesio Argantonio gobernó durante ochenta años (entre 630 y 550 a.C aproximadamente). Pero a partir del año 500 a.C ya no se tienen más noticias sobre los tartesios. Su desaparición aún continúa siendo un misterio (MAZARRASA, 1980, p 51-63). Después de los tartesios las civilizaciones más destacadas (previas a la conquista católica de la Península completa en 1492) que pasaron por Andalucía fueron: Turdetanos, griegos, fenicios, cartagineses, romanos, vándalos, visigodos, musulmanes y judíos. Se calcula que los gitanos llegarían a la Península en el siglo XV y proliferarían (aunque despreciados y marginados) sobre todo en época de dominio católico. Este cúmulo de costumbres, tradiciones y religiones heredadas de todos estos pueblos aparece claramente reflejado en los versos lorquianos. Pero lo interesante es de qué modo se presentan estos elementos, originalmente amalgamados y manifestando asociaciones interculturales estilizadas por la subjetividad artística del genio granadino que revelaban el mestizaje que Lorca respiraba en su propio ambiente. Si nos deslizamos atentamente a través de sus versos, observaremos que Lorca era conocedor de la historia de Andalucía anterior al catolicismo y al

islamismo. Encontramos multitud de referencias a la Antigüedad Clásica. Alusiones a los dioses del panteón, como en el poema San Rafael: “Y mientras el puente sopla/ diez rumores de Neptuno, / vendedores de tabaco/ huyen por el roto muro” (LORCA, 2012, p.84) A la cultura latina en poemas como El emplazado: “Y la sábana impecable, / de duro acento romano, / daba equilibrio a la muerte/ con las rectas de sus paños” (LORCA, 2012, p.101) O a las guerras púnicas, recordemos el poema Reyerta en el que dice: “Han muerto cuatro romanos/ y cinco cartagineses” (LORCA, 2012, p.66). Para Lorca, Andalucía representaba, entre otras cosas, un pequeño oriente dentro de occidente, generado básicamente gracias a las aportaciones de dos culturas: la árabe y la gitana (esta última llegada desde la Península indostánica). Los musulmanes permanecerían más que ninguna otra civilización en el sur de la Península ibérica (casi ocho siglos), por eso su influencia en la literatura y en las diversas artes será capital. Hasta el punto de que con ellos nacen las primeras manifestaciones líricas (conservadas por escrito) en español, las jarchas (aquellos poemillas breves, en lengua romance que acompañaban a las extensas moaxajas árabes o hebreas). Lorca había nacido en un pueblo, Fuentevaqueros, de la provincia de Granada, la ciudad de la Alhambra, último baluarte del islam hispánico. En la poesía lorquiana aparecerán referencias al pasado musulmán, frecuentemente diluyendo el elemento árabe en otros de la tradición cristiana (al igual que ocurría en Al Ándalus). En el poema San Rafael encontramos: “El arcángel aljamiado/ de lentejuelas oscuras” (LORCA, 2012, p.85) O en el poema San Miguel dice: “San Miguel, rey de los globos/ y de los números nones/ en el primor berberisco/ de gritos y miradores” (LORCA, 2012, p.82). Algunos símbolos característicos de la escritura lorquiana, como la luna y el color verde, también guardan una estrecha relación con la cultura

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árabe. La luna es el símbolo del islam, cultura que también concederá importancia a la noche desde un punto de vista literario. Y el color verde, del que tanto se ha hablado, constituye dos de las franjas de la bandera de Andalucía (a este verde se le ha llamado verde omeya , haciendo alusión a la dinastía de Al Ándalus). También el verde es el color de los infinitos olivares del sur de España y remite a la piel morena “aceitunada” de los gitanos. Su poema Crótalo es otra muestra del gusto del poeta por remontarse a un pasado remoto cuyos objetos guardan un vínculo estrecho y casi secreto con otros de la actualidad. En dicho poema Lorca establece una evidente conexión entre el antiguo instrumento musical de la tradición oriental y las castañuelas. Llama al crótalo “escarabajo sonoro”, imagen que se corresponde bastante bien con la de una castañuela, si pensamos en el típico escarabajo negro que abunda en tierras andaluzas (cuyo aspecto ciertamente se asemeja al de una castañuela) y describe el movimiento como “araña de la mano”. Esa imagen, dotada de gran plasticidad, remite directamente al movimiento de las manos cuando se tocan las castañuelas (LORCA, 2006, p.201). Para Francisco Umbral, Lorca paganiza , esoteriza y regionaliza el cristianismo andaluz en sus romances. Señala Umbral que, en el Romance de la Guardia Civil española, desacraliza e identifica la condición de judíos de la Virgen y San José con la de gitanos. Estas dos minorías (los judíos y los gitanos) habían estado proscritas por el catolicismo, imperante en Andalucía desde 1492 (UMBRAL, 2012, p.123). Como es sabido, Lorca fue un gran admirador de la cultura gitana, cuyos ambientes frecuentó. Sus visitas a las casas-cueva, hogar de los gitanos del Sacromonte granadino y escenario de fiestas flamencas, quedarían plasmadas en poemas como Cueva, en el que dice que: “El gitano evoca/ países

remotos” (LORCA, 2006, p.161), dejando constancia de la raíz oriental y exótica de los gitanos. En sus voces encuentra Lorca los ecos de matusalénicas culturas ya profundamente mezcladas con la, también viejísima, alma andaluza, cuya condición híbrida había dado lugar a fenómenos muy apreciados por el poeta, como el Cante Jondo. Nos cuenta Ian Gibson en su biografía de Lorca que un Lorca jovencito acompañó durante varios días a Ramón Menéndez Pidal a las cuevas del Sacromonte granadino para recoger romances orales (GIBSON, 1985, vol. I, p.300). Tras aquel acercamiento filológico (en compañía de Menéndez Pidal) a los romances vivos del Sacromonte (con el que el poeta quedó encantado), no es casualidad que Lorca sienta predilección por esta combinación métrica para su Romancero Gitano, considerándola el molde idóneo. Lorca (al igual que habían hecho otros poetas del Barroco y del siglo XIX) revitaliza una forma primitiva y oral que se mantenía en el mundo hispánico desde los albores medievales de su literatura. La pasión de Lorca por todas aquellas viejas culturas que entretejieron la historia mestiza del sur de la Península Ibérica nos transporta en un viaje que comienzó en la Prehistoria. Todos estos pueblos están, de algún modo (más o menos explícito), evocados en la pluma del poeta granadino. Porque, más allá del localismo folclórico anecdótico, más allá del egocentrismo y del subjetivismo literario, Lorca ha sabido proyectarse hacia el exterior, captar la esencia de una tierra compleja y saltar de lo antropológico a lo poético y de lo poético a lo inmortal.

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POESIA E FICÇÃO NA OBRA DE ROBERTO BOLAÑO: INTERSEÇÕES

Clarisse Lyra Simões PG - USP

Parece haver se formado já entre a crítica e os leitores de Roberto Bolaño um consenso sobre a menor valia de sua poesia em relação à sua prosa. Exemplo disto pode ser observado neste congresso, em que temos duas mesas de comunicações dedicadas ao autor (Cervantes lidera com três mesas, Bolaño vem na sequência) e nenhum trabalho que trate especificamente de sua produção poética. O meu texto, como vocês irão notar, não foge à regra, tendo como objetivo principal especular o modo como a poesia pode se imiscuir em suas narrativas, e não o contrário. Não deixa também de ser emblemático o fato de o mercado editorial brasileiro vir ignorando a grande parcela da obra de Bolaño escrita em verso. O crítico Matías Ayala, por exemplo, defende que o trabalho poético do chileno se tornou parte da “pré-história do narrador”, um trabalho que pode ser tomado como um “ índice biográfico-literario para investigar retrospectivamente su proceso creativo ” (AYALA, 2008, p. 98), mas cujo valor literário é relativizado, não chegando a ser comparável com o de sua produção ficcional. Ayala afirma que “el hecho de […] dejar de escribir en la primera persona del

singular le permitió [a Bolaño] sobrepasar los escollos de una lírica en la que no parecía destacar” (ibidem, p. 99), concluindo que
[...] se puede afirmar que Bolaño deja de escribir poesía para escribir sobre poetas, para ficcionalizar su propia vida azarosa y su fracasada carrera poética en Los detectives salvajes. Bolaño se sabe un mal poeta, y publica para demostrar y atestiguar que ha fracasado (ibidem, p. 100).

Esta passagem da escritura de Bolaño, que nos anos 90 se afasta da poesia, passando a escrever principalmente ficção, aparece ficcionalizada em Los detectives salvajes e é aludida com frequência pela sua crítica. Andrea Cobas Carral e Verónica Garibotto vêm nisto um trânsito que se relaciona com a economia da escrita, que se desloca desde “la poesía como una práctica que se desarrolla mayormente por fuera del mercado a la narrativa como un ejercicio de supervivencia ” (COBAS CARRAL e GARIBOTTO, 2008, p. 178). Alan Pauls, por sua vez, reflete sobre como em Los detectives salvajes – “un gran tratado de etnografía poética” (PAULS, 2008, p. 328), segundo ele - Bolaño “hace brillar a la Obra por su ausencia” (ibidem, p. 328), substituindo o idealismo que

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geralmente cerca a figura do poeta pela colocação em cena do que ele chama, segundo a “gran tradición del melodrama de artista”, “sed de vivir” (ibidem, p. 328). Diz Pauls:
Operación extraña, la de Los detectives salvajes: la poesía – la “obra poética” – queda afuera, del lado de lo real, de lo real-histórico (Mario Santiago, el infrarrealismo, la historia de la poesía mexicana, etc.); y lo que entra, lo que se infiltra en la ficción y ocupa el sistema circulatorio de la literatura, es algo que sólo creíamos conocer (y despreciábamos) bajo la forma del peor de los estereotipos: la Vida misma, la Vida Poética (ibidem, p. 328).

e sus configuraciones literarias ” (ibidem, p. 3), e levantando nos textos estudados procedimentos como o apelo afetivo ao destinatário, a adesão ideológica e o ocasional predomínio da emotividade (em Amuleto ), a crítica chilena acredita que, por muitas vezes, o “eu” emerge na narrativa de Bolaño, elidindo a distância imposta pela referencialidade e fazendo-se notar no texto um “profundo deseo [do autor] de estar sin distancia presente en su obra ” (ibidem, p. 16). Tais disposições, que corroboram os estudos da autoficção na narrativa bolañiana, interessam aqui na medida em que Solotorevsky as introduz não apenas como expediente narrativo, mas como uma espécie de resquício ou substrato lírico. Sabemos, é verdade, e Julio Cortázar escreveu sobre isto, que não existe uma linguagem romanesca pura (CORTÁZAR, 1994, p. 143). Segundo o argentino, “toda narración comporta el empleo de un lenguaje científico, nominativo”, que se alterna e se imbrica com “un lenguaje poético, simbólico” (ibidem, p. 143, grifo do autor). Além disto, já fora de uma instância puramente verbal, diz Cortázar que o romance conta ainda com o que ele chama de “aura poética”, “atmósfera que se desprende de la situación en sí [...], de los movimientos anímicos e acciones físicas de los personajes, del ritmo narrativo, [de] las estructuras argumentales” (ibidem, p. 144). Acima de qualquer teorização, no entanto, Cortázar considera o romance um “imenso baú”, uma forma sem leis (CORTÁZAR apud GONZÁLEZ BERMEJO, 2002, p. 73), tendo chegado a afirmar: “Há romances que são poemas. Há poemas que são romances” (ibidem, p. 72). A hipótese que nós gostaríamos de aventar neste ar tigo, tendo em conta esta prévia de informações, se erige contra a seguinte ideia, sustentada por Matías Ayala (crítico já citado no início do texto):
Esta segunda sección de la obra poética de Roberto Bolaño [aqui ele se refere à obra poética adulta de

Não obstante estas opiniões que enfatizam a passagem de um gênero a outro, o poeta catalão Pere Gimferrer enxerga na narrativa em prosa de Bolaño “una forma, apenas mascarada, de poema”, e afirma que “sus ficciones son tan poéticas cuanto narrativos son sus poemas ” (GIMFERRER, 2006, p. 7). Tais asseverações, em grande medida contrárias à crítica que insiste em uma mudança substancial de gênero, nos levam a pensar em como poderia o poema subsistir na produção ficcional de Bolaño, resposta que Gimferrer não nos dá. Myrna Solotorevsky aponta uma perspectiva interessante para a consideração deste questionamento. Em ensaio sobre a “Anulación de la distancia en novelas de Roberto Bolaño”, ela defende que, apesar do trânsito executado por ele do gênero lírico (no qual predomina a função emotiva e a expressão da interioridade do falante) ao narrativo (ao qual corresponde a função referencial), restam em sua ficção marcas “de esa proximidad al ‘yo’ y de su necessidad de manifestación” (SOLOTOREVSKY, 2008, p. 3). Analisando variadas obras do autor, tais quais as novelas Amuleto, Estrella distante, Amberes e La pista de hielo , Solotorevsky estima que “ el Bolaño presente en sus textos remite a [...] un pseudo-referente real ” (ibidem, p. 3). Considerando, contudo, o “Bolaño real” e as “equivalencias entre este, su biografía

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Bolaño, os libros Tres , Los perros románticos y Fragmentos de la universidad desconoc ida , publicados durante os anos 90], variopinta, y poco concentrada, parece ser la compilación de textos escritos a lo largo de los años más que un razonado o persistente proyecto poético. Se puede conjeturar que para entonces estaba concentrado en su narrativa y la poesía la ejecutaba en honor a los viejos tiempos (AYALA, 2008, p. 91-92).

cantadas no por hombres, sino por fantasmas (ibidem, p. 109).

Entre as qualidades que se associam à poesia em sua obra crítica, e mesmo em seus poemas, aparecem sempre as palavras (tão repetidas por ele) “ valentía ”, “ voluntad ”, “ valor ”, e jamais qualquer menção a uma condição específica de linguagem.

Nossa hipótese, portanto, é a de que havia sim um projeto poético posto em marcha por Bolaño, e que este projeto incluía não somente a sua produção em verso, mas também a sua narrativa. Longe do esquematismo pretendido pelo crítico chileno, que chega quase a opor poesia e ficção na produção de seu compatriota, acreditamos que a relação entre ambos gêneros em Bolaño se dá por contaminação e fluidez, em uma relação ambígua difícil de ser equacionada. Para justificar a falta de limites precisos entre poesia e prosa que vemos na obra de Bolaño, seria necessário recorrer às suas possíveis concepções de poesia. A concepção expressada por ele em ensaios e textos críticos (cuja formulação nunca se aproxima do conceito) parece extrapolar qualquer ideia de forma ou estrutura. É uma concepção que tem por base preceitos outros que não o de verso ou o de “infinitos juegos de la Analogía” (CORTÁZAR, 1994, p. 144), mas que parece orientar-se por uma espécie de caráter da poesia, e que poderia tranquilamente ser contemplada pela narrativa. Sobre o escritor chileno Pedro Lemebel, por exemplo, Bolaño disse: “Lemebel no necesita escribir poesía para ser el mejor poeta de mi generación. Nadie llega más hondo que Lemebel” (BOLAÑO, 2006, p. 65). Sobre os poetas em geral, afirmou:
No hay nadie en el mundo más valiente que ellos. No hay nadie en el mundo que encare el desastre con mayor dignidad y lucidez. Son, en apariencia, débiles, […] y trabajan en el vacío de la palabra, como astronautas perdidos en planetas sin salida posible, en un desierto donde no hay lectores, ni editores, apenas construcciones verbales o canciones idiotas

Também em seus romances encontramos formulações significativas desta tensão. Em 2666 , lemos: “Ingeborg le preguntaba a Reiter por qué no escribía poesía y Reiter le contestaba que toda la poesía, en cualquiera de sus múltiples disciplinas, estaba contenida o podía estar contenida, en una novela ” (idem, 2004, p. 969). Em Amuleto, por sua vez, se enuncia a seguinte profecia: “ La poesía no desaparecerá. Su no-poder se hará visible de otra manera” (idem, 2009, p. 134). Não por acaso, Amuleto se encontra em alto grau contaminada pela poesia. Relato construído a partir de uma temporalidade múltipla e cambiante, nele Bolaño logra elidir o tempo uniforme tradicional da narrativa, através de uma enunciação extremamente lírica da narradora e protagonista Auxilio Lacouture. No capítulo 9 do livro, exemplar neste sentido, oscilam três tempos: os anos 1963 imaginado, o 1968 rememorado, e o tempo da enunciação, que não se sabe ao certo quando é. Nós percorremos o fluxo da consciência de Auxilio e nos perdemos nele como ela própria, já que nenhum dos tempos de seu relato é sólido, nenhum constitui o que se poderia chamar o “tempo da realidade”. Se o comum nas memórias é o tempo da enunciação funcionar como base, como ponto a partir do qual se organizam as experiências, neste relato a base encontra-se desestabilizada, pois é um espaço – o banheiro feminino do quarto piso da UNAM, onde a protagonista permaneceu enclausurada durante a invasão da universidade em 1968 – que funciona como mirante, já descolado no tempo, flutuante, a partir do qual Auxilio vê o seu passado e o seu futuro.

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Encontrar-se no banheiro, para esta uruguaia residente no México, não implica necessariamente um relembrar: este é um espaço que ela ainda habita (pelo menos imaginativamente). Ele não se restringe, portanto, à experiência do ano ‘68, ele se desloca no tempo e se transforma no teatro de suas visões: em determinada cena, por exemplo, Auxilio estende a mão no banheiro para apontar o quadro instalado na sala da casa de Remedios Varo, que ela visita em sonho; em outra sequência, a voz da Remedios do sonho de Auxilio se perde entre os ladrilhos do banheiro da UNAM. Tal disposição temporal nos remete ao texto de Octavio Paz que diz: “a crise da sociedade moderna manifestou-se no romance como um regresso ao poema” (PAZ, 1996, p. 72). E mais adiante: “desde os princípios deste século o romance tende a ser poema de novo” (ibidem, p. 73). Neste ensaio sobre a “Ambiguidade do romance”, Paz faz referência a autores como James Joyce, Marcel Proust e William Faulkner. Sabemos que eles, através do monólogo interior, aboliram a perspectiva, eliminaram o abismo entre o homem e o mundo instaurado pelo narrador em terceira pessoa. Mas, mais do que isso, o monólogo interior instaura um tempo na narrativa que não é o dos fatos, mas um tempo que se desdobra, no caso de Amuleto, em temporalidades múltiplas que, ainda que não prescindam da história (isto é, de “uma narrativa de eventos dispostas conforme a sequência do tempo” [FORSTER, 2004, p. 57]) – e, por isso, continuem inseridas no âmbito do romance –, flertam com a noção temporal do poema, que às vezes é inexistente e às vezes se desloca livremente de um instante a outro, sem a necessidade de constituir uma cronologia. Experiência mais extrema neste sentido é a que Bolaño proporciona com o livro Amberes. Datado de 1980, o volume foi publicado em 2002 na categoria romance, gênero que lhe foi atribuído pelo próprio autor no prólogo à edição, no qual ele diz:

“ Obviamente, nunca llevé esta novela a ninguna editorial” (BOLAÑO, 2009, p. 9). Em 2007, porém, sai publicado o volume intitulado La universidad desconocida , reunião de grande parte da poesia de Bolaño organizada por ele mesmo e datada de 1993. Neste livro, encontra-se publicado novamente Amberes, agora sob o título “Gente que se aleja”. O ato não é gratuito. Amberes oferece um texto fragmentado de alto poder desestabilizador, cuja leitura envolve um acentuado grau de angústia, ocasionado pela dificuldade (ou impossibilidade) de se encontrarem os elos que permitam remontar os fatos e a cronologia. Desta forma, com a dupla inserção do texto em volumes de catalogação diferente, Bolaño desloca a questão da determinação do gênero do autor para o leitor, transformando-a em um ato de leitura. Ler Amberes como romance certamente é mais desconcertante, já que as convenções de leitura deste gênero implicam a possibilidade de se obter uma linearidade final (que insiste em escapar do leitor neste caso), enquanto a operação de leitura da poesia obedece a normas outras, podendo ser uma leitura salteada ou corrida, não estando o leitor preocupado em obter um sentido final para o conjunto. Neste sentido, pode-se dizer que o que determina o caráter genérico ambíguo deste texto é, antes de tudo, o recurso ao fragmento, elemento constitutivo de grande parte da obra de Bolaño. No jogo da representação, no qual estão em pugna fragmentação e totalidade, caos e ordem, organicidade e arbitrariedade, e, em última instância, a própria possibilidade do narrar, Bolaño logra por em cena a tenuidade dos limites entre poesia e ficção, ao sinalizar que, nas bordas de um romance cujas peças não se encaixam (e que por isto não teria sido aceito inicialmente por nenhuma editora), pode muito bem desenhar-se um poema.

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Nota
1

Aluna do mestrado do Programa de Pós-Graduação em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-Americana da Universidade de São Paulo. Desenvolve com o apoio da Fapesp o projeto de pesquisa “Fragmentação e multiplicidade em Los detectives salvajes, de Roberto Bolaño”.

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REPRESENTAÇÃOES DA MULHER E VOZES FEMININAS NO CONTEXTO IBEROAMERICANO

Cláudia Luna UFRJ

El discurso sobre la mujer es también un discurso sobre identidad y ciudadanía. Más importante, tal vez menos obvio, el discurso masculino sobre la identidad y la ciudadanía es también un discurso sobre el género. Las dos formaciones discursivas se determinan mutuamente, aunque en relaciones de desigualdad radical. (Pratt, 1995, p. 273)

Vive-se hoje um processo de revisão histórica propiciado pelos bicentenários dos processos de independência e formação das nacionalidades e seus respectivos imaginários na América Latina. Nesse contexto, abre-se oportunidade ímpar de repensar a escrita da história como um processo de cunho marcadamente androcêntrico, sob recorte tradicional, que relegou ao esquecimento ou a papel secundário a participação de mulheres como a peruana Micaela Bastidas, a equatoriana Manuela Sáenz, ou a brasileira Bárbara de Alencar, embora tivessem papel relevante nos processos encabeçados respectivamente por Tupac Amaru, Simón Bolívar e Frei Caneca. O projeto de pesquisa que ora realizamos visa a confrontar representações e autorrepresentações destas entre outras personagens históricas, considerando os projetos de emancipação que enunciam e as repercussões de sua atuação, no contexto latino-americano. Inicialmente, trata-se de analisar o processo de autorrepresentação expresso nas cartas e documentos públicos e privados de protagonistas das Independências latino-americanas.

A primeira etapa de trabalho constitui-se no estabelecimento do corpus a partir da compilação das fontes, que podem contar com o auxílio de trabalhos recentes de recuperação, em curso, ou fazer-se diretamente nos arquivos. Em muitos casos, há lacunas importante a preencher, pois a documentação existente é escassa ou de autoria coletiva. Interessa-nos investigar como se representam as mulheres nas independências e se afirmam (ou não) nas esferas pública e privada? Que elementos interferem no processo de construção da subjetividade, afirmação ou negação do protagonismo? Nossa hipótese inicial é de que há diferentes condicionantes, como questões étnicas e de classe, estado civil e origem. Por um lado temos a afirmação vigorosa de Micaela Bastidas, esposa de Tupac Amaru e uma das líderes da insurreição andina contra a metrópole; temos o mascaramento dos ideais de Manuela Sáenz, ao colocar-se perante Bolivar como mera amante e cuidadora, apesar de arguta estrategista e lutadora aguerrida. Quanto a Bárbara Alencar, há o ápice do

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processo de apagamento: apesar de presa e perseguida, transfere o protagonismo para o filho Martiniano, e mascara ou dilui sua subjetividade na construção de documentos coletivos, como na Proclama de 1817.

Como já observava Ángel Rama, a América Latina se caracteriza pela existência de regiões culturais, marcadas por história comum e, nesse traçado, esfumam-se as fronteiras nacionais estabelecidas pelo História oficial. Recordemos a mais evidente, a gauchesca, unindo territórios pertencentes à tríplice fronteira – Uruguai, Argentina e Brasil. A

O Brasil em face das Independências – cruzamentos e peculiaridades
Considerando os projetos emancipadores e as rebeliões ocorridas no Brasil, a primeira diferença que se percebe em relação aos países vizinhos é a referente ao projeto vitorioso – o da monarquia bragantina, de recorte centralizador e unificador, em oposição à vitória das propostas republicanas. Por outro lado, há intenso intercâmbio de ideias entre os americanos de colonização espanhola e os de colonização inglesa. São diversos projetos de América, intentos utópicos e de construção de novas nações ou de repúblicas, de territórios livres, de fundação de espaços sociais marcados por contratos sociais mais ou menos inclusivos, mais ou menos heterogêneos. O Brasil pareceria estar distante deste intercâmbio, à primeira vista, impressão que se desfaz à medida que adentramos o exame do passado. Uma primeira hipótese seria a de que o projeto absolutista e monárquico, centralizador, enfatiza o recorte atlântico, voltando as costas aos processos que se sucedem na América Hispânica. No entanto, é marcante o recorte imperial brasileiro a respeito dos vizinhos, as longas lutas pelo estabelecimento do território nacional, marcando as guerras de fronteiras que atravessam todo o século XIX e os episódios da diplomacia continental a esse respeito – da Guerra do Paraguai, a República Cisplatina, a disputa pelo território do Acre, em suma, a definição do grande território emergindo unificado sobre a variedade regional.

cultura guarani, do Paraguai e Centro Oeste brasileiro, o elemento afro-americano, no Rio de Janeiro, Bahia e Antilhas, o vasto território cultural amazônico, congregando países como Brasil, Equador, Peru, Bolívia, Venezuela, Colômbia. São linhas que se cruzam e sobrepõem imaginariamente sobre as linhas demarcatórias oficiais de províncias e nações, compondo um segundo traçado, a respeito do qual Rama pondera:
En este segundo mapa el estado Rio Grande do Sul, brasileño, muestra vínculos mayores con el Uruguay o la región pampeana argentina que con Matto (sic) Grosso o el nordeste de su propio país; la zona occidental andina de Venezuela se emparenta con la similar colombiana, mucho más que con la región central antillana. (RAMA, 1985, p. 58).

No caso brasileiro, o século XIX será palco de um jogo de tensões entre o regional e o nacional, no qual se insere o movimento de 1817, do qual participará Bárbara de Alencar. Nas primeiras décadas do século XIX assiste-se, sucessiva ou simultaneamente, a intentos mais ou menos logrados de emancipação em relação a Portugal, movimentos internos separatistas, oposição entre os diversos projetos dos agentes sociais envolvidos, acionando liberais e conser vadores, monarquistas e republicanos, regionalistas e centralistas. Distintos projetos de construção da nacionalidade que se cruzarão até que vença o projeto unificador, sob o Império de Pedro II. No Nordeste brasileiro, em especial na província de Pernambuco, o espírito independentista era bastante acirrado. Ao mesmo tempo que se mantinha comércio diretamente com países europeus

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e africanos, a dimensão continental do país isolava o a região do centro de decisões. A esse respeito narra o viajante Robert Walsh:
Os pernambucanos foram os primeiros a reconhecer o direito do Imperador ao trono do Brasil, bem como a total separação deste país de Portugal. Contudo, ainda alimentavam a esperança de se tornarem um Estado independente. Existia uma grande rivalidade entre a província e o Rio de Janeiro, e pequenas causas de descontentamento eram motivo de constante atrito entre as duas províncias. Entre outras coisas, os pernambucanos se queixavam de que lhes era cobrado um imposto para a iluminação das ruas do Rio, enquanto as de própria cidade eram mantidas em total escuridão. (WALSH, 1985, p.184).

negros, mulatos e brancos, comuns na Argentina, no Peru e no Brasil – a tentativa de implantar no Brasil um modelo semelhante ao intentado nas Antilhas (vide Haiti); o intercâmbio e busca de apoio com os Estados Unidos, por parte de insurgentes, calcados num prenúncio de pan-americanismo, antecipando a doutrina Monroe. Finalmente, o intercâmbio entre o Velho e o Novo Mundo, ou seja, a atuação conjunta de intelectuais hispano-americanos na Europa, como Fray Servando Teresa de Mier ou Andrés Bello, principalmente em Londres, e a busca de aprovação pela opinião pública europeia; já no caso do Brasil, a presença de brasileiros como estudantes na Escola de Coimbra, trazendo para cá o pensamento liberal. Em contrapartida, a presença dos viajantes europeus e seus depoimentos sobre o cenário americano, como, por exemplo Maria Graham1, Robert Walsh ou Daniel P. Kidder, constituindo um corpus precioso de relatos de viagem que nos trazem informações minuciosas sobre nossa história e sobre as representações cruzadas que se fizeram, reconstituindo o olhar estrangeiro sobre a América, na esteira de Humboldt.

Como afirmou lucidamente Marcel Velásquez, em sua exposição no Seminario Escritoras del Siglo XIX, em Lima (2009), resgatar a produção feminina no século XIX importa também como forma de resgatar o contexto em que estão engastadas, muitas vezes trazendo à tona publicações esquecidas ou renovando o interesse por áreas pouco exploradas. Em suma, um efeito colateral positivo na revirada do passado histórico. Nesse sentido, refletir sobre a posição das mulheres neste processo, antes de tudo nos leva a repensar uma série de questões que nos desafiam nestes dois séculos. Como já apontei em trabalhos anteriores, há alguns elementos comuns a todo o continente, como o sentimento nativista e o rechaço do elemento ultramarino (os reinóis); o papel destacado das ordens religiosas no processo – confrontem-se, por exemplo, os jesuítas expulsos, que, da Itália, revalorizam o dado americano, como Rafael Landívar, e a atuação de Frei Caneca, um dos mentores da Confederação do Equador, de 1824. Especialmente no Nordeste brasileiro, não podemos esquecer a relação estreita que se mantinha entre os coronéis (e as coronelas), a Igreja e o Estado. Outros dados a considerar são a separação entre as etnias e raças, as corporações militares de

Rodolfo Walsh, por exemplo, capelão da comitiva de Lord Strangford, em suas Notícias do Brasil (1825-1829), retrata conflitos regionais, narrando uma tentativa de insurreição malograda que se deu em fevereiro de 1929, em Pernambuco, e uma outra no Maranhão. Ele as explica pela distância em relação à Corte, associada à proximidade com outras “províncias republicanas”. Diz ele, referindo-se ao Maranhão:
A situação dessa província era sabidamente alarmante. Ela fica tão distante da capital que as comunicações entre esta e suas cidades de fronteira nunca se completam em menos de um ano, e em Tabatinga as notícias do Rio são trazidas muitas vezes passando pelo Cabo Horn, vindo assim do litoral e atravessando os Andes. Isso torna a influência do governo relativamente fraca, ao passo que a vizinhança das províncias republicanas representa um forte estímulo para que o seu

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exemplo seja seguido. (WALSH, 1985, p. 85) (grifo nosso)

e de 1824. No seu caso, o destaque maior será para o filho Martiniano de Alencar. Bastidas tampouco terá melhor sorte.

Das heroínas – semelhanças e contrastes
No cotejo entre a trajetória das personagens históricas podemos observar, em primeiro lugar, a masculinização da figura feminina no processo das independências. No caso de Manuela Sáenz, isso se vincula ao papel destacado que tiveram as mulheres no campo de batalha, nos diversos países, como soldados; no caso de Bárbara Alencar, ao matriarcado, ou seja, ao fato de que era comum as viúvas assumirem o comando de suas fazendas e por atuarem no campo político. Quanto a Micaela Bastidas, a morte após torturas atrozes aponta para o necessário processo de escarmento, a exemplaridade no castigo como forma de coibir novas rebeliões. Em segundo lugar, o jogo curioso de revelação e encobrimento – em relação a Sáenz, o processo de apagamento de sua atuação, de sua importância no campo político como estrategista e militante, que no seu caso começa por suas próprias mãos, ao colocarse como coadjuvante de Bolívar, nas cartas; e pela posteridade, que a conhece a partir do batismo que este lhe confere de Libertadora do Libertador. No caso de Bárbara se associa à figura da mártir, da mãe extremada, da mulher aprisionada, que sofre vexames e punição inclemente, mas se mantém fiel a seus ideais. Quanto a Micaela Bastidas simplesmente sua atuação será relegada a segundo plano, e associada sempre ao marido, ou seja, como a companheira de resistência e luta.

Até onde pude pesquisar, por outro lado, a figura de Bolívar se prestará a uma representação culta e popular de amplíssimo espectro, em todos os níveis, o que, creio, não sucede com Manuela Sáenz. Já quanto a Bárbara de Alencar, alcançou um destaque muito grande no campo do imaginário popular brasileiro, nos cancioneiros, na música popular, no cordel, no maracatu, em suma, em diversas formas de representação oral. Em relação a Bastidas, ainda estamos no começo da investigação. De todas as formas, o que ressalta da pesquisa é o quanto ainda há para se buscar, de forma a reconstituir pelo menos minimamente o efetivo papel desempenhado pelas mulheres nos processos de independência na América Latina. Nosso projeto, em suma, visa a contribuir para o processo de revisão histórica e ampliação do cânone literário latino-americano, no âmbito do processo coletivo de reflexão e crítica acerca dos bicentenários das independências na América Latina. A discussão local, temos certeza, será relevante na construção de saberes globais mais inclusivos e libertadores.

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Em relação à escrita da história, todas praticamente desapareceram do panteão de heróis da historiografia oficial. Manuela Sáenz surge sempre atrelada à figura de Bolívar, como um capítulo à parte. Quanto a Bárbara de Alencar é mencionada em pouquíssimos textos referentes às revoluções de 1817

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Nota
1 Seu diário da viagem e permanência no Brasil, entre 1821 e 1823, foi publicado em Londres em 1824 (GRAHAM, 1990).

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A DESTREZA ORAL E SUA IMPORTÂNCIA PARA A FORMAÇÃO DOS FALANTES DE ESPANHOL COMO LÍNGUA ESTRANGEIRA

Cristina do Sacramento Cardôso de Freitas Universidade Estadual de Santa Cruz - UESC

Introdução
A partir das ideias geradas no projeto de iniciação à docência intitulado “Ensinoaprendizagem da Língua Espanhola: a proficiência oral em foco”, desenvolvido na Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC - Ilhéus – BA), definiu-se o objetivo desta proposta, que é o de realizar uma reflexão a respeito de alguns aspectos relacionados à destreza oral entre alunos de nível iniciante, entre os quais se encontram: a investigação criteriosa das causas que conduzem à deficiência de sua produção oral, em língua espanhola; a análise detalhada das consequências de tal problema; e, finalmente, a proposição de atividades variadas de incentivo à otimização da expressão oral entre os mesmos. Para melhor compreendermos os aspectos que se relacionam ao desenvolvimento da destreza oral em língua espanhola, como L2, entre alunos de nível iniciante, decidimos organizar este referencial teórico em tópicos, entre os quais se encontram: a análise da questão das interferências linguísticas entre o português e o espanhol; a observação do uso de

métodos pretensamente comunicativos que visam facilitar a aprendizagem desta destreza; o papel da afetividade na relação professor-aluno e como esta influencia na capacidade de expressão oral do mesmo; as dificuldades específicas de aprendizagem da destreza oral em língua espanhola; a questão da fossilização e da interlíngua; a elaboração de um quadro em que se visualizam estes e outros fatores que definiríamos como de caráter individual, institucional e intrainstitucional; e, finalmente, a proposição de atividades que desenvolvam de maneira criativa, natural e estimulante a capacidade de expressão oral de alunos de nível iniciante. Para tal, sabemos que o processo natural de aquisição de uma língua tem como primeiro elemento de contato a oralidade, considerado o mais constante instrumento de uso linguístico. Portanto, um dos primeiros pontos a se desenvolver nos aprendizes espera-se que seja a oralidade. Mas o que vem a ser esta capacidade, habilidade ou destreza de se expressar corretamente em outro idioma? Quais são suas características?

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1. Revisão da Literatura
1.1. Características da destreza oral Estudos e pesquisas se desenvolveram no Brasil com o objetivo de compreender o fenômeno da produção oral em língua estrangeira, por falantes não nativos. Para Martín Peris (1996, p.50), algumas das principais características desta destreza são: é a destreza mais importante para muitos aprendizes de uma L2; possui uma utilidade prática real; as oportunidades de praticá-la dependem de muitos fatores externos ao aprendiz; conseguir um bom domínio desta destreza não é fácil, já que implica em ser capaz de utilizar um número considerável de microdestrezas capacitadoras, de interação e atuação com o outro, em contexto real. No entanto, em função das similaridades em diversos níveis reconhecidamente existentes entre a língua espanhola e a portuguesa, é possível afirmar que ainda há uma carência significativa no que diz respeito à discussão sobre as dificuldades específicas de alunos brasileiros e a proposição de materiais ou atividades que busquem o aprimoramento da expressão oral dos mesmos. As interferências que se produzem na aprendizagem do espanhol por lusofalantes representam o cavalo de batalha de profissionais e alunos e afetam a ambos.

do espanhol, dois grandes mitos sobre a língua povoam o imaginário comum. O primeiro é o de que a língua é composta basicamente por uma grande lista de palavras. Essa concepção é refletida no senso comum pelo apego que muitos professores têm aos chamados ‘falsos amigos’, os famosos falsos cognatos que evidentemente podem levar o indivíduo que não domina o idioma a uma série de situações embaraçosas. O problema não está em ensinar os ‘falsos amigos’ aos aprendizes, já que, de fato, esses elementos fazem parte da competência gramatical e linguística ideal de um falante da língua. A questão se centra na ideologia que essa ênfase nas questões lexicais da língua acarreta. Ao apresentar a língua como um grande inventário de vocábulos, essa ideologia, difundida inclusive pelos próprios meios de comunicação, constrói uma imagem de que a diferença entre as línguas portuguesa e espanhola se resolve apenas através de uma simples substituição de itens lexicais, promovendo uma visão de que os processos de uma língua se repetem uniformemente na outra. Não é difícil imaginar o quanto essa visão reducionista pode comprometer o desempenho de um aprendiz.

1.3. Métodos pretensamente ‘comunicativos’ O segundo ponto discutido pelas autoras é a

1.2. Interferências entre o português e o espanhol Determinando os efeitos da proximidade entre estas línguas, Kulikowsky e González (1999) fazem uma importante reflexão com relação à prática docente de espanhol para brasileiros. As autoras discutem como a imagem que o aprendiz de uma língua estrangeira tem do seu objeto de estudo pode determinar seu sucesso ou fracasso em termos de domínio oral desse conhecimento específico. No caso

ideia, não tão velada quanto a anterior, de que a língua é um instrumento destinado fundamentalmente à comunicação. Se a ênfase nos itens lexicais promove uma ideologia reducionista que impede o aprendiz de entender a língua como um sistema autônomo e extremamente complexo, a ênfase no fator comunicativo pode ter efeitos ainda piores no processo de ensino-aprendizagem do espanhol. Isso se deve ao fato de que a troca dos chamados objetivos gramaticais pelas competências comunicativas, na prática, não se realiza da maneira mais adequada.

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O falso objetivo de dominar as quatro habilidades em cada vez menos tempo é o principal elemento motivador do aprendizado, uma vez que fornece uma sensação de domínio imediato logo nas primeiras aulas, ainda que essa sensação seja ilusória, como salientam Celada e González (2005), pois provém de um novo reducionismo, o que se refere à uniformidade das situações pragmáticas nas quais um indivíduo pode se encontrar. Ao entender a língua como um instrumento que ‘serve’ basicamente para se comunicar, o indivíduo se apossa de suas expressões de maneira imediatista e utilitária, o que o distrai da real tarefa de compreender a língua como um sistema autônomo, com seus processos particulares. Alguns teóricos opinam sobre a importância do desenvolvimento desta capacidade comunicativa oral, o que inclui, a nosso ver, uma questão mais ampla que envolve a fluência verbal no idioma estrangeiro. Faerch e Kasper (1983) alegam que quanto mais o aluno se engaja em situações comunicativas, maior variedade e mais possibilidades ele tem não só de praticar sua capacidade comunicativa oral na língua estrangeira, como também de construir hipóteses sobre a L2 e testá-las. Dubin e Olshtain (1977) acreditam que o papel do professor deve ser o de facilitar o aprendiz a desenvolver suas próprias capacidades e recursos interiores para realizar adequadamente as tarefas comunicativas. Para Canale e Swain (1980), proficiência linguística significa não somente saber fonologia, sintaxe, vocabulário e semântica, mas também ser capaz de fazer uso desse conhecimento apropriadamente em comunicação real.

começaram a apresentar maior interesse a partir dos anos 70. A este respeito, Krashen (1982) estabeleceu uma relação direta entre a primeira e o êxito do aluno no processo de aprendizagem de uma nova língua. Este psicolinguista levou em conta três variáveis que possuem uma influência direta sobre a aprendizagem de idiomas: a atitude, a motivação e a personalidade. Explicou que existe um filtro de percepção, o chamado filtro afetivo, que se refere a um conjunto de circunstâncias, angústias, falta de interesse, de motivação, que, em determinados casos, bloqueiam a aquisição satisfatória do código e a compreensão ou, no nosso caso, a produção em idioma estrangeiro. Por isso, o aluno deverá ter uma atitude positiva que lhe permita uma maior permeabilidade diante do processo de aprendizagem e evitar as barreiras afetivas, que geram por sua vez, bloqueios mentais que não permitem que os dados sejam processados de forma completa. Em consequência, para que haja uma melhor receptividade aos conteúdos, se requer empatia, disponibilidade e autoconfiança.

1.5. Dificuldades específicas de aprendizagem da destreza oral em língua espanhola Além destas dificuldades pessoais e interpessoais que o aluno pode apresentar com relação à aprendizagem da língua estrangeira, em nossa prática docente percebemos também que, muitas vezes, alunos brasileiros, aprendizes de espanhol como língua estrangeira, demonstram algumas dificuldades no que diz respeito à pronúncia da língua espanhola.

1.4. O papel da afetividade na aprendizagem da expressão oral Por sua vez, estudos sobre a relação entre a afetividade e a capacidade de aprendizagem do aluno

Podemos dizer que existem aspectos nas duas línguas que não criarão dificuldades na aprendizagem. Teríamos também outros aspectos na língua estrangeira, sem equivalência na língua

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materna, nos quais seria mais difícil para os alunos alcançarem um nível de produção oral mais próximo do ideal. E, por último, há aqueles aspectos que de tão similares nas duas línguas, se tornam os mais passíveis de interferência e que, possivelmente, são os que provocarão mais problemas na aprendizagem. O ensino da pronúncia, em língua espanhola, é uma das destrezas que todo aluno necessita dominar quando aprende uma língua estrangeira. Por isso, deveria fazer parte dos conteúdos de qualquer plano curricular e o professor teria que incorporar às suas atividades em aula. Com relação ao momento da correção da pronúncia do aluno, esta é necessária no momento em que na produção oral se detectam equívocos. No entanto, o professor deverá enfrentar este momento da correção da pronúncia com cautela. É necessário também que tenha consciência do grau de “precisão fonética”, ou seja, o grau que deseja alcançar na produção oral dos estudantes.

influência direta e que o aproxima cada vez mais da língua-alvo de aprendizagem. Trata-se ainda de um sistema variável e dinâmico, distinto tanto da língua materna como da estrangeira (ainda que nele se encontrem elementos das duas); e que contém regras que lhe são próprias, pois cada aprendiz possui seu sistema específico em determinado estágio de aprendizagem. Entre os vários aspectos que observamos com relação às dificuldades enfrentadas por alunos brasileiros de espanhol, como segunda língua, encontram-se: a realização de fonemas nasais na língua espanhola, a abertura e o fechamento dos fonemas vocálicos, os encontros vocálicos em ditongos crescentes, alguns fonemas e alófonos oclusivos e fricativos, a realização da vibrante múltipla, entre outros fenômenos.

1.7. Análise de alguns fatores Foi possível observar que muitos fatores podem intervir no processo de aquisição de uma Quando não ocorre a devida correção dos equívocos de pronúncia cometidos pelos alunos, desde os primeiros contatos com o idioma estrangeiro, a consequência poderá ser a formação de um processo denominado interlíngua, em que estes futuros professores parecerão se contentar com o estado de língua atingido, sem desejar evoluir a partir da problemática mescla criada entre a língua materna e a língua estrangeira a qual estão expostos. O sistema linguístico desenvolvido por um falante não nativo na língua estrangeira foi denominado de várias maneiras, no entanto, o termo mais aceitado é o de interlíngua, proposto por Larry Selinker (1972). Para ele, a interlíngua é um sistema linguístico interiorizado (com características de linguagem porque serve para comunicar-se e possui gramática interna), sobre o qual o aprendiz possui Fatores institucionais; Fatores intrainstitucionais A tabela abaixo busca apresentar estes três aspectos principais envolvidos nesta pesquisa, objetivando investigar criteriosamente as causas da deficiência oral, analisar sua consequência e propor, à luz da teoria da revisão da literatura realizada, soluções criativas, modernas e práticas para tal questão. segunda língua. A partir de uma série de observações, detectamos que, entre os fatores que mais dificultam a solidez da expressão oral para os alunos iniciantes do Curso de Graduação em Letras (PortuguêsEspanhol), da Universidade foco de estudo nesta investigação, encontram-se: Fatores pessoais ou individuais;

1.6. A questão da interlíngua e da fossilização

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CAUSAS DA DEFICIÊNCIA ORAL 1. FATORES INDIVIDUAIS (ALUNO) a) timidez excessiva, vergonha, medo de errar e ser ridicularizado em sala de aula. b) distância afetiva no relacionamento professor-aluno, o que afasta os alunos da possibilidade de desejar expressar-se oralmente em língua estrangeira, em sala de aula. c) falsa ideia de facilidade na aprendizagem da língua espanhola, por tratar-se de uma língua-irmã à portuguesa. d) interferências linguísticas da língua materna sobre a língua estrangeira, criando a chamada interlíngua. e) falta de hábito de expor-se em público, em ambiente acadêmico, em língua estrangeira. f) dificuldades naturais de aprendizagem de um novo idioma, no início do processo. g) ausência de conhecimentos prévios em língua espanhola, anteriores à entrada na universidade. h) falsa crença de que, ao se graduarem como professores, ministrarão aulas de língua espanhola, em instituições públicas e privadas de ensino fundamental ou médio, em língua portuguesa. 1. FATORES INDIVIDUAIS (professor) a) utilização de metodologias pretensamente comunicativas no ensino da língua estrangeira. b) ausência de projetos ou atitudes individuais que privilegiem a presença de professores, alunos e outros convidados, falantes de língua espanhola como L1, em atividades acadêmicas em sala de aula de língua espanhola nesta universidade. 2. FATORES INSTITUCIONAIS a) grande quantidade de alunos por turma. b) carga horária insuficiente de aulas. c) ausência de meios auxiliares à aprendizagem, em ambiente acadêmico: laboratórios de informática e de idiomas bem equipados e modernos. 3.FATORES INTRAINSTITUCIONAIS a) ausência de programas de intercâmbio entre professores e alunos de universidades na Espanha e na América e as universidades públicas no Brasil.

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2. Proposição de atividades variadas de incentivo à otimização da expressão oral entre alunos de Língua Espanhola de nível básico
2.1. Assistir a um filme, em espanhol, sem legenda, e interromper a projeção antes do final para que os alunos tenham a oportunidade de propor finais criativos para a história e para os personagens principais, em forma de redações curtas, individuais (atividade indicada para trabalhar produção escrita e oral criativa). Algumas sugestões de filmes seriam: El laberinto del fauno, Un cuento chino, Vicky, Cristina, Barcelona, La suerte está echada, La casa de los espírutus, Manolito Gafotas, Crónica de una muerte anunciada, Frida, Muerte en Granada e Mujeres al borde de un ataque de nervios.

oralmente (explicando por que escolheu esta notícia, relatando seus principais aspectos e dando sua opinião sobre o tema); num primeiro momento, os demais alunos escutam a notícia e, num segundo momento, emitem suas opiniões sobre o mesmo, criando-se naturalmente um ambiente de debate sobre temas atuais diversos.

2.4. Relato de fotos de viagens (atividade indicada para trabalhar produção oral e descrição) Sequência de atividades: na aula anterior, o professor deverá solicitar aos alunos que tragam 5 fotos de viagens pessoais ou familiares, em pen driver, que considerem interessantes; na aula seguinte, as fotos de cada aluno serão projetadas para que todos possam visualizá-las com clareza; os alunos deverão fazer perguntas do tipo quem está na foto, onde e

2.2. Criação de conto moderno, em língua espanhola. Sequência de atividades: tempestade de ideias sobre o tema contos de fadas; compreensão auditiva de conto de fadas curto; leitura em voz alta, pelos alunos, do mesmo conto; escritura, em grupos, de novo conto (com características modernas), de forma criativa; gravação em áudio do conto produzido; apresentação, de forma teatralizada, do conto criado pelo grupo.

quando foi tirada, por quem, por que escolheu aquela foto específica para apresentar, etc.

2.5. Produção, em duplas, de diálogo em estabelecimento comercial, baseado em material autêntico (folhetos recolhidos em viagens a países de fala hispânica). Sequência de atividades: na aula anterior, o professor deverá entregar folhetos de estabelecimentos comerciais, em língua espanhola, aos alunos, em duplas; os estabelecimentos selecionados vão depender dos folhetos que o professor possuir para a atividade (por exemplo, de restaurantes, hotéis, estações de metrô, casas de dança, far mácias, consultórios dentár ios ou médicos, livrarias, lojas de roupas, teatros, cinemas, museus, mercados, lojas de eletrodomésticos, bancos, bares, etc).

2.3. Pesquisa no laboratório de informática da universidade sobre jornais e revistas digitais, em língua espanhola (atividade indicada para trabalhar leitura, relato oral e capacidade de argumentação, além do uso das novas tecnologias de informação). Sequência de atividades: cada aluno deverá pesquisar na internet uma notícia interessante, em língua espanhola; em seguida, deverá apresentá-la

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2.6. Produção de um vídeo curto (em forma de comercial de tv), em grupos, em língua espanhola, divulgando o Curso de Letras (Português-Espanhol) da universidade (atividade indicada para trabalhar produção oral, escrita, criatividade, organização, trabalho em grupo, uso das novas tecnologias, etc).

análise contemplativa destes fatores que geram dificuldade de produção oral entre os alunos de nível iniciante nas instituições de ensino superior. No entanto, ao longo do processo, nos demos conta de que, sem detectá-los claramente e sem tentarmos solucioná-los em curto ou médio prazo, a consequência recairá diretamente sobre a capacidade de expressão oral dos alunos. Acreditamos também que, de nada adiantaria a mera proposição de inúmeras atividades comunicacionais, em sala de aula, de aprimoramento da destreza oral e aquisição de fluência em idioma estrangeiro, se tais fatores mencionados não forem observados “com novos olhos”, tanto pela instituição de ensino superior, quanto pelo professor e, principalmente, pelos próprios alunos em questão, que deverão encarar o problema da aquisição da destreza oral de frente e não fingir que ele não existe. Assim, para concluir, como podemos observar, as causas da deficiência de expressão oral em língua espanhola estão intimamente relacionadas à sua consequência, a falta de fluência no idioma estrangeiro, e todos devem estar cientes deste fato:

2.7. Atividade de produção oral a partir do vídeo humorístico ‘Qué hora es’ (visa desenvolvimento da produção oral, escrita, criatividade, organização, trabalho em grupo, uso das novas tecnologias, etc). Sequência de atividades: neste vídeo de humor produzido por um grupo de humoristas mexicanos, os personagens são americanos e usam frases soltas, completamente descontextualizadas, em espanhol, para demonstrar questões relativas às dificuldades de produção oral em língua estrangeira; após assistirem ao vídeo, o professor dividirá a turma em grupos e lhes solicitará que criem situações teatralizadas semelhantes às que aparecem no vídeo ‘Qué hora es’. Tais situações deverão ser gravadas em vídeo.

Considerações finais
Finalmente, se pode afirmar que o objetivo do professor de ELE não deve ser simplesmente a

alunos, professores e, em última instância, a própria instituição de ensino superior.

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Referências bibliográficas
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A LEITURA DE PROFESSORES DE ESPANHOL, FORMADORES DE LEITORES, MEDIADA POR COMPUTADOR

Cristina Vergnano-Junger UERJ

1. Introdução
Este trabalho traz à discussão parte dos resultados da pesquisa “ Interleituras : interação e compreensão leitora em língua estrangeira mediadas por computador”, que vimos desenvolvendo na UERJ, há cerca de três anos. Vem sendo crescentes os estudos sobre as interações mediadas por computador. Neles observamos exposições teóricas sobre as características dos textos virtuais (MARCUSCHI, 2004; 2005); em vários casos, formas de lidar com eles (RIBEIRO, 2005; MAGNABOSCO, 2009) e sobre impactos que as tecnologias da informação e comunicação (TICs) vêm gerando no modo de vida/ interação das/entre as pessoas nesta era da informação (LAVID, 2005; CASSANY, 2011). No entanto, sentimos falta de mais pesquisas, hoje mais frequentes, com um desenho empírico que oferecesse amostras desses novos comportamentos associados aos gêneros digitais. Essa foi nossa motivação para utilizar uma abordagem metodológica empírica no Interleituras , a fim de monitorar procedimentos

leitores e, assim, refletir sobre como vêm ocorrendo, suas diferenças e especificidades com relação à leitura em meio impresso. Nossa questão central volta-se, portanto, para como se lê em ambientes vir tuais. Ou seja, preocupam-nos estratégias, procedimentos e conhecimentos que são postos em marcha durante o processo leitor mediado por computadores, em especial quando se trata da Internet. Neste breve artigo, apresentamos uma sucinta revisão teórica sobre o tema, as bases gerais de nosso desenho metodológico e uma síntese dos resultados encontrados, especificamente no que foi observado junto a dois docentes de espanhol, sujeitos do estudo.

2. Revistando alguns aspectos teóricos
Um rápido olhar à nossa volta já nos dá um panorama de como as TICs passaram a fazer parte do cotidiano das pessoas, independentemente, muitas vezes, da faixa etária e de condições socioeconômicas. São caixas eletrônicos, smartphones, câmaras digitais,

Essa revolução da era da informação é. multidirecional. Deve-se assumir. são efêmeros. como inovações próprias do ambiente virtual. com suas marcas linguísticas e tipográficas. A questão passa a ser. habilidades e estratégias. implicam a existência de diferentes contextos. 2010). Nesse meio obser vamos. 2005). a discussão. como e em que medida isso estaria ocorrendo. sons imagens etc. por isso. VERGNANO-JUNGER. tanto gêneros que se caracterizam como reestruturações daqueles já existentes em fontes impressas. 2005. já em sua natureza. o contexto espaço-temporal. Isso porque os autores que vêm estudando os textos produzidos especificamente em e para ambiente digital os caracterizam como hipertextuais e multimodais (RIBEIRO. crítico e reconstrutor de sentidos (VERGNANO-JUNGER. 2004. histórico e cultural. o texto. linguagens. No que se refere às TICs e à leitura em meio virtual. nem uma hierarquia fixa entre suas partes. A forma de constituição dos gêneros virtuais é hipertextual. interconectados por links. ao contrário. como as próprias práticas sociais relacionadas às TICs. portanto. Isso porque entendemos que não se pode produzir sem ser capaz de compreender. que. uma vez que buscamos identificar os comportamentos que vêm caracterizando as práticas leitoras mediadas por computador. Em resumo. fragmentados. tais recursos. reflexão e construção de um conhecimentos e atitude ativa de seus leitores. 2010). seja cedo para uma definição precisa de padrões. também. 2009). gêneros. sem a pretensão. Os . e-mails. profusão de mensagens instantâneas (SMS). pluralidade acessos se fazem tanto de forma assíncrona como síncrona. Talvez. simultânea ou isoladamente. suportes e/ou gêneros não são acessíveis de forma universal ou democrática e várias pessoas conseguem prescindir de muitos (ou. 3. nesse momento. viabilizados pelos recursos das TICs (MARCUSCH. v ideogames . diferentes outros textos que podem ser colocados em diálogo com o que se está lendo. tantas inovações estejam transformando nossa maneira de usar a linguagem e interagir. redes sociais. Isso permite que cada leitor construa seu caminho próprio e componha. Adotamos uma abordagem qualitativa dos dados. avaliamos essa perspectiva multidirecional como produtiva. blogs. em distintos idiomas. Nosso foco está direcionado especificamente à leitura. tomando tal compreensão já como um tipo de produção de sentidos. em conjunto com todos os estudos do grupo de pesquisa LabEV. ao menos. o que significa que não têm um centro. diferentes produtos finais (“textos”) para leitura (RIBEIRO. a atividade caracteriza-se como um processo de construção de sentido que inclui insumos de diferentes direções e naturezas. assim. como nos casos da inclusão de outras tecnologias no passado. o leitor com toda a sua bagagem de conhecimentos prévios. MAGNABOSCO. oferecer exemplos que favoreçam. contudo. fomentando a interação e o acesso a uma realidade plurilinguística e pluricultural. Propomos. Necessariamente. parte) deles em seu dia-a-dia. de diferentes partes do mundo. Importam. recursos e atividades estão em construção e estudo. De modo que as teorias a respeito e a caracterização de gêneros. ainda muito recente. de demandando.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 287 cibercafés. no entanto. Isso significa dizer que. de apresentar generalizações sobre as novas práticas. entendida como uma atividade complexa. que está presente em diferentes práticas sociais e demanda um sujeito ativo. em tal perspectiva. trabalhando com amostras limitadas. 2005. Uma proposta metodológica O Interleituras se define como uma pesquisa exploratória e descritiva.

qualquer material não digital/virtual/multimídia. Como nossa abordagem de análise é qualitativa. por um lado. faixa etária e atividade profissional. Ao finalizar as análises. Além do material preenchido pelos sujeitos. por outro. ao contrario das leituras guiadas que têm uma tarefa a cumprir. No que se refere ao uso do computador e acesso à Internet. (c) quatro protocolos de acompanhamento do processo leitor – dois para leitura impressa e dois para leitura virtual. Apresentando e discutindo alguns dados Neste artigo apresentamos dados apenas de dois docentes – d-018 e d-019 –. de um texto impresso. cujo conjunto de coletas está completo. O motivo. no qual se recolhem as crenças do sujeito sobre leitura. de um texto virtual e. com informações sobre seus hábitos leitores e de atividades em meio virtual. D-018 gasta mais tempo (até 5 horas diárias) em atividades de leitura e no uso da Internet do que d-019 (entre 1 e 3 horas). muito.288 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS quadro mais amplo da questão. dificuldades. Também fazemos um recorte no que se refere às leituras selecionadas para comentário. estratégias usadas). apenas o uso do computador conectado à Internet e no caso da impressa. (b) em que medida se diferencia e/ou aproxima da leitura em meio impresso. a partir do grau de concordância (nunca/nada. em quatro sessões de leitura: duas livres e duas guiadas. a serem resolvidas durante as sessões correspondentes de monitoramento. que estivesse disponível na biblioteca de um projeto de extensão sob a responsabilidade do Setor de Espanhol da UERJ. Nossos sujeitos são professores de espanhol. hipertextos. Como instrumentos para as diferentes coletas de dados. Também lhes pedimos que registrassem sua atividade no protocolo escrito e que comentassem oralmente (para a gravação) o que fizessem e pensassem durante a leitura (ações. (d) duas atividades de leitura guiada. escolhidos pelo fato de que suas práticas leitoras podem influenciar seu trabalho como mediadores e formadores de leitores. No que se refere ao perfil da ficha de sujeito. convidaremos os sujeitos a participar de entrevistas a fim de discutir com eles nossas observações. leitura em espanhol língua estrangeira (ELE) e uso de bens informáticos. mas se admitindo o uso de materiais impressos próprios). 4. relativamente. cada qual em suportes impressos e virtuais. nas sessões de leitura virtual. além do aspecto prático da limitação de espaço. pouco. enquanto d-018 o faz tanto em casa . respectivamente. contendo propostas de compreensão. com menor pressão e definições de objetivos e atividades por parte dos pesquisadores. junto com o preenchimento dos protocolos. utilizamos: (a) uma ficha de caracterização de sujeito. d-018 (faixa de 31 a 40 anos) é mais velho que d-019 (faixa de 26 a 30 anos) e ambos são professores de espanhol nos ensinos fundamental e médio. dúvidas. e em arquivo de áudio e vídeo (voz do sujeito e imagens da tela do computador). limitando-nos às leituras livres: impressa e virtual. As únicas limitações que lhes impusemos nessas sessões de leitura foram: de tempo (entre 30 e 45 minutos para cada sessão) e de meio (no caso da virtual. respectivamente livres e guiadas – preenchidos pelo sujeito durante cada uma das quatro sessões de leitura monitorada. é que se caracterizam como um contato mais espontâneo com a leitura. monitoramos apenas seis sujeitos docentes. as sessões são gravadas em áudio. no caso das leituras em meio impresso. segundo uma abordagem multidirecional de leitura. procuramos contribuir para responder os nossos problemas: (a) como o processo leitor está sendo desenvolvido em meio virtual e. (b) um questionário. sempre/totalmente) com uma série de 116 assertivas divididas em seis blocos temáticos. Ou seja.

reconhecem tanto os aspectos positivos quanto as limitações do meio. Contraditoriamente.” . O primeiro se avalia como um usuário muito hábil e autônomo. mas também entre as duas modalidades de leitura: impressa e virtual. podendo esta estar centrada no texto ou no leitor. Apesar disso. nem tecnofóbica) a respeito das TICs e seu emprego. Focalizam seu interesse em questões relacionadas a trabalho e estudo. tendeu para uma perspectiva unidirecional. os papéis se inverteram. Quanto ao perfil de usuários de meio virtual. b) d-018 concorda totalmente com a assertiva “O leitor entende um texto ao apreender seu significado. tendendo a uma perspectiva decodificadora. selecionando textos que contribuíssem para a melhoria de sua prática e planejamentos. navegação e participação em redes sociais. Já na leitura virtual. enquanto d-018 optou por ler para relaxar. é que as assertivas tenham sido compreendidas de forma diferente da pretendida quando da elaboração do instrumento. Isso seria admissível. Também contradiz sua tendência multidirecional. Quando efetivamente vão ler durante as sessões de monitoramento. define . cada um poderia definir o que fazer. com ênfase no texto. não descar tada pelos pesquisadores. D-018. ora outro. incluindo a busca de informação e materiais. ambos o dominam para usos cotidianos de caráter instrumental. ao concordar plenamente com “Compreender um texto significa formar uma estrutura mental que representa o significado e a mensagem atribuídos ao texto. Pudemos constatar diferenças não apenas entre ambos os sujeitos. já que a leitura pode variar de indivíduo para indivíduo e poderá ser verificado durante a entrevista.”. centrada no leitor. como e por quê.”. talvez pela menor frequência de uso do computador. podendo ser avaliadas como pessoas que têm uma posição equilibrada (nem ufanista. Uma das possibilidades. na qual “apreender” implica capturar/ receber o que está exposto no texto. houve avaliações de assertivas em que ora um. pois a assertiva indica uma supervalorização das imagens que o leitor projeta no texto para lhe dar sentido. que se considera apenas como relativamente hábil e autônomo. escolhendo histórias em quadrinhos e contos com temática de futebol. ignorando a bagagem do leitor e outros elementos que possam ser conjugados para estabelecer a compreensão. mas. d-019 manteve-se ligado ao trabalho.” . No caso da leitura impressa. Em termos de crenças coletadas a partir do questionário. afirmou concordar muito com o fato de que “O domínio de vocabulário. numa perspectiva unidirecional. ao contrario do segundo. quanto d-019 oferecem dados que nos permitem incluí-los numa categoria de leitores prioritariamente multidirecionais. d-019 só o faz em casa. para ter um momento de lazer. embora d-018 abra mais o leque de possibilidades do computador e da rede. representado pelas suas marcas linguísticas. esta última não citada por d-018. D-019 restringe seu uso ao e-mail.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 289 quanto no trabalho. desconsiderando que há outros elementos que entram em jogo na interação e contradizendo algumas avaliações feitas em outras assertivas. Uma vez que as leituras eram livres. Exemplos disso são: a) d-019 concordou totalmente com a assertiva “O centro do processo de leitura é o leitor. podemos tecer algumas reflexões sobre as possíveis tensões entre crenças e práticas. nesse caso. tanto d-018. conceitos e estruturas gramaticais é essencial à leitura. A primeira observação que fazemos se refere à definição de objetivos de leitura e às escolhas de gêneros e assuntos.

ao qual sempre retornavam para novas pesquisas. dificulta a organização em texto corrido que temos em materiais impressos. d-018. consultou diferentes sites. Mesmo assim. na leitura livre impressa. enviou para si mesmo por email materiais. A observação do comportamento do mouse e da barra de rolagem da página pôde ajudar a confirmar que a leitura feita pelos dois docentes. não sabia o endereço eletrônico para acesso. com o skimming servindo como estratégia básica para uma panorâmica geral de cada material.290 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS sua atividade em termos de busca de materiais para usar em sala de aula. D-019. saltando de um a outro (o cursor serviu de apoio a essa movimentação). guardou informação na área de trabalho para uso posterior. Ao se autoavaliar. pois conseguiu seguir do início ao fim e alcançar seus objetivos. mesmo sendo seu conhecido. A observação chama atenção. usaram como ponto de partida o buscador Google. sem um fim preciso (nunca temos exata dimensão de sua totalidade espacial). quase se perdendo. Concluiu que. educação e política brasileira. ao contrário do que havia feito na leitura impressa. mas também nos permite refletir sobre a necessidade de os textos veiculados em meio virtual serem mais curtos e apresentarem os links para enlaçarem conteúdos. procurou textos sobre atualidade. seguiu a navegação de forma mais controlada/ordenada. saltar de um texto para o outro. Provavelmente foi motivado pelo costume que tem de utilizar a Internet como fonte de recursos para suas aulas. integrando em sua leitura conteúdos ali encontrados. mudando seu foco. estratégias de copiar/recortar e colar. uma vez que sua formatação vertical. por não conseguir encontrar o que procurava. o pouco tempo para a atividade (informou que lê devagar). a fim de se atualizar e informar. Em termos estratégicos. utilizando skimming e scanning. na leitura virtual. abandonando o que não lhe interessava e. Era feita em blocos. a não ser. ao contrario de d-019 que esperava ler textos que atendessem seu objetivo de aperfeiçoamento. d-018 demonstrou mais facilidade com a internet e o computador de maneira geral: utilizou editor de texto. havia diferença entre ambos. Isso tornava a leitura desconfortável e mais difícil. ambos consideraram ter alcançado seus objetivos. teria sido mais fácil. salvou arquivos em pendrive. ao contrário. embora de forma menos linear do que na leitura impressa. na leitura virtual. Já d-019. Embora tenha demonstrado mais proficiência no trato com o computador. dispostos em páginas numeradas e sequenciais. disse não ter sentido falta de apoio impresso ao ler na tela. Ao contrário. em português. Os gêneros escolhidos foram notícias e vídeo. sempre silenciosa. Nesse aspecto observamos a contradição entre crenças e práticas com relação à postura unidirecional . no caso de d-019. Selecionou notícias e críticas de arte (procurava textos verbais sobre Guernica) em fontes em língua espanhola. não deu muito valor às imagens de maneira geral. não seguia palavra a palavra. não acessou links. Apesar de ter mais idade. D-019 considerou-se mais seguro na leitura impressa. sua insegurança concretizou-se pela fragmentação da leitura. como no caso de d-019 com o jornal cujas notícias leu e do qual. Isso ocorria inclusive quando se tratava de uma fonte habitualmente consultada. sem relatar nada que os tivesse atrapalhado. já que d-018 mostrouse sempre menos linear. Foi um pouco menos linear na leitura virtual. em vista da impossibilidade de encontrar o tema originalmente desejado. aproveitando melhor os recursos que o meio virtual lhe oferecia. se estivesse em papel. d-018 não definiu hipóteses sobre o que encontraria ao ler os textos impressos. Apesar disso. queixou-se que um dos materiais lidos tinha a imagem do quadro Guernica muito antes das suas explicações e comentários. Ambos destacaram a importância do conhecimento de mundo e.

Outro aspecto que nos chama atenção é o fato de que não necessariamente as crenças e percepções sobre nossas práticas leitoras se concretizam durante o ato de ler. Na verdade. leitores multidirecionais poderão provocar em seus aprendizes um perfil de exploradores dos textos. como já regitramos. Como normalmente transferimos para nossa atividade 5. mas é rejeitada como falha de leitura pelo sujeito. Da mesma forma. portanto. acessar links. por parte do sujeito d-018. assim.. abril. a necessidade. do contexto. estratégias que possuam. Cabe. seus gêneros e recursos tenderão a levá-los à suas salas de aula. mas nem sempre são fatores determinantes. conhecimentos. ter tendido igualmente a uma leitura seguida e completa dos contos escolhidos. merece atenção o estabelecimento do diálogo entre academia e meio escolar. 2011. defendemos que é possível uma reflexão sobre seu papel na formação de seus alunos leitores e de como tais conhecimentos podem contribuir para otimizar o letramento em espanhol na era digital. Destacamos: o uso de estratégias clássicas de leitura. Daniel. Algumas conclusões iniciais Embora não caiba generalizar comportamentos leitores em ambiente virtual com base neste estudo de amostra reduzida. A fragmentação de atividade leitora em meio virtual atende a uma característica do suporte. não só para aprimorar a formação inicial e favorecer a formação continuada de professores. somando sua experiência aos constructos acadêmicos. abrir diferentes aplicativos para resolver as questões de leitura. didático-pedagógica nossas crenças. continuar investigando para ampliar o campo teórico e para levar as novas teorias que estão sendo construídas ao terreno da prática. 57. n. 12-22. observamos uma melhor integração ao meio. As faixas etárias podem contribuir para a maior ou menor intimidade com o ambiente virtual. ainda. do texto ou de outros discursos/textos. sejam eles de sua bagagem pessoal. Después de internet. Aprender a ter consciência dessa tensão entre expectativa e realidade pode nos ajudar a aperfeiçoar a própria compreensão e. é factível assumir que professores que são exploradores das TICs. apesar de ter apresentado posicionamentos favoráveis a uma perspectiva multidirecional em seu questionário. Nos casos aqui exemplificados. A atitude de d-018 foi. mesmo quando tende ao segundo caso em termos de crenças. Referências bibliográficas CASSANY. é viável apresentar alguns comportamentos que se caracterizam como possíveis tendências na leitura desses docentes. adaptadas ao ambiente virtual. nos textos literários. p. gêneros e ferramentas das TICs. mas para interagir com docentes e alunos. menos linear. de apoio de suporte impresso em alguns contextos de leitura.. aproveitando todos os recursos. mais velho do que d-019. .ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 291 marcada pela leitura linear (do início ao fim) realizada e valorizada por d-019. o histórico de como aprendemos e daquilo que usamos. A par tir da descrição desses sujeitos. Textos de didáctica de la lengua y de la literatura. inclusive no que se refere à autopercepção da proficiência. sob uma perspectiva crítica e reflexiva. um perfil leitor que oscila entre uni e multidirecional. um aproveitamento heterogêneo e não sistemático dos recursos tipicamente virtuais dos textos de gêneros digitais. poucas foram as estratégias eminentemente virtuais observadas: copiar/colar. Isso. Em especial e em nossa avaliação. embora. sermos melhores professores.

2005. (Orgs.8. A.l.]: Unisinos. 2004. 24-37. n. . A. Madrid: Cátedra. Rio de Janeiro: Lucerna. GÊNEROS DIGITAIS: modificação na e subsídio para a Leitura e a Escrita na Cibercultura. Belo Horizonte: CEALE. VERGNANO-JUNGER. Hipertexto e gêneros digitais . Cristina. Gislaine Gracia. 1. (org). Ler na tela – letramento e novos MAGNABOSCO. p. Julia. C. In: Revista Prolíngua (UFPB) .2.1. _____. 1. 2005. Letramento dig ital. A. jan. v. In: DIONISIO. E. RIBEIRO. Luiz Antonio. aspectos soc iais e possibilidades pedagógicas. M. 3 ed.P. métodos y herramientas para el lingüista del siglo XXI. suportes de leitura e escrita. 2005.A.A. p. Lenguaje y nuevas tecnologías. 2009.) Gêneros textuais e ensino. Ana Elisa.C. jan. XAVIER. n. v. RIBEIRO. nuevas herramientas. Rio de Janeiro: Lucerna. 2010. Gêneros textuais emergentes no contexto da tecnologia digital. Calidoscópio. L. BEZERRA. Elaboração de materiais para o ensino de espanhol como língua estrangeira com apoio da internet. MARCUSCHI. R. MACHADO. Gêneros textuais: definição e funcionalidade. COSCARELLI. 90-101. ed. p. MARCUSCHI. 125-150. (Orgs. [S.)./abr./jun. V.292 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS LAVID. A.

Nos questionamentos do Supremo há a evidência dos temas históricos do século XIX. Em Yo el Supremo Roa Bastos trata de vários temas ligados ao Dr. como a ditadura do Dr. No documento apócrifo o Supremo ordena que seu cadáver seja decapitado. MEMÓRIA E FICÇÃO EM YO EL SUPREMO E EM HIJO DE HOMBRE DE ROA BASTOS Damaris Pereira Santana Lima PG . Em seguida todos os funcionários da casa civil e militar também deveriam ser enforcados. Francia. Quando ele se defende das acusações sobre si no pasquim fixado na porta da catedral questiona retoricamente: “¿De qué me acusan estos anónimos papelarios? ¿De haber dado a este pueblo una Patria libre. Mas o que há de unanimidade é que ele era um ferrenho defensor da independência e da soberania nacional. p. como as notas às margens com letra desconhecida que levam à reconstrução das circunstâncias históricas que viveu o Dr. personagem para quem não foram unânimes os julgamentos da história. soberana? Lo que es más importante ¿de haberle dado el sentimiento de Patria? (…) ¿De esto me acusan? (ROA BASTOS. 2008. o que Patiño jamais conseguirá. outros como um prócer da nação paraguaia. Francia.UNESP/ Assis Hijo de Hombre (1971) e Yo el Supremo (1974) são romances do escritor paraguaio Augusto Roa Bastos (1917-2005). no Paraguai (1816-1840). Francia. os quais Roa Bastos mostra como podem ser reinterpretados pela ficção com a intenção de desvelar um fato histórico mascarado. Para isto o povo deveria ser convocado através do sino da igreja para ver esta barbaridade. O ditador começa a procurar quem seria o autor de tal documento exigindo que seu secretário Policarpo Patiño localizasse o dito autor. Francia. que a cabeça seja posta em um poste por três dias. O romance Yo el Supremo começa quando um pasquim é encontrado cravado na porta da Catedral de Encarnación em forma de decreto com assinatura falsificada do Supremo Ditador. Alguns o veem como um déspota sombrio. Francia: as revoluções e a independência do Paraguai. independiente. o Dr. 57). que recuperam vários períodos da história do Paraguai no século XIX e XX.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 293 HISTÓRIA. A partir destes fatos desencadeia-se toda a narrativa. O romance contém notas que complementam e outras que contradizem. o isolamento e militarização do Paraguai como . do período do governo do Dr.

O Supremo age de acordo com sua vontade nesta contra-história que é construída com personagens e acontecimentos que são históricos. porque o autor outorgou-lhe um caráter fictício e ao mesmo tempo histórico. 585). éditos e inéditos. adversários e ex. p. as crueldades e castigos para com inimigos. Para a autora “el texto que escribe no olvida en ningún momento que lo es. 2009. 119). A história da Ditadura Perpétua é a matéria da ficção e consiste na cópia de escritos de e sobre o ditador. seus caprichos e sua postura para com os estrangeiros. p. A história é apresentada através da visão do Supremo que se gaba afirmando: “Yo no escribo la historia. em sua obra Estética del plágio y crítica política de la cultura em Yo el Supremo diz que em seu romance Roa Bastos realiza um trabalho de transformação dos materiais historiográficos em literários para construir uma obra de ficção colada aos referentes históricos que questiona os modos que se utilizaram para construílos. A cópia deste material dá voz à memória do Supremo. Para a referida autora “son hilos ficcionales de esbozos novelescos que los historiadores hacen y Roa Bastos reorienta” ( BOUVET. As fontes extratextuais são muitas. p. incluindo o presente da narrativa e até transcendê-lo. O conteúdo histórico utilizado pelo compilador foi produzido pelo próprio Dr. de otros tantos volúmenes. (ROA BASTOS. “quemado el borde del folio” (p. ou seja. correspondencias y toda suerte de testimonios ocultados. já que a narrativa é pós-morte. de maneira que a narrativa é a escrita da leitura de vários textos. Esta maneira de construir a narrativa possibilita a Roa Bastos ir do passado ao futuro. reforzando. personagem que não é onisciente. Nora Esperanza Bouvet (2009). os fuzilamentos. Supremo. Também nestas memórias estão as contradições de seu regime paternalista. por fontes contemporâneas ao ditador e por historiadores. “faltan folios” (p.66). O romance reescreve a história com dados para a escritura de uma versão divergente da história oficial e hegemônica. (…) . Na narrativa há muitas evidências de vários fragmentos que dão a impressão de rascunhos. espiados. per iódicos. 2008. 97).de unos veinte mil legajos. Há um passado. ou de papéis que teriam sido descartados: “hoja suelta”. à narrativa. conta e corrige esta imagem. Puedo rehacerla según mi voluntad. O Supremo pode fazer o que está declarando. no pretende ser otra cosa (reflejar ni representar nada) sino escritura generada por esas otras escrituras contra las cuales se vuelve. 274). 2009. 31-32). pois fala do presente da enunciação do romance e se remete à história do Paraguai anterior à ditadura do Dr. mas que não tem limitações quanto à história. “al margen escrito em tinta roja” (p.” (BOUVET. foi-se passando a limpo a história. Francia. 2008. enquanto ele narra. espigados. Todos os temas que fazem parte do romance tem matriz historiográfica. en bibliotecas y archivos privados y oficiales. p. O Supremo se debate contra uma imagem que lhe fora construída por seus sucessores e em particular por seus detratores. y unas quince mil horas de entrevistas grabadas(…) (ROA BASTOS. a colônia penal. Os grandes e pequenos defeitos de seu governo. Este conteúdo histórico é integrado ao simulacro romanesco. ajustando. “Letra desconocida” (p. folletos. Francia. É muito clara a denúncia contra o regime atual.30). considerado pelo Supremo como Neste trabalho de investigação empreendido pelo Supremo e seu secretário Policarpo Patiño para descobrir quem se atreveu a parodiar os decretos do . Hay que agregar a esto las versiones recogidas en las fuentes de la tradición oral.amigos. consultados.294 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS estratégia do ditador para livrar seu país das intenções anexionistas de Buenos Aires e as imperialistas do Brasil. La hago. as arbitrárias detenções. um plano de fundo o qual ele não pode exercer o seu poder de controlá-lo ou corrigi-lo. enriqueciendo su sentido y verdad”. 76).

quando especifica o roubo de los saltos de nuestras aguas. 115). que foram trazidos pelo colonizador há mais de quinhentos anos. 12). Onde a língua e a religião espanhola se modificam pelo contato com a língua e com a religião do índio. cria outra história acrescentando o não registrado. assim a soberania nacional do Paraguai. no entanto se fundem dando origem a uma nova visão de mundo. referindo-se à construção da usina de Itaipú. Yo el Supremo é uma narrativa que desestabiliza o que a história oficial registrou.” (ROA BASTOS. p. no período de aproximadamente vinte e cinco anos. A cultura ocidental é mesclada com o substrato dos autóctones. fundindo a cultura cristã com a cultura aborígene. sus hordas depredadoras de mamelucos. O narrador conta o que ele ouvia quando criança através do velho Macario. P. Se o tempo da obra fosse ordenado de maneira linear. 1971. data da chegada do cometa Halley. e termina com a morte de Miguel Vera e a conservação e compilação de seu manuscrito por Rosa Monzón. protegendo. O personagem faz alusão às relações entre Paraguai e Brasil e à sua firme política de defesa da integridade territorial. pelo império do Brasil. los altos de nuestras sierras aserradas con la sierra de los tratados de límites. Os fatos históricos que se referem ao século XIX são evocados pelas memórias do ancião Macario. quando lhes fora roubada grandes extensões de terra. no entanto há alusões a fatos que precedem a esse período. lugar “perdido em el corazón de la tierra bermeja del Guairá” (ROA BASTOS. Francia (1814-1840) e da guerra contra a Tríplice Aliança (1864-1870). 115). da fundação de Sapukai e do desaparecimento de Gaspar Mora. personagem que era considerado a aparição do passado. observar-se-ia que os acontecimentos começam em 1910. Antigo Testamento e a outra é o Himno de los muertos de los guaraníes. o que não se sabe e o que se desejaria saber sobre Francia. Neste fragmento há a alusão a dois momentos: o primeiro à agressão do império português no passado. Na Circular Perpétua o Supremo declara: “Llámese Imperio de Portugal o del Brasil. Hijo de Hombre (1960) é o romance de Augusto Roa Bastos que recupera a história do começo do século XX. texto do livro de Ezequiel. las fuentes de nuestros ríos. Em Hijo de Hombre emerge a convivência dos rituais e ideias míticas aborígenes junto aos ritos do cristianismo. Sapukai e Itapé e do seu povo. a saber. “hijo de uno de los esclavos del dictador Francia” (ROA BASTOS. O principal da narrativa se dá nesse segmento temporal.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 295 entreguista. 2008. Hijo de Hombre conta a história de dois povoados. Além dos dados citados acima. de bandeirantes paulistas a los que contuve e impedí seguir bandereando bandidescamente en territorio patrio.” (ROA BASTOS. 11). período do governo do general Alfredo Stroessner (1954-1989). espaço onde restavam poucas coisas do tempo . A descrição do povoado de Itapé. pouco tempo depois do final da guerra do Chaco em 1935. No texto da Circular Perpétua o Supremo traz à memória as invasões brasileiras em território paraguaio. los saltos de nuestras aguas. somente. sendo uma da tradição judaico-cristã. as rebeliões dos camponeses e a guerra do Chaco. Dr. a religião como veículo de transculturação. “Ya nos ha robado miles de leguas cuadradas de territorio. criador do Cristo de Itapé. e a seguir trata de um tema presente naquele momento. p. onde o Supremo insiste em falar das más intenções do Brasil. Esta afirmação é evidenciada desde as epígrafes do romance. 1971. 2008. p. o segundo momento é o presente. conta a história do ditador e do país alterando a linearidade da história oficial. a obra ainda evoca a história do período da ditadura de José Gaspar Rodríguez de Francia. A identidade paraguaia se constrói em um espaço onde as culturas lutam para se impor e.

intertextualidade que traduz o inconsciente coletivo do Paraguai no período histórico registrado pelo romance. também através das memórias de Macario.24). 2008. cuja busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje. bem como a história. ou a Guerra Grande é evocada no romance. p. 2010. citações intercaladas. reflexões em um caderno privado. O início do romance apresenta as memórias do narrador sobre o que ouvia na sua infância. Repetitiva. um dos presos militares da prisão de Peña Hermosa. 2010. 218). Yo el Supremo é uma metanarrativa onde se percebem as considerações iniciais e as dúvidas a respeito do quê e como narrar na maior parte das modalidades da escrita que irá inserir os diálogos do ditador com seu secretário.” (ROA BASTOS. a visão que Macario apresenta é o Dr.” Compara seus opositores a animais ruminantes e define suas memórias como “ Memoria de mascamasca. queriam devorar a nação paraguaia. miséria e esquecimento para a maioria da população. Ninguém se atrevia a fugir deste reino de terror. o esquecimento faz parte da estrutura da memória . A narrativa apresenta um país destruído pelas guerras com seus vizinhos. A memória tema recorrente nas narrativas de extração histórica tem papel de destaque na sociedade em termos de representação coletiva. 1971. que repete sem refletir e é demasiada porque exige esquecimento. países que segundo o Supremo. ¡Vaya fineza! ¿Qué alma han de tener estos desalmados calumniadores? Estómagos cuadrúpedes de bestias cuatropeas. O romance é construído sobre um sistema de citações direta e indiretas. las letras. Mancillativa. amparadas pela lei. anotações de uma letra desconhecida. pois: “Os indivíduos que compõem uma sociedade sentem quase sempre a necessidade de ter antepassados. pois. p.” (LE GOFF. Areópago de las ciencias. Profetizaron convertir a este país en la nueva Atenas. os espaços e os relatos de Hijo de Hombre apresentam a imagem de agonia da história e da sociedade paraguaia do começo do século XX. perseguido pelo avanço da modernidade que promete sucesso para alguns. Uma das poucas coisas que resta é o rancho do Cristo no alto do monte de Itapé. p. p.296 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS da sua fundação há mais de três séculos. Os personagens. Francia defendia a nação das tentativas anexionistas do Brasil e da Argentina. 14) Ao contar sobre a Ditadura Perpétua. pode ser compreendida como reconstrução do passado e como conservação das experiências humanas. No primeiro capítulo é evocada a história da Ditadura Perpétua quando se narra a vida de Macario que “ habría nacido algunos años después de haberse establecido la Dictadura Perpetua. Relatos. Desfigurativa.” (LE GOFF. na febre e na angústia . ou seja. tem uma intertextualidade complexa. o ditado de uma longa circular. las artes de este Continente…” (ROA BASTOS. mas muita dor. Sobre o tema Jacques Le Goff ainda pontua: “A memória é um elemento essencial do que se costuma chamar identidade. 218). A guerra contra a Trílice Aliança. Para o Supremo. O Supremo ironiza utilizando a metáfora de Platão “Estómago del alma. Memoria de ingiero-digiero. Outro tema histórico evocado no romance é a tortura e a vigília que se estabeleceu nos ervais eram como menciona o texto. Para o Supremo a memoria dos “memoriosos” é uma má memória. A Guerra del Chaco (1932-1935) é outro fato histórico evocado em Hijo de Hombre através dos registros do diário de Miguel Vera. individual ou coletiva. A memória. a história anterior ao tempo da narrativa. é meramente armazenadora. Su padre el liberto Pilar era ayuda de cámara del Supremo . Lembrar o passado é uma necessidade do ser humano. conforme a narrativa.

o “exceso de memória” carrega o discurso de detalhes desnecessários. em princípio o esquecimento é considerado um dano à confiabilidade da memória. Rotundamente no. 2008. pois. No romance a tônica é a revisão e a correção dos arquivos que armazenam a história do Paraguai. pois faz-se necessário poder esquecer dos detalhes sem relevância para concentrarse no que é essencial. (RICOEUR. nas circulares. . etc. Ahora debo dictar/ escribir. 315) . 2007.” (LE GOFF. os fatos revolucionários pela independência do seu país. p. Olvídenlas. p. pois é uma maneira de se renunciar al beneficio del olvido. não é a quantidade do que se lembra ou do que se esquece que faz construir uma boa memória. pois o discurso da história não é confiável.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 297 porque para lembrar alguma coisa. Pedras como fio condutor da reflexão sobre a memória e como um recurso literário. É necessário saber lembrar e saber esquecer. “le hace ignorar el sentido de los hechos. Lembrar somente o que convém. Para Le Goff “a outra forma de memória é o documento escrito num suporte especialmente destinado à escrita”. Aunque estar enterrado en las letras ¿no es acaso la más completa manera de morir? ¿No? ¿Sí? ¿Y entonces? No. p. 424). Después olvidaba lo que había dictado. De seguro estarán fatigadas sus mercedes con tantas bufonerías. O referido autor ainda salienta que “ todo documento tem em si um caráter de monumento e não existe memória coletiva bruta. se lo ruego. O referido autor problematiza esta perspectiva paradoxal dizendo que o esquecimento constitui-se uma das condições da memória. p. A narrativa é uma construção em leitura. anotarlo en alguna parte. a história ou a imprensa oficial não conseguiriam penetrar nos pensamentos de uma sociedade. nobles señores. “Yo busque superar los estereotipos de la narrativa regional. pois há uma diferença substancial na produção literária de Roa Bastos. Em Yo el Supremo. 2008. pois é um discurso incapaz de escrever o que passa pelo imaginário coletivo. “Disculpen. p. conforme ele mesmo declara em entrevista a qual se refere Bouvet (2009). Nisto se vê o objetivo de Roa Bastos em se escrever uma intra-história. Em Yo el Supremo há a simbologia de duas pedras: a piedra-bezoar e o meteoro-azar. memória e esquecimento exigem equilíbrio. 2008. pois é nos documentos históricos. A própria memória luta contra o esquecimento. mas ao mesmo tempo o autor pontua que uma memória que nada esquecesse seria considerada monstruosa. a celebração através de um monumento e pontua sobre a pedra mármore como suporte a uma sobrecarga de memória. Em Yo el Supremo o leitor se depara com diversos monumentos escritos. p. p. Al principio no escribía. O esquecimento não significa amnésia. únicamente dictaba. Quando Le Goff (2010. que se encontram os fios condutores da narrativa. 428). mas a qualidade do que se lembra ou se esquece. Lo que es necesario recordar es el bien de nuestras patrias. no documento apócrifo. ele fala das formas de memória que são a comemoração. Como a memória é imortalizada pela escrita. escrita e correção do que se escreve.) Esta passagem corrobora a importância da escrita na preservação da memória. 435) . da Pré-história à Antiguidade. 427) discorre sobre o desenvolvimento da memória: da oralidade à escrita. 75.” (ROA BASTOS. 2010.” (ROA BASTOS. (…) Se escribe cuando ya no se puede obrar (ROA BASTOS. a piedra-bezoar e o meteoro-azar estão associados às reflexões sobre a memória. Segundo Paul Ricoeur (2007. faz-se necessário esquecê-la. Já em Hijo de Hombre o tratamento da memória é diferente do que se vê em Yo el Supremo. Os “arquivos de pedra em Yo el Supremo.40).. A escrita que possui as funções de armazenamento de informações e a possibilidade de reexame e de correção. Es el único modo que tengo de comprobar que existo aún.

do filho do escravo.)” (LE GOFF.. Me había librado de esa conciencia que parecía estar dictándome los infortunios de la colectividad.. ao tratar dos desenvolvimentos contemporâneos da memória. com certo pesar. pela fragmentação da cultura paraguaia. Neste fragmento também é evidenciada a marca de tempo cíclico. tal vez los estoy expiando. “El puesto de sepulturero en Sapukai es casi una dignidad”( ROA BASTOS. A história se esforça para criar uma história científica a partir da memória coletiva. mientras escribo estos recuerdos.. p. siento que a la inocencia. Emerge no relato sobre María Regalada a filha do coveiro. pontua que toda a evolução do mundo contemporâneo se dirige para as memórias coletivas. Em Hijo de Hombre desde as primeiras linhas emergem as memórias da coletividade na voz do excêntrico. y podía dejar que esos infortunios fueran irradiados por la vida misma del texto. p. O fato de o país ser marcado por tantas mortes faz dos cemitérios lugares monumentais. 28). mas com o objetivo de purgar os males cometidos consciente ou inconscientemente no passado. A passagem revela que conta-se para reviver o passado. (.14). etc. lugares simbólicos. 2009. Em muitos povoados paraguaios o cemitério é o lugar mais antigo. Jacques Le Goff (2010). uma intertextualidade. “Lo que quería entonces era trabajar el texto desde adentro. do leproso. 27).. “(. E diz ainda que quando escreveu Yo el Supremo tinha deixado de ser o cruzado de uma literatura militante. do motorista. testemunho não serve mais para nada. p. Sapukai não seria o único povoado fundado junto a um cemitério secular. se mezclan mis traiciones y olvidos de hombre. (ROA BASTOS. pela inexistência de uma tradição literária paraguaia na qual inserir-se. Ele declara ainda que não conta e escreve com a intenção de reviver o passado.) em Hijo de Hombre y otros textos. o bilinguismo e a oralidade geraram o “mandato ético” de denunciar esta situação e de dar voz ou ser de alguma maneira o intérprete de uma coletividade vitimada pela desventura de suas vicissitudes. 27) e se auto justifica por sua situação como escritor exilado. p. No estoy reviviendo estos recuerdos.” (BOUVET.” (BOUVET. A observação de que as histórias eram sempre contadas em guarani mostra que Paraguai é uma sociedade que neste momento parece estar em transição entre a oralidade e a escrita. assim. As memórias de Miguel Vera contando de sua infância.. 2009. 52). 2009. Escrever suas lembranças é também uma maneira de contar e reviver o passado. el planteo estético había quedado condicionado por el mandato ético. 2010. evidenciadas pelas repetidas mortes provocadas por Miguel Vera. O trabalho como coveiro era muito cobiçado em Sapukai.298 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS pero equivoqué el camino hacia fuera y hacia adentro.” (ROA apud BOUVET.) lugares monumentais como os cemitérios (. Ahora mismo. Em outro momento do romance há a alusão à Guerra Grande quando se trata da relação morte e vida no imaginário nacional. p. las repetidas muertes de mi vida.. Mi testimonio no sirve más que a medias. p. Vale ressaltar que o ancião Macario sempre contava suas histórias em guarani. aqui quem é detentor da memória coletiva detém uma memória essencialmente oral. A memória também aparece na voz do narrador. 1971. de uma cultura ágrafa de uma literatura sem passado. Miguel Vera que apresenta suas lembranças de infância: Yo era muy chico entonces. As declarações acima podem ser consideradas resposta à diferença percebida na maneira de produção textual e de tratamento do tema memória. 467). pois diz que seu . 1971. ou seja. a los asombros de mi infancia. Os dois romances de Roa Bastos aqui comentados são textos em que história e ficção se cruzam promovendo. “História que fermenta a partir do estudo dos ‘lugares’ da memória coletiva.

si ha sido cabal con el prójimo. (trad. 38) Referências bibliográficas BOUVET. construindo. otro al morir… Muere pero queda vivo en los otros. Campinas. PECCI. la tierra come su cuerpo pero no su recuerdo…” (ROA BASTOS. o esquecimento. obra y pensamiento. Yo el Supremo . Buenos Aires: Debolsillo. 2010. 2007. Paul. Asunción: Servilibro. mis hijos – decía repitiendo casi las mismas palabras de Gaspar–. Alain François [et al. ROA BASTOS. LE GOFF. A memória. Y si sabe olvidarse en vida de sí mismo. Jacques. SP: Editora da Unicamp. Campinas. RICOEUR. Augusto. Hijo de Hombre. Augusto. desta maneira uma contra história. SP: Editora da Unicamp. História e Memória . 2012. a história. 2008. ROA BASTOS. como diz o próprio Roa. p. 1971. 1971. 2009. Asunción: Servilibro. “—Porque el hombre. Buenos Aires: Editorial Losada. . temas em debate na atual produção literária da América Latina. Nos dois romances há também a presença de memória e esquecimento.]. Nora Esperanza. Estética del plagio y crítica política de la cultura en Yo el Supremo. Uno al nacer. tiene dos nacimientos. Roa Bastos – Vida. Antônio.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 299 O discurso ficcional ao dialogar com a história faz um questionamento à história oficial.

percebemos que não existe um trabalho efetivo desses elementos que ultrapassem o âmbito formal do texto. aqui entendido como uma construção social. observando o que se espera do aluno quando estudam os conectores. parece crucial. a nossa intenção é escolher. Em outras palavras. Neste trabalho refletirei sobre o tratamento dos conectores nos livros didáticos do Ensino Médio aprovados no PNLD 2012. parecem intercambiáveis. refletir sobre o posicionamento teórico que se segue. se não contraditórios. analisarei as três coleções de Língua Espanhola aprovadas no PNLD de 2012. Ao desenvolver um estudo sobre qualquer elemento que se inclui ou que leva no nome algum desses termos. são muito próximos e. Texto e discurso: limites incertos Ao propor a diferenciação de texto e discurso neste trabalho. já tomamos a perspectiva de que se tratam de elementos ou conceitos diferentes. frequentemente. discurso e gênero (textual e discursivo).300 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS O TRATAMENTO DOS CONECTORES NAS COLEÇÕES DE LÍNGUA ESPANHOLA APROVADAS NO PNLD-2012: UMA QUESTÃO TEXTUAL OU DISCURSIVA? Daniel Mazzaro Vilar de Almeida PG-UFMG/UFV/UNIFAL Introdução Nos estudos linguísticos existem muitos conceitos e termos que. portanto. Isso acontece até mesmo com os objetos de estudo mais recorrentes nas teorias modernas. como texto. Em seguida. não são levados em conta como elementos que conectam mais que frases ou enunciados (embora este último conceito alcance a semântica e/ou a pragmática da língua) e alcançam o nível discursivo do texto. dentre as diversas possibilidades de . No entanto. mostrarei como também são escorregadias as definições do termo conector e seu “quase” sinônimo marcador discursivo. quando comparamos suas definições. Sendo assim. o que parece ser um senso comum para vários linguistas e teóricos da linguagem. Após essas ponderações. sob os nomes das classes gramaticais tradicionais a que pertencem. Embora não apareçam sob esta nomenclatura. às vezes. mas sim. partirei de uma breve discussão dos termos texto e discurso para mostrar a complexidade da separação entre ambos.

escrita ou oral. produções verbais específicas de uma categoria social (discurso das enfermeiras) ou uma categorização baseada num critério comunicacional (discurso polêmico). de modo a permitir aos parceiros. as pesquisas da área discursiva podem se separar em dois polos: . Quanto ao contexto. uma vez que a análise do discurso é uma tentativa de articular estruturações textuais e situações de comunicação. As restrições podem ser um posicionamento em um campo discursivo (discurso feminista). em decorrência da ativação de processos e estratégias de ordem cognitiva. uma unidade linguística mais alta. 1 É nesse mesmo caminho tortuoso que se tenta definir discurso.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 301 definições. Bentes (2001) identifica três fases. um tipo de discurso (discurso jornalístico). verbalização e construção. o conceito de texto já incorporou o de contexto. em um momento dos estudos da LT. superior à sentença e. que filtra esses valores virtuais ou que pode suscitar novos valores (vê-se uma associação de discurso à dimensão social e mental). o que deixa margens a dúvidas se realmente existe uma diferença entre esse e discurso. Mas. já que esta é entendida como sistema de valores virtuais e/ou como idioma compartilhado pelos membros de uma comunidade linguística. Enquanto a primeira define o texto como uma sequência coerente e consistente de signos linguísticos delimitada por interrupções significativas na comunicação e possui status de maior unidade linguística. No entanto. na interação. o texto passou a ser entendido como um sistema uniforme. Ao fazer um panorama sobre análise do discurso. discurso deve ser visto de forma diferente de língua. Maingueneau (2008) explica que discurso pode ser. Desse ponto de vista. dessa forma. tem-se afirmado que o discurso é a relação de um texto com seu contexto (discurso = texto + contexto). por um lado. a segunda fase o define não como uma estrutura acabada (um produto). discurso é um uso restrito desse sistema compartilhado. No segundo caso. estável e abstrato. Segundo Maingueneau (2008). Essa distinção permite distinguir a atividade discursiva nas suas múltiplas dimensões e sua única manifestação verbal. mas também a interação (ou atuação) de acordo com práticas socioculturais. por outro lado. uma diferenciação que possa nos servir para compreender o que acontece com o tratamento dos conectores. Ele passa a ser visto como uma manifestação verbal constituída de elementos linguísticos selecionados e ordenados pelos falantes durante a atividade verbal. objeto. o discurso é o uso da língua em um contexto particular. que foram passos expressivos para perceber que o texto não é apenas um combinado de frases. Maingueneau (2008) esclarece que. se desprendem conceitos como textualidade e contexto . uma atividade verbal em contexto que se manifesta sob a forma de unidades transfrásticas. isto é. Fazendo um breve histórico do conceito de texto. a textualidade seria uma propriedade distintiva do texto. Já a terceira fase considera que sempre teremos à nossa disposição mais de uma definição de texto ou daquilo que se postula ser o objeto da Linguística Textual (LT). Quanto ao primeiro. até seu cenário imediato de ocorrência ou o conhecimento prévio dos falantes e a própria linguagem . desde o entorno sociocultural no qual a atividade comunicativa se desenvolve. No primeiro caso. ele pode englobar muitas ideias. ou seja. e sim parte de atividades mais globais de comunicação. expressivo e referencial. Discurso é também diferente de texto. e a linguagem é considerada na sua relação com seus objetivos social. o compreende no seu próprio processo de planejamento. como vimos anteriormente. não apenas a depreensão de conteúdos semânticos.

elementos que. parágrafos. ora se complementam. Tournier. J. Por isso. conectores discursivos . Devemos ter a noção. partículas pragmáticas. de acuerdo con sus distintas propiedades morfosintácticas. Roulet em Genebra. referindo-se. muitas vezes. essa diferença costuma estar no imaginário comum quando se distingue texto de discurso . devido à diversidade de critérios adotados e às diferentes proposições metodológicas a partir dos quais se tem abordado o estudo dos conectores e dos marcadores discursivos Vê-se claramente o eixo pragmático e semântico da definição de Portolés. . seja a intenção do falante em usá-lo. P. frases. já que no tratamento dos marcadores discursivos elas se complementam devido aos âmbitos do objeto de estudo que cada teoria analisa: seja o contexto em que aparece um conector. enlaces extraoracionais . semánticas y pragmáticas. como descrever o valor dos elementos de conexão entre orações e outros elementos se tantos pesquisadores o tomam o tomaram como seu assunto de investigação? Conectores ou Marcadores Discursivos? Uma das maneiras de alcançar o sucesso de que um texto/discurso possa fazer sentido é por meio de conexões entre as palavras.23-24) O autor faz uma divisão interna da área discursiva para a qual utiliza termos específicos: na definição do primeiro polo aparece a expressão “organização textual”. Détrie. Em Almeida (2011). não se chegou a um acordo em questões básicas como a denominação e definição de seu conceito. a conceituação de MD e conectores apresentam diferenças. que defendem uma concepção de linguagem na qual se misturam as influências do marxismo e da linguística da enunciação. conectores pragmáticos .De um lado. além disso. operadores discursivos. por exemplo. Barbéris. partículas discursivas etc. Adam em Lausanne. usa o termo marcadores del discurso e assim os define: son unidades lingüísticas invariables. Ou seja. p. A questão é que. B. seja suas características sintáticas etc.147-148).De outro. Podemos citar pessoas que trabalham na revista MOTS (S. primeiramente os gramáticos e filósofos. aqueles que visam primeiramente articular discursos e posicionamentos ideológicos. por isso. e na do segundo polo ele usa “discursos” e “posicionamentos ideológicos”. ou seja. no ejercen función sintáctica en el marco de la predicación oracional y poseen un cometido coincidente en el discurso: el de guiar. Bres. 1998. las inferencias que se realizan en la comunicación. (PORTOLÉS. quando ele explica que a finalidade dessas expressões é de guiar as inferências que se realizam na comunicação. aos mesmos elementos estudados e. enquanto que os limites do discurso se encontram em seu alcance sócio-ideológico. M. Fiala) ou o grupo de Montpellier “Praxiling” (J. Curiosamente. de que nem todas as teorias (que não são poucas) coincidem entre si e. apoios do discurso . (MAINGUENEAU. os pesquisadores que têm como argumento o estudo da organização textual. como explica Escandell (2006). os limites do texto estão em sua organização sistêmica. Bonnafous.302 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS . os conceitos atribuídos a esses termos ora se identificam.-M. no entanto. orações. Várias foram (e são) as teorias que deram sua contribuição para elucidar a questão e o funcionamento dos conectores2. e em seguida os pragmaticistas. especialmente na Suíça romanda. 2008. Portolés (1998). optamos por não nos deter a apenas uma das teorias.). seja a carga semântica da expressão. é possível encontrar termos como marcadores de relação textual . J-M. foi um dos problemas que mais preocupou.. na próxima seção. Vejamos. (doravante MD). p. . enunciados ou segmentos discursivos. como se definem os conectores.. P. Siblot. marcadores de estruturação textual. ou E.

obtenida gracias al contexto. por ello. “como señales de balizamiento que un escritor eficaz va distribuyendo a lo largo de su discurso. p. temos as informações de que tanto as definições de marcadores discursivos como de conectores possuem uma raiz muito forte na pragmática e na semântica. áreas de muita influência na Linguística Textual e na Análise do Discurso. ponto(s) de vista. para serem aprovadas. mas usa o termo conectores e explica que (…) tienen como valor básico esta función de señalar de manera explícita con qué sentido van encadenándose los diferentes fragmentos oracionales del texto para. E essa definição.21) Estas perguntas dariam origem a outras pesquisas. estreitamente relacionada à de enunciado 3. 2010). Logo. VILLALBA. todo discurso se compone de una parte puramente gramatical y de otra pragmática. podemos ver que o conceito de linguagem está bem próximo ao que discutimos sobre discurso já que expressam ideologia(s). intenções e argumentações podem se materializar no discurso por meio de conectores de modo a guiar o interlocutor desse texto/discurso no processo de interpretação. conforme dividimos de forma didática anteriormente. as coleções. valores e ideologias inerentes aos grupos sociais. a fin de que su lector siga sin esfuerzos ni dificultades el camino interpretativo trazado” (MONTOLÍO. Essas ideologias. 2001. (MONTOLÍO. intenção(ões) e argumentação(ões). Um olhar sobre os conectores nas coleções de Língua Espanhola do Ensino Médio aprovadas no PNLD 2012 Segundo o Guia de Livros Didáticos: PNLD 2012: Língua Estrangeira Moderna (2011. esto es. p. de esa manera. esse elemento é de extrema importância para a leitura crítica do texto. devem entender e orientar em suas atividades a linguagem como atividade social e política.10). Dessa forma. 2001. Enlaces (OSMAN et al. (PORTOLÉS. ayudar al receptor de un texto guiándole en el proceso de interpretación. principalmente quando explica que os conectores funcionam. Vejamos. Montolío (2001) propõe uma definição. 1998. como vimos anteriormente.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 303 De forma parecida. que envolve concepções. Portolés e Montolío se preocupam pelos posicionamentos ideológicos dos sujeitos envolvidos no jogo discursivo ao estudar os conectores e MD? Até que ponto as questões socioculturais influenciam o uso e interpretação desses elementos nos discursos? . então.27) Assim. Nossa pergunta é: por que o termo mais usado é marcador discursivo e não textual? Portolés (1998) entende por discurso la acción y el resultado de utilizar las distintas unidades que facilita la gramática de una lengua en un acto concreto de comunicación. 2010). se sob o viés textual ou discursivo. voltemos à proposta deste texto e analisemos como os livros didáticos de espanhol aprovados no PNLD 2012 tratam os MD e os conectores. p. expressa por meio de manifestação verbal e não verbal e que se concretiza em diferentes línguas e culturas. Sua definição também possui uma estreita relação com a semántica e pragmática. Até este momento. esses pontos de vista.21). como os conectores/MD são tratados nas três coleções didáticas de espanhol do Ensino Médio aprovados no PNLD 2012 que são as seguintes: El arte de leer en español (PICANÇO. marca um limite com a definição de discurso proposta pelas correntes de Análise do Discurso. por isso heterogênea e historicamente situada. 2010) e Síntesis (MARTIN. já que é uma porta para inferências do tipo socioculturais. em um texto. p. prática discursiva. atividade em permanente construção.

Nos volumes anteriores citam. classe gramatical etc. no volume 1. ó e u das duas primeiras conjunções e propõem atividades principalmente de preencher lacunas. por meio de um quadro-resumo com outros exemplos e. o e pero por meio de exemplos tirados do áudio do capítulo e uma tirinha (apresenta-se o valor e um exemplo de cada conjunção). mas sim ao longo dos três. por exemplo. porque. expressões condicionais (unidade 7). A divisão nas unidades é semântica: expressões concessivas (unidade 4). a unidade 3 apresenta na seção Para consultar (seção na qual consta um pequeno resumo dos temas linguísticos contemplados na seção gramatical ¡Ojo! ) de uma breve explicação das expressões en suma. además. Após alguns exercícios de escrita nessa mesma seção. expressões temporais (unidade 6).. quizás. así que. o sea. o volume 3 trata dos MD na seção Manos a la obra . Parte deles aparece em atividades de preencher lacuna e possui. isto é. por eso. Já no volume 2. em seguida. Assim como nesses livros. outras conjunções como aunque. os conectores são trabalhados pela primeira vez no capítulo 1 do segundo volume na seção Gramática básica . porque. tiempo. uma breve explicação sobre . Em uma delas. cantidad. por lo tanto na unidade 1 do volume 2). exceto na unidade 8. tratam das variações e. tampoco. sin embargo. na qual os autores os apresentam sob o título “conectores del discurso”. marcadores temporais (unidade 3.. e sistematizados nessas coleções. modo. o tratamento dos conectores por eso. pues. não vamos descrever cada uma das atividades. ya que. A coleção Enlaces apresenta os conectores principalmente no volume 3.. Os autores propõem um trabalho com as conjunções de coordenação y. como aunque (unidade 2) y si (unidade 3). na seção Para consultar um sinônimo e/ou uma breve explicação do seu sentido. afirmación. Os conectores parecem ser resgatados novamente apenas no volume 3.. temos. Assim. na primeira unidade. ora. como. ora e luego aparecem ser ter nenhum estudo sistemático prévio.) e outros exemplos. No caso da coleção Síntesis. unidade 5). debidamente e si bien . como ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS os conectores são o segmento que segue o conector (tempo verbal. Como nossa intenção neste trabalho não é o de esgotar o assunto sobre o tratamento dos conectores nas coleções aprovadas no PNLD-2012. por exemplo. sin embargo. probablemente. Novamente estas e outras expressões aparecem no capítulo 5 na seção Gramática básica sob o título Adverbios em um quadro-resumo dividido em lugar. na qual encontramos fragmentos dos textos (frases). Deixamos claro que nem todos os conectores citados apresentam o mesmo tratamento. no segundo capítulo. por eso. dedicadas à leitura e compreensão de texto. volume 2). o tema é resgatado em Como te decía. nem todos se explicam por meio de fragmentos dos textos para que o aluno entenda seu funcionamento. isto é. ni. como eles são Na coleção El arte de leer en español. quando se trabalha o subjuntivo e é proposto ao aluno fazer frases sobre os personagens de um texto lido usando as expressões ojalá. ante. uma atividade oral. volume 2) e expressões de possibilidade e desejo (unidade 6. negación e duda. Essas expressões são explicadas posteriormente na seção Para charlar y escribir . os MD não aparecem em apenas um volume como um tema a ser estudado.304 Vejamos apresentados nelas. com destaque nas expressões. algumas conjunções (y/e. o/ ó/u. sin embargo. no es seguro que e tal vez. por su parte e sino a partir de frases retiradas dos textos das seções ¡Mira! e ¡Acércate!. alguns advérbios de frequência (volume 1. así. e no volume 3 também aparecem outros conectores.

devido ao recorte do trabalho. Dessa constatação. sistêmico. São Paulo: Cortez Editora. ou seja. BENTES. Anna Christina (2001): Linguística Textual. e. p. começando pelo artigo e terminando nas conjunções. as coleções tratam os conectores como assunto importante a ser estudado? Sob que viés: textual e/ou discursivo? Em uma análise geral. chegamos a algumas conclusões preliminares: 1) O estudo dos conectores costuma aparecer a partir do volume 2. Em: MUSSALIM. A. A exceção é da coleção El arte de leer en español. linguístico. pudemos perceber que esses elementos linguísticos são tratados no nível textual. da 2ª série. Referências bibliográficas 4) Os marcadores discursivos são um assunto gramatical. Apresentar atividades que envolvam essa esfera da linguagem não é uma questão de dificuldade ou facilidade. ignora-se seu alcance social. mas. dessa forma. Considerações finais Por meio das conclusões preliminares da análise do tratamento dos conectores e MD nas coleções de espanhol aprovadas pelo PNLD-2012. em alguns casos. já que a maioria é de preencher lacuna. o seu tratamento entre parágrafos. F. 245-287. Isso talvez se deva ao fato de os materiais preferirem seguir uma sequência de temas que está próxima à das gramáticas tradicionais.. isto é. que desde o primeiro volume já apresenta um estudo de MD mais comuns. 3) O enfoque é dado aos conectores interfrásticos ou interoracionais. (Org). como a coleção Enlaces que apresenta exercícios que conjugam a semântica e a sintaxe. Eles não são tratados. 2ª Ed. por exemplo. apresentação de sinônimos e ideias dos conectores. Não me refiro a questões que pedem. nas quais o leitor é convidado. . Introdução à Linguística: domínios e fronteiras. Como já dito. na qual os alunos devem relacionar ideias por meio de conectores e também conjugar os verbos. por exemplo. Não dizemos que isso seja equivocado.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 305 tampouco analisar as definições dadas às expressões. Há exceções. Outras conclusões podem ser obtidas. mas sim de necessidade. nosso objetivo é ver o alcance do tratamento dessas expressões. por exemplo. 2) As obras costumam restringir-se à importante fazer inferência de um conector. v. mas sim que não contempla mais que o uso semântico das expressões. pudemos perceber também que não há atividades de compreensão de texto nas quais seja BENTES. Inclusive as atividades refletem esse pensamento. C. a causa de um fato e o aluno encontra a expressão porque ou ya que no texto e responde à atividade. aparecem apenas nas seções destinadas a tal estudo. como guia na interpretação discursiva. obviamente. já que o objetivo do ensino médio é de formar leitores críticos e isso só pode acontecer por meio de leituras analíticas que englobem as questões extratextuais. a refletir sobre a estratégia textual de apresentar determinados argumentos como contrapostos ou como causa-consequência. ou seja. no final das contas. 1. ignorando. Refiro-me a leituras inferências sociais. enumeraremos apenas essas.

Barcelona: Ariel. VILLALBA. MONTOLÍO. como conjunções. – Brasília: Ministério da Educação. São Paulo: Macmillan. São Paulo: Ática. Barcelona: Ariel. Soraia. Guia de livros didáticos: PNLD 2012: Língua Estrangeira Moderna (2011). embora saibamos que existem diferenças teóricas entre eles. Barcelona: Ariel (nova edição atualizada). assim como da obscura fronteira entre a classe dos marcadores e outras categorias limítrofes. Deise Cristina de Lima. vocativos etc. Em: SIGNORINI. Victoria (2006): Introducción a la pragmática. advérbios. REZENDE. José (1998): Marcadores del discurso . MARTIN. et al (2010): Enlaces . [Re]Discutir texto. . de acordo com critérios discursivos. Em: SIGNORINI. 2 Para esta pesquisa. 3 Escandell (2006) explica que enunciado é uma unidade do discurso. I. e se define dentro de uma teoria pragmática. p. gênero e discurso. sugerimos uma leitura atenta de Portolés (1998a) e/ou Martín e Portolés (1999). Estrella (2001): Conectores de la lengua escrita. São Paulo: Parábola Editorial. OSMAN. MAINGUENEAU.306 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS ________. Sua interpretação depende de seu conteúdo semântico e de suas condições de emissão. Terumi Koto Bonnet (2010): El arte de leer español. p. 1946. PICANÇO. interjeições. Para uma apresentação mais completa dos problemas de etiquetagem que se propõem das unidades suscetíveis de serem consideradas como marcadores do discurso. PORTOLÉS. gênero e discurso. no qual se discute com relativa profundidade os conceitos de textualidade e contexto. [Re]Discutir texto. uma sequência linguística concreta realizada por um emissor em uma situação comunicativa. 135-156. Ivan (2010): Síntesis. Curitiba: Base Editorial. consideraremos marcadores discursivos e conectores termos sinônimos. Secretaria de Educação Básica. ESCANDELL VIDAL. I. Renato Cabral (2008): Texto: conceitos. sugiro a leitura do capítulo de Bentes e Resende (2008). Dominique (2008): Discurso e análise do discurso. Notas 1 Devido ao recorte deste texto.. questões e fronteiras [con]textuais. M. São Paulo: Parábola Editorial.

sob a ótica da análise do discurso e da História das Ideias Linguísticas. A relevância deste último dicionário é especial para nossas análises. sintático e lexicossemântico.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 307 DICCIONARIO PANHISPÁNICO DE DUDAS: DÚVIDAS. tomamos algumas formulações das seções que precedem a nomenclatura (conjunto de verbetes) do DPD. Em seguida recortamos alguns verbetes. Para mostrar como é construída a imagem de dúvida no DPD. Mostramos assim que existe um grande repertório de dicionários de dúvidas no campo da língua espanhola desde algumas décadas. Além destes temos o Diccionario de Dudas y Dificultades del Español de Manuel Seco. como o Diccionario Gramatical y de Dudas del idioma. DEFINIÇÕES E COMENTÁRIOS Daniela Ioná Brianezi PG . de 2011. Martinez Amador (1953). 1992). cuja primeira edição data de 1961 e que está em sua 10a. visto que Manuel Seco ocupa desde 1980 a cadeira da letra A da RAE. Nessa linha. p XIII . Conforme argumenta Pecheux. tomando como eixo da conceitualização o jogo de “antecipações imaginárias” descrito por Pecheux ([1969] 2010). Seu objetivo.Universidade de São Paulo Analisamos neste trabalho a imagem de dúvida no Diccionario Panhispánico de Dudas (DPD) da Real Academia Española ( RAE ) e Asociación de Academias de la Lengua Española (ASALE). Há outros dicionários de dúvidas na língua espanhola. morfológico. de Emilio M. ed. de 1996.. Esse trabalho faz parte dos estudos que desenvolvemos no mestrado em língua espanhola pela USP. p. de 2005. se referindo especificamente ao caso do discurso politico mas que podemos transferir diretamente a nosso caso (ibid:76): “ [a relação de sentidos entre discursos] implica que o orador experimente de certa maneira . ortográfico. consideramos o dicionário como instrumento linguístico (Auroux. é dar “respuesta a las dudas más habituales”. como pode ser visto em Qué es el Diccionario Panhipánico de Dudas. como mostrado na seção Qué es el Diccionario Panhispánico de Dudas. O DPD é um dicionário recente. o primeiro de dúvidas produzido pela RAE/ASALE. o Diccionario Sopena de Dudas y Dificultades del Idioma. de 1981 e o Diccionario de Usos y Dudas del Español Actual de José Martínez de Sousa. XIII. As dúvidas tratadas no DPD podem ser de caráter fonológico. analisando sua estrutura para ver como se dá resposta à dúvida.

sobre todo.308 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS o lugar de ouvinte a partir de seu próprio lugar de orador: sua habilidade de imaginar. Temos aí um sintagma nominal marcado por uma especificação numérica. en especial en lo que atañe a la adopción de neologismos y extranjerismos. léxica ou gramatical. No caso do DPD. o que funciona na direção de produzir a evidência da necessidade do próprio dicionário. que ‘se echaba de menos’. Notamos ainda em sd2 uma divisão no que se refere ao modo de projetar ou pensar a dúvida. era uma obra que faltava e veio para preencher um vazio existente. con comodidad y prontitud. e que chegaria “espontaneamente”. (destaque nosso) Em sd2 notamos primeiramente a antecipação feita sobre a obra. em tempo hábil. temos a seguinte formulação: sd1: Centenares de hispanohablantes de todo el mundo se dirigen a diario a la Real Academia Española. Iniciando nossas análise no item ‘presentación’ do DPD. adelantarse a ofrecer recomendaciones”. al mismo tiempo. al mismo tiempo. No fragmento ‘miles de dudas concretas que asaltan a los hablantes’. A especificação que aí opera a favor de quantificar as consultas argumenta a favor da publicação e do funcionamento do dicionário. ‘centenares’ e outra que remete ao espaço (“de todo el mundo”) que tem como referente o consulente. o a cualquier otra de las que con ella integran la Asociación de Academias de la Lengua Espanõla. Se produz aí o efeito de que a dúvida irrompe naturalmente (ela ‘asalta’ o falante) o que por sua vez opera a favor de abrir o lugar da academia. léxicas o gramaticales y pidiendo aclaración sobre ellas. Opera aí um efeito de sentido pelo qual isso funciona como uma evidência. ou seja. de sua necessidade. produzindo o efeito de sentido de são reais e não hipotéticas (são os falantes os que expõem suas dúvidas). de preceder o ouvinte é. Esta antecipação do que o outro vai pensar parece constitutiva de qualquer discurso. apesar de todos os dicionarios que mostramos anteriormente de dúvidas. temos a seguinte formulação: . Trata-se aqui de uma dúvida “prevista” pela Academia. A instituição “RAE/ASALE” administra essa dúvidas começando por uma classificação das mesmas: seriam da ordem ortográfica. Uma primeira projeção tem a ver com aquela proveniente do falante. Continuando ainda na ‘presentación’. São também especificadas como “concretas”. um não especialista. decisiva se ele sabe prever. pXI. que antecipa a dúvida quanto ao consulente e constrói a imagem de dúvida nos paratextos a partir de um determinado jogo de antecipações. às vezes. observamos novamente a especificação numérica. Já no fragmento seguinte aparece uma outra modalidade: “y donde las Academias pudiesen. O ‘se’ impessoal produz um efeito de generalização. adelantarse a ofrecer recomendaciones sobre los procesos que está experimentando el español en este mismo momento. como já mostramos. temos o sujeito lexicógrafo institucional. (sublinhado nosso) sd2: Se echaba de menos una obra que permitiera resolver. que tem dúvidas quanto à língua e recorre à RAE ou às Academias da ASALE para pedir esclarecimentos. onde este ouvinte o “espera”. segundo a qual a instituição se ocuparia de tratar o que vê como Percebemos que inicia-se apresentando a dúvida como algo que “parte de um sujeito falante da língua espanhola”. A especificação especial “de todo el mundo” remete à própria denominação do dicionário: ‘Panhispánico’. exponiendo sus dudas sobre cuestiones ortográficas. para que todo ello ocurra dentro de los moldes propios de nuestra lengua y. de naturalizar seu papel de especialista que serve ao sujeito consulente. de forma unitaria en todo el ámbito hispano. los miles de dudas concretas que asaltan a los hablantes en su manejo cotidiano del idioma y donde las Academias pudiesen. […]” (destaques do autor).

já que este se diferencia do que encontramos num dicionário de língua. geográfico-políticas (Arg.). 2. si los poseen. 1992]). havendo no final do DPD a lista de todas as obras citadas. v. Temos o primeiro vocábulo. 1982]). voseo. Registra-se na enunciação da maioria dos verbetes exemplos de uso dos vocábulos. O DPD explicita que a maioria dos exemplos dos vocábulos foram retirados do CREA (Corpus de referencia del español actual) e em menor medida do CORDE (Corpus diacrónico del español). vulgar). como explicitado na seção antecedente à nomenclatura ‘signos’ (DPD:XXXV). Par. previstas pela academia. Como adjetivo. os não temáticos vão escritos em letras minúsculas. Os temáticos se referem a temas gramaticais. uma formulação que já nos permite passar a tratar uma outra parte do dicionário: sd3: El DPD se dirige tanto a quienes buscan resolver con rapidez una duda concreta y. embora não se mencione este fato nas sessões iniciais e em nenhum outro local do DPD. Continuando nossa busca da imagem de dúvida construída no DPD. Con este sentido se desaconseja. se referiria a neologismos e estrangeirismos. formado pela letra ‘L’: sd6: lag r imal lagr imal. Notamos a volta do uso de ‘dudas concretas’. o DPD manteria a regularidade. temporais (desusado). Percebemos algumas diferenças quanto à maneira de enunciação dos vocábulos no DPD em relação aos dicionários integrais ou diferenciais em língua espanhola. sejam elas gramaticais (adj. como laísmo. A estrutura dos verbetes pode conter ainda o enunciado definidor entre aspas simples. Começamos a mostrar agora como são os enunciados encontrados nos verbetes Temos dois tipos: os temáticos e os não temáticos.” (destaque nosso) lacrimal: «Los ojos.) ou técnicas (medicina. A primeira delas é a falta de marcas no corpo do verbete. ‘de (las) lágrimas’: «El conducto nasolagrimal va del saco lagrimal a la nariz» (Rosales/Reyes Enfermería [Méx. silenciando o segundo tipo de ‘dudas’ tratadas pelo DPD. obervamos na parte ‘1’ da enunciação do vocábulo lagrimal. de restrição de uso (informal. ‘extremo del ojo por donde salen las lágrimas’: «Sacó un pañuelo del bolsillo del delantal y enjugó con él sus lagrimales» (Bain Dolor [Col. (destaque negrito e itálico do DPD. a retomada da primeira acepção do Esta formulação nos faz compreeder a estrutura do verbete do DPD. São de número menor e vão escritos em letras maiúsculas. encontramos na seção: ‘qué es el diccionario panhispánico de dudas’. Veremos aqui algumas ocorrências de verbetes não temáticos. De acordo com nossa pesquisa. neste caso. ‘destinatarios’ (DPD:XIII). ainda de acordo com sd2.. Con este mismo sentido se usa también el adjetivo . el uso de lacrimal . aquelas anticipadas. Esta dúvida prevista. As restrições de uso no caso do DPD são encontradas no corpo do verbete. jornais e portais eletrônicos. leísmo. sempre com referência de onde foram tirados e do país de procedência. Percebemos que esta é uma tendência também dos outros dicionários de dúvidas em língua española e.). no item. verificamos que o enunciado definidor dos lexemas é retomado do DRAE. que englobam literatura. por minoritario. 1. tipo de dúvida levantada pelo sujeito. Levando em conta essas considerações. que restringe ou não o uso do vocábulo.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 309 importante de ser trabalhado para que a língua continue ‘unitaria en todo el ámbito hispano’. sublinhado nosso). retirado de nosso corpus de estudo para a dissertação do mestrado. como a quienes desean conocer los argumentos que sostienen esas recomendaciones. 1993]). están solo interesados en obtener una recomendación de buen uso. biol. por consiguiente. no tienen párpados ni glándulas lacrimales» (Vattuone Biología [Arg. Como sustantivo masculino.

Nombre tradicional español de esta ciudad de Túnez: «Estuvieron cuatro días fondeados en La Goleta. las aceptadas. o que funciona a favor da direção do dizer que aí se instala: usar esta forma e não a otura. a remissão sugere que o vocábulo preferido é. é porque essa forma é “usada”. temos em Advertencias para el uso de este diccionario . Temos então um exemplo. Novamente vemos um enunciado com verbo negativo. Diccionario de la Lengua Española (DRAE). também é retomado o enunciado definidor deste (agora da segunda acepção) e novamente se apresenta um exemplo. já que trata-se de um deôntico de obrigação ‘dever’. La Goleta. mostrando novamente a preferência pelo vocábulo em espanhol. Em seguida temos um comentário que ‘desaconseja’ o uso do vocábulo ‘lacrimal’ no caso de seu uso como substantivo. sublinhado nosso). “a negação é um dos processos de internalização de enunciados oriundos de outros discursos”.2. antepuerto de Túnez» (Faner Flor [Esp. em sua grafia original. Reparamos na presença do verbo (desaconsejar). com um exemplo de uso.2. mostrando uma forma de “lidar com a alteridade” no discurso do DPD. é remetido à palavra adaptada à grafia espanhola.2) a aquella. criando uma circularidade com a palavraentrada em espanhol La Goleta . O uso de ‘desaconsejar’ nos permite ver que. Consultando os paratextos da versão online do . la preferida por la Academia es la que lleva la definición directa.310 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS vocábulo no DRAE. No debe usarse en español la forma francesa La Goulette. mais contundente que em ‘lagrimal’. La Goulette com ‘no debe usarse’. item Manejo del diccionario. visto que Neste caso. situando o consulente quanto à localização de tal cidade. visto que há uma proibição explícita do termo em sua grafia originária em francês. Como argumenta Indursky (1997:213-244). igualando os sentidos deste aos do primeiro. uma outra posição sujeito que admitiria o uso do vocábulo em francês. ou seja. subitem Variantes Preferidas: sd10: Cuando las variantes admitidas no pueden figurar en un mismo artículo por exigencias del orden alfabético. (destaque negrito e itálico do DPD. Esta é uma prática regular no dicionário. Na parte ‘2’. quando o consulente busca a palavra La Goulette. se está desaconselhado pelo DPD. que não dever ser usada. marcado por un morfema de negação. Temos agora um topônimo de origem estrangeira. Irrompe aí uma forma de alteridade sobre a qual se regula. ’! La Goleta. neste caso. havendo a recusa do vocábulo em sua grafia originária.§ 6. ‘lacrimal’. se definen mediante remisión (v. O fato da preferência pelo topônimo em espanhol poderia ser explicado pelo relacionamento da Espanha com La Goleta. em certas práticas. que se baseia em Milner(1983) e Culioli (1990). O uso de ‘no se debe’ traz consigo o discurso-outro. Go ulett tte sd9: La Gole ta Goleta ta. 1986]). pero no preferidas. Cabe destacar que há um sintagma nominal com um adjetivo ‘nombre tradicional’. ao contrário do que ocorreu em seu uso como adjetivo e tal fato é justificado por seu uso ser ‘minoritario’. por certos falantes dessa língua.2 6. que nesse caso tem informações enciclopédicas. Na próxima formulação comenta-se que há um outro vocábulo possível de ser usado com o mesmo sentido. que num movimento anafórico retoma a cidade. sem nenhuma formulação. que produz o efeito de longevidade de uso. Temos o uso do deítico ‘esta’. La Goulette: sd8: La G o ule tt e . Consultando então ‘La Goleta’ percebemos que não faz parte da nomenclatura do DRAE e carece de enunciado definidor no DPD. Pensamos que o DPD segue também esta preferência.

). p. Campinas. como uma das dúvidas concretas. Com essas ocorrências gostaríamos de mostrar como o DPD ‘resolve’ os dois tipos de dúvidas encontrados. SP: Editora da Unicamp. Sylvain (1992): A revolucao tecnologica da gramatizacao . PECHEUX. traducao: Eni Puccinelli Orlandi. INDURSKY. lagrimal . organizada e redistribuída por certo número de procedimentos que têm por função conjurar seus poderes e perigos. no jogo de ‘poderes’ do discurso. Por uma análise automática do discurso: uma introdução à obra de Michel Pêcheux. 2010. esquivar sua pesada e temível materialidade”. Referências bibliográficas AUROUX. interpelando assim os sujeitos consulentes a se assujeitarem à FD na qual o DPD se inscreve. selecionada. Sua língua oficial é o árabe.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 311 ela conquistada pelo rei Espanhol Carlos V em 1535. Como argumenta Foulcault ([1970]. Percebemos com a apresentação dos vocábulos. Em 1881 ela foi anexada à França. Campinas: Editora da Unicamp.8): “suponho que em toda sociedade a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada. e só tornou-se independente em 1956. FREDA (1997): A Fala dos Quarteis e outras vozes. enunciados de caráter sugestivo e prescritivo que seviriam para esclarecer a dúvida tratada. tanto recomendando o uso de alguns vocábulo e beirando a proibição em outros. HAK. SP: Editora da Unicamp. Campinas. Os comentários sugestivos e prescritivos do DPD poderiam deste modo encaixarse como um destes ‘procedimentos’ de tentativa de controle da língua. por tratar-se de uma vacilação na sua grafia e La Goulette como uma dúvida das previstas pela instituição. mas em 1574 ela foi tomada pelos otomanos. por tratar-se de um lexema estrangeiro. Podemos classificar o primeiro. dominar seu acontecimento aleatório. Em: GADET. Michel ([1969] 2010): Análise Automática do Discurso (AAD-69). FOUCAULT. Tony (orgs. p. 61-161. . mas o francês continua sendo usado como língua do comércio. Michel (2010): A ordem do discurso. Françoise. São Paulo : Ed Loyola.

A partir daquele ano a estrutura da prova sofreu alterações. o referido idioma no contexto educacional brasileiro. Ciências Humanas e suas tecnologias (História. Língua Estrangeira (LE) – Inglês ou Espanhol [somente a partir de 2010]. no segundo dia do Enem). mais uma vez. foram incluídas 45 questões para cada área de conhecimento: Linguagens. que antes visava à avaliação do perfil dos estudantes do ensino médio. amarela. amarela. Cada caderno de questões é composto por duas áreas: Ciências Humanas e suas tecnologias e Ciências da Natureza e suas tecnologias (no primeiro dia do exame). . A partir de 2009 a prova. Artes e Educação Física). algumas estaduais e federais. Física e Biologia). Nas distintas versões observam-se somente alterações na ordem das perguntas ou das alternativas. códigos e suas tecnologias e Matemática e suas tecnologias (no segundo dia do exame). branca e rosa (para o caderno 1. Matemática e suas tecnologias (Matemática). o objetivo de selecionar alunos concluintes da educação básica para acesso ao ensino superior de várias instituições. códigos e suas tecnologias (Língua Portuguesa. As questões são as mesmas e mantêm-se os enunciados. garantem a oferta do espanhol (conforme prevê a Lei 11. há quatro versões diferentes da mesma prova identificadas pelas cores: azul. por meio de algumas mudanças. Assim como nas edições anteriores (19982008). inferimos que o fato de inserir o espanhol numa prova de nível nacional poderá levar a uma aceleração do processo de implantação da língua como um dos efeitos retroativos do Enem. inclusive as públicas. Geografia. Linguagens. houve aumento no número de questões e a aplicação do exame foi organizada em dois dias.161/ 2005 ). passou a reforçar. Gretel M. Eres Fernández USP O espanhol no Enem Sem dúvida a inclusão do espanhol no Enem a partir de 2010 colocou em destaque. E se até o presente momento nem todas as instituições de ensino médio. azul e rosa (para caderno 2. Além da redação. cinza. Filosofia e Sociologia) e Ciências da Natureza e suas tecnologias (Química. referente ao primeiro dia do exame). públicas e privadas.312 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS TEXTOS E TESTES: COMO SE CONFIGURAM AS PROVAS DE LÍNGUA ESPANHOLA NO ENEM? Daniela Sayuri Kawamoto Kanashiro UFMS I.

ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 313 No novo Enem também permanece a elaboração do texto dissertativo argumentativo. nas 3 provas analisadas observamos alguns dados recorrentes: são incluídas 5 questões dentre as 90 propostas no caderno. pelo inglês (perguntas presentes nas páginas 2 e 3) ou pelo espanhol (p. ou seja. as perguntas figuraram sempre no caderno 2.. 5). que considerou as provas de seleção de três instituições públicas do estado do Paraná. 36%. disciplinas na prova. Isso aconteceu tendo em vista a intenção de substituir os diferentes vestibulares. principalmente das instituições federais de ensino superior. 71% dos textos propostos não são autênticos 1 (50% são adaptações e 21% são fragmentos) e 86% dos textos foram veiculados na internet (51% em sites. conforme a referida pesquisadora: “[. Serrani (2005) argumenta que a tendência em adotar princípios gerais do enfoque comunicativo nas aulas de línguas fez com que o texto literário perdesse certo espaço para o uso funcional do idioma. para elaborar o texto dissertativo e preencher o gabarito. ou seja. Nesse sentido. ou seja. em língua portuguesa. Também não é em vão que tenham surgido cursos específicos de preparação para determinados vestibulares. ao treino. também foi observada a tendência em incluir em provas seletivas e/ou classificatórias textos da esfera jornalística. e na de Labella-Sánchez (2007). 2007). 7% correspondem a um artigo e 7%. Sobre a presença de textos predominantemente informativos. junto com as 45 questões de Linguagens. Em nossa pesquisa de mestrado (KANASHIRO. concursos e para o Enem. Consideramos que o engessamento da estrutura da prova favorece o treinamento. recursos e textos tirados do discurso da . no momento da inscrição. Sobre os textos em língua espanhola Verificamos que 86% dos textos incluídos nas edições do Enem de 2010 e 2011 são informativos (36% são reportagens. que refaz as questões das edições anteriores organizando o tempo disponível para resolvê-las. apresenta certa vantagem se comparado àquele que não tem conhecimento sobre a organização e estrutura do exame.] Dentre os materiais. Um candidato que conhece a ordem de apresentação das aviso). 14% em blog e 21% em jornal digital). a numeração também permaneceu a mesma: as questões de 91 a 95 foram de língua estrangeira e o candidato teve que optar. no segundo dia de prova. códigos e suas tecnologias e mais 45 questões de Matemática e suas tecnologias. que analisou as provas de vestibular da região sudeste. 4 e 5). Dessa forma. O pouco tempo disponível para ler e resolver cada questão (cerca de 3 minutos) também contribui para conduzir a esse tipo de procedimento. no segundo dia de prova. não é sem propósito que as escolas – sobretudo as particulares – investem nos programas preparatórios e realizam simulados. mais de um dia para a realização do processo e a inserção de itens de língua estrangeira (inglês e espanhol). Além disso. a um Sobre a organização das questões referentes à língua espanhola Especificamente sobre a língua espanhola. resultando na unificação da seleção. 4 e p. questões separadas por disciplinas. Constatamos que as principais mudanças estabelecidas para o novo Enem objetivaram a aproximação ainda maior das características da organização dessa prova com a dos vestibulares tradicionais. utilizaram duas páginas (p. postagens digitais.. por um processo apenas.

a Espanha das “Touradas” e do “Flamenco”. por exemplo. enunciados e respostas das questões Notamos que a habilidade 5 – Associar vocábulos e expressões de um texto em LEM ao seu tema – focaliza a associação entre título. Questão 91 – O título da palestra. E verificamos exatamente o que foi revelado por Brito ao analisar os textos presentes nas questões Enem 2010 1ª aplicação Enem 2010 2ª aplicação Enem 2011 Questão 95 – O texto jornalístico caracteriza-se basicamente por apresentar informações a respeito dos mais variados assuntos. 2004.Reconhecer a importância da produção cultural em Língua Estrangeira Moderna – LEM – como representação da diversidade cultural e linguística. (BRITO. identificar o tema. Quadro 1 – Habilidade 5.alertar sobre os riscos mortais de determinados softwares de uso médico para o ser humano. identificar a intenção do autor. as touradas. botones e elector. Questão 92 – Pela observação da imagem e leitura do texto a respeito da votação eletrônica no Brasil. entre outros. com base na imagem e no conteúdo verbal. teclado. a Argentina do “Tango”. por exemplo. que é preciso trabalhar a conotação da linguagem e que a formação do leitor não deve se restringir a um grupo pequeno de textos que figuram na esfera da informação e da argumentação. têm sido vistos como um avanço frente ao encliclopedismo ou “literarismo” de outrora. citado no texto. estereótipos de um mundo hispânico longe de ser representação de todo o seu povo. cantores. Avaliamos que essas habilidades poderiam ser consideradas nas questões de qualquer disciplina que apresentassem um texto. Além disso. antecipa o tema que será tratado e mostra que o autor tem a intenção de . ao mesmo . Os textos inseridos nas provas do Enem de 2010 e 2011 versaram sobre o tango. qual proposição identifica o tema central e poderia ser usado como título? . pautando-se no título e no tema tratados. 47). Tomando como base o fragmento.314 ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS mídia (jornais. é importante observar como são trabalhados. especificamente nas provas do Enem. tema e conteúdo do texto (verbal e não verbal). voto. As tarefas solicitadas foram: dentre as opções.Fumantes engordam mais que não fumantes. Consideramos. Brito (2004) atentou para o problema de visões estereotipadas quando se priorizam somente os grandes nomes da história. ou seja. não paginado) relacionadas na habilidade 8 . os aspectos culturais. entretanto. p. Nenhum texto literário foi selecionado para abordar a importância da produção e/ou das manifestações culturais. identificar o título do texto. identifica-se como tema . O título pode fazer referência ao texto proposto ou a uma obra. revistas). uma palestra. o México dos “Sombreros”. Destacamos no Quadro 1 a repetição dos termos título e tema. por meio das palavras-chave urna. Acerca das habilidades e questões propostas Nesta parte analisamos como se apresentam os enunciados dos itens correspondentes a cada habilidade da competência da área 22 para verificar se são coerentes com o estipulado na Matriz de Referência e com os objetivos estabelecidos para o Ensino Médio. 2005.” (SERRANI. dança chilena. Machu Picchu. O povo representa muito mais que esses temas genéricos. citada no corpo da mensagem. Além disso. literatura. e seu título1 antecipa o tema que será tratado.o sistema brasileiro de votação eletrônica.

da falta de entendimento das possibilidades para medir as habilidades propostas. pode ser consequência da ausência de descritores ou. ou seja. identificassem uma das tarefas atribuídas às delegações. identificassem outros aspectos envolvidos num roteiro turístico proposto. as distintas visões de um mesmo fato e. a diferenciação entre fato e opinião.discussão sobre o estado de conservação dos bens já declarados patrimônios mundiais. seus conectores. Conforme os textos propostos. esperava-se que os concluintes da educação básica: identificassem como proceder no caso de uma viagem acompanhado de um animal. uma pessoa que more na Espanha e queira viajar para a Alemanha com seu cachorro deve . é possível “treiná-los” a identificar título e tema.vacinar o animal e depois solicitar o passaporte dele. é provável que tenhamos novamente outro texto informativo. Esse tipo de questão também favorece o treino. a relação entre imagens e instrução ou informação expressa. um percurso para turistas na Espanha. Questão 92 – O Comitê do Patrimônio Mundial reúne-se regularmente para deliberar sobre ações que visem à conservação e à preservação do patrimônio mundial. destaca-se . tecnologias e culturas – os itens se pautaram em textos informativos e exigiram a identificação de um determinado dado expresso no texto.ATAS DO VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISPANISTAS 315 tempo em que não é possível trabalhar com os alunos o tema e o título de todos os textos disponíveis. Consideramos que os descritores permitiriam nortear a elaboração de outros tipos de itens que também medissem a habilidade de usar os conhecimentos de espanhol como meio de ampliar o acesso a outros conhecimentos. isto é. Salientamos que o acesso à informação não se dá somente identificando-a. caso ta