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Alienação

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Published by: Pedro Natureride Cosmichaze on Dec 25, 2013
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ALIENAÇÃO E SUAS FORMAS NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA

– COMO ENTENDER ESTE DESEJO CONSTANTE DAS GERAÇÕES ACTUAIS PERMANECEREM ALIENADAS –

« Divertimento – Não tendo os homens conseguido acabar com a morte, a miséria e a ignorância, tiveram a ideia de, para se tornarem felizes, não pensar nelas» Pascal Perante esta óbvia alienação ou escapismo em que se entregam diariamente milhões de pessoas em todo o Ocidente, quase como uma demonstração de ser essa a única forma de resistirem às suas vidas quotidianas, parece pertinente debruçarmo-nos sobre o fenómeno. Este torna-se ainda mais interessante quando surge uma conexão com o problema da indiferença religiosa que tem varrido toda a Europa. A todos os que também julgam serem estes problemas merecedores da nossa atenção, sugiro que possam gastar uns minutos do vosso tempo na leitura deste artigo. Após uma breve introdução, reflectiremos sobre: - As origens europeias da alienação contemporânea. - O fenómeno da indiferença religiosa na Europa e a sua possível explicação - As principais formas de alienação do Ocidente: - A obsessão pelo sexo e a sua omnipresença na sociedade - O consumismo como a grande ideologia alienante do nosso século - O mundo virtual e a fuga do real

Introdução
Quando, na década de 60, foi declarada a morte de Deus por uma ala da teologia norteamericana já a segunda modernidade (Pós-modernismo) tinha rompido com todo o seu anelo pelo mundo espiritual. É interessante verificar que o surgimento da teologia que encarnava a secularização, o cientismo e o neo-positivismo da primeira metade do século XX – a teologia da morte de Deus – tenha coincidido com o início do seu próprio fim, com o regresso do religioso, com o relativismo que iria minar

a ciência enquanto verdade absoluta e do Maio de 68 que gritava “Tomemos a revolução a sério, mas não nos tomemos a sério” ou “A imaginação ao poder”. Se é verdade que o ateísmo prático se instalou nas nossas sociedades, fruto da secularização, também temos de reconhecer que este surge agora enxertado de um sentimento religioso, numa nova procura pelo sobrenatural. E, todavia, mesmo este retorno do sentimento religioso não é comum a todos e vem acompanhado de uma indiferença cada vez mais acentuada a respeito de temáticas cristãs ou religiosas em geral. Herdámos um secularismo que ainda hoje dita as regras, mas o regresso de Deus, da ânsia pelo espiritual e por diferentes formas de se experimentar o mundo do além também veio para ficar, assim como essa indiferença que não só é repetidamente mencionada nos relatórios dos missionários presentes na Europa como surge já como uma categoria religiosa ao lado do ateísmo e do agnosticismo. Vivemos, isso é certo, numa época de paradoxos, de antagonismos, de antíteses, de esquizofrenia. Como entender entender tudo isto? Como chegámos a este ponto, a esta conf confluência nfluência de forças antagónicas que aparentemente caminham em sentidos opostos mas que permanecem na nossa sociedade como se fossem naturalmente conciliáveis? conciliáveis? E de que forma a compreensão do nosso actual actual estado psíquicopsíquico-social nos poderá ajudar a compreender melhor essa essa alienação, em que a maior parte das nossas gerações recentes parecem estar absolutamente submersas? submersas? Na verdade, não podemos falar das consequências da alienação e das formas que a sociedade hodierna encontrou para se alienar sem antes reflectirmos sobre o que esta é e de que forma se instalou no Ocidente. Sem dúvida que a sua origem está intimamente relacionada com esta confluência de opostos que encontramos à nossa volta. Vamos ver como.

As origens europeias da alienação contemporânea.
A modernidade concedeu ao Ocidente da primeira metade do século XX uma confiança na razão humana e na possibilidade infinita do conhecimento científico. As constantes descobertas e realizações técnicas do séc. XIX permitiram criar um sentimento de euforia, acreditando que uma nova era gloriosa se avizinhava. A ciência tornou-se positivista, acolhendo a si toda e qualquer possibilidade

aparentemente bem intencionados. humanismo esse que apenas havia dado aos preceitos cristãos – meramente contingentes e circunscritos a um período histórico-cultural – uma roupagem racional pretensamente universal. continuar a confiar nos bons propósitos da nossa racionalidade? O grito de Nietzsche foi aos poucos ouvido por alguns que estavam atentos. Sem Deus também a moral humanista não fazia sentido. Perceberam estes que esquecer Deus mantendo a sua moral não era consequente. pretensamente universal. A moral era. então. Haveriam absolutos morais partilhados por todo o homem racional. Mas os existencialistas apenas conseguiram denunciar a situação. principalmente a voz tonitruante e incómoda do alemão Friedrich Nietzsche. uma questão de absolutos apercebidos e abraçados por qualquer homem desde que conduzido convenientemente no seu pensar. entre os principais). entre tantos outros possíveis. uma fundamentação inconsciente motivada principalmente pela repressão sexual? Seria possível. Jean-Paul Sartre. O conceito de verdade universal ainda estava profundamente enraizado. compreendendo que seria necessário procurar outros alicerces éticos baseados não em qualquer ideia preconcebida ou herdada histórica e culturalmente. Como dizia Heidegger. expor os problemas desse humanismo que mantinha os valores cristãos apesar . depois de Freud. Todavia. precisamente a hipótese que valida e dá fundamento à moral cristã? E não teriam os processos conscientes do ser humano. Desde o programa racionalista de Kant (séc. mas também à descoberta chocante do inconsciente por parte de Freud. o caminho é o caminhar. De igual modo. formalizando toda a moral e arrancando-a da sua origem cristã. Ou como dizia Sartre. não há essência alguma que preceda a existência. Já não haveria um caminho a ser descoberto mas um caminho a ser trilhado. Albert Camus. A ciência passaria a englobar dentro dos seus limites não só a possibilidade de maior veracidade mas toda e qualquer pretensão à verdade. Essa foi a tarefa que os existencialistas pretenderam encetar (Heidegger. Sem Deus o homem estava entregue a si mesmo. já desde o século XIX que se tinha assistido ao protesto de algumas vozes isoladas.de sentido e verdade: desde esse período e até meados da década de 60. mas sim a partir do facto de não existir um mundo do além que nos oriente e que nos dê um caminho de antemão. toda a verdade seria do domínio científico tal como todo o discurso objectivo. XVIII). os valores herdados do cristianismo estavam agora reduzidos à sua formulação racional. Não seria a morte de Deus um acontecimento de proporções demasiado drásticas para que tudo na moral continuasse exactamente na mesma? Não seriam os absolutos morais dos humanistas do século XIX e primeira metade do século XX apenas reformulações dos imperativos éticos cristãos? E seria possível mantê-los quando se torna supérflua a hipótese de Deus. que se entendiam as verdades éticas como uma conquista da capacidade autónoma do raciocinar humano. O problema estava em formar uma nova ética e uma nova sociedade que não se apoiasse já em declarar absolutos os antigos absolutos cristãos apesar de não haver absolutos alguns.

se não houvesse uma verdadeira essência . Até esse momento a filosofia existencialista vinha minando o humanismo europeu. no fundo. Mas o problema mantinha-se. expondo a sua falta de fundamentos. Mesmo em teologia as perspectivas escatológicas pós-milenistas sofriam um rude golpe: não seria já impossível acreditar-se numa sociedade que progressivamente se vai cristianizando.de ter eliminado o seu Deus. iniciando uma nova construção de toda a validade das acções humanas. Perante os ataques aos direitos do homem realizados pelo nazismo. Que outra moral seria possível? Ou melhor. de facto. sem dúvida. revelando a sua inconsistência. explode na Europa como uma bomba mortífera e inescapável. Principalmente através de Sartre e Camus e mediante os seus romances onde escreviam filosofia de uma forma acessível a todos. com toda a sua compreensão peculiar das antropologias darwinistas que entretanto haviam emergido e da sua releitura nietzschiana do mundo (sim. principalmente nos seus efeitos naquilo que se viria a chamar o Pós-modernismo. que outros fundamentos tornariam possível a universalidade e a objectividade da moralidade? Por outro lado. Tem-se dado pouca importância e atenção a este período incontornável que marcou a transição da primeira para a segunda metade do século XX. o existencialismo nada pôde fazer. liberta das suas raízes cristãs e apelando à construção de um novo homem? Se não houvessem bases morais absolutas. por mais chocante que fossem as teses psicanalíticas. Apercebemo-nos da importância política e económica da segunda guerra mas acabamos por olvidar os seus efeitos dramáticos na mudança da cosmovisão europeia. baseada numa nova moral e numa nova compreensão das sociedades. passando-a das Universidades para as ruas e mercados. A palavra de ordem era civilizar mediante a educação de massas. o grito de Nietzsche fez-se ouvir entre os nazis!). O que dizer perante uma posição que construía. Como continuar a confiar na razão humana como método e ferramentas únicas para a discernibilidade moral se o inconsciente era a verdadeira plataforma das nossas acções? Como confiar em algo que não só não nos está acessível (por isso é inconsciente) como também é indefeso às pulsões humanas (deixando-se formatar por elas)? A primeira guerra mundial já tinha revelado os problemas de uma sociedade tão confiante no seu progresso. uma nova sociedade. a problemática foi rapidamente disseminada pela Europa. a racionalidade e a sua pretensa imparcialidade pareciam ter sido feridas de morte. Mas a guerra veio demonstrar que por detrás do progresso e da educação pode-se esconder um monstro. civilizando e melhorando até que Cristo venha? Mas os europeus não imaginavam o que havia de vir. colocando-o em causa. nem sequer se encontravam preparados para esse evento na história que acabaria por definir todo o futuro até aos dias de hoje: a segunda guerra mundial fomentada pela Alemanha nazi. Mas é então que a ideologia nazi. Quais as consequências do ateísmo prático? A necessidade incontornável de reformular toda a moral despindo-se esta da sua matriz cristã. como se o próprio conhecimento tivesse a capacidade de educar e melhorar o ser humano em si. mostrando que afinal o rei vai nu. o primeiro grande abalo na confiança da nova Europa. Este foi.

E foi exactamente esta desorientação que esteve na base do retorno da religião a partir da década de 60. a tecnologia revelava todos os seus ferozes dentes? Como poderiam se. a sua própria moral. apesar de já se terem destruído todos os referenciais inamovíveis e de se ter compreendido a origem histórico-circunstancial da ética humana? A Europa não mais se recompôs desde esta época.humana. com a invenção da bomba atómica e a sua demonstração de força no final da segunda guerra mundial. Como poderiam se. Já não se acreditava que a ciência e o progresso seriam a resposta para os problemas do homem. privada Na esfera privada a moral existencialista deu os seus frutos. A cisão entre o domínio privado e público do homem. Apesar de não se acreditar em ideais universais e absolutos era necessário retornar a eles para responder ao nazismo. assimilado e proclamado os ideais nazis? O homem aporético e o homo ebrius . Perante a falta de uma ideologia que respondesse moralmente ao nazismo. os cidadãos europeus retornaram ao humanismo com uma atitude totalmente pragmática. desorientação. se não houvesse um caminho já traçado antes do homem. a felicidade do homem depende da maneira como ele inventa a sua própria história pessoal. após um século de fé na civilização e racionalidade humanas. e esperar que. Criou-se. Assim. teria aqui o seu início. também. Entendeu-se que a moral é subjectiva e que. a nova ética individual com três premissas fundamentais: Tudo é lícito desde que 1º) seja possível concretizá-lo. criou-se uma dicotomia que ainda hoje permanece na sociedade hodierna: a separação entre a esfera pública e privada. Esta postura prática do pós-guerra teve várias consequências para a sociedade e indivíduos do Ocidente. acabaria por atolá-lo em dúvidas. educadas e bem formadas da Europa tinha aceite. já não as podia aceitar no seu domínio privado. O homem europeu foi obrigado a aceitar a perspectiva humanista no âmbito público. por que razão não poderia o nazismo impor pela força a sua visão do mundo? Que poderia fazer o homem europeu se não retornar momentaneamente a um humanismo balofo no qual já não acreditava. a posteriori. elaborar uma Declaração Universal dos Direitos do Homem. pois sabia que tal pretensão não tem validade e que ele é o senhor da sua própria existência. desconforto e. insegurança. principalmente. tão comum ao homem contemporâneo. O cinismo. mas. uma das sociedades mais cultas. Mas na esfera pública o humanismo. com regras. com toda a sua matriz cristã. todavia. premissas e valores diferentes. continuou a permanecer. como se existissem normas morais de cariz absoluto. conseguisse resolver os problemas que o existencialismo levantou e encontrar bases absolutas para uma moral internacional. A moralidade cristã perdeu terreno. 2º) seja eu de livre vontade a desejá-lo 3º) apenas me diga respeito. de certa forma.

Que usa ele como alienação? Reflectiremos sobre essa questão mais adiante. ele é obcecado pelo prazer porque essa é a melhor forma de se alienar. O único caminho aberto a este homem com vertigens é a alienação. contemporânea A este homem não resta outra solução que não alienar-se. O que é isto de homem aporético? O homem aporético é aquele que não consegue sair da aporia (beco sem saída) constante da sua vida. Compreender as origens da cultura alienante das gerações actuais é um passo de gigante para nos percebermos e entendermos os que nos rodeiam. É alguém perdido mas sem angústia. Ele não se aliena porque procura obsessivamente o prazer. apenas de transição para uma outra. uma espécie de tontura constante por nada ser aquilo que realmente parece. Podemos apontar a partir daqui o início da alienação contemporânea. dá. mas antes absolutamente incoerente e sem rumo. Indisposto mas sem capacidade de raciocínio. ainda enquanto adolescente. muito curta. mas que se sente. Causam-lhe náuseas. O homo ebrius é o homem pós-moderno. de que ninguém fala. Durante muito tempo. incómodo. que o sentimento mais comum ao homem contemporâneo é o sentimento de confusão. Estamos já a falar de um novo tipo homem social que surge a partir da segunda guerra mundial: o homem aporético. O homem aporético. efectivamente. a do homo ebrius. aquelas que . origem ao homo ebrius. Assim. como uma espécie de doença natural com a qual nascemos. por não se sentir uno nas suas acções e decisões. vertigens. Aquele que procura constante alheamento. por não se poder apoiar em coisa alguma. Tal como um ébrio ou toxicodependente. até. Ele não se sente confortável com a situação (como poderia se continua a ser um ser racional?) mas já se habituou a ela. ele aliena-se para acalmar este desnorteamento. fruto da 2ª grande guerra. assim. o que constantemente se cruza connosco ou está. das palavras entre si e dos gestos entre si. esta incoerência. ficar alienado ou bêbado o mais tempo possível. o homem aporético é apenas uma fase. pelo contrário. ao homem do século XXI. desconfiava das inúmeras declarações que ia ouvindo de cima do púlpito. Julgo. o que anseia. dentro de nós. esta nudez de sentido onde parece estar mergulhado. dessa incoerência entre os seus gestos e suas palavras.Estas contradições em que o homem ainda vive não podem deixá-lo confortável. pela sucessão de prazeres ou diversões sucessivas. como uma coisa que não se vê. O fenómeno da indiferença religiosa na Europa e a sua possível explicação É natural que já não haja angústia neste novo homem.

Da mesma forma como não se procura orientações geográficas a quem não esteja na posse das suas correctas faculdades mentais. O meu cepticismo não se reportava ao facto de Cristo preencher todo e qualquer vazio da nossa existência. A indiferença esconde uma fome de significado. nessa confusão e desorientação constantes. aos poucos. faz por ser alienado. ao contrário do que se poderia esperar. a indiferença também não é mais do que um estado de embriaguez que esconde um profundo vazio existencial. Mas. Estamos sozinhos e abandonados na existência. O problema é que as gerações actuais procuram. Aquela já passou a fazer parte do senso comum dos movimentos missionários mundiais: a Europa é o cemitério dos missionários. ao invés de vermos indiferença passarmos a ver um total estado de embriaguez.apontavam para um vazio interior do homem que só podia ser preenchido por Jesus Cristo. medo de assumir qualquer mentira. cara aos europeus e que tantas dores de cabeça tem dado aos missionários missionários espalhados pela Europa. no interior do ser humano. Com efeito. Ela não é uma procura positiva da parte das gerações mais novas: é. Se ao olharmos para um europeu. uma consequência. o jovem de hoje procura activamente a alienação. Mas essa descrição do estado psíquico dos indivíduos contemporâneos não correspondia com a maioria dos casos. não era isso que eu testemunhava. mas sim se. era evidente. uma preocupação pelo supérfluo excessiva e desproporcionada. Dessa forma. pela alienação constante em que o homem procura estar. esta geração é uma geração ávida de sentido! sentido A única dificuldade é a de não ser possível transmitir seja o que for a um bêbado pois tem de se esperar que cure a embriaguez. estar constantemente alienadas e muitas são as formas que têm surgido para satisfazer esta pretensão. sofrimento. pelo estilo de vida que professam. Como se para os pós-modernos só pudesse vir sofrimento da verdade. mas fáfá-lo por fugir da angústia. temos de compreender que a alienação não é algo em relação à qual se possa responsabilizar o alienado. Há uma apatia constante nas novas gerações. em qualquer ser humano. uma profunda mágoa por se julgar impossível alcançar a verdade. por não suportar esse estado do homem aporético. é simplesmente um produto da alienação. Fazê-lo é incorrer num grave erro. fui percebendo que o vazio. o que na verdade encaixava sem qualquer problema em muitas teologias da reforma. com efeito. está lá. já que a verdade ou não existe ou é exactamente isso. as pessoas que estavam à minha volta sentiam esse vazio. medo de fazer uma única asserção positiva da qual nos possamos vir a arrepender. Na verdade. De facto. De vez em quando lá encontrava uma ou outra pessoa na qual o vazio. . constantes Por essa razão. A tão famosa indiferença. mas completamente adormecido pelo seu estado de embriaguez contemporâneo. Nada há que nos sirva de guia. talvez comecemos a entender a nossa actualidade. ou seja. a angústia da falta de sentido. isto é. também não se pode falar de Cristo a um alienado durante a sua alienação. antes sim. de facto. Durante algum tempo cheguei mesmo a julgar que esse vazio não era sentido por todas as pessoas. como se nós tivéssemos medo de assumir seja o que for.

Não . Como será possível ao homem de hoje apostar num valor ou num significado se vê nas gerações mais velhas uma falência das suas opções de vida.As principais formas de alienação do Ocidente: Ocidente: A OBSESSÃO PELO SEXO E A SUA OMNIPRESENÇA NA SOCIEDADE Outrora o vazio existencial que perseguia o ser humano era substituído por outras ideologias que o motivavam a seguir em frente. só faz sentido se se acreditar na verdade. Não há pontos de referência estáveis. A percentagem de metáforas ou incitações explícitas ao sexo nos anúncios publicitários são cada vez mais frequentes e. principalmente um jovem. por receio de ser desiludido como os seus pais o foram. O homem procura ser alienado porque acredita seriamente que nada mais há a fazer. É óbvia a presente erotização da sociedade. deveras impressionante verificar que foi o falhanço em encontrar a verdade que lançou a sociedade nesta conjectura actual. Quais são. de facto. A verdade está assim nos dois extremos deste relativismo hodierno. Como se a realidade fosse éter ao qual não se pode agarrar. só existe o devir. por receio de ser enganado. Tudo é fugidio e passageiro. Que saída poderia restar a este homem que não a alienação. O erotismo e o sensualismo estão por todo o lado. por aquela que cruza grande parte da sociedade. a alienação revela-se como a única opção possível. a ocupação frenética que lhe permite desistir de procurar uma resposta? É. então. que tem definido a nossa consciência e valores e aquilo que hoje em dia parece ser o centro nevrálgico da actividade humana: o Sexo. mais uma vez. esse constante lançar de um gesto no vazio. uma dedicação inglória a certas ideologias? Como pode ele não assumir um cepticismo profundo se vê aqueles que procuravam a verdade perderem-se por entre os inúmeros corredores da modernidade que acabaram por conduzir a becos sem saída? Não suportando a vacuidade de sentido. Sabemos que uma pessoa motivada por uma boa causa consegue grandes feitos. em alguns dias. Mas o receio de desilusão. chegam a ser maioritárias nos nossos ecrãs televisivos. a fuga. Ele rejeita até a possibilidade de adquirir sentido para a sua vida muitas vezes por desconfiança. os recursos alienantes utilizados? O EROTISMO UBÍQUO E A SUA FRIEZA CÍNICA Podemos começar pela primeira de todas. Mas o que se passa na geração de hoje? O descrédito pelas metanarrativas leva-nos a ficar sem pontos de referência.

Antigamente (ainda me recordo perfeitamente) para se referir ao acto do coito utilizava-se a expressão “fazer amor”. Apenas e só. Julgo sinceramente que a razão para a obsessão desta geração pelo sexo encontra-se na sua efectiva compreensão (terrivelmente objectiva) do que se passa à sua volta. Nas camadas mais jovens a temática da sexualidade está sempre presente. A outra verdade incontornável – a da morte – foi-lhes vedada por uma geração que erigiu à sua volta um autêntico muro inibidor. pois quem há ainda que acredita no amor? Sem dúvida de que se trata de uma relação mas esta palavra parece ainda possuir alguma centelha de emotividade da qual se quer expurgar todo o sexo. Normalmente os mais velhos tendem a interpretar as acções das gerações seguintes como meras reacções à novidade entretanto surgida na sociedade. Na verdade. sucinta e fria das premissas e conclusões herdadas das gerações anteriores. O sexo enquanto estratégia publicitária veio para ficar. consequentemente. nada mais. arriscado. mais séria. forjando um tabu que ainda hoje perdura. ensinado aos seus sucessores a fugir da mesma. o fenómeno é transversal a todas as gerações e a cada ano que passa parece cada vez mais central. basta somente a palavra “sexo” ou a expressão “fazer sexo”. sem qualquer expressão sentimental que representa efectivamente o paradigma dominante hoje em dia. um pouco como se apenas a nossa geração pudesse agir conscientemente. SEXO E VERDADE As gerações mais velhas têm a tendência de apontar a libertinagem dos jovens. . Não acredito em nenhuma destas opções. apesar de se usar ainda esta última. uma simples água ou manteiga podem recorrer a imagens e a uma lógica da sensualidade para captar a atenção dos consumidores. mais objectiva: relações sexuais. Talvez tal fosse compreensível em adolescentes que assistem às suas mudanças fisiológicas. É importante analisar estas expressões pois representam posturas diferentes frente ao tema. capaz de uma análise rápida. Actualmente. criticamente. penso que nunca houve uma tão perspicaz. tendendo a expor-nos demasiado à possibilidade de encontrarmos o engano e. Sexo é agora a palavra fria. seca. Ao contrário do que se poderia esperar esta não é uma geração de inconscientes. a desilusão. capaz de analisar o que a precedeu e o que lhe seguirá. Sexo. seja de modo físico. perspectivam e compreendem é que o sexo enquanto sexo é a única verdade objectiva objectiva que lhes lhes resta. é a procura do teu prazer. O sexo é apenas isso: já não é mais fazer amor. não é uma moda passageira. Tudo o que se pode acrescentar a esta posição é dúbio. O que eles pressentem. é a procura do meu prazer. directa. Todavia. a entrega lascívia aos sentidos e a procura voluntária da concupiscência da carne como ou consequência da manipulação efectuada pelos media ou resultado duma depravação intrínseca desta geração.interessa o produto. Em meados da década de 90 essa expressão foi sendo preterida a favor de uma aparentemente mais madura. È exactamente isso.

com todo o mistério aí associado. não tendo como pensar nesse dado objectivo. inconstâncias. A moral presente na sociedade não tem fundamentos e apenas se mantém pelo carácter repressivo da lei que a sustenta. concreto. sabe desse jogo de palavras nas letras das músicas. o que há hoje de objectivo. o que existe. Assim. pois tudo o mais é neblina. podemos perceber que a sensualidade omnipresente na na sociedade. verdade. àquilo que não pode ser colocado em causa e que não mudará. sólido e universal? Apenas e só o prazer pessoal que pode ser retirado do sexo. o que é real. O prazer do sexo é isso mesmo e nada mais. A fidelidade é apenas um valor do passado que cede terreno ao vício da novidade constante presente no hedonismo hodierno. firme. O novo homem sabe disso. A possibilidade do amor é apenas uma possibilidade do romance. intemporal e consistente? O amor não é de certeza objectivo. recusa-se a aceitá-lo. do flirting. Esta geração sabe muito bem o que faz quando se atira de cabeça para uma vida sexual desregrada. seguro. o sexo como um deus venerado. não é mais que a outra face da procura. Os pais desta geração são pais divorciados que mostraram aos seus filhos que apenas a morte é certa (apesar de ser proibido pensar nela) e não as decisões que são tomadas em vida. o meu acto sexual sem ilusões e pretensões supérfluas. mas sim de algo compacto. a minha emoção. encara-o na perspectiva hedonista do jogo. a única coisa não volátil dos tempos presentes. O homem pós-moderno entregou-se à única coisa sólida que lhe resta. porto não seguro para o ser. Apenas revela que. consistente e seguro que não pode ser colocado em causa: o meu prazer. fluidez. A NOVA REALIDADE DO SEXO As coisas mudaram de tal modo que aquilo que anteriormente era visto como uma fórmula científica da psicologia humana entre adolescentes – o rapaz dá amor em troca de sexo e a rapariga dá sexo em troca de amor – já não faz qualquer sentido nas gerações mais novas. algo que proporciona uma razão para se continuar vivo. tal como em todos os séculos. as pessoas necessitam de pontos de apoio absolutos para poderem viver. consistente. Então. mar de incertezas. O sexo é esse ponto de apoio absoluto hodierno. da ânsia. incerta. Quem é que está agora à procura de amor quando faz sexo? As jovens adolescentes que participam em orgias cada vez mais frequentes na alta/média alta sociedade? Que procuram activamente o sexo? Que se enfadam quando . Os ensinos da escola mudam e os que não mudam apenas reafirmam a incrível arbitrariedade de se estar vivo. etc. a sociedade juvenil actual virase para a única outra certeza que tem: o sexo dá prazer e só com isto pode contar. venerado. Para obter algo deste género o homem pós-moderno vende até a possibilidade do amor. razão essa que não se revelará utópica.seja psicológico. Deste modo. sabe que se pretender algo mais pode e vai sair magoado e que não é disso que precisa. do anelo que todo o homem tem de verdade. irreal. da aventura e emoção presentes num novo olhar e rosto. Afinal.

Qualquer tentativa de lho tirar produzirá uma reacção semelhante àquela que tem um toxicodependente quando lhe tentam impedir de consumir estupefacientes. Tendo em conta as circunstâncias actuais. perante ela. como no caso do toxicómano. pela recurso à violência. Agimos mal quando. as nossas decisões e acções. o elemento comum continua a ser o mesmo. Já Kierkegaard no século XIX havia apontado os problemas intrínsecos a qualquer filosofia de vida baseada no prazer: o seu fim é o desespero. mesmo que inconscientemente. obsequiará o surgimento de um homo ebrius embriagado de sexo. como consequência. o que. A vastidão de toda esta nova conjectura é difícil de imaginar. outros nem sequer se apercebem do que se passa hoje em dia nas escolas e nas festas entre amigos. a opção passa pela ridicularização (de alguém que lhe transmita uma perspectiva diferente) ou pela vida dupla (quando os seus condicionalismos sociais o aconselham a ser discreto) e não. o que é certo é o sexo e apenas o sexo. capazes de apagarem a mente durante alguns momentos. numa sede que aumenta à medida que se . apenas avançamos justificações hedonistas como causa. com a diferença de que. como pode o acto sexual não ser apelativo? Poderá haver mistura mais explosiva para esta pós-modernidade (possibilidade de escape baseada numa certeza inabalável)? Para o homem aporético nada há de mais paliativo do que o sexo. proporcionando uma incontornável impressão de escape deste mundo com traços de irrealidade. A verdade e o prazer do sexo permitem fugir da existência amórfica na qual se é obrigado a viver. Nesta sociedade que aparentemente abandonou a pretensão de alcançar a verdade. a busca pela mesma ainda condiciona. Os jovens de hoje estão cada vez mais activos e mais cedo relativamente à sua vida sexual. A procura de felicidade mediante o prazer é inglória: o resultado é sempre o descontentamento. Uma realidade feita de lama que se desfaz por entre os dedos a qualquer tentativa de apropriação e que nos atira para a instabilidade perpétua. nada mais. E este não só se apresenta como indiscutível e certo (ao contrário de tudo o mais à nossa volta) como permite obter sensações alienantes.têm o mesmo namorado mais do que uma semana? Que se habituaram a falar de “experiências” com as colegas (e quando não as têm vão à procura delas)? E aquelas que ainda não perceberam a mudança e procuram o amor no sexo. rapidamente aprendem pela via mais dura que hoje. no caso do jovem viciado em prazer sexual. Todavia. o sexo como única verdade possível não pode trazer verdadeira satisfação. não porque procurem afecto mas porque pretendem uma ilusão de sentido tal como é proporcionada pelo sexo. Entre a procura obsessiva pela verdade no Modernismo e a desilusão amarga pela falta dela no Pós-modernismo. Desesperam os homens em aflição constante pela procura incessante de novidade que nunca trará completa satisfação. Alguns pais têm-se recusado a entender estas mudanças recentes.

Se o consumo é o que não podemos deixar de fazer para sobrevivermos. Consumir faz agora parte da nossa identidade Ocidental mas nem sempre foi assim. Já não falamos somente de uma entre as diversas formas alienantes mas de toda uma ideologia que veio substituir a falência das metanarrativas da era moderna. um ideal. uma ideologia com todo um conjunto de valores que lhe são inerentes. Com efeito. Somos todos adoradores do novo deus Mamon. Assim é o retrato da sociedade contemporânea. Esta “rotina do consumo”. com a ausência de referências. A produção industrializada substituiu rapidamente a doméstica. A grande mudança surgiu na segunda metade do séc. a verdadeira felicidade encontra-se sempre ao virar da esquina. não pode haver melhor alienação que aquela que se desconhece. introduz uma nova forma de viver. ao qual tudo sacrificamos e penhoramos incluindo a nossa alma. o número de fábricas quase triplicou e as novas máquinas . a que passa despercebida e que não é identificada como tal. Este é um monstro com cara de anjo ou até sem rosto algum. (expressão aparentemente paradoxal. Daí que ao homem que pretende estar constantemente alienado a erotização da sociedade não chega. com o desconforto e náusea que pressente através de si mesmo e no que o rodeia.experimentam novas formas de prazer e que nunca nos satisfazem. O problema é tão sério e simultaneamente tão pouco falado que merecerá uma introdução mais longa. A angústia retorna e o ciclo de euforia e angústia que este estilo de vida fomenta leva ao desespero. A alienação momentânea proporcionada pelo acto sexual não permanece e esvai-se com a facilidade com que surgiu. E torna-se urgente outra forma de alienação que evite este retorno ao estado aporético… O CONSUMISMO COMO A GRANDE IDEOLOGIA ALIENANTE DO NOSSO SÉCULO A sociedade Ocidental esta ainda mergulhada numa outra forma de evasão mas que raramente é reconhecida enquanto tal. um estilo de vida que assumimos e que orienta as nossas acções. Nada poderia estar mais longe da realidade. XIX quando a evolução tecnológica iniciada um século antes começou a gerar superproduções em quase todos os sectores. já o consumismo é algo diferente. É preciso algo mais que preencha esses tempos vazios (a maioria da vida) onde ele regressa a si e é obrigado a conviver com este nonsense da existência. Um dos grandes mitos contemporâneos é a inexistência de ideologias que governem a nossa vida. No homem esteta. já que se há coisa que um consumista pós-moderno não suporta são hábitos instalados). Que nova ideologia é essa? O consumismo. o deus do conforto e do consumismo a ele associado. da ausência de ideais que comandem as nossas acções.

permitiram uma taxa de produtividade nunca antes vista. Desenvolveu-se a publicidade e propaganda e já em 1901 (enfatizo 1901) o Red Book on Adversiting afirmava “O alvo do anúncio é ensinar o povo a desejar o que não desejava antes. Cristo é apresentado mais como uma ajuda do que uma salvação o que não é. obviamente. Mas a acção destrutiva do consumismo não fica só por aqui. queimadas. repostas e descartadas em grau cada vez maior”. a mesma coisa. enquanto estilo de vida. a forma como o evangelho de Cristo é apresentado hoje em dia fá-lo soar aos ouvidos da contemporaneidade como uma espécie de manual de auto-ajuda. Para o homem consumista a razão de existir não está já em ser algo mas em ter e consumir. Ora. Assim não acontece com o consumismo que é aparentemente inofensivo para a fé cristã. A solução para o problema foi a invenção de uma economia de mercado baseada no consumismo. gastas. A alteração que se tem processado na sociedade é de tal ordem que mesmo a proclamação do evangelho já está enferma. Sem uma compreensão prévia da importância do ser torna-se difícil entender os evangelhos pois toda a sua mensagem está aí baseada. O movimento do ser para o ter coloca cada vez mais dificuldade à compreensão do Evangelho pelas gerações actuais. Não sentiu o presente leitor um arrepio ao ler estas linhas? Não pressente que a sociedade hodierna concretiza estes anseios de Lebow? É necessário reconhecer que o consumismo. O que era ainda o início de algo novo no início do século XX transformou-se em ideologia logo após a segunda guerra mundial: o americano Victor Lebow em 1955 considerava que “ a nossa economia [americana] enormemente produtiva exige que tornemos o consumismo como nossa maneira de viver. Toda esta operação é demasiado subtil para que se preste realmente atenção. Mas não é assim: este propaga uma série de valores contrários ao cristianismo e que vão criando ruído aquando da proclamação da Palavra. talvez mais eficaz que todos os outros que proliferam nas estantes das livrarias. que convertamos em rituais a compra e o uso de bens de consumo. fundamental à mensagem de Cristo. interpretando-a de acordo com os seus padrões. consumir existindo para ir tendo artigos de consumo. O comunismo era um perigo visível para a fé cristã na medida em detinha uma agenda religiosa pública: utilizar o poder do Estado para ensinar a inexistência de Deus e a irrelevância de todo e qualquer sistema religioso. Uma matriz obcecada pelo ter ou ir tendo distorce a Palavra. Para compreender a salvação é necessário saber-se do que se é salvo e entender que é necessário um arrependimento. Precisamos que coisas sejam consumidas. é anulada por uma . e indicar onde tais desejos podem ser atendidos”. Também o valor da abdicação. que procuremos no consumo nossa satisfação espiritual e a satisfação do ego. A partir de então já não se produziria para satisfazer as necessidades mas antes criar-se-iam novas para escoar os excessos de produção. A prática consumista com a divulgação dos seus valores anti-essencialistas tem criado autênticos autistas à mensagem cristã inclusive dentro da própria igreja. representa um perigo para o cristianismo muito superior àquele que o comunismo alguma vez representou.

pois este nada promete enquanto que aquele assegura o contrário daquilo que realmente oferece. De facto. ao contrário do que se diz. O verdadeiro motor do consumismo é a insatisfação e não a produção (aparente) de satisfação. por já não proporcionar a satisfação pretendida. Não é só a anulação do ser como valor essencial mas a da própria capacidade de abdicar e do reconhecimento desta como um valor. Se porventura algum bem que adquiríssemos nos trouxesse a satisfação procurada. Mas haverá alguma resistência ao consumismo? O que o impede de invadir o mundo impondo os seus valores? O MOTOR DA IDEOLOGIA CONSUMISTA O consumismo é. obrigando-nos a adquirir um novo produto de modo a readquirir a ilusão de satisfação.vida obcecada pelo ter imediato. um engano ou uma mentira. Os bens de consumo. comprar algo diferente. segundo os padrões actuais. um verdadeiro mal. a evitar. ou até a necessidade de levarmos a nossa própria cruz? O comunismo não conseguiu penetrar em todos os países do mundo. o arrependimento. potenciando-a e aumentando-a. isto é. por si só. Como pode uma sociedade que não vê virtude na abdicação entender quem é Cristo. não podem ter como objectivo satisfazer-nos plenamente mas apenas aquietar momentaneamente essa insaciabilidade que se vai instalando em cada acção da nossa vida. Os hábitos de consumo publicitados às crianças e adolescentes de hoje têm como propósito fazer nascer uma insaciabilidade de objectos e serviços intrínseca ao pensar e raciocinar humano. E o tempo em que o produto nos proporciona satisfação necessita de ir diminuindo de modo a aumentar a procura. O motor da ideologia e prática consumista é exactamente o oposto daquilo que se esperaria. Esta é a roda do consumismo: os produtos não têm o propósito de nos proporcionar satisfação mas apenas a ilusão momentânea da mesma. deixaríamos de consumir. Esteve até longe disso. mais cedo ou mais tarde. O caso do consumismo é ainda mais grave que o do sexo. Somos por natureza insatisfeitos e o consumismo aproveita-se desse facto para exacerbar essa característica. Esta é a triste sina de todos nós. Ela só funciona se os bens comprados acabarem. de todos os habitantes das capitais mundiais rendidas às falsas promessas do consumo frenético. qualquer forma de abdicação é vista como algo desprezível. Tal como a obsessão pelo sexo tem raízes em estruturas – as da necessidade de verdade e de significados fixos e não adulteráveis – aparentemente nas antípodas do hedonismo. estando para sempre totalmente satisfeitos. Ora. também o consumismo tem origens em estruturas radicalmente opostas às apresentadas publicamente. se os produtos vendidos nos facultassem satisfação completa a economia de mercado baseada no consumismo entraria em colapso. .

mas já não acontece com a mente das gerações mais velhas que necessitam de fazer um esforço adicional para conseguirem efectuar as mesmas operações. O PAPEL DA TECNOLOGIA NA ALIENAÇÃO CONTEMPORÂNEA Outra dimensão fundamental para percebermos o consumismo e a alienação por ele proporcionada é a da evolução tecnológica. abrirá espaço ao desenvolvimento de uma acção C que levará à capacitação mental C e assim sucessivamente. Quando alguém faz paraquedismo. novas oportunidades e novas acções que o nosso corpo efectua abre-nos todo um mundo anteriormente vedado. ouvindo o que normalmente não se ouve. o nosso corpo adaptarse-ia rapidamente às novas possibilidades. A acção B vai potenciar o desenvolvimento cognitivo B que. o ambiente radicalmente diferente em que se coloca o corpo humano (no ar em plena queda) permite uma ampliação do aparelho sensitivo. Se fosse possível voarmos individualmente mediante uma pequena máquina que se colocasse às costas. o que interessa reter aqui é que a actual economia de mercado pretende educar cidadãos para a insatisfação e que é neste sentimento que se baseia toda a força do consumismo. Novas situações. contribuindo também para um desenvolvimento e capacitação mental adaptado às novas possibilidades de acção. e assim por diante. por exemplo. Acção e mente são companheiras na criação de um novo mundo de oportunidades. Estamos viciados em conforto e nem o percebemos. sendo.O acto de consumir ultrapassa hoje o âmbito da necessidade e já é da ordem do comportamento compulsivo. detectando os odores mais ténues e subtis possíveis. A mudança foi tão subtil que artigos e serviços perfeitamente supérfluos para a vida humana no tempo nos nossos avós e da juventude adulta dos nossos pais são hoje considerados “bens de primeira necessidade”. É interessante verificar que basta proporcionar ao corpo humano um novo ambiente para que este procure explorar capacidades adormecidas dos sentidos de modo a fazer face às novas condições. na verdade. De qualquer modo. no fundo o abrir de um novo mundo. Perante a situação de risco aparente os cinco sentidos passam a captar realidades nunca antes notadas parecendo adquirir inéditas capacidades. As mentes das crianças de hoje estão aptas a trabalhar com tudo o que seja botões. A quantidade de conforto a que os Ocidentais estão hoje habituados é absurda e chega a ser imoral quando olhamos para os dois terços da humanidade fora do Ocidente. Uma nova acção permite uma nova adaptação da mente humana. explora horizontes antes vedados à nossa natureza. a única realidade que esta ideologia dos tempos modernos tem para nos oferecer. por sua vez. Para entendermos melhor este aspecto necessitamos de reflectir sobre a conexão de que os antropólogos falam entre gestos (acção) e mente. tacteando o ar como se este fosse um objecto sólido. Toda a tecnologia abre-nos uma nova dimensão da acção humana. .

após esta.Assim é com a tecnologia. num iPod com mais espaço porque 2 gigas já não são suficientes. O verdadeiro prazer não está na posse do objecto mas. Nessas alturas o homem consumista adormece pensando no novo carro que quer comprar. principalmente. o sentimento de satisfação decresce proporcionalmente ao tempo de uso. principalmente na fase de homo aporético. É nos adolescentes de hoje que podemos ver com mais facilidade como todo este processo se transformou numa autêntica alienação. pelo menos. porque. na antecipação da compra. o maior alienador de massas existente em todo o mundo. Hoje em dia um adolescente pode em apenas uma semana aborrecer-se com aquilo que. A inovação tecnológica permite-nos. . Digo em todo o mundo porque. a par do sexo. Como se processa esta alienção? O homo torna-se ebrius pela sua obsessão em obter bens e experiências diferentes. A tecnologia não nos liberta (como por vezes se fala) mas simplesmente adiciona novas possibilidades de acção. em perspectiva de o adquirir. no iPhone que está na moda. O homem alienado. ALIENAÇÃO E CONSUMISMO Perante o que já ficou esclarecido relativamente ao consumismo não é difícil entender de que maneira este se transformou numa das maiores formas de alienação contemporânea. Os adolescentes são consumidores compulsivos. minutos perigosos onde enfrentamos o nosso pensamento no silêncio que nos reenvia para nós mesmos. com a globalização. O consumismo é. vê nas novas possibilidades tecnológicas uma esperança: a esperança de sair de onde está. E a cada geração que passa esse período é encurtado cada vez mais. o entusiasmou durante meses. para lá aquilo que já possui. julgar possível escapar à vida presente. A abertura e publicidade de diferentes nichos provoca no consumidor a ilusão de poder encontrar algo diferente que lhe dê sentido ou resposta. Já não falamos somente do mundo dito “Ocidental” mas inclusive de países de terceiro mundo onde a pobreza abunda e a fome é a realidade diária. acrescentando realidades à realidade. o fenómeno encontrou uma disseminação global penetrando. como se anelássemos constantemente por algo que ainda não temos. portanto. Numa sociedade sem valores de referência que dependam de normas válidas por si mesmas. etc. em todas as capitais mundiais. aquilo que lhe permite enfrentar os minutos diários que antecedem o sono. A cada novo invento abrem-se novas dimensões pelas quais nos podemos mover pela primeira vez. bastando adquirir o novo produto anunciado. aumentando o espaço do nosso pequeno universo pessoal. principalmente em países pobres. encontrar algo que lhe traga felicidade. não há filtro suficiente para as promessas ilusórias do consumismo. a esperança de. no novo ecrã plasma que saiu no mercado. nessa experimentação da nova dimensão. O sonho de ter a última novidade torna-se o seu veículo de escape. etc. É a tecnologia que permite a existência do consumismo.

Já não somos só aquilo que consumimos. Daí que os desportos radicais sejam tão populares. como objectivo da relação um puro preenchimento do vazio sentido. Alguns deles não admitem sequer a possibilidade de ter outro programa: retiraremlhes essa dose semanal seria obstruir a respiração que lhes permite viver. a mesma atitude. de música e de dança é das alienações mais eficazes actualmente. Apesar do Pós-modernismo se ter iniciado como uma recuperação da etnia e do seu valor intrínseco (subjugado durante anos pela aculturação do Ocidente). As discotecas são. porque entramos nesta roda viva que gira e gira sem parar. enfim. basicamente. O homem pós-moderno é um homem relacional (isso foi uma das mais valias que a pós-modernidade nos trouxe) tendo. principalmente no formato de pequenas feiras deambulantes que proporcionam experiências a quem passa e a quem suporte com paciência as imensas filas de curiosos. Somos. todavia. numa espiral de alienação que se pretende contínuo. Também experimentar está na ordem do dia e este homo ebrius é. As discotecas estão cheias às sextas e sábados à noite e as batidas frenéticas da música tecno. pois. consequentemente o tédio e a solidão”. As palavras de Allinges Mafra na revista Ultimato de Maio de 1997 fazem cada vez mais sentido: “Na verdade o consumidor não busca possuir coisas. Reparamos nisto de forma quase imediata quando analisamos os tempos livres da juventude (incluindo os jovens adultos) de hoje. Não é por acaso que a série de maior sucesso em todo o mundo seja Friends. Grande parte dos jovens que já ingressaram no mercado de trabalho. saltar através. posto que. as massas juvenis mundiais estão cada vez mais similares nos modos de ser e estar. . Saltar de. a inércia. a mesma alienação. uma das melhores formas de o homo ebrius se manter afastado da sua fase aporética. inúmeras variantes com a mesma atracção: novidade e adrenalina. sem margem de dúvida.etc. escorrega para o próprio vácuo. existimos e vivemos porque consumimos. um experimentador. Qualquer pessoa que viaje hoje pelas capitais mundiais perceberá que o modo de viver juvenil reproduz uma realidade cada vez mais homogénea. o movimento dos corpos e o imenso álcool consumido produzem todo um cenário de alienação. O consumismo é. os mesmos problemas. O consumo inquieto de saídas. Consumir freneticamente está na ordem do dia. não tendo nada dentro de si para consumir. vazio. E quando de repente deixa de consumir. apenas aguentam as suas tarefas ordinárias porque sabem que irão adquirir capital suficiente para o esbanjar rapidamente nessas noites de fim-de-semana. entra em depressão. sem nunca satisfazer-se. o veículo de alienação mais divulgado por todo o mundo. O consumismo permite-nos preencher a cabeça com possibilidades de compra e sonhar acordados. já que a solidão e o silêncio são o terror da contemporaneidade. As mesmas formas de diversão. O estilo de vida consumista implementa também um certo ritmo fundamental nas nossas relações sociais. as luzes. E o faz incessantemente. saltar para. a abulia. e sim consumir coisas.

Muitas vezes ser-se religioso não é mais que outra forma de se estar bêbado. a tudo o que aparentemente me possa reencaminhar para mim mesmo. todavia. de aprender mais. O surgimento de um aparelho que permitia interacções divertidas com a televisão da sala. Não interessa o quê exactamente que consumimos mas desde que isso nos mantenha ocupados e afastados de algum pensamento que questione toda a nossa existência. seja a nível da diversidade proporcionada pelo constante progresso tecnológico.Até mesmo as igrejas evangélicas já ficaram afectadas por este vírus: o frenesim de actividades. É por este último ramo da alienação virtual que iniciaremos a nossa análise. no desenrolar do culto semanal ou do tempo de louvor e adoração. meditar e praticar o que se ouviu. Neste momento é uma das maiores alienações do nosso mundo Ocidental e aquela que apresenta a maior capacidade de expansão. inclusive o consumo de religião. Não se pode falar de alienação sem se mencionar este mundo em franco desenvolvimento. O MUNDO VIRTUAL E A FUGA DO REAL Por último. esta forma de diversão generalizou-se e passou também a fazer parte dos tempos livres de graúdos. de facto. os maiores inimigos do homem moderno e é de lamentar quando também o são para a igreja evangélica contemporânea. de palestras de todos os géneros. OS JOGOS DE COMPUTADOR Aqueles que ainda julgam que os videojogos têm como públicos alvo as crianças encontram-se um pouco desfasados da realidade. jogado principalmente com um teclado. uma das maiores formas de alienação hodierna é o mundo virtual. até aos jogos de computador. Enquanto os jogos virtuais representavam uma dimensão no interior do computador doméstico. às redes sociais virtuais que aquela proporciona. as crianças eram os seus principais consumidores. O silêncio e a solidão são. tão pouco tempo (ou nenhum) para parar. Hoje em dia os consumidores de consolas não são mais as crianças mas sim uma franja de gerações que compreende os mais pequenos até aos adultos com 40 anos de idade. A alienação oferecida pelo virtual abrange diversas áreas desde a Internet. fez com . nomeadamente os jogos da PlayStation (a consola que mais contribuiu para este vício das gerações de jovens adultos). seja a nível das faixas etárias afectadas. porventura. De facto. mas no momento em que as consolas surgiram como mais um apetrecho da sala de estar. de ouvir mais e. não nos podemos esquecer que a alienação assume diversas formas. O horror aos tempos mortos e ao silêncio que possa acontecer.

Apesar de arcaicos e graficamente pouco atraentes. ao invés.que filhos e pais se sentissem uma vez mais a brincar juntos. Desta feita. ou pelo menos não seja muito visível. sem que para isso fosse necessário sair de casa ou permanecerem mudos diante de um programa televisivo. os telemóveis transformaram-se numa divulgação em massa deste tipo de ocupação lúdica e no futuro serão cada vez mais apelativos. A distinção que havia outrora é agora evitada até onde a idade o permitir (o que será destas gerações quando atingirem a terceira idade?). A necessidade que os nossos pais e avós tinham de marcar a diferença entre a idade juvenil e adulta já não existe. Há alguns anos atrás seria impensável um acontecimento como este pois nenhum adulto teria a coragem de se expor publicamente a uma “actividade tão infantil”. Mas para além das razões sociais que obsequiaram a incorporação dos jogos de vídeo como uma actividade banal entre os jovens adultos é a própria natureza do jogo virtual que oferece uma um estilo de alienação praticamente único. incorporando um estilo de vida e de ocupação de tempos livres que não desaparecem só por se atingir a idade adulta. indumentária e acções juvenis. Pais e filhos poderiam quebrar o silêncio que se tinha estabelecido diante da “caixa negra” e passarem. O tempo que se passava em discotecas na adolescência é o mesmo tempo que se passa já com emprego e. O que se pretende é permanecer jovem não havendo qualquer complexo de revelar posturas. a comunicar mediante actividades lúdicas que se encontravam à distância de um polegar. Recordo-me de uma situação recente numa loja FNAC. Gastam-se esforços para que essa distinção não apareça. por vezes. um grupo atento de adultos com mais de 30 anos. Apesar deste ser apenas um episódio já não foi o primeiro assistido e acredito que será cada vez mais frequente. Pelo contrário: os novos adultos (20 aos 35 anos) são aqueles que na adolescência já não sabiam divertir-se sem incorporarem esta dimensão lúdica. Após o gesto cada vez menos corajoso de um adulto ao pegar no comando. Os telemóveis também vieram obsequiar a utilização de jogos de vídeo entre os adultos. logo se reuniram à sua volta. utilizar as diversões virtuais como forma de passar o tempo. paulatinamente. onde à volta de um novo jogo virtual de acção se encontravam a jogar e a assistir 7 adultos. os jogos que os telemóveis disponibilizam têm permitido aos que viajam comummente em transportes públicos. Vivemos numa era em que o ideal de permanecer jovem é absolutamente incontornável. existe já todo um conjunto de gerações que viveu jogando este tipo de jogos. . os jovens adultos simplesmente estabelecem uma linha de continuidade entre a sua adolescência e a sua maioridade. Os jogos de computador conseguiram essa proeza de fornecer também aos adultos aquilo que lhes faltava na televisão: uma interactividade onde o herói da trama já não era outro que não eu mesmo e onde já não se tratava de receber passivamente os conteúdos mas sim de participar neles. Se hoje isto é possível é porque não é mais considerado um exercício exclusivo das crianças. divertindo-se enquanto esperam e viajam. Mesmo sem filhos. O que se ambiciona é exactamente isso. antes pelo contrário. com uma vida a dois. Por outro lado.

Por outro lado. por não entusiasmar.Se repararmos com atenção. viver é ter êxito. a probabilidade de incorporarem este divertimento no seu dia-a-dia aumenta exponencialmente. no final. permitindo uma progressiva adaptação ao mesmo. Os jogos de computador permitem uma radical sensação de superação de limites. a nova definição de herói que se encontram nas películas é exactamente essa: aquele que. Lidamos mal com as derrotas e fracassos e o alvo da nossa vida é apresentarmo-nos como pessoas vitoriosas no que fazemos. Mas qual a relação desta obsessão da sociedade com o mundo dos jogos virtuais? Não é um facto muito alardeado. O facto de não estarem habituados ao joystick nem à dinâmica do teclado necessária aos jogos de computador faz com que tenham mais dificuldade em saírem vitoriosos dos mesmos. podemos apresentar o sucesso que nos circunscreve. mas uma das sensações que os jogos proporcionam é a da vitória. que emana das nossas acções. A paranóia atingiu um tal grau que a sétima arte não se coíbe de apresentar vilões ou heróis anti-heróis que nos fazem admirá-los não pelos valores que professam mas por serem bem sucedidos. ou ladrões de bancos e outras instituições abonadas de capital. nada é. Um jogo demasiado fácil é abandonado por ser ridículo. esmagando um inimigo ou superando um obstáculo físico (mas virtual) ou intelectual. Aliás. consegue obter os seus intentos. ou assassinos que escolhem matar aqueles que. onde a balança tem nos seus pratos por um lado o desafio que o jogo lança e por outro a dificuldade em ultrapassá-lo. na verdade. . a constante ilusão de ganhar um pedaço de alguma coisa que. Estes valores são tão hegemónicos que até penetraram nas igrejas mediante a teologia da prosperidade: só conseguimos levantar a cabeça se. Esta é a razão que explica a dificuldade deste tipo de actividade lúdica atingir os adultos acima dos 40 anos. Os que conhecem este tipo de jogos sabem que os editores necessitam de produzi-los com um equilíbrio bastante difícil de alcançar. de forma arbitrária. um jogo bastante difícil que não permite uma superação progressiva é também abandonado imediatamente: ao invés de proporcionar uma sensação de vitória provoca no jogador uma desconfortável sensação de fracasso. Trata-se de facilitar o equilíbrio. Mas para aqueles que experimentam a progressão num jogo. de alguma forma. por não ser um adversário à altura. Só dessa forma se compreende que actualmente se consiga consumir séries e filmes onde a personagem principal é um advogado que não olha a meios para atingir os seus fins. são consideradas más pessoas ou ainda o fascínio que o bom vilão passa a ter sobre o bom polícia que o capturou e vice-versa (pois só um polícia de sucesso poderia capturar um vilão de sucesso). Também não é por acaso que todos os jogos de computador incluem a possibilidade de configurar previamente a sua dificuldade. pois. independentemente da natureza dos mesmos. o jogo de computador responde a duas necessidades fundamentalmente pós-modernas e que se encaixam perfeitamente no perfil do homo ebrius: Vivemos numa sociedade obcecada pelo sucesso. não interessa em quê.

As acções disponibilizadas permitem-nos passar de conquistadores romanos a presidentes de câmara. até planetas e lugares inexistentes na vida real mas atractivos à mente humana. passar por situações diferentes e experimentar aquilo que a realidade não permite ou não permitiu. Se no mundo real não se tem êxito nas relações amorosas. O anúncio utilizava um narrador que ia contando as suas experiências de vida. obtendo assim as sensações que. mas. As restantes personagens do jogo têm igualmente pessoas reais por detrás conectadas mundialmente. com efeito. Os ambientes representados também tendem para o infinito e a evolução tecnológica consegue-os cada vez mais realistas. Existem jogos para todos os gostos desde acção. de condutores de automóveis de fórmula 1 a líderes de gangs. As ofertas são quase inesgotáveis podendo abarcar qualquer realidade que venha à mente não existindo limites para a imaginação dos programadores informáticos. Mas. terminando com uma frase verdadeiramente apelativa: “Já vivi!” Ora. antes uma virtude. tudo isso pode ser alcançado virtualmente. As situações vão-se sucedendo às vezes tal como na vida real. é aliciante para qualquer um. de jogadores de futebol a magos com poderes sobrenaturais. a tenista campeão. a vida dos que os cicunvizinham. E para quem está entediado com o mundo concreto e verdadeiro é possível inventar uma . de facto. A ideia é simplesmente ser outra pessoa. estratégia. simuladores de todos os géneros até da própria vida humana em sociedade. de outra forma. Como já dizia alguém “para que quero eu a realidade?”.A oportunidade de sucesso no mundo virtual pode ainda colmatar algum fracasso da vida real. alterando. dessa forma. que a possibilidade de sucesso no mundo do jogo de vídeo não atrai somente quem não o tem na vida real mas qualquer um que a experimente: vencer uma inteligência artificial. profissionais. é importante frisar.. Os testes de criatividade têm revelado que as crianças possuem cada vez menos capacidade imagética. nada pode estar mais longe da realidade. ambientes longe do alcance do homem. etc. Não é de admirar que num anúncio da playstation já de há largos anos se fizesse uso desta imensidão de recursos virtuais disponibilizados. para o mundo virtual isso não é um defeito. Quem ainda não ouviu falar do famoso Second Life? Um “jogo” on-line onde o que se oferece é a simulação de uma pessoa e personalidade diferentes. desde general comandado exércitos. O jogo de computador permite ainda alimentar uma necessidade do homem contemporâneo: a necessidade de experiências novas e de mudança. veículos nunca conduzidos. fazer com que o jogador se sinta a viver mais do que a realidade o permite. A dinâmica dos jogos virtuais que permitem experimentar “existências” aparentemente inacessíveis pode. Comunicam em Inglês descrevendo as suas acções e reacções ao que lhes vai acontecendo. estão vedadas. superando os desafios apresentados. numa verdadeira lógica de substituição. Será uma realidade dos tempos modernos onde já não se sabe brincar ao faz-de-conta? O mundo virtual transporta-nos para paisagens de países nunca visitados.

envolvimentos. de certa forma. quem quer a realidade quando a virtual é bastante mais aliciante e diversificada? Para quem. Os enredos conseguem ser tão atractivos que alguns jogadores deixam simplesmente de viver a sua vida real. Os resultados iriam sem dúvida surpreender-nos. escaparmos da nossa vida quotidiana e banal. O capital real que se investe no jogo vai dependendo da carteira (também real) do jogador. apenas comendo e dormindo (pouco). são irrelevantes. princesas e magos. a melhor forma de alienação sendo um dos maiores atractivos destes jogos. o que for necessário. sociedades vampirescas. para efeitos deste artigo. pois os “objectivos” do jogo suplantam os reais. nem a protecção automática contra o stress foram mais fortes que as possibilidades oferecidas pelo mundo virtual. a alimentação inadequada e a concentração elevada durante esse dia inteiro fizeram com que o rapaz sueco sofresse uma convulsão semelhante a um ataque de epilepsia.personagem dentro de universos fantásticos com dragões. neste caso o famoso World of Warcraft (já fonte de negócio para alguns. seres de outro mundo ou até. Segundo o psicólogo Owe Sandberg citado pelo mesmo jornal “entre 30 mil e 40 mil adolescentes na Suécia estão actualmente sob o risco de se tornarem dependentes de videojogos”. encontramos a notícia de um adolescente de 15 anos que entrou em estado de convulsão após jogar um jogo de vídeo durante 24 horas. As consequências. A falta de descanso. e tudo isto apesar de Second Life não ser propriamente um jogo. Se estivermos atentos à nossa vizinhança e amigos/conhecidos talvez não seja difícil encontrar casos mais ou menos semelhantes ao desse infeliz sueco (não tão graves a nível de saúde) ou outros em que se percebe que a vida é orientada ao redor de jogos de computador. O que interessa aqui realçar é a capacidade que o jogo revelou. considerando a inexistência de objectivos e desafios a superar. Um mundo onde o que podemos alcançar é bem mais interessante do que comparado com o real. nem o sono. Apenas um ciclo de acções. normalmente estudantes que vão faltando aos seus compromissos académicos sem que os pais o imaginem. vestuário. desenvolvendo as personagens a custo zero e depois vendendo-as aos impacientes que queiram progredir mais depressa) em suplantar-se às necessidades mais básicas do ser humano. de facto. Mais uma vez. talvez por questões de dificuldade de relacionamento ou aversão a . A mudança facultada nestas “aparências de realidade” é. para as almas mais negras. Todo o mundo virtual é um mundo feito à nossa medida preparado para o dominarmos e. Durante o tempo em que se joga nada mais existe e tudo se concentra na superação das dificuldades que vão surgindo: é a alienação absoluta incorporada numa viagem para um outro mundo. Em certo tipo de pessoas não é difícil reconhecer que os objectivos diários se resumem em trabalhar para sobreviver e comprar videojogos. A loucura é tanta que existe uma paridade entre a moeda virtual do Second e a moeda real para que se possam comprar terrenos. Seria necessário fazer um estudo à escala global incluindo adolescentes mas também adultos. Nem a fome. enfim. uma outra personalidade. conversas. apartamentos. Num artigo de 18 de Novembro do jornal Sol. Com certeza não será só na Suécia.

abrindo portas para conquistar a última geração de resistentes aos jogos de computador. mas em todo o nosso corpo.multidões. O futuro de um mundo de alienação hipervirtual e transgeracional chegou! A NOVA TECNOLOGIA E AS REDES VIRTUAIS A Internet democratizou a informação e o contacto entre os povos. Quem sabe se. Não será difícil perceber que a comunicação do evangelho também terá de ser efectuada nesses universos paralelos tal como acontece actualmente no Second Life. evitando assim os desconfortos. Sendo hoje apenas um entre outros meios de alienação contemporânea – sem sequer conseguir rivalizar com o consumismo e o sexo – será. Nenhum divertimento poderá rivalizar com o que os jogos oferecerão nem mesmo o sexo. como destino de férias durante um mês. num futuro ao qual o presente autor não assistirá. a maior fonte de alienação de todo o mundo. mas não é possível deixar passar a oportunidade de apontar para um futuro onde os jogos de computador proporcionarão a alienação máxima da sociedade. Não é este o espaço indicado para aprofundar o tema. A terceira idade passará o resto dos seus dias ligada a computadores de modo a readquirirem as experiências de um corpo saudável e jovem e tudo isto se fará em nome de um certo humanismo. O filme Matrix já mostrou o caminho que será percorrido e. que não demorará muitos séculos. as relações sociais reais serão substituídas pelas virtuais. Para quem possuir capital suficiente. O mundo virtual já não está na ponta dos dedos. os perigos e a pobreza dos mundos reais? O cenário poderá parecer ao presente leitor um pouco catastrofista mas a verdade é que. Quando os neurocirurgiões conseguirem aceder directamente aos nossos centros nervosos e ligá-los a um computador as possibilidades de alienação não conhecerão limites. considerando os efeitos que actualmente os jogos de computador têm. os jogos passaram. demasiado sedutora para ser recusada. oferecerse-á a estadia em mundos virtuais. É de assinalar que a publicidade efectuada a esta consola raramente inclui crianças e adolescentes preferindo mostrar jovens adultos e até mesmo idosos em pleno divertimento. acredito. desde que haja tecnologia disponível (acaba por ser ainda um privilégio muito . em todos os domínios. O primeiro passo para esta realidade já foi dado com a consola Wii. Os que vivem de rendimentos talvez até preferirão confinar-se às vielas virtuais na maior parte do seu tempo diário disponível. não é difícil entendê-los numa relação proporcional aos futuros desenvolvimentos tecnológicos. com a nova Nintendo. a ser uma extensão de todo o movimento do corpo. não consiga optar pela alienação mor dos tempos modernos – as discotecas – a possibilidade de submergir em mundos surpreendentes e inéditos é. provavelmente. As limitações são cada vez mais reduzidas. Num futuro próximo os lares de terceira idade começarão a incorporar estas novas tecnologias para poderem proporcionar actividade física aos residentes. Apesar de ainda não ser uma ligação directa ao cérebro.

sendo um fluxo de informações. partilham-se e divulgam-se problemáticas com características regionais mas discutidas à escala global. Não só é fácil como rápido e eficiente (se exceptuarmos a transmissão de voz e imagem). Pela facilidade com que a sua comunicação se processa. não sendo necessário um conhecimento prévio dos dois inter dialogantes. fica-se mais informado e em tempo real sobre acontecimentos em nações e povos que nos são estranhos do que do sucedido nos nossos bairros de residência. para tudo isto é preciso despender tempo. Tem-se verificado até que os assuntos mais íntimos são agora conversados com um computador como mediador e não presencialmente. a Internet desenvolve comunidades absolutamente virtuais. por vezes. Sinais dos novos tempos? È provável que se esteja a fomentar uma timidez latente que se reflectirá no futuro. acedem-se a realidades que teriam ficado no esquecimento para quem não pode viajar. Podem-se ter mil e umas conversas sobre os mais variados temas com quem nunca se viu e provavelmente nunca se irá ver. em primeiro lugar. entre os países onde a Internet é já uma ferramenta comum o futuro já chegou e facilmente falamos em tempo real com alguém que está do outro lado do planeta a custos reduzidos. Enfim. mas acima de tudo muito personalizado. um verdadeiro paraíso da comunicação. Ora. a transmissão de emoções vocais e . não sendo de forma alguma um processo penoso participar de todas as acções acima indicadas. donde apenas se sai para ir à escola ou outro lugar qualquer.específico das nações menos). Este tipo de comunicação bloqueia. fazem-se amigos desconhecidos por causa de um único interesse comum ou. assumem-se posturas e formas de estar na vida (tribos urbanas) que estão do outro lado do atlântico e sem qualquer representação em outros locais. Hoje em dia é possível ficar conectado na Internet 24h e mesmo assim descobrir novos interesses que nos façam prolongar a visita. Começa a não ser raro ver estabelecidas conversas íntimas através de msn. Entretanto. As oportunidades de comunicar com tanta facilidade mas sempre através de um mecanismo que impede a visualização directa (se exceptuarmos as câmaras) permitem uma máscara do eu. Entre os adolescentes já nem se trata de visita mas de “viver” na Internet. facilita e cativa a sua utilização. mas o que nos interessa realmente evidenciar para efeitos da temática aqui abordada são as novas possibilidades que a mediação – o computador – fornece para efeitos de alienação. Qualquer contacto pode ser obtido pela própria Internet. A Internet. Em muitos casos é já possível afirmar que os diálogos mais profundos entre amigos ocorreram através do computador e não de forma presencial. talvez impensável a algumas décadas atrás. partilham-se vídeos e músicas com grupos de interesse constituídos por elementos espalhados pelos continentes. Existe um fenómeno recente que tem admirado os pais destas novas gerações e que consiste em chegar a casa e continuar a falar com os colegas dos quais se tinha despedido ainda há bem pouco tempo à saída da escola. A expressão “aldeia global” encaixa com perfeição num futuro próximo. Mesmo alguns pais têm verificado que é mais fácil falar de assuntos privados com os filhos no messenger do que cara a cara. O tempo que ali despendemos é um prazer.

a liberdade é total. Inventou-se a televisão portátil. As redes sociais virtuais serão procuradas assiduamente pelas gerações actuais e futuras. A partir de agora a magia da “caixa negra” pode continuar a exercer a influência que detinha nos lares e transportar-se para as ruas. pois. enquanto se espera pelo autocarro. só ainda neste primeiro nível. permite um resguardo considerável do que somos ou estamos a ser nesse momento. atingindo o objectivo que todos perseguem: a eliminação absoluta da solidão. A comunicação. As possibilidades serão imensas.faciais. O sempre contactável disponibilizado actualmente pelo telemóvel passa a sempre acompanhado com esta fusão. apresentar-se a outros a partir do zero como se a vida pudesse recomeçar sem passado e sem história a qualquer momento. mas a partir de agora já não existirá esse obstáculo. De igual modo. o adolescente (e também o adulto no seu local de trabalho) poderá desligar-se do ambiente que o envolve e permanecer ligado a um mundo ou pessoa que pode até não existir. existe sempre o botão de off). Estas redes sociais que se formam na Internet são. Até este momento era necessário desligar o computador (conjuntamente com a conversa) para cumprir com os deveres sociais. Outro dos serviços recentemente disponibilizados para os telemóveis de terceira geração é a recepção de canais televisivos para o telemóvel. Ser diferente do que se é. não assumir responsabilidades. Actualmente a diferença não é muita. uma excelente oportunidade para fugir ao dia-a-dia e esquecer a vida real. Esta confluência entre Internet (msn) e telemóvel permitirá um acréscimo considerável do estado de alienação juvenil. Os amigos podem mudar consoante o nosso estado de ânimo e podemos partilhar os problemas à vontade modificando a sua origem e natureza de acordo com a forma como nos sentimos mais confortáveis. Em segundo lugar. mas. se falamos com pessoas conhecidas na Internet e que moram em países diferentes. podemos receber os problemas de outros e dizermo-nos “amigos” já que a responsabilidade dessa amizade nunca poderá ser testada (só em casos muito raros. podendo até assumir uma nova personalidade. Em terceiro. e quando falamos para pessoas desconhecidas. não há qualquer responsabilidade envolvida na relação. considerando o tempo que se passa em Internet nos nossos computadores pessoais. mas a mobilidade ainda não é aquela que uma conexão entre telemóvel e Internet sem restrições permitirá. sabemos que dificilmente possa haver oportunidade para um contacto directo. com os novos desenvolvimentos tecnológicos é possível aceder ao msn através do telemóvel. assim. os péssimos conteúdos televisivos já podem . poderá ser alcançado. evitando relações presenciais e mudando constantemente de pares dialógicos. ocultar defeitos visíveis. Com msn no telemóvel (desde que a preços atractivos. embrenhando-se em mundos distintos com possibilidades de manipulação e de encobrimento da realidade quase infinitas. Acima de tudo. Ora. podendo demorar ainda uns anos) o ideal absoluto de nunca se sentir sozinho e de fugir do silêncio que nos reenvia a nós próprios. até um género diferente. ou seja.

os telemóveis deixaram de ser um prestador de serviços bastante limitado para ser o arauto do novo paraíso. definitivamente. terá de se adaptar às novas realidades. Mas esta posição só pode resultar de uma compreensão não essencialista da vida. em segundo. A famosa expressão marxista “A religião é o ópio do povo” não faz mais sentido. Um certo humanismo secularizado e relativista que se instalou diz-nos que não é prudente. talvez até pouco ético. permitirá a fuga sem sair do sítio. Assim. Apenas nos momentos de crise se poderá esperar um ouvido atento ao que Cristo tem para nos dizer. Aquela que foi a primeira grande fonte de alienação tecnológica estará em todo o tempo e em todo o lugar. aquilo que nos arranca a esta embriaguez constante. tarefa complexa pois as camadas sucessivas que se sobrepõem permitem alterar as formas alienantes enquanto ainda se permanecem noutras. Como será poder iniciar uma conversa e só a terminar 12 ou 16 horas depois. como um duche frio incómodo e do qual se quer sair. provavelmente a mais confortável. o consumismo e as potencialidades do mundo virtual. a não ser se incluída num sentido mais amplo onde a religião não surge sozinha mas acompanhada de uma imensidão de outros interesses que se reflectem como a manifestação de um padecimento global. esse brinquedo maravilhoso que cabe no bolso. A Boa Nova tem de se apresentar. como má nova. O único limite será a capacidade da bateria. nos outros. apesar de se poder deslocar durante esse tempo? Como será tentar resistir à tentação de ver o seu programa favorito a qualquer hora do dia e em qualquer local? Ver-se-á ainda alguém a ler um livro nos transportes públicos. Esta segunda opção é. permitirá a fuga de qualquer local. retirar os paliativos que a outros servem de consolo. A visão cristã aponta para conclusões radicalmente opostas: há uma ontologia existencial por detrás das nossas vidas e isso deve-nos coagir a provocar a libertação da alienação. O telemóvel. O ópio do povo é agora o sexo e a erotização ubíqua.alimentar a nossa alma. agora que também a televisão passa a ser ubíqua? Passaremos a ser. enquanto palavra de salvação. A outra alternativa é esperar os momentos (poucos) de transição entre alienações. Mesmo no local de trabalho já não será possível monitorizar o empregado através do seu próprio computador. O Evangelho. em primeiro lugar em nós mesmos – lutando para que não sejamos nós igualmente alienados – e. inclusive em andamento. seres viciados em imagens e/ou comunicação? Em jeito de conclusão Se existe elemento caracterizador da sociedade pós-moderna e pós-cristã é esta ânsia pela alienação. em primeiro lugar. Mas não só. As opções conformistas são sempre relativistas e não devemos esperar que as coisas se .

Novembro de 2008 Manuel Rainho . do mercado como deus absoluto. A alienação dos nossos gestos e pensamentos facultam-nos a ilusão da tábua de salvação e a melhor forma de compreendermos o quanto ilusória tem sido a nossa existência diária é darmos um passo em falso e tombarmos no vazio que sempre evitámos a todo o custo. tal como o comunismo de Marx e Engels o foi. Só aos que se descobrem enfermos é possível a cura. o ser humano precisa de observar a aporia da sociedade que criou e sentir a necessidade de redenção. Como disse anteriormente. erróneos a não ser através de uma crise deste mesmo sistema? Não. Neste momento. Pelo que podemos observar hoje da nossa história Ocidental. de alguma forma. Os seus três anos de ministério são anos de provocação. a mais eficaz. só a alienação poderá seguir-se a uma profunda compreensão da nossa solidão no universo. Sem confrontação o estado de alienação apenas irá aumentar. em aberta oposição. mas esta. Alguém dúvida que a melhor forma de se perceber que os valores da ganância e do lucro desmedido. são. etc. Somos chamados à provocação. Quando Cristo disse que os sãos não precisavam de médico mas sim os doentes de modo algum considerou que existiam justos no mundo.resolvam por si mesmas. pareceme. A alienação pode ser combatida de diversas formas. Só o homem aporético pode salvar-se de si mesmo mediante a acção de Jesus. Jesus contornava as alienações do seu tempo indo ao encontro delas. Todo e qualquer disfarce da sua situação de crise constitui obstáculo à compreensão da mensagem de Deus. tal como nos é revelado pela vida d’Aquele que é o máximo exemplo para todos nós. era. não existe outra forma de o compreender. uma ilusão. A diferença está em que alguns apercebem-se do seu estado lastimável e outros não. da centralização no ter ou ir tendo e não no ser. A sociedade aguentou o quanto possível essa etapa onde o homem aporético olhou para si e se compreendeu como tal. O superhomem de Nietzsche. Todos precisam de remição. pois alienados produzem mais alienados numa espiral sem fim à vista. a não ser passando pelo seu próprio colapso e pela necessidade de regeneração. não só nas palavras como nos actos. a angústia típica do existencialista não existe mais. esse construtor de valores emancipado. pelos vistos. Assim é com as nossas vidas pessoais.

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