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Mary Jane Spink - Práticas discursivas e produção

Mary Jane Spink - Práticas discursivas e produção

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  • Mary Jane P. Spink e Rose Mary Frezza
  • Mary Jane P. Spink e Benedito Medrado
  • Mary Jane P. Spink e Vera Mincoff Menegon
  • Mary Jane P. Spink e Helena Lima
  • Lia Yara Lima Mirim
  • Odette de Godoy Pinheiro
  • Carlos André F. Passarelli
  • REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
  • AUTORES

Mary Jane Spink
Organizadora

PRÁTICAS DISCURSIVAS E PRODUÇÃO DE SENTIDOS NO COTIDIANO Aproximações teóricas e metodológicas

Rio de Janeiro 2013

Esta publicação é parte da Biblioteca Virtual de Ciências Humanas do Centro Edelstein de Pesquisas Sociais – www.bvce.org Copyright © 2013, Mary Jane Spink. Copyright © 2013 desta edição on-line: Centro Edelstein de Pesquisas Sociais Ano da última edição: 2004, Editora Cortez. Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer meio de comunicação para uso comercial sem a permissão escrita dos proprietários dos direitos autorais. A publicação ou partes dela podem ser reproduzidas para propósito não comercial na medida em que a origem da publicação, assim como seus autores, seja reconhecida. ISBN: 978-85-7982-068-7 Centro Edelstein de Pesquisas Sociais www.centroedelstein.org.br Rua Visconde de Pirajá, 330/1205 Ipanema – Rio de Janeiro – RJ CEP: 22410-000. Brasil Contato: bvce@centroedelstein.org.br

SOBRE OS SENTIDOS…

Ao contrário do que em geral se crê, sentido e significado nunca foram a mesma coisa, o significado fica-se logo por aí, é directo, literal, explícito, fechado em si mesmo, unívoco, por assim dizer; ao passo que o sentido não é capaz de permanecer quieto, fervilha de sentidos segundos, terceiros e quartos, de direcções irradiantes que se vão dividindo e subdividindo em ramos e ramilhos, até se perderem de vista, o sentido de cada palavra parece-se com uma estrela quando se põe a projectar marés vivas pelo espaço fora, ventos cósmicos, perturbações magnéticas, aflições.

José Saramago Todos os nomes

I

...................................................................................................................................................................... Spink e Vera Mincoff Menegon ................................................................................................................................................................................... Spink e Rose Mary Frezza ..........SUMÁRIO APRESENTAÇÃO .... 188 II ..... 22 CAPÍTULO III A Pesquisa como Prática Discursiva: Mary Jane P................... 1 CAPÍTULO II Produção de Sentido no Cotidiano: Mary Jane P........................................ Spink e Helena Lima ....IV CAPÍTULO I Práticas Discursivas e Produção de Sentido: Mary Jane P................... 156 CAPÍTULO VIII Por Que Jogar Conversa Fora? Vera Mincoff Menegon ...... 42 CAPÍTULO IV Rigor e Visibilidade: Mary Jane P... 71 CAPÍTULO V Análise de Documentos de Domínio Público Peter Spink .................... Spink e Benedito Medrado................................... 127 CAPÍTULO VII Entrevista: uma Prática Discursiva Odette de Godoy Pinheiro............. 100 CAPÍTULO VI Garimpando Sentidos em Bases de Dados Lia Yara Lima Mirim ...................

........................................................................................... Passarelli.......... 242 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ........................... 252 AUTORES ..CAPÍTULO IX Textos em Cena: Benedito Medrado ................................................................................. 215 CAPÍTULO X Imagens em Diálogo: Carlos André F........... 263 III ..................................................................

a partir de 1996. é uma prática social e como tal. assumiu. afinal. De empreitada típica dos fazeres intelectuais. papers e painéis em coautoria. uma forma específica de pesquisar em Psicologia Social foi se definindo para mim a partir de leituras e de pesquisas. os encontros e desencontros. as críticas. quando muito. Ampliavam-se as oportunidades para levar as ideias a passear e fazê-las conversar com outros autores. Mas para que as ideias extrapolassem esse âmbito mais intimista foi preciso que fizessem sentido também para outros. esses interesses tinham na Saúde Pública o seu foco. leituras compartilhadas – ideias testadas. pautada pela interface entre leituras e pesquisas e tornada visível em texto e fala. na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.APRESENTAÇÃO Esta coletânea é fruto de uma longa trajetória. é claro. progressivamente. nos encontros no Núcleo de Pesquisa em Psicologia Social e Saúde. seria possível propor que o caráter coletivo desta obra definiu-se a partir de várias etapas. Não por acaso. Mas crescia também a dificuldade de socializá-la. Não se trata de uma proposta coletiva em sua origem. a perspectiva coletiva se fazia presente. mas de um coletivismo resultante do próprio desenvolvimento teórico. Emergiu dessas discussões a demanda de uma apresentação mais sistemática dessas ideias. Em retrospecto. perpassada por dialogia. Sendo muitos os colaboradores. Não por acaso. gerando. Esses eram ainda fóruns acanhados: diálogos travados em momentos de orientação. já em formas coletivas: mesas. Pensar. expandia-se a proposta. um caráter coletivo. outros referenciais. Esses outros foram inicialmente os vários orientandos de Mestrado e Doutorado para quem as ideias encontravam ecos. Eram poucos os textos escritos por IV . as propostas de seminários avançados e as inúmeras participações em congressos. portanto. Coletivizava-se paulatinamente a proposta através da disponibilidade de falar sobre e de escutar as dúvidas. Primeiramente.

Pedrinho é uma voz que se faz presente neste livro. aí sim propiciando contribuições deliberadas. elaborado no âmbito da Teologia. teve um papel ativo para além do que ele possa estar ciente. Não só entre os autores. em seminário recente. travaram-se em dois momentos. Também Rogério Costa. Referiase ele à sociabilidade intrínseca do conceito de pessoa.nós. muitas outras pessoas contribuíram. professor da PUC-SP cujas virtudes filosóficas tantas vezes nos iluminaram. Tornava-se urgente. Os debates. uma apresentação mais sistemática das reflexões que fazíamos. Não um projeto acabado pois eles nunca o são. No início desse ano fomos convidados para discutir nossas ideias no 4o Encontro Científico do Centro de Investigação Sobre 2 Desenvolvimento e Educação Infantil – CINDEDI. assim. Travou-se nesse contexto um rico debate visando problematizar conceitos e esclarecer dúvidas. 22 a 25 de novembro de 1998. Por exemplo. às vezes sem nem ao menos terem consciência da imensa contribuição que fizeram. fornecendo uma pista valiosa para redefinir subjetividade (e o conceito de indivíduo aí abrigado) a partir da perspectiva construcionista. mas de fornecer alguns textos por nós considerados básicos que foram lidos e discutidos anteriormente pelo grupo. V . Mesmo sem compartilhar dos pressupostos que embasam nossa proposta. Foi uma experiência muito rica.1 inadvertidamente forneceu um conceito que se tornou central para nossos esforços de desfamiliarização das perspectivas essencialistas. Foi uma primeira oportunidade de testagem de conceitos e do inter-relacionamento 1 Simpósio Internacional sobre Representações Sociais – Questões Epistemológicas. As reflexões estavam confinadas às teses e dissertações – sempre de difícil circulação – ou às apresentações orais em congressos – de circulação ainda mais difícil. surgiu dessa premência a proposta de elaboração de uma coletânea de textos que refletissem o que propúnhamos. Não se tratava de fazer uma palestra. Mas como uma oportunidade para ampliar o debate. Pedrinho Guareschi. Sendo muitos os autores e novas as ideias. ou um seminário. 2 Realizado no período de 2 a 5 de fevereiro de 1999 na FFCL da USP em Ribeirão Preto. a própria elaboração do livro suscitou um rico debate. Rio Grande do Norte. Natal.

Muitos compareceram às reuniões do Núcleo especificamente para a discussão dos quatro capítulos iniciais. Muitos não puderam comparecer. Agradecemos muito especialmente as contribuições dos colegas que enfrentaram algumas horas de estrada para estarem presentes nessas discussões: Marisa Japur. impossível. doutorando na Faculdade de Enfermagem da USP de Ribeirão Preto. direta ou indiretamente. Reconhecemos também as contribuições de colegas da Faculdade de Saúde Pública da USP: Oswaldo VI . achamos que seria interessante apresentar esses capítulos ao Núcleo de Pesquisa em Psicologia Social e Saúde de modo a usufruir das experiências que os membros do Núcleo já tinham no manuseio dos conceitos-chave que serão aqui discutidos. Emerson Fernando Rasera (o Mera). alunos e pesquisadores de outras instituições. dar nomes às muitas vozes que se fizeram ouvir. doutoranda. pela importante sugestão de leitura de um texto de Fernand Braudel. Mas impossível também deixar de mencionar duas colegas – Maria Clotilde Rossetti Ferreira e Ana Maria Almeida Carvalho – pelo carinho com que acolheram nossos posicionamentos teóricos. Foram muitas as pessoas presentes e muitas as contribuições. da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Tendo em vista a riqueza da experiência junto ao CINDEDI. de agradecer a Ana Paula Soares da Silva e os membros do Grupo de Trabalho de Entrevista. comunicamos a eles essa proposta. Como participam do Núcleo. Um segundo momento de debate ocorreu já na fase de elaboração dos capítulos desta coletânea. mestrando nessa mesma Instituição. de mencionar o nome de Carmem Craidy. portanto. Foram discussões preciosas. Ana Paula Silva. que leram nossos textos com tanta atenção e conduziram o debate com tanta propriedade. Uma experiência inesquecível de trocas pautadas pelo respeito mútuo – até mesmo quando os pressupostos não podiam ser compartilhados. Ficamos encantados com a receptividade. e Daniel Gonzalo Eslava. professora da FFCL da USP de Ribeirão Preto.desses em um ambiente receptivo e disposto a dialogar com o referencial em desenvolvimento. mas se fizeram ouvir enviando seus comentários por correio.

e concluiu: – Andam voando por aí. Sônia Andrade e Cristina Melo. Trata-se de reconhecer as contribuições e o tempo despendido e de aceitar a responsabilidade pelas ideias formuladas no conjunto dos textos desta coletânea. como os anjos.Tanaka. que da lonjura do Kentucky enviou tantas contribuições preciosas. os alunos do Mestrado e Doutorado da PUC-SP. o problema da autoria. sim. Quiçá. – As ideias não são de ninguém – disse. – É horrível – disse o bispo. não poderia ser de outra forma!! Mas vivendo em outras épocas. Ao bispo aquilo pareceu uma coincidência natural. Acatar a natureza coletiva das ideias não elimina a responsabilidade de cada um por fazê-las circular. Assumo eu. A frase surpreendeu o marquês. O que vem a ser autoria quando tantas vozes se fazem presentes? Quando fazemos interlocução com tantos autores? Quem somos. – cada hora me ressoa nas entranhas como um tremor de terra. E. membros atuais – ou futuros – do Núcleo. como Jacqueline Machado Brigagão. a necessidade de contabilizar esforços. Restou-nos. e Marcos Reigota. professor do Departamento de Saúde Materno Infantil. como herdeiros de Bakhtin. pois era o mesmo que ele pensara quando soaram as quatro. Deixo público meu reconhecimento pelo empenho e investimento de dois dos VII . personagem do conto de Gabriel Garcia Marquez. quando foram surpreendidos pelas badaladas das cinco. Agradecemos ainda os comentários de colegas que se fizeram presentes por vias eletrônicas. que em suas perambulações globais encontrou tempo para nos enviar por correio (nada eletrônico) suas ponderações. Do amor e outros demônios. assim. portanto. desenhou no ar uma série de círculos contínuos. Com o indicador. ainda. Conversavam ele e o marquês de Casalduero. doutorandas nesse mesmo Departamento. o que fizemos? Talvez tudo o que podemos fazer é concordar com Dom Toríbio de Cáceres y Virtudes. a responsabilidade pela organização desta coletânea. coloca-se.

em seu conjunto. fruto de reflexões e pesquisas realizadas pelo grupo. a cuidadosa revisão dos textos feita por Teresa Cecília de Oliveira Ramos. intitulado Práticas discursivas e produção de sentido: a perspectiva da Psicologia Social . Tem como objetivo problematizar o conceito instituído de pesquisa científica e apresentar a posição construcionista. escrito em coautoria com Vera Mincoff Menegon. foi escrito em coautoria com Benedito Medrado e tem por objetivo discutir os pressupostos e definir os conceitos que vêm fornecendo subsídios para a compreensão da produção de sentidos no cotidiano a partir da análise das práticas discursivas. retoma a problemática do rigor à luz dos processos de interpretação. como não poderia deixar de ser. ainda. Os capítulos seguintes. buscando ressignificar. A pesquisa como prática discursiva: superando os horrores metodológicos. escrito em coautoria com Helena Lima. Agradeço. O primeiro. volta-se à discussão metodológica. Gorgati. introduz algumas das técnicas que vêm sendo utilizadas por nós para dar visibilidade ao processo de interpretação. o conceito de rigor. Constituem por vezes exemplos de uso das técnicas apresentadas no capítulo quatro. têm. compreende quatro capítulos escritos em coautoria. abordar a diversidade de formas de coletar informações para dar subsídios à compreensão dos processos de produção de sentido a partir das práticas discursivas. Fazendo uma ponte com os capítulos seguintes da coletânea. Produção de sentido no cotidiano: uma abordagem teórico-metodológica para a análise das práticas discursivas. O capítulo quatro. mais coletiva e foco dos debates travados. Buscam. A primeira parte. O terceiro capítulo. O segundo capítulo. sem ser esse entretanto seu objetivo VIII . Situa a perspectiva construcionista e a forma de trabalhar com linguagem no âmbito da Psicologia Social. Rigor e visibilidade: a explicitação dos passos da interpretação. De resto. as autorias definem as características do próprio livro. autoria única. foi escrito em coautoria com Rose Mary Frezza e visa fornecer o contexto histórico da perspectiva teórica endossada na coletânea como um todo. Maria Helena de Carvalho e Rita de Cássia Q. nesse processo.meus colaboradores mais próximos – Benedito Medrado e Vera Menegon.

inicia com uma discussão sobre a ciência como linguagem social que tem formas peculiares de apresentação e circulação de discursos. intitulado Análise de documentos de domínio público. entendida como prática discursiva. Assim. Busca ainda exemplificar os procedimentos de análise e interpretação de dados relacionados à entrevista. a partir de pesquisa focalizada na entrevista inicial de um Serviço de Saúde Mental da rede básica. de autoria de Peter Spink.explícito. o capítulo cinco. Para isso. seja pela forma de análise e identificação do material ou pelo tratamento que dão à temática do tempo. de autoria de Lia Yara Lima Mirim. explora as possibilidades de trabalhar os documentos de domínio público (relatórios. Mas pontua também a especificidade do tratamento que a Psicologia Social dá a esses documentos visto que eles refletem práticas discursivas que. Focaliza então a crescente importância das bases de dados como acesso à literatura científica e fornece um exemplo de uso de uma base específica (o Medline) utilizada em pesquisa sobre a construção social do sentido do teste HIV. Entrevista: uma prática discursiva. jornais etc. O capítulo sete. de Vera Mincoff Menegon. de Odette de Godoy Pinheiro. intitulado Por que jogar conversa fora? Pesquisando no cotidiano.) como processos sócio-históricos de construção de saberes e fazeres. Focalizam as diferentes maneiras em que a construção dialógica do sentido se faz presente no cotidiano. Posiciona assim as conversas como modalidades privilegiadas para o estudo da IX . O capítulo seis. tem por objetivo discutir a utilização da literatura científica como recurso metodológico em pesquisa. Chama a atenção para as importantes contribuições que os historiadores podem trazer para a Psicologia Social. propõe que as conversas podem ser algo mais do que um mero hábito corriqueiro do cotidiano. para além do que está impresso em suas páginas. Garimpando sentidos nas bases de dados. O capítulo oito. são parte do processo de construção da esfera pública. discute os aspectos teórico-metodológicos relacionados à (inter)ação dos interlocutores na situação de entrevista. arquivos.

dessa forma. Discute a reconfiguração entre as dimensões do público e privado proporcionada pela mídia a partir de seu poder de dar visibilidade aos fenômenos sociais e de construir novas dinâmicas interacionais. Ou talvez apenas novas configurações de velhos olhares. São todos eles trabalhos estimulantes. Imagens em diálogos: filmes que marcaram nossas vidas. No capítulo nove. Para tanto. Traz. Mary Jane Paris Spink São Paulo. algumas reflexões sobre as peculiaridades e a importância das conversas nas interações sociais de nosso cotidiano.produção de sentido. apresenta algumas experiências de pesquisa com jornais e comerciais de televisão. Propostas de análise que buscam entender os fenômenos do cotidiano a partir de um olhar pautado pela dialogia dos processos sociais implícita nas práticas discursivas que permeiam nosso dia-a-dia. De modo a ilustrar alguns processos que caracterizam a produção midiática. enunciação e gêneros discursivos busca compreender que imagens podem se formar no campo da Psicologia Social a partir das que são projetadas na tela do cinema. São olhares novos. de autoria de Carlos André F. Textos em cena: a mídia como prática discursiva. Passarelli. buscando entendêlos a partir da perspectiva teórica dos estudos de linguagem de Bakhtin. busca discutir os pressupostos do processo de recepção de sons e imagens em movimento que constitui o campo de análise de filmes. Com base nos conceitos de dialogia. O capítulo dez. 15 de junho de 1999 X . baseando-se na pesquisa que realizou com conversas cujo assunto em pauta era a menopausa. apresenta os elementos que compõem a linguagem cinematográfica. Benedito Medrado focaliza conceitos e processos que são centrais aos estudos em mídia.

Concebendo o sentido como uma construção dialógica. buscaremos. Não pretendemos. Faz-se necessário esclarecer que o objetivo é nos posicionarmos no debate contemporâneo. Consideramos necessário. do construcionismo ou das correntes filosóficas que privilegiam a linguagem. entendendo ser necessário também situar a noção de linguagem que embasa a proposta de trabalho com práticas discursivas. na segunda parte do capítulo. Embora focando o estudo da produção de sentido na Psicologia Social. buscaremos situar brevemente a genealogia da temática produção de sentido. entretanto. Spink e Rose Mary Frezza O objetivo deste capítulo é fornecer o contexto histórico necessário para a compreensão da proposta teórico-metodológica do estudo da produção de sentido no cotidiano. no âmbito da Psicologia Social. aspecto que será explorado na primeira parte deste capítulo. ainda. abordaremos essa temática na terceira parte do capítulo. assim. Do ponto de vista da Psicologia Social. consideramos que a proposta teórico-metodológica em construção é 1 . o estudo da produção de sentido a partir da análise das práticas discursivas. esclarecer quais afiliações pautam nossa proposta. A contextualização a ser feita aqui busca situar. Finalmente. explicitar os fundamentos epistemológicos desta proposta a partir de uma breve apresentação da perspectiva construcionista em Psicologia Social. que será apresentada nos capítulos que compõem esta coletânea.CAPÍTULO I PRÁTICAS DISCURSIVAS E PRODUÇÃO DE SENTIDO: A perspectiva da psicologia social Mary Jane P. situar a produção de sentido como forma de conhecimento que se afilia à perspectiva construcionista e situar as práticas discursivas dentre as várias correntes voltadas ao estudo da linguagem. Busca. fazer uma análise histórica da Psicologia Social.

e até mesmo na força do grupo em direção à conformidade. o interesse pela compreensão dos sentidos na vida cotidiana era. Ernest Hilgard. em cognição. (1953). visto como suspeito. ou pelo menos da ortodoxia da disciplina. London: Methuen. uma espécie de tendência central operando socialmente em direção ‘a média. Até os anos setenta. 1. Para concretizar o projeto científico. um procedimento regular. Buscando responder à pergunta: como damos sentido ao mundo em que vivemos?. vivia-se o sonho da Psicologia Científica.1 em influente obra publicada nos anos cinquenta. E. Introduction to Psychology.necessariamente interdisciplinar. Psicologia Social e a compreensão do sentido na vida cotidiana A expressão dar sentido ao mundo nem sempre fez parte do projeto da Psicologia Social. afirmando que a Psicologia. em interação. reiterava o discurso corrente na época. predizer e controlar o comportamento de homens e outros animais. explícito e passível de ser repetido para conseguir-se alguma coisa”. Falava-se em percepção. 2 .. a partir da reflexão sobre as formas possíveis de concretizar uma proposta metodológica. tal como outras ciências. Essas interfaces serão expostas e discutidas ao longo dos capítulos seguintes. No afã de definir conceitos e mecanismos universais passíveis de demonstração empírica de cunho experimental. tornou-se imprescindível estabelecer uma interface com a História e com a Antropologia – como resultado da necessária reflexão sobre o contingente e o universal –. no mínimo. traduzido em sua prática. a partir da hegemonia do método científico: “.. em atitudes. pensando ciência como um fazer pautado pela demonstração e generalização dos resultados. na definição fornecida por Mario 1 Hilgard. busca compreender. e também com a Filosofia (e mais especificamente com a Epistemologia). apoiavase sobretudo no método.

Michael Billig (. 19. Paris: Presses Universitaires de France (traduzido para o português pela Editora Vozes). desse contexto. 7 O estudo das atitudes é um excelente exemplo desse movimento de progressiva individualização dos conceitos centrais da disciplina.A. 7 A esse respeito. Method and Theory in Experimental Psychology. São Paulo: T. 5 Por exemplo. The Roots of Modern Social Psychology..).. Piaget. Robert Zajonc afirmava: “A Psicologia Social não é um ‘tipo’ ou uma ‘escola’ da Psicologia. 2 Emerge. R. (1980). Oxford: Blackwell (traduzido para o português pela Editora Vozes. H. (1938). Osgood.. New York: Oxford University Press (já na sétima edição em 1962). de forma maliciosa. London: Methuen (revisado em 1954). Queiroz. (1966). É d ecididamente um ramo da Psicologia. (1996). Califórnia: Wadsworth. poucos psicólogos. M. (1953). ao usar o termo metafísica. 3 . J. emprega-o no sentido de “reflexão crítica sobre a natureza do ‘mundo’ a ser investigado”. Epistemologia. abandonando as raízes mais sociais dos fundadores da disciplina (entre eles George Mead e Kurt Lewin) e fortalecendo a perspectiva individualista em Psicologia Social. por exemplo: Woodworth. Experimental Psychology. p. p. 1998). faz um jogo de palavras.. Social Psychology: an Experimental Approach. na tradição inaugurada em 1918 2 3 Bunge..). 4 Com raras exceções. C. Harré. falava-se pouco em bases filosóficas. R. 4 Em livro publicado em 1966. ver Farr.5 É isso é o que aponta Rom Harré. (1970).Bunge.6 em recente reavaliação da Psicologia Social contemporânea. visto que a ciência moderna define-se sobretudo pela contraposição à metafísica. R.) e John Shotter (. que os psicólogos são avessos à metafísica. quando afirma. Diz ele: ao contrário dos físicos. Eram essas as forças hegemônicas que empurravam os psicólogos sociais para o laboratório. engajam-se em investigações filosóficas de sua prática ou no exame crítico das bases metafísicas implícitas de suas teorias (1993:24). a influente vertente da Psicologia Experimental3 com suas ressonâncias na Psicologia Social Experimental. & Schlosberg. Exploradas inicialmente por sociólogos e psicólogos. e reconhece integralmente as leis da Psicologia Geral e Experimental”. 6 Psicólogo e filósofo que contribuiu para as obras iniciais de psicologia crítica. 2. Veja-se. L'Épistémologie Génétique. com exceção de figuras notáveis como Jerome Bruner (. Zajonc..

esboçava-se uma reação ao paradigma dominante de fazer ciência em Psicologia Social. 11 Já a perspectiva naturalista do estudo de comportamentos em seu ambiente natural tem na obra de Edwin Willems e Harold Rauch12 um marco importante. abandonando. 9 Estamos nos referindo. os estudos de campo.R. New York: Dover Publ. New York: Doubleday Anchor. K. P. entre outros. São Paulo: Edicon. fazendo parte de uma vertente denominada Psicologia Social Sociológica que se constituiu em contraposição à Psicologia Social Experimental. New Jersey. & Rauch. No final dos anos cinquenta e na década de sessenta. a seguir. (1958). Lorenz. o que levou a uma revalorização do estudo dos processos sociais – inspirada. Allport sobre atitudes. W. Mass. ao artigo de G. The Polish Peasant in Europe and America. M. sair do laboratório implicava acatar a visão do outro. (1986). 11 Nesse contexto destaca-se John Bolwby como precursor. L. Handbook of Social Psychology. & Znaniecki.pelo estudo de William Thomas e Florian Znaniecki 8 sobre camponeses poloneses emigrados para os Estados Unidos. por exemplo. 1959 (traduzido para o português pela Editora Vozes).C. aqui. On Aggression. A valorização da observação minuciosa dos comportamentos pode ser exemplificada com o fortalecimento do ensino da Etologia nos cursos de graduação10 e com as pesquisas sobre comportamento infantil da Psicologia do Desenvolvimento. a ser estudadas preferencialmente por meio de escalas e situações experimentais em laboratório. Ver Ferreira. passaram primeiramente por uma purgação nominal. W. 10 O fortalecimento do ensino de Etologia foi impulsionado pelo trabalho de Lorenz e Tinbergen. F. 1963 (traduzido pela Editora Zahar) 4 . Dentre eles destacamos: The Presentation of Self in Everyday Life. 13 Os trabalhos de Goffman marcam uma distinção na produção do conhecimento em Psicologia Social. Worcester. Murchinson (org. impulsionada inicialmente em duas direções: a valorização da observação dos comportamentos em situações naturais e o estudo de comportamentos em seu ambiente natural. 9 Passaram. publicado em C. Mães e Crianças – separação e reencontro. (1969). E. New York: Holt. London: Methuen. A. Inevitavelmente. no trabalho de Erving Goffman 13 sobre dramaturgia 8 Thomas. Por exemplo. 12 Willems. deixando de ser denominadas de atitudes sociais para adotar apenas a qualificação de atitudes. H. (1966). e Stigma.) (1935).: Clark University Press. USA: Prentice Hall. em larga medida. Naturalistic Viewpoints in Psychological Research.

Reconstructing Social Psychology. organizado por Joachim Israel e Henri Tajfel e publicado em 1972. publicado em 1976. London: Routledge. Parker. com forte influência na América Latina. e especialmente na década de setenta. organizado por Nigel Armistead e publicado em 1974. mas que adquirem uma conotação singular por serem reflexões feitas a partir do ponto de vista dos dominados. na legitimação da ordem social). antes de mais nada. que reagia contra a psicologia de laboratório. Essas obras congregam muitos dos autores que. 1989 e o livro Psicologia Social: o Homem em Movimento. São obras que focalizam. de uma virada metodológica. The Crisis in Modern Social Psychology – and how to end it. 5 . Dentre as obras importantes para esta reflexão destacamos (no contexto Europeu): The Context of Social Psychology. solo em que se ancoraram os teóricos pós-modernos da Psicologia Social. Radical Perspectives in Psychology. Tratava-se. 15 Ver. Antes de adentrar a caracterização dos posicionamentos construcionistas e suas 14 La Psychanalise – son image et son public. 1983. A partir dos anos sessenta.15 Um pouco mais tarde. publicado pela primeira vez em 1984. Obviamente o impulso metodológico tem implicações para a própria definição do que vem a ser o objeto da Psicologia Social. surgiram importantes reflexões críticas focando tanto a naturalização do fenômeno psicológico (que faz perder de vista o fato de que os conceitos e teorias são produtos culturais. portanto.e de Serge Moscovici14 sobre o conhecimento do senso comum. socialmente construídos e legitimados) como a despolitização da disciplina (que faz perder de vista o papel da disciplina. a naturalização e despolitização da Psicologia. de Nick Heather. foram publicadas as obras de Ignacio Martín Baró (Acción e Ideología. na Europa. definiram as bases para a Psicologia Social Crítica. (1989). 1961 (traduzido para o português pela Editora Zahar). tal como os antecessores europeus. por exemplo. entendida como domínio de saber. e Sistema. I. É esse. organizado por Silvia Lane e Wanderley Codo. Paris: Presses Universitaires de France. o contexto histórico em que se apoia a proposta de estudo da produção de sentido por meio das práticas discursivas. Grupo y Poder.

Nem toda a Psicologia Social é uma psicologia crítica. na Psicologia Social. para isso.implicações para o trabalho com linguagem. obviamente. Kenneth Gergen e Tomás Ibáñez. Os três movimentos são.. Trata-se da longa hegemonia norteamericana na psicologia acadêmica. 2. como busca de empowerment de grupos socialmente marginalizados. é mais sutil e seus efeitos mais difíceis de identificar sem cair em afirmações tendenciosas. 6 . na Sociologia do Conhecimento. é importante frisar que. e também a psicologia crítica apresenta-se polissêmica: muitos são os seus sentidos. refletindo um movimento mais amplo de reconfiguração da visão de mundo própria a nossa época. como uma desconstrução da retórica da verdade. apoiando-nos. A primeira. Construcionismo e Psicologia Social A perspectiva construcionista é resultante de três movimentos: na Filosofia. A segunda. o novo e o velho convivem. algumas das piores características do antigo programa persistiram praticamente inalteradas (1993:24). admite ele.) uma mistura desconcertante de desenvolvimentos e desapontamentos. a resistência às inovações. e na Política. lado a lado.. Sendo impossível fazer uma discussão mais ampla no escopo deste trabalho. a qual tem exercido uma pressão contínua no sentido da incorporação do individualismo e do cientificismo na Psicologia Social e. segundo Harré. mas. em quatro autores: Peter Berger e Thomas Luckmann. paralelamente. duas fontes de conservadorismo na Psicologia Social: uma filosófica e outra cultural. interdependentes. iremos focalizar o construcionismo a partir da Psicologia Social e da Sociologia do Conhecimento. Há. como consequência. Nas palavras de Harré: A história da psicologia social nos últimos vinte anos tem sido (. Ocorreram expansões e aplicações vigorosas do “novo paradigma”. em vários lugares. decorre da falta de reflexão filosófica entre os psicólogos. como mencionamos anteriormente. como uma reação ao representacionismo. como em tantos outros domínios de nossa vida.

publicado originalmente em 1966. J. D. filósofo alemão que cunhou o termo Sociologia do Conhecimento na década de vinte. O termo construtivismo. pela reflexão sobre a relação entre a atividade humana e a consciência. O construcionismo na perspectiva da Sociologia do Conhecimento Quando falamos em construcionismo. H. Shotter & K. como campo empírico. Pragmatics of Human Communication. (1992). por exemplo. já um clássico.Esses autores utilizam. Beavin. D. Gergen: Texts of Identity. Mas a disciplina propriamente dita tem como fundadores Max Scheler.17 Decorre daí nossa opção por essa nomenclatura. a excelente análise de Nicholas Rose sobre o tema. a própria noção de indivíduo é uma construção social. e de seu livro. P. por exemplo. Individualizing Psychology. que lhe deu os contornos clássicos. a Sociologia do Conhecimento focalizava questões epistemológicas utilizando. da Escola de Palo Alto. uma vez que ele é empregado também pelos autores vinculados à escola piagetiana para referir-se à centralidade da atividade do sujeito no desenvolvimento cognitivo. N. A Sociologia do Conhecimento tem ancestrais imponentes: Karl Marx.1. Friedrich Nietzsche. preferencialmente. lembramos que. centrados na relação entre ideologia e verdade. Watzlawick. Rose. Em seus primórdios. 17 Vide. dessa forma. gerar confusões conceituais. e Karl Mannheim. mesmo quando o indivíduo é concebido como um ser em sociedade. (1968).16 O uso desse termo pode. a expressão construção social para falar da ação. & Jackson. e construcionismo para referir-se à abordagem teórica. London: Faber and Faber.. para o construcionismo. e Wilhem Dilthey. 2. intitulado A Construção Social da Realidade. vem à mente o nome de Peter Berger e Thomas Luckmann. Em J. Há autores que empregam o termo construtivismo. pelo historicismo marcante de sua obra. 7 . herdeiros de Gregory Bateson e Paul Watzlawick. dá margem à adesão (ainda que não intencional) a uma perspectiva individualista. a história das 16 Ver. entretanto. pelo anti-idealismo ferrenho da Genealogia da Moral e de A Vontade de Potência. como por exemplo aqueles vinculados às correntes teóricas da terapia familiar sistêmica. J. presente sobretudo nos Manuscritos Econômicos e Filosóficos. Califórnia. London: Sage.

usam e abusam de conceitos problemáticos como realidade e conhecimento. Um exemplo de esquemas tipificadores são os preconceitos (de gênero. o conhecimento do senso comum. Na obra acima referida. hoje suspeita. usam o conceito de institucionalização para situar como essa objetividade é 8 . Berger e Luckmann subvertem essa ordem instituída partindo de uma reorientação da reflexão. a realidade é construída socialmente).ideias ou a história das ciências. mas pertencem a sua época. A partir do conceito de tipificação. Falam em homens para referirem-se às pessoas. e fazem uma distinção. a importância de focar essa dimensão do conhecimento se justifica à medida que “é precisamente este ‘conhecimento’ que constitui o tecido de significados sem o qual nenhuma sociedade poderia existir” (Berger & Luckmann. Essa é uma proposta interacionista. institucionalização e socialização. à medida que a base da realidade da vida cotidiana são as interações face a face em que o outro é apreendido a partir de esquemas tipificadores. Partindo do pressuposto de que a sociedade é uma realidade objetiva. os autores partem do pressuposto de que a realidade é socialmente construída e que a Sociologia do Conhecimento deve analisar como isso ocorre. Berger e Luckmann são inovadores. de raça etc. centrando-se no conhecimento do homem comum. não se leva em conta o conhecimento que os homens comuns têm da realidade. A crítica que fazem é com relação à compreensão intelectualista do conhecimento que o restringe ao pensamento teórico. As heranças de Mead e Goffman são visíveis. Para esses autores. 1966/1976:30). não reconhecendo os avanços da reflexão feminista. eles propõem que a sociedade é um produto humano (ou seja. Eles operacionalizam sua proposta a partir da indagação: como é possível que os significados subjetivos se tornem facticidades objetivas? Essa indagação é respondida a partir de três conceitos centrais da proposta teórica dos autores: tipificação. ou seja. entre ideias – domínio dos homens sábios – e senso comum – domínio do povo. embora os usem entre aspas. pois. nessa dimensão.).

construída. (1994). é que o homem é um produto social. como sociólogos. um dos primeiros psicólogos sociais a focalizar o conhecimento nessa perspectiva. será nosso principal interlocutor com base em um artigo publicado no American Psychologist em 1985.: Harvard University Press. Cambridge. adquirem autonomia e institucionalizam-se. A investigação. ver: Gergen. como hábitos. os processos de produção de sentido na vida cotidiana. 9 . Mas não se trata de um modelo estático pois. K. Kenneth Gergen. que são porta-vozes dessa perspectiva no âmbito da disciplina. os processos de ressocialização e as rupturas decorrentes do enfrentamento do não familiar possibilitam a ressignificação e a transformação social. tendem a focalizar justamente o momento da interação. explicam ou dão conta do mundo (incluindo a si mesmos) em que vivem” (Gergen. Defendem que os esquemas tipificadores. O construcionismo na Psicologia Social Berger e Luckmann.18 Nesse artigo. sob essa perspectiva. aqui. Já os autores da Psicologia Social. a partir dos quais o outro é apreendido. 1985:266). Gergen afirma: 18 Para uma versão mais recente da posição de Gergen. O pressuposto. difere do enfoque tradicional por transferir o locus da explicação dos processos de conhecimento internos à mente para a exterioridade dos processos e estruturas da interação humana. preocuparam-se sobretudo com os processos de conservação e transformação social: daí focalizarem os processos de tipificação. institucionalização e socialização.2. ou seja. ele define o que vem a ser a investigação construcionista: “A investigação socioconstrucionista preocupa-se sobretudo com a explicação dos processos por meio dos quais as pessoas descrevem. tornam-se habituais com o decorrer das gerações e. É justamente esse processo de institucionalização que gera a objetividade percebida. se a socialização é um instrumento de conservação. Essa objetividade instituída é internalizada por meio de processos de socialização primária e secundária. Realities and Relationships: soundings in social construction. Mass. 2.

estão entremeadas com todas as atividades humanas (1985:267-268). A adoção plena da perspectiva construcionista exige. para novas construções. para se referir ao trabalho necessário de reflexão que possibilita uma desfamiliarização com construções conceituais que se transformaram em crenças e. abdicar da visão representacionista do conhecimento. produtos de intercâmbios historicamente situados entre pessoas (. adotar a concepção de que o conhecimento não é uma coisa que as pessoas possuem em suas cabeças.. Damos preferência ao termo desfamiliarização porque dificilmente “des-construímos” o que foi construído. um esforço de desconstrução de noções profundamente arraigadas na nossa cultura. mas as anteriores ficam impregnadas nos artefatos da cultura. a concepção representacionista do conhecimento. por um lado. enquanto tais. Criamos espaço.. O termo desconstrução é utilizado. teorias) e a ressignificação contínua e inacabada de teorias que já caíram em desuso. um movimento que permite a convivência de novos e antigos conteúdos (conceitos. constituindo o acervo de repertórios interpretativos disponíveis para dar sentido ao mundo.). aqui. e. Para falar desses esforços de desfamiliarização nos apoiaremos nos escritos de Tomás Ibáñez. 1979/1994). por outro. Nesse sentido. a retórica da verdade e o cérebro como instância produtora de conhecimento. colocam-se como grandes obstáculos para que outras possam ser construídas. assim. psicólogo social da Universidade Autônoma de Barcelona. Utilizaremos mais especificamente um texto publicado em 1994 no qual Ibáñez aborda quatro temáticas que estão no cerne do realismo fundante da retórica da ciência na modernidade: a dualidade sujeito-objeto.Os termos em que o mundo é conhecido são artefatos sociais. e sim algo que constroem juntas.. Decorre daí a espiral dos processos de conhecimento.). convida-se à investigação das bases históricas e culturais das variadas formas de construção de mundo (. 10 . Desse modo. a qual tem como pressuposto a concepção de mente como espelho da natureza (Rorty. Essa forma de posicionar-se perante o conhecimento implica. As descrições e explicações sobre o mundo são formas de ação social. sim..

linguagem: enfim. implica problematizar a noção de realidade. J. Para o empirismo. Acatar essa afirmação. cada vez mais precisas. R. Isso significa dizer que o conhecimento não é uma 19 Por exemplo. as quais são universais e necessárias para o conhecimento. (1997). a bem dizer.19 Isso significa que é o nosso acesso à realidade que institui os objetos que a constituem. Na perspectiva construcionista. a crítica da concepção representacionista do conhecimento é uma decorrência da desfamiliarização da dicotomia sujeitoobjeto. Se os objetos da natureza são constituídos por nossas categorias. Por fim. então a hegemonia dos sistemas de categorias depende das vicissitudes dos processos sociais e não da validade interna dos constructos. características de ambos. tanto o sujeito como o objeto são construções sócio-históricas que precisam ser problematizadas e desfamiliarizadas. mas sim do sujeito. a esse objeto. for the Theory of Social Behavior 27: 2/3. por outro. a postulação de que a realidade não existe independente de nosso modo de acessá-la. a postulação da existência da realidade) e. Trata-se das categorias do entendimento. produtos de interações historicamente situadas. Alguns dos pensadores construcionistas acabam por acatar uma dupla noção de realidade. pelo realismo ontológico (ou seja. o idealismo e o interacionismo. portanto. se essas categorias são artefatos humanos. pelo construcionismo epistemológico. práticas. 11 . só apreendemos os objetos que se nos apresentam a partir de nossas categorias. a possibilidade do conhecimento não se encontra do lado do objeto. Baskar. uma versão fraca de construcionismo. Já para o idealismo. o conhecimento é produzido na interação entre sujeito e objeto. Por sua vez. Dito de outra forma.A crença na dualidade sujeito-objeto apoia-se em três posturas epistemológicas: o empirismo. por um lado. apresentando. o objeto é a determinação última do conhecimento. constitutivas da mente humana. On the ontological status of ideas . para o interacionismo. entretanto. convenções. pautada. de modo que o projeto científico consiste em aproximações. ou seja. Essa é. de nossos processos de objetivação.

utilidade. então. Basta pensar no poder organizador da dualidade ativo-passivo. Desde Galeno (130 a 200 a. 12 . A verdade é a verdade de nossas convenções. Com o advento da anatomia e com a dissecação sistemática de cadáveres. essas construções não são ficções desenfreadas. Daí. Nesse livro. porque elas têm como limite as próprias características dos humanos que as produzem. o autor focaliza a mudança de concepção que ocorreu nos últimos séculos sobre a anatomia dos órgãos sexuais femininos.) acreditou-se que os órgãos sexuais femininos eram. entretanto. as características sociais e biológicas de pessoas historicamente situadas. apesar das evidências anatômicas. menos impositiva. iguais aos masculinos. Segundo Ibáñez. de perceber que não há uma verdade absoluta. A antiga desfez-se.C. só que internalizados. ou seja. Ibáñez não propõe que vivamos num mundo sem verdades. Não se trata de um vale-tudo. pois os exageros poderiam acarretar na expulsão desses órgãos e na consequente mudança de sexo. Entretanto. No entanto. Trata-se. as evidências acabaram por mostrar que essa concepção era infundada. É importante observar que essa mudança de perspectiva sobre a verdade não significa que possamos abrir mão dela. A obra Making Sex. muitos de seus elementos ainda hoje estão presentes. é exemplar para ilustrar o que acaba de ser dito. de adequação às finalidades que designamos coletivamente como relevantes. embora. reconfigurados numa teoria de gênero. A desfamiliarização da objetividade implícita na retórica da verdade baseia-se na crítica da concepção de verdade como conhecimento absoluto. enfim. foi preciso ainda quase um século para a construção de uma nova concepção. moralidade. perdendo sua coerência interna. No entanto. inteligibilidade. “não há portanto nada que seja verdade no sentido estrito da palavra” (1994:45). anatomicamente. se os critérios de verdade são estabelecidos socialmente. Essa concepção anatômica implicava uma série de restrições à vida da mulher. de Thomas Laqueur (1990). sugere apenas que elas são sempre específicas e construídas a partir de convenções pautadas por critérios de coerência.representação nem uma tradução de algo que pertence à realidade externa. outro modelo interpretativo tornou-se possível. nem por isso. aqui.

e 3) o universalismo. Entretanto. portanto. basta pensar no impacto das tecnologias da inteligência – a escrita. se todo o corpo social se constitui a partir dos organismos que lhe dão sustento. Para Ibáñez. essa não é a única condição. Entender o pensamento e o conhecimento como fenômenos intrinsecamente sociais possibilita superar três premissas que impedem uma adesão plena ao construcionismo: 1) o internalismo. que situa os processos cognitivos dentro da cabeça e reduz a explicação aos processos neurológicos. entre outras. afirma-se. por se constituir na interface cérebro-social. “e. não numa substância. a microinformática. A concepção do cérebro como a instância produtora do conhecimento parte da constatação óbvia de que não podemos pensar se não possuímos um cérebro e de que o pensamento fica prejudicado quando lesionamos determinadas partes do cérebro. mas como relativa a nós mesmos. pontuar sua importância não como verdade em si. O conhecimento é contingente. Consequentemente. Para entender a linha de argumentação utilizada por Ibáñez. que os mecanismos do pensamento estão situados apenas na complexa estrutura de neurônios. O que a postura construcionista reivindica é a necessidade de remeter a verdade à esfera da ética. o mais correto seria dizer que o pensamento tem sua condição na interface entre cérebro e sociedade. de livre e espontânea vontade. mas num processo” (1994:47). o pensamento. seria uma redução dizer que o pensamento é produto apenas das práticas sociais. sendo esse o nível que cabe às ciências biológicas (por exemplo. por exemplo. a imprensa. 13 .incondicionalmente. Ibáñez procura mostrar que. o estudo do cérebro). que faz da cognição um objeto natural. deve se situar no nível das ciências sociais. Com base nessas constatações. 2) o essencialismo. as quais são produções sociais. às ferramentas disponíveis – como. a própria estrutura linguística –. que faz da nossa forma atual de pensar a forma canônica de pensamento. frequentemente. no sentido de que não existem diferenças entre enunciados verdadeiros e falsos ou de que alguém pode estabelecer o que é verdadeiro. embora o cérebro constitua uma condição de possibilidade para o pensamento. também.

e a polêmica que se estabeleceria com a tentativa de traduzir os modos de apreensão antipodianos para os terráqueos. diz ele. mas não tinham noções como “sentir-se maravilhosamente bem”. de estranhamento. então. a chegada de uma expedição vinda da Terra. A crítica endereçada ao relativismo associado ao construcionismo pauta-se numa definição específica do termo a partir da qual toda e qualquer crença sobre um dado tópico é igualmente aceitável. perspectiva filosófica intrinsecamente associada ao construcionismo. A contestação tem como principais alvos o relativismo e o reducionismo linguístico. utilizados por Richard Rorty (1979/1994) para desnaturalizar a perspectiva da mente como espelho da natureza. trazendo consigo alguns filósofos. 2. 14 . o passo primeiro para a desfamiliarização de noções que foram naturalizadas. A querela é “entre aqueles que pensam que nossa cultura. Muito semelhantes a nós. Como as disciplinas mais avançadas eram a neurologia e a bioquímica. pois. Rorty imagina. constituem bons exemplos da possibilidade de outras formas de pensamento. Richard Rorty (1996) comenta: “Os filósofos que são chamados de ‘relativistas’ são os que afirmam que as razões para a escolha entre tais opiniões [referindo-se a opiniões incompatíveis] são menos pautadas por algoritmos do que se pensava” (Rorty. “Isso faz o meu feixe neurônico G-14 estremecer”. Crítica semelhante é endereçada ao pragmatismo. seres ficcionais que habitam um planeta em outra galáxia.Os antipodianos. Objeções ao construcionismo Como toda proposta que se contrapõe ao que nos parece óbvio. nem o que significavam os estados mentais. eles diferiam num aspecto fundamental: não sabiam que tinham mentes. A querela. a abordagem construcionista do conhecimento tende a ser ou absolutamente ignorada ou violentamente contestada. é. A possibilidade de ruptura com o habitual. natural e legítimo. não é entre pessoas que acham que um ponto de vista é tão bom quanto qualquer outro e os que não pensam assim. grande parte da conversação entre as pessoas referia-se ao estado de seus nervos: diziam.3. 1996:166).

que esse algo que adquire estatuto de objeto a partir da linguagem seja de natureza linguística. entretanto. produtos de nossas convenções. somos. Lembramos. no sentido de “arte da conversação”. não há dúvida de que. Quer dizer. das ordens morais e das estruturas de legitimação. os princípios transcendentais – herdeiros de Platão. aqui. de fato. escolher entre as opções que se apresentam são construções humanas.nossos objetivos (purpose) e instituições não podem ser sustentados a não ser conversacionalmente. esse relativismo histórico e cultural só se torna claro numa perspectiva de análise de “tempo longo”. ser invariantes. ainda. Como construções históricas e culturais. mas a opção refletida a partir de nossos posicionamentos políticos e éticos. Quanto ao reducionismo linguístico. conforme o termo grego. portanto. algo adquire o estatuto de objeto a partir do processo de construção linguístico-conceitual. É um convite a aguçar a nossa imaginação e a participar ativamente dos processos de transformação social. em suma. 1996:167). que a centralidade da linguagem no pensamento não é 20 Tomado. práticas e peculiaridades. em contrapartida. reinterpretado por Dilthey –. da querela entre os que almejam atingir as essências. Isso não quer dizer. o construcionismo incorpora a noção de que os critérios e conceitos que utilizamos para descrever. para o construcionismo. 15 . Trata -se. A pesquisa construcionista é. Impõe-se. explicar. um convite a examinar essas convenções e entendê-las como regras socialmente construídas e historicamente localizadas. No cotidiano de nossas vidas. produtos de nossa época e não escapamos das convenções. elas não podem. ressignificado por Kant – e os que enfatizam a conversação como princípio básico da liberdade – herdeiros da dialética. que todos os fenômenos se reduzam à linguagem. Sendo uma vertente do historicismo – de Hegel. apenas. Entretanto. e as pessoas que ainda almejam outros tipos de suporte” (Rorty. que o construcionismo reconhece a centralidade da linguagem nos processos de objetivação que constituem a base da sociedade de humanos. a necessidade de explicitação de nossas posições: não a escolha arbitrária entre opções tidas como equivalentes.20 portanto. por princípio.

16 .. o que está em pauta nas análises discursivas da Psicologia Social é a linguagem em uso. O objetivo é tão-somente situar a perspectiva linguística que vem sendo usada na Psicologia Social de cunho construcionista e. Bruner propõe que. ao estudarmos a linguagem. sobretudo. justamente. O próximo tópico busca.absolutamente um privilégio do construcionismo. Fica mais fácil entender essa perspectiva apoiando-nos em autores que buscam. Em um artigo publicado em 1984. brevemente. assim. Esse é o caso de Jerome Bruner.) perguntamos dos enunciados se eles são bem formados no sentido de conformar-se às 21 Vygotsky. até porque isso requereria um aprofundamento na Filosofia da Linguagem que extrapolaria o escopo deste capítulo. nossos objetivos associam-se a três possíveis critérios. situar a perspectiva linguística com a qual nos propomos a trabalhar. assim. 3. São Paulo: Martins Fontes. Pensamento e Linguagem. mais particularmente. situá-la no conjunto dos trabalhos sobre linguagem. S. como tal. não é dar uma visão de conjunto da linguagem no pensamento contemporâneo. Destacaremos. descritos a seguir. L. cada qual presa a seu sistema de referência teórico e metodológico. portanto. conceitua a linguagem numa perspectiva social. os pressupostos linguísticos que vêm norteando esse trabalho. 3. Outras correntes focalizaram os processos linguísticos: por exemplo. Vygotsky. A linguagem como prática social A linguagem tornou-se um tópico moderno e.1. passou a ser moda falar na virada linguística e citar Wittgenstein ad nauseum.. aqui. 1) Foco na boa formatação (well formedness): “(. com uma multiplicidade de abordagens. O foco nas trocas linguísticas Sem dúvida. Trata-se de um terreno complexo por ser transdisciplinar e contar. (1989). duas correntes analíticas: a que focaliza as trocas linguísticas e a que focaliza o discurso. 21 importante precursor de uma perspectiva que dá à linguagem papel central no desenvolvimento cognitivo e que. A proposta.

e tem um sentido. é uma dupla questão. o performático. em que condições. Obviamente. 3) Foco na performática: “as regras da pragmática (ou melhor.. a um terceiro critério possível para a análise linguística.) isso. se gramática (sintaxe) ou semântica. contrapondo. e que não busca entender o sentido dos enunciados ou o uso que deles é feito. que em 1962 publicou o influente livro How to do Things with Words. Estritamente falando. que em 1969 publicou o livro Speech Acts: an essay in the philosophy of language. Grice22 publicar um artigo em 1957 no qual propunha a existência de dois possíveis tipos de sentido: o sentido a-histórico (timeless) e o sentido ocasional. Noam Chomsky. ou em um mundo possível. por exemplo. 66. 17 . Trata-se da esfera da sintaxe cuja análise refere-se às relações entre significantes. obviamente. H.regras gramaticais que governam a linguagem” (Bruner. Um enunciado refere-se a algo no mundo ‘real’. na esfera da semântica. a qual se refere às condições de uso dos enunciados e que tem como figuras fundantes dois filósofos: John Austin.. Essa tipologia é útil à medida que possibilita situar as contribuições de filósofos e linguistas. Meaning. (1957). Wittgenstein. O contexto não foi problematizado até o filósofo H. são esses mesmos critérios que pautam as reflexões de outro influente filósofo da linguagem. Estamos. que focaliza os aspectos 22 Grice. e Mikhail Bakhtin. P. preso ao contexto de uso. Os dois aspectos juntos constituem o sentido (meaning)” (1984:971). as máximas da pragmática) têm a ver com quando. o debate histórico principal centra-se na gênese primeira. aqui. Philosophical Review. que focaliza a gramática generativa. com que intenção e. assim. cuja análise refere-se aos significados. de que modo devemos falar” (1984:972). 1984:969). e John Searle. cujo livro Philosophical Investigations foi publicado em 1953. como sabemos. Essa é a esfera da pragmática da linguagem. Isso nos leva. 2) Foco no sentido (meaningfulness): “(.

23 Por exemplo. Entretanto. Cambridge: Cambridge University Press. (orgs. possivelmente. Trata-se de Harold Garfinkel. de difícil leitura (o que. resulta de uma multiplicidade de métodos tácitos de formas de raciocinar. 18 . Garfinkel desenvolveu uma série de métodos para estudar a compreensão compartilhada. sem a intervenção do pesquisador. procura entender como os atores sociais obtêm uma apreensão compartilhada do mundo social. centradas na linguagem em uso. Esses métodos são socialmente organizados e compartilhados. e usados incessantemente no cotidiano para dar sentido a objetos e eventos sociais. tendo como foco a sequência de interações (turn of talk) na conversação. ou seja. justamente. que precisam ser mencionadas: a etnometodologia e a análise de conversação. Muitos dos métodos usados para entender essas normas consistem. que publicou seu livro Studies in Ethnomethodology em 1967. A análise de conversação – uma derivação metodológica da etnometodologia – tem por objetivo entender as estruturas normativas do raciocínio que estão imbricadas na compreensão e produção de formas de interação inteligíveis. em observar episódios de quebra das regras. A etnometodologia busca analisar a racionalidade do senso comum. inibiu a difusão de sua obra). Atkinson. sobretudo as interações que ocorrem. sendo nosso foco o uso da linguagem. Structures of Social Actions: Studies in Conversational Analysis. do qual depende a interação e a comunicação. tende a haver uma demanda pela justificação – o que os etnometodólogos chamam de accountability. J. nesse sentido.performáticos subsumidos na perspectiva dialógica que será discutida mais tarde. J. Como sair das normas gera raiva e frustração. 23 A análise visa a descrever os procedimentos usados para sustentar e negociar as relações sociais. Garfinkel parte do pressuposto de que o compartilhamento cognitivo. Todos têm como cerne entender o poder normativo e o conteúdo moral das regras subjacentes à ação social. há duas correntes importantes. são as tramas e repercussões no âmbito das Ciências Humanas que mais nos interessam e. & Heritage.) (1984). A etnometodologia é uma abordagem desenvolvida por um sociólogo assaz hermético. preferencialmente.

o termo análise de discurso tende a ser identificado com o método introduzido por M. que é essencialmente um empreendimento estruturalista. Embora os autores teóricos mencionados venham de uma tradição pós-estruturalista. ambas são abordagens minimalistas que focalizam as minúcias da interação linguística tão excessivamente que perdem de vista o contexto da interação. O segundo autor. uma sistematização dos aspectos conceituais que orientaram suas obras anteriores: História da Loucura. um discurso é determinado pelas condições de produção e por um sistema linguístico. pode-se descobrir a estrutura organizadora ou processo de produção. Nascimento da Clínica e As Palavras e as Coisas24. É dele a afirmação de que “não há nada além do texto”. tomando o contexto como referente do sentido. Dois autores servem de referência a essa área. “Desde que se conheçam as condições de produção e o sistema linguístico. especialmente por meio de seus trabalhos de arqueologia. 3. é Jacques Derrida. cunhando-se aí a expressão análise de discursos. mas também essencial para entender o que vem a ser um esforço de desconstrução do texto. A perspectiva discursiva A linguagem também se tornou foco de interesse para autores voltados à compreensão do poder dos discursos emanados de diversas esferas de saber. As condições de 24 Publicação original em 1961. mais hermético. 1979:214). Para Pêcheux. que exerceu grande influência nos debates e investigações sobre as relações entre saber e poder.No entanto. sem perder de vista a interação. que têm no livro A Arqueologia do Saber.2. 19 . através da análise da superfície semântica e sintática desse discurso (ou conjunto de discursos)” (Bardin. a segunda corrente aqui considerada – a perspectiva discursiva – procura problematizar o contexto discursivo. o que o leva a um embate com as vertentes interpretativas que buscam o sentido do texto privilegiando o que está fora do texto. Em contraste com esse tipo de análise. 1963 e 1966. publicado em 1969. Pêcheux – a análise automática do discurso –. O primeiro deles é Michel Foucault. respectivamente.

os pesquisadores buscam. são definidas pelos lugares ocupados pelo emissor e receptor na estrutura de uma formação social. 1996a) e Ian Parker (Parker. Parker. A função refere-se ao discurso tomado como ação. Essa é uma proposta que se aproxima das configurações atuais da Psicologia Social Discursiva. termo que ele emprega para referir-se às diversas abordagens que suspeitam da pretensão de que é possível experienciar um mundo que estaria para além da linguagem. linguagens. a construção e a variação. 1993) seus mais loquazes teóricos. assim situadas. ancoram-se na tradição da etnometodologia. Potter. constituem o foco central de análise na abordagem construcionista. Por fim. Já a construção diz respeito ao uso dos recursos linguísticos preexistentes – os repertórios interpretativos –. segundo Parker. Implicam ações. Searle e Wittgenstein. 1987. Esse aspecto de sua teoria tem forte influência de Austin. pois é tão produtor de realidade quanto qualquer ação concreta. diferentes situações implicariam a construção de diferentes discursos. ou seja: se o discurso é construído para a ação. entender como os objetos (tais como personalidade. Potter e colaboradores aproximam-se dessa perspectiva ao incluírem entre os aspectos centrais de sua teoria a noção de repertórios interpretativos – o conjunto de termos. uma variedade de produções sociais das quais 20 . A análise de discurso.produção. focaliza três temáticas: a função. enfim. lugares-comuns e descrições usado em construções gramaticais e estilísticas específicas. contextos. Dentro dessa perspectiva. com certeza. 1989. seleções. que tem em Jonathan Potter (Potter & Wetherell. Burman & Parker. segundo Potter e colaboradores. Mas a ênfase de sua proposta é no uso da linguagem e. As práticas discursivas. identifica-se com a perspectiva pós-estruturalista. para Pêcheux. atitudes e preconceitos) são construídos no discurso e como são aí construídos os sujeitos – como nós nos experienciamos quando falamos e quando ouvimos outros falarem sobre nós. para isso. o que implica seleção e escolha. a variação é concebida como consequência da função e da construção. escolhas.

é importante retomar em seus diversos aspectos o contexto histórico do qual emerge o projeto teórico-metodológico de estudo da produção de sentido a partir das práticas discursivas. aquilo que é sua base. métodos. Para concluir. quando a Psicologia Social começa a fazer sua própria crítica quanto ao que produz e quanto à despolitização daí resultante. o senso comum. pois é esse o solo que lhe dá sustentação e possibilita seus desenvolvimentos. Quando a questão do sentido não pode mais ser respondida somente no âmbito da língua. a configuração de um contexto propício para novas buscas: conceitos. É. quando a produção do conhecimento começa a ser questionada por desconsiderar. visão de mundo. então.são expressão. tem-se. portanto. justamente. dessa forma. teoria. no bojo desse movimento que se vem construindo essa nova proposta que denominamos práticas discursivas e produção de sentido. Propor que a produção de sentido é uma força poderosa e inevitável da vida em sociedade e buscar entender como se dá sentido aos eventos do nosso cotidiano fez com que novos horizontes se abrissem e novas perspectivas pudessem ser consideradas. um caminho privilegiado para entender a produção de sentido no cotidiano. 21 . epistemologia. da sintaxe e da semântica. Constituem.

por meio do qual as pessoas – na dinâmica das relações sociais historicamente datadas e culturalmente localizadas – constroem os termos a partir dos quais compreendem e lidam com as situações e fenômenos a sua volta. que a produção de sentido não é uma atividade cognitiva intraindividual.CAPÍTULO II PRODUÇÃO DE SENTIDO NO COTIDIANO: Uma abordagem teórico-metodológica para análise das práticas discursivas Mary Jane P. nem 1 Ver. Neste capítulo. estão as proposições da teoria da Gestalt e sua ênfase na seletividade dos processos perceptivos. seja na sua vertente interacional. Spink e Benedito Medrado O sentido é uma construção social. lembramos que. Em nossa perspectiva. 472-491. seja na sua vertente sociocognitiva. por exemplo: Codol. Quanto à vertente sociocognitiva. 2 Ver. por exemplo: Blumer. Los Angeles e California: University of California Press. em suas raízes. pretendemos discutir pressupostos e conceitos que nos têm fornecido subsídios para apreender. Bulletin de Psychologie. Vingt ans de cognition sociale. XLII (390). dar sentido ao mundo é uma força poderosa e inevitável na vida em sociedade. um empreendimento coletivo. 1 Quanto à vertente interacional. Symbolic Interactionism – perspectives and methods. a produção de sentido no cotidiano. Herbert (1986). propomos. Esse pressuposto está na base do desenvolvimento da Psicologia Social. mais precisamente interativo. basta recordarmos que. nas bases das teorizações sobre a interação humana. aqui. por meio da análise das práticas discursivas. Berkeley. 2 Coerentes com a perspectiva psicossocial. Jean Paul (1988). 22 . estão os processos de comunicação e a atividade de interpretação que os acompanha.

em nossa perspectiva. ou. Potter e Billig (1992). 4 Alguns desses autores(as) são: Moscovici (1961). Billig (1991). como os repertórios utilizados nessas produções discursivas.pura e simples reprodução de modelos predeterminados. história e pessoa. como um fenômeno sociolinguístico – uma vez que o uso da linguagem sustenta as práticas sociais geradoras de sentido – e busca entender tanto as práticas discursivas que atravessam o cotidiano (narrativas. para utilizarmos uma expressão de Bronwyn Davies e Rom 3 Autores como Rorty (1979/1994). A produção de sentido é tomada. Potter (1996a). Davies e Harré (1990). remete às regularidades linguísticas. portanto. dialógica. Jodelet (1989). Essa abordagem teórico-metodológica está embasada no referencial do construcionismo social. e alia-se aos psicólogos sociais que trabalham. quanto no sentido foucaultiano de construções históricas. 1. 3 como apresentado no capítulo um. entendemos a linguagem como prática social e. Gergen (1985) e Ibáñez (1993a) são alguns dos que se identificam com o referencial construcionista e que embasam nossa abordagem. ver capítulo um. assim. com base em nossa abordagem teórico-metodológica. Linguagem em uso: Introduzindo o conceito de práticas discursivas A concepção de linguagem que adotamos está centrada na linguagem em uso. O discurso. Potter et alli (1990). Ela é uma prática social. É necessária. argumentações e conversas. Potter e Mulkay (1985). Shotter (1993). terminologia distinta para trabalharmos em diferentes níveis de análise. Potter e Wetherell (1987). Potter e Reicher (1987). que implica a linguagem em uso. buscamos trabalhar a interface entre os aspectos performáticos da linguagem 5 e as condições de produção.4 sendo melhor definida a partir de três dimensões básicas: linguagem. de formas variadas. 23 . Usamos. por exemplo). 5 Sobre a linguagem e sua dimensão performática. Mais precisamente. uma distinção entre discurso e práticas discursivas. portanto. entendidas tanto como contexto social e interacional. com práticas discursivas. Parker (1989).

é comum o enunciado Meus pêsames! E. num determinado contexto. apesar da baixa probabilidade. um partido – têm seus discursos. 24 . ao se encontrarem. –. isso não seja completamente improvável. Muito prazer! 2. alguém dirá Meus parabéns!. os discursos aproximam-se da noção de linguagens sociais. interlocutores presentes ou presentificados. isto é. há uma tendência à permanência no tempo. são os discursos peculiares a um estrato específico da sociedade – uma profissão. um grupo etário etc. discursos que podem competir entre si ou criar versões distintas e incompatíveis acerca de um dado fenômeno social. como defendem Davies e Harré (1990). o espaço. na definição de Mikhail Bakhtin (1929/1995). Por exemplo. raríssimas vezes. Sendo institucionalizado. são as formas mais ou menos estáveis de enunciados. Assim concebidos. a Sociologia. o tempo etc. duas pessoas com frequência empregam enunciados típicos. ou. em um determinado momento histórico. Oi. os speech genres ou gêneros de fala. Além disso. o tempo e o(s) interlocutor(es). por exemplo. é possível identificar. – molda a forma e o estilo ocasional das enunciações. como: 1. Tudo bem. a Antropologia. a História – têm seus discursos oficiais. embora. ao uso institucionalizado da linguagem e de sistemas de sinais de tipo linguístico. num primeiro encontro: 1. um sindicato. que buscam coerência com o contexto. O prazer é todo meu! Num enterro. embora o contexto histórico possa mudar radicalmente os discursos: basta atentarmos. num mesmo contexto histórico. o contexto – situação. como no nível mais restrito de grupos sociais. Diferentes estruturas de poder têm seus discursos.Harré (1990). e você?. Segundo Bakhtin (1995). Diferentes grupos sociais – como uma organização não governamental. Diferentes domínios de saber – tais como a Psicologia. ao longo dos anos. para o discurso médico sobre a homossexualidade. os speech genres. Esse processo de institucionalização pode ocorrer tanto no nível macro dos sistemas políticos e disciplinares. Além disso. tudo bem? 2. que.

a totalidade aponta para além da soma de suas partes. portanto. é inegável que existem prescrições e regras linguísticas situadas que orientam as práticas cotidianas das pessoas e tendem a manter e reproduzir discursos. passamos a focalizar a linguagem em uso. Por exemplo. irredutíveis um ao outro. porém nosso olhar. embora o conceito de discurso aponte para uma estrutura de reprodução social – ou seja. por certo. uma densa floresta. precisamente. por exemplo. passaremos a visualizar não mais a primeira cena. uma formiga sobre uma pequena folha seca. antes de tudo. a vida em sociedade seria impraticável. para os entrevistados.Assim. ele não desconsidera a diversidade e a não regularidade presentes em seu uso diário pelas pessoas. se procurarmos entender os sentidos que uma doença assume no cotidiano das pessoas. Se olharmos através desse instrumento. não diretamente 25 . A formiga estava lá. por exemplo. a linguagem vista a partir das regularidades –. desde a primeira observação. podendo gerar práticas discursivas diversas. da Epidemiologia. nem de observar o global em detrimento da especificidade. Não se trata. É essa. mas uma outra imagem. de observar a especificidade diante do global. uma questão de foco. como no caso. só nos permitiu nomear a floresta. conseguimos visualizar uma cena composta de tal forma que a especificidade de seus elementos pouco interferem no conjunto. Vemos. as perguntas tendem a focalizar um ou mais temas que. talvez nunca tenham sido alvo de reflexões. O olhar recai sobre a não regularidade e a polissemia (diversidade) das práticas discursivas. é possível perceber que focos diferentes produzem objetos distintos. de distinção entre o que se elege como figura/fundo. Entretanto. uma das estratégias centrais da pesquisa social. Mas. uma outra cena. no primeiro momento. Sem elas. numa entrevista. Ao invertermos esse mesmo instrumento. É. Qualquer fenômeno social pode ser visto à luz das regularidades. Vemos. É interessante resgatar aqui a metáfora do binóculo. por exemplo. Por meio desse exercício. em relação aos fenômenos do campo da saúde. é pela ruptura com o habitual que se torna possível dar visibilidade aos sentidos. Usualmente.

assim. O conceito de práticas discursivas remete. os enunciados orientados por vozes. ou são endereçados a. é impossível pensar a ideia de um “primeiro locutor a quebrar o silêncio do universo”. As práticas discursivas têm como elementos constitutivos: a dinâmica. linguagem social ou speech genre são conceitos que focalizam. por sua vez. e os conteúdos. Na visão desse autor. Estamos. As vozes compreendem esses interlocutores (pessoas) presentes (ou presentificados) nos diálogos. fazendo-se neles presentes no momento de sua produção. adquirem seu caráter social. mesmo quando os diálogos são internos.associadas ao tema originalmente proposto. 26 . associados à noção de vozes. Bakhtin (1994b) define os enunciados como expressões (palavras e sentenças) articuladas em ações situadas. que são os repertórios interpretativos. Elas antecedem os enunciados. corresponde aos momentos ativos do uso da linguagem. os enunciados de uma pessoa estão sempre em contato com. práticas discursivas como linguagem em ação. a todo momento. de produção de sentido. tendo em vista que o próprio falante é sempre um respondente em maior ou menor grau. negociações que se processam na produção de um enunciado. uma ou mais pessoas e esses se interanimam mutuamente. ou seja. as formas. convidando os participantes à produção de sentido. que. O enunciado é o ponto de partida para a compreensão da dialogia. o habitual gerado pelos processos de institucionalização. ou seja. Os conceitos de enunciados e vozes caminham juntos na abordagem de Bakhtin: ambos descrevem o processo de interanimação dialógica que se processa numa conversação. portanto. as maneiras a partir das quais as pessoas produzem sentidos e se posicionam em relações sociais cotidianas. Em outras palavras. ou seja. Podemos definir. As vozes compreendem diálogos. Discurso. nos quais convivem tanto a ordem como a diversidade. que são os speech genres (definidos acima). de rupturas. em nossas pesquisas. aos momentos de ressignificações.

A compreensão dos sentidos é sempre um confronto entre inúmeras vozes. ele traz para a dialogia a voz do pai. A pessoa não existe isoladamente. tenhamos ou não essa intenção. por definição. é preciso entender que a linguagem é ação e produz consequências. contudo. constitui um ato de fala impresso. Entretanto. do amigo. Esse processo. –. eu me lembro da mi nha infância. linguagem é. pode orientar trabalhos posteriores. produzindo um jogo de posicionamentos com nossos interlocutores. do local. enfim. com maior ou menor ênfase. num esforço de produzir sentido. ao ser indagado sobre um assunto qualquer. quando meu pai…”. 27 . quando falamos. Dessa forma. da mãe. dependendo do tema em pauta. diz: “Pois é. comentado. pois os sentidos são construídos quando duas ou mais vozes se confrontam: quando a voz de um ouvinte (listener) responde à voz de um falante (speaker) (Wertsch. não se restringe às produções orais. uma prática social. criticado. é exatamente estudar a dimensão performática do uso da linguagem. por exemplo.Na perspectiva bakhtiniana. as vozes às quais um enunciado é dirigido podem estar espacial ou temporalmente distanciadas. perguntando. de exercício retórico (Billig. Num movimento constante de argumentação. em seu caráter performático. de quem pergunta. inclusive o pensamento é dialógico: nele habitam falantes e ouvintes que se interanimam mutuamente e orientam a produção de sentidos e enunciados. Todas essas vozes permeiam essa prática discursiva e se fazem nela presentes. constituem speech acts ou atos de fala. 1991). do contexto em que são produzidas. Um texto escrito. Se um entrevistado. Assim. estamos invariavelmente realizando ações – acusando. nos dias 6 As práticas discursivas. Pode trazer também a voz da professora. um elemento de comunicação verbal que provoca discussões ativas: pode ser elogiado.6 Nosso trabalho. justificando etc. trabalhando com consequências amplas e nem sempre intencionais. expressão cunhada pela etnometodologia para se referir à orientação do uso da linguagem para a ação. 1991). Ao mesmo tempo. como cientistas sociais que analisam práticas discursivas. nesse momento. por exemplo.

lugares-comuns e figuras de linguagem – que demarcam o rol de possibilidades de construções discursivas. são componentes fundamentais para o estudo das práticas discursivas. e Mulkay. N. Em outras palavras. um enunciado não surge. posicionando-se em relação a ele. contradições. na visão desses autores. 28 . Em outras palavras. em linhas gerais. tendo por parâmetros o contexto em que essas práticas são produzidas e os estilos gramaticais específicos ou speech genres. no cotidiano. frequentemente. 7 Gilbert. magicamente. Os repertórios interpretativos. o sentido decorre do uso que fazemos dos repertórios interpretativos de que dispomos. a televisão. as unidades de construção das práticas discursivas – o conjunto de termos. do nada. pois é por meio deles que podemos entender tanto a estabilidade como a dinâmica e a variabilidade das produções linguísticas humanas. Eles estão presentes em uma variedade de produções linguísticas e atuam como substrato para uma argumentação. descrições. ao produzir um enunciado. o rádio. um dos elos de uma corrente de outros enunciados. podem também ser considerados atos de fala. M. Além disso.7 definem os repertórios interpretativos como dispositivos linguísticos que utilizamos para construir versões das ações. baseados nos trabalhos de Gilbert e Mulkay. (1984). complexamente organizados. os sites da Internet etc. esse conceito é particularmente útil para entendermos a variabilidade usualmente encontrada nas comunicações cotidianas. quando repertórios próprios de discursos diversos são combinados de formas pouco usuais.atuais. Os repertórios interpretativos são. mas gerando. O que estamos propondo é que. Cambridge: Cambridge University Press. o falante utiliza um sistema de linguagem e de enunciações preexistente. obedecendo a uma linha de argumentação. Jonathan Potter e Margareth Wetherell (1987). Ele constitui uma unidade do ato de comunicação. eventos e outros fenômenos que estão a nossa volta. Opening Pandora’s’ Box: a sociological analysis of scientist’s discourse.

8 O conceito de polissemia opõe-se ao de polilexia. é claro. Os repertórios interpretativos que nos servem de referência foram histórica e culturalmente constituídos. não significa. Tempo e história: O diálogo entre permanências e rupturas Buscando entender o uso dos repertórios interpretativos nas práticas discursivas cotidianas. o que nos levou a trabalhar numa perspectiva temporal. Tempo. 29 . e passa a incluir também a própria variabilidade e polissemia que caracterizam os discursos. entretanto. dizer que não há tendência à hegemonia ou que os sentidos produzidos possuem igual poder de provocar mudanças. entendendo polissemia. Contudo. mas como “a propriedade que uma palavra possui (numa dada época) de representar várias ideias diferentes” (Lalande. de modo a entender a construção social dos conceitos que utilizamos no métier cotidiano de dar sentido ao mundo. 8 Admitir que as práticas discursivas são polissêmicas. é uma categoria fundamental na História. 1996). o invariável. o consenso. vivemos num mundo social que tem uma história. 1989:34). Trabalhar no nível da produção de sentido implica retomar também a linha da história. “para o historiador. a natureza polissêmica da linguagem possibilita às pessoas transitar por inúmeros contextos e vivenciar variadas situações. cedo percebemos que eles possuíam inscrições na história. assim. utilizado por linguistas contemporâneos para designar a existência de vários sinônimos para uma mesma ideia (Lalande. Como diz Fernand Braudel.O foco dos estudos que adotam esse conceito deixa de ser. tudo começa e tudo acaba pelo tempo” (Braudel. não como “um fenômeno semântico em que uma palavra se estende de um sentido primitivo a vários outros”. Por outro lado. apenas a regularidade. 1996). 2.

Mas também os historiadores têm consciência plena dessa problemática: “Meu grande problema. 1990a:170). Obviamente. publicado originalmente em 1958. Em qualquer momento. Em seu texto clássico. “Nada está absolutamente morto: todo sentido poderá ter seu festival de boas vindas (homecoming)” (Bakhtin. Bakhtin fala como linguista.. disse Braudel numa entrevista concedida a Pet er Burke. Mesmo os sentidos passados. com uma luz recíproca (Braudel. Nossa aproximação com a temporalidade dos repertórios decorre da problemática dos contextos de sentidos. em 1977 (Burke. Não 9 No original: “it extends into the boundless and the boundless future”. o locus de compreensão da estrutura que “boa ou má (. de anteontem. a escala dos indivíduos. a inscrição histórica desses repertórios não é o foco de nossos interesses. 1990:39). 1989:18-21). Braudel aborda reiteradamente essa questão da imbricação do presente com o passado: Cada “atualidade” reúne movimentos de origem e de r itmo diferentes: o tempo de hoje data simultaneamente de ontem. decorrentes de diálogos travados há muitos séculos. Braudel nos fala do tempo longo (la longue durée) e o contrasta com o tempo breve – o tempo dos acontecimentos. são sempre passíveis de renovação nos desenvolvimentos futuros do diálogo.. foi o de mostrar que o tempo se move em velocidades diferentes”.Entretanto. a sua maneira. 1994a:169). de outrora (…) o presente e o passado esclarecem -se mutuamente. História e Ciências Sociais. da vida cotidiana ou da tomada de consciência. 30 . resolver a problemática decorrente dessa imbricação. o único problema que tive que resolver. O sentido contextualizado institui o diálogo contínuo entre sentidos novos e antigos: “No contexto dialógico não há nem uma primeira nem uma última palavra e não há limites (ele se estende ao passado sem fronteira e ao futuro infinito)”9 (Bakhtin.) domina os problemas de longa duração” (1989:14). O tempo longo é para ele a medida da permanência. Cada autor busca. essas massas de sentidos contextuais esquecidas podem ser recapituladas e revigoradas assumindo outras formas (em outros contextos). não são estáveis.

e o tempo curto. Menegon (1998). o tempo vivido. afirma o autor: “são universos construídos que constituem outras tantas explicações imperfeitas. apresenta-nos uma divisão temporal que faz dialogar o pequeno tempo (smalltime) e o grande tempo (great time). Essa forma de aproximação com os conteúdos históricos decorre da ambição de trabalhar as práticas discursivas em diferentes níveis. MedradoDantas (1997). 1993b. que marca os conteúdos culturais. 1994a. 1999b). entre outros. desde 1993 10 vimos postulando a necessidade de trabalhar o contexto discursivo na interface de três tempos históricos: o tempo longo. o passado recente e o futuro esperado. definidos ao longo da história da civilização. embora a formação específica em Psicologia Social tenha suscitado a necessidade de inclusão de mais um tempo: o da vida vivida. Chamamos de tempo longo o domínio da construção social dos conteúdos culturais que formam os discursos de uma dada época. Assim. Nosso trabalho com práticas discursivas levou-nos a propor uma divisão temporal semelhante. Deparamos aqui com as fronteiras da História Social. 31 . que focaliza 10 Ver. Pinheiro (1998). por sua vez. Spink (1993a. 1999a. 1996. Essa divisão tripartite possibilitou-nos abordar o paradoxo de enunciados que pertencem concomitantemente à ordem das regularidades – possibilitando visualizar as permanências que sustentam o compartilhamento – e à da polissemia dos repertórios. por exemplo.que sejam estruturas universais e imutáveis. mas a quem são geralmente concedidos séculos de duração” (Braudel. buscando apreender a cristalização em discursos institucionalizados. das linguagens sociais aprendidas pelos processos de socialização. O tempo grande consiste no “diálogo infinito e inacabado no qual nenhum sentido (meaning) morre” (1994a:169). que sustenta a singularidade dos processos de produção de sentido. as posições socialmente disponíveis e as estratégias linguísticas utilizadas para nos posicionar na interação. dos processos de socialização. 1994b. O tempo pequeno engloba o dia de hoje. marcado pelos processos dialógicos. Bakhtin. 1989:15).

da reprodução social.processos de formação e ressignificações continuadas. Esses conhecimentos antecedem a vivência da pessoa. Como destaca Sérgio Miceli (1987). Um exemplo de como as construções do tempo longo permeiam nosso cotidiano e nossas práticas discursivas são as obras de museu. tempo da vida cotidiana. normas. também não os temos como acontecimento. ressignificada. O tempo longo constitui o espaço dos conhecimentos produzidos e reinterpretados por diferentes domínios de saber: religião. É nesse tempo histórico que podemos apreender os repertórios disponíveis que serão moldados pelas contingências sociais de época. ciência. 1966). ou seja. uma imagem de pai construída. corresponde às experiências da pessoa no curso da sua história pessoal. convenções. como repertórios. por isso mesmo. depositada nos tempos passados. conhecimentos e tradições do senso comum. Não é uma história morta. enfim. constituindo as vozes de outrora que povoam nossos enunciados. digamos. mas se fazem nela presentes por meio de instituições. são construções que alimentam. o habitus é um conjunto de esquemas apreendidos desde a infância e permanentemente atualizados ao 32 . que carregam em suas imagens uma imensidão de sentidos. definem e ampliam os repertórios de que dispomos para produzir sentido. os quais dão acesso aos múltiplos significados que foram historicamente construídos. e a partir das quais podemos delinear a representação social de um tema. Desse modo. na Renascença. É nesse nível que ocorre a aprendizagem das linguagens sociais. 1994). Só os temos como fragmentos e. das ilusões. Não os temos mais como teorias. modelos. É assim que o tempo longo se faz presente. como. Entramos assim no território do habitus. pois muitas já perderam sua razão de ser. a paternidade. por exemplo. Definimos tempo vivido como o processo de ressignificação desses conteúdos históricos a partir dos processos de socialização primária e secundária (Berger & Luckmann. da interanimação. das disposições adquiridas a partir da pertença a determinados grupos sociais (Bourdieu. se faz presente em nosso cotidiano.

as linguagens sociais e as 33 . a possibilidade da compreensão (understanding). estão em pauta. da comunicação e a construção discursiva das pessoas. Esse é o momento concreto da vida social vista como atividade de caráter interativo. o tempo vivido é também o tempo da memória traduzida em afetos. deparamos. Focalizando o momento da interação por meio das práticas discursivas. as possibilidades de combinação das vozes. no tempo de vida de cada um de nós. deixando emergir a possibilidade de construção de inúmeras versões de nossas pessoas. O tempo curto refere-se às interações sociais face a face. fazem-se presentes. sendo assim responsáveis. Nesse tempo. em que os interlocutores se comunicam diretamente. sejam elas externalizadas ou não. Estamos falando da aprendizagem. portanto. encontraremos polissemia e contradição. Como as combinações são múltiplas.longo da trajetória social da pessoa. O tempo curto – tempo do acontecimento e tempo da interanimação dialógica – é aquele que nos possibilita entender a dinâmica da produção de sentido. pauta-se. Nesse momento específico. as regras de discurso. ativadas pela memória cultural de tempo longo ou pela memória afetiva de tempo vivido. com a polissemia. ao mesmo tempo. adentramos o campo das abstrações: as tipificações de papel. esquemas que demarcam os limites da consciência que pode ser mobilizada pelos grupos e/ou classes. Trata-se das vozes situadas que povoam nossas práticas discursivas. no qual enraizamos nossas narrativas pessoais e identitárias. À medida que nos distanciamos. com a processualidade e a produção situada desses repertórios. a faixas etárias etc. do tempo curto. É nosso ponto de referência afetivo. Depararemos. concomitantemente. teórica e empiricamente. pela demarcação das possibilidades de sentidos em que operam as relações de força e poder. pela dialogia e pela concorrência de múltiplos repertórios que são utilizados para dar sentido às experiências humanas. das inúmeras linguagens sociais próprias a segmentos de classe. Entretanto. nessa escala. em linhas gerais. a grupos profissionais.

3. conceitos fundadores da Psicologia. é necessariamente um empreendimento sóciohistórico e exige o esforço transdisciplinar de aproximação ao contexto cultural e social em que se inscreve um determinado fenômeno social.identidades sociais que povoam nosso universo. Permanências e diversidades permeiam todos os tempos históricos. a terceira dimensão da nossa abordagem: a noção de pessoa. indistintamente. A concepção de história que adotamos em nossos trabalhos está. Pessoa como relação social Ao adotarmos o termo pessoa em nossos estudos e pesquisas. em maior ou menor grau. para compreendermos o modo como os sentidos circulam na sociedade é necessário considerar as interfaces desses tempos – longo. diretamente associada à compreensão das diversidades e permanências das construções linguísticas dotadas de sentido. não depositamos todas as permanências no tempo longo. em última análise. mas ressignificá-los à luz da perspectiva construcionista. Portanto. Falar em sujeito pode nos conduzir a dois 34 . indivíduosociedade. estamos nos posicionando em relação ao uso de certas terminologias que nos colocam diante de dicotomias. o conceito de indivíduo nos remete imediatamente a dicotomias. Com o conceito de pessoa. tais como indivíduo-sociedade e público-privado. pertence ao tempo longo da história. nos quais se processa a produção de sentido. cujo foco é o contexto de sentido (na acepção de Bakhtin). encontramos as estruturas a que Braudel se referia. Contudo. estamos buscando enfatizar nosso foco sobre a dialogia. recuperando um termo – pessoa – que. vivido e curto –. nem toda diversidade no tempo curto. Focalizamos. Essa postura não implica abandonar o indivíduo ou o sujeito. pressupondo cisões claras e absolutas. e orientam as práticas discursivas das pessoas. Por um lado. assim. em vez de privilegiar a individualidade ou a condição de sujeito. como abordado acima. tais como sujeito-objeto. Resulta daí que a pesquisa sobre produção de sentido.

Porém. a Filosofia assumiu como algo próprio da disciplina a questão da pessoa. cuja base está na Teologia. Duns Scoto. Vários pensadores – tais como S. desde a época medieval estava claro que o ser da pessoa não pode encerrar-se numa definição formal. O caráter relacional está na base da maioria dessas definições. a relacionalidade com o universo (capacidade de comunicar-se). porém ambos problemáticos. 35 . na modernidade. a história do conceito de pessoa é uma página particularmente eloquente de uma “teologia do caminho” (p. Tomás de Aquino. mais precisamente. Cuggenberger (1987). 1987: 244. grifos do autor). Como destaca A. tornando-se objeto de estudo e reflexão. entre outros – se debruçaram sobre a questão da pessoa e propuseram definições a partir de diferentes referenciais teológicos e epistemológicos. só é possível pensar em pessoas. a “intersubjetividade” para a qual se costuma apelar como o dado mais originário sobre o qual se deveria fundar a pessoa não oferece uma solução melhor do problema (…) É verdade que a pessoa. visto que esta não pode ser apreendida por meio de noções objetivas e objetiváveis. deve voltar-se ao outro (Cuggenberger. Semelhantemente. aproxima-nos da postura de sujeitável. a sua limitação e o seu caráter de não ser um objeto (…) A relação humana apresenta uma amostra do caráter misterioso da pessoa. como destaca Cuggenberger. Daqui provém o eu no seu caráter fundamental de pessoa. a partir da noção de relação. como os animais. ou seja. Por isso. 239) O conceito de pessoa. quando quer fazer-se conhecer. Como aponta Cuggenberger (1987). O homem – ou. ainda mais complexo e perigoso. 249. organizado por Heinrich Fries: O mundo pelo qual a pessoa foi compreendida no decorrer dos séculos é um caso típico do caminho que os conceitos percorrem através dos tempos. um que nos conduz a uma distinção essencial entre sujeito e objeto ou outro que.caminhos distintos. foi aos poucos sendo incorporado pela Filosofia. no tópico Pessoa do Dicionário de Teologia. Assim. tornar-se sujeito a. a pessoa – está em um mundo e não apenas em um ambiente.

Essa definição nos remete. 36 . O conteúdo dessas narrativas é orientado pelo contexto argumentativo (Billig. tenho uma sobrinha maravilhosa. A partir dessa noção de que as práticas discursivas compreendem um constante processo de interanimação dialógica. sobre si assim formulada: “sou fulana de tal. de interpessoalidade. tão coerente quanto a anterior. filha de gaúchos. mais precisamente. 1991) que se configura no momento da dialogia. ao próprio processo de produção de sentido nas práticas discursivas do cotidiano. Dito de outra forma. solteira. católica não praticante. curto moda alternativa. sempre uma pergunta aberta com respostas mutáveis. no jogo das relações sociais. quem somos? é. como por exemplo: “sou fulana de tal. A pessoa. olhos verdes. desenvolvendo trocas simbólicas. vivendo em Campinas. os nossos processos de socialização que possibilitam a construção de narrativas coerentes em torno de eixos comuns. gosto de ser diferente. loira. antropóloga. que dependem das posições disponíveis nas nossas práticas discursivas. Como destacam Davies e Harré (1990). sobrancelha fina. torna-se possível introduzirmos o conceito de posicionamento (Davies & Harré. nascida no interior do Rio Grande do Sul. Dentro dessas práticas. pois. num espaço de intersubjetividade ou. investindo num futuro curso de Doutorado…”. A mesma personagem. cursando Mestrado e pretendendo dar continuidade à carreira acadêmica. num outro contexto dialógico. assim. é preciso entender as histórias por meio das quais produzimos sentidos em nossas vidas. estou à busca da felicidade e de um amor ideal…”. 1990) e propor que a produção de sentido é sempre concomitantemente uma produção discursiva de pessoas em interação. com a presença de outro(s) interlocutor(es). Posicionar-se implica navegar pelas múltiplas narrativas com que entramos em contato e que se articulam nas práticas discursivas. pode construir uma narrativa. está inserida num constante processo de negociação. ao focalizar as práticas discursivas deparamos também com a processualidade das construções identitárias.

A dialogia não se esgota nem se encerra no diálogo. convidando o leitor a produzir seu próprio modelo. Em síntese. produzimos diferentes desenhos esquemáticos na busca de possibilitar uma melhor compreensão da nossa abordagem. história e pessoa – têm possibilitado desenvolver pesquisas em que a reflexão teórica não constitui apenas um apêndice à problematização dos temas estudados. entre outros – são extremamente úteis para analisar a produção de sentido em contextos dialógicos ou em atos de fala impressos. Diante dessas explanações. – na dinâmica das práticas discursivas. 1999a). posturas. permitindo a descrição do contexto em que as práticas discursivas de desenvolvem. linguagens sociais. portanto. Ao longo dos últimos anos. As práticas discursivas.11 11 Ao longo dos últimos anos. Embora não constitua diretamente nosso foco de estudos. assim como uma localização num jogo de relações inevitavelmente permeado por relações de poder. percebe-se a centralidade da linguagem verbal em nossa abordagem. temos proposto reformulações ao modelo teórico originalmente proposto (Spink. à luz das nossas pesquisas empíricas e discussões teórico-epistemológicas. 1993a. sempre que possível. registramos tais elementos. na busca de enriquecer nossas análises. implicam necessariamente o uso de repertórios e posicionamentos identitários. as reflexões em torno dessas três dimensões – linguagem. temos nos empenhado em construir uma abordagem teórica que permita uma melhor compreensão dos fenômenos psicossociais e da própria dinâmica da produção de sentido. vozes.A força constitutiva das práticas discursivas está em poder prover posições de pessoa: uma posição incorpora repertórios interpretativos. 1993a). repertórios interpretativos. optamos por não apresentar imagem alguma. Assim. gestos. consideramos também relevante a linguagem não verbal – expressões faciais. Para esta coletânea. dando-lhe visibilidade (Spink. Contudo. silêncios etc. speech genres. posicionamentos. Os conceitos que utilizamos – enunciados. 37 .

mas possui um poder transformador ainda pouco estudado – e. 38 . seja porque é pervasiva no mundo contemporâneo e. a mídia nos leva a uma clara reconfiguração das fronteiras entre os espaços público e privado e à progressiva emergência de uma nova dimensão regulatória. recomendamos. Contudo. Propomos. a leitura do texto de Latour e Woolgar (1997).12 continua a ser importante esfera geradora de sentidos. 12 Para uma reflexão mais detalhada sobre a importância do conhecimento científico. em nossa abordagem a produção de sentido opera na interface dos três tempos históricos: entre a construção social dos conteúdos culturais do tempo longo. Desfamiliarizando conceitos e construindo uma abordagem Como discutido no tópico dois deste capítulo. pelo movimento que lhes é dado a partir das produções nos mais variados domínios de saber. que a mídia não é apenas um meio poderoso de criar e fazer circular conteúdos simbólicos. instrumental na conformação da consciência moderna. ainda subestimado – de reestruturação dos espaços de interação propiciando novas configurações aos esforços de produção de sentido. apesar das crescentes desmistificações de sua objetividade nas reflexões pós-modernas. por exemplo. assim. como aponta John Thompson (1995a. talvez. Nessa perspectiva. a ciência não é o único domínio de saber. e não apenas como princípios gerais pertinentes ao campo da moral. A mídia assume um papel fundamental na compreensão da produção de sentido.4. Os conteúdos são continuamente reconstruídos. também. situada em normas e comitês. as aprendizagens sociais que aprendemos no tempo vivido e os processos dialógicos do tempo curto. seja porque confere uma visibilidade sem precedentes aos acontecimentos. portanto. 1995b). entre eles os diversos campos científicos. no contexto contemporâneo. A ciência foi um dos principais amálgamas da era moderna e. incluindo aí as novas informações e descobertas. a ética como instância com efeito legal.

o saber compreende o domínio constituído pelos diferentes objetos que irão ou não adquirir um status científico. No caso do termo domínios. por meio da definição dos objetos de disputas e dos interesses específicos. 39 . a partir do conceito de campo. à tradição interacionista de valorização da presença – real ou imaginada – do outro e à onipresença da linguagem na perspectiva das práticas discursivas. que torna essa noção mais clara. em Questões de Sociologia. se aplicam e se transformam. que não poderia ter outro nome: A arqueologia do saber. é Pierre Bourdieu (1983a). refere-se ao espaço em que a pessoa pode tomar posição para falar dos objetos de que se ocupa em seu discurso.Encontramos uma definição de saber bastante rica na obra de Michel Foucault (1987a). Alia-se à tradição hermenêutica de processo criativo mediado pelas expectativas e pressupostos que a pessoa traz para a situação. Às posturas construcionistas sobre o conhecimento e aos estudos que levam à desmistificação progressiva do fazer-em-ciência. somam-se as perspectivas políticas da ressignificação da diferença e da denúncia das relações opressivas que se desenham no interior do campo científico. Um campo se constitui. Na visão construcionista. cujas propriedades dependem das posições nesses espaços. Ao falarmos sobre domínios de saber estamos. Temos novamente uma definição prenhe de sentidos: o campo seriam espaços de posições estruturados. Enfim. Segundo ele. a produção de sentido se processa no contexto da ação social. que está entrando (heresia). remetendo-nos a um conjunto de conhecimentos que orientam. entre outras coisas. mas não determinam. define também o campo de coordenação e de subordinação dos enunciados em que os conceitos aparecem. que tenta defender e expulsar a concorrência. Em cada campo encontra-se uma luta entre o novo. e o dominante (ortodoxia). se definem. Foucault define o saber como as possibilidades de utilização e de apropriação oferecidas pelo discurso. É nesse jogo em que a negociação e o poder se inscrevem. um modo de pensar e compreender um fenômeno. portanto.

estaríamos “embasando” a escolha racional (Rorty. não poluídos por nossa escolha de linguagem. a produção do conhecimento deve ser considerada antes como uma atividade construcionista – construída num tempo e espaço específicos e construtiva de uma realidade intersubjetiva – do que como uma aplicação das faculdades especulares. Com efeito. o construcionismo social está interessado em identificar os processos pelos quais as pessoas descrevem. 40 . como destaca Richard Rorty: (. O conhecimento. Nesse sentido. 1994:338). vale ressaltar que rejeitamos em nossas pesquisas. à subjetividade e aos determinantes psicodinâmicos.Contudo. representacionais. dos sistemas de significação que dão sentido ao mundo. incluindo elas próprias.. abdicar da epistemologia tradicional que difere interno-subjetivo-mente de externoobjetivo-mundo. Em nossa perspectiva.) precisamos renunciar tanto à noção de “dados e interpretação”.. Adotar a postura construcionista implica. “aquelas que encontram o que a natureza já fez” (Rorty. aquele que postula a existência de um mundo que precisa ser descoberto. 1994:321). nessa perspectiva. O foco do construcionismo é a interanimação dialógica. tanto o realismo ingênuo. invariavelmente. explicam e/ou compreendem o mundo em que vivem. adotamos uma postura construcionista social. revelado. por meio de uma relação imediata e invariante entre pesquisador (sujeito) e realidade (objeto). como sua sugestão de que se pudéssemos chegar aos dados reais. não é nem uma interiorização dos processos sociais nem a exteriorização dos processos psicodinâmicos. o foco de estudos passa das estruturas sociais e mentais para a compreensão das ações e práticas sociais e. representada no pensamento filosófico pelos paradigmas empirista e idealista. sobretudo. pautada pela visão hermenêutica da produção de conhecimento. Como abordado no capítulo um. que atribui a capacidade de conhecer exclusivamente às propriedades da mente individual. como o subjetivismo extremo. Na tentativa de superar essa dicotomia realismo-subjetivismo.

das relações sociais em que ocorre essa produção. portanto. Com a aceitação da postura construcionista. representacional do conhecimento – e adotar a perspectiva de que o conhecimento não é algo que se possui. Por meio dessa abordagem.situando-se. da relação com o outro. podendo ter maior ou menor poder performático dependendo do contexto de produção. as rupturas históricas. buscamos construir um modo de observar os fenômenos sociais que tenha como foco a tensão entre a universalidade e a particularidade. principalmente. Rorty propõe que a conversação seja a mola propulsora das ciências. 41 . A concepção de fatos como construções sociais pressupõe que os métodos produzam. o que possibilita a explicitação da dinâmica das transformações históricas e impulsiona sua transformação constante. entre o consenso e a diversidade. não definimos quais métodos têm mais possibilidades de traduzir como os fatos são. pela identificação do velho no novo e vice-versa. 13 A compreensão das práticas discursivas deve levar em conta tanto as permanências como. mas nunca com a pretensão de esgotá-la. com vistas a produzir uma ferramenta útil para transformações da ordem social. entre o rigor e a interpretação. antes de tudo. num infinito empenho pela verdade. 13 Essa dimensão metodológica. aliados à intencionalidade de quem produz e do grau de conformidade de quem recebe. no espaço da interpessoalidade. que devemos mantêla fluindo. mas que se constrói em coletividade. versões de mundo. esteja ele fisicamente presente ou não. 1994) – uma visão especular. Assim. será melhor explorada no capítulo quatro. Isso implica abdicar da perspectiva da “mente como espelho da natureza” (Rorty. do momento histórico.

principalmente aquela proveniente da moderna Sociologia do Conhecimento associada a Bruno Latour (1987). por sua vez. As ideias com as quais convivemos. as categorias que usamos para expressá-las e os conceitos que buscamos formalizar são constituintes de domínios diversos (da religião. da arte. de um lado. Entretanto. Spink e Vera Mincoff Menegon D ar sentido ao mundo.CAPÍTULO III A PESQUISA COMO PRÁTICA DISCURSIVA: Superando os horrores metodológicos Mary Jane P. comunidade. a discussão epistemológica contemporânea. o senso comum – o conhecimento pouco sistemático e com fins práticos. é uma prática social que faz parte de nossa condição humana. regras e métodos definidos pela comunidade científica. vem contribuindo para desfazer essa dicotomização rígida.) e da mídia em geral. Desenvolvemos essa atividade nas relações que compõem o nosso cotidiano. assim. Dessa forma. o qual. Essa aproximação 42 . É comum pensar que dar sentido é atividade que diz respeito apenas ao cotidiano interpretado como os fazeres assistemáticos do senso comum. de grupos que nos são mais próximos (família. em contraposição (quando não em franca oposição). de produzir o conhecimento legítimo – e. as práticas científicas – aquilo que obedece a determinados princípios. conforme discutido no capítulo anterior. portanto. da filosofia. é atravessado por práticas discursivas construídas a partir de uma multiplicidade de vozes. com um grande divisor de águas que coloca. tanto fazer ciência como desempenhar as atividades rotineiras (ou não) de nosso cotidiano passam a ser ressignificados como formas de produzir sentido sobre os eventos do mundo. Steve Woolgar (1988) e Karin Knorr-Cetina (1981). passível. da ciência). de outro. meio profissional etc. escola. Deparamos.

O objetivo deste capítulo é propiciar uma reflexão sobre a natureza dos fazeres em pesquisa científica. vista como discurso institucionalizado. Nascidas de preocupações associadas aos processos de ensino e orientação de pesquisa na pós-graduação. entretanto. os s peech genres são formas de enunciados. incluindo aí os diferentes domínios de pesquisa. as ideias aqui discutidas foram apresentadas em outros fóruns e publicadas em diferentes versões (Spink. mais ou menos estáveis.paulatina. algumas definições iniciais se fazem necessárias. seja no metodológico. Concebemos a pesquisa científica como uma prática reflexiva e crítica. está inserida num sistema de regras pautadas por estratégias de validação há muito consagradas pela tradição. de modo a discutir os pressupostos metodológicos da pesquisa construcionista. De modo a situar essa discussão sobre metodologia no conjunto dos empreendimentos científicos. 1997a. seja no campo teórico. há regras. situar a diversidade desses fazeres. Conforme afirma Cecília Minayo (1992). Nessa perspectiva. requer um esforço continuado de ressignificação de aspectos implicados no desenvolvimento de uma metodologia de pesquisa. Buscaremos. a pesquisa remete-nos a um processo inacabado e contínuo que exige uma postura de busca permanente. 1996c. tendo como pressuposto o fato de que a pesquisa também é uma prática social. não reduz uma atividade à outra. 1999a. mais especificamente. que são utilizados em contextos específicos. Trabalhar essas estratégias como práticas sociais. 1 Conforme discutido no capítulo dois. 43 . os critérios utilizados para estabelecer o status de cientificidade estão intrinsecamente vinculados a definições historicamente situadas sobre o que vem a ser ciência. Trata-se de reflexões que têm elas também a sua história. 1999b). A pesquisa científica. mas também uma prática social. speech genres1 e linguagens sociais distintas que demarcam a produção de sentido em diferentes domínios de nossas atividades. desfamiliarizando o debate sobre a diferença – especialmente no que diz respeito à pesquisa nas ciências sociais –.

44 . em sua acepção mais geral. 1979/1994).2 Optamos por iniciar a reflexão sobre pesquisa pela apresentação dessas definições gerais e de contornos pouco definidos sobre método. na contraposição entre ciências da natureza e ciências sociais. abrindo espaço para a ruptura com o velho conceito de conhecimento como espelhamento da natureza. segundo Maria Amália Andery et alii (1988). volta-se à consistência interna dos procedimentos – inserindo-se na questão maior da Lógica – e à correspondência do conhecimento produzido com as estruturas da realidade. em outros momentos do capítulo.Permanece. metodologia e epistemologia. a seguir. A reflexão epistemológica tem uma “vocação fundante”. de modo a possibilitar que. seja dada voz às diferentes posturas historicamente constituídas sobre a natureza da ciência. o consenso de que esse fazer-em-ciência é uma atividade metódica. De maneira simultânea. sobre o ser humano e sobre o próprio conhecimento. Iniciaremos pela apresentação do debate clássico sobre pesquisa. passaremos. à desfamiliarização dessa dicotomia a partir das novas posições disponibilizadas pela Sociologia da Ciência e pela pesquisa feminista e de gênero. então. A Metodologia. portanto. É nessa esfera que emergem os debates atuais sobre a natureza do conhecimento. embasando os procedimentos utilizados na construção do conhecimento científico. assim como dos métodos próprios de cada ciência em particular. concedendo à Filosofia a “função cultural de manter as outras disciplinas honestas” (Rorty. e que o método científico é. desenhando-se assim como ramo da Epistemologia. estaremos problematizando o conceito instituído de pesquisa científica. Neste capítulo. Sem abandonar a 2 Algumas das tramas desse debate serão retomadas ao discutirmos mais detalhadamente a postura construcionista na discussão metodológica. é um ramo da Filosofia que tem por objetivo o estudo do método geral da investigação científica. porém. buscando fazê-lo a partir da reflexão sobre a natureza e uso das categorias. por sua vez. um conjunto de concepções sobre a natureza. Abordaremos. a posição construcionista.

mas também porque a própria ideia de uma ciência do homem não fazia parte do panorama da época. discutir formas de lidar com os horrores metodológicos e delinear as condições de possibilidade da pesquisa pautada pela ética. Seguindo a reflexão de Michel Foucault (1966/1987b). a possibilidade da Sociologia. pois. a emergência do homem como objeto legítimo da ciência normal – e. Ciência Política e da própria Psicologia – é um fenômeno do século XIX. portanto. T. Chicago: University of Chicago Press. O método científico. The Structure of Scientific Revolutions. Ambos os modelos são desenhados no interior do discurso normal sobre ciência.possibilidade do rigor. Antropologia. Epidemiologia. termo que é empregado por Richard Rorty (1994) para se referir às práticas discursivas que emanam da esfera da ciência normal – referindo-se à distinção que Thomas Kuhn3 faz sobre ciência normal e revolucionária. É. 1. Esse método reinou absoluto não só porque os objetos de investigação – derivados basicamente das ciências físicas e da natureza – a ele se adequavam. especialmente a física teórica. Economia. um empreendimento ainda recente. é caracterizado pela formulação e teste de hipóteses. 45 . buscaremos. (1970). O monismo metodológico prega a unidade do método científico para todos os empreendimentos de investigação. Debate clássico sobre qualitativo e quantitativo Historicamente contamos com dois modelos instituídos para pensar a pesquisa científica nas ciências humanas: o monismo metodológico e a epistemologia da diferença – uma espécie de ação afirmativa em favor das ciências humanas. A tradição positivista associada a Comte requer que – “as novas físicas” – termo cunhado por Comte – adequem-se ao método científico e desenvolvam-se modeladas no padrão instituído pelas ciências da natureza. S. 3 Kuhn. associado principalmente a Galileu. para finalizar o capítulo.

pela forma como concebe o teste de hipótese. afirmando que sempre procedemos a partir de hipóteses. No entanto. 46 . Em segundo lugar.) pressupõe. na discussão metodológica. o método é o mesmo para todas as ciências. porque ele rejeita o indutivismo. emerge uma acirrada discussão sobre o colonialismo que as ciências da natureza (Naturwissenschaften) exercem sobre as ciências humanas (Geistewissenschaften) emergentes. a tradicional querela sobre a “filosofia das ciências sociais” desenrolou -se da seguinte maneira: Um lado disse que “explicação” (. J. & Stribley. do livro A miséria do historicismo. a preocupação central da ciência está voltada para as explicações. sendo que “o método de testar hipóteses é sempre o mesmo”.. se o método não se aplica. Tendo como cenário o monismo metodológico e a circunscrição do que pode ser ciência normal. não implica negar que existam diferenças entre as ciências da natureza e da sociedade. é porque a disciplina em questão não é ciência. o “entendimento”. o que possibilita formular o corolário de que. segundo o autor. New York: Longman/Open University Press. K. rejeitando a postura verificacionista e propondo que avancemos não pela corroboração. Primeiramente. O outro lado disse que o entendimento é simplesmente 4 Popper. predições e testes. No capítulo intitulado A unidade do método. (1957). sendo. Delineia-se. Segundo a versão do debate apresentada por Rorty (1994). (1979). uma pré-ciência. Mas implica aplicar a todas a mesma definição de ciência. Há especificidades na forma em que Popper define método científico. em essência. Reproduzido em: Bynner. no máximo. K. M.Modernamente o discurso do monismo metodológico é ainda prevalente e encarnado em autores influentes como Karl Popper. e não pode substituir. The Unity of Method.4 Popper defende a postura de que todas as ciências teóricas ou generalizantes devem fazer uso do mesmo método. mas pela falsificação de hipótese. Social Research Principles and Procedures. ou seja. Isso. um segundo modelo pautado por uma epistemologia da diferença que defende a necessidade de métodos apropriados para as ciências humanas.

introduzindo-se aqui a clássica distinção entre explicação e compreensão. Von Wright define três características principais da postura hermenêutica: a) a rejeição do monismo e da adoção das ciências da natureza como padrão. Obviamente. c) a rejeição do conceito tradicional de explicação. 341). b) a distinção entre ciências nomotéticas – que buscam leis gerais – e ciências ideográficas – que enfatizam as características singulares – . Na versão de Von Wright (1978) sobre essa querela entre explicação e compreensão. explicitadas nas discussões travadas nos anos sessenta e setenta sobre a correta inserção da Psicologia nos cursos universitários: se 47 . há consideráveis variações inter e intradisciplina. nem todos os domínios do saber na esfera das ciências humanas pautam-se pela epistemologia da diferença ou adotam o método fenomenológico. A característica principal desse método. a recriação na mente do pesquisador da atmosfera mental. adotando o termo Geisteswissenschaften para denominar a esfera do método compreensivo. pensamentos e motivações do objeto de estudo. Segundo Von Wright. intimamente associado à fenomenologia. No Brasil. é a compreensão baseada na empatia. dos sentimentos. Historiando o debate a partir da perspectiva das ciências sociais (e não da Filosofia. a defesa de métodos específicos para as Geistewissenschaften tem ligações históricas com o idealismo e está associada à diferenciação entre espírito (o eu transcendental) e a natureza (o eu empírico). que o que seus opositores chamam “entendimento” é meramente o estágio primitivo do tatear em busca de hipóteses explicativas (p. e a afiliação à perspectiva ideográfica. como no caso de Rorty). embora Droysen tenha sido o primeiro a introduzir essa distinção – rotulando os dois polos de Erklären (ciências da explicação) e Verstehen (ciências da compreensão) –.a capacidade de explicar. foi Dilthey quem a sistematizou.

os métodos qualitativos têm longa tradição. o movimento de mudança de concepções metodológicas chega mais tardiamente. como o Behaviorismo. numa apropriação ingênua do universo numérico em que a diferença entre as diferentes escalas – nominais. de um lado. Em outras. pelo menos no Brasil. e em movimentos identitários associados a afiliações teóricas. talvez em maior intensidade do que em outras disciplinas que estudam o homem. trouxeram expressiva contribuição. à entronização do número. Usamos a expressão infeliz pela resultante dicotomia que associa mensuração com rigor e tudo o que não pode ser mensurado com subjetividade. Desfamiliarizando a dicotomia Em algumas disciplinas. Tal postura leva. e. 48 . ordinais e de intervalo – são ignoradas. 2. pode ser detectado mediante a situação de intenso desenvolvimento de pesquisas na área da Educação. que mostrava uma “visível tendência de concentração de escolhas 5 Lüdke (1988). Na Psicologia. por sua afinidade com o campo e com os problemas da educação. É o caso da Antropologia.5 principalmente na segunda metade da década de oitenta. embora possibilite a convivência com procedimentos quantitativos. de outro lado. É nesse contexto de afiliação ao monismo e adesão à epistemologia da diferença que se desenha a infeliz distinção entre métodos qualitativos e quantitativos. à excessiva simplificação da objetividade em pesquisa. fundada a partir do método etnográfico que se apoia em grande parte na observação participante e em entrevistas. segundo Menga Lüdke (1988).entre as ciências biológicas ou humanas. o pêndulo metafórico a que se referia Kenneth Gergen (1985) – que balança entre a perspectiva exogênica alinhada aos empiricistas e a endogênica associada aos fenomenologistas – continua em movimento. como na área de pesquisa em Educação. Esse movimento. destaca a importância das pesquisas e propostas efetuadas por militantes de movimentos feministas que. numa tentativa igualmente ingênua de controlar a subjetividade do pesquisador.

metodológicas recaindo sobre as chamadas abordagens qualitativas” (Lüdke. O caminho marcado por regras inquestionáveis era mais fácil de ser trilhado. explicita a preocupação dos pesquisadores diante da ampliação do leque de possibilidades de escolhas metodológicas. A fala de um dos alunos de Lüdke da pós-graduação é autoexplicativa: “Como era fácil ser aluno e ser prof essor de Metodologia de Pesquisa no meu tempo de estudante” (Lüdke. o estatuto dos métodos qualitativos está fortemente associado à emergência de uma vertente teórica crítica pautada em questionamentos de cunho epistemológico e político. o que envolve. de Lüdke. Caderno de Pesquisa. no Caderno de Pesquisa. na leitura de Lüdke. (1988). 49 . 7 Essa discussão metodológica. Por que o conflito entre tendências metodológicas não é falso. O falso conflito entre tendências metodológicas. Essa virada qualitativa na Psicologia vem sendo amplamente documentada no âmbito 6 Luna.6 Por que o conflito entre tendências metodológicas não é falso. Barbosa Franco. Caderno de Pesquisa. Os títulos de três artigos publicados em 1988. um contexto propício para reflexões sobre o uso dos métodos qualitativos e quantitativos na pesquisa em Educação. M. tinha como consequência o aumento de responsabilidade em face dessas escolhas. ilustram a preocupação dos pesquisadores: Como anda o debate sobre metodologias quantitativas e qualitativas na pesquisa em Educação. 1988:61). Cria-se. na série Temas em Debate. de Sérgio V. por exemplo. O falso conflito entre tendências metodológicas. mas todos são questionados”. de Luna. São Paulo (66): 75-80. 7 Franco. do outro. São Paulo (66): 70-74. se por um lado proporcionava “uma riqueza de possibilidades de realização” no campo da pesquisa. P. S. (1988). São Paulo. a clareza necessária diante dos fundamentos epistemológicos que embasam sua metodologia. 1988:62). de Maria Laura P. exigindo muita seriedade e cuidado. por exemplo. B. portanto. L. Com a ampliação do leque de possibilidades. Na Psicologia. “muitos caminhos são possíveis. que. V.

UK/Philadelphia. (1996). B. Leicester. V. Taylor. M. de correspondência direta entre objeto e representação. D. M. (1988). Bonetti. E. Série Pré-print.. J. Tindall. (org. Thousand Oaks. Buscaremos situar o novo estatuto desses métodos. de coletâneas recentes sobre o acervo atual de métodos 9 ou de compêndios sobre técnicas computacionais especificamente relacionadas às análises qualitativas. M. USA: Open University Press. Buckingham. & Miles. Computer Programs for Qualitative Data Analysis: a software sourcebook. Lane.. Handbook of Qualitative Research Methods.). ou na vertente mediada) com a mística criada em torno da ciência-como-valor. UK: BPS Books. (org. ou melhor. T. C. I.. P. & Sawaia. será abordado no próximo item. Parker. Acción y Discurso. São Paulo: Educ (publicado em Montero. Burman. T. Caracas: Eduven).10 Vários fatores convergem para a atual ressignificação dos métodos qualitativos nas ciências humanas em geral e na Psicologia em particular. (1987) O Poder das Organizações. E..da disciplina seja a partir de discussões sobre métodos específicos 8. (1994). M. Já a desmistificação da ciência – como procedimento e valor – vem sendo efetuada tanto a partir da reflexão 8 Por exemplo: Pagés. & Descendre. as consequências das novas posturas construcionistas. California: Sage 50 . S. B.. a partir da visão hegemônica na qual a ideia de ciência emerge da confluência da postura epistemológica realista (na sua vertente mais ingênua.. De Gaulejac. O realismo. Richardson. Psicologia: Ciência ou Política. 9 Ver por exemplo: Banister. M. B. a pesquisa feminista e a epistemologia construcionista. E. Qualitative Methods in Psychology: a Research Guide. em grande parte. diferenciando-os da relação desenhada no âmbito dos modelos anteriores – o monismo metodológico e a epistemologia da diferença – e pontuando sua emergência na confluência de três esferas de atuação: a sociologia da ciência.. M. São Paulo: Atlas.). 10 Por exemplo: Weitzman. Desmistificando a ciência: a sociologia da ciência e a pesquisa feminista A controvérsia sobre metodologias qualitativas dá-se. A. (1995).

como a partir das reflexões da Sociologia da Ciência. destacando-se aí os trabalhos de Knorr-Cetina (1981). Esses instrumentos têm a 11 Kuhn. Latour e Woolgar (1979/1997). como na Física. abarca três pressupostos: a) os objetos do mundo natural são objetivos e reais e existem independentemente dos seres humanos. De acordo com Woolgar (1996). em Kuhn11 –. ‘corrente’ ou ‘tradicional’ de ciência” (p. difundida a partir de livros de texto ou do próprio senso comum. Latour (1987). como na escolha de escalas e questionários na Psicologia). Essa visão tradicional vem sendo paulatinamente questionada a partir dos estudos etnográficos das atividades desenvolvidas nos laboratórios. Essa visão. e Woolgar (1988). 51 . ou soft. Os resultados desses estudos apontam para a característica contingente da atividade científica. T. “grande parte dos trabalhos recentes na área de estudos sociais da ciência (descritos. 13). Fica claro – para quem quer ou pode entender esses resultados – que “os cientistas não estão apenas engajados na descrição passiva de fatos preexistentes sobre o mundo. ou seja. individualista e mentalista. The Structure of Scientific Revolutions. até mesmo quanto ao uso de instrumentos de pesquisa (sejam estes tecnologias hard. S.interna da Filosofia da Ciência – por exemplo. mas também estão engajados na formulação ou construção ativa das características desse mundo” (Woolgar. c) a atividade da ciência é racional. sendo determinantes últimos do conhecimento científico. A atividade científica é permeada por decisões. 1996:15). b) a ciência compreende um conjunto unitário de métodos e procedimentos sobre os quais há um alto grau de consenso. Chicago: University of Chicago Press. (1970). também. como estudos ‘pós-kuhnianos’ ou ‘construtivistas sociais’) são expressos na forma de crítica à visão ‘dada’. sendo esta circunscrita às condições e oportunidades locais.

A princípio buscava-se mostrar que as experiências das mulheres não tinham visibilidade em função dos vieses androcêntricos presentes nos pressupostos e nas práticas da ciência. porém. levando à 52 . Ressalta. De forma semelhante. a crítica feminista engendrou três tipos de abordagens em pesquisa. mostravam-se mais adequados para apreender essas experiências. 19). todas elas pautadas pelas vicissitudes do pesquisador. passou-se a fazer uma reflexão crítica dos fundamentos epistemológicos. com o passar do tempo. que presume uma série de decisões. sistemas de crenças e valores das comunidades científicas. sem atribuir conotação avaliatória da veracidade do conhecimento produzido.sua própria história. Uma primeira estratégia foi a identificação e correção dos vieses na pesquisa androcêntrica. De acordo com Erica Burman (1994). por serem mais flexíveis e sensíveis ao contexto e aos significados. Essa ressalva é necessária uma vez que o epíteto meramente (ou apenas) “é equivocadamente introduzido por aqueles que caricaturam os estudos sociais da ciência como uma forma de niilismo epistemológico” (p. especialmente no âmbito do “feminismo pós estruturalista”. políticas e culturais. que isso não significa afirmar que o conhecimento científico é meramente um constructo social. Os métodos qualitativos. enfatizando-se que os julgamentos sobre verdade e falsidade são eles próprios permeados por questões morais. foi o alijamento da mulher no edifício da ciência. e não pelo “caráter efetivo do mundo físico”. nos estudos sociais da ciência “o que conta como conhecimento científico bem sucedido é um constructo social”. a pesquisa feminista e a de gênero têm trazido importantes contribuições no sentido de desmistificar a ciência e situá-la como prática social. Woolgar (1996) aponta que o conhecimento científico é determinado pelas relações sociais. O foco inicial da crítica feminista. segundo Karen Henwood (1996). Nessa perspectiva. Entretanto. atravessada por questões de poder que têm como consequência a hierarquização por gênero e a cristalização da diferença. Em contraste com a visão tradicional. O autor emprega a expressão constructo social de forma técnica.

53 . loucura etc. na reflexividade. sobretudo por feministas negras e lésbicas.abordagem chamada de “empiricismo feminista” que buscava suplementar as lacunas focalizando a perspectiva da mulher em temas variados: trabalho. que focalizou não mais a exclusão da mulher dos paradigmas dominantes. as intervenções metodológicas feministas focalizam na experiência. uma vez que as três abordagens são “transformativas” e atendem ao projeto feminista de luta pela equidade de gênero nos âmbitos público e privado. Essas abordagens passaram a ser contestadas. Tais preocupações ontológicas ou experienciais vinculam-se ao projeto de explicitação das relações de poder opressivas nas práticas sociais em geral. esses movimentos variados geram turbulências que redefinem o debate entre métodos qualitativos e quantitativos. expressas também nas práticas de pesquisa (1994:124). e no uso consciente de uma subjetividade crítica. para atingir a clareza reflexiva sobre as condições de produção da pesquisa. Como não poderia deixar de ser. somam-se as perspectivas mais políticas da ressignificação da diferença e da emergência de denúncia sobre as relações de poder opressivas que se desenham no interior do campo científico. A despeito das diferenças entre essas abordagens. há um fio condutor – denominado por Harding (1987) de “ponto de vista feminista” – que dá uma unidade de intenção. muitas vezes intitulada de “relativismo feminista” ou “feminismo pós -estruturalista”. aos estudos que levam à desmistificação progressiva do fazerem-ciência. sendo esta vista como um tipo particular (culturalmente masculino) de subjetividade. Emerge assim uma terceira vertente. A segunda estratégia está associada ao “feminismo separatista ou essencialista”. Assim. devido ao pressuposto básico de que havia uma experiência feminina unitária. em termos de qual é a experiência que está sendo representada e validada na pesquisa. como uma crítica à objetividade. mas a diferença das experiências. ou “forte”. Como afirmam Burman et alii: apesar das versões variadas.

associada aos objetivos da investigação. incluindo a si mesmas. passando a alinhar-se a uma postura epistemológica específica. É a hermenêutica que. produtos das trocas historicamente situadas entre as pessoas” (Gergen. possibilita manter a conversação fluindo em vez de fechar precocemente a discussão. Isso implica abdicar da visão representacional do conhecimento que está colada à concepção de mente como “espelho da natureza” (Rorty. É o posicionamento no debate entre realismo e construcionismo que informa a postura metodológica. dessa forma. é a compreensão de que “os termos em que o mundo é compreendido são artefatos sociais.12 Difere substantivamente da epistemologia tradicional porque transfere a explicação dos processos de conhecimento das regiões internas da mente para a exterioridade dos processos e estruturas da interação humana. cumpre o papel de abertura continuada ao novo e. O método propriamente dito.2. como na triangulação metodológica. a produção de conhecimento alinha-se à vertente da pesquisa edificante. a investigação construcionista tem como foco principal a explicação dos processos pelos quais as pessoas descrevem. nessa proposta. 12 No capitulo um desta coletânea. 54 . na perspectiva da teoria do conhecimento. uma vez definido o alinhamento epistemológico. O termo pesquisa edificante é utilizado à semelhança da “filosofia edificante” referida por Rorty (1994). 1985:267). A metodologia qualitativa na vertente da pesquisa edificante deixa de ser uma opção meramente técnica.2. explicam ou contabilizam o mundo no qual vivem. Nessa perspectiva. O debate desloca-se. dessa forma. combinando estratégias quantitativas e qualitativas. pode ser único ou múltiplo. O cerne do construcionismo. da dicotomia entre quantidade e qualidade para a dicotomia entre realismo e construcionismo. A epistemologia construcionista No construcionismo. os pressupostos do construcionismo social são abordados de maneira mais detalhada.

na perspectiva construcionista tanto o objeto como o sujeito são construções sócio-históricas: o modo como acessamos a realidade institui os objetos que constituem a realidade. sendo o objetivo da ciência a aproximação cada vez mais precisa aos objetos. USA: Harper San Francisco. relatada por Walter Anderson. Reality isn’t What it Used to be. o segundo acata a mediação da subjetividade.1994). no es cierto que el mundo está constituido por un número determinado de objetos que están ahí fuera de una vez por todas y con independencia de nosotros. adotando a perspectiva de que o conhecimento não é uma coisa que as pessoas possuem em suas cabeças. mas eles nada são até que eu os nomeie”. científico o no. b) o idealismo (a perspectiva endogênica). assim coloca a questão: Ningún objeto existe como tal en la realidad. mas algo que as elas fazem juntas. em que o objeto é a determinação última do conhecimento. W. O terceiro diz: “Existem lances válidos e impedimentos. Lo que tomamos por objetos naturales no son sino objetivaciones que resultan de nuestras características. las categorías conceptuales 13 Anderson. A adoção de uma postura construcionista implica a ressignificação da relação entre sujeito e objeto. Há uma velha anedota. e eu os nomeio da maneira como os vejo”. que pressupõe a desfamiliarização com a ideia cristalizada de dualidade. O primeiro juiz alinha -se com o realismo. 55 . Há duas posturas que alimentam essa dicotomia: a) o empirismo (a perspectiva exogênica). um construcionista radical. por supuesto el conocimiento. bebericando suas cervejas e um deles diz: “Existem lances válidos e impedimentos. a realidade não existe independentemente do nosso modo de acessá-la. e eu os nomeio tal qual eles são”.13 que ilustra bem a diferença entre as três posturas. (1990). em que as categorias de entendimento são constitutivas da mente humana. de nuestras convenciones y de nuestras prácticas. Em contraste. Três juízes de futebol estão reunidos. e o terceiro é um construcionista radical. Dito de outra forma. Esas prácticas de objetivación incluyen. sendo universais e necessárias para que se chegue ao conhecimento. O segundo diz: “Existem lances válidos e impedimentos. T. Tomás Ibáñez.

por sua vez. É justamente a aceitação plena da natureza socialmente construída do fazer-ciência que leva ao aprofundamento da reflexão sobre os métodos qualitativos. el lenguaje en lo cual se hace posible la operación de pensar (1993a:112). quando afirmamos que algo foi construído. O construcionismo é um convite a examinar essas convenções e entendê-las como regras socialmente situadas. 56 . e como a pesquisa deveria proceder) e esta. 1996:23). Assim. o conhecimento não é uma ficção desenfreada. o mérito de tornar ma is claro “o quanto compartilhamos com nossos participantes todos os problemas e possibilidades de dar sentido ao mundo” (Woolgar. procurando distinguir “as posições epistemológicas (pressupostos sobre as bases do conhecimento) da metodologia de pesquisa (uma análise teórica que define um problema de pesquisa. Como afirma o próprio Ibáñez (1994). e b) buscar entender as diferenças existentes no âmbito das metodologias qualitativas. Ambas as metodologias. não se trata mais de definir que métodos – qualitativos ou quantitativos – têm mais possibilidades de traduzir como são de fato as coisas. talvez. Com a aceitação plena da postura construcionista. conforme alerta Henwood (1996). quantitativa e qualitativa. las convenciones que utilizamos. não estamos dizendo que os resultados dependem da idiossincrasia de quem o produziu. não escapamos das convenções aí desenhadas. dois cuidados interrelacionados: a) não cair na cilada de identificar quantidade com realismo e qualidade com construcionismo. Não se trata de um convite aberto ao relativismo.que hemos forjado. da estratégia ou técnica efetivamente adotada)” (1996:31). A crescente sofisticação e legitimação da metodologia qualitativa impõe. A opção pela vertente qualitativa em pesquisa tem. do método específico (ou seja. produzem versões sobre o mundo. Somos essencialmente produtos de nossas épocas e de nossos contextos sociais. sua produção obedece a restrições que orientam o relato possível.

classificar e explicar o mundo. e está presente nos modelos computacionais de mente. ou das grandes categorias criadas para serem utilizadas como eixo de análise na compreensão do mundo e das relações aí estabelecidas.3. 57 . Utilizamos categorias para organizar. tendo por referência o conceito de categorias como grupos de “membros equivalentes”. expressas por meio de práticas discursivas. como no caso das categorias qualitativo e quantitativo nas pesquisas científicas.2. nas artes. As categorias constituem importantes estratégias linguísticas estando presentes na própria organização da linguagem (verbal. no cotidiano das pessoas. escrita. alienação. o conceito de homem será: o homem é uma multiplicidade.14 na religião. Por exemplo. tais como natureza. na ciência etc. cuja extensão fornece a noção de múltiplo. para ficarmos apenas com algumas das mais conhecidas. As categorias. a unidade do conceito de homem recobre a multiplicidade dos homens existentes. Falamos por categorias. em que temos um conceito uno. que existirão ou existiram. são estratégias linguísticas delineadas para 14 Segundo Edwards (1991). Já outras categorias podem gerar debates acirrados. consciência. na filosofia. poder. inconsciente. classificamos as cores e damos nomes a animais sem demorar na análise da natureza dessas categorias. nesse caso. Categorias como práticas discursivas A discussão sobre o uso de categorias nas nossas práticas discursivas – incluindo aí a pesquisa – possibilita trazer um novo olhar para a discussão sobre a contraposição do qualitativo e quantitativo. Falamos de dias e noites. sendo compreendido a priori como passível de ressignificações continuadas. O que estaremos discutindo a seguir é a natureza das categorias como estratégias linguísticas e seu uso de forma situada. O argumento a ser desenvolvido aqui é que as categorias. Grande parte dessas categorizações está tão presente nas falas do cotidiano que não nos damos conta de sua existência. icônica). gestual. Já para Bergson. não questionamos se a cadeira pertence ou não ao grupo de objetos categorizados como destinados a servir de assento. estão presentes nas mais variadas formas de conhecimento. Por exemplo. mas permanece preso ao conceito original. o próprio conceito de uno é uma multiplicidade. a teoria clássica de categoria está identificada com uma tradição que vem desde Aristóteles. E sse conceito de membros equivalentes nos remete ao conceito de unicidade (herança de Platão). gênero. portanto.

seriam questões que mereceriam estudos cognitivos mais pormenorizados. O debate desloca-se. cujas especificidades estão vinculadas ao contexto que as produzem. decorrentes de modelos culturais. 1969. passíveis de remover essas diferenças. Isso significa que a variabilidade na forma como as pessoas categorizam as coisas. como ironiza Edwards. dessa forma. sujeitas à indexicalidade15 e à retórica. Apesar de reconhecer que as categorias são fenômenos linguísticos culturalmente variáveis. o autor afirma que um dos pontos-chave do cognitivismo é a ideia de que as categorias e as categorizações são propriedades mentais compartilhadas. 1991).conversar. 15 A discussão sobre indexicalidade será feita mais adiante ao se abordar a superação dos horrores metodológicos. A cultura propriamente dita tende a ser vista como uma espécie de organização cognitiva socialmente compartilhada (Tyler. Estamos nos referindo à multiplicidade com que uma categoria pode ser empregada. apoiadas no uso de categorias cuja função é dar sentido à experiência. regionais ou universais. 1990. No entender de Derek Edwards (1991). o estudo das categorizações pode ser muito rico se as categorias forem compreendidas como práticas discursivas situadas. da validade ou capacidade para traduzir os fenômenos – do plano conceitual. Ou seja. citados por Edwards. ou. D’Andrade. É a cognição que dirige as práticas discursivas. portanto – para sua função no âmbito das práticas sociais. estando seu uso subordinado aos processos e estruturas de conhecimento. explicar. organizar e dar sentido ao mundo. requereriam procedimentos metodológicos mais sofisticados. 58 . é dada ênfase às suas propriedades universais e à representação mental. Contrapondo essa visão à concepção de categorização postulada pela abordagem cognitiva. há espaço para estudá-las à luz do contexto em que são utilizadas e da finalidade com que se organiza uma determinada retórica. A abordagem cognitiva tende a tratar as categorias como evidência de algo. e especialmente as variações de uso por uma mesma pessoa.

Também no campo da pesquisa científica as categorias são utilizadas para produzir versões variadas. O processo de desfamiliarização. Tendo em vista que as descrições categoriais envolvem escolha e reorganização retórica. 59 . usálas em novas combinações. culpabilização.Em contraste. 16 têm limites de pertencimento fluidos. portanto. a abordagem discursiva. como entender os usos a que se prestam nos processos dialógicos de comunicação. negação. as pessoas podem empregar categorias a partir dos usos habituais. acusação etc. sugerindo que o sistema de categorias de linguagem não funciona simplesmente como estratégia para organizar e compreender o mundo. Jonathan Potter e Margareth Wetherell 16 Os aspectos habituais dos processos comunicativos a que nos referíamos no capítulo dois. A categorização é tomada como construção em duplo sentido: construções culturais que estão disponíveis para dar sentido à experiência. mas para conversar e falar sobre os fenômenos que nos rodeiam e sobre nós mesmos. refutação. As categorias semânticas. entretanto. pautadas pelo uso do sentido mais hegemônico e cristalizado. As análises de conversa e de discurso têm mostrado que os participantes empregam descrições categoriais de maneira reflexiva e em conformidade com o contexto interacional. utilizadas para a consecução de ações (persuasão. As categorias de linguagem são adaptáveis à situação em que ocorre a conversa. e de dar visibilidade às consequências interacionais daí decorrentes. trata a conversa e os textos como formas sociais de ação e não como representações de cognições pré-formadas (mesmo quando reconhecido o papel da cultura). Nas conversas. Há.). implica tanto entender que determinadas categorias foram socialmente construídas. embora frequentemente consensuais. nessa perspectiva. gerando espaço para controvérsias. e construções situadas. na visão de Edwards (1991). podem. aos requisitos necessários para as descrições e às diferenças de perspectivas. um aspecto pragmático do uso de categorias que extrapola o âmbito puramente semântico. permitindo múltiplas e contrastantes possibilidades de uso. elas carregam a possibilidade de expor o posicionamento do emissor da fala.

portanto. sobre câncer). “pouco precisas”. questionar a eficiência do investimento em pesquisa – objetivo da instituição beneficente.17 Não que não existisse a matemática. Esquecemos. a instituição beneficente tem interesse em mostrar o valor de seu trabalho. Entretanto. assim. ao comentarem sobre o número dos tipos de câncer passíveis de cura. 60 .(1991) analisaram o debate travado em um programa de televisão sobre a eficácia das instituições beneficentes de câncer. “mais subjetivas” de eventos analisados qualitativamente. quando Leonardo Pisano (conhecido como Fibonacci) publicou sua obra magistral – o Liber Abaci. P. que os números que usamos em muitas de nossas 17 Apud Bernstein. que os números são convenções e não expressões de quantidades naturais. examinar como os números são utilizados numa prática situada de debate sobre eficácia de investimento em pesquisa (no caso. (1977). a quantificação é um dos mais poderosos instrumentos de legitimação das afirmações: cômputos numéricos são frequentemente contrastados com as versões “vagas”. uma quantidade relacional – um por cento – a uma quantidade que utiliza um número absoluto – um quarto de um milhão. Data apenas do século XIII. Essa estratégia possibilitava. Procuraram. Nesse caso específico. mas com a introdução dessa notação numérica abriram-se novas possibilidades de cálculo. Esquecemos. O Desafio dos Deuses – a fascinante história do risco. Para tanto. aos debatedores. não se trata apenas de entender o uso que é feito do número. os números também têm história. Frequentemente esquecemos quão recente é a utilização do sistema indo-arábico de numeração no Ocidente. os produtores do programa utilizam a seguinte estratégia linguística: um por cento de um quarto de um milhão de tipos de câncer são curáveis. sobretudo. focalizando o uso da quantificação de modo a compreender como os números são utilizados para produzir versões compatíveis com o ponto de vista defendido. Rio de Janeiro: Campus. Para os autores. competia aos debatedores problematizar as afirmações dos representantes da instituição. Contrapunham. assim.

61 . O debate continua Em 1995 a revista The Psychologist publicou uma edição especial sobre pesquisa qualitativa. O que particularmente nos chamou a atenção foi que. apesar do esforço de algumas áreas em procurar desfamiliarizar a dicotomia em torno dos métodos. Apresentamos. 3. por último. que dão sentidos distintos às expressões numéricas que nelas se sustentam! Ao apresentar a análise de Potter e Wetherell como exemplo. Que ciência é essa? Apesar das pesquisas qualitativas terem conquistado certa respeitabilidade. alguns aspectos dos artigos publicados em outubro de 1998. desencadeando um debate entre pesquisadores da área da saúde. em outubro de 1998. o embate em torno da questão do método – se quantitativo ou qualitativo – ainda assume papel central. em abril de 1997 e. nosso objetivo não foi discutir a pertinência dos métodos qualitativos e quantitativos. Nessas esferas.práticas discursivas na pesquisa científica são notações decorrentes do uso de escalas com estatuto bastante diferenciado (as escalas nominais. essa querela continua na ordem do dia. ordinais e de intervalo).1. mas mostrar que as categorias não podem ser compreendidas de forma desvinculada do uso e da história de sua construção. a contraposição entre quantitativo e qualitativo assume relevância quando vamos do dentro dos procedimentos consagrados no âmbito de cada campo disciplinar para o campo maior da interdisciplinaridade. As categorias não têm um valor ou sentido que lhes seja intrínseco. a seguir. com artigos publicados em janeiro de 1996. 3.

N. partindo de uma postura reflexiva de fazer pesquisa. Espera-se algo mais dos cientistas (1988:481). Para esses autores. M.) 62 .18 no artigo Science or Pseudo-science?. 18 Morgan. a pesquisa qualitativa permite compreender o ser humano na fluidez das relações sociais. O “novo pesquisador científico”. New Science and Psychology. Neil Cooper e Chris Stevenson. & Stevenson. C. (1988). Contrapondo-se a esse posicionamento. Escola de Neurociência da Divisão de Psiquiatria. Chris Stevenson é Lecturer em Prática de Enfermagem Psiquiátrica. The Psychologist 11(10):484-485. da Universidade de Newcastle. marginalizando-a de outras conversações possíveis. Neil Cooper é Senior Lecturer em Estudos da Saúde na University of Sunderland. uma vez que não possui métodos padronizados de pesquisa que. Morgan é do Instituto de Oftalmologia e do Depto. quando necessária – e trabalhar com métodos qualitativos não apenas como um “bom jornalismo investigativo”. (Dr. entendem que a visão “ciência = bom” tem servido apenas para amarrar a Psicologia. mas não deveria requerer um status científico para os seus estudos qualitativos. Além disso. 19 Cooper. Além disso. não se diz convencido de que a esfera social requeira alternativas radicalmente diferentes daquelas utilizadas em pesquisas tradicionais. 19 no artigo ‘New Science’ and Psychology. são imprescindíveis para uma ciência objetiva. argumenta que a pesquisa qualitativa em Psicologia fornece subsídios para a compreensão da “mente humana”. afirmam que Morgan não compactua com a ideia de que ciência seja uma atividade social. O pesquisador afirma: tenho que ser convencido de que as técnicas [da Psicologia qualitativa] vão além daquelas de uma boa investigação jornalística. Dra. segundo o autor. de Anatomia e Desenvolvimento Biológico da University College London). pode adotar ou criar um método apropriado de investigação – incluindo a quantificação.Michael Morgan. não vejo razão em pagar pesquisadores para desempenhar essa função. Estabelecer relações com as pessoas é trabalho de qualquer um. (1988). School of Health Sciences. Science or Pseuco-science? The Psychologist 11(10):481-483. (Dr.

como aponta Edgard Morin (1985) ao falar do anel do conhecimento. Social Dimensions of Research. que dentre os argumentos utilizados pelos pesquisadores que advogam o uso do método qualitativo. porém. The Psychologist 11(10): 486-487. historicidade e contextualidade implícita do nosso conhecimento sobre o mundo. Põe em evidência.A outra pesquisadora presente nesse debate. Carol Sherrard. também se contrapõe a Morgan. seja no sentido mais restrito que lhe dão Carol Tindall (1994) de que pesquisador e participantes são considerados colaboradores na produção de conhecimento. pois possuem diferentes conceitos e experiências que. Fica claro.) 63 . de Psicologia da University of Leeds. o posicionamento da pesquisa como uma prática social assume papel de destaque. sem contudo refutar a utilidade do quantitativo. em última instância. a expressão e produção de práticas discursivas aí situadas 20 Sherrard. defendendo a utilização das duas abordagens – qualitativa e quantitativa – e ressaltando que o fato de diferentes pesquisadores utilizarem os mesmos métodos não garante que os mesmos dados sejam obtidos (embora dados totalmente discrepantes também sejam estranhos). ainda. que as pesquisas qualitativas passam a buscar sua identidade no confronto entre métodos.20 no artigo Social Dimensions of Research. Vale ressaltar. O argumento apresentado é que os próprios pesquisadores diferem entre si. (Dra. seja no sentido mais amplo de que toda pesquisa tem o caráter de colaboração. A busca de elementos comuns põe em evidência o caráter processual da pesquisa – numa aceitação plena do dinamismo. C. (1998). Essa postura aponta para o reconhecimento crescente da responsabilidade do pesquisador durante todo o processo da pesquisa e não apenas na apresentação de um produto. serão utilizados na compreensão e interpretação do que o outro está dizendo. no conjunto sempre crescente de opções metodológicas e no debate metodológico mais amplo sobre a objetividade. Carol Sherrard é do Depto. ao abordarmos a entrevista como uma situação relacional por excelência. a dialogia e intersubjetividade intrínseca do processo de pesquisa. Por exemplo.

ou seja. a reflexividade e a ética. Esse abismo faz-se presente de três formas. No próximo item. 64 . são pessoas ativas no processo de produção de sentidos. a reflexão sobre a natureza do conhecimento. estaremos discutindo a questão da objetividade e do rigor.) 3. assim como a reconceituação dos parâmetros de rigor e validade. Indexicalidade A indexicalidade refere-se à situacionalidade. ou vinculação com o contexto: o sentido muda à medida que a situação muda. Adotando essa postura. (A ética na pesquisa e a pesquisa ética serão abordadas na sequência. A entrevista passa então a ser reconhecida como um processo de interanimação dialógica. a fidedignidade. Na perspectiva realista o controle da indexicalidade dá-se a partir dos critérios de validade e fidedignidade. Os dois critérios estão associados ao instrumento de medida ou de acesso à realidade. Superando os horrores metodológicos: Objetividade e rigor na pesquisa qualitativa A pesquisa. incluindo o pesquisador. é definida pela replicabilidade dessas medidas. portanto. As implicações desta concepção extrapolam o confronto entre técnicas quantitativas e qualitativas. portanto. denominadas por Woolgar (1988) de “horrores metodológicos”: indexicalidade. os integrantes. inconclusividade e reflexividade. assim como as características da pesquisa tomada como prática social atravessada por questões de poder. a reflexão sobre rigor e validação exige um novo enquadre. exigindo reflexões sobre ética e poder na relação que se estabelece entre pesquisador e pesquisado. na perspectiva realista.devem ser compreendidas também como fruto dessa interação. Implica. por sua vez. abandonando a questão da validade e fidedignidade e trazendo para o cenário a polissemia. é regida por condutas regradas que visam superar o abismo entre nossas representações e a realidade. A validade refere-se ao grau de correspondência entre a medida e o que está sendo medido.2.

A indexicalidade deixa assim de ser um horror metodológico. o sentido da triangulação foi se modificando. “o objetivo da pesquisa qualitativa não é a replicabilidade e sim a especificidade” (p. Num primeiro momento. na qual a complexidade é domada pela seleção das variáveis – comprometendo a 65 . originalmente proposta por Denzin (1978). constituindo-se em um dos caminhos de busca de credibilidade perante a comunidade científica. passando a ser um elemento intrínseco dos procedimentos de pesquisa. Na perspectiva da epistemologia realista. o horror que essa complexidade gera prende-se à impossibilidade de generalização dos resultados. cultural e dinâmico –. Inconclusividade A inconclusividade refere-se à complexidade dos fenômenos sociais e à impossibilidade de controlar todas as variáveis intervenientes. As soluções buscadas variam do ideal da pesquisa em laboratório. capazes de trazer à baila resultados contrastantes ou complementares que possibilitam uma visão caleidoscópica do fenômeno em estudo. 11) . esses critérios precisam ser reconceituados. envolvia um complexo processo de contraposição de métodos. A triangulação assim reconceituada busca a combinação de métodos heterogêneos. de modo a maximizar a validade da pesquisa. Como apontam Ian Parker (1994). o uso combinado de diferentes métodos. a conceituação de validade e fidedignidade a partir da mediação dos instrumentos de coleta de dados levou os pesquisadores que utilizavam métodos qualitativos a propor o uso de triangulação metodológica: ou seja. fontes de dados ou abordagens teóricas.Na perspectiva construcionista – sendo a realidade entendida como um fenômeno histórico. abandonando-se a referência à validação a favor do enriquecimento da interpretação. Como afirma Uwe Flick (1992). na medida em que se tornou mais claro – pelo menos para os pesquisadores alinhados a uma epistemologia construcionista – que cada método configurava o objeto de uma forma específica. tornando-se responsabilidade do pesquisador a descrição e exploração plena do contexto de pesquisa. A estratégia.

Na pesquisa qualitativa há uma aceitação plena da processualidade dos fenômenos sociais e a mudança – induzida até pela participação num protocolo de pesquisa – é. Mas. A generalização. em que a complexidade é domada pela sofisticação das técnicas de amostragem – comprometendo a compreensão do sentido às custas de uma padronização excessiva das informações obtidas. igualmente. O controle da subjetividade latente levou ao desenvolvimento de desenhos consagrados – como o duplo cego. vista como conteúdo. ser exploradas. aqui potencializado. amplamente utilizado em pesquisas biomédicas.aproximação possível com a realidade extralaboratório –. levou a inúmeras considerações sobre a neutralidade do pesquisador. para muitos. 1994). explorando-se as maneiras pelas quais a subjetividade do pesquisador estruturou a forma em que o fenômeno foi definido (Parker. Mas os critérios de escolha dos participantes devem ser explicitados. em contraste. numa abordagem qualitativa. fica comprometida. Na pesquisa direcionada pelas epistemologias realistas. e as possíveis consequências dessa escolha devem. às agruras da pesquisa de campo. transforma a subjetividade num recurso a mais. Procura-se chegar o mais próximo possível do relato objetivo do fenômeno em questão. pelo menos nas duas vertentes propostas por Tindall 66 . As implicações para a escolha dos participantes são importantes: não se trata mais de delinear amostras representativas porque há pleno reconhecimento da variabilidade de experiências. o horror metodológico. Reflexividade A reflexividade refere-se à espiral da interpretação e aos efeitos da presença do pesquisador nos resultados da pesquisa. mesmo se reinterpretada como ilustração das inúmeras possibilidades de sentido. um fator positivo e indicador da possibilidade de transformação social. continua sendo possível. O rigor na pesquisa qualitativa passa a ser a explicitação da posição do pesquisador. A pesquisa informada por epistemologias construcionistas. quando vista a partir da perspectiva dos processos de produção de sentido.

c) a comunicação intersubjetiva entre observadores e experimentadores. Em suma. Isso implica colocar à disposição da comunidade – científica ou não – os dados brutos da pesquisa. fenômenos da ordem da intersubjetividade e prendem-se à possibilidade de socializar o processo interpretativo. a ressignificação da objetividade abre espaço para o debate em torno da ética.(1994): a) reflexividade pessoal e b) reflexividade funcional. 1985:16). segundo Morin. “a objetividade. Na medida em que esse aspecto público da atividade científica do novo paradigma é explicitamente assumido. podem ter concepções opostas. A reflexividade funcional volta-se para a comunidade e para a maneira como “quem somos” influi no processo de pesquisa e em seus resultados. que será retomado no capítulo quatro. A avaliação dos resultados das pesquisas qualitativas prende-se. envolvendo diferentes observadores ou experimentadores que. e como meus interesses e valores incidem sobre o delineamento da pesquisa e sobre minhas interpretações. portanto. b) considerar o nível de desenvolvimento tecnológico de uma cultura e de uma sociedade. à objetividade possível diante do que Morin (1985) denomina de “problema epistemológico da complexidade”. A reflexividade pessoal implica a reflexão sobre quem sou eu-pesquisador. em alguns casos. 67 . segundo esse autor. assim como os dados acessórios provenientes da postura reflexiva acima descrita. pode ser considerada como o último produto de um consenso sociocultural e histórico da comunidade/sociedade científica” (Morin. assim. Para ser reconhecida. A objetividade dos dados. O rigor e a avaliação são. elemento primeiro e fundador da verdade e da validade das teorias científicas. a objetividade supõe: a) concordância de resultados. está fragilmente vinculada às observações empíricas.

21 a Declaração de Helsinque em 1964 (revista em 1996). (1998). a mobilização maior foi das instituições internacionais que se autointitulam guardiãs do fazer ético em pesquisa. apesar de não terem força de lei. declarações e diretrizes. sucederam-se num movimento continuado de aperfeiçoamento das diretrizes: o Código de Nuremberg em 1947. & Hossne. S. A Ética e a Metodologia – pesquisa médica. Os códigos de ética. elaborados de modo a proteger a sociedade contra possíveis abusos. movidas pelo horror das revelações dos bastidores da grande guerra. a normatização para pesquisas envolvendo seres humanos foi promulgada. São Paulo: Pioneira.3. & Hossne. No Brasil. S.23 Mesmo não estando isentos de interpretações e interesses variados. Essa ética científica foi tema central das discussões travadas nos anos cinquenta e sessenta. Esses códigos. S. W.3. estabeleceu ser obrigatório obter o consentimento do participante de pesquisa clínica (Vieira & Hossne). pela primeira vez. A Ética e a Metodologia – pesquisa médica. esses códigos e diretrizes representam a abertura metafórica das portas dos 21 Vieira. 22 as Diretrizes Internacionais para Pesquisas Biomédicas Envolvendo Seres Humanos. pela Resolução 1/88 do Conselho Nacional de Saúde e revisada em 1996. em abril de 1999. em colaboração com a Organização Mundial da Saúde (OMS). (1998). Naquele momento histórico. 22 Uma nova revisão da Declaração de Helsinque está em curso e foi discutida em Santiago.) 23 Vieira. (Document: 17. A ética na pesquisa e a pesquisa ética A ética na pesquisa está mais vinculada a prescrições e normatizações – algo que vem de fora. 68 . redigido durante o julgamento dos médicos nazistas. além de servirem como parâmetro para as políticas das agências financiadoras de pesquisa. Chile. são importantes na medida em que influenciam a legislação de cada país.C/Rev1/98 . S. elaboradas pelo Conselho para Organizações Internacionais de Ciências Médicas/CIOMS.Proposed revision of the World Medical Association Declaration of Helsinki. W. São Paulo: Pioneira. publicadas em 1982 e revistas em 1993.

uma vez que o próprio processo de participação traz novas possibilidades de interpretação sobre a pesquisa. a proteção do anonimato. como tal. e 3) aceitar que a dialogia é intrínseca à relação que se estabelece entre pesquisadores e participantes. 2) garantir a visibilidade dos procedimentos de coleta e análise dos dados (objeto de discussão do próximo capítulo).laboratórios. a pesquisa ética configura-se pelo compromisso e aceitação de alguns aspectos que consideramos imprescindíveis: 1) pensar a pesquisa como uma prática social. nossa proposta de pesquisa ética vai além de diretrizes oficiais. criando oportunidades únicas para a reflexão ética. No que se refere à relação entre pesquisadores e participantes. Convive mais facilmente com as pesquisas alinhadas às epistemologias construcionistas. trazendo o fazer-em-pesquisa para o debate público. O consentimento informado é o acordo inicial que sela a colaboração e. O princípio básico do consentimento informado é a transparência quanto aos procedimentos e quanto aos direitos e deveres de todos os envolvidos no processo de pesquisa. adotando uma postura reflexiva em face do que significa produzir conhecimento (abordado ao longo dos itens anteriores). dada a tradição aí estabelecida de que o conhecimento dos objetivos enviesa os resultados da pesquisa. a possibilidade de desfazer o acordo é cláusula fundamental do consentimento informado. é instrumento essencial para discutir as informações e pressupostos que norteiam a pesquisa. Nessa perspectiva. É um consentimento inicial. A transparência tem difícil convivência com muitos dos pressupostos da pesquisa alinhada às epistemologias realistas. As posturas construcionistas criam o cenário propício para a discussão da ética a partir de dentro do próprio processo de pesquisa. e o resguardo do uso abusivo do poder na relação entre pesquisador e participantes. passam a ser três os cuidados éticos essenciais da pesquisa qualitativa: os consentimentos informados. passível de ser revisto em diferentes momentos. Entretanto. dada a aceitação implícita da reflexividade no processo de 69 .

como nos adverte Ibáñez (1993b). É frequentemente entendido como confidencialidade. enfatizar nossa responsabilidade na escolha do tipo de ciência que queremos produzir. pelo contrário. zelando para que a curiosidade seja controlada pelo princípio do respeito à intimidade e da não disrupção das estratégias de enfrentamento presentes na interlocução. os objetivos estão presentes nas hipóteses que os participantes – concebidos como colaboradores ativos no processo de pesquisa – elaboram sobre o que deles é esperado. ou seja. a não revelação ou a revelação velada. Ao adotarmos esses princípios norteadores. em última instância. O anonimato é um mecanismo de proteção que implica a não revelação de informações que possibilitem a identificação dos participantes. Já do ponto de vista dos pesquisadores. embora muitos pesquisadores considerem que o caráter público da pesquisa é incompatível com o segredo implícito na confidencialidade. 70 . para muitos. como no pedido de desligamento do gravador. Ou seja. alienante e autoritário ou. o cuidado que se coloca é o da sensibilidade quanto aos limites apropriados da revelação. um conhecimento libertário que contribua para a luta contra a dominação.pesquisa. o que. Garantir o anonimato. revelados ou não. a postura ética implica o estabelecimento de uma relação de confiança em que é assegurado aos participantes o direito de não resposta. é o compromisso ético possível. Quanto ao resguardo das relações de poder abusivas. buscamos. pode gerar um conhecimento normalizador.

garantir o rigor da análise. Spink e Helena Lima O objetivo deste capítulo é apresentar algumas estratégias por nós desenvolvidas com a finalidade de dar visibilidade ao processo de interpretação na pesquisa e. dessa forma. por exemplo. É sobretudo necessário justificar por que estamos depositando o rigor na explicitação do processo de interpretação. antes de proceder à apresentação das técnicas de visualização. fazem-se necessários alguns esclarecimentos de modo a situar o conceito de rigor com o qual estamos trabalhando. como em qualquer forma de sociabilidade.CAPÍTULO IV RIGOR E VISIBILIDADE: A explicitação dos passos de interpretação Mary Jane P. Estamos partindo do pressuposto – conforme discutido nos capítulos anteriores – de que fazer ciência é uma prática social e. dos passos da análise e da interpretação a que chegamos. a aparente simplicidade das regras da boa apresentação escondem questões deveras complexas. o aprendizado de elaboração de relatórios e de artigos para publicação em revistas científicas. o conceito subjacente de evidência que nos possibilita atribuir aos nossos dados o estatuto de representante do real? Como nos apropriamos dessas evidências 71 . Entretanto. em ciência. seu sucesso e legitimação estão intrinsecamente associados à possibilidade de comunicação de seus resultados. A comunicação. Qual é. implica a apresentação do acervo de informações com os quais estamos lidando. Entretanto. em vez de nos apoiarmos na estratégia consagrada de privilegiar o desenho da pesquisa (o método). Essa é uma proposição aparentemente simples e suficientemente compreendida por todos nós que passamos por processos de formação em pesquisa que incluem. entre outras coisas.

problematizar a noção de evidência. ciência é conhecimento de verdades universais que são verdades por necessidade. na epistemologia medieval. para uma nova linguagem – a da interpretação? Qual. Associando rigor a visibilidade. filósofo que tomou para si a tarefa de estudar a emergência do conceito moderno de probabilidade. por exemplo. Havia saberes outros – o da alquimia e o da medicina. conceito que emerge apenas no século XVII.e as traduzimos. fornece (inadvertidamente. se podia chegar ao conhecimento por meio da demonstração a partir de proposições. Hacking focaliza a transição da scientia medieval para os primórdios do método experimental. da física. Mas não só a scientia movia os fazeres humanos. Buscamos. assim. definir o que entendemos por rigor. em suma. não sendo esse seu objetivo principal) algumas pistas valiosas para entender os meandros da evolução da noção de evidência e as possibilidades atuais da interpretação dos dados de pesquisa. desenvolvemos algumas estratégias de interpretação das informações disponíveis e de apresentação dos resultados de nossas pesquisas. talvez. 72 . da matemática. Estas serão apresentadas na parte final do capítulo. ainda. Lembra-nos que. neste capítulo. o estatuto de objetividade que resulta dessa confluência de evidência e interpretação? Propomos. Da autoridade dos textos à leitura da natureza: a evidência das coisas Só recentemente a evidência das coisas passou a fundamentar a ciência. entre eles – que se pautavam por 1 Hacking adverte que não se trata da necessidade lógica contemporânea. 1.1 Além do conhecimento das verdades primeiras – inquestionáveis por serem tão simples e fundamentais –. De modo a situar a gênese da noção de probabilidade que viria a embasar a teoria matemática da probabilidade. discorrer sobre a natureza do processo de interpretação e situar o conceito de objetividade com o qual estamos trabalhando. Ian Hacking (1975/1984). Era essa a tarefa dos saberes nobres. de seus estados brutos.

segundo Hacking. Hoje. aemulatio – o 2 São Tomás de Aquino viveu no século XIII. Não se trata ainda do realismo dominante hoje. como ainda hoje. pautavam-se na autoridade. utilizamos testemunhos – como por exemplo nos tribunais da justiça – quando nos reconhecemos ignorantes da evidência das coisas. obra que data de 1661: “(. a interpretação dos signos trabalhava com a unidade mínima da semelhança. Foucault (1966/1987b) nos conta que. Buscando liberar-se da autoridade dos textos. da alma e do corpo. em que. Para isso.) os autores chamam a evidência do testemunho de externa ou extrínseca. fica plenamente explicitada apenas na Lógica de Port Royal. por exemplo. Foram necessárias várias ressignificações para que a epistemologia Tomista2 pudesse dar lugar à ciência moderna. constituindo um corpus organizado que incorporava quatro noções: convenientia – o ajuste. Entramos assim numa nova etapa. durante o século XVI. especialmente no âmbito do Catolicismo.. as crenças ou doutrinas que não decorrem da demonstração.outra forma de pensar: a opinio. a Renascença busca retornar ao verdadeiro testemunho: aquilo que está escrito na natureza. entretanto. Pertencentes ao domínio da argumentação e da disputa. era necessário aprender a ler o livro da natureza desvendando seus signos. 73 . A filosofia Tomista teve papel importante na vitória do aristotelismo contra o platonismo na Idade Média. O período de transição da evidência-baseada-em-autoridade (de pessoas ou textos) para a evidênciadas-coisas tem como elemento central uma teoria dos signos. legitimando a evidência-dascoisas em detrimento da evidência do testemunho e da autoridade. tem ainda hoje importantes repercussões. A evidência das coisas é chamada interna” (1984:33). Central nesse processo foi a ressignificação do conceito de evidência. e não na demonstração.. a evidência primária passa a ser a evidência das coisas: interna e não externa. A distinção entre esses dois tipos de evidência. Mas na Renascença a visão era outra: o testemunho e a autoridade precediam a evidência das coisas e estas só contavam como evidência quando se assemelhavam ao testemunho de observadores ou à autoridade dos livros.

nós não conseguimos ainda ler a grande sentença que está escrita no firmamento. a assinatura que. a diagnose e a dissecação. num sentido lateral. Dessa forma. Torna-se endêmica. analogia.paralelismo dos atributos de substâncias ou seres distintos. nem todo signo era confiável e as regularidades. estáveis e passíveis de se tornarem leis. que constituía o conhecimento em profundidade. apud Hacking. e signatura. como adverte Hacking. “embora a leitura do livro do universo. Mas. que ia de uma semelhança superficial a outra mais profunda. passaram a fazer parte da técnica de leitura do mundo. também. que era o passo. havia muitos tipos de experimentos na era medieval: o teste. em contraste. torna-se problemática essa leitura pois. que se delineiam as novas formas de empirismo. ou seja. A disposição dos signos ocorria num espaço homogêneo. e o simulacrum. desse modo. Estavam polarizadas. as duas formas de conhecimento: o consensus. a identidade das relações entre duas ou mais substâncias distintas. fosse sempre confiável. Possibilitavam duas formas de engendramento: o cognitio. operava pela 74 . A dissecação implicava o desmonte de algo para ver o que está dentro. como as propriedades visíveis de um indivíduo. 1984:43). linear. a falsa semelhança. de uma semelhança a outra. Digo novas formas porque. era a imagem de uma propriedade invisível e oculta. Portanto. as teorias do signo e das técnicas de interpretação tinham como substrato uma definição perfeitamente clara de todos os tipos possíveis de semelhança. se completa. O teste. a aventura. propiciando leituras restritas e interpretações predeterminadas. nesse período. de forma que os atributos eram como que o reflexo de uns e outros (as sete partes do rosto como emulação do céu com seus sete planetas). a metáfora do grande livro do universo. legitimado pelo mundo que fundamentava as semelhanças. como fazia Vesalius em seus estudos anatômicos. paralelamente. e temos que confiar no microcosmo que nos circunda” (Frascatoro. herdeiras das baixas ciências medievais. e o divinatio. É nesse espaço.

mas nada pode concluir de sua verdade” 3. Já a aventura não era guiada por teoria. assim como na obra de Hobbes. Na nova ciência. Delineia-se. um homem pode fazer uma aposta de vinte para um no evento. Citado em Hacking. era preciso inferir as causas a partir do experimento” (Hacking. Muitas das atividades da alquimia inseriam-se nessa perspectiva. nem o mero teste ou o adivinhar os contornos de uma nova lei à luz da aventura: “trata -se da evidência de algo que aponta para além de si mesmo” (Hacking. As regularidades lhes dão sustento. 1984:48. Muita água teria que rolar antes que o conceito de signo pudesse passar da linguagem do médico renascentista para o signo deliberado que pode ser tomado como expressão da evidência interna: seria necessário sobretudo. a problemática moderna da evidência: o signo torna-se conjectura. mas jamais a certeza: “a experiência nada conclui universalmente. nesse espaço. ora uma atividade central para o entendimento dos fenômenos. 75 . e isso ocorreria já na Lógica de Port Royal. Nas palavras de Hacking: “Na velha tradição aristotélica. a scientia procedia por meio da demonstração dos efeitos a partir das causas primeiras. a diagnose medieval implicava inferência: a partir da observação. 1984:37). Em contraste. 3 Hume. era pura e simples exploração.visão interna chamada dedução: a comprovação da teoria. Fica instaurada a suspeita que fará da hermenêutica ora uma prática maldita. Essas novas causas eram causas eficientes: explicavam como as coisas funcionavam. Não estamos falando aqui das origens do que se convencionou chamar de método experimental. em A Natureza Humana. que se distinguisse entre signos convencionais e naturais. É aqui que a leitura dos signos e a experimentação dão-se as mãos. inferia-se o que havia de errado com o paciente. 1650. mas de algo que lhe é básico. Se os signos ocorrem vinte vezes para cada uma falha. 1984:37). gerando um novo conceito de evidência: não mais um simples olhar.

digamos. partindo de uma dimensão do que poderíamos qualificar de profundidade.2. senão para restituir a exterioridade resplandecente que foi recoberta e enterrada” (1987c:19). e a interpretação era tarefa finita e pautada em noções predeterminadas. os signos escalonam-se. a partir de uma reflexão sobre a interpretação em Marx. modificando a natureza do signo e a forma usual de interpretação: do caráter limitado e linear das técnicas interpretativas utilizadas no século XVI. Michel Foucault busca entender a que sistema de interpretação pertencemos hoje. posto que a semelhança não permitia extrapolações. à profundidade: mas. a partir do século XIX os signos passam a se encadear numa trama inesgotável – porque tinham amplitude e abertura irredutíveis... a partir do século XIX num espaço mais diferenciado. e somente no século XIX novas possibilidades de interpretação se configurarão no pensamento ocidental. adverte Foucault. As técnicas interpretativas assumem um caráter não linear. fundamentadas na semelhança. A dogmatização da ciência e a cristalização do critério de verdade única tornaram a tarefa do intérprete algo submetido a leis rígidas e a critérios hermenêuticos e científicos ingenuamente tomados como capazes de apresentar uma leitura única dos fenômenos da existência.) na realidade não se pode recorrer a esta linha descendente sempre que se interpreta. Essas novas possibilidades fundamentam-se na referência ao intérprete: “as técnicas de interpretação nos dizem respeito e nós. É preciso que o intérprete desça. Freud e Nietzsche. como intérpretes. 76 . Da possibilidade de uma hermenêutica Em belíssimo texto escrito originalmente em 1975. 1987c:17). Se no século XVI os signos remetiam-se entre si de modo restrito. “(. temos que nos interpretar a partir destas técnicas” (Foucault. Considera que as críticas baconiana e cartesiana da semelhança deixaram em suspenso as formas de interpretação fundamentadas no século XVI.

A interpretação passa a ter o caráter de inacabado. porque no fundo já é tudo interpretação. que deve trucidar. uma certa ambiguidade e malevolência. o caráter inesgotável da interpretação pode suscitar conclusões precipitadas e restritivas. passam a ser interpretações que têm que se justificar. É a primazia da interpretação em relação aos signos que dá um valor decisivo à hermenêutica moderna. estruturais (referentes aos padrões articulados de associações) e interacionais (referentes ao contexto da interanimação dialógica). o caráter simples e benévolo que tinha no século XVI.) a interpretação não aclara uma matéria que com o fim de ser interpretada se oferece passivamente. 1987c:23). ela necessita apoderar-se.. A interpretação. “Não há algo absolutamente primário a interpretar. 1987c:25). reinventando-se a cada nova trama engendrada. resolver e romper a golpes de martelo” (Foucault. Adquire. cada símbolo é em si mesmo não a coisa que se oferece à interpretação. 4 Estamos utilizando símbolo e signo como “formas simbólicas convencionais” que pressupõem aspectos históricos (relativos ao estabelecimento das convenções). redescobrindo-se em formas e conteúdos de possibilidades infinitas. No dizer de Foucault: O símbolo4 ao adquirir esta nova função de encobrimento da interpretação perdeu a sua simplicidade do significante que todavia possuía na época do Renascimento. e a sua densidade própria abriuse. dessa forma. O signo perde. Segundo Foucault. O limite entre o ponto da interpretação absoluta e o desaparecimento do próprio intérprete sinalizaria o início do retrocesso da interpretação. mas a interpretação de outros símbolos”. 77 . como por exemplo que não há nada a interpretar. assim. e violentamente.. seria uma relação de violência mais do que de elucidação. então. quando o princípio da semelhança provava a benevolência de Deus e aproximava signo e significado. e pôde então precipitar-se na abertura em direção a todos os conceitos negativos que até então tinham permanecido alheios à teoria dos símbolos (Foucault. a existência de um ponto de ruptura. de uma interpretação que já está ali. ou seja: “(.

Crer na existência absoluta do signo é abandonar a violência e o inacabado da interpretação. concebemos hermenêutica como a relação entre discursos variados considerados como partes integrantes de uma conversação possível. pontuam o sentido possível da hermenêutica na perspectiva construcionista. É deixar. seria “(. A segunda consequência é a circularidade da interpretação: ao interpretar-se a si mesma. ou ainda que haja linguagens que se articulam em formas não verbais. Nessa perspectiva. é compreender que não há mais do que interpretações. é crer que há signos que existem por si mesmos. o que sustenta a interpretação não é a existência de uma matriz disciplinar comum. um significado menor que anuncia outro que. e as suspeitas aí engendradas. Como diz Rorty: 78 . entretanto. Primeiramente.) o significado mais importante. nos diz Foucault. 1987c:14). a suspeita de que a linguagem não diz exatamente o que diz e que o sentido que se apreende e que se manifesta de forma imediata seria apenas uma das possibilidades de sentido. Essa articulação entre linguagem e interpretação. 1987b:27). É por isso que a hermenêutica e a semiologia são ferozes inimigas. que a interpretação é sempre a interpretação de alguém: “O princípio da interpretação não é mais do que o intérprete” (Foucault. A morte da interpretação. mas a esperança de que a concordância é possível contanto que seja possível manter a conversação fluindo.. como marcas coerentes. o significado ‘que está por baixo’” (Foucault. A vida da interpretação.Duas consequências se depreendem dessas considerações.. “para fazer reinar o terror do índice e suspeitar da linguagem” (Foucault. em suma. aflorarem as antigas suspeitas que são produzidas na articulação da linguagem e da interpretação. por sua vez. não pode deixar de voltar-se sobre si mesma. Em consonância com as reflexões de Richard Rorty (1979/1994). 1987c:26). Primeiro. pertinentes e sistemáticas. A linguagem engendra ainda a suspeita que há muitas outras coisas que falam e que não são linguagem.

mas simplesmente a esperança de concordância. compreendê-las para poder participar da conversação. um método ou um programa de pesquisa. rever o sentido da racionalidade. que se trata de advogar o uso da força em vez da persuasão. parece. o projeto de comensurabilidade – de busca de um terreno comum. propor sua negação. fazer uma revisão do conceito de rigor. Trata-se de entender o longo processo de construção dessas regras e de compreender as características das linguagens sociais que aí se engendraram. entretanto. 1994:312). porém. conforme discutido no capítulo três –. assim. Situar a interpretação no plano da conversação não implica. Para muitos.. Abandona. enfim.Essa esperança não é a esperança da descoberta de terreno comum anteriormente existente. 1994:314). na perspectiva construcionista.1. Implica. discordância interessante e frutífera (Rorty. como dizem os críticos de Feyerabend e Kuhn. a mera sugestão de que talvez não haja esse terreno comum parece colocar em perigo o projeto de racionalidade. dialeticamente. ou de cair num relativismo malévolo. O construcionismo permite. a partir da qual se decidiria a questão sobre todo ponto em que as colocações parecem conflitar” (Rorty. Re-situando a racionalidade no plano da argumentação. ou. deixa de ser o nome de uma disciplina. o rigor fica frequentemente depositado na triangulação entre replicabilidade.. e até mesmo para. Na perspectiva construcionista o rigor 79 . a tarefa interpretativa passa a ser coextensiva com a compreensão das regras de conversação que pautam o fazer em ciência. ao menos. Na perspectiva da comensurabilidade – do monismo metodológico. A interpretação e o rigor na perspectiva construcionista A hermenêutica.) um conjunto de regras que nos diga como pode ser alcançada uma concordância racional. generabilidade e fidedignidade. ou de “(. sendo essas noções tributárias do parâmetro científico de verdade concebida como correspondência com a realidade. 2. abrir mão do projeto da racionalidade. abrindo mão da associação estrita entre esta e a objetividade pensada como relação de correspondência com a realidade.

ser revisto e re-situado como processo intersubjetivo. 1985:14). Esse diálogo.passa a ser concebido como a possibilidade de explicitar os passos da análise e da interpretação de modo a propiciar o diálogo. ela não se restringe a isso: estaria. encontrando-se preso aos processos históricos e sociais e ainda às vicissitudes dos relacionamentos humanos. do conhecimento e mesmo do critério de verdade/realidade. abre possibilidades de reflexão acerca do fazer científico. que deixou de ser sinônimo de certeza para se tornar sinônimo de incerteza” (Morin. em princípio. sim. É dessa forma que Morin introduz o problema da objetividade. 80 . outros “(.2. assim. desenvolvido no âmbito da pesquisa que se quer científica. a objetividade dos enunciados e a coerência lógica das teorias que tomavam esses dados como substrato. associada aos conceitos de complicação e confusão. O conceito de objetividade precisa. A partir desse momento alguns se entregaram a uma dúvida generalizada. artesão capital desta evolução.. Embora a palavra complexidade seja.) tentaram salvaguardar um núcleo de objetividade e de racionalidade no seio do pensamento científico” (Morin. transformou o próprio conceito de ciência. não é um processo livre. 2. Popper. aspecto de sua teoria da complexidade que nos interessa particularmente. 1985:14). palavras e conceitos – e das mutilações decorrentes de articulações insuficientemente trabalhadas. Segundo Edgar Morin: “Pode -se dizer que a epistemologia anglo-saxônica dos anos 50-60 descobriu que nenhuma teoria científica pode pretender-se absolutamente certa. A complexidade do problema da objetividade Um dos aspectos mais importantes da crise do pensamento contemporâneo é a crise dos fundamentos do conhecimento científico – a saber. O paradigma da complexidade ao mesmo tempo em que desmistifica o dogmatismo científico. relacionada ao problema da dificuldade de pensar. porque o pensamento é um embate das articulações possíveis entre lógica..

pode ser considerado ao mesmo tempo como o último produto de um consenso sociocultural e histórico da comunidade/sociedade científica” (1985:16). mas. É preciso. pressupõe-se a existência de uma comunidade científica com regras definidas para que se aceite (ou não) os resultados da observação. Num interessante esquema das dimensões implicadas na objetividade. que existam meios para que se efetue a comunicação intersubjetiva. É preciso. assim. a sociedade – mobiliza-os. de valores e crenças sobre a missão da ciência. também. segundo Morin. aparece como uma espiral dinâmica. a objetividade está perpassada pela dialogia.. 81 . a cultura. são regras que nos falam das aspirações mais profundas de busca de saber. é preciso.) o elemento primeiro e fundador da verdade e da validade das teorias científicas. Morin propõe que a objetividade vem da observação. Cria-se. Não pode ser concebida nem como um a priori. sendo “(.. A cientificidade. que haja uma tradição crítica. portanto. é a parte emersa de um iceberg profundo de não cientificidade. A objetividade não petrifica ou paralisa o espírito humano. ainda. É na entropia gerada pelo consenso-antagonismo-conflitualidade entre concepções e teorias que se configura o caráter objetivo da investigação. Todos os elementos constitutivos do conhecimento científico – alguns com suas raízes na cultura. que necessariamente estão associadas ao estágio tecnológico de uma dada cultura. nem como ponto de partida absoluto. Não se trata necessariamente de regras do jogo da pesquisa. Para que essa comunidade funcione. sendo a objetividade ao mesmo tempo o fundamento e a consequência da intersubjetividade. um elo entre objetividade e intersubjetividade. Ou seja. uma grande descoberta científica – que ainda não foi realizada pela maior parte dos cientistas. na sociedade. o que nos reenvia a problemas históricos e culturais pertinentes ao contexto mais amplo da ciência. que existam técnicas de observação. A descoberta de que a ciência não é totalmente científica é. para ser reconhecida. ou seja. é preciso que a concordância dos resultados seja estabelecida por observadores vários que poderão inclusive ter concepções opostas. encadeando autoprodução e reconstrução. a pessoa.Morin considera que a objetividade. claro.

O sentido é. buscamos. ressignificá-la como visibilidade. como um processo de produção de sentido. É com esse intuito que temos buscado desenvolver técnicas de análise que sejam caminhos de visualização. posicionar. É 82 . na teoria – obrigam-nos a uma interrogação que excede o quadro da epistemologia clássica. Coloca-nos necessariamente o problema do conhecimento e somos levados a encarar a relação entre espírito humano. explicitamos os sentidos resultantes do processo de interpretação apresentando os resultados da análise por nós realizada. entender esses eventos à luz de categorias. concebida como pressuposto básico da intersubjetividade. propomos que o diálogo travado com as informações que elegemos como nossa matéria-prima de pesquisa nos impõe a necessidade de dar sentido: conversar. assim. Estão imbricadas aí a explicitação do processo de interpretação – tomando-o como circular e inacabado –. Durante todo o percurso da pesquisa estamos imersos no processo de interpretação. como elemento intrínseco do processo de pesquisa. que o processo de interpretação é concebido. sem abandonar a objetividade. portanto. Não haveria. e do sentido da interpretação no encontro entre pesquisador e seus pares. dessa forma. A exemplo dos diálogos travados em tantos outros domínios de nossas vidas. A interpretação emerge. priorizar. momentos distintos entre o levantamento das informações e a interpretação. O desafio que portanto se coloca é o de. o meio e o fim de nossa tarefa de pesquisa. teoria e o que tomamos como real. assim como a compreensão da dialogia na dupla acepção de elemento básico da produção de sentido no encontro entre entrevistador e a voz do entrevistado (ao vivo ou cristalizada em texto ou imagem). em nossas pesquisas. buscar novas informações. Como atividade-fim. de início. selecionar são todos decorrências do sentido que atribuímos aos eventos que compõem o nosso percurso de pesquisa. Visibilidade e interpretação na pesquisa com práticas discursivas Cumpre-nos esclarecer.outros no modo de organização das ideias. hipóteses e informações contextuais variadas. 3. aqui. Como atividade-meio.

e não apenas como atividades-fim com a função de dar visibilidade ao processo de interpretação. na perspectiva conversacional de análise. discussões de grupos.nesse momento que as várias técnicas de visibilização que serão apresentadas a seguir se constituem como estratégias para assegurar o rigor 5 – entendido sempre como a objetividade possível no âmbito da intersubjetividade. procurando deixar aflorar os sentidos. Para fazer aflorar os 5 Embora essas técnicas também façam parte da dinâmica do processo de interpretação. a partir do século XIX. contudo. 83 . Buscamos. a análise tende a privilegiar a linguagem verbal. estamos dispostos a escutar toda essa possível linguagem. Como aponta Foucault. Como é comum em pesquisas que buscam entender o sentido dos fenômenos sociais. constituindo-se como atividades-meio – elementos importantes da espiral da interpretação –. 6 Ao fazer esta afirmação temos plena consciência de que não se esgota aí as possibilidades da linguagem. então. as formas de análise propostas têm buscado trabalhar a dialogia implícita na produção de sentido e o encadeamento das associações de ideias. com mais atenção que nunca.. tratando de surpreender sob as palavras um discurso que seria mais essencial” (1987:14). tendo como foco o processo de produção de sentido. falar-nos. classificações e tematizações apriorísticas não façam parte do processo de análise. “(. conforme discutido no segundo capítulo desta coletânea. classificações ou tematizações definidas a priori. textos etc. Mas não são apenas os conteúdos que nos interessam.6 Mas não apenas os conteúdos verbais. Tendo em vista a centralidade dos repertórios interpretativos na abordagem utilizada para a compreensão da produção de sentido. Há um confronto possível entre sentidos construídos no processo de pesquisa e de interpretação e aqueles decorrentes da familiarização prévia com nosso campo de estudo (nossa revisão bibliográfica) e de nossas teorias de base. a análise inicia-se com uma imersão no conjunto de informações coletadas. as enfermidades e todo o tumulto que nos rodeia pode. sem encapsular os dados em categorias.) a partir dessas categorias.) os gestos mudos. e. tais processos de categorização não são impositivos. analisar o material que temos ao nosso dispor (entrevistas. É desse confronto inicial que emergem nossas categorias de análise.. igualmente. Não que essas categorias.

sentidos. embora iniciando com categorias teóricas. precisamos entender.1. Constituem instrumentos de visualização que têm duplo objetivo: dar subsídios ao processo de interpretação e facilitar a comunicação dos passos subjacentes ao processo interpretativo. de natureza temática. Os mapas de associação de ideias Os mapas têm o objetivo de sistematizar o processo de análise das práticas discursivas em busca dos aspectos formais da construção linguística. gerando uma aproximação paulatina com os sentidos vistos como atividade-fim. Busca-se organizar os conteúdos a partir dessas categorias – a exemplo das análises de conteúdo – mas procura-se preservar a sequência das falas (evitando. o próprio processo de análise pode levar à redefinição das categorias. é simples. 3. A construção dos mapas inicia-se pela definição de categorias gerais. dessa forma descontextualizar os conteúdos) e identificar os processos de interanimação dialógica a partir da esquematização visual da entrevista como um todo (ou de trechos selecionados da entrevista). os mapas não são técnicas fechadas. constituem formas de visualização das dimensões teóricas. apenas sendo deslocado para as colunas previamente definidas em função dos objetivos da pesquisa. É com essa finalidade que desenvolvemos os mapas de associação de ideias. Dessa forma. também. até porque rompe com as formas usuais de análise categorial (como na análise de conteúdo) ou 84 . Há um processo interativo entre análise dos conteúdos (e consequente disposição destes nas colunas) e elaboração das categorias. Nesse primeiro momento. o uso feito desses conteúdos. embora a técnica possa gerar algumas dificuldades. Com o duplo objetivo de dar subsídios para a análise e dar visibilidade aos seus resultados. que refletem os objetivos da pesquisa. uma vez entendidos seus objetivos. que refletem sobretudo os objetivos da pesquisa. A construção dos mapas. Para a consecução desse objetivo o diálogo é mantido intacto – sem fragmentação –. dos repertórios utilizados nessa construção e da dialogia implícita na produção de sentido.

constrói-se uma tabela com um número de colunas correspondente às categorias a serem utilizadas. 1994a) Nesse estudo. como pela falta de conhecimentos precisos e consensuais sobre sua etiologia. dada a proximidade diferencial com a informação científica. Exemplo 1: Os mapas de associações de ideias na pesquisa sobre permanência e diversidade nos sentidos da hipertensão arterial essencial (Spink. 85 . conforme pode ser visualizado nos exemplos a seguir. O objetivo principal da pesquisa era entender quais os repertórios disponíveis para dar sentido à hipertensão arterial essencial e as possibilidades de ação decorrentes dos sentidos assim produzidos. respeitando a sequência do diálogo.1. as entrevistas realizadas com um médico clínico geral e com quatro pacientes foram gravadas e posteriormente transcritas. usa-se as funções cortar e colar para transferir o conteúdo do texto para as colunas. Partindo do pressuposto de que as possibilidades de sentido para o médico e para os pacientes seriam diferentes. um efeito escada. e digitase toda a entrevista.temática (como na análise clínica). a hipertensão arterial essencial foi escolhida como cenário para o estudo das relações médico-paciente tanto pela prevalência desse agravo à saúde na sociedade moderna. como resultado. Os programas de processamento de texto adequam-se melhor às alterações continuadas (de construção de categorias. A técnica envolve os seguintes passos:    utiliza-se um processador de dados. frutos das discussões de caso – realizadas pelo coletivo de pesquisadores – e do próprio processo de refinamento contínuo decorrente das demais etapas analíticas. Obtém-se. A fim de analisar os repertórios utilizados e a produção de sentido.1. tipo Microsoft Word. havia interesse também em entender como as diferentes visões eram negociadas na consulta. 3. assim como de disposição de conteúdos nas colunas do mapa).

. A Medicina. Mas é um tratamento que depende da colaboração deles.Mapa 1.. Tratamento Eu Paciente Investimento afetivo Mas é claro que se a gente pode esclarecê-lo mais ele também vai colaborar nessa conduta Nós sabemos muito tratar. porque ele tem que se conscientizar. o tratamento é bem conhecido. Muitas vezes. que no fundo o que o paciente precisa é a conduta. apesar de não se saber a causa profundamente. O que a gente não sabe é dar atenção para a parte do paciente (.) remédio nós temos muitos: às vezes o paciente tá recebendo 3 ou 4 remédios e ninguém conversou com ele sobre o que ele está vivendo. os médicos e a hipertensão arterial essencial A doença Hipertensão Hipertenso Medicina Existe uma coisa interessante na Medicina. reduzir a pressão com remédio. tem 86 . as drogas. “Erre o diagnóstico. A gente resolve uma parte Mas fica sempre um paciente muito angustiado e ao menor descuido a pressão sobe. Existe este tipo de coisa. mas acerte a conduta”.

87 . do médico e do paciente) e o investimento afetivo presente na fala do entrevistado. não há uma boa resolução. nessa pesquisa. Dessa forma. respeitando a ordem da fala original. Seguindo os passos básicos da construção dos mapas de associação de ideia. a fala foi transposta em sua totalidade para as colunas. Na nossa área de atuação. portanto. criar um vínculo médicopaciente. sem dar atenção para esse lado. no exemplo aqui apresentado. um trecho da entrevista em que o médico discorre sobre as formas de tratamento. referências à natureza da hipertensão ou às características biopsicossociais dos portadores de hipertensão. com o paciente. na visão do médico). como a hipertensão é tratada (na perspectiva da Medicina. não havia. três categorias foram utilizadas para análise: o que é hipertensão (para o médico e para o paciente. entender o que era hipertensão e que formas de tratamento eram viáveis. resultando daí o uso de seis colunas. para ilustração. Escolhemos. precisa tomar remédios que o fazem sentir muito mal Então é aí que vem a dificuldade A maioria dos médicos trabalha pouco isto Eu procuro trabalhar isto. referente à entrevista com o médico. Interessava sobretudo. seria o conversar mesmo. um pouco porque já senti que.que tomar uma dieta que não gosta.

era para nós importante. seio. Cada bloco incorporava três p erguntas: “o que vem à sua cabeça quando se fala a palavra (corpo. permite visualizar o procedimento e contrastá-lo com o anterior. Como a ordem das associações. usamos um roteiro de entrevista que se dividia em blocos temáticos de associação de ideias. Para esta pesquisa.1. por nós intitulada de entrevista associativa. Buscando entender a relação entre os sentidos de corpo (e seio) e doença (incluindo o câncer de mama) e as estratégias de prevenção. explicações das associações e os qualificadores. e suas implicações para as estratégias de prevenção. utilizamos quatro colunas para a construção dos mapas: o objeto da associação (em cada bloco e sub-bloco). 7 Pesquisa desenvolvida em colaboração com a Profa. referente ao bloco de associações sobre o corpo. Apoio: CNPq. Dra. em cada bloco da entrevista. “o que tem isso a ver com você?” e “foi sempre assim?”. Tendo como objetivo a exploração de técnicas qualitativas para o estudo do câncer.2.3. 88 . a pesquisa gerou um espaço propício para o desenvolvimento de técnicas de análise que pudessem ser acatadas por profissionais da área biomédica. Gimenes. Maria da Gloria G. Decorre daí o empenho na reflexão sobre a objetividade na pesquisa qualitativa (num primeiro momento) e na abordagem construcionista (num segundo momento). primeiras associações. 19947) Essa pesquisa visava investigar de forma retroativa o enfrentamento do diagnóstico de câncer da mama. Exemplo 2: Os mapas de associação de ideias na pesquisa sobre os sentidos do câncer da mama para as mulheres (Spink & Gimenes. desenvolvemos uma técnica específica de entrevista. saúde e câncer)?”. O exemplo a seguir. assim como entender o sentido dado ao câncer por mulheres que não haviam passado pela experiência de um diagnóstico positivo.

A gente entristece quando perde alguma coisa. ah. portanto.Mapa 2: O corpo para Aparecida (entrevista 28) 8 Objetos L. estando assim intrinsecamente vinculada às perguntas do entrevistador e às suas sínteses visando encerrar um bloco e passar para outro bloco ou sub-bloco. seu corpo.A primeira coisa que eu queria saber é o que vem à sua cabeça quando eu falo a palavra corpo? E. Pense agora no seu corpo. seio.. Em suma. eu acho a anatomia muito bonita. muito bonitos mesmo. muito perfeitos.. tem as diferenças. acho linda. saúde e câncer) e sub-blocos (por exemplo. a anatomia masculina.Corpo. 8 Os nomes aqui utilizados são fictícios. foi sempre assim). 89 . aos vários objetos de associação definidos no roteiro. Primeiras associações Explicações das associações Qualificadores Considerando que a entrevista associativa subdividia-se em blocos (corpo. perfeitos. eu acho os dois muito lindos. a anatomia feminina. a primeira coluna foi reservada às perguntas que inauguravam blocos associativos e às sínteses que os encerravam. a primeira coluna – objetos – serviu de marcador para a introdução de um novo bloco associativo. Ficou restrita. O que isso tem a ver com o seu corpo?”. Por exemplo: “Você disse que acha a anatomia linda.

também. foram colocadas as falas que explicitavam a tonalidade afetiva das associações: emoções. como as do entrevistado. as figuras de linguagem. incluímos no roteiro uma segunda parte voltada à experiência passada com doenças. sentimentos e valores. Nossa!”. neste caso.narrativa sobre a operação de 90 . como nos demais usos feitos dessa técnica) retratam sempre a sequencialidade e dialogia.. Reiteramos que as colunas (nesse exemplo. na quarta coluna. assinalando a temática [por exemplo. denominada primeiras associações. que as entrevistas são conversas que fluem ao sabor das perguntas. podendo englobar falas do entrevistado e do entrevistador. tal como “Ai meu Deus!. consideradas pelas nossas entrevistadas como vivências particularmente marcantes. Finalmente. portanto. denominada nesta pesquisa de qualificadores.Na segunda coluna. Compreendia. que objetiva a visualização das associações relacionadas aos blocos e sub-blocos. assim. É importante assinalar que o mapa do exemplo 2. na pesquisa sobre o câncer de mama. Foram colocadas aí. (. Tornou-se difícil. foram colocadas apenas as respostas à pergunta efetuada na primeira coluna. tanto as associações do entrevistador. que pudessem servir de subsídio para a compreensão da ruptura cognitiva/emocional que determinadas perguntas e intervenções do entrevistador geravam no entrevistado (e vice-versa).. mais densa. utilizar a mesma estratégia analítica. pois as categorias de análise não se adequavam à forma discursiva. incluindo os pedidos de esclarecimento feitos pelo entrevistador. seio etc. Inadvertidamente. Optou-se por assinalar esses trechos usando reticências entre parênteses. Saímos. A terceira coluna. as explicitações do conteúdo das associações. englobou todas as explicações e esclarecimentos sobre o sentido das associações constantes da segunda coluna: englobava. no processo de análise. do âmbito das associações para o das narrativas. é apropriado à análise dos conteúdos referentes à entrevista associativa. Ficou óbvio. Essa coluna constituiu o principal apoio para a busca dos repertórios disponíveis para falar sobre corpo. assim.

com a formulação de uma nova pergunta. entender as singularidades da produção de sentido. Têm como ponto de origem a pergunta do entrevistador e literalmente seguem o fluxo do discurso. fica óbvio que a construção das categorias de análise depende. Não há número fixo de colunas. Em comum. É quando se visualiza a dialogia e a coconstrução das formas discursivas que se torna possível compreender o processo de interanimação que faz da pesquisa uma prática social. temos que a leitura vertical das colunas possibilita a leitura dos repertórios. O esquema abaixo ilustra esses procedimentos: 91 .útero. que será discutida posteriormente neste capítulo. fundamentalmente. Apoia-se. nas colunas do mapa para uma leitura horizontal das mesmas. Permitem visualizar o fluxo das associações de ideias inaugurado pela pergunta do entrevistador e encerrado com suas sínteses. É um processo de construção que está intimamente relacionado ao objetivo da investigação e aos repertórios disponíveis. Possibilitam. sendo delimitada pelos indicadores de início e término de cada bloco ou sub-bloco. dessa forma.. No caso específico da pesquisa sobre câncer da mama a construção das árvores de associação (assim denominadas pelas ramificações geradas por esse procedimento de análise) obedeceu à estrutura da entrevista associativa. ou sequência predeterminada de categorias. usando linhas simples para o desenrolar das associações dos entrevistados e linhas duplas para as intervenções do entrevistador. presas tanto à história de cada pessoa quanto à dialogia intrínseca do processo de entrevista. “é só isso!”) ou. e analisar o trecho posteriormente utilizando a técnica das linhas narrativas.2. enquanto a leitura horizontal permite a compreensão da dialogia. do tipo de pesquisa realizada. 3. Comparando os dois exemplos..)]. ainda. As árvores de associação As árvores de associação constituem mais um recurso para entender como um determinado argumento é construído no afã de produzir sentido num contexto dialógico. assim. com as afirmações conclusivas do entrevistado (por exemplo.

gerada a partir das intervenções do entrevistador. a fala do entrevistador é incluída na árvore de associação. o fluxo de associações resulta de uma coconstrução.Árvore de associações 1: Bloco corpo da entrevista com Aparecida (E28) Corpo acho a anatomia muito bonita/linda feminina e masculina (lindos/perfeitos/muito bonitos) a gente entristece quando perde alguma coisa Muitas vezes. restringindo as árvores à ideia 92 . Por exemplo: Árvore 2 . como no caso da pesquisa sobre hipertensão arterial essencial. é necessário muitas vezes abreviar as falas para entender o fluxo de associações. diferenciada pelo uso de linhas duplas.O corpo para Elisa (E05) Corpo? Para ter corpo firme tem que ter mente boa corpo tem várias interpretações não só o externo mas o que me vem de momento é isso [firme?] Ágil Fazer algum esporte Sentir bem [cabeça boa?] quando a mente está boa diminuo ansiedade esteticamente fico melhor quando psicologicamente não estou bem como um monte de chocolate acabo ficando gorda fico com muita ansiedade a mente precisa estar boa para ter o corpo que gostaria de ter o interno também Em entrevistas de cunho mais narrativo. Nesses casos.

3. as árvores associativas são estratégias adequadas para a compreensão de determinadas passagens das entrevistas (ou de qualquer outro material discursivo). por não necessariamente reproduzirem as falas. Diferem dos mapas em dois aspectos: primeiramente por serem utilizadas em passagens específicas do material disponível (e não em sua totalidade) e.central que está sendo expressa na fala. focalizando apenas sinalizadores considerados fundamentais para a compreensão do processo de construção do argumento. portanto. Constituem. estratégias potentes de visualização da construção argumentativa. estratégias analíticas complementares aos mapas. São. Árvore 3 . em segundo lugar. por isso mesmo.A Medicina e a hipertensão arterial essencial Em suma. assim. 3. mais sintéticas e. O exemplo abaixo formata em árvore o trecho reproduzido no mapa 1. em que buscamos entender a construção (ou coconstrução) do argumento. As linhas narrativas As linhas narrativas são apropriadas para esquematizar os conteúdos das histórias utilizadas como ilustrações e/ou posicionamentos identitários 93 .

uma imposição de linearidade. eles pensou que ia aparecer. sabe. Graças a Deus. no contexto de uma entrevista ou texto. Aí não apareceu mais. Surgiu de repente? De repente.no decorrer da entrevista. foi até particular. pele. eles fizeram vários exames. Acho que foi só esta. As narrativas estão presentes até mesmo em contextos que não são explicitamente narrativos. Pelo corpo inteiro. Ela começa coçando tudo. visto que busca situar cronologicamente (numa linha horizontal) os eventos marcadores da história contada. mais simples. quando eu engravidei. Por exemplo. Eu peguei aquilo lá eu não sei como. é sarda que fala? Acho que é. Aí ele passou remédio.1. tudo. Aí eu tive que ir ao médico correndo. falou assim se eu demorasse muito que não tinha nem mais jeito. Podia voltar e podia não voltar. Constitui. Ela comeu a minha pele. O primeiro. então você não aguenta. Podia voltar. Sempre que. sem dúvida. cabelo. emergir uma narrativa. Quando foi que aconteceu? Ah. é proveniente da pesquisa sobre câncer da mama. eu tinha dezessete anos. 3. Quando eu tive neném. Sarou completamente? Sarou completamente. Como nem sempre as histórias são contadas de forma linear. as respostas às perguntas de um questionário fechado podem ser entendidas como encadeamentos resultantes de posicionamentos identitários decorrentes de uma narrativa subjacente sobre “quem sou eu” na situação de pesquisa.3. Exemplo 1: Sarda. É um negócio que come toda a pele. pode-se usar a linha narrativa como recurso analítico. Utilizaremos dois exemplos como ilustração. Decorre daí a necessidade e a riqueza do uso de múltiplas técnicas de análise que se interpenetram e se complementam. as linhas narrativas constituem esforços de compreensão pautados numa perspectiva temporal que nem sempre faz justiça à construção argumentativa. Autores como Somers (1994) e Murray (1997) destacam que as narrativas constituem uma das formas discursivas mais presentes no cotidiano. Foi a mais marcante. É sarda. a doença mais marcante para Antonia (E01) Qual foi a doença mais marcante para você? Que eu já tive? É. São feridas? 94 . Mas não voltou.

tendo em vista a estrutura narrativa das comunicações do cotidiano. Aí voltou tudo ao normal. e só então. que é de graça. Podia voltar mas não voltou começa coçando tudo | você não aguenta Essa é uma história contada a dois. situa a doença em uma linha histórica: época em que surgiu. vou no Hospital das Clínicas. foi o máximo que eu aguentei. 95 . caiu minha unha. Se tinha médico assim particular. aí ele passou pomada. Que come tudo. no corpo todo. sequência de ações e implicações futuras. A linha narrativa da doença mais marcante para Antonia: peguei com 17 anos | um negócio que come a pele | peguei não sei como aí fui ao médico | ele passou remédio | sarou completamente quando engravidei | eles pensou que ia aparecer | não apareceu. Não deu tempo nem de. para ir correndo.Comeu tudo a pele. Os textos jornalísticos frequentemente apoiam-se em estratégias narrativas. Antonia fornece alguns dos elementos espontaneamente e outros em resposta às perguntas da entrevistadora. perto da outra que nasceu. até ir ao médico. Em contraste. publicada por ocasião da morte da princesa Diana – o texto está explicitamente organizado por uma cronologia de eventos. minha pele ficou diferente. tipo. Descreve primeiramente a doença. eu não sabia muito bem. no cabelo. não é? Tinha de ser uma coisa particular. Meu corpo ficou todo cheio de mancha branca. seja porque essa forma de expressão é de fácil compreensão. se deixar come tudo. respondendo à entrevistadora. no segundo exemplo – uma matéria de jornal. Tinha dois dias. Até arrumar o médico. seja porque possibilitam a organização sintética de material complexo. para ser rápido. porque fazia pouco que eu cheguei aqui.

sempre mais aparente que real. 96 . Exemplo 2: Divórcio selou vitória de Diana Diana Frances Spencer nasceu no final da tarde de 10 de julho de 1961 em Park House. Ela era alegre. para a qual Diana e sua irmã Sarah haviam sido convidadas. seu pai se tornou o oitavo duque Spencer. lorde Fermoy. “uma virgem de boa fé”. nas palavras de seu tio. quando Diana tinha quase 14 anos. os Althorp se separaram depois de 14 anos de casamento. Em termos escolares não se destacava. Para a garotinha. Diana se encaixava perfeitamente. novas mudanças. fo i mandada para uma escola preparatória. comprou um apartamento no b airro de Earl’s Court. Em 1979. com o nascimento de seu irmão Charles.3. 18 meses depois do divórcio dos pais. Diana ia à escola Silfield. Trecho da matéria publicada na FSP em 01/09/1997 (reprodução de artigo de Rupert Cornwell. a terceira filha do visconde e da viscondessa Althorp. passou a dar aula a pré-escolares. seu irmão Charles assumiu como visconde Althorp e ela e suas duas irmãs se tornaram ladies. e. Com o dinheiro herdado ao completar 18 anos. foi um trauma que marcaria sua vida. Era radiante e. O herdeiro do trono britânico encontrou sua futura princesa numa festa em Sandrigham em janeiro daquele ano. Em 1975. Diana se tornou uma peça num caso de divórcio. Mas o sonho. Com a morte de seu avô.2. próximo da corte britânica por mais de quatro séculos – apenas três anos depois.3. Aos 30 anos. Para seus pais. Diana sempre se lembraria de uma discussão violenta entre seus pais. afável e rapidamente fez novos amigos. foi um desapontamento: esperavam o nascimento de um filho homem para manter vivo o nome Spencer. O pai conseguiu a custódia dos filhos. Em 1967. Sarah é quem seria a pretensa pretendente do príncipe. Segundo o biógrafo Andrew Morton. Adquiriu gosto por dançar e uma paixão pelos esportes que iria levar para a vida toda. inicialmente. do The Independent). Charles foi ficando encantado pela alegre e simples irmã mais nova que estava se tornando uma bela e cativante mulher diante de seus olhos. Charles estava sob intensa pressão tanto do público quanto de seus pais para encontrar a futura rainha. ruiu. Quase sem perceber. Com 6 anos. Sandrigham. todas as condições estavam dadas para uma infância de sonhos. em King’s Lynn.

Charles 1967 separação dos pais. impulsiva o fantasma vivo de Camilla o casamento começa a desmoronar 1984 nasce Harry 1985 primeiras notícias da discórdia     1990 1992 sai biografia de Andrew Morton separação era para ela que se voltavam as câmaras simpatia do público ficou do seu lado 1961 EVENTOS nascimento da 3a filha do visconde Althorp 1964 nasce o irmão. pai ficou com custódia 68/69 começa prepschool 1970 1982 nasce William 1997 morte dá aula para pré-escolares depressão pós-parto  Charles conhece sua futura princesa longas separações distúrbios alimentares crises de depressão retomada da relação de Charles e Camilla tentativas de suicídio 97 .“virgem de boa fé” Charles sob pressão para encontrar a futura rainha esplendor  Diana rivalizada Diana Ela Diana vitoriosa CONOTAÇÃO AFETIVA Desapontamento condições dos pais para infância de sonho Diana é “peça” no divórcio dos pais não se destacava academicamente queriam um filho homem trauma que marcaria sua vida gostava de dançar e de esportes Diana tornava-se uma bela e cativante mulher 1975 Visconde vira conde Diana vira lady 1979 compra apto. bela.97 Divórcio selou a vitória de Diana: linha narrativa NOMEAÇÃO Diana Diana garotinha Diana afável e alegre Ela Diana: alegre. cativante Charles encantado com a irmã mais jovem Diana radiante. apaixonada. Diana é expansiva. em Londres 1980 1981 casamento   tinham pouco em comum: Charles é cerebral/ tradicional.

) constituem os elementos mais imediatos da construção das linhas narrativas. vitoriosa) constitui um importante sinalizador dos repertórios que estão sendo empregados para argumentar a favor da tese que está sendo veiculada: que a morte selou a vitória (e não a derrota) de Diana. a mídia como estratégia central de construção e circulação de repertórios na sociedade contemporânea (capítulo nove) e o cinema como processo dialógico de 98 . dificilmente deixam aflorar a construção do sentido. por si sós. rivalizada. cumprir a dupla tarefa de discutir o conceito de rigor que embasa a pesquisa construcionista e de introduzir algumas técnicas desenvolvidas de forma a dar visibilidade ao processo de interpretação. a nomeação utilizada para falar sobre Diana (garotinha. a conotação afetiva nos informa sobre o processo de escolha dos elementos narrativos e de seu papel na construção da história e do argumento. Entretanto. O que buscamos fazer. divórcio. Elegemos. morte etc.Nesse exemplo. Em contraste. Entretanto. Finalmente. anos de escola. Os eventos (nascimento. casamento. Algumas dessas estratégias farão parte dos relatos apresentados nos capítulos seguintes desta coletânea. virgem de boa fé. é abordar a diversidade de formas de coletar informações para dar subsídios à compreensão dos processos de produção de sentido a partir das práticas discursivas. associamos a linha narrativa ao uso de categorias analíticas relacionadas a três elementos de apoio utilizados pelo autor da matéria: os eventos. a nomeação utilizada para referir-se a Diana e a conotação afetiva do discurso. focalizar as diferentes maneiras em que a construção dialógica do sentido se faz presente no cotidiano: os documentos de domínio público como processos sócio-históricos de construção de saberes e fazeres (capítulo cinco). as conversas do cotidiano como recurso metodológico na prática de pesquisa (capítulo oito). a função dos próximos capítulos não é exemplificar o uso dessas técnicas de análise. neste capítulo. daqui para a frente. as bases de dados como exemplos de processos de legitimação da ciência normal (capítulo seis). assim. Concluindo. as entrevistas entendidas como práticas discursivas (capítulo sete). buscamos.

99 .interanimação entre imaginação criativa – em sua produção – e apreensão criativa – por parte de quem assiste (capítulo dez).

que se tornam claras ao examinar as pesquisas feitas por uma e por outra disciplina. não surpreende descobrir que o mesmo se aplica à confiança sobre as diferentes fontes de dados. incluindo aí a Psicologia Social. Na prática. mesmo sendo disciplinas vizinhas. mesmo quando aquelas outras técnicas estão potencialmente disponíveis? Peter Burke (1992a) em seu ensaio sobre a história e a teoria social. Parte da dificuldade está na falta de conhecimento de um campo sobre o outro. muitos historiadores ainda suspeitam da utilidade de relatos pessoais. os historiadores não necessariamente colecionam datas e eventos e. segue quase sempre regras 100 .CAPÍTULO V ANÁLISE DE DOCUMENTOS DE DOMÍNIO PÚBLICO Peter Spink 1. por outro lado. e especificamente na Psicologia Social. preferindo trabalhar com documentos. questionários e discussões de grupo – o mundo das práticas discursivas do aqui e agora? E por que. A investigação nas ciências sociais. reclamam da excessiva preocupação dos historiadores com fatos. chamou a atenção para o curioso fato de que. registros e anotações produzidos durante o período específico de seus estudos. estão tão avançados quanto a área social na análise do polissêmico dia a dia. datas e acontecimentos. por sua vez. Outra dificuldade reside nas diferentes tradições sobre método. Psicólogos sociais e historiadores P or que muitos psicólogos sociais ainda tendem a favorecer entrevistas. as visões de uma sobre a outra tendem a ser estereotipadas e seu diálogo quase inexistente. Os historiadores se queixam das exageradas tendências à teorização do campo social e os teóricos sociais. Consequentemente. como será mostrado adiante. narrativas e outras recordações orais.

A astúcia individual é aspecto intrínseco da erudição ( scholarship) tradicional. mas raramente é seu foco. mas haverá pouca referência obrigatória ou reprodução formalizada da discussão sobre o método e sobre o que é história. Essa preocupação de explicitar o como não é encontrada no trabalho de um historiador. Era óbvio para o scholar tradicional que era preciso ler amplamente e em tantos idiomas quanto possível. um recorte de jornal. mas tende a ocupar seu próprio espaço. O resultado. incluídas como capítulo ou seção específica nos relatos. Para os psicólogos sociais em geral.metodológicas enunciadas antecipadamente. o hábito da especulação e reflexão sobre elementos diferentes porém potencialmente interligados. Essa discussão existe. 1988:200). uma fotografia de uma cena de rua ou o diário oficial de um governo são tão presentativos (no sentido de que está presente) quanto uma entrevista ou discussão de grupo. essa aparente mistura de elementos. sim. Nenhum é mais representativo do que o outro. normalmente. Haverá. em grande parte. assim como a habilidade de fazer conexões entre fenômenos aparentemente díspares (Billig. todos – por existirem num determinado momento – têm uma presença. uma preocupação em registrar as fontes. Na sua essência. perdemos. Consequentemente. Um especialista nas ligas de cidades da Idade Média ou na Revolução Francesa não pode ouvir as conversas das 101 . tornando redundante a própria noção da representatividade. Por meio de extensas leituras podia ser adquirido o conhecimento amplo e profundo. Uma terceira dificuldade na interação com os historiadores decorre do fato de os psicólogos poderem conversar com o foco de seus estudos e os historiadores não (em geral. fontes e meios serve no máximo para ambientar ou contextualizar seu trabalho. porque há também interseções na área de história oral ou na psicologia analítica de Jung). scholarship reflete um respeito pela diversidade de formas a partir das quais os processos sociais se fazem presentes e pela natureza coletiva das tentativas humanas de refletir sobre seu sentido. é um texto elaborado muito mais no estilo daquilo que Michael Billig (1988) distinguiu como traditional scholarship.

São produtos em tempo e componentes significativos do cotidiano. Os documentos de domínio público. conversar e buscar dados novos. As exigências disciplinares. completam e competem com a narrativa e a memória. 1979. independentemente de língua ou forma. as pessoas sempre estão em tempo [para usar a definição de História de Marc Bloch (1954/1992) –. sem dúvida contribui. a facilidade analítica de reduzir o campo somente aos dados ativa e explicitamente coletados – assim podendo ignorar o aparente caos e falta de conectividade entre os múltiplos elementos presentes – também têm seu papel. os dados continuam ocorrendo naturalmente. a ciência de pessoas em tempo]. P. por que não dizer. recentes ou originais. Todos os seus dados são produzidos pelos diferentes elementos do campo. enquanto linguagem em ação. como artefatos do sentido de tornar público. Esquecem que as práticas discursivas. e no seu tempo. Mas essas fontes são frequentemente ignoradas ou relegadas a um segundo plano. enquanto registros. Consequentemente. de discussão e de opção por determinados métodos e. Os documentos de domínio público refletem duas práticas discursivas: como gênero de circulação. quando não sectárias. afinal. os historiadores tiveram que se especializar em trabalhar a partir daquilo que acham. Spink. A tentação criada pela possibilidade de poder falar. porque não há outra maneira de acessar os focos de seus estudos. e como conteúdo. sua intersubjetividade é produto da interação com um 102 . No aqui e agora que representa o foco mais comum da Psicologia Social. são documentos tornados públicos. que pertencem exclusivamente àquele estudo específico. 1996). O resultado é um processo de laboratorialização simbólica que leva os psicólogos sociais a fugir do barulho denso e assincrônico do cotidiano enquanto lugar de estruturação constante (Giddens.pessoas na rua e muito menos organizar um grupo focal sobre o feudalismo ou entrevistar diferentes atores sociais sobre a propriedade das terras e o direito de associação. estão presentes de forma ubíqua tanto nas imagens e artefatos quanto nas palavras. em relação àquilo que está impresso em suas páginas. complementam. aliada à valorização da entrevista como parte da identidade dos psicólogos.

Ele a considerou superficial e potencialmente relevante só na medida em que refletia outras forças e processos subjacentes. Mudança Estrutural da Esfera Pública: investigações enquanto uma categoria da sociedade burguesa. em tempo. simultaneamente traços de ação social e a própria ação social. para os quais a simples sequência de eventos é de pouco relevância. Jurgen (1984). em oposição ao imaginário disciplinar. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. Sua presença reflete o adensamento e ressignificação do tornar-se público e do manter-se privado. São documentos que estão à disposição. para poder trabalhar as práticas discursivas enquanto multiplicidade de fontes de posicionamento em tempos diferentes – o tempo longo. porém significativo e frequentemente coletivo. É fato que 1066 e 1500 existiram. São públicos porque não são privados. o tempo vivido e o tempo curto –. de rejeitar a noção simples de tempo como algo que avança a cada sessenta segundos. Porque. 1 2. a identificação de regularidades linguísticas nos processos de formação e ressignificação discursiva e a polissemia como fenômeno que permite a representação simultânea de ideias diferentes. essa é também uma postura assumida por historiadores. processo que tem como seu foco recente a própria construção social do espaço público. 103 . oferece a possibilidade de reiniciar o diálogo com a história. de saberes e fazeres. como também os eventos a 1 Habermas. Aprendendo com os historiadores Central à concepção de práticas discursivas é o reconhecimento dos enunciados construídos intersubjetivamente. Braudel foi um crítico severo da história tradicional dos acontecimentos políticos que chamou de história dos eventos (événementielle). apontada por Mary Jane Spink (1993a). São dimensões que se intercruzam num ponto que é produto e produtor social. Foi Fernand Braudel quem fez da discussão de tempo uma parte central de sua argumentação. A necessidade.outro desconhecido. em constante formação.

em que o movimento da história é lento. como por exemplo os swinging sixties). forjou a ilusão de que tudo podia ser deduzido dos acontecimentos (. mas fáceis de perceber que as suas leis ou a sua duração (Braudel. concluído no século XVII. os tempos dos sistemas econômicos.. de uma história de massa. 1989). (1982). para além de nossa própria vida. parte da longa historia ocidental da liberdade (Braudel.1989: 23-24).). A Conquista da América: a questão do outro. Ainda não há muito. Ele chamou a atenção em toda a sua obra para a importância de se compreender outros tempos: os tempos das civilizações e a relação dos seres humanos com seu ambiente. em si.2 ainda em disputa. mas não resolve o problema. o que se nos volta a pôr com um nome novo. das sociedades. 2 Todorov. Quanto à história.. publicado em 1958. Todos nós temos a sensação. entretanto. ele traz esse enfoque para a temática do inconsciente. a linguística acreditava poder deduzir tudo das palavras. oferecendo uma clara ponte com a Psicologia Social: “Os homens fazem a história. São Paulo: Martins Fontes. Também Braudel demonstrava pouco entusiasmo com as versões agregadas da história em que o tempo é visto como estando convenientemente organizado em décadas. ou até séculos (interessaria sim. das formas de pensamento. como por exemplo a Revolução Francesa. são somente parte dos processos ora de criação gradativa do Estado na Europa. por si sós. ora da redefinição ocidental do outro. T.. 104 . Os homens tiveram sempre a impressão. que não é somente um acontecimento de 1789. mas ignoram que a fazem”. dos acontecimentos.)..eles associados. mas um período ou fase mais longo de reconfiguração que é. De fato é. do “microtempo”. Num dos seus ensaios. cujo poder e cujo impulso são. na verdade. a tendência social de organizar assuntos em décadas. todo o problema do tempo breve. dos Estados. uma vez mais. vivendo no seu tempo. A fórmula de Marx esclarece de certo modo. e os tempos dos episódios. de captar dia a dia o seu desenvolvimento (.

não é um tratado lógico-dedutivo. Legislação Federal do Ensino Superior 1825-1952. sabemos contar histórias. 3 Reitoria da Universidade de São Paulo (1953). Diariamente. O quarto item nesse compêndio é a Lei Imperial de Dom Pedro I.Os psicólogos são. um elemento de nossa etnometodologia. 105 . Entretanto. também. clássico e origem se tornam menos confiáveis do que imaginamos. 112 (27 de junho de 1829) e 135 (6 de agosto de 1829). segue pelos registros de cirurgiões formados nas escolas de Medicina do Rio de Janeiro e da Bahia até o reconhecimento dos cursos de Juiz de Fora e o Instituto La-Fayette. ao contrário é uma coletânea de narrativas. mais interessante talvez sejam as decisões menos lembradas: as de número 88 (15 de maio de 1829). para usar o termo de Harold Garfinkel (1967). De fato. A Bíblia. São Paulo: Universidade de São Paulo. as crianças continuam dormindo aos sons de era uma vez… Infelizmente essa etno versão sobre o que é a História deixa muito a desejar como guia prático para um estudo mais rigoroso que frequentemente precisa começar pela desfamiliarização das narrativas existentes. Em 1955. Podemos usar como ilustração um exemplo retirado do âmbito universitário brasileiro. de 11 de agosto de 1827. que continua sendo um referencial importante para os nossos valores e práticas sociais. séculos. e talvez seja de sua socialização como pessoas que vem a maior dificuldade na interação com os historiadores.3 Iniciando pela criação provisória de um curso jurídico na Corte. gostamos de histórias e nossa visão de mundo é histórica. pessoas. a Universidade de São Paulo publicou uma revisão de toda a legislação federal sobre o ensino superior dos anos 1825-1952. antes de mais nada. em 1952. que criou dois centros de ciências jurídicas e sociais – um na cidade de São Paulo e outro em Olinda. descobrimentos e termos como tradicional. Boa parte das pessoas que nascem dentro da esfera de influência – ou hegemonia – da cultura ocidental judaico-cristã vê a história como algo óbvio e que faz parte do dia a dia. Décadas. data que continua sendo lembrada pelo hábito de pendurar contas em comemoração. Algo que todo mundo sabe fazer e nasce fazendo. taken for granted.

seguidas pela decisão 229 (5 de agosto de 1831). indiferentes à falta de frequência e aprovações iméritas de seus discípulos. lembremos como era a universidade na Idade Média. a não ser que. em que. J. enquanto evento. 4 Le Goff. a explicação do aviso sobre representações teatrais. Para aqueles que imaginam que a presença obrigatória em aula é parte do entulho autoritário do regime militar ou até algo que sempre fez parte da vida universitária. Nessas se encontram as seguintes instruções. Entretanto. São Paulo: Editora Brasiliense 106 . em muitos casos. São produtos da discussão e argumentação entre atores organizacionais e institucionais diferentes sobre a temática de controle e. e a decisão sobre a incúria e desleixo de alguns lentes do Curso Jurídico de São Paulo. incluindo aí o papel dos exames e das teses. sem dúvida. Essas Decisões dificilmente podem ser explicadas unicamente pelo conhecido autoritarismo de Dom Pedro I.4 prestando atenção à sua gradativa construção como instituição. tais registros seriam suficientes para um alerta em contrário. com scholarship. em sequência: a proibição de que os estudantes dos cursos jurídicos façam representações nos teatros públicos (e mesmo particulares) em tempo letivo. (1988). Isso levaria sem dúvida a uma outra linha de investigação sobre por que no Brasil se inicia um processo diferente das demais experiências universitárias. influenciadas pelo conteúdo das tais representações teatrais. Os Intelectuais na Idade Média. acostumado a buscar ou consultar um livro básico sobre método ou metodologia. será difícil aceitar a sugestão de que a História é algo mais do que aquilo que todos sabem fazer. a presença em aula continua sendo opcional. A visão da Psicologia Social da História enquanto contexto ou raízes cria uma versão distorcida desta como algo que se preocupa com acontecimentos que não mais existem: um território que cuida do passado e termina onde o presente começa. Para o pesquisador da área social. a determinação de que sejam apontados os estudantes dos cursos jurídicos que se retirarem das aulas sem a licença do lente. seu sentido permanece um mistério. Pelo menos as autoridades foram salvas de uma possível retaliação: somente 150 anos mais tarde os bonecos gigantes apareceriam no carnaval de Olinda.

Para esses autores a História não é a busca de uma causalidade simples. algumas das mesmas questões que geraram na Psicologia uma apreciação das práticas discursivas como processos de produção de sentido também produziram. das Letras). especialmente na França e na chamada Escola dos Anais – uma referência à revista Anais de História Econômica e Social fundada em 1929 por Marc Bloch e Lucien Febvre. 1990). Os conselhos da arquivista Em 1977. ou o cuidado com que autores como E. E. que ao longo do século XVIII contribuíram para inverter as imagens e usos do mar. London: Penguin 107 . a chamada história de baixo para cima (history from below) em contrapartida à história de eventos ditos importantes. P. A Inglaterra também produziu novas concepções sobre a história dos processos sociais. entre outros (ver Burke. P. uma reflexão sobre formas de pensamento ( mentalité) na história. uma equipe de pesquisa do Tavistock Institute de Londres. The Lure of the Sea: the discovery of the seaside: 1750-1840. da qual eu fazia parte. Busca-se a compreensão desses processos humanos às vezes só reconhecíveis em períodos compridos. (1993). e busca-se também formas em que isso pode ser relatado (ver Burke. ao contrário. 6 Corbin. Thompson vão buscar nos relatos e registros locais a compreensão da cultura popular em seu confronto com o status quo. New York: The New Press (traduzido pela Cia. A não produz B. 1992b). A. a história de cima para baixo (history from above). conexos e desconexos. temos uma compreensão melhor do que implica o scholarship ao qual Billig se referiu. muitos elementos e vozes vão se entrelaçando de formas diferentes. Ao ver autores como Bloch (1954) e Eric Hobsbawm (1997) discutindo o que fazem. (1995).5 ou como Alain Corbin 6 identifica os múltiplos elementos. Customs in Common: studies in traditional popular culture. embora mais cedo.Felizmente para os psicólogos sociais. 3. elaborou um trabalho retrospectivo sobre as experiências inglesas de autogestão na organização de trabalho na extração de carvão no período pós-guerra (1951-1955) que resultaram na elaboração 5 Thompson.

Em 1977. Higgin. e uma parte importante da organização sindical e das negociações eram também locais. especialmente as perguntas que vocês. 108 . não foi surpresa descobrir que a organização dos arquivos havia também sido regionalizada. a vida na época centrava-se muito na vila. A. Sendo o carvão – especialmente no período pós-guerra – uma parte fundamental da estratégia energética do país. Ao contrário. No início da pesquisa. muitas das 130 minas que existiam na área de Durham – incluindo a de Chopwell – já haviam sido fechadas. G.. Organizational Choice. tais como relatórios. mais tarde querem elaborar. Só que a arquivista alertava: O grande problema com arquivos é que eles nunca são organizados para responder a perguntas que queremos fazer.da teoria sociotécnica de escolha organizacional. London: Tavistock. morros verdes. Murray. em negociação com a gerência local da Companhia Estatal de Carvão (National Coal Board. E.. por ser uma tecno-burocracia pública com uma ética de responsabilidade. de guardar material que não precisam mas que 7 Trist. & Pollock. são organizados de acordo com os usos que os depositários querem fazer deles. tinha virado uma paisagem de pequenos vilarejos. (1963). a NCB guardava todo o material produzido. H. estudos e registros. rodovias e carros. foram experiências isoladas ou se ideias similares tinham sido adotadas em outras partes da mesma região ou em outras regiões. Por outro lado. e estando os campos de carvão espalhados pelo país inteiro. O que era antes uma paisagem de fumaça de carvão. com um transporte público precário. mas conforme eles mesmo mencionaram. NCB). investigadores.7 Parte do estudo envolvia a tentativa de descobrir se as inovações desenvolvidas pelos mineiros da mina do vilarejo de Chopwell. Os mineiros aposentados que haviam participado da criação do método chamado de composto (composite) não lembravam muito de outras experiências. chaminés e torres de elevação. no norte da Inglaterra. fizemos uma visita à arquivista chefe da NCB para aprender a forma como os arquivos da companhia haviam sido organizados e pedir acesso aos mesmos para fins de pesquisa.

quando entramos no grande galpão do arquivo regional do nordeste do país. A ideia parecia interessante. o livro anual era somente um guia geral e refletia apenas as informações enviadas para registro. Infelizmente. Os resultados apontavam para alguma presença de auto gestão no condado por volta desse período (1951-1955). do tamanho de seis campos de vôlei. às vezes. após esse início promissor. administração regional. Seu último secretário tinha guardado alguns documentos numa caixa de papelão que nos mostrou durante uma das entrevistas. Os registros não precisavam ser detalhados e era impossível saber por quanto tempo um acordo havia sido efetivo. Entretanto. incluíam menção ao tipo e método de extração. organizado por subárea geográfica. mina.pertence à NCB. mas achava que os outros talvez ainda existissem no depósito do sindicato do condado. conseguimos localizar boa parte dos volumes anuais. É um trabalho de detetive. se necessário: por departamento. As categorias que eles usaram são as que eles precisam para depois retirar. vocês vão ter que indagar aonde podem estar as informações úteis para seu estudo. Palavras como composite ou all-in eram possíveis indicações de métodos de trabalho semiautônomo e de formas de dividir igualmente os resultados salariais. Não serão as categorias ligadas aos conceitos que vocês usam. a organização local do sindicato havia sido desativada. por prédio. entre o depósito – literalmente – do sindicato e o arquivo regional. Já tínhamos como ponto de partida os livros de registro de negociações anuais produzidos pela associação sindical da área de Durham. e sempre por ano e mês. Quase no último dia de trabalho na região e com todas as 109 . Chegamos à conclusão de que ou éramos péssimos detetives ou não havia nada para descobrir. que emergiram da visita feita ao vilarejo de Chopwell. por área. departamento. não conseguimos avançar. entretanto rapidamente assumiu suas devidas proporções. raramente por assunto. Com o fechamento da mina. Mas era um início e. Os livros registravam os acordos assinados e. Ele possuía somente três volumes. mas os dados eram esporádicos e tivemos pouca confiança na nossa análise. outros formatos organizacionais e por ano.

indo atrás dos resultados. pudemos determinar que algo em torno de 6% das frentes de carvão tinham um grau significativo de auto-organização e. Parei numa mina que não nos interessava. que isso variava por região do país. dos relatórios regionais e dos relatórios finais no arquivo central. estava uma cópia de um questionário anexado a uma carta informando sobre o estudo salarial anual de 1956 e alertando para o aumento de perguntas feitas naquele ano devido à necessidade de estudar a estrutura salarial para a indústria como um todo. Agora era só uma questão de seguir os traços do estudo salarial anual de 1956. e fui folhear os documentos guardados por volta da época do estudo original. mais importante. Este último vinha acompanhado por uma descrição clara e sucinta do que significava esse contrato: um agrupamento de pessoas com múltiplas habilidades. Dentro de uma caixa intitulada diversos. que foi um período importante no processo de mecanização. A importância desses dados cresce quando se lembra 110 . valor e todos os demais elementos de uma pesquisa salarial. (c) all-in (ou distribuição igual de tarefas entre os membros da equipe). auto gerenciado. (b) por seção (pequenos grupos fazendo a mesma tarefa). decidimos passar uma última vez nos arquivos e por alguma razão – talvez o cansaço – desisti das minhas buscas organizadas e perambulei pelos corredores de três metros de altura de documentos organizados por departamento e data. O grito de felicidade com o qual chamei os colegas foi acompanhado pelo reconhecimento da importância da sorte na educação dos pesquisadores. deixando simplesmente os olhos correrem por onde quisessem.entrevistas feitas. fechada há muito tempo. arquivo por arquivo. no final. Abri o questionário e lá no meio das questões descobri as perguntas que eu não tinha sabido fazer. e (d) composite. Não foi tão fácil assim. refletindo tradições anteriores de organização e práticas de negociação. Os contratos eram agrupados em quatro tipos distintos: (a) individual. pelo menos em 1956. Junto com os nomes dos cargos. havia uma referência ao tipo de contrato. Finalmente podíamos ter uma visão melhor da presença de métodos semiautônomos na indústria. porque muitos dos dados originais – os questionários de cada mina – tinham sido perdidos ou não depositados. mas. com compartilhamento total de ganhos salariais.

) temos que dividi-los de acordo com uma nomenclatura e reduzi-los para cerca de 300. Métodos e fontes Os arquivistas e os historiadores – os guardadores de dados pelo tempo e os analistas de dados em tempo –.). com salário individual.. & Spink. o seu secretário reclamou: Temos 1. 111 . H.. 1955.. No congresso anual do NUM.700 diferentes tipos de trabalho ou nomes para diferentes tipos de trabalho (.) a filler (. em 1952.. entretanto. não é feliz – especialmente para aqueles que lutam por melhores condições de trabalho e para o reconhecimento da competência e capacidade organizativa dos trabalhadores. a composite worker (.) a stripper.que os agrupamentos auto-organizados do método composite foram formados por cerca de quarenta a sessenta pessoas. Viraram a categoria de mineiro F1.. London: Tavistock Institute of Human Relations. Por exemplo... a collier (. P. Report to the Social Science Research Council. O final dessa história. Socio-Technical Systems in Mining (1951. Descobrimos que o estudo anual também havia sido usado para apoiar as negociações entre a NCB e o sindicato nacional dos mineiros (NUM) para simplificar os nomes dados aos cargos de trabalho na indústria. quanto a discussão sobre o olhar e analisar. Todos estes são nomes para o mesmo trabalho. Os psicólogos sociais não são historiadores nem arquivistas. doc 2T 204. (1979). tanto a referência salarial do método composite quanto o mineiro composto desapareceram. 1969) – three follow up studies.. junto com uma nova estrutura salarial.8 4. 8 Murray. mas podem aprender com ambos tanto a variedade de maneiras de acessar o sentido em produção. ambos apontam caminhos para a busca e a interpretação. temos mais de 15 nomes para o collier [mineiro de face]. A pergunta sobre os saberes e fazeres refletidos nas palavras locais não foi feita – o momento foi de consolidação nacional. Ao ser firmada a revisão da estrutura de cargos para a indústria.

Se há um primeiro passo. de coletivos de pensamento – denkkollektiv – a partir de sua análise sociocultural da construção da sífilis. Os documentos de domínio público são produtos sociais tornados públicos. talvez seja aquele ao qual a arquivista se referia. A escolha de material pode ser feita a partir de uma análise inicial do campo. começamos a nos tornar conscientes do universo de possibilidades que existem e da densidade e variedade dos elementos presentes na produção de sentido. Para os grupos profissionais. por terem sido tornados públicos de uma forma que permite a responsabilização. os documentos de domínio público assumem formas diferentes. no âmbito das redes sociais. Feita essa inversão. refletindo o ir e vir de versões circulantes assumidas ou advogadas. Podem refletir as transformações lentas em posições e posturas institucionais assumidas pelos aparelhos simbólicos que permeiam o dia a dia ou. situados simultaneamente no institucional e no dia a dia. ao parar de assumi-lo como dado – ou. pelos agrupamentos e coletivos que dão forma ao informal. anúncios.Versões mais densas e assimétricas de tempo. Tudo tem algo a contar. taken for granted – e começar a registrar seus elementos e artefatos. guardado ou deixado pela passagem do cotidiano. na expressão dos etnometodologos. em 1935 (1979). o mundo das publicações é igualmente rico. a valorização daquilo que é produzido no fazer do cotidiano. publicidade. narrativas tomadas como discurso e a representação histórica influenciada por Hayden White (1987) estão entre os procedimentos que podem ser aprofundados. Enquanto práticas discursivas. diários oficiais e registros. jornais e revistas. permitindo acesso às coalizões de pensamento e diálogo que Ludwik Fleck denominou. Eticamente estão abertos para análise por pertencerem ao espaço público. manuais de instrução e relatórios anuais são algumas das possibilidades. A desfamiliarização do dia a dia se inicia dessa forma. Arquivos diversos. a abertura aos possíveis sentidos ou caminhos do material coletado e os debates sobre textos. como por exemplo no uso feito por Mary 112 . ou seja: parar de pensar sobre o que nos interessa e prestar atenção ao que é criado. o problema maior é aprender a ouvir.

o seu derivado revolucionário tem uma origem mais clara: 1789 e os comitês e tribunais revolucionários da Revolução Francesa. Palavras e Instituições durante a Revolução Francesa: o caso do ensino científico e técnico “revolucionário”. ou pode emergir de forma mais aleatória a partir daquilo que se apresenta. 5. O acaso é um elemento importante e nunca deve ser descartado. História Social da Linguagem. (1996). debatida nas revistas apropriadas e nos livros autorizados. Porter (orgs. dicionários dos séculos passados.9 Nos primeiros anos do ensino de Psicologia aprendemos que não se deve procurar as definições nos dicionários – nem mesmo nos dicionários científicos. Dicionários. os pesquisadores no campo da produção de sentido aprendem a ser catadores permanentes de materiais possivelmente pertinentes. 9 Langins. na busca de compreender as sutis transformações nos termos e expressões que formam este ou aquele terreno de sentidos. especialmente aqueles elaborados com princípios etimológicos e. Burke & R. Afinal. por exemplo. Por exemplo. Um bom dicionário não vai resolver as questões do pesquisador – mas pode ajudar a criar questões. Aqui também há muito a ser desaprendido. a definição de algo é uma decisão científica. sobre os saberes e fazeres. A presença muito discutida do termo accountability em concepções da democracia anglo-saxã só começa a fazer sentido quando se percebe o número de páginas que ocupa.). no Oxford Dictionary e suas raízes nos relatos honestos sobre contas e eventos.Jane Spink (1994a) do JAMA e da Lancet em seu estudo sobre a hipertensão. são fascinantes fontes de reflexão sobre a produção de sentido. As palavras. 113 . os dicionários e os jornais diários Às vezes são as palavras que levam os pesquisadores aos documentos de domínio público. mesmo que o termo revolução já tivesse sido usado por Copérnico (a revolução das orbes celestes) e entrado no discurso político. São Paulo: Editora da UNESP. quando disponíveis. In P. O que um entende por representação e o que o outro entende por versão é uma questão de precisão teórica. J.

em 1995. no Parque da Independência em São Paulo (Diário Popular. Junto com os dicionários. vem do uso anterior para o auxílio que os lavradores prestam uns aos outros. ou as massas cujas ações levaram Gustave Le Bon a iniciar uma das primeiras reflexões sociopsicológicas sobre o coletivo em 1895 ( Psychologie des foules). povo e povão? Pergunta similar. muito usado na área urbana para trabalho coletivo. S. E.). In Casali. PUC-SP. Empregabilidade e Educação: novos caminhos no mundo de trabalho. por exemplo. A. O que significa a transição de popular. e no Diário de São Paulo. é dado às pessoas que povoam o dia a dia: o proletariado de Marx. lemos o seguinte: “milhares de pessoas nas vias centrais dão um aspecto invulgar de movimentação à cidade – centenas de populares amanheceram nas praças e jardins para assistir a ‘alvorada solene’ e demais festividades promovidas pela Associação das Emissoras de São Paulo”. No Diário de Pernambuco de 9 de agosto de 1950 lemos: “Sofreu o popular violenta agressão”. Mutirão. o crowd. 2 de dezembro de 1995). enquanto nome de pessoa incógnita. mais de trezentas palavras referentes à forma de ação coletiva. E.. (orgs. J. I. entretanto. Dissertação de mestrado. Rios. ao inverso. sob o título “Festeja o povo nas ruas a epopeia de 32”. São Paulo: EDUC 114 . como parte de uma pesquisa sobre as noções de grupo usadas por intervencionistas em dinâmica de grupo. 11 Spink. preso depois por populares. (1997). Grupos e Intervenções Grupais: relações e implicações na perspectiva de profissionais que trabalham com grupos.11 10 Renteria Perez. parte do pano de fundo do dia a dia. em destaque na primeira página. Empregabilidade. Teixeira. comemorando o 9 de Julho de 1954. por exemplo. de Chico Rei. Entretanto. cinco mil pessoas eram esperadas para assistir ao espetáculo Maracatu. (1997). para pessoas. pode ser feita para uma palavra recém-chegada ao espaço público: empregabilidade. Que nome.. os grandes jornais diários são ótima vitrines para as idas e vindas dos sentidos. P. sua descendência é tupi: moti’rõ. Em 8 de maio de 1968. o mesmo Diário de Pernambuco comenta a fuga de um louco varrido de um hospital. & Cortella M.Erico Renteria10 levantou.

a significação e ressignificação de partido e pessoa emergiu tanto nos artigos escritos por protagonistas quanto por jornalistas. alguns dos próprios defensores do candidato do PT 12 Przeworski. às vezes. Como e Onde se Bloqueiam as Transições para a Democracia? In Moises & Albuquerque (orgs. Em meados de junho daquele ano. não precisa ser medido em anos ou partes de um século.). e às vezes não tão sutis.12 Acompanhando o processo eleitoral num dos jornais diários brasileiros que faz da precisão e da responsabilidade um de seus elementos de identidade (a Folha de São Paulo). Independentemente dos elementos de preconceito. 115 . alterações nas práticas discursivas. seguir o cronômetro interno das ações (seus horizontes próprios) pode ser uma fonte de questões e reflexões. Lula e. a questão da relação candidato-partido e candidato-partido-aliança remete a uma discussão mais ampla. que serviu de foco para uma série de comentários sobre a qualidade da pessoa versus a dominação do partido. militância. enquanto Fernando Henrique Cardoso era referido como Fernando Henrique Cardoso. o que permite aos pesquisadores voltarem a eles de forma mais ordenada. A. com uma leve vantagem para o candidato do PSDB. aqui. No dia 15 de junho a revista Veja saiu com uma matéria de capa intitulada “Por que o partido de Lula brilha e assusta”. São Paulo: Editora Paz e Terra.Os grandes jornais diários tendem a guardar suas edições durante anos. que estarão sempre presentes num confronto de classes e que são parte intrínseca de toda eleição. (1989). Um dos temas presentes no espaço público foi a questão de partido. Luiz Inácio Lula da Silva era referido desde o início como Lula. econômicos e sociais as sutis. buscando compreender nas entrelinhas dos movimentos políticos. Dilemas da Consolidação da Democracia. No início de agosto. As eleições presidenciais brasileiras de 1994 foram essencialmente uma disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva do PT e Fernando Henrique Cardoso do PSDB. Tempo. o candidato do PT tinha 41% das intenções de voto contra 19% de seu principal rival do PSDB. Nesse período também. sobre a consolidação democrática e a temática de transições. os críticos da candidatura de Lula regularmente produziram textos com uma densidade alta de uso das palavras PT. em terceiro lugar.

produziram textos em que havia muito mais menção às ideias e às qualidades de Luiz Inácio Lula da Silva enquanto pessoa do que à sua plataforma partidária. As reportagens da equipe própria da redação da Folha sempre mantiveram, durante grande parte do processo, e para todos os candidatos, a disciplina do nome completo seguido pela sigla partidária. No final de agosto e início de setembro, o candidato do PSDB era cada vez mais citado como FHC, e as palavras mais comuns nos textos de comentaristas de todas as inclinações eram PT – Lula e Fernando Henrique Cardoso – programa FHC. Parecia que as iniciais FHC acabavam por criar seu próprio símbolo partidário – escondendo os inúmeros interesses já presentes em sua coalizão. Ao comentar a pesquisa Datafolha do dia 10 de setembro, com resultados de 45% contra 23%, a Folha abre uma manchete com as palavras Vantagem de FHC se estabiliza. Nas páginas internas, (Caderno Especial, Super eleição, p.4), ao discutir os resultados, o comentarista disse:
As regiões Nordeste e Sul, que foram, até o final de julho, os principais motores da liderança da candidatura Luiz Inácio Lula da Silva, agora ajudam o seu principal adversário, Fernando Henrique Cardoso, a consolidar a vantagem sobre o petista.

No restante do texto, de vinte centímetros ou meia coluna, FHC é mencionado sete vezes, Lula, seis, e em nenhum momento o primeiro é chamado de peessedebista. Esses recortes não devem ser entendidos como críticas ao jornal; pelo contrário, demonstram que, mesmo em situações em que há uma forte ênfase no estilo, o sentido se produz nas entrelinhas das práticas discursivas. A nossa transição democrática continua, de certa forma, bloqueada. Trabalhar com jornais, ou outro tipo de mídia estabelecida, requer o reconhecimento das regras a partir das quais os textos são gerados. Requer também a disposição de ler e acompanhar aquilo que é escrito dia após dia. Às vezes é possível identificar uma coluna regular ou uma parte do jornal que seja mais pertinente ao tópico em estudo, mas mesmo assim é necessário ampliar o olhar para ver o texto mais amplo dentro do qual o texto específico está sendo produzido. Essa atenção às dimensões do texto é
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característica dos analistas de discurso, como Norman Fairclough (1995), que se agregam em volta da revista Discourse and Society, editada por Teun A. van Dijk (1997). Os textos utilizados nos artigos são sempre apresentados em trechos amplos e nunca fragmentados; não é a frase que é importante, mas o discurso do qual faz parte. Por exemplo, Fairclough,13 usou anúncios de programas e cursos universitários, e também anúncios para postos de professor em várias universidades inglesas, para discutir o que chamou de mercantilização do discurso público. Dorte Salskov-Iversen14 usou os documentos oficiais de dois municípios ingleses para continuar essa reflexão na interseção do discurso gerencial com o da cidadania no contexto local. John Flowerdew demonstrou como os discursos e documentos públicos do último governador da colônia britânica de Hong Kong poderiam servir para uma reflexão sobre o discurso da retirada colonial, dando destaque ao papel da produção de elementos míticos.15 A mudança radical que representou na Grã-Bretanha o governo de Margareth Thatcher também estimulou um grande número de estudos e o trabalho de Louise Phillips,16 que utilizou textos oficiais dos partidos políticos britânicos, material de jornal e falas de partidários, apontando para a centralidade da escolha (choice) na construção da retórica thatcheriana. Da revista Text, da qual saiu a revista Discourse and Society, vale a pena citar, entre outras, uma referência ao trabalho de Gino Eelen, analisando documentos das Nações Unidas em relação à temática da autoridade durante a crise do Congo em 1960,17 e ao de Barbie Zelizer18 sobre
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Fairclough, N. (1993). Critical Discourse Analysis and the Marketization of Public Discourse: the universities. Discourse and Society 4, 2, 133-168. 14 Salskov-Iversen, D. (1997). A Discursive Perspective on British Local Government’s Response to Change: a tale of two cities. Discourse and Society 8, 3, 391-415. 15 Flowerdew, J (1997) The Discourse of Colonial Withdrawl: a case study in the creation of mythic discourse. Discourse and Society 8, 4, 453-477. 16 Phillips, L.(1996). Rhetoric and the Spread of the Discourse of Thatcherism. Discourse and Society 7, 2, 209-241. 17 Eelen, G. (1993). Authority in International Political Discourse: a pragmatic analysis of United Nations documents on the Congo crisis (1960). Text 13, 1, 29-63. 18 Zelizer, B. (1989). “Saying” as Collective Practice: quoting and differential address in the news. Text 9, 4, 369-388.

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as práticas de citação utilizadas por jornalistas em diferentes mídias. Como ela aponta, em observação que tem ramificações bem maiores: “as práticas de citação são os cartões de crédito do discurso público contemporâneo; emprestam crédito a quem fala e as utiliza em seus recados” (p. 369). 6. Bricolage Às vezes não é um documento ou uma série específica de documentos que importa, mas a presença ubíqua de uma temática em documentos distintos que serve como sinal para a desfamiliarização inicial. Quatro pequenos exemplos podem ser utilizados para demonstrar essa abordagem que junta o olhar do catador com o bricoleur de Lévi-Strauss. As relações de raça e de gênero continuam sendo campos bastante pantanosos no cotidiano brasileiro; as tentativas de abordar a questão são frequentemente rejeitadas como exageradas – em muitos casos nem sequer se admite que há algo a discutir. Nos últimos quatro anos coletamos alguns exemplos de documentos de domínio público que demonstram o outro lado do taken for granted da nossa cordialidade. Primeiro, de Santarém, veio um anúncio público ou outdoor (também documento) com o título de “Mutirão da Vacinação 31 de julho a 10 de agosto”,19 assinado pela Secretaria Municipal de Saúde: Participe da Campanha Municipal de Multivacinação na Grande. Área do Santarenzinho, para crianças, mulheres e animais domésticos. O Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo produziu um panfleto para ajudar os mesários nas eleições presidenciais e estaduais de 3 de outubro de 1994. Elaborado em forma de quadradinhos, o documento explica o papel e as tarefas de seis personagens, cada um com um número na sua camisa – os mesários. Dos seis, cinco são homens, um dos quais negro com lábios em forma de banana, e uma é mulher, loira de cabelos soltos, sobrancelhas e busto amplo. Ao analisar o papel de cada personagem, descobrimos que um vai ficar na porta verificando se o título
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Fotografado por nossa colega Vera Menegon.

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do eleitor é daquela zona e seção; o segundo vai verificar o título no caderno de votação e mostrar onde o leitor deve assinar; um terceiro vai entregar a cédula eleitoral; um quarto ficará de pé na sala para mostrar onde fica a urna e levar o comprovante do terceiro para o sexto personagem, que vai entregá-lo para o eleitor antes de sair; o quinto personagem vai sentar ao lado da urna e após a primeira votação vai entregar uma segunda cédula; o quarto personagem vai mostrar de novo o caminho da urna. Talvez não seja óbvio, a primeira vista, que é a mulher loira que fica com a responsabilidade da urna; mas, num país que nega problemas raciais, não deve ser difícil descobrir quem fica de pé na sala mostrando o caminho da urna e levando os comprovantes de um lado para o outro. De novo a temática de gênero: em 1997, a agora extinta TELESP conseguiu a proeza de colocar na frente da conta telefônica do dia das mães um desenho, provavelmente tirado de uma coletânea de desenhos computadorizados, de uma mulher loira sentada juntamente com a filha loira, de tranças compridas, em um sofá de pelo menos cinco lugares (de estilo norte-americano). Aqui não se trata de uma crítica sobre a falta de savoir faire político desta ou daquela organização ou instituição pública, mas de demonstrar o quanto certas temáticas se manifestam de forma transparente no agir público, sendo consideradas como totalmente normais. Em todos os casos, a decisão de publicar ou imprimir não foi de indivíduos mas de uma cadeia decisória e hierárquica em que, sem dúvida, diferentes ideias e exemplos foram discutidos. Finalmente vem do Departamento Estadual de Estradas de Rodagem de São Paulo (DERSA) o programa da operação verão, decorrente dos problemas criados pelos milhares de carros que saem da área metropolitana para o litoral paulista nos fins de semana e nos feriados. A história em quadrinhos tem o título de “Dersinha em operação verão 98”. Os personagens, pai e mãe com casal de filhos de 7-10 anos, são claramente brasileiros e seu carro é pequeno, quadradinho e popular. O estilo dos desenhos é leve e bastante colorido. A família vai passar o fim de semana na praia. Após calibrar os pneus e colocar o cinto, a viagem começa:
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filho: Pai, o senhor ligou para o número 0800-555510? mãe: Ei, vocês dois agora estão falando em código? pai: Código? Ah, Ah, Ah! pai: Sim, já liguei, está tudo normal. mãe: Vocês estão me deixando curiosa, podem explicar melhor? filho: Claro, mamãe, o número 0800-555510 é do DISQUE-DERSA, já esqueceu? mãe: Puxa, é mesmo, mas isso aqui não esqueci (mostrando o cupom). filho: O cupom de pedágio! filha: Já vamos ganhar um tempinho! No dia seguinte, na praia: mãe: Está tudo muito gostoso e as crianças estão aproveitando bem, mas… pai: Já sei, você está preocupada com a volta, não é? pai: Eu também estou... e não gostaria de pegar a rodovia muito cheia. mãe: Seria muito cansativo se isso acontecesse! filho: Calma pessoal, a… filho: Viagem de volta será tranquila! pai: Ah, já sei o que fazer! pai (no orelhão): Alô! DISQUE-DERSA? Eu gostaria de saber o melhor horário para subir…

No carro:
filho: Claro, a DERSA se preocupa com o nosso conforto. mãe: Puxa, esse pessoal da DERSA sabe mesmo o que faz!

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Documentos de domínio público seriados Em seu trabalho sobre hipertensão. As revistas escolhidas foram The Lancet.pai: E nos ensina os melhores caminhos… pai: É só telefonar para o DISQUE-DERSA e prestar atenção nas informações! filho ou filha: Foi muito legal este fim de semana! mãe: E como o papai aqui descansou!… pai: Nem fale! Quem é Dersinha? A filha que só aparece visualmente ou a mãe que esquece o número mágico da DERSA e está feliz que o papai descansou? A função da história é para lembrar o leitor e a leitora do serviço de informação da DERSA – pelo menos uma de suas versões. 7. Em ambos os casos. A seção das revistas escolhida para análise foram os editoriais. inglesa. e o Journal of the American Medical Association (JAMA). representando – quase que institucionalmente – a opinião médica da época. é um excelente caminho para a compreensão da gradativa emergência. Usar documentos desse tipo. e o ponto de partida foram os primeiros números existentes na biblioteca da Faculdade de Medicina da USP – 1899 para a Lancet e 1912 para o JAMA. A partir disso foi possível seguir as diferentes perspectivas sobre a hipertensão desde a sua configuração enquanto doença até sua substituição pela noção de risco. são revistas clássicas nos seus respectivos países. que têm uma presença no campo de interesse e que são produzidos regularmente e de forma seriada. A escolha prática de iniciar onde era possível teve resultados: a primeira menção de hipertensão essencial foi encontrada em 1912 no caso da JAMA e em 1929 no caso da Lancet. 121 . expressão oficial do corpo editorial. a partir de uma análise retrospectiva de revistas de medicina. Mary Jane Spink (1994a) buscou localizar em tempo os diferentes elementos identificados nas entrevistas com um médico clínico geral.

lembramos. Por outro lado. produto dos eventos e ideias que influenciaram a discussão diplomática e profissional sobre a regulação e a interdependência antes.20 Uma busca cuidadosa dentro da flora e fauna das publicações dessas organizações demonstrará. representem práticas discursivas circulantes que são parte da sombra da produção oficial. passam a assumir um papel mais ativo enquanto organizações de referência a partir da configuração do sistema das Nações Unidas. durante e depois da Segunda Guerra Mundial. Para a Psicologia. mas da identificação dos conflitos e diálogos diferentes que refletem a processualidade das práticas discursivas. Sendo eles. não há como negar que as ideias. da busca de uma cronologia ou ponto 0 – porque isso nada mas seria do que a construção moderna de uma versão narrativizada do tópico em foco –. Documentos seriados e relatórios anuais também fazem parte das práticas discursivas de uma outra categoria de organizações: os organismos internacionais. do é mas não é que as posições mais visíveis 20 Incluindo as agências específicas (OMS. entretanto. oferecem muitas possibilidades. as revistas oficiais das sociedades e as publicações institucionalizadas. como por exemplo o Annual Review of Psychology. Banco Interamericano). em muitos casos. que nem sempre o publicado e público é aquilo que parece. como o BID. OIT. Não se trata.consolidação e reformulações dos saberes e fazeres. 122 . O que fazemos nessas circunstâncias? A resposta mais simples é reconhecer que a nota de rodapé faz parte da retórica da responsabilização e que qualquer tentativa de associar diretamente as ideias com a organização terá pouco efeito. por serem publicadas. É nesse terreno intermediário. UNESCO) e o sistema financeiro consolidado na reunião de Bretton-Woods (o Banco Mundial e os bancos regionais de desenvolvimento. podemos analisar quais são os critérios de revisão escolhidos e quais as razões dadas por esta ou aquela ênfase ou exclusão. uma vez que conseguimos nos des-familiarizar de seu conteúdo enquanto psicólogos e perceber que estamos diante de uma prática discursiva. Não é incomum descobrir um relatório ou um artigo com uma nota de rodapé explicando que as opiniões apresentadas são do autor e não da instituição. ou seja.

os relatórios de congressos específicos e o próprio Bulletin da Organização Mundial da Saúde (iniciado em 1946 e ainda em circulação) são algumas dentre as fontes disponíveis para buscar compreender a construção do espaço internacional no debate sobre o HIV. o ir e vir paciente entre anos e momentos diferentes revela as dimensões do movimento das perspectivas. De fato. A gradativa hegemonia do Banco Mundial. desenvolvimento humano (PNUD) e o World Development Report do Banco Mundial. Na área da saúde. um por um. ano por ano. Tal como a criação de um desenho animado em folhas de papel sucessivas. Mas o que devem fazer os pesquisadores? Aceitar a ética da citação é necessário. Relatórios oficiais de congressos 123 . mas a noção do espaço das versões circulantes é também útil.são formadas e testadas. gerando o que Sabatier e Jenkins Smith (1993) chamaram de coalizões advocatórias. Mais variadas e contundentes no seu conteúdo. e seguir pacientemente. mais frequentemente. por exemplo. seu papel na legitimação de perspectivas individualizadas sobre a pobreza e na criação do modelo good housekeeping de gestão financeira e governança proposta para os países em desenvolvimento são parte também de uma produção mais ampla: a da retórica da globalização. países membros. os representantes das instituições internacionais estão sendo coerentes consigo mesmos quando afirmam que os pontos de vista não são das organizações ou. Um caminho complementar é ir atrás dos relatórios verdadeiramente declarados como oficiais. narrativas e versões que se entrelaçam com saberes e fazeres produzindo sentido. as críticas e os debates apresentados frequentemente são relatados como sendo dos autores e não da organização: é mas não é. atento às pequenas modificações que denotam a incorporação de palavras e ideias. Essa dificuldade fica mais visível após a criação dos diversos relatórios mundiais: saúde (World Health Report). buscando compreender sua lógica e sua forma de composição como prática discursiva.

Reforma do Estado e Administração Pública Gerencial. Masculinidades e Gênero: discursos sobre responsabilidade na reprodução. nossas bibliotecas tendem a não ter séries completas de certos documentos oficiais. PUC-SP. mas. Para o pesquisador que está interessado em se manter atualizado em seu campo. por exemplo. isso pode ser suficiente. Os serviços de identificação anual de material produzido numa área específica frequentemente focalizam os cem ou 150 trabalhos julgados mais relevantes. leva a um outro nível de reflexão: afinal. ajudam a identificar fontes.temáticos – sobre habitação ou sobre população e desenvolvimento. 1994). livro que é produzido anualmente desde 1935 com pequenos resumos de itens publicados sobre a América Latina numa variedade de áreas e com atenção específica na 21 Ver.). envolvido em um programa de pesquisa sobre as versões circulantes na produção de sentido dos processos de reforma administrativa na América Latina desde o período dos anos vinte. Editora da Fundação Getulio Vargas. 21 Infelizmente. e não necessariamente todo o material produzido. o que é relevante? Estou. (1998). como a Internet. In Bresser Pereira. (orgs. para os analistas da construção de sentido. em muitos casos.C. 22 Spink. sobre a Conferência das Nações Unidas sobre População e Desenvolvimento (Cairo. mas não necessariamente pelas razões mais óbvias. A solução é ficar sempre alerta às possibilidades e lembrar que os documentos nem sempre estão nos lugares mais óbvios. Possibilidades Técnicas e Imperativos Políticos em 70 anos de Reforma Administrativa. entre narrativas diferentes sobre qual é a história de reforma e uma apreciação dos processos sociais e políticos dentro dos quais se inserem. Dissertação de Mestrado. P. Rio de Janeiro. 22 Uma das múltiplas fontes disponíveis sobre a área latinoamericana é o Handbook of Latin American Studies. Às vezes os novos meios. 124 . Margareth Arilha (1999). Isso implica um ir e vir constante entre materiais coletados em bibliotecas e arquivos diferentes. P. L. mas nem sempre incluem material original de mais de cinco anos atrás. & Spink. há quatro anos. K. por exemplo – também oferecem pistas importantes de reflexão. Fontes de revisão de material também são úteis.

está presente na mensagem do governador do estado de São Paulo. é portanto necessário trabalhar. aplicando técnicas – enfim. como também na cidade de São Paulo e em outras partes da América Latina”. quando é publicado o volume do Handbook para 1944. mas também forma uma narrativa porque seria impossível itemizar ou identificar todos os materiais produzidos pertinentes a um determinado tópico em todos os países da América Latina – que por sinal é uma denominação de origem francesa que data do século XIX. O tópico governo foi incluído no Handbook em 1936 e compilado por um dos bibliotecários da Biblioteca do Congresso. Cada capítulo portanto é um reflexo daquilo que é produzido. ao mesmo tempo. ele comenta: “o interesse na reorganização e eficiência administrativa. Childs. nas inúmeras mudanças publicadas na estrutura organizacional e nas palestras públicas sobre a temática de governo. os comentários gerais sobre os problemas de governo e os desafios a serem enfrentados. reorganizando. seu conteúdo e as práticas discursivas que lhe dão sentido – sua forma em tempo.produção dos países da região. como para consultar qualquer livro de referências. Na introdução ao capítulo de 1936. B. O resultado é um quadro de governos que fazem as coisas que todos os governos fazem: organizando. discutindo eficácia e eficiência. A coordenação da área de governo passa a ser feita exclusivamente por acadêmicos de ciência 125 . O Handbook surgiu nos Estados Unidos em 1935 no contexto do Advisory Committee on Latin American Studies do American Council of Learned Societies. J. Childs dividiu a seção de governo com um professor de ciência política. comum nos estados dos Estados Unidos da América. por falta de espaço foram eliminadas duas seções: uma sobre as mudanças em administração – coordenada por Childs – e outra sobre Tratados. Para consultar o Handbook. Durante o período 1937-1946. sem dúvida influenciado pelo já ativo envolvimento econômico e político nos países da região. Childs concentrou-se nos relatos dos governos da região sobre as suas administrações públicas. Em 1947. o dia a dia do processo administrativo. Convenções e Atos. o primeiro focalizando as mudanças nas administrações e o segundo.

(1996). Isso é visível tanto em discursos e documentos de organizações internacionais quanto na fala inaugural do presidente Truman. The Development Dictionary. S. a construção social do desenvolvimento e da ocidentalização23 estava em pleno avanço. Porém.) (1992). a América Latina seria reinterpretada como subdesenvolvida mas com potencial (mais tarde as palavras seriam em desenvolvimento ou emergente) e seus governos como difíceis e faltando competência. Cambridge: Polity Press. No processo. escritas por comentaristas. O ponto quatro do presidente Truman abre um caminho que levaria à Aliança para o Progresso e o Tratado de Punta del Este (1961). Latouche. dos Estados Unidos da América. London: Zed Books. 126 .política. The Westernization of the World. No período pós-Segunda Guerra Mundial e especificamente nos anos de 1946-1950. W. 23 Sachs. Vale a pergunta: os resumos geram a versão ou a versão gera os resumos? Esses pequenos períodos e passagens podem ser poucos para os historiadores e sem dúvida refletem outras questões e temas. e a grande maioria dos documentos escolhidos para citação passa a ser análises gerais. (ed. O número de trabalhos resumidos na língua inglesa sobe de 4% para 11%. para os psicólogos sociais são um passo inicial para a compreensão da ubiquidade das práticas discursivas produzidas nas interações organizacionais e sociais que formam o cotidiano barulhento. Talvez seja essa a nossa contribuição ao espaço interdisciplinar.

estudos que privilegiam investigações nos vários domínios do saber. que circulam na sociedade e que utilizamos para dar sentido às nossas experiências. em geral. nos apoiamos na abordagem teórico-metodológica de produção de sentido e práticas discursivas. compreendida como um fenômeno sociolinguístico. apresentada nos quatro primeiros capítulos desta coletânea. Esses repertórios. como os repertórios interpretativos utilizados nas produções discursivas. a produção de sentido. 127 . busca entender tanto as práticas discursivas que atravessam o cotidiano. derivam de contextos marcados por diferentes temporalidades: tempo longo (que marca as produções culturais da humanidade). como nos apontam as crescentes desmitificações de sua objetividade as reflexões de Bruno Latour e Steve Woolgar (1979/1997). também. como fonte de informações. As produções discursivas desses domínios. A adoção dessa abordagem teórica possibilita. entre eles os campos científicos. contribuem para a formação e a difusão de repertórios interpretativos variados que continuamente reconstroem conteúdos e geram novos sentidos. tempo vivido (que enfoca as linguagens sociais presentes nos processos de socialização). Para tanto. como forma de legitimação etc.CAPÍTULO VI GARIMPANDO SENTIDOS EM BASES DE DADOS Lia Yara Lima Mirim A s atividades de pesquisa. e tempo curto (da interação face a face). A proposta deste capítulo é discutir a utilização da literatura científica como recurso metodológico em pesquisa. Nessa abordagem. procuram apoio na produção científica utilizando-a como fonte para levantamentos bibliográficos. inclusive sobre si mesmos.

que antecedem a realização de um projeto de pesquisa. capítulos de livro. livros.1 1. destacando a crescente importância das bases de dados como via de acesso à literatura científica. integrar etapas de sua execução. também. trataremos da utilização das bases de dados para pesquisa. a Medicina. como prática social de um grupo específico da sociedade. Ao final. portanto. que variam dentro dos vários domínios do saber – tais como a Psicologia. também. A seguir. apresentaremos um exemplo de uso dessa base de dados. com o trabalho realizado para a dissertação de mestrado intitulado. periódicos etc. 1 Agradecimentos especiais para a professora e orientadora Mary Jane Paris Spink por suas contribuições de pesquisadora de mão cheia e pela confiança. Iniciamos discutindo a ciência como linguagem social. daremos especial atenção ao uso das produções discursivas da ciência. teses. como fonte de pesquisa.Neste capítulo. desenvolve uma linguagem social muito peculiar. 128 .. Agradeço. Muitas pesquisas realizadas na área da saúde incluem investigações na esfera dos vários domínios do saber que compõem esta área. a História etc. a Antropologia. a Sociologia. com regras próprias de construção e de apresentação de suas produções. editoriais. para a amiga e parceira em pesquisa Vera Menegon pelas sugestões no decorrer deste trabalho e para José Marinho companheiro de todas as horas. comentários. que auxiliam a sua elaboração e que podem. privilegiando a base de dados Medline. notícias. já cristalizadas na forma de artigos. A ciência como linguagem social A ciência. 1998). A construção do sentido do teste HIV: uma leitura psicossocial da literatura médica (Mirim. Muitos desses estudos focalizam a produção discursiva na literatura científica em pelo menos uma das etapas do projeto de pesquisa. Os levantamentos bibliográficos. atualmente disponíveis online. são exemplos de incursões na literatura científica a fim de alcançar parte de sua produção discursiva. aos colegas do Núcleo de Pesquisa em Psicologia Social e Saúde da PUC-SP. com suas peculiares formas de apresentação e de circulação de seus discursos.

seja no quadro do discurso interior. as enunciações. 1929/1995) e como tal. de um estilo de produção literária. comentários. artigos. capítulos de livros. dito de outra forma: O ato de fala sob a forma de livro é sempre orientado em função das intervenções anteriores na mesma esfera de atividade. são concebidas como discursos. recuperadas a partir dos levantamentos bibliográficos. num determinado sistema. essas várias formas de apresentação da produção discursiva da literatura científica. 129 . Para estes autores. mesmo nas formas imobilizadas da escrita. 1990: 45). editoriais. cartas. Ainda nos orientando nos trabalhos fecundos de Bakhtin (1995).Esses levantamentos bibliográficos permitem ao pesquisador ter acesso às produções da ciência já cristalizadas na forma de livros. ou seja. sendo que a institucionalização pode ocorrer 2 em nível disciplinar. O artigo científico é. as notícias. periódicos. estudado a fundo. os comentários e os artigos que podem ser anteriores ou subsequentes à publicação de um artigo em um periódico científico. são uma resposta a alguma coisa e são construídas como tal. comentado e criticado.). Nessa perspectiva. teses. um grupo etário etc. “os discursos podem competir entre si ou criar versões da realidade que são distintas e incompatíveis. em uma determinada época (Bakhtin. cultural e de pequenos grupos. são orientadas para uma leitura no contexto da vida científica ou da realidade literária historicamente situada. um ato de fala impresso. seja na perspectiva das reações impressas: os editoriais. ou seja. discursos peculiares a um estrato específico da sociedade (uma profissão. tanto do próprio autor como das de outros autores: ele decorre portanto da situação particular de um problema científico. pois. político. o discurso escrito é de certa forma parte integrante de uma discussão ideológica em grande escala: ele 2 Para aprofundar esta reflexão ver capítulo dois desta coletânea. um discurso é entendido como o uso institucionalizado da linguagem e de sinais de tipo linguístico. notícias etc. ou seja. sendo produzido para ser apreendido de maneira ativa. Conhecer alguma coisa é conhecer em termos de um ou mais discursos” (Davies & Harré. Assim. são produzidas para serem compreendidas. e também objeto de discussões ativas sob a forma de diálogo.

da personalidade e da filiação institucional dos atores. do caráter inédito do que está em jogo. procura apoio etc. ela depende do número de atores na área. o exemplo do que merece o nome de ciências. atualmente. A ciência. editoriais. antecipa as respostas e objeções potenciais. comentários e notícias publicadas. refuta. Este sistema também engendra um sistema formal.responde a alguma coisa. e exercendo uma censura de fato sobre as produções heréticas. (Bakhtin. Um artigo científico publicado pode transformar os tipos de enunciados. continuamente. Para que uma operação seja bem sucedida. oferecendo assim. 1995: 123). já cristalizadas na forma de artigos. Aspecto importante em relação às revistas científicas é levantado por Pierre Bourdieu: Pela seleção que operam em função de critérios dominantes. Um complexo sistema de publicação coloca em circulação a produção discursiva da ciência. 130 . que se traduzirão na possibilidade de indexação do periódico nas várias bases de dados disponíveis para pesquisa. regido por estratégias de validação há muito consagradas pela tradição. Cabe lembrar que as várias publicações representam posições concorrenciais dentro do campo científico. seja rejeitando-as expressamente ou desencorajando simplesmente a intenção de publicar pela definição do publicável que elas propõem (1994: 138). como um campo agnóstico. das apostas e do estilo do artigo. 1997). são a principal via de acesso para a pesquisa de referências bibliográficas que irão compor os levantamentos bibliográficos. cartas. confirma. e as várias posições que já constituem o campo influenciam as chances que um argumento tem de produzir um efeito. é similar a qualquer outro campo de controvérsias (Latour & Woolgar. Essas bases de dados. consagram produções conforme os princípios da ciência oficial. As revistas científicas. ou os periódicos científicos (assim denominados convencionalmente pela comunidade científica) são as publicações que mais rapidamente colocam em circulação as produções da ciência.

aos textos etc. sem a intermediação de “técnicos em pesquisa” (profissionais especializados em prestar auxílio na realização de levantamentos bibliográficos nas bibliotecas). nas bibliotecas. várias bases de dados foram organizadas para facilitar o acesso dos pesquisadores à produção científica. também.. os levantamentos bibliográficos realizados via base de dados. com suas regras de organização e seus sistemas de pesquisa. Obviamente. Para que os técnicos em pesquisa pudessem nos auxiliar e nos facilitar a obtenção de levantamentos bibliográficos. produções da ciência com as quais temos que nos familiarizar. começou a ser elaborado no final do século XIX. também foi sendo desenvolvido um sistema formal para pesquisá-las. tínhamos que traduzir-lhes nossa motivação para tal levantamento. ou seja. ou seja. 2.3 Atualmente. Inovadora e revolucionária porque nos permite acesso às principais e mais completas bibliotecas do mundo. de interesse para seu projeto de pesquisa. 131 . Até há alguns anos. da estratégia que elegemos para acessar referências bibliográficas valiosas (segundo nossos critérios) para nosso estudo. ou seja. Além disso. a pesquisa nessas bases de dados era feita manualmente por meio dos Index. com certeza. Neste final de século. por exemplo. Ao longo do tempo. além de nos convidar e propiciar que realizemos nossas próprias pesquisas nos diversos bancos de dados disponíveis online. para a elaboração de nossa estratégia. A construção de variadas e sucessivas estratégias de pesquisa e a análise de seus resultados contribuem. Trabalhando com as bases de dados Como nos referimos anteriormente. temos disponíveis sistemas de pesquisa via computador. a Internet nos oferece inovadora e revolucionária forma de pesquisa. acabava por limitar nossas possibilidades de construção de variadas estratégias de pesquisa nas bases de dados. o tempo disponível para atendimento dos vários e diversos usuários desses serviços. são.2. ao mesmo tempo que foram construídas essas bases de dados. Essas bases de dados. permitem ao pesquisador ter acesso à produção científica já cristalizada. 3 O Index Medicus. aos artigos. e podemos ter acesso a elas em CD ROM ou via online. o que nem sempre era possível.

em tempo real. ou seja. muito embora não pudéssemos deixar de mencioná-las. a velocidade desse meio de comunicação. JAMA. com acesso via sistemas de computador. Inovadora e revolucionária porque a definição de publicável passa.. Além disso.Inovadora e revolucionária. tanto para publicação quanto para pesquisa da produção discursiva da ciência. L. tão somente. Marshall. 271:1103-1108. Characteristic of early adopters of end-user online searching inthe health professions. J. Siegel. como recurso de pesquisa e informação e a tendência dos pesquisadores em realizar suas próprias pesquisas bibliográficas. MD Comput.. para as mãos do(s) pesquisador(es). K. R. & Barnet G.. porque a Internet possibilita aos pesquisadores de qualquer parte do mundo e de qualquer afiliação institucional a publicarem suas pesquisas mesmo antes destas estarem concluídas (não ainda cristalizadas). introduzem um número cada vez maior de usuários – não necessariamente especialistas em pesquisar literatura científica – ao manejo dessas bases de dados. Humphreys. N. B. 1998) a base de dados Medline foi selecionada como fonte de pesquisa da literatura médica para a elaboração de um banco de publicações sobre o teste HIV5 que abordassem as várias e diversas questões relacionadas à 4 Lowe H. também. Selinger. na dissertação de mestrado intitulada A construção do sentido do teste HIV: uma leitura psicossocial da literatura médica (Mirim. oferecem alternativas atrativas que dificultam previsões e fogem de nossos propósitos. (1994). 77:48-55. Os desdobramentos futuros da utilização da Internet. 5 Desde os primeiros Boletins Epidemiológicos publicados pelo Ministério da Saúde encontramos – teste anti-HIV ou simplesmente teste – como denominação para os exames sorológicos para diagnóstico da infecção pelo HIV. (1989). Understanding and using the medical subject headings (MeSH) vocabulary to perform literature searches. E. Wallingford. A crescente importância da utilização das bases de dados. T. E.G. J. 7:166-171. (1990).O. Bull Med Libr Assoc. Bibliographic retrieval: a survey of individual users of MEDLINE. Atualmente a denominação simplificada 132 . pode fazer circular a publicação de maneira muito mais ágil e rápida do que quaisquer das bases de dados organizadas e disponibilizadas também via Internet.4 Neste cenário.

visto que 1985 foi o ano em que os exames sorológicos para diagnóstico da infecção pelo HIV tornaram-se disponíveis para uso de rotina. optamos pela análise dos periódicos científicos internacionalmente indexados. Antropologia da doença de François Laplantine publicada em 1986/1991. Dentre as obras importantes para essa reflexão destacamos: As classes sociais e o corpo de Luc Boltanski publicada em 1979. não deixamos de considerar o período que antecedeu a disponibilização do teste. principalmente a da área biomédica. 7 Por que escolher a literatura médica para nos auxiliar na busca da construção do sentido do teste HIV? Vários autores têm afirmado que a produção discursiva da área da saúde. pois são eles as publicações científicas que mais rapidamente colocam em circulação as produções da ciência cristalizadas.realização dos testes sorológicos para diagnóstico da infecção pelo HIV ao longo dos treze primeiros anos de sua disponibilização para uso de rotina. contribuiu de maneira expressiva para a formação e a difusão de grande variedade de repertórios interpretativos sobre a saúde e a doença. 6 Foi no ano de 1985 que os exames sorológicos para diagnóstico da infecção pelo HIV tornaram-se disponíveis para uso de rotina nos Estados Unidos. Para estudar a construção do sentido do teste HIV na literatura médica. o contexto em que se deu o desenvolvimento desses exames na história da AIDS (1981 a 1984). as cartas. Neste estudo. as notícias e os comentários publicados como discursos. privilegiamos a investigação na esfera dos domínios do saber. A arqueologia do saber de Michel Foucault publicada em 1979/1995. No entanto. tomando os artigos. 7 Vale pontuar que na nossa abordagem o termo discurso é empregado para referir às produções presentes em áreas já formalizadas e regulamentadas. 133 . ou seja. Utilizamos dois procedimentos complementares para coleta do material sobre o teste HIV na literatura médica: – teste HIV – é a denominação mais frequentemente adotada pelos profissionais de saúde para esses exames. ou seja. cujo objetivo foi entender a construção do sentido do teste HIV na literatura médica. focalizando a produção discursiva na literatura médica. Buscamos artigos científicos publicados entre 1985 e 1997 sobre o teste HIV. do ano de 19856 ao ano de 1997.

de algumas outras bases de dados que podem ser úteis em pesquisa. as maneiras como as pessoas produzem sentidos e se posicionam em relações sociais cotidianas. BMJ. buscou-se entender as possíveis permanências e rupturas no discurso sobre o teste HIV. The Medline database. as publicações subsequentes. 11 Em nossa perspectiva podemos definir práticas discursivas como linguagem em ação. 134 . influenciando. apresenta-se como uma das mais importantes bases de dados da literatura biomédica internacional e uma das mais frequentemente utilizada por pesquisadores e profissionais de saúde do mundo inteiro. tornou-se crucial para esse estudo nossa familiarização com a base de dados Medline e com seu manejo online para que pudéssemos construir uma estratégia de pesquisa que resultasse em um conjunto de publicações que se tornaria nosso banco de publicações. Ver discussão no capítulo dois desta coletânea. ou seja. 10 A base de dados Medline é uma dentre as várias bases de dados organizadas e disponíveis hoje para pesquisa. b) O banco de publicações sobre o teste HIV do Medline a partir da revisão da literatura médica nessa base de dados. Portanto. ou seja. (1997). Ver em Greenhalgh. com descrição breve. dos usos. A possibilidade de escolha está inevitavelmente envolvida em pesquisa. 9 O banco de publicações constituído a partir do Medline foi utilizado para estudar a construção do sentido do teste HIV a partir da problematização dos aspectos técnicos. das implicações dos usos do teste e das populações testadas ao longo do tempo. uma vez que as práticas discursivas11 no cotidiano de pesquisa em que uma pessoa poderia se engajar são múltiplas e contraditórias. How to read a paper. 9 Por que escolher a base de dados Medline10 para a elaboração do banco de publicações sobre o teste HIV? A base de dados Medline como fonte de pesquisa e informação para a área da saúde.a) As publicações do Center for Disease Control and Prevention (CDC) 8 publicadas pelo Morbidity and Mortality Weekly Report (MMWR). Em seguida. 8 Escolhemos as publicações do Center for Disease Control and Prevention (CDC) publicadas pelo Morbidity Mortality Weekly Report (MMWR) devido ao lugar de destaque que esse periódico ocupou na definição dos contornos da AIDS na literatura médica. T. uma dentre as múltiplas versões possíveis da literatura médica sobre o teste HIV a partir da base de dados Medline. ou seja. 315:180-3. os argumentos/justificativas utilizados para justificar o uso do teste ao longo dos anos. listagem. dos procedimentos utilizados na testagem ou decorrentes da testagem. Esse conjunto de publicações foi utilizado para contextualização histórica do teste HIV. sobremaneira.

Pretendemos. resumo do artigo em inglês (abstract. desde 1966.library. língua etc. se disponível). O Medline contém todas as citações publicadas no Index Medicus. tipo de publicação. Essas informações estão reunidas e organizadas em campos de dados. A base de dados Medline é atualizada semanalmente e está disponível para distribuição online13 e em CD-ROM. que reúne mais de 9.S. enfermagem. quando. não apreendemos sua peculiar linguagem.) e www. compilada e mantida pela Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos ( U. tais como: igm.htm (site que disponibiliza várias outras bases de dados sobre Psicologia. Ciências Sociais etc. discutir as possibilidades básicas de pesquisa nessa base de dados e apontar soluções para alguns dos problemas mais comuns enfrentados. 135 . Apesar desta extensa cobertura. 3.nih.ca//medline. afiliação dos autores. e corresponde em parte ao Internacional Nursing Index e ao Index to Dental Literature.gov.nlm. com todos os recursos da 12 Alguns capítulos e artigos de algumas monografias selecionadas também podem ser encontrados no Medline nos últimos anos. ainda.2 milhões de referências bibliográficas da literatura biomédica internacional. medicina veterinária. A base de dados Medline Medline é uma enorme base de dados criada.br. Nacional Library of Medicine – NLM).bireme. 13 Atualmente vários web sites disponibilizam acesso direto e gratuito ao Medline. descritores de assunto. ao mesmo tempo que discutiremos sua utilização em pesquisa.12 O Medline contém referências de mais de 3.800 periódicos internacionais publicados nos Estados Unidos e em outros 70 países.Em seguida apresentaremos a base de dados Medline descrevendo sua organização. odontologia. dessa forma. delphi. autores. assistência à saúde e ciências pré-clínicas. fonte.yorku. Os registros da base de dados Medline contêm um conjunto de informações que descreve um determinado artigo ou documento e incluem informações como: título. nas áreas de medicina. mais de 80% das citações indexadas no Medline provêm de fontes de língua inglesa. Mais de dois terços dessas referências incluem resumos dos artigos em inglês. Para processar uma pesquisa.

Medline/*standards ADDITIONAL MESH HEADINGS: Sensitivity and Specificity.uk SOURCE: BMJ 1997 Jul 19. e por meio de descritores de assunto (termos. quando do manejo dessa base de dados online para pesquisa via sistemas de computador. do periódico em que o artigo foi publicado etc. (1997). London. 136 . The Medline database. Os registros da base de dados Medline podem ser rastreados de duas maneiras principais: por meio de palavras listadas nos campos de dados. somos obrigados a conhecê-los em inglês. na grande maioria das vezes. do resumo do artigo. Whittington Hospital.interface de recuperação desses artigos. 14 Estes descritores de assunto fazem parte de um vocabulário controlado – medical subject heading terms (MeSH)15 – produzido pela Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos (NLM) e usado para a indexação (descrição do assunto) e para a recuperação dos registros ingressados na base de dados Medline. do nome dos autores. p. 315:180-3. palavraschaves) que identificam o tema do artigo. que incluem palavras do título. BMJ.315(7101):180-3 CITATION IDS: PMID: 9251552 UI: 97395413 COMMENT: Comment in: BMJ 1998 Apr 11. Neste capítulo vários termos foram utilizados em inglês para facilitar a descrição e a compreensão da utilização e do manejo do Medline (uma base de dados americana). University College London Medical School/Royal Free Hospital School of Medicine.greenhalgh@ucl. Segue abaixo um exemplo de uma citação do Medline recuperada via online: TITLE: How to read a paper. Além disso. da instituição onde a pesquisa foi realizada. How to read a paper. United States 14 15 Greenhalgh.316(7138):1166 MAIN MESH HEADINGS: Abstracting and Indexing/*standards.ac. T. The Medline database AUTHORS: Greenhalgh T AUTHOR AFFILIATION: Department of Primary Care and Population Sciences. é necessário conhecer como estão organizados os campos de dados e seus conteúdos.

além de permitir relacionar dois ou mais assuntos/temas a serem pesquisados simultaneamente. por exemplo.1 Pesquisando no Medline16 Como dissemos anteriormente. Os campos de busca e os operadores lógicos boleanos  Campo de busca para pesquisa por assunto ou por palavras [TW] Esse campo de busca permite a pesquisa do assunto/tema em todos os campos da citação. via sistemas de computador” (Robert Day.1990:15). em nossos dias. e nos descritores de assunto. esses artigos também serão recuperados. já mencionados anteriormente. A seguir. é necessário conhecer como estão organizados os campos de dados e seus conteúdos.  Campo de busca para pesquisa por título do artigo [TI] Esse campo permite a busca de palavras que compõem o título do artigo. para processar uma pesquisa. no resumo dos artigos. Porém. Para recuperação de 16 Este subitem foi elaborado com auxílio das informações sobre o Medline e seu manejo obtidas nos vários sites que disponibilizam acesso direto e gratuito ao Medline. Tutorial LANGUAGES: English 3. Aqueles em que o título original está em outro idioma têm o título traduzido para o inglês. 137 . se a palavra pesquisada constar em outro campo de dado da citação. ou seja. a. Deve-se lembrar que o título de uma referência deve conter “ o menor número de palavras que descreve adequadamente o conteúdo de um artigo. poder-se-á usar termos identificados por uma ou mais palavras. satisfazendo aos propósitos de recuperação do mesmo. no campo de autor.PUBLICATION TYPES: Journal Article. Nesse tipo de busca. estamos pesquisando principalmente palavras contidas no título dos artigos. apresentaremos os principais campos de dados do Medline. A maior parte dos artigos tem o título original em inglês. seus conteúdos e sua utilização como campos de busca de citações. Review. com todos os recursos da interface de recuperação desses artigos.

utilizando este campo da base de dados.  Campo de busca para pesquisa por data da publicação [DP] O conteúdo desse campo de dados refere-se ao ano de publicação do artigo no periódico indexado ao Medline. deve-se inserir “sobrenome e primeira inicial” entre aspas duplas. Vale a pena notar. pois esse campo de busca é constituído por palavras selecionadas pelo(s) autor(es) das referências a serem recuperadas.  Campo de busca para pesquisa por periódico [TA] Esse campo pode ser utilizado para recuperar citações publicadas em determinado periódico. Podemos limitar nossa busca a um ou mais anos. Deve-se utilizá-lo quando se deseja especificar o idioma do texto dos artigos a serem recuperados. que o campo de dados título é o campo que nos permite recuperar citações sem os filtros decorrentes da organização do banco de dados em questão. os autores estão indicados pelo sobrenome e pelas iniciais do nome. Para recuperar artigos de um determinado autor. Lembramos que no Medline o título do artigo e o resumo do artigo aparecem sempre em inglês. Podemos também usar o campo de citações para recuperar uma citação específica ou itens indexados de um volume particular.  Campo de busca para pesquisa por idioma [LA] Esse campo de dados – língua – corresponde ao idioma no qual o texto do artigo foi publicado. Entretanto.  Campo de busca para pesquisa por autor [AU] No Medline. sem separações por vírgulas entre eles e as iniciais do nome. O conteúdo desse campo é o título do periódico indexado no Medline abreviado segundo as normas da NLM. a pesquisa pode ser realizada por meio do nome completo da publicação. além de podermos fixar dia e mês para precisar ainda 138 . deve-se digitar uma ou mais palavras que se espera encontrar no título dos artigos. mas nem sempre o idioma utilizado no texto do artigo está em inglês.citações. sem ponto entre elas.

O mesmo ocorre quando relacionamos com and dois ou mais campos de busca. or e not. o artigo ingressa no Medline e a mesma citação é retirada do Premedline. O mesmo ocorre quando utilizamos este operador para relacionar dois ou mais campos de busca. Uma vez terminada a indexação. devemos entrar com este ano. Oldmedline é uma base de dados. disponível a partir de agosto de 1996. que contém citações originalmente publicadas no período de 1960 a 1965. 17 Os sistemas de pesquisa online já nos apresentam campos onde serão digitados o intervalo de tempo de nossa busca.17 Mais recentemente. 139 .18  Os operadores lógicos boleanos Para obter melhores resultados na pesquisa. além de conhecer os campos de dados disponíveis. necessitamos conhecer os operadores lógicos boleanos. NOT – exclusão: este operador é utilizado para excluir as citações que contenham um ou mais termos de uma pesquisa. tanto no campo para ano inicial da pesquisa quanto. foram adicionadas duas novas bases de dados complementares ao Medline: Premedline e Oldmedline.mais nosso período de pesquisa. AND – interseção: este operador quando utilizado recupera todos os artigos que apresentam simultaneamente estes termos/palavras. ou seja. OR – união: este operador soma e portanto recupera as citações que têm qualquer um dos termos de pesquisa. apresentando em seus menus intervalos para pesquisa que correspondem aos últimos 30 e 60 dias e últimos 6 e 12 meses. enquanto a indexação não está completamente concluída. Premedline é uma base de dados. São eles: and. Alguns sistemas também apresentam a possibilidade de pesquisa das publicações mais recentes. no campo para ano final da pesquisa. disponível desde dezembro de 1996. Alguns intervalos de anos preestabelecidos já estão disponíveis em menus nesses sistemas. 18 No Oldmedline não é possível entrada pelo mês das publicações. que podem relacionar dois ou mais termos de um mesmo campo de busca ou ainda relacionar dois ou mais campos de busca. atualizada em novembro de 1998. que fornece informações básicas das citações e resumos dos artigos antes destes ingressarem no Medline. Note-se que para pesquisar um único ano.

Podemos utilizar parênteses para ordenar nossas prioridades no processamento da estratégia de pesquisa.. que traduz em detalhes a estratégia de pesquisa que será ou foi executada para recuperação das citações no Medline.*). Um importante recurso disponível nos sistemas de busca disponíveis online é o campo Details of Search. Quando se coloca para busca um conceito formado por uma frase e pretende-se que esta seja reconhecida em seu conjunto. os incorporar como unidade no processamento da estratégia global. devemos colocá-la entre aspas duplas.. assim. Assim. traduzidas pelos sistemas de pesquisa online. Algumas frases já são. Podemos usar apenas o sufixo de palavras correlacionadas e truncar seu final. ”).Quando usamos mais de um operador boleano em uma expressão de pesquisa. colocar um asterisco no final do sufixo comum a um grupo de palavras.000 termos. Busca por frases ou termos compostos – entre aspas duplas (“. O 140 . Assim.  Outros recursos para pesquisa Truncamento – mais um recurso para pesquisa (. para. Este recurso permite visualizar como o sistema irá processar nossa estratégia de pesquisa.. ou seja. o sistema processa primeiramente os termos entre parênteses. temos que ordená-los para o processamento da busca. em seguida. à medida que selecionamos e relacionamos os termos nos campos de busca. palavraschaves) controlado pela NLM com aproximadamente 19.. em seguida or e por último not. A ordem de prioridade dos operadores é primeiro and. Os descritores de assunto [MeSH Terms]  O vocabulário MeSH – Medical Subject Heading Terms O vocabulário MeSH é um conjunto de descritores (termos. b. estaremos recuperando todas as referências indexadas pelo grupo de palavras iniciado pelo sufixo truncado colocado para busca.

não como assuntos/tópicos principais e sim como temas correlatos ao tema principal do artigo. em seguida. são precedidos por um asterisco. poderá limitar sua pesquisa ao conceito principal. na remoção de alguns desses descritores. os indexadores da NLM escolhem os descritores apropriados (normalmente 10 a 12 descritores). em direção a descritores cada vez mais específicos. por exemplo. Este artigo foi de grande valia para a elaboração do subitem sobre os descritores de assunto deste capítulo. Sendo a literatura médica dinâmica. o pesquisador. O descritor ou descritores que representam os principais conceitos (Major Concept) tratados no artigo. o vocabulário MeSH também sofre modificações ao longo do tempo. ou ainda. Cada descritor de assunto (termo) representa um conceito apresentado na literatura biomédica. porém. palavraschaves) não precedidos por asterisco são usados para identificar conceitos discutidos nos artigos. como. Os descritores são organizados e hierarquizados em uma série de quinze categorias principais que dá origem à chamada Estrutura de Árvore do Mesh (The MeSH Tree Structures). no julgamento dos indexadores da NLM. Muitos especialistas recomendam que inicialmente façamos nossa pesquisa sem limitar a busca às citações indexadas pelo conceito principal (Major Concept). JAMA. J.MeSH é usado para indexar citações em alguns bancos de dados produzidos pela NLM. O aparecimento de novos conceitos.19 O vocabulário MeSH ou os descritores de assunto não são simplesmente uma lista de termos. que representam o conteúdo do documento que está ingressando na base de dados. Quando uma nova citação é incorporada ao Medline. Cada uma dessas categorias é uma rota complexa hierárquica de combinações de descritores mais gerais. 19 Lowe H. as mudanças e transformações significantes se traduzem ou na incorporação de novos descritores ou na modificação de descritores já existentes. Os descritores de assunto (termos. Understanding and using the medical subject headings (MeSH) vocabulary to perform literature searches. & Barnet G. Se o número de citações recuperadas exceder a um certo limite arbitrário. (1994). 141 . o Medline.O. 271:1103-1108.

Diagnostic and Therapeutic Techniques and Equipment [E] – Análise das Técnicas Diagnósticas e Terapêuticas e dos Equipamentos 6) Psychiatry and Psychology [F]– Psiquiatria e Psicologia 7) Biological Sciences [G] – Ciências Biológicas 8) Physical Sciences [H] – Ciências Físicas 9) Anthropology.Information Science [L] – Ciências da Informação 13) 13.Technology and Food and Beverages [J] – Tecnologia. apresentadas a seguir. Education. pelos descritores de assunto: 1) Anatomy [A] – Termos Anatômicos 2) Organisms [B] – Organismos 3) Diseases [C] – Doenças 4) Chemical and Drugs [D] – Compostos Químicos e Drogas 5) Analytical.Humanities [K] – Humanidades 12) 12. consequência do extenso entrecruzamento dos seus 142 . Indústria.Geographic Locations [Z] – Localizações Geográficas A Estrutura de Árvore do vocabulário MeSH permite inúmeras estratégias de pesquisa quando pesquisando no Medline. Sociology and Social Phenomena [I] – Antropologia.Health Care [N] – Cuidados de Saúde 15) 15. A despeito das inúmeras possibilidades de pesquisa advindas dessa estrutura de árvore do vocabulário MeSH.Essas categorias. Agricultura e Alimentos 11) 11.Persons [M] – Denominações de Grupos 14) 14. Educação. Sociologia e Fenômenos Sociais 10) 10. ou seja. permitem uma visão geral das áreas cobertas pelo vocabulário MeSH.

por exemplo. várias ferramentas têm sido desenvolvidas. randomized controlled trial. rigorosamente controlado e altamente específico. que caracteriza o tipo de publicação da citação indexada mais do que seu conteúdo. São eles: o tipo de publicação. formulada a partir de suas práticas discursivas. meta-analysis.) que auxilia na procura e na escolha dos termos do vocabulário MeSH mais adequados ao tema que estamos pesquisando e que apresenta a hierarquia desses descritores na estrutura de árvore do vocabulário. que nos permitem entrada e pesquisa neste vocabulário bastante específico.descritores. Para resolver esta questão. para em seguida. A maioria dos sistemas de acesso online para pesquisa na base de dados Medline possui um recurso (MeSH Browser ou Find MeSH. Por exemplo. mas podem ser usados para rastrear e recuperar artigos. como. podemos especificar: clinical trial. também.  Os termos MeSH especiais ou descritores especiais O vocabulário MeSH possui alguns tipos de descritores especiais que nunca representam conceitos principais dos registros. o check tags e os termos geográficos.. 143 . uma dificuldade fundamental se relaciona ao idioma. letter. deve ser traduzida para um vocabulário complexo. introduzido em 1991. practice guideline. é iniciarmos a busca para recuperação de citações. review. Nesses sistemas há. a partir do campo de autores de artigos já conhecidos ou de palavras do título. O tipo de publicação é um grupo de termos.. Outra estratégia bastante útil para encontrarmos descritores de assunto (Mesh termos) adequados a uma dada pesquisa. examinarmos os descritores de assunto (MeSH termos) indexados nessas citações recuperadas e utilizá-los numa segunda estratégia de busca via descritores de assunto. A questão do pesquisador. editorial. campos para entrada de termos de uso corrente na linguagem biomédica (MeSH entry terms) conectados ao MeSH vocabulário. a partir dos outros campos de dados.

U.S. continentes. Comparative Study. Non-U. drug therapy. complications. cujo objetivo foi entender a construção do sentido do teste HIV a partir da literatura médica sobre o tema. contraindications (of drug). Para exemplificar. A estrutura de árvore do vocabulário MeSH governa as combinações válidas possíveis de descritores de assunto principais e de subdescritores.22 Em seguida apresentaremos um exemplo de uso da base de dados Medline como recurso metodológico de um estudo realizado para dissertação de mestrado. Government. P. Non-P. Case Report. U. Government. In Vitro. history.20 O grupo de termos do designado check tags corresponde a atributos amplos do conteúdo dos artigos. Human.S. organization and administration. Female. 21 Alguns sistemas já disponibilizam alguns descritores desse grupo em campos de busca a serem ativados em seus menus.S. therapy e therapeutic use (of drug). Male. Government.S. education. 144 . diagnosis. devemos apenas ativar o campo correspondente ao tipo de publicação nesses menus. é preferível combinar um descritor de assunto principal com um subdescritor a combinar dois descritores principais. Support. epidemiology.21 Os termos geográficos identificam regiões geográficas. 22 De maneira geral.S. países. Esses termos podem ser usados para limitar nossa pesquisa a citações que tratem de áreas geográficas específicas. 20 Os sistemas de busca online no Medline disponibilizam alguns desses descritores especiais para tipo de publicação já organizados em menus. se desejamos limitar nossa busca especificando o tipo de publicação das citações a ser recuperado. Support.H.historical article etc. seguem alguns subdescritores: adverse effects.H. psychology. nursing. como por exemplo: Animal.  Os subdescritores de assunto do vocabulário MeSH Os subdescritores de assunto (subheadings) compõem um grupo de termos usados para qualificar o uso do descritor de assunto principal e permitem ao pesquisador limitar a recuperação das citações que tratem do conceito mais específico. estados e cidades. para a pesquisa de citações que tratem de um aspecto específico de um tema. prevention and control. Para tanto. Support.

artigos esses utilizados para a elaboração do projeto inicial de pesquisa. também. A seleção de registros no Medline foi feita com base nos Títulos dos Artigos [TI]. como. que abordassem várias e diversas questões relacionadas à realização do teste para diagnóstico da infecção pelo HIV. ao longo do tempo.4. por exemplo. a classificação por palavra-chave ou descritor. 23 Esta estratégia possibilitou a obtenção de um banco de publicações sem os filtros decorrentes da organização do banco em questão. utilizamos dois procedimentos complementares para coleta do material sobre o teste HIV na literatura médica: l) As publicações do Center for Disease Control and Prevention (CDC) publicadas pelo Morbidity and Mortality Weekly Report (MMWR). O uso da base de dados Medline para entender a construção do sentido do teste HIV na literatura médica Como já dissemos. entre 1985 e 1997. os registros relacionados com o teste HIV foram localizados com base em palavras identificadas anteriormente. Essa entrada no banco de dados dava acesso às referências bibliográficas das várias áreas/campos de trabalho da área da saúde sem privilegiar uma abordagem especificamente médica sobre o teste HIV e sem privilegiar. 145 . 23 A maior parte dos artigos registrados na base de dados Medline tem o título original em inglês. e 2) O banco de publicações do Medline sobre o teste HIV. HIV testing ou HIV screening.  A construção do banco de publicações do Medline Para a definição do nosso banco de publicações sobre o teste HIV. A partir dos títulos. um tema específico relacionado ao teste HIV. buscamos artigos científicos publicados. por meio da análise de uma amostra assistemática de artigos sobre o teste HIV. ao longo desses anos. cujos conteúdos são palavras do título original e traduzido. Observamos que mais da metade dos artigos que traziam alguma das abordagens possíveis sobre o teste HIV. apresentavam no título as palavras – HIV test.

25 que gerou inicialmente duas denominações – LAV (Lymphadenopathy Associated Virus) e HTLV-III – para o vírus que receberia mais tarde a denominação HIV (Human Immunodeficiency Virus ). O laboratório do Instituto Pasteur na França. na procura e no isolamento do vírus causador da AIDS. Essas diferentes entradas nas bases de dados contribuem para a definição dos campos de dados que serão pesquisados. por meio da Physicians Home Page (http://php. Em nossa experiência. Robert Gallo. via Internet. a intermediação na pesquisa. 146 .com/).silverplatter. que à primeira vista parece facilitar a tarefa. pode empobrecer. sob a coordenação do Dr. 791 referências bibliográficas sobre o teste HIV. ao final. uma home page americana. criada para auxiliar pesquisadores da área médica.A estratégia utilizada relacionou os vários termos : hiv test or hiv testing or hiv screening in TI and english in la. Optamos pela pesquisa direta na base de dados Medline. entre franceses e americanos. que é de fácil manejo e de baixo custo para seus membros associados. Obtivemos. isto é. sob a coordenação do Dr. sem a intermediação de pessoas que auxiliam nessa tarefa. Luc Montagnier e o laboratório do “National Institutes of Health” (NIH) nos EUA. entre 1983 e 1984.24 Isso resultou em 766 referências bibliográficas para compor o nosso banco de publicações. a amostra de referências resultante. O manejo direto permite uma melhor avaliação dos resultados obtidos nas diferentes incursões possíveis nos campos de dados disponíveis para pesquisa. Embora à primeira vista possa parecer uma amostra excessivamente grande 24 25 la – abreviatura para língua (language) a ser utilizada para pesquisa no campo de dados. como é costume em algumas de nossas bibliotecas. Considerando a disputa estabelecida. Conectamos o Medline. então. Esta estratégia resultou em mais 25 referências bibliográficas. acrescentamos os seguintes termos à pesquisa no Medline: antibody to LAV or antibody to HTLVIII in TI and enghish in la e HTLVIII test or LAV test or HTLVIII testing or LAV testing or HTLVIII screening or LAV screening in TI and english in la.

essencial para embasar a análise mais refinada em busca das transformações. incluímos no banco de publicações os editoriais. análise da argumentação. dos usos do teste. “O sentido em construção – o teste HIV numa perspectiva dinâmica”. revisão. com estrutura bastante constante e que demandam um maior tempo entre a realização do estudo. Os procedimentos para análise do banco de publicações compreenderam quatro passos: 147 . Diferentemente dos artigos que têm uma estrutura de elaboração complexa. todas as referências obtidas em nossa pesquisa acima referida na base de dados Medline.para ser manuseada. A análise a partir dos títulos desse banco de publicações. aceitação e. as cartas.  As estratégias de análise do banco de publicações Para análise deste conjunto de publicações – por nós denominado banco de publicações – utilizamos duas estratégias de análise complementares: 1. a compilação do artigo a ser publicado. dos procedimentos utilizados na testagem. permanências e rupturas do discurso científico sobre o teste HIV. sua análise. enfim. os comentários e as notícias. ou seja. além de facilitarem a identificação das possíveis permanências e rupturas na evolução aparentemente contínua e a-histórica do discurso científico. esse primeiro recorte nos permitiu uma visão de conjunto dos temas relacionados ao teste HIV que foram abordados ao longo dos anos. sua publicação. A primeira buscou a construção do sentido do teste HIV a partir da problematização dos aspectos técnicos. A revisão das referências bibliográficas do banco de publicações de dois periódicos JAMA e AIDS. Além dos artigos. A segunda buscou entender os argumentos/ justificativas utilizados para justificar o uso do teste HIV ao longo dos anos. oscilações. contribuindo para a diversidade do material empírico a ser analisado. diversidades. esses outros estilos poderiam enriquecer a análise. contradições. Estas duas estratégias de análise deram conteúdo ao capítulo intitulado. das implicações do uso do teste e das populações testadas ao longo do tempo. 2.

1º Passo: descrição geral do banco de publicações O banco de publicações compunha-se de 791 referências bibliográficas. ano da publicação e tema abordado e população-alvo da referência. a população-alvo da referência. mas 47. Abaixo apresentamos parte do quadro geral do banco de publicações ano 1991  para ilustrar o resultado desse procedimento. 30 editoriais. periódico no qual foram publicadas. sempre que possível. 188 cartas. Os temas abordados foram construídos a partir do título das referências. 2º Passo: temas abordados e populações alvo ao longo dos anos De posse das referências bibliográficas. 4 comentários e 1 entrevista. construímos um quadro composto por 4 colunas: título das referências. 148 . 104 notícias. que passaram a compor o banco de publicações desse estudo. sendo identificada. Essas 791 referências bibliográficas foram publicadas em mais de 250 periódicos diferentes.41% dessas referências estavam concentradas em apenas 20 desses diferentes periódicos. assim distribuídas: 464 artigos científicos. O quadro geral completo está contido em anexo da dissertação.

Não era nossa pretensão fazer uma descrição e uma análise quantitativa dos temas abordados ao longo do tempo. na noção de processualidade do método qualitativo que orientou 149 . HIV testing in women with vaginal candidiasis [letter. no período de 1985 a 1997. 3º Passo: os quadros-síntese. Ethical considerations in HIV testing of health care workers and restrictions on seropositive healthcare workers [news]. 4. Md-Nurse. Am-FamPhysician. Fonte: referências recuperadas da base de dados Medline. Simplified and less expensive confirmatory HIV testing. aconselhamento e notificação de parceiro testagem obrigatória e a Suprema Corte testagem e comportamento sexual homo ativos questões éticas e restrições ao trabalho testagem prof saúde entrega de resultado por oficiais de justiça testagem mulheres com candidíase vaginal testagem grávidas impelida política de testagem hospitais testagem voluntária p/ prof de saúde testagem obrigatória 7. Farmer. variedades. Apoiamo-nos. oscilações. 5. The HIV testing policies of US hospitals [letter. comment]. antibody to LAV or antibody to HTLVIII. HIV testing urged for pregnancy. apontando contradições. Nurs-Times.Quadro 1: Quadro geral do banco de publicações ano 1991 (uma ilustração) TÍTULO 1. Soc-Sci-Med. counseling and partner notification. CDC recommends voluntary HIV testing for health care workers [news]. Washington Supreme Court—compulsory HIV test— State v. Nurs-Times. comment]. 3. TEMA/POPULAÇÃO inespecífico teste confirmatório simplificado e mais barato testagem. Bull-WorldHealth-Organ. 9. dessa forma. mas buscar a diversidade. e HTLVIII test or LAV test or HTLVIII testing or LAV testing or HTLVIII screening or LAV screening no campo de busca para Título dos Artigos (TI). Supports BSN requirement for taking generalist certification exams. permanências e rupturas que porventura pudessem existir. 11. HIV testing. 12. Am-J-Med. 10. Am-J-LawMed. JAMA. 6. 8. ANA House of Delegates opposes mandatory HIV testing. The HIV test and sexual behavior in a sample of homosexual active men. 2. Bol-AsocMed-P-R. Asians given HIV test results by porters. AIDS-Care. utilizando as palavras: hiv test or hiv testing or hiv screening. PERIÓDICO J-Ir-DentAssoc. HIV testing [editorial].

sendo quatro deles elaborados a partir dos temas que foram sendo abordados ao longo dos anos: aspectos técnicos do teste HIV. o processo interpretativo para elaboração dessa etapa de análise. e um quadro elaborado a partir das populações-alvo identificadas. para evidenciar exclusões. Além disso. muitas vezes. Para ilustrar o resultado desse procedimento apresentaremos o quadro síntese das populações-alvo identificadas. construímos cinco quadrossíntese. 150 . Contudo. a quantificação nos prestou auxilio para abordar a interação dos temas entre si e a relação da parte com o todo. ou seja. até mesmo. algumas vezes. procedimentos da testagem e implicações do uso do teste HIV e temas gerais. utilizamos a quantificação para evidenciar um tema abordado ou. Para facilitar nosso trabalho analítico. usos do teste HIV.esse estudo.

trat.  receptores de transfusão  pacientes com tuberculose  profissionais de saúde trabalhadores de laboratório X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X 85 86 87 88 89 90 91 92 93 94 95 96 97 151 . psiq.Quadro 2: As populações-alvo identificadas no banco de publicações ANO População-alvo  pacientes com AIDS  doadores de sangue  “grupos de risco”  hemofílicos  usuários de droga usuários drogas prog. urolog.  pacientes de hospitais todos os pacientes hospitais de serviços de emergência de unidades de diálise em pré-operatório em UTI  doentes mentais e pac. DST/gen. usuários drogas não em trat  homossexuais  soldados/Marinha/Exército  mulheres mulheres grávidas todas as mulheres grávidas mulheres pobres adolescentes femininas mulheres de alto risco mulheres de 18 a 44 anos  recém-nascidos clientes cl.

empregados de hospitais cirurgiões dentistas  prisioneiros viajantes intern./estrangeiros  pop. geral de 16 a 44 anos  estudantes de odontologia  adolescentes  prostitutas  pessoas em risco  casais  homens hetero  homens de rua  voluntários saudáveis  pop. aborígene  profissionais boxing  pac. velhos c/ SK pele  adolescentes de alto risco X X X

X X X X X X X X X X X X

X X X X X X X X X X X X X X X X

Fonte: referências recuperadas da base de dados Medline, no período de 1985 a 1997, utilizando as palavras: hiv test or hiv testing or hiv screening; antibody to LAV or antibody to HTLVIII; e HTLVIII test or LAV test or HTLVIII testing or LAV testing or HTLVIII screening or LAV screening no campo de busca para Título dos Artigos (TI).

4º Passo: para que e para quem – o discurso sobre o teste HIV. Como última etapa do processo de análise, buscamos as transformações do discurso sobre o teste HIV, no que dizem respeito ao argumento/justificativa que orientou a realização do teste, nos diferentes períodos. As perguntas que nortearam a análise foram: a) Que função tem o teste nos diferentes períodos? b) A que população se destina/se oferece o teste nos diferentes períodos? Para tanto, utilizamos um subconjunto de referências do banco de publicações. Escolhemos para esta última etapa da análise as referências
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publicadas pelos periódicos AIDS e JAMA. Trabalhamos com um total de 74 referências desses dois periódicos (36 referências do JAMA e 38 do AIDS). Em seguida, passamos à etapa de exame/seleção26, ou seja, esses artigos foram examinados quanto ao seu interesse para esta fase de nossa análise. Do total de 74 referências examinadas, selecionamos 29 referências do periódico JAMA e 27 referências do periódico AIDS; 5 referências do periódico AIDS não foram examinadas na seleção, porque não foram possíveis de serem encontradas no Brasil. 13 referências (7 do JAMA e 6 do AIDS) foram excluídas por tratarem de assuntos específicos relacionados ao teste, que não respondiam as nossas questões no corpo do texto. 5º Passo: por último, passamos à leitura das referências selecionadas buscando respostas para as duas questões acima expostas. Na maior parte das vezes, os argumentos/justificativas que orientavam a realização do teste HIV em um dado artigo eram encontrados na justificativa/introdução dos autores para aquela publicação ou na discussão dos seus resultados. Algumas vezes, proposições concorrenciais eram explicitadas, de forma que, quando possível e pertinente para a análise, esses outros argumentos/justificativas também foram por nós utilizados. Diferentemente dos artigos, nas cartas e nos editoriais selecionados para esta última fase da análise, as respostas que procurávamos poderiam estar em qualquer parte do corpo da referência. A descrição detalhada dos procedimentos de análise do banco de publicações do Medline, assim como o resultado da análise global realizada nesse estudo, fogem aos propósitos deste capítulo. No entanto, vale ressaltar que os desdobramentos do uso do teste HIV, ao longo dos anos, nos apontaram para diversas e, muitas vezes, controversas posições concorrenciais no campo científico. Os títulos “ Testagem HIV. O que é bom para o ganso”, “Testagem: onde estamos?”, “Testagem HIV : fazer ou não fazer o teste”, “Testagem HIV: mais do que apenas uma questão de saúde ”
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Exame/seleção denominação utilizada por Ayres (1997: 105) para uma avaliação mais cuidadosa, buscando identificar, no conteúdo dos artigos, as possibilidades de análise a que se propôs o autor. Ayres, José Ricardo C. M. (1997). Sobre o risco – para compreender a Epidemiologia. Editora: Hucitec, São Paulo, p. 1-112.

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e “Testagem mais questões que respostas” podem ilustrar as controvérsias do debate na época.27 Dessa forma, concluímos que a realização do teste para diagnóstico da infecção pelo HIV nos convida, principalmente a nós profissionais de saúde, a uma reflexão sobre as relações de poder no exercício de nossas atividades profissionais diárias e a considerar agir localmente, pensando globalmente, proposta de Mann et alii (1996) para o enfrentamento da epidemia, ou melhor, da pandemia da infecção HIV/AIDS. Para tanto, exige-se um enfoque para a testagem que considere a ética como tema central de nossas reflexões. A ética como instância com efeito legal, “situada” em normas e comitês, e não mais como princípios gerais pertinentes ao campo da moral (Spink, 1997b). A testagem ética e solidária, em lugar da testagem voluntária, de rotina, compulsória, ou de tantos outros qualificadores dados à testagem ao longo desses anos, poderá (quem sabe?) contribuir no enfrentamento da pandemia da infecção HIV/AIDS. 5. Considerações gerais Conhecer a organização e a estruturação de uma base de dados, além de facilitar nossas pesquisas e contribuir para o aprimoramento das mesmas, pode nos propiciar considerações sobre o movimento de formação e difusão das produções discursivas sobre nosso tema de estudo na literatura indexada, visto que essas bases de dados também são constituintes da produção discursiva da ciência. Da mesma forma, nossos levantamentos bibliográficos também podem ser tomados como discursos, pois são eles construídos ativamente para serem compreendidos no contexto de um projeto de pesquisa. O banco de publicações sobre o teste HIV do Medline, a partir da revisão da literatura médica nessa base de dados foi tomado como discurso e
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Os títulos originais citados: “HIV testing. What’s good for the goose”, “HIV testing: where are we?”, “HIV testing: to test or not to test”, “HIV testing: more than just a health issue”, “HIV testing. More questions than ans wers”.

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como tal foi produzido na interação do cotidiano de pesquisa para ser apreendido de maneira ativa, estudado a fundo, comentado e criticado, seja no quadro do discurso interior, seja na perspectiva das reações impressas na dissertação de mestrado em questão (Bakhtin, 1995). A construção de um levantamento bibliográfico é um exemplo claro da natureza social da pesquisa. Um levantamento bibliográfico é permeado por inúmeras decisões, todas elas pautadas pelas vicissitudes do pesquisador. Assim, o resultado de um levantamento bibliográfico, tomado como discurso, constitui uma dentre as múltiplas versões possíveis sobre o tema pesquisado. A possibilidade de escolha está inevitavelmente envolvida no cotidiano de pesquisa, uma vez que as práticas discursivas em que uma pessoa poderia se engajar são numerosas e contraditórias.

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CAPÍTULO VII

ENTREVISTA: UMA PRÁTICA DISCURSIVA

Odette de Godoy Pinheiro
A entrevista é amplamente utilizada em psicologia, tanto na prática profissional, nos mais diversos contextos, como em pesquisa. Ao mesmo tempo pode se fundamentar em diferentes abordagens teórico-metodológicas. Toda essa diversidade faz com que “nenhum modelo de prática ou análise possa ser determinado de antemão, abstraindo-se o tópico e o contexto de uma investigação particular” (Banister, 1994).

P

ara não cairmos em definição genérica, ou ao contrario, em enumeração exaustiva de características, optamos por discutir a entrevista tal como foi por nós trabalhada na pesquisa. O sentido das queixas em usuários de um serviço de saúde mental (Pinheiro, 1998). Esta opção permitirá entender de que forma a escolha do instrumento se relaciona com os propósitos do pesquisador e ao mesmo tempo como os pressupostos teóricos nortearam as interpretações. Sem dúvida a forma escolhida para a discussão é parte de posicionamento que privilegia a pesquisa qualitativa com todas as implicações metodológicas desenvolvidas pelos autores do quarto capítulo desta publicação. O nosso interesse, nascido da prática profissional, foi dirigido para o primeiro encontro entre clientes e profissionais de Saúde Mental, num contexto institucional de serviço de saúde. Este encontro, chamado de entrevista inicial ou sessão de triagem, é considerado de extrema importância para que sejam entendidas as necessidades expressas pelos

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usuários e, ao mesmo tempo, se possa atendê-las ou redimensioná-las através da oferta de respostas que correspondem às políticas institucionais. Na maioria das vezes esse atendimento é social é institucionalmente descontextualizado e reduzido a uma relação entre duas pessoas, em que uma delas supostamente tem condições de interpretar o pedido da outra, muito além do que ela mesmo é capaz de expressar, o que é respaldado pelas próprias concepções teóricas do profissional. O foco de nossa investigação, mais especificamente definido, foi este outro que pede ajuda, procurando entender como chega no serviço de saúde (e na saúde mental especificamente) o que pede e a quem pede ajuda. Dito de outra forma, pretendíamos compreender como se constrói a relação inicial entre o usuário e o serviço de saúde mental numa unidade básica de saúde, a partir dos encaminhamentos que precedem o atendimento propriamente dito, na versão da pessoa atendida e à luz de suas vivências passadas. Em serviços desta natureza a entrevista aparece como prática consagrada para o estabelecimento de relação entre clientela e instituição. No entanto, para analisá-la sob o ângulo pretendido se fazia necessário enfocar essa relação despojada de qualquer aproximação diagnostica que reproduziria a relação do cliente que não sabe e o profissional que sabe e buscar uma forma de análise que possibilitasse maior aproximação com a versão do usuário. Na busca de um enfoque teórico metodológico que abrisse perspectivas de respostas ao problema levantado encontramos as propostas da psicologia discursiva entendida por Edwards e Potter (1992), como a psicologia que “geralmente está relacionada com as práticas das pessoas : comunicação, interação, argumento; e com a organização dessas práticas em diferentes tipos de situação” (1992:156). Em Psicologia, segundo os autores, as pesquisas orientadas para o discurso e sua análise surgem a partir da crítica a conceitos teóricos, perspectivas ou práticas analíticas existentes. Os autores reivindicam o reconhecimento da análise do discurso dentro da Psicologia, não apenas como estratégia analítica alternativa, mas
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significaria não abordar o discurso como “meio de captar uma realidade assumida que permanece sob o discurso. 1996:141). Um primeiro aspecto refere-se à ideia de ação claramente introduzido pelo termo prática. o que ocorre numa dada situação. Não se pretende excluir as variáveis que interferem nesse relato. o que a pessoa traz. a ação de relatar é ela mesma explicativa na sua relação com o contexto. 1996b. Esse conhecimento é funcional e permite a produção do sentido.como uma perspectiva teórico-metodológica consistente. No relato. 158 . A definição de práticas discursivas de Davies e Harré deixa isto claro: “práticas discursivas são as diferentes maneiras em que as pessoas. através dos discursos ativamente produzem realidades psicológicas e sociais” (1990:45). como se elas estivessem distorcendo o que a pessoa realmente pensa e sabe. A psicologia discursiva. mas o interesse da análise está em compreender como as noções mentalizadas são construídas e usadas. assim entendida. dentro de uma sequência de atividades. A continuidade dos estudos e o aprofundamento das leituras nos levaram a substituir o termo discurso pelo de práticas discursivas seguindo critérios expostos no segundo capítulo. 1996c. está em foco. significaria uma oposição a qualquer postura realista ou mentalista. o sentido. As ações não seriam vistas como consequência de processos ou entidades mentais. portanto. mas buscar no discurso o processo. seja sociológica ou psicológica” (Gill. Em se tratando de relato. os argumentos utilizados e a explicação dada para torná-lo plausível. discutido no capítulo dois desta coletânea e explicitado em diversas publicações de Spink (1995. 1999b). 1999a. Outro aspecto a ser considerado relaciona-se às práticas discursivas como conhecimento social. O conceito inclui dois aspectos que podem ser diferentemente privilegiados por autores. ou seja. As práticas discursivas são atividades cognitivas quando referidas ao conhecimento social entendido como construção da realidade. o movimento.

Esta interação se dá em um certo contexto.Essa aproximação nos levou a considerar a entrevista como prática discursiva. 1. em múltiplas e contraditórias narrativas). por meio da qual se produzem sentidos e se constroem versões da realidade. pretende-se chegar a uma compreensão da pessoa em sua continuidade (identidade) e multiplicidade (selves posicionados. os personagens que correspondem ao posicionamento assumido diante do outro que é posicionado por ele. ou seja. ou seja. como interação. selecionamos o tom. Os dois aspectos mencionados. As posições não são irrevogáveis. O termo negociação é encontrado em Davies e Harré ao se referirem ao conceito de posicionamento definido como “um processo discursivo. entendê-la como ação (interação) situada e contextualizada. as figuras. os trechos de histórias. Numa conversa o locutor posiciona-se e posiciona o outro. subjetivamente coerentes em linhas de história conjuntamente produzidas” (1990:48). segue que temos muitos selves coerentes possíveis” (1990:59). melhor dizendo. Dado que muitas histórias podem ser contadas. quando falamos. através do qual os selves são situados numa conversação como participantes observáveis. ou. mas continuamente negociadas. pois. “As concepções que as pessoas têm de si mesmas são desarticuladas até o momento em que elas passam a estar localizadas numa história. O conceito de posicionamento vai além de um conceito analítico. embora inter-relacionados. entendendo-a como ação. mesmo em se tratando de um único evento. por meio dele. numa relação constantemente negociada. As mudanças de posição assinaladas pela mobilidade do pronome eu numa conversação apontam para o que os autores denominam de contradições entre os múltiplos selves e a 159 . Entrevista: interação negociada e posicionamento Ao abordar a entrevista inicial como prática discursiva estamos antes de mais nada. fundamentaram a nossa análise e serão abordados na sequência.

Este procedimento. Desta forma. Em nossa pesquisa as entrevistas foram realizadas na residência das pessoas. No entanto mesmo em situações como essa ocorrem negociações sutis devido ao posicionamento dos interlocutores. conselhos. e aceito por elas. ele vai selecionar trechos de sua experiência que incluem ele mesmo em diferentes fases de vida e os outros com ele relacionados. indicações. A situação enfocada. o que foi proposto. poderia favorecer uma aproximação menos formal dos participantes desvinculando-a do atendimento institucional. pois é marcada por posições social e institucionalmente estabelecida. na cena discursiva muitas vozes se fazem ouvir e não apenas as dos que enunciam perguntas e respostas. objeto das análises de Davies e Harré. A essa variação e descontinuidade é dado um sentido pelo indivíduo. Aparentemente. de competência social para dar respostas. Uma pessoa pede ajuda a outra a quem é atribuída uma posição de autoridade. interação com a entrevistadora) possibilitam o entendimento desse posicionamento. a nosso ver. ou uma situação em que os papéis prescritos são os mais atuantes. personagens introduzidas. em consulta ou sessão de triagem. a partir de sua experiência singular. A multiplicidade dos selves advém das múltiplas práticas discursivas através das quais o indivíduo participa e posiciona-se. A análise das falas nesta situação (linhas de história. dado o 160 . Qual a linha narrativa que a pessoa seleciona? Quais os argumentos que utiliza para se incluir ou excluir do atendimento em saúde mental? As personagens que aparecem em seu relato são parte desse argumento. identificando melhor quais os selves presentes nessa situação e quais as coerências e contradições de tal apresentação. o encontro entre o usuário e o profissional (ou o serviço). Quando se pergunta ao cliente qual a história de seu problema.necessidade de um posicionamento coerente numa linha de história definida. ou seja. o que nos interessava. trata-se de uma situação prédefinida. diagnósticos. não tem a mobilidade das interações verbais do cotidiano.

Os números correspondem à sequência das falas.. quando iniciou o acompanhamento prénatal com o ginecologista. Aí me deu crise. 161 . quem fala e o que é falado. reside em São Paulo há aproximadamente seis anos. mais ou menos.. A partir das apresentações feitas no Centro de Saúde. desta casa. Entretanto mesmo nesse contexto existiam posições pré-definidas.objetivo da investigação. Aí… Depois que saí de lá. 2 A letra O indica as falas de Odette (a entrevistadora) e L. No trecho inicial da entrevista com Luzia1. 1 Luzia é uma mulher de 23 anos. O 12 – Faz tempo que você mora aqui? L 2 – Acho que tem um ano e meio. receitou medicamento e a encaminhou para a Saúde Mental. O 3 – E antes disso? L 4 – Antes disso só vinha aqui no fim de semana. O 5 – E você trabalhava? O que você fazia? L 6 – Eu trabalhava de empregada doméstica lá na Vila Nova Conceição e morava no emprego. de um lado. nunca mais eu arrumei emprego.1 Há um ano fez sua matrícula no Centro de Saúde. foi atendida no mesmo dia pelo clínico geral que pediu alguns exames (eletrocardiograma entre eles). depois que conheci ele. Meu marido tem uns sete anos que mora aqui. Considerado caso para pronto atendimento. Depois que casei.. que antecederam a realização da entrevista. Eu fui só o primeiro dia. a pessoa (possível cliente do setor) que se dispôs a ser entrevistada. o psicólogo que fazia uma pesquisa sobre o percurso das pessoas que chegavam ao setor de Saúde Mental do Centro de Saúde – psicólogo esse que não trabalhava no local – e. casada. podemos perceber a busca de definição da situação e das posições relativas dos interlocutores: o que está ocorrendo. Após o nascimento do filho. Nascida na Bahia. as de Luzia (a entrevistada). Cursou o primeiro grau até a quinta série. O último que eu arrumei faz 22 dias. Depois que casei. havia. com um filho de aproximadamente um ano. procurou novamente o ginecologista (suspeita de gravidez) dado o “nervosismo intenso”.. de outro. Casei no dia 10 de fevereiro e vim para cá. o fim de semana passava aqui.

nascida no Nordeste. Cursou o primeiro grau incompleto e procurou o Centro de Saúde para exames ginecológicos de rotina. A posição atribuída ao pesquisador é a de alguém do Centro e o sentido da resposta vai nessa direção. 162 . 3 Rosa é uma mulher de 31 anos. residente há sete anos em São Paulo. Na ocasião da matrícula. dando à pergunta feita o sentido de registro de informações. A visita domiciliar do profissional do Centro de Saúde tem. a fim de estabelecer o diálogo e iniciar a entrevista. a de conferir dados obtidos na matrícula.À nossa primeira pergunta. foi encaminhada ao setor de Saúde Mental. A inclusão da crise neste momento também indica que é na posição de possível cliente do serviço de Saúde Mental que Luzia fala. Luzia responde com dados objetivos e datas precisas. O7 – E em São Paulo? R8 – Em São Paulo vai fazer oito anos. Aqui em São Paulo. Com Rosa3 a outra pessoa entrevistada o diálogo inicial é o que se segue: O1 – Há quanto tempo você mora aqui? R2 – Eu… vai fazer… quatro anos. Eu morei no Brás uns quatro anos. A uma pergunta um tanto vaga da entrevistadora (O 3). entre suas finalidades. O3– Sempre neste lugar? R4 – Não. Luzia responde. o que a coloca na posição de usuária do serviço. usando o local de moradia presente como referência e não ela (onde morava ou o que fazia antes). como se estivesse preenchendo uma ficha. ou seja. você está dizendo? O5 – Você entendeu aqui em São Paulo? R6 – Não… entendi aqui no prédio. e… depois a gente viemos pra cá. as pessoas atendidas devem residir na área de abrangência do serviço. verificando o local de moradia que é o critério de atendimento. atendendo à sua solicitação.

levam Rosa a esclarecer (veja bem é o que introduz a afirmação) que ela e a irmã são “entendidas”. A palavra “entendida” se refere ao código de um grupo e a não compreensão da entrevistadora a situa em outro grupo. essa definição se torna mais clara. No trecho que se segue vários desses personagens são evocados. Você sabe o que é. né? O15 – Não. Como dissemos anteriormente. Diante disso a entrevistadora fica em dúvida quanto à resposta dada. Dão condições para percebermos as alterações sutis que ocorrem no posicionamento das pessoas em sua interação.O13 – Lá no Brás também morava junto com eles? R14 – Não. invertendo uma posição definida pela assimetria de conhecimentos ou posição social. a gente e o povo. o termo é traduzido para “lésbica”. evidência a busca de um enquadre que possibilite a comunicação e a definição de posições dos interlocutores. Na sequência. A pergunta sobre quantas pessoas moram no apartamento e desde quando. mãe. O diálogo estabelece as posições dos interlocutores. 163 . palavra que Rosa pronuncia com alguma dificuldade. um “entendido” e o outro “que não entende”. Na entrevista de Luzia foram destacados os seguintes personagens: ela (as patroas) eles (os médicos). na entrevista são evocados o que denominamos personagens. irmã. semelhante a um diálogo de surdos. mas não tem certeza se é esse o sentido da pergunta. R16 – Somos lebis… lésbicas. A sequência de perguntas e respostas. entendeu? Rosa responde referindo-se ao lugar onde mora atualmente. veja bem… Eu e minha irmã. nós somos entendidas. membros da família (pai. que irão dar consistência à história e aos argumentos apresentados. Dada a não compreensão da entrevistadora. marido).

a irmã que é mais escura e que. (em tom de voz mais alto).L29 – Porque ela suspeitava do que eu tinha. c omo Luzia relata. Usa a autoridade da ginecologista para responder à patroa e como argumento que assegura a sua posição de doente (não está grávida e tem um problema). colocando-a dentro da normalidade. Ele está com 6 meses. Falei como eu vou engravidar se tenho uma criança de cinco meses? Vou ter outro agora? Sendo que eu estava amamentando. Suspeitava que eu tava grávida. é a voz que emerge de seu posicionamento de empregada doméstica explorada e incompreendida. amigos. Em relação à crise. Parei de amamentar com 4 meses. na ginecologista e ela falou que isto é normal. A voz da patroa é a voz do opressor que. Aí fico em dúvida! Tem tanta coisa que o povo põe na cabeça da gente que. No relato de Rosa aparecem: família. Os membros da família que aparecem no decorrer da história contada são trazidos como pessoas iguais a ela (a irmã que é entendida. gente. a patroa levanta a suspeita (o que coloca Luzia na posição de infratora). este peso que você sente na cabeça. “quer o trabalho e não a pessoa”. A voz da médica é a da autoridade médica que pode atestar a ausência de gravidez. as explicações que ouve no cotidiano e que a colocam em situação de dúvida. pontuando uma história de discriminação. Porque ela achava que eu tava grávida. do mesmo jeito que ela puxou ao pai) ou os que estão do 164 . até agora não desceu. Por mais que as minhas regras sempre foi descontrolada. que são trazidos pela narrativa de Luzia. mas emergem num contexto diferente. A voz do povo “está na sua cabeça”. Luzia traz a fala do povo (o sangue preso causa a crise). e corresponde à teoria explicativa das pessoas de seu universo.. Tem mulher que leva até um ano pra descer (pausa).. Deus. Tem gente que fala: “Ah. afirmando que muitas mulheres demoram para menstruar depois que interrompem a amamentação. nunca desceram certo. Só que passei na médica. pode até ser por conta do sangue que está preso. Alguns deles apareceram na entrevista de Luzia. médicos. Nesse trecho temos o confronto de vários personagens (vozes).

. sinceramente. mas ao mesmo tempo pede ajuda e compreensão para o que chama de problemas psicológicos existentes desde a sua infância.. distinguindo sua religiosidade das práticas religiosas da Igreja. pode até ser. a ilumina. No entanto.. como muita gente fala que é isto. transgredindo regras que instituem um local apropriado para as orações.. no final da entrevista. quem soluciona os seus problemas. R. é a pessoa que quer se esconder. até mesmo no banheiro. R. é normal. Rosa fala de Deus. Quando o tema religião é reintroduzido pela entrevistadora mais no final da entrevista. Suas orações podem ocorrer em qualquer lugar. problema. Rosa parece não conseguir nunca fechar a questão como se sempre surgisse uma nova voz contestando sua afirmação. a irmã que a humilhava por ter puxado o pai negro). porém argumenta “mas se eu não estou fazendo mal para ninguém” e conclui “se estou fazen do mal é para mim mesma”.. De repente. 165 . Aparece como quem a põe no lugar.Para mim.. que é até de doença. 62 … Pra mim. vai aparecer uma dúvida “Para Deus o que eu faço pode não ser legal”. como ilustra o trecho a seguir onde aparece gente (muita gente) como personagem. Deus mantém e atesta sua sanidade. Seus personagens são parte de argumentos algumas vezes contraditórios de que a sua escolha sexual não é doença que justifique o atendimento de um profissional. não é Deus é outro personagem que destacamos na história de Rosa.22… muita gente acha que isto é. Não encaro como bicho de sete cabeças.. só que eu não penso assim. O seu posicionamento é de minoria incompreendida. mas “Deus a quer ver feliz do jeito que for”.. enqua nto tal. A instituição. não aceitaria “a vida que leva”. ou seja. Deus é invocado para fortalecer sua posição. quem a protege de pensamentos negativos.lado oposto (irmã que não aceita o fato de ser lésbica.

dentro de uma realidade (imediata ou proposta). Ao longo de sua história de vida. dá uma forma e possibilita a comunicação desse sentido aos que estão ao nosso redor e que falam a mesma linguagem. intralinguística. 166 . vem sendo seriamente assumido que “damos sentido para tudo o que fazemos (antes. socialmente negociada e construída” (1993:8). estamos assumindo que os sentidos não estão na linguagem enquanto materialidade. Essas circunstâncias são parcialmente estruturadas e o sentido que damos ou emprestamos a elas. mas no discurso que faz da linguagem a ferramenta para a construção da realidade. inseparável da pessoa que a conhece. Produção de sentidos na entrevista. durante ou depois da ação). Shotter (1993) afirma que. Versões compartilhadas por diferentes grupos sociais e cristalizadas em discursos oficiais ou institucionalizados são difusamente veiculadas pelos meios de comunicação e pelo próprio mundo interanimado em que vivemos.2. é um instrumento ou ferramenta psicológica pela qual estabelecemos diferentes relações com os que nos cercam e produzimos sentido para nossas circunstâncias. A linguagem. Segundo o autor. Lidamos não com o sentido dado pelo significado de uma palavra ou conceito que espelham o mundo real. Ao relacionar práticas discursivas com produção de sentidos. recolhendo e processando narrativas que vão lhe dar a identidade. Lidamos com uma realidade polissêmica e discursiva. o indivíduo vai se posicionando e buscando uma coerência discursiva. nos últimos anos. o que nos leva à escolha de versões entre as múltiplas existentes. para Shotter. as ciências comportamentais e sociais vêm aumentando seu interesse pelo como falamos e escrevemos sobre determinados assuntos mais do que pela natureza dos assuntos abordados. mas com sentidos múltiplos. Vivemos num mundo de sentidos conflitantes e contraditórios.

processadas por ela ao longo de suas experiências de vida e que. afirma que. será definida a resposta da instituição ao problema. há a possibilidade de aparecerem múltiplas narrativas dentro dessa aparente unidade. inibindo o aparecimento da polissemia. mas todos “os outros” que ainda falam. por exemplo. a argumentação tende a ser afetada pela assimetria da relação. o sentido é produzido interativamente e a interação presente não inclui apenas alguém que fala e um outro que ouve. Quando o usuário procura um serviço de saúde. recorrendo a pessoa – muitas vezes de forma contraditória – a discursos médicos ou psicológicos. incluindo interlocutores presentes e ausentes. num contexto de relação socialmente instituída (como. nem a procura de uma ajuda ou a efetivação de outras ações que aliviam o sofrimento. Após a apreensão global da entrevista em seus aspectos dinâmicos e interativos foi possível identificar 167 . a partir desse contato. imaginariamente. Para responder às perguntas feitas. Quando Spink (1996c) discorre sobre a polissemia e a multiplicidade de narrativas sobre os eventos do mundo. que ainda ouvem ou que. No entanto. É sob esse ângulo que o diálogo amplia-se. o sentido dado à situação presente é prenhe de funcionalidade. Ao mesmo tempo. Para buscar o sentido atribuído ao sofrimento psíquico utilizamos os procedimentos apresentados no capítulo quatro. Sem a atribuição de sentido. O sentido é dado em função do contexto. pede uma resposta que é a busca de sentido para o mal que o aflige.Em outras palavras. dado que. a pessoa recorre às informações que circulam em seu meio. vai ter que recorrer aos relatos verbais referentes ao seu mal-estar. a do profissional da saúde com o cliente). na situação de consulta. a saberes populares e a conhecimentos divulgados através dos meios de comunicação. A clássica pergunta que inaugura a relação do profissional de saúde com seu cliente: “Qual o motivo de sua vinda? Qual o seu problema?”. são agrupadas e ressignificadas. buscando um sentido para o sofrimento para o qual pede atenção e solução. tendo em vista a interação que aí se estabelece. poderão falar ou ouvir. qualquer que seja a natureza de seu sofrimento. não haveria queixa.

Os temas corresponderam a uma primeira organização das falas. quem atende. as descrições feitas e as explicações da pessoa entrevistada ou de outras pessoas mencionadas em seu relato (ver Quadros 1A 1B e 1C). Na entrevista de Luzia. tendo o objetivo da pesquisa como pano de fundo.4 2. 168 . como explica. As crises de Luzia Analisamos em primeiro lugar os trechos da entrevista em que apareciam os nomes dados ao sofrimento psíquico. quem atendeu e como avaliou a efetividade do tratamento e/ou atendimento recebidos (ver Quadro 2). respeitada a sequência da enunciação. foram analisados os trechos que diziam respeito às ajudas profissionais anteriores ao atendimento atual: por que procurou. 1998) em quadros referentes a: a) sofrimento psíquico: como nomeia. quem atende. denominado pelas autoras de Mapas de Associação de Ideias (ver capítulo quatro) e foi por nós apresentado (Pinheiro. foram transcritos.1993. como avalia. Os trechos da entrevista referentes ao sofrimento psíquico. b) ajudas profissionais: como chega. Esse mapeamento corresponde à técnica de análise utilizada por Spink e Gimenez (1994). quem encaminhou. como descreve. 1994). às ajudas profissionais e ao atendimento no Centro de Saúde. 4 Neste capítulo estamos om compreensão do leitor da metodologia como um todo. 1988. onde chega. c) Centro de Saúde: como chega. o que falam. como avalia.temas que emergiram e foram introduzidos pela entrevistadora ou pessoa entrevistada. em colunas correspondentes às categorias descritivas que emergiram dos objetivos da pesquisa e da leitura da própria entrevista. Em seguida. o que diz. o que falam os outros. o que faz o profissional. cujos trabalhos sobre o assunto não podem ser ignorados.1. os Mapas possibilitaram as interpretações que se seguem onde se inserem referências a autor (Duarte.

de onde vem... O20 – E começa de repente? L21 – Começa de repente. De repente torna a começar tudo novamente. O12 – Como é ansiedade... o coração fica acelerado... (em tom de voz mais alto) Aí me dá aquela fome. Às vezes me dá até dor de barriga (faz gestos acompanhando) Sem ter motivo nenhum.QUADRO 1A . L23 – Aí eu tomo Diazepan. L25 – Fui 169 . O16 – Você acha que está mais na barriga? Onde você sente? L17 – ( sorrindo) A ansiedade O18 – E você não sabe sinto mais no peito.. aquela tremura.O SOFRIMENTO PSÍQUICO: Trecho da entrevista de L9 a L37 COMO NOMEIA L9 -… Aí me deu crise. aí eu vou comer. sinto a minha cabeça ficar bastante pesada. O22 – E daí? Você fica sentindo isso e . O24 – E aí você foi trabalhar e .. mais me dá tremura.. Quanto mais eu como.... aí eu não sustento(?).. O14 – Mas o que você sente L13 – Sem ter motivo para chamar ansiedade? nenhum L15 – Fico assim com uma agonia assim por dentro de mim. Tem dia que eu sinto ansiedade. Depois que tomo Diazepan melhora. L19 – Não sei.eu sinto várias espécies diferentes. Aí a mulher veio me trazer aqui e daí não teve nem como trabalhar mais… porque… COMO DESCREVE COMO EXPLICA O QUE DIZEM OS OUTROS O10 – Como é que deu crise? o que você sente? L11 – Às vezes… às vezes.. como é isso que você sente. Às vezes a minha cabeça.

Ele está com 6 170 . Parei de amamentar com 4 meses..COMO NOMEIA trabalhar. Só falei que estava sentindo dor de cabeça. .. Sendo que eu estava amamentando. Não quis explicar tudo para ela. a cabeça muito pesada.. (em tom de voz mais alto.. estava servindo o almoço e na hora que eu estava servindo o almoço para eles começou a me dar crise... Por mais que as minhas regras sempre foi descontrolada. que era o que sempre sentia Aí ela falou.Ela falou que gostou do meu trabalho e tudo. Aí ela veio me trazer em casa . COMO DESCREVE COMO EXPLICA O QUE DIZEM OS OUTROS O26– E o que você fez? L27– Aí eu só falei para ela que não estava me sentindo bem. né.. já tinha feito todas as coisas. mas queria os exames para ela ver.. O28– E por quê? L29– Porque ela suspeitava do que eu tinha.. Porque ela achava que eu tava grávida.) Falei como eu vou engravidar se tenho uma criança de cinco meses? . perguntou se eu queria tomar remédio. nunca desceram certo..

às vezes o povo suspeitava: “Será que você não sofre do coração? E isto e aquilo outro . O30– Que coisas que as pessoas já falaram para você? L31– Há muito tempo atrás. L33– Falavam isso. De uns tempos para cá eu dei para ficar presa. como eu sempre sentia cansaço e falta de ar. Você está sempre se queixando de alguma coisa... sempre reclamando. Eu fiquei mais presa por dentro.... este peso que você sente na cabeça pode até ser por conta do sangue que está preso.. na ginecologista e ela falou que isto é normal. Tem mulher que leva até um ano pra descer. (pausa) Tem gente que fala “Ah.COMO NOMEIA COMO DESCREVE COMO EXPLICA meses. 171 . Não ando reclamando para ninguém... O34 – E o que você acha? Sempre reclama? L35 – Olha eu sempre. até agora não desceu O QUE DIZEM OS OUTROS Só que passei na médica.. Aí fico em dúvida. Tinha gente que falava: “Você parece que não é uma menina são.. O32– Falavam isso.. Tem tanta coisa que o povo põe na cabeça da gente que.. assim.

.. e. (inaudível) COMO EXPLICA O QUE DIZEM OS OUTROS O36 – Você pensa às vezes que pode ser isto? L37 – Ah! eu nem sei o que pensar. né? Às vezes. será que eu vou morrer?” Fico lembrando das pessoas que já morreram. parece que eu vou morrer.. Então quando eu lembro e penso nisso. isto é uma coisa que me perturba bastante. me dá medo.. O meu pai e os meus irmãos a maioria do tempo passa mais (inaudível) do que normal.. 172 .COMO NOMEIA COMO DESCREVE bastante assustada. Porque eu estou boa e de repente ela começa.. Eu falo: “Ah meu Deus.

chorava. depois é que teve as crises.. né? O58 – Então você ficava nervosa. que idade você tinha quando sentiu a primeira vez? L55 – Eu estava com…eu . eu acordo com o coração disparado. e a cabeça meio pesada. Porque eu estou boa e de repente ela começa.. chorava. chorava bastante. Fico assustada. L59 – Só que antes a única crise que eu tinha era de chorar Chorava. O56 – Desde os dezenove anos que você começou a sentir assim? L57 – Ah! Eu nem sei o que pensar. Às vezes eu estou dormindo. O62 – Esta é a crise? L63 – Aí de uns tempos para cá o meu braço deu para ficar dormente… COMO DESCREVE COMO EXPLICA O QUE DIZEM OS OUTROS 173 . O60 – Então esta crise que era de chorar ficou como? L61 – Depois que esta crise caiu ( ? ) …então veio este problema.começando assim com ansiedade assim…eu já tava trabalhando em casa de família… isto eu já tenho desde os meus dezenove anos. Mesmo eu estando trabalhando.O SOFRIMENTO PSÍQUICO: Trecho da entrevista de O54 a L63 COMO NOMEIA O54 – Estas coisas que você sente.QUADRO 1B .

… A gente ficava com nervoso COMO DESCREVE COMO EXPLICA OS OUTROS Luzia chama de crise o que a levou a procurar o atendimento na Saúde Mental. Luzia usa termos semelhantes ao explicar o que acontece quando se sente mal. agonia. No seu estudo.. o nervoso das classes urbanas trabalhadoras tem um sentido ambíguo. frequentemente chamada de sustância. dor na barriga. O114 – Susto com o quê? L115 – Aqui mora muitas pessoas que bebe. Duarte (1988) afirma que as perturbações físico morais1. ansiedade. sentido este que não pode ser isolado dos discursos médicos e psicológicos difundidos em nossa sociedade.O SOFRIMENTO PSÍQUICO: Trecho da entrevista de L113 a L115 COMO NOMEIA L113 – A única coisa é isso. sendo o tema introduzido por ela mesma no início da entrevista e em vários momentos reintroduzido. de algum modo. compreendem um núcleo mais ou menos constante de sintomas físicos.. agonia dentro. que ele denomina físico-moral. cabeça pesada. Ensaiando um mapeamento dos sintomas do nervoso... se assim pudéssemos chamá-los. Era tão ruim.. junto da janela. Os psicológicos. são. Eles brigava tarde da noite. espacialmente situados tendo o corpo como referência: ansiedade no peito. daí eu tomava aquele susto.. embaralha-as e interliga-as. como as denomina.QUADRO 1C . O nervoso está entre as perturbações de origem física.me dá essas crises… . 174 . Esses sintomas incluem os mencionados por Luzia e vão desde a tremura até o desmaio e a perda de consciência. Eu tava dormindo. tremura. refere-se a um núcleo explicativo em que a comida aparece como transmitindo força ao organismo. Não sei se é porque na gravidez dele eu também levei bastante susto …Tomei muito susto na gravidez dele. A crise abrange uma série de acontecimentos físicos (sintomas – o que aparece): coração acelerado. mas que tem um sentido no espaço cultural do grupo estudado. orgânica e as de caráter religioso. 1 Para Duarte.

A crise também aparece como outro modo de se referir ao “nervoso” característico da família: as crises epilética das irmãs e as do pai. O susto na gravidez pode ser a origem da crise. dá crise. ao ser acordada à noite e que “acelera o coração”. Crise é a palavra que dá sentido para o que sente. 175 . agitação. O88 – O que eles fazem? 2 Comentando o termo utilizado com pessoa do Nordeste. Todos. Várias vezes é repetido que a crise ocorre “de repente” “sem motivo”... L85 -… Na família de meu pai. aí eu não sustento(2). Eu tava dormindo. semelhantes às dela. Depois que tomo Diazepan melhora… (em tom de voz mais alto) Aí me dá aquela fome. fúria. L113 -… me dá essas crises… Não sei se é porque na gravidez dele eu também levei bastante susto… Tomei muito susto na gravidez dele… O 114 – Susto com o quê? L115 – Aqui mora muitas pessoas que bebe. Eles brigava tarde da noite.De repente torna a começar tudo novamente… Quanto mais eu com. perturbação. ela afirma que é comumente usado quando as pessoas comem e saciam a fome. tal como as crises de nervos mencionadas por Duarte (1988). de vez em quando.L3 – Aí eu tomo Diazepan. Ela relaciona o repentino da crise é relacionado ao susto que leva. depressão.o mais me dá tremura. de forma dramática. O86 – Assim como? L87 – Todos são nervosos. daí eu tomava aquele susto.. aquela tremura. junto da janela. Já os chamados “morais” por Duarte (1988) equivaleriam aos que estamos chamando de psíquicos e incluem tristeza. Era tão ruim. justificando a necessidade de atendimento urgente. aí eu vou comer. todo mundo é assim.

já meu pai. a empregada…). 176 .. Como é a crise deles? L91 – Oi. se solta sob a forma de crise: choro incontrolável no passado e sintomas físicos agora. Chorava. tem insônia… Relacionando esse trecho da entrevista com outros em que aparece o nervoso (a patroa que era nervosa. a distinção aparece novamente. tem os que desmaia. chorava bastante. O nervoso que não se expressa.L89 – O meu pai toma (nome de remédio) já tem mais de trinta anos. por exemplo. chorava. Só que hoje não tem mais.meu pai.. já sente a cabeça pesada. A crise é episódica (“de vez em quando dá crise”) e o nervoso permanente (“todos são nervosos”).. hoje eles não desmaiam mais porque fizeram tratamento. O90 – Você disse que todos eles são nervosos e têm crise. Ao contar a história de seus problemas. L57 – Só que eu não sentia essas crises assim…sabe…ficava com o nervoso preso por dentro de mim. fica preso. podemos dizer que crise e nervoso dão sentido para diferentes coisas.. Acho que… hoje foi que veio… L59 –… antes a única crise que eu tinha era de chorar. Tem uns que desmaia.

Em seu relato. Tirava a pressão. né? Aí meu pai falou: “Então. a pressão estava boa. Analisando o quadro 2 referente às ajudas profissionais anteriores: motivos da procura e os atendimentos recebido percebemos como Luzia foi buscando as explicações e os nomes que justificavam a busca de ajuda ou tratamento.. aí tava muito longe. sempre eu estava indo na Vitorino Camilo. eu sempre estava indo no Pronto Socorro. Aí eles falaram para mim que eu tinha que fazer um tratamento. Tem mulher que fica assim… Então ele falou que eu tinha que fazer um tratamento e que eu continuasse a tomar o Diazepan.AS AJUDAS PROFISSIONAIS ANTERIORES: Trechos da entrevista de L71 COMO CHEGA ONDE CHEGA/ QUEM ATENDE L71 – .. na Santa Casa O QUE FAZ/ O QUE DIZ O PROFISSIONAL COMO AVALIA O ATENDIMENTO Na Vitorino Camilo. consulta que ele passou ainda seria no dia 17 deste mês. na verdade eu vinha me sentindo … como ela veio a apertar bastante. vê se você faz isto particular. que eu pago para você”. quando eu chegava eles só me aplicava injeção. Então eles falavam para mim que isto era nervoso. que eu tinha que me controlar E eu ia na Santa Casa eles só passou Diazepan para mim. como vai demorar.QUADRO 2 . Só que a próxima consulta. as queixas aparecem muito cedo: o povo achava 177 . né? Teve um médico que chegou a suspeitar que foi do parto.

assim. A sexualidade de Rosa Pela recorrência do tema e pelas associações que Rosa faz entre sua opção sexual e seus problemas psicológicos. como é por ela chamado). pagando. em suas falas. foi destacado e analisado a partir de Mapas de Associação de Ideias (Quadros 3 A e 3 B) que indicam como. A demora do atendimento em serviços públicos associada à falta de atenção dos médicos. como é nomeado o seu sofrimento. mostrando que esperava algo mais. destacado no quadro 2 (L71). considera que. era nervoso que ela deveria controlar. Luzia diz que só deram injeção. ao medir a pressão e constatar que estava normal. O médico. Luzia conta o percurso seguido. é sugerido um tratamento que.2. em seu relato. não é lá que busca atendimento. só deram Diazepan. A conotação orgânica da doença e o agravamento das mesmas levam-na ao Pronto Socorro e à Santa Casa. Apesar de Luzia já estar matriculada no Centro de Saúde (no postinho. ou ela é uma descontrolada ou o problema está relacionado ao parto e. 2. apresenta o pai como provedor e. Os atendimentos que foi recebendo nos diferentes locais deixam-na oscilante entre uma doença orgânica e um nervoso (moral?). o chefe arcava com as despesas médicas. obterá um atendimento imediato e mais eficaz. portanto.que poderia sofrer do coração ou não ser sadio. para ela. Mas ninguém comprova nada e. No trecho da entrevista. Luzia. em época em que a família tinha melhores condições de vida. Na história das doenças familiares. Ao relatar o atendimento médico recebido nessas instituições. Rosa se posiciona. como se sente. contando o que a levou a procurar ajuda de profissionais. disse que ela não tinha nada. como explica e o que dizem os outros a respeito 178 . conforme a maioria das pessoas usuárias da rede pública. A doença orgânica e a sensação de morte justificariam o pedido de atenção urgente. levam-na a pensar em atendimento de médico particular (sugestão do pai) como alternativa. é indefinido.

tá? E não sinto vontade. Bem. tenho agora 31..lésbicas. né? O15 – Não. o caso da minha irmã tinha este apartamento e então convidou a gente para vir morar cá. O19 – E para você isto é tranquilo? R20 – Sossegado. Só no final de semana… uma vez ou duas por semana. antes de eu me descobrir.. né? Eu convivi com duas pessoas. Depois dos 24 anos.. Homem para mim é amizade e mais nada Quer dizer… COMO SE SENTE COMO EXPLICA O QUE DIZEM OS OUTROS 179 . né?… uhm… eu já tinha assim os meus problemas psicológicos. R22 – … até os meus 24 anos. não sinto mesmo. Você sabe o que é. É uma coisa que eu gosto. né? O primeiro caso e agora o segundo. O17 – Não mora com você… R18 – Não. Eu acho que é psicológico… então eu acho que isto aí não influi em nada. R16 – Somos lebis. veja bem… Eu e minha irmã.QUADRO 3A – SEXUALIDADE: Trecho da entrevista de R14 a R22 COMO SE POSICIONA R14 -Não. que eu quero… Não vou lhe dizer tipo como é relação com homem porque eu nunca tive. entendeu? Então. E… então… a gente mora com o caso dela e eu tenho o meu caso a parte. muito menos com mulher. não mora comigo.. quando a gente morava no Brás. nós somos entendidas.Tenho seis anos de entendida. nunca tive contato com homem.

Para mim não é.muita gente acha que isto é… problema… é a pessoa que quer se esconder. É uma coisa que eu gosto realmente de fazer.. Me sinto bem… 180 . sinceramente..

Sou assumida.. Inclusive ela é mãe de santo. só que eu prefiro mais sozinha. O63 – Quem você já ouviu falar isto.mesmo lá no nordeste.doença eu já tinha. porque queria fazer o meu casamento igual fez da mais nova. da sua relação sexual. Não tenho vergonha. Todo mundo sabe… minha família.. né? Falou que isto poderia ser doença não sei o que… que leva… vai tratar… -Imagine! Doença nada. porque tipo assim muita gente não dá pra falar assim à vontade. que é doença? Que pessoas falam isto? R64 – Ah ! Amizades.. só que eu não penso assim. e tal. se descabelou. a minha irmã. não é peso nenhum. 181 .. e você tem que falar. Não encaro como um bicho sete cabeças... né? Não tenho vergonha de dizer que sou entendida.... né. Eu não ia falar que tinha contato com homem se eu não tinha... porque elas pergunta. como muita gente fala… que é isto… que é até doença..QUADRO 3B – SEXUALIDADE: Trecho da entrevista de R60 a R70 COMO SE POSICIONA R62 – … Bom… eu achei legal.conversei com ela. COMO SE SENTE COMO EXPLICA O QUE DIZEM OS OUTROS . Eu levo… como… normal. Isto pra mim não é vergonha.. De repente pode até ser.. Se é doença eu já tinha bem antes. Uma das minhas irmãs que demorou a aceitar a ideia.chorou muito. né. né. Normal. Tanto é que eu falei pra esta menina… (a atendente do setor de matrícula). Pra mim é normal. não tenho mesmo.

nessa última frase. nunca tive contato com homem. a primeira e a atual. de “pecados”. diz:” é uma coisa que eu gosto realmente de fazer. É introduzido logo no início e é retomado por Rosa ao contar a história dos seus “problemas psicológicos” e ao falar sobre o atendimento no Centro de Saúde. né? Eu convivi com duas pessoas. Destaca. é normal. Rosa usa para descrever sua escolha as seguintes expressões: “É uma coisa que eu gosto.. não tem vergonha”. mais adiante. tenho agora 31. palavra ambígua que indica a estabilidade relativa dessa relação. No presente. Com exceção da primeira palavra – que foi. conforme foi comentado anterior mente. é assumida. muito menos com mulher.. Rosa se refere às suas companheiras. Depois dos 24 anos.Tenho seis anos de entendida. isso é tranquilo?” – as outras afirmações remetem aos “outros” frente aos quais se posiciona. numa leitura ao inverso.. o que é traduzido por “lésbica”. A expressão “muito menos com mulheres” acentua a diferença entre as escolhas de parceiro. Na fala inicial. bem como seu caráter marginal e transgressor diante do que é considerado uma relação sexual socialmente aceitável. o aspecto do homoerotismo de uma 182 .A escolha sexual de Rosa aparece como tema recorrente na entrevista. de certa forma. que eu quero. como se houvesse graus de “castidade” ou. Além de se identificar como “entendida”. Rosa explica sua escolha sexual dizendo: R22 -… até os meus 24 anos.. como seus “casos”. né? O primeiro caso e agora o segundo. como se fosse a abertura de uma peça musical cujo tema se desenvolverá em múltiplas variações. Quando se diz “assumida”. as afirmações feitas a respeito da escolha são: “é sossegado. encontramos condensados todos os conteúdos que ressurgirão depois. sugerida pela entrevistadora que pergunta: “Para você. Me sinto bem…”.” e.

Pra mim é normal. este é um eu “doente” que esconde o “normal”. Isto pra mim não é vergonha. né. não é peso nenhum. conversei com ela.. né. mas antecipandose a qualquer conclusão da entrevistadora (ou do Centro de Saúde). O tema reaparece no final da entrevista. Normal. como muita gente fala… que é isto… que é até doença.eu achei legal. para os outros. enquanto. as duas coisas se confundem. falou disso para a atendente. né. escondido) e o físico (doença que deve ser tratada). Tanto é que eu falei pra esta menina… ( a atendente do setor de matrícula).. no Setor de Matrícula do Centro de Saúde. pode até ser.forma explícita e inequívoca. inclusive. de que isso poderia ser atribuído ao fato de ser entendida. não tenho vergonha. e você tem que falar.. Todo mundo sabe… minha família. que todo mundo sabe e que. Sou assumida. Mas necessita de atendimento na Saúde Mental porque existe um sofrimento que pode estar até relacionado com sua escolha.. fortalecendo o argumento de que não tem vergonha do que faz. Desde suas primeiras falas. porque elas pergunta. mas não é a causa. ou seja. só que eu não penso assim. para ela. 183 . da sua relação sexual.. né? Não tenho vergonha de dizer que sou entendida. então isso não é doença. não tenho mesmo. Rosa diz que não fica à vontade com muita gente. Para Rosa. Na medida em que se assume como homossexual publicamente. os “outros” aparecem. quando R avalia a triagem feita em grupo. argumenta dizendo que não tem vergonha.. De repente. Mas Rosa refere-se ao tempo anterior à sua primeira relação como “antes de me descobrir”. e tal. Eu levo… como… normal. Não encaro como um bicho de sete cabeças. Os outros acham que sua preferência sexual surge em “pessoa que quer se esconder”. Eu não ia falar que tinha contato com homem se eu não tinha. o eu verdadeiro foi descoberto. no Centro de Saúde: R62 – Bom. só que eu prefiro mais sozinha…porque tipo assim muita gente não dá pra falar assim à vontade. Há um entrelaçamento entre o aspecto moral (comportamento diferente e proibido.

184 . Foucault (1977) ao abordar a clínica médica. espécie de contato anterior a todo discurso e livre dos embaraços da linguagem pelo qual dois indivíduos vivos estão enjaulados em uma situação incomum mas não recíproca” (p. Tal como acontece em situação de primeira consulta. Sem ignorar que as diferentes teorias psicodinâmicas tem propostas de compreensão que não são análogas à clínica médica. fundamentada em abordagens teóricometodológicas as mais diversas. tal como emerge das falas do usuário. tal como proposta na atualidade. as pessoas entrevistadas trouxeram suas queixas. e não capturá-lo em categorias definidas a priori. Conclusões possíveis: avaliando a metodologia Como afirmamos no início do capítulo. critica a noção dessa experiência muitas vezes traduzida no vocábulo encontro entendido como o “confronto simples. No contexto de uma consulta. a citação de Foucault foi feita para a partir dela pontuar que a análise discursiva tal como proposta nos fez entrar em contato principalmente com os embaraços da linguagem e abriu a jaula desta relação dual introduzindo o contexto em suas múltiplas dimensões e muitos outros interlocutores. a entrevista pode ser utilizada nos mais diferentes contextos. sem conceito. além dos dois presentes. termo utilizado tanto na clínica médica como na psicológica.3. o que define a interação é o posicionamento de alguém que pesquisa o que provoca as queixas (doenças. entre um golpe de vista e um corpo mudo.) ou que dinamismos explicariam essa forma de se manifestarem. xiii). síndromes. Definir a entrevista como prática discursiva possibilitou captar o sentido da queixa ou do motivo da procura de um serviço de Saúde Mental. problemas etc. por mais que o profissional se proponha ao “ouvir empático” ao compreender. entre um olhar e um rosto. e que tem frente ao queixoso uma posição legitimada de alguém que a partir de suas descobertas é capaz de resolver o problema e\ou aliviar o sofrimento.

o que nos levaria a concluir que crise é crise não importa quem fala ou em que contexto o faz. Há o confronto das práticas discursivas dos grupos primários e secundários aos quais se sobrepõem os discursos religiosos. médicos e psicológicos. As palavras utilizadas para nomear o sofrimento psíquico circulam na sociedade com os seus múltiplos sentidos e foram por assim dizer colhidas pelas pessoas em suas experiências de vida. Ao mesmo tempo. Crise é uma das palavras presente nas duas entrevistas analisadas. 185 . É a partir dessa situação que falam. ansiedade. como por exemplo: crise. Os vários personagens que apareceram nas entrevistas não foram interpretados como criação dramatúrgica e intencional. muito próximo da definição encontrada em qualquer dicionário da Língua Portuguesa. Consideramos que a sua evocação se deu na busca do sentido de um sofrimento contribuindo para a compreensão do processo através do qual as pessoas ressignificaram a história deste sofrimento. dando conta da polissemia do discurso sobre o sofrimento psíquico. foco da entrevista. As pessoas que chegam a um serviço de Saúde Mental trazem para a situação suas histórias de sofrimento e de múltiplos posicionamentos. a palavra é frequentemente utilizada. Ao mesmo tempo. crise é uma alteração sobrevinda no curso de uma doença. e sobre a qual parece existir um consenso semântico. não apenas estão presentes no discurso psiquiátrico e psicológico. complexo. a análise foi mostrando a interanimação da narrativa e assinalando a mobilidade do self que vai se posicionando de formas às vezes contraditória.3 No cotidiano. Crise adquire uma realidade cristalizada num único sentido. a 3 Segundo o Dicionário Aurélio.A análise de personagens dessa narrativa nos possibilitou a apreensão do aspecto argumentativo e interativo da situação. Alguns dos termos utilizados. dando coerência a sua história de vida. como também são encontrados em conversas do cotidiano. trazendo ao mesmo tempo as contradições entre as práticas discursivas referentes ao tema em questão. Problema psicológico. e nem tão pouco como dados documentais sobre os antecedentes pessoais e familiares.

A palavra foi destacada por trazer no contexto analisado o sentido do sofrimento na situação de ajuda pretendida. O ser atendido imediatamente tem um valor indiscutível para os usuários. como a brasileira. intersubjetivamente construídos. Ao analisar a chamada demanda espontânea em unidades básicas de saúde. Nas análises feitas percebemos o quanto o termo crise. foi recriado pelas pessoas em um jogo caleidoscópico de ações e interações que as situam e ressituam no mundo das coisas e das pessoas. mais ou menos cristalizado pelos discursos científicos e divulgados pelos meios de comunicação. no contexto discursivo. que aparentemente se aproxima da linguagem do cotidiano. mas dela se afasta na medida em que passa a fazer parte de uma linguagem compartilhada por um grupo específico de profissionais. o acesso à consulta médica. correndo-se o risco de se perder os sentidos do sofrimento. seja um ataque epiléptico. Quando o usuário fala de suas crises a elas é também dado o sentido de sintomas para os quais devem existir explicações médicas ou psicológicas e soluções terapêuticas eficientes. um choro incontrolável ou a persistência inexplicável de pensamentos negativos. carente de serviços públicos e cada vez mais doente. explicitando o aspecto interacional das práticas discursivas. como avalia claramente Luzia. Fazendo o raciocínio inverso diria que o sentido de crise dado ao sofrimento é num primeiro momento corroborado pela resposta imediata do serviço. O sentido mais ou menos compartilhado pelos que vivem e interagem no dia a dia. a fala do profissional psi é mais uma entre outras podendo se sobrepor as demais por sua autoridade ou por sua compreensão. passou a ser muitas vezes considerado problema premente e direito básico da população”. deu sentido para o sem sentido: o que irrompe sem controle. não importa qual seja. principalmente a realizada de forma imediata. No entanto. o tema 186 . “em uma sociedade. afirma Dalmaso (1996 p. Se crise se destaca na entrevista de Luzia. se a crise vivida e sofrida pela pessoa não se resolve.151).palavra está presente no discurso psiquiátrico e psicológico com um sentido explicativo e diagnóstico.

Esse lugar institucional de dar sentido para o que não faz sentido para os outros (profissionais ou não) pode ser interpretado de diferentes maneiras. antes de mais nada. 187 . Por um lado. A sessão de triagem em Saúde Mental deveria ser reinterpretada como atividade que possibilita a circulação de todos os sentidos. além ouvir. pudemos concluir que o importante. atenuando a insegurança de enfrentar uma instituição pública de saúde cujos serviços são percebidos como destinados á mulher reprodutora. ao mesmo tempo uma delas e maestros capazes de facilitar o aparecimento de dissonâncias (conflito de posições) e dissolver falsas homogeneidades de uma população resignada. aproxima a Saúde Mental da polissemia ou polifonia do sofrimento psíquico que se traduz em pedidos de ajuda nem sempre claros. Ao nos aproximarmos da versão do usuário que procura um Serviço de Saúde Mental. ouvir o impronunciável e incapazes de explicar aos outros como e o que fazem. ressignificá-las. dá o sentido psicodinâmico ao sofrimento de uma vida inteira de alguém diferente dos outros e por isso “complexada”. entendida. Por outro a confina com os “seus loucos” em um espaço que pouco se comunica com os demais. lugar de profissionais com a capacidade de ver o invisível. e ao mesmo tempo a aproxima do código da entrevistadora psicóloga. A ressignificação não ocorre apenas em processos psicoterapêuticos mas em todas as interações com usuários e com os outros profissionais que trabalham na instituição. lésbica). De certa forma a explicação psicológica abre as portas para um acolhimento que a incluirá nos serviços oferecidos pelo Centro de Saúde. Rosa na busca de sentidos do sofrimento se apropria das práticas discursivas sobre o tema: desde os diferentes termos que utiliza para se identificar (sapatão. grupo a que a usuária não pertence. o discurso do gozo conflitando com os discursos do pecado. compreender ou acolher as queixas é. O complexo. do desvio ou doença mental. os das explicações psiquiátricas e psicológicas e todos os outros. termo emprestado da psicanálise. Neste coro de vozes os profissionais são.emergente para Rosa é a homossexualidade e a busca de sentido para o sofrimento que acompanha a sua opção sexual.

apresentada nos quatro primeiros capítulos desta coletânea. à Natasha e à Luana. cujo assunto em pauta é a menopausa. dificilmente pensamos na riqueza e nas peculiaridades que possam estar presentes nessa forma de comunicação. 1.CAPÍTULO VIII POR QUE JOGAR CONVERSA FORA? Pesquisando no cotidiano 1 Vera Mincoff Menegon A s conversas do cotidiano permeiam as mais variadas esferas de interação social. Pinheiro e à Maria Auxiliadora T. dedico este capítulo ao Marco. A conversa como prática discursiva Conversar é uma das maneiras por meio das quais as pessoas produzem sentidos e se posicionam nas relações que estabelecem no cotidiano. à Rose Mary Frezza. por serem consideradas corriqueiras. agradeço também. Na sequência. Num primeiro momento. apoiando-nos na abordagem teórico-metodológica sobre práticas discursivas e produção de sentido. à Odette G. 188 . Com base na abordagem de produção de sentidos. apresentada no 1 Pelas conversas muito especiais. Procurando contribuir para a reflexão sobre esse campo social. discutiremos a utilização das conversas como recurso metodológico em pesquisa para. apresentarmos o trabalho que realizamos com conversas do cotidiano. Meus agradecimentos especiais ao Benedito Medrado pelas contribuições que foram cruciais para a produção deste texto. Mas. faremos algumas considerações sobre a importância das conversas como espaço privilegiado de interação social e de produção de sentido. Ribeiro pela leitura cuidadosa e pelos comentários feitos. em seguida. a proposta deste capítulo é discutir a utilização de conversas do cotidiano na prática de pesquisa.

que tem na interação verbal sua materialização. a informalidade das situações em que ocorrem. Não é utilizado no sentido metafísico de “alma coletiva”. as trocas de opiniões no teatro e no concerto. “inconsciente coletivo”. o modo de reação verbal face às realidades da vida e aos acontecimentos do dia a dia. Bakhtin. arte. Considerando. enfatizando sua importância como prática social: A psicologia do corpo social3 é justamente o meio-ambiente inicial dos atos de fala de toda a espécie. vinculando-a aos processos de produção em geral. assim como às esferas das diversas ideologias especializadas e formalizadas.4 Sejam eles interiores ou exteriores (Bakhtin. situa a conversação como algo extremamente rico e importante na arena da comunicação na vida cotidiana. destaques do autor). e é neste elemento que se acham submersas todas as formas e aspectos da criação ideológica ininterrupta: as conversas de corredor. 1995: 42. podemos afirmar que as conversas são práticas discursivas. para as linguagens em uso. as conversas representam modalidades privilegiadas para o estudo da produção de sentidos. Mikhail Bakhtin (1929/1995). o discurso interior e a consciência autorreferente. religião etc. utilizamos a expressão práticas discursivas. O autor lista algumas situações típicas de conversas. “espírito do povo” etc. nas diferentes reuniões sociais. 3 Psicologia do corpo social é utilizada na concepção marxista como uma espécie de elo entre estrutura sócio-política e ideologia no sentido estrito do termo (ciência. 189 . o termo discurso é empregado para nos referirmos às produções presentes em áreas já formalizadas e regulamentadas.capítulo dois. por ter trabalhado com o conceito de parole (fala) numa perspectiva de produção coletiva. 2 Segundo Bakhtin (1995). 4 Vale pontuar que na nossa abordagem. compreendidas como linguagens em ação. ainda.). as trocas puramente fortuitas.2 é um importante interlocutor para refletirmos sobre a importância da conversa. a regulamentação social etc. ao discutir a interação verbal. A psicologia do corpo social se manifesta essencialmente nos mais diversos aspectos da enunciação sob a forma de diferentes modos de discursos. sua abordagem de enunciado (efetivo apenas entre falantes) difere da perspectiva advogada por Ferdinand de Saussure em que a língua – la langue – é entendida como um sistema de formas sociais e a fala – la parole – como o ato da enunciação individual.

A pessoa. Com relação ao direcionamento. resultante da significação e/ou ressignificação de n vozes. sendo expressa pela pessoa por meio de palavras e sentenças. a pessoas hierarquicamente diferentes. é entendida como o ponto de vista da pessoa. a fala (parole). a voz ou vozes às quais um enunciado é direcionado.Para Bakhtin. por sua vez. O trabalho com conversas do cotidiano pressupõe. a grupos específicos. a tipicidade da situação. como já discutimos. E. pois isto a restringiria às condições psicofisiológicas do emissor. que se leve em consideração três aspectos: o conceito de enunciado. a forma e os estilos da enunciação ocasional são determinados pela situação e pelos seus integrantes mais imediatos. que se articulam em ações situadas. constitui-se num dos elos de uma corrente de outros enunciados. espacial e socialmente distantes: o enunciado pode ser endereçado a um interlocutor-participante de um diálogo cotidiano. a especialistas de áreas específicas. nas interações do cotidiano. ou seja. já “os estratos mais profundos da sua estrutura são determinados pelas pressões sociais mais substanciais e duráveis a que está submetido o locutor” (1995: 114). e a inter-relação estabelecida entre o tempo curto da situação relacional e o contexto mais amplo de circulação das ideias numa dada cultura – o tempo longo – que inclui as linguagens sociais presentes no processo de socialização – o tempo vivido. expressa seu horizonte conceitual. não pode ser considerada como um ato individual estrito senso. complexamente organizados (Bakhtin. Para esse autor. intenção e visão de mundo. portanto. para Bakhtin (1995). O primeiro aspecto – o conceito de enunciado – está inerentemente ligado ao conceito de voz e de direcionamento. segundo James Wertsch (1991). 190 . 1994b). assim. A voz. constituindo-se o enunciado no produto da fala que envolve pelo menos duas vozes. a enunciação é de natureza social. que tem na enunciação o produto da interação entre falantes. do contexto imediato em que ocorre a conversa. ao formular um enunciado. podem estar temporal. Qualquer enunciado.

como em relação aos seus integrantes – quem está falando. afirma que:  os participantes podem ter clareza e expressar o seu ponto de vista sobre o tema em pauta. Nas análises das conversas. que vozes podem ser percebidas e a quem é direcionado o enunciado. do mesmo ponto de vista. além das noções de vozes.. mesmo que seu enunciado esteja povoado por múltiplas vozes – e a quem a enunciação está sendo direcionada. também. ou não. para analisarmos uma conversa torna-se necessário entendermos quem está falando – a enunciação tem um autor.com maior ou menor grau de familiaridade etc. é interessante refletirmos a respeito de algumas características que exprimem a informalidade de uma conversa. utilizaria numa situação de trabalho e vice-versa. John Shotter (1993). a serem apresentadas mais à frente. Ainda nos reportando aos integrantes. Já entramos. compartilhando. dificilmente. permite maior desvinculação de linguagens ligadas a determinados estratos sociais (profissão. aqui. Esse duplo caminho significa que as práticas discursivas e. um grupo específico). teremos a oportunidade de ver que um profissional pode utilizar repertórios interpretativos numa conversa de bar que. é importante destacar que a informalidade da situação possibilita um certo descompromisso disciplinar. 191 . portanto. tanto em relação ao local – onde ocorre a conversa –. as conversas são marcadas pela dialogia. podendo. no segundo aspecto que é o contexto imediato da situação. configurar-se num outro indefinido. Ou seja. religião. ao analisar o tipo de relação que se estabelece numa conversa. O foco volta-se para as especificidades que compõem uma conversa. de direcionamento e da dialogia aí existentes. No que se refere ao local. Nessa perspectiva.

) de seu enunciado nas pessoas presentes.    Entendemos que. sendo estabelecida e reestabelecida no próprio curso da conversa. por estar numa relação face a face. Dessa maneira. caso uma expressão não seja compreendida pelo(s) ouvinte(s) é passível de ser substituída imediatamente. da frouxidão de regras e na possibilidade de vários posicionamentos frente ao leque de repertórios interpretativos disponibilizados aos falantes. vão se desenvolvendo no decorrer das inter-relações. apesar da forma específica que possam adquirir em decorrência do contexto imediato. a ordem que porventura exista na conversação não obedece a regras formais. as condições propícias para a reafirmação ou produção de outros sentidos estejam nos sulcos da flexibilidade. 1994a) – está presente na própria noção de vozes e na ideia de que os enunciados são sempre elos de uma cadeia mais ampla de sentidos. 192 . as conversas expressas nas práticas discursivas. mas o assunto sobre o qual se fala e o modo como se fala. tem a possibilidade de observar o impacto (expressões verbais. o participante de uma conversa. a fala dos locutores não é disciplinada em função de uma única narrativa. corporais. lugares-comuns e figuras de linguagem) que compõem as práticas discursivas. para Bakhtin. silêncios etc. as pessoas sabem sobre o que estão falando. segundo Bakhtin (1995). Por repertórios interpretativos nos referimos aos elementos (termos ou conjuntos de termos. O terceiro aspecto a ser considerado numa conversa – a inter-relação estabelecida entre o tempo curto da situação relacional e o tempo longo (o grande tempo. explicitam as pressões sociais mais substanciais e duráveis a que estão submetidos os integrantes de uma conversa. nas conversas. estão permeadas por linguagens sociais mais hegemônicas que se configuram como estruturas cristalizadas e compartilhadas que. descrições.

E. A. essa dimensão engloba três tempos históricos: o tempo-longo – que marca as produções culturais da humanidade. deparamo-nos. em geral. El Análisis de la Conversación: qué és? Podemos usarlo los psicólogos? In: Lopez. A. abrindo a possibilidade de construção de versões variadas de nossas pessoas. ao mesmo tempo. (orgs) Psicologías. 2. recomendamos a leitura do capítulo dois desta coletânea. criando-se possibilidades de produção de outros sentidos. a conversa cotidiana insere-se na escala da interação face a face (tempo curto) – marcada pela dialogia – em que os repertórios interpretativos adquiridos se presentificam e são enunciados por meio do gesto e da fala.6 essa forma de análise não é nova em metodologias de pesquisa. e o tempo-curto – que se refere às relações face a face. conforme discutido no capítulo dois. L. cujos estudos passaram a valorizar o conhecimento no senso comum e as relações estabelecidas no cotidiano das pessoas. Quanto maior o leque de repertórios disponíveis. dessa forma. Madrid: Visor. No tempo da interação face a face. com a circularidade que reforça a cristalização e a naturalização de repertórios interpretativos. 6 Kottler.5 Em resumo. (1996). 5 Para maior compreensão dessas dimensões históricas. A conversa do cotidiano como recurso metodológico O trabalho com conversas tem. cujos sentidos seriam perpetuados pelo uso. em particular. Segundo Amanda Kottler e Sally Swartz. & Swartz. 193 . & Linaza. J. J. Na abordagem com a qual estamos trabalhando.Nesse terceiro aspecto. estamos lidando com a dimensão histórica da produção de sentidos. com a produção situada e a processualidade desses repertórios. o tempo-vivido – que enfoca as linguagens sociais presentes nos processos de socialização das pessoas. maiores serão as chances de manter a conversação fluindo. Rompe-se. tendo suas raízes nos trabalhos da etnometodologia – abordagem desenvolvida a partir dos trabalhos do sociólogo Harold Garfinkel (1967). E. Discursos y Poder. como referência a análise de conversação (AC). S.

Não é nosso objetivo discutir a análise de conversação (AC), 7 mas gostaríamos de apontar alguns aspectos que marcam essa forma de trabalho. De maneira geral, as conversas são coletadas sem a interferência do pesquisador (ele não é um dos participantes da conversa), o foco de análise está na interação dos integrantes da conversa, considerando-se apenas as vozes dos participantes presentes na situação analisada. Uma das críticas que se faz a esse tipo de abordagem é que, por enfatizar o trabalho descritivo da interação, perde-se a perspectiva de contexto. Conforme discutimos no item anterior, nossa abordagem sobre as conversas do cotidiano, pressupõe a dialogia (vozes) que presentifica, também, interlocutores ausentes da situação da conversa e, além do contexto imediato da situação relacional, leva em conta a inter-relação estabelecida entre o tempo curto e o contexto mais amplo de circulação das ideias. De qualquer forma, o nosso propósito neste item, é refletir sobre o uso das conversas como recurso metodológico, feitas a partir do trabalho que realizamos. Entendemos que a opção por utilizar a conversa como fonte de informação pressupõe clareza sobre o que pretendemos pesquisar, assim como as possibilidades e os limites presentes nos procedimentos escolhidos. O trabalho com situações de interação face a face, ou com um outro tipo de instrumento (análise de documentos, mídia, filmes, literatura especializada etc.), ou ainda, uma combinação entre fontes de informação, deve estar interrelacionado aos objetivos da pesquisa, assim como à abordagem teóricometodológica adotada, incluindo-se aí os pressupostos epistemológicos. Os recursos escolhidos não são intrinsicamente bons ou ruins, sua eficácia está ligada a aspectos tais como: a concepção que temos a respeito do instrumento com que estamos trabalhando, suas possibilidades e limites; a maneira como o utilizamos; e o uso que se pretende fazer das informações obtidas. Entendemos, portanto, ser pertinente situarmos as conversas do
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Para este propósito recomendamos o texto: Kottler, A. E. & Swartz, S. (1996). El Análisis de la Conversación: qué és? Podemos usarlo los psicólogos? In: Lopez, A. J. E. & Linaza, J. L. (orgs) Psicologías, Discursos y Poder, Madrid: Visor.

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cotidiano em relação a outras situações de interação face a face, que vêm sendo utilizadas no âmbito da pesquisa. De forma genérica, nas situações marcadas pela linguagem verbal, temos: l) a entrevista (instrumento tradicionalmente usado na pesquisa qualitativa), podendo ser caracterizada por graus de formalização variados (fechada, semiaberta e aberta);8 2) o grupo em suas diferentes concepções, por exemplo, o grupo focal; e 3) as conversas do cotidiano, que apresentam o menor grau de formalização. Sobre a pertinência do grupo focal em pesquisa, Judith Green, 9 no livro Risk and Misfortune, relata que, ao pesquisar a construção social de acidentes, utilizando entrevistas semiabertas e grupos focais, observou que nas entrevistas as “histórias sobre acidentes” eram desviadas para narrativas pessoais, por vezes totalmente distantes da ideia de acidente; era como se o questionamento direto sobre acidentes os dissolvesse: os entrevistados começavam a contar uma história, depois afirmavam que “na realidade não havia sido um acidente”, restringindo-se a explicações hegemônicas, do tipo, acidente é uma fatalidade. Nos grupos focais, por outro lado, as histórias sobre acidentes fluíam de forma mais ”natural” e diversificada, não se detectando a necessidade de dar explicações “formais”. Além disso, a autora comenta sobre as barganhas de sentido que se estabeleciam nos grupos. Em seu entender, os grupos focais, comparados à situação de entrevista, apresentam uma situação mais próxima dos contextos interacionais do dia a dia, propiciando, portanto, em nossa leitura, uma interanimação dialógica povoada por um contingente mais rico de vozes, em que a negociação de versões e posicionamentos é mais visível. 10
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Sobre a utilização da entrevista como uma situação relacional, que implica a aceitação da dialogia entre entrevistado e entrevistador, recomendamos a leitura do capítulo sete desta coletânea. 9 Green, J. (1997). Risk and Misfortune: the social construction of accidents. London: UCL Press. 10 Como já mencionamos, não se trata de estabelecer a primazia de um instrumento sobre outro, mas exemplificar a pertinência de um tipo de fonte em função do foco da pesquisa. Se

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As conversas, por sua vez, são expressões vivas desses contextos interacionais do dia a dia, marcadas por características, tais como: 1) flexibilidade temporal (podem ser fugazes ou apresentarem maior duração em função do encadeamento de enunciados); 2) flexibilidade espacial (acontecem nos mais diferentes lugares); 3) variabilidade na composição dos participantes (número, idade, sexo e condição social); e 4) descompromisso disciplinar de seus participantes, ou seja, dependendo da informalidade da conversa, os participantes desvinculam-se de linguagens ligadas a estratos sociais específicos. Mas exatamente por se tratarem de situações do dia a dia, em que o inesperado é o padrão possível, a utilização de conversas como fonte de pesquisa, se por um lado enriquece nossas opções metodológicas e nos coloca em contato com práticas discursivas produzidas de maneiras menos esperadas, por outro lado, acarreta alguns desafios: dificuldade de registro, clareza sobre os limites da análise possível e postura ética. Ressaltamos, ainda, conforme discutido no capítulo três, que com a aceitação da reflexividade (efeitos da presença do pesquisador) como parte do processo de pesquisa, nas situações de interação face a face, as práticas discursivas devem ser compreendidas também como fruto dessa interação, ou seja, os integrantes, incluindo o(a) pesquisador(a), são pessoas ativas no processo de produção de sentidos. Um outro aspecto importante é que, ao utilizarmos, em pesquisa, as conversas como práticas discursivas, podemos trabalhar com todos os elementos que as constituem: a dialogia (os enunciados orientados por vozes), os speech genres (formas mais ou menos estáveis de enunciados) e os repertórios interpretativos (os conteúdos), ou privilegiar um desses elementos, sem contudo, desconsiderar a existência dos outros componentes. Assim, em nossa pesquisa, a opção pelas conversas do cotidiano como recurso metodológico foi direcionada pela concepção da conversa
o objetivo fosse compreender como as pessoas enfrentaram acidentes ao longo da vida, a entrevista (com narrativas pessoais) poderia ser o meio mais adequado.

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como prática discursiva (fato este ligado à abordagem teóricometodológica) e ao objetivo específico da pesquisa – estudar a circulação e o uso de repertórios interpretativos associados à menopausa nas situações do cotidiano. As conversas, por permearem esferas variadas de interação social, mostraram ser uma fonte preciosa de pesquisa.11 3. O assunto é menopausa O trabalho realizado com conversas do cotidiano, aqui ilustrado, faz parte da pesquisa desenvolvida para a dissertação de mestrado intitulada, Menopausa: imaginário social e conversas do cotidiano (Menegon, 1998). Essa pesquisa teve como objetivo geral compreender o processo de construção dos conhecimentos e dos sentidos atribuídos à menopausa, assim como detectar aspectos que pudessem estar contribuindo para a naturalização da menopausa como um problema. Procurando manter estreita inter-relação entre pressupostos epistemológicos, abordagem teórica e delineamento da metodologia, utilizamos dois planos de levantamento de informações: 1) as conversas do cotidiano – que consistiu no foco de análise; e 2) a literatura científica da área da saúde (biomédicas, psicologia e ciências sociais). Nas conversas, como já afirmamos, elegemos como foco central de análise a circulação e o uso de repertórios interpretativos que apareciam associados à menopausa. Já na literatura científica (incluindo produções remotas e contemporâneas), o objetivo foi nos familiarizar com o contexto mais amplo de circulação de ideias sobre a menopausa.12
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Essa riqueza das conversas foi, a princípio, detectada a partir do diário de campo que estávamos fazendo desde o início do projeto de pesquisa. 12 Nesse levantamento, trabalhamos com 13 artigos históricos (desenvolvemos uma retrospectiva histórica sobre a menopausa); trabalhamos, ainda, com 508 títulos de artigos e 113 resumos, com os quais produzimos um painel contemporâneo da menopausa. Como fonte da literatura utilizamos duas bases de dados: o Medline (Base de dados da Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos), no período de 1966 a 1995; e o PsycLit (Base de dados da Associação Psicológica Americana - APA), abrangendo o período de 1973 a 1995.

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Partimos do pressuposto de que, nesse jogo de intertextos, poderíamos identificar permanências e rupturas culturais, assim como garantir o acesso à polissemia de sentidos (Spink, 1996b), ou seja, buscávamos também a emergência de repertórios interpretativos singulares. Um outro aspecto implicado na opção pelos dois planos de levantamento de informações é que as conversas estão inseridas num contexto mais abrangente de circulação das ideias na sociedade, uma vez que fazem parte de um mundo que tem história. Apesar de esses dois planos estarem inter-relacionados, coerentes com o objetivo deste capítulo, focalizaremos apenas o trabalho realizado com as conversas. Destacamos, porém, que ao analisarmos o uso dos repertórios interpretativos associados à menopausa, presentes nas conversas do cotidiano, procuramos detectar elos com repertórios presentes nos discursos da literatura por nós analisada. 3.1. Conversando com as pessoas Utilizar conversas do cotidiano como fonte de informação significa estar em campo durante todo o tempo da pesquisa. Ou seja, sempre que surgia o tema menopausa numa conversa eu estava em campo. Registrei conversas em corredores, em festas, em bares, em cafés, em pescaria, durante jogo de baralho, em salas de aula, em clínica de fisioterapia, em sala de espera de consultório etc. O número de pessoas, nível de escolaridade, idade e sexo dos participantes, obviamente, variava de uma situação à outra. Presenciei e participei de várias situações que acabaram se perdendo devido à dificuldade de registro (não registrar durante a conversa ou logo em seguida, por exemplo). Na maioria das situações o registro foi feito de memória, pois o uso de gravador mostrou-se problemático – além de questões éticas envolvidas, algumas conversas eram tão fugazes que não havia tempo hábil para ligar o gravador. A dificuldade era minimizada quando os participantes da conversa auxiliavam nas anotações. Em resumo, foi impossível padronizar a forma de registro; ela acompanhou o inesperado
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ou seja. Essa forma de coleta exigiu alguns cuidados e reflexão de nossa parte. apesar de levarmos em conta a dialogia. a conversa teria de ser gravada ou filmada.  No caso de nossa pesquisa. tivemos de aceitar o desafio que representou utilizar esse material. Como exemplo. cabe ao(à) pesquisador(a) ter clareza de seus objetivos. o relato de uma conversa ocorrida entre garotos dentro de um ônibus. diferentes tonalidades dadas às expressões etc. Como forma de assegurar ainda 13 Por exemplo. Nosso interesse estava no fluxo de associação das ideias ligadas à menopausa e. devido à espontaneidade das situações. Os aspectos éticos envolvidos na coleta e no uso das conversas representaram um outro desafio. podemos citar as análises de conversação (AC). Para esse tipo de análise. Se por um lado. Isto é. Frente a esse tipo de situação. obtivemos um material rico para ser analisado. o principal foco de análise foi o uso de repertórios. em que todos os elementos da conversa são passíveis de análise (silêncios. nesse caso.). suspiros. com a garantia do anonimato das pessoas envolvidas. 13 mantido o anonimato. mais particularmente. de caráter eminentemente público. utilizar os enunciados para discutir aspectos de personalidade. gostaríamos de apontar que as conversas registradas de memória:  não são indicadas para análises que tenham como foco o fluxo da conversa em si.das situações do dia a dia. em três situações. ou correlatos. foram analisadas as dezoito conversas que puderam ser melhor registradas. não são indicadas para subsidiar pesquisas que tenham os participantes da conversa como objeto de análise. em quinze delas. Nesse particular. a sequencialidade das falas e a interação de seus participantes. no uso dado a esses repertórios interpretativos. As conversas com registros de memória não se aplicam a todo tipo de análise e. por outro lado. 199 . Das dezoito situações que analisamos. foi possível solicitar autorização para o uso do material na pesquisa. não se colocava a necessidade de autorização.

Análise de cada conversa14 Nessa etapa analisamos um total de dezoito conversas. observando cinco passos principais.mais o anonimato. uma pessoa que trabalha na biblioteca. mulher na menopausa é um saco (Longo suspiro). assim. 1998). com vários artigos sobre menopausa espalhados sobre a mesa. conservamos os elementos que permitissem visualizar a peculiaridade da situação. 14 As análises das dezoito conversas não foram integradas ao texto da dissertação. ao descrevermos o contexto. Explicitando os passos da análise O processo de análise das conversas do cotidiano deu-se em duas etapas: a) análise detalhada de cada conversa. Chegou uma mulher (aparentando uns 40 anos) e pediu licença para sentar à mesa. garantindo. e b) síntese temática do conjunto das conversas. 1) Contexto da conversa (local e integrantes) – conforme discutimos no item um deste capítulo. Exemplo: Eu estava na biblioteca de uma faculdade de medicina. chamou o número de sua senha. a. Esta conversa foi extremamente fugaz. Não foi possível falar sobre minha pesquisa. além de utilizarmos nomes fictícios. 2) Registro da conversa (utilizar nomes fictícios) Exemplo: Jurema (P1): Ai. acesso ao material. principalmente na periferia. ao trabalhar com situações de interação face a face. Enquanto eu recolhia os artigos. mas foram incluídas como anexo (Menegon. fez um comentário sobre menopausa. Só sabem lamentar e reclamar da vida. mas alteramos alguns fatores que pudessem dar margem ao reconhecimento das pessoas. 200 . a descrição do contexto é um aspecto imprescindível. pois assim que fez o comentário.

os colegas de profissão). mas eu não posso consertar tudo o que deu errado na vida delas. inaugurando-se o fluxo de associação pela pergunta do pesquisador. receitam logo hormônio. o uso que fiz da árvore de associação de ideias difere. não é para todo mundo que receito hormônio. Além disso.. mas eu acho que essa lamúria toda é mais questão de cabeça. mudança e tal. a árvore pode começar pela fala de qualquer participante. Elas sofrem bastante. P = participante 3) Árvore de associação das ideias 15 – em função da especificidade das conversas. Naquela situação. no caso das conversas. 15 Os pormenores dessa forma de análise são apresentados no capítulo quatro desta coletânea. em alguns aspectos. Pelo teor da conversa e a referência a receitar remédio. começam a ver o que foi a vida delas. deduz-se que seja médica.. mulheres na menopausa. demos destaque às vozes presentificadas nas falas (Jurema. mesmo para senhoras mais idosas. do exemplo apresentado no capítulo quatro. 201 . Vera (P2): Por que você acha que elas lamentam tanto? Jurema (P1): Tem o problema hormonal.Alguns colegas não querem nem escutar. Eu já sou mais cuidadosa. são analisadas entrevistas associativas. Quando percebem que estão envelhecendo. (Neste momento chamam o número de sua senha e Jurema sai). Obs.

Esse procedimento facilitou o agrupamento de associações para definirmos as categorias da síntese temática. mudança de vida. no campo da interpretação16 (exemplos de interpretação dada às conversas serão apresentados no próximo item). reclamação. 16 A discussão sobre interpretação apresentada no capítulo quatro desta coletânea é importante para refletirmos sobre o uso da interpretação na prática de pesquisa. sofrimento 5) Uso dos repertórios interpretativos – neste item. Mulher na menopausa é um saco  só sabem lamentar  reclamar principalmente da periferia  uns colegas receitam logo hormônio  mesmo p/ idosas  eu mais cuidadosa  não receito hormônio para todas P2 : [Por que você acha que elas lamentam tanto?] P1: Problema hormonal  mudança e tal eu acho lamúria  mais de cabeça  (elas) estão envelhecendo  (reveem) vida delas  sofrem  eu não posso consertar  o que deu errado na vida delas 4) Repertórios interpretativos – este item está diretamente ligado ao objetivo da pesquisa e visa destacar os repertórios utilizados para falar da menopausa. lamento. envelhecimento Mulher na menopausa (da periferia): um “saco”. buscando ressonâncias na literatura analisada na primeira fase da pesquisa. obviamente. hormônio (medicamento). 202 . procuramos articular o uso dado aos repertórios durante a conversa.Exemplo: P1. Estamos. Exemplo: Menopausa: problema hormonal.

portanto. classificar e explicar o mundo. b) Síntese temática das conversas Conforme discutido no capítulo três desta coletânea. na primeira etapa – análise de cada conversa – as categorias utilizadas para organizar o material bruto estão. utilizamos categorias para organizar. e 4) a minha interpretação como pesquisadora. 17 Ou seja. que estaremos apresentando a seguir.Essa forma de análise detalhada permite maior visualização do processo analítico. O seu uso envolve escolha e reorganização retórica. fornece subsídios para a interpretação e facilita o desenvolvimento dos passos subsequentes. 3) o referencial teórico-metodológico.Categorias como práticas discursivas). 17 Para maiores detalhes sobre o uso situado de categorias. Ou seja. Por exemplo. no entanto. Na prática de pesquisa isso se traduz em compromisso e reflexão sobre as condições implicadas na criação das categorias. foram criadas no entrelaçamento de pelo menos quatro aspectos: 1) o uso dado pelos participantes das conversas aos repertórios interpretativos sobre a menopausa. 203 . vinculadas à abordagem teórico-metodológica e aos objetivos da pesquisa. Já as categorias da síntese temática. Conforme discutido nos capítulos três e quatro desta coletânea. não possuem um valor e um sentido intrínsecos. basicamente. consultar o capítulo três desta coletânea (item 2. estão vinculadas aos fatores implicados no desenvolvimento da pesquisa e fazem parte do processo de interpretação. 2) a literatura com a qual entramos em contato durante a pesquisa. trabalhando com categorias situadas – suas especificidades têm elos com o contexto em que foram criadas. Falamos por categorias que. dar visibilidade ao processo de análise (explicitar os passos da análise e da interpretação) está também ligado ao esforço de ressignificar a noção de rigor que decorre da revalorização dos métodos qualitativos como formas legítimas de fazer ciência. Estamos. o material bruto e o tipo de trabalho analítico realizado ficam disponíveis como uma forma de propiciar o diálogo com outros(as) pesquisadores(as).3 .

e 3) menopausa na perspectiva dos homens. Apresentamos. 2) medicalização. aquele remédio que o médico receitou é realmente bom. Sabe que depois de dois anos sem menstruação desceu na semana passada? Estou me sentindo tão bem. Leonor. Como exemplo. agregamos os repertórios interpretativos em torno de alguns temas e definimos três blocos de categorias temáticas. No caso da menopausa. alguns recortes da síntese temática. Eu também acho.sexualidade . a seguir. na síntese temática foram apresentados separados e exemplificados com trechos extraídos das conversas. a referência ao sangue menstrual está vinculada aos impactos atribuídos à falta desse sangue. Trecho da conversa (4 mulheres – 43 a 65 anos. a saber: 1) magia e poder do sangue menstrual. Magia e poder do sangue menstrual Nesse bloco. é como se eu estivesse purificada. agrupamos repertórios cujo sentido de uso atribui ao sangue menstrual poderes que exercem influência na saúde da mulher. em sua sexualidade e em sua procriação. saúde e símbolo da identidade de ser mulher. a mulher com menstruação tem mais saúde.3. Eleonor (52): Você sabe que o médico me diz que a menstruação realmente funciona como um eliminador das impurezas. Dalila (44): Puxa.procriação. Subjacente à associação entre sangue menstrual e sexualidade está uma outra associação: sangue menstrual . Interpretando as conversas Conforme detalhamos acima. Eu também comecei a tomar o remédio. 204 . Apesar de esses temas estarem inter-relacionados nas conversas. partindo da análise das conversas.3. escolhemos uma das conversas que sintetiza parte dos temas acima. em sua feminilidade. trazendo simbolismos que explicitam uma simbiose entre sentidos antigos e novos: purificação do corpo. local: clínica de fisioterapia).

Vera (43): Como assim? Conceição (65): Antes eu era mais animada. da discussão sobre o gerenciamento da menopausa por meio de medicamento: a reposição hormonal. como aval dessa explicação. Sua retenção provocaria a destruição e envelhecimento dos órgãos. Agora. 205 . e sim para expelir o sangue 18 As associações entre sangue e purificação vão além da prática da medicina.Vera (43): Desculpe-me a intromissão. o sentido de saúde associado ao sangue menstrual fundamenta-se na versão da purificação do corpo pelo sangue. Essa concepção medicamentosa contemporânea é utilizada por essas mulheres com um sentido similar ao atribuído aos medicamentos ministrados há séculos. Fazia por obrigação. Agora que desceu de novo me sinto mulher novamente. na conversa. cuja eficácia provocaria a vazão do sangue poluído. Agora não sou mais a mesma mulher. Conceição (65): Acho que já estou velha para tomar esse remédio. ainda. contemporâneo. Não por essas coisas de sexo. faz dez anos que parou de descer para mim. Antes eu achava um saco esse negócio de menstruação. Por exemplo. O hormônio. no cristianismo o sangue do cordeiro tem o sentido de purificação dos pecados. mas depois que parou é que eu vi como era bom para a saúde da gente. Mas sem a menstruação eu fiquei meio sem vontade. que remédio é esse? Dalila e Eleonor: A gente não sabe o nome. não é utilizado para repor algo (versão contemporânea da “falta hormonal”). tinha mais disposição. mas é hormônio. graças a Deus meu marido ficou impotente e não me amola mais. Nessa conversa. É interessante notarmos a menção do parecer de um médico. Dalila (44): Ah! Eu gosto de fazer sexo com meu marido. O uso desses repertórios nos remete à medicina dos humores em que se atribui ao sangue menstrual o sentido de equilíbrio para a saúde (purificação das impurezas).18 O uso dos repertórios nos fala. para ficarmos apenas com uma das vinculações possíveis. porque eu nunca gostei.

Tilt. As falas da conversa acima indicam que o sangue menstrual estaria garantindo uma vida sexual ativa. E. The change of life in health and disease. A lógica de menstruar para ter sexo é quebrada pela senhora mais velha quando lembra que achava a menstruação um saco: fazia sexo por obrigação. Maturitas. 19 A sexualidade também aparece fortemente associada ao sangue menstrual. a diminuição da libido sexual e outros problemas relacionados aos órgãos genitais femininos são sobejamente abordados. Por exemplo. Rejeita a “teoria do sangue sobre as doenças ligadas à mudança de vida” e propõe a “teoria dos nervos”. também. na literatura científica. J. Agora que o marido está impotente até gostaria de voltar a menstruar para ter melhor saúde – sentido este que foi sendo reafirmado pelas participantes da conversa. 19 Segundo Willbush. Edward John Tilt. 2:259-267. introduzindo a concepção de “involução ovariana”. Essa ideia de fim de linha está bastante arraigada na memória cultural e. O sentido que atribui ao desejo de voltar a menstruar não inclui o anseio por uma vida sexual ativa. O que está em pauta não é a procriação. faz a conexão entre ovários e sistema nervoso central. a menopausa pode ter significado um alívio. pela John Churchill London. o médico irlandês. a completude desse ciclo. na obra publicada em 1857. and the change of life (1857) the only work on the subject in the English Language. principalmente nas linhas mais biologicistas. depositando essa possibilidade na existência do sangue menstrual. 206 . Em nossa cultura. A practical treatise on the nervous and other affections incidental to women at the decline of life. Para essa mulher. (1980). [Willbush.eliminador de impurezas (versão que imperou desde a época da medicina hipocrática até meados do século XIX). Menstruação e vida sexual indesejada estavam intimamente ligadas. nos discursos científicos da área da saúde. a menarca simboliza a entrada na vida procriativa e a menopausa. fala-se de ter desejo e ser desejada sexualmente. J. A pressão social e cultural exercida pela ideia de fim de linha pode ser detectada nas expressões não sou mais a mesma mulher e me sinto mulher novamente (com a reposição hormonal e a volta do sangramento mensal).

A seguir. que a medicalização está ligada ao uso de vocabulário e de modelos médicos e/ou de outros especialistas da área da saúde para definir um “problema”. local: varanda de uma residência) Marina (54): Vera. Changing ideas: the medicalization of menopause.). 1987. Fui assistir uma palestra sobre menopausa. fiquei pasma.. agrupamos os repertórios cujos sentidos de uso explicitavam: 1) a expansão da medicalização (menopausa vista cada vez mais como algo indesejável.. portanto. sei lá. Marta. Enquanto eu estava menstruando sempre tinha esperança... doença cardíaca. esta semana lembrei de você e da pesquisa que você está fazendo.. de maneira resumida. uma conversa que fala da expansão da medicalização: Trecho da Conversa (três mulheres . 207 .. 20 Apoiando-nos em Suzan Bell.. devendo. o uso de medicamentos (Bell. tristeza. É depressão. tinha? Marta (65): Imagina. Disse que toda mulher na menopausa tem que consultar um ginecologista. (. osteoporose.entre 44 e 65 anos. crise etc. podemos dizer..Medicalização20 Nesse bloco.) Fiquei muito deprimida porque aí era o fim da minha esperança de ter um filho. e 3) aspectos emocionais (vistos como problemáticos por ocasião da menopausa: depressão. Nem se falava de tratamento. Social Science and Medicine. S. obrigatoriamente.. fazer todos os exames de prevenção para fazer a terapia de reposição hormonal. . insônia. instabilidade emocional. ser tratada). Vera (44): O que você acha disso tudo? Marina (54): Nem sei ainda. Eu lembro que chorei muito quando minha menstruação parou de vir. ele (um médico) falou tanta coisa que nem me lembro mais. 24(6): 535:542). Nesse sentido. o conceito de medicalização não inclui. ondas de calor. na época que você passou pela menopausa não tinha nada disso. nunca pensei que entrar na menopausa fosse tão arriscado. 2) intervenção medicamentosa (apontando o sentido mágico atribuído ao medicamento e a ambivalência com relação a possíveis efeitos colaterais).

vê-se frente à possibilidade de um tratamento retroativo. 1991). Será que se agora eu fizer tratamento melhora essa onda de calor? Vou perguntar para o meu médico. práticas clínicas de outros tantos médicos. Eu não sinto nada. até hoje tenho. o caráter social do processo de produção de sentido é explicitado pela interanimação de diferentes vozes que emergem nas falas. A mulher que já passou pela menopausa. Como mencionado anteriormente neste capítulo.. fora isso não senti nada. ou não. por sua vez. Marta (65): É. redimensionando o sentido das ondas de calor como se fosse uma sequela da sua menopausa. Mas vou fazer os exames. das amigas que também enfrentam o mesmo dilema. interesses mercantis (laboratórios farmacêuticos) etc. Depois eu decido o que fazer. coloca seu dilema frente à necessidade de tratamento como prevenção de futuros possíveis problemas. não foi por causa da menopausa. aglutina outras vozes: pesquisas científicas. Ressignifica também sua depressão. e as vozes discordantes dos médicos que receitam. Só depois que começou dar ondas de calor. As informações recebidas na palestra nos remetem à voz do médico..Marina (54): Você ficou deprimida porque viu que não podia mais ter filhos. que afirma não sentir nada. Esta. É. hormônios. estejam elas presentes ou ausentes (Bakhtin na leitura de Wertsch. 208 . vai procurar um médico que ela sabe que é contra tomar hormônio. Marina (54): Eu não esperei parar a menstruação para adotar os filhos. Essa multiplicidade de vozes é confrontada com outras vozes: da mulher que coloca a vivência da própria menopausa. a outra vai num médico que ela sabe que dá hormônio Essa conversa mostra o confronto entre o novo e o antigo. Minhas amigas estão todas divididas: uma me disse que não vai tomar hormônio. endereçando-a ao fim da esperança de ter um filho. Ainda bem. A mulher que está entrando na menopausa. acho que sim.

.. portanto. Na década de sessenta a difusão da medicalização havia alcançado os três níveis: conceitual. incluindo-se. 22 Segundo Bell Op. à perspectiva dos homens presentes nas conversas analisadas. mãe. 24(6): 535:542).Presentifica-se. Para melhor compreensão. S. Consideramos importante essa análise uma vez que o homem se constitui no outro que dá sentido a um fenômeno que não faz parte de sua biologia. 1987.. dividimos as análises em três categorias. amiga. Changing ideas: the medicalization of menopause. nessa conversa. cujos sentidos se referem a: 1) impacto na vida pública (ações consideradas inerentes à 21 Segundo Bell. o processo de difusão da medicalização em termos interacionais (relação médico x paciente). em termos conceituais. e interacional – quando o médico define ou trata as queixas do paciente como sendo um problema médico (Bell. institucional e relacional. ainda. osteoporose.. pudemos observar que a construção dos sentidos atribuídos à menopausa estão vinculados às interrelações estabelecidas nas práticas sociais do cotidiano. 21 A voz do médico está presente na dialogia da conversa.. Conceitual – quando o vocabulário ou modelo médico é utilizado para definir um problema. ondas de calor.22 A menopausa na perspectiva dos homens Esse bloco foi produzido em função das associações sobre menopausa trazidas por homens que participaram das conversas. irmã) e pelas práticas discursivas que fazem parte de seu cotidiano e de sua cultura. 209 . essa difusão começou nos Estados Unidos na década de quarenta. mesmo estando fisicamente ausente. e cujo sentido atribuído à menopausa se dá pela convivência com a mulher (esposa. doença cardíaca. Refere-se. cit. traduz a forma contemporânea de abordar a menopausa. sei lá ). companheira. Pelas versões apresentadas por esses homens. a partir do início da década de quarenta. principalmente pela Medicina alopática. a questão hormonal passa a ser eixo explicativo sobre a menopausa. as discordâncias e controvérsias geradas no âmbito dessa mesma Medicina em torno da reposição hormonal. insônia. apresentada na palestra. Social Science and Medicine. A lista de problemas creditados à menopausa (depressão. institucional – quando os profissionais legitimam essas diretrizes na rede organizacional de sua profissão.

Perder uma perna e um braço é um acidente.. dificilmente utilizaria os repertórios que expressou na conversa de mesa de bar se fosse.. Clara (25): Acho que deve ser difícil entrar na menopausa. fim da menstruação. Vera: Aleijão? Não entendi. e 3) ideias de estranhamento (refere ao temor e incompreensão do homem frente às singularidades biológicas da mulher: menstruação. refere-se à desvinculação de linguagens ligadas a determinados estratos sociais (profissão. fica como uma árvore seca.. gravidez. Rafael (27): Menopausa? Que assunto horrível. Trecho da conversa (duas mulheres – 43 e 25 anos. um braço. Mas fico pensando que a mulher deve sofrer muito.).mulher na menopausa e que trariam consequências negativas em seu desempenho profissional e intelectual). 2) ideias de finitude (ligadas ao fim da procriação. a menopausa é da natureza da mulher.. entrevistado oficialmente como um psicólogo emitindo um parecer sobre menopausa. Mas não pode ser comparada a um aleijão. não está na natureza. Vera: É? O que isso faz você lembrar? Rafael: Sei lá. conforme discutimos anteriormente neste capítulo. e um homem – 27 anos. A mulher perde a capacidade de gerar um filho. (Chegaram outras pessoas e a conversa dispersou-se.23 pois Rafael (um psicólogo). parto) A conversa a seguir – que fala de finitude – é um exemplo típico do que denominamos de descompromisso disciplinar. 210 . religião etc. local: mesa de bar) Vera (43): O tema da minha pesquisa é menopausa. é como se fosse um aleijão. por exemplo. Agora. à perda de atrativos considerados definidores da feminilidade e da sexualidade). Rafael: É como alguém perder uma perna.) 23 Descompromisso disciplinar.

Ao nos determos na formação de psicólogo desse jovem e recorrermos à arqueologia de formação dos repertórios.York: Grune & Stratton. B. cit. (Apud Ballinger. S. ela cometeu um grande erro ao fazer com que a produção de estrogênios pelos ovários também decline e cesse a partir desta época.. para Rafael a condição de existência esgota-se com o fim da possibilidade de procriação: a mulher ao ser despojada do único papel social que lhe fora atribuído é vista como alguém deficiente e inútil. apenas “resignação sem compensação”. 156:773-787.24 por exemplo. em sua revisão sobre os sentidos atribuídos à menopausa pela Psicanálise. (1945). (Apud Ballinger. (1917). C. Para termos uma dimensão de como os domínios de saber e os sentidos produzidos no cotidiano se retroalimentam. uma árvore seca.Aqui temos a menopausa personificando tanto o fim da capacidade procriativa como o da própria vida. 25 Freud. cit. porém. Mourning and Melancholia. British Journal of Psychiatric. tabus e poderes: a menstruação numa perspectiva socioantropológica. (1990).. v. Revista Estudos Femininos. achamos oportuno transcrever uma citação feita por Cecília Sardenberg 27 de um discurso médico que ressalta a importância do estrogênio para o corpo da mulher. Psychiatric aspects of the menopause. a natureza teve suas razões para terminar a vida reprodutiva feminina antes dos 50 anos. das mamas e demais caracteres sexuais femininos. acarretando uma rápida atrofia dos genitais. B. Op. (1994). De sangrias. mostra que Freud25 associou a “perda do potencial reprodutivo” a “luto e melancolia” e Helen Deutsch26 entendia que a vida se tornava “opaca e sem sentido”. N.) 26 Deutsh. As terríveis consequências deste evento ‘fisiológico’ para a 24 Ballinger. Op. In: Collected Papers. M. em que nem psicoterapia adiantaria. C.) 27 Sardenberger. Considerando-se a enorme sobrecarga anatômica e fisiológica que a gravidez e o parto impõem à mulher. London: Horgath Press. H. Ballinger. principalmente na primeira metade deste século. 4 (1956). Epilogue: the climacterium. 2: 456-487. In: The Psychology of Women. 2(2):314-343. vamos encontrar essa ideia de finitude fortemente enraizada também em algumas linhas psicológicas. Nessa perspectiva. 211 .

28 Soucasoux.28 citado por Sardenberg. atribuídos à menopausa. mesmo entre profissionais que atuam com esse referencial médico. que. Imago. Contribuições das conversas: para além do estudo da menopausa A análise das conversas.mulher são sobejamente conhecidas. as relações de gênero/poder.) 212 . e a conotação negativa dada ao envelhecimento na cultura ocidental. N. grifos meus). associada à incursão pela literatura da área da saúde. símbolo e arquétipo. enfatizando a perda de características consideradas definidoras da feminilidade. cit. 1993. por meio de práticas sociais. devido à rápida atrofia pósmenopáusica de seus tecidos estrogênio-dependentes – os órgãos sexuais e demais caracteres físicos da feminilidade (Soucasoux. 1994: 342. (1993). Rio de Janeiro. Os órgãos sexuais femininos: forma.4. 3. Essa forma médica de descrever a menopausa está vinculada à Medicina alopática – hegemônica na cultura ocidental. ou seja. Op. O que nos interessa comentar é que as imagens suscitadas nesse fragmento de texto desenham a mesma decadência evidenciada na fala do Rafael. é resultante de vários fatores. incluindo as linguagens sociais do tempo vivido (literatura da área da saúde) – possibilitou-nos compreender que a hegemonia de sentidos negativos. dentre os quais podemos citar: o processo de medicalização da menopausa. O fato de termos analisado as conversas. a ideia de crise – cristalizada como algo inerente a esse período. possibilitou-nos compreender que cada versão explicativa sobre a menopausa se apresenta como um dos elos da rede de conhecimentos e de sentidos que foram sendo produzidos. encontramos vozes dissonantes. p. função. Registramos. levando em consideração o jogo de intertextos – tempo curto (conversas) e tempo longo. explicita que a mulher na menopausa deixa de ser mulher. apesar de seu poder hegemônico. 10-11 (citado por Sardenberg 1994. no entanto. em diferentes tempos e espaços. detectados nas falas das mulheres e assumindo conotações mais depreciativas nas falas dos homens.

as conversas mostraram que não estamos condenados ao uso circular de sentidos já produzidos. entre eles: Foucault (1995). perdem as conexões com os sentidos que lhes deram origem. tem sido apontada por vários autores. mostrando que. seja porque esse discurso naturalista sobre o corpo se traduz em práticas disciplinares que efetivamente moldam as relações entre pessoas e classes sociais” (1994c:94). Laplantine (1991). A hegemonia exercida pela ciência (área de biomédicas nesse caso). são frutos de um processo de construção social. Se registramos a repetição e reafirmação de sentidos cristalizados. muitas vezes. ao termos acesso a versões variadas. Nesse particular. saúde e doença. Spink nos alerta para não cairmos na falácia reducionista de que as teorias médicas teriam o poder de instituir uma determinada ordem social. nas conversas. cuja repetição de uso os tornaram hegemônicos e cristalizados. a análise das conversas trouxe à tona o quanto o chamado conhecimento do senso comum está permeado por repertórios interpretativos produzidos nos domínios de saber (conhecimentos formalizados). até porque se constituem elas próprias em produtos. Spink (1994c). A variabilidade de sentidos que encontramos nas conversas nos aponta para a riqueza dessa forma corriqueira de comunicação. ao entrarem em contato com outras versões podem ser reinterpretados e. Em resumo. Boltanski (1979). abrimos a possibilidade de desfamiliarização de sentidos. A esse respeito. nas explicações e classificações dadas pelas pessoas sobre categorias de percepção do próprio corpo. registramos também a existência de 213 . Mas é importante ressaltar que o uso de repertórios hegemônicos. não se pode ignorar o seu poder de legitimação: “seja por produzirem um discurso natural sobre uma realidade que é socialmente construída. No entanto. Isso significa que. emergiu de formas variadas. além de nos ajudar a compreender que determinadas características.Nas conversas do cotidiano pudemos identificar o uso de repertórios presentes nos discursos da área da saúde. apresentadas como naturalmente dadas.

Dessa forma. por permearem diferentes esferas de interação social. na manutenção e. na reinterpretação e produção de outros sentidos que possam levar a transformações sociais. as conversas desempenham um papel importante na difusão.um processo dinâmico de ressignificação que possibilita a produção de sentidos singulares. 214 . quiçá.

pela atenção e cuidado com que se mostra próximo. Betania e Bruna. mesmo distante. produções midiáticas. faz uso dos conceitos teóricos apresentados no capítulo dois. 215 . discutimos a 1 Dedico este trabalho a Germano. o trabalho de John Thompson (1995a.CAPÍTULO IX TEXTOS EM CENA: A mídia como prática discursiva1 Benedito Medrado O objetivo deste capítulo é apresentar algumas reflexões sobre a importância da mídia na construção e circulação de repertórios. Gostaria de agradecer a cuidadosa leitura de Ricardo Pimentel – o pai do Caio e marido da Ercília –. A proposta principal deste capítulo é apresentar um ensaio sobre conceitos e processos centrais aos estudos em mídia. no plano epistemológico. na sociedade contemporânea. tais como: pesquisa ética e postura construcionista. descritos no capítulo um desta coletânea. Assim. como material de análise. Marly (sempre presente). Thereza Christina Pegoraro – que sabe muito bem fazer uso das interações mediadas e quase-mediadas –. e rigor e interpretação nos processos de análise. desenvolvidas ao longo dos últimos anos. 1995b). que tiveram. os argumentos aqui apresentados acompanham os debates que marcam o percurso histórico dessa abordagem e as reflexões sobre construcionismo em Psicologia Social. e emprega princípios. especialmente em relação à pesquisa sobre a construção da AIDS-notícia. e Jorge Lyra–. Gostaria de agradecer as inúmeras e imensuráveis contribuições de Vera Menegon às reflexões apresentadas neste capítulo. Agradeço. enfim. conforme abordado nos capítulos três e quatro. pela construção de textos que rompem barreiras de tempo e espaço. Essas reflexões constituem um diálogo permanente entre a abordagem teórico-metodológica sobre produção de sentido e práticas discursivas e experiências de pesquisa. a uma estrela que se faz aqui presente nos subtextos. Tendo como referência.

apresentamos. consequente 2 Para uma discussão sobre sentidos e signos. revistas ou livros. É inegável que. sua afluência de público3 e. 216 . reprodução e circulação de produtos repletos de sentidos. 3 Por exemplo. divulgados via Internet e. Por outro lado. telespectadores etc. principalmente. com base nas reflexões de Thompson (1995b). que constituem um dos mais elevados itens de consumo da população. intitulada País deverá ser o 2º em venda de TVs . Por um lado. na sociedade contemporânea. situados em contextos. desenvolvidas individualmente e em coletividade.reconfiguração entre as dimensões público e privado que a mídia proporciona. Em linhas gerais. como um sistema cultural. propondo uma ruptura da dicotomia emissão-recepção e desfamiliarizando a noção de autoria. espectadores. compreende também uma dimensão contextual – temporal e espacial –. recomendamos a leitura do capítulo quatro desta coletânea. por fim. que compreende a (re)construção. definimos mídia. Paulo. conforme matéria publicada dia 21 de julho de 1996.). armazenamento. Textos e imagens publicados em jornais. por meio de seu poder de dar visibilidade a fenômenos sociais e de construir novas dinâmicas interacionais. apresentados em TV ou rádio. textos científicos constituem instrumentos midiáticos. como um sistema cultural complexo. pelo jornal Folha de S. que têm aspectos técnicos e comunicativos e propriedades estruturadas e estruturantes. superando inclusive os refrigeradores. tanto para quem os produziu (os media) como para quem os consome (leitores. inclusive. o Brasil é o terceiro país do mundo em venda de aparelhos de televisão. apresentamos o modelo analítico tríplice de Thompson. Para ilustrar alguns processos que caracterizam a produção midiática. A partir desses pressupostos. a mídia assumiu um papel fundamental no processo de construção e circulação de repertórios. tendo por base experiências de pesquisa. tendo em vista. na medida em que esses produtos são fenômenos sociais. esse sistema possui uma dimensão simbólica – num constante jogo entre signos e sentidos 2 –. algumas reflexões.

A interação face a face é a conversa cotidiana por excelência. paladar e tato. 217 . 1993.influência sobre o cotidiano das pessoas. ou seja. que se encontra distante espacial e/ou temporalmente. A abordagem de Thompson (1995b) nos possibilita compreender essas transformações a partir de uma reconceituação do conceito de interação. 1995a.) que permitem com que conteúdos linguísticos possam ser transmitidos de uma pessoa a outra. 1997b). nas formas como as pessoas produzem sentidos sobre fenômenos sociais e se posicionam. 1. audição. ela confere uma visibilidade sem precedentes aos acontecimentos. informações e descobertas. Entre o público e o privado: A mídia e seu poder de dar visibilidade a fenômenos sociais A mídia introduziu transformações substantivas nas práticas discursivas cotidianas. levando a uma reconfiguração das fronteiras entre o espaço público e o privado. Nesse tipo de interação. os participantes contam com uma multiplicidade de apoios linguísticos compartilhados para transmitir e interpretar as mensagens. Segundo Thompson. reduzindo barreiras espaciais e temporais e permitindo comunicações para além da interação face a face (Giddens. A interação mediada envolve diretamente o uso de meios técnicos (papel. de coparticipação. Nesse tipo de interação.4 Desse modo. olfato. Spink. a interação mediada e a interação quase-mediada. cabos elétricos. Inclui também a possibilidade de fazer uso dos cinco sentidos básicos – visão. Esse autor propõe pelo menos três modalidades de interação que caracterizam o cotidiano contemporâneo: a tradicional interação face a face. ondas eletromagnéticas etc. em que os participantes estão imediatamente presentes e compartilham um sistema de referências espaciais e temporais comuns. é o tipo de comunicação que transcorre num contexto de troca direta. 4 Ver discussão sobre o conceito de pessoa no capítulo dois desta coletânea. Thompson. 1995b.

propomos que a mídia não é apenas um meio poderoso de criar e fazer circular repertórios. A interação quasi-mediada refere-se às relações sociais produzidas com o advento da comunicação de massa. a assumir um lugar importante nas discussões contemporâneas. propiciando novas configurações aos esforços de produção de sentido. os adjetivos mediada e quasi-mediada são aqui empregados para demarcar. Nesse tipo de interação. sistema telefônico. Como na interação mediada. revistas. Desse modo. o compartilhamento de um sistema comum de referência espacial e temporal. mas difere em dois aspectos: primeiro. Partindo do pressuposto de que as interações são sempre mediadas.podemos incluir. por exemplo. a reconceituar a divisão estabelecida na modernidade clássica entre privado e público (Spink. mas que tem um poder transformador de reestruturação dos espaços de interação. por exemplo: livros. os participantes não dispõem da troca direta. A necessidade de gerir conteúdos torna-se cada 5 Os conceitos de vozes e posicionamentos são abordados no capítulo dois desta coletânea. inevitavelmente. televisão e sites da Internet. níveis distintos de interação humana gerados pela inovação tecnológica. assim. A visibilidade de fenômenos sociais gerada pelos tipos de interação mediada e quasi-mediada passa. 1997b). porque a comunicação não é dirigida especificamente a uma pessoa (mas a um outro generalizado). porque o fluxo de trocas entre os falantes não é imediatamente recíproco. seja por dispositivos eletrônicos ou pela diversidade de vozes e pelo jogo de posicionamentos5 que se fazem presentes no momento da dialogia. jornais. antes de tudo. O espaço fluido – sem fronteiras espaciais e temporais – que a mídia propicia leva. a interanimação dialógica – trocas simbólicas entre os falantes – continua ocorrendo. necessariamente. havendo uma expressiva lacuna temporal entre a emissão e a recepção. Não há. o sistema de correios e telégrafos. correio eletrônico etc. Contudo. 218 . a comunicação se processa rompendo barreiras espaciais e/ou temporais. segundo. chats da Internet.

7 esses esforços ficam ainda mais patentes. por exemplo.vez mais necessária. o Conselho Nacional de Autorregulamentação (CONAR) estabeleceu. exceção feita aos eventos especiais patrocinados cuja determinação de horário independa do controle do veículo ou do Anunciante. mecanismos de controle e moralização vêm continuamente sendo propostos. diz o Código Brasileiro de Auto-regulamentação Publicitária: Na publicidade pela Televisão atender-se-á especialmente aos seguintes requisitos: a) os comerciais e mensagens de outra natureza.6 No caso da epidemia da AIDS. torna-se imprescindível construir uma abordagem metodológica que possibilite analisar processos e produtos midiáticos. São Paulo. No Brasil. 7 Optamos pelo uso do termo AIDS. particularmente. em que AIDS deixará de ser uma sigla e passará a ser grafada como um substantivo comum: AIDS. tais como aidético. No que se refere a esses dois itens de produtos. seguindo recomendações da Coordenação Nacional de DST e AIDS e em acordo com o uso corrente. inclusive o chamado “merchandising” pela televisão. Formal ou informalmente. Código brasileiro de autorregulamentação publicitária. os investimentos da sociedade civil e do próprio Estado para regular a programação televisiva é um exemplo desses esforços. só serão transmitidos nos horários que vão das 21 às 6 horas. nas orientações das organizações não governamentais (as ONG/AIDS) e da Coordenação Nacional de DST e AIDS aos jornalistas para evitar o uso de termos e expressões preconceituosas. destacamos o processo. de dicionarização do termo. No campo da publicidade televisiva. já iniciado. em caixa baixa. na bibliografia geral e especializada. Anexo A (Bebidas Alcoólicas) e Anexo J (Produtos de Fumo). por exemplo. Do mesmo modo. 1997b). 219 . algumas restrições à exibição indiscriminada de comerciais de bebidas alcóolicas e de produtos de fumo ao longo da programação televisiva brasileira. em 1978. desfamiliarizando conceitos ainda presos ao tipo de interação face a face e 6 Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (1978). No Brasil. grupo de risco. entre outros (Spink.

2) a construção da mensagem dos meios de comunicação e 3) a recepção e apropriação. Figura 1: Desenvolvimento metodológico do enforque tríplice Produção e transmissão ou difusão Enfoque tríplice Construção Recepção eapropriação Fonte: Thompson (1995a) Análise sócio-histórica e interpretação da doxa Análise formal ou discursiva Análise sócio-histórica e interpretação da doxa Interpretação do caráter ideológico das mensagens A produção e transmissão ou difusão das formas simbólicas da comunicação midiática compreende o processo de produção das formas simbólicas e de transmissão via canais de difusão seletiva. cujo processo de análise discursiva considera a mensagem comunicativa como uma construção simbólica complexa. a partir da análise sócio-histórica e pesquisa etnográfica. segundo Thompson. O segundo aspecto da comunicação de massa seria a construção da mensagem. Portanto. embora a análise das 220 . Esses processos. estão situados dentro de circunstâncias sócio-históricas específicas e geralmente envolvem acordos institucionais particulares. que apresenta uma estrutura articulada. torna-se possível apreender esses processos. Contudo. Um enfoque analítico tríplice: Desfamiliarizando conceitos Para análise das interações mediadas e quasi-mediadas.entendendo a complexa dinâmica que se estabelece nas interações mediadas por dispositivos técnicos ou via comunicação de massa. 2. salienta Thompson. Thompson (1995a) propõe um enfoque analítico tríplice (tripatite approach) que envolve três dimensões: 1) a produção e transmissão ou difusão das formas simbólicas.

é preciso combinar uma metodologia de análise que envolva essas três dimensões. salienta Thompson.. podemos identificar e examinar as circunstâncias e as condições socialmente diferenciadas em que as mensagens são recebidas por pessoas particulares. reconhecendo que o sentido de um produto midiático não se localiza nem se esgota no momento de produção. sob certos aspectos. esses processos que compreendem a produção midiática. uma distinção temporal. A interanimação dialógica está presente tanto para o emissor como para o receptor. em nossas análises. Assim. Não há. mas que ignora na prática. buscamos considerar. Do mesmo modo que a análise da produção e transmissão. mas na interação entre leitor (categoria que inclui também o pesquisador) e produto. Segundo ele: O fato de que cada um desses campos se constrói através da abstração dos outros aspectos da comunicação de massa implica que uma análise centrada num campo objetivo singular será. Não reproduzimos. Todavia. para entender a dinâmica dos processos de produção midiática. ele tem suas limitações: (. 221 . senão. a produção/transmissão e a recepção/apropriação das mensagens dos meios de comunicação (Thompson. 1995a: 395). 1995a: 392). isto é. Nesse caso. mostrando como os vários aspectos se alimentam e se iluminam mutuamente (Thompson. limitada. a análise dos processos de recepção e apropriação pode ser realizada por meio de uma combinação da análise sócio-histórica e das pesquisas etnográficas. A recepção e a apropriação das mensagens dos meios constituem o terceiro elemento do enfoque tríplice proposto por Thompson. a clássica dicotomia emissão-recepção. Um enfoque compreensivo do estudo da comunicação de massa exige a capacidade de relacionar entre si os resultados dessas diferentes análises. ele é prejudicado quando é tomado isoladamente dos aspectos comunicativos que ele necessariamente pressupõe..características estruturais internas das mensagens seja um empreendimento perfeitamente legítimo.) muitas vezes. nessa perspectiva.

a recepção são uma permanente atividade retórica de negociação entre sentidos possíveis. os estudiosos da idade média foram os primeiros a mostrar como nosso conceito contemporâneo de autor é inadequado para compreender as formas de significação que existiam antes da invenção da imprensa. uma peça publicitária. como a TV e. Quando um autor está produzindo uma obra (uma pintura. um programa de TV. 1998: 97). mais recentemente. presente na obra de Bakhtin. de um primeiro locutor a quebrar o silêncio do universo. consequentemente. Em sua abordagem. Mesmo quando isolada. apresentada no capítulo dois desta coletânea. perfeitamente compreensível a partir do conceito de vozes. Nos dias de hoje. sublinham o caráter vocal da produção textual na Idade Média contribuem também para a historicidade dos papéis elementares da comunicação literária (Gumbrecht. está em constante processo dialógico. (1980) La vie de la lettre au Moyen Âge. como Paul Zumthor. por definição. cujos referentes variam entre Deus (autor de todo ato) e o copista de um manuscrito – sem reservar lugar àquele que ‘inventa’ um texto. em que a imprensa concorre com outras formas de significação e circulação de sentidos (algumas inclusive de alcance marcadamente mais amplo. escrita ou mediada por dispositivos técnicos é. Paris: Seuil. Como nos adverte Gumbrecht (1998). Na visão bakhtiniana. seja ela oral. uma prática social. a Internet). as origens do conceito de autor merecem ser resgatadas à luz da noção de plurivocalidade. um site para Internet.Desfamiliarizamos. uma matéria de jornal. Lembremos a insistência de Roger Dragonetti8 na plurivocalidade do latim auctor. a noção contemporânea de autoria. no capítulo Autor como máscara. a produção e. a linguagem. entre uma multiplicidade de vozes presentes ou presentificadas. R. 222 . de seu livro Modernização dos sentidos. 8 Dragonnetti. Desnecessário dizer que aqueles dentre os medievalistas que. é impossível pensar a ideia de um emissor puro. também. ou mesmo um enunciado).

possibilitando a produção de outros sentidos e a construção de versões diversas sobre si e o mundo a sua volta.As produções da mídia. por intermédio de cursos de formação e capacitação profissional. pela Folha de S. adquirem maior visibilidade e passam a tornar-se disponíveis às pessoas. em que adotamos como foco as práticas discursivas que se processam no cotidiano ou. Essas regras são aprendidas sob a forma de habitus que orientam o cotidiano da produção midiática. Paulo. realizada em 1997. Esses repertórios funcionam como substratos na composição da linha argumentativa ou retórica midiática. Para dar subsídios a essas reflexões e permitir a explicitação de alguns processos que caracterizam a produção midiática. Elas ampliam o leque de repertórios disponíveis às pessoas. cursos de formação e capacitação –. uma pesquisa sobre a construção das matérias sobre AIDS nas principais agências jornalísticas brasileiras. a produção publicitária. que regulamentam e embasam. atravessado pelos tempos vivido e longo. por exemplo. Conforme capítulo dois desta coletânea. obedecem a certas regras. práticas sociais de caráter discursivo. podendo compor suas práticas discursivas cotidianas. mais precisamente. em última análise. por meio delas. que ocorre no tempo curto. Nessa abordagem. como domínio de saber. construídas por um grupo social específico (os media). publicadas em 1994. quando nos referimos à produção de sentido estamos ressaltando os processos de construção de um (ou mais) sentido(s). estamos identificando repertórios que possam compor essas produções discursivas e que. apresentaremos alguns resultados de três experiências distintas: uma pesquisa sobre a análise de matérias sobre o rodízio de carros. Dispomos de um conjunto de regras formais – manuais. as produções midiáticas constituem. a interanimação dialógica (trocas simbólicas entre os falantes que se animam mutuamente). Ao focalizarmos as produções midiáticas. aprendidas durante o processo de socialização secundária. a partir da seleção e reconfiguração de determinados repertórios. e 223 .

L. C. nº 2 – out/nov/dez-1995 jan-1996. B. foi feita uma leitura das matérias com o objetivo de identificar interlocutores. um dos interlocutores mais presentes na construção das matérias. L. identificamos. V.  Apelo à consciência e solidariedade – em que se promove e/ou se valoriza a participação da população na Campanha. Paulo e O Estado de S.. Para análise. C.. CEDEC – Centro de Estudos de Cultura Contemporânea. Ano I. Teresa Cristina. posicionamentos e argumentos centrais dos textos. Essa campanha propunha o rodízio de carros como alternativa de combate à poluição. Endo. Inicialmente. 3. Como resultado.. e publicada no Boletim do Centro de Estudos de Cultura Contemporânea: Medrado. T. (1996). Endo e Vera Mincoff Menegon. das quais 65 eram da Folha e 79 do Estado. por meio de 9 Além deste autor. durante e até a segundafeira posterior à efetivação do rodízio. Luís Carlos Araújo Lima. compreendendo toda a semana anterior. 11-12. publicadas entre 21 de outubro e 04 de novembro. Adesão ao rodízio: do dever solidário à consciência obrigatória. 9 desenvolvemos em 1995 uma pesquisa sobre os sentidos de cidadania nas matérias sobre a campanha Ajude São Paulo a sair do sufoco.uma terceira pesquisa acerca de repertórios sobre masculinidade na propaganda televisiva nacional. utilizando procedimento de análise semelhante aos mapas associativos (ver capítulo quatro). Paulo. 224 . M. Debates socioambientais. Lima. publicadas pelos jornais de maior circulação na cidade de São Paulo. dois repertórios distintos. destacamos as nomeações (termos e expressões) empregadas pelos jornais para se referir à população paulista. Rala. participaram dessa pesquisa: Luiz Antônio Rala. realizamos clipping (seleção) das matérias dos jornais Folha de S. A. Spink e a participação de alguns integrantes do Núcleo de Pesquisa em Psicologia Social e Saúde.. basicamente. realizada entre 1995 e 1997. Uma primeira versão dos resultados foi apresentada na 48ª Reunião Anual da SBPC. Menegon. A. São Paulo. Posteriormente. A retórica na produção jornalística: Repertórios sobre cidadania na imprensa Sob a coordenação da Profª Mary Jane P. pp. Foi recortado um total de 144 matérias a respeito da Campanha. em 1996.

as justificativas ilustradas nas matérias apontam argumentos mais individuais e menos políticos. Caderno C. por exemplo: o Estado não dá condições.. em que grifamos algumas dessas expressões: A vendedora Gisele de Oliveira gostou da proposta do rodízio e pretende continuar colaborando. Fazendo isso ainda colaboro para melhoria da qualidade do ar da nossa cidade’ (O Estado de S. O foco na noção de dever aparece por meio de expressões como todos devem. Paulo. porém. consciência ecológica. seja resgatando e enfatizando o dever/obrigação da população em aderir a causas coletivas. Acho que a experiência legitimou o rodízio para 96” (Entrevista do Secretário do Meio Ambiente Fábio Feldmann. 31/08/95.  Relação direito-dever – esse repertório aparece. 4). “Testamos o grau de consciência da população e aumentamos esse grau. a atividade profissional da pessoa que inviabiliza a adesão etc. nas matérias. p. Produzindo árvores associativas foi possível perceber.expressões como exercício de cidadania. configura-se como menção à possibilidade de não participação na campanha do rodízio. A ênfase no direito. a deficiência do transporte público. algo complexo. p. Por um lado. a produção de um texto complexo. 4). Caderno 3. há nos textos uma ênfase no que 225 . publicada na Folha de S. sendo muitas vezes o motorista que não aderisse ao rodízio designado com o termo infrator e o controle direto identificado como uma medida necessária. Na maioria dos casos. como nos exemplos que se seguem. na maioria das vezes. ‘Não é sacrifício algum. Estado. com justificativas variadas. 04/09/95. Trabalhamos com comportamento coletivo. flagrante. de modo bipolar. marcado pelo inter-relacionamento desses repertórios (apelo à solidariedade. dever-direito). produzindo uma mensagem retórica ambígua. Aprendemos com o rodízio. colaboração. por sua vez. mesmo quando a restrição à circulação de veículos for suspensa. seja focalizando o direito do cidadão ao não engajamento na Campanha. obrigatória. transporte solidário etc. restrição.

políticos).) “Quem tem consciência do problema não deixa de apoiar” (Estado. 4). portanto. Considerando a discussão anterior sobre a noção de autoria. no processo de análise.. p. Não nos interessava. orientaram os motoristas a reorganizar seus compromissos ou optar pelo transporte solidário nos dias em que tiverem de deixar o carro na garagem (Estado. o dever solidário. 27/08/95. contraditoriamente. 24/08/95. Fábio Feldmann. p. 1). para exemplificar posições contra ou a favor da Campanha. 21/08/96. técnicos e da população em geral. Mas deu certo. ou. no emprego de termos e expressões que denotam um caráter participativo e de interesse comum (você deve ser solidário!). Caderno A.denominamos consciência obrigatória. porque até quem não aderiu admitiu a legitimidade do rodízio. acredita que uma espécie de “constrangimento moral” fará muitos paulistanos aderirem ao programa (. “Foi uma operação de alto risco. ficou constrangido por ter sido flagrado na rua” (Entrevista do Secretário do Meio Ambiente Fábio Feldmann ao jornal O Estado de S. em que na apresentação da mensagem se ressalta o dever. os voluntários responderam a questões sobre o rodízio. houve um expressivo uso de depoimentos de figuras de autoridade.. qual a sua funcionalidade. na maioria dessas matérias. 3). Se a medida for aceita e apresentar resultados. em que a obrigatoriedade aparece imersa num discurso que enaltece a solidariedade (você tem que ter consciência!). Caderno C. foram tratados como texto. 226 . pessoas públicas (artistas. considerando que a edição de uma matéria tem. 1). É interessante notar que. O secretário do Meio Ambiente. mas como aquele depoimento era inserido no corpo da matéria. esses depoimentos. Caderno C. que se destaca. a procedência e veracidade das informações atribuídas aos personagens (termo usual em mídia). por outro lado. p. como nos trechos que se seguem: Durante a distribuição de folhetos. Caderno C. p. Paulo. 03/09/95. ela poderá se tornar obrigatória nos meses de inverno a partir de 96 (Folha.

No caso da AIDS. argumentos. em 30 de outubro de 1985. de uma epidemia. em que o compromisso de divulgar informações (conteúdo) não pode ser compreendido isoladamente da forma retórica com que essas mensagens são transmitidas. uma construção retórica. discorreríamos nossa análise. a mídia assume dois papéis importantes: por um lado. pela impressionante dimensão midiática que esse fenômeno assumiu na última década. uma intencionalidade. 4. mas principalmente. é possível perceber que a composição de uma informação em mídia está inserida num contexto argumentativo (Billig. via meios de comunicação de massa – e a construção de um novo fenômeno social: a AIDS-notícia. estaríamos convencidos de que apreenderíamos a realidade e. ou seja. 1991). Dessa forma. em maior ou menor grau. Essa foi uma característica marcante que identificamos na pesquisa descrita anteriormente. com base nisso. O que temos em mídia são interpretações. mas também se mostrou imprescindível na análise de textos sobre DST e AIDS produzidos e veiculados pela imprensa nacional. conforme estudo descrito a seguir. a imprensa anunciou o aparecimento de um novo fenômeno no campo 227 . No entanto. considerando a função interpretativa e analítica do jornal. é impossível informar de modo neutro. o jornal francês Le Figaro destacava um dos aspectos mais marcantes da epidemia da AIDS – sua ampla difusão no mundo. A AIDS-notícia: A construção de um fenômeno midiático “A AIDS é a primeira doença da mídia”.sempre. Se lêssemos os textos jornalísticos com olhos de quem busca a função informativa da imprensa. no campo das pesquisas médicas. Em última análise. Para além de uma síndrome. a AIDS tornou-se um fenômeno social marcado pelas tecnologias modernas. é possível identificar vários sentidos em uma matéria. a função de apresentar os fatos para o leitor. Com essa frase.

O período selecionado para análise compreendeu os meses de junho a dezembro de 1996. Esses veículos compreendem não apenas os jornais de maior tiragem em âmbito nacional. nov. a AIDS nos mostra a extensão que uma doença pode tomar no “espaço público”. em 1981. Menegon. do político e do social (p. Além disso. 228 . sobretudo. Ela coloca em evidência de maneira brilhante a articulação do biológico. 18-21. por Vera M. em especial a AIDS. no âmbito do Núcleo de Pesquisa em Psicologia Social e Saúde e com apoio da Coordenação Nacional de DST e AIDS (CN-DST/AIDS). desenvolvemos. Como destacam Claudine Herzlich e Janine Pierret (1992): Desde sua irrupção. Paulo. Dada a centralidade da mídia na construção de repertórios sobre as doenças sexualmente transmissíveis. Brasília/DF. a AIDS representou mais do que uma nova doença. tanto nas sedes (Rio de Janeiro e São 10 Essa pesquisa foi coordenada pela Profª Mary Jane Spink e contou com uma equipe de pesquisadores composta. além dos médicos e pesquisadores. O Estado de S. progressivamente. subsidiando a produção de matérias para outros jornais. por outro. Rapidamente. período que marca a implantação da Assessoria de Imprensa da CN-DST/AIDS. os artistas e os políticos. como também funcionam como agências de notícias. Paulo. desenhou. Isabel da Silva Amaral e Fernanda Efigênia Ribeiro. seus contornos e. O Globo e o Jornal do Brasil10. Ministério da Saúde/Coordenação Nacional de DST e AIDS. Uma primeira versão dos resultados foi apresentada no II Congresso Nacional de Prevenção às DST e AIDS. buscando entender o processo de construção dessas matérias. Mobilizando. 7). Jorge Lyra e Helena Lima e uma equipe de assistentes composta por Roberta Edo. mas o conjunto da sociedade. foram realizadas entrevistas com profissionais envolvidos diretamente nesse processo: repórteres e editores responsáveis pela produção de notícias sobre AIDS. ela preocupou não só os atingidos ou ameaçados. operou a passagem das informações sobre a doença do domínio médico e científico para o registro social. além deste autor. e. um estudo com o objetivo geral de analisar a visibilidade das matérias sobre DST e AIDS nos jornais brasileiros de maior circulação – Folha de S. Cláudia Stella.da patologia.

isto é. em geral. Existem também.728 matérias cujo conteúdo tratava. mas. Como forma de garantia de qualidade técnica da notícia. possuíam um roteiro mínimo e possibilitavam ampliação dos temas abordados. mais precisamente. dos referidos jornais e profissionais de diferentes unidades da CN-DST/AIDS 11. em Brasília. Contudo. direta ou indiretamente. orientados pela questão: existe uma especificidade nas notícias sobre AIDS? Ou. referentes à construção de matérias no campo da saúde. No período selecionado. particularmente no tocante à epidemia da AIDS. há por parte da imprensa uma preocupação específica no que se refere às matérias sobre temas relacionadas à área da saúde. Focalizaremos. 229 . 12 Uma versão completa dos resultados da pesquisa A construção da AIDS notícia se encontra junto à Coordenação Nacional de DST e AIDS.Paulo) como nas sucursais. inclusive. e/ou AIDS. em particular. as notícias. em geral. passam pelos mesmos crivos jornalísticos. assim. acerca das doenças sexualmente transmissíveis. Neste capítulo. como se pode perceber no trecho abaixo. o que faz notícia em AIDS? Em linhas gerais. não pretendemos apresentar o conjunto dos resultados desse trabalho 12. sob a forma de relatório final. inclusive atuam como articulistas ou enviados especiais a Congressos da área. buscam assessorar os demais jornalistas na construção de matérias. foram registradas 1. nosso objetivo é dar visibilidade a alguns processos identificados ao longo dessa pesquisa. Os principais critérios para a inserção de uma matéria e seu destaque numa determinada linha editorial são a exclusividade e o ineditismo. antes de tudo. recorrentemente. extraído da entrevista com um dos jornalistas: 11 As entrevistas com os jornalistas e funcionários da CN-DST/AIDS foram semidirigidas. consultas a profissionais da área da saúde. principalmente o material resultante das entrevistas – enriquecidas por observações – realizadas nos três espaços institucionais (sedes e sucursais dos jornais e sede da CN-DST/AIDS). Alguns. Os efeitos de uma informação incorreta nessa área podem ser catastróficos. em alguns jornais existem redatores especializados que.

tenho uma informação fantástica pra t e passar. não pode ter saído já 20 vezes no jornal. é sempre permeada pela noção de pauta quente ou fria. aos domingos. seja sobre saúde ou não. A pauta quente está ligada ao fato novo.. Por exemplo. surgimento. Paulo. Nesse sentido. Reescreve. As matérias de comportamento.. são mais frequentes as matérias que tratam de comportamento. aquelas que buscam apresentar discussões sobre o cotidiano das pessoas enquadram-se no tipo de pauta fria. ou quem tem uma ligação direta com o problema.. Esse tipo de matéria fica reservada para cadernos especiais. e aí se 230 .O leitor não quer saber. Esse é um formato frequente nas matérias sobre temas relacionados à saúde. isso é uma coisa importante. Há.) É isso o que define o fato de ser notícia mesmo. na área de saúde. isso é outro critério fundamental pro jornal. no jornal O Estado de S. então a gente procura puxar para o lado mais interessante. cuja razão ele atribui à amplitude do público que se pretende atingir: Eu acho que o leitor se interessa mais pela coisa mais comportamental. só para vocês!”. assim. pressupõe um aprofundamento em um tema: evolução. Como destacado por um dos entrevistados.. o que já aconteceu. Inclusive.. porque ‘continua’ não é notícia”. eu tinha um professor que dizia que se você botava “tal coisa continua acontecendo”. havia. ele dizia: “Não. que chame mais a atenção do leitor por ser novidade (. furo jornalístico.. que sempre. Precisa. ser publicada preferencialmente no dia em que ocorre. Nesse caderno.) Quando alguém diz. embora haja a divulgação de dados estatísticos e serviços. Já a pauta fria. por exemplo. portanto. “Olha. pode ser incluída entre uma tirada e outra de exemplares . a inclusão de uma matéria e seu formato. tratamento de doenças etc. qualquer. mais emoção.. ou seja.. interessa a quem é da área. em alguns casos. um caderno especial com reportagens sobre problemas relacionados à saúde. havia uma predominância de matérias de comportamento. uma grande presença de matérias sobre AIDS com relatos de vivências da doença. eu acho que essa coisa de pesquisa. qualquer área vai dar mais destaque pra uma informação exclusiva (.

essa estratégia discursiva aparece com frequência: Pensa comigo: em termos de conteúdo. Isso se aplica também às matérias sobre AIDS. como argumentou um dos entrevistados.. Mas.) mais ligadas à área científica. você chamar a atenção para o lado trágico da doença. acaba gerando 231 . (.. Por exemplo. No entanto. você errar é outra história. As duas coisas. obedecendo aos critérios estabelecidos pelo jornal: número de toques. em que se busca tornar a informação menos técnica e mais atraente.. podendo gerar conflitos de ordens variadas. por exemplo. Alguns poucos jornalistas têm a prerrogativa de dar o título à matéria. Nesse caso. as duas coisas.) e aí tudo que passa no jornal sobre isso a pessoa quer ver.. esquentar ainda é uma coisa. às vezes.. ou quando tem uma questão de alguma descoberta nova? Em AIDS. ontem. né? A gente esquenta.. vende mais quando tem notícia trágica. que é o crescimento da doença (. Você usar termo preconceituoso no título… a gente não usa.) É esquentada mesmo que a gente chama. Além disso. que sempre chama a atenção..)Você tem esse lado estatístico da doença. a maioria dos repórteres entrevistados relataram que não podem dar título às suas matérias o que. Porque a AIDS hoje você tem o lado. digamos. Uma maneira de esquentar a matéria é aliar um grande volume de informações e novidades à natureza trágica de um fenômeno. ou então a pessoa da área médica (.. Uma outra regra presente na construção da AIDS-notícia é o que os jornalistas denominam de esquentada. No caso da AIDS. que poderá estudar algum dia a possibilidade de distribuir camisinhas em escolas públicas você vai ver o título assim: O Ministro da Saúde vai distribuir camisinhas em escolas públicas.interessa por tudo que fale sobre isso. a forma discursiva torna-se mais importante que o conteúdo da informação. a definição do título de uma matéria é um dos itens mais polêmicos no fechamento. um dos entrevistados discorreu sobre constante incoerência entre o título e o texto da matéria: Uma matéria que fala que o Ministro da Saúde afirmou. porque tá vivendo aquilo (.

às vezes. ele nunca disse sobre a cura da AIDS naquela matéria – foi o título que disse (. mas como ele estava lá [Vancouver].. redigiu e enviou uma matéria para o Jornal Folha de S. na ocasião do Congresso Mundial... [Ficou pra quem estava como editor aqui?] É. eu imagino que ele não pôde dar.). Paulo. se realmente você for. de você. Você leu a matéria. acontece com qualquer um de nós como leitor.. Não tenho absolutamente nada a ver. envolvendo o médico Jairo Bouer.(.transtornos. tendo em vista que o título atribuído pode dar uma dimensão catastrófica que não condiz com o conteúdo da matéria. que é muito bom por sinal. em Vancouver. ou seja. o Jairo Bouer.. conforme um dos jornalistas entrevistados: Acontece. você esclarece: ‘Olha. a titulação é feita também com base em critérios técnicos e/ou estéticos.) O Jairo deve dar os títulos para as matérias dele também. aí a convivência fica impossível numa redação… uma pessoa que te deu a entrevista. Como mencionou um dos entrevistados: quem manda no título é a pessoa que diagrama a página (…. Isso acontece. contestar isso no dia a dia. Na imprensa. A definição do título. isso realmente escapa ao controle do repórter. na maioria das vezes. Foi citado o exemplo de um episódio. aliados à busca de venda de um produto estão também critérios estilísticos. que. que o repórter tem uma participação direta no título e ele atribui ao repórter a responsabilidade.. Você vai ler a matéria e não é bem aquilo. É ele quem diz o tamanho do título (…) toda 232 . de forma. está condicionada à disponibilidade de espaço para publicação.. Então. Você lava as mãos.. cujo título impresso indicava a cura da AIDS. por exemplo. Porque geralmente o leigo – nesse assunto de jornalismo – ele acha que é o repórter que faz o título.) Q uem desenha a página.. Por exemplo.. embora o conteúdo da matéria não expressasse essa ideia: Com relação a isto. Mas isso também não é uma rotina. A matéria não diz isso’. Você lê um título e dá uma dimensão catastrófica. acha que o título não correspondeu ao que foi dito.. não sou eu que faço o título.

A AIDS no Brasil. No Brasil. Nesse sentido. O subtítulo é sempre do mesmo tamanho. Além dessas dimensões. que ajudam a situar a AIDS como um fenômeno social por excelência. Rio de Janeiro: ABIA/IMSUERJ/Rulume Dumará. (1994) Sexo entre homens: consciência da AIDS e comportamento sexual entre homens homossexuais e bissexuais no Brasil. Antes mesmo de o ser. a característica mutante da epidemia de AIDS representa um sério desafio: o que foi inicialmente atribuído como uma doença de homossexuais passou a ter impacto sobre a população em geral. assim. “a AIDS apareceu primeiro como um fenômeno da mídia. Como bem destaca esse autor. As implicações político-econômicas dessa mudança é que essa população economicamente menos favorecida depende exclusivamente dos serviços públicos de assistência à saúde. fato este que tem sido referido como pauperização da AIDS. o doente-padrão já estava definido” (p. político e econômico a teia de sentidos é tecida com aspectos que vão desde a corrida pela formulação de medicamentos novos e mais eficazes até as políticas internacionais e locais de controle e prevenção da doença que tornou ainda mais visível a luta de grupos sexuais excluídos.matéria que vai pro alto tem o mesmo tamanho de título. e só depois se tornou uma evidência médica. Nos planos ético. a AIDS hoje afeta os setores mais pobres da sociedade. em 1997 essa proporção passa a ser quatro homens para uma mulher (CN DST/AIDS. é tão importante quanto a própria AIDS. 129-149. a proporção de pessoas atingidas pela AIDS era de 40 homens para uma mulher. Agosto/97). Retornamos. à nossa pergunta inicial: existe uma especificidade nas notícias sobre AIDS? Propomos uma reformulação dessa questão. em 1983. Outra mudança ocorrida foi no perfil socioeconômico das pessoas atingidas: inicialmente tomada como uma doença de classes sociais mais favorecidas. 129). o papel dos signos e sentidos. nos seguintes termos: qual a especificidade do fenômeno AIDS? Na visão de Richard Parker (1994)13. pp. a expansão da AIDS pelo mundo é 13 Parker. R. 233 . no trajeto da epidemia no Brasil.

que circula. o segundo caderno. podem apoiar-se em números crescentes de vítimas e segmentos da população que passam a fazer parte das pessoas atingidas. Destacamos. essa caracterização polissêmica do fenômeno AIDS se inscreve na forma de sua dimensão midiática. por exemplo. 234 . pois vai ao encontro de uma das características fundamentais dos meios de difusão contemporânea: o novo. na imprensa nacional. o papel da mídia não apenas na circulação de repertórios. Desse modo. Assim.expressa por meio de números sempre mais altos. presente na mídia. esse aspecto tem uma função importante. As informações publicadas pela mídia. destacamos a seguir um estudo focalizando as relações de gênero e as masculinidades que nos permite visualizar essa tentativa de construção de novos repertórios. nos mais variados cadernos e editorias. sob a as mais variadas formas. Como destacado por um dos entrevistados: Na verdade. assim. como destaca Biancarelli. “nunca um tema permitiu tantos enfoques e tantas pautas na imprensa como a AIDS” (Biancarelli. o inédito. por incrível que pareça também tem várias matérias sobre AIDS. portanto. a AIDSnotícia. é imprescindível entender a dinâmica da construção desse fenômeno midiático. em matérias sobre os mais variados temas. Para a mídia. Ainda no campo da sexualidade. permitindo a desfamiliarização progressiva de alguns sentidos e construção de outros. empregando-o na busca de construir mecanismos discursivos para a ressignificação dos sentidos da AIDS. o assunto AIDS dá em todas as editorias. quando vem um balé que trata do tema etc. mas principalmente na ampliação dos repertórios disponíveis às pessoas em seu cotidiano. 1997:145). Uma ressignificação que possa ser instrumental para o desenvolvimento de visões mais compatíveis com a ação social responsável e solidária. Como consequência.

Miguel V. Almeida. Arilha. Além 14 A noção de masculinidade hegemônica é discutida em diferentes trabalhos tais como: Connell. a pesquisa adotou. Benedito (1998). Los Angeles: University of California Press. impulsionados pelos empreendimentos políticos e acadêmicos acerca das mulheres e homossexuais que. 1997). Unbehaum & Medrado. portanto. atingível por praticamente nenhum homem. Em linhas gerais. o objetivo desse estudo foi identificar repertórios sobre masculinidade veiculados pela propaganda televisiva nacional. Assim. questionando valores tradicionais. Gender and power: society. Contudo. impuseram uma reavaliação da noção de masculinidade hegemônica14. intitulada O masculino na mídia (Medrado-Dantas. da ritualização (no sentido antropológico) das práticas da sociabilidade cotidiana e de uma discursividade que exclui o campo das emoções considerado feminino. Connell. Entre 1995 e 1997. Masculinities: knowledge. (1995). a necessidade de analisar e desfamiliarizar o modelo central da masculinidade – a masculinidade hegemônica – que se impõe contra as experiências e posicionamentos de homens e mulheres. não sendo.5. power and social change. 235 . Homens e masculinidades: outras palavras. (1995). como compromisso ético. Sandra G. Mídia e masculinidade: Entre sentidos hegemônicos e a diversidade Estudos sobre relações de gênero e sexualidade têm enfatizado a necessidade de pesquisas sobre homens e masculinidades. Robert W. investigar sobre masculinidade significa também discutir preconceitos e estereótipos e repensar a possibilidade de construir outras versões e sentidos. Robert W. foi desenvolvida a dissertação de mestrado em Psicologia Social. heterossexual e dominante – é um modelo cultural ideal. Califórnia: Stanford University Press. São Paulo: Ecos/Editora 34. Lisboa: Fim de Século. como padrão. Margareth. Ridenti. 1994). Uma interpretação antropológica da masculinidade. A masculinidade hegemônica – branca. Desse modo. Senhores de si. (1987). the person and sexual politics. por meio da incorporação do habitus (Bourdieu. 1983a. subordina outras masculinidades. ela exerce um efeito controlador.

Mexico. que. Mazzella. em que homens e mulheres desempenham papéis culturalmente tradicionais: o homem como provedor ou líder instrumental da família e a mulher como dona de casa. um dia em cada mês. Em S. L. Cerini. com base na transcrição de alguns comerciais selecionados e na construção de árvores associativas. Sex role stereotyping in Australian television advertisements. e Whipple.) Men. Os comerciais foram então agrupados por meio de uma classificação temática. quase exclusivamente. afetiva e líder expressiva. dependente. Lovdal. & Buralli. durante o ano de 1996. a partir da qual foi possível identificar algumas tendências. Sex roles in advertising: A comparison of television advertisements in Australia. 243-59. 78-92). Newbury Park/London/New Delhi: Sage Publications. Beer commercials: A manual on masculinity. C. abrange a emissora e o período de maior audiência da televisão brasileira. A. Journal of communications.. E. Durkin. 75-85. Sex roles. foi possível perceber tentativas. Gilly. L. De um modo geral. a um padrão heteroerótico de relação. C. 15 Por exemplo: Courtney. Sex roles. (1992). M. T. E. 715-24. os mapas de associação de ideias e as árvores associativas. (1988). T. P. particularmente. foram feitas gravações em vídeo.de entrevistas com profissionais que atuam diretamente na produção. 110-18. procuramos identificar as linhas argumentativas que caracterizavam as peças selecionadas. Craig (org. 52 (2). segundo o Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (IBOPE). (1974). de apresentar rupturas nos padrões tradicionais. 236 . Women in TV commercials. onde repertórios sobre masculinidade presentes nas mensagens publicitárias se associam. Contudo. Strate. 26. masculinity and the media (pp. veiculação e regulamentação de campanhas publicitárias. Sex role messages in television commercials: An update. 21. (1989). W. and the United States. K. 11/12. Journal of Marketing. os resultados encontrados corroboraram pesquisas desenvolvidas em outros países 15. (1992). 7/8. por meio de dispositivos humorísticos. A partir do uso de algumas das técnicas apresentadas no capítulo quatro desta coletânea. ainda discretas. 24 (2). da programação referente ao horário nobre (20 às 23h) da Rede Globo.

Agência: DPZ. A composição deixa assim de sugerir um contexto de sedução homoerótica. O outro intima: ‘Pega lá’.Por exemplo. que fazem alusão à prática homossexual masculina. O homem responde: ‘que dureza’. a narrativa construída ao longo do comercial resgata uma velha piada machista do “quem pega o sabonete”. bem na frente de um deles. o cenário que retrata um espaço tipicamente do universo masculino (vestiário de campo de futebol) e. levanta o sabonete com o pé. De repente o sabonete cai no chão. Título da peça: Sabonete. Uma competitividade que se mistura entre o bom jogador do futebol à prática 16 Transcrição e fotos extraídas do 21º Anuário de Criação do CCSP. propõe uma quebra na linearidade da mensagem. o próprio target (público alvo) do produto (homens adultos). Volta para o homem que. ao invés de pegar o sabonete com a mão. entretanto. mas dá um drible em seus colegas. sob a forma de humor. como se fosse uma bola. que a princípio seria inadmissível dentro do contexto da publicidade televisiva. particularmente entre o que deixa o sabonete cair e o que o intima a pegá-lo. 237 . num comercial do conhaque Dreher. mais ainda. Corte para uma garrafa de Dreher. O desfecho. ao introduzir uma saída estratégica e jocosa para o personagem principal: ele simplesmente não abaixa. em que se destacam as expressões “que dureza” e “desce macio e reanima”. chutando o sabonete para o alto.: ‘Dreher desce macio e reanima’”16 Nessa narrativa. “Três homens tomando banho num vestiário. Anunciante: Heublein do Brasil. a composição de elementos textuais e cenográficos sugeriria um contexto de sedução homoerótica. e passa. off ass. a destacar uma certa competitividade entre os personagens. Essa composição inclui desde o texto. até a interação entre os personagens. Loc.

produções discursivas.). antes de tudo. venda de um produto ou serviço. Na construção dessas mensagens. ao construir um argumento. esses autores relatam que. em que poder e sexualidade se misturam e quem ganha é aquele que não leva gol. em última análise. no âmbito das relações de gênero. em contextos formais de pesquisa (seminários. quando esses cientistas conversavam com pesquisadores sociais. ambos se manifestam nas produções discursivas (formais e informais) dos bioquímicos entrevistados. construídas por um grupo social específico (publicitários). aquele que produz a mensagem procure neutralizar a contradição. 1987: 150). A associação entre masculinidade. trabalhos de laboratórios. porém havia uma predominância de repertórios contingenciais. construindo uma harmonia em seu texto (oral ou escrito) de modo a defender ou refutar uma proposição. dentro de um sistema complexo de negociações. Na análise dessas entrevistas. cujo princípio básico é: “as ações profissionais e convicções dos cientistas são fortemente influenciadas por fatores externos ao domínio dos fenômenos empíricos” (Potter e Wetherell. É interessante ressaltar que os comerciais são. à divulgação e. e atividade. predominam repertórios empiricistas. 238 . há uma tensão nessas produções que faz com que. é bastante clara. 1991). esses profissionais selecionam determinados repertórios sobre masculinidade que. O que nos chama a atenção nessa pesquisa é o fato de que os tipos de repertórios não são excludentes. foram realizadas entrevistas com alguns bioquímicos. de caráter retórico (Billig. Todavia. consequentemente. os repertórios empiricistas também eram referidos. discursos baseados em dados de experimentos. que visa. Em entrevistas informais. cujo princípio básico é: ações e convicções dos cientistas são um meio neutro por meio do qual os fenômenos empíricos se expressam. no plano da sexualidade. Algumas considerações Num estudo desenvolvido por Jonathan Potter e Margareth Wetherell (1987).sexual. visam garantir a persuasão do telespectador. associados ao produto/serviço. papers etc.

Numa das peças de uma série. ao poucos. era apresentada uma imagem reticulada que ia. Um exemplo claro deste artifício dentro da propaganda é uma campanha publicitária do jornal Folha de S. Adolf Hitler: “É possível contar um monte de mentiras dizendo só a verdade”. O objetivo dessa técnica é identificar normas sociais. Os participantes são recrutados a partir de uma população alvo. fornecer orientar o(a) publicitário(a) na elaboração de uma campanha publicitária. elas necessitam dispor de muitos e diferentes repertórios para se adaptar a essas situações” (Potter e Wetherell. que afetou a história da Humanidade e. Os profissionais de mídia. Essa natureza polissêmica dos discursos. segundo Potter e Wetherell (1987). o grupo focal é. prescrições mais amplas que possam. premiada em 1989 com o Leão de Ouro. por exemplo. Sessões são usualmente gravadas e o observador também faz anotações durante a discussão. frequentemente em contato com um caleidoscópio mutante de situações.Um mesmo conjunto de argumentos pode ser arranjado de modo a compor mensagens diametralmente opostas. Como destacam esses autores: “pelo fato das pessoas estarem. Paulo. possibilita às pessoas transitarem por inúmeros contextos e vivenciar variadas situações. assessorados por pesquisas de mercado (cuja metodologia básica é o grupo focal17) dispõem de um 17 Muito usado em pesquisas de mercado. 1987: 156). cujas opiniões e ideias são do interesse do pesquisador e da empresa contratante. é convidado a falar sobre um (ou mais) tema(s) e/ou produto(s). uma discussão em que um pequeno grupo de informantes. os repertórios compreendem. guiados por um facilitador. um conjunto de elementos aprendidos ao longo do nosso desenvolvimento pessoal e que utilizamos para dar sentido às situações que vivenciamos e para produzirmos discursos. 239 . antes de tudo. na abordagem da análise de discurso. por exemplo. A imagem revelada ao final identificava de quem se tratava. ao longo da vida. destacava-se a redução do desemprego. valores. Semelhante ao uso que se faz nas artes. de modo satisfatório. cujo slogan dizia “é possível contar um monte de mentiras dizendo só a verdade”. entre seus feitos. tomando forma. O texto falava de um homem que tinha conseguido liderar toda uma nação e influenciar a vida de muitas gerações. produzida para televisão.

leque de repertórios possíveis para a elaboração de uma mensagem. que ao considerar uma determinada posição. contrárias ou. os quais eles procuram compor de tal modo que a mensagem transmitida para o espectador seja: compre esse produto. como nos advertem Bronwyn Davies e Rom Harré (1990). Gillete = lâmina de barbear etc. ao identificarmos repertórios em materiais midiáticos. Em linhas gerais. 240 . Isto é. competir entre si ou podem criar versões distintas e incompatíveis dos mesmos fenômenos sociais. de outros discursos elaborados pela própria 18 Por exemplo. Modess = absorvente. que fundamentam e dão sentido a essa mensagem. seu papel de registro/ passagem. mas também a oposição. em suas práticas discursivas. estamos apreendendo alguns sentidos (consensuais e contraditórios) que circulam no cotidiano das pessoas e que podem assumir outras significações no esforço de produção de sentido empreendido pelos espectadores. a contradição e a polissemia. diferentes. Ela tem como parâmetro a busca de persuasão do consumidor. Contudo. opostas. Além disso. portanto. como práticas discursivas. a escolha dos repertórios não é indiscriminada e aleatória. é importante considerar o potencial que a mídia tem de provocar reflexões e discussões ativas. de caráter argumentativo. constitui conteúdos potencialmente dinâmicos. transita indiretamente por outras. que busca incessantemente o consenso18. de uma produção discursiva. as campanhas publicitárias que visam associar a marca a um produto. simplesmente. dentro da mensagem publicitária podemos encontrar não apenas a regularidade e o consenso. Como destaca Antônio Fausto-Neto (1997) acerca da relação mídia e AIDS: Os media têm a propriedade especial: de um lado. os discursos podem se harmonizar. encontramos uma série de outros repertórios que se integram à mensagem principal. Todavia. mesmo no discurso publicitário. Trata-se. dado que a interpretação é que lhe dá sentido. A mídia.: Bombril = palha de aço. Assim. Ex.

de esquemas de pensamento e de percepção sistemáticos. publicidade. como pesquisadores. um compromisso efetivo com a mudança social. Nossas produções cotidianas estão diretamente influenciadas por essas forças e. talvez. A análise hermenêutica de discurso a que nos propomos reconhece que. Vale ressaltar que a análise das produções discursivas que apresentamos ao longo deste capítulo não é nem a percepção dos telespectadores. porque deste autor. somos pessoas. Trata-se dos limites impostos pelo modo de conhecimento praxiológico (Barbier. construções públicas etc. nem a proposta do profissional que a produziu. segundo as leis que fazem reconhecer o campo dos medias (jornalismo.) como nicho que vai tecendo a oferta de diferentes construções de discursos cujo efeito de sentido.sociedade e. pelo rigor na elaboração das estratégias metodológicas e pela busca de coerência interna das exposições. que representam um molde mais ou menos maleável para a minha prática científica e que estão diretamente ligados à minha sociabilidade na minha classe social de origem. dentre outros. Essas análises são também uma prática discursiva. mas objetiváveis e generalizáveis porque apoiadas na leitura de textos já produzidos sobre a mesma temática. sua condição de dispositivo de produção e de semantizações próprias. é. nosso fazer científico passe a assumir. dependemos (…) de constelações de habitus adquiridos. grifos do original). sujeitos à força do habitus de nossa classe social. profissão. posicionadas dentro da dinâmica de campos concorrenciais. sexo etc. 1997: 140). muito menos corresponde literalmente ao cotidiano das pessoas. São interpretações: subjetivas. ao reconhecer isso. de outro. o de mostrá-lo com um locus capaz de dar inteligibilidade à doença (Fausto-Neto. como pessoas. 1985: 11. Como destaca René Barbier (1985). 241 . ainda mais.

Passarelli O que pode um psicólogo social fazer dentro do cinema? Entre outras coisas. Então. e vemos poças que se formam no chão. Eles estão em um ambiente com pouca luminosidade. o movimento dos dois homens. dito de outra forma. M. lemos: 1 + 1 = 1.CAPÍTULO X IMAGENS EM DIÁLOGO: Filmes que marcaram nossas vidas Carlos André F. um dos personagens irá explicar ao outro o significado desta equação. Na parede que está ao fundo do campo. Logo em seguida. 1+1=1 Em uma das cenas do filme Nostalgia. a câmera acompanhando. que conversam. que acaba por constituir o campo da análise de filmes? Para tanto. vemos dois personagens andando em fila. Bakhtin. enquanto objeto de estudo para as ciências humanas não é uma novidade. claro. Ouvimos gotas de água. dentro da perspectiva teórica oferecida pelos estudos da linguagem de M. Mas que olhar é este? Ou. Destes. extraio principalmente os conceitos de dialogia e enunciação para tentar compreender que imagens podem se formar no campo da psicologia social a partir daquelas que são projetadas na tela do cinema. Usando o exemplo de que uma gota de água somada a uma outra sempre formará uma 242 . a recepção de sons e imagens em movimento. analiticamente. em travelling lateral. tentarei apresentar os elementos que compõem a linguagem cinematográfica e como trabalhá-los. assistir ao filme que estão exibindo. as perguntas que tento responder ao longo deste capítulo são: o que é um filme? Existem regras para assisti-lo? O que pressupõe este processo. o que salta à vista deste psicólogo? O cinema. de Andrei Tarkovski. embora ainda seja um campo muito pouco investigado. uma casa semiabandonada.

todo o conjunto da obra do diretor que realiza o filme e mesmo outros filmes de outros diretores com os quais um determinado filme “dialoga”. mas ele é a resultante de um processo que envolve sua produção. inserido em e formado por um contexto dialógico. este personagem fala de uma unidade a ser alcançada. tanto estética quanto temática. de grande complexidade. Dito de outra forma. também. Todorov (1988) explica-nos o conceito de enunciação. Partindo do pressuposto emprestado de Bakhtin. diálogos. isto é. sua recepção (o espectador. podemos dizer que um filme não é a soma das cenas ou diálogos que o constituem. Independentemente da filosofia ou fé que esse personagem professa. No entanto. a imagem enquadrada. o diálogo. atores. o filme se derrama da tela. podemos pensar o filme. No entanto. Dessa forma. o filme aqui é entendido como um discurso e sua interpretação ou análise deve levar em consideração todos os atores que participam de seu processo de criação/construção.nova gota e não duas. tanto o que está delimitado pela tela. do objeto fílmico. todas essas unidades somadas. direção. de que o discurso ou a linguagem é sempre uma construção social. Assim. sendo eminentemente social. como aquilo que a extravasa. tomo aqui esse exemplo como ponto de partida para falar da obra cinematográfica. a separação entre dialogia e enunciação é meramente conceitual. a busca de um princípio único e unificador que garanta ao ser humano uma maneira mais integral de estar no mundo. como um conjunto de enunciações. na medida em que a enunciação pressupõe sempre a relação entre interlocutores. sua materialidade (sons. constituem o que chamamos aqui de objeto fílmico. público e crítica). a partir destas cinco características principais: 243 . se retomamos a teoria de Bakhtin sobre a linguagem. cenas e outros elementos que veremos a seguir). Não se trata aqui de analisar esta obra ou mesmo o conjunto dos trabalhos desse cineasta russo.

Reconhecer o objeto é. p. descrevê-lo e decompô-lo em seus fragmentos. entende-se a imagem delimitada pelo enquadramento fornecido pela tela.isto é. única. ou 244 . “o sujeito da enunciação cinematográfica é construído no momento em que alguém assiste a um dado filme. Essas colocações nos remetem à questão sobre a autoria do filme. e) Toda enunciação é sempre dirigida a alguém. c) Uma enunciação não se refere meramente ao seu objeto. entre outras coisas. inerente. principalmente naquele cinema denominado de autor. o sujeito da enunciação cinematográfica não pode ser confundido com o diretor do filme. timidamente. como vemos constantemente nos textos literários. Acima. já havíamos esboçado. Como referi em outro trabalho. ordenados em planos e sequências. um outro interlocutor. uma enunciação termina quando começa uma nova enunciação por um outro sujeito. que são o ponto de partida para o trabalho de análise de filmes. b) Cada enunciação tem uma unidade de sentido ou formal. Não há dúvida que todos os filmes possuem um diretor. nem tampouco com um narrador. 1998. No entanto. “o plano corresponde a cada tomada de cena. os elementos que constituem a linguagem cinematográfica. Fragmentos de filmes De forma grosseira.a) O que define os limites de uma dada enunciação é a mudança de interlocutores. que lhe é específica. e é somente na relação entre espectador e objeto fílmico que um sentido sobre o filme pode ser produzido . d) Toda enunciação funciona como uma resposta a enunciações passadas e sempre antevê outras. 10). que nasce um sujeito” (Passarelli. dentro de uma perspectiva pautada no referencial teórico de Bakhtin. que são suas possíveis respostas. Ou seja. Segundo Xavier (1984). podemos dizer que um filme é composto de sons e imagens em movimento. mas ela sempre traz também uma referência sobre o sujeito da enunciação. decifrar a sua gramática. Por plano.

o roteiro. a profundidade de campo. A esses elementos somam-se outros. primeiríssimo plano: uma variante do primeiro plano. 19). os planos são assim definidos: Plano geral: a câmera mostra todo o espaço da ação. entre outros motivos. o figurino.descreve um movimento que pode ser para frente. do diretor espanhol Pedro Almodóvar (Passarelli. diagonal (ou inclinado) e vertical. a montagem e a interpretação dos atores. temos vários planos em sequência. plano médio ou de conjunto: principalmente em interiores. quando. E ainda. travelling: quando a câmera. Temos ainda o plano sequência. Dependendo do ângulo e dos movimentos da câmera.seja. em uma única tomada da câmera. descreve um movimento circular. deslocando-se em relação ao seu eixo. onde analisei as relações amorosas entre homens no filme A lei do desejo. sons. A escolha dessa cena se dá porque. além da riqueza de elementos cinematográficos presentes. ela nos permite diferenciar a linguagem cinematográfica da dramaturgia.geralmente sobre um carro ou grua . 1998). 245 . encontramos também algumas definições sobre os enquadramentos: normal: a câmera localiza-se à altura dos olhos de um observador de estatura média. a trilha sonora (músicas. diálogos). para trás. lateral. que ocupa quase toda a extensão da tela. a iluminação. que se encontra no mesmo nível da ação mostrada. a câmera mostra o conjunto de elementos (figuras humanas e cenário) envolvidos na ação. plano americano: corresponde ao ponto de vista onde as figuras humanas são mostradas até a cintura aproximadamente. panorâmica: quando a câmera. A fim de apresentá-los de forma menos esquemática. Embora com variações dentre as várias teorias do cinema. tais como: o cenário. sem deslocar-se em relação ao seu eixo . utilizarei aqui um exemplo extraído de outro trabalho. “a posição particular da câmera (distância e ângulo) em relação ao objeto” (p. com um maior detalhamento. câmera alta (plongé): a câmera visa os acontecimentos de uma posição mais elevada. à extensão do filme compreendida entre dois cortes”. primeiro plano: a câmera apresenta um detalhe do corpo ou de um objeto. câmera baixa (contra plongé): o oposto de plongé.

com a boca e gestos. 246 . todos eles próprios da linguagem cinematográfica. que nos faz lembrar uma sala de estar. em que Tina e Ada estão representando uma cena de uma peça de teatro (La voix humaine. A iluminação sobre a menina. Ouve-se o som de um telefone tocando. e Ada sai de cena. passando para um plano de conjunto. isto tudo. está sobre um carro de travelling. então. no filme. Em primeiro lugar. por assim dizer. escutamos os acordes de uma música (Ne me quittes pas. Tina passa a falar ao telefone. A câmera descreve um travelling para trás. é tornado visível ao espectador a materialidade. A letra da música que fala de uma separação. onde vemos Tina. A câmera acompanha o movimento de Ada. a pequena Ada dublando. A luz passa a incidir sobre a menina. de Jean Cocteau). que. o detalhe de um trilho de carro de travelling. quebrando com um machado os móveis de um cenário. sendo que Tina fica na penumbra. a percepção da profundidade de campo. de Jacques Brel) ao passo que vemos. reforçando no espectador. vemos. a luz ilumina Tina. Interrompendo a descrição. No início. Quando a melodia começa a ser cantada. temos aqui muitos elementos que servirão para uma possível análise. isto é. No entanto. Ada usa uma roupa com rendas. O vestuário de Tina (desleixado) e a maneira como os elementos do cenário estão dispostos (bagunçados) nos dão a impressão que essa personagem está em sua casa e que vive um momento de grande ansiedade e confusão.Os personagens de nossa cena são Tina e Ada. impressão essa que é reforçada pelos gestos da atriz. não sendo somente um adereço da cena. ou melhor. nos permite melhor compreender o nervosismo da personagem vivida por Tina. destacando-a no primeiro plano. e seu figurino irão funcionar como um contraponto às ações e ao estado emocional de Tina. da produção de um filme. os trilhos de um carro de travelling. enfim. a função de texto. A música tem. em primeiro plano. sem que visualizemos seus pés. esse estranhamento é diminuído pela canção que a menina dubla. que se trata de um pedido para que o/a amante não abandone (Ne me quittes pas). dessa forma. em primeiro plano. vestida despojadamente. que depois ficaremos sabendo que é o seu vestido de primeira comunhão. Trata-se de uma cena. A música é interrompida. as palavras da canção.

As suas personagens se encontram em um mesmo plano. Alguns teóricos chegam mesmo a fazer uma distinção radical entre o filme. unidade analítica” (tradução minha). o que era um monólogo é utilizado por Almodóvar como se fora um diálogo. comme tout objet de recherche. C'est que. Tina percebe a presença dessa mulher e dirige o seu texto para ela. e que. Vemos as imagens de Tina e da mãe de Ada em contraplano. o objeto da análise de filme pede por ser construído. muitas vezes não guardam uma relação direta com o filme que é assistido na sala de cinema. o objetivo da análise é elaborar um tipo de 'modelo' do filme (no sentido cibernético e não normativo. unité spectatorielle et le film. Isto é. por consequência. “com três interlocutores. Maysa (a cantora da gravação de Ne me quittes pas) é dublada por Ada. vemos Ada e sua mãe. on peut même dire que l'objet de l'analyse de film n'a que des rapports assez lointains avec l'objet-film perçu immédiatement par le spectateur dans la salle de cinéma. como todo objeto de pesquisa.” (Passarelli. Tina está falando ao telefone. Isto porque. et que par conséquent. Fora da cena teatral. quelle que soit l'approche choisie.. unidade 'assistida' e o filme.Seguindo mais adiante nessa mesma cena. além de nos distanciar da obra. a descrição e a análise. evidentemente). que é a divisão do filme em planos. para situar Tina. Se bem que. 247 . 1998:109). ou de uma cena como fizemos aqui. qualquer que seja a abordagem escolhida. agora temos três personagens. A descrição de um filme. a descrição pode ser feita por meio de dois instrumentos: a decupagem. le but de l'analyse est d'élaborer une sorte de 'modèle' du film (au sens cybernétique et non normatif. já é. em planos alternados. então. unité analytique (Aumont & Marie. como assinalam esses autores. évidemment). isto é. Retomando. o processo de análise. 1 “Num certo sentido. sua amante e Ada dentro da narrativa compartilhada por elas. pode-se dizer que o objeto da análise de filme só tem relações distantes com o objeto fílmico que é percebido imediatamente pelo espectador na sala de cinema. nas coxias.Certains théoriciens ont même été jusqu'à poser une distinction radicale entre le film. Dans un certain sens. como nos aponta Aumont e Marie (1988) um primeiro passo no processo de análise da obra cinematográfica. l'objet de l'analyse de film demande à être construit. 1 1988:33-34). E ainda..

vírgulas. fronteiras e suspensões entre uma sequência e outra. Segundo Laplanche e Pontalis (1983). na psicologia social. à cena no teatro ou ao quadro no cinema dos primeiros tempos” (Passarelli. principalmente. Assim. ponto que tentarei desenvolver a seguir. elas não podem olvidar que o objeto sobre o qual elas se debruçam possui uma íntima relação com outros de mesma natureza e que. propriamente dita. “uma série de planos ligados por uma unidade narrativa. dessa forma trabalhado. um corte. O filme. isto é.e a segmentação. a partir das teorias que orientam a análise. por este motivo. que é a divisão do filme em sequências. A fim de determinar o início e término de uma sequência. portanto comparável. esses e outros elementos podem servir como pontos. na medida em que ele permite o que alguns autores denominam por identificação projetiva. em particular. Tal tipo de divisão (em sequências) permite a identificação de blocos narrativos. está agora pronto para ser colocado dentro de esquemas. 1998. p. Um pouco o que comentávamos acima sobre as características da enunciação. em que o indivíduo introduz a sua própria pessoa (his self) totalmente ou em parte no interior do objeto para o lesar. 90). isto é. em seu Dicionário de Psicanálise. No entanto. enfim. para o 248 . a entrada de novos personagens. O espelho do mundo O cinema é um campo extremamente rico para a pesquisa em ciências humanas e. que permitem que a descrição das imagens seja pautada por uma grade analítica. Estou falando do filme como resultado de um processo dialógico. a expressão identificação projetiva designa “um mecanismo que se traduz por fantasmas (fantasias). na medida em que ele é mais útil na análise temática de filmes narrativos. quaisquer que sejam as teorias eleitas. Vou me deter exclusivamente no segundo instrumento. em sua natureza. o determinam e o atualizam. quadros e gráficos. um novo cenário. segundo as hipóteses e objetivos definidos previamente e. uma alteração de plano. alterações na trilha sonora ou no tempo cronológico da narrativa. o analista deve procurar identificar os elementos da linguagem cinematográfica que podem funcionar como indicadores de mudança da unidade narrativa.

como nos mostra Xavier. Texas. 1984. 1985. é o que desenvolve Wim Wenders em Paris. Um jogo de espelhos semelhante. 302). portanto. em que assistimos uma jovem suburbana na Nova York dos anos 30. 249 . Não são pouco os teóricos de cinema que utilizam esses conceitos para falar da relação entre filme e plateia e entre cinema e linguagem. Na quinta vez que assiste a um mesmo filme. ela é surpreendida quando o galã da história sai da tela para convidá-la a ingressar na trama. em um capítulo intitulado A janela do cinema e a identificação. os dois que já se tornaram clássicos para falar da relação entre a plateia e o filme.possuir ou para o controlar” (p. 1984. 15). Tomarei emprestado. vai marcar a incidência de princípios tradicionais à cultura ocidental. embora separado do nosso mundo pela superfície da tela. de uma extensão feita por Melanie Klein do conceito freudiano de identificação. além de revelar a magia e a sedução que o cinema exerce sobre o seu público. que. O primeiro é o filme de Woody Allen. embora mais explícito. Basta um aceno para que vida e ficção sejam uma coisa só. Não faltam exemplos dentro da própria história do cinema que ilustram esse processo. Essa noção de janela (ou às vezes de espelho) aplicada ao retângulo cinematográfico. de seu ator preferido. escreve: “o retângulo da imagem é visto como uma espécie de janela que abre para um universo que existe em si e por si. e nessa mistura Woody Allen nos inquieta com a pergunta: quem assiste quem? Assim como os primeiros espectadores do filme dos irmãos Lumiére saíram correndo da sala de projeção quando assistiam um trem que ia na direção da câmera. propriamente dita. p. que refugia-se de seu cotidiano medíocre e infeliz na sala escura de um cinema. Sonho e realidade se confundem. durante a exibição de um filme nós somos assaltados pela impressão de quem alguém nos espiona e de que poderemos fazer parte daquilo que vemos. Trata -se. que definem a relação entre o mundo da representação artística do mundo dito real” (Xavier. porém não menos poético. O exemplo é claro por si só. A Rosa Púrpura do Cairo (The Purple Rose of the Cairo). portanto.

mas também ao diálogo do filme com filmes anteriores. costurados pela linha de um russo. 1992. de uma tela que reflete luz. referir-se-ia não apenas ao diálogo dos personagens no interior do filme. Tarkovski. A inspiração para usar os conceitos de Bakhtin na análise do cinema me foi dada por Stam. p. o amor por aquilo que quiséramos ser. alegoria da busca de uma unidade perdida. como o primeiro dessa lista. que nunca mencionou o cinema em seus inúmeros textos sobre arte literária e linguagem: M. E por falar em amor. mas. As confissões entre homem e mulher. cujas reações potenciais são levadas em conta” (Stam. Bakhtin. que escreve: “a concepção de intertextualidade (versão de dialogismo. segundo Júlia Kristeva) permite-nos ver todo texto artístico como estando em diálogo não apenas com outros textos artísticos. diretor e ator). são trocadas por meio desse anteparo. acima de tudo. M. Além disso. assim como ao “diálogo” de gêneros ou de vozes de classe no interior do filme. mas pode ser visto por esse(a). Alegoria do amor. Esse conceito multidimensional e interdisciplinar do dialogismo. 34). Irão encontrá-la em um peep-show. Almodóvar. Woody Allen. poderia referir-se também ao diálogo que conforma o processo de produção específico (entre produtor e diretor. outrora amantes. temáticas e estéticas diversas. 250 .. conversaram neste texto. mas também com o seu público. alegoria do próprio cinema. na medida em que os interlocutores são separados por um espelho. um local onde mulheres conversam e realizam fantasias sexuais de homens que elas não podem ver. Quem fala não vê com quem. Wim Wenders. se aplicado a um fenômeno cultural como um filme. assim como às maneiras como o discurso fílmico é conformado pelo público.Um pai e seu filho buscam a mulher que os abandonou há muitos anos. ou ao diálogo entre as várias trilhas (entre a música e a imagem. por exemplo. cineastas de origens. alegoria da procura incessante por um ideal. isto é.. por exemplo). também uma forma de amor.

dialógico. em outras sessões de cinema. como disse acima. nem que seja para si mesmo. E nessa fala. os sentidos polissêmicos do objeto investigado. também. do que passou. É. E essas imagens. portanto. em outros tempos. E também aquelas que estão na memória do olho. na medida em que essa ação pressupõe a capacidade do espectador/analista em deixar-se transportar para a tela. de filmes vistos em outras salas. no diálogo entre filme e espectador que se produz. viver aquela outra realidade e depois sair da sala escura. e poder falar. uma que foi bruscamente interrompida pela mudança de um plano geral para um primeiro plano. projetadas em retinas cansadas. que é. Foi só porque me aventurei em tantas salas escuras que eu pude ir descobrindo as imagens que iluminavam projetos de subjetividades. conversam agora com outros olhos. revelados pelo processo de análise. a outra que teve seu início com uma canção. e ainda amo. suportar ver sua imagem refletida. conseguir identificar as muitas enunciações assistidas: aquela que se encerrou num movimento da câmera.Assistir um filme será sempre um diálogo. 251 . e podem trocar as cenas daqueles filmes que eu tanto amei.

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MARY JANE P. SPINK Professora Titular do Programa de Estudos Pós-graduados em Psicologia Social da PUC-SP. coordenadora do grupo de pesquisa do CNPq Imaginário e práticas sociais. PASSARELLI Doutor em Psicologia Clinica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. coordenadora do Núcleo de Pesquisa “Práticas discursivas e produção de sentidos” da PUC-SP. pesquisador e ativista no campo da prevenção em HIV/AIDS. HELENA LIMA Doutora em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP. Mestre em Psicologia Social pelo Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Social da PUC-SP.AUTORES BENEDITO MEDRADO Professor do Programa de Pós-graduação em Psicologia da UFPE. consultora ad hoc do UNICEF e da Secretaria Nacional de Juventude (pela UNESCO) para questões relativas a infância. CARLOS ANDRÉ F. LIA YARA LIMA MIRIM Médica dermatologista. adolescência e políticas públicas em drogas. coordenador do Núcleo de Pesquisas em Gênero e Masculinidades (Gema/UFPE) e cofundador do Instituto PAPAI. integrante do Núcleo de Pesquisas “Práticas discursivas e produção de sentidos” (PUC-SP). 263 .

264 . professora aposentada da Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde da PUC-SP. VERA MINCOFF MENEGON Doutora em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. PETER SPINK Professor Titular da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo onde é membro do Centro de Estudos em Administração Pública e Governo. ROSE MARY FREZZA Mestre em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. UNESP.ODETTE DE GODOY PINHEIRO Doutora em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. integrante do Núcleo de Pesquisas “Práticas discursivas e produção de sentidos” da PUC-SP. professora da Faculdade de Ciência e Tecnologia.

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