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Pai

Eu não queria deixar que Agosto se fosse sem eu falar do meu pai.Seria seu
aniversario, bem no dia dos pais, e tinha mesmo de ser. “Meu” é meio errado. Ele
foi pai de muitos, sempre pronto para ajudar, sempre otimista, apostou no futuro
dos meus filhos, e pagou por isso, literalmente. Ajudou que eles se formassem ,
eram seus netos, né? Não, não foi por isso só. Quantos devem seus estudos e
empregos a ele... O Bira, filho da nossa ajudante do lar, quando ninguém mais
acreditava nele, o “Mimim” como o André meu filho o chamava, e depois todo
mundo adotou o apelido, apostou nele, pagou seu curso de enfermeiro e foi longe,
conseguiu o que almejava, mudou o rumo da sua vida.E como o Bira muitos
outros. Meu pai era assim. Todo mundo era seu amigo. Nunca guardava mágoa de
ninguém, sempre pronto pra ajudar. Um artista em tudo que fazia. Pecava pela
excelência , se voçê pedia para que ele fizesse uma caixinha de madeira, simples
pra guardar bagulho, quando ele acabava de fazer dizia que não tinha ficado tão
bom quanto ele queria e coisa e tal mas na hora que a gente via a tal caixa....toda
perfeita, encaixes perfeitos, em pinho de riga, com fechadura embutida e
dobradiça oculta, não servia mais pra guardar tranqueira e sim jóias! Um
perfeccionista em tudo que fazia. De caixinha a avião. Isso Avião. Essa sempre foi
sua paixão, orgulho e alegria. Me lembro bem quando ele começou o curso para
tirar o brevê de piloto, o primeiro avião, um Piper CUB J3 amarelinho, onde voei
muitas vezes e claro, pilotei algumas, porque passar adiante, ensinar, ser paciente
era muito ele. Hoje , com a idade que ele tinha quando era avô dos meus filhos,
me lembro dele com carinho e muita saudade. Consigo entender coisas que não
entendia na época, seus limites e defeitos que pareciam qualidades.Não é só
porque ele se foi que eu queria dizer isso. É meio inútil dizer hoje o quanto eu
amava meu pai, devia ter dito isso mais vezes, beijado e abraçado mais vezes,
mas a morte era só uma possibilidade remota...um dia... mas veio mais depressa
do que nós esperávamos e levou o pai muito depressa. Muito ficou por dizer. Muito
por fazer. Hoje, resta uma urna com suas cinzas na minha estante de sua vida
física. Mas meu pai vive em cada um que o conheceu, em cada um que pode ter o
privilegio de ser seu amigo, em nós que tivemos o privilégio de sermos seus filhos,
netos, sobrinhos. Vive nas peças de madeira cuidadosamente entalhadas, nas
madeiras que ornam minha casa, no banco de madeira maciça com uma
dedicatória dele, nas ferramentas cuidadosamente arrumadas em sua oficina,
aqui na fazenda em cada detalhe da casa da sede, idealizada, sonhada e feita
pelas suas mãos, nas fotos com os filhos e netos, em cada um que quando
encontro me abraça e diz, cara, como eu gostava do seu pai! Nos nossos
corações. Um homem como meu pai não morre. Nunca. Essa é uma herança! Pai,
amo você! Sempre. Grande Beijo!
“ Bridge of trouble waters”