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Textos de Apoio, disciplina de Educação e Comunicação em Saúde

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Textos de apoio da autoria de Celeste Duque, elaborados no âmbito da disciplina de Educação e Comunicação em Saúde, 1º Ciclo, 2º ano, 2º Semestre - curso Bietápico de Dietética, da Escola Superior de Saúde de Faro (ESSaF), Universidade do Algarve (UAlg), no ano lectivo de 2006-2007 (última versão)
© Celeste Duque
Textos de apoio da autoria de Celeste Duque, elaborados no âmbito da disciplina de Educação e Comunicação em Saúde, 1º Ciclo, 2º ano, 2º Semestre - curso Bietápico de Dietética, da Escola Superior de Saúde de Faro (ESSaF), Universidade do Algarve (UAlg), no ano lectivo de 2006-2007 (última versão)
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© Celeste Duque, 2004

1. INTRODUÇÃO

O presente texto tem como objectivo especificar, definir e correlacionar diversos conceitos que,
à medida que se progride no estudo da disciplina da Educação e Comunicação em Saúde, se vão
tornando cada vez mais salientes, e que têm dado o seu contributo para o progressivo cresci-
mento e autonomia desta última.

A realidade tem-se vindo a alterar lenta mas seguramente, no que se refere à importância dada
à participação do sujeito na saúde individual e da comunidade. É prática corrente de alguns
profissionais de saúde uma crescente preocupação com a questão da educação para a saúde,
nomeadamente, tendo o cuidado de fornecer informação útil aos utentes, que recorrem aos res-
pectivos serviços, acerca das melhores atitudes1

a adoptar, comportamentos a abandonar, para,
em consequência dessas mudanças, alcançarem uma maior qualidade de vida, uma vida mais
saudável, e uma melhor compreensão e auto-responsabilização pelos seus estados de saúde e de
doença.

Ao fazer um trabalho de educação para a saúde estes técnicos (e.g., médicos, enfermeiros, psicó-
logos, etc.) estão a motivar o indivíduo a “tomar as rédeas da sua vida” em questões de saúde,
espera-se que os sujeitos se preocupem mais em prevenir a doença (adoptando menos compor-
tamentos de risco, por exemplo, ao nível do estabelecimento de melhores hábitos alimentares –
dieta mais equilibrada) e promover e manter a saúde.

A aprendizagem está então mais uma vez no centro da questão uma vez que, quer os indivíduos,
quer as instituições prestadores de cuidados de saúde, têm o cuidado de aprender cada vez mais
acerca das melhores formas de manter a saúde, de melhor viver – apesar de se poder sofrer de
uma doença crónica incapacitante, ou de a esperança de vida ser curta, e.g., sofrer de leucemia
(não obstante, o indivíduo deve viver intensamente a “vida que lhe resta”).

Os recursos actualmente disponíveis para a prática da educação para a saúde ainda não são os
mais adequados, no entanto, dada a progressiva consciencialização dos meios políticos para a
necessidade de se implicarem todos os indivíduos para a saúde da comunidade mas também
para a saúde individual vai fazendo com que algumas verbas comecem a ser canalizadas para
questões desta natureza. O que faz, aliás, todo o sentido!

Em relação a outras áreas de conhecimento, cujo contributo é fundamental, para a implantação
de programas de acção/intervenção ou prevenção, podem-se referir, entre outras, a epidemiolo-
gia, a medicina, e, mais especificamente ao nível da saúde mental, a psiquiatria e psicologia pre-
ventivas; por sua vez, a psicologia da saúde por estar privilegiadamente relacionada com
questões de saúde e doença estende o seu campo de intervenção por um vasto leque de áreas
(desde a escola, aos hospitais).

2. SAÚDE VERSUS DOENÇA

Quando falamos em Educação e Comunicação para a Saúde somos, desde logo, confrontados com
a necessidade de definir conceitos como saúde e doença e nos últimos anos, associados a estes
surgem, conceitos como estilos de vida, qualidade de vida, comportamentos de risco.

1 Festinger (1975) afirmava que o sujeito tem tendência a viver num estado de coerência consigo mesmo,
nomeadamente, entre o que sabe, o que crê e aquilo que faz. Ainda segundo ele, quando essa coerência é
quebrada o indivíduo entra em dissonância cognitiva.
As atitudes referem-se a experiências subjectivas – expressam o posicionamento do indivíduo ou do grupo,
sendo este construído a partir da sua história de vida. E, as atitudes são sempre referidas a um objecto –
quando se fala de atitude de um indivíduo ou grupo, refere-se de imediato, qualquer coisa. Deste modo,
atitude pode ser definida, tal como Montmollin o teorizava, “predisposição permanente, de um indivíduo,
para agir em determinado sentido, em função de qualquer coisa.” (1984, p. 171)

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2.1. Saúde

De um modo geral, pode-se afirmar que a saúde se refere à condição de equilíbrio fisiológico do
organismo com o ambiente em que este se encontra inserido. Quando o organismo reage satisfa-
toriamente às solicitações dos diversos factores de risco que o ameaçam ao nível da sua sobre-
vivência (desde o nascimento), então ele está em condições de manter o referido equilíbrio sem
perturbações físicas ou mentais ou sofrimento.

A saúde é definida pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como: “um estado de completo
bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença ou enfermidade.” (WHOQOL
Group, 1993)

Ao analisar esta definição proposta pela OMS apercebemo-nos que esta é, obviamente, utópica já
que, as adaptações do equilíbrio fisiológico, às condições de risco permanente do ambiente, são
incompatíveis com um absoluto bem-estar de todo o organismo e das suas partes funcionais.

Assim, talvez seja mais lógico pensar em termos de estados de saúde positiva, em que estes se
constituem como condição de nível de saúde, em crescimento, pela melhoria ou manutenção
prolongada da normalidade do equilíbrio funcional físico, emocional e psicológico, na completa
ausência de doença ou perturbação significativa não sintomática.

Implicitamente supõe-se que saúde é o estado que existe quando nenhuma enfermidade está
presente. E que a forma de promover a saúde é definir, estudar, compreender e, por fim, tratar
ou prevenir a doença.

Partindo da definição mais simples, mas também mais redutora, de saúde que refere que: “Saú-
de é a ausência de doença”, pode-se afirmar que, quem aceite esta definição como a mais correc-
ta/adequada terá com certeza problemas com alguns professores universitários e uns quantos
outros académicos, no entanto, esses indivíduos irão estar em sintonia com toda uma sociedade
que gasta cerca 98% do seu “orçamento” com a saúde: em instituições, equipas, abastecimentos
e serviços utilizados para tratar a doença e apenas investe 12% em actividades de saúde pública
criadas para prevenir a doença e promover uma saúde positiva (Terris, 1980, p. 3).

Vejamos então porque é que os indivíduos que aceitam tal definição poderiam ter alguns pro-
blemas em termos de explicitação teórica. Ao proceder à análise de tal definição verifica-se que
esta encerra dois erros graves:

− A sua redução é produto de um pensamento demasiado superficial e negativo:
• Dá relevo de forma agudizada àquilo que desejamos evitar – a doença
• Enquanto que deixa, por descrever, de forma muito confusa, aquilo que todos
desejam – a saúde.
− A forma não escrita e não falada. Poucos são os que chegam a definir a saúde como a
ausência de doença.

Ainda que limitada esta definição é um conceito muito poderoso e primitivo que está no incons-
ciente colectivo da sociedade e exerce, a partir daí, uma enormíssima influência sobre os pro-
gramas em que se investem milhares de milhões de dólares/euros, em gastos.

Por exemplo a ideia que a “boa saúde” implica respostas emocionais normais e estáveis, um
comportamento racional e que algumas perturbações de humor ou comportamento, tais como,
ansiedade, neuroses ou esquizofrenia são doenças que tiveram efeitos muito directos e impor-
tantes sobre o que sucede a essas pessoas, tem subjacente toda uma crença e uma mudança de
atitude. De facto, muitos destes sujeitos, antes classificados no grupo dos “loucos da cidade” ou
de criminosos, são, actualmente, considerados como pessoas doentes que necessitam de trata-
mento.

Daniel Callahan, quando era director do Institute of Society, Ethics and the Life Sciences, adver-
tiu, em 1977, para o facto de:

À semelhança do que sucede com a maior parte dos conceitos gerais tais como “paz”, “justiça”,
“liberdade”, o de “saúde” também apresenta grandes dificuldades quanto à sua definição.

E que:

“Estranhamente tendo em conta todos os debates sobre ‘saúde’, se fizeram poucas tentati-
vas para atribuir ao termo algum significado mais preciso; parece que se dá como certo que
todos sabem do que se está a falar” (Callahan, 1977, pp. 25-26).

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2.1.1. Método Dimensional

A definição da OMS, criada em 1946, continha 20 palavras e remetia para 3 dimensões.

“A saúde é um bem-estar físico, mental e social total e não apenas a ausência de doenças ou
enfermidades.” (OMS, 1947)

Esta é uma definição ampla e positiva e apresenta uma tripla dimensão: bem-estar físico, bem-
estar mental, e bem-estar social.

Hoje em dia, os especialistas destas questões consideram que, a estas três dimensões, se devem
acrescentar ainda conceitos como: o bem-estar espiritual e a saúde holística; devendo-se, como
tal, prestar-se-lhes alguma atenção.

a) Bem-estar social

Existe uma razoável aceitação sobre o que se considera ser a realidade da saúde mental: alguém
a quem falte a qualidade de saúde mental, como alguém que sofra de uma depressão grave, está
doente, não importando o quanto pode estar bem fisicamente. Mas, o que é isso da saúde social?

Partindo do princípio que a personalidade humana se desenvolve, nutre e mantém num contex-
to social. Este contexto social é, sem dúvida, mais um determinante da saúde que um parâmetro
da própria saúde. Por exemplo:

− Pode-se argumentar que a inadaptação ou privação social se convertem num problema
ao se reflectir numa saúde mental reduzida.
− Assim uma boa interacção social assemelha-se, por analogia, a uma boa nutrição, em que
os tipos de contaminantes patológicos, livres, em quantidades toleráveis, favorecem
uma boa saúde.

Obviamente, e de acordo com este ponto de vista, a interacção social converte-se numa forma de
alcançar a saúde em vez de ser parte da própria saúde.

Outra forma de encarar a saúde social é reconhecer que para se estar saudável, é necessário que
cada um faça uma contribuição positiva à sua família, mas também à comunidade. Por exemplo:
• Um pai que desempenhe um bom trabalho de paternidade considera-se como,
socialmente, saudável; e
• O pai que maltrata considera-se socialmente doente.

Ou ainda:

• Um funcionário de um banco que presida uma campanha para o United Fund mostra
saúde social; e
• Outro que defrauda os fundos do banco denota estar socialmente doente.
• Não se mede em termos de sentimentos pessoais de bem-estar mas em termos do que
sentimos ser o bem-estar dos outros

À luz destes princípios:

• Um benfeitor neurótico sobe um ou dois escalões (na nossa consideração) enquanto

que

• Um criminoso feliz e bem equilibrado, se é que existe, é um degradado.

b) Bem-estar físico e mental

Aceita-se que o bem-estar mental, como parte da saúde, tem um importante impacto em muitos
aspectos da sociedade, particularmente na indústria dos cuidados de saúde. Apesar disso, ainda
se coloca em dúvida a extensão desta aceitação. Por exemplo:

• Parece ter ficado claro que a aceitação dos problemas mentais e emocionais é inequí-
voca quando estão, igualmente, presentes alguns factores “físicos” (algo de físico) –
quer se trate de um factor causal ou de um sintoma.

Ou que:

− Uma mulher de negócios “atormentada pelos problemas (ou conflitos) no trabalho” acaba
por sofrer de úlcera péptica suficientemente grande (grave) para ser observada numa
radiografia. Regra geral, irá precisar de mais consideração e de tratamento mais comple-
tos do que se os sintomas se manifestarem, por exemplo, através de insónia e consequente
cansaço (o que origina uma forte diminuição ao nível das capacidades de concentração e
atenção, etc.).

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De igual modo:

− A criança, em idade escolar, cujos problemas de comportamento são resultantes de danos
cerebrais sofridos ao nascer há-de ser atendido com maior consideração do que, se o seu
comportamento, se deve a conflitos interpessoais a longo termo.

Thomas Szasz, psiquiatra, atraiu grande número de seguidores, ao defender que as pessoas que
têm dificuldades com as suas: emoções, conduta e interacção social. De facto os indivíduos
podem apresentar problemas ao nível pessoal, no entanto, não devem ser considerados como
doentes.

O seu colega, R. D. Laing, vai mais longe interpretando as reacções psiquiátricas como “um
impulso em direcção à saúde”.

c) Bem-estar espiritual

Howard Hoyman, afirma de forma insistente:

“Para nós o passar ao lado da natureza psico-espiritual do homem, ao desenvolver o nosso
modelo de saúde, seria tratar de uma caricatura do homem, com o homem humano
desumanizado”. (Hoyman, 1975, p. 511)

Como se viu até aqui, consoante o autor ou autoridade que se seleccione, a essência real da saú-
de vai ser definida numa ou em quaisquer combinações dos seguintes factores:
• Sentimento subjectivo de bem-estar;
• Capacidade de se adaptar aos estados de mudança ou de tensão;
• Ou capacidade para actualizar ou fazer uso pleno do potencial que se possui.

De facto, tudo indica que a nossa condição espiritual teria, pelo menos, alguns efeitos importan-
tes em qualquer um destes critérios.

No entanto, a validade da dimensão espiritual da saúde depende da nossa crença na existência
de forças espirituais e a natureza e forma particular do funcionamento das mesmas. Numa épo-
ca em que a ciência se rege pelo método científico, em que existe a necessidade de tudo se expe-
rimentar e se comprovar são muitos os profissionais de saúde que duvidam da existência desta
dimensão.

Tudo indica que a grande dificuldade/resistência em aceitar a dimensão espiritual se deve,
então ao facto de:

• O trabalho para determinar a relação dos factores físicos, mentais e sociais no bem-estar
pessoal, remeter para o método científico – em que os princípios básicos da investigação
científica estão largamente estabelecidos e proporcionam a base para um tipo de linguagem
universal.

• Obviamente que o processo de determinar os efeitos das forças, quaisquer que sejam as
situações, variam grandemente de acordo com o padrão particular do observador relativa-
mente às suas crenças.
• A situação complica-se ainda mais, quando os que escrevem têm tendência a implicar, sem
esperança, os interesses psicológicos.
− É relativamente fácil demonstrar os benefícios para a saúde que se observam em muitas
pessoas devotas, que rezam regularmente
− Estas pessoas procuram alcançar a paz mental e isso pode ter forte influência na sua
pressão sanguínea e melhorar a sua digestão.
− Não obstante ter ou não havido intervenção de forças metafísicas ou se simplesmente
este é um exemplo de auto-sugestão, no qual participa um efeito de placebo, é de facto
difícil de saber.

2.1.2. Saúde holística

A saúde deve ser encarada numa perspectiva holística (como um todo) em que o indivíduo (físi-
co, mental e social) se insere num meio influenciado pelo contexto metafísico do Universo e
pelas dimensões seculares da saúde (ver Figura 1).

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Figura 1. Modelo holístico da saúde

2.1.3. Modelo “Dinâmica da Saúde”

Este modelo tenta dar resposta a questões do género:

• Como é que se determina a presença da saúde?
• O que é que as pessoas saudáveis fazem ou sentem melhor que as pessoas doentes?

Estas questões remetem para a dinâmica da Saúde e podem referir-se ao seu verdadeiro signifi-
cado melhor que as dimensões atrás apresentadas.

a) Sentimentos subjectivos

Milton Terris identifica dois aspectos principais da saúde:

“…um subjectivo e outro objectivo. O aspecto subjectivo relaciona-se com o sentir-se bem,
enquanto que o aspecto objectivo se refere à capacidade de funcionar” (Terris, 1975, p.
1038)

A qualidade de “sentir-se bem” como critério da Saúde não é apenas uma forma directa e franca
mas igualmente única quanto ao potencial controlo que atribui ao indivíduo sobre a sua própria
saúde.

Mesmo quando influenciados por uma miríade de estímulos externos, os seus sentimentos pes-
soais vão ser originados na mente do indivíduo.

De acordo com este ponto de vista, as percepções tornam-se mais importantes, para a saúde,
que a realidade das nossas próprias circunstâncias. Precisamente por isso, pessoas como Helen
Keller (altamente incapacitadas), cega e surda, podem ser catalogadas num nível elevado, de
acordo com este critério, enquanto que muitos outros indivíduos “clinicamente saudáveis” se
convertem em seres profundamente deprimidos ou com tendências suicidas que se cataloga-
riam a um nível muito próximo do mais baixo.

Atribuir um elevado valor ao critério dos sentimentos subjectivos, equivale a dar uma grande
importância à componente psicológica da saúde e relegar para segundo plano a condição física.

Mesmo quando poucos Educadores para a Saúde dividem a sua opinião quanto à importância do
“sentir-se bem”, a maioria sente-se mais confortável quando esta condicionante subjectiva se
verifica, de novo, através de alguns indicadores da condição física do sujeito, dos seus antece-
dentes funcionais ou da presença de ambos.

b) Bem-estar de alto nível

Halbert Dunn idealizou um conceito verdadeiramente positivo para a saúde – bem-estar de alto
nível – e refere que: “o bem-estar, no sentido empregue actualmente, significa algo bastante dife-
rente de boa saúde. A boa saúde pode existir como um estado relativamente passível de estar
livre de sofrimento, no qual o indivíduo se encontra em paz com o seu ambiente.”

Dimensões seculares da Saúde

Contexto Metafísico do Universo

Físico

Mental

Social

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Assim, o bem-estar de alto nível para o indivíduo pode ser definido como um método de funcio-
namento integrado que se encontra orientado para maximização do seu potencial, dentro do
ambiente em que decorre o seu desempenho. (Dunn, 1977, p. 7)

Fazendo o ponto de situação pode-se afirmar que, até aqui, a saúde foi definida em termos de: 1)
bem-estar geral; 2) sentimentos subjectivos e 3) capacidade para resistir à doença e se adaptar
às mudanças. Com esta definição Dunn introduz um quarto ponto de vista, que equivale à analo-
gia de um método de desempenho que permite uma produtividade máxima. O que implica que a
boa saúde se transforme numa condição que torna possível que um determinado indivíduo pro-
grida ao máximo, no alcançar das suas metas de vida2
.

2.2. Doença

O conceito de doença, pode ser encarado como um “estado objectivo, ou subjectivo, mas de causa
identificável ou reconhecível, caracterizado por um funcionamento deficiente do organismo,
órgãos ou sistemas orgânicos, traduzido por sintomas ou sinais clínicos de índole anatómica,
fisiológica, bioquímica ou psicológica, geralmente acompanhados de sofrimento”. Pelo que foi
referido nesta última definição facilmente se percebe que a doença se distingue do sindroma já
que este é um conjunto de sintomas de falta de saúde sem causa específica determinada, e de
enfermidade, porque esta tem um sentido menos preciso de falta de saúde definida e pode signi-
ficar apenas um estado imperfeito de saúde (e.g., caso de surdez, falta de vista, ou de um mem-
bro, etc.).

2.2.1. Doença e sofrimento

Milton Terris diferencia os termos doença e sofrimento. Considerando que a doença é o defeito
ou mau funcionamento dentro do organismo, enquanto que, sofrimento é a apresentação visível
de sintomas que nos fazem sentir aflitos, preocupados ou mesmo deprimidos.

O sofrimento pode apresentar-se sem doenças. O sofrimento e as doenças são mutuamente
exclusivas, no entanto a saúde e o sofrimento não o são... já que a saúde e a doença podem coe-
xistir, não podemos construir uma continuidade que demonstre a sua relação (Terris, 1975, p.
1037).

2.3. Estados de Saúde ou Doença

René Dubos, microbiólogo, vai considerar que: “os estados de saúde ou doença são a expressão
do êxito ou fracasso sofrido pelo organismo, no seu esforço de responder e se adaptar às
mudanças do meio ambiente” (Dubos, 1965, p. 17). Ainda segundo ele, as mudanças do meio
ambiente referem-se a qualquer ameaça ao bem-estar do indivíduo.

Por exemplo, duas pessoas podem sentir-se e ser magníficas no seu desempenho no trabalho,
em actividades sociais e recreativas e, nada impede que, uma delas possa apresentar uma pres-
são elevada, o que contribuiria, sem dúvida, para o aparecimento de uma doença cardíaca pre-
coce.

Ou ainda, pode parecer que duas mulheres gozam de boa saúde, apesar disso, é possível que uma
delas tenha um cancro sem apresentar sintomas durante um ano ou mais. Outro exemplo, um
jovem pode apresentar uma perturbação de personalidade que o torne “propenso a sofrer aci-
dentes” mesmo que, no momento presente, ele se encontre a recuperar do seu último “percalço”
é, óbvio, que esse seu potencial para sofrer lesões, mesmo que no futuro, lhe vai reduzir a sua
actual condição de saúde.

3. PROMOÇÃO DE SAÚDE

A OMS, em 1991, considerava que, nos últimos anos, se atribuía uma maior importância aos
factores sociais e ambientais, na mediação da saúde. Pelo contrário, mais recentemente, vem-se
assistindo a uma maior ênfase dos factores psicológicos (tais como, stress e personalidade) e
espirituais, no estado de saúde.

2

Veja-se a analogia com a Teoria Humanista, nomeadamente a progressão no atingir dos diversos objecti-
vos (movidos pela motivação) preconizados e hierarquizados por Maslow, na sua Pirâmide das necessida-
des.

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Há estudos que comprovam que os resultados de saúde considerados relevantes para a promo-
ção da saúde são consequência de uma complexa interacção entre factores biológicos, sociais,
ambientais e psicológicos (outros autores acrescentam, a estes últimos, os factores espirituais).

Por exemplo, Carroll, Bennett e Davey Smith (1993), chegaram à conclusão que a classe social
pode influenciar, pelo menos em parte, a saúde e isto porque se verifica, efectivamente, uma
distribuição desigual de oportunidades de vida e de stress, em sociedade.

Ames e Janes (1987), por seu lado, verificaram com os seus estudos, que o stress no trabalho
está associado a taxas mais elevadas de consumo de tabaco.

Lee e Owen (1985) consideravam que o acesso limitado às instalações de lazer, podia estar na
origem do fraco envolvimento em programas de exercício ou mesmo reduzir a motivação para...

A Promoção da Saúde constitui o objectivo central da Educação para a Saúde já que visa criar
condições que permitam aos indivíduos, e grupos, controlar a sua saúde, ao mesmo tempo que
agem sobre os factores que a influenciam (Carta de Ottawa, 1986).

A promoção da saúde é feita com base na análise de estilos de vida, e comportamentos de risco,
os quais podem ser considerados como determinantes da saúde (e.g., consumo de drogas, álcool,
tabaco, maus hábitos alimentares, sedentarismo, má gestão de stress, comportamentos sexuais
desprotegidos, etc.).

3.1. Estilos de Vida

Hamburg, Elliot, e Parron, (1982) chegaram à conclusão que 50% das mortes prematuras que
ocorrem nos países ocidentais se devem, quase exclusivamente, aos estilos de vida. Assim, por
exemplo:

• Os fumadores reduzem a sua esperança de vida, em média, 5 anos;
• Os indivíduos com estilos de vida sedentária reduzem a sua esperança de vida, em média,
em 2 ou 3 anos.

De uma forma resumida, pode-se afirmar que existem quatro comportamentos, em particular,
que estão associados à doença: o abuso do tabaco, o uso do álcool, a má nutrição e a falta de
exercício – McQuenn (1987) define-os como os “quatro sagrados”. A esta lista de factores de
risco, foi acrescentada, por razões óbvias, a actividade sexual de alto risco.

3.2. Qualidade de Vida

A qualidade de vida é definida pela OMS, como:
“…a percepção do indivíduo, da sua posição na vida no contexto da cultura e sistema de
valores, nos quais ele vive e, em relação aos seus objectivos, expectativas, padrões e preo-
cupações”. (WHOQOL Group, 1998)

Ainda segundo a OMS (1993), a qualidade de vida é afectada de forma complexa:
− Pela saúde física do indivíduo,
− Pelo estado psicológico,
− Pelas relações sociais,
− Pelo nível de independência e
− Pelas suas relações com as características mais relevantes do seu meio ambiente. (whoqol

group, 1993)

Pais Ribeiro (1994), considera que a qualidade de vida está intimamente relacionada com a
saúde. E a sua avaliação, ao nível da saúde, relaciona-se com a questão de saber se:
• Os indivíduos que vivem com uma doença crónica conseguem viver o dia a dia com a
mesma facilidade e grau de satisfação que as pessoas que não sofrem de nenhuma doen-
ça.

Ainda de acordo com este autor, melhorar a qualidade de vida dos doentes é tão importante
como prevenir a doença, alcançar a cura, aliviar sinais e sintomas ou prevenir as complicações
ou a vida.

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3.3. Hábitos dietéticos

Perto de um milhão de pessoas demonstra a elevada importância do papel dos níveis de coles-
trol como principal factor de risco de doenças coronárias ou A.V.C. (acidente cardiovascular)
(Law, Wald, & Thompson, 1994).

Sabe-se que os níveis de colestrol no sangue são significativamente influenciados pela ingestão
dietética de gorduras.

A dieta está, igualmente, ligada ou associada ao cancro. Austoker (1994) sugere que, por exem-
plo, até 25% das mortes por cancro se devem a factores dietéticos, entre eles a elevada quanti-
dade de gordura, o baixo consumo de fibras e a inadequada ingestão de vitaminas e minerais.

Como factores de risco, salientam-se: o consumo exagerado de carne, gordura total, gordura
saturada, e a comida conservada e o sal. Por outro lado, como factores protectores, tem-se: a
fruta, os vegetais, as fibras, os antioxidantes, os óleos (ou gorduras) de peixe e o cálcio.

É interessante verificar que, por exemplo, os fumadores podem reduzir o seu risco de cancro de
pulmão se a sua dieta incluir níveis elevados de antioxidantes, que se encontram na fruta e nos
vegetais. E que, inversamente, uma dieta pobre em fruta e vegetais, combinada com uma eleva-
da ingestão de álcool, aumenta, significativamente, o risco em relação ao cancro da boca, da
faringe e do esófago (OMS, 1990).

3.4. Tabaco

As consequências nefastas do tabaco para a saúde são, hoje em dia, amplamente reconhecidas.
Este é considerado responsável por:
• 25%, de todas as mortes por doença coronária;
• 80%, dos casos de doença obstrutiva crónica das vias aéreas;
• 90%, das mortes devidas a cancro de pulmão;
• Sendo ainda um factor altamente importante no desenvolvimento de cancros da laringe,
cavidade oral, esófago, pâncreas e bexiga (Smith & Jacobson, 1988).

As consequências do tabaco para a saúde, tornam-se evidentes ao longo de períodos de tempo
relativamente dilatados e a actual morbilidade reflecte alterações de hábitos de consumo de
tabaco que se enraizaram há, mais ou menos, trinta anos atrás (associado ao progressivo
aumento do consumo de tabaco, por parte das mulheres, a partir dos anos de 1970, aquando da
emancipação da mulher, época do “sexo, drogas e Rock & Roll”).

3.5. Álcool

O consumo excessivo de álcool pode ter consequências negativas sobre a saúde do indivíduo
quer a curto quer a longo termo. Por exemplo, o Royal College of General Practitioners (1986)
chegou a resultados impressionantes.
• Cerca de 40 000 pessoas morrem prematuramente como consequência da ingestão de
álcool em excesso.

A cirrose hepática é a doença mais frequentemente associada ao consumo excessivo de álcool,
no entanto, a maior parte das mortes resulta de cancro (Anderson et al., 1993). São atribuídos
ao consumo excessivo do álcool:
• 3%, de todos os cancros.
• O cancro do esófago, apresenta uma expressão mais dramática, aumenta 44 vezes quando
se combina com o consumo de tabaco em excesso (Smith & Jacobson, 1988).

O consumo excessivo de álcool tem igualmente custos sociais graves, e, para além das conse-
quências físicas há ainda a considerar as psicológicas.

Atribuem-se ao seu consumo excessivo:
• 20%, de todos os internamentos psiquiátricos.
• 60%, dos parassuicídios;
• 30%, dos divórcios;
• 40%, dos incidentes de violência doméstica. (Royal College of Psychiatrists, 1986).

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3.6. Exercício físico

Outro dos indicadores ou determinantes de saúde utilizado é a prática de exercício físico regu-
lar. Os níveis de exercício físico são encarados como promotores da saúde, aumentando a espe-
rança de vida. Um estudo levado a cabo em Harvard por um período de 16 anos com licenciados,
verificou que aqueles que praticavam exercício físico e que gastavam em média 2000 kcal de
energia em actividades de tempo livre activo, viveram em média dois anos e meio mais do que
aqueles que foram classificados como inactivos ou sedentários (Paffenbarger et al., 1986).

Os que praticam exercício físico tendem a ser, homens jovens, do grupo sócio-económicos médio
alto ou elevado, ou indivíduos que já praticaram exercício. Os que têm menos probabilidade de
praticar exercício físico pertencem a meios sócio-económicos mais baixos, são, geralmente,
indivíduos mais velhos e que apresentam factores de risco associados, nomeadamente, obesida-
de e hábitos tabágicos.

Os obstáculos há prática de exercício físico relacionam-se, regra geral, com falta de tempo, falta
de apoio dos familiares ou amigos e incapacidade percepcionada resultante de envelhecimento,
a estes ainda se acrescenta a não disponibilidade económica (e.g., para se inscrever num giná-
sio).

3.6. Stress

O stress deve ser, antes de mais, entendido como um processo que envolve uma interacção com-
plexa entre factores ambientais, psicológicos e fisiológicos.

Em termos fisiológicos são duas as divisões do sistema nervoso autónomo: simpático e paras-
simpático. Em alturas de stress é activado o sistema simpático, o qual está relacionado com a
excitação, enquanto que, em alturas de relaxamento o sistema que domina é o parassimpático
(que acalma ou reduz a excitação).

Este processo de activação envolve três fases: alerta (conduzida primariamente por processos
simpáticos), resistência (mediada por alterações hormonais) e exaustão (que ocorre quando as
reservas adaptativas se esgotam).

Bennet, 1995, chegou à conclusão que a contínua (ou persistente) hiperactivação do sistema
nervoso simpático pode contribuir para o desenvolvimento de doenças crónicas tais como:
doença coronária, alterações cutâneas, diabetes e várias afecções gastrointestinais.

Em termos psicológicos foi elaborada uma escala em que são exploradas as relações entre acon-
tecimentos de vida semelhantes que implicam o mesmo grau de stress em todos os indivíduos.
No entanto, esta não explica as diferenças individuais verificadas, não tem em consideração o
suporte/apoio familiar ou de amigos para lidar com o stress causado. Facilmente nos apercebe-
mos que estes factores podem e influenciam seguramente a forma como o sujeito vai reagir ao
stress, já para não falar da personalidade do indivíduo (e.g., alguém com baixa auto-estima,
muito inseguro face a uma situação geradora de stress irá reagir com elevados níveis, alguém
bem estruturado em termos afectivos, seguro de si, provavelmente irá ponderar a situação com
mais calma – reagindo com níveis menos elevados de stress). Cohen (1988) considera que o
suporte familiar ou de amigos pode constituir-se num potente factor de protecção contra os efei-
tos psicológicos e físicos dos acontecimentos vitais causadores de stress.

3.6.1. Modelo transaccional de stress

Lazarus e Falkman (1984) identificaram o stress como um processo em que acontecimentos
ambientais e cognitivos se combinam, com consequências de tipo comportamental, fisiológico e
psicológico. O modelo é transaccional na medida em que os processos são bi-direccionais. Por
exemplo, o ambiente pode levar a uma resposta de stress, mas o ambiente também pode ser
modificado pelo indivíduo, de tal forma que irá moderar ou reactivar ainda mais os efeitos
potencialmente adversos.

Estes autores preconizam que a primeira fase do processo de stress é formada por um aconte-
cimento ambiental, cujo significado é avaliado pelo indivíduo, em termos do seu potencial de
nocividade ou ameaça ou perigo. Se o acontecimento não envolve qualquer potencial ameaçador
o indivíduo não vai elaborar nenhuma resposta cognitiva suplementar – a resposta de stress
não é activada.

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Quando, pelo contrário, o acontecimento é avaliado como causador de um possível dano vai ser
elaborado pelo sujeito um segundo processo de avaliação, no qual o indivíduo verifica se possui
ou não as competências ou capacidades necessárias para lhe fazer frente. Quando conclui que é
capaz de lidar eficazmente com a ameaça, não activa a resposta de stress, mas se considera que
as exigências da situação são superiores aos recursos que dispõe, nesse caso, vai ser desenca-
deada uma resposta de stress, da qual fazem parte a experiência efectiva do stress (incluindo
sentimentos de ansiedade ou angústia) – esta situação irá ser mediada pelo sistema simpático e
é originada alguma forma de comportamento associado ao stress.

Para gerir situações de stress foram identificadas respostas específicas de coping, que são de
dois tipos.

O coping centrado no problema, que é uma estratégia que “obriga” o sujeito a lidar com a fonte
do stress, em sucessivas tentativas, e cujo objectivo final consiste o levar a ser capaz de a modi-
ficar (superar).

O coping centrado nas emoções, verifica-se quando o indivíduo tenta reduzir as consequências
emocionais negativas do agente causador de stress, sem, no entanto, enfrentar a causa inicial
do mesmo. Por exemplo, esta última estratégia pode consistir em evitar a causa do stress ou não
pensar nela, ou, ainda, em usar comportamentos como beber e fumar (encarados pelo indivíduo
como redutores de stress).

Conkite e Moos (1984) consideram que o grau de eficácia dos processos de coping, no que res-
peita à moderação do impacte dos agentes ambientais de stress é mais importante, como factor
de predição de saúde e doença, do que a sua frequência e intensidade aparente.

4. SERVIÇOS DE SAÚDE

Os serviços de saúde são formas organizadas de acções, instituições prestadoras de cuidados de
apoio à saúde e de luta contra a doença nas populações de um país, região, local ou família. Têm-
se desenvolvido como tendência para:
− Integração em sistemas de saúde mais ou menos estruturados e hierarquizados
− Em adaptação às necessidades e
− Conforme a política de saúde adoptada por cada país para os orientar e controlar (depende
dos conceitos políticos dominantes; oscilando entre formas de livre iniciativa ou de sociali-
zação ou, ainda, de índole mista na sua aplicação)

5. SAÚDE PÚBLICA

A saúde pública estuda a saúde e doença em populações humanas.

Ao contrário da medicina clínica, centrada na assistência médica aos indivíduos, a medicina
populacional tem como foco de intervenção a preocupação com a saúde da comunidade.

Figura 2. Áreas de intervenção específica, ao nível dos indivíduos e dos grupos

O estudo da Saúde Pública requer técnicas e habilitações específicas, que são fornecidas pela

Epidemiologia.

6. POLÍTICA DE SAÚDE

A política de saúde é considerada como o conjunto de opções fundamentais, de ordem governa-
mental ou social, nas quais se estabelece o carácter público, ou não, da responsabilidade pela
saúde da população e o correspondente grau de:

Tratamento

Medicina

Educação para a Saúde

Pesquisas em saúde

Saúde Pública

Indivíduos

Grupos

Prevenção

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• Universalidade para todos os grupos beneficiados;
• Integralidade e equidade – extensão dos cuidados e seu acesso;
• Gratuitidade – total, parcial;
• Planificação – elaboração de esquemas funcionais e programas de actividades, avaliação de resulta-

dos;

• Modalidade de trabalho a efectuar pelos serviços de saúde.

A política de saúde deve ser encarada como parte integrante da política geral do país e em que
se procura que seja garantido o direito à saúde e fomentado o dever de cooperação de cada pes-
soa na sua segurança e promoção social, quer no que diz respeito à vida individual e familiar,
como em relação à das comunidades.

A saúde na sociedade civilizada necessita de ser protegida e promovida, aos mais altos níveis,
para se transformar no factor impulsionador do desenvolvimento económico, social e cultural, e
uma base ou via para o progresso e bem-estar.

7. EPIDEMIOLOGIA

Ao estudar a palavra epidemiologia:

• Epi + demos + logos,

chegamos à conclusão que é

• Estudo de algo que afecta a população
Last (1992) define epidemiologia como sendo: “o estudo da distribuição e dos determinantes de
estados ou acontecimentos de saúde em populações especificadas, bem como a aplicação deste
estudo ao controlo dos problemas de saúde.”

O estudo da doença, na sua vertente epidemiológica, não é uma preocupação exclusiva dos dias
de hoje, remonta a Hipócrates (470-400 a.C.) que registou várias observações epidemiológicas e
considerou diversos factores como causa da doença. No final de séc. XVII, generalizou-se o uso
de métodos epidemiológicos para investigar a ocorrência de doenças. E no decurso do séc. XX,
os Métodos tornaram-se extensivos às doenças não infecciosas.

Por exemplo, é graças à Epidemiologia que, no final dos anos de 60 (do sec. XX), se verifica a
completa erradicação da varíola (por vacinação).

Façamos a análise do que é a epidemiologia a um outro nível:
• Se a epidemiologia “é o estudo...”, então, implica um método...
• “...da distribuição

Porque se preocupa com a frequência (contabiliza o número de casos) e o padrão (tempo,
lugar e características pessoais como a idade, o sexo...) de acontecimentos de saúde.

• “e dos determinantes...”

Utilizada para procurar as causas que influenciam o aparecimento dos estados de saúde.
• “ de estados ou acontecimentos de saúde...”
Presentemente usam-se métodos epidemiológicos na generalidade das doenças e até
para estudar comportamentos (de risco, tais como: fumar, beber em excesso, tomar dro-
gas, etc.; exercício físico de populações específicas, hábitos alimentares...)
• “em populações específicas...”
a preocupação é a saúde colectiva de todas as pessoas numa comunidade ou área.

A Epidemiologia relaciona-se com a reunião e análise de tipos variados de informação que
envolve os aspectos que contribuem para o aparecimento da doença: agente, hospedeiro,
ambiente.

Por exemplo o agente é o factor necessário para o aparecimento da doença (e.g., vírus da gripe é
o agente da gripe) mas não é o suficiente para que ela de facto surja. O hospedeiro é o factor
ligado à susceptibilidade de cada um, bem como às suas características imunológicas, e que,
quer umas quer outras podem sofrer alterações, ao longo da vida. E por, fim, mas não menos
importante, o ambiente, traduz, geralmente, outros factores relacionados com a distribuição
geográfica (tais como: clima, dieta, etc.).

Os objectivos gerais da Epidemiologia podem ser descritos da seguinte forma:

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• Descrever a distribuição e a magnitude dos problemas de saúde nas populações humanas;
• Proporcionar dados essenciais para o planeamento, execução e avaliação das acções de pre-
venção, controlo e tratamento de doenças, assim como para estabelecer prioridades;
• Identificar factores que causam as doenças.

O seu trabalho passa por anotar o que se está a passar (à nossa volta) e tentar obter algumas
conclusões, no que concerna à natureza de quaisquer potenciais relações de causalidade que se
possam descobrir.

7.1. Campos da Epidemiologia

O método a utilizar depende da hipótese que se pretende estudar e, consoante o método e o pro-
blema a estudar, assim estamos no âmbito de um dos três grandes ramos da Epidemiologia: des-
critiva, analítica ou avaliativa.

7.1.1. Epidemiologia descritiva

A Epidemiologia descritiva estuda a repartição e frequência de problemas de saúde na popula-
ção. A Epidemiologia analítica procura as causas dos problemas de saúde e estuda o papel dos
factores susceptíveis de intervir na aparição da doença. Esta é a Epidemiologia que foca a sua
atenção nos resultados das acções de saúde na comunidade.

A Epidemiologia descritiva utiliza como método o estabelecer taxas do número de pessoas que
apresentam determinada característica, face ao número total da população. E utiliza essas
taxas para estudar a frequência e repartição dos problemas em função das características das
pessoas, da sua distribuição geográfica ou da sua evolução no tempo (e.g., quem está mais pro-
penso a contrair a gripe, e em que época do ano há uma maior incidência de casos). As variáveis
geralmente consideradas são: espaço (região ou país); tempo (mais frequentes no ano de 2002
ou 2004); características (mais frequente entre as crianças em idade escolar, ou nos idosos; nos
homens ou nas mulheres; etc.).

7.1.2. Epidemiologia analítica

A Epidemiologia analítica procura identificar as causas para os problemas de saúde, o método
que utiliza é o da comparação de grupos expostos, de diferentes formas, ao mesmo factor. São
feitas comparações da frequência e intensidade de exposição a factores que podem causar doen-
ças (mede-se a intensidade do efeito).

7.1.3. Epidemiologia avaliativa

A Epidemiologia avaliativa preocupa-se basicamente com os resultados obtidos das diversas
acções e das intervenções desenvolvidas no âmbito da saúde na comunidade.

Para proceder aos seus estudos a epidemiologia vai socorrer-se de indicadores de saúde, tais
como: mortalidade (taxas de mortalidade bruta e de mortalidade específica), morbilidade (taxas
de incidência e prevalência) e esperança de vida.

7.2. Âmbito de estudo

Pode-se afirmar que a Epidemiologia se reveste de um carácter marcadamente populacional ou
“massificador”. Dirige-se basicamente, “ao comportamento da doença e da invalidez”, tendo
como finalidade “elaborar diagnósticos colectivos e estimativas de riscos de morbilidade e mor-
talidade” (Leavell & Clark, 1977). Ao assumir esta dimensão, a Epidemiologia transforma-se no
“instrumento fundamental de diagnóstico do estado de saúde das sociedades e das espécies” (Da
Agra, 1986, p. 312).

Aprofundar as causas dos processos patológicos através da observação do “comportamento de
grupo dos síndromes clínicos nas populações” (Leavell & Clark, 1977), identificar “sinais” de
saúde ou de doença nas populações, efectuar uma descrição das condições de propagação da
saúde e da doença (Epidemiologia descritiva): tais são as finalidades essenciais associadas a
esta abordagem.

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O foco da observação é, deste modo, um grupo de indivíduos (afectados ou não) ou determinados
“fenómenos colectivos”, considerados em termos do tipo, extensão e frequência da sua ocorrên-
cia.

A abordagem epidemiológica situa-se, assim, na linha dos objectivos propostos pela saúde públi-
ca e medicina preventiva. Ao sugerir um método sistemático de descrição da ocorrência e dis-
tribuição, na população, da saúde e da doença, esta perspectiva fornece, igualmente, meios
indispensáveis para que aquelas disciplinas possam colocar em prática estratégias de interven-
ção específicas.

O método epidemiológico envolve um procedimento idêntico ao utilizado pelo método clínico, na
medida em que tenta estabelecer um diagnóstico individual deslocando, no entanto, a importân-
cia atribuída ao sujeito, considerado individualmente, para “totalidades populacionais e
macrossociais” (Da Agra, 1986).

A análise epidemiológica permite, deste modo, que dados relacionados com os factores ligados
ao agente, hospedeiro e meio ambiente, bem como conhecimentos relativos à história natural de
uma doença sejam “agregados” para “planificação dos problemas de saúde da comunidade” ou
para “determinação das medidas preventivas aplicáveis”.

8. EDUCAÇÃO PARA A SAÚDE

Para se promover a saúde é necessário consciencializar os indivíduos que estão, não raras
vezes, a adoptar estilos de vida que incorrem na adopção de comportamentos de risco, sejam
eles, por exemplo, ao nível maus hábitos alimentares (quantidades excessivas de gorduras, açú-
car, sal, etc.), ou no consumo/abuso de substâncias que tornam o indivíduo dependente (e.g.,
álcool, drogas, tabaco), ou ainda relações sexuais desprotegidas, etc. Uma vez erradicados os
comportamentos de risco o indivíduo tende a tomar “as rédeas da sua vida, que é como quem
diz, da sua Saúde”, adoptando comportamentos que promovem a saúde e previnem a doença – e
isso, obviamente, implica uma (re)aprendizagem de novos estilos de vida ou de novos compor-
tamentos que promovem uma maior qualidade de vida, está-se então no domínio da Educação
para a saúde.

Sabendo, que grande (senão a maior) parte da aprendizagem do ser humano é feita de forma
“informal” através da experiência (de vida, profissional, social, etc.) é de privilegiar esta mesma
experiência individual para incentivar/motivar o indivíduo a alterar as suas crenças3

, atitudes

ou comportamentos, ou estilos de vida.

Pode-se definir o conceito de Educação para a Saúde como “toda e qualquer associação de expe-
riências de aprendizagem planificada, que visam a facilitação da mudança voluntária”, de tal
modo que o indivíduo é levado a, voluntariamente, adoptar comportamentos (mais) saudáveis.
Esta definição parte do pressuposto de que existe um estudo ou projecto prévio, que tem como
objectivo motivar os indivíduos a aderir a experiências de aprendizagem que lhes permitam
integrar aspectos: cognitivos (saberes, conhecimentos), afectivos (atitudes, crenças e valores),
e psicomotores (capacidades) do comportamento que se pretende venha a ser adoptado, cujo
objectivo major é melhorar ou prevenir prováveis (possíveis) problemas, futuros, de saúde.

A Educação para a Saúde pretende alcançar um significativo aumento da saúde positiva
(desenvolvimento físico, psicológico e social) e prevenir ou diminuir, substancialmente, os efei-
tos/consequências da saúde negativa (morbilidade e mortalidade), influenciando-se as crenças,
atitudes e comportamentos dos sujeitos. Este trabalho, para surtir um maior efeito, deverá ser
levado a cabo no âmbito de uma equipa, tanto quanto possível, multidisciplinar, com formação
específica em educação (e comunicação) para a saúde.

Tendo em mente que a educação para a saúde tem como principal objectivo melhorar a saúde
dos indivíduos, em geral, então, um projecto de intervenção deverá ter como fundamento de
base qual o público-alvo, embora possam ser apenas alguns indivíduos específicos (por exemplo,
quando se educa indivíduos com Diabetes Mellitus a melhor viver – e conviver – com a doença).

8.1. Prática de Educação para a Saúde

Para a OMS a prática da educação para a saúde envolve seis grandes áreas.

3

Entendidas como opiniões que se adoptam com fé e convicção.

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8.1.1. Planeamento e execução

O planeamento e execução envolvem etapas como:

• Formulação de políticas (os programas devem: ser integrados em projectos globais, de acordo com as
políticas de saúde e estratégias de execução; reflectir as aspirações/expectativas dos indivíduos e
permitir o contributo individual e comunitário na sua prossecução);
• Formulação de estratégias (devem ser feitos esforços no sentido de se desenvolverem um número
razoável de abordagens opcionais que cubram as áreas de intervenção e actividades e que permitam a
correcta avaliação dos recursos existentes, e deve ser atribuída uma elevada importância ao impor-
tante papel que o envolvimento comunitário tem no desenvolvimento deste tipo de programas, bem
como a importância do trabalho em equipa, preferencialmente, multidisciplinar);
• Planeamento e programação (em que se vão delinear os objectivos a atingir num determinado período
de tempo, com determinados recursos disponíveis);
• Implementação (a ter em consideração que se devem criar oportunidades para os sujeitos aprenderem
a identificar e analisar a sua saúde e os problemas relacionados com a mesma; a informação deve ser
acessível, e deve indicar vias alternativas de resolução de problemas de saúde, específicos, devida-
mente identificados, e que os sujeitos possam aprender a estabelecer as prioridades relativamente aos
diversos problemas de saúde);
• Acompanhamento (todo e qualquer projecto deve ser acompanhado por forma a assegurar que as acti-
vidades foram desenvolvidas dentro dos prazos previamente estabelecidos, cumprindo-se assim a
actividades programadas);
• Formação (deve ser proporcionada formação específica aos sujeitos recrutados para a aplica-
ção/desenvolvimento das acções de educação para a saúde).

8.1.2. Questões éticas

Durante o planeamento das actividades em educação para a saúde, devem ser tomadas em con-
sideração algumas questões éticas, nomeadamente:

• Necessidade de se promover o respeito e integridade do indivíduo e comunidades e de ver aumentada
a sua autonomia;
• Fornecer informação que permita aos sujeitos tomarem as suas opções em consciência;
• Serem sensíveis às preferências, expectativas, prioridades individuais e comunitárias;
• Evitar, a todo o custo, acções que promovam valores diferentes dos da comunidade em questão (por
exemplo, ter em atenção que há valores culturais diferentes entre diversas etnias, pelo que as acções
devem ser dirigidas e adaptadas ao público-alvo).

8.1.3. Informação e comunicação

Os cuidados primários têm como função informar as pessoas sobre:

• Os problemas de saúde e métodos mais adequados de prevenção e controlo;
• Formas alternativas de comportamento, para que os indivíduos possam fazer escolhas conscientes e
aceitar as consequências dos seus actos.

8.1.4. Treino

Os profissionais de saúde e os intervenientes em programas ou projectos de educação para a
saúde, devem ser treinados para que desenvolvam competências específicas necessárias à boa
aplicação e desenvolvimento das acções. Para serem capazes de:

• Não se preocuparem apenas e só com a prevenção e controlo das doenças, mas igualmente com o
desenvolvimento global do sujeito;
• Promoverem um diálogo entre os prestadores de cuidados e os sujeitos (utentes) em geral;
• Assumirem e ser capaz de defender a causa da saúde.

8.1.5. Avaliação

É de extrema importância proceder-se à avaliação periódica da execução de um projecto de
educação para a saúde, com o objectivo de ter um conhecimento fidedigno das metas alcançadas
e da eficácia das medidas tomadas ou implementadas.

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8.1.6. Investigação

A investigação tem como principal objectivo conhecer a realidade e visa uma, posterior, actuali-
zação ou criação de novos programas de educação para a saúde. Permite também concluir se as
políticas de saúde, os métodos de intervenção e as estratégias a serem implementadas são as
mais correctas ou indicadas para aqueles sujeitos específicos.

8.2. Acções em Educação para a Saúde

Levy (2000) considera que:
• a educação em saúde deve oferecer condições para que as pessoas desenvolvam o senso de
responsabilidade,

− Tanto por sua própria saúde,
− Como pela saúde da comunidade,

• Merecendo consideração como um dos mais importantes elos entre as perspectivas dos indi-
víduos, os projectos governamentais e as práticas de saúde.

Kawamoto (1993) e Levy (2000) ressaltam que:
• As acções educativas em saúde são processos que têm como objectivo

− Capacitar indivíduos e/ou grupos para participar, e assumir ou ajudar na melhoria das condições
de saúde da população.

8.2.1. Limitações de Programas em Educação para a Saúde da Família – um caso brasileiro

Rejane F. Moura e Rosiléa A. Sousa (2002) referem que, da sua experiência, como supervisoras
de Unidades Básicas de Saúde:

• É baixa a frequência das actividades de Educação em Saúde desenvolvidas por equipas de Programas
de Saúde da Família;
• Quando estas são realizadas, fazem-nas de maneira verticalizada com temas prontos permitindo pou-
ca ou nenhuma interacção com os utentes;
• A orientação individual oferecida por ocasião das consultas, restringe-se ao simples passar da infor-

mação;

• Denunciando problemas relacionados com a falta de conhecimentos, habilidades e atitudes dos profis-

sionais;
• Para a realização dessa actividade.

Collet e Rosso (1999), com base nas suas investigações chegaram à conclusão que os enfermei-
ros, não raras vezes, se limitam a:

• Passar de novo a informação;
• Não se debruçando sobre a realidade local (para tal bastava parar para reflectir);
• Tendo apenas em consideração as políticas oficiais de saúde.

Rejane F. Moura e Rosiléa A. Sousa (2002) investigaram as causas da baixa oferta de acções
educativas realizadas pelas equipas de Programa de Saúde da Família e identificar as principais
falhas no desenvolvimento dessas acções. Temos então que:

• Amostra: unidades básicas de 8 municípios, que compõem micro-região de saúde de Baturité
(Estado Ceará);
• Os resultados foram classificados em duas categorias:
− Oferta das actividades educativas, e condições físicas e de material de apoio à sua realiza-

ção;

− Falhas identificadas no desenvolvimento dos trabalhos com grupos.
• Oferta das actividades educativas
− Dos 8 municípios apenas 2 ofereciam actividades educativas;
− Na maioria dos serviços não existia uma sala apropriada à realização de actividades em

grupo;
− As sessões observadas decorreram em locais inapropriados:
• Pouca ou nenhuma privacidade, ventilação e iluminação precárias, quantidade insuficiente de
cadeiras, escassez do material de apoio (panfletos, desdobráveis, manual, etc.).

Os indivíduos da equipa ou funcionários identificaram como responsáveis pela pouca oferta de
actividades educativas os seguintes factores:

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• O elevado número de pedidos de consultas por parte dos utentes, deixa a equipa sem disponibilidade
para trabalho educativo;
• A população mostra-se resistente à participação nas acções educativas, valorizando o aspecto “curati-
vo” da assistência médica.
• A cobertura pelas equipas de Programa de Saúde da Família não atinge 100% do município;
• O que gera pedidos reprimidos para a assistência na unidade de saúde, sobrecarregando os profissio-
nais com actividades de assistência médica.
• Muitos dos profissionais por não disporem de espaço físico e material de apoio para o desenvolvimento
dessas actividades, não encontram motivação para as executar.

Outros profissionais afirmaram:

• Falta de habilidade para o trabalho com grupos, revelando timidez e inibição no desenvolvimento dessa

tarefa.

• Falhas identificadas no desenvolvimento dos trabalhos com grupos.

As actividades observadas foram realizadas por 3 enfermeiras e 1 médica.

• Uma das enfermeiras não seguiu os critérios preconizados pelo projecto de actividades de edu-
cação em saúde;
• O que demonstra a necessidade de formação profissional;
• Os outros membros acolheram o grupo cordialmente, apresentaram-se
− Mas não valorizaram o início da orientação pelo tema de maior relevância,
− Não ofereceram informações correctas sobre os temas e
− Utilizaram material de apoio de forma inadequada.

Em relação à estimulação do grupo para colocar questões

• Verificou-se um prejuízo devido à utilização de perguntas fechadas e induzidas;
• Que inibiram a participação dos “utentes”;
• A linguagem utilizada foi, regra geral, clara, embora alguns termos técnicos tenham sido uti-
lizados – o que constitui desde logo a introdução de “ruído” ao nível da comunicação, ao se uti-
lizarem termos técnicos quando se faz uma acção de educação em saúde o que sucede é que
grande parte dos ouvintes não vai compreender a mensagem na sua íntegra e, não raras
vezes, este é um factor que leva os sujeitos a desligarem-se da sua função de ouvin-
tes/”alunos” (perda de interesse, desmotivação, regressão para uma posição de maior resis-
tência à mudança, etc.);
• Numa das acções de educação em saúde
− A porta da sala foi mantida aberta, o que prejudicou grandemente:
− O barulho externo dificultou a audição das informações
− Dispersou a atenção do grupo
− E a falta de privacidade inibiu a participação e a troca de experiências.

Concluindo:

• A baixa oferta de actividades educativas para a saúde deve-se essencialmente a
− Insuficiente cobertura da população por equipas de Programa de Saúde da Família;
− Predomínio do modelo médico tradicional;
− Ausência ou inadequação de local para o desenvolvimento das actividades educativas;
− Insuficiente disponibilização de material de apoio;
− Despreparo e desmotivação dos profissionais.

Esta é uma realidade que não está muito distante daquela que caracteriza o nosso país. Também
aqui, muitas das acções de educação para a saúde, nomeadamente as desenvolvidas ao nível dos
Centros de Saúde acabam por não alcançar o êxito previamente esperado devido a factores que
se prendem com as razões atrás apontadas.

Kawamoto (1993) defende que, a educação em saúde deve basear-se na reflexão crítica do gru-
po quanto aos problemas e às acções necessárias à melhoria da qualidade de vida.

Almeida (2001) recomenda a sistematização da componente de educação em saúde, pelas equi-
pas de Programa de Saúde da Família:

− Sugerindo a aplicação de uma metodologia de educação popular,
− Formando grupos de interesses mútuos,
− Criando oportunidades para debates em comunidade e
− Promovendo a aproximação dos profissionais com os movimentos sociais.

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8.3. Intervenção Psicológica na Educação para a Saúde

A intervenção psicológica na educação para a saúde é muito importante, ela pode dar o seu con-
tributo a vários níveis, nomeadamente ao nível comunitário, de grupo ou mesmo individual.

8.2.1. Intervenção comunitária

A intervenção psicológica do tipo comunitário visa, obviamente, a comunidade4

. Este tipo de
intervenção torna-se necessário sempre que alguns, ou mesmo todos, os membros de uma
comunidade são afectados por um problema que não pode ser resolvido sem a colaboração de
terceiros, quer se esteja ao nível da promoção da saúde ou da prevenção da doença.

A intervenção comunitária exige, um profundo conhecimento da realidade com que se está a
lidar para se poderem adaptar os programas e respectiva informação à população alvo.

Recorde-se as diversas campanhas televisivas que têm sido lançadas nos últimos anos sobre
prevenção da SIDA, ou que alertam para os malefícios do consumo do álcool (nomeadamente
consequências ao nível alteração da percepção e dos tempos de reacção dos condutores alcooli-
zados), ou de promoção para a saúde em que se aconselha a beber leite para obviar/retardar
surgimento de algumas doenças (e.g., osteoporose), ou ainda campanhas que alertam para os
sintomas e incapacidade derivada de: esclerose múltipla, cancro da mama, cancro da próstata;
malefícios de maus hábitos alimentares (doenças cardiovasculares, colestrol, etc.)

• A mobilização do público é fundamental; constitui um factor decisivo e preponderante ao nível dos
resultados finais de uma intervenção do tipo comunitário;
• Facilmente se percebe que é importante criar as condições ideias para que os indivíduos se sintam
envolvidos, motivados e parte integrante, indispensável para a boa prossecução do projecto;
• Para uma aderência mais rápida da população (comunidade) à intervenção comunitária, é importante
conseguir o apoio dos líderes naturais (indivíduos mais influentes, cuja voz é ouvida pelos restantes
membros do grupo);
• E, não esquecer que todos os indivíduos devem ser esclarecidas sobre a quem se destina a o projecto,
quais as áreas que necessitam de intervenção, quais as actividades, a desenvolver, bem como quais os
objectivos a atingir;
• É então, altamente vantajoso que os membros da comunidade saibam qual a importância do projecto e
quais as vantagens ou benefícios secundários que o mesmo terá para a comunidade (mas também para
cada um dos indivíduos, isoladamente), quais as actividades a desenvolver assim como a forma de
participar.

8.2.2. Intervenção de grupo

O trabalho num grupo5

é uma das actividades mais importantes no campo da educação para a
saúde, já que os membros de um grupo mais facilmente podem aderir à mudança e exercer pres-
são sobre os outros membros, no sentido de também eles, individualmente adoptarem
determinados padrões de comportamento.

A intervenção num grupo é fundamental; as vantagens situam-se ao nível do reforço positivo,
encorajamento e identificação dos membros do grupo um mesmo problema. O trabalho em grupo
permite a utilização dos conhecimentos e das experiências dos seus diferentes membros, e, con-
sequentemente, uma aprendizagem que se baseia na troca de experiências e de ideias (veja-se,
por exemplo, a importância de associações como os Alcoólicos Anónimos – A.A., ou dos Pais e
Amigos da Criança com Deficiência Mental, etc.)

9. SAÚDE MENTAL E PREVENÇÃO

Analisando o percurso e vicissitudes das abordagens de prevenção da doença mental no decurso
das últimas três ou quatro décadas, parece legítimo admitir a existência de diversos momentos
de diferenciação e reorganização dos conhecimentos e práticas preventivas ao nível da Saúde
Mental.

De uma forma muito resumida, podemos afirmar que as intervenções preventivas se configu-
ram, a partir de inícios dos anos 60, na área da psiquiatria e da saúde mental exprimem simul-

4

Comunidade pode ser definida como: grupo de indivíduos com interesses comuns, com o sentimento de
pertencerem ao mesmo grupo com valores e um história em comum.

5

Grupo é um conjunto de duas ou mais pessoas com interesses comuns.

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taneamente, a “reabilitação” de conceitos e técnicas de intervenção desenvolvidas no quadro da
saúde pública, e um esforço de emancipação em relação às abordagens preconizadas pelo mode-
lo da saúde pública e da medicina preventiva.

Este movimento de emancipação e ruptura da psiquiatria face às propostas de intervenção pre-
ventiva elaboradas no domínio da saúde pública poderá ser, eventualmente, interpretado como
traduzindo uma certa inadequação desta abordagem no sentido de fornecer uma “resposta”
satisfatória aos problemas colocados pela prevenção de doenças mentais.

A um outro nível, a adopção de uma “filosofia preventiva” autónoma, no âmbito da psiquiatria e
da saúde mental, parece indissociável das transformações que atravessaram aqueles domínios a
partir de finais dos anos 50. Esquematicamente essas transformações reflectem uma crescente
decepção em relação aos métodos de intervenção e concepções teóricas que alimentaram as
práticas psiquiátricas “tradicionais”.

9.1. Psiquiatria preventiva

A psiquiatria preventiva pode ser definida como “um corpo de conhecimentos profissionais.
teóricos e práticos” que podem ser utilizados para reduzir:

• A incidência de todos os tipos de perturbação mental na comunidade – prevenção primária;
• A prevalência das doenças mentais, através da diminuição da duração de um determinado núme-
ro de casos estabelecidos – prevenção secundária;
• As sequelas resultantes das referidas perturbações mentais – prevenção terciária. (Caplan, 1964)

Ao analisar os pressupostos que fundamentam esta disciplina, verifica-se a existência de uma
ampla zona de convergência ao nível dos modelos explicativos da doença mental, princípios e
estratégias de intervenção preconizadas e a abordagem da saúde pública. Verifica-se ainda um
esforço em se aproximar da saúde pública em geral e por outro lado, uma nítida demarcação.

a) Convergência

A tendência que a psiquiatria preventiva tem em adoptar perspectivas, e técnicas de interven-
ção assim como princípios oriundos de uma abordagem de saúde pública, esta decorre basica-
mente do sucesso obtido pelos métodos de saúde pública na prevenção da doença nas
populações.

Os métodos adoptados em saúde pública envolvem basicamente:

• A identificação do agente nocivo e sua consequente eliminação ou “neutralização”;
• O fortalecimento do hospedeiro, aumentando a resistência dos indivíduos ao agente nocivo;
• A prevenção da transmissão, evitando que o agente entre em contacto com o hospedeiro.

As similitudes entre a abordagem preconizada pela psiquiatria preventiva e a a abordagem da
saúde pública reflectem-se, basicamente, na:

• Adopção de grelhas de análise e concepções sobre os fenómenos a prevenir, que acentuam a sua natu-
reza multi-causal;
• Na ênfase atribuída a intervenções focalizadas em “totalidades populacionais ou macro-sociais”;
• Na adopção de uma “pluralidade de olhares e métodos de intervenção” (Da Agra, 1986).

Caplan considera que é necessário analisar as perturbações mentais no quadro de “um sistema
de respostas ecológicas de uma população na sua interacção com o ambiente” (1964, p. 18).
Concede-se, deste modo, uma menor importância a factores como: “história pessoal do indiví-
duo”, “experiência de vida do sujeito”; para se dar especial realce a uma análise de doença men-
tal centrada no âmbito de processos de “influência social”, “papéis sociais” e de “contingências
ambientais” (este último termo proposto por Rioch, 1958).

Ao valorizar modelos explicativos da doença mental que enfatizam a natureza multi-causal, a
psiquiatria preventiva faz, igualmente, deslocar a atenção do indivíduo para as instituições e
condições ambientais que determinam o aparecimento de perturbações mentais específicas.
Deste modo, a perspectiva “comunitária” associada às intervenções neste domínio decorreria da
própria concepção sobre doença mental, que lhe está subjacente. Caplan é de opinião que, uma
intervenção a este nível (conjuntos populacionais) requer, necessariamente, ter em considera-
ção uma grande diversidade de padrões etiológicos bem como de “modalidades de prevenção,
tratamento e reabilitação” (1964, p. 11).

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b) Descontinuidade

Embora os programas de saúde pública tenham incluído a prevenção e o tratamento da doença
mental, como parte integrante das suas actividades, o modelo de saúde pública, mostrou-se, em
muitos aspectos, inadequado no sentido de atingir tais propósitos. Pelo que a Psiquiatria pre-
ventiva, neste sentido, se constitui como a expressão de um movimento de ruptura e de descon-
tinuidade em relação às concepções e métodos correntemente utilizados no âmbito de uma
abordagem de saúde pública.

A abordagem da saúde pública supõe um conhecimento dos factores relacionados com o agente,
hospedeiro e meio, na produção da doença, ao nível das interacções que ocorrem entre estes
três elementos, quer no período da pré-patogénese, quer no durante o curso natural da doença
(período da patogénese). Esses conhecimentos constituem-se como fundamentais no sentido de
possibilitar a aplicação de medidas de protecção específica. De salientar ainda que o conceito de
protecção específica representa o elemento crucial de qualquer programa de medicina preven-
tiva ou saúde pública.

A protecção específica diz respeito à prevenção, no sentido convencional do termo, e “com-
preende medidas aplicáveis a uma doença ou grupo de doenças específicas, visando interceptar
as causas das mesmas antes que elas atinjam os homens” (Leavell & Clark, 1977, p. 20).

A grande dificuldade em se transferir a protecção específica para o âmbito da prevenção da
doença mental prende-se essencialmente com o facto de muitos dos factores relacionados com o
agente, hospedeiro e meio serem largamente desconhecidos no que se refere às doenças men-
tais, quer no período pré-patogénese, quer na patogénese. A propósito disto, Caplan (1964) con-
sidera que o desconhecimento de dados acerca da etiologia das perturbações mentais como um
dos mais graves obstáculos, à elaboração de programas de prevenção primária eficazes nesta
área. Admite, no entanto, ser possível actuar “com base no nosso conhecimento parcial” (p. 28).

E vai propor um modelo conceptual alternativo que, segundo ele, possibilitaria avaliar e modifi-
car estratégias preventivas à medida que fossem sendo identificados os principais factores etio-
lógicos das diversas perturbações mentais. Este modelo baseia-se numa perspectiva dos
factores que condicionam o “desenvolvimento do estilo de vida geral da pessoa” (p. 31), a par de
uma visão essencialmente focada nas situações de crise periódicas que aparecem associadas a
“mudanças súbitas nos padrões de comportamento do indivíduo” (p. 31).

9.2. Teoria da Crise

A teoria da crise ao acentuar a importância de certos “acontecimentos” biossociais na vida dos
indivíduos, desloca, inequivocamente, a causalidade, do indivíduo para a interacção entre este e
o meio. Além disso, a teoria da crise faz ainda emergir uma área que situa na interface entre o
“normal” e o “patológico, mas em que a causalidade é, preponderantemente, “exterior” ao pró-
prio indivíduo.

O conceito de crise pode ser definido como: “Toda a situação de mudança a nível biológico, psico-
lógico ou social, que exige da pessoa ou do grupo um esforço suplementar para manter o equilí-
brio”.

9.3. Psicologia preventiva

A afirmação do domínio da psicologia preventiva tem, subjacente, duas tendências essenciais.
Por um lado, traduz a tendência para retirar ao conceito de doença mental uma certa hegeno-
mia que ocupara no âmbito da saúde mental. Mas exprime, igualmente, a influência crescente
de “modelos de aprendizagem” para explicar o comportamento “normal” ou desviante.

A outra tendência faz sobressair a ligação existente entre os sistemas sociais e as organizações
e o comportamento humano. Uma importância crucial é, deste modo, dedicada à natureza,
impacto e propriedades de contextos sociais específicos na experiência e desenvolvimento dos
indivíduos.

9.4. Psicologia da Saúde

A Psicologia da Saúde é uma das ciências da saúde que contribui para uma melhor compreensão
dos factores envolvidos na saúde e na doença. Tem como referencial um modelo holístico, em
que o sujeito é visto como um todo, uma síntese complexa das suas múltiplas dimensões: física,

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afectiva, cognitiva, comportamental, interpessoal, sócio-cultural, etc. – que se reflecte nos
fenómenos de saúde e de doença.

Teresa McIntyre (1994) considera que estes fenómenos de saúde e doença devem, por sua vez,
ser encarados como processos dinâmicos, em permanente evolução e cuja explicação é multi-
causal, onde se deve ter em atenção a relevância dos factores: biológicos, psicológicos e sócio-
culturais.

Estes princípios reflectem o modelo bio-psico-social (Engel, 1977; Molina, 1984; op. cit. McInty-
re, 1994).

9.5. Saúde Escolar

Neste âmbito pretende-se relacionar e realçar a importância da Saúde e da Escola num contexto
de intervenção psicológica para a promoção da saúde e prevenção da doença.

De facto, é importante que as crianças sejam educadas em ambientes que integrem valores fun-
damentais de um estilo de vida saudável, que encorajem a escolha individual e lhes permita
desenvolver-se livremente.

Deste modo, a intervenção na área da saúde escolar constitui uma meta fundamental, para a
aquisição precoce de comportamentos de saúde e prevenção da doença com tudo o que isso
implica, já que, quanto melhor for a condição de saúde, maior será a disponibilidade para agir e
inter-agir em qualquer outra área (e.g., promoção do sucesso escolar, intervenção ao nível de
comportamentos perturbados, etc.).

A saúde escolar pode ser encarada como um meio de sensibilização e aquisição precoce de ape-
tências individuais e colectivas para o valor fundamental que é a Saúde, valorizando e promo-
vendo a saúde e a prevenção da doença, através de programas que intervêm nesta área e
desenvolvidos nas escolas.

Sendo a Educação, tal como é referido pela OMS (1995), a base sobre a qual se desenvolve o
potencial do indivíduo e em que se estabelece um participação útil na vida social, esta torna-se
fundamental já que é uma condição para que a criança consiga compreender o que é a saúde, e
possa escolher com conhecimento de causa (em consciência) o seu estilo de vida, zelar pela sua
própria saúde e pela da sua família.

9.5.1. Programas de Saúde Escolar

Assim, os programas de saúde escolar, devem reflectir as necessidades da população alvo, para
tal têm que se basear em quadros sócio-culturais locais e devem estar intimamente ligados à
formação dos sistemas de valores individuais de cada pessoa. De facto, estes devem, tanto quan-
to possível, ser iniciados muito cedo, e ser reforçados em períodos de vida em que as modifica-
ções dos sistemas de valores têm mais probabilidades de acontecer (e.g., quando se entra para o
jardim-de-infância, na idade escolar, na puberdade, quando se constitui família, na reforma)
(OMS, 1995).

Estes programas devem, desenvolver inúmeras actividades, entre as quais: ensinar as crianças
dos jardins-de-infância e das escolas primárias o papel do funcionamento do seu corpo e a forma
como o comportamento que adoptam afecta a saúde; tornar públicos os conhecimentos mais
recentes na área da saúde recorrendo, para tal, às grandes instituições sociais como escolas e
meios de comunicação social, para a difusão dessa informação.

Partindo do princípio que é na infância e adolescência que se adquirem estas aptidões, com mais
facilidade, então será necessário desenvolver todo um trabalho conjunto, organizado e dirigido
entre os diferentes técnicos de saúde (médicos de família, enfermeiros), a escola (professores,
auxiliares de educação) e a família.

Por exemplo, na adolescência, existe maior acuidade para a experimentar e desenvolver alguns
comportamentos de risco tais como: consumo de drogas, álcool, tabaco, e comportamento sexual
desprotegido.

Não constitui surpresa que os jovens aprendem com os adultos que “é divertido fumar um char-
ro, ou beber, e que isso é extensível ao sexo”, justifica-se, então, plenamente a intervenção pre-
coce ao nível da educação para a saúde ou saúde escolar para “combater” antes mesmo do
surgimento, de tais comportamentos de risco ou estilos de vida. Dever-se-á incutir nos jovens a
ideia de ser de toda a conveniência adoptarem estilos de vida e comportamentos protectores de

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saúde, tais como, uma alimentação equilibrada, não consumirem substâncias (droga, tabaco,
álcool), terem comportamentos sexuais protegidos e prevenirem os acidentes, entre outros.

Partindo do pressuposto que os comportamentos de saúde são aprendidos, que dependem em
larga medida da motivação e que podem variar ao longo do tempo, não são interdependentes e
não parecem ser controlados por um único tipo de atitude ou tendência de resposta. Então, tudo
indica que a aquisição de comportamentos de protecção da saúde se inserem num contexto de
educação em saúde, já que esta está intimamente interrelacionada, directa ou indirectamente,
com o processo de ensino e aprendizagem.

Por exemplo, a educação para a saúde nos cuidados de saúde primários deve ser capaz de pro-
mover actividades que encorajem as pessoas a desejarem e a saberem ser saudáveis, fazendo
tudo o que estiver ao seu alcance individual ou colectivamente para manterem a saúde e, sem-
pre que necessário, a procurarem ajuda.

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