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"Crises econômicas e ondas longas da economia mundial" - Theotonio Dos Santos

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crises econômicas e ondas longas da economia mundial
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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE FACULDADE DE ECONOMIA

GREMIMT Grupo de Estudo sobre Economia Mundial, Integração Regional & Mercado de Trabalho

“Crises Econômicas e Ondas Longas na Economia Mundial” THEOTÔNIO DOS SANTOS

Textos para discussão
Série 1 – Nº 5, 2002
Este texto é encontrado também no site da Cátedra e Rede UNESCO – UNU sobre Economia Global e Desenvolvimento Sustentável – www.reggen.org.br

AS CRISES ECO NÔ MICAS

RUA TIRADENTES, 17 - INGÁ, NITERÓI / RJ TEL.: (021) 717-1235 FAX: (021) 719-3286

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DISCUSSÃO

Entre os temas que preocupam o mundo contemporâneo desde o século XIX, dos formuladores de política aos analistas econômicos, está a questão do ciclo econômico, das flutuações econômicas e das crises econômicas que se manifestam em períodos mais ou menos sucessivos e identificáveis nas economias nacionais e na economia mundial, seja nos países mais desenvolvidos ou seja no conjunto da economia mundial. Na medida em que a economia neoclássica se orientou para a preocupação com o equilíbrio geral, a flutuação econômica passava a ser uma anormalidade, conseqüência de alguma forma de rompimento desse equilíbrio que só pode encontrar sua explicação em fatores externos aos fenômenos econômicos analisados pela teoria. Não se pode afirmar, então, que exista uma teoria do ciclo econômico produzida pela economia neoclássica, na medida em que as flutuações econômicas seriam explicadas por fenômenos externos ao modelo econômico e, portanto, relativamente aleatórios. Alguns economistas se dedicaram, contudo, a análise dos ciclos ou flutuações dos negócios, na medida em que era impossível negar sua existência que, como dissemos, é uma parte muito central da vida econômica contemporânea. A teoria keynesiana surgiu após um período longo de estagnação, voltando-se para a difícil tarefa de formular políticas capazes de impedir essa estagnação e retomar o crescimento da economia, ou, mais especificamente, o pleno emprego, grande inquietação da Humanidade naquele momento. Daí que grande parte das preocupações keynesianas, e sobretudo pós-keynesianas, estivessem ligadas ao conceito do crescimento econômico, à busca de explicações dos mecanismos do crescimento, cuja expressão mais bem-sucedida talvez esteja no fenômeno do multiplicador. Não há propriamente, do ponto de vista keynesiano, uma visão de ciclo econômico, mas predominantemente uma percepção aguda do fenômeno da estagnação e da necessidade de combatê-la através da intervenção do Estado, que assume um caráter anti-cíclico. Em seguida vêm as preocupações com o crescimento econômico e os possíveis desequilíbrios que ele possa manifestar, enfatizando-se outra vez o papel da intervenção estatal para regulá-lo e viabilizá-lo. Devemos, contudo, constatar que a teoria da crise econômica e do ciclo econômico tem sua origem basicamente no pensamento marxista, passando por influências muito decisivas de historiadores econômicos que foram focalizando o fenômeno e buscando explicações para eles. Na verdade, a questão da crise e do ciclo econômico passou a ser fundamental para o pensamento marxista. Também o foi para alguns teóricos que seguiram um caminho mais próximo da história e dos fatos econômicos, como este conjunto de economistas que ficariam conhecidos como a Escola do Pensamento Institucional, e que tem em Schumpeter sua principal figura.

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Nosso objetivo neste capítulo será o de analisar a questão dos ciclos e das crises econômicas, com uma ênfase particular nos ciclos longos. Estes devem ser analisados a nível internacional, na medida em que eles se manifestam em conjuntos de países, permitindo inclusive propor um mapeamento da sua trajetória a nível planetário. Neste sentido, a análise dos ciclos ou ondas longas ultrapassa o marco nacional no qual os próprios teóricos marxistas tinham situado as oscilações do ciclo econômico e a problemática da crise econômica. Caminhamos, assim, de maneira decidida para incorporar esta dimensão nova que vem se consolidando na análise dos fenômenos sociais, particularmente desde a década de 70 quando foi retomada a teoria das ondas longas, seja sob o ponto de vista da análise empírica, da história econômica, ou seja sob o ponto de vista da análise teórica. A questão das ondas longas se articula com uma visão mais global do funcionamento da economia mundial. Na sucessão dessas ondas longas identifica-se cada vez mais os períodos de retomada e crescimento econômico como períodos de incorporação maciça de inovações tecnológicas, em geral, introduzidas no período de depressão e de recuperação, e que se encontram em fase de difusão e expansão no período do crescimento. As teorias dos ciclos econômicos longos ou ondas longas nos mostra que há mudanças estruturais no final de cada ciclo longo, dando às crises dessa fase final um caráter estrutural, que as vinculam também com a introdução de novos paradigmas tecnológicos que se identificam não somente pela predominância de novos setores e ramos de produção dentro da economia, como também por mudanças no próprio processo de trabalho, no próprio sistema de produção. Vejamos, portanto, como se colocam essas questões tanto do ponto de vista teórico como histórico que se faz necessário para testar o aparelho conceitual desenvolvido em torno das flutuações econômicas seculares na análise concreta da história econômica contemporânea e moderna.

T EORIA DAS CRISE S ECON Ô MICAS

Um primeiro tema a tratar é a diferença entre os ciclos e as crises econômicas. As crises econômicas se referem a períodos de baixa da produção, aumento de desemprego e queda dos negócios em geral. Elas foram detectadas desde a antiguidade e foram objeto de muitas interpretações. Os ciclos econômicos supõem uma observação sucessiva de situações de crises alternadas com situações de crescimento e auge das atividades econômicas. O conceito de ciclo econômico está associado a uma certa regularidade e freqüência das oscilações entre os períodos alternados de crescimento e descenso.

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Apesar do tema ter sido objeto de muitas referência históricas poderíamos dizer que a primeira tentativa de uma análise sistemática do mesmo do ponto de vista econômico tenha sido realizada por Jean de Sismondi, um economista suíço que identificou, em 1919, o fenômeno das crises econômicas, chegando a concebê-las como "uma sucessão de círculos". Na sua obra Novos Princípio da Economia Política ele identifica a idéia de crise econômica com o rompimento das proporções necessárias para a circulação da produção, da renda e do consumo. Como este depende dos salários dos trabalhadores, que tendem a ser reduzidos pelos capitalistas ou simplesmente podem desaparecer devido ao desemprego, encontramos aí uma razão permanente para a criação de desproporções entre os elementos chaves da circulação econômica, o que conduz à crise sob a forma da superprodução. Daí sua conclusão de que "somente o crescimento do consumo pode prescindir o crescimento da reprodução" e que, por sua vez, "o consumo não pode ser regulado senão pela renda dos consumidores". Mas, apesar de encontrar a causa das crises ele não tenta explicar a regularidade das mesmas. Fica em aberto a identificação do princípio regulador dos movimentos cíclicos. Um novo passo para a compreensão destes fenômenos pode ser encontrado no Manifesto Comunista de 1848, de autoria de Marx e Engels. Eles identificam a existência de ciclos regulares de crescimento e crises alternadas a cada 4 anos. Porém, foi o economista francês Clément Juglar (1819-1905) quem primeiro identificou as crises sucessivas ocorridas a cada 10 anos, variando, contudo, entre 6 e 11 anos. Seu trabalho foi tão importante que no futuro passouse a identificar os ciclos de 10 anos com o seu nome: "ciclos Juglar". Essas constatações empíricas a partir desses autores economistas e historiadores não levavam necessariamente às causas das crises. Sismondi tentou uma primeira explicação através de um esquema que partia das limitações da demanda por conseqüência da participação inferior dos salários dentro da produção, que criaria um limite para a ela. Sismondi não via com clareza o papel da acumulação dos gastos em investimentos, que supõem uma produção de maquinárias e outros produtos que são consumidos pelo lucro quando ele é transformado em investimento. Tampouco via que a outra parte do lucro, que não se transforma em investimento e sim em consumo de luxo, pode gerar uma igualdade entre oferta e demanda. Mesmo que os salários representem uma parte inferior no conjunto da renda nacional. Contudo, quem vai incorporar a problemática da crise no interior do seu sistema de pensamento será Marx. Isto justifica realizar uma revisão, ainda que geral, sobre o enfoque marxista das crises econômicas, que conduzem inclusive à idéia dos ciclos e flutuações econômicas mais ou menos permanentes, com a temporalidade que Marx constatou também em torno dos 10 anos.

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Marx foi o primeiro estudioso de economia que introduziu na visão econômica o fenômeno da reprodução. Apesar da importância deste conceito, ele nunca foi assimilado por autores estranhos ao marxismo, talvez porque supõe um pensamento dialético. Seu funcionamento é o resultado da ação de setores econômicos diferenciados. Os agentes sociais, por exemplo, diferenciam-se entre os proprietários dos meios de produção e os trabalhadores, e se estabelece uma relação entre eles. No caso da economia capitalista, há uma relação definida pelo salário, pela venda da força de trabalho. Nas economias pré-capitalistas, o proprietário da terra estabelecerá também relações de produção com os camponeses - os produtores diretos. O mesmo podendo ocorrer numa relação intersetorial, pois Marx fundamenta a possibilidade da troca na existência de uma divisão de trabalho. Daí inclusive ele constatar que as primeiras formas de intercâmbio se dão entre tribos que trocam seus excedentes entre elas. Portanto, a própria noção do intercâmbio, a própria noção de uma produção que se destina a setores distintos da população, supõe também que esses setores estão exercendo atividades econômicas distintas e que há uma divisão de trabalho entre eles. A noção de reprodução, então, é essencial para o funcionamento da economia, onde os seus agentes acumulam quando há um excedente que pode ser investido. Esse processo produtivo é cíclico, dependendo do sistema de produção e do produto mesmo. O produto agrícola é o caso típico de ciclo que se reproduz da plantação e da colheita. A produção industrial também se faz diariamente ou, conforme o tipo de produto, pode até supor um ciclo de mais de um ano para produzir determinados produtos, sobretudo maquinárias. Enquanto os ciclos naturais afetam tão decisivamente a economia agrícola, as atividades manufatureiras estão submetidas a outros ciclos. A sua dependência das máquinas e dos instrumentos de trabalho, por exemplo, submete-as aos ciclos de desgaste e desuso e à necessidade de repô-las imediatamente para não deter o processo de produção. Marx o vê como um processo em si mesmo, formado de ciclos de produção onde a noção de acumulação já se coloca pois estes ciclos podem ser ampliados. Trata-se de uma noção absolutamente dinâmica do processo produtivo que nada tem a ver com a visão de equilíbrio geral na qual esses ciclos não são tomados em consideração. Ao pensar o problema da reprodução e da circulação do capital, que se apresenta sob várias formas dentro do processo de produção global, Marx já colocava o problema dos ciclos e a questão mais específica da crise econômica. Para ele, a possibilidade da crise surge com o aparecimento do dinheiro e do processo de circulação onde o produtor se separa do consumidor. Em um certo momento pode haver uma interrupção no circuito econômico, quando o consumidor deixa de comprar o produto do produtor. Cria-se então uma situação de crise: um produto já produzido que não pode se realizar e que não trará a renda ao produtor. Quanto mais
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esse produtor viver do mercado (ou seja, viver de produzir para que outros comprem) mais ele será sensível à crise e à possibilidade da crise. O esquema teórico de Marx, portanto, parte dessa noção de que o próprio processo de circulação carrega dentro de si a possibilidade da crise, possibilidade que se fêz real na história em várias circunstâncias. Mas o que nos interessa não é a possibilidade da crise em geral (que existe em todo sistema mercantil), mas de um tipo de crise que se repete sistematicamente e que está associada aos processos de produção, reprodução e de circulação. Para que tal ocorra é necessário, contudo, que o capital seja já um elemento dominante e ocupe o papel de organizador do processo produtivo. Já não se trata mais somente de um sistema do capital mercantil ou financeiro. Trata-se do sistema de produção capitalista. A produção capitalista significa que toda atividade econômica está submetida ao capital em suas diversas formas (agrícola ou industrial, mercantil ou financeira, etc.). Caso qualquer uma delas sofra uma paralisação, provocará a inviabilidade de circular a produção anteriormente realizada e uma queda no processo de produção. O capital dinheiro tende a se converter em entesouramento; e onde ele se converte em entesouramento, não se converte em capital produtivo. Daí inclusive a importância do crédito no sistema capitalista: para permitir que o entesouramento não se converta numa paralisia do processo produtivo no seu conjunto. O crédito permite que o seu possuidor queira entesourá-lo. O capital produtivo pagará juros, ou seja, uma renda do capital dinheiro. Essa visão nos permite pensar o próprio movimento do capital como aquele que traz no seu interior as possibilidades da crise. Ao nos aproximarmos para ver o movimento do capital concluiremos que o problema da rotação do capital está associado à produção. Quando o capital se liga ao sistema produtivo ele tem de seguir as regras e as leis da organização, do trabalho, da tecnologia e do processo produtivo real. O tempo e o número de rotações do capital vão depender do tipo de produto e da sua circulação como bem útil. Se ele vai diretamente ao mercado e não consome capital fixo suas rotações serão imediatas. Enquanto o capital fixo tem um processo de rotação de longo prazo, o capital circulante tem uma rotação de curto prazo. Quanto mais a produção se aproxima do consumo final maior será a rotatividade do capital circulante e, portanto, os ciclos de rotação serão muito mais rápidos e dependentes dos estoques e de seu financiamento. É evidente que nesses ciclos de rotação está permanentemente colocada a possibilidade de uma deficiência de mercado que impeça a rotação do capital. Para que essa rotação se dê, é preciso que se cumpra a passagem do capital produtivo ao capital mercantil, e que se retome o dinheiro para iniciar uma nova produção e circulação. Estamos aqui diante do problema dos estoques que, como vamos ver posteriormente, foi visto como uma das origens dos ciclos de 3 a 5 anos, que foi descoberto posteriormente por autores que compreenderam a
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importância da rotação e dos estoques dentro do processo de reprodução do sistema. Foi Kitchin quem descobriu esse ciclo ligado à renovação dos estoques, com um ritmo de 3 a 5 anos que se apresenta quase sempre durante um longo período do funcionamento do sistema capitalista. Ao analisar a reprodução, Marx estabeleceu a relação entre ela e a circulação do capital social global. Não se tratava simplesmente da reprodução de cada capital particular, mas do conjunto do capital de uma nação, de uma unidade econômica determinada. O processo de reprodução e a circulação do capital social global compõe-se de duas formas de reprodução: a reprodução simples e a ampliada. A reprodução simples supõe que as partes que compõe o sistema trocam seus produtos entre si. Inclui-se aí tanto o produtor direto como o produtor indireto, que vende para o primeiro os meios de produção. A separação entre o setor I de bens de produção e setor 2 de bens de consumo permite compreender o papel da reposição das máquinas e matérias-primas na formação do equilíbrio econômico global. A noção da reprodução ampliada, por sua vez, supõe que uma parte desse capital deverá ser aplicada não só para repor o ciclo de desgaste das maquinárias, mas para adquirir uma quantidade maior de maquinárias e mão-deobra para criar novas unidades de produção. A reprodução ampliada é capitalista por excelência posto que este sistema opera buscando sempre ampliar a base da sua acumulação com o objetivo de aumentar o volume de mais-valia, que pode ficar na mão do condutor desse sistema, o capitalista. A teoria da crise econômica tem um papel fundamental dentro do sistema marxiano. O ciclo econômico e as suas fases fazem parte essencial do funcionamento do modo de produção capitalista. Daí Marx ter podido distinguir, na sua obra, três tipos de crise, todas ligadas ao funcionamento da taxa de lucro. As crises de acumulação resultam da relação entre a taxa de lucro e o conjunto dos componentes do capital. Durante o auge econômico, a taxa de lucro começa a ter dificuldades de se manter. O pleno emprego da força de trabalho conduz a uma diminuição do exército industrial de reserva. Um auge econômico importante e duradouro aumentará a demanda de força de trabalho em relação à oferta e, portanto, tende a elevar o salário médio. O mesmo ocorre com a demanda de matérias-primas que tende também a aumentar fazendo elevar-se o preço das matérias-primas. A demanda de maquinárias também tende a aumentar com o auge econômico. Com os novos investimentos há uma tendência ao aumento do preço do dinheiro e uma elevação da taxa de juros. Assim também a construção, a energia e outros componentes do capital tendem a aumentar o seu preço devido à pressão da demanda produtiva. Tudo isso faz com que a taxa de lucro tenda a cair. O auge econômico não permite a criação de uma renda extra pela via do aumento de preços pois a competição torna-se muito intensa, com uma forte pressão sobre os preços. Há uma oferta muito grande de produtos e também o mercado, no seu conjunto, passa a ter um poder de barganha maior, tendendo a haver uma queda de preços dos produtos finais.
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Desta forma, o auge econômico produz uma tendência descrescente da taxa de lucro. Nesse processo cíclico, é o pleno emprego que vai criar as condições para a interrupção do auge econômico, na medida em que esses aumentos fazem cair a taxa de lucro e diminuem o interesse de novos investimentos do capitalista, e isso começa a dar origem a um movimento inverso. O investimento diminui e começam a aparecer os seus efeitos secundários: redução da demanda, tendência ao desemprego e a uma queda em geral da produção. Primeiramente, há uma tendência à recessão; depois à depressão. Essa visão do processo de acumulação, em Marx, não está ligada especificamente a períodos determinados, mas sim dentro da sua visão geral do processo de acumulação. Não está, também, diretamente ligada à tendência secular a queda da taxa de lucro, que é uma outra forma em que se apresenta a crise como fenômeno de dimensão histórica. Nesse caso, a questão da mudança tecnológica está no centro da teoria econômica. Com a evolução do sistema capitalista, a composição orgânica do capital tende a ser cada vez mais intensiva em capital constante em relação a capital variável, o que os economistas neoclássicos chamarão mais tarde de "intensiva em capital". A composição orgânica do capital tende a ser crescente como resultado da própria evolução da tecnologia, que permite que a mão-de-obra produza uma quantidade cada vez maior de produtos num mesmo período de tempo. Isto ocorre, seja pela evolução da maquinária, seja pela evolução da divisão do trabalho, ou seja por aplicação de outros elementos científicos na produção. O fato é que, com um número menor de horas, é possível produzir uma maior quantidade de produtos. Não devemos confundir a composição orgânica do capital com o investimento intensivo em capital. Essas noções não são exatamente as mesmas porque quando se fala em investimento intensivo em capital está se falando, sobretudo, em capital fixo: maquinárias e gastos de instalação. Não se está incluindo o capital circulante, isto é, as matérias-primas, o pagamento de energia, etc. Às vezes, com a própria evolução da tecnologia, as máquinas podem passar a custar bem mais barato e um volume de máquinas menor pode operar um sistema produtivo maior com um pequeno número de trabalhadores. Portanto, essa relação é mais complexa do que a noção de intensidade em capital ou em trabalho, ou melhor, do que os gastos em máquinas ou em remuneração da mão-de-obra. Deve-se considerar também a relação do trabalhador com as matérias-primas. Quanto maior a produtividade como fruto do avanço tecnológico, ele vai mover, num mesmo período de tempo, uma quantidade de matérias-primas crescente, pelo menos se consideramos os seguintes fatos: ao valor dessa matéria-prima, que pode cair como conseqüência do desenvolvimento do setor produtor de matérias-primas, que através do desenvolvimento tecnológico também poderá, com um menor tempo de trabalho socialmente necessário, produzir matérias-primas mais baratas.
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Vemos assim a tendência da composição orgânica do capital a ser cada vez mais intensiva em capital constante, em relação ao capital variável. Ou seja, em relação ao salário (composição orgânica crescente do capital) está associada à tendência da acumulação capitalista a buscar produtos de custo inferior, que ocupem um tempo de trabalho socialmente necessário cada vez menor. Esta tendência tem no desenvolvimento tecnológico os meios para lograr essa maior produtividade do trabalho e, portanto, baixar o custo dos produtos. Essa lógica intrínseca na acumulação capitalista é que leva ao desenvolvimento científico e tecnológico como alguns dos recursos de que dispõe o capital para conseguir o aumento da mais-valia. Trata-se de ampliar a taxa de mais-valia pela diminuição do valor do capital constante, ou mais-valia relativa, solução que tende a ser progressista e leva ao avanço das forças produtivas da humanidade. Contudo, essa tendência a uma composição orgânica crescente do capital funciona a longo prazo na direção de diminuir a taxa média de lucro. Vemos assim uma separação entre a ação do capitalista individual (microeconômica) e os seus resultados globais (macroeconômicos). Uma realidade é a operação das empresas que dependa da ação do agente econômico, o capitalista. Ele tem interesse em incorporar novas tecnologias que vão produzir um custo mais baixo no seu produto, como uma forma de competir com os outros produtores. Ao dispor de um produto com custo mais baixo, enquanto os outros produtores têm os produtos a custo mais elevado com a velha tecnologia, ele venderá seus produtos a um preço mais baixo e não pelo seu preço de custo. Dessa forma ele obterá uma taxa de lucro mais alta. Através do monopólio da tecnologia ele recebe uma renda extra decorrente desse monopólio da tecnologia. Essa renda tecnológica desaparece, contudo, com a difusão dessa tecnologia. Quando ela se difunde aos demais produtores, e todos passam a adotá-la rebaixa-se, então, o custo de todos os produtores e os preços tenderão a cair. Nesse momento a composição orgânica crescente do capital vai provocar uma baixa na taxa de lucro, na medida em que o capitalista terá de investir mais capital constante para, com o mesmo número de horas de trabalho, alcançar um menor valor final do produto. Como a taxa de lucro é a relação entre o lucro e o gasto de capital variável e capital constante (isto é, o conjunto do capital que o capitalista adianta no processo de produção) e, havendo uma necessidade de um adiantamento maior em capital constante para obter o mesmo lucro sobre o mesmo capital variável, o resultado será uma taxa de lucro mais baixa. Historicamente, a composição orgânica crescente do capital leva a uma tendência secular à baixa da taxa de lucro. Mas, como nós mostramos, essa tendência se manifesta quando as inovações se difundem e fazem com que o produto baixe de preço em geral, como resultado da quebra da situação monopólica. Neste momento o produto tende a aproximar-se do seu preço de custo e o
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conjunto dos capitalistas vai ter uma taxa de lucro mais baixa. Em resumo: a taxa média de lucro baixará. Esse comportamento complexo da mudança tecnológica e sua relação com o monopólio e o mercado mais ou menos livre é extremamente importante para compreender os ciclos longos porque as situações monopólicas estão ligadas ao tempo de difusão de uma inovação, que hoje sabemos que é um tempo mais ou menos mensurável em torno de dez, quinze, ou no máximo vinte anos, período em que vai completar a sua maturidade, terminar sua difusão e, portanto, vai produzir uma tendência à baixa de custo, levando o preço do produto a se aproximar do seu preço de custo. Ao criar uma situação de rompimento de monopólio vai obrigar a algum tipo de reestruturação produtiva, na busca de custos mais baixos, mão-de-obra e/ou matérias-primas mais baratas, buscando uma baixa de custo por uma via que permita manter, de alguma forma, uma taxa de lucro mais alta. Como veremos posteriormente, é nesta fase que vaise produzir a passagem desse setor de produção em obsolescência para as frações decadentes do capital, ou, em última instância, para o Estado, que vai assumir esses setores com alta composição orgânica de capital e baixa taxa de lucro, que passam a ser de desinteresse dos capitalistas em geral. O Estado toma esses setores para si para fazer aumentar a taxa média de lucro porque a taxa de lucro do Estado não entra na formação da taxa média de lucro. Dessa forma, quando o Estado entra para tomar essas empresas de baixa lucratividade ele provoca uma elevação da taxa de lucro global e estimula os investimentos em novas tecnologias. Este, como veremos, é um dos aspectos mais importantes do moderno capitalismo de Estado, que se qualifica como um capitalismo monopolista de Estado. Trata-se da intervenção crescente do Estado dentro do próprio processo de acumulação, aspecto muito essencial da evolução da economia internacional contemporânea, na qual ele tem muitas outras facetas. Enquanto a crise de acumulação se liga a mudanças dos componentes do capital que leva a uma tendência à queda da taxa de lucro nos auges econômicos quando se alcançam situações de pleno emprego, existe uma tendência histórica à queda da taxa de lucro, como conseqüência da incorporação de tecnologias cada vez mais produtivas que diminuem a quantidade de trabalho necessária para reproduzir o conjunto do capital, levando portanto a uma composição orgânica do capital crescente, que vai conduzir, como vimos, a uma tendência secular à queda da taxa de lucro. No primeiro caso o ciclo é mais curto porque cria-se uma situação de auge econômico e plena utilização da capacidade já instalada a curto prazo. No segundo caso, supõe-se a incorporação de novas tecnologias e, portanto, um ciclo mais longo, que está ligado inclusive a questões institucionais extremamente complexas, como é, por exemplo, a intervenção do Estado para assegurar a mudança de comportamento da taxa média de lucro.
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Essa tendência secular à queda da taxa de lucro leva a uma busca por prolongar a lucratividade do capital através da especulação financeira. O capital se retira dos setores onde as taxas de lucro tendem a cair, para concentrar-se em atividades especulativas, particularmente no setor financeiro. O Estado intervém novamente como criador desse setor financeiro pela via clássica da dívida pública. A dívida pública é uma das fontes principais de criação do setor financeiro. O pagamento de juros pelo Estado sobre a sua própria dívida é uma transferência de recursos da população, no seu conjunto, daqueles que pagam os impostos ao Estado, para um setor econômico específico, em geral o setor financeiro. Este está ligado às outras formas do capital, através da tendência da evolução do sistema capitalista na direção de uma situação em que o capital dinheiro (que se faz também capital crédito, financeiro, bancário, etc.) vá hegemonizando o conjunto do capital. Ele submete o capital produtivo e o capital mercantil, na medida em que o sistema capitalista vai se convertendo num sistema dominante a nível nacional e internacional. O outro tipo de crise que Marx analisou foram as de reprodução, que estão ligadas à relação entre as partes que a compõem e a proporção em que estes setores se intercambiem entre si. Cada setor vende aos demais setores, numa antecipação do que seria a matriz de insumo produto de Leontief. Nesta situação, as proporções passam a ser essenciais. É preciso que os setores que compõem o conjunto do sistema produtivo intercambiem seus produtos entre si em proporções corretas. Para analisar tais relações, Marx distinguiu entre o setor I, produtor de bens de produção, e o setor 2, produtor de bens de consumo, e dentro do setor I, o capital constante (C), o capital variável (V), e a mais-valia (M). Todo seu esforço teórico, constante do segundo volume de O Capital, será no sentido de provar que é possível haver um equilíbrio entre esses setores. Na sua análise do esquema de reprodução, ele demonstra que este equilíbrio é possível porque o setor de bens de produção produz, em parte, para sua própria reprodução. (Uma parte se destina ao consumo de C1, e outra parte produz para o setor C2 - o componente C, capital constante, dos meios de consumo). Dessa forma, toda a produção do setor I, de meios de produção, será consumida por C1 e C2. Quanto à produção do setor de bens de consumo, será consumida pelos trabalhadores, (V-capital variável) e pelos capitalistas (M-mais-valia), tanto do setor I como do setor 2. Portanto, se as proporções forem corretas, será possível reproduzir o conjunto, porque as várias partes consumirão produtos diferentes que se complementam entre si formando um conjunto que se fecha, onde as partes produzem umas para as outras, reproduzindo-se assim o sistema no seu conjunto. Claro que, para isso são necessárias garantir estas proporções. Se houver acumulação, tudo se resume em garantir as mesmas proporções na parte nova acumulada.
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Marx mostra, no segundo volume de O Capital, a viabilidade teórica desta reprodução. O fato, contudo, de que essa reprodução seja viável não quer dizer que ela seja provável e que aconteça sempre. Pelo contrário, há vários fatores rígidos que dificultam esse processo de reprodução e a manutenção dessas proporções. Engels, por exemplo, chama a atenção para alguns deles. Marx também, eventualmente. Quando surge um setor muito lucrativo, por exemplo, há uma tendência do capital para migrar para esse setor e ao fazê-lo produzir mais do que pode ser consumido deste produto. Cria-se então uma crise de proporção, um excedente que não poderá ser consumido, gerando uma possibilidade de crise, de recessão e depressão, sobretudo caso se trate de um movimento muito grande de investimento. De certa forma, o sistema capitalista procura neutralizar essas situações através da criação de uma taxa média de lucro que evite o aparecimento de setores com lucratividade muito acima da média do sistema. Mas quando aparece, por exemplo, uma inovação importante, quando há transformações importantes, ou quando há acontecimentos especiais de origem natural ou social ou histórica ou geográfica, criam-se situações em que a taxa de lucro média não vai funcionar para esses setores que apresentarão lucratividade mais alta e tenderão a produzir uma emigração do capital para eles muito superior às possibilidades do mercado. O ciclo do capital sofre, assim, constantemente, as perturbações dessas tendências à desproporção, dentro do sistema capitalista. Para refazer essa regulação do sistema entra outra vez o Estado e o setor financeiro. Tanto um quanto o outro atuam no sentido de estabelecer um certo grau de planejamento dos investimentos. Isto permite que o movimento de capital neutralize, em parte, essas tendências à desproporção, produzindo movimentos de capitais que tendem a criar taxas médias de lucro. Em seu livro Acumulação de Capital, Rosa Luxemburgo demonstra a inviabilidade da manutenção dessas proporções. Ela mostra que a tendência da evolução tecnológica era criar uma desproporção entre os distintos setores econômicos a favor da demanda de bens de produção e em detrimento da demanda de bens de consumo. O debate em torno dos esquemas de reprodução teve a interessante participação de Tugan-Baranovisky e de outros estudiosos do capital. Eles vão indicar que as tendências do desenvolvimento tecnológico têm conseqüências sobre as proporções entre os setores; que essas tendências são mais ou menos rígidas; e que não se pode pensar na sua supressão para chegar às proporções adequadas à reprodução do sistema capitalista. Rosa Luxemburgo mostrou que o sistema capitalista pode resolver, em parte, as dificuldades dessas desproporções através da sua interação com setores externos a ele. Entre estes estão as economias pré-capitalistas e o Estado, que além de entrar como um fator regulador dessas desproporções, produz demandas específicas que fortalecem os
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investimentos no setor I. Neste caso, o crescimento dos gastos militares tendiam a ser uma forma de restabelecer as proporções necessárias dos esquemas de reprodução. Isto porque a maior dificuldade que o sistema encontra é lograr que a demanda de consumo final acompanhe a tendência ao crescimento do setor I, determinado pelo avanço da tecnologia. Esta visão também levará Tugan-Baranovisky a pensar num sistema capitalista que produza máquinas para produtores de máquinas. Rosa Luxemburgo, ao imaginar a ação do Estado, lembrou a sua importância como grande demandante de produtos de alta tecnologia. Ela antecipou, assim, uma tendência que se manifestou com a Primeira e Segunda Guerra Mundial, e depois no período de pós-guerra, ao se criar um setor militar permanente dentro do sistema capitalista, que foi uma das maneiras que permitiu o ciclo econômico do pós-guerra. A questão da proporcionalidade é, pois, um dos aspectos chave da interpretação marxista da acumulação que deveria comprovar-se através de vários desdobramentos históricos e que antecipou uma das formas possíveis de crise econômica e de ação anti-cíclica. Contudo, elas tendem a afetar o sistema de regulação e o sistema institucional mais do que a produzir propriamente uma forma cíclica bem definida. São tendências de ciclos médios ou longos, na medida em que esses sistemas institucionais se montam e começam a entrar em crise dentro do sistema global, internacional ou nacional.

A S C R I S E S D E R E AL I Z A Ç Ã O

A terceira modalidade de crise que aparece na obra de Marx é a de realização. Muitos autores evocam os textos de Marx e Engels, que questionam a idéia do subconsumo como uma réplica a qualquer explicação das crises pelo aspecto do consumo. Isto particularmente depois de ter sido rejeitada drasticamente por Lenin a idéia do um subconsumismo como origem das crises dentro do sistema capitalista. Segundo ele, crise de subconsumo seria muito mais própria de colocações de economistas como Sismondi que, como já assinalamos, não destacava a importância do setor I de bens de produção, nem do processo de acumulação, nem a composição orgânica do capital e a taxa de lucro. Na realidade ele criou grande parte dessas categorias de análise que permitem uma análise muito mais sofisticada das crises. Portanto, o subconsumo é rejeitado pela teoria marxista, apesar de se manifestar, por exemplo, na obra de Rosa Luxemburgo sob a forma de uma dificuldade do setor de consumo final de manter o dinamismo da economia. Mas é preciso ver que quando Rosa afirma a existência deste subconsumo não deixa de tomar em consideração os elementos que compõem o processo de acumulação. Ela está afirmando somente que esses elementos do processo de acumulação estão determinados por uma composição orgânica crescente do capital. Esta impedirá a proporcionalidade entre os setores e levará a uma distribuição dos elementos que compõem a produção (entre o capital variável e o
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capital constante, entre o capital constante e a mais-valia) que tornará inviável o consumo final crescer de acordo com as necessidades da reprodução global do sistema. Isto impedirá que ele seja a mola dinâmica do sistema capitalista. O consumo final está associado a V e M, mas acontece que a mais-valia se desdobra entre consumo de produtos de luxo e poupança para novos investimentos. Na medida em que o sistema tende a criar uma poupança crescente para novos investimentos e entra num processo de acumulação forte, a demanda de bens de consumo tende a decair, aumentando a demanda de bens de produção. Mas, como a criação desses bens de produção segue certa leis técnicas, haverá dificuldade de estabelecer as proporções entre os vários elementos. Não podemos, portanto, assimilar Rosa Luxemburgo a um subconsumismo primitivo, mas sim a uma visão das dificuldades da reprodução capitalista ser movida basicamente pelo setor de consumo final. Quando se chama Rosa Luxemburgo de a rainha do subconsumismo estamos fazendo-lhe uma injustiça. As crises de realização têm sua origem nessas dificuldades de ampliação de consumo dos bens de consumo dentro da sociedade capitalista. Quando introduzimos, por exemplo, o monopólio como um fator crescente de organização da produção capitalista; quando introduzimos a especulação financeira como um fator crescente do seu funcionamento, vamos encontrar um efeito destes fenômenos sobre a distribuição de renda no sentido de ampliar a margem de recursos possíveis para novos investimentos. Mas estes tendem a expressar-se em composições orgânicas de capital extremamente elevadas gerando, portanto, pouco salário e pouca mais-valia em forma de consumo final. A tendência a uma diminuição do dinamismo do setor de bens de consumo leva, paradoxalmente, a um excedente muito grande no setor I de bens de produção e à necessidade de procurar meios para saída desses bens de produção, que finalmente existem para aumentar a produção de bens de consumo. Apesar de apoiar-se na desproporção, esta forma de crise não deixa de ser uma manifestação das difuculdades de realização porque num certo momento deste processo é a dificuldade de encontrar um mercado para o que foi ou poderia ser produzido, que está na base da crise capitalista. A tradição marxista vai se desenvolver posteriormente através de vários autores e produzirá uma literatura muito consistente de análise das crises econômicas. Ela é de grande atualidade, sobretudo ao demonstrar que é possível se fazer uma teoria econômica que seja ao mesmo tempo uma teoria da mudança tecnológica e uma teoria do ciclo econômico. Enfim, uma teoria que nos vincule com o processo real histórico e não com um modelo abstrato, a-histórico, sem condições de explicar nenhuma realidade. A evolução posterior da economia vai agregar aos ciclos econômicos elementos novos de grande importância que Marx não conheceu. O mais significativo deles são os ciclos longos ou as ondas longas que Kondratiev encontrará nos anos 20. O debate sobre as ondas
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longas agregará uma realidade nova dentro da teoria marxista, mas extrapolará do campo do marxismo para a economia ortodoxa, quando a combinação da crise do pós-guerra e a crise de 1929 colocaram na ordem do dia não só o problema das crises econômicas mas também o seu caráter de longo prazo. Schumpeter (1939) integrou essa problemática de maneira muito rica na sua análise definitiva dos ciclos econômicos. Na literatura marxista, a questão da crise, como vimos, tinha sido debatida no final do século XIX, sobretudo pelos teóricos russos. Entre eles se destacaram TuganBaranovisky , Lenin e Parvus, que foi um dos primeiros a visualizar as ondas longas em 1905, e economistas holandeses que também trabalharam sobre os ciclos longos no começo do século. Como veremos, contudo, estes ciclos apenas serão realmente sistematizados por Kondratiev nos anos 20. Entre 1917 e 1930 há um debate muito intenso dentro do pensamento marxista. Alguns autores sob a influência de Rosa Luxemburgo e outros sob a influência de Lenin vão tentar explicar a crise de 1914-1918 pelos efeitos da Primeira Guerra Mundial, mas sobretudo a crise que se manifestou depois da Primeira Guerra Mundial na Europa, levou a obras que buscaram analisar a acumulação como uma tendência à estagnação. A visão de Rosa Luxemburgo levava a enfatizar as dificuldades do sistema de se auto-reproduzir e a necessidade de encontrar soluções institucionais externas, seja por mercados não capitalistas, ou seja pela via do Estado e o setor militar como saída. Moscowska, Paul Mattick, Henrik Grossman têm uma temática muita rica nas décadas de 30, 40, 50, retomada por Paul Sweezy no seu estudo sobre o desenvolvimento capitalista, e posteriormente, na década de 60, quando junto com Paul Baran escreve o seu Capital Monopolista. Ao lado dessa tendência, encontramos também a tendência bolchevista que vai desembocar no Instituto de Economia Mundial, com a tese da crise geral do capitalismo. Este enfoque tende a assimilar o declínio da produção e uma certa estagnação da produção entre o fim da Primeira Guerra Mundial e o fim da Segunda Guerra Mundial. Este longo período de relativa estagnação, com fases de crescimento certas e crises muito longas, indicavam uma tendência a estagnação e pareciam fundamentar essa visão na qual Eugenio Varga (1934) vai ter um papel muito importante ao definir a crise do capitalismo em função do aparecimento da revolução socialista na Rússia. Era o começo de um período histórico de retrocesso do sistema capitalista, crise que levará inclusive ao surgimento do fascismo e do nazismo. A identificação dessa crise final, com o aparecimento da contra-revolução fascista como uma forma de sobrevivência do sistema capitalista, é parte da crise geral do capitalismo. Esta tese se reforçará, de certa forma, quando retomada por Paul Sweezy e Paul Baran ao mostrarem o consumo militar como a grande saída para a situação de subconsumo criada no pós-guerra e como tendência natural da evolução do sistema capitalista.

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Não é o lugar aqui para fazermos uma história desses enfoques e dessas contribuições teóricas, mas simplesmente quero apontar as grandes direções de interpretação que vão marcar o pensamento marxista. Havia que assinalar, contudo, uma outra linha teórica que vai desembocar em Ernest Mandel (1964), que produziu o seu Traité de Économie Marxiste, e que vai escrever, na década de 70, Capitalismo Tardio, onde tentará articular a visão marxista da acumulação e da tendência decrescente da taxa de lucro como elemento-chave para a compreensão das crises econômicas com as contribuições de Kondratiev e das ondas longas. No meu estudo A Crise do Capitalismo Norte-Americano e América Latina (1970) vou também retomar o ciclo longo de Kondratiev, articulando-o com outras modalidade de análise do ciclo econômico para tentar compreender a evolução do capitalismo de pós-guerra e particularmente daquele período histórico. André Gunder Frank também busca nos ciclos longos um caminho para a análise da economia mundial. Na sua visão da acumulação mundial, Samir Amin aproxima-se dessa visão. Immanuel Wallerstein, no seu Centro de Estudos Fernand Braudel, dará uma das mais rigorosas contribuições ao estudo das ondas longas. Faz-se necessário, portanto, que analisemos com cuidado essa outra maneira de enfocar a crise econômica. A análise das ondas longas ou dos possíveis ciclos longos, como veremos, permitirá articular grande parte dos estudos sobre o ciclo econômico realizados durante a segunda metade do século XIX e a primeira metade do século XX, tendo em Schumpeter um dos seus primeiros grandes sistematizadores. Na década de 70 e 80 encontram-se novos elementos para a compreensão das ondas longas que procuraremos transmitir aqui.

A QUESTÃO DAS ONDAS LONGAS

A existência de longos períodos de crescimento econômico, sucedidos por longos períodos de recessão, depressão ou baixo crescimento faz parte da literatura dos povos e da percepção que a sociedade tem de sua experiência histórica. Porém, a sistematização empírica sobre a existência dos ciclos longos foi produto de um trabalho de pesquisa bastante difícil, que veio a se realizar com maior clareza somente na década de 20 deste século, através da obra do economista russo Nikolai Kondratiev, que publicou em 1926, o seu ensaio "As Ondas Longas na Vida Econômica." Neste ensaio, ele distinguiu vários ciclos ou ondas longas (o termo onda pretende ser menos determinístico e menos mecânico do que o conceito de ciclo, que supõe necessariamente períodos mais ou menos iguais de descenso e de ascenso). Kondratiev distinguiu, na história econômica européia, um período que vai de 1780-1790 a 1810-1817, que registraria um ascenso nos dados sobre preço e sobre alguns produtos agrícolas, escolhidos pela sua importância e pela facilidade para estabelecer uma série contínua. Em seguida, ele distinguiu um período de que vai de 1810-17 a 1844-51, caracterizado por um declínio da economia européia. Logo em seguida, determinou a existência de um outro período que vai de 1844-51 a 1870-75,
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que seria um período de ascenso econômico. Sucessivamente, localizou um período de declínio econômico que foi de 1870-75 a 1890-96. Novamente encontrou uma fase de crescimento econômico sustentado no final do século e início do século XX, que pode ser enquadrado entre os anos de 1890-96 a 1914-20. Apesar de realizar seus estudos na década de 20, antes do grande crack de 1929, ele constatava a existência de uma nova fase de declínio que se iniciara em 191420. Se completarmos os dados de Kondratiev, vamos encontrar que esse período de declínio vai prolongar-se até 1940-45, quando a economia norte-americana começa a recuperarse durante a guerra. Em seguida, teríamos um período que se extende de 1940-45 até 1966-73, caracterizado por um longo ascenso econômico. Desde 1966-73 até nossos dias, em 1993, registra-se um período de declínio, que deveria extender-se, a se manterem as mesmas tendências das ondas longas anteriores, até 1994-97, ou talvez até 98, para dar início então a um novo período de ascenso. Os dados de Kondratiev são até hoje objeto de ampla discussão, seja porque haja propostas de diferentes datas para estabelecer os limites dos ciclos, seja porque haja discussões metodológicas sobre o conceito mesmo dessas ondas longas. Mas a verdade é que os dados parecem confirmar a existência destes períodos de ascenso e declínio de cerca de 25 anos cada um, sobretudo quando se utiliza uma metodologia adequada, abarcando vários setores e não somente aqueles que Kondratiev estudou originalmente. Há evidências suficientes para comprovar não somente a existência dos ciclos longos por ele detectados, como, além disto produziu-se uma confirmação desses ciclos no período posterior a seus estudos. Dentro desta linha de aceitação dos dados como ponto de partida para a reflexão teórica, foram vários os autores que confirmaram as constatações de Kondratiev. Entre eles será exatamente Joseph Schumpeter, no seu livro Business Cycles, dois volumes, editado pela Mc Graw Hill em Nova Iorque, em 1939, o economista que vai produzir a reflexão mais sistemática sobre as ondas longas de Kondratiev. Ele vai inclusive demonstrar a existência de uma combinação dos ciclos longos de 40 a 60 anos com dois outros ciclos menores. São eles, os ciclos de investimentos, que se sucedem de 4 (quatro) em 4 (quatro) anos, determinados pelos movimentos de estoques, que Kitchin havia encontrado em 1900, e os ciclos de nove a onze anos, estudados por Juglar, no século passado, em torno de 1860. O economista holandês, Van Duijn ( 1983), procurou confirmar e desenvolver esta linha de análise iniciada por Schumpeter, incorporando, contudo, um outro ciclo, que é o ciclo de Kuznet, que identificou ciclos de 15 a 25 anos, ligados aos investimentos em transporte e construção de casas, ocorridos sobretudo nos Estados Unidos. Segundo Van Duijn este ciclo se
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combinaria com os ciclos anteriormente destacados, não em todas ocasiões nem em todos os paises (pois haveria alterações dos mesmos, que foram encontrados sobretudo nos Estados Unidos, particularmente quando descobertos em outros paises), pois eles estão muito ligados à construção de casas e à instalação de transportes, devido à imigração nos períodos de ascenso econômico, e formam um ciclo um pouco atípico. O enfoque de Schumpeter, reafirmado por vários economistas atuais, permitiu uma retomada da idéia do fenômeno econômico como um processo de mudança e transformação. Schumpeter inicia sua análise definindo uma situação de equilíbrio, para depois introduzir as mudanças de caráter cíclico, as quais estariam influenciadas por elementos externos ao universo estritamente econômico. Ele buscará a explicação para os movimentos cíclicos longos ou ondas longas na existência de uma capacidade empresarial criadora de inovações significativas. Assim, para cada novo ciclo de 40 a 60 anos devemos supor o aparecimento de uma geração de empresários inovadores, cuja ação decisiva e criativa seria a base para a criação de um novo ciclo de inovações significativas. Na década de 70, a temática dos ciclos longos foi retomada depois de um longo abandono, devido ao crescimento econômico sutentado que ocorreu após a segunda Guerra Mundial, e que parecia haver eliminado os ciclos econômicos. Este longo período de crescimento deu origem inclusive a várias interpretações de que as economias nacionais já teriam chegado a um estágio pós-cíclico, depois da segunda Guerra Mundial. Em outros estudos analisamos com detalhes as características do período pós-Segunda Guerra. A verdade, porém, é que o pensamento econômico só veio a redescobrir Kondratiev e os ciclos longos quando a crise de 6667 começou a gerar grandes questionamentos do sistema capitalista, que se expressaram fundamentalmente nos grande movimentos de massa de 1968, que ocorreram no mundo inteiro. Logo depois, em 1973, a ofensiva da OPEP para reajustar drasticamente os preços do petróleo, não somente confirmou a tendência para o declínio das taxas de crescimento já verificadas desde 1967, como apresentou uma grave depressão entre 1973-75. O aumento do preço do petróleo colocava em cheque todo um modelo econômico baseado numa fonte energética barata apesar de seu caráter não renovável. Tudo indicava que não seria possível manter esta situação que passava pela subjugação dos povos coloniais. No mesmo período apresentavam-se fenômenos políticos e militares que pareciam confirmar esta tendência do Terceiro Mundo sacudir em definitivo esta tutela , como a derrota militar dos Estados Unidos no Vietnam e a queda do fascismo em Portugual, sucedida pelas revoluções em todo o seu império. É fácil entender portanto por que foi na década de 70 que o modelo das ondas longas de Kondratiev voltou a ser estudado. Eu destacaria em primeiro lugar o meu próprio trabalho no livro de 1970 sobre A Crise Norte-americana e a América Latina e em artigos
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publicados numa coletânea dos textos apresentados na Conferência de Tilburg, na Holanda, em 1970, sob o título de O Capitalismo na Década de 70, assim como o texto que apresentei no Congresso Internacional de Sociologia de Varna, em 1969, e que foi publicado em francês e espanhol no livro de Anouar Abdel Malek sobre A Sociologia do Imperialismo, Em 1972, Ernest Mandel vai publicar seu excelente livro sobre O Capitalismo Tardio, no qual retomou a temática dos ciclos longos, logo seguido por André Frank nos seus estudos sobre as ondas longas, a acumulação e a crise, nos quais tentou prolongar o fenômeno dos ciclos longos até o período que vai da conquista da América até a Revolução Francesa, numa análise de acumulação de longo prazo. Ele aplicou também o conceito aos estudos da crise capitalista dos anos 70 . Como já assinalamos, foi nesta mesma época que Immanuel Wallerstein iniciou seu estudo da formação do sistema-mundo formado pelo capitalismo contemporâneo, utilizando o conceito das ondas longas de Kondratiev. Fernand Braudel recupera em grande estilo as ondas longas propondo sua extensão não somente a períodos anteriores como encontrando ondas de 200 anos. W.W.Rostow vai reencontrar Kondratiev no seu The World Economy: History and Prospect, editado pela Universidade do Texas, em 1978., Daí em diante, foram milhares de artigos na imprensa especializada do mundo, chegando inclusive ao grande público as exotéricas ondas longas de Kondratiev. Fernand Braudel, como afirmamos, vai detectar ondas similares na Itália, no período que vai de 1460 a 1621-1650. Ele vai detectar, de 1460 a 83, um período de ascenso na Itália; entre 1483 e 1509 um período de descenso; entre 1509 e 29 outro ascenso; entre 1529 e 39, outro descenso; entre 1539 e 59 um ascenso; entre 1559 e 75, novo descenso; entre 1575 e 95 outro ascenso; entre 1595 e 1621, descenso; 1621 a 1650, novo ascenso. Este estudo, publicado no livro de Romano e Vivanti (1974), Storia di Itália, volume 2, procura desenvolver uma temática que será retomada por outros autores, que pretendem detectar a existência de tendências seculares ou "logísticas" que podem ser assimiladas a ondas longas bastante mais amplas do que aquelas detectadas por Kondratiev ou pelo próprio Braudel. Estes autores pretendem detectar a existência de uma tendência secular que se prolonga do século IX e X, até meados do século XV, cujo auge se econtraria no século XII. Em seguida se apresentaria uma nova onda secular da metade do século XV até meados do século XVIII, cujo auge se localizaria no fim do século XVI. Da metade do século XVIII até a metade do século XX teria havido outra onda secular cujo auge deve haver se localizado no final do século XIX e início do século XX. Por fim, na metade do século XX, teria se iniciado uma nova tendência secular ou "logística"que deverá se prolongar possivelmente até a metade do século XXII, no caso de persistirem estes padrões cíclicos.

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Teríamos assim ciclos compostos de 2 séculos e meio marcados pelo ascenso e 2 séculos e meio predominantemente de descenso. No seu estudo sobre o período de 1500 a 1789, André G. Frank dedica várias páginas à discussão sobre o período de descenso, e até mesmo de depressão, que teria ocorrido na Europa no século XVII, e que foi objeto de amplas discussões naquela época. A serem corretas estas análises, poder-se-ia aceitar a existência de ciclos interconectados entre si de 3-4 anos, 9-11 anos, de 17-18 anos, de 15-25 anos, os ciclos de 40 a 60 anos, e possivelmente os ciclos de 2 séculos a 2 séculos e meio que chegariam a conformar ciclos de até 500 anos. No interior de cada um desses ciclos haveria períodos de crescimento e descenso, mas eles seriam marcados por crescimentos maiores e descensos menores nos períodos chamados de ascenso, e por crescimentos menores e descensos maiores nos períodos chamados de descenso. Em conseqüência, não se mede os ciclos através de dados absolutos de crescimento ou declínio do produto mas através das taxas de crescimento, procurando detectar as oscilações que se dariam em torno de uma taxa média, o que permitiria configurar um ciclo de ascenso e declínio mesmo quando, no seu conjunto, a economia apresenta um movimento em geral ascendente. Até o século XX nós podemos encontrar longos períodos de queda na produção, períodos em que a depressão era um fato e não poderíamos pensar numa situação de crescimento permanente. A tendência ao crescimento permanente em taxas cada vez maiores só vai poder ocorrer depois do século XIX, com a Revolução Industrial. A partir da Revolução Industrial, na verdade, vamos encontrar uma situação em que o crescimento tende a ser a norma, e períodos de descenso de produção são períodos localizados no tempo e mesmo em alguns países raramente se apresentam, o que revela que as forças produtivas dominadas pela humanidade hoje permitiriam pensar tecnicamente numa situação de produção em ascenso contínuo e portanto uma tendência a eliminar a situação de carências técnicas profundas, apesar de que socialmente existam vários fatores que agem como forças contra-tendenciais. Muitos historiadores e particularmente os economistas recusam-se a aceitar a existência dos fenômenos cíclicos descritos em nome da liberdade dos agentes sociais. Particularmente a economia recusa este enfoque porque tem pretensões de intervenção e comando sobre as variáveis macro e micro econômicas, pretensões que, por sinal, tem muito pouco que ver com a prática das políticas econômicas, marcadas por erros crassos e fracassos permanentes. Sem falar das dificuldades de integrar estes fenômenos na linguagem matemática dominante nos modelos econômicos. Contudo, vários autores têm se ocupado dos fenômenos cíclicos com grande rigor e precisão matemática. Trata-se mais de uma espécie de fenômeno religioso: quem crê e quem não crê no rigor destes dados. A partir do período da formação da economia européia moderna até nossos dias, podemos identificar cada onda longa com:
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a) a dominância de um determinado regime de produção oligopólico, monopólico, globalizante).

(livre câmbio,

b) a prevalência de determinadas relações sociais de produção e princípio de organização social ( manufatura, grande indústria, fordismo, o chamado "toyotismo" no período atual) c) a hegemonia de certos centros econômicos ( como Espanha e Portugal, Holanda, Inglaterra, Estados Unidos) que dominam zonas periféricas e semi-periféricas. A partir da Revolução Industrial vai se estabelecer uma hegemonia do sistemamundo, que integra várias economias-mundo em um único sistema de caráter planetário. O capitalismo industrial foi o primeiro sistema econômico capaz de implantar um sistema mundial, mas ele supôs, até o presente momento um centro aglutinador do conjunto deste sistema. Este não poderia ser mais as cidades-estado que exerceram este papel centralizados até o renascimento. Fez-se necessário uma base nacional, um verdadeiro Estado Nação, como o foi a Inglaterra para cumprir esta nova missão histórica. Essa visão nos leva a distinguir cuidadosamente o centro, a semiperiferia e a periferia, para que a análise das ondas longas ganhe outra dimensão. Nos meus estudos da década de 70, sustentei a tese de que o ciclo econômico adota diferentes formas no centro e na periferia, e apresentei alguns elementos chaves para a análise dessas diferenças. Entre elas deve-se ressaltar o papel das economias de subsistência como amortecedoras dos efeitos mais dramáticos das depressões econômicas, a importância da queda das iportações para a realização do mecanismo da substituição de importações durante os períodos de crise do comércio internacional. Ao mesmo tempo, procurei distinguir as tipologias dentro da periferia, separando aqueles países que haviam alcançado um desenvolvimento industrial, a partir de uma nova divisão internacional do trabalho, e cujos elementos centrais se esboçaram na crise de 67-68. A partir deste momento foi necessário distinguir os países dependentes que se articulavam com a economia mundial como exportadores industriais, numa posição subordinada à política das empresas transnacionais dos países da semiperiferia propriamente dita do sistema mundo, apesar da aparente similitude de situações econômicas que apresentavam e ainda apresentam em parte. Na semiperiferia deve-se incluir aqueles países desenvolvidos que decaíram e/ou perderam sua posição relativa no sistema capitalista mundial, como é o caso das economias do Sul da Europa. O tema da semiperiferia foi estudado por Giovani Arrighi (1980), dentro do Instituto Fernand Braudel, num livro extremamente interessante. A combinação das lutas
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democráticas do Sul da Europa com as lutas democráticas latino-americanas e de vários países em vias de desenvolvimento, os chamados Novos Países Industriais (New Industrial Countries) na década de 70 mostrou que havia realmente um conjunto de elementos comuns entre estes países. Nas minhas análises deste período chamava a atenção sobre os elos mais débeis do sistema econômico mundial, utilizando a imagem de Lenin no seu Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo,, Estes pontos débeis se situariam nos países em decadência, entre os países desenvolvidos, e de outro lado, nos países em maior crescimento, entre os países subdesenvolvidos e dependentes. Dentro desta faixa, onde se situavam paises chaves como a Inglaterra e o sul da Europa, de um lado, e Brasil, Índia, China, Iran e Iraque, de outro lado, estaria - vamos dizer assim - a faixa da crise institucional, a faixa crítica do sistema capitalista mundial, onde a crise geral do sistema ou a fase b do ciclo de Kondratiev teria os seus efeitos mais devastadores em termos de transformação social, econômica e política. Elas se fariam necessárias para permitir a reintegração desses países na economia mundial. Prevíamos também graves transformações nos países socialistas em vista da necessidade de se integrarem na economia mundial, pois seu isolamento havia sido um resultado da guerra fria e de uma política artificial de cerco aos paises que estavam sob a influência da União Soviética. Sempre acreditei que durante o atual ciclo de Kondratiev esta situação intolerável encontraria um caminho de saída, como de fato vem ocorrendo, apesar dos trambulhões que vêm enfrentando por razões ideológicas, que deverão ser corrigidas nos próximos anos, quando passe definitivamente este contexto neo-liberal em que se inscreveram seus processos de liberalização política e sua luta por alcançar uma espécie de cidadania numa economia internacional que lhes recusava qualquer papel no sistema-mundo. Aceita a comprovação da existência dos ciclos longos através de vários estudos empíricos, fica a questão bastante complexa da explicação da sua existência. Os ciclos curtos e médios estão vinculados, como vimos, a fenômenos bastante concretos, como a existência de estoques que se concentram mais ou menos em certos períodos, de 3 a 4 anos; a existência de ciclos de investimentos ligados à incorporação de novas maquinárias e seu período de maturação, de 7 a 11 anos; ou os ciclos devidos aos investimentos em construção, de 15 a 25 anos. Mas os ciclos de Kondratiev são mais difíceis de explicar, porque não parecem apoiar-se num fenômeno cíclico muito evidente. Kondratiev já apontava contudo para uma explicação dos ciclos longos ao vinculá-los à introdução de inovações tecnológicas, à expansão do mercado internacional e aos aumentos na oferta de dinheiro. São estes três elementos que explicariam, segundo ele, a
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existência dos ciclos longos. A base para estes ciclos seriam exatamente as mudanças no estoque total de capital social, ou o capital social total disponíve. Este aumentaria ou diminuiria sob a ação dos três elementos que analisaremos em seguida. As fases de ascenso mais ou menos contínuo são movimentos de arranque que requerem grandes somas de capital líquido para empréstimo e que necessitam, portanto, da prévia criação de taxas de lucro atrativas ou baixas. Estas condições ocorrem, em geral, quando se alcança o ponto mais baixo das crises econômicas. No seno do ciclo, os preços agrícolas são relativamente insensíveis à queda generalizada da demanda que ocorre durante as depressões , mas os preços industriais são mais sensíveis a esta situação e pode-se constatar uma forte baixa de preço. Esta queda é ainda mais provável devido à tendência de incorporação de novas tecnologias nos pontos mais baixos da crise estrutural. Criam-se, em consequência, termos de intercâmbio favoráveis às mercadorias do tipo comercial, e isto conduz a uma poupança mais acelerada no setor urbano. Devido à redução genralizada de preços ou deflação produz-se uma tendência ao entesouramento. Tomando-se em conta a tendência à queda da taxa de juros, nestes momentos, os poupadores tendem a defender-se através da compra de ouro Este aumenta o seu preço, ao lado de outros investimentos de refúgio, como os ativos em moeda (reforçados pela tendência à deflação apesar da queda da taxa de juros), os ativos imobiliários e outros ativos fixos. Esta tendência ao entesouramento é um dos elementos mais importantes para produzir um ímpeto favorável ao crescimento de longo prazo quando se apresentam as tendências ascendentes do ciclo. Kondratiev tentou não somente explicar as ondas longas por estas variáveis, mas procurou inclusive detectar sua presença nos seus estudos empíricos. A publicação do artigo de Kondratiev produziu reações em geral bastante desfavoráveis, particularmente de parte da direção política da União Soviética. Quem mais se destacou na confrontação com Kondratiev foi Leon Trotsky. No seu artigo sobre a curva do desenvolvimento capitalista, republicado na revista Críticas da Economia Política, Trotsky, que naquele momento estava ocupando seu posto de comandante em chefe do Exército Vermelho - vai atacar muito fortemente o artigo de Kondratiev. Assistimos assim um curioso debate entre um dirigente revolucionário, ministro da guerra, e um acadêmico, economista, pesquisador sobre questões bastante teóricas, como a teoria do ciclo econômico. Esta situação era contudo uma realidade muito típica da vida intelectual da União Soviética, no seu período revolucionário, que vai até a consolidação de Stalin, no fim da década de 20, quando estes debates de idéias foram substituidos pela intervenção de burocratas na vida intelectual do país para impor seus pontos de vista.
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Richard Daves fêz um estudo comparativo sobre a teoria do ciclo prolongado de Kondratiev, Trotsky e Mandel, no número seguinte desta mesma revista, chamando a atenção para o interessante fenômeno de que seria exatamente Ernest Mandel, um dirigente trotskista que recuperaria a obra de Kondratiev, na década de 70, revelando uma independência intelectual frente a seu chefe político realmente excepcional. Deixando de lado estas ironias da história, qual era a essência da argumentação de Trotsky contra Kondratiev? Em primeiro lugar, Trotsky diferencia ciclos econômicos de épocas, no sentido de que os ciclos se repetem necessariamente, enquanto que as épocas se sucedem em vez de repetir-se. Por outro lado, Trotsky também vai afirmar que a relação entre crescimento baixo, decadência, crescimento acima da média (ascenso) e crescimento igual (estacamento) se mede em relação a um crescimento médio. E, diz Trotsky, "A principal diferença entre eles está determinada pelas relações qualitativas entre a crise e o período de auge de cada ciclo dado. Se o auge restaura com esse excedente a destruição ou a construção que existiram durante a crise precedente, então o desenvolvimento capitalista tem uma tendência ascendente. Se a crise que significa destruição ou, quando menos, constricção ou restrição das forças produtivas, sobrepassa em intensidade seu auge correspondente, então teremos como resultado uma tendência descendente da economia. Por último, se a crise e o auge são equivalentes em intensidade, teremos um equilíbrio temporal e uma economia estancada". A concepção de auge, ascenso e descenso de Trotsky tem um caráter absoluto, contrariando a visão mais relativa do ciclo que tanto Kondratiev como seus seguidores apresentaram. Como vimos, pode-se constatar um período de descenso, sem que haja, por exemplo, um crescimento negativo ou decréscimo da produção. Claro que esta visão de Trotsky restringe muito a possibilidade de utilizar-se os conceitos de ascenso, descenso, ao identificar o conceito de descenso com decadência, ascenso com progresso histórico, e uma certa estabilidade com estancamento. Daí que ele vai chegar a uma conclusão bastante radical de que o caráter e duração das crises ou dos auges estão determinados por fatores externos e não pela interrelação interna das forças que compõem a dinâmica capitalista. Ele chegava assim a uma conclusão muito distante de Marx que havia se esforçado por compreender osciclos econômicos como parte das leis de funcionamento do modo de produção capitalista. Na busca destes elementos externos Trotsky ressaltará primeiramente a aquisição de novos países e continentes, em segundo lugar, a descoberta de novos recursos naturais ou, como conseqüência de ambos, mas com sua independência, as guerras e as revoluções.
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Assim, segundo Trotsky, não existe um ritmo ou lei rígida ligando as épocas entre si. Ademais, ele chama muito a atenção para o impacto dessas mudanças do ponto de vista ideológico e superestrutural, reconhecendo que esses movimentos econômicos desencadeiam mudanças na super-estrutura. Esta identificação das fases do ciclo com sucessivas, épocas históricas nos conduz à idéia de uma transformação histórica global, à idéia de um processo

evolutivo em contraposição a um enfoque de tipo cíclico. Não devemos desprezar estas críticas de Trotsky, porque realmente o enfoque dos ciclos longos não deve ignorar que estes movimentos estão associados a estruturas econômicas e sociais que passam por mudanças exatamente nos vários momentos dos ciclos. Eles estão associados a guerras, a revoluções e a profundas mudanças institucionais, que ocorrem, em geral nas fases de depressão ou de auge dos ciclos longos. Trotsky vai propor um quadro sintético desses elementos estruturais e superestruturais que, como ele mesmo reconhece, ainda se mostrava bastante informal, e que necessitaria de muita pesquisa empírica e histórica para ganhar contornos de uma hipótese científica.. Como vimos anteriormente, será com Schumpeter que as propostas teóricas de Kondratiev alcançarão um desenvolvimento bastante sofisticado. Schumpeter, coerente com sua visão de que "o fato principal na história econômica da sociedade capitalista é a inovação", vai exatamente procurar explicar as ondas longas através da sua teoria da inovação. A possibilidade da existência de novos investimentos está ligada à existência do empresário inovador. Também a um segundo elemento, que é a existência de um estoque de tecnologias novas a serem incorporados. Em terceiro lugar, mercados para que esta incorporação de novas tecnologias tenha para onde fluir, com o resultado da sua produção. E em quarto, empresas em setores particulares que buscarão aplicar estas inovações e difundi-las pela economia. Se há mais empresas nestes setores, há uma tendência à competição e, portanto, a preços mais baixos. O preço de venda tenderá então a igualar o custo com tendência, inclusive, à eliminação do lucro. De qualquer forma, a possibilidade de vender a menor preço e competir, num primeiro momento, é um impulso à inovação. Há uma pressão sobre os empréstimos que exige, portanto, um prévio declínio das taxas de juros durante as fases de deflação e entezouramento. Esta fases são acompanhadas por uma queda na demanda por novos investimentos e, portanto, por novos empréstimos, gerando assim um certo excedente financeiro que vai levar, por sua vez, a uma queda na taxa de juros. Schumpeter tem uma visão clara dessa relação entre o decréscimo de investimento produtivo, baixa da taxa de lucro e surgimento de um excedente financeiro que, através da especulação, tende inclusive a aumentar sugando recursos das atividades produtivas, gerando assim grandes excedentes sem colocação o que produz as graves crises financeiras típicas dos períodos finais dos ciclos longos, que concuzem a colossais depressões, como a de

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1929, cuja tarefa é a de desvalorizar os ativos existentes e pressionar por um declínio radical das taxas de juros. Os períodos de crescimento, segundo o próprio Schumpeter, apresentam uma situação em que a renda total é superior ao produto total, e, portanto, que os ordenados e salários são também inferiores à renda global, os gastos em bens e salários também são inferiores ao total de salários e ordenados, e o resultado de tudo isso é que a demanda potencial para a produção é crescente, e conseqüentemente os lucros estão em ascenso gerando então os fatores da retomada do ciclo de inovações. Como vimos, Schumpeter integrou os três tipos de ciclos. Duijn (1983) integrará num modelo mais complexo os quatro tipos de ciclo. Mais do que Schumpeter, Duijn insistiu muito sobre a base dos ciclos em movimentos de estoques, de reposição de maquinárias, de investimentos em construção e em inovações significativas. Como vários economistas e estudiosos contemporâneos da mudança tecnológica, ele segue a linha de Schumpeter, segundo a qual a inovação é apresentada como elemento-chave para os ciclos longos. A literatura sobre o tema insiste cada vez mais no conceito de cachos de inovações, segundo o qual as inovações mais importantes arrastam consigo não só a introdução de novos produtos ou novos processos no seu próprio setor, mas elas provocam também outras inovações em outros setores com os quais têm relações de complementariedade. Podemos distinguir pois, como Sweezy e Baran, as inovações que "marcam época " e que produzem efeitos secundários em todo o sistema produtivo, nos serviços, na superestrutura ideológica e cultural. Outros pesquisadores distinguem as inovações básicas das secundárias, entendendo por inovações básicas aquelas que abrem caminho para complementares ou inovações secundárias que se utilizam dos conhecimentos básicos trazidos pelas

primeiras. Pode-se constatar inclusiva uma onda de inovações terciárias que aplicariam os conhecimentos desenvolvidos pelas anteriores. Seria esta sucessão de ondas de inovações que formaria o ciclo entre 20 e 25 anos (30, no máximo), que explicariam as longas fases de ascensão. Por outro lado, as fases de decadência, ou fase b, devem se explicar pela dificuldade de incorporar inovações quando o ciclo longo começa a perder a sua força inovadora e alcança a sua maturidade. Neste momento, os novos investimentos necessários para incorporar novas tecnologias supõem, de um lado, grandes investimentos de incorporação das novas maquinárias e novas instalações que supõe a nova safra de inovações. Estas novas instalações supõem também a obsolescência da capacidade já instalada. Portanto, os períodos de descenso se explicam não só pelo grande volume de investimentos que representa a incorporação de inovações
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realmente revolucionárias e que marcam época, mas talvez principalmente pelo longo período de destruição do capital instalado, de desvalorização de enormes massas de investimento, de sobretudo da capacidade de derrubada das resistências às novas tecnologias, que depende

negociação, sobretudo da força de trabalho, que tende a aumentar durante a fase A do ciclo, quando ocorre um grande crescimento do produto baseado num mesmo patamar tecnológico e portanto acompanhado de um crescimento do emprego, gerando uma situação de pleno emprego, que favorece a organização sindical, favorece a capacidade de pressão do movimento trabalhista e a obtenção de salários mais elevados, que vão também pesar de alguma forma sobre a taxa média de lucro Vemos assim que é possível explicar o movimento ascendente do ciclo longo por um conjunto de cachos de inovações que vão se sucedendo, dentro de uma visão do processo de acumulação capitalista que nos permita associar esses cachos de inovações à taxa de lucro média dentro do sistema, considerando inclusive com muito mais clareza a tendência decrescente da taxa de lucro. Na medida em que essas inovações vão se instalando, sobretudo na medida em que elas vão se difundindo - e aqui o conceito de difusão é central, porque é exatamente a difusão que cria a situação em que o monopólio tecnológico vai desaparecer. A única forma de evitar isso seria então uma situação monopólica que prolongasse o ciclo do produto no interior do capital da própria empresa inovadora. Isto garantiria o monopólio tecnológico e a renda que dele deriva durante o processo de difusão do produto da sua região de origem para o resto do país e do mundo. Esta situação nem sempre é possível, já que, quando o produto está alcançando uma certa maturidade, com grandes investimentos já feitos, a introdução de novas empresas começam a ser mais fácil, desde que as barreiras de entrada começam a cair, na medida em que as tecnologias necessárias para a criação de uma nova empresa já tenderão a estar relativamente mais disponíveis a preços mais baixos. Ademais, como os custos de inovação já foram quase que totalmente cobertos pela empresa líder, aumentam as possibilidades de surgimento de empresas rivais incorporando novas tecnologias e rompendo com o monopólio da empresa inovadora. É pois lógico esperar que no ponto mais baixo do seno, haja uma tendência do sistema capitalista a um forte aumento de competitividade. E não é difícil explicar por que nesses momentos inclusive há uma tendência ao liberalismo econômico como forma de reconhecimento dessa situação de competitividade aguda, onde as formas de protecionismo tradicionais do Estado, as formas de subsídios estatais, etc., tornam-se obsoletas e tornam-se débeis diante das grande forças de competitividade que se estão confrontando a nível tecnológico. Na realidade, depois de um longo período de estagnação existem um estoque de novas tecnologias muito significativo a ser incorporado na economia. Sua incorporação depende em primeiro lugar da desvalorização da capacidade instalada, que se realiza através da deflação e dos mecanismos já assinalados. Em seguida, ela depende da existência de excedentes de capital que se interessem em
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utilizar esta nova vantagem. Somente em terceiro lugar, faz-se necessário a existência do agente deste processo. Isto é uma nova geração com vontade de inovar e conhecedora das novas tecnologias que pode ser um grupo de empresários inovadores ou de tecnocratas audazes ou de líderes revolucionários. Estas inovações supõem que o Estado intervém para favorecer o avanço tecnológico das suas firmas, supõe também que ele está aumentando o poder de competitividade e derrubando as barreiras de entrada. Nos países onde dominam as firmas apoiadas nas antigas tecnologias, o Estado tende a intervir para subsidiá-las permitindo que mantenham o controle de seus mercados sem desenvolvimento tecnológico. Este tipo de intervenção estatal adquire, portanto, um conteúdo muito reacionário. Ele é diferente daquela outra intervenção em que o Estado atua para fortalecer a capacidade inovadora das empresas que estão introduzindo as inovações. Deve-se distinguir contudo uma faixa média entre as tecmologias de ponta e as obsoletas, que são empresas que estão difundindo as inovações tecnológicas anteriores e que necessitam ainda de uma certa proteção estatal, sobretudo diante do mercado externo que se coloca cada vez mais competitivo pelas mesmas razões defensivas. O Estado nacional pode ajudá-las a fazer essa difusão, entregaando-lhes a cobertura legal para que possam copiar os produtos e as inovações produzidas em outros países, por outras empresas e em outras situações econômicas. Vemos assim que a visão de Kondratiev nos leva a uma riqueza muito grande na análise dos ciclos econômicos. Os ciclos longos são tanto uma possibilidade de enfoque, nos dão portanto uma possibilidade de enfoque da dinâmica econômica extremamente rica. Isso se dá em grande parte na obra de Ernest Mandel (1972), no seu estudo sobre o capitalismo tardio, onde ele vai retomar o conceito das ondas longas e vai fundamentar seu movimento apelando para o conceito das revoluções tecnológicas. Aqui há evidentemente um defeito no seu enfoque, por não compreender que nos últimos anos a parte científica vai entrar também dentro das revoluções tecnológicas, para fazer uma revolução própria, uma revolução científico-técnica. Assumindo um conceito chave da perspectiva marxista, Mandel afirma que as flutuações nas taxas de lucro são exatamente os fenômenos reguladores dos processos de primeiro, às acumulação a curto e a longo prazo. Em consequência ele vincula as ondas sucessivas de expansão e contração, descobertas por Kondratiev aos seguintes elementos: mudanças na composição orgânica do capital, aspecto que nós já assinalamos anteriormente; b) à taxa de exploração da força de trabalho, que também já estudamos; c) aos custos das matériasprimas, que entram na composição do custo industrial e na formação da taxa de lucro e d) pela disponibilidade do capital ou seja o funcionamento do capital financeiro.

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Dessa forma, Mandel distingue na fase a, ascendente, a ação dos seguintes elementos: o crescimento da taxa de lucro leva à maior acumulação de capital, que leva ao maior crescimento global e uma valorização contínua do capital que, por sua vez, leva a novos investimentos e a um auge econômico. A fase b, descendente, será resultado então da queda da taxa de lucro que pode ser exatamente uma conseqüência do próprio auge econômico. Como já assinalamos anteriormente, o aumento da composição orgânica do capital faz cair a taxa média de lucro, na medida em que, como já destacou-se, se generalizam as inovações através da sua difusão pelo conjunto das empresas, de forma a fazer com que as empresas que iniciaram a inovação percam suas vantagens iniciais obtidas através de uma renda tecnológica, assegurada pelo monopólio de um processo ou produto. Isso faz com que caiam os preços em geral, permitindo a entrada no mercado de empresas de fora do monopólio, ou pelo menos a ameaça dessa entrada já é suficiente para fazer cair os preços e fazer com que então a composição orgânica do capital se oriente no sentido de uma baixa da taxa média de mais-valia. Também os custos das matérias-primas tendem a elevarse em conseqüência do aumento da demanda de matérias-primas durante o auge, e a disponibilidade do capital investido também fica comprometida gerrando uma escassês de capital. É bom destacar que Mandel chama a atenção muito particularmente para o aspecto políticoinstitucional e para o efeito da luta de classes, como um fator muito decisivo no comportamento da taxa de mais-valia. Nos períodos de auge da fase A trava-se uma luta muito forte entre as classes pela hegemonia do sistema político e pelo domínio da distribuição da renda e, enfim, do processo de acumulação em seu conjunto. A posiçao e força dos trabalhadores nas fases de ascenso permitem que obtenham importantes conquistas salariais, nas concições de trabalho e outros aspectos, as quais levam a uma queda da taxa de lucro. A queda da taxa de lucro leva à queda da acumulação e da taxa de crescimento que, por sua vez leva a uma desvalorização do capital e portanto a uma situação de depressão. Como vimos, esta situação de depressão criará condições favoráveis à recuperação da economia através de um aumento da taxa do lucro em alguns setores, e depois sucessivamente no resto da economia. Neste momento há uma tendência a racionalizar os investimentos e portanto a buscar substituições tecnológicas. Com a desvalorização do capital instalado fica mais favorável para alguns setores fazer novos investimentos com novas tecnologias que significam custos mais baratos. A implantação desta tecnologia pode criar um novo monopólio ou uma situação de monopólio tecnológico por um certo período. Os custos das matérias-primas, com a queda da demanda, tendem a cair e isto estimula mudanças tecnológicas para poder sustentar esses preços mais baixos. A disponibilidade de capitais sofre, neste momento, as conseqüências da baixa dos investimentos. Do ponto de vista da luta de classes, há um aumento muito importante do desemprego que provoca uma perda significativa da
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capacidade de negociação dos trabalhadores. Como resultado tem-se uma tendência à queda dos salários, o que também favorece uma recuperação da taxa de lucro. Todo essa situação é extremamente dura socialmente mas cria condições para que o capitalismo volte a florescer e se inicie, com a introdução das revoluções tecnológicas, uma nova fase de crescimento. W. W. Rostow (1978) interveio também nesta discussão, aceitando a tese das ondas longas. Mas Rostow entende as ondas longas como um desvio do equilíbrio dinâmico de crescimento. Este equilíbrio seria igual aos investimentos apropriados aos requerimentos do produto por setor num determinado nível de renda real e de pleno emprego. Como vimos, portanto, dentro dessa visão neoclássica, torna-se muito difícil incluir a dinâmica da mudança tecnológica dentro dos modelos de funcionamento da economia. Na visão marxista, ao contrário, é o próprio crescimento que gera o descenso, e é este que gera o crescimento. Portanto, não há nenhuma questão metodológica a resolver, senão a análise do próprio funcionamento da economia. Numa visão neoclássica, como a de Rostow, parte-se de uma noção de equilíbrio e portanto o desequilíbrio, isto é, o ciclo, tem de ser explicado por algum fator externo. Daí então a conduta do investidor aparecer como um elemento muito importante, onde os indicadores do lucro esperado dão o fluxo de potencialidade de invenção, e portanto nós teríamos uma situação de desequilíbrio toda vez que se produz uma brecha entre a decisão de investir e a realização da inversão. Então, formam-se mais estoques de capital, que é igual a mais investimento, que é igual a subprodução do setor, que é igual a custos mais elevados. Tudo isso conduzindo portanto a uma situação de recessão. O novo boom sairia então da continuação do fluxo de oportunidades de inovação, através também dos resultados dos investimentos no início do boom. O fluxo de oportunidade de inovação levaria a uma renda real mais alta, e aí se alcançaria uma lucratividade maior, e se teria uma lucratividade maior esperada por setor, que é reforçada por custos mais baixos, como resultado dessas novas inovações. Produz-se, em conseqüência, uma taxa de estabilidade, uma tendência à estabilidade no nível do consumo ou até mesmo um aumento no nível do consumo, há um crescimento da força do trabalho por fatores não afetados pela depressão, e esse crescimento da força do trabalho pode permitir exatamente também um crescimento da demanda do nível de consumo, mantendo assim as condições para um novo boom econômico. Rostow teve um papel importante na discussão da teoria do desenvolvimento, exatamente por estabelecer uma noção do desenvolvimento como como estágios sucessivos. Ele estabelece cinco fases sucessivas que todo país tem de seguir para alcançar o desenvolvimento, às quais agrega posteriormente uma sexta. Trata-se de uma mistura de uma visão evolucionista em que se apresenta a evolução da sociedade capitalista moderna como um modelo ideal e ao mesmo tempo histórico. Este modelo muito duvidoso de evolução deve servir de modelo para todos os outros paises. Desenvolver-se
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seria assim repetir a bem sucedida experiência das economias capitalistas (claro que estas experiências foram devidamente depuradas para retirar-se delas os Cromwel, as revoluções como a francesa, as guerras, as revoluções anti-coloniais, o fascismo e o nazismo). Nem Rostow, nem nenhum economista que parta das premissas neoclássicas poderá jamais produzir um legítimo conceito de um sistema econômico mundial, um sistema que se faz e se organiza a nível mundial. Também é impossível produzir uma história econômica dos ciclos longos que encontre uma explicação científica adequada. Outros autores trabalharam sobre o a temática das mudanças a longo prazo, identificando inclusive uma sucessão de ondas de ascenso e descenso na economia mundial, mas não necessariamente aceitaram o conceito das ondas longas de Kondratiev. Um caso extremamente interessante é exatamente o dos autores franceses da teoria da regulação, entre os quais se destaca Gérard Destanne de Bernis (1987) , que foi na verdade o grande inspirador da escola da regulação e será também um dos que tentarão um enfoque da economia internacional do ponto de vista da teoria da regulação. Ele distingue as variáveis de acumulação, as variáveis de concentração e as variáveis de competição no conjunto da evolução capitalista contemporânea, mostrando que os processos de regulação ocorrem na busca de um certo equilíbrio entre essas variáveis, toda vez que o processo de produção capitalista está permanentemente corroendo as possibilidades de equilíbrio no processo de acumulação, no processo de concentração e portanto também no processo de competição. Apesar de sua contribuição muito interessante para a análise da história recente da economia internacional, este tipo de enfoque não aceita a idéia de que haja um movimento regulado de ascenso e descenso dentro da economia mundial. Ele também não aceita a tese de que nesse movimento haja um certo ritmo, ritmo este que seria explicável exatamente por elementos da própria acumulação de capital, identificáveis através da análise do processo de inovação. Nem incorpora o papel deste processo dentro da competição capitalista como desestabilizador permanente dos equilíbrios parciais alcançados em cada um desses momentos históricos do processo de acumulação. A obra de De Bernis é, contudo, muito importante, não somente por sua ambiciosa análise global das teorias e processos da economia mundial, sobretudo na edição de 1987 de seu tratado sobre As Relações Econômicas Internacionais, onde ele procura analisar a estruturação de dois sistemas de produção a nível mundial: os sistemas produtivos estruturados em torno de uma industrialização voltada para o comércio mundial, a exportação de capitais, a especulação financeira, a existência de uma moeda dominante, e onde se pode se ver as contradições do processo de acumulação que levam a uma crise dos modos de regulação. Ele
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parte do século XIX, mostrando a tendência a uma longa baixa dos preços no último quarto deste século, a existência de uma nova modalidade de concorrência, uma transformação das estruturas produtivas na direção de uma economia monopólica, e a desestruturação conseqüente dos espaços dos sistemas produtivos e aparecimento do investimento direto no exterior, cojunto de transformações que vão mudar o processo de regulação, afetando o comércio, a relação metrópole-colônia e a estabilidade estrutural do processo de acumulação e do sistema monetário internacional, que leva então a uma nova crise do processo de regulação entre as duas guerras mundiais. A partir da Primeira Guerra se estabelece uma nova estabilidade do processo de acumulação no quadro das relações econômicas internacionais, em que novas regras do jogo internacional são impostas, criam-se as premissas de uma Europa européia e se criam enfim as relações internas a cada um dos sistemas produtivos, estabilizando os espaços dos dois sistemas produtivos. Ao lado, geram-se novas forças de transformação muito importantes, como a descolonização, a internacionalização do intercâmbio e a consciência da unidade do Terceiro Mundo, o fenômeno de regionalização e a transnacionalização da produção. E, ao mesmo tempo, desenvolvem-se também as relações entre os sistemas produtivos, emtre as quais a questão da convertibilidade externa das moedas européias é um dos pontos importantes, a crise do dólar reflete as conseqüências das dificuldades da balança de pagamento americana, e dá nascimento a um amplo e crescente mercado de ouro e divisas, à extensão das firmas internacionais, ao abandono da convertibilidade do dólar e por fim, levando ao desenvolvimento do comércio internacional com a extensão do seu volume e à mudança das suas características gerais com o nascimento da Europa e a explosão do Japão que leva ao aumento do comércio entre os países industrializados. Tudo isso nos leva à idéia de uma economia mundial, que se aproxima do conceito de sistema do mundo. E à tentativa de analisar a crise dessa economia mundial dentro da teoria da regulação, como transição de um equilíbrio internacional a outro. Desta maneira, a crise se inscreve no movimento geral do capital, no qual as empresas multinacionais ocupam um papel fundamental. Contudo, De Bernis será muito contundente em afirmar que a crise mundial ainda está apoiada nos níveis nacionais. Para ele, as contradições da tecnologia transnacionalizada mostram os limites desse processo de transnacionalização. A multinacionalização e a transnacionalização bancárias, por outro lado, procuram impulsar mais ainda esse processo, mas a integração das economias nacionais e da economia internacional continua a ser um processo complexo e contraditório. A internacionalização do capital é o instrumento mais importante dessa economia mundial, mas é também uma das razões fundamentais da sua crise, que se vê como sobretudo uma transição de um modo de extração da mais-valia a outro.
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Minha posição sobre essas questões deve ficar bastante clara ao finalizar este balanço teórico. Parto da constatação empírica das ondas longas e proponho como explicação dessas ondas longas o mecanismo das inovações, distinguidas entre as inovações primárias, secundárias e terciárias, e coloco o processo de difusão ao lado do processo de inovação para explicar o mercanismo das ondas longas e seus vínculo com os fatores micro-econômicos. Nesta altura devo chamar a atenção para um excelente texto Nathan Rosenberg em que crítica a Schumpeter por não considerar o processo de difusão como parte da formação do ciclo de expansão capitalista a longo prazo. Ao analisar o processo de inovações proponho uma distinção bastante clara do papel dos instrumentos de produção como elemento mais dinâmico da mudança tecnológica. Seus avanços afetam profundamente o conjunto do processo do trabalho e atuam sobre a oferta de energia, os transportes e outros aspectos da produção e do consumo, e sobre os serviços em geral que representam um papel cada vez mais crucial no processo da produção no seu conjunto como reflexo da revolução científico-técnica. Por isto dediquei em outros trabalhos um bom conjunto de estudos à automação e seu papel na dinâmica sócio-econômica contemporânea. Ela tem uma posição fundamental na conformação do processo de produção atual e seu impacto é fundamental sobre o conjunto do sistema produtivo, a circulação de mercadorias, as mudanças institucionais e as mudanças nas relações de classe. Daí ver com muito interesse, por exemplo, os estudos do grupo de regulação sobre as mudanças do regime de produção fordista para o que eles chamam toyotismo. Este elementos forma muito bem articulados com outros conceitos inovadores em estudos menos ortodoxamente regulacionistas, sobretudo no informe sobre tecnologia da OCDE ao qual já fizemos referências anteriormente. Isso tudo nos conduz à necessidade de integrar essas variáveis econômicas básicas do processo de acumulação, com o papel da ciência e da tecnologia e das estruturas científico-tecnológicas. Pois evoluimos das estruturas tecnológicas para as estruturas científicotecnológicas que organiam a nova fase do processo de produção no seu conjunto e em suas implicações sobre as relações de trabalho, sobre a luta de classes, sobre a organização da classe empresarial, sobre a organização do movimento dos trabalhadores, que deverá representar um papel muito importante na reestruturação institucional do mundo contemporâneo, sobre as unidades nacionais e as forças geopolíticas, que também estão em ação. Desta forma, a construção de um modelo explicativo do funcionamento da

economia mundial passa necessariamente por essa combinação entre as ondas longas nas suas
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fases A e B,

os ciclos mais curtos, cuja evidência é indiscutível, as estruturas científico-

tecnológicas, os paradigmas tecnológicos, que é um conceito que se introduziu na década de 70, 80, com um valor heurístico muito forte, e as mudanças no processo de produção, com seus impactos institucionais, com seus impactos sobre a luta de classes e seus impactos sobre as estruturas de poder nacionais e mundiais, e seus impactos sobre a geopolítica mundial.
A S C R I S E S E C O N Ô M I C A S E S T R U T U R A I S . A FA S E E AS MU DANÇAS TEC NOL ÓGICAS

b

D A S O N D A S L O N G A S D E K O N D R AT I E V

Passamos agora à analise da relação entre as crises econômicas e as mudanças tecnológicas. Para tal fim, é necessário destacar que a crise é um fenômeno estrutural ao funcionamento do sistema capitalista. Já desenvolvemos a nossa interpretação sobre o movimento cíclico e as crises cíclicas, estudadas por Marx, que se repetem a cada 10 anos. Só nos interessa destacar que Marx ressaltava a importância da relação entre estas crises e as mudanças tecnológicas. Segundo ele, as crises desvalorizam fortemente o capital constante (sobretudo sob a forma de maquinária utilizada), e o capital variável gerando as condições para novos investimentos que substituem trabalho por maquinárias. Produz-se, em conseqüência, um incremento na produtividade do trabalho e se recompõe a taxa de lucro dando origem à saída da crise, que gera uma nova situação de auge e cria as condições para uma nova recessão. Como vimos, Marx e outros autores do século XIX trabalharam sobretudo sobre os ciclos de 10 anos, que foram estudados mais em detalhe por Juglar. Somente no século XX Kondratiev descobrirá as ondas longas, que são ciclos de aproximadamente 50 anos, nos quais se sucedem 25 anos de crescimento e 25 anos de crise. Na explicação destes ciclos longos Kondratiev incorpora os efeitos dos fatores tecnológicos. Ele associa estes movimentos cíclicos à entrada de novas tecnologias e às ondas de investimento que permitem os períodos de auge. Nas ondas longas, ele define uma fase a, de auge, e uma fase b, de desaceleração ou de crises, na qual ocorre o esgotamento da base tecnológica existente, tornando obsoleto o complexo de maquinárias e equipamentos diante das novas possibilidades tecnológicas, e exigindo a sua substituição. A saída das crises e o início dos auges estão associados a profundas mudanças nesta base tecnológica. Trata-se, em primeiro lugar, da incorporação de novas tecnologias para a produção que mudam as maquinárias e obrigam a substituir as anteriores, criando uma onda de investimentos.
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A tese de Kondratiev foi retomada por Schumpeter após a crise de 1929. Ele desenvolveu uma associação mais clara entre a crise e os novos investimentos. Para ele, a destruição das antigas tecnologias, ocorrida nos períodos de crise, abre caminho às novas tecnologias, que se introduzem nos vários ramos produtivos, impactando o resto da economia e dando origem a um novo auge. Estudos mais recentes identificam a existência de inovações tecnológicas primárias, secundárias e terciárias. Inovações primárias seriam aquelas que inauguram todo um setor econômico novo e que dão origem a novas instalações, a novas demandas de matériasprimas e a novos investimentos e adaptações, inclusive fora do seu próprio setor. Secundárias e terciárias são aquelas inovações que dão origem a uma nova onda de investimentos, que se inicia pelos setores que geram insumos para o núcleo inovador, e que se estende, posteriormente, a novos usos e demandas geradas pelo novo produto ou processo. As inovações terciárias seriam o resultado do impacto provocado pelas novas tecnologias primárias e secundárias em novos setores, sem maiores vínculos com o núcleo das inovações primárias. Nesses estudos, podemos identificar a existência de ondas de inovações que afetam vários setores e se traduzem em milhares de novos produtos e processos que poderiam, de alguma forma, explicar os movimentos de ondas longas de crescimento econômico, com seus investimentos e seus impactos sobre a renda nacional. É necessário notar que as conjunturas de alto investimento são precedidas por longas fases de crise em que as recessões e as depressões predominam sobre os auges. Nestes períodos, ocorre uma forte desvalorização do capital instalado, em decorrência das quebras e falências. Ao mesmo tempo, o aumento do desemprego desvaloriza o preço e até mesmo o valor da força de trabalho. A recessão diminui também a demanda de matérias-primas e tende a rebaixar seus preços. As maquinárias e instalações, as matérias-primas e a mão-de-obra são os elementos básicos que compõem os custos de produção e influenciam a taxa de lucro. Uma desvalorização maciça do capital instalado, das matérias-primas e da força de trabalho cria condições favoráveis para a recomposição da taxa de lucro. Desta forma, a crise funciona como um fator recuperador da economia. Esta é a "destruição criadora" de que nos fala Schumpeter. Nestes períodos, as guerras, as crises sociais e as revoluções costumam apressar e radicalizar estes processos de destruição, inaugurando novas formações sociais. A dinâmica dos investimentos está associada, secundariamente, ao problema do mercado e suas oscilações. A depressão do mercado por quebras de empresas e desemprego aumenta a disponibilidade destas para aceitar e incorporar inovações importantes. Com isto, elas
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passam a se diferenciar das demais e a diversificar seus produtos, deslocando as empresas antigas, cujo capital imobilizado as impermeabiliza às inovações revolucionárias. Na fase atual do capitalismo, onde a destruição de um setor econômico afeta milhões de trabalhadores e gerando profundos problemas sociais, estas mudanças são impensáveis sem a forte intervenção do Estado para desmobilizar as empresas, ressarcir os trabalhadores e promover sua recapacitação para integrá-los em novos setores. Exemplos desta nova fase do capitalismo monopolista do Estado estão na desativação dos setores siderúrgicos nos EUA, França e Espanha, ou nas minas de carvão da Inglaterra, nas décadas de 70 e 80. Somente através destes mecanismos globais é possível imaginar a possibilidade de novas ondas longas de investimento. O Estado terá que assegurar os gastos de pesquisa e desenvolvimento (P&D) e o estabelecimento de estratégias globais de investimento. Na verdade, estas transformações do caráter do Estado estão em plena execução, como veremos adiante, apesar da cortina de fumaça do "neoliberalismo". As novas ondas longas de crescimento estão associadas à introdução destas novas tecnologias. Esta introdução se realiza através de ondas sucessivas, que definem um novo padrão ou paradigma tecnológico, que só assumirá sua configuração completa ao fim do período de inovações. A partir de então, as economias de escalas não recomendam novos investimentos. Cada novo investimento tenderá a ter uma taxa de lucro decrescente e dará origem a uma tendência ao desinvestimento e a uma nova crise, com todos os seus efeitos já analisados. Do ponto de vista internacional, o movimento de inovações é acompanhado pela difusão das novas tecnologias para outros países, através do crescimento dos investimentos no exterior. No primeiro momento de evolução do capitalismo, tendeu-se a produzir uma divisão de trabalho a nível internacional, de tal forma que as inversões externas atendam as demandas de matérias-primas e insumos intermediários, que têm sua origem nos países centrais. Os países receptores dos investimentos introduzem inovações determinadas pelo avanço tecnológico dos centros econômicos internacionais, dos quais conhece somente seus efeitos em campos produtivos específicos ligados aos seus setores exportadores. Dessa forma, a difusão das inovações para o exterior abre novas fases de investimento e estende os auges capitalistas, mas não cria novos centros tecnológicos competitivos, que surgem paralelamente aos países centrais e não em suas áreas de investimento. Os portugueses e espanhóis, por exemplo, não difundiram sua tecnologia naval para a América, África ou Ásia. Foram seus competidores holandeses e ingleses que dominaram essa tecnologia, deslocando-os progressivamente dos mares nos séculos XVII e XVIII. Com a Revolução Industrial no fim do século XVIII e na primeira metade do século XIX, a Inglaterra
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assume a liderança. A acumulação capitalista na França fez-se paralelamente à inglesa e holandesa, mas teve um impulso menos radical. A expansão do capitalismo alemão, que se deu na segunda metade do século XIX, não necessitou do capital inglês ou holandês para incorporar a onda de inovações produzidas pela segunda fase da Revolução Industrial com a produção de máquinas em bases industriais. Houve inclusive, no caso da Alemanha e também do Japão, um fechamento para o capital externo, só aceito como complementar ao nacional. Na Russia, no final do século XIX, a expansão industrial se fez em grande parte com a participação do capital francês e inglês, o que debilitou sua burguesia e sua revolução democrática, que terminou sendo hegemonizada pelos partidos operários. Nos Estados Unidos, houve uma importação de capital inglês, mas este foi posteriormente nacionalizado sem que se fossem dadas maiores satisfações. Com o avanço posterior da integração da economia mundial, particularmente depois da Segunda Guerra Mundial, fez-se mais direta a expansão das inovações para o exterior pela via do investimento externo. Este fenômeno foi analisado por Raymond Vernon que utilizou o conceito do "ciclo do produto". Segundo seus estudos, há uma maturação da curva de difusão dentro de cada mercado, que dá origem ao surgimento de novas curvas de investimento e difusão do mesmo produto no exterior, de tal forma que há um ciclo de expansão dos produtos para o exterior, ao qual o próprio processo de internacionalização do capital está associado. Desta forma, o movimento do capital tende a acompanhar a difusão dos novos produtos ou processos que estão sob seu controle, na medida em que aumenta a integração entre a capacidade de monopólio do mercado e o monopólio de novas tecnologias. Quanto maior este movimento de capitais, maior a difusão internacional das tecnologias e mais rápida a internacionalização dos auges e das crises econômicas, que se difundiram primeiro na Europa para o conjunto da economia mundial e depois nos Estados Unidos para uma economia mundial cada vez mais integrada. Nesta nova fase do capitalismo é o movimento de capital, apoiado no monopólio tecnológico, que comanda a desestruturação e a reestruturação do comércio mundial e que determina a divisão internacional do trabalho. Grande parte deste comércio se realiza no interior das empresas, que localizam suas unidades produtivas em várias regiões do mundo, importando partes e exportando produtos semi-acabados ou finais. Ou seja, existe um centro de expansão na qual a inovação surge e de onde ela começa a se expandir para novos centros de produção na semi-periferia e na periferia. Este mecanismo de concentração das fontes de inovação está associado ao imperialismo e à existência de uma potência hegemônica estruturando o comércio mundial e a divisão internacional do trabalho. Ele é, em parte, resultado da ação do mercado mundial em formação e, em parte, das instituições que comandam este mercado, essencialmente oligopólico:
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as instituições econômicas dos Estados nacionais, os monopólios, os trustees, os cartéis e os investimentos em carteira ou diretos. Na fase inicial do sistema capitalista mundial, a questão da hegemonia teve que ser resolvida pela força das armas. As guerras napoleônicas, a guerra franco-prussiana de 1870, a guerra russo-japonesa, etc., foram antecipações das duas grandes guerras deste século. Estas tentaram resolver definitivamente a crise da hegemonia inglesa provocada pelo surgimento de novas potências com a ascensão dos EUA, da Alemanha e do Japão. Essa conjuntura só foi superada com o estabelecimento de uma nova hegemonia mundial norte-americana após a Segunda Guerra Mundial. Somente através desta hegemonia foi possível restabelecer uma moeda de curso mundial e um sistema de liquidez capaz de estimular o comércio mundial. Os períodos de crise se manifestam por uma desintegração da economia mundial. Esta se realiza, contudo, de forma assimétrica. A crise tende a originar-se nos centros onde as inovações já se esgotaram, enquanto países mais atrasados estão recebendo as ondas inovativas e ainda estão em etapas de crescimento, enquanto a economia internacional já está decaindo. Nestes períodos há uma forte luta entre protecionismo e liberalismo. Os países hegemônicos da fase anterior tendem a fechar-se, enquanto as potências emergentes buscam impor princípios liberais. Na medida em que as novas potências se impõem, há uma tendência para uma economia mundial liberal na qual o mercado estabelece os novos equilíbrios, provocando uma dinamização das economias exportadoras. As novas ondas de inovação vão rompendo com os padrões tecnológicos anteriores e surgem novas capacidades produtivas. Aprofunda-se, em parte, o período de crise no qual as economias centrais da fase anterior já não conseguem proteger seus mercados e sua tecnologia superada. Acirra-se dramaticamente a concorrência e aumenta-se a incorporação de inovações importantes. Analisando 80 inovações importantes durante 1921 e 1957, o economista holandês J. Van Duijn encontrou os seguintes resultados, ao relacioná-las com as fases dos ciclos longos de Kondratiev: durante o período de recessão de 1921-29 ocorreram 5 inovações; na depressão de 1930-37 ocorreram 11 inovações; na recuperação de 1938-48 introduziram-se 15 inovações; e no período de prosperidade entre 1949-57 foram incorporadas 9 inovações. Esta constatação de Van Duijn é confirmada por outros estudos e pela lógica econômica que descrevemos acima. São os períodos de depressão e recuperação que mais estimulam a introdução de mudanças tecnológicas, enquanto os períodos de prosperidade se caracterizam pela difusão destas inovações e a introdução de um menor número de inovações, em geral secundárias e terciárias.

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É natural, pois, que os períodos de depressão e de recuperação se caracterizem pela destruição das empresas que tentam preservar os padrões tecnológicos superados. Cada retomada do processo expansivo é acompanhada por uma fase tecnológica nova e um novo padrão ou paradigma tecnológico. A tendência de cada novo padrão tecnológico é apresentar, no início, uma desconcentração industrial pela introdução de novas empresas competidoras. Mas, no seu transcurso, estas empresas tendem a consolidar um novo monopólio e a criar uma concentração tecnológica muitas vezes superior. A concentração tecnológica assume, em alguns períodos, uma forma espacial de grandes unidades de produção. Mas, em outros períodos, ela se diversifica em pequenas unidades de produção integradas entre si e formando vastos complexos produtivos. A tendência do capital tem sido procurar a diversificação das unidades produtivas e sua separação no espaço, porque a concentração espacial é adversa ao capital. Toda concentração de produção é, ao mesmo tempo, uma concentração dos trabalhadores. Isto aumenta sua organização e sua capacidade de ação política. Então, o capital busca localizar de maneira desconcentrada suas unidades produtivas. Mas é necessário manter a concentração tecnológica porque, mesmo separadas fisicamente, estas unidades produtivas são interdependentes entre si e formam partes de uma mesma unidade final de produção. O sistema produtivo que predominou até os anos 70 foi desenvolvido a partir da Segunda Guerra Mundial e baseava-se em sistemas de montagem final de partes e compostos de várias unidades dispersas dentro do país ou mesmo internacionalmente. Estas unidades podiam pertencer a uma mesma firma ou serem empresas subcontratadas pela montadora. Em geral estas empresas subcontratadas eram, e ainda são, pequenas e médias e sem nenhuma independência econômica. Trata-se, muitas vezes, de assalariados disfarçados que correm o risco dos investimentos básicos. São transmitidas para elas funções de gestão e riscos que as grandes companhias não querem bancar. E isso ocorre tanto na cidade como no campo. No setor agrícola, quem assume o risco da produção são os pequenos produtores, convertendo-se em setores subordinados aos compradores dos produtos agrícolas e aos fornecedores de insumos e de financiamentos. Desta forma, cada nova onda tecnológica leva, de início, a uma desconcentração mas finalmente a uma concentração tecnológica. Esta se expressa, porém, numa complexidade crescente de elementos (partes e peças) que compõem os produtos e na interdependência crescente dos setores e ramos de produção. Ela leva também a uma concentração econômica e empresarial que, como foi mencionado, nem sempre se manifesta numa concentração das unidades de produção, mas numa hierarquia e subordinação entre pequenas, médias e grandes empresas.

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É inevitável, também, a centralização do capital, posto que a possibilidade de formar estas unidades empresariais maiores depende de que os capitais pequenos se concentrem e se centralizem. É o fenômeno da socialização do capital já analisado por Marx no século XIX quando surgiram as sociedades anônimas. Ele mostrava que a concentração da tecnologia e da produção obrigava o capital a centralizar-se pela via da associação dos capitalistas. E a forma mais perfeita dessa associação era a sociedade anônima. Mas não foi e não é suficiente que os capitalistas individuais formem sociedades de capital. Com o tempo, as próprias empresas passaram a se associar umas com as outras, dando origem às holdings e aos trustees, que representavam formas de associação de capitais e de empresas cada vez mais complexas. Na atualidade, as corporações multinacionais geram unidades empresariais com diversas formas de associação. Surgem, ao mesmo tempo, os conglomerados, que unificam empresas dos setores mais diversificados em função das estratégias de inversão de capital, e as redes empresariais, que são associações informais de empresas em torno de algum centro de prestação de serviços, em geral associadas às novas tecnologias de comunicação e informática. Também não devemos desprezar o aparecimento dos investidores institucionais, entre eles os fundos de pensão dos trabalhadores, cujo imenso volume de recursos que administram os converte em investidores privilegiados, sobretudo nos países desenvolvidos. Apesar destes recursos serem geridos pelo sistema financeiro e se colocarem a serviço de suas estratégias financeiras, em alguns países como a Suécia os trabalhadores vêm despertando para o poder econômico que podem representar tais recursos se administrados pelos próprios trabalhadores ou se convertidos em força de barganha com o capital. Há ainda que se considerar o crescimento de formas empresariais e institucionais coletivas como as cooperativas, as fundações e outras, que vêm introduzindo desde o século passado elementos coletivizantes no universo econômico capitalista. Mas entre todas estas formas de socialização da propriedade e da gestão no interior do capitalismo, a mais importante é o crescimento do capitalismo de Estado. A intervenção do Estado se explica devido a duas razões principais: primeiramente, porque o processo de concentração da produção leva a uma composição orgânica do capital crescente, e esta leva à baixa da taxa de lucros nos setores economicamente mais concentrados. Uma das formas de que dispõe o capital privado para manter sua taxa média de lucros elevada é transferir progressivamente para as mãos do Estado as atividades que apresentam taxas de lucros baixas. Em segundo lugar, o desenvolvimento e a expansão das unidades de produção, provocando maior concentração e centralização, exige a crescente intervenção do Estado para disciplinar o intercâmbio, a circulação e o próprio processo de produção. Os monopólios, os preços
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administrados das empresas estatais, os subsídios e os efeitos das taxas de juros artificiais passam a violar constantemente a lei do valor como instrumento do intercâmbio capitalista. A concentração da produção, o monopólio e a intervenção estatal rompem o funcionamento normal do mercado. Dessa forma, o Estado tem que intervir cada vez mais para regular o intercâmbio na economia. Junto a tudo isso, aparece a internacionalização da produção, já que todo esse processo é parte da expansão da economia capitalista internacional, como vimos anteriormente. Cada nova onda de crescimento gera uma etapa superior de concentração econômica, centralização de capitais, monopolização, internacionalização e intervenção do Estado. Estes níveis mais altos de socialização da produção no interior de um regime de propriedade privada acentua as contradições globais do sistema. Mas estas não se manifestam negativamente nas fases de expansão pois ela acomoda os interesses em confronto. Mas, na medida em que se esgota o período de expansão, abre-se o caminho para a expressão aberta dessas contradições que se acumulam através de processos sucessivos, cada vez mais profundos, de confrontações entre patrões e assalariados, entre os monopólios e os pequenos e médios proprietários, entre os centros de acumulação de capital distribuídos setorial ou regionalmente (confrontos que se expressam, às vezes, em violências étnicas, regionais e locais), e entre os países centrais entre si e destes com as zonas semi-periféricas e os países dependentes. Desta forma, os períodos de depressão são caracterizados por confrontações crescentes e de natureza cada vez mais dura entre os vários componentes do sistema capitalista mundial, das unidades econômicas regionais e nacionais e, dentro destas, entre classes, grupos sociais e poderes locais. As fases das depressões longas a nível internacional são caracterizadas por um período inicial de inversões artificiais, de caráter especulativo, que sucedem a queda de inversões produtivas. Logo em seguida, dá-se o crescimento da especulação financeira, com aumento da inflação, até que, posteriormente, produzem-se as grandes quebras e a desinflação. Nestes períodos, produz-se o aumento do protecionismo tentando impedir a redefinição da força relativa dos países, que terminam cedendo a uma nova onda de "livre" comércio que visa consolidar as novas lideranças criadas pelos novos investimentos. Eles são, assim, períodos de "limpeza" das estruturas produtivas internas dos principais países, com a destruição dos ramos obsoletos tecnologicamente e a afirmação dos novos ramos e setores viáveis nas condições do novo padrão tecnológico.

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Vemos, assim, que a análise dos períodos longos, com predominância das depressões, consideradas a fase b dos ciclos longos de Kondratiev, exige um aparato analítico que logre articular elementos micro e macroeconômicos. Ao mesmo tempo, na fase atual do capitalismo monopolista de Estado, temos que considerar sempre a relação dos mecanismos econômicos puros com a ação consciente dos homens através dos seus meios de ação sobre a economia, que são cada vez mais sofisticados. As chamadas "expectativas racionais" exercem uma influência crescente na dinâmica econômica do capitalismo contemporâneo, mas mudam muito pouco as suas determinações básicas. Elas determinam o comportamento dos agentes econômicos, mas não o resultado de suas ações, que podem ser o oposto das expectativas que as motivaram. O marxismo e a psicanálise desenvolveram um novo paradigma científico exatamente porque consideraram as motivações explícitas dos fatores um dado secundário e independente do resultado de suas ações. Fazer "ciência" acreditando que as expectativas produzem resultados esperados é um retrocesso metodológico. Acreditar que estas expectativas sejam variáveis e independentes é também, no mínimo, infértil. Outra série de fenômenos que alteram definitivamente as realidades micro e macroeconômicas se ligam à ação consciente dos monopólios que possuem instrumentos de medição dos mercados, que lhes permitem aumentar sua influência sobre ele, realizada através da publicidade e do marketing, envolvendo inclusive a formação dos preços e a sua administração. Neste campo minado, devemos considerar ações e decisões de ordem estrutural tais como: a) as barreiras de entrada; b) as ações de dumping; c) a cartelização; d) as comissões; e) as influências sobre as decisões das empresas e instituições compradoras ou fornecedoras, que envolvem a política de relações públicas, a política financeira da empresa e as especulações financeiras cambiais com seus recursos excedentes, o endividamento como instrumento financeiro, e as políticas de inversões e fusões. Enfim, o nível microeconômico não pode separar-se, hoje, da ação consciente da administração da empresa e de suas estratégias de crescimento em relação aos fatores macroeconômicos. Mais decisiva é, contudo, a articulação das decisões microeconômicas com a ação do Estado. Este não somente determina o quadro macroeconômico em que operam as grandes empresas (política de investimento estatal, estratégia de desenvolvimento, política fiscal, taxa de juros, taxas de câmbio, política de salários, subsídios, etc.), como afetam diretamente suas variáveis microeconômicas (contratos de venda para o setor público, financiamentos da pesquisa e desenvolvimento, estratégias de mercado e políticas setoriais, entre outras). Nos nossos dias, as práticas comerciais são cada vez mais um subproduto do planejamento estatal articulado com as decisões das grandes empresas. Estas se vêem obrigadas a definir políticas
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globais para os setores em que atuam, antecipando-se às tomadas de decisão estatais. Estas se baseiam, na maioria dos casos, em dossiês e propostas de política e legislação emanadas diretamente das empresas ou dos órgãos de classe do empresariado. Forma-se, assim, uma interdependência crescente entre Estado e empresa, que passa a reger o funcionamento do sistema no seu conjunto. Esta simbiose deve reconhecer, contudo, a lógica global deste funcionamento, tal como os ciclos longos, e ajustar a ação desses agentes a estas circunstâncias estruturais. É assim que as políticas estatais passam a dirigir os fenômenos típicos das etapas recessivas. É através da ação do Estado que se organiza a desativação de setores inteiros. O Estado assume os custos da desativação do setor, entende-se com os sindicatos para reorientar a mão-de-obra afetada e promove a transferência destas indústrias para outros países através dos ajustes econômicos, das políticas cambiais e tecnológicas e das ajudas econômicas. Estes processos assumem, às vezes, dimensões determinantes para a economia de países inteiros. Este foi o caso da transferência, no início da crise de longo prazo iniciada em 1967, dos centros produtores de petróleo para os Estados do Terceiro Mundo. Venezuela, Equador e os países árabes assumiram o controle das empresas petroleiras num movimento internacional mais ou menos sincronizado, ao fim da década de 60 e começo de 1970. Já nos anos anteriores, havia se iniciado a transferência das empresas multinacionais de serviço público e mineiras para a propriedade estatal dos países do Terceiro Mundo. Estas mudanças, que aumentaram drasticamente o capitalismo de Estado nestes países, foram realizadas tanto por governos progressistas, como por governos de direita militar sob hegemonia das multinacionais. No início da década de 70, tivemos a transferência da produção de petróleo das multinacionais para o setor estatal. Na segunda metade da década, houve a desativação do setor siderúrgico europeu e norte-americano e o financiamento a uma siderurgia substitutiva, primeiro no Japão e, em seguida, nos NICs (financiamentos assumidos em geral pela ação dos Estados destes países, mas através do endividamento internacional). A década de 70 foi marcada também por outros fortes movimentos estatizantes, tais como a nacionalização do cobre chileno (mantido pelo regime fascista de Pinochet); a nacionalização do sistema bancário e financeiro português, mexicano e francês (revestidos em parte substancial nas décadas de 80 e 90); as reformas agrárias chilena e portuguesa; e as mudanças drásticas de propriedade em Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Cabo Verde. Neste processo de alargamento do capitalismo de Estado devemos inscrever também o aumento dos gastos públicos nos Estados Unidos e na Europa (que ampliam ainda
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mais nas décadas de 80 e 90, não havendo uma reversão radical à vista, apesar do consenso sobre a necessidade de sua eliminação ou diminuição). Junto ao crescimento da dívida pública, deu-se a entrada do Estado na definição das taxas de juros nos Estados Unidos e na Europa, ao lado dos países devedores do Terceiro Mundo. Na verdade, apesar do clima neoliberal que terminou triunfando nos anos 80, aumentou-se a intervenção estatal nos mecanismos econômicos em áreas antes consideradas livres do controle público. Tudo isso vinha somar-se ao crescimento da intervenção pública nos anos da pós-guerra até a década de 60, sob a égide da formação do Estado do bem-estar e do planejamento indicativo. Na verdade a década de 80 representou somente uma tentativa de correção deste intervencionismo estatal através dos processos de desregulamentação de importantes setores, como a aviação comercial; através da diminuição de barreiras alfandegárias e de alguns subsídios estatais, sobretudo às populações pobres; representou também uma corrida ao patrimônio público através da chamada "desestatização" ou privatização de empresas públicas. Os dados revelam, contudo, a modesta dimensão dessas privatizações diante dos fenômenos estatizantes gigantescos nas décadas anteriores e mesmo dos que ocorrem na época atual. O mais importante deles foi o aumento do déficit público norte-americano, que comandou a recuperação da economia norteamericana e mundial, através do aumento da demanda norte-americana pelos produtos alemães, japoneses e dos NICs, como veremos adiante. Ao lado desta gigantesca intervenção na economia mundial pela criação de uma demanda artificial via aumento dos gastos públicos, foram necessários outros mecanismos para corrigir os excessos de meios de pagamentos gerados nos Estados Unidos e na economia mundial. Surgiram, assim, os títulos públicos capazes de absorver os excedentes gerados pelos déficits, que se caracterizavam por uma enorme elevação da taxa de juros média a partir dos Estados Unidos e, em seguida, em todo o mundo. Vimos, assim, surgir um endividamento público colossal para cobrir os déficits e, em seguida, para pagar os juros gerados pelo próprio endividamento. Assim, os excedentes dos petrodólares haviam criado um mercado financeiro colossal nos anos 70, que terminou assumindo a forma do inchaço da dívida do Terceiro Mundo. Já na década de 80 tivemos os enormes excedentes do comércio do resto do mundo com os Estados Unidos e o brutal endividamento internacional deste país para sustentar sua demanda pela via da dívida pública. Estes mecanismos de financiamento da dívida criaram um enorme movimento financeiro, que gerou, por sua vez, imensos recursos financeiros sem nenhum respaldo econômico real. Estes excessos especulativos não geraram uma onda inflacionária tão forte como na década de 80 porque os estados europeus, o Japão e os NICs absorveram estes excedentes em dólares
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sob a forma da compra de títulos da dívida pública norte-americana. A partir de 1987, contudo, foram abandonando esta política suicida e passaram a comprar ativos reais nos Estados Unidos, gerando uma onda anti-japonesa naquele país. No conjunto, Japão e Alemanha mantiveram, a duras penas, uma austeridade econômica no contexto de uma explosão financeira exportada desde os Estados Unidos, para onde dirigiram os excedentes financeiros obtidos no comércio, ao lado de algumas outras praças financeiras artificiais, como Londres e vários paraísos fiscais. Como os anos 80 se caracterizaram também pela consolidação do tráfico de drogas, os seus gigantescos resultados financeiros também convergiram para o sistema financeiro internacional, que criou mecanismos de "lavagem" de dinheiro da droga. Este monumental aumento da liquidez mundial só poderia ter um destino: a desinflação e o desaparecimento dos valores financeiros gerados artificialmente no período. Esta etapa se iniciou, de fato, em 1987, com o deságio das dívidas externas, que deve chegar à perda de cerca de 500 bilhões de dólares ou 50% do seu valor bancário; o crack das bolsas mundiais, em setembro de 1987, que fez desaparecer 1 trilhão de dólares em um só dia; a desvalorização em aproximadamente 40% do dólar em relação ao iene e outras moedas fortes, que desvalorizou na mesma proporção as reservas em divisa de todos os países superavitários no comércio com os Estados Unidos. Caminhamos, assim, para uma desinflação e uma depressão extremamente séria, que vem se configurando desde o início de 1990, devendo prolongar-se até 1994-95, que exigirá um ajuste de contas definitivo do sistema capitalista mundial com a fase depressiva do ciclo longo iniciado em 1967. As políticas econômicas terão que realizar estes reajustes para permitir uma recuperação capitalista de longo prazo, que só poderá ser alcançada a partir da desinflação, da quebra maciça da atual estrutura de especulação financeira, e da drástica reestruturação das estruturas produtivas tradicionais, criando assim as condições de sua transferência para os países periféricos e para a renovação tecnológica dos países centrais, que deverão voltar-se para as novas tecnologias. A partir deste ponto, faz-se necessária uma incursão nas novas direções da revolução científico-técnica, nas suas repercussões sobre a economia internacional e sobre a nova divisão internacional do trabalho. O avanço dos estudos sobre a relação das novas tecnologias com o ciclo longo e os períodos de ascenso, ou fase a dos ciclos longos de Kondratiev, têm sido objeto de um grande avanço nos últimos vinte anos, que se concentrou nos trabalhos que já citamos, além dos quais, gostaria de mencionar aqui o grupo que trabalhou comigo no 'Seminário de Ciência e Tecnologia', bem como nos vários estudos que produzimos. Ainda na América Latina, uma especial atenção deve ser dada ao estudo sobre 'As Novas Tecnologias e o Futuro da América Latina', dirigido por Amílcar Herrera, do qual participei, com outros cientistas sociais
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latino-americanos, nas discussões da sua orientação geral, e também na pesquisa junto com Leonel Corona. De outra parte, há também os estudos europeus, particularmente do grupo do SPRU e do FAST, extremamente interessantes na produção de conhecimento efetivo sobre o funcionamento das economias diante das ondas longas. Da mesma forma, o estudo do Tecnology Economical Programme (TEP) da OECD, assim como vários outros trabalhos de grande interesse também produzidos pelo seu Centro de Estudos do Desenvolvimento. Ainda dentro desta linha, há que se considerar os estudos do Fernand Braudel Center, na State University of New York, em Binghampton, EUA. Isto sem olvidar o estudo de Marshall sobre os ciclos, que o leva, posteriormente, a assimilar a idéia dos ciclos longos (apesar de não ter partido da hipótese dos ciclos longos). A obra de Mandel continuou sobre este tema, porém não dispôs dos recursos para formar um grupo de pesquisa. De tal forma que temos aí um conjunto de estudos que levam a uma visão bastante consolidada sobre o papel das inovações no funcionamento da economia mundial, e particularmente a sua articulação com as ondas longas. O aparelho conceitual que vem sendo desenvolvido neste sentido consta de alguns elementos-chave que vou desenvolver em seguida, para aplicar parte desse aparelho à análise histórica, relacionando a evolução da economia mundial ao fenômeno da dependência econômica, particularmente o caso das novas economias industriais. Com isto tentarei demonstrar até que ponto há uma confluência entre os esforços que estavam na origem da problemática da teoria da dependência, da qual participamos, e os esforços posteriores por uma teoria do sistema mundial e das ondas longas, que vão nos conduzindo a conclusões comuns que devem ser objeto de uma articulação nesta oportunidade. Inegavelmente, o conceito que mais permitiu avançar na articulação entre o comportamento das ondas longas e o papel da tecnologia foi o de paradigmas tecnológicos, desenvolvido pelo grupo de Christopher Freeman no SPRU. Este conceito procura mostrar que nos vários períodos históricos há uma mudança na maneira como se articulam os elementos fundamentais da pesquisa e desenvolvimento, das inovações, que criam estruturas setoriais, comportamentos do sistema produtivo e relações de trabalho específicas e, portanto, processos gerenciais e de organização das firmas e do sistema institucional no seu conjunto. Isto relaciona muito diretamente, então, o desenvolvimento tecnológico com o conjunto do sistema econômico, social, político e ideológico. Esta capacidade crescente de estabelecer estas relações são aceitas inclusive como elemento-chave para as políticas econômicas contemporâneas pelos ministros da OSCD, orientando assim um programa de pesquisa sobre Technology Economical Program (TEP), que faz uma tentativa de análise complexa desses fenômenos em 1991.

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O primeiro elemento é essa idéia de que a inovação é um processo interativo. Com o desenvolvimento dos modelos interativos na teoria econômico nos últimos anos para poder captar este processo, ligou-se as pressões na demanda com as pressões tecnológicas (ou oportunidades da oferta) gerando conceitos que permitiram ligações entre a ciência e a tecnologia. Com isto, muitas das tecnologias-chave contemporâneas, que avançam num campo genérico, podem ser integradas dentro das decisões econômicas a nível de empresa. Podemos descrever cada vez mais este processo interativo que está por trás da produção de novos produtos, de novos processos, e que exige estruturas organizacionais e mecanismos que assegurem uma interação mais apropriada e um feedback entre as várias instituições, através dos sistemas nacionais de inovação. Estes sistemas são extremamente decisivos, apesar de que a colaboração entre Estados e entre empresas de vários países avançou muito na década de 80, gerando fenômenos novos e uma espécie de sistema internacional (não podemos falar ainda de um sistema mundial, mas de um sistema internacional de pesquisa e desenvolvimento e de inovação, na medida em que as redes de inovações se deslocam dos planos nacionais para o plano internacional). Também no plano da relação entre ciência e tecnologia, vão-se desenvolvendo estudos sobre as ciências de transferência, que permitem os mecanismos de interface entre o conhecimento básico científico e a solução de problemas concretos e necessidades sociais concretas que exigem soluções tecnológicas, que são específicas e práticas, ao contrário do conhecimento científico, que tende a ser fundamental e abstrato. A relação entre universidade e empresa tem sido um dos elementos mais importantes para este processo, apesar de nos últimos anos o desenvolvimento de centros de pesquisa básica dentro das próprias empresas começar também a gerar uma realidade totalmente nova de ligação entre a evolução da empresa e a evolução da ciência contemporânea. E isto é o resultado da revolução científico-técnica. A ciência tende a ser, cada vez mais, uma força produtiva e um elemento-chave na solução dos problemas concretos da produção. Isso nos leva a aceitar a idéia de uma acumulação como fundamento da história da Humanidade. A capacidade de acumular conhecimento é, seguramente, o elemento-chave para dominar o conhecimento científico e o desenvolvimento tecnológico e para o estabelecimento de hegemonias dentro da economia mundial. Mas o que os estudos vêm demonstrando é que, ao lado destes conhecimentos gerais, desta combatividade no plano mais global, existem instrumentos mais concretos que favorecem o processo de inovação e de difusão, que estão ligados ao conhecimento, à aprendizagem, através de processos que incluem aprender fazendo, aumentando a eficiência das operações de produção; aprender usando, o que aumenta a eficiência do uso de sistemas complexos; aprender interagindo, que envolve o uso e a produção interativa, que é o resultado das inovações.

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Nessa idéia de um paradigma tecnológico, vemos também que há certas tecnologias que ocupam uma posição genérica, atuando sobre o conjunto de setores econômicos. São elas que garantem o avanço tecnológico no seu conjunto, e as conseqüências em termos de poder econômico, de funcionamento e de mudanças estruturais do sistema. São estas tecnologias que alguns autores chamam de ponta. Portanto, há uma conotação de estar na frente, o que mais corretamente deveríamos chamar como tecnologias-chave, interativas e genéricas, cujo aprendizado leva ao domínio de vários setores econômicos, permitindo aplicá-la sobre outros setores, havendo assim uma generalização do processo de inovação. Aqui temos um aspecto extremamente significativo: quanto mais as inovações são socialmente geradas como produto de pesquisa e desenvolvimento de várias instituições, mais difícil fica a apropriação dos conhecimentos gerados por ela e a apropriação das inovações criadas pela aplicação dos conhecimentos em função das demandas propostas pela sociedade. Isso tem duas conseqüências que pesam sobre os paradigmas tecnológicos, no sentido de conduzir, de um lado, a uma necessidade crescente de interação entre os centros de pesquisa e desenvolvimento e as empresas interessadas nas inovações, e, de outro lado, uma dificuldade crescente de privatizar o conteúdo social destas inovações, exigindo comportamentos restritivos de difusão cada vez mais difíceis de serem gerenciados. Os efeitos das mudanças de paradigmas também são muito fortes quando tomamos em consideração a necessidade de mudanças organizacionais. Ao mesmo tempo, podemos distinguir o conceito de trajetórias tecnológicas que ligam a idéia da mudança tecnológica ao processo social que vinculam as tecnologias usadas com seus potenciais de aplicação diferentes, e a seleção dos quais depende de um grande campo de fatores econômicos como preços relativos, os custos sobre a renda, os valores sociais, o que nos leva inclusive a uma conclusão bastante importante, citando-a do Background Concluding to Technology Economical Program, onde se afirma que: "A noção de taxas crescentes de adoção de novas tecnologias expressa o fato de que as tecnologias podem, de fato, não tanto ser selecionadas de acordo com a sua eficiência superior, mas, ao contrário, tornarem-se eficientes porque foram selecionadas." E selecionadas pelos atores sociais de acordo com interesses que são culturais e que estão vinculados ao processo civilizatório no seu conjunto. Temos que concordar então com estes autores quando afirmam que o progresso tecnológico não é uma questão de inovação e difusão, mas sim de aceitação social. É claro que a ação das empresas e dos interesses econômicos pode tentar deter a aceitação social de certos produtos e orientar a sociedade através dos instrumentos
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da publicidade, mas a verdade é que, em última instância, serão os fatores sociais globais que determinarão a tendência à adoção de tal ou tal tecnologia. A questão do meio ambiente começa a influenciar seriamente a idéia das novas tecnologias e a direção do processo de inovação. A crescente consciência da relação entre as tecnologias e os ecossistemas leva a uma mudança na maneira de considerar o uso de certas inovações e nas direções que a sociedade tende a orientar o fenômeno da produção de novas tecnologias. Isto nos mostra também como esses fenômenos estão cada vez mais sob o impacto de grandes processos de transformação social, que estão reorientando muitas decisões do sistema gerencial das empresas. E aqui, muito particularmente, na formação da visão destes paradigmas. Há de incorporar-se, então, o papel da pesquisa e desenvolvimento, da pesquisa de longo termo, da educação e da infra-estrutura de telecomunicações, que asseguram o funcionamento das novas tecnologias, com implicações também sobre o investimento tanto tangível quanto intangível (incluindo este crescente papel dos investimentos intangíveis, que trazem realidade nova para a relação entre a evolução e a organização da sociedade). Não deixa de ser importante retomar o problema da relação entre tecnologia e o crescimento posto que há um período histórico em que a questão da eficiência da tecnologia para gerar crescimento econômico, assumiu um caráter muito determinante, particularmente no século XIX até metade do século XX, associada ao desenvolvimento da produção em massa, onde o aspecto quantitativo ganhou uma dimensão muito determinante sobre o conjunto do modelo de funcionamento econômico, e, portanto, o paradigma tecnológico existente. O avanço da globalização transforma esse sistema tecnológico num sistema cada vez mais planetário, onde a relação entre os centros de produção da ciência e tecnologia, de produção de inovações e a sua difusão para o resto do mundo, está relacionado com um sistema econômico mundial. Este conjunto de instrumentais teóricos nos leva a repensar o papel das novas tecnologias na sociedade contemporânea, onde as novas estratégias de desenvolvimento, baseadas em estratégias sócio-econômicas e em uma visão cultural do espaço social. No período contemporâneo o que assistimos é o aparecimento de novas tecnologias, que na fase final que estamos vivendo, da fase b de Kondratiev, poderão ser absorvidas para um novo período de crescimento econômico. Como já assinalamos, as características principais dessas novas tecnologias são dadas pelo sistema produtivo, que se fundamenta cada vez mais na automação. Esta automação é resultado da aplicação da informática e da eletrônica ao sistema produtivo contemporâneo, que vai liberando este sistema da ação do trabalhador direto, que vai sendo substituído pelos sistemas complexos de produção automatizados, onde a ajuda da robotização tem representado também um papel cada vez mais decisivo. Como são os novos materiais que vão sendo incorporados e permitindo uma organização da produção cada vez mais em termos de
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uma produção mais voltada para os princípios da química do que propriamente mecânicos, o que fortalece as possibilidades da automação ao criar modelos e produtos cada vez mais focados para demandas específicas. É assim também que, neste contexto das novas tecnologias, coloca-se o papel da biotecnologia. Ela rompe os marcos de produção tradicionais, não só da agricultura, como da indústria alimentícia e farmacêutica, produzindo mudanças significativas nas condições biológicas da humanidade, podendo até ser aplicada no campo da criação de materiais novos. O avanço da biotecnologia representa uma potencialidade que os países do Terceiro Mundo, particularmente os países das zonas tropicais, poderiam seguramente explorar. O exemplo de Cuba é muito significativo nesse sentido, onde uma política científica, uma orientação firme e muito poucos recursos, além de um bloqueio internacional muito sério, vem permitindo conquistas importantes e inovações significativas no plano dessas biotecnologias. Também o Brasil apresenta na sua política do pró-álcool a demonstração das grandes potencialidades da biomassa, que poderão se desenvolver muito com o avanço da biotecnologia, indicando assim que nosso país pode dar saltos revolucionários para a configuração de um novo paradigma tecnológico do mundo. Por fim, não devemos deixar de considerar o complexo eletrônico e microeletrônico. Ele é a base material para o avanço da informática e para o avanço da ação mais complexa e mais sistêmica, baseada no alto nível de informação, que representa um dos aspectos centrais do novo paradigma que está sendo desenvolvido nas décadas de 70 e 80. Ele servirá também como base para o avanço científico-tecnológico e para um novo período de investimentos e crescimento econômico, que deve trazer uma nova fase a do ciclo de Kondratiev. Neste plano, nos cabe assinalar que, ao lado do hardware promovido pela microeletrônica, está sobretudo o software ligado às matemáticas, à teoria do sistema, à teoria do caos, à matemática louca e novos campos teóricos ligados à inteligência artificial. Isto mostra que o campo propriamente científico e a evolução do conhecimento científico em si mesmo devem constituir os elementos-chave do novo paradigma tecnológico. Também aí podemos encontrar um campo muito interessante para a superação do povos do Terceiro Mundo, pois os investimentos em educação e em transformação educacional podem ser feitos por nações novas na estrutura econômica mundial, que saibam aproveitar ao máximo as suas capacidades através de programas educacionais ambiciosos, como fizeram os coreanos e os japoneses, se bem que não estiveram nessa condição de subdesenvolvimento. Aliás, por isso mesmo estão diante de um dos pontos mais dramáticos da condição dependente ou subdesenvolvida, porque uma política deste tipo supõe uma elite política extremamente consciente, voltada para a distribuição da renda, para a criação de uma sociedade e uma cultura novas, com conteúdo extremamente cooperativo,
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coletivizante. E essa visão coletivizante deve, ao mesmo tempo, estar apoiada sobre o uso da coletividade e a colocação da coletividade a serviço dos indivíduos. Desenvolvimento é, então, cada vez mais, neste contexto, um fato cultural, social, político e só nessa proporção e nessa medida um fato econômico.

B I B L I O G R A F I A

Abdel-Malek, Anouar (1987) "World Crises as World Transformation", Newbury Park, Bevery Hills, London and New Delhi.Review, Sage Publications. Academia de Ciências de la URSS La Revolución Tecnocientífica: Aspectos y

Perspectivas Sociales, Editorial Progreso, Moscú, s/data. Amin, Samir (1987) "A Note on the Concept of Delinking", Newbury Park, Bevery Hills, London, and New Delhi: Review, Sage Publications. Amin, Samir; Arrighi Giovanni; Frank, André Gunder e Wallerstein Immanuel (1991) Le Grand Tumulte? Les Mouvements Sociaux dans l'Economie-Monde, Paris: Éditions La Découverte. Arrighi, Giovanni et Alli (1987) "The Liberation of Class Strugle?", New Bury Park, Bevery Hills, London, New Delhi: Review, VolumeX, Number 3, Winter. Barr, Kenneth (1979) "Long Waves : A Seletive Annoted Bibliography" Bevery Hills and London: Review, Volume 2, Number 4, Spring, Sage Publications. Beaud, Michel (1987) "The Crises of Development in the Light of Economic-System Analysis", Newbury Park, Bevery Hills, London, and New Delhi: Review, Sage Publications, Winter. Bousquet, Nicole (1979) Esquisse d'une Théorie de l'Alternance de Périodes de Concurrence et d'Hegemonie au Centre de l'Economie Monde Capitaliste, Bevery Hills and London: Review, Volume 2, Number 4, Spring, Sage Publications. Braudel, Fernand (1979) "A Model for the Analisys of the Decline of Italy", Bevery Hills and London: Review, Volume 2, n. 4, Spring, Sage Publications.
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Subcommittee on Economic Stabilization del U.S Joint Commitee on the Economic Report (1955) Automation and Technical Change. Subcommitee on Economic Stabilization del U.S Joint Commitee on the Economic Report (1956) Instrumentation and Automation. Subcommitee on Economic Stabilization del U.S Joint Commitee on the Economic Report (1957) Automation and Recent Trends. Subcommitee on Automation and Energy Resources (1960) New Views on Automations. Sweezy P. e Baran P. ( 1968) El Capital Monopolista, Siglo XXI Timberger and J.J.Polak (1950) The Dinamics of Business Cycles, Chicago. Timberger J. (1981) "Kondratiev Cycles and So-Called Long Waves: The Early Research.", pp. 13-18. USA (1976) Forging America's Future, Washington: U.S. Government Printing Office. Van der Wee, Herman (1986) Prosperidad y Crisis - Reconstrucción, Crecimiento y Cambio: 1945- 1980. Barcelona : Grijalbo. Van Duijin (1977) The Long wave in Economic Life, London, Allen and Unwin Van Duijin (1980) Chapter 20 in Knipers, K.S. and Lanjown (Eds.) Prospects of Economic Growth, Amsterdan: North Holand, p.p. 223-233. Van Duijin (1983) The Long Wave in Economic Live, London , Allen and Unwin. Wells Jr., Louis T. (1991) Conflict or Indifference: Global Strategies of American Multinationals in a World of Regional Trading Blocks. Woronoff, Jon (1986) Asia's "Miracle" Economies, Tokyo: Yohan Publication World Bank (1992) Global Economic Prospects and the Developing Countries, Washington Wallerstein, Immanuel (1979) "Kondratieff Up or Kondratieff Down ?" Bevery Hills and London: Review, Volume 2, Number 4, Spring, Sage Publications. World Bank (1991) Global Economic Prospects and Developing Countries, Washington

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