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CONTOS

DE
Somerset Maugham
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Composição, impressão e acabamento


Estúdios Edium Editores
1.ª Edição – Dezembro 2004
ISBN 972-8900-31-7

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►D.Source

Chuva
O lar
O Dr. Sabe-tudo
O barco da ira
O impulso criativo
Vermelho
A força das circunstâncias
Chuva

Era quase horas de ir para a cama, e quando eles acordassem na


manhã seguinte já haveria terra à vista. O Dr. Macphail acendeu o
cachimbo e, apoiando-se na amurada, perscrutou o céu à procura do
Cruzeiro do Sul. Depois de dois anos na frente de batalha e de um
ferimento que tinha levado mais tempo a sarar do que devia, sentia-se
satisfeito por ir assentar calmamente em Apia durante pelo menos doze
meses, e já se sentia melhor para a viagem. Como alguns dos passageiros
desembarcavam no dia seguinte em Pago-Pago, tinha havido um pequeno
baile naquela noite, e as notas ásperas do piano mecânico ainda lhe
martelavam nos ouvidos. Mas o convés estava finalmente em sossego. A
uma pequena distância, viu a mulher numa cadeira de convés, a conversar
com os Davidsons, e dirigiu-se para lá. Quando se sentou sob a luz e tirou
o chapéu, deixou ver um cabelo muito ruivo, com uma coroa no topo, e
aquela pele rosada e sardenta que normalmente acompanha o cabelo ruivo;
era um homem de uns quarenta anos, magro, com uma cara chupada,
exigente e bastante afetado; e falava com sotaque escocês num tom baixo
e calmo.
Entre os Macphails e os Davidsons, que eram missionários, nascera
aquela intimidade de companheiros de viagem, devido mais à proximidade
do que a qualquer identidade de gostos. O que mais os ligava era a
condenação, que partilhavam, dos homens que passavam os dias e noites
na sala de fumar a jogar poquer ou bridge, e a beber. A Senhora Macphail
sentia-se particularmente lisonjeada ao pensar que ela e o marido eram as
únicas pessoas a bordo com quem os Davidsons gostavam de conviver, e
mesmo o médico, tímido mas não tolo, reconhecia meio
inconscientemente aquela amabilidade. Apenas o seu espírito crítico o
levava, à noite, no beliche, a fazer certos comentários malévolos.
—A Senhora Davidson estava a dizer que não sabia como é que eles
conseguiriam suportar aquela viagem se não fôssemos nós. disse a
Senhora Macphail, enquanto escovava cuidadosamente a peruca.
—Ela disse que nós fomos realmente as únicas pessoas do barco que
eles gostaram de conhecer.
—Nunca pensei que um missionário fosse uma pessoa tão
importante para se mostrar dessa maneira.
—Não é mostrar. Percebo perfeitamente o que ela quer dizer. Não
teria sido muito agradável para os Davidsons terem de se misturar com
todo aquele grupo tão grosseiro na sala de fumar.
—O fundador da religião deles não era tão seletivo,— disse o Dr.
Macphail com um riso abafado.
—Já te pedi muitas vezes para não brincar com a religião. respondeu
a mulher.
—Eu não gostaria de ser como você, Alec. Nunca procura o melhor
das pessoas.
Ele olhou-a de soslaio, com os seus olhos azuis, e não respondeu.
Depois de muitos anos de vida de casado, já aprendera que o melhor
caminho para a paz era deixar à mulher a última palavra. Despiu-se
primeiro do que ela e, depois de subir para a cama de cima, acomodou-se
para a sua habitual leitura até adormecer.
Quando chegou ao convés, na manhã seguinte, estavam já muito
próximos de terra. Olhou-a cobiçosamente. Via-se uma estreita faixa de
praia prateada que subia íngreme para as colinas cobertas até acima de
vegetação luxuriante. Os coqueiros, espessos e verdes, vinham quase até à
beira-mar, e no meio deles viam-se as casas de bambu dos Samoanos; e
aqui e ali, a brancura reluzente de uma pequena igreja. A Senhora
Davidson veio também e ficou a seu lado. Estava vestida de preto e trazia
ao pescoço uma corrente de ouro, de onde pendia uma cruz. Era uma
mulher pequena, de cabelo castanho baço arranjado de uma maneira muito
elaborada, e tinha uns olhos azuis salientes por detrás de umas lunetas
quase invisíveis. Tinha um rosto comprido, como o das ovelhas, mas que
não deixava uma impressão de tolice, mas antes de vivacidade; tinha os
movimentos rápidos dos pássaros. A coisa mais notável nela era a voz,
alta, metálica, e sem inflexões; caía no ouvido com uma monotonia áspera,
irritante, como o zumbido impiedoso de uma broca pneumática.
—Isto, para os senhores, deve ser quase como estar em casa,— disse
o Dr. Macphail com o seu sorriso fino e difícil.
—As nossas são ilhas baixas, sabe, não são como estas. São de coral.
Estas são vulcânicas. Ainda temos mais dez dias de viagem até lá chegar.
—Por estas partes, isso é quase como estar na rua a seguir à nossa
casa,— disse o Dr. Macphail gracejando.
—Bem, isso é uma maneira um tanto exagerada de pôr as coisas,
mas, realmente, nos Mares do Sul as distâncias encaram-se de uma
maneira diferente. Nesse ponto, tem razão.
O Dr. Macphail suspirou levemente.
—Ainda bem que não estamos destacados aqui,— continuou ela. —
Dizem que é um lugar difícil para trabalhar. O contacto com os barcos cria
uma certa agitação nas pessoas; e depois há o posto naval; e isso é mau
para os indígenas. No nosso distrito não temos estas dificuldades com que
lutar. Há um ou dois comerciantes, claro, mas nós tratamos de fazer com
que se comportem decentemente, e se não o fazem, nós tornamo-lhes as
coisas tão difíceis que eles acabam por querer ir embora.
Ajustou os óculos e fixou a ilha verde com um olhar impiedoso.
—É quase desesperada a tarefa dos missionários aqui. Nunca poderei
agradecer a Deus o bastante por, pelo menos, termos sido poupados a isto.
O distrito de Davidson consistia de um grupo de ilhas ao norte da
Samoa; eram muito distantes umas das outras e ele tinha de viajar muitas
vezes longas distâncias de canoa. Nessas alturas a mulher ficava na sede e
dirigia a missão. O Dr. Macphail sentiu um calafrio ao pensar na eficiência
com que ela certamente a dirigia. Ela falava da depravação dos indígenas
num tom que nada conseguia calar, mas com um horror veementemente
melífluo. O seu sentido de pudor era muito singular. Ainda no início da
sua relação, ela tinha-lhe dito:
—Sabe que os costumes dos casamentos na ilha, quando nós viemos
para cá, eram de tal maneira chocantes que eu seria incapaz de os
descrever. Mas eu vou contar à Senhora Macphail e ela depois lhe conta.
Mais tarde ele vira a sua mulher e a Senhora Davidson, com as
cadeiras de convés muito juntas, numa conversa muito séria que durou
cerca de duas horas. Enquanto passeava de um lado para o outro para fazer
exercícios, ouvira os sussurros agitados da Senhora Davidson, como o
murmúrio de uma cascata distante, e, pela boca aberta e palidez da sua
mulher, viu que ela estava a apreciar uma experiência alarmante. À noite,
no beliche, ela repetiu-lhe, de respiração suspensa, tudo o que tinha
ouvido.
—Então, o que é que eu lhe disse?— exclamou a Senhora Davidson
exultante, na manhã seguinte. —Alguma vez ouviu coisa mais medonha?
Com certeza que não ficou admirado de eu não ter podido contar-lhe, não
é? Mesmo sendo o senhor médico.
A Senhora Davidson perscrutou-lhe a expressão. Ela tinha uma
avidez dramática em verificar se tinha conseguido o efeito desejado.
—Acha que é de admirar que tenhamos ficado desalentados quando
para lá fomos a primeira vez? Com certeza não vai acreditar em mim se eu
lhe disser que era impossível encontrar uma única boa moça em qualquer
das aldeias.
Ela usou a palavra boa no sentido rigorosamente técnico.
—Eu e o Senhor Davidson falamos sobre o assunto e decidimos que
a primeira coisa a fazer era acabar com a dança. Os indígenas eram doidos
pela dança.
—Eu próprio também não desgostava quando era novo,— disse o
Dr. Macphail.
—Eu calculei isso mesmo quando o ouvi pedir à Senhora Macphail,
a noite passada, para dar uma voltinha consigo. Parece-me que não há
qualquer mal em um homem dançar com a sua mulher, mas fiquei aliviada
quando ela recusou. Naquelas circunstâncias pensei que seria melhor
mantermos uma certa reserva.
— Quais circunstâncias?
A Senhora Davidson lançou-lhe um olhar rápido através das lunetas,
mas não respondeu à pergunta.
—Mas entre os brancos não é bem a mesma coisa, — continuou ela,
— embora deva dizer que concordo com o Senhor Davidson, que diz que
não consegue compreender como é que um marido pode ficar a ver a
mulher nos braços de outro homem, e pelo que me diz respeito, desde que
casei, nunca mais dei um passo de dança sequer. Mas a dança indígena é
uma coisa completamente diferente. Não só é imoral em si própria, mas
leva também claramente à imoralidade. Contudo, agradeço a Deus o fato
de termos acabado com ela, e creio não estar enganada se disser que já
ninguém dança no nosso distrito há oito anos.
Mas nessa altura tinham chegado à entrada do porto e a Senhora
Macphail juntou-se a eles. O barco virou bruscamente e entrou devagar.
Era um porto grande, rodeado de terra, com espaço suficiente para acolher
uma esquadra de barcos de guerra; e a toda a volta erguiam-se colinas
verdes, altas e escarpadas. Próximo da entrada, batida pela brisa que
soprava do mar, ficava a casa do governador, dentro de um jardim. A
bandeira americana pendia languidamente dum mastro. Passaram por dois
ou três bangalôs bem arranjados e um campo de tênis, e depois chegaram
ao cais, com os seus armazéns. A Senhora Davidson apontou para a
escuna ancorada a duzentos ou trezentos metros ao lado, e que os havia de
levar até Apia. Havia uma multidão de indígenas ávidos, barulhentos e
bem dispostos vindos de todas as partes da ilha, uns por curiosidade,
outros para trocar gêneros com os passageiros em trânsito para Sidney; e
traziam ananases e grandes cachos de bananas, tecidos exóticos, colares de
conchas ou dentes de tubarão, potes de kava e miniaturas de canoas de
guerra. Os marinheiros americanos, limpos e bem arranjados, barbeados e
de expressão franca, deambulavam entre eles, e via-se um pequeno grupo
de funcionários. Enquanto as bagagens eram levadas para terra, os
Macphails e a Senhora Davidson observavam a multidão. O Dr. Macphail
olhava para as marcas de framboesa de que a maioria das crianças e
rapazes parecia sofrer, chagas que desfiguram, como úlceras latentes, e o
seu olhar profissional brilhou quando viu pela primeira vez na sua
experiência casos de elefantíase, homens a andar por ali com um braço
enorme e pesado ou a arrastar uma perna grosseiramente desfigurada.
Homens e mulheres usavam o lava-lava.
—É um vestuário perfeitamente indecente. disse a Senhora
Davidson. —O Senhor Davidson acha que devia ser proibido por lei.
Como é que se pode esperar que as pessoas se comportem moralmente
quando, como vestuário, apenas trazem uma tira de algodão vermelho à
volta das ancas?
—Está muito bem para o clima. - disse o médico, enquanto limpava
o suor da testa.
Agora, que estavam em terra, embora ainda fosse de manhã cedo, o
calor já era opressivo. Fechada no meio das colinas, nem uma ligeira brisa
chegava a Pago-Pago.
—Nas nossas ilhas,— continuou a Senhora Davidson no seu tom
esganiçado, —praticamente erradicamos o lava-lava. Só alguns velhos
ainda continuam a usá-lo. Todas as mulheres começaram a usar o Mother
Hubbard, e os homens usam calças e camiseta interior. No princípio da
nossa estadia o Senhor Davidson escreveu num dos seus relatórios: os
habitantes destas ilhas nunca poderão ser completamente cristianizados
enquanto todos os rapazes de mais de dez anos não forem obrigados a usar
calças.
Mas a Senhora Davidson tinha lançado dois ou três olhares rápidos
às densas nuvens cinzentas que pairavam sobre a entrada do porto.
Começaram a cair alguns pingos.
—Era melhor abrigarmo-nos. - disse ela.
Dirigiram-se com toda aquela gente para um grande telheiro de
chapas de ferro onduladas, e a chuva começou a cair torrencialmente.
Ficaram ali durante algum tempo, e depois o Senhor Davidson juntou-se a
eles. Durante a viagem ele fora bastante amável para com os Macphails,
mas não era tão sociável como a mulher, e passara muito do seu tempo a
ler. Era um homem calado, bastante taciturno, e ficava-se com a impressão
de que a sua afabilidade era um dever que ele se impunha cristãmente a si
próprio; era reservado e mesmo insociável por natureza. Tinha uma
aparência invulgar. Era muito alto e magro, com braços e pernas
compridos e soltos; faces cavadas e malares curiosamente salientes; tinha
um ar tão escaveirado que os lábios grossos nos surpreendiam pela sua
sensualidade. Usava o cabelo muito comprido. Os olhos escuros, fundos
nas órbitas, eram grandes e trágicos; e as mãos, com dedos grossos e
compridos, tinham um aspecto fino; davam-lhe um ar de grande força.
Mas o mais notável nele era a impressão que nos deixava de um fogo
reprimido. Era impressivo e vagamente perturbador. Não era homem com
quem fosse possível qualquer intimidade.
Trazia agora más notícias. Havia na ilha uma epidemia de sarampo,
uma doença grave e muitas vezes mortal entre os Kanakas, e tinha-se
detectado um caso entre a tripulação da escuna que os havia de
transportar. O doente tinha sido trazido para terra e levado para o hospital,
onde ficou no posto de quarentena, mas tinham vindo instruções
telegráficas de Apia no sentido de que a escuna não seria autorizada a
entrar no porto até que houvesse a certeza de que nenhum outro membro
da tripulação estava contaminado.
—Isto significa que teremos de ficar aqui pelo menos dez dias.
—Mas a minha presença é necessária urgentemente em Apia, —
disse o Dr. Macphail.
—Não há nada a fazer. Se não forem detectados mais casos a bordo,
a escuna será autorizada a partir com os passageiros brancos, mas todo o
trânsito de indígenas está proibido durante três meses.
—Há aqui algum hotel? - perguntou a Senhora Macphail.
Davidson deu uma gargalhada abafada.
—Não, não há.
—Então o que é que vamos fazer?
—Estive a falar com o governador. Há um comerciante aí na
esplanada que tem quartos para alugar, e eu proponho que, mal a chuva
pare, vamos lá ver o que podemos fazer. Não esperem conforto. Temos é
que ficar muito gratos se conseguirmos uma cama para dormir e um teto
para nos abrigar.
Mas a chuva não mostrava sinais de parar, e por fim, com guarda-
chuvas e impermeáveis, puseram-se a caminho. Não havia propriamente
uma cidade, mas apenas um grupo de edifícios oficiais, uma ou duas lojas
e, atrás, por entre coqueiros e bananeiras, algumas habitações indígenas. A
casa que procuravam ficava a cerca de cinco minutos, a pé, do
embarcadouro. Era uma casa de madeira, de dois andares, com grandes
varandas em ambos, e telhado de chapas de zinco onduladas. O dono era
um mestiço chamado Horn, com um mulher indígena rodeada de
criancinhas morenas, e no térreo tinha uma loja onde vendia enlatados e
tecidos de algodão. Os quartos que lhes mostrou quase não tinham
mobília. O dos Macphails não tinha nada a não ser uma reles cama, já
muito velha, com um mosquiteiro esfarrapado, uma cadeira
desconjuntada, e um lavatório. Olharam à volta desanimados. A chuva
torrencial caía sem cessar.
—Só vou tirar das malas aquilo de que realmente precisarmos. -
disse a Senhora Macphail.
A Senhora Davidson entrou no quarto quando ela estava a abrir uma
mala. Estava muito animada e vivaz. O ambiente sombrio não a afetou.
—Se quer um conselho, pegue numa agulha e num bocado de tecido
de algodão e comece já a remendar o mosquiteiro,— disse ela, —senão
não vão conseguir pregar olho esta noite.
—Os mosquitos vão incomodar muito? - perguntou o Dr. Macphail.
—Estamos na época deles. Quando os senhores forem convidados
para uma festa no Palácio do Governo, em Apia, vão reparar que eles
distribuem a todas as senhoras uma fronha para elas meterem as… os
membros inferiores lá dentro.
—Se a chuva ao menos parasse um pouco,— disse a Senhora
Macphail. —Com sol eu teria mais ânimo para tentar dar a este quarto um
ar mais confortável.
—Oh, se a senhora está a contar com isso, bem pode esperar. Pago-
Pago é dos lugares mais chuvosos do Pacífico. Está a ver, as colinas, e
aquela baía, elas atraem a água, e, aliás, a chuva já é de esperar nesta
altura do ano.
Ela correu o olhar de Macphail para a mulher, um em cada canto,
desamparados, como almas perdidas, e apertou os lábios. Viu que tinha de
os ajudar. Pessoas assim débeis impacientavam-na, mas uma espécie de
comichão nas mãos impelia-a a pôr tudo em ordem, o que era em si uma
coisa natural.
—Ora, arranje-me uma agulha e tecido de algodão e eu remendo esse
vosso mosquiteiro, enquanto a senhora continua a tirar as coisas das
malas. O almoço é à uma. Dr. Macphail, era melhor o senhor ir até ao
embarcadouro ver se eles puseram as malas grandes em lugar seco. O
senhor sabe como são estes indígenas, são muito bem capazes de as ter
posto num lugar onde apanham chuva a toda a hora.
O médico vestiu o impermeável outra vez e desceu as escadas. À
porta estava o Senhor Horn a conversar com o contramestre do barco em
que tinham vindo e com uma passageira da segunda classe que o Dr.
Macphail tinha visto várias vezes a bordo. O contramestre, um homem
baixo, enrugado, extremamente sujo, baixou-lhe a cabeça quando ele
passou.
—Coisa feia, esta do sarampo, Doutor,— disse ele. —Já vi que os
senhores já se instalaram.
O Dr. Macphail achou muita familiaridade da parte do homem, mas
como era um tímido, não se ofendia facilmente.
—Sim, arranjamos um quarto lá em cima, no primeiro andar.
—A Senhorita Thompson ia viajar com os senhores para Apia, por
isso trouxe-a para aqui.
O contramestre apontou com o polegar a mulher que estava a seu
lado. Tinha talvez vinte e sete anos, roliça, e de uma beleza grosseira.
Trazia um vestido branco e um grande chapéu, também branco. As
barrigas das pernas, gordas, dentro de meias brancas de algodão, saíam-lhe
do topo das botas altas brancas, de pelica envernizada. Sorriu a Macphail
de maneira insinuante.
—Este sujeito quer me levar dólar e meio por dia por esta
espelunca,— disse ela em voz rouca.
—Já lhe disse que ela é uma amiga minha, Jô,— disse o
contramestre. —Ela não pode pagar mais do que um dólar e você tem de a
deixar ficar por isso.
O comerciante era gordo e sorria calmamente.
—Bem, se o Senhor põe a questão nesse pé, Senhor Swan, vou ver o
que posso fazer. Vou falar com a Senhora Horn e se nós virmos que
podemos fazer um desconto, fazemos.
—Não me venha com essa conversa fiada,— disse a Senhorita
Thompson. —Vamos resolver isto já. Você vai arrecadar um dólar por dia
pelo quarto e nem mais um tostão.
O Dr. Macphail sorriu. Admirava o desaforo com que ela negociava.
Ele era o tipo de pessoa que pagava sempre o que lhe pediam. Preferia
pagar mais do que o devido a regatear. O comerciante suspirou.
—Bem, para ser agradável ao Senhor Swan, aceito.
—Assim é que é,— disse a Senhorita Thompson. —Entre e venha
daí beber um whisky. Tenho uma boa pinga de centeio naquela mala, se o
Senhor a trouxer, Senhor Swan. Venha também, Doutor.
—Oh, obrigado, mas não posso, — respondeu ele. —Vou só ali
embaixo ver se a nossa bagagem está bem.
Saiu para a chuva, que vinha varrida desde a entrada do porto, em
lençóis de água, e a costa do lado oposto estava toda enevoada. Passou por
dois ou três indígenas vestidos apenas com o lava-lava e guarda-chuvas
enormes a cobri-los. Caminhavam com elegância, com movimentos
calmos, muito direitos; e, quando ele passou, sorriram e cumprimentaram-
no numa língua desconhecida.
Era quase horas de almoço quando regressou, e a mesa foi posta na
sala de estar do comerciante. Aquela sala não se destinava a utilização
diária, mas apenas a ocasiões especiais, e tinha um ar bafento e triste.
Havia um conjunto de cortinas de pelúcia estampada dispostas
ordenadamente à volta das paredes, e do meio do teto, protegido das
moscas por um papel de seda amarelo, pendia um candelabro dourado.
Davidson não apareceu.
—Eu sei que ele foi fazer uma visita ao governador,— disse a
Senhora Davidson, —e com certeza ficou para o almoço.
Uma menina indígena trouxe uma travessa de hambúrgueres e pouco
depois apareceu o comerciante para ver se eles precisavam de mais
alguma coisa.
—Já vi que temos uma companheira de casa, Senhor Horn,— disse o
Dr. Macphail.
—Ela só alugou um quarto, mais nada,— respondeu o comerciante.
—Das refeições trata ela.
Olhou para as duas senhoras com ar servil.
—Eu a deixei lá embaixo para não incomodar. Não vai haver
qualquer problema para os senhores.
—É alguém do barco? - perguntou a Senhora Macphail.
—É sim, Senhora, vinha em segunda classe. Ia para Apia. Tem um
emprego como caixa à espera dela.
—Oh!
Quando o comerciante se foi, Macphail disse:
—Não a imaginava a achar muito divertido comer no quarto.
—Se era da segunda classe acho que é melhor assim,— respondeu a
Senhora Davidson. —Não sei quem poderá ser.
—Eu por acaso estava presente quando o contramestre a trouxe.
Chama-se Senhorita Thompson.
—Não me diga que é a mulher com quem o contramestre andava a
dançar ontem à noite? - perguntou a Senhora Davidson.
—Deve ser essa,— disse a Senhora Macphail.
—Nessa altura perguntei-me quem seria ela. Parece-me de
moralidade duvidosa.
—Sem nível nenhum.
Começaram a falar de outras coisas, e depois do almoço, cansados
por se terem levantado cedo, separaram-se e foram dormir. Quando
acordaram, embora o céu ainda estivesse cinzento e as nuvens pairassem
baixas, não chovia, e eles foram dar um passeio pela estrada que os
americanos tinham construído ao longo da baía.
Ao regressar, viram que Davidson tinha acabado de chegar.
—Poderemos ter de ficar aqui uns quinze dias,— disse ele irritado.
—Discuti o assunto com o governador, mas ele diz que não há nada a
fazer.
—O Senhor Davidson está ansioso por voltar ao trabalho,— disse a
mulher, lançando-lhe um olhar ansioso.
—Já estamos fora há um ano,— disse ele, a andar de um lado para o
outro na varanda. —A missão tem estado entregue a missionários
indígenas, e eu estou com muito medo de que eles tenham deixado as
coisas resvalar. São homens de bem, não posso apontar-lhes nada,
tementes a Deus, devotos e cristãos verdadeiros – o seu cristianismo faria
corar muitos dos chamados cristãos na nossa terra – mas falta-lhes
lamentavelmente alguma energia. São capazes de resistir uma vez, duas
vezes, mas não conseguem oferecer uma resistência permanente. Se
deixarmos uma missão entregue a um missionário indígena, por muito
digno de confiança que ele pareça ser, ao fim de algum tempo verificamos
que ele deixou que se instalasse o abuso.
O Senhor Davidson parou. Com o seu perfil alto e seco, e os olhos
grandes a brilharem na palidez das faces, era uma figura impressionante.
A sua sinceridade era óbvia no calor dos gestos e na voz profunda e
vibrante.
—Já estou a contar com trabalhos. Vou agir e agir prontamente. Se a
árvore estiver podre, corta-se e põe-se no fogo.
E à noite, depois do chá, que era a última refeição, enquanto estavam
sentados naquela sala desgraciosa, as senhoras a trabalhar e o Dr.
Macphail a fumar o seu cachimbo, o missionário falou-lhes do seu
trabalho nas ilhas.
—Quando para lá fomos eles não tinham qualquer noção de
pecado,— disse ele. —Infringiam os mandamentos uns atrás dos outros e
nunca se apercebiam de que estavam a praticar o mal. E creio que essa foi
a parte mais difícil do meu trabalho, inculcar nos indígenas a noção de
pecado.
Os Macphails já sabiam que Davidson tinha trabalhado nas
Solomons durante cinco anos antes de conhecer a mulher. Ela fora
missionária na China, e eles tinham-se conhecido em Boston, onde
estavam a passar parte da sua licença para assistirem a um congresso
missionário. Quando casaram foram nomeados para as ilhas, onde ficaram
a trabalhar.
No decurso de todas as conversas que tinham tido com o Senhor
Davidson uma coisa tinha ressaltado claramente: a coragem inabalável
daquele homem. Ele era missionário médico, e estava sempre sujeito a ser
chamado a qualquer hora para uma ou outra das ilhas do grupo. Nem
mesmo os barcos de pesca da baleia são suficientemente seguros nas águas
tempestuosas do Pacífico na estação húmida, mas muitas vezes ele saía
numa canoa e o perigo era grande. Em casos de doença ou acidente ele
nunca hesitava. Passou muitas vezes noites inteiras a escoar a água do
barco para evitar uma morte certa, e mais de uma vez a Senhora Davidson
deu-o como perdido.
—Eu, às vezes, pedia-lhe que não fosse,— disse ela, —ou, pelo
menos, que esperasse até que o tempo amainasse, mas ele nunca me dava
ouvidos. É obstinado, e uma vez tomada a decisão nada o demove.
—Como é que eu posso pedir aos indígenas que confiem no Senhor,
se eu próprio receio fazê-lo? - exclamou Davidson. —E eu não receio
fazê-lo, não receio. Eles sabem que, se, numa aflição, me mandarem
chamar, eu vou, se tal for humanamente possível. E acham que o Senhor
me vai abandonar quando estou ao seu serviço? O vento sopra a seu
comando e as ondas erguem-se e enfurecem-se a um sinal seu.
O Dr. Macphail era uma pessoa tímida. Nunca conseguira habituar-
se ao assobiar das bombas por sobre as trincheiras, e quando estava a
operar num posto de socorro avançado o suor escorria-lhe das
sobrancelhas e embaçava-lhe as lentes com o esforço que fazia para
controlar a mão que tremia. Arrepiou-se um pouco ao olhar para o
missionário.
—Gostaria de poder dizer que nunca tive medo,— disse ele.
—E eu gostaria que o senhor pudesse dizer que acredita em Deus,—
retorquiu o outro. Mas por qualquer razão, naquela noite os pensamentos
do missionário recuaram até aos primeiros dias em que ele e a mulher
tinham passado nas ilhas.
—Por vezes a Senhora Davidson e eu olhávamos um para o outro e
as lágrimas nos caíam pelo rosto. Trabalhávamos sem cessar, dia e noite, e
parecia que não fazíamos qualquer progresso. Eu não sei o que teria feito,
então, sem ela. Quando começava a esmorecer, quando estava muito
próximo do desespero, ela dava-me coragem e esperança.
A Senhora Davidson baixou os olhos para o trabalho, e corou
ligeiramente. As mãos tremeram-lhe um pouco. Não conseguiu falar.
—Não tínhamos ninguém que nos ajudasse. Estávamos sós, a
milhares de milhas de pessoas como nós, rodeados de escuridão. Quando
eu estava abatido e cansado, ela deixava o trabalho, pegava a Bíblia e lia
para mim até que a paz descesse sobre mim como o sono sobre as
pálpebras de uma criança, e quando, por fim, ela fechava o livro, dizia:
“Havemos de salvá-los, mesmo contra a sua vontade.” E eu sentia-me de
novo forte no Senhor, e respondia: “Sim, com a ajuda de Deus hei-de
salvá-los. Tenho de salvá-los.”
Veio até à mesa e ficou ali de pé, como se aquela mesa fosse um
púlpito.
—Já vê, eles eram tão naturalmente depravados que nós não
conseguíamos fazer com que se apercebessem da sua própria imoralidade.
Tivemos que lhes fazer ver que aquilo que eles achavam um
comportamento natural era pecado. Tivemos que lhes fazer ver que não só
o adultério, a mentira e o roubo, mas também a exposição do corpo, e ir
dançar em vez de ir à igreja, tudo era pecado. Fiz-lhes ver que era pecado
uma moça mostrar o peito e um homem não usar calças.
—Como é que conseguiu? - perguntou o Dr. Macphail, não sem
alguma surpresa.
—Estabeleci multas. Evidentemente que a única maneira de as
pessoas compreenderem que uma determinada ação é pecaminosa é puni-
las se a cometerem. Eu multava-os se eles não vinham à igreja, e multava-
os se eles dançavam. Multava-os se estivessem vestidos impropriamente.
Eu tinha uma tabela, e cada pecado tinha que ser pago em dinheiro ou em
trabalho. E por fim fi-los compreender.
—E eles nunca se recusavam a pagar?
—Como é que podiam? - perguntou o missionário.
—Só um homem de muita coragem ousaria fazer frente ao Senhor
Davidson,— disse a mulher apertando os lábios.
O Dr. Macphail olhou para Davidson incomodado. Aquilo que
ouvira chocou-o, mas hesitou em manifestar a sua discordância.
—Não se esqueça que em último recurso eu podia expulsá-los da
congregação.
—E eles importavam-se com isso?
Davidson sorriu um pouco e esfregou as mãos devagar.
—Não conseguiam vender a sua copra. Quando os homens pescavam
não recebiam a sua parte do pescado. Isso significava mais ou menos
passar fome. Sim, eles importavam-se e muito.
—Conta-lhe a história de Fred Ohlson,— disse a Senhora Davidson.
O missionário fixou o olhar inflamado no Dr. Macphail.
—Fred Ohlson era um comerciante dinamarquês que estava na ilha
há muitos anos. Era um homem bastante rico, como todos os
comerciantes, e não ficou muito satisfeito quando nós chegamos. Já vê, as
coisas corriam-lhe como ele queria. Pagava a copra aos indígenas ao preço
que bem queria, e pagava em whisky e outros gêneros. Tinha uma mulher
indígena, mas era-lhe descaradamente infiel. Era um bêbado. Dei-lhe uma
oportunidade de emendar o seu comportamento, mas ele não quis. Riu-se
de mim.
A voz de Davidson tornou-se grave quando pronunciou estas últimas
palavras, e ficou calado por alguns momentos. Aquele silêncio tinha o
peso de uma ameaça.
—Em dois anos ficou arruinado. Perdeu tudo o que tinha amealhado
num quarto de século. Eu abati-o, e por fim viu-se obrigado a vir falar
comigo, como um pedinte, implorar-me que lhe pagasse a passagem de
volta para Sidney.
—Haviam de o ver, quando ele veio falar com o Senhor Davidson,—
disse a mulher do missionário.
Davidson olhou a noite abstratamente. A chuva caía de novo.
Subitamente ouviu-se barulho vindo de baixo, e Davidson voltou-se
e lançou um olhar interrogativo à mulher. Era o som de um gramofone,
áspero e ruidoso, gemendo uma música sincopada.
—O que é aquilo? - perguntou.
A Senhora Davidson ajustou as lunetas mais firmemente ao nariz.
—Uma das passageiras da segunda classe tem um quarto aqui na
casa. Isso deve vir de lá.
Ficaram todos a ouvir em silêncio, e logo a seguir ouviram o ruído
de alguém a dançar. Depois a música parou, e eles ouviram o som de
rolhas a saltar e vozes altas em conversa animada.
—Ela deve estar a dar uma festa de despedida aos companheiros de
viagem,— disse o Dr. Macphail. —O barco parte ao meio-dia, não é?
Davidson não fez qualquer comentário e olhou para o relógio.
—Está pronta? - perguntou à mulher.
Ela levantou-se e guardou o trabalho
—Acho que sim,— respondeu ela.
—Ainda é cedo para ir para a cama, não é? disse o médico.
—Ainda temos umas boas leituras para fazer,— explicou a Senhora
Davidson. —Onde quer que estejamos, lemos sempre um capítulo da
Bíblia antes de irmos para a cama e o comentamos, sabe? e o discutimos
todo. É um belíssimo treino para o espírito.
Os dois casais deram as boas-noites. O Dr. Macphail e a Senhora
Macphail ficaram sozinhos. Durante uns momentos não falaram.
—Acho que vou buscar as cartas,— disse o médico por fim.
A Senhora Macphail olhou para ele indecisa. A conversa com os
Davidsons deixara-a um tanto inquieta, mas ela não queria dizer que
achava que era melhor não jogarem cartas numa altura em que os
Davidsons podiam entrar a qualquer momento. O Dr. Macphail trouxe-as e
ela observou-o, embora com um vago sentimento de culpa, enquanto ele
dispunha as cartas para uma paciência. Lá embaixo o barulho da festa
continuava.
No dia seguinte o tempo estava bom, e os Macphails, condenados a
passar quinze dias de ociosidade em Pago-Pago, trataram de aproveitar a
situação o melhor possível. Desceram até ao cais e tiraram alguns livros
das malas. O médico fez uma visita ao cirurgião-chefe do hospital naval e
acompanhou-o na ronda pelos doentes. Deixaram cartões ao governador.
Passaram pela Senhorita Thompson na estrada. O médico tirou-lhe o
chapéu e ela respondeu-lhe com um —Bom dia, Doutor— alegre e em voz
alta. Estava vestida como na véspera, com um vestido branco, e as botas
brancas brilhantes, de saltos altos, e as pernas gordas a saírem-lhe
protuberantes do topo eram uma coisa estranha naquele ambiente exótico.
—Acho que ela não está vestida de maneira muito conveniente, devo
dizer,— disse a Senhora Macphail. —Tem um aspecto extremamente
ordinário.
Quando voltaram para casa, ela estava na varanda a brincar com um
dos filhos mulatos do comerciante.
—Diz-lhe qualquer coisa,— sussurrou o Dr. Macphail à mulher. —
Ela está aqui completamente só e acho que ignorá-la é muito pouco
simpático da nossa parte.
A Senhora Macphail era uma pessoa tímida, mas estava habituada a
fazer o que o marido lhe dizia.
—Parece-me que somos companheiros de casa aqui,— disse ela
muito desajeitadamente.
—Terrível, não é? estarmos aqui engaiolados num lugar destes?
respondeu a Senhorita Thompson. —E pelo que me disseram, ainda tive
muita sorte em ter arranjado um quarto. Não me estou a ver numa casa de
indígenas, e é isso que algumas pessoas têm de fazer. Não sei por que é
que eles abrem aqui um hotel.
E trocaram mais algumas palavras. A Senhorita Thompson,
espalhafatosa e tagarela, estava evidentemente desejosa de um pouco de
conversa, mas a Senhora Macphail tinha muito pouca bagagem para
conversas banais e disse logo:
—Bem, acho que temos de ir para cima.
À noite, quando se sentaram para a ceia, Davidson ao entrar disse:
—Já vi que a mulher lá de baixo tem lá dois marinheiros com ela.
Pergunto-me como é que ela os teria conhecido.
—Ela não deve ser muito esquisita,— disse a Senhora Davidson.
Estavam todos muito cansados, depois daquele dia ocioso e sem
objetivo.
—Se os quinze dias vão ser sempre assim, não sei como é que nos
vamos sentir no fim,— disse o Dr. Macphail.
—A única coisa a fazer é dividir o dia em atividades diferentes,—
respondeu o Missionário. —Vou reservar um certo número de horas para
estudar, outro para exercícios, faça chuva ou faça sol – na estação úmida
não podemos nos importar com a chuva – e outro para recreio.
O Dr. Macphail olhou para o companheiro com apreensão. O
programa de Davidson oprimia-o. Estavam a comer hambúrgueres outra
vez. Parecia ser o único prato que o cozinheiro sabia fazer. Depois, lá em
baixo, começou o gramofone outra vez. Davidson estremeceu
nervosamente quando o ouviu, mas não disse nada. Ouviram vozes de
homens. Os convidados da Senhorita Thompson cantavam em coro uma
conhecida canção e logo depois ouviram a voz dela, áspera e berrante.
Havia gritos e gargalhadas. As quatro pessoas lá em cima, tentando
conversar, ouviam contrariados o tilintar dos copos e o arrastar das
cadeiras. Tinha chegado mais gente, com certeza. A Senhorita Thompson
estava a dar uma festa.
—Como é que ela consegue metê-los todos lá dentro? - disse a
Senhora Macphail, interrompendo uma conversa sobre medicina entre o
missionário e o marido. Isto revelou os caminhos por onde andavam a
vaguear os seus pensamentos. A contração da expressão de Davidson
mostrava que, embora falando de assuntos científicos, o seu espírito estava
ocupado na mesma direção. E de repente, enquanto o médico dava muito
prosaicamente conta da sua experiência na frente da Flandres, ele pôs-se
de pé de um salto e soltou uma exclamação.
—O que é, Alfred? - perguntou a Senhora Davidson.
—Claro! E nunca me ocorreu. Ela veio de Iwelei.
—Não pode ser.
—Ela embarcou em Honolulu. É evidente. E está a transferir o seu
negócio para aqui. Para aqui.
Pronunciou as últimas palavras com uma indignação arrebatada.
—O que é Iwelei? - perguntou a Senhora Macphail.
Ele voltou para ela os olhos sombrios e a sua voz tremeu de horror.
—A peste de Honolulu. O distrito da Luz Vermelha. Foi uma nódoa
na nossa civilização.
—Iwelei ficava na periferia da cidade. Seguia-se por ruas laterais
junto do porto, na escuridão, por uma ponte frágil, até chegar a uma
estrada deserta, toda cheia de sulcos e buracos, e depois, subitamente
entrava-se na luz. Havia espaço para estacionamento de carros de ambos
os lados da estrada, havia bares, vistosos e brilhantes, todos barulhentos
com os seus pianos mecânicos, e havia barbearias e tabacarias. Havia no ar
uma certa agitação e uma sensação de alegria expectante. Virava-se para
uma travessa estreita, à direita ou à esquerda, porque a estrada dividia
Iwelei em duas partes, e estava-se no distrito. Havia filas de pequenos
bangalôs, bem arranjados e pintados de verde, e o caminho entre eles era
largo e direito. Estava desenhado como uma cidade jardim. Na sua
respeitável normalidade, na sua ordem e elegância, deixava uma
impressão de horror sardônico; porque nunca a busca de amor fora tão
sistematizada e ordenada. Os caminhos eram iluminados por raros
candeeiros, mas seriam escuros se não fosse a luz que saía das janelas
abertas dos bangalôs. Os homens vagueavam por ali a olhar para as
mulheres que estavam sentadas à janela lendo ou costurando e que na sua
maior parte nem reparavam nos transeuntes; e, como as mulheres, eles
eram de todas as nacionalidades. Havia americanos, marinheiros dos
barcos que estavam no porto, recrutas alistados nas canhoneiras,
sombriamente bêbados, e soldados, brancos e negros, dos regimentos
estacionados na ilha; havia japoneses, a passear em grupos de dois e três;
hawaianos, chineses de compridos robes, e filipinos com chapéus
ridículos. Andavam calados e como que oprimidos. O desejo é triste.
—Foi o escândalo mais gritante do Pacífico,— exclamou Davidson
veementemente. —Os missionários andaram muitos anos a movimentar-se
contra aquilo, e por fim a imprensa pegou no assunto. A polícia recusou-se
a agir. Já sabem qual é o argumento deles. Dizem que o vício é inevitável
e consequentemente o melhor a fazer é delimitá-lo e controlá-lo. A
verdade é que a polícia estava comprada. Comprada. Comprada pelos
donos dos bares, comprada pelos especuladores, comprada pelas próprias
mulheres. Por fim foram obrigados a sair.
—Eu li isso nos jornais que chegaram a bordo, em Honolulu,— disse
o Dr. Macphail.
—Iwelei, com o seu pecado e vergonha, deixou de existir no próprio
dia em que nós chegamos. Toda a população foi levada ao tribunal. Não
sei como é que não percebi logo quem aquela mulher era.
—Agora que fala nisso,— disse a Senhora Macphail, —lembro-me
de a ver entrar a bordo apenas uns minutos antes do barco partir. E
lembro-me de ter pensado na altura que ela estava a chegar mesmo à justa.
—Como é que ela se atreveu a vir para aqui!— exclamou Davidson
indignado. —Não vou permitir.
Dirigiu-se para a porta em passos largos.
—O que é que vai fazer? - perguntou Macphail.
—O que é que espera que eu faça? Vou acabar com aquilo. Não vou
permitir que esta casa se transforme num... num...
Procurou uma palavra que não ofendesse os ouvidos das senhoras.
Os seus olhos faiscavam e a face pálida estava ainda mais pálida com a
emoção.
—Pelo barulho, dá a impressão de que haverá três ou quatro homens
lá em baixo,— disse o médico. —Não lhe parece que é um tanto
imprudente ir lá precisamente agora?
O missionário olhou-o com desprezo e sem uma palavra saiu da sala
precipitadamente.
—O Senhor conhece o Senhor Davidson muito mal, se pensa que o
medo do perigo pessoal o pode deter no cumprimento do dever,— disse a
mulher.
Estava sentada, com as mãos nervosamente apertadas, uma mancha
de cor sobre os malares salientes, atenta ao que ia acontecer lá em baixo.
Estavam todos atentos. Ouviram-no a descer as escadas de madeira e abrir
violentamente a porta. A cantilena acabou de repente, mas o gramofone
continuou a berrar a sua melodia ordinária. Ouviram a voz de Davidson e
depois o barulho de qualquer coisa pesada a cair. A música parou. Ele
atirara o gramofone para o chão. A seguir, ouviram de novo a voz de
Davidson, não conseguiam distinguir as palavras, depois a da Senhorita
Thompson, alta e estridente, seguida de um clamor confuso, como se
várias pessoas estivessem todas a gritar o mais alto que podiam. A
Senhora Davidson deu um pequeno grito abafado e apertou as mãos ainda
mais. O Dr. Macphail olhou indeciso dela para a sua mulher. Não queria ir
lá baixo, mas perguntava-se se elas estariam à espera que ele fosse. Depois
houve qualquer coisa que parecia uma rixa. O barulho era agora mais
distinto. Certamente Davidson estava a ser posto fora do quarto. A porta
bateu. Houve um momento de silêncio e depois ouviram Davidson a subir
as escadas outra vez. Foi para o seu quarto.
—Acho que vou ter com ele,— disse a Senhora Davidson.
Levantou-se e saiu.
—Se precisar de mim, chame,— disse a Senhora Macphail, e depois
de ela sair: —Espero que ele não esteja ferido.
—Por que é que ele não se mete na vida dele? - disse o Dr.
Macphail.
Ficaram sentados em silêncio por momentos e depois ambos
estremeceram, porque o gramofone começou de novo a tocar,
provocativamente, e vozes trocistas gritavam roucas a letra de uma canção
obscena.
No dia seguinte a Senhora Davidson estava pálida e cansada.
Queixava-se de dores de cabeça e estava envelhecida e mirrada. - disse à
Senhora Macphail que o missionário não tinha dormido nada; passara a
noite numa agitação terrível e às cinco levantou-se e saiu. Tinham-lhe
despejado um copo de cerveja em cima e as roupas estavam manchadas e
malcheirosas. Mas uma chama sombria brilhou nos olhos da Senhora
Davidson quando ela falou da Senhorita Thompson.
—Ela vai arrepender-se amargamente do dia em que zombou do
Senhor Davidson,— disse ela. —O Senhor Davidson tem um coração
admirável e nunca ninguém com problemas se lhe dirigiu que não fosse
por ele confortado, mas com o pecado não tem contemplações, e quando
provocam a sua justa cólera, é terrível.
—E o que é que ele vai fazer? - perguntou a Senhora Macphail.
—Não sei, mas eu não queria estar na pele daquela criatura por nada
deste mundo.
A Senhora Macphail sentiu um calafrio. Havia qualquer coisa de
positivamente alarmante na firmeza triunfante dos modos daquela pequena
mulher. Iam sair juntas naquela manhã, e desceram as escadas lado a lado.
A porta da Senhorita Thompson estava aberta, e elas viram-na com um
robe esfarrapado, a cozinhar qualquer coisa num fogareiro a querosene.
—Bom dia,— disse ela. —O Senhor Davidson está melhor hoje?
Passaram em silêncio, de nariz no ar, como se ela não existisse.
Contudo, coraram quando ela desatou às gargalhadas trocistas. A Senhora
Davidson voltou-se subitamente para ela.
—Não se atreva a dirigir-me a palavra,— gritou ela. —Se me
insultar eu tratarei de a pôr daqui para fora.
—Ora diga-me lá, fui eu, por acaso, que convidei O Senhor
Davidson a visitar-me?
—Não lhe responda,— murmurou a Senhora Macphail
apressadamente.
Continuaram a andar até ficarem fora do seu alcance.
—É uma desavergonhada, uma sem vergonha,— explodiu a Senhora
Davidson.
A cólera quase a sufocava.
E no regresso a casa encontraram-na a passear em direção ao cais.
Trazia todos os seus enfeites. O seu grande chapéu branco, com aquelas
flores vistosas e ordinárias, era uma afronta. Chamou-as alegremente
quando passou, e dois marinheiros americanos que estavam por ali
sorriram ironicamente quando as senhoras afivelaram uma expressão fixa
e gelada. Entraram em casa precisamente quando a chuva começava de
novo a cair.
—Acho que ela vai estragar aquelas belas roupas,— disse a Senhora
Davidson com um amargo sorriso escarninho.
Davidson só chegou quando eles estavam a meio do almoço. Estava
completamente encharcado, mas não quis mudar de roupa. Sentou-se
taciturno e calado, recusando-se a comer mais do que uma colher, e ficou
a olhar a chuva que caía obliquamente. Quando a Senhora Davidson lhe
contou os seus dois encontros com a Senhorita Thompson, não respondeu.
Só o carregar do sobrolho mostrou que ouvira.
—Não achas que devíamos obrigar o Senhor Horn a expulsá-la
daqui? - perguntou a Senhora Davidson. —Não podemos permitir que nos
insulte.
—Parece que não tem mais para onde ir,— disse Macphail.
—Ela podia ir viver em casa de um dos indígenas.
—Com um tempo destes, uma cabana indígena deve ser um lugar
muito desconfortável para viver.
—Eu vivi numa durante anos,— disse o missionário.
Quando a menina indígena trouxe as bananas fritas que eram a
sobremesa todos os dias, Davidson voltou-se para ela.
—Vai perguntar à Senhorita Thompson quando é que eu poderia
falar com ela,— disse ele.
A menina fez timidamente que sim e saiu.
—Para que é que queres falar com ela, Alfred? - perguntou a mulher.
—É meu dever falar com ela. Não vou agir enquanto não lhe der
todas as oportunidades.
—Tu não sabes como ela é. Vai-te insultar.
—Ela que me insulte. Ela que me cuspa. Ela tem uma alma imortal, e
eu tenho de fazer tudo o que estiver ao meu alcance para a salvar.
As gargalhadas trocistas da prostituta ainda soavam nos ouvidos da
Senhora Davidson.
—Ela foi longe demais.
—Longe demais para a misericórdia de Deus? - Os olhos
iluminaram-se, e subitamente a sua voz tornou-se baixa e suave. —Nunca.
O pecador pode descer, no pecado, mais fundo do que as profundezas do
próprio inferno, mas o amor do Senhor Jesus pode sempre chegar até ele.
A menina voltou com a resposta.
—A Senhorita Thompson manda cumprimentos e diz que, desde que
não vá durante as horas de trabalho, ela estará à disposição do Rev.
Davidson a qualquer momento.
O grupo recebeu a mensagem em silêncio sepulcral, e o sorriso que
aparecera nos lábios do Dr. Macphail apagou-se rapidamente. Ele sabia
que a mulher ficaria aborrecida se ele achasse divertida aquela desfaçatez
da Senhorita Thompson.
Acabaram a refeição em silêncio. E depois, as duas senhoras
levantaram-se e pegaram nos seus trabalhos. A Senhora Macphail estava a
fazer mais um daqueles inúmeros agasalhos de lã a que ela se dedicara
desde o começo da guerra, e o médico acendeu o cachimbo. Mas Davidson
ficou sentado na sua cadeira a fixar a mesa com olhar abstrato. Por fim,
levantou-se e, sem uma palavra, saiu da sala.
Ouviram-no descer a escada e depois o —Entre— provocador da
Senhorita Thompson quando ele bateu à porta. Ficou lá uma hora com ela.
E o Dr. Macphail observava a chuva. Começava a enervá-lo. Não era
como a nossa chuva inglesa, suave, que cai gentilmente sobre a terra; era
inclemente e como que terrível; sentia-se naquela chuva a malignidade dos
poderes primitivos da natureza. Não caía, escorria. Era como um dilúvio
vindo do céu, e batia no telhado de zinco com uma persistência tão firme
que enlouquecia. Parecia ter uma fúria própria. E por vezes a pessoa sentia
vontade de gritar, se ela não parasse, e depois, de repente, sentia-se
impotente, como se os ossos se tornassem subitamente moles; e a pessoa
sentia-se infeliz e desesperada.
Macphail voltou a cabeça quando o Missionário regressou. As duas
mulheres levantaram os olhos.
—Dei-lhe todas as oportunidades. Exortei-a a arrepender-se. É uma
mulher perversa.
Fez uma pausa, e o Dr. Macphail viu-lhe os olhos escurecerem e a
cara pálida endurecer.
—Agora vou usar os chicotes com que o Senhor Jesus expulsou os
usurários do Templo do Altíssimo.
Começou a andar de um lado para o outro. A boca cerrada e as
sobrancelhas pretas franzidas.
—Mesmo que ela fugisse para o ponto mais remoto da terra eu ia
atrás dela.
Com um movimento brusco, virou-se e saiu da sala a passos largos.
Ouviram-no ir escada abaixo outra vez.
—O que é que ele vai fazer? - perguntou a Senhora Macphail.
—Não sei. A Senhora Davidson tirou as lunetas e limpou-as. —
Quando ele está a serviço do Senhor nunca lhe faço perguntas.
Suspirou.
—O que foi?
—Ele vai ficar esgotado. Não sabe poupar-se.
O Dr. Macphail soube dos primeiros resultados da atividade do
missionário pelo comerciante mestiço em cuja casa estava alojado. Ele
deteve o médico quando este ia a passar pela loja, e saiu para falar com ele
no terraço, em frente da casa. A sua cara gorda mostrava preocupação.
—O Rev. Davidson veio-me chatear por eu ter deixado a Senhorita
Thompson ficar aqui com um quarto,— disse ele, —mas eu não sabia o
que ela era. Quando uma pessoa vem ter comigo para eu lhe alugar um
quarto tudo o que eu quero saber é se ela tem dinheiro para pagar. E ela
pagou-me uma semana adiantada.
O Dr. Macphail não se queria comprometer.
—Ao fim e ao cabo, a casa é sua. E nós estamos muito gratos por ter
nos alojado.
Horn olhou para ele indeciso. Ainda não sabia muito bem até que
ponto Macphail estava do lado do missionário.
—Os missionários estão feitos uns com os outros,— disse ele
hesitante. —Se pegam com um comerciante ele bem pode fechar as portas
e desistir.
—Ele queria que o Senhor a expulsasse?
—Não, ele disse que se ela se comportasse ele não me podia pedir
que o fizesse. Ele disse que queria ser justo comigo. Eu prometi-lhe que
ela não receberia mais visitas. Acabei de lhe dizer isto a ela.
—Como é que ela reagiu?
—Foi o inferno.
O comerciante contorceu-se dentro das velhas calças de linho. Tinha
encontrado na Senhorita Thompson uma cliente difícil.
—Bem, eu atrevo-me a dizer que ela se vai mesmo embora. Não me
parece que ela queira ficar aqui sem poder receber ninguém.
—Ela não tem para onde ir, só uma casa indígena, e nenhum
indígena a deve querer agora, não agora que os missionários lhe
apontaram as facas.
O Dr. Macphail olhou a chuva a cair.
—Bom, acho que não vale a pena ficar à espera que o tempo
melhore.
À noite, quando estavam sentados na sala, Davidson falou-lhes dos
seus tempos na universidade. Ele não tinha meios e para pagar os estudos
fazia pequenos trabalhos durante as férias. Em baixo reinava o silêncio. A
Senhorita Thompson estava sentada no seu quarto, sozinha. Mas
subitamente o gramofone começou a tocar. Ela pô-lo a funcionar como
provocação, para enganar a solidão, mas não havia ninguém para cantar, e
aquilo deixava uma nota de melancolia. Era como que um grito por
socorro. Davidson não prestou atenção. Estava no meio de uma longa
história e, sem mudar de expressão, prosseguiu. O gramofone continuava.
A Senhorita Thompson punha disco atrás de disco. Era como se o silêncio
da noite lhe bulisse com os nervos. Era irrespirável e opressivo. Quando os
Macphails foram para a cama não conseguiram dormir. Estavam lado a
lado, com os olhos abertos, a ouvir o zumbido cruel dos mosquitos fora da
cortina.
—O que é aquilo? murmurou a Senhora Macphail por fim.
Ouviram uma voz, a voz de Davidson, através da divisória de
madeira. A voz continuava insistente, grave e monótona. Ele estava a rezar
alto. Estava a rezar pela alma de Senhorita Thompson.

Passaram-se dois ou três dias. Agora, quando eles passavam pela


Senhorita Thompson na estrada ela não os cumprimentava com aquele
sorriso ou cordialidade irônicos; passava com o nariz no ar, com uma
expressão mal-humorada na cara pintada, o sobrolho carregado, como se
os não tivesse visto. O comerciante disse a Macphail que ela tinha tentado
arranjar alojamento noutro lugar, mas não conseguira. À noite ela tocava
os poucos discos no gramofone, mas a simulação de alegria era agora
evidente. O ragtime tinha um ritmo desafinado, magoado, como se fosse
um one-step de desespero. Quando ela o pôs a tocar no domingo,
Davidson mandou Horn pedir-lhe que parasse imediatamente porque era o
dia do Senhor. O disco foi tirado e a casa ficou silenciosa, com a exceção
do bater da chuva no telhado de zinco.
—Parece-me que ela está mudando um pouco,— disse o comerciante
ao Dr. Macphail no dia seguinte. —Ela não sabe o que é que o Senhor
Davidson anda a tramar e anda bastante amedrontada.
Macphail tinha-a visto de relance, de manhã, e notou que aquela sua
expressão arrogante tinha mudado. A sua cara tinha um ar de pessoa
acossada. O mestiço olhou-o de soslaio.
—O senhor com certeza não sabe o que é que o Senhor Davidson
anda a fazer sobre o assunto? - atirou ele.
—Não, não sei.
Era estranho que Horn lhe fizesse aquela pergunta, porque ele
também tinha a impressão de que o missionário andava a trabalhar na
sombra. Tinha a impressão de que ele andava a tecer uma teia à volta da
mulher, cuidadosamente, sistematicamente, e subitamente, quando tudo
estivesse pronto, puxaria os cordões com firmeza.
—Ele pediu-me que lhe dissesse a ela,— disse o comerciante, —que
se alguma vez quisesse falar com ele só tinha que o mandar chamar, que
ele iria.
—O que é que ela respondeu quando o senhor lhe disse isso?
—Não respondeu nada. Eu nem parei. Apenas lhe disse o que me foi
pedido. Pensei que ela poderia começar a chorar.
—Não tenho dúvida de que a solidão lhe está a abalar os nervos,—
disse o médico. —E a chuva – é o suficiente para deixar qualquer pessoa
nervosa,— continuou ele irritado. —Será que nunca pára neste maldito
lugar?
—É mais ou menos sempre assim na estação das chuvas. Temos
oitocentos centímetros no ano. Já vê, é do formato da baía. Parece atrair a
chuva de todo o Pacífico.
—Maldito formato da baía,— disse o médico.
Coçou as picadas dos mosquitos. Estava muito irritável. Quando a
chuva parava e o sol brilhava, aquilo parecia uma estufa, escaldante,
úmido, opressivo, irrespirável, e tinha-se a estranha sensação de que tudo
estava a crescer com uma violência selvagem. Os indígenas, conhecidos
pela sua alegria e infantilidade, parecia terem então, com as suas tatuagens
e cabelo pintado, qualquer coisa de sinistro na aparência; e quando eles
tropeavam, descalços, atrás de nós, uma pessoa olhava instintivamente
para trás. Sentíamos que eles podiam a qualquer momento aproximar-se
rapidamente por detrás, e espetar-nos uma comprida faca entre as costelas.
Não se conseguia adivinhar que sombrios pensamentos se ocultavam por
detrás daqueles olhos afastados. Tinham um pouco a aparência daqueles
antigos egípcios pintados nas paredes de um templo, e havia neles o terror
que há em tudo aquilo que é incomensuravelmente velho.
O missionário ia e vinha. Andava ocupado, mas os Macphails não
sabiam o que ele andava a fazer. Horn disse ao médico que ele falava
todos os dias com o governador, e um dia Davidson referiu-se a isso.
—Parece ser uma pessoa muito determinada,— disse ele, —mas
quando se chega ao ponto de tratar do que importa, não tem espinha
dorsal.
—Isso significa, penso eu, que ele não quer fazer exatamente o que o
senhor quer,— sugeriu o médico a brincar.
O missionário não sorriu.
—Eu só quero que ele faça o que está correto. E não devia ser
necessário ter de persuadir uma pessoa a fazer o que está correto.
—Mas pode haver diferenças de opinião quanto ao que está correto.
—Se um homem tem um pé gangrenado, o senhor teria paciência
com alguém que hesitasse em amputá-lo?
—A gangrena é uma questão objetiva.
—E o Mal?
O que Davidson tinha andado a fazer depressa se revelou. Os quatro
tinham acabado a refeição do meio-dia, e ainda não se tinham separado
para fazer a sesta que o calor impunha às senhoras e ao médico. Davidson
tinha pouca paciência para aquele hábito ocioso. De repente, a porta abriu-
se e a Senhorita Thompson entrou. Percorreu a sala com os olhos e depois
dirigiu-se a Davidson.
—Ó seu bufão, seu canalha, o que é que tem andado a dizer de mim
ao governador?
Falava atabalhoadamente, de tanta raiva. Houve uma curta pausa, e
depois o missionário puxou uma cadeira.
—Não quer se sentar, Senhorita Thompson? Tenho andado com a
esperança de ter outra conversa consigo.
—Seu sacana sem-vergonha.
E desatou numa torrente de insultos insolentes e sujos. Davidson
mantinha um olhar sério sobre ela.
—São-me perfeitamente indiferentes os insultos com que me queira
mimosear, Senhorita Thompson,— disse ele, —mas peço-lhe que não se
esqueça de que há senhoras presentes.
Nesta altura já as lágrimas tentavam sobrepor-se à cólera. Tinha a
cara vermelha e inchada como se estivesse a sufocar.
—O que é que aconteceu? - perguntou o Dr.Macphail.
—Esteve agora mesmo aqui um sujeito a dizer-me que eu tenho de ir
embora no próximo barco.
Teria havido um brilho no olhar do missionário? A expressão
manteve-se impassível.
—Com certeza não estava à espera que o governador a deixasse ficar
aqui nestas circunstâncias?
—O Senhor conseguiu,— gritou ela. —O Senhor não me engana.
Conseguiu.
—Eu não quero enganá-la. Eu apenas insisti com o governador para
que ele agisse de acordo com as suas obrigações.
—Por que é que o Senhor não me deixou em paz? Eu não andava a
fazer nada de mal.
—Pode ter a certeza de que se assim fosse eu seria a última pessoa a
ficar ofendido.
—O senhor pensa que eu queria ficar neste pobre arremedo de
cidade? Tenho cara de cretina, por acaso?
—Nesse caso, não vejo razão para as suas queixas,— respondeu ele.
Ela deu um grito de raiva e saiu porta fora. Seguiu-se um momento
de silêncio.
—É um alívio saber que o governador finalmente agiu,— disse
Davidson por fim. —Ele é um fraco e vacilou. - disse que afinal ela só
estava aqui por duas semanas, e que se fosse para Apia, isso era de
jurisdição britânica e não tinha nada a ver com ele.
O missionário pôs-se de pé de um salto e atravessou a sala a passos
largos.
—É terrível como os homens que estão no poder procuram fugir às
suas responsabilidades. Falam como se o mal que está fora do nosso
alcance deixasse de o ser. A simples existência desta mulher é um
escândalo e não adianta transferi-lo para outra ilha. Por fim, vi-me
obrigado a falar sem rodeios.
Davidson baixou as sobrancelhas, e espetou o queixo. A sua
expressão era determinada e feroz.
—O que é que quer dizer com isso?
—A nossa Missão tem alguma influência em Washington. Fiz ver ao
governador que não seria nada bom para ele se houvesse uma queixa sobre
a maneira como ele dirige as coisas aqui.
—Quando é que ela tem de partir? - perguntou o Dr. Macphail
depois de uma pausa.
—O barco de S.Francisco é esperado, vindo de Sidney, na próxima
terça-feira. Ela tem de ir nele.
Só mais cinco dias. Foi no dia seguinte, quando regressava do hospital,
onde, à falta de melhor, o Dr. Macphail passava a maior parte das manhãs,
que o mestiço o deteve quando ele ia a subir as escadas.
—Desculpe, Dr. Macphail, a Senhorita Thompson está doente. O
senhor pode ir vê-la?
—Claro.
Horn levou-o ao quarto dela. Estava sentada numa cadeira sem fazer
nada, nem a ler nem a costurar, com o olhar fixo em frente. Estava com o
vestido branco e o grande chapéu com flores. O Dr. Macphail notou que a
pele estava amarela e baça por debaixo do pó de arroz, e tinha o olhar
carregado.
—Lamento saber que não se sente bem,— disse ele.
—Oh, eu não estou realmente doente. Eu só disse isso porque
precisava de lhe falar. Querem despachar-me num barco que vai para
Frisco.
Ela olhou para ele, e ele viu que os olhos dela ficaram subitamente
assustados. Abria e fechava as mãos convulsivamente. O comerciante
ficara à porta a ouvir.
—Já soube,— disse o médico.
Ela engoliu em seco.
—Não me convém lá muito ir para Frisco exatamente agora. Ontem
à tarde fui tentar falar com o governador, mas não consegui. Falei com o
secretário e ele disse-me que eu tinha de partir naquele barco e pronto. Eu
precisava de falar mesmo com o governador, e por isso, hoje de manhã,
esperei-o à porta de casa, e quando ele saiu falei com ele. Vi perfeitamente
que ele não queria falar comigo, mas eu não ia deixar que ele me
despacha-se, e no fim ele me disse que não se importava nada que eu aqui
ficasse até ao próximo barco para Sidney se o Rev. Davidson estivesse de
acordo.
Calou-se e olhou ansiosamente para o Dr. Macphail.
—Não sei exatamente o que é que eu posso fazer,— disse ele.
—Bem, pensei que talvez o senhor não se importasse de lhe pedir.
Juro por Deus que não vou arranjar aqui nenhum problema se ele só me
deixar ficar. Nem sairei de casa, se ele assim quiser. São só duas semanas.
—Eu vou pedir-lhe.
—Ele não vai nisso,— disse Horn. —Ele vai mandá-la embora na
terça-feira, portanto é melhor ir se preparando.
—Diga-lhe que eu posso arranjar trabalho em Sidney, trabalho
decente, quer dizer. Não é pedir muito.
—Vou fazer o possível.
—E venha-me dizer logo, está bem? Não sou capaz de me preparar
para uma coisa sem saber bem a quantas ando.
Não era missão que agradasse muito ao médico, e, sintomaticamente
talvez, ele desempenhou-a indiretamente. Contou à mulher o que a
Senhorita Thompson lhe dissera e pediu-lhe que falasse com a Senhora
Davidson. A atitude do missionário parecia muito arbitrária, e não faria
mal nenhum deixar a moça ficar em Pago-Pago mais quinze dias. Mas ele
não estava a contar com aquele resultado da sua diplomacia. O missionário
veio logo falar com ele.
—A Senhora Davidson disse-me que a Senhorita Thompson foi falar
consigo.
O Dr. Macphail, abordado assim diretamente, sentiu o ressentimento
dos tímidos ao serem forçados a vir para campo aberto. Sentiu alguma
irritação e corou.
—Não vejo que faça muita diferença ela ir para Sidney em vez de
São Francisco, e uma vez que ela promete comportar-se enquanto aqui
estiver é cruel persegui-la.
O missionário fixou-o com o seu olhar severo.
—Por que é que ela não quer voltar para São Francisco?
—Não perguntei,— respondeu o médico com alguma aspereza, —e
eu acho que nós devíamos era não meter o nariz onde não somos
chamados.
Esta talvez não tenha sido uma resposta muito diplomática.
—O governador ordenou que ela fosse deportada no primeiro barco
que partisse da ilha. Só fez o seu dever e eu não vou interferir. A presença
dela aqui é um perigo.
—Eu acho que o senhor é extremamente cruel e tirânico.
As duas senhoras olharam para o médico algo alarmadas, mas não
tinham que recear uma discussão, porque o missionário sorriu gentilmente.
—Lamento muito que o senhor pense isso de mim, Dr. Macphail.
Creia que o meu coração sangra por essa infeliz, mas eu estou apenas a
tentar cumprir com a minha obrigação.
O médico não respondeu. Olhou pela janela, taciturno. Desta vez,
não estava a chover e do outro lado da baía viam-se, aninhadas por entre
as árvores, as cabanas de uma aldeia indígena.
—Acho que vou aproveitar a chuva ter amainado e sair,— disse ele.
—Por favor, não me queira mal por eu não ter satisfeito o seu
desejo,— disse Davidson, com um sorriso melancólico. —Tenho por si o
maior respeito, Doutor, e teria muita pena se o Senhor pensasse mal de
mim.
—Não tenho a menor dúvida de que a opinião que o Senhor tem de
si próprio é já tão boa que certamente encara a minha com
equanimidade,— replicou ele.
—Touché!,— disse Davidson com um riso abafado.
Quando, irritado com ele mesmo por ter sido mal educado, o Dr.
Macphail desceu as escadas, a Senhorita Thompson estava à sua espera
com a porta escancarada.
—Então,— disse ela, —o senhor falou com ele?
—Falei, e lamento mas ele não vai fazer nada,— respondeu ele
embaraçado, sem a olhar. Mas depois lançou-lhe um olhar rápido, porque
ela soluçou. Viu que estava branca de medo. Isto chocou-o. E de repente
teve uma idéia.
—Mas não perca a esperança ainda. Acho que é uma vergonha a
maneira como a estão tratando e eu próprio vou falar com o governador.
—Já?
Ele fez que sim. A expressão dela brilhou.
—É muita bondade sua. Tenho a certeza de que ele me vai deixar
ficar, se o senhor falar por mim. Eu não vou fazer nada que não deva
enquanto aqui estiver.
O Dr. Macphail nem sabia bem a razão por que decidira apelar para
o governador. Os problemas da Senhorita Thompson eram-lhe
completamente indiferentes, mas o missionário tinha-o irritado, e o gênio,
nele, era de combustão lenta. Encontrou o governador em casa. Era um
homem grande, bem parecido, um marinheiro de bigode grisalho tipo
escova; estava com um uniforme de linho branco imaculado.
—Vim lhe falar sobre uma mulher que está alojada na mesma casa
que nós,— disse ele. —Chama-se Thompson.
—Acho que já ouvi falar dela o suficiente, Dr. Macphail,— disse o
governador a sorrir. —Já lhe dei ordem para se ir embora na próxima
terça-feira, e é tudo o que posso fazer.
—Eu queria lhe pedir, se o senhor podia fazer uma pequena
concessão, que a deixasse ficar até que chegue o barco de São Francisco
para ela poder ir para Sidney. Eu respondo pelo seu bom comportamento.
O governador continuou a sorrir, mas os olhos tornaram-se
pequeninos e sérios.
—Gostaria muito de satisfazer esse seu pedido, Dr. Macphail, mas
eu já dei a ordem e ela tem de se manter.
O médico expôs o caso tão sensatamente quanto pôde, mas o
governador já deixara de sorrir. Ouviu com ar carregado e desviando o
olhar. O Dr. Macphail viu que não estava a causar boa impressão.
—Tenho muita pena de causar qualquer transtorno à Senhora, mas
ela terá de embarcar na terça-feira e é tudo.
—Mas que diferença é que isto pode fazer?
—Desculpe-me, Doutor, mas eu não me sinto na obrigação de
explicar as minhas ações oficiais a não ser às autoridades competentes.
O Dr. Macphail olhou-o argutamente. Lembrou-se da alusão velada
de Davidson a ameaças, e notou um especial embaraço na atitude do
governador.
—Davidson é um diabo de um intrometido,— disse ele com calor.
—Aqui entre nós, Dr. Macphail, eu não posso dizer que tenha ficado
com muito boa impressão do Senhor Davidson, mas tenho de confessar
que ele tem todo o direito de me apontar o perigo que a presença de uma
mulher com o caráter da Senhorita Thompson representa para um lugar
como este, onde um grande número de homens alistados estão
estacionados entre a população indígena.
Levantou-se e o Dr. Macphail viu-se obrigado a fazer o mesmo.
—Vai-me desculpar, mas eu tenho um compromisso. Os meus
cumprimentos à Senhora Macphail.
O médico saiu de queixo caído. Ele sabia que a Senhorita Thompson
estaria à sua espera, e, como não estava muito disposto a contar-lhe ele
próprio o seu insucesso, entrou na casa pela porta dos fundos e esgueirou-
se escada acima como se tivesse qualquer coisa a esconder.
Ao jantar esteve calado e pouco à vontade, mas o missionário estava
animado e jovial. O Dr. Macphail pensou que os seus olhos o fitavam de
quando em vez com um bom humor triunfante. Subitamente assaltou-o a
idéia de que Davidson tivesse sabido da sua visita mal sucedida ao
governador. Mas como diabo podia ele ter sabido? Havia qualquer coisa
de sinistro no poder daquele homem. Depois de jantar viu Horn na
varanda e, como se fosse ter uma conversa casual com ele, saiu.
—Ela queria saber se o Senhor falou com o Governador,—
murmurou o comerciante.
—Falei. Mas ele recusou-se a fazer fosse o que fosse. Tenho muita
pena, não posso fazer mais nada.
—Eu já sabia que ele não ia fazer nada. Eles não se atrevem a ir
contra os missionários.
—De que é que estão a falar? disse Davidson afavelmente, se
aproximando deles.
—Eu estava precisamente a dizer que não há hipótese de os Senhores
irem para Apia antes de pelo menos uma semana,— disse o comerciante
sem hesitar.
Foi-se embora, e os dois homens regressaram à sala. A Senhor
Davidson dedicava uma hora depois de cada refeição ao entretenimento.
Nesta altura ouviu-se um leve bater à porta.
—Entre,— disse a Senhora Davidson em voz cortante.
A porta não se abriu. Ela levantou-se e abriu-a. Viram a Senhorita
Thompson à entrada. Mas a mudança no seu aspecto era extraordinária. Já
não era aquela mulher vistosa e leviana que escarnecera delas na rua, mas
uma mulher desfeita e amedrontada. O cabelo, geralmente muito bem
arranjado, caía-lhe agora desgrenhado e sujo sobre o pescoço. Vinha de
chinelos de quarto e de saia e blusa, enxovalhadas e esfarrapadas. Ficou à
porta, as lágrimas a correrem-lhe pela cara abaixo, e sem coragem para
entrar.
—O que é que deseja? disse a Senhora Davidson asperamente.
—Posso falar com o Senhor Davidson? disse ela em voz sufocada.
O missionário levantou-se e dirigiu-se para ela.
—Entre, Senhorita Thompson,— disse ele em tom cordial. —O que
é que deseja de mim?
Ela entrou para a sala.
—Bem, peço-lhe desculpa pelo que lhe disse no outro dia e também
pelo... por tudo o resto. Acho que estava um pouco animada. Peço
desculpas.
—Oh, não foi nada. Acho que tenho as costas suficientemente largas
para suportar algumas palavras mais duras.
Ela deu alguns passos na sua direção com movimentos horrivelmente
servis.
—O senhor derrotou-me. Tem toda a razão. Não vai me mandar de
volta para Frisco?
A afabilidade de Davidson desvaneceu-se, e o seu tom de voz
tornou-se áspero e duro.
—Por que é que não quer voltar para lá?
Ela encolheu-se perante ele.
—Acho que a minha gente vive lá. Não quero que eles me vejam
assim. Vou para qualquer outro lugar que o Senhor queira.
—Por que é que não quer voltar para São Francisco?
—Já lhe disse.
Ele inclinou-se para a frente, fixando-a, e os seus olhos grandes e
brilhantes parecia quererem penetrar-lhe na alma. Soltou um súbito
suspiro.
—A penitenciária.
Ela gritou, e caíu-lhe aos pés, abraçando-lhe as pernas.
—Não me mande de volta para lá. Juro por Deus que me vou tornar
uma mulher decente. Vou deixar de tudo isto.
Desatou numa torrente confusa de súplicas e as lágrimas corriam-lhe
pelas faces. Ele inclinou-se sobre ela e, levantando-lhe a cabeça, obrigou-a
a olhá-lo.
—É isso, a penitenciária?
—Eu fugi antes que eles me apanhassem,— soluçou ela. —Se os
tiras me apanham são três anos.
Ele largou-a e ela deixou-se cair para o chão, soluçando
amargamente. O Dr. Macphail levantou-se.
—Isso vem alterar tudo,— disse ele. —O senhor não a pode mandar
embora sabendo disto. Dê-lhe outra oportunidade. Ela quer virar uma nova
página.
—Eu vou dar-lhe a melhor oportunidade que ela alguma vez teve. Se
está arrependida, que aceite o castigo.
Ela não percebeu bem aquelas palavras e olhou para cima. Havia um
raio de esperança naqueles olhos carregados.
—Então deixa-me ir?
—Não. A Senhora vai para São Francisco na terça-feira.
Ela deu um gemido de horror e depois desatou aos gritos, baixinho,
mas com um som de tal maneira rouco que mal pareciam humanos, e batia
arrebatadamente com a cabeça no chão. O Dr. Macphail ergueu-se de um
salto e dirigiu-se a ela levantando-a.
—Vamos lá, não deve fazer isso. É melhor ir para o seu quarto e
deitar-se. Vou-lhe arranjar qualquer coisa.
Pô-la de pé e, em parte arrastando-a, em parte carregando com ela,
levou-a para baixo. Estava furioso com a Senhora Davidson e com a sua
mulher por não terem feito o menor esforço para o ajudar. O comerciante
estava no patamar e com a sua ajuda conseguiu pô-la na cama. Ela gemia e
chorava. Estava quase inconsciente. Deu-lhe uma injeção. Quando voltou
para cima, estava cheio de calor e completamente exausto.
—Deixei-a na cama.
As duas mulheres e Davidson estavam exatamente nas mesmas
posições como quando ele saíra. Não se deviam ter mexido ou falado
desde então.
—Estava à sua espera,— disse Davidson num tom estranho e
distante. —Eu queria que todos me acompanhassem numa oração pela
alma da nossa irmã pecadora.
Tirou a Bíblia de uma prateleira e sentou-se à mesa em que tinham
jantado. A mesa não tinha ainda sido levantada e ele afastou o bule. Numa
voz poderosa, ressonante e grave leu-lhes o capítulo em que se narra o
encontro de Jesus com a mulher adúltera.
—Agora ajoelhem-se comigo e rezemos pela alma da nossa querida
irmã, Sadie Thompson.
E começou a recitar arrebatadamente uma longa oração em que
implorava a Deus misericórdia para aquela pecadora. A Senhora Macphail
e a Senhora Davidson ajoelharam-se cobrindo os olhos com as mãos. O
médico, apanhado de surpresa, acanhado e desajeitado, ajoelhou-se
também. A oração do missionário era de uma eloquência selvagem. Ele
estava extremamente comovido, e à medida que falava as lágrimas
corriam-lhe pelo rosto. Lá fora, a chuva impiedosa caía, caía
perseverantemente, com uma malignidade cruel que era, toda ela, muito
humana.
Por fim, terminou a oração. Fez uma pausa e depois disse:
—Agora vamos repetir a oração do Senhor.
Eles disseram a oração e depois, imitando-o, ergueram-se. A Senhora
Davidson estava pálida e tranquila. Estava confortada e em paz, mas os
Macphails sentiram-se subitamente envergonhados. Não sabiam para onde
olhar.
—Eu vou lá abaixo ver como ela está,— disse o Dr. Macphail.
Quando bateu à porta, foi Horn quem a abriu. A Senhorita
Thompson estava sentada numa cadeira de balanço a soluçar baixinho.
—O que é que está a fazer aí sentada? exclamou Macphail. —Eu
disse-lhe que ficasse na cama.
—Não consigo ficar deitada. Quero falar com o Senhor Davidson.
—Ó minha pobre menina, e para quê? Nunca conseguirá comovê-lo.
—Ele disse que viria se eu o chamasse.
Macphail virou-se para o comerciante.
—Vá chamá-lo.
Ficaram os dois à espera, em silêncio, enquanto o comerciante ia lá
acima. Davidson entrou.
—Desculpe-me mandá-lo chamar aqui. - disse ela, olhando-o
sombriamente.
—Eu já estava à espera que me mandasse chamar. Eu sabia que o
Senhor ouviria a minha oração.
Ficaram por momentos a olhar um para o outro e depois ela desviou
o olhar. E continuou a não o olhar enquanto falava.
—Fui uma mulher má. Quero arrepender-me.
—Graças a Deus! Graças a Deus! Ele ouviu as nossas preces.
Virou-se para os dois homens.
—Deixem-me a sós com ela. Digam à Senhora Davidson que as
nossas preces foram ouvidas.
Eles saíram e fecharam a porta.
—Nossa!— disse o comerciante.
Naquela noite o Dr. Macphail só conseguiu adormecer muito tarde, e
quando ouviu o missionário a subir as escadas olhou para o relógio. Mas
mesmo a essa hora ele não foi logo para a cama, porque através do tabique
de madeira que separava os dois quartos ele ouviu-o a rezar em voz alta,
até que ele próprio, exausto, adormeceu.
Quando o viu na manhã seguinte ficou surpreendido com o seu
aspecto. Estava mais pálido do que nunca, cansado, mas os olhos
brilhavam com uma chama inumana. Dir-se-ia que ele estava possuído de
uma alegria esmagadora.
—Eu queria que o Senhor fosse agora lá abaixo ver a Sadie,— disse
ele. —Não posso esperar que o corpo esteja melhor, mas a alma — essa
está transformada.
O médico sentia-se abatido e nervoso.
—O Senhor esteve com ela até muito tarde,— disse ele.
—Estive sim, ela não me deixava vir embora.
—E o Senhor está feliz da vida,— disse o médico irritado.
Os olhos de Davidson brilharam de êxtase.
—Foi-me concedida uma grande Graça. Ontem à noite tive o
privilégio de trazer uma alma perdida para os braços dedicados de Jesus.
A Senhorita Thompson estava outra vez na cadeira de balanço. A
cama não tinha sido feita. O quarto estava desarrumado. Ela não tinha se
dado ao trabalho de vestir-se, e trazia um robe sujo, e o cabelo estava
amarrado num nó desmazelado. A cara, que ela tinha só passado com uma
toalha húmida, estava inchada e engelhada de chorar. Toda ela estava um
desmazelo.
Levantou os olhos lerdamente quando o médico entrou. Estava
desfeita e amedrontada.
—Onde está o Senhor Davidson? - perguntou.
—Ele já vem, se a Senhora quiser,— respondeu, azedo, Macphail. —
Eu vim ver como a Senhora está.
—Oh, acho que estou bem. Não sepreocupe.
—Já comeu alguma coisa?
—O Horn trouxe-me café.
Olhou ansiosa para a porta.
—Acha que ele vem já? Quando ele está, sinto-me como se as coisas
não estivessem assim tão más.
—Então vai embora na terça?
—Vou, ele diz que tenho de ir. Diga-lhe, por favor, que venha já. O
senhor não me pode fazer nada. Ele é a única pessoa que pode me ajudar
agora.
—Muito bem,— disse o Dr. Macphail.
Nos três dias seguintes, o missionário passou a maior parte do seu
tempo com Sadie Thompson. Só se reunia aos outros para as refeições. O
Dr. Macphail reparou que ele mal comia.
—Ele anda a esgotar-se,— dizia a Senhora Davidson
compassivamente. Ainda arranja algum esgotamento se não tem cuidado,
mas ele não se poupa.
Ela própria estava branca e pálida. - disse à Senhora Macphail que
não tinha dormido. Quando o missionário regressou da Senhorita
Thompson, rezou até ficar exausto, mas mesmo depois disso não dormiu
quase nada. Uma ou duas horas depois, levantou-se, vestiu-se, e foi dar um
passeio ao longo da baía. Teve sonhos estranhos.
—Hoje de manhã disse-me que tinha sonhado com as montanhas de
Nebraska,— disse a Senhora Davidson.
—É curioso,— disse o Dr. Macphail.
Lembrava-se de as ter visto da janela do trem quando atravessou a
América. Eram como que montículos de terra, redondos e suaves, e
erguiam-se abruptamente da planície. O Dr. Macphail lembrava-se como o
impressionara o fato de elas se assemelharem aos seios de uma mulher.
A impaciência de Davidson era intolerável, mesmo para ele próprio.
Mas uma excitação maravilhosa dava-lhe o necessário alento. Estava a
arrancar pela raiz os últimos vestígios de pecado que se escondiam nos
cantos ocultos do coração daquela pobre mulher. Ele lia e rezava com ela.
—É maravilhoso,— disse-lhes ele um dia ao jantar. —É um
verdadeiro renascer. A sua alma, que era negra como a noite, é agora
branca e pura como neve acabada de cair. Sinto-me humilde e receoso. O
seu remorso por todos os seus pecados é belo. Não sou digno de tocar a
bainha das suas roupas.
— Ainda tem coragem de a mandar de volta para São Francisco?
disse o médico. —Três anos numa prisão americana. Eu imaginava que o
senhor a pudesse ter salvo disso.
— Ah, mas não está vendo? Isso é necessário. Pensa que o meu
coração não sangra por ela? Eu amo-a como amo a minha mulher e a
minha irmã. Durante todo o tempo em que ela estiver na prisão eu vou
sentir todo o sofrimento que ela sentir.
— Palavras, — exclamou o médico impacientemente.
— O senhor não compreende porque é cego. Ela pecou, portanto tem
de sofrer. Eu sei o que ela vai suportar. Ela vai passar fome, vai ser
torturada e humilhada. Eu quero que ela aceite o castigo dos homens como
um Sacrifício a Deus. Quero que ela o aceite alegremente. Ela tem uma
oportunidade que só é oferecida a muito poucos de nós. Deus é muito bom
e misericordioso.
A voz de Davidson tremia de excitação. Mal conseguia articular as
palavras que se precipitavam arrebatadamente dos seus lábios.
— Rezo com ela todo o dia e quando a deixo rezo outra vez, rezo
com todas as minhas forças e vigor, para que Jesus lhe possa conceder esta
grande Graça. Quero pôr-lhe no coração o desejo arrebatado de ser
castigada para que no fim, mesmo que eu me ofereça para a deixar ir, ela
recuse. Quero que ela sinta que o castigo amargo da prisão é a dádiva de
gratidão que ela coloca aos pés do nosso abençoado Senhor, que deu a
vida por ela.
Os dias passavam devagar. Todas as pessoas da casa, concentradas
naquela mulher lá em baixo, desgraçada e torturada, viviam num estado de
excitação anormal. Ela era como que uma vítima a ser preparada para os
selvagens rituais de uma idolatria sangrenta. O terror entorpecia-a. Não
suportava a ausência de Davidson; só quando ele estava com ela sentia
coragem, dependia dele de uma maneira servil. Chorava muito, e lia a
Bíblia e rezava. Por vezes ficava exausta e apática. Ansiava então, de fato,
pela sua provação, porque lhe parecia a dádiva de uma fuga, direta e
concreta, da angústia por que estava a passar. Já não podia suportar por
muito mais tempo os vagos terrores que agora a assaltavam. Juntamente
com os seus pecados, ela pusera de parte toda a vaidade pessoal, e andava
pelo quarto despenteada e desgrenhada, no seu robe espalhafatoso. Já não
despia a camisola há quatro dias, nem trazia meias. O quarto estava
desarrumado e cheio de lixo. Entretanto a chuva caía com cruel
persistência. Ficava-se com a sensação de que no fim o céu iria ficar seco,
mas a água continuava a cair torrencial, vertical e pesadamente sobre o
telhado de zinco, com uma monotonia de enlouquecer. Estava tudo
húmido e pegajoso. Havia bolor nas paredes e nas botas que estavam no
chão. Ao longo das noites mal dormidas os mosquitos zumbiam no seu
cantar irritado.
— Se a chuva parasse ao menos por um dia que fosse, já não seria
tão mau,— disse o Dr. Macphail.
Todos eles ansiavam pela terça-feira em que o barco para São
Francisco devia chegar de Sidney. A tensão era intolerável. Para o Dr.
Macphail, a piedade e o ressentimento eram apagados pelo desejo de se
ver livre daquela infeliz. Tinha que se aceitar o inevitável. Ele sentia que
iria respirar melhor depois de o barco partir. Sadie Thompson seria
acompanhada até ao barco por um funcionário do gabinete do governador.
Essa pessoa apareceu na segunda-feira à noite e pediu à Senhorita
Thompson que estivesse pronta às onze da manhã. Davidson estava com
ela.
— Eu tratarei de fazer com que tudo esteja pronto. Eu próprio
tenciono acompanhá-la a bordo.
A Senhorita Thompson não falou.
Quando o Dr. Macphail apagou a vela e se meteu cautelosamente
debaixo do mosquiteiro, deu um suspiro de alívio.
— Bom, graças a Deus isto acabou. Amanhã a esta hora ela já não
estará aqui.
— A Senhora Davidson também vai ficar satisfeita. Ela diz que ele
está a ficar esgotado, a ficar uma sombra, — disse a Senhora Macphail. —
Ela está uma mulher diferente.
— Quem?
— Sadie. Nunca pensei que fosse possível. Faz-nos sentir humildes.
O Dr. Macphail não respondeu, e adormeceu logo. Estava esgotado,
e dormiu mais profundamente do que de costume.
Foi acordado de manhã por uma mão que lhe pousava no braço, e, ao
abrir os olhos, viu Horn ao lado da cama. O comerciante pôs-lhe um dedo
na boca para evitar qualquer exclamação sua, e fez-lhe sinal para vir com
ele. Geralmente vestia calças de linho coçadas, mas agora estava descalço
e trazia apenas o lava-lava dos indígenas. Subitamente parecia um
selvagem, e o Dr. Macphail, ao sair da cama reparou que ele estava muito
tatuado. Horn fez-lhe sinal para que viesse para a varanda. O Dr. Macphail
levantou-se da cama e seguiu o comerciante lá para fora.
— Não faça barulho, — murmurou ele. — Precisam do Senhor.
Depressa.
O seu primeiro pensamento foi que tivesse acontecido alguma coisa
à Senhorita Thompson.
— O que é que aconteceu? Levo os instrumentos?
— Depressa, por favor, depressa.
O Dr. Macphail voltou ao quarto, vestiu um impermeável por cima
do pijama e calçou uns sapatos de borracha. Foi ter de novo com o
comerciante e, juntos, desceram a escada em bicos de pés. A porta que
dava para a rua estava aberta, e lá fora estavam meia dúzia de indígenas.
— O que é que aconteceu? — repetiu o médico.
— Venha comigo, — disse Horn.
Ele saiu e o médico seguiu-o. Os indígenas seguiram-nos num
pequeno grupo. Atravessaram a estrada e chegaram à praia. O médico viu
um grupo de indígenas de pé, à volta de qualquer coisa à beira da água.
Apressaram o passo, uma dúzia de metros mais à frente, e os indígenas
afastaram-se quando o médico chegou. O comerciante empurrou-o para a
frente. Viu então, meio na água meio fora dela, uma coisa medonha, o
corpo de Davidson. O Dr. Macphail inclinou-se – ele não era homem para
perder a cabeça numa emergência – e voltou o corpo. A garganta estava
cortada de orelha a orelha, e na mão direita ainda estava a navalha de
barba com que o ato tinha sido cometido.
—Está completamente frio,— disse o médico. —Já deve estar morto
há algum tempo.
—Um dos rapazes viu-o ali deitado quando ia para o trabalho,
mesmo agora, e veio dizer-me. Acha que foi ele mesmo?
—Foi. Alguém tem de ir chamar a polícia.
Horn disse qualquer coisa na língua indígena, e dois rapazes
partiram.
—Temos de o deixar aqui até eles virem,— disse o médico.
—Não o podem levar para minha casa. Não o quero na minha casa.
—O senhor tem de fazer o que as autoridades mandarem,—
respondeu o médico incisivamente. —Mas espero realmente que eles o
levem para a casa mortuária.
Ficaram ali à espera. O comerciante tirou um cigarro de uma dobra
do lava-lava e deu um ao Dr. Macphail. Fumavam enquanto olhavam para
o cadáver. O Dr. Macphail não conseguia entender.
—Por que é que acha que ele fez isto? - perguntou Horn.
O médico encolheu os ombros. Pouco depois a polícia indígena, sob
o comando de um fuzileiro, chegou, com uma maca, e logo a seguir dois
oficiais e um médico da marinha. Trataram de tudo de uma maneira muito
prática.
—E a esposa? disse um dos oficiais.
—Agora que os Senhores aqui estão, eu vou voltar para a casa e
vestir qualquer coisa. Terei o cuidado de lhe suavizar a notícia. É melhor
ela não o ver enquanto ele não estiver um pouco mais bem arranjado.
—Acho que sim,— disse o médico naval.
Quando o Dr. Macphail chegou a casa encontrou a mulher já quase
pronta.
—A Senhora Davidson está num estado horrível por causa do
marido,— disse-lhe ela quando ele apareceu. —Ele não se deitou. Ela
ouviu-o a sair do quarto da Senhorita Thompson às duas horas, mas ele
saiu para a rua. Se ele andou todo este tempo a passear, deve estar
absolutamente morto.
O Dr. Macphail contou-lhe o que acontecera e pediu-lhe para dar a
notícia à Senhora Davidson.
—Mas por que é que ele fez isso? - perguntou ela horrorizada.
—Não sei.
—Mas eu não sou capaz. Não sou capaz.
—Precisa ser.
Ela olhou-o amedrontada e saiu. Ele ouviu-a entrar no quarto da
Senhora Davidson. Esperou um pouco até se recompor e depois começou
a fazer a barba e a lavar-se. Quando acabou de se vestir sentou-se na cama
e ficou à espera da mulher. Por fim ela voltou.
—Ela quer vê-lo,— disse ela.
—Levaram-no para a casa mortuária. É melhor irmos com ela. Como
é que ela recebeu a notícia?
—Acho que ficou espantada. Não chorou. Mas treme como uma
folha.
—É melhor irmos já.
Quando bateram à porta, a Senhora Davidson saiu. Estava muito
pálida, mas de olhos secos. Para o médico ela parecia anormalmente
recomposta. Não trocaram uma só palavra, e partiram em silêncio estrada
abaixo. Quando chegaram à casa mortuária a Senhora Davidson falou.
—Deixem-me ir vê-lo sozinha.
Eles afastaram-se. Um indígena abriu-lhe a porta e depois fechou-a
sobre ela. Sentaram-se e ficaram à espera. Um ou dois brancos vieram
falar com eles em voz baixa. O Dr. Macphail repetiu-lhes o que sabia
sobre a tragédia. Por fim a porta abriu-se devagar e a Senhora Davidson
saiu. Fez-se silêncio.
—Já estou pronta para ir embora,— disse ela.
A voz era dura e firme. O Dr. Macphail não conseguia compreender
aquele seu olhar. A sua cara pálida tinha uma expressão grave.
Caminharam devagar, nunca pronunciando uma única palavra, e por fim
dobraram a esquina do outro lado da qual se encontrava a casa. A Senhora
Davidson suspirou, e por momentos ficaram parados. Um som incrível
assaltou-lhes os ouvidos. O gramofone, que ficara tanto tempo calado
estava a tocar, a tocar ragtime alto e irritante.
—O que é aquilo? exclamou a Senhora Macphail horrorizada.
—Continuemos,— disse a Senhora Davidson.
Subiram os degraus e entraram no hall. A Senhorita Thompson
estava à porta do quarto a tagarelar com um marinheiro. Tinha havido nela
uma brusca mudança. Já não era a serva amedrontada dos últimos dias.
Estava vestida com todos os seus adornos, com o seu vestido branco, e
com as botas de cano alto de onde lhe saíam as pernas gordas dentro das
meias de algodão; o cabelo estava bem arranjado; e tinha na cabeça aquele
seu chapéu enorme coberto de flores garridas. Tinha a cara pintada,
sobrancelhas bem negras, e lábios vermelhos. Estava toda direita. Era
outra vez a rainha espalhafatosa que tinham conhecido antes. Quando eles
entraram desatou num riso alto e trocista; e depois, quando a Senhora
Davidson involuntariamente parou, ela juntou a saliva toda na boca e
cuspiu. A Senhora Davidson recuou e duas manchas vermelhas
apareceram-lhe no rosto. Depois, cobrindo a cara com as mãos, afastou-se
e correu escada acima. O Dr. Macphail ficou indignado. Entrou no quarto
empurrando aquela mulher.
—Que diabo é que está a fazer? clamou. —Desligue já esse maldito
aparelho.
Dirigiu-se ao gramofone e tirou o disco. Ela virou-se para ele.
—Êh, Doutor, também quer alguma coisa de mim? Que diabo o
Senhor está fazendo no meu quarto?
—O que é que quer dizer com isso? - exclamou ele. —O que é que
quer dizer com isso?
Ela recompôs-se. Era indescritível o desprezo da sua expressão e o
ódio desdenhoso que pôs na resposta.
—Vocês! Homens sujos! São todos porcos, todos vocês. Porcos!
Porcos!— O Dr. Macphail suspirou. Tinha compreendido.
O lar

A quinta ficava num vale, entre as colinas de Sommersetshire, uma


casa de pedra, de estilo antiquado, rodeada de celeiros, capoeiras e
alpendres. Por sobre a porta de entrada tinha esculpida, nos caracteres
elegantes da época, a data em que fora construída, 1673, e a casa, cinzenta
e marcada pelas intempéries, parecia fazer parte da paisagem, tal como as
árvores que a protegiam. Uma alameda de magníficos ulmeiros, que
seriam o orgulho de muitas mansões senhoriais, ligava a estrada ao jardim
bem arranjado. As pessoas que aqui viviam eram tão calmas, fortes e
modestas como a casa; o seu único orgulho era que, desde que fora
construída, toda a família, dos pais aos filhos, numa linha ininterrupta,
tinha nascido e morrido ali. Durante trezentos anos, tinham cultivado as
terras à sua volta. George Meadows era agora um homem de cinquenta
anos, e a mulher era um ou dois anos mais nova. Eram ambos pessoas
boas e aprumadas, na força da vida; e os filhos, dois rapazes e três moças,
eram fortes e bonitos. Não tinham quaisquer das recém-adquiridas
pretensões e afetações senhoris; conheciam bem a sua condição e tinham
orgulho dela. Nunca vi família mais unida. Eram alegres, trabalhadores e
simpáticos. A sua vida era patriarcal. Era de uma plenitude que lhe
conferia uma beleza tão definitiva como a de uma sinfonia de Beethoven
ou de um quadro de Ticiano. Eram felizes e mereciam essa felicidade. Mas
o chefe da casa não era George Meadows (nem por sombras, como se
dizia na aldeia); era a mãe dele. Ela era, muito mais do que o filho, o
homem da casa, diziam. Era uma mulher de setenta anos, alta, muito
direita, e majestosa, de cabelo grisalho, e embora tivesse a pele do rosto
muito enrugada, os olhos eram brilhantes e vivos. A sua palavra fazia lei
lá em casa e na quinta; mas tinha humor, e se a sua direção era despótica,
não deixava de ser também compreensiva. As pessoas riam das suas
graças e repetiam-nas. Era uma excelente mulher de negócios, e para lhe
levar a melhor era preciso não ter nascido ontem. Era uma pessoa original.
Combinava de maneira rara a benevolência com um agudo sentido do
ridículo.
Um dia a Sra. George deteve-me quando eu ia para casa. Estava toda
excitada. (A sogra era a única Sra. Meadows que nós conhecíamos; a
mulher do George era apenas conhecida por Sra. George.)
—Sabe quem é que chega hoje? - perguntou-me ela. —O Tio George
Meadows. Sabe? Aquele que estava na China.
—Como! Eu pensava que ele tinha morrido.
—Todos nós pensávamos que ele tinha morrido.
Eu já tinha ouvido a história do Tio George Meadows uma dúzia de
vezes, e essa história divertia-me porque tinha o sabor de uma velha
balada: era estranhamente tocante vê-la reproduzida na vida real. Porque o
Tio George Meadows e Tom, seu irmão mais novo, ambos tinham
cortejado a Sra. Meadows, quando ela ainda se chamava Emily Green, há
mais de cinquenta anos, e quando ela casou com o Tom, o George partiu
para o mar.
Tiveram notícias dele na costa da China. Durante vinte anos foi-lhes
mandando de vez em quando alguns presentes; depois deixaram de ter
notícias; quando Tom Meadows morreu, a viúva escreveu-lhe a dar a
notícia, mas não recebeu resposta; e por fim chegaram à conclusão que ele
devia ter morrido. Mas há dois ou três dias, para espanto de todos, tinham
recebido uma carta da governanta do lar dos marinheiros em Portsmouth.
Parece que nos últimos dez anos George Meadows, incapacitado com
reumatismo, estivera lá instalado, e agora, ao sentir que já não teria muito
mais tempo de vida, queria ver uma vez mais a casa onde nascera. Albert
Meadows, seu sobrinho-neto, tinha ido buscá-lo a Portsmouth, no Ford, e
devia chegar nessa tarde.
—Imagine só,— disse a Sra. George, —já aqui não vem há mais de
cinquenta anos. Nem sequer conhece o meu George, que vai fazer
cinquenta e um.
—E o que é que Sra. Meadows pensa disto? perguntei.
—Bem, o Senhor sabe como ela é. Fica ali sentada a sorrir. Só diz:
“Era um rapaz muito bem parecido quando se foi embora, mas não tão
estável como o irmão.” Por isso é que ela preferiu o pai do meu George.
“Mas agora já deve ter assentado,” diz ela.
A Sra. George pediu-me para ir lá vê-lo. Com a simplicidade de uma
mulher do campo que nunca viajara para mais longe do que Londres,
pensava que, como ambos tínhamos estado na China, devíamos ter
qualquer coisa em comum. Claro que aceitei. Quando lá cheguei,
encontrei a família toda reunida; estavam todos sentados na grande
cozinha velha, com o seu chão de pedra, a Sra. Meadows na sua cadeira
habitual junto do fogão, muito direita, e achei graça quando reparei que ela
tinha posto o seu melhor vestido de seda, e o filho e a mulher à mesa com
os filhos. Do outro lado do borralho, todo curvado, estava sentado um
velho. Era muito magro e a pele pendia-lhe dos ossos como um velho traje
já grande demais para ele; tinha o rosto engelhado e amarelado e a boca
quase completamente desdentada.
Trocamos um aperto de mão.
—Fico contente por saber que chegou bem, Senhor Meadows,—
disse eu.
—Comandante,— corrigiu ele.
—Veio a pé até aqui,— contou-me Albert, o sobrinho-neto. —
Quando chegamos ao portão, mandou-me parar e disse-me que queria ir a
pé.
—E repare bem, há dois anos que eu não me levantava da cama.
Trouxeram-me para baixo e puseram-me no carro. Pensei que nunca mais
ia andar, mas quando vejo aqueles ulmeiros, lembro-me da importância
que o meu pai dava àqueles ulmeiros, senti que ia conseguir andar. Foi por
aquele caminho que, há cinquenta e dois anos, me fui embora, a pé, e
agora regressei por ele, também a pé.
—A isso chamo eu uma patetice,— disse a Sra. Meadows.
—Fez-me bem. Sinto-me agora melhor, mais forte do que me senti
durante estes dez anos. Tu ainda hás-de ir à minha frente, Emily.
—Não tenhas tanta certeza disso,— respondeu ela.
Creio que já ninguém tratava a Sra. Meadows por tu talvez há uma
geração. Isso chocou-me um pouco, era como se aquele velho estivesse a
tomar demasiadas liberdades com ela. Ela olhava-o com um sorriso muito
vivo, e ele, ao falar com ela, abria a boca num sorriso largo que mostrava
as suas gengivas desdentadas. Era muito estranho vê-los ali, aqueles dois
velhos que não se viam há meio século e pensar que há todo esse tempo
ele a amara e ela amara outro. Eu gostaria de saber se eles ainda se
lembravam do que então sentiam e do que tinham dito um ao outro. E
gostaria também de saber se, a ele, agora lhe parecia estranho ter deixado
a casa dos pais, sua herança legítima, e ter vivido uma vida de exílio, tudo
por aquela mulher.
—Chegou a casar, alguma vez, Comandante Meadows? perguntei.
—Eu, nunca,— disse ele na sua voz trêmula, com um sorriso irônico.
—Conheço muito bem as mulheres para cair numa dessas.
—Isso é o que tu dizes,— retorquiu a Sra. Meadows. —Se se
pudesse saber a verdade, não ficaria nada admirada se me dissessem que
tinhas vivido com uma dúzia de negras.
—Elas, na China, não são negras, Emily, tinhas obrigação de saber
isso, são amarelas.
—Se calhar é por isso que tu próprio estás tão amarelo. Quando te vi,
disse para mim própria, oh, ele está com icterícia.
—Eu disse que nunca casaria com ninguém, a não ser contigo,
Emily, e nunca casei.
Não disse isto com dramatismo ou ressentimento, mas apenas como
a simples expressão de um fato, como quem dissesse, —Eu disse que faria
vinte milhas a pé e fiz mesmo. Havia um vestígio de satisfação naquela
afirmação.
—Bem, podias ter-te arrependido se o tivesses feito,— respondeu
ela.
Conversei durante algum tempo com o velho sobre a China.
—Não há um só porto na China que eu não conheça melhor do que o
Senhor conhece as suas mãos. Não há lugar nenhum onde um navio possa
aportar que eu não conheça. Podíamos ficar aqui o dia inteiro, durante seis
meses, que eu, mesmo assim, não teria tempo de vos contar metade das
coisas que vi na minha vida.
—Bem, mas pelo que já vi, há uma coisa que tu não fizeste,
George,— disse a Sra. Meadows ainda com um olhar trocista, mas não
malévolo, —foi fortuna.
—Eu não sou pessoa para poupar dinheiro. Ganhar e gastar; é esse o
meu lema. Mas uma coisa posso afirmar: se eu tivesse a oportunidade de
voltar a viver a minha vida, não a deixaria escapar. E não deve haver
muita gente que possa dizer o mesmo.
—De fato, não,— disse eu.
Olhei-o com admiração e respeito. Estava velho, coxo, desdentado e
sem vintém, mas tinha feito da vida um sucesso, porque a tinha
desfrutado. Quando o deixei, ele pediu-me para o ir ver outra vez no dia
seguinte. Se eu estava interessado na China, ele contar-me-ia tudo aquilo
que eu quisesse ouvir.
Na manhã seguinte, pensei ir lá perguntar se o velho queria que eu
fosse estar com ele. Fui pela bela alameda dos ulmeiros abaixo e quando
cheguei ao jardim vi a Sra. Meadows a apanhar flores. Dei-lhe o bom-dia
e ela ergueu-se. Sobraçava um enorme ramo de flores brancas. Olhei para
a casa e reparei que os estores estavam corridos: fiquei surpreendido,
porque a Sra. Meadows gostava de sol.
—Bem basta a escuridão quando nos enterrarem,— costumava ela
dizer.
—Como é que está o comandante Meadows? perguntei-lhe.
—Ele foi sempre um cabeça-no-ar,— respondeu ela. —Quando a
Lizzie lhe levou uma xícara de chá, de manhã, encontrou-o já morto.
—Morto?
—Sim, morreu durante o sono. Eu andava precisamente a apanhar
estas flores para lhas pôr no quarto. Mas, ainda bem que ele morreu
naquela velha casa. Isso é sempre muito importante para todos os
Meadows.
Tinha sido muito difícil convencê-lo a ir para a cama. Contou-lhes
tudo o que lhe tinha acontecido na sua longa vida. Sentia-se feliz por estar
de novo na sua velha casa. Sentia-se orgulhoso por ter feito a alameda a
pé, sem ajuda, e gabou-se de que iria ainda viver mais vinte anos. Mas o
destino fora bom para ele: a morte tinha posto o ponto final no lugar certo.
A Sra. Meadows cheirou as flores brancas que tinha nos braços.
—Ainda bem que ele voltou,— disse ela. —Depois de me casar com
o Tom Meadows, e de o George ter ido embora, a verdade é que eu nunca
tive bem a certeza sobre se tinha casado com o irmão certo.
O Dr. Sabe-tudo

Estava disposto a antipatizar com Max Kelada antes mesmo de


conhecê-lo.
Terminara a guerra e era grande a afluência de passageiros aos
navios de carreira. Dificilmente se conseguia acomodação e quem
desejasse viajar tinha que se conformar com o que as agências ofereciam.
Ninguém pensava na possibilidade de ocupar sozinho um camarote, e me
senti feliz quando me deram um onde havia apenas duas camas. Mas
quando me disseram o nome do companheiro, a minha satisfação se
desfez. Era como uma sugestão de vigias rigidamente fechadas, ausência
de ar no camarote, durante a noite.
Já era desagradável compartilhar de um camarote durante quatorze
dias (eu viajava de São Francisco para Yokoama); mas a partilha ter-me-ia
parecido menos desalentadora se o passageiro se chamasse Smith ou
Brown.
Quando embarquei já estava no camarote a bagagem do Sr. Kelada.
Desagradou-me o aspecto; rótulos em excesso nas malas de mão e
demasiado grande a mala de camarote.
O Sr. Kelada já retirara do estojo os objetos de toucador, e observei
que era cliente do maravilhoso Mousieur Coty, pois no lavatório o seu
perfume, a sua loção e a sua brilhantina. As escovas do Sr. Kelada, em
suportes de ébano com o monograma em ouro, eram o que havia de
melhor na matéria.
Antipatizei inteiramente com o Sr. Kelada.
Dirigi-me para a sala de fumar. Pedi um baralho e pus-me a jogar
"paciência". Mal começara, aproximou-se alguém, perguntando-me se o
meu nome não era esse mesmo.
— Eu sou o Sr. Kelada — acrescentou, com um sorriso em que
mostrava uma fila de dentes brilhantes; e sentou-se.
— Ah, sim, creio que estamos no mesmo camarote.
— É o que chamo de sorte. A gente nunca sabe com quem vai no
camarote. Fiquei contentíssimo ao saber que você era inglês. Gosto muito
que nós, ingleses, fiquemos juntos, a bordo, está entendendo?
Pestanejei.
— É inglês? — perguntei, talvez sem habilidade.
— Totalmente. Acha-me parecido com um americano? Sou inglês
até a medula.
Para prová-lo, o Sr. Kelada tirou do bolso um passaporte e, ufano,
agitou-o junto ao meu nariz.
O Rei Jorge tem muitos súditos estranhos. O Sr. Kelada era baixo e
de construção vigorosa, moreno e escanhoado; possuía um nariz carnudo e
adunco, e uns olhos muito grandes, brilhantes e límpidos.
Os cabelos negros e longos eram reluzentes e encaracolados. Falava
com uma fluência nada inglesa e os gestos eram exuberantes. Tinha a
íntima convicção de que um exame mais detido naquele passaporte
britânico me revelaria que o Sr. Kelada nascera sob céu mais azul do que
se vê geralmente na Inglaterra.
— O que vai tomar? — perguntou-me.
Olhei-o hesitante. A lei seca estava em vigor e, segundo todas as
aparências, o navio estava integralmente seco.
— Quando não estou com sede, não sei se o que me desagrada mais
é "ginger ale" ou limonada.
Mas no rosto do Sr. Kelada um sorriso oriental.
— Uísque com soda, ou Martini seco, é só dizer a palavra.
De cada um dos bolsos posteriores das calças retirou um frasco,
colocando-o sobre a mesa, diante de mim. Escolhi o martini. Ele chamou o
garçom e pediu gelo e dois copos.
— Um ótimo coquetel — disse eu.
— Pois há em quantidade na fonte de origem, e se você tiver amigos
a bordo, diga-lhes que descobriu um indivíduo que dispõe de todo o álcool
do mundo.
O Sr. Kelada era loquaz. Falou de Nova Iorque e de São Francisco.
Discutiu peças de teatro, filmes, política. Era patriota. O pavilhão britânico
é um impressionante pedaço de pano, mas quando é enfeitado por um
homem de Alexandria ou Beirute, não posso evitar a impressão de que
perde um quê de sua dignidade. O Sr. Kelada era íntimo. Não gosto de me
fazer importante mas julgo sempre inconveniente que uma pessoa
totalmente estranha não me conceda o tratamento de senhor. O Sr. Kelada
certamente para me deixar à vontade, não usava tal formalidade. Não
gostei dele. Deixei as cartas de lado quando ele se sentou: mas, achando
que para a primeira vez a nossa conversa já se estendera demais, continuei
com a "paciência".
— O três no quarto — disse o Sr. Kelada.
— Nada há demais desesperante quando estamos jogando paciência
do que nos dizerem onde devemos por a carta que viramos, antes de
termos tempo de olhar por nós mesmos.
— Está andando, está andando — gritou: — O dez no valete.
Com o coração cheio de ódio, terminei o jogo. Neste momento ele
segurou o baralho.
— Gosta de truques com cartas?
— Não; detesto truques com cartas, - respondi.
— Bem, vou mostrar-lhe só este.
Mostrou-me três. Depois, disse que ia descer para o salão de
refeições e escolher um lugar.
— Oh, não se incomode — disse ele. Já reservei um lugar para você.
Achei que, como estávamos no mesmo camarote, bem podíamos sentar-
nos à mesma mesa.
Sim, eu não gostava do Sr. Kelada. Não somente eu compartilhava o
camarote com ele e fazia três refeições por dia na mesma mesa, como
também não podia passear pelo convés sem que se juntasse a mim. Era
inútil fingir que não o via. Nunca lhe ocorria que não era desejado. Tinha a
convicção de que os outros ficavam tão contentes de vê-lo como ele de os
ver. Se estivéssemos em casa, poderíamos empurrá-lo escada abaixo,
batendo com a porta, sem que surgisse no seu cérebro a suspeita de que
não era uma visita desejada. Era muito sociável e, em três dias, já se dava
com todo o mundo a bordo.
Dominava tudo. Arranjava apostas, dirigia leilões, organizava
subscrições para os prêmios nas competições esportivas, inventava
partidas de chinquilho, promoveu o concerto e o baile à fantasia. Estava
sempre em toda a parte. Sem dúvida, era o homem mais odiado do navio.
Chamávamos-lhe o Dr. Sabe-tudo, mesmo diante dele. O Sr. Kelada
considerava-se elogiado. Mas, nas horas das refeições era que se tornava
ainda mais intolerável. Então, durante a melhor parte de uma hora, tinha-
nos à sua mercê. Era jovial, veemente, loquaz e questionador. Sabia tudo
melhor do que qualquer pessoa; e afrontava a sua vaidade presunçosa
quem discordasse dele. Não abandonava um assunto, por menor
importância que tivesse, a não ser quando conseguisse reduzir o
interlocutor ao seu ponto de vista. Nunca lhe ocorria a possibilidade de
que pudesse estar equivocado. Era o homem que sabia.
Sentávamo-nos à mesa do médico. O Sr. Kelada sem dúvida
manteria pacificamente a hegemonia, pois o médico era preguiçoso e eu,
frigidamente indiferente; mas havia também um homem chamado Ramsay
como companheiro de mesa. Era tão dogmático como o Sr. Kelada e
irritava-se amargamente com a inabalável firmeza do levantino. As
discussões que travaram eram ardentes e intermináveis. Ramsay estava no
serviço consular dos Estados Unidos em Kobe. Era um americano do meio
oeste, grande e pesado. A gordura esticava-lhe a epiderme, e por sua vez
esticara-lhe seus ternos de confecção. Viajava de volta para o seu posto,
depois de uma rápida visita a Nova Iorque onde fora buscar a mulher, que
estivera passando um ano em sua terra.
A Sra. Ramsay era uma mulher miúda e linda, de maneiras
agradáveis e portadora de senso de humor. O serviço consular é mal pago
e ela vestia com simplicidade, mas sabia tirar partido de seus vestidos. O
efeito que causava era de serena distinção. Não teria lhe prestado atenção
particular se ela não tivesse uma qualidade que poderá ser bastante comum
nas mulheres, mas que hoje não é comum no comportamento delas. Não
era possível olhar a Sra. Ramsay sem notar desde logo a sua modéstia.
Fulgia na sua pessoa como uma flor na lapela. Uma noite, durante o jantar,
a conversa casualmente recaiu sobre o tema pérolas.
Os jornais vinham noticiando a cultura de pérolas pelos hábeis
processos dos japoneses e o médico observou que as pérolas cultivadas
diminuiriam o valor das verdadeiras. Aquelas já eram ótimas; em breve
seriam perfeitas. O Sr. Kelada, como era de seu hábito, embrenhou-se no
novo tema. - disse-nos tudo o que havia sobre pérolas. Creio que Ramsay
soubesse pouco sobre elas, mas não pôde resistir à oportunidade de
zombar do levantino e, em cinco minutos, estávamos numa discussão
exaltada.
Eu já assistira a outros gestos de impetuosidade e volubilidade do
Sr. Kelada, nunca, porém, o vira tão impetuoso e volúvel como agora.
Finalmente, estimulou-o qualquer coisa que Ramsay disse, porque ele deu
um soco na mesa e gritou:
— Bem, acho que entendo do que estou falando. Vou ao Japão
exatamente para tratar desse negócio de pérolas. Estou no ramo e não há
qualquer homem no ramo que não lhe afirme que o digo sobre pérolas é
lei. Conheço as melhores pérolas do mundo e o que não conheço não vale
a pena conhecer.
Eram novas para nós, porque o Sr. Kelada, apesar de toda a sua
loquacidade, não dissera a ninguém qual a sua ocupação. Sabíamos apenas
vagamente que ia ao Japão a negócios. Olhou a volta da mesa,
triunfalmente.
— Os japoneses jamais conseguirão uma pérola cultivada que um
perito, como eu, não conheça, olhando-a com o canto do olho. — Apontou
para o colar que a Sra. Ramsay usava: — Pode confiar na minha palavra,
Sra. Ramsay: "este colar que a senhora está usando nunca valerá um
centavo menos do que vale agora."
A Sra. Ramsay, à sua maneira modesta, corou um pouco e empurrou
o colar para dentro do vestido. Ramsay inclinou-se para a frente. Olhou
para nós todos. Um sorriso brincava nos seus olhos.
— É um belo colar, esse da minha mulher, não acha?
— Notei-o logo — respondeu o Sr. Kelada — Hanhan, disse cá
comigo; essas pérolas são verdadeiras.
— Não fui eu quem as comprou, naturalmente. Gostaria de saber
quanto calcula que custaram.
— Oh, no comércio em grosso devem ter andado em quinze mil
dólares. Mas se forem compradas na Quinta Avenida, não me
surpreenderia se dissessem que o preço andou pelos trinta mil.
Ramsay sorriu com crueldade.
— Pois vai surpreender-se ao saber que a minha comprou esse colar
no balcão de bijuterias de uma loja de departamentos na véspera de nossa
saída de Nova Iorque por dezoito dólares.
O Sr. Kelada ruborizou-se.
— Tolice! O colar é legítimo; é, pelo tamanho, um dos mais belos
que eu já vi.
— Quer fazer uma aposta? Aposto cem dólares como é imitação.
— Aceito.
— Ora Elmer, você não pode apostar numa certeza — disse a Sra.
Ramsay.
Trazia um leve sorriso nos lábios e o tom de sua voz era levemente
súplice.
— Acha? Se tenho uma oportunidade como esta de ganhar dinheiro
facilmente, seria um tolo se não aproveitasse.
— Mas como vamos provar? — continuou ela. — é apenas a minha
palavra contra a do Sr. Kelada.
— Permita-me examinar o colar; se for imitação, hei de lhe dizer
logo. Posso perder cem dólares. - disse o Sr. Kelada.
— Tire-o querida. Deixe o Sr. Kelada examiná-lo à vontade.
A Sra. Ramsay vacilou um momento. Levou as mãos ao fecho. —
Não posso abrir — disse — O Sr. Kelada terá de contentar-se com a
minha palavra.
Invadiu-me a súbita suspeita de que estava para acontecer qualquer
coisa infeliz, e não me ocorreu nada para dizer. Ramsay levantou-se
bruscamente.
— Eu abro.
Entregou o colar ao Sr. Kelada. O levantino retirou do bolso uma
lupa e examinou-o atentamente. Um sorriso de triunfo espalhou-se pelo
rosto liso e trigueiro. Devolveu o colar. Ia falar quando subitamente
reparou no rosto da Sra. Ramsay. Estava tão pálido que parecia que ela ia
desmaiar. Encarava-o de olhos muito abertos, aterrorizados. Transmitia
um desesperado apelo; tão claro que estranhei que o marido não o notasse.
O Sr. Kelada ficou silencioso, a boca entreaberta. Enrubesceu
violentamente. Quase podia ver-se o esforço que fazia sobre si mesmo.
— Enganei-me — disse — É uma excelente imitação, mas
naturalmente, quando examinei o colar com a lupa, vi que não era
legítimo. Creio que vale dezoito dólares, no máximo.
— Talvez isso o ensine a não ser tão auto-suficiente de outra vez,
meu jovem amigo — disse Ramsay tomando a nota.
Notei que as mãos do Sr. Kelada tremiam.
A história espalhou-se pelo navio, como sucede sempre com as
histórias e, naquela noite, ele teve de enfrentar a zombaria de muitos. Era
um grande motivo para hilaridade o ter sido apanhado em erro o Dr. Sabe-
Tudo. Mas a Sra. Ramsay se retirou para o camarote com uma dor de
cabeça.
Na manhã seguinte, levantei-me e pus-me a fazer a barba. O Sr.
Kelada permanecia deitado, fumando. Subitamente, ouvi um pequeno
roçar, e vi uma carta deslizando por baixo da porta. Abri a porta e olhei
para fora. Não havia ninguém. Tomei da carta e vi que estava endereçada
para o Sr. Kelada. O nome estava escrito em letras de fôrma. Entreguei-
lhe.
— De quem é? — Abriu-a. — Oh!
Tirou do envelope não uma carta, mas uma nota de cem dólares.
Olhou para mim e tornou a enrubescer. Rasgou o envelope em pedacinhos
e os pôs na minha mão.
— Quer fazer o favor de atirar pela vigia?
Fiz o que me pedia e depois olhei-o com um sorriso.
— Ninguém gosta de passar por um perfeito idiota — disse ele.
— As pérolas eram legítimas?
— Se eu tivesse uma linda mulher, não a deixaria passar um ano em
Nova Iorque, enquanto eu estivesse em Kobe... — disse-me.
Nesse momento, não antipatizei de todo com o Sr. Kelada. Ele
estendeu a mão, tirou a carteira, e nela colocou cuidadosamente a nota de
cem dólares.
O barco da ira

Muito poucos livros haverá no mundo com mais substância do que


este, intitulado Instruções para a Navegação e publicado pelo
Departamento Hidrográfico por ordem dos Lordes Comissários do
Almirantado. São alguns belos volumes encadernados (muito fragilmente)
em tecidos de diferentes cores, e mesmo o mais caro deles é ainda um
livro barato. Por quatro shillings pode comprar-se O Piloto do Yangtse
Kiang, "que contém uma descrição e instruções para o Yangtse Kiang,
desde o rio Wusung até ao ponto mais alto navegável, incluindo o Han
Kiang, o Kialing Kiang e o Min Kiang"; e por três shillings pode-se
adquirir a III Parte de O Piloto do Arquipélago Oriental, que compreende
a ponta Nordeste das passagens das Celebes, Molucas e Gilolo, os Mares
Banda e Arafura, e as costas Norte, Oeste e Sudoeste da Nova Guiné".
Mas se o leitor é uma pessoa de hábitos enraizados que não quer alterar,
ou tem uma ocupação que o tem amarrado a um só lugar, não lhos
recomendo. Estes livros de aspeto muito prático levam-nos em espírito em
viagens encantadas, e o seu estilo terra-a-terra, a sua admirável ordenação,
a concisão com que o material nos é apresentado, o austero sentido prático
que informa cada linha, não consegue esbater a poesia que emana das suas
páginas impressas com uma doce fragrância, como a brisa condimentada
que nos assalta os sentidos com um langor mais do que material quando
nos aproximamos de algumas das ilhas mágicas dos mares do Levante.
Falam-nos dos ancoradouros e embarcadouros, das provisões que se
podem arranjar em cada local, e onde se pode encontrar água; falam-nos
das luzes e bóias, marés e ventos, e do tempo que lá vamos encontrar.
Dão-nos breves informações acerca da população e do comércio. E é
estranho quando pensamos na serenidade com que tudo ali é posto, sem
palavras a mais, e no tanto que recebemos a mais. O quê? Bem, o mistério
e a beleza, o romance e a sedução do desconhecido. Não é qualquer livro
que, ao folhearmos as suas páginas, nos oferece um parágrafo como este:
"Provisões. Algumas aves selvagens estão preservadas, a ilha é também
refúgio de um grande número de aves marinhas. Na laguna há tartarugas,
bem como grandes quantidades de peixes muito variados, incluindo o
salmonete cinzento, o tubarão e o cação; a rede de arrasto é aqui inútil;
mas há peixe que pode ser pescado à linha. Há uma pequena provisão de
enlatados e bebidas numa cabana para os náufragos. Pode-se obter boa
água num poço perto do ancoradouro". Pode a imaginação querer mais
material do que este para uma viagem no tempo e no espaço?
No volume de que extraí esta passagem, os compiladores
descreveram, com a mesma sobriedade, as Ilhas Alas. São constituídas por
um grupo ou cadeia de ilhas "na sua maioria planas e florestadas, que se
estendem por cerca de 70 milhas no sentido Este Oeste e 80 milhas no
sentido Norte Sul". As informações sobre elas, dizem-nos, são escassas; há
estreitos entre os diferentes grupos, e vários navios já neles passaram, mas
ainda não foram completamente explorados, e a localização dos seus
muitos perigos ainda não determinados; é, portanto, aconselhável evitá-
los. A população do arquipélago é estimada em cerca de 8000 habitantes,
dos quais 200 são chineses e 800, maometanos. Os restantes são
selvagens. A ilha principal chama-se Baru, é rodeada de recifes, e é lá que
vive um Administrador holandês. A sua moradia branca, de telhado
vermelho, no cimo de uma pequena colina, é o objeto mais proeminente
que os navios da Royal Netherlands Steam Packlet Company vêem
quando, mês sim, mês não, ao subirem a caminho de Macassar, e de
quatro em quatro semanas, ao descerem a caminho de Merauke, na Nova
Guiné Holandesa, aportam à ilha.
Num dado momento da história mundial, o Administrador era
Mynheer Evert Gruyter, que governava o povo que habitava as Ilhas Alas
com uma firmeza temperada por um agudo sentido do ridículo. Achara
que tinha tido imensa piada ele ter sido colocado, aos vinte e sete anos, em
cargo de tal importância, e aos trinta, ainda achava graça ao fato. Não
havia comunicações por cabo entre as ilhas e Batávia, e o correio chegava
com tanto atraso que mesmo que pedisse algum conselho, quando o
recebesse, já seria inútil, e, por isso, acabava sempre por fazer aquilo que
achava que era melhor e confiava na sua boa sorte para não vir a ter
problemas com as autoridades. Era um homem de muito baixa estatura,
não mais que um metro e sessenta de altura, e extremamente gordo, e de
pele rosada. Por uma questão de frescura, usava o cabelo rapado e não
usava barba. O rosto era redondo e vermelho. As sobrancelhas eram tão
louras que mal se viam; tinha olhos pequenos, azuis e cintilantes. Sabia
que o seu aspeto físico não lhe dava um ar de dignidade e, por causa do
cargo que ocupava, procurava ir buscá-la à maneira elegante como sempre
andava vestido. Nunca ia para a repartição, nem tomava o seu lugar no
tribunal, nem andava em público senão vestido impecavelmente de
branco. O stengah-shifter, com botões de latão amarelo, ficava-lhe muito
apertado e revelava o fato chocante de que, embora ainda novo, tinha já
uma proeminente barriga redonda. A sua cara bem disposta brilhava de
suor e ele abanava-se constantemente com um leque de folha de palmeira.
Mas em casa do Sr. Gruyter preferia usar apenas um sarongue e,
então, com o seu pequeno corpo branco e rechonchudo, parecia um
cômico rapazinho de dezasseis anos. Era madrugador, e o seu pequeno
almoço estava sempre pronto às seis. Nunca variava. Consistia de uma
fatia de papaia, três ovos fritos, frios, queijo Edam cortado fino, e uma
chávena de café. Depois de o tomar, fumava um grande charuto holandês,
lia os jornais, se não estivessem já lidos e relidos, e depois vestia-se para ir
para a repartição.
Uma certa manhã, enquanto estava ocupado nestas tarefas, o chefe
dos criados entrou no quarto e disse-lhe que o Tuan Jones perguntava se
podia falar com ele. O Sr. Gruyter estava em frente ao espelho. Tinha as
calças vestidas e admirava o seu peito macio. Puxou o peito para fora de
modo a fazê-lo sobressair e encolheu a barriga e, com uma boa dose de
satisfação, deu três ou quatro sonoras palmadas no peito. Era um peito
viril. Quando o criado trouxe o recado, ele olhava os próprios olhos no
espelho e trocou com eles um sorriso levemente irônico. Interrogava-se
sobre que diabo quereria o visitante. Evert Gruyter falava inglês, holandês
e malaio com igual facilidade, mas pensava em holandês. E gostava disso.
Achava que era uma língua agradavelmente irreverente.
— Pede ao Tuan que espere e diz-lhe que vou já.
Vestiu a túnica sobre o corpo nu, abotoou-o e encaminhou-se
empertigado para a sala de estar. O Rev. Owen Jones pôs-se de pé.
— Bom dia, Sr. Jones — disse o Administrador. — O senhor veio
para um aperitivo antes do meu dia de trabalho?
O Sr. Jones não sorriu.
— Vim falar consigo sobre um assunto muito triste, Sr. Gruyter —
respondeu ele.
O Administrador não se desconcertou com o tom grave do visitante,
nem com as suas palavras. Os seus olhos chispavam amigavelmente.
— Sente-se, meu amigo, e fume um charuto.
O Sr. Gruyter sabia muito bem que o Rev. Owen Jones não bebia
nem fumava, mas qualquer coisa de traquina na sua natureza levava-o a
oferecer-lhe uma bebida e um charuto sempre que se encontravam. O Sr.
Jones abanou a cabeça.
O Sr. Jones dirigia a Missão Baptista nas Ilhas Alas. A sede era em
Baru, a maior de todas e a mais populosa, mas tinha casas de culto ao
cuidado de ajudantes indígenas em várias ilhas do arquipélago. Era um
homem alto, magro, de ar melancólico, rosto comprido, amarelo e seco, de
cerca de quarenta anos. O cabelo castanho já estava branco nas têmporas e
esbatia a partir da testa. Isto dava-lhe um ar de intelectualidade vazia. O
Sr. Gruyter não gostava dele, mas, ao mesmo tempo, respeitava-o. Não
gostava dele porque era estreito de espírito e dogmático. Sendo ele próprio
um pagão alegre que apreciava as coisas boas da carne e determinado a
conseguir tantas quanto as circunstâncias lhe permitissem, não tinha
paciência para um homem que as condenava a todas. Achava que os
costumes do país estavam bem para os seus habitantes e não tinha
paciência para os enérgicos esforços do missionário no sentido de destruir
um estilo de vida que há séculos resultava tão bem. Respeitava-o porque
ele era honesto, zeloso e bom. O Sr. Jones, um australiano de origem
galesa, era o único médico qualificado no arquipélago e era muito bom
saber que se uma pessoa adoecesse não tinha de recorrer apenas ao prático
chinês, e ninguém sabia melhor do que o Administrador como a
competência do Sr. Jones fora útil para todos e com que espírito de
caridade ele se entregara àquela missão. Por ocasião de uma epidemia de
gripe, o missionário tinha feito o trabalho de dez homens e nem um
qualquer tufão o impedia de ir de ilha em ilha se a sua ajuda fosse
necessária.
Vivia com a irmã numa casinha branca a cerca de meia milha da
aldeia, e quando o Administrador chegou à ilha foi a bordo recebê-lo,
pedindo-lhe que ficasse em sua casa até a dele estar em ordem. O
Administrador aceitara e depressa viu por si próprio a simplicidade com
que eles viviam. Aquilo era demais para ele. Chá nas três escassas
refeições por dia, e quando ele acendeu o seu charuto O Sr. Jones pediu-
lhe delicada mas firmemente a fineza de não fumar porque tanto ele como
a irmã eram vigorosamente contra o tabaco. Vinte e quatro horas depois o
Sr. Gruyter mudou-se para a sua casa. Fugiu em pânico, como se fugisse
de uma cidade empestada. O Administrador apreciava uma boa piada e
gostava de rir; conviver com uma pessoa que levava as suas graças
terrivelmente a sério e que nem nunca sorria, por melhor que fosse a
história, era demais para qualquer mortal. O Rev. Owen Jones era um
homem de valor, mas como companhia, completamente impossível. A
irmã era pior. Nenhum dos dois tinha sentido de humor, mas enquanto o
missionário era de temperamento melancólico, cumprindo os seus deveres
muito conscienciosamente, com a evidente convicção de que tudo no
mundo estava perdido, Senhorita Jones era uma pessoa decididamente
bem disposta. Olhava severamente o lado resplandecente das coisas. Com
a ferocidade de um anjo vingador, esquadrinhava o lado bom do seu
semelhante. Senhorita Jones ensinava na escola da missão e ajudava o
irmão no seu trabalho médico. Quando ele operava, ela administrava a
anestesia e era a governanta, o cirurgião ajudante e a enfermeira do
pequeno hospital que o Sr. Jones acrescentara à missão. Mas o
Administrador era um homenzinho obstinado e nunca perdia a sua
capacidade de tirar algum divertimento da obstinada luta do Rev. Owen
com as enfermidades da natureza humana, e do otimismo impiedoso de
Senhorita Jones. Tinha de se divertir como podia. Os barcos holandeses
vinham três vezes cada dois meses e ficavam algumas horas e nessas
alturas ele podia ter uma bela papear com o capitão e o engenheiro chefe,
e muito raramente um lugre da pesca de pérolas chegava da Ilha de
Quinta-feira ou de Porto Darwin e durante dois ou três dias ele divertia-se
à grande. Na sua maioria, eram indivíduos rudes, os pescadores de pérolas,
mas cheios de coragem, e tinham bastantes bebidas a bordo, e boas
histórias para contar, e o Administrador levava-os a sua casa e oferecia-
lhes um belo jantar, e a festa só era de fato um sucesso quando todos
ficavam tão bêbados que nem pudessem voltar para o barco nessa mesma
noite. Mas além do missionário, o único branco que vivia em Baru era
Ginger Ted, que era, claro, uma desgraça para a civilização. Não havia
uma única coisa que se pudesse dizer a seu favor. Ele lançava o descrédito
sobre a raça branca. Mas mesmo assim, se não fosse Ginger Ted, o
Administrador achava que a vida na Ilha de Baru seria insuportável.
E o que é curioso é que era exatamente por causa deste tratante que o
Sr. Jones, em vez de estar a instruir os jovens pagãos sobre os mistérios da
fé Baptista, estava a fazer esta visita matinal ao Sr. Gruyter.
— Faça favor de se sentar, Sr. Jones — disse o Administrador. —
Em que é que eu lhe posso ser útil?
— Bom, eu vim falar consigo sobre aquele homem a quem chama
Ginger Ted. O que é que o senhor vai fazer agora?
— Mas, o que é que aconteceu?
— O senhor não sabe? Pensava que o sargento lhe tivesse dito.
— Eu não gosto que os meus funcionários venham a minha casa, a
não ser que se trate de assunto urgente — disse o Administrador com
imponência. — Não sou como o senhor, eu só trabalho para poder ter
horas de lazer, e gosto de gozar os meus lazeres sem ser incomodado.
Mas o Sr. Jones não ligava muito a conversas banais e não estava
interessado em reflexões de caráter geral.
— Houve uma desordem vergonhosa numa das lojas chinesas ontem
à noite. Ginger Ted destruiu a loja e quase matou um chinês.
— Outra vez bêbado, claro — disse o Administrador calmamente.
— Claro. Quando é que ele não o está? Chamaram a polícia e ele
agrediu o sargento. Foram precisos seis homens para o levar para a cadeia.
— Ele é um tipo robusto — disse o Administrador.
— O senhor com certeza vai mandá-lo para Macassar.
Evert Gruyter correspondeu ao olhar ultrajado do missionário com
um alegre pestanejo. Não era parvo e já sabia o que o Sr. Jones estava a
preparar. Dava-lhe muito gozo espicaçá-lo um pouco.
— Felizmente os meus poderes são tão amplos que me permitem
tratar, eu próprio, da situação — respondeu ele.
— O senhor tem o poder de deportar quem quiser, Sr. Gruyter, e
tenho a certeza de que se evitariam muitos problemas se o senhor se
livrasse completamente do homem.
— Tenho, de fato, esse poder, mas também tenho a certeza de que o
senhor seria a última pessoa a desejar que eu o usasse arbitrariamente.
— Sr. Gruyter, a presença desse homem aqui é um escândalo
público. Nunca está sóbrio de manhã à noite; é público que ele tem
relações com mulheres umas atrás das outras.
— Esse ponto é interessante, Sr. Jones. Sempre ouvi dizer que o
excesso de álcool, embora estimule o desejo sexual, impede a sua
realização. O que me está a dizer de Ginger Ted parece não confirmar essa
teoria.
O missionário corou.
— Isso são questões psicológicas que de momento não desejo
abordar — disse ele friamente. — O comportamento deste homem causa,
de fato, danos ao prestígio da raça branca, e o seu exemplo é um sério
obstáculo aos esforços feitos noutros campos no sentido de induzir as
pessoas destas ilhas a levar uma vida menos depravada. Ele é uma pessoa
mesmo má.
— Desculpe a minha pergunta, mas já fez alguma tentativa para o
regenerar?
— Quando ele aqui caiu pela primeira vez, fiz o possível por entrar
em contato com ele. Ele repeliu todas as minhas tentativas. Quando houve
aquele primeiro problema, fui ter com ele e falei-lhe sem rodeios. Ele
insultou-me.
— Ninguém mais do que eu aprecia o excelente trabalho que o
senhor e os outros missionários fazem nestas ilhas, mas o senhor tem a
certeza de que exercem sempre a vossa atividade com todo o tato
possível?
O Administrador ficou satisfeito com esta sua frase. Era
extremamente cortês, mas continha uma crítica que ele considerava válida.
O missionário olhou-o gravemente. Os seus tristes olhos castanhos
estavam cheios de sinceridade.
— E Jesus Cristo agiu com tato quando expulsou os vendedores do
Templo? Não, Sr. Gruyter. O tato é o subterfúgio de que os fracos se
servem para não cumprirem com os seus deveres.
A observação de Sr. Jones fez com que o Administrador sentisse um
súbito desejo de uma cerveja. O missionário inclinou-se para a frente com
ar muito sério.
— Sr. Gruyter, o senhor conhece as transgressões deste homem tão
bem como eu. Não preciso de lhas recordar. Não há quaisquer desculpas
para ele. Desta vez ultrapassou os limites. O senhor nunca mais vai ter
uma oportunidade tão boa. Peço-lhe que use dos seus poderes e o expulse
de uma vez por todas.
O Administrador piscou os olhos mais claramente do que nunca.
Estava a divertir-se imenso. Pensou que os seres humanos eram muito
mais divertidos quando uma pessoa não se sentia obrigada a lidar com eles
para os louvar ou criticar.
— Mas, Sr. Jones, será que eu o entendi bem? O senhor está a pedir-
me que lhe garanta a deportação deste homem antes ainda de eu saber de
que o acusam e de ouvir a sua defesa?
— Não sei qual poderá ser a sua defesa.
O Administrador levantou-se da cadeira e conseguiu realmente
alguma dignidade para os seus metro e sessenta.
— Eu estou aqui para administrar a justiça de acordo com as leis do
governo holandês. Permita-me que lhe diga que fiquei extremamente
surpreendido por o senhor tentar influenciar-me nas minhas funções
judiciais.
O missionário ficou ligeiramente nervoso. Nunca lhe passara pela
cabeça que este frangote impudente, dez anos mais novo do que ele,
pudesse adoptar tal atitude. Ia a abrir a boca para se explicar e desculpar,
mas o Administrador ergueu a mãozinha grosseira.
— Está na hora de eu ir para a repartição, Sr. Jones. Desejo-lhe um
bom dia.
O missionário, surpreendido, fez uma vênia e sem mais uma palavra
saiu da sala. E teria ficado ainda mais surpreendido se visse o que o
Administrador fez logo que o viu pelas costas. Um largo sorriso
escarninho assomou-lhe aos lábios e, levando o polegar ao nariz, fez uma
careta ao Rev. Owen Jones.
Minutos depois foi para a repartição. O chefe dos funcionários, que
era um mestiço holandês, deu-lhe a sua versão da desordem da noite
anterior. Condizia bastante com a do Sr. Jones. Ia haver uma audiência
nesse dia.
— O senhor vai começar pelo Ginger Ted? — perguntou o
funcionário.
— Não vejo qualquer razão para isso. Há mais dois ou três casos que
ficaram da última audiência. Vou tratar do caso dele na altura própria.
— Pensei que, como é branco, talvez o senhor quisesse falar com ele
em particular.
— A majestade da lei não conhece diferença entre pessoas brancas e
de cor, meu amigo — disse o Sr. Gruyter, algo pomposamente.
O tribunal era uma sala quadrada, grande, com bancos de madeira
em que se amontoavam indígenas de todos os gêneros, polinésios, bugis,
chineses, malaios, e todos se levantaram quando a porta se abriu e um
sargento anunciou a chegada do Administrador. Este entrou acompanhado
do funcionário e tomou o seu lugar a uma mesa de pinho envernizado
sobre um pequeno estrado. Atrás de si via-se uma gravura da Rainha
Guilhermina. Despachou meia dúzia de casos e depois trouxeram Ginger
Ted. Este ficou de pé na teia, algemado, com um guarda de cada lado. O
Administrador olhou com ar grave, mas não conseguiu esconder o gozo do
seu olhar.
Ginger Ted estava com a ressaca. De pé, vacilava um pouco, e o seu
olhar era vazio. Era um homem ainda novo, de trinta anos, talvez, de
estatura um pouco mais do que mediana, um tanto gordo, com o rosto
vermelho inchado, e o cabelo ruivo encaracolado desgrenhado. Não saíra
da refrega incólume. Tinha um olho negro e a boca inchada e com um
golpe. Vestia calças de caqui, muito sujas e esfarrapadas e a camiseta
interior quase lhe fora arrancada do corpo. Um grande rasgão deixava ver
o espesso tufo de pelos ruivos que lhe cobria o peito e também a
surpreendente brancura da pele. O Administrador olhou para a folha da
acusação. Depois de ouvir as testemunhas, depois de ver o chinês a quem
Ginger Ted partira a cabeça com uma garrafa, depois de ouvir a
movimentada história do sargento que fora agredido quando tentava
prendê-lo, depois de ouvir o relato dos estragos provocados por Ginger
Ted, que na fúria da embriaguez tinha destruído tudo aquilo que lhe veio à
mão, voltou-se para o réu e falou em inglês.
— Então, Ginger, o que é que tens a dizer em tua defesa?
— Eu estava cego. Não me lembro de nada. Se eles dizem que eu
quase o matei, se calhar foi mesmo. Eu pago os estragos se me derem um
tempo.
— Pagas, pagas, Ginger — disse o Administrador — mas eu é que te
vou dar o tempo.
Por momentos olhou para Ginger Ted em silêncio. Era uma figura
nada atraente. Um homem completamente desfeito. Estava horrível. Olhar
para ele causava arrepios, e se o Sr. Jones não tivesse sido tão importuno o
Administrador teria ordenado a sua deportação.
— Tu tens sido um problema desde que chegaste às ilhas, Ginger. És
uma vergonha. És um ocioso incorrigível. Já foste apanhado na rua
perdido de bêbado vezes sem conta. Provocas desordens umas atrás das
outras. Não tens emenda. Da última vez que aqui te trouxeram disse-te que
se fosses preso outra vez serias tratado severamente. Desta vez passaste os
limites e estás feito. Condeno-te a seis meses de trabalhos forçados.
— A mim?
— Sim, a ti.
— Juro por Deus que o mato quando sair.
Desatou num chorrilho de imprecações sujas e blasfemas. O Sr.
Gruyter ouvia-o com desprezo. Pode-se praguejar muito melhor em
holandês do que em inglês, e não havia nada que Ginger Ted dissesse que
ele não pudesse cobrir eficazmente.
— Cala-te — mandou ele. — Tu me cansas.
O Administrador repetiu a sentença em malaio e o prisioneiro, a
debater-se, foi dali levado à força.
O Sr. Gruyter sentou-se, bem disposto, para o almoço. Era espantoso
como a vida podia ser divertida se, se usasse de um certo engenho. Havia
pessoas em Amsterdã, e até em Batávia e Surabaia, que olhavam esta sua
ilha como lugar de exílio. Mal eles sabiam como era agradável e que
prazer se podia tirar de coisas que pareciam pouco prometedoras.
Perguntavam-lhe se ele não sentia a falta do clube e das corridas e do
cinema, dos bailes que se realizavam uma vez por semana no Casino, e da
companhia das senhoras holandesas. De modo nenhum. Ele gostava do
conforto. A mobília da sala onde se encontrava era rica e sólida. Gostava
de ler romances franceses do gênero frívolo, e apreciava a sensação de os
ler uns atrás dos outros sem a inquietação provocada pela idéia de estar a
perder tempo. Para ele, perder tempo parecia um grande luxo. Quando a
sua imaginação de jovem se virava para pensamentos de amor, o chefe dos
criados trazia-lhe para casa uma criatura morena, de olhos brilhantes,
vestida com um sarongue. Tinha o cuidado de não estabelecer qualquer
relação de caráter permanente. Achava que a mudança conservava a
juventude. Apreciava a liberdade, e o sentido de responsabilidade não era
para ele um fardo. O calor não o preocupava. Erguia-lhe um dique de água
fria meia dúzia de vezes por dia, um prazer que tinha quase uma qualidade
estética. Tocava piano. Escrevia aos amigos de Amsterdam. Não sentia
necessidade da conversa de intelectuais. Gostava de umas boas
gargalhadas, e conseguia isso tanto de um qualquer idiota como de um
professor de filosofia. Tinha a noção de que era um homenzinho ilustre.
Como qualquer bom holandês no Extremo Oriente, começava o
almoço com um cálice de gim holandês. Tem um paladar acre velho, e o
gosto por ele tem de ser adquirido, mas o Sr. Gruyter preferia-o a qualquer
coquetel. Além disso, quando o bebia sentia que estava a manter a tradição
da sua raça. A seguir, comia rystafel. Comia-o todos os dias. Enchia, de
coruto, um prato de sopa com arroz e depois, com os três criados a servi-
lo, servia-se do caril que um deles lhe estendia, do ovo frito que outro lhe
trazia, e dos condimentos apresentados pelo terceiro. Depois, cada um
deles trazia outro prato, de bacon, ou bananas, ou peixe em picles, e o
prato ficava com uma enorme pirâmide. Ele mexia e misturava tudo e
começava a comer. Comia devagar e com prazer. Bebia uma garrafa de
cerveja.
Enquanto comia, não pensava. A sua atenção estava toda virada para
aquela massa à sua frente, e consumia-a com uma feliz concentração.
Aquilo nunca o enfastiava. E depois de esvaziar o prato, pensar que no dia
seguinte comeria outra vez, era uma compensação. Fartava-se tanto
daquilo como nós nos fartamos de pão. Acabava a cerveja e fumava o seu
charuto. O criado trazia-lhe o café. Recostava-se na cadeira e então
permitia-se o luxo da reflexão.
Divertia-o o fato de ter condenado Ginger Ted à muito merecida
pena de seis meses de trabalhos forçados, e sorriu à idéia de ele a trabalhar
nas estradas juntamente com os outros prisioneiros. Teria sido um
disparate deportar da ilha o único homem com quem ele conseguia ter uma
conversa franca, e, além disso, a satisfação que isso teria dado ao
missionário teria sido mau para o caráter desse senhor. Ginger Ted era um
patife e um vagabundo, mas o Administrador tinha por ele uma certa
simpatia. Tinham bebido muitas cervejas juntos, e quando vinham os
pescadores de pérolas de Port Darwin tinham todos uma noite em grande,
embebedavam-se magnificamente todos juntos. O Administrador gostava
da maneira irrefletida como Ginger Ted esbanjava o inestimável tesouro
que é a vida.
Ginger Ted caíra ali um dia de um navio que ia de Merauka para
Macassar. O comandante não sabia como é que ele descobrira o caminho
para lá; viajara em terceira, juntamente com os indígenas, e desembarcou
nas Ilhas Alas porque gostara do seu aspecto. O Sr. Gruyter desconfiava
que o atrativo das ilhas consistia talvez no fato de serem de bandeira
holandesa e portanto estarem fora da jurisdição britânica. Mas ele tinha os
papeis em ordem e não havia, portanto, razão para que não ficasse. Dizia
que andava a comprar ostras para uma firma australiana, mas em breve
veio a saber-se que as suas atividades comerciais não eram autênticas. De
fato, a bebida tomava tanto do seu tempo que pouco lhe restava para
outras atividades. Tinha um rendimento de duas libras por semana,
enviados mensalmente de Inglaterra. O Administrador suspeitava de que
esta quantia só lhe continuaria a ser paga enquanto ele se mantivesse longe
das pessoas que lha mandavam. De qualquer maneira, esse dinheiro não
era suficiente para lhe permitir liberdade de movimentos. Ginger Ted era
reservado. O Administrador descobrira que ele era inglês, isto pelo
passaporte que o descrevia como Edward Wilson, e que tinha estado na
Austrália. Mas não fazia idéia da razão por que ele deixara a Inglaterra
nem do que ele fizera na Austrália. Nem nunca conseguira determinar a
que classe social ele pertencia. Quando uma pessoa o via de camisola
interior suja e calças esfarrapadas, de capacete colonial muito gasto na
cabeça, na companhia de pescadores de pérolas, e ouvia a sua conversa
grosseira, obscena e analfabeta, achava que ele devia ser um simples
marinheiro desertor ou um trabalhador manual, mas quando via a sua
caligrafia, ficava admirada ao verificar que era a de um homem com pelo
menos alguma instrução, e, quando ocasionalmente estava com ele a sós,
se ele tivesse bebido apenas alguns copos e não estivesse bêbado,
verificaria que ele falava de assuntos sobre os quais nem um marinheiro
nem um trabalhador manual poderia saber alguma coisa. O Administrador
tinha alguma sensibilidade e compreendeu que Ginger Ted não falava com
ele como de inferior para superior, mas de igual para igual. A maior parte
da remessa em dinheiro já estava hipotecada antes de ele a receber, e os
chineses a quem ele devia andavam sempre em cima dele quando aquela
carta mensal lhe era entregue, mas com o que restava continuava a
embebedar-se. Era então que ele provocava as desordens, porque, quando
bêbado, tornava-se violento e capaz de atos que o levavam às mãos da
polícia. Até aqui o Sr. Gruyter tinha-se contentado em mantê-lo na prisão
até ficar sóbrio e em dar-lhe uma reprimenda. Quando estava sem
dinheiro, aproveitava quanta bebida podia de qualquer pessoa que lha
desse. Rum, brandy, arak, para ele, era tudo a mesma coisa. Por duas ou
três vezes, o Sr. Gruyter tinha-lhe arranjado trabalho em plantações
dirigidas por chineses numa ou outra das ilhas, mas ele não conseguia
ficar muito tempo e, passadas algumas semanas, voltava para Baru, para a
praia. Era um milagre como ele conseguia sobreviver. Claro que sabia
seduzir as pessoas. Conseguiu apanhar os vários dialetos falados nas ilhas
e sabia como fazer rir os indígenas. Eles desprezavam-no, mas
respeitavam a sua força física e gostavam da sua companhia. Daí que
nunca lhe faltasse onde comer ou onde dormir. O que era curioso, e era
isto que mais ofendia o Rev. Owen Jones, é que ele conseguia tudo o que
queria das mulheres. O Administrador não conseguia imaginar o que elas
viam nele. Era descuidado e bruto com elas. Recebia o que elas lhe davam,
mas era incapaz de mostrar qualquer gratidão. Usava-as para seu prazer e
depois enxotava-as com indiferença. Uma ou duas vezes, isto tinha-lhe
trazido dissabores, e o Sr. Gruyter vira-se obrigado a condenar um pai
irado por, uma noite, ter espetado uma faca nas costas de Ginger Ted, e
uma chinesa tinha tentado envenenar-se ingerindo ópio porque ele a tinha
abandonado. Uma vez o Sr. Jones foi ter com o Administrador em grande
agitação porque o vagabundo tinha seduzido uma das suas convertidas. O
Administrador concordou que aquilo era deplorável, mas apenas pôde
aconselhar o Sr. Jones a manter aquelas jovens debaixo de olho. Uma
coisa de que o Administrador já gostou menos foi o descobrir que uma
moça que ele muito desejava, e com quem tinha andado durante várias
semanas, também tinha andado a conceder os seus favores a Ginger Ted,
ao mesmo tempo. Quando pensou neste incidente em particular sorriu de
novo à lembrança de Ginger Ted a cumprir seis meses de trabalhos
forçados. Só muito raramente nesta vida é que, no cumprimento do dever,
se consegue uma vingança sobre quem nos pregou uma partida.
Alguns dias mais tarde, o Sr. Gruyter andava a passear, em parte
para fazer exercício e em parte para ver se uma certa obra que ele queria
realizada estava a ser devidamente feita, quando passou por um grupo de
prisioneiros a trabalhar sob as ordens de um guarda. Entre eles estava
Ginger Ted. Andava vestido com o sarongue da prisão, uma túnica, que se
chama baju em malaio, muito suja, e o seu velho capacete colonial.
Andavam a reparar a estrada, e Ginger Ted empunhava uma pesada
picareta. O caminho era estreito e o Administrador viu que tinha de passar
a centímetros dele. Lembrou-se das suas ameaças. Sabia que Ginger Ted
era um homem de paixões violentas, e a linguagem que ele usara na teia
deixou muito claro que não achara graça nenhuma à sentença do
Administrador que o condenara a seis meses de trabalhos forçados. Se
Ginger Ted subitamente o atacasse com a picareta, nada o poderia salvar.
Claro que o guarda o abateria imediatamente a tiro, mas entretanto a
cabeça do Administrador já estaria esmigalhada. Foi com uma leve
impressão estranha no estômago que o Sr. Gruyter avançou por entre o
grupo de prisioneiros. Eles estavam a trabalhar aos pares a muito pouca
distância uns dos outros. Fez o possível por não apressar nem abrandar o
passo. Ao passar por Ginger Ted, o homem cravou a picareta no solo e
levantou o olhar, e quando os olhos de ambos se cruzaram piscou o olho.
O Administrador reparou no sorriso que lhe assomou aos lábios e, com
dignidade oficial, prosseguiu o seu caminho. Mas aquela piscadela de olho
tão deliciosamente cheia de humor sardônico encheu-o de satisfação. Se
ele fosse o califa de Bagdade e não um simples funcionário público
holandês subalterno teria logo libertado Ginger Ted e mandado os seus
escravos dar-lhe banho e perfumá-lo, e depois de o vestirem com um
manto dourado, oferecia-lhe um lauto repasto.
Ginger Ted era um prisioneiro exemplar, e um ou dois meses depois
o Administrador, na oportunidade de mandar um grupo de prisioneiros
fazer alguns trabalhos numa das ilhas mais afastadas, incluiu-o nesse
grupo. Nessa ilha não havia prisão e assim os dez indivíduos que ele
mandou acompanhados de um guarda foram aboletados com os indígenas,
e depois do dia de trabalho eram homens livres. A tarefa chegava para
perfazer o que restava da pena de Ginger Ted. O Administrador falou com
ele antes da partida.
— Olha, Ginger — disse-lhe ele — tens aqui dez florins para ti para
comprares tabaco quando te fores embora.
— O senhor não me podia arranjar um pouco mais? Eu recebo
regularmente oito libras por mês.
— Acho que isto chega. E eu guardo as cartas que vierem para ti, e
quando voltares já tens uma boa soma. Terás o bastante para ires para
onde quiseres.
— Sinto-me muito bem aqui — disse Ginger Ted.
— Bem, no dia em que voltares, arranja-te e vem a minha casa para
bebermos uma cerveja juntos.
— Ótimo. Acho que nessa altura já estarei pronto para uma boa
bebedeira.
E então o acaso entrou em cena. A ilha para onde Ginger fora
mandado chamava-se Maputiti, e tal como as restantes era rochosa, de
vegetação muito densa e rodeada de um recife. Havia uma aldeia no meio
de coqueiros, na costa oposta à entrada do recife, e outra junto a uma lagoa
de água doce no meio da ilha. Alguns dos habitantes da segunda tinham-se
convertido ao Cristianismo. As ligações com Baru eram efetuadas por uma
lancha que tocava as várias ilhas em intervalos regulares. Transportava
passageiros e mercadorias. Mas os aldeãos eram homens do mar e se
tinham de comunicar urgentemente com Baru preparavam um prahu e
navegavam as cinquenta milhas que os separavam. Aconteceu então que
quando faltavam apenas mais quinze dias para o fim da pena de Ginger
Ted, o chefe dos cristãos da aldeia do lago adoeceu subitamente. Os
remédios indígenas não lhe fizeram nada e ele contorcia-se em agonia.
Mandaram mensageiros a Baru implorando a ajuda do missionário; mas
por pouca sorte o Sr. Jones nessa altura estava com um ataque de malária.
Estava de cama e incapaz de se deslocar. Falou sobre o assunto com a
irmã.
— Deve ser uma apendicite aguda — disse-lhe ele.
— Tu não podes ir, Owen — disse ela.
— Não posso deixar morrer o homem.
O Sr. Jones estava com quarenta graus de febre. Doía-lhe
terrivelmente a cabeça. Toda a noite tinha delirado. Os olhos brilhavam-
lhe de uma maneira estranha, e a irmã sentia que ele conservava a lucidez
por simples esforço da vontade.
— Tu não conseguias operar nesse estado.
— Pois não. Portanto, tem de ir o Hassan.
Hassan era o encarregado da farmácia.
— Tu não podes confiar no Hassan. Ele nunca seria capaz de fazer
uma operação sozinho. E eles não deixariam. Vou eu. O Hassan pode ficar
aqui a cuidar de ti.
— Tu não consegues tirar um apêndice.
— Por que não? Já te vi a fazê-lo. Já fiz dúzias de pequenas
intervenções.
O Sr. Jones tinha a impressão de que não estava a perceber o que ela
estava a dizer.
— A lancha está no porto?
— Não, foi a uma das ilhas. Mas posso ir no prahu em que os
homens vieram.
— Tu? Eu não estava a pensar em ti. Tu não podes ir.
— Vou, sim, Owen.
— Vais onde? — perguntou ele.
Ela viu que o espírito do irmão andava já a vaguear. Pôs lhe uma
mão calmante sobre a testa seca. Deu-lhe uma dose de remédio. Ele
murmurou qualquer coisa e ela percebeu que ele já não sabia onde estava.
Claro que estava preocupada com ele, mas sabia que a sua doença não era
perigosa e que podia deixá-lo em segurança ao cuidado do criado da
missão que a ajudava a tratar dele, e ao encarregado da farmácia.
Esgueirou-se do quarto. Pôs num saco o material higiênico, uma camisola
e uma muda de roupa. Um pequeno estojo com os instrumentos cirúrgicos,
ligaduras e pensos anti-sépticos estava sempre preparado. Entregou-o aos
dois indígenas que tinham vindo de Maputiti, informou o encarregado da
farmácia sobre o que ia fazer e deu-lhe instruções no sentido de informar o
irmão quando ele já pudesse entender. Ele não podia sobretudo preocupar-
se com ela. Pôs o capacete colonial e partiu. A missão ficava a cerca de
meia milha da aldeia. Caminhou apressadamente. Na extremidade do
pontão estava o prahu à espera. Eram seis remadores. Tomou o seu lugar
na ré e eles fizeram-se ao mar com uma remada rápida. Dentro do recife o
mar estava calmo, mas quando saíram a barra enfrentaram uma ondulação
grande. Mas esta não era a primeira viagem deste gênero que Senhorita
Jones fazia e ela confiava nas boas condições de navegabilidade do barco
em que se encontrava. Era meio-dia e o sol caía de um céu abafadiço. A
única coisa que a preocupava era que não chegassem antes do anoitecer, e
se ela achasse que seria necessário operar imediatamente só poderia contar
com a luz de lanternas. Senhorita Jones era uma mulher de perto de
quarenta anos. Nada no seu aspeto dava a idéia da determinação que ela
acabara de revelar. Era de uma estranha graciosidade frágil que dava a
idéia de que uma simples brisa a faria vacilar; era quase artificial, e fazia
com que a força de caráter que depois nela se descobria parecesse
positivamente inconcebível. Não tinha peito, era alta e extremamente
magra. Tinha um rosto comprido, pálido, e era muito propensa a espinhos.
O cabelo era liso e puxado para trás. Tinha olhos castanhos, bastante
pequenos, e como estavam muito juntos davam à sua expressão um ar
rabugento. O nariz era comprido e fino, levemente avermelhado. Sofria
muito de dispepsia. Mas este seu mal nada podia contra a sua
determinação de ver o lado positivo das coisas. Firmemente convencida de
que o mundo era mau e os homens indizivelmente depravados,
aproveitava qualquer pequeno vestígio de decoro que neles encontrasse
com a mesma orgulhosa modéstia com que o prestidigitador tira um
coelho da cartola. Era viva, desembaraçada e competente. Quando chegou
à ilha, viu que não havia um momento a perder se realmente queria salvar
a vida do homem. Depois de mostrar a um indígena a maneira de ministrar
o anestésico, fez a operação, e nos três dias seguintes tratou do doente com
extremo cuidado. Tudo correu bem e ela concluiu que o irmão não podia
ter feito melhor. Esperou o tempo necessário para tirar os pontos e depois
preparou-se para regressar a casa. Podia gabar-se de não ter perdido o seu
tempo. Tinha prestado cuidados médicos a quem deles precisava, tinha
reforçado a fé daquela pequena comunidade cristã, admoestara os fracos e
lançara as sementes do bem em lugares onde se podia esperar que eles
pudessem florescer e criar raízes sob a proteção da divina providência.
A lancha, vinda de uma das outras ilhas, aportou já a tarde ia
adiantada, mas estava lua cheia e eles contavam chegar a Baru antes da
meia-noite. Trouxeram as suas coisas até ao molhe, e as pessoas que
vieram despedir-se dela ficaram por ali a repetir os seus agradecimentos.
Juntou-se uma pequena multidão. A lancha vinha carregada com sacos de
copra, mas Senhorita Jones já estava habituada àquele cheiro forte e isso
não a incomodava. Arranjou um lugar o mais confortável que pôde e
enquanto esperava pela partida conversou com o seu rebanho agradecido.
Era a única passageira. Subitamente, um grupo de indígenas surgiu de
entre as árvores que emolduravam de verdura a aldeia do lago, e entre eles
viu um branco. Vestia um sarongue de prisioneiro e um baju. Trazia
cabelo comprido, que era ruivo. Reconheceu logo nele Ginger Ted. Estava
um polícia com ele. Trocaram um aperto de mão e Ginger Ted apertou
também a mão aos aldeãos que o acompanhavam. Traziam sacos de fruta e
um frasco, que Senhorita Jones calculou que contivesse uma bebida
alcoólica indígena, e puseram tudo na lancha. Descobriu, surpresa, que
Ginger Ted ia também naquele barco. A sua pena estava terminada e
tinham chegado instruções para ele regressar a Baru naquela lancha. Ele
olhou-a de relance, mas não lhe baixou a cabeça — na verdade, Senhorita
Jones virara-lhe a cara — e entrou. O mecânico pôs o motor a trabalhar e
começaram logo a deslizar pelo canal da lagoa. Ginger Ted trepou para
cima de um monte de sacos e acendeu um cigarro.
Senhorita Jones ignorou-o. Claro que ela o conhecia muito bem.
Ficou desanimada quando pensou que ele ia mais uma vez andar em Baru
a provocar escândalos e a beber, um perigo para as mulheres e um espinho
na carne de todas as pessoas decentes. Ela sabia os passos que o irmão já
tinha dado para fazer com que ele fosse deportado e já não tinha paciência
para o Administrador, que não queria reconhecer uma sua obrigação que
estava bem à vista. Depois de passarem a barra, e quando já estavam em
mar aberto, Ginger Ted tirou a rolha da garrafa do arak e levando esta à
boca bebeu um longo trago. Depois estendeu-a aos dois mecânicos que
constituíam a tripulação. Um deles era de meia idade e o outro um jovem.
— Eu não quero que bebam nada enquanto vamos de viagem —
disse Senhorita Jones gravemente ao mais velho.
Ele sorriu-lhe e bebeu.
— Um pouco de arak não faz mal a ninguém — respondeu ele. E
passou a garrafa ao companheiro, que também bebeu.
— Se beberem mais, faço queixa ao Administrador — disse
Senhorita Jones.
O mais velho disse qualquer coisa que ela não conseguiu perceber,
mas que desconfiou que devia ter sido muito grosseiro, e passou a garrafa
a Ginger Ted. Prosseguiram a viagem por uma hora ou mais. O mar estava
como vidro e o sol pôs-se resplandecente. Pôs-se por detrás de uma das
ilhas e durante alguns minutos transformou-a numa mística cidade dos
céus. Senhorita Jones voltou-se para observar o espetáculo, e o seu
coração encheu-se de gratidão pela beleza do mundo.
— E só o homem é vil — citou ela para si própria.
Dirigiam-se para leste. À distância via-se uma pequena ilha por onde
ela sabia que iriam passar. Era desabitada. Uma ilhota rochosa coberta de
densa floresta virgem. O barqueiro acendeu as lanternas. A noite caiu e o
céu ficou logo densamente coberto de estrelas. A lua não nascera ainda.
De repente houve uma leve sacudidela e a lancha começou a vibrar
estranhamente. O motor começou a matraquear engasgado. O mecânico
mais velho mandou o companheiro para o leme e rastejou para debaixo da
cabina. Parecia que iam agora mais devagar. O motor parou. Ela
perguntou ao jovem qual era o problema, mas ele não sabia. Ginger Ted
desceu do cimo dos sacos de copra e deixou-se escorregar para debaixo da
cabina. Quando ele reapareceu, ela queria perguntar-lhe o que acontecera,
mas a sua dignidade não deixou. Deixou-se estar sentada ocupada com os
seus pensamentos. Houve uma longa ondulação e a lancha balançou
ligeiramente. O mecânico voltou a aparecer e ligou o motor. Embora
matraqueando como louco, começaram a andar. A lancha vibrava da popa
à proa. Iam muito devagar. Era evidente que havia qualquer problema,
mas Senhorita Jones estava mais exasperada do que alarmada. A lancha
devia fazer seis nós, mas agora apenas se movia muito devagar; àquela
velocidade iam demorar muito a chegar a Baru, muito depois da meia-
noite. O mecânico, ainda atarefado sob a cabina, gritava qualquer coisa
para o homem do leme. Falavam em dialeto bugi, que Senhorita Jones
pouco percebia. Mas, passado um bocado, reparou que eles tinham
mudado de rumo e que parecia dirigirem-se para a pequena ilha desabitada
por que deviam ter passado bem a oeste.
— Para onde é que vamos? — perguntou ao homem do leme com
súbita inquietação.
Ele apontou para a ilhota. Ela levantou-se, dirigiu-se para a cabina e
chamou o homem cá para fora.
— O senhor não vai para ali? O que é que se passa?
— Não posso ir para Baru — disse ele.
— Mas tem de ir. Insisto. Ordeno-lhe que vá para Baru.
O homem encolheu os ombros. Virou-lhe as costas e meteu-se outra
vez debaixo da cabina. Então Ginger Ted dirigiu-se a ela.
— Uma das pás da hélice partiu-se. Ele acha que só consegue chegar
até àquela ilha. Temos de passar lá a noite e ele substitui a hélice amanhã
de manhã quando a maré estiver baixa.
— Eu não posso passar a noite numa ilha desabitada com três
homens — exclamou ela.
— Muitas mulheres adorariam.
— Insisto em ir para Baru. Aconteça o que acontecer, temos de lá
chegar esta noite.
— Não se enerve, minha amiga. Temos de pôr o barco em seco para
substituir a hélice, e vamos ficar muito bem na ilha.
— Como é que se atreve a falar-me dessa maneira?! O senhor é
muito insolente.
— A senhora vai ficar bem. Temos muita bóia e vamos fazer uma
ceia quando chegarmos a terra. Bebe uma gotinha de arak e vai sentir-se a
arder.
— O senhor é impertinente. Se não formos para Baru, vão todos para
à prisão.
— Nós não vamos para Baru. Não podemos ir. Vamos para aquela
ilha e se a senhora não quiser, pode sair e ir a nado.
— Oh, o senhor vai pagar por isto.
— Cale-se, sua cabra velha — disse Ginger Ted.
Senhorita Jones arfou de raiva. Mas controlou-se. Mesmo ali, no
meio do oceano, tinha dignidade suficiente para não estar a discutir com
aquele miserável. A lancha, com o motor a matraquear horrivelmente,
continuava a arrastar-se. Já estava escuro como breu, e ela já não
conseguia ver a ilha para que se dirigiam. A Senhorita Jones,
profundamente irritada, sentou-se de lábios apertados e sobrancelhas
franzidas; não estava habituada a ser contrariada. Então a lua apareceu e
ela pôde ver o vulto corpulento de Ginger Ted estendido no cimo do
monte de sacos de copra. O brilho do cigarro era estranhamente sinistro.
Via-se agora uma vaga silhueta da ilha contra o céu. Alcançaram-na e o
barqueiro levou a lancha até à praia. Subitamente, a Senhorita Jones
arquejou. Compreendera agora a verdade e a raiva transformou-se em
medo. O coração batia-lhe violentamente. Toda ela tremia. Sentia-se
terrivelmente fraca. Viu tudo. O hélice partido era uma trama ou fora de
fato um acidente? Não tinha a certeza; de qualquer maneira, ela sabia que
Ginger Ted ia aproveitar a oportunidade. Ginger Ted ia violá-la. Ela
conhecia o seu caráter. Era doido por mulheres. Foi isso que ele
praticamente fez à moça da missão, tão boa moça que era até uma
excelente costureira; ele teria sido incriminado criminalmente por isso e
teria sido condenado a anos de prisão, só que infelizmente a inocente
criança voltara para ele várias vezes e de fato só se tinha queixado da
maneira como ele a tratava quando ele a trocou por outra. Foram falar
sobre isso com o Administrador, mas ele recusou tomar medidas dizendo
com aqueles seus modos bruscos que mesmo que aquilo que a moça dizia
fosse verdade não lhe parecia que tivesse sido uma experiência de todo
desagradável. Ginger Ted era um canalha. E ela era branca. Que hipótese
tinha ela de ser poupada? Nenhuma. Ela conhecia os homens. Mas tinha
de se recompor. Tinha de manter a lucidez. Tinha de ter coragem. Estava
determinada a vender cara a sua virtude, e se ele a matasse - bem, preferia
morrer a ceder. E se morresse, descansaria nos braços de Jesus. Por
momentos uma forte luz encandeou-a e ela viu as mansões do seu Pai
Celestial. Eram uma mistura grandiosa e sumtuosa de uma representação
de um palácio e de uma estação de caminho de ferro. Os maquinistas e
Ginger Ted saltaram da lancha e com água pela cintura juntaram-se à volta
da hélice partida. Ela aproveitou a sua preocupação para tirar da caixa o
estojo dos instrumentos cirúrgicos. Tirou os quatro bisturis que lá estavam
e escondeu-os na roupa. Se Ginger Ted lhe tocasse não hesitaria em lhe
cravar um bisturi no coração.
— Ora bem, senhora, agora era melhor sair — disse Ginger Ted. —
Ficará melhor na praia do que no barco.
Ela pensou o mesmo. Pelo menos lá teria maior liberdade de
movimentos. Sem uma palavra, trepou por cima dos sacos de copra. Ele
estendeu-lhe a mão.
— Não preciso da sua ajuda — disse ela friamente.
— Vá para o diabo — respondeu ele.
Era um tanto difícil sair do barco sem mostrar as pernas, mas com
considerável engenho ela conseguiu.
— É muita sorte termos alguma coisa para comer. Vamos fazer uma
fogueira e depois era melhor a senhora comer qualquer coisa e beber um
gole de arak.
— Não quero nada. Só quero que me deixem em paz.
— Não fico nada preocupado se a senhora ficar com fome.
Ela não respondeu. Caminhou ao longo da praia, de cabeça erguida.
Segurava o bisturi maior na mão fechada. A lua iluminava-lhe o caminho.
Procurou um lugar para se esconder. A densa floresta vinha mesmo até à
praia; mas com receio da escuridão (afinal ela era apenas uma mulher) não
se atreveu a embrenhar-se nela. Não sabia que animais lá se escondiam ou
que serpentes. Além disso, o instinto dizia-lhe que era melhor ter aqueles
três homens debaixo de olho; assim, se eles se encaminhassem na sua
direção já estaria preparada. Descobriu então um pequeno buraco. Olhou à
volta. Eles pareciam ocupados nos seus esforços e não a viam. Deixou-se
escorregar para dentro do buraco. Um rochedo escondia-o deles, mas ela
conseguia vê-los. E viu-os a ir e vir do barco transportando coisas. Viu-os
a fazerem uma fogueira que os iluminou de modo sinistro, e viu-os
sentados à volta a comer, e viu a garrafa de arak a passar de um para outro.
Iam todos embriagar-se. E o que é que lhe ia depois acontecer a ela? De
Ginger Ted talvez ela pudesse tratar, embora a sua força a atemorizasse;
mas contra três ela seria impotente. Ocorreu-lhe então a idéia louca de ir
ter com Ginger Ted e implorar-lhe de joelhos que a poupasse. Ele ainda
devia ter uns restos de decência, e ela sempre tivera a convicção de que há
algo de bom mesmo no pior dos homens. Ele devia ter tido uma mãe.
Talvez tivesse uma irmã. Ah, mas como é que se podia apelar para um
homem cego de desejo e bêbado de arak? Começou a sentir uma terrível
fraqueza. Receava começar a chorar. E isso de nada lhe serviria. Precisava
de todo o seu autodomínio. Mordeu os lábios. Observava-os como um
tigre observa a sua presa; não, como um cordeiro observa três lobos
famintos. Viu-os a pôr mais lenha na fogueira e viu, à luz da fogueira, a
silhueta de Ginger Ted, de sarong. Provavelmente, depois de a possuir, ia
passá-la aos outros. Como é que ela ia conseguir voltar para o irmão
depois de lhe ter acontecido tal coisa? Claro que ele ia ser compreensivo,
mas será que ia ser o mesmo para ela? Aquilo ia destroçá-lo. E talvez ele
até pensasse que ela devia ter resistido mais. Para bem dele, talvez fosse
melhor não lhe contar nada. Os homens não diriam nada, naturalmente.
Seriam vinte anos na prisão. Mas suponhamos que ficava grávida.
Senhorita Jones cerrou instintivamente os punhos cheia de horror e quase
se cortou no bisturi. Claro que a sua resistência apenas os iria enfurecer
ainda mais.
— O que é que hei-de fazer? — exclamou. — O que é que eu fiz
para merecer isto?
Caiu de joelhos e começou a rezar a Deus que a salvasse. Rezou
longa e gravemente. Recordou a Deus que era virgem e mencionou
justamente, para o caso de isto ter escapado à memória divina, o quanto
São Paulo valorizava esta excelente condição. Depois espreitou de novo
pelo rochedo. Os três homens pareciam estar a fumar e a fogueira
começava a extinguir-se. Devia ser a altura de os pensamentos lascivos de
Ginger Ted se voltarem para a mulher que estava ali à sua mercê. Abafou
um grito, porque subitamente ele levantou-se e caminhou na sua direção.
Sentiu que todos os seus músculos ficavam tensos, e, embora o coração
batesse furiosamente, apertou o bisturi com firmeza na mão. Mas Ginger
Ted levantara-se com outra finalidade. Senhorita Jones corou e desviou o
olhar. Ele voltou calmamente para junto dos outros e, sentando-se outra
vez, levou a garrafa de arak à boca. A Senhorita Jones, agachada atrás do
rochedo observava com olhar tenso. A conversa à volta da fogueira
esmoreceu e passado pouco tempo ela adivinhou, mais do que viu, que os
dois indígenas se embrulhavam nos cobertores e se prepararam para
dormir. Ela entendeu. Era disto que Ginger estava à espera. Quando eles
estivessem a dormir, levantava-se cautelosamente, e, sem fazer barulho,
para não acordar os outros, esgueirava-se até ela. Seria que ele não estava
disposto a partilhá-la com eles, ou teria ele a consciência de que o seu ato
era tão ignóbil que não queria que eles soubessem? Afinal tratava-se de
um homem e de uma mulher brancos. Ele não podia ter descido tão baixo
ao ponto de deixar que ela fosse submetida a violências por parte de
indígenas. Mas o plano dele, que para ela era tão evidente, tinha-lhe dado
uma idéia: quando o visse a vir gritaria, gritaria tão alto que acordaria os
dois maquinistas. Lembrou-se então de que o mais velho, embora cego de
um olho, tinha até uma cara simpática. Mas Ginger Ted não se mexeu. Ela
sentia-se extremamente cansada. Começou a ter medo de não ter já forças
para lhe resistir. Tinha passado já por muita coisa. Por momentos fechou
os olhos.
Quando voltou a abri-los, era já dia claro. Devia ter adormecido e,
despedaçada pela emoção, devia ter estado a dormir até muito depois do
amanhecer. Foi um tremendo choque. Procurou erguer-se, mas havia
qualquer coisa a prender-lhe as pernas. Olhou e viu que estava coberta
com dois sacos de copra vazios. Alguém viera cobri-la com eles. Ginger
Ted! Deu um grito. Ocorreu-lhe de súbito a terrível idéia de que ele a
tivesse violado durante o sono. Não. Isso era impossível. E no entanto ele
tinha-a tido à sua mercê. Indefesa. E tinha-a poupado. Corou
violentamente. Pôs-se de pé, sentindo-se um pouco perra, e compôs o
vestido. O bisturi tinha-lhe caído da mão e ela apanhou-o. Pegou nos dois
sacos de copra e saiu do seu esconderijo. Encaminhou-se para o barco que
estava já a flutuar nas águas pouco profundas da laguna.
— Vamos lá, Senhorita Jones — disse Ginger Ted. — Já acabamos.
Eu ia precisamente agora acordá-la.
Ela não conseguiu olhá-lo, mas sentiu-se corar até à raiz dos cabelos.
— Não quer uma banana? — perguntou ele.
Ela pegou na banana sem uma palavra. Estava cheia de fome e
comeu-a com satisfação.
— Suba para esta rocha e assim consegue entrar sem molhar os pés.
Apetecia-lhe meter-se pela terra dentro, de vergonha, mas fez o que
ele lhe disse. Ele pegou-lhe no braço — Céus! Aquela mão era como um
torno de ferro, ela não poderia de maneira nenhuma ter lutado com ele —
e ajudou-a a entrar na lancha. O maquinista pôs o motor a trabalhar e
deslizaram para fora da laguna. Três horas depois estavam em Baru.
Nessa noite, depois de oficialmente libertado, Ginger Ted foi a casa
do Administrador. Já não envergava o uniforme da prisão, mas sim a
camisola interior esfarrapada e os calções de caqui que trazia quando foi
preso. Tinha cortado o cabelo, que agora parecia uma pequena boina ruiva
encaracolada. Estava mais magro. Tinha perdido aquela gordura balofa e
estava com um aspecto melhor e mais jovem. O Sr. Gruyter, com um largo
sorriso amigável na cara redonda, apertou-lhe a mão e disse-lhe que se
sentasse. O criado trouxe duas garrafas de cerveja.
— Folgo em saber que não te esqueceste do meu convite, Ginger —
disse o Administrador.
— Eu nunca ia esquecer. Há seis meses que estava ansioso por isto.
— À tua, Ginger Ted.
— À sua, Administrador.
Esvaziaram os copos e o Administrador bateu as palmas. O criado
trouxe mais duas garrafas.
— Bom, espero que não sintas qualquer ressentimento pela sentença
que eu te dei.
— Não tenha qualquer receio. Na altura fiquei furioso, mas já
passou. Não foi lá muito mau, sabe. Uma bela porção de mulheres que
havia na ilha, Administrador. O senhor devia ir lá dar-lhes uma espreitada
um desses dias.
— Tu és danado, Ginger.
— Terrível.
— Bela cerveja, não é?
— Ótima.
— Vamos beber mais umas.
A remessa de dinheiro de Ginger Ted tinha vindo todos os meses e o
Administrador já tinha cinquenta libras para lhe entregar. Depois de pagos
os estragos feitos na loja do chinês, ainda sobrariam mais de trinta.
— É uma boa maquia, Ginger. Devias fazer qualquer coisa de útil
com ela.
— É o que tenciono fazer — respondeu Ginger. — Gastá-lo.
O Administrador suspirou.
— Ora, o dinheiro é exatamente para isso, suponho eu.
O Administrador contou-lhe as novidades. Não tinha acontecido
nada de especial durante os últimos seis meses. O tempo nas Ilhas Alas
não contava muito e o resto do mundo não contava mesmo nada.
— Há por aí alguma guerra em algum lugar? — perguntou Ginger
Ted.
— Que eu saiba, não. O Harry Jervis encontrou uma bela pérola
grande. Diz que vai pedir mil notas por ela.
— Espero que ele as consiga.
— E o Charles McCormack casou.
— Esse foi sempre um bocado mole.
Subitamente o criado entrou e disse que o Sr. Jones queria saber se
podia entrar. Antes de o Administrador poder responder, o Sr. Jones
entrou.
— Não vou tomar-lhe muito tempo — disse ele. — Tenho andado
todo o dia à procura deste bom homem e quando ouvi dizer que ele estava
aqui achei que o senhor não se importaria que eu cá viesse.
— Como está Senhorita Jones? — perguntou o Administrador
delicadamente. — Espero que aquela noite ao relento não lhe tenha feito
mal.
— Claro que está um tanto abalada. Teve febre e eu já insisti para
que ela fosse para a cama, mas não me parece que seja coisa muito grave.
Os dois homens tinham-se erguido quando o missionário entrou, e
agora o missionário dirigiu-se para Ginger Ted e estendeu a mão.
— Quero agradecer-lhe. O senhor teve um gesto grande e nobre. A
minha irmã tem razão, devemos sempre procurar o lado bom dos nossos
semelhantes; peço desculpa por o ter julgado mal no passado.
Falou em tom muito solene. Ginger Ted olhava para ele com
estupefação. Não conseguira impedir que o missionário lhe tomasse a
mão. Continuava a apertá-la.
— De que diabo é que o senhor está a falar?
— O senhor teve a minha irmã à sua mercê e poupou-a. Eu pensava
que o senhor era o diabo em pessoa e estou envergonhado. Ela estava
indefesa. Estava em seu poder. O senhor teve piedade dela. Agradeço-lhe
do fundo do coração. Jamais esqueceremos, eu e a minha irmã. Que Deus
o abençoe e proteja para sempre.
A voz tremeu-lhe um pouco e ele virou a cabeça. Soltou a mão de
Ginger Ted e dirigiu-se rapidamente para a porta. Ginger Ted observava-o
com o rosto sem expressão.
— Que raio quer ele dizer? — perguntou.
O Administrador ria. Tentava controlar-se, mas quanto mais tentava
mais ria. Todo ele abanava e viam-se as pregas da sua gorda barriga a
ondular sob o sarongue. Recostou-se na cadeira e virava-se de um lado
para o outro. Não se ria apenas com a cara, ria-se com o corpo todo, e até
os músculos das pernas rechonchudas abanavam de hilaridade. Segurava
as costelas, que lhe doíam. Ginger Ted olhava para ele de ar carregado, e
como não entendia onde estava a graça, começou a ficar zangado. Pegou
numa das garrafas de cerveja pelo gargalo.
— Se o senhor não parar de rir, racho-lhe a cabeça — disse ele.
O Administrador passou a mão pela cara. Bebeu um gole de
cerveja. Suspirou e gemeu das dores de rins.
— Ele agradeceu-te por teres respeitado a virtude de Senhorita Jones
— disse ele, por fim, atabalhoadamente.
— Eu? — exclamou Ginger Ted.
Levou algum tempo a perceber a idéia, e quando finalmente
percebeu desatou numa fúria violenta. Saiu-lhe da boca uma tal torrente de
obscenidades que teria feito despertar uma força naval inteira.
— Aquela vaca — concluiu ele. — Por quem é que ele me toma?
— Tu tens a fama de grande mulherengo, Ginger — disse o
Administrador com um riso escarninho.
— Eu não lhe tocava nem com a ponta de um mastro. Nem nunca me
passou pela cabeça. É preciso ter coragem. Vou-lhe torcer aquele maldito
pescoço. Olhe lá, dê-me cá o meu dinheiro, vou apanhar uma bebedeira.
— E eu não te vou criticar por isso — disse o Administrador.
— Aquela vaca velha — repetiu Ginger Ted. — Aquela vaca velha.
Estava chocado e sentia-se ofendido. Aquela insinuação abalou
realmente o seu sentido de decência.
O Administrador tinha o dinheiro ali à mão, e depois de fazer Ginger
Ted assinar os necessários papeis, o entregou.
— Vai lá embebedar-te, Ginger Ted, — disse ele — mas aviso-te, se
te meteres em sarilhos, da próxima são doze meses.
— Eu não me vou meter em sarilhos — disse Ginger Ted
sombriamente. Sentia-se ferido. — Isto é um insulto, — gritou ao
Administrador — é o que é, um insulto danado.
Saiu a cambalear e enquanto caminhava ia resmungando: — Porco
sujo, porco sujo. Ginger Ted andou uma semana bêbado. O Sr. Jones foi
falar com o Administrador outra vez.
— Lamento saber que o pobre homem voltou para os maus
caminhos. — disse ele. — Eu e minha irmã estamos muito desapontados.
Acho que não foi muito sensato dar-lhe aquele dinheiro todo de uma só
vez.
— O dinheiro era dele. Eu não tinha o direito de lho recusar.
— Direito legal, talvez não, mas certamente o direito moral.
Contou ao Administrador a história daquela noite tremenda na ilha.
Com o seu instinto feminino, Senhorita Jones compreendera que o
homem, inflamado de desejo, estava determinado a aproveitar-se dela e,
decidida a defender-se até ao fim, armara-se com um bisturi. Contou ao
Administrador como ela rezara e chorara e como se escondera. A sua
agonia era indescritível e sabia que não poderia sobreviver àquela
vergonha. Virava-se para um lado e para outro e a cada momento pensava
que ele vinha. E não havia ninguém que a pudesse ajudar. Por fim
adormeceu; estava esgotada, a pobrezinha, tinha sofrido mais do que
qualquer ser humano pode suportar, e quando acordou descobriu que ele a
cobrira com sacos de copra. Tinha-a encontrado a dormir e certamente foi
a sua inocência, o seu desamparo que o sensibilizaram, não teve coragem
de lhe tocar; cobriu-a delicadamente com dois sacos de copra e afastou-se
silenciosamente.
— Isto mostra que bem lá no fundo ele tem algum merecimento. A
minha irmã acha que nós temos a obrigação de o salvar. Temos de fazer
alguma coisa por ele.
— Bem, eu no vosso lugar não faria nada enquanto ele não gastasse
todo o dinheiro — disse o Administrador — e então, se ele não estiver na
cadeia, podem fazer o que quiserem.
Mas Ginger Ted não queria ser salvo. Cerca de quinze dias depois de
ser libertado estava ele sentado num banco à porta da loja de um chinês a
olhar ociosamente a rua quando viu Senhorita Jones a aproximar-se.
Olhou-a fixamente por instantes e o espanto apoderou-se novamente dele.
Murmurou qualquer coisa, e não pode haver dúvidas de que estes seus
murmúrios eram desrespeitosos. Mas reparou então que Senhorita Jones o
tinha visto, e voltou muito depressa a cabeça para o outro lado; mas
percebeu que ela estava a olhar para ele. Vinha a andar com vivacidade,
mas abrandou sensivelmente o andamento quando se aproximou dele.
Pareceu-lhe que ela ia parar para falar com ele. Levantou-se rapidamente e
foi para dentro da loja. Não se aventurou a sair pelo menos durante cinco
minutos. Meia hora mais tarde, veio o próprio Sr. Jones que foi direito a
Ginger Ted de mão estendida.
— Como vai, Sr. Edward? A minha irmã disse-me que o encontraria
aqui.
Ginger Ted olhou-o com ar carrancudo e não lhe apertou a mão que
ele lhe estendia. Não respondeu.
— Teríamos imenso prazer em que o senhor viesse jantar conosco no
próximo domingo. A minha irmã é uma excelente cozinheira e vai
preparar-lhe um jantar verdadeiramente australiano.
— Vá para o diabo — disse Ginger Ted.
— O senhor não está a ser muito amável — disse o missionário, mas
com um ligeiro riso para mostrar que não ficara ofendido. — O senhor de
vez em quando vai visitar o Administrador, por que é que não há de vir
visitar-nos a nós? Sabe bem falar com brancos de vez em quando. O que lá
vai lá vai. Posso assegurar-lhe que será muito bem vindo.
— Não tenho roupa para sair — disse Ginger Ted com ar enfadado.
— Oh, não se preocupe com isso. Venha exatamente como está.
— Não vou.
— Por que não? O senhor deve ter uma razão qualquer.
Ginger Ted não tinha papas na língua. Não hesitava em dizer aquilo
que todos nós gostaríamos de dizer quando recebemos convites
indesejáveis.
— Porque não quero.
— Tenho pena. A minha irmã vai ficar muito desapontada.
O Sr. Jones, decidido a mostrar que não se sentia minimamente
ofendido, fez um cumprimento jovial com a cabeça e afastou-se. Quarenta
e oito horas mais tarde chegou misteriosamente à casa onde Ginger Ted
estava instalado um pacote que continha um traje de algodão, uma camisa,
um par de meias, e sapatos. Ele não estava habituado a receber presentes, e
na próxima vez que esteve com o Administrador perguntou-lhe se tinha
sido ele que tinha mandado aquelas coisas.
— Nem por sombras — respondeu o Administrador. — O estado do
teu guarda-roupa é-me perfeitamente indiferente.
— Então, quem diabo poderia ter sido?
— Não faço a mínima idéia.
Senhorita Jones tinha de falar de vez em quando com o
Administrador sobre assuntos de trabalho e pouco depois disto ela veio à
repartição uma manhã falar com ele. Ela era uma mulher competente e
embora geralmente quisesse que ele fizesse coisas que ele não estava
disposto a fazer, não o fazia perder o seu tempo. Ficou então um pouco
surpreendido ao descobrir que ela tinha vindo por um motivo muito trivial.
Quando ele lhe disse que não podia tomar conhecimento do assunto em
questão ela não tentou, como era seu hábito, convencê-lo e aceitou a sua
recusa como definitiva. Levantou-se para se ir embora e depois, como se
se tratasse de uma idéia de última hora, disse:
— Oh, Sr. Gruyter, o meu irmão está ansioso por ter esse homem a
quem chamam Ginger Ted a jantar lá em casa e eu mandei-lhe um convite
para depois de amanhã. Parece-me que ele é muito envergonhado e queria
pedir-lhe ao senhor se podia ir com ele.
— É muita amável da sua parte.
— O meu irmão pensa que devíamos fazer qualquer coisa pelo pobre
homem.
— A influência de uma mulher e esse tipo de coisas — disse o
Administrador com ar sério.
— O senhor é capaz de o convencer a ir? Tenho a certeza de que ele
vai se o senhor fizer questão disso, e depois de saber o caminho, vai vir
mais vezes. É tão triste deixarmos que um jovem como ele se destrua
completamente.
O Administrador levantou os olhos para ela. Ela era vários
centímetros mais alta do que ele. Ele achava-a muito pouco atraente.
Fazia-lhe curiosamente lembrar linho molhado a secar numa corda de
roupa. Os olhos piscaram-lhe, mas manteve uma expressão composta.
— Vou fazer o possível — disse ele.
— Que idade tem ele? - perguntou ela.
— De acordo com o passaporte, tem trinta e um.
— E o seu nome verdadeiro?
— Wilson.
— Edward Wilson — disse ela baixinho.
— É espantoso como ele consegue ser ainda tão forte, com a vida
que tem levado — murmurou o Administrador. — É forte como um touro.
— Estes ruivos às vezes são muito poderosos — disse a Senhorita
Jones, mas a falar como se estivesse a sufocar.
— Assim é, de fato — disse o Administrador.
Então, sem uma razão aparente, Senhorita Jones corou. Despediu-se
apressadamente do Administrador e saiu da repartição.
— Godverdomme! — disse o Administrador.
Continuava sem saber quem tinha mandado as roupas novas a Ginger
Ted.
Encontrou-o ainda nesse dia e perguntou-lhe se ele tinha recebido
alguma coisa de Senhorita Jones. Ginger Ted tirou do bolso uma bola de
papel amarrotado e lhe entregou. Era o convite, que rezava assim:

Caro Senhor Wilson,


Eu e o meu irmão teríamos muito gosto que viesse jantar conosco na
próxima quinta-feira às 7:30. O Administrador teve a amabilidade de nos
prometer que viria. Temos alguns discos novos australianos de que tenho
a certeza que o senhor vai gostar. Creio que não fui muito simpática para
com o senhor da última vez que nos encontramos, mas nessa altura eu não
o conhecia muito bem, e já tenho idade suficiente para saber quando
cometo um erro. Espero que me perdoe e que me conceda a sua amizade.
Atenciosamente,
Martha Jones

O Administrador reparou que ela o tratava por Sr. Wilson e se referia


à sua própria promessa em ir, portanto, quando ela lhe disse que já tinha
convidado Ginger Ted tinha antecipado um pouco a verdade.
— O que é que vais fazer?
— Não vou, se é isso que quer saber. Que coragem danada.
— Tens de responder à carta.
— Pois, não vou responder.
— Olha aqui, Ginger, vestes aquela roupa nova e vais. É um favor
que me fazes. Eu tenho mesmo de ir e, que raio, tu não me vais deixar
desamparado. Não te vai fazer mal nenhum, só por esta vez.
Ginger Ted olhou desconfiado para o Administrador, mas a
expressão deste era séria e os modos sinceros: não podia adivinhar que lá
por dentro o holandês estava perdido de riso.
— Que diabo é que eles querem de mim?
— Não sei. O prazer da tua companhia, suponho.
— Eles terão lá bebidas?
— Não, mas tu vens a minha casa às sete e bebemos um copo antes
de irmos.
— Oh, está bem — disse Ginger Ted com enfado.
O Administrador esfregou as mãozinhas gordas de alegria. Estava a
contar com uma grande dose de gozo no jantar. Mas quando as sete horas
de quinta-feira chegaram, Ginger Ted estava perdido de bêbado e o Sr.
Gruyter teve de ir sozinho. - disse ao missionário e à irmã a pura verdade.
O Sr. Jones abanou a cabeça.
— Acho que não vale a pena. O homem é um caso perdido.
Senhorita Jones ficou calada por momentos e o Administrador viu duas
lágrimas correrem-lhe pelo nariz fino e comprido. Ela mordeu os lábios.
— Ninguém é um caso perdido. Toda a gente tem algo de bom
dentro de si. Vou rezar por ele todas as noites. Seria muito mau duvidar do
poder de Deus.
Talvez Senhorita Jones tivesse razão nisto, mas a divina providência
escolheu uma maneira curiosa de atingir os seus fins. Ginger Ted começou
a beber mais do que nunca. Andava tão desordeiro que até o próprio Sr.
Gruyter acabou por perder a paciência com ele. Chegou à conclusão de
que não podia continuar a tolerar a presença do homem nas ilhas e decidiu
mandar deportá-lo no primeiro barco que aportasse a Baru. Aconteceu
então que um homem morreu em circunstâncias misteriosas depois de ter
viajado para uma das ilhas e o Administrador veio a saber que tinha
havido várias mortes na mesma ilha. Mandou lá o chinês que era o médico
oficial do arquipélago para tratar do assunto e em breve recebeu a
informação de que as mortes se deviam à cólera. Ocorreram mais duas
mortes em Baru e ele teve de admitir a idéia de que se tratava de uma
epidemia.
O Administrador praguejou quanto pôde. Praguejou em holandês,
praguejou em inglês e praguejou em malaio. Depois bebeu uma cerveja e
fumou um charuto. E depois começou a pensar. Ele sabia que o médico
chinês não servia para nada. Era um homenzinho nervoso de Java e os
indígenas recusariam obedecer às suas ordens. O Administrador era um
homem eficiente e sabia perfeitamente bem o que tinha de fazer, mas não
podia fazer tudo sozinho. Não gostava do Sr. Jones, mas naquela altura
agradeceu o fato de ele estar ali à mão e mandou-o chamar imediatamente.
Veio acompanhado da irmã.
— O senhor sabe a razão por que quero falar consigo, Sr. Jones —
disse ele abruptamente.
— Sim, já estava à espera de um recado seu. Esta a razão por que a
minha irmã veio comigo. Estamos prontos a pôr todos os nossos recursos à
sua disposição. Não preciso de lhe dizer que a minha irmã é tão
competente como um homem.
— Eu sei. Fico contente com a sua ajuda.
Começaram imediatamente a discutir os passos a dar. Tinham de ser
montados pavilhões hospitalares e estações de quarentena. Os habitantes
das várias aldeias das ilhas tinham de ser obrigados a tomar precauções.
Em muitíssimos casos as aldeias infectadas iam buscar a água ao mesmo
poço das não infectadas, e em cada caso esta dificuldade tinha de ser
tratada de acordo com as circunstâncias. Era necessário mandar pessoas
para dar ordens e para se assegurarem que elas eram cumpridas. A
negligência tinha de ser implacavelmente punida. E o pior de tudo era que
os indígenas não obedeciam a outros indígenas e as ordens dadas por
polícias indígenas, eles próprios pouco convencidos da sua eficácia, eram
ignoradas. Era conveniente que o Sr. Jones ficasse em Baru, onde a
população era mais numerosa e os seus cuidados médicos mais
necessários; e devido às obrigações oficiais que o forçavam a manter-se
em contato com a sede da circunscrição, o Sr. Gruyter não podia visitar
todas as ilhas pessoalmente. Tinha de ser Senhorita Jones a fazê-lo; mas os
indígenas de algumas das ilhas mais distantes eram selvagens e
traiçoeiros; o Administrador tinha tido já alguns problemas com eles. Não
gostava da idéia de a expor ao perigo.
— Eu não tenho medo — disse ela.
— Acredito. Mas se lhe cortarem o pescoço eu é que vou ter
problemas e, além disso, temos tanta falta de gente que eu não quero
correr o risco de perder a sua ajuda.
— Então deixe o Sr. Wilson vir comigo. Ele conhece os indígenas
melhor do que ninguém e sabe falar os dialetos deles.
— O Ginger Ted? — o Administrador ficou a olhar para ela. — Ele
está precisamente a recuperar de um ataque de delirium tremens.
— Eu sei — respondeu ela.
— A senhora sabe muita coisa, Senhorita Jones.
Mesmo sendo o momento tão grave o Sr. Gruyter não pôde deixar de
sorrir. Lançou-lhe um olhar penetrante, mas ela enfrentou-o com frieza.
— Não há nada como a responsabilidade para trazer ao de cima o
que há dentro de um homem, e acho que uma coisa como esta poderá ser a
sua edificação.
— Achas que será prudente confiares-te durante dias seguidos a um
homem tão abjeto? — perguntou o missionário.
— Confio em Deus — respondeu ela gravemente.
— Acha que ele lhe vai servir de alguma coisa? — perguntou o
Administrador. — A senhora sabe como ele é.
— Estou convencida que sim. — E corou. — Afinal, ninguém
melhor do que eu sabe como ele é capaz de se controlar.
O Administrador mordeu o lábio.
— Vamos lá mandar chamá-lo.
Entregou uma mensagem ao sargento e minutos depois Ginger Ted
estava perante eles. Estava com mau aspeto. Tinha evidentemente ficado
muito abatido com o recente ataque e tinha os nervos em franja. Estava
todo esfarrapado e com barba de uma semana. O seu aspeto não podia ser
mais reles.
— Olha, Ginger — disse o Administrador — é por causa desta
questão da cólera. Temos de obrigar os indígenas a tomar precauções e
precisamos da tua ajuda.
— Por que raio logo eu?
— Por razão nenhuma especial. Apenas filantropia.
— Nada feito, Administrador. Eu não sou filantropo.
— Então a questão está arrumada. É tudo. Podes ir.
Mas quando Ginge r Ted se dirigia já para a porta, a Senhorita
Jones deteve-o.
— A idéia foi minha , Sr. Wilson. Veja, querem que eu vá a
Labobo e Sakunchi e os indígenas lá são tão esquisitos que fiquei com
medo de ir sozinha. Pensei que se o senhor também fosse eu ficaria mais
segura.
Ele olhou-a com profunda aversão.
— A senhora pensa que eu me importo alguma coisa se lhe cortarem
o pescoço?
Senhorita Jones olhou-o e os seus olhos encheram-se de lágrimas.
Começou a chorar. Ele ficou ali a olhar para ela com ar estúpido.
— De fato não vejo por que é que o senhor se havia de importar. —
Recompôs-se e limpou os olhos. — Estou a ser idiota. Eu fico muito bem.
Vou sozinha.
— É uma loucura danada uma mulher ir a Labobo.
Ela mostrou-lhe um leve sorriso.
— Acho que sim, mas repare, essa é a minha função e eu não posso
evitá-lo. Lamento se o meu pedido o ofendeu. Esqueça. Devo confessar
que não foi muito justo da minha parte pedir-lhe que corresse tal risco.
Ginger Ted ficou calado a olhar para ela durante um bom minuto.
Mudava o peso do corpo de um pé para o outro. A sua cara grosseira
parecia estar a enegrecer.
— Bem, que diabo, faça lá como quiser — disse ele por fim. — Eu
vou consigo. Quando é que quer partir?
Partiram no dia seguinte, com medicamentos e desinfetantes, na
lancha do governo. O Sr. Gruyter, depois de pôr em ordem os trabalhos
necessários, partiria na direção oposta. A epidemia grassou durante quatro
meses. Embora tudo tivesse sido feito para a limitar, uma após outra, todas
as ilhas foram afetadas. O Administrador andava ocupado de manhã à
noite. Mal regressava a Baru de uma ou outra das ilhas para aqui fazer o
que era necessário, logo partia de novo. Distribuía alimentos e
medicamentos. Confortava as populações aterrorizadas. Supervisava tudo.
Trabalhava como um cão. Nunca falou com Ginger Ted, mas recebeu do
Sr. Jones a informação de que a experiência estava a resultar melhor do
que aquilo que se esperava. O biltre estava a portar-se bem. Lidava bem
com os indígenas; e usando de sedução, de firmeza, ou ocasionalmente
dos punhos, conseguiu fazer com que eles tomassem as medidas
necessárias à sua própria segurança. Senhorita Jones podia felicitar-se pelo
sucesso do esquema. Mas o Administrador andava muito cansado para se
divertir. Quando a epidemia ficou debelada, ele rejubilou porque de uma
população de oito mil apenas seiscentos tinham morrido.
Finalmente podia passar ao distrito um certificado de saúde.
Uma noite, estava ele de sarongue na varanda da sua casa a ler um
romance francês com a feliz sensação de que podia uma vez mais levar as
coisas calmamente, quando o chefe dos criados veio dizer-lhe que Ginger
Ted queria falar com ele. Levantou-se da cadeira e gritou-lhe que entrasse.
Era de companhia que ele estava mesmo a precisar. Passara-lhe
exatamente pela cabeça que seria muito agradável apanhar uma bebedeira
nessa noite, mas embebedar-se sozinho não tem interesse nenhum, e
pusera a idéia de lado. E o Céu tinha-lhe mandado Ginger Ted na hora.
Meu Deus, iam ter uma noite de barulho. Passados quatro meses, tinham
direito a um pouco de diversão. Ginger Ted entrou. Trazia vestido um traje
branco de algodão limpo. Estava barbeado. Parecia um outro homem.
— Então, Ginger, mais parece que estiveste a passar um mês numa
estância de repouso do que a tratar de um bando de indígenas a morrer de
cólera. E olhem para a tua roupa. Acabado de sair da engomadeira?
Ginger Ted sorriu com ar envergonhado. O criado trouxe duas
garrafas de cerveja e encheu os copos.
— Serve-te Ginger — disse o Administrador pegando no copo.
— Acho que não vou beber nada, obrigado.
O Administrador pousou o copo e olhou para Ginger Ted espantado.
— Então o que é que tu tens? Não estás com sede?
— Preferia uma chávena de chá.
— Uma chávena de quê?
— Agora não bebo. Eu e a Martha vamo-nos casar.
— Ginger!
Os olhos do Administrador quase saíam das órbitas. Coçou a careca.
— Não pode ser, tu não podes casar com a Senhorita Jones — disse
ele. — Ninguém seria capaz de casar com a Senhorita Jones.
— Bem, eu vou-me casar com ela. Foi para lhe dizer isto que eu vim
falar consigo. O Owen vai-nos casar na capela, mas também queremos
casar pela lei holandesa.
— Chega de brincadeiras, Ginger. Qual é a tua idéia?
— Foi ela que quis. Ela apaixonou-se por mim na noite que
passamos naquela ilha quando a hélice se partiu. Não é má moça, depois
de a conhecermos. É a última oportunidade dela, se percebe o que quero
dizer, e eu queria fazer qualquer coisa para lhe ser agradável. E ela quer
alguém que trate dela, disso não há que ter dúvidas.
— Ginger, Ginger, antes de teres tempo de dizer ai, já ela está a fazer
de ti um raio de um missionário.
— E eu era capaz de nem me importar muito com isso se
conseguíssemos arranjar uma missão mesmo nossa. Ela diz que eu tenho
um jeitão para os indígenas. Diz que eu posso fazer mais a um indígena
em cinco minutos do que o Owen num ano. Diz que nunca encontrou
ninguém com um magnetismo como aquele que eu tenho. Seria uma pena
desperdiçar um tal dom.
O Administrador olhou-o em silêncio e abanou lentamente a cabeça
três ou quatro vezes. Ela apanhou-o completamente.
— Já converti dezessete — disse Ginger Ted.
— Tu? Não sabia que acreditavas no Cristianismo.
— Bem, eu não tenho a certeza, mas quando falei com eles e eles
vieram para o redil como cordeirinhos, bem, aquilo deu-me volta à cabeça.
Caramba, disse eu, se calhar afinal sempre há alguma coisa.
— Devias tê-la violado, Ginger. Eu não teria sido muito duro
contigo. Não te teria dado mais do que três anos, e três anos passam
depressa.
— Olhe aqui, Administrador, nunca diga a ninguém que isso nunca
me passou pela cabeça. O senhor sabe que as mulheres são muito
susceptíveis, e ela ia ficar danada como o raio se soubesse.
— Eu já desconfiava que ela tivesse caído por ti, mas nunca pensei
que as coisas chegassem a este ponto. — O Administrador andava muito
agitado para cá e para lá, na varanda. — Ouve, meu caro amigo — disse
ele depois de um intervalo de reflexão — nós passamos bons bocados
juntos e um amigo é um amigo. Vou-te dizer o que vou fazer, empresto-te
a lancha e tu podes esconder-te numa das ilhas até passar o próximo barco
e eu peço-lhes que abrandem para tu embarcares. Agora só tens uma única
hipótese, que é desatar a fugir.
Ginger Ted abanou a cabeça.
— Não adianta, Administrador, eu sei que a sua intenção é boa, mas
eu vou mesmo casar com o raio da mulher, e ponto final. O senhor não
conhece a alegria de levar todos aqueles pecadores impenitentes ao
arrependimento, e, ó Céus, a moça sabe fazer pudim de melaço. Já não
como um tão bom desde miúdo.
O Administrador ficou muito perturbado. Aquele patife bêbado era o
seu único companheiro nas ilhas e ele não queria ficar sem ele. Descobriu
que até sentia uma certa afeição por ele. No dia seguinte foi falar com o
missionário.
— Que história é esta de que ouvi falar que a sua irmã ia casar com o
Ginger Ted? — perguntou-lhe ele. — É a coisa mais extraordinária de que
jamais ouvi falar em toda a minha vida.
— E contudo é verdade.
— O senhor tem de fazer alguma coisa. É uma loucura.
— A minha irmã é maior e tem todo o direito de fazer o que bem
entender.
— Mas o senhor não está a dizer-me que concorda com isso. O
senhor conhece bem o Ginger Ted. É um vadio e não há volta a dar-lhe. Já
lhe disse o risco que ela vai correr? Quero dizer, levar os pecadores ao
arrependimento e esse tipo de coisas está bem, mas há limites. E acha que
o leopardo alguma vez muda as cores da pele?
Então, e pela primeira vez na sua vida, o Administrador notou um
certo brilho nos olhos do missionário.
— A minha irmã é uma mulher muito determinada, Sr. Gruyter —
respondeu ele. — Desde aquela noite que eles passaram na ilha ele nunca
mais teve outra hipótese.
O Administrador arfou. Estava tão surpreendido como o profeta
quando o Senhor abriu a boca da burra e ela disse para Balaam: o que é
que eu te fiz para tu me bateres três vezes? Talvez o Sr. Jones fosse
humano afinal.
— Allejusus! — murmurou o Administrador.
Antes de poderem dizer mais alguma coisa, Senhorita Jones entrou de
rompante na sala. Estava radiante. Parecia dez anos mais nova. Tinha as
faces coradas e o nariz já quase nem era vermelho.
— O senhor veio-me dar os parabéns, Sr. Gruyter? — exclamou ela,
e os seus modos eram joviais e muito femininos. — Como vê, afinal eu
tinha razão. Toda a gente tem alguma coisa de bom. O senhor não imagina
como o Edward foi extraordinário durante todo este tempo terrível. É um
herói. É um santo. Até eu fiquei admirada.
— Espero que seja muito feliz, Senhorita Jones.
— Tenho a certeza de que o vou ser. Oh, seria maldade minha
duvidar disso. Porque foi o Senhor que nos juntou.
— Acha que sim?
— Não acho, tenho a certeza. Não vê que se não fosse a cólera nós
nunca teríamos tido a oportunidade de nos conhecermos tão bem? Nunca
vi a mão de Deus manifestar-se tão claramente.
O Administrador não pôde deixar de pensar que era um esquema
muito desajeitado aquele de juntar aqueles dois à custa da morte de
seiscentas pessoas inocentes, mas como não era muito versado nos
caminhos da onipotência não fez qualquer observação.
— O senhor não vai acreditar onde nós vamos passar a lua de mel —
disse Senhorita Jones talvez um tanto maliciosamente.
— A Java.
— Não, se nos emprestar a lancha vamos para aquela ilha onde
tivemos de passar a noite. Tem recordações muito ternas para ambos. Foi
lá que pela primeira vez pressenti que o Edward era amável e bom. É lá
que eu quero que ele receba a sua recompensa.
O Administrador respirou fundo. Saiu rapidamente porque achou que
se não bebesse já uma cerveja teria um desmaio. Nunca ficara tão chocado
em toda a sua vida.
O impulso criativo

Suponho que só muito poucas pessoas sabem o que levou a Sra.


Albert Forrester a escrever A Estátua de Aquiles; e como a obra foi
considerada um dos grandes romances do nosso tempo, não posso deixar
de pensar que um breve relato das circunstâncias que lhe deram origem
deve ter interesse para os estudantes de literatura; e se, realmente, como os
críticos dizem, se trata de uma obra que vai sobreviver, a narrativa que se
segue, pretende ser mais do que uma simples maneira de preencher uma
hora de ócio, pode ser considerada pelo historiador do futuro como uma
curiosa nota de rodapé para os anais literários dos nossos dias.
Claro que todos se lembram do sucesso que foi a publicação de A
Estátua de Aquiles. Mês após mês, os tipógrafos afadigaram-se a imprimir
e os encadernadores, a encadernar, edição após edição; e as editoras, tanto
na Inglaterra como na América, dificilmente conseguiam satisfazer as
insistentes encomendas das livrarias. Foi imediatamente traduzido em
todas as línguas européias, e há pouco foi anunciado que brevemente será
possível lê-lo em japonês e em urdu. Mas a obra já fora publicada, em
forma de folhetim, em revistas de ambos os lados do Atlântico, e dos
editores destas recebera já o agente da Senhora Forrester uma soma que só
pode ser descrita como astronômica. O romance foi também dramatizado,
e a peça esteve em cena durante toda uma temporada em Nova Iorque, e
poucas dúvidas haverá de que, quando for produzida em Londres, irá ter
um sucesso semelhante. Os direitos cinematográficos já foram vendidos
por um elevado preço. Embora o montante que consta (nos círculos
literários) que a Senhora Forrester terá recebido seja exagerado, não pode
haver qualquer dúvida de que ela terá ganho, só com este livro, o
suficiente para a preservar, para o resto da vida, de qualquer preocupação
de caráter financeiro.
Não é muitas vezes que um livro tem simultaneamente os favores do
público e dos críticos, e o fato de ela, quem diria, ter (se assim se pode
dizer) conseguido a quadratura do círculo deve ter sido para a Sra.
Forrester tanto mais gratificante quanto é certo que, embora os críticos não
lhe tivessem regateado elogios (que, claro, ela considerou como devidos) o
público sempre ficara estranhamente indiferente aos seus méritos. Cada
obra que publicava, fino volume lindamente impresso e encadernado em
bocaxim branco, era saudado como uma obra prima, sempre a uma coluna,
e nas críticas semanais, que só se encontram nas bibliotecas poeirentas de
clubes muito antigos, mesmo até a página inteira; e todos os eruditos a
liam e elogiavam. Mas aparentemente os eruditos não compram livros, e
ela não vendia. Era realmente um escândalo que uma autora tão notável,
com uma imaginação tão fina e um estilo tão raro fosse desprezada pelo
povo. Na América era quase completamente desconhecida; e embora o Sr.
Carl van Vechten tivesse escrito um artigo admoestando duramente o
público pelo seu embotamento, este continuou indiferente. O seu agente,
caloroso admirador do seu gênio, chantangeou um editor americano para
aceitar duas das suas obras, recusando, caso contrário, ceder-lhe outras
(romances baratos, sem dúvida) que ele muito desejava ter, e os dois livros
foram publicados. A aceitação que tiveram por parte da imprensa foi
lisonjeira e mostrou que na América os melhores espíritos eram sensíveis
ao seu talento; mas quando chegou a vez do terceiro livro, o editor
americano (com aqueles modos grosseiros que os editores têm) disse ao
agente que preferia gastar todo o seu dinheiro disponível em gin sintético.
Depois de A Estátua de Aquiles, as obras anteriores da Sra. Albert
Forrester foram reeditadas (e o Sr. Carl van Vechten escreveu outro artigo
lembrando triste, mas firmemente que tinha chamado a atenção do mundo
literário para os méritos desta excepcional escritora há quinze anos) e têm
sido tão largamente publicados que dificilmente poderão escapar à atenção
do leitor culto. Desnecessária se torna, portanto, qualquer referência da
minha parte, e que mais não seria do que batatas frias depois daqueles dois
sutis artigos do Sr. Carl van Vechten, a Sra. Albert Forrester começou
cedo a escrever. A sua primeira obra (um livro de elegias) apareceu
quando ela era ainda uma donzela de dezoito anos; e desde então, tem
publicado de dois ou de três em três anos, porque tinha, da sua arte, uma
idéia demasiado elevada para uma produção apressada, um volume ou de
poesia ou de prosa. Quando A Estátua de Aquiles foi escrito, ela tinha
atingido a respeitável idade de cinquenta e quatro anos, de onde se
concluirá prontamente que a quantidade das suas obras era já considerável.
Dera já ao mundo meia dúzia de volumes de poesia, publicados com
títulos em latim, como, Felicitas, Pax Maris e Aes Triplex, todos do
gênero mais sério, porque a sua musa, avessa ao saltitar ligeiro e
fantástico, pisava um caminho um tanto mais solene. Continuou fiel à
Elegia, e o Soneto tomava muita da sua atenção; mas o que mais a
distinguiu foi o fato de revivificar a Ode, uma forma de poesia que os
poetas de hoje como que esquecem; e pode afirmar-se com segurança que
a sua Ode ao Presidente Fallières irá ter um espaço em todas as antologias
de poesia inglesa. É admirável não só pela sonoridade nobre dos seus
ritmos, mas também pela sua feliz descrição das agradáveis terras de
França. A Sra. Albert Forrester escreveu sobre o vale do Loire com as suas
reminiscências de du Bellay, sobre Chartres e as janelas ornamentadas da
sua catedral, das cidades soalheiras da Provence, com uma simpatia tanto
mais notável quanto é certo que ela, em França, nunca foi além de
Bolonha, que visitou, pouco depois de casar, numa excursão de barco de
Margate. Mas o sofrimento físico provocado por um forte enjoo e a
humilhação intelectual de descobrir que os habitantes daquela popular
estância balnear não entendiam o seu francês fluente e idiomático fizeram
com que resolvesse não se expor por segunda vez a experiências que eram
ao mesmo tempo inconvenientes e desagradáveis; e nunca mais se
aventurou naquele elemento traiçoeiro que ela, contudo, cantou em versos
graves, mas também doces (Pax Maris).
Há também umas belas passagens na Ode a Woodrow Wilson, e eu
lamento que, devido a uma mudança nos seus sentimentos em relação
àquele homem, sem dúvida, excelente, a autora decidisse não a
reimprimir. Mas creio que terá de se admitir que a obra mais notável da
Sra. Albert Forrester foi em prosa.
Ela escreveu vários volumes de ensaios curtos, mas bem construídos,
sobre assuntos tais como O Outono no Essex, A Rainha Vitória, A Morte,
A Primavera em Norfolk, A Arquitetura Georgiana, Monsieur Diaghileff e
Dante; também escreveu obras tão eruditas quanto bizarras sobre a
Arquitetura Jesuíta do Século XVII e sobre o Aspecto Literário da Guerra
dos Cem Anos. Foi a sua prosa que lhe granjeou aquele corpo de
admiradores dedicados, poucos mas bons, como ela, com o seu dom para
as expressões, dizia, que a proclamaram como o maior mestre da língua
inglesa que este século vira. Ela própria confessava que o seu estilo,
sonoro, porém rico, polido, porém eloquente, é que era o seu ponto forte; e
só na prosa é que ela teve oportunidade de mostrar o humor delicioso, mas
contido que os seus leitores achavam tão irresistível. Não era um humor de
idéias, nem mesmo um humor de palavras; era muito mais subtil do que
isso, era um humor de pontuação: num golpe de inspiração, ela descobrira
as potencialidades cómicas do ponto e vírgula, e usou-o abundante e
elegantemente. Ela conseguia colocá-los de tal maneira que se o leitor era
uma pessoa de cultura não se ria propriamente a bandeiras despregadas,
mas dava risadinhas deliciosas, e quanto maior a cultura mais deliciosas as
risadinhas. Os seus amigos diziam que isto tornava todas as outras formas
de humor grosseiras e exageradas. Vários escritores tinham tentado imitá-
la; mas em vão: por muito que se dissesse sobre a Sra. Albert Forrester,
tínhamos que admitir que ela conseguia extrair todo o humor do ponto e
vírgula e ninguém se lhe podia comparar.
A Sra. Albert Forrester vivia num apartamento não muito longe de
Marble Arch, o que reunia as vantagens de uma boa localização e uma
renda moderada. Tinha uma sala de visitas elegante que dava para a rua, e
um grande quarto de dormir para a Sra. Albert Forrester, uma sala de
jantar um tanto escura nas traseiras, e um quartinho de dormir acanhado,
pegado à cozinha, para o Sr. Albert Forrester, que pagava a renda. Era na
elegante sala de visitas que a Sra. Albert Forrester recebia, todas as terças-
feiras à tarde, os seus amigos. Era um compartimento austero e recatado.
Nas paredes um papel desenhado pelo próprio William Morris, e sobre
este, em molduras lisas pretas, gravuras a mezzotinta colecionadas antes
de as mezzotintas se tornarem caras; a mobília era do período
Chippendale, à exceção da escrivaninha, de características vagamente Luís
XVI, e na qual a Sra. Albert Forrester escrevia as suas obras. Isto era
referido aos visitantes da primeira vez que vinham visitá-la, e poucos a
olhavam sem emoção. O tapete era espesso e a iluminação discreta. A Sra.
Albert Forrester sentava-se em um cadeirão de costas direitas forrado de
damasco vermelho. Não havia nisto nada de ostentetatório, mas como
aquela era a única cadeira confortável da sala, como que a colocava à parte
e acima dos convidados. O chá era servido por uma mulher de idade
indefinida, silenciosa e incolor que nunca era apresentada a ninguém, mas
que considerava um privilégio poupar à Sra. Albert Forrester aquela
fastidiosa tarefa. E a Sra. Albert Forrester ficava assim livre para se
devotar inteiramente à conversa, e temos de concordar que a sua conversa
era excelente. Não era animada; e uma vez que é difícil marcar a
pontuação na linguagem oral, pode ter parecido a alguns sofrer de ligeira
falta de humor, mas era de âmbito alargado, sólida, instrutiva e
interessante. A Sra. Albert Forrester era versada em ciências sociais,
jurisprudência e teologia. Tinha lido muito e a sua memória era fiel. Tinha
um razoável dom para as citações, que são um prestável substituto da
inteligência, e tendo conhecido mais ou menos intimamente, ao longo de
trinta anos, muitíssimas pessoas notáveis, tinha muitas histórias para
contar, o que fazia com tato, não as repetindo mais do que seria perdoável.
A Sra. Albert Forrester tinha o dom de atrair as mais variadas pessoas e
podia acontecer encontrarmos em sua sala de uma só vez e ao mesmo
tempo um ex-Primeiro Ministro, o proprietário de um jornal e o
embaixador de uma grande potência. Sempre imaginei que estes notáveis
lá iam porque pensavam que ali conviviam com a boémia, mas com uma
boémia arrumada e limpa quanto baste para não correrem o risco de
ficarem respingados de qualquer sujidade. A Sra. Albert Forrester
interessava-se muito pela política, e eu próprio ouvi um ministro dizer-lhe
abertamente que ela tinha uma inteligência masculina. Ela já fora contra o
direito de voto das mulheres, mas quando finalmente aquele foi
reconhecido oficialmente, logo começou a brincar com a idéia de ir para o
Parlamento. O seu problema era que não sabia qual dos partidos escolher.
— Afinal — dizia ela com um brincalhão encolher dos ombros um
tanto maciços — eu não posso formar um partido de uma só pessoa.
Tal como muitos patriotas sérios, face à sua incapacidade de saber ao
certo para que lado penderia a balança, manteve as suas opiniões políticas
em suspenso; mas ultimamente estava definitivamente inclinada para o
Partido Trabalhista, como a melhor esperança para o país, e se lhe
oferecessem um lugar seguro é quase certo que ela não hesitaria em vir
para campo aberto como campeã do proletariado oprimido.
A sua sala de visitas estava sempre aberta aos estrangeiros,
checoslovacos, italianos e franceses, se eram pessoas notáveis, e
americanos mesmo que pessoas obscuras. Mas não eram esnobes, e
raramente lá se encontrava um duque, a não ser que se tratasse de pessoa
de caráter especialmente sério, e um par do reino apenas se, além da sua
categoria social, tivesse o salvo-conduto de qualquer pequena infração
social, como ter sido divorciada, ter escrito um romance, ou falsificado um
cheque, que lhe pudesse dar direito à simpatia da Sra. Albert Forrester.
Não gostava muito dos pintores, que eram tímidos e calados; e os músicos
não lhe interessavam; mesmo que se dispusessem a tocar, e se eram dos
consagrados eram quase sempre muito relutantes, a música era um
obstáculo para a conversa: se as pessoas queriam música podiam ir a um
concerto; pela sua parte, preferia a música mais subtil da alma. Mas a sua
hospitalidade para com os escritores, especialmente se eram promissores e
pouco conhecidos, era calorosa e constante. Tinha dedo para os talentos a
desabrochar e dos escritores famosos que de vez em quando bebiam uma
xícara de chá com ela muito poucos haveria cujos primeiros esforços ela
não tivesse encorajado e cujos primeiros passos ela não tivesse guiado. A
sua própria posição estava já suficientemente assegurada para sentir
inveja, e ouvira já muitas vezes a palavra gênio ligada ao seu nome para
sentir o mínimo traço de ciúme por o talento dos outros lhes trazer o
sucesso material que lhe era negado a ela.
A Sra. Albert Forrester, confiante no julgamento da posteridade,
podia dar-se ao luxo da indiferença. Com todos estes elementos, não
admira que ela tenha conseguido criar qualquer coisa muito próxima de
um salão francês do século XVIII, coisa que a nossa bárbara nação nunca
conseguiu. Ser convidado para "comer um bolo e tomar uma xícara de chá
na terça-feira" era um privilégio que poucos deixavam de reconhecer; e
quando nos sentávamos na nossa cadeira Chippendale naquela sala
discretamente iluminada, mas austera, não podíamos deixar de sentir que
estávamos a viver história literária. O embaixador americano disse uma
vez à Sra. Albert Forrester:
— Uma xícara de chá consigo, Sra. Forrester, é um dos maiores
prazeres intelectuais que alguma vez me calharam em sorte.
Às vezes aquilo era, de fato, um pouco opressivo. O gosto da Sra.
Albert Forrester era tão perfeito, ela admirava tão inevitavelmente a coisa
certa e fazia sobre ela a observação tão justa, que por vezes uma pessoa
quase sufocava. Pela minha parte, achava prudente fortificar-me com um
ou dois cocktails antes de me expor à atmosfera rarefeita da sua
companhia. De fato, eu estive quase a ser afastado para sempre da sua
companhia, porque uma tarde, apresentando-me à porta, em vez de
perguntar à criada que a abriu, "A Sra. Forrester está?", perguntei, "Hoje
há serviço religioso?"
Claro que isto foi dito inadvertidamente, mas por pouca sorte a
criada deu um risinho abafado e uma das admiradoras mais devotadas da
Sra. Albert Forrester, Ellen Hannaway, estava, por acaso, no hall, nesse
momento, a descalçar as galochas. Contou à minha anfitriã o que eu tinha
dito antes, e quando entrei a Sra. Albert Forrester fixou-me com um olhar
de lince.
— Por que é que o Senhor perguntou se hoje havia serviço religioso?
— perguntou ela.
Expliquei que estava distraído, mas a Sra. Albert Forrester fixou-me
com um olhar que só posso descrever como constrangedor.
— O Senhor pretende insinuar que as minhas reuniões são... —
procurou a palavra — sacramentais?
Eu não sabia o que é que ela queria dizer, mas não mostrei a minha
ignorância diante de tantas pessoas inteligentes e decidi que a única coisa
a fazer era pegar na faca e na manteiga.
As suas reuniões são exatamente como a Senhora, cara Sra.
Forrester, perfeitamente belas e perfeitamente divinas.
Um ligeiro estremecimento percorreu o corpo robusto da Sra. Albert
Forrester. Ficou como uma pessoa que entra subitamente numa sala cheia
de jacintos; o perfume é tão forte que quase fica a gaguejar. Mas
recompôs-se.
— Se o Senhor estava a tentar gracejar — disse ela — preferia que o
fizesse com os meus convidados e não com as minhas criadas... A
Senhorita Warren vai servi-lhe o chá.
A Sra. Albert Forrester despediu-me com um gesto da mão mas não
esqueceu o assunto, porque nos dois ou três anos seguintes sempre que me
apresentava a alguém nunca deixava de acrescentar:
— Deve aproveitá-lo o mais que puder, que ele só aqui vem em
penitência. Quando chega à porta pergunta sempre: "Hoje há serviço
religioso?" Tão engraçado, não é?
Mas a Sra. Albert Forrester não se limitava aos chás semanais: todos
os sábados dava um almoço a oito pessoas; isto de acordo com a sua
opinião de que este é o número ideal de pessoas para uma conversa
generalizada e também porque a sua sala de jantar não comportava mais.
Se de alguma coisa a Sra. Albert Forrester se gabava não era de que o seu
conhecimento da prosódia inglesa era único, mas de que os seus almoços
eram famosos. Ela escolhia os seus convidados com cuidado, e um seu
convite para um deles era mais do que um cumprimento, era uma
consagração. À mesa do almoço era possível manter a conversa num
patamar mais elevado do que no grupo heterogéneo de um chá, e poucos
serão os que terão saído da sua sala de jantar sem levarem com eles uma
crença ainda maior nas capacidades da Sra. Albert Forrester e uma fé mais
viva na natureza humana. Ela só convidava homens uma vez que, grande
entusiasta do seu sexo como ela era, e satisfeita com os encontros com
mulheres noutras ocasiões, não podia deixar de saber que elas à mesa se
inclinavam para falar exclusivamente dos seus vizinhos e assim
impedirem aquela troca generalizada de idéias que tornavam as suas
reuniões um divertimento não só para o corpo, como também para a alma.
Porque tem que ser dito que a Sra. Albert Forrester nos dava comida
invulgarmente boa, excelentes vinhos e charutos de primeira classe. Ora
para qualquer pessoa que já tenha experimentado a hospitalidade literária
isto deve parecer extremamente notável, dado que as pessoas do meio
literário, na sua maior parte, pensam com elevação e vivem com
vulgaridade; a sua mente anda ocupada com as coisas do espírito e não
reparam que o cabrito assado está mal passado e as batatas, frias: a cerveja
está muito bem, mas o vinho tem um efeito moderador, e não é muito
sensato tocar no café. A Sra. Albert Forrester ficava bastante contente em
receber elogios pela comida que fornecia.
— Se as pessoas me dão a honra de partilhar as minhas refeições —
dizia ela — é muito justo que lhes dê comida tão boa como a que comem
em casa.
Mas se o elogio era excessivo, ela desvalorizava-o.
— Os Senhores estão a deixar-me constrangida ao dar-me um
galardão que não me é devido. Devem é felicitar a Sra. Bulfinch.
— Quem é a Sra. Bulfinch?
— A minha cozinheira.
— Então ela é um achado, mas a Senhora não quer certamente que
acreditemos que é ela a responsável pelo vinho.
— É bom? Eu não entendo nada dessas coisas; entrego-me por
inteiro nas mãos do meu fornecedor de vinhos.
Mas se alguém se referisse aos charutos, a Sra. Albert Forrester
ficava radiante.
— Ah, sobre isso devem felicitar o Albert. O Albert é que escolhe os
charutos e pelo que me dizem ninguém entende mais de charutos do que o
Albert.
Olhava para o marido, sentado no outro extremo da mesa, com os
olhos a brilhar de orgulho, como uma galinha de raça pura (uma Buff
Orpington, de preferência) a olhar para o seu único pintainho. Havia então
um ligeiro alvoroço na conversa, com os convidados, ansiosos por serem
corteses para com o seu anfitrião e aliviados por finalmente terem ocasião
para isso, a exprimirem a sua estima pelo seu particular mérito.
— São muito amáveis — dizia ele — ainda bem que gostam.
Depois ele fazia uma curta dissertação sobre os charutos, explicando
a excelência que procurava e lamentando a deterioração de qualidade que
se seguira à comercialização da indústria. A Sra. Albert Forrester ouvia-o
com um sorriso complacente, e era evidente que apreciava o pequeno
triunfo do marido. Claro que não se pode falar indefinidamente sobre
charutos, e logo que ela percebia que os convidados começavam a ficar
impacientes introduzia um tópico de interesse mais geral, e talvez de
maior significado. Albert remetia-se ao silêncio. Mas tivera o seu
momento de triunfo.
Era Albert que tornava os almoços de Forrester um pouco menos
atrativos do que os seus chás, porque Albert era um chato mas, embora
plenamente consciente do fato, sem dúvida, ela fazia questão que ele fosse
aos almoços e tinha até escolhido os sábados (porque nos outros dias da
semana ele estava ocupado) para que ele pudesse estar presente. A Sra.
Albert Forrester sentia que a presença do seu marido nestas ocasiões
festivas era uma dívida inevitável que ela pagava ao seu próprio respeito
por si mesma. Ela nunca, por um descuido, admitiria ao mundo que casara
com um homem que, espiritualmente, não era um seu par, e talvez se
interrogasse, durante as suas vigílias silenciosas, se de fato se poderia
encontrar um tal homem. Os amigos da Sra. Albert Forrester não se
preocupavam com tais dúvidas e diziam que era horrível que uma mulher
como ela tivesse de suportar o fardo de um tal homem. Perguntavam-se
entre eles como é que ela podia ter casado com ele e (sendo a maioria
celibatários) respondiam desesperados que nunca ninguém sabia por que é
que uma qualquer pessoa tinha casado com qualquer uma outra.
Não é que Albert fosse um maçador palavroso e agressivo; não era o
gênero de nos agarrar pelo casaco para nos contar histórias intermináveis
ou para nos importunar com piadas sem sentido; nem para nos crucificar
com frases acacianas ou nos cansar com lugares comuns; ele era
simplesmente tapado. Um zero. Clifford Boyleston, para quem os
românticos franceses não tinham qualquer segredo e que era, ele próprio,
escritor de mérito, já dissera que quando se olhava para uma sala onde
Albert tinha acabado de entrar não se via lá ninguém. Os amigos da Sra.
Albert Forrester consideraram isto muito inteligente, e Rose Waterford, a
conhecida romancista e a mais corajosa das mulheres, aventurara-se a
repeti-lo à Sra. Albert Forrester. Embora pretendendo ter ficado
aborrecida, não conseguira evitar que um sorriso lhe assomasse aos lábios.
O seu comportamento para com Albert não podia deixar de aumentar
ainda mais a consideração em que os seus amigos a tinham. Ela insistia
que fosse o que fosse que pensassem dele, deviam tratá-lo com o decoro
que era devido ao seu marido. O seu próprio procedimento era admirável.
Se por acaso ele fazia qualquer observação, ela escutava-o com uma
expressão agradável, e quando ele lhe ia buscar um livro que ela queria ou
lhe emprestava o lápis para ela registar uma idéia que lhe ocorrera,
agradecia-lhe sempre. E também não permitia que os amigos o
esquecessem ostensivamente e, embora, pessoa com muito tato como era,
ela visse que seria pedir muito às pessoas ela andar sempre com ele, e
saísse muito sozinha, os seus amigos sabiam, contudo, que ela esperava
que eles o convidassem para jantar pelo menos uma vez por ano. Ele
acompanhava-a sempre aos banquetes públicos quando ela ia discursar, e
se ela dava uma palestra, tratava sempre de fazer com que ele tivesse lugar
no estrado.
Albert era, parece-me, de estatura mediana, mas talvez por nunca se
pensar nele senão em ligação com a mulher (de estatura avantajada) só se
pensava nele como um homem pequenino. Ele era magro e frágil e parecia
mais velho do que era de fato. Tinha a mesma idade da mulher. O cabelo,
que ele trazia sempre muito curto, era branco e pouco abundante, e usava
bigode, que era branco e muito espetado; tinha um rosto fino, estriado,
sem qualquer característica particular; e os olhos azuis, que outrora
deviam ter sido atraentes, eram agora pálidos e cansados. Andava sempre
muito bem vestido, com calças mescladas, que ele escolhia sempre do
mesmo padrão, casaco preto, e gravata cinzenta com um pequeno alfinete
com uma pérola. Era extremamente discreto, e quando se encontrava na
sala de visitas da Sra. Albert Forrester para receber as pessoas que ela
convidara para o almoço, reparava-se tanto nele como na elegante e sóbria
mobília. Era um homem de boas maneiras, e era com um sorriso agradável
e cortês que os cumprimentava com um aperto de mão.
— Como está? Tenho muito prazer em vê-lo — dizia ele se se
tratava de amigos de certa posição. — Continua bem, espero?
Mas se eram desconhecidos notáveis que iam lá a casa pela primeira
vez, ele ia até à porta, quando eles iam a entrar na sala, e dizia:
— Eu sou o marido da Sra. Albert Forrester. Vou apresentá-lo à
minha mulher. Conduzia então o visitante até onde a Sra. Albert Forrester
se encontrava de costas para a luz, e ela, com um gesto de satisfação e
ansiedade, avançava para dar as boas vindas ao desconhecido. Era
agradável de ver o recatado orgulho que ele tinha na reputação literária da
mulher e a discrição com que ele defendia os seus interesses. Estava
sempre presente quando era desejado e nunca quando o não era. O seu
tato, se não deliberado, era instintivo. A Sra. Albert Forrester era a
primeira a reconhecer os seus méritos.
— Não sei realmente o que faria sem ele — disse ela. — É
inestimável para mim. Leio-lhe tudo o que escrevo e as suas críticas são-
me por vezes muito úteis.
— Molière e o cozinheiro — disse a Senhorita Waterford.
— Isso é para ter graça, querida Rose? — perguntou a Sra. Forrester
um pouco ácida.
Quando a Sra. Albert Forrester não gostava de uma observação,
falava de uma maneira que confundia muitas pessoas, perguntando-lhes se
era uma graça densa demais para se perceber. Mas era impossível
embaraçar a Senhorita Waterford. Era uma Senhora que no decurso de
uma longa vida tinha tido muitas relações, mas uma só paixão, a tinta de
impressão. A Sra. Albert Forrester, menos do que aceitá-la, tolerava-a.
— Ora, ora, minha querida — respondeu ela — sabe muito bem que
ele não existiria sem si. Não nos conheceria. Deve ser extraordinário para
ele poder contactar com todas as melhores cabeças e com todas as pessoas
mais notáveis do nosso tempo. Talvez a abelha não vivesse sem o cortiço
que a abriga, contudo a abelha tem a sua própria importância.
E como, embora versados em arte e literatura, pouco sabiam sobre
história natural, os amigos da Sra. Albert Forrester não tiveram resposta
para esta observação. E ela continuou.
— Ele não se intromete na minha vida. Ele sabe inconscientemente
quando não quero ser incomodada e, na verdade, quando eu estou a seguir
um raciocínio acho a sua presença na sala reconfortante e não um entrave.
— Como um gato persa — disse a Senhorita Waterford.
— Mas um gato persa muito bem educado, fino e bem treinado —
respondeu a Sra. Forrester severamente, pondo assim a Senhorita
Waterford no seu lugar.
Mas a Sra. Albert Forrester ainda não tinha terminado.
— Nós, os intelectuais, — disse ela — estamos aptos a viver num
mundo exclusivamente nosso. Nós estamos interessados no abstrato e não
no concreto, e às vezes penso que observamos minuciosamente o mundo
agitado dos problemas humanos de uma distância demasiado grande e de
uma altura demasiado tranquila. Não acham que corremos o risco de nos
tornarmos um tanto desumanos? Ficarei eternamente grata ao Albert
porque ele me mantém em contacto com o homem da rua.
Foi por causa desta observação, a que nenhum dos seus amigos podia
negar o raro discernimento e sutileza que caracterizavam tantas das suas
afirmações, que durante um tempo Albert foi conhecido, naquele seu
círculo mais restrito, como O Homem da Rua. Mas foi só por pouco
tempo, e foi logo esquecido. Passou depois a ser conhecido por O
Filatelista. Foi Clifford Boyleston, com o seu espírito malicioso, que
inventou o nome. Um dia, cansada a sua pobre cabeça do esforço de
manter uma conversa com Albert, perguntara-lhe em desespero:
— O Senhor coleciona selos?
— Não, — respondeu-lhe Albert humildemente. — Não coleciono.
Mas mal acabara de fazer a pergunta, Clifford Boyleston viu as
possibilidades que aquilo continha. Ele escrevera um livro sobre a tia de
Baudelaire por afinidade, que atraíra a atenção de todos os que se
interessavam pela literatura francesa, e era bem conhecido pelo fato de nos
seus estudos exaustivos do espírito francês ter absorvido uma bela porção
da vivacidade e do brilho galeses. Não ligou à negativa de Albert, e na
primeira oportunidade informou os amigos da Sra. Albert Forrester de que
tinha finalmente descoberto o segredo de Albert. Ele colecionava selos. E
depois nunca o encontrava que não lhe perguntasse:
— Então, o Sr. Forrester, como é que vai a colecção de selos? — Ou
— Já comprou alguns desde a última vez que o vi?
Pouco importava que Albert continuasse a negar que colecionava
selos, a invenção era boa demais para ser desperdiçada; os amigos da Sra.
Albert Forrester continuavam a dizer que sim, que ele colecionava selos, e
raramente falavam com ele que não lhe perguntassem como iam as coisas.
Mesmo a Sra. Albert Forrester, quando estava particularmente bem
disposta, se referia às vezes ao marido como O Filatelista. O nome parecia
de fato assentar-lhe como uma luva. Por vezes falavam assim dele mesmo
à sua frente, e não podiam deixar de apreciar a bonomia como que ele
aceitava aquilo; sorria sem ressentimento e acabou por nem sequer lhes
retorquir que estavam enganados.
Claro que a Sra. Albert Forrester tinha um sentido social
suficientemente apurado para prejudicar o sucesso dos seus almoços
permitindo que os seus mais distintos convidados se sentassem ao lado de
Albert. Ela tinha o cuidado de providenciar para que esses lugares fossem
ocupados apenas pelos seus amigos mais antigos e mais íntimos e quando
as vítimas designadas chegavam ela dizia-lhes:
— Já sabia que não se importam de ficar ao lado do Albert, não é
verdade?
Eles só podiam dizer que ficariam encantados, mas se as suas
expressões denunciassem claramente a sua consternação ela afagava-lhes a
mão a brincar e acrescentava:
— Para a próxima ficam ao meu lado. O Albert é tão tímido com
pessoas estranhas e os Senhores sabem tão bem como lidar com ele.
Realmente sabiam: ignoravam-no simplesmente. Para eles, era como
se a cadeira em que ele se sentava estivesse vazia. E ele não mostrava
qualquer sinal de que o aborrecia o fato de não ter a atenção daquelas
pessoas que afinal comiam aquilo que ele pagava, uma vez que os
proventos da Sra. Forrester não chegariam para oferecer salmão e aspargos
aos seus convidados. Ficava quieto e calado e, se abria a boca era apenas
para dar uma ordem a uma das criadas. Se um dos convidados era novo
para ele, ficava a olhar para ele de uma maneira que seria embaraçosa
senão fosse tão infantil. Parecia interrogar-se sobre o que seria aquela
estranha criatura; mas que resposta aquele plácido escrutinar lhe dava
nunca ele revelava. Quando a conversa ficava animada, olhava de uns para
os outros dos falantes, mas também nada se poderia saber pelo seu rosto
magro e estriado o que ele pensava das fantásticas idéias que eram
lançadas de um lado para o outro da mesa.
Clifford Boyleston dizia que todo o espírito e sabedoria que ele
ouvia lhe passava sobre a cabeça como água pelas costas de um pato.
Desistira de tentar compreender e agora apenas aparentemente escutava.
Mas Harry Oakland, o versátil crítico, dizia que Albert absorvia tudo;
achava tudo maravilhoso, e com a sua pobre cabeça confusa tentava
entender as coisas maravilhosas que ouvia. Claro que na City ele devia
gabar-se das pessoas notáveis que conhecia, talvez ele aí fosse um farol
dos saber e das letras, uma autoridade sobre o ideal; seria divino poder
saber o que ele fazia de tudo aquilo. Harry Oakland era um dos mais fiéis
admiradores da Sra. Albert Forrester, e já escrevera um ensaio brilhante e
subtil sobre o seu estilo. Com as suas feições belas e refinadas parecia um
S. Sebastião que tivera um acidente com o seu restaurador de cabelo;
porque ele era invulgarmente cabeludo. Era ainda muito jovem, tinha
menos de trinta, mas fora já sucessivamente crítico teatral e crítico
literário, crítico musical e crítico de pintura. Mas estava a ficar cansado da
arte e ameaçava, no futuro, devotar os seus talentos à crítica desportiva.
Devo explicar que Albert trabalhava na City, e era uma pouca sorte
que os amigos da Sra. Forrester achassem que ela sustentava com
meritória firmeza que ele nem rico era. Seria uma coisa muito romântica
se ele fosse um príncipe mercador que tivesse nas mãos o destino de
nações ou mandasse navios carregados de especiarias raras para aqueles
portos do Levante cujos nomes deram a tantos poetas um ritmo tão rico e
tão raro. Mas Albert era apenas um simples comerciante de groselha de
que não se exigia mais do que proporcionar à Sra. Albert Forrester uma
vida com distinção e até com liberalidade. Como a sua atividade o prendia
no escritório até às seis da tarde, nunca conseguia estar nas Terças-feiras
da Sra. Albert Forrester antes de os convidados mais importantes se terem
ido embora. À hora a que ele chegava raramente havia na sala mais do que
três ou quatro dos seus amigos mais íntimos a falar livremente e a gracejar
sobre os convidados que tinham já saído, e quando ouviam Albert meter a
chave na fechadura concluíam unanimemente que já era muito tarde. Ele
abria logo a porta com os seus modos hesitantes e olhava calmamente para
dentro. A Sra. Albert Forrester saudava-o com um sorriso brilhante.
— Entra, Albert, entra. Acho que já conheces toda a gente aqui.
Albert entrava e cumprimentava todos os amigos da mulher com um
aperto de mão.
— Vens da City? — perguntava ela ansiosa, sabendo embora que ele
não podia ter vindo de mais parte nenhuma. — Queres um chá?
— Não, obrigado, querida. Já tomei chá no escritório.
A Sra. Albert Forrester sorria-lhe ainda com mais brilho nos olhos, e
o resto da companhia achava que ela era perfeitamente maravilhosa para
com ele.
— Ah, mas eu sei que tu gostas de uma segunda xícara. Vou eu
mesmo servir-te.
Dirigia-se para a mesinha do chá e, esquecendo-se de que o chá tinha
sido feito há uma hora e meia e estava já completamente frio, enchia-lhe
uma xícara e juntava o leite e o açúcar. Albert pegava na xícara com uma
palavra de agradecimento e mexia-o docilmente, mas quando a Sra.
Forrester retomava a conversa que a sua chegada interrompera, pousava
calmamente o chá sem o provar. A sua chegada era o sinal para pôr fim à
reunião e, um a um, os restantes convidados iam saindo. Certa vez, porém,
a conversa era tão absorvente e o ponto em discussão tão importante que a
Sra. Albert Forrester nem queria ouvir falar de se irem embora.
— Isto tem de ser resolvido de uma vez por todas — observou ela de
uma maneira quase maliciosa — é um assunto em que o Albert deve ter
uma palavra a dizer. Ouçamos a sua opinião.
Isto passou-se na altura em que as mulheres começaram a usar o
cabelo curto e o assunto em discussão era se a Sra. Albert Forrester
deveria ou não cortar o cabelo. A Sra. Albert Forrester era uma mulher
cuja presença se impunha. Ela era larga de ossos, que estavam bem
guarnecidos; se não fosse tão alta e forte poderia dar a impressão de
corpulência. Mas ela transportava o seu peso com elegância. As suas
feições eram um pouco maiores do que o natural, e era isto que, sem
dúvida, lhe dava ao rosto aquele ar de intelectualidade viril que certamente
tinha. A pele era escura e poder-se-ia pensar que ela tinha alguns vestígios
de sangue levantino nas veias: ela confessava que não podia deixar de
pensar que devia haver nela uma ascendência cigana e que isso, sentia ela,
justificava aquela paixão selvagem e sem lei que caracterizava a sua
poesia. Os olhos eram grandes, pretos e brilhantes, o nariz como o do
grande Duque de Wellington, mas mais carnudo, e o queixo, quadrado e
determinado. Tinha uma boca grande, com lábios vermelhos cheios que
não deviam nada aos cosméticos, pois a Sra. Albert Forrester nunca
condescendera a usar tal coisa; e o cabelo, espesso, forte e grisalho, era
puxado para o alto da cabeça de tal maneira que aumentava a sua já
dominante estatura. Era uma mulher com um ar imponente, para não dizer
alarmante.
Andava sempre vestida adequadamente, com tecidos ricos, de
tonalidade escura e tinha todo o aspecto de uma mulher de letras; mas à
sua discreta maneira (afinal era humana e sensível à vaidade) seguia as
modas e os seus vestidos estavam na moda. Parece-me que, durante um
tempo, ela andou ansiosa por cortar o cabelo, mas achava que ficaria
melhor fazê-lo à solicitação dos amigos do que de sua própria iniciativa.
— Oh, corte, corte — dizia Harry Oakland, com os seus modos
ansiosos e infantis. — Ficava-lhe bem mais bem.
Clifford Boyleston, que andava agora a escrever um livro sobre
Madame de Maintenon, tinha dúvidas. Achava que era uma experiência
perigosa.
— Eu acho — disse ele limpando os óculos com um lenço de
cambraia — eu acho que quando uma pessoa cria uma certa imagem deve
conservá-la. Como é que Luís XIV ficaria sem a sua cabeleira?
— Eu estou muito hesitante — disse a Sra. Forrester. — Afinal, nós
devemos acompanhar os tempos. Eu sou do meu tempo e não quero ficar
para trás. A América, como disse Wilhelm Meister, é aqui e agora. —
Voltou-se vivamente para Albert. — O que é que o meu mestre e senhor
tem a dizer a isto? Qual é a tua opinião, Albert? Cortar ou não cortar: Eis a
questão.
— Eu acho que a minha opinião não é muito importante, querida —
respondeu ele mansamente.
— Para mim é da maior importância — respondeu a Sra. Albert
Forrester, lisonjeira.
Ela não podia deixar de ver a maneira maravilhosa como os seus
amigos achavam que ela tratava O Filatelista.
— Insisto, — continuou ela, — insisto. Ninguém me conhece melhor
do que tu, Albert. Vai-me ficar bem?
— Talvez, — continuou ele. — Só receio que com o teu aspecto de
estátua, o cabelo curto possa fazer lembrar... bem, digamos, a ilha grega
onde a ardente Safo amou e cantou.
Houve uma breve pausa de embaraço. Rose Waterford abafou um
risinho, mas os outros mantiveram um silêncio de pedra. O sorriso da Sra.
Forrester gelou-se nos lábios. Albert deixara cair uma bomba.
— Sempre achei Byron um poeta medíocre. — disse a Sra. Albert
Forrester por fim.
A reunião acabou. A Sra. Albert Forrester não cortou o cabelo e
nunca mais se tocou no assunto.
Foi já quase no fim de mais uma das terças-feiras da Sra. Albert
Forrester que se deu o acontecimento que tão grande importância teve na
sua carreira literária.
Fora um dos seus chás mais bem sucedidos. Tinha lá estado o lider
do Partido Trabalhista e a Sra. Albert Forrester tinha ido tão longe quanto
podia, sem se comprometer definitivamente com uma confidência, de que
estava decidida a tentar a sua sorte com o Partido. A altura era propícia e
se ela queria lançar-se numa carreira política tinha de chegar a uma
decisão. Clifford Boyleston trouxera com ele um membro da Academia
Francesa e, embora ela soubesse que ele não tinha qualquer domínio do
inglês, ficara muito grata ao receber dele um amável elogio pelo seu estilo
floreado, mas cristalino.
Tinham lá estado o Embaixador Americano e um jovem príncipe
russo que pareceria um gigolô, não fora o seu sangue genuinamente
Romanoff. Uma duquesa, que se tinha divorciado recentemente do seu
duque e casado com um jockey, tinha sido muito amável; e as suas folhas
de morangueiro, embora secas e amarelas, emprestaram um certo tom à
reunião. Houvera uma perfeita galáxia de luzes literárias. Mas agora já
todos tinham ido embora à exceção de Clifford Boyleston, Harry Oakland,
Rose Waterford, Oscar Charles e Simmons.
Oscar Charles era uma criatura pequenina, como um gnomo, jovem
ainda, mas com a cara engelhada de um macaco astuto, de óculos
dourados, e que ganhava a vida num departamento governamental mas
passava o seu tempo livre em busca de literatura. Escrevia pequenos
artigos para os semanários baratos e nutria um intrépido desprezo pelo
mundo em geral. A Sra. Albert Forrester gostava dele, considerando que
tinha talento, mas, embora ele sempre exprimisse a maior admiração pelo
seu estilo (fora ele, aliás, que lhe dera o nome de mestra do ponto e
vírgula), o seu azedume era tão generalizado que ela também como que o
temia. Simmons era o seu agente; um homem de rosto redondo que usava
lentes tão fortes que os olhos por detrás delas pareciam estranhos e
deformados. Faziam lembrar os olhos de um qualquer crustáceo bizarro
que tivéssemos visto num aquário. Ele vinha regularmente aos chás da
Sra. Albert Forrester, em parte porque tinha a maior admiração pelo seu
gênio, e em parte, também, porque, para ele, era de toda a vantagem
conhecer ali possíveis clientes.
A Sra. Albert Forrester, para quem ele já trabalhava há longo tempo
a troco de uma recompensa insignificante, não se arrependia de lhe
proporcionar um pequeno ganho honesto, e tinha o cuidado de o
apresentar, com calorosas expressões de gratidão, a quem quer que fosse
que pudesse ter matéria literária para vender. Era com orgulho que ela
recordava que as reputadas e muito lucrativas memórias de Lady
St.Swithin tinham sido pela primeira vez discutidos na sua sala de visitas.
Estavam todos sentados formando um círculo de que a Sra. Albert
Forrester era o centro e discutiam brilhantemente e, deve confessar-se,
algo maliciosamente, sobre as várias pessoas que lá tinham estado naquele
dia. A Senhorita Warren, a pálida mulher que durante duas horas servira o
chá, andava silenciosamente à volta da sala a recolher as xícaras deixadas
aqui e ali. Ela tinha um emprego indefinido, mas estava sempre pronta a
presidir aos chás da Sra. Albert, e à noite datilografava-lhe os manuscritos.
A Sra. Albert Forrester não lhe pagava este serviço, considerando, e muito
bem, que ela é que fazia muito por aquela pobre criatura; mas dava-lhe os
bilhetes para o cinema que lhe eram oferecidos e presenteava-a muitas
vezes com peças de vestuário que ela própria já não usava.
A Sra. Albert Forrester estava a falar fluentemente, na sua voz cheia
e bastante profunda, e os restantes escutavam-na com atenção. Estava em
boa forma e as palavras que lhe saíam da boca em torrentes podiam ser
passadas a escrito sem alteração. De repente, ouviu-se um grande barulho
no corredor como se uma coisa muito pesada tivesse caído, e depois o som
de uma discussão.
A Sra. Albert Forrester calou-se e um ligeiro franzir do sobrolho
ensombrou-lhe a fronte verdadeiramente nobre.
— Acho que já era tempo de saberem que eu não quero estas
algazarras devastadoras cá em casa. Importa-se de tocar a campainha, a
Senhorita Warren, e perguntar a razão deste tumulto?
A Senhorita Warren tocou a campainha e imediatamente apareceu a
criada. A Senhorita Warren, para não interromper a Sra. Albert Forrester,
falou com ela, à porta, em voz baixa. Mas a Sra. Albert Forrester, algo
irritada, interrompeu-se ela mesmo.
— Então, Carter, o que foi que aconteceu? A casa está a cair ou
finalmente rebentou a revolução vermelha?
— Desculpe, Senhora, foi a mala da nova cozinheira. — respondeu a
criada. — O carregador deixou-a cair quando vinha para dentro e a
cozinheira ficou aborrecida.
— O que é que queres dizer com "a nova cozinheira"?
— A Sra. Bulfinch foi-se embora hoje à tarde, Senhora, — disse a
criada.
— A Sra. Albert Forrester ficou a olhar para ela.
— É a primeira vez que ouço falar disso. A Sra. Bulfinch despediu-
se? Logo que o Sr. Forrester chegue diz-lhe que quero falar com ele.
— Sim, Senhora.
A criada saiu e a Senhorita Warren voltou para a mesa do chá.
Mecanicamente, embora já ninguém o quisesse, serviu várias xícaras de
chá.
— Isso é uma catástrofe! — exclamou a Senhorita Waterford.
— A Senhora tem de fazer com que ela volte — disse Clifford
Boyleston. — É um tesouro, essa mulher, uma cozinheira notável, e cada
dia que passa fica ainda melhor.
Mas nesse momento, a criada entrou de novo com uma carta numa
pequena salva e entregou-a à patroa.
— O que é isto? — perguntou a Sra. Albert Forrester.
— O Sr. Forrester mandou-me entregar-lhe esta carta quando a
Senhora perguntasse por ele, — disse a criada.
— Então onde é que está o Sr. Forrester?
— O Sr. Forrester saiu, Senhora, — respondeu a criada como se a
pergunta a surpreendesse.
— Saiu? Está bem. Pode ir.
A criada saiu da sala e a Sra. Albert Forrester, com uma expressão de
perplexidade no rosto largo, abriu a carta. Rose Waterford disse-me que o
seu primeiro pensamento foi que Albert, com receio do descontentamento
da mulher em relação à saída da Sra. Bulfinch, se tivesse atirado ao
Tâmisa. A Sra. Albert Forrester leu a carta e um ar de consternação
passou-lhe pelo rosto.
— Oh, isto é incrível! Incrível! Incrível!
— O que foi, Sra. Forrester?
A Sra. Albert Forrester arranhava o tapete com o pé, como um
cavalo impaciente e bem disposto a escavar o chão, e, cruzando os braços
com um gesto que é indescritível (mas que às vezes se vê numa peixeira
prestes a fazer uma cena) baixou o olhar para os seus amigos curiosos e
extremamente alarmados.
— O Albert fugiu com a cozinheira.
Houve um suspiro de consternação. E então aconteceu qualquer
coisa de terrível. A Senhorita Warren, que estava junto da mesa de chá, de
repente sufocou. A Senhorita Warren, que nunca abria a boca e a quem
ninguém dirigia a palavra, a Senhorita Warren, que nenhum deles, embora
vendo-a todas as semanas há três anos, teria reconhecido na rua, a
Senhorita Warren de repente desatou descontroladamente à gargalhada.
Num gesto unânime, toda a gente, aterrada, se voltou e ficou a olhar para
ela. Sentiam-se como Balaam deve ter se sentido quando o seu burro
começou a falar. Ela, positivamente, guinchava a rir. Havia um inominável
horror naquela cena, como se, subitamente, num fenômeno natural
qualquer coisa tivesse falhado, e as pessoas estavam tão espantadas como
se as cadeiras e as mesas, sem avisar, começassem a saltitar pela sala
numa dança grotesca. A Senhorita Warren tentou conter-se, mas quanto
mais tentava mais impiedosamente o riso a sacudia, e pegando num lenço,
enfiou-o na boca e correu para fora da sala. A porta bateu atrás dela.
— Histeria. — disse Clifford Boyleston.
— Pura histeria, claro. — disse Harry Oakland.
Mas a Sra. Albert Forrester não disse nada.
A carta estava caída aos seus pés e Simmons, o agente, apanhou-a e
entregou-lha. Ela não queria pegar-lhe.
— Leia-a, — disse ela. — Leia-a alto.
O Sr.Simmons empurrou os óculos para a testa e segurando a carta
muito perto dos olhos leu o que se segue:

Querida,
A Sra. Bulfinch sente necessidade de mudar e decidiu ir-se embora,
e, como eu não me sinto inclinado a continuar aqui sem ela, também vou.
Já tomei toda a literatura que consigo agüentar, e estou farto da arte.
A Sra. Bulfinch não se preocupa muito com o casamento, mas se tu
quiseres divorciar-te ela está disposta a casar comigo. Espero que aches a
nova cozinheira satisfatória. Tem excelentes referências. Para te poupar
possíveis problemas, informo-te de que a Sra. Bulfinch e eu estamos a
viver em Kensington Road, nº 411 S.E.
Albert

Ninguém falou. O Sr. Simmons deixou escorregar os óculos de novo


para o nariz. O fato era que nenhum deles, brilhantes como eram e
habituados como estavam a encontrar tópicos de conversa adequados a
cada situação, conseguia pensar numa observação apropriada. A Sra.
Albert Forrester não era o tipo de pessoa a quem se dessem condolências e
cada um receava demasiado o ridículo do outro para se aventurar ao óbvio.
Por fim, Clifford Boyleston corajosamente veio em socorro.
— Uma pessoa fica sem saber o que há-de dizer — observou ele.
Seguiu-se outro momento de silêncio e depois falou Rose Waterford.
— Que aspecto tem a Sra. Bulfinch? — perguntou.
— Como é que eu hei-de saber? — respondeu a Sra. Albert Forrester
um tanto aborrecida. — Nunca olhei para ela. O Albert é que contratava
sempre os empregados. Ela só aqui entrou por uns momentos para eu ver
se a sua aura era satisfatória.
— Mas com certeza que a via todas as manhãs quando tratava dos
assuntos domésticos.
— O Albert é que tratava dos assuntos domésticos. Ele queria assim,
para que eu ficasse livre para me devotar ao meu trabalho. Nesta vida, a
pessoa tem de estabelecer limites.
— O Albert é que destinava os almoços? — Perguntou Clifford
Boyleston.
— Claro. Era a sua área.
Clifford Boyleston ergueu ligeiramente as sobrancelhas. Que idiota
tinha sido em nunca ter adivinhado. Albert é que era o responsável pela
maravilhosa comida da Sra. Albert Forrester! E claro que era a ele que se
devia o fato do excelente Chablis estar sempre suficientemente arrefecido,
passar tão fresco na boca, mas nunca frio ao ponto de perder aquele seu
aroma e paladar.
— É evidente que ele sabia o que era a boa comida e o bom vinho.
— Eu sempre vos disse que ele tinha os seus pontos fortes —
respondeu a Sra. Albert Forrester, como se Clifford estivesse a criticá-la.
— Todos vocês se riam dele. Ninguém queria acreditar quando eu dizia
que lhe devia muito.
Não houve uma resposta para isto, e uma vez mais fez-se um silêncio
pesado e ominoso. De repente o Sr.Simmons lançou uma bomba.
— Tem de o fazer voltar.
A surpresa foi tal que se não estivesse encostada à lareira a Sra.
Albert Forrester teria sem dúvida cambaleado dois passos atrás.
— Que diabo quer o Senhor dizer com isso? — exclamou ela. —
Nunca mais o quero ver, enquanto for viva. Recebê-lo de novo? Nunca.
Nem que ele viesse pedir-me de joelhos.
— Eu não disse recebê-lo de novo; o que eu disse foi, fazê-lo voltar.
Mas a Sra. Albert Forrester não deu qualquer atenção àquele
interrupção deslocada.
— Fiz tudo por ele. Que seria dele sem mim, pergunto-vos eu?
Ofereci-lhe uma posição a que nem em sonhos ele poderia alguma vez
aspirar.
Ninguém podia negar que havia qualquer coisa de majestoso na
indignação da Sra. Albert Forrester, mas isto não pareceu ter qualquer
efeito sobre o Sr.Simmons.
— De que é que a Senhora vai viver?
— A Sra. Albert Forrester atirou-lhe um olhar totalmente despido de
amabilidade.
— Deus há-de ajudar-me — respondeu ela friamente.
— Não acho muito provável — retorquiu ele.
— A Sra. Albert Forrester encolheu os ombros. Estava com uma
expressão ofendida. Mas o Sr.Simmons acomodou-se o melhor que pôde
na cadeira e acendeu um cigarro.
— A Senhora sabe que não há admirador da sua arte mais caloroso
que eu — disse ele.
— Do que eu — corrigiu Clifford Boyleston.
— Ou que o Senhor — continuou o Sr.Simmons maliciosamente. —
Todos concordamos que não há ninguém agora a escrever cuja
comparação a Senhora possa temer. Tanto em prosa como em verso a
Senhora é absolutamente de primeira classe. E o seu estilo... bem, toda a
gente conhece o seu estilo.
— A opulência de Sir Thomas Browne com a limpidez de Cardinal
Newman — disse Clifford Boyleston. — A vivacidade de John Dryden
com a precisão de Jonathan Swift.
O único sinal de que a Sra. Albert Forrester ouvira foi o sorriso que
hesitou por momentos nos cantos da sua boca trágica.
— E tem graça.
— Há alguém no mundo — exclamou a Senhorita Waterford — que
consiga pôr tal riqueza de espírito e de sátira e de observação cômica num
ponto e vírgula?
Mas o fato é que a Senhora não vende — insistiu o Sr.Simmons
imperturbável. — Há vinte anos que eu lido com a sua obra e digo-lhe
francamente que não teria enriquecido com a minha comissão, mas tratei
dela porque de vez em quando gosto de fazer o que posso pelas boas
obras. Sempre acreditei em si e sempre tive a esperança de que mais cedo
ou mais tarde conseguiríamos que o público a reconhecesse. Mas se pensa
que pode viver escrevendo o tipo de material que escreve, devo dizer-lhe
que não tem hipótese.
— Eu vim ao mundo tarde demais — disse a Sra. Albert Forrester.
— Eu devia ter vivido no século dezoito, quando o patrono rico
recompensava uma dedicação com cem guinéus.
— Quanto é que pensa que o negócio da groselha dá?
— A Sra. Albert Forrester deu um suspiro.
— Uma ninharia. O Albert sempre me disse que fazia cerca de mil e
duzentos por ano.
— Deve ser um bom gerente. Mas não pode estar à espera que, com
esse rendimento, ele lhe venha a dar muito de pensão. Acredite-me, só tem
uma coisa a fazer e que é convencê-lo a voltar para si.
— Preferia viver numas águas-furtadas. O Senhor acha que eu me
vou submeter à afronta que ele me fez? Quer que eu me bata pelo seu
afeto com a minha cozinheira? Não se esqueça de que há uma coisa que,
para uma mulher como eu, é mais valiosa do que a sua tranquilidade e que
é a sua dignidade.
— Eu já lá ia — disse o Sr.Simmons friamente.
Olhou para os outros, e aqueles seus estranhos olhos tortos mais do
que nunca pareciam monstruosos e de peixe.
— Não tenho qualquer dúvida — continuou ele — de que a Senhora
desfruta de uma posição notável, quase única, no mundo das letras. A
Senhora representa qualquer coisa de completamente diferente. Nunca
prostituiu o seu gênio ao lucro sujo e ergueu bem alto a bandeira da arte
pura. Está a pensar ir para o Parlamento. Eu, por mim, não tenho a política
em muito apreço, mas não se pode negar que isso seria uma boa
publicidade, e se entrar atrevo-me a dizer que podemos arranjar-lhe uma
série de conferências na América com base nisso. A Senhora tem ideais, e
o que eu posso assegurar-lhe é que mesmo as pessoas que nunca leram
uma linha sua a respeitam. Mas há uma coisa que, na sua posição, a
Senhora não pode mesmo permitir-se e que é ser uma anedota.
A Sra. Albert Forrester estremeceu.
— Que diabo quer o Senhor dizer com isso?
— Eu não sei nada sobre a Sra. Bulfinch e pelo que sei ela é uma
mulher muito respeitável, mas o que é fato é que um homem não foge com
a sua cozinheira sem pôr a sua mulher a ridículo. Se se tratasse de uma
dançarina ou de uma Senhora da nobreza com certeza que o caso não a
afetaria em nada, mas uma cozinheira seria o seu fim. Numa semana
Londres inteira se riria de si, e se há coisa que destrua um autor ou um
político é o ridículo. A Senhora tem de fazer com que o seu marido volte
para si muito rapidamente.
Um rubor escuro fixou-se na cara de a Sra. Albert Forrester, mas ela
não respondeu logo. Nos ouvidos soou-lhe, de repente, o riso ultrajante e
inexplicável que obrigara a Senhorita Warren sair da sala a correr.
— Nós aqui somos todos amigos, e a Senhora pode contar com a
nossa discrição.
A Sra. Forrester olhou para os amigos e pareceu-lhe já ver nos olhos
da Senhorita Waterford um brilho malicioso. No rosto mirrado de Oscar
Charles havia uma expressão bizarra. Estava arrependida de, num
momento de distração, ter traído o seu segredo. O Sr.Simmons, contudo,
conhecia o mundo literário e podia dirigir-se ao resto da companhia.
— Aliás, a Senhora é o centro e a cabeça do mundo deles. O seu
marido fugiu, não só de si, mas deles todos, também. Isto também não é
nada bom para eles. O fato é que Albert Forrester fez de todos vós parvos.
— De todos — disse Clifford Boyleston. — Estamos todos no
mesmo barco. Ele tem toda a razão, a Sra. Forrester, O Filatelista tem de
voltar.
— Et tu, Brute.
O Sr.Simmons não sabia latim e se soubesse provavelmente não se
deixaria levar pela exclamação da Sra. Albert Forrester. Pigarreou.
— A minha sugestão é que a Sra. Albert Forrester devia ir falar com
ele amanhã, felizmente temos o endereço, e pedir-lhe que reconsidere a
sua decisão. Eu não sei que tipo de coisas é que uma mulher diz nestas
circunstâncias, mas a Sra. Forrester tem tato e imaginação e tem de dizê-
las. Se o Sr. Forrester puser algumas condições, deve aceitá-las. Tem de
tentar todos os meios.
— Se jogar bem todas as suas cartas não vejo razão para que não
consiga trazê-lo de volta consigo amanhã à noite — disse a Senhorita Rose
Waterford agilmente.
— É capaz de fazer isso, Sra. Forrester?
Durante pelo menos dois minutos, voltada de costas para eles, ela
olhou fixamente a lareira vazia; depois, empertigando-se, encarou-os.
— Pela minha arte, não por mim. Não permitirei que o riso obsceno
dos filisteus conspurque tudo aquilo que eu tenho por bom, verdadeiro e
belo.
— Ótimo — disse o Sr. Simmons, erguendo-se. _Amanhã, quando
for para casa, passo por aqui e espero encontrar-vos, a si e ao Sr. Forrester
a arrulharem lado a lado como um par de pombinhos.
Despediu-se, e os outros, na ânsia de não ficarem sós com a Sra.
Albert Forrester e a sua perturbação, seguiram-lhe o exemplo.
No dia seguinte, já à tardinha, a Sra. Albert Forrester, majestosa num
vestido de seda preto, e de chapéu de veludo, saiu do seu apartamento para
apanhar um ônibus em Marble Arch que a levaria até à Estação de Vitória.
O Sr.Simmons tinha-lhe explicado pelo telefone como ir para Kensington
Road rápida e economicamente. Ela não se sentia, nem estava com ar de
Dalila. Em Vitória tomou o bonde que desce a Vauxhall Bridge Road.
Quando atravessou o rio encontrou-se numa parte de Londres mais
barulhenta, mais sórdida e mais movimentada do que aquilo a que estava
habituada, mas estava demasiado ocupada com os seus pensamentos para
reparar na variedade da paisagem. Ficou aliviada ao verificar que o bonde
seguia ao longo de Kensington Road e pediu ao cobrador que a deixasse
alguns números antes da casa que procurava. Quando o bonde parou e
depois, aos solavancos, se afastou ruidosamente, deixando-a só naquela
rua movimentada, sentiu-se estranhamente perdida, como um viajante de
um conto oriental abandonado numa cidade desconhecida. Caminhou
vagarosamente, olhando à esquerda e à direita e, apesar dos sentimentos
de indignação e constrangimento que lutavam pela posse do seu peito algo
opulento, não pôde deixar de refletir que estava ali matéria para um belo
pedaço de prosa. As pequenas casas mantinham em seu redor o ar de uma
época já passada, quando aqui ainda era quase campo, e a Sra. Albert
Forrester registou na sua infalível memória uma anotação no sentido de
que tinha de se debruçar sobre as associações literárias de Kensington
Road. O número quatrocentos e onze era uma de um renque de casas
degradadas que ficavam um pouco recuadas em relação à rua; em frente
havia uma estreita tira de relva maltratada e um caminho pavimentado que
levava até um alpendre gradeado a precisar muito de pintura. Isto e a
trepadeira rara e enfezada que crescia sobre a fachada da casa dava-lhe um
ar falsamente rural que era estranho e até sinistro naquela rua por onde
passava, atroando, um trânsito tumultuoso. Havia na casa qualquer coisa
de duvidoso e que dava a idéia de que ali vivessem mulheres a quem uma
vida de prazer atribuíra uma recompensa inadequada. A porta foi aberta
por uma garota esquelética, de quinze anos, de longas pernas e cabeça
desgrenhada.
— Sabe-me dizer se a Sra. Bulfinch vive aqui?
— A Senhora bateu na porta errada. Segundo andar. A garota
apontou as escadas e ao mesmo tempo gritou estridente:
— Sra. Bulfinch, uma pessoa para falar consigo, Sra. Bulfinch.
A Sra. Albert Forrester subiu as escadas sombrias. Estavam cobertas
de uma passadeira já muito rota. Subiu devagar porque não queria ficar
ofegante. Uma porta abriu-se quando ela chegou ao segundo andar e ela
reconheceu a cozinheira.
— Boa tarde, Bulfinch — disse a Sra. Albert Forrester com
dignidade. Eu queria falar com o seu patrão.
— A Sra. Bulfinch hesitou por uma fração de segundo e depois
abriu-lhe completamente a porta.
— Faça favor de entrar, Senhora. Voltou-se para dentro. — Albert,
está aqui a Sra. Forrester para falar contigo.
A Sra. Forrester entrou rapidamente e lá estava Albert sentado junto
à lareira, num sofá de couro, já esfarrapado, de chinelos, e em mangas de
camisa. Estava a ler o jornal da tarde e a fumar um charuto. Levantou-se
quando a Sra. Albert Forrester entrou. A Sra. Bulfinch acompanhou a sua
visita à sala e fechou a porta.
— Como estás, querida? — disse Albert alegremente. — Espero que
continues bem.
— Era melhor vestires o casaco, Albert — disse a Sra. Bulfinch. —
O que é que a Sra. Forrester irá pensar encontrando-te nesse preparo?
Parece impossível.
Pegou no casaco, que estava pendurado num cabide, e ajudou-o a
vesti-lo; e como mulher familiarizada com as particularidades do vestuário
masculino puxou-lhe o colete para baixo, para que ele não ficasse sobre o
colarinho.
— Recebi a tua carta, Albert — disse Forrester.
— Já calculava, porque se assim não fosse, não saberias o meu
endereço, não é?
— Não se quer sentar, Senhora? — disse a Sra. Bulfinch, limpando
com destreza o pó de uma cadeira, parte de um conjunto coberto de veludo
cor de ameixa, e empurrando-a para a frente.
— A Sra. Albert Forrester, com uma ligeira vênia, sentou-se.
— Eu preferia falar contigo a sós, Albert — disse ela.
Os olhos dele cintilaram.
— Como seja o que for que tenhas a dizer diz respeito tanto à Sra.
Bulfinch como a mim, acho melhor que ela esteja presente.
— Como queiras.
A Sra. Bulfinch puxou uma cadeira e sentou-se. A Sra. Albert
Forrester nunca a tinha visto senão com um grande avental por cima de
um vestido estampado. Agora trazia uma blusa de seda branca rendada,
saia preta e sapatos de couro de salto alto, com fivelas prateadas. Era uma
mulher de cerca de quarenta e cinco anos, de cabelo arruivado e rosto
avermelhado, não muito bonita, mas com um ar bondoso e alegre. Fazia-
lhe lembrar uma criada de lavoura, já um pouco madura, num alegre
quadro de um velho mestre holandês.
— Bem, minha querida, o que é que tens para me dizer? —
perguntou Albert.
A Sra. Albert Forrester olhou-o com o mais brilhante e o mais
amável dos seus sorrisos. Os seus olhos negros brilharam com um bom
humor tolerante.
— Claro que tu sabes que isto é perfeitamente absurdo, Albert. Acho
que não deves estar no teu juízo perfeito.
— Achas que sim, querida? Imaginem!
— Eu não estou zangada contigo, apenas acho graça, mas uma graça
é só uma graça e não deve ser levada longe demais. Vim para te levar de
volta para casa.
— A minha carta não era bastante clara?
— Perfeitamente. Não vou fazer perguntas e não te vou fazer
acusações. Vamos olhar isto como uma aberração passageira e não se fala
mais nisso.
— Nada me levará jamais a viver contigo outra vez, querida — disse
Albert, mas de maneira perfeitamente amigável.
— Não estás a falar a sério?
— Completamente.
Tu amas esta mulher?
— A Sra. Albert Forrester ainda sorria com um brilho de ansiedade e
algo metálico. Estava decidida a levar a questão serenamente. Com o seu
pessoal sentido de valores, compreendeu que a cena era cómica. Albert
olhou para a Sra. Bulfinch e um sorriso assomou-lhe ao rosto engelhado.
— Damo-nos muito bem, não é verdade, minha velha?
— Nada mal — disse a Sra. Bulfinch.
A Sra. Albert Forrester ergueu o sobrolho; o marido nunca, em toda
a sua vida de casados, a tinha chamado de "minha velha"; nem ela, aliás, o
teria desejado.
— Se Bulfinch tem alguma consideração ou respeito por ti, deves
saber que a coisa é impossível. Depois da vida que levaste e da sociedade
em que te movias, dificilmente poderá esperar fazer-te permanentemente
feliz numa miserável casa mobilada.
— Não é uma casa mobilada, Senhora — disse a Sra. Bulfinch. — A
mobília é toda minha. Veja a Senhora, eu sou muito independente e
sempre gostei de ter uma casa mesmo minha. Portanto, vou conservando
isto quer esteja empregada quer não esteja, e assim tenho sempre um lugar
para onde voltar.
— E um lugarzinho muito acolhedor, é verdade — disse Albert.
A Sra. Albert Forrester olhou à sua volta. Na lareira havia um fogão
sobre o qual estava uma chaleira a ferver, e na prateleira um relógio de
mármore preto, ladeado por candelabros também de mármore preto. Havia
ainda uma mesa coberta com um tecido vermelho, um guarda-louça e uma
máquina de costura. Nas paredes viam-se fotografias e gravuras
emolduradas tiradas de suplementos do Natal. Atrás, uma porta, coberta
com um portière de pelúcia vermelho, que dava para aquilo que,
considerando o tamanho da casa, a Sra. Albert Forrester (que nas horas
vagas fizera um estudo intensivo de arquitetura) não podia senão concluir
que era o único quarto. A Sra. Bulfinch e Albert viviam numa
proximidade que não deixava dúvidas quanto à sua relação.
— Não foste feliz comigo? — perguntou a Sra. Forrester num tom
mais grave.
— Estivemos casados trinta e cinco anos, querida. É muito tempo. É
tempo demais. À tua maneira, és uma excelente mulher, mas não serves
para mim. Tu és das letras, e eu não. Tu és das artes, e eu não.
— Sempre tive a preocupação de partilhar contigo os meus
interesses. Esforcei-me para que o meu sucesso não te ofuscasse. Não
podes queixar-te de que te deixei de fora.
— Tu és uma ótima escritora, não o nego nem por um momento, mas
a verdade é que eu não gosto dos livros que escreves.
— Isso, se me permites, apenas revela o teu mau gosto. Todos os
críticos concordam que eles têm força e encanto.
— E não gosto dos teus amigos. Deixa que te revele um segredo.
Muitas vezes, nos teus chás, apetecia-me irresistivelmente tirar a roupa
toda para ver o que aconteceria.
— Não aconteceria nada — disse a Sra. Albert Forrester com um
leve franzir de sobrancelhas. — Eu apenas trataria de mandar chamar o
médico. Além disso, tu não tens corpo para tal.
O Sr. Simmons tinha-lhe sugerido que, se preciso fosse, ela não
devia hesitar em fazer uso das seduções do seu sexo para trazer o seu
marido errante de volta ao tecto conjugal, mas ela não sabia minimamente
como fazer isso. Não podia deixar de pensar que teria sido mais fácil se
estivesse de vestido de noite.
— Será que uma fidelidade de trinta e cinco anos não conta para
nada? Nunca olhei para outro homem, Albert. Estou habituada a ti. Sem ti
vou sentir-me perdida.
— Deixei todos os meus menus à nova cozinheira, Senhora. A
Senhora só terá de dizer-lhe quantas pessoas tem para o almoço e ela trata
do resto — disse a Sra. Bulfinch. — Ela é de inteira confiança, e tem uma
mão para bolos como nunca vi.
A Sra. Albert Forrester começou a ficar desanimada. Aquela
observação da Sra. Bulfinch, sem dúvida, bem intencionada, tornava
muito difícil a condução da conversa para um plano em que a emoção
pudesse ser natural.
— Parece-me que estás a perder o teu tempo, querida — disse
Albert. — A minha decisão é irrevogável. Já não sou muito novo e queria
alguém que tratasse de mim. Claro que te vou estabelecer uma pensão tão
generosa quanto as minhas possibilidades. A Corinne quer que me
reforme.
— Quem é a Corinne? — perguntou a Sra. Forrester muito
surpreendida.
— É esse o meu nome — disse a Sra. Bulfinch. — A minha mãe era
meio francesa.
— Isso explica muita coisa — respondeu a Sra. Forrester, apertando
os lábios, porque, embora fosse uma admiradora da literatura dos nossos
vizinhos, ela também sabia que a sua moral deixava muito a desejar.
— O que eu digo é que o Albert já trabalhou o suficiente, e é altura
de começar a gozar a vida. Eu tenho uma pequena propriedade em
Clacton-on-Sea. É uma região muito saudável, e o ar é Ótimo. Podemos
viver lá muito confortavelmente. E então com a praia e o pontão há
sempre alguma coisa para fazer. A gente de lá é muito boa. Se uma pessoa
não se meter com ninguém, ninguém se mete conosco.
Falei hoje com os meus sócios sobre o assunto e eles estão dispostos
a comprar a minha parte. Isto representa um certo sacrifício. Quando tudo
estiver resolvido, fico com um rendimento de novecentas libras por ano.
Como nós somos três, isto dá precisamente trezentas para cada um.
— Como é que eu vou viver com isso? — exclamou a Sra. Albert
Forrester. — Eu tenho uma posição a manter.
— Tu tens uma pena fluente, fértil e reconhecida, querida.
— A Sra. Albert Forrester encolheu os ombros impacientemente.
— Sabes muito bem que os meus livros não me dão nada a não ser
reputação. Os editores dizem sempre que perdem dinheiro com eles, e, de
fato, só os publicam porque eles lhes dão certo prestígio.
Foi então que a Sra. Bulfinch teve uma idéia que havia de vir a ter
conseqüências de uma enorme magnitude.
— Por que é que a Senhora não escreve um bom, um excitante
romance policial? — perguntou ela.
— Eu? — exclamou a Sra. Albert Forrester, esquecendo pela
primeira vez na vida a gramática.
— Não é má idéia — disse Albert. — Não é nada má idéia.
— Caíam-me os críticos todos em cima.
— Não tenho tanta certeza disso. Se dermos aos altivos a
oportunidade de serem humildes sem se rebaixarem, eles ficarão tão
agradecidos que nem saberão o que fazer.
— Muito obrigado por esse alívio — murmurou a Sra. Albert
Forrester pensativa.
— Minha querida, os críticos vão devorá-lo. E escrito no teu belo
inglês não recearão chamar-lhe uma obra prima.
— A idéia é absurda. É absolutamente estranha ao meu gênio. Nunca
poderia esperar agradar às massas.
— Por que não? As massas querem ler bom material, mas detestam
aborrecer-se. Todos conhecem o teu nome, mas não te lêem porque tu os
aborreces. A questão, minha querida, é que tu és uma maçadora.
— Não compreendo como podes dizer uma coisa dessas, Albert —
respondeu a Sra. Albert Forrester com tão pouco ressentimento como
aquele que o Equador provavelmente sentiria se lhe dissessem que era
fresco. — Toda a gente sabe e reconhece que eu tenho um raro sentido de
humor e que não há ninguém que consiga extrair tanta graça de um ponto
e vírgula como eu.
— Se conseguires dar às massas uma história interessante e excitante
e que ao mesmo tempo lhes permita pensar que estão a desenvolver o
espírito, podes fazer uma fortuna.
— Eu nunca li um romance policial na minha vida — disse a Sra.
Albert Forrester. — Uma vez ouvi falar de um tal Sr. Barnes de Nova
Iorque e disseram-me que ele tinha escrito um livro chamado O Mistério
do Cabriolé. Mas nunca o li.
— Claro que é preciso ter o dom — disse a Sra. Bulfinch. — A
primeira coisa a ter em mente é que as pessoas não querem questões de
amor, isso está deslocado num romance policial, o que as pessoas querem
é assassínios e detetives, e não serem capazes de descobrir quem foi, antes
da última página.
— Mas tens de ser honesta com o leitor, minha querida — disse
Albert. — Fico sempre muito irritado quando as suspeitas recaem sobre a
secretária ou sobre a dama da nobreza e ao fim acaba por ser o criado, que
nunca fez mais do que dizer "A carruagem está à porta." Intriga o teu leitor
quanto puderes, mas não faças dele um bobo.
— Eu adoro um bom romance policial — disse a Sra. Bulfinch. —
Dêem-me uma dama de vestido de noite, coberta de diamantes, estendida
no chão da biblioteca com um punhal no coração e já sei que vou gostar.
— Gostos não se discutem — disse Albert. — Por mim, prefiro um
respeitável advogado de família, com polainas, corrente de relógio de ouro
e ar bondoso, jazendo morto no Hyde Park.
— Com a garganta cortada? — perguntou a Sra. Bulfinch ansiosa?
— Não, apunhalado nas costas. Há qualquer coisa de especialmente
atraente para o leitor no assassínio de um cavalheiro de meia idade de
reputação imaculada. É agradável pensar que aqueles de nós
aparentemente mais inocentes têm um mistério na vida.
— Percebo o que queres dizer, Albert — Disse a Sra. Bulfinch. —
Ele era o depositário de um segredo fatal.
— Podemos dar-te todas as dicas, minha querida — disse Albert a
sorrir calmamente. — Eu já li centenas de histórias policiais.
— Tu!
— Foi isso que nos uniu, à Corinne e a mim. Eu os passava depois
de ler.
— Muitas vezes o ouvi apagar a luz quando a aurora começava já a
entrar pela janela, e não podia deixar de sorrir, dizendo para mim mesma:
"Acabou, finalmente, agora já pode dormir um bom sono."
— A Sra. Albert Forrester levantou-se. Empertigou-se.
— Agora vejo o abismo que nos separa — disse ela, e a sua bela voz
de contralto tremeu um pouco. — Durante trinta anos viveste rodeado do
melhor que havia na literatura inglesa e leste centenas de livros policiais.
— Centenas e centenas — interrompeu Albert com um sorriso de
satisfação.
— Eu vim aqui disposta a fazer qualquer concessão razoável para
que voltasses para casa, mas agora isso já não me interessa. Tu mostraste-
me que nós não temos, nem nunca tivemos, nada em comum. Há um
abismo entre nós.
— Muito bem, querida — disse Albert devagar — aceito a tua
decisão. Mas pensa bem na questão do romance policial.
— Agora vou-me embora — murmurou ela — e vou para Innisfree.
— Acompanho-a até lá baixo — disse a Sra. Bulfinch. Tem de se ter
cuidado com a passadeira quando não se sabe exatamente onde estão os
buracos.
Dignamente, mas não sem alguma circunspecção, a Sra. Albert
Forrester desceu as escadas, e quando a Sra. Bulfinch lhe abriu a porta e
perguntou se ela queria que chamasse um taxi, ela abanou a cabeça.
— Vou apanhar o bonde.
— Não tem que recear pelo bem estar do Sr. Forrester, Senhora —
disse a Sra. Bulfinch amavelmente. — Ele vai ter todo o conforto. Tratei
do Sr. Bulfinch durante os três anos da sua última doença e pouca coisa
haverá sobre inválidos que eu não saiba. Isto não quer dizer que o Sr.
Forrester não seja muito forte e ativo para a idade que tem. E claro que ele
vai arranjar um hobby. Sempre pensei que um homem deve ter um hobby.
Ele vai começar a colecionar selos de correio.
A Sra. Albert Forrester estremeceu de surpresa. Mas justamente
nessa altura apareceu um bonde à vista, e, como qualquer mulher (mesmo
as maiores delas) correu, com risco da própria vida, para o meio da rua a
acenar freneticamente. O bonde parou e ela subiu. Não sabia como é que
iria enfrentar o Sr. Simmons. Ele estaria à sua espera quando ela chegasse
a casa. Clifford Boyleston também lá devia estar. Deviam lá estar todos e
ela teria de lhes contar como tinha falhado miseravelmente. Naquele
momento não experimentava qualquer sentimento de amizade pelo seu
pequeno grupo de dedicados admiradores. Interrogando-se sobre que horas
seriam, levantou os olhos para o homem sentado à sua frente para ver se
ele seria o tipo de pessoa a quem ela pudesse perguntar modestamente, e
subitamente estremeceu; porque ali estava um homem de meia idade, de
aspecto muito respeitável, com patilhas, ar bondoso, e corrente de relógio
de ouro. Era exatamente o homem que Albert descrevera jazendo morto
em Hyde Park e ela teve de concluir que ele era um advogado de família.
A coincidência era extraordinária, e, de fato, parecia que a mão do destino
lhe estava a acenar. Ele trazia um chapéu de seda, casaco preto e calças
mescla, era algo corpulento, de constituição sólida, e a seu lado estava
uma pasta. Quando o bonde ia a meio da Vauxhall Bridge Road ele pediu
ao cobrador para parar e ela viu-o a descer uma ruela. Porquê? Porquê?
Quando o bonde chegou a Vitória, de tão profundamente mergulhada nos
seus pensamentos, só quando o cobrador lhe disse um tanto bruscamente
onde estava é que ela se levantou. Edgar Allan Poe escreveu contos
policiais. Apanhou um ônibus. Sentou-se e mergulhou em reflexão, mas
quando chegou ao Hyde Park Corner, decidiu subitamente descer. Já não
agüentava mais estar sentada. Sentia que precisava de caminhar. Passou os
portões a caminhar devagar e olhar à sua volta com um ar que era ao
mesmo tempo intencional e abstrato. Sim, havia o Edgar Allan Poe;
ninguém o podia negar. Aliás, foi ele que inventou o gênero, e toda a
gente sabia a influência que ele tivera nos Parnasianos. Ou seria nos
Simbolistas? Não interessa. Baudelaire e tudo isso. Ao passar pela Estátua
de Aquiles parou por momentos e olhou de sobrolho erguido.
Por fim chegou a casa, e ao abrir a porta viu vários chapéus no hall.
Entrou na sala.
— Aqui está ela, finalmente — exclamou a Senhorita Waterford.
A Sra. Albert Forrester avançou, sorrindo animada, e apertou as
mãos que se estendiam. Lá estavam o Sr. Simmons e Clifford Boyleston,
Harry Oakland e Oscar Charles.
— Oh, meus pobres amigos, não tomaram chá? — exclamou ela com
vivacidade. — Não faço idéia de que horas serão, mas sei que estou
muitíssimo atrasada.
— Então? — disseram eles. — Então?
— Meus queridos, tenho uma coisa maravilhosa para vos contar.
Tive uma inspiração. Por que é que o diabo há-de ter a melhor parte?
— O que é que quer dizer?
Ela fez uma pausa para dar mais efeito à surpresa que lhes ia
provocar. Atirou-lhes a notícia sem mais preâmbulos.
— ... Vou escrever... um romance... policial!
Ficaram de boca aberta a olhar para ela. Ela levantou a mão para
evitar que a interrompessem, mas, de fato, ninguém tinha a menor
intenção de o fazer.
— Vou dar ao romance policial a dignidade da Arte. A idéia surgiu-
me subitamente no Hyde Park. É uma história de assassínio e eu só
apresento a solução mesmo na última página. Vou escrevê-la num inglês
impecável, e uma vez que me ocorreu que ultimamente eu talvez tenha
esgotado as possibilidades do ponto e vírgula, vou-me dedicar à vírgula.
Ninguém ainda explorou as suas potencialidades. Humor e mistério são o
meu objetivo. Vou chamar-lhe A Estátua de Aquiles.
— Que título! Exclamou o Sr.Simmons, recompondo-se antes de
qualquer dos outros. — Eu posso vender os direitos do título e o seu nome.
— Mas, então e o Albert? — perguntou Clifford Boyleston.
— O Albert? — repetiu a Sra. Forrester. — O Albert?
Ela olhou para ele como se não fizesse a mínima idéia daquilo que
ele estava a falar. Depois deu um gritinho como se de repente se tivesse
lembrado.
— O Albert! Eu sabia que tinha saído para fazer qualquer coisa e
varreu-se-me completamente da memória. Eu ia a passar no Hyde Park e
tive aquela inspiração. Que parva vocês não devem pensar que eu sou!
— Então não falou com o Albert?
— Esqueci-o completamente, meu caro — Deu uma gargalhada
divertida. — O Albert que fique com a sua cozinheira. Agora não me
posso preocupar com o Albert. O Albert pertence ao período do ponto e
vírgula. Agora vou escrever um romance policial.
— A Senhora é realmente extraordinária, minha querida — disse
Harry Oakland.
Vermelho

O capitão meteu a mão num dos bolsos das calças e, com alguma
dificuldade porque os tinha na frente e não dos lados e era corpulento,
tirou para fora um grande relógio de prata. Olhou para ele e depois tornou
a encarar o sol poente. O kanaka à roda do leme deitou-lhe um olhar
rápido, mas não falou. Os olhos do capitão fixaram-se na ilha que se
aproximava. Uma linha branca de espuma assinalava os recifes. Ele sabia
que havia uma passagem suficientemente larga para o navio, e contava vê-
la quando se aproximassem um pouco mais. Ainda tinham uma hora de
luz do dia à sua frente. A lagoa era funda e nela poderiam ancorar
confortavelmente. O chefe daquela aldeia que já se avistava por entre os
coqueiros era amigo do imediato e seria agradável ir passar a noite a terra.
Nesse momento o imediato aproximou-se, e o capitão virou-se para ele.
— Vamos levar conosco uma garrafa da rija e arranjar algumas
moças para dançar — disse ele.
— Não vejo a passagem — disse o imediato.
Era um kanaka, tipo simpático e moreno, com alguma coisa do
aspecto de um dos últimos imperadores de Roma, com tendência para
engordar; mas os traços do seu rosto eram finos e bem delineados.
— Tenho a certeza absoluta que há uma precisamente por aqui —
disse o capitão, olhando pelo binóculo. — Não entendo porque é que a não
vejo. Manda um dos homens subir ao mastro para ver se a descobre.
O imediato chamou um homem da tripulação e deu-lhe a ordem. O
capitão viu-o trepar ao mastro e esperou que ele dissesse alguma coisa.
Mas o kanaka gritou para baixo que não via nada a não ser a ininterrupta
linha de espuma. O capitão falava samoano como um nativo, e insultou-o
copiosamente.
— Quer que ele fique lá em cima? — perguntou o imediato.
— Para que diabo servia isso? — respondeu o capitão. — O filho da
mãe não vê um palmo adiante do nariz. Podes ter a certeza que eu veria
logo a passagem se estivesse lá em cima.
Olhou o delgado mastro com raiva. Era muito fácil para um indígena
habituado a trepar em coqueiros toda a sua vida. Mas ele era gordo e
pesado.
— Podes descer — gritou. — És tão inútil como um cão morto.
Temos de ir ao longo dos recifes até encontrarmos a passagem.
Era uma escuna de setenta toneladas, revestida de parafina; andava,
quando não tinha vento contrário, a uma velocidade de quatro a cinco nós
por hora. Uma coisa imunda; outrora fora pintada de branco, mas agora
estava suja e manchada. Cheirava fortemente a parafina e a copra, que era
o seu carregamento habitual. Estavam agora a cerca de trinta metros da
linha dos recifes e o capitão disse ao homem do leme que fosse ao longo
dela até encontrarem a passagem. Mas depois de algumas milhas
compreendeu que a tinham perdido. Mandou voltar para trás, e
regressaram lentamente. A espuma branca dos recifes continuava sem
interrupção, e já o sol desaparecia no horizonte. Com uma praga para a
estupidez da tripulação, o capitão resignou-se a esperar até à manhã
seguinte.
— Ponham o barco ao largo — disse ele. — Não podemos ancorar
aqui.
Saíram um pouco para o mar. Já era noite. Ancoraram. Quando
ferraram as velas, o navio começou a balançar muito. Em Ápia diziam que
ele um dia ainda se viraria de borco; e o proprietário, um alemão-
americano que era dono de uma das maiores lojas, dizia que não havia
dinheiro no mundo capaz de o fazer viajar nele.
O cozinheiro, um chinês de calças brancas muito sujas e rasgadas e
uma pequena bata branca, veio dizer que o jantar estava pronto; quando o
capitão entrou na cabine, encontrou o maquinista já sentado à mesa. O
maquinista era um homem magro e comprido, de pescoço de galinha.
Vestia um macacão azul e uma blusa sem mangas, que mostrava os braços
delgados, tatuados do cotovelo ao punho.
— Bem, temos de passar a noite a bordo — disse o capitão.
O maquinista não respondeu; jantaram em silêncio. Uma pálida
lâmpada de óleo iluminava a cabine. Quando acabaram de comer os
damascos em conserva com que terminava o jantar, o chinês trouxe-lhes
uma xícara de chá. O capitão acendeu um charuto e foi para o convés. A
ilha agora era apenas uma massa escura de encontro à noite. As estrelas
brilhavam intensamente. O único som era o contínuo quebrar da ressaca.
O capitão afundou-se numa cadeira de bordo, a fumar lentamente. Três ou
quatro membros da tripulação subiram e sentaram-se. Um deles trazia um
banjo e outro um pandeiro. Começaram a tocar um cantou. O cântico
nativo soava estranhamente naqueles instrumentos. Depois, a acompanhar
a música, dois começaram a dançar. Era uma dança bárbara, selvagem e
primitiva, rápida, com movimentos sacudidos das mãos e dos pés e
contorções do corpo; sensual, mesmo sexual, mas sexual sem paixão. Era
muito animal, direta, estranha mas sem mistério — natural, em resumo, —
e poder-se-ia mesmo dizer infantil. Por fim cansaram-se. Estenderam-se
no deque e adormeceram, e tudo ficou em silêncio. O capitão ergueu-se
pesadamente da cadeira e desceu pela íngreme escada do tombadilho.
Entrou na sua cabine e despiu-se. Depois trepou para o beliche e deitou-se.
Arquejava, tal era o calor da noite.
Mas na manhã seguinte, quando a aurora deslizou ao longo do mar
tranqüilo, a tal passagem dos recifes que os arreliara na noite anterior
apareceu, um pouco a leste do sítio onde estavam. A escuna entrou na
lagoa. Não havia uma prega à superfície da água. Viam-se pequenos
peixes coloridos, no fundo, a nadarem por entre os bancos de coral.
Depois de o navio ter ancorado, o capitão tomou o primeiro almoço e
subiu ao convés. O sol brilhava num céu sem nuvens, mas de manhãzinha
cedo o ar estava agradável e fresco. Era domingo, e havia uma sensação de
quietude, um silêncio, como se a própria natureza estivesse a descansar,
que lhe deu uma estranha sensação de conforto. Sentou-se, olhando a costa
arborizada, e sentiu-se preguiçoso e bem disposto. Um sorriso assomou-
lhe aos lábios; atirou a ponta do charuto à água.
— Vou a terra — disse depois. — Lancem o bote à água.
Desceu a escada com ar importante; e o barco levou-o a uma
pequena enseada. Os coqueiros vinham até à orla das águas, não em
grupos, mas espaçados numa formalidade ordenada. Davam idéia de um
grupo de solteironas a dançarem um bailado clássico, em atitudes afetadas
com o sorriso tolo de uma idade já passada. O capitão vagueou
preguiçosamente por entre eles, seguindo um carreiro tão tortuoso que mal
se via, que o conduziu até um ribeiro largo. Havia uma ponte por cima;
mas uma ponte feita de uma escassa dúzia de troncos de coqueiro,
colocados topo a topo e suportados nas juntas por forquilhas de ramos de
árvore enterrados no leito da corrente. Tinha de se caminhar por uma
superfície redonda e lisa, estreita e escorregadia, e não havia corrimão.
Para se atravessar uma ponte dessas é preciso ter pés firmes e coração
forte. O capitão hesitou. Mas viu no outro lado, aninhada no meio das
árvores, a casa de um homem branco; decidiu-se e, com um passo
hesitante, começou a andar. Via onde punha os pés, e, nos sítios em que os
troncos se juntavam e onde havia uma diferença de nível, tropeçava um
pouco. Foi com um suspiro de alívio que alcançou o último tronco e
finalmente pisou chão firme do outro lado. Estivera tão ocupado com a
difícil travessia que nem reparara que estava a ser observado, e foi com
surpresa que ouviu alguém dirigir-lhe a palavra.
— É preciso coragem para atravessar estas pontes, quando não se
está habituado a elas.
Ergueu os olhos e viu um homem na sua frente. Tinha saído,
evidentemente, da tal casa.
— Vi-o hesitar — continuou o homem, com um sorriso nos lábios, -
e estava à espera de o ver cair.
— Isso é coisa que nunca verá — disse o capitão, que tinha
recuperado a confiança em si próprio.
— Eu próprio já tenho caído. Lembro-me de uma noite em que eu
voltava da caça e caí dentro de água com espingarda e tudo. Agora arranjo
sempre um garoto para me levar a espingarda.
Era um homem de certa idade, com uma pequena barba já um pouco
grisalha e um rosto magro. Trazia vestida uma blusa sem mangas e umas
calças de lona. Não tinha nem meias nem sapatos. Falava inglês com um
leve sotaque.
— Você chama-se Neilson? — perguntou o capitão.
— Chamo.
— Tenho ouvido falar de si. Calculei que morasse por estes sítios.
O capitão, seguindo o dono da casa, entrou no pequeno bangalô e
sentou-se pesadamente na cadeira que o outro lhe indicou com um gesto.
Enquanto Neilson ia buscar uísque e copos, o capitão passeou o olhar pela
sala. Ficou admirado. Nunca vira tantos livros. As estantes iam desde o
chão até ao teto nas quatro paredes, e encontravam-se apinhadas de livros.
Havia um grande piano coberto de músicas, e uma larga mesa com livros e
revistas amontoados em desordem. A sala fê-lo sentir-se embaraçado.
Lembrou-se de que Neilson era um tipo estranho. Ninguém sabia muito
acerca dele, embora já vivesse nas ilhas havia muitos anos; mas aqueles
que o conheciam concordavam em considerar Neilson estranho. Era sueco.
— Tem aqui muitos livros — disse ele, quando Neilson voltou.
— Não fazem mal a ninguém — respondeu Neilson com um sorriso.
— Leu-os todos? — perguntou o capitão.
— A maior parte.
— Eu também gosto muito de ler. Leio todas as semanas o Saturday
Evening Post.
Neilson encheu um bom copo de uísque forte ao seu visitante e
ofereceu-lhe um charuto. O capitão resolveu prestar alguns
esclarecimentos.
— Cheguei ontem à noite, mas não consegui encontrar a passagem.
Por isso tive de ancorar fora. Nunca tinha feito esta viagem, mas lá o meu
patrão mandou-me trazer umas coisas para aqui. Para um tal Gray;
conhece?
— Sim, tem um estabelecimento aqui perto.
— Bem, ele pediu uma grande porção de conservas, e da copra em
troca. E eles pensaram que era melhor mandarem-me cá, em vez de estar
sem fazer nada em Ápia. Geralmente viajo entre Ápia e Pago-Pago, mas
agora anda por lá a varicela e o comércio está parado.
Bebeu um gole de uísque e acendeu o charuto. Era homem de poucas
falas, mas havia em Neilson qualquer coisa que o enervava; e essa
sensação nervosa obrigava-o a falar. O sueco olhava-o com grandes olhos
escuros, em que havia uma expressão de ligeiro divertimento.
— Pois aqui é um sítio bem bom este que você tem aqui.
— Tenho-o arranjado o melhor que me tem sido possível.
— Deve fazer bom dinheiro com as suas árvores. Têm ótimo
aspecto. E com a copra ao preço que está... Eu também já tive uma
pequena plantação, em Upolu, mas tive de a vender.
Tornou a percorrer a sala com os olhos; todos aqueles livros davam-
lhe sensação de qualquer coisa incompreensível e hostil.
— Deve achar isto um bocado monótono, apesar de tudo.
— Habituei-me. Já estou aqui há vinte e cinco anos.
O capitão não conseguiu lembrar-se de mais nada para dizer, e
continuou a fumar num silêncio que Neilson parecia não ter desejos de
quebrar. O sueco fitava com olhar meditativo o seu hóspede. Este era um
homem alto, com mais de um metro e oitenta, muito corpulento. O seu
rosto era vermelho e manchado, com ramais de pequenas veias purpurinas
nas faces, e as feições submergiam-se na gordura. Os olhos, raiados de
sangue. O pescoço, enterrado em rolos de banha. Não tinha cabelo, exceto
uma comprida farripa encaracolada, quase branca, na parte de trás da
cabeça; e essa imensa e brilhante superfície da testa, que lhe poderia dar
um falso aspecto de inteligência, dava-lhe pelo contrário um ar de
particular imbecilidade. Trazia vestidas uma camisa de flanela azul, aberta
no pescoço, que lhe deixava ver o peito gordo, coberto de uma floresta de
pelos avermelhados, e umas calças de sarja azul muito velhas. Alastrava
na cadeira com uma atitude desajeitada e pesada, e a enorme barriga
espetada para a frente e as gordas pernas abertas. Toda a elasticidade
desaparecera dos seus membros. Neilson perguntava-se, ociosamente, que
espécie de homem fora aquele na mocidade. Era quase impossível
imaginar que esta criatura de enorme volume tivesse sido menino, a correr
de um lado para o outro. O capitão acabou o seu uísque Neilson; empurrou
a garrafa para o lado dele.
— Sirva-se à vontade.
O capitão inclinou-se para a frente e com a sua grande mão pegou na
garrafa.
— E como é que o senhor veio parar aqui? — disse ele.
— Oh, eu vim para estas ilhas por causa da saúde. Estava mal dos
pulmões e ninguém me dava mais de um ano de vida. Como vê,
enganaram-se.
— Quero eu dizer — como é que se decidiu a fixar-se aqui?
— Sou um sentimentalista.
— Oh!
Neilson sabia que o capitão não fazia a mínima idéia do que ele
dissera, e mirou-o com um brilho irônico nos olhos escuros. Talvez por o
capitão ser um homem tão bruto e estúpido, apeteceu-lhe falar mais.
— Você estava demasiadamente ocupado em não perder o equilíbrio
para ter reparado, quando atravessou a ponte; mas este lugar é geralmente
considerado bastante bonito.
— É realmente uma casita engraçada, esta sua.
— Ah, não estava aqui quando vim para cá. Havia uma cabana
indígena, com o telhado em forma de colmeia, sobre pilares, à sombra de
uma grande árvore com flores vermelhas; e os arbustos de cróton, com
folhas amarelas vermelhas e douradas, formavam uma sebe colorida em
volta. E depois havia por toda a parte os coqueiros, garridos como
mulheres, e tão fúteis como elas. Ficavam à beira da água e passavam os
dias a mirarem a imagem refletida nela. Eu era um homem novo nessa
altura — Meu Deus, foi há um quarto de século! — e queria gozar todas as
coisas belas do mundo no curto prazo que me restava antes de mergulhar
na escuridão eterna. Pensei que era o mais belo sítio que vira em toda a
minha vida. Da primeira vez que o vi senti apertar-se-me o coração, e
pensei que ia chorar. Tinha só vinte anos; e, por mais que procurasse
conformar-me, não queria morrer. E no entanto parecia que a própria
beleza do lugar me tornava mais fácil aceitar o meu destino. Quando
cheguei, senti que toda a minha vida passada desaparecera — Estocolmo e
a sua Universidade, e depois Bonn: tudo isso me parecia a vida de outra
pessoa, como se finalmente tivesse acabado por alcançar a realidade que
os nossos doutores em filosofia — sou um deles, sabe? — tanto têm
discutido. "Um ano", dizia eu para comigo. "Tenho um ano. Passá-lo-ei
aqui e depois poderei morrer."
Aos vinte e cinco anos somos tolos, sentimentais e melodramáticos,
mas se o não fôssemos talvez tivéssemos menos juízo aos cinquenta.
Mas beba, meu amigo. Não preste atenção demasiada à minha tola
conversa.
Indicou a garrafa com a mão magra, e o capitão escorropichou o que
ficara no copo.
— Você não está a beber coisa nenhuma, — disse ele, pegando na
garrafa.
— Sou de hábitos sóbrios, — sorriu o sueco. — Embriago-me de
maneiras que penso serem mais subtis. Seja como for, os efeitos são mais
duradoiros e os resultados menos deletérios.
— Dizem que agora nos Estados Unidos se está a tomar muita
cocaína, — disse o capitão.
Neilson riu.
— Mas não é muitas vezes que encontro um branco, continuou, e
uma vez na vida não será um pouco de uísque que me irá fazer mal.
Deitou um pouco no copo, adicionou alguma soda, e tomou um
trago.
— E depois descobri porque é que este sítio tinha uma tal beleza
extraterrena. Aqui o amor parava por um momento, como uma ave
emigrante que encontra um navio no meio do oceano e por um curto
instante dobra as asas cansadas. A fragrância de um maravilhoso amor
pairava sobre tudo isto como a fragrância das silvas em Maio nos prados
da minha terra. Parece-me que os lugares onde os homens amaram ou
sofreram conservam para sempre à sua volta um ligeiro aroma de qualquer
coisa que não morreu inteiramente. É como se tivessem adquirido um
significado espiritual que misteriosamente afeta os outros que por eles
passam. Gostaria de saber exprimir-me com clareza. — Sorriu levemente.
— Embora creia que mesmo que o fizesse, você não me compreenderia.
Fez uma pausa.
— Creio que este lugar era maravilhoso por eu ter sido aqui amado
de uma forma maravilhosa. — Encolheu os ombros. — Mas talvez isto
seja apenas por ao meu sentido estético ser agradável a feliz conjugação de
um amor jovem e de um cenário adequado.
Até mesmo um homem menos imbecil do que o capitão ficaria
admirado com as palavras de Neilson. Porque parecia fazer troça daquilo
que ele próprio dizia. Era como se falasse movido por uma emoção que o
seu cérebro achasse ridícula. Ele próprio dissera que era um
sentimentalista, e quando o sentimentalismo anda junto ao cepticismo, as
pessoas muitas vezes sofrem os horrores do inferno.
Calou-se por um momento e contemplou o capitão com um olhar
onde havia uma súbita perplexidade.
— Sabe, não posso deixar de pensar que creio já o ter visto nalgum
lado, — disse ele.
— Confesso que não me lembro de si, — respondeu o capitão.
— Tenho a curiosa sensação de que a sua cara não me é estranha.
Tenho estado a ver se me lembro, mas não consigo situar essa recordação
em qualquer lugar ou qualquer época.
O capitão encolheu os ombros maciços.
— Já há trinta anos que vim para estas ilhas. Um homem não se pode
lembrar de toda a gente que encontrou em trinta anos.
O sueco abanou a cabeça.
— Você sabe como a gente às vezes tem a sensação de que um lugar
onde nunca se esteve nos é estranhamente familiar. É o que me está a
suceder consigo. Talvez eu o tenha conhecido numa existência passada.
Talvez, talvez você fosse o chefe de uma galera da Roma antiga e eu um
dos escravos aos remos. Há trinta anos que anda por estas regiões?
— Trinta anos certos.
— Por acaso terá conhecido um homem chamado Vermelho?
— Vermelho?
— Foi esse o único nome por que eu o conheci. Nunca o conheci
pessoalmente. E apesar disso parece-me vê-lo mais nitidamente do que a
muitos outros homens — os meus irmãos, por exemplo, com os quais
passei a minha vida diária durante muitos anos. Vive na minha imaginação
com a nitidez dum Paolo Malatesta ou dum Romeu. Mas você talvez
nunca tenha lido Dante, ou Shakespeare?
— Confesso que isso nunca li.
Neilson, fumando um charuto, recostou-se na cadeira e olhou
negligentemente o anel de fumaça que flutuava no ar parado. Depois olhou
para o capitão. Havia na sua larga obesidade qualquer coisa de
extraordinariamente repelente. Tinha a pletórica satisfação dos muito
gordos. Era um insulto. Aquilo irritou os nervos de Neilson. Mas o
contraste entre o homem na sua frente e o homem em que estava a pensar
era divertido.
"Parece que Vermelho era o homem mais belo que ainda se viu.
Tenho falado com muita gente que o conheceu nessa época — homens
brancos, é claro — e todos concordam que a beleza dele, a primeira vez
que o víssemos, até nos tirava o fôlego. Chamavam-lhe Vermelho por
causa do cabelo cor de fogo. Era ondeado, e ele usava-o comprido. Devia
ser dessa maravilhosa cor de que os pré-rafaelistas tanto gostavam. Não
creio que ele tivesse vaidade nisso, era demasiadamente simples para tal;
mas ninguém o poderia censurar se a tivesse. Era alto, com mais de um
metro e oitenta — na cabana indígena que aqui estava havia uma marca da
sua altura: um golpe de faca no tronco central que sustentava o telhado, —
e tinha a figura dum deus grego, largo de ombros e estreito de ancas; era
como Apolo, com aquelas linhas maciçamente arredondadas que
Praxíteles lhe deu, e aquela graciosidade suave e feminina que tem
qualquer coisa de perturbante e misterioso. A sua pele era
deslumbrantemente branca, leitosa, como cetim; era como a pele duma
mulher.
— Eu também tinha a pele muito branca quando era garoto, — disse
o capitão, com um brilho nos olhos raiados de sangue.
Mas Neilson não lhe prestou atenção. Estava agora a contar a sua
história, e as interrupções impacientavam-no.
— E o seu rosto era tão belo como o corpo. Tinha grandes olhos
azuis, muito escuros, a tal ponto que muita gente dizia serem negros; e, ao
contrário da maior parte das pessoas ruivas, tinha negras as sobrancelhas e
as longas pestanas. Os seus traços fisionómicos eram perfeitamente
regulares e a sua boca como uma ferida escarlate. Tinha vinte anos.
Aqui o sueco parou, com um certo sentimento do dramático. Bebeu
um gole de uísque
— Era único. Nunca houve ninguém mais belo. A sua existência
explica-se pela mesma razão por que pode numa planta silvestre
desabrochar uma flor maravilhosa. Era um feliz acidente da natureza.
"Um dia aportou àquela enseada onde você deve ter desembarcado
esta manhã. Era um marinheiro americano, e desertara dum navio de
guerra. Convencera algum indígena de bom coração a dar-lhe uma
passagem num cutter que por acaso ia partir de Ápia para Safoto, e
trouxeram-no a esta enseada numa canoa.
Não sei porque desertou. Talvez a vida num barco de guerra com a
sua disciplina o irritasse, ou talvez estivesse metido nalgum sarilho; ou
então talvez fossem os Mares do Sul e estas ilhas românticas que lhe
entraram no corpo. De vez em quando elas tentam estranhamente um
homem, fazem dele uma mosca numa teia de aranha. Pode ser que
houvesse nele uma certa moleza de fibra, e estes montes verdes com o seu
ar macio, este mar azul lhe roubassem a força nórdica — tal como Dalila a
de Sansão. Seja como for, pretendia esconder-se e pensou que estaria em
segurança neste recanto isolado, até que o navio partisse de Samoa.
"Havia uma cabana indígena na enseada; e enquanto ele hesitava,
pensando para onde devia ir, uma rapariga saiu da cabana e convidou-o a
entrar. Vermelho apenas sabia duas ou três palavras da linguagem
indígena, e ela a mesma coisa de inglês. Mas compreendeu perfeitamente
o que significavam o sorriso e os graciosos gestos, e seguiu-a. Sentou-se
numa esteira, e ela ofereceu-lhe fatias de ananás. Nunca conheci Vermelho
pessoalmente, mas vi a rapariga três anos depois de ele a ter encontrado;
nessa altura tinha ela dezanove anos. Não pode calcular como era
maravilhosa. Tinha a graça apaixonada do hibisco e a sua rica coloração.
Era bastante alta, delgada, com as delicadas feições da sua raça, e grandes
olhos como lagos tranqüilos sob os palmeirais; o cabelo negro e
encaracolado, caía-lhe pelas costas; e trazia uma grinalda de flores
perfumadas. As mãos eram lindas — tão pequenas, tão maravilhosamente
desenhadas, que faziam parar o coração de quem para elas olhava. E nessa
época ria-se com facilidade. Um sorriso tão delicioso que perturbava. A
pele era como um campo de trigo maduro num dia de verão. Meu Deus,
como posso eu descrevê-la? Era bela demais para ser real.
E esses dois jovens — ela com dezasseis anos e ele com vinte —
apaixonaram-se à primeira vista. Esse é o verdadeiro amor, não o amor
resultante de simpatia, ou de interesses comuns, ou de afinidade
intelectual, mas o amor puro e simples. Esse é o amor que Adão sentiu por
Eva quando acordou e a viu no paraíso olhando-o com olhos orvalhados.
Esse é o amor que atrai os animais uns para os outros, e os deuses. É esse
o amor que dá à vida o seu intenso significado. Você nunca ouviu falar
naquele sábio e cínico duque francês que dizia que, entre dois amantes, há
sempre um que ama e outro que se deixa amar? É uma amarga verdade, à
qual quase todos nós temos de nos resignar; mas, de vez em vez, há dois
que se amam e ao mesmo tempo se deixam amar. Então podemos
imaginar que o sol pára na sua órbita — como parou quando Josué rezou
ao Deus de Israel.
"E mesmo agora, depois de todos estes anos, quando penso nesses
dois — tão jovens, tão puros, tão simples — e em todo o seu amor, sinto
um baque no coração. Sinto o coração rasgar-se-me, tal como quando em
certas noites vejo a lua cheia a refletir-se na lagoa, do alto dum céu limpo
de nuvens. Provoca sempre sofrimento a contemplação da beleza perfeita.
"Eram como crianças. Ela era meiga, doce, bondosa. Dele não sei
nada, mas gosto de imaginar que, então, ele era em tudo simples e franco.
É-me agradável imaginar que a sua alma era tão correta quanto o seu
corpo. Mas estou em dizer que ele não tinha mais alma do que os
habitantes dos bosques e das florestas que faziam flautas de cana e se
banhavam nas torrentes da montanha — quando o mundo ainda era jovem,
e se podiam ver pequenos faunos galopando escarranchados no lombo
dalgum centauro barbudo através das clareiras. A alma é um objeto
incômodo, e quando o homem a criou perdeu o Jardim do Éden.
"Ora, quando Vermelho chegou à ilha, esta fora recentemente assolada
por uma dessas epidemias que os brancos trouxeram para os Mares do Sul,
e a terça-parte dos habitantes morrera. Parece que a rapariga perdera todos
os seus parentes próximos e vivia agora em casa duns primos afastados.
Nessa casa viviam duas velhotas, curvadas e enrugadas, duas mulheres
mais novas, um homem e um rapaz. Durante uns dias ele viveu lá. Mas
talvez se sentisse demasiadamente perto da praia, com a possibilidade de
dar de cara com algum branco que poderia revelar o seu esconderijo;
talvez os amantes não pudessem suportar que a companhia dos outros os
roubasse por instante que fosse ao prazer de estarem sozinhos. E assim,
uma manhã partiram — os dois sozinhos, — com as poucas coisas que
pertenciam à moça, e caminharam ao longo dum carreiro relvado, por
entre os coqueiros, até que chegaram a este regato. Tiveram de atravessar
a ponte que você hoje atravessou, e a moça ria alegremente porque ele
tinha medo. Ela ajudou-o até chegarem ao fim do primeiro tronco, mas aí
ele perdeu a coragem e teve de voltar atrás. Foi obrigado a despir a roupa
toda antes de se arriscar, e ela levou-a à cabeça. Instalaram-se na cabana
vazia que aqui estava. Se ela tinha ou não direitos sobre essa cabana (aqui
nas ilhas a propriedade das terras é uma questão complicada), ou se o dono
dela morrera na epidemia, é coisa que não sei. Mas fosse como fosse
ninguém os incomodou, e eles apossaram-se dela. A mobília consistia
unicamente nas duas esteiras de palha em que dormiam, no fragmento
dum espelho, e em duas ou três tigelas. Isso chega para montar casa nesta
maravilhosa terra.
"Diz-se que as pessoas felizes não têm história, e na verdade um
amor feliz não a tem. Durante todo o dia não faziam coisa alguma e apesar
disso os dias pareciam-lhes curtos. A rapariga tinha um nome indígena,
mas Vermelho chamava-lhe Sally. Num instante ele aprendeu a fácil
língua indígena, e costumava jazer horas seguidas na esteira a ouvi-la
falar-lhe alegremente. Ele era um tipo calado; talvez o seu espírito fosse
preguiçoso. Fumava incessantemente os cigarros que ela lhe fazia com
tabaco indígena e folhas de pântano, e observava-a enquanto ela fazia
esteiras de palha com os dedos ágeis. Frequentemente apareciam
indígenas, e contavam longas histórias dos velhos tempos em que a ilha
era agitada pelas guerras das tribos. Às vezes ia pescar para os recifes e
voltava trazendo um cesto cheio de peixes coloridos. Às vezes ia à noite
com uma lanterna pescar lagostas. Havia frutos nos arredores da cabana, e
Sally assava-os para as suas frugais refeições. Sabia fazer deliciosos pratos
de coco; e a árvore de pão que havia perto do regato abastecia-os de pão.
Em dia de festa matavam um leitão e assavam-no sobre pedras quentes.
Banhavam-se no regato; e à noite iam até à lagoa, onde passeavam numa
canoa indígena. O mar era azul-escuro, cor de vinho ao pôr do sol, como o
da Grécia homérica; mas na lagoa a cor da água tinha infinitas variantes
— turquesa, ametista, esmeralda; — e o sol poente transformava-a,
durante um curto momento, em ouro líquido. E havia também a cor do
coral, castanho, branco, cor de rosa, vermelho, púrpura; e as formas que
ele tomava eram maravilhosas. Era como um jardim mágico, de que os
velozes peixes fossem borboletas. Era estranhamente irreal. Entre os
bancos de coral havia lagos com fundo de areia branca onde, numa água
espantosamente límpida, era muito agradável tomar banho. Depois, ao
crepúsculo, frescos e felizes, regressavam lentamente pelo carreiro de erva
macia, caminhando de mãos dadas, enquanto os pássaros enchiam os
coqueiros com a sua algazarra. E depois a noite, com este enorme céu
salpicado de pontos dourados que parece ser maior do que os céus da
Europa, e a macia brisa que atravessava suavemente a cabana aberta, a
longa noite também era curta. Ela tinha dezasseis anos, ele mal tinha vinte.
A aurora rastejava por entre os pilares de madeira da cabana e vinha
contemplar essas encantadoras crianças dormindo nos braços uma da
outra. O sol escondia-se atrás das grandes e velhas folhas das palmeiras
para os não incomodar, e depois, com malícia brincalhona, dardejava um
raio dourado nos seus rostos, como a pata estendida de um gato angora.
Abriam os olhos sonolentos e sorriam, em boas-vindas a um novo dia. As
semanas cresceram, meses, e um ano passou. E eles pareciam amar-se
tão... hesito em dizer apaixonadamente, porque a paixão tem sempre em si
uma sombra de tristeza, uma ponta de amargura ou de angústia;... mas tão
completamente, tão simples e naturalmente como nesse primeiro dia do
seu encontro, em que compreenderam terem um deus dentro de si.
"Se alguém lhes tivesse perguntado, não tenho dúvida de que
responderiam ser impossível que o seu amor morresse. Não sabemos nós
que o elemento essencial do amor é a crença na sua eternidade? E contudo
talvez houvesse já em Vermelho uma pequena semente, desconhecida dele
próprio e não suspeitada pela rapariga, que com o correr do tempo
cresceria em enfado. Porque um dia um dos indígenas da enseada disse-
lhes que um barco inglês de pesca da baleia estava ancorado a alguma
distância da costa.
"— Ah, — disse Vermelho, bem gostava de saber se eles queriam
trocar por uns cocos e umas bananas, uma libra ou duas de tabaco.
"Os cigarros de pântano que Sally lhe fazia com mãos incansáveis
eram fortes e bastante agradáveis, mas deixavam-no insatisfeito; ansiou
subitamente por tabaco verdadeiro, áspero, amargo, picante. Não fumava
uma cachimbada havia muitos meses. Nascia-lhe a água na boca só de
pensar nisso. Supor-se-ia que qualquer pressentimento poderia ter levado
Sally a procurar dissuadi-lo, mas o amor possuía-a tão completamente que
acreditava não haver poder no mundo capaz de o separar dela. Foram aos
montes próximos buscar laranjas bravas, ainda verdes, mas doces e
sumarentas, de que encheram um grande cesto; colheram frutos das
árvores ao redor da cabana, e cocos, e frutos da árvore de pão, e mangas; e
transportaram-nas para a enseada. Carregaram com eles a instável canoa; e
Vermelho e o rapaz indígena que trouxera a notícia da chegada do navio
embarcaram e remaram em direção à linha dos recifes.
"Foi essa a última vez que ela o viu.
"No dia seguinte o rapaz indígena regressou sozinho. Vinha banhado
em lágrimas. Eis a história que ele contou. Quando, depois de remarem
durante muito tempo, alcançaram o navio e Vermelho chamou pelo
capitão, um branco olhou por cima da amurada e disse-lhes que subissem
a bordo. Levaram a fruta que haviam trazido e empilharam-na no
tombadilho. O branco e Vermelho começaram a conversar e pareceram
chegar a um acordo. Um homem da tripulação desceu e voltou trazendo
tabaco. Vermelho imediatamente pegou nalgum e acendeu o cachimbo. O
rapaz imitava a volúpia com que ele soprou uma grande nuvem de fumaça.
Depois disseram-lhe qualquer coisa e ele entrou na cabine. Olhando
curiosamente pela porta aberta, o rapaz viu-os tirarem para fora uma
garrafa e copos. Vermelho bebia e fumava. Pareceram perguntar-lhe
qualquer coisa, porque ele abanou a cabeça e riu-se. O homem — o
primeiro que lhes falara — riu-se também e tornou a encher o copo de
Vermelho. Continuaram a conversar e a beber; e a certa altura o rapaz,
cansado de observar um espetáculo que para ele não tinha significado
algum, deitou-se no tombadilho e adormeceu. Foi acordado por um
pontapé; e, levantando-se dum salto, viu que o navio saía lentamente da
lagoa. Avistou Vermelho sentado à mesa com a cabeça descansando
pesadamente nos braços, num sono profundo. Fez um movimento na sua
direção, com a intenção de o acordar, mas uma rude mão agarrou-o por
um braço, e um homem, com cara feroz e palavras que ele não
compreendeu, apontou-lhe a amurada. Gritou pelo Vermelho mas sem
resultado, nadou até à canoa que andava por ali à deriva e empurrou-a até
aos recifes. Aí subiu para ela e, sempre a soluçar, remou em direção à
praia.
"O que acontecera era evidente. O barco da pesca da baleia lutava
com falta de homens — por deserção ou por doença — e quando
Vermelho subira a bordo, o capitão perguntara-lhe se se queria engajar.
Perante a sua recusa, embriagara-o e raptara-o.
"Sally quase enlouqueceu de dor. Durante três dias gritou e chorou.
Os indígenas fizeram o que puderam para a consolar, mas ela não se
conformava. Recusou-se a comer. E então, exausta, caiu numa apatia
taciturna. Passava longos dias na enseada, olhando a lagoa, na vã
esperança de que Vermelho conseguisse de qualquer maneira escapar.
Ficava sentada na areia, durante horas e horas, com as lágrimas a
correrem-lhe pela cara, e à noite arrastava-se penosamente até à cabana à
beira do regato onde fora feliz. Os parentes com quem vivia antes de
Vermelho chegar à ilha queriam que ela fosse viver com eles, mas ela não
acedeu; estava convencida de que Vermelho voltaria, e queria que ele a
encontrasse onde a tinha deixado. Quatro meses mais tarde deu à luz uma
criança morta, e a velha que viera ajudá-la no parto ficou com ela na
cabana. Toda a alegria se fora da sua vida. Se a sua angústia com o tempo
se tornou menos intolerável, foi substituída por uma melancolia
permanente. Ninguém imaginaria que nesse povo, cujas emoções, embora
violentas, são passageiras, se encontraria uma mulher capaz duma paixão
tão duradoura. Nunca perdeu a profunda convicção de que, mais tarde ou
mais cedo, Vermelho voltaria. Estava sempre à espera dele; sempre que
alguém atravessava esta pontezinha de troncos de coqueiro ela corria a ver
quem era. Podia ser que fosse ele, finalmente.
Neilson parou de falar e soltou um ligeiro suspiro.
— E depois o que foi feito dela? — perguntou o capitão.
Neilson sorriu amargamente.
— Oh, três anos depois juntou-se com outro branco.
O capitão soltou uma larga gargalhada cínica.
— É geralmente o que lhes acontece, — disse ele.
O sueco dardejou-lhe um olhar de ódio. Não sabia porque é que esse
homem grosseiro e obeso lhe causava uma repulsa tão grande. Mas os seus
pensamentos tomaram outra direção e o espírito encheu-se-lhe de
recordações do passado. Voltou vinte e cinco anos atrás. Fora quando pela
primeira vez viera a esta ilha, cansado das bebedeiras e do jogo e da
grosseira sensualidade de Ápia, doente, procurando resignar-se à perda da
carreira que lhe enchera a cabeça de pensamentos ambiciosos. Pusera de
parte resolutamente todos os desejos de criar um grande nome e tratara de
se contentar com os escassos meses de vida hesitante que eram tudo com
que podia contar. Morava em casa de um comerciante mestiço que tinha
uma loja a poucas milhas, numa pequena aldeia indígena, na costa; e um
dia, vagueando sem objetivo pelos carreiros relvados por entre os
coqueiros, deparara-se-lhe a cabana em que Sally vivia. A beleza do lugar
enchera-o de um bem estar tão grande que quase era doloroso; e depois
vira Sally. Era a mais bela criatura que jamais vira e a tristeza naqueles
olhos escuros e magníficos afetou-o estranhamente. Os kanakas eram uma
raça de feições simpáticas, e a beleza não era rara entre eles, mas era uma
beleza de animais bem conformados. Era vazia. Mas aqueles olhos
trágicos eram negros de mistério, e neles pressentia-se a amarga
complexidade da obscura alma humana. O comerciante contou-lhe a
história dela, que o comoveu.
"E acha que ele voltará?", perguntara-lhe Neilson.
"Não. O contrato de fretamento do navio durará ainda alguns anos, e
por essa altura já ele se terá esquecido dela. Calculo como deve ter ficado
furioso quando acordou e descobriu que fora seqüestrado, e não me
admirava nada que tivesse querido jogar à pancada. Mas teve de sorrir
amarelo e agüentar, e aposto que um mês depois já achava que nada
melhor lhe poderia ter sucedido do que sair daquela ilha".
Mas Neilson não conseguiu esquecer a história. Talvez por estar
doente e fraco, a radiosa saúde de Vermelho não lhe largava a imaginação.
Homem feio, de aparência insignificante, apreciava grandemente a beleza
nos outros. Nunca amara apaixonadamente e, com certeza, nunca fora
apaixonadamente amado. A atração mútua dessas jovens criaturas dava-
lhe um singular prazer. Tinha a inefável beleza do Absoluto. Foi outra vez
à pequena cabana junto do regato. Tinha grande facilidade em aprender
línguas e um cérebro ágil, habituado a trabalhar, e já dedicara muito tempo
ao estudo do idioma local. Por força dos velhos hábitos estava a reunir
material para um trabalho sobre o idioma samoano. A velhota que vivia na
cabana com Sally convidou-o a entrar e a sentar-se. Ofereceu-lhe kava
para beber e cigarros. Ela estava contente por ter alguém com quem
conversar, e enquanto ela falava ele olhava Sally. Fazia-lhe lembrar a
Psique do Museu de Nápoles. Aquelas feições tinham a mesma nítida
pureza de linhas; e, embora tivesse tido um filho, conservava um aspecto
virginal.
Só ao fim de duas ou três visitas conseguiu fazê-la falar. E mesmo
isso foi para lhe perguntar se não vira em Ápia um homem chamado
Vermelho. Tinham passado dois anos desde o seu desaparecimento, mas
era evidente que ainda pensava nele incessantemente.
Neilson não levou muito tempo a perceber que estava apaixonado
por ela. Era apenas com intervenção da sua força de vontade que
conseguia não ir todos os dias ao regato; quando não estava ao pé de Sally,
estavam-no os seus pensamentos. A princípio, considerando-se
condenado, apenas desejava vê-la, e ocasionalmente ouvi-la falar; e este
amor dava-lhe uma felicidade maravilhosa. A sua pureza exaltava-o. Nada
queria de Sally a não ser a oportunidade de tecer à volta da sua graciosa
pessoa uma rede de belas fantasias. Mas o ar puro, a temperatura
moderada, e repouso, a comida simples, começaram a ter um efeito
inesperado sobre a sua saúde. A temperatura já não atingia alturas tão
alarmantes de noite, tossia menos frequentemente e começou a ganhar
peso; passaram-se seis meses sem tossir sangue; e subitamente entreviu a
possibilidade de viver. Tinha estudado a sua doença cuidadosamente, e
começou a ter esperança de, com grandes cuidados, poder deter-lhe a
marcha. Regozijou-se ao olhar outra vez o futuro. Fez planos. Era evidente
que não voltaria nunca a ter uma vida ativa, mas podia viver nas ilhas; e o
pequeno rendimento que tinha, magro em qualquer outro lugar, seria
suficiente para viver bem aí. Poderia cultivar coqueiros; seria uma
ocupação; e mandaria vir os seus livros e um piano. Mas o seu espírito viu
imediatamente que, debaixo de todos estes planos, estava a tentar esconder
de si próprio o desejo que o obcecava.
Queria Sally. Amava não só a sua beleza mas a alma sombria que
adivinhava por trás daqueles olhos sofredores. Embriagá-la-ia com a sua
paixão. Conseguiria por fim fazê-la esquecer. E num êxtase de rendição,
imaginava-se a compartilhar com ela a felicidade que imaginara nunca
mais ter e que tão miraculosamente alcançara.
Pediu-lhe que fosse viver com ele. Ela recusou. Já esperava isso e
não desanimou, porque tinha a certeza de que, mais tarde ou mais cedo,
ela cederia. O amor dele era irresistível. Contou à velhota os seus desejos,
e descobriu com certa surpresa que ela e os vizinhos, sabedores há muito
tempo, aconselhavam fortemente Sally a aceitar a proposta. Afinal de
contas, todo o indígena gosta de viver com um branco; e Neilson era um
branco rico, comparado com o que era habitual na ilha. O comerciante em
casa de quem Neilson vivia foi falar com Sally e disse-lhe que não fosse
idiota; uma oportunidade dessas não tornaria a aparecer-lhe, e depois de
tanto tempo ela certamente não ia acreditar que Vermelho voltasse. A
resistência da rapariga apenas aumentava o desejo de Neilson e o que fora
um amor puríssimo em breve se transformou numa paixão desvairada.
Estava decidido a servir-se de todos os meios para conseguir o que queria.
Não dava tréguas a Sally. Por fim, vencida pela persistência dele e pela
persuasão — ora implorativa, ora zangada — de toda a gente à sua volta,
ela consentiu. Mas quando no dia seguinte, exultante, ele a foi visitar, viu
que durante a noite ela queimara completamente a cabana onde ela e
Vermelho tinham vivido. A velhota correu ao seu encontro, cheia de
queixas zangadas contra Sally; mas ele afastou-a; isso não tinha
importância; construiriam um bangalô no sítio onde estivera a cabana.
Uma casa européia seria realmente mais conveniente se queria mandar vir
um piano e grande número de livros.
E assim se construiu a pequena casa de madeira onde vivia há muitos
anos; e Sally tornou-se mulher dele. Mas depois das primeiras (e poucas)
semanas de encantamento durante as quais ele se satisfizera com o que ela
lhe dava, sentira-se pouco feliz. Ela cedera por cansaço, mas só cedera
naquilo que para ela tinha pouco valor. A alma que ele obscuramente
entrevira escapava-lhe. Sabia que ela o não amava. Ainda amava
Vermelho, e continuava à espera dele. Neilson sabia que, não obstante o
seu amor, a sua ternura, a sua simpatia, a sua generosidade, ela o deixaria
sem um momento de hesitação a um sinal de Vermelho. E que nem
pensaria na sua dor. A angústia apossou-se dele; tentou forçar aquela
impenetrável outra parte de Sally que sombriamente lhe resistia. O amor
tornou-se amargo. Tentou comovê-la com bondade, mas o coração dela
continuou tão duro como antes; fingiu indiferença mas Sally nem deu por
tal. Às vezes perdia a paciência e insultava-a, ela chorava silenciosamente.
Muitas vezes pensava que se enganava a seu respeito — aquela alma não
passava de simples invenção dele — e que não podia entrar no santuário
do seu coração porque tal santuário não existia. O amor tornou-se-lhe uma
prisão da qual ansiava escapar; mas nem sequer tinha força de abrir a porta
— bastaria fazer isso — e sair para o ar livre. Era uma tortura. Por fim
cansou-se e perdeu as esperanças. O fogo apagou-se; e quando via o olhar
dela pousar por um instante na delgada ponte, já não era a raiva que lhe
enchia o peito, mas a impaciência. E agora viviam há muitos anos ligados
pelos laços de hábito, e era com um sorriso que pensava na sua antiga
paixão. Ela estava uma velha, porque as mulheres nas ilhas envelhecem
rapidamente; e, embora já lhe não tivesse amor, tolerava-a. Deixava-o em
paz. A ele bastavam-lhe o piano e os livros.
Aqueles pensamentos provocaram-lhe o desejo de falar.
— Quando agora olho para trás e reflito nesse breve e ardente amor
de Vermelho e Sally, penso que talvez devam agradecer-lhe ao implacável
destino que os separou quando o seu amor parecia estar no auge.
Sofreram, mas tiveram um sofrimento belo. Foram poupados à verdadeira
tragédia do amor.
— Não entendeu muito bem o que quer dizer — disse o capitão.
— A tragédia do amor não é a morte ou a separação. Quanto tempo
você acha que demoraria um deles a ficar cheio do outro? Oh, é
horrivelmente amargo olhar para uma mulher que amamos com todo o
coração, com toda a alma, — tanto, que sentíamos não nos podermos
separar nunca dela, — e compreender que se nunca mais a víssemos não
teríamos desgosto nenhum. A tragédia do amor é a indiferença.
Mas enquanto falava sucedeu-lhe uma coisa extraordinária.
Conquanto se tivesse dirigido ao capitão, não falava para ele; pusera os
pensamentos em palavras para si próprio; e, com os olhos fixos no homem
em sua frente, não o vira. Mas, de repente, uma imagem apresentou-se aos
seus olhos, não a do homem que via, mas de um outro homem. Era como
se estivesse a olhar para um daqueles espelhos curvos, que alteram as
figuras, fazendo-as extraordinariamente altas ou ultrajosamente
atarracadas. Mas aqui sucedia precisamente o contrário; e, no homem
gordo e feio, entreviu o vago aspecto dum rapaz. Examinou-o, com um
olhar rápido e perscrutador. Porque o teria trazido a este sítio uma viagem
de acaso? Um súbito baque no coração fê-lo ficar com a respiração
suspensa. Uma suspeita absurda apoderou-se dele. O que lhe ocorrera era
impossível — e contudo podia ser verdadeiro.
— Como é que você se chama? — perguntou brutamente.
O rosto do capitão encheu-se de pequeninas rugas e ele soltou uma
gargalhada sabida.
— Já há tanto tempo que não ouço o meu nome, que quase me
esqueci dele. Mas há trinta anos que sou conhecido aqui nas ilhas por
Vermelho.
O seu corpo balofo tremia num riso baixo, quase silencioso. Era um
espetáculo obsceno. Neilson estremeceu. Vermelho estava divertidíssimo,
e lágrimas escorriam-lhe dos olhos raiados de sangue pela cara abaixo.
Neilson ficou suspenso — porque nesse momento uma mulher
entrou na sala. Era uma mulher indígena de aspecto um tanto imponente,
forte sem ser corpulenta, escura, porque os indígenas escurecem com a
idade, de cabelo grisalho. Trazia vestida uma mother-hubbard preta, que
deixava adivinhar, por baixo do pano fino, os seios pesados. Tinha
chegado o momento.
Fez uma observação a Neilson a respeito de qualquer assunto
doméstico, e ele respondeu. Perguntou a si mesmo se a voz lhe soaria tão
pouco natural como a ele próprio parecia. Ela deitou um olhar indiferente
ao homem sentado ao pé da janela, e saiu da sala. O momento tinha
chegado — e passado.
Neilson não pôde falar por instantes. Estava estranhamente abalado.
Depois:
— Teria imenso prazer em que ficasse para jantar comigo. Terá é de
se sujeitar ao que houver.
— Creio que não posso, — disse Vermelho. — Tenho de ir à procura
desse tipo Gray. Entrego-lhe a mercadoria e depois vou-me embora. Quero
estar amanhã em Ápia.
— Vou mandar-lhe um garoto para lhe ensinar o caminho.
— Ótimo.
Vermelho ergueu-se com custo da cadeira, enquanto o sueco
chamava um dos rapazes que trabalhava na plantação. - disse-lhe para
onde o capitão queria ir, e o rapaz começou atravessar a ponte. Vermelho
preparou-se para o seguir.
— Não caia, — disse o sueco.
Neilson viu-o fazer a travessia; e, já o outro desaparecera por entre
os coqueiros, ainda olhava. Depois deixou-se cair pesadamente na cadeira.
Era então esse o homem que o impedira de ser feliz? Era esse o homem
que Sally amara durante todos esses anos e por quem esperara tão
desesperadamente? Era uma coisa grotesca. Apoderou-se dele uma fúria
repentina; queria levantar-se e quebrar tudo à sua volta. Fora ludibriado.
Eles tinham-se visto um ao outro, finalmente, e não se tinham
reconhecido. Começou a rir, sem alegria; o riso aumentou até se tornar
histérico. Os deuses haviam-lhe pregado uma partida cruel. E agora estava
velho.
Até Sally entrou para lhe dizer que o jantar estava pronto. Sentou-se
em frente dela e tentou comer. Perguntava-se o que diria se lhe contasse
que o homem gordo e velho sentado na cadeira era o amante de quem se
recordava ainda com o apaixonado abandono da sua juventude. Alguns
anos atrás, quando a odiava por o tornar tão infeliz, teria sentido prazer em
fazê-lo. Nessa altura queria feri-la como ela o feria, porque o seu ódio
apenas era amor. Mas agora tanto lhe fazia. Encolheu os ombros, com
indiferença.
— Que queria aquele homem? — perguntou ela.
Não lhe respondeu logo. Ela também estava velha, uma indígena
velha e gorda. Ele pensava: como pudera tê-la amado tão loucamente?
Espalhara aos seus pés todos os tesouros da sua alma, e ela não lhes ligara
nenhuma. Desperdício — que desperdício! E agora, quando a olhava,
apenas sentia desprezo. A paciência acabara-se. Respondeu à sua
pergunta:
— É o capitão de uma escuna. Veio de Ápia.
— Sim?
— Trouxe-me notícias de casa. O meu irmão mais velho está muito
doente e tenho de lá ir.
— Demoras-te muito?
Ele encolheu os ombros.
A força das circunstâncias

Estava sentada na varanda à espera do marido para o almoço. O


criado malaio tinha descido os estores quando a manhã começou a
esquentar, mas ela tinha subido parcialmente um deles para olhar o rio
que, sob o sol sufocante do meio-dia, tinha a palidez da morte. Um nativo
remava numa canoa tão pequena que mal se via acima da superfície. O dia
estava pálido e cor de cinza, cores que não eram mais do que as várias
tonalidades do calor. (Era como uma melodia oriental em tom menor que
exacerba os nervos com a sua monotonia ambígua e em que o ouvido fica
impaciente, mas em vão, à espera de um final.) As cigarras cantavam a sua
canção irritante, contínua e monótona como o sussurro de um riacho sobre
as pedras e que de súbito era abafada pelo cantar alto de um pássaro,
melífluo e rico; e por instantes, com um aperto no coração, ela pensou no
melro inglês.
Depois ouviu os passos do marido na gravilha do caminho por detrás
do bangalô, que levava até ao tribunal onde ele trabalhava, e levantou-se
da cadeira para o saudar. Ele subiu correndo o curto lance de escadas,
porque o bangalô assentava sobre pilares, e à porta estava o criado à
espera para lhe pegar no capacete colonial. Entrou na sala que servia de
sala de jantar e de estar, e os olhos iluminaram-se com o prazer de a ver.
— Olá, Doris. Com fome?
— Devoradora.
— É só um minuto para tomar um banho.
— Despacha-te — disse ela a sorrir.
Ele entrou no quarto e ela ouviu-o assobiar alegremente enquanto,
com a falta de cuidado de que ela andava sempre a queixar-se, despia a
roupa e a atirava para o chão. Tinha trinta e nove anos, mas parecia ainda
um adolescente; nunca ia crescer. Fora esta talvez a razão porque ela se
apaixonara por ele; porque nenhuma afeição, por maior que fosse, a
poderia convencer de que ele era um homem atraente. Era baixo e
redondo, com um rosto vermelho como a lua cheia, e olhos azuis. Era
gordo. Ela examinara-o cuidadosamente e vira-se forçada a confessar-lhe
que ele não tinha um único traço fisionômico que ela pudesse apreciar.
Tinha-lhe dito muitas vezes que ele não era de modo nenhum o seu tipo.
— Eu nunca disse que era uma beleza — dizia ele a rir.
— Não consigo saber o que vi em ti.
Mas claro que ela sabia muito bem. Ele era um rapaz jovial, alegre,
que não levava nada muito a sério, e estava constantemente rindo. E a
fazia rir também. Ele achava que a vida, mais do que uma coisa séria, era
um divertimento, e tinha um sorriso encantador. Quando estava com ele,
sentia-se feliz e contente. E a profunda afeição que via naqueles alegres
olhos azuis tocava-a. Era muito bom ser amada daquela maneira. Certa
vez, sentada em seu colo, durante a lua de mel, tomou-lhe o rosto entre as
mãos e disse-lhe:
— Tu és um garoto feio e gordo, Guy, mas tens encanto. Não posso
deixar de te amar.
Uma onda de emoção apoderou-se dela e os seus olhos encheram-se
de lágrimas. Viu-lhe o rosto por momentos contorcido com o embaraço do
que estava a sentir e a voz tremia-lhe um pouco quando respondeu.
— Para mim é terrível ter casado com uma mulher mentalmente
deficiente — disse ele.
Ela soltou um riso abafado. Era exatamente a resposta característica
que ela queria ouvir.
Era difícil imaginar que ainda há nove meses atrás nem sequer tinha
ouvido falar dele. Tinha-o conhecido numa pequena praia onde estava a
passar um mês de férias com a mãe. Doris era secretária de um deputado.
Guy estava lá de licença. Estavam no mesmo hotel e ele contou-lhe logo
tudo a seu respeito. Nascera em Sembulu, onde o pai estivera a prestar
serviço durante trinta anos, no tempo do segundo Sultão e quando saiu da
escola entrou para o mesmo serviço. Estava muito dedicado ao país.
— Afinal, para mim a Inglaterra é um país estrangeiro — disse ele.
— A minha pátria é Sembulu.
E agora era também a pátria dela. Ele pediu-lhe que casasse com ele
no fim daquele mês de férias. Ela já sabia que ele ia pedir e já decidira
recusar. Era a única filha de uma mãe viúva e não podia se afastar muito
dela, mas quando o momento chegou, sem saber muito bem o que lhe
tinha acontecido, levada por uma inesperada emoção, disse que sim. Há
quatro meses que viviam naquele pequeno posto longínquo onde ele era
encarregado. Ela sentia-se muito feliz.
Uma vez contou-lhe que já tinha decidido rejeitar o seu pedido.
— E estás arrependida? — perguntou ele com um alegre sorriso nos
olhos cintilantes.
— Teria sido uma grande idiota se o tivesse feito. Que sorte a minha
o destino, ou o acaso, ou fosse o que fosse, ter intervindo e tomado o
assunto nas suas mãos!
Agora ouvia-o a bater com os pés pela escada abaixo em direção ao
banheiro. Ele era um tipo barulhento, e mesmo descalço não conseguia
andar silenciosamente. Mas exclamou. - disse duas ou três palavras no
dialeto que ela não entendia. Depois ouviu alguém a falar com ele, não
muito alto, antes num sussurro sibilante. Realmente era muito mau as
pessoas virem interpelá-lo quando ia tomar o seu banho. Ele falou de novo
e embora o tivesse feito em voz baixa ela conseguiu perceber que estava
aborrecido. A outra voz agora subiu de tom; era voz de mulher. Doris
pensou que devia ser alguém a apresentar uma queixa qualquer. Era
próprio das mulheres malaias entrarem assim sorrateiramente. Mas era
evidente que ela não estava a levar nada do Guy, porque ouviu-o dizer:
"Rua!". Isso pelo menos entendia ela, e depois ouviu-o fechar a porta.
Ouviu-se então o barulho da água (os preparativos para o banho ainda a
divertiam, os banheiros ficavam por baixo dos quartos, no térreo; havia
uma enorme banheira e a pessoa banhava-se com uma pequena vasilha de
lata) e poucos minutos depois já estava de novo na sala de jantar. Trazia
ainda o cabelo molhado. Sentaram-se para o almoço.
— É uma sorte eu não ser uma pessoa desconfiada ou ciumenta —
disse ela a rir. — Não sei se deva concordar com essas tuas conversas
animadas com mulheres enquanto tomas banho.
A cara dele, habitualmente tão sorridente, tinha tomado um ar
carrancudo quando entrou, mas agora ficou mais animada.
— Não foi exatamente agradável falar com ela.
— Isso vi eu pelo tom da tua voz. Até achei que tinhas sido muito
seco com a jovem.
— Que raio de descaramento vir assim interpelar-me daquela
maneira!
— O que é que ela queria?
— Oh, não sei. É uma mulher do Kampong. Teve uma briga com o
marido ou coisa do gênero.
— Será a mesma que andou por aí a rondar hoje de manhã?
Ele franziu um pouco as sobrancelhas.
— Andou por aí alguém a rondar?
— Andou, eu fui ao closet ver se estava tudo em ordem e depois fui
até ao banheiro. Vi alguém a sair da porta sorrateiramente, e quando eu ia
a descer as escadas, vi uma mulher.
— Falaste com ela?
— Perguntei-lhe o que é que ela queria e ela disse qualquer coisa
mas eu não consegui entender.
— Não vou deixar que esse tipo de pessoas andem por aqui a
deambular — disse ele. — Não têm esse direito.
— Sorriu, mas Doris, com aquela intuição de mulher apaixonada,
reparou que ele sorriu apenas com a boca e não como de costume também
com os olhos, e procurava descobrir o que é que o perturbava.
— O que é que andaste a fazer hoje de manhã? — perguntou ele.
— Oh, pouca coisa. Fui dar um pequeno passeio.
— Pelo Kampong?
— Sim, Vi um homem a mandar um macaco acorrentado ao alto de
um coqueiro para apanhar cocos, o que muito me impressionou.
É engraçado, não é?
— Oh, Guy, estavam lá dois meninos a vê-lo que eram muito mais
brancos do que os outros e eu quis saber se eles não seriam mestiços. Falei
com eles, mas não sabiam uma palavra de inglês.
— Há dois ou três mestiços no Kampong — respondeu ele.
— De quem são eles?
— A mãe é uma das moças da aldeia.
— E quem é o pai?
— Oh, minha querida, esse é o tipo de pergunta que é um pouco
perigoso fazer por estes lados. — Fez uma pausa. — Muitos têm mulheres
nativas e quando se vão embora ou casam ou estabelecem-lhes uma
pensão e mandam-nas de volta para a aldeia.
Doris ficou calada. A indiferença com que ele falava parecia-lhe um
tanto dura. Havia mesmo alguma severidade no seu bonito rosto inglês,
franco e aberto, quando respondeu.
— Então e as crianças?
— Não tenho dúvida de que são bem tratadas. Dentro das suas
possibilidades um homem geralmente tem o cuidado de dar dinheiro
suficiente para que eles tenham uma educação decente. Arranjam emprego
como funcionários do governo, sabes; eles estão bem.
Ela teve um sorriso um pouco triste.
— Com certeza que não estás à espera que eu pense que esse é um
bom sistema.
— Não deves ser demasiado dura — disse ele, devolvendo-lhe o
sorriso.
— Eu não estou a ser dura. Mas graças a Deus que tu nunca tiveste
uma mulher malaia. Eu ia detestar. Imagina só se aqueles pequeninos eram
teus.
O criado mudou-lhes os pratos. Os menus nunca eram muito
variados. Começavam por peixe do rio, sem graça e insípido, de maneira
que era preciso pôr-lhe uma boa quantidade de ketchup para o tornar
saboroso, e depois continuava com um qualquer tipo de assado. Guy
regava-o com molho Worcester.
— O velho Sultão pensava que este país não era para mulheres
brancas — disse ele passado pouco tempo. — Preferia encorajar as
pessoas a... manter mulheres nativas. Claro que as coisas já mudaram. O
país está perfeitamente calmo e suponho que já sabemos lidar melhor com
o ambiente.
— Mas, Guy, o mais velho daqueles rapazes não tinha mais do que
sete ou oito anos e o outro devia ter cinco.
— Um posto longínquo como este torna-se terrivelmente solitário.
Muitas vezes passamos seis meses seguidos sem ver outro banco. Uma
pessoa vem para aqui ainda garoto. — Sorriu-lhe daquela sua maneira
encantadora que transfigurava a sua cara redonda e franca. — Há
desculpas, sabes.
Ela achava sempre aquele sorriso irresistível. Era o seu melhor
argumento. Os olhos dela tornaram-se mais suaves e ternos.
— Com certeza que há — Ela estendeu o braço sobre a pequena
mesa e pôs a sua mão na dele. — Tive muita sorte em te apanhar ainda tão
novo. Sinceramente, eu ficaria terrivelmente transtornada se me dissessem
que tu tinhas levado essa vida.
Ele pegou-lhe na mão e apertou-a.
— Sentes-te feliz aqui, querida?
— Desesperadamente.
Ela estava com um ar muito fresco no seu vestido de linho. O calor
não lhe provocava angústia. A sua beleza era apenas a da juventude,
embora tivesse uns bonitos olhos castanhos; mas tinha uma fisionomia de
uma agradável franqueza e o cabelo castanho curto era brilhante e bem
cuidado. Ela dava a impressão de ser uma jovem com talento e com
certeza que o deputado para quem ela trabalhara devia ter tido nela uma
secretária competente.
— Fiquei logo a adorar o país — disse ela. — Embora passe tanto
tempo sozinha, nunca senti solidão.
Claro que ela tinha lido romances sobre o arquipélago malaio e tinha
ficado com a impressão de que era uma terra sombria com grandes rios
sinistros e uma selva silenciosa e impenetrável. Quando o navio de
cabotagem os deixou na boca do rio, onde um barco grande com uma
dúzia de remadores Diaks os esperava para os levar até ao porto, a
paisagem, mais acolhedora do que aterradora, deixou-a sem respiração.
Tinha uma alegria, com aquele cantar jovial dos pássaros nas árvores, de
que ela não estava à espera. Em ambas as margens do rio havia mangues e
palmeiras indianas e por detrás delas o verde denso da floresta. À distância
estendiam-se as montanhas azuis, cadeia após cadeia, até onde a vista
alcançava. Não tinha qualquer sensação de reclusão ou de melancolia, mas
antes de suavidade e espaço aberto onde a imaginação podia vaguear com
deleite. O verde brilhava ao sol e o céu estava alegre e animado. Aquela
graciosa terra parecia dar-lhe umas boas vindas sorridentes.
Continuaram a remar ao longo da margem e no alto voava um par de
pombos. Um clarão colorido, qual jóia viva, atravessou-lhes o caminho.
Era um martim-pescador. Num ramo de árvore estavam dois macacos
sentados lado a lado com as caudas a balançar. No horizonte, do lado de lá
do largo rio barrento, para lá da selva, via-se uma fila de pequenas nuvens
brancas, as únicas no céu, que lembrava uma fila de bailarinas vestidas de
branco à espera, nos bastidores, atentas e alegres, que o pano subisse.
Sentia o coração cheio de alegria; e agora, recordando tudo aquilo, os
olhos pousaram sobre o marido com uma afeição grata e firme.
E que divertido fora o arranjo da sala de estar! Era uma sala muito
grande. No chão, quando ela chegou, havia esteiras sujas e gastas;
pendurados nas paredes de madeira sem pintura, gravuras de quadros da
Academia, escudos Diak e parãos. As mesas estavam cobertas de toalhas
Diak de cores escuras e sobre elas havia peças de latão a precisar muito de
limpeza, latas de cigarros vazias e peças de prata malaias. Havia uma
prateleira tosca de madeira com edições baratas de romances e um grande
número de livros de viagens antigos com encadernação de couro; e uma
outra prateleira cheia de garrafas vazias. Era a sala de um homem solteiro,
desarrumada mas formal; achou-lhe graça mas também lhe pareceu
intoleravelmente patética. Que vida monótona e desconfortável Guy levara
ali; e pôs-lhe os braços à volta do pescoço e beijou-o.
— Pobre querido — disse ela a rir.
Era habilidosa de mãos e depressa tornou a sala habitável. Arranjou
isto e aquilo e o que não pôde usar jogou fora. Os presentes de casamento
também ajudaram. A sala agora já estava confortável e acolhedora. Havia
jarras de vidro com belas orquídeas e grandes vasos com enormes arbustos
em flor. Ela sentia um grande orgulho porque aquela era a sua casa (nunca
na sua vida tinha vivido senão num acanhado apartamento) e tinha-a
tornado encantadora para ele.
— Estás satisfeito comigo? — perguntou ela depois de acabar.
— Mais ou menos — disse ele a sorrir.
A desvalorização deliberada era muito o seu jeito. Que bom que era
eles se entenderem tão bem! Ambos eram reservados na expressão das
emoções e raras eram as ocasiões em que eles não usavam o gracejo
irônico um com o outro.
Terminaram o almoço e ele estendeu-se num sofá para fazer uma
sesta. Ela dirigiu-se para o quarto e ficou um pouco surpreendida por ele a
puxar para si quando ela ia a passar, fazê-la inclinar-se e beijá-la. Não
tinham o hábito de trocar carícias durante o dia.
— A barriga cheia torna-te sentimental, meu cordeirinho — troçou
ela.
— Vai embora e não me apareças aqui pelo menos nas próximas
duas horas.
— Não te ponhas a ressonar.
Doris acordou com o barulho do marido tomando banho. As paredes
do bangalô deixavam passar o som e nada do que um fizesse escapava ao
outro. Sentia uma preguiça tão grande que não lhe queria mexer-se, mas
ouviu o criado trazer as coisas para o chá; saltou da cama e correu pelas
escadas abaixo em direção ao seu banheiro. A água, não muito fria, mas
apenas fresca, foi deliciosamente refrescante. Quando entrou na sala de
estar Guy estava a tirar as raquetes do armário, porque eles costumavam
jogar tênis ao fim da tarde. Às seis já era de noite.
A quadra de tênis ficava a duzentos ou trezentos metros do bangalô,
e depois do chá, ansiosos por não perder tempo, foram até lá.
— Olha, — disse Doris — está ali a moça que eu vi hoje de manhã.
Guy voltou-se muito depressa e os seus olhos pousaram por
momentos numa mulher nativa, mas não disse nada.
— Que bonito sarong ela usa — disse Doris. — Gostaria de saber
onde é que ela o comprou.
Passaram por ela. Era franzina, com aqueles olhos grandes, escuros e
brilhantes característicos da sua raça e cabelo preto volumoso. Não se
mexeu quando eles passaram, mas fixou-os de uma maneira estranha.
Doris reparou então que ela não era tão nova como ela primeiro pensara.
As feições eram um tanto pesadas e a pele era escura, mas era muito
bonita. Tinha uma criança pequena ao colo. Doris sorriu um pouco quando
a viu, mas a boca da mulher não lhe retribuiu o sorriso. A sua expressão
ficou impassível. Não olhou para Guy, olhou só para Doris e ele continuou
a andar como se a não tivesse visto. Doris voltou-se para ele.
— Não é um querido, aquele bebê?
— Não reparei.
Ela ficou intrigada com a cara com que ele estava. Branco como a
cal.
— Reparaste nas mãos e nos pés dela? Podia ser uma duquesa.
— As nativas têm todas mãos e pés finos — respondeu ele, mas não
tão jovialmente como de costume; como que a falar contrariado.
Mas Doris estava intrigada.
— Quem é ela, sabes?
— É uma das moças do Kampong
Tinham chegado então à quadra de tênis. Quando Guy foi junto à
rede ver se estava esticada olhou para trás. A moça ainda estava no mesmo
lugar. Os olhares de ambos cruzaram-se.
— Posso servir? — disse Doris.
— Podes. As bolas estão aí desse lado.
Ele jogou muito mal. Geralmente ele dava-lhe quinze de avanço e
vencia-a, mas desta vez ela estava a ganhar-lhe com facilidade. Ele jogava
em silêncio. Era geralmente um jogador barulhento, sempre a gritar, a
praguejar quando falhava uma bola e a troçar dela quando conseguia
colocar uma bola fora do seu alcance.
— Já perdeste, meu menino — exclamou ela.
— Nem por sombras — disse ele.
Começou a bater as bolas tentando vencê-la e mandou-as contra a
rede umas atrás das outras. Ela nunca o tinha visto com aquela cara tão
dura. Seria possível que estivesse fora de si por não estar a jogar bem?
Escureceu e eles acabaram o jogo. A mulher por quem tinham passado
estava ainda no mesmo lugar como quando eles tinham vindo e mais uma
vez os observava com uma cara inexpressiva.
Os estores da varanda já estavam subidos e sobre a mesa, entre dois
sofás, havia garrafas e água tônica. Era a hora da primeira drinque e Guy
preparou dois cocktails. O rio estendia-se à sua frente e na outra margem a
selva estava envolta no mistério da noite que se aproximava. Um nativo
remava silenciosamente rio acima, de pé na proa, com dois remos.
— Joguei como um idiota — disse Guy a quebrar o silêncio. —
Estou um pouco em baixo.
— Lamento. Não vais ter febre, pois não?
— Oh, não. Amanhã já estou bom.
A escuridão abateu-se sobre eles. As rãs coaxavam alto e de vez em
quando ouviam-se alguns curtos sons de aves noturnas. Os vaga-lumes
voavam pela varanda e davam às árvores que a rodeavam uma aparência
de árvores de Natal que cintilavam suavemente. Doris pensou ouvir um
leve suspiro que a incomodou vagamente. Guy andava sempre tão bem
disposto.
— O que foi, meu amigo? — perguntou ela gentilmente. — Conta à
mamãe.
— Nada. Está na hora de outro drinque — respondeu ele.
No dia seguinte estava bem disposto, como sempre, e o correio
chegou. O navio de cabotagem passava na entrada do rio duas vezes por
mês, uma a caminho dos campos de carvão e outra no regresso. Na ida
trazia o correio e Guy mandava um barco buscá-lo. A sua chegada era um
acontecimento para aquelas vidas rotineiras. Durante um ou dois dias
folheavam rapidamente tudo o que chegara, cartas, jornais ingleses e
jornais de Singapura, revistas e livros, deixando para as semanas seguintes
uma leitura mais demorada. Arrancavam os jornais uns aos outros. Se
Doris não estivesse tão absorvida poderia ter reparado que houve uma
mudança em Guy. Teria achado difícil descrevê-la e mais ainda explicá-la.
Havia no seu olhar uma espécie de estado de alerta e na boca um ligeiro
traço de ansiedade.
Então, uma certa manhã, talvez uma semana mais tarde, quando ela
estava sentada na sala escurecida a estudar a gramática malaia (porque ela
andava empenhada em aprender a língua) ouviu uma certa agitação no
pátio da de casa. Ouviu a voz do criado a falar zangado, a voz de outro
homem, talvez a do aguadeiro, e depois a de uma mulher, estridente e
agressiva. Houve tumulto. Ela foi à janela e abriu as persianas. O
aguadeiro tinha agarrado uma mulher pelo braço e arrastava-a enquanto o
criado a empurrava por trás com ambas as mãos. Doris reconheceu-a logo
como a mulher que tinha visto de manhã a vaguear por ali, e mais tarde,
no mesmo dia, perto do campo de tênis. Trazia um bebê ao colo. Todos os
três berravam zangados.
— Parem com isso — exclamou ela. — O que é que estão a fazer?
Ao ouvir a sua voz, o aguadeiro largou bruscamente a mulher que,
ainda empurrada, caiu ao chão. Seguiu-se um súbito silêncio e o criado
olhava carrancudo para o ar. O aguadeiro hesitou por momentos e depois
escapuliu-se. A mulher levantou-se devagar, arranjou o bebê nos braços e
ficou impassível a olhar para Doris. O criado disse-lhe qualquer coisa que
Doris não poderia ter ouvido mesmo que pudesse entender; pela
impassividade da expressão a mulher mostrou que as palavras dele não
eram nada com ela; mas afastou-se. O criado foi atrás dela até ao portão.
Doris chamou-o quando ele voltava, mas ele fingiu que não ouviu. Ela já
estava a ficar irritada e chamou-o mais rispidamente.
— Anda aqui imediatamente — exclamou ela.
Subitamente, evitando o seu olhar zangado, dirigiu-se para o
bangalô. Entrou e ficou junto da porta. Olhou-a com enfado.
— O que é que vocês estavam a fazer àquela mulher? — perguntou
ela abruptamente.
— O patrão diz ela não vir mais aqui.
— Tu não deves tratar uma mulher dessa maneira. Não posso tolerar
isso. Vou contar ao teu patrão exatamente o que acabei de ver.
O criado não respondeu. Desviou o olhar, mas ela ficou com a
sensação de que ele a estava a observar por entre as longas pestanas. Ela
mandou-o embora.
— É tudo. Podes ir.
Sem uma palavra, ele deu meia volta e foi para as instalações dos
criados. Ela estava exasperada e já não conseguiu concentrar-se mais nos
exercícios de malaio. Pouco depois o criado entrou para pôr a mesa para o
almoço. De repente dirigiu-se para a porta.
— O que foi?
— O patrão já chegou.
Saiu para recolher o chapéu de Guy. O seu ouvido apurado tinha
percebido os passos antes de eles serem audíveis para ela. Guy, ao
contrário do habitual, não veio logo para cima; parou, e Doris viu logo que
o criado lhe quis contar a sua versão primeiro. Mas ela ficou espantada
quando Guy entrou. Estava pálido.
— Que diabo é que se passa, Guy?
Ele ficou subitamente muito vermelho.
— Nada. Porquê?
Ela estava tão espantada que o deixou passar para o quarto sem lhe
dizer nada do que pretendia. Ele demorou mais tempo do que de costume
no banho e a mudar de roupa e o almoço foi servido quando ele voltou.
— Guy — disse ela quando se sentaram, — aquela mulher que nós
vimos outro dia esteve aqui outra vez hoje de manhã.
— Já me disseram — respondeu ele.
Os criados estavam a tratá-la com brutalidade. Tive de mandar parar
com aquilo. Tens de falar com eles, realmente.
Apesar de perceber perfeitamente o que ela disse, o malaio não deu
qualquer sinal de ter ouvido e serviu-lhe a torrada.
— Já lhe disseram para não voltar a vir aqui. Dei ordens para que a
expulsem se ela aparecer por aqui outra vez.
— Eles tinham de ser tão duros?
— Ela não queria ir-se embora. Eu acho que, naquelas
circunstâncias, eles não se excederam.
— Foi horrível ver uma mulher ser tratada daquela maneira. Tinha
um bebê ao colo.
— Não é bem um bebê. Já tem três anos.
— Como é que sabes?
— Eu sei tudo sobre ela. Ela não tem o direito de vir aqui incomodar
as pessoas.
— E o que é que ela quer?
— Ela quer fazer exatamente aquilo que já fez. Quer provocar
distúrbios.
Doris ficou calada por momentos. Ficou surpreendida com o tom do
marido. Foi muito lacônico. Falou como se tudo aquilo não fosse da conta
dela. Achou-o um pouco indelicado. Estava nervoso e irritável.
— Não sei se poderemos jogar tênis hoje à tarde — disse ele. —
Parece-me que vai haver uma tempestade.
Quando ela acordou estava a chover e era impossível sair. Durante o
chá Guy esteve sempre calado e distraído. Ela pegou na sua costura e
começou a trabalhar. Guy sentou-se a ler os jornais ingleses que ainda não
tinha lido de princípio ao fim; mas ele estava inquieto; andava de um lado
para o outro na sala e depois foi até à varanda. Olhou a chuva que caía
monótona. O que estaria a pensar? Doris estava vagamente preocupada.
Só depois do jantar é que ele falou. Durante toda a refeição tinha-se
esforçado por mostrar a sua habitual jovialidade, mas o esforço era visível.
A chuva parara e a noite estava estrelada. Sentaram-se na varanda. Para
não atraírem os insetos tinham apagado a luz da sala. A seus pés,
silencioso, misterioso e fatal, corria o rio na sua poderosa e formidável
lentidão. Tinha a determinação e inexorabilidade do destino.
— Doris, eu tenho uma coisa para te dizer — disse ele de repente.
Estava com uma voz esquisita. Seria imaginação sua ou ele estava
com dificuldade em mantê-la firme? Sentiu um baque no coração porque
ele estava triste e gentilmente pôs a sua mão na dele. Ele tirou-a.
— É uma longa história. Receio que não seja muito agradável e é
muito difícil contá-la. Peço-te que não me interrompas nem digas nada até
eu acabar.
No escuro ela não conseguia ver-lhe o rosto, mas sentia que devia
estar alterado. Não respondeu. Ele falava em voz tão baixa que mal
quebrava o silêncio da noite.
— Eu tinha só dezoito anos quando para aqui vim. Vim da escola
diretamente para aqui. Estive três meses em Kuala Solor e depois fui
mandado para um posto junto do Rio Sembulu. Claro que estava lá um
representante do governo e a sua mulher. Eu vivia no tribunal, mas tomava
as refeições com eles e passava também com eles os serões. Foi um belo
tempo para mim. Depois o indivíduo que lá estava adoeceu e teve de
regressar a casa. Havia falta de homens por causa da guerra e eu fui
encarregado deste posto. Claro que era muito novo, mas falava a língua
como um nativo e eles lembravam-se do meu pai. Sentia-me feliz por estar
por minha conta.
Calou-se enquanto limpava o cachimbo e o enchia de novo. Quando
ele acendeu um fósforo Doris, sem o olhar, reparou que a mão lhe tremia.
— Eu nunca tinha vivido sozinho. Lá em casa havia, claro o pai e a
mãe e geralmente um ajudante. E depois na escola havia sempre colegas à
minha volta. No barco, quando saí, havia sempre pessoas por perto, e
também em K.S. e no meu primeiro posto. Dava a impressão de que eu
vivia sempre no meio de uma multidão. Eu gosto das pessoas. Sou um
chato barulhento. Gosto de me divertir. Rio-me por qualquer coisa e uma
pessoa tem de ter alguém que ria conosco. Mas aqui as coisas eram
diferentes. Claro que durante o dia estava tudo bem; tinha o meu trabalho
e podia falar com os Diaks. Apesar de nessa altura eles serem caçadores de
cabeças e de vez em quando ter alguns problemas com eles, eram tipos
muito fixes. Dava-me muito bem com eles. Claro que gostaria de ter um
branco com quem conversar, mas eles eram melhor que nada, e para mim
era mais fácil porque eles não me viam como um estranho. Também
gostava do meu trabalho. À noite sentia-me muito só, sentado na varanda a
beber sozinho. Mas podia ler. E os criados andavam por ali. O meu criado
particular chamava-se Abdul. Conhecera o meu pai. Quando estava
cansado de ler, chamava-o para tagarelar um bocado com ele. O que mais
me custava eram as noites. Depois do jantar os criados saíam para ir
dormir no Kampong. Eu ficava completamente só. Não se ouvia o mínimo
som no bangalô, a não ser de vez em quando o grasnar do chik-chak, que
de repente quebrava o silêncio e me fazia saltar de susto. Do Kampong
vinha o som de um gongue ou de bombinhas de brincar. Estavam a
divertir-se e não estavam muito longe, mas eu tinha de ficar onde estava.
Estava farto de ler. Se estivesse na cadeia não me poderia sentir mais
prisioneiro. Era sempre a mesma coisa noite após noite. Tentava beber três
ou quatro whiskies, mas beber sozinho não tem graça nenhuma e não
ficava bem disposto, apenas me fazia sentir mal na manhã seguinte.
Tentava ir para a cama logo depois do jantar, mas não conseguia dormir.
Ficava deitado, cada vez com mais calor, cada vez mais acordado até não
saber o que fazer. Que compridas eram aquelas noites, meu Deus. Acredita
que fiquei tão em baixo, sentia tanta pena de mim que às vezes, e agora
quando me lembro disso me dá vontade de rir, mas eu tinha apenas
dezenove anos e meio, às vezes chorava. Então, uma certa noite, depois de
jantar, Abdul levantara a mesa e ia sair quando o ouvi tossir. E ele disse:
"não me sentia eu muito só toda a noite sozinho?" "Oh, não. Está tudo
bem", disse eu. Não queria que ele soubesse o idiota que eu era, mas já
contava que ele soubesse. Ele ficou ali, sem falar, e eu sabia que ele me
queria dizer qualquer coisa. "O que é?" perguntei eu. "Desembucha".
Então ele disse-me que se eu quisesse uma moça para vir viver comigo ele
sabia de uma que estava disposta a isso. Era uma belíssima moça e ele
recomendava-a. Não traria qualquer problema e era alguém para ter ali
pelo bangalô. Remendaria as minhas coisas... Eu sentia-me muito em
baixo. Tinha estado a chover todo o dia e eu não tinha podido fazer
qualquer exercício. Eu sabia que não iria dormir durante horas. "Não me
custaria muito dinheiro" disse ele, "a família era pobre e ficariam
completamente satisfeitos com um pequeno presente... Duzentos dólares."
"Veja," disse ele, "se não gostar dela, manda-a embora." Perguntei-lhe
onde ela estava. "Está aqui" disse ele. "Vou chamá-la." Foi até à porta. Ela
tinha estado à espera na escada com a mãe. Entraram e sentaram-se no
chão. Dei-lhes chocolates. Ela estava envergonhada, claro, mas bastante
calma e quando eu lhe disse qualquer coisa ela sorriu-me. Era muito nova,
pouco mais do que uma criança, disseram que tinha quinze anos. Era
extremamente bonita e trazia as suas melhores roupas. Começamos a
conversar. Ela pouco falou, mas riu-se muito quando brinquei com ela.
Abdul disse que ela teria muito a dizer quando me conhecesse melhor. -
disse-lhe para se sentar perto de mim. Ela deu uma risadinha e disse que
não, mas a mãe mandou-a ir e eu deixei-lhe espaço na cadeira para ela se
sentar. Ela corou e riu, mas veio e depois aninhou-se junto de mim. O
criado também riu. "Está vendo? Ela já está caidinha pelo Senhor" disse
ele. "Quer que ela fique?" perguntou ele. "Queres ficar?" perguntei-lhe.
Ela escondeu a cara no meu ombro, a rir. Ela era muito macia e pequena.
"Muito bem," disse eu, "deixa-a ficar."
Guy inclinou-se para a frente e serviu-se de uisque e soda.
— Já posso falar? — perguntou Doris.
— Um momento, ainda não acabei. Eu não estava apaixonado por
ela, nem mesmo no princípio. Apenas fiquei com ela para ter alguém no
bangalô. Acho que, de contrário, teria enlouquecido ou então teria
começado a beber. Estava no limite. Era novo demais para ficar sozinho.
Nunca estive apaixonado por ninguém a não ser por ti — Hesitou por
momentos — Ela viveu aqui até eu ir de licença no ano passado. É a
mulher que tu tens visto a rondar por aí.
— Já calculava. Ela trazia um bebê ao colo. É teu?
— É. É uma menina.
— É o único?
— Outro dia tu viste dois rapazinhos no Kampong. Falaste nisso.
— Então ela tem três filhos.
— Tem.
— Tens então uma família completa.
Ela pressentiu-lhe o súbito gesto que a sua observação lhe provocou,
mas ele não disse nada.
— Ela só soube que tinhas casado quando de repente apareceste aqui
com uma mulher? — perguntou Doris.
— Ela soube que eu ia casar.
— Quando?
— Eu mandei-a de volta para a aldeia antes de partir. - disse-lhe que
estava tudo acabado. Dei-lhe o que tinha prometido. Ela sempre soube que
se tratava de uma relação temporária. Eu estava farto. - disse-lhe que ia
casar com uma branca.
— Mas nessa altura ainda nem me conhecias.
— Não, eu sei. Mas eu tinha decidido casar-me quando fosse a casa
— e riu à velha maneira. — Não tenho qualquer problema em dizer-te que
já estava ficando desanimado, quando te conheci. Apaixonei-me à
primeira vista e depois fiquei convencido que ou seria contigo ou com
mais ninguém.
— Por que é que não me falaste nisto? Não achas que seria justo dar-
me uma oportunidade de julgar o caso por mim própria? Devias-te ter
lembrado do choque que seria para qualquer moça descobrir que o marido
tinha vivido dez anos com outra mulher de quem tinha três filhos.
— Eu não podia ficar à espera da tua compreensão. As
circunstâncias aqui são muito peculiares. Este é o procedimento normal.
Em seis homens, cinco fazem isto. Pensei que isto te iria chocar e não
queria perder-te. Compreendes, eu estava extremamente apaixonado por ti.
E ainda estou, querida. Não havia razão nenhuma para que viesses a saber
disto. Não contava voltar aqui. Raramente se volta para o mesmo posto
depois de uma licença. Quando voltamos para aqui ofereci-lhe dinheiro se
ela fosse para outra aldeia qualquer. Primeiro ela disse que sim, mas
depois mudou de idéias.
— Por que é que me contaste isto agora?
— Ela tem andado a fazer cenas incríveis. Não sei como é que ela
descobriu que tu não sabias nada sobre o assunto. Logo que o descobriu
começou a fazer chantagem comigo. Já tive de lhe dar uma boa quantia.
Dei ordens para não a deixarem passar do portão. Hoje de manhã ela fez
aquela cena apenas para chamar a tua atenção. Ela queria mme assustar. E
eu não podia continuar assim. Achei que a única coisa a fazer era contar
tudo.
Quando ele terminou seguiu-se um prolongado silêncio. Por fim ele
pôs a mão sobre a dela.
— Tu compreendes, não é verdade, Doris? Eu sei que fui culpado.
Ela não tirou a mão. Ele sentiu-a fria sob a sua.
— Ela é ciumenta?
— Posso dizer que ela tinha uma série de regalias quando vivia aqui
e acho que agora não quer ficar sem elas. Sabes que as mulheres nativas
nunca gostam realmente muito dos homens brancos.
— E os filhos?
— Oh, esses estão bem. Eu sustento-os. Logo que os rapazes tenham
idade mando-os para a escola em Singapura.
— Não sentes nada por eles?
Ele hesitou.
— Quero ser perfeitamente franco contigo. Teria muita pena se lhes
acontecesse alguma coisa. Quando o primeiro estava para nascer, pensei
que iria ficar muito mais ligado a ele do que alguma vez estive à mãe.
Acho que teria sido assim se ele tivesse saído branco. Claro que enquanto
ele foi bebê, a coisa era engraçada e tocante, mas eu não sentia que ele era
meu. Acho que é isso; tu compreendes, eu não os sinto como meus filhos.
Às vezes sentia-me culpado porque a coisa me parecia anti-natural, mas a
pura verdade é que eles não me dizem mais do que se fossem filhos de
qualquer outro. Claro que se ouvem muitas baboseiras vindas da parte das
pessoas que não têm filhos.
Ela já tinha ouvido tudo e ele ficou à espera que falasse, mas ela não
disse nada. Ficou sentada, imóvel.
— Há mais alguma coisa que queiras saber, Doris? — disse ele por
fim.
— Não, estou cheia de dores de cabeça. Acho que vou para a cama.
— O seu tom era firme como nunca. — Não sei bem o que dizer. Claro
que foi tudo muito inesperado. Tens de me dar algum tempo para pensar.
— Estás muito zangada comigo?
— Não, absolutamente nada. Só que... só que quero ficar só por
algum tempo. Não te levantes. Vou para a cama.
Levantou-se da cadeira e pôs-lhe a mão no ombro.
— Está tanto calor esta noite. É melhor ires dormir no outro quarto.
Boa noite.
E foi-se embora. Ele ouviu-a fechar a porta do quarto à chave.
No dia seguinte estava pálida, e ele percebeu que ela não tinha
dormido. Não havia azedume nos seus modos, falou como de costume,
mas sem naturalidade; falou disto e daquilo como se estivesse a conversar
com um estranho. Eles nunca tinham tido uma briga, mas ele ficou com a
impressão de que ela devia falar assim se eles tivessem tido um
desentendimento e a reconciliação a tivesse deixado ainda magoada. O seu
olhar intrigava-o; parecia ler nele um estranho receio. A seguir ao jantar
ela disse:
— Não estou me sentindo muito bem esta noite. Acho que já vou
para a cama.
— Oh, minha pobre querida, tenho tanta pena — exclamou ele.
— Isto não é nada. Dentro de um ou dois dias já estou boa.
— Depois vou dar-te boa noite.
— Não, não faças isso. Vou tentar dormir já.
— Bem, então dá-me um beijo antes de ires.
Ele viu-a corar. Pareceu hesitar por momentos; depois, desviando os
olhos, inclinou-se para ele. Ele tomou-a nos braços e procurou-lhe os
lábios, mas ela voltou a cara e ele beijou-a na face. Deixou-o rapidamente
e ele ouviu mais uma vez a chave a rodar de mansinho na fechadura da
porta do quarto. Estendeu-se pesadamente na cadeira. Tentou ler, mas
estava atento ao mais pequeno som que viesse do quarto. Ela dissera que
ia para a cama, mas ele não a ouvia mexer. Aquele silêncio no quarto
deixou-o nervoso. Cobrindo o candeeiro com a mão, viu que havia luz por
debaixo da porta; ela ainda não a tinha apagado. Que diabo estaria
fazendo? Pousou o livro. Não teria ficado nada admirado se ela tivesse
ficado zangada e lhe tivesse feito uma cena ou tivesse desatado a chorar;
isso teria sido capaz de enfrentar; mas aquela calma amedrontava-o. E
depois, que medo era aquele que tinha visto tão claramente nos seus
olhos? Pensou outra vez em tudo o que lhe tinha dito na véspera. Não
sabia de que outra maneira deveria ter posto as coisas. Afinal, o ponto
principal era que ele tinha simplesmente feito o mesmo que toda a gente e
já estava tudo acabado muito antes de a conhecer. Claro que da maneira
como as coisas acabaram, ele tinha sido um idiota, mas qualquer pessoa
sabe muito depois de as coisas acontecerem. Pôs a mão sobre o coração.
Esquisito como aquilo o magoava.
— Deve ser isto que as pessoas querem dizer quando dizem que têm
o coração destroçado — disse ele consigo mesmo. — Quanto tempo irá
isto durar?
Será que devia ir bater à porta e dizer-lhe que precisava falar com
ela? Era melhor desabafar. Tinha de a fazer compreender. Mas aquele
silêncio atemorizava-o. Não se ouvia o mínimo som. Talvez fosse melhor
deixá-la em paz. Claro que aquilo tinha sido um choque. Tinha de lhe dar
todo o tempo que quisesse. Afinal, ela sabia como ele a amava
devotadamente. Tinha que ter paciência; talvez ela estivesse a debater-se;
tinha de dar-lhe tempo; tinha de ter paciência. Na manhã seguinte
perguntou-lhe se estava melhor.
— Muito melhor — disse ela.
— Estás zangada comigo? — perguntou-lhe com ar triste.
Ela olhou-o candidamente e de olhos bem abertos.
— De modo nenhum.
— Oh, minha querida, fico tão contente. Fui um bruto, fui uma besta.
Eu sei que isto tem sido uma coisa detestável para ti. Mas perdoa-me.
Tenho-me sentido tão desgraçado.
— Eu perdôo-te. Nem sequer te culpo.
Ele lançou-lhe um sorriso pesaroso e havia no seu olhar um ar de cão
castigado.
— Não gostei nada de dormir sozinho estas duas noites.
Ela desviou o olhar e empalideceu ligeiramente.
— Já mandei tirar a cama do meu quarto. Ocupava muito espaço.
Mandei substituí-la por uma pequena cama de campanha.
— De que é que estás a falar, querida?
Desta vez ela olhou-o firmemente.
— Não vou voltar a viver contigo como tua mulher.
— Nunca mais?
Ela balançou a cabeça. Ele olhou-a intrigado. Mal podia acreditar no
que ouvira e o coração começou a bater-lhe apressado.
— Mas isso é extremamente injusto, Doris.
— E tu não achas que foi extremamente injusto trazeres-me para
aqui nestas circunstâncias?
— Mas ainda agora disseste que não me culpavas.
— Isso é perfeitamente verdade. Mas a outra coisa é diferente. Não
consigo.
— Mas como é que nós vamos viver juntos dessa maneira?
Ela olhou para o chão. Parecia meditar profundamente.
— Quando ontem tu me quiseste beijar na boca eu... quase que fiquei
enjoada.
— Doris!
Ela olhou-o subitamente e os seus olhos eram frios e hostis.
— Aquela cama em que eu dormi, é a cama onde ela teve os filhos?
— Ela viu-o corar intensamente. — Oh, é horrível. Como é que tu foste
capaz? — Ela torcia as mãos e os dedos torcidos e torturados pareciam
cobras enroscadas. Mas fez um grande esforço e controlou-se. — Estou
perfeitamente decidida. Não quero ser desagradável contigo, mas há coisas
que tu não me podes pedir que faça. Já pensei em tudo. Desde que tu me
contaste, não penso noutra coisa noite e dia até ficar exausta. O meu
primeiro instinto foi fazer as malas e ir embora. Imediatamente. O navio
deve chegar aqui dentro de dois ou três dias.
— E o fato de eu te amar não significa nada para ti?
— Oh, eu sei que tu me amas. Não vou fazer isso. Quero dar-nos a
ambos uma oportunidade. Eu amava-te tanto, Guy. — A sua voz cedeu,
mas não chorou. — Não quero ser excessiva. Meu Deus, não quero ser
desagradável. Guy, dá-me um tempo.
— Não sei bem o que queres dizer.
— Só quero que me deixes só. Estou com medo dos sentimentos que
me assaltaram.
Então ele tinha razão; ela estava com medo.
— Que sentimentos?
— Por favor, não me perguntes. Não quero dizer qualquer coisa que
te possa magoar. Talvez eu os consiga ultrapassar. Deus é testemunha de
que eu quero. Vou tentar, prometo. Dá-me seis meses. Farei o impossível
por ti, e apenas isso. — Fez um pequeno gesto de apelo. — Não há razão
nenhuma para que não possamos ser felizes os dois juntos. Se realmente
me amas... com certeza que vais ter paciência.
Ele suspirou fundo.
— Muito bem — disse. — Evidentemente que não quero obrigar-te a
fazer uma coisa que tu não queres. Será como dizes.
Sentou-se por momentos, pesadamente, como se de repente tivesse
ficado velho e tivesse dificuldade em mexer-se, e depois levantou-se.
— Vou para o escritório.
Pegou no chapéu colonial e saiu.
Passou-se um mês. As mulheres escondem melhor os sentimentos do
que os homens e qualquer pessoa estranha que os visitasse nunca
imaginaria que Doris tinha algum problema. Mas em Guy a tensão era
evidente; a sua cara redonda de boa pessoa tinha um ar cansado e os olhos
revelavam alguma ansiedade e perturbação. Ele observava Doris. Ela
andava alegre e brincava com ele como de costume; jogavam tênis;
falavam disto e daquilo. Mas era evidente que ela andava apenas a
representar um papel, e por fim, incapaz de se conter, ele tentou falar outra
vez da sua relação com a mulher malaia.
— Oh, Guy, não faz qualquer sentido voltar outra vez a esse assunto
— respondeu ela jovialmente. — Já dissemos tudo o que havia a dizer
sobre isso e eu não te culpo de nada.
— Então por que é que me castigas?
— A minha intenção não é castigar-te, meu pobre amigo. Não tenho
culpa que... — encolheu os ombros — A natureza humana é tão estranha.
— Não compreendo.
— Nem tentes compreender.
As palavras podiam ter sido ásperas, mas ela suavizou-as com um
agradável sorriso amigável. Todas as noites quando ia para a cama
inclinava-se sobre Guy e beijava-o de leve na cara. Os lábios mal o
tocavam. Era como se uma pequena mariposa lhe roçasse a cara no seu
vôo.
Passou outro mês e depois mais outro e em breve os seis meses que
pareceram tão infindáveis tinham terminado. Guy perguntava-se se ela se
lembraria. Ele prestava agora uma atenção esforçada a tudo o que ela
dizia, a todas as suas expressões, a todos os seus gestos. Ela continuava
impenetrável. Ela pedira-lhe seis meses. Pois bem, já os tivera.
O navio de cabotagem passou na boca do rio, deixou o correio e
seguiu a sua rota. Guy escreveu as cartas que o barco recolheria na sua
viagem de regresso. Passaram-se dois ou três dias. Era terça-feira e o
prahu devia partir na madrugada de quinta-feira para aguardar o navio.
Exceto durante as refeições, altura em que Doris se esforçava por manter
uma conversa, ultimamente eles não tinham se falado; e depois do jantar,
como de costume, pegaram nos seus livros e puseram-se a ler; mas depois
de o criado ter levantado a mesa e ter ido embora para casa Doris pousou o
livro.
— Guy, tenho uma coisa para te dizer — murmurou.
Sentiu um baque no coração e começou a mudar de cor.
— Oh, querido, não fiques assim, não é nada de terrível — disse ela
rindo.
Mas a ele pareceu-lhe que a voz dela tremeu um pouco.
— Então?
— Queria que me fizesses uma coisa.
— Por ti faço qualquer coisa.
Estendeu a mão para tomar a dela, mas ela retirou a sua.
— Queria que me deixasses ir para casa.
— Tu? — exclamou aterrado. — Quando? Porquê?
— Agüentei tudo isto quanto pude. Agora não posso mais.
— E por quanto tempo queres ir? Para sempre?
— Não sei bem. Creio que sim. — Procurou buscar determinação. —
Sim, para sempre.
— Oh, meu Deus!
— A voz falhou-lhe e ela temeu que ele começasse a chorar.
— Oh, Guy, não me culpes. De fato a culpa não é minha. Não
consigo evitá-lo.
— Tu pediste-me seis meses. Aceitei as tuas condições. Não podes
dizer que andei a aborrecer-te.
— Não, não.
Tentei sempre fazer com que tu não visses o mau bocado que eu
estava a passar.
— Eu sei, e estou-te muito grata por isso. Foste extremamente
amável comigo. Ouve, Guy, quero dizer-te outra vez que não te culpo por
nada daquilo que fizeste. Afinal, eras apenas um garoto e não fizeste nada
mais do que os outros; eu sei o que é a solidão aqui. Oh, meu querido,
tenho tanta pena de ti. Eu sempre soube isto logo desde o início, por isso é
que te pedi seis meses. O meu bom senso diz-me que estou a exagerar, que
estou a ser pouco razoável, que estou a ser injusta contigo. Mas
compreendes, o bom senso não tem nada a ver com isto; toda a minha
alma está revolta. Quando vejo aquela mulher com os filhos, na aldeia,
sinto as pernas a tremer. Tudo nesta casa; quando penso naquela cama em
que eu dormi fico arrepiada... Tu não podes imaginar o que eu suportei.
— Acho que consegui convencê-la a ir-se embora. E requeri a
transferência.
— Isso não serve de nada. Ela vai estar sempre presente. Tu
pertences a eles, não a mim. Acho que talvez tivesse agüentado se fosse só
um filho, mas três; e os rapazes são bem grandes. Foram dez anos que
viveste com ela. — E então ela chegou àquele ponto para onde tinha
avançado gradualmente. Estava desesperada. — Isto é uma coisa física
que não consigo evitar, é mais forte do que eu. Quando penso naqueles
braços escuros a abraçarem-te, fico fisicamente enjoada. Penso em ti com
aqueles pretinhos ao colo. Oh, é horrível. Tocar-te é para mim uma coisa
odiosa. Quando cada noite te beijava, tinha de fazer um esforço, tinha de
cerrar os punhos e fazer força para tocar a tua cara — E agora fechava e
abria as mãos numa agonia nervosa, e tinha a voz descontrolada. — Eu sei
que agora a culpa é minha. Sou uma boba, uma histérica. Pensei que ia
ultrapassar isto. Mas não consigo, nem vou conseguir. Eu é que provoquei
tudo isto a mim mesma; estou disposta a arcar com as conseqüências: se tu
disseres que tenho de ficar, eu fico, mas se ficar morro. Peço-te que me
deixes ir.
E então as lágrimas que ela conseguira reter durante tanto tempo
jorraram e ela chorou convulsivamente. Ele nunca a tinha visto a chorar.
— É claro que eu não quero reter-te aqui contra a tua vontade —
disse ele com voz rouca.
Exausta, ela recostou-se na cadeira. Tinha as feições deformadas. Era
terrível ver o sofrimento naquele rosto habitualmente plácido.
— Desculpa, Guy. Atrapalhei a tua vida, mas também estraguei a
minha. E podíamos ter sido tão felizes.
— Quando é que queres partir? Na quinta-feira?
— Sim.
Ela olhou-o com compaixão. Ele escondeu a cara entre as mãos. Por
fim levantou os olhos.
— Estou exausto — murmurou.
— Deixas-me ir?
— Deixo.
Durante talvez dois minutos ficaram sentados sem uma palavra. Ela
despertou quando o chik-chak soltou o seu grito agudo, rouco e
estranhamente humano. Guy levantou-se e foi até à varanda. Encostou-se
ao varão e olhou o rio que corria suavemente. Ouviu Doris a ir para o
quarto.
Na manhã seguinte, a pé mais cedo do que habitualmente, ele foi até
à porta do quarto dela e bateu.
— Sim?
— Hoje tenho de subir o rio. Volto muito tarde.
— Está bem.
Ela entendeu. Ele arranjara as coisas de maneira a estar todo o dia
fora para não ficar ali a vê-la fazer as malas. Foi um trabalho pungente.
Depois de pôr as roupas todas, percorreu a sala com os olhos à procura das
coisas que lhe pertenciam. Achou deplorável levá-las. Deixou ficar tudo,
exceto a fotografia da mãe. Guy só voltou pelas dez da noite.
— Desculpa não ter podido vir jantar — disse ele. — O chefe da
aldeia onde tive de ir tinha uma série de coisas para eu resolver.
Ela viu-o percorrer a sala com o olhar e reparar que a fotografia da
mãe já não estava lá.
— Está tudo pronto? — perguntou. — Eu disse ao barqueiro para ter
o barco aqui no cais de madrugada.
— Pedi ao criado para me acordar às cinco.
— É melhor eu dar-te algum dinheiro. — Dirigiu-se à escrivaninha e
passou um cheque. Tirou algumas notas de uma gaveta. Aqui tens algum
em dinheiro para a viagem até Singapura e aí podes levantar o cheque.
— Obrigada.
— Queres que eu te vá acompanhar até à boca do rio?
— Oh, acho que será melhor despedirmo-nos aqui.
— Está bem. Acho que vou dormir. Tive um dia muito comprido e
estou morto de cansaço.
Nem sequer lhe tocou na mão. Foi para o quarto. Minutos depois ela
ouviu-o a atirar-se na cama, e ficou sentada a percorrer com o olhar aquela
sala onde tinha sido tão feliz e tão desgraçada. Deu um suspiro fundo.
Levantou-se e foi para o quarto. Já estava tudo nas malas, a não ser uma
ou outra coisa de que precisava para a noite.
Era ainda escuro quando o criado os chamou. Vestiram-se
apressadamente e depois de prontos esperava-os um café da manhã. Pouco
depois ouviram o barco atracar no cais junto do bangalô e depois os
criados levaram a bagagem. Apenas fingiram comer. A escuridão
desvanecia-se e o rio tinha um ar fantasmagórico. Ainda não era dia, e já
não era noite. Naquele silêncio, as vozes dos nativos no cais eram muito
claras. Guy olhou o prato intacto da mulher.
— Se já acabaste podemos ir descendo. Acho que são horas.
Ela não respondeu. Levantou-se da mesa. Foi ao quarto ver se não se
tinha esquecido de nada e depois desceu os degraus lado a lado com o
marido. Seguiram pelo pequeno caminho que serpenteava até ao rio. No
cais os guardas nativos estavam formados nos seus uniformes elegantes e
apresentaram armas à passagem de Guy e Doris. O chefe dos barqueiros
estendeu a mão a Doris para a ajudar a entrar no barco. Ela voltou-se e
olhou para Guy. Queria dizer-lhe uma última palavra de conforto, pedir-
lhe perdão uma vez mais, mas parecia ter emudecido.
Ele estendeu-lhe a mão.
— Bem, adeus, espero que faças uma boa viagem.
Apertaram a mão. Guy acenou com a cabeça ao barqueiro e o barco
largou. A aurora avançava agora enevoada pelo rio, mas a noite
emboscava-se ainda entre as árvores escuras da selva. Ele ficou no cais até
que o barco desapareceu nas sombras da manhã. Afastou-se com um
suspiro. Acenou com a cabeça distraidamente quando a guarda de novo
apresentou armas. Mas quando entrou no bangalô chamou o criado. Deu
uma volta pela sala recolhendo tudo o que pertencia a Doris.
— Guarda todas estas coisas — disse. — Já não faz sentido deixá-las
por aí.
Depois sentou-se na varanda a observar o dia a avançar
gradualmente, como uma dor amarga, imerecida e avassaladora. Por fim
olhou para o relógio. Eram horas de ir para o escritório.
À tarde não conseguiu dormir, doía-lhe a cabeça e por isso pegou na
espingarda e foi fazer uma caminhada pela selva. Não caçou nada, mas
caminhou sempre, para ficar extenuado. Voltou ao pôr do sol e tomou dois
ou três drinques, e depois já eram horas de se vestir para o jantar. Agora
não fazia muito sentido vestir-se; ficava muito bem como estava; vestiu
um casaco nativo largo e um sarong. Era a isso que ele estava habituado
antes de Doris chegar. Estava descalço. Jantou sem apetite, e o criado
levantou a mesa e foi-se embora. Sentou-se a ler o Tattler. O bangalô
estava muito silencioso. Não conseguiu ler, e o jornal caiu-lhe sobre os
joelhos. Estava exausto. Não conseguia pensar e sentia a cabeça
estranhamente vazia. O chik-chak estava muito barulhento naquela noite, e
o seu grito súbito e rouco parecia estar a troçar dele. Era difícil acreditar
que este som ressonante pudesse sair de garganta tão pequena. Pouco
depois ouviu uma tosse discreta.
— Quem está aí?
Houve uma pausa. Olhou para a porta. O chik-chak ria estridente.
Um garoto entrou de esguelha timidamente e ficou à porta. Era um garoto
pequeno de camiseta esfarrapada e sarong. Era o seu filho mais velho.
— O que é que tu queres? — perguntou Guy.
O garoto entrou na sala e sentou-se no chão em cima das pernas.
— Quem é que te mandou aqui?
— Foi a mãe. Ela pergunta se o Senhor precisa de alguma coisa.
Guy olhou para ele. O garoto não disse mais nada. Ficou sentado à
espera e a olhar timidamente para o chão. Guy, a refletir profunda e
amargamente, escondeu a cara entre as mãos. Porquê? Estava tudo
acabado. Completamente acabado! Rendeu-se. Recostou-se na cadeira e
suspirou fundo.
— Diz à tua mãe que arrume as coisas. Pode voltar.
— Quando? — perguntou o garoto impassível.
Lágrimas quentes corriam pela cara redonda, sardenta, cômica de
Guy.
— Esta noite.

Fim

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D.Source
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